You are on page 1of 14

Desigualdade e dominação social: em busca da perspectiva de gênero, erotismo,

família e conjugalidade em Marx, Weber e Durkheim1


Gabriela Costa Araujo2

Introdução

Karl Marx (1818-1883), Émile Durkheim (1858-1917) e Max Weber (1864-1920)


são consideramos os clássicos da sociologia e por esta razão suas abordagens ainda são
atuais na análise social da contemporaneidade. Ainda que esses autores não tenham tido
como tema as relações de gênero, sexualidade, família e casamento, propomo-nos com
este trabalho analisar epistemologicamente as teorias dos clássicos da sociologia com um
recorte em gênero, erotismo, família e conjugalidade. Haja vista que o nosso objeto de
estudo são as relações de gênero e sexualidade, achamos necessário pensar o eixo de
dominação e desigualdade social, trabalhado na disciplina de Teoria Sociológica, em
relação a essa temática. Em Marx buscaremos entender a relação entre patriarcado,
propriedade privada e capitalismo, e posteriormente a perspectiva das feministas
marxistas. Em Durkheim examinaremos a unidade conjugal e a sociedade familiar nas
taxas de suicídios. E em Weber investigaremos a dimensão do erotismo e da dominação
patriarcal e patrimonial.
Tencionamos nossos esforços para uma análise desses autores e as relações de
gênero e a partir destas a família, o casamento, entre outros. Não pretendemos com este
trabalho apontar em que sentido os referidos autores deveriam ter trabalhado com as
questões de gênero em suas teorias, mas a partir do eixo de desigualdade e dominação
social, analisar com base em referências bibliográficas, como os clássicos da sociologia,
de alguma forma, abordaram essas questões.

Karl Marx: patriarcado, família monogâmica e propriedade privada

Um dos poucos textos conhecidos de Karl Marx no alemão: “Peuchet: vom


Selbstmord”, traduzido no Brasil como “Sobre o suicídio”, é de 1846 e composto de
passagens traduzidas para o alemão de Du suicide et des ses causes, das memórias de um

1
Artigo final da disciplina de Teoria Sociológica, ministrada pelo professor Dr. Márcio Ferreira de Souza
no primeiro semestre de 2016 no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal
de Uberlândia.
2
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia,
e bolsista de Mestrado da FAPEMIG.
diretor dos arquivos da polícia, Jacques Peuchet, que descreveu alguns relatos de suicídios
que aconteceram durante o período em que trabalhou no arquivo. Nos interessamos por
este texto, pois tem como questão central a relação dos suicídios descritos e a opressão
das mulheres.
O tema desta publicação não está ligado diretamente a economia ou política, como
a grande maioria das obras de Marx, o que em certo sentido concede uma originalidade
aos trabalhos desenvolvidos em torno desse livro. E apesar de não estar centrado na esfera
pública, corroboramos com o posicionamento de Michael Lowy (2006) que ao fazer a
abertura da tradução deste texto para o português, fala sobre a compreensão do privado
ser político. Isso também entra em convergência com os debates feministas e com as
discussões de gênero que entendem que as questões privadas precisam ser pensadas de
forma política. Compreendemos também que ao abordar os suicídios o autor se refere as
causas enquanto fatores sociais, como questões econômicas e a não emancipação do
indivíduo, dessa forma o suicídio é pensado como uma crítica a sociedade burguesa a
partir da questão da opressão das mulheres.
Dos quatro casos de suicídios relatados três são de mulheres, duas delas burguesas
e uma proletária. Embora possa existir um marcador social de classe, o ponto primordial
não se refere a classe social, mas sim ao gênero3, da condição desses indivíduos enquanto
mulheres. A tríade de casos apresentados atravessam três importantes facetas do
patriarcado4: o poder paterno e materno através da família tradicional burguesa; a
dominação dos homens sob as mulheres em suas relações no seio da família burguesa; e
por último, que veio a ser e ainda é uma das lutas do movimento feminista: o direito ao
aborto. No primeiro caso o suicídio teve como causa a autoridade dos pais e o moralismo
em relação a filha ter passado uma noite na casa da família do noivo antes do casamento,

3
Compartilhamos da conceituação de Scott (1995) em relação ao gênero: “O núcleo essencial da definição
baseia-se na conexão integral entre duas proposições: o gênero é um elemento constitutivo de relações
sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é uma forma primeira de significar as
relações de poder. As mudanças na organização das relações sociais correspondem sempre à mudança nas
representações de poder, mas a direção da mudança não segue necessariamente um sentido único. Como
elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre diferenças percebidas entre os sexo ...]” (p. 21).
A autora ainda coloca quatro elementos relacionais sobre a definição do gênero: o primeiro são os símbolos
disponíveis que remetem a múltiplas representações, por vezes contraditórias, como a ideia de luz e
escuridão, purificação e poluição. O segundo são os conceitos normativos que limitam possibilidades
metafóricas, expressos em doutrinas religiosas, educativas, ideológicas, jurídicas, etc. O terceiro elemento
é a explosão da noção de fixidez em relação ao gênero, sempre visto da perspectiva binária. O quarto
aspecto é a noção da identidade subjetiva, “o gênero torna-se implicado na concepção e na construção do
poder em si” (pp. 22 – 23)
4
Sistema no qual os homens controlam as mulheres oprimindo e submetendo-as através de inúmeros
mecanismos.
dessa maneira a família da jovem a perseguiu e repreendeu de modo que ela sucumbiu e
se jogou em um rio. No segundo caso uma jovem esposa desesperada com os ciúmes do
marido, que a obrigou a se trancafiar em uma casa de campo longe de qualquer
convivência sob sua vigilância, a levou ao suicídio. E no terceiro caso uma mulher se
suicidou por ser impedida de realizar a interrupção voluntária de sua gravidez devido a
uma moral burguesa-cristã e as leis da época. Esses casos foram relatados no século XIX,
no entanto, percebemos que ainda hoje essas facetas podem ser observadas, mesmo que
em menor grau, contudo não menos significativo, na nossa sociedade.
Marx descreve um dos casos analisando a relação da dominação do homem e a
propriedade privada, amparada pelo código civil da época:

A infeliz mulher fora condenada à mais insuportável escravidão, e o sr. Von


M... podia praticá-la apenas por estar amparado pelo Código Civil e pelo
direito de propriedade, protegido por uma situação social que torna o amor
independente dos livres sentimentos dos amantes e autoriza o marido ciumento
a andar por aí com sua mulher acorrentada como o avarento com seu cofre,
pois ela representa apenas uma parte de seu inventário. (2006, p. 37)

A família burguesa revela seu locus de opressão, onde o poder do homem é


manifesto na esfera familiar. Tais opressões manifestas nas relações sociais de poder
podem se expressar também através da exploração da força de trabalho das mulheres.
Pensando o trabalho produtivo5 algumas feministas criticaram o fato de Marx ter se
concentrado exclusivamente no trabalho assalariado e desconsiderado o trabalho
doméstico, não remunerado, realizado por mulheres. Entendemos que o autor
compreende trabalho produtivo enquanto produção de capital e compartilhamos da
posição de Rosa Luxemburgo ao afirmar como o capital gera tais desigualdades ao ponto
que:

A dançarina do music-hall que, com suas pernas, produz lucro para seu
empregador é uma trabalhadora produtiva, enquanto todas as dores das
mulheres mães proletárias entre as quatro paredes de seus lares são
consideradas improdutivas. Isso parece brutal e absurdo, mas reflete
exatamente a brutalidade e o disparate de nosso sistema econômico atual.
(HOLMSTROM, 2014, p. 349 apud LUXEMBURGO, 2002, pp. 20-21)

Outra face do trabalho doméstico é que apesar de não produzir lucro, este tipo de
trabalho geralmente não é remunerado. Isso se torna um benefício para o sistema
capitalista que deixa de remunerar um trabalho que mesmo não sendo produtivo é
usufruído, especialmente por homens, que na maioria das vezes não realizam tarefas

5
Segundo Marx “[...] é produtivo somente o trabalho assalariado que produz capital” (1987, p. 161).
domésticas. Ainda nos casos em que este trabalho é pago, é realizado quase
exclusivamente por mulheres, se configurando enquanto uma tarefa especificamente
feminina. No livro A ideologia alemã Karl Marx (2007) expõe a exploração dentro da
família como a primeira forma de propriedade:

Com a divisão do trabalho, na qual todas essas contradições estão dadas e que,
por sua vez, se baseia na divisão natural do trabalho na família e na separação
da sociedade em diversas famílias opostas umas às outras, estão dadas ao
mesmo tempo a distribuição e, mais precisamente, a distribuição desigual,
tanto quantitativa quanto qualitativamente, do trabalho e de seus produtos;
portanto, está dada a propriedade, que já tem seu embrião, sua primeira forma,
na família, onde a mulher e os filhos são escravos do homem. A escravidão na
família, ainda latente e rústica, é a primeira propriedade, que aqui, diga-se de
passagem, corresponde já à definição dos economistas modernos, segundo a
qual a propriedade é o poder de dispor da força de trabalho alheia. Além do
mais, divisão do trabalho e propriedade privada são expressões idênticas –
numa é dito com relação à própria atividade aquilo que, noutra, é dito com
relação ao produto da atividade. (pp. 36-37)

Um outro aspecto importante da perspectiva teórica de Marx é compreender que


as hierarquias não são dados naturais, mas são construídas socialmente e conservadas.
Consoante a isso são as perspectivas feministas e de gênero, que compreendem os papeis
sociais e o gênero enquanto construções que se enrijecem até adquirir a forma de algo
natural, que sempre esteve ali. Como aponta Salih (2015, p. 94) “O gênero não acontece
de uma vez por todas quando nascemos, mas é uma sequência de atos repetidos que se
enrijece até adquirir a aparência de algo que esteve ali o tempo todo.”
Originário das contribuições de Marx e de outros teóricos e militantes como
Engels, Lenin, Rosa Luxemburgo, entre outros/as, o pensamento feminista marxista
considera como maior responsável pela condição de opressão da mulher a propriedade
privada. Calcada em ideias como a questão da família monogâmica, já discutida em
Engels (2012), autoras como Alexandra Kollontai6 compreendem que a família
monogâmica atende aos interesses da propriedade privada na medida em que garante a
transição hereditária de bens. Dessa forma para garantir que o casamento perdure e os
bens permaneçam na família e aos seus descendentes é preciso que as mulheres sejam
submissas aos homens, destarte, tal submissão se caracteriza pela atribuição somente às
mulheres das responsabilidades com os serviços domésticos, questões de moralidade,

6
Autora e militante russa, participou da transição socialista que se iniciou com a revolução russa de 1917.
Foi a primeira mulher a ocupar um cargo junto ao alto escalão do governo.
dentre outros mecanismos de subordinação. Segundo Engels (2012), o casamento e
consequentemente a monogamia:

[...] foi a primeira forma de família que não se baseava em condições naturais,
mas econômicas, e concretamente no triunfo da propriedade privada sobre a
propriedade comum primitiva, originada espontaneamente. (p. 67)

Autoras/es como Isabel Larguía e John Dumoulin, comentados por Angels


Martínez Castells, percebem a opressão das mulheres atendendo uma lógica capitalista:
assumindo um papel na divisão social do trabalho ao exercer uma dupla jornada de
trabalho – trabalhando na produção e em casa. No mercado de trabalho geralmente
assumindo cargos que estão ligados ao cuidado como nas áreas de educação, saúde, por
conseguinte, construindo e reforçando a ideia de que o papel da mulher é o cuidado. Além
de receberem salários menores, mesmo ocupando os mesmos cargos que os homens, e ao
associar a competência a uma ideia de intuição feminina, que deslegitima o mérito das
mulheres.
Marx e Engels observou no livro a Ideologia Alemã, em 1846, e mais tarde Engels
escreveu: “[...] o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com
o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia; e a
primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino” (p. 68).
Como já dito, Marx não produziu sua teoria em relação à opressão das mulheres,
no entanto, podemos perceber lampejos sobre esse tipo de opressão em suas obras e no
trabalho de Engels, especificamente no livro A origem da família, da propriedade privada
e do Estado. É necessário também situar o autor no seu tempo e recorte, Marx viveu no
século XIX e tinha como recorte de suas pesquisas o capital e as relações sociais a partir
do sistema capitalista, portanto, suas obras não se dedicavam a discussão sobre outros
marcadores sociais7 que não os de classe, no entanto, em algumas obras existem
passagens que apontam para uma perspectiva de gênero, especialmente no que diz
respeito a mulher, trabalho, patriarcado e capitalismo.

Durkheim: a unidade conjugal e a sociedade familiar

Émile Durkheim foi um dos fundadores da sociologia. Influenciado por Augusto


Comte, Durkheim sistematizou e delimitou o campo de trabalho da sociologia formulando

7
O uso dos marcadores sociais enquanto categoria analítica é muito recente. Os marcadores sociais são
sistemas de classificação que identificam os indivíduos com determinadas categorias sociais baseada em
diversas diferenças seja de gênero, geração, raça e etnia, entre outros.
regras e métodos de pesquisa desta área do conhecimento. Assim como Karl Marx,
Durkheim não dedicou nenhuma obra às relações de gênero e sexualidade, porém, em
muitos textos essas relações são pensadas no contexto da família e do casamento.
Em sua obra O suicídio (1897) Durkheim busca explicar a influência do
casamento e da família nos suicídios. O autor diz que o suicídio é uma manifestação
essencialmente masculina e que para cada quatro homens que se suicidam uma mulher se
mata. O sexo é um dos fatores na variação dos suicídios, ainda que ele não utilize essa
causa enquanto a única variante social.
Ao falar do suicídio egoísta Durkheim apresenta a relação dos suicídios com o
sexo e a idade. Ele desconstrói a ideia de que pessoas solteiras suicidam menos que as
casadas, como muitos pensavam na época, e tinha como explicação a ideia de que o
casamento implicaria responsabilidades e encargos e por isso a taxa de suicídio seria
maior. O autor mostra que o número de suicídios entre solteiros é menor que o de casados,
e esclarece que isso se deve ao fato de os primeiros serem mais novos e a taxa de suicídio
aumenta após os dezesseis anos de idade. Portanto, as pessoas casadas são mais velhas,
logo, esse tipo de suicídio não está relacionado a questão do casamento e prossegue:

Portanto, se quisermos comparar essas duas populações para concluir qual a


influência do estado civil, e apenas ela, será preciso nos desvencilhar desse
elemento perturbador e comparar com os indivíduos casados apenas os
solteiros com mais de 16 anos, eliminando os outros. Feita essa subtração,
veremos que, durante os anos 1863-68, houve em média, por um milhão de
solteiros com mais de 16 anos, 173 suicídios, e 154, 5, por um milhão de
casados. (2000, p. 207)

Diferente do que se pensava na época, o casamento, segundo o autor, diminui a


taxa de suicídios: “Pode-se dizer, por conseguinte, que o estado do casamento diminui
em cerca de metade o perigo do suicídio [...]” (2000, p. 208). Para Durkheim o
matrimônio tem uma função social e pode se manifestar no impedimento em certos tipos
de suicídios. Ele também constata que o número de suicídios de mulheres casadas em
relação aos suicídios de pessoas casadas é bem maior do que o número de suicídios de
mulheres solteiras em relação aos suicídios de pessoas solteiras. Ele depreende disso que:
“Por certo, não é que a mulher casada esteja mais exposta do que a solteira [...]” (2000,
p. 223), e prossegue “Só que, embora ela não perca ao se casar, ganha menos do que o
esposo. Mas então, se a imunidade é tão desigual, é porque a vida de família afeta
diferentemente a constituição moral dos dois sexos.” (2000, p. 223). Percebemos a partir
dessa asserção que, apesar de Durkheim não avançar nesse debate, existe uma percepção
em relação a diferença existente entre – o autor utiliza a palavra sexo – os gêneros/sexos,
a unidade conjugal e os suicídios. Se por um lado o matrimônio impede muitos homens
de se suicidarem, em certo sentido, a vida conjugal pode afetar as estatísticas em relação
as mulheres, como apresentado acima.
Em outro momento Durkheim apresenta as taxas de suicídios de viúvos, e desses
indivíduos quando têm filhos e conclui que a unidade conjugal e mais especificamente a
presença dos filhos são fatores importantes para o impedimento do suicídio de viúvos:

Quanto à causa que torna a viuvez relativamente mais maléfica quando o casal
foi fecundo, devemos busca-la na presença dos filhos. Sem dúvida, em certo
sentido, os filhos ligam o viúvo à vida, mas, ao mesmo tempo, tornam mais
aguda a crise por que ele passa. Pois as relações conjugais já são as únicas
afetadas; justamente por existir nesse caso uma sociedade doméstica, seu
funcionamento se vê entravado. Falta-lhe uma engrenagem essencial e todo o
seu mecanismo se desarranja. Para restabelecer o equilíbrio perturbado, seria
preciso que o homem cumprisse uma dupla tarefa e desempenhasse funções
para as quais não é feito. É por isso que ele perde tantas vantagens de que
desfrutava durante o casamento. Não é por não mais estar casado, mas porque
a família da qual é chefe se desorganizou. Não é o desaparecimento da esposa
que causa esse desnorteio, mas o da mãe.” (Ibid, p. 229)

Constatamos com base neste trecho que para Durkheim o homem que perde sua
companheira se vê perturbado por ter que assumir tarefas que, segundo o autor, não foram
feitas para homens, e, por conseguinte, perde as vantagens que usufruía durante o
matrimônio. O que lhe abala não é a perda da esposa e sim de uma mãe. Percebe-se daí
que o autor ilustra notoriamente o papel da mulher no séc. XIX, e ainda muito presente
nos dias atuais, de responsável pelos cuidados do lar, da família e do marido. E conclui
que entre as mulheres solteiras com filhos o suicídio é muito menor (150 para um milhão),
comparada com os suicídios das mulheres casadas sem filhos (221 para um milhão),
sendo os filhos um elemento de interdição em relação ao suicídio. Conforme coloca o
autor sob a sociedade conjugal: “Já havíamos constatado que, de maneira geral, a esposa
aproveita menos a vida de família do que o esposo. Vemos agora qual é a causa disso; é
que, por si mesma, a sociedade conjugal prejudica a mulher e agrava a sua tendência ao
suicídio.” (2000, p. 229). Durkheim constata que a imunidade de alguns indivíduos
casados em relação ao suicídio não se deve a unidade conjugal, mas sim à sociedade
familiar. A sociedade conjugal em muitos sentidos é um calabouço para a mulher e por
vezes a sua tendência ao suicídio é maior devido a sua inserção na unidade conjugal.
Na perspectiva de Durkheim o casamento serviria aos homens como um
mecanismo de controle, regulação e disciplina necessários a eles, sem os quais não
conseguiriam dominar suas inclinações, diferente das mulheres que são contidas e
moderadas. A instituição matrimonial é, antes de tudo, uma disciplina do sexo, da vida
sexual. Para Durkheim os homens sofrem com os efeitos coercitivos da monogamia, no
entanto, se beneficiam com os privilégios masculinos:

O próprio homem também sofre com essa imutabilidade; o mal, porém, para
ele, é totalmente compensado pelos benefícios que ele obtém alhures.
Inclusive, de acordo com os costumes, os homens possuem certos privilégios
que lhes permitem atenuar, em certa medida, o rigor do regime. Para a mulher,
ao contrário, não existe compensação nem atenuação. Para ela, a monogamia
é uma obrigação severa, sem nenhuma variação e, por outro lado, o casamento
não lhe é útil, pelo menos no mesmo grau que para os homens, para com seu
destino; mas ele não a impede mudá-lo caso ele torne-se insuportável. A regra
é, então, para ela, um incômodo sem muitas vantagens. Portanto, tudo o que a
abranda e a atenua somente pode melhorar sua situação de esposa. Eis por que
o divórcio a protege, porque ela também pode recorrer a ele facilmente.
(PFEFFERKORN, 2014, p. 46 apud DURKHEIM, 1963, pp. 306-307)

Durkheim vê a sociedade familiar como uma instituição onde os papeis são


predefinidos, e enxerga a mulher orientada por instintos, enquanto o homem conduzido
pela razão. Ao citar superficialmente em suas obras as relações desiguais dentro do
matrimônio, baseada expressivamente por questões de gênero, ele ainda enxerga o quão
necessário é a família e sua permanência: “um meio visando um fim que lhe é superior:
esse fim é a família que ele fundou e da qual ele assume, a partir de agora, a
responsabilidade. Cada esposo tornou-se um funcionário da sociedade doméstica”
(PFEFFERKORN, 2014, p. 48 apud DURKHEIM, 1963, pp. 182-183). Assim Durkheim
vê as relações entre homens e mulheres centradas na sociedade familiar.

Weber: erotismo, instituição familiar e dominação8 patriarcal

Max Weber escreveu obras importantes para as ciências sociais e sua perspectiva
teórica tem como principais contribuições a racionalização do mundo social, o
desencantamento, a ação social, os tipos ideais e de dominação, além do seu clássico A
ética protestante e o espírito do capitalismo em que ele investiga o capitalismo e suas
raízes religiosas. Um traço marcante para pensarmos em como Weber em suas obras, de
alguma forma, inseriu algumas discussões acerca das relações de gênero, erotismo e

8
Segundo Weber “[...] chamamos ‘dominação’ a probabilidade de encontrar obediência para ordens
específicas (ou todas) dentro de determinado grupo de pessoas. Não significa, portanto, toda a espécie de
possibilidade de exercer ‘poder’ ou ‘influência’ sobre outras pessoas. Em cada caso individual, a dominação
(‘autoridade’) assim definida pode basear-se nos mais diversos motivos de submissão: desde o hábito
inconsciente até considerações puramente racionais, referente a fins.” (1996, p. 139)
família é a sua companheira Marianne Weber, uma das pioneiras do feminismo alemão,
escreveu textos importantes e foi também colaboradora ativa nas obras de Weber como
em A ética protestante e o espírito do capitalismo e em Economia e Sociedade. Suas
produções tiveram como temáticas as relações sexuais, a família, a moral e o casamento.
Um dos textos pouco conhecido de Weber, traduzido para o francês como
Parenthèse theórique – não possui tradução para o português – trabalha as diferentes
esferas de valores, como econômica, política, erótica, intelectual, etc. Neste livro ele
utiliza de uma minigenealogia para explicar um tipo de feminilidade erotizada. Segundo
Eleni Varikas no livro O gênero nas Ciências Sociais: “Na minigenealogia da ‘senhora’
(die Dame) e do amor cortês, M. Weber encena o que poderíamos chamar de uma
mutação do gênero, que produz um novo tipo de feminilidade erotizada” (VARIKAS,
2014, pp. 434-435). A autora prossegue afirmando que a figura da senhora produz um
conhecimento com uma concepção sexista na medida em que marca o temor da
participação das mulheres nas áreas do conhecimento. Essa minigenealogia mostra,
segundo Varikas, a origem masculinista do cavalheirismo no amor cortês.
Já no clássico A ética protestante e o espírito do capitalismo, Weber entende que
a família, enquanto instituição ligada diretamente aos negócios, foi um obstáculo no
desenvolvimento do capitalismo racionalizado. Ao fazer um estudo comparativo entre
China e Índia, discorrendo sobre a última, percebeu que a quebra da estrutura corporativa
consanguínea foi crucial para a possibilidade da mudança para um capitalismo
racionalizado. Segundo o autor:

A separação entre oficina, escritório ou “negócio” de modo geral e a esfera


domiciliar privada, entre o capital da firma e a fortuna pessoal — noutras
palavras, entre a razão social e o nome da pessoa física — isso juntamente com
a tendência a transformar a “empresa”, o patrimônio posto em sociedade, num
corpus mysticum: tudo isso vai na mesma direção. (WEBER, 2004, p. 2167)

Neste sentido Weber aponta que a separação entre a esfera familiar e esfera dos
negócios foi decisiva para o desenvolvimento do capitalismo moderno. Weber ataca as
teorias da família que trabalhavam com estágios evolucionários, como Engels e Morgan,
entre outros. Para ele o matriarcado é um mito:

Não há provas sérias que opõem a afirmação de que o estado de domínio


chamado 'patriarcado' tenha sido precedido por outros nos povos a partir, pelo
menos, do momento em que as relações familiares foram objeto de um
desenvolvimento jurídico. É uma hipótese sem valor essa da existência
universal de um 'matrimônio com matriarcado', hipótese que mescla elementos
muito heterogêneos, como a ausência total de toda a regulação jurídica das
relações com os filhos... Igualmente errônea é a ideia de um estágio
intermediário de matrimônio por rapto que haveria conduzido o regime
matrilinear, originário e universal, ao sistema do 'patriarcado (WEBER, 1996,
p. 303)

Segundo o autor não existem fundamentos suficientes que comprovem a hipótese


de outras formas antecedentes ao patriarcado. Em relação ao patriarcado Weber em
Economia e Sociedade – Vol. 2, conceitua e descreve este tipo de dominação,
diferenciando-a do tipo de dominação burocrática:

Dos princípios estruturais pré-burocráticos é o mais importante a estrutura


patriarcal da dominação. Em sua essência, não se baseia no dever de servir a
determinada "finalidade" objetiva e impessoal e na obediência a normas
abstratas, senão precisamente no contrário: em relações de piedade
rigorosamente pessoais. Seu germe encontra-se na autoridade do chefe da
comunidade doméstica. A posição autoritária pessoal deste tem em comum
com a dominação burocrática, que está a serviço de finalidades objetivas, a
continuidade de sua existência, o "caráter cotidiano". Além disso, ambas
encontram seu apoio interior, em última instância, na obediência a "normas"
por parte dos submetidos ao poder. Estas normas, no caso da dominação
burocrática, são racionalmente criadas, apelam ao senso da legalidade abstrata
e baseiam-se em instrução técnica; na dominação patriarcal, ao contrário,
fundamentam-se na "tradição"; na crença na inviolabilidade daquilo que foi
assim desde sempre. E a significação das normas é nas duas fundamentalmente
diferente. Na dominação burocrática é a norma estatuída que cria a legitimação
do detentor concreto do poder para dar ordens concretas. Na dominação
patriarcal é a submissão pessoal ao senhor que garante a legitimidade das
regras por este estatuídas, e somente o fato e os limites de seu poder de mando
têm, por sua vez, sua origem em "normas", mas em normas não-estatuí- das,
sagradas pela tradição. Mas sempre prevalece na consciência dos submetidos,
sobre todas as demais ideias, o fato de que este potentado concreto é o
"senhor"; e na medida em que seu poder não está limitado pela tradição ou por
poderes concorrentes, ele o exerce de forma ilimitada e arbitrária, e sobretudo:
sem compromisso com regras. (1999, p. 234)

Ele descreve como a dominação patriarcal está fundamentada na ideia de tradição


e ainda acrescenta que as mulheres, os filhos e os servos estão sob a dominação do homem
baseados na crença de uma autoridade e da piedade submetidos à comunidade doméstica
e a convivência íntima, duradoura e pessoal. Segundo Weber, a dominação patriarcal é
transferida diante a presença de um novo senhor quando o antigo morre ou se retira por
outros motivos. Weber também classifica o tipo de dominação patrimonial, resultante da
dominação patriarcal e diz que: “[...] o poder doméstico descentralizado mediante a
cessão de terras e eventualmente de utensílios a filhos ou outros dependentes da
comunidade doméstica, queremos chamar de dominação patrimonial” (1999, p. 238).
Weber vê a família como um conjunto de relações sexuais e econômicas reguladas
pelo poder político. Couto (2002) em seu trabalho Em busca de uma teoria da família na
obra de Max Weber ressalta como a divisão sexual do trabalho influencia a organização
familiar e destaca que:
A análise de Collins, acerca de uma obra que não foi selecionada para este
trabalho (História da Economia Geral), sugere que para Weber a organização
do trabalho masculino e feminino influencia a estrutura da família. O trabalho
feminino está associado inicialmente à colheita, e posteriormente à
horticultura, tecelagem, cerâmica e ao cuidado de animais domésticos de
pequeno porte. O trabalho masculino está associado à caça, à aragem, ao
cuidado de animais de grande porte (gado). Quando a horticultura domina a
economia, a organização familiar é geralmente centrada na casa da mulher,
quando ela tem controle sobre o processo do trabalho. Consequentemente,
economias baseadas predominantemente na caça e pastoreio têm a estrutura
organizada em tomo do homem, sobre quem a mulher é economicamente
dependente. (p. 277)
Max Weber apresenta nesse trecho a relação de dominação relativa a economia.
O autor vê a mulher sob o domínio da autoridade masculina, seja através da comunidade
doméstica ou dos vassalos comprados por elas.
Ainda que o recorte escolhido para este trabalho não tenha sido o objeto de
pesquisa de Weber, percebemos, entremeada em suas obras, referências às questões de
gênero, erotismo e família. Apesar da dificuldade em identificar essas passagens este
trabalho foi provocativo, durante o processo observamos o autor através de uma outra
perspectiva, tornando nosso olhar mais atento. Apesar de Weber ter vivido em um
contexto do séc. XX, em que as mulheres não acessavam o meio acadêmico da mesma
forma que os homens, ele foi um incentivador da inserção das mulheres dentro das
universidades, influenciado principalmente por sua esposa Marianne Weber, este autor
foi um entusiasta do protagonismo das mulheres na academia.

Considerações finais

Começamos este trabalho esclarecendo que, embora, nenhum dos autores


apresentados aqui tivessem tido como recorte especificamente as relações de gênero,
sexualidade, e a partir delas o casamento, a monogamia e a família, os clássicos da
sociologia, em algum momento, em suas obras, produziram passagens/textos expressivos
em relação ao tema proposto.
Em Marx percebemos a relação do patriarcado, da família monogâmica para a
manutenção e desenvolvimento da propriedade privada e consequentemente para o
capitalismo, e como o feminismo marxista pensou essas relações tomando como exemplo
os trabalhos e a militância de Alexandra Kollontai. Em Durkheim notamos a relação do
suicídio com a questão do gênero/sexo e como a unidade conjugal, e mais estritamente, a
sociedade familiar influenciaram as taxas de suicídios. Em Weber observamos o erotismo
apresentado em um texto, do qual ainda não existe tradução para o português, e a
dominação patriarcal e patrimonial.
Achamos salutar pensar esses autores a partir dessas relações, a partir do eixo de
dominação e desigualdade social. Este trabalho nos impôs um esforço significante para a
compreensão do recorte escolhido. Tivemos o apoio, imprescindível, do livro O gênero
nas Ciências Sociais - Releituras críticas de Max Weber a Bruno Latour, que nos lançou
à luz das ideias destes autores relacionando suas teorias com as temáticas de gênero,
erotismo, família e conjugalidade. Além das obras clássicas, apreciamos alguns textos
pouco conhecidos dos clássicos da sociologia e descobrimos outras facetas destes autores.
O trabalho nos exigiu um olhar mais atento e ativo, o que em muitos momentos foi uma
árdua tarefa. No entanto, nos pareceu importante pensar esses autores através deste ângulo
e descobrir, para além de seus objetos, outros aspectos de suas obras.
Referências Bibliográficas

COUTO, Maria Thereza. Em busca de uma teoria da família na obra de Max


Weber. In: ci. & Tróp. Recife. v. 30, n.2, p. 267-282. jul./dez., 2002.

CRUZ, Paula Loureiro da. Alexandra Kollontai: mulher, o direito e o socialismo.


2007. Dissertação (Mestrado em direito político e econômico) – Coordenadoria de Pós-
graduação, Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2011.

DURKHEIM, Émile. O suicídio: estudo de sociologia. Trad. Mônica Stabel. São Paulo:
Martins Fontes, 2000.

ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado.


Trad. Leandro Konder. 3 ed. São Paulo: Expressão Popular, 2012.

HARAWAY, Donna. “Gênero” para um dicionário marxista: a política sexual de


uma palavra. cadernos pagu (22) 2004: pp.201-246.

HOLMSTROM, Nancy. Como Karl Marx pode contribuir para a compreensão do


gênero? In: RYCHTER, Danielle Chabaud. et al. O gênero nas ciências sociais:
releituras críticas de Max Weber a Bruno Latour. Trad. Lineimar Pereira Martins. São
Paulo, 2014.

MARX, Karl. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus
representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes
profetas. Trad. Rubens Enderle, Nélio Schneider, Luciano Cavini Martorano. São Paulo:
Boitempo, 2007

MARX, Karl. Sobre o suicídio. Trad. Rubens Enderle e Francisco Fontanella. São
Paulo: Boitempo, 2006.

MARX, Karl. Teorias da mais-valia: história crítica do pensamento econômico. In:


Livro IV de O Capital. Tra. Reginaldo Sant’Anna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
1987.

PFEFFERKOM, Roland. Émile Drukheim e a unidade orgânica da sociedade


conjugal. In: RYCHTER, Danielle Chabaud. et al. O gênero nas ciências sociais:
releituras críticas de Max Weber a Bruno Latour. Trad. Lineimar Pereira Martins. São
Paulo, 2014.

SALIH, Sara. Judith Butler e a teoria queer. Trad. e notas Guacira Lopes Louro. 2.
ed.; 2. Reimp. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.

VARIKAS, Eleni. Max Weber, a gaiola de aço e as senhoras. In: RYCHTER,


Danielle Chabaud. et al. O gênero nas ciências sociais: releituras críticas de Max Weber
a Bruno Latour. Trad. Lineimar Pereira Martins. São Paulo, 2014.

WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. Trad. José Marcos


Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Vol.
2. Trad. Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa; Revisão técnica de Gabriel Cohn -
Brasília, DF, Editora Universidade de Brasília: São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de
São Paulo, 1999. 586 p.

WEBER. Max. Economia y sociedad. México, DE: Fundo de Cultura Económica.


1996.