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Por que tornou-se possível fugir do capitalismo

POR REDAÇÃO
– ON 28/10/2018
CATEGORIAS: ALTERNATIVAS, DESTAQUES, PÓS-CAPITALISMO

Os riscos de horror fascista, bem sabemos, são reais. Mas surgiu pela primeira vez, na história da
humanidade, a chance de deixar para trás um sistema que, no fundo, todos detestam

Por Umair Haque | Tradução: Inês Castilho |Imagem: Eric Drooker

Há uma pergunta recorrente para mim nesses dias. Se a questão, no capitalismo, é escapar do sistema,
então qual a razão do capitalismo? É uma questão circular e, em certa medida, engraçada. Vou tentar
explicar.

Estamos todos capturados por este grande sistema global chamado capitalismo – que atinge todos os
cantos de nossas vidas, ordena nossas necessidades e desejos, planeja nossos dias e noites e estrutura
nosso tempo e energia. Você pode até mesmo falar do capitalismo como se ele fosse uma pessoa, agora
– “Ei, Alexa…” Um sistema que nós qualificamos mais ou menos como “empresas cujos donos são
acionistas, que buscam o lucro máximo e têm esse único fim, não importando o custo para alguém ou
para qualquer outra coisa”. Mas qual é o princípio organizador da vida que esse sistema, tão penetrante
e capilar, produz? O que estamos realmente tentando realizar através dele?

O trabalhador tenta tornar-se um gestor. O gestor busca transformar-se em capitalista. Expressei-me


em termos modernos; amos colocar em termos marxistas, só para ver o contraste. O proletário tenta
tornar-se um pequeno burguês. O burguês busca ascender à alta burguesia. O trabalhador, quer ser
dono de uma loja; o dono de uma loja, dono de uma cadeia. Mesmo na forma singela de “possuir” uma
casa – ou seja, assumir uma dívida por toda a vida – ou comprar uma ação ou um título: o objetivo é
acumular capital. Portanto, o capitalismo é algo como uma pirâmide, que todos escalamos: de
trabalhador para gerente; de proletário para burguês, e no cume está o grande capitalista.

Mas em que o capitalista está tentando se transformar?


O capitalista, ironicamente, está tentando conquistar sua liberdade do capitalismo – assim como todo
mundo. A única diferença é que ele está um passo mais perto. Vamos provar, com um exemplo simples
e extremo, o de uma fazenda, um escravo e um proprietário. Este último está atrás de quê? Ele está
tentando ganhar a liberdade do trabalho – não ter que trabalhar, daí os escravos. Também está tentando
conquistar a liberdade de não ser explorado – ele tem o chicote e está acima da lei moral. E escapar do
controle, punição, hierarquia – ele não tem chefe a quem prestar contas. Talvez dedique sua vida a
atividades mais “cavalheirescas” – arte, literatura, pesquisa, exploração: mas qual é o sentido disso?
Também estas atividades são uma libertação do capitalismo – de seu violento estresse, pressão,
ansiedade, competição.

É possível, agora, compreender minha questão? Não é estranha e engraçada? O que o próprio
capitalista busca realmente é conquistar sua libertação do capitalismo. Comprá-la de volta, mais
exatamente. Do mesmo modo que o proletário, o membro da classe média ou o escravo assalariado.
Quaisquer que sejam os termos escolhidos, dependendo de nossa visão política, a questão se mantém a
mesma. A questão do capitalismo é escapar do capitalismo.

Alguns sistemas se autoperpetuam. Como uma floresta, um rio ou um oceano. Mas alguns sistemas
são autoaniquiliadores. Como um incêndio, uma tempestade, uma epidemia. Eles queimam a si
próprios. Tendemos a igualar o capitalismo aos primeiros – mas estamos enganados. Ele está no
segundo grupo – um sistema autodestrutivo, não um sistema sustentável. Se estamos todos somente
tentando escapar dele – então o que mais poderia ser? Afinal, isso significa que provavelmente
chegará o dia em que conseguiremos escapar – e nesse dia, adeus capitalismo, pelo menos no sentido
acima, num piscar de olhos, como uma tempestade ou uma fogueira. Vamos, por um momento
enxergar através das grandes lentes da história humana. Primeiro havia o tribalismo, e escapamos dele;
depois o feudalismo, e escapamos novamente. Hoje há o capitalismo, do qual estamos tentando
escapar de novo. Mas embora reis e cavaleiros pudessem não ter estado tão interessados em se livrar
do feudalismo, o que chama a atenção no capitalismo é que estamos tentando escapar – até mesmo a
maioria dos capitalistas – porque ele nos torna infelizes, mesquinhos e tolos.

Isso não significa que não haja ovos podres, gente cujo único objetivo na vida é acumular dinheiro,
usando-o para abusar das pessoas. Por certo, há. Contudo, a ideia de que até mesmo os capitalistas
tentam escapar do capitalismo provavelmente irá perturbar tanto a esquerda quanto a direita, porque
estou indo além de Marx e sugerindo que a “luta de classes” é tão limitadora quanto a ideia de que “o
capitalismo é o único fim da vida humana!” Penso, entretanto, que essa é uma ideia frequentemente
aceita na Europa, graças a Adorno, Adler, Freud, Fromm e muitos outros.

Você pode ver isso em termos cômicos. O que os bilionários Jeff Bezos e Elon Musk estão fazendo?
Tentando fugir para Marte. O que o Bill Gates está fazendo? Recomendando livros e tentando salvar o
mundo com caridade. Que irônico. Estas são formas diferentes de libertar-se do capitalismo. Talvez
em Marte possamos construir um mundo melhor. Talvez através de ideias e filantropia possamos
resolver os problemas que as corporações não conseguem. Todos os capitalistas que vejo estão
tentando conquistar a liberdade do capitalismo, de uma forma ou de outra.

Há muitas pessoas que, tendo acumulado fortunas, parecem sob as garras de um tipo de compulsão.
Precisam transformar dez milhões em cem, cem em um bilhão e assim por diante. É o que Marx
chamava de “fetichização”. Pensadores que se seguiram, como Theodor Adorno e Eric Fromm, diriam
que também estas pessoas estão tentando escapar do capitalismo – só que, ingênuas, não sabem.
Tentam comprar amor, afetos, pertencimento, significado, propósito. Tentam obter exatamente a
mesma auto-descoberta e auto-realização que nossos refinados burgueses buscam, ao devotar suas
vidas à literatura e à arte, depois de terem acumulado dinheiro e conquistado um iate, uma mansão ou
uma conta bancária maiores. Mas não é possível comprar este valores – nem neste mundo, nem no
próximo. Por isso, é correto dizer que os mega-capitalistas não são exatamente nonges – e ainda assim,
também eles estão tentando fugir do capitalismo; pagar o resgate; deixar o sistema.

Além disso, há muitas pessoas que são a imagem do espelho. Não estão tentanto tornar-se Jeff Bezos,
Elon Musk ou Bill Gates. Fazem seus trabalhos, ganham seus salários e voltam para casa. E é
everdade: muitos de nós tentamos escapar do capitalismo entrando em trégua com ele. Rendendo-nos,
em certo sentido. Se eu trabalhar muito, posso nunca tornar-me rico – mas ao menos ficarei em paz
algumas horas por dia. Ao menos, terei meus hobbies, meus interesses, minhas paixões. É uma troca
calculada, uma apatia – ou seja, ao final, um tipo de capitulação. E só prova o argumento – estamos
todos tentando obter nossa liberdade – sejamos ricos ou pobres, proletários ou burgueses.

Examinemos, agora de quê estamos buscando nos libertar. Liberdade da exploração. Liberdade do
controle e da dominação. Liberdade para descobrir, para o auto-desenvolvimento, a auto-realização.
Liberdade para viver vidas que de fato expressam significado, propósito e preenchimento – em vez de
ser esmagados por ansiedade, feridos por competição obsessiva e sufocados por medo.

E aqui está a questão central. Se são estes os objetivos que realmente buscamos, por que não os
oferecemos, uns aos outros. Talvez isso pareça trivial, mas quero colocar em perspectiva. Esta é,
provavelmente, a primeira vez, na história humana, em que somos de fato capazes de dar estas coisas
uns aos outros.

Nunca tivemos esta capacidade concreta antes. Nas fases anteriores da história humana precisávamos
de exércitos de trabalhadores, envolvidos em garantir o sustento das nações – lavrando a terra,
produzindo os bens necessários à vida, contabilizando, dirigindo e assim por diante. Mas agora,
finalmente a tecnologia está automatizando e eliminando o trabalho repetitivo e burocrático de um
modo diferente do que faziam, antes, as fábricas – que se limitavam a entupir o mundo de bens de
consumo. Agora, a tecnologia permite substituir matérias-primas, lavrar os campos, fazer a
contabilidade, dirigir as entregas e tantas coisas mais.

Também não tínhamos os meios financeiros. Como poderíamos oferecer às pessoas o que relacionei
acima? Não havia condições de assegurar os meios do que começa a ser chamado de Renda Básica
Cidadã. Hoje, se houver políticas para tanto, cada um pode abir uma conta online num banco central e
receber dinheiro por meio dela. Se de fato quiséssemos e tivéssemos força política para tanto,
poderíamos construir a liberdade financeira diante do capitalismo quase do dia para a noite.

Além disso, há tecnologia social – instituições, bens e investimento públicos. Apenas há cem anos, os
seres humanos tornaram-se de fato capazes de operar sistemas como o de Saúde Pública, Transportes,
Aposentadorias, Cuidado com Crianças e Idosos e muitos outros, em escala social. Estes sistemas
exigem gerência pós-capitalista, que estamos apenas aprendendo a fazer. Quem “possui”, o NHS
britânico [ou o SUS brasileiro], por exemplo? Eles são geridos por comunidades. Que lógica os
mantém? Nem a do lucro, nem a do planejamento, mas a dos benefícios à Saúde, que podem ser
mensurados com cuidado. Não se trata nem do capitalismo, nem o marxismo-leninismo, mas um tipo
de pós-capitalismo do século XXI em ação – feito de bens comuns e investimento público.

Estas três coisas – tecnologias, finanças e bens comuns – finalmente amadureceram e se


desenvolveram num grau em que a liberdade do capitalismo não é apenas possível. Ela está se
tornando inevitável. O que ocorrerá quando estas três forças interagirem? O excedente social poderá
ser reinvestido precisamente nas coisas que desejamos – ao invés de ser desperdiçado por elites
predatórias. A liberdade da exploração e do controle; e a liberdade para nos descobrir, nos realizar e
nos desenvolver. Na longa hisjtória da humanidade, nunca tivemos os meios, mecanismos ou
ferramentas para alcançá-los em escala maciça. Agora, nós os temos.

É algo eminentemente bom. Remete à obsolescência do capitalismo, que talvez seja tão inevitável
como, antes, a do feudalismo. Não significa que o empreendimento e a criatividade irão desaparecer.
Ao contrário: significa que eles serão de fato mais benéficos. Podemos dedicá-los a coisas bem
melhores que apenas o dinheiro, status, poder e egoísmo a que o capitalismo nos limita. E, por meio
desta limitação, ao drenar nossa empatia, coragem, sabedoria, verdade e alegria, obriga-nos a desejar
desesperadamente escapar, durante toda a nossa vida. Não importando se sejamos pobres, ricos, ou
algo entre estes dois pólos.

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