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PAULO FREIRE E A ESCOLA COMO ESPAÇO DE RELAÇÕES E DIÁLOGO NA

PERSPECTIVA DAS CRIANÇAS.


Pollyanna Geórgia A. Barretto Vaz1
Viviane de Bona2
Resumo

O objetivo deste artigo é explorar a concepção que as crianças com idade entre 8 e 9 anos,
trazem da escola, a fim de compreender os elementos que possibilitam a visão positiva ou
negativa desta instituição. Participaram do estudo 6 estudantes. Os instrumentos de coleta
foram: rodas de conversa e produção de desenhos analisados a luz da análise de conteúdo. Os
resultados evidenciaram a escola como espaço dialógico, cuja sala de aula e a figura do
professor são realçados.

Palavras-chave: ESCOLA – CRIANÇAS – NARRATIVAS

Introdução

Tendo em vista que a escola – local designado para a socialização do saber, nasce da
necessidade de preservação e propagação da cultura humana, e que ao longo do tempo vem se
transformando, assumindo quer possibilidades de permanências, quer possibilidades de
mudanças, buscamos neste estudo explorar a concepção que as crianças de 8 e 9 anos,
matriculadas no 3º ano dos anos iniciais do ensino fundamental trazem desta instituição,
fazendo uma análise dos dados encontrados à luz das ideias freirianas.
Ressaltamos, contudo, que o objetivo foi de inicialmente identificar como as crianças
percebem e conceituam a escola, ou seja, qual o sentido que atribuem a ela para então
compreender e elencar os elementos que possibilitam a visão positiva ou negativa desta
instituição social sob a ótica dos nossos sujeitos participantes.
Este estudo torna-se relevante por possibilitar aos adultos que atuam nestas
instituições a percepção da relação escola e infância pelo olhar das crianças, para além da
visão adultocêntrica tão valorizada. A escolha do campo de pesquisa, por sua vez, também o
torna relevante, pois tem como propósito perceber se as instalações físicas e materiais, por
exemplo, poderiam ser fatores indicativos que promovessem a visão positiva da escola,
encerrando a negativa.

1
Coordenadora Pedagógica. Mestra em Educação. E-mail: pollybarretto_@hotmail.com ou
pollybarretto.ead@gmai.com
2
Professora da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. Doutora em Educação. E-mail:
vividbona@hotmail.com
A escola na concepção freiriana

[... ] o lugar que se faz amigos.


Não se trata só de prédios, salas, quadros,
Programas, horários, conceitos...
Escola é sobretudo, gente
Gente que trabalha, que estuda
Que alegra, se conhece, se estima.
(A escola é, Paulo Freire)3

Paulo Freire é considerado um dos mais notáveis educadores brasileiros. Em sua


pedagogia revela uma preocupação com as relações que ocorrem nas escolas, trazendo em
suas obras a percepção de escola como sendo um ambiente próprio à aprendizagem, cuja
relação professor-aluno é permeada pelo diálogo e pela afetividade, não enxergando a escola
fora da ética e da estética.
É em trazer para estas instituições o preceito da relação dialógica entre professores e
alunos, que Freire (1991,1994, 1996a, 1996b) deixa implícito a concepção deste espaço como
local privilegiado para a libertação, uma vez que é por meio do debate, discussão e diálogo
que é dada a possibilidade de compreensão da realidade que está a nossa volta, sendo possível
assim, transformar histórias e proporcionar mudanças na vida de todos os envolvidos.
É justamente neste sentido, que Freire enxerga a escola como espaço de ensino e
aprendizagem, que por sua vez, resultam da troca de conhecimentos entre seus sujeitos,
fazendo assim, emergir um debate de ideias e reflexões. Nesta conjuntura, entende que a
constância do diálogo oportuniza o desejo e, por conseguinte, o interesse do educando em
conhecer mais, entendendo assim, a aprendizagem como sendo o resultado da relação entre a
ação de ensinar e o empenho em aprender.
Para o autor a atividade docente é uma experiência alegre por natureza e sob esse
prisma, entende que “ensinar e aprender não podem dar-se fora da procura, fora da boniteza e
da alegria” (FREIRE, 1996b, p.142).
De acordo com Gadotti (2007a), Freire deve ser lembrado como alguém que sempre
falava bem da escola, já que a considerava como ‘um lugar bonito, um lugar cheio de vida’
fosse ela com todas as condições de trabalho ou não, pois mesmo faltando tudo, nela o
essencial continuaria a existir, qual seja: gente.
Logo, podemos dizer que a escola é para Freire um espaço de relações, um lugar
destinado não apenas ao estudo, mas fundamentalmente ao encontro, a troca, a conversa, a

3
Poesia de autoria de Paulo Freire, disponível no site do Instituto Paulo Freire (www.paulofreire.org).
discussão, ao diálogo4 que não existe fora da amorosidade e que desta maneira, possibilita
tanto a manutenção quanto a transformação da sociedade. Gadotti (2007a, p.12), por sua vez,
fazendo uma releitura das obras de Paulo Freire, complementa esse conceito dizendo que “a
escola não é só um espaço físico. É, acima de tudo, um modo de ser, de ver”.
Freire defendia a escola da maioria, ou seja, as escolas públicas e tinha como um dos
princípios fundamentais o fato de que o aluno, alfabetizado ou não, ao chegar à escola trazia
consigo uma cultura diferente e que nem por isso era melhor ou pior do que a do professor,
cabendo ao educador estabelecer um elo entre o saber formal e a experiência vivida.
Não obstante, é importante destacar que a ideia de que a escola tinha como objetivo
ensinar o aluno a ler o mundo para então transformá-lo, está presente em todas as obras do
autor que condenava as escolas denominadas por ele como ‘alienantes’, nas quais se
prevalecia a educação bancária. Exatamente por isso, é possível perceber que numa
perspectiva freiriana a educação tem o propósito de inquietar o aluno, ao passo que a escola
tradicional, conservadora ou ‘alienante’ procura acomodá-los.
Deste modo, para Freire (1996b) cabe a esta instituição social contribuir para a
curiosidade e criatividade que por sua vez estimularão o espírito investigador, ou seja, a
descoberta, bem como valorizar a cultura trazida pelo aluno. Gadotti (2007b, p.9) corrobora
com as ideias do educador trazendo a tona o fato de que atualmente, em meio a ‘sociedade do
conhecimento’, a escola não pode ser vista apenas como mais um espaço de formação,
“precisa ser um espaço organizador dos múltiplos espaços de formação, exercendo a função
mais formativa do que informativa”, ou seja, tornar-se um “círculo de cultura” como dizia
Freire, ou uma “arena cultura” como afirma Candau (2008).
Fica evidente também que em uma perspectiva freiriana, a escola é entendida como
local de desejos, emoções e construção de sentidos, estando Freire preocupado não só com a
alegria e ou ‘boniteza’ visível da escola, mas, principalmente com a alegria revelada no ato de
aprender. Defendendo, dessa forma, uma escola que “ [...] pratique uma pedagogia da
pergunta, em que se ensine e se aprenda com seriedade, mas em que a seriedade jamais vire
sisudez. Uma escola em que, ao se ensinarem necessariamente os conteúdos, se ensine
também a pensar certo”. (FREIRE, 1991, p. 24).
Ao escrever o poema “A escola é...”, do qual trazemos um excerto na epígrafe inicial
desta seção, Freire traduz poeticamente a concepção de escola defendida em suas obras, e

4
Para Freire (1994), o diálogo não é apenas o encontro entre duas pessoas que conversam sobre determinado
assunto, ele está baseado em uma relação de igualdade entre as pessoas, no sentido que nenhuma delas tem o
anseio de saber mais que a outra, e tem como objetivo a descoberta de conclusões por meio da interação das
ideias desses sujeitos em relação ao objeto discutido.
chama a atenção para a importância da felicidade neste ambiente composto fundamentalmente
de gente.

Caminhos metodológicos da pesquisa

A pesquisa aqui apresentada foi realizada em um colégio da Rede Particular de


Ensino, da Zona Sul da cidade do Recife - PE - Brasil, localizado no bairro de Boa Viagem. O
Colégio em questão já existe há 42 anos e funciona em dois períodos: manhã e tarde,
oferecendo também a opção de horário integral. Possui mais de 1.800 alunos, sendo que
aproximadamente 600 estão matriculados nos anos iniciais do Ensino Fundamental, etapa da
Educação Básica selecionada para esta pesquisa. Nessa etapa de ensino, o colégio tem
aproximadamente 7 turmas de cada ano – Ensino Fundamental de 9 anos - 1º ao 5º ano, tendo
em cada turma uma professora polivalente5 e os professores de aulas extras, quais sejam: arte,
música, xadrez, filosofia, inglês e outros. Pela estrutura que apresenta é considerada de grande
porte e seu público é composto por famílias de classe média alta.
A escolha de um colégio particular com essas características, quais sejam: uma boa
condição física, estrutural e material – consideradas essenciais numa visão adultocêntrica da
escola para o bem-estar e satisfação infantil – como campo empírico para pesquisa, teve como
propósito a busca de uma variável inusitada, já que, os pressupostos de pesquisa neste tema já
foram bastante explorados nas escolas da Rede Pública de Ensino.
Os instrumentos utilizados no presente estudo foram rodas de conversas com os alunos
participantes da pesquisa e a produção de desenhos. O foco principal está pautado na análise
interpretativa dos dados que foram coletados através de interações entre as crianças, ou seja,
nossa preocupação foi de captar os sentidos e os significados dos achados, em consonância
com os objetivos propostos. Deste modo, esta é uma pesquisa qualitativa.
Participaram da pesquisa 06 alunos, com idade entre 8 e 9 anos, sendo 03 meninas e
03 meninos, devidamente matriculados no 3º ano do ensino fundamental. Como instrumento
de coleta de dados elegemos rodas de conversa e o desenho oralizado pelas crianças. Neste
aspecto, baseadas em Cruz (2008) e Corsaro (2011), buscamos explorar as múltiplas
linguagens das crianças a fim de ouvi-las e de conhecer o ponto de vista delas sobre o tema
aqui em estudo.

5
Chamamos de professor polivalente, o profissional que exerce a docência com base na polivalência, ou seja,
leciona mais de uma disciplina, característica essa comum nos sujeitos que atuam nos anos iniciais do ensino
fundamental.
As rodas de conversa contaram com um agente motivador caracterizado por uma
personagem de outra galáxia que queria entender como era a escola para poder construí-la em
seu planeta, mas que para isso contava com a ajuda das crianças. A personagem então, trazia
questões às crianças, através de um pequeno vídeo com uma animação visual que seguiu um
roteiro de questionamentos.
Ao fim das rodas de conversa, era solicitado às crianças que desenhassem como é a
escola, para que enviássemos essa produção numa cápsula do tempo à personagem. Isto
porque, entendemos que os desenhos são reveladores dos sentidos dado pelas crianças ao seu
contexto social (GOBBI, 2009).
Após todo o processo de coleta e com o propósito de dar início aos procedimentos de
análise, buscamos fazer uma sistematização a partir da sugestão de Bardin (2011), qual seja a
análise de conteúdo, utilizando o modelo fechado na elaboração das categorias (LAVILLE;
DIONNE, 2007).
Analisamos os achados à luz das contribuições teóricas de Freire (1991,1994, 1996a,
1996b). Isto porque o educador apresenta com clareza aspectos conceituais que nos auxiliarão
a compreender nosso objeto de pesquisa - qual seja - a escola, já que este, via a educação
como desafiadora e transformadora, defendendo a ideia de que para obtê-la de forma eficiente
faz-se necessário o diálogo e a convivência, e entendendo a escola como espaço destinado
para este fim.

Resultados

Partindo do princípio trazido por Freire (1996b), cuja escola se constitui de ambiente
favorável a aprendizagem, no qual através do diálogo entre professores e alunos se estabelece
uma relação de ensino e de aprendizagem, buscamos verificar inicialmente como as crianças
concebem discursivamente a escola, trazendo à tona o que elas pensam sobre esta instituição.
Tendo, neste momento, como foco a interpretação e a compreensão das informações
que foram coletadas, elencamos para análise das rodas de conversa duas categorias
agrupando, inicialmente, as narrativas que anunciavam o conceito de escola, e em seguida,
aquelas que anunciavam os elementos que possibilitam a visão positiva ou negativa desta
instituição social sob a ótica de nossos sujeitos.
Posteriormente, fomos em busca de captar e identificar as informações coletadas por
meio dos desenhos produzidos pelos participantes buscando estabelecer uma relação entre
este instrumento e as narrativas.
Categoria 1 - A escola: O que é? Para que serve? O que fazemos nela?

É fato que a escola, desde o seu surgimento e ao longo da história tem se tornado um
importante ponto de partida para o estudo da vida em sociedade. Partindo do princípio trazido
por Freire (1996b), cuja escola se constitui fundamentalmente de gente, buscamos verificar
primeiramente como as crianças concebem discursivamente a escola, revelando o que elas
entendem sobre esta instituição.
Em meio aos primeiros questionamentos, foi observado que as crianças concebem a
escola fundamentalmente como um local com uma estrutura própria na qual aprendem e se
divertem, além de fazer amigos.
Em suas falas, trouxeram a dimensão formal da escola, percebendo-a como uma
instituição onde o aprender e o brincar se misturam, já que é vista e entendida como lugar de
descobertas, aprendizagens, socialização e brincadeiras, conforme é possível observar nos
excertos a seguir:
“A escola é um lugar onde se aprende... aprende e se diverte.”; “A escola é
um lugar onde se aprende coisas que ainda não se sabe. Lá você brinca,
lancha, faz tarefa, faz prova e um bocado de coisas.”; “A escola é um lugar
muito legal que a gente pode comer, ter amigos e se divertir”

Em seguida, ao serem indagadas pela nossa personagem sobre o propósito da escola,


ou seja, sua serventia, a fala das crianças contemplou a função social desta instituição, que de
acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997, p.34) “remete a dois
aspectos: o desenvolvimento individual e o contexto social e cultural”.
Assim, a partir deste novo questionamento notamos que a função social da escola qual
seja, propagar conhecimento foi mais enfatizada, visto que o propósito da escola, para nossos
sujeitos, continua com o foco maior na aprendizagem, embora também seja vista como espaço
de convivência harmoniosa por uma das crianças que narra “nela [na escola] as crianças
aprendem a conviver e ser educados”
Em meio às expectativas das crianças em questão, a escola aparece também como
garantia de futuro, como meio de ascensão social, trazendo à tona as ideias iluministas que
basearam a escola das promessas no período após a segunda guerra mundial.

“Para ensinar, para quando você crescer ter um trabalho”; “Serve para
ensinar as crianças coisas que elas precisam para o futuro”

A partir desse discurso e com objetivo de fechamento de ideias, foi perguntado a que
conclusão podemos chegar sobre a função da escola, e, de uma forma geral as crianças
complementam afirmando que a escola serve para aprender, conviver com as pessoas, ter um
trabalho quando crescer, ser educado, ter um futuro planejado.
Quando questionamos os participantes da pesquisa acerca do que eles fazem na escola,
foi possível observar que eles trazem elementos que constitui atividades específicas da rotina
escolar, como a realização de prova e tarefas escolares, por exemplo, e que nem por isso
deixam de ter uma conotação prazerosa. Conotação esta captada pelo olhar atento enquanto
pesquisadora que buscou textos e contextos que não são revelados pela oralidade e que foram
demonstrados pelo corpo dos alunos ao relatarem suas respostas.
Convém registrar que ao perceber que os alunos em questão estavam focando a
atividade, ou realização desta, como ação central desenvolvida na escola, questionamos se
naquele ambiente eles só realizavam atividades6 e como resposta, uma enxurrada de ações
veio à tona – “A gente também brinca... ensaia... come... convive com as pessoas... estuda...
conversa...”
É oportuno mencionar que esses alunos fazem parte de um grupo social que tem a
oportunidade de frequentar a escola desde a mais tenra idade, e que talvez por isso, tragam em
sua fala a importância da escola para o brincar e para o aprender, com horário específico para
cada coisa, inclusive para o lanchar e ouvir histórias, fazendo emergir assim a compreensão
de escola como espaço que traz consigo rituais próprios, sendo estes organizados em horários
específicos com atividades específicas.
Convém colocar, no entanto que parece ficar explicito a não participação dos alunos
seja na escolha de atividades da rotina escolar seja na construção partilhada desta, já que,
conforme supracitado nos relatos, a fala ‘tem hora para’ pode caracterizar a imposição do
adulto sobre a criança do que fazer em cada momento numa relação vertical e não horizontal
da relação professor-aluno. E em meio a esta relação de verticalidade, o professor, a nosso
ver, ocupa o centro de todo o processo, remetendo-nos a uma visão mais tradicional de
educação.
Consideramos, no entanto, desejável que o professor escute seus alunos e favoreça a
participação dos mesmos nos diversos aspectos da vida escolar valorizando suas opiniões ao
planejar uma atividade e/ou tomar decisões acerca da rotina escolar. Tendo o cuidado, é claro,
de fundamentar a tomada de decisões para não agir sob a influência de emoções irrefletidas,
prática esta possível, a nosso ver, mesmo em uma relação verticalizada fundamentada na
autoridade e não no autoritarismo.

6
A palavra atividade neste contexto aparece como sinônimo de tarefas escolares.
Fica revelado até aqui que para as crianças, sujeitos desta pesquisa, a compreensão de
escola está em consonância com a concepção cultural socialmente aceita acerca do que é e
para que serve esta instituição. Esse pensamento nos remete ao que Freire expressa em quase
todas as suas obras, uma vez que para ele a escola deve ser entendida como local de
aprendizagem, de ensino, de trabalho, de aguçamento da curiosidade, de diálogos, de
encontros, de convivência, lugar privilegiado para o ato de pensar.

Categoria 2 – Como a criança vê a escola: aspectos positivos e negativos

Na intenção de identificar e entender os elementos que compõe a visão positiva da


escola, ou seja, aqueles que proporcionam satisfação e alegrias nas crianças, bem como
aqueles que compõe a visão negativa, ou seja, aqueles que proporcionam tristeza, falta de
motivação elegemos, na roda de conversa, as seguintes perguntas – ‘O que não pode faltar na
escola?’ e ‘ Se fosse possível mudar alguma coisa, o que mudariam na escola?’
No diálogo entre as crianças participantes e nossa personagem, é possível identificar
que o ato de estudar e o aprender ganham destaque, no que se refere a uma visão positiva da
instituição. Ressaltamos além disso que ficou evidente, também, nos dados analisados, que o
espaço físico com as suas instalações e recursos, se configura como elemento que constitui
um fator positivo da escola, como também do princípio de divertimento e integração. Já que
ao narrar o que não pode faltar numa instituição escolar as crianças trazem à tona elementos
como parque, livros, quadro, telhado, histórias e brinquedo dentre outros, e demonstram
satisfação ao colocar que tudo isso tem na escola delas7.
Em meio às narrativas, reaparece a ideia de escola como espaço composto por rituais
próprios, haja vista que mais uma vez elementos próprios da rotina escolar são postos em
evidência, como na fala “Hora do lanche, hora do brincar, hora da prova... hora de fazer
tarefa...”, por exemplo; e que para esses sujeitos, a escola ficou caracterizada, no momento
desta discussão, como espaço que tem hora para tudo. Por falar em hora para tudo, o horário
do recreio constitui-se como um dos fatores principais de satisfação em meio à escola, não
podendo faltar nela.
Outro aspecto bastante mencionado, como elemento que não pode faltar foi a figura do
professor e do aluno como atores determinantes para que a instância escola pudesse existir. E
neste sentido, rememoramos a obra poética de Freire sobre a escola que é sobretudo gente,
7
Salientamos que o espaço, as instalações, a área verde, e toda a estrutura física que compõe o nosso campo de
pesquisa não é uma característica comum na maioria das escolas, e que nosso campo de pesquisa, se trata de
uma escola considerada de grande porte que tem seu público composto por famílias de classe média alta.
trazendo à tona o caráter humano e a necessidade da interação do eu com o outro, constituindo
a escola como espaço de relações.
E sob este ponto de vista, Gadotti (2007a, p.59) nos fala que “quando uma criança tem
uma relação afetiva positiva com a escola e gosta do professor, da professora, pode aprender
com mais facilidade: o afetivo e o cognitivo são inseparáveis”, ratificando a questão da
afetividade tão presente para Freire, conforme já mencionado aqui.
Ao serem indagadas sobre o que mudariam na escola, um dos participantes expõe que
“aumentaria o tempo da prova e nos dias da prova diminuiria o tempo do parque”, e quando
questionado sobre os dias que não tem prova, continua “quando não há prova, eu deixaria o
tempo normal” da mesma forma outra criança complementa dizendo que “queria que tivesse
mais tempo para estudar em dias de prova”.
Neste momento, com a intenção de entender melhor essa preocupação com o tempo
solicitado tanto para o ato de estudar - traduzido pela aula, quanto para a realização da prova,
lançamos para o grupo a seguinte pergunta como ativador de ideias: por que vocês acham que
é importante estudar para a prova? A partir daí, emergem várias respostas, tais como “para
tirar dez”, “para aprender”, “para passar de ano”, “para as coisas ficarem na cabeça”,
“para ficar mais sabido”.
Vale ressaltar aqui que neste momento o resultado positivo a ser alcançado em uma
prova aparece como fator importante e satisfatório, ao mesmo tempo em que o oposto seria
entendido como fator negativo que provoca tristeza.
Sob essa ótica, chamamos atenção para o pensamento freiriano, cujo ato de aprender,
estudar, descobrir é entendido como ato prazeroso que possibilita satisfação e alegria a todos
os envolvidos no processo, emoções estas, decorrentes do ato de conhecer.
Entretanto, é válido destacar que as expressões “tirar dez” e “passar de ano”, por
exemplo, estão impregnadas também de uma valoração cultural que perpassa pela
manifestação do julgamento de um ‘bom aluno’, haja vista que em uma dimensão social é
considerado bom aluno aquele que apresenta, dentre outras características, rendimento escolar
acima da média. Tal título, por sua vez, neste prisma, pode ser entendido como elemento que
proporciona alegria aos alunos.
Percebe-se, contudo, que embora os alunos, justifiquem o tempo todo em suas
narrativas que a escola é necessária para a vida e que é legal, nota-se ao fundo que estão por
vezes tristes com este lado da escola e sentem a necessidade da alegria, conforme a fala tímida
de uma das crianças que diante do grupo diz “eu aumentaria o parque”. E neste momento
surge o silêncio, até que enquanto mediadora lanço novamente a pergunta e obtemos como
resposta quase que em coro “mais nada! ”, “nada! ”.
Diante das manifestações, expostas até este momento, observa-se mais uma vez, que
esses sujeitos trazem à tona a supervalorização da escola como locus de aprendizagens e fonte
de conteúdos escolares que favorecerão a vida futura.
Passaremos então, para o que nos evidenciam os desenhos das crianças sobre a escola.
Tomando neste instante o desenho como linguagem, as imagens trouxeram a presença efetiva
do ambiente físico interno, caracterizado sobretudo pela sala de aula e suas características. Se
bem que atrelado a isso algumas crianças trouxeram também o espaço físico externo, sendo
representado ora pelo jardim ora pelas áreas de lazer, confirmando a concepção de escola
trazida nas narrativas como ambiente em que o brincar e o estudar se misturam. Entretanto,
embora o brincar e o estudar se misturem, existe dentro da escola um lugar específico para
cada uma dessas atividades.
A presença do professor como condutor da aprendizagem na sala de aula e as cadeiras
escolares enfileiradas uma atrás da outra foi outra característica marcante nos desenhos.
Característica esta que nos permite supor a concepção tradicional de ensino.
Estes achados nos levam a validar o estudar e o ensino como característica principal da
escola, tanto no conceito que as crianças participantes trazem sobre ela, quanto no que é mais
importante, ou seja no que representa. Uma vez que a criança desenha aquilo que tem
significado para ela (VYGOTSKY, 1991; PIAGET, 2010).

Palavras finais

Corroborando com as ideias de Leite (2008), concebemos o fato de que privilegiar a


fala da criança e trazer à tona o que elas pensam e sentem é uma forma de auxiliar a escola em
seu processo necessário de reformulação. Logo, buscamos neste trabalho, evidenciar o que as
crianças nos dizem acerca da escola, ou seja, o que nos revelam através de suas narrativas e
desenhos, elencando e compreendendo os elementos que compõem a visão positiva e negativa
desta instituição pelas próprias crianças.
Para nossos sujeitos tanto no discurso oral quanto na linguagem gráfica, a escola é
concebida como local de aprendizagem, no qual a sala de aula e a figura do professor são
realçados. Importante, contudo, colocar que aparece uma separação bem marcada entre o
tempo de estudar e o tempo de brincar e que os resultados positivos, no que se refere a
aprendizagem, associados a ludicidade e ao encontro e interação com os pares representam
fator de satisfação por parte das crianças. A escola é compreendida também como garantia de
futuro.
Vale ressaltar que como já mencionado os sujeitos trouxeram como característica
marcante a concepção culturalmente difundida da escola enquanto local de aprendizagem,
enfatizando a importância do estudo para garantir boas notas.
Sem querer desconsiderar a dimensão do pensamento pedagógico, acerca da prática
docente dos adultos que atuam na educação das crianças, julgamos relevante esclarecer que os
resultados aqui discutidos valorizam a contribuição da parte de quem desfruta
fundamentalmente da escola - a criança - para difundir um novo olhar sobre a prática
pedagógica docente, trazendo à tona , como nos coloca Formosinho (2008, p.78) “a
necessidade do desenvolvimento de uma ‘abordagem pedagógica sensível às crianças, aos
seus sentimentos e ao pensamento acerca de questões que afetam o seu dia-a-dia”. Esse
também seria um sentimento compartilhado por Paulo Freire (1996b), de que a escuta pode e
deve ser um caminho ou ponto de partida para conhecer e contextualizar a ação educativa.
Partilhando desta ideia, esperamos que este estudo favoreça um novo olhar ou uma
mudança de foco na visão que se tem da e sobre a escola, e consequentemente da prática
docente.

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