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FERNANDO HENRIQUE
CARDOSO
CARDOSO
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Pensadores que
iinventaram
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as L etras

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¡¿¡S¡-Ú i A marca Esc' é a garantia de que a madeira utilizada na fabrica-

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ção do papel deste livro provém de florestas que foram gerencia-
das de maneira ambientalmente correta. socialmente jusia e eco-
FSC' 0019498
STÕ A marca
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além dedeouâras
que fontes
a madeira utilizada
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rpcJittJdo ção do papel deste livro provém de florestas que foram ger
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FERNANDO
FERNANDOHENRIQUE CARDOSO
HENRIQUE CARDOSO

Pensadores que
Pensadores que
mventaram O Brasfl
inventaram o Brasil

4!

Comezmum
Companhia DAS
D LETRAS
as L etras
Copyright @2013
Copyright © 2013 by FernandoHenrique
by Fernando HenriqueCardoso
Cardoso

Grafia
Gmfin atualizada segundo
segundo 0oAcordo
AcordoOrtográfico
OrtográficodadaIjragua
LínguaPortuguesa
Portuguesa
de 1990, que:entrou
1990, que entrouem
emvigor
vigornonoBrasil
Brasilemem 2009.
2009.

Capa
Gustavo Soares
Gustavo Soares
Preparação
lPrepm'açao-
Márcia Copola
Copola

índice
Índice remissivo
remissívo
Luciano Marchiori
Luciano Marchiori

*I-

Revisão
Revísao
Ana Maria
Ana Maria Barbosa
Barbosa i
Ca rmen T.
Carmen T. S.
S. Costa
Costa
1 ‹`.

Dados Internacionais
InternacionaisdedeCaraiogaçäo
Catalogação nana Publicação
Publicação (cn?)
(cn-1
(Câmara Brasileira do Livro,S P, Brasil)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasii)

Cardoso, Fernando
Femanáo Henrique
Henrique
Pensadores que inventaram0 oBrasil
Pensadores qu‹:__irwentaram BrasilI Fernando
/ Fernando Henri-
Henrí‹
que Cardoso. - I! ed.'- São Paulo: Companhia das Letras,
que Cardoso.
2013. — li ed.‘— São Paulo: Companhiadas Letras,
2-013.
isbn 7 8  8 5 3 5 9  Í 2 8 7 - 5
:san 99yS-85-359-2187-5

t.1_ Brasil -› História


Higlória 21.. Ensaios brasileiros
Ensaios l)ra$ÍieirO$ 3.
3. Escritores
Estrítflres -
Brasil
Brasil 4. 4. História política 5.
História política 5. História
Históriasocial
social 66.. Intelectuais
Intelectuais
Brasil
-Brasil 1.¡-Tilu1o.
Título.
113-05401
3 -0 5 4 0 2 0 0 3 2 0 .9 8 1
0coo~32o.98|

índice pára catálogo


indice para catálogosistemático:
sistemático:
1. Brasil: Ensaios: Ciência política 3zo.98x
Brasil :Ensaios :Ciência política 320.981

([2013]
2013]
Todos
Todos osos direitos
direitosdesta
destaedição
edição reservados
reservados à à
EDlTOfcA SCHWARCZ
EDITORA scnwzxncz s.›..S.A.
Rua BandeiraPaulista,
Rua Bandeira Paulista,702.
702,cj. cj.
32 32
04532002
04531-oo: — -- SSão
ão Paulo
Paulo — -- ssep
T elefone:(11)
Telefone: (11)3707-3.500
37073500
Fax: (11)
(11)3707-3501
3707*3501
www.conoLpanhiadasletras.com.br
www.c0mpanhiadasletrasxom.br
www.blogdacompanhia.com.br
wwwblogdacompanhia.com.br“
Sumário
Sumário

\
\

Apresentação,
APRESENTAÇÃQ, 77

JIOAQUIM
oaquim N
NABUCO
abucô
Uma síntese,
síntese,17
Um olhar
olhar sul-americano,
sul-americano,24
Joaquim
Ioaquim Nabuco democrata, 29

EEUCLIDES
uclides a C
dDA CUNHÀ
unha
Canudos:
Canudos; oooutro
outroBrasil,
Brasil,65

PPAULO
aulo PPRADO
r a po
Fotógrafo amador,7733
Føtógrafø am.¡|dC›r,

G il b e r t o F
GILBERTO FREYRE
reyrê
Casa-gra nâe &
Casagrande Senzala,, clássico,
Ó senzala clássico,7799
Gilberto Freyre,perene,
Gilberto Freyre, perene,91
SéítGio
Sáaozo BBUARQUE
uarqub e H
dDE HOLANDA
olanda
Brasil: as raízes
ráízeseeoofuturo,
futuro,1137
37;

Czuo
C PRADO
a io P rado |IR.
r,
A história e seu
seu sentido,
sentido,1143
43

ANTONIO
A Czmoloo
nt o ni o C ândido
Um ex-
ex-aluno,
aluno, 151
A
A fome ee aa crença:
crença:sobre
sobreOs parceiros do Rio
Rio Bonito,
Bcmito, 15?

PFLoREsTAN
lorestan FFERNANDES
ernandes .
A paixao pelosaber,
paixão pelo saber,1175
75 >,z
Florestan, cientista,
cientista,185
1.85
Uma pesquisa impactante,
impactante,192

CELSO
C FURTADO
elso F urtado f
O descobrimento
descobrimento dadaeconomia,
economia,2207
07
A propósito
propósito de
deFormação
Formação econômica
econômicadodoBrasil,
Brasil, 212

R
RAYMUNDO
aymündo FFâoko
aoro
Üm
Um crítico do Estado:
Estado:Raymundo
RaymündoFaoro,
Faoro,227

EEPiLo‹so
píl o g o ■
Livros que inventaram
Livros que inventaram0o Brasil, 263
263

Posfácio, JoséMurilo
Posfácío, Iosé MurilodedeCarvalho,
Carvalho,287
287

Notas, 301
Cronologia de
de obras
obrascitadas,
citadas,3311
11
Créditos das
Créditos dasimagens, 315
imagens,315
índice
Índice remissivo,
remissivo, 3317
17
Apresentação

Este livrocontem
Este livro contémensaios
ensaios e pequenos
e pequenos esboços
esboços que quê escrevi
escrevi
sobre autoresque
sobre autores quese se dedicaram
dedicaram a explicar
a explicar a “formação
a “formação do Bra^
do Bra?
siF. Algunsdestes
sil”. Alguns destes escritos
escritos datamdatam
de 35deanos
35 anos
atrás. atrás, Nesta categof
Nesta categoe
ria estão
estãoososperfis
perfis publicados
publicados na revista
na revista Senhor Vogue> em 1973.
Vogue, em 1978.
Outros, maisrecentes,
Outros, mais recentes,sãosão inéditos
inéditos na forma
na forma em os
em que que os publico
publico
agora. Entreestes
agora. Entre estesestão
estão ensaios
ensaios sobresobre Joaquim
Joaquim Nabuco,
Nabuco, Gilberto
Gilberto
Freyre
Freyre eeRaymundo
Raymundo Faoro.
Faoro. EsteEste último
último foi escrito
foi escrito especialmente
especialmente
para este volume; os outros dois são textos que serviram de base
para
para este volume;
conferências
para conferências osfiz,outros
que
que fiz, doismsão
respectiva textos
ente,
respectivamente, que serviram
naAcademia
na Academ Brasileide
iaBrasilei- base
ra de Letras
ra de Letrasememmarço
março de de 2010
2010 -e nae Festa
na Festa Literária
Literária Internacional
Internacional
de Paraty(Fiíp)
de Paraty (Flip)ememagosto
agosto
do do
mesmo mesmo ano. ano. Os demais
Os demais capítulos
capitulos
compõem-se deéntroduções
compõem~se doántroduções para
para a edição
a edição de livros
de livros de alguns
de alguns au- au
tores oudedehomenagens
tores ou homenagens prestadas
prestadas a outros
a outros que foram
que foram posterior
posteriora
mente
.mente enfeixadas
enfeixadas em emlivros.
livros.O“Epí1ogo”
O “Epílogo”é a transcrição
transcriçãorevista
revista
dede
aula, quedei
aula, que deiemem novembro
novembro de 1993,
de 1993, aos alunos
aos alunos do Instituto
do Instituto Rio Rio
Branco, quandoera
Branco., quando eraministro
ministro
dasdas Relações
Relaçoes Exteriores.
Exteriores.
O .leitor
leitor perceberá
perceberáque que aqui
aqui e alie há
ali repetição
há repetição de argumen
de argumen-

7
7
tos ee que
que aa extensão
extensãoe ea acadência
cadênciados dosdiversos
diversos capítulos
capítulos não não
ê é
a mesma.
mesma. NãoNão memeservi
servidedetexto
textopreviamente
previamente escrito
escrito quando
quando se se
tratava de prestar
tratava de prestarhomenagem
homenagema pessoas
a pessoascomcom as quais
as quais convivi
convivi e e
que me ínfluenciaram.
influenciaram.Os Ostextos
textosora
orápublicados
publicados sãosão transcrições
transcrições'
de exposições
exposiçõesorais,
orais,revistos
revistose aprimorados.
e aprimorados. PorPor
isso,isso,
o tomo tom é mais
é mais
coloquial, mais
mais familiar,
familiar,notadamente
notadamentenos noscapítulos
capítulos sobre
sobre Antô
Anto-
nio Candido ("Um ex-aluno”) e Florestan Fernandes (“A paixão
nio Cândido ("Um ex*aluno”) e Florestan Fernandes (“A paixão
pelo saber”).
saber”). Sobre
Sobreestes
estesmesmos
mesmosautores autoresháhá outros
outros capítulos
capítulos re- re
lativos aa suas
suascontribuições
contribuiçõesacadêmicas.
acadêmicas. Nestès
Nestes adoro adoto
um um estilo
estilo
mais convencional.
convencional.
Os ensaios sobre Nabuco,
ensaios sobre Nabuco,Freyre Freyree eFaoro
Faorotêmtêmo otom tom aca
aca-
dêmico
dêmico habitual nestetipo
habitual neste tipoTie lietrabalho.
trabalho,Dai Daíporporque
queaoaoproferir
proferir
ás conferências sobre
as conferências sobreososdois doisprimeiros
primeirosnão nãoosostenha
tenhalido.
lido.
SãoSão
maçudos ee longos,
longos,portanto
portantocansariam
cansariamosOS ouvintes.
ouvintes. Mesmo
Mesmo! al---- ak-
guns textos que
ique foram
foram lidos
lidos(as(as circunstâncias
circunstâncias de deserserpresidente
presidente'E *
da República dificultavam,por
República dificuitavam, porexërnplo,
exemplo, digressões
digressões orais
orais nas nas
eo- Co
memorações do do sesquicentenário
sesquicentenáriodedeNabuco), Nabuco),não nãogaranto
garanto queque
os haja pronunciado
pronunciado na naforma
formaem emque queoraorasãosãopublicadosfšou
publicados.^ou
mau “ledor”
“fedor**e egosto
gostodedeentremear
entremear as as leituras,
leituras. comcom observações*
observações”
mais espontâneas. Sempretive
espontâneas. Sempre tiveinveja
invejadedequemquem temtem a capacidade
a capacidade
de escrever textos
de escrever textose ede.dêososlerlercomo
como se se fossem
fossem peças
peças de teatro
de teatro re- re
presentadas porpor atores.
atores.Mais
Mais de deuma
umavez vezmemereferi
referi àsàsexperiências
experiências
que tive no ano que
tive no que passei
passei como
como visitingprofesso
professorr em Cambridge,
Cambridge,
UK, quando ouvi magníficas features, como a de um professor do
ük> quando ouviEdmund
magníficas lectures, como a de um professor do
King^s College,
King's College, Edmund Leach,Leach, intitulada
intitulada “Once
“Once a knight,
a knight, is quite
is quite
enough”, quetive
enough”, que tivea aoportunidade
oportunidade dede escutar
escutar novamente
novamente quando
quando
ele a repetiu
repetiu em
emPrinceton.
Princeton.NãoNaotenho
tenhotaiento
talentopara
para tanto,
tanto, daídaí
queque
escreva uma coisa,
escreva uma coisa,diga
digaoutra
outrae, e,aoaorever,
rever, publique
publique umauma terceira
terceira
Versão domesmo
versão do mesmotextotextodede base.
base.
Por
Por circunstân cias geracionais
circunstâncias geracionaiseeentrecruzamento
entrecruzamentodevida
devidame me
beneficiei
beneficiei dodo contato
contato direto
diretocom
comvários
váriosdos dosautores
autores cujas
cujas obras
obras
comento neste livro.É£0oque
neste livro. queocorre
ocorrecom comFlorestan
FlorestanFernandes,
Fernandes,

B
meti professore édedequem
meu príofessor quem fuifui assistente
assistente antesantes de sermos
de sermos colegascolegas
ee vizinhos
vizinhos de derua,
rua,assim
assimcomocomo comcom Antônio
Antonio Cândido,
Candido, também também
professor
professor eemaismaistarde
tardecolega.
colega.
NosNos capítulos
capítulos em osque
em que os homena
homena-
geio tento transmitir
geio tento transmitiralgo algodasdas impressões
impressões que que
ambosambos me causa
me causa-
ram.
mm. TiveTiveaaventura
venturadede estarcom
estarçcom Celso
Celso Furtado
Furtado nos breves
nos breves mesesmeses
em
em queque ele
eletrabalhou
trabalhounana Cepal
Cepal depois
depois do golpe
do golpe de quando
de 1964, 1964, quando
moramos
moramos na na mesma
mesmacasacasaememSantiago
Santiago e, mais
e, mais tarde,
tarde, de conviver
de conviver
com
com eleele nos
nosperiodos
períodosem emque
quecoincidiu
coincidiu estarmos
estarmos juntos
juntos em Paris
em Paris
np finaldos
np finai dosanos
anos1960
1960e na
é na década
década de 1970.
de 1970. Continuámos
Continuamos a man-a man
ter relaçõesprÓ>:i_rnas
tfir relações próximasnanadécada
década de de 1980,
1980, quando
quando CelsoCelso foi mi
foi rni-
nistro
nistro dadaCultura
Culturadodogoverno
governo Samey
Sarney e eue era
eu senador.
era senador. Com Cjaio
Com Cpio
Prado
Prado convivi no final
convivi. no finaldos
dosanos
anos19501950eeinícios
iníciosdadadécada
décadaseguinte,
seguinte,
quando
quando ele eleera
era0 oinspirador
inspirador dada Bmsiliezzse,, na
Revista Bmsilknse naqual
qualeueuco-co
laborava,
laborava, sem semfalar
falarememnossas
nossas desventuras
desventuras de militância
de militância ao redor ao redor
do Pafrtidâo.
do Partidão.láJácom
comSérgio
SérgioBuarque
Buarque de de
Holanda,
Holanda,embora tivessetivesse
embora
menos convivência*conheci-o
menos convivência, conheci-o o suficiente
o suficiente parapara admirá-lo
admira-lo e parae pára
me terbeneficiado
me ter beneficiadodedesuas suas críticas
criticas nas nas
duasduas
vezesvezes
em queem que formou
formou
parte dabanca
parte da bancaquequememeexaminou
examinou no no doutorado
doutorado e no econcurso
no concurso
de <£e
cátedra. Aliás,também
cátedra. Aliás, tambémFlorestan
Florestan foi,foi, além
além de incentivador»
de incentivador, meu meu
examinador
examinador em emteses
tesesacadêrnicas,
acadêmicas, e 0 emesmo
o mesmopossoposso
dizer dizer
de Caiode Caio
Prado* que, como
Prado,,que, como Sérgio,
Sérgio,fez
fezparte
partedadabanca
bancade
de.meu
meudoutorado.
doutorado.
Com muito menor familiaridade
muito menor familiaridadeposso possotambém
tambémdizerdizerque
quevivi
de perto o jeito, mais do que 0 pensamento, de Gilberto Freyre e
de
de perto o jeito,
Raymundo
de Raymundo
maisdodo
Faoro,
Faoro,
doprimeiro
que o pensamento,
primeironasnas poucas
poucas
de que
Gilberto
vezesvezes
Ereyre
quea Re-
fui fui a Ree
cife ou nas
cife ou nasocasiões
ocasiões,emem que,
que, estando
estando ele São
ele em em Paulo,
São Paulo»
pudemos pudemos
conversar,
conversar, e edodosegundo
segundo quando
quando da da militância
militância Contracontra o regime
o regime
autoritário. Apêsardadarelativa
autoritário. Apesar relativa familiaridade
familiaridade com com os autores
os autores que que
comento nestelivro,
cornento neste livro,não
nãoposso
posso dizer
dizer queque pertenço
pertenço à mesma
à mesma ge- ge>-
ração deles.Antes
ração deles. Antesfuifui beneficiário
beneficiário dasdas
suassuas descobertas,
descobertas, intuições
intuições
e análises.
análises,Euclides
luclidesdadaCunha,
Cunha, assim
assim comocomo Paulo
Paulo Prado.Prado, sem falar
sem falar
de Nabuco, deram suas contribuições em épocas anteriores, mas
de Nabuco,
não deixam deram
deixam de suasparte
deformar
formar contribuições
partedada mesma
mesma em“tradição
épocas
“tradição anteriores,
dos mas
cultural”
cultural” dos

9
9
demais autoresmencionados.
demais autores mencionados. EmEm queque sentido
sentido eles eles formariam
formariam
parte
parte da mesma
mesma tradiçao
tradiçãoe eatéatéque
queponto
pontominha
minha;geraçao
geraçãoparticipa
participa
de outromomento
de outro momentocultural?
cultural?
Basicamente
Basicamente oóque queuneune os os autores
autores referidos
referidos é a preocupação
é a preocupação
em
em anali sar aa“formação
analisar “formaçãododoBrasil'Í
Brasil”Esta
Estaobsessão
obsessãovem vemdedelor1ge,'e_1a
longe,ela
data
data dodo período
períododadaIndependência.
Independência.Aparece Aparecenitidamente
nitidamenteem emJosé
José /
Bonifácio quando,
Bonifácio quando,ememvezvez de se
deconsiderar
se considerar “português”
“português”ou “pau-ou “pau
lista”-—assim comoaconteceu
lista” -~ assim como aconteceucom com freifrei Caneca,
Caneca, “pernambuca
“pernambuca-
no^
no” -. passou
passou aa sese considerar
considerarbrasileiro
brasileiro ee tentou
tentou compreender
compreender
o que
que nós,
nós,brasileiros,
brasileiros, somos;
somos; ou ou melhor,
melhor, como comofazerfazer de todos,
de todos,
inclusive do
inclusive dos s escravos,
escravos,parte
parteda damesma
mesmanação.
nação.EEacaso
acasoNabuco
Nabuconão não
estava lutandopara
estava lutando para
queque se desse
se desse ao liberto
ao liberto e ao escravo
e ao -escravo a condição
a condição
de cidadãosdadamesma
de cidadãos mesma nação?
nação? Á questão
A questão nacional
nacional daí pordaídiante
por diante
ocupa
ocupa aacena
cenacentral
centralnasnas reflexões
reflexões dos pensadores
dos pensadores que inventaram
que inventaram
o Brasil, embora, a bem dizer, tenha sido o povo quem o criou. Os
ointelectuais
Brasil, emb
intelectuais opassaram
ra, abem
passaram dizer, tenha
a refletir
a refletir nosido
no que que oconsistia
povoesta
consistia quem o criou.
esta
nação, nação,
como Oscom^
*
ela sesituava
ela se situamnonomundo,
mundo,como
comosesedividia
dividiaememclasses,
classes,etniasecultu-
etnias e cultu
ras, comoseriapossível
ras, como seria/possível argamassá-las
argamassa-las no mesmo
no mesmo conjuntoconjunto
hisfó- histó
rico, ee no
no futuro
futuroque
queteria
teriaoo Brasil
Brasilno
nocontexto
contextodas
dasdemais
demaisnações.
nações. **
Foi no
no horizonte
horizonte cultural
culturaldadaquestão
questãonacional
nadonal que
queososdemais
demais
temas
temas seseforam
foramafirmando.
afirmando. OraOra a questão
a questão da sociedade
da sociedade nacional
nacional
ée vista
vista pelo
peloseuseurevés,
revés, quando,
quando, por por exemplo,
exemplo, Euclides
Euclides descobredescobre
oo sertanejo,
sertanejo,quequee é“um“um forte”
forte”, mesmo
mesmo que que refratário
refratário ao Estado
ao Estado
nacional,
nacional, ààRepública,
República,ouou quándò
quando Antonio
Antonio Cândido
Candido desenha
desenha os os
mínimos
minimos de desociabilidade
sociabilidade dosdos caipiras
caipiras que que
quasequase se esfumam
se esfumarn do do
conjunto nacional;ora
conjunto nacional; orasãosãooutras
outrasas as vertentes
vertentes que que compõem
compõem 0 o
quadro
quadro do dopaís.
país.Por
Porexemplo,
exemplo, quando
quando Florestan
Florestan se esforça
se esforça por por
entender
entender aa“desagregação
“desagregação da ordem
da ordem escravocrata”
escravocrata” e a formação
e a formação
da sociedadelivre
da sociedade livre e da
e da economia
economia competitiva,
competitiva, ou quando
ou quando Freyre Freyre
esboça seusmurais
esboça seus muraisqueque vãovao da casa-grande
da casa-grande e senzala
e senzala até aosatéso-aos so
brados
brados ee mocambos,
mocambos* sempre
sempre na procura
na procura de darde sentido
dar sentido
à nossaà nossa
ordem e ao nosso progresso.
ordem e ao nosso progresso.
1o
ío
Por certo,
certo, nonocontexto
contextodadaformação
formação nacional
nacional o tema
o tema Estado-
Estado-
-burocracia-Corporação
-burocracia-corporação versus versus sociedade
sociedade civilcivil e mercado
e mercado se des-se des
taca como uma
taca como umadas daspreocupações
preocupações centrais
centrais dos dos
que que
queremquerem
enten~ enten
der como seseforma
der como formaa anação.
nação. UnsUns
creemcreemqueque a alavanca
a alavanca é o Estado,
éo Estado,
outros, que são
outros, que sãoasasclasses.
classes.
Os Osdoisdois iados,
lados, entretanto,
entretanto, convergem :
convergem
para
para umum ponto:
ponto:trata-se
trata-sedede afirmar
afirmar umum país,país,
umauma nação.nação.
Afirmar Afirmar
pelo
pelo queque há
háde degenuinamente
genuinamente nosso
nosso ou oufoi foi assimilado
assimilado por enós e
por nos
nos diferencia
diferenciacomo comopovo povoe como
e como cultura;
cultura; afirmar-nos
afirmar-nos em emcon~con
traposição
traposição aos aos“outros”.
"outros”OOperigo perigo vem vem de fora,
de fora, seja seja
sob osob o manto
manto
da exploração
exploraçãoeconômica
econômicae mesmo e mesmo do do imperialismo,
imperialismo, seja seja
pelospelos
riscos
riscos do cosmopolitismo
cosmopolitismosee da da ocidentalização
ocidentalizaçãocultural.
cultural. l|
Prado, escrevendo
Caio Prado, escrevendosobre sobre o período
o período colonial*
colonial, colocará
colocara
uma questão fundamental:
uma questão fundamental;a Colônia
a Colônia existiu
existiu em em conexão
conexão com coma a
expansão
expansão do docapitalismo
capitalismo comercial
comercial e mesmo
e mesmo como como conseqüência
consequência
desta, Não-sesedeve
desta. Não deve pensá-la,
pensá-la,portanto,
portanto,àà margem
margemde decondicionan-
condicionan-
tes que ultrapassam
tes que ultrapassamsuas suasfronteiras.
fronteiras* O latifúndio
O latifúnclio e a escravidão
e a escravidão
marcam
marcam as as características
característicasdodo período,
período, masmas o sentido
o sentido da cploni?
da coloniè
zação
zação não não seseesgota
esgotanasnasbasesbases sociais
sociais locais locais da exploração
da exploração ecoi eco?
nômica,
nôrnica, na na escravidão
escravidãoe na e na concentração
concentração da propriedade»
da propriedade. Ele sóEle só
se completa ee ganha
ganhainteligibilidade
inteligibilidad e quando
quandoremetido
remetidoààquestão
questão :■
mais geraldas
mais geral dasrelações
relações com com a Metrópole.
a Metrópole. Celso Celso Furtado,
Furtado, muitomuito
mais tarde,
tarde,nonoperíodo
períododedeobsessão
obsessão nacíonal-desenvolvimentlsta,
nacional-desenvolvimentista,
quando aa nação
quando naçãojájá existia,
existia,vai
vaidardarsequência
seqüênciaaaesta estavisão:
visão:sesequiser»
quiser
mos romper
romperos oslaços
laçosdadadominação
dominação internacional
internacional e se équisermos
se quisermos
superar
superar oo"atrasofi
'atraso”teremos
teremosdede entender
entender a dinâmica
a dinâmica dos dos
merca- merca
dos internos, suas
dos internos, suaspossibilidades
possibilidades de de superação
superação do status
do status quo equo e
suas limitaçoes^masnonoquadro
suas limitaçöesfmas quadro internacional.
internacional. Ao Ao analisar
analisar estesestes
aspectos, Celsovai
aspectos, Celso vaireafirmar
reafirmar o que
o que outros
outros haviamhaviam indicado:
indicado: as as
bases econômicase esociais
bases econômicas sociais dodo condicionante
condicionante locallocai
erameram estreitas
estreitas
para aceder ao
para aceder ao Capitalismo
capitalismodos dos“grandes'Í
“grandes1 *'AA referência
referênciaaoaolocal local
não se esgota em si mesma, requer o rebatimento no outro polo,
não se esgota em si mesma» requer o rebatimento no outro polo,
o externo. Detoda
externo. De todamaneira,
maneira, a temática
a temática continua
continua girando
girando ao re»ao re-

11
11
dar
dor da questãonacional,
da questão nacional,consistindo
consistindoem em
ver vercornocomo
criarcriar no polo
no polo
negativo
negativo dadarelação
relação externo-interno,
externo-interno,isto
isto é,é, no
no interno,
interno,força
forçasu-su- .
ficlente paraalavancar,
ficiente para alavancar,catapultar
catapultar mesmo,
mesmo, o país o país
para para ò "‘Centro”.
o “Centro”.
Essas eram asasgrandes
Essas eram grandesquestões
questõesdosdos pensadores
pensadores que inventaram
que inventaram
o Brasil. ; i
Ocorre que
que oo Brasil
Brasildesses
dessespensadores
pensadores já fora
já fora “inventado”,
“inventado”,
prática e intelectualmente, quando minha geração começou a se
prática e intelectualmente, quando minha geração começou a se
debruçar sobreasasformas
debruçar sobre formasdadasociedade
sociedade brasileira,
brasileira, suas suas conexões
conexões
internacionais
internacionais ee seusseusnovos
novosdesafios.
desafios. O horizonte
O horizonte intelectual-
intelectual-
-ideológico
-ideológico da da“questão
“questãonacional'Ê
nacional” de de certa
certa maneira»
maneira, se havia
se havia es- es
gotado. Pusemo-nosaaescarafunchar
gotado. Pusemo-nos escarafunchar e a edetalhar
a detalhar a classe
a classe operá-operá
ria, aa urbanização,
urbanização,ososempreendedores
empreendedores capitalistas
capitalistas (burgueses?),
(burgueses?),
a cultura dede massas,
massas,os os“marginais”
‘“marginais”L- os osexcluídos
excluídos-- —no nocampo
campo
e na cidade,
cidade,os
osmilitares, asascorporações
corporaçõesmultinacionais,
multinacionais,enfim,enfinj,oò?*
novo panoramado
novo panorama dopaís.
país.Mais
Mais ainda*
ainda, comcom o autoritarismo
o autoritarismo militar
militar
não só oo tema
tema da
dasociedade
sociedadecivil
icvilcom
comsuas
suasongs
oNGs, igrejas renovais
e opinião
opinião pública
públicareprimida,
reprimida,mas mas a própria
a própria ,
questão
questão
renovaãas
democrática
democrática
(que aparece-escassamente
aparece-escassamentenos nos autores
autores anteriores,
anteriores, sendo sendo Sérgio
Séišio
Buarque aa mais
maisnotável
notávelexceção,
exceção, embora
emboranão nãoa aúnica)
única)passam'
passamaa *
competir com com aa paixão
paixãopreexistente
preexistente porpor entender
entender à questão
a questão na- na
cional. láJá não
não bastava
bastavarepetir
repetiro omotemote do do subdesenvolvimento
subdesenvolvimento
econômico, haviaque
econômico, havia queolhar
olharpara
para a incompletude
a incompletude institucional,
institucional, a a
falta dademocracia.
falta da democracia.AAquestão
questãodo do Estado
Estado comocomo alavanca
alavanca do cres
do cres-
cimento econômico e de sua alternativa, a do mercado como polo
cimento econômico e de suaalternativa, a do mercado como polo
propulsor dele,misturava~se
propulsor dele, misturava-se comcom a questão
a questão democrática
democrática e estae esta
com a dadajustiça,
justiça,sobretudo
sobretudoa social,
a social,
comcom o tema
o tema da desigualdade.
da desigualdade.
Quando começarama aproduzir
Quando começaram produzir intelectualmente,
intelectualmente, as gera
as gera-
ções posteriores
posteriores àsàsdosdospensadores
pensadores queque “inventaram”
“inventaram” o Brasil
o Brasil se se
encontraram
encontraram com com uma
umanação naçãojá formada, emboradiferente
formada, embora diferente
da-da
quela
quela dodo sonho
sonhodedeseusseusprecursores.
precursores. Às classes
As classes e seusesegmentos
seus segmentos
(as “classes
“classesmédias
médiasemergentes”,
emergentes”, a diminuição
a diminuição relativa
relativa do pesodo dopeso do
“campesinato”
“campesinato” etc.)etc.)jájátinham
tinhamfaceface mais
mais clara,
clara, o Estado
o Estado se dina-
se dina-

12
""*`-' ê |\ L
nrizará
mizara eecomeçava
começavaa aserserconteriiporãneo,
contemporâneo, quer
quer dizer,
dizer, a entrar
a entrar em em
contato
contato comcom outros
outrosEstados,
Estados> semsem temê-los
temê-los nemnem ameaçá-los,
ameaça-los, parapara
assegurar pactosque
assegurar pactos quepermitissem
permitissem maior
maior expansão
expansão dosdos
nossosnossos
i~n+ ín*
teresses,
teresses. OOdinamismo
dinamismododo mercado
mercado provinha,
provinha, ao mesmo
ao mesmo tempo, tempo,
de forças internas
de forças internase eexternas.
externas.O Opapel papel atribuído
atribuído pelapela ideologia
ideologia
nacional-desenvolvimentista
nacional-desenvolvimentista aos aos“empresários
“empresários nacionais”
nacionais” ficaraficara
embaçado
ernbaçado pela pelaassociação
associaçãodestes
destescom com
as as multinacionais*
multinacionais* e>mais
e, mais
recentemente,
recentemente, aapartir partirdos
dosanosanos1990,
1990,
pelapela presença
presença de multina-
de multina-
ejbnaís “brasileiras”»fenômeno
çipnais “brasileiras”, fenômeno queque seria
seria impensável
impensável no passado.
no passado.
Sem que que tivéssemos
tivéssemosmuita muitaconsciência
consciência dodo processo
processo em em cur-cur
so,
so, minha geraçãoteve
minha geração teveque
quelidar
lidar
com com outro
outro momento
momento do do desen
desdn-
volvimento
volvirnento mundialmundialdodocapitalismo,
capitalismo,chamado
chamado de de globalização.
globalização.
No livroque
No livro queescrevi
escrevicomcom Enzo
Enzo Faletto,
Faletto, Dependência desenvolvi--
.Dependência e desenvolvi
tnento Latina,, tateávamos
América Latina
-mento na América tateávamosootema temasem semmuita
muitaclareza.
clareza.
Nós
Nós nosnos apercebêramos
apercebêramosdedeque queumum “projeto
“projeto nacional”
nacional" nos noster- ter
mos propostospela
mos propostos pelaideologia
ideologianacional-desenvolvimentista
nacional- desenvolvimentista tinhatinha
escassas possibilidadesdede
escassas possibilidades êxito,
êxito, embora
embora progresso
progresso econômico
economico Ê: ^
mesmo aumentode
mesmo aumento debem~estar
bem-estarcoletivo
coletivopudessem
pudessem existir.
existir. Ainda AincÉa
assim,
assim, ao áoretornar
retornaraoaoBrasil
Brasilnonofinalfinal
da da década
década de 1960
de 1960 e talveze talvez
ainda duranteaadécada
ainda durante décadadede1980,
1980,
eueu nâo
não meme havia
havia dadodado
conta conta
da da
magnitude
magnitude das dasmodificações
modificaçõesnono panorama
panorama mundial
mundial. Foi Foi preciso
preciso
sentir asconsequências
sentir as conseqüênciaspráticaspráticas e ideológicas
e ideológicas da da queda
queda do Muro
do Muro
de Berlim, dofim
de Berlim,_do fimdadaUnião
UniãoSoviética
Soviética e, portanto,
e, portanto, da Guerra
da Guerra Fria,Fria,
bem como, mais
bem como, maistarde,
tarde,dadaforma
forma chinesa
chinesa de de socialismo “harmo
Socialisrno“harmo-
nioso”
nioso”, isto é, da
isto- é, daeconomia
economiasob sob oocontrole-
controledo doEstado
Estadochinês
chinêsem emas- as
sociação
sociação com comaspnultinacionaís
a^multinacionaise demaise demais forças
forças de de mercado,
mercado, parapara
entender
entender que queoosonhosonhoquequeeueuacalentava
acalentava de de escrever
escrever um
um Grande

' Eu antevi
anteviesta
estatendência
tendência
emem 1964
1964 em emEmpresária
Empresá ri o iindustrial desenvoivimemo
ndust ri al e desenvol vi mento
econômico no Brasi!
econômico rio Brasil (São Pauio: Difel, 1964. 196 pp. Coieção Corpo
Paulo: Dífels 1964.196 pp. Coleção Corpo e Aima e Alma do do
Brasil, 13); mais tarde, falei de “desenvolvimento dependente-associado” para
Brasil, 13); mais tarde, falei de “desenvolvimento dependenteassodado” para
qualificála.
qualifica-la.

-ssa-1-is;-5.o.,--..-. -.-....-..,..~......,.-.. .. s..,¬.-tl.-siãšiëâëi-;à`.*. Í i


15."--' -- 4 J- -
indústria
indústria eeƒavela não tinha
favela não tinhamais
mais sentido.
sentido. O mundo
O mundo era outro
era outro ea ea
dispersão produtiva
dispersão produtiva global
global suscitada
suscitada por novas
por novas tecnologias
tecnologias tor- tor-
nou
nou asas classes
classeslocais
locais e o eEstado
o Estado nacional
nacional agentes agentes que Competem
que competem
com outrosagentes
com outros agentes (as(as corporações
corporações multinacionais
multinacionais e os oiganis
e os organis-
mos internacionais)
internacionais) é com
e com redesredes globais
globais que ligamque pessoas
ligam pessoas
e gru- e gru-
pos pelouniverso
pos pelo universo afora*
afora.
Neste novocontexto,
Neste novo contexto, é preciso
é preciso inventar
inventar outro outro
futurofuturo
para o para o
Brasil que,sem
Brasil que, sem negar
negar a importância
a importância das temáticas
das temáticas do passado
do passado e e
os feitos
feitosconcretos
concretos queque delas
delas resultaram,
resultaram, nem anem a identidade
identidade nacio- nacio-
nal queeles
nal que elesproduziram,
produziram, abraabra caminhos
caminhos para compatibilizar
para compatibilizar os os
interesses nacionalpopulares
interesses nacional-populares com com a inserção
a inserção econômicaeconômica
global. global.
Nesta
Nesta ososclmters produtivose`ase^as
clusters produtivos redesrédes
sociaissociais intercònectadas
interconectadas po- po-
derão (ounão...)
derão (ou não...)servir
servir aosaos interesses
interesses nacionais,
nacionais, mas em mas novosem novos
patamares
patamares e edede novas
novas maneiras.
maneiras. A questão
A questão nacional nacional
não poderánão poderá
ser pensadaapenas
ser pensada apenas do do ângulo
ângulo econômico
econômico e estatal,
e estatal, nem denem modo •1640 de
- modo
isolado, comosese
isolado, como o pais
o país fosse,
fosse, em si,emuma si,unidade
uma unidade autônoma autônoma
para pafa
a reflexão.
reflexão.AsAsnovas
novas percepções
percepções ideológicoculturais
ideológico-culturais terão deterão
en- de en-
globar
globar asasreivindicações
reivindicações democráticas,
democráticas, os anseios
os anseios de maior deincfu-
maior incfu
são social
sociale easasnovas
novas formas
formas de participação
de participação cidadãcidadã para serem
para serem
contemporâneas
contemporâneas dodo futuro.
futuro* * À lupa
A lupa que permite
que permite ver quem versomos
quem somos
e como
como somos
somosprecisa
precisa do do complemento
complemento de telescópios
de telescópios que nosque nos
situem
situern nonouniverso
universo mais mais amplo,
amplo, sem sem cujo desvendar
cujo desvendar a viñ-0 adevisão de
nossá identidade
nossa identidade ficafica
poucopouco nítida.
nítida.

* Em artigo recente Marcos Nobre apresenta uma abordagem e uma periodiza-


* Em artigo recente Marcos Nobre apresente uma abordagem e uma periodiza-
ção da história
ção da históriadas
dasideias
ideias'queque merecem
merecem reflexão.
reflexão. Ver Marcos
Ver Marcos Nobre, "Depois
Nobrc,“Dcpois da da
‘formação’” revista
`forrnação"l revista u U n. 74
piauí,
pia 74,»nov. 012 , pp.
nov. 22012, pp.74 7 .
74-7.
I

JJOAQUIM NABUCO
OAQUIM N ABUCO
UM
UM ESTADISTA
ESTADISTADO DO
IMPÉRIO
IMPERIO

ÍNABUCO DE ARAUJO
NABUCO Dl: ARAUJO
| SUA VIDA _

í :i \.’ ,r5" v SUA-s OPINIÕES,


SUAS oP::ÍâE:];Í1A›
SUA ÉPOCA
ÉPOCA
“L _

v s

11111 wa..
*OR
POR SKU
SEUjfltHO
FILHO
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11 -V^ 3 *vz.■;■ - -5.


' (

,
rf]. ;.. JoA;QU¿¡M 1z1ABUco
j o â q üi m N abuco _
Íà
-¬.. _
" F

TOMO PRIMEIRO
TOMO PRIMEIRO
¬ 1 8 1 8  1 8 B7
1.818-1.857

1..

R IO B
RIO ¬ E JAKEIH
DE JANEIRO' O >›~
H. GA EN IE E, LLIVRÉIRO-EDITOR
GARNIER, I V E E I E O- EDI TO R
. 71, RUA
71, nuz.uonmm\¬‹:nzà.a., 71
MORBIRA o CBZÁB, 71
8 .

66 RUB
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'■8 TBPè
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Ç _-é_â¿p_¿a1s
-J PAUIS
Uma síntese*
Uma síntese*

i\
n

Em breve resenha de Um estadista do Império, Machado de


Em breve resenha deUm estadista do Império, Machado de
Assis
Assis seserefere
referea Iosé
é José Tomás
Tomás Nabuco
Nabuco de Araújo
de Araújo como como
um dosum me-
dos me
lhores representantesdedeseuseu
lhores representantes tempo,
tempo, e cuja
e cuja trajetória
trajetória deveria
deveria desë- des
pertar
pertar umuminteresse
interessepermanente
permanentenasnas gerações
gerações futuras.
futuras. i
Se aa afirmação
afirmaçãodedeMachado
Machadofazfaz justiça
justiça aoaopai,pai, o biografado,
o biografado,
parece-me
parece-me que queseseaplica-Iria
aplicaria ainda
ainda melhor
melhor ao ao filho,
filho, o biógrafo.
o biógrafo. Di- Pi-
ria inclusive
inclusiveque queIoaquím
Joaquim Nabuco,
Nabuco,ememsuas
suasdiversas
diversasfacetas,
facetas,estava
estava
adiantado
adiantado ao aoseu
seutempo,
tempo,embora
emboraimerso
imerso nasnas causas
causas e contradi
e contradi-
ções da época.
ções da época.
Como
Como intelectual, como
como homem público ee como
homem público como diplomata,
dipiomata,
Joaquim
Ioaquím Nabuco
Nabuco se
se antecipou
antecipou aoao futuro,
futuro, sem
sem distanciar-se
distanciar-se para
para
tanto dasexigêflcias
tanto das exigêádasimpostas
impostaspelapela transição
transição agitada
agitada entre
entre o Im
o Im~
pério
pério ee aaRepública.
República*
Não forampoucas
Não foram poucasasasocasiões
ocasiõesemem queque
meme surpreendi
surpreendi a bus
a bus-

* Discurso
Discurso dodosenhor
senhor presidente
presidente da Republica
da República do Brasil
do Brasil na ocasião
na ocasião da cerimônia
da cerimonia
comemorativa
comemorativa dodo sesquicentenário
sesquicentenário do nascimento
do nascimento deJoa quim
de N
Ioaquim abuco, em
Nabuco, Em 19 99.
1999.

17
car Nabuco
Nabucôcomocomoreferência.
referência, À primeira
A primeira foi durante
foi durante meusmeus
estu- estu
dos de
de doutorado
doutoradonanaUniversidade
Universidade de Paulo.
de São Slo Paulo,
Sob a Sob a orienta
orienta-
ção amiga
amigadedeFlorestan
Florestan Fernandes»
Fernandes, me aventurei
me aventurei na investigação
na investigação
da sociedade
sociedadeescravagista,
escravagísta, seusseus fundamentos
fundamentos e limites.
e limites. Selecionei
Selecionei
como campo
campodedepesquisa
pesquisa o Brasil
0 Brasil meridional,
meridional, com acom a expectativa
expectativa
de extrair
extrairdadaanálise
análise de de
umauma região
região periférica
periférica conclusões
conclusões que iin~ que in
formassem sobre 0 modelo agrário-exportador no seu conjunto.
formassem sobre o modelo agrário-exportador no seu conjunto.
Observando retrospectivamente
Observando retrospectivarnente os resultados
os resultados do estu-
do meu meu estu
do, vejo
vejo que
queIoaquim
Joaquim Nabuco
Nabucoestáestápresente
presentedesde
desdeasaspremissas
premissasaté
até
a conclusão datese,
conclusão -da tese,queque se transformou
se transformou no livro
no livro Capitalismo
Capitalismo ee
escravidão no Brasil meridional*
meridional.
Escolhi como epígrafe
epígrafeum
um trecho
trechode
de “O
“0 mandato
mandato dadaraça
raça
negra”
negrafi nonoqual
qualNabuco
Nabuco questiona
questiona a antinomia
a antinomia que supostamen
que supostamen-
te existiria
existiriaentre
entreosospolos
polos
da da sociedade
sociedade escravagista;
escravagísta: “dois tipos
“dois tipos
contrários, e noäliunclo os mesmoszso escravo e o senhor”. `r~iÊo
contrários, e no fundo os mesmos:/* escravo e o senhor’*, m o *
foi gratuita
gratuitaaaminha
minhaescolha.
escolha. ComComseu seu
estiloestilo primoroso,
primoroso, cheio cheio
de áe
energia utilizadapelo
energia utilizada peloartista
artista
parapara refugiar-se
refugíar-se no narrador,
no narrador, Joa- Joa
quim Nabucome
quim Nabuco mesugeriu
sugeriu a ideia
a ideia que que se revelaria
se revelaria essencial
essencial para a parâ a
percepção
percepção dos limitesdo
doslimites dosistema
sistemaescravagista.
escravagista. **
Sob sua
Suainspiração,
inspiração,percebi
percebi
queque a oposição
a oposição entreentre
senhorsenhor
e e
escravo
escravo seseatenuava
atenuavaao ao comprovar
comprovar que que
ambos ambos
erameram produtos,
produtos.,
embora
embora ememposições
posiçõesassimétricas,
assimétricas, de uma
de uma mesma mesma ordem.
ordem. OrdemOrdem
que se prolongou no tempo, com o braço servil irnpulsionando
que se prolongou
os lucros
lucros no tempo,
docapitalismo
do capitalismo com
mercantil,
mercantil, masomas
braço
que que servil
estava
estava impulsionando
predestinada
predestinada
ao esgotamento.
esgotamento.Não Não podia
podia deixar
deixar de prevalecer
de prevaiecer a contradição
a contradição in- in
trínseca entreoocapitalismo
trínseca entre capitalismo e aeescravidão,
a escravidão,
dadodado
que osque os escravos
escravos
não tinham
tinham aapossibilidade
possibilidade de de reconstruir
reconstruir a estrutura
a estrutura social social
de de
acordo
acordo comcomseusseuspróprios
próprios interesses,
interesses, como como os proletários,
os proletários, e que e que
o incremento contínuodada
incremento contínuo produtividade
produtividade era impedido
era impedido pela mão
pela mão
de obraescrava.
de obra escrava.
Voltei
Voltei aaficar
ficarememdívida
dívidacomcom Joaquim
Joaquim Nabuco
Nabuco no capítulo
-no capítulo ri- fi
nal da
datese,
tese,aoaoconfirmar
confirmar o que
o que ele havia
ele havia previsto
previsto de forma
de forma exaus~ exaus

18
tiva em OOabolicionismo
tiva em abolícionismo., Refiro-me
Refiro-meààconclu_sä_o
conclusãodedequeque a Aboli
a Aboli-
ção, aonão
ção, ao nãotertervindo
vindo acompanhada
acompanhada de medidas
de medidas que indicassem
que inclicassern a a
responsabilidade social
responsabilidade social dosdos brancos
brancos pelapela situação
situação degradada
degradada dos dos
negros, nãotrouxe
negros, não trouxeconsigo
consigo a democratização
a democratização da ordem
da ordem social.
social.
Desprovidos
Desprovidos dosdos recursos
recursosmínimos
mínimospara
paraoo exercicio
exercícioda
dacidadania,
cidadania,
os negrospassaram
os negro-s passaramde de cativos
cativos a excluídos,
a excluídos, sem sem oportunidades
oportunidades
reais de urna inserção positiva no processo produtivo.
reaisPara
de uma
Para inserção
Nabuço—-
Nabuco cabepositiva
- cabe sempre no
sempre re cprocesso r, aaprodutivo.
o rd a-,
recordar escravidão con-
escravidão con
tamina
taminava va os
osmaisdiversos
maisdiversoscampos
camposdadavidavidanacional,
nacional,desvalorizan-
desvalorizan
do
do oo trabalho,
trabalho,viciando
viciando a instrução,
a instrução, comprometendo
comprometendo a indústria,
a indústria,
minando
rninando ooEstado,
Estado,alimentando
alimentando o patrimonialismo,
o patrimonialismo, sacrificando
sacrificando
oo pluralismo,
pluralismo,sufoca-ndo
sufocando a cidadania.
a cidadania. A escravidão
A escravidão era ele
era para para ele
aa condição
condiçãosociológica
sociológicaqueque explicaria
explicaria de maneira
de maneira cabalcabal o atraso
O atraso
brasileiro.
brasileiro. ■
Para combaterdedeforma
Para combater forma definitiva
clefinitíva um um problema
problema tão arrai
tão arrai-
gado, não
gado, nãobastaria
bastariaa letra
a letrada da
lei, lei,
advertia Nabuco.
advertia insistia
Nabuco. na ne-na ne
Insistia
cessidade
cessidade dedecomplementar
complementar a Abolição
a Abolição comcomamplasamplas reforma^
reformas
sociais
sociais eepoliticas,
políticas,que
que incluíssem
incluíssem a democratização
a democratização da èstrüturá
da estrutura
agrária,
agrária, aaeducação
educaçãp universal,
universal, a proteção
a proteção do trabalho,
do trabalho, uma previ
uma previ-
dência socialoperante,
dência social operante,a federação.
a federação. Preconizava
Preconizav-a reiteradamente
reiteradamente
que “não
“nãòbasta
bastaacabar
acabarcom com a escravidão:
a escravidão: é preciso
é preciso destruir
destruir a obraa obra
da escravidao'Í
escravidão”
Por maisgrave
Por mais gravequeque fosse
fosse seuseu diagnóstico,
diagnóstico, NabucoNabuco não previa
não previa
rupturas dramáticas.Conhecia
rupturas dramáticas, Conhecia bembem o sistema
o sistema de poder
de poder vigentevigente
para saberque
para saber quea aemancipação
emancipação dosdos negros,
negros, parapara ser duradoura,
ser duradoura,
tinha queser
tinha que serexaustivamente
exaustivamente negociada.
negociada. Era-lhe
Era-lhe suficientemente
suficientemente
familiar
familiar oohiatotexistente
hiatoflsxistente entreentre o Estado
o Estado e a incipiente
e a -incipiente sociedade
sociedade
civil paraapostar
civil para apostarnumanuma capitulação
capitul-ação forçada
forçada dos redutos
dos redutos escrava*
escrava-
gistas.
gistas. UÉ no
“É no parlamento
parlamento ee não não nasnasfazendas
fazendasnosnos quilombos1 do
quilombos*
interior ondeseseháhádede
interior onde ganhar,
ganhar, ou perder,
ou perder, a causa
a causa do abolicionis
do abolicionis-
mo”, previaemem
mo'Ç previa O abolícionismo.
0 abolicionismo.
Seu realismonao
Seu realismo nãooo tomava céticoou
tornava cético oucondescendente
condescendentecom com

19
19
a política
política menor.
menor.PeloPelocontrário.
contrário.
ComoComo tivetive a oportunidade
a oportunidade de de
expressá-lo trêsanos
expressa-lo três anosatrás,
atrás,
nana inauguração
inauguração da Cátedra
da Cátedra Joaquim
Ioaquim
Nabuco
Nabuco na na Universidade
UniversidadeStanford
Stanford*rr onde, cabe
-¬- onde, cabe dizer,
dizer,esteve
esteve
como investigador
investigadoroutro
Outro grande
grande intérprete
intérprete do Brasil,
do Brasil, discípulo
discípulo
de Nabuconanaleitura
de Nabuco leituradadaconfluência
confluência das das raças,
raças, o também
o também per- per
nambucano GilbertoPreyre
nambucano Gilberto Freyr
e --.
— Nabuco
Nabuco fez,
fez, com
com singular
singularpro-
pro^
priedade, o elogio da política, a apologia daquilo que chamava de
priedade,
Política como PP
cótn elogio da política,
maiúsculo,
maiúscula, políticaaque
política apologia
qu daquilo
e é história.
histó ria. ' que chamava de
Sustentava
Sustentava que quea aação
açãopolítica
política
nãonão deveria
deveria prescindir
prescindir jamaisjamais
da reflexão,dadaanálise
da reflexão, análise prévia
prévia e cuidadosa
e cuidadosa dos fatos.
dos fatos. Fez con-
Fez dessa dessa con
vicção um ritual
vicção um ritualem emsua
sua vida
vida pública.
pública. Derrotado
Derrotado nas eleições
nas eleições par- par
lamentares
lamentares de de1881,
1881,retirou-se
retirou-aeemem Londres,
Londres, na Biblioteca
na Biblioteca do Mu-do Mu
seu Britânico,
Britânico,para
parapôrpôrasas ideias
ideias emem ordem,
ordem, antesantes de converter-se,
de converter-se,
a partir de
de 1884_,
1884, no no mais
maisimportante
importanteator atordadaluta
lutapela
pelaAbolição.
Abolição.OO,
il
abolicionismo
abolícíonísmo foifoio resultad o dessa
o resultado pausa
dessa pausalondrina. '
londrina. *0
Embora reclarnasse
Embora reclamasseafinidade
afinidade entre
entreo pensamento
o pensamento e a 3910
ação
ea
pública, Nabuconão
pública, Nabuco nãosesedeixava
deixava seduzir
seduzir pelo pelo discurso
discurso da prima
da prima-
zia absolutaeeincondicional
zia absoluta incondicionaldada razão
razão de Estado.
de Estado. NemNemtudotudo
'que tjue
parecia benéficoà àglória
parecia benéfico glóriadodoEstado
Estado contava
contava comcomsua sua anuência.
anuência. *' **
Preocupava-se antescom
Preocupava-se antes comososvalores.
valores. Respeitava
Respeitava a tradição
a tradição con- con
quanto fossesubmetida
quanto fosse submetidaà justiça.
à justiça.
DaíDaí
sua sua desconfiança
desconfiança da repú
da repú-
blica, quevia
blica, que viacomo
comouma
umapresapresa fácil
fácil dasdas tiranias,
tiranias, ou umaou uma aventura
aventura
desnecessária,
desnecessária, dedepouco
pouco interesse
interesse parapara progressosocial.
0o progresso social.Costu~
Costu
mava dizer que “a grande questão da democracia brasileira hão é
mava dizer que
a monarquia
monarquia (ou“a
(ou grande
sua
sua questão
superação),
superação), adaescravidão”.
democracia brasileira não é
é aéescravidão”.
A opção monárquica
rnonárquica dedeNabuco
Nabuconãonão0ofazia
faziamenos
menoscrítico
críticodo
do
rumo quequétomava
tomavaa acondição
condição imperial.
imperial. Referia-se
Referia-se com.apreensão
comapreensão
ao que poderiacaracterizar-se
que poderia caracterizar-secomocomo patrimonializaçao
patrimonialização crescen
crescen-
te do Estado
te do Estadobrasileiro.
brasileiro.Prisioneiro,
Prisioneiro, cada
cada vez vez em maior
em maior medida,
medida,
de interessestriviais,
de interesses triviais,autorizando
autorizando gastos
gastos a todos
a todos os egressos
os egressos da da
imensa famíliarural,
imensa familia rural,o oEstado
Estado perdia
perdia a capacidade
a capacidade de discernir
de discernir
o interesse
interessegeral,
geral,dedeatender
atender necessidades
necessidades estratégicas.
estratégicas. Apegados
Apegados

20
20
como
como estavam
estavam aoao patrimonialismo-,
patrimonialismo,osospartidos
partidosse se haviam
haviam tor- tor
nado, como oo dizia
nado, como diziaNabuco,
Nabuco,“apenas
“apenas sociedades
sociedades cooperativas
cooperativas de de
emprego
emprego ouou de
deseguro
segurocontra
contraa amiséria”.
miséria”. Corna-se
Corria-se o risco
o risco de que,
de que,
quando finalmentefossem
quando finalmente fossemadotados
adotadoso oabolicionisrno
abolicionismo e ase refor-
as refor
mas» seunascimento
mas, seu nascimentofosse
fossetardio,
tardio,
se se
nãonão póstumo.
postumo.
Não
Não éé necessário
necessárioinsistir
insistirsobre
sobrea aatualidade
atualidade de de Nabuco,
Nabuco, de de
suas advertências contra a dilapidação do Estado, de seu chama-
suas advertências contra a dilapidação do Estado, de seu chama
do para
para aa transformação
transformaçãosocial,
social»dede
seuseu apreço
apreço pelapela política
politica de de
dçaior alcance,dedesua
nltaior alcance, suaíndole
índoledemocrática.
democrática. Que
Que melhor
melhor tributo
tributo
prestar-se hoje em
prestar-se hoje em dia
diaaaesse
essegrande
grandebrasileiro
brasileiro senão
senão continuar
continuar
apostando
apostando no no método
método democrático
democráticoparaparaa asuperação
superação dosdos noskos
noslsos
estigmas sociais?Nada
estigmas. sociais? Nadasesecontrapõe
contrapõe mais
mais ao ao legado
legado de Nabuco
de Nabuco do do
que deixar
deixar que
queaaintransigência
intransigênciaprevaleça
prevaleça sobre
sobre o diálogo
o diálogo e acei
e acei-
tar que
que as
as paixões,
paixões,por
porlegítimas
legitimasqueqúesejam,
sejam, sufoquem
sufoquem o respeito
o respeito
à diferença. Tomara saibamos seguir fazendo da reconciliação de-
à diferença.a Tomara
mocrática saibamos
arma
melhor arma seguir
contra
contra fazendocontra
aa pobreza,
pobreza, da reconciliaç
contra ão de
aaimperdoável
imperdoável
indigéncia material em
indigência material emque quecontinuam
continuamvivendo
vivendo milhões
milhões de bra
de bra-
sileiros. . : :• t . •f
Em relação
relação aa Nabuco
Nabuco diplomata,
diplomata,são sãovários
váriosos os momentos
momentos
de sua
sua experiência
experiênciaque, qúe,semsemdúvida,
dúvida, merecem
merecem nossa
nossa atenção:
atenção: os os
anos emem que
que atuou
atuoucomo
comoassessor
assessordiplomático
diplomático nosnos Estados
Estados Uni-Uni
dos ee na
na Inglaterra,
Inglaterra, que
quetanto
tantoínfluíram
influíramsobresobresua
sua; sensibilidade
sensibilidade
política; oo acompanhamento
acompanhamento da dadisputa
disputafronteiriça
fronteiriçacomcom a Guia
a Guia-
na Inglesa;
ínglesá; aa condição
condiçãodedeministro-chefe
ministro-chefedadadelegação
delegação brasileira
brasileira
em Londres;
Londres; aadireção
direçãodadaembaixada
embaixada emem Washington;
Washington; a defesa
a defesa do do
pan-americanismo.
pamamericanismo.
Éntretanfê,
Entretanfd, prefiro deter-menum
prefiro deter-me numaspecto
aspectomenos
menosreconhe-
reconhe
cido dede sua
sua obra,
obra, de
denatureza
naturezamaismaisconceitual.
conceituaiTenho
Tenho emem mente
mente
a leitura
leitura que
que Nabuco
Nabucofez fezememO abolicionismo
abolicionísmo da da posição
posiçãoadotada
adotada
pelo Império sobre
pelo Império sobre oótráfico
tráficodedeescravos
escravos atéaté 1850,
1850. Leitura
Leitura que que
me me
parece dede interesse
interesseimediato
imediatopara parao odebate
debate atual
atual sobre
sobre os limites
os limites
da soberania,
da soberania, que
que antecipava
antecipavaquestões
questõesrelevantes
relevantes para a proteção
para a proteção
2211
internacional dosdireitos
internacional dos direitoshumanos
humanos e que,
e que, certamente,
certamente, projeta*
projeta*
va Nabucomais
va Nabuco maisalém
alémdedesuasua época.
época. Ele defende
Ele defende com veemência
com veemência
o0 uso do princípio
uso do princípiodadasoberania
soberania(ou(ouda da dignidade
dignidade nacional)
nacional) na na
proibição dessetráfico.
proibição desse tráfico.Expõe
Expõe os os argumentos
argumentos como
como se jáse já estives
estives-
sem maduros.
maduros.Insiste
Insistenanapremissa
premissa de que
de que a soberania
a soberania nacional
nacional de de
qualquer Es-tado que seja tem limites que devem ser submetidos a
qualquer
maiores Estado que seja tem limites que devem ser submetidos a
considerações.
maiores considerações.
: Acrescenta
Acrescenta que qüe essas
essas considerações
considerações maiores, maiores, que quechama
chamadede
leis morais,
morais,têm têmcomo
comofontefontedede legitimidade
legitimidade a consciência
a consciência inter-inter
nacional,
nacional, aa humanidade.
humanidade.Aceita, Aceita, maismais ainda,
ainda, até até recomenda,
recomenda, que que
a violação
violação dos doslimites
limitesdadasoberania
soberania sejaseja objeto
objeto de sanção.
de sanção. Sugere,
Sugere,
por fim, que
por firn, quecompete
competeaos aosdirigentes
dirigentes velarveiar
paraparaque que o interesse
o interesse
nacional
nacional não não entre
entreem emconflito
conflitocom com6o bem-estar
bem-estar ee aasegurança
segurança
dos demais
demaispovos.povos.Nisso
Nisso residiria
residiria parapara NabucoNabuco o verdadeiro
o verdadeiro pg- p&-
triotismoé
triotísrn o. . `*
` I!
Sabemos
Sabemos que, que,atualizados
atualizadosa linguagem
à linguagem de hoje^
de hoje, os preceitos
os preceitos
enunciados
enunciados por porNabuco
Nabucoainda ainda encontram
encontram resistência.
resistência. Incomo-
Incomp-
dam aqueles
aqueles quequedesejam
desejamfazer fazerda da soberania
so`oe1°.ania umauma garantia
garantia da da
impunidade,
impunidade, um Umamparo
amparo queque autoriza
autoriza o desrespeito
o desrespeito dos direitos
dos direitos
básicos
básicos da dapessoa
pessoahumana,
humana, a degradação
a degradação do meio
do meio ambientei
ambiente, a de- a de
terioração
terioração da da imagem
imagemexterna
externadodo país.país. Se até
Se até hojehoje encontramos
encontramos
apóstolos
apóstolos da dabarbárie,
barbárie,podemos
podemos imaginar
imaginar a oposição
a oposição encontrada
encontrada
por Nabucono
por Nabuco nomomento
momentoemem queque sé consolidava
se consolidava o Estado-nação.
o Estado-nação.
Também
Também ousadaousadafoifoisua sualeitura
leiturada da
inserçãoinserção do Brasü
do Brasil no mundo,
no mundo.
O
O patriotismo, segundoNabuco,
patriotismo, segundo Nabuco, viria
viria posteriormente,
posteriormente, já nojá no
século
século xx,xx, aa sofrer
sofrer interpretações
interpretaçõesde deoutra
outranatureza,
natureza,maismaisrefinada.
refinada.
Penso
Penso na nacrítica
criticadedeMário
Máriodede Andrade,
Andrade. Mário Mário costumava
costumava contra» contra
por seu
seunacionalismo
nacionalismo ao aocosmopolitismo
cosmopolitismode deNabuco.
Nabuco.Empenhado
Empenhado
em “abrasileiraro oBrasil'Í
em “abrasileirar Brasil” o modernista,
0 modernista, em em reiteradas
reiteradas ocasiões,
ocasiões,
ironizou
ironízou aa faltafaltaque
queNabuco
Nabuco sentia
sentia dosdos caiscais do Sena
do Sena em plena
em plena
Quinta da
Quinta daBoa
BoaVista.
Vista.AsAsraízes do do
raízes Brasil não não
Brasil estariam no “mal
estariam no de
t£mal de
Nabuço” senãononofoco
Nabuco” senão foco
-dada infecção
infecção mazomba
mazombaf ,2dizia Mário.
dizia Mário.

2-2
Parece-me
Parece-me que que ososnovos
novostempostemposfavorecem
favorecem mais
mais Joaquim
Íoaquim
Nabuco
Nabuco do dó que
queMário
MáriodedeAndrade.
Andrade. Â intensificação
A intensificação do diálogo
do diálogo
entre
entre as asculturas
culturasnosnosfezfezperceber
perceber a relevância
a relevância da dupla
da dupla inserção
inserção
histórica brasileira,dedeque
histórica brasileira, quetanto
tantofalafala Nabuco
Nabuco emem Minha formƒormfl~ a
ção. Pertenceríamos
Pertenceríamos ààA.-mérica
.América pelopelo “sedimento
“sedimento novonovo do es-
do seu seu es
pírito”, maisafeito
pírito”, mais afeitoaoaqcoração,
coração, e hà eEuropa,
Europa, por por seus
seus“estam-entos
"estamentos
estratificados”, mais
estratificados” maisacostumados
acostumados là razão,
à razão,ao espírito. Daí Daí
ao espirito. a “du-a ^du
pla ausência”
ausência”que queconstituiria
constituiria nossanossá identidade,
identidade, umauma identidade
identidade
ambivalente,
ambivalente, que quededéumum ladolado
do do marmar sentiria
sentiria a ausência
a ausência do mun
do mun-
do e,e, do
dooutro,
outro,a aausência
ausência dodopais.país,
\ Hoje, às às vésperas
vésperas dosdos quinhentos
quinhentos anos anos eeapós
após os osvalíopos
valiosos
aportes culturaisdodoexterior
aportes culturais exteriorque querecebemos
recebemos durante
durante o século
o século
xx, inclusive
XX, inclusive dadaÁsia,
Ásia,Nabuco
Nabuco talvez
talvez preferisse
preferisse falarfalar dá múltipla
da múltipla
ausência
ausência do dobrasileiro.
brasileiro.Uma Uma ausência
ausência quequelogologo se converte
se converte numnum
triunfo para
para aaafirmação
afirmaçãodedenossa nossa presença
presença no no mundo,
mundo, parapara
faci~faci
litar o diálogo
diálogocomcomososmaismaisdiversos
diversos povos
povos de todas
de todas as regiões
as regiões do do
globo terrestre.
terrestre.UmUmdiálogo
diálogoemem que que contribuímos
contribuírnos nãonão somente
somente
com valoresdadacordialidade,
-com os valores cordialidade, mas mas com comtudotudo aquilo
aquilo queque soube
soube-
mos tomar
tomar ee processar
processarcom coma aforçaforçadodonossonossotalento,
talento, o que
o que Má- Má
rio de Andrade,antropofágicof
de Andrade, antropofàgico ,3 certamente corroboraria,com
certamente corroboraria, comoo
aplauso
aplauso de deNabuco.
Nabuco.

ts

2:»
Um olhar
Olhar sul-americano*

. “__ d

*-.,. Í.
,,

Como livro
Como livro dede história
históriapolítica, Balmaceda*1 transcendia
política,Balmaceãa transcende,a
época
época ememquequefoifoiescrito
escritoe, e* sobretudo,
sobretudo, o país
o país e o personagem
e o personagem eita- exa
minado.
minado. Foi Foi publicado
publicadoemem1895 1895quando
quando foi foi reunida
reunida a série^de
a sérieade
artigos que]da`quim
artigos que JoaquimNabuco
Nabuco havia
havia publicado
publicado no do Co~
no Jornal
jornal Co- *a'
mércio do RioRio dedeJaneiro
Janeironos nosprimeiros
primeiros meses
meses daquele
daquele ano. ano.
Um Um
postscriptum intitulado“A“A
postscriptum intitulado questão
questão da América
da América Latina*
Latina” comple
comple-
tou aa coleção.
coleção.
OO intelectual, políticoe ediplomata
intelectual, político diplomata brasileiro
brasileiro abordava
abordava um um
dos
dos períodos mais agitados
períodos mais agitadosda da história
história chilena
chilena-- ■a_' apresidência
presidência
de José Manuel Balmaceda
Iosé Manuel Balmaceda (1886-91)
(1886-91) ee seus
seusconflitos
ConflitoscomcomooCon-
Con
gresso 7-*1 que
gresso -, terminoucom
que terminou coma ainstalação
instalaçãode de
uma uma ditadura,
ditadura, a ex- a ex
plosão
plosão dedeuma
umaguerra
guerracivil,
civil, tragédia
tragédia que que culminou
culminou no suicídio
no suicídio do do
mandatário asiladonanamissão
mandatário asilado missão argentina
argentina em em Santiago,
Santiago.
Nabuco deteve-senesses
Nabuco deteve-se nesses episódios
episódios ao fazer
ao fazer a resenha
a resenha da obrada obra

: * “Prefácio”.
“Prefácio”In:In
: Ioaquim
JoaquimNabuco,
Nabuco, 1849-1910,
18491910,Balmaceda.
Balmaceda. Santiago
Santiago dodoChile:
Chile:
Editorial Universitaria,
Editorial Universitária,2000, pp. pp.
2000, 9-12.912.

14
de JulioBafiados
de Iulio BafiadosEspinosa,
Espinosa, colaborador
colaborador direto
di-reto de Balmaceda,
de Balmaceda, que que
oo encarregara
encarregaradadamissão
missão de de deixar
deixar a “verdadeira
a “verdadeira história”
história” do seu do seu
governo paraa aposteridade.
governo para posteridade. À riqueza
A riqueza da análise
da analise é umaédas uma qua-das qua
lidades reconhecidasnono
lidades reconhecidas estudo
estudo de de Nabuco
Nabuco na medida
na medida em que em que
expôs
expôs ososaspectos
aspectosfundamentais
fundamentais de sua
de sua visãovisão política
política e tiroue con-
tirou con
clusões diametralmente
clusões diametralmente opostas
opostas àquelas
àquelas do autor
do autor chileno chileno
tolhidotolhido
^pela parcialidade.
\pela parcialídade. Deixou
Deixou entrever
entrever sua paixão
sua paixão pelo Parlamento,
pelo Parlamento,
sua aversãoà àautoridade
sua aversão autoridade ditatorial
ditatorial ou caudilhesca
ou caudilhesca e, principal
e, principal-
mente,
mente, aa percepção
percepçãodos dosdesafios
desafios e das
e das incertezas
incertezas que, que,
naquelanaquela
época, atormentavamas as
época, atormentavam nações
nações americanas,
americanas, entreentre
elas oelas o próprio
próprio
Brasil* quevivia
Brasil, que viviaosOs primeiros
primeiros passos
passos do regime
do regime republicano,
republicano. lzlssa Ijssa
mesma
mesma consciência de Nabuco
consciência de Nabucooofezfezdedicar-se,
dedicar-se,posteriormente,
posteriormente,a a
outra
outra série de ensaios
série de ensaios politicos-
políticos destadestavez
vezsobre
sobreumaumagrave
gravecrise
crise
que marcouooinício
que marcou iníciodadaRepública
República brasileira
brasileira — que
-- que se transfor
se transfor-
mou no livro A intervenção estrangeira durante a Revolta de 1893.
mou no livroA intervenção estrangeira durante a Revolta de 1893.
O Chile era
O Chile eraum umpaís
paísqueque havia
havia gozado,
gozado, no século
no século xxx, um xix» üm
longo períododedeestabilidade
longo período estabilidade e, por
e, por isso,isso, representava
representava para mui
para mui-
tos
tos aa esperança
esperançadede queque o sistema
0 sistema republicano
republicano poderiapoderia prospe&r
prosperi-1r
no Brasil.
BrasiLCom
Comsuas suasconvicções
convicções monarquistas
monarquistas e liberais,
e liberais, -NabucoNabuco
preocupava-se
preocupava-se com coma possibilidade
a possibilidade de que,
de que, com com a chegada
a chegada da Re- da Re
pública
pública,, o Brasil
Brasil ficasse
ficasseassociado
associadoao aoquadro
quadrodedeconvulsões
convulsõespolíti-
políti
cas nasquais
cas nas quaissesedebatia
debatia a região.
a região. Aliás,Aliás, no epílogo
no epílogo de
de Balmaceda>
Balmaceda,
ele observouque
ele observou queo país
o país vizinho,:
vizinho, com com seu regime
seu regime de liberdade
de liberdade e de e de
; transrnissão
transmissãoordenada
ordenada de de governo,
governo, constituía
constituía uma uma “exceção“exceção
que que
podia serconsiderada
podia ser considerada umum capricho
capricho de ordem
de ordem moralmoral na formação
na formação
da AméricadodoSul'Í
da América Sul” A ruptura
A ruptura do processo
do processo chilenochileno
causava causava
gran- gran^
de inquietud^aseu
de inq-uietuddla seuespírito
espírito americanista
americanista e, por
e, por isso, isso,
saudousaudou
a a
Revolução
Revolução de de1891
1891como
como a confirmação
a confirmação do “bem
do “bem que a que
formaa forma
re- re
publicana
publicana fezfezaoaoChile”
ChOe”e quee que “serviu,
“serviu, comocomoa Guerraa Guerra de Secessão
de Secessão
nos Estados
EstadosUnidos,
Unidos, nãonão apenas
apenas parapara revelar
revelar ao mundoao mundoo vigoro vigor
dos fundamentosÍ'...]
dos fundamentos jUJdodoseuseu edifício
edificio nacional,
nacional, mas mas
mais mais
ainda ainda
para cimentá-lo
para cimentá-lonovamente”.
novamente”

2as5
Os estudiososdedeNabuco
Os estudiosos Nabuco identificam
identificam em emBalmaceda o mo- mo
mento
mento em em quequeososassuntos
assuntos do do continente
continente passam
passam a estimular
a estimular o o
militante políticojá,já,naquele
militante político naquele momento,
momento, absorvido
absorvido pelospelos
ecos ecos
da da
causa abolicionista.
.causa abolicionista.
Havia regressadododo
Havia regressado seuseu exílio
exílio europeu
europeu e começava
e começava a escre- a escre
ver
ver aabiografia
biografiadodoseuseupai,pai,
Um estadista do Império, e e-sta,esta,sua
suaobraobra
mais importante,foifoielaborada
mais importante, elaborada no no mesmo
mesmo tempotempo em se
em que quede~se de
dicava
dicava aoaoestudo
estudodada crise
crise chilena.
chilena. Na verdade,
Na verdade, o próprio
o próprio NabucoNabuco
reconheceu
reconheceu no noseu
seupostscripturn
postscriptum queque a Proclamação
a Proclamação da República
da República
no Brasil
Brasilhavia
haviaprovocado
provocado o aumento
o aumento do interesse
do interesse que,
que, já já antes,
antes,
lhe inspiravamosos“assuntos
lhe inspiravam “assuntos sul-americanos”
sul-americanos? DesdeDesde
entãoentão
“co- “co
meçamos
meçamos aaforrnar
formarparte
partededeumum sistema
sistema político
político maismais
va$to'Ívasto”
Por Por
isso insistianananecessidade
isso insistia necessidade do observador
do observador brasileiro
brasileiro de “estudar
de “estudar
a marcha
marchado docontinente,
continente,auscultar
auscultar o murmúrio,
o murmúrio, a pulsação
a pulsação cog- con
tinental'i A
tinental” Apesquisa
pesquisaminuciosa
minuciosaque quefezfez
sobre
sobrea revolução
a revoluçãochilena
chilena ’ feztrabalho
fez parte desse parte desse trabalho dedaobservação
de observação da
política hernísféricaã
política hemisférica^enriquecida
sería posteriormente seria posteriormente enriquecida
pela contribuição pela
de Nabuco
contribuição de Nabuco
ao debate das ideias em tornoao debate das idéias em torno do É
do pan-americanismo.
pan-americanismo.
O que
que Nabuco
Nabucodenominou
denominoua “questão
a “questão da América
da América Latina”Latina”
refletia apenasa aimportância
refletia apenas importância da da região
região como como
foco foco de atenção
de atenção
prioritária
prioritária ee permanente
permanentedadadiplomacia
diplomacia brasileira,
brasileira. Havia
Havia sido sido
assim duranteo oImpério
ass-im durante Império e oeseria
o seria
mais mais
aindaainda durante
durante a Republi
a Repúbli-
ca, sobretudo depois da resolução definitiva das disputas frontei-
ca* sobretudo depois da resolução definitiva das disputas frontei
riças com alguns
riças com algunsvizinhos,
vizinhos, gestão
gestão conduzida
conduzida pelo pelo
barãobarão
do Riodo Rio
Branco com aacontribuição
Branco corn contribuiçãodede Nabuco
Nabuco na questão
na questão específica
específica do do
litígio comaaGrã-Bretanha
litígio com Grã-Bretanha emem torno
torno da Guiana
da Guiana Inglesa.
Inglesa. O enri
O enri-
quecimento
quecimento mútuomútuodas dasexperiências
experiências nacionais,
nacionais, a influência
a influência reci- recí
proca entreasasconjunturas
proca entre conjunturas dosdos diferentes
diferentes países,
países, a proximidade
a proximidade
dos interesses,marcariam
dos interesses, marcariam cada
cada vez vez
maismais a história
a história das relações
das relações do do
Brasil comososseus
Brasil com seusvizinhos,
vizinhos, propiciando
propiciando formas
formas crescentemente
crescenternente
aperfeiçoadas de diálogo e cooperação. A Conferência Pan-Amo
aperfeiçoadas
ricana
ricana de 1906,de
de1906, diálogo
realizada
realizada eRio
no nocooperação.
Rio A
de janeiro,
de Janeiro, Conferência
presidida
presidida Pan-Ame
por
por Nabo»Nabu-

7.6
26
co, foioomarco
co, foi marcodesse
desse processo
processo e, inclusive,
e, inclusive, estabeleceu
estabeleceu as basesasdebases de
uma convivênciamais
uma convivência mais próxima
próxima -comcom os Estados
os Estados Unidos.
Unidos.
Ás reflexõesdedeNabuco
As reflexões Nabuco sobresobre o drama
o drama político-institucional
político-institucional
vivido peloChile
vivido pelo Chiledede Balmaceda
Balmaceda constituem
constituem umauma referência
referência para para
aa compreensão
compreensãodas dasdiferentes
diferentes facetas
facetas da evolução
da evolução do panorama
do panorama
geral da
daAmérica
América Latina
Latinadurante
duranteooséculo
séculoxx. xx>Muitos
Muitosdos dosfenôme-
fenôme
nos examinados
nos examinados-fragmentação
— fragmentação do dosistema partidário,
sistema estrutu-
partidário, estrutu
ra oligárquica do poder, militarismo , populismo-
ra oligárquíca do poder, militarismo, populismo ~ - são comuns são comuns
aos diferentes
diferentesciclos
ciclos dede instabilidade
instabilidade pelospelos
quaisquais
passarampassaram
os pai-ps paí
ses da
da região,
região,atéatéqueque a democracia
a democracia se fixasse
se fixasse com comraízesraízes sólidas.
sólidas.
Por outro lado,
Por outro lado,alguns
alguns dosdos temas
temas evocados
evocaclos por Nabuco,
por Nabuco, alémjde
alérnlde
aludir
aludír aa experiências
experiênciassuscetíveis
suscetíveis de comparação
de comparação com comoutrasoutras

da
região, nuncaperderam
região, nunca perderam atualidade.
atualidade. (Qual (Qual
dos líderes
dos políticos,
líderes políticos,
dos presidentes
presidentesdede hoje
hoje ememdia dia
não não concordaria
concordar-ia com com a afirmação
a afirmação
de que o “valor dos chefes de Estado sul-americanos tem que ser
de que pelo
julgado o “valor dos chefes
resultado de Estado sul-americanos tem que ser
de sua administração”?)*
administração”?)2~
Ninguém
Ninguém que quetenha
tenhaque que lidar
lidar com com ó desafio
o desafio de governar,
de governar,
sobretudo sociedades
sobretudo sociedades tãotão complexas
complexas e injustas
e injustas quanto
quanto as nossal,
as n.ossa_'s,
deixaria
deixaria dedereconhecer
reconhecer queoopapel
que papeldos doschefes
chefesde
deEstado
Estadonãonão pode
pode
se restringiràsàsboas
se restringir boas intenções,
intenções, aos aos
atosatos de vontade,
de vontade, aos compro
aos compro»
missos, osquais
mi-ssos, os quais devem
devemmaterializar-se
materializar-se em emações
açõesefetivas,
efetivas,em
emmu-mu
danças
danças eerealizações.
realizações,
Com
Com sua suáaguda
aguda percepção
percepção da história
da história política
política do continente,
do continente,
Nabuçó
Nabuco sabiasabiadodoalcance
alcance desse
desse desafio
desafio que, que» no crítico
no juízo juízo crítico
de de
Balmaceda,
Balmaceda, não naovacilou
vacilouemem generalizar:
generalizar: o valor
o valor dos chefes
dos chefes de Es-de Es
tado sul-americanosnão
tado sul-americanos não deve
deve somente
somente traduzir-se
traduzir-se pelatena-
pela sua sua tena
cidade—
cidade -“em “em tenacidade,
Énacidade, quemquemse secompara
compara-com comLópezi”
López?”—- nemnem
por seu
seu orgulho
orgulhopatriótico
patriótico— wempatriotismo
-“em patriotismo agressivo,
agressivo,quem
quemsese
compara com com Rosas?”
Rosas?”_ — ee nem
nemsequer
sequerpelapelasua
suahonestidade
honestidade--—~
“em honestidade,
honestidade,quem quemsupera
superaaa França?".
França?’Para Parajulgados,
julgá-los,dizia
diziafiffi
nalmente:
nalmente: “é“épreciso
preciso comparar
comparar o estado
o estado em receberam
em que que receberamo país o país
e6 oo estado
estadoem
emque
queo deixaram, o inve-ntário
o deixaram, nacional
o inventário ao entrar
nacional ao entrar
27
2?
e ao
ao sair”.3
sair” 5AA essa
essa formulação'
formulação'singela
singela,, cabe
cabe agregar;
agregar: não
não consti-
consti- |
tuiria oo eixo
eixo fundamental
fundamentaldos dosprocessos
processos democráticos?
democráticos? Quantas
Quantas
situações
situações não não terão
terão ocorrido
ocorridona naAmérica
AméricaLatinaLatinaememque queao ao
des-des
virtuar aa natureza
natureza dasdasfunções
funçõesdodohomem
homemdede Estado
Estado sucederam
sucederam
experiênci
experiências as políticas igualmente
igualmente penosas?
penosas? 1
Analista sutil, com
Anal-ista sutil, comseuseudomínio
domíniodas dasciências
ciênciaspolíticas
políticas e so
c so-
ciais, Nabuco
ciais, Nabucosuscita
suscitaeste
estee eoutro
òutrotipo
tipodedereflexão, e é por
reflexão, isso isso
e é por que que
se pode
pode caracterizar sua suaobra
obrasobre
sobreBalmaceda
Balmacedacomo comoumumtrabalho
trabalho
de interesse
interessepermanente.
permanente.
Pelos laços antigos
Pelos laços antigoseeprofundos
profundosque quetenho
tenhocomcom o Chile*
o Chile, e e
como homenagem aa esse esse país
país— que soube,
_ que soube,do do mesmo
mesmo modomodoque que
o Brasil, atravessarososmomentos
Brasil, atravessar momentosdedeescuridão
escuridão de de
suasua história
história e e
hoje avança confiante
confiante em em regime
regimedemocrático
democrático-. deu-me deu-memuito
muito
prazer prazer a oportunidade,
a oportunidade, por iniciativa
por iniciativa da embaixada
da embaixada do Brasildo egi
Santiago, de prefaciar com esses breves comentários a reedição
Brasil em > Santiago,
comentários
em espanhol a reedição
desta de prefaciar
significativa
significativa obra com
obra"de
`de esses breves
Joaquim
Joaquim Nabuco.
Nabuco. *rS d
'§_

28
Joaquim Nabuco democrata*

I\

Nunca imaginei que meu nome fosse lembrado para falar


Nunca imaginei que meu nome fosse lembrado para falar
sobre JoaquimNabuco
sobre Ioaquirn Nabuco nana casa
casa queque foi na
foi sua suaépoca
na época da fundação.
da fundação.
Começo
Começo por pormemedesculpar:
desculpar: afastado
afastado da vida
da vida acadêmica
acadêmica pelos aci
pelos acéi-
dentes
dentes de deum
umpercurso
percurso político
político atribulado,
atribulado, é umaé ousadia
uma ousadia
fazer fazfer
na Academia
AcademiaBrasileira
Brasileira
de de Letras
Letras umauma conferência
conferência sobre sobre
NabucoNabuco
para celebraroocentenário
para celebrar centenário de de
suasua morte.
morte. No tormento
No tormento angustioso
angustioso
da responsabilidade
responsabilidadede de falarfalar sobre
sobre o homenageado
o homenageado procurei
procurei ler ler
e reler
reler oo que
quepude,
pude,escrito
escritoporpor
ele ele ou sobre
ou sobre ele. Entre
ele. Entre os muitos
os muitos
textos voltei a algumas de suas conferências e quase desisti da ou-
textos voltei a alguinas de suas conferências e quase desisti da ou
sadia deaceitar
sadia de aceitarfazer
fazer
estaesta conferência,
conferência. ComCom que cuidado
que cuidado NabucoNabuco
preparava suasfalas!
preparava suas falas!
QueQue fossem
fossem no Parlamento,
no Parlamento, nos comícios
nos comícios da da
Campanha abolicionista
campanha abdlicionista e, sobretudo,
e, sobretudo, nas universidades*
nas universidades, de sua de sua
pena ou de
pena ou dêsuasuavoz
voz saiam
saiam obrâs
obras literariamente
literariamcnte perfeitas.
perfeitas. Mais doMais do
que isso:ooraciocinio
que isso: raciocmiofluía
fluía çartesianamente,
cartesianamente, envolto
envolto na beleza
na beleza das das

* Conferência
Conferênciapronunciada
pronunciada ná Academia
na Academia Brasileira
Brasileira deRio
de Letras. tetras, Rio deemJaneiro, em
de Ianeiro,
18 demarço
13 de marçodede22010.
010.

29
29
palavras
palavras bem bemescolhidas,
escolhidas,com corriuma uma lógica
lógica que que convencia
convencia e com e com
uma maneira
maneirade deescrever
escrevere dizer
e dizer queque seduzia.
seduzia. Na conferência
Na conferência que que
fez na Universidade
fez na UniversidadeYale, Yale, sobre
sobre Camões
Camões,' ,1 em texto
texto escrito
escrito em
emin-in
glês, chegouaaentremear
glês, chegou entremeara aula
a aula com com a declamação
a declamação de trechos
de trechos dos dos
Lusíadas.* ÀÀ erudição,
Lusíadas erudição,Nabuco
Nabucoacrescentava,
acrescentava, a intervalos,
a intervalos, a voza voz
de de
jovem
'jovem aluno americano, para melhor pronunciar os versos que
ele próprio
próprio vertera
verterápara
parao oinglês
inglês comcom perfeição.
perfeição. Tal Tal proeza,
proeza, parapara
quem acreditavatertero oespírito
quem acreditava espírito maismaisafimafim com com a cultura
a cultura francesa,
francesa,
mostra não não só
só um
umdomínio
domíniolinguístico
lingüísticoe literário
e literário incrível
incrível como
como o o
apuro
apuro no no que
queééimportante
importanteemem qualquer
qualquer oratória:
oratória: o jogo
o jogo de cena,
de cena,
do espaço,
espaço,dos dosintervalos
intervalose dos
e dos silêncios.
silêncios.
Dirijo-lhes a palavra,
palavra,não
nãoobstante,
obstante,motivado
motivado porporumum misto
misto
de vaidade
vaidade-—-a adede serser ouvido
ouvido nestanesta
CasaCasa-_ e —- e de admiração
de admiração por por
Nabuco.
Nabuco. AindaAindaalunoalunonanaFaculdade
Faculdade de Filosofia,
de Filosofia, Ciências
Ciências e Letras
e Letras
da uUse
s p tive
tive aa oportunidade
oportunidadededetrabalhar
trabalhar com com Florestan
Florestan Fernandes*
Fernandes
e Roger
Roger Bastide
Bastidenumanumapesquisa
pesquisa sobre
sobre os os negros
negros em em São São Paulp,
Paulo,
antes
antes de dehaver
haversido
sidoassistente
assistente desses
desses doisdois mestres.
mestres. Na ocasião,
Na oc_asião,1i O li O
abolicionismoz2 e me
abolicionismo me tornei
torneiimediatamente
imediatamenteentusiasta entusiasta de de Nabuôo.
Nabuëo.
Para nós,
nós, jovens
jovenssociólogos
sociólogosansiosos
ansiososporpor transformar
transformar o mundoT
o mundo
e para
para lutar
lutarpor
porum umBrasil
Brasilmais
maisigualitário,
igualitário, o capítulo
o capítulo sobre
sobre “O “O
mandato
mandato da da raça
raçanegra”
negra”terá
terá sido
sido algoalgo equivalente,
equivalente, se mesepermi-
me permi
tem a pretensão em comparar, ao que foi Renan” para Nabuco e
tem a contemporâneos.
tantos pretensão em comparar,
contemporâneos. Eranossa
Era ao
nossa que foi Renan
inspiração,
inspiração, com para
3com aNabuco dee de
diferença
a diferença
que Nabuco
Nabuconãonãonosnosincutia
incutiaa dúvida,
a dúvida, o ceticismo,
o ceticismo, comocomo Renan,
Renan,
mas certezas.
certezas.SóSópodíamos
podíamosconcordar
concordarcomcom
suasua previsão
previsão de que
de que
o manto negro da da escravidão
escravidão obscureceria
obscurecería oo Brasil
Brasilpor
pordécadas
décadas
pará alémdo
para além dodia
diadadaAbolição,
Abolição, como
como verificávamos
verificávamos em nossas
em nossas pes- pes
quisas sobre os
os negros
negroseesobre
sobreoo preconceito
preconceitodedecor
cornos
nosanos
anos1950,
1950,
tanto tempo
tempo depois
depoisdadaLeiLeiÁurea.
Áurea. Nutria-nos
Nutria-nos nãonão o ceticismo,
o ceticismo,
mas a confiança de que os efeitos negativos da escravidão na so-
mas a confiança
ciedade seriam de que os
seriam mitigados
efeitos
nodecorrer
mitigados no decorrernegativos
dodotempo,
da
tempo, c escravidão
omo
como
na so
acreditava
acreditava
Nabuco. Eledepositava
Nabuco. Ele depositavaesperança
esperança
no no futuro,
futuro, comocomo nós também.
nós também.

30
CIBADANIA EERAÇA
CIDADANIA RAÇA

Á ideia do
A ideia do “mandato”
“mandato”recebido recebidopelos
pelos abolicionistas
abolicionistas como
como
uma delegação irrenunciável
um.a delegação irrenunciávelé éexpressiva
expressivada da
visãovisão política
política de de
Joaquim
joaquim Nabuco,
Nabuco. Não terá sido por generosidade ou compaixão,coinpaixão,
nem mesmo
mesmo religiosa,
religiosa,dizdizele,ele>
queque os advogados
os advogados da causa
da causa emanci-
emanci-
paciònista
pacíonista a abraçaram.
abraçaram. Abraçavam-na,
Abraçavam-na,

como homenspolíticos,
como homens políticos,por por motivos
motivos políticos,
políticos, e assim erepresen-
assim represem
tamos
tamos ososescravos
escravos e ose ingénuos
os ingênuos na qualidade
na qualidade de Brasileiros
de Brasileiros que que
julgam o0 seu título
titulo de cidadão diminuído, enquanto houver Brisi* Brlisi-
leiros
leiros escravos, istoé,é,[abraçavam-na]
escravos, isto [abraçavam-na] nointeresse
no interesse detodoo pais
de todo o país
e e
no nosso
nossopróprio
próprio interesse,4
interesse'

Nabuco concebia
Nabuco concebiaaaluta
lutacontra
contraa aescravidão
escravidão como
comoumauma lutaluta
pela cidadania.
cidadania.Junto
Juntocomcomesta
estaconcepção
concepção havia
havia outra
outra muito
muito for-For
te, aa de
deque,
que* além
alémda dainjustiça
injustiçapraticada
praticadacontra
contraooescravo-martir,;a
escravo-mártir^a
emancipação significaria“a“aeliminação
emancipação significaria eliminação simultânea
simultânea dosdos
doisdois
tipostipos
contrários,
contrários, ee nonofundo
fundoososmesmos:
mesmos:o escravo
o escravo
e o esenhor`Í5
o senhor
”5
Como quase
quase todos
todosososquequeseseocuparam
ocuparam de de
suasua biografia
biografia
sublinham, emboraNabuco
sublinharn, embora Nabucofossefosserebento
rebentoexcelso
exeelso
da da aristocra
aristocra-
cia (que, no caso,
caso, era
eramais
maisumaumaoligarquia
oligarquiaburocrática)
burocrática) e tivesse
e tivesse
gosto pelo,
gosto pelo,estilo
estilodedevida próprio
vida próprio desta camada,
desta seu sêu
camada, espírito cor- cor
espírito
ria solto, como seseexemplificasse
solto, como exemplificasseo queo que Karl
Karl Mannheim,
Mannheim, que,que,
por por
não negava
certo, não negavaa aimportância
importânciae oe papel
o papeldasdas classes
classes e de esuas
de suas
lutas na história,
lutas na históri#,acreditava
acreditavaserser o específico,
o específico. da intelectualidade;
da intelectualidade: a a
capacidade
capacidade de deolhar
olharo oconjunto,
conjunto» apesar
apesar de sua
de sua condição
condição de classe;
de classe.
Ao ressaltar
ressaltarque
quea àmotivação
motivaçãopara para terminar
terminar comcom a escrava
a escrava-
tura não
não nascera
nascerade deumaumacompaixão
compaixãoreligiosa,
religiosa, Nabuco
Nabuco retomou
retornou
a linha
linha que
que fora-
foradesenvolvida
desenvolvida porpor José
lose Bonifácio,
Bonifácio. A leitura
A leitura da fa
da fa-
mosa “Representação à Assembleia Geral Constituinte e Legisla-
mosa “Representação à Assembleia Geral Constituinte e Legisla^
31
tiva do
do Império
ImpériododoBrasil
Brasilsobre
sobre a escravatura”
a escravaturaf de 1823,
de 1823, mostra
mostra
que
que oo nosso
nossóPatriarca
Patriarcafoifoiancestral
ancestral intelectual
intelectual direto
direto de Nabuco.
de Nabuco.
Vai até
até mais
maislonge
longedodoque
que prescrever
prescrever os pormenores
os pormenores sobresobre
o queo que
fazer comos
fazer com osex-escravos
ex-escravos depois
depois de de
suasua libertação
libertação e corno
e como fazê-lo.
faze-lo.
Vêm de José Bonifácio
de Iosé Bonifáciotambém
tambémas as preocupações
preocupações comcom a educa
a educa.-
ção moral ee religiosa
ção moral religiosados
dosmanumitidos,
manumitidos, comcom o dar-lhes
o dar-lhes acesso
acesso à à
terra para trabalharem. A obsessão de José Bonifácio em abolir
terra para trabalharem, À obsessão de José Bonifácio em abolir
a escravidão
escravidãoestava
estavadiretamente
diretamente ligada
ligada ao que
ao que a análise
a análise agudaaguda
e e
erudita deIosé
erudita de JoséMurilo
MurilodedeCarvalhof
Carvalho/ emem seusseus bordados,
Pontos e bordados,
chama dede “a
Ka razão
razãonacional”.
nacional”Não
Não era
eraoutro
outro ooprojeto
projetopolítico
políticodede
Nabuco: como fonnar
Nabuco: como formaraanação,
nação,seseelaela está
está sendo
sendo Carcomida
carcomicla pela pela
degradação
degradação da daescravidão?
escravidão? Ej»aCrescenta
Epacrescenta José Murilo,
Iosé Murilo, em circuns
em circuns~
tâncias que,diferentemente
tâncias que, diferentementedodo queque ocorria
ocorria nosnos Estados
Estados Unidos,
Unidos,
nossa forma
formade deyivenciar
vivenciar o preconceito
o preconceito contra
contra o negro
o negro permitia
permitia a a
miscigenação racial e esta conduzia inevitavelmente à miscigeiia-
miscigenação racial erecuperávamos
esta conduziatodos
inevitavelmente ** .
à miscigena-
ção política.
política.Ou
Ou nosrecuperâvamos
nos todos
parapara a cidadania
a cidadania oujo ou/o
projeto nacional
nacional continuaria
continuariacapenga.
capenga.
José Murilo de
José Murilo deCarvalho
Carvalhoacredita
acreditaque
que nem
nem sequer
sequer a
a iniluêii-
influên-cia da vertente
cía da vertente filosóficafilosófica
teve entreteve
nós entre
o pesonós
queoteve
peso
emque teve
outras
em outrasÉ *certo
paragens. paragens. É certo
que Ioaquim que Joaquim
Nabuco., Nabuco,
como tantos como
de seus estu-
diosos de
tantos mostram . diosos
¬~e ele
seus estu- mesmo emmostram
seus escritos—--, e
foi ele
familiar
com 0 pensamento político francês, norte-americano e inglês. No
mesmo êmAurélio
livro de Marco seusNogueira]
escritos *—•, foi
O encontro familiar
de joaquim Nabuco
com o pensamento
com o política, político
obra. que vai além francês,
da biografia norte-
e analisa as ideias do
personagem, há amplas referências às origens do liberalismo de
americano e inglês. No livro de Marco
Nabuco (bem como a suas limitações). DO mesmo modo, Vami-
Aurélio
reh Chacon”Nogueira,7
em seu JoaquimO encontro
Nabuco: de Joaquim
revolucionário conservador

com a política, obra que vai além da


resume a enredada teia de pensamentos político-filo'sóficos pre-
Nabuco
valecentes na época que eram de Conhecimento de Nabuco, in-
biografia e anali
cluídos nela muitos dossa as ideiás
autores que do personagem,ashá
desenvolveram amplas
ideias bá-
referências às srcens
sicas da democracia, do dó liberalismo
liberalismo de Nabuco
e mesmo {bem como a
do individualismo,
quando
suas não da pugna
limitações). Do entre
mesmo rousseaunianos
modo, Vami-e reh
discípulos
Chacon de8Mon-
em
sea jmquim Nabuco: revolucionário conservadorresume a
32
enredada
32 teia de pensamentos político-filosóficõs pre-
tesquieu. Temrazão
tesquieu. Tem razãoJosé
JoséMurilo
Murilode deCarvalho,
Carvalho,contudo,
contudo,aoaoinsistir
insistir
que
que aa ideia
ideiadedeliberdade
liberdade e a enoção
a noçao filosófica
filosófica dos dos direitos
direitos naturais
naturais
do indivíduonão
do indivíduo nãoaparecem
aparecem comocomo fundamentos
fundamentos da proposta
da proposta abo- abo
licionista
licionista dedeNabuco.
Nabuco.Nesta,
Nesta, a "ternura”
a “ternura” humana,
humana, por umporlado,
um elado,
o eo
projeto
projeto dedeconstrução
construçãodedeuma uma naçâo,
nação, porpor outro,
outro, sãosãomaismais impor
impor-
tantes
tantes dodoque
queconsiderações
considerações religiosas
religiosas ou filosóficas:
ou filosóficas: é neste
é neste sen~ sen-
'rido que
^ido queadmite
admitee propugna
e propugnaa a integração
integraçãodo escravo
do escravocomocomoeleitor.eleitor.
Cito José Murilo,
Cito ]osé Murilo,parapararesumir:
resumir: “Até“Até
mesmomesmo em Nabuco
em Nabuco a razãoa razão
nacional obscurecetotalmente
nacional obscurece totalmente os os argumentos
argumentos baseados
baseados no valor
no valor
da liberdadecomo
da liberdade comoatributo
atributo inseparável
inseparável da moderna
da moderna concepção
concepção
do
do indivíduo, seja na
indivíduo, seja na versão
versãoreligiosa,
religiosa,seja
sejananafilosófica”.9
filosófica”.9' l!
Penso que Iosé
Penso que JoséBonifácio
Bonifáciofoifoiumumpouco pouco maismais
longelonge
nesteneste
ponto. Eleescreveu
ponto. Ele escreveuque que a “sociedade
a "sociedade civilcivil
tem tem
por por
base base primeira
primeira
a justiça,
justiça, eepor
porfirnfimprincipal
principal a felicidade
a felicidade dos dos homens.
homens. Mas Mas
que que
justiça tem um homem para roubar a liberdade de outro ho-
justiça
mem? tem que
mem? EE ooque
umé éhomem
pior,
pior,
para
dosdosfilhos
roubar
filhos a liberdade
deste
deste homemhomem dedos
outro
e dose filhos
ho
filhos
destesdestes
filhos?” 10 Diz isso
filhos?”.*° isso eè sesecontrapõe
contrapõeà tese à tesede dequeque a liberação
a liberação dos dos
escravos ofenderiao direito
escravos ofenderia o direito de propriedade:
de propriedade: a liberdade
a liberdade humana humana
era paraele
era para eleoovalor
valormaior.maior. AindaAinda assim,
assim, tantotanto em José
em Iosé Bonifácio
Bonifácio
como
como em emNabuco,
Nabuco,a “liberdade
a “liberdade dos dos antigos”,
antigosfl isto é,isto é, de organização
de organização
política
política ee de
depreeminência
preeminência dosdos valores
valores da vida
da vida pública
pública e dose di-
dos di
reitos públicos,obscurece
reitos públicos, obscurece as as preocupações
preocupações comcom a “liberdade
a “liberdade dos dos
modernos”,
modernos”, isto istoé, é,com
com os osqueque veemveem
nos nos direitos
direitos inalienáveis
inalienáveis do do
indivíduo
indivíduo 'o'ofundamento
fundamento da da democracia.
democracia. MaisMais tarde,
tarde, depois depois
de de
suas viagensà àInglaterra
suas viagens Inglaterra e aose aos Estados
Estados Unidos,
Unidos, Nabuco Nabuco descobriu
descobriu
algo dessanova
algo dessa novaforma
forma de de liberdade,
liberdade, masmas nãoa foi
não foi a partir
partir dela que
dela que
fundamentou
ftlndamentou gia áualuta lutapelo
pelo abolicionismo.
abolicionismo.
Ao seseler
lerUm estadista do Império Império ou mesmo
mesmo sua suacorrespon-
correspon
dência
dência ee suas
suasnotas
notassoltas,
soltas, seusseus pensamentos
pensamentos breves,
breves, quemquemsabe sabe
ainda
ainda ememMinha formação
ƒormrzçâo," ? 1 talvez fiqueaaimpressão
talvez fique impressãodede que
que Na-Na
buco teriasido
buco teria sidoooque quehojehoje se se chama
chama de um
de um cientista
cieritista político
político e dose dos
me-lhores: era
melhores: eraarguto
argutonana análise
análise dasdas
pessoas e dose interesses,
pessoas sem sem
dos interesses,

33
se despreocupardas
se despreoc:_upa_r dasinstituiçoes.
instituições. Entretanto,
Entretanto, em Oem O
abolicionismo
alaolícionísmo
ee respingando
respingandoem emmuito
muito dodo
queque deixou
deixou escrito,
escrito, sem exclusão
sem exclusão da da
análise política,subjazo
análise política, subj az observador
o observador social.
social. Poderia
Poderia dizer dizer
“o so- “o so
ciólogo” sempuxar
ciólogo”, sem puxara brasa
a brasa para
para minha
minha sardinha?
sardinha? NabucoNabuco
não vianão via
a política
políticaapenas
apenascomo
comoMaquiavel
Maquiavel a apresenta,
a apresenta, fruto fruto da ambição,
da ambição,
da cobiça,
cobiça,dodoegoísmo
egoísmoe da e da vontade
vontade de poder
de poder dos homens.
dos homens. NossoNosso
-homenageado seseapaixonava
homenageado apaixonava porpòr
suassuas
causas e nelas
causas punhapunha
e nelas não nao

só aa razão,
razão,mas
maso ocoração,
coração,
nãonão tendo
tendo deixado,
deixado, porém, porém, de analisar
de analisar
sempre
sempre aatrama
tramadasdasrelações
relações sociais
sociais que que sustentavam
sustentavam as relações
as relações
de dominação. Não
de dominação. Nãousou usouargumentos
argumentos puramente
puramente econômicos
econômicos
para defendera asubstituição
para defender substituição do do braço
braço escravo
escravo pelo pelo
braçobraço
livre. livre.
Não queriaapenas
Não queria apenasterminar
terminarEom o
tom o instrumentum vocalts.Queria
instmmentum vocalis. Queria
incorporar
incorporar àànacionalidade
nacionalidadee àecidadania
á cidadania homens
homens livres,livres,
negrosnegros
e e
brancos, Tinhavisão
brancos. Tinha visãodistinta
distintada da sustentada
sustentada por Maquiavel
por Maquiavel solgre so^je
a política.
política.
a < ^*-
Em outros
outros países
paísesa amotivação
motivação para
para o término
o término da escravidão
da escravidfo
poderá
poderá ter tersido
sidodiferente,
diferente, pensava
pensava Nabuco.
Nabuco. EntreEntre nós, entretanto,
nós, entretanto,
desejávamos
desejávamos “a“araça raçanegra
negraparapara elemento
elemento permanente
permanente da popu
da popu-
lação [...} parte
lação [...] parte homogênea
homogêneadada sociedade
sociedade? 12 Mesmo
” 12 porque:“A*A
Mesmo porque:
raça negra,
negra,não nãoé étão
tãopouco
pouco para
para nósnós
umauma raça raça inferior,
inferior, alheiaalheia
à à
comunhão,
comunhão, ou isoladadesta,
ou isolada desta,eecujo
cujobem-estar
bem-estarnos nosafete
afetecomo
cornooodede
qualquer
qualquer tribo triboindígena
indígenamaltratada
maltratada pelos
pelos invasores
invasores Europeus”
Europeus'Ê W' °
A leitura desta
A leitura destaúltima
últimafrase
frase poderia
poderia induzir-nos
induzir-nos a crera que,
crer que,
aa despeito
despeitodadagrandiosidade
grandiosidade comcom quequeNabucoNabucovia a via a questão
quest-ão da da
escravidão
escravidão eemesmo mesmodadaraça raça negra,
negra, utilizava
utilizava o conceito
0 conceito de raça,
de raça,
como
como eraera habitual
habitualentão,
então,como
comouma uma linha
linha divisória
divisória com com carac
carac-
terísticas específicasque
terísticas específicas queas as tomavam
tornavam desiguais.
desiguais. É o queÊ osugere
que sugere
oo tom
tom menos
menos objetivo
objetivodadaúltima
última parteparte da frase
da frase ao falar
ao falar de modode modo
praticamente indiferentedos
praticamente indiferente dos males
males queque a conquista
a conquista causava
causava aos aos
"homens
“homens das das tribos
tribosisoladas?
isoladas” A intenção
A intenção era, era, contudo,
contudo, outra:outra:
a a
de mostrar,uma
de mostrar, umavezvezmais,
mais,quequenós,nós, Brasileiros,
Brasileiros, com com maiúscula
maiúscula
corno entãosesegrafava,
como então grafava, éramos
éramos negros,
negros, brancosbrancos e mestiços.
e mestiços. Os ne- Os ne-:

34
gros nos eram
gr0S 1105 erampróximos,
pròxinos,erameramparte
partedodonos nósnacional.
nacional.Em Emnosso
nosso
caso, pregava
pregavaNabuco
Nabuco;o ex-escravo'tornar-se-ia
o ex--escravo tornar-se-iacidadão,
cidadão,pesaria
pesaria
no
no voto, deveriaser
voto, deveria serincorporado
kcorporadoà àcidadania
cidadaniatornando-se
tornando-seigual igual
aos demais
demais brasileiro:
brasileiro!perante
perantea aleileie eososdireitos,
direitos,à medida
à medida queque
progressivamente ces&ssemososefeitos
progressivamente ceszassem efeitosnegativos
negativos da da escravidão
escravidão
sobre aa sociedade.
sociedade,OOregro,
xegro,o oex»escravo,
ex-escravo, formava
formava parteparte
da da
nossa
sòciedade. Osab0liCí*.nistas
S0Ci€ClflCÍ€› US abolicionistaseuropeus,
europeus,aoao falar
falar da da liberação
liberação dosdos
escravos, nem
nem se
sepreocupavam
preocipavam com com aa relação
relaçãoentre
entre alforría
alforria eevoto.
voto*
Daí quê Nabuco, como
que Nabuco, como reforrnista
reformistasocial,social,sesepreocupasse
preocupasse
com a educação
educaçãodo doerescravo,
er-escravo,com como oacesso
acessoà terra, propondo
uma 'reforma
reforma agrária,
agrária,À9. integração plena
plena àà sociedade
sociedade seria dm lim
processo longo, tanto mais
mis quéque aa lei eleitoral de de 1881 exigia que oo
eleitor fosse
fosse alfabetizaco
alfabetizacoe eampliara
ampliaraososrequisitos
requisitosdederenda renda míni
míni-
ma como condição
condição para
paiaobter
obteroodireito
direitoaoaovoto.voto.Por
Porisso issomesmo
mesmo
era preciso
era preciso atuar
atuar logo,
lógo,como
comopropunha
propunhaAndré
AndréRebouças,
Rebouças,não
nãosósó
emancipando
emancipando os osescravos,
escravos,mas
mas educando
educando os os negros.
negros. Í
. •; í : ; ■ J •v . • •: .i ■ " / '■ 1 í ' 13 •,
"’V" • ?: i'
As eeconmçoss os ;.\r1=ÃN‹:m E o Hoaaon À escnzw1oÃo
ESCRAVIDÃO
De onde
onde proviria
proviria tanta
tantaempatia
empatiapara
paracom
comuma
uma“raça”
“raça* que
que
na época mesmo
mesmoososbem
bempensantes
pensantesrelutavam
relutavam
emem deixar
deixar de de con
con-
siderar “inferior”, ainda que subliminarmente? Nosso i-1omena~
siderar “inferior”, ainda que sublíminarmente? Nosso homena
geado já -foi
geado já fòitão
tãoesquadrínhado
esquadrinhadopor porseus
seusbiógrafos,
biógrafos, desde
desde a filha,
a filha,
Carolina, passandopelo
Carolina, passando pelotexto
téxtodeliciosamente
deliciosamente bembem escrito
escrito de de
LuizLuiz
Viana Filho
Filho 6etantos
tantosoutros,
outros,entre
entreososquais
quais mais
mais recentemente
recentemente se se
incluem
incluem oo perfirfeito
perfiffeito por
por Angela
Angela Alonso
Alonsò ee osos sempre
sempre interessantes
interessantes
e eruditos prefácios eecomentários
eruditos prefácios comentários de de Evaldo
Evaldo Cabral
Cabral dedeMello,
Mello,queque
resta pouco de
resta p0l1C0 deHOVO
novoa acontar
contarsobre
sobreo oserser humanoJoaquim
humano Joaquim Na-Na
buco. Quase
Quase tudo
tudodele
delesesetem
temnotícia,
notícia,desde
desde seus
seus amores
amores e flertes,
e flertes,
que foram muitos, sua elegância, sua beleza física -- Quincas, o
que foram
Belo, como muitos,
como sua elegância,
foi alcunhado —
--,>sêu sua beleza
seu brilho físicasua
salões,
nos salões, — voracida-
sua Quincas, o
voracida

'H
de paraconhecer
de para conheceros“g1'andes°'
os^graiides” da época
da época (na política,
(na política, na literatura,
na literatura,
nas artes),sua
nas artes), suadedicação
dedicaçãoaosaos amigos,
amigos, suas rivalidades
suas rivalidades e generosi
e generosi-
dades (bastalembrar
dades (basta lembrar o episódio
0 episódio tão bem
tão bem descrito
descrito porViana
por Luiz Luiz Viana
no livrosobre
no livro sobreNabuco
Nabuco e Rui
e Rui Barbosa
Barbosa a respeito
a respeito da designação
da designação
deste paraa aConferência
deste para Conferência de Haia),
de Haia), e assim
e assim por diante,
por diante, que nãoque não
poderia terescapado
poderia ter escapado a muitos
a muitos de seus
de seus biógrafos
biógrafos a relação
a relação huma- huma-
na especial que Nabuco desenvolveu com os escravos. Talvez se
na especial que Nabuco desenvolveu com òs escravos. Talvez se
desvendem melhõr
desvendem melhor os os laços
laços afetivos
afetivos criados
criados entre
entre ele e osele e os escravos
escravos
na própria
própriapena
penadodo autor,
autor, ememMinha formação.
As páginasclássicas
As páginas clássicas
são são as escritas
as escritas no famoso
no mais mais famoso
de seus de seus
capítulos, sobre“Massangariäí
capítulos, sobre “Massangana”. Elas resumem
Elas resumem tudo detudo de Nabuco:
Nabuco:
oo que
que de
demelhor
melhorpodia
podia escrever,
escrever, seu compromisso
seu compromisso moral moral
na luta na luta
contra aa escravidão,
contra escravidão,seu
seusentimento
sentimentoterno e humano
terno para
e humano comcom
para os
escravos
ós que que
escravos o circundavam, seu íntimo
o circundavam, atormentado
seu íntimo de senhor-
atormentado de
zinho que se sente acorrentado como escravo a uma ordem injusta
senhpr- zinho que sé sente acorrentado como escravo a uma
que, nãoinjusta
ordem obstante,
que,molda~o. Moldou-o
não obstante, tanto a Moldou-ó
molda-o. ponto de escrever,
tanto a
quase ao
ponto de estilo de Gilberto
escrever, quase aoFreyre,
estilo que nas antigas
de Gilberto propriedqdes
Freyre, que nas
os senhores
senhores
antigas foramcapazes
propriedades
foram capazes de absorver
de absorver a doçura
a doçura dos negros
dos negros eu as ^ e as
demais virtudes
demais virtudes míticas
rníticas atribuídas
atribuídas aos africanos.
aos africanos. Tãoselonge
Tão longe dei- se dei-
xou embalar
embalarneste
neste misto
misto de reflexão
de reflexão e memórias
e memórias sentimentais
sentimentais que, que,
a despeito
despeitodadaaguda
aguda observação
observação de no
de que, que, no fundo,
fundo, senhoressenhores
e es- e es-
cravos setornavam
cravos se tornavam “os“os mesmos”
mesmos” pela pela
relaçãorelação cruel
cruel da da escravidão,
escravidão,
conseguiu olharpara
conseguiu olhar paraesteeste
fatofato
com com o espelho
0 espelho reverso:
reverso: os escravos
os escravos
contaminaram
contaminaram osossenhores
senhores comcom amor,
amor, quasequase os absolvendo
os absolvendo de de
suas culpasporque
suas culpas porque alguns
alguns delesdeles se tornaram
se tornaram capazescapazes
de manter de manter
relações deafeto
relações de afeto
comcom os oprimidos,
os oprimidos, comocomose nãosefossem
não fossem
algozes.algozes.
Diz mesmoque
Diz mesmo que a escravidão
a escravidão "

espalhou por
por nossas
nossas vastas solidões uma grande suavidade (...) [...]
insufloulhe
insuflou-lhe uma
uma alma
alma infantil,
infantil, suas
suas tristezas
tristezas sem
sem pesar,
pesar, suas
suas lá-
grimas sem
sem amargor,
amargor, seu silêncio sem concentração,
concentração, suas
suas alegrias
alegrias
sem causa, sua
sua felicidade
felicidade sem
semdia
diaseguinte.
seguinte.[..-]
(...)Quanto
Quanto aa mim,
mim,ab»
ab~

nf
sorvi-â no leite
sorvi-a no leitepreto
pretoque
quememeamamentou;
amamentou; elaela envolveu-me
envoiveuune comocomo
uma carícia muda
uma carícia mudatodatodaa aminha
minhainfância;
infância;aspirei-a
aspirei-ada da dedicação
dedicação
de velhos servidores
de velhos servidoresquequememereputavam
reputavam herdeiro
herdeiro presuntívo
presuntívo do do
pequeno domíniode
pequeno domínio deque
quefaziam
faziamparte...
parte... Entre
Entre mim
mim e eles
e eles devedeve
ter ter
se dado
dado uma
umatroca
trocacontínua
contínuadedesimpatia,
simpatia,dedequeque resultou
resultou a terna
a terna e e
^lt reconhecida simpatia
simpatia que vim âa ter
ter pelo seu papel.”
pelo seu papel.14

Curiosas reflexões
Curiosas reflexõespartindo
partindodedequem
quem foifoi
o maior
o maior crítico da da
crítico
escravidão,
escravidão, aaponto
pontodedeminimizar
minimizar emem suas
suas análises
análises institucionais
institucionais
as formas de
as formas degoverno
governoe eolhar
olharcomo
comoessencial
essencial o sistema
o sistema de domi-
de domi~
nação: a verdadeira
verdadeiraquestão
questãononofinal
finaldodoséculo
século xrxxix
nãonão teria
teria sido
sifzlo
aa opção
opção entre
entre República
Repúblicae eMonarquia,
Monarquia,mas mas entre
entre Escravatura
Escravatura ze e
Abolição. Esqueceraseem
Abolição. Esquecera-se emseu
seuentusiasmo
entusiasmo pela
pela causa
causa abolicio-
abolicio-
nista deque
nista de quesem
semescravidão
escravidão não
não haveria
haveria Trono,
Trono, tão amalgamadas
tão amalgamadas
estavam
estavam asas duas
duasinstituições
instituiçõescomo
comolurninosarnente
luminosamente mostrou
mostrou o o
outro grande
grande intérprete
interpretedo doséculo
séculoXIXxxxe eespecialmente
especialmente da Mo-
da Mo-
narquia, SérgioBuarque
narquia, Sérgio BuarquededeHolanda.
Holanda.Nabuco
Nabuco nãonaoparapara
nosnosco- cof
mentários acima transcritos.
mentários acima transcritos.Vai
Vaimais
maislonge
longe e mostra
e mostra ter ter algum!
algumfã
consciência do que
consciência do quelhe
lhesucedera
sucederaintimamente:
intimamente:

Nessa escravidãodadainfância
Nessa escravidão infâncianãonao posso
posso pensar
pensar semsem um pesar
um pesar in~ in
voluntário.., Talqual
voluntário=... Tal qualoopressenti
pressentiemem torno
torno de de mim,
mim, ela ela conserva-
conserva-
-se em
eni minha
minha recordação
recordaçãocomo
comoum umjugo
jugosuave,
suave, orgulho
orgulho exterior
exterior
do senhor,
senhor, mas
mastambém
tambémorgulho
orgulhoíntimo
íntimo dodo escravo,
escravo, alguma
alguma coisacoisa
parecida comaadedicação
parecida com dedicaçaododoanimal
animalqueque nunca
nunca se altera,
se altera, porque
porque o o
fenômeno da da desigualdade
desigualdadenãonãopode
pode penetrar
penetrar nela
.15
nela.”
é19
parágrafofaz
No mesmo parágrafo faza aressalva
ressalva
de de
queque tal tipo
tal tipo de relacio-
de relacio~
namento (ele
(ele fala
falamesmo
mesmonuma numaespécie
espécie particular
particular de de escravidão)
escravidão)
se teriadado
se teria dadoapenas
apenas;
emem propriedades
propriedades muitomuito antigas,
antigas, nas quais
nas quais se se
formaria Umaespécie
formaría uma espéciededetribo
tribo patriarcal
patriarcal isolada
isolada do mundo,
do mundo, on-deonde
poderia vicejar“o“omesmo
poderia vicejar mesmoespírito
espírito dede humanidade”.
humanidade”.

37
37
1.'

Não reproduzo
reproduzoestesestestrechos
trechos pára
para diminuir
diminuir á grandeza
a grandeza de de
Nabuco,
Nabuco, OA Ó momento
momento eeoolocal loca!não
nãoseriam
seriam apropriados
apropriados parapara
exercícios vulgaresdedeiconoclastia.
exercícios vulgares iconoclastfa, Reproduzo-os
Reproduzows tentando
tentando vís- vis
lumbrar umauma fresta
frestaainda
aindanão nãocompletamente
completamente percebida
percebida pelospelos
tantos que
que sesededicaram
dedicaramà sua à sua biografia.
biografia. Quem Quemsabe sabe pela fresta
pela fresta
aberta por
por um
um texto
textomenos
menosimportante
importante possamos
possamos chegar
chegar à almaà alma
de nosso
de nosso homenageado,
homenageado,ampliandoampliando o foco queque
o foco ilumina o quan-
ilumina o quan
to
to a escravidão0otocou
a escravidão tocoucomo comopessoa.
pessoa.
Quem Quemsabe,sabe,
pela pela imersão
imersão
sentimental inevitávele einconsciente
sentimental inevitável inconscientequequecadacada
um um de faz
de nós nósnafaz na
infância para
paradela
deíaretirar
retirarnonodecorrer
decorrer
da dá
vidavida
o queo que de melhor
de melhor (e (e
de pior
pior também)
também) construímos,
construíinos,seja seja possível
possível entender
entender com com
mais mais
profundidade
profundidade aarelação
relaçãoque que Nabuco
Nabuco estabeleceu
estabeleceu com com os escravos
os escravos
e com
com aaescravidão.
escravidão.Isso,
Isso,
sem sem esquecer
esquecer que aque
boaapsicanálise
boa psicanálise
subli- subli
nha que
que asaspessoas
pessoassesereconstroem
reconstroero no no decorrer
decorrer da vida»
da vida, podendo
podenflo
eventualmente chegar a realizar, como escrevia Maquiavel sobre
eventualmente chegar a realizar, çomo escrevia Maquiavel sobre
o Príncipé, feitos” Os
Príncipe, “grandes feitos'Í Os sentimentos,
seMmentos, as ás inclinações,
inclinações, ps
os
traços psicológicos
psicológicosquequedesabrocham
dèsabrocham na na infância,
infância, não não são como
são como
flores quefeneceln
flores que fenecemesmaecendo
esmaecendo masmas
semsem modificar
modificar sua essência.
sua essênÊia.
Os seres
seres humanos
humanossesemodificam,
modificana» se refazem
se refazern e,, deixando
e,.deixando no re~ no re
côndito daalma
côn-dito da almaasasprimeiras
primeiras experiências,
experiências, mesmomesmo queoselas
que elas te- os te
nham levado
levadoa aseseconceber
conceber de de
umauma certa
certa maneira,
maneira, podem podem
acabaracabar
por atuar
atuar de
deoutra.
outra.E,E,nos
noscasos
casos mais
mais exitosos,
exitosos, alcançar
alcançar grandeza*
grandeza,
como Ioaquim
JoaquimNabuco
Nabucoalcançou.
alcançou,

UM MERGULHO NO ímfrmo
Mansur.:-ro No ÍNtlMO

Em requintadoensaio
Em requintado ensaiosobre
sobre “Acaso,
“Acaso, destino,
destino, memória”
memóríafl pu- pu
blicado
blicado nono livro
livroRumor m na escuta, o psicanalista
psicanalistapaulista
paulistaLuiz
Luiz
Meyer
Meyer” 16 retomou
retomou os os textos
textosfamosos
famososdede “Massangana”
“Massangana” e tratou
e tratou de de
desvendar
desvendar asasrelações
relaçõesentre
entre Nabuco
Nabuco e sua
e sua madrinha,
madrinha, por quem
por quem
foi criado até
foi criado até-aos
aosoito
oitoanos
anosdede idade.
idade. Ao retornar
Ao retornar à Massangana,
a Massangana,

33
doze anosdepois,
doze anos depois,encontrou
encontrou umum engenho
engenho queque pouco
pouco tinhatinha
a vera ver
com aqueleem
com aquele emque
que havia
havia vivido.
vivido. No reencontro
No reencontro sentimental
sentimental com com
seu inundoinfantil,
seu mundo infantil, Nabuco
Nabuco descreve
descreve o falecimento
o falecimento da protetora,
da protetora,
os escravosa aseu
os escravos seu serviço
serviço e ose do
os engenho,
do engenho, a volta
a volta à família
à familia no Riono Bio
etc. No ínicio
etc. No iniciododocapitulo,
capítulo, escrevera;
escrevera:

O traço todo da vida é para muitos um desenho da criança esque~


O
cido
cido traço
pelotodo
pelo da vida
homem»
homem, mas é para
mas
ao qual muitos
ao qual um desenho
ele sempre
ele terá terá sempre
que sequeda gif
cin criança
se sem oesque
cinglr sem o
saber
.saber [...]. Os primeirosoito
Os primeiros oito anos
anos da
da vida
vida foram
foramassim,
assim,em emcerto
certo
sentido,
sentido, ososdedeminha
minhaformação
formação instintiva
instintiva ou moral,
ou moral, definitiva,..
definitiva...
[...] só eles
elesconservam
conservama .nossa
a nossa primeira
primeira sensibilidade
sensibilidade apagadaL
apagadal..
Eles são,por
Eles säo, porassim
assimdizer,
dizer, as cordas
as cordas soltas,
soltas, mas ainda
mas ainda vibrantes,
vibrantes, de de
um
um instrumento que não
instrumento que existemais
nao existe maisem emnósnós[...l. Meus
Meusmoldes
moldesdede
idéias
ideias e esentimentos
sentimentos datam
datam quase
quase todostodos
destadesta
época.” época
.17

Diante
Diante de detão
tãoluminoso
luminosoinsight,
insight, o psicanalista
o psicanalista afirmaafirma
que que
Nabuco
Nabuco foifoifreudiano,
freudiano, avant
ava Ia letfr
ntla e, antes
lettre, quesesédesenvolvesse
antes que desenvolvesse a aí
f
psicanálise, 0oque
psicanálise, quenão
nãoéé pouco
poucodizer.
dizer,AAcrer
crerque
que“oKotraço tododadÍa
traçotodo
vida” provémdadaexperiência
vida” provém experiência infantil,
infantil, tomandose
tornando-se ao péaodapé da letra
letra
a memória
memóriadedeNabuco,
Nabuco,pergunto:
pergunto: de de
queque experiência
experiência proviria
proviria o ò
âmago
âmago dedeseuseusentimento
sentimento comcom relação
relação às questões
às questões quêpreo-
que nos nos preo-
cupam?
cupam? De Deum ummomento
momentodramático,
dramático, dizdiz
ele, ele, quando
quando um negro
um negro
jovem se jogou a seus pés e suplicou proteção provocando sua
jovem se jogou a seus pés e suplicou proteção provocando sua
compaixão revolta pela
compaixão te revolta peladescoberta
descobertadodo ultraje
ultraje -queque
era era a escra-
a escra-
vidão.
vidão. OGfato
fatod_otara«o
dotaraodede força
força moral
moral parapara
lutarlutar
até oaté
fimopela
fim pela
extinção detao
ex-tinçao de tãoperversa
perversa instituição:
instituiçao:
4df

•' Eu estava uma tarde


tarde: sentado
sentado nono patamar
patamardadaescada
escadaexterior
exteriordada
casa, quandovejo
casa, quando vejoprecipitar-se
precipitar-separapara
mimmim um jovem
um jovem negro negro
des- des
conhecido,
conhecido, dedecerca
cercade de dezoito
dezoito anos,
anos, o qual
o qu-al se abraça
se abraça aos meus
aos meus
pés suplicando-me
pés suplicando-mepelo amor
pelo amorde de
Deus que que
Deus o fizesse comprar
o fizesse por por
comprar
minha madrinha
madrinhapara
para me
me servir.
servir,Ele
Elevinha
vinhadas
dasvizinhanças,
vizinhanças,procu-
proói-

if)
1
rando mudardede
rando mudar senhor
senhor porque
'porque o dele,o dizia-me,
dele, dizia-me, o castigava,
o castigava, e ele e éle
tinha fugidocom
tinha fugido coin risco
risco de vida...
de vida... Foio este
Foi este traçooinesperado
traço inesperado
que que
me descobriua natureza
me descobriu a natureza da instituição
da instituição com a com
qual aeuqual
viveraeuatévivera até
então familiarmente,
então familiarmente, semsem suspeitar
suspeitar a dor
a dor que que ela ocultava.18
e1a_ocu]ta.va.*“

Tão forte teria


teria sido
sidoaaexperiência
experiênciaque
quelogo
logoememseguida
seguida
Na-Na
buco escreve
buco escreve frase
frasedesconcertante,
desconcertante,dizendo
dizendo queque
a extinção da es-
a extinção da es
cravidão
cravidão oo fez fez sentir
sentirque
que"podia
“podiapedir
pedir também
também minha
minha própria
propria
alforria
alforri-a [...] e, no entanto, hoje que ela
ela está
está extinta,
extinta, experimento
experimento
Uma singularnostalgia,
uma singular nostalgia,quequemuito
muito espantaria
espantaria umum Garrison
Garrison ou Ou
um
um John
lohn Brown:
Brown: aasaudade
saudadedodoescravo”.”
escravo”.19
Para oo sociólogo
sociólogoeemesmo
mesiüopara
para
oo historiador»
historiador, aa súbita
súbita sensa-
sensa
ção de opressãoe edesfazimento
de opressão desfazimento da da pêssoa
pessoa humana
humana pelopelo utilitarís-
utilítaris-
mo da escravidão
escravidão seria
seria razão mais
mais do
do que
que suficiente
suficientepara
paraexpiyar
expirar
o que convencera Nabuco do horror que era a escravidão, como
eleque
0 convencera
próprio
proprio afirma,Nabuco
afirma, do horror
aoaoencontrar
encontrar que daquele
nanasúplica
súplicaera a escravidão,;
daquele escravo,
escravo, como
gra
gafa-
vada nas
nas folhas
folhasperdidas
perdidas dada infância^
infância, os motivos
os motivos que que o levaram
o levaíam
a combater
combater tão
treinado do
•*. ■ ■:
tão fortemente
fortementea áiniquidade
dó psicanalista,
psicanalista,entretanto,
entretanto,duvida
' ■»*'
iniqüidadedadaescravidão.
escravidão.
duvidadede queque
O O
••■pf
olhar
olhar
a memória
a memória
seja a transcrição
transcrição literal
literaldas
dassensações
sensaçõesdodopassado.
passado^ Freud
Freud escre-
escre-
vera: “Nossas
“Nossasmemórias
memóriasdedeinfância
infâncianosnos mostramnossos
mostram nossos anos
anos
iniciais
iniciais não como eles
não como elesforam,
foram,mas
mascomo
comopareceram
pareceram emem períodos
períodos
posteriores,
posteriores, quando
quando as as memórias foram despertadas
memórias foram despertadas [...], _[elas]
[elas]
não emergem,
emergem, comocornoasaspessoas
pessoas costumam
costumam dizer,
dizer, elaselas
são são forma
forma-
das neste mom'ento”.2°
das neste momento”.20EE mais,
mais, na
na técnica
técnicaanalítica,
analítica,a arecordação
recordação
pode ser
ser encobridora
encobridoradedeoutra
outraexperiência
experiência emocional,
emocional, podepode
serser
substitutiva, podeter
substitutiva, pode terhavido
havidoumaumatransferência
transferência de de fragmentos
fragmentos
dé memória não
de memória não necessariamente
necessariamenteconectados
conectados unsuns
aosaos outros
outros ou ou
pode mesmo haver
pode mesmo haveruma umareconstituição
reconstituição no no presente
presente dasdas recorda
recorda-
ções do
do passado.
passado.
Neste passo Luiz
Neste passo Luiz Meyer
Meyer retoma
retoma osostextos
textos de
deNabuco
Nabucoquando,
quando,
no mesmo capítulo, recordando-se de suas sensações ao voltar a
no mesmo capítulo, recordando-se de suas sensações ao voltar a
40
4o
Massangaaâí
Massangana, diz: diz:“A“Anoite
noiteda da morte
morte de minha
de minha madrinha
madrinha é a cor-é á còr^
tma preta que
tina preta quesepara
separadodoresto restode de minha
minha vidavida
a cenaa cena
de minhade minha
infância” Descrevea alamentação
infância'í Descreve lamentaçãodedetodos. todos. Escravos,
Escravos, libertos,
libertos,
moradores,
moradores, para paradizer
dizerque-“era
que “era uma uma
cenacena de naufrágio;
de naufrágio; todo este
todo este
pequeno mundo,taltalquai
pequeno mundo, qualsese havia
havia formado
formado durante
durante duasduas ou trêsou três
gerações
gfrações em em torno
tornodaquele
daquelecentro,centro,não não existia
existia mais mais
depoisdepois
dela:dela:
seu último
último suspiro
suspiroO otinha
tinhafeito
feito quebrar-se
quebrar-se em em pedaços
pedaços”.3'-”.2-
Em seguida,
seguida,diante
diantedodoque que aconteceria
aconteceria comcom os escravos,
os escravos, pro- pro
clama:
clama: “a “amudança
mudantçade de senhor
senhor era era
o que o quemaismaisterrívelterrível
havia na havia na
escravidão”
escravidão°Í. Observação estranha, uma
Observação estranha, umavez vezque
queem emsisiaaescravidão
escravidão
era terrível
terrível como
como eleelepróprio
próprioa adescrevera.
descrevera. E acrescenta,
E acrescenta, refeán-
refesin-
do-se aa seu
seu próprio
própriosentimento:
sentimento;“O"Oque que maismaismeme pesava
pesava era ter
era ter
que meme separar
separardos dosque quetinham
tinhamprotegido
protegido minha
minha infância,
infância, dos dos
que meme:serviram
serviramcom coma dedicação
a dedicação queque tinham
tinham porporminha minhamadri~madri
nha, ee sobretudo
nha, sobretudoentre entreeleselesososescravos
escravos quequeliteralmente
literalmente sonha‹ sonha
vam pertencer-me
pertencer-medepois depoisde1a”.2'2
dela
”.22
Ocorre que nem nem osos supostos
supostossonhos sonhosdosdos escravos
escravos nemnem os os
de Nabuco
Nabucoseserealizaram:
realizaram:eleele herdou
herdou umauma casacasa no Recife
no Recife e outrãse outrás
terras, de fogo
terras, de fogomorto,
morto,isto istoé, é,
semsem escravos,
escravos, e Massangana
e Massangana passou, passou,
por sucessão,
sucessão,para paraum umsobrinho
sobrinhodada proprietária.
proprietária. NãoNão só ossóescra-
os escra
vos
vos “perdia
“perdiam” m”sua
sua ama,
ama,comocomoNabuco
Nabucoperdia,
perdia,nono mesmoinstante,
mesmo instante,
sua mãe
mãe adotiva,
adotiva,que queo chamava
o chamava emem cartacarta
a seua pai,
seu opai, o conselheiro
conselheiro
Nabuco, de
Nabuco, de “meu
“meu filhinho”,
filhinho”,bem bemcomocomoperdia
perdiaoopecúlio
pecúlioque queestava
estava
sendo acumuladopela
sendo acumulado pelamadrinha
madrinhapara para eleele e que
e que jamais
jamais chegou
chegou- a a
suas mãos.Os
suas mãos. Osservidores
servidoresantigos,
antigos,
diz,diz, consideravam-rio
con-sideravarn-no herdeiroherdeiro
presuntivo
presuntivo de de tudo,
tudo,e equem quemsabe sabe a criança
a criança semideserdada,
semideserdada, que que
perdera aquelalque
aquel#que considerava
considerava sua sua“mãe.”,
“mãe*1,também
também sesesentissesentisse
presuntivamente
presuntivamente um umsenhor.
senhor, NãoNão foram
foram só ossóescravos
os escravos que para
que para-
ram
ram em mãos de
em mãos deestranhos:
estranhos:também também ele ele
foi foi viver,
viver, aos anos,
aos oito oito anos,
com umauma familia
famíliaaté atéentão
entãoestranha,
estranha, com comtodastodas as dificuldades
as dificuldades
iniciais de
iniciais derelacionamento
relacionamentocom
coma mãe biológica,
a mãe como
biológica, descrevem
como descrevem
seus biógrafos. •

41
41
Este quadro dêdeperdas
Este quadro perdasprovavelmente
provavelmente consolidou
consolidou mais mais
a a
identificação
identiñcação dedeNabuco
Nabucocom comos os escravos
escravos do que
do que a súplica
a súplica do do
negro que
que queria
queriaser
sercomprado
comprado porpor Massangana,
lviassangana, e nutriu
e nutriu nele nele
a a
visão dainiquidade
visão da iniqüidadededeumum sistema
sistema de propriedade
de propriedade baseadobaseado
na es-na es
cravidão. Eranecessária uma
cravidão. Era umaalforría
alforriamais
maisgeral:
geral: dos
dosescravos,
escravos,dos
dos
senhores, dosdeserdados,
senhores, dos deserdados, dosdos libertos
libertos e dos
e dos homens
homens livres,
livres, todostodos
irnersos no mesmo mundo da escravidão; Assim, a despeito do
imersos no mesmo mundo da escravidão. Assim, a despeito do
episódio queNabuco
episódio que Nabucomencionou
mencionou como
como o fator
o fator decisivo
decisivo parapara
dar- dar-
-lhe
-.lhe força moral na luta
moral na luta pela
pelaAbolição,
Abolição,foifoi sua
suaprópria
própriaexperiência
experiência
existencial, deperdas
existencial, de perdassentimentais
sentimentais e materiais,
e materiais, que que
o fezoperceber
fez perceber
os horrores
horroresdadaescravidão
escravidãodede modo
modo integral.
integral. A partir
A partir daí pôde
daí pode or- or
ganizar
ganizar umumprojeto
projetodedevida
vidaque,
que, se teve
se teve nas nas experiências
experiências seminais
seminais
da infância um
um impulso
impulso motivador,
motivador,não nãoseseexplica
explicasósó
porpor isso,
isso, masams
pelos condicionamentosdadasociedade,
pelos condicionamentos sociedade, porpor
suassuas opções
opções e pore seu
por seu
empenho em mudar as coisas. Foram suas reações diante da vida
empenho
que em mudar
tornaram
0o tornaram as coisas.social,
umreformador
um reformador Foram
social,nãosuas
não reações
apenas
apenas asdiante da vida
experiências
as experiências
infância,embora
de infância, emboraessas,
essas,taltalcomo
como guardadas
guardadas em em sua memória,
sua memória,
tivessem
tivessem sidosidomarcantes
marcantespara
para a formação
a formação de sua
de sua personalidade
personalidadë'Í
Dai por diante
Daí por dianteaarevolta
revoltacontra
contra tudo
tudo queque a escravidão
a escravidão repre
repre-
sentava
sentava se seinstaurara
instaurarananaalma
alma de de Joaquim
Ioaquim Nabuco.
Nabuco. Seu Seu compor
compor-
tamento adulto,mesmo
tamento adulto, mesmosendo
sendoconsiderado
considerado umum dândi,
dândi, quasequase
um um
estroina
estroina (em(em viagem
viagemà àEuropa
Europa logo
logo no no início
início da vida
da vida de solteiro,
de solteiro,
torrou
torrou oo dinheiro
dinheiroobtido
obtidopela
pelavenda venda da da pequena
pequena herança
herança recebi
recebi-
da), sua
sua ambiguidade
ambigüidadecomo comohomem homem “entre
“entre doisdois mundos”
mundos” - tão — tão
bem apreciada
apreciadano noensaio
ensaiodedeIoão João Cezar
Cezar de de Castro
Castro RochaRocha
sobresobre
Nabuco,
Nabuco, como como umumintelectual
intelectualentre entre culturas,
culturas, em em
que que retoma
retoma as as
interpretações seminaisdedeSilviano
interpretações seminais Silviano Santiago—,
Santiago -, nada nada disso
disso obs-obs-
curece
curece aa dedicação
dedicaçãoquequedevotou
devotou à libertação
à libertação dosdos escravos:
escravos: dedi-dedi
cou dez
dez preciosos
preciososanos
anosà àluta
lutaabolicionista.
abolicionista. Inflamou-se
Inf1amon~se como como
orador, ganhoueeperdeu
orador, ganhou perdeueleições,
eleições, imiscuiu-se
imiscuiu-se nos nós meandros
meandros do do
poder monárquico-patriarcal,
monárquico-patriarcal,mas masfoifoifielfiel
ao ao sentimento
sentimento básico
básico
Horrorààescravidão.
de horror escravidão.

42
42.
VOCAÇÃO
voCA.ÇÃo PARÁ
Pam Ait POXÍTÍCA?
POLÍTICA?

Que sentido tem,


Que sentido temidiante
diantedede comportamento
comportamento tão tão ativo
ativo na na
vida pública,escaraftmchar
vida pública, escarafuncharsuassuas hesitações
hesitações entreentre dedicar-se
dedicar-se às às
letras
-letras (e(e oo fez
fezcom
comsucesso)
sacesso) e dedicar-se
e dedicar-se à política?
à política? £ verdade
É verdade
que, paraNabuco,
que, para Nabuco,politica,
política, como
como já disse,
já disse, sempre
sempre foi uma
foi uma entre-entre
ga “à causa'Í Esta podia variar, do abolicionismo à monarquia,
ga “à causa” Esta podia variar, do abolicionismo à monarquia,
ou mesmo,jájámaduro
ou mesmo, maduroe aceitando
e aceitando os "fatos
os “fatos da vida”,
da vida”, à república
à república

- que não apreciava
que não apreciava-,—>ouou ao ao pan-americanismo,
pan-americanismo, pelopelo
qualqual
se se
entusiasmou quandoembaixador
entusiasmou quando embaixador emem Washington.
Washington. NãoNão o fasci
0 fasci-
navam
navam oodiadiaa adia
diados
dos conchavos,
conchavos, as querelas
as querelas internas
internas de partido,
de partido,
os
os controles oligárquieos do poder.
controles oligárquicos poder. Podia
Podiadeles
delessesebeneficiar,
beneficiar,mas,
mas,
atuando comopersonagem
atuando como personagem na na
cenacena pública,
pública, concentrava
concentrava todo otodo o
seu espíritoe esua
seu espírito suaenergia
energia na defesa
na defesa de ideais:
de ideais: “Esse “Esse gozo especial
gozo especial
do político na luta dos partidos não 0 conheci; procurei na polí-
do político na luta dos partidos não o conheci; procurei na polí
tica oo lado
ladomoral,
moral,irnagi_nei~a
imagpinei-aumauma espécie
espécie de cavalaria
de cavalaria moderna,moderna,
a cavalaria andantedos
cavalaria andante dos princípios
princípios e das
e das reformas;
reformas; tive em‹:›%
tive nela nela émoi
ções
ções dede tribuna,
tribuna,por
porvezes
vezesde de popularidade,
popularidade, mas mas não passei
não passei daí: daí:
do Iimiar”.”
limiar” 23
Não foram poucos
Não foram poucosososcríticos
críticosque
que ressaltaram
ressaltaram sua sua "predile
“predile-
ção para
para ooestético”,
estético”,atéaté para
para o diletantismo,
o diletantisrno. José José Veríssimo,
Veríssimo, em em
crítica
crítica àà primeira
primeiraedição
ediçaodede formação, considerava
Minha formação> considerava que que
“a ocupação da atividade política [de Nabuco] tomará sempre o
“a ocupação da atividade política [de Nabuco] tomará sempre o
aspecto
aspecto de deum
umtematemaestético
estético e literário,
e literário, de um
de um exercício
exercicio intelec
intelec-
tual ”,24O próprio
tua1”.2“* próprioNabuco
Nabucoemem vários
vários escritos
escritos e correspondências
e correspondências
demonstrou su^inaptidão
demonstrou suginaptidão para
para as rusgas
as rusgas do combate
do combate político
político co- co
tidiano.
tidiano. jáJáno
nofirn
fimdadavida'
vida escreveu
escreveu que que "lutas
“lutas de partidos,
de partidos, meet-
meet*
ings populares,
ings sessões
populares, sessões agitadas
agitadas da Câmara,
da Câmara, tiradas
tiradas de oratória,
de oratória,
tudo issome
tudo isso meparecia
pareciapertencer
pertencer à idade
à idade da cavalaria
da cavalariaffi”.25
Olhando
Olhando de deoutra
outraperspectiva,
perspectiva, só só
na na aparência
aparência Nabuco
E\`abu'co se se
dístancíara dos
distanciara dossentimentos
sentimentosda da
juventude que que
juventude revelaram uma uma
revelavam

43
43
permanente ambigüidadeentre
permanente ambigu-idade entrea apolítica
políticae oe estético.
o estético.
Ao Ao
fazerfazer
sua primeirá viagem
sua primeira viagemà àEuropa,
Europa, disse
disse quequeela ela
teveteve o efeito
o efeito de “sus
de “sus-
pender durante urn
pender durante um ano,
ano,inteiramente,
inteiramente*a afaculdade
faculdade política
política que,
que,
uma vez
vez suspensa,
suspensa,parada,
parada,está estáquebrada
quebradae nãovolta
e não volta máis
mais a ser
a ser a a
mola principal do
do 'espírito'Í2“
espírito”20Em seguida,
seguida, nãonãoobstante,
obstante,reconhe-
reconhe
ce que: “Apesar
“Apesar de
detudo,
tudo, eu
eutinha
tinha faculdades
faculdadespolíticas
políticasínapa-gáveis,
inapagáveis,
que poderiam, quando muito, ficar secundárias, subordinadas à
que poderiam,
atração puramente
puramente quando muito,
intelectual
intelectual??^27ficar secundárias, subordinadas à
Disposições secundárias,cinzas
Disposições. secundárias, cinzasnonobraseiro,
braseiro,masmas nãonão extin
extin-
tas. Era
Era sósó soprar
sopraroovento
ventodedeum umideal,
ideal,e aevelha
a velha paixão,
paixão, embebida
embebida
toda ela
ela de
de visão
visãointelectual,
intelectual,reacendia
reacendiaa chama,
a chama, como
como já dito,
já dito, no no
caso do abolicionismo,
abolicionismo, na nadefesa
defesadodoespírito
espiritodedemoderação,
moderação, na na
nostalgia monárquica
monárquica ou ou na
navisão
visãoâéK
de_ um Brasil
Brasil ativo
ativo nonohemis~
hemis
fério americano.
americano. Como se sejogou às às lutas
lutas emem momentos
momentos especiais
especiais
que tinham
tinham sentido
sentido mais maisprofundo
profundododoque queasasquerelas
querelas dodo poáer
poder I

pelo poder,
poder, dizdiz ele,
ele,“não
“nãotrouxe:
trouxedada f>ólítica
política nenhuma
nenhuma decepçã^,
decepçãp,
nenhum amargor, nenhum ressentímentdíz*
ressentimento” 28
Vendo
Vendo no no pai
paioosuprassumo
suprassumodasdas virtudes
virtudes do do estadista,
estadista, resu-resu-
miu, depois
depois dede èscríto
escritoseu seugrande
grandelivro,
livro,
nonoqueque consistem
consistem elas:elas:
1!

“Essa
“Essa eraera aasua
suaqualidade
qualidadeprincipal
principalde de político:
político: adaptar
adaptar os meios
os meios
aos fins
fins e não
não deixar
deixarpericlitar
periclitaroointeresse
interessesocial
socialmaior
maiorpor porcausa
causade de
uma doutrina ou de de uma aspiração”.29Ou seja, aa política requer,
uma a-spiração”.” requer,aoao
mesmo tempo,
tempo, um um ideal
idealque
quesubordine
subordineosos meios
meios utilizados
utilizados parapara
alcança-lo ee um
alcança-lo um realismo
realismoque quecoloque
coloque“O“ointeresse social
interesse maior”
social maior”
como salvaguarda diantedos
salvaguarda diante dos fundamentalismos,
fundamentalismos, os quais
os quais o hor
o hor~
rorizavam.
rorizavam. AÁboa política,
política,para
para Nabuco,
Nabuco,seria
seriasempre
sempreincompatível
incompatível
com o fanatismo, istoé,é,com
fanatismo, isto coma aintolerância,
intolerância,qualquer
qualquerqueque fosse.
fosse.
Nabuco foi, sim,
Nabuco foi, sim,político
políticoa avida
vidatoda,
toda,nonomodo
modoparticular
particular
como concebia aa açãoaçaopolítica,
política,como
comoumaumaaçãoaçãoque
queliga
liga o poder
o poder
ao espírito por
por intermédio
intermédiodos dosideais
ideaispropostos.
propostos. Esteticamente,
Esteticamente,
concedamos oo qualificativo,
qualificativo,é éverdade,
verdade, se se apresentava
apresentava à cena
à cena das das
lutas empunhando floretes, mais do que armas de gladiadores.
lutas empunhando floretes, máis do que armas de gladiadores.
44
44
AMBIGÜIDADES e NABUCO
AMBIGUIDAÍDES dDE NABUCO

Poderá alguémtertersido
Poderá alguém sido
tãotão radicalmente
radicalmente abolicionista,
abolicionista, ter ter
pregado;
pregado a aigualdade
igualdade; de todos
de todos peranteperante
a lei e aaoleimesmo
e ao mesmo
tempo tertempo ter
mantido condutainegavelmente
mantido conduta inegavelmente “aristocratizante”
“aristocratízante” e termo-
e ter sido sido mo-
j^arquista,
iflarquista, dirão alguns de seus críticos?
críticos? Isso,
Isso, que talvez mostre in-
consequëncias e ambiguidades ideológicas e comportamentais, no
consequências e ambigüidades ideológicas e comportaméntáis, no
fondo
fundo éé oodrama
dramahumano
humanododo intelectual
intelectual que que participa
participa da política,
da política.,
ssee entrega
entrega aaela
elaememdados
dados momentos,
momentos, masmasnão não
querquer
perderperder
seus seus
valores nemsesedeixar
valores nem deixarengolfar
engolfaremem posições
posições que que possam
possam ser con
ser con-
trárias ao interesse
trarías ao interessesocial
social maior.
maior. NoNocasocaso de Nabuco,
de Nabuco, o que oniaís
que niais
diretamente contavaemem
diretamente contava seu-seu espirito
espírito — seu
_ seu interesse
interesse social social
maior maior
›- eram seus sentimentos
eram seus sentimentosdemocráticos,
democráticos, transparentes
transparentes na luta
na luta
: contra
contraaaescravidão,
escravidão, menos
menos claros
claros em em outros
outros momentos
momentos da vida.
da vida.
Quem sabe se antevendo a critica futura, Nabuco deixou
Quem sabe se antevendo a crítica futura, Nabuco deixou
registrado
registrado em emseus
seusPPensamentos que “näo
soltos que
ensamentos soltos “nãoé épossivel
possível expri
expri-
mir senão
senãolados
ladosdodopensamento,
pensamento, o pensamento,
o pensamento, emconjunto,
em seu seu conjunto,
retira-se, mal percebe
retira-se, mal percebeque queo oquerem
queremprender”.3°
prender
”,*0Horrorizava-O,
Horrorízazva-0,
portanto, umenfoque
portanto. urn enfoquetotalizador
totaíizador dodo pensamento,
pensamento, de todo
de todo o pen
0 pen-
samento, quantomais
samento, quanto maisnonócaso
casododo pensamento
pensamento político.
político. Repudia
Repudia-
va uma
uma visão
visãoque
quetornasse
tornasse unívoca
unívoca a relação
a relação entreentre
o modo o modo
de de
viver
viver ee0ofazer
fazerdadapolítica.
política. Talvez
Talvez antevisse
antevisse nisso nisso
germens germens
do que do que
veio a ser,o totalitarismo moderno, no qual o partido regula a
veio a ser,o totalitarismo moderno, no quai o partido regula a
ação dapessoa
ação da pessoaememtoda
toda parte,
parte, no no trabalho,
trabalho, na vida,
na vida, no lazer.
no lazer.
Nabuco exerceuampla
Nabuco exerceu amplainfluência
influência nos
nosmovimentos
movimentoseecírculos
círculos
de poderde
de poder desua
su&época
época e continua
e continua a exercer.
a exercer. Na evolução
Na evolução de suasde suas
crenças, Nabucofoi
crenças, Nabuco foiprimeiro
primeirorepublicano,
republicano, à sua
à sua maneira,
maneira, depois
depois
monárquico,
monarquico, ooquequenão
nãoo oimpediu
impediu de de servir
servir ao governo
ao governo CamposCampos;
Sales. Oportunismoououdevoção
Sales. Oportunismo devoção a "causas
a “causas maiores”?
maiores”? QuemQuemsabe sabe
se desde
desdeasasexperiências
experiências de de infância
infância — quando
-- quando se sentia
se sentia “senhor-
“senhor~
zi-n-ho” e abominou a escravidão _ 0 que alguns Chamariam de
zinho” e abominou a escravidão —
- o que alguns cham
ariam de
45
45
contradições
contradições eeoutros
outrosdedecondição
condição humana
humana já permeassem
já p-errneassem a vidaa vida
de nosso homenageado?
de nosso homenageado?Viveu Viveu sempre
sempre envolvido
envolvido por dilemas,
por dilemas,
que não eram
que não erampsicológicos
psicológicosapenas,
apenas,nemnem de incoerência
de incoerência pessoal,
pessoal,
mas decorriamdadatrama
mas decorriam tramasocial
social
em emqueque estava
estava envolto.
envolto. AindaAinda
as- as
sim» Nabucoteria
sim, Nabuco teriapodido
podido sustentar
sustentar sinceramente
sinceramente valores
valores “demo- “demo
cráticos*
cráticos” aaponto
pontodedeconsiderar
considerar os os negros
negros como como iguais
iguais e desejar
e desejar
dar-lhes voznanavida
dar-lhes voz vidanacional?
nacional?.
Se cabe algum
Se cabe algumparalelo
paraleloparapara entender
entender Joaquim
Joaquim Nabuco*
Nabuco, é é
com Tocqueville.Este,
com Tocqueville. Este,nobre
nobrede de antiga
antiga cepa,cepa, aristocrata
aristocrata dos au
dos au-
tênticos, quandoasashierarquias
tênticos, quando hierarquias e privilégios
e privilégios se prendiam
se prendiam à posse
à posse
da terra eeaoaocontrole
da terra controledos dos homens
homens porpor intermédio
intermédio das das
maismais
dis- dis
tintas instituições,dadacorveiâ
tintas instituições, corveià a outras
a outras formas
formas de sujeição,
de sujeição, tam-tam
bém
bém sesesurpreendeu
surpreendeueefascirlou
fascinoucom
com aAmérica
a Américademocrática.
democrática.Mais Mais
tarde destrinchouasascausas
tarde destrinchou causasda da decadência
decadência do Antigo
do Antigo Regime,
Regirpe.
mostrando que,
mostrando que,além
alémdodojacobinismo
jacobinismo e dos ideais
e dos libertários
ideais e
libertários e
igualitários
igualitários dadaRevolução
Revolução de de 1789,'houve
'l789,`houve o cupim
o cupim da buroci*i-
da burocra-
cia centralizadoradodoreireiminando
cia centralizadora minando o poder
0 poder da antiga
da antiga classeclasse
dirie diri
gente, aa aristocracia.
aristocracia,Quem
Quem sabesabe para
paraNabuco
Nabuconãonfo teriam
teriamsidci
sidoosos
cafeicultores capitalistas,alguns
cafeícultores capitalistas, alguns deles
deles proprietários
proprietários de escravos,
de escravos,
que impediramque
que impediram quea aMonarquia
Monarquia se mantivesse
se mantivesse vigente,
vigente, apesarapesar
da Abolição,como
da Abolição, comogostaria
gostaria queque tivesse
tivesse ocorrido.
ocorrido. CornCom uma umadife- dife
rença: famosopor
rença: famoso porseus
seuslivros
livros
sobresobre América” e
A democracia na Américan
sobre O OAntigo
Antigo Regime
Regime ee aa Revolução, Tocqueville era entranhada-
Revolução, Tocqueville
sobre era entranhada-
mente um conservador e subsidiariamente
mente um conservador e subsidiariamente um liberal, um liberal, enquanto
enquanto
Nabuco
Nabuco era eramais
maisdedeestilo
estilo liberal-conservador,
liberal-conservador, aindaainda que tivesse
que tivesse
escrito em suas
escrito em suasmemórias,
memórias,referindo»se
referindo-se à fase
à fase inicial
inicial devida,
de sua sua vida,
que nãohavia
que não havianada
nadanele
nele queque pudesse
pudesse tisnartisnar seu liberalismo
seu liberalismo com com
traços detradicionalisrno.
tr-aços de tradicionalismo.
Não passaramdesapercebidas
Não passaram desapercebidas a alguns
a alguns do-s dos comentadores
comentadores
das ideiasdedeJoaquim
das ideias JoaquimNabuco
Nabuco as coincidências
as coincidências entreentre os dois
os dois au» au
toras, um falando sobre a primeira metade do século xlx., outro,
tores, um falando sobre a primeira metade do século xix, outro,
sobre
sobre aa segunda
segundae esobre
sobreos os primórdios
primórdios do século
do século xx. Éxx.
noÊlivro
no livro

46
de Vamireh Chacon sobre
Vamireh Chacon sobreJoaquim
joaquim Nabuco: revolucionário
r'e1/olurío-mírio comer*
conser-
que se
vador que $e encontram
encontramreferências
referênciascomparativas
comparativas mais
mais explícitas
explícitas
entre osdois
entre os doispensadores.
pensadores* Embora
Embora reconhecendo
reconhecendo queque Nabuco
Nabuco não não
se refereaaTocqueville
se refere Tocqueviileem emMinha
Minho form àção ee oo faz
formação fazapenas
apenasquan-
quan
do biografa seu
do biografa seu pai,
pai,ooautor
autorestá
estáconvencido
convencido de dê
queque houve
houve um um
diálogo intelectualdireto
diálogo intelectual diretoentre
entreososdois.
dois, Fernand
Fernand Braudel,
Braudel, prefa
prefa-
ciando outro livro de Tocqueville, Lembranças de 1848,33 diz que
ciando outro livro de Tocqueviile, lembranças de 1848?2 diz que
%“a política interessabem
política interessa bemmenos
menosa Tocqueville
a Tocqueviile do que
do que a sociedade,
a sociedade,
sociedade
sociedade que queem emseuseuconjunto
conjuntoeleele percebe
percebe como como umauma realidade
realidade
subjacente
subjacente àà realidade
realidadepolítica,
política,como
comofundamento
fundamento da davidavida
polí~polí
tica”, Tocqueviilelamenta
-tica”. Tocqueville lamentaque,que,depois
depois
da da restauração
restauração monárqui
monarqui-
ca
ca dos Bourbon, tenha
dos Bourbon, tenha ocorrido
ocorridooo“triunfo
“triunfodadaclasse
classe média”
média” (da(da
burguesia) graçasà àRevolução
burguesia) graças Revoluçãodede 1830,
1830, quequelevoulevou ao trono
ao trono Luís Luís
Filipe, príncipedo
Filipe, príncipe doramo
ramodosdosOrleans,
Orléans,querquer dizer,
dizer, descendente
descendente do do
irmão de de Luís
Luísxrv
xiv eenão
nãodiretamente
diretamentedede LuísLuís
xvm, xviii, derrubado
derrubado
precisamente
precisamente em 1830. 1830. Diz
Diz que
que lamenta
lamentatal taltriunfo
triunfo porque
porqueaanova nova
classe dominantetinha
classe dominante tinhaumumespírito
espíritoativo,
ativo, industrioso
industríoso e ttfrequen-|
e “frequerrq
temente desonesto”.A ÀRevolução
temente desonesto”. Revolução de de 1848,
1848, que,que* porvez,
por sua suades-t
vez, des-f
tituiu Luís Filipe,
tituiu Luís Filipe,decorreu
decorreunão nãosósódesses
desses vícios
vícios que que derivavam
derivavam
dos “instintos
“instintosnaturais
naturaisdadaclasse
classe dominante”
dominantefl masmas do fato
do fato de q*ie
de que
o0 rei reforçou tais
rei reforçou taisvícios
víciose esesetornou
tornounono “acidente”
“acidente” queque os trans
os trans-
formou em em enfermidade
enfermidademortal.
mortal.Por Portrás
trásdadacrítica
críticasociológica
sociológica
à dominação
dominação da daburguesia
burguesiae àe indulgência
à indulgência do dorei, rei,
surgesurge o aristo
0 aristo-
crata arraigado
crata arraigadoààantiga
antigaordem,
ordem, a despeito
a despeitode ser
de oservisionário da da
o visionário
nova.
nova. OsOsabusos
abusose eirresponsabilidacles
irresponsabilidades da aristocracia
da aristocracia e, agora,
e, agora, da da
burguesia,
burguesia, suasuafalência
falênciacomo
comoclasse
classe dirigente,
dirigente, fazem
fazem nossonosso
autorautor
sentir saudades
saudadesda...
4a..,Inglaterra.
Inglaterra.Esta,
Esta,dizdiz
ele,ele,
“é o“éúnico
o único
paíspaís
do do
mundo
mundo ondeonde aaaristocracia
aristocraciacontinua
continuaa governar°Í
a governar”
ÊE nao foi também
não foi também aa Inglaterra
InglaterracomcomsuasuaConstituição
Constituição nãonão
escrita que confirmou
escrita que confirmouaainclinação
inclinaçãodedeNabuco
Nabuco pela
pela monarquia?
monarquia?
Mas háhá importantes
importantesdiferenças
diferençasdedenuances
nuances entre
entre Tocqueviile
Tocqueville e e
Nabuco. Por mais que o pendor tradicionalísta deste último o
Nabuco. Por mais que o pendor tradicionalista deste último o
47
levasse
levasse àà paixão
paixão monárquica,
monárquica,aoaotomar
tomara aInglaterra
Inglaterracomo
comoexem~
exem-
pio
plo não sese entusiasma, como Tocqueville,
entusíasma, como Tocqueville,pela
pelapermanência
permanênciadada
aristocracia no poder, mas pela
poder, mas pelafunção
funçãoigualadora
igualadoradodoIudiciário
judiciário
inglês. Justifica ter deixado
lustifica o ter deixado oo ideal
idealrepublicano
republicanodedejuventude
juventude
pela descoberta, na maturidade, de de que
que havia
havia nele,
nele, mesmo
mesmoquan-quan
do sincero, muito dede ressentimento
ressentimentodasdasposições
posiçõesalheias,
alheias,
de de inve-
inve-
ja, de cujos sentimentos parte também o impulso revolucionário,
ja,
quedenunca
cujos osentimentos
entusiasmou.
entusiasmou.parte também
Foi
Foi o impulso
oocontágio
contágio comoorevolucionário,
com espíritoingles,
espírito inglês,
diz ele, que
que oo levou
levou aaidentificar~se
identificar-secom coma amonarquia.
monarquia.Entretan-
Entretan
to, enquanto Tocqueville apreciavaa adominação
Tocqueville apreciava dominaçãoaristocrática,
aristocrática,
Nabuco achava que que “só
“sóhá.,
há,inabalável
inabalávele permanente,
e permanente, umum grande
grande
país livre no
no mundo”,
mundo”,aaInglaterra.
Inglaterra.Nela
Nelao oquequelhelhe deixou
deixou a mais
a mais
fonda
funda impressão não não foi
foi aa aristocracia,
aristocracia, mas
masaâautoridade
autoridade dosdos juí~
jui
zes, além
além da
da efetividade
efetividadedadaCâmara
Câmara dosdos Comuns,
Comuns, sensível
sensível às mais
às mais
ligeiras oscilações do sentimento público. 6
ligeiras
D
Diráoscilações
irá em Minha doform
sentimento
Mínhaformação:
ação: público.
H e»
9

Somente
Somente na naInglaterra,
Inglaterra, pode-sê
pode-se dizerdizer
que háque há [...l
juízes juizes [...]ffmsò há um
só há
país
país nono mundo
mundoem emque
queoojuiz
juizé émais
maisforte
fortedodoquequeosos poderosos.
poderosos. O O **
juiz sobreleva à família, à aristocracia, ao dinheiro, e, o que é mais
que tudo,aos
que tudo, aospartidos,
partidos, à imprensa,
à imprensa, à opinião
à opinião; não temj não tem o primeiro
o primeiro
lugar no no estado,
estado,masmastem-no
tçm-nonanasociedade.
sociedade, [„.]OOmarques
[...} marquês de d eSa-5a~
lisbury
li-sbury eeo0duque
duquedede Westminster
Westminster estãoestão
certoscertos que do
que diante diante
juiz do juiz
são iguais
iguaisao
aomais
maishumilde
humildededêsuasuacriadagem
criadagem l...]. OOsentimento
sentimento dede
igualdade
igualdade dede direitos,
direitos, oupessoa,
ou de de pessoa,
na maisnaextrema
mais extrema desigualdade
desigualdade
de fortunae econdição,
de fortuna condição, é o éfundo
o fondo da dignidade
da dignidade anglo-saxônia.33
anglo-saxônia.”

TocouevzueE ENABUCO:
TOCQUÈVILLE naaucozCONSERVADORES?
consanvaoonas?

Um verdadeiro conservador,Tocqueville,
verdadeiro conservador, Tocqueville, pelo
pelo contrário,
contrário, ex-ex
plicitava ostensiva, orgulhosamente,seu
ostensiva, orgulhosamente, seuantijacobinisrno,
aatijacobinismo,antif-
antir-

48
48
republicanismo, mesmoantiorleanismo
republicanisrno, mesmo antiorleanismo (pois
(pois era era
maismais simpáti
simpáti-
co aos legitimistas)
co aos legitimisías)e era
era contrário
contrárioààímpostura
imposturadedeNapoleão
NapoleloIn. ni.
Nada dissoo oimpediu,
Nada disso impediu, eleito
eleito deputado
deputado em 1848,
em 1848, de observar
de observar com com
isenção
isenção oo que
quevivenzciou
vivenciou no no período
período revolucionário
revolucionário de pelas
de 1848 1848 pelas
ruas
mas dedeParis
Parise edede tomar
tomar posições
posições criticas
críticas diante
diante da monarquia,
da monarquia.
Mem tampoucodede
Npm tampouco servir
servir à república,
à república, depois
depois da queda
da queda de Luisde
Fi-Luís Fi
lipe e da derrota dos setores radicais responsáveis pela revolta de
lipe e da derrota
fevereiro dos setores radicais responsáveis pela revolta de
fevereiro dede1848,
1848,pouco
pouco a pouco
a pouoo expulsos
expulsos da cena
da cena pública,
pública, como como
Marx mostramelhor
Marx mostra melhordodoque que ninguém
ninguém no no Brumário,, análise
18 de Brumário análise
brilhante
brilhante que quemereceria
mereceriauma uma comparação
comparação cuidadosa
cuidadosa comcom o livro
o livro
de Tocquevillesobre
de Tocqueville sobre
os os mesmos
mesmos acontecimentos.
acontecimentos. Os legitimistas
Os legitimistas
tinham contraeles
tinham contra elesa aantipatia
antipatia da da maioria
maioria do país
do país e o desprezo
e o desprezo
do povo,enquanto
do povo, enquantoososorleanistas
orleanistas despertavam
despertavam a hostilidade
a hostilidade nas nas
próprias classessuperiores
próprias classes superiores e no e no clero,
clero, alémalém de estarem
de estarem separados
separados
do povoeededenada
do povo nada haver
haver para para garantir
garantir o triunfo
o triunfo destadesta dinastia.
dinastia. O O
ódio
ódio quequeosostrês
trêspartidos
partidos(os(os legitimistas,
legitimistas, os orleanistas
os orleanistas e os repu
e os repu-
blicanos) nutriamentre
blicanos) nutriam entresi sie ae impossibilidade
a impossibilidade de formar-se
de formar-se uma uma
maioria levaramTocqueville
maioria levaram Tocqueville a apoiar
a apoiar a república
a república após após o levantê
o levante
de 1848,dizendo,
de 1848, dizendo,não não obstante,
obstante, que:que:
“Não "Não acreditava
acreditava então,então,
como como
não acreditohoje,
não acredito hoje,que
queo ogoverno
governo republicano
republicano fossefosse
o maisò mais
apro-apro
priado
priado às àsnecessidades
necessidades da da França;
França; parapara
falarfalar
com com exatidão,
exatidão, o que o que
eu
eu entendo
entendo porporgoverno
governorepublicano
republicanoéé0opoder poderexecutivo
executivoeletivo'Í3**
eletivo” 34
Havia
Havia um umconsolo,
consolo,porém,
porém, para
para o autor:
o autor: a nova
a nova forma forma
de de
governo seriaexercida
governo se-ria exercida porpor quemquem "estava
“estava preparado
preparado para ocupar
para ocupar
o lugar
lugar da darepública,
república,porque
porque já tinha
já tinha o poder
”,35Luís
o _poder”,” Napoleao,
Luís Napoleão.
O voto
voto universal,
universal,acreditava
acreditava ele,ele, remexeria
remexería o de
0 pais país
Cimade 3cima
baixo,a baixo,
"sem trazer ààléz
“sem trazer Mzqualquer
qualquer homem
homem novonovoqueque merecesse
merecesse distin-
distin-
çãó ” 36 Às
ção”.3° assembleiaschegam'
Às assembleias chegam emem geral
geral os ‘‘homens
os “homens comuns”
comuns” e e
um pequeno
pequenogrupogrupodos dosmais
mais capazes,
capazes, os quais,
os quais, de qualquer
de qualquer ma- ma
neira,
neira, comcom ou ousem
semvotovotouniversal,
universal, teriam
teriam assento
assento na mesa
na mesa das das
decisões,
decisões. OOque quecontava
contavaparapara Tocqueville
Tocqueville era que:
era que: “não "não
são assão
leis as leis
em sisi mesmas
em mesmasque
quefazem o destino
fazem dos dos
o destino povos” ou que
povos” ouproduzem
que produzem
49
os grandesacontecimentos,
os grandes acontecimentos, masmassimsim “o espírito
“o espírito do governo”
do governo'Í Para Pára
ele
ele aa antiga
antigaaristocracia
aristocraciafrancesa
francesa eraera mais
mais esclarecida
esclarecida do aque a
do que
nova classemédia,
nova classe média,a burguesia,
a burguesia, era era
maismais
bem bem
dotadadotada de de
de esprit
esprir de
Corps.. Lainenta
corps Lamentaquequea aaristocracia
aristocracia tivesse
tivesse acabado
acabado por achar
por achar “que “que
era de
de bom
bomgosto
gostocensurar
censurar suas
suas próprias
próprias prerrogativas
prerrogativas e clamar
e clamar
contra
contra osos abusos
abusosdos
dosquais
quais vivia”
vivia? Quando
Quando esta esta
classeclasse
perdeuperdeu
a a
virtude, que
virtude, que corresponderia
corresponderiaa governar
a governar visando ao 'interesse
visando de de
ao interesse
todos, abriu espaço
todos, abriu espaçoparaparaa nova
a nova classe
classe dominante,
dominante, que, que»
por suapor sua
vez, sechafurdou
vez, se chafurdounanacorrupção
corrupção e nos
e nos negócios...
negócios... Foi que
Foi isso issojus-
qüe jus
tificou
tificou a escolha
escolhade deTocqueville:
Tocqueviile:melhor
melhorque queLuis
LuísNapoleão
Napoleão“ocu-
“ocu
pe oo lugar”
lugar”dadarepública
repúblicadodo
queque ter uma
ter uma verdadeira
verdadeira república
república com com
soberania popular.Tocqueville
soberania popular. Tocqueviile temia
temia a revolução,
a revolução, “um “um combate
combate
de classe`§
classe”,escreveu,
escreveu,“uma“uma espécie
espécie de guerra
de guerra servil”,3?
servil”,” que, maisque, mais’
do que
que alterar
alterara_forma
ajòrma de degoverno,
governo, queria
queria alterar
alterar a ordem
a ordem da so
daflso-
ciedade. Esta, na visão de um autêntico conservador, deveria ser
ciedade. Esta, na visão de um autêntico conservador, deveria ser >
preservada, aindaque
preservada, ainda queporpor subterfúgios,
subterfügios, golpes
golpes de Estado
de Estado e sinfu-
.e sinftt-
lacros deinovação
lacros de inovaçãonanaforma
formade de governo.
governo.
.: %■ if.

O SENTIMENTO DEMOCRÁTICO
O SENTIMENTO DEMOCRÁTICOEM
ÉMNABUCO
NABUCO

Nabuco, apesardedesuas
Nabuco, apesar suas contradições,
contradições, desentimentos
de ter ter sentimentos
in- ín
timos presos às tradições e a despeito de seu liberalismo não ter
timos
sido tãopresos
tão às tradições
completo
completo comoeleele
como e pensava,
a despeito
pensava, foideapenas
nãonão seuapenas
foi liberalismo não ter
abolicionista,
abolicionista,
mas tinha
tinha de
defato
fatouma
umavisão
visão democrática
democrática da sociedade.
da sociedade. Tocque-
Tocque-
ville, sendoum
ville, sendo umaristocrata
aristocrataassumido,
assumido,era, era,
nesteneste aspecto,
aspecto, o inte~o inte
lectual distante
distanteque,
que,embora
emboracompreendendo
compreendendo os novos
os novos tempos,
tempos,
pouca simpatia
simpatiademonstrava
demonstrava pelos
pelos atores
atores que que surgiam.
surgiam. Nabuco,Nabuco,
sendo
sendo umum membro
membrodadaelite
elite imperial
imperial nãonão completamente
completamente integra
integra-
do nela, maisfacilmente
nela, mais facilmentese se identificou
identificou comcom os novos
os novos atoresatores
que que
estavam surgindoH-—•os
estavam surgindo negros-cidadãos
os negros-cidadãos ¬- e *—que edeveriam
que deveriam
ter ter
peso nana formação
formaçãodadanacionalidade.
nacionalidade.

50
SO
Tdcqueville
Tocqueville seseapercebeu
apercebeudasdas mudanças
mudanças queque se avizinhavam
se avizinhavam
com oo advento
adventodada“era“eraamericana”,
americana” nosnos costumes,
costumes, na economia
na economia
ee na
na política,
política,aoaohaver
haverescrito
escritosobre
sobre
elaselas décadas
décadas antes
antes e mesmo
e mesmo
com maior profundidade
com maior profundidadee emenos
menosnostalgia
nostalgiado do
queque Nabuco.
Nabuco. NãoNão
podia nutrir nostalgia
podia nutrir nostalgiaporque
porquecontinuava
continuava a sentir-se
a sentir-se muito
muito bem bem
no papel de
no papel dearistocrata
aristocrataque
queentendia
entendiao oprocesso
processo social,
social, masmas tudo
tudo
fazia para que as forças novas não perturbassem o equilíbrio tra-
fazia para
dicional
dicional dasque
das as forças
coisas.
coisas. novas
Analisou
Analisou nãoninguém
como
como perturbassem
ninguém o equilíbrio
o porquê
o porquê da da tra
demo
demo-
cracia na
na América
América(o(o“espírito
"espíritodedeliberdadefi
liberdade” queque permitia
permitia a asso
a asso-
ciação daspessoas
ciação das pessoaspara pararealizar
realizar
finsfins coletivos
coletivos independentemente
independentemente
da autoridade,a areligiosidade
da autoridade, religiosidade agregadora
agregadora dosdos protestantes,
protestantes, a foij-
a forr
ça das com-unidades
ça das comunidadeslocais locaise eainda
aindaa liberdade
a liberdade de de imprensa).
imprensa). Em»Em-
seu íntimo, contudo,
seu íntimo, contudo,nuncanuncadeixou
deixoudedeserserumum homem
homem “do“do antigo
antigo
regime” Viananadernocraci-a
regi-me? Via democraciadede massas
massas o perigo
o perigo do autoritarismo,
do autoritarismo,
a igualdade induziriaa auma
igualdade índuziria umaforma
formadede tirania.
tirania. Ia Já Nabuco
Nabuco se irma
se irma-
nou intimamente
intimamente com com oo negro
negroeesesetornou
tornousimpático
simpáticoàsàscarac-carac
terísticas democráticasdadanova
terísticas democráticas novasociedade,
sociedade, embora
embora nunca
nunca tenha)
tenha?
aceitado
aceitado asasformas
formasrepublícanas
republicanasnonoBrasilBrasile tivesse
e tivesse confundido
confundido of of
“poder pessoal”dodoimperador,
“poder pessoal” Imperador, tãotão duramente
duramente criticado
criticado por por
Sér-Sér
gio Buarque,com
gio Buarque, comuma umaforma
formabranda
brandadedeexercer
exercer o Poder
0 Poder Mode
Mode-
rador e de
de provocar
provocaraa alternância
alternânciademocrática.
democrática.Deixou Deixou que queoolado
lado
tradicionalista
tradicionalista de desuasuaalma
almao oimpedisse
impedisse de de
ver ver a inconsistência
a inconsistência
que haviaem
que havia émsersertão
tãoradicalmente
radicalmenteabolicionista,
abolicionista,tãotãofavorável
favorável à à
integração do negro na cidadania, e venerar .a monarquia.
integração do negro na cidadanía> e venerar a monarquia.
Se aa visão
visão politica
políticadedeIoaquim
JoaquimNabuco
Nabuconãonão chegou
chegou a ser
a ser a a
de um
um revolucionário
revolucionáriopropriamente
propriamentedito, dito,embora
emboraconservador
conservador
(como no no títulofia
títuio^a obra citada
citada acima,
acima,ideia
ideiaextraída
extraídadedeGilberto
Gilberto
Freyre), ele foi
Freyre), ele foimuito
muitomais
maisdodoque quesimplesmente
simplesmente umum saudosis
saudosis-
ta ou
ou umum conservador.
conservador.Em EmTocqueville
Tocqueville se se
vê, vê* a despeito
a despeito de sua
de sua
criatividade intelectual,nonoque
criatividade intelectual, queconsiste
consisteumumverdadeiro
verdadeiro conser
conser-
vador: compreendeo osinal
vador: compreende sinaldos
dostempos
tempos masmasnaonão se comove
se comove comcom
eles; aceita-os sem adesão emocional e, se possivel, luta contra as
eles; aceita-os sem adesãó emocional e, se possível, luta contra as
551i
mudanças. Pode-seconcordar
mudanças. Pode-.se concordarcom com o comentário
o- comentário de Marco
de Marco Au- Au
rélio Nogueira
Nogueira que, que,em emseuseuO O encontro âe de Joaquim
Joaquim Nabuco
Nabuco com com
ao política> sublinha asasdificuldades
política, sublinha dificuldades para para sustentar
sustentar o liberalismo
o liberalismo
no Brasil, como Nabuco
Brasil, como Nabucofez. fez.NumNum paíspaís escravocrata
escravocrata não have
não have-
ria sujeitos
sujeitos sociais
sociaisque queapo-iassem
apoiassem ideiasidéias liberais.
liberais. A despeito
A despeito de de
nosso liberalismo
liberalismoser serfruto
frutodedeumum feixe feixe de “ideias
de “ideias fora doforalugar'Í.
do lugar”
oo autor
autor mostra
mostra que queeleeleacabou
acaboupor porse se ajustar
ajustar às realidades,
às realidades,fican-fican
do porpor isso
issomesmo
mesmoincompleto
incompleto ouou deformado.
deformado. SemSemnegarnegar
o queo que
de certo.
certo háhá nonoargumento,
argumento,não nãoháhá que que exagerá-lo.
exagera-lo. MarcoMarco Aurélio
Aurélio
Nogueira
Nogueira faz fazjustiça
justiçaa aNabuco,
Nabuco, mas masvai vaiumum tantotanto
longelonge ao quali
ao quali-
ficar
ficar oo liberalismo
liberalismododoimpério:
Império: "Liberalismo
“Liberalismo conservador,
conservador, elitista
elitista
e antipopular, tingidodedeautoritarismo,
antipopular, tingido autoritarismo, antidemocrático
antidemocrático e sem e sem
heroísmo
heroísrno”.” ”,38 -
Que havia
haviaalgo disso,é éinegável,
algo disso, inegável, mais
mais aindaainda na conduta
na conduta dos dos
pa rtidos. Nem
partidos. Nemnegonegoque quesesepossa
possa caracterizar
caracterizar Nabuco
Nabucocomocomolibef libe
ral- conservador» oo que,aIiás,
ral-conservador, que* aliás,venho
venhofazendo.
fazendo.Mas Masbasta
bastacompará-
compa#-
4-loo com um um verdadeiro
verdadeiroconservador,
conservador, como como Tocqueville,
Tocqueville,para páraverver
as diferenças.§eu
diferenças.^Seu liberalismo
liberalismo nãonãodevedeve ser visto
ser visto apenasapenas
como fiu- como fru
to da absorção
absorçãodedeideiasideiasforafora
do do lugar,
lugar, nemnem de um de vezo
um vezoretóricoretórico
ou como expressão
expressãoda da“cultura
“culturaornamental”
ornamental”de deintelectuais
intelectuaisque quesese
sentiam
sentiam entre entredois
doismundos.
mundos.Suas Suas convicções
convicções políticas
políticas derivaram
derivaram
de suas
suasobservações
observaçõesnana Inglaterra
Inglaterra e nose nos Estados
Estados Unidos
Unidos e também
e também
de sua
de sua preocupação
preocupaçãocom como “formar
o "formar a nação”
a nação” semsem
simplesmente
simplesmente
copiar as ás instituições
instituiçõesdedeoutros
outrospaíses.
países. Mesmo
Mesmo porque,
porque, advertira
advertira
Nabuco,
Nabuco, 0o maior maiorerroerroque quesese
podepode cometer
cometer em em política
política é ,
é copiar
copiar,
numa dada dadasociedade,
sociedade,instituições
instituições queque cresceram
cresceram em outra,
em outra.

O
O OLHAR
OLHAR DO EXTERIOR
DO EXTERIOR

Vejamos
Vejamos umumpouco
poucomais
maisnonopormenor
pormenor como
como Nabuco
Nabuco apre
apre-
ciou a experiência europeiae ae norte-americana.
experiência- europeia a norte-americana. Durante
Durante a pri-
a pri-

52
S2
nieira viagemà àFrança,
rneira viagem França* depois
depois da da quedaqueda de Napoleão
de Napoleão m, ainda
111, ainda
§e travavamlutas
ge travavam lutas para
para a consolidação
a consolidação da Terceira
da Terceira República.
República. Na- Na
buco diz comtodas.
diz com todas;asas letras:
letras: "Eu"‘Eu
era eracomo como político
político francamente
francamente
thierista, istoé,é,ememFrança
thierista, isto França dedefatofato republicano.
republicano. Isto Isto
não não
quer quer
di.- di
zer; porém»queque
zer, porém-, meme sentisse
sentisse republicano
republicano de princípio;
de princípio; pêlo con-
pelo con-
ti^río ”39 e passa
-¡f§zio'Í.” passaa ajustificar
justificarsua suaposição
posição dizendo,
dizendo, como como
disseradissera
Tocqueville, que
Tocqueviile, quea República
a República fora obra
fora de monarquistas.
obra de monarquistas. A forma A forma
de governonão
de governo hãoeraeraumauma questão
questão teórica,
teórica, masmas prática.
prática. Com Com isso isso
Nabuco justificavasersermonarquista
Nabuco jus-tificava mònarquista nasnas condições
condições do Brasil
do Brasil e re- e re
publicano
publicano na naFrança.
França.
Convém
Convém aclararaclararum umpouco
poucomais, mais,portanto,
portanto, no no queque consis
consis--
tiam
tiam asas ambiguidades
ambigüidadesdodo sentimento
sentimento republicano
republicano do Nabuco-
do Nabuco-
-francês,
-francês, que quetanto
tantoconfundiu
confundiuanalistas.
analistas de desuasuaobra:obra:0 e “senti-
“De senti
mento,
mento, de de temperamento,
temperamento,de de razão,
razão,eu eueraeratãotãoexaltado
exaltadopartidário
partidário
de Thierscomo
de Thíers comoqualquer
qualquerrepublicano
republicano francês;
francês; pelapela imaginação
imaginação
histórica
histórica eeestética
estéticaera eraporém
pòrém1egitimista“Í*°
legitimista *.40EE explica:
explica:“perante
'peranteo o
artista imperfeitoeeincompleto
artista imperfeito incompleto que que há háem emmim,mim,aafigurafiguradodoconde
condé
de Chambordrecluzia.
de Chambord reduziaa adedeThiersThiers a proporções
a proporções moralmente
moralmente in-_? in-f
significantes*.
significantes”.
Essa dualidade,francamente
Essa dualidade, francamente reçonhecida
reconhecida porporele, ele» não atin
não atin-
gia seusvalores
gia seus valorespolíticos,
políticos, nem nemmesmomesmo suassuas preferências
preferências quanto quanto
àã questão prática -
questão - prática —^das formas de
das formas degoverno.
governo.AAarnbiguidade
ambigüidade
Se restringiaa aque
se restringia queseuseu íntimo,
íntimo, seuseuladolado estético,
estético, era conservador.
era conservador.

Iá o lado público, político, não era tanto. Repugnava-o Repugnava-o toda for for-
ma de de fanatismo
fanatismoe efoifoinisso nissoque que apoiou
apoiou obra de
a obra deThiers,
Thiers,como como
Tocqueviile
Tocqueville apoiaraapoiaraa aRepública
República queque se seguiu
se seguiu à Monarquia
à Monarquia de de
Julho:
]ulho: ambas dd$truiram
destruíram os germens de intolerância e fanatismo
republicanos
republicanos que quevinham
vinhamdesde desde os os tempos
tempos jacobinos.
jacobinos. í>e novo,
De novo,
Nabuco
Nabuco era, era,sim,
sim,liberal,
liberal, sim,
sim, apoiava
apoiava correntes
correntes que que os verdadei
os verdadei-
ros conservadores abominavam, roçou o ser democrático. Seu
ros conservadores
republicanismo
republicanismo abominavam,
francês,
francês, porsuasua
por roçou
vez,vez, o contrapôs
nãonão
se ser democrático.
se contrapôs às Seu
nem nem às
“necessidades sociais”
“necessidades sociais” nem
nem ao ao
queque colhera
colhera do espírito
do espírito inglêsinglês
em em

53
53
sua formação:a atolerância,
sua formação; tolerância, a tendência
a tendência à conciliação.
à conciliação. O republi
O republi-
canismo
canismo que apoiava era
que apoiava eraaquele
aqueleque
quematava
matavaoojacobínisrno,
jacobinismo,como
como
ele próprio fez
ele próprio fezquando
quandose se opôs
opôs ao ao “florianismo”
“florianismo” no Brasil
no Brasil ou a ou a
Balmaceda,
Balmaceda, nonoChile.
Chile.
Que suas
suasambiguidades
ambigüidades nãonão excluíam
excluíam pensamentos
pensamentos e senti
e senti-
mentos democráticos, disso não me cabem dúvidas. No mesmo
mentos democráticos, disso não me cabem dúvidas. No mesmo
parágrafo
parágrafo em emque
quefazfazcomentário
comentário sobre
sobre a importância
a importância que dava
que dava
à Iustiça
Justiça inglesa
inglesapara
paraassegurar
assegurar a igualdade
a igualdade formalformal dos cidadãos
dos cidadãos
explica asrazoes
explica as razõespelas
pelas quais
quais naonão considerava
considerava os Estados
os Estados UnidosUnidos
o o
berço da
da liberdade
liberdadee esimsim a Inglaterra:
a Inglaterra:

os EstadosUnidos
os Estados Unidos sãogrande
são um um grande
pais, maspais, massem
há nele, há falar
nele,dasem falar da
sua justiça,dada
sua justiça, lei lei de Lynch,
de Lynch, que lheque
estálhe está nodassangue,
no sangue, das abstenções
abstenções
em massa
em massadadamelhor gente,gente,
melhor do desconceito em que caiu
do desconceito emaquepglíti-
caiu a políti-
ca, umapopulaçao
ca, uma população de 7de
Ú

7 milhões;,
milhoes,
lu

toda raçatoda raça


de cor dea cor
para qual para
a a qual a
.II

igualdade civil,
igualdade civil, a proteção
a proteção da lei,da
os léi, os direitos
direitos constitucionais,*§ão
constitucionaisššão
contínuas e perigosas
contínuas e perigosas ciladas.41
ciladas."“
. jÇfc v
H,

,
Fez uma crítica
Fez urna criticasubstantívamente
substantivamente democrática
democratica sobresobre a Ifbase*
a base
social estreita
estreitaememque queseseassentam
assentam as instituições
as instituições e desejava
e desejava am- am
pliá-la. Inversamente,pergunto
plia-la. Inversamente, pergunto eu, eu,
nãonão foi nos
foi nos Estados
Estados Unidos Unidos
que ocorreuaaprimeira
que ocorreu primeiragrande grande revolução
revolução democrática,
democrática, apesar apesar
da da
carência
carência de de base
basesocial,
social,e não e não
foi foi lá que
lá que surgiram
surgiram os defensores
os defensores
do individualismo
individualismoliberal?liberal? NãoNão é para
é para surpreender,
surpreender, portanto*
portanto, que que
Nabuco,
Nabuco, aadespeito
despeitodadabase base social
social precária
precária parapara o liberalismo
o liberalismo ou oü
para
para aa democracia
democracianonoBrasil Brasil escravocrata,
escravocrata, tenhatenha defendido
defendido ideiasideias
liberais»
liberais. Ou,Oú,também
também nosnos Estados
Estados Unidos,Unidos, ás ideias
as ideias estariam
estariam fora fora
de
de lugar?
lugar? v/"
--' ‘
Para justificarseu
Para justificar seupendor
pendor para
para 0o sistema monárquico,Na-
sistema rnonárquico, Na
buco recorreu
recorreuaos aosargumentos
argumentos -de de Bagehot
Bagehotfz ,42 autor queooinfluen-
autor -que influen
ciou desde
desdeaajuventude.
juventude. Entusiasmou-se
Entusiasmou-se comcom o sistema
o sistema britânico
britânico
porque
porque nele nele -existe,
existe,alémalémdada independência
independência do Judiciário,
do Judiciário, uma uma

54
fusão
fusao ee nao
não separaçao
separaçãoentre
entreosospoderes,
poderes,Assim,
Assim, taotão prontoumum
pronto
movjimento
movimento da dáopinião
opiniãopública
públicast
se refletisse na Câmara
refletisse na Câmara dos dos Co-
Co-
muns, o Gabinete perderia aa confiança
confiança da da maioria, oo Parlamento
Parlamento
seria dissolvidoeehaveria
seria dissolvido haverianovas
novase1eiçÕes.No
eleições. No Brasil,
Brasil, diversamente,
diversamente,
era
era oo imperador
imperador quem,
quem, na na suposta
suposta escuta
escutadadaopinião
opiniãonacional,
nacional,
dissolvia
dissolvia aa Câmara,
Câmara,formava
formavao onovonovogabinete
gabinetete este manipulava
este rnanípulava
oo resultado eleitoral.OOsistema
resultado eleitoral. sistemainglés
inglêspermitia
permitiamanter
mantera amonar-
monar-
quia e, também,
quia e, também, ouvir
ouvir oo povo
povonasnasdecisões.
decisões, Era
Era mais
mais democrático.
democrático.
À monarquia tornarase
A monarquia simbólica, politicamente
tornara-se simbólica, politicamente neutra,
neutra*parte
parte
da cultura
cultura nacional
nacional ee elemento
elementodedeagregação
agregaçãododopovo.povo.Seria,
Seria,
porpor
assim dizer, “o lado
lado estético do sistema
estético do sistema dede poder”
poder” que agradav----
que agradar/ai ao
íntimo artístico de Nabuco. Politicamente,
politicamente, contudo,
contudo, valorizava as as
regras democráticas,aaIustiça
regras democráticas, Justiçaindependente
independentee ea força
a forçadada
dadaà voz
à voz
direta
direta dodo povo,
povo. OO sentimento
sentimentoem emfavor
favordodoestilo
estiloinglês
inglêsdedegover-
gover-
nar se reforçou ainda mais com a experiência americana.
nar se reforçou ainda mais com a experiência americana.
Muitas décadas
décadas antes
antesde deNabuco
Nabucoescrever
escreversobre
sobreososEstados
Estados
Unidos, Tocquevillehavia
Unidos, Tocqueville haviasublinhado
sublinhadoo oavanço
avançoinexorável
inexoráveldodo
sentimento democrático
democrático nãonão sósónaquele
naquelepaís
paíscomo
comonanaEuropa.§E
Europa.fE
alertara: “A igualdade
aiertara: “A igualdade produz efetivamente
efetivamente duas
duas tendências:
tendências: uma
uma
leva
leva os homens diretamente
os homens diretamente àà independência
independência ee pode
pode impelilos
impeli-los àà
anarquia,
anarquia, ee outra
outra os
os conduz
conduz porpor caminho mais longo,
caminho mais longo,mais
maissecre~
secre-
to, porém mais
to, 'porém seguro, àà se_rvidäo'Í”
mais seguro, servidão” 43 Se ainda assim
Se ainda assim Tocqueville
Tocqueville
se apega à democracia, é porque ela induz ao mesmo tempo à
se apega à democracia,
independência
independência politica é porque
política das
das ela
pessoas,
pessoas, induz
noção
noção ao mesmo
obscura
obscura tempo à
e einclinação
inclinação
instintiva, diz
diz ele,
ele, que
que éê0oremédio
remédiopara
parao omal
malproduzido
produzidopelo
pelo
individualismo fomentadopela
individualismo fomentado pelanova
novasociedade.
sociedade.
Ê
O individualismoé um
O individualismo é um sentimento
sentimento que predispõe
que predispoe cada cidadão
cada cidadão
aa isoiar-se
isolarsedadamassa
massa
de de
seusseus semelhantes
semelhantes e retirarse
e retirar-se à parte,àcom
parte, com
aa familia
famíliae eososamigos,
amigos, demodo
de tal tal jnoáo que, criar
que, após apósdessa
criarmaneira
dessa maneira
uma sociedadepara
uma sociedade para
usouso próprio
próprio- abandona
abandona prazerosamente
prazerosamente a so- a so-
ciedade
ciedade a asisimesmafi*
mesma
.44

55
A
A maioria dele?-
maioria deles —^dos
dosamericanos
americanos--—acha
achaque
queoogoverno
governoageage mal;
mal;
mas todosacham
mas todos achamque
queo ogoverno
governo deve
deve agiragir
sem sem
pararparár
e emetudo
em tudo
pôr
pôr aa mão .45
rn ão.”

Mostrei que aa igualdade


Mostrei que igualdadesugeria
sugeriaaos
aoshomens
homensaaideia
ideiadedeum
umgoverno
governo
único,
único, uniform
uniformee ee forte.”
forte.46

Quanto
Quanto ao ao modo
modo de devida
vidaamericano,
americano,Tocqueviile
Tocquevillecriticou
criticou
duramente aa transformação do gozo do bemestar
bem-estar material
materialcom
como o
apanágio dada burguesia -- — da “classe
"classe rnédia°Í
média” Reagiu
Reagiu aos
aos efeitos
efeitos
desagregadores da da mobilidade
mobilidade social
social ee condenou
condenou oo sistema
sistema polí-
polí-
tico do país
país aa ser vítima
vítima, do pró prio espírito de
próprio de igualdade.
igualdade. OO indi-
indi-
vidualismo, somado
somado às oportunidades.crescentes
oportunidadescrescentes para para que
que todos
todos
compartilhassem valores igualitários,
compartilhassernl/alores igualitários, levaria
levariaao
aodescaso
descasodos
dosindlil-
indi
IF
víduos por qualquer coisa que não fossem seus interesses e sen
víduos pormais
timentos qualquer coisaSó
imediatos. que
nãonao fossem aseus
ocorreria interesses
a âs&ria
asfixia e sen-
da sociedade
sociedad¢›
pelo Estado se houvesse uma imprensa livre e muitas associações
independentes da autoridade
autoridade política,
política. A tal ponto
ponto ia aa preocupa^
preocupšif
ção de Tocquevülè
Tocqueville comcom os
os efeitos
efeitosmaléficos
maléficosdesse
dessetipo
tipodedecultu-
cultu-
ra no
no sistema
sistema político
político que chegou a escrever que os americanos
"imaginam
“imaginam um um poder
poder único,
único, tutelar,
tutelar, onipotente,
onipotente, masmas eleito
eleito pelos
pelos
cidadãos. Combinam a centralização com com aa soberania
soberania popular.
Isto lhes dá algum sossego.
sossego.Consolam-se
Consolamsedo dofato
fatodedeestarem
estaremsobsob
tutela lembrandose
lembrando-se de de que
que escol heram o tutor
escolheram ” 47
tutor°'.'“
Nabuco extrai uma visão diferente da experiência em Nova Nova-
York
York e Washington, onde esteve entre 1876 1876 e 1877,
1877» quarenta anosanos
depois de de Tocqueviile ter escrito
Tocqueville ter escrito A democracia na América. Não Não
nega o sentimento
sentimento de igualdade que lá encontrou
encontrou e queque lhe
lhe pare
pare»-
ceu superior ao que ocorria
ocorria na
na Inglaterra,
Inglaterra, embo
emborara achasse
achasse què
que aa
liberdade individual que existia era mais restrita, se comparada àà
que
que prevalecia
prevalecia nana Inglaterra.
Inglaterra. NoNo sentido
sentido da
da igualdade,
igualdade, escreve,
escreve, éé
a Inglaterra
Inglaterra quem
quem caminha
caminha na na direção
direção dos
dos Estados
Estados Unidos.
Unidos. Mas,
Mas,

56
diz
diz ele,
ele, êé inegável
inegável que
que aa democracia, "introduzindo na
democracia, “introduzindo na educação
educação aa
ideia
ideia da
da mais perfeita igualdade,
mais perfeita igualdade, levanta
levanta no
no homem
homem oo sentimento
sentimento
do
do orgulho
orgulho próp rio ” 48A
prÓprio`Í“ questão seria
A questão seria saber
saber se
seasassociedades
sociedadesmais mais
tradicionais,
tradicionais, como
como aa inglesa,
inglesa, não
nlo produzem
produzem “com
“com as as limitações
limitações dede
classe uma dignidade
classe uma dignidade pessoal
pessoalmoralmente
moralmente superior
superior aáessaessaaltivez
altivez
da^gualdade ” 49 Sem temer o que assustava
da\¿gualcliade°'.” assustava Tocqueville,
Tocqueviile, oo descaso
descaso
das massas pela política e a onipresença do governo, Nabuco mais
das massas
temia
temia pelaorgulhosa
aa altivez
altivez política e ados
orgulhosa onipresença
dos do governo,
norteamericanos
norte-americanos queNabuco
que excluíam
excluiammaisos
os
negros
negros ee os “çhins” do
os “chins” do sentimento
sentimento dede igualdade
igualdade -estes
—pestes antes
antes se-
se-
riam
riam classificados
classificados como
como uma
uma ordem
ordem diferente da dos
diferente da dós homens
homens — ~
mas também os demais povos: povos: “nunca
“nunca ninguém
ninguém convenceria
ConvenceriaF p
livre cidadão
cidadão dosdos Estados
Estados Unidos, como
corno ele
ele se
se chama,
chama, dede que
que seu
seu
vizinho do México
México ou de Cuba, ou os os emigrantes analfabetos
analfabetos ee
os indigentes que ele ele repele
repele de
deseus
seusportos,
portos,são
sãoseus
seusiguais”.5°'A
iguais
”.50A
característica por excelência
excelência dodo norte-americano
norteamericano “é a convicção
convicção
de que melhor
de que melhor do do que ele não existe ninguém no mundo'Í5*
que ele não existe ninguém no mundo” 51 .
Nesse passo se torna curiosa a apreciação Conjunta conjunta dos dois^
dois!
autores. Tocqueviile
Tocqueville vê vêuma
umasociedade
sociedadedemocrática
democráticaseseformando;
formando^
com todos os perigos políticos
políticos que,
que, na
ná visão
visão dede um
umaristocrata;
aristocrata»
isso poderia acarretar. NabucoNabuco vê vê risco
risco maior
maior nana formação
formação de de
uma
urna cultura
cultura de
de exclusão,
exclusão, aa despeito
despeito dada igualdade
igualdadepolítica.
política.Seria
Seriaa a
visão
visão que
que reafirma
re-afirma oo "dilema
“dilema dodo mazombo”,
mazombò”,na nasaborosa
saborosaexpres-
expres-
são que Evaldo Cabral de
Evaldo Cabral de Mello
Mello retirou
retirou dede Mário
MáriodedeAndrade?
Andrade?
Ou seja* pormais
seja, por maisque queseseatribua
atribuaaaNabuco
Nabucoum umviésviéseuropeizante,
europeizante,
renascem
renascem as as raízes
raízes miscigenadas
miscigenadase eele, ele,assim
assimcomo
como se se identificou
ide-ntificou
com
com os
os negros,
negros, sese identifica
identificanos
nos Estados
Estados Unidos
Unidos comcom ososexcluídos,
excluídos,
com
com asas outras
outras “#aças”? Difícilresponder.
`3aças"? Difícil responder.SejaSejacomo
comofor,for, Nabuco
Nabuco
também
também discrepa
discrepa de Tocqueville
Tocqueviile na na análise
análise do dosistema
sistemapolitico
político
americano.
americano. “Não
“Não há há vida
vi-da privada
privada nos
nos Estados Unidos” diz,
Estados Unídos'Í refe-
diz, refe-
rindose
rindo-se àà invasão
invasão da imprensa na
da imprensa na vida
vida particular
particular dos políticos.
dos políticos.
Sua vislo da
Sua visão da liberdade
liberdade de de imprensa,
imprensa, neste
neste aspecto,
aspecto, éé distinta
distintada da
apresentada
apresentada pelo
pelo marquês:
marques: os os jornais
jornais beiram
beiram aa chantagem.
chantagem. A A luta
luta

57
'ls

política
política não
não se
se trava
trava rto
no terreno
terreno das
das ideias,
ideias, mas
mas nono das
das reputações
reputaçöes
pessoais.
pessoais. “Com
“Com semelhante
semelhante regime,
regime, sujeitos
sujeitos às às execuções
execuções sumá-
sumá-
rias da calúnia e aos linchamentos no alto das colu nas dos jornais,.
colunas jornais,
é natural que evitem a política todos os que se se sentem impróprios
para
para o o pugiíato
pugilato na
na praça
praça pública,
pública, ou para figurar
ou para figurar num
num bigshow **2
big sl1ow.”52
Joaquim Nabuco desvenda de de outro
outro modo
modó a política am ameri-
eri-
cana,
cana. O descaso para com ela, o absenteísmo
absenteísmoeleitoral,
eleitoral, não
não se
se deve
deve
só àà sua
só sua forma
forma truculenta,
truculenta, masmas aa que
que os
os melhores,
melhores, os os mais
mais capa-
capa-
zes,
zes, uma espécie
espécie de de “aristocracia
“aristocraciasemsemtítulos
títulosnem nempergaminhos
pergaminhos
de nobrezafl
nobreza”, dedicam-se
dedicamseaos aosnegócios
negóciose enãonãoà àvida
vidapública.
pública.Nesta
Nesta
prevalece a corrupção consentida pela sociedade. “Os americanos
são uma
uma nação
nação que
que quisera
quisera .viver sem governo
.viver sem governo ee agradecem
agradecemaos aos
seus governantes suspeitaremlhe
suspeitarem-lhe a intenção
intençãof” ,”53 O americano seráserá
“o mais livre
livre de
de todos
todos osos homens;
homens; como
como cidadão,
cidadão,porém,
porém,não não sese
pode dizer que Éo seu contrato de sociedade esteja revestido das
mesmas garantias que o do inglês, por exemplo”.5“ E
mesmas garantias que o do inglês, por exemplo”.54 *
Há uma
uma delegação
delegação da coisa pública
pública aos
aos politicians
políticians,, como
os chama Nabuco. Disso
Disso resulta
resulta que
que oo governo
governonanaAmérica
Américaseja
slja
“uma pura gestão de negócios, que se faz, mal ou bem, honesta ou
desonestamente, comcom a tolerância e o conhecimento do grande
capitalista que a delega ”.55A nação se
delega”.55 se deixa dividir
dividir em partidos e, e,
apesar da massa das abstenções, acompanha os maus administra-
administra-
dores de seus interesses. Formase
Forma-se uma “democracia
“democracia de partidos”,
partid os'Ç
relativamente isolada da sociedade, a qual, hipocritamente, finge
relativamente isolada da sociedade, a qual, hipocritamente, finge
não
não ver
ver aa corrupção
corrupção ee os
os desmandos,
desmandos, àà condição
condição de de que
que os
os gover-
gover-
nantes deixem os indivíduos em paz. Em Em vez
vezde dever
verna naliberdade
liberdade
de imprensa ée nas organizações dada sociedade
sociedade civil
civil oo contrapeso
contrapeso aa
tanta
tanta delegação,
delegação, como queria Tocqueville,
Tocqueville, oofreio
freioadviria
adviriadedeque
que
existe virtualmente uma “opinião pública”
pública'Í, Esta,
Esta, embora sejaseja raro,
raro,
pode se formar com uma energia incalculável, como um tsunami
“que atiraria pelos ares tudo o que lhe
lhe resistisse,
resistisse, partidos, legisla-
legisla-
turas, congresso, presidente'Í5°
turas, congresso, presidente” 56
58
Menos
Menos do qiieque ver, como
como Tocqueville,
Tocqueville,oorisco
riscomaior
maiorparapara aa
democracia
democracia
. no
no Estado
Estado centralizador,
centralizador, conseqüência
conse fl uência não
não intencio-
intencio~
nal da
nal da igualdade, Nabuco vê,
i 8ualdade, Nabuco vê, no
no -fundo,
fundo,aaPperda
erda dedevirtü
virtà ee oo que
ue
hoje
_ _ de se chamaria
J se chamaria a "exce
“excepciònalidade americana”, aa cren
P cionalídade americana”, crençaa emem seu
seu
destino manifesto, aa arrogância
destino manifesto, arrogância para
para com
com os os excluídos
excluídos ee talvez
talvez
para
para com
com o o mundo,
mundo.

1.
NABUCO de
nabuco DEPOIS
p o i s dDA
a rREPUBLICA
ep úb l i c a

Hão
Não foi esta, não obstante, a visão de Nabuco diplomata e do
obstarite,a
cosmopolita
cosmopolita pensando
pensando aa política
política internacional,
internacional, jájá na
na fase
fase final
final Hefie
sua vida. Sobre
sua vida. Sobre oo tema
tema farei
farei umas
umaspoucas
poucasobservações
observaçõespara parafina.-
fina-
lizar. Não
Não me vou referir ao dilema famoso
famoso dodo intelectual
intelectual que em em
sua terra sentia a ausência do mundo e no exterior a ausência do
país, nem a suas muitas
muitas declarações de apreço
apreço à cultura europeia
e de certo desdém à nossa história cultural, pobre em comparar compara;
ção com a europeia, tema já debatido por alguns dos comentarisf
cornentarisç
tas que citei, Quero concentrar o foco
citei. Quero foco desta parte final em doisdois
tópicos presentes
presentes na obra e na ação
ação dede Nabuco:
Nabuco:aacrisecrisedo
doChile
Chile
durante aa presidência de Balmaceda,
Balmaceda, no no final
finaldo
doséculo
séculoxix,
xix,eeoo
modo como encarou oo panameriçanismo,
pan-americanismo, quando, já no no século
século
xx,
xx, foi embaixador em
foi embaixador Washington.
em Washington.
O livrinho
O livrinho sobre
sobre oo presidente
presidente chileno,
chileno, que
que se
se suicídou depois
suicidou depois
de forte crise
crise na disputa de primazia entreentre oo Legislativo
Legislativo ee oo Exe-
Exe-
cutivo em
em 1891,
1891,ééinteressante
interessantesobsobvários
váriosaspectos.
aspectos. Primeiro,
Primeiro, por
por
demonstrar a curiosidade intelectual de alguém distante do dia a
dia do Chile, mas
mas atento àà política
-política sulamericana,
sul-americana, aa ponto
ponto de de sé
se
envolver com paixão
envolver com paixão nono drama
drama politico
político daquele
daquele país,
país. Segundo,
Segundo,
pela percepção de que as instituições chilenas èe brasileiras,
brasiieiras, re-
re-
pública
pública num
num caso
caso e,
e, até
até havia
havia pouco,
pouco. império
império noutro,
noutro, evitaram
cvitaram
o caos caudilhesco presente na maior parte da região, mar1ten~
o caos caudilhesco presente na maior parte da região, manten-
59
S9
do
d.o valores
valores relativamente
relativamente liberais.
liberais. Muito
Muito relativamente,
relativamente, diríamos.
diríamos.
Aos
Aos olhos
olhos de
de Nabuco,
Nabuco, contudo,
contudo, as
as formas
formas parlamentares
parlamentares dos
dos dois
dois
países
países haviam
haviam sido
sido capazes
capazes de
de coibir
coibir os
os impulsos
impulsos jacobinos.
jacobinos.
Tendo acentuado
acentuado seu
seu pen dor conservador
pendor conservador depois da Procla-
Procla-
mação
mação dada República
República nono Brasil, Nabucó encarou
Brasil, Nabuco encarou aa modernização
modernização.
de
de Balmaceda
Balmaceda - — homem
homem devotado
devotado aoao desenvolvimento
desenvolvimento econô-
econô-
mico, à absorção das ciências e ao papel indutor do Estado _
mico,
como
como uma
àuma
absorção
ameaça dasaosciências
ameaça aos moldes e liberal-conservadores.
ao papel indutor do Estado
moldes liberalconservadores. Na
Na revo-
—~
revo-
lução chilena foi oo Congresso, com com apoio
apoio da Armada, quem deu
um basta ao presidente, tendo este reagido pelo suicídio. Nabuco
interpretou
interpretou aa vitória
vitória do
do Parlamento
Parlamentocomo comoa apreservação
preservaçãodo doque
que
de
de melhor
melhor podia
podia ser
ser feito
feito para
para assegurar
asseguraraacontinuidade
continuidadedadafor- for-
mação
mação nacional
nacional chilena.
chilena. O O sistema
sistema político
político chileno, desde quan-
chileno, desde quan-
do Pórtales
Portales criara um Estado organizado e forte, se mantivera nos
limites do respeito
respeitd à independência ejiarmonia
eharmonia entre os poderes,
podereis,
com
corn predomínio
predomínio da da dominação
dominaçãooligárquica
oligárquicacontra
contraa aqual
qualdedeal*
al,°
gum modo se Jogara
jogara Balmaceda.
Estamos longe do Nabuco apreciador apreciador de de Thiers
Thiers ee mesrifb
mesrnia
de
de Bagehot
Bagehot ee niais
mais próximos
próximos do do leitor
leitor de
de Burke.
Burke. Com
Com uma uma res-
res-
salva; ele encarava
salva: ele encarava asas experiências
experiênciaspolíticas
políticas do
do Brasil
Brasileedo doChile
Chile
como
como umauma salvaguarda
salvaguarda moderadora
rnoderadoraeetemiatemiaquequeseu
seudesarranjo
desarranjo
nos
nos levasse
levasse aoao pior,
pior, àà anarquia.
anarquia. Voltava
Voltava aa prevalecer
prevalecercom comforça
forçaoo
que
que nunca
nunca desaparecera
desaparecera de de Nabuco
Nabuco ee que,que, segundo
segundo ele,
ele, colhera
colhera
da experiência inglesa, a prudência, o apego ao historicamente
da experiência inglesa, a prudência, o apego ao historicamente
constituído. O reformador deve ser cuidadoso, não tirar Umauma pe-
pe-
dra
dra que
que derrube
derrube oo muro,
muro, avançar
avançar com
commoderação
moderaçãoeereconstruir
reconstruir
sem
sem destruir.
destruir. _
Não
Não terá
terá sido
sido esta
esta também
também aa inspiração
inspiração do
do Nabucó
Nabuco propo-
propo-
nente
nente ativo
ativo do
do panameriçanismo
pamamericanismoe,e,ao aomesmo
mesmotempo,
tempo,brilhante
brilhante
propagandísta
propagandista do que de melhor havia ná na cultura lusobrasileira
luso-brasileira
para sensibilizar seus interlocutores no centro do Império? Não
nos estaríamos credenciando a partilhar com eles as responsabi-
nos estaríamos credenciando a partilhar com eles as responsabi-
-:So
lidades hemisféricas?ÉÊpossivel
lidades hemisféricas? possívelquequefosse
fosseesse
esse o objetivo
o objetivo de deNa-Na-
buco
buco ao
ao voltar
voltar suas
suas atenções
atenções ee suas
suas apostas
apostas tão
tão radicalmente
radicalmente da da
Europa
Europa para
para aa América, quem sabe
América, quem com idealismo
sabe com idealismo ee também
também com com
ingenuidade, como aponta
ingenuidade, como aponta Marco
Marco Aurélio Nogueira, OOfato
Aurélio Nogueira. fato éé que
que
desde
desde aa República,
República,aapartir
partir de
de Floriano
Floriano ee do
do apoio
apoio americano
americanoaoao
>vo governo,
ovo governo,o oeixo
eixodadapolítica
políticaexterna
externabrasileira
brasileiracomeçara
começaraa a
blhar para o Norte, como a economia já o fizera. Esta tendên-
har para o Norte, como a economia já o fizera. Esta tendên-
3
cia se tomara clara a partir de 1902 corn
Este, entretanto, procurava
Este, entretanto, procurava sempre
com o barão do Rio
sempre salvaguardar
salvaguardar nas
Rio Branco.
nas políticas
políticasdo
do
Itamaraty
Itamaraty aa margem
margem para
para manobras,
manobras, não
não se
se afastando
afastando demasia-
demasia-
damente
damente da da Europa.
Europa. .(,
Nabuco terà
terá ido mais
mais longe, quem sabe longe demais.
dentais. Dei-
Dei-
xou para trás sua visão
visão de cosmopolitismo como uma uma forma de
olhar osos dois lados
lados por cima dos partidos
partidos ee de
de resguardar
resguardar os in-
in-
teresses da humanidade ou da nação e se empenhou no apoio ao
monroísmo,
rnonroísmo, revestido de panamericanismo
pan~ame~ricanismo com com aa correção
correção do
stick de Theodore Roosevelt.
big stíck Roosevelt À isso relevava, afirmando,
A tudo isso afirmando,
numa
numa antevisão certas situações
autevisâo de certas situações atuais
atuais tão
tio bem expressa
expressa em em
sua frase
frase' famosa: “Daqui a pouco Europa,
Europa, Ásia
Ãsia ee África
África formarão
formarão
uma só rede. É o sistema político do globo que começa começa emem vez
vez dodo
antigo sistema europeu. Pode-se
sistema europeu. Podese dizer que estamos nas nas vésperas
vésperas
de uma nova era >57
era'-Í”
Acreditava possivelmente que,
Acreditava possivelmente que, com
coma ahegemonia
hegemoniamundial
mundial
americana, seria
americana, seria vantajoso
vantajoso para
para 0o Brasil
Brasil manter
manter na
na nova
novaeraerauma
uma
aliança
aliança comcom os
os Estados
Estados Unidos,
Unidos, ainda
ainda que
que subalterna.
subalterna.Claro
Claroqueque
os críticos, OliveiraLima
críticos, Oliveira Limaààfrente,
frente,não
nãoperdoariam
perdoariam mudança
mudançatão tão
radical
radical dede atittítíes,
atitdtles, por
por mais
mais que
que houvesse
houvesse argumentos
argumentos parapara con-
con-
trabalançar
trabaiançar a presteza com que Nabuco assumiu o panamerica- pan-america
nismo
nismo em nome de
em nome de um
um realismo que poderia
realismo que poderia nos beneficiar*pois
nos beneficiar, pois
resguardaria parapára oo Brasil
Brasil um
um papel
papel dede moderador,
moderador, pelo
pelo menos
menos
na
na América
América do do Sul, quando menos
Sul, quando menos no no Cone
Cone Sul.
Sul. Daí
Daí seus
seus esforços
esforços
diplomãticos, seus contatos com o governo americano, sua prega-
diplomáticos, seus contatos com o governo americano,sua prega-
61
ção nas universidades:
ção nas universidades:queriaqueriamostrar
mostrar quequecomcora as especificidades
as especificidades
hisobrasileiras desenvolvêramos uma
luso~brasi1eiras desenvolvêramos cultura que
uma cultura que nos
nos capacitava
capacitava
aa ser
ser parceiros
parceiros dos
dos“grandeS'Í
‘grandes”
Não é hora de aprofundar o0 tema. Pica Fica registrado, contudo;
contudo,
que Joaquim
JoaquimNabuco
Nabucononofinal finaldada vida,
vida, tornandose,
tornando-se, nãonão obstante,
obstante,
ainda mais brilhante
ainda mais brilhantee ecompetente
competentecomo comodiplomata,
diplomata,deixou-se
deixouse
embalar por
embalar por um conservadorismo
um conservadorism o que,
que, mesmo
mesmo se se realista,
realista, distan-
distan-
ciouo
ciou-o dodo que
que fora
foraseu
seupensamento
pensamentodedeoutras outrasépocas.
épocas.
Pito
Dito isso, esperoque
isso, espero queasaspoucas
poucasobservações
observações queque pude
pude trans-
trans-
mitir
mitir sobre tão ilustre
sobre tão ilustrebrasileiro,
brasileiro, ee que
que sese restringiram
restringiram aa fragmen-
fragmen-
tos de
de sua
sua obra
obraeeaamomentos
momentosdedesua suavida,
vida, sejam
sejam suficientes
suficientes parapara
justificar
ju-stificar por que tantos, há tanto tempo, o consideramos entre os
maiores pensadorese ehomens
maiores pensadores homensdedeação açãoqueque o Brasil
o Brasil já teve.
já teve.

"“ ni

` E

vz:

152
I

EUCLIDESDADACUNHA
EUCLIDES CUNHA
__ 1.1. ¡',,_,,., ¡.,,,,z,,-p..-¡-Q-tr:-1-ao +11-mà-wz|›n+|-1.-H1111-U1-1 :r-vn i-11-1-c1-t-1 1 1 rw:-s-¬|-t.-ri-1-n.~¡1-bau-vivi r|¬-ru-|-ra fwrrfi-:viro-nn-1-n.
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lzzaemmerf . - bivre if os^Edi for ôs
lâivreiros-Edifores
'Rio
l^ ío ddee Jarte
ianeivo-1902
íVo --* 1902;
HHlH4dQI-of"0lpi t«-oIH£¬‹ilIO›o¡-.u01QtifznIl-!‹r4.v›'Q|f¢-ú+tl1H§i¡r4‹|~¢d-l0»fIOi=h7‹zrc-nohdiš fl'nü-èifi¢ü-flitfifle flui

I-I-Iifliif i Ii-¡Filth!-I f flH1HfiUHH Í¡H'H§¡IH§%H¶fHHHfifl


Canudos:
Canudos: oo putro
outro Brasil
Brasil”

\
\

|i
1

As nações se se desenvolvem
desenvolvemcriando,
criando,além
alémdadariqueza,
riqueza,mitos.
mitos.
Canudos
Canudos éÉ umum mito
mito nacional. Em Os
nacional. Em sertões, Èuclldes
Os sertões, da Cunha
Euclides da Cunha V
deu
deu aa forma
forma acabada
acabada que
que 0o mito
mito passou
passou aa ter:
ter; seu
seu espaço
espaço se
se dese-
dese*
nha entre
entre aa epopeia
epopeia da luta militar ee a tragédia de um punhado
de desesperados.
Na crônica
cronica da época a imprensa esquadrinhou cada faceta da
epopeíatrágica.
epopeia~trágica. Em livro recente -^ -~ No calor —^ Walnice
calor da hora -' Walníce
Nogueira Galvao
Nogueira Galvão mostrou
mostrou oo que
que significou
significou aa Guerra
Guerra de
de Canudos
Canudos
para a imprensa de 1897, no período da arrancada final contra o
das crônicas ee das
arraial rebelado. O tom das das reportagens
reportagens enviadas
enviadas
pelos correspondentes
corre-spondšntes era de exaltação quase unânime ãà bravura
do Exército nacional.
nacional. Além
Alémdisso,
disso,alguns
algunsrepublicanos
republicanosdedeimagi-
imagi-
nação mais exuberante viam
Viamnanarebelião
rebeliãodedeAntónio
AntônioConselheiro
Conselheiro

** “Canudoik
“Canudos: 0o Outro BrasiT,Senhor
outro Brasil”. Senhor V ogue*1978, pp.
Vogue, pp. 108-9.
108-9. Prefácio
Prefáciodadasérie
sérieLi-Li
vros Indispensáveiâà Compreensão do Presente, 4, publicada na seção“Resumo
vros Indispensáveis à Compreensão do Presente, 4* publicada na seção“Resumo
do mes” referenteààobra
mês” referente obradedeEuclides
EudidesdadaCunha,
Cunhá,Os sertões
sertões.

65
65
a armadilha
armadilha preparada
preparadapelos pelosrestauradores
restauradoresmonarquistas:
monarquistas: o ape-
o ape-
go ingênuo e tradicionalista
tra dicionalista -dodo pregador
pregador dos dos sertões
sertões transfigura-
transfigura-
vase
va-se em em “ideologia
“ideologiaadversa”,soezmer1te
adversa”, soezmente instilada
instilada pelos pelos inimigos
itiimigos
do
do regime;
regime; não nãofaltaram
faltaramnem nemsequer
sequeralusões
alusões à mão à mão estrangeira,
estrangeira,
corporificada
corporificada na na suposta
supostapresença
presençadedeumumcapitão capitãoitaliano
italiano queque
treinara
treinara osos “guerrilheiros”
"guerrilheiros”. issoIsso tudo,
tudo, apesar
apesardos dosdesrnentidos
desmentidos ho~ ho-
nestos
nestos de de alguns
algunscombatentes,
combatentes,como comoo coronel
o coronel Carlos
Carlos Teles,
Teles, que que
foi taxativo:“Não
foi taxativo: “Nãoháhâaliali fimfim restaurador
restaurador n-emneni
mesmo mesmo influência
influência
de pessoa estranha
de pessoa estranhanesse nessesentido;
sentido; [...] em
em Canudos
Canudos não não existe
existene- ne-
nhum
nhum estrangeiro
estrangeiro ee muitomuito menos
menoscapítão
capitãoitaliano
italianoinstrutor
instrutordede
brigadas”;
brigadas”. •: :•
Desfeita
Desfeita aacrença
crençanonomaquiavelismo
maquiavelismo restaurador,
restaurador, a consciên-
a consciên-
cia nacionalteve
cia nacional tevequequehaver-se
haversecom com uma uma epopeia
epopeia envergonhada,
envergonhada,
cheia de de aspectos
aspectosdeprímentes.
deprimentes.A censura
censura das dasnotícias,
notícias,o ofato fatodede
1?.
que. osos principais
'• ‘ • • '. .
principais correspondentes
‘ V ’- *
correspondentes jornalísticos,
jornalísticos, • • v
inclusive
inclusive Eucli*
EÍ1clí.- <£ • ;

des, eram
eram militares
militaresdadareserva,
reserva,o' o’extermínio
extermínio dada coluna
coluna Morei-
Morei-
ra César que que teve
tevetremendo
tremendoimpacto
impactonanaopinião opiniãonacional,
nacional,tudo tudo
isso contribuía
contribuía para para quequededeCanudos
Canudosse$evisse visse apenas
apenas uma*face
uma”`face
da medalha:
medalha: oo “atavísmo",
“atavismo”,0 o“primitivisrn`o”.,o
“primitivismõ” “barbarismdí
,o “barbarismo” É*
É
estas características
característicasseséfixaram
fixaramcomo como se se fossem
fossem atributos
atributos só dosó do
“outro Brasil” dos
“outro Brasil°Ã dóssertões
sertõesáridos,
áridos,dodofanatismo
fanatismo religioso,
religioso, da lei
da lei
da vingança
vingança que queprevaleceria
prevaleceriaentreentréosos “jagunços”
“ja_gunços'Í Nem Nemmesmo mesmo a a
consciência liberal
consciência liberale ecivilista escapou:
civilista escapou: Rui RuiBarbosa,
Barbosa, defendendo'
defendendo; r
os monarquistas da pecha de se terem aliado aos
os monarquistas da pecha de se terem aliado aos j agunços, quali- jagunços, quali-
fica estesúltimos
fica estes últimosdede“horda
“hordadede mentecaptos
mentecaptos e galés”.
e galés”. Massacrado
Massacrado
Canudos, diantedianteda dadegola
degolageneralizada
generalizada dosdos sertanejos
sertanejos feitafeita
comcom
aa complacência
complacência das dasautoridades,
autoridades,Rui Ruiretorna
retornaaoao liberalismo
liberalismo ver-ver-
bal, mas em discurso rascunhado que não chegou a ser proferido.
Em facedisso,
Em face disso,Walnice
Walnice Galvão
Galvão -- — de cujo
de cujo livrolivroextrai extraí
as in»as in-
formações
formações acimaacima — glosacom
~‹- glosa comrazãorazãooomote do do intelectual-cone
intelectualcom
pela-cente, disposto
placente, disposto aa fechar
fechar os
os olhos
olhos diante
diante do do arbítrio
arbítri-0 ee da da violên-
violen-
cia sempreque
cia sempre que'seja
sejao oPoder,
Poder,ememnome nome da da Razâo
Razão Nacional,
Na-cional, quem quem

66
66
os pratique.
pratique. EE sempre
sempre disposto, també também, m, aa rec uperar aa dignid
recuperar dignidadeade
humana
humana dos dos que
que tombaram
tombaram,, através
através de de umum discurso
discursoretórico
retóricoq que ue
quase
quase invariavelmente
ir1variavelmen'te chega chega tarde.
tarde. Nem
Nem Euclides,
_Eucl.ides, acrescenta,
acrescenta, es- es-
capou disso. Fê-lo,
Fêló, entretanto,
entretanto, com com grandeza.
grandeza. De De seuseu livro
livroper-
per-
manecerão muitasmuitas análises,
análises. A A retórica
retórica castigada,
castigada, que quemachuca
machucao o
leitor, somada a’um
leitor, somada aum certocerto pernosticismo
pernosticismotécnico técnicodedeengenheiro
engenheiro
atento
atento àà geografia
geografia não não foram
foram suficientes
suficientes parapara obscurecer
obscurecer aa ob- ob~
servação crucial: “O “O sertanejo é antes de tudo tudo um umforte”
forte`ÍNão Nãoé éa a
luta, a epopeia, que que marca Ossertoes?
Os sertões, embora sua sua discussão
discussão ocup ocupe e
a maior parte do livro. livro. ÉE oo mea culpa, que não não foifoi só
só dele,
dele, masmas ded-e
todo
todo oo país,
país, que
que sobressai:
sobressai: os os jagunços
jagunços não não eram
erammonarquisjtas
monarquisias
por deliberação; não estavam municiados até os dentes, senão
que
que sese armavam
armavam com com o0 quequesobrara
sobrarana narefrega
refregadas dastropas
tropaslega-
lega~
listas;
listas; não tinham
tinham aa animálos
anima-losaadieta dietafarta,
farta,masmassim simo osoprosoprodede
uma crença, o fanatismo,
fanatismo, oodesespero,
desespero, aa palavra
palavra redentora,
redentora.EEfoi foi
sobre este
este punhado
punhado de demarginais
marginaisque quedesabou
desabouo ofervor'fervorrepubli-
republi-
cano e aa indignação
indignação nacional,
nacional, ee no no seu
seu extermínio
extermínio cobriramsè
cobrirarn-sê
de glórias as forças legalistas. Euclides da Cunha não desmistifica desmistificizi
o esforço oficialista.
oficialista, Mas redime o jagunço jagunço ee tentatenta entendêlo.
entende-lo.
O jornalista republicano
republicano ee patriótico
patriótico cede cedeàà razão
razãodo dosociólogo.
sociólogo.
Escrevendo
Escrevendo no no íim
firn do do século
século xix xtx ee começo
começo do doxx,xx,a asociologia
sociologia
de Euclides
Euclides não
não podia deixar
deixar de de ter
ter sido
sido fo rtemente influenciad
fortemente 'influenciada a
pelas crenças da época: o0 meio — -~ a geografia
geografia e as condicionantes
biológicas — --- fornece a base sobre a qual a história dós dos homens
se desenha. Mas, ao falar em história, nosso nosso autor
au-tornão nãoseserefe-
refe-
re apenas ao desdobramento
desdobramentodedeum umfator
fatorjá jádeterminado
determinado pelapela
raça. Paga seu çfcto p'Íei.to à ideia da interpenetração
interpenetração das “três "três raças”:
raças*1:
a branca, a negra
negra e a indígena.
indígena. Paulo
Paulo Prado
Prado escreveria
escreveria que que somos
somos
formados por por três
três raças
raças tristes:
tristes: ooportuguês»
português, oo índio índioeeoonegro. negro.
Euclides, entretanto, não
Euclides, entretanto, não sese detém
detém na na tristeza
tristeza ou ouem emoutras
outrasdas das
supostas virtudes imanentes
irnanen-tes a nossas srcens origensraciais:
raciais:vai vairessaltar
ressaltar
aa formação
formação cultural,
cultural. Medeia,
Medeia, assim,
assim, oo condicionamento
condicionamentodo domeio
meio

|í¬-
J:

pela
pela ação
ação dos
dos homens.
homens. Contrasta
Contraste o “jagunço” com
o “jagunço” com o o "paulista”
“paulistâffl oo
"bandeirante”
“bandeirante”, ee sese refere
refereao
aopapel
papeldo dorio
rioSão
SãoFrancisco
Franciscocomocomoviavia
de
de penetração.
penetração.
Daí para
para aa frente,
frente, muito
muito da da sociologia
sociologia brasileira
brasileirasesecalcou
calcou
neste modelo: na fixação dos “tipos "tipos históricos” fundamentais na
formação da da nacionalidade
nacionalidade ee sua sua luta
luta pela
pelaconquista
conquistadodoespaço.
espaço.
Oliveira Vianna.,
Oliveira Vianna, na na década
década dede 1930,
1930,Vianna
ViannaMc-og
Moognanadede1940,1940,
e tantos mais, irão definir
mais, irão definir oo que
que foram
foram os os bandeirantes,
bandeirantes,ososgaú- gaú-
chos,
chos, os tropeiros do
os tropeiros do Norte,
Norte, ee assim
assim por
por diante,
diante. SóSó que
queEuclides
Eudides
da Cunha, ao caracterizar os jagunços, não se limitou limitou aa recorrer
recorrer aa
uma tipologia. Desvendou oo que era o jagunço-fanático
jagunçofanático sentando
sentando
as bases paraura
bases para um estilo de estudo que frutificou
frutificou e continua
continua vivo
vivo
em nossos dias:
dias: sem
semaaanálise
análisedodomessianismo
messianismonão nãosesee-ntenderia
entenderia
Antônio Conselheiro. 60
< '
Penso qüe
Penso que no
no mergulho
mergulho em em profundidade
profundidade feitofeito pelo
pelo nosso
nosso *
autor
autor nana busca
busca da
da compreensão
compreensão do? que era
do"`que era aa vida
vida dodo sertaneƒb
sertanejb
e na projeção
projeção queque soube
soube dar
dar ao
ao fenômeno
fenômeno do do misticismo
misticismo eedo do
messianismo
rnessianismo .-`que que podem
podem ser ser hoje
hoje corrigidos,
corrigidos, aqui
aqui ee ali,
ali, fior
por
bibliografia
bibliografia mais
mais douta
douta —-- ficou
ficou estabelecido
estabelecido 0o que
que de melhor nos
de melhor nos
legou Eudides
Euclides sociólogo.
sociólogo. E, E, de
de passagem,
passagem,nanadiscussão
discussãododoHo Ho-
mem ficaram
mem também páginas
ficaram também páginas literárias
literárias que,
que,mesmo
mesmoescapando
escapando
ao
ao gosto contemporâneo, são
gosto contemporâneo, admiráveis.
são admiráveis.
Mas não é só porque Os sertões descreve com argúcia as con-
Mas não é só porque Os sertões descrevecom argúcia as con-
dições devida
de vida do jagunço
jagunço que
que o livro continua
continua umum marco
marco nana lite-
lite-
ratura sobre o Brasil. Nem
Nem talvez
talvez seja
seja só
só porque
porque nele
nelesese abre
abre enor-
enor-
me
me perspectiva para conhecer
perspectiva para conheceroo“outro
"outroBrasil”,
Brasil”,o oBrasil-arcaico,
Brasilarcaico, o o
lado
lado de
de lá dos dois Brasis
lá dos Brasi: de que falaria
de que Jacques Lambert
falaria Jacques Lambertmuitomuito
mais
mais tarde.
tarde. Os sertões constitui
Os sertões constitui ta mbém importante,
também importante, eu eu diria
diria mes-
mes-
mo
mo surpreendente,
surpreendente, peça de criatividade
peça de criatividade metodológica..
metodológica. Euclides
Eudides
da
da Cunha
Cunha passa de um
passa de nível de
um nível de abstração
abstração para
para outro
outro ee deste
deste para
para
a discussão do concreto de forma admirável. Vai do meio am-
abiente
discussão
biente do concreto
àà história
história cultural, de forma
cultural, dessa
dessa aos admirável, Vai
aos pormenores
pormenores da do cotidiana
da vida
vida meio am-
cotidiana

68
68
cío sertanejo,devolve-nos.
do sertanejo, devolvenosdede chofre
chofre o jagunço
o jagunço como
como “tipoideal”
“tipo-ideal”
de urna formação
de uma formaçãosociocultural
socioculturale,e,dederepente,
repente,fazfazbrotar
brotarpela
pelare-re
constituição
constituição do do tempo
tempo perdido
perdido (ou ganho) toda
(ou ganho) toda a a movimentação
movimentação
de sua luta.
de sua luta. AAcronica
crônicafunde-se
fundesecom coma aanálise
análisee nos
e nosdádá o quadro
o quadro
vivo da epopeia-trágica.
vivo da epopeiaírágica.
\\ Porque foi capaz:
capaz de desdobrar a análise
análise em
em planos
planos distin-
distin-
tos*
tos, Euclides não transformou Antônio
Antônio Conseiheiro
Conselheiro apenas
apenasnum num
esqueleto
esqueleto — - oo Profeta
Profeta — nem fez
- nem fez do
do sertanejo
sertanejo apenas
apenas oo suporte
suporte
de uma frasé,
de uma quevêvênele
frase, que nele“um
“umforte”.
forte”.Mostrou-nos,
Mostrounos,tambem,
também,nono
concreto,
concreto, que
que oo Profeta
Profeta era um homem
era um homem de de carne
carne ee osso.
osso. Que
Que aa au-
au-
tonomia
tonomia dos dos municípios,
municípios,proclamada
proclamadapela pelaRepública,
República,irritou
irritouaoab
temperamental Antônio Maciel,
temperarnental Antônio Maciel, 0o Conselheiro,
Conselheiro* porque
porque aa cobran»
cobran-
ça de
de impostos
impostospelas
pelascâmaras
câmarasdeixava
deixavaosos “donos
“donos dodo poder”
poder” maismais
visíveis.
visíveis. EEnos
nosmostrou
mostrouque queo oforte
fortesertanejo
sertanejoeraeraum umdeserdado
deserdado
que refluía. para o Além porque suportava a opressão sem face de
que refluía para oAlém porque suportava a opressão Sem face de
um sistema impiedoso
um sistema impiedosodededominação.
dominação.
Por fim, uma palavra
fim, urna palavrasobre
sobreA luta
luta.«Se
Se já nos surpreende em 1
I

Euclides
Euclides oo“sociólogo
“sociólogodadavida
vida cotidiana”, o quase psicólogoa_ de~a de**
|
cotidiana”, o quase psicólogo
bruçarse
bruçar-se sobre
sobre o0 vulcão
vulcão anímico
anímico dodo Conselheiro
Conselheiro — -  ee que
que porpor
isso vai muito
isso vai muito além
alémdodoparafraseador
parafraseadordas dasqualidades
qualidadesintrínsecas
intrínsecas
do obscurantismo
obscurantismo das dastrês
trêsraças
raçasformadoras
formadorasdadanacionalidade
nacionalidadee e
outras
outras observações
observações do dogênero
gêneroquequefizeram
fizeramfuror
furornanaépoca
épocamas mas
não subsistem à crítica cientifica -, mais surpreende ainda o
não subsistem
“sociólogo dosàmovimentos
“sociólogo dos
crítica científica
movimentos sociais”
sociais”. AA
mais surpreende
descrição
descrição do dó
ainda
Monte
Monte
o
BeloBelo

-- designativo
designativo. transfigurado
transfigurado que os jagunços davam ao sensa sensa-
borâo
borão Canudos - bem como a narração sobre os movimentos
da tropa oficial
da tropa oficiale-“da
e^
6 a guerrilha
guerrilha do
do Conselheiro
Conselheirofundem fundemaaimagem
imagem
cênica potente com
cênica potente com aa compreensão
compreensão dodo aqui
aqui ee do agora, dando
do agora, dando aos
aos
determinantes
determinantes do do meio
meioeedadahistória
históriaa aforça
forçadadavida.
vida. O sociólogo
O sociólogo~
repórter
»repórter suplanta
suplanta na na discussão
discussãodadaLuta
Luta oo cientificismo
científicismo do dosábio
sábio
e mesmo o culturalísmo do intelectual que tentou fixar a imagem
edo
domesmo o culturalismo do intelectual que tentou fixar a imagem
sertanejo.
sertanejo.

m
69
À partir de
A partir de Os sertões a consciência critica brasileira
consciência crítica brasileira refor-
refor-
çou seu sentimento de culpá
culpa para com o outro Brasil
Brasil. O Brasil da
pobreza
pobreza rural»
rural, do
do analfabetismo,
analfabetismo, da
d-a fome,
fome, da
da doença.
doença. Teve,
Teve, pelo
-pelo
menos, que reconhecêlo.
reconhecê-lo. E, mesmo sem
E, mesmo sem conseguir
conseguir modifica-lo,
modificálo,
teve de amargar,
amargar, como ainda o faz*faz, aacerteza
certezadedeque
quemuito
muito dodo
'“progresso”, quando não é feito diretamente sob os corpos inse~
“progresso”, quando não é feito diretamente sob os corpos inse-
pultos dos vários jagunços que erram nos campos (e nas cidades
cida-des
também),
também), éÉ pelo
pelo menos
menos de de pouca
pouca valia
valia para
para os
os que,
que, no
HO desespero,
Clfiãfispero,
ou mergulham na apatia da falta de esperança, ou, quando lutam,
fazemno
fazem-no enredados
enre-dados nalguma forma de messianismo.
messíanismo. Isso sé
só bas-
bas~
taria para explicar a.a permanência desse grande livro.
1-

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I

PAULOPRADO
PAULO PRADO
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ä-` Í. ` I _

t'
Fotógrafo amador
Fotógrafo amador*

\\

Escrevi, no
Escrevi, no texto
texto sobre
sobre Euclides
Eudides dada Cunliafi
Cunha,1 queque Os
Os sertões
sertões
havia fixado
fixado umum padrão de de estudos
estudos brasileiros.
brasileiros.AAaula aulasobre
sobreo or
jagunço ou o0 bandeirante como tipos psicossociais, salpicado# salpicadoš'
aqui e ali
ali de
de determinismo
determinismo geográfico
geográficoou oubiológico,
biológico,mas massempre
sempre
corrigidos
corrigidos pelo
pelo curso
curso de história social,
de história social, deu
deu aa base
basepara
parauma
umaes-es-
pécie de morfologia arqueológica do homem brasileiro. Gilberto
Freyre rompeu em
Freyre rompeu em Casa-grande
Casa-grande e'r& senzala com 0o que
senzala com que havia
haviadede
preconceito sobre as “raças inferiores” e culturizou a análise. Me- Me-
nos do que äa geografia
geografia ououaabiologia,
biologia,seria
seriaa acultura
culturaenraizada
enraizadaemem
padrões
padrões sociais
sociais quem
quem daria
daria aa chave
chave para
para explicar
explicar o o Brasil.
Brasil.
É verdade
verdade q^ie OliveiraVianna,
qpe Oliveira Vianna, escrevendo
escrevendodepois
depoisdedeFreyre,
Freyre,
deu um passo atrás.
atrás, Mas
Mas Sérgio
SérgioBuarque,
Buarque,nos nosidos
idosdede1930,
1930,já já
usava mão
mão de de mestre
mestre para
para observar
observar umum Brasil
Brasilmais
maispreso
presoàsàsraí-
raí*

* “Fotógrafo
“Fotógrafoamador".
amador”.Senhor Vogue?out. 1978,
Senhor Vogue, 1978, p. 129. Prefáciodadasérie
129. Prefácio sérieLivros
Livros
Indispensáveis
indispensáveis àà Compreensão
CompreensãododoPresente,
Presente,7,7» publicada
publicada na na seção
seção “Resumo
“Resumo do do
mês” referente à. obra de Paulo Prado, Retrato do Brasil.
mês” referente à obra de Paulo Prado,
Retrato do Brasil.

7?33
fr:
Ei
|':

gi

.+2
Ts..

zes
zes históriçosociais
historico-sociais do
do que
que àà tolice do biologísmo.
tolíce do biologismo. EE Caio
Caio Prado
Prado
contrapunha
contrapunhia aoao impressionismo
irnpressionísmo ensaístico sólida base
ensaístico sólida basehistórica
histórica
para
para explicar
explicar as
as estruturas
estruturas sociais
sociais eE econômicas
econômicas da da Colônia.
Colônia. Ou-
Ou-
tro nao
näo foi o procedimento, embora de de voo
voo explicativo
explicativo mais
mais raso,
raso,
adotado
adotado por
por Roberto
Roberto Simonsen.
Simonsen. E Celso Furtado contempora-
Celso Furtado contempora
neamente, usando instrumental analítico distinto do que fora
neamente, usando instrumental analítico distinto do que fora
empregado
empregado por, seus antecessores,
por seus antecessores,consolidou
consolidoua aruptura
rupturacom como o
subjetivismo romântico, buscando no processo econômicoeepo-
processo economico po-
lítico, no decorrer da história, a base para
para entender
entender oo Brasil.
Brasil.
Pois bem, oo livro
livro de Paulo
Paulo Prado,
Prado,Retrato do Brasil2
Brasill (livro es-
es-
crito entre 1926 e_e 1928), situa-'se
situase no
no polo
polo oposto:
oposto:ééaa consagração
consagração
do subjetivismo romântico,
romântico» £heio
öheio de amor e de qualidade
qualidade literá-
literá-
ria. Decidiu*se incluir este
Decidiu-se incluir estepequeno
pequenolivro
livronesta
nestasérie
sériepara
paraexem-
exem-
piificar um tipo .de compreensão do Brasil que, na época de spa
plificar um tipo,de
publicação, compreensão
1928, aparecia como do umaBrasil
visãoque, na época
realista e, atédecerto
sua
ponto, "revolucionária^
“revolu‹;io'nária”.~ _` J*
Como
Corno se explica
explica tanto
tanto equívoco?
equívoco?
É preciso.não
preciso^nãoesquecer
esquecerque
quePaulo
PauloPrado
Pradofoifoiumumdos
dospronio~
promo-
tores
'fores da Semana de Arte Moderna de 1922. t
A redescoberta do
A redescoberta do Brasil
Brasil corno
como exótico-reivindicado
exóticoreivindicadoe enão não
expelido» suaorgulhosa
expelido, sua orgulhosaexibição
exibiçãoperante
peranteEuropa-França
EuropaFrança e mes-
e mes-
mo Bolívia, era sinal de autenticidade. Foi um momento do longo
mo Bolívia, era casamento
e atormentado sinal de autenticidade.
casamento entre Foidominante
entre a classe
classe um momento
dominante (oudo
(ou longo
melhor,
rnelhor,
aa parte
parte dela
dela que
que tinha
tinha qualidades para ser
qualidades para ser uma
uma elite
elite cultural)
cultural) eé oo
povo
povo brasileiro.
brasileiro. Este
Este foi
foi "descoberto”
“descoberto” porpor nossa
nossa intelectualidade
intelectualidade
tal
tal como
como era ou se
era ou se supunha
supunha que que fosse:
fosse:mestiço,
mestiço,feio,
feio, sifilítico,
sifilítico, pre-pre-
guiçoso, malandro, mas,
guiçoso, malandro, mas, dede qualquer
qualquer forma,
forma,nosso. A afirmaçäo
afirmação
orgulhosa do nós coletivo,
coletivo, aa transfigur-ação
transfiguração do do feio
feio em
em belo,
belo,fez-se
fezse
de forma lapidar
deforma lapidar na
na literatura.
literatura. Macunaíma,
Macunaíma, pára para mim,
mim, éÉ oo ponto
ponto
rnais alto desse
mais alto desse processo.
processo.Reivindica-se,
Reivindicase,sem semesconder
esconder os os peca;
peca-_
dos,
dos, aa srcinalidade
originalidadedo do blend brasileiro. Semmen_tira.s,
brasileiro. Sem mentiras, ou ou melhor,
melhor,
mentindose
mentindo-se abertamente
abertamente e, e, portanto, santificandose
santificandose aamentira.
mentira.

]'4
Mas este estilo
Mas este estilodedecompreensão
compreensãododoBrasil,
Brasil*
quequefoi foi maneja-
maneja-
do com gênio
gênio por por Mário de Andrade, levou
levou mãos
mãos menos
menos peri-
peri-
tas ao desvio fascisdzante do
desvio fascistizan.te_ do verdoamarelismo,
verdeamarelism o, que
que chegou
chegou aa '
ser ridículo ee falso,
ser ridículo falso,como
comoem emPlinio
PlínioSalgado,
Salgado,mais
maisenvergonhado
envergonhado
em Cassiano Ricardo,
em Cassiano Ricardo,salvou-se
salvousenanaantropologša
antropologiairreverente
irreverentedede
Oswald de Andrade por ser absolutamente antíconvencional. E
Gswald
ficou “dedesalão'§
ficou “de Andrade
salão”, por
ainda
ainda ser absolutamente
grávido
grávido dedeintenções :an tíconvencional,
intençõesdemocratizantes,
democratizantes, E
nana
pena de Paulo Prado.
*1 De fato, a afirmação
afirmação cheia de impacto de que "numa “numa terra
radiosá vive um
radíosa vive um povo triste” ou
povo triste” ou de
de que
que “criava-se
wcriava>e .no no decurso
decurso dos dos
séculos
séculos umauma raça
raça triste
triste”,, adubada
I)
pela luxúria
adubada pela luxúria ee cobiça
cobiça do do coloni-l
coloniJ
zador, fez
fezfuror
furornos
noscírculos
círculosbem bempensantes.
pensantes.
Paulo Prado
Prado sese apercebeu
apercebeuda dáfragilidade
fragilidadeàt de seu argumento
impressionista.
irnpressionista. No No postscriptum explicouexplicou que
que talvez
ulvez eleele pensas-
pensas^
se mais nos paulistas (esses, sim, sim, coitados,
coitados, tristes
tristes mamelucos)
mamelucos) do do
que nos outros, eventualmente alegres brasileiros,Mas
alegres brasileiros, Masmanteve
manteve
o essencial de sua interpretação:
interpretação: nossonosso consciente
consciente construiu-se
construiuse I
a partir do colono, do índio e do negro escravo, escravo, jájápor por sisi-_-
7 e 
por motivos diversos - picados pela malevolência malevolézcia do tropicatropica-
lismo triste;
triste; ainda por cima, nossas nossas elites
elites sesedettarani
deixarammorder morder
pelo spleen romântico. Na política, politica, oo verbalisrm
verbalismo oco ocosubstítuia
substituía
a análise;
análise;na navida
vidacotidiana
cotidianaaaimitação
imitaçãonostálgica
nostálgicadede umauma Europa
Europa
recuada pelapela imaginação
imaginação ee 0o contraste apavor;t~e
apavor&atecom comasasma+ ma-
zelas das crises
zelas das crisesétnico~sociais-biológicas
étnicosóciaisbiológicastornavàrn tornavam nossas
nossas elites
elites
frívolas
frívolas ee incompetentes
incompetentes para para construir
construir uma
uma na naclo. Diantedesse
são. Diante desse
quadro desventuroso,
desventuroso, só só aasolução
soluçãoheroica.
heroiça, EE eis
eis que nosso autor,
:_ue nosso autor,
sem se se -dar
dar contafexempiifica
conta,^exemplificacom comsua suaprópria
própria_:-enarena0o mal que que
tanto criticava: propõe romanticamente
criticava: propõe romanticamente aasoluçizz.
solução.Esta Estaconsistia
consistia
ou na Guerra, para despertar quem sabe algum algum he;-oi
htrói salvador, ou
na Revolução.
Revolução.AntesAntesdadamoda modaatual,
atual,?aulo
PauloPrad-›:
Pradcadotaidotaa solução
a solução
mais fácil:
mais fácil:sósóososmais
maissimples,
simples,os os
nãonão
contaminados, vindos
contaminidos, da da
vindos
profundeza da alma popular, teriam força pare para regenerar
:egenerar tanta

75
perdição,
perdição. EE éé no
no impulso»
impulso, também
também romântico
romântico ee irracional
irracional —- “o“Q
futur
futuroo não pode
pode ser pior que
que oo passado”
passado” —,--, que
que nosso
nosso autor
autorvai
vai
buscar
buscar aa crença
crença na na redenção.
redenção. Tivesse
Tivesse vivido
vivido mais
mais umum pouco
pouco ee
Paulo
Paulo Prado
Prado veria
veria que
que sobre
sobre aa base
base precária
precáriadedeumumpovo
povo“triste”
“triste”
se constituía um país moderno.
moderno. EE quequenão
nãofoi
foiaaalcandorada
alcandoradaRe- Re-
volução quem
quern plasmou
plasmou oo futur o; ppior
futuro; ior ainda,
ainda, teria
teria visto
visto que,
que, para
para
a massa da população, o futuro tampouco foi melhor do que o
a massa da população, o futuro tampouco foi melhor do que o
passado e que>
que, o têmpora, moresl, tristezas não
tempora, o mores!, não pagam
pagamdívidas.
dívidas.
Deuse
Deu-se aa grande
grande transformação
transformaçãoque queninguém
ninguém poderia
poderia supor há há
supor
quarenta
quarenta anos:
anos: oo país
país se "modernizou'1
“modernizou” oo romantismo
romantismodas daselites
elites
foi substituído por
por umumpragmatismo
pragmatismosem semencanto
encantoe, e,àsàsvezes,
vezes,sa- sa-
fado; os grandes problemas (TomoComo oo dada dívida
dívida externa tão profli
profli-
gada por Pauíó
Paulo Prado se se reproduziram, se agravaram
agravaram ee acabaram
acabaram
por se resolver, embora noutro contexto, e assim por diante. Ú:
O “método” impressionista
impressionista dé interpretação dodoBrasil,
deéinterpretação Brasil,porpor
mais encantador
mais encantador que
que seja
seja seu
seu manejo
manejo por por hábeis
hábeis mãos
mãos ee fecuncj&s
fecuncfis
imaginações, pode valer
valer como estética» pode abrilhantar
estética, pode abrilhantar salões
salões e
saraus (ah!
(ahi Estes também já já nnão
ão existem
existem mais...),
mais...),mmas
ás não
não resiste
ao tempo
tempo ee às
às vezes nem ao vento. A
vezes nem A uma
uma moda
modaseguese
seg"ue~Seoutra,
outra,
sem deixar no mais das vezes nada além além da
da sensação dede uma
uma lei-
lei-
tura
tura prazerosa
prazerosa respingada
respíngada aqui
aqui ee ali
ali de observações
observações atiladas.
atiladas.
Em seu gênero
gênero ee com
com essas
essaslimitações,
limitações,Retrato do Brasil con-
tinua
tinua sendo
sendo dos
dos melhores
melhores ensaios
ensaios feitos
feitos para
pa raentender
entenderou oujustifi-
justifi-
car os males do passado
passado e as esperanças
esperanças do futuro.
futuro.

'rñ
GILBERTO
GILBERTOFREYRE
FREYRE
4 al v 1 _ Ú
I ' ›| '.
1 ' ' I
¡ .| .¡ I
. .| - ¡
Í
_ \ ' _ I

4 - ¡ 1 ri 1
1 GILBERTO
Gn.BERTo FREYRE
FREYRE

CASA-GRANDE
äíâ - GANE
aí:
«ft .

sENz@LÀ
SENZALA 1*
'

I-

FORMAÇAO
FORMAÇAO DA FAMÍLIA BRASILEIRA
DA FAMILIA BRASILEIRA
SOB
SOB O
O BEG1MEN DE ECONOMIA
REGIMEN DE ECONOMIA
PATRÍARCHAL
PATRUÃRCHAL

¡\/IAIA
M A JÁ & & SCHMIDT
SCHIVHDT l._.T*Í'^
LJ*3*
. RIO
FHC) —
-› 1933
1933 1
Casa-grande & Senzala, clássico*
6 senzala, clássico*

s .

Quantos clássicos terão tido


clássicos terão tido aa ventura
ventura dede serem
serem reeditados›
reeditados *
tantas
tantas vezes?
vezes? Mais ainda: Gilberto
Mais ainda: Gilberto Freyre
Freyresabia-se“c1ássico”Í
sabiase "clássico”Logo
Logo êt
ele,
ele, tão
tão àà vontade
vontade no
no escrever,
escrever, tão
tão pouco
pouco afeito
afeito às
às normas.
normas. E£ todos
todos fÉ
que vêm
vêm lendo
lendo Cãsa-granâe
Casa-grande & dr se nza la há setenta anos, mal ini-
senzala, ini-
ciada
ciada aa leitura,
leitura, sentem
sentem que
que estaõ
estão diante de obra
diante de obra marcante,
marcante.
Darcy Ribeiro, outro
Darcy Ribeiro, outro renascentista
renascentista caboclo,
caboclo,desrespeita-
desrespeita-
do*
dor dede regras,
regras, abusado
abusado mesmo
mesmoe ecom comlaivos
laivosdedegênio,
gênio, escreveu
escreveu
no prólogo que preparou para ser publicado na edição de Casa-
no prólogo que preparou para sér publicado na edição deCasa-
-grande ce senzala pela biblioteca
& Senzala bibliotecaAyacucho
AyácuchodedeCaracas
Caracasque quêeste
este
livro séria lido no
seria lido no próximo
próximo milênio.
milênio.Como
Comoescreveu
escreveunonoseculo
século
xx, seu vaticínio cgmeça
seu vaticínío começaaacum_prir»se
cumprirseneste
nesteinício
iniciodedeséculo
séculoXX L
xxr.
Mas
Mas porquê?.
por quê?
Os críticos
críticos nem
nem sempre
sempre foram
foram generosos
generososcom comGilberto
Gilberto

** “Um
“Um livro
livroperene”
perene”(Apresentação).
(Apresentação). In:In: Gilberto
Gilberto Freyre,
Freyre, 1900-87.
1909-87. Casa-grande
Casa-grande
Ó-.senzalar Formação daƒrrmflia brasileira sob o regime da economia patriarcal. 50-.
&
ed.senzala:
re $ãõFormação
v. São
rev. Paulo; da família
Global,
Paulo: Global, a sob o regimeda economia patriarcal.50^
2005,brasileir
pp. l9¬28.
pp. 19-28.

?9
lu -
f-fi

Ereyre,
Freyre. Mesmo
Mesmo os que 0o foram,
os que foram, como
como oo proprio
próprio Darcy,
Darcy, raramente
raramente Let
.-1%
:iu

deixaram
deixaram de mostrar suas
de mostrar contradições, seu
suas contradições, seu conservadorismo,
conservadorismo,oo =~_
Í.

gosto pela palavra


gosto pela palavra sufocaltdo
sufocando oo rigorrigor científico,
científico,suas suasideali`zaço.es
idealizações
ee tudo
tudo que,
que, contrariando
contrariando seusseus argumentos,
argumentos,era era simplesmente
simplesmente es- es-
quecido,
quecido. É Ê inútil
inútil rebater
rebater asas críticas.
críticas. Elas
Elasprocedem.
procedem.Pode--se
Podesefaze-fazê-
las com mordacidade,
-las com mordacidade, impiedosamente
impiedosamente ou ou com
com ternura,
ternura, comcom
compreensão,
compreensão, como seja. O
corno seja. fato éé que
O fato que até
até já
já perdeu
perdeu aa graça
graça repeti-
repeti-
las
-las ou
ou contestálas. Vieram para
contestá~las. Vieram para ficar,
ficar,assim
assimcomo comooolivro.
livro.É Éisso
isso
que
que admira:
admira: Casa-grande
Caswgmride cí~ senzaln foi,
& senzala foi, éé ee será
será referência
referênciaparaparaaa
compreensão do Brasil. Brasil-
Por
Por quê? Insisto.
quê? Insisto.
A etnografia
etnografia do livro érno éfno dizer
dizerde deDarcy
Darcy Ribeiro,
Ribeiro, de boa
qualidade.
qualidade. NãoNão se se trata
trata dede obra
obra de de àlgutn preguiçoso genial.
algum preguiçoso genial.OO
livro
livro se deixa lerspreguiçosamente,
se deixa le&preguiçosamente, languídamente.
languidamente. Mas Mas isso
isso ééqu»
c^u
tra coisa.
tra coisa. É
Ê tão bem escrito,
tio bem escrito, tão
tão embalado
embalado na na atmosfera,
atmosfera, morna,
morna,
da descrição
descrição frequentemente idüica^que
idilicalque o autor faz para caracte- caracë-
rizar o Brasil patriarcal,
patriarcal, que
que leva
leva oo leitor
leitor nono embalo.
embalo.
Mas que-ninguém
quêmngiiém se engane:
engane: por por trás
trás das
das descrições,
descrições, às àsvesies
vezes
romanceadas
rornanceadas ee mesmo
mesmo distorcidas,
distorcidas, há há muita
muita pesquisa.
pesquisa.
Gilberto
Gilberto Freyre tinha aa pachorra
Freyre tinha pachorra ee aa paixãopaixão pelo
pelo detalhe,
detalhe,
pela
pela minúcia,
mi-núcia, pelo
pelo concreto.
concreto. À A tessitura
tessitura assim
assim formada,
formada, entretan-
entretan-
to,
to, levavao frequentemente àà simplificação
levava-o frequentemente simplificação habitual.
habitualnosnosgrandes
grandes
muralistas. Na projeção de cada minúcia para compor o painel
muralistas. Na projeção de cada minúcia para compor o painel
surgem
surgem construções
construções hiperrealistas
hiper-realistas mescladas
mescladas comcom perspectivas
perspectivas
surrealistas
surrealistas que
que tornam
tornam o0 real
real fugidio
fugidio.
Ocorreu
Ocorreu dessa forma na
de-ssa forma na descrição
descrição das
das raças
raças formadoras
formadorasda da
sociedade brasileira. O
sociedade brasileira. O português
português descrito
descrito por
por Gilberto
Gilberto- não
não éé
tão
tão mourisco
mourisco quanto
quanto oo espanhol.
espanhol.Tem Tem pitadas
pitadas dede sangue
sangue celta,
celta,
mas
mas desembarca
desembarca no no Brasil como um
Brasil como um tipo
tipo histórico
histórico tisnado
tisnado com
com
as cores quentes da África.
África. OO indígena
indígena éé demasiado
demasiado tosco
toscopara
para
quem
quem conhece
conhece aa etnografia
etnografia das Américas, Nosso
das Américas. Nosso autor
autorcons~ide~
conside-
ra
ra os
os indígenas
indígenas meros
meros coletores, quando, segundo
coletores, quando, segundo Darcy
DarcyRibeiro,
Ribeiro,

-So
sua contribuição para
sua contribuição para aa domes.ticação
domesticação ce oo cultivo
cultivodas
dasplantas
plantasfoiFoi
niaior
maioi' que
que aa dos
dos africanos.
africanos.
O negro,
negro,ee neste ponto 0.o antirracismo de de Gilberto
Gilberto Freyre
Freyre aju-
aju-
da,
da, fazse
faz-se orgiástico
orgiástico por sua situação
por sua situação social
social de de escravo
escravo ee não
nãocomo
como
conseqüência
consequencia da da raça
raça ou
ou dede fatores
fatores intrinsecamente
intrinsecamente culturais.
culturais.
Mesmo
Mesmo assim,
assim, para
para quem
quem tinha
tinha 0o domínio etnográfico de
domínio etnográfico de Gilber-
Gilber-
to
to Freyre, o negro
Freyre, o negro que
que aparece
aparece no no painel
painel éé idealizado
idealizadoem emdemasia.
demasia.
Todas essas caracterizações, embora expressivas, simplificam
simplificam
e podem iludir o leitor.
leitor. Mas,
Mas,com
comelas,
elas,o olivro
livronão
nãoapenas
apenasganha
ganha
força descritiva como
força descritiva como se torna quase
se torna qüase uma
uma novela,
novela, ee das
das melhores
melhores
já escritas, e, ao mesmo tempo, ganha força explicativa.
Nisto reside o mistério da criação. Em outra oportunidade,
tentando
tentando expressar meu encantamento
expressar meu encantamento de de leitor, apeleí
apelei aaTrótski
Trótski
para ilustrar o que depreendia esteticamente da leitura de Case i
Casa-
-grande cá»
-grande senzala. Ò
& senzala, O grande
grande revolucionário
revolucionário dizia:
dizia: “todo
“todo verda-
verda-
deiro criador sabe que nos ,momentos
momentos da criação alguma coisa
criação alguma coisa
de mais forte do que ele
ele próprio lhe guia
guia aa mão.
mão. Todo
Todo verdadeiro
verdadeiro {
orador
orador conhece
conhece os minutos em que exprime pela pela boca
boca algo
algoque
quer f
tem mais força que ele próprio”.
Assim ocorreu com Gilberto Freyre. Sendocorreta
Freyre. Sendo corretaou
ounão
naoaa
minúcia descritiva e mesmo quando a junção dos personagens se
algo que,
faz numa estrutura imaginária e idealizada, brota algo que, inde-
inde-
pendentemente do método de análise, e às vezes mesmo das con-
pendentemente do método de análise, e às vezes mesmo das con-
clusões parciais
parejais do
do autor,
autor»produz
produzoo encanta-mento,
encantamento,aailuminação
iluminação
que explica sem
sem que
que sesesaiba
saibaaarazão.
razao.
Como, entretanto, não não se
se trata
trata de
de pura
pura ilusão,
ilusão, há de
d-e reco-
reco-
nhecerse
nhecer-se que Cqfa~gmnde
Cga-grande ó~ senzala eleva
& senzala eleva àà condição
condição dede mito
mito
um paradigma
paradigma queque mostra
mostra oo movimento
movimentoda dasociedade
sociedade escravo-
escravo-
crata e ilumina
ilumina oo patriarcalismo
patríarcalísmo vigente
vigente no
no Brasil préurbano
Brasil pré-urbano-
industríal.
-industrial.
La-tifúndio e escravidão, casa-grande e senzala eram, de fato,
Latifúndio e escravidão, casagrande e senzala eram, de fato,
pilares da ordem escravocrata. Se nosso autor tivesse ficado
ficado só

81
nisso, seria possível
nisso, seria dizerque
possível dizer que outros
outros jájá oohaviam
haviamfeito
feitoeecom
commais
mais
precisão.
precisão. ÊÉ no
no ir
ir além
além que
que está
está aa força
força de
de Gilberto
Gilberto Freyre.
Freyre. Ele
Ele vai
vai
mostrando como, no
mostrando como, no dia
dia aadia,
dia,essa
essaestrutura
estruturasocial,
social,que
queé fruto
é fruto
do
do sistema
sistema de deprodução,
produção,seserecria.
recria.É Éassim
assimqueque a análise
a análise do do nosso
nosso
antropólogosqciólogohistoriador
antropólogo-sociólogo-historiador ganha ganha relevo.
relevo.AsAsestruturas
estruturas
sociais e econômicas não são apresentadas apenas como condi-
sociais e econômicas não são apresentadas apenas como condi
cionantes da ação,
cionantes da ação,mas
mascomo
comoprocessos
processosvivenciados
vivenciados porpor pessoas
pessoas
também
também movidas
movidas porpor emoções.
emoções. Aparecem
Aparecem nono livro
livro emoções
emoções queque
não
não se compreendem fora
se compreendem fora de
decontextos
contextose eações
açõesconcretas
concretase não
e não
apenas como padrão
-padrão cultural
cultural.
Assim
Assim fazendo, Gilberto Freyre inova
Gilberto Freyre inovanas
nasanálises
análisessociais
sociaisdada
época: suasociologia
época: sua sociologiaincorpora
incorporaa avida
vidacotidiana.
cotidiana. Não
Não apenas
apenas a a
vida pública ou
vida pública ou oo exercício
exercíciodedefunções
funçõessociais
sociais definidas
definidas (do(do
se- se-
nhor de engenho, do latifundiário, do escravo, do bacharel), mas
nhor
a vidadeprivada.
engenho, do latifundiário, :do
privada. -s^ escravo, do bacharel), mas li
Hoje ninguém mais se se espanta
espanta 'corn
tom aa sociologia
sociologia dada vida
vida pri-
pi£
vada.
vada. Há atéaté histórias
histórias famosas
famosassobre
sobre3a vida cotidiana.
cotidiana. Mas,
Mas, nosnos
anos 1930, descrevera acozinha,
1930, descrever cozinha,ososgostos
gostos alimentares,
alimentares, mesmd
mesmd a a
arquitetura
arquitetura e,e, sobretudo,
sobretudo, aa vida
vida sexual
sexualera erainusitado.
inusitado.
Mais ainda,aoaodescrever
Mais ainda, descreverososhábitos
hábitosdodo senhor,
senhor, do do patriarca
patriarca
èe de
de sua
sua família,
família, por
por mais
mais que
queaaanálise
análisesejasejaedulcorada,
edulcorada,ela elarevela
revela
não só a condição
condição social
social dodo patriarca,
patriarca, da da sinhá
sinhá ee dos
dos ioios
ioiôs ee
iaiás,
iaiás, mas
mas das
das mucamas, dos moleques
mucarnas, dos molequesde de brinquedo,
brinquedo,das dasmulatas
mulatas
apetitosas, enfim,desvenda
apetitosas, enfim, desvendaa atrama
tramahumana
humanaexistente.
existente.E,E,nesse
nesse
desvendar, aparecem
aparecem fortemente o sadismosadismo ee aa crueldade
crueldadedosdosse«
se-
nhores, ainda que
nhores, ainda què Gilberto
GilbertoFreyre
Freyretenha
tenhadeixado
deixadodededardarimpor-
impor-
tância am escravos
tância aos escravosdo doeito,
eito,à àmassa
massados dosnegros
negrosqueque mais
mais penava
penava
nos campos.
campos.
Ê indiscutível,contudo,
É indiscutível, contudo,que quea avisão
visãododomundo
mundopatriarcal
patriarcal
de
de nosso autor assume
nosso autor assumeaaperspectiva
perspectivadodobranco
brancoe edodosenhor.
senhor.Por Por
mais que ele valorize aa cultura negra ee mesmo mesmo oo comportamento
comportamento
do negro como uma das das bases
bàses da
da “brasilidade”
“brasilidade” ee queque proclame
proclame aa

É-|
mestiçagem como algo
mestiçagem como algo positivo,
positivo, no
no conjunto
conjunto fica
fica aa sensação
sensação de
de.
uma
uma cetta
certa nostalgia
nostalgia do
do "tempo
“tempo dos
dos nossos avós ee bisavós”.
nossos avós Maus
bisavós”. Maus
tempos,
tempos, sem
sem dúvida,
dúvida, para
para aa maioria
maioria dos
dos brasileiros.
brasileiros.
De
De novo, então»por
novo, então, porque
queaaobra
obraééperene?
perene?
Talvez porque»aoaoenunciar
Talvez porque, enunciartão
tão abertamente
abertamente comocomo valiosa
valiosa
uma situação cheia de aspectos horrorosos, Gilberto Freyre des-
uma
vende situação
vende uma
cheia deque,
uma dimensão
dimensão aspectos
gostemos
que, gostemos
horrorosos,
ou não,
ou
Gilberto
conviveuFreyre
não, conviveu comquase
com
des-
quase
todos
todos osos brasileiros
brasileiros até
até oo advento
advento da da sociedade
sociedade urbanizada,
urbanizada, com- com-
petitiva
petitiva ee industrializada.
industrializada. No No fundo,
fundo, aa história
história que
que ele
ele conta
conta eraera aa
história
história que
que os brasileiros, ou
os brasileiros, oupelo
pelo menos
menos .aa elite que lia
elite que lia ee escrevia
escrevia
sobre
sobre o 0 Brasil,
Brasil, queria ouvir.
queria ouvir. |l
Digo issoisso não
não para
para “desmistificar”,
“desmistifiçâr”,Convém
Convémrecordar
recordarque que
outro grande inventorealidade,
invento-realidade, oo de de Mário dede Andrade, Macu Macu-
naíma,
naírna, expressou tambémtambém (e nao não expressará
expressará ainda?)
aínda?) umauma carac-
carac-
terística nacional
nacional que,que, embora
embora criticável,
criticável,nos
nosééquerida.
querida.OOperso-perso-
nagem principal
principal é descrito como como herói
herói sem nenhum caráter.
caráter. Ou
melhor, com com caráter variável,
variável, acomodatício,
acomodatício, oportunista.
oportunista. Esta,
Esta, ^
por certo»
certo, nao
não é toda a verdade da nossa alma. Mas como negar '
que exprime
exprime algo algo dela?
dela?Assim
Assimtambém
tambémGilberto
GilbertoFreyre
Freyredescreveu
descreveu
um Brasil que, que, sese era
era imaginário em certo nivel, nível, em em outro era
real. Mas como
real. Mas como seria
seria gostoso
gostososesefosse
fosseverdade
verdadeto-dos
todosterem
teremsidosido
senhores..,
senhores... .
É essa característica de
essa característica dequase
quase mito
mito que
que dá
dá aa Casa-grande cê &
senzola a força e a permanência. A história que está sendo conta-
senzala conta-
da éé aa história
história de de muitos
muitos de de nós,
nós, de
de quase
quase todos
todosnós,nós,senhores
senhoresce
escravos. Não é por certo aa dos dos imigrantes.
imigrantes. Nem
Nem aadas das populações
populações
autóctones. Mas a história
história dos
dos portugueses,
portugueses, dede seus
seus descendentes
descendentes
e dos
dos negros,
negros, que,que,sesenão
nãofoifoiexatamente
exatamentecomocomoaparece
aparecenonolivro,
livro,
poderia ter sido a história de personagens ambíguos que abomi- abomi-
navam Certas
certas práticas da sociedade escravocrata
escravocrataeesese embeveciarn
embeveciam
com outras, com
com outras, com asas mais
mais doces,
doces,asasmais
maissensuais.
sensuais.

8333
-aa
Tratase,
Trata-se, reitero, de dupla simplificação,
simplificaçao, a que que está
está na
na obra ee .af-i`.¬?f*z`«'-;
Í*i=
a que
que estou
estou fazendo.
fazendo. Mas que que capta,
capta, penso
penso eu, algo
algo que
que seserepete
repete :.:.;
Lil
na
na experiência
experiência ee na na leitura
leitura dede muitos
muitos dos
dos analistas
analistas dede Gilberto
Gilberto C2.

Freyre.
Freyre. ÉÉ algo
algo essencial
essencialpara paraentender
entenderooBrasil.
Brasil,Trata-se
Tratasededeumauma ;`fl
L

simplificação formal que caracteriza, por intermédio intermédio de de oposi


oposi-
çoes
ções simples,
simples, um
um processo complexo.
processo complexo.
Não
Não será
será próprio
próprio da da estrutura
estrutura do do mito,
mito, como
como diria
diria Lévi
Lévi-
Strauss,
-Strauss, esse tipo de
esse tipo de oposição
oposição binária?
binária? EE não
não éé da
danatureza
natureza dos
dos
mitos
mitos não
não se
se alterarem
alterarem com o passar do tempo? E E eles,
eles,por
por mais
mais
simplificadores
simplificadores que sejam, não ajudam o olhar do antropólogo a
desvendar as estruturas do real?
Basta isso para demonstrar a importância
importância de de uma
uma oobra
bra que
formula
formula umum mito
mito nacional
nacional ee ao ao mesmo
mesmo tempo
tempo oo desvenda
desvenda ee assim
assim
explica* interpreta, mais
explica, interpreta, maisque queaanossa
nossahistória,
história,aaformação
formaçãodedeum um
esdrúxulo
esdrúxulo “ser
"ser nacional’.
na`-chional”. ^ 6
-1

Mas cuidado! Essa "explicação”


“explicação” éé toda própria. Nesse ponto;-s
pontq^
a exegese de Ricardo
exegese de Ricardo Benzaquen
Benzaquen de de Araújo'
Araújo1 em Guerra
Guerra ee pazpaz é
preciosa,
preciosa. Gilberto
Gflbeíto Freyre seria o mestre do equilíbrio dós dos Con-
coff-
trários.
trários. Sua
Sua obra
obra está
está perpassada
perpassada porporantagonismos.
antagonismos. Mas Mas dessas
dessas F
contradições
contradições não não nasce
nasce umauma dialética,
dialética, não há há aa superação
superação dosdos
contrários, nem por por conseqüência
consequência se vislumbra
vislumbra qualquer
qualquer sentido
sentido
da História.
História. Os
Os contrários
contrários se se justapõem, frequentemente de for- for-
ma
ma ambígua,
ambígua, ee convivem
convivem em em harmonia.
harmonia.
O exemplo
O exemplo mor mor que que Ricardo
Ricardo Benzaquen
Benzaquen de de Araújo
Araújo extrai
extrai de
de
Casa-grande
Casa-grande & senzala para
ei' Senzala para explicar
explicar oo equilíbrio
equilibrio dede contrários
contrários éé
a análise de como a língualingua portuguesa no Brasil nem se entregou
completamente
completamente àà forma forma corrupta
corruptacomocomoera erafalada
faladanas
nas senzalas,
senzalas,
com muita
muita espontaneidade,
espontaneidade, nem nem sese enrijeceu
enrijeceu como
como almejariam
alrnejariam
os jesuítas professores de gramática.
“A nossa língua
Kngua nacional
nacional resulta
resulta da
da interpenetração das duas
tendências,”
tendências.” Enriqueceuse
Euriqueceu-se graças graças à variedade de antagonismos, oo
que não
que não ocorreu
ocorreu com
com oo português
portuguêsda
da Europa.
Europa. Depois
Depois de
de mostrar
mostrar

84
34
a;r_ diversidade
diversidade da$
das formas
formas pro nominais que
pronominais que nós
nos usamos,
usamos, Gilberto
Gilberto
Freyre diz:
Freyre diz: '

A força*ouòuantes,
A força, antes, a potencialidade
a potencialidade da cultura
da cultura brasileira
brasileira parece~parece
nos residirtoda
-nos residir todananariqueza
riquezade de antagonismos
antagonismos equilibrados
'equilibrados [...]. [...}.
\`\`Não que no brasileiro Subsistam, como no anglo-americano, duas
\Não que inimigas:
metades,
metades, noinimigas:
brasileiro subsistam,
a branca
a branca como
e a epreta;
a preta; no angloamericano,
o exsenhor
o ex‹senhor duas
e o exescravo.
e o ex-escravo.
De modonenhum.
De modo nenhum.Somos
Somosduas
duasmetades
metades confraternizantes
confraternizantes que que
se se
vêm
vêm mutuamente enriquecendode
mutuamente. enriquecendo de valores
valorese eexperiências
experiências versas;
di
diversas;
quando nos cornpletarmos
quando nos completarmosnum num todo,
todo, não
não será
serácom
comoosacrifício
sacrifíciodede
um
um elemento
elemento aa outrof
outro.2 |

Á
A noção de equilíbrio
equilibrio dos
dos contrários
contráriosé éextremamente
extremamenterica
rica
para entender o modo de apreensão do real utilizado por Gilber-
para entender
to Freyre. Átéoporque
Freyre. Até
modo também
porque de apreensão
ela do real utilizado
ela é “plástica”. tempor
“plástica”. EE tem
Gilber-
tudo
tudo aá ver
com a maneira comocomo ele interpreta seus objetos
objetos dede análise.
análise.
Primeiro porque
porque transforma
transformaseus
seus“objetos”
“objetos” emem processos
processos
contínuos nos quais
quais 0 próprio autor $ese insere,
insere. ÊÉ a convivialidade
com a análise, o estar à vontade
vontade na
na maneira
maneirade deescrever,
escrever,oo tom
tom
moderno
moderno de de sua
sua prosa,
prosa, que
que envolvem
envolvem não
nãosó sóoo autor
autorcomo
comooolei- lei-
tor, o que,
que distingue o estilo de Casa-grande & senzala..
Ó senzala
Depois, porque Gilberto Freyre, explicitarnente, ao buscar a
Depois, porque Gilberto Freyre, explicitamente, ao buscar a
autenticidade, tanto
tanto dos
dos depoimentos
depoimentose edos dosdocumentos
documentos usados
usados
quanto
quanto dos
dos sèus
seus próprios
próprios sentimentos,
sentimentos,eeao aoser
sertto
tãoantírretórica
antirretórica
que às vezes
Vezes perde
perde o que os pretensiosos
pretensiosos chamam de “compostura
acadêmica”, nãovisava
acadêmica”, não visavaapenas
apenasdemonstrar, mas convencerr
convencer. E con-
con-
vencer significa vfhcer junto, autor
significa vgncer autor ee leitor.
leitor. Este
Este procedimento
procedimento
supõe uma certa
certa “revelação”, quaseuma
“revelação”, quase Umaepifania,
epifania,não
nãose$etrata
tratade
de
um processo lógico
logico ou dialético.
Por isso
Por isso mesmo,
mesmo, ee essa
essa característica
característica vem
vem sendo
sendo notada
notada des
des-
de as primeiras edições de Casa-grande & sefizala,, Gilberto Freyre
ea senzala
não
não condui.
conclui.Sugere,
Sugere, éé incompleto,
incompleto, éé introspectivo,
introspectivo,mostra
mostraooper
per~

«5
35
curso, talvezmostre
curso, talvez mostre oo arcabouço
arcabouço de dê uma
uma sociedade.
sociedade. MasMasnão não“to~
“to-
taliza” Nãooferece,
taliza”. Não oferece,nem nempretende,
pretende, uma uma explicação
explicação global.
global. Analisa
Analisa
fragmentos
fragmentos eecom eles eles faznos construir pistas
faz-nos construir pistaspara
paraentender
entenderpar-par ;
tes sociedadeeedadahistória.
tes da sociedade história.
Ao afastar-se
afastarseda visãovisãometódica
metódica ee exaustiva,
exaustiva,abre-se,
abrese, natural-
natural
mente,
mente, àà crítica
críticafácil.
fácil. Equivocam-se,
Equivoçamse,porém, porém, os osque
quepensarem
pensaremque que
por isso Gilberto
-Gilberto não retrate
retrate o que a seu ver realmente importa
para
para aa interpretação
interpretação que que está
está propondo.
propondo.
Pôr
Por certo, obra assim
certo, obra assim concebida
concebidaéénecessariamente
necessariamenteúnica. única,
Nao
Não é pesquisa que, repetida nos mesmos moldes por outrem,
produza os mesmos resultados, como prescrevem os manuais na
versão
versão pobre
pobre do etentificismotrorrente, Nãolhá
do cientificismotorrente. Não háintersubjetividade
intérsubjetividade
que garanta aa objetividade.
objetividade. ÉÉ a captação
captaçãode deum ummomento
momento divina-
divina-
tório que nos convence,
convence,ouounão, não,dadaautenticidade
autenticidade da da mterpretg
interpretg;
çao
ção proposta,
proposta. A Á obra não se se separa
separa do do autor,
autor,seuseu êxito
êxitoéé aaconfir-
confir-
mação do que se poderia chamar chamar de criatividade
criatividade em em estado
estado puro”.
pura
Quando bemsucedida,
bem-sucedida, essa essatécnica
técnicabeirabeiraa genialidade.
a genialidade.
Não digo isso isso para tirar valor das interpretações, ou melhor, melhdr,
'* ■' 1§sf■
dos insights
insights de de Gilberto
GilbertoFreyre,
Freyre,até
atéporque,
porque,a aessaessa altura,
altura, seria
seria ir ir
contra a evidência.
evidência.Digo Digoapenas
apenaspara, para,aoaosubscrever
subscrever as análises
as análises
já referidas sobre
-sobre o equilíbrio entre contrários, mostrar as suas
limitações
limitações e,e, quemquemsabe, sabe,explicar,
explicar,porpor suas
suas características
características meto- meto-
dológicas,
dológicas, oo mal-estar
malestarque quea aobra
obradedeGilberto
GilbertoFreyre
Freyre causou,
causou, e e
quem
quem sabesabe ainda
ainda cause,
cause, nana Academia.
Academia.
Ás oposiçõessimplificadoras,
As oposições simplificadoras, os os contrários
contrários em em equilíbrio,
equilíbrio, se se
não explicatn
explicam logicamente
logicamente oomovimento
movimento da dasociedadesenfem
sociedade, servempara para
salientar característicasfundamentais.
salientar características fundamentais,São, São, nesse
nesse aspecto,
aspecto, instru-
instru~
mentos heurísticos,
heurísticos,construções
construçõesdodoespirito
espíritocuja
cujafundamentação
fundamentação
na
na realidade contamenos
realidade conta menosdodoque quea ainspiração
inspiração derivada
derivada delas,
delas, que que
permite captar o que é essencial para a interpretação proposta; proposta.
Não preciso referirme
referir~m-e aos aspectos vulneráveis já salienta- salienta-
dos por
por muitos
muitos comentadores
comentadoresdedeGilbertoGilbertoFreyre:
Freyre:suassuas confusões
confusões

86
86
entre raça ee cultura,
entre raça cultura, seuseuecletismo
ecletismometodológico,
metodológico,o oquase qüasèem- em-
buste
buste do do mito
mito da
da democracia
democracia racial,
racial, aa ausência
ausência de de conflitos
conflitos entre
entre
as classes,ou
as classes, oumesmo
mesmoaa“ideologia
"ideologiadadacultura
culturabrasileira”
brasileira”baseada
baseada
na plasticidade ee no
na plasticidade no.hibridismo
hibridismo inato
inato que
que teríamos
teríamos herdado
herdado dos dos
ibéricos. Todosesses
ibéricos. Todos essesaspectos
aspectosforam
foramjustamente
justamenteapontados
apontadospor por
muitos críticos»entre
muitos críticos, entreososquais
quaisCarlos
CarlosGuilherrfne
GuilhermeMota. Mota.
. E como, apesar disso,disso, aa obra
obra dede Freyre
Freyre sobrevive,
sobrevive, ee suas
suas in»in-
terpretações
terpretações não não sósósão
sãorepetidas
repetidas(o(oquequemostra
mostraaaperspicácia
perspicáciadas das
interpretações)
interpretações) comocomo continuam
continuam aa incomodar
incomodar aa muitos,
muitos, éé preciso
preciso
indagar mais mais oo porquê
porquê de de tanta
tanta resistência
resistência parapara aceitar
aceitar ee louvar
louvar
oo que
que de positivo existe
de positivo existe nela.
nela.Neste
Nestepasso,
passo,devo devoa aTarcísio
TarcísioCos;Cós^
ta
tafi,3 em
em apresentação
apresentação no no Instituto
Instituto dede Estudos
Estudos Avançados
Avançados da s p , a.
da uUSP, a.
deixa
deixa para
para compreender
compreender ràzõesrazões adicionais
adicionais àà pinimba
pinimba que que muitos
muitos
de nós, acadêmicos,
acadêmicos,temos temoscom comGilberto
GilbertoFreyre.
Freyre.Salvo
Salvo poucasex-ex-
poucas
ceções,
ceções, diz dizTarcísio
TarcísioCosta,
Costa,asasinterpretações
interpretaçõesdodoBrasilBrasil posteriores
posteriores
aa Casa-grande & senzalapartiram
Casa-grande Úsenzala partiram dede premissas
premissas opostas
opostas às de Gil-
às de Gil-
berto Freyre,
Preyre, numa rejeição velada de suas ideias, ideias. )1,
Em que sentido?
sentido? Na Na visão
visão dada evolução
evoluçãopolítica
políticadodo país
país èe.,§j
portanto, na valorização de aspectos que negam o que Gilberto
Freyre
Freyre analisou
analisou ee emem que acreditou, Ricardo
que acreditou. Benzaquen de
Ricardo Benzaquen de Araú-
Araú-
jo
jo ressalta
ressalta um
um ponto
ponto pouco
pouco percebido
percebido da da obra
obra gilbertiana,
gilbertiana, seu seu
lado “político”.
“político”,Um Umpoliticismo,
politicismo,comocomotudo tudonela,
nela,original.
srcinal. Refe-
Refe-
rindose
rindo-se ao New Deal de Roosevelt,Roosevelt, Gilberto
Gilberto Freyre
Freyrevaloriza
valorizaasas
“ideias” não os
“ideias”, não os ideais.
ideais,AAgrande
grandeeloquência,
eloqüência,o otom tomexclamatorio