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O Senhor, a Serviçal e o Caçador

O nome dele era Filipi, pelo menos era assim que gostava de ser
chamado nessa hora, e estava faminto.
Era um vampiro, e, claro, a pequena cidade que se desenvolvera
aos pés da montanha, extremamente próxima ao seu castelo, não o
sabia. Os anos passaram rapidamente e os cavalos foram
abandonados, as casas mudaram e as pessoas se multiplicaram. As
vacinas e remédios faziam-nas viverem mais e ter mais filhos,
embora hoje estivessem tendo poucos filhos por vez e ele não
entendia como isso era possível. Os postes trouxeram a revolução, a
energia elétrica, com suas lâmpadas e seus aparelhos, e o telefone,
com o qual os humanos se comunicavam com outros mais distantes.
E as mulheres, o que havia acontecido a elas? Tornaram-se
fascinantes e independentes, mas também um tanto displicentes com
seus filhos e maridos. Os impérios e reinados, já decadentes na era
em que Filipi respirava confirmaram sua decadência e
desapareceram, quando novas formas de governo um tanto
estranhas, ao ver dele, se desenvolveram rápida e caoticamente.
Seus olhos viraram e ele viu sua pele enegrecer. Sim, ele estava
faminto. As coisas mudaram, mas os humanos continuavam sendo
humanos e ele continuava a ser um vampiro, um vampiro que
precisava desesperadamente de alimento.
Andava. Seu corpo impelia-o a correr, mas ele preferia apreciar ao
máximo sua refeição, também apreciar sua sede, quanto mais
faminto estivesse mais doce e quente seria o sangue que lhe
escorreria pela garganta.
Uma pequena casa de madeira á beira da floresta, quieta naquela
hora da madrugada, podia sentir o cheiro humano que emanava dela,
seus dentes cresceram involuntariamente, a floresta iria lhe dar um
álibi, não eram raros os ataques de ursos, lobos e pumas naquela
região...
Dentro da casa viu um conjunto de móveis simples, alguns de
madeira, outros de um material que ainda não conhecia o nome,
alguns passos lentos e viu um espelho alto e não muito fino
encostado à parede, Filipi ainda achava estranho, durante muito
tempo na sua longa vida, espelhos eram extremamente caros, um
verdadeiro sinal de nobreza, hoje quase todas as casas os tinham.
Viu seu reflexo, há alguns anos atrás, Filipi ficaria extremamente
feliz em ser da geração de vampiros que não possuíam sombra nem
reflexo, mas hoje contemplava-se um príncipe saído das histórias
antigas. Seu maior poder, desenvolvido e aprimorado por anos e
anos, o poder de mudar de rosto e manipular sua imagem como bem
entendesse. Experimentou engrossar as sobrancelhas, a fome fez seu
corpo tremer e soltar uma respiração alta, não podia usar uma
energia que não possuía.
Mas logo possuiria, já podia ouvir os batimentos cardíacos dos
humanos que lá viviam, suas respirações, seus cheiros. Entrou no
quarto, um jovem casal, a camisola da mulher estava desabotoada no
colo em um grande decote que deixavam a mostra grande parte de
seus fartos seios, o homem estava com os braços e pernas abertas,
esparramado pela cama de casal, uma de suas mãos repousava no
ventre da mulher, respiravam compassadamente. Era uma cena bela,
mas Filipi não conseguia mais segurar a fome que agora fazia todo o
seu corpo vibrar e ofegar, deitou-se, suave como uma pluma, e
igualmente suave, ergueu a cabeça do homem, mordendo-lhe o
pescoço.
O sangue veio pulsante quente e cheio de energia, Filipi teve de
segurar um estremecimento quando sentiu as primeiras gotas, aquilo
descia por sua garganta enchendo-o de vida, levando-o ao êxtase.
Mas sim, tinha de se controlar, mesmo nessa hora, pois qualquer
movimento mais brusco, qualquer barulho involuntário poderia
acordar a mulher ao lado, ela veria a cena e provavelmente gritaria,
não gostava de gritos, estes o desconcentravam. E se se
desconcentrasse, poderia sugar além do sangue e da vida deles,
poderia sugar suas lembranças também. Filipi não gostava de ter as
lembranças de outrem ecoando em sua mente, normalmente sugava
apenas lembranças superficiais que o amaldiçoava ou remetia a
tempos felizes de seres humanos ou coisa parecida, sua vida já havia
sido muito longa mesmo sem ter de carregar a vida de outros nas
costas.
O coração do homem parou, e o sangue não mais escorria
naturalmente pela garganta do vampiro, Filipi sugou uma ultima gota
de despedida.
Suspirou. Ainda tinha fome. Olhou para o lado, a mulher se
aconchegara mais após a mão do homem ter saído de seu ventre.
Deixou seus instintos falarem por ele, com ela não precisava se
conter, não havia ninguém na região para vir em seu socorro.
Deixou sua respiração correr livremente, ofegante, como um
animal, embora não precisasse respirar realmente, não gostava de
ficar sem olfato, e quando estava com fome, sua respiração saía alta,
alta como quando era humano e estava muito próximo a uma
amante.
Elevou a mulher até si, sentindo todo seu aroma humano,
acordando-a, mas não completamente, ela não era capaz de entender
exatamente o quê estava acontecendo quando ele fincou suas presas
nela. O sangue escorreu suavemente para dentro dele, acompanhado
por um gemido baixo. Filipi sabia que parte do prazer que ele próprio
sentia ao beber sangue era passado às suas vítimas, embora não
soubesse exatamente quanto, naquele momento ficou feliz por isso
acontecer, pois a mulher morrera em um doce topor.
Agora tinha de encobrir seus rastros. E tinha de fazer isso bem
feito, caçadores de vampiros eram problemáticos e perigosos, se não
se cuidasse poderia ter um em seu encalço e isso não era bom.
Também havia agora esses investigadores, detetives, policiais... Não,
não queria problemas.
A arte da destruição, em pouco tempo aquela casa parecia um
campo de batalha como se os donos realmente tivessem encontrado
um urso, na verdade alguns ursos. Estava quase se voltando para
fora quando ouviu um choro um baixo e engasgado de bebê.
Num canto da sala, em um berço, um pequeno bebê de meses se
contorcia e chorava. Filipi não podia deixá-lo ali, era muito novo para
sobreviver sozinho, virou-se para partir, tolas preocupações humanas
inundavam sua mente, ele não conseguiria sobreviver por muito
tempo, morreria de fome, sede ou frio sem ninguém para cuidar dele,
o quê, até para alguém que ainda não tinha consciência própria esta
seria uma morte terrível, para o seu bem, teria de matá-lo ali
também.
Pegou o bebê no colo, ainda se lembrava de como fazer isso, ele
se aconchegou em seu corpo e parou de chorar, vestia roupas cor-de-
rosa, deveria ser uma menina, uma menina graciosa, ele percebeu
que não sentia mais fome, não tinha porque matá-la, o aroma
inocente do bebê inundava-o, aproximou-a aos seus lábios, suas
presas pareciam relutar em crescer, lembranças de um tempo
longínquo o inundaram, quando ele mesmo fora um pai excitado e
assustado, parte de um passado do qual não gostava de se lembrar,
sentimentos humanos explodiram em seu peito como um grito, o
ultimo grito de uma consciência humana já quase esquecida...
Beijou-lhe a face com carinho, não queria, não conseguiria e não
iria matá-la.
II

Os Vermont eram a maior e mais bem estruturada família


caçadora de vampiros. A cada geração havia pelo menos três
caçadores Vermont executando sua função. Eram uma organização,
com um amplo conhecimento sobre as gerações de vampiros, seus
poderes e suas fraquezas, uma espécie de grupo de extermínio,
estruturado sob o viés de uma família, havia rumores que já estavam
nessa luta havia cinco séculos.
Era uma família unida contra um inimigo forte: A raça dos
vampiros, o mal sobre a terra.
Por desempenhar tal função, eles foram evoluindo,
biologicamente, de forma a não morrer tão facilmente quanto os
outros humanos, mais força, mais agilidade, capacidade de se
recuperar mais rapidamente de ferimentos mais graves... Nada
comparável a essas habilidades e poderes de seus inimigos, mas, de
qualquer forma, útil. Às vezes nascia alguém com verdadeiros
poderes sobre-humanos nessa família, e era justamente alguém
assim que Edmund Vermont iria visitar aquela noite.
Como grande parte das casas de membros da família Vermont,
essa casa também ficava em um lugar isolado. Vermonts tinham de
se esconder de seus inimigos e, ainda, morar em lugares isolados
evitava que pessoas normais fossem envolvidas em seus conflitos.
Edmund tocou a campainha, era uma casa grande ao estilo
provinciano, tocou de novo, nada, nem um sinal de movimento, nem
uma lâmpada ligando, nada. Girou a maçaneta, a porta estava
trancada. Errado. Algo estava errado, eles foram avisados que ele
viria. Sacou sua besta-dupla carregada com flechas de madeira
enquanto chutava a porta com força, seus pouco mais de 10 anos
como caçador fizera seus reflexos ficarem extremamente afiados,
acertou o braço da coisa que correra pela lateral.
Edmund encostou o dedo em uma mancha de sangue na parede,
resultado da inércia de sua flecha e provou. Aquela sensação. Sangue
de vampiro, ácido e maligno. Cuspiu. Por um segundo temeu pela
sua família, depois afastou o pensamento, primeiro tinha de eliminar
o vampiro, depois checar se haviam sobreviventes, precisava de
concentração total.
Uma outra gota de sangue estava a quase três metros dali. Um
vampiro rápido, grande velocidade, grande sede, mas pensamentos
na mesma velocidade que um ser humano normal e grande
dificuldade para mudar de direção.
Em um movimento rápido desatrelou a besta secundária e abriu os
braços em ângulo de 180º, atirando para os dois lados do corredor.
Um guincho, e o barulho de algo batendo com força na parede à sua
esquerda. Correu, o vampiro havia sido atingido em seu braço
esquerdo e sua perna direita. Era uma mulher, exibiu as presas
ameaçadoramente enquanto forçava-se a se levantar. Edmund atirou
rapidamente acertando os outros membros da vampira, completando
assim a crucificação. As setas de madeira paralisavam os membros
dos vampiros deixando-os praticamente indefesos até que o vampiro
morresse ou que as setas fossem retiradas, mas ele ainda podia falar
e sentir dor, o que era realmente útil para interrogatórios.
— Têm outros como você aqui? — A voz do caçador era possante e
ao mesmo tempo suave.
—Claro que não! — a voz da vampira estava um pouco alterada —
Não preciso de ajuda para matar um Vermont recém-nascido.
Edmund saiu correndo para o segundo andar, a vampira não sairia
dali a menos que todas as flechas fossem retiradas, Vermont recém-
nascido, uma pista sobre o alvo, ele havia escutado um barulho no
andar de cima. Saiu silenciosamente. Todos os Vermont eram
treinados para fazer muito pouco barulho ao andar, de forma a
conseguir chegar o mais próximo possível dos vampiros sem que eles
os percebesse. Em uma sala viu de relance um corpo caído, seu
coração se comprimiu... O barulho estava á frente, não podia parar,
calculava suas opções enquanto andava, como todas as casas de
Vermont, esta também lhe daria grandes vantagens.
O que viu foi uma opção única, ali, no final do corredor, estava
outro vampiro, vestindo roupas de um passado não muito próximo,
olhando fixamente para um ponto abaixo, quase que paralisado. Sem
pensar duas vezes Edmund cortou a cabeça dele com uma espada
que estava estrategicamente pendurada na parede.
Com a força da espadada a cabeça do vampiro voou para dentro
do aposento que se abria no fim do corredor, enquanto o resto de seu
corpo caia para frente num mar de sangue. Sem o vampiro
bloqueando a porta, Edmund pôde ver que ele estava olhando
segundos antes, e subitamente teve medo.
III
Filipi levou o bebê consigo até seu castelo. Não pensava. Só
conseguia olhar para aquela carinha rosada, aquela vida que mal
começara a jornada, que parecia explodir em luz e graça.
—Mestre! O que faz aqui?! — Daniel, um amigo, que vivia sempre
em forma de morcego, guinchou do alto.
—Estou em meu castelo, não devo explicações a um invasor—
Filipi não olhou para nenhum lugar específico, sabia que quando
quisesse, Daniel apareceria.
Um pequeno morcego castanho-escuro pousou no ombro de Filipi
e apontou com a garrinha saída da asa para o montinho firme e
carinhosamente seguro no colo do vampiro.
—O que o senhor está fazendo com isto! Não é de seu feitio trazer
lanche para casa — Senhor, mestre... Meras formalidades que Filipi já
havia dispensado pela parte de Daniel, Daniel não era mais um criado
ou uma criança, era um amigo.
Filipi olhou carinhosamente para o bebe que começava a dar sinais
de acordar novamente.
—Decidi chamá-la Lúcia, Luz, veja como a luz da vida parece
emanar dela.
O morcego entendeu imediatamente as intenções de seu mestre e
cobriu o rosto por um instante com as asas numa expressão que
sugeria “Dai-me paciência” e suspirou:
—Mas mestre, você ao menos sabe como cuidar de uma criança,
alem do mais, uma criança tão pequena? — Filipi deu de ombros,
realmente não sabia, mesmo quando era humano, nunca aprendera,
o filho que tivera num passado distante morrera antes que ele
aprendesse qualquer coisa — e mesmo assim, mestre, seu castelo
está sujo e praticamente abandonado, além de ser um refúgio de
ratos, essa criança ficaria doente aqui no meio de toda essa sujeira, e
creio, mestre, que não deseja sua morte, deseja?
Filipi deu alguns passos com o bebê no colo, Lúcia choramingava,
realmente naquelas condições ela não cresceria bem.
—Tem razão, amigo... — Daniel suspirou de alívio e já ia
recomendando que ele procurasse um bom orfanato para deixar o
bebê quando Filipi continuou — Contrate criados! Vamos limpar tudo
e deixar esse castelo reviver seus dias de glória, sim, minha
menininha vai precisar de uma ama de leite, encontre uma e a chame
aqui!
Daniel quase caiu do ombro do seu senhor. Sim. Tudo era uma
brincadeira, não era? O brilho nos olhos de seu senhor dizia o
contrario, ele estava realmente falando sério, Daniel nunca vira os
olhos de seu senhor brilharem com tanta paixão.
—Senhor, não existem mais amas de leite nessa época... Hoje as
mulheres alimentam seus filhos com mamadeiras e...
—Ótimo! Me traga uma! E vou precisar de um advogado e algumas
empregadas, precisamos limpar o castelo o mais rápido possível para
que Lúcia esteja a salvo, e ela vai precisar de um registro de
nascimento...
Daniel estava boquiaberto, durante décadas e décadas via seu
mestre ficar passivo ao mundo e suas transformações, quieto sem
nem tentar participar da sociedade, sem se mover nem para tentar
preservar seu próprio patrimônio.
—Daniel! DANIEL! Está me escutando?
—Ah! Sim senhor, o que era mesmo?
—Aquele banco ainda está no nome de minha família?
—Sim, deixei um criado para cuidar de seus negócios quando
decidistes viver em reclusão, mas o banco ainda continua em teu
sobrenome.
—Ótimo, muito bem feito! — o mestre tinha dado um pulo de
alegria?! — fico te devendo essa! Pode beber cinco goles de meu
sangue depois, pelo seu bom trabalho! Mas o que você está fazendo
aí que ainda não me veio trazer a mamadeira? Lúcia está chorando,
ande rápido!
Ainda desnorteado Daniel saiu voando, uma revolução estava
acontecendo, ele já podia sentir, e, alem disso, iria ganhar cinco goles
do sangue do mestre quando voltasse, DEMAIS!!!
IV

Medo.
O coração de Edmund disparava, enquanto sua respiração perdia o
cuidadoso compasso silencioso.
Medo.
Seus olhos tremiam se mexendo involuntariamente, acompanhado
pelo tremor dos músculos de todo o seu corpo.
Medo. Medo. Medo.
Edmund sentiu as lágrimas tão contidas em sua infância brotarem
livremente nos seus olhos. Queria correr. Não agüentava mais. Suas
pernas não respondiam. Queria voltar, queria ir para o colo de sua
mãe. Sentiu um grito se formando no fundo de sua garganta.
Olhos verdes, verdes como as chamas frias do inferno. Olhos
hostis, hostis como os demônios que povoam os pesadelos. Olhos
brilhantes, o brilho que carregava toda a punição, todo o terror do
julgamento de onde só se via medo. Olhos estes que se voltaram para
a cabeça do vampiro que passou rolando pelo seu campo de visão.
Na frente de Edmund, em pé, nas grades de um berço caído,
estava aquele que era a fonte de todo esse medo. Um bebê, entre o
primeiro ano de vida e o segundo, aquele que viera visitar desde o
começo, um membro da família Vermont. Willian Vermont. Seu
Sobrinho. Que nascera com a habilidade de induzir medo naqueles
que olha.
—Willian. Sou eu, o tio Mund. Se acalme. Eu estou aqui.
O bebê parecia ter entendido, ou reconhecido a voz de seu tio que
conhecia pelos telefonemas, quando o bebê voltou a olhá-lo, seus
olhos eram apenas verdes. Verdes como os de sua mãe, Esmeralda,
irmã de Edmund. Sem o brilho sobrenatural, sem a luz do medo. Aliás,
olhos que refletiam o medo, seu sobrinho estava induzindo medo
porque estava com medo.
Edmund pegou seu sobrinho no colo enquanto arrastava os restos
do vampiro para um lugar específico, já haviam ocorrido tantos
ataques de vampiros aos Vermonts que todas as casas deles eram
construídas para não pegarem fogo facilmente, o fogo era uma das
maiores fraquezas dos vampiros. Estando o corpo do vampiro na
parte onde o chão era de pedra, Edmund deixou seu sobrinho no chão
por um momento para atear fogo ao vampiro. Normalmente vampiros
não conseguiam se recuperar de ferimentos que os separavam em
partes, especialmente a decapitação, mas ao que diziam, seu pai, que
também fora um grande caçador, morrera ao achar que tinha se
livrado de um apenas em separar sua cabeça do corpo. Edmund não
cometeria o mesmo erro.
Vendo o fogo se alimentar dançante do vampiro, Edmund pegou
seu sobrinho e vasculhou a casa, estava imensamente preocupado
com Esmeralda, sua irmã mais velha.
Encontrou-os na cozinha. Havia um vestígio de cheiro de comida,
eles o estavam esperando. Esmeralda, ainda mais rechonchuda que
Edmund se lembrava, uma menina-mulher que se dedicava á sua
casa e sua família. Seu marido, tão magro quanto sua esposa era
gorda, treinado para ser um caçador em horas difíceis como aquela.
Dois empregados de confiança, sendo que um deles havia cuidado de
Edmund quando este ainda era um bebê.
Mortos. Todos mortos.
Seu cunhado tinha em mãos uma arma contra vampiros, mas não
aparentava ter tido tempo de desferir qualquer golpe. Havia tido
treinamento para se tornar caçador, mas não era um autentico
Vermont, sua esposa nunca havia sido uma guerreira, nascera para
realizar seu maior sonho, o de se tornar mãe.
Em um outro quarto no canto oposto ao do quarto de Willian, um
bebê se contorcia em um outro berço, o segundo sobrevivente da
noite, sua sobrinha mais nova, Edmund não conseguia lembrar o seu
nome.
Com as duas crianças bem aconchegadas em seu carro, o caçador
contatava a família. Certa vez ouvira que os Vermont estavam
fadados a perder as mulheres que amam para os vampiros. Edmund
já perdera sua esposa e sua irmã. Seus sobrinhos seriam separados e
criados por braços diferentes da família. Era a sina dos Vermont,
mesmo assim, eles sabiam que eram os guardiões da humanidade, se
eles desistissem, o mundo estaria nas mãos dos vampiros.
V
Filipi via a sua pequena Lúcia crescer.
Em um tempo muito curto já andava e falava, descobrindo o
mundo. E a cada nova descoberta dela, Filipi redescobria o mundo.
Ele a criava como filha, amiga e amante, sentia vivia e sorria para ela.
E com ela descobria as mil maravilhas dessa era. Pequenas
maravilhas como a eletricidade e o telefone deixaram de ser apenas
um espetáculo, começaram a fazer parte de suas vidas, algo a se
usufruir, e Filipi agora as procurava, procurava o máximo de conforto
para ele e para a sua pequena... E assim começou sua guerra
particular contra a prefeitura que havia transformado seu castelo em
patrimônio histórico da cidade.
Mais que frustrante essa guerra era inspiradora. Ele sempre fora
um senhor de castelo, um general estrategista, só que agora a guerra
era a favor de seus estritos interesses e caprichos, os soldados eram
os advogados, e a arma era o dinheiro.
O dinheiro... Como bem-dizia Daniel por ter preservado o dinheiro
e os pertences de sua família, como o tinha em grande estima, ele
que mesmo em forma de morcego o ajudara tanto, mantendo seu
banco sob seu controle.
Daniel que fora seu melhor criado, e agora era seu melhor amigo.
Ele também tinha a menina em grande estima, sabia que era por
conta dela unicamente que seu mestre havia deixado a decadência e
agora estava esplendoroso como tinha de ser. E assim como Filipi,
Daniel cuidava dela. Ensinava-a sobre as passagens secretas do
castelo, usava seus poderes para espantar animais nocivos de seus
caminhos, contava-lhe historias de sua infância, juventude e velhice
quando cuidar do mestre era a sua função e ele a desempenhava
com carinho.
Tanto Daniel falou que Lúcia pegou o hábito de chamar Filipi de
mestre.
No início Filipi discordou, mas em seguida percebeu que talvez
fosse algo bom, se Lúcia fosse criada como serviçal ela teria a
humildade no coração e não a arrogância como tinha a antiga
senhora do castelo que agora jazia esquecida fora de suas muralhas.
Lúcia crescia e ficava mais esperta, e seu sangue se tornava cada
vez mais perigosamente atraente para Filipi, que talvez por isso tenha
concentrado seus esforços em instalar rede elétrica e climatização no
castelo, obra que, claro, foi embargada pela prefeitura.
Estava com 10 anos, frenquentava uma escola durante a tarde e
no inicio da noite tinha aulas com um professor particular que dava
aulas de reforço a ela e ao “filho” do senhor do castelo que por
tradição da família também se chamava Filipi. Não foi necessário
pensar muito para saber que aquele garoto e seu mestre eram a
mesma pessoa.
Depois da aula ele em forma de criança guiava-a para um salão,
onde lhe ensinava a dançar e depois lhe contava uma historia
enquanto ela rodopiava pelo caminho ou lhe abraçava para mantê-lo
aquecido.
Aquilo para ele era mais que tentador sendo que por vezes seus
olhos e caninos se transformavam sem que ele percebesse, ansiando,
implorando pelo sangue que corria tão próximo a ele. Foi assim que
ela percebeu que ele era um vampiro, e guardou segredo, como
Daniel lhe ensinara a fazer. Apesar de toda a tentação que Filipi
sentia quando a pele quente dela lhe tocava, nas mãos durante as
danças, ou quando esta lhe abraçava com carinho, ele se sentia no
paraíso.
Certo dia ela lhe perguntara sobre seus pais, disse-lhe que Daniel
apenas havia lhe falado que eles eram seus serviçais, mas não lhe
disse porque não estavam com ela.
—Eles morreram — disse Filipi na ocasião — enquanto iam fazer
um serviço para mim, foi um terrível acidente na estrada, mas não
fique com essa cara. O acidente foi feio o bastante para que
morressem na hora, sem sentir dor.
Ela começara a chorar, mas em poucos dias sua alegria habitual
retornara e ela treinava com as empregadas durante o dia e com
Daniel durante a noite para se tornar uma boa serviçal.
Foi quando ela tinha 13 anos que Filipi decidiu que ela seria sua
serviçal mais íntima, ela seria sua Ama de Sangue. Comprou para ela
o mais belo vestido que pode encontrar, branco e amarelo, digno de
uma elegantíssima dama de honra, e pediu para que ela o usasse
durante a aula de dança. Usou a recém instalada eletricidade em seu
salão, cuja gloria de dias passados retornara após inúmeras
restaurações, para que a aula de dança se transformasse em um
verdadeiro baile, um baile a dois, e quando ela estava no auge da
alegria, ele a mordeu pela primeira vez, sentindo seu sangue cheio de
vida fluir para ele. Bebeu alguns goles, era quente e enchia-o de
sensações boas, e então parou. Ela quis se levantar, mas ele deixou-a
aconchegada em seu colo, estavam exatamente no centro do salão
embaixo do grande lustre recém-reformado para admitir lâmpadas
elétricas.
—Você agora é minha ama de sangue — dizia ele na ocasião —
minha serviçal mais importante a única que me serve com o próprio
sangue, e eu como pagamento irei servi-la em tudo o mais e você
deverá ser conhecida como senhora do castelo, mas deve sempre se
lembrar que é minha serviçal e serve somente a mim.
Ela confirmou com a cabeça, soltando um silvo de dor, ele então
se inclinou sobre ela usando um poder de cura nela para que seu
pequeno ferimento fechasse, o que não conseguiu exatamente, quase
não usava esse poder e não o tinha em grande força, ela então sorriu,
agradeceu pela festa e por fim perguntou:
—Eu não vou virar um vampiro por causa disso, vou?
Ele sorriu.
—Não é assim que vampiros nascem. — ele sentiu a necessidade
de acrescentar — Amanhã ou depois você estará totalmente
recuperada e continuará humana como tem de ser.
Lúcia subiu as escadas lentamente, sentia uma leve dormência
nos dedos dos pés e estava com sono, no meio do caminho Filipi a
pegou no colo, ele que normalmente frio, estava quente e
aconchegante, ela também pensava no que tinha acontecido, sabia
que devia servi-lo afinal ele era realmente o senhor do castelo, sabia
que ele era um vampiro e que vampiros mordem, e também não era
tão difícil assim lhe entregar um pouco de sangue, a mordida não
doía de verdade, na verdade a sensação era outra, ela não sabia
explicar direito, mas não era uma sensação ruim.
VI