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AS VIRTUDES DO BOM OCULTISTA

Como um primeiro texto básico de uma série voltada aos iniciantes nos estudos e práticas do caminho
Ocultista, apresentamos de forma sintética alguns bons princípios que poderão ajudar a orientar os que buscam
se aprimorar e desenvolverem o melhor de suas habilidades e capacidades pessoais e espirituais.
Para isso, cinco "virtudes" ou "atitudes" são essenciais ao caráter de todo bom estudante e praticante, quais
sejam:
1. INDEPENDÊNCIA
Um bom estudante de Filosofia Oculta não fica na dependência de mestres e instituições para adquirir
conhecimento. A busca pela Iniciação e pela Verdade estarão sempre acima do apelo coletivo e do julgamento
de quaisquer autoridades que desejem tornar o conhecimento perene como dogma escrito em pedra. O estudo
biográfico dos grandes iniciados permite constatar que todos no auge de suas carreiras optaram pelo estudo e
prática solitários a fim de deixarem suas próprias marcas na história.
É claro que, numa fase inicial, todos passam pela necessidade de aprendizado em grupo ou tutelado por um
orientador, e isso é natural e benéfico até o ponto no qual a experiência e a vivência irão empurrar para fora do
inconsciente do estudante a vontade de explorar o desconhecido, munido do que estiver à mão, precisando
muitas vezes arriscar o salto no escuro sem a dependência de outrem.
2. CORAGEM
No fim das contas você está só. Não existirá mais desculpas para seus fracassos que não seja a si próprio e as
suas limitações circunstanciais. Crowley por vezes afirmava que "o medo é prenúncio do fracasso".
Errou? Por que? Como? Quando? Dá para corrigir? Dá para tentar novamente? Thomas Edison também se
perguntava isso e chegou a uma boa síntese ao concluir que não se falha, mas se descobre dez mil maneiras
das quais algo não funciona.
A culpa será sempre sua, assim como o mérito, e de mais ninguém. Acreditar em si mesmo é fundamental para
ousar ir onde os outros não foram e tentar o que muitos acham que é apenas especulação.
3. QUESTIONAMENTO
Senso crítico e investigativo é fundamental para não deixar-se enganar por seu próprio ego. Dar-se ao benefício
da dúvida é essencial para manter a mente equilibrada, além de uma demonstração saudável de humildade
pessoal que não incorra em subserviência.
Ademais, o questionamento permite separar o joio do trigo, do que é realmente valioso e crível, se a informação
é verdadeira ou dogma, se que o diz é alguém experiente e com vivência ou um embuste atrás de holofotes e
dinheiro.
O questionamento permite não ser levado ao servilismo com um séquito de adoradores, nem ajoelhar-se aos
abusos físicos, mentais e espirituais a uma pretensa figura de autoridade ou a um culto de personalidade.
É melhor ser um ronin, sem um senhor digno a servir, que um escravo patético que se contenta com as
migalhas oferecidas pelo dono do canil.
4. RESILIÊNCIA
Vivemos em uma era de ilusões provocadas pelas mídias sociais, pela difusão digital em larga escala e pelo
excesso de informação que nos causa síndromes diversas como a do pensamento acelerado. Na internet todo
mundo é especialista, mago implacável, feiticeiro temido, mas quantos desses vivem isso em vez de viverem
disso?
Resiliência é a capacidade de viver e adaptar-se as adversidades e sobreviver aos momentos mais terríveis ou
medíocres de nossa própria existência mundana. Buscamos a transcendência num mundo que nos prende a
informações supérfluas, mentirosas e cadenciadas por interesses nada nobres. Além disso, vivemos numa
geração onde o medo é encubado na mente das pessoas que vivem dentro de suas próprias bolhas sociais e
não confrontam a realidade prática.
Evitar o excesso de apreensão mental - tão característico da mente ocidental - é fundamental para não
incorrermos no triste fenômeno da indigestão literária, onde basta se ler uma centena de livros sobre ritos e
iluminações sem nunca ter se proposto a um retiro, onde a moda é ter os livros do momento sem saber quem
foram os precedentes, onde todo mundo se torna especialista escutando podcasts e livestreams.
Giordano Bruno morreu na fogueira. Cornelius Agrippa na miséria. Dion Fortune passou por fracassos e
traições amorosas. Karl Germer recitava trechos de Liber AL enquanto era mantido num campo de
concentração nazista. Franz Bardon fugia do nazismo e tentava sobreviver ao comunismo. Crowley - que hoje
louvam como um novo astro de rock e da contracultura - mesmo tendo feito muita merda na vida, deixou um
legado e morreu quase em amigos e execrado pelos filhos que deixou.
O que esses, dentre tantos outros exemplos, podem ensinar é que ser um ocultista não te faz super-herói, não
te dá poderes, não garante glória, não te fará um "cidadão de primeira classe", sobretudo porque esse
conhecimento que você busca será sempre marginalizado pela opinião pública ou pelo ceticismo materialista
acadêmico.
A busca pela liberdade espiritual acaba sendo uma das mais duras que existe e se torna ainda mais dura
quando confronta a realidade de uma vida difícil e cheia de responsabilidades, como por o pão na mesa. É fácil
falar de iluminação e redenção quando o estômago está cheio e quando se está imerso nos prazeres e na
estabilidade do cotidiano.
Entenda: no fundo isso não existe. E quando realmente começar a colocar em prática esse conhecimento, verá
com seus próprios olhos a necessidade de separar aquilo que realmente tem utilidade dos postulados teóricos
que emporcalham a mente dos afoitos por informação.
5. GENEROSIDADE
Um princípio cabalístico muito interessante está no ato de dar e receber. Existe uma corrente de forças que
vem de uma fonte sutil e que necessitam eclodir para preencherem nossa realidade física na medida que
existem espaços vazios necessitando serem preenchidos, como córregos e riachos.
Muitos esperam a atuação automática de um "Deus" e um "Universo" sem nada dar em troca. A sabedoria
judaica tem lá a sua validade, na qual que, para Deus dar seu quinhão, o homem precisa dar o que tem
também. Não existe atuação em vácuo dessa realidade.
Perceba que em toda tradição vai existir uma escala hierárquica, um encadeamento perene daqueles que vão
transmitir o conhecimento sagrado, para os que vão recebê-lo, assim perpetuando sua transmissão. Com o
tempo o estudante e praticante, já mais experientes, perceberão a necessidade natural de passar para alguém
ou deixar um legado de algum tipo de conhecimento comum. É nessa necessidade egoísta de aprender e se
desenvolver que cria uma resposta em escala oposta de passar aos demais algo que é muito mais precioso do
qual os livros só descrevem e que poucas pessoas ainda estão aptas para entender.