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AULA 1

Políticas sociais e educação no Brasil

Nesta aula inicial, nosso tema central é o Estado; veremos algumas


noções teóricas de Estado e de governo. A partir dessa análise, discu-
tiremos aspectos relativos às políticas públicas no âmbito do Estado
capitalista e características do federalismo brasileiro e suas implica-
ções para a organização da educação.
O objetivo desta primeira aula é fornecer-lhe alguns elementos teóricos
que constituem o que podemos chamar de “pano de fundo” para o seu
estudo de Política Educacional. São noções básicas de ciência política
e de direito constitucional, essenciais para a compreensão das discus-
sões mais específicas da Política Educacional.
O que você entende quando se depara com a palavra estado (não
importa se grafada com a letra inicial maiúscula ou minúscula) em um
texto?
Vejamos o que nos diz o Dicionário Aurélio século XXI sobre os signifi-
cados da palavra estado (do latim statu), que possui tantas acepções
diferentes:

estado [Do lat. statu.]

S. m.

1. Modo de ser ou estar.

2. Situação ou disposição em que se acham as pessoas ou as coisas em


um momento dado: estado de saúde; estado de espírito; estado de
abandono; “A tudo se habitua o homem, a todo o estado se afaz”
(Almeida Garrett, Viagens na minha terra, p. 178).

3. Modo de existir na sociedade; situação social ou profissional;


condição: estado militar; estado eclesiástico; estado de escravidão;
“Eu sou Lereno, / De baixo estado, / Choça nem gado / Dar poderei.”
(Domingos Caldas Barbosa, ap. Sérgio Buarque de Holanda, Anto-
logia dos poetas brasileiros da fase colonial, I, p. 296).

4. Conjunto das condições físicas e morais de uma pessoa: No seu


estado, a jovem só pensava no filho que ia nascer.

             
  
              
POLÍTICA EDUCACIONAL

5. Luxo, pompa, fausto, ostentação, magnificência: O magnata vivia


em grande estado.

6. Lista enumerativa; inventário; registro: o estado das despesas, dos


bens.

7. Cada uma das classes ou categorias do corpo social, especialmente


as que se reportam à divisão tradicional adotada no antigo regime
monárquico francês (clero, nobreza e povo). [V. estados-gerais.]

8. O conjunto dos poderes políticos de uma nação; governo: estado


republicano; estado democrático; estado totalitário.

9. Divisão territorial de certos países: O Brasil tem 26 estados e um


distrito federal.

10. Dir. Nação politicamente organizada. [Nesta acepç., com cap.]

11. Organismo político administrativo que, como nação soberana ou


divisão territorial, ocupa um território determinado, é dirigido por
governo próprio e se constitui pessoa jurídica de direito público,
internacionalmente reconhecida.

12. Sociedade politicamente organizada.

13. Cronol. Estado absoluto de um relógio (q. v.).

14. Fís. Estado de agregação (q. v.).

15. Fís. Conjunto de valores das grandezas físicas de um sistema,


necessário e suficiente para caracterizar univocamente a situação
física deste sistema.

16. Grav. Cada uma das fases da execução de uma gravura, de que se
tira prova para verificação do trabalho: primeiro estado, segundo
estado etc.

17. Ant. Situação estacionária; parada.

18. Ant. Altura ordinária de um homem.

19. Ant. Ofício de defuntos.

Estado absoluto de um relógio. Cronol.

1. Intervalo de tempo que se deve adicionar algebricamente à hora


marcada por um relógio para se ter a hora correta. [Tb. se diz
apenas estado.]

Estado assistencial.

1. V. welfare State.

Estado civil.

1. Situação jurídica de uma pessoa em relação à família ou à socie-


dade, considerando-se o nascimento, filiação, sexo etc. (solteiro,
casado, desquitado, viúvo etc.).

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AULA 1

Estado coloidal. Fís.-Quím.

1. Estado de subdivisão das partículas da fase dispersa de um coloide.

Estado de agregação. Fís.

1. Uma das formas de agregação (sólida, líquida ou gasosa) que pode


apresentar uma substância. [Tb. se diz apenas estado.]

Estado de choque. Psiq.

1. Estado em que, de modo súbito e em consequência de emoção


violenta, ou de acontecimento psiquicamente muito traumati-
zante, se instala depressão (9) ou perda de autodomínio.

Estado de coisas.

1. Circunstâncias, conjunturas.

Estado de coma.

1. Coma 2.

Estado de direito. Polít.

1. Estado (8) regulado por uma constituição que prevê uma plurali-
dade de órgãos dotados de competência distinta explicitamente
determinada.

Estado de graça. Rel.

1. O de inocência, oposto ao de pecado.

Estado de inocência.

1. Desconhecimento do bem e do mal.

Estado de necessidade. Jur.

1. Situação em que se acha alguém que sacrifica direito alheio para


salvar direito próprio ou alheio de um perigo atual, ao qual não deu
causa, e que não pôde evitar.

Estado de sítio.

1. Suspensão temporária de certos direitos e garantias individuais.

Estado de transição. Quím.

1. Arranjo atômico que se forma no curso de uma reação, quando


a energia chega a um valor máximo. [Tanto as ligações que se
rompem quanto as que se formam na reação estão distendidas.]

Estado dubleto. Fís.

1. Dubleto (3).

Estado estacionário. Quím.

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POLÍTICA EDUCACIONAL

1. Situação em que a concentração de uma substância não varia com


o tempo, apesar de estar ela sendo formada e consumida simulta-
neamente.

Estado excitado. Fís.

1. Estado de um sistema em que a energia é superior à do estado


fundamental.

Estado fundamental. Fís.

1. Em um átomo ou num grupamento de átomos, a configuração


correspondente à energia potencial mínima.

Estado gasoso. Fís.

1. Estado de agregação de uma substância no qual as moléculas ou os


átomos estão relativamente distantes uns dos outros e as forças
atrativas ou repulsivas são, em média, pequenas.

Estado interessante. Pop.

1. A gravidez.

Estado ligado. Fís. Part.

1. Sistema coeso formado por duas ou mais partículas e que é mantido


pela energia de ligação (q. v.).

Estado líquido. Fís.

1. Estado de agregação de uma substância no qual as moléculas ou


os átomos estão, em média, muito mais próximos uns dos outros
que no estado gasoso, havendo uma ordenação espacial local e
transitória, e uma interação relativamente intensa das partículas
vizinhas.

Estado metaestável.

1. Fís. Estado em que uma substância ou um sistema pode perma-


necer, apesar de não ser estável nas condições físicas em que se
encontra.

2. Fís. Nucl. Estado excitado do núcleo ou do átomo que tem uma vida
média apreciável.

Estado político.

1. Situação jurídica da pessoa em relação ao Estado (cidadania e


nacionalidade).

Estado religioso.

1. Na religião católica, a ligação, mediante os três votos, de pobreza,


castidade e obediência, com uma congregação, instituto ou ordem
religiosa.

Estado singleto. Fís.

1. Singleto (2).

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Estado sólido. Fís.

1. Estado de agregação de uma substância cujas partículas consti-


tutivas (moléculas, íons, átomos) se acham arrumadas ordenada-
mente no espaço, formando uma rede cristalina, e em que há uma
forte interação das partículas vizinhas.

Estado tripleto. Fís.

1. Tripleto (2).

Em estado de graça.

1. Estado em que se encontra quem goza ou como que goza da graça


divina, ou por ela foi tocado.

Mudar de estado.

1. V. tomar estado (1).

No estado.

1. No estado (2) em que se encontra um objeto, sem alteração,


melhoria ou restauração.

Terceiro estado. Hist.

1. Designação dada outrora ao povo, em relação aos outros dois


estados, que eram o clero e a nobreza. [V. estado (7).]

Tomar estado.

1. Casar-se, matrimoniar-se; mudar de estado: “Casou-se, não por


amor, mas para tomar estado, para casar-se, como todas.” (Mário
Donato, A parábola das 4 cruzes, p. 71.)

2. Pôr casa.

3. Tomar um modo de vida.

4. Bras. S. Ficar em boas condições. [Us. nesta acepç. especialmente


com relação ao cavalo de corrida ou ao galo de rinha que se tornaram
aptos para os respectivos esportes.]

No nosso caso, estado significará, basicamente, duas coisas: o Estado


brasileiro, “organismo político administrativo que, como nação sobe-
rana ou divisão territorial, ocupa um território determinado, é dirigido
por governo próprio e se constitui pessoa jurídica de direito público,
internacionalmente reconhecida” e o estado-membro, a divisão terri-
torial do país (o Brasil tem 26 estados e um distrito federal). No
primeiro caso, o adjetivo correspondente é “estatal” e para a segunda
acepção, “estadual”.
Desse modo, quando falamos da “política estadual” ou de um “banco
estadual”, estamos nos referindo à ação ou a uma instituição de um
governo de estado-membro, como Minas Gerais, por exemplo, e quando

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POLÍTICA EDUCACIONAL

usamos “estatal”, referimo-nos ao estado no seu sentido mais amplo.


Vale observar, porém, que esse adjetivo “estatal” serve para designar,
por exemplo, uma empresa municipal ou estadual, qualificando-a de
“estatal”, até porque não podemos confundir “estatal” com “federal”,
termo que diz respeito ao governo da União, já que o Estado brasi-
leiro, conforme definido pelo Art. 1º da nossa Constituição Federal
de 1988 (CF/88), é a “República Federativa do Brasil, formada pela
união indissolúvel dos estados e Municípios e do Distrito Federal”,
que “constitui-se em Estado Democrático de Direito”. A organização
político-administrativa da República, compreendendo a União, os
estados, o Distrito Federal e os municípios, é reafirmada no Art. 18
da CF/88. E quando falamos em “governo da União” não estamos nos
referindo apenas ao Poder Executivo, já que esse âmbito de governo,
assim como o dos estados-membros, compreende também os poderes
Legislativo e Judiciário. Os municípios tecnicamente não contam com
um “governo”, pois possuem somente os poderes Executivo (prefeito
municipal) e Legislativo (Câmara Municipal), não existindo o Poder
Judiciário municipal.1

ATIVIDADE COMPLEMENTAR Nº 1

Elabore um texto, de aproximadamente duas páginas, fazendo uma


apresentação pessoal, refletindo sobre a sua trajetória acadêmico-
-profissional, com ênfase na discussão de sua opção pela carreira
de professor e nas razões da escolha deste curso, comentando a sua
experiência profissional no magistério, se houver.

ATIVIDADE COMPLEMENTAR Nº 2

Saiba mais sobre a Organização do Estado e sobre a Organização


dos Poderes, lendo os Títulos III e IV da nossa CF/88, os quais
compreendem os Art. 18 a 43 e 44 a 135.
Após a leitura, registre as principais características da organização
jurídica e política do Estado brasileiro.
Dica: se você ainda não tem a Constituição, baixe o texto completo e
atualizado, disponível em:
<www.presidencia.gov.br/legislacao>
ou diretamente pelo link
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.
1
Vale lembrar que temos htm>.
os Tribunais de Contas
em alguns municípios,
mas estes são órgãos de
assessoramento do Poder
Aproveitando que mencionamos, anteriormente, a palavra governo,
Legislativo e, apesar do ao fazer referência ao governo da União e ao governo dos municípios,
nome de “tribunal”, não vamos agora confrontar Estado e governo, que muitas vezes aparecem
integram o Judiciário.
como sinônimos, mas não são.

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AULA 1

Você já sabe diferenciar o Estado brasileiro, que tem personalidade jurí-


dica internacional, do estado-membro, ou simplesmente chamado de
estado, que é uma parte da nossa República Federativa – a UF, Unidade
da Federação, que preenchemos nos formulários diariamente –, a qual
possui personalidade jurídica interna.
Mas como poderemos compreender Estado e governo? É muito
simples: pense em um condomínio de um prédio residencial que possui
um síndico. O síndico é eleito, periodicamente, para administrar os
recursos financeiros e gerir os problemas do condomínio desse prédio,
por um determinado período de tempo. Podemos, para simplificar,
entender o síndico como o “governo” e o condomínio como “Estado”. O
condomínio é um pacto jurídico, um acordo entre pessoas, que possui
um espaço físico delimitado (território), pode possuir funcionários
etc., é permanente (ao menos enquanto dure, pois o prédio pode cair,
assim como os Estados acabam, como a antiga União Soviética, por
exemplo, e se transformam em outros Estados). O síndico é transi-
tório, tem um mandato, administra o que é comum em nome de todos
e a estes deve prestar contas e por eles pode ser destituído.
Pois bem, a comparação acima é para ilustrar, de modo direto, a dife-
rença entre Estado e governo, certo de que, neste caso, a situação do
Estado é mais complexa do que a de um síndico e de seu condomínio
residencial.
O Estado possui o monopólio da “vis”, expressão latina que significa
“força”. O Brasil não adota a pena de morte, mas alguns estados a
utilizam como a expressão máxima de sua “força”. Entretanto, o Estado
brasileiro pode, através de decisão fundamentada do Poder Judiciário,
determinar a perda da liberdade, ou confiscar os bens de uma pessoa,
ou exercer tantos outros poderes decorrentes de sua soberania.
Apenas os Estados nacionais possuem “soberania”, que, nas últimas
décadas, vem sendo diminuída, por vontade desses Estados, para
transferir parte dos seus poderes para uma organização regional. Por
exemplo, podemos citar o caso dos Estados que integram a União
Europeia e que decidiram adotar uma moeda comum, o Euro, abrindo
mão de uma prerrogativa relevante da sua soberania, que é o poder de
emissão da moeda circulante no seu território, e de tomarem sozinhos
todas as decisões sobre política monetária. De modo mais tímido,
temos aqui o Mercosul.
O Estado nacional precisa ser administrado por pessoas, que são o
governo. No Brasil, atualmente, o governo é eleito periodicamente, de
acordo com as regras previstas na CF/88. No caso do Executivo e do
Legislativo, os governantes são eleitos para mandatos de quatro anos
(presidente da República, governadores, deputados estaduais e fede-
rais, prefeitos e vereadores) e de oito anos (senadores). Os membros
do Judiciário não são eleitos. A noção de governo traz consigo a ideia
de uma bandeira ideológica, de “partido”, ou seja, de uma plataforma

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POLÍTICA EDUCACIONAL

de ações a serem implementadas naquele período de mandato em que


essas pessoas estarão administrando o Estado. E os eleitores, que se
identificam com essa ou com aquela proposta, levam esse grupo para o
poder, por determinado tempo.
Essa discussão nos remete às teorias que buscam explicar o surgimento
do Estado moderno e justificá-lo. O que funda o Estado é a soma da
parcela da liberdade que cada cidadão renuncia. Em outras palavras:
estabelecemos um “pacto social”, conferindo a um terceiro, o Estado,
poderes para arbitrar os conflitos entre os cidadãos e exercer a justiça
e o bem comum. Assim, é o Estado que garante que você possui algo,
que lhe confere o direito de propriedade deste livro, por exemplo, ou de
qualquer outra coisa. Outro tipo de Estado poderia, por exemplo, esta-
belecer a propriedade coletiva de todos os bens. Quando abrimos mão
de parte de nossa liberdade e passamos a fazer ou deixar de fazer algo
em observância da lei, é porque reconhecemos um ordenamento jurí-
dico como válido e nos submetemos a ele. De outro modo, teríamos a
“guerra de todos contra todos”, que seria o cenário descrito por Thomas
Hobbes como anterior ao surgimento do Estado, e, assim, todos pode-
riam matar, roubar, quebrar, estuprar etc. livremente, na ausência do
Estado. É o Estado que diz o que é crime, como se procede à investi-
gação, que determina a punição e a reparação do dano etc. É o mesmo
Estado que determina que você deve pagar impostos (e no Brasil são
muitos) para financiá-lo. E o Estado vai retornar esses impostos, pagos
por todos, em políticas públicas, ou seja, ações estatais para todos, no
sentido de garantir os direitos civis, sociais e políticos.
Antes, porém, de abordar as noções de políticas e direitos, retorna-
remos ao conceito de Estado, para diferenciar Estado unitário de
Estado federativo.
Como mencionado acima, por definição da nossa Constituição, o Brasil
é uma “República Federativa”. O que isso significa? Em primeiro lugar,
nem todo Estado se organiza como república, já que temos reinos e
impérios. E nem toda república é federativa. E nem toda federação é
igual, existindo Estados que são mais uma confederação, cujos estados-
-membros gozam de mais ou de menos autonomia do que outros.
O Brasil, portanto, é hoje um Estado federativo, ou federado, para
alguns autores. Nem sempre foi assim: no início de nossa existência
como Estado independente, a partir de 1822, fomos reino, por curto
período, e império. Éramos um Estado unitário, ou seja, o poder não
era dividido em esferas administrativas (federal, estadual e municipal)
como atualmente. Nos períodos de ditadura (Vargas, após 1937, e
militar, a partir de 1964) vivemos, de fato, um Estado unitário, com
o governo central (federal) controlando também as esferas estaduais
e municipais.
Ser um Estado federativo significa que o poder é exercido por dife-
rentes instâncias de governo, que podem ser (e são, atualmente)

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AULA 1

eleitas separadamente. Assim, temos um prefeito do partido “A”, um


governador do partido “B”, um presidente do partido “C”, legislativos
com maiorias de outros partidos. O que caracteriza uma federação é
que um governo não interfere em outro governo. A cada esfera admi-
nistrativa correspondem recursos (tributos, que podem ser impostos,
taxas e contribuições) e atribuições específicos. O presidente da Repú-
blica não pode exonerar um servidor municipal, por exemplo, nem
decidir sobre questões relativas ao IPTU, que é um imposto municipal.
Da mesma forma, só o Congresso Nacional pode legislar sobre deter-
minadas matérias, como direito penal, direito processual e tantas
outras. No caso da educação, por exemplo, a CF/88 estabelece, no seu
Art. 22, Inciso XXIV, como competência privativa da União, legislar
sobre as diretrizes e bases da educação nacional, sendo que a União,
os estados e o Distrito Federal podem legislar concorrentemente2
sobre educação, conforme prevê o Art. 24, Inciso IX. Já aos municípios
compete “suplementar a legislação federal e estadual no que couber”
(Art. 30, II).
A própria CF/88, conforme veremos mais detalhadamente na Aula
2, estabelece, para o caso da educação, que “A União, os Estados, o
Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de colaboração
seus sistemas de ensino” (caput do Art. 211), detalhando as responsa-
bilidades de cada um dos entes da federação.
Se no Estado federativo existem vários níveis de governo, com partidos
e propostas diferenciadas, no Estado unitário o governo é um só e,
com isso, o Estado não se debate com entraves internos, conflitos de
legislação, necessidade de acordos, adesões, contratos, convênios,
disputas partidárias e outras dificuldades. E aqui entram outras ques-
tões: o Estado unitário é mais autoritário que o federativo? Por ser
mais centralizado, o Estado unitário é necessariamente um Estado 2
De acordo com
autoritário? Por ser mais descentralizado administrativamente, o CUNHA (2002, p. 50),
Estado federativo seria mais democrático que o Estado unitário? A um competência privativa
Estado federativo deve corresponder um sistema presidencialista, e a é a competência
exclusiva, ou seja, aquela
um Estado unitário um sistema parlamentarista? que exclui qualquer outra
com o mesmo conteúdo,
Vamos examinar, mais adiante, essas questões. O binômio centrali- e competência
zação/descentralização vai nos interessar para jogar luz na discussão concorrente é a que se
sobre a municipalização do ensino fundamental, uma decorrência do exerce simultaneamente
sobre a mesma matéria,
FUNDEF, criado em 1996. por mais de uma
autoridade ou órgão.
Já a questão do parlamentarismo ou presidencialismo marcou a elabo-
ração da CF/88, que foi pensada na direção do parlamentarismo, mas Dica: sempre que você
acabou adotando o presidencialismo. Nos Estados que adotam o parla- tiver dúvidas sobre
o significado de uma
mentarismo (monarquia ou república), há uma separação entre o chefe expressão, termo ou
de governo e o chefe de Estado, como na Inglaterra, por exemplo, onde conceito, procure
temos a rainha como chefe de Estado e um primeiro-ministro como consultar um dicionário
específico de direito ou
chefe de governo. Nesses sistemas, há um fortalecimento dos partidos, de ciência política, ou um
e os governos podem mudar mais facilmente antes das eleições. dicionário comum.

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POLÍTICA EDUCACIONAL

Em muitos casos, o sistema eleitoral é diferente, com voto distrital ou


distrital misto, em geral facultativo.
No Brasil, com um sistema fortemente presidencialista, encontramos
um Poder Executivo forte, que inclusive legisla mais que o próprio
Poder Legislativo, cuja agenda vive a reboque do primeiro.3
Retomemos a discussão sobre Estado e políticas públicas. É impres-
cindível considerar que um Estado não existe abstratamente, ou seja,
o Estado é uma construção política, tem historicidade, determinantes
econômicos, culturais, dentre outros. Existem diferentes tipos de
Estado, por exemplo, o Irã, atualmente em evidência na mídia, é um
Estado teocrático, em que as instituições do poder civil se confundem
com as do poder religioso. De modo geral, os Estados atuais são desvin-
culados das Igrejas, são instituições civis, laicas.
No caso brasileiro, a CF/88, no seu Art. 19, I, prevê expressamente
essa separação entre Igreja e Estado, vedando à União, aos estados, ao
Distrito Federal e aos municípios “estabelecer cultos religiosos ou igrejas,
subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles
ou seus representantes relações de dependência ou aliança” (Art. 19, I).
Mas nem sempre foi assim: no Brasil, durante o Império, a Igreja e
o Estado estavam vinculados, sendo o imperador chefe de Estado, de
governo e também chefe da Igreja, sendo esta responsável pelo registro
de nascimentos, casamentos e óbitos, que só a partir da Proclamação
da República, instituída pelo golpe militar de 1889, passaram a ser de
responsabilidade do Estado. Ainda hoje encontramos resquícios dessa
união: símbolos da religião católica, como cruz e capelas, em escolas
públicas, fóruns e casas legislativas.4

3
Além desse aspecto cultural, que também poderia ser abordado a partir
Sobre esse ponto, ver
o livro de Rosimar de da questão linguística, por exemplo, pretendo enfatizar os determi-
Fátima Oliveira, baseado nantes econômicos, ou seja, estamos falando, no caso brasileiro, de
na pesquisa da sua tese um Estado inserido na economia capitalista. Foge aos objetivos desta
de doutorado na USP, em
2005, que analisou o papel
aula aprofundar análises sobre o capitalismo. De qualquer modo,
do Congresso Nacional recomendo-lhes que leiam sobre o tema, procurando compreender um
em matéria educacional, pouco mais sobre a educação no modo de produção capitalista. Sendo
após a LDB de 1996 um produtor de desigualdades, e alimentando-se destas, o capitalismo
(OLIVEIRA, 2009).
não funciona com o pressuposto da igualdade entre as pessoas, não
4
Recentemente, em maio tem esse objetivo. Não falo da igualdade jurídica de todos perante a lei,
de 2009, na abertura
dos trabalhos do Fórum
mas da igualdade de oportunidades, de condições de acesso aos bens
sobre o Plano Decenal de consumo, ao trabalho, à própria educação. Dessa desigualdade, ou
de Educação de Minas para minimizá-la, decorrem políticas de ações afirmativas, como cotas
Gerais, por exemplo, a e bônus, por exemplo, em que o Estado assume um papel de “equali-
deputada que presidia a
Comissão de Educação da zador”, digamos assim, das diferenças.
Assembleia Legislativa do
Estado de Minas Gerais E a escola pública hoje, no Brasil? Quem são os seus alunos? Qual a
rezou um Pai-nosso na remuneração de um professor de educação infantil? Ou de ensino
abertura do evento. fundamental e médio? Qual o papel da escola no capitalismo? Muitas

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AULA 1

dessas questões são estudadas por outras disciplinas, como a sociologia


da educação ou a filosofia da educação, mas devemos ter consciência
de que, ao estudarmos Política Educacional, estamos lidando com um
Estado concreto, específico, o Estado capitalista, e que essa condição
é determinante de uma dada concepção de educação, condicionando a
formulação das políticas para esse setor. É nesse sentido que Eloísa de
Mattos Höfling inicia o seu artigo “Estado e políticas (públicas) sociais”:5
Para além da crescente sofisticação na produção de instrumentos de
avaliação de programas, projetos e mesmo de políticas públicas é funda-
mental se referir às chamadas “questões de fundo”, as quais informam,
basicamente, as decisões tomadas, as escolhas feitas, os caminhos de
implementação traçados e os modelos de avaliação aplicados, em relação a
uma estratégia de intervenção governamental qualquer.
E uma destas relações consideradas fundamentais é a que se estabelece
entre Estado e políticas sociais, ou melhor, entre a concepção de Estado e
a(s) política(s) que este implementa, em uma determinada sociedade, em
determinado período histórico.6

Logo a seguir, a autora faz a diferenciação entre Estado e governo:


Torna-se importante aqui ressaltar a diferenciação entre Estado e governo.
Para se adotar uma compreensão sintética compatível com os objetivos
deste texto, é possível se considerar Estado como o conjunto de institui-
ções permanentes – como órgãos legislativos, tribunais, exército e outras
que não formam um bloco monolítico necessariamente – que possibilitam
a ação do governo; e Governo, como o conjunto de programas e projetos
que parte da sociedade (políticos, técnicos, organismos da sociedade civil
e outros) propõe para a sociedade como um todo, configurando-se a orien-
tação política de um determinado governo que assume e desempenha as
funções de Estado por um determinado período.
Políticas públicas são aqui entendidas como o “Estado em ação” (GOBERT;
MULLER, 1987); é o Estado implantando um projeto de governo, através
de programas, de ações voltadas para setores específicos da sociedade.7

No mesmo texto, Höfling discute características do Estado capitalista


e das teorias liberais e neoliberais.

ATIVIDADE COMPLEMENTAR Nº 3

Leia o artigo “Estado e políticas (públicas) sociais”.8


Dica: baixe o texto, acessando a página do Portal Scielo, disponível
em: <www.scielo.br>,
ou diretamente pelo link: 5
HÖFLING, 2001,
<http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v21n55/5539.pdf>. p. 30-41.
Após a leitura, faça uma síntese, de aproximadamente uma página, 6
HÖFLING, 2001, p. 31.
dos principais conceitos trabalhados no texto pela autora. 7
HÖFLING, 2001, p. 31.
8
HÖFLING, 2001,
Discutindo o Estado federativo e a descentralização das políticas p. 30-41.
sociais, Marta Arretche trata da distribuição da autoridade política dos 9
ARRETCHE, 2002,
Estados nacionais no artigo “Relações federativas nas políticas sociais”.9 p. 25-48.

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POLÍTICA EDUCACIONAL

A autora discute a municipalização da oferta de matrículas no ensino


fundamental, ocorrida no governo Fernando Henrique, focalizando
a educação ao lado de outras políticas sociais, como saúde, habitação
e saneamento. Este texto e o anterior, apesar de não serem textos
recentes, são complementares e trazem conceitos teóricos relevantes
para o nosso estudo.

ATIVIDADE COMPLEMENTAR Nº 4

Leia o artigo “Relações federativas nas políticas sociais”.10


Dica: baixe o texto acessando a página do Portal Scielo, disponível
em: <www.scielo.br>,
ou diretamente no link:
<http://www.scielo.br/pdf/es/v23n80/12922.pdf>.
Após a leitura, faça uma síntese do texto de no máximo uma página.

Outros autores, como Cleiton de Oliveira, por exemplo, também


discutem a municipalização do ensino e nos trazem interessantes
discussões teóricas sobre centralização e descentralização, concen-
tração e desconcentração, analisando o impacto da municipalização do
ensino fundamental decorrente do FUNDEF.
Se você tiver interesse em ler mais sobre Estado, recomendo-lhe Os
clássicos da política, um livro didático, em dois volumes, organizado por
Francisco Carlos Weffort, que traz fragmentos de textos e comentários
sobre a vida e a obra de autores clássicos (Maquiavel, Hobbes, Locke,
Montesquieu, Rousseau e O federalista, no vol. 1, e Burke, Kant, Hegel,
Tocqueville, Stuart Mill e Marx, no vol. 2).
Outra indicação que não pode faltar é a do Dicionário de política, orga-
nizado por Norberto Bobbio e outros, em dois volumes. Leia especial-
mente os verbetes estado contemporâneo e governo, ambos no vol. 1.
Concluindo esta aula, faça uma revisão dessas “questões de fundo” rela-
tivas a Estado e políticas sociais, lendo outro artigo de Marta Arretche
sobre políticas sociais e federalismo, conforme indicado a seguir.

ATIVIDADE COMPLEMENTAR Nº 5

10
ARRETCHE, 2002,
“Federalismo e políticas sociais no Brasil: problemas de coordenação
p. 25-48. e autonomia”.11
Dica: baixe o texto, acessando a página do Portal Scielo, disponível
11
ARRETCHE, 2004,
p. 17-26. em: <www.scielo.br>,
ou diretamente no link
<http://www.scielo.br/pdf/spp/v18n2/a03v18n2.pdf>.

26

             
  
               
AULA 1

Na próxima aula, iremos estudar as disposições sobre educação na


Constituição de 1988.

ATIVIDADE COMPLEMENTAR Nº 6

Com relação ao artigo “Relações federativas nas políticas sociais”, 12


responda as seguintes questões:

1. Discutir as relações entre centralização e autoritarismo,


comentando a situação do Brasil, conforme apontado pela
autora, fazendo as distinções entre Estados unitários e
Estados federativos.
2. “Entre 1997 e 2000, ocorreu no Brasil uma significativa redis-
tribuição das matrículas no nível fundamental de ensino” (p.
38). Discutir esse processo de municipalização, com base no
texto.
3. Comentar as conclusões da autora sobre a “capacidade de veto
dos governos locais” em relação à implementação de políticas
de descentralização.
4. Expressar a sua opinião em relação às políticas de descentra-
lização, mais especificamente em educação (p. 31 e p. 48, na
última linha do texto).

12
ARRETCHE, 2002,
p. 25-48.

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