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Democratização da Informação:

a Ética na Ação Jornalística∗


Samilo Takara†

Índice Seguindo as discussões sobre ética e deon-


tologia, esta pesquisa pretende salientar que
Introdução 1 a ação jornalística deve ser respaldada na de-
1 Ética: Absoluta ou Responsável? 2 mocratização da informação.
2 Jornalista Eticamente Responsável: Palavras-Chave: Comunicação. Ética.
Crises e Superações da Profissão 5 Democracia.
3 Democratização da Mídia: o Papel do
Jornalista 8 Abstract
Considerações Finais 11
Referências 11 This paper aims to grasp analysis the bi-
bliography for to the reason the concepts
Resumo of absolute ethical and socially responsible
ethics. How the journalist can give voice
Este artigo pretende analisar bibliografias to the silenced and enhance the democrati-
para compreender os conceitos de ética ab- zation of information? This questioning is
soluta e ética socialmente responsável. De what makes the theoretical argument of this
que modo o jornalista pode dar voz aos gru- article. Following discussions on ethics and
pos silenciados e valorizar a democratização deontology, this research aims to highlight
da informação? Este questionamento é o que that the action should be backed journalistic
movimenta a discussão teórica deste artigo. on the democratization of information.

Este artigo é resultado de algumas argumen- Key-words: Communication. Ethics. De-
tações teóricas do meu Trabalho de Conclusão de mocraty.
Curso, intitulado: Movimentos Sociais e Comuni-
cação: o papel do jornalista na reversão da Espiral
do Silêncio a favor das minorias sociais. Introdução

Professor do curso de Comunicação Social –
compreender a ação jornalística e
Publicidade e Propaganda, UNIFAMMA – Faculdade
Metropolitana de Maringá/PR. Mestrando no Pro-
grama de Pós-Graduação em Educação pela UEM –
P ARA
como essa atuação profissional pode
modificar e/ou reverter a espiral do silên-
Universidade Estadual de Maringá. Graduado em Jor-
cio, devemos ir além da redação das notí-
nalismo pela UNICENTRO – Universidade Estadual
do Centro-Oeste/PR. cias e reportagens, ultrapassar a formulação
de perguntas e execução de entrevistas, e,
2 Samilo Takara

além disso, enxergar pontos que vão além da nalístico, deve ser construído a partir de um
edição e finalização dos materiais jornalísti- conhecimento amplo sobre o assunto. O sim-
cos. Compreender o pensar sobre a notícia e ples relato pode ilustrar um fato, mas não
a formulação de teses e motivos para que um consegue desenvolver um conhecimento so-
assunto seja notícia está acima da produção e bre o assunto. Conhecer sobre as relações
recepção, pois delimita como o assunto será sociais, o desenvolvimento da sociedade, de-
abordado e as maneiras como os consumi- senvolver uma análise construída em bases
dores a receberão. estatísticas, em explicações de especialistas
Pretendemos analisar teoricamente a ação e utilizar a figura do personagem para que a
inicial do jornalista, da pesquisa do profis- identificação pessoal possa trazer ao mundo
sional de comunicação que constrói o co- do espectador aquele fato, para que ele possa
nhecimento para que a produção noticiosa e ser analisado e forme um indivíduo capaz de
informativa possa ser de qualidade (e aqui discutir e dissertar sobre o ocorrido, é uma
nos referimos a qualidade como abrangência das bases do jornalismo.
de fatos e perspectivas interessantes para que
os espectadores recebam uma informação
1 Ética: Absoluta ou
com uma gama significativa de dados) e que
crie uma base forte para um conhecimento Responsável?
desenvolvido de maneira consistente para in- A sociedade tem um funcionamento mar-
formar e formar o indivíduo que consome a cado por diversos preconceitos e construções
notícia, uma base para que ele possa dissertar históricas, fundadas em bases patriarcais,
e discutir um assunto. capitalistas e fálicas que sinalizam um co-
Um fato ambiciona a condição de nhecimento pré-concebido em bases morais
relato – pois só o relato dará a que não contribuem para ações éticas de res-
ele, mero fato, um sentido narra- ponsabilidade social. O preconceito acaba
tivo. Não há, portanto, fato jor- criando uma ética de verdade absoluta, como
nalístico sem relato jornalístico. O diferenciada por Max Weber, que formula
que pretendemos dizer, enfim, é paradigmas que sem o aprofundamento do
que o relato jornalístico ordena e, conhecimento e a falta de esclarecimento
por definição, constitui a realidade pode comprometer o discernimento e a com-
que ele mesmo apresenta como preensão da vida dos indivíduos da so-
sendo a realidade feita de fatos. A ciedade. Lage (2004) salienta que
notícia acontece como elo do dis-
Preconceitos e pressupostos aju-
curso. A notícia acontece como e-
dam pouco e atrapalham muito em
lemento discursivo, tendendo para
jornalismo [...] A essência do jor-
um lado ou para o outro, tanto
nalismo, pelo contrário, é a partir
faz, mas como elemento discursivo
da observação da realidade (do que
(GOMES, 2003, p. 10).
ela tem de singular), esteja ou não
A partir dessa afirmação, percebemos a conforme alguma teoria. Poucas
importância de como a notícia, o relato jor- matérias jornalísticas originam-se

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integralmente da observação di- e perseguidos; racional segundo


reta. A maioria contém formações o valor. Desse modo, através da
fornecidas por instituições ou per- crença consciente no próprio valor
sonagens que testemunham ou par- absoluto, quer se interprete como,
ticipam de eventos de interesse ético, estético, religioso etc. De
público. São o que se chama certo modo, esse comportamento
de fontes. É tarefa comum dos exclusivamente por ele mesmo, in-
repórteres selecionar e questionar dependente dos resultados (apud
essas fontes, colher dados e depoi- KUNCZIK, 2002, p. 41)
mentos, situá-los em algum con-
texto e processá-los segundo técni- O autor define, neste ponto, a diferença
cas jornalísticas (LAGE, 2004, p. entre uma ética absoluta, em que o obje-
49) tivo, no caso do jornalista, é informar; e
uma ética respaldada na responsabilidade so-
Percebemos, a partir destes pressupostos, cial, em que você constrói sua ação por
que o jornalismo pode e deve orientar o es- meio da análise do fato ocorrido, como o
pectador sobre os fatos ocorridos e, além indíviduo deve divulgá-lo e de que maneira
disso, contribuir para a compreensão do indi- você pode colaborar para o desenvolvimento
víduo sobre assuntos e movimentos sociais, social, histórico e humano do seu espectador
por meio de uma reportagem com afirmações por meio da transmissão desta notícia.
de especialistas e com ângulos de cobertura Desse modo, Weber explica que
que possam abrir a visão do espectador a fim
de que ele, munido de conhecimento, dis- Uma pessoa cuja ética abriga
serte sobre os assuntos da sociedade, sem unicamente os valores absolutos
que o preconceito feche ou limite seu campo recusa-se a assumir a responsabi-
de visão. lidade pelas conseqüências de suas
Ao pensarmos nos conceitos desenvolvi- ações. Essa proposição afirma que
dos por Weber, percebemos que a ética pode o ator não se responsabiliza pelos
ser entendida de dois modos e vivida tam- resultados de suas ações. Então,
bém da maneira que se crê nessa construção o elemento característico da ética
de conhecimentos e ações. Segundo Weber dos valores absolutos é o dever ab-
soluto para com a verdade (apud
[...] a ação social, que como KUNCZIK, 2002, p. 42)
toda ação, pode ser classificada:
racional segundo o propósito, ou Enquanto, que
seja, pelas esperanças de com-
portamento dos objetos do ambi- A ação eticamente responsável sig-
ente externo e de outras pessoas e nifica que ela diz respeito não so-
através do uso dessas esperanças mente à seleção dos meios para se
como condições ou meios para fins alcançar um fim específico, mas
racionais, racionalmente avaliados também a comparação dos valores.

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4 Samilo Takara

A partir desta prerrogativa, o ator e o cumprimento de seu papel pode modi-


eticamente aceita a responsabili- ficar maneiras de pensar e melhorar a so-
dade pelas conseqüências, inten- ciabilidade dos indivíduos que vivem nesta
cionais ou não intencionais de sua realidade e reverter o silenciamento feito por
ação. A pessoa responsavelmente discursos tidos como hegemônicos.
ética leva em conta os defeitos das Recorremos neste momento ao Código de
pessoas. Em contraste cuja ética é Ética do Jornalista Brasileiro, que serve de
a dos valores absolutos, a pessoa respaldo para a ação jornalística, mas que,
eticamente responsável não acre- em muitos momentos, é deixado de lado ou
dita que pode impingir os outros as suprimido em detrimento de um pensamento
conseqüências de suas ações (apud negativo que delimita a profissão e a atuação
KUNCZIK, 2002, p. 42) do jornalista. O código salienta, em seu capí-
tulo I, Artigo 1o , que “O Código de Ética dos
Ao perceber as definições que Weber faz Jornalistas Brasileiros tem como base o di-
sobre os modos de cumprir as ações jornalís- reito fundamental do cidadão à informação,
ticas, respaldadas na ética do valor absoluto, que abrange seu o direito de informar, de
o jornalista poderá atuar, crendo que seu ob- ser informado e de ter acesso à informação”
jetivo é informar, não importando a repu- (FENAJ, 2008).
tação, a vida ou a ação do seu entrevistado Desse modo, o jornalista pode recorrer ao
e de suas personagens, apenas cumprindo o seu código, quando em qualquer ação profis-
papel de informar. sional causar-lhe a dúvida de porque exis-
Contudo, um jornalista que tem sua ética te sua profissão. A função social do jor-
respaldada na responsabilidade social, pensa nalismo é respaldada no direito do cidadão
no desenvolvimento de sua ação como uma brasileiro em informar ao outro, informar-
maneira de contribuir para a sociedade onde se e ter acesso irrestrito às informações de
vive. Essa ação de informar pode prejudicar seu interesse. É nesse pressuposto que afir-
os grupos sociais e, por meio de sua pro- mamos que o dever do jornalista surge da ne-
dução, ou ele pode colaborar para formar um cessidade de garantir o direito do cidadão.
indivíduo capaz de discernir as práticas soci- E se voltarmos ao código, em seu Capítulo
ais e compreender a importância, a relevân- II, que define a conduta profissional do jor-
cia de seus atos ou como mudá-los para co- nalista e destacarmos no Artigo 6o , em que
laborar para uma sociedade mais equitativa, delimita seu dever profissional, os Incisos:
justa ou compreensiva.
Não entremos aqui nos méritos de quais I – opor-se a arbítrio, ao autori-
são as determinações e configurações da tarismo e à opressão, bem como
concepção que cada pessoa tem sobre a ética, defender os princípios expressos
a estética ou a retórica do outro, ou do in- na Declaração Universal dos Di-
divíduo que é parte da notícia. Vamos nos reitos Humanos; [...] II – divul-
ater no profissional de jornalismo, que deve gar os fatos e informações de in-
compreender mais sobre a diferença de sua teresse público; XI – defender os
ação no contexto social e como a formulação direitos do cidadão, contribuindo

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para a promoção das garantias in- jovem/velho etc. Muitas das fal-
dividuais e coletivas, em espe- tas cometidas vêm do fato de
cial as das crianças, adolescentes, se ignorar a própria natureza e
mulheres, idosos, negros e mi- suas limitações. A deontolo-
norias; [...] XIV – combater gia, em certa medida, poderia
a prática de perseguição ou dis- reduzir-se a uma conscientização
criminação por motivos sociais, (BERTRAND, 1999, p. 107)
econômicos, políticos, religiosos,
de gênero, raciais, de orientação Ao tratarmos de conceitos éticos é impor-
sexual, condição física ou men- tante que possamos discernir a diferença en-
tal, ou de qualquer outra natureza. tre ética, moral e deontologia. A primeira
(FENAJ, 2008, p. 2) trata do que limita e norteia uma ação.
Enquanto a segunda é um conhecimento
Percebemos que cabe ao jornalista pau- baseado em senso comum e religioso que de-
tar, escrever e editar, de maneira consciente fine o que é bem visto e o que é julgado como
ao desenvolvimento de uma sociedade capaz ruim perante a sociedade, enquanto a terceira
de respeitar as diferenças e conhecer sobre é a ação de refletir a ética e a moral a fim
as diversidades e as diferenças da sociedade de compreender de que modo é construída a
brasileira. Assim, é inconcebível pensar em ação profissional ou pessoal de uma pessoa
um profissional desta área que atue movido ou instituição.
pelo preconceito de qualquer âmbito, em sua A ética é o nosso foco neste espaço de
construção e transmissão noticiosa. desenvolvimento teórico. Não buscaremos
aqui julgar o que uma “divindade” e o
2 Jornalista Eticamente “povo” pensariam das ações executadas por
um profissional desta área, e sim, em como
Responsável: Crises e é construída a ética, elemento norteador, que
Superações da Profissão é importante na convivência social e na real
Bertrand (1999), ao tratar sobre o jornalista, formação da sociedade.
explica que o mesmo deve conhecer seus Algumas delimitações éticas são desen-
potenciais e suas limitações no desenvolvi- volvidas em forma de códigos de ética, que
mento de um conteúdo noticioso capaz de não abrangem completamente o real sen-
contribuir para o desenvolvimento do indi- tido da ação discutida. Como ressaltado
víduo, para a melhoria em suas relações so- por Bertrand (1999) “os códigos proscrevem
ciais e no aumento da capacidade de discern- muito e prescrevem pouco – sem dúvida
imento e dissertação sobre assuntos e con- porque é mais fácil pôr-se de acordo so-
ceitos que permeiam nossas relações. bre as faltas a evitar do que sobre as vir-
tudes a praticar. Mas uma moral negativa
Conhecer a si e a seus limites – não é suficiente” (BERTRAND, 1999, p.
O jornalista deve ter consciência 107). Pois o código de ética dos jornalistas,
do que ele é e do que ele não mesmo salientando as ações de responsabi-
é: homem/mulher, branco/negro, lidade do jornalista, não garante ao mesmo

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subsídio para a efetivação de atos a favor da não é uma ação pautada na responsabilidade
sociedade. social do ato de informar.
A construção de uma tábua de leis, que Bertrand (1999) ainda coloca a conheci-
deve ser seguida a risca, não é um obje- mento que esse tipo de jornalista pautado
tivo ético, e sim uma visão catequizadora, pela dita verdade antes de tudo trabalha em
que por meio de preconceito ou necessidade um veículo que não abre espaço para uma in-
de padronização social foi pré-concebida por vestigação aprofundada e espera que o jor-
aqueles que desenvolvem o mesmo, baseado nalista não incomode um modelo de pro-
em uma verdade absoluta e que não pensam dução totalmente acomodado. Assim, o au-
em um caráter analítico no profissional que tor mostra-nos que, infelizmente,
deve se respaldar nos conceitos. Esse tipo de
código apenas divide em boas e más pessoas, [...] os meios de comunicação a-
em um pré-julgamento. presentam notícias policiais e notí-
É simples informar? Podemos nos pren- cias políticas que, em grande
der a diversos pontos, que Bertrand (1999) medida, lhe são fornecidas por
define como: serviços oficiais. Eles evocam
os assuntos que suscitam con-
Os usos e costumes jornalísticos senso ou oposição reconhecida. E
constituem um obstáculo consi- ocultam assuntos marginais, ou
derável à deontologia. Preguiça, ridicularizam-nos: foi o que se viu
insensibilidade burocrática, falta quando do renascimento do movi-
de imaginação geram a rotina: mento feminista, nos anos 60 e
cobrem-se os mesmos setores; 70. A mídia deveria visar dar um
seguem-se os mesmos fenômenos; panorama completo da atualidade
publicam-se os comunicados; local, nacional e mundial, que a-
consultam-se os mesmos supos- liás frequentemente consiste mais
tos especialistas. Consultam-se em problemas a resolver do que em
poucas fontes excelentes, mas ações e acidentes (BERTRAND
obscuras: revistas especializadas, 1999, p. 113)
peritos discretos (p. 110).
A silenciamento também acontece nas
salas de redação. Há diversas situações que
O autor demonstra como a ética da ver-
emudecem o jornalista. Entretanto, Bertrand
dade absoluta mantém-se de maneira sim-
(1999) aponta que
ples e não é necessário buscar pesquisas,
conhecer dados, procurar bons especialistas, A omissão é o pior pecado da
fontes sólidas e um personagem completo mídia. A causa pode ser a na-
e pouco estereotipado. Esse tipo de ética tureza do meio de comunicação,
permite acomodar-se. Ser jornalista apenas ou a falta de recursos, ou a re-
dentro de uma redação, protegido pelos sig- cusa dos proprietários de fazer a
nos de uma profissão capaz de desmoralizar despesa necessária. Mas a omis-
e diminuir qualquer pessoa que a contrarie, são pode ter outras causas. Certos

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assuntos são pouco ou mal trata- tunidade de se expressarem, como é garan-


dos por causa de preconceitos anti- tido pela Constituição Federal.
gos e de tabus, sejam os dos pa- Desse modo, Langenbucher e Mahle
trões da mídia, ou dos anunciantes (apud Kunczik, 2002) mostram que a so-
(que apreciam pouco a defesa dos ciedade precisa de um profissional diferente
consumidores, por exemplo), ou do que o senso comum visualiza no jornalista
aqueles dos homens jovens e cultos como o quarto poder, ou mesmo um herói ca-
que povoam as salas de redação, paz de salvar o mundo. Segundo eles,
sejam aqueles da camada rica do
[...] o que uma sociedade
público ou da maioria da popu-
democrática precisa é de jornalis-
lação (p.114)
tas que queiram ser, antes de tudo,
Percebemos que o silêncio é imposto, na mediadores, que não adotem a a-
estrutura das salas de redação. Aqui fazemos titude demagógica para com a so-
referência à teoria organizacional, que ex- ciedade nem desejem “preparar”,
plica sobre o poder do pauteiro de restringir manipular ou guiar as pessoas, mas
o olhar do repórter; do editor, buscando uma que tenham o objetivo de possibili-
maneira de garantir que o consumidor com- tar o diálogo, através das diferentes
preenda de maneira simples, mudando a con- correntes, entre as várias classes
figuração do texto inicial; da diagramação e equipamentos; gente, em outras
e revisão, que precisam enquadrar o texto palavras, que esteja preparada para
nos moldes do veículo. Um silêncio, que tornar compreensíveis os fatos
é trazido por anunciantes e as estruturas da essenciais da política atual para
redação, e dentro de uma profissão que tem o operário cansado e pouco ins-
como objetivo dizer o que seu espectador não truído; jornalistas que não es-
sabe, parece confuso acreditar que exista ne- crevam para outros jornalistas, mas
cessidade de coerção do repórter. Entretanto, para as “massas”. Às vezes, tem-se
Kunczic deixa muito claro que “a subjetivi- a impressão de que a classe intelec-
dade e a reportagem feita com consciência tual tinha uma consciência mais
não se contradizem. A objetividade significa clara desse seu dever épocas an-
simplesmente não distorcer nem suprimir os teriores, não democráticas (LAN-
fatos” (KUNCZIC, 2002, p. 101). GENBUCHER e MAHLE apud
A partir desta prerrogativa, percebemos KUNCZIK, p. 101, 2002).
que a oportunidade de repensar o profis- Bertrand (1999) ainda afirma que os meios
sional de jornalismo como alguém capaz de, de comunicação não compreendem por um
por meio de ações que estão dentro de sua a- todo como é o desenvolvimento da prática
tuação profissional, possa utilizar-se da voz e jornalística e da necessidade de garantir que
realmente reverter o processo de silêncio da a responsabilidade dos atos sociais do jorna-
sociedade, pode também dar aos que se si- lista são mais importantes do que meras su-
lenciam pelo dito medo da aceitação a opor- posições de verdades absolutas que não in-
cluem os diferentes contextos de produção

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de cada veículo em suas peculiaridades. como uma maneira de esclarecer pontos e


Desse modo, mudar a concepção dos espectadores. Por
meio de um conhecimento mais aberto, ela-
A maior parte dos meios de co- borado de maneira simples, porém aprofun-
municação não leva em conta a dado e baseado em diversos pontos, o jorna-
complexidade do real. Acha-se lista pode abrir caminhos para que o espec-
na obrigação de fazer depressa tador se interesse e até mesmo se disponha a
e de entreter, logo, de simpli- conhecer a diversidade social.
ficar. O abuso do estereótipo, a
divisão em bons e maus, a re-
dução dos fenômenos a indivíduos 3 Democratização da Mídia: o
pitorescos, de um discurso a uma Papel do Jornalista
frase. A mídia dá assim, da so-
É visível que o profissional de jornalismo
ciedade e do mundo, imagens in-
tem como respaldo uma visão da sociedade
completas, frequentemente defor-
privilegiada pelo conhecimento e o con-
madas, que podem gerar sentimen-
tato com pessoas das mais diferentes ori-
tos e comportamentos lamentáveis
gens e que, através de seu trabalho, podem
(BERTRAND, 1999, p. 117).
conhecer-se e aprimorar o convívio social.
E ainda o autor complementa sua com- Nem todos os indivíduos têm oportunidade
preensão da função jornalística, incitando o de conviver com o outro de uma maneira tão
mesmo a utilizar uma maneira mais aprofun- peculiar e capaz de indagá-lo sem ofendê-lo
dada para abordar o fato que está na pauta e até conhecer aspectos que são marcantes em
sua realidade por meio de uma análise mais determinados grupos.
profunda. Segundo Bertrand (1999), Percebemos que o silêncio segrega a
muitos. O preconceito e o descaso da mí-
O jornalista deveria também uti- dia atual continuam por amordaçar as mino-
lizar os métodos das ciências so- rias. Grupos que por não possuírem todos
ciais, aplicar a potência dos com- os pré-requisitos definidos pela moral ou até
putadores à análise de arquivos ou mesmo por uma condição pré-julgada como
de investigações, a fim de escavar necessária são agredidos todos os dias por
sob a superfície da atualidade para grupos que se julgam majoritários e capazes
identificar movimentos profundos de definir quem pode ou não viver em so-
antes que emerjam, às vezes sob ciedade.
uma forma catastrófica (p.119). Desse modo, a comunicação, agindo no
ato de tornar comum, de apresentar aos que
É a partir dessas prerrogativas que não conhecem a realidade de diversos grupos
percebemos que o jornalista tem uma função de maneira simples, respaldada e clara, pode
social muito mais importante do que um con- garantir que a sociabilidade possa ser uma
ceito absoluto. Sua análise, seu desenvolvi- tentativa menos carregada de preconceitos,
mento intelectual e seu poder de abrangên- que são visões medíocres formadas pela es-
cia e penetração devem ser compreendidos

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Democratização da Informação: a Ética na Ação Jornalística 9

tereotipagem de um indivíduo ou grupo so- das todos os dias. Entre aqueles que a so-
cial. ciedade acredita ter vencido barreiras, ainda
Segundo Bertrand (1999) há muitas pessoas que não conseguem con-
viver com o silêncio que foi pedido em troca
A mídia pode fazer muito pelos de um convívio que lhe é de direito.
consumidores/cidadãos. Mas exis- Peruzzo (2004) explica a união de grupos
te uma diferença lamentável que minoritários que buscam o título de cidadãos
poucos códigos evocam: como e os direitos garantidos a todos que convivem
dizia La Fonteine; “Conforme se- neste planeta. A pesquisadora ressalta que
jais poderosos ou miseráveis...” A
liberdade de imprensa e de palavra Movimentos populares são mani-
não deveria ser nem o privilé- festações e organizações constituí-
gio de uma elite nem o da maio- das com objetivos explícitos de
ria. Devem ouvir-se também promover a conscientização, a or-
os marginais, os excêntricos, os ganização e a ação de segmen-
“desmancha-prazeres dos corrup- tos das classes subalternas visando
tos”. Pois às vezes eles têm razão. satisfazer seus interesses e neces-
Ora, quando o governo quer fazer sidades, como os de melhorar o
calar contestadores, os grandes nível de vida, através do acesso às
meios de comunicação tendem a condições de produção e de con-
colocar-se discretamente do lado sumo de bens de uso coletivo e in-
do mais forte (BERTRAND, 1999, dividual; promover o desenvolvi-
p. 128-129). mento educativo-cultural da pes-
soa; contribuir para a preservação
Pela penetração, pela explicação clara, ou recuperação do meio ambiente;
concisa e rica em detalhes os discursos da assegurar a garantia de poder e-
comunicação têm poder para desenvolver no xercitar os direitos de participação
indivíduo o interesse por conhecer outras política na sociedade e assim por
realidades. Desse modo, o silêncio opres- diante. Em última instância, pre-
sor que é forçado a muitos dos excluídos e tendem ampliar a conquista de di-
marginalizados é deixado de lado para que reitos de cidadania, não somente
eles possam partilhar de suas experiências e para pessoas individualmente, mas
mostrar que o conhecimento do estereótipo para o conjunto de segmentos ex-
não garante que o indivíduo conheça a reali- cluídos da população (PERUZZO,
dade do marginalizado. 2004, p. 2)
A sociedade atual, capitalista, cristã, pa-
triarcal, fálica, branca, de maioria heteros- Não há, por exemplo, uma segregação
sexual, não tem o costume de conviver entre o masculino e o feminino, mas não
com negros, homossexuais, mulheres fe- há uma interação social completa. Sempre
ministas, candomblecistas, indígenas, entre há o julgamento do estereótipo, que, se for
outros grupos ou pessoas que são silencia- mais abordado, começaremos a perceber que

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10 Samilo Takara

ainda veem a mulher como corpo para ser o- forma, e, colaborar para que a informação
lhado e posse do macho mais próximo. E transmitida ao público seja abrangente.
essa visão, dita vencida por muitos, ainda Além de informar, a comunicação deve ser
não é um direito de ação à mulher, que ainda educativa para que o indivíduo possa ter
deve seu corpo à Santa Igreja e sua virgin- consciência de uma sociedade plural. São os
dade ao marido. espectadores que fazem com que, por meio
E assim como o feminismo luta pela mu- do seu direito de ser informado, o jornalista
dança dessas visões preconceituosas, muitos tenha o dever de cumprir a pauta. Ser so-
grupos lutam pela liberdade de expressão, cialmente responsável é garantir que a plu-
pela valorização das diferenças e do direito ralidade seja parte do produto e tirar muitas
de pertencer à sociedade. Peruzzo (2004) mordaças de uma sociedade de normas.
aborda a criação e o fortalecimento da comu- Ouvir os movimentos sociais é uma
nicação comunitária, popular e alternativa, maneira de a mídia produzir um material
que valoriza esses grupos. Mas, não pode- plural e significativo. E que esses produ-
mos descartar qualquer cidadão de um as- tos, notícias e reportagens poderão colabo-
sunto que está em pauta por não fazer parte rar para as novas formações educativas e cul-
das regras e normas impostas. Todo cidadão turais da sociedade que, hoje, precisa com-
tem direito a informar e ser informado. É preender a construção social transdisciplinar
uma prerrogativa constitucional. e multifacetada que a informação e a popu-
lação têm.
Ao dar uma entrevista para um
A sociedade ainda vê com maus olhos o
jornal, participa-se. Se sua ima-
direito dos outros indivíduos, entretanto, a
gem é “roubada” por um fotógrafo
cada momento que se volta ao assunto e que
ou cinegrafista e depois é exibida
se pretende esclarecer, a cada reportagem e
na mídia, você está participando
notícia que visa mostrar a realidade, menos
do conteúdo do meio de comuni-
pessoas mantêm essa visão fechada e opres-
cação. Se você atende a um tele-
siva, que foi construída de maneira pre-
fonema de algum funcionário da
conceituosa e pouco elaborada, mas que,
revista, da qual é assinante, e dá
como permaneceu regra para se viver em so-
sugestões de pauta, você está par-
ciedade, é o que o indivíduo tem como real.
ticipando. Se você realizou algo
E se o jornalista mostra-se disposto a atuar
importante ou cometeu um delito
numa responsabilidade social, a capacidade
e mereceu uma nota ou uma re-
do mesmo em apresentar outras realidades,
portagem na imprensa, está parti-
mostrar outras vidas e dar outros exemplos é
cipando, e assim por diante. Os
tão grande e variada, que o indivíduo poderá
tipos de participação mencionados
reverter esse silêncio e expressar-se. O medo
são comuns e importantes na mí-
da exclusão pode diminuir em favor de uma
dia tradicional (PERUZZO, 2004,
sociedade capaz de colaborar para o cresci-
p. 19).
mento da sociedade.
Essa visibilidade é dada pelo jornalista
a todos que possam valorizar, de alguma

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Considerações Finais lescente e tantos outros documentos que le-


gitimam um indivíduo nesta sociedade.
O jornalista pode, por meio de uma for-
É no direito do cidadão brasileiro e do ser
mação social, cultural e humanística, ter
humano de ser informado reside o dever do
consciência de sua ação na promoção da
jornalista. Um profissional que pode infor-
cidadania e dos direitos humanos que devem
mar de maneira clara a sociedade e mostrar
ser garantidos. E a partir do cumprimento
como o preconceito pode ser algo perigoso.
de suas funções – pauta, produção, entrevis-
O jornalista claro e eticamente responsável é
tas, pesquisa – redação e edição; garantir as
capaz de iluminar e de garantir que essa so-
minorias sociais à visibilidade para que suas
ciedade tenha um futuro de respeito às dife-
lutas e motivações sejam informadas a po-
renças.
pulação.
Além disso, os profissionais de jornalismo
podem colaborar, por meio de um ceticismo Referências
e pesquisa para que o preconceito possa ser
ABRAMO, Cláudio. A regra do jogo: o jor-
vencido, pois os veículos de comunicação ao
nalismo e a ética do marceneiro. São
abordarem desde assuntos que estão direta-
Paulo. Companhia das Letras, 1988.
mente ligados aos movimentos sociais como
a violência contra a mulher e o casamento BERTRAND,CLAUDE-JEAN. A Deontolo-
entre pessoas do mesmo sexo, até pautas que gia das mídias. São Paulo: Editora
são comuns a datas e eventos da sociedade EDUSC, 1999.
como compra de material escolar e o au-
mento de impostos a inclusão de fontes da FENAJ. Código de Ética dos Jornalistas
população que estão entre as minorias soci- Brasileiros, 2008.
ais.
KUNCZIK, Michael. Conceitos de Jorna-
Todos os cidadãos brasileiros são protegi-
lismo: Norte e Sul: manual de comuni-
dos e regidos pela Constituição Federal. To-
cação. 2a edição. São Paulo: Editora da
dos os seres humanos devem ter claro que a
Universidade de São Paulo, 2002.
Declaração Universal dos Direitos Humanos
deve ser seguida e que qualquer prática que LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e téc-
impeça uma ação legítima é um preconceito nica de entrevista e pesquisa jornalís-
e a mídia tem o papel de informar ao cidadão tica. 4a edição. Rio de Janeiro Editora
sobre esse fato. Ainda falta a muitos profis- Record, 2004.
sionais e veículos de comunicação a com-
preensão desses direitos fundamentais e a LIPPMANN, Walter. Opinião pública.
valorização do indivíduo e das diferenças Tradução e prefácio de Jacques A.
como uma das marcas do povo brasileiro. Wainberg – Petrópolis, RJ: Ed. Vozes,
Precisamos que os jornalistas discutam mais 2008.
sobre os Direitos Humanos, sobre a Consti-
tuição, sobre o Estatuto da Criança e do Ado- MARTINO, Luís Mauro de Sá. Teoria
da Comunicação: ideias, conceitos e

www.bocc.ubi.pt
12 Samilo Takara

métodos. Petrópolis, RJ: Editora Vozes,


2009.

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a comunicação comunitária, partici-
pação popular e cidadania. São Paulo.
Anais Celacom/Endicom, 2004.

PERUZZO, Cicilia Maria Krohling. Revis-


itando os Conceitos de Comunicação
Popular, Alternativa e Comunitária.
Anais do Intercom. Brasília, 2006.

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