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Abre a boca, deusa: os procedimentos de escrita em Ana Cristina Cesar e a

imaginação plástica da Arte Contemporânea

Introdução

Os anos 60/70 foram, no Brasil, um período de efervescência e pluralidade no

campo das artes marcado pelo alto grau de experimentalismo, desconstruções,

questionamentos e renúncia às certezas cristalizadas. Inseridos no clima de

sufoco gerado pela ditadura cívico-militar brasileira, e seus mecanismos de

censura - silenciamento, os artistas das referidas gerações buscaram saídas

alternativas para verter as subjetividades e realidades circundantes.

Na literatura temos o surgimento da geração mimeógrafo, ou marginal, que

abre a brecha para questionamentos acerca dos mecanismos de produção e

recepção das obras sob o ponto de vista do mercado editorial -ainda que

muitas vezes os próprios escritores não estivessem interessados nesse

aspecto, ou não tivessem por objetivo questioná-lo diretamente -, bem como do

que era a matéria e espaço da literatura. Surgem produções que articulam uma

estrutura precária, caseira e manual somados a textos curtos e rápidos, em sua

maioria, que circulam dentre um grupo limitado, visto que a distribuição desses

se dá diretamente entre produtores-consumidores.

Nas plásticas a busca por uma nova objetividade advinda das vanguardas e

neovanguardas - como defende Oiticica, em 1979-, tem como marca do

período a conversão de objetos de civilização em objetos estéticos, os

questionamentos entre os limites da obra de arte e do mundo circundante, do

lugar da galeria e museu, das fronteiras entre público e privado. Obras como
Tropicália (1967), de Oiticica -figura 1-, e Nós somos os propositores (1968), de

Lygia Clarck -figura 21-, são exemplos claros do período.

figura 1
figura 2

Vale ressaltar que os movimentos artísticos internos acompanhavam os fluxos

internacionais de produção artística, operando diálogos permanentes com as

mudanças e realizações no que tange as artes, recebendo influências diretas

dos movimentos que emergiram nas referidas décadas, tal qual a pop art,

assemblage, nouveau realisme, enviroments & happenings, mas, sobretudo, no

Brasil, do minimalismo, conceitualismo e da performance. Percebe-se como os

mecanismos operadores na produção estética estão presentes na constituição

tanto das obras nacionais quanto internacionais ao observarmos obras como

As três cadeiras (1965), de Joseph Kosuth (figura 3), que geram subversão

1
texto completo do livro-objeto:

"Nós somos os propositores: nós somos o molde, cabe a você soprar dentro
dele e o sentido da nossa existência.

Nós somos os propositores: nossa proposição é o diálogo. Sós, não existimos.


Estamos à sua mercê.

Nós somos os propositores: enterramos a obra de arte como tal e chamamos você para que o
pensamento viva através de sua ação.

Nós somos os propositores: não lhe propomos nem o passado nem o futuro, mas o agora."
figura 3
semelhante à realizada por

Oiticica, ou Pendurar (1966),

de Eva Hesse: a arte agora

existia num campo complexo

e expandido.2

As artes e os artistas

nacionais não mais trabalham com a noção de um projeto único capaz de,

simultaneamente, abarcar e nortear a produção do conjunto; o tripé modernista,

formulado por Mário de Andrade, do direito permanente à pesquisa estética, a

atualização da inteligência artística brasileira e a estabilização de uma

consciência criadora nacional é remodelado refletindo, inclusive, em alterações

nas temáticas e formas, no papel do artista e da audiência deste, marcando a

produção contemporânea.

Os procedimentos artísticos remontam,

muitas vezes, às técnicas do modernismo

ou das vanguardas européias de décadas

anteriores - movimento esse já estudado e

comparado ao de parafusos3 ou espirais4,

visto que funcionam de maneira dialética

por vezes e cíclica -, tendo por maior


figura 4
exemplo, os ready mades de Duchamp, tal

qual Le gran verre (1915-1923) (figura 4). Ganham, contudo, na arte

2
ARCHER, Michael Arte Contemporânea: Uma história Concisa.São Paulo: Martins Fontes, 2012. p.59
3
Idéia presente na obra de Alois Riegl presente em Conceitos Fundamentais da história da arte: O
problema da evolução dos estilos na arte mais recente. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
4
termo desenvolvido por Clement Greenberg em Pintura modernista, 1961.
contemporânea, novas dimensões pela constante decomposição das certezas,

pela reordenação dos elementos do cotidiano, pela exposição das fraturas,

fragmentações não mais, apenas, enquanto procedimento necessário para

abarcar a subjetividade da sociedade pós séc. XX, mas, também, porque a

descrença no todo, na ação única e ordenada, igualmente, se esvai.

As ferramentas para analisar e realizar a crítica da mesma, por sua vez,

também precisam se adequar; a demanda pelo outro, a necessidades de

chaves interpretativas, o poema e a revanche do corpo, o discurso do artista e

a produção estética, e o próprio produto final da elaboração estética não mais

conseguem ser observados sob a óptica de obras primas, genialidade, escolas.

A arte passa a ocupar um novo espaço e acaba por realizar um novo tipo de

intervenção na cidade, não mais como lugar do poder econômico e político,

mas sim como espaço/tempo do poder terrorista dos mídia, dos signos e da

cultura dominante.5

Centrando a análise na produção da Ana Cristina Cesar, nome de destaque da

sua geração e frequente objeto de estudo da crítica contemporânea,

percebemos grandes possibilidades para as análises comparativas entre o que

se passava no campo literário com o campo plástico.

Fica patente, sobretudo, que, mais do que estar circunscrita a um período e

movimento efêmero como foi a geração marginal, a poesia produzida pela

poeta insere-se no fluxo da produção das artes contemporâneas e adquire

novos relevos desde essa perspectiva para o estudo da crítica, sobretudo no

5BAUDRILLARD, Jean Kool Killer ou a insurreição pelos signos In: Revista Cinema/Cine
olho, n. 5, jul/ago 1979.
que diz respeito às abordagens interdisciplinares entre poesia e artes plásticas,

e as relações de paralaxe estabelecidas entre obra e público.

Esses elementos ficam patentes em poemas como Recuperação da

adolescência (1979) que, além de articular imagens utilitárias -barcos- em

situação adversa da usual - ancorados no espaço-, demandam um leitor

presente capaz de decifrar os versos e construí-los significativamente. Ou em

outros como:

olho muito tempo o corpo de um poema


até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas

que decompõem o
poema e sua imagem,
bem como o
procedimento de
análise literária que,
por muitas vezes,
desarticula e observa
separadamente cada
verso, colocando-o,
figura 5 por sua vez, no lugar
da própria pulsão-vida do leitor e do poeta -lugares esses que se mesclam pela
postura adotada pelo eu lírico -, similares a obras como True Rouge (1997), de
Tunga (imagem 5), que, ao mesclar tons de vermelho e objetos do cotidiano,
cria a sensação de mal estar e proximidade, de algo que em si, apesar de
familiar, se rompeu, ou perdeu, como, também, nos versos é como voltar e
achar as crianças crescidas, e sentar na varanda para trocar pensamentos e
memórias de um tempo que passou.
Em artistas outros, como Mira Schendel ou Cy Twombly, a junção de símbolos

linguísticos à tela plástica, somada a linhas, retas e planos, constituem numa

unidade indissociável à obra de arte contemporânea que produz, assim como a

brincadeira realizada por Ana Cristina Cesar ao utilizar o diário enquanto

gênero literário e confessional em textos de Cenas de Abril (1979) - como 18

de fevereiro, 19 de abril, 16 de junho, 21 de fevereiro, meia noite- 16 de junho-,

se questionando, em ambos os casos, as fronteiras entre as modalidades e

práticas formais.

Nos interessa observar, assim, pontos de confluência entre a escrita poética de

Ana Cristina e a produção nas artes plásticas contemporâneas, sendo esses: a

demanda pelo outro, os aspectos performáticos da arte, os procedimentos

formais de ruptura e fragmentação na fatura da obra, presença e subversão

dos objetos e temas de civilização e os imbricamentos entre os problemas das

formas e os problemas discursivos.

Objetivos

O objetivo do presente estudo é observar de que maneira as relações entre a

arte contemporânea e o fazer poético de Ana Cristina Cesar estão articulados e

em contato, estabelecendo relações e similaridades, em especial no que tange

os procedimentos formais e perspectivas entre produtor-público, tendo por

intento situar a obra da poeta brasileira dentro da produção contemporânea.

Os eixos centrais do presente estudo são observar a) os diálogos

estabelecidos entre o texto escrito e o objeto plástico desde os procedimentos

formais de composição, b)os aspectos performáticos da arte contemporânea e

o corpo como revanche à palavra escrita, c) a presença e subversão dos


objetos e temas de civilização em objetos estéticos, d)os imbricamentos entre

os problemas das formas e os problemas discursivos.

Metodologia

Leitura, analise, interpretação e comparação entre os poemas de Ana Cristina

Cesar presentes em A teus pés, edição do Instituto Moreira Sales de

prosa/poesia, impressos em 1998, e obras de artes plásticas produzidas dos

anos 1960-2014 selecionadas previamente e listadas abaixo:

1. Tropicália, penetráveis; Hélio Oiticica, 1967.

2. As três cadeiras; Joseph Kosuth, 1965.

3. Nós somos os propositores; Lygia Clark, 1968.

4. Colères; Armani, 1961.

5. sem título, série Objetos Gráficos; Mira Schendel, 196-.

6. Petals on fire; Cy Twombly, 1989.

7. True Rouge; Tunga, 1997.

8. Motivation sereies; Anne Gates, 2011-2012.

9. Coyote: I like america and america likes me; Beyus, 1974.

10. A casa desaparecida; Chrisstian Boitanski, 2010.

11. Relacionados e diferentes; Hain Steinbach, 1985.

12. The edges os the world; Ernesto Neto, 2010.


Bibliografia de apoio

AGAMBEN, Giorgio O que é contemporâneo? Chapecó, SC: Argos, 2009.

ARCHER, Michel Arte contemporanea: uma história concisa. São Paulo:

Martins Fontes, 2012. 2º ed.

BARROS, Maria Lúcia de, Atrás dos olhos pardos: uma leitura da poesia de

Ana Cristina Cesar, Chapecó: Argos, 2003.

BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política. Obras escolhidas vol. I. São

Paulo: Brasiliense, 1985.

BOSI, Viviana. Tal ser, tal forma: comentários a textos inéditos de Ana Cristina

Cesar. RJ, 2004.

CAUQUELIN, Ana Arte contemporânea: uma introdução. São Paulo: Martins

Fontes, 2005.

CESAR, Ana Cristina A teus pés prosa/poesia. Instituto Moreira Salles. SP:

Ática, 1998.

__________________. Crítica e tradução. Instituto Moreira Salles. SP: Ática,

1999

FOSTER, Hal O retorno do real. São Paulo: Cosac Naify, 2014.


HOLANDA, Heloísa Buarque Impressões de viagem CFC, Vanguarda e

Desbunde: 1960/70. RJ: Rocco, 1992.

LEONE, Luciana di Ana C: as tramas da consagração. RJ: 7Letras, 2008

PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Retrato de Época: poesia marginal anos

70. Rio de Janeiro: Funarte, 1981.

SÜSSEKIND, F. Literatura e vida literária. Polêmicas, diários & retratos. Rio de

Janeiro: Zahar, 1985.

______________. Até segunda ordem não me risque nada- Os cadernos,

rascunhos e a poesia-em-vozes de Ana Cristina Cesar. RJ: 7Letras, 2007.

SÜSSEKIND, F, DIAS, T., AZEVEDO, C. (ORG) Vozes femininas: gênero,

mediações e práticas de escrita. RJ: 7Letras, Fundação Casa Rui Barbosa,

2003.

ZUMTHOR, Paul Performance, recepção, leitura. São Paulo: Cosac Naify

Portátil, 2014.