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AS C A P I T A N I A S DO B R A S I L
ANTECEDENTES, DESENVOLVIMENTO
E E X T I N Ç Ã O DE UM F E N Ó M E N O ATLÂNTICO

K*
ANTÓNIO VASCONCELOS DE SALDANHA

AS C A P I T A N I A S DO B R A S I L
ANTECEDENTES, DESENVOLVIMENTO
E EXTINÇÃO DE UM
FENÓMENO ATLÂNTICO

Prefácio de Frédéric Mauro

Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses


LISBOA 2001
C o l e c ç ã o O u t r a s M a r g e n s
NOTA PRÉVIA

Título: As capitanias do Brasil. Antecedentes, desenvolvimento


Dez anos passados sobre a redacção, oito sobre a edição original,
e extinção de um fenómeno atlântico
e no ano preciso em que se comemora o 5.° centenário da descoberta
Autor: António Vasconcelos de Saldanha do Brasil, quis a Comissão Nacional para as Comemorações dos Des-
cobrimentos Portugueses dar novamente à estampa a obra a que origi-
© Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses
nalmente demos o título As Capitanias. O Regime Senhorial na Expansão
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor
Ultramarina Portuguesa, editada em 1992 pelo Centro de Estudos de
Revisão: Francisco Paiva Boléo História do Atlântico, na Madeira.
Capa: Fernando Felgueiras Sai agora a mesma obra - ainda que desprovida dos apêndices
Paginação: Jorge M. Belo
originais - com o título As capitanias do Brasil. Antecedentes, desenvolvi-
Fotolitos: Multitipo - Artes Gráficas, Lda.
Impressão e acabamento: Gráfica Maiadouro, S. A. mento e extinção de um fenómeno atlântico.
Aqui, como então, haverá a necessidade de formular algumas
1.* edição: Centro de Estudos de História do Atlântico - 1992 advertências que permitam ao leitor uma melhor compreensão das
1" edição: CNCDP - Fev. 2001
ISBN: 972-787-030-9
linhas que se irão seguir. De facto, este estudo - vinculado a um tema
Depósito legal: 161 626/01 de História do Direito Português -não pretende fazer de modo algum
a história das capitanias atlânticas, mas tão-somente proporcionar al-
gumas chaves de compreensão do processo de génese e desenvolvi-
mento de um quadro jurídico e político, quadro esse que permitiu à
administração portuguesa o que Paulo Merêa definiu muito justa-
mente como «uma inteligente e fecunda adaptação das doações de
bens da Coroa» à realidade e às necessidades da Expansão e estabele-
cimento dos portugueses nos territórios de África, do Brasil e das
Ilhas do Atlântico durante os séculos XV, xvi, xvii e XVIII. O autor con-
CNCDP - Catalogação na Fonte
tinua hoje a ter a consciência plena de que - independentemente da
justeza e do rigor que pretendeu fazer imprimir às suas conclusões -
SALDANHA, António Vasconcelos de, 1956- muito haverá que colher ainda da investigação de importantes fundos
As capitanias do Brasil: antecedentes, desenvolvimento e documentais, não só do Arquivo Nacional mas também dos arquivos
extinção de um fenómeno atlântico / António Vasconcelos madeirenses e açorianos, do que, porventura, restar dos brasileiros e,
de Saldanha. - Lisboa: Comissão Nacional para as
quem sabe até, dos antigos territórios portugueses da África Ocidental.
Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2001.
- 469p; 24cm. - (Outras Margens). - ISBN-972-787-030-9 Diremos também que não houve pejo em - segundo um critério
l - SALDANHA. António Vasconcelos At de rigorosa actualização - transcrever tantas vezes quanto foi consi-
derado necessário o registo documental que melhor fundasse a com-
NOTA P R É V I A

preensão dos pontos de questões sucessivamente tratadas. Aconse-


lhava-o o carácter de um estudo que não é nem pretende ser de di-
vulgação, mas, essencialmente, um instrumento de trabalho para os
investigadores da História e do antigo Direito português.
Cabe também aqui referir a grande dívida de gratidão que o au-
tor contraiu ao longo deste percurso. Recordamos a preciosa colabo-
ração tantas vezes recebida nas Bibliotecas e Arquivos do país, nas di-
ferentes fases de uma pesquisa muitas vezes árdua. A hombridade e PREFÁCIO À l* E D I Ç Ã O
o rigor com que os ilustres Mestres das Universidades de Lisboa e de
Coimbra apreciaram esta obra enquanto dissertação apresentada à
Academia. A generosidade e o interesse com que o Centro de Estudos Je suis heureux de présenter ia une oeuvre qui, je l'espère, ne será pás
de História do Atlântico, nas pessoas dos Senhores Professor Luís de réservée au public portugais - lê portugais esí devenu Ia troisième langue
Albuquerque e Doutor Alberto Vieira, acolheram a primeira edição européenne parlée dans lê monde, après l'anglais et l'espagnol - et qui
deste estudo. O modo muito particular com que o Senhor Professor touche à rhistoire dês pays atlantiques: Portugal et sés tles adjacentes, Bré-
Frédéric Mauro quis na altura honrar o autor desta obra, redigindo o sil mais aussi Afrique lusophone. Une histoire qui commence au tnoins en
prefácio da mesma. •1440, date de Ia création de Ia première capitainerie-donation, si nous
E porque de dívidas falamos, notemos uma outra, esta para com négligeons lê problème dês antécédents et dês origines, et se termine en
a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos i 770 si nous oublions Ia marque laissée par cette institution sur lê statut et
Portugueses. Em primeiro lugar, porque - sendo Comissário-Geral o Ia vie d'un certain nombre d'États et de régions. Nous avons été trop obnu-
Senhor Dr. Vasco Graça Moura - foi em 1993 esta mesma obra galar- bilés par Ia période 1532-1548 ou fui installé lê système dês capitaineries
doada por essa Comissão com o Prémio Nacional «D. João de Castro». brésiliennes. Lê thème ici aborde esí, à juste titre, plus large: il s'agit de
Em segundo lugar, porque agora - sendo Comissário o Senhor Professor prendre toute l'institution dans toute sã durée et dans toute son extension
Joaquim Romero Magalhães - quis a mesma Comissão continuar a géographíque. C'est au bénéfice de tout lê monde y compris dês «brésilia-
honrar o autor com o patrocínio desta reedição, cabendo um particular nistes» qui ainsi comprennent mieux une institution qui a tant marque rhis-
agradecimento ao Vogal da mesma Comissão, Senhor Dr. João Paulo toire du Brésil.
Salvado, pelo empenho que a isso notoriamente dedicou. Une institution, écrivons nous, mais est-ce seulement une institution?
Finalmente, em relação aos Senhores Professores Martim de Albu- Au-delà de Ia façade institutionnelle, du formalisme juridique, n'y a-t-il pás
querque e Ruy de Albuquerque, da Faculdade de Direito de Lisboa, une structure, une réalíté humaine, politique, administraúve, économique
depois de arguirem e orientarem esta obra como sempre arguiram e vivante qu'il convient de mettre en valeur? Malgré lês avertissements de sés
orientaram o seu autor durante os anos que com eles teve o privilégio historiens du droit, l'Ecole Historique Française, depuis Ia dernière guerre
de trabalhar - com rigor, com disciplina, com saber e com seriedade mondiale, a peut-être trop méprisé cette «façade institutionnelle», par réac-
- permanece a dívida de gratidão, e, consequentemente, a dedicató- tion contre l'oubli que certains juristes avaíení commis à l' égard de cê que
ria original deste estudo. cache Ia façade. Mais Ia façade ne cache pás forcément Ia structure et dans
l'architecture classique elle exprime mime cette structure et elle est en mime
Lisboa, Outubro de 2000
une partie. H en est de même dans lê droit ou lron connait trop bien Ia résis-
tance dês structures juridiques et institutionnelles. Nous sommes arrivés
Amónio Vasconcelos de Saldanha
aujourd'hui à un juste equilibre, fruit du bon sens et d'une conception plus
globale et complete de l'histoire. Lê droit et l'institution, sans être toute l'his-
toire, en sont une dês profondeurs, qui ne peut être évacuée.
António de Saldanha nous montre bien, dês son introduction, 1'ampleur
du problème qu'il aborde. U comprend três bien, en juriste ouvert, qu'il faut
P R E F Á C I O À 1.' E D I Ç Ã O P R E F Á C I O À 1.' E D I Ç Ã O

préciser Vencadrement politique, économique et social du processus généra- tainerie, dont Íl distribuait à son tour une panie dês terres sous forme de ses-
teur de l'institution et Ia façon dont a été appliqué lê droit existam lors de marias. Selon Ia règle de 1'Ancien Regime Ia souveraineté n'était pás nette-
cette création. De lá, Ia necessite «d'éplucher» lês sources juridiques qui ment séparée de Ia propriété et celle-ci était diffuse à travers Ia hiérarchie
étaient applicables, cê qui permettait ensuite de mieux caraaériser lês seigneuriale contrairement à Ia propriété bourgeoise du Code Napoléon.
diverses composantes de l'instituiion. Dans quelle mesure lê droit nouveau Lês deux derniers chapitres sont consacrés aux relations entre lê Pouvoir
ainsi defini était-il appliqué dans Ia pratique? Voilà une question qui Royal et lês Capitaines Donataires et au processus d'incorporation dês Ca-
montre que lês historiens du droit ne se contentem pás d'étudier Ia société pitaineries à Ia Couronne, processus qui devait, au xviu siêcle, en finir avec
telle qu'elle aurait du être été en fait. Enfm notre auteur n'oublie pás l'ana- l'institution même dês capitaines-donataires. Lê lecteur dévorera cês pages
lyse dês courants d'idées subjacents à Ia création, 1'application, Ia survi- à"histoire, d'une histoire riche et techniquement remarquable. Venons en à Ia
vance et l'extinction de cês institutions. Ce sont dês príncipes généraux conclusion, ou plutôt aux six conclusions qui dans leur dépouillement et leur
qu'António de Saldanha s'efforce de suivre en s'adaptant au sujet qu'il netteté vérifient encore une fois Ia vigueur de l'analyse. En resume:
traite. 1) Lês capitaineries sont dês manifestations du regime seigneurial;
L'ouvrage que nous avons devant lês yeux est une véritable «somme» 2) Lê contenu de cês capitaineries est entièrement forme par dês biens et
sur lê sujet. D'abord par l'ampleur de Ia documentation dont il est fait, au dês droits de Ia Couronne qui restent sujets au regime qui leur est propre-,
début, un tableau magistral et dont certains éléments sont reproduits à Ia ftn 3) Lê recours de Ia Couronne à cette institutton s'explique par trois mo-
du volume*. Et nous ne parlons pás de Ia bibliographie três complete qui se tifs: Ia recompense de services rendus, l'évangélisation, Ia colonisation de ter-
trouve en tête du même volume. De même un inventaire três complet est ritoires atlantiques inhospitaliers;
donné de Ia discussion érudite - qui n'y a pás participe? - sur lê «féoda- 4) La confiance dans cê système a dure du début du XVe à Ia fin du
lisme» ou lê «capitalisme» dês capitaineries. Tout lê monde est d'accord XVUe siède;
aujourd'hui pour affirmer que sous lês apparences juridiques et sémantiques 5) Cette longue durée peut se diviser en trois phases: celle ou l'institution
d'un regime féodal - à peu prês inexistant au Portugal même - se cache une est un facteur déterminant de Ia colonisation; celle ou elle est une formule
entreprise agro-commerciale capitaliste tournée vers lê marche international. d'administration locale; celle enfm ou elle n'est qu'un moyen de percevoir dês
Par contre Saldanha rappelle que lê système «seigneurial» existait au Por- revenus et de poner dês titres nobiliaires;
tugal continental et qu'en fait c'est lui plutôt qui sen de modele à Ia consti- 6) Toutes lês prérogatives exercées par lês Capitaines Donataires lê sont
tution dês capitaineries, qui sont dês donations de biens de Ia Couronne par délégation du Rói et conformément aux orares du Rói qui garde toujours
régies par dês règles qui relêvent de cê système. lê pouvoir suprime.
Nous ne pouvons descendre dans lê détaildes analyses, remarquables de
dane et de précision, faites par l'auteur sur Ia création, Ia transmission et l'ex- Nous livrant aux audaces de l'histoire comparative, nous avons pu na-
tinction dês capitaineries, sur leur gouvemement, sur l'organisation, qui y est guère comparer l'institution dês Capitaines Donataires à celle dês Adelanta-
prévue, de Ia justice. Notons ensuite Ia présence d'un imponant chapitre sur dos de l'Empire Espagnol. Si cela est vrai du point de vue du role économique
Ia sesmaria, cette concession de terre faite au cólon, au nom du Rói, par lê ca- qu'ils ont pu jouer, Saldanha nous montre que du point de vue juridique, po-
pitaine donataire. Lê système durera jusqu'en 1822. II y ala un prolongement litique, social et culturel, l'Adelantado est un petit personnage à cote du Ca-
du système seigneurial, lê titulaire de Ia sesmaria étant soumis à cenaines pítaine Donataire qui, recrute dans une elite, était, avant Ia lettre, une espèce
obligations envers lê donataire et envers lê rói, en échange dês avantages qu'il de vice-roi dans sã province. Ce qui nous fait voir que l'élaboration juridique
reçoit. dês institutions ponugaises était três solide. Ce qui ne devrait pás nous éton-
Dans lê chapitre consacré à Ia propriété et aux revenus dês capitaines- ner d'un peuple latin.
donataires, António de Saldanha nous rappelle qu'à cote dês pouvoirs dont Nous souhaitons encore quelques granas livres d'histoire du droit ponu-
il jouissait, lê titulaire de Ia capitainerie percevait dês revenus dont certains gais comme celui de Saldanha.
provenaient du fait qu'il était par délégation du Rói, propriétaire de Ia capi-
Frédéric Mauro
' Na 1.* edição.

] O í i
ABREVIATURAS UTILIZADAS

AÃ - Archivo dos Açores


AM - Arquivo Histórico da Madeira
AP - Anais Pernambucanos, de F. Pereira da Costa
CD - Collecção de Documentos, de M. Velho Arruda
DBN - Documentos Históricos, Biblioteca Nacional
DF - Descobrimentos Portugueses, de J. Silva Marques
GTT - As Gavetas da Torre do Tombo
HCP - História da Colonização Portuguesa do Brasil, ed. de Carlos Ma-
Iheiro Dias
ID - Inventário dos Documentos, de E. de Castro e Almeida
MM - Monumema Missionaria Africana
OA - Ordenações Afonsinas
OF - Ordenações Filipinas
OM - Ordenações Manuelinas
PP - Processo relativo ao pleito sucessório sobre a Capitania
de Pernambuco, no Arquivo Nacional
RSP - Registo da Câmara de S. Paulo
SGC - Subsídios para a História da Guiné e Cabo Verde, de Senna Bar-
celos

13
INTROD U CÃO
Objecto, Premissas e Considerações
Metodológicas

«Ainda está por ser escrita a história das capitanias hereditárias»,


escreveu há não muitos anos Hélio Viana1.
E ainda que o historiador brasileiro se referisse expressamente às
Terras de Vera Cruz, a afirmação mantém-se válida e não menos per-
tinente para a totalidade daqueles territórios do antigo Império Por-
tuguês onde o regime se firmou e, em grande parte, perdurou até à se-
gunda metade do século xvin.
É, no entanto, muito difícil levara cabo um estudo honesto e pro-
fundo da expansão e estabelecimento dos portugueses no Ultramar,
ignorando o que Paulo Merêa muito justamente considerou uma «so-\o tradicional da co

quecida, questão da estruturação e existência de um regime senhorial


em Portugal é indissociável de uma das suas mais fecundas manifes-J
tacões, como o são as capitanias ultramarinas.
Contudo, não cremos incorrer em exageros, afirmando que o es-\o do estabelecimen

cão como a das capitanias está eivado das dificuldades inerentes à gê- l
neralidade dos estudos que tenham como objecto a administração das !
antigas possessões portuguesas do Ultramar, e nas quais, em nosso en- i
tender, avulta sobre todas a penúria de bibliografia de pendor jurídico^-1
Daí que o investigador tenha que se confrontar à partida com a neces-
sidade de proceder a aturadas pesquisas nos mais diversos fundos do-
cumentais, o que não é em si aterrorizante, não fora ter o passo cons-
tantemente atravessado por duas ordens de problemas: a enorme
dimensão de um campo de investigação que se espraia ao longo de
três séculos, em áreas geográficas muito distintas, e o razoável mau es-
tado dos arquivos próprios, não apenas desfalcados pelo tempo -
«roedor com dente brando, e o rato, a traça e os insectos com dente

1 HÉLIO VIANA, «A última capitania hereditária do Brasil (1685)», in Estudos de

História Colonial, S. Paulo, 1948.

l 7
l\O
INTRODUÇÀO

agudo» - mas frequentemente primitivos no que respeita à cataloga- nhorial espanhol, é-nos lícito interrogarmo-nos quanto à possibili-
ção racional dos fundos remanescentes. dade de entender a economia das capitanias desconhecendo o con-
Não surpreende, pois, que o grande historiador brasileiro Capris- teúdo jurídico do domínio sobre a terra, dos direitos exclusivos ou
tano de Abreu, confuso pela vastidão e complexidade do tema, o re- das próprias cartas de foral; também nos é vedada a noção exacta das
putasse como «o assunto mais incapaz de receber uma forma apre- relações sociais estabelecidas na área das capitanias, se prescindirmos
sentável que eu conheço». Também Hélio Viana, encarregado em do conhecimento do estatuto jurídico dos seus habitantes ou da ex-
1936 pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro de estudar o tensão precisa dos poderes dos órgãos de administração donatarial.
tema das capitanias com o fim de o expor em tese no III Congresso Fazê-lo é correr o risco de extrair conclusões erróneas ou, pelo me-
de História Nacional a realizar em 1938, ano centenário da Institui- nos, bizarras quando postas em confronto com a realidade histórica
ção, se apercebeu amargamente das dificuldades inerentes à desme- e jurídica portuguesa, o que, infelizmente, tem sido frequente neste
dida tarefa: tipo de estudos.
«Desde então o estudamos - escrevia ainda em 1963 - sem ter até A metodologia que defendemos e procuraremos seguir, impe-
agora chegado à elaboração de trabalho de conjunto a seu respeito. dir-nos-á, porventura, de incorrer nos quatro vícios básicos por que,
Isto porque concluímos que não pode o mesmo ser realizado sem lon- em nosso entender, tem sido prejudicado seriamente o tratamento
gas pesquisas em Portugal, inclusive pela perda de vários arquivos proveitoso do assunto. Em primeiro lugar, a monopolização da tema- '
particulares de antigos donatários em consequência dos incêndios re- tica pelos estudos dedicados à história das capitanias brasileiras, do
sultantes do terremoto de Lisboa, de 1755.» que resulta infalivelmente a malformação ou a pura frustração de
Não podemos negar e somos solidários com as dificuldades sen- uma visão global do fenómeno institucional. Em segundo lugar, a vin- ?
tidas e pressentidas por Hélio Viana. Mas elas não são suficientes, em culação da história das capitanias às vicissitudes biográficas dos seus
nosso entender, para justificar o considerável descuido ou pobreza a donatários, com os mesmos resultados que acima se apontam. Em ?
que este ramo da história ultramarina tem sido votado. Porque as ra- terceiro lugar a desconfiança, indiferença ou pura e simples ignorân-
zões não são apenas formais ou instrumentais, mas, essencialmente, cia do peso da realidade jurídica subjacente à questão, de que resul-
metodológicas, e é nesse campo que há que combater uma situação tam em estudos globalmente válidos lacunas ou desvios de muito di-
cujas causas estão à vista e não são difíceis de definir: um estudo que fícil admissão. Em quarto e último lugar, as investigações feitas, ainda 4
tenha como alvo o regime das capitanias não poderá ser de modo al- que algumas abarcando outras matrizes que não exclusivamente a
gum extrapolado da análise de uma ou poucas situações m concreto, tal brasileira, cristalizam-se na sua maioria em redor do título constitu-
como é igualmente improfícuo fazê-lo através da história avassalado- tivo das doações, decompondo-o com maior ou menor pormenor^!
ramente pormenorizada de cada uma das que a História inventaria. mas ignorando quase por completo o facto de que o fenómeno júri- \o não é estático e q
Pelo contrário, defendemos que a compreensão desse complexo
institucional que está na base de toda a série das capitanias atlânticas em vicissitudes políticas, económicas e sociais, foram mais do que su-
- e sobretudo as do Brasil - só poderá ser atingido pela abstracção das ficientes para transtornar substancialmente não apenas a regulamen- \o jurídica interna como a
particularidades de cada, em proveito do inventário e da reconstrução
de todas as lihhas-mestras de um sistema que, com raízes antigas e das capitanias quatrocentistas e quinhentistas.
com fins determinados, se fez estender a áreas diversificadas da ex- Tudo presente, e atendendo a que este estudo se vincula prima-
são dos portugueses. cialmente à área da história das Instituições e do Direito, há que fixar
As capitanias, para lá das vicissitudes da sua existência e das dos marcos orientadores que constituirão outros tantos objectivos meto-
seus donatários, são essencialmente complexos políticos, jurídicos e dológicos geralmente aceites como indissociáveis de um trabalho
institucionais que há que definir com precisão em proveito da com- com estas características:
preensão de fenómenos não exclusivamente jurídicos, mas também O traçado do enquadramento político, económico e social do
sociais, políticos e económicos inerentes à evolução da sociedade processo gerador e de aplicação do Direito em análise, a destrinça das
portuguesa. Como o fez Gonzalez Alonso em relação ao regime se- fontes do Direito aplicável, a caracterização e exame das componen-
INTRODUÇÃO INTRODUÇÃO

tes da instituição em causa, a verificação da aplicação prática do Di- dens, como a económica ou a política, como amparos à melhor defi-
reito definido e, finalmente, a detecção das correntes de ideias subja- nição de fenómenos jurídicos próprios e a levar em conta na caracte-
centes à criação, aplicação, sobrevivência e extinção dessas institui- rização do contexto da Expansão Portuguesa. No seu termo, o leitor
ções. Na prática, houve, sequentemente, que moldar estas linhas de ajuizará do sucesso do objectivo que pretendemos atingir: o enun-
rumo às particularidades do tema, levando em conta que nas capita- ciado da disciplina jurídica que caracterizou o sistema das capitanias
nias ultramarinas - tal qual nos senhorios metropolitanos - são per- como manifestação do fenómeno mais vasto do regime senhorial
ceptíveis quatro realidades condicionantes: o conjunto diversificado português, e, no âmbito da colonização ultramarina, o seu posiciona-
dos fins que presidem à sua criação, o desenvolvimento de relações mento face à Coroa, que lhe deu e retirou o ser.
peculiares e distintas dos vigentes noutros âmbitos, a constatação rei- Como última observação, é desnecessário reiterar a vastidão do
terada de determinadas práticas económicas e o facto de cada cir- tema proposto: se por um lado, cronologicamente, se estende da data
cunscrição donatarial se constituir numa área de exercício de um sis- da criação da primeira Capitania, em 1440, à data da extinção da úl-
tema específico de governo. tima, em 1770, geograficamente abarca toda a zona atlântica de ex-
Advirta-se, porém e desde já, que esta investigação sofre de uma pansão dos portugueses - o Brasil, a Madeira, os Açores, Cabo Verde,
condicionante de peso, como é a da inexistência de um estudo global S. Tomé, Angola e a Serra Leoa.
sobre o regime senhorial português, do que vimos a incorrer na in- As oportunidades, condições e momentos da sua criação nessas
versão de uma estratégia de estudo que, obviamente, haveria que par- várias zonas são do conhecimento geral e não há obra dedicada à ex-
tir de um tema daquela natureza para outro, como o presente, sua pansão ultramarina que as não cite. Ao fim que nos interessa - e sem
mera componente ou manifestação peculiar. Houve, pois, que tocar prejuízo dos aprofundamentos pontuais de que a matéria será alvo no
em pontos que poderiam ser dados como pressupostos, desenvol- decurso deste estudo -, se quiséssemos sintetizar em linhas de dinâ-
vendo outros com o fim preciso de vincar, comparando, especificida- mica o período de existência das capitanias atlânticas, poderíamos di-j
des no quadro vasto do senhorio português. zer que há duas que são marcantes e que condicionam o desenrolar!
Assim, delimitado o âmbito da questão, perspectivámos as capi- de dois processos que chegam a ser simultâneos.
tanias na sua vera natureza de doações régias de bens e direitos da No decurso do primeiro, é patente a crença na virtualidade do re-
Coroa, com as inerentes obrigações que daí decorreram para os seus curso à criação de capitanias como expediente de colonização de ter-
detentores. Definido o enquadramento exterior da matéria e indica- ritórios a desbravar. Tem, como vimos, o seu período áureo nos sé-
das não apenas as fontes úteis para o seu estudo, como também as culos XV e xvi, chegando-se até ao fim dessa última centúria a impor
grandes linhas por onde correu a sua consideração nos últimos anos, o sistema em todas as zonas da expansão atlântica. É o período dos
passámos a destrinçar e a caracterizar as variadas formas de criação, que - em consonância com velha prática - chamaremos Grandes-Do-;
transmissão e extinção das capitanias. A administração destas - quer natários, irmãos ou sobrinhos dos monarcas de Avis, a quem estes,
na perspectiva dos vários cargos e delegados dos donatários quer no concedem amplas porções dos territórios recém-descobertos ao fim:
dos poderes que efectivamente lhes competiam - mereceram-nos es- determinado da sua colonização e aproveitamento, doações essas a
pecial atenção, e, na sequência, abordámos a própria jurisdição e o que acompanham proventos consideráveis e relativamente amplos
exercício da Justiça pelos capitães. Não foi esquecida também a ca- poderes na administração e no exercício da justiça. Como não menor
racterização dos réditos e dos monopólios senhoriais, e atendemos dessas faculdades, incluiu-se o poder criar capitanias, concedendo-se
devidamente à importante questão das sesmarias. Entrámos, final- aos capitães, com o carrego de as manter «em justiça e direito», im-
mente, no problema do relacionamento dos capitães e do poder real, portantes direitos no campo do exercício da administração, arrecada-
no que essa ligação poderá ter implicado em autonomia e subordina- ção de proventos e distribuição de terras, em muito semelhantes aosj
ção, e concluímos o nosso estudo debruçando-nos sobre o mal escla- da primeira doação feita ao Grande-Dona tá ri o.
recido processo de incorporação das capitanias na Coroa. Esse período, iniciado em 1433 com a doação que o Rei
Presente a tudo, o princípio de que esta investigação se desenro- D. Duarte fez a seu irmão D. Henrique da ilha da Madeira, terminará
lou em função de matéria de Direito, valendo a incursão em outras or- em 1495 com a subida ao trono do derradeiro Grande-Donatário, o

20 2 l
INTRODUÇÃO INTRODUÇÃO

Duque de Beja, com o nome de D. Manuel I. Sob a acção conjunta zonas de crescente interesse para a Coroa, fomentando a sua criação,
desses príncipes e do Rei Africano, a criação de capitanias - iniciada como vimos, em zonas de colonização inexistente ou incipiente.
no Machico, em 1440 - aíargar-se-á ao resto da Madeira e ao Porto Os reis da nova dinastia de Bragança, mantendo embora a polí-
Santo, às ilhas de S. Miguel, Faial, Pico, S. Jorge, Graciosa e Terceira, tica de concessão de capitanias limitadas às zonas mais primitivas do
esta dividida nas duas jurisdições da Praia e Angra, todas nos Açores, Brasil, aproveitar-se-ão das profundas mutações proporcionadas pelo
às de Santiago, Fogo, S. Nicoíau, Brava, Boavista, Maio e Sto. Antão, estado de guerra constante, para lançar mão de antigos senhorios
em Cabo-Verde, a S. Tomé e à própria ilha do Príncipe. Mesmo aque- como Pernambuco e sujeitar ainda mais os restantes ao controlo cres-
les territórios vagos - ilhas míticas ou esperanças dos Cortes-Reais, cente dos governantes de nomeação régia. O descrédito acaba por en-
que a ambição dos nautas portugueses não desarmava de procurar- volver totalmente o sistema de capitanias, tornado patente já no deal-
chegou-os a conceder adiantadamente o Rei, segundo o mesmo tipo bar do século XVHI, criando-se, como dissemos, a derradeira, no Brasil,
de concessões de características senhoriais que vinha fazendo aos po- em 1685.
voadores de terras já descobertas. À administração do Rei D. João V preside, em relação às capita-
A necessidade de ocupar efectivamente as terras do Brasil, susci- nias, uma só preocupação: a tentativa da sua absorção, atingida em
tará um incremento do sistema de colonização por capitanias, re- vários pontos com sucesso - Sto. Amaro (1709), Pernambuco (1716)
vendo-se o esquema de doações anteriormente usado no sentido de e Espírito Santo (1718), todas no Brasil, e em 1736 algumas das capi-
conceder aos capitães maior exuberância nos poderes e proventos tanias remanescentes em Cabo Verde são também definitivamente
enunciados. Nascem assim, no período que decorre de 1534 a 1536, incorporadas na Coroa, o que, acrescendo ao processo natural do de-
as célebres capitanias «primárias» do Rio Grande, Maranhão, Juru- sinteresse ou falta de sucessão dos capitães-donatários, leva a que o
cuará, Ceará, Itamaracá, Santo Amaro, Pernambuco, Baía, Ilhéus, número dos senhorios ultramarinos vá substancialmente diminuindo.
Porto Seguro, São Vicente, Cabo Frio e, posteriormente, em 1556, Efectivamente, quando D. José sobe ao trono em 1750, esses se-
criar-se-á a de Itaparica e em 1557 a de Peroaçu. nhorios ultramarinos estão reduzidos ao escasso número de nove no
Nos termos do modelo brasileiro, o Rei D. Sebastião estenderá, Brasil, ao de Sto. Antão em Cabo Verde, ao da Ilha do Príncipe e às ve-
í em 1571, o sistema a Angola e, em 1606, o Rei Filipe fá-lo-á alargar à lhas capitanias de Porto Santo, Machico e Funchal, na Madeira, e
Serra Leoa. Serão também os Filipes a dar início a um novo ímpeto de S. Miguel e Santa Maria, nos Açores. Neste mesmo reinado, num pro-
criação de capitanias no Brasil, que, independentemente da turbulên- cesso que se desenrola de 1753 a 1770, acabarão por desaparecer
cia da Restauração, se irá prolongar até ao reinado de D. Pedro: só no definitivamente2.
século XVII poderemos contar a criação de nada menos que dez novas
capitanias - Rio Grande, Cabo Frio, Campos de Goitacazes, Rio da
Prata, Ilha de Sta. Catarina, Cumá, Caeté, Cabo do Norte, Ilha 2 A fim de facilitar uma visão global da inserção das capitanias no enquadra-
Grande de Joanes e Xingu, a derradeira, em 1685. mento histórico da Expansão portuguesa, poder-se-á consultar, para o que toca ao
Porém, no decurso de um segundo e simultâneo processo, ainda ritmo das concessões, em toda a área atlântica, nos séculos XV e XVI, CHARLES VERLIN-
nos primórdios do século XVI, são patentes as limitações impostas ao DEN, «Portugese en Spaanse Feodale en Domaniael Kolonisatievormen in de Atlantis-
che Ruimte», in Mededelingen van de Koninkli/ke Academie voar Wetenschappen, Leneren
poder dos donatários da Madeira, Açores, e, especialmente, aos do en Schone Kunsie van Belgie. Klasse dês Letteren. Academias Analecta, Jaargang 45, Nr. 3,
Brasil, que - provado o seu fracasso - vêem violentamente abalados Bruxelas, 1983. Do mesmo autor, mas restrito às doações na Madeira e nos Açores,
os seus privilégios originais com a instituição de um Governo-Geral veja-se «Formes Féodales et domaniales de Ia Colonisation Portugaise dans Ia Zone
em 1549. Os reis Filipes iniciarão um processo organizado de con- Atlantique aux XIV et XV siècles et spécialement sous Henri lê Navigateur», in Revista
trolo de eficácia da acção dos donatários, pela imposição de condi- Portuguesa de História, vol. IX, Coimbra, 1960, pp. 1-44. Para o mesmo Em, veja-se
também HENRIQUE GALVÃO e CARLOS SELVAGEM, O Império Ultramarino Português. Mono-
ções, revogação de privilégios - como em Pernambuco - e até puras grafia do Império, Lisboa, 1950-1952 (4 voís.) e CRJSTTANO DE SENNA BARCELOS, Subsídios
e simples renúncias de carácter compulsivo, como sucede à Capitania para a História da Guiné e Cabo-Verde, Lisboa, 1899. Para o caso específico do Brasil
de Cabo Frio, de Gil de Gois, em 1619. O entendimento parece ser o veja-se, naturalmente, a História da Colonização Portuguesa do Brasil. Edição Monumental
de restringir ao máximo a existência ou autonomia dos capitães em Comemorativa do Primeiro Centenário da Independência do Brasil, editada e organizada

22
INTRODUÇÃO INTRODUÇÃO

por CARLOS MALHEIRO DIAS, Porto, 1921-1924 (3 vols.J, e, complementarmente, e a transcritos por MANUEL MONTEIRO VELHO ARRUDA, Os Cortes-Reais. Memória Histórica
fim de prolongar no tempo a visão do processo de concessão das capitanias brasilei- Acompanhada de Aluitos Documentos Inéditos, Ponta Delgada, 1883, e em W. H- BAB-
ras, veja-se também HÉLIO VIANA, História do Brasil - Períocío Colonial. Monarquia e COCK, Legendary islands ofthe Atlantic, Nova Iorque, 1922. Questão a merecer também
República, 14.1 ed., Edições Melhoramentos, S. Paulo, 1980. O caso específico das alguma atenção é a das afinidades e eventuais derivações de outros sistemas de colo-
capitanias de Angola e da Serra Leoa pode ser analisado, respectivamente, em nização fundados em concessões de cunho senhorial por outras nações, matéria refe-
ALÍREDO DE ALBUQUERQUE FELNER, Angola. Apontamentos sobre a ocupação e início do esta- rida em PAULO MERÊA, oy. cit., e JEAN-PIERRE WALLOT, «Lê Regime Seigneurial et son
belecimento dos portugueses no Congo, Angola e Benguela, Coimbra, Imprensa da Univer- abolition au Canada», in LfAbolition de Ia Féodalité dans lê monde ocddental. Colloaues
sidade, 1933; VIRGÍNIA RAU, «Uma tentativa de colonização da Serra Leoa no século Intemattonaux du Centre national de Ia Recherche Scientifique Sciences Humaines, Actas,
xvm», in Ias Ciências, Ano XI, num. 3, Madrid, s.i.d., e P. E. H. HAJR, «The Abortive Toulouse, 12-16, Novembro de 1968, tomo i, Paris, 1971, pp. 357 e 384. Vide também
Portuguese Settlement of Sierra Leone 1570-1625», in Vice-Almirante A. Teixeira da a discussão desta comunicação no tomo II das citadas Actas.
Mota. In Metnoriam, Volume I, Lisboa, Academia de Marinha, Instituto de Investiga- No que toca à extinção das várias capitanias não conhecemos nenhum estudo
ção Científica Tropical, 1987, pp. 171-208. Outra questão afim, como a dos prece- global, salvo o que deixamos feito no Capítulo IX desta obra. Infelizmente, por con-
dentes medievais das concessões senhoriais como expediente de colonização, pode veniência editorial, não nos foi possível incluir o corpo de 11 apêndices que na 1.*
ser apreciada em PAULO MERÊA, «A solução tradicional da Colonização do Brasil», na edição reputámos de consulta essencial para o estudo das capitanias, uns inéditos ou
citada História da Colonização Portuguesa do Brasil, voí. m, Porto, 1924, pp. 167-168, e desconhecidos, ou já publicados mas geralmente ignorados, esquecidos ou de difícil
especialmente CHARLES VERLINDEN, Précédents médiévaux de Ia colonie en Amériaue, Ins- consulta. A saber: Carta de doação de duas capitanias no Brasil a João de Barros e
tituto Panamericano de Geografia e História, México, 1954. Veja-se também M. JEN- Aires da Cunha (8 de Março de 1535); Carta de doação das minas de ouro e prata das
SEN e R. REYNOLDS, «European colonial experience. A plea for comparativa studies», in respectivas capitanias a João de Barros, Aires da Cunha e outro (18 de Junho de
Studi in onore di Cino Luzatío, t. rv, Milão, 1950, e HAROLD B. JOHNSON JR., «The Dona- 1535); Alvará por que se limita a jurisdição dos Capitães-Donatáríos do Brasil (5 de
tary Captaincy in,Perspective: Portuguese Backgrounds to The Settlement of Brazil», Março de 1557); Diploma sobre a alçada dos capitães das Ilhas, colhido das Ordena-
in The Hispanic American Hisloncal Review, 52:2 (Maio de 1972), pp. 203-214. Sobre a ções Extravagantes do Dr. Heitor de Pina (23 de Março de 1549); Carta de Doação da
administração dos grandes-donatários há que consultar, para os Açores, o ensaio crí- Capitania de Camutá a Feliciano Coelho de Carvalho (14 de Dezembro de 1633);
tico de MANUEL MONTEIRO VELHO ARRUDA, na sua Colecção de Documentos relativos ao Parecer do Dr. Tomé Pinheiro da Veiga sobre as alterações a introduzir nas cartas de
descobrimento e povoamento dos Açores, Ponta Delgada, 1932, e para a Madeira é de uti- confirmação das capitanias (15 de Junho de 1649); Acórdão respeitante à causa que
lidade o estudo de DAMIÃO PERES, A Madeira sob os Donatários, Funchal, 1914, bem correu entre os Condes de Vimioso e a Coroa sobre a Capitania de Pernambuco (31
como JOEL SERRÀO, «Na Alvorada do Mundo Atlântico - I - Primórdios da Coloniza- de Agosto de 1677); Carta de Doação da Capitania de Xingu a Luís de Abreu de Frei-
ção da Ilha da Madeira (1425-1470)», in Das Artes e da História da Madeira, vol. jv, n.° tas (31 de Janeiro de 1685); Anúncio da Gazeta de Lisboa respeitante à incorporação
l, Funchal, 1961, e FERNANDO JASMINS PEREIRA, «A Ilha da Madeira no período henri- da Capitania de Caeté (15 de Novembro de 1753); Diploma de extinção das capita-
quino (1433-1460)», in Ultramar, n.° 3, Lisboa, 1961, pp. 24-47. A concessão de ilhas nias dos Açores (2 de Agosto de 1766); Parecer do Dr. José de Seabra da Silva sobre a
ou territórios de localização incerta pode ser analisada através dos vários diplomas Capitania de S. Vicente (30 de Junho de 1781).

24 25
l . O TEMA
1. O Estudo da Temática das Capitanias

1.1. Introdução
i
Apesar de constituir-se como um dos temas fundamentais da his-
tória da administração ultramarina, não é largo ou sequer satisfatório
o número dos estudos que especificamente se dedicam à análise da
construção jurídica própria do sistema das capitanias. Podemos con-
tar, naturalmente, com a sua menção em grandes obras de síntese
j como as histórias gerais ou as histórias do Direito; são conhecidos
também estudos que se debruçaram especificamente sobre uma ou
grupos de poucas capitanias, como são as obras clássicas de Alberto
Lamego, Pedro Tacques, Faria e Maia, Damião Peres ou Pedro de Aze-
vedo, vinculando-as na generalidade aos percalços das biografias dos
seus donatários.
Todavia - e ainda que especificamente dirigido ao caso brasileiro
- mantém-se pertinente o comentário de Dauril Alden (1973) de que
«apart from studies on the founding fathers and an occasional article
on the Iate captaincies granted in the seventeenth century, there are
no comprehensive studies of the donatarial regime»1.
No mesmo sentido poderia Harold Johnson concluir que
«Luso-Brazilian historiography hás never managed to achieve a very
satisfactory understanding of the donatary captaincy, the institution
above ali others that provided the framework for the initial settle-
ment of Brazil»2.
Verdade que, aliás, não é nova pois já o velho historiador brasi-
leiro Rocha Pombo advertira que «não é possível ter uma ideia do que

1 DAURJL ALDEN, Royal Government in Colonial Brazil, with special reference to the.
admínistration of the Marquis of Lavradio, Vice-Roy, 1769-1774, Berkeley, University of
Califórnia Press, 1968, pp. 31 ss. 8.
2 HAROLD B. JOHNSON JR., «The Donatary Captaincy in perspective: Portuguesa
Backgrounds to the Setdement of Brazil», ín The Hispanic American Historical Review,
52:2 (Maio de 1972), p. 197.

29
O TEMA O TEMA

eram as donatárias sem uma notícia completa do regimen político, grafe A Solução Tradicional da Colonização do Brasifi, noutros capítulos
económico e civil, que por elas se criava. Por falta de semelhante no- biografavam-se os primeiros capitães-donatários9, exaltando-lhes os
tícia, nem sempre se tem uma noção perfeita do que foi aquele pro- feitos e aureolando-lhes a acção sob a luz romântica do que Malheiro
cesso a que recorreu D. João III no intuito de apressar a ocupação e Dias, promotor e organizador da edição, chamou no volume m, O Re-
povoamento da terra»3. gime feudal das Donatárias.
Mas, mau grado as advertências, a falta de vitalidade deste tipo Há, todavia, que ponderar. Escreveu há vários anos o Professor
de estudos é patente, e ressente-se, já o dissemos, da ausência la- Mário de Albuquerque que a «expansão ultramarina tem sido ava-
mentável de um estudo aprofundado sobre o regime senhorial liada por critérios diferentes mas sempre filhos de preocupações dou-
português, de que as capitanias são uma das manifestações mais trinárias»; e exemplificava enunciando a «história cavalheiresca», os
notáveis. românticos, os nacionalistas e mesmo os que «estrangulam o pro-
Vamhagen e Rocha Pombo deixaram-nos nos volumes das obras blema frequentemente numa estreita visão agrária»10. E tinha razão o
que dedicaram à História do Brasil, análises cuidadas dos diplomas ilustre Mestre, bastando recordar o condicionamento a que tem es-
constitutivos, dos forais e regimentos que fundamentaram a vida ini- tado sujeito o tratamento da questão das capitanias no sentido de a
cial das capitanias brasileiras. Histórias especificamente dedicadas ao priori o integrar em esquemas de feudalismo. Relembrem-se, por exem-
Direito brasileiro, como as de Max Fleiuss4, ou os detalhados estudos plo, as palavras do Professor Ruy UIrich:
de Waldemar Martins Ferreira5 ou de Isidoro Martins Júnior6, dedica-
ram páginas sérias ao mesmo objectivo. «As capitanias são um tipo perfeito do regimen feudal - facto estu-
Aliás, o enunciado jurídico do regime das capitanias tomou-se pendo este, pois o feudalismo rigorosamente caracterizado nunca exis-
elemento essencial mas repetitivo em quase todas as obras dedicadas tiu no Portugal europeu. O que aqui não existira julgou-se, porém, ade-
à Expansão, nomeadamente as respeitantes ao Brasil e, em muito me- quado para as Colónias e lá se usou [...] Os donatários das capitanias
nor grau, às das ilhas da Madeira e Açores. eram autênticos senhores feudais, com direitos de propriedade e de so-
berania, que se transmitiam hereditariamente, e tributários perpétuos da
Coroa suserana...11»
1.2. A Questão do «Feudalismo»
Numa linha em que o facto ou rotulação é dada como consu-
O ano de 1924 e a edição da monumental História da Colonização mada, o Padre Serafim Leite fala em «regime feudal dos donatários»12,
Portuguesa do Brasil7, pareceram marcar decisivamente um rumo novo Contreiras Rodrigues num «período feudal da colonização»13, A. Am-
à consideração do problema das capitanias, nomeadamente às do Bra- brósio de Pina em «privilégios feudais» 14 , Charles Boxer num «dona-
sil, que assim faziam passar a uma imerecida sombra instituições con-
géneres de outras áreas do Atlântico. Se o Professor Paulo Merêa lhes
dedicava um primoroso estudo de cunho jurídico, encimado pela epí- 8 PAULO MERÊA, «A Solução Tradicional da Colonização do Brasil», ín HCP,

vol. li, pp. 167 ss.


9PEDRO DE AZEVEDO, «Os Primeiros Donatários», in HCP, vol. n, pp. 194 ss.
3 JOSÉ
FRANCISCO DA ROCHA POMBO, História do Brasil, Rio de Janeiro, Tipographia 10MÁRIO DE ALBUQUERQUE, O Significado das Navegações e Outros Ensaios, Lisboa,
da Empresa Literária e de Tipographia, 1905, vol. III, p. 221. Sociedade Nacional de Tipografia, 1930, p. 17.
4 MAX FLEIUSS, História Administrativa do Brasil, 2.* ed., S. Paulo, Companhia 11 RUY ULRICH, «Colonizações Ibéricas», in A Questão Ibérica, Lisboa, Typografia

Melhoramentos de S. Paulo, s.i.d. do Anuário Comercial, 1916, pp. 207-208.


5 WALDEMAR MARTINS FERREIRA, História do Direito Brasileiro, S. Paulo, 1951-1958. 12 SERAPIM LEITE, História da Companhia de Jesus no Brasil, Lisboa, Rio de Janeiro,

6 ISIDORO MARTINS JÚNIOR, História do Direito Nacional, Colecção Memória Jurí- 1938-1950, tomo n, p. 140.
dica Nacional, vol. l, Brasília, Departamento de Imprensa Nacional, 1979. 13 F. CONTREIRAS RODRIGUES, Traços de Economia Social e Política do Brasil Colonial,

7 C. MALHEIRO DIAS, História da Colonização Portuguesa do Brasil. Edição Monumen- Rio de Janeiro, Aciel Editora, 1935, p. 106.
tal Comemorativa do 1." Centenário da Independência do Brasil, Porto, 1921-1924, Edição 14 A. AMBRÓSIO DE PINA, «O feudalismo e os descobrimentos», ín Congresso Inter-

de (...). nacional de História dos Descobrimentos. Actas, Vol. IV, Lisboa, 1961.

30
O TEMA O TEMA

tario system with its mixture of feudal and capitalistic elements»15, Malheiro Dias no seu «Regime Feudal das Donatárias». Como comen-
Bailey Diffie referindo que «the powers granted to the Donatários tou Harold Johnson, «that nothing in his description remotely con-
were much like those held by the feudal nobles of Portugal»16, ou formed to any viable definition of feudalism, or that medieval Portu-
Henrique Galvão aludindo a um regime «semi-feudal de capitanias gal never experienced an identifiable "feudal" tradition, seems not to
hereditárias» 17 . Eulália Lobo, num estudo que dedicou à administra- have perturbed him at ali»22.
ção comparada das Américas espanhola e portuguesa, ainda acres-
centa que «a administração das colónias americanas destes países
apresentava um carácter predominantemente feudal. Empregamos 1.3. Orientações Recentes
esta palavra para nos referirmos àquelas características feudais que
existiram na península Ibérica, e não ao sistema na sua forma mais Mas, sintomaticamente, não foram juristas ou historiadores do
completa e típica como o encontramos, por exemplo, na França»18. Direito a vir à liça a fim de procurar a precisão de uma questão que se
Também Vicente Tapajós, num estudo recentemente publicado pela tornava emblemática e monopolizadora das atenções de quem se de-
Universidade de Brasília, chega ao ponto de afirmar que «se levarmos bruçasse sobre este aspecto da antiga administração portuguesa.
em consideração que o regime das sesmarias era caracterizadamente A tese de Malheiro Dias encontraria um dos mais acérrimos im-
feudal, seremos forçados a admitir certa vinculação entre os dois re- pugnadores no campo dos historiadores económicos, na pessoa do
gimes, o feudal e o das capitanias hereditárias, de que as sesmarias se Professor Roberto Simonsen, autor de uma clássica História Económica
constituíam pilares»19. do Brasil, pouco mais de uma dúzia de anos mais recente do que a
Em termos não muito diferentes e sem grande expressão de fun- obra dirigida por Malheiro Dias23. No capítulo que submeteu preci-
damento, tinham-no já afirmado também Varnhagen, João Francisco samente ao título «Capitalismo ou regimen feudal?», Simonsen afir-
Lisboa, Oliveira Martins, Martins Júnior e Sílvio Romero, que, se- mou categoricamente não lhe parecer razoável «que a quase totali-
gundo Queiroz Lima - num estudo que fez escola por destoar do ge- dade dos historiadores pátrios acentuem em demasia o aspecto feudal
ral coro dos propugnadores do feudalismo 20 -, «têm procurado ver no do sistema das donatárias, chegando alguns a classificá-lo como um
sistema de capitanias hereditárias a ressurreição do regimen feudal da retrocesso em relação às conquistas políticas da época»24.
Idade Média»21. Além de vários considerandos sobre o peculiar regime jurídico
Corno característica quase omnipresente nestas posições, anote- das donatárias brasileiras e as motivações que terão presidido à sua
-se uma total ou quase total falta de fundamentação, a que não será criação, suficientes no entender de Simonsen para lhes subtrair o cunho
estranha, porventura, a ausência de um conceito preciso de «feuda- feudal, acrescenta:
lismo». Casos típicos são os citados de Diffie, Eulália Lobo ou o próprio
«Os nossos historiadores não têm encarado o caso sob esse aspecto.
Quando se referem a donatarismo, o consideram como se estivessem
15 CHARLES R. BOXER, The Portuguese Seabome Empire, 1415-18Z5, Londres, 1969. diante de um regimen feudal. O facto se explica pela falta de conheci-
16 BAYLEY DIFFIE, Latiu American Civilization - Colonial Períod, Hamburgo, 1947,
p. 739.
mento das características da vida medieval que somente os recentes
17 HENRIQUE GALVÃO e CARLOS SELVAGEM, Império Ultramarino Português. Monogra-
estudos da história económica têm esclarecido suficientemente. Na ver-
fia do Império, Lisboa, Imprensa Nacional de Publicidade, 1950-1952, vol. \\, p. 188. dade, Portugal, em 1500, já não vivia sob o regime feudal. D. Manuel,
18 EULÁLIA MARIA LOBO, Administração Colonial Luso-Espanhola nas Américas, Rio com sua política de navegação, com seu regimen de monopólios interna-
de Janeiro, Editora Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1952, p. 75. cionais, com suas manobras económicas de desbancamento do comércio
19 VICENTE DA COSTA TAPAJÓS, História Administrativa do Brasil. A política adminis-
trativa de D. João III - 2.* ed., Brasília, Universidade de Brasília, 1983, p. 29.
20 QUEIROZ LIMA, «Capitanias Hereditárias», in Revista de Estudos Jurídicos, n.° 2, 22 HAROLD B. JOHNSON, op>. cif, p. 203.
Agosto, Rio de Janeiro, 1930. 23 ROBERTO SIMONSEN, História Económica do Brasil. 4500-1820, S. Paulo, Rio de
21 HÉLIO VIANA, História do Brasil. Período Colonial. Monarquia e República, S. Paulo, Janeiro, Recife, Companhia Editora Nacional, 1937.
Edições Melhoramentos, 1980. 24 Uem, p. 124.

32 33
O TEMA O TEMA

de especiarias de Veneza, é um autêntico capitalista. Os seus "vassalos" Essa apontada lacuna propôs-se o próprio Marchant preenchê-la
não ficam atrás. Não fazem a conquista como os cavaleiros da Idade Mé- num estudo clássico, Feudal and Capitalistic Elements in the Portuguese
dia. Procuram engrandecer e enriquecer o país. Querem que Portugal seja Settlement ofBrazil (1942)29. Fazendo aí contrastar os elementos inclu-
uma potência. Conquistaram as índias com o mesmo espírito com que, sos nas cartas de doação com três conceitos básicos de feudalismo,
mais tarde, os ingleses vieram a constituir o grande Império Britânico. Tal Marchant funda a sua tese num postulado central:
estado de coisas é tão acentuado, que, mostram os historiadores, as con-
cessões aos donatários vão de encontro à lei mental, ou seja, aquela que «An economic meaning, aside from its general inaccuracy, is entirely
o Mestre de Avis tinha "em mente" para desfazer o poderio dos feudos. inapplicable, for it implies comparison of the self-sufficient househoíd
Mas a verdade é que a lei mental não foi contrariada. Pelo facto dos acor- economy of medieval France with the plantatíon and trading economy
dos entre o Rei e os donatários serem feitos mediante o "Foral dos direi- ofBrazil.»30
tos, foros e tributos e coisas que na dita terra haviam os colonos de
Tal como Simonsen, Almeida Prado ou Andrade e Silva - que,
pagar", não se há de fechar os olhos à realidade económica...»25
negando o carácter feudal do regime, ele próprio o afirma, «ali accept
capitaíism as the alternative, as if none other could exist once feuda-
Escassos três anos passados sobre a publicação da obra de Si-
lism had been rejected»31 - o historiador americano não segue dife-
monsen, em 1940, no III Congresso Sulriograndense de História e
rente rumo, propondo-se unicamente especificar ou aprofundar o
Geografia sai à liça o Dr. Raul de Andrade e Silva, e, na mesma rota
mesmo trilho tomado por aqueles outros autores: «But if capitalism is
de argumentação de Simonsen, alinha factos de ordem económica, ju-
accepted, what is needed next is a differentiation of the kind of capi-
rídica e política, tendentes uns e outros a rebater as teses dos «feuda-
talism practiced by the donatários from the many other kinds that
listas»26. Já no ano anterior o Dr. J. F. de Almeida Prado impugnara na
were being practiced then or have been practiced since.»32
sua História da formação da sociedade brasileira as conclusões de Ma-
Passará então a especificar os três tipos «of capitalistic enterprise
Iheiro Dias27. Um crítico, o Professor Alexander Marchant, sintetizou
that had become usual, each one fitted to particular circumstances of
a tese deste historiador brasileiro nos seguintes termos:
trade that the Portuguese had found in pushing along the African
coast and to índia»33. Isto é,
«Dr. Almeida Prado accepts Professor Simonsen;s opinion that the
grants made by the king were not feudal, that only in the forais did any a) O recurso inicial a companhias de investidores alicerçados num com-
element remain that might be called feudal, and that the grants should plexo de feitorias costeiras, acumuladoras de bens, depois canaliza-
be placed against the pattems of capitalism that were in full develop- das para a metrópole nos próprios navios dos investidores3"1;
ment in the Renaissance. Later he characterizes simply as capitalists {?} O expediente de apropriação por parte da Coroa, numa fase seguinte,
some of the noble and powerful men who were consídering building da estrutura de exploração comercial fundada pelas companhias,
sugar mills in Pernambuco. But, unhappily, he does not consider that the método empregado na índia depois de 1500, e também no Brasil no
demands of his volumes permit him to dwell on the subject and, conse- período que mediou entre a descoberta e a criação das donatárias35;
quendy, he does not specify the patterns of capitalism that were fol- c) A solução empregada em regiões desabitadas como as próprias ilhas
lowed.»28 do Atlântico, «that combined commerce with colonizatíon» 36 . As

25 Idem, pp. 126-127. 29 Idem, ibidem.


26 RAUL DE ANDRADE E SILVA, «O Regime feudal e as capitanias hereditárias {Breve 30 Idem, p. 500.
estudo comparativo)», in Anais do III Congresso Suiriograndense de história e geografia, III, 31 íãem, p. 502.
1940. 32 Idem, p. 502.
27 J. ALMEIDA PRADO, Pernambuco e as capitanias do Norte do Brasil, 1530-1630, 33 Idem, p. 503.
S. Paulo, 1939-42. 34 Idem com a bibliografia indicada a pp. 503-504.
28 ALEXANDER MARCHANT, "Feudal and Capitalistic Elements in the Portuguese 35 Idem, p. 504.
Settlement ofBrazil», in The Hispanic American Revicw, Agosto de 1942. 36 Idem, ibidem.

34 35
O TEMA O TEMA

ilhas eram concedidas em parte ou no seu total a donatários, que as controversy»42. Foi, porém, Harold B. Johnson que com maior acuti-
colonizavam à sua própria custa, fomentando o plantio do açúcar e lância denunciou o prejuízo que o estudo das capitanias tem sofrido
outras culturas, recebendo como contrapartida certos tributos e mo- pela vinculação excessiva a discussões que desvirtuam o interesse
nopólios que lhes facultavam um rendimento e um controlo sobre os central da questão:
colonos. Solidificada a fixação humana e a produção agrícola, comer-
ciantes da metrópole organizavam-se em companhias destinadas ao «Robert Simonsen further built on Dias misinterpretation when he
tráfico com as ilhas, nos termos precedentemente empregados nas fei- cast the question in terms of capitalism vs. feudalism. This pervasive in-
torias africanas37. terpretative dichotomy, from which few subsequent commentators
have been able to escape, makes litde sense except in a Marxist frame-
Será precisamente esta última modalidade que Marchant esten- work. Only for historians of the latter persuasion do feudalism and cap-
derá à caracterização do regime donatarial brasileiro38. italism describe the same order of things - social systems based upon a
É evidente que a essas amplas doações acompanharam-nas todo certain type of economic exploitation. But Simonsen, whose inspiration
um conjunto de regalias jurídicas e políticas, aqui omitidas por Mar- seems to have derived from Gustav Schmoeller, not Marx, failed to give
chant, altamente prestigiantes no enquadramento social do tempo. feudalism an economic definition; and when Alexander Marchant fol-
lowing in Simonsen's footsteps adopted a radically juridical definition of
«Mas - notou-o Lúcio de Azevedo - essas vantagens, a serem aufe- feudalism, he failed to note that this step makes any further attempt at
ridas pelos donatários, pressupõem povoações, lavouras, comércios, tra- comparison or contrast with capitalism entirely pointless. To continue
balho organizado e capital acumulado, o que rinha de ser obra do tempo along these lines was simply to confuse the issue further.
longo e do imediato dinheiro.»39 «Indeed, such arguments continued as long as they did due to the
failure of these pioneers to see the essentially emotional roots underly-
O regime poderia, assim, ser obviamente caracterizado, não ing the feudal - vs. - capitalism dichotomy. For these thinkers feudalism
como feudal mas decididamente capitalista no puro sentido do in- implied backwardness and capitalism progress; and the real question
vestimento de dinheiro para lucro40: they were só insatiably posing was "under what star was Brazil bom?"
Did it begin its life history with a head start or under a handicap? Only
«They were planter capitalists and not primarily traders, and their in the light of such strong emotive significance can one explain the ob-
investment was in land and slaves. Only after the donatários had begin sessive fixation of historians with the question in spite of the fact no sat-
plantation economy in Brazil did merchants, organised in trading com- isfactory answer in these terms is or ever was possible. As long as the so-
panies and investing not in land and slaves but in buying, selling, and cio-psychological roots of the problem went unperceived, however,
transporting sugar bring to Brazil another and more obvíousíy recog- historiography was fated compulsively to repeat it. The only way of this
nised type of capitalism.»41 interpreta ti vê treadmill was for someone knowledgeable but emotion-
ally uninvolved to step off and point the way to an approach both more
Mas nem esta nova progressão do problema contentou os estu- objective and less charged with unspoken, half-unconscious wishes.»43
diosos da administração portuguesa. A esta discussão que opôs os de-
fensores do feudalismo e do capitalismo eventualmente caracteriza- Assim, para Johnson, o passo decisivo teria sido dado em 1954
dor das donatárias, apodou-a justamente Francis Dutra de «sterile pelo historiador belga Charles Verlinden, quando defendera que o
modo mais adequado de compreender o sistema de colonização por
capitanias haveria necessariamente que passar pelo estudo dos senho-
37 Idetn, ibidem.
38 Idem, p. 512.
39 SIMONSEN, of. aí., p. 125. í2 FRANGIS A. DUTRA, A Cuide to lhe History of Brazil, 1500-1822. The Liíerature in
40 MARCHANT, op. cii, p. 512. Engiish, ABC, Ohio, Santa Barbara, Califórnia, Oxford, Inglaterra, 1980, p. 89.
41 Idem, p. 512. 1(3 HAROLD B. JOHNSON, op. cit., pp. 203-204.
O TEMA O TEMA

tios medievais portugueses44. A essa obra clássica - Precedente médié- mas ainda vinculado à questão feudalismo V5. capitalismo. O referido
vaux de lacohnieenAmérique (1954)45- acrescentou desde então o ilus- estudo de Johnson parece-nos beneficiado por um maior desprendi-
tre medievalista belga outros estudos, avultando sobre todos as For- mento, denotando um bastante razoável conhecimento da realidade
mes Féodales et Domaniales de Ia. Cohnisatíon Portugaise (1960)46 e um jurídico-institucional portuguesa e estabelecendo com senso o que
dos mais recentes, Portugese en Syaanse Feodale en Dominiael Kolonisa- passível é de ligação entre os antigos senhorios metropolitanos e o
tievormen in de Atlantische Ruimte (1983)47. que de novo se procurou implantar nas terras adquiridas pelo efeito
Não será este o local mais próprio para comentar e necessaria- da Expansão, acrescendo sobre tudo a desmistificação da velha dis-
mente contestar várias das posições tomadas por Verlinden na consi- cussão capitalismo vs. feudalismo que durante tanto tempo desviou
deração de questões que envolvem diferente conhecimento da reali- as atenções dos atractivos reais do problema. Em obras modernas
dade, das fontes e da tradição jurídica portuguesa; fá-lo-emos como The Camhridge History of South America (1985), o pequeno estudo
pontualmente noutro capítulo em relação a aspectos que nos parecem de Johnson merece do Professor Frédéric Mauro as honras do que de
mais delicados48. Como característica geral e sensivelmente crescente mais recente se fez com seriedade no campo51, e também Lyle McA-
na obra de Verlinden dir-se-á, todavia, que detectámos uma ênfase lister (1984) se lhe refere como «the best analysis of the donatary or
excessiva na vinculação da tradição senhorial portuguesa a esquemas captaincy System»52.
de «feudalismo» ou «laços vassaláticos» que lhe são totalmente Mas, sem prejuízo do inegável mérito de uns e outros historia-
alheios. Aliás, foi já Joel Serrão, em 1950, a propósito dos poderes dos dores citados, sempre diremos que essas teses, veiculadas com outro
primeiros capitães da Madeira, que comentou que «é uma das muitas impacto e em âmbito diverso, as deixou já formuladas com maestria
balelas que ainda são consideradas moeda corrente a de que o dona- o Professor Paulo Merêa em A Solução Tradicional da Colonização do
tário teve atribuições feudais»49. Brasil, estudo já citado53, de escassas trinta páginas, que em 1924 se
Um comunicação apresentada pelo Professor Frédéric Mauro no incluiu no volume III da História da Colonização Portuguesa do Brasil. Já
Colóquio de Toulouse de 1968 dedicado à abolição do feudalismo, aí- e, repetimo-lo, em 1924 - escrevia o Mestre:
subordinada ao título Existence et persistente d'un regime féodai ou seig-
neurial au Brésil50, encara o problema de modo bem mais moderado, «... Sendo assim, o sistema de colonização por donatárias apresen-
tava-se como uma inteligente e fecunda adaptação das doações de bens
da Coroa, que entre nós eram tão frequentes e representavam até certo
44 Idem, p. 204. ponto um equivalente das concessões feudais. Com efeito, na altura em
45 CHARLES VERLINDEN, Précédents médiévaux de Ia cohnie en Amérique, Comisión que D. Henrique iniciou os descobrimentos, os chefes dos diversos esta-
Panamericana de Historia, México, 1954.
dos europeus enfeudavam a cada passo bens, rendas e direitos da Coroa
46 CHARLES VERLINDEN, «Formes Féodales et Domaniales de Ia Colonisation Por-
tugaise dans Ia Zone Adantique aux XIV et XV siècles et spécialement sous Henri le aos seus parentes e servidores, não obstante o sistema político assumir
navigateur», in Revista de História, Coimbra, IX, 1960. de dia para dia uma feição mais acentuadamente monárquica e centrali-
47 CHARLES VERLINDEN, «Portugese en Spaanse Feodale en Domaniael Kolonisa- zadora. Entre nós, sem embargo dos progressos do poder real, os mo-
tievormen in de Adantische Ruimte», in Mededelingen van de Koninklre Academie voor narcas continuavam a fazer frequentes e importantes doações de direi-
Wetenschappen, Letieren ert Schnone Kiinste van Belgie. Masse der letteren. Academiae Ana-
tos reais e de jurisdição civil e criminal [...] Ora, nunca esta cedência de
leda, Jaargang 45, 1983, nr. 3, Bruxelas, 1983.
48 Vide o nosso Capítulo V.
direitos reais e poderes soberanos fora tanto de aconselhar como no pre-
49 JOEL SERRÃO, «O Infante D. Fernando e a Madeira (1461-1470). Elementos para
a formulação de um problema», in Das Aries e da História da Madeira, n.° 4, 1950,
p. 12, n. 22. 51 The Camhridge History of Latin America, Vol. I, Colonial Latin America, Editado
50 FRÉDÉRIC MAURO, «Existence et persistance d'un regime féodai ou seigneurial por Leslie Bethel, Cambridge University Press, 1985.
au Brésií», in 1'Abolition de Ia Féodalité dans le monde occidental. Cottoques Intemationaux 52 LYLE N. McAiiSTER, Spain anã Portugal in lhe New World. 1942-1700, Oxford
du Centre National de Ia Recherche Scientifique. Sciences Humames, Toulouse, 12-16 de University Press, 1984, p. 535.
Novembro de 1968, Editions du Centre National de Ia Recherche Scientifique, Paris, 53 PAULO MEREA, «A Solução Tradicional da Colonização do Brasil», in HCP, vol.
1971, tomo 1. n, pp. 167 ss.

38 39
O TEMA O TEMA

sente caso em que ao Rei e ao Infante convinha interessar alguém direc- você «Capitães-Donatários» e «Donatárias»60, e podemos, é certo, re-
tamente no povoamento e desenvolvimento das novas possessões, sem correr aos elementos carreados no Elucidário Madeirense do Padre
aliás abdicar do seu senhorio eminente e suprema jurisdição.»54 Francisco da Silva e Azevedo de Menezes61, à obra A Madeira sob os
Donatários, de Damião Feres62 (1914), a alguns estudos de Fernando
Mais adiante alude ao «sistema senhorial das capitanias que se Jasmins Pereira 63 ou aos Capitães dos Donatários de Faria e Maia
adoptou no Brasil na primeira fase da sua colonização»55, e conclui (1972)64. São, contudo, como alguns outros que aqui não há que citar,
que se aplicavam, «adaptando-se às circunstâncias, duas peças tradi- estudos resumidos, utilitários ou mais voltados para a história social
cionais do nosso sistema político-administrativo: por um lado as doa- ou para a biografia dos capitães.
ções de bens da Coroa e direitos reais, por outro as cartas de foral»56. Também, sob títulos que se poderiam considerar auspiciosos -
As palavras que acabamos de reproduzir não deixam dúvidas A Condição Jurídica das Capitanias Brasileiras, comunicação de Oliveira
quanto à sensibilidade de Merêa a uma realidade cujo mérito do Guimarães apresentada no Congresso do Mundo Português (1940)65,
anúncio tem sido atribuído a outros que só posteriormente a referem, as «Capitanias Hereditárias» de Jacobina Lacombe, na Revista Portu-
e em seu prejuízo, ao ponto de Stuart Schwartz, um dos mais citados guesa de História (1978)66 e «O Sistema das Capitanias do Brasil», de
historiadores do Brasil colonial, na sua aliás interessante e geralmente Manuel Nunes Dias, no Boletim da Biblioteca da Universidade de Coim-
bem documentada obra Sovereignities and Society in Colonial Brasil bra (1980)67 - nada ou pouco de útil se colhe para o avanço da análise
(1973)57, não contente em deturpar-lhe o nome, lhe amputar o título da questão, para além de um recurso mais ou menos transiatício ao
do estudo citado, envolvendo erroneamente na discussão do feuda- que Waldemar Ferreira e Paulo Merêa muitos anos antes deixaram
lismo ou capitalismo das capitanias, e apresentando refutado por Ale- escrito.
xander Marchant em obra em que este o cita perfunctoriamente e O Professor Marcello Caetano, na sua História do Direito Português,
sem qualquer conotação com a matéria58. deixou mais recentemente (1981) dedicadas algumas páginas ao es-
tudo do regime jurídico das primeiras capitanias quatrocentistas, co-
locando-as sob a epígrafe significativa de «Utilização do regime se-
nhorial na colonização das terras descobertas» 68 . As páginas desse
É para lamentar, mas, valha a verdade, este ramo de estudos tem historiador do Direito são, porém, breves, e infelizmente interrompi-
sido assim indesculpavelmente descurado pelos historiadores e pelos
juristas nacionais, a quem primeiro que todos competia neles avançar.
O panorama visível é, efectivamente, escasso. O Arquivo da Madeira 60 MARIA EMÍLIA CORDEIRO FERREIRA, sub você «Capitães-Donatários» e «Donatá-

publicou um estudo subordinado ao título «Ensaio sobre a natureza rias», in Dicionário de História de Portugal, Lisboa, vol. l, 1963.
61 PADRE FRANCISCO AUGUSTO DA SILVA e CARLOS AZEVEDO DE MENEZES, Elucidário
jurídica das capitanias»59. Pertinente e bem elaborado, ficou, todavia, Madeirense, Funchal, 1965.
incompleto e desprovido de notícia de autor. Do melhor que até à 62 DAMIÃO FERES, A Madeira sob os Donatários, Funchal, 1914.
data se tem feito, merecem também especial referência os artigos de 63 FERNANDO JASMINS PEREIRA, «A Ilha da Madeira no período henriquino
Maria Emília Cordeiro Ferreira no Dicionário de História de Portugal, sub (1433-1460)», in Ultramar, n.° 3, 1961, pp. 21-47.
64 FRANCISCO DE ATHAYDE M. DE FARIA E MAIA, Subsídios para a história de S.
Miguel- Capitães dos Donatários (1439-1766), Lisboa, 1972.
S4Mcm,pp. 167-168. 65 Luís DE OLIVEIRA GUIMARÃES, «A Condição Jurídica das Capitanias Brasileiras»,

5SIdem, p. 171. in Congresso do Mundo Português - vol. IX - Memórias e Comunicações apresentadas ao


56 Idem, p. 174. Congresso Luso-Brasileiro de História (VII Congresso), Lisboa, tomo I, l.1 Secção, 1940.
57 STUART B. SCHWARTZ, Sovereignitíes and Society in Colonial Braztl. The High Court 66 AMÉRICO JACOBINA LACOMBE, «Capitanias Hereditárias», in Revista Portuguesa de
of Bahia and itsjudges, 1609-1571, Berkeley, Los Angeles, Londres, University of Cali- História, Tomo XVI, Homenagem ao Doutor Torauaio de Sousa Soares, Coimbra, 1978.
fórnia Press, 1973. 67 MANUEL NUNES DIAS, «O Sistema das Capitanias do Brasil», in Boletim da

58 Idem, p. 24, n. 3. Biblioteca da Universidade de Coimbra, XXXIV- S.' parte, Coimbra, 1980.
59 «Ensaio sobre a natureza jurídica das capitanias», in Arquivo da Madeira, 68 MARCELLO CAETANO, História do Direito Português (1140-149$) - I, Lisboa, Edi-
T. II-III, s.i. de autor. torial Verbo, 1981, pp. 524-527.

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O TEMA O TEMA

das pela sua morte. No entanto, é sintomático do interesse que a ma- as capitanias na sua maioria acabam por perder por inteiro a função
téria vem suscitando que o Professor Ruy de Albuquerque, no Pro- primária de povoamento, para se tornarem autênticas circunscrições
grama do curso de História do Direito Português que se fez publicar administrativas ou puras e simples prebendas económicas»71.
em 1985 na Revista da faculdade de Direito da Universidade de Lisboa,
apresente precisamente como pontos de destaque ou «aspectos mais
relevantes» da matéria da Administração Ultramarina, na Madeira e 2. As Capitanias como D o a ç õ e s Régias
nos Açores, o «regime senhorial» e a «extinção das donatárias», e, no
Brasil, «organização por capitanias: causa do insucesso»69. 2.1. Questões Prévias
Quanto saibamos, os últimos estudos que encararam as capita-
nias sob um prisma jurídico e institucional, fizemo-lo nós, despreten- Vimos assim que a questão das capitanias do antigo império por-
siosamente, em linhas breves que apresentámos no 1.° Colóquio In- tuguês tem sido perspectivada dos mais diversos modos, e, se é certo
ternacional de História da Madeira (Funchal, 1986) sob o título «As - como escreve Orlando Ribeiro - «que muitos aspectos da nossa ex-
Capitanias à luz da História e do Direito», e num artigo publicado pansão são bem conhecidos, se é facto que a erudição portuguesa dos
numa revista histórica em 199070. últimos cinquenta anos se aplicou a esclarecer alguns deles, especial-
No primeiro desses escritos tivemos a oportunidade de global- mente os problemas relativos às minúcias dos descobrimentos, à arte
mente notar que «a quase totalidade desses e outros poucos estudos náutica, ao desenvolvimento da cartografia, ao raconto da história he-
afins brotam da pena de historiadores, particularmente de medieva- róica dos portugueses no Brasil, na África e no Oriente, que podem
listas, tendencialmente limitados pela análise da letra dos títulos considerar-se relativamente bem estudados, é verdade também que
constitutivos, sem que até ao momento se chegasse a ensaiar um es- outros aspectos permanecem obscuros, que a muitas interrogações
tudo de conjunto, quer do ponto de vista cronológico, geográfico e, não se sabe o que se há de responder e algumas dúvidas nem sequer
sobretudo, institucional. E impõem-se fazê-lo. É displicente de- se podem pôr de uma maneira correcta que permita vislumbrar-lhes
termo-nos sobre o peso e a extensão atingida pelo sistema de coloni- próxima solução»72.
zação por capitanias: na Madeira, nos Açores, em Cabo Verde e Assim sucede no plano do jurídico onde continuam em aberto
S. Tomé alargou-se a toda ou quase toda a extensão das ilhas. No Bra- importantes questões, constituindo outras tantas lacunas, só contra-
sil é bem conhecida a repartição quinhentista que se estende aos fi- riadas por estudos pontuais ou capítulos isolados de obras mais vas-
nais do século XVII, e poderíamos referir ainda as aflorações que nos tas, uns e outros insuficientes para enquadrar devida e globalmente o
surgem em Angola e até na Serra Leoa. O que não cabe esquecer é sistema sob um prisma fundamentalmente jurídico. E isto porque al-
que as capitanias não foram criadas simultaneamente, decorrendo guns autores, deixando-se ofuscar pelas peculiaridades formais das
mais de duzentos anos entre a doação da primeira, na Madeira, em cartas de doação e pelas inevitáveis adaptações que no meio ultrama-
1440, e a da última, no Brasil, em 1685, e mais quase cem até ao de- rino quer elas quer os respectivos forais houveram de sofrer, desloca-
saparecimento da derradeira, a de Porto Santo, em 1770. O investiga- ram a questão das capitanias do seu meio próprio, dando-lhe foros de
dor é, pois, confrontado com um processo longo e irregular, fundado autonomia enquanto a desenraizavam do meio de onde brotavam e
em motivações diversas e enquadrado por legislação mutável, em que do qual retiravam o próprio e único significado.
Ora, em rigor, toda a questão das capitanias respeita fundamen-
talmente a uma dispersão de bens da Coroa, de direitos inerentes à
69 RUY DE ALBUQUERQUE, «História do Direito Português», in Revista da faculdade
de Direito da Universidade de Lisboa, Lisboa, XXVT, 1985.
70 Vide ANTÓNIO VASCONCELOS DE SALDANHA, «As Capitanias à Luz da História e 71 ANTÓNIO VASCONCELOS DE SALDANHA, As capitanias à Luz da História e do Direito
do Direito (Perspectivas e Metodologia}», in Actas do 1." Colóquio Internacional de His- (Perspectivas e Metodologia), comunicação apresentada no 1.° Colóquio Internacional
tória da Madeira, 1986. Vol. I, Funchal, Governo Regional da Madeira, 1989, e «Con- de História da Madeira, Funchal, 1986.
siderações sobre o estudo das capitanias ultramarinas portuguesas», in Ler História. 72 ORLANDO RIBEIRO, Aspectos e problemas da Expansão Portuguesa, Fundação da
Descobrimentos e Expansão, n.° 19, 1990. Casa de Bragança, 1955, p. 16.

42
O TEMA O TEMA

soberania real, dispersão essa excepcionalmente aceite e processada presunção da licitude da utilização do termo doação, aplicado ao con-
em função de objectivos precisos, segundo um ritmo peculiar e com teúdo jurídico do acto visado pelas partes. O que, podendo sugerir
um enquadramento jurídico e doutrinário determinado. Viu-o bem o uma insuficiência de elementos qualificativos do acto, nos não deixa
Professor Paulo Merêa, notando que «o sistema de colonização por do- necessariamente com a certeza da realização desse tipo negociai, não
natárias apresentava-se como uma inteligente e fecunda adaptação das excluindo, portanto, um error in nomine negotii77.
doações de bens da Coroa, que entre nós eram tão frequentes e repre- Estando em causa, como dissemos, o processo através do qual se
sentavam até certo ponto um equivalente das concessões feudais» 73 . teria feito a transferência de direitos suscitada por um acto gracioso
Estamos, pois, perante a figura genérica de actos graciosos de dis- de disposição, só teremos a ganhar com a valorização dos elementos
posição, que, pressupondo a ideia e existência de um domínio, to- existentes, comparando-os com a fattisyecie típica da doação78. Ele-
mam por objecto poderes ou direitos nestes contidos. Fazendo-nos mentos como, por exemplo, a existência de fórmulas simples em que
avançar um passo mais na determinação do processo de atribuição transparece a ideia de transferência e de consequente perda de direi-
desses direitos, uma análise atenta do nomen iurís utilizado quer pelas tos, «fazemos doação», «faço mercê e irrevogável doação», «hei por
partes a quem coube a iniciativa do acto quer pela própria jurispru- bem fazer-lhe irrevogável doação», etc., todo um naipe de fórmulas
dência e pela doutrina, revela-nos a adopção da fórmula da donatio74. que documentos adiante citados poderão de algum modo melhor re-
Disse-o recentemente, como vimos, o Professor Paulo Merêa, e tam- velar. E o caso, também, do modo como o apossamento do.
bém o escreveu muito antes o ilustre jurisconsulto seiscentista que foi pelp^adcjuirejite o_u pelo seu mandatário^seguiíclõ fórmulas e em cir-
o Dr. Manuel Álvares Pegas, afirmando que «os capitães desta quali- cunstâncias pré-estabelecidas, traduz o modus adquirendi, manifesto
dade sejam donatários da Coroa e se devam reputar por tais e as suas em autos ou instrumentos de tomada de posse que complementam,
doações se hajam de regular como as dos outros donatários, está jul- por assim dizer, os instrumentos relativos à declaração da vontade de
gado muitas vezes...»75. transmitir .direitos79. É, enfim, a natureza do própriõ~õbjêcto da cTõli^
Um pouco mais tarde, o próprio Pascoal José de Melo Freire re- cão, na sua vertente essencial do direito ou direitos transferidos.
conheceu também que

«os capitães perpétuos das Ilhas (que cumpre distinguir totalmente dos 2.2. Os F u n d a m e n t o s do Domínio Régio
Governadores temporários e oficiais militares), aos quais foi concedido
o direito e império como Capitania, isto é, obrigação de defender as ter- De facto (e aludimos a tema que iremos posteriormente desen-
ras atribuídas, são verdadeiros donatários, e, por isso, sujeitos à nossa volver) os monarcas doadores, reservando para si um domínio emi-
nente, transferem para o Donatário um domínio útil, preenchido por
direitos relativos a uma bem determinada área territorial do reino, en-
Se quisermos, porém, avançar ainda mais no juízo desta questão, globada na genérica categoria dos bens da Coroa.
facilmente se constata que os argumentos de carácter documental, Concentrando-se os suportes, ou melhor dizendo, as determi-
encarados solitariamente, apenas podem sustentar uma presunção de nantes territoriais desses direitos na zona atlântica das possessões
correspondência entre a designação doação e a vontade das partes, a portuguesas - as ilhas do Atlântico, a África Ocidental, o Brasil - qual,
pois, o título jurídico em que se fundou a Coroa para fazer doações,
73 PAULO MERÊA, op. cit., n. 53.
para se arrogar de uma summa potestas e da faculdade de dispor daque-
74 Sobre a questão da configuração da concessão e da doação no antigo Direito les direitos?
Português, vide P.UY DE ALBUQUERQUE, Os títulos de Aquisição territorial, Lisboa, 1960
(tese dact. e polic.), pp. 153-159.
75PP, foi. 569. 77 Sobre este problema no âmbito definido, vide RUY DE ALBUQUERQUE, op. dl.,
76 PASCOAL JOSÉ DE MELO FREIRE, «Instituições de Direito Civil Português, tanto p. 160.
público como particular», Livro II, reed. in Boletim do Ministério da Justiça, n.° 163, 78 Idem, p. 167.
Fevereiro, 1967. 79 Vide RUY DE ALBUQUERQUE, op. cit., pp. 172-173.

45
O TEMA O TEMA

O assunto foi já proficientemente escalpelizado por Ruy de Albu- essa genérica categoria, discutida por tantos tratadistas quantos se
querque, em trabalho que dedicou precisamente aos títulos de aquisi- dedicaram a defini-la83.
ção territorial na Expansão portuguesa80. Seja-nos assim permitido Se quisermos desde já excluir do nosso estudo os bens patrimo-
apontar somente que nas áreas que foram alvo da atribuição e criação niais do Rei, «como homem contemplado particularmente, sem So-
de capitanias, independentemente de grandes especulações doutriná- berania e Majestade ou Principado Régio»84, necessário se nos torna
rias, os dois grandes sustentos jurídicos do domínio da Coroa de Portu- estabelecer uma delimitação clara que distinga os bens constituintes
gal eram considerados estarem invariavelmente fundados ou numa do que o oitocentista Alberto Carlos de Menezes chamou «o Grande
aquisição originária de territórios (Ilhas dos Açores ou da Madeira, Morgado da majestade, em que lhe devem suceder os sucessores da
p. ex.) ou, no caso de outros habitados, na força e virtude dos diplomas Coroa, substituindo uns aos outros na propriedade daqueles vincula-
pontifícios de doação81. Verdade que nem sequer cabia discutir, como dos, perpetuamente proibido o seu comércio e alienação»85, dos bens
escreveu o cronista quinhentista João de Barros em páginas célebres que da Real Fazenda. E se nesse «Grande Morgado da Coroa» o mesmo
dedicou ao ditado ou título real do Rei D. Manuel, considerando que autor distinguiu bens das «grandes Regalias»86 - i.e., «todas as produ-
ções de Direitos Majestáticos»87 - dos bens de «pequenas Regalias»88
«... posto que estes três títulos, Conquista, navegação e comércio sejam - próprios do Rei, como «Rei, mas que podem estar em poder de um
actos em tempo não determinados e finitos e em lugar tão grandes que particular por título régio»89, aos bens da Real Fazenda Alberto Me-
compreendem tudo o que jaz do Cabo Bojador até ao fim da terra orien- nezes remeteu os «bens fiscais e alienáveis à vontade do Soberano
tal, etc., e neste ano de quinhentos e um El-Rei D. Manuel se intitulou para as despesas da nação», como os «rendimentos, rendas, tributos,
deles, não podia tomar outros mais próprios à justiça e aução que tinha bens confiscados», etc.
naquela Oriental propriedade ao presente salvos eles, bem se pode a Ora, se decompusermos o conteúdo da generalidade das doações
Coroa deste reino intitular destes reinos que tem conquistado. Na Etió- de senhorios que em Portugal se fizeram, qual o tipo de bens régios
pia, Sofala, Quíloa e Mombaça, e na Arábia e Pérsia do grande Reino de doados em causa? Na categoria de bens das ^rãndeTregalIàs^, ina-
Ormuz, cujo estado com muitas vias e lugares está nestas duas partes de lienáveis pelojvionarca e unicamente susceptíveis de delegação ou
terra. E na índia, dos Reinos de Goa, Maíaca e Maluco, como todolos doaçã^com reversão àCoro^ «quando f o r n e cessa rio e o Rei qui-
mais senhorios que nestas quatro províncias tem navegado e conquis- ser»»090", ostiEuIÕs de Senhores de Terras, Capitães e Governadores, as
tado, e assim na Província de Santa Cruz ocidental a estas, a qual ao pre- faculdades de administração de justiça, nomeação de magistrados e
sente El-Rei D. João o Terceiro Nosso Senhor repartiu em doze capita- oficiais, criação e concessão de privilégios de vila, etc. Na categoria
nias dadas de juro e herdade às pessoas que as têm...»82. de bens de «pequenas regalias», próprias do Rei como tal, «mas que

2.3. O Conteúdo das Doações 83 Vide A. HESPANHA, op. cit., pp. 291 ss., bem como a bibliografia aí referenciada.
54 Vide ALBERTO CARLOS DE MENEZES, Classificação dos bens Nacionais para ordenar
Se esses territórios eram considerados pertencer, assim, à Coroa, a Administração, Tombo, e Reconhecimento da fazenda Fiscal por Superintendências. Almoxa-
rifados, ou Contadorias em Comarcas e territórios Municipais, etc., Lisboa, Imprensa
e se na doação de «bens régios» se centra o nosso estudo, impõe- Nacional, 1823, p. 108.
-se-nos destrinçar já o que jurídica e politicamente se entendeu sob i 85 Idem, ibidem.
86 Castillo de Bovadílla na sua Política para Corrigidores (I, 11, 16, 218), definiu
como «regalias», aquele conjunto de coisas que «no se pueden dar ni apartar de Ia per-
80 RUY DE ALBUQUERQUE, op. cit. sona y corona real, que aunque expresamente se huvieren dado o vendido a algún
81 Sobre esta questão, vide ANTÓNIO VASCONCELOS DE SALDANHA, lustum Imperium. senor com juramento podrá el sucesor en el Reyno (resultando de Ia concesión grave
Dos Tratados como fundamento do Império dos Portugueses no Oriente.. Estudo de História do perjuizio) revocar Ia tal concesión y recuperar Ias dietas preeminências reales».
Direito Internacional e do Direito Português, Macau, Instituto Português do Oriente, 1996, 87 A. C. MENEM, op cit., p. 108.
R II, Cap. II. 88 Idem, p. 109.
82 JOÃO DE BARKOS, Da Ásia, Lisboa, Régia Officina Typografia, 1777, Década l, 89 Idem, ibidem.
Livro VI, Cap. I. 90 Idem, pp. 108-109.
O TEMA O TEMA

podem estar em poder de um particular por título régio», o tipo de ter- a) A base territorial de propriedade e jurisdição;
ras vagas mencionadas no título de doação91. Na categoria de bens b} A autoridade investida nos capitães;
«da Real Fazenda» ou bens fiscais, os anexos às faculdades de governo c} O rendimento económico dos capitães.
ou administração de justiça (v.g. portagens ou pensões de cargos de
nomeação donatarial) ou os puros e simples rendimentos dos bens da Quanto ao primeiro, escrevemo-lo já, há que fazer distinções. Em
Coroa, como as dízimas ou as redízimas cobradas por donatários92. primeiro lugar, a do território como área delimitada de exercício de
Estamos, em suma, perante o que Salvador de Moxó, para o caso jurisdição ou faculdades donatariais, perfeitamente identificada nas
espanhol, considerou uma «cascada» de faculdades diversas e de dis- cartas constitutivas, e com maior facilidade quando as capitanias têm
tinta natureza, «administrativa, económica, tributária, judicial y aun sede em ilhas ou parte de ilhas, como na Madeira, ou com maior
eclesiástica, que constituyen el aspecto mas representativo y dinâ- complexidade, como no Brasil, em que para a delimitação de territó-
mico dei regimen senorial desde Ia baja Edad Media»93. rios vastíssimos se conjugam ficções técnicas como a linha de Torde-
Para a precisarmos, é mister recuarmos aos alvores da nacionali- silhas e o parcelamento da costa por «lotes» desiguais. Em segundo lu-
dade portuguesa, constatando a clara confrontação travada entre mo- gar entender-se-á o território como propriedade pessoal do Capitão,
narcas e donatários, para progredirmos a uma fase em que o poder do resquício último do senhorio medieval por si só gerador de todas as
príncipe, num processo, aliás, familiar às monarquias hispânicas da faculdades jurisdicionais, que nas capitanias encontramos autonoma-
baixa Idade Média, «de mera missión de dirección vá - segundo o mente concedidas e separadas da concessão da terra95.
mesmo historiador espanhol - transformando su función en una mis- Como veremos em capítulo próprio, foi este um dos pontos que
sión de império e gobierno»94. Culminará ainda na nossa primeira di- mais se têm prestado a equívocos, consubstanciados na ideia de que
nastia em medidas legislativas restritivas do arbítrio senhorial, como concedida a Capitania, concedida estava a terra correspondente. Ora,
as de D. Diniz, em cujo tempo se nota uma preocupação patente no nada de mais errado: as capitanias são senhorios eminentemente ju-
vincar os direitos da Coroa, as de D. Afonso IV, e, principalmente, as risdicionais, a que anda potencialmente agregada uma parcela fun-
de D. Fernando, com especial destaque para uma lei de 1379 em que diária, destacada do património do Grande-Donatário ou do Rei, e
se deixam já consagradas as ideias basilares que as Ordenações de angariada para o Capitão através quer de uma auto-aplicação do sis-
modo mais ou menos translatício recolheram sucessivamente no de- tema das «dadas de sesmaria» (caso da Madeira e dos Açores), quer
curso de um processo de uniformização do âmbito da jurisdição se- através de um pré-estabelecimento de apropriação por parte do Ca-
nhorial, processo que se poderá considerar concluso à data da elabo- pitão (caso do Brasil) modalidade esta a que parece ter presidido o in-
ração da primeira daquelas compilações. Até tarde esse quadro ficará tuito de corrigir em terra vasta os eventuais abusos verificados pela
então aí definido, quer através do conteúdo dos títulos versando prática da primeira96.
a matéria dos «direitos reais» quer daqueles que se dedicam aos Em segundo lugar, havemos, pois, de referir a autoridade inves-
«Senhores de Terras», extensíveis aos capitães-governadores das Ilhas tida no Capitão, na sua dupla vertente de mero governo, chamemos-
e do Brasil. -Ihe «civil» - e retomamos o que já escrevemos - cometido ao Capitão
Se procurarmos concretizar o tipo de doações feitas, decom- quando presente na Capitania, ou, quando ausente, ao seu Loco-Te-
pondo em planos constitutivos o núcleo comum às várias modalida- nente, englobava, para além de funções de mera administração da
des de capitanias existentes na área atlântica, teremos: propriedade particular, a arrecadação das rendas, a nomeação ou con-
firmação - quando concedida - de funcionários concelhios, o servir
de elo máximo de contacto com o monarca, e, num período primário,
específicas funções de comando militar97. No somatório destas atri-
91 lâtm, ibidem.
92Mem,pp. 109-110.
93 SALVADOR DE Moxó, «Los Senorios: cuestiones metodológicas que plantea su 95 A. VASCONCELOS DE SALDANHA, op. ar., nota 71.
estúdio», in Anuário de Historia dei Derecho Esf anal, Madrid, XLIII, 1973, p. 292. 96 lâem,
94 S. DE Moxó, «Los Senorios. En tomo a una problemática...», p. 197. 97 Idem, ibidtm.

48 49
O TEMA O TEMA

bulcões tem também um inegável peso a faculdade de distribuir ter- saio: as que por parte do primeiro em relação ao segundo implicam
ras em «sesmaria», razão por que no decurso deste estudo lhes dedi- uma concessão, a título precário ou perpétuo, de bens ou proventos
camos um capítulo por inteiro. acompanhados da concessão de poderes públicos, nomeadamente a
Quanto à administração da justiça, há que recordar que, excep- administração de justiça, a cobrança de impostos e a organização mi-
cionalmente, a cometerem os reis a alguns dos seus súbditos como litar. As que por parte do segundo em relação ao primeiro obrigam
galardão desejado, núcleo nobre não apenas das capitanias, mas de não apenas aos laços de obediência ou dependência a que se sujeita
qualquer senhorio jurisdicional doado e nascido à sombra da legisla- qualquer vassalo, entendida a palavra no seu sentido lato, mas tam-
ção portuguesa. Se nos recordarmos, também nas primeiras cartas de bém a específicos serviços ou obrigações que os títulos constitutivos
doação das capitanias madeirenses, o fito de essas terras manter «em da relação prefixam.
justiça e em direito» vem logo à testa de qualquer outro objectivo ou Sabemos e vimos já ser este âmbito vasto o campo ideal sobre o
concessão. A tradição portuguesa, como referimos, permitia-o, re- qual se construíram e constróem algumas teses tendentes a estender
montando à 2.a metade da dinastia de Borgonha as primeiras tentati- o conceito de «feudalismo» ao processo de compreensão das capita-
vas de regulamentação da jurisdição senhorial; e, mau grado a rígida nias. Não iremos, todavia, incorrer em especulações estéreis, caracte-
legislação de D. Afonso IV e D. Fernando, passada às Ordenações, e as rizadas até pela impotência em assentar ou definir um conceito claro
limitações que indirectamente se lançaram no tempo de D. João I e de feudalismo™'. No plano em que nos interessa movimentar, esse e o
seus sucessores através do dispositivo da Lei Mental, nunca, na prá- outro conceito fulcral de senhorio, impuseram-se com uma natureza
tica, se pôs totalmente em causa a concessão de faculdades tendentes específica, «a partir da necessidade de se distinguir - no plano da his-
ao exercício da administração da justiça por particulares, assim inves- tória exclusivamente jurídico-política - os regimes feudais típicos -
tidos da qualidade de juizes perpétuos na área de jurisdição, nas suas i.e., aqueles em que a organização política é dominada pelo laço vas-
duas vertentes cível e crime98. salático e pela outorga dos grandes senhores de extensos poderes ma-
Em terceiro e último lugar, mencionadas as questões do território jestáticos - e os regimes em que, tendo-se verificado também uma
e da autoridade, resta aludir às rendas auferidas pelos capitães, de extensa vigência de laços de subordinação político-jurídica dos indi-
montante tão variável desde a extrema insignificância à opulência cé- víduos, aquela pulverização, no topo, do poder político não se verifi-
lebre dos capitães quinhentistas do Funchal, S. Miguel ou Pernam- cou em alto grau».
buco. Segundo análise também já por nós anteriormente feita, se con- Quem assim o refere é António Hespanha101. Mas esta tese é con-
siderarmos globalmente o conjunto das capitanias existentes sonante com o que já Paulo Merêa, alguns anos antes, constatara, ad-
verificamos com facilidade a correlação de três classes de rendimen- vertindo que para se «afirmar que o nosso País e os demais estados
tos: as rendas derivadas do próprio exercício da autoridade ou facul- ocidentais da Península conheceram o feudalismo é preciso ligar a
dades dos capitães (como as pensões dos tabeliães, p. ex.) e as pen- esta palavra um sentido demasiado vago. Mas se por país feudal en-
sões fixas cobradas sobre actividade de serras de água, e os chamados tendermos aquele cuja organização política tem como elemento es-
direitos exclusivos, como o dos fornos ou da venda do sal; as rendas sencial o contrato de feudo - com esse ou com outro nome - então
directamente calculadas e cobradas em função dos réditos reais, cremos bem poder afirmar que Portugal não pertenceu nunca a esse
como a «reçlízima»; as rendas de carácter meramente territorial, de- tipo histórico de estado. Uma coisa, com efeito, é o feudo, outra o se-
correntes da exploração das terras próprias dos capitães". Todas elas nhorio, onde a necessidade, antes de mais nada, de distinguir os dois
serão caracterizadas em capítulo próprio. regimes: o feudal e o senhorial, embora nos países chamados corren-
É patente que este tipo de ligação que se estabelece entre mo- temente feudais os dois sistemas apareçam amalgamados e numa
narca e donatários tem a fisionomia própria que lhe concede a básica
dualidade de relações que se estabelecem entre um senhor e um vos-
100 Vide, p. ex., as Actas do Colóquio «UAbolition de Ia Féodalité», referido
supra,
98 Idetn, ibidem. 101 ANTÓNIO MANUEL HESPANHA, História das Instituições. Épocas medieval e
99 Idem, ibidem. moderna, Coimbra, Livraria Almedina, 1982, pp. 85-86.

50
O TEMA O TEMA

estreita interdependência. Posto isto, o que um estudo desprevenido Os primórdios hão-de ser buscados em épocas anteriores à na-
das fontes nos habilita a concluir é que destes dois regimes Portugal, cionalidade, ao seio da própria monarquia asturo-leonesa. Foi San-
como Leão, apenas conheceu o segundo, cumprindo ainda assim não chez Albornoz quem, porventura, melhor patenteou a origem das
esquecer que ele não atingiu aqui o mesmo grau que na França, onde imunidades peninsulares104, documentando-as nas Astúrias no século
a realeza chegou a ser apenas, na frase de um escritor ilustre, um ix, ainda que as suponha já existentes no século anterior, no período
nome e uma tradição. Relações do Rei com os súbditos, importância inicial da Reconquista105. É esta, aliás, quem directamente as justifica;
da cavalaria vilã, remuneração do serviço militar pelo sistema da sol- efectivamente - escreve Afonso Guilarte - «a ello contribuyó en gran
dada, supremacia do monarca em relação aos maiores privilegiados, manera Ia situación especialíssima en que se encontraba el nuevo
carácter amovível dos cargos públicos - eis, para não nos referirmos Reino. En efecto, Ia guerra continuada, Ias invasiones frecuentes de
senão ao que mais avulta, outros tantos traços mais do que suficien- los árabes, etc., crearon un estado de inseguridad que reflejándose en
tes para emprestar à nossa constituição política medieval uma fisio- Ia economia de Ia propriedad territorial, hacia necesario Ia atribución
nomia e uma essência que profundamente a diferenciam, indepen- de Ia soberania ai proprietário; solo de este modo, correspondi e ndole
dentemente das influências estranhas que num ou noutro ponto se los poderes públicos y jurisdiccionales sobre los habitantes de sus
tenham produzido» 102 . Mais adiante especificará o mestre coimbrão tierras, se garantizaba Ia producción y el cultivo de Ias mismas, ya
que o regime senhorial consiste essencialmente «numa disseminação que Ia potestad domínica no se extendia más que a los siervos y no
dos direitos próprios da soberania, numa fragmentação do conteúdo abarco nunca aquelles derechos»106.
desta e sua distribuição por diversos indivíduos, em cujo património Por outro lado, e no esteio de Albornoz, o mesmo autor nota que
passam a fundir-se, misturando-se com os direitos de índole privada a imunidade medieval acarretava ainda para a Coroa a vantagem sem
e ingressando com estes no comércio jurídico»103. preço de lhe libertar a incipiente máquina administrativa da tarefa pe-
Poderemos concluir assim que ao senhorio subjaz uma delegação sada de administrar territórios instáveis107. Significativamente, as
de poderes normalmente inerentes ao Soberano, cujo detentor os «Partidas» - acrescenta - «razonan Ia existência de senorios como
exerce não como uma função, mas como um direito pessoal e geral- uma mejor fórmula para Ia administración, de Ia cosa publica, ya que
mente hereditário ainda que termo seja passível de ser interpretado el poder dei Rey no puede llegar a todos los lugares»108.
como um conjunto de direitos específicos, ou no sentido de «área de Reportando-nos a Albornoz, a imunidade haverá também que ser
jurisdição» ou território determinado onde esses direitos são exercidos. encarada como uma via de supressão dos intermediários colocados
entre o Rei e o senhor da terra isenta, e a libertar os seus povoadores
2.4. A Questão da «Imunidade»
de toda a ingerência dos delegados régios através da proibição da sua
entrada no domínio isento109. Em consequência - notou-o também
Mas se podemos definir assim as linha s-m e s trás do que caracte- Hinojosa -, furtada a terra à autoridade dos delegados da Coroa e
rizámos como regime senhorial, importa também deixar explicitado o deste modo alheios aos litígios suscitados entre os habitantes, a isen-
contexto histórico que directamente o justifica, nomeadamente o Ção da terra acarretava também furtar-se aos mesmos oficiais o exer-
processo de formação e desenvolvimento da imunidade, inerente a um cício da jurisdição ordinária110. Com justiça poderia afirmar Salvador
território isento ou alheado à jurisdição da Coroa por uma auto-limi-
tação desta, que aí se vê substituída no exercício das faculdades que
WA Sobre o tratamento desta questão vide ALFONSO MARIA GUILARTE, El Regimen
lhe são próprias por um senhor determinado.
Senorial en el siglo XVI, Madrid, Instituto de Estudos Políticos, 1962, in yrinc.
105 Vide GUILARTE, op>. cif., p. 4.
106 Idem, ibidem.
102 PAULO MERÊA, in História de Portugal. Edição Comemorativa do 8." Centenário da 107 Idem, pp. 4-5.
Fundação da Nacionalidade, Direcção Literária de Damião Feres, Barcelos, 1929-1935, 108 Idem, p. 5, n. 9.
vol. II, pp. 469-470. 109W««, p. 7, n. 12.
103 Idem, p. 502.
110 Idem, ibidem.

52
O TEMA O TEMA

de Moxó que os privilégios da imunidade continham em si o «gérmen É também no século XII que se generaliza o tipo de senhorios que,
dei senorio jurisdicional». E iremos ver de que modo. nalguma parte, lograrão subsistir e imprimir muitas das características
Ainda segundo Albornoz, a transição do século XI para o século que persistirão até ao advento do Antigo Regime das monarquias his-
XII acarretará à estrutura dos senhorios remotos ou «primitivos» - se pânicas. Salvador de Moxó definiu quatro ordens de factores a que
quisermos usar da terminologia empregada pelo ilustre historiador atribuiu o incremento da constituição dos senhorios do século XII:
espanhol - uma substancial alteração que se manifesta não já na sim-
ples fórmula de imunidade, mas na concessão explícita de, a par das a) O avanço da reconquista, acentuado desde os finais do anterior sé-
terras, «todo el domínio y sehorio, com cuanto a Ia regia voz perte- culo, e a sequente necessidade de repovoamento da meseta sul e do
nece, según Ia potestad real pertenece, etc.»111. Isto é, se na generali- vale do Ebro;
dade dos senhorios anteriores ao século xm as faculdades de exercício b} A criação das Ordens Militares;
do poder público são disputados pelos senhores, no lógico decurso da c} O estabelecimento da ordem de Cister na Península, criadora, devido
própria proibição de ingresso dos oficiais reais nas suas terras «couta- ao seu impulso colonizador, de importantes senhorios abadais;
das», daquela data em diante processar-se-ão verdadeiras e bem ex- d} O influxo feudal ultrapirenaico canalizado através da Casa de Borgo-
pressas transferências de competências públicas, agora como ante- nha, com membros reinantes em Portugal e Castela115.
riormente, em proveito próprio de um particular, ainda que sujeitos
com maior incremento à fiscalização dos oficiais régios112. De comum com os anteriores, tais senhorios mantinham a base
Também, se nos senhorios «primitivos» o privilégio da imuni- territorial, através de cuja imunidade e segundo um processo condi-
dade florescera num ambiente de debilitação do poder real face ao da cionado por factores já enunciados, acrescerão nesta última centúria
nobreza surgida da Reconquista, desenvolvendo-se quer por via de de xn as apetecidas prerrogativas de carácter público que os reis vo-
pura e simples usurpação quer pela própria concessão do monarca luntariamente destacam da própria soberania116.
(indiscutivelmente interessado em consolidar lealdades e granjear de- Ao senhorio territorial - como tal considerado tendo inerente um
pendências), ao crescimento dos senhorios posteriores ao século XII conjunto de direitos desfrutados pelo seu senhor enquanto mero pro-
preside o crescente reforço e centralização do poder real. Nesse con- prietário - soma-se agora e por via de expressa doação régia117, um se-
texto, acentua A. Hespanha, «o progressivo conhecimento do direito nhorio juri$diciona!m, preenchido por faculdades de natureza pública,
justinianeu e da legislação dos imperadores do Sacro-Império incluída em que se avantaja a do exercício da justiça nas suas duas facetas civil
no "Corpus iuris" medieval modificou a política real em relação aos e criminal e com um largo espectro de faculdades inerentes, como seja
poderes dos senhores. Começa a ganhar corpo - provavelmente por a nomeação de magistrados e oficiais, bem como a percepção de uma
influência do cap. "Quae sint regalia" dos Libri feodortttn - a ideia de série de réditos derivados do exercício daquela mesma jurisdição. Eram
que o Rei é o titular natural de certos poderes ("regalia", direitos privilégios ambicionados, sublinha-o Moxó, «no solo por su rendi-
reais)113 e que a sua detenção pelos senhores ou comunidades subor- miento económico y poder coativo que llevaba aparejadas, sino también
dinadas (i.e., qui superiorem recognoscent) só se explica em termos de por el prestigio que lês otorgaba el ejercício de tan destacada función»119.
uma sua concessão pelo Rei (...) Toda a actividade dos nossos reis, a
partir da primeira metade do século xni, no sentido de obrigarem à
115 SALVADOR DE Moxó, «Los Senorios. En tomo a una problemática para el estú-
exibição e confirmação dos títulos dos direitos senhoriais ("inquiri- dio dei regimen senorial», in Hispania, 24, Madrid, 1964, p. 188.
ções" e "confirmações") pressupõe já esta ideia de que os direitos dos 116 Vide S. DE Moxó, op. dl, pp. 190-191.
senhores não são seus direitos naturais, mas direitos reais cuja dele- 117 Segundo Hinojosa (Lãs Insiituioties Ptudalts en Espana, cit. in Moxó op. cit.,

gação (ou, pelo menos, o longo uso) têm que ser provadas.»114 p. 181) a «jurisdictio» surge-nos «como concepción especial dei Príncipe, en quien se
entende residir Ia plenitud de Ia jurisdicción y ai cual quedaba reservado el conoci-
miento de cíertas causas».
111 Idem, p. 2, n. 3. 118 Veja-se em A. HESPANHA, oy. cit., p. 138 n. 216 a bibliografia mais relevante
112 W<«, p. 3. em termos do estabelecimento do conceito.
113 Vide A. HESPANHA, op. cii., p. HO, n. 240. 119 SALVADOR DE Moxó, La Disolución dei regimen senorial en Espana, Madrid,
114 Idem, p. 163.
Escuela de Historia Moderna, 1965, p. 44.

54 55
O TEMA
O TEMA

Já na Baixa Idade Média podemos, pois, constatar da existência «A jurisdição concedida aos donatários apenas recebe a interpreta-
desses senhorios simultaneamente territoriais e jurisdicionais - tão ção literal, por isso não se deduz de argumentos e conjecturas, ainda que
diversos quanto atinentes a conceitos não miscíveis como os de pro- veementes.»122
priedade e autoridade -, enformados de uma «plenitude» senhorial,
de vastidão directamente proporcional ao poder político desfrutado Em terceiro lugar que as doações de bens deste tipo estavam su-
pelas casas senhoriais que dela beneficiaram. jeitos ao enquadramento da Lei Mental^, do que decorriam princí-
Veremos que a tradição jurídica portuguesa irá manter quase inal- pios importantes como:
terável esse quadro legal onde se desenvolve o processo de criação de
capitanias, entendidas assim, escreveu Merêa, «como uma inteligente a) Que da doação de bens reais não aproveitava ao Donatário um ver-
e fecunda adaptação das doações de bens da Coroa, que entre nós dadeiro domínio, pois aqueles jamais perdiam a sua natureza, impe-
eram tão frequentes e representavam até certo ponto um equivalente dindo sempre o direito de reversão, com patentes inibições no to-
das concessões feudais». cante a matéria de alienação, penhora ou sucessão;
V) Que o Donatário não sucedia por mero direito de sangue, mas tão-so-
mente por especial direito expresso em título de doação;
2.5. Princípios Gerais c) Que qualquer doação de bens reais se entende sempre feita por vida
do Donatário, se o contrário não fosse estabelecido;
Há que mostrar, finalmente, que ao contrário das doações de d) Que das excepcionais doações chamadas de juro e herdade, se não po-
bens de particulares, que têm como uma das características essenciais dia inferir um direito perpétuo pois que sempre sujeitas à necessidade
a transferência e aquisição perfeitas do domínio, as doações de bens de confirmação124.
da Coroa se regiam por princípios específicos consignados nas Orde-
nações que diferenciavam o seu regime. Em quarto lugar - e em correlação com a alínea anterior -, a lei
Em primeiro lugar, a própria natureza das doações feitas. Já Pas- estabelecia a necessidade da confirmação das doações feitas segundo
coaí de Melo Freire notava no § xxvin do tít. in do L. 2 das suas Insti- duas modalidades bem distintas: a confirmação «por sucessão», que
tutiones que «a doação destes bens não se fez por mera liberalidade, obrigava o filho do Donatário ou qualquer seu sucessor nos bens da
mas sob certo modo, e para certo fim; por isso a sua natureza é sem- Coroa, e a confirmação chamada «de Rei a Rei», solicitada a todo o
pre remuneratona, e atende, para todo o sempre, aos bons serviços do Rei vindo de suceder no reino. Para ambas se fixavam prazos certos
Donatário e seus sucessores. Não sendo o Rei senhor mas adminis- de pedido, sem prejuízo para os chamados alvarás «de manter em
trador dos bens públicos, segue-se que não os pode doar arbitraria- posse» do Desembargo do Paço, tendentes a conceder ao Donatário,
mente. Logo, para que esta doação seja justa, importa que em todo o por um ou dois anos, o uso da jurisdição de bens que já possuía, ou,
tempo concorram bons serviços»120. Já no § XX, loc. cit., o mesmo au- em caso de sucessão, prorrogar-lhes com justa causa o tempo prefixo
tor, caracterizando esse especial tipo de doações «remuneratórias», para pedir a referida confirmação 125 .
afirmava respeitarem elas em absoluto ao ofício real, «e os bens pú- Em quinto e último lugar, admitia-se que ao príncipe era lícito
blicos, se não estão em seu domínio e propriedade, estão certamente dispensar da própria lei: «sem embargo do que estabelecem as mi-
em seu império e administração; eis por que bem poderá dispor deles nhas Ordenações e as dos senhores reis meus antecessores» - era a fór-
para o bem comum da nação, que resulta da justa e necessária distri-
buição dos prémios»121.
122 Vide OF, L. 2, t. 45, § l, e MELO FREIRE, op. cit., p. 70.
Em segundo lugar, que a cada mercê deste tipo haveria assim que 123 Sobre a «Lei Mental», veja-se (além de MELO FREIRE, op. cit., e OM, L. 2, t. 17,
corresponder um título concreto, disse-o também Pascoal: e OF, L. 2, t. 35) o essencial comentário de MANUEL ÁLVARES PEGAS, «Tractatus de lege
Mentali Regni Portugalliae», m cit. Commentaría aã Ordinationes..., T. X., e PAULO
MERÊA, «Génese da Lei Mental», in Novos Estudos de Direito, Barcelos, 1937.
120 PASCOAL DE Mão FREIRE, op. cit., p. 59. 124 MELO FREIRE, op. loc. cit.
121 ídem, p. 50. 125 Vide MELO FREIRE, op. cit., pp. 63-68.

56
O TEMA

mula, notou-o Costa Ferreira, «que garantia a legitimidade da nova


decisão. De modo que, quando lhe aprazia derrogar uma ou mais re-
soluções anteriores, o fazia livremente, baseado em razões de estado,
afirmando a sua vontade soberana, o poder de império sobre todas as
pessoas, bens e coisas do seu reino. Em verdade, essas derrogações
consubstanciavam-se em documentos escritos, determinados e assi-
nados pelo Rei: cartas régias, alvarás, forais, doações...»126
Todos estes velhos princípios do Direito português, além do de- 2.AS FONTES ÚTEIS PARA
senvolvimento doutrinário que encontram em obras clássicas de tra- O E S T U D O DO R E G I M E
tadistas como Domingos Antunes Portugal ou Manuel Alvares Pegas, DAS CAPITANIAS
serão apresentadas no seu reflexo prático ao longo deste estudo, com
particular incidência no Capítulo que dedicámos precisamente à cria-
ção, transmissão e extinção das capitanias.

126 JOÃO DA COSTA FERREIRA, «A Cidade do Rio de Janeiro e seu termo. Ensaio

Urbanológico», in Revista de Direito da Procuradoria Geral, n.° 5, Rio, 1956.

58
1. D o c u m e n t a ç ã o Oficial

1.1. Introdução

Num estudo desta natureza torna-se indispensável antes de


adiantar qualquer conclusão, proceder à exposição das fontes de in-
formação que consideramos mais proveitosas para a investigação le-
vada a cabo, dando especial realce àquelas que por pouco citadas,
desconhecidas ou inéditas apresentam um maior interesse para o his-
toriador. Fontes de informação entendemo-las aqui, não como clássi-
cas fontes de Direito, mas como fontes de História do Direito, nos
termos em que as definiu Marcello Caetano, i.e., «tudo quanto traga
ao conhecimento actual qualquer facto passado que tenha interesse à
reconstrução de um facto ou sistema jurídico» 1 .
Tendo o regime de colonização por capitanias vigorado por mais
de três séculos, torna-se patente a multiplicidade de fontes que, em
princípio, seriam susceptíveis de nos fornecer dados importantes para
o seu estudo aprofundado. Infelizmente, a acção destruidora do
tempo e dos homens, por um lado, e a má ou deficiente organização
dos elementos subsistentes, por outro, dificultam um extremo um es-
tudo deste tipo pelas lacunas ou brechas que se abrem nas várias fren-
tes por onde a questão poderia ser inicialmente abordada. Obvia-
mente, um estudo do teor do que intentamos proceder - não tendo
por objecto uma Capitania ou Capitanias determinadas - tende a su-
perar ou a esbater o impacto das omissões detectadas na história de
cada uma, pois que visa primacialmente não as particularidades mas
a essência, todo o esquema das linhas de força de um regime tornado
extensível às mais diversas zonas do Atlântico.
Sem uma descabida e impraticável preocupação de exaustivi-
dade, iremos, assim, proceder à enumeração dos tipos, de fontes ou

1 MARCELLO CAETANO, História do Direito Português - 1140-149$ - l, Editorial


Verbo, Lisboa, 1981, p. 19.

6 l
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS

fontes concretas que a priori entendemos poderem e deverem ser uti- procurava transpor originalmente as instituições metropolitanas para
lizadas, pelos investigadores que a este campo se dediquem. Deste os novos territórios a colonizar, a verdade é que também essas novas
modo, consideraremos vários grandes grupos de fontes informativas: realidades geográficas e humanas cedo impuseram adaptações, ajus-
o conjunto das disposições legais destinadas a regulamentar genérica tes, modificações, revogações e acréscimos. Vê-lo-emos no lugar pró-
ou pontualmente a existência das capitanias; os títulos constitutivos, prio3. O resultado é desconcertante e desanimador para quem se aba-
os forais e instrumentos variados de transmissão ou extinção de capi- lance à tarefa de desbravar essa selva legislativa. Caio Prado Júnior-
tanias; os documentos próprios da administração senhorial nas suas ainda que referindo-se tão-somente ao caso brasileiro - diagnosticou
três facetas fundamentais da administração da justiça, da distribuição expressivamente as dificuldades inerentes a este tipo de pesquisa em
das terras ou concessão de poderes a representantes do Capitão; os toda a área da administração ultramarina portuguesa:
documentos remanescentes da actividade, quer dos procuradores da
Coroa quer do Conselho Ultramarino, o órgão da administração régia «Percorra-se a legislação administrativa da Colónia: encontrar-se-á
que mais de perto lidou, tratou e decidiu em matéria de capitanias. Fi- um amontoado que nos parecerá inteiramente desconexo, de determi-
nalmente, os rastos dos pleitos travados quer entre os capitães e a Co- nações particulares e casuístícas, de regras que se acrescentam umas às
roa quer entre os capitães e os povos das suas capitanias; de uns e outras sem obedecerem a plano algum de conjunto. Um cipoal em que o
doutros ficaram-nos não só as decisões jurisprudenciais, como a ma- nosso entendimento jurídico moderno, habituado à clareza e nitidez de
nifestação de várias posições que a doutrina adoptou na consideração princípios gerais, de que decorrem com uma lógica "aristoteliana" todas
das questões controvertidas. as regras especiais e aplicações concretas com um rigor absoluto, se con-
funde e se perde [...]. É todo este caos imenso de leis que constitui o di-
reito administrativo da colónia. Órgãos e funções que existem num lu-
1.2. Legislação gar faltam noutros, ou neles aparecem sob forma e designação
diferentes; os delegados do poder recebem muitas vezes instruções es-
Obviamente, o quadro mais amplo que se nos depara para o es- peciais, incluídas em simples correspondência epistolar, que fazem lei e
tudo desta matéria é o da própria legislação vigente no período de frequentemente estabelecem normas originais, distribuição de funções e
existência das capitanias. E nesta ressalta com evidência a legislação competências diferentes da anteriormente em vigor. Quando se cria um
geral das Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas, nos títulos que novo órgão ou função, a lei não cogita nunca de entrosá-los harmonica-
especialmente respeitam à jurisdição dos Senhores de Terras, às ses- mente no que já se acha estabelecido: regula minuciosa e casuistica-
marias, à nomeação de funcionários ou ao direito processual; nas se- mente a matéria presente, tendo em vista unicamente as necessidades
des próprias deste estudo discutiremos em profundidade cada uma imediatas. Mesmo quando um destes órgãos ou funções, ou coisa seme-
dessas molduras legais, começando pela própria questão da aplicabi- lhante, já se encontra noutro lugar, a nova regulamentação não se preo-
lidade do regime jurídico característico dos chamados Senhores de cupa com isto, e estabelece novas e especiais determinações. E tudo isto
Terras aos Capitães-Donatários2. com a prática de acrescentar o revigoramento, de um modo geral, de to-
Mas subsistem algumas questões que a mera análise das Ordena- das as ordens anteriores, ou apelar para "o que se pratica no Reino",
ções do Reino não supre: em primeiro lugar a data da oficialização do como é frequente, gera uma confusão tão inextricável que os próprios
texto das Ordenações Afonsinas terá sido posterior à da criação da pri- contemporâneos mais versados em leis nunca sabiam ao certo em que pé
meira ou primeiras capitanias madeirenses; em segundo lugar, o se achavam. Como resultado, as leis não só não eram uniformemente
conteúdo dessas compilações não cobriu de modo algum toda a pro- aplicadas no tempo e no espaço, como frequentemente se desprezavam
blemática respeitante à vida das antigas donatárias, pelo que o inves- inteiramente, havendo sempre, caso fosse necessário, um ou outro mo-
tigador depara com uma imensidade de material jurídico extrava- tivo justificado para a desobediência. E daí, a relação que encontramos
gante, disperso pelas mais diversas colecções ou locais. Se o legislador entre aquilo que lemos nos textos legais e o que efectivamente se pratica,

: Vide o que sobre isto dissemos no capítulo anterior. Vide o capítulo dedicado à Justiça.

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AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO R E G I M E DAS CAPITANIAS AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO R E G I M E DAS CAPITANIAS

é muitas vezes remota e vaga, se não redondamente contraditória. finais da l.a edição deste estudo, sem prejuízo de análise mais apro-
Sendo assim, e como é esta prática que mais nos interessa aqui, e não a fundada que adiante será feita.
teoria, temos que recorrer com a maior cautela àqueles textos legais, e Outro dos pontos de registo obrigatório de legislação foram os li-
procurar de preferência outras fontes para fixarmos a vida administrativa vros ou tombos das câmaras das capitanias. Capítulos, provisões, al-
da Colónia, tal como realmente ela se apresentava. [...] Por todas estas ra- varás, doações, instruções, autos, de tudo contêm um pouco esses va-
zões, devemos abordar a análise da administração colonial com o espí- liosíssimos repositórios. Aí - forçando o registo - o monarca facultava
rito preparado para toda sorte de incongruências. E sobretudo, não pro- às populações o conhecimento de tudo quanto de decisivo para a vida
curar nela esta ordem e harmonia arquitectónica das instituições que da comunidade contava. O excelente trabalho de Sousa e Melo, pu-
observamos na administração moderna, e que era vão se tentará projec- blicando no Arquivo da Madeira o «Livro Primeiro do Tombo da Câ-
tar num passado caótico por natureza.» 4 mara do Funchal»9, demonstra à saciedade a riqueza dos documentos
jurídicos que se arquivam em monumentos do mesmo tipo. O Registo
Não iremos enunciar exaustivamente as fontes de legislação ex- da Câmara de S. Paulo é outro repositório impresso inestimável para o
travagante directamente aplicável às capitanias; no correr deste es- estudo das capitanias do Brasil, baseado em documentos a que já no
tudo daremos, na medida do possível, notícia e descrição das que século XVIII Tacques de Almeida recorreu para a elaboração da sua
considerámos mais relevantes5. Convém, todavia, que refiramos al- História da capitania de S. Vicente10. Recentemente também José Gui-
gumas das fontes que mais profícuas se revelaram. lherme Reis Leite promoveu a publicação de um importante registo
Em primeiro lugar, os próprios livros dos tribunais superiores de correspondência e legislação pombalina relativa ao arquipélago
onde o antigo sistema de publicitação das leis forçava ao registo. Foi dos Açores, fonte preciosa de informações sobre a fase final da vida
precisamente no Livro 3 da Casa da Suplicação, chamado também Li- das capitanias açorianas11.
vro Roxo ou Livro Morado - recolhido hoje no Arquivo Nacional da As próprias cartas de confirmação das mercês de capitanias cons-
Torre do Tombo*5 - que encontrámos o nunca citado mas importante tituem também uma fonte de informação decisiva: por um lado con-
alvará de 5 de Março de 1550 por que se limitou a jurisdição dos ca- signam - em teoria obrigatoriamente - todas as alterações que a le-
pitães-donatários do Brasil; reproduzida na colectânea manuscrita de gislação veio a impor aos títulos originais de constituição; por outro,
Duarte Nunes do Leão, é esta a versão que transcrevemos em apên- andam-lhes geralmente anexas canas de jurisdição ou documentos em
dice à l.a edição deste estudo7. Num dos antigos livros chamados das que se fixou a obrigatoriedade de conformação a medidas já consig-
esferas da Casa do Cível, esteve também registado outro importante nadas em legislação de carácter geral. Também sobre esta matéria nos
documento quinhentista respeitante à alçada dos capitães-donatários. debruçamos adiante com pormenor.
O livro original do Tribunal desapareceu 8 , mas felizmente o diploma Fora já de qualquer enquadramento próprio ou acessível, fica-nos
deixou-o copiado o desembargador Heitor de Pina nas suas Ordena- ainda determinado tipo de legislação extravagante, não menos im-
ções Extravagantes; dado que se trata de um documento nunca citado portante e de bem mais dificultada busca. Referimo-nos aos diplomas
e desconhecido na sua versão íntegra, transcrevemo-lo nos apêndices

9 «Tombo 1.° do registo Geral da Câmara Municipal do Funchal», introdução e


4 CAIO PRADO JÚNIOR, Formação ao Brasil Contemporâneo. Colónia, Editora Brasilei- leitura de Luís Francisco Cardoso de Sousa e Melo, in Arquivo Histórico da Madeira,
rense, 3.' ed., S. Paulo, 1948, pp. 298-299. vols. xv (1972), xvi (1973), xvii (1973) e xvm (1974).
5 Vide o Capítulo V. 10 PEDRO TACQUES DE ALMEIDA PAES LEME, «História da capitania de S. Vicente
6 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Códice 28 da Casa Fone. desde a sua fundação por Martim Afonso de Souza em 1531 escrita por...», in Revista
7 Veja-se o que sobre este diploma dizemos no Capítulo V. Trirnensal de História e Geographía ou Jornal do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro,
8 Vide MARTIM DE ALBUQUERQUE, «Para a História da Legislação e jurisprudência N.° 6 - 2.° Trimestre de 1847, pp. 137-178 e pp. 293-476.
em Portugal. Os livros de registos de leis e assentos dos antigos tribunais superiores», 11 JOSÉ GUILHERME REIS LEITE, O Códice $29 - Açores do Arquivo Histórico Ultrama-
in Boletim da faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Estudos em honra dos Profs. rino. A Capitania-Geral dos Açores durante o Consulado Pombalino, Introdução e fixação
Doutores M. Paulo Merêa e Guilherme Braga da Cruz, Vol. LVJII, tomo n, Lisboa, 1982, do texto por..., Direcção Regional dos Assuntos Culturais, Secretaria Regional da
pp. 623-653 [pp. 640-646]. Educação e Cultura dos Açores, s.i.d.
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO R E G I M E DAS CAPITANIAS AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO R E G I M E DAS CAPITANIAS

que na 2.a metade do século XVIII consignaram os actos que levaram à «A que corre impressa é, aliás, mais abreviada e apresenta sistemá-
extinção das últimas capitanias. Já uma vez tivemos oportunidade de tica distinta. José Anastácio de Figueiredo chamou precisamente a aten-
escrever que são documentos que têm permanecido num imerecido ção para o facto de a Compilação l ser, como fonte histórica, superior à
esquecimento12. No entanto, importa conhecer e analisar esses tex- outra, e de que por ela se poderiam "emendar vários lugares, que tanto
tos, onde, para além da enunciação precisa dos termos dos acordos na [...] Ord. (Manuelina), como na Compilação ou Relatório de 1569, se
firmados, se inserem preambularmente importantes declarações. convencem de menos exactos, e algumas vezes defeituosos". É que
O decreto que extingue a Capitania de Porto Santo em 1770 encon- Duarte Nunes procedeu, de início, a uma recolha de textos, seguindo
trámo-lo numa colectânea de legislação avulsa manuscrita da Biblio- certa ordem, e só mais tarde realizou o trabalho de abreviatura das íeis
teca Nacional de Lisboa; também manuscritos e esquecidos em dois que viu a luz editorial e adquiriu força normativa e vinculatória.»19
locais diferentes do fundo de Reservados da mesma Biblioteca, locali-
zámos diplomas da mesma natureza, respeitantes às capitanias do Daqui que, para consulta do citado alvará de 1557 «por que se li-
Funchal e de S. Miguel13. Mesmo a célebre carta de 2 de Agosto de mita a jurisdição dos Capitães do Brasil» tenhamos recorrido não à
1766 - que acompanhou a criação de um governo central para os Aço- versão impressa de Nunes de Leão (que o resume) mas ao exemplar
res e onde se alinham pormenorizadamente as causas de agravo con- manuscrito que o transcreve na íntegra - e que reproduzimos em
tra os donatários, extinguindo-se genericamente as capitanias do ar- apêndice à l.a edição deste estudo - se bem que o ilustre jurista de
quipélago - publicou-a Delgado da Silva, referindo que a colhera da Seiscentos se equivoque ao remeter o leitor para o fól. 168 do Livro 3
colecção manuscrita de Salter de Mendonça14. da Casa da Suplicação, de onde o transcreve, quando na verdade este
Finalmente, resta-nos referir as colectâneas de legislação mais pro- se encontra a fl. 164 e 164v desse dito livro, chamado também Roxo
veitosas para o nosso estudo. Acabámos de citar a obra de Delgado da ou Morado.
Silva, ainda que possamos referir outras bem mais antigas. Citaremos Também aludimos atrás a outra importante colectânea de legis-
em primeiro lugar as Leis Extravagantes de Duarte Nunes de Leão, que lação extravagante que se revelou do maior interesse e proveito para
contém diplomas tão relevantes como a Lei i do tít. 1. O da II parte, re- o nosso estudo. Referimo-nos às Ordenações Extravagantes, coligidas
ferente aos feitos das ilhas (1524)15, as Leis III e IV sobre as apelações pelo Dr. Heitor de Pina, Desembargador dos Agravos da Casa do Cí-
dos feitos cíveis (1529-1559)16, a Lei II do tít. vi da mesma II parte «por vel, e dedicadas nas últimas décadas do século xvi a Diogo Lopes de
que se limita a jurisdição dos Capitães do Brasil» (1557)17 ou a Lei III Sousa, Governador do mesmo Tribunal20. Este manuscrito in folio de
que respeita à jurisdição do Ouvidor da Capitania do Machico 366 folhas, é o Livro I de quatro que o jurista anunciou (e que desco-
(1566)18. Há que notar, porém, que não é esta a única das compilações nhecemos se concluiu) onde se coligiriam as múltiplas disposições ex-
do Dr. Duarte Nunes. Se é mais conhecida a edição impressa de 1569, travagantes posteriores às Ordenações Manuelinas:
existe outra, manuscrita, no Arquivo Nacional. Sobre as duas e o seu
valor, pronunciou-se já o Professor Martim de Albuquerque: «... Como as leis não possam ser tantas quantos são os negócios, e a
natureza humana seja tão fértil de novidades que a cada hora sucedem
entre os homens novos casos, a que são necessárias novas provisões, de
12 Vide ANTÓNIO VASCONCELOS DE SALDANHA, As Capitanias à Luz da História e ao
muitos que depois daquelas reais ordenações sucederam se fizeram no-
Direito (perspectivas e metodologia), Comunicação cit. apresentada no 1.° Colóquio
vas leis, muitas das quais se registaram no livro desta relação que se
Internacional de História da Madeira, Funchal, 1986.
13 Sobre estes diplomas, veja-se o que dizemos no Capítulo IX in fine.
chama o da Esfera. E vendo eu o quão dificultoso era a memória humana
14 Vide o Suplemento à Colecção de Legislação Portuguesa do Desembargador António ter delas inteira lembrança, e posto que fosse lembrada, achar-se o lugar
Delgado da Silva, Anno 1750-1762, Lisboa, 1842, p. 108. certo de cada uma delas quando se buscasse por a grande desordem e
15 DUARTE NUNES DE LEÃO, Leis Extravagantes Collegidas e Relatadas pelo licen- confusão em que estão escritas, e quão indigna coisa era de um tão ilus-
ciado..., Lisboa, António Gonçalves, 1619, pp. 73 ss.
16 Idem, pp. 74 ss.
17 Idem, p. 90. 19 MARTIM DE ALBUQUERQUE, op. cit., pp. 635-636.
18 Idem, pp. 90-91. 20 Biblioteca do Palácio da Ajuda, cód. 51-IX-42 (23), Idem, fólios 2-3.

66 67
í AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS

tre e grave Senado, sofrer ante si andarem suas leis em um tão feio e des-
concertado volume (o que se podia presumir que procedia do desprezo
das mesmas leis e pouco desejo de as saber ou de não haver entre nós
quem esta falta pudesse suprir e emendar) quis lançar mão deste cuidado
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS

mercê» em S. Jorge (1483)26, «lhe fazemos doação e mercê» na Gra-


ciosa (1510)27 ou «lhe faço mercê para ele» em nova doação da Capi-
tania do Machico em 153628. O formulário último e mais bem elabo-
rado é o que se fez para e que será sucessivamente copiado das cartas
e trabalhar por restituir todas estas leis a outra disposição e ordem...»21 das capitanias brasileiras:

Sobre esta obra, que reputamos de fundamental- principalmente «... e por folgar de lhe fazer mercê de meu próprio moto, certa ciên-
por permitir reconstituir algum do conteúdo dos três primeiros Livros cia, Poder Real e absoluto sem mo ele pedir nem outrem por ele, hei por
das Esferas da Casa do Cível hoje desaparecidos, e que tem sido inex- bem e me praz de lhe fazer, como defeito por esta presente carta faço
plicavelmente omitida pelos historiadores do Direito português -, te- mercê irrevogável doação entre vivos valedora deste dia para todo o
mos preparado um estudo que contamos apresentar brevemente. To- sempre, de juro e herdade para ele...»29
davia, o que de momento nos interessa é que aí colhemos, como se
disse, a versão íntegra do diploma fundamental que regulamentou no Por outro lado, decorrendo também daquela precisa natureza dos
século XVi a jurisdição dos capitães das Ilhas, extraído do Livro 2 da bens doados, notemos a circunstância da necessidade de confirmação
Esfera da Casa do Cível. Essa versão - que corrige alguns excertos da expressa e escrita do acto de doação pelos sucessores do monarca por
lei já algumas vezes publicada colhida de outras fontes - foi, como recurso ao dispositivo da chamada confirmação de. Rei a Rei; daqui vem
dissemos, transcrita em apêndice à 1.* edição deste estudo. o investigador a beneficiar directamente de registos das chancelarias
reais tão recentes como os do século xviii, em que se incorporam em
cadeia ininterrupta toda a série de confirmações, acréscimos ou redu-
1.3. As Cartas de Doação ções sofridas por uma doação desde o seu acto constitutivo. Ao longo
do nosso estudo iremos dando conta das numerosas cartas de confir-
Para além dos simples textos legislativos, importa referir também mação que ainda hoje são o repositório único de diplomas inteiros ou
outros documentos da mais fundamental importância, como são os assentos de confirmação entretanto desaparecidos30.
próprios diplomas constitutivos das capitanias, nos quais se consig- Refira-se que a importância dos títulos constitutivos ou de con-
naram com maior ou menor pormenor e tecnicismo jurídico o con- firmação decorre basicamente da circunstância de os bens doados se-
junto dos direitos transmitidos pela Coroa aos donatários, antecedi- rem régios, presidindo, pois, à sua alienação a necessidade de um acto
dos por declaração onde é manifesta a vontade de transferir e expresso31. Bem o vincou Pascoal José de Melo Freire, notando que
voluntariamente abdicar de bem determinado número de direitos, se-
gundo uma fórmula de amplitude e consonância variável22. «a jurisdição concedida aos donatários apenas recebe a interpretação
Nas três primeiras capitanias de Machico (1440), Porto Santo literal; por isso não se deduz de argumentos e conjecturas, ainda que
(1446) e Funchal (1450), a transmissão é evocada de forma sumarís-
sima, pelas palavras «dou carrego»23. Em 1468, no Faial fala-se já em
«fazer graça e mercê»24, «lhe faço mercê» no Pico (1482)25, «faço-lhe 26 làem, p. 183.
27 ídem, CD, p. 216.
28 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, História Genealógica da Casa Real Portuguesa,
21 Idem, fls. 2-3. 2.1 ed., Coimbra Atlântida, 1953, Provas, V, p. 344.
22 RUY DE ALBUQUERQUE, Os Títulos de Aquisição Territorial na Expansão Portuguesa 29 DBN, vol. 13, p. 137.
(Sécs. XV e XVI), Dissertação apresentada no Curso Complementar de Ciências Jurí- 30 Vide p. ex. a larga série de documentos contidos em «Doações e Confirmações
dicas da Faculdade de Direito de Lisboa, Lisboa, 1960 (exemplar dactilografado), pp. à Condessa da Ribeira-Grande» (1548-1761), in AÃ, vol. xii (1882), pp. 105-121, ou
133-136. em Doação âa capitania de Itamaracá, que pertence ao Marauez de Cascaes, D. Luiz Álva-
23 DP, vol. !, pp. 403, 449 e 483. res de. Castro, por sentença, publicada por D. António Caetano de Sousa nas Provas da
24 CD, p. 153. História Genealógica da Casa Real, tomo vi, I parte, pp. 396-420.
25 Idem, p. 155. 31 Vide OF, L. 2, tít. 45, §§ l, 2, 3, 6, 9, e tít. 27, § 2.

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AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO R E G I M E DAS CAPITANIAS
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS

veementes; Ord., L. 2, tít. 45, § l, nas palavras: expressamente lhes for


outorgado»32.
(1545)41, pois que remete para a do Fogo. A uma segunda família de
textos preside o modelo das capitanias brasileiras, inegavelmente
bem pensado, pormenorizadamente construído, modelo esse que no
Em consonância, um acórdão da Relação de 1681 atinente a uma
continente americano será usado até à última doação de 168542, e que
questão de ordem jurisdicional da Capitania do Funchal, referirá a
com alterações pontuais devidas às peculiaridades do meio e dos ob-
impossibilidade de considerar situações «aonde se não acha conce-
jectivos, se aplicará também nas doações de Angola e Serra Leoa.
dida expressamente a jurisdição, termos em que conforme os da Lei
Como já observara nos finais do século xvni o jurista José de Seabra
se não pode considerar concedida por argumentos extensivos ou in-
da Silva,
terpreta tivos...»33
Assim, os sucessivos diplomas de doação de capitanias não po-
«as cláusulas de umas e outras são as mesmas porque o Conde de Cas-
dem ser encarados como casos isolados, mas, pelo contrário, como
tanheira ou quem quer que foi o partidor da América, compôs um for-
construções estruturadas e definidas em função do princípio que re-
mulário de chavão que inseriu em todas, só com a diferença de que nas
ferimos. Os tipos variaram como se compreende: encontramos por
cartas dos Fidalgos se acrescentou a cláusula que falta na doação do Tou-
um lado a família das cartas de doação do séc. XV e princípios do sé-
rinho e em mais alguma. Fora disto tudo, é o mesmo redundante for-
culo XVI, madeirenses, açorianas ou das ilhas africanas; a estrutura do
mulário acomodado ao Fidalgo ou não Fidalgo, sem outra diferença do
texto é simples - referência à concessão do carrego, regra sucessória,
que ser Baía ou Pernambuco, Francisco ou Duarte»43.
hipóteses de colocação de regedor por incapacidade do Capitão, con-
cessão da jurisdição, ressalva do supremo senhorio real, concessão de
Nestas, efectivamente o conteúdo obedece geralmente à seguinte
direitos banais, faculdade de dar terras de sesmaria. Com maior ou
ordem: declaração dos objectivos da divisão do território em capita-
menor variação, principalmente no que toca aos privilégios económi-
nias, seguido de um mais ou menos desenvolvido enunciado dos ser-
cos dos capitães das ilhas africanas, são estas as linha s-me s trás das
viços do Donatário. Delimitação geográfica da Capitania, concessão
primeiras doações de Capitanias, modeladas segundo o figurino ma-
do título de Capitão e Governador e das faculdades de exercer justiça
deirense. Aliás, basta analisar o texto dos múltiplos documentos deste
e conceder terras em sesmaria, enunciado dos proventos económicos
tipo para o confirmar: a carta da Capitania da Terceira (1450) remete
(meia dízima do pescado, redízima das rendas reais, vintena do pau-
para o regime dos capitães da Madeira e Porto Santo34, e o mesmo se
brasil, escravos, isenções tributárias) e do esquema de sucessão, proi-
passa em S. Maria (1474)35, em S. Jorge (1483)36 e no Faial (1468)37, re-
bição de alienação, privilégio de isenção de correição, previsão de ca-
metendo também para esta última a da Ilha do Pico (1482)38. Os di-
sos de necessidade de punição do Capitão, e, eventualmente, a
plomas das capitanias cabo-verdianas têm a mesma característica: a
fixação da obrigação do uso de apelidos pelos sucessores do 1.° Ca-
da Ribeira Grande (Santiago 1497)39 e a do Fogo (1528)40, ambas se re-
pitão-Donatário44.
portam às mesmas cartas madeirenses, e também a da ilha Brava
Mas se, como dissemos, dada a própria circunstância de os bens
doados serem bens régios, vigorou o princípio de que a sua alienação
32 PASCOAL JOSÉ DE M£LO FREIRE, «Instituições de Direito Civil Português tanto
haveria que ser feita por acto expresso (tendencialmente oposto ao
público como particular» - Livro II, reed. in Boletim ao Ministério da justiça, n.° 163, uso de fórmulas latas ou genéricas e materializado em documentos
Fevereiro de 1967, pp. 5-123 [p. 70). escritos), a esse mesmo princípio acompanhou-o cedo a obrigação do
33 DP, I, p. 228. registo em sedes próprias, consideradas as ideais para o melhor efeito
34 DP, p. 471.
35 CD, p. 177.
36 Idem, p. 183.
41 Idem, p. 121.
37 Idem, p. 153.
42 Vide o texto desta carta de doação no apêndice documentai da l. a ed. deste
38 Idem, ibidem.
estudo.
39 SGC, p. 52.
43 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ministério do Reino, M. 642 (2.° parecer).
40 Idem, p. 52.
44 Vide a c. de doação da Capitania de S. Vicente (1534) in DBN, vof. 13, pp. 136 ss.

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7 l
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS

da sua publicidade. No tempo dos grandes-donatários é certo que apêndice à l.a edição deste estudo. Mas nem só os livros da Chance-
cada um possuiria uma chancelaria e livros de registo próprios. O in- laria régia serviram de local de registo; foram-no também os livros da
fante D. Fernando, Grande-Donatário da Madeira, nos célebres capí- Casa da índia, de onde, ainda em 1676, se tiravam treslados das car-
tulos que em 1461 enviou aos povos das Ilhas, anuncia que tas quinhentistas do Brasil. Precisamente de 1742 data também um
treslado da carta da Capitania doada em 1533 a João de Barros, regis-
«ao que me pedis por mercê que vos mandasse dar o treslado da carta da tada no Livro das Doações que se acham na casa da índia49, que parece
mercê que tenho feito ao Capitão da Capitania dessa ilha para a terdes não ter sobrevivido à catástrofe de 1755.
registada no livro da Câmara e saberdes a mercê que lhe tenho feita, por Note-se, aliás, que este tipo de cartas sofria um duplo processo de
tal que o dito Capitão se não possa entender além dela em pôr outros registo. Numa primeira fase de emissão, como dissemos, na própria
foros e costumes, a mim praz de vo-la mandar dar e mando-vos que a Chancelaria Real e livros de departamentos da administração central.
registeis no dito livro da Câmara, e por esta mando ao dito Capitão que Em 1675, por exemplo, a carta de confirmação da Capitania do Espí-
tanto que lá tiver a dita carta vos dê o treslado dela em público forma. rito Santo feita a Francisco Gil de Araújo é copiada simultaneamente
E não vo-la querendo ele dar tomai um instrumento com sua resposta e nos Livros da Chancelaria-Mor, no livro de «registos e doações e mer-
rno enviai para eu tomar a elo como pôr meu serviço»45. cês da [Casa da] Mina» e nos «livros de ofícios» da Secretaria do Con-
selho Ultramarino50. Mas existe também uma segunda fase de registo
Os livros da Chancelaria Real - sendo este órgão capacitado para que atende não já aos interesses directos da administração central, mas
a emissão e registo das cartas - são, naturalmente, a sede primeira do aos da administração chamemos-lhe «local», se assim quisermos de-
registo das doações régias, como se constata ainda hoje nos fundos signar a própria área administrativa onde se insere a jurisdição se-
que se conservam no Arquivo Nacional, cobrindo o inteiro período de nhorial. Elemento que simboliza solenemente a jurisdição ou poderes
existência das capitanias46. Há, porém, lacunas; atente-se à listagem concedidos aos capitães, a carta de confirmação da Capitania da Ilha
feita por Merêa47 demonstrativa das cinco falhas de registo na Chan- de S. Miguel, em 1568, é presente solenemente aos oficiais da Câ-
celaria régia das primitivas doações do Brasil, que no entanto vamos mara de Ponta Delgada e
encontrar supridas, no caso da de Martim Afonso de Sousa (S. Vi-
cente) e Jorge de Figueiredo Correia (Ilhéus) pelos registos recolhidos «vista e lida por eles lhe obedeceram em tudo e por tudo e a tomaram
no volume n.° 13 da colectânea de Documentos âa Biblioteca Nacional do e a beijaram e a puseram na cabeça como coisa de seu Rei e senhor [...]
Rio de Janeiro48. A tripla doação feita a João de Barras, Ayres da Cunha e pelos ditos oficiais foi mandado a requerimento do dito João Prado que
e Fernando Álvares de Andrade, também andou esquecida numa o requereu que se registasse e trasladasse a dita procuração e doação no
colectânea manuscrita da Torre do Tombo, até que António Baião a livro do tombo da dita Câmara...»51
publicou em anexo à sua edição da Ásia de João de Barros; pelo seu
interesse e reduzidíssima divulgação foi por nós reproduzida em Nos primeiros anos da década de 40 do século xvil, no Brasil, a
doação, autos de posse, bem como outros documentos considerados
45 VrroRJNO DE MAGALHÃES GODINHO, Documentos sobre a Expansão Portuguesa, importantes para a administração da Capitania de Caeté, eram regis-
Prefácio e notas de..,, Colecção de Estudos Portugueses, Lisboa, 1956, vol. m, p. 259. tados no Livro da fazenda da Donatária52. Também com relação ao
46 Recentemente, MARJA JOSÉ BIGOTTE CHORÃO (apres., transe, paleográfica e
Brasil, em 1564, a própria carta de doação da Capitania da Ilha de Sta.
notas) publicou as Doações e Forais das Capitanias do Brasil (Lisboa, Instituto dos
Arquivos Nacionais / Torre do Tombo, 1999). Apesar do carácter abrangente do Catarina, feita a Agostinho Barbalho, consigna que se registe «nos li-
título, esta edição nada adianta a outras edições destes documentos e, de resto - para
não falar da muito débif dissertação sobre o sistema donatária! que constitui a «Apre-
sentação» - ignora completamente o registo das outras cartas de doação e forais das 49 Vide o seu texto em apêndice à 1.* ed. deste estudo.
capitanias do período que se propõe tratar. 50 DBN, vol. 79, p. 186.
47 In M. PAULO MEREA, «A Solução Tradicional da Colonização Portuguesa do 51 CD, p. 172.

Brasil», m HCP, III, p. 174. 52 Livro da fazenda da Capitania do Cayeté, Cód. l da Colecção Vídigueira da Socie-

48 DBN, vol. 13, respectivamente pp. 136 ss. e 157 ss. dade de Geografia, Lisboa.

72 73
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO R E G I M E DAS CAPITANIAS
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS

vros dos Contos da Cidade do Salvador, nos da Câmara da dita Ilha e «nesta vai trasladada, e se houvera de romper ao assinar dela, se não
nas mais partes onde for necessário»53. A carta da última Capitania rompeu por o dito António da Silveira dizer que a tinha na dita Capita-
doada pela Coroa, a de Xingu (1685), é mandada registar, no Brasil, nia de Machico e que mandara já por ela, e se obrigou de a dar e entre-
nos livros da Câmara da Cidade de S. Luís do Maranhão «e nas mais gar tanto que lhe viesse para se haver de romper» 58 .
partes aonde for necessário», e, na Corte, nos Livros de Ofícios do
Conselho Ultramarino, nos livros da Chancelaria-Mor do reino e nos Restam-nos, todavia, descrições desses solenes documentos,
Livros das Mercês5*. semelhantes, aliás, a tantos outros emitidos pela burocracia real.
Com o correr dos tempos e a par do reforço dos poderes dos de- A mencionada carta da Capitania de Xingu estava escrita em quatro
legados do Rei, o processo - sob o intuito nítido de vincar a subordi- folhas de pergaminho. A doação quinhentista da Capitania de Pe-
nação dos poderes dos donatários - vai-se tomando mais complexo. roaçu a D. Álvaro da Costa estava «escrita em pergaminho e assinada
A carta de confirmação da Capitania da Paraíba ao Visconde de As- pelo Cardeal Infante Governador destes Reinos passada pela Chan-
seca (23-3-1727), por exemplo, foi presente ao Governador do Rio de celaria e com o selo pendente das Armas Reais em chumbo posto em
Janeiro, que por despacho de 17 de Junho de 1728 ordenou: «Cum- cordões de seda branca»59.
pra-se como S.M., que Deus guarde, manda e registe-se nos livros da Outra carta, esta da Capitania de S. Vicente, doação feita em
Secretaria e nos mais que tocar.»55 E assim, além do registo feito nos 1535 a Martim Afonso de Sousa, tinha a régia assinatura «e selada de
livros da Secretaria do Governo, proceder-se-ia à mesma operação meu selo de chumbo a qual vai escrita em três folhas e são todas as-
nos da Ou vido ria-Geral, nos da Provedoria da Fazenda, e nos dos re- sinadas ao pé de cada lauda por D. Miguel da Silva, Bispo de Viseu do
gistos da Câmara56. meu Conselho e meu escrivão da Puridade» 60 .
Que saibamos, até há pouco tempo era conhecida uma única A carta de confirmação da Capitania de S. Miguel, passada a Ma-
carta original de doação de Capitania, se assim considerarmos o do- nuel da Câmara, segundo um relato de 1568 vertido para os registos
cumento que era entregue ao Donatário para certificação da doação. da Câmara de Ponta Delgada, «era assinada ao pé por El-Rei Nosso
Tratava-se da carta de doação daquela Capitania de Xingu, no Brasil, Senhor, e ao pé de cada folha assinada pelos Desembargadores do
que, vendida num livreiro de Lisboa nas primeiras décadas do nosso Paço, passada pela Chancelaria e selada de selo pendente de chumbo
século ao historiador Celso Ribeiro de Lessa, outro historiador, o bra- com as quinas d'el-Rei Nosso Senhor, com seda de retrós branca e
sileiro Hélio Viana, pôde utilizar e publicar57. Estará a razão desta es- verde...»61
cassez no facto de, revogada a doação, se proceder obrigatoriamente
à destruição ou «rompimento» do seu símbolo mais patente, como
o era a carta? Em 1549, confirmada a Capitania do Machico a 1.4. Os Forais
D. Afonso de Portugal, que a houvera por mercê nupcial de sua mu-
lher, D. Ana de Gusmão (filha do comprador da mesma Capitania a Mas nem só as cartas de doação são importantes para o nosso es-
António da Silveira, primitivo Capitão), adverte-se que a carta ante- tudo, avultando ainda a necessidade de conhecer os «forais» concedi-
riormente passada ao vendedor dos no Brasil em simultâneo com aquelas. Como ensinou Paulo Me-
rêa, «as cartas de doação e os forais das capitanias constituem, como
é sabido, a principal fonte para o conhecimento do regime jurídico do
53 DBN, vol. 79, p. 87. Brasil no período anterior ao governo-geral [...] Aplicavam-se deste
54 Vide HÉLIO VIANA, «A última capitania hereditária do Brasil {1685)», in Estudos
de História Colonial, S. Paulo, 1948, pp. 313-314.
55 ALBERTO LAMEGO, A Terra Gohacá à luz de documentos inéditos, Rio, 1913
58 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, História Genealógica da Casa Real, Provas, V,
(3 vols.). pp. 350-351.
56 Idem, ibidem.
59 DBN, vol. 13, p. 224.
57 In HÉLIO VIANA, «A última capitania hereditária do Brasil (1685)», in Estudos de
60 Idem, p. 149.
História Colonial, S. Paulo, 1948. 61 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. cit., Provas, V, p. 258.

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«
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AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS

modo ao território brasílico, adaptando-as às circunstâncias, duas pe- não hesitou em considerá-los como verdadeiros pactos entre a Coroa
ças tradicionais do nosso sistema político-administrativo: por um e os donatários66 e o anónimo autor do Ensaio sobre a natureza jurídica
lado as doações de bens da Coroa e direitos reais, por outro as cartas das capitanias, define o foral como «pacto que assim se forma entre ele
de foral. O foral supunha, como se vê, a existência prévia da carta de (Rei) e os seus súbditos, por cima da autoridade do C apita o-Donatá-
doação, à qual servia de complemento, constituindo os dois diplomas rio»67. Outras opiniões se poderiam recolher, no sentido de concluir
o estatuto fundamental da respectiva capitania»62. com Harold B. Johnson que «the foral seems to have been particularly
Também o historiador e economista Simonsen foi sensível ao in- troublesome to commentators»68. E os escritores de língua inglesa não
teresse próprio dos forais das Capitanias, aludindo aos Donatários a são excepção: AlexanderMarchant, num dos mais conhecidos estudos
quem concedeu dedicados às capitanias, afirma que «the foral gave in detail the obli-
gation of the donatário to the King»69. Bradford Burns, no prefácio à
«outrossim, o Rei vários de seus direitos políticos indispensáveis ao for- sua tradução do foral de Pernambuco, afirma que «in general, the land
talecimento da autoridade de quem lá correr tão graves riscos. Mas para grants were set forth in a carta de doação and the obligations of the
estimular a colonização, conservando, para si, o dízima das colheitas donee to the monarch in an accompanying foral»70. Na opinião do ci-
e do pescado, o monopólio do comércio de pau-brasil, das especiarias tado H. B. Johnson, «the genealogy of this misinterpretation is not
e das drogas e o quinto das pedras e dos metais preciosos, o Soberano hard to trace. Burns would appear to have taken it from Marchant
regulou, nos forais, os direitos políticos e a percepção de rendas dos who, in totum, got it from Malheiro Dias»71. E contrapõe a sua inter-
donatários e definiu-lhes também as responsabilidades perante a pretação, no sentido de considerar consignados no foral «the mutual
Coroa»63. obligations of the donatary captain to the settlers of his captaincy and
vice-versa, as well as the oversiding obligations of both to the King»72.
A precisão de Johnson é pertinente e, analisados esses forais, fa-
Obviamente, quando aqui aludimos a forais, não nos referimos
cilmente se constata que se o Capitão é obrigado a conceder terra a
nem aos documentos que sob essa designação têm sido erronea-
quem lha demande, também o morador está forçado a prestações de
mente apresentados como tal - caso do célebre «foral de Olinda»64 -
serviço militar junto do Capitão «se lhe necessário for»; ambos estão,
nem às cartas constitutivas de municípios com que Herculano, menos
por outro lado, sujeitos ao preenchimento de precisas obrigações para
exacto, fazia esgotar o conteúdo da figura. Na realidade, o conjunto
com a Coroa. Aliás, os destinatários do acto régio que subjaz ao foral
único dos forais das primeiras capitanias brasileiras resulta de uma sé-
e os termos em que se relacionavam com a Coroa estão patentes no
rie de actos unilaterais do monarca, imperativos e destinados essen-
inciyit desses textos:
cialmente a definir desse momento para o futuro as condições não
apenas de assentamento mas de exploração dos recursos naturais de
66 DIOGO DE VASCONCELOS, «Linhas Gerais da Administração Colonial», in Revista
toda a Capitania, quer pela generalidade dos moradores quer por um,
do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, Tomo Especial de 1914 - Parte III, pp. 281-298
em particular, o próprio Ca pita o-Governado r.
[p. 292].
Têm, no entanto, sido múltiplas as caracterizações feitas destes 67 «Ensaio sobre a natureza jurídica das capitanias», in Arquivo Histórico da
diplomas. Vamhagen, por exemplo, define o foral como um «pacto» Madeira, tomo II, p. 59.
que fixava os direitos do Capitão quer para com a Coroa quer para 68 HAROLD B. JOHNSON, «The Donatary Captaincy in Perspective: Portuguese

com os moradores da Capitania65. O brasileiro Diogo de Vasconcelos Background to the Setdement of Brazil», in The Hispanic American Histórica! Review,
52-2 (Maio de 1972) p. 209.
69 ALEXANDER MARCHANT, «Feudal and Capitalistic Elements in the Portuguese

62 PAULO MERÉA, op. cit., p. 174. Setdement of Brazil», in The Hispanic American Histórica! Review, 22:3 (Agosto de
63 ROBERTO SIMONSEN, História Económica do Brasil. 1500-1820, Companhia Edi- 1942), pp. 493-512 [p. 501].
70 BRADFORD BURNS, A Documentary History of Brazil, editado por..., Nova Iorque,
tora Nacional, S. Paulo, 1937 (2 tomos).
64 Vide no Capítulo que dedicamos às «Sesmarias» o ponto 12 do § 2.
1966, pp. 33-34.
71 H. B. JOHNSON, op. cit., p. 209, n. 17.
65 E A. DE VARNHAGEN, História gera! do Brasil, ed. e anotada por Rodolfo Garcia,
S. Paulo, s.i.d., vol. i, p. 146. 73 Idem, ihidem.

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AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS

«... por ser muito necessário haver aí foral dos direitos, foros ou tri- Leoa (1606) aludem também aos correspondentes forais, mais duvi-
butos e coisas que se na dita terra hão de pagar assim do que a mim e à damos que chegassem algum dia a ser emitidos77.
Coroa de meus reinos pertencer, como do que pertencer ao dito Capitão
por bem da dita sua doação, e eu havendo respeito à qualidade da dita
terra, e a se ora novamente ir morar, povoar e aproveitar, e porque se isto 1.5. Os Pleitos
melhor e mais cedo faça, sentindo-o assim por serviço de Deus e meu e
bem do dito Capitão e moradores da dita terra e por folgar de lhes fazer Pela densidade de informação deles decorrente não podemos es-
mercê houve por bem de mandar ordenar e fazer o dito foral na forma e quecer os vários pleitos de que nos chegaram, como ecos, as peças es-
na maneira seguinte...»73 critas. Como dissemos, umas vezes travados entre os capitães e a Co-
roa, outras entre os povos e os capitães, são da mais variada sorte as
causas dos litígios.
Depois, o que se segue é bem conhecido: a confirmação da obri-
A extensão da jurisdição dos capitães foi uma delas. Recorde-se a
gação que assiste ao capitão de dar e repartir as terras aos moradores
causa que nos meados do séc. xvi correu entre os povos da Capitania
e a proibição de as tomar para si, o direito do quinto régio e da dízima
de S. Miguel e o Donatário Conde de Vila Franca, acusado de exceder
contada sobre este e que cabe ao Capitão na exploração de metais,
os poderes originalmente concedidos, questão a que respeita uma in-
pedras ou pérolas, a afirmação do monopólio real do pau-brasil,
teressante sentença que Pinheiro da Veiga reproduziu 78 . De um pleito
especiarias e drogas, a definição do dízimo do pescado, as rendas
de igual teor, este já setecentista, na Capitania brasileira da Paraíba,
percebidas pelos alcaides-mores e as pensões devidas aos capitães,
dos Viscondes de Asseca, colhem-se igualmente importantes elemen-
quer pelos tabeliães quer por direitos de passagens taxados pelas
tos para a compreensão da administração senhorial no Brasil79. Umas
Câmaras, e o próprio serviço de guerra devido aos capitães pelos mo-
vezes, a questão prende-se ao problema da determinação da linha da
'radores74.
sucessão dos Donatários, como em 1571, nas capitanias do Faial e do
Como dissemos, este tipo de forais é característico das capitanias
Pico80, outras vezes o problema reside na vexata quaestio dos direitos
do Brasil, talvez pela especial razão da sua extensão, condições natu-
banais, questão das mais debatidas e levadas à apreciação dos tribu-
rais e potencialidades económicas envolvidas. Ainda em 1646-na au- • RI
nais reais .
sência de um documento específico -, os donatários da Capitania de
Alvo de debate directo com a Coroa foi a do uso e extensão das
Caeté faziam registar no seu Livro da fazenda como texto orientador o
jurisdições senhoriais - tipo de pleito que em caso extremo, como o
foral da Capitania originária de Duarte Coelho, aí apodado de Foral que
do Capitão de S. Tomé, leva à perda da Capitania em 152282 - a da su-
se concedeu ao Estado do Brasil e que se pratica em todas as Capitanias dele
cessão nas donatárias83 ou das pretensões de índole económica84.
e do Maranhão75. Nas outras capitanias atlânticas a essa'junção preen-
chiam-na os forais das próprias localidades e alfândegas. Dos primei-
ros, da longa série dos doze que entre Agosto de 1534 e Fevereiro de 77 Vide VIRGÍNIA RAU, «Uma tentativa de colonização da Serra Leoa no século

1536 são concedidos acompanhando a criação das primeiras capita- XVII», in Lãs Ciências, Ano XI, n.° 3, Madrid, s.i.d., pp. 607-631 [p. 627].
78 Biblioteca Nacional de Lisboa, Reservados, cód. 7627, fól. 186-186v.
nias do Brasil, só se desconhece o texto do que respeita à Donatária
79 Vide ALBERTO LAMEGO, oy. cit., e o nosso Capítulo IX.
de Fernando Álvares de Andrade; os restantes referencio u-os a todos 80 Vide a Sentença dada em Lisboa em 1571 contra Jerónimo Corte-Real a res-
Paulo Merêa nas Chancelarias Reais do Arquivo Nacional da Torre do peito das Capitanias do Faial e do Pico, publicada em As Gavetas da Torre do Tombo,
Tombo76. As cartas de doação das capitanias de Angola (1575) e Serra V, pp. 5-15.
81 JORGE DE CABEDO, Praticarum ohservationum seu Decisionum Supremt Lusítaniae
Senatus, Lisboa, 1610.
73 C. de doação da Capitania de S. Vicente, in DBN, vol. 13, p. 150. 82 Vide GTT, II, pp. 441-449, e III, pp. 9-13.
74 Idetn. 83 Vide em PEDRO TACQUES, op. cit., os documentos relativos ao pleito entre a

75 Vide o Livro ãa fazenda da capitania do Cayeté, Cód. l da Colecção Vidigiietra da Condessa do Virnieiro e o Conde de Monsanto sobre a sucessão da Capitania de
Sociedade de Geografia, Lisboa, ff. 71-74. S. Vicente.
76 PAULO MERÊA, oy, cit., p. 174, n.° 20. 84 Vide GTT, II, pp. 582 ss. e 612 ss.

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AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS

O corpo das Gavetas do Arquivo Nacional da Torre do Tombo é, neste sua autoria, desconhecidas, de inegável interesse doutrinário directo
campo, um dos mais privilegiados repositórios deste tipo de do- para a questão das capitanias. Outra sentença dada em importante
cumentos, quase todos em invulgar bom estado de conservação85. pleito da mesma natureza, mas relativo à Capitania de Itamaracá, no
Núcleo documental a merecer especialíssima menção é o pro- Brasil, dos Marqueses de Cascais, está publicado na História Genealó-
cesso relativo à causa que durante dezenas de anos se arrastou entre gica da Casa Real Portuguesa graças ao cuidado do erudito teatino
a Coroa e os herdeiros dos Albuquerques Coelhos, donatários de Per- D. António Caetano de Sousa, e suscita sem qualquer dúvida um
nambuco. Conquistada a Capitania no século xvii pelos holandeses, grande interesse, dadas as achegas para a mesma questão das obriga-
recuperada posteriormente pelo esforço dos moradores, e das arma- ções militares dos capitães-donatários90.
das reais, entendeu a Coroa chamá-la a si, invocando a inépcia dos Também além da questão que opôs, sem sucesso, no séc. xvii os
antigos donatários para a sua defesa. Os herdeiros destes, inconfor- herdeiros de Paulo Dias de Novais à Coroa a propósito da Capitania
mados, moveram àquela um processo que, iniciado em 1670, só viria de Angola91, outro pleito que, embora não tenha chegado a tela de
a encontrar o seu termo em 1716, por acordo amigável, como tudo juízo, obrigou a Coroa a confrontar-se com as pretensões de um par-
mais detidamente tratamos noutro ponto deste estudo86. ticular, foi o que nas últimas décadas do século xvin se suscitou a pro-
Cremos poder anunciar que no decurso desta investigação locali- pósito da Capitania de S. Vicente, no Brasil. Sumariamente, em finais
zámos os autos originais de causa tão falada, nunca até agora utiliza- do século XVIII, o Conde do Vimieiro conseguira no juízo das Justifi-
dos. Pertencentes a uma colecção particular, recolheram-se recente- cações do Reino a confirmação do seu direito como sucessor dos úl-
mente no Arquivo Nacional87, constituindo nas suas setecentas e timos donatários de uma Capitania já esquecida desde as grandes in-
muitas folhas de petições, alegações, sentenças e documentos ane- corporações pombalinas. Fiado na solidez de uma posição conseguida
xos, um repositório de informação histórica de primeira classe. Além em juízo, viria a requerer à Rainha D. Maria I a satisfação dos seus in-
de variada e precisa documentação para a história económica e mili- teresses, isto é, a renovação da mercê da Capitania e, enquanto o pro-
tar de Pernambuco88, acumulam-se lá os vários acórdãos de que a cesso se desenrolasse, a atribuição de uma avultada soma de «ali-
questão foi alvo e também as alegações, réplicas e tréplicas dos re- mentos provisionais».
presentantes das partes em litígio, os Procuradores da Coroa e os ad- As duas pormenorizadas alegações do advogado do Conde e os
vogados dos sucessores dos Albuquerques. E de ainda mais interesse dois pareceres escritos para sustento das razões da Coroa, são peças
se reveste esta fonte se atentarmos que o primeiro dos advogados que fundamentais para a compreensão global da questão das capitanias.
a questão teve em mãos foi o talvez mais célebre causídico do seu Tanto quanto saibamos desconhecidas e nunca citadas, trazemo-las
tempo, o Dr. Manuel Alvares Pegas. Da sua pena era já conhecida a também aqui à luz92. Enobrecem-nas o facto de as duas últimas terem
Allegaçam de Deretto por parte dos Senhores Condes de Vimiozo sobre a suc- sido redigidas pelo punho de um dos maiores jurisconsultos do seu
cessam da Capitania de Pernambuco (ié?!)89, pequena parte do seu la- tempo, o Dr. José de Seabra da Silva, que foi Procurador da Coroa, Se-
bor nesta causa; mas a consulta dos autos traz à luz novas peças da

90 Vide Doação [da Capitania] de Itamaracá, que pertence ao Marauez de Cascaes


85 As .Gavetas da Torre do Tombo, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos. D. Luiz Alvares de Castro, por sentença, publicada por D. António Caetano de Sousa nas
Junta de Investigação Científica do Ultramar, Lisboa, 1960-1975 (11 vols.). Provas da sua História Genealógica da Casa Real Portuguesa, tomo vi, i parte,
86 Vide o Capítulo IX deste estudo. pp. 336-420.
07 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Colecção Eng. Raul Contreíras, Maço 1. 91 D. ANTÓNIO XAVIER DA GAMA PEREIRA COUTINHO, Os Representantes de Bartolo-
88 Veja-se p. ex. a certidão seiscentista do Foral da Capitania de Pernambuco, no meu Dias e de seu neto Paulo Dias de Novais. Breves notas sobre sua Família e representa-
Maço referido na nota anterior. ção, devidamente documentadas e acrescidas duma minuta inédita para doação da Capitania
89 MANUEL ÁLVARES PECAS, Allegaçam de Dereito por parte dos Senhores Condes de de Angola, Matosinhos, 1933 (Sobre os reparos feitos ao documento transcrito por
Vimiozo sobre a sucessam da Capitania de Pernambuco, composta pelo licenciado Manoel Pereira Coutinho, veja-se MM, vol. IV, pp. 510-511).
Alvares Pegas seu Advogado, e da Coza da Supplicaçam, Évora, Oficina na Universidade, 92 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ministério do Reino, Maço 642. Contém
1671. Veja-se também no apêndice documental à 1." edição deste estudo a sentença duas petições do advogado do Conde do Vimieiro e dois pareceres de Seabra da
de 1677 nesta mesma questão, transcrita pelo mesmo Pegas nos seus Commentaria. Silva; o 1.° deles está transcrito em apêndice à l.a ed. deste estudo.

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AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS

cretário de Estado adjunto de Pombal e seu apontado delfim até à des- 1.6. Os Pareceres do Conselho Ultramarino
graça política que o afastou da cena governamental93. Do que se en- e do Procurador da Coroa
tende, a intervenção de Seabra da Silva nesta causa, retirado já da vida
pública, deve-se ao empenho do Ministro Arcebispo de Tessalonica. Outras fontes de informação que não podem ser esquecidas são
Acedendo, o velho jurista redige então em 30 de Junho de 1781 a pri- os documentos resultantes da actividade do Conselho Ultramarino e
meira de duas respostas à petição do advogado do Conde do Vi- do Procurador da Coroa. Quer um, pelas específicas funções de aná-
mieiro, vincando a insubsistência e a inconveniência das pretensões e lise de todas as questões que à administração ultramarina pertences-
das razões invocadas94. O advogado replica, rebatendo a argumenta- sem96, quer o segundo pela obrigação de se pronunciar em situações
ção do antigo Procurador, que, por seu lado, num texto tão incisivo em que se jogasse a disponibilidade de bens régios, tiveram assim,
quanto violento, acaba por demolir as últimas veleidades do procura- frequentemente, que se debruçar ex offtcio sobre questões directa-
dor do conde: mente respeitantes ao sistema das capitanias.
Quanto àquele primeiro órgão, não nos iremos sequer deter so-
«Um advogado douto, bom jurisconsulto, não se intromete facil- bre a sua interferência directa em actos da vida normal das capitanias,
mente nestas questões que excedem os limites da sua profissão. Um ad- como seja, por exemplo, o da consulta sobre as listas de propostas dos
vogado mero e simples causídico a tudo se atreve. Tudo acha no Pegas e donatários para o cargo de Loco-Tenente; vê-lo-emos com pormenor
no Cabedo. Mede uma doação de uma Capitania do Brasil com a mesma noutro local97. Merecem, todavia, especial menção as mais importan-
vara com que mediu a doação de uma aldeia de juro e herdade. Aí acha tes decisões, precedidas geralmente do parecer de um membro do
tudo: povoação, agricultura, indústria, fortificação, política, comércio, Conselho encarregado da análise primeira do assunto, e dos votos,
navegação, interesses particulares, públicos e da Coroa! Nada o emba- nem sempre unânimes dos restantes, em sessão final. Lembremos a
raça, em tudo o que arrazoa acha harmonia porque o acha no Pegas. To- abundante documentação relativa à licença requerida em 1709 pelo
das as vezes que a natureza e índole da causa obriga a discorrer por ou- Marquês de Cascais para vender a Capitania de S. Vicente a José de
tros princípios que ou se não acham ou se encontram com o do Pegas, Gois de Morais, processo que seria encerrado com a incorporação do
decide sem hesitar que tudo vai errado, e que a justiça é atropelada pela território na Coroa98, os pareceres relativos ao sequestro da Capitania
ignorância ou pela violência...»95 da Paraíba em 1733-1749", e, mais tarde, as decisões tomadas em
1750-1751, aquando dos graves distúrbios e representações dos mo-
Seabra da Silva não esconde o conceito que fez desse advogado radores da mesma Capitania contra o seu Donatário100.
«inventor das ignorâncias, equivocações, confusões e temeridades Como também dissemos, os pareceres dos Procuradores da Co-
Histórico-Jurídico-Políticas com que encheu tanto papel...», tornando roa revestem-se de não menos valor como fonte de informação sobre
o documento uma das peças mais interessantes que nos foi dado ler esta matéria. Muitos andam anexos aos dossiers elaborados para
sobre a posição de um governante em relação à questão das capita- juízo do Conselho Ultramarino, como sucede nos casos que anterior-
nias na sua fase final. mente citámos. Outros acontece estarem dispersos ou reunidos em
colectâneas de muito difícil acesso. Atente-se ao caso dos pareceres
do notável jurisconsulto Dr. Tomé Pinheiro da Veiga, que durante

93 Sobre José Seabra da Silva, veja-se MARQUÊS DE RESENDE, «Elogio Histórico de 96 MARCELLO CAETANO, O Conselho Ultramarino. Esboço da sua história, Agència-
José Seabra da Silva», in Memórias da Academia, t. Ill, parte I, nova série, Segunda -Geral do Ultramar, Lisboa, 1967.
Classe, Lisboa, 1861. 97 Vide o nosso Capítulo IV.
94 Vide o 1." dos pareceres citados em apêndice na 1.* ed. deste estudo. 98 Arquivo Histórico Ultramarino, cx. Rio de Janeiro, does. 3.162, 3.226 e 3.227.
95 Seabra da Silva procurou encobrir no 2.° parecer a sua identidade, dando a Veja-se tb. o nosso Capítulo IX.
entender ser personagem diversa do autor do 1." Todavia, no maço referido, além do 99 Arquivo cit, loc. cit., does. 14.984-87 e 14.999. Veja-se tb. o Capítulo IX.
texto oficial desse parecer, conserva-se a minuta, que é indubitavelmente do punho 100 Arquivo cit, loc. cit., doe. 14.976, e ALBERTO LAMEGO, A Tetra Goitacá..., vol. II,
do jurisconsulto. passim.

83
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO R E G I M E DAS CAPITANIAS

bastantes anos ocupou o cargo de Procurador da Coroa. São peças de uma grande variedade de pareceres sobre matérias como as obriga-
consulta fundamental, não apenas porque o magistrado no desempe- ções militares e de povoamento dos capitães, faculdade de nomeação
nho de tais funções teve uma palavra a dizer na frequentemente con- de Loco-Tenentes ou criação de ofícios novos além de documentação
turbada matéria das confirmações das doações de capitanias101, mas anexa que inclui cartas de D. João IV, do Procurador da Coroa, do Ou-
também porque o autor da Fastigímia deixou fama de bom jurista102, vidor-Geral do Brasil, acórdãos da Relação, os regimentos anotados dos
ressaltando ainda hoje dos seus textos um profundo bom senso e um ouvidores-gerais do Brasil (1630) e do Rio de Janeiro (1643) e -a carta
inegável «sentido de Estado».
de doação da Capitania de Pernambuco, também anotada por
Nascido em 1571 e falecido com 85 anos em 1656, Pinheiro da Pinheiro da Veiga são por si suficientes para que o códice em causa se
Veiga foi Desembargador e Chanceler da Casa da Suplicação (1617), possa considerar como um elemento de consulta indispensável em
Procurador da Coroa, Vedor da Fazenda da Rainha e Chanceler-Mor qualquer estudo dedicado à administração ultramarina portuguesa da
do Reino, e, a crer em Barbosa Machado, «os seus votos foram sem-
primeira metade do século XVll.
pre regulados pelas máximas do Evangelho e não pelos aforismos de
Tácito»103. Urge proceder ao levantamento da sua vida e de uma obra
que ainda hoje se encontra esparsa por arquivos variados; e, se bem
2. Documentação Particular
que algo tenha sido feito sobre a faceta puramente literária do magis-
trado, é indispensável estudá-lo também sob a faceta fundamental do
jurista que tanto influenciou a vida pública portuguesa da primeira 2.1. A Documentação Senhorial
metade do século xvii. Como contributo a esse estudo, preparámos
algumas notas bibliográficas sobre o ilustre jurisconsulto, acompa- Tarefa desanimadora, mas que também se impõe, é o da análise
nhadas do inventário completo do espólio jurídico deixado à morte. dos fundos documentais pertencentes às famílias dos antigos capi-
Deste, utilizámos já directamente nesta investigação o interessantís- tães-donatários.
simo caderno de pareceres autógrafos que se conserva na Biblioteca As dificuldades apresentam-se desde o momento em que nos
Nacional de Lisboa104. Nunca o vimos citado ou sequer referenciado apercebemos do fatídico destino de muitos dos arquivos das casas se-
por autores nacionais105; contudo o seu conteúdo é rico: o projecto de nhoriais portuguesas. Na súmula de algumas diligências que pude-
limitações a introduzir nas cartas de confirmação de capitanias106 e mos fazer, constatámos que os arquivos dos Viscondes de Asseca e
Condes da Ribeira - antigos donatários, respectivamente, da Paraíba,
no Brasil, e S. Miguel, nos Açores - estão depauperados e o pouco que
01 Note-se, por ex., a ordem régia exarada num parecer sobre a Capitania de
Cumá de António de Albuquerque Coelho de Carvalho, a p. 141 do referido cód. resta disperso por várias mãos e de difícil consulta. Do cartório dos
7627 da B. Nacional de Lisboa: «Com a Doação passada a seu antecessor e provisão Condes de Vimieiro, Senhores da Ilha do Príncipe, o paradeiro é pura
da administração, manda El-Reí nosso Senhor que o Doutor Tomé Pinheiro da Veiga, e simplesmente desconhecido. O arquivo dos Condes de Vimioso,
Procurador da Coroa, faça vista a este requerimento. Em Lisboa, a 20 de Julho de donatários de Machico, terá ardido em 1755. O da Casa Casteío-Me-
1652.»
Ihor, dos antigos capitães do Funchal e S. Maria, foi, como é bem sa-
102 «Na jurisprudência especulativa e prática foi oráculo em cujas profundas
decisões e maduros conselhos se admiravam renascidos os Bártolos, Baldos, Sempró- bido, quase totalmente vendido e disperso. Do certamente riquíssimo
nios e Papinianos» - m Dioco BARBOSA MACHADO, Biblioteca Lusitana, 3.1 ed., Coim- cartório dos Duques de Aveiro, capitães de Porto-Seguro, no Brasil, e
bra, 1965, vol. m, pp. 758-760. Senhores de Sto. Antao, Flores e Corvo, pouco se sabe, para além das
103 BARBOSA MACHADO, op. loc. cit.
poucas pastas que se conservam na Biblioteca do Palácio da Ajuda.
1W B.N.L., Reservados, cód. 7627.
Do arquivo dos Condes de Resende, senhores da Capitania brasileira
105 E mesmo nos estrangeiros, só uma ligeira referência em STUART SCHWARTZ,
Soveretgniiies anã Society in Colonial Brazil. The High Court of Bahia and tis Judges, de Ilhéus, sobreviveram ainda núcleos importantes, conservados hoje
1609-1751, Berkeley, Los Angeles, Londres, University of Califórnia Press, 1973, sob a designação de «Cartório Resende», na divisão de Reservados da
p. 230, n. 32. Biblioteca Nacional de Lisboa; nada contém, todavia, com proveito
06 Vide o parecer reproduzido em apêndice à 1.* ed. deste estudo.
para o estudo da Capitania que possuíram. Assim, à excepção de um

S5
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS

importante Tombo dos bens da Casa dos Condes da Ribeira Grande, Danationibus de Antunes Portugal112, os Comentaria de Alvares Pe-
Donatários de S. Miguel, nos Açores107, e do Livro da Fazenda da ca- gas113, as Decisiones de Cabedo114 ou o De Regime Reipublicae de Bap-
pitania de Caeté, no Brasil108, é pouquíssimo, pois, o proveito que se tista Fragoso115.
pode extrair da documentação senhorial, e esse ainda decorrente de Sobre a problemática concreta das capitanias o campo é ainda
registos, não propriamente dos capitães, mas daqueles onde a sua ac- mais reduzido. Se exceptuarmos as várias especulações, já citadas, de
tividade haveria obrigatoriamente que deixar rasto. Referimo-nos, autores como Pinheiro da Veiga ou Álvares Pegas, este no decurso do
por exemplo, aos registos dos actos de concessão de sesmaria, entre- processo Vimioso, e a tão citada Decisio XXIX de Cabedo, que distin-
gues aos funcionários régios encarregados da administração da Fa- guiu, destrinçando, as características dos Capitães Donatários dos
zenda, e de que, por exemplo, Pais Leme, profundamente beneficiou. simples capitães militares, o panorama é desértico116. Aflorando mais,
Os registos notariais ou camarários perpetuaram também muitos dos qual ilhas, só do tipo das que fez o Dr. Vanguerve Cabral, antigo Ou-
instrumentos pelos quais os capitães escolheram procuradores, con- vidor da Capitania de Itaparica, na sua Prática Judicial muito útil, em
cedendo-lhes e definindo-lhes poderes. O funcionalismo senhorial, que rememora ocasionalmente um episódio ilustrativo da realidade
ainda que mal definido, o pouco que conhecemos - e à excepção de jurisdicional daquela Capitania117 ou diversos aresta senatus, também
um documento do cartório dos Duques de Aveiro 109 - devemo-lo a reproduzidos por Cabedo a título de ilustração jurisprudencial e re-
listagens elaboradas por iniciativa oficial110. ferentes a assuntos tão diversos como as demandas do Capitão de
Finalmente, a grande lacuna sentimo-la em tudo o que toca à ad- S. Miguel com os moradores sobre direitos banais (1557 e 1558)118,
ministração da justiça pelos capitães e seus ouvidores. Onde estarão sobre a arrecadação de direitos donatariais (1577)119, sobre os pode-
hoje autos, decisões, sentenças, ou registos? Desconhecemo-lo por res dos ouvidores (séc. XVII)120 ou sobre a jurisdição do Ouvidor de
completo e para qualquer das capitanias atlânticas; a abrir uma ex- Angra (1550)121.
cepção o Arquivo dos Açores publicou no século passado, na íntegra, São também de manifesta utilidade os pareceres jurídicos elabo-
uma sentença de 1510 do Capitão da Ilha de S. Miguel, segundo o ori- rados em função de questões directamente respeitantes às capitanias
ginal manuscrito pertencente a um particular açoriano. sem o pressuposto de um pleito judicial concreto ou sem o recurso
aos órgãos usualmente consultados. Na Colecção Pombalina da Biblio-
teca Nacional de Lisboa122, por exemplo, conserva-se uma colecção
2.2. Literatura da Doutrina de pareceres da autoria dos doutores Jorge de Cabedo, Lourenço Cor-

Há também que tratar da literatura especificamente jurídica, téc-


112 DOMINGOS ANTUNES PORTUGAL, Tractatus de Donationibus Jtiríum et Bonorum
nica, eventualmente dedicada ao tema. Infelizmente - ao contrário de Regias. Coronae, Lião, 1757.
Espanha que possui pelo menos uma obra extensa, dedicada em pro- 113 MANUEL ÁLVARES PEGAS, Commentaría ad Ordinationes Regni Portugaliae. Tracta-
fundidade aos múltiplos problemas da administração senhorial, a Po- tio Sãentifica, Utruque Foro Perutitis ac Necessária, ex Jure Naturati, Ecclesiastico, Civili,
lítica para Corregidores y Senores de Vasallos (1597)111, de Castillo de Bo- Romano, Hispano & Lusitano, Lisboa, 1670-1729 (14 tomos).
114 JORGE DE CABEDO, Praticaram observationum seu Dedsionum Supremi Lusitaniae
vadilla - Portugal é falho de obras deste teor, e as únicas laborações
Senatus, Lisboa, 1610.
doutrinárias encontramo-las dispersas em obras como o tratado De 115 BAPTISTA FRAGOSO, De Regimine Republicas, Colónia, 1641.
116 CABEDO, op. cit.
117 ANTÓNIO VANGUERVE CABRAL, Prática indiciai muito útil, e necessária para os que
107 Códice 10,729 da Biblioteca Nacional de Lisboa. principiamos officios de julgar e advogar, e para todos os que solicitam causas nos Auditórios
108 Livro da fazenda âa Capitania do Cayeté, Cód. l da Colecção Vtdigueira da de hum e outro foro, Lisboa Occidental, 1715, p. 49.
Sociedade de Geografia, Lisboa. 118 CABEDO, op. cit., pp. 219 e 198.
109 Biblioteca do Palácio da Ajuda, Cód. 54-111-15, n." 122. mldem, p. 199.
110 Veja-se a bibliografia cit. no Capítulo V. 120 Idem, p. 208.
111 JERÓNIMO CASTILLO DE BOVADILLA, Política para Corregidores y Senores de Vasal- 121 Idem, p. 209.
los en tiempo de Paz e de Guerra, etc., Barcelona, 1624. 122 B.N.L, Colecção Pombalina, n.° 644, p. 130v., e MM, III, pp. 383-388.

8 ti 87
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS

reia e de um corpo de Desembargadores do Paço, solicitados em 1590


provêm os treslados da doação primeira da Capitania de Machico
com o fim de determinar com clareza o âmbito de determinados di-
(1440) e da «portaria de mercê» da mesma Capitania ao Conde D. Luís
reitos régios após a doação da Capitania de Angola, feita em 1575 a
de Portugal (1605)126. No tomo vi das mesmas Provas é a Doação [da Ca-
Paulo Dias de Novais. Respeitante também à mesma Capitania,
pitania] «de Itamaracá, que pertenceo ao Marquez de Cascaes D. Luiz
guarda-se na biblioteca do British Museum, em Londres, outro pare-
Alvares de Castro, por sentença, que se nos depara».127
cer solicitado com o objectivo de esclarecer os eventuais direitos dos
Notável repositório setecentista de documentação utilíssima para
sucessores de Paulo Dias à mesma Donatária após a sua morte123.
o estudo das Donatárias brasileiras, é também a História da Capitania
Não que propriamente constitua um parecer, mas interessante por
de S. Vicente desde a sua fundação porMartim Afonso de Sousa em 1531,
se apresentar como uma formulação de questão preparada para a
escrita em 1772 por Pedro Tacques de Almeida Pais Leme. Os ante-
emissão de um parecer, é outro documento, da referida Colecção Pom-
cedentes da obra são conhecidos128: em 1754 os Condes de Vimieiro,
balina, redigido no decurso de uma controvérsia que opôs D. Gonçalo
a fim de averiguar certos factos respeitantes à fundação da Capitania
da Costa e o Visitador e mais religiosos jesuítas do Colégio de Sto.
de S. Vicente, que até 1653 andara na sua Casa, viram-se forçados a
Antão sobre a Capitania brasileira de Peroaçu, texto onde curiosa-
recorrer ao erudito paulista, para esse preciso efeito solicitado a vir do
mente os intervenientes do dissídio foram mascarados sob os nomes
Brasil. E quando, na presença dos mesmos factos, os ditos Condes se
de Tício, Cota ou Semprónio, ao modo e vincando o tecnicismo das
decidiram a pleitear a posse da Capitania aos Condes de Lumiares e
velhas questões do Direito Romano124.
a contestar à Coroa uma incorporação alegadamente viciada129, o re-
curso ao arquivo familiar não foi decerto suficiente dado que o Prin-
cipal D. João de Faro, tio do conde, cometeria de novo ao infatigável
2.3. Colectâneas Documentais
Pedro Tacques a missão insana de no Brasil reunir a documentação
necessária à instrução da causa, tarefa de que este só se considerou
Pinalizaremos este Capítulo com uma referência breve às mais desobrigado anos passados, já depois de 1768!
importantes colectâneas documentais que nos foi dado utilizar.
É evidente que as grandes colectâneas documentais não são de
«Carecendo, porém, V. Ex.a, de maior informação a fundamentis
hoje; têm precedentes de peso, em que ocupa um lugar indisputável o
desde o princípio da fundação desta Capitania até o ano de 1714, que se
grande D. António Caetano de Sousa. Nas Provas que fez anexar à sua
incorporou à Coroa (por conceito errado e contra toda a verdadeira in-
monumental História Genealógica da Casa Real Portuguesa (1753), pode
teligência), me foi preciso sacrificar ao indispensável trabalho de passar
o estudioso das capitanias colher elementos que de outro modo se jul-
aos olhos o copioso cartório da provedoria da fazenda. ApHquei-me a es-
gariam, decerto, como perdidas. É o caso de documentos do cartório
tes exames com tanta fadiga, quanta não cabe na expressão do maior en-
da Casa dos Condes de Vimioso, capitães de Machíco, destruído nos
carecimento, porque as letras dos livros de registos são totalmente de di-
incêndios sequentes ao grande sismo de 1755. Felizmente, se folhear-
versa figura dos caracteres do presente alfabeto, obrigando-me esta
mos o tomo V das Provas, lá encontramos o instrumento da venda da-
dessemelhança a gastar muitas horas de aplicação para verter uma só
quela Capitania por D. António da Silveira a Francisco de Gusmão, em
lauda; contudo a veneração respeitosa que a V. Ex.a consagro fez suave
1548,, com-a anotação do erudito historiador de que «está no Cartório
todo aquele excessivo desvelo, muito à vista dos meus anos e achaque
da Casa de Vimioso, maço 11, num. 121, donde o copiei»125. Do mesmo
arquivo - maço 19, num. 847, e maço 75 num. 444, respectivamente -
, pp. 343-351 e 366.
127 Doação [da Capitania] de Itamaracá, que pertenceo ao Marquez de Cascaes
123 Publicado em MM, IV, pp. 528-532.
D. Luiz Alvares de Castro, por sentença, publicada por D. António Caetano de Sousa nas
124 Biblioteca Nacional de Lisboa, Reservados, Cód. 475, fóls. 394-395v. - «Per-
Provas da sua História Genealógica da Casa Real Portuguesa, tomo Vi, i parte,
gunta sobre algumas terras do Brazil para se saber se se hão de julgar por de sesma- pp. 396-420.
ria ou por de Capitania».
128 PEDRO TACQUES, oy. dt, pp. 137-139.
125 ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. cã., Provas, V, pp. 337-42.
129 Veja-se o que referimos no ponto 1.5 deste Capítulo.

88
89
AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO REGIME DAS CAPITANIAS AS FONTES ÚTEIS PARA O ESTUDO DO R E G I M E DAS CAPITANIAS

inveterado da enxaqueca, cujas dores fazem pôr em desprezo o uso de completam a série de colectâneas de fontes para o estudo das capita-
ler e escrever...» nias, publicando diplomas fundamentais que acabam por cobrir toda
a área atlântica.
Dessas «muitas horas de desvelo» nasceria um dos primeiros clás- Além das obras citadas e como riquíssimos repositórios da mais
sicos da literatura histórica brasileira inteiramente dedicado ao estudo variada documentação - cartas de sesmaria, capítulos, pareceres, pro-
das capitanias, que em manuscrito permaneceu até ser dado beneme- curações, correições, provisões régias, escrituras de compra e venda,
ritamente à estampa em 1847 pela entidade detentora, o Instituto sentenças, etc. -, cabe ainda citar a série do Archivo dos Açores, o Ar-
Histórico Geográfico Brasileiro. Abarcando um longo período que de- quivo histórico da Madeira, os Documentos de Magalhães Godinho 141 ,
corre do século xvi ao século XVlii, a obra de Pais Leme inclui docu- o Inventário dos Documentos142 de Castro e Almeida, os Anais Pernam-
mentação tão variada como a que respeita às dadas de sesmaria130, os bucanos de Pereira da Costa143 a Pauliceae Lusitana, organizada por
pagamentos das redízimas131, às tomadas de posse dos donatários132, Jaime Cortesão144 os vários volumes de Actas e Registo da Câmara de
às procurações passadas aos loco-tenentes e procuradores133, a pleitos S. Paulo145 ou a muito proveitosa e vasta recolha documental que Men-
de demarcação e disputa de sucessão da Capitania, e às iniciativas ré- donça Dias fez nos Tombos da Câmara de Vila Franca do Campo146.
gias de incorporação134.
Sem prejuízo das conclusões que o leitor possa retirar do inte-
resse das grandes colectâneas de documentação citadas ao longo
deste estudo, sempre se referirão as que de mais proveitosas conside-
ramos para este tipo de investigação. A Colecção de Documentos de
Monteiro Velho de Arruda135 os Documentos de Ramos Coelho136 e os
Descobrimentos Portugueses de Silva Marques137 são de bem conhecida
utilidade por reproduzirem largo número de diplomas de constituição
ou confirmação das primeiras capitanias madeirenses, açorianas e
africanas, estas últimas recebendo, aliás, um tratamento especial, na
magna obra de Senna Barcelos138. Os Documentos Históricos da Biblio-
teca Nacional do Rio de Janeiro139 e a Monumenta Missionaria Africana140,

130 PEDRO TACQUES, op. cit., pp. 159-162.


131 Idem, pp. 473-477. Ml VTTORINO MAGALHÃES GODINHO, Documentos sobre a Expansão Portuguesa, Lis-
132 Idem, pp. 300-303. boa, 1956.
133 Idem, pp. 156, 158, 163-165, 299 e 300. 142 EDUARDO DE CASTRO E ALMEIDA, Inventário dos documentos relativos ao Brasil
134 Idem, pp. 305-317. existentes no Arquivo da Marinha e Ultramar de Lisboa, Rio de Janeiro, 1616-1725, Rio de
135 MANUEL MONTEIRO VELHO ARRUDA, Colecção de documentos relativos ao descobri- Janeiro, 1914 (6 vols.).
mento e fovoajnento dos Açores, Ponta Delgada, 1932. 143 E A. PEREIRA DA COSTA, Anais Pernambucanos, Arquivo Público Estadual,

136 Alguns Documentos do Archivo Nacional da Torre do Tombo acerca das Navegações Recife-Pemambuco, 1951-1952 (4 vols.).
e Conquistas Portuguesas, Lisboa, Imprensa Nacional, 1892. 144 Pauliceae Lusitana Monumenta Histórica, Publicações do Real Gabinete Portu-

137 Descobrimentos Portugueses. Documentos fará a sua História publicados e prefacia- guês de Leitura do Rio de Janeiro, Edição Comemorativa do IV Centenário da Fun-
dos por José da Silva Marques, Lisboa, 1944 (2 vols.). dação da Cidade de S. Paulo, Organizado e prefaciado por Jaime Cortesão, Lisboa,
138 CRJSTTANO DE SENA BARCELOS, Subsídios para a História da Guiné e Cabo Verde, 1956-1961 (2 vols.).
Lisboa, 1899. 145 Actas da Câmara da Vila de S. Paulo, Publicação oficial do Archivo Municipal

139 Documentos Históricos, Publicados pela Biblioteca Nacional e Arquivo Nacio- de S. Paulo, Duprat & Cia., S. Paulo, 1914-1915 (7 vols.).
nal, Rio de Janeiro, 1928-1949 (84 vols.). 146 URBANO DE MENDONÇA DIAS, A vida de nossos Avós. Estudo Etnográfico da vida
140 Monumenta Missionaria Africana, coligida e anotada pelo Padre António Brá- açoreana através das suas leis, usos e costumes, Vila Franca do Campo, 1944-1948
sio, C.S.S.P., Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, 1952-1956 (7 vols.). (9 vols.).

90 9 I
3.CRIAÇÃO, TRANSMISSÃO
E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S
1. A Criação das Capitanias

1.1. Introdução

Referimos anteriormente que às capitanias subjaz a figura jurí-


dica da doação, caracterizando-a, notando, com particular incidência,
as circunstâncias que ao monarca permitiu contrair ou abrir excep-
ções ao princípio da inalienabilidade dos bens da Coroa1. Aludimos
especialmente às doações genericamente classificadas de remunerató-
rías e podemos recordar que, na lição de Pascoal de Melo Freire, «a
doação destes bens não se faz por mera liberalidade, mas sob certo
modo e para certo fim; por isso, a sua natureza é sempre remunera-
tória, e atende, para todo o sempre, aos bons serviços do donatário e
seus sucessores»2. Noutro passo, adiantará o mesmo autor que se os
bens públicos, em relação ao Rei, «não estão em seu domínio e pro-
priedade, estão certamente em seu império e administração; eis por
que bem poderá dispor deles para o bem comum da Nação, que re-
sulta da justa e necessária distribuição dos prémios»3. E se as palavras
de Pascoal datam dos finais do século xviii, a verdade é que remon-
tam a uma construção doutrinária mais antiga, de que o não menor
dos princípios correlativos era o de que à alienação de direitos reais
tinha que corresponder acto expresso4, no qual, tão cedo quanto o
governo dos nossos primeiros monarcas, se atendeu à necessidade de
com maior ou menor pormenor enunciar as causas justificativas da

1 Vide o Cap. I, § 2.
2 PASCOAL JOSÉ DE MELO FREIRE, «Instituições de Direito Civil Português tanto
público como particular», (j XXVIII, tít. m, L. 2, in Boletim do Ministério da Justiça, n.°
163, Fevereiro de 1967.
3Mem, 5 XX, tít. m, L. 2.
4 Cf. p. ex. OF, 1.2, tít. 4, §§ l, 2, 3, 6, 9, 11.

95
C R I A Ç Ã O , TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS C R I A Ç Ã O , TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS

1.2. Os Intuitos de Povoamento e Colonização 1.3. O Estímulo da Fé

Ora, se atentarmos nas motivações que subjazem à concessão de Mas, cabe interrogarmo-nos se se não tem caído no equívoco de
capitanias, haverá a notar que - em confronto com outras doações ré- minimizar ou ignorar liminarmente uma faceta indissociável da ques-
gias, inclusive as de senhorios metropolitanos - estas, de capitanias, tão, num processo que faz perigar ou falsear a compreensão do hack-
não se reportam a uma única causa donandi, específica ou determi- ground ideológico dos actos régios de concessão em benefício de uma
nada, mas a um jogo de causas articuladas e afins a três tipos de desi- visão puramente material ou mecanicista. Referimo-nos ao offiàum
derato: a recompensa do mérito próprio ou herdado do súbdito be- missionandi e à motivação religiosa que sempre os monarcas fizeram
neficiado, a prossecução de estratégias oficiais de ordem política e por imprimir de modo explícito nos mais diversos actos da Expansão.
económica, e a satisfação de obrigações inerentes à defesa e progresso Estudos de cunho acentuadamente económico ou jurídico, como
da Fé in yanibus infidellium. os de Frédéric Mauro7 e de Ruy de Albuquerque 8 não ignoraram esse
Na Introdução a este estudo tivemos a oportunidade de discorrer elemento fundamental, e Femandez Castilejo em La ilusión de Ia Con-
sobre a oportunidade e as condições da criação de capitanias em toda quista deixou manifesta a realidade da conceptualização dos desco-
a área atlântica do Império, segundo critérios bem determinados em brimentos e da evangelização das terras pagãs como «continuação de
função de projectos de povoamento e colonização, suficientemente uma cruzada de sete séculos»9. Também Luís Filipe Thomaz (ainda
convincentes para levar os monarcas portugueses a recorrer à tradição que aludindo especificamente à expansão oriental) notou pertinente-
das concessões senhoriais e para os prosseguir em termos aceites mente que à empresa indiática presidiu já no século xvi «um ideal de
como úteis até ao ano de 1685. Nessa base, um espírito prático, caput guerra santa, uma como que racionalização da ideia de cruzada - des-
scholíae, como foi o Procurador da Coroa, Tomé Pinheiro da Veiga, pida da coloração internacionalista que lhes conferia a sua relação
não hesitará em afirmar nas primeiras décadas do século XVII que com o conceito medieval de RespuHica Christiana, porque colocada
agora ao serviço da política expansionista de um estado nacional,
«o fim principal a que são destinadas [as capitanias] é a povoação da costa quiçá o primeiro a emergir como tal nos alvores modernos. Essa ideo-
e terra firme delas com obrigação de levarem cada ano certos casais e logia - que impregna a historiografia coeva, em especial a obra de
moradores que as povoem e cultivem, e para isso se lhes concedem as João de Barros, para ter n'Os Lusíadas um último eco audível - se fre-
terras com direitos e rendas e amplíssima jurisdição...»5 quentemente inibiu o desenvolvimento do pragmatismo que exigi-
ram as conveniências comerciais, conferiu, no entanto, à expansão
portuguesa no Oriente uma força moral e uma coesão intrínseca que,
Bem mais tarde, em 1781, outro homem de estado como foi José
em parte, explicam o seu sucesso»10.
de Seabra da Silva fará notar que

«o espírito e o fim destas divisões e destas exorbitantes doações foi pro- 7 FRÍDÉRJC MAURO, Lê Portugal, k Brésil et 1'Attantique au XVIII siècle (1570-1670) -

Elude Éeonomique, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian - Centro Cultural Português,


mover a povoação e cultura daquele continente, inflamando com tanta
1983, pp. 6-7.
coisa grande a vaidade dos donatários poderosos ou pela autoridade que 8 RUY DE ALBUQUERQUE, Os Títulos de Aquisição Territorial na Expansão Portuguesa
tinham ou pelas riquezas que se lhes supunham» 6 . (Sécs. XV e XVI), Dissertação apresentada no Curso Complementar de Ciências Jurí-
dicas da Faculdade de Direito de Lisboa, Lisboa, 1960 (exemplar dactilografado ama-
velmente cedido pelo Autor), p. 95-
É, de resto, a generalizada - e correcta - convicção de muitos dos
9 Cit in RUY DE ALBUQUERQUE, op>. dt., p. 95, n. 3. Veja-se aí abundante desen-
autores que sobre a matéria e até à presente data têm discorrido. volvimento e bibliografia sobre a concepção de cruzada, sua origem ou utilização nos
reinos e expansão ibérica.
10 Luís FILIPE FERREIRA REIS THOMAZ, «Estrutura Política e Administrativa do

Estado da índia no séc. XVI», in // Seminário Internacional de História Indo-Poriuguesa -


5 Biblioteca Nacional de Lisboa, divisão de Reservados, Cód. 7627, fól. 41. Actas. Estudos de História e Cartografia Antiga - Memória n.° 25, Instituto de Inves-
6 Vide o apêndice (Parecer de 1781) que consta da 1." ed. deste estudo. tigação Científica e Tropical, Lisboa, 1985, pp. 515-540 (pp. 518-519).

96 97
CRIAÇÃO, TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S CRIAÇÃO, T R A N S M I S S Ã O E EXTINÇÃO DAS CAPITANIAS

Poderemos, pois, dizer que se essa mesma expansão teve uma in- Noutro texto eminentemente pragmático e de acentuadas tonali-
questionável componente material directa e prioritariamente vincu- dades económicas e militares, como é o Regimento do 1.° governa-
lada aos interesses da Coroa, também, como com justeza acentuou dor-geral do Brasil, Tomé de Sousa (1548), o Monarca, antes de tudo
Mário de Albuquerque, «o Estado que interpretou e orientou o sen- o mais declara reconhecer
tido comercial das navegações, interpretou e orientou igualmente o
sentido religioso; os regimentos e as cartas dos monarcas estão cheios «quanto serviço de Deus e meu é conservar e enobrecer as capitanias e
de recomendações com esse fim, considerando como serviço seu a povoações das terras do Brasil e das ordem e maneira com que melhor e
evangelização»11. mais seguramente se possam ir povoando para exaltação da nossa Santa
O cronista Zurara, introduzindo o leitor à narração da descoberta Fé e proveito dos meus reinos e senhorios e dos naturais deles...»15
e povoação da Madeira, alude expressamente às «coisas especiais que
o Infante fez por serviço de Deus e honra do mesmo, entre as outras Mesmo num diploma mais recente como a carta de doação da
que ele tinha feitas assim era a povoação das ilhas...»12. E o texto é in- Capitania da Serra Leoa a Pedro Alvares Pereira (1606) é manifesta a
teressante por deixar manifesta a inseparabilidade dos dois conceitos preocupação em salvaguardar e deixar explícitos os objectivos prima-
de «serviço de Deus» e de «bem comum», simbiose desejada da feli- ciais do acto:
cidade terrena acompanhada pela esperança da felicidade eterna,
«D. Filipe [...] faço saber aos que esta minha carta virem que sendo
união que a própria teologia promove e justifica como garante da har-
eu informado que convinha muito ao serviço de Deus e meu mandar
monia que nas sociedades puramente civis cabe ao Monarca, pri-
que na Serra Leoa e na costa da Guiné, em que ela está [...] se façam po-
meiro que todos, promover13. O invariável texto quinhentista das
voações e se contrate e resgate nos portos e rios da dita costa, e que se
pormenorizadas cartas de doação das capitanias brasileiras, manifesta
conquistem e sujeitem, assim para nas ditas terras (em que são mui gran-
bem o entrosamento desses dois desideratos, fazendo saber o mo-
des e povoadas de gentios idólatras) se celebrarem os ofícios divinos e se
narca, logo no incipii do diploma
promulgar o Santo Evangelho e acrescentar a nossa Fé Católica redu-
zindo a ela a dita gentilidade, como pelo muito proveito que se seguiria
«que considerando enquanto serviço de Deus, e bem de meus Reinos e
a minha Fazenda Real de as ditas povoações, resgates e conquistas se fa-
Senhorios, e dos naturais e súbditos deles e ser a minha costa e terra do
zerem, e que seria também em benefício comum de meus Reinos e Se-
Brasil mais povoada do que até agora foi, assim para se nela haver de ce-
nhorios e dos naturais deles...»16
lebrar o culto e ofícios divinos, e se exaltar a nossa Santa Fé Católica em
trazer e provocar a ela os naturais da dita terra, infiéis, idólatras, como É ainda esse o mesmo tom com que o célebre Bento Maciel Pa-
pelo muito proveito que se seguirá a meus Reinos e Senhorios e aos na- rente, antigo Capitão-Mor do Maranhão, abre solenemente o Memo-
turais e súbditos deles de se a dita terra povoar e aproveitar, houve por rial que apresenta em Madrid ao Rei Filipe II, cerca de 1627, advo-
bem de a mandar repartir e ordenar em Capitanias»14. gando a criação de novas capitanias no Brasil:

«... díze que habiendo descobierto y conquistado más de cuatro-


1 ' MÁRIO DE ALBUQUERQUE, O Significado das Navegações e Outros Ensaios, Lisboa,
cientas léguas de tierra, con muchas províncias de índios en que aos in-
Sociedade Nacional de Tipografia, 1930, p. 97. Veja-se também a Parte I, passim.
12 VITORINO DE MAGALHÃES GODINHO, Documentos sobre a Expansão Portuguesa. 15 HCP, vol. m, p. 345.
Prefácio e notas de..., Colecção Estudos Portugueses (3 vols.), Lisboa, 1945-1946. 16 VIRGÍNIA RAU, «Uma tentativa de colonização da Serra Leoa no século XVii», in
13 Sobre esta matéria veja-se, por todos, MARTIM DE ALBUQUERQUE, O Poder Polí- Lãs Ciências, Ano XI, n.° 3, Madrid, s.i.d. (pp. 607-631), pp. 620-621. Também na c.
tico no Renascimento Português, Lisboa, Instituto Superior de Ciências Sociais e Política de doação da Capitania do Cabo do Norte a Bento Maciel Parente (14.6.1637), a
Ultramarina, 1968, e JOSÉ ANTÓNIO MARAVALL, Teoria Espanola dei Estado en e! Sigh declaração é sensivelmente igual à das cartas da 1.' geração. Veja-se CÂNDIDO MENDES
XVII, Instituto de Estúdios Políticos, Madrid, 1944. DE ALMEIDA, Memórias do Estado do Maranhão, cujo território comprehende hoje as provin-
14 C. de doação da Capitania de S. Vicente a Martim Afonso de Sousa, in DBN, das do Maranhão, Píauhy, Grão-Pará e Amazonas, colligidas e annotadas por..., Rio, 1884,
vol. 13, p. 136. vol. 2, pp. 47 ss.

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CRIAÇÃO, TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS

finitos problacíones lê incumbe como Conquistador y Procurador de atributos régios fundamentais. Referindo-se aos primórdios da nacio-
aquele Estado, acordar a V.M. Ia grande e principal obligación con que nalidade, escreveu o Professor Paulo Merêa que se «havia ideia gene-
aquellas tierras fueron a los Senores Reyes pasados y para tratar de Ia re- ralizada nestes tempos e que por certo a ninguém ocorreria pôr em
dución y catequizar estas gentílicas naciones a nuestra Santa Fé...»17 dúvida, embora se protestasse muitas vezes contra os abusos a que
dava ensejo, era a de que os reis tinham não só o direito, mas o dever
de distribuir mercês, premiando os serviços dos seus vassalos e fiéis e
1.4. A Doutrina dos Prémios
assegurando-lhes a condição e estado que os seus deveres exigiam.
Por isso os moralistas dessas eras, se por um lado enalteciam a justiça
Em função de objectivos mais particularizados, cabe ainda, dis-
do Rei como virtude capital, logo a par colocavam a sua liberalidade,
semo-lo, mencionar como causa âonandi a recompensa concedida e
predicado por igual inerente a um príncipe digno desse nome»20.
justificada pela obrigação que à Coroa assistia de premiar o vassalo
Efectivamente, o dever régio de premiar tem uma genealogia an-
merecedor. Ainda que subsumido aos intentos mais elevados do po-
tiga e o sólido amparo da doutrina. No quadro dual em que a filoso-
voamento e da evangelização, nas cartas quinhentistas de doações
fia escolástica decompôs o conceito estrito de justiça, a justiça distri-
das primeiras capitanias brasileiras segue-se logo à declaração régia
butiva contra p unha-s e àquela outra que se denominara comutativa. E
dos objectivos primeiros, o anúncio previdente de que se houve por
se esta tinha como enquadramento a relação de laços estabelecidos
bem «repartir e ordenar [a costa] em capitanias de certas léguas para
entre pessoas privadas, a primeira respeitava às relações do todo da
delas prover aquelas pessoas que me bem parecer...»18.
comunidade com cada membro seu em particular, harmonizando en-
Assim o impunha e permitia doutrina antiga, presa ao próprio
cargos e prémios segundo a capacidade e mérito de cada um.
cerne do sistema das doações régias, i.e., o dever de premiar, que se
Vincando equanimemente a transcendência dos dois conceitos,
fazia aqui entrançar sabiamente com os intentos expansionistas e co-
castigo e prémio, José António Maravall sublinhou, todavia, a relevân-
lonizadores. É oportuno recordar que ainda em 1657, Fr. Cristóvão de
cia política do segundo, referindo-se-lhe no âmbito de «cuestión im-
Lisboa, Bispo de Angola e homem experiente nas questões brasílicas,
portante en relación con Ia justicia: Ia repartición de honras y cargos.
solicitado a dar o seu parecer sobre uma eventual concessão de capi-
La distribución de los prémios es uno de los puntaíes dei princi-
tania a Salvador Correia de Sá, observa que
pado»21. Também entre nós Martim de Albuquerque notou que para
os tratadistas antigos, «mais alta que a função de punir é a função de
«parece justa, acertada e conveniente a doação da nova Capitania, além
galardoar»22. Manuel Alvares Pegas, o célebre causídico seiscentista
de que na presente conjuntura é bom que se busque por todas as vias coi-
que, contra as pretensões da Coroa, defendeu os direitos dos Condes
sas de que V. Majestade possa fazer doações, sem detrimento de sua fa-
de Vimioso à Capitania de Pernambuco, apresentou precisamente
zenda, para ter com que pagar serviços e animar os homens até fazer
como ponto primeiro da sua Alegação de Direito o postulado de que «é
muitos outros. A mercê das doações tira dois fins, um enriquecer a pes-
regalia do Príncipe, própria natureza do Rei premiar os vassalos que
soa particular que recebe tal benefício pelos seus serviços, outro a utili-
o servem e remunerar os serviços que se fazem»23. Além da autori-
dade que daí resulta ao Reino, porque quantas mais capitanias povoadas,
dade de Santo Isidoro, Valenzuela, Cassiodoro e outros mais, Pegas
tantos mais navios virão carregados de açúcar e outros frutos» 19 .
não esquece a letra das Partidas, para concluir adiante que «não há
O dever de premiar ou galardoar, além de se centrar, como disse-
20 PAULO MER£A, ín História de Portugal. Edição Monumental Comemorativa do $.°
mos, na própria construção das doações régias, era uma componente
Centenário da Fundação da Nacionalidade. Direcção Literária de Damião Feres, Barcelos,
indissociável da prática genérica da justiça, entendida como um dos 1938-1954, voí. n, p. 468.
21 JOSÉ ANTÓNIO MARAVALL, op. cit., pp. 260-263.
17 CÂNDIDO MENDES, op. cit., p. 35. 22 MARTIM DE ALBUQUERQUE, op. cit., p. 719.
18 Carta de doação da Capitania de S. Vicente (1536), m DBN, voí. 13, pp. 136-137. 23 MANUEL ÁLVARES PEGAS, Allegaçam de Dereito por parte dos Senhores Condes de
19ALBERTO LAMEGO, A Terra Goitacá à luz de documentos inéditos, Rio, 1913, vol. n, Vimiozo sobre a svcessatn da Capitania de Pamambuco. Composta peio Licenciado.,., Évora,
pp. 63-64. Oficina da Universidade, 1671, pp, 5-10.

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Reino sem Vassalos; seus serviços reais e pessoais são os que susten- dos serviços que lhe foram feitos como pelo exemplo que disso recebem
tam o peso da Coroa, e para a conservação das Monarquias é razão os mesmos vassalos para fazerem outros semelhantes»26.
de estado premiar os Vassalos e observar-lhes as mercês»24.
E, como este, muitos outros documentos se poderiam aduzir a Recordemos também que a letra das cartas de doação das capita-
comprovar a firmeza com que a doutrina se incrustou na consciência nias da Madeira e Porto Santo feitos pelo Infante a João Gonçalves
do tempo. Sublinhemos ainda somente, o exórdio da carta pela qual Zarco (1451)27 e a Pêro Correia (1459)28 não aludem aos méritos dos
o Rei D. Manuel fez Conde de Viana ao heróico D. Duarte de Mene- donatários; todavia, eles são presentes ao monarca pelo próprio In-
zes - já publicada por Martim de Albuquerque - em que o Monarca fante quando se torna essencial a confirmação régia das mercês.
confessa que Os serviços perpetuados nos diplomas são da mais variada índole,
predominando, compreensivelmente, os militares. A Rui Gonçalves
«considerando nós como todo bom e virtuoso Príncipe deve aos bons e da Câmara (1473) e Fernão Telles (1479) é concedida a Capitania das
grandes serviços que a ele e a seus Reinos são feitos e galardoar com Ilhas que descubram «por serviço de paga e remuneração» dos feitos
muitas e grandes mercês, liberdades e graças, por os bons, com espe- praticados em África29. O esforço heróico de António da Silveira des-
rança do devido galardão, acrescentarem em sua bondade e os maus pendido na defesa de Diu e os de D. Francisco Mascarenhas na de
com prémio dos bons cessarem suas maldades, e desejem ser bons...»25 Chá u I, valem-lhes, respectivamente, as capitanias de Machico
(1536)30 e a do Faial e Pico (1573)31. A Paulo Dias de Novais dá-se uma-
Capitania em Angola (1589) respeito «haver catorze anos que anda na
1.5. A Concessão de Capitanias como Galardão conquista do dito Reino de Angola e os muitos grandes trabalhos e
perigos de vida que tem padecido e as muitas despesas de sua fa-
Nessa pressuposta relação prémio-serviço, não admira, pois, que, zenda que na mesma conquista tem feito e às muito grandes vitórias
como regra geral, nas cartas de doação dos monarcas das várias di- que Nosso Senhor na mesma empresa lhe tem dado»32.
nastias que em Portugal reinaram, se incluam introdutoriamente mais Por várias vezes, os préstimos herdam-se, acumulam-se e repor-
ou menos amplos relatos das circunstâncias que justificaram tais ré- tam-se a dois ou mesmo três indivíduos, como atrás na aludida carta
gias benesses. que concede a mesma Capitania do Faial a D. Álvaro de Castro, pe-
As cartas de doação das várias capitanias do Ultramar não são ex- los serviços próprios, pelos do irmão D. Fernando e pelos do pai, o
cepção, possuindo cada um dos capitães primários mais ou menos grande D. João de Castro. A D. João de Menezes e Vasconcelos é dada
avantajada folha de serviços prestados à Coroa, deixados manifestos em 1566 a Capitania da ilha do Fogo pelos serviços patentes e pelos
naqueles diplomas menos como vão alarde dos beneficiários, do que da futura sogra, a C ama ré i rã-Mor33. Agostinho Barbalho Bezerra vê
necessária justificação da disposição dos bens reais e prova patente da recompensados em 1664 trinta e sete anos de carreira militar no Bra-
justiça activa e omnipresente do monarca munificente. Leia-se, por sil, bem como os préstimos do pai, Carlos Barbalho, com a Capitania
exemplo, a carta pela qual D. João III fez doação das capitanias do Faial da Ilha de S. Catarina34. O 1.° Visconde de Asseca recebe em 1676 a
e do Pico ao fidalgo D. Álvaro de Castro, remunerando-o pelos servi-
ços heróicos do pai, o grande D. João de Castro, pelos do irmão D. Fer-
nando e pelos do próprio D. Álvaro, diploma em que se declara que 26 AÃ, vol. 4 (1882), PP. 220-226.
27 DP, I, p. 448.
28 Idtm, p. 557.
«é coisa justa e devida aos Reis na satisfação dos serviços de tais vassa-
29 CD, respectivamente pp. 157 e 160.
los perpetuarem a lembrança deles assim porque se segue disso ver-se 30 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, História Genealógica da Casa Real Portuguesa,
em todos tempos que cumpriram com o que eram obrigados no galardão 2." ed., Coimbra Atlântida, Provas, V, pp. 343-344.
31 AÃ, vol. 4 (1882), pp. 225-226.
32 MM, tomo IV, p. 498.
24 Idem, p. 24. 33 SGC, I, p. 145.
25 MARTIM DE ALBUQUERQUE, op. cii., p. 720. 34 DBN, vol. 13, pp. 74 ss.

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CRIAÇÃO, T R A N S M I S S Ã O E EXTINÇÃO DAS CAPITANIAS CRIAÇÃO, TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S

Capitania da Paraíba «por qualidade de serviços com mais partes que messa da Capitania de Sta. Maria ao Conde de Castelo Melhor (1667)
nele concorrem muito merecedores de lhes fazer mercê e em memó- justifica-se com significativo laconismo nos «merecimentos e quali-
ria dos muitos e honrados serviços que seu pai, Salvador Correia de dades» do ministro omnipotente43. É conhecida também a doação da
Sá e Benevides; tem feito a esta Coroa»35. Do mesmo modo recebe Capitania da Serra Leoa a Pedro Alvares Pereira, do Conselho de Es-
Luís de Abreu de Freitas em 1685 a Capitania de Xingu, no Brasil, pe- tado de Filipe II, pelos seus serviços e pelos do pai, o célebre político
los serviços de seu pai, Gaspar de Abreu de Freitas, Embaixador em e diplomata Nuno Álvares Pereira, elgran secretario, especialmente os
Inglaterra36.
Contrastando, casos há - como o dos primeiros donatários do Bra- «muitos e particulares serviços que fez ao dito senhor Rei meu Pai na ma-
sil - em que o peso dos méritos próprios é genericamente invocado; as- téria da sucessão do Reino de Portugal, sendo o primeiro homem que de-
sim sucede, por exemplo, nos diplomas respeitantes a Martim Afonso pois da morte dei Rei D. Henrique se foi a Badajoz, onde sua Majestade
de Sousa (1535)37, a Pêro do Campo Tourinho (1534)38; a Vasco Fer- estava, como a seu Rei e senhor verdadeiro e natural para o servir...»44
nandes Coutinho (1534) ou a Duarte Coelho (1534)39: o formulário em-
pregado assemelha-se, no essencial, ao contido na carta de doação da Por outro diploma do mesmo tipo, ainda que anterior (1581), é Fi-
Capitania de Itamaracá, ao célebre ministro Conde da Castanheira pe- lipe I de Portugal quem concede a Capitania da Praia, atendendo aos
los «muitos e mui continuados serviços que dele tenho recebido e es-
pero que ao diante me fará e como por eles e pelos muitos mereci- «muitos e mui continuados serviços que me tem feitos dom Cristóvão de
mentos da sua pessoa é razão que receba de mim ora mercê...»40 Moura meu gentil homem da câmara [...] e aos seus muitos merecimen-
Mas nem só os préstimos bélicos são recompensados. João Vo- tos em todas as coisas de que o encarreguei e especialmente nas que to-
gado - «cavaleiro da nossa casa e escrivão da nossa fazenda nos tem cam a estes reinos, assim no tempo que foi meu embaixador neles, como
mui bem servido e nós somos obrigados de o galardoar em todo o que depois que tomei a posse deles fazendo e procurando tudo o que lhe
bem possamos» - recebe em 1642 da mão do Rei a Capitania de duas mandei para benefício dos mesmos Reinos de que me tem dado aquela
ilhas não incertas41. Burocratas como Rodrigo Afonso, Vedor da Fa- boa conta que eu dele esperava conforme a grande confiança que dele te-
zenda da Infanta, António de Basto Pereira, Secretário Régio, e Pedro nho e ao muito contentamento que sempre tive de sua pessoa e serviço
Sanches Farinha, Secretário das Mercês, foram galardoados, respecti- pelos quais é razão que receba de mim mercê»45.
vamente, em 1488, 1715 e 1674 com as capitanias de Santiago de
Cabo Verde, da Praia e da Graciosa, estas duas nos Açores.
Fenómenos de especial valimento político e cortesão justificam 2. A Transmissão
também a concessão de capitanias. Valha como exemplo o aludido
caso do Conde da Castanheira, ou do Conde de Penela, Vedor da Fa-
zenda de D. João III e capitão da Ilha do Fogo42. Um alvará de pro- 2.1. Generalidades

De tudo quanto vimos dizendo, se conclui que a constituição de


35 lâtm, p. 209, e ID, vol. 7, pp. 532 ss. capitanias correspondia a uma mercê preenchida por bens régios de
36 Vide HÉLIO VIANA, «A última capitania hereditária do Brasil (1685)», ín Estudos vária natureza, concedidos ao levar em conta serviços passados e fu-
de História Colonial, S. Paulo, 1948, pp. 302-303.
turos de um súbdito a quem se facultava o gozo de terras, rendas e ju-
37 DBN, vol. 80, p. 110.
38 D. ANTÓNIO CAETANO, op. ca., Provas, VI, p. 83. risdições como contrapartida do desempenho adicional de tarefas de
39 Vide o treslado desta carta na certidão passada e subscrita por Gaspar Álvares administração pública, usual e directamente prosseguidas pela Coroa.
de Lousada e anotada por Tomé Pinheiro da Veiga ern 1629, no Códice 7627 da
Biblioteca Nacional de Lisboa, ff. 64-69v.
40 DBN, vol. 80, pp. 296-305. 43 AÃ, voí. 15, p. 71.
41 CD, p. 147. 44 VIRGÍNIA RAU, op. dt., p. 623.
42 SGC, I, p. 94. 45 AÃ, vol. 4 (1882), pp. 168-169.

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C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E EXTINÇÃO DAS C A P I T A N I A S C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E EXTINÇÃO DAS CAPITANIAS

É certo que as liberdades régias estavam enquadradas firme- Pico em 1573, a D. Francisco Mascarenhas por outras três48. São
mente pelo anteparo da Lei Mental, construída e fundada no princípio mesmo conhecidas algumas situações em que a hipótese de trans-
básico de que os bens da Coroa, ainda que doados por especiais mo- missibilidade por via hereditária é liminarmente excluída pela con-
tivações, não perdiam essa natureza primária, inibitória de actos ten- cessão da Capitania numa simples vida. Tal o caso da mercê das mes-
dentes à divisibilidade, à alienação inttr vivos ou disposição mortis mas capitanias do Faial e do Pico ao Conde de Lumiares em 1614,
causa por parte do Donatário sem acto expresso de dispensa que a lei «em uma vida somente»49, e, já no século XVIII, deparamos com as
facultava ao Rei poder conceder pontualmente. igualmente raras doações das capitanias da Graciosa a dois membros
Mas, se todas essas concessões vinham carregadas de um sentido da família de burocratas Sanches de Baena, em 1674 e 170550, numa
honorífico e nobilitante, universalmente reconhecido e tornado vul- só vida, e a da Praia, na Ilha Terceira, por duas, em 171551.
tuoso pela anexação de benesses de natureza patrimonial, as influên-
cias da tradição feudal e a ânsia natural de perpetuar numa estirpe
2.3. A Aplicação da Lei Alentai à Sucessão
tanto honras como bens, conduziram a uma vulgarização daquele
das Capitanias
tipo de dispensas, acentuando uma já sensível concepção patrimonial
do bem doado com a sequente generalização de - pressuposta a he- Referimos no ponto anterior que nas concessões de capitanias de
reditariedade da mercê - situações de venalidade, penhorabilidade ou juro e herdade52, o número de transmissões era, em princípio, ilimi-
pura transmissibilidade por dote ou mortis causa. Delas nos iremos tado, dada a natureza perpétua da doação. E dizemos que em princí-
ocupar nos pontos seguintes. pio porque para todo o período de concessão de capitanias vigora in-
tegralmente o dispositivo condicionante que a Lei Mental impôs às
sucessões dos bens da Coroa, vinculados assim ao primado da pri-
2.2. A Transmissão lure Hereditário mogenitura e masculinidade na sucessão, por um lado, e da ínaliena-
bilidade por outro, revertendo à Coroa pela falta dos primeiros ou
Abordamos em primeiro lugar as situações de transmissão de ca- pelo desrespeito da segunda.
pitanias iure hereditário, materializadas de modos tão diversificados É certo e sabido que a Lei Mental, apesar de remontar como prin-
quanto o permitia a munificência régia ao condicionar a sucessão dos cípio ao reinado do Rei da Boa Memória, foi só publicada pelo sucessor,
bens a duas ou três vidas de donatários, ou tornando-as perpétuas D. Duarte. Ainda que omissa nas Ordenações Afonsinas é acolhida nas
pela qualificação, que à mercê se dava de juro e herdade. Manuelinas e, depois, nas Filipinas53. Umas vezes só patente no espí-
Numa e noutra modalidade são conhecidos variadíssimos exem-
plos, ainda que por tempo limitado à existência de dois ou três dona- 48 AÃ, vol. 4 (1882), p. 226.
tários sejam poucos os casos detectados. As capitanias da Ilha de 49 Idem, p. 229.
S. Tomé e da Ribeira Grande, em Cabo Verde, concedidas respectiva- 50 Idem, pp. 377 e 380 ss.
mente em 1486 e 149746, são-no em três vidas - a do Capitão, filho e 51 AÃ, vol. 6 (1884), p. 342.
neto varões legítimos -, situação excepcional à época, dado que as 53 A utilização da expressão de. juro e herdade nas cartas de doação das capitanias
insulares é rara, mormente no séc. XV; encontramo-la excepcionalmente na de S. Tomé
raras capitanias concedidas em vidas constituem exemplos típicos e (1486) - «lhe damos de juro e de herdade para ele e todos seus herdeiros» (DP,
extremos de uma mais tardia degradação da figura, encarada não já pp. 302-303) - e, já no séc. xvi, na Capitania de S. Jorge (1538) (CD, p. 186). Nas do
como instrumento de colonização, mas como prebenda nobilitada Brasil, aí sim, a generalização do privilégio a todas elas, consagra nas respectivas car-
pela anexação temporária de poderes públicos. A Capitania da Ilha tas o uso da fórmula «de juro e herdade para todo o sempre».
53 Sobre a lei Mental veja-se (além de OM, 1.2, t. 17, e OF, 1.2, t. 35) o comen-
Brava é concedida em 1545 por duas vidas47, e a das Ilhas do Faial e
tário essencial de MANUEL ÁLVARES PEGAS, «Tratatus de Lege Mentalí Regni Portuga-
liae», in Cotnmentaria ad Ordinattones Regni Portugalliae, tomo 1.°, e PAULO MEREA,
«Génese da Lei Mentaí», in Novos Estudos de Direito, Barcelos, 1937. Vide tb. MARCELLO
46 Veja-se, respectivamente, DP, III, pp. 302-303, e SGC, I, p. 52. CAETANO, História do Direito Português, I, Lisboa, Verbo, 1981, pp. 513-515, e ANTÓNIO
4 7 SGC,I, p. 121. MANUEL HESPANHA, História das Instituições, Coimbra, Almedina, 1982, pp. 286-289.

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CRIAÇÃO, T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS

rito que subjaz às cláusulas de sucessão dos diplomas constitutivos, Será só no século xvii que o problema é levado de novo a tela de
outras vezes é alvo de expressa menção, ainda que rara. Surge-nos, juízo. Desta feita, no decurso da lide que opôs a Camareira-Mor,
por exemplo, em 1490 e em 1493 nas doações da Capitania de S. Tomé Marquesa de Castelo-Melhor, a Luís Gonçalves da Câmara Coutinho
sob as fórmulas variadas de «segundo forma da Lei Mental» ou «sem sobre a sucessão da Capitania do Funchal, aberta pela morte do úl-
embargo da Lei Mental»54. Na doação das terras a descobrir por Gas- timo Capitão, Conde de Calheta61.
par Corte-Real, concedem-se-lhe em 1500 uma série de faculdades, A primeira, irmã primogénita do Conde, não contestando a apli-
também «sem embargo da Lei Mental»55. Além de referências espo- cabilidade da Lei Mental, amparava-se de uma dispensa concedida
rádicas numa doação de Capitania ao Conde de Penela em 153656 e pelo alvará de 2 de Outubro de 1539, nunca utilizada, para tornear a
em toda a série das capitanias brasileiras, parece que só a administra- falta do requisito da sucessão varonil. O segundo, primo por via pa-
ção filipina curou de mencionar sistematicamente o diploma do Rei terna do ultimo Capitão, invocava um muito mais radical argumento:
Eloquente, como na carta de confirmação das capitanias do Faial e do pretendendo arredar a Lei Mental para fazer valer a sua posição de
Pico a Jerónimo Dutra em 1582, em que o dispositivo sucessório se transversal à face do direito sucessório comum, contestava - em ter-
declara expressamente «conforme à Lei Mental»57. mos semelhantes aos que alguns anos antes invocara Jerónimo Dutra
Não foi, porém, pacífica a sua aplicabilidade nalgumas capitanias, - que à doação da Capitania feita pelo Grande-Dona tá rio fosse apli-
suscitando-se uma questão que, levada a termo, acabaria por reforçar a cável a Lei Mental, dado ser a data da doação das ilhas madeirenses ao
construção doutrinária que estendeu a estas doações o regime consa- Infante D. Henrique (26-9-1433)62 anterior à da publicação da Lei
grado. Em duas ocasiões, pelo menos, a dúvida foi suscitada em juízo: Mental, e assim «não ficar compreendida, nem sujeita à dita lei»63.
a primeira, nos finais do século XVI, após a morte de Manuel Dutra, Ca- A sentença que deu por vencedora a Marquesa, atribuindo-lhe a
pitão das ilhas açorianas do Faial e do Pico. O filho, Jerónimo Dutra, re- Capitania do Funchal, tem a data de 11 de Agosto de 1676, apresen-
tomando a acção do primogénito entretanto também falecido, preten- tando-se fundamentada em dois factos que directamente frontaliza-
deu suceder na Capitania paterna, amparando-se do comum direito vam a argumentação da parte vencida:
sucessório, que entendia ser-lhe aplicável pela interpretação lata da carta
constitutiva de 1468, na qual o Grande-Dona tá rio, Infante D. Fernando, a) A indiscutível natureza de bens da Coroa que possuíam as ilhas
concedera a Capitania a Jos Dutra, para si e «para filhos e netos e des- doadas ao Infante, decorrente de - reza o acórdão - «as ditas
cendentes por linha direita masculina»58. O pretendente afastava para Ilhas, ainda depois de descobertas, se adquirirem à Coroa, e que
isso a Lei Mental, que, como transversal, o excluía automaticamente da nela estavam incorporadas; e que o dito Sereníssimo Infante
sucessão, argumentando que a doação tinha sido feita originalmente D. Henrique as logrou como Donatário da mesma Coroa, da qual
pelo Infante, «a qual concessão se não pode regular pela Lei Mental, as- se aceitou pela mercê que lhe fizeram o Senhor Rei D. Duarte seu
sim por ser feita pelo dito Infante, que não era e reconhecia superior»59. irmão, e o Senhor Rei D. Afonso V, seu sobrinho. E outrossim,
Quer a sentença de 1571, que negou a razão ao pretendente, quer para delas ou de alguma parte poder o Sereníssimo Infante fazer
a outra, de 1582, que finalmente lha deu, nenhuma foi proferida levando doação, foi necessário que os ditos Senhores Reis, para haver de
em conta este argumento, mas outros de espécie totalmente diversa60. o fazer lhe dessem licença por serem bens da Coroa, que sem ela
não podem alhear-se...»64
h) Ora, «em todos os bens da Coroa tinha lugar a Lei Mental, e é re-
54 Cartas de 3-2-1490 a João Pereira e 29-7-1493 a Álvaro de Caminha, in, res-
solução dos nossos Reinícolas que escreveram sobre esta matéria,
pectivamente, DF, III, pp. 359-360 e 553-555.
55 CD, p. 206.
56 Idem, p. 111.
57 AÃ, vol. 4 (1882), p. 228, c. de 15.6.1582. 61 Reportamo-nos à sentença in MANUEL ÁLVARES PEGAS, Comme.nia.na..., t. xu,

58 CD, pp. 152 ss. pp. 46 ss.


59 GTT, III, pp. 6-7. 62 Data cit PEGAS, op. cif., t. xii, pp. 46-47.
60 Idem, respectivamente GTT, pp. 5-15, e JORGE DE CABEDO, Pratícorum obsetvario- 63 lâem, p. 47.
num seu Decisionum Supremí Lusilaniae Senatus, Lisboa, 1610, II - Dec. XXXII, pp. 48-49. 64 Idem, tbidem.

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C R I A Ç Ã O , TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS C R I A Ç Ã O , TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS

que estas doações das Ilhas feitas pelo Sereníssimo Infante D. Hen- São estes, pois, os princípios que enquadram os preceitos de na-
rique se regulam como as dos mais bens da Coroa, por ele as fa- tureza sucessória contidos em muitas das mais antigas cartas de doa-
zer com licença do Rei, e assim ficaram registadas como se o ção de capitanias. Aí, a expressão fulcral é que «morrendo ele, a mim
mesmo Rei as fizera.»65 praz que o seu filho primeiro ou segundo, se tal for, que tenha este en-
c) Isto - prossegue a sentença - sem que obstasse poder dizer-se carrego pela guisa suso dita e assim de descendente em descendente
«que a concessão e doação da parte da Ilha da Madeira que o Se- por linha direita»71.
reníssimo Infante D. Henrique fez ao dito João Gonçalves Zarco É o formulário que, ipsis verhis, ou com ligeiríssimas alterações, se
fora feita antes da Lei Mental, e assim não ficou compreendida nos depara nas doações das capitanias da Madeira (Machico 144072,
nem sujeita à dita Lei a tal doação, nem regular-se por ela, ao que Funchal 1450), de Porto Santo (1446)73, bem como nas de Santiago,
se responde que a dita Lei Menta! teria lugar nas doações feitas pe- em Cabo Verde (1485)74, e na de S. Tomé (1486)75. Se bem que as das
los Reis antecedentemente, como nas que se fizeram subsequen- ilhas de Sta. Maria e da Terceira (nas jurisdições da Praia e Angra) da-
temente.»66 tadas de 149776, tudo resumam à fórmula breve «e assim de descen-
dente em descendente por linha direita», a das Ilhas do Faial e do Pico,
Assim o cominavam as Ordenações vigentes, em perfeita conso- nos Açores (1468)77, torna claro que a linha sucessória, além de direita
nância com o que já fixo andava nas Ordenações Manuelinas67, reco- é masculina, precisão que por expressão própria ou remissão para a Lei
lhido do diploma do Rei D. Duarte, solucionando de vez todas as Mental se consignará também nas cartas de doação da Capitania de
questões suscitadas pela letra menos clara das doações, «por mais S. Tomé em 1486, 1490, 1493 e 149978. Qualquer dúvida que se nos
exuberantes cláusulas e palavras que tenham»68. colocasse à uniformidade do regime sucessório subjacente a estas fór-
mulas, dissipa-se pela leitura dos diplomas relativos às capitanias de
«As quais declarações, assim por [D. Duarte] feitas havia por lei uni- S. Jorge (1483) e Graciosa (1507), ambas nos Açores:
versal, e mandava que se cumprissem e guardassem, e houvesse lugar
geralmente em quaisquer casos dos sobreditos que ao diante de facto «... e assim depois do seu falecimento o seu filho maior varão lídimo
acontecessem, assim nas doações feitas até então das terras da Coroa do ou o segundo, se tal for, assim de descendente em descendente por linha
Reino pelos Reis que antes eles foram, ou por ele, como nas que se ao direita masculina, assim como os capitães da Ilha da Madeira as têm por
diante fizessem pelos Reis que depois dele viessem, a quaisquer pessoas, suas cartas»79.
de qualquer condição que fossem...»69
A doação filipina das capitanias do Faial e do Pico a Jerónimo Du-
A parte vencida ainda reclamou da sentença apresentando em- tra em 1582, corrobora-o também:
bargos. Todavia, uma sobre-sentença de 30 de Agosto de 1677 viria a
confirmar o peso indesmentível dos argumentos formulados por «Virão as ditas capitanias a seus descendentes que dele ficarem por
parte da marquesa e a «conservação do seu direito e justiça»70. linha direita masculina e as não poderão haver os descendentes nem

65 Idem, ibidem.
66 Idem, ibidem. 71 C. de doação de Machico (1440), in DP, l, p. 404.
67 OM, 1.2, t 17, §22. 72 Idem, ibidem.
68 PEGAS, oy. cit., t. xii, p. 48. 73 Idem, p. 449.

69 OF, 1.2, t. 35, § 26, e tb. § 6. 74 SGC, III, p. 42.

70 Vide. a Sentença e Sohre-sentença do Condado da Calheta, dada a favor de D. 75 DP, III, pp. 302-303.

Mariana d'Alencastro, Vasconcelhs, c# Camará, Marqueza de Castello-Mdhor, contra Luís 76 Respectivamente, CD, pp. 177, 163 e 175.

Gonçalves Cominho da Camará, eíc., Lisboa, Na Offícina de Joam da Costa, 1677, e tb. 77 CD, p. 153.

NELSON VERÍSSIMO, «A Capitoa Donatária», in Islenha, n.° 3, Julho-Dezembro de 1988, 78 DP, III, respectivamente pp. 302-303, 359-360, 404-405, 553-555.

pp. 74-90. 79 CD, pp. 183 e 217.

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CRIAÇÃO, T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS

transversais, que é conforme à Lei Mental e o que nas doações dos capi- 2.4. A Dispensa da Lei Alentai
tães da Ilha da Madeira é declarado.»80
Sabido é, porém, que a própria letra das Ordenações deixava claro
Uma excepção era aberta, porém, à regra geral da primogenitura: que o Rei podia dispensar a aplicação do dispositivo clássico. Na rea-
o caso de incapacidade do filho naturalmente chamado à sucessão. lidade, sem embargo dos intuitos que tinham levado à promulgação
Algumas cartas consignam-na expressamente, v.g., a da doação da da célebre Lei, «não era sua tenção tirar de si o poder de dispensar
Capitania de S. Tomé (1493) a Álvaro de Caminha, em que se admite com a dita lei em parte ou em todo nos casos em que lhe parecesse
que «em caso que o tal herdeiro seja incapaz ou inábil e em tal dispo- justo e razoado ou fosse sua mercê»86.
sição que não seja para herdar a dita Capitania, queremos e nos praz A jurisprudência acolheu, aliás, limpidamente o preceito, como
que o outro sucessor após ele a haja pela dita guisa como dito é en- bem se vê da já referida sentença de 1676, pronunciada na causa cé-
quanto os aí houver e dito seja sem embargo da Lei Mental e de quais- lebre que suscitou a sucessão da Capitania do Funchal:
quer outras leis...»81.
Na confirmação da Capitania de S. Jorge, nos Açores, a João Vaz «É permitido ao Príncipe doador alterar, limitar e modificar conces-
Corte-Real (1497), também se adverte de que «sendo caso que o filho sões e doações semelhantes, com a justa causa que nele se presume [...]
primeiro não seja de tal siso e entendimento que deva governar a dita o Príncipe reserva para si este poder, e é princípio certo e sabido em di-
capitania, então queremos e nos praz que a haja o filho segundo...»82. reito, que se não ignora.»87
E mesmo numa doação mais tardia, como a da Capitania do Faial
e do Pico a D. Francisco Mascarenhas (1573) ainda se estabelece que E frequentemente o fizeram os monarcas portugueses. Os dona-
tários de bens da Coroa foram até muito tarde beneficiados com mer-
«sendo o dito seu filho maior inábil que segundo forma de direito não
cês desse tipo, que, elas próprias, se tornavam moeda de remunera-
deva nem possa herdar as ditas nem ter o governo e administração delas,
ção apreciadíssima. Os títulos nobiliárquicos são, talvez, das doações
em tal caso virá à sucessão e herdará as ditas capitanias, jurisdições e ren-
mais atingidas por benefícios dessa natureza. Mas são-no também os
das delas o seu filho segundo»83. senhorios de terras do Reino, valorizados muitas vezes, como aque-
les, com a mercê de uma ou duas dispensas da Lei Mental em matéria
Quanto à necessidade da legitimidade do nascimento do suces- de sucessão. O mesmo acontece com as capitanias ultramarinas,
sor, a aplicável Lei Menta! ou letra das Ordenações que a acolheram, como conjunto de direitos e jurisdições concedidas por mercê régia.
deixavam claro que pela expressa ou implícita referência ao filho va- Originalmente doadas, uma com sujeição plena ao diploma, e outras
rão ou macho «sempre se entendesse legítimo, porque esta fora a ten- dele dispensadas ab initio, acabam por se avantajar as dispensas diri-
ção do dito Rei seu pai, e sua...»84. gidas aos requisitos, quer do sexo quer da própria proximidade ou le-
Em resumo: o regime sucessório das capitanias funda-se, em gitimidade do nascimento dos sucessores. Isto é, permitindo-s e, fal-
princípio, na existência de descendência directa, legítima, varonil, tando a descendência masculina ou legítima, o acesso das mulheres,
sem admissão de transversais. A não verificação de qualquer destes dos transversais e dos bastardos à sucessão das capitanias.
requisitos -tinha como pura e simples consequência a reversão dos Em função dos tipos de dispensa concedida em matéria sucessó-
bens à Coroa, segundo o dispositivo da Lei Mental65. ria, será possível, assim, agrupar duas grandes famílias de capitanias:
a das ilhas atlânticas, sujeitas à Lei Mental, como princípio só pontual
e excepcionalmente dispensado por acto posterior à doação, e a das
«'AÃ, vol. 4(1882), p. 228. capitanias do Brasil, Angola e Serra Leoa, exceptuadas ao jugo da Lei
81 DP, III, pp. 404-405. citada por cláusula ínsita no próprio título constitutivo e justificada
82 CD, p. 185.
83 AÃ, vol. 4 (1882), p. 226.
84 OF, L. 2, t. 30, § 8, e OM, L. 2, t. 17, § 6. 85 OF, L. 2, t. 35, § 26 in fine, e OM, L. 2, t. 17, § 23.
85 Veja-se neste Cap. o que dizemos no § 3. 87 DP, I, 146.

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CRIAÇÃO, T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS

pelo carácter de excepção que se quis imprimir ao conjunto das fa- chegado, macho ou fêmea, segundo em cima se contém» (i.e., preva-
culdades concedidas aos capitães dessas terras tão vastas quanto lon- lecendo depois os que «por linha direita masculina descendem»}91.
gínquas.
Com outro tipo de dispensas beneficia-se a descendência ilegí-
Na carta de doação da Capitania da Ilha Terceira a Jácome de Bru- tima dos capitães, normal e liminarmente afastada pela observância
ges em 2 de Março de 1450, o Infante D. Henrique concede ao fla- estrita da Lei Mental. É dos casos mais conhecidos a concessão feita
mengo que, não tendo filhos, pudesse herdar a filha mais velha ou, em 1474 a Rui Gonçalves da Câmara, Capitão de S. Miguel, na já
por impossibilidade, a que se lhe seguisse por ordem de nascimento, mencionada carta da Infanta D. Beatriz:
mercê excepcional só admitida em face da missão do Capitão de uma
ilha «tão longe da terra firme bem duzentas e sessenta léguas do mar «... E aceitando caso ele não haver filho nem filha lídima e tendo fi-
oceano, a qual ilha se nunca soube povoada de nenhuma gente que lhos bastardos, me prazerá que herde a dita Capitania por seu faleci-
no mundo fosse até agora»88. Em 1474 é a Infanta D. Beatriz, mãe e mento um dos ditos seus filhos bastardos, o que para isso for mais dis-
tutora do Duque Grande-Dona tá rio dos Açores, que concede a Ruí posto, contanto que viva com o dito Senhor. E isto somente por esta vez;
Gonçalves da Câmara, Capitão de S. Miguel, mercê de semelhante daí em diante ficará ao filho de uma filha lídima ou filho lídimo ou bas-
teor, garantindo-lhe que não tendo tardo, qual a herdar, com a condição das outras cartas das capitanias das
ilhas.»92
«filho lídimo e havendo filha lídima, que a dita sua filha herde por seu
falecimento a dita Capitania, contanto que ela case com homem que Como facilmente se constata, trata-se de um tipo de mercê de na-
viva com o dito senhor e por seu aprazimento, sendo pessoa que a bem tureza verdadeiramente excepcional, possivelmente concedida na
mereça e convenháveí à honra do dito Rui Gonçalves»89. previsão de um caso concreto e já esperado, este o do último diploma
citado, pois garantiu eficazmente a sobrevivência do poderio das Câ-
Este tipo de mercê era, sem dúvida, invulgar. Prova-o o não me- maras de S. Miguel.
nos invulgar comentário que o mesmo Duque, em 1483, fez inserir na Mas também cedo as dispensas se transformaram de soluções
continuação da carta anteriormente extractada, declarando-se que providenciais, em autênticos «salvos-condutos» familiares de aplicação
tão imprevisível quanto avidamente ambicionados. O Padre Gaspar
«posto que nela vão algumas cláusulas não costumadas nas cartas das Frutuoso, a propósito desse tipo de mercê aos capitães de S. Miguel,
capitanias, porquanto a dita minha Senhora assim fez pelo sentir por refere «que é das grandes e particulares mercês que os Reis fazem a
meu serviço e por conhecer os grandes serviços e merecimentos do dito seus vassalos»93. A benesse a que alude o cronista açoriano exempli-
Rui Gonçalves, dos quais eu mui inteiramente sei», fica bem as motivações e as condições da sua concessão. A mercê é
de 21 de Março de 1548 e a carta régia invoca como motivos justifi-
não seria ele, Duque, quem a deixaria de confirmar»90. Em 1500, a cados não apenas a folha de serviços bélicos do Capitão Manuel da
carta de doação a Gaspar Corte-Real das terras que vai a descobrir, Câmara, que chegara a ficar cativo em Sta. Cruz do Cabo de Gué, em
é ainda mais lata, concedendo-se-lhe que «não havendo filho varão a África, mas também o primacial e transcendental anseio sobre que
que tudo assim possa ficar, queremos que fique a seu parente mais gira muito do destino de qualquer casa nobre do tempo:

«... para que por falta de varões descendentes dele por linha mascu-
88 Cit. in CHARLES VERLINDEN, «Lê Peuplement flamand aux Açores au XVe. siè- lina se não perca seu nome e memória e daqueles de quem o dito Ma-
cle», in Os Açores e o Atlântico (Séculos XIV-XVII), Actas do Colóquio Internacional ern
Angra do Heroísmo de 8 a 13 de Agosto de 1983, Instituto Histórico da Ilha Terceira,
Angra do Heroísmo, 1984, pp. 293-308. 91 CD, p. 206
89 Carta de 10-3-1474 inclusa na c. de confirmação de D. João III a Manuel da
92 Uem, p. 169.
Câmara de 20-3-1536, in CD, p. 169. 93 GASPAR FRUTUOSO, Saudades da Terra. Livro IV (ilha de S. Miguel), Tipografia do
™ldcm, p. 171. Diário dos Açores, Ponta Delgada, 1924-1931 (3 vols.), p. 182.

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CRIAÇÃO, TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S C R I A Ç Ã O , TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS

nuel da Câmara descende, hei por bem e me praz que vagando duas ve- todos seus direitos e jurisdições, como fora expressa e literalmente de-
zes a Capitania da Ilha de S. Miguel e jurisdição e rendas e direitos dela, clarado no Alvará de 28 de Setembro de 1662, pelo qual o Senhor Rei
que o dito Manuel da Câmara de mim tem por doação de juro e herdade Dom Afonso VI, em consideração dos serviços pessoais de Dom Manuel
para sempre para a Coroa de meus reinos por falta de não haver descen- de Câmara, lhe fez mercê por nova graça de todos os referidos bens va-
dentes machos do dito Manuel da Câmara, que dele descendam por li- gos, para ele e seus descendentes os terem de juro e herdade, conforme
nha direita masculina que segundo forma da Lei Mental de meus Reinos, a Lei Mental...»97.
que é o segundo livro das minhas Ordenações, título 17, e segundo
forma da dita doação hajam de suceder em a dita Capitania, de ambas as De facto, ainda que o Rei D. Afonso VI tivesse entendido por útil
ditas duas vezes tornam a dita sucessão da dita Capitania e jurisdição e doar em 1662 todos os bens da Casa dos donatários de S. Miguel ao
rendas a dita sucessão da dita Capitania e jurisdição e rendas e direitos representante da Família, não se poderia depreender daí a aplicabili-
dela à linha dos descendentes lídimos do dito Manuel da Câmara»9'1. dade do antigo regime sucessório. Efectivamente, era por esse alvará
de 28 de Setembro
Como dissemos, muito do poderio dos Câmaras se terá fundado
em privilégios deste tipo. Privilégios perdidos só em meados do sé- «que estabeleceu por nova graça a dita Capitania no referido Dom Ma-
culo XVII, na sequência dos escabrosos eventos que levaram ao con- nuel da Câmara e a sucessão dela nos seus descendentes, que somente
fisco da Capitania de S. Miguel, nos Açores, ao seu Donatário, o se devia ter regulado a sobredita e última confirmação, e de nenhuma
Conde de Vila Franca, e à sua incorporação na Coroa95. E ainda que o sorte pelas doações antecedentes ao referido D. Manuel da Câmara,
Rei D. Afonso VI tornasse a conceder por alvará de 28 de Setembro novo, singular e gratuito donatário, depois de haver sido a mesma Capi-
de 1662 a D. Manuel da Câmara, herdeiro da Casa, todos os bens va- tania incorporada na Minha Coroa, e de haverem por isso ficado extin-
gos dos Vila Franca, esta doação ficava agora sujeita ao regime geral tas todas as antecedentes Doações, sem que por elas se pudesse mais re-
das doações régias, isto é, «para ele e seus descendentes os terem de gular a dita sucessão, sem que ele e seus sucessores pudesse derivar
juro e herdade, conforme a Lei Mental»96. Daí que tendo sido confir- algum direito das mesmas antecedentes Doações, por não terem outro
mada em 1760 a sucessão na Capitania à representante feminina da título que não fosse o referido Alvará de 28 de Setembro de 1662...»98.
Casa, a Condessa D. Joana Tomásia da Câmara, se tenham levantado
problemas que levaram a que o Tribunal do Desembargo do Paço Consideravam-se, assim,
fosse chamado a pronunciar-se no que à aplicação da Lei Mental res-
peitava. De facto, consideravam os juizes da causa, a incorporação «obreptícios, sobreptícios, fundados com erro manifesto de facto, em
dos bens do infeliz Conde da Ribeira na Coroa levara a que falsa causa e como tais nulos e de nenhum efeito, tanto o dito Alvará de
17 de Julho de 1760, como os despachos que o estabeleceram ou dele se
«todas as Doações e Mercês devidas fora da Lei Mental, que haviam tido seguiram e a carta de Confirmação passada à referida Condessa»,
os antigos donatários dá Capitania da Ilha de S. Miguel, desde a primeira
doação de dez de Maio de 1464 em diante, foram extintas pela superve- do que, rezava o Decreto real de 6 de Setembro de 1766, «veio a re-
niente-incorporação na minha Coroa da Capitania da mesma Ilha e de ferida Capitania a ficar vaga para a Minha Coroa, onde se acha sem
dúvida alguma, para Eu gratificar com eia e seus bens, direitos e ju-
94 AA,voI. 12(1892), pp. 116-118. risdições às pessoas que bem me parecesse...»99.
95 Vide ANSELMO BRAAMCAMP FREIRE, O Conde de Vila Franca e a Inquisição, Lisboa, Diga-se, finalmente, que mercês de idêntico teor às que referimos
Imprensa Nacional, 1899.
para os Câmaras obtiveram também os Condes de Calheta, Capitães
96 Vide o Decreto de 6 de Setembro de 1766 in JOSÉ GUILHERME RJ-IS LEITE,
O Códice 529 - Açores do Arquivo Histórico Ultramarino. A Capitanía-Gerat dos Açores
durante o Consulado Pombalino, Introdução e fixação do texto por..., Direcção Regional 97 Idem, p. 171.
dos Assuntos Culturais, Secretaria Regional da Educação e Cultura dos Açores, s.i.d., 98 Idem, p. 172.
pp. 171-173.
99 Idem, pp. 172-173.

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C R I A Ç Ã O , TRANSMISSÃO E EXTINÇÃO DAS C A P I T A N I A S CRIAÇÃO, T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS

do Funchal, por cartas de 2 de Outubro de 1539100, e graças a esse tipo dos transversais à sucessão dos bens da Coroa, a quarta dúvida das
de dispensas pôde, por exemplo, o senhorio das Ilhas de Sto. Antão, Ordenações Manuelinas, então vigentes, declarava que também ao ir-
Flores e Corvo, manter-se na Casa dos Condes de Sta. Cruz desde a mão segundo lhe ficava vedada aquela,
sua concessão, no século xvi, até aos meados do século XVIII, quando
foi incorporado na Coroa com os restantes bens do desditoso Duque «porque somos certos que tal foi a tenção do dito Rei Meu Senhor e pa-
de Aveiro, herdeiro da mesma Casa101. dre e assim o vimos por ele determinar em alguns casos semelhantes [...]
Adianta-se, porém, que estas dispensas não deverão ser confun- sem querer nunca consentir que fizesse trespassamento a eles ditos ir-
didas com outra faculdade, consignada em formulários mais antigos, mãos por via de sucessão»106.
dirigida a dispor a sucessão do Capitão falecido em seu filho «pri-
meiro ou segundo, se tal for». Como se lê em Cabedo, a doutrina in- Porém, não sem habilidade, argumentava Jerónimo Dutra que
terpretava com relativa limpidez a cláusula: «per quae verba voluit não seria com essa base que lhe prejudicavam o mérito da causa, pois,
donatur, quod fillius secundus succederet filio primogénito premor- pela mesma Lei Mental,
tuo» 102 . O que não impediu que a simplicidade da expressão moti-
vasse a inclusão de esclarecimentos nas próprias cartas de doação - «na quarta dúvida não se exclui a filho segundo da sucessão dos bens
como se vê nas confirmações das capitanias da Ilha de S. Jorge e de da Coroa senão quando o filho mais velho os houve e possuiu, o que
Angra, na Terceira, aos Corte-Reais, em 1497103 - tendentes a negar a aqui não foi porque o dito Gaspar Dutra irmão dele suplicante faleceu
opcionalidade e a esclarecer que, como sucessor, «se entenda aquele antes que houvesse a posse e que com efeito sucedesse nas ditas capita-
que à hora da morte [do Capitão] ficar vivo», prevalecendo, natural- nias»107.
mente, em caso de concurso, os direitos do primogénito.
Mas uma dúvida remanescia; derivada não da morte do primo- O argumento não colheu, declarando-se na sentença de 6 de Se-
génito em vida do pai, Donatário dos bens da Coroa - caso em que a tembro de 1571 que «o autor Jerónimo Dutra, posto que legítimo seja,
aplicação do dispositivo não apresentava dificuldade de maior, quod não pode nelas suceder, nem tem para isso acção por não ser descen-
extra dubium erat, nas palavras de Cabedo104 - mas decorrente de uma dente do dito Gaspar Dutra, seu irmão e transversal»108.
situação em que o filho mais velho morresse após a morte do pai, auo Inconformado, o fidalgo ilhéu recorreu da sentença, e «in indicio
casu maius duhium erat*05. revisorio - refere Cabedo - lata fuit sententia in favorem dicti Hie-
O tipo de questões suscitadas num evento deste tipo, ficou bem ronymi de Utra armo 1582»109.
patente na questão que opôs Jerónimo Dutra ao Procurador da Coroa A decisão ficou célebre, não apenas porque fez restituir as capi-
no pleito da sucessão das capitanias do Faial e do Pico, tendo como tanias à custa de um cortesão influente do tempo, D. Francisco Mas-
cenário a morte de Manuel Dutra, último Capitão, e quase de se- carenhas, o defensor de Chaul, Vice-Rei da índia e Conde da Vila da
guida, a do primogénito Gaspar. Em situações semelhantes, a Lei Horta, que as detinha desde 1573, mas porque, directa ou indirecta-
Mental era concludente: segundo o princípio da não admissibilidade mente, contribuiu para a génese da lei filipina de 28 de Abril de 1587,
que Cabedo transcreveu na sequência da notícia do pleito de Jeró-
Alvará concedido ao Capitão Simão Gonçalves da Câmara «para que sendo nimo Dutra110.
caso que não tenha filho varão descendente, suceda em falta destes sua filha, etc.», in É fácil apercebermo-nos da importância de que se reveste o di-
MANUEL ÁLVARES PEGAS, Commentaria..., XII, p. 50. ploma, principalmente se nos recordarmos que acabaria, finalmente,
01 Veja-se em AÃ, vol. V (1883), pp. 518-519, uma sentença de 1655 em que e
manifesta a aplicação do maquinismo das dispensas à quebra da linha de sucessão
desse senhorio. 106 OM, L. 2, t. 17, § 12.
102 JORGE DE CABEDO, op. tit., Dec. XXXIII.
107 GTT, III, p. 7.
103 Respectivamente, CD, p. 185, e AÃ, vol. 4 (1882), p. 161. 108 Utm, p. 14.
104 CABEDO, o?, loc. ãt.
109 CABEDO, op. cit., Dec. XXXIII.
105 Idtm, ibidem.
" 0 W e m ( . 49.

118 119
CRIAÇÃO, TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S CRIAÇÃO, T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS

por justificar uma das raras alterações que as Ordenações Filipinas admi- sal legítimo excluindo um descendente bastardo, ou a um transversal ile-
tiram ao texto das Manuelinas, e precisamente em sede da Lei Mental: gítimo de grau mais afastado de preferência a um bastardo de grau mais
próximo»115.
«... e esta declaração haverá lugar - acrescentava-se - e se guardará,
posto que o filho ou outro qualquer sucessor do último possuidor não te- Usando desta faculdade, os donatários desprovidos de herdeiro
nha tomado posse dos ditos bens e terras. Porque sem embargo disso, directo designavam por simples via testamentária o parente que, con-
seu irmão, nem outro transversal, não poderá suceder nelas, ainda que forme a escala legal, poderia esperar suceder-lhes. Em meados do sé-
seja filho legítimo descendente por linha masculina do último possuidor, culo xvi, Fernão do Campo Tounnho, herdeiro de Pêro do Campo, 1.°
a quem sucedeu o irmão mais velho»111. Capitão-Donatário de Porto Seguro, designou no testamento a única
irmã, Leonor do Campo, como sucessora da Capitania116. Nos pri-
Em pólo significa tivãmente oposto ao da tradição seguida até ao meiros anos do século xvil, falecendo D. Isabel de Lima e Sousa, Do-
dealbar do século XVI, está o regime sucessório estabelecido para as natária de S. Vicente, verificou-se ficar nomeado por sucessor no tes-
capitanias brasileiras, acompanhado pontualmente pelo das duas úni- tamento seu primo Lopo de Sousa, que foi também Capitão117. Na
cas capitanias do continente africano, a de Angola e a da Serra Leoa. Capitania do Espírito Santo, ao capitão Vasco Fernandes Coutinho
E a especialidade reside basicamente num único facto, tão importante sucedeu o sobrinho, Francisco de Aguiar Coutinho, por «em seu so-
como é a conjunção generalizada de carácter perpétuo da doação - lene testamento o nomear na sucessão da dita Capitania pelo poder
«de juro e herdade para todo o sempre»112 - com a dispensa total do fazer conforme a dita doação em um parente transversal». Este, por
regime da Lei Mental. sua vez, haveria de nomear para Capitão um outro sobrinho, Am-
brósio de Aguiar Coutinho, confirmado por carta régia de 17 de Maio
«E isto - refere-se no termo das cláusulas sucessórias destas cartas - de 1626118. Na doação da Capitania de Ilhéus a Jorge de Figueiredo
hei assim por bem sem embargo da Lei Mental, que diz que não suce- Correia (1534) chega-se ao ponto de, a todas as faculdades comuns à
dem fêmeas, nem bastardos, nem transversais, nem ascendentes.» 113 generalidade dos donatários brasileiros, fazer-se acrescer o privilégio
excepcional «que ele possa nomear em sua vida ou por seu faleci-
Nessa contingência, o dispositivo usual era - segundo a lição de mento a sucessão da dita Capitania a qualquer dos seus filhos ou
Paulo Merêa - inteiramente substituído por «regras especiais de suces- filhas que ele quiser»119. Em tom semelhante, no ano de 1560, na emi-
são dentro da família, que a aproximavam dos morgados»114. Assim, nência da compra da Capitania de Porto Seguro pelo Duque de Aveiro
na falta de descendente varão, primeiro, e, depois, mulher, à donatária, D. Leonor do Campo Tounnho, o Monarca teve por
bem «e me praz que comprando o dito Duque a dita Capitania, ele a
possa deixar por seu falecimento a Dom Pedro Diniz seu filho se-
«seria chamado à sucessão um ascendente, e na falta de ascendentes
um transversal; em cada uma destas classes o legítimo preferia ao bas-
gundo...»120.
tardo, o grau mais próximo ao mais remoto, no mesmo grau o varão à
mulher, e, finalmente, entre os do mesmo sexo, o mais velho ao mais
115 Idem, ihidem,
moço; os ascendentes legítimos preferiam no entanto aos filhos ilegíti- 116 Carta de confirmação da venda que fez ao Duque de Aveiro em 6-2-1560, in
mos, e era mesmo lícito ao donatário deixar a Capitania a um transver- D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. cit., Provas, VI, pp. 82-95.
117 PEDRO TACQUES DE ALMEIDA, «História da Capitania de S. Vicente», in Revista
do Insiiiuto Histórico Geográfico Brasileiro, Ano 1847, pp. 137-178 e pp. 293-476.
111 OF, L. 2, T. 35, $ in fite, e OM, L. 17, § 12. 118 Veja-se a c. de confirmação a António Luís Gonçalves da Câmara, de
112 DBN, voí. 13, p. 145, 23-11-1666, in DBN, voí. 79, pp. 93-109.
mMem,. 146. 119 EDUARDO DE CASTRO E ALMEIDA, Inventário dos Documentos relativos ao Brasil

114 PAULO MERÊA, «A Solução Tradicional da Colonização do Brasil», in História existentes no Arquivo da Marinha e Ultramar de Lisboa. Bahia 1613-1725, Rio, 1913-1914,
da Colonização Portuguesa do Brasil, Edição Comemorativa Monumental do primeiro voí. II, p. 7.
centenário da Independência do Brasil, Porto, 1924, voí. ui, pp. 167-188. 120 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, of. cit., Provas, VI, p. 93.

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Calcula-se bem quão largamente beneficiaram os herdeiros dos comerciante Lucas Giraídi, por 4825 cruzados126, ou o da Capitania
donatários brasileiros da flexibilidade do regime sucessório estabele- do Espírito Santo vendida pelo Capitão António Gonçalves da Câ-
cido; se considerarmos as dez capitanias subsistentes à data das mara, em 1674, a Francisco Gil de Araújo. É, também, nas Terras de
incorporações pombalinas, verificar-se-á que só duas - e essas conce- Vera Cruz que já no século xvm se projectou outra célebre venda, a da
didas já no século xvn - se mantinham na linha directa de sucessão. Capitania de S. Vicente:
E mesmo as mais importantes capitanias incorporadas na Coroa na
primeira metade do século xvm - Pernambuco e Espírito Santo - tam- «José de Gois de Morais, filho de Pedro Tacques de Almeida, cava-
bém qualquer delas se não mantinha já na linha natural da descen- leiro da Casa Real, intentou comprar ao Marquês de Cascais por qua-
dência dos primeiros donatários. renta e quatro mil cruzados cinquenta léguas que tinha por costa; porém,
El-Rei o Senhor D, João V resolveu que o dito Marquês recebesse da fa-
zenda real esse dinheiro, e ficassem as ditas cinquenta léguas de terra in-
2.5. A Transmissão por Venda corporadas à Coroa e património real»127.

São cronológica e geograficamente muito variados os exemplos É desnecessário especular sobre as motivações dos vendedores; é
de alienação de capitanias. Um dos mais célebres é talvez o da venda certo e sabido que na maioria dos casos os pressionaria o estado las-
feita em 1458 por Bartolomeu Perestrelo, 2.° Capitão-Donatário de timoso de finanças, incompatíveis com as obrigações ou os proventos
Porto Santo, a Pêro Correia121. A opulenta Capitania que os Câmaras magros de capitanias semi-abandonados. Narra Gaspar Frutuoso que
até aos finais do século xvm possuíam na Ilha de S. Miguel, tem ori- quando em Í530 morreu Simão Gonçalves da Câmara, 3.° Capitão do
gem na compra que um irmão segundo do Capitão do Funchal fez ao Funchal, era tão pobre desta vida que «esteve a ilha em termo e ponto
Capitão de S. Miguel, desejoso «de possuir terras onde mandasse de vender a Capitania, por dívidas que ele tinha»128. Bastante expres-
como seu irmão»122. Num diploma manuelino de 1504 refere-se que siva é também a descrição que em 1560 fez da Capitania de Ilhéus o
«João Baptista, que Deus perdoe, houve por compra de Rodrigo seu Donatário, Jerónimo de Figueiredo,
Afonso a capitania da nossa Ilha de Maio», em Cabo Verde123. Nos
primeiros anos do século XVI, Afonso de Albuquerque compra a Ca- «muito danificada e inquieta dos gentios naturais dela que têm feito e
pitania de Santiago de Cabo Verde ao Donatário Jorge Correia, para fazem muito dano, e os engenhos de açúcar que nela havia estão quei-
a tomar a vender em 1533 a Belchior Correia, filho do primeiro ven- mados do dito gentio da terra. E para assentar a dita terra e se tomar a
dedor124. A Capitania do Machico, na Madeira, é vendida em 1548 restaurar para a poder vender o Capitão tem necessidade de fazer mui-
por 35 000 cruzados pelo seu Donatário, António da Silveira, a Fran- tas e mui grandes benfeitorias e despesas e gastos que ele suplicante não
cisco de Gusmão, Mordomo-Mor da Infanta D. Maria para a dar pode fazer, assim por ser solteiro e muito pobre, como por a dita terra
«para a pessoa que casar com D. Luísa de Gusmão sua filha»135. ser tão longe deste Reino e em lugar remoto a que ele suplicante não
Também no Brasil são conhecidos casos de venda, como o da pode acudir. Por as quais causas todas e por não se poder sustentar a dita
Capitania de Porto Seguro, em 1559, pela Donatária, D. Leonor do Capitania nem manter e não poder governar, suster nem granjear e ser
Campo, ao Duque de Aveiro, o da Capitania de Ilhéus, em 1560, ao cada dia rnais danificada e perdida, de sorte que virá a se perder de todo
e valer cada dia menos, está concertado para vender e trespassar a dita
121 DP, I, pp. 547 ss. Capitania e terras, assim e da maneira que as tem por sua doação, a Lu-
122 Cit. in FRANCISCO DE ATHAYDE MACHADO DE FARIA E MAIA, Subsídios para a his- cas Geraldes por preço de quatro mil oitocentos e vinte e cinco cruzados,
tória de S. Miguel ~ Capitães dos Donatários (1439-1766), Lisboa, 1972, pp. 18-19, com
indicação errada da data. Correctamente em CD, pp. 168-169.
123 SGC, I, pp. 61-62. 126 DBN, voi. 80, p. 199.
124 C. de confirmação da Capitania a João Correia de Sousa (16-8-1536), in SGC 127 PEDRO TACQUES DE ALMEIDA, op. cit., p. 305. A escritura encontra-se
pp. 112-115. pp. 306-310.
125 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. cit., Provas, V, pp. 337-342. 128 AÃ, vol. 3 (1881), p. 195.

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que é justo e honesto preço e portanto pouco mais ou menos vende ou- E mesmo no Brasil, quando muitos anos depois, em 1709, ao Pro-
tra tal Capitania a ele suplicante, porque com o dito dinheiro pode com- curador da Coroa foi pedido o parecer sobre a eventual venda da Ca-
prar tença ou rendas de juro em que se poderá melhor sustentar e go- pitania do Marquês de Cascais a José de Gois de Morais, não haveria
pejo em considerar que

Quase cem anos passados, mantém-se o problema dos capi- «ainda que as terras percam um grande senhor, como era ausente pode-
ta e s-dona tá ri os. O alvará régio de 1670, pelo qual se concedeu per- ria o serviço de S. Majestade ter maior interesse no comprador que à vista
missão a António Luís Gonçalves da Câmara para vender a sua Capi- cuidaria mais no aumento e defesa das ditas terras...»133
tania do Espírito Santo, alude às
A opinião tinha o seu fundamento, e, certamente, andaria na me-
«coisas que o obrigavam a se desfazer do senhorio da dita Capitania e
mória de muitos o exemplo da Capitania do Espírito Santo, larga-
lhe não poder acudir com o benefício necessário, por cuja causa se ia per-
mente beneficiada pelo Capitão brasileiro Francisco Gil de Araújo,
dendo e lhe não chegara a render cem mil réis cada ano e quer empregar
que em 1674 a comprara ao Donatário absentista António Gonçalves
os vinte mil cruzados que por ela lhe dava Francisco Gil de Araújo, para
.da Câmara134.
os empregar em juro neste Reino que fique na sua Casa e nos descen-
Mas, como inicialmente se referiu, a sujeição dos bens régios
dentes dele...»130.
doados no quadro da Lei Mental trazia como não menor das conse-
quências o facto de esses mesmos bens jamais perderem a natureza
Em 1709, o Marquês de Cascais, Capitão-Donatário de S. Vi-
primária, pelo que sempre impendia sobre o Donatário a expectativa
cente, suplicando a régia permissão para vender, não se coíbe de fa-
zer notar que a Capitania da reversão e a sequente impossibilidade da livre administração dos
mesmos.
«sem embargo de render em cada um ano 2000 cruzados, os cobra com De facto, dos preceitos contidos nas Ordenações decorriam várias
muita dificuldade pela distância e na inteligência dos seus procuradores (...) consequências. Em primeiro lugar, que qualquer venda, neste caso de
a sua casa receberá grande conveniência e poderá ser maior quando ache capitanias, fosse precedida, mediante petição fundamentada, da es-
bens de raiz em que se empreguem os ditos 40 000 cruzados...»131. sencial autorização régia. Todas as vendas de capitanias a que vimos
aludindo, a de S. Miguel, nos Açores, a de Santiago de Cabo Verde, a
O Rei, por seu tumo, ao autorizar este tipo de transmissões, para de Machico, na Madeira, as de Porto Seguro, Ilhéus e Espírito Santo,
além da conveniência pontual de favorecer vassalos, acabava por le- no Brasil, todas elas, dizíamos, têm na base esse imprescindível alvará
var em conta razões de peso tão indesmentível como as do interesse de licença e consentimento135. Quando em 1709 o Marquês de Cascais,
público ou da Coroa. Em 1474, não o Rei mas o próprio Grande-Do- Capitão de S. Vicente, pretendeu vender parte do seu senhorio a José
natário dos Açores, autoriza a venda da Capitania de S. Miguel, Gois de Morais, teve de requerer ao Rei que lhe fosse passado o alvará
em que se houvesse por bem
«considerando como a dita Ilha desde o começo de uma povoação até ao
presente é muito mal aproveitada e pouco povoada, e considerando
133 ID, vol. 6, p. 320.
quanto será serviço e proveito do dito Senhor e bem destes reinos e na- 134 Veja-se o atestado que em 27 de Julho de 1682 passou o Provedor da Fazenda
turais deles a dita Ilha ser melhor aproveitada e povoada e pelas muitas do Espírito Santo em proveito do Capitão Francisco Gil de Araújo e onde se particu-
mercadorias que dela poderão vir...»132. larizam os benefícios que a nova administração acarretara para a Capitania: a cons-
trução e reforma das fortalezas, o aumento dos efectivos militares, o crescimento da
dízima real, a satisfação das dívidas da Capitania, a reforma dos edifícios religiosos e
129 DBN, vol. 80, pp. 188-189. civis, e, enfim, a fundação de novas vilas. ALBERTO LAMEGO, op. cit., II, p. 148.
130 DBN, vot. 79, p. 170. 135 Expressão contida em SGC, I, p. 113. Vejam-se para todos os casos aponta-

131ID, vol. 6, p. 319. dos, os documentos citados em nota para cada, onde se referem ou transcrevem os
132 CD, pp. 168-169.

:
ditos alvarás.

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«que as ditas 50 léguas de costa se possam dividir e separar das 80 con- dessem ser dadas ou vendidas a pessoa alguma, salvo a cada um dos ou-
tidas na dita doação, para que as 30 resto das 80; e que começam no Rio tros filhos ou netos nascidos depois do primogénito [...] E no caso que
que cerca em redondo a Ilha de Itamaracá e acabam na Baía da Traição não tivesse filho varão legítimo que houvesse herdar a dita terra, não a
que está em altura de 5 graus, que actualmente possui, fiquem a ele Mar- poderia vender, nem escambar, nem alhear por maneira alguma em pes-
quês como estão e a seus sucessores, sem embargo da cláusula de se não soa alguma de qualquer estado ou condição que fosse, senão com sua ex-
poderem partir, escambar, nem em outro modo alhear as 80 léguas de pressa autoridade. E fazendo-se o contrário, a terra ou terras fossem logo
costa, que sempre andariam juntas, de que foi primeiro Donatário Pedro tornadas à Coroa do reino por assim serem vendidas, dadas ou escam-
Lopes de Sousa, dispensando V.M. e derrogando para esse efeito a Ord, badas contra a dita lei.»139
Liv. 2.1, n. 35, §§ 1.1 e 3.1 e todos os mais §§ da dita Lei Mental e quais-
quer outras leis e ordenações que proíbem a divisão, partilha e escambo Em conformidade - e se bem que as doações de capitanias nas
dos bens da Coroa...»136. Ilhas da Madeira, Açores, S. Tomé e Cabo Verde sejam omissas nesse
ponto -, nas bem construídas cartas de doação das capitanias brasi-
Como já escrevemos, seria a própria Coroa, neste caso particular, leiras de Quinhentos e nas de Angola e Serra Leoa, que por elas são
a substituir-se ao comprador. Ainda assim, o Procurador da Coroa foi moldadas, o Monarca não deixa de declarar que,
do parecer
«minha tenção e vontade é que a dita Capitania e governança e coisas ao
«que se devia primeiro de tudo passar alvará de licença que S.M. conce- dito Capitão e Governador nesta doação dadas, andem sempre juntas e
dia para se vender esta Capitania, e ao depois fizesse a escritura da venda se não partam nem alienem em tempo algum, e aquele que a partir, alie-
assim e da maneira que se havia de celebrar com outro comprador par- nar ou espedaçar ou der em casamento ou por outra coisa por onde haja
ticular, incorporando-se nela o dito alvará»137. de ser partida, ainda que seja mais piedosa, por esse mesmo feito perca
a dita Capitania e governança e passe direitamente àquele a que houvera
Era a prática corrente. Na citada escritura da venda que fez Jeró- de ir pela ordem de suceder sobredita, se o tal que isto assim não cum-
nimo de Figueiredo da sua Capitania de Ilhéus a Lucas Giraldi em prir fosse morto»140.
1566, inclui-se o alvará de l de Outubro desse ano, pelo qual o Mo-
narca lhe Inobservada a cominação legal com desprezo da autorização real,
era nula a alienação dos bens, e aquele que a ela procedesse incorria
«quita a venda e alienação da dita Capitania por esta vez, e neste caso hei ipso facto na sua perda em favor da Coroa de onde eram originários,
por bem de derrogar, cassar e alienar e quero que não tenham força nem ou - salvo caso de traição a essa mesma Coroa - em proveito do ime-
vigor algum para impedir nem desfazer a dita venda»138. diato sucessor141. Por sucessos deste tipo ficou célebre a questão que,
nos meados do século XVIII, envolveu a venda da Capitania brasileira
Porque as Or4enaçÕe$ - nas dúvidas lá expressamente resolvidas a da Paraíba dos Viscondes de Asseca. Segundo mais tarde relataria o
bem da inteligência da letra da Lei Mental- eram claras: Donatário ao monarca,

«Se aquele a que a terra ou terras houve por doação Real ou por ou- «no ano de 1709, em que o Visconde Diogo Correia de Sá, que sucedeu
tra qualquer sucessão, houvesse filho legítimo varão e em seu prejuízo a na casa por morte de seu irmão mais velho, parecendo-lhe reduzir o ren-
quisesse dar ou vender a alguma outra pessoa estranha, se o poderia fa- dimento certo em Portugal tudo o que tinham no Brasil, se resolveu a ven-
zer? A qual declarou que a tal terra ou terras por nenhuma maneira pu- der ao Prior Duarte Teixeira Chaves todas as suas fazendas, assim livres,

IM ID, vol. 6, p. 323. 139 OF, L. 2, t. 35, § 19, e OM, L. l, t. 17, § 16.
137 Idem, ihidem. 140 DBN, vol. 13, pp. 146-147.
13B DBN,vol. 80, pp. 189-190.
''" Idem, ihidem.

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como de morgado, ajustando também vender ao mesmo Prior a capita- maior. E não bastaria a confirmação ou a concessão genérica de auto-
nia da Paraíba do Sul e a Alça ida ria-Mor do Rio de Janeiro, no caso de rização para alienar: a venda que Bartolomeu Perestrelo, 2.° Capitão
conseguir a licença de V.M., que nunca houve; mas com semelhante con-
de Porto Santo, fez a Pêro Correia, «como ao tempo era menor- narra
dição se resolveu Duarte Teixeira Chaves a passar ao Rio de Janeiro e da- Gaspar Frutuoso - e El-Rei em prejuízo seu, sem uma outorga, dera
quela Cidade à Capitania da Paraíba do Sul, onde, sem ordem alguma de licença para se vender a Capitania, foi havida e julgada a venda por
V-M. e sem contradição da Câmara daquelas vilas, então menos zelosas nula e de nenhum vigor, e que se descontasse pelas rendas o que se
das regalias da Coroa, exercitou por alguns anos todas as jurisdições de dera por ela»147.
donatário, até que as desordens sucedidas naquela Capitania e a invasão Mais cautelosamente se procedeu aquando da venda da Capita-
dos Franceses, em que também o culparam, fez que o Governador do nia de Ilhéus, em 1560, pois, sendo menor de 25 anos o Donatário
Rio de Janeiro Francisco de Távora o fizesse recolher a este Reino no ano vendedor, houve o cuidado de apostilar o alvará de autorização nos
de 1714»142.
termos de que pudesse
Como averiguara à época o Ouvidor do Rio de Janeiro, o Vis- «vender a Lucas Giraldes a dita Capitania pelo modo e maneira que no
conde de Asseca obrigara-se por ocasião da venda a «alcançar de V.M. meu alvará atrás escrito se contém e lhe supro para isso a idade e lhe dou
em termos de oito anos licença para ter efeito a venda do que tocava licença que ele por si só sem mais outorga, consentimento nem autori-
à Coroa, trespassando-lhe contudo o exercício e jurisdição»143. dade do seu curador nem alguma justiça, possa livremente fazer a dita
Em Lisboa, o Procurador da Coroa opinaria que venda assim como se fora mais de vinte e cinco anos, e para a dita venda
ser mais valiosa supro quaisquer solenidades e defeitos de juro ou de
«porque nem o Visconde de Asseca podia trespassar neste chamado do-
facto que nela haja ou possa haver e derrogo a ordenação do terceiro li-
natário a jurisdição que tinha, como trespassou, nem o chamado dona-
vro, título oitenta e sete do órgão menor de vinte e cinco anos que im-
tário usar dela por virtude daquele título, como usou, por isso quando a
petrou graça para que fosse havido por maior...»148.
não perdesse para a Coroa, o que por ora não discuto, ao menos incor-
reu na pena de se lhe sequestrar pelo abuso da jurisdição e assim re- Resta aludir a outro aspecto da questão, que é o da garantia da es-
queiro que se mande passar ordem ao Ouvidor para que se sequestrem tabilidade do estatuto jurídico inerente a cada uma das capitanias alie-
todas as ditas jurisdições e as ponha na jurisdição da Coroa e não con- nadas, inalterado já também em transmissões ocorridas por simples
sinta uso algum de jurisdição e mando dos donatários»144.
via hereditária, salvo, é evidente, os ajustes que por força da lei geral
do Reino tiveram que ser introduzidas nas doações originais149. De
O parecer do Procurador viria a angariar a concordância do Con-
facto, o Monarca, ao autorizar a alienação pretendida, concedia si-
selho Ultramarino, que expediu entretanto as ordens régias visando
multânea e invariavelmente ao Capitão vendedor a faculdade de
o sequestro da Capitania145, só devolvida aos donatários em 1727146.
transmitir o bem doado na justa e exacta medida de todos os direitos
Cabe ainda notar que, precedendo a alienação de capitanias, e
disputados por via da doação original. Nestes termos, cerca do ano de
além da referida autorização régia, a lei não exceptuava este tipo de
1530, o Rei autorizará o Capitão de Santiago de Cabo Verde a «tres-
bens ao preenchimento de outros requisitos inerentes à normal cele-
passar nele dito Afonso de Albuquerque a dita capitania assim e da
bração dós negócios jurídicos deste tipo; veja-se o caso do suprimento
maneira que o dito Jorge Correia tinha»150. Em 1548 é António da Sil-
régio da idade, isto no caso em que o Donatário vendedor não atin-
veira que vende a sua Capitania de Machico «com toda sua jurisdição,
gisse o número de anos legalmente prefixo para ser considerado
147 AÃ, vol. 3(1881), p. 51.
2ID, vol. 8, p. 222. Sobre esta questão veja-se ALBERTO LAMEGO, op. dl. 148 DBN, vol. 80, pp. 191-192.
3 Carta de 19-5-1711, in ALBERTO LAMEGO, op. cit., p. 1888, n. 59. 149 V.g. a proibição de trazida de escravos, a revogação das mercês de isenção de
1 lâem, p. 189, n. 60.
correição ou as alterações estabelecidas para o valor das alçadas judiciais, como tudo
' Idem, ibsdem,
se refere neste estudo.
s ID, vol. 8, p. 223. 150 SGC, I, p. 113.

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rendas e direitos como dito é e a tem por sua doação»151. E para pôr Aliás, o recurso à transmissão ou parcelamento de capitanias
termo a este sobejo enunciado, referimos ainda que, seis anos passa- como modo de satisfação de encargos em numerário não era inédito.
dos sobre aquela data, em 1554, cabe a vez a D. Leonor do Campo, de Segundo Gaspar Frutuoso, Simão Gonçalves da Câmara, 3.° Capitão
alienar a sua Capitania de Porto Seguro ao Duque de Aveiro, com de- do Funchal, morreu tão pobre que
claração que «vendia para todo o sempre a dita Capitania de Porto Se-
«esteve a ilha em termo e ponto de se vender a Capitania por dívidas que
guro com toda sua jurisdição civil e crime mero e misto império, foros,
ele tinha, das quais era uma a das arras que havia de tomar de sua se-
tributos, direitos, rendas e todas as mais coisas contidas na dita doa-
gunda mulher, D. Isabel da Silva, a Luís Gonçalves de Ataíde, filho dela;
ção e da maneira que a ela tinha, possuía e de direito lhe pertencia»152.
e por este respeito foi necessário desmembrar desta Capitania a Ilha
Deserta, que era de morgado»156.
2.6. Outras Formas de Transmissão
Outro caso - inédito, quanto saibamos, na história das capitanias
Dentro do campo das aquisições derivadas de direitos, cabe ainda ultramarinas - é o da penhora da Capitania de Ilhéus. Vimos já como,
referir alguns casos verificados no âmbito específico da matéria em por compra, o dito senhorio viera à mão do comerciante Lucas Giraldi
estudo. em 1560. Por sua morte sucedeu-lhe o filho Francisco Giraldes, confir-
Começaremos por aludir a uma situação em que a transmissão de mado como Capitão por carta de 19 de Agosto de 1566, passando de-
uma Capitania se processou por via dotal. Tratando D. Diogo de Faro, pois à herdeira deste, D. Maria Giraldes, casada já no dealbar do século
Senhor da Casa de Vimieiro e Capitão-Donatário de S. Vicente, de XVII com Francisco de Sá de Menezes. Na posse destes, o Almirante de
dotar uma irmã para casar com o Conde da Ilha do Príncipe - e sendo Portugal, D. João de Castro - em nome de sua mulher, D. Juliana de
a casa do primeiro «tão ilustre como pobre, e que sempre pelo seu Sousa e, por morte desta, no da filha D. Helena de Sousa, herdeiras de
grande ser e pelo seu pouco ter esteve infelizmente na situação mais Nicolau Giraldes -, exigem a Capitania por conta de 3895 mil réis na
de receber do que dar dotes avultados»153 - não encontrou melhor so- herança de Lucas Giraldi. Obtida sentença favorável no juízo do Cível
lução o fidalgo do que desfazer-se do senhorio ultramarino em pro- da Corte, os demandantes tirariam a indispensável carta de penhora e,
veito do brilho da aliança. Muito prosaicamente comentaria em 1781 de seguida, a licença para levar a lanços a Capitania, o que se fez em
José de Seabra da Silva que «tenho por sem dúvida que o Senhor do Julho de 1615157. Arrematada pelo Almirante, saiu-lhe com embargos
Vimieiro dotou a Capitania por lhe ser mais duro dar 20 mil cruzados, o Donatário, alegando irregularidades processuais, nomeadamente a
e que o Conde da Ilha, se pudesse escolher, escolheria antes os falta de pregão na própria terra da Capitania:
vinte»154. Naturalmente não descurou D. Diogo de obter o régio as-
sentimento, a que corresponde o alvará de 17 de Setembro de 1635. «Provaria que se a penhora se fizera juridicamente e se apregoaram
Lá se refere El-Rei nos lugares onde estavam os bens da dita Capitania houveram muitas
pessoas que fizeram nela lanços de vinte e seis e de trinta mil cruzados
«à licença para dotar sua irmã Dona Mariana de Faro e Sousa, que está e por ela ser muito grande e ter muitas terras e bens rendosos e muitas
contratada para casar com o Conde da Ilha do Príncipe, com as cem lé- pertenças, propriedades, engenhos e outras anexas, importavam de
guas de terras que tem na costa do Brasil com suas povoações e títulos renda em cada um ano cinco mil cruzados e por isso a comum e verda-
de capitão e governador com suas jurisdições e rendimentos...»155.

Ilha, in DBN, vol. 79, pp. 313-313. A escritura de dote de D. Mariana de Sousa tem a
151 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. dt., Provas, V, p. 338. data de 5-1-1654, in Memórias f ara a História da Capitania de S. Vicente, hoje chamada
152 íâem, Provas, VI, pp. 93-94.
de S. Paulo do Estado do Brazil publicada de ordem da Academia Real das Sciendas por Fr.
153 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ministério do Reino, M. 642 (2,° pare-
Gaspar da Madre de Deos Monge Beneditino, e Correspondente da mesma Academia, Lis-
cer de Seabra da Silva supra cit.). boa, Tipografia da Academia, 1797, pp. 151-157.
154 Idem, ibidem. t5S AA, vol. 3(1881), p. 195.

iss Alvará incluso na c. de confirmação da Capitania de S. Vicente ao Conde da 157 DBN, vol. 80, pp. 323 ss.

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deira valia e justo preço que valia a dita Capitania ao tempo da arrema- - dado que vimos tratando de transmissões de Capitão a Capitão
tação eram e são os ditos trinta mil cruzados e sendo arrematada em sancionadas por mero beneplácito real - mas porque, efectivamente,
nove mil trezentos e sessenta cruzados entreviera a lesão enormíssima e de uma aquisição se trata, e em termos que não podem ser igno-
ficava nula a arrematação...»158. rados.
Se são conhecidos em Portugal casos de mercês nupciais - con-
Um acórdão da Relação, de 4 de Junho de 1619, deferiria a pre- cedidas a mulheres para benefício directo de quem com elas casasse
tensão, ordenando-se nova arrematação. Feita esta, viriam a gorar-se - preenchidas com certa variedade de bens que vão da mercê do go-
as expectativas do Donatário, se é que o expediente não fora pura- verno temporário das fortalezas do Oriente aos simples títulos nobi-
mente dilatório, tal é o exagero da avaliação de uma terra que à época liárquicos, outros casos há, também, em que a concessão real de ca-
sabemos semi-abandonada. Em Outubro de 1625 seria passada carta pitanias obedeceu ao intuito prático de enobrecer uma aliança muitas
de confirmação da Capitania a D. Helena de Castro, filha de D. Diogo vezes pobre, ou permitir a continuação de determinados bens numa
de Castro159, por cuja via entrou na casa dos Almirantes-More s do casa desprovida de sucessão masculina. Logo em 1486 deparamos
Reino, depois Condes de Resende160. com a mercê de metade da Capitania de S. Tomé a D. Mécia de Paiva,
Finalmente, não poderemos esquecer como modo de aquisição filha do Capitão João de Paiva, «para ela e quem com ela casar» 164 . De
derivada o acto expresso e autorizado de renúncia. Ainda que não se- 1497 data doação semelhante feita a D. Branca de Aguiar, filha de An-
jam frequentes, há exemplos significativos deste tipo de transmissão, tónio da Noli, Capitão de Santiago de Cabo Verde, falecido sem su-
como seja o de Antão Martins, Capitão da Praia, na Ilha Terceira - ci- cessor masculino:
tado por Ferreira Drummond - que renunciou em seu filho do mesmo
nome a dita Capitania, acto confirmado por carta régia de 10 de Ou- «... porém, havendo nós consideração como o dito Mice António foi
tubro de 1522161. Num diploma de confirmação da Capitania das De- o primeiro que a dita ilha achou e começou de povoar nos prouve de fa-
sertas a João Gonçalves da Câmara, Capitão do Funchal (1487), re- zer mercê da dita capitania a D. Branca de Aguiar, sua filha, para ser Ca-
fere-se que Luís de Atouguia «aprouve de renunciar à dita Capitania pitão quem com ela casasse, o qual casamento ela há-se fazer com
em minhas mãos para eu a dar ao dito Capitão»162. E, enfim, num al- aquela pessoa que lhe nós para isso escolhermos, e a dita Capitania lhe
vará de 19 de Novembro de 1554, o Rei D. João III adverte que damos para filhos e netos varões legítimos...»165.

«Femão do Campo Tourinho me enviou dizer que eu lhe tinha feito Nos finais do século xvi, o Rei dota desse modo a filha do 4.° Ca-
mercê da Capitania de Porto Seguro nas terras do Brasil por virtude pitão da Praia, de quem se extinguira a sucessão varonil166, e, já no sé-
de uma renunciação que Pêro do Campo seu pai lhe tinha feito da dita culo XVII, por respeito aos serviços do Capitão de Porto Santo, Diogo
Capitania...»163 Taveira Perestrelo, e aos dos dois únicos filhos, mortos em combate
na índia, «e a qualidade e antiguidade de seus avós que descobriram
a Ilha de Porto Santo», o Rei concede em 1617 a Capitania em mercê
2.7. As Mercês Nupciais nupcial à filha mais velha
Uma palavra ainda para as formas de aquisição de capitanias por «para a pessoa com quem casar, a qual será a meu contentamento. E, não
via nupcial; não que seja esta a sede ideal para enquadrar a questão tendo ela idade ou disposição para tomar estado de casada em tal caso

í5Bldem, p. 216. 164 JOSÉ JOAQUIM LOPES DE LIMA, Ensaios sobre siatistiea das possessões portuguesas na
159 CASTRO E ALMEIDA, op. til., Baía, II, p. 6. África Occidental e Oriental na Ásia Occidental e na China, e na Oceania, escritos de Ordem
160 Idem, pp. 104 ss. do Governo de Sua Majestade Fidelíssima a Senhora D. Maria II, vol. II, Parte II, p. 4.
161 AÃ, vol. 4 (1882), p. 217. 165 SGC, I, p. 8.
1152 DP, III, p. 338. 166 GASPAR FRUTUOSO, Livro Sexto das Saudades da Terra, Edição do Instituto Cul-
163 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. cit., Provas, VI, pp. 91-92. tural de Ponta Delgada, 1963.

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CRIAÇÃO, TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS
C R I A Ç Ã O , T R A N S M I S S Ã O E E X T I N Ç Ã O DAS C A P I T A N I A S

faço mercê da dita Capitania a Dona Fé Perestrela, outra sua filha para
Coroa por falecimento de Jerónimo Dutra Corte-Real, de que não fi-
seu casamento, com a mesma obrigação de ser a pessoa com que casar a
caram filhos varões»172.
meu contentamento»167.
Em plano diferente há que atender às referidas circunstâncias sus-
ceptíveis de justificar uma punição aplicada com o efeito da perda ou
suspensão da jurisdição173. As Ordenações enunciavam-nas: obstrução
3. A Extinção das Capitanias Hereditárias
à execução de mandatos régios, impedimentos de correição, abuso da
jurisdição concedida, interferência na nomeação das justiças conce-
3.1. Falta de Sucessão e Confisco lhias, imposição de tributos ou contribuições indevidas, etc.174, tudo
quanto genericamente se considerava na lei nos termos seguintes:
Entramos, finalmente, na matéria respeitante à extinção das ca-
pitanias. Advirta-se que se não trata em rigor de uma extinção de di- «E se alguns Senhores de terras fizerem ou usarem das coisas a eles
reitos mas de pura e simples reversão à Coroa desses mesmos direi- aqui defesas ou de cada uma delas, não as tendo em suas doações, forais
tos, pela verificação, quer de bem determinadas circunstâncias e sentenças dadas em juízo competente, posto que possam dizer que por
justificativas da revogação da mercê feita ao Donatário, quer por - costume tem mais do que em elas é conteúdo, queremos, que pelo
âmago e fundamento básico da Lei Mental- falta de sucessão admis- mesmo feito sejam suspensos da jurisdição da tal terra até nossa
* 17S
sível nos termos nela prefixos. mercê...»" 3.

No que respeita a este caso, já a ele nos referimos neste capítulo,


quando tratámos da aplicação da Lei Mental à sucessão das capita- Já vimos que esta disposição teve plena aplicação no Brasil nos
nias168, e são muitos os exemplos demonstrativos da reversão por primeiros anos do século XVIII, com o efeito do sequestro da Capita-
causas dessa qualidade. Nas primeiras décadas do século xvi morre nia da Paraíba e suspensão da jurisdição do seu Donatário, Visconde
Belchior Correia, capitão de Santiago de Cabo Verde, e, «por dele não de Asseca, pelo abuso da venda a terceiro sem autorização real. A es-
ficar legítimo herdeiro nem sucessor dele», a Capitania reverte para a tes casos - referimo-lo também - acresciam, com pena de perda da
Capitania, os actos de «partir, alienar, espedaçar, dar em casamento
Coroa. Se bem que o Rei D. João III faça dela mercê nova ao irmão,
ou por outra coisa por onde haja de ser partida, ainda que seja mais
em cuja sucessão se mantém, incorporar-se-á definitivamente na Co-
roa por morte do Capitão João Correia de Sousa em 1564169. Uma piedosa», sem precedência de autorização régia, conforme a previsão
carta de 1528 de doação da Capitania da Ilha do Fogo ao Conde de Pe- das cartas de doação das capitanias brasileiras e das de Angola e Serra
nela, justifica que a «teve Fernão Gomes que ora faleceu por cujo fa- Leoa. Lá também, a globalidade das situações referidas ficara pre-
lecimento a dita Capitania vagou» 170 . Uma sentença de 1571, pro- vista, no tocante ao destino dos bens:
nunciada após a morte de Manuel Dutra, capitão das Ilhas do Faial e
«Outrossim me praz que por caso algum de qualquer qualidade que
do Pico, na crença da falta de sucessão do fidalgo, declarou «as ditas
seja, que o dito Capitão e Governador cometa, porque segundo direito e
capitanias serem devolutas e pertencerem à Coroa do Reino» 171 . Doa-
leis destes reinos mereça perder a dita Capitania e governança, jurisdição
das em 1573 a D. Francisco Mascarenhas e restituídas a Jerónimo Du-
e rendas e bens dela a não perca seu sucessor, salvo se for traidor à Coroa
tra em 1582, seriam doadas de novo em 1614 ao Conde de Lumiares,
destes reinos, e, em todos os outros casos que cometer, será punido quanto
aludindo-se na carta ao facto de as mesmas estarem «vagas para a
o crime o obrigar; e, porém, o seu sucessor não perderá por isso a dita
Capitania e Governança, jurisdição, rendas e bens dela como dito é.»176
167 Arquivo de Simancas (Espanha) - Secretarias Provincíales, Portugal, Livro
1515, fól. 49v.
173 AÃ, voí. 4 (1882), p. 229.
168 Veja-se neste Cap. o ponto 2.3.
173 Entendida aqui como generalidade dos direitos concedidos na doação.
169 SGC, I,pp. 112 ss,
174 OF, L. 2, títs. 45-49.
170 SGC, I, p. 94.
175 OF, L. 2, tít. 45, § 55, e OM, L. 2, tít. 26 § 52.
171 GTT, III, pp. 5-15.
176 DBN, vol- 13, p. 147.

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Do que, a incorporação definitiva da Capitania na Coroa pela algumas composições conseguidas no termo de processos litigiosos,
ocorrência de falta grave do Donatário ficava reduzida ao caso ex- nas quais, em condições que desconhecemos, se compensam os su-
presso da traição à Coroa destes Reinos. Assim sucedeu às capitanias de cessores dos donatários das capitanias incorporadas com rendas em
Angra, S. Jorge, Faial e Pico (confiscadas ao seu Donatário, o 2.° Mar- dinheiro. Assim sucede em S. Tomé com os descendentes do Capitão
quês de Castelo-Rodrigo, filho do valido D. Cristóvão de Moura, por João de Melo, e no Brasil com o filho do 1.° Donatário da Baía181. Em
ter escolhido ficar em Castela após a Restauração177), e aos senhorios 1569 a incorporação das capitanias do Faial e do Pico fez-se mediante
atlânticos das Ilhas de Sto. Antão, Flores e Corvo, confiscados todos uma simples permuta com o Donatário, D. Álvaro de Castro, que re-
ao último Duque de Aveiro, culpado do crime de lesa-majestade na cebe no Reino o senhorio da Vila de Fonte Arcada182. Já com relação
pessoa do Rei D. José. Pela qualidade do crime, o sucessor do desdi- à Capitania de Cabo-Frio, a qual «se chama em a língua dos negros a
toso Donatário nada logrou da Casa paterna e, segundo um alvará de Paraíba e em nossa de São Tomé», alude-se expressamente a um «ins-
3 de Dezembro de 1814, tinham-se incorporado trumento de renunciação, deixação e aceitação», no qual o Capitão
Gil de Gois, em 1619, pela contrapartida da tença vitalícia de 200 mil
«nos próprios da Coroa as terras que nas Ilhas da Flores e Corvo possuí- réis, «cede e trespassa nas mãos de Sua Majestade» o seu senhorio
ram em outro tempo os Condes de Santa Cruz, senhores donatários das brasileiro, considerando que «há como houve de hoje para sempre
mesmas ilhas, e que passaram por sucessão da casa e do título aos Mar- por incorporado tudo que lhe pertencia por virtude das ditas doações
queses de Gouveia e ultimamente ao Duque de Aveiro infeliz foram con- na fazenda e Coroa de S. Majestade»183.
fiscadas e se julgariam perdidas para o fisco e câmara real, na generali- Em 1709, a propósito da Capitania de S. Vicente, do Marquês de
dade de todos os bens que ele possuía e administrava com a efectiva Cascais, fala-se já de um «instrumento de venda e quitação», pela qual
reversão e incorporação na mesma Coroa daqueles que dela tinham o Capitão, pelo preço de 40 mil cruzados, cede «para a Coroa e Patri-
saído...»178 mónio real» a Donatária. Pelo mesmo preço, consignado em «instru-
mento de venda» de 1718, fica «unida e incorporada na Coroa e pa-
3.2. Composições e Revogação de Mercê trimónio real» a Capitania do Espírito Santo. Finalmente, o acordo
feito em 1716 com o Conde de Vimioso concretiza-se mediante uma
Outra via de incorporação das capitanias no património real foi o escritura de «desistência e transacção», onde se concede ao fidalgo o
do simples negócio jurídico, formalizado entre a Coroa e os donatá- título de Marquês de Valença em duas vidas, outras duas no de Conde
rios, segundo modalidades que variaram conforme os tempos e as de Vimioso, outra mais nas comendas possuídas, e a soma de 80 mil
vontades179. Uma das mais antigas referências que conhecemos, po- cruzados, tudo pela desistência na causa em que contestava à Coroa
demos lê-la numa carta do Governador Mem de Sá (1560) em que dá a absorvida Capitania de Pernambuco184.
notícia ao Rei de que Vasco Fernandes Coutinho, 1.° Capitão da Baía, O reinado de D. José, ao encerrar a história das últimas donatá-
exausto pelas árduas exigências da colonização, escrevera ao Ouvidor rias ultramarinas, unidas e incorporadas no pleno, inteiro e Real Domí-
da Capitania «que em seu nome renunciasse à Capitania e lhe man- nio185, inaugura um novo estilo: lavram-se agora escrituras de «sub-ro-
dava para isso procuração bastante»180. Do século XVI datam também
181 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. cit., Provas, VI, p. 197.
177 Veja-se FRANCISCO FARIA E MAIA, op. cit., AÃ, vol. iv (1882), p. 177. 182 AÃ, vol. 4 (1882), pp. 220-225, e tb. 69-70.
178 ANTÓNIO LOURENÇO DA SILVEIRA MACEDO, História das Quatro Ilhas que formam 83 «Escriptura de contrato entre os Procuradores de Sua Majestade e Gil de
o Distrito da Horta, Horta, 1881, vol. l, p. 567. Góes sobre a Capitania de Cabo Frio, Estado do Brasil», in Revista Trimestral do Insti-
179 Sobre os antecedentes e o desenrolar do processo das incorporações veja-se tuto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo LVI, F. I, pp. 150-157. O documento é de 22
o Cap. IX deste estudo. de Março de 1616, e está publicado no tomo XII de As Gavetas da Torre do Tombo, Lís-
180 JAIME CORTESÃO, Pauliceae Lusitana Monumenta Histórica, Publicações do Real boa, 1977, pp. 468-473.
Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, Edição Comemorativa do IV Centenário da 164 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. cit., Provas, V, pp. 394-395.
Fundação da Cidade de S. Paulo. Organizado t Prefaciado por..., Lisboa, 1956-1961, Vol. l, 185 Arquivo Histórico Ultramarino, cód. 2 do Conselho Ultramarino, fól. 193,
p. 286. decreto respeitante à sub-rogação da Capitania da Ilha Grande de Joanes.

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C R I A Ç Ã O , TRANSMISSÃO E E X T I N Ç Ã O DAS CAPITANIAS

gação e permuta», pelas quais os donatários, mediante cálculo oficial


do útil e do honorífico das suas capitanias, recebem satisfação equiva-
lente em rendas186, títulos nobiliárquicos e senhorio das terras do
Reino. Nalguns casos, a administração pombalina é ainda mais radi-
cal: antecipando-se a qualquer negociação prévia, revoga as antigas
doações de capitanias, sem prejuízo de compensações calculadas pelo
governo. Assim sucede com as capitanias de Porto Santo, S. Miguel e
Sta. Maria, declaradas perdidas pela inépcia administrativa dos dona- 4.0 GOVERNO DA CAPITANIA
tários, e if?so facto incorporadas na Coroa187.

,íól 194-194v.
187 Todo este processo é tratado com maior desenvolvimento no Cap. IX deste
estudo.

138
1. O Capitão-Governador

1.1. Introdução

Ponto que parece subjazer de modo bem claro à criação e manu-


tenção dos senhorios portugueses, é o de que um dos escopos prima-
ciais da sua existência é o de aliviar ou auxiliar o Monarca na tarefa
da governação em regiões ou em condições para que a Coroa não es-
tava particularmente apta para administrar directamente. Foi, como
vimos, uma das razões da génese da imunidade dos territórios
alto-medievos, e a doutrina afirmava-o com ênfase: «Los Senores de
vasallos en sus estados y villas son vicários de los Reyes»1 - ou, como
ainda precisará noutro passo Castiílo de Bovadilla -

«son como los huesos y Ia firmeza de Estado, sin los quales seria como
un cuerpo compuesto de carne y pulpa, sin huesos, rd nervios, por Io
qual en una desgracia de guerra, o en una rota de un exército, o en una
muerte de Rey, facilmente caeria...»2.

Na base, pois, do governo dos capitães está um trespasse de com-


petências operado pela Coroa, de maior ou menor amplitude mas
sempre titulado, e tocante às três ordens fundamentais da adminis-
tração, jurisdição e rendimentos. De cada uma se dará conta neste e
nos Capítulos que se seguem. O que por ora importa vincar é essa
sub-rogação do titular da Capitania em poderes normalmente ineren-
tes à Coroa, bem vincado no comando que, com fórmulas variáveis,
se faz inserir nas cartas de doação de capitanias: uma carta de 1462
porque se doa a João Vogado a Capitania de duas ilhas que vai a des-
cobrir, é nisso bem expressiva, dando-lhe El-Rei

1 CASTILLO DE BOVADU.LA, Política para Corregedores y Senores de Vasallos, Barce-


lona, 1624, p. 613.
2 Idem, p. 596.

141
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A O G O V E R N O DA C A P I T A N I A

«autoridade que por si ou seu procurador possa delas filhar a posse cor- vemos, assim são já chamados os primeiros delegados do Infante e do
poral, real e actual, cada que ele quiser e por bem tiver, sem lhe acerca Rei, no primeiro período de colonização do arquipélago, cerca de
disso ser dado empacho ou torva com alguma pessoa que seja, porquanto vinte anos anterior à concessão da primeira Capitania do Machico.
de agora para sempre tirarmos e abdicarmos de nós todo o senhorio, as- Que entender de uma carta de mercê D. João I (c. 1433) não datada e
sim de direito, como útil e proveitoso, e tudo pomos, trespassamos e mu- relativa à Madeira, na qual expressamente se refere que «as terras se-
damos no dito João Vogado e seus sucessores para todo o sempre...3» rão dadas e repartidas pelos capitães»8?
O que não contraditaria a tese de Joel Serrão, segundo a qual as
«Manter em justiça e em direito» - fórmula inclusa logo na pri- doações das capitanias madeirenses constituiriam a consagração de
meira doação da Capitania, a do Machico em 14404 - resume bem a uma situação pré-existente, enquadrada pelos regimentos do Infante
globalidade das funções governativas dos capitães: administrar os po- de Sagres. O que há-a reter é que, desde a concessão da primeira Ca-
vos em tempo de paz e de guerra, ministrando a justiça tornada in- pitania em 1440, até aos meados da segunda metade do século XV, há
dispensável à regência das sociedades humanas. Daqui que, sendo o uma patente flutuabilidade dos termos empregados para designar a
mando dos capitães efectivo, as regras, elogios e críticas que num especial concessão de direitos e governo encarregado a determinado
campo mais vasto se destinam a todos os que detêm o poder, se es- indivíduo em nome do Grande-Donatário: capitão e capitanias são, in-
tendam também à prática governativa destes donatários. A obra de desmentivelmente, conceitos primaciais, ainda que contemporâneos
Gaspar Frutuoso é disso um bom exemplo: nas suas páginas abundam dos de carrego ou regedor que os documentos também consagram.
as alusões à «prudência, justiça, paz e bom exemplo» com que gover- Nas três primeiras cartas constitutivas das capitanias madeirenses
nou Rui Gonçalves da Câmara, Capitão de S. Miguel5, a um caso de - Machico em 1440, Porto Santo em 1446 e Funchal em 1450 - o In-
governo dela «com grande saber, prudência e bom zelo»6, ou àquele fante Grande-Donatário não alude a capitães ou capitanias, mas, la-
Capitão da Ilha de S. Maria, conicamente, diz «dou carrego»9. No entanto, também de 1450 é a
carta de doação da Capitania da Ilha Terceira, nos Açores, ao fla-
«manso e colérico quando é necessário, e, ainda que alguns tenham ou- mengo Jácome de Bruges, concedendo-lhe o Infante que
tra opinião, a minha é que nenhum homem sem cólera medida com ra-
zão, prudência, verdade e saber, é para ser Capitão...»7 «tenha a Capitania e governança da dita Ilha como a tem por mim João
Gonçalves Zarco na Ilha da Madeira, na parte do Funchal e Tristão na
parte do Machico, e Perestrelo no Porto Santo»10.
1.2. Os Títulos de Capitão e Governador

Mas, antes de qualquer desenvolvimento, importa saber do vero Para maior confusão, Zarco, que numa carta de 1452 invoca o
conteúdo dos títulos de Capitão e Governador, e aferir - na consonância único título de regedor pelo Infante11, usa, dois anos passados, o de
simultaneamente militar e de largo império civil - da sua eventual coin- «Capitão por ele em sua Ilha da Madeira»12. Certo é que na carta de
cidência e ajuste às funções que, no essencial, ficaram já delineadas. doação das capitanias do Faial e do Pico a outro flamengo, Jos Dutra,
Ao contrário do que geralmente se crê, o título de Capitão não terá em 1468, afirma-se que os poderes usados serão os que desfrutam
surgido com a criação das capitanias pioneiras da Madeira. Segundo «nas outras minhas ilhas os outros meus Capitães»13. Também, numa

3 CD, p. 162. 8 VrroRiNO DE MAGALHÃES GODINHO, Documentos sobre, a Expansão Portuguesa, Lis-
4 DP, l, pp. 403-404. boa, 1956.
5 GASPAR FRUTUOSO, Saudades da terra. Livro IV (ilha de S. Migue!), Ponta Delgada, 9 DF, I, respectivamente, pp. 404, 449 e 483.
Tipografia do Diário de Notícias, 1924-1931, Vol. [V, p. 112. l°Idem, p. 471.
6 Idcm, pp. 314-315. 11 Idem, p. 499.
7 GASPAR FRUTUOSO, Saudades da terra, Livro III (Ilha de S. Maria), Ponta Delgada, 12 Idem, p. 514.
Tipografia do Diário de Notícias, 1922, p. 97. 13 CD, pp. 152 ss.

142 143
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A O G O V E R N O DA C A P I T A N I A

carta de privilégio de 1466 concedida aos moradores de Santiago de Grandes-Donatários. Se esses títulos tendem assim a fixar-se, por um
Cabo Verde, se refere «o que tiver cargo da governança e capitania da paralelo e peculiar processo, à data da constituição das capitanias do
dita Ilha»14. Brasil - isto é, na década de 30 do século XVI -, ele é já concedido e os-
Capitães, Capitanias e Governança, ou, mais raramente, Capitania tentado como mercê autónoma, honorífica, a que acompanham no
e carrego, são os termos que nos restantes anos do século se vão fi- mesmo diploma de constituição, outras mercês, também autónomas,
xando no formulário das cartas das ilhas da Madeira, Açores, Cabo de jurisdição. É o que se patenteia nessas cartas de doação das capi-
Verde e S. Tomé15. Parece mesmo pré s sentir-s e, sem que o possamos tanias brasileiras. Aí - inovação sensível em relação aos diplomas
afirmar com certeza, um intuito definido no emprego da palavra «Ca- constitutivos de quaisquer outras capitanias - declara o Monarca
pitão». Nas ilhas - e desligada, no fundo, de qualquer consonância «quero e me praz que o dito Martim Afonso e todos seus herdeiros e
militar - a palavra parece andar associada ao poder e à função de di- sucessores que a dita terra herdarem e sucederem se possam chamar
vidir e distribuir a terra em sesmaria, à excepção das Flores, Corvo e e chamem capitães e Governadores delas»21. Aí também, o 1.° Dona-
Sto. Antão, onde os seus Senhores gozavam de todos os privilégios de tário de Pernambuco, no treslado do chamado Foral de Olinda (1550),
qualquer Capitão, excepto o de dar terras naqueles moldes. Talvez se intitula «Duarte Coelho, fidalgo da Casa de El-Rei Nosso Senhor,
que por isso se lhes concedesse expressamente o chamarem-se Se- Capitão-Governador desta terra da Nova Lusitânia por El-Rei Nosso
nhores das ilhas e não Capitães delas. Note-se ademais que, com res- Senhor»22.
peito aos primórdios da colonização do Brasil, narra Fr. Vicente do Desse título de Capitão e Governador usou igualmente seu des-
Salvador que El-Rei cendente, Jorge de Albuquerque Coelho, como se vê em obras coevas
que se lhe dedicam23, mas seu filho Duarte, em 1654, intitula-se já
«ordenou que se povoasse esta província, repartindo as terras por pes- «Senhor de Pernambuco e das Vilas de Olinda, S. Francisco, Mada-
soas que se lhe ofereceram para as povoarem e conquistarem à custa da lena, Bom Sucesso, Vila Formosa e Iguaraçu» 24 .
sua fazenda, e dando a cada um cinquenta léguas por costa com todo o Assim, com o correr dos tempos o velho título de Capitão e Go-
seu sertão, para que eles fossem não só Senhores mas capitães delas, vernador parece mesmo ceder pontualmente o passo a fórmulas de
pelo que se chamam e se distinguem por Capitanias»16. consonância reconhecidamente mais cortesã ou aristocrática. Numa
provisão de 1640, o Capitão-Mor e Ouvidor de S. Vicente chama-se
À entrada do século xvi, parece já estabilizado o título de Capitão
pelo Conde de Monsanto, «donatário perpétuo desta Capitania por
e Governador. No ano de 1499, Gaspar Corte-Real, Capitão da Terceira
Sua Majestade»25. Seu sucessor, o Marquês de Cascais, D. Álvaro Pi-
na parte de Angra, intitula-se «fidalgo da Casa d'El-Rei nosso Senhor
res de Castro e Sousa, intitular-se-á «Senhor e Governador das Ilhas
e Capitão-Governador por seu especial mandado nas suas ilhas de S.
de Itamáracá, S. Vicente e S. Paulo e terras de Santana»26. E não só no
Jorge e Terceira»17.
Nas capitanias de S. Miguel em 150018, na do Funchal em 150519,
ou nas do Faial e do Pico em 150620, o título usado agora invariavel-
21 DBN, vol. 13, p. 138, c. de doação de S. Vicente (1534).
mente é o de Capitão e Governador da Justiça em nome do Rei, em cujas 22 AP, vol. I, p. 188.
mãos se recolherão directo domínio das Ilhas até então sujeitas aos 23 Navfragio, ave passov lorge Dalhvqverqve Coelho, Capitão dl Governador de Per-
nambuco. Em Lishoa: Impresso com licença da Saneia Inquisição: Por António Aluarez. Anno
MCCCCCCl.
14 SGC, pp. 21-22. 24 Memórias Diárias de Ia Gverra dei Brasil por discvrso de nveve anos, empeçando
15 Vide SGC e DP, III, passim. desde el de MDCXXX. Escritas por Dvarte de Albvqverqve Coello, Marques de Basto,
16 FR. VICENTE DO SALVADOR, História do Brasil (1500-1627), 3.' ed. revista por Conde, i Senor de Pernambuco, i de Ias Villas de Olinda, San Francisco, Magdalena,
Capristano de Abreu e Rodolpho Garcia, S. Paulo, Rio de Janeiro, 1931, p. 87. Buen-Sucesso, Villahermosa, i Igaraçú, Gentil-kombre de Ia Camará de su Magestad, i de su
17 AÃ, vol. 12 (1982), p. 402. Conse/o de Estado, en el de Portugal. En Madrid, por Diego Diaz de Ia Carrera, Impressor
18 Idem, p. 397.
dei Reyno, Ano 1654.
19 AM, t. 17, pp. 457 e 465. 25 RSP, vol. II, p. 142.
20 AÃ, vol. 12 (1892), p. 404. 26 Idem, p. 215.

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Brasil: na setecentista História Genealógica da Casa Real Portuguesa,


Para maior honra dos donatários, cedo também os monarcas
o autor refere-se a Pedro Alvares Pereira, não como Capitão, mas
criam títulos nobiliárquicos com designações geográficas pertencen-
como «Senhor da Serra Leoa, do Paul de Muja, das jugadas de Santa-
rém, etc.»27. tes à área das capitanias. Refere o Padre Gaspar Frutuoso que ao Do-
natário do Funchal, Simão Gonçalves da Câmara, pelos seus serviços
Mas, com maior ou menor pompa, os capitães inscrevem agora
os seus títulos em documentos de alarde. No mapa seiscentista da
«e pelos merecimentos, além dos que no decurso desta história tenho
Cidade de Angra, Linschoten insere a dedicatória ao Capitão da Ilha,
dito de seu pai e avós, lhe fez D. Sebastião mercê de o fazer Conde de
o poderoso-Marquês de Castelo-Rodrigo:
Vila Nova da Calheta, da sua Ilha da Madeira, no ano do Senhor de 1576,
e lhe deu os ofícios do dito Condado, como se chamavam os oficiais
«lílustri et generoso Dno. Christophoro a Moura viro inter cubiculi
dele em todos os autos e escrituras, termos e mandatos, pelo Conde
regii próceres primário, regnique ordinum Consilario, rerum lusítanico-
Nosso Senhor...»31
run, admnistratori Vigilantissimo, Alcantarae Commendatori et insula-
rum Tercerae et Scti. Georgi Praefecto digníssimo Dno suo multis nomi-
níbis colendo»28. E se Manuel da Câmara, Donatário de S. Miguel, resgatado de
um cativeiro africano, recusou do Rei D. João III o título do Conde da
Vila da Lagoa32, não o fez o filho, Rui Gonçalves da Câmara, quanto
Na dedicatória da Insulana, poema de Manuel Thomaz (Antuér-
ao Condado de Vila Franca, atribuído com denominação também per-
pia, 1635), alinham-se os títulos do Donatário do Funchal: «João Gon-
tencente à área da mesma Capitania33. Quando D. Francisco Masca-
çalves da Câmara, do Conselho dei Rei Nosso Senhor, Conde de Vila
renhas, Capitão das Ilhas do Faial e do Pico, nos Açores, recebe a no-
Nova da Calheta, Capitão-Geral da gente de guerra da Ilha da Ma-
meação de Vice-Rei da índia, é amerceado em 1581 com o título de
deira, Governador perpétuo da Justiça, Vedor da fazenda da dita Ilha
e Porto Santo, e Senhor das Ilhas Desertas»29. Conde de Vila da Horta, na primeira daquelas capitanias34. De Filipe
II recebeu também o Duque de Aveiro, Capitão de Porto Seguro, no
Em 1703, o seu descendente, o omnipotente valido Castelo-Me-
Brasil, o marquesado do mesmo título, e, pela mesma época, se fize-
Ihor, numa mera carta de nomeação do Ouvidor, intitula-se solene-
ram a Duarte de Albuquerque Coelho, Capitão de Pernambuco, as
mente «Luís de Vasconcelos e Sousa, Conde de Castelo-Melhor, do
mercês dos títulos de Marquês de Basto e Conde de Pernambuco.
Conselho de Estado de S. Majestade e seu Re p os te iro-Mor, Comen-
Com eles e com os de Gentil-Homem da Câmara de Filipe IV de Es-
dador das Comendas de Pombal, Redinha e Facha e Salvaterra da Es-
panha e membro do Conselho de Estado de Portugal, subscreve Coe-
trema, Alcaide-Mor das Vilas de Penamacor, Pombal, Redinha, Se-
lho as suas Memórias diárias de Ia guerra dei Brasil, publicadas em Ma-
nhor das Notas de Castelo-Melhor, Almendra e Valhelhas e das
drid em 165435.
capitanias da Ilha da Madeira e da Ilha de S. Maria, Ilhas Desertas,
Voltando um pouco atrás, o título de Capitão e Governador to-
Governador das Justiças e Fazenda, como Vedor dela na Cidade do
mado estava, pois - com o título de Senhor de terra - como não mais
Funchal e sua Capitania na Ilha da Madeira»30.
que uma simples fórmula de tratamento, de ostentação, ou nas pala-

27 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, História Genealógica da Casa Real Portuguesa,


31 GASPAR FRUTUOSO, As Saudades da Terra pelo Doutor Gaspar Frutuoso. História
Coimbra, Atlântica Editora, 1953, IX, p. 352.
das Ilhas do Peno Santo, Madeira, Desertas e Selvagens. Manuscrito do Século XVI anotado
28 Navigatio Ac Itinerarium Johannis Hugonis Linscotani In Orientalem Síve Lusitano-
rum Indiam, etc., Hagae Comitis, 1599. por Álvaro Rodrigues de Azevedo, Funchal, 1873, p. 295.
32 GASPAR FRUTUOSO, Saudades da Terra, Livro IV..., p. 182.
29 «A loam Gonçalves da Camará do Conselho dei Rey Nosso Senhor Conde de
33 FRANCISCO DE ATHAYDE M. DE FARIA E MAIA, Subsídio para a História de S. Miguel
Villa Noua da Calheta, Capitão Geral da gente de guerra da Ilha da madeira, Gouer-
nador perpetuo da Justiça, Veédor da fazenda da dita Ilha, & Porto Sancto, & Senhor - Capitães dos Donatários (1439-1766), Lisboa, 1972, pp. 190-191.
34 GASPAR FRUTUOSO, Livro Sexto das Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1963,
das Ilhas desertas», in Insulana dt Manoel Thomas. Em Amberes, Em Caza de loam
Mevrsio Impressor. Anno de 1635. p. 277.
30 AÃ, vol. 15, p. 77. 35 Memórias Diárias..., cit. supra. Vide tb. HÉLIO VIANA, «Matias de Albuquerque»,
in Estudos de História Colonial.

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vras de Pegas, um mero «título honorífico que se lhe pode conceder Se vimos tratando de meros títulos honoríficos, próprios, especí-
sem nenhuma administração nem exercício»36, ou «uma graça exte- ficos de um determinado grupo de donatários de bens da Coroa, num
rior que se pode conceder sem exercício nem residência»37. plano totalmente diverso haveremos de colocar aquele conjunto de
Era, aliás, a filosofia subjacente à legislação aplicável a esse tipo cargos a que Eduardo Nunes chamou «capitanias-governadorias das
de Mercês: se por um lado as Ordenações38 consideravam generica- terras de conquista e dominação»41, como o eram as das praças e for-
mente todos os Senhores de terras, usando de jurisdição que pelo Rei talezas do Oriente, de Marrocos, das restantes costas africanas e do
lhes fosse doada, U., «Duques, Mestres das Ordens, Marqueses, Con- próprio Brasil, para não falar já de províncias ou reinos inteiros como
des, e o Prior do Hospital de S. João, Prelados, Fidalgos e pessoas, que o Algarve, Angola ou Cabo Verde. Essa importante distinção admite-a
de Nós tem terras com jurisdição...»39, por outro, no totalmente di- Pascoaljosé de Melo nas suas Institutiones, aludindo aos «capitães per-
verso plano do honorífico, a legislação e a praxe estabeleciam rígidas pétuos das Ilhas, que cumpre distinguir totalmente dos governadores
diferenciações reflectidas nos assentamentos auferidos, na considera- temporários e oficiais militares...»42.
ção da grandeza, nos lugares da etiqueta ou nos tratamentos da corte- À remuneração de serviços pessoais como causa donandi subja-
sia. Não referindo já os títulos de Duque a Barão, as cartas régias cente à existência dos primeiros, e o mero exercício de primaciais
eram, pois, bem precisas na concessão do título de Senhor de Terra, obrigações de governo militar de directa competência da Coroa, ine-
mercê puramente honorífica mas que geralmente se fazia acompa- rente aos segundos, corresponderiam duas situações sintetizadas res-
nhar da autónoma concessão de poderes jurisdicionais. pectivamente noutras duas expressões - «pró vestris utilitatibus» e
O título de Capitão e Governador deve, pois, repetimo-lo, conside- «pró nostri utilitatibus» - que, como as próprias relações estabelecidas
rar-se como mais um título honorífico40, concedido a partir de 1534 entre duas esferas patrimoniais, como a da Coroa e a dos senhores,
no Brasil por mercê específica, alínea expressa do diploma constitu- remontam tão longe como a situações e expressões formais de con-
tivo da Capitania, equiparável ou passível de ser considerado como cessão de imunidade e de nomeação régia de governadores e lugar-te-
uma especificidade ultramarina do título de Senhor de terra, que tam- nentes43.
bém alguns donatários usaram publicamente em alternativa àquele Assim, como características próprias das capitanias ordinárias se-
de Capitão-Governador. riam desde logo mais do que suficientes para as distinguir das capi-
tanias honoríficas a amovibilidade dos cargos, pagos e preenchidos
aã tempus, segundo um critério de capacidade individual, no quadro
1.3. Os Capitães Hereditários e os Capitães vasto da administração militar do Reino e do Império, directamente
de N o m e a ç ã o Régia dependentes do Monarca44. Estes mesmos elementos de distinção os
notou o jurista seiscentista Álvares Pegas escrevendo que «capitães
O maior sinal de distinção que havemos de colher do carácter es- de guerra que servem por tempo limitado, e servem e militam por
tritamente honorífico destas mercês, é o que se estabelece em função soldo, não têm direito real por doação, nem jurisdição doada, mas or-
dos capitães de pura e periódica nomeação régia. dinária»45.

36 PP, £61. 563v. 41 In Verbo, Enciclopédia Luso-Brasileira de. Cultura, IX, p. 915.
37 lâtm, £61. 564. 42 FASCOAL JOSÉ DE MELLO FREIRE, «Instituições de Direito Civil Português, tanto
36 OM, L. 2, t. 26, e OF, L. 2, t. 45, passim.
público como particular», livro li, in Boletim do Ministério da Justiça, n. l, 163 - Feve-
39 OM, L. 2, t. 26, § 8, e OF, L. 2, t. 45, § 45.
reiro, 1967, p. 52.
40 A honorabilidade do título chegava a admitir-se, socialmente, extensível ao
43 SANCHEZ ALBORNOZ, La potestaã real y los sefioríos, p. 8, cit. in ALFONSO MARIA
cônjuge do Capitão-Govemador. O Padre Gaspar Frutuoso, na obra cit. supra, escre- GuiLARTí, E! Regimen Senoríal en e! siglo XVI, Madrid, 1962.
vendo nos finais do séc. xvi, alude com frequência às «capitoas» das capitanias aço- 44 Em consonância - recordemos - os «Capitães de África», ao contrário dos
rianas (op. cit., pp. 109,115,117,119, 184 e 186). O padre Anchieta alude também em Capitães-Donatários, por força do alvará de 9 de Abril de 1612, estavam obrigados a
1584 à morte da mulher do 1.° Capitão, D. Brites de Albuquerque, «governadora e dar «residência», no termo dos seus governos.
quase mãe deste povo».
45 PP, fóls. 121 e 567.

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E maior autoridade daria às palavras de Pegas a decisione XXVIII de título de Capitão e Governador, com a natureza e os fins da amovibiíi-
Cabedo, em que, aludindo aos «Capitães dos lugares de África» de dade das capitanias ordinárias, onde seria requerida
que falam as Ordenações46, se refere que
«capacidade e experiência e suficiência pessoal - nas palavras de Pegas -
«Capitaneí autem locarum África non sunt huiusmodi tirarguia ad tem- e esta não se considerar nem entender nos que ainda não existem, como
pus serviunt, et sunt ut caeteri duces belli in arcibus positi, quos duces et são os sucessores que podiam ser incapazes, como são mentecaptos e
capitaneos belli Rex creat Ord. b. 2 tt.° 26 in princip. § l quae sint rega- outros sucessores que podem ter incapacidade [...]. A experiência uni-
lia, ubi Affict. et expensis Regis serviunt, et militant, et salariu habent, versal do mundo prova esta verdade e de toda a história não consta que
non autem habent iura aliqua ratione offici Capitanei bellici, ut sunt, os algum Príncipe fizesse general ou entregasse o governo de suas armas à
quintos das presas et iurisdictio, quam habent, ut ordinária, et non do- ^túnguém só por haver sido filho ou descendente de algum grande cabo
nata. Ord. tb. 2 tt.° 47»47. deXguerra, senão aquelas pessoas em que concorressem as qualidades
pessoais e requisitos necessários para esta ocupação [...]. E muito mais se
verifica com a vocação das fêmeas totalmente incapazes de exercitar
Recordemos que a questão teve particular expressão na já várias
posto de milícia»49.
vezes referida causa que correu entre a Coroa e os sucessores dos do-
natários de Pernambuco. Efectivamente, entre a torrente de argumen-
Ora, não sucedeu cair a sucessão de capitanias ultramarinas em
tos invocados pelo Procurador da Coroa para fundamento do
mulheres? Não refere o próprio Pegas o caso próximo da Camareira-
incumprimento das cláusulas da doação por parte dos donatários, e,
-Mor Marquesa de Castelo-Melhor a quem se confirmou por suces-
sequentemente, legitimar a apropriação do território por parte da Co-
são a Capitania da Calheta50? Só, efectivamente, o regime donatarial
roa, contar-se-ia a falta de residência pessoal na Capitania, a que os
permitiria este maquinismo, pelo que muito justificadamente poderia
mesmos donatários por várias razões e, particularmente - defendia o o causídico citar a seu benefício a decisione XXIX de Cabedo, referente
Procurador - pelo exercício do cargo de Capitães e Governadores, esta-
a esses próprios Capitães-Donatários da Madeira:
riam obrigados como todos os outros que pelos territórios ultramari-
nos se contavam.
«... Lata tamen fuit sententía et pronunciatum quod is Capitanius et
Alvares Pegas, que defendia a causa pelos autores, os Condes de símiles non erant duces belli, sed tanquam, Domini Terrarum iurisdic-
Vimioso, demonstrou facilmente a debilidade da máquina de razões do tionem habentes.»51
magistrado régio, quer destrinçando as supracitadas características de
amovibiíidade, remuneração e periodicidade dos capitães régios - ca-
racterísticas essas totalmente alheias ao exercício da jurisdição dona- 1.4. Sentido e Conteúdo dos Títulos de Capitão
tarial - quer vincando outras, conducentes à demonstração da in- e Governador
compatibilidade da natureza dos donatários com a dos capitães
ordinários. Ressaltemos por um lado a necessidade de residência pes- Se nos interrogarmos sobre quais os privilégios ou conteúdo con-
soal, indissociável do exercício destes últimos cargos, contraposta ao creto - não do carrego em si mas de tais títulos -, cedo deparamos com,
«uso e prática geral em todas estas capitanias, desde o princípio até ao para além do mero carácter honorífico, um vazio quase absoluto.
presente, que foi de não residirem os capitães»48. Anotemos, por ou- Referimos atrás as formulas pomposas que aludem à «capitania
tro, a incompatibilidade do regime de doações em vidas ou mesmo de geral da gente de guerra» e ao «governo da Justiça». E se é certo que
juro e herdade, frequente neste tipo de doações e incluindo o próprio

49 Idem, ibidem.
5 Idem, ibidem. 50Idem, fól. Ill, e «Sucessão da Casa da Calheta», in Arquivo Histórico da Madeira,
' Q't. idem, ibidem. tomo l, s. indicação de autor.
1 Idtm, ibidem. 51 PP, fl. 105, e MELLO FREIRE, op. cit., p. 75.

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os títulos de Capitão e Governador puderam originar e habitualmente Governador da Justiça por mim [Rei] e não ser senhor de terras, a
corresponder a tal tipo de funções52, a verdade é que, nas capitanias, quem as Ordenações proíbem os tais autos de correição»57.
a amplitude dos termos invocados está em nítida desconformidade A argumentação expendida não procedeu, e a decisão final foi ca-
com os poderes efectivamente auferidos, superiormente conforma- tegórica em considerar que o diploma constitutivo da Capitania não
dos pela natureza dos altos cargos militares e judiciais que na própria concedia de modo algum ao Capitão o ser Governador da Justiça da
área das capitanias eram colocados pelos monarcas, v.g., Corregedo- ilha em nome do Rei, devendo, pelo contrário, sujeitar-se «à disposi-
res, Governadores ou Ouvidores-Gerais. ção da Ordenação, L. 2, t. 26, §§ 15, 16, 17, que defende aos Senho-
No caso do título de Capitão, para além de factos que constante- res usarem da tal correição e actos dela e de mais jurisdição da que por
mente o asseveram53, concorre a letra da jurisprudência. Em todo o Reis lhe foi dada»58.
pleito que com maior profundidade envolva o sistema das capitanias, O mesmo se poderá dizer a respeito dos títulos nobiliárquicos
nunca é esquecida a já referida decisione de Cabedo: «... Capitanius et concedidos com designações de localidades de capitanias, que, como
símiles non erant duces belli...»54. mercês régias autónomas das destas, em nada alteram as faculdades
Também uma sentença de Fevereiro de 1596 no juízo dos Feitos ou privilégios nelas contidos. O que, aliás, estava na mais pura tradi-
da Coroa da Casa da Suplicação, pronunciada em causa proposta pela ção do direito nobiliárquico português, desde que, já no século XVI,
Condessa da Calheta, como tutora de seu filho Simão Gonçalves da perdendo os títulos um vero significado correspondente ao exercício
Câmara, declarara «que ele Suplicante não é capitão de guerra na Ilha de cargos públicos, maioritariamente militares, se resumiam a puras
da Madeira de que é Donatário...»55. mercês honoríficas. Mercês, é certo, aureoladas pelo brilho das «hon-
Quanto ao título de Governador da Justiça, sistematicamente invo- ras, preeminências e liberdades»59 do formulário da concessão, mas
cado por alguns dos capitães, nomeadamente os das Ilhas dos Açores quase puramente ostentatório e, por si, desprovidos de qualquer sig-
e Madeira56, além das cartas de doação não referirem mais que o nificado de domínio territorial ou senhorio jurisdicional, que, even-
termo Governador, o número e natureza das faculdades judiciais con- /tualmente, só acresceria por mercê autónoma. Afirmou-o também
cedidas aos capitães - limitadas quer por alçadas fixas, quer pelo po- í nos finais do século xvii o jurista Pegas, ainda no curso do célebre
der inspectivo que aos Monarcas assistia e se exercia pela pessoa dos pleito de Pernambuco, vincando que
corregedores, quer mesmo pelo raro princípio da maioria de justiça -
nada autorizaria, em princípio, que se invocasse um título de tão alto «nem em Portugal os títulos de Marqueses, Duques e Condes têm da Co-
significado. Recorde-se que quando na 2.a metade do século xvr o roa mais que o honorífico e o assentamento, sem que haja terras da Coroa
Conde D. Rui Gonçalves da Câmara, \.° Conde de Vila Franca e Ca- que de sua natureza andem unidas a título ou divididas em Ducados, Mar-
pitão de S. Miguel, é confrontado com graves acusações versando o quesados e Condados, e as terras que os tais têm da Coroa são pelo título
uso pervertido das faculdades judiciais concedidas, alegou caber-lhe de donatários delas, separado dos de Duque, Marquês ou Conde, e por
por si e seu Ouvidor «fazer a dita correição e mais autos dela e actos esta razão há muitos títulos que não têm terras da Coroa, nem são dona-
que pertencem aos Corregedores na forma destas doações por ser tários dela»60.

Se bem que isto fosse ponto assente na doutrina, na mentalidade


52 No seu célebre «Diário de navegação», Pêro Lopes de Sousa alude a Martim popular a questão era considerada de modo diverso e a concessão de
Afonso de Sousa, «meu irmão, que ia por capitão de uma armada e governador das título sobre determinada localidade apresentava-se deformadamente
terras do Brasil», cit. in VICENTE TAPAJÓS, História Administrativa ao Brasil, Brasília, 1982,
p. 62, n. 7.
53 Vide o que, neste Capítulo, dizemos a propósito das obrigações militares.
57 Vide o acórdão no Cód. 762? da Biblioteca Nacional de Lisboa, Eóls. 186-187.
54 PP, fól. 105.
58 Idem, ibidem.
55 Biblioteca do Palácio da Ajuda, Consultas do Desembargo do Paço (1594-1596), 59 Vide p. ex. a carta de concessão do título de Conde de S. Cruz a D. João Mas-
fl. 304-304v.
carenhas (23-1-1714), in AÃ, vol. 5 (1883), pp. 524-525.
56 Além dos casos citados, vide AÃ, vol. 12 (1892), pp. 397, 402 e 404.
60 PP, Fóls. 115e568-568v.

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como um atentado à autonomia dos povos ou uma intolerável intro- de título não se dava ao embargado direito de vassalagem, nem outro
missão de um particular na cadeia de relações que directa e livre- algum que tire da minha real Coroa, nem derrogue os privilégios e
mente se estabelecia entre os povos e o Monarca. É disso exemplo a honras que a dita vila tiver»63.
vigorosa reacção da Câmara de Vila Franca do Campo, na Capitania
de S. Miguel, nos Açores, traduzida nos embargos que em meados do
século xvi interpôs à mercê concedida ao Donatário do título de 2. Os Substitutos e Delegados do Capitão
Conde com a designação da mesma Vila. Segundo Faria e Maia, além
de se dizer nestes embargos que Rui Gonçalves da Câmara não era 2.1. Situações de Incapacidade
merecedor do título de Conde de Vila Franca porque
éè «fazia muitas vexações aos homens principais da dita vila», alegava-se
ainda que a antiga capital da ilha possuía privilégios inconciliáveis com
Mas, se há uma realidade indissociável da história das capitanias,
é a de que muito frequentemente não foram governadas pela mão
dos seus capitães. Iremos debruçar-nos sobre duas causas desse tipo
a concessão de um título que importava dar-lhe outro Senhor que não de situações: a incapacidade dos donatários para administrarem di-
fosse o Rei e que só a este ela devia estar sujeita, desde que os bens dos rectamente os seus senhorios, e a faculdade que lhes assistia para no-
infantes haviam passado à posse da Coroa»61. mearem delegados que por eles exercessem os poderes concedidos no
título constitutivo da Capitania.
As alegações do Capitão-Donatário, elaboradas em resposta às Quanto à primeira situação de incapacidade, não é, como disse-
pretensões da Câmara, repõem de modo muito interessante e claro mos, inédita na história destes senhorios, quer por razão da demên-
a questão nos seus devidos termos; isto é, declarando o Capitão que- cia quer por menoridade do sucessor da Capitania. É Gaspar Frutuoso
rer usar que nos relata o caso do desditoso Diogo Teixeira, 4.° Capitão de
Machico:
«tão-somente as preeminências e liberdades e privilégios, mercês e fran-
quezas que os Condes tinham, que são falar-lhes por Senhoria, trazer «Por este Capitão não ter juízo para governar, El-Rei D. Manuel e
pendão na guerra, poder-se cobrir perante Sua Majestade, ter assento de El-ReÍ D. João III do nome lhe quiseram tirar a Capitania, e sobre isso o
Conde. E em Vila Franca não queria ter mais direitos, nem jurisdição da mesmo Diogo Teixeira trouxe demanda com El-Rei até o ano de 1536.»64
que tinha por Capitão e somente queria ter por carta o título e nome de
Conde, como a carta dizia, sem por isso perder nada dos direitos e juris- Na pendência do litígio a Capitania esteve entregue ao governo
dição que tinha por Capitão e Governador da Justiça, que eram muito de três corregedores de régia e sucessiva nomeação por mais de uma
mais do que podia ter por Senhor, e a dignidade era por acrescentamento dúzia de anos, até que em 1536 se deu por vencedor o esbulhado Do-
e não para perder o que tinha antes dela, e isto era o que dizia a carta que natário
muito claramente falava na dignidade de Conde e não na superioridade;
pelo que pedia lhe fosse feita justiça e que se entendesse que isto que lhe «e lhe foram entregues a capitania e rendas dela, contanto que pusesse
requeriam os procuradores era mal requerido e mal inventado e proce- El-Rei à custa das rendas do dito Diogo Teixeira a justiça, por ele não ser
dera rnais de outras causas do que requerer justiça»62. capaz para mandar justiça, nem fazer ouvidor»65.

A causa julgou-a o Rei em favor do Conde-Donatário, conde- No que respeitava a situações de menoridade - consideradas de
nando os embargantes nas custas do processo e apresentando como patente incapacidade governativa - as cartas de doação eram bem
fundamento da decisão a razão linear de que «com aquela concessão
63 Idem, iHdem.
61 FARJA E MAIA, op. ch., pp. 190-191. 64 GASPAR FRUTUOSO, As Saudades da Terra..., p. 118.
62 Idem, ibidem. 05 Idem, ibidem.

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mais positivas, pois que consignam invariavelmente a previsão e a 1557 por sua mãe «tutora e administradora do Senhor seu filho»74, ou
medida adequada a esse tipo de eventualidade. Lê-se na primeira doa- do Visconde de Asseca, Donatário da Paraíba do Sul, entregue aos
ção de uma Capitania, a de Machico, em 1440: cuidados de seu avô, o célebre Salvador Correia de Sá75.

«... e sendo em tal idade o dito seu filho que a não possa reger, eu
ou meu herdeiro poremos aí quem reja até que ele seja em idade para a 2.2. O Problema da Ausência dos Capitães
reger...»66.
Outro facto que justificou a entrega do governo das capitanias
Cláusulas de igual teor deparam-se-nos nas doações ma^eirenáes em mãos que não as dos seus donatários, foi o da «ausência» destes.
de Porto Santo (1446), Funchal (1450), nos Açores, Terceira (1450)67, Não que fosse esse o princípio. Já na carta de doação da Capitania do
S. Miguel (1474)68, Sta. Maria (1474)69, S. Jorge (1483)70, Graciosa Faial a Jos Dutra, em 1468, se lê que ele a houvesse, tivesse e pos-
(1507), e até em Santiago de Cabo Verde (1485)71 e S. Tomé (1493). E suísse «contanto que ele dito Jos Dutra viva na dita Ilha e esteja em
a medida tinha uma aplicação efectiva. Em meados do século XVTII, ela continuadamente, assim como vivem e estão nas outras minhas
tratando o Dr. Tomé Pinheiro da Veiga da questão dos loco-tenentes, ilhas os outros meus Capitães»76.
escreverá: E assim foi, efectivamente, durante as primeiras gerações de ca-
pitães das Ilhas da Madeira, Açores e algumas de Cabo Verde. Mas a
«... nas doações das capitanias das Ilhas (que o Doutor Jorge de Ca-
verdade é que já desde os finais do século xvi, princípios do século
bedo equipara e regista pelas do Brasil) acho que na menoridade, põe du-
xvil, é praticamente nula a presença dos capitães no território dos seus
rante ela El-Rei governador em seu nome real. E da mesma maneira nas
senhorios, efectivamente pouco apetecíveis - porque inóspitos e lon-
ausências, sendo necessário, manda V. Majestade governadores em seu
gínquos - para uma maioria de fidalgos com funções de responsabili-
nome fazendo preito e homenagem, como em Vila Franca, na Ilha de S.
dade na Corte e no governo da Metrópole. Já Gaspar Frutuoso refere
Miguel, Terceira e Madeira, conforme as doações, e ainda até na capita-
que Gonçalo Velho, 1.° Capitão de S. Miguel, regressou ao Reino «por
nia de Ceuta da casa de Vila Real...»72.
não se contentar de viver em terra erma, senão na Corte, onde se
criara às abas dos Príncipes»77. Daqui decorriam problemas, inerentes,
aliás, aos regimes senhoriais peninsulares. Já Castillo de Bovadilla em
Se bem que o fito do Procurador da Coroa fosse o de estender ao meados de Quinhentos se lamentava que
Brasil a prática enunciada - sem sucesso, como adiante se verá -, a
verdade é que em nítido contraste com as antecedentes, as cartas de «en los pueblos de Senores ay mal goviemo y poça justicia, porque los Se-
doação de capitanias brasileiras e as idênticas de Angola e Serra Leoa, nõres se descuydan, en especial los Cortesanos que no residen en ellos, ni
não incluem já aquela cláusula e não nos consta que frequentemente los visitan como estar obligados, para poder en particular ver y entender de
uma situação de menoridade se resolvesse daquele modo73; pelo con- mudar cosas que por sus ausências se causan y quedan sin remédio...»78.
trário, são conhecidos casos de auto-suficiência na solução desses
problemas, como o do menor Capitão de S. Vicente, tutelado em As capitanias portuguesas não foram alheias a esse efeito perni-
cioso, e Frutuoso, escrevendo nos finais desse mesmo século, assaca
66DP, I, p. 404.
67lâtm, p. 471. 74 PEDRO TACQUES DE ALMEIDA PAES LEME, «História da Capitania de S. Vicente»,
68 CD, p. 169. ín Revista do Instituto Histórico Geográfico Brazíleiro, 1847, p. 156.
69 Idem, p. 177. 75 Vide ALBERTO LAMEGO, A Terra Goitacá à luz de documentos inéditos, Rio de
70 CD, p. 183. Janeiro, 1913, passim.
71 SGC, p. 42. 76 CD, p. 153.
72 Biblioteca Nacional de Lisboa, Cód. 762?, p. 52. 77 GASPAR FRUTUOSO, Saudades da Terra, Livro IV..., p. 22.
73 Veja-se no ponto 8 deste Capítulo o caso da excepção de Pernambuco. 73 CASTILLO DE BOVADILHA, op>. dt., pp. 597-598.

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ao capitão de S. Miguel seu contemporâneo a ruína do opulento se- África, onde prestaria melhor serviço «que nas partes de além»83.
nhorio dos seus maiores e «a causa disto é por nesta ilha, que é sua Também a Câmara das Lages, na Capitania do Pico, escreve em 1586
morada, serem hóspedes e lá no Reino terem seu principal assento, de
ao Rei,
que fazem mais cabedal»79.
Também no Brasil os prejuízos da ausência dos capitães foram «nos faça mercê de mandar ao Capitão e Governador desta ilha Jerónimo
desde cedo sentidos: Duarte Coelho, Donatário de Pernambuco, es- Duarte Corte-Real que nessa Corte reside, que venha cumprir com a
crevendo a El-Rei em 1548, recordava-lhe obrigação de seu cargo e resida nestas ilhas donde é capitão para nos re-
ger e governar porque com ele seremos conformes e estaremos prestes
«o que já tenho escrito, que proveja e mande a todas as pessoas a que deu para morrer em defensão desta ilha e em tudo mais no serviço de V. Ma-
terras no Brasil, que venham a povoar e residir nelas, que assim cumpre jestade porque como não temos cabeça que nos reja e governe estamos
a seu serviço, pois essa foi a condição»80. em muito perigo de sermos entrados dos luteranos» 84 .

Os anos passados não trariam novas soluções, e ainda em 1553 o Na realidade, já tempos antes, narra Gaspar Frutuoso, a propósito
Governa dor-Geral Tomé de Sousa expunha ao Monarca que «se um da Ilha de S. Miguel,
homem não pode viver sem cabeça, Vossa Alteza deve mandar que os
capitães próprios residam nas suas capitanias»81. Baldadas queixas e «inspirado de Deus, El-Rei D. João III, ou vendo as coisas ao longe e te-
efeitos perniciosos. Referindo-se aos próprios capitães de Pernam- mendo que os luteranos corsários saqueassem esta ilha e outras, deter-
buco e à conturbada história quinhentista do senhorio, Francis Dutra minou mandar fazer nelas alguns fortes, querendo que os capitães resi-
fez notar que dissem em suas terras...»85.

«many difficulties might have been avoided if Duarte Coelho's two sons Esforço baldado; mas ainda assim, a Coroa, sem que se prestasse
and their successors had spent more of their time in Brazil than in Por- a tomar medidas concretas no sentido de forçar os donatários a uma
tugal and North África. But during the seventy-six years following the residência fixa nos seus domínios, não se coibia de lhes fazer pagar a
first donatário's death in 1554, only one of his successors resided in Per- comodidade do afastamento. Em 1557, o Procurador da Coroa - em
nambuco. The other two lord-proprietors were absentee landlords run- pleito com Jorge de Figueiredo e Fernand'Álvares de Andrade, ambos
ning the captaincy via substitutes (loco-tenente), most of whom were capitães no Brasil - para justificar a não aplicação de privilégios dos
rela ti vês»82. forais aos donatários, invocava precisamente com o fundamento pri-
meiro a sua ausência do senhorio,
Obviamente, as próprias populações dos senhorios eram as gran-
des vítimas dessa «decapitação» da autoridade e chegaram-nos alguns «... de maneira que eram moradores e povoadores desta cidade de Lisboa
ecos dos seus clamores: nos primeiros anos do século xvi, a Câmara e nela residiam pessoalmente e moram de dez, vinte e trinta anos a esta
de Vila Franca, na Capitania de S. Miguel, confrontada com os graves parte com toda sua família, pelo que era errado dizer que eram morado-
antagonismos do Ouvidor eclesiástico e do Corregedor, clamava ao res nem povoadores do Brasil, nem que podem gozar do foral dele e assim
Monarca que mandasse para a Ilha o Capitão, ausente nas guerras de fora já julgado...» 86 .

A administração filipina - aliás numa linha de coerente rigor para


79 FRUTUOSO, op. dt., n. 76, p. 118.
80 AP, vol. l, p. 237, carta de 20-12-1546.
com os donatários - procurará exigir-lhes assistência permanente e
81 JAIME CORTESÃO, Pauliceat Lusitana Monumenta Historiai, Lisboa, 1956-1961, I,
p. 268.
1 FARIA E MAIA, op. dt., p. 42.
82 FRANGIS A. DUTRA, «Centraíization vs. Donatária! Privilege: Pernambuco,
1 AÃ, vol. 4 (1882), p. 85.
1602-1630», in DAURIL ALDEN, Colonial Roots of Modern Brazil, Londres, 1973, 1 Frutuoso, of. dt., p. 118.
pp. 23-24.
[ GTT, vol. n, pp. 564-565.

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efectivo contributo militar e de colonização, defendendo mesmo uma Por seu lado, os herdeiros dos donatários repudiavam a obrigação
interpretação condicente dos títulos originais de doação. Pinheiro da da assistência pessoal
Veiga, o douto Procurador da Coroa, consultado em meados de Seis-
centos sobre a validade da interpretação, não se lhe oporá mas con- «por isso senão expressar na doação nem ser conforme às Leis deste reino
fessaria mais tarde que medidas radicais não se tomaram então e envolver espécie de servidão contrária à liberdade natural que nas pes-
porque, chamado por duas vezes à presença do Conde de Basto, Go- soas deles Condes AÃ. há, e ser facto notório que nem todos seus pre-
vernador de Portugal, este o procurou «persuadir a que não insistisse decessores donatários desta Capitania assistiram em todo o tempo nela,
em sustentar que tinham essa obrigação por razão de seu genro vendo-o, sabendo-o, e não o contradizendo o mesmo Senhor e seus Mi-
Duarte de Albuquerque»87. E tão longe fora já o intento filipino que nistros...»91.
na carta de doação da Capitania da Serra Leoa a Pedro Álvares Pereira
(1606), houve o cuidado de vincar, pela inclusão de cláusula apro- Uma sentença de 31-8-1677 acabará por dar razão aos donatá-
priada, a excepcionalidade da dispensa de residência: rios, pois, demolindo por inteiro a argumentação tão acarinhada pela
Administração havia anos, declarará que
«... E outrossím hei por bem que o dito Pedro Álvares Pereira não
seja obrigado a ir em pessoa fazer a dita conquista e povoação, nem ele «parecendo-lhes (aos Autores) pedir ao dito Senhor declaração do como,
nem seus sucessores poderão ser obrigados a residir por pouco nem por quando, e por que tempo e modo poderão deixar de por suas pessoas
muito tempo e somente eram obrigados a ter Capitão seu lugar-tenente assistirem, povoarem e governarem a dita Capitania, o poderão fazer...»92.
e ouvidor de partes, convenientes, que governem assim na paz como na
guerra as coisas da guerra e da justiça...»88.
Ainda que embargada, a sentença seria confirmada por outra de
21 de Janeiro de 1712, onde expressamente se declarou que «os do-
Como em vários outros pontos desta matéria, a administração natários da Capitania de Pernambuco não estavam obrigados a assis-
pós-Restauração não se desvia da política filipina, e, aquando do tir pessoalmente...»93.
grave conflito que opôs os herdeiros dos Albuquerque Coelho à O problema, que saibamos, não terá novamente reflexos de
Coroa, acusada de esbulhar indevidamente os donatários da sua Ca- maior, salvo evidentemente ao nível de uma convicção generalizada
pitania89, é daquele preciso argumento que se socorre o Procurador da injustiça de uma situação que não pouco contribuirá para o acen-
régio: tuar do processo de incorporação das capitanias. A História Insulana
do Jesuíta António Cordeiro (1717), em determinadas passagens, é
«... outrossim se vê das sobreditas e mais literais palavras e contextura da disso um reflexo evidente:
mesma doação, assento e foral, nos quais se lêem multiplicadas palavras,
indutivas da obrigação da dita povoação, não só pelas pessoas dos do- «... cada Capitão Donatário é obrigado a assistir pessoalmente na
natários, mas com outros moradores seus estranhos, que para isso à sua Ilha e Capitania de que é Capitão, assim como cada Castelão no seu Cas-
custa deviam pôr [...] muito mais obrigado ficou o dito Donatário ao seu telo, e na sua Província cada Governador das armas dela, e que (se não
próprio facto, e a povoar e assistir por sua própria pessoa, para a qual e pode assistir nela) ou se lhe tife~a Capitania e se proveja em outrem que
as de seus sucessores aceitou...»90. lá assista, ou se lhe tire meia renda da dita Capitania, e esta se aplique às
mais e melhores fortalezas da Ilha, pois cada Ilha é uma perpétua fron-

87 Biblioteca Nacional, Côa. 7627, fl. 140-140v.


88 VIRGÍNIA RAU, «Uma tentativa de colonização da Serra Leoa no século xvn», in 91lãem, p. 503.
Lãs Ciências, Madrid, ano XI, n.° 3, s.i.d., p. 630. 92 Idem, p. 508.
89 Vide Q que sobre este pleito referimos no Capítulo II. 93 Vide os autos do processo no Maço I da Colecção Ettg. Raul Contreiras, no

90 Vide a sentença (1689) que reproduzimos em apêndice na 1.* ed. deste estudo. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.

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teira que está sempre em viva guerra com quantas nações e corsários e -Tenente a Gonçalo Monteiro99, que, numa carta de sesmaria de
ainda mouros a acometem. E é contra a justiça que estando o seu Dona- 1536, se intitula precisamente
tário ausente e sem a defender, não só tenha ainda a Capitania (que a
muitos vimos tirar-se-lhe já por não residirem nela) e que, contudo, «Gonçalo Monteiro, Vigário e Capitão lugar-tenente pelo mui Ilustrís-
ainda coma dela a renda...»94. simo Senhor Martim Afonso de Sousa, Governador desta comarca e Ca-
pitania de S. Vicente, terras do Brasil, e seu procurador bastante de reger
e governar a dita Capitania»100.
2.3. O Loco-Tenente
Em 1596, também no Brasil, o Loco-Tenente de Pernambuco
Assim, ausentes na generalidade os capitães dos seus territórios, apresenta-se solenemente como
houve desde muito cedo que procurar suprir de modo eficaz essa la- «Pedro Homem de Castro, fidalgo da casa del-Rei nosso senhor, Capitão
cuna que faria perigar a própria finalidade da doação. Logo, se proce- e Governador Loco-Tenente nesta Capitania de Pernambuco da Nova
dermos à análise da organização desses senhorios, haveremos de Lusitânia, nesta vila de Olinda, partes do Brasil, pelo muito ilustre Se-
constatar que na esmagadora maioria dos casos lhes preside um re- nhor Jorge de Albuquerque Coelho, meu tio, Capitão e Governador
presentante do Capitão, o «Loco-Tenente» ou «Capitão-Mor», no- nesta dita Capitania por el-Rei nosso senhor, etc.»101.
meado por ele para o preciso efeito do exercício das faculdades con-
tidas no título constitutivo. A prática manter-se-á inalterada até aos últimos dias das últimas
Não é impossível que esses íoco-tenentes tenham na sua origem capitanias, na obediência à realidade, manifesta em texto do século
remota qualquer tipo de procuradores ou meros feitores dos capitães; xviii, de que «ausentando-se o Capitão-Donatário, então à sua custa
pelo menos, numa carta régia de 9 de Abril de 1473 se diz que Ro- se põe seu lugar-tenente, a que chamam de Governador, e que posto
drigo Afonso, Capitão de Santiago de Cabo Verde, «posto que por este pode o Capitão, sem prejuízo da ilha, estar ausente dela»102.
pessoa não possa pela ocupação continuada que tem em servir o dito Assente a escolha e nomeação do Loco-Tenente - segundo um
meu sobrinho, ele espera de ter em a dita Ilha seu feitor e casa man- processo que variou consoante as épocas e que detidamente se ana-
teúda continuadamente»95. lisa em ponto sequente -, passava ele a exercer o seu mandato nos
Mas a verdade é que tão cedo quanto o ano de 1493, uma carta termos de um autêntico negócio privado, ficando a amplitude dos po-
de D. João II é dirigida «a vós Capitão da Ilha da Madeira ou a vossos deres recebidos consignada desde logo no correspondente docu-
Loco-Tenentes, cada um em sua jurisdição» 96 . Também num regi- mento, outorgado com formalidades notariais, e de onde ressuma,

t
mento manuelino sobre dadas de sesmaria se alude ao Capitão au- em termos mais ou menos extensos, a preocupação primacial de fa-
sente e a «quem por ele tem o carrego»97, e, noutra doação de 1536 cultar ao Loco-Tenente os meios de administrar o senhorio sem re-
de uma ilha que se descobrisse ao sul da Ilha do Fogo, se referem ex- curso ao seu Capitão, salvo, evidentemente, aqueles casos onde o
pressamente os «capitães postos por eles», donatários. No Machico, agreement donatarial se tornava indispensável. As mais das vezes, o
em 1541, pelo Capitão António da Silveira toma posse do senhorio Capitão nomeava um procurador com poderes latos para o represen-
Diogo cíe Fragua, seu «lugar-tenente»98. No Brasil, logo em 1533, Mar- tar, inclusive o encargo básico de tomar posse da Donatária, como o
tim Afonso de Sousa, Capitão de S. Vicente, nomeia por 1.° Loco- fez o «procurador» Manuel da Mota Botelho perante os oficiais ré-
gios, «cavando a terra com a enxada e roçando com uma foice», em
94 ANTÓNIO CORDEYRO, História Insulana das Ilhas a Portugal Sugeyias no Occeano
Occidental, Lisboa Occidental, 1717.
95 SGC, I, p. 36. 99 TAPAJÓS, op. aí., pp. 57-58.
96 Carta de 8-5-1493, in DP, III, p. 392. 100 PEDRO TACQUES, op. cit., p. 160.
97 AÃ, vol. 12 (1892). 101 AP, vol. 2, p. 26.

98 AÃ, vol. 3 (1881). 102 FRUTUOSO, As Saudades da Terra..., p. 515.

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Dezembro de 1646 na Capitania de Caeté, «em nome do seu consti- Este António Rodrigues de Almeida viria efectivamente a ser Ca-
tuinte, Álvaro de Sousa»103. pitão e Ouvidor de S. Vicente305. O sistema de procurações deste tipo
Este tipo de preocupações podia estender-se também à escolha generalizou-se e encontramo-lo, por exemplo, já no século xvill, na
do Loco-Tenente e Ouvidor, cargos que esse mesmo procurador aca- Capitania da Paraíba do Sul106. Na Capitania de Caeté, também no
bava por chamar a si. Em 1557, por exemplo, D. Isabel de Gamboa, Brasil, a situação foi diferente. O Regimento dos Almoxarifes desse
tutora do Donatário de S. Vicente, no Brasil, nomeia em Lisboa como senhorio, datado de meados do século XVII, dá-nos a entender que o
estabelecimento da máquina governativa da Capitania à data da sua
«seu procurador bastante a António Rodrigues de Almeida, cavaíeiro-íi- fundação foi entregue a um denominado «administrador» que tam-
dalgo da Casa de El-Rei nosso Senhor, que ora volta para S. Vicente, o bém acumulava o cargo de Almoxarife, e a quem, para lá dos múlti-
amostrador deste instrumento, e lhe deu seu poder cumprido e mandado plos encargos de administração da fazenda senhorial, cabiam tam-
especial para que por ela e em seu nome e do dito seu filho, possa lhe bém outras funções presas à nomeação de oficiais de justiça e
aprouver que todas as pessoas que tenham e quaisquer coisas que as vão governo que poderíamos chamar «civil»107. Mas a natureza dos pró-
povoar, beneficiar, aproveitar e reedificar conforme as ordens, ele Antó- prios domínios acabaria por condicionar os intuitos e o âmbito dos
nio Rodrigues de Almeida possa dar as tais terras, águas e coisas sobre- poderes delegados: o Conde de Sta. Cruz, Senhor das Ilhas de Sto.
ditas de sesmaria a quem lhe aprouver isso mesmo; e lhe dá poder para Antão de Cabo Verde, subscreve em 1740 uma carta pela qual
que possa dar quaisquer outras terras do dito seu filho em a dita Capita-
nia de Sto. Amaro de Guaibé, conforme as ordens das sesmarias, e das «faço saber aos meus vassalos e escravos que tenho nomeado de Capi-
terras que lhe aprouver comedidamente lhe fará cartas de sesmarias, tão-Mor e Ouvidor da dita Ilha de Sto. Antão a Francisco da Lima e Melo
e possa pôr na dita Capitania Capitão Ouvidor, tais quais devam ser, e por concorrerem nele os requisitos necessários; hei por bem de declarar
querendo ele dito António Rodrigues de Almeida ser Capitão e Ouvidor, que o dito Capitão-Mor possa administrar e significar minha fazenda que
por esta presente lhe dá poder de Capitão e Ouvidor para que em nome tenho na dita minha ilha, assim de gado, escravos, como de tudo mais
do dito seu filho seja todo o tempo que lhe aprouver e a ela Senhora lhe que houver, embarcando e desembarcando na embarcação que por meu
bem parecer; e manda que lhe obedeçam no alto e no baixo, e assim ao mandado a ela for, como também em outras embarcações da mesma ilha
Capitão-Ouvidor que ele António Rodrigues de Almeida ordenar, tirar a para onde tiver conveniência e utilidade da minha fazenda, e tudo mais
um e pôr a outros quando justo e razão lhe parecer, e que possa receber que eu lhe mandar por minha ordem ou da pessoa que meu poder tiver;
ele António Rodrigues de Almeida todas as redízimas e rendas que per- e ordeno a todos na dita ilha moradores, assim eclesiásticos como secu-
tencerem ao dito seu filho por foral e doação [...] e possa citar e deman- lares, conheçam e estimem ao dito Francisco de Lima como meu Ouvidor
dar a quem lhe aprouver, em juízo e fora dele alegar, defender [...]. E as- e Capitão-Mor e administrador da dita Ilha...»108.
sim de outras quaisquer coisas, artilharias e munições, de tudo tomará
conta e razão, e dará conhecimento e quitações do que receber. E dá po- Situação curiosa e - ainda que rara - a merecer alguma atenção é
der ao dito António Rodrigues de Almeida que como Capitão possa fa- a da hipótese das livrps sub-delegações dos poderes por parte dos
zer e faça tabeliães do público e do judicial e dos órfãos e da Câmara e
do Ouvidor, e lhe dará os seus assinados, com declaração de se virem
105 Idem, ibidem.
confirmar por ela Senhora em certo tempo que lhes será limitado, para
106 ALBERTO LAMECO, vol. n, pp. 257-258.
ela Senhora lhes mandar passar carta em forma, selada com o selo do 107 Vide o Livro da fazenda da Capitania do Cayeté, Cod. l da Colecção Vidigueira
dito seu filho...»104. da Sociedade de Geografia, Lisboa, ff. 74-78: «Ordem que o Capitão João Vasco de
Mattos meu almoxarife e administrador na Capitania de Caeté, partes do Maranhão
ha-de seguir na cobrança e administração da minha fazenda e jurisdição de que ha-de
103 O auto de posse da Capitania de Caeté, datado de 15- 12-1646, está no Livro uzar conforme ao poder que feva, e aqui se lhe dá e na sua absencia observa o memo
da fazenda da Capitania do Cayeté, Cod. l da Colecção Vidigueira da Sociedade de Geo- o escrivão do almoxarifado João de Herrera da Fonseca e os mais almoxarifes e admi-
grafia, Lisboa, a ff. 112-113. nistradores que eu mandar.»
M PEDRO TACQUES, op. cit., pp. 157-158. 108 SCC, II, p. 281.

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loco-tenentes, num segundo tenente. As cartas de doação ou a legisla- dição na justa medida em que fora transferida da Coroa para o Capi-
ção são omissas nesse ponto e Cabedo mostrou-se francamente hos- tão pelo título de doação, a manutenção da ordem pública, com po-
til a essa hipótese: «Locuumtenens non potest alium in eius locuum der de punir ou providenciar a punição dos contraventores da ordem
subrogare sine licentia Príncipis.»109 Mas a verdade é que já em Per- pública, e a supremacia sobre os órgãos concelhios, nos termos em
nambuco notou Francis Dutra que os loco-tenentes, ausentes em que o Donatário a pôde efectivamente invocar. Loco-Tenentes e Ou-
campanhas militares ou de expansão colonizadora, nomeavam e de- vidores preenchiam assim por completo o «imperium» dos capitães
legavam poderes noutros, sem que isso implicasse necessariamente a nos seus senhorios, pelas duplas atribuições do governo «civil» e de
escolha do Donatário, e, escreve, «às vezes estes Loco-Tenentes de «justiça», numa fórmula muitas vezes reforçada pela acumulação dos
Loco-Tenentes serviram por curto período que variava de semanas ou dois cargos na mesma pessoa, o que mais detidamente se verá
meses»110. quando tratarmos da figura do Ouvidor. Num documento de 1540,
Outro aspecto a notar é o das remunerações: pela própria natu- António de Oliveira intitula-se assim «Capitão Loco-Tenente pelo se-
reza privada de cargo, a sua retribuição, em princípio, corria por conta nhor Martim Afonso de Sousa Governador desta Capitania de S. Vi-
do Donatário. Mas a verdade é que os regimes terão variado muito de cente em a Costa do Brasil e seu Ouvidor com alçada»115.
Capitania para Capitania. Já na Capitania da Praia o cargo - que pe- Calcula-se com facilidade a dimensão do poder alcançado nas ca-
ríodos andou ora junto ora separado do de Ouvidor- «nem junto nem pitanias pelo controlo destes cargos. Em termos tais que na causa cé-
afastado teve ordenado» 111 . E na Ilha do Príncipe, segundo Cunha lebre que nos finais do século xvil opôs a Marquesa de Castelo Me-
Matos, os capitães-tenentes dos donatários eram lhor ao Juiz de Fora do Funchal, este acusava o procurador da
Donatária e Tenente da Ilha que, «como o seu filho era o Ouvidor, que-
«em tudo subordinados aos governadores de S. Tomé e por eles providos ria com largo império ocupar o tridente de dois mares, governar as ar-
quando vagavam os nomeados por Sua Majestade» 112 . Não tinham or- mas e as letras»116. Em 1670, a própria Câmara de Itanhaem, no Bra-
denado, mas segundo o mesmo autor, eram obrigados «a pagar aos Con- sil, intimava o Capitão-Mor a desacumular o cargo de Ouvidor,
des Donatários uma pensão anual de 400 mil reis, e a administrar-lhes as «considerando o seu poder excessivo uma ameaça às liberdades mu-
suas fazendas da mesma Ilha, e além disto ainda tinham cuidado de lhes nicipais»117.
remeterem escravos para o seu serviço, e lenha quando se oferecia a As crónicas e os documentos estão cheios, aliás, de referências às
oportunidade»113. inevitáveis prepotências praticadas pelos loco-tenentes: violência, ex-
torsões e incompetência são acusações frequentes. A correspondência
Tudo visto, e como já o demonstrou Guilarte para os senhorios dos primeiros governado ré s-g e rã is do Brasil é pródiga em queixas
castelhanos114, também nas capitanias a actividade dos loco-tenentes dessi teor; nos Açores e na Madeira os conflitos são permanentes,
se reportava, assim, a três objectivos essenciais: o exercício da juris- comojse pode ver em Gaspar Frutuoso; a Razão do Estado do Brasil, na
primeira década do século XVII, assevera que nas capitanias de donatá-
rios «nunca se encontra pessoa respeitável no governo, o que não su-
109 JORGE DE CABEDO, Praticorum Observationum seu Dedsionem Supremt Lusitaniae
cede donde servem capitães do dito Senhor»118, e no Espírito Santo,
Senatus, Lisboa, 1604, p. 51.
110 FRANGIS A. DUTRA, «Notas sobre a vida e morte de Jorge de Albuquerque
em 1718, logo no início do seu governo do Brasil, o Conde de Vimieiro
Coelho e a tutela de seus filhos», in Studia, n.° 37, Dezembro de 1973, p. 273. é forçado a dirigir uma severa reprimenda ao Capitão-Mor, tendo no-
111 ANTÓNIO FERREIRA DE SERPA, Dois inéditos acerca das Ilhas do Faial, Pico, Flores e
Corvo: Saudades da Terra (Século XVI) por Gaspar Frutuoso e Espelho Cristalino ou jardim
de várias flores (Século XVII) por Frei Diogo das Chagas Com uma introdução e anotações 115 DBN, vol. 13, p. 202.
de(...), Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921, p. 132. 116 DP, I, pp. 229-230.
113 RAYMUNDO JOSÉ DA CUNHA MATOS, Chorographia Histórica das Ilhas de S: Thomé
117 EULÁLIA LAHMEYER LOBO, Administração Colonial Luso-Espanhola nas Amérícas,
e Príncipe, Ano Bom e Fernando Pó, S. Tomé, Imprensa Nacional, 1905. Rio de Janeiro, Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1952, p. 298.
113 Idem, ibídem.
118 Vide ENGEL SLUITER, «Report on the State of Brazil, 1612», in The Hisyanic
114 GUILARTE, op. cit., p. 84. American Histórica! Review, Novembro de 1949, pp. 518-562.

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tícia das «violentas opressões que padeciam os moradores»119. Os ca- zeram em Lisboa a propósito da proposta da extinção do Tribunal da
sos extremos dos distúrbios da Capitania da Paraíba do Sul ou do Se- Relação da Baía, alegando que «se um Capitão-Mor com um pobre
nhorio de Sto. Antão, deixam ver a que ponto chegavam, já nos mea- ordenado ainda que receoso da residência de um Desembargador
dos do século XVIII, os arbítrios desses verdadeiros potentados em ajunta em três anos 18 a 20 mil cruzados que fará esquecido
terras longínquas120. Não admira assim que em 1709 o Conselho Ul- dela...»126.
tramarino aludisse à necessidade de nas capitanias recuperadas para a A prática manteve-se e mesmo com carácter de excepcionali-
Coroa se nomear para o posto de Capitão-Mor «pessoa, de maior su- dade: em Outubro de 1618, com respeito às «entradas» e «resgates» de
posição do que escolhem os donatários, que são uns feitores seus, sem gentios no interior das capitanias, o Governador-Geral Gaspar de
graduação de serviços para acudirem a sua defesa»121. Sousa
E finalmente, já em 1751, nas próprias vésperas das incorpora-
ções pombalinas, o mesmo órgão alude genericamente às «vexações «mandava, ao Desembargador Antão de Mesquita de Oliveira, Desem-
que este capitães propostos pelos donatários fazem aos povos, por bargador dos Agravos da Relação do Sul, que na de S. Vicente tirasse re-
contemplação de quem os propõe» 122 . sidência aos capitães que haviam servido nos dez anos precedentes, per-
A Coroa não era alheia a estes desmandos e são frequentes as pu- guntando especialmente sobre matérias do sertão pelo escândalo e
nições, decorrentes dos mecanismos de controlo da sua actividade. devassidão que delas tinham resultado..,»127.
Uns, inerentes à normal actividade das «correições» régias; outros,
próprios ou adstritos à natureza do cargo e extensíveis, como vere- Já também em 1719o Governador do Rio, Luís Vahia Monteiro,
mos, à figura do Ouvidor. Relembremos primeiro a fixação da dura- expunha que
ção do cargo em três anos, prática comummente aceite na generali-
dade das capitanias e que cremos estabelecida em função da mesma «tem este governo ordens particulares que, sem ofender as doações, lhe
duração do exercício do cargo de Ouvidor, este fixado por lei123. No- mandam tirar residências aos Capitães-Mores nas terras dos donatários,
temos depois que, também como esse, o Loco-Tenente estava sujeito acabados os três anos que devem servir...»128.
a um «juízo de residência», ou devassa à actuação finda124. No Brasil
impunha-o o Regimento da Relação (1609), ao ordenar que Frequentemente nem se aguardava o termo de «residência» e há
notícia de vários loco-tenentes destituídos em pleno desempenho dos
«o Governador mandará tomar residência cada três anos aos Ouvidores seus cargos. O 1.° Governador-Geral do Brasil, Tomé de Sousa, escre-
das capitanias e aos capitães e pessoas que servirem em seu lugar, por via em Junho de 1553 ao Rei, clamando pela assistência pessoal dos
um Desembargador da Relação que para isso escolher, de satisfação, donatários,
conforme à Ordenação e ao Regimento novo»125.
«e quando isto não for por alguns justos respeitos, ponham pessoas de
E que a prática era seguida e com algum sucesso prova-o a «re- que Vossa Alteza seja contente porque os que agora servem de capitães
presentação» que os povos brasileiros, nos princípios do séc. xvii, fi- não os conhece a mãe que os pariu e eu agora tirei um da Capitania de
Ilhéus...»129.
119 Carta de 15 de Set. de 1718, in DBN, vol. 43, p. 133.
120 ALBERTO LAMECO, op. cit., yassim, e SGC, parte II. Em 1550, em Cabo Verde, a situação acarretaria consequências
121 ID, vol. 6, p. 320 (consulta de 4-3-1709). ainda mais graves: lá, até ao século xvi, segundo Senna Barcelos, as
mlàem, p. 144.
123 Vide o nosso Capítulo V ponto 3.
124 lâtm, ibidem. 126 Biblioteca Nacional de Lisboa, Colecção Pombalina, n.° 647, foi. 70.
125 CÂNDIDO MENDES DE ALMEIDA, Auxiliar Jurídico servindo de Appendice à Décima 127 Documento sobre a Capitania de S. Vicente, pp. 183-184.
Quarta Edição do Código Philippino, etc., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkían, 1985, 128 ALBERTO LAMEGO, op. ch., p. 304.
Kl. l, p. 607. 12!ljAJME CORTESÃO, op. cit., vol. l, pp. 268-269.

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nomeações de capitães recaíam em indivíduos da escolha dos dona- pitania, para uma prática de simples «apresentação» donatarial, mera
tários, como lhes prescrevia o regimento, tendo porém a confirmação designação sujeita a confirmação final do Rei. Se bem que devido a
régia130. No entanto, dados os despotismos de João Correia de Sousa, um conjunto particular de circunstâncias a mudança de um para ou-
irmão e Loco-Tenente do Donatário, o Rei exonerou-o, retirando por tro sistema seja só consagrado após a Restauração, a verdade é que re-
último «o privilégio ao Donatário da Ribeira Grande de nomear Ca- monta já à primeira geração dos donatários brasileiros o encoraja-
pitão da sua confiança, e passou a nomeá-los com o simples título de mento a que os monarcas tomassem em mãos - em caso de ausência
capitães, desempenhando ainda as funções de Corregedor, Contador dos capitães - o controlo do processo de escolha e nomeação dos
e Provedor dos defuntos e ausentes, dando-lhes regimento, exi- loco-tenentes. Em 1533, o primeiro Governado r-Geral, Tomé de
gindo-lhes juramento, e estipulando-lhes o ordenado de 300$000 réis Sousa, escrevia da Baía ao Rei, conjurando-o a que ordenasse
anuais» 131 .
Noutros casos, entidades que não o Donatário impõem a no- «que os Capitães próprios residam em suas capitanias. E quando isto não
meação do Capitão: por um alvará de 18 de Março de 1566, e pre- for, por alguns justos respeitos, ponham pessoas de que Vossa Alteza
sentes razões de cunho eminentemente militar, o Rei nomeia Capitão seja contente porque os que agora servem de capitães não os conhece a
de Angra ao Corregedor dos Açores, dado o Capitão da Terceira «não mãe que os pariu...»135.
poder ir ao presente à dita Ilha»132, e na mesma época e na ausência
de Antão Homem, Capitão da Praia, é eleito pela Câmara para o subs- A queixa do Governador não era nova:
tituir Francisco de Castro133. No termo de um processo mais violento,
nos finais do século xvi, o Governador, D. Francisco de Sousa, man- «Por muitas vezes tenho escrito a Vossa Alteza que mande a estas
dando devassar a conduta do Loco-Tenente Jorge Correia a pedido partes até dez criados seus e que sejam homens que tenham alguma
das Câmaras de S. Vicente e de Santos, suspende-o das funções, obrigação à honra para servirem nas Capitanias de oficiais de sua fa-
chama-o perante si e nomeia-lhe um substituto, Jorge Pereira de zenda e de Capitães...»136
Sousa134.
Também o Governador Mem de Sá, em carta de 1560 ao Mo-
narca, reiterava o que já dissera noutra do ano anterior:
2.4. O Processo de Nomeação
dos Loco-Tenentes «... o quão necessário era pôr nestas Capitanias Capitães honrados e
de boa consciência [...] Agora o vi quando corri a costa. Porto Seguro está
Face ao que dito fica - nomeadamente a degradação administra- para se despovoar por causa do Capitão. Os Ilhéus se eu não lhe acudira
tiva acarretada pelo sistema de governação indirecta dos capitães e a houvera-se de perder e haveriam de matar o Capitão. No Espírito Santo
progressiva centralização ou tendencial reforço do poder real no go- estão três filhos de Vasco Fernandes Coutinho, moços sem barbas, e to-
verno ultramarino - importa tratar, enfim, uma questão indissociável dos são capitães. Os de S. Vicente estão quase levantados. Se Vossa Al-
do âmbito das relações estabelecidas entre os donatários e a Coroa: a teza quer o Brasil povoado é necessário ter outra ordem nos capi-
da escolhia e nomeação dos lugar-tenentes, questão manifesta no con- tães...»137
turbado processo de transição do sistema de pura «dada» de o/fícío
pelo Capitão, em vigor na generalidade e nos primórdios de cada Ca- O problema só tarde, porém, teria a solução que, pelo menos ofi-
cialmente, tendia a colocar sob a alçada régia o sistema de nomeação
dos tenentes dos donatários. Efectivamente, reza certidão do Conse-
130 SGC, parte l, pp. 128-129.
131 Idem, p. 137.
133 FRANCISCO FERREIRA DRUMMOND, Annaes da Ilha Terceira, pp. 620-621. 135 JAIME CORTESÃO, op. cit., vol. i, p. 286.
133 Idem, ibiáem.
136 Idem, ibtdem.
134 RSP, vol. i, p. 74.
137 ídem, ibidem.

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lho Ultramarino de 23 de Outubro de 1677, pedida à Secretaria desse Carta de igual teor fora também enviada sete dias antes a Antó-
órgão pelo Marquês de Cascais, Capitão de S. Vicente, que nio de Aguiar Coutinho, Capitão do Espírito Santo141, deixando adi-
vinhar uma iniciativa que, cremos, se estendeu, pelo menos, a todos
«os Donatários das Capitanias das terras do Estado do Brasil antes da res- os donatários brasileiros. Daí que, baixando o requerimento de D. Fi-
tituição destes Reinos à Majestade do Senhor Rei D. João IV, que Santa lipa de Menezes ao Conselho Ultramarino, este inovasse, exigindo da
Glória haja, nomeavam em virtude de suas doações seus Loco-Tenentes requerente o fundamento daquela alegada fórmula de nomeação. In-
que por eles servissem nas ditas Capitanias. E por conveniência de ser- vocou, surpreendida, D. Filipa a prática inalterada dos antecessores, e,
viço e outras razões particulares que o moveram mandou por resolução
do 1.° de Fevereiro de 1649 que os ditos Donatários das tais Capitanias «dando-se fé de suas doações, certidões e mais papéis vista ao Procura-
nomeassem três sujeitos, apresentando a nomeação no Conselho Ultra- dor da Coroa, respondeu sem dúvida vendo serem largas e amplas de
marino donde por consulta subia a S. Majestade que aprovava um dos juro e herdade, fora da Lei Mental, e como nomeavam sempre de tempo
ditos sujeitos e sempre era o que ia em primeiro lugar, por serem estes imemorial até ao presente em sua ausência os donatários e S. Majestade
os mais capazes, e em virtude da dita nomeação se lhe passava patente a muitos aprovou como fez ao Marquês de Cascais em 1637 para a Ca-
assinada pela mão real e o Capitão nomeado dava homenagem na forma pitania de S. Vicente e S. Paulo de que é Donatário...».
do estilo, o que desde então até o presente se observa»138.
O Conselho acabaria, em decisão de 16 de Outubro de 1648, por
Afortunadamente, tivemos oportunidade de localizar a frequen- aprovar a pretensão de D. Filipa,
temente invocada resolução régia de 1649, podendo reconstruir-se a
«visto o dito exemplo e a posse em que o Donatário passado estava de
sequência dos factos que directamente a antecederam. Em 1647, D.
nomear Capitão e de V.M. lho aprovar, e a forma de suas doações que
Filipa de Menezes, mãe e tutora de António Luís Gonçalves da Câ-
são mui amplas e com grande jurisdição para muitas coisas».
mara, menor herdeiro da Capitania do Espírito Santo, solicitou a
El-Rei, no estilo usado na Donatária, o reconhecimento do Loco-Te- Porém, dando-se de tudo vista ao jurisconsulto Dr. Tomé Pi-
nente escolhido, Francisco de Barros139. Todavia, essa prática mera-
nheiro da Veiga, seria ele de muito diverso parecer, pois, além de não
mente burocrática estava em vias de sofrer importantes alterações por vislumbrar tal faculdade nas cartas de doação, relembrava que em ca-
força das circunstâncias políticas e militares do reino recém-restau-
sos de menoridade ou ausência do Donatário, era ao Monarca que
rado. Aliás, já em finais do ano de 1645, sob a tensão das hostilidades
competia nomear Capitão que preenchesse o lugar até ser superado o
dos holandeses no Brasil, o Monarca se viu forçado a limitar a capa- impedimento, casos já sucedidos na Ilha de S. Miguel, na Terceira, na
cidade de provimento dos capitães, que era aceite competir por in- Madeira, na Capitania de Ceuta, e, como veremos, na própria Capi-
teiro aos donatários. Em 22 de Novembro desse ano escrevia ao Mar-
tania de Pernambuco, uma vintena de anos antes142.
quês de Cascais, Capitão de Itamaracá que Deste modo, dizia Veiga, se era indiscutível a admissibilidade da
«pela pouca segurança que se pode ter dos inimigos desta-Coroa e ser nomeação donatarial de procuradores para
conveniente a meu serviço que nos portos de mar estejam pessoas de va-
«cobrar seus direitos e rendas por seu procurador em seu lugar, e toda a
lor e de experiência de guerra, vos encomendo muito pelas razões apon- /
jurisdição de data de ofícios e a jurisdição contenciosa de justiça por seus
tadas, não mandeis Capitão por esta vez à Capitania de S. Paulo e S. Vi- \e de que sois Donatário, sem primeiro me dardes conta da pessoa
ouvidores que tem tido o poder do Donatário, como os mais do Reino e
Capitães das Ilhas»143,
que ocupar naquele posto, avisando-me também qual é a que de pre-
sente está nele»140.
MI PP, n.° 38.
142 Vide os pareceres de Pinheiro da Veiga, no Côa. 762J da Biblioteca Nacional
138 PP, £61. 414.
139 Arquivo Histórico Ultramarino, cx. Rio de Janeiro, doe. de 26-11-1648. de Lisboa, fóls. 52-56.
143 Idetn, ibidem.
140 PP, n.° 37.

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tal se não entendia em cargos de responsabilidade e essencial ca- Capitão-Mor. E a fim de não violar abruptamente os privilégios dos
rácter militar. Os exemplos alegados pela requerente tinha-os o ilus- donatários terá invocado uma faculdade que ao Rei assistia noutras
tre jurista como puras e pontuais concessões, mais da régia benevo- capitanias, que não expressamente nas do Brasil: a já referida possibi-
lência que de imperativas obrigações decorrentes de cartas de lidade de, em casos de menoridade ou ausência do Donatário, poder
privilégio, concessões essas que, excepcional e sem exemplo, se lhe nomear a Coroa um Capitão que o impedimento suprisse. Relem-
podiam repetir no caso vertente144. No Conselho Ultramarino, onde bre-se que, com efeito, ainda em Outubro de 1636 o Rei Filipe III no-
o assunto retomou, considerar-se-ia salomonicamente ao Monarca mearia com esse cargo para os Açores Nuno Pereira Freire, presente
que os donatários exposição da Vice-Rainha Duquesa de Mântua, a que fizera juntar
uma lista de pessoas «para escolher a que há de ficar governado a Ilha
«devem propor e nomear a V. Majestade pessoa de satisfação, e que de S. Miguel em ausência do Conde de Vila Franca», que antes solici-
vindo a V. Majestade notícia da tal pessoa lhe deve mandar passar carta tara régia licença para se ausentar da ilha «para se vir curar»146. Assim,
patente em que declare que a nomeação do Donatário prouve a VM. a poderia o anónimo autor da Relação das Capitanias do Brasil - escrita
fulano e - que pela tal Capitania lhe fará preito a menagem na forma cos- nos anos derradeiros do século XVI - referir que em Pernambuco
tumada, com que os Donatários ficam com o que lhes pode tocar, V. Ma-
jestade conservado na jurisdição e soberania, e a praça conveniente- «o Capitão-Mor e Governador desta capitania é posto por Sua Majestade
mente provida». em ausência do senhor dela que é um filho de Duarte Coelho de Albu-
querque [Jorge de Albuquerque] o qual apresenta e Sua Majestade esco-
A resolução régia que aprovou esta última opinião é a supra, refe- lhe...»147.
renciada do dia l de Fevereiro de 1649, consagrando-se sequente-
mente a forma da tríplice proposta nominal, acompanhado cada Depois, quando este Jorge de Albuquerque Coelho morreu, dei-
nome do «serviços, partes e qualidades que para o tal cargo se reque- xaria no testamento três nomes apontados para a escolha régia. Ape-
rem»145, e acabando o Conselho por respeitar invariavelmente o sar de o novo Donatário, Duarte de Albuquerque, ser menor e en-
nome com que o Donatário fazia encabeçar a lista. Isto é - à parte a contrar-se sob tutela, a vontade do Capitão antecedente seria
exigibilidade de um mínimo de experiência militar que as circunstân- respeitada, provendo El-Rei no cargo, por carta de 9 de Outubro de
cias pós-Restauração impunham -, mais do que colocar os territórios 1602, a Alexandre de Moura, um dos nomes sugeridos, «enquanto
sob o controlo de funcionários da Coroa, a decisão de 1649 constitui, durar a menoridade e ausência do dito Capitão proprietário»148.
em nosso entender, uma medida de carácter mais «doutrinário» que A Coroa, porém, não seria bastante este triunfo relevante sobre a
prático, visando deixar bem vincada na estrutura senhorial de go- autonomia dcíS-donatários de Pernambuco. Esbatendo por completo
verno das capitanias a afirmação da soberania do recém-aclamado D. a faculdade que lhes assistia desde 1534, os Reis Áustrias acabariam
João de Bragança. por chamar por inteiro a si a iniciativa de qualquer escolha. E assim,
Mas, mau grado a nada aludir a documentação que vimos ci- quando em 1615 Filipe II, unilateralmente, escolhe e nomeia Vasco
tando, a verdade é que o sistema de apresentação de uma lista trino-
• minal tinha antecedentes pontuais, e talvez de maior significado, pois
Pacheco Capitão-Mor de Pernambuco149, o Donatário não deixou de
sentir a afronta, embargando a nomeação com o fundamento de que,

• que a prática parece ter sido inaugurada precisamente na mais prós-


pera Capitania hereditária do Brasil, e, num período de guerra, a mais
no mínimo, e como a seu pai, lhe assistia a faculdade «de haver de no-
mear pessoas das quais eu [Rei] escolha uma que sirva em sua ausên-
é merecedora do desvelo real: a de Pernambuco. Ao que depreende-
mos, o valor estratégico do senhorio forçava a administração filipína
a não descurar o provimento de um cargo tão importante como o de 146 Biblioteca da Ajuda, Correspondência de El-Rei Filipe Hl, foi. 76.
47 «Relação das Capitanias do Brasil», in Relações do Descobrimento da Costa da
Guiné, Biblioteca da Ajuda, cód. 51-IX-25, fóls. 134-135v.
144 Idem, ibidem. 148 Arquivo Nacional, Chancelaria de Filipe III, L. 10, fóls. 196-197.

145 Arquivo Histórico Ultramarino, cx. S. Paulo, n. 18, doe. de 6-8-1653. 149 Vide FRANGIS A. DUTRA, Centralization..., p. 34.

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cia»150. Sem sucesso, aliás, pois a nomeação de Pacheco iria avante, «Capitão, Alcaide-Mor e Governador desta Capitania de S. Vicente por
sucedendo-lhe outra de Martim de Sousa de Sampaio (1616) «por apresentação do Conde de Monsanto Marquês de Cascais, Donatário
tempo de três anos na vagante da pessoa que está provido dela»151. Só perpétuo dela por Sua Majestade, e confirmado pelo dito, Senhor»155.
em 1627, a pedido expresso do Capitão-Donatário e invocação dos
seus serviços, o Rei anuiria a retomar o sistema de apresentação da Em 1653, o Marquês de Cascais remeteria ao Conselho Ultrama-
lista dos três nomes para o cargo, e ainda assim «com declaração que rino,
querendo eu [Rei] prover de Capitão a mesma Capitania o poderei fa-
zer em todo o tempo que me parecer, ainda que a pessoa que estiver «na forma das ordens de S.M. a nomeação que fez do cargo de Capi-
naquele cargo seja dos nomeados por ele»152. tão-Mor da dita Capitania em Gonçalo Couraça de Mesquita, Martinho
Nem mesmo a igualmente brasileira Capitania de S. Vicente se da Silva e Filipe Jacques de Oliveira, por em todos dizer que concorrem
furtaria ao amplexo da administração filipina: aí veremos que em os serviços, partes e qualidades que para o tal cargo se requerem»156.
1630 foi necessário por ordem do Governador fazer presente ao Ou-
vidor-Geral uma provisão de nomeação do Capitão-Mor da Donatá- Ordenando o Conselho que os nomeados apresentassem os «pa-
ria Condessa do Vimieiro a fim de verificar se haveria «alguma dili- péis de seus serviços para se poder acertar no provimento»157, só o
gência que fazer nesta apresentação para conservação da jurisdição primeiro, Gonçalo de Mesquita, o faria. Em consulta de 6 de Agosto
real em seu parecer»153. A opinião do magistrado seria, porém, a con- de 1653 ao Conselho pareceria então
tradição nítida da interpretação fiíipina, entendendo categoricamente
«dar conta a Vossa Majestade das pessoas que o Marquês de Cascais (na
«impor Capitão e Ouvidor e os mais Ministros e Oficiais de Justiça, sem
forma das ordens de V. Majestade) propõe para a Capitania de que é Do-
mais outra confirmação que a sua e que todos se nomearão pelo Dona-
natário. E que por no primeiro proposto (que somente ofereceu seus pa-
tário com mais outros muitos privilégios e liberdades, em razão^do^que
péis) concorrerem serviços, merecimento e valor, será justo que V.M. o
parece não pode duvidar da dita nomeação»154.
aprove e lhe mande passar patente na forma costumada»158.

Ficamos convictos de que mesmo a inovação imposta aos dona-


E como não? O Marquês Donatário dera prova de tacto na esco-
tários de Pernambuco não terá vingado pela debilidade intrínseca da
lha do seu lugar-tenente: Couraça de Mesquita, militar de carreira,
sua fundamentação. Haveria que esperar pela Restauração para, atra-
servia a Coroa desde 1637 nos postos de soldado, alferes e ajudante,
vés do sistema oficializado das listas de propostos, ver concretizado
quer no Rio de Janeiro quer sobretudo no Reino, em muitas das bata-
com solidez o empenho centralizador. Podemos, efectivamente e sem
lhas da Restauração159. O acordo real seguiu com brevidade o parecer
sombra de dúvida, afirmar que esta prática de nomeação imposta
do Conselho, e, uma escassa semana decorrida, em 28 do mesmo
pelo Gabinete do Rei Restaurador firmar-se-ia, até morrer com as úl-
mês, passou-se-lhe a carta patente. Finalmente, no dia 24 de Setem-
timas capitanias, já na 2.a metade do século XVIII. Assim, se a provisão
bro, no paço da Ribeira, perante o Monteiro-Mor, o Secretário de Es-
régia tem a data de l de Fevereiro de 1649, logo em Agosto do mesmo
tado Pedro Vieira da Silva e D. Jorge de Almeida, o Capitão Gonçalo
ano, Manuel Pereira Lobo, Loco-Tenente do Donatário de S. Vicente,
Couraça, nas «reais mãos» de D. João IV, prestava «preito e homena-
intitular-se-á num diploma
gem, e juramento costumado que pela dita Capitania é costume des-

150 Arquivo de Simancas (Espanha), Secretarias Provinciales, L. 1511, foi. 282.


151 DUTRA, op. loc. dt. 155 RSP, vol. n, p.
152 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chancelaria dt Filipe III, foi. 20v. (c. de 156 Vide JAIME CORTESÃO, Pauliceae..., vol. II, pp. 406-407.
22-8-1627). 157 Idem, p. 406.
153 DBN, voí. 15, p. 375 (provisão de 11-6-1630). 158 Idem, p. 407.
154 Idem, ibiâem. 159 Idem, ihidem.

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O G O V E R N O DA CAPITANIA

í
d tes Reinos»160. De partida para o Brasil, o Donatário Marquês de Cas- encontramos notícia na Capitania da Ilha do Príncipe, para a qual, por

H cais, à patente de Mesquita Faria juntar uma importante procuração


tendente ao cabal desempenho do seu cargo, concedendo-lhe varia-
das faculdades, entre as quais cobrar «direitos, foros, pertenças, alca-
consultas de 8 de Abril de 1698 e 20 de Outubro de 1694, o Conselho,
como de hábito, aponta os primeiros propostos na lista do Conde Ca-
pitão169. Segundo nos refere em 1717 o Padre António Cordeiro na
valas, quintos, passagens de barca e tudo mais que a mim pertence sua História Insulana, era esse também o expediente seguido nas capi-
por bem de minhas doações e forais», poder demandar todas e quais- tanias dos Açores, se bem que ele próprio opinasse que
i quer pessoas que fossem devedoras de direitos aos donatários, bem
como seguir-lhes a alçada «até mor alçada», podendo substabelecer «parece mais que, quando se fizer substituto do Capitão de uma ilha, o
por procura livremente revogável. Além disso, cabendo-lhe avisar o ponha El-Rei, e não o Donatário Capitão, nem este nomeie dois ou três

H Donatário das vacaturas de ofícios da Capitania, permitia-se-lhe du- para que El-Rei escolha deles um, porque desta sorte poderá o Capitão

•' rante a espera do provimento, preencher os ofícios vagos161.


Quase invariavelmente era este o necessário expediente a que os
capitães, na Corte, tinham agora que recorrer a fim de suprir de um
nomear um seu criado que vá mais esfolar a ilha para o dito seu Amo e
para si, do que vá defendê-la e governá-la»170.

modo legal e eficaz as ausências quase gerais nos longínquos territó-


O sistema propugnado pelo jesuíta fundava-se em que El-Rei
rios das capitanias ultramarinas. A prática imposta encontrá-la-emos
l
manifesta também nas petições de confirmação dos loco-tenentes,
c como a do dito Marquês de Cascais para a da Capitania de S. Vicente
«primeiro mande que o principal senado da ilha, com seu Capitão-Mor,
lhe propunham três dos naturais da mesma ilha, e muito em especial dos
em 1664162, a da Condessa da Ilha (1660)163 ou a do Conde seu filho
que tiverem militado ou em Portugal ou na índia ou no Brasil, ou ainda
em 1684164, ambas para a Capitania de Itanhaem, no Brasil165. Na Ca-
dos outros que lá nunca saíram, mas têm servido e são de lá naturais e
pitania da Paraíba, concedida aos herdeiros de Salvador Correia de Sá,
dos mais nobres e ricos, e dos três nomes nomeie S. Majestade o que me-
foi esse também o sistema seguido no final do próprio ano da con-

é cessão (1674)166. Documentação por nós consultada prova-nos tam-


bém que em 1676 e 1677 assim se continuava a proceder nas capita-
nias brasileiras do Espírito Santo e Ilha\Grande de Joanes167. Num
lhor julgar, porque este tratará com a devida cortesia aos da mesma Ilha,
será mais solícito de a conservar, e mais fiel a tudo como a coisa também
sua» 171 .
códice do arquivo dos Duques de Cadavahpoéeremos ler, também,
4 uma proposta de três nomes, subscrita em 1720 pelo Marquês de Cas- A proposta inovadora de Cordeyro não viria, porém, a ter qual-
quer seguimento. Mas vislumbra-se já neste século uma reacção
cais e apresentada ao Conselho Ultramarino para substituição do Ca-
pítão-Mor Henrique Henriques de Miranda que acabara de terminar muito viva às antigas práticas donatariais. O geral desleixo a que os

í os três anos do seu governo da Capitania. Segundo o estilo, em con-


sulta de 17 de Janeiro de 1721 o Conselho não deixaria de se pronun-
capitães vinham votado os seus territórios ultramarinos e os abusos
infrenes e geralmente impunes dos seus delegados, criavam um am-
biente que, no reinado de D. João V, em pleno processo de concen-
l ciar a favor do primeiro proposto168. Do recurso ao mesmo sistema
tração de poderes, não lhes podia ser de modo algum favorável. Nou-
í
100 RSF, vol. n, pp. 406-409. tro ponto deste estudo 172 iremos debruçar-nos sobre aspecto mais
161 WÉW, p. 409. importante que é o da própria existência de uma corrente favorável à
i 162 Arquivo Histórico Ultramarino, cx. Rio de Janeiro, doe. de 17-1-1664.
lfi3 Wew, doe. 18-3-1660.
absorção das capitanias pela Coroa, opinião florescente ao longo de

i 164 Wem, doe. 3 de Out. de 1684.

165 Vide tb. para o século xvill, no mesmo Arquivo Ultramarino, cx. S. Paulo,
grande parte desse século XVTII, e de que esta questão da nomeação

does. 37 e 38.
169 Arquivo Histórico Ultramarino, Livro 6." de Consultas Mistas, fóls. 206v. e

i 166LAMEGO, op. dt., vol. H, pp. 123, n. 8, e 124.


167 PP, does. n.os 39, 40 e 42.
383v.-384.
170 AKtÓNIQ^CORDEYRO, Of>. cit., p. 516.
168 Vide VIRGÍNIA RAU E MARIA FERNANDA GOMES DA SILVA, Os Manuscritos da Casa
171 Idem, ibidem,

< "i! de Cadaval respeitantes ao Brasil, Coimbra, 1955-1958, vol. II, p. 291.
172 Vide o Capítulo IX.

l >

»-
178 179
é
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cionários que os ocupassem, admitiu-se também que, com restrições, quadro preciso dos funcionários de nomeação donatarial. Nas pala-
mas como várias outras faculdades, esse poder fosse entregue a par- vras do cronista seiscentista Fr. Vicente do Salvador, esse lote de mer-
ticulares no que respeitava à escolha ou à nomeação. Prerrogativa pre- cês veio a conceder aos capitães
zada - já que colocava nas mãos dos donatários um mais ou menos
forte domínio sobre a estrutura governativa do seu senhorio -, não é «que assistam às eleições dos juizes e vereadores eles ou seu Ouvidor
fácil determinar hoje com precisão o seu âmbito. Por um lado, de iní- que eles fazem, como também fazem escrivães do público, judicial e
cio, as cartas de doação são omissas nesse ponto, admitido a posteriori notas, escrivão da câmara, escrivão da Ouvidoria, Juiz e escrivão dos ór-
e segundo factos de variada espécie, normalmente presos ao mérito fãos, meirinho da vila, alcaide do campo, porque o do cárcere provê o
ou prémio dos capitães179. alcaide-mor»182.
Em 1547, o Rei D. João III, atendendo aos feitos de Manuel da
Câmara, Capitão de S. Miguel, no heróico cerco de Sta. Cruz do Cabo Naturalmente, as específicas condições de cada Capitania e do
de Gué, em África, recompensou-o com a «data» dos ofícios de Ponta tipo de mercês desfrutadas pelos seus donatários, dão a cada a sua to-
Delgada, podendo nomear almoxarife, escrivães e oficiais, os tabe- nalidade específica. Em 1724, a Condessa viúva da Ribeira Grande,
liães, os escrivães dos órfãos, da Câmara, almotaçaria, o inquiridor, como tutora de seu filho, o Conde Capitão de S. Miguel, faz o ponto
distribuidor e contadores dos feitos e custos, com dispensa de exames dos seus privilégios na ilha e alude ainda à dada dos ofícios de Ponta
régios e tudo para andar junto com a mercê da capitania180. Em 1584, Delgada, dos tabeliães de notas, judicial, escrivães de almotaçaria,
como paga dos seus muitos serviços, D. Cristóvão de Moura, Capi- contadores, distribuidores e inquiridores das vilas de Lagoa, Água
tão de Angra, Praia e S. Jorge, recebe para si e seus descendentes, a Nordeste, Vila Franca e Ribeira Grande, bem como a dada do ofício

J mercê de,

«segundo forma das ordenações e doações que delas tem, possa dar e dê
de meirinho perante o Ouvidor da Ilha, mais as dadas dos ofícios de
Alcaide do Mar e meirinho da Serra de Ponta Delgada e Vila Franca183.
Uma relação manuscrita dos ofícios e postos que, cerca do ano de
daqui em diante para sempre nas tais Capitanias, os ditos ofícios de 1754, «são providos por patentes e provisões do Ex.mo Senhor Duque
f ' tabeliães do público e judicial e escrivães de almotaçaria e contadores de Aveiro e Conde de Sta. Cruz», nos seus senhorios das ilhas açoria-

fi dos feitos e custos e inquiridores, e assim poderão dar meirinhos dante


os seus ouvidores, que isto se até agora o costumou havernas-ditas Ilhas,
aos quais eles capitães delas pagarão à sua custa seu/mantimento e de
dois homens que os ditos meirinhos serão obrigados a ter para os acom-
nas das Flores e Corvo, dá-nos uma ideia precisa da articulação da ad-
ministração senhorial naqueles territórios. Sabemos assim que o Ou-
vidor do Duque, bem como o Juiz e o Escrivão dos órfãos, estendiam
a sua juriàdição às duas ilhas. Na das Flores, quer nas vilas de Sta.
é panharemfãém para isso lhes ser dado de minha fazenda coisa alguma,
e també/n poderão dar escrivães, dante os ouvidores e assim alcaides da
Cruz e daii Lages quer nas freguesias dos Cedros, Lomba e Ponta Del-
gada, o^)onatário provia ainda em cada, um Tabelião do público, ju-

i?
dita cidade de Angra e vilas da praia e S. Jorge e alcaides do mar e meiri- dicial e notas, Escrivão da Almotaceria e, só nas vilas, um Escrivão da

4 nhos da serra, e isto havendo-o já na terra e doutra maneira não; e ou-


trossim poderão pôr nos ditos lugares almoxarifes e escrivães e oficiais
Câmara, um Alcaide e um Carcereiro. O Duque preenchia ainda os
cargos militares de capitães da companhia de infantaria de Sta. Cruz
que lhes arrecadem as rendas que eles Capitães tiverem de minha Coroa e do de seis companhias de ordenanças da Vila das Lages e das fre-
nas ditas Capitanias...»181. guesias de Cedros e Ponta Delgada, e ainda a da Ilha do Corvo184.
Também no Brasil, a estrutura do funcionalismo é muito variável.
Ultrapassando, porém, essa discricionaridade, as cartas das capi- A regra geral - di-lo a seiscentista Relação de todos os ofícios da fazenda
tanias do Brasil, Serra Leoa e Angola vêm a fixar desde o início um e Justiça que há neste Estudo do Brasil- era clara:

i
79 Vide o ponto 4 do Capítulo seguinte.
182 FR. VICENTE DO SALVADOR, op. ai., p. 87.
180 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ministério do Reino, n. 642.
l A Ã ..-l "• / < n n - > \—
183 Arquivo Histórico Ultramarino, cx. Açores, doe. 39.
1 AÃ, vol. iv (1882), p.
173.
184 Biblioteca do Palácio da Ajuda, pasta 54-11-15, doe. n. 22.

182 183
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«o provimento de todos os da Justiça, órfãos e das Câmaras nas ca-


Estamos, note-se, falando dos oficiais da fazenda régia nos limi-
pitanias dos Donatários são da sua apresentação por razão das suas doa-
tes da Capitania. Circunstância que de modo algum parece ter ini-
ções, na conformidade das quais somente podem prover em vida, por-
bido a nomeação particular de oficiais da fazenda senhorial. Fica a
quanto as vagantes e serventias pertencem aos Governadores gerais do
prová-lo a existência do regimento do Almoxarifado e Feitores da Fa-
Estado em nome de Vossa Majestade, até os Donatários proverem de
propriedade» 185 . zenda da Capitania de Caeté, documento detalhado e coevo da fun-
dação da mesma, onde naturalmente se acumulam disposições tão
variadas quanto as atinentes à demarcação da Capitania, nomeação
Na prática, a irregularidade do índice de funcionalismo era grande:
de oficiais, ordenados, registo de documentos administrativos, ren-
desde a complexa máquina administrativa da Capitania de Pernam-
das, etc.191.

:
t buco186, a estruturas pobres ou incipientes como as de Espírito Santo,
Ilhéus ou Itamaracá187. Na Capitania da Paraíba do Sul, à altura da in-
corporação na Coroa, em 1753, o quadro dos funcionários era ainda 3.2. Sistemas da Apresentação e Confirmação
relativamente vigoroso, segundo expunha o seu Capitão aos funcio-
nários reais encarregados de proceder à avaliação do domínio, ale- Se se proceder a uma análise, ainda que perfunctória, da variada
gando perder
documentação a que vimos aludindo e outra mais, com facilidade se
conclui que muito do funcionalismo das capitanias está adstrito a fun-
«a nomeação de um Capitão-mor, a de dois Sargentos-mo rés, 8 compa- ções próprias da administração da justiça: tabeliães, meirinhos,
nhias de ordenanças e 2 de cavalos, providos todos pelo Donatário, por- inquiridores, contadores, distribuidores, escrivães de variada sorte,
que na sua Capitania observa o mesmo regimento porque se governam carcereiros e, sobre todos, os Ouvidores. Será no Capítulo especifica-
os Governadores e Capitães Generais do Brasil. Perde também o provi- mente dedicado à administração da Justiça que o leitor poderá en-
mento das 2 Alcaídarias-mores das Vilas de S. Salvador e S. João da Barra contrar um maior desenvolvimento da natureza e fins de tais ofícios.
[...] perde o provimento de todos os ofícios da sua Capitania...»188. Por agora, dedicaremos as derradeiras linhas do presente capítulo às
linhas gerais da «mecânica» do preenchimento dos cargos.
Como excepção inflexível às nomeações donatariais de qualquer Se os quiséssemos sistematizar, poderíamos dizer que se regula-
área, há que registar as dos oficiais da fazenda real. Escreveu-o Fr. Vi- ram por dois critérios únicos: o do livre arbítrio do Donatário, um, e
cente do Salvador, dizendo que ao Rei, nas capitanias, cabiam os pro- outro, o que mediatizou o processo de nomeação pela intervenção
vimentos dos «ofícios da sua Real Fazenda, corno são os dos prove- quer do Monarca quer dos representantes dos povos. Quanto ao pri-
dores e seus meirinhos, almoxarifes porteiros da alfândega e guardas meiro, veremos adiante o caso do Ouvidor, livremente escolhido, o do
dos navios»189, e não o esqueceu, tamhiém, o autor da Relação de iodos Tabelião, ou, até determinado momento, o do Loco-Tenente. Quanto
os ofícios, notando «que todos os oficiais da Fazenda geralmente neste ao segundo, tem na base a distinção que se faz entre «apresentação» e
Estudo [do Brasil] são do provírríento de Vossa Majestade posto que «confirmação» de cargos, i.e., entre a mera designação do funcionário
sejam nas capitanias dos Donatários...»190. e o seu final provimento no ofício. Não coincidindo, vulgarmente, a ti-

135 In Documentação Ultramarina Portuguesa, Lisboa, Centro de Estudos Históricos


Ultramarinos, 1960, 1966, vol. li, p. 18. longa e pormenorizada lista de avaliação de cargos portugueses de meados do séc.
XVll. Devemos ao Dr. António Hespanha a amabilidade desta referência.
186 Idem e Livro Primeiro 4o Governo do Brasil - Íé07-'té33, Ministério das Relações
" Vide o Livro da Fazenda da Capitania do Caytté, Cód. l da Colecção Vidigueira
Externas - Biblioteca - Secção de Publicações, do Serviço de Documentação - Rio de
Janeiro, 1958. da Sociedade de Geografia, Lisboa, ff. 74-78: «Ordem que o Capitão João Vasco de
187 Idem, ibidem.
Matos meu almoxarife e administrador na Capitania de Caeté, partes do Maranhão
168 ID, vol. 8, pp. 164-165.
há de seguir na cobrança e administração da minha fazenda e jurisdição de que hade
139 FR. VICENTE DO SALVADOR, op. aí., p. 87.
uzar conforme ao poder que leva, e aqui se lhe dá e na sua absencia observa o
mesmo o escrivão do almoxarifado João de Herrera da Fonseca e os mais almaxarifes
190 Vide a op. cit. a not. 189. Vide tb. os códs. 49-XII-l 1/12 da Biblioteca da Ajuda,
e administradores que eu mandar.»

184
185
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tularidade desses dois poderes, temos que se por um lado a «apresen- Mas para além destas práticas, acontecimentos fortuitos acaba-
tação» cabe ao Capitão, por outro a «confirmação» recai no arbítrio vam por produzir alterações profundas nos normais sistemas de
real ou nos poderes concelhios192. Caso típico de confirmação indivi- nomeação. No Brasil, dando início a uma prática que se manteve, o
dual é o que traz Mendonça Dias, sobre a nomeação de dois funcio- Governador-Geral, António Teles da Silva, por alvará datado da Baía
nários de justiça na Capitania de S. Vicente no século XVI: de 28 de Maio de 1643, impõe que
«Rui Gonçalves da Câmara, etc. Faço saber a vós Juizes da Vila de «porquanto tenho entendido que os Donatários das vilas da Capitania
Vila-Franca do Campo e seu termo e mais justiças e pessoas desta Ilha, de S. Vicente por informações sinistras que lhe fazem provêm muitos
que confiando eu da bondade e saber de Manuel Fernandes e da sua boa ofícios públicos delas em pessoas que os não merecem passando algu-
vida e costumes, lhe faço mercê de lhe dar e o apresentar nos ofícios de mas provisões em branco de que se seguem grandes alterações nas
Inquiridor e Contador e Distribuidor dessa Vila de Vila-Franca do Câmaras sobre a eleição dos que as hão de exercitar e convém atalhar se-
campo, que vagou por falecimento de Simão Roiz, e os poderá servir da dições em seu princípio e encaminhar tudo ao melhor acerto do serviço
data deste em diante e haverá confirmação deles por El-Rei Nosso Se- de S.M., conveniência dos mesmos Donatários e utilidade dos mesmos
nhor dentro de um ano...»193
moradores a quem desejo toda a quietação, além de que Sua Majestade,
que Deus guarde, em consequência de se evitarem estas dúvidas e ser

s
Na mesma Capitania, já para a nomeação do Alcaide o processo benefício comum, teve entendido a suficiência e qualidade das pessoas
era diverso; conta-o o mesmo autor: «A nomeação de Alcaide era
que se nomeiam, mando que nenhuma provisão ou alvará dos Donatá-
feita, a princípio, por El-Rei, mas por virtude da doação que fez a Rui
rios tenha efeito sem levar a confirmação dos Governadores Gerais do
Gonçalves da Câmara, Capitão desta Ilha de São Miguel da apresen-
Estado»,
tação de certos ofícios desta Câmara, passou a nomeação a ser feita
por esta, da lista de três nomes de pessoas casadas, abonadas de bens
ordenando em consequência ao Capitão-Mor, Ouvidor e oficiais da
e naturais do lugar, que lhe apresentava o Capitão-Donatário; pres- Câmara da Capitania que não dessem posse alguma sem o cumpri-
tava juramento em Câmara e dava fiança para o desempenho deste
cargo que durava três anos. mento da formalidade exigida195. Deste modo, por lata que fosse uma
procuração do Marquês de Cascais, Capitão de S. Vicente, passada
em 1652 ao seu Loco-Tenente, com poderes para, entre vários, prover
«Como procurador que sou do Senhor Conde de Vila Franca do
Campo, Governador Geral em toda esta ilha de S. Miguel e pelos pode-
ofícios vagos, ninguém obstou à exigência camarária do «cumpra-se»
res que tenho do dito senhor, nomeio para Alcaide ao Capitão João de
do Govemador-Geral para plena eficácia da mesma196.
Questão diversa era a da intervenção dos capitães nas nomeações
Melo d'Almeída, Sebastião da Costa Machado e a João Fagundes Pereiràx,
moradores em Vila Franca. Ponta Delgada, 28 de Maio de 1651.»
dos oficiais e justiças concelhias. Oficialmente - embora cabendo às
Câmaras a «eleição» dos magistrados concelhios - era ao Rei, através
A Câmara na sua sessão nomeava um deles que era sempre quem do Desembargo do Paço, a quem cabia quer o «apuramento da pauta»
o Capitão queria, porquanto os outros dois nomes que indicava eram -i.e., a aprovação das listas dos candidatos-quer a «confirmação» da
sempre de pessoas que pela sua posição social «estavam muito acima escolha ou eleição, acto definitivo do provimento do funcionário197.
do ofício de Alcaide e tar/gedor do sino»194. No entanto, desde cedo foi prática conceder a determinados senhores
esse direito, e, efectivamente - ainda que omisso nas cartas de doa-
ção - vemo-lo exercido pelos primeiros capitães das Ilhas. Num re-
• 192 Vide ANTÓNIO MANUEL\HESPANHA, História das Instituições. Épocas Medieval e
Moderna, Coimbra, Livraria Almedina, 1982, p. 397.
querimento feito cerca do ano de 1529 por Bartolomeu Perestrelo,

• 193 URBANO DE MENDONÇA DIAS, A vida de nossos Avós. Estudo Etnográfico da vida
Açoreana através das suas leis, usos e costumes, Vila Franca do Campo, 1944-1948, vol. 2,
p. 119.
195 RSP, vol. n, pp. 242-243.
196 Idem, pp. 409 e 449-450.

í
194 Idem, vol. 3, p. 115.
197 A. HESPANHA, oy. cit., pp. 256-258.

186 187
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Capitão da Ilha de Porto Santo, neto do povoador do mesmo nome, «Aos 21 dias do mês de Maio, nesta vila de S. Salvador-Paraíba do
tendente a precisar alguns pontos da doação original, alegava que Sul, em o Paço do Concelho dela, estando presente o Ex.mo Senhor Mar-
tim Correia de Sá e Benevides, se fez a nova eleição de Juizes e mais ofi-
«porquanto a dita doação era da própria maneira que era a Doação da
ciais da Câmara que hão de servir este ano de 1730, em lugar dos que es-
Capitania da Ilha da Madeira e das outras doações das outras ilhas e que
tavam servindo, por terem sido remetidos para a Relação da Baía. E
algumas delas era declarado por minha carta da alçada do cível até
apurada a pauta pelo dito Ex.mo. Governador e Ouvidor, saíram por jui-
quinze mil réis, me pedia [Rei] que também nisso como no dar cartas de zes Vicente João da Cruz e António Teixeira Nunes e vereadores, Ma-
seguro nos casos crimes e no fazer das eleições e dar cartas de confirma- nuel de Sousa Tavares, José Pires de Mendonça, Manuel Monteiro da
ção dos juizes, que seus avós e pais dele sempre usavam, quisesse por Cruz e Procurador do Concelho, José Ferreira Cardoso. E pelo Ouvidor
minha carta lhe declarar nos ditos casos a dita doação...»
foi dado juramento aos Santos Evangelhos aos ditos juizes e vereadores,
encarregando-lhes fizessem todas as obrigações de seus cargos, na forma
O Rei acedeu, efectivamente, às pretensões, nomeadamente em que S. Majestade encomenda em suas reais leis, guardando em tudo as
que pudesse
suas ordens, o que prometeram fazer debaixo de juramento. De tudo se
fez este termo de juramento em que assinaram com o dito Ouvidor.»202
«fazer as eleições dos juizes e Vereadores e Procuradores e Almotacés e
lhes dará juramento em Câmara/para que bem e verdadeiramente sirvam
seus ofícios, e passar cartasae confirmações aos ditos juizes como até 3.3. A Criação de Cargos Novos
aqui tudo fez...»198.

Outra questão merecedora de especial atenção neste âmbito é a


Que a prática era extensível a outras capitanias o parece indiciar da limitação da faculdade que assistia aos donatários para, arbitraria-
certa passagem da carta de doação da Capitania das ilhas do Faial e mente, criarem e proverem ofícios «novos» nas suas capitanias. Prin-
do Pico (1573), em que se concede tal faculdade «assim no fazer das cípio sólido neste campo - fundado na particularizada enumeração
41 eleições como em todo o mais que ao dito Capitão da Ilha da Madeira
pertence»199. Em 1593, o mesmo direito é estendido aos donatários
dos «direitos reais» consignada nas Ordenações™ - era o de que só ao
Rei competia o poder de criar e extinguir ofícios e aos donatários, em
dos senhorios açorianos e cabo-verdianos das Flores, Corvo e Sto. casos expressamente previstos, o de os prover. Em 1648, sendo le-
Antão, no sentido de poderem confirmar «os juizes que saírem por vado o problema ao Dr. Tomé Pinheiro da Veiga, este não teria dúvida
eleições na maneira que se contém em minha ordenação...»200. em louvar-se da doutrina tradicionalmente aceite:
Já no Brasil não há qualquer dúvida, pois desde as primeiras con-
• cessões de 1534 se estabelece que o Capitão «poderá por si ou por seu «Criar ofícios de novo é poder, jurisdição e preeminência tão parti-
4 Ouvidor estar à eleição dos juizes e oficiais e alimpar e apurar as pau-
tas e passar cartas de confirmação aos ditos juizes e oficiais, os quais
cular e reservada ao supremo domínio do Príncipe soberano, que não en-
tra em nenhuma doação por longa e geral que seja, como as ordenações
se chamarão pelo dito Capitão e Governador» 201 . Reais em tantas partes repetem.»20'1
O processo era claro e manteve-se inalterado até ao termo da j
existência das capitanias. Um auto de eleição de 1730 na Câmara dp Esta verdade revestia-se de particular relevância nas capitanias
S. Salvador, Capitania da Paraíba, deixa bem explícito os termos em brasileiras, mais ricas e em pleno processo de desenvolvimento. As-
que se desenrolava:
sim, se por um lado as cartas de doação desses senhorios facultavam
aos seus donatários o porem
198 Arquivo Nacional, Chancelaria de. D. João V (Próprios), L. 23, foi. 232.
199 AA, vol. 4(1882), p. 226.
202 LAMEGO, oy. cit., vol. n, pp. 73-74, n. 292.
200 AÃ, vol. 5 (1883), p. 534.
203 Vide OF, L. 2, t. 26 in princ. e t. 45, §§ 13 e 15.
201 DBN, vol. 13, p. 158 (c. de doação da Capitania de S. Vicente - 1534).
204 Biblioteca Nacional de Lisboa, Cód. 7627, p. 75 (parecer de 24-3-1648).

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«quaisquer ofícios necessários e acostumados nestes Reinos, assim na


Pinheiro da Veiga, não era lícito concluir-se que o Donatário pudesse
correição da Ouvidoria, como em todas as vilas e lugares da Capitania e
Governança»205, criar novos ofícios

«senão pôr os necessários e acostumados na correição da Ouvidoria e


as ditas cláusulas, notava o Procurador da Coroa, não concediam «a
nas vilas e lugares da terra, como nas vilas e lugares do Reino [...] aliás -
criação de novos ofícios inventados de novo, senão os ordinários, e
acrescentava com subtileza - em terras povoadas de novo, todo o ofício
esses necessários deste Reino, vilas e lugares e se entende necessários
é criado de novo, mas não é novo haver o tal ofício no Reino»209.
dos acostumados nestes Reinos para as vilas e lugares daquela Capi-
tania»206.
O entendimento proposto por Pinheiro da Veiga (e para a situa-
O parecer de Pinheiro da Veiga fora motivado pela notícia da
ção das capitanias brasileiras, onde parece não ter havido a «contin-
criação e provimento em Pernambuco, «sem ordem e carta e criação
gentação» de cargos que, por exemplo, marcou o funcionalismo dos
nova real», do cargo de Juiz e Casa do Peso, «com salários e obriga-
senhorios do Funchal ou S. Miguel) era, pois, o de que os «Capitães
ção de pessoas nela». Em vias de quase total recuperação aos holan-
não podem criar novo ofício, mas podem criar mais ofícios de novo
deses e, pelo menos teoricamente, colocada de novo sob a jurisdição
dos que há»210.
dos donatários, havia que averiguar nesse senhorio da licitude de
uma inovação feita à margem de toda a iniciativa e assentimento ré-
gio. O entendimento do Procurador Régio era um só: Juiz e Casa do 4. As Obrigações Militares
Peso, não era
4.1. Generalidades
«oficio e casa acostumada no Reino e vilas e lugares dele (como é notó-
rio) nem conhecido na ordenação e Regimento da Fazenda, nem Chan-
Entramos, finalmente, num último mas fulcral aspecto do go-
celaria-Mor onde estão todos os ofícios e regimentos acostumados no
Reino»207.
verno das capitanias: o que respeita às obrigações militares dos habi-
tantes e Donatário do senhorio. E é uma matéria relevante, bastando
recordar que praticamente todas as capitanias foram «áreas de guerra»
Na verdade, só em Lisboa, por
até tarde: Brasil, África e ilhas Adânticas constituíram durante sécu-
los o alvo fustigado - e por vezes conquistado - de franceses, holan-
«empório da Europa, há o haver do peso e balança e é especial ordem
deses, espanhóis ou ingleses. Das ilhas açorianas podia escrever ainda
particular e não é ofício costumado no Reino de Portugal e é o comum
em 1717 o Padre Cordeiro que «cada ilha é uma perpétua fronteira
em todo ou a maior parte, e não particular de Lisboa ou Setúbal, da Ta-
que está sempre em viva guerra com quantas nações e corsários e
bula, ou semelhante especialidade»208.
ainda mouros acometem»211.
Cabe saber até que ponto a organização e chefia militar coube ao
E, ainda que criado o ofício por El-Rei, notava Veiga que «ficará a
Capitão e até que ponto, nesse campo, o seu mando dependeu ou se
dúvida se nas vacantes terá lugar a doação». Certo era que as doações
afastou do supremo senhorio do Monarca. Se bem que venha sendo
facultavam ao Donatário o poder de criar e prover por suas cartas os/ colocado um acento nas obrigações bélicas dos capitães, a que subjaz
tabeliães do público e judicial que consideravam necessários nas vá-
vulgarmente o intuito de fundamentar a tese dos que privilegiam o
rias povoações colocadas sob a sua jurisdição. Do que, considerava carácter «feudal» das capitanias, a verdade é que os senhorios desta
natureza são concedidos não com o fito de angariar serviços militares,
205 Idem, ibidem
206 Idem, ibidtm,
209 Idem, ibidem.
207 Idem, ibidtm.

™ Idem, ibidtm.
210 Idem, ibidem.
211 CORDEYRO, Of. C/í., p. 514.

190
191
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mas segundo um jogo de motivações - prémio, evangelização e colo- E mais adiante:


nização - em que a defesa militar vem incluída em sequência tão na-
tural que chega a ser ponto omisso nos títulos constitutivos. «En tal supuesto, desde el momento en que el Rey se abroga Ia fa-
Como já justamente notou Gama Barros - e para épocas bem an- cultad de exigir homenaje con ese carácter general, Ia obediência a su au-
teriores à da criação das primeiras capitanias -, toridad surge más que dei homenage mismo, de Ia autoridad para impo-
nerle. El Rey se convierte de senor feudal en soberano.»213
«as doações régias, por nós conhecidas, que transmitiam para sempre a
leigos o domínio de terras da Coroa, não indicam outra coisa mais do A esta luz deve ser entendida a tão citada cominação dos forais
que a recompensa incondicional de serviços já prestados pelo donatário, das capitanias brasileiras de Quinhentos, segundo a qual «os povoa-
ou a prestar ainda, ou simplesmente a benevolência do Rei para com ele; dores moradores e povo da dita Capitania que ora é e adiante for, se-
nenhuma envolve em si a obrigação do serviço da hoste ligada à posse da rão obrigados em tempo de guerra servir nela com o capitão, se lhe
terra doada. Taís concessões não alteravam, portanto, em coisa alguma a necessário for» 214 .
natureza dos deveres que o benefício tinha, em todo o caso, pessoal e di- Aliás, sendo a criação das primeiras capitanias já coexistente com
rectamente para com o monarca, nem representavam a soldada, a remu- a decadência nítida do significado militar dos senhorios e dos senho-
neração fixa, do serviço militar; essa remuneração aparece-nos de facto, res como chefes militares, o que são os «exércitos» das capitanias
mas estabelecida por outra forma. Nalgumas doações, por exemplo na da senão hostes de vizinhos, de populações reunidas em regime de
mandação de Perpera que fez Bermudo III em 1031 ao Conde Pinolo Xe- duração variável, segundo uma pura necessidade de auto-defesa,
meni, é até expressa, como vimos, a isenção do serviço militar do Rei enquadradas mais tarde na estrutura das ordenanças criadas em
para os moradores do território doado. De maneira que nestes casos a tempo do Rei D. Sebastião? Não esquecemos, é certo, os fortes con-
aquisição da terra não só não trazia ao adquirente a obrigação principal tingentes militares que a imensa fortuna dos primeiros capitães de
do feudo, mas importava antes uma negação dela»212. S. Miguel e do Funchal permitia mobilizar e com os quais se distin-
guiram nas guerras de África no século XVI; as crónicas de Gaspar Fru-
Efectivamente, a obrigação de pegar em armas estendia-se a to- tuoso estão cheias dos seus ecos, mas são as excepções que confir-
dos os habitantes da Capitania, como derivada do «natural» dever que mam a regra. O tom geral é o da impotência dos capitães para
ligava todos os súbditos ao Monarca, aqui representado pelo Capitão. sustentar as enormes despesas de um estado de guerra quase perma-
Este, já desde os primórdios do sistema, não é, de modo algum e por nente. E, obviamente, é no Brasil que elas se agudizam. «Quem, Se-
natureza, um chefe militar, mas alguém a quem - em substituição de nhor, terá tanto dinheiro para pólvora e pelouros, artilharia e armas,
delegados reais - cabem específicas funções administrativas, entre as e as outras coisas necessárias?», escreve em 1546 Duarte Coelho, Ca-
quais, neste campo, as de recruta, vigilância e organização. Não há, pitão de Pernambuco, ao Rei215. Em 1557, Jorge de Figueiredo e Fer-
pois, que falar em «pactos feudais». Aliás, já Guilarte em termos lapi- nand'Álvares de Andrade, Capitão no Brasil, invocam «a despesa e
dares, o apontou a propósito dos senhorios do reino vizinho: gasto que nele faziam em fortalezas e munições e artilharia que ti-
nham em suas fazendas e povoações»216, mas a verdade é que o
«No estimo necesario insistir en Ia distinción elemental entre arri grosso dessas despesas correra já por conta da fazenda Real, que, a
tipos; el primero es consecuencia - en puros princípios feudales - de un fim de cobrar os seus créditos, se vira forçada a deduzi-los das somas
pacto (el senor y el vasallo concluyen voluntariamente el establecimiento devidas aos donatários nas redízimas. Pelo menos é o que nos revela
de Ia relación de vassallage); el segundo resulta consecuencia de Ia "na- um alvará régio por que se ordena ao Governador D. Duarte da Costa
turaleza" y tiene carácter forsozo.»

213 GUILARTE, op. dt., p. 278 e 278 n. 43.


212 HENRIQUE DA GAMA BARROS, História da Administração Pública em Portugal aos 214DBN, vol. 13, p. 156.
séculos XII e XV, tá, anot. de Torquato de Sousa Soares, Lisboa, 1949, vol. l, pp. 215 AP, vol. l, p. 235.
296-297.
216 GTT, vol. n, pp. 582-583.

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uma moratória de três anos na cobrança a Jerónimo de Figueiredo, su-


capitães e oficiais dos moradores da terra, que ouvisse o referido Capi-
cessor daquele Capitão de Ilhéus, das somas correspondentes à «arti-
tão-Mor e provesse interinamente esses cargos como melhor lhe pare-
lharia, lanças, espingardas, munições que eu tinha mandado empres-
cesse, porque ao Capítão-Mor não se lhe podia deferir justamente a sua
tar a Jorge de Figueiredo, seu pai, que Deus perdoe, para ter na dita pretensão de eleger oficiais»221.
Vila de S. Jorge...»217.
Também, só com as capitanias hereditárias de S. Vicente e Ita- Mas a intervenção da Coroa faz-se também sentir directamente
maracá, a Coroa despendeu só em 1553 a quantia de 287 495 réis, e através da imposição de regimentos destinados a disciplinar a obra de
no mesmo ano o Capitão da Praia, nos Açores, pede insistentemente defesa das capitanias. Em 1552, o Ouvidor de Angra escreve ao Rei
a El-Rei que, sob perigo de sucumbir às incursões dos franceses, lhe dizendo que
forneça pólvora, chumbo, bombardeiros e fortificações218.
Nas ilhas dos Açores, na Madeira, em Cabo Verde e no Brasil, a «o Capitão Manuel Corte-Real me mandou o ano passado a esta ilha em
Coroa está patentemente onerada com o fornecimento de aprestos regimento e ordenação que V. Alteza mandou fazer cerca das armas que
militares e com a organização da defesa, simplificando-se gradual- todos seus vassalos serão obrigados a ter e do lançamento delas, as quais
mente o papel militar dos donatários em proveito da administração haviam de vir do reino e até ora não vieram...»222.
dos delegados militares que a Coroa coloca nesses territórios com
vantagem de suprir e controlar a inépcia militar dos capitães. Sobre a Em 1578, atendendo às inúmeras incursões de corsários a que es-
Ilha do Príncipe, Capitania do Conde da Ilha, sabemos que o Conse- tava sujeito o arquipélago da Madeira e à particular vulnerabilidade
lho da índia promoveu em 1605 uma devassa ao cumprimento das da Capitania de Machico, a Regente escreverá ao Capitão ausente, o
obrigações militares de defesa do Donatário219. Todavia, quase cin- Conde de Vimioso, que providenciasse que o Ouvidor fizesse obser-
quenta anos depois, ainda o Governador de S. Tomé adverte o Con- var o «regimento» régio relativo à organização da defesa, «vendo eu a
selho Ultramarino da vulnerabilidade aos ataques dos holandeses em necessidade que os moradores da dita ilha têm de estarem apercebi-
que à ilha deixava o Donatário, e aquele órgão, em consulta de 4 de dos na Ordem que devem ter para sua defensão e pelo pouco uso que
Maio de 1650, avisava o Monarca que
disso tem...»223.
Mas é no Brasil que, dadas as particularíssimas condições políti-
«deve Vossa Majestade ser servida de mandar com aperto ao Conde Do- cas, as atenções se concentram. Pela abundância da documentação
natário da mesma Ilha que trate de a fortificar e prover em forma que es- disponível, analisaremos este caso a título exemplificativo. Logo o Re-
teja defensável, como tem por obrigação fazer. Isto no termo que VM. gimento do 1.° Governa do r-Geral, Tomé de Sousa (1548), consigna im-
sinalar, que deve ser breve»220. portantes medidas tendentes a disciplinar a defesa das capitanias:

Segundo Senna Barcelos, em 1657 ordenava-se ao Governador de «Porque, para defensão das fortalezas e povoações das ditas terras
Cabo Verde que, tendo o Capitão-Mor da Donatária da Ilha do Fogo do Brasil é necessário haver nelas artilharia e munições e armas ofensi-
vas e defensivas para sua segurança, hei por bem e mando que os Capi-
«repYesentado não haver ali governo nem disposições de milícia, tão ne- tães das capitanias da dita terra e senhorios dos engenhos e moradores
cessária para a defesa da Ilha, e que se lhe concedesse licença para eleger da terra tenham artilharia e armas seguintes: cada capitão em sua capi-
tania será obrigado a ter ao menos dois falcões e seis berços e seis meios
berços e 20 arcabuzes ou espingardas e pólvora para isso necessária e 20
217 DBN, vol. II, pp. 427-428.
218 AÃ, vol. 8, p. 418, e E. LAHMAYER, op. cã., p. 281. bestas e 20 lanças ou chuças e 40 espadas e 40 corpos de armas de algo-
219 Vide o que sobre este assunto se diz no ponto 2 do § l do Cap. IX ê as car-
tas de 24 de Maio e 16 de Agosto de 1605, a ff. 26 e 38 do Códice 51-VII-15 da
121 SGC, Parte l, p. 35.
Biblioteca do Palácio da Ajuda, em Lisboa.
222 AÃ, vol. 4, p. 68.
220 Arquivo Histórico Ultramarino, Livro 2° de Consultas Mistas, fól. 228.
223 Arquivo Histórico Ultramarino, Madeira, n.° l, doe. 54.

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dão das que na dita terra do Brasil se costumam. E os senhores dos en- Do século xvi para o século XVII, a estratégia passa a ser substan-
genhos e fazendas, que por este regimento hão de ter torres ou casas for- cialmente diferente, pois são os próprios Governadores-Gerais que
tes, terão ao menos quatro berços e dez espingardas com a pólvora ne- tomam em mãos a disciplina militar das capitanias. De l de Outubro
cessária e dez bestas e 20 espadas de 10 lanças ou chuças e 20 corpos de de 1663 data o célebre e primeiro Regimento dos Capitães-Mores -
armas de algodão. E todo o morador das ditas terras do Brasil que nelas tão esquecido mas fundamental para o estudo da administração mili-
tiver casas, terras ou águas ou navio, terá ao menos besta, espingardas, tar do Brasil colonial-, concebido e subscrito pelo Governador Conde
espada, lança ou chuço; e este capítulo fareis notificar e apregoar em de Óbidos,
cada uma das ditas Capitanias com a declaração que os que não tiverem
a dita artilharia, pólvora e armas, se provejam delas da notificação a um «porquanto, são grandes os inconvenientes que resultam de os Capi-
ano. E passado o dito tempo e achando-se que as não têm, pagarão em tães-Mores das capitanias deste Estado não terem regimento que seguir
dobro a valia das armas que lhe falecerem das que são obrigados a ter, e para se evitar este prejuízo e poderem proceder nas obrigações que
ametade para os cativos e a outra metade para quem os acusar.»224 lhes tocam se se ocasionarem as dúvidas que os Provedores da Fazenda
Real e Ouvidor das mesmas Capitanias costumam ter...»226.
No Regimento do Governador sucessor, D. Duarte da Costa, o
Monarca reitera essas obrigações e acrescenta: Extensível a qualquer Capitão-Mor «que entrar a governar qual-
quer Capitania do Estado por patente de El-Rei nosso Senhor ou do
«... e mandei a Tomé de Sousa por um capítulo do seu Regimento Donatário, nas que o tiverem»227, o regimento particularizava especí-
que fizesse notificar e apregoar em cada uma das ditas Capitanias que os ficos deveres de inspecção de fortalezas, inventário de artilharia e
que não tivessem a dita artilharia, pólvora e armas que se provesse delas munições, levantamento de reparos, recrutamento e treino de solda-
do tempo da dita notificação a um ano, e que passado o dito ano as não dos, hierarquia de chefias em campanha, etc. Além de precisos co-
tivessem como eram obrigados se houver de executar neles em dobro a mandos tendentes a vincar a independência das funções do
valia das armas que lhes falecessem das quais assim mandava que tives- Capitão-Mor das do Provedor da Fazenda, Ouvidor e Câmaras, pre-
sem para quem os acusasse e a outra metade para os cativos e ao Prove- cisavam-se as suas funções no tocante ao provimento conjunto com
dor-mor de minha Fazenda e Provedores das Capitanias onde o dito Pro- o Governador-Geral dos lugares de justiça e Fazenda que vagassem.
vedor-Mor fosse ausente mandei por seus Regimentos que tivessem Finalmente, deixa bem clara a estrutura centralizadora:
cuidado de uma vez cada ano saberem se tinham os Capitães de cada
uma das ditas Capitanias a artilharia e armas que eram obrigadas a ter, e «... Terá o dito Capitão-Mor entendido que nenhuma Capitania do
que os ditos Capitães cada um em sua capitania farão as ditas diligências Estado ou de El-Rei Meu Senhor, ou de Donatário, é subordinada ao go-
com as outras pessoas, que por bem do dito Capítulo haviam de ter ar- verno de outra vizinha, e todas são imediatas a este geral, respeito só
tilharia e armas, e nos que as não tivessem executassem as ditas penas, dele há de aceitar o Capitão-Mor as ordens.»228
como mais largamente é conteúdo nos Regimentos do dito
Provedor-mor e Provedores das ditas capitanias, e por isto ser coisa Apesar da extrema importância do diploma, «por se começar a re-
muito importante à segurança e defensa das ditas povoações, hei por laxar a sua observância» o ratificou depois o Governador Afonso Fur-
bem e vos mando que além do cuidado que o dito Provedor-Mor há de tado de Mendonça em 30 de Setembro de 1672229. Acentuando a sua
ter deste negócio vós o tenhais também de lho lembrar e saber o que se obrigatoriedade, em 1687 o Governador Matias da Cunha, vendo o
nisso faz, e trabalhará por a dita diligência se fazer todos os anos uma desgoverno das capitanias de Sergipe e de S. Vicente - real a primeira,
vez cada ano, como dito é...»225

126 RSP, vol. Ill, pp. 134 ss.


224 WALDEMAR MARTINS FERREIRA, História do Direito Brasileiro, São Paulo, Livraria 227 Idem, ibidem.
Freitas Bastos, 1952, tomo II, p. 35. 22aldem,p. 135.

225 DBN, vol. 13, p. 230. 229 Arquivo Histórico Ultramarino, cx. Pernambuco, doe. de 7 de Out. de 1690.

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hereditária a segunda - rememora, enviando ao Capitão-Mor de uma «lata tamen fuit sententia et pronunciatum quodis Capitanius et si-
e outra o importante texto. Porém, miles non erant duces belli, sed tanquam Domini terrarium iurisdictio-
nem habentes»234.
«tendo um e outro Capitão-Mor obrigação de guardarem inviolavel-
mente tudo o que nos ditos regimentos se lhes pôs, nenhum cumpriu o Mesmo em situações práticas - como em 1635 quando a
seu como devia, antes excederam todos não só a forma deles, desobe- Vice-Rainha Duquesa de Mântua participa ao Capitão de Pernam-
decendo a seus generais, mas à disposição expressa dos regimentos an- buco a nomeação do Marquês de Vaiada e San Roman como General
tigos deste governo»230. da Recuperação de Pernambuco, e a escolha de D. Luís de Roxas y
Borja para seu lugar-tenente em terra - vinca-se a destrinça das com-
Procurando pôr cobro a tal situação, o Governador António Luís petêncías:
Gonçalves da Câmara procede em 1690 à reforma do velho regi-
mento de 1663, «havendo por derrogados e extintos quaisquer ordens «... a vós e porque haveis de ter o governo ordinário e político dessa
ou estilos que em contrário se tenham observado ou praticado nas di- Capitania, subordinado, porém, ao superior, da guerra...»235.
tas capitanias até ao presente»231.
Diga-se em verdade que pouco se alterou no diploma anterior, No entanto, o estado constante de pugna que se arrasta do tempo
salvo um acréscimo de reforço do poder absorvente do Governador: dos reis Filipes para o conturbado período do pós-Restauração, traz
consigo importantes consequências de que a não menor é a reformu-
«... não dêem, nem consintam dar posse a patentes ou provisão al-
lação da questão da existência das capitanias face à necessidade de
guma d'el-Rei meu Senhor, ou Donatário qualquer, posto ou ofício, sem
controlar e unificar a máquina administrativa colonial num período
lhe pôr primeiro o "cumpra-se" neste Governo Geral, donde hão de ficar
de tão difíceis circunstâncias. Veremos noutro capítulo, com porme-
registados e se hão de apresentar para isso...»232
nor, as consequências que tal entendimento arrastou para a dinâmica
Quanto saibamos, foi este o diploma único que até final incorpo- do processo de incorporação dos senhorios ultramarinos236. O que
ração das capitanias na Coroa, orientou a actuação dos seus capitães importa desde já vincar é a admissibilidade de um princípio que tem
nesta matéria. a sua génese sob a administração filipina mas que se consolida defi-
nitivamente após a Restauração: o de que aos capitães-donatários
competiriam, efectivamente, específicas funções e obrigações milita-
4.2. A Discussão Doutrinária res, cujo inadimplemento acarretaria a pura e simples revogação da
mercê e perda da Capitania. Como escreveu Pedro Calmón, «a guerra,
De um ponto de vista puramente teórico, a doutrina não teve dú- pois, produziu o efeito de eliminar a propriedade dos grão-senhores
vidas em aceitar o carácter não-militar do título de Capitão; já o dis- que não tinham podido proteger as suas terras e - pagando o que cus-
semos antes e assim era publicamente aceite. Uma sentença de Feve- tara ao Reino - anexá-las aos reais domínios»237.
reiro de 1596 do Juiz dos Feitos da Coroa, da Casa da Suplicação, Foi esse, por exemplo, o sucedido com as capitanias de Itamaracá
respeitante ao Capitão do Funchal, declarava «que ele suplicante não e Pernambuco, recuperadas em 1654 aos holandeses sob o esforço
é capitão de Guerra na Ilha da Madeira de que é Donatário...»233, e é dos moradores e das armadas de D. João IV. E quando D. Miguel de
sobejamente conhecida a âedswne XXIX de Cabedo: Portugal, herdeiro dos donatários daquele último senhorio, pretende
dele tomar posse, o Monarca comenta irado que

230 Idem, ibidem.


231 íâetn, ibidem. 254 Cr. IH PP, fól. 566.
232 Idem, ibidem. 235 PP, n.° 2.
233 Biblioteca do Palácio da Ajuda, Consultas de Desembargo do Paço ~ 1594-1596, 236 Vide o nosso Capítulo IX.
fól. 304-304v. 237 PEDRO CALMÓN, História do Brasil, S. Paulo, 1961, vol. 8, p. 715.

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«de mais que o Direito dispõe em semelhantes casos, o exemplo do que de V.M., de que eram sempre desamparados, perpetuando-se este pro-
se usou nas Capitanias do Brasil de donatários, tomadas por inimigos e ceder nos sucessores que sustentavam as extorsões dos que acabavam,
depois cobradas pela Coroa, fez mais o excesso de Dom Miguel e o es- prevaricando as Ordenações, Leis e regimentos de V.M. e denegando-se
cândalo de se me fazer requerimento algum, e, sem respeito a tanto san- agravos aos queixosos por serem todos os oficiais criados do Conde, não
gue e a tantas despesas como custou a restauração daquela Capitania de lhe dando lugar suas doações e forais para prover capitães, nem tomar
Pernambuco, se querer introduzir na posse dela...»238. homenagens, cometendo em o fazer sem ordem de V.M. culpa capital.
Salvador Pinheiro, com a ocasião da guerra, exerceu o mais tirânico
A atitude rígida de D. João IV para com os capitães não era iné- modo que pode encarecer-se e jamais tratou de outra coisa que sua con-
dita: em 1649, sendo sujeito ao Conselho Ultramarino um pedido ur- veniência, cobrando dos vassalos de V.M. uma grossa contribuição que
gente de auxílio militar formulado pelo Donatário absentista do Espí- não despendeu na defensão da terra, mas a tomou para si e por fim en-
rito Santo, o Monarca corta a questão decidindo que tregou a Ilha de Itamaracá, praça importante, dando motivos à maior
ruína. Se alguns zelosos do serviço de V.M. sentidos do excesso de assi-
«pelo mal que os donatários acodem a socorrer as Capitanias que têm no nar capitulação de não tomar armas em seis meses, o não defenderam,
Brasil, desejo, dando-lhe equivalente satisfação que querem, tomando informando a V.M. de tudo, em todo o tempo que há que dura a guerra
por notícia o que a Capitania de cada um valerá no Reino, abatidos os nunca se despendeu um real da fazenda do Donatário nela, nem proveu
custos iníquos, com advertência que não aceitando o que for justo (avi- com munições, artilharia e soldados esta Capitania, de que é Capitão e
sando-se que são obrigados a provê-las e socorrê-las nas ocasiões) se Governador e não Senhor, como dizem seus criados. Supostas estas ra-
tomará para isso de suas fazendas o que for necessário...»239. zões, tendo o Conde de Monsanto desamparado totalmente e ser gra-
tuita a mercê que se fez dela aos antecessores e em partes ultramarinas
A atitude, como dissemos, não é típica deste governo e vemo-la donde não convém que estejam estas terra de V.M. expostas aos acome-
formulada já em 1634, ainda sob o governo de Filipe III. Referimo-nos timentos dos inimigos da Europa, é conveniente que V.M. a mande unir
a um testemunho exemplar do Provedor da Fazenda Domingos Ca- à Capitania da Paraíba, que foi dela desmembrada. Concorrendo tudo lá
bral Bacelar, destinado a ser levado ao Real Conselho. Referindo que como a porto mais frequente, deixar-se-ão os moradores a beneficiar
tendo sido recuperada suas fazendas na certeza de serem na paz governados com justiça e na
guerra defendidos, acrescerão as rendas de V.M. e ficará adjudicada a
«sem despesa alguma da fazenda dos donatários em o ano de oitenta e elas a pensão com que erigiram os engenhos, recolhendo-se os ordena-
quatro a Capitania da Paraíba com a armada com que veio do Estreito de dos que cá se pagam...»2ití).
Magalhães Diego Flores de Valdez, conveio por seu serviço mandá-la re-
ter pelas despesas que se fizeram. E por pouca advertência se não incor- Como dissemos, o documento é exemplar e paradigmático de
porou esta de Itamaracá nela, na qual nunca fizeram nenhum os ditos uma série de situações de flagrante injustiça com que a Coroa houve
donatários, nem ainda tiveram as armas de sua obrigação. Enquanto du- de se debater em meados do século xvn. Das várias análises que a
rou o litígio entre os Condes de Vimioso e Monsanto esteve em muita questão sofreu, merece que se destaque a do Procurador da Coroa,
prosperidade. Sentenciando-se a causa pelo Conde de Monsanto e pro- Dr. Tomé Pinheiro da Veiga. Inquirido acerca daqueles anos quanto às
vendo nela por capitães seus criados, fizeram tantas vexações aos mora- obrigações militares dos capitães donatários, o jurisconsulto estabe-
dores que, não somente se não fizeram mais engenhos, sendo que se de- lecia dois tipos de considerandos:
sampararam os já feitos e se foram desta Capitania por fugirem a tantas
violências, sem recurso por não darem residências, como pessoas que só a) Se se perguntasse se aos Capitães-Donatários, como «Capitães e po-
tratam de enriquecer e não pretender acrescentamentos aos rendimentos voadores», assistia a obrigação de «fazer fortalezas e muros à sua custa
somente, e armadas e exército à sua custa», honestamente haveria que
238 PP, doe. 26.
239 Arquivo Histórico Ultramarino, cx. Bata, n.° 11, doe. 1326-1328. 240 Biblioteca Nacional de Lisboa, Cód. 7627, fól. 58-58v.

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confessara inexistência de «cláusula de contrato expresso que os obri- - acudindo os Senhores pessoalmente a assistir a suas terras e defensão
gue, salvo como Alcaides-Mores ou sendo senhores de castro e forte, delas. E muito mais nos que são capitães, como para o mesmo efeito o
de juro como o seu. Porque a mais defensão de muros e torres é de regimento dos ordenanças ordenou que os Senhores de terras fossem
povo entrando o Capitão pró rata (tatiquem unus de yopulo), e a de Capítães-Mores no exercício do ofício e os do Brasil o são por título per-
guerra e armadas é do Rei e príncipe soberano na defensão do Reino pétuo e senhorio».
e seus povos e terras para que também tem as terças para os reparos e
fortificações, e as rendas e vassalos para a guerra e armas». Às questões apresentadas ao seu juízo, Pinheiro da Veiga respon-
b) Diferente coisa «é se os capitães e Governadores do Brasil que são de dia, pois, que: primo, os capitães-donatários, como alcaides-mores
juro e herdade e têm a jurisdição, senhorio e emolumentos das terças, das vilas e povos tinham efectiva «obrigação» de defensão e provi-
são obrigados como tais, no tempo e na ocasião de inimigos, e inva- mento e assistência à sua custa, e outrossim os que tivessem terras
são de rebeldes, tratar com as forças da terra e povo e vassalos de sua fortes, que entrem em sua doação, que se lhes dessem ou edificassem.
Capitania e Governo, de a conservar e defender ou deixá-la desampa- Secundo:
rada levando aqui no Reino os rendimentos e título».
«nos outros e outras terras tem obrigação na ocasião e necessidade
Pinheiro da Veiga pronunciava-se pela afirmativa, entendendo com as forças próprias e dos povos, como Senhores e como capitães e
que os capitães-donatários das Ilhas e do Brasil, governadores, com a despesa de V. Majestade na guerra e presídio e so-
corro superior»242.
«como Capitães perpétuos têm obrigação de as defender e segurar na
paz e na guerra [,..] e para mais particular verificação desta obrigação se A doutrina expendida pelo ilustre jurisconsulto faria escola. Veja-
deve advertir que estes Capitães do Brasil são Capitães perpétuos, são mos. Aquando do mencionado litígio entre os donatários de Itama-
Senhores das terras e rendas e jurisdições, e são Governadores e são Al- racá e a Coroa, por cuja iniciativa o senhorio fora recuperado das
caides-Mores, e por todas e cada uma obrigação destas a tem sobre si e mãos dos holandeses e nela incorporado em 1654, alegava o Procura-
com a utilidade o encargo»241. dor régio recordando que

Esta ordem de fundamentos - tornada clássica por invocação re- «considerando-se neste reino o grande prejuízo que se seguia, assim na
petida em pleitos travados entre os procuradores da Coroa e os do- reputação como nos rendimentos, e o perigo a que estava exposto o Es-
natários ultramarinos - desdobrar-se-ia na pena fértil do autor da Fas- tado do Brasil, com terem os Holandeses ocupado as Capitanias de Per-
tigímia em abundantes considerandos relativos ao cargo de nambuco e Itamaracá, em que estavam havia muitos anos, e os capitães
alcaides-mores, aos títulos de capitães e governadores, e à qualidade e Governadores delas não tratarem de os lançar fora, se resolveu que a
de donatários «de direitos reais e jurisdição amplíssima, e não é pos- Coroa fizesse a guerra a sua custa, para o que se conduziram armadas e
sível que levem as rendas e o título de Governadores e Senhores Ca- soldados, armas e munições em que se despenderam mais de vinte mi-
pitães, e que as deixem invadir e ocupar sem acudirem nem como lhões, e com efeito com o dito dispêndio e à custa de muitas se conse-
senhores, nem como particulares...». Efectivamente, notava o Procu- guiu pela Coroa a restauração, sem que o Autor originário concorresse
rador da Coroa, com dispêndio algum de sua fazenda, nem mandasse gente ou fosse à
dita guerra, nem antes da invasão e tempo dela assistir pessoalmente na
«nos Senhores de terras do reino vemos que nas ocasiões de inimigos capitania, sendo a tudo obrigado como Capitão e Governador e lhe ser
e perigo dos portos e terras são assinados e obrigados a ir assistir a dada com encargo de a povoar e defender. E nestes termos não tem o
suas terras e portos de mar com os moradores e tudo o que nelas é, fi- Autor acção para pedir a capitania por esta, pela restauração referida fi-
cando a El-Rei a guerra e socorro superior de armada, presídio ou guerra car na Coroa e ser o estilo e costume que sempre se observou nas capi-

241 Idem, fóls. 41-43v. e 47. 242 lâem, ibidem.

202 203
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A O G O V E R N O DA C A P I T A N I A

unias do Brasil, porque sendo muitas delas nos tempos passados ocupa- uma diferente consideração. Uma vez mais o Procurador régio fun-
das por inimigos da Coroa e restauradas por ela, ficaram nela sem que damentara a apropriação do senhorio no facto do desamparo militar
alguma se restituísse ao donatário como se verificou na Capitania da Pa- a que os donatários tinham votado a Capitania. Mas, desta feita, nas
raíba do Sul, de que foi donatário Pêro de Gois, na do Espírito Santo, per- volumosas alegações que o célebre jurisconsulto Manuel Álvares Pe-
tencente a Vasco Fernandes Coutinho, na Bahia de Francisco Pereira gas, advogado dos condes autores, repetidamente apresentou, o
Coutinho, na do Rio Grande de que se fez doação a João de Barros, na ponto era contundentemente rebatido, não nos termos da prudente
do Pará, que foi de Luís de Melo da Silva, e o que mais é, que o mesmo defesa dos donatários de Itarnaracá (alegação de um esforço militar
se praticou na Paraíba do Norte, que se deu a Pedro Lopes de Sousa com- efectivo, reconhecendo implicitamente a tese da Coroa) mas pela
preendida no distrito das léguas da doação do Autor, a qual sendo ocu- pura e simples negação das obrigações militares dos donatários brasi-
pada pelo Gentio e restaurada pela Coroa, ficou nela até ao presente. E leiros:
com este fundamento ordenou o Senhor Rei D. João o Quarto ao Go-
vernador Francisco Barreto pela carta folhas duzentas e treze, não con- «... os ditos Donatários não são Capitães de guerra, mas uns meros
sentisse que o Autor originário se intrometesse a exercitar jurisdição al- senhores de terras, que têm somente jurisdição e direitos declarados em
guma na dita capitania»243. suas doações, como o está determinado por sentença deste Senado, que
refere Cabed. 2 p. dec. 29 n. 7, e assim a defensão da terra não corre por
sua conta, senão de S. Majestade, que para isso costuma pôr lá Gover-
Apesar de recusar a tese da falta de defesa como argumento jus-
nadores e Capitães-Mores que saibam de milícia, como se vê da dita de-
tificativo da perda da Capitania para a Coroa (punição que nos ter-
cisão 29 de Cabed. sem serem obrigados a nenhuma assistência, o que
mos das doações originais ficava unicamente reservada para os cri-
também se verifica da doação, porque se não dá nela poder ao Donatá-
mes de lê sã-ma j esta d e) o âmago da argumentação do Procurador da
rio para criar soldados ou Capitães, nem para ter presídios, nem menos
Coroa, i.c., a obrigação da defesa militar, contrapondo nessa mesma
lhe concede jurisdição alguma militar, senão somente a civil, crime e or-
linha que
dinária.
«Sendo que levantar gente, criar Capitães, sustentar presídios e ter
«no caso em que as terras foram'ocupadas pelos inimigos por culpa dos
jurisdição militar é regalia só reservada ao Príncipe, e que não compete a
donatários, não se mostra contudo por parte do Procurador da Coroa
nenhum súbdito, ou vassalo sem expressa doação ou concessão sua [...].
culpa alguma no Autor originário que seja bastante para impedir a resti-
«E o melhor texto que há nesta matéria para resposta do que diz o
tuição da Capitania, por a dita Capitania se achar povoada na forma da
Senhor Procurador da Coroa, é a própria doação, a qual a foi. 124 vers.,
doação e defendida dos Holandeses por Salvador Pinheiro loco-tenente
exceptuando só o crime de traição à Coroa, em todas as mais dispõe que
do Autor originário, com grande valor e dispêndio da fazenda do Autor,
o Donatário não possa ser privado dos bens doados, mas só punido por
por cujo respeito o Senhor Rei Dom João o Quarto fez mercê ao dito Sal-
outra via criminalmente segundo a culpa que tiver, e não seus sucesso-
vador Pinheiro, e não se achar expresso na doação que o donatário seja
res, porque não poderá por isso perder a capitania, nem a jurisdição, ren-
obrigado a residir sempre na dita Capitania, para se poder imputar culpa
das e bens dela»245.
ao Autor originário, nem se achar presente no tempo da invasão...»244.

Como é sabido, a pretensão dos condes - antes de se chegar a um


Todavia, no juízo da causa que pelos mesmos motivos opôs a
acordo já no remado de D. João V - obteve nesse sentido várias deci-
Coroa e a família dos donatários de Pernambuco, a questão sofreria
sões favoráveis, e, efectivamente, o argumento não toma a ser levan-
tado para o fim de justificar o confisco das capitanias aos seus senho-
243 Acórdão de 13-2-1685, in Doação [da Capitania] de Itamaracá, que perienceo ao

Marquez de Cascaes D. Luiz Alvares de Castro, por sentença, publicada por D. António
245 MANUEL ÁLVARES PEGAS, Allegações de Deretio por pane dos Senhores Condes de
Caetano de Sousa nas Provas da sua História Genealógica da Casa Real, tomo VI, i parte,
pp. 413-414. Vimiozo sobre a successam da Capitania de Pernambuco, Évora, Officina da Universidade,
244Idem, p. 415. 1671, pp. 45-46 e 51-52.

204 205
O G O V E R N O DA C A P I T A N I A O G O V E R N O DA C A P I T A N I A

rés. O que não significa que ficasse esquecido. Ainda em 1717 o Pa- tários delas no que as suas doações implicam contradição com a segu-
dre António Cordeiro opina na sua História Insulana que rança pública e com o bom governo económico das mesmas ilhas e dos
seus habitantes»,
«cada Capitão é obrigado a assistir pessoalmente na Ilha e Capitania de
:r
que é Capitão, assim como cada Castelão no seu Castelo e na sua pro- procedia-se, pois, à incorporação dos antigos senhorios açorianos
víncia cada Governador das armas dela e que (se não pode assistir nela)
ou se lhe tire a capitania e se proveja em outrem que lá'assista, ou se lhe
tire meia renda da dita capitania, e esta se aplique às mais e melhores
Fortalezas da ilha, pois cada ilha é uma perpétua fronteira que está sem-
pre em viva guerra com quantas nações e corsários e ainda Mouros a
acometem, e é contra a justiça que estando o seu Donatário ausente e
sem a defender, não só tenha ainda a Capitania (que a muitos vimos ti-
rar-se-lhe já por não residiram nela) e, que contudo ainda coma dela a in-
teira renda»246.

A proposta de Cordeyro não se sabe que tenha tido consequên-


cias. Contudo, é curioso notar que em 1766, decidindo o governo
pombalino extinguir, incorporando definitivamente as capitanias aço-
rianas na Coroa, é o velho argumento da inépcia bélica dos donatá-
rios que se irá desenterrar. Aludindo-se às «contravenções que os re-
feridos donatários tem feito das suas obrigações com que lhes foram
doadas as terras que possuem», especificavam-se também, num céle-
bre diploma daquele ano, as causas da intolerável decadência do go-
verno militar das ilhas,

«sem outro Governo ou guarnição que não seja a dos Capitães-Mores e


Capitães das Ordenanças, as quais sendo muito úteis ao tempo em que
foram fundadas, quando os capitães empregavam os rendimentos das
referidas Ilhas em as defenderem das invasões dos inimigos e dos Pira-
tas com as suas próprias pessoas e com gentes que pagavam para aque-
les serviços, são actualmente ineficazes para a defesa das terras, depois
que na Europa se estabeleceram os Exércitos e Regimentos pagos, com a
disciplina que hoje se pratica, e depois que os Capitães das mesmas
ilhas, abandonando-as inteiramente, as deixaram expostas, convertendo
na sua particular utilidade as rendas por sua natureza sujeitas à defesa e
segurança das referidas Ilhas [...] E - prosseguia o Monarca - devendo
com motivos tão urgentes como os sobreditos pesar muito mais na mi-
nha Real atenção a causa pública de estabelecer entre os meus vassalos
das referidas ilhas a paz e justiça, de que o Direito particular dos dona-

247 Vide a carta régia de 2 de Agosto de 1766, no apêndice documental na 1.* ed.
246 ANTÓNIO CORDEYRO, op. cit., p. 514. deste estudo.

206 207
5 .A J U S T I Ç A
1. As Faculdades Judiciais como Prerrogativa
Senhorial

1.1. Justificação Doutrinária e Legal

A Idade Média proporcionou, na caracterização da natureza e


fins do Poder Real, o delineamento dos dois conceitos paralelos de of-
ficiwn e de vicariato divino, conceitos que desde então e até tardia-
mente se tornam indissociáveis da régia figura. Assim, ao vigário de
Deus na terra - detentor de um offtcium com precisas obrigações de
recta condução da comunidade sobre que prevalece - cedo os cano-
nistas, no esteio dos clássicos, atribuíram o primacial dever de fazer
justiça1.
«Na tarefa da salvação eterna - escreveu o Professor Martim de
Albuquerque - ao Rei incumbe, além da defesa do ministério espiri-
tual, assegurar a realização da Justiça, sem o que a salvação se não po-
derá lograr. É esta a linha dominante do pensamento medieval. Para
os homens da Idade Média o Rei tem como obrigação primacial o dis-
tribuir Justiça.»2
Mais adiante: «A Justiça constitui, pois, o fim do poder político,
sendo através dela que se alcança a paz ("ordem") conceito em que
se subsumem uma multidão de realidades, nomeadamente aquelas
duas atribuições da realeza que no século xvi o Regimento da Casa
da Suplicação põe lado a lado com o cuhus justitiae: "statui autem re-
gis necessária sunt cultus justitiae, regimen populis, et defensio pa-
triae"»3.
Mas é verdadeiramente desde os primórdios da nacionalidade
que entre nós esse dever de justiça é sublinhado como o vero, funda-

1 Vide em MARTIM DE ALBUQUERQUE, O Poder Político no Renascimento Português,


Lisboa, Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina, s.i.d., o Capítulo
V - «Natureza e fim do Poder», passtm.
2 Idem, p. 142.
3 Idem, pp. 145-146.

21 l
A JUSTIÇA
A JUSTIÇA

mental e indissociável fim do Poder. Encontramo-lo expresso na len-


nas Ordenações Manuelinas grande parte de vários tratados de filo-
dária exortação do Conde D. Henrique no seu leito de morte, ao
sofia política é-lhe mesmo dedicada.»11
nosso primeiro Monarca. É conhecida também a notificação que fez
o Rei D. Diniz a A Breve Doutrina e Ensinança de Príncipes, de Fr. António de Beja, a
De Republica Gubernanda per Regem, de Diogo Lopes Rebelo, as Con-
dições e Partes, de Lourenço de Cáceres, os Panegíricos, de João de Bar-
«todolos Alcaides e Comendadores e Meirinhos e Alvazis e juizes e jus-
tiças portuguesas, incentivando-as ao escrupuloso cumprimento dos de- ros, o Tratado dos Estados, de Diogo de Sá, a Cana Dirigida a El Rey Dom
Sebastiam, de Gonçalo Dias de Carvalho, o Thesaurus Christiane Relt-
veres do cargo que por ele tinham, pois - dirá - para isso me fez a mim
gionis, de Afonso Álvares Guerreiro, o Regis Institutione, de D. Jerónimo
Deus Rei para fazer Justiça, e para fazê-la fazer em todo meu Reino»4.
Osório, são algumas das obras a que o citado historiador do Direito
Do Rei D. Fernando nos chegaram igualmente os ecos do que recorre12 para, no século XVI, ilustrar a omnipresente crença a que o
perante os povos em Cortes sobre esses deveres e nesta consonância Bispo de Silves exemplarmente deu voz:
declarou, bem como similar opinião se encontrará no Infante D. Pe-
dro e no Rei D. Duarte5. Outras fontes nos deixam, também, clara- «Foi ela [a Justiça] que, logo de começo ouviu os Reis, que os ador-
mente manifesta essa crença, desde o formulário dos forais da nossa nou e elevou ao mais alto grau da honra e da dignidade. É ela que sara as
primeira dinastia 6 , passando pelas páginas expressivas de Álvaro feridas dos povos. É ela que reprime todos os movimentos; é ela que traz
Pai7, até às de Fernão Lopes8, que em abono desta tese se louva da a paz e a tranquilidade. É ela que fortalece a república; que enriquece e
autoridade de conceitos da antiguidade e de páginas de Egídio Ro- dilata o império; que adora devota e santamente a divindade de Deus.»13
mano9.
Se as Ordenações Afonsinas - nas palavras de Martim de Albu- Nesta ordem de ideias, poderia Manueí Álvares Pegas, o célebre
querque - «repetem incessantemente a ideia de um vínculo que une causídico seiscentista, escrever que «toda a jurisdição de julgar é na-
o Rei à Justiça», também, «no século xvi e mesmo no século xvil a con- tural e própria de príncipe soberano e só nele está radicado este po-
vicção de que o Rei é obrigado a fazer justiça impera como nunca em der como regalia sua» 14 , crença que também encontramos consignada
toda a Península. Na Espanha, Mariana, Rivadeneira, o Padre Juan de num tratadista tão autorizado como Domingos Antunes Portugal:
Torres, Fr. Juan de Santa Maria e outros não se cansam de mostrar as
suas excelências e a sua necessidade, o que não constitui apenas uma «Haec autem suprema jurisdictio ejusdem Princípios potestatem e
preocupação especulativa. Fácil é encontrares reflexos práticos. O Rei superioritatem consensuat: & ista est ossibus Regis affixa, & Regiae Co-
que denega a Justiça cai em gravíssimo pecado, dizem os professores ronae annexa, unita, atque incorporata.»15
das Universidades de Salamanca e Alcalá solicitados pelo Monarca a
dar o seu parecer sobre determinada questão, que contra ele era mo- E quando o mesmo Pegas assevera que «o Rei é o verdadeiro e na-
vida já nos derradeiros anos de quinhentos»10. tural juiz de seus vassalos», mais não faz do que consagrar uma ideia
antiga, pois já na Idade Média, segundo ensina Martim de Albuquer-
E prossegue o mesmo Autor: «Em Portugal a ligação entre o Rei e que, «frequentemente os canonistas (Giovanni de Faenza, Uguccio da
a Justiça expressa-se também amiúde durante o século xvi. Recordada Pisa, Guido de Baisio... ) não hesitam em identificar o Rei com o
juiz» 16 . Rex id est judex.
4 Idem, p. 148.
5 látm, p. 153.
11 Idem, pp. 153-154.
6Idem, pp. 146-148.
12 Idem, pp. 153-155.
7 Idem, p. 149.
13 Idem, p. 156.
8 Idem, pp. 150-151.
14 PP, fól. 587v.
9 Idem,pp. 151 e 151 n. 112.
15 DOMINGOS A. PORTUGAL, Traaaius de Donationibtts, Leão, 1757, T. l, Cap. 8.
10 Idem, p. 153.
16 MARTIM DE ALBUQUEQUE, op. cit., p. 142.

212
213
A JUSTIÇA A JUSTIÇA

Mas, quase tão cedo quanto se considerou própria do offícium ré- tiva às faculdades judiciais do senhor «como expresión más clara de
gio a faculdade de julgar, admitiu-se também que o Monarca a pode- Ia administracion de justicia en su estado. La posesión de Ia justicia
ria parcialmente delegar, permitindo-se - no cumprimento do régio por los senores constituyó muy pronto uno de los grandes nervios de
dever de premiar-a um pequeno número de súbditos o exercício de todo el regimen senorial»19.
uma jurisdição formalmente doada, ainda que sob precisas condições. As páginas seguintes serão, assim, dedicadas ao modo como os
Eduardo de Hinojosa notou justamente que «uno de los rasgos carac- capitães-donatários se desempenharam dessa obrigação primeira de
terísticos de Ia Edad Media y dei Antiguo Regimen es considerar Ia manter «em Justiça e Direito» os seus territórios, nos termos das doa-
administracion de justicia, no como una funcion que solo puede, debe ções que lhes fizeram Monarcas e Grande s-Donatário s20.
ser ejercida por el Poder Público, sino como un derecho útil o granje-
ria, enajenable por el Estado a los particulares»17.
Essa crença teve entre nós um claro acolhimento, quer na dou- 2. Os Magistrados do Capitão
trina quer na legislação. Retomando um passo do já citado Pegas, pre-
cisamente respeitante ao pleito que envolveu a sucessão da Capitania
de Pernambuco, note-se que 2.1. O Ouvidor: Justificação e Características
de uma Magistratura
«toda a jurisdição de julgar é natural e própria de príncipe soberano e só
nele está radicado este poder, como regalia sua, uí multís citatís tenet Por- Em capítulo anterior analisámos a figura e as prerrogativas do
wg. de danai. Reg. tom. l Cap. 8 n. l e segs., o Rei é o verdadeiro e natu- Loco-Tenente do Capitão-Donatário, a quem, como dissemos, com-
ral juiz de seus vassalos, e dele passa este poder aos donatários pela doa- petiam específicas funções de governo da Capitania em campos tão
ção que lhes fez de jurisdição mais ou menos limitada, conforme a diversificados quantos eram os que existiam para além da concreta
vontade do Príncipe e as Ordenações que refere o mesmo Portugal...»18 administração da justiça. Esta, na hierarquia dos senhorios portugue-
ses, por definição e imperativo legal, cabia em exclusivo aos ouvido-
As próprias Ordenações Manuelinas, no seu tít. 26 do L. 2 in prinã- res, magistrados de raiz medieval comuns à administração judicial ré-
pio, declaravam que gia e senhorial, competindo-lhes nesta ouvir as partes, apurar e
instruir os casos, levando-os ao conhecimento e decisão do senhor.
«segundo natural razão, como entre as pessoas de grande estado e dig- Loco-Tenente e Ouvidor, constituíam, assim, os dois pilares funda-
nidade e as outras se deve fazer diferença, assim em as doações e privi- mentais da administração da Capitania, preenchendo por completo o
légios que pelos Reis são concedidos às tais pessoas, se costumam pôrT que alguém no século xvil definiu como o «largo império» próprio do
maiores e mais excelentes cláusulas e de maior prerrogativa por se mos- «tridente de dois mares»: o governo das «armas» e o governo das «le-
trar a maior afeição e amor que as ditas pessoas têm; pelo qual em as tras»21. Todavia, ao contrário daquele, e decerto em função da deli-
doações feitas às Rainhas e aos Infantes e a outros alguns Senhores, fo- cada natureza do cargo, o Ouvidor tinha um enquadramento legal
ram postas cláusulas que lhes concediam algumas Terras, Vilas e Lugares definido e que encontrava o seu assento primeiro na letra das Orde-
com toda sua jurisdição civil e crime, mero e misto império...». nações:

Aceitamos, pois, e estendemos de bom grado ao nosso caso a


19 SALVADOR DE Moxóf «Los Seriorios: Cuestiones Metodológicas que plantea su
opinião de Salvador de Moxó, segundo a qual se considera de espe-
estúdio», in Hispania, 94 (1964), (pp. 270-309), p. 296.
cial transcendência, no contexto do regime senhorial, a questão rela- 20 DP (Machico 1440), pp. 403-404, (Angra 1474), CD, p. 174, (Sta. Maria 1474),
CD, p. 177 (S. Miguel 1414), CD, 169 (S. Tomé 1485), SGC, p. 42, etc.
21 Alegações de direito, cit. in MANUEL ÁLVARES PEGAS, Commeniaria aã Ordinatío-
17 EDUARDO DE HINOJOSA, El regimen senoríal y Ia cuestión agraria eu Cataluna, nes Regni Portugalíae. Tractatio Scientifica, Uíruaue Foro Perutitis ac Necessria, exjure Natti-
durante Ia Edad Media, Madrid, 1905, p. 124. rali, Ecclesiastico, Civili, Romano, Hispano & Lusitano, Lisboa Occidental, 1729, Tomo
18 PP, fóls. 587v.-88.
XII, p. 230.

t
214 215
A JUSTIÇA A JUSTIÇA

«Os Infantes e todos os outros Senhores de terras e Fidalgos que ti- «... quanto ao que dizeis que vos demos lugar e licença que possais
verem terras com jurisdição, farão seus Ouvidores de três em três anos, pôr na dita ilha por vós um Ouvidor ou dois que forem aptos para isso,
homens para isso pertencentes, os quais conhecerão das apelações e fei- os quais dizeis que contentareis à vossa custa, por vos fazermos mercê,
tos de que lhes pertencer o conhecimento, e os julgarão nas terras de que havemos por bem que possais pôr um Ouvidor somente, e este vos en-
forem Ouvidores, e não em outra parte onde não tiverem jurisdição.» 22 comendamos que busqueis tal que seja apto para isso de maneira que
nós sejamos servidos e vós contente...»24.
Mas se percorremos as várias cartas de doação de capitanias qua-
trocentistas e algumas ainda do século seguinte, constatamos que os De carácter excepcional fora já, também, em 1493, a concessão feita
textos são omissos no que toca à existência ou faculdade de nomea- pelo Monarca ao Capitão de S. Tomé de que pudesse pôr «dois Ouvi-
ção de ouvidores. O que não seria para estranhar se atendêssemos ao dores pessoas pertencentes para ele, quem a ele melhor parecer...»25.
facto de que, na tradição jurídica portuguesa, era antigo o privilégio A colocação das capitanias sob a directa administração real, terá
que aos donatários assistiu de nomear para as suas terras os ouvido- trazido, porventura, a generalização do privilégio a todas. Pelo menos
res, privilégio acolhido na legislação e, como vimos, consagrado nas na Capitania do Funchal uma sentença de 1507 é ditada por João
Ordenações. No entanto, no caso das capitanias das ilhas atlânticas, Afonso de Araújo, «bacharel em leis e Ouvidor por o Senhor Simão
terá concorrido um facto inusitado à época: o de que residindo nelas Gonçalves da Câmara»26, e no Porto Santo um diploma régio de 1529
o Capitão, por via da própria natureza da mercê, a justiça era directa- alude várias vezes ao Ouvidor do Capitão27. De 13 de Março de 1513
mente ministrada por sua mão, ainda que em ligação muito intensa sabemos que datava uma «ordenação sobre os capitães das Ilhas que
com a máquina administrativa dos grandes-donatários. arrendam as capitanias e rendas que nelas têm a pessoas que fazem
É o que sucede na Madeira, nos Açores, em Cabo Verde ou S, seus Ouvidores»28.
Tomé, ao longo dos séculos XV e xvi, conforme o que depreendemos Outra questão curiosa que remonta a esta fase primária da exis-
de determinados documentos administrativos e de relatos fidedignos tência das capitanias, não é já tanto a da faculdade de nomear ouvi-
como os do Padre Gaspar Frutuoso, plenos de alusões à directa admi- dores, mas de multiplicar o seu número. Vimos atrás que o privilégio
nistração dos capitães, relevante e intensa no caso das Câmaras, do- é concedido na excepcionalmente lata mercê de jurisdição feita a
natários em S. Miguel e no Funchal. Daqui, cremos que nos é lícito Álvaro Caminha, Capitão de S. Tomé, em 149329, e, no Funchal, é
aventar duas hipóteses: a primeira, que a omissão de ouvidores do uma das pretensões que o Capitão remete ao Monarca em 1503, que
Capitão não corresponda a total inexistência destes, mas tão-somente lha denega, aliás30. Nova insistência do Donatário conduz a uma sen-
ao facto de serem nomeados directamente pelo Grande-Dona tá rio, tença que lhe é desfavorável; questiona-a, o Rei confirma-a, mas, «ha-
com funções mistas de assessoria e correição da justiça dos capitães. vendo porém respeito como ao povo da dita ilha se não segue dano
Era, aproximadamente, o que na Capitania do Funchal sucedia, algum de ter o dito Capitão dois ouvidores ambos», acaba por ad-
quando o Monarca, por conta da Fazenda real, nomeara em 1497 o miti-los em 150931. Não nos consta, porém, ou que a mercê se reno-
Dr. Lopo Gentil, «que ora envia a essa ilha para ser Ouvidor do Capi-
tão»23. A segunda, sequente, a de que a inexistência de menções a 24 AA, vol. 5(1883), p. 106.
esse tipo de magistrados nas primeiras cartas corresponda efectiva- 25 DF, III, p. 425.
26 AM, t. xvii, p. 645.
mente, não a uma remissão para um privilégio bem conhecido no
27 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chancelaria de D. José l (Próprios), 1. 23,
Reino, mas à mera negação aos capitães da faculdade de os pôr e fóls. 228v.-35.
manter por si na sua área de jurisdição. Neste sentido se entende que 28 Cit. in AM, t. xvin, pp. 556-557.
só em 1503 o Capitão de S. Miguel receba do Rei D. Manuel a per- 29 DP, III, p. 425.
missão para pôr o seu Ouvidor: 30 AA, vol. 5(1883), p. 106.
31 MARIA DE LOURDES PIEDADE BAPTISTA DOS SANTOS DE FREITAS FERRAZ, A Madeira
no Século XV sob a acção do Infante D. Henrique e do Infante D. Fernando. Dissertação
22 OF, L 2, t. 45, § 41, e OM, L. 2, t. 26 § 13. para a licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas, apresentada por..., Lisboa,
33 Arquivo do Funchal (Madeira), Câmara, T. 2, p. 8. s.d. (exemplar dactilografado), p. 74.

216 217
A JUSTIÇA
A JUSTIÇA

vasse ou que se repetisse noutra qualquer Capitania. E mesmo no da pessoa do Capitão Manuel Rezendes de Barros, o faço meu Ouvidor
Brasil - onde os ca pita es-governa dores eram obrigados nos termos da da Vila do Porto de Santa Maria e suas jurisdições, pelo que mando às
carta de doação, «quando a dita terra for povoada em tanto cresci- justiças da dita Vila do Porto da Ilha de Santa Maria e mais lugares da dita
mento que seja necessário outro Ouvidor de o pôr onde por mim ou Ilha de Santa Maria o hajam e reconheçam por Ouvidor da dita Ilha, e o
por meus sucessores for ordenado»32 - não sabemos que, na prática, deixem servir o dito cargo e lucros, prós e percalços que devidamente lhe
alguma vez se tivesse duplicado a nomeação do Ouvidor. pertencerem. E primeiro que sirva será dado juramento na Câmara da
Chamados «auditores» pelo Padre Cordeiro33, «Ouvidores-Ge- Vila de Porto da Ilha de Santa Maria, para que bem e verdadeiramente
rais» na Capitania de S. Miguel, no século xvil34, os magistrados, ge- sirva o dito cargo, guardando em tudo o serviço de Deus e de EI-Rei
ralmente conhecidos pelo simples título de ouvidores, encarnavam o Nosso Senhor e o meu e às partes seu direito, de que se fará o assento no
poder justiceiro dos capitães, de quem tinham o selo das armas35, e livro da Câmara da dita Vila, assinado pelo dito Ouvidor...»37
empunhavam a vara, inerente aos magistrados portugueses, que,
brandida, anunciava o sacro exercício da Justiça. Em 1729 vemos o Algumas vezes houve em que o Capitão não teria interferência
Ouvidor da Capitania da Paraíba do Sul, acompanhado pelo Loco-Te- directa na escolha do Ouvidor, cometendo-a a procurador para isso
nente do Capitão,
habilitado, como sucedeu na Capitania de S. Vicente, no Brasil,
quando a mãe e tutora do Donatário, em instrumento de procuração
«associado de uma tropa de cavalos, entrando na Câmara; ordenou que de 1557, concede a um homem da sua confiança, entre outros vários
lhe dessem posse, e como não se cumpriu, por não ser legal o título de poderes, de poder
nomeação, tomou por si posse e levantou a vara de Ouvidor, e, com o te-
mor da tropa, prendeu os suplicantes...»36. «pôr na dita Capitania Capitão e Ouvidor, tais quais devem ser, e que-
rendo ele dito António Rodrigues de Almeida ser Capitão e Ouvidor, por
A nomeação de tais ouvidores era feita por carta do Capitão, se- esta presente lhe dá poder de Capitão e Ouvidor...»38.
gundo um formulário que não terá variado muito e de que encontra-
mos um bom exemplo no diploma de nomeação do magistrado para O caso da acumulação de cargos não seria inédito, nem nessa Ca-
a Capitania de Sta. Maria, pelp Capitão Conde de Castelo-Melhor em pitania nem em praticamente todas as que vimos referindo, o que se
1703: compreende dada a economia e a simplificação que para a adminis-
tração dos donatários acarretava. Tão cedo quanto 1540, seis anos
«Luís de Vasconcelos e Sousa, Conde de Castelo Melhor, do Conse- passados sobre a concessão da Capitania de S. Vicente a Martim
lho de Sua Majestade [...] Senhor da Capitania da Ilha da Madeira e da Afonso de Sousa, lá encontramos um António de Oliveira, «Capitão
Ilha de Santa Maria, Ilhas Desertas, Governador das Justiças e Fazenda loco-tenente pelo Senhor Martim Afonso de Sousa, Governador desta
como Vedor dela na Cidade do Funchal e sua Capitania na Ilha da Ma- Capitania de S. Vicente em a costa do Brasil e seu Ouvidor com
deira, etc. Faço saber aos que esta minha carta virem que confiando eu alçada»39.
Outras acumulações são conhecidas e curiosas: em 1512, numa
32 Carta de doação da Capitania de S. Vicente, DBN, vol. 13, p. 139.
carta de dada, João Alvares Neto intitula-se «almoxarife d'El-Rei
33 ANTÓNIO CORDEYRO, História Insulana das Ilhas, a Portugal Sugeytas no Occeano
Occidental, Lisboa Occidental, 1717, p. 510.
37 AÃ, vol. 15(1882), p. 77.
34 Vide URBANO DE MENDONÇA DIAS, A vida de nossos Avós. Estudos Etnográfico da
38 Reproduzido na íntegra por PEDRO TACQUES DE ALMEIDA PAES LEME, «História
vida Açoreana através das suas leis, usos e. costumes, Vila Franca do Campo, vol. 3, da Capitania de S. Vicente», in Revista do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, Ano
pp. 19-21.
1847, p. 157.
35 Vide JOSÉ CÂNDIDO DA SILVEIRA AVELLAR, Ilha de S. Jorge (Açores). Apontamentos
39 Documento reproduzido por JAIME CORTESÃO, Pauliceae Lusitana Monumenta
para a sua história, Horta, 1902, p. 15.
Histórica, Publicações do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, Edi-
36 Carta dos Vereadores da Câmara de Salvador, in ALBERTO LAMEGO, A Terra
ção Comemorativa do IV Centenário da Fundação da Cidade de S. Paulo, Organi-
Goiiacá à luz de documentos inéditos, Rio de Janeiro, 1913, vol. u, p. 105, n. 316. zado e Prefaciado por..., Lisboa, 1956, vol. I, p. 233.

218 219
A JUSTIÇA A JUSTIÇA

Nosso Senhor e Ouvidor com carrego de Capitão por Vasco Eanes o Ouvidor «não tem ordenado certo e o Donatário lhe paga se lhe pa-
Corte-Real, Capitão das Ilhas de S. Miguel e Terceira»40. rece»47. Em Itamaracá, Porto Seguro e Espírito Santo, nem sequer há
Também .ia Capitania do Machico sabemos que, no mesmo sé- notícia de réditos, por inexistentes ou insignificantes que fossem48.
culo, o cargo de Ouvidor era servido pelo Bacharel Rui Pires, que na É natural que em várias capitanias sucedesse o que nos meados do
vizinha Capitania do Funchal tinha o cargo de Juiz de Fora41. século XVII se diagnosticava para o senhorio açoriano das ilhas das
Quanto a remunerações, recebiam-nas os ouvidores, em princí- Flores e do Corvo; aí - conta Fr. Diogo das Chagas - o Ouvidor fora
pio, da mão do Donatário que os nomeava, sem que, contudo, exis- ainda
tisse uma tabela ou uma determinação concreta de ordenado. Como,
aliás, a generalidade da administração senhorial deste nível, o venci- «com ordenado de seis moios de trigo e doze pedras de lã e doze carnei-
mento auferido pelo magistrado dependeria de um acordo pontual ros cada ano, e este ordenado comeram muitos tempos e anos os Ouvi-
com o Capitão, levando em conta circunstâncias tão variadas como a dores que serviam; pelos tempos adiante, pela ambição que foi cres-
formação técnica do nomeado42 ou o volume dos proventos retirados cendo nos que queriam servir, foram aceitando com menos ordenado, e
directamente por via de percentagens ou emolumentos inerentes ao tanto veio em diminuição que não tem hoje mais de dois moios de trigo
exercício da actividade. Na atrás referida nomeação do Ouvidor de e duas pedras de lã, e não sei se tem carneiros, e ainda há de vir tempo
Santa Maria (1704) fala-se em «lucros, prós e percalços que devida- que hão de dar dinheiro pelos proverem nos ofícios... »49
mente lhe pertencerem», e em Pernambuco sabemos que o Ouvidor
«letrado», nas primeiras décadas do século xvii angariava anualmente Outro facto a notar é que as condições específicas da época não
230 mil réis, dos quais 150 de emolumentos43 e 80 de ordenado, «à eram de molde a facultar com regularidade não apenas a formação
custa da fazenda do Donatário, que ele mesmo lhe dá por sua provi- como até a deslocação de indivíduos habilitados capazmente para o
são»44. Segundo a Relação de todos os oficiais da fazenda e Justiça, exercício da judicatura em capitanias longínquas. Os cargos mais ele-
documento das duas primeiras décadas do século XVII, o mesmo Ou- vados e prestigiantes do território tomavam-se frequentemente presa
vidor dos notáveis e dos influentes das comunidades, que, com maior ou
menor seriedade, angariavam assim, comodamente, um renovado as-
«leva de toda a acção que passa de cinco mil reis, ora caiba na sua alçada cendente no meio a que pertenciam. E as consequências não se fa-
ou não, e assim de toda a causa crime que ele próprio apela, cem reis, e a ziam esperar: Perro Borges, o 1.° Ouvidor-Geral do Brasil, escrevia ao
de menos quantia 50 reis»45. Rei em 1550, dando-lhe conta de que

Já em S. Vicente, na mesma época, não consta que o magistrado «devia, V.A. mandar Jorge de Figueiredo e aos outros Capitães que, ao
tivesse ordenado, e de emolumentos só colhia 10 mil réis46. Em Ilhéus menos, pusessem Ouvidores homens entendidos, porque não falo da al-
çada que antes tinham, que era coisa de espanto, mas para a alçada que
agora lhe fica, e de vinte mil reais, é muito necessário, porque a vossa
40 Vide AÃ, vol. 12 (1892), p. 405.
Casa do Cível tem pouco mais e estão nela homens muito bons, letrados
41 Vide AÃ, vol. 3 (1881), p. 117.
42 No Brasil, nas Capitanias da Coroa, os Ouvidores que não eram «licenciados»
e experimentados, e são sempre, em uma sentença, ao menos dois, e
não recebiam ordenado. Vide a «Relação de todos os Officios da fazenda e justissa aqui um homem que não sabe ler nem escrever, dá muitas sentenças sem
que há neste Estado do Brasil», in Documentação Ultramarina Portuguesa, Centro de
Estudos Históricos Ultramarinos, Vol. II, pp. 27, 29, 37.
43 Vide o Livro Primeiro do Governo do Brasil - 1607-4633, Ministério das Relações 47 Relação de todos os Officios..., p. 35.
Externas - Biblioteca - Secção de Publicações do Serviço de Documentação, Rio de 48 Idetn, ihidem.
Janeiro, 1958, p. 60. 49 ANTÓNIO FERREIRA DE SERPA, Dois inéditos acerca das Ilhas do Faial, Pico, Flores e
44 Idem; Vide. tb. cit. Relação de todos os Officios..., p. 24. Corvo: Saudades da Terra (Século XVI) por Gaspar Frutuoso e Espelho Cristalino ou Jardim
45 Relação de todos os Officios..., p. 24. de várias flores (Século XVII), por Frei Diogo das Chagas. Com uma introdução e anotação
46 Livro Primeiro do Governo..., pp. 61-62. de..., Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1921, pp. 132-133.

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A JUSTIÇA A JUSTIÇA

ordem, nem justiça, e, se se executam, tem nas execuções muito maio- de algumas capitanias, nem possivelmente os poderiam sustentar al-
res desordens [...] e já sendo Ouvidores entendidos será coisa posta por guns dos donatários. Mas nem por isso - ao menos teoricamente - fi-
seu caminho e não haverá processos infinitos...»50. caria prejudicado o intuito real. Na carta de confirmação da Capitania
de Sta. Maria a Pedro Gomes de Sousa em 1573, fez-se incluir um «as-
Situações deste tipo não são exclusivas do Brasil e deparam-se- sento» de certa e mais vasta aplicação, declarando que
-nos já nas capitanias das Ilhas, realidade dolorosa a que a Coroa pro-
curou desde sempre pôr cobro, preocupando-se em fixar critérios «o Ouvidor que tiver nesta Capitania, sendo letrado, será examinado,
rigorosos de admissibilidade às funções, de modo a que a adminis- primeiro que sirva, pelos meus Desembargadores do Paço, e não o sendo
tração judicial se ressentisse o menos possível da ignorância, inope- será pelo Corregedor das Ilhas, e constando por certidão de qualquer
rância ou inexperiência dos magistrados. Quando em 1506 o Rei au- destas pessoas de como é apto e suficiente e tem as qualidades que se
toriza o Capitão de S. Miguel a nomear um Ouvidor, conjura-o a requerem, poderá servir, e em outra maneira não»57.
escolher os candidatos em pessoas «que fossem aptas para ele»51, e, já
em 1507, sabemos que o Ouvidor do Capitão do Funchal era um «li- Mas, em simultâneo, o próprio monarca dispensava da regra que
cenciado». Também nessa Capitania, e a pedido do Donatário, per- ditava, como o fez o Rei D. Sebastião por um alvará de 20 de Janeiro
mite-lhe o Rei em 1509 que possa nomear não um mas dois Ouvido- de 1559 em que dispensava da aplicação da previsão de D. João III,
res, «letrados que tenham cargo de conhecer e desembargar todos os isentando de exame os Ouvidores do Capitão de S. Jorge58. Nas capi-
feitos crimes e cíveis»52. Uma provisão de D. João III virá a ordenar tanias brasileiras a exigência era mantida e o exame remetido ao Ou-
que os ouvidores dos capitães das Ilhas fossem previamente exami- vidor-Geral. Uma mercê filipina de Seiscentos concede ao Capitão de
nados pelos Desembargadores do Paço53, e a medida, quanto saiba- Pernambuco que escolha e nomeie Ouvidor «que seja de qualidade, o
mos, produziu os seus frutos. Segundo as listas fornecidas por Gaspar qual indo deste Reino e sendo letrado, será examinado pelo Desem-
Frutuoso, na Capitania de S. Miguel, dos 18 ouvidores que enumera bargo do Paço, e, sendo de lá, pelo O u vido r-Geral»59.
até ao seu tempo, os últimos nove têm a formação adequada - «e da- Não é fácil, para o Brasil, avaliar do nível técnico dos providos no
qui por diante vieram letrados de fora»54 - e na de Machico, dos seis cargo, tanto que, lá como nas Ilhas, era frequente a acumulação com
ouvidores que conta de 1541 a 1562, três são também «licenciados»55. as funções de Loco-Tenente exercidas geralmente por homens de ex-
Ainda em 1634, numa carta régia enviada ao Capitão de S. Miguel, periência essencialmente militar. Se recorrermos à mencionada Rela-
advertindo-o de que devia preencher rapidamente e em benefício da ção de todos os ofícios, documento elaborado sob o governo filipino
justiça um lugar vago de Ouvidor, ordena-se-lhe que o deverá fazer nas duas primeiras décadas do século XVII, concluímos que das seis ca-
«procurando que a pessoa que nomear para ela seja letrado, aprovado pitanias hereditárias lá referidas - Pernambuco, Itamaracá, Ilhéus,
para o serviço de S. Majestade»56. Porto Seguro, Espírito Santo e S. Vicente - só a primeira tinha um Ou-
É óbvio que muitos ouvidores houve - e relembremos que as fun- vidor «letrado»60, nas restantes não o era, e, à excepção de Pernam-
ções eram frequentemente acumuladas pelos loco-tenentes - que não buco e Itamaracá, o cargo era acumulado pelo próprio Loco-Tenente
eram letrados: nem o justificaria a simplicidade da vida comunitária do Donatário. Mas a situação não era melhor nas capitanias da Co-
roa: na Paraíba, no Rio Grande, Sergipe, Rio de Janeiro e Baía, só exis-
50 Cit. por WALDEMAR MARTINS FERREIRA, História do Direito Brasileiro, Livraria
tia um magistrado letrado, o próprio Ouvidor-Geral que aí assentava
Freitas Bastos S.A., São Paulo, 1952, tomo li, p. 87. com o Governa do r-Geral.
51 AÃ, vol. 5 (1883), p. 106.
52 In MARIA DE LURDES FREITAS FERRAZ, op. CÍL, p. 74.
53 Cit. itt AÃ, vol. 4 (1882), p. 167. 57 AÃ, vol. 4 (1882), p. 203.
54 GASPAR FRUTUOSO, Saudades da terra. Livro IV (Ilha 4e S. Miguel), Ponta Del- 58 Idem, p. 167.
gada, 1924, vol. n, p. 97. 59 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chancelaria de Filipe II (Próprios), L.
55 AÃ, vol. 3 (1881), pp. 119-120.
29, p. 48.
56 AÃ, vol. 9 (1887), p. 238.
60 Relação de todos os Offícios..., p. 24.

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A JUSTIÇA A JUSTIÇA

É natural que por toda a área atlântica a situação se degradasse natário. Lembremos, antes de mais, que a existência do Ouvidor ra-
progressivamente ao longo do século xvill dado o desinteresse dos ca- dicava directamente em situações de ausência dos donatários das
pitães absentistas e a crescente apropriação por parte dos represen- suas terras, que urgia suprir sem prejuízo do governo e recta admi-
tantes da Coroa do controlo da vitalidade de cada uma das capitanias. nistração da justiça. Deduzindo do § 47 do tít. 45 do Liv. 2 das Orde-
De resto, as grandes donatárias iam sendo incorporadas, e, nas mais nações Filipinas o princípio de os senhores de terras não serem obriga-
pequenas ou mais afastadas dos centros de civilização, a tendência dos a residir nos próprios domínios - o que sucedia na esmagadora
geral era para a simplificação - de que a acumulação do cargo de Ou- maioria dos casos -, o causídico Manuel Álvares Pegas reparava que
vidor com o de Loco-Tenente é um sintoma - e para as soluções de nem por isso
remedeio, frequentemente anómalas, que a Coroa tinha dificuldade
em fiscalizar e que talvez encarasse como um mal necessário a su- «perdem a jurisdição de donatários, porque ainda que estando ausentes
portar até à concretização da incorporação desejada. não possam exercitar jurisdição contenciosa, podem exercitá-la pelo seu
Nas ilhas madeirenses e açorianas, a vitalidade dos ouvidores no Ouvidor que tem posto, e ele Donatário sempre fica com a jurisdição vo-
século XVin, enquadrados pela administração real e concelhia, é já luntária de poder mandar ao seu Ouvidor o que lhe parecer, ainda que
muito diferente da que desfrutavam nos áureos tempos descritos por não residindo, e nem por isso perde o título nem a jurisdição, porque
Gaspar Frutuoso. A data das incorporações, nos Açores, o monarca, pode cometer o que lhe parecer ao dito Ouvidor para que dentro da terra
em 1766, não hesitará mesmo em referir-se a «justiças leigas e merce- de que é Senhor o execute»65.
nárias»61. Noutros pontos, a tendência é para o desvirtuamento abso-
luto que permitia a distância. No senhorio de Santo Antão de Cabo E, desenvolvendo um passo mais o seu raciocínio, concluía o ilus-
Verde, do Donatário, Marquês Mordomo-Mor, feita uma devassa em tre jurista que
1753, apuraram-se os mais escandalosos desmandos do Ouvidor, que
geralmente acumulava o cargo de Loco-Tenente62. Na Capitania bra- «assim como o Príncipe, em que é só natural o poder de julgar, não tem
sileira da Paraíba do Sul, em 1750, o Capitão Visconde de Asseca é obrigação de o fazer, nem o faz por sua pessoa mas por seus ministros, da
acusado pelos povos de nomear como Ouvidor um «alfaiate de pro- mesma sorte o pode fazer o Donatário pelo seu Ouvidor sem assistir»66.
fissão, homem ébrio e de má consciência, com mais inteligência para
a tesoura que para a judiciatura» 63 . Aliás, na mesma Capitania, À luz da tese de Pegas - que aqui perfilhamos por avultar pela
quando a vereação da Câmara de Salvador se recusa a dar posse ao re-
limpidez e acerto -, o Ouvidor é uma entidade «derivada», que só ad-
presentante do Donatário, justifica-se com o facto de que «o povo não quire o seu sentido, não por si, mas em função de delegação que lhe
concordava com os agravos e apelação para o Ouvidor do Donatário,
empresta o ser:
por ser leigo e ter alçada de 100 mil réís, e no crime até pena de morte
nos escravos, e nos brancos dilatada; também para o bem público
«... E porque os Donatários têm recebido em si este poder que o
desta vila era mais útil que a alçada fosse dos ouvidores do Rio de Ja-
Príncipe aí lhe comunicou, por isso têm a mesma jurisdição os seus Ou-
neiro que eram letrados»64.
vidores, que a recebem dos mesmos Donatários. E de nenhum modo ti-
Finalmente, questão a merecer também a nossa atenção é a da ar-
veram os ditos Ouvidores jurisdição de julgar, recebendo-a dos Donatá-
ticulação das funções de Ouvidor com as faculdades do Capitão-Do-
rios pela nomeação que neles fazem, se estes mesmos Donatários não
tiverem a mesma jurisdição de julgar recebida do Príncipe, em quem só
61 «Instruções» do Governador, D. Antão de Almada, in Suplemento à Collecção de
é natural este poder pela suprema Majestade. E assim como os Príncipes
Legislação Portuguesa do Desembargador António Delgado da Silva, Anno 1750 a 176Z, Lis- podem dar jurisdição aos Donatários para julgarem as causas dos seus
boa, 1842, p. 109.
62 SGC, III Parte, pp. 5-10.
03 Vide as queixas dos povos da Paraíba do Sul in ID, vol. 8, p. 146. 65 PP, fóls. 584-585.
64 ALBERTO LAMECO, op, cit., vol. n, p. 123, n. 327. 66 Idem, fól. 588.

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A JUSTIÇA
A JUSTIÇA

súbditos, assim pode dar a mesma jurisdição aos Ouvidores dos mesmos
Donatários.»67 (e que Cabedo em 1610 publica), precisamente em sede de um pleito
em que foram partes os ca pita e s-dona tá rio s de S. Miguel:
Daqui que a jurisdição alcançada pelos ouvidores coubesse na
«A Ordenação do L. 2, tít. 45, § 9 incipit, "E os juizes conhecerão, ibi,
exacta medida do que se doara ao Donatário, sem aumentos nem res-
irão deles aos Ouvidores ou aos Senhores das terras, quando deles quise-
trições, já que prescreviam as Ordenações que «os ditos Ouvidores te-
rem tomar conhecimento". Esta Ordenação se entende que irão aos Ou-
rão a mesma jurisdição e também e nos feitos que a eles vierem usa-
vidores dos senhores das terras, quando os tiverem, e não, aos mesmos
rão dela assim e da mesma maneira que os tais senhores de terras
senhores, salvo quando os ditos Senhores de terras, não tendo Ouvidores
podem usar».68
quiserem conhecer das tais apelações. Mas, tendo Ouvidores, não podem
No entanto, a doutrina, a par da legislação e da jurisprudência,
delas conhecer senão os mesmos Ouvidores. S/c intellecta futt in senatu, no
não esqueceu outra questão atinente às relações estabelecidas entre
feito de Manuel da Câmara e do Conde de Vila Franca seu filho...»73
donatários e ouvidores: a da concorrência das suas funções. Apesar da
possibilidade de delegar num magistrado as suas faculdades judiciais,
A decisão, embora aparentemente pouco convincente, parece
a lei não negava ao Donatário o direito de em qualquer momento
buscar a sua razão de ser na conciliação do dito preceito das Ordena-
chamar a si as mesmas. Assim rezavam as Ordenações quando, a pro-
ções Filipinas e o § 1. do tít. 71 do Liv. 3 das mesmas Ordenações, que,
pósito dos Juizes de Fora, dispunha que «as apelações irão deles aos
referindo-se às apelações saídas dos Ouvidores dos senhores de ter-
Ouvidores, ou aos senhores de terras, quando delas quiserem conhe-
ras, declarava que iriam deles para o Rei e seus Desembargadores e
cer e em suas terras estiverem»69.
Oficiais para isso ordenados, «sem os senhores de terras tomarem
Mas, previa a mesma lei, «quando eles as quiserem por si desem-
mais conhecimento das ditas apelações»74.
bargar, não conhecerão delas os Ouvidores»70. Isto é, como comen-
tava o citado Pegas,
2.2. A Coroa e a Acção dos Ouvidores
«a lei proíbe expressamente essa sociedade no despacho dos feitos entre
os Donatários e o seu Ouvidor, não permitindo que ambos juntos sen-
Da vinculação do Ouvidor à especialíssima missão de adminis-
tenciem uma mesma causa e a razão disto é muito clara, porque como
trar justiça em nome do Donatário - e, indirectamente, no do Rei, de
os Ouvidores recebem a jurisdição da doação em que o Príncipe a con-
quem este a tinha - decorrem várias consequências que se subsumem
cedeu aos Donatários, vem a ser a jurisdição uma mesma, como o dis-
a uma só realidade: a de que o Monarca nunca abdicou de, por si ou
põe a ordenação, e assim mesmo é falar com o Donatário que com o seu
pelos seus propostos, fiscalizar, punir e suprir as faltas dos ouvidores
Ouvidor, e um e outro tem a mesma jurisdição, recebendo-a o Donatá-
senhoriais, cometidas no exercício das suas funções. As Ordenações
rio pela doação do Príncipe, e o Ouvidor pela carta do Donatário»71.
continham já em si dispositivos de prevenção, como fosse o da fixa-
ção clara da dimensão temporal do exercício do cargo de Ouvidor, co-
A construção de Pegas - «a jurisdição de julgar por sua pessoa ou minando aos donatários que «farão seus Ouvidores de três em três
pela do seu Ouvidor está no arbítrio do Donatário» 72 - seria perfeita, anos»75, o célebre triénio, tantas vezes citado, e que vimos geralmente
não fora esquecer um importante ajuste que a jurisprudência fixara cumprido em toda a área das capitanias. E quando o não era, o risco
era elevado. Em 1552, o Dr. Luís da Guarda, em correição em Ponta
67látm, ibidem.
68OF, L. 2, tít. 45, § 43, e OM, L., t. 26, § 10.
73 In JORGE DE CABEDO, Pratícarum ohservationum seu Deásionum Supremi Lusitaniae
69 OF, L. 2, tít. 45, § 47, e OM, L., t. 26, $ 9.
70 OF, L. 2, tít. 45, §§ 47, 49 e 52, e OM, L. 2, tít. 26, §§ 9, 12, 32.
Senatus, Lisboa, 1610, II Parte, p. 202.
71 FF, fóls. 589-589v. 7Í Sobre esta questão e a posição de Pegas vide MANUEL GONÇALVES DA SILVA,

72 Idtm, foi. 587. Commentaria ad Ordinationes, Ulissipone, 1733, tomo Hl, p. 98, ns. 24-25.
75 OF, L. 2, t. 45, § 41, e OM, L. 2, t 26, § 13.

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A JUSTIÇA A JUSTIÇA

Delgada, na Capitania de S. Miguel, escrevia que «havendo dois dias vereadores, tabeliães e escrivães dante ele e o procurador de seu auditó-
que estava nesta Cidade, o Ouvidor não quis deixar a vara e andava rio e algumas pessoas outras da governança conformes ao regimento,
com ela dizendo que a não havia de deixar e que eu não podia servir prova-se pela dita devassa o Ouvidor levar peitas e fazer outras coisas
de corregedor, pois passava de três anos que o era e não mostrava mal feitas em seu ofício de que se há de ir livrar ao Reino...»80.
nova provisão de VA. para tornar a servir mais tempo».
O facto é que era o Ouvidor que vinha ultrapassando o seu trié- No Brasil, o Regimento da Relação do Brasil (1609) consignava que
nio, e, nesse caso, as Ordenações eram categóricas, defendendo «aos
«o Governador mandará tomar residência cada três anos aos Ouvidores
ditos Ouvidores que acabado de terem servido os três anos não usem
das capitanias e aos capitães e pessoas que servirem em seu lugar, por
nessas terras das ditas Ouvidorias...»76.
um Desembargador da Relação que para isso escolher, de satisfação,
A pena correspondente era prevista também, pois
conforme à Ordenação e ao Regimento novo...»81.
«os Ouvidores que não cumprissem tudo o que por esta Ordenação e Posterior Regimento da mesma Relação (1652), reiterava neste
mandado e forem contra alguma parte dela sejam privados dos ofícios ponto o anterior, explicitando que o regimento aludido era aquele
e nunca os mais hajam nem outro algum ofício de justiça», «por que se costumam tomar residências aos Ouvidores dos Senho-
res das terras»82. A prática manteve-se até às vésperas da incorpora-
além de penas pecuniárias e degredo para África77. Foi a este extremo ção final das capitanias na Coroa, informando ainda em 1750 o Dr. Pi-
que foi levado o caso do Ouvidor de S. Miguel, preso e condenado ao res Pardinho, do Conselho Ultramarino, que, quer o Capitão-Mor
degredo pelo Corregedor78. Mas, como em tantas outras situações, quer o Ouvidor
era a mão munificente do Monarca que consagrava o desvio à regra
geral, como sucedeu em Pernambuco, onde, no início do século XVII, «devem dar residência que pelo regimento da Relação do Estado lha
se concede ao Capitão que o Ouvidor pudesse servir um ano mais deve mandar tirar por um Desembargador o Governador Geral, ou lha
para além do triénio habitual79. pode tirar o Ouvidor-Geral da Comarca, por ordem de 28 de Fevereiro
Era também em função do termo do triénio que se iniciava o pro- de 1703, que foi aos Ouvidores-Gerais daquela parte do Sul»83.
cesso de tomada de residência que, desde 1609, ao Governador do Es-
tado competia ordenar por um magistrado do Tribunal da Relação da A medida teria assim uma actualidade, infelizmente constante.
Baía. Diga-se, aliás, que é outra manifestação importantíssima da afir- O que se compreende. Gaspar Frutuoso dá notícia, para o século xvi,
mação e do controlo efectivamente exercido pela Coroa sobre a ad- de várias suspensões e prisões de Ouvidores nos Açores e Madeira,
ministração senhorial, essa a da sujeição dos ouvidores - tal qual os por majoritária iniciativa do Corregedor e com o motivo de desvios e
loco-tenentes - ao juízo de «residência» ou devassa feita à actuação. irregulari da d es praticadas no exercício das suas funções84. Também
A prática era antiga e obedecia a uma yrécedurc determinada em regi- no século XVI são conhecidas várias medidas tendentes a disciplinar o
mento próprio. Já em citada carta de 1552, o Corregedor Dr. Luís da cargo, umas de carácter geral (como a que proibiu aos capitães das
Guarda escrevia de Ponta Delgada, Capitania de S. Miguel, ao Rei, Ilhas arrendarem os provemos da capitania aos Ouvidores85), outras
participando-lhe que
80 AÃ, vol. 4 (1882), pp. 66-67.
«mandei ao dito Ouvidor que desse residência por passar de três anos 81 In CÂNDIDO MENDES DE ALMEIDA, Auxiliar Jurídico servindo de Aypendice a decima
que serve o dito ofício [...] e perguntando por testemunhas os juizes, quarta edição do Código Philippino ou Ordenação do Reino de Portugal, etc., ed. da Funda-
ção Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1985, vol. l, pp. 6-7.
• 82 Idem, p. 14.
76OP, L. 2, t. 45, § 42, e OM, L. 2, t. 26, § 13. 83 ID, vol. 8, pp. 139-140.
77OF, L. 2, t. 45, § 54, e OM, L 2, t. 26, §§ 34, 41, 47 e 58. 84 Vide AÃ, vol. 3 (1881), p. 119, e vol. 5 (1883), p. 106.
7e AA,voI. 4(1882), p. 16. 85 Vide. a «Carta dei Rey noso Sinhor Em que manda que nenhu capitam aRende

79 Arquivo de Simancas (Espanha), Secretarias Provindaíes, L. 1503, fóls. 72v.-73. uma Renda a seus ouvydores», in AM, vol. 18, pp. 556-557.

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A JUSTIÇA
A JUSTIÇA

de carácter pontual, como as directivas que D. Manuel impôs ao Ca-


1536, na Capitania de Machico, o Rei substitui-se ao Donatário no
pitão do Funchal, cerca do ano de 1521, no sentido de corrigir a má
«pôr» as justiças, pois a debilidade mental do 4.° Capitão Diogo Tei-
aplicação que o Ouvidor fazia de um diploma respeitante alçada dos xeira não lhe permitia «mandar justiça, nem fazer Ouvidor...»92. Nos
capitães86 ou as que, também nesse século, se tomaram com o intuito
últimos anos do século xvi, à morte do Capitão do Funchal e dada a
de evitar a intromissão do magistrado do Capitão de S. Miguel nos as-
menoridade do filho sucessor, o Rei enviara à ilha «julgadores que ad-
suntos da Fazenda Real87.
ministrassem justiça às partes» 93 . Perfeitos os 25 anos da lei, de-
Outro ponto a que a Coroa se mostrou particularmente sensível, volve-se-lhe a faculdade, e o Rei, por provisão de 1604, tem por bem
foram as situações de quebra de administração. Num patente sintoma
desse «horror ao vácuo» de justiça, em Outubro de 1634 o Vice-Rei de «que ele possa pôr aí Ouvidor na dita Cidade e Capitania do Funchal,
Portugal faz participar ao Conde de Vila-Franca, Capitão de S. Mi- para pôr ele e por si administrar justiça às partes, assim como sempre fi-
guel, que, sabendo estar vago o cargo de Ouvidor, «por cujo respeito zeram os Condes João Gonçalves e Simão Gonçalves da Câmara seu pai
se deixam de dar execução algumas ordens de S.M.», lhe competia e avô e os outros capitães seus antecessores e ele o pode fazer pelas doa-
prover o cargo «com toda a brevidade»88. No Brasil, o Governador, ções que tem da dita Capitania. E tanto que ele puser o dito Ouvidor
D. Francisco de Sousa, em 1610, invocando o «bem público», nomeou mandarei vir da dita ilha o Desembargador que ora estava neta por meu
um indivíduo da sua escolha para o lugar vago de Ouvidor da Capi- mandado. E daqui em diante, enquanto ele tiver o dito Ouvidor na dita
tania de S. Vicente «enquanto S.M. não mandava o contrário ou o Capitania e Cidade do Funchal, não vá a ela outro julgador para admi-
proprietário dela não prover conforme sua doação»89. Em sentido in- nistrar justiça às partes...»94.
verso, na mesma Capitania, morrendo em 1654 o Loco-Tenente do
Donatário, o Governador decide que o substitua, acumulando fun- A medida não é comum, e decorre patentemente de um preceito
ções, o Ouvidor Miguel de Cabedo, que passa a ostentar o curioso tí-

:
incluído na generalidade das cartas das capitanias das Ilhas que dis-
tulo de punham que «sendo em tal idade o dito seu filho que a não possa re-
ger, eu ou meus herdeiros poremos aí quem seja até que ele seja em
«Capitão-Mor e Governador desta Capitania de S. Vicente por Sua Majes- idade para a reger»95.

!
tade, e nela Ouvidor com alçada pelo Marquês de Cascais donatário»90. Tal cláusula está ausente nas doações das capitanias do Brasil,
pelo que não é de estranhar que numa já mencionada procuração de
No capítulo anterior referimos o alvará de 28-5-1643 pelo qual o 1557, vejamos D. Isabel de Gamboa, mãe «tutora e administradora do
Govemador-Geral Teles da Silva sujeitou as provisões e alvarás dos Senhor seu filho Martim Afonso de Sousa», Capitão Donatário de S. Vi-
donatários de S. Vicente à sua prévia confirmação e dos sucessores, cente, prover no que tocava à nomeação do Ouvidor96.
mas a verdade é que já em 1642 o Capitão-Mor e Ouvidor nomeado É de notar que noutras situações prementes de falta de Ouvidor,
pela Condessa Donatária houve que ser confirmado e provido pelo eram as próprias comunidades a criar por si as soluções adequadas,
Governador Mendonça Furtado91, prática que parece ter-se generali- como sucedeu na Capitania de S. Miguel em 1550, onde, estando
zado e perpetuado durante esse século e o seguinte. apartado por suspeição o magistrado, houve que recorrer a «ouvido-
Em situações extremas, a Coroa chega a suspender a faculdade de res alvidros»97, ou em S. Vicente, no Brasil, onde em 1657, findo o trié-
nomeação de justiças por incapacidade de exercício de Capitão. Em nio do Ouvidor, a própria Câmara, seguindo a prática tradicional, ele-

86 Arquivo do Funchal (Madeira) - Câmara T, 3 fóls., 171-377v.


92AÃ, vol. 3 (1881), p. 118.
87 Vide FRANCISCO FERKEIRA DRUMMOND, Annaes da Ilha Terceira, Imprensa do 93Arquivo do Funchal (Madeira) - Câmara, T. 3, í. 36.
Governo, Angra do Heroísmo, 1850, vol. Ill, pp. 551-52.
94 Idem, ibidem.
88 AÃ, vol. 9 (1887), p. 238.
95 Veja-se p. ex. Madeira (1440), m DP, 404, Santiago (1485), SGC, p. 42, Sta.
"RSP, vol. l, p. 211.
Maria (1474), CD, p. 177. Sobre esta matéria, veja-se no Capítulo P/ o § 2.
90 Vide. a provisão de 19-11-1656, idem, pp. 465 e 476.
96 PEDRO TACQUES, op. cii., pp. 156-157.
91 Idem, p. 371.
97 AÃ, vol. 3 (1881), pp. 119-120.

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A JUSTIÇA A JUSTIÇA

geu para tal cargo o juiz mais velho até que o Donatário ou o Gover- adiantara uma alternativa na qual se defendia precisamente a criação
nador o provesse98. de uma estrutura judicial encimada por três magistrados de nomeação
Esporadicamente, especiais condições políticas ou de guerra aca- régia: um Ouvidor-Geral e dois ouvidores subalternos, sediado o pri-
bam por repercutir-se também nesta sede. Segundo a Relação da meiro na Baía e os outros dois no Rio e em Pernambuco. Segundo
Costa da Guiné, escrita cerca dos anos de 1620-1625, os Capitães- Stuart Schwartz, avaliando, porém, o Vice-Rei quanto a nomeação ré-
Donatários da Ilha do Príncipe «nela têm jurisdição cível e crime e gia dos ouvidores atentara aos privilégios do Capitão de Pernambuco,
põem Capitão e Ouvidor, posto que agora são postos pelo Capitão de viria a sugerir que aos funcionários se desse o nome de provedores.
S. Tomé, depois que os holandeses ali foram e continuam a ir a ela»99. Na opinião do mesmo autor, «the viceroy's recommendation ob-
Também no Senhorio da Ilha das Flores há notícia que logo após viously attempted to extend royal power at the expense of the pro-
a Restauração de 1640, o Capitão-General de nomeação régia se apro- prietors and was, in fact, such a blatant effort that he felt compelled
priou da faculdade de nomear o magistrado100. to disguise it in complex terminology»103.
Noutras ocasiões, a intromissão real foi mais insidiosa ou calcu- Levado o projecto ao exame do Desembargo do Paço, venceria a
lada. Lembre-se o sucedido em Pernambuco, onde a administração fi- opinião dos que o reputaram impraticável por razões em que avul-
lipina pareceu apostada - e com sobejas razões políticas e económi- tava precisamente a impossibilidade de violar os privilégios anterior-
cas - em minar os dois suportes dos donatários, os capitães e os mente concedidos aos donatários. Mas, como dissemos, a ideia aca-
ouvidores. Se já aludimos ao sucedido com as nomeações dos pri- baria por vingar no Regimento da Relação de 1609, acarretando para
meiros, fica por referir o que respeita aos segundos. Para isso, é mis- os donatários de Pernambuco - já privados da faculdade de livre no-
ter recordarmos que o Regimento da Relação do Brasil, de 7 de Março meação do Capitão Loco-Tenente - um forte abalo na sua indepen-
de 1609 - tribunal que se fizera sediar em S. Salvador da Baía, pare- dência de grandes senhores, atacadas as duas piíastras principais do
des meias com a capitania de Pernambuco, opulento senhorio dos edifício administrativo da Capitania.
Albuquerque Coelho - prescrevia surpreendentemente que nesse do- O crédito dos influentes Albuquerque Coelho foi, porém, sufi-
mínio hereditário, ciente para do Monarca arrancar uma satisfação que, concedida ao
Capitão Duarte de Albuquerque, cremos que se conservou desde essa
«por ser grande a povoação e de muito comércio, haverá um Ouvidor data (1611) até à derrocada da Capitania, conquistada em 1630 pelos
nomeado por mim; para o que me consultará o Conselho da índia letra- holandeses. Tomando letra morta a disposição do Regimento, aca-
dos aprovados pelo Desembargo do Paço»101. bara-se por autorizar o Donatário a que nas suas terras pudesse esco-
lher e prover Ouvidor «que seja de qualidade, o qual indo deste Reino
A disposição, ou o intuito que lhe subjazia, não era novo. Uma e sendo letrado, será examinado pelo Desembargo do Paço e, sendo
dúzia de anos antes, o Cardeal Alberto, Vice-Rei de Portugal, quando de lá, pelo ouvidor Geral».
em Lisboa e Madrid se discutira a instalação da Relação na Baía102, Assim, declarava El-Rei,

«hei por bem e me praz que a dita doação se cumpra e se não altere nela
98 Vide RSP, vol. 2, pp. 287, 386-387 e 485.
coisa alguma nesta parte e que na forma dela possam pôr Ouvidor na
99 «Relação da Costa da Guiné e das capitanias e provações dos portugueses que
nella há com,os officios de guerra, justiça e fazenda e outras cousas para notícia das dita Capitania de Pernambuco, sem embargo do Regimento da Relação
dittas partes», in Relações do Descobrimento da Coita da Guiné, Biblioteca da Ajuda, do Estado do Brasil, porque ordenei que fosse nomeado por mim...»104.
Códice SI-IX-25, fóls. 119-130.
100 ANTÓNIO FERREIRA DE SERPA, op. dt., p. 132.
101 Vide o «Título da Ordem que o Governador do estado do Brasil há de ter, nas
cousas de Justiça e Relação», in CÂNDIDO MENDES DE ALMEIDA, op. cit., vol. \, pp. 6-8.
102 Sobre as vicissitudes da criação e extinção da Relação da Baía, veja-se STUART 103 Idtm, pp. 57-58.
B. SCHWARTZ, Sovereigníties and Soáeiy in Colonial Brazil. The High Court of Bahia and its 104 Carta de 26-11-1611, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chancelaria de
judges, 1609-175^, Berkeley, Los Angeles, Londres, University of Califórnia Press, 1973. Filipe II (Próprios), L. 29, foi. 48.

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A JUSTIÇA A JUSTIÇA

2.3. Outros Oficiais de Justiça concedida a posteriori, em função de conveniências variáveis e que
possibilitava a quase todos os capitães das ilhas interferir mais inten-
Se considerarmos a estrutura própria da administração da justiça samente na governação das suas capitanias.
nas capitanias, veremos que se o Ouvidor a encima, segue-se-lhe, Em 1514, um alvará do Capitão do Funchal nomeando o Meiri-
numa escala descendente, uma série variada de funcionários sobre os nho da Ouvidoria, alude ao «poder que tenho de Sua Alteza no qual
quais assentava na prática a missão de directamente promover e guar- manda que o faça para as coisas da justiça e fazenda»109.
dar o funcionamento da jurisdição dos capitães. Falamos dos meiri- Também D. João III, por carta de 18 de Dezembro de 1547 em
nhos da ouvidoria, dos escrivães, dos tabeliães, dos contadores, dos que atende aos feitos do Capitão de S. Miguel, Manuel da Câmara, no
inquiridores, distribuidores, e até dos carcereiros, mais ou menos in- cerco de S. Cruz do Cabo de Gué, em África, dá-lhe, entre outras mer-
dispensáveis e quase todos detectáveis nos quadros das antigas capi- cês, o privilégio da data dos ofícios de Ponta Delgada, podendo no-
tanias. mear almoxarife escrivães e oficiais, os tabeliães, os escrivães dos ór-
É despropositado dispersarmo-nos com o detalhe de cada uma fãos, da Câmara, almotaçaria, inquiridor, distribuidor e contador dos
das suas atribuições105, geralmente bem definidas no texto das Orde- feitos e custas, meirinho da ouvidoria e seus dois homens,
nações-, desde o meirinho, a quem cumpria dar execução às ordens e
disposições do Ouvidor, aos inquiridores, contadores e distribuido- «para que ele os pudesse dar a quem quisesse e por bem tivesse - refere
res, com específicas funções de inquirição de testemunhas, cálculo de Gaspar Frutuoso - sem mais confirmação nem chancelaria, e assim o de
emolumentos ou salários nos autos e repartição de processos e escri- escrivão da Câmara como o dos órfãos, como todos os mais, tirando os
turas por escrivães e tabeliães106 escrivães de diversa sorte, como os da fazenda de S.A., coisa até hoje nunca vista neste nosso Reino em ne-
da Ouvidoria, do judicial ou dos órfãos, e, sobretudo, os tabeliães, a nhum senhor que tenha chancelaria em sua casa para seus ofícios, sem
cuja actividade as Ordenações reservavam um conjunto largo de pre- mais confirmação de S. Alteza»110.
ceitos reguladores107. O processo de nomeação de uns e outros obe-
decia geralmente ao já tratado processo da «apresentação», patente, Concedida em vida, a mercê é renovada por carta de D. Sebas-
por exemplo, numa carta de 1599 em que o Conde de Vila Franca, Ca- tião, de 10 de Fevereiro de 1576, no Capitão do tempo, mas Filipe II,
pitão de S. Miguel, atendendo à por outra carta de 26 de Outubro de 1628, renova-a na pessoa do Ca-
pitão D. Rodrigo da Câmara e em mais duas vidas111. Em 1584 é
«boa vida e costumes de Jerónimo da Fonseca, morador na dita Vila e a D. Cristóvão de Moura, Capitão da Terceira e de S. Jorge, que pelos
ter servido nela de Alferes de urna companhia mais de seis anos, em que muitos serviços à causa filipina recebe para si e seus sucessores a
fez serviço de S.M., o apresento de hoje por diante ao dito Senhor nos mercê de poder dar nas suas capitanias
ofícios de tabelião do Público e do Judicial da dita Vila...».
«os ofícios de tabeliães do público e judicial e escrivães de almotaçaria e
As primeiras cartas de doação - à parte talvez a da Capitania de contadores dos feitos e custas e inquiridores, e assim poderá dar meiri-
S. Tomé (1493) onde invulgarmente se concede a Álvaro de Caminha nhos dante os seus Ouvidores, que isto se até agora o costumou haver
o poder de «nomear oficiais de fazenda e justiça» 108 - eram omissas nas ditas Ilhas, aos quais eles Capitães deles pagarão à sua custa seu
no tocante à faculdade de nomear esse tipo de funcionários, mercê só
109 AM, vol. 18, p. 559.
110 GASPAR FRUTUOSO, op. dt., p. 182. Na carta de doação da Capitania de Angola
105 Sobre o funcionalismo brasileiro desta época, vide WALDEMAR MARTINS FER- a Paulo Dias de Novais, dizia-se também: «... e assim mais hei por bem e me praz
REIRA, of. dt., vol. ii passim, e para os Açores URBANO DE MENDONÇA DIAS, op. dt., vol. que o dito Paulo Dias e seus herdeiros e sucessores ponham o selo de suas armas em
2, pp. 117 ss. todas as sentenças e quaisquer outros géneros de papéis e despachos, e haverão para
106 Vide, OF, L. l, ts. 85, 86 e 91, e OM, L. l, ts. 59, 60, 65, 70. si toda a chancelaria da dita terra, de que outrossim lhe faço mercê de juro e herdade
107 Vide OF, L. 2, t. 45, §§ 15-30, e OM, L. 2, t. 26, §§ 26-40. para todo o sempre»; MM, vol. 4, pp. 501-502.
108 URBANO DE MENDONÇA DIAS, op. dt., vol. 2, pp. 139-140. 111 URBANO DE MENDONÇA DIAS, op. dt., vol. 2, pp. 120 e 138-139.

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A JUSTIÇA A JUSTIÇA

mantimento e de dois homens que os ditos meirinhos serão obrigados a sirvam seus ofícios bem e verdadeiramente. E os ditos tabeliães servirão
ter para os acompanharem, e também poderão dar escrivães dante os pelas ditas suas cartas sem mais tirarem outras de minha Chancelaria.
Ouvidores (...) os quais ofícios atrás declarados o dito D. António e os E quando os ditos ofícios vagarem por morte, ou por renunciação ou por
Capitães seus descendentes, a que as ditas capitanias vierem segundo erros de se assim é, os poderão isso mesmo dar, e lhes darão os Regi-
forma das doações delas, darão e proverão para sempre como dito é, por mentos por onde hão de servir, conforme aos da minha Chancelaria.
suas cartas feitas em seus nomes e assinadas por eles às pessoas que qui- E hei por bem que os ditos tabeliães se possam chamar e chamem pelo
serem e lhe bem parecer, sendo aptas para as servir, sem mais se virem dito Capitão e Governador.»115
examinar, nem tirar outras de minha chancelaria, e isto em qualquer
modo e maneira que os ditos ofícios vagarem e eles lhes darão regimento Dada a particular natureza, especificidade e indispensabilidade
por onde sirvam, que serão em tudo conformes aos que em minha chan- das suas funções, a nomeação de tabeliães é dos privilégios a que
celaria se dão aos outros semelhantes oficiais das cidades e vilas de meus mais largamente recorrem os capitães brasileiros, acrescendo-lhes o
reinos e senhorios e assim lhes darão juramento em forma que bem ver- prestígio aureolado de poderem eles «chamarem-se» por si. Ainda em
dadeiramente sirvam, sem mais virem jurar na dita Chancelaria, sem 1746, na Capitania da Paraíba, João Martins Basto intitula-se nos ins-
embargo da Ordenação do 2.° Livro, título das rainhas e Infantes, que trumentos notariais
manda que os que tiverem poder de dar ofícios os não dêem por suas
cartas...»112. «Tabelião do público, judicial e notas e mais anexos nesta vila de S. Sal-
vador, Paraíba do Sul, pelo Ilustríssimo e Excelentíssimo Visconde de
Já nas cartas das capitanias brasileiras, na de Angola, Serra Leoa Asseca, Senhor e Donatário dela»116.
e, ainda que sumariamente, na do Senhorio de Sto. Antão de Cabo
è Verde (1547)113, a faculdade permitida aos capitães de poderem no- Note-se, porém, que, ainda assim, muitas destas concessões es-
mear oficiais de justiça está convenientemente definida, acolhendo-se tavam sujeitas a erosões, nomeadamente as da conveniência real. Nos
fórmulas e privilégios normalmente externos às cartas constitutivas: últimos anos do reinado de D. Sebastião foi patente que no Funchal
«havia mais tabeliães do judicial e notas e inquiridores do que convi-
«Poderá pôr Meirinho dante o dito seu Ouvidor e escrivães e outros nha e era necessário para o despacho das partes e bem do povo», do
quaisquer oficiais necessários e acostumados nestes Reinos, assim na que se seguia «haver tanto número de tabeliães e inquiridores na dita
correição da Ouvidoria, como em todas as vilas e lugares da dita Capi- Cidade e dos grandes inconvenientes e opressões que por essa causa
tania e governança.»114 o povo recebe»117.
As providências adequadas só seriam concretizadas em 1568 pelo
Mas, de entre todos esses oficiais, as cartas desta modalidade de- Cardeal-Rei que não permitiu ao Capitão mais do que 10 tabeliães do
dicam uma especial atenção aos tabeliães, revestindo a sua nomeação judicial e quatro de notas e três inquiridores, «sem embargo de até
de características excepcionais e só muito raramente concedidas: agora haver nela vinte e um tabeliães do judicial e oito das notas e seis
inquiridores...». Mas, acrescentava o Rei,
«Possam novamente tirar e prover por suas cartas os tabeliães do
público e judicial que lhe parecer necessários nas vilas e povoações da «porquanto ao dito Conde Capitão pertencem por suas doações as apre-
dita terra, assim agora como pelo tempo adiante, e lhe darão suas cartas sentações de todos os ditos ofícios que por esta carta ficam extintos, em
assinadas por eles e seladas com seu selo e lhes tomarão juramento quer satisfação da diminuição e detrimento que nisso recebe por ficarem em
metade menos», lhe fazia mercê, em duas vidas, das apresentações dos

112 AÃ, vol. 4 (1882), pp. 172-174.


113 «Possam confirmar juizes por eleição e dar por carta tabeliães e oficiais de 115 Wí«,pp. 140-141.
justiça»., in SGC, p. 127. 116 Arquivo Histórico Ultramarino, Rio de Janeiro, doe. 15.446.
114 Carta de doação da capitania de S. Vicente, in DBN, vol. 13, p. 139.
117 MARIA DE LURDES FREITAS FERRAZ, op. dt., pp. 88-89.

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A JUSTIÇA A JUSTIÇA

dois ofícios de escrivães dos órfãos da dita Cidade do Funchal e dos ofí- opulenta Capitania de Pernambuco. Aí, só na Vila de Olinda, onde re-
cios de escrivão da almotacaria, aícaidaria e da imposição da dita Cidade, sidia o Ouvidor, existiam seis escrivães da ouvidoria, que também
«que andam todos três juntos em uma só pessoa, e do ofício de meirinho servem «no crime e nas notas», um meirinho da mesma ouvidoria e
da terra e dos ofícios dos tabeliães de público e judicial dos lugares de seu escrivão, dois inquiridores, distribuidores e contadores, o carce-
sua jurisdição...»118.
reiro e seu escrivão125. Já em meados do século XVHI, nas oito vilas que
Pedro Tacques enumera como pertencentes à Capitania de S. Vicente,
Segundo um já citado códice da Biblioteca do Palácio da Ajuda, só
os oficiais de justiça resumiam-se à fórmula sumária de um tabelião
na cidade do Funchal, cerca dos anos de 1638-1640, a listagem dos
do judicial e notas, que ordinariamente servia também de escrivão
oficiais de justiça nomeados e apresentados pelo Donatário
da Câmara e dos órfãos, sem ordenado, pelo contrário, pagando ao
revela-nos uma estrutura administrativa elaborada: além do Ouvidor,
Capitão um «donativo» anual que retiraria dos emolumentos aufe-
existia o seu meirinho e dois homens, 10 escrivães do público, judi-
ridos126.
cial e notas, 4 notários, distribuidores, 2 contadores de custas, 3 in-
Mas se o passar do século e o acrescer do desinteresse dos capi-
quiridores, juiz dos órfãos, l escrivão da almotacaria e l carcereiro119.
tães nalguns pontos trazia a «petrificação» da estrutura administra-
No Machico, o número dos oficiais de justiça era já mais reduzido: 8
tiva, noutras, porém, chegaria a acentuar a degradação dos privilé-
escrivães do judicial «que são notários», l carcereiro, e l juiz e 2 escri-
gios. Na Capitania do Espírito Santo
vães dos órfãos120; na sua maioria estes oficiais não recebiam qual-
quer ordenado e o único provento que colhiam eram os «emolumen- «exerceram os donatários jurisdição como lhes tinha sido concedido no
tos» colhidos no exercício da sua actividade. foral, nomearam oficiais de justiça, deram sesmarias, etc. desde o ano,
No Brasil das duas primeiras décadas do século XVI a estrutura ou porém, de 1700 por diante, as nomeações dos empregados foram feitas
burocracia judicial está consideravelmente reduzida pelo carácter por S. Majestade ou pelo Governador Geral Vke-Rei da Baía...»127.
eminentemente rural das capitanias ou pelo simples abandono a que
são votadas pelos respectivos capitães: em Ilhéus, além do Ouvidor, Noutros pontos, o século XVIII não terá trazido consigo grande al-
contavam-se mais três tabeliães do público, judicial e notas, l inqui- teração às antigas práticas. Em 1724, o Capitão de S. Miguel tinha
ridor, contador e um distribuidor, meirinho e seu escrivão, alcaide,
carcereiro e escrivão - «a data dos ofícios de Ponta Delgada, a data dos ofícios de tabeliães de
notas, judicial, escrivães de almotacaria, contadores, distribuidores e in-
«todos estes ofícios são de fraquíssimo rendimento em razão da pobreza quiridores das vilas da Lagoa, Água, Nordeste, Vila Franca e Ribeira
da Capitania; contam-se-lhe seus salários do que escrevem e diligências Grande, bem como a data do ofício de meirinho perante o Ouvidor da
que fazem na forma da ordenação»121.
Ilha...»128. .
Em Porto Seguro o quadro era sensivelmente igual122, e bem as- Outro testemunho do século xvm revela-nos que no Funchal,
sim no Espírito Santo123 ou em Itamaracá124. A situação já era diversa nessa época, pertencia ainda ao Capitão o provimento de escrivão do
na Capitania de S. Vicente, onde as duas vilas de Santos e S. Paulo exi- judicial e órfãos, dos tabeliães das notas, dos alcaides ordinários e
giam por sí dois quadros autónomos, e, com maioria de razão, na seus escrivães e os da almotacaria129. Em 1754, na Ilha das Flores, o

118 Idem, ihidem.


125 Relação de todos os Officios..., p. 24.
119 Biblioteca do Palácio da Ajuda, Códice 49-XII-12. 126 PEDRO TACQUES, op. ar., pp. 448-455.
120 Idem, ibidtm.
127 Ofício do Ouvidor da Comarca de Ilhéus para D. Rodrigo de Sousa Coutinho
121 Relação de todos os Officios..., p. 33.
(20-3-1779), Arquivo Histórico Ultramarino, Bahia, doe. 19.209.
122 Idem, p. 34.
128 Arquivo Histórico Ultramarino, Açores, cx. 2, doe. 39.
123 Idem, p. 35.
129 Biblioteca Nacional de Lisboa, Reservados, MSS. de Ferreira Drummond, t. 2,
124 Livro Primeiro do Governo..., p. 61.
«Do Governo Municipal», p. 139v.

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A JUSTIÇA A JUSTIÇA

Duque Donatário provia, além do Ouvidor, 5 tabeliães do público ju- administração da justiça, isto é, dos parâmetros da própria jurisdição,
dicial e notas, escrivão da almotaçaria e da Câmara, e um carce- como a definiu Fr. António de Sousa:
reiro130. Também já no decurso do processo de incorporação da Ca-
pitania da Paraíba do Sul, em 1753, para efeito do cálculo das «Jurisdictio est authoritas iurisdicendi, seu facultas administrandae
compensações, o Capitão Visconde de Asseca expõe ao Rei que iustitiae, Si aequitatis statuendae, vel potestas gubernandi populum iure
Si legibus.»133
«perde o provimento de todos os ofícios da sua Capitania e ao mesmo
tempo o privilégio de servirem pelas suas cartas sem lhe ser necessário E comece-se por advertir que nos não é lícito reportar a um qua-
tirarem outras da Chancelaria, e perde a estimável regalia de criar de dro jurisdicional fixo ou próprio e inerente às capitanias ultramarinas,
novo todos os tabeliães que lhe parecerem necessários para o serviço da porque qualquer estudioso que sobre elas se debruce há-de notar que
sua Capitania, o que não é permitido nem aos Vice-Reis do Brasil»131. a jurisdição doada aos capitães se vinculava com maior ou menor vi-
gor a uma estrutura legal própria, definida e consagrada nas Ordena-
Com maior precisão - e ainda a propósito da Capitania da Pa- ções, e, ainda que aí reportada especificamente aos senhores de terras,
raíba - é um parecer do Dr. Rafael Pires Pardinho, do Conselho Ul- extensível a todos os donatários de bens da Coroa, senhores de juris-
tramarino, datado de 1751, que nos revela como é que no Brasil se se- dição. É facto que não admite dúvida e já o jurisconsulto Pegas, a pro-
dimentara já a antiga faculdade donatarial: pósito das faculdades do Capitão de Pernambuco, diria que é «uma
jurisdição ampla de Donatário da Coroa, assim no cível como no
«... Pode o dito Visconde dar os ofícios de tabeliães do judicial e no- crime, que em nada difere das qualidades de Donatário»134.
tas e os mais de justiça, porém há de ser em vida dos que prover, os quais Ora, escreverá também Pascoal de Melo Freire,
se hão de apresentar neste Conselho para os aprovar e lhes mandar pas-
sar suas cartas de propriedade na forma que dispõe a lideração do Reino «dizem-se donatários os Grandes do Reino e todos aqueles que gozam
e de que devem pagar novos direitos, segundo o regimento da sua co- de jurisdição e império civil, visto que têm a jurisdição dada ou doada
brança [...] Todo o referido se acha disposto nas nossas leis, para que os pelo Rei, do qual vem todo o poder e império, e a exercem em nome dei
oficiais sirvam com verdade em benefício dos povos e da República sem Rei, como se foram seus ministros...»135.
temor ou dependência dos Donatários, o que ele Conselheiro o repete
por ver muitas delas dissimular por alguns Ouvidores...»132 Assim - e retomamos a palavra de Pegas -,

«todos os donatários da Coroa com jurisdição, são pelas suas doações


3. A Jurisdição dos Capitães verdadeiros juizes perpétuos dos naturais das terras de que são senhores,
e, como tais, podem sentenciar, se quiserem, as causas assim cíveis como
crime com alçada que pelas suas doações lhes é concedida...»136.
3.1. O Regime Geral
O modo como a exerceram variou, obviamente, nos termos de
Delineado o enquadramento funcional, orgânico, da «máquina» um processo que se prende directamente à progressiva centralização
judicial das capitanias, cabe agora analisar da amplitude do conjunto
das faculdades concedidas aos donatários para o objectivo preciso da
133 FR. ANTÓNIO DE SOUSA, Aphorismi Inquísitorium, Lisboa, 1630, p. 24.
134 FF, fól. 583v.
135 PASCOAL JOSÉ DE MELO FREIRE, «Instituições de Direito Civil Português tanto
130 Biblioteca do Palácio da Ajuda, pasta 54-HI-15, doe. 122. público como particular», Livro II, in Boletim do Ministério da justiça, n. 163, Fevereiro
131ID, vol. 8, p. 165. de 1967, pp. 5-123 (p. 46).
132 lãem, p. 140. 13<s PP, fól. 584.

240 241
A JUSTIÇA A JUSTIÇA

do poder real. O cuidado que a Coroa dedicou a limitar ou a enformar (... ) irão aos Mestres das ditas ordens em suas terras e aos outros Se-
as faculdades jurisdicionais dos donatários está presente, assim, nas nhores em as suas, ou aos seus Ouvidores...»143
inquirições que o Rei D. Diniz fez lançar sobre essa matéria em 1290,
1301 e 1308137, ou em diplomas como aquele em que regulamentou Nestes termos, ainda na Capitania do Funchal se podia no século
o sistema de apelações em terras senhoriais (1319)138. D. Afonso IV, XVil dizer do Ouvidor do Capitão que tinha
em 1343, e D. Fernando em 1372 e, especialmente, em 1375, prosse-
guem por via legislativa essa mesma política, acabando este último «jurisdição superior a todos os juizes do seu distrito que para eles dão
diploma por vir a ser acolhido nas Ordenações Afonsinas139, t depois apelação e agravo, ainda sendo Juiz de Fora posto por El-Rei e aprovado
nas Manuelinas e Filipinas146. pelo Desembargo do Paço, como é o do Funchal»144.
A jurisdição usualmente concedida aos donatários acabaria,
assim, por se sedimentar com características que não perdem até aos
Todavia, acima da segunda instância senhorial, encontra-se a ins-
finais do século xvin, nomeadamente em termos da escala da hierar-
tância última dos tribunais reais, a que a lei - conforme ao princípio
quia judicial. Resumidamente, avulta em primeiro lugar o facto de
da «maioria de justiça» ou «senhorio eminente» do Monarca - reme-
que se determinado senhor estava provido de faculdades de adminis-
tia as apelações dos Senhores ou seus Ouvidores:
tração de justiça, estas só se desencadeavam decorrendo de um está-
gio de apreciação que o antecedia como instância primeira. Falamos
«... e deles irão as apelações aos nossos Desembargadores, a que o
das justiças concelhias. Como ensina Guilarte, «el derecho de cada
vecino a ser juzgado con arreglo a sua leyes encierra una de Ias más conhecimento, segundo a qualidade do feito pertencer...»145
típicas peculiaridades de Ia estrutura medieval, que se deriva, en Io
sustantivo, dei desenvolvimento alcanzado por los derechos loca- É este o esquema singelo da escala dos recursos em que a jurisdi-
les»141. ção senhorial se insere. E se quisermos exceptuar as situações anó-
As Ordenações definiam com detalhe as funções desses magistra- malas adiante referenciadas, em que aos donatários é permitido julgar
dos concelhios, juizes ordinários, e as dos juizes de fora, de nomea- quer em primeira quer em última instância, facilmente se com-
ção régia, que por completo preenchiam essa instância de apreciação preende a razão de se poder caracterizar de «intermédia» a jurisdição
que directamente antecedia a das justiças senhoriais142. Segundo a na- dos donatários, limitada que estava, abaixo, pela dos juizes conce-
tureza dos casos, era este o estágio seguinte nesse movimento «as- lhios, e acima, pela dos tribunais régios de apelação. Segundo a dou-
cendente» da matéria julgada: trina tradicional, expressa em Gonçalves da Silva, comentador das
Ordenações,
«Todas as apelações que saírem dante os juizes das terras da Ordem
de N. S. Jesus Cristo, Santiago e S. Bento de Avis e da ordem de S. João «sancitum est in nostro textu quod Appelationes interpositae à Judicibus
de Jerusalém, e, bem assim das terras de quaisquer prelados ou fidalgos terrarum Dominorum Vassalorum seu Donatarium Regiae Coronae de-
bent ire ad ipsos Dominós, vel suos Auditores, Si ab eis ad Senatum ad
quem pertinuerint secundum qualitatem causaram»146.
' Cit. w OF, L. 2, t. 48.
13e Livro das Leis e Posturas, Universidade de Lisboa, Faculdade de Direito, Lisboa,
1971. 143 OF, L. 3, t. 71 in pritic., e OM, L. 3, t. 55 in princ.
Cit. in OA, L. 3, t. 50.
139 144 Biblioteca Nacional de Lisboa, Reservados, MSS. de Ferreira Drummond.
140 Cf. OA, ts. 39, 40 e 63, OM, L. 2, t. 26, OF, L. 2, t. 45. Veja-se tb. PASCOAL DE 145 A Casa do Cível, a Casa da Suplicação, o Ouvidor-Geral do Brasil ou a Rela-

MELLO FREIRE, op. dt., p. 47, e ANTÓNIO MANUEL HESPANHA, História das instituições. Épo- ção da Baia, representaram, conforme as épocas e os estilos, a instância imediata-
cas medieval e moderna, Livraria Aimedina, Coimbra, 1982, pp. 282-283. mente superior à dos capitães brasileiros. Veja-se o interessante esquema da hierar-
141 ALFONSO MARIA GUILARTE, El regimen senoriat en el siglo XVI, Instituto de Estú- quia das justiças ultramarinas i« STUART B. ScHWARTZ, op. dt., pp. 32-33.
dios Políticos, Madrid, 1962, pp. 108-109. 146 MANUEL GONÇALVES DA SILVA, oy. dt,, p. 95. Para uma referência às excepções

142 Vide OF, L. l, t. 65, e OM, L. l, t. 44. ao princípio, vide pp. 95-96.

242 243
A JUSTIÇA A JUSTIÇA

Em segundo lugar - continuando a caracterizar as linhas de força crime, as últimas - por caírem sob o mero imperium - foram valoradas
da jurisdição senhorial - há que destrinçar o que se entende por «ape- em termos de proximidade da sua apreciação pelo supremo juízo do
lação». O termo é susceptível de dois entendimentos. Primeiro, em Rei. Tudo visto, e se quisermos buscar os exactos termos legais do
que a palavra apelação - tal como ocasionalmente a palavra agravo147 quadro da jurisdição concedida aos donatários, teremos que:
- é empregada no sentido lato de recurso, fosse ele de agravo ou de
apelação,_s/n'crw sensu. É um entendimento que a doutrina acolheu e de a) A jurisdição senhorial caracterizava-se por ser uma jurisdição «inter-
que Baptista Fragoso se fez eco:
média» ou de recurso: «não tomarão conhecimento por nova acção de
feito algum cível nem crime, nem por simples querelas, nem por via
«Appelatio est provocatio a minore, vel inferiore judice gradatim ad
de ofício de justiça, nem por outra maneira, salvo por apelação»150.
maíorem pretextu gravaminis seu iniquitatis Ulatae.»148
b) É admissível o recurso final de apelação na instância senhorial, mas
Tomado assim já desde o século XV nas primeiras doações de ca- restrita aos feitos cíveis, porque nos feitos crimes ela iria «aos Ouvi-
pitanias, a acepção manifesta uma distinção substancial em relação às dores de cada uma das relações a que pertencem» 151 .
faculdades judiciais dos donatários do Reino, a quem como é sabido, c) É inadmissível o conhecimento de agravos sequentes a juízos de pri-
era vedado o conhecimento dos agravos. O nosso entendimento - meira instância, quer em matéria cível (em que iriam directamente ai
que não é extensível ao modelo das doações de capitanias brasileiras, Corregedor da Comarca ou da Corte) quer em matéria crime em que
onde está bem expressa a distinção apelação/agravo - não o contra- iriam aos mesmos corregedores da Comarca ou ao Desembargador
dita, que saibamos, qualquer reparo, e, pelo contrário, diplomas dos Agravos das Relações «a que pertencia»152.
como o de 13 de Março de 1520 ou uma sentença de 16 de Março de
1517 (ambos analisados adiante) confirmam-no enquanto reconhe- Mas, sem que se possa estranhar, dentro do enunciado rígido dos
cem, sem carácter de inovação, a admissibilidade da recepção de ape- feitos e dos termos em que os senhores de terras os pudessem co-
lações e agravos pelos capitães, tendo como base a única e lacónica le- nhecer, a lei ressalvaria aqueles «a que por nossa ordenação ou espe-
tra das cartas constitutivas. cial privilégio expressamente for outorgado que o possam fazer»153.
Num sentido estrito, o recurso de apelação pressupunha essen- Ressalva que teve, aliás, larguíssima aplicação no campo especí-
cialmente a deficiente apelação da causa, fosse por razões de facto fico das jurisdições concedidas aos capitães, caracterizadas por uma
fosse por razões de direito. Noutro pólo, o recurso de agravo não se sistemática dispensa de qualquer dos três princípios atrás enunciados,
atinha a matéria de fundo, mas a uma concreta e definida violação do o que vem conferir ao quadro jurisdicional das capitanias ultramari-
direito por parte do julgador recorrido. Em termos técnicos, o se- nas uma tonalidade própria que, em termos de latitude, a distingue
gundo prevalecia em termos de facilidade de decisão sobre o pri- profundamente do âmbito geral das jurisdições senhoriais do Reino.
meiro; em termos «políticos», era o primeiro que relevava, pois que a
simples admissibilidade do recurso de agravo implicava questionar-se
directamente a actuação de um magistrado no sacro exercício de jul- 3.2. O Quadro Primário das Capitanias
gar, com.os mais gravosos aspectos públicos teoricamente incompa-
tíveis com instâncias subalterna149. Os títulos constitutivos das capitanias são ainda neste campo a
Em terceiro, breve e último lugar, há que lembrar que, presente a fonte primeira para ajuizar da justa medida das faculdades outorgadas
têmpora distinção que se estabeleceu entre causas cíveis e causas aos donatários, isto porque, já o ensinou Pascoal,

47 Vide MARCELLO CAETANO, História do Direito Português, volume 1. Fontes de


Direito Público (1140-1495), Editorial Verbo, Lisboa, 1981, pp. 400 e 585. Veja-se tb. 150 OF, L. 2, t. 45, § 50, e OM, L. 2, t. 26, § 14.
ANTÓNIO MANUEL HESFANHA, op. cit., p. 301, n. 565, e pp. 337-38. 151 OF, L. 2, t. 45, § 49, e OM, L. 2, t. 26, § 12.
48 BAPTISTA FRAGOSO, De Regimine Reipublicae, Coloniae 16.41, L. VII, n. 950. 152 OF, L. 2, t. 45, § 48, e OM, L. 2, t. 26, § 11.
149 Sobre esta matéria, vide A. M. HESPANHA, op. loc. cit. 153 OF, L. 2, t. 45, § 50, e OM, L. 2, t. 26, § 14.

244 245
A JUSTIÇA A JUSTIÇA

«a jurisdição concedida aos donatários apenas recebe a interpretação li- das cartas de mercê de capitanias de ilhas de localização incerta,
teral; por isso não se deduz de argumentos e conjecturas, ainda que vee- como as que são feitas a João Vogado (1462)158, a Rui Gonçalves da
mente; Ord., L. 2, tít. 45, § l, nas palavras: "expressamente lhes for ou- Câmara (1473)159 ou a Fernão Teles (1474)160, sob a expressão da
torgado"»154.
«mercê de toda a jurisdição civil e crime, mero e misto império». Na
doação do Senhorio das ilhas das Flores e Corvo (1475)161 fala-se tam-
Por essa mesma razão, e precisamente num acórdão da Relação bém na doação de «jurisdição, domínio e senhorio, mero e misto im-
de 1681 respeitante a uma questão atinente à jurisdição do Capitão pério e alçada». Em S. Tomé (1586)162 é semelhante a latitude da ju-
do Funchal, se dirá que «aonde se não acha concedida expressamente risdição concedida, «cível, crime, alta e baixa, mero e misto império».
a jurisdição, termos em que conforme os da lei se não pode conside- E mesmo no século xvi, recorre-se à velha fórmula nas doações da Ilha
rar concedida por argumentos extensivos ou interpretativos...»155. do Fogo (1528)163 e de Sto. Antão (1548)164. Mas a relatividade da am-
Mas nem por isso a Chancelaria deixou de recorrer a fórmulas tí- plitude que parece subjazer a tão brilhante formulário é patente. As
picas, aparentemente contraditórias da lei pelo carácter de generali- próprias Ordenações o davam a saber:
dade de que enfermam, só explicáveis, enfim, pela solenidade com
que caracterizam e formalizam o acto da doação. Referímo-nos à ex- «... com toda sua jurisdição cível e crime mero e misto império, não
pressão da concessão da «jurisdição civil e crime, alta e baixa, mero e reservando para si parte alguma da dita jurisdição, e em outras reserva-
muito império»156, súmula das competências judiciais do Monarca ram alguma parte dela, e posto que as ditas doações assim largamente
trespassadas para a mão de um particular e que as Ordenações expres- passassem, sempre foram entendidas e se entenderam que fique a Nós
samente consagram. As Manuelinas, no título 26 do Livro 2, ao referir reservada a mais alta superioridade e real Senhorio que o Rei tem em to-
«como as Rainhas e Infantas e outros Senhores usarão das jurisdições dos seus súbditos e naturais...»165
que por El-Rei são dadas», explicitam que
Esta «superioridade e real Senhorio» impunha-se quer pela acção
«segundo natural razão, como entre as pessoas de grande estudo e dig-
inspectiva da correição adiante estudada quer pela afirmação do prin-
nidade e as outras se deve fazer diferença, assim em as doações e privi-
cípio da maioria de Justiça, fulcral nas relações que se estabelecem ao
légios que pelos Reis são concedidos às tais pessoas, se costumou pôr
nível jurisdicional entre o Rei e os donatários. Já um diploma do Rei
maiores e mais excelentes cláusulas e do mor prerrogativa, por se mos-
D. Diniz de 19 de Março de 1319, refere expressamente que
trar a maior afeição e amor que às ditas pessoas têm. Pelo qual em as
doações feitas às Rainhas e aos Infantes e a outros alguns Senhores, fo-
«é direito e uso e costume geral dos meus Reinos que todas as doações
ram postas cláusulas que lhe concediam algumas terras, vilas e lugares
que os reis fazem a algum, que sempre fica guardado as apelações para
com toda sua jurisdição cível e crime, mero e misto império...»
os reis em sinal e em conhecimento de maior senhorio...»166.
Mas, como Alfonso Guilarte muito justamente adverte, «en base
de Ia difusión de esa clausula de mero e mixto império [...] es preciso Ora, será precisamente no mecanismo das apelações - baseado
valorar Ia medida en que tal clausula atribuye ai senõr un poder de na típificação de casos considerados de Corte - que nesta fase se irá
juzgar a los vassalos de su domínio»157.
Embora ausente dos formulários normais das primeiras capita- 158 CD, p. 148.
nias madeirenses e açorianas, irá surgir na construção algo especial 159 ídem, p. 156.
160 ídem, p. 161.
161 AÃ, Vol. l (1878) p. 24.
154 PASCOAL DE MELLO FREIRE, op. cit., p. 70. 162 DP, III, p. 302.
155 DP, I, p. 228. 163 SGC, p. 94.
156 Veja-se ANTÓNIO MANUEL HESPANHA, op. cit., p. 293, n. 541, e ALFONSO GUI- 164 ídem, p. 126.
LARTE, op. cit., p. 121, n. 121. 165 OM, L. 2, \.26inprinc.
157 ALFONSO GUILARTE, op. cit., p. 12 1.
166 Livro das leis e Posturas, ed. cit., pp. 187-188.

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A JUSTIÇA A JUSTIÇA

manifestar o «maior senhorio» do Rei, como linha fronteiriça do po- magistrados régios. São sensíveis, assim, vários estágios no processo.
der concedido aos donatários. Logo na primeira carta de concessão de Ao princípio - notou acertadamente Rodrigues de Azevedo -
uma Capitania, no Machico, em 1440, se declara «que lhe tenham em
esta sobredita terra a jurisdição por mim e em nome do cível e crime «é muito de presumir que os três donatários (da Madeira e Porto Santo)
ressalvando morte ou talhamento do membro...»167. ao serem investidos no governo das suas capitanias, o que provavel-
É o modelo que se estende às outras capitanias madeirenses e às mente se deu no fim do primeiro quartel do século XV ou princípio do se-
açorianas, como a da Terceira (1450), em que o Infante Grande-Do- gundo quartel do mesmo século, tivessem recebido do Infante D. Henri-
natárío afirma querer que ou talvez mesmo do Monarca, algumas instruções ou qualquer
regimento, embora de carácter geral e sem grande individuação de coi-
«que ele [Capitão] tenha todo o meu poder e regimento de justiça na dita sas e pessoas que os devessem guiar na gerência dos negócios de admi-
Ilha, assim no cível como no crime, salvo que venham por apelação nistração pública, que por certo não ficariam exclusivamente entregues
diante dele os feitos de mortes de homens e talhamento de membros ao critério e às arbitrariedades dos mesmos donatários. Nada se conhece
assim como nas ditas ilhas da Madeira e Porto Santo»168. de positivo sobre este assunto e nem sequer a tal respeito temos encon-
trado as mais ligeiras referências»171.
E mesmo naqueles diplomas onde se incluíra a fórmula da con-
cessão de jurisdição «cível, crime, alta e baixa, mero e misto império», Numa segunda fase, iniciada dos anos de 1440 a 1450 nas capita-
acrescenta-se quase de imediato a alusão limitativa da reserva real de nias do arquipélago madeirense - em que se consagram com doações
alçada em casos de morte ou talhamento de membro nos feitos cri- formais governos já anteriormente possuídos -, o sistema é linear: ao
mes. É o caso da doação de João Vogado, seguindo no mesmo tom as Capitão cabe julgar em última instância todas as causas cíveis e tam-
de Ruí Gonçalves da Câmara, Fernão Teles, a de S. Tomé, Fogo e Sto. bém as de crime, desde que a estas lhes não corresponda pena de
Antão. Do que é lícito concluir que a inclusão da aludida fórmula em morte ou talhamento de membro; aí, é forçosa a apelação para ins-
nada altera o regime inicialmente delineado para o funcionamento tância superior:
das justiças dos primeiros Capitães-Donatáríos: ressalva da correição
e execução dos mandatos régios, e, repetimo-lo, apelação para obri- «... me praz que, lhes tenham em esta sobredita terra a jurisdição por
gatória e superior instância em casos a que correspondesse pena de mim [Infante] e em meu nome, do cível e do crime, ressalvando morte
morte e mutilação. ou talhamento de membro...»172
Tão platónico ou desnecessariamente aparatoso se tomara o já
As restantes capitanias atlânticas, modeladas segundo o figurino
raro formulário, que, nas elaboradas construções das primeiras doa-
madeirense, obedecem ao mesmo sistema:
ções brasileiras, será banido totalmente, para só renascer em casos
pontuais de meros actos privados: uma procuração dada em 1557 pela «... assim no cível como no crime, salvo que venham por apelação
mãe e tutora do Capitão de S. Vicente a um seu procurador, manda diante ele os feitos de morte de homem e talhamento de membros, que
que «lhe obedeçam no alto e no baixo»169, e na escritura de venda da ressalvo para mim e para maior alçada, assim como nas ditas ilhas da
Capitania de Ilhéus a Lucas Giraldi (1558) alude-se expressamente à
Madeira e Porto Santo.»173
trespassada «jurisdição cível e crime, mero e misto império»170.
O sistema das alçadas no cível e no crime variou no sentido da
apropriação progressiva do julgamento das causas pelos tribunais e 171 ÁLVARO RODRIGUES DE AZEVEDO, As Saudades da terra pelo Doutor Gaspar fru-
tuoso - História das Ilhas do Porto Santo, Madeira, Desertas e Selvagens - Manuscrito do
Século XVI annotado por..., Funchal, 1873, vol. I, p. 330. Atente-se que Rodrigues de
167 DM, pp. 403-404. Azevedo parece ter ignorado o importante e já citado «capítulo» de D. João I enviado
M UM, p. 471. à Madeira em data anterior a 1433.
169 PEDRO TACQUES, op. dt., p. 157. 172 Carta da Capitania da Madeira, in DP, I, pp. 404 ss.
170 DBN, vol. 80, p. 193. 173 DP, I, p. 471.

248 249
A JUSTIÇA A JUSTIÇA

Sucedia isto na Terceira em 1450, mas também em S. Miguel174, em despachados, como se sempre fez, posto que os tais feitos do Reino per-
Sta. Maria175, em S. Jorge176, na Graciosa177, no Faial e no Pico178, em tencessem direitamente à Casa da Suplicação, por melhor despacho e
Santiago de Cabo Verde179, em S. Tomé180 ou na Ilha do Príncipe181. por a cidade de Lisboa ser porto de mar onde os navios amiúde vêm das
Porque peculiar a esta primeira fase, há que atentar numa ques- ilhas...» 1B3 .
tão decorrente da coexistência de monarcas, grandes-donatários e
capitães de donatários, numa escala de administração dos territórios Todavia, a leitura desprevenida das três primeiras cartas do Ma-
ultramarinos que vigora desde 1440 até à ascensão do Grande-Dona- chico, Funchal e Porto Santo, revela-nos que é a si mesmo e não ao
tário Duque de Beja ao trono de Portugal em 1495, sob o nome de Rei que o Infante Grande-Donatário fez vir o recurso das matérias ex-
D. Manuel I, revertendo à directa administração da Coroa o conjunto ceptuadas à alçada dos capitães: «que a apelação venha para mim»184,
dos territórios entregues ao mando dos Infantes e seus descendentes. é a expressão usada. O mesmo sucede também no conjunto das doa-
Essa questão, dizíamos, respeita à instância a que subiriam as causas ções das capitanias da Praia, S. Miguel, Angra e Sta. Maria, feitas en-
de morte e talhamento de membro que se exceptuavam à alçada dos tre Fevereiro e Maio de 1474 pela infanta D. Beatriz, enquanto mãe e
capitães. tutora do Grande-Donatário Duque de Viseu185.
Em boa doutrina e segundo o princípio omnipresente da maioria Importa, pois, que nos interroguemos sobre o vero significado
de justiça real, natural seria que fosse aos monarcas e a ninguém mais desta aparentemente abusiva apropriação da jurisdição real por parte
que aquelas subissem. O que, aliás, ficaria claramente expresso nos do Infante, e em termos tais que com explicações por vezes pouco cla-
próprios diplomas de concessão dos senhorios aos grandes-donatá- ras186 - levaram Charles Verlinden a aventar a hipótese de o Infante de
rios. Quando, por exemplo, em 1433, o Rei concede as Ilhas da Ma-
deira, Porto Santo e Deserta ao Infante D. Henrique, fá-lo com sua 183 DUARTE NUNES DO LIÃO, Leis Extravagantes Collegtdas e Relatadas pelo Licen-
«jurisdição cível e crime salvo em sentença de morte ou talhamento ciado..., Lisboa, António Gonçalvez, 1619, Segunda Parte, p. 73.
de membro mandamos que a alçada fique a nós e venha à Casa do Cí- 1M Carta da Capitania de Machico, DP, I, pp. 404 ss.
vel de Lisboa...»182. 185 CD, pp. 164, 169, 174 e 177.
86 Vg. a propósito da doação régia de 8-1-1433 da Ilha do Corvo ao Duque de
Era essa efectivamente a sede própria para se exercer o último
Bragança: C. Verlinden considera que a vulgar expressão da chancelaria real «de
juízo do Rei: um alvará de D. João III de 16 de Maio de 1524 resumido nosso moto próprio, livre vontade e certa ciência, poder absoluto, sem no-lo ele
e transcrito nas Extravagantes de Duarte Nunes do Leão, cominava pedindo nem outrem por ele», é uma «formule bizarre qui semble montrer que lê Rói
ne voulait pás tenir compte dês droits plus anciens de Henri lê navigateur», em
«que os feitos crimes que por apelação ou agravo viessem das ilhas, [«Henri lê Navigateur songea-t-il a créer un «État» insulaire?», Coimbra, 1969, sepa-
rata de Revista Portuguesa de História, tomo XII (Homenagem ao Doutor Paulo Merêa,
sendo de casos que provados merecessem morte natural ou talhamento p. 286.] Aliás, já noutra sede [«Formes féodales et domaniales de 1a Colonisation For-
de membro fossem aos Ouvidores da Casa do Cível e por eles fossem tugaise dans Ia Zone Atlantique aux XlVe. et XVe. siècles et spécialement sous Henri
lê navigateur», Coimbra, 1961, separata da Revista Portuguesa de História, vol. IX (1960),
p. 13], comentando na carta de doação da Capitania de Machico a Tristão, a passa-
174 CD, p. 169. gem «tenham em esta sobredita terra a jurisdição por mim e em meu nome do cível
175 CD, p. 177. e crime ressalvando morte ou talhamento de membro que a apelação venha para
176 CD, p. 183. mim», concluíra com menos razão que «en 1440, immédiatement après Ia mention
177CD,pp. 216-217. du droit d'infliger Ia peine de mort et Ia mutilation judiciaire on trouve: "que a ape-
178 CD, p. 233. laçam venha para mym», sans que l'on puisse cíairement savoir un quoi 1'appel por-
179 SGC, p. 42. tait.» Nesse mesmo estudo [pp. 8-9], ao analisar o citado passo da carta régia de 1433
180 DP, III, p. 302. de concessão da Madeira, Porto Santo e Deserta ao Infante - «com sua jurisdição
181 JOSÉ JOAQUIM LOPES DE LIMA Ensaio sobre a estatística das possessões portuguesas cível e crime salvo em sentença de morte ou talhamento de membro, mandamos que
na África Occidental e Orienta! na Ásia Occidental e na China, e na Oceania, escrytos át a alçada fique a nós e venha à casa do Cível de Lisboa» [DP, I, pp. 371-721 - comenta
Ordem do Governo de Sua Majestade Fidelíssima a Senhora D, Maria II, Lisboa, Imprensa o Professor Vertinden: «L'Infant [...] aura Ia jurisdiction civile et pénale à Pexceptíon dês
Nacional, 1844, vol. n, P. II, p. 23. sentences de mort et de mutilation judiciaire. Cependant lê rói reserve à sã Casa Cível
182 Carta de 26-9-1433, m DP, I, pp. 271-R. de Lisbonne lê droit d'appel aux jugements rendus par 1'Infant au civil». A confusa

250 251
A JUSTIÇA A JUSTIÇA

Sagres ter um dia pensado em criar um «estado» insular 187. Em nosso O conhecimento deste tipo de apelações por parte do Infante não
entender, o Infante ntagis dixit quam voluií, sendo lícito formularmos o consideramos, assim, o reflexo activo de qualquer tipo de instância
uma hipótese: concedendo o Rei ao Infante a jurisdição civil e crime, judicial do Grande-Donatário, mas tão-somente um termo formal de
com reserva do conhecimento de «casos de Corte», doadas as capita- equilíbrio entre o reconhecimento da soberania real e a imposição de
nias, e, por acréscimo, a mesma jurisdição a particulares, estes, face ao um princípio vincadamente político de afirmação «senhorial», se se
Rei, substituíram-se ao Infante na obrigação de lhe dar apelo nos su- nos permite a expressão, manifesta na ordem do Infante de que nas
praditos casos. Teria assim ficado ao Grande-Dona tá rio, e quando suas ilhas
muito, a mera faculdade «intermédia» de servir de elo de ligação entre
os capitães e a suprema instância régia? É o que se depreende da carta «não vão com nenhuns agravos nem apelações nem instrumentos, nem
quatrocentista pela qual o Infante determina a medida da jurisdição de cartas testemunháveis a nenhuma justiça, se não a mim ou a meus Ou-
Fr. Gonçalo Velho, Capitão das ilhas açorianas de Sta. Maria e S. Mi- vidores, porque a jurisdição toda é minha cível e crime...»190.
guel, ordenando que no julgamento dos feitos cíveis e crimes,
Isto é, mau grado a existência dos capitães, o interlocutor único
«se for feito tão crime por que mereça morte ou talhamento de membro, com o Rei é sempre o Grande-Donatário. Certo é também que as dis-
vós mandareis aos juizes que dêem a sentença e os julguem, e da sen- posições contidas nas cartas e tocantes a esta matéria não seriam tão
tença que deram apelem por parte de justiça e enviarão a mím a apela- explícitas que não dessem lugar a dúvidas, a que parece corresponder
ção, e de mim irá a casa de El-Rei meu Senhor e eu vos enviarei a de- a declaração que o Rei D. Afonso V - ao confirmar em 25 de Novem-
nunciação que dela vier»188. bro de 1451 a doação da Capitania do Funchal feita pelo Infante ao
Zarco - fez apor ao diploma com a advertência de que
E se noutro ponto da mesma carta acrescenta que «a jurisdição
toda é minha civil e crime» - isto no sentido claro de vincar ao Capi- «onde diz na carta do dito meu tio que a apelação de morte ou talhamento
tão que a jurisdição que tem a exerce em nome do Grande-Donatá- de membro venha perante ele, queremos que venham perante nós, segundo
rio, que a tem de EI-Rei - logo reitera que é conteúdo na carta de El-Rei meu Senhor e padre suso escrita...»191.

«de mim irão as apelações das mortes dos homens e talhamento de O mesmo sucede no Machico em 1452192 mas, quanto saibamos,
membros à Casa de EI-Rei meu Senhor, porque vós nem outro algum nada é alterado, no Porto Santo, cuja doação é confirmada por carta
Capitão tem poder de matar nem de talhar membro...»189. régia de 1459193. As doações das capitanias açorianas da Infanta
D. Beatriz, feitas ao longo do ano de 1474, manter-se-ão inalteradas
interpretação do diploma, fundada porventura no desconhecimento da natureza e nesse ponto, mas na da Capitania de Santiago de Cabo Verde, em
âmbito judiciário da Casa do Cível, acaba por levar o Professor Verlinden a conclu- 1485, o filho, o Grande-Donatário Duque de Beja, no sentido que an-
sões viciadas, que, confessadamente, o desorientam: «Tristão et sés heritiers rendront teriormente vincámos, tem o cuidado de notar que o Capitão exer-
au nom de 1'Infant Ia justice civile et pénale, à Texception dês sentences capitales et cerá a jurisdição
de mutilation judiciaire; Fappel est prevu auprès de 1'Infant. Ceei será lê cãs pour lês
affaires civiles. et lês affaires pénales ordinaires, puisque, par lê diplome de 1433, Ia
haute justice pénale était reservée au rói. Uappel parait donc assez complique. Si l'on «por mim e em meu nome do cível e crime, ressalvando morte ou talha-
combine lês actes de 1433 et 1440 on arrive au résultat suivant. II y a appel au tribu- mento de membro de que virão apelação e agravo a El-Rei meu Se-
nal de 1'Infant pour lês affaires civiles et au dela à Ia Casa do Cível royale. Pour lês nhor...»194.
affaires pénales relevant de ia basse justice, ['appel se fait du tribunal de 1'Infant. La
haute justice pénale échape aussi bien à 1'Infant qu'aux arriares vassaux.» [Idem, p. 10.]
Naturalmente, pelo que vimos expondo neste estudo, não podemos perfilhar a inter- 190 Idem, ibidem.
pretação do ilustre historiador belga. 191 DP, I, p. 489.
187 CHARLES VERLINDEN, op. cit. na nota anterior. 192 Idem, p. 490.
188 AÃ, vol. 4 (1882), p. 197. 193 Idem, p. 557.
189 Idem, ibidem. 194 SGC, p. 42.

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3
4 A JUSTIÇA A JUSTIÇA

Desaparecidos da cena da Expansão os grandes-donatários, é a) nos feitos crimes «usará deles como até agora usou»;
agora entre reis e capitães, tornados por sua vez donatários, que di- b) nos feitos cíveis «fará fim nele dito capitão ou de quem seu car-
rectamente se estabelecem as relações, exercida a jurisdição por estes rego tiver toda sentença até à quantia de quinze mil réis inclusive,
em nome directo daquele, e, no aspecto particular dos «casos de não se entendendo nos ditos quinze mil reis as custas em que a
Corte», a matéria não admite já, definitivamente, qualquer espécie de parte for condenada, sem para mim dar apelação nem agravo
dúvida: uma carta do Rei D. Manuel de 8 de Março de 1497 alude ex- nem carta testemunha vê 1. E dos ditos quinze mil réis para cima
pressamente às dará apelação e agravo para mim a quem quer que lha demandar
em os casos que o direito quer»;
«sentenças de morte de homens e talhamento de membro, as quais nos c) E na quantia dos ditos quinze mil réis «fará fim nele capitão,
praz que passem na nossa Casa do Cível de Lisboa, como de começo da como dito é, salvo quando alguma parte ou partes disserem e se
povoação das ditas ilhas sempre passaram...»195 oferecerem aprovar que foi dada a sentença por corrupção do dito
Capitão ou de quem seu carrego tiver, ou por feita que lhe fosse
dada e por ele aceitada, ou por falsidade de testemunhas por cu-
3.3. As Primeiras Alterações: as (Cartas jos ditos foi condenada a parte, ou querendo alegar alguma razão
de Jurisdição» de nulidade contra a sentença...»198

Muito naturalmente, o correr dos tempos e o progressivo desen- Uma sentença de 16 de Março de 1517, proferida na causa susci-
volvimento das comunidades acarretarão consigo um acréscimo de tada por um conflito entre o Corregedor e Simão Gonçalves da Câ-
complexidade à vida jurídica das capitanias. Como observou Rocha mara, Capitão do Funchal, no Juiz dos Feitos da Coroa199, prova-nos
Pombo, que a validade da medida extravasara largamente os três anos fixados.
Nos termos da régia decisão, alegara o Capitão que
«a organização das justiças nos tempos coloniais foi sendo, como a de to-
dos os departamentos do governo e administração, feita aos poucos, à «tinha toda a jurisdição civil e crime sem dar apelação nem agravo, ti-
medida das necessidades ocorrentes e segundo a experiência ia aconse- rando em sentença de morte e de talhamento de membro e estava em
lhando»196. posse de toda a dita jurisdição crime e da civil até quinze mil réis sem
apelação nem agravo por bem de um nosso mandato até se determinar
O que conduziu a necessárias alterações, aditamentos ou explici- sobre a mais jurisdição em sua doação conteúda»200.
tações de preceitos inicialmente afirmados.
Frequentemente, o ponto de partida para uma reforma global do Porém, antecipando-se a uma alteração pontual, por provisão de
quadro legislativo das capitanias nasce de um caso pontual, atinente 13 de Março de 1520, o Rei Venturoso fará estender a todas as capi-
a uma só. Em 1487, João Gonçalves da Câmara, Capitão do Funchal, tanias das ilhas atlânticas a medida só então vigente no Funchal:
requer ao Duque Grande-Donatárío que lhe fossem confirmados «sua
jurisdição, privilégios, liberdades que com a dita capitania tem se- «... e porquanto aos Capitães das outras ilhas é dada a jurisdição na
gundo erri suas cartas é conteúdo» 197 . forma que a tinha o dito Capitão da Ilha da Madeira...»201
Prudentemente, o Duque, alegando a «pouca idade» e «por agora
se não poder determinar», acorda com o Capitão, mediante consenti-
198 lâem, ibidem.
mento real, que se estabelecesse num alvará trienal uma fórmula pro-
199 Sobre a competência do Juiz dos Feitos da Coroa para julgar das matérias ati-
visória de jurisdição; a saber: nentes à jurisdição dos Capitães, veja-se o alvará de 16-5-1524, in DUARTE NUNES DO
LIÃO, op. cit., Segunda Parte, p. 74.
l95 AA,voI. 3(1881), p. 19. 200 GTT, II, p. 447.
ROCHA POMBO, História do Brasil, vol. 5, p. 407. 201 Este documento de 13-3-1520 - com outro de 22-3-1536 - está inserto num
V 196
diploma de 23-3-1549 que se transcreve no apêndice documental da l.1 ed. deste
197 AM, t. xvil, pp. 203-204.

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A JUSTIÇA
A JUSTIÇA

Mas a reforma manuelina iria mais longe, tomando-se no mesmo f) Poderiam mais os capitães dar «cartas de seguro de todos os cri-
diploma e estendendo-se à generalidade das capitanias um conjunto mes de qualquer qualidade que sejam, e tudo o que dito é guar-
de medidas de variado teor:
darão enquanto for nossa mercê» 202 .

a) Que nos feitos crimes os capitães tivessem o «poder de degradar Em conformidade, os capitães-donatários apressavam-se a re-
toda a pessoa de qualquer qualidade que seja por dez anos para querer a anexação das novas disposições às tão vagas cartas originais.
os lugares dalém»;
De Bartolomeu Perestreío, 3.° Capitão de Porto Santo, diria El-Rei em
b) Que pudessem açoitar «qualquer pessoa, sendo de qualidade em 1529 que
que cai bem açoites e os casos tais porque aos acusados seme-
lhantes penas lhes devam ser dadas»;
«me enviou dizer que a doação que ele tinha da dita Ilha era muito larga
c) Que tivessem a faculdade de «condenar em outras penas meno- e lhe dava toda a alçada no cível e assim lhe dava no crime, tirando ca-
res que as sobreditas e que assim tudo possam fazer, sem dos di- sos de morte e cortamento de membros, e além disso lhe dava muitas
tos capitães haver apelação nem agravo»;
coisas de que seus avós e pais e ele usavam, posto que expressamente na
d) Que no tocante às penas pecuniárias «em que alguns forem con- Doação não estivessem declaradas por ser tão larga que parecia que tudo
denados por razão de alguns crimes ou delitos que cabem na dita nela se compreendia. E porquanto a dita doação era da própria maneira
alçada dos capitães, isso mesmo façam fim até à quantia de da que era a doação da Capitania da Ilha da Madeira e das outras capi-
quinze mil réis, sem haver apelação nem agravo, assim como nos tanias das outras ilhas, e que nalgumas delas era declarada por muitas
cíveis»;
cartas da alçada do cível até quinze mil réis, me pedia também nisso
e) Quanto aos crimes «em que os acusados forem condenados em como no dar cartas de seguro nos casos crimes...»203
maior pena dos ditos dez anos para além, em qualquer degredo
para cada - uma das Ilhas de São Tomé, Príncipe ou Santa Helena, O sucessor de D. Manuel, D. João III, acederia, e, para obviar a
ou em talhamento de membro ou morte natural, mandamos que casos destes, prejudicados pelo facto de a previsão paterna «acabar
os ditos capitães dêem apelação e agravo e a parte que apelar ou por falecimento dei Rei meu Senhor que Santa Glória haja, por dizer
agravar quiser, e não apelando ou agravando partes, eles apelem que se guardasse enquanto fosse sua mercê», outra carta, esta de 22
por parte de justiça para nós ou para os desembargadores a que o de Março de 1536, viria a perpetuar o caduco diploma manuelino «en-
conhecimento pertencer». «E esta maneira - advertia-se - terão, quanto eu ou os meus sucessores não mandarmos o contrário». Con-
posto que os crimes não sejam provados, se eles não forem de tal jurava para isso os capitães e os Corregedores das ilhas ao seu cum-
qualidade que sendo provados se daria aos acusados cada uma primento, ordenando-lhes o registo nas chancelarias das comarcas e
das penas sobreditas»;
livros das câmaras, «para se saber como os ditos capitães hão de usar
da dita jurisdição».
A actividade legiferante de D. João III não se deteve aqui. Treze
estudo. Cremos que se trata da primeira reprodução correcta e integral do importante
documento que tem passado desapercebido à generalidade dos historiadores. No
anos passados, em 23 de Março de 1549, atendendo o Monarca a que
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Manuscritos da Livraria, n.° 870, a fls. 9, existe o diploma citado era omisso nalguns pontos, aditava-o com novos
um registo quinhentista do diploma, mas sem o acréscimo de 1549. O Arquivo dos preceitos, a saber:
Açores publicou-o por duas vezes: a primeira, no vol. m (1881), pp. 209-210, repro-
duzindo a citada versão do Arquivo Nacional; a segunda, no vol. IV (1882), pp. a) Que «quando algumas pessoas fossem mandadas meter a tor-
371-372, incluída - completa, mas com incorrecções - na carta de confirmação de
mento pelos ditos capitães ou seus ouvidores, se devem receber
jurisdição (4-7-1626) ao Marechal D. Fernando Coutinho, Capitão da Ilha da Gra-
ciosa. Os Anais dá Ilha Terceira, de Ferreira Drummond, também o trazem no vol. Ill,
a pp. 511-513 (reproduzido do Livro do Tombo da Câmara da Praia, fl. 122), mas sem 202 lãem, ibidem.
a carta de 1536. Também sem esta, com erros de dataçáo e sem indicação da fonte, 303 Carta de 8 de Julho de 1529, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chance-
foi publicado por Silveira Macedo na História das Quatro Ilhas, vol. l, pp. 343-344. laria de D. João V (Próprios), L. 23, f. 232.

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257
A JUSTIÇA A JUSTIÇA

apelação às partes, ou apelar por parte da justiça quando as par- Na doação da Capitania da Ilha Brava (1545) a fórmula simpli-
tes não apelarem»;
fica-se:
b) Que «quando algumas pessoas se chamaram às ordens e for pro-
nunciado pelos ditos capitães e seus ouvidores que devem ser re- «... tenham nas ditas ilhas e ilhéus a jurisdição e alçada no cível e
metidos a elas, se apelarem por parte da justiça, hei por bem que crime que tem os ditos capitães na Ilha da Madeira por suas doações.»206
nos ditos casos e cada um deles os ditos capitães e seus Ouvido-
res recebam apelação às partes quando apelarem, e quando não Também, mas já com o acréscimo do diploma de 1549, encon-
apelem sempre por parte da justiça, posto que os casos porque as traremos todo o acervo legislativo citado reunido em «carta de juris-
partes sejam acusadas sejam tais que caibam em sua alçada, e dição» dada em 1573 ao Capitão da Graciosa, nos Açores, para «con-
quando for pronunciado que não remetam as ordens a pessoa forme a ela haver de usar da jurisdição na sua Capitania», e
que se a elas chamarem, não serão obrigadas a apelar por parte da sucessivamente confirmada em 1593, 1626, 1666 e 1674207. Em 1577
Justiça, e, porém, querendo a parte apelar, receber-lhe-ão a ape- é confirmada a capitania de Angra a Manuel Corte-Real «com decla-
lação, posto que o caso por que foi acusado caiba em sua alçada»; ração que quanto à jurisdição usará do conteúdo em outra carta que
c] Finalmente, «quando algumas pessoas se chamarem à imunidade com esta lhe mandei passar»208, e, ainda em 1626, a Capitania de Sta.
da Igreja, os ditos capitães e seus ouvidores terão nisso a maneira Maria é confirmada também, com sua jurisdição, «e dela usará com as
que por minhas ordenações é mandado que tenham os correge- declarações e limitações que se puseram nas capitanias da Ilha da Ma-
dores das comarcas, posto que os casos em que assim as ditas pes- deira»209.
soas se chamarem à imunidade da Igreja caibam em sua alçada».

A exemplo da anterior, que confirmava «com todas as ditas de- 3.4. O Modelo das Capitanias Brasileiras
clarações nesta carta contidas e declaradas, mando que se cumpra e
guarde como se nela contém, enquanto eu ou os meus sucessores não No Brasil a situação é consideravelmente diferente. Concebidas
mandarmos o contrário»204. àh ovo, com o maior rigor que exigiriam as tão diversas características
Obviamente, além de registados nos locais da tradição - Casa da geográficas, e, decerto, sob o efeito proveitoso da experiência das
Suplicação, do Cível, chancelarias das corregedorias e livros das câ- ilhas, torna-se patente nas cartas constitutivas das capitanias brasilei-
maras das capitanias -, estes diplomas acabariam por se anexar tam- ras a preocupação de construir um dispositivo tão detalhado quanto
bém às cartas originais de doação, sob a forma de «cartas de jurisdi- possível, que permitisse evitar a formação de dúvidas e o apensa-
ção», de tão necessária quanto simultânea confirmação com as mento de declarações complementares210.
primeiras. Em 1541, apensa à confirmação da capitania do Machico Se nos reportarmos à carta de doação da Capitania de S. Vicente,
feita a António da Silveira, andou também a da sua jurisdição: passada a Martim Afonso de Sousa (1534) - de modelo comum às
restantes dessa época -, verificamos que a «chapa» processual está
«... E porque depois das doações feitas ao dito Capitão Tristão Tei- marcada por inegáveis e profundas diferenças em relação a tudo
xeira e aos outros Capitães, assim da Ilha da Madeira como das outras quanto até então os monarcas tinham admitido conceder. Em pri-
ilhas, El-Rei meu Senhor e Padre, que Santa Glória haja, fez uma decla- meiro lugar, se se reiterava a natureza «intermédia da jurisdição se-
ração do modo em que os Capitães das Ilhas cada um em sua Capitania
havia de usar de jurisdição que por suas cartas lhe era dada, a qual de-
205 D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, História Genealógica da Casa Real Portuguesa,
claração foi por mim confirmada ao dito António da Silveira e seus des-
2.* ed., Coimbra Atlântida, 1953, Provas, V, p, 349.
cendentes a que a dita Capitania houver de vir, usarão da jurisdição no 206 SGC, p. 121.
modo e na maneira contida na dita declaração...»205 207 Diplomas reproduzidos em AÃ, vol. 4 (1882), pp. 370-378.
208 WÍM, p. 162.
209 Idem, p. 203.
204 lãem. 210 DBN, pp. 24-26.

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A JUSTIÇA A JUSTIÇA

nhorial» («os ditos juizes darão apelação para o dito seu Ouvidor nas Coroa, Tomé Pinheiro da Veiga, de «quase absoluta e desaforada», e
quantias que mandam minhas ordenações»211), admitia-se inovado- Seabra da Silva em 1781, de «exorbitante». Mas enfim, nesse espírito
ramente ao Capitão «que poderá conhecer de acções novas até dez lé- e ponderados os particulares condicionalismos políticos, económicos
guas donde estiver»212. Em segundo lugar, admitia-se aos donatários e sociais de que já neste estudo demos fé, a Coroa acabaria, tão cedo
julgar definitivamente das apelações e agravos da Capitania até alça- quanto instituiria o Governo-Geral, por proceder à reforma do regime
das de extraordinária amplitude que, no cível, iam até às causas no estabelecido na década de 30 desse século xvi, pois que, como notou
valor de 100 mil réis (e «daí para cima dará apelação à parte que qui- Schwartz, «while the judicial powers granted to the donatários where
ser apelar»213) e, no crime, até à pena máxima de «morte natural» em not in themselves feudal, they were retrograde and did not contri-
«peões cristãos homens livres», «escravos», «gentios» e «em todos os bute to the growth of royal power»219.
casos, assim para absolver como para condenar, sem haver apelação O primeiro golpe desfechou-o a Coroa nomeando para o Brasil
nem agravo»214. Uma única excepção: a das pessoas «de mor quali- um Ouvidor-Geral encarregado de «ministrar justiça e prover nas coi-
dade», sobre as quais os capitães só teriam alçada de «dezasseis anos sas que cumprem a meu serviço»220. Para essa elevada magistratura foi
de degredo e até cem cruzados de pena nem apelação nem agravo»215, escolhido o Desembargador Pêro Borges, que fora Corregedor do Al-
sem prejuízo de em casos específicos de «heresia, quando o herético garve. Não nos é possível precisar com clareza a extensão e limites dos
lhe for entregue pelo Eclesiástico», de «traição», de «sodomia» e de poderes jurisdicionais do 1.° Ouvidor-Geral, pois é desconhecido o pa-
«moeda falsa» em que o Capitão pode por si e livremente aplicar pena radeiro do seu Regimento. A única fonte disponível para avaliar da sua
capital216. actividade é a precisa carta que o mesmo Pêro Borges em 7 de Feve-
Ainda que motivada pelas especialíssimas circunstâncias de vas- reiro de 1550, de Porto Seguro, enviou a El-Rei dando conta da situa-
tidão, distância do reino, e sobretudo do material humano em que se ção dos negócios da justiça no Brasil221. Desse documento, segundo
fundavam as primeiras arrancadas de povoamento217, se ainda hoje Martins Ferreira, inestimável pelo «desvendamento dos poderes juris-
espanta a latitude dos poderes outorgados, que mais dizer então? O dicionais, de que veio investido por seu regimento que ainda perma-
comentário do próprio O u vi do r-Geral, em 1550, é que era «coisa de nece ignoto222», depreende-se que ao Ouvidor-Geral competisse:
espanto»218. E a essa mesma jurisdição classificá-la-á o Procurador da
a) Residir na mesma Capitania e lugar em que o Governa dor-Geral
fizesse seu assento, salvo quando incumbido de diligência ex-
311 Carta de doação da capitania de S. Vicente, in DBN, vol. 13, p. 135. terna;
212 Idem, p. 138.
213 Idem, ibidem.
h) Competir-lhe-iam as funções de corregedor geral da justiça, com
214 Idem, p. 139.
poder de devassar em toda e qualquer Capitania;
215 Idem, tbidem. c) Poderia conhecer no crime, por acção nova, nos casos a que cor-
216 Idem, ihidem. respondesse pena de morte natural, inclusive em escravos gentios
217 Recorde-se que várias das capitanias se povoaram à custa de degredados e peões cristãos homens livres, e «procederia nos feitos até final,
atraídos pelos privilégios de «homizio» concedidos ao território. Vejam-se os alvarás nos casos em que, por direito e pelas Ordenações, em pessoas de
de 31 de Maio. e 5 de Outubro de 1536, mandando que as penas de degredo para as
Ilhas de S. Tomé e Príncipe passassem a ser cumpridas no Brasil, bem como outro,
qualidade se pusesse pena de morte natural inclusive, e os despa-
s.d., de D. João III, in AP, vol. l, pp. 177-178. Veja-se também a carta de couto e charia com o Governador, sem apelação quando concordar, e,
homizio da Capitania de Pêro de Gois (1-3-1536), in Documentos para a História do quando discordantes, poria cada qual seu parecer e os autos se re-
Açúcar, vol. I, Legislação (1534-1596). Instituto do Açúcar e do Álcool - Serviço Espe- meteriam, com o preso, ao Corregedor da Corte. Teria, ainda, nas
cial de Documentação Histórica. Rio de Janeiro, 1954, pp. 29-30, bem como o alvará
de 10 de Setembro de 1577, respeitante à generalização do privilégio do homizio a
todas as capitanias brasileiras, in AP, vol. I, pp. 454-455. Sobre os efeitos perniciosos 219 STUART B. SCHWARTZ, op. dt., p. 26.
dessa política, vide tb. a carta de Duarte Coelho, Capitão de Pernambuco, escrita ao 220 Vide o Regimento de Tomé de Sousa (1548), in HCP, voí. m, pp. 345-350.
Rei em 20-12-1546, in AP, vol. l, pp. 233-241. 221 Idem, ihidem.
218 Cit. in WALDEMAR MARTINS FERREIRA, op. dt., vol. n, p. 87. 222 WALDEMAR M. FERREIRA, op. dt., vol. n, p. 92.

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A JUSTIÇA A JUSTIÇA

pessoas de mais qualidade que os acima ditos, alçada em cinco c) Finalmente revogava-se o privilégio «que nas ditas Capitanias não
anos de degredo»223; entraria, nem poderia em tempo algum entrar corregedor nem al-
d} Depreende-se também da carta de Pêro Borges que a alçada dos çada», havendo o Rei agora por bem «de mandar a elas correge-
capitães, no cível, fora reduzida de 100 para 20 mil réis. dor e alçada, quando lhe parecesse necessário e cumprisse a seu
serviço»228.
Mas, independentemente das pouco precisas modificações que terá
sofrido a jurisdição dos capitães brasileiros por força do estabelecimento Independentemente do que sobre esta última disposição noutro
das funções do Ouvidor-Geral, existe um diploma - omisso em todos Capítulo se dirá, sempre se nota que por efeito directo deste diploma
os autores que pudemos consultar e que ao assunto se dedicaram - que começam a ser introduzidas nas cartas de doação ou de confirmação,
clarifica sobremaneira a questão das reduções de poderes jurisdicionais. alterações do género da que em 1559 se apôs à da capitania de Porto
Referimo-nos ao alvará de 5 de Março de 1557, registado por Duarte Seguro:
Nunes do Lião, quer na sua compilação manuscrita de Leis Extrava-
gantes (1565)224, quer, de modo resumido, na compilação impressa da «... a qual carta e Capitania assim confirmo à dita Leonor do Campo
mesma natureza, saída à luz em Lisboa, em 1569225. A fonte é a mesma: com tal declaração que a quanto a alçada que lhe a dita carta dá em peões
o registo de folhas 164 e 164v. (e não 168 como nas suas duas versões cristãos homens livres até morte natural inclusive, que neste caso de con-
indica Duarte Nunes) do Livro 3. O da Casa da Suplicação, também co- denação de morte natural haja apelação para a mor alçada e nos quatro
nhecido por Livro Roxo ou Livro Morado226, encimado pela precisa es- casos, convém a saber, heresia, traição, sodomia, moeda falsa, em que dá
pecificação de que se trata da «limitação da alçada dos capitães das ter- alçada em toda pessoa de qualquer qualidade que seja até morte natural
ras do Brasil»227. Enviado «ao Governador das ditas terras do Brasil», o inclusive, haja outrossim apelação para a mor alçada...»229
diploma real, «por alguns justos respeitos que me a isto movem», alte-
rava substancialmente o quadro esboçado cerca de vinte anos antes, Outros documentos que infalivelmente registam as reformas da
«sem embargo das cláusulas das ditas doações». A saber: jurisdição donatarial no Brasil, são os regimentos dos ouvidores-ge-
rais. Entre os muitos e variados poderes com que se cerceou a autori-
a) A alçada em peões cristãos homens livres até morte natural in- dade senhorial, centralizando a administração judicial do Brasil nas
clusive «se entenda que em caso de condenação de morte natural mãos deste magistrado e do Governador-Geral, estabelecia-se que no
haja sempre apelação para a maior alçada»; cível - e reportamo-nos ao Regimento do Ouvidor Jorge da Silva Mar-
h) Da mesma maneira «dará apelação nos quatro casos de heresia, tins (1630)230 - lhe competia conhecer
traição, sodomia e moeda falsa conteúdos nas ditas doações,
quando a condenação for de morte natural»; «das apelações e agravos das causas cíveis dos feitos que se tratarem pe-
rante os capitães e seus Ouvidores, assim da capitania em que estiverdes
como de todas as outras capitanias das outras partes que forem, sobre
223 Idem, p. 93.
quantia que passe de vinte mil réis e sua valia, porque da dita quantia so-
224 DUARTE NUNES DO LlÃO, Livro das leis Extravagantes capitado por mandado do
senhor Regedor Lourenço da Sylva, pelo licenciado Duarte Nunez do Lião, procurador da mente hei por bem que os ditos capitães e seus ouvidores tenham alçada
Casa da Suplicação, MDLXV, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Códice 26 da nas ditas causas cíveis enquanto aí fordes Ouvidor-Geral das duas par-
Casa Forte. Sobre este importante manuscrito veja-se MARTIM DE ALBUQUERQUE, «Para tes, posto que por suas doações lhe tenha concedido alçada até cem mil
a história da legislação e jurisprudência em Portugal. Os livros de registo de íeis e réis sem apelação e agravo...»231
assentos dos antigos tribunais superiores», in Boletim da Faculdade de Direito, Universi-
dade de Coimbra, Estudos em honra dos Prof. Doutores M. Paulo Merêa e Gui-
lherme Braga da Cruz, Vol. LVIII, tomo II, Lisboa, 1982, pp. 623-653. 228Idem, íbidetn.
225 DUARTE NUNES DO LIÃO, Leis Extravagantes... 229D. ANTÓNIO CAETANO DE SOUSA, op. cit., Provas, VI, p. 92.
226 Vide MARTIM DE ALBUQUERQUE, oy. cit., pp. 629-630. 230 BIBLIOTECA NACIONAL DE LISBOA, Reservados, Cód. 7627, fóls. 3-6v.
227 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Códice 28 da Casa Forte, fóís. 164 e 231 Idem, ihidetn. O Regimento do Ouvidor-Geral do Rio de Janeiro está transcrito
164v. Veja-se o documento em apêndice à 1.* ed. deste estudo. no mesmo códice a fls. 34-35v.

262 263
A JUSTIÇA A JUSTIÇA

Em casos crime, as limitações do foro donatarial não ficavam me- na aplicação à totalidade das restantes, em termos de explicitação do
nos claras: regime consagrado pela reforma de 1557:

«... Enquanto assim fordes Ouvidor-Geral das ditas partes, hei por
«... E nos casos crimes hei por bem que o dito Capitão e Governador
bem que os Capitães e Ouvidores das ditas Capitanias em que vós esti-
e seu Ouvidor tenha jurisdição e alçada em escravos ou gentios que fo-
verdes, tenham somente alçada nos feitos crimes em que alguns escra-
rem acusados de casos em que por direito de minhas Ordenações, e
vos ou gentios forem acusados de casos em que por direito e minhas or-
posta pena de açoites e cortamento de orelhas, e assim em peões cristãos
denações é posta pena de açoites ou cortamento de orelhas. E assim nos
livres, nos casos em que pelo mesmo modo e posta pena de açoites ou
casos em que os peões cristãos livres pelo mesmo modo é posta pena de
degredo até três anos, e nos casos de pessoas de mais qualidade terá so-
açoites ou degredo até três anos, e nos casos das pessoas de mais quali-
mente alçada até um ano de degredo fora da Capitania, e nas penas pe-
dade, terão somente alçada até um ano de degredo para fora da Capita-
cuniárias até vinte cruzados, nos quais casos se dará uma sentença à exe-
nia, e nas penas pecuniárias até 20 cruzados.»232
cução sem apelação nem agravo. Em todos outros casos que não forem
dos acima ditos darão apelação e agravo para o meu Ouvidor-Geral, ou
Pelo que, prosseguia o Regimento, apelará por parte de justiça, quando não houver parte que queira apelar,
e isto naqueles casos em que por bem de minhas Ordenações se deve
«em todos os ditos casos que não forem dos acima ditos, darão os ditos apelar por parte de Justiça...»236
Capitães e seus Ouvidores apelações e agravos para vós, ou apelação por
parte de justiça quando não houver parte que queira apelar naqueles ca- Para acentuar a complexidade que parece abater-se sobre a juris-
sos em que por bem de minhas Ordenações se deve apelar por parte de dição donatarial, algumas cartas registam acertos pontuais, como a
justiça, posto que por bem de suas doações dos ditos Capitães lhes seja da confirmação da Capitania de Ilhéus a Jerónimo de Figueiredo de
concedida mais alçada nos casos crimes»233. Alarcão (1560), que à citada alteração das alçadas crime, ainda acres-
centa que
Mas, além dos Regimentos234, há outros documentos susceptíveis
de nos facultarem dados que precisem com ainda maior rigor a juris- «posto que nesta confirmação diga que no caso de heresia haja apelação
dição permitida ao uso dos capitães-donatários. É o caso, por exem- para a maior alçada, não haverá a tal apelação quando o herético for en-
plo, de cartas de doação como as da Capitania da Ilha de Fernão de tregue por sentença do eclesiástico ao dito Capitão ou a ser Ouvidor»237.
Noronha (1562) e Peroaçu (1565). No cível a novidade não era grande,
limitando-se os diplomas a precisar em conformidade com a lei que Noutros casos — como num «assento de confirmação» aposto por
«em causas cíveis não haverá apelação e agravo até quantia de vinte mandado do Rei D. Sebastião à carta da Capitania de Pernambuco -
mil réis, e daí para cima dará apelação e agravo à parte que quiser ape- declara-se genericamente que se hão de cumprir «os regimentos
lar ou agravar»235. e provisões que se derem aos Governadores e Ouvidor-Geral do
Mas é no crime que esses documentos se revelam mais interes- Brasil»238.
santes, consagrando uma série de preceitos que cremos generalizados Sobre tudo isto há que supor que a já referida carta de D. João III
de 22 de Março de 1536, que consagrou a jurisdição dos «Capitães das
232 Idem, ibidem. Ilhas» - apesar de em muitos pontos divergir claramente do regime
233 Idem, ibidem. aceite para o Brasil - terá vigorado, talvez complementarmente, num
234 Sobre os Regimentos e os poderes dos Ouvidores-Gerais, vide ARELINO LEAL,
«História Judicial do Brasil», in Dicionário Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, ed.
da Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1922, vol. i, apud WALDEMAR M. FERREIRA, op. 236 Idem, ibidem.
cit., vol. H, p. 97, n. 103. 237 DBN, vol. 80, p. 181.
235 DBN, vol. 13, pp. 238-239. 238 PP, fóls. 592v.-593.

264 265
A JUSTIÇA A JUSTIÇA

ou noutro ponto que os diplomas brasileiros não previnem. Pelo me- Visconde de Asseca, Capitão da Paraíba do Sul, acaba de fundar as vi-
nos é o que se pode depreender do facto de o Dr. Heitor de Pina, nas las de S. Salvador e S. João da Praia, retira-se para o Rio de Janeiro, «le-
últimas décadas do século xvi, fazer incluir a supradita carta de 1536 vando a certidão de ter levantado os pelourinhos e instituído as câ-
nas suas Ordenações Extravagantes, sob a menção de índice de «Capi- maras»244.
tães das Ilhas e Brasil e sua jurisdição»239. Neles, como é sabido - símbolo público do /ws gladii do Donatá-
rio - se punham e expunham os criminosos, mas não só; por ocasião
da tomada da posse da Capitania pelo Capitão ou seu procurador, o
3.5. Alguns Símbolos da Jurisdição Senhorial: pelourinho desempenha um papel fundamental na simbolística ar-
o Pelourinho e o Cárcere caica do cerimonial. Em 1624, na Vila de S. Vicente, cabeça da Capi-
tania do mesmo nome, ao Loco-Tenente, do Capitão Conde de Mon-
Antes de entrarmos na secção final deste capítulo, não podere- santo, presentes os vereadores da Câmara cabeça da Capitania,
mos passar em branco uma matéria que está intimamente ligada ao
exercício da jurisdição senhorial - especialmente à justiça penal ~-, e «lhe meteu o juiz Pedro Vieira Tinoco a vara na mão e os vereadores de-
de modo tão estreito que por vezes chega a recair no campo da sim- mitiram de seus cargos e houveram por empossado ao dito Conde da dita
bolística própria dessa mesma jurisdição. Referimo-nos aos pelouri- jurisdição e logo o procurador do dito Conde beijou a vara e a tomou ao
nhos e aos cárceres ou cadeias. dito juiz dizendo que servissem seus cargos, fazendo em tudo justiça, e
Colocados em lugar central das vilas ou cidades, os pelourinhos o dito procurador andou e passeou pela casa da Câmara e foi em com-
ou picotas, símbolo em terras senhoriais da jurisdição activa dos do- panhia dos ditos oficiais à praça da dita vila passeando-se por ela e subiu
natários, eram uma presença familiar aos portugueses desde os finais no pelourinho pondo as mãos nos ferros dele de maneira que logo ficou
do século XII240. Pelourinhos senhoriais foram-no o dos Duques de o dito Conde metido de posse por seu procurador da jurisdição da dita
Barcelos, o dos Bispos do Porto e de Coimbra, o dos Cunha de Lou- vila e capitania cível e crime...»245.
rosa ou o dos Pereira de Águas Belas241. Embora as cartas de doação
de capitanias não aludam à faculdade da sua erecção por parte dos ca-
A existência de cadeias, ainda mais directamente que a dos pe-
pitães, fizeram-no eles, especialmente em locais como o Brasil, onde
lourinhos, decorria da jurisdição criminal dos capitães-d o na tá rios e
lhes era permitida a criação de vilas.
não há Capitania que as não possua na sua sede ou em qualquer das
Pedro Tacques, o cronista da Capitania de S. Vicente, ao referir-se
localidades mais importantes. Do ano de 1490 data já um regimento
à Vila de Sto. António de Guaratinguetá, diz que o Capitão Domin-
«acerca dos carcereiros e presos» enviado às justiças da Capitania do
gos Leme «foi o fundador desta vila, tendo levantado pelourinho por
Funchal246, pelo Duque Grande-Donatário, e também numa carta ma-
ordem do Capitão-Mor Ouvidor Dionísio da Costa, em nome do Do-
nuelina de 12 de Fevereiro de 1502 pela qual é feita vila com o nome
natário, D. Diogo de Faro e Sousa, a 13 de Fevereiro de 1651»242.
de S. Sebastião a aldeia de Porto Judeu, na Ilha Terceira, se diz que
Nos finais do século XVTII, o Capitão do Espírito Santo, na vila do
mesmo nome, mandou fazer «casa da Câmara que nunca teve, pe-
lourinho, tudo de pedra e cal e tão perfeito que se não acha vila que a «o Capitão da dita Vila de Angra terá na dita vila de S. Sebastião que ora
tenha como ela»243. E quando em Maio de 1677 o Loco-Tenente do novamente fazemos e assim em seus termos aquela própria jurisdição
que o até aqui teve e tem na dita Vila de Angra e seus termos, e assim a
cadeia...»247.
239 Veja-se o apêndice documental da l.a ed. deste estudo.
240 Vide o Dicionário de História de Portuga!, Lisboa, 1968, vol. m, pp. 345-346, sub
você «Pelourinho», e Luís CHAVES, Os Pelourinhos Portugueses, Gaia, 1930, com indica-
ção de vasta bibliografia. ™Idtm, p. 138.
241 Idem, ibidem. 245 RSP, II, pp. 433-434.

242 PEDRO TACQUES, op. aí., p. 455. 246 AM, vol. xvi, pp. 236-237.

243 ALBERTO LAMEGO, oy. cit., vol. n, p. 151. 247 AÃ, vol. l (1878), pp. 44-45.

266 267
A JUSTIÇA A JUSTIÇA

Também no Brasil - segundo Pedro Tacques ao referir-se à fun- guel, chegar-se-ia a conclusão mais grave: aí, o Capitão tivera «cadeias
dação das vilas de Taubaté (1645) e Sorocaba (1670) - a preocupação apartadas e as vendera, e mandara fazer as cadeias nas lojas da Câ-
inicial é erguer Igreja, casas do Concelho e cadeia248. Estes cárceres fi- mara e Concelho», onde, além da pouca segurança, «resultou ficarem
cavam entregues à guarda de um funcionário de nomeação donata- recebendo grande dano a casa do Concelho e Câmara com o fumo
rial, obviamente o carcereiro, cargo acumulado não raro pelos alcai- dos presos»; também aqui, a solução foi sequestrar as rendas do
des menores, também escolhidos pelos capitães 249 , que, «nessa Conde Capitão e proceder às obras requeridas255.
qualidade - escreve Mendonça Dias - tinha então obrigação de olhar
pelas prisões públicas e manter uma em sua própria casa, onde reco-
lhia os presos apanhados de noite ou em tempos que os não pudesse 3.6. A Realidade Jurisdicional
levar ao Juiz da Vila ou Cidade»250.
Acumulações desse género deparam-se-nos para o século xvii em Não nos iremos pronunciar detalhadamente sobre a questão do
S. Miguel, nos Açores, em Pernambuco, Itamaracá, Ilhéus, Porto Se- profundo abismo que nas capitanias hereditárias progressivamente se
guro, Espírito Santo e S. Vicente251. Já nas capitanias do Funchal e do cava entre a amplitude das faculdades jurisdicionais concedidas e a
Machico, na Madeira, para a mesma época, os cargos eram autóno- realidade da praxis local. Por si só, era matéria que ocuparia vários vo-
mós?*i?. lumes, mobilizados que fossem os meios para a tratar com sólida
Pertencendo as cadeias à administração do Donatário, estavam base documental, nomeadamente os praticamente inexistentes regis-
também sujeitas a inspecção superior do Rei que, frequentemente, tos da actividade das ouvidorias dos Capitães-Donatários. Aqui,
pela acção dos corregedores, se viu forçado a salvaguardar o interesse far-se-á tão-somente uma chamada de atenção para aspectos deter-
público da incúria dos capitães. Na correição feita em Ponta Delgada minantes do peculiar dessa «realidade Jurisdicional»256, precisando al-
em 1578, verificou o Corregedor gumas das causas que nos parecem passíveis de generalização: a di-
versidade da actividade legislativa real em função de princípios
«que a cadeia desta Cidade era muito antes prisão e que rugiam dela os doutrinários e aparentemente imutáveis, a indisciplina burocrática no
presos muitas vezes, e que além de ser fraca, não tinha casa onde se pu- tocante a um registo preciso ou definição eficaz das alterações a in-
desse prender pessoas de qualidade, e se acontecia prender alguma pes- troduzir nas cartas de doação e confirmação, a diversificação da juris-
soa honrada, estava com os ladrões e outros presos baixos que estavam prudência na consideração da amplitude das jurisdições concedidas, a
presos em baixo...»253. inépcia dos ouvidores e a adaptação progressiva do quadro formal à
realidade e às exigências do campo de aplicação.
Era este o recurso extremo a que chegava a providência e a seve-
Em primeiro lugar, os próprios príncipes, numa actuação com-
ridade real. Já nos meados do século xvii o Corregedor, em visita à Câ-
preensível à luz do princípio tradicional da doutrina de que omniajura
mara de Velas, na Capitania de S. Jorge, mandava embargar a redí-
hahet princeys in peaore suo, nunca se coibiram de. consagrar situações
zima do Donatário Marquês de Castelo Rodrigo para reedificar a
que aparentemente contraditariam os cânones normais da actuação
cadeia254. Na correição de 1674 em Vila Franca, Capitania de S. Mi-
legislativa. Relembremos a situação da fixação de «casos de Corte» de
exclusiva apreciação nos tribunais régios. Todavia, este dispositivo,
243 PEDRO TACQUES, op. dt, pp. 449 e 452-453. constante e extensivo à generalidade das capitanias ultramarinas, so-
249 Vejam-se vários termos de «apresentação» in URBANO DE MENDONÇA DIAS, freu excepções: se em 29 de Julho de 1493 é essa a regra Jurisdicional
op. aí., vol. 3, p. 114. acol