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COMUNICAÇÕES DO ISER Nº69

PUBLICAÇÃO SAZONAL DO INSTITUTO DE ESTUDOS DA RELIGIÃO


Rio de Janeiro - setembro - 2014 / www.iser.org.br

Presidente
Hélio R. S. Silva

Vice-presidente
Nair Costa Muls

Secretário Executivo
Pedro Strozenberg

Comunicação Institucional
Ayla Vieira
Lívia Buxbaum

Secretária
Helena Mendonça

Organizadoras deste número


Christina Vital da Cunha
Renata de Castro Menezes

Projeto Gráfico e editoração


Nuyddy Fernández

Revisão
Livia Buxbaum

Fontes
Minion Pro, Dosis

Fotografia
Capa: Adaptação do projeto “dawn of the planet of the apes” do artista Ash Thorp
Interna: Christina Vital da Cunha

Impressão
Stamppa

ISSN
0102-3055
SUMÁRIO

Apresentação // Christina Vital da Cunha & Renata de Castro Menezes 04


A religião e o Censo: enfoques metodológicos.
Uma reflexão a partir das consultorias do ISER ao IBGE sobre o dado religioso nos censos
// Marcelo Camurça 08

Os limites do Censo no campo religioso brasileiro // Maria Goreth Santos 18

Campo religioso em transformação // Faustino Teixeira 34


O Censo não diz tudo, mas que ajuda, ajuda...
o catolicismo em cidades do Estado menos católico // Sílvia Regina Alves Fernandes 46

Religiões, números e disputas sociais // Renata de Castro Menezes 60


Ensino religioso no Rio de Janeiro: um bom caso para se pensar religião, direitos humanos
e as relações entre Estado e Igreja // Sandra de Sá Carneiro 72
Religião e política:
algumas considerações sobre conflito e posições // Paulo Victor Leite Lopes 80
A esfinge da UPP e os oráculos da religião: percepção de lideranças religiosas nativas sobre
Unidades de Polícia Pacificadora em favelas cariocas // Clemir Fernandes Silva 91
Como se discute religião e política? Controvérsias em torno da “luta contra a intolerância
religiosa” no Rio de Janeiro // Ana Paula Mendes de Miranda 104
Religiões X democracia?: reflexões a partir da análise de duas frentes religiosas no
Congresso Nacional // Christina Vital da Cunha 119
Em nome da Diversidade.
Notas sobre novas modulações nas relações entre religiosidade e laicidade // Regina Novaes 131

Anexos
Estrutura classificatória dos censos de 1991, 2000, 2010 146
APRESENTAÇÃO
CHRISTINA VITAL DA CUNHA E RENATA DE CASTRO MENEZES

Religiões em conexão: números, direitos, pessoas: a ideologias modernas, uma espécie de construção
este fascículo da Comunicações do ISER1 traz para ocidental por sobre “a humanidade” (outra noção
um público mais amplo um conjunto de textos que construída na era moderna), e, assim, utilizá-lo como
nos ajuda a pensar nos movimentos do religioso na um domínio heuristicamente produtivo para questionar
contemporaneidade. Partindo da constatação de que os pressupostos das Ciências Sociais. Pois se as Ciências
nas últimas décadas a religião se tornou um ponto de Sociais e as Humanidades em geral trazem em seus
pauta global, surgindo em cruzamentos inusitados e conceitos e práticas as marcas do contexto colonial em
obrigando pesquisadores que anteriormente nunca que foram gestadas, um bom teste para o alcance de
haviam se ocupado do assunto a se debruçarem sobre suas formulações pode estar no domínio do religioso,
o tema, podemos falar em uma ultrapassagem de em que as teorias nativas e as teorias acadêmicas
fronteiras nas quais a religião anteriormente parecia estiveram muitas vezes em aberto confronto, e em que
estar contida, de um espalhar-se e escorrer por entre os pretensões de produção de um conhecimento universal
dedos, num espraiamento que traz consigo inúmeras foram desde sempre contestadas.
implicações2.
Por outro lado, as relativizações acerca do
A observação desses movimentos revela que não
domínio religioso precisam necessariamente levar
apenas as religiões se transformam, ou o domínio
em consideração que sua presença no cotidiano da
do religioso se coloca em relação que se torna visível
política, no espaço público, em práticas discursivas e
em locais / situações / eventos / controvérsias onde
como categoria mobilizadora de ações se multiplica e
antes não estava ou onde antes não se dava conta de
tem se demonstrado extremamente forte e eficaz.
sua presença. Trata-se, também, de colocar a própria
especificidade do domínio do religioso em questão, Para apresentar e debater algumas dessas dimensões,
através da percepção da porosidadade de suas fronteiras, foi reativada, por iniciativa das antropólogas Christina
das disputas classificatórias em que se vê envolvido, Vital e Renata Menezes, uma antiga parceria entre o
de abordagens que procuram des-substancializá-lo e Instituto de Estudos da Religião (ISER) e o Programa
tratá-lo não como um universal da humanidade, mas de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu
como um território indefinido e maleável (mas bastante Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro
eficaz) de condensação de práticas e discursos. O que (PPGAS/MN/UFRJ), que remontava ainda aos anos
está em jogo, enfim, é pensar o religioso em relação 1970, quando a presença de pesquisadores em ambas

1. Publicação realizada com o apoio do projeto “Doces Santos”, financiado pela Faperj, através do Programa Jovens Cientistas do Nosso Estado.

2. Sem avançar na discussão desta questão, remetemos aos balanços de Clifford Geertz (2005, 2006) e Pierre Sanchis (2001, 2007).

3. Evitando citar nomes, pelo grande risco de esquecimentos involuntários, remeteríamos os interessados em maiores detalhes sobre esse duplo pertencimento à tese de
doutorado de Sônia R. Herrera (Reyes Herrera, 2004), à recuperação histórica feita por Pierre Sanchis em seu artigo (Sanchis, 2007) e aos sumários da revista Religião e
Sociedade, periódico pioneiro na temática da religião, publicado pelo ISER há mais de 40 anos, bem como às listagens de membros do Conselho Editorial dessa mesma
revista. Note-se que as atividades conjuntas a que nos referimos aqui envolveram e envolvem não apenas professores e funcionários das duas casas, mas também alunos
de mestrado e doutorado, estagiários, pesquisadores colaboradores.
as instituições construía uma ponte significativa entre Além das afinidades eletivas das temáticas com a
a universidade e movimentos sociais e religiosos3, num conjuntura, certamente a competência e as formas
contexto de resistência à ditadura e luta pela construção de inserção diversificadas das e dos colegas que
de uma sociedade democrática, justa e solidária. colaboraram conosco nos eventos foram também
A retomada da parceria se deu através da realização, fatores explicativos do sucesso da iniciativa: professores
em 2012, de quatro mesas-redondas em diferentes e/ou pesquisadores e/ou ativistas sintonizados com
tempos-espaços do Rio de Janeiro, com a preocupação as questões da religião na contemporaneidade, em
de provocar o encontro e o debate entre atores e suas múltiplas dimensões, cada um trouxe uma
olhares da Academia, de agências governamentais, de colaboração específica ao debate, iluminando um
movimentos sociais e de outros setores da sociedade aspecto da dinâmica complexa que pretendíamos
civil num contexto de efervescência da temática da discutir. Assim, nossos agradecimentos a Clara Mafra
religião no espaço público, notadamente no campo dos (UERJ), Marcelo Camurça (UFJF), Maria Goreth
direitos e quanto às fronteiras entre religioso e secular, Santos (IBGE), Claudio Crespo (IBGE), Sandra de Sá
considerando as relações ambíguas e ambivalentes Carneiro UERJ, Daniel Sottomaior (Diretor da Atea –
entre igrejas e Estado. Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos), Flávia
As mesas intitularam-se As religiões e o censo: Pinto (Babalorixá – Casa do Perdão/Umbanda),  Paulo
enfoques metodológicos;  Direitos Humanos e Religião: Victor Leite Lopes (ISER), Faustino Teixeira (UFJF),
O Papel do Estado; As Religiões e o Censo: Análise dos Sílvia Fernandes (UFRRJ), Ana Paula Miranda (UFF) e
Resultados;  Religiões e Políticas Públicas no Brasil, e Regina Novaes (UniRio), que entraram conosco nessa
foram realizadas respectivamente no Museu Nacional, aventura. Por razões diversas, nem todos puderam
na Quinta da Boa Vista, em 28 de maio; na Cúpula dos contribuir com textos escritos para este número, mas
Povos, no aterro do Flamengo, como uma atividade certamente suas apresentações orais serviram de
paralela à realização da Conferência da ONU, em 15 estímulo para o adensamento das análises dos demais
de junho de 2012; na sede do ISER, na Glória, em 07 de trabalhos. Incorporamos ainda na versão impressa a
novembro; e, concluindo o ciclo, novamente no Museu contribuição de Clemir Fernandes (ISER), com uma
Nacional, em 23 de novembro. reflexão sobre as Unidades de Polícia Pacificadora
A variação de temas buscou contemplar questões (UPPs), assunto atualíssimo no cenário fluminense, e,
que, na sensibilidade das organizadoras, marcavam “a por que não dizer, no Brasil.
pauta” de então. A presença de um público considerável Se os temas variaram de mesa para mesa, um fio
e com diferentes inserções sociais confirmou condutor unificou as discussões, que era o de pensar
essa percepção: participaram dos debates pessoas as religiões em múltiplas formas de conexão: com a
provenientes de instituições e redes de pesquisa e política, com a cultura, com o Estado através de ricas
intervenção, cujas contribuições nos debates foram, análises sobre os números do Censo do IBGE, assim
à medida do possível, incorporadas nos diferentes como de etnografias sobre a questão dos direitos em
artigos que conformam este fascículo. diferentes contextos sociais. Assim, números e direitos
foram os motes privilegiados para pensar como as sociais a ampliarem os fóruns e as perspectivas através
religiões ligam, mas também desligam, isto é, unem, das quais estamos discutindo diversidade, laicidade,
mas também separam, e, ainda, constroem pessoas. Estado e democracia no Brasil. Conclamam à fuga de
“Pessoas” num sentido antropológico mais amplo: não cânones e dogmatismos na abordagem dessas noções
apenas seres ou entidades autocontidas, mas feixes que ocupam de modo central a agenda pública na
de relações sociais que interagem criando dinâmicas atualidade.
sociais as mais distintas e insondáveis. Por fim, se o volume ora apresentado certamente
Os artigos que compõem a primeira parte desta traz pistas importantes aos interessados em religião
publicação privilegiam reflexões sobre o processo de na contemporaneidade, e quiçá seja capaz de atrair a
inserção da religião no Censo, as dificuldades e os atenção daqueles para quem o tema é refratário, há
limites na produção dos dados e na utilização deles que se registrar uma grande lacuna intelectual e afetiva
com vistas à compreensão do fenômeno religioso no em seu resultado final. Quando surgiu a ideia de
Brasil. São enfatizadas, ainda, as disputas políticas lançarmos este trabalho, Clara Mafra4, que participou
em torno dos números divulgados no Censo. Tais da primeira mesa do ciclo, ficou enferma, mas manteve
disputas são tomadas como expressivas de demandas sua intenção de colaborar conosco através do envio de
por reconhecimento e visibilidade (que resultam, entre um rascunho, o qual havíamos nos comprometido a
outros, em ampliação da força política e econômica de editar. Porém, sua doença evoluiu de forma tão abrupta
grupos religiosos os mais variados – acesso a recursos que não foi possível concretizar esse plano. Antes de
e políticas públicas etc.) e as expectativas produzidas seu falecimento, prematuro e absurdo, no entanto, ela
em torno do que é ou deveria ser o Estado. Em sentido deixou publicados outros dois textos que expressam
complementar, foram elaboradas considerações sobre uma parte considerável das ideias que discutiu conosco
a contribuição de pesquisadores, que simultaneamente (Mafra, 2013a, 2013b). Registrar a existência desses
atuavam no ISER enquanto eram doutorandos do trabalhos é a forma que escolhemos para homenageá-
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social la e resgatar um pouco de nossa saudade.
do Museu Nacional/UFRJ na construção de descritores
de religião nos Censos do IBGE desde a década de REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1980, assim como sobre mudanças no campo religioso
brasileiro a partir do acompanhamento de dinâmicas GEERTZ, Clifford. “Shifting Aims, Moving Targets:
e fluxos migratórios que produzem novas identidades, On the Anthropology of Religion”. Journal of the Royal
narrativas e pertencimentos. Anthropological Institute. 11(1): 1-15, 2005.
Pesquisas realizadas em diferentes contextos _____. “La religion, sujet de l’avenir”. Le Monde, 04 de
tematizam o religioso em sua interface com direitos, maio de 2006.
violências, territorialidades. Essas pesquisas revelaram MAFRA, Clara Cristina Jost. “Números e Narrativas”.
a produção de agenciamentos diversos, assim como Debates do NER. Porto Alegre, ano 14, nº 24, p. 13-25,
tensões, disputas e desigualdades entre atores em jul./dez. 2013ª.
situação. Sendo assim, as contribuições contidas na _____. “O que os homens e as mulheres podem fazer
segunda parte da publicação apresentam rupturas com números que fazem coisas”. In: TEIXEIRA,
e continuidades nas políticas de segurança pública Faustino; MENEZES, Renata. Religiões em Movimento:
e a ativação de redes e atores religiosos específicos o censo 2010. Petrópolis: Vozes, 2013b, pp. 37-47.
nos processos de implementação das Unidades de
REYES HERRERA, Sonia Elizabeth. Reconstrução do
Polícia Pacificadora em favelas cariocas; evidenciam a
Processo de Formação e Desenvolvimento da Área de
polissemia em torno de palavras como diversidade e
Estudos da Religião nas Ciências Sociais Brasileiras.
as pistas que essa polissemia indica sobre a vida social,
Porto Alegre: PPGS/UFRGS, 2004.
incluindo ai, especificamente, dinâmicas políticas
e de produção de identidades; analisam conflitos SANCHIS, Pierre. Desencanto e formas
religiosos produzidos por agentes estatais nas mais contemporâneas do religioso”. Ciências Sociales y
diferentes esferas, tais como as escolas e o sistema de Religión. 3 (3): 27-43, outubro, 2001.
justiça, assim como por políticos engajados em frentes _____. “As ciências Sociais da Religião no Brasil”.
religiosas no Congresso Nacional. Essas reflexões Debates do NER. Porto Alegre, 8 (11):7-20, jan./jul
provocam pesquisadores e os mais diversos atores 2007 (disponível on-line).
4. Clara Cristina Jost Mafra (28/11/1965 – 19/07/2013), antropóloga, foi pesquisadora do ISER, professora associada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e co-
editora de Religião & Sociedade. Publicou, além de inúmeros artigos, os livros Na Posse da Palavra (Lisboa: ICS, 2002), Os Evangélicos (Rio de Janeiro: Zahar, 2001).
A RELIGIÃO E O CENSO:
ENFOQUES METODOLÓGICOS
UMA REFLEXÃO A PARTIR DAS CONSULTORIAS DO ISER
AO IBGE SOBRE O DADO RELIGIOSO NOS CENSOS

MARCELO CAMURÇA1

1. Antropólogo e docente
INTRODUÇÃO Fernandes, Leilah Landim, Luiz Eduardo
do Programa de Pós
Graduação em Ciência Soares e Leandro Piquet Carneiro.
da Religião e Programa A história das consultorias prestadas Várias pesquisas de cunho quantitativo
de Pós Graduação em pelo Instituto de Estudos da Religião são promovidas pelo Núcleo, algumas
Ciências Sociais, ambos
da Universidade Federal (ISER) ao Instituto Brasileiro de combinadas com “pesquisa de campo”
de Juiz de Fora. Foi Geografia e Estatística (IBGE) para uma de caráter qualitativo. Do survey
pesquisador do ISER (1990
-1999) e membro de sua
avaliação periódica dos recenseamentos pioneiro realizado pelos “iuperjianos”
diretoria (2000-2002). no que tange à questão da religião tem Luiz Eduardo Soares e Leandro Piquet
2. Expressão cunhada sua origem, penso, numa proposição Carneiro (1992), intitulado Religiosidade,
por Antônio Flávio feita por Rubem César Fernandes, estrutura social e comportamento político,
Pierucci para designar
os pesquisadores sobre então secretário executivo da seguiram-se vários: Pobreza e trabalho
o tema da religião sem instituição. Nela, Rubem antevia que voluntário: estudos sobre a ação católica no
qualquer influência ou
pertença confessional, as ONGs “de ponta” deveriam atrair Rio de Janeiro, de Regina Novaes (1995),
religiosa. Conf.: PIERUCCI, pesquisadores da Academia, assim como Em nome da caridade: assistência social
Antônio Flávio. “Sociologia
da Religião - Área recursos da cooperação internacional e religião nas instituições espíritas, de
Impuramente Acadêmica”. ou “terceirizados” de instituições Emerson Giumbelli (1995), e culminando
In: Sérgio Miceli (org.). O
que ler na Ciência Social governamentais brasileiras, de maneira a sequência destas publicações, a mega
brasileira (1970-1995). vol. a realizar pesquisas de forma ágil e pesquisa coordenada por Rubem César
1 Antropologia. Brasília: Ed.
Sumaré/ANPOCS/CAPES,
eficiente. Fernandes, que tomou o nome de Novo
pp. 237-286, 1999. As exigências de celeridade por parte Nascimento: os evangélicos em casa,
destas grandes instituições visando à na igreja e na política (1998), dando
aplicação de pesquisas e avaliações em seguimento ao Censo Institucional
políticas públicas não podiam esperar o Evangélico, realizado pelo Núcleo de
ritmo próprio das universidades e seus Pesquisa do ISER em 1992. Afora o
centros de pesquisa. Neste sentido, o cientista político Piquet Carneiro, todos
ISER foi se credibilizando dentro do seu os demais eram antropólogos cativados
metier, estudos de “religião e sociedade”, pela realidade que se impunha do método
como um organismo de pesquisa capaz quantitativo, motivados pelas exigências
de produzir análises no “calor da hora” das pesquisas encomendadas pelas
sobre as conjunturas e agendas sociais grandes instituições governamentais e
relevantes daquela época. privadas às ONGs especializadas nesse
Para tal, foi criado em 1992 o Núcleo trabalho. Isto, com todas as implicações
de Pesquisa do ISER, tendo como possíveis para a disciplina da etnografia
pesquisadores efetivos Rubem César e do “caderno de campo”.

8 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


Por outro lado, “extra muros” do ISER, Religieuses) de Bruxelas/Lovaina”3, 3. Ibid., p. 260.

Antônio Flávio Pierucci e Reginaldo embora seu autor, Procópio de Camargo 4. Id.

Prandi, ambos do Departamento de e os métodos sociológicos empregados


Sociologia da USP, publicavam sua por ele assegurassem o caráter laico e
pesquisa sobre A realidade social das científico do empreendimento. Pierucci
religiões no Brasil (1996). Esta traçava situa a pesquisa de Camargo em meio
um panorama das religiões no país, a uma “constelação de interesses”:
na sua relação com a política/voto, “inspiração e financiamentos católicos
na demarcação da extensão/limites para uma pesquisa acadêmica sobre
da “liberdade religiosa” diante das espiritismo (kardecista e umbandista),
“liberdades civis” e ação normativa do levada a cabo no interior de uma
Estado visando o bem comum, assim universidade laica por um ex-católico,
como na estruturação do chamado agnóstico: eis a constelação de interesses
“mercado concorrencial” que as próprias que presidiu à largada” (grifos meus)4.
religiões estabeleciam entre si. Para Portanto, Procópio Camargo, um
tal, fizeram uso dos dados do survey sociólogo de matriz weberiana com
aplicado na pesquisa do Instituto de formação na Universidade Católica de
Pesquisa DataFolha. Louvain, influenciado pela sociologia
Também o Centro de Estatística quantitativa de Gabriel Le Bras sobre
Religiosa e Investigação Social (CERIS), a freqüência das práticas e ritos
instituto de pesquisas criado pela católicos (Hervieu-Léger, Willaime,
Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) 2009), desenvolveu suas pesquisas
da Igreja Católica, em 1962, como seu no Centro Brasileiro de Pesquisas
órgão de assessoramento, mantinha, (CEBRAP), fundado por ele, recorrendo
desde a sua fundação, reproduzindo-se a instrumentos de natureza estatística
nos anos 1980 e 1990, um Censo Anual como: o Anuário Estatístico do
da Igreja Católica no Brasil e um Banco Brasil, o Censo Demográfico do Brasil
de Dados e Estatística que disponibilizava (1940/1950/1960), as Estatísticas do
informações sobre a presença da Igreja Culto Católico, as Estatísticas do Culto
na sociedade brasileira. Protestante e o Boletim Informativo do
Uma aproximação/afinidade eletiva CERIS. O livro de Camargo Católicos,
entre pesquisas de caráter quantitativo Protestantes e Espíritas, uma das primeiras
sobre o papel da religião no contexto abordagens sociológicas do panorama
social do país desenvolvidas no ISER religioso brasileiro, sintomaticamente
e na USP por sociólogos “puramente publicado pela editora católica Vozes
acadêmicos” (Pierucci, 1999)2 e aquelas (1973), baseava-se na tipologia religiosa
desenvolvidas igualmente pelos métodos dos Censos do IBGE de 1940 e 1950, a
das Ciências Sociais em instituições saber: católicos (93,7%), protestantes
religiosas católicas pode ser pensada (3,4%), espíritas (1,6%), budistas (0,3%),
a partir das iniciativas de Cândido judeus (0,1%), ortodoxos (0,1%),
Procópio Camargo, com trânsito nos maometanos (0,0%), outros (0,5%) e sem
dois polos. religião (0,5%).
Segundo Antônio Flávio Pierucci,
I – ASPECTOS DA CONSULTORIA DO ISER
que foi seu aluno e orientando de
AO IBGE
mestrado em 1977, a obra de Cândido
Procópio Camargo, particularmente A pesquisa chamada Novo Nascimento
o livro Kardecismo e Umbanda: uma sobre “os evangélicos, em casa, na igreja
interpretação sociológica, foi elaborada e na política”, desenvolvida pelo ISER
por “inspiração e financiamento católicos na segunda metade dos anos 1990,
(...) sob a direção de um sacerdote belga, no que diz respeito à metodologia
o cônego François Houtart, diretor do e critérios classificatórios, buscava,
CRSR (Centre de Recherches Socio- face à pluralidade de denominações

A RELIGIÃO E O CENSO: ENFOQUES METODOLÓGICOS. MA REFLEXÃO A PARTIR DAS CONSULTORIAS DO ISER AO IBGE SOBRE O DADO RELIGIOSO NOS CENSOS // 9
5. MAFRA, Clara. evangélicas no Brasil, complexificar os técnicos e estatísticos do IBGE, onde,
“Censo da Religião: um
instrumento descartável uma tipologia já clássica nos estudos de diante das extensas listas de declarações
ou reciclável?” Religião e protestantismo. Diante desta tipologia religiosas, buscávamos criar novas
Sociedade, 24/2, 2004, pp.
152-159. tradicional/dual que dividia o grupo categorias (descritores, na linguagem
6. Ibid., p.158.
religioso nos segmentos “históricos” e técnica da classificação estatística) para
“pentecostais”, a nova classificação do enquadrar toda essa diversidade de
ISER estabelecia a seguinte divisão mais declarações. Ficou evidente que a antiga
ramificada e plural, acompanhando a tipologia - muito geral - de descritores
realidade empírica do meio evangélico: não comportava mais a diversidade
“assembléias”, “batistas”, “outras das religiões declaradas pela população
pentecostais”, “Universal”, “históricas” e brasileira neste Censo.
“renovadas” (Fernandes et all, 1998). A inspiração para a nova proposta da
A visiblidade que ganhou esta tabela de classificação (descritores) que
pesquisa do ISER na “opinião pública fizemos ao IBGE baseava-se naquela
especializada” tanto no meio acadêmico, da pesquisa Novo Nascimento, mais
quanto nos institutos de pesquisa diversificada e pormenorizada. Neste
públicos e privados, pela sua amplitude, sentido, no lugar do descritor genérico
ousadia metodológica e temática, ao “católicos”, propusemos “católicos
tratar de uma realidade emergente no apostólicos romanos”, “católicos
Brasil dos anos 1990 - o impacto do apostólicos brasileiros” e “católicos
crescimento evangélico -, suponho tenha ortodoxos” dentro de uma rubrica maior
chamado a atenção do maior instituto de chamada de “cristãos tradicionais”. No
pesquisas no país, o IBGE. lugar da classificação geral “protestantes”,
Naquela época, o Instituto de Pesquisa sugerimos “cristãos reformados”,
governamental estava tabulando o Censo classificação então desdobrada em
de 1991, particularmente o quesito sobre “evangélicos tradicionais”- categoria que
a pertença religiosa. Encontrava-se com englobava as igrejas Adventista, Batista,
dificuldades de classificar a diversidade Luterana, Metodista, Presbiteriana e outras
de denominações evangélicas declaradas -; “evangélicos pentecostais” - categoria
pelos respondentes dentro de suas que englobava Assembléia de Deus,
similitudes, como, por exemplo: “Casa Congregação Cristã do Brasil, Deus é
da Benção”, “Internacional da Benção” Amor, Evangelho Quadrangular, Universal
ou “Templo da Benção”, e “Igreja Cristã do Reino de Deus e outras (O Brasil para
Maranata”, “Maranata-Amém”, “Igreja Cristo, Casa da Benção, Maranata, etc.) -, e
Evangélica Maranata”. Outra sorte de “cristão reformado não-determinado”, item
dificuldade enfrentada pelos técnicos do que reunia declarações genéricas como
IBGE eram as declarações provenientes “cristão pentecostal”, “crente”, “evangélico”,
de indivíduos ligados às crenças “crente pentecostal”.
sincréticas das religiosidades populares- Criamos também a categoria “neo-
católico-afro-brasileiras, como “Vó cristãos” para abranger as declarações
Rosa”, “Casa Vó-Rosa”, entre outras. como: “mórmons”, “Testemunhas de
O ISER apresentava-se a este grande Jeová” e “outros” (“Ciência Cristã”,
instituto de pesquisa como uma “Racionalismo Cristão”, etc.). No lugar
instância credível, pela sua expertise nos de uma única classificação definida por
estudos de religião no Brasil, testada “religiões mediúnicas”, propusemos
mais recentemente pelo seu último o desdobramento em “Espiritismo”,
investimento em pesquisas quantitativas. “Umbanda” e “Candomblé”. No restante
Para atender à solicitação do IBGE, dos tipos classificatórios (descritores),
feita no ano de 1997, Rubem César estes continuaram na forma dos Censos
convocou a mim e ao teólogo André anteriores.
Mello para a tarefa de consultoria. Esta No que diz respeito ao Censo de 2000,
consistiu em reuniões periódicas com o ISER foi de novo chamado para prestar

10 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


consultoria ao IBGE sobre a classificação de “parceria incompleta”, “inacabada”6, 7. Id.

do quesito religião. A antropóloga Clara pois o ISER - da mesma maneira que 8. Categoria criada pela
antropóloga Beatriz Labate
Mafra foi a responsável pela coordenação na consultoria para o Censo de 1991, (2002) para designar as
desta nova empreitada. Desta vez, o que coordenei - não teve influência na religiões surgidas no Norte
do Brasil que se utilizam
contato foi feito com mais antecedência elaboração do questionário a ser aplicado do ayauhuasca, substância
e foi possível ao ISER se preparar com no Censo 2000, na construção da versão produzida a partir de uma
folha e cipó da floresta
mais esmero para a tarefa. definitiva dos descritores, como também
amazônica, como forma de
Como parte deste trabalho, a equipe na codificação das declarações a partir da se obter um conhecimento

do ISER, sob a coordenação de Clara tabela de descritores com o consequente sagrado.

Mafra, analisou a Tabela de Classificação diagnóstico das tendências.


(descritores) das religiões do Censo de Esta disposição unilateral do IBGE
1991 - elaborada pela equipe anterior em alterar a Proposta preliminar de
do ISER, eu e André Mello junto com classificação das Declarações de Religião
os técnicos do IBGE em 1997 -, assim Censo 2000 elaborada pela equipe do
como todas as declarações de pertença ISER sob a coordenação de Clara Mafra,
religiosa - cerca de 15.000 - deste Censo. sem debater com ela os critérios que
Realizou em seguida, 04 seminários regeram as modificações operadas, teve,
com 17 pesquisadores e 16 lideranças no meu entendimento, consequências
religiosas. Como resultado destas nas insuficiências presentes na nova
iniciativas elaborou a Proposta preliminar Tabela de Classificações (descritores)
de classificação das Declarações de que serviu de base para as codificações
Religião Censo 2000. Em relação à das declarações no Censo de 2000.
tabela de descritores do Censo passado Clara Mafra, em seu artigo de 2004,
propôs ainda mais aberturas nos tipos faz algumas indagações em termos da
classificatórios, como, por exemplo, na eficácia das alterações feitas pelo IBGE
categoria “religiões orientais” houve na proposta do ISER de criação da
um desdobramento para “Budismo”, nova tabela de descritores. De um lado,
“Hinduísmo”, “outras orientais” e ela aponta que as categorias “católicos
“tradições esotéricas”. apostólicos brasileiros” e “católicos
No entanto, como relata Mafra ortodoxos” foram retiradas da rubrica
em artigo posterior, esta “proposta “cristãos tradicionais” - onde estavam
preliminar” (Mafra, 2004)5, foi elaborada junto com “católicos apostólicos
sem que o ISER tivesse tido acesso à lista romanos” – sendo transferidas para
de declarações do Censo de 2000. Esta “outras religiões”. Da mesma forma, o
não tendo sido disponibilizada pelo IBGE grupo classificado como “renovados”
à sua equipe de trabalho. Ela registra foi retirado da categoria “evangélicos
também que não houve trabalho conjunto pentecostais”, transferido e repartido nas
entre a equipe do ISER e os técnicos do classificações das igrejas “tradicionais”,
IBGE para a elaboração dos descritores a saber: Adventista, Batista, Metodista,
definitivos que foram aplicados na Presbiteriana e outras. Isto resultou
classificação das declarações do Censo num aumento artificial da categoria
2000. Tampouco o ISER participou do “evangélicos tradicionais”7.
trabalho da codificação das declarações A meu ver, também a retirada da
de acordo com os novos descritores. Eles categoria “neo-cristãs” da nova Tabela
só tiveram conhecimento, pasmem, da de 2000, tendo os grupos religiosos que
tabulação dos dados e classificação final a compunham sido transferidos para
após a divulgação pública na mídia pelo “outras religiões”- semelhante à supressão
IBGE. das categorias dos outros “católicos” e
Neste artigo à revista Religião e seu deslocamento para “outras religiões”,
Sociedade em 2004, onde reflete sobre a registrada por Mafra, acima - retroagiu
experiência da consultoria, Clara Mafra à homogeneização da informação dos
chama o processo do qual participou Censos pré-1991. Isto, ao contrário do

A RELIGIÃO E O CENSO: ENFOQUES METODOLÓGICOS. MA REFLEXÃO A PARTIR DAS CONSULTORIAS DO ISER AO IBGE SOBRE O DADO RELIGIOSO NOS CENSOS // 11
espírito que presidiu as propostas do principais orgãos da nossa mídia escrita
ISER para os dois Censos em que realizou e televisionada, dando o tom analítico à
consultoria, qual seja, a de desdobrá- massa dos dados/estatísticas produzidos
las em mais categorias de maneira a no Censo 2000. É sobre isto que passo a
qualificar melhor esses dados. Mas, além tratar em seguida.
destas opções do IBGE de compactar
determinados dados, outras alterações II – REBATIMENTOS DO CENSO IBGE NA
feitas na proposta de descritores do ACADEMIA BRASILEIRA
ISER, no meu entender, levaram a alguns A partir do Censo de 2000, os dados do
equívocos na forma de classificar as IBGE sobre o quesito pertença religiosa
declarações dos respondentes. Além passam, cada vez mais, a ser incorporados
do caso mencionado por Mafra de um nas análises dos cientistas sociais sobre
aumento artificial nos “evangélicos a realidade das religiões na sociedade
tradicionais” ao computar nas suas brasileira. Todavia, também em reflexões
fileiras os adeptos das igrejas “renovadas”, mais antigas já se fazia notar a utilização
evidentemente “pentecostais”, outro de dados de Censos anteriores, ainda
caso se deu com as chamadas “religiões que de uma forma mais esparsa. Afora o
ayahuasqueiras”8: Santo Daime, União trabalho pioneiro de Cândido Procópio
do Vegetal e Barquinha. Estas foram Camargo já mencionado acima, outros
classificadas como “tradições indígenas”, pesquisadores utilizaram os dados dos
quando existia no rol das tipologias a Censos em seus textos.
categoria “tradições esotéricas”, mais Renato Ortiz, no livro A morte branca
afeita ao agrupamento dentro de uma do feiticeiro negro, com primeira edição
perspectiva socio-antropológica do em 1978, analisa a campanha movida
fenômeno religioso. pela Igreja Católica contra as religiões
Porém, no que tange a uma macro mediúnicas, tendo como motivação o
interpretação das tendências de crescimento destas, e a competição que
crescimento, estagnação e regressão das este fato gerou no “mercado religioso”
religiões no país, a análise estatística do (Ortiz, 1999: 203). Para tal, serviu-se dos
IBGE do Censo 2000 consolidou um dados do IBGE nos Censos de 1940 e
quadro elucidativo destas trajetórias, 1950.
a saber: o declínio tendencial do Pierre Sanchis, ao esquadrinhar “as
catolicismo e o avanço dos evangélicos e religiões dos brasileiros” (Sanchis, 1997),
dos “sem religião”. Isto com sua extensão interpreta a gradual queda do catolicismo,
para as regiões urbana e rural e para cada então religião hegemônica no país,
estado da federação. utilizando-se dos dados do Censo IBGE:
Estas considerações sobre o dado de 1980: 88%, 1990: 80%, 1994: 74,9%. Ele
pertença religiosa produzido pelo IBGE também observa os desdobramentos
para o Censo 2000 tiveram grande regionais desta tendência a partir dos
repercussão nas análises desenvolvidas mesmos dados: Minas Gerais 80,2% e
pela Academia no país. Pode-se dizer Ceará com 84,4% de católicos frente à
que funcionaram como um verdadeiro presença decrescente de 59,3% no Rio de
referencial para estes estudos. Apesar Janeiro (Sanchis, 1998).
da pouca influência da comunidade Já autores como Gamaliel Silva
dos pesquisadores das religiões no Carreiro, no livro Mercado Religioso
Brasil - representados na consultoria do Brasileiro, criticaram a nova classificação
ISER - na elaboração dos instrumentos que a consultoria do ISER estabeleceu
e do processo de codificação destes para o Censo 1991 no que tange ao
dados pelo IBGE, ela, a comunidade de campo cristão, particularmente às
pesquisadores, cumpriu um importante categorias “neo cristãos” e “outras
papel reflexivo através de artigos, cristãs tradicionais”. No seu entender,
textos, debates e também inserções nos seriam “categorias que corrroboraram

12 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


negativamente a análise dos dados da nova faceta religiosa no país (Pierucci, 7. Id.

do censo 1991” (Carreiro, 2008:128). 2006a). 8. Categoria criada pela


antropóloga Beatriz Labate
No entanto, utilizando-se de outro Regina Novaes, de igual maneira, (2002) para designar as
autor, Paulo Siepierski (2002), Carreiro recorre aos dados do Censo 2000 religiões surgidas no Norte
do Brasil que se utilizam
interpreta corretamente o que a nova para pensar numa possível alternativa do ayauhuasca, substância
classificação propôs, ou seja, que as ao predomínio cristão no país, que produzida a partir de uma
folha e cipó da floresta
categorias em questão abarcavam os se configuraria na soma dos 7,3% amazônica, como forma de
grupos empíricos “Testemunhos de dos “sem religião” com os 0,3% das se obter um conhecimento
sagrado.
Jeová, mórmons, etc” no primeiro tipo, religiões orientais e os 1,3% de “outras
“neo cristãos”, assim como “ortodoxos e religiosidades”, estas englobando os neo-
católicos não romanos” no segundo tipo, esoterismos e os novos movimentos
“outras cristãs tradicionais”. religiosos. A adição destes segmentos
Penso que, de uma forma geral, os poderia formar, então, um polo da
dados do IBGE sobre a pertença religiosa “religiosidade individual emocional/pós
da população brasileira foram assumidos moderna” (Jornal do Brasil, 09/05/2002).
de uma maneira inconteste no debate Também eu, no texto A realidade das
contemporâneo das Ciências Sociais religiões no Brasil do Censo IBGE 2000
sobre o campo religioso brasileiro e sobre (Camurça, 2006), procuro interpretar
a relação da religião com a sociedade os decréscimos e crescimentos dos
e a cultura no país. Passo em seguida a grupos religiosos no Brasil - a queda do
relacionar alguns indicadores disto. catolicismo e o avanço de evangélicos

NO CORRER DESTES ÚLTIMOS ANOS, COM A CRESCENTE DIFUSÃO DOS


DADOS SOBRE RELIGIÃO DOS CENSOS IBGE PELA MÍDIA,
PASSA-SE A NOTAR UMA INFLUÊNCIA DESTES DADOS NO JUÍZO QUE A
OPINIÃO PÚBLICA FORMA SOBRE O CRESCIMENTO E DIMINUIÇÃO DAS
RELIGIÕES NO BRASIL

Antônio Flávio Pierucci (2006b), e “sem religião” - dentro dos processos


em seu texto Cadê a nossa diversidade de modernização religiosa ocorridos
religiosa?, secundado nos dados do no país: a multiplicidade de ofertas de
Censo IBGE 2000, questiona a idéia de bens simbólicos, o pluralismo religioso
pluralismo religioso no país devido ao e a liberdade de escolha. A base
acentuado domínio cristão - católicos + empírica para tal análise foram os dados
evangélicos = 89,2% . Do mesmo modo, pormenorizados do Censo 2000.
em Bye, Bye, Brasil: o declínio das religiões Nas pesquisas sobre juventude e
tradicionais no Censo 2000 (Pierucci, religião realizadas na década de 2000
2004) e no texto A religião como ruptura que se utilizaram do instrumento do
(Pierucci, 2006a), o autor apóia-se survey de forma recorrente, houve a
nos dados dos últimos Censos para comparação dos dados obtidos neste
demonstrar o decréscimo das religiões segmento juvenil com os dados mais
afro-brasileiras: 0,6% em 1980, 0,4% gerais do Censo do IBGE. Isto se deu,
em 1991 e 0,3% em 2000. Ao contrapor por exemplo, na pesquisa do Núcleo de
esta queda ao avanço acelerado da Estudos da Religião da Universidade
religião evangélica - inclusive e muito Federal do Rio Grande do Sul (NER-
significativamente nos segmentos dos UFRGS), coordenada por Carlos Steil,
negros -, estabelece sua formulação de Daniel Alves e Sonia Herrera (2001),
que as chamadas “religiões étnicas” vêm envolvendo estudantes dos cursos de
perdendo espaço para as “religiões de Ciências Sociais da UFRGS, Unisinos,
escolha individual”, estas representativas PUC-RGS, UFMG, UFJF e UFRJ; na

A RELIGIÃO E O CENSO: ENFOQUES METODOLÓGICOS. MA REFLEXÃO A PARTIR DAS CONSULTORIAS DO ISER AO IBGE SOBRE O DADO RELIGIOSO NOS CENSOS // 13
pesquisa de Ari Pedro Oro (2004), pelo grupo religioso que mais cresce e que
comparando universitários dos cursos de conseqüentemente merece maior atenção
e respeito do poder público e dos meios
Medicina, Ciências Sociais e Matemática
de comunicação. Uma análise do resulta-
de universidades públicas e privadas de do dos dados dos últimos censos do Ins-
Porto Alegre, São Luís e Rio de Janeiro; na tituto Brasileiro de Geografia e Estatística
de Pedro Simões (2007), sobre estudantes (IBGE) não confirmam essa postura (Fon-
universitárias do curso de Serviço Social seca, 2000:80).
da UFRJ; na pesquisa realizada por mim, Em um site de divulgação evangélica -
Fátima Tavares e Léa Perez (2009), sobre os Informe On Line (2012) -, numa matéria
jovens estudantes de nível médio da rede que antecedia a divulgação do resultado
pública de Minas Gerais, na de Edlaine do Censo 2010 no que diz respeito
Gomes e Juliana Jabor (2004), também ao quesito religião, a avaliação que os
entre estudantes do Ensino Médio da rede evangélicos faziam de seu crescimento
pública de Santa Catarina e na de Regina seria que atingiriam a cifra de 50
Novaes e Cecília Mello (2002), estendida a milhões. De fato, o resultado divulgado
toda juventude carioca. computou 42,2 milhões de adeptos deste
A referência quase que obrigatória do grupo religioso.
Censo IBGE enquanto uma realidade Para o caso dos espíritas, quanto à
que se impôs para as pesquisas do campo sua presença numérica na população
acadêmico de estudiosos do fenômeno brasileira, segundo a antropóloga
religioso no Brasil foi apreciada francesa Marion Aubrée, “em certos
criticamente em um dos últimos meios espíritas calculam-se cifras que
artigos de Clara Mafra (2013) na revista ultrapassam a vinte milhões”, contudo
Debates do NER. Nele, a autora aponta o o presidente da Federação Espírita
descompasso entre os dados do IBGE, Brasileira em 1988 “foi muito mais
sempre muito genéricos, constituídos em comedido (...) ele estimava (...) com
cima de apenas uma pergunta - qual a sua muita prudência que o número de
religião? -, embora representativos em espíritas kardecistas podia oscilar entre 4
termos de escala - a população brasileira e 5 milhões” (Aubrée, 2009:203). O censo
- e todas as inferências e consequências de 2000 apontou 2,3 milhões e o de 2010
(muitas das vezes improvisadas) que os apontou cerca de 3,8 milhões de espíritas
sociólogos e antropólogos da religião no país.
querem fazer a partir desta informação Já numa avaliação mais subjetiva
ainda muito restrita. das religiões afro-brasileiras face ao
catolicismo majoritário por um dos
II – REBATIMENTOS DO CENSO IBGE NAS adeptos daquelas, o jornalista Clodomiro
RELIGIÕES PRESENTES NO PAÍS do Carmo no livro de bolso O que é
Por muitos anos, as religiões no Brasil Candomblé, coloca que: “o catolicismo
fizeram estimativas particulares do atual (...) tenta se manter (...), mas a
número dos adeptos que possuíam e de debacle é visível (....) as igrejas estão
seu crescimento, geralmente inflando vazias (...) essa situação favorece o
estes números em causa própria e em candomblé” (Carmo,1987:37).
detrimento das outras concorrentes. Porém, no correr destes últimos anos,
Para o caso dos evangélicos, Antônio com a crescente difusão dos dados sobre
Flávio Pierucci (2002) observa que “estes religião dos Censos IBGE pela mídia,
conseguem convencer que são em número passa-se a notar uma influência destes
maior do que na realidade são”. O sociólogo dados no juízo que a opinião pública
Alexandre Brasil Fonseca, em artigo na forma sobre o crescimento e diminuição
revista Numen, por sua vez, afirma que: das religiões no Brasil.
ultimamente fala-se muito de crescimento
Nesse sentido, igrejas e agrupamentos
evangélico. Pastores e bispos não poupam religiosos passam a levar em conta o que
nas cifras e afirmam serem responsáveis revelam esses números e a se justificar

14 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


perante eles. Algumas vezes deixam pentecostais”. Se isto de fato ocorreu, houve
transparecer uma apreensão quanto a uma subtração de expressivos contingentes
prováveis interpretações que se possam de católicos participantes de movimentos
fazer destes; em outras,t explicitam uma específicos dentro da Igreja do cômputo
discordância no que diz respeito aos geral do grupo.
critérios de classificação utilizados no Do lado luterano, entre as 48
trabalho dos recenseadores do instituto designações para o termo luterano,
junto à população. não figura a IECLB, principal igreja da
Um exemplo do primeiro caso foi-me reforma protestante no Brasil. Além do
relatado pela socióloga Silvia Fernandes, mais, entre as opções com a designação
que disse ter recebido um telefonema de luterana, aparece: “luterano pentecostal”
um bispo que desempenha funções na não reconhecida, segundo eles, como
CNBB, receoso com uma informação expressão de fé neste meio religioso.
que teria escutado de que na próxima Sem entrar no mérito da discussão
classificação do IBGE os “católicos se de fato estes descritores estavam
não praticantes” seriam alocados na corretos ou não, gostaria de chamar
categoria de “outras religiões”. Este atenção para o fato de que a questão
boato, infundado, que, se implementado, operacional/logística da montagem dos
teria consequências desastrosas no questionários, sua aplicação e resultado,
cômputo dos católicos, revela o estado de não se restringem mais agora apenas aos
tensão da hierarquia da Igreja Católica institutos de recenseamento. Hoje dizem
com possíveis repercussões de uma respeito aos próprios entrevistados -
divulgação desfavorável das cifras do enquanto grupos e igrejas - que querem
IBGE para a instituição. ser reconhecidos na sua real dimensão
Um exemplo do segundo caso se numérica e se importam com os
encontra no artigo Censo e Religião critérios que venham lhes favorecer ou
assinado pela teóloga Maria Clara desfavorecer neste aspecto.
Bingemer (2010) em sua coluna no site Exemplos da crescente implicação das
Amai-vos. Neste artigo ela se interroga igrejas e grupos religiosos com a questão
sobre os critérios de classificação do dos números do Censo IBGE se sucedem.
IBGE, trazendo ressalvas que dois Paralelamente, há uma apropriação destes
líderes de religiões tradicionais no números segundo a visão e os interesses
Brasil – o arcebispo de São Paulo, D. de cada instituição religiosa. A Igreja
Odilo Scherer e o presidente da Igreja Católica parece querer indicar entre seus
Evangélica de Confissão Luterana quadros pessoas qualificadas com o saber
no Brasil (IECLB), o pastor Walter técnico para responder com propriedade
Altmann - fizeram ao processo de coleta as nuances e particularidades do Censo,
de declarações pelo IBGE. como no caso do padre Thierry Linard,
Estes dois líderes religiosos apontam demógrafo designado pela CNBB para
incorreções nas opções oferecidas nos comentar o Censo 2010. Mas também o
questionários do Censo 2010 para que apóstolo Valdomiro Santiago da Igreja
o cidadão declare qual a sua religião. Mundial do Poder de Deus, dissidente
Segundo eles, todas estas situações da IURD do Bispo Macedo, nos seus
foram relatadas por fiéis – católicos e programas televisivos, em meio a
luteranos – que foram visitados pelos realizações de “milagres” ao vivo, cita
recenseadores do IBGE. o Censo do IBGE que, segundo ele,
Do lado católico, segundo a reclamação, mostra que sua Igreja é a que mais cresce,
estão relacionados nos questionários angariando milhares de adeptos.
do IBGE doze grupos, associações ou
CONCLUSÃO
movimentos católicos como se fossem
outras confissões religiosas. Entre estes Acredito que hoje tanto os grupos
figuram “católicos carismáticos” e “católicos formadores de opinião, como a grande

A RELIGIÃO E O CENSO: ENFOQUES METODOLÓGICOS. MA REFLEXÃO A PARTIR DAS CONSULTORIAS DO ISER AO IBGE SOBRE O DADO RELIGIOSO NOS CENSOS // 15
mídia, quanto os pesquisadores da REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Academia vêem os dados demográficos e
estatísticos como de extrema relevância AUBRÈE, Marion; LAPLANTINE,
para a análise do papel da religião na François. Capítulo IV “A vida espírita
de Allan Kardec”. A Mesa, o Livro e os
sociedade contemporânea.
Espíritos: gênese e evolução do movimento
Por outro lado, é preciso que se social espírita entre França e Brasil.
diga que apenas o dado quantitativo Maceió: EdUFAL, 2009.
não é suficiente para uma análise
CAMARGO, Cândido Procópio.
mais refinada do panorama religioso
Católicos, Protestantes e Espíritas.
brasileiro onde as crenças e práticas –
Petrópolis: Vozes, 1973.
sincretismos, porosidades, múltiplas
pertenças religiosas, trânsito religioso CAMURÇA, Marcelo Ayres. “A realidade
- são mais significativas do que a das religiões no Brasil do Censo IBGE
2000”. In: Faustino Teixeira & Renata
pertença às religiões institucionais.
Menezes (orgs.) As Religiões no Brasil:
E as sensibilidades que advêm destas
continuidades e rupturas. Petrópolis:
crenças e práticas, ao contrário do que
Vozes, 2006, p.35-48.
se passa com a declaração nominal de
adesão a uma religião, são difíceis de CAMURÇA, Marcelo Ayres; PEREZ, Léa
quantificar. Freitas; TAVARES, Fátima. Ser jovem em
Minas Gerais: religião, cultura e política.
Ainda assim, o levantamento
Belo Horizonte: Argvmentvm, 2009.
demográfico da distribuição das religiões
pelos espaços do país, pelos territórios CARMO, Clodomir do. O que é
Candomblé. São Paulo: Editora
urbanos e rurais, pelas faixas etárias,
Brasiliense, 1987.
grupos de gênero, classes sociais tem
sido crucial para o desenvolvimento CARREIRO, Gamaliel da Silva. Mercado
de estudos sobre o papel da religião na Religioso Brasileiro: do monopólio à livre
esfera pública. Dentre estes estudos, concorrência. São Paulo: Nelpa, 2009.
destacamos a pesquisa de César Romero FERNANDES, Rubem César et alli.
Jacob (2003), contida no Atlas da filiação Novo Nascimento: os evangélicos em casa,
religiosa e indicadores sociais no Brasil na igreja e na política. Rio de Janeiro:
como um exemplo eloquente. Pesquisas Mauad, 1998.
de opinião e comportamento sobre FONSECA, Alexandre Brasil. Nova
o aborto, o casamento homosexual, Era evangélica. Confissão positiva e o
a família e suas novas formas de crescimento dos sem religião. Numen,
reprodução, o reconhecimento de vol 3, n.2, 2000, p. 63-90.
direitos, a biotecnologia nas pesquisas GIUMBELLI, Emerson. Em Nome da
de células-tronco, todas na sua relação Caridade: Assistência Social e Religião nas
com a dimensão religiosa, seriam Instituições Espíritas. vol I, Rio de Janeiro:
imprecisas sem o concurso dos métodos Núcleo de Pesquisas do ISER, 1995.
quantitativos e estatísticos. GOMES, Edlaine de Campos; JABOR,
Também o conhecimento produzido Juliana. “Pluralismo religioso,
através de surveys, tanto pelos Institutos sexualidade e experiência religiosa entre
de Pesquisa e Recenseamento quanto estudantes de ensi no fundamental e
por pesquisadores das Ciências Sociais médio”. Numen: revista de pesquisa e
da Religião, pode sem dúvida, ajudar a estudos em religião, vol 7, n°1, 2004,
desvendar as relações/implicações que p.105-121.
os índices de mobilidade demográfica HERVIEU-LÉGER, Danièle;
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política partidária, as políticas públicas, Bras 1891-1970”. Sociologia e Religião:
as instituições sociais, a ciência e os abordagens clássicas. Aparecida: Idéias
costumes do país. & Letras, 2009, p.255-286.

16 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


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A RELIGIÃO E O CENSO: ENFOQUES METODOLÓGICOS. MA REFLEXÃO A PARTIR DAS CONSULTORIAS DO ISER AO IBGE SOBRE O DADO RELIGIOSO NOS CENSOS // 17
OS LIMITES DO CENSO
NO CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO

MARIA GORETH SANTOS 1

1. Doutora em Sociologia Desde 1872, o Brasil faz recenseamento discutir a dificuldade de se apreender tal
da Religião. Atua como
tecnologista no Instituto da religiosidade dos brasileiros. O perfil pluralidade religiosa.
Brasileiro de Geografia religioso da população é divulgado de
e Estatística. Ressalta-se
que o IBGE está isento de 10 em 10 anos pelo Instituto Brasileiro INTRODUÇÃO
qualquer responsabilidade de Geografia e Estatística (IBGE). Nas Em junho de 2012, o IBGE acabava
pelas opiniões, informações,
dados e conceitos emitidos últimas três décadas, o número de de divulgar o seu 10º censo de religião
neste artigo, que são de declarações religiosas vem revelando e causava vários debates em torno dos
exclusiva responsabilidade
do autor.
mudanças no perfil da religiosidade resultados, aguardados há 10 anos, data
2. Fui convidada, junto com
brasileira. As transformações resultaram do último censo. As questões orbitavam
o colega Cláudio Crespo, em modificações na metodologia do em torno dos números das religiões
a participar do seminário Censo no quesito religião. Códigos, no Brasil. Para muitos, os dados não
Enfoques metodológicos,
em 28 de maio de 2012, banco descritor, estrutura classificatória estavam representando a realidade
PPGAS/Museu Nacional, dos grupos religiosos, incorporação religiosa da população e isso se devia,
RJ, representando o IBGE.
Embora o último censo de de novas declarações religiosas foram principalmente, ao limite da única
religião ainda não houvesse necessários para dar conta das novas pergunta usada pelo IBGE: “Qual a sua
sido divulgado, pretendia-
demandas do campo religioso brasileiro.
se discutir a metodologia religião ou culto?”.2
utilizada para a captura dos No entanto, novas modificações têm
dados.
sido reivindicadas pelos estudiosos da Diante de tantas dúvidas em relação
religião no Brasil, para que o Censo à metodologia do Censo para o quesito
possa registrar também a múltipla religião, fez-se necessário recuperar os
pertença religiosa, uma categoria que critérios de coleta e divulgação dos dados
tem crescido bastante nos últimos anos, de religião elaborados pelo IBGE. Neste
registrada em alguns estudos. Apesar artigo apresento um histórico das técnicas
de todas essas adequações, a questão e metodologias, desde o primeiro censo,
que se coloca é sobre a possibilidade visando, assim, contribuir para um maior
de se capturar todas as declarações entendimento e transparência da produção
religiosas de um povo tão sincrético, dos números de religiões no país.
com uma única pergunta: “Qual é a
BREVE HISTÓRICO DOS CENSOS
sua religião ou culto?”. O objetivo desse
artigo é pensar na grande contribuição O Censo de 1872 é considerado o primeiro
que o IBGE oferece aos estudiosos da recenseamento da população brasileira.
religião, na medida em que é a única A primeira lei brasileira que determinava
instituição de pesquisa que faz censo da a realização de recenseamentos nacionais
religião da população, como também de população foi a de 1829, sancionada em

18 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


1870. Assim, o Império, de acordo com resultados estatísticos da população 3. Durante o período
imperial, o único órgão com
o disposto no Decreto n°4.856, de 30 de do Império foram distribuídos em dois atividades exclusivamente
dezembro de 1871, dispôs que, grandes quadros: estatísticas era a Diretoria
Geral de Estatística, criada
o primeiro recenseamento da população • Quadro geral da população livre conside- em 1871, subordinada ao
será feito simultaneamente, em todo o te- rada em relação ao sexo, estado civil, raça, Ministro e Secretário de
Estado dos Negócios do
rritório do Império, no dia 1° de agosto religião, nacionalidades e gráo de instrucção,
Império. Conf.: http://
de 1872. Todos os habitantes do Império, com indicação dos números de casas e logos. www.ibge.gov.br/home/
nacionais e estrangeiros, livres e escravos, disseminacao/eventos/
• Quadro geral da população escrava consi-
serão recenseados no lugar de habitação missao/instituicao.shtm.
derada em relação aos sexos, estados civis,
em que se achar no referido dia (Instruções
raças, religião, nacionalidades e gráo de ins-
Censo, 1890).
trucção.
As publicações censitárias indicam
O país contava com 8.419.672 pessoas
que “Apesar da pobreza dos meios
livres e 1.510.806 escravos. Os católicos
disponíveis, 10 112 061 habitantes
somavam 9.902.712 (entre livres e
foram recenseados em 1872, em todas
escravos), e os acatólicos (registrados
as províncias, e a sua distribuição se
apenas para a população livre) somavam
fez segundo a cor, o sexo, o estado de
27.766. Proibidos de professar sua própria
livres ou escravos, o estado civil, a
religião, para os escravos era registrada a
nacionalidade, a ocupação e a religião”
religião católica (Recenseamento, 1872).
(Metodologia Censo, 2000).
No Censo de 1890 (por problemas
Em 1872, os 10 milhões de habitantes
políticos, não houve censo em 1880), o
eram distribuídos em 21 províncias,
segundo recenseamento da população,
divididas em municípios, que se
sob a presidência do General Manoel
dividiam em 1.440 paróquias, onde as
Deodoro da Fonseca, o Brasil já não era
coletas eram feitas. Nesse período, o
mais um Império, e sim, a República dos
Brasil tinha uma população de 15,24%
Estados Unidos do Brasil. A Lei Áurea
de escravos. O recenseamento era feito
(1888) havia abolido a escravatura.
por meio de boletins ou listas de família,
onde eram declarados o nome, o sexo, a A Diretoria Geral de Estatística, através
idade, a cor, o estado civil, a naturalidade, de um “Boletim de informações quanto
a nacionalidade, a residência, o grau ao indivíduo na sociedade”, registrava,
de instrução primária, a religião e as além de outros dados, o “culto”
enfermidades aparentes. professado pela população brasileira.
A Constituição Brasileira de 1824, A coluna para “culto” era apresentada
no artigo 5°, estabelecia que a religião em branco e o “agente recenseador” era
católica era a religião do Império. Os orientado da seguinte forma:
que não professavam esta religião, Especialisar a religião adoptada, a catholi-
os “acatólicos” não poderiam ocupar ca, a seita protestante, etc. Si seguir algu-
ma escola philosophica que a afastando-o
a Regência e, mesmo, o cargo de de qualquer culto constituido, não formar,
Imperador. “E mais: que todas as outras entretanto, nenhuma religião, inutilisará
religiões seriam ‘permitidas com seu a linha desta columna e fará a declaração
culto doméstico, ou particular, em casas desse caso na columna das observações
para isso destinadas, sem forma exterior (Instruções Censo, 1890).
de templo’” (Porto, 2009). No resultado desse censo, um
Não contando ainda com um pluralismo religioso já se evidencia,
questionário, mas uma lista de família, a com as entradas dos protestantes,
Diretoria Geral de Estatística3 registrava uma subdivisão do catolicismo, do
as informações das famílias do Império. positivismo, islamitas e os sem culto.
Assim, no primeiro Censo Nacional, Contávamos, portanto, com cinco
o quesito religião tinha apenas duas registros sob a nomenclatura de cultos,
opções de respostas: católicos, a religião conforme o quadro 1.
do Império; e acatólicos, os que não É preciso observar, conforme a
professavam a religião católica. Os exposição no Quadro 1, que os “sem

OS LIMITES DO CENSO NO CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO // 19


Quadro 1 – Nomenclatura de cultos professados no Brasil em 1890

CULTOS PROFE SSADOS

CATHOLICOS PROTESTANTES ISLAMITAS POSITIVISTAS SEM CULTO TOTAL

Romanos Orthodoxos Evangélicos Presbyterianos Outras seitas


300 1.327 7.257 14.325.031
14.179.615 1.673 19.957 1.317 122.469

Recenseamento Geral do Brasil 1890

culto” eram classificados a partir da A publicação faz ainda menção ao


coluna de observações, quando a pessoa fato de os Estados Unidos da América
deixava de declarar ou não professava ter encerrado sua investigação sobre
nenhum culto; não era uma opção, a religião da população em 1918, por
estavam sendo classificados como não causa da quantidade de “corporações”
pertencentes religiosos. religiosas.
Para entender o aumento dos registros Nos Censos de 1940 e 1950, já sob a
de religião nesse período, é preciso um responsabilidade do Instituto Brasileiro
aprofundamento na análise histórica de Geografia e Estatística - IBGE, criado
que o justifique. Assim, cabe resgatar em 1936, segundo Simões & Oliveira
os seguintes contextos: a imigração (2005), são criadas condições para um
dos ucranianos para o Brasil, no censo mais abrangente para o conjunto
final do século XIX, e por sua vez, o do país. O censo de 1940 traz a seguinte
surgimento dos católicos ortodoxos; no orientação para religião:
período de 1824 a 1916, implantação do A distribuição quanto à religião contém,
protestantismo no Brasil; o surgimento além das especificações definidas, julgadas
das idéias positivistas no Brasil desde adequadas ao caso do Brasil, uma categoria
genérica sob a designação ‘de outra reli-
1850 e depois, em 1876, a fundação da
gião’, na qual foram englobadas, além dos
Sociedade Positivista Brasileira, que mais adeptos de credos não compreendidos em
tarde viria a se transformar na Igreja uma das classes adotadas, as pessoas que
Positivista do Brasil. A imigração árabe mencionaram, em suas respostas, deno-
no período de 1850 a 1900 pode explicar minações à primeira vista não equivalen-
tes a qualquer daquelas designações mais
as declarações islamitas (Oliveira, 2012; conhecidas. Isso explica o vulto, por vezes
Mendonça, 2005; Jacob et al, 2003), que considerável, dos resultados concernentes
passaram a ter importância relativa no ao grupo ‘de outra religião’ (Recenseamen-
contexto brasileiro. to Geral, 1940)

Os dois censos seguintes, os de 1900 Este censo traz o registro de nove


e 1920, não apresentaram os dados de declarações: católicos, ortodoxos,
religião. Segundo os arquivos históricos protestantes, israelitas, maometanos (ao
do IBGE, o Censo Demográfico de 1900 invés de islamitas), budistas, xintoístas,
colheu informações das características da espíritas e positivistas; foram incluídas,
população, incluindo a religião, mas, por também, três novas colunas: de outra
falhas na coleta, decidiu-se por apresentar religião, sem religião e de religião não
apenas uma sinopse das características declarada. De acordo com a orientação,
gerais da população. Já a justificativa os dados dos maometanos, budistas,
para a supressão do quesito referente à xintoístas, positivistas e “de outra
religião, no Censo de 1920, deu-se religião” foram classificados como
“Outras religiões”, conforme o quadro 2.
porque o estudo estatístico das diversas
confissões exorbita do caracter synthetico
O Censo de 1940 traz a religião espírita
que devem ter as investigações do recen- pela primeira vez, assim como a budista e
seamento geral da população, parecendo a xintoísta (Recenseamento Geral 1940).
que deve ser antes objecto de um inquéri- O Censo de 1950 não traz muitas
to especial, capaz de revelar o phenomeno
religioso na multiplicidade e complexidade alterações. Nas orientações quanto ao
dos seus interessantes aspectos (Recensea- preenchimento do quesito, enfatiza
mento , 1920). que para crianças de até 12 anos, devia

20 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


se registrar a religião dos pais, casos os sua religião será assim registrada: católi- 4. Segundo convenções
ca romana. Se você for batista, metodista, estatísticas, “Dado
dois professassem a mesma religião. numérico igual a zero
presbiteriano, evangélico, etc, será registra-
Para efeito de divulgação dos dados, não resultante de
do como protestante. Se for espírita, carde- arredondamento”.
chama atenção para o fato de que as cista, umbandista, figurará como espírita.
religiões discriminadas seriam aquelas Pode suceder ainda que você seja budista,
que congregassem o maior número ou muçulmano (islamita), ou de outra reli-
de adeptos no país. Figurariam os gião menos freqüente no Brasil. O Recen-
seador sempre saberá como registrar sua
sem religião, as pessoas que assim se
resposta. Todos os brasileiros vão respon-
declarassem expressamente, enquanto der francamente a religião que professam.
os dados que aparecessem com um traço Muitos não seguem nenhuma religião.
(-)4 seriam classificados como “sem Essas pessoas deverão responder franca-
declaração de religião”. Até o Censo mente que não tem religião. As respostas
de 1950, o quesito religião era aberto. serão contadas, somadas umas às outras e,
no fim, o Brasil terá os totais que servirão
(CENSO 1950). para muitos estudos e para orientação dos
Quadro 2 – Classificação do número de pessoas, segundo as
diversos movimentos religiosos em nosso
religiões existentes no Brasil – 1940, 1950
País (ABC do Recenseamento, 1960)
RECENSEAMENTOS DEMOGRÁFICOS 1940/1950
1940 1950
Para o sociólogo Cândido Procópio,
Católicos Romanos 39.177.880 48 558 854
nesse período censitário (censos 1940,
Protestantes 1.074.857 1 741 430
1950 e 1960) “os dados censitários
Espíritas 463 400 824 553
referem-se a categorias religiosas
Ortodoxos 37 953 41 156 classificadas segundo critério fundado
Israelitas 55 666 69 957 em categorias histórico-culturais
Maometanos 3.053 3.454 (...). Cada religião se distingue por
patrimônio cultural e desenvolvimento
Outras religiões

Budistas 123.353 152.572

Xintoístas 2.358 237 255 296 405 histórico peculiar” (Camargo,


Positivistas 1.099 1973:18). Novas religiões atendem a
De outra religião 107.392 140.379 situações sociais emergentes, assim
Sem religião e sem
declaração de religião
189 304 412.042 como a recuperação de especificidades
Total População 41.236.315 51.944.397 históricas e cosmológicas existentes no
Censos Demográficos de 1940 e 1950
Brasil. Chama-nos atenção para o fato
de modalidades religiosas indígenas
e de origem africanas, tais como o
No Censo de 1960, há, pela primeira
candomblé, umbanda e quimbanda entre
vez, opções fechadas à população
outros (sublinhas: Mina, Tererê, Nagô,
recenseada. São definidas as declarações
Angola, Gegê, caboclos-encantados)
religiosas dos censos anteriores (com
estarem fora do censo porque “atraem
exceção dos xintoístas e positivistas),
predominantemente, estas religiões,
como opções no questionário (boletim
integrantes das classes sociais menos
da amostra), semelhantes para todas as
pessoas entrevistadas no domicílio. favorecidas (...) Preconceitos de classe
e raça não estariam possivelmente
Em um material de divulgação ausentes na exclusão dos registros
elaborado para esse censo, o IBGE
censitários” (p. 18 e 19). Nesse período,
convoca a população para responder ao
as religiões indígenas não apareciam
Censo de forma didática. No que diz
e os umbandistas, quimbandistas e
respeito à religião, escreve o seguinte
candomblecistas, casa de caboclos e
texto:
outras se fundiam no espiritismo, que
Você é católico? Protestante? Espírita? começava a ser aceito na sociedade, mas
Interessa ao RECENSEAMENTO saber ainda tinha pouca projeção.
a que religião você pertence, qual a sua O Recenseamento Geral de 1970, o
crença, a de seus pais. Cada religião gos-
tará também de saber o número de seus oitavo do país, ampliou a investigação em
adeptos, que o Recenseamento dirá. Se termos das características das pessoas, das
você for católico a resposta completa sobre famílias e dos domicílios. É considerado

OS LIMITES DO CENSO NO CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO // 21


5. Por motivos políticos um marco divisor na história dos censos Nesse Censo, o quesito religião contava
e econômicos, não foi
realizado o Censo 1990 brasileiros: mais rico em dados, em com 10 (0-9) categorias codificadas
somente foi realizado confiabilidade, e muito utilizado nas para identificar os registros de grupos
em 1991 (ver mais em
Metodologia do Censo, análises do mundo acadêmico, pelas religiosos já existentes. A orientação
2000) Ciências Sociais, que se consolidavam para quando surgisse uma declaração
6. Todos os anexos deste nas instituições de pesquisa, no período diferente da relação apresentada era que
artigo encontram-se ao final
(Oliveira; Simões, 2005). Foi nos anos se consultasse o Código Complementar,
da publicação.
1970 que o IBGE passou a contratar uma publicação com todos os itens
sociólogos, antropólogos e outros codificados no Censo (Código
profissionais das Ciências Humanas Complementar, 1980)
para estudar os processos e as mudanças Para o quesito religião, seguia-se a
em voga neste período, inclusive o seguinte codificação (de 01 até 09 e 00):
aparecimento de novos credos religiosos. 01. Católica romana ou Melquita
No que diz respeito às pessoas, o 02. Protestante tradicional (51 deno-
Censo de 1970 abrangeu, entre outros minações diferentes)
aspectos, a religião. Como no anterior, 03. Protestante pentecostal (58 deno-
neste, quando se tratava de crianças, foi minações diferentes)
atribuída a religião materna. No entanto, 04. Espírita Kardecista (7 denomina-
quanto às opções de declarações, apenas ções diferentes)
cinco registros são apresentados aos 05. Espírita afro-brasileiro (50 deno-
brasileiros (católica romana, evangélica, minações diferentes)
espírita, outra, sem religião). 06. Religiões orientais (8 denomina-
Os censos a partir de 1980 ampliam ções diferentes)
a riqueza de investigação dos censos 07. Judaica ou Israelita
anteriores e contam agora com o processo 08. Outras religiões (14 grupos reli-
de informatização das informações giosos não identificados com ne-
necessárias para suprir as demandas nhum dos outros grupos)
dos estudiosos em busca de tabulações, 09. Sem declaração
cruzamentos de variáveis, além dos 00. Sem religião (Ateu/nenhuma)
resultados oficiais publicados no censo. Apesar do registro de diversas
Grandes inovações desse censo denominações diferentes para cada
foram o desenvolvimento e a utilização categoria religiosa, elas não são
de um sistema informatizado de discriminadas na divulgação dos dados.
acompanhamento da coleta, o que A partir do Censo de 19915, o IBGE
levava ao conhecimento, semanalmente, passa a contar com a parceria do
do número de setores concluídos e de Instituto de Estudos da Religião (ISER) -
pessoas recenseadas por sexo, bem como uma organização da sociedade civil -, na
o tipo de questionário utilizado. Pela classificação das religiões com o objetivo
primeira vez, também, a divulgação de de conhecer e identificar as novas
um resultado preliminar foi realizada religiões e manter a comparabilidade
(Metodologia Censo, 2000). com os censos anteriores. O quesito é
A fase de codificação consistia na aberto, não pré-codificado, recebendo
aplicação e posterior verificação dos o código apenas depois da apuração.
códigos, que tinham como função Assim, nesse censo, a classificação
transformar as declarações contidas da variável religião contava com 12
nos questionários em informações categorias, subdivididas pelas respectivas
codificadas com o objetivo de um exame denominações (ANEXO 1)6.
mais fiel possível dessas declarações. Em 2000, o Censo contava com um
Alguns quesitos já eram pré-codificados, banco descritor com textos previamente
como o religião, e seguiam um rigor no definidos. O processo de codificação
procedimento para evitar o mínimo de se resume à comparação dos textos
erros possível. lidos com os textos armazenados no

22 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


banco, transformando-os em um código 1. SEM RELIGIÃO – em 2000, esse 7. Como servidora da casa
e especialista da área de
numérico. Esse processo foi realizado grupo era fechado em apenas um Sociologia da Religião,
através de um sistema informatizado, código (00). Em 2010, foi aberto em contribui no Censo 2010,
chamando atenção em
especialmente desenvolvido para o três subgrupos: Sem religião (00), alguns pontos, que foram
Censo Demográfico 2000. Os quesitos Agnóstico (01) e Ateu (02); discutidos juntos com os
pesquisadores do ISER,
sobre religião tinham, no questionário 2. O que antes era definido como Christina Vital, Paulo
da amostra, formato texto, ou seja, não EVANGÉLICA SEM VÍNCULO Victor Leite Lopes e Clemir
Fernandes.
eram pré-codificados (Codificação INSTITUCIONAL passou a ser
Censo 2000). definido como EVANGÉLICA NÃO
Com base na declaração do DETERMINADA, por considerarmos
entrevistado, registrou-se a religião que estava havendo um equívoco
professada. Aquele que não professava na classificação das declarações
qualquer religião foi classificado sem quando elas apareciam de forma
religião; para a criança que não tinha genérica, por exemplo, evangélico,
condição de professar sua religião, foi crente, protestante, entre outras
registrada a da mãe. Assim, as religiões denominações. Foram remanejados
no Censo 2000 contavam com a seguinte para o grupo 490 (Evangélica Não
classificação: católica apostólica romana, Determinada) todos os textos do
evangélica (de missão, de origem antigo grupo 491 (Evangélica Sem
pentecostal, outras religiões evangélicas), Vínculo Institucional). Em todos os
espírita, espiritualista, umbanda, demais grupos em que se lia Evangélica
candomblé, judaica, budismo, outras Sem Vínculo Institucional, passou-se
religiões orientais, islâmica, hinduísta, a ler Evangélica Não Determinada;
tradições esotéricas, tradições indígenas, 3. Foi criada a terminologia MÚLTIPLO
outras religiosidades, sem religião e não- PERTENCIMENTO, para as
determinadas (ANEXO 2). declarações de dupla ou mais pertença
Em 2010, o censo utilizou um religiosa. Embora o censo já registrasse
computador de mão (Personal Digital esse dado, ele vinha nomeado de
Assistant-PDA), onde foi inserido o NÃO DETERMINADO. O Grupo
banco descritor oriundo do Censo 89, que, até então, denominava-se
2000, facilitando ao recenseador o NÃO DETERMINADA passou a se
registro das religiões declaradas. Esse chamar NÃO DETERMINADA E
banco foi enumerado de acordo com MÚLTIPLO PERTENCIMENTO.
a estrutura classificatória. Assim, E, como sempre acontece quando,
quando o recenseador inseria três em período intercensitário, um grupo
letras iniciais da religião declarada no religioso se sobrepõe em números à
campo previsto para essa descrição, categoria em que está inserido, criou-
podia encontrar a religião citada, já com se o subcódigo 455 para o grupo 45,
código classificatório. Quando isso não OUTRAS IGREJAS DE ORIGEM
ocorreu, a nova declaração foi digitada PENTECOSTAL/NEOPENTECOSTAL,
e, portanto, acrescentada ao banco de para inserir a IGREJA MUNDIAL DO
descritores pré-existente. PODER DE DEUS.
O Censo 2010 continuou com a
O CENSO RELIGIÃO EM DEBATE
mesma estrutura de 2000, salvo algumas
modificações para que a nova estrutura O resultado do Censo 2010 com os
contemplasse melhor a dinâmica das dados de religião foi aguardado com
mudanças já verificadas em 2000. ansiedade pelos pesquisadores da
Nesse censo, o IBGE contou com a religião no Brasil. Mas, ao mesmo tempo
assessoria da socióloga Christina Vital, em que atualizou o número de confissões
representante do ISER. Após algumas religiosas, trouxe várias questões e
reuniões e discussões, fizemos algumas dúvidas formuladas por pesquisadores
modificações7. externos ao IBGE que questionaram

OS LIMITES DO CENSO NO CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO // 23


a confiabilidade dos dados do Censo, censitários pela equipe técnica
em razão de alguns resultados não responsável pela elaboração e execução
esperados. Essas dúvidas foram temas de do Censo. Cada unidade da federação
debates ocorridos logo após a divulgação conta com o número necessário de
dos resultados censitários. Como recenseadores e supervisores, que passam
participante de alguns desses debates, por diversas etapas de treinamento.
creio que a melhor forma de elucidar No Censo Demográfico de 2010, além
essas dúvidas em relação à confiabilidade do ensino à distância, o treinamento
é elencar cada uma. contou com aulas presenciais e uma
Coleta dos dados – Uma das maiores rotina de dez dias consecutivos, na qual,
indagações dos pesquisadores é sobre através do material didático, que consta
o processo de coleta das declarações de manuais, cadernos de exercícios,
da população. As dúvidas vão desde a vídeos-aula e CDs, os recenseadores
eficácia do treinamento do recenseador aprenderam como funciona o Censo,
até a forma de coleta, propriamente a importância de fazê-lo corretamente,
dita. Portanto, envolvem desde aspectos quem são e como classificar os moradores
subjetivos e até técnicos que vão além dos e domicílios, além de como funciona o
limites das informações censitárias, pela PDA, que foi o instrumento de trabalho
sua própria natureza, que é de pesquisa durante a coleta de dados nas entrevistas.
quantitativa. Após o treinamento, os recenseadores
No entanto, a instituição prima têm seus conhecimentos avaliados e

HÁ MUITO OS PESQUISADORES DA RELIGIÃO NO BRASIL TÊM SE


QUESTIONADO E QUESTIONADO O IBGE SOBRE A UTILIZAÇÃO DE APENAS
UMA PERGUNTA PARA CONHECER A RELIGIÃO DA POPULAÇÃO E, AINDA,
SOBRE ESSA PERGUNTA NÃO TER UMA OUTRA DE APOIO, PARA FACILITAR
O ENTREVISTADO NA SUA RESPOSTA. É NORMA DE TREINAMENTO, PARA
QUESTÕES DE AUTODECLARAÇÃO, NÃO HAVER MAIORES ESCLARECIMENTOS
DA QUESTÃO PARA EVITAR INDUÇÃO NA RESPOSTA.

por seu compromisso de “Retratar o recebem ainda dicas de como realizar as


Brasil com informações necessárias entrevistas e como se comportar diante
ao conhecimento da sua realidade e de possíveis adversidades.
ao exercício da cidadania.” (Missão Quesitos que são de autodeclaração,
Institucional). Para isso, durante o como cor e raça, deficiência e religião
Censo Demográfico, pesquisa de recebem mais atenção, por tratarem de
maior amplitude do país, cujo objetivo aspectos mais subjetivos. Portanto, para
é apresentar um retrato do perfil da apreender os dados da população, os
população e as características de seus recenseadores são alertados para realizar
domicílios, prepara-se uma verdadeira as entrevistas seguindo rigorosamente
operação antes de se ir a campo. Quase as instruções de preenchimento do
todo o quadro da instituição, que está questionário, sendo orientados a lerem
presente no país inteiro, é inserido nessa as perguntas conforme aparecem no
atividade. questionário, oferecendo as opções de
Durante a preparação do Censo, respostas (quando houver) e marcar
recenseadores são contratados, por as respostas recebidas. Só pode ser
meio de concurso público, para suprir a oferecida ajuda, caso o informante não
demanda da instituição por pessoas que tenha entendido a pergunta, que deve
vão para as ruas fazer o recenseamento, ser repetida diversas vezes, se necessário.
além do treinamento de supervisores Por se tratar de uma questão aberta e

24 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


de autodeclaração, no caso da religião, evitar indução na resposta. A pergunta 8. A socióloga Cecília
Loreto Mariz (UERJ)
em particular, o recenseador é orientado deve ser feita tal qual aparece escrita no tem sido uma importante
a ler a questão “Qual é a sua religião ou questionário. interlocutora nessa temática
e nossas conversas me
culto?” e aguardar a resposta, que deve Mas, de fato, isso parece um problema, estimularam a produzir
ser inserida no PDA. O recenseador não dada a nossa tão complexa identidade esse texto.

pode orientar a resposta, apenas registrá- religiosa. Como aponta Pierre Sanchis,
la, o que nos leva para outro item, o em entrevista à Revista do Instituto
banco descritor das religiões. Humanista Unisinos (IHU Online):
O banco descritor, a estrutura “Dizer-se católico ou umbandista, até
classificatória e a classificação das proclamar-se evangélico, não será mais
religiões – Em 2010, com a inovação unívoco (...). Continua-se aderindo
tecnológica, o banco descritor, contendo a uma identidade, mas escolhe-se o
todas as declarações oriundas do Censo conteúdo dessa adesão” (Sanchis, 2012).
2000, classificadas e pré-codificadas, O que o autor está dizendo é que o
foi inserido no PDA. O objetivo era pluralismo religioso dos indivíduos
facilitar e agilizar o processo de registro parece difícil de ser capturado na questão
e armazenamento dos dados. Assim, “Qual a sua religião ou culto?”, tornando-
quando o recenseador digitava a religião se explicitamente necessária uma
declarada, verificava se já havia esse segunda pergunta, tal como “Tem outra
texto, confirmava com o entrevistado religião que você diria sua também?”,
e registrava. Caso ainda não houvesse conforme sugere, ou, ainda, “Qual a
registro da declaração, o recenseador sua religião, culto e igreja?”, conforme
incluía o novo texto, que seria sugestão de Cecília Mariz8. Para esses e
devidamente codificado e classificado outros especialistas, o objetivo é ampliar
quando da apuração. o conhecimento sobre a identidade
Conforme já foi dito anteriormente, no religiosa do brasileiro.
Censo de 1991, com a assessoria do ISER, Durante os debates pós-divulgação
foi criada uma estrutura classificatória do Censo 2010, muitos apontaram
para as religiões, necessidade oriunda da exemplos de entrevistados pertencerem
quantidade de novos grupos religiosos a um grupo religioso e declararem outro.
que surgiam desde o censo de 1970. Os mais conhecidos são umbandistas e
Até então, as religiões eram registradas candomblecistas, entre outros religiosos,
em cinco grandes grupos: católicos a exemplo dos afro-ameríndios, que
romanos, protestantes, espíritas, se declaram católicos ou espíritas e até
ortodoxos e israelitas. A partir de 1991, mesmo espiritualistas. Já nos censos de
e nos censos seguintes, essa estrutura foi 40, 50 e 60, Cândido Procópio (1973)
utilizada e aperfeiçoada em função da chamava a atenção para a “dupla definição
própria dinâmica religiosa da população, religiosa” de adeptos da umbanda e
mas sempre com a preocupação de candomblé, que se declaravam católicos
manter a comparabilidade com os censos ou espíritas para não serem perseguidos
anteriores. pela polícia da época, que considerava
O que se pergunta, o que se responde tais religiões como práticas ilegais. Hoje
– Há muito os pesquisadores da essa perseguição religiosa já quase não
religião no Brasil têm se questionado e existe e essa postura ainda persiste e
questionado o IBGE sobre a utilização poderia explicar o baixo registro das
de apenas uma pergunta para conhecer tradições religiosas afro-brasileiras
a religião da população e, ainda, sobre devido ao preconceito religioso ainda
essa pergunta não ter uma outra de existente no país.
apoio, para facilitar o entrevistado na sua Embora haja na estrutura
resposta. É norma de treinamento, para classificatória do Censo Demográfico
questões de autodeclaração, não haver de 2010 um código para MÚLTIPLO
maiores esclarecimentos da questão para PERTENCIMENTO, é controverso

OS LIMITES DO CENSO NO CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO // 25


o resultado de múltipla pertença. a autodefinição enquanto pertencente
Considerando que o entrevistado tenha à Assembléia de Deus concedia um
respondido pertencer a duas ou mais status e proporcionava um testemunho,
religiões diferentes, uma vez que não há por outro, para o leigo, mesmo fiel de
uma pergunta de apoio que valide essa uma denominação, a terminologia
resposta, esse resultado permanece ainda pentecostal ou neopentecostal lhe era
obscuro devido aos possíveis motivos desconhecida, então, declarar a religião
apontados anteriormente. pela igreja que pertencia parecia mais
Outro fato importante de se notar e coerente. A religião se confundiu com a
que me chamou atenção quando comecei denominação.
analisar os dados do Censo foi o número Portanto, ao ser questionado “Qual a
de declarações de denominações, sua religião ou culto”, o leigo (a maioria
principalmente evangélicas, ao invés dos entrevistados) não identifica a
da declaração genérica como católica, denominação a que pertence com
protestante, espírita, israelitas, entre um grupo religioso e responde “sou
outras, conforme aparecia nos primeiros evangélico tradicional” ou “sou
censos e que parecia melhor representar evangélico pentecostal”. É preciso levar
as grandes orientações religiosas. em conta também que o recenseador
Até o Censo de 1970, divulgava-se não é um pesquisador em religião
apenas dados dos principais grandes e geralmente desconhece as várias
grupos religiosos existentes no país classificações das religiões. A função
naquela data. Em 1980, começam dele é registrar a informação, cabe aos
aparecer as declarações em forma pesquisadores interpretá-la.
de denominações, mas a divulgação As autodefinições “católico”,
continua sendo pelos grupos, que “evangélico”, “pentecostal”, “espírita”,
são definidos em 10 categorias “umbandista”, entre outras, seriam
codificadas. Nesse censo, já aparecem repostas adequadas para perguntas
a classificação espírita afro-brasileiros, fechadas e reduziriam bastante o
separando-os dos espíritas kardecistas, trabalho dos pesquisadores do IBGE em
as religiões orientais e é o primeiro a classificar os grupos religiosos ou outros
separar os protestantes tradicionais quesitos. No entanto, além de nem
dos pentecostais. Foram registradas todos os fiéis ou religiosos conhecerem
58 denominações diferentes de igrejas a classificação de suas igrejas (isso,
pentecostais. principalmente, para os evangélicos),
A partir daí, uma inequívoca expansão a riqueza de informações para os
denominacional vai se dar nas declarações pesquisadores da religião se perderia,
dos entrevistados, muitas vezes difíceis deixando também de contabilizar novas
de serem classificadas. Já nesse período, igrejas e novos credos religiosos ou
e nos anos posteriores, a classificação filosóficos. Portanto, a vantagem dessa
dos pentecostais em pentecostalismo metodologia é possibilitar a apreensão de
clássico, deuteropentecostalismo e novas denominações e grupos religiosos.
neopentecostalismo estava sendo É necessário esclarecer, todavia,
discutida por pesquisadores das que todas as opções de respostas são
religiões, uma vez que o pentecostalismo registradas no PDA e devidamente
brasileiro já se mostrava bastante classificadas conforme a estrutura
heterogêneo (Mariano, 2010) em relação classificatória existente. Alguns líderes
às suas práticas religiosas. Para os religiosos temeram a classificação
pesquisadores, fazer essas distinções era errada de suas igrejas e orientaram os
algo importante e complexo. Para os fiéis seus fiéis a responderem de “forma
entrevistados, se autodefinir pertencente correta” sua religião. Como exemplo,
a um grupo religioso específico também registra-se o caso de uma liderança
era importante. Porém, se por um lado do “espiritismo kardecista”, que, por

26 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


causa de conhecimento equivocado da se sentiu representado, uma vez que 9. http://www.
avozdoespiritismo.com.br/
metodologia do Censo, divulgou uma respondeu “sem religião” ao invés de censo-2010-espirita-muita-
nota para seus fies, como segue: “ateu”. Talvez pelo fato de apenas no atencao-ao-responder-
sobre-religiao-responda-
Censo 2010: Espírita, muita atenção ao res- Censo 2010 essa opção ter sido oferecida, kardecista-veja-por-que
ponder sobre religião. isso o tenha confundido. Questionado 10. Foi com muita
Responda Kardecista. Veja por que
sobre o fato dele não ter respondido tristeza, que, durante a
“ateu”, respondeu ter ficado na dúvida se produção desse texto, tomei
REPASSE PARA TODOS OS SEUS AMI- conhecimento da partida
haveria essa opção. de Clara. Perdemos uma
GOS ”KARDECISTAS” colega, uma amiga e uma
Portanto, para os próprios fiéis, há importante interlocutora no
Caros amigos e amigas de ideal espírita,
diferentes formas de se autodefinir tema da religião no Brasil.
Como já é de conhecimento de muitos, a pertencente a um grupo religioso e essa Certa de que seus trabalhos
serão sempre lembrados e
partir do dia 2 de agosto o IBGE iniciará
pluralidade de definições aparecerá na citados, me resta a oração
o CENSO 2010 (...). Um questionário bem
maior, que durará em torno de 50 minutos forma de várias declarações diferentes de que ela descanse em paz.

sua aplicação. Neste último constará uma para identificar-se com um só gênero
pergunta, cuja resposta é de fundamental religioso, seja ela evangélica, espírita ou
importância para nós Espíritas. A pergunta outra.
é: Qual a sua religião? Claro, que muitos de
nós responderemos: ESPIRITA. OS LIMITES DO CENSO NO IMENSO
Infelizmente, se respondermos assim, se- CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO –
remos cadastrados como SEM OPÇÃO DIFICULDADES E DESAFIOS
RELIGIOSA. É que para o IBGE, o termo
ESPIRITISMO é considerado genérico, ou Os evangélicos não determinados e
seja, pode se referir a toda religião, culto sem vínculo institucional
ou seita que envolva questões do campo
da mediunidade. Nós sabemos que muitas
Em setembro de 2012, a Pontifícia
pessoas adeptas da Umbanda, por exem- Universidade Católica do Rio de Janeiro
plo, se consideram Espíritas umbandistas (PUC-Rio) promoveu o debate O Censo
e o mesmo equivoco ocorre com outras e as religiões no Brasil. Representantes
denominações como espírita esotérico, es- de diversas religiões e pesquisadores
pírita de mesa, etc. O fato é que ao invés
de religião no Brasil discutiram os
de respondermos ESPÍRITAS, temos que
responder KARDECISTAS, pois é esta a
resultados do Censo 2010. As variações
denominação dada pelo IBGE ao que para dos números, que de alguma forma
nós é simplesmente ESPÍRITA. O mesmo mudaram a configuração do campo
acontece com aqueles que responderem religioso brasileiro, foram questionadas
CATÓLICO ou EVANGÉLICO, os quais, por alguns debatedores. A suspeita
para o IBGE, também são considerados
sobre os procedimentos metodológicos,
termos genéricos e serão cadastrados
como “Sem opção religiosa”.9 problemas na coleta dos dados e na
classificação e até inconsistência dos
O IBGE respondeu a essas e outras dados colocaram o IBGE na berlinda. É
dúvidas sobre a metodologia utilizada, importante ressaltar que estes aspectos
esclarecendo que independentemente são importantes no sentido que, para além
de como o fiel se declarasse, sua religião das possíveis questões metodológicas,
seria corretamente classificada. Para esse representam também a inquietude dos
caso, por exemplo, há diversas entradas demandantes por informações sobre
no banco descritor (formado a partir religiões, credos filosóficos e religiosos
das declarações de censos anteriores): em voga ou emergentes no país.
cardecista, kardecismo, espiritismo, A socióloga Clara Mafra10, que
espírita, doutrina espírita, Allan Kardec, representou o ISER na assessoria ao
André Luiz, etc, todas reconhecidas IBGE no Censo 2000, questionou
como do grupo 61 ESPÍRITA, código a consistência dos números no que
610, espírita, kardecista. chamou de “a tecnologia da produção do
Outra dúvida que surgiu veio do número” (Mafra, 2012). Para ela, assim
presidente da Associação Brasileira de como para outros estudiosos, o uso de
Ateus e Agnósticos (ATEA), que não apenas uma pergunta é insuficiente

OS LIMITES DO CENSO NO CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO // 27


para dar conta dos números de religiões ou neopentecostais, só identificáveis
no Brasil, chamando esse limite de quando são nominalmente completas ou
inconsistência metodológica. é possível deduzir através da forma usual
O fato é que o IBGE produz de seus fiéis se referirem a elas, como
informações. O instituto divulga em por exemplo, “Universal”, “Mundial do
números as informações prestadas para Poder de Deus” “Renascer” e outras.
a população brasileira, especialmente Há ainda as declarações dadas de forma
nos Censos Demográficos, a cada dez mais genérica, como “evangélico”,
anos, assim como provenientes de outras “pentecostal”, “confissão protestante”,
pesquisas realizadas pela instituição. No “evangélico bíblico” “crente”, entre
caso da religião, cabe ao IBGE divulgar outras, que denominamos evangélica
o número de denominações religiosas não determinada.
e filosóficas da população. O Instituto Quantos aos “evangélicos não
não trata das definições conceituais dos determinados”, é preciso notar que essa
grupos religiosos e não tem como analisar é uma categorização feita após a coleta e
a intenção do entrevistado quando respeitando a estrutura classificatória. O
responde uma religião que não confessa. entrevistado não se declara “evangélico
É trabalho para nós, pesquisadores da não determinado” ou “sem denominação”.
religião, inclusive do IBGE, de posse dos O agente censitário não tem autonomia
dados, interpretá-los o melhor possível (é treinado para isso) para modificar a
em nossos estudos. Essa questão foi declaração do entrevistado. Também
mencionada pelo sociólogo Marcelo não tem conhecimento para definir
Camurça (2011), quando da divulgação as categorizações, conhecimento que
dos dados do Censo 2000, que já apontava também não possuem os entrevistados.
as dificuldades de conciliar objetividade São rarísssimas as declarações
(dos números) com as subjetividades, “pentecostais”, “neopentecostais”,
mitos e ideologias do campo religioso. “protestantes”, categorias conceituadas
O IBGE sempre busca assessoria da pelos estudiosos da religião.
sociedade organizada (instituições ou Esses tipos de declarações levantaram
organizações envolvidas no assunto) diversas discussões e questionamentos
quando percebe uma necessidade sobre a queda dos evangélicos
de classificar melhor as informações tradicionais e o significativo crescimento
de um determinado quesito que de evangélicos não denominacionais.
investiga. No caso da religião, o A questão que nos fazemos é: quem
instituto recorreu ao ISER, que criou são de fato os evangélicos não
uma estrutura, classificações e até denominacionais? Há que se ter presente
subclassificações, tornando o quadro que toda classificação ou reclassificação
descritivo e classificatório das religiões inclui ou exclui determinados aspectos
muito mais amplo. Até que ponto das informações analisadas ou coletadas.
esse modelo não foi prejudicial para o Analisando mais detalhadamente a
levantamento censitário? Numa lista estrutura elaborada com a assessoria do
de 138 subcódigos, são distribuídas em ISER, utilizada para a classificação das
58 códigos as declarações que vêm do religiões, acredito ser possível enxugar o
campo (ANEXO 3). Em 2010, duas mil e número de classificações sem prejudicar
sessenta oito (2068) respostas diferentes a análise dos dados e interferir na série
foram analisadas e reagrupadas na histórica dos censos anteriores. Na
estrutura classificatória, respeitando essa ânsia de registrar e identificar o maior
codificação. Talvez aí encontremos o número de denominações possíveis,
calcanhar de Aquiles das classificações. abriu-se demais o leque de classificação
Cerca de novecentas declarações de denominações, inchando a estrutura
são de origem ou se originam de com denominações evangélicas não
denominações evangélicas pentecostais tão visíveis ou que não possuem

28 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


representação estatística. Esse modelo determinístico, imputando à religião 11. Após análise dos dados,
verificou-se, em 2010, a alta
de classificação não estaria pulverizando católica apostólica romana todos os incidência de classificação
demais as declarações evangélicas, valores imputados à igreja apostólica católica apostólica
brasileira, podendo ter
dificultando a classificação dos dados? brasileira considerados como erro havido dificuldade de
Outro trabalho importante seria a de preenchimento11 Embora uma classificação entre as
denominações das religiões
identificação pelo ISER das declarações nota sobre esse problema tenha saído católicas apostólicas romana
não identificadas denominacionalmente e na publicação dos dados, uma nota e brasileira. Em 2000, o
IBGE identificou que a
mal definidas. Embora essas informações mais detalhada sairá na publicação denominação católica
não estejam disponíveis para o público, “Metodologia do Censo 2010”, prevista brasileira foi adotada
em 99,8% das vezes em
seria possível listar algumas delas, para para ser lançada em breve.
que a religião católica
que fossem identificadas e, assim, melhor Além desse incidente, não houve apostólica brasileira foi
informada. Após análise,
classificadas, fato que possivelmente qualquer outro problema que foi decidido divulgar, em
enriqueceria as classificações existentes. pudéssemos associá-lo à nova tecnologia 2010, o dado de católica
apostólica brasileira
De qualquer forma, os números usada no Censo 2010. No entanto, uma estritamente comparável
do Censo 2010 mostraram que, análise sobre até que ponto é positivo com o ano de 2000, ou
seja, a denominação
independente da classificação inserir todo o banco descritor (bastante católica brasileira. Em
denominacional, para as cinco principais extenso) no PDA, é necessária. 2000, foram 500.582
declarações e, em 2010,
classificações, a tendência dos censos O IBGE se responsabiliza pelo sigilo da 560.781. Dessa forma, os
anteriores se manteve, com declínio dos informação sempre que esta for capaz de registros cujos descritores
da variável de religião
católicos, crescimento dos evangélicos, identificar quem prestou a informação, eram católica apostólica
espíritas, umbandistas e praticantes fora isso, toda informação prestada brasileira e católica do
Brasil, os quais totalizavam,
respectivamente, 8.439.676
e 801.881, e tiveram um
A PLURALIDADE DENOMINACIONAL NO BRASIL NOS LEVA A QUESTIONAR, tratamento determinístico,
sendo esses imputados
ATÉ QUE PONTO AO DESAGREGARMOS CADA VEZ MAIS AS NOMENCLATURAS à denominação religiosa
RELIGIOSAS, PRINCIPALMENTE OS EVANGÉLICOS, NÃO ESTAMOS DEIXANDO DE católica apostólica
romana. Conf.: ftp://
PERCEBER E IDENTIFICAR ESSE GRUPO SOCIAL QUE EMERGE CADA VEZ MAIS ftp.ibge.gov.br/Censos/
Censo_Demografico_2010/
FORTE E QUE COMEÇA A FAZER PRESENÇA COMO “IDENTIDADE EVANGÉLICA Caracteristicas_Gerais_
Religiao_Deficiencia/
caracteristicas_religiao_
deficiencia.pdf.
do candomblé mantendo-se estáveis. pela população nos Censos (fornecida
Observou-se também o crescimento dos para fins exclusivamente estatísticos)
sem religião, ainda que em ritmo inferior é divulgada em números. Todas essas
à década anterior. informações estão disponíveis em
Com a introdução do computador de suas publicações (via site, venda ou
mão e o registro das declarações limpas biblioteca). Todas as metodologias
e classificadas, oriundas do Censo utilizadas, material de divulgação e
2000, tentou-se facilitar e agilizar a dados técnicos estão disponíveis para
contabilidade das informações. Ao consulta, inclusive os microdados das
digitar as primeiras três letras, um pesquisas, quando estes não identificam
leque de declarações se abria para o o informante. Portanto, todas as
recenseador que deveria conferir e informações presentes nesse artigo são
registrar a opção declarada. Portanto, de divulgação pública.
por esse motivo tivemos um problema
com a declaração “Católica Apostólica CONSIDERAÇÕES FINAIS
Brasileira” (Igreja Católica Brasileira). Há muito tempo, especialistas da
Em função de, na ordem alfabética, religião têm falado em diversidade
esta vir primeiro do que a “Católica religiosa ao analisarem a situação do
Apostólica Romana”, verificou-se a campo religioso brasileiro. A despeito
alta incidência de classificação da dos contrários a essa diversidade
primeira. Após consulta e acordo como (tínhamos em Antônio Flávio Pierucci,
o ISER, o IBGE fez um tratamento falecido em 2012, o maior crítico dessa

OS LIMITES DO CENSO NO CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO // 29


12. Disponível teoria), os estudiosos da religião ainda mente nada a ver com religião. Muito pelo
em: http://www.
falam em diversidade ao se referir ao contrário! O verdadeiro Evangelho, ainda
ministeriogracasobregraca.
que muitos o considerem um derivado da
com/textos/textos9.htm. mapa religioso brasileiro. No entanto,
religião judaica, se opõe a qualquer tipo de
13. Ibid, p. 18. podemos perceber através dos números expressão religiosa, mesmo à sua religião
e dos textos vindos do campo uma de origem. Evangelho, entre outras coisas,
multiplicidade de formas de se declarar é sinônimo de liberdade. Já as religiões, ao
pertencente a uma corrente religiosa. menos para mim, são sinônimos de prisão,
Do culto evangélico ao terreiro que visto que todas elas tendem a prender seus
adeptos em seus dogmas e diretrizes, que,
frequenta, a identificação com a claro, são todos frutos da mente humana
instituição religiosa está presente na (...) Evangelho e religião estão em completa
maior parte das respostas dadas pelos oposição. Um não pode conviver com o ou-
entrevistados ao censo. Mas, essa tro. Logo, ser evangélico não quer dizer ser
identificação com a denominação a que religioso. (Apóstolo Cristiano França,s/d)12
pertence é maior entre os evangélicos. É preciso, então, pesquisar com
A maioria dos especialistas se debruça mais afinco, quem são os evangélicos
na análise “queda do catolicismo e denominacionais, por que assim
crescimento dos evangélicos”, e os censos se declaram; quem são os não
mostram que essa tendência vem se denominacionais, por que estão deixando
mantendo. Mas, merecedor de melhor de se identificar com uma denominação
análise é o crescimento dos evangélicos, e quem são os sem religião, levando
sejam eles denominacionais ou não, e em conta, que, dentro dessa categoria,
dos sem religião. podem estar diversos evangélicos que,
O que podemos perceber com os por razão doutrinária, dizem não ter
dados é que os evangélicos crescem e, religião.
junto com esse crescimento, modificam- Outro ponto a se considerar é a
se as formas de se declarar evangélico. classificação das categorias religiosas, no
Até o Censo de 1970, classificavam-se na que Cândido Procópio (1973) denominou
nomenclatura “evangélicos” todos que classificou de critério histórico-cultural.
assim se declaravam. A partir de 1980, O autor chamou atenção para esse fato
foi possível perceber o crescimento analisando os censos de 40, 50 e 60.
das igrejas evangélicas pentecostais Segundo ele, “as religiões enumeradas
através da forma como os entrevistados pelos censos nacionais constituem formas
declaravam seu pertencimento. Foi de organização instituicional que mantém
necessária, assim, a criação de novas certa unidade doutrinária e organização
nomenclaturas que dessem conta do eclesiástica” (Procópio, 1973:18), ou seja, o
grande número de declarações de catolicismo e o protestantismo ocupavam
denominações religiosas que surgiram lugar de destaque na classificação
na apuração dos dados. Era o começo de censitária porque representavam um
uma identificação com a denominação patrimônio histórico e cultural, assim
que pertencia, com o líder, com o grupo. como classes sociais emergentes. Religiões
Fazer parte de uma comunidade era de caráter mais funcional (acudir uma
mais importante do que ter uma religião população mais carente), como espírita,
“genérica”, ser denominacional era mais umbanda, candomblé e os recém-chegados
importante do que ter religião. evangélicos pentecostais, “estão de fora dos
Perguntar “qual é a sua religião” censos, porque são integrantes das classes
para um evangélico, mas do que para sociais menos favorecidas”13 (p.18).
qualquer outro crente, pode resultar em Nessa linha, tendo a pensar que
um discurso tal como o abaixo, retirado alguns pesquisadores não veem com
de um site de uma igreja evangélica. simpatia ou até com preconceito a não
Vários casos como esses podem ser identificação denominacional (houve
observados. um certo alvoroço com o aumento dos
Na verdade, o Evangelho não tem absoluta- não denominacionais) e o aumento dos

30 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


pentecostais (houve quem lamentasse o levantamentos sobre a religião, devemos
não crescimento das igrejas de missão, nos perguntar: pode a instituição
mesmo que o número de evangélicos satisfazer o desejo dos estudiosos da
tenha aumentado), como se, ao não religião, de apreender a pluralidade
se identificar com as denominações religiosa brasileira? Diante de tanta
históricas, os evangélicos estivessem complexidade em que está envolvido o
menos institucionalizados. No entanto, o “ser religioso” no Brasil, é possível uma
que temos percebido é que, na sociedade metodologia viável e prática para a sua
moderna, quanto mais institucionalizada realização?
e rígida uma religião, mas chances tem
de ser trocada por outra mais flexível e
liberal, e dentro de um mesmo gênero REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
religioso, mudar para uma denominação
CAMARGO, C. P. Católicos, protestantes,
menos rígida.
espíritas. Petrópolis: Editora Vozes Ltda,
A pluralidade denominacional no 1973.
Brasil nos leva a questionar, até que CAMURÇA, M. A. A Realidade das
ponto ao desagregarmos cada vez mais as religiões no Brasil no Censo do IBGE-
nomenclaturas religiosas, principalmente 2000. In TEIXEIRA, F.; MENEZES,
os evangélicos, não estamos deixando R (org). As Religiões no Brasil.
de perceber e identificar esse grupo Continuidades e rupturas. Petrópolis:
social que emerge cada vez mais forte Vozes, 2011 (2ª edição).
e que começa a fazer presença como
INSTITUTO BRASILEIRO DE
“identidade evangélica”. Cecília Mariz
GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA.
(IHU, 2012) chama a atenção para o fato
Recenseamento Geral do Brasil em
de que no universo protestante, apesar
1872. Disponível em Cedeplar/UFMG.
das discordâncias diversas e variadas
Disponível em: www.nphed.cedeplar.
denominações, para os evangélicos há
ufmg.br/pop72.
uma só Igreja de Cristo; daí transitar
entre elas não significa ruptura, mas _____. Instruções para o Segundo
uma afirmação de ser evangélico. E essa Recenseamento da População da
identidade se faz presente em eventos Republica dos Estados Unidos do Brazil
sociais (a Marcha para Jesus reúne em 31 de dezembro de 1890. Imprensa
mais de dois milhões de evangélicos Nacional, Rio de Janeiro, 1890.
interdenominacionais) e na política (a _____. População recenseada em 31 de
bancada evangélica tem forte apoio de dezembro de 1890 (Sexo, raça e estado
todas as denominações evangélicas). civil, nacionalidade, filiação culto e
Os resultados do Censo talvez estejam analphabetismo) – Directoria Geral
sugerindo, que, no que diz respeito a de Estatística, Rio de Janeiro, Officina
uma maior intimidade com o sagrado, da Estatística, República dos Estados
a identificação com a comunidade onde Unidos do Brasil, 1898.
se compartilha esses valores, seja mais _____. Instrucções para o serviço de
importante do que se identificar com a recenseamento de 1900 em sua phase
entidade religiosa mais global. É preciso final. Directoria Geral de Estatística, Rio
atentar para essas transformações. de Janeiro, Typographia da Estatística,
Apresentei aqui uma breve análise República dos Estados Unidos do Brasil,
1907.
e algumas considerações a respeito da
história censitária de religião. Deixo para _____. Recenseamento do Brasil 1920.
reflexões futuras algumas indagações. Diretoria Geral de Estatística, Rio de
É inegável a importância do IBGE Janeiro, 1923.
como uma fonte de informações sobre _____. Recenseamento geral do Brasil
a questão da religião no Brasil e, se os 1940 - Relatórios do Serviço Nacional
censos demográficos não avançaram nos de Recenseamento. Conselho Nacional

OS LIMITES DO CENSO NO CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO // 31


de Estatística, Serviço Nacional de Características Gerais da População,
Recenseamento. Rio de Janeiro, 1950. Religião e Pessoas com Deficiência.
_____. Recenseamento geral de 1950. IBGE, Rio de Janeiro, 2012.
Conselho Nacional de Estatística, JACOB. C. R. (et al.). Atlas da filiação
Serviço Nacional de Recenseamento, Rio religiosa e indicadores sociais no Bbrasil.
de Janeiro. Rio de Janeiro, São Paulo: Ed. PUC-Rio,
_____. Censo demográfico de 1960. Loyola, 2003.
VII Recenseamento Geral do Brasil, MAFRA, C. Números e Narrativas.
v1. Fundação Instituto Brasileiro de Seminário O Censo e as religiões no Brasil.
Geografia e Estatística. Departamento de PUC, RJ, 10 e 11 de setembro de 2012.
Estatística de População. Disponível em: http://puc-riodigital.
_____. Censo demográfico Brasil. VIII com.puc-rio.br/Jornal/Pais/Seminario-
RECENSEAMENTO GERAL, 1970, det a l ha-ret rato-das-relig io es-no-
v1. Fundação Instituto Brasileiro de Brasil-13526.html.
Geografia e Estatística. Departamento de MARIANO, R. Neopentecostalismo.
Estatística de População. Sociologia do novo pentecostalismo no
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demográfico de 1980. Metodologia e Paulo, 3ª Edição, 2010.
manual do usuário. IBGE, Rio de Janeiro, MARIZ, C. Pentecostalismo: mudança
1985 do significado de ter religião. In A
_____. Código complementar 1980. grande transformação do campo
Censo demográfico 1980: código religioso brasileiro. IHUonline. Revista
complementar CD 1.16. Fundação do Instituto Humanitas Unisinos, n.400,
Instituto Brasileiro de Geografia e Ano XII, 27/08/2012.
Estatística. Rio de Janeiro, 1981. MENDONÇA, A. G. O Protestantismo
_____. Metodologia do Censo de 1980. no Brasil e suas encruzilhadas. Revista
USP, São Paulo, n.67, p.48-67, setembro/
Rio de Janeiro, 1983.
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OLIVEIRA. P. A. Ucranianos na Europa
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www.uniarp.edu.br/periodicos/index.
_____. Recenseamento geral de 1991 php/professare/article/view/12.
- Manuais das atividades da apuração
OLIVEIRA, L. A. P; SIMÕES, C. C. S. O
descentralizada do censo demográfico
IBGE e as pesquisas populacionais. Rev.
de 1991.
Bras. Pop. São Paulo, v.22, n.2, p.291-302,
_____. Censo demográfico 2000. jul/dez, 2005.
Características Gerais da População.
PIERUCCI, A. F. Cadê nossa diversidade
Resultado da Amostra. IBGE, Rio de
religiosa? Comentários ao texto de
Janeiro, 2003.
Marcelo Camurça. In TEIXEIRA,
______. Censo demográfico 2000. F; MENEZES, R. (org). As Religiões
Procedimentos Operacionais para o no Brasil. Continuidades e rupturas.
Sistema de Codificação. IBGE/DPE/ Petrópolis: Vozes, 2011 (2ª edição).
CTD. Biblioteca
PORTO, W. C. Católicos e Acatólicos:
_____. Metodologia do Censo 2000. o voto do Império. Revista Online
Série Relatórios Metodológicos. Rio de Liberdade e Cidadania. Ano II, nº 5,
Janeiro, 2003. junho/setembro, 2009. Disponível em:
_____. Procedimentos operacionais para http://www.flc.org.br/revista/materias_
o sistema de codificação. Censo 2000. view8393.html?id={E398A206-A4B8-
IBGE, Rio de Janeiro, 2000. 45D1-9F97-0E74D89969C1.
_____. Censo demográfico 2010. REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS

32 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


DO BRASIL. Instrucções para o serviço
de recenseamento de 1900 em sua phase
final. Directoria Geral de Estatística. Rio
de Janeiro, Typographia da Estatística,
1907.
_____. População recenseada em 31 de
dezembro de 1890 (Sexo, raça e estado
civil, nacionalidade, filiação culto e
analphabetismo) – Directoria Geral de
Estatística. Rio de Janeiro, Officina da
Estatística, 1898.
_____. Synopse do recenseamento de 31
de dezembro de 1900. Directoria Geral de
Estatística, Rio de Janeiro, Typographia
da Estatística, 1905.
SANCHIS, P. Pluralismo, transformação,
emergência do indivíduo e de suas
escolhas. In A grande transformação do
campo religioso brasileiro. IHUonline.
Revista do Instituto Humanitas Unisinos,
nº 400, Ano XII, 27/08/2012.
SYNOPSE DO RECENSEAMENTO
de 31 de dezembro de 1900. Directoria
Geral de Estatística, Rio de Janeiro,
Typographia da Estatística, República
dos Estados Unidos do Brasil, 1905.

OS LIMITES DO CENSO NO CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO // 33


CAMPO RELIGIOSO EM
TRANSFORMAÇÃO

FAUSTINO TEIXEIRA1

1. Teólogo, professor
INTRODUÇÃO vigência de um mundo cada vez mais
no Programa de Pós-
Graduação em Ciência da secularizado. Berger assinala que, ao
Religião da Universidade Não é tarefa simples entender a contrário, “o mundo de hoje, com
Federal de Juiz de Fora presença da religião ou do dinamismo algumas exceções (...), é tão ferozmente
(UFJF), diretor de estudos
na École Pratique des religioso na contemporaneidade. Há, religioso quanto antes, e até mais em
Hautes Études (Paris- de um lado, aqueles que defendem com certos lugares” (Berger, 2001:10 ). Na
Sorbonne) e diretor do
grupo Sociedades, Religiões vigor a força da secularização, chegando visão de Berger, o que o cenário religioso
e Laicidades no Centre mesmo a falar no “fim” ou na “saída da global faculta ver é um retorno de
National de la Recherche
Scientifique, em Paris. religião”. É o caso do pensador francês movimentos religiosos, conservadores
2. A respeito da reflexão de Marcel Gauchet, na defesa da tese do ou reformadores, como no caso das
Gauchet, cf. Lott, 2013. “desencantamento do mundo”. Não que “explosões” islâmica e evangélica.
3. É um conceito ele defenda a perda de plausibilidade Mesmo a Europa, reconhecida como
empregado por Portier para
indicar o enfraquecimento
da religião no âmbito da consciência exceção mundial, em razão da presença
institucional do catolicismo de seus atores. No campo subjetivo, de indicadores da secularização,
e a diminuição de todos os
indicadores de sua presença
na França atual. VERIFICAM-SE MUDANÇAS SUBSTANTIVAS NO “LUGAR INSTITUCIONAL DA
RELIGIÃO”, E TENDÊNCIAS IMPORTANTES EM DIREÇÃO À “DESREGULAÇÃO
INSTITUCIONAL”, À “SUBJETIVAÇÃO METAFORIZANTE DOS CONTEÚDOS DA
FÉ”, À “DISJUNÇÃO” ENTRE PRÁTICAS E CRENÇAS E DE DESLOCAMENTO NA
COMPREENSÃO DA PERTENÇA RELIGIOSA5
esta permaneceria vigente, mas não tem sido cada vez mais tocada pela
mais como referência instituinte e “nova onda religiosa” (Lenoir, 2012).
organizadora do social. Como indicou Em recente análise feita sobre “as
um comentarista de Gauchet, “se antes mutações do religioso na França
a religião fora o princípio estruturante contemporânea”, Philippe Portier
indissolúvel da vida material, social sublinha a presença de dois fenômenos
e mental, hoje ela atua apenas em simultâneos: a dessubstancialização3 da
experiências singulares e sistemas de civilização católica e o reencantamento
convicção” (Steil, 1994: 37)2. Outros da civilização republicana. Se, em
autores, como Peter Berger, falam em 1952, cerca de 90% dos franceses se
ressurgência da religião, questionando declaravam católicos, essa cifra sofre
as teses tradicionais que defendem a uma radical queda em torno de 2008,

34 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


envolvendo agora não mais que 42% dos sob o impacto da individualização e 4. Ao comentar o texto
citado de Peter Berger,
adeptos, sendo os praticantes regulares da globalização, com formas novas Cecília Mariz assinala
em torno de reduzidos 8%. Por outro e inusitadas de presença e atuação. que para ele tanto a
secularização como a
lado, ocorre uma grande proliferação Como pontuou o historiador Frédéric dessecularização “são
de religiosidade, de pluralização de Lenoir, os seres humanos continuarão a processos em curso”,
e “frutos da relação
denominações religiosas, abarcando buscar respostas às incertezas no vasto dialética entre religião
em torno de 75% dos franceses. Cresce patrimônio religioso da humanidade, e modernidade”. É uma
opinião que também
o circuito dos “neo-protestantes”, bem mas não mais “como no passado, no seio partilho: Mariz, 2001, p.
como a circulação pelos meandros de uma tradição imutável ou mediante 26-27.
da “nebulosa místico-esotérica” e da um dispositivo institucional normativo” 5. Ver, por exemplo:
“espiritualidade leiga”. A cosmo visão (Lenoir, 2012:5)6. Hervieu-Léger, 1996, p.
264-270.
racionalista não tem a mesma força do Verifica-se também, num contexto
6. Ver também: Willaime,
passado, sendo agora permeada pelo religioso cada vez mais plural, o 2012, p. 23 e Willaime,
clima de incerteza de uma sociedade enfraquecimento dos exclusivismos 2008, p. 27-38.
pós-secularizada. Portier indica a religiosos, e uma compreensão mais 7. Pew Research Center. The
vigência de uma peculiar situação, fluida e aberta com respeito à verdade Global Religious Landscape.
A report on the Size and
que é ambivalente, onde coexistem “a religiosa. Em pesquisa realizada na Distribution of the World´s
aspiração em favor da autonomia com França por Yves Lambert, constata-se Major Religious Groups
as of 2010. Disponível em:
a angústia da incompletude” (Portier, uma evidente queda na taxa daqueles http://www.pewforum.org/
2012: 207). que afirmam sua convicção numa única global-religious-landscape.
aspx. Acesso em 18 de julho
O analista, atento ao momento religião verdadeira. Se em 1952 os que de 2013.
contemporâneo, se dá conta que, se de assim pensavam representavam 50% dos 8. Como tradução de
um lado o processo de secularização está declarantes, essa taxa cai para 15% em Religiously Unaffilliated,
categoria que inclui ateus,
em curso, e isso não pode ser ofuscado, há 1981 e 6% em 1998 (Lambert, 2004:335). agnósticos ou pessoas que
que reconhecer que a modernidade não O objetivo desse breve artigo será não se enquadram em
nenhuma das religiões
suscitou, como se esperava, um declínio apresentar a atual situação do campo indicadas na pesquisa.
da religião em seus diferentes âmbitos religioso brasileiro, a partir dos dados do Acesso em 18/07/2013.

ou níveis de presença, seja individual Censo demográfico de 2010, realizado 9. Ver: http://www.
pewforum.org/Unaffiliated/
ou social4. Não há como negar hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e nones-on-the-rise.aspx.
em dia a presença pública da religião. Estatística (IBGE). Mas antes, apresentar Acesso em 18/07/2013.
Segundo os dados
Mas de fato verificam-se mudanças também, de forma sintética, o panorama apresentados por Philippe
substantivas no “lugar institucional da das religiões em âmbito mundial, com Portier, os sem religião,
religião”, e tendências importantes em base em survey realizado por um dos também reconhecidos como
unchurched, constituem
direção à “desregulação institucional”, mais importantes centros de pesquisa na França cerca de 50% da
à “subjetivação metaforizante dos de opinião pública dos Estados Unidos população, enquanto na
década de 1950 envolviam
conteúdos da fé”, à “disjunção” entre da América, o Pew Research Center, apenas 7 a 8% (Portier,
práticas e crenças e de deslocamento na em relatório realizado com referência a 2012).

compreensão da pertença religiosa5. dados de 2010 7. 10. Nessa categoria


incluem-se as religiões
O que ocorre é que as religiões estão aí, africanas tradicionais, as
e também as espiritualidades laicas, que 1. PANORAMA DAS RELIGIÕES MUNDIAIS religiões populares chinesas,
as religiões americanas
não se encaixam no tradicional perfil Os dados apresentados pelo Pew nativas ou dos povos
religioso. São, sem dúvida, metamorfoses Research Center a respeito das religiões originários e as religiões dos
aborígenes australianos.
no âmbito da fé que traduzem uma mundiais, com base nos dados de
11. A categoria inclui
forma de expressão religiosa diferente pesquisa realizada em 2010, são bem as seguintes religiões:
daquela rotineira. O avanço da representativos da composição religiosa baha´i, taoísmo, jainismo,
xintoísmo, tenrikyo, wicca,
modernidade não produziu, na verdade, no tempo atual. O cristianismo continua zoroastrismo e outras.
uma menor presença da religião, mas hegemônico, abarcando 31,5% da
12. Ver: http://www.
outra forma de dinâmica religiosa: “plus população mundial, com cerca de pewforum.org/Christian/
de modernité = du religieux autrement” 2,2 bilhões de adeptos. E dentre os Global-Christianity-
exec.aspx. Acesso em
, como diz Jean-Paul Willaime. As cristãos, os católicos ocupam a primeira 18/07/2013.
religiões permanecem, bem como as posição, respondendo pela metade desse
espiritualidades, transformando-se contingente de adeptos (50%), e na

CAMPO RELIGIOSO EM TRANSFORMAÇÃO // 35


8. Como tradução de sequência, a tradição protestante, com a (12% - 134.820.000), América do Norte
Religiously Unaffilliated,
categoria que inclui ateus, inclusão dos anglicanos, outras tradições (5,2% - 59.040.000) e América Latina
agnósticos ou pessoas que evangélicas independentes e igrejas não e Caribe (4% - 45.390.000). Os hindus
não se enquadram em
nenhuma das religiões denominacionais (37%), bem como a situam-se, sobretudo, na Ásia-Pacífico
indicadas na pesquisa. Comunhão Ortodoxa da Grécia e da (99,3% - 1.025.470.000), com uma
Acesso em 18/07/2013.
Rússia (12%). O islamismo vem em menor presença no Oriente Médio e
9. Ver: http://www.
pewforum.org/Unaffiliated/
seguida, envolvendo 23,2% da população África do Norte (0,2% - 1.720.000), e
nones-on-the-rise.aspx. geral, com cerca de 1,6 bilhões de África Subsaariana (0,2% - 1.670.000).
Acesso em 18/07/2013.
Segundo os dados
adeptos, cuja grande maioria (entre 87a Os budistas têm melhor representação
apresentados por Philippe 90%) da tradição sunita. Os não afiliados8 na Ásia-Pacífico (98,7% - 481.290.000),
Portier, os sem religião, vêm em terceiro lugar, abrangendo com presença mais modesta na América
também reconhecidos como
unchurched, constituem 16,3% da população global, em torno de do Norte (0,8% - 3.860.000) e na Europa
na França cerca de 50% da 1,1 bilhões de adeptos. Destaca-se sua (0,3% - 1.330.000). As religiões étnicas ou
população, enquanto na
década de 1950 envolviam presença em países como a China, Japão regionais marcam presença mais decisiva
apenas 7 a 8% (Portier, e Estados Unidos. Com base nos dados na Ásia-Pacífico (90,1% - 365.120.000),
2012).
de 2010, o já citado relatório do Pew bem como na África Subsaariana (6,6% -
10. Nessa categoria
incluem-se as religiões
Research Center indicou o envolvimento 26.860.000) e na América Latina e Caribe
africanas tradicionais, as de 16,3% de toda a população americana (2,5% - 10.040.000). As outrasreligiões
religiões populares chinesas,
as religiões americanas
nessa categoria. Mas segundo um survey têm também presença mais ativa na
nativas ou dos povos mais recente do mesmo centro de Ásia-Pacífico (89,2% – 51.850.000),
originários e as religiões dos
aborígenes australianos.
pesquisa americano, realizado em 2012, bem como na América do Norte (3,8%
esses números cresceram, envolvendo - 2.200.000) e África-Subsaariana (3,3%
11. A categoria inclui
as seguintes religiões: agora 19,6% dos americanos adultos, dos - 1.920.000). Por fim, o judaísmo, que
baha´i, taoísmo, jainismo, quais 3,3% são agnósticos e 2,4% ateus9. envolve 02% da população mundial, tem
xintoísmo, tenrikyo, wicca,
zoroastrismo e outras. O hinduísmo ocupa a quarta posição, uma singular presença na América do
12. Ver: http://www.
cobrindo 15,0% da população mundial, Norte (43,6% - 6.040.000), mas também
pewforum.org/Christian/ com aproximadamente 1 bilhão de fiéis. no Oriente Médio e África do Norte
Global-Christianity-
exec.aspx. Acesso em
Na sequência, aparecem o budismo (7,1% (40,6% - 5.630.000) e Europa (10,2% -
18/07/2013. - 488 milhões), as religiões étnicas ou 1.410.000).
13. Le Planète des chrétiens. regionais (5,9% - 405 milhões)10, outras Os dados mais recentes, apresentados
Le monde des religions, n. religiões (0,8% - 58 milhões)11 e judaísmo pelo Pew Research Center, indicam
19 (Hors-série), 2012.
(0,2% - 14 milhões). que mais de um terço dos cristãos
14. Ibid., p. 15-17.
Quanto à distribuição geográfica, vivem hoje no continente americano,
15. Ibid., p, 21. Interessante
a comparação com os dados verifica-se que os cristãos encontram-se envolvendo cerca de 800 milhões de
de 2007, segundo o registro situados majoritariamente na Europa adeptos. Em prognóstico aventado
apresentado pelo mesmo
número especial da revista (25,7% - 558.260.000), na América Latina pelo periódico francês, Le monde des
Le monde des religions: e Caribe (24,4% - 531.280.000), e na religions, num fascículo dedicado ao
Europa (25%), Ásia (12%),
América Latina e Caribe
África Subsaariana (23,8% - 517.340.000). “planeta dos cristãos”13, estima-se que
(42%) e África (13%). Os três países com maior presença cristã o cristianismo seguirá mantendo-se
são Estados Unidos (246,7 milhões), como primeira religião mundial ainda
Brasil (175,7 milhões) e México (107,7 por um bom tempo. A previsão para o
milhões)12. Por sua vez, os muçulmanos ano de 2050 é de três bilhões de cristãos,
encontram-se mais presentes na região um número bem superior ao estimado
da Ásia-Pacífico (61,7% - 985.530.000), para os muçulmanos, em torno de 2.2
Oriente Médio e Norte da África (19,8% bilhões14. E a previsão para o catolicismo
- 317.070.000) e África Subsaariana nas próximas décadas é de uma maior
(15,5% - 248.110.000). A presença deles universalização, com registro para o
na Europa é menos destacada (2,7% - decréscimo de sua presença estatística
43.490.000). Os não afiliados encontram- na Europa (16%), de manutenção desta
se situados de forma mais viva na Ásia- mesma presença na Ásia (13%), América
Pacífico (76,2% - 858.580.000), mas Latina e Caribe (41%), e de crescimento
marcam também presença na Europa importante na África (22%)15.

36 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


2. O CENSO DE 2010 E AS RELIGIÕES NO católicos foi na ordem de 465 adeptos 16. Os fiéis católicos eram
124.976.912 em 2000,
por dia, o equivalente à população da
BRASIL caindo para 123.280.172
cidade de Curitiba. Os católico-romanos em 2010.
a. Catolicismo em queda somam hoje no Brasil, segundo os dados 17. Em pesquisa realizada
pelo Datafolha no início de
Nos dez anos que separaram os dois do censo, 123,2 milhões de adeptos junho de 2013, com cerca
últimos censos do IBGE, entre 2000 e declarados numa população de 190,7 de 3.758 entrevistados de
180 municípios do país,
2010, a população brasileira aumentou milhões de habitantes18. Mesmo assim,
registra-se um patamar
cerca de 21 milhões de pessoas, passando como mostrou Antônio Flávio Pierucci, ainda mais baixo: apenas
de 169.799 a 190.755 milhões. Os apesar desse “declínio moderado, mas 57% dos brasileiros com
idade acima de 16 anos
dados apresentados no último censo constante”, a presença católico-romana é declaram-se católicos, e
confirmam as tendências já apontadas ainda muito grande: “é católico que não apenas 17% desses católicos
participam da missa mais
no censo anterior, ou seja, de queda acaba mais” (Pieruci, 2013). de uma vez por semana.
do catolicismo, de crescimento dos Os dados do IBGE revelam que Cf. Folha de São Paulo,
21/07/2013 – Especial, p. 2
evangélicos e dos sem religião. grande representatividade da população (Católicos no Brasil).
O catolicismo romano é ainda católica encontra-se nas áreas rurais, 18. Além da Igreja Católica
preponderante, mas perde a cada década com maior porcentagem de pessoas do Apostólica Romana, há
também a presença dos
sua centralidade, passando a se firmar sexo masculino. Registra-se também adeptos da Igreja Católica
como “religião da maioria dos brasileiros”, uma queda na participação dos jovens Apostólica Brasileira (561
mil) e da Igreja Católica
mas não mais a “religião dos brasileiros”. católicos, sobretudo nas fachas etárias Ortodoxa (132 mil).
E pela primeira vez, no Censo de 2010, de 15 a 24 anos. É maior a proporção
19. Ver também a respeito a
a queda percentual dos declarantes de católicos entre aqueles com idade pesquisa realizada por Pew
católicos refletiu-se em números superior a 40 anos, que se formaram num Research Center – Te Pew
Forum on Religion & Public
absolutos, com o ritmo de crescimento período onde era mais viva a hegemonia Life, de julho de 2013:
menor dos católicos com respeito ao católica (IBGE, 2012)19. Brazil´s Changing Religious
Landscape. Roman
crescimento da população brasileira. O A redução dos efetivos da Igreja Catholics in Decline,
Protestants on the Rise.
aumento da população brasileira nos Católica ocorreu em todas as regiões do Disponível em: http://www.
últimos dez anos não foi acompanhado Brasil, mas é uma tradição religiosa que pewforum.org/Geography/
de incremento do catolicismo, que mantém sua força em alguns espaços, Brazils-Changing-
Religious-Landscape.aspx.
teve uma baixa de quase 1,7 milhões como a Região Nordeste e Região Sul, Acesso em 24/07/2013.
de adeptos16. Essa nova situação do bem como o estado de Minas Gerais, 20. No Nordeste, o estado
catolicismo vem apenas confirmar a com índices acima de 70% de adesão20. As do Piauí é o que apresenta
o maior índice de adesão:
progressiva tendência de pluralização do perdas mais importantes ocorreram nas 85,1%. E isto se reproduz
campo religioso brasileiro, bem como a regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste. em outras microrregiões
do interior deste mesmo
fragilização do peso da tradição e a busca Verifica-se não apenas uma perda estado. No caso de Minas
de alternativa individual no processo de em termos absolutos do contingente Gerais, esse índice é
também superior a 75%.
afirmação da identidade religiosa. de católicos no país, mas também Como assinalaram com
Segundo os dados do IBGE, “em reduções significativas “em áreas de acerto Cecília Mariz

aproximadamente um século, a maior crescimento demográfico, tanto e Paulo Gracino Jr,


naqueles estados “em que
proporção de católicos na população nas grandes cidades, quanto nas frentes o catolicismo se tornou

variou 7,9 pontos percentuais, reduzindo pioneiras das Regiões Centro-Oeste e patrimônio cultural, através
da patrimonialização tanto
de 99,7%, em 1872, para 91,8% em Norte” (Jacob; Hess; Waniez, 2013:11) da cultura material, quanto
das festas religiosas (...),
1970” (IBGE, 2012:89). Na sequência A retração do catolicismo não se os pentecostais parecem
dos censos, os números da declaração reflete na diminuição do cristianismo, já encontram extrema
dificuldade de penetração”
católica vão progressivamente decaindo: que o crescimento dos evangélicos vem
(Mariz; Gracino Jr, 2013:
89,2% em 1980; 83,3% em 1991; 73,6% se acentuando a cada década. Mudanças inserir página). Isto já
em 2000, e 64,6% em 201017. Os analistas são, de fato, visíveis no cenário religioso tinha sido observado com
pertinência pelas pesquisas
sublinham que o catolicismo romano brasileiro, com sinais visíveis de realizadas por Carlos
foi o “principal celeiro” de doação de pluralização, mas o traço da hegemonia Rodrigues Brandão nas
comunidades católicas de
fiéis para outras tradições religiosas cristã permanece aceso: “O Brasil não Goiás. Ele sublinha que a
ou para os assim denominados “sem está deixando de ser um país cristão, resistência à penetração
proselitista de outras
religião” (Montero; Almeida, 2000:330). embora seja menos católico, protestante religiões na Diocese de
Só na última década, a perda de fiéis tradicional ou ´evangélico de missão` Goiás “parece ser mais o

CAMPO RELIGIOSO EM TRANSFORMAÇÃO // 37


resultado da persistência de em 2010” (Campos, 2010:)21. Somando por 1.067 adesões diárias (Campos,
teias de símbolos e valores
católicos tradicionais na os católicos com os evangélicos chega- 2010).
cultura do campesinato se a uma porcentagem de 86,8%, quase Dentre as igrejas pentecostais,
local”.(Brandão, 1992:51)
90% de toda a população brasileira registra-se a pujança da Assembleia
21. Isso também já tinha
sido apontado por Pierucci,
declarante. Há que sublinhar também o de Deus (AD), responsável pela
2006. traço peculiar do catolicismo brasileiro, maior presença pentecostal no Brasil,
22. Essa categoria com suas malhas largas e seu perfil envolvendo 12,3 milhões de adeptos23.
“transformação” é chave plural. Um catolicismo que acolhe e O crescimento desta igreja na última
para entender não só o
campo católico, mas todo convive com a diversidade, “em que Deus década foi na ordem de quase quatro
o campo religioso mais pode ter muitos rostos”. Sublinha-se que milhões de membros. E impressiona
amplo. Pierre Sanchis
acentuou a sua importância “talvez seja o exemplo mais fiel de uma o seu potencial de penetração nos
para entender e explicar o tradição religiosa – dentro e fora do mais distantes e inacessíveis rincões,
“advento, desta vez inegável,
da pluralidade religiosa” no
cristianismo – de um sistema de sentido o que expressa um traço da dinâmica
Brasil.(Sanchis, 2012:37) pluri-aberto, multi-cênico e em constante pentecostal, de sua capacidade “de
23. Ou seja, 12.314.410 transformação” (Brandão, 2013)22. acompanhar a capilaridade da geografia
adeptos. E na sequência:
Congregação Cristã do b. Crescimento evangélico social e a mobilidade e o trânsito de
Brasil, com 2.289.634,
A diversificação religiosa no Brasil populações para lugares mais recônditos
Igreja Universal do Reino
de Deus, com 1.873.243 veio favorecida pelo importante e inalcançáveis do país, através de
e Igreja do Evangelho crescimento evangélico nas últimas organismos ágeis, múltiplos e funcionais”
Quadrangular, com
1.808.389. décadas. Esse específico segmento, que (Camurça, 2013: 78-79)24. E a isso soma-
em 1940 representava apenas 2,6% dos se a singular capacidade destas igrejas, e
24. Potencial que não se
visualiza mais na Igreja declarantes, teve significativa ampliação em particular da AD, de gerar laços de
católica, que “já há muito
nos últimos quarenta anos: 5,8% em confiança, de fidelidade, de auto-estima
tempo não faz frente à
expansão pentecostal pela 1970; 6,6% em 1980; 9,0% em 1991; que facultam iniciativas de ajuda mútua
cidade e, principalmente,
15,4% em 2000 e 22,2% em 2010. O na linha da transformação das condições
pelas periferias” (Almeida,
2009:43). último censo indica um número de de vida (Almeida, 2005)25.
25. Como indica Ronaldo 42,2 milhões de fiéis evangélicos. Só na A maior concentração da presença
de Almeida, “os evangélicos última década, o aumento em número pentecostal se dá nas áreas mais
não só atuam sobre o
ponto de vista individual, absoluto de evangélicos foi de 16 milhões urbanizadas do país, em particular nos
buscando a regeneração de adeptos, uma média de 4.383 fiéis por estados do Sudeste. São principalmente
da pessoa, mas como uma
rede de proteção social” dia. Esse singular crescimento deve-se, nas grandes cidades brasileiras que
(Almeida, 2009, 2005). sobretudo, à afirmação dos evangélicos se reflete essa viva presença: “As
26. A Assembleia de pentecostais, que respondem por mais microrregiões do Rio de Janeiro e de São
Deus tem presença
mais expressiva nas
de dois terços do total de evangélicos Paulo são as que apresentam os maiores
grandes cidades, como declarados no censo de 2010, ou seja, contingentes de pentecostais, com cerca
Rio de Janeiro e São
10,43% do índice de 15,4% de todo o de 1.8 milhões de fiéis em cada uma
Paulo. Mas está também
bem representada nas grupo evangélico. Com base nos dados delas, seguidas de Belo Horizonte, com
microrregiões do Norte de 2010, os pentecostais envolvem hoje 700 mil” (Jacob; Hees; Waniez, 2013:12).
e Nordeste, com forte
presença no Maranhão. cerca de 13,3% da população brasileira, Outras capitais do país ganham também
A Congregação Cristã do ou seja, 25,3 milhões de adeptos. Entre destaque nessa participação pentecostal,
Brasil, embora em queda
crescente desde 1991, tem 1991 e 2010, os pentecostais tiveram como Manaus, Belém, Fortaleza, Recife,
seus mais importantes um crescimento espantoso, passando de Curitiba, Goiânia e Brasília. Registra-
efetivos no estado de São
Paulo. Também em certo pouco mais de oito milhões para mais se ainda uma presença importante em
ritmo de queda, a Igreja de 25 milhões, num ritmo superior ao regiões rurais, como no interior das
Universal do Reino de
Deus tem seus maiores
da população brasileira, e abarcando Regiões Norte e Centro-Oeste.26Mesmo
contingentes nas capitais quase a totalidade do território nacional. assinalando esse extraordinário
dos estados, sobretudo Rio
de Janeiro e São Paulo.
Num divertido exercício, Leonildo crescimento evangélico, com forte
Campos assinala que os evangélicos atribuição da pujança pentecostal, há
conquistaram na última década cerca de que assinalar que na última década, de
4.408 novos fiéis por dia, e os de origem 2000 a 2010, esse crescimento foi menor
pentecostal, cerca de 2.124 por dia, do que o ocorrido na década anterior.
sendo a Assembleia de Deus responsável Enquanto a expansão evangélica foi

38 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


de cerca de 120% entre os anos de provavelmente ficaram subcontalizados” 27. Na avaliação de
Clara Mafra, essa queda
1991 a 2000, essa ampliação foi menor (Altmann, 2012:1128). nos números da IURD
na década seguinte, em torno de Com respeito aos evangélicos de na última década não
deve ser excessivamente
62% (Mattos, 2012). E o crescimento missão29, os dados do Censo de 2010 valorizada, em razão
pentecostal revelou-se também desigual. registram um pequeno decréscimo mesmo da peculiaridade
desse segmento evangélico,
Os dados do último censo indicam que na última década: de 4,1% para 4% marcado por uma
algumas pentecostais declinaram, como da população brasileira. Eles se fazem “membresia flutuante”
e “frouxa” adesão
é o caso da Congregação Cristã do presentes em quase todo território comunitária. Para ela,
Brasil e da Igreja Universal do Reino de nacional, mas se sobressaem em grandes não seria nada estranho
que seus frequentadores
Deus (IURD). Elas perderam fiéis em metrópoles da Região Sudeste, como Rio esporádicos pudessem
números absolutos. Na última década, de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. “perfeitamente se identificar
como ´evangélicos não
a Congregação Cristã do Brasil caiu de Mas, mesmo nessa região, houve uma determinados´” (Mafra,
quase 2,5 milhões de fiéis para quase queda percentual na presença dos 2013).Confirmar ano da
publicação
2,3 milhões. E a Igreja Universal caiu evangélicos de missão, entre os anos
de aproximadamente 2,1 milhões para de 2000 e 2010. E, curiosamente, essa 28. Ver também: Jacob;
Hees; Waniez, 2013.
menos de 1,9 milhões27. Mas há que se redução foi também verificada nas Segundo Ricardo Mariano,
assinalar que todas as denominações antigas áreas de colonização, como Rio em artigo publicado no
Jornal Folha de São Paulo,
pentecostais, incluindo a Assembléia de Grande do Sul e Santa Catarina, onde em 30/06/2012, “o inchaço
Deus, declinaram percentualmente com tais evangélicos tinham presença mais da categoria ´evangélica
não determinada`
respeito “ao seu peso dentro do grande acentuada. Nas últimas duas décadas, reduziu artificialmente
grupo evangélico” (Mariz; Gracino Jr, o crescimento mais expressivo dos o crescimento
2013). evangélicos de missão ocorreu nas pentecostal” (Em marcha,
a transformação de
A dificuldade de precisão analítica Regiões Norte e Centro-Oeste (Jacob; demografia religiosa do

na apreensão correta dos dados Hees; Waniez, 2013:11-12). país ).

sobre os evangélicos deve-se, em c. Sem religião 29. Dentre os evangélicos


de missão, sobressaem
parte, ao significativo número de fiéis Ao tratar o tema do “declínio das os batistas (3.7 milhões),
adventistas (1.5 milhão),
evangélicos classificados na categoria de religiões tradicionais no Censo de 2010”, luteranos (999 mil),
“evangélicos não determinados”. Nada Antônio Flávio Pierucci abordou o presbiterianos (921 mil) e
metodistas (341 mil).
menos do que 9,2 milhões de pessoas, “ocaso” do catolicismo e seu contínuo
perfazendo 21,8% de todo o contingente refluxo ao longo dos últimos censos.
evangélico, num patamar que envolve O autor justificou essa situação com o
5% de toda a população brasileira. clima instaurado nas sociedades pós-
Alguns analistas os identificam como tradicionais e com a decorrente crise de
“evangélicos genéricos” ou “evangélicos filiação religiosa:
sem igreja”, indicando a afirmação de Nas sociedades pós-tradicionais,
uma diversidade interna no campo et pour cause, decaem as filiações
evangélico, seja mediante caminhos tradicionais. Nelas os indivíduos
diversificados de assunção da pertença tendem a se desencaixar de seus antigos
evangélica, seja no exercício de crença laços, por mais confortáveis que antes
fora das instituições, ou na múltipla pudessem parecer. Desencadeia-se
pertença evangélica. A inserção desse nelas um processo de desfiliação em
item classificatório no Censo de 2010 que as pertenças sociais e culturais
acaba dificultando a aferição analítica dos indivíduos, inclusive as religiosas,
do real crescimento evangélico, seja dos tornam-se opcionais e, mais que isso,
evangélicos de missão ou dos evangélicos revisáveis, e os vínculos, quase só
pentecostais (Mariz; Gracino Jr, 2013)28. experimentais, de baixa consistência.
Reagindo a esta questão, o teólogo Sofrem, fatalmente, com isso, claro, as
luterano Walter Altmann assinala que religiões tradicionais (Pierucci, 2004:19).
esse “contingente adicional” prejudica a A crescente afirmação dos sem religião
percepção real dos números referentes nos dois últimos censos pode encontrar
às igrejas de origem pentecostal, mas uma pista de interpretação nessa
também às igrejas de missão, “que muito abordagem de Pierucci. Os declarantes

CAMPO RELIGIOSO EM TRANSFORMAÇÃO // 39


30. Ver também Rodrigues, que se localizam nessa categoria complementar essa reflexão com um
2012.
estão mesmo desencaixados de laços traço de dinamicidade, ou seja, sublinhar
31. Vale lembrar que
o crescimento de sem
institucionais, situando-se melhor como que esse estado pode ser passageiro, ou
religião entre os Censos de peregrinos do sentido. São pessoas que, um estado de trânsito, onde as pessoas
1991 e 2000 foi bem mais
significativo: de 4,8% da
como bem expressou Sílvia Fernandes, estão em “redefinição” de sua inscrição
declaração de adesão para estão “em redefinição de identidade”. identitária. Em artigo que aborda o tema
7,3%. Daí as previsões mais
Entre os tipos predominantes de sem dos jovens sem religião, Regina Novaes
arrojadas para o Censo de
2010, que não se realizaram. religião, encontram-se aqueles que sinaliza que identificou em suas pesquisas
32. Esse tema dos sem se desvincularam de uma religião a presença, entre os jovens, de “histórias
religião no Brasil ganhou tradicional e afirmam sua crença com de conversões e de desconversões, de
destaque em jornais da
Europa por ocasião da base em rearranjos pessoais; aqueles que trânsitos e combinações no interior
visita do papa Francisco passaram por diversos trânsitos, mas que de suas famílias multireligiosas”.
ao Brasil, com entrevistas
realizadas a respeito com os
não se encontraram em nenhum deles; Em sua pertinente análise, Regina
pesquisadores Paul Freston aqueles que mantêm uma espiritualidade reconhece que na trajetória dos jovens
e Paulo Barrera. Conf.:
http://www.liberation.fr/
leiga ou secular; aqueles que mantêm entrevistados pelo IBGE existem, de
monde/2013/07/22/des- uma filiação fluida em razão da fato, experiências de desfiliação ou
bresiliens-font-une-croix- indisponibilidade de participação mesmo desafeição religiosa, mas que
sur-les-eglises_920090.
Acesso em 31/07/2013. religiosa regular e aqueles que se definem é problemático fazer generalizações
33. Enquanto em 2000 o como ateus ou agnósticos (Fernandes, apressadas, pois para muitos jovens as
número de declarantes 2012:24)30. instituições religiosas não perdem o seu
espíritas foi de 2.337.432,
em 2010 esse número No Censo de 2010, foram cerca de valor de locus de agregação, motivação
cresceu para 3.848.876. 15,3 milhões de pessoas classificadas ou afirmação de sentido. O que ocorre,
34. E tal crescimento, como nessa categoria de sem religião, ou seja, na verdade, é a redefinição de vínculos
indica Lewgoy, é fruto
não apenas do prestígio 8% da população geral. No Censo de ou pertencimentos, que se firmam
alcançado por tal tradição 2000, os sem religião envolviam 7,3% de outros modos, e nem sempre “por
no Brasil, mas também dentro dos circuitos institucionais, mas
das “ações institucionais
dos declarantes (12.3 milhões). Entre os
de proselitismo”, que dois censos, houve um aumento de três também fora e à margem”. Nesse sentido,
envolvem “produções
milhões, índice abaixo dos prognósticos “declarar-se ´sem religião` pode ser
cinematográficas em torno
da vida e obra do médium feitos na entrada do novo milênio31. um ponto de partida, um interregno
Chico Xavier”.
O fato de alguém declarar-se sem entre pertencimentos ou um ponto de
religião não indica resistência ou ruptura chegada onde se realiza sínteses pessoais
com o dado religioso ou espiritual, com combinando elementos de diferentes
raras exceções. Vale sublinhar que o tradições religiosas e esotéricas” (Novaes,
grupo dos agnósticos ou ateus não é o 2013).
mais expressivo dentre os declarantes, d. Espiritismo e Religiões Afro-
envolvendo respectivamente 124,4 mil Brasileiras
(0,07%) e 615 mil (0,32%) pessoas. Há Os dados do Censo de 2010 com
uma distribuição dos sem religião pelos respeito ao espiritismo revelam um
principais centros urbanos do Brasil, crescimento vigoroso na última década.
com destaque para as cidades do Rio de Os adeptos desta tradição passaram de
Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife. A 1,3% em 2000 para 2,0% em 2010. São
opção em favor dessa categoria foi mais hoje cerca de 3,8 milhões de seguidores
incisiva entre jovens e adultos jovens, do espiritismo no Brasil. São mais de
na faixa etária de 15 a 29 anos (IBGE, 1,5 milhão de adeptos numa única
2012). E uma adesão que se manifesta década, o que é expressão de uma
também nas regiões de periferia das vigorosa afirmação nominal33. Como
grandes metrópoles e entre pessoas mostra Bernardo Lewgoy, “o espiritismo
que apresentaram baixas taxas de brasileiro passou, nas últimas décadas,
alfabetização (IBGE, 2012)32. por um processo de transformação,
Não é incorreto dizer que a declaração de minoria religiosa perseguida para
sem religião traduz um “estado de alternativa religiosa legítima, que oferece
desfiliação religiosa”. Mas há que se explicação de sucessos, conforto para

40 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


aflições e cura espiritual de infortúnios, uma “pequena reação da umbanda”, que 35. José Jorge de Carvalho
fala em “querela dos
a partir de uma doutrina que se pretende passou de 397.431 adeptos, em 2000, espíritos”. Sublinha
simultaneamente científica e religiosa” para 407.331, em 2010. Mas adverte que ainda escapa aos
analistas a capacidade de
(Lewgoy, 2013)34. que “o fraco crescimento observado foi entendimento suficiente
A presença espírita na sociedade insuficiente para recuperar as perdas sobre “esses mundos de
espíritos e como eles se
brasileira não consegue, porém, ser sofridas anteriormente”. Trata-se de uma articulam. Afinal, são
captada satisfatoriamente pelos dados do redução que se revela progressiva, desde dezenas de milhões de
brasileiros que entram
censo, que traduzem simplesmente um o Censo de 1991, quando a umbanda e em transe regularmente,
olhar de “superfície”. Lewgoy chama a o candomblé passaram a contar com recebem entidades ou
estabelecem relações
atenção para as dinâmicas e estratégias de estatísticas separadas. O mesmo não personalizadas (de
mobilidade e afiliação religiosa concreta ocorre com o candomblé, que em 2000 perturbação ou apoio)

dos atores sociais” que só com o aporte contava com 139 mil adeptos e ganha com a mais variada gama
de espíritos” (Carvalho,
de pesquisas qualitativas, com bons um acréscimo de 28 mil adeptos em 1992:146). Como indica

recursos hermenêuticos, conseguem 2010, passando a 167 mil declarantes Reginaldo Prandi (2012),
os católicos igualmente
ser delineadas. Há que sublinhar, (Prandi, 2013)36. não escapam dessa
“impregnação”. Muitos deles
igualmente, um dado reiterado por Mas assim como ocorre no aferimento acreditam em reencarnação
analistas das ciências sociais a propósito da declaração dos espíritas, também com e frequentam centros e
terreiros em busca da ajuda
da “impregnação espírita da sociedade respeito às religiões afro-brasileiras há e apoio espiritual.
brasileira” (Sanchis, 1994:37)35. Como dificuldades precisas de detectar a real
36. As pesquisadoras
Luciana Dulcini e Miriam
Rabelo, em tom mais
OS CONTEÚDOS E SIGNIFICADO DA IDENTIDADE RELIGIOSA TENDEM A SER otimista, enfatizam o
dado da recuperação do
MENOS TOTALIZANTES E ABERTOS A MODALIZAÇÕES DIVERSIFICADAS. crescimento das religiões
afro-brasileiras na última
década, na ordem de 12,5%
mostrou Gilberto Velho, entre outros, presença da umbanda e do candomblé (resultado da soma de
números de adeptos do
o “transe, possessão e mediunidade no Brasil. Como indica Prandi, o
candomblé e da umbanda,
são fenômenos religiosos recorrentes Censo “sempre ofereceu números acrescidos do número
na sociedade brasileira”, não só no subestimados dos seguidores das daqueles que indicaram
“outras declarações
espiritismo, mas também nas religiões religiões afro-brasileiras, o que se deve de religiosidade afro-
afro, no pentecostalismo e em outros às circunstâncias históricas nas quais brasileira”). As autoras
sublinham também que
grupos religiosos. Esse autor chega a essas religiões se constituíram no Brasil e essas tradições “jogam
sugerir que cerca da metade da população ao seu caráter sincrético daí decorrente” um papel importante em
debates sobre formação
brasileira “participa diretamente de (Prandi, 2013:204:). Continua vigente a da sociedade brasileira e
sistemas religiosos em que a crença nos tendência de adeptos das religiões afro- na política identitária de
segmentos desta sociedade”
espíritos e na sua periódica manifestação brasileiras camuflarem sua identidade (Duccini; Rabelo, 2013:219).
através dos indivíduos é característica registrando uma declaração de crença
37. Ver também Folmann,
fundamental” (Velho, 2003:53-54). distinta, seja na rubrica católica ou 2012.

O sociólogo Cândido Procópio de espírita (Prandi, 2013)37. 38. Há que se sublinhar


também os dados relativos
Camargo, com base nos Censos de 1940 e. Outras Religiões à declaração de múltipla
a 1960, sublinhava o papel singular do Com base nos dados do Censo de 2010, religiosidade no Censo de
2010, envolvendo 15.379
“gradiente Espiritismo-Umbanda” como nã há como negar a força do referencial pessoas, ou seja, 0,01%. Já
“beneficiário” do processo de transição cristão na sociedade brasileira. Mas já se os dados relacionados às
religiões não determinadas
religiosa em curso no Brasil (Camargo, começa a perceber nele uma diversificação ou mal definidas, envolvem
1973:24). Reginaldo Prandi recorre à cada vez mais evidenciada. Junto com essa 628.219 pessoas, ou seja,
0,33%.
previsão de Cândido Camargo e mostra multiformidade interna ao campo cristão,
como esta, de fato, não se realizou. O verifica-se também uma pluralização 39. Não se insere nesse
item a categoria “tradições
que se destaca nos últimos censos é um religiosa que tende a crescer em sua indígenas”, incluída na
“declínio constante” do conjunto das visibilidade. As outras religiões, que no pesquisa censitária desde
o ano de 2000. Os dados
religiões afro, sobretudo da umbanda, Censo de 2000 concentravam 1,8% da indicados a respeito
mantendo-se no reduzido patamar de declaração geral de crença, passam agora no censo apontam um
crescimento importante: de
0,3% da população brasileira. Prandi a responder por 2,7% dessa declaração 10.723 adeptos, em 2000,
reconhece que na última década houve (IBGE, 2012)38. Essas outras religiosidades para 63.082, em 2010.

CAMPO RELIGIOSO EM TRANSFORMAÇÃO // 41


40. De forma podem ser situadas em quatro frentes: aventam um número bem maior, em
pormenorizada: budismo
(243.966 – 0,13%), religiões orientais, islamismo, judaísmo e torno de 1 a 2 milhões de muçulmanos.
hinduísmo (5.675 – 0,003% circuito neo-esotérico39. Entre esses dois extremos, aparecem
), Igreja Messiânica Mundial
(103.716 – 0,05%), outras Na classificação referente às religiões as estimativas de pesquisadores do
novas religiões orientais
orientais, encontram-se contempladas tema, que, com base em experiência
(52.235 – 0,03%) e outras
religiões orientais (9.675 – a tradição budista, hinduísta, as novas etnográfica, falam em cifra que varia
0,005% ). religiões orientais (como a Igreja entre 100 a 300 mil fiéis (Montenegro,
41. Com respeito ao Messiânica Mundial) e as outras 2013; Pinto, 2013a).
Censo de 2000, houve
um acréscimo de 29.093 religiões orientais. Como assinala O islamismo no Brasil tem um traço
adeptos. Naquela ocasião, o Frank Usarski, essas tradições religiosas bem urbano e um índice importante
número apresentado era de
214.873. nunca alcançaram um “patamar de presença masculina, com presença
quantitativamente significante” no mais destacada em São Paulo (42%
Brasil. Permanecem como “minoria dos muçulmanos declarados) e Paraná
religiosa” no país, envolvendo a estreita (27%) (Pinto, 2013b). Registra-se ainda
parcela de 0,22% da população brasileira outro dado singular, que é o aumento do
(Usarski, 2013)40. Dentre essas tradições, número de conversões de brasileiros ao
destaca-se o budismo, com 0,13% da islã (Pinto, 2010).
população brasileira41. Segundo Usarski, A propósito do judaísmo, os dados
“a adesão a uma das ´religiões orientais` apontados pelo censo indicam a presença
é um fenômeno relativamente incomum de 107 mil adeptos desta tradição religiosa,
entre brasileiros”, ainda que o cotidiano ou seja, 0,06% da população geral.
da nação seja penetrado por símbolos Ocorreu um leve aumento com respeito
e técnicas culturais provenientes do a 2000, quando estavam representados
Oriente. Esse envolvimento não vem, por 101 mil seguidores. Há que se
porém, traduzido em disponibilidade de destacar a complexidade da identidade
adesão específica à determinada religião judaica, que “não se esgota nos limites
oriental. Com respeito ao Censo de da religião”. Muitos dos que se declaram
2000, houve um crescimento na adesão a judeus ao responderem ao censo não
uma das religiões orientais, expresso no são “necessariamente´praticantes do
aumento de 32.902 pessoas declarantes. judaísmo`” (Grin; Gherman, 2013:286).
Em termos de localização geográfica, O traço característico do judaísmo
estas tradições religiosas estão melhor no Brasil é sua diversificação plural,
representadas no Sudeste, envolvendo envolvendo desde o judaísmo ortodoxo
78,5% dos budistas, 66,91% dos adeptos até comunidades mais inovadoras,
de uma das chamadas novas religiões influenciadas por práticas da New Age.
orientais, e 46,4% dos seguidores das De acordo com os dados do último censo,
outras religiões orientais. há uma maior concentração dos judeus
Quanto ao islamismo, que tem uma nos centros urbanos, e apresentam alta
pujante irradiação mundial, encontra- escolaridade e renda per capita elevada.
se no Brasil com presença mais O Censo de 2010 sinalizou também
modesta. Há, porém, que se destacar o a presença das tradições esotéricas no
seu crescimento no país entre os dois Brasil, com um registro minguado de
últimos censos. No Censo de 2000, o 0,04 de declaração de crença, e reduzido
número de declarantes muçulmanos aumento com respeito ao patamar
foi de 18.592, passando para 35.167 indicado no Censo de 2000: de 67 mil
no Censo de 2010. Trata-se de um declarantes, em 2000, para 74 mil, em
crescimento considerável, mas que no 2010. Segundo Leila Amaral, há hoje
quadro geral da população brasileira uma tendência para o aumento de
representa apenas 0,02%. Esses números disponibilidade dos indivíduos para a
indicados pelo IBGE não condizem com “experimentação religiosa, para além
aqueles apresentados pelas autoridades de seus limites institucionais”. Como
religiosas islâmicas brasileiras que parte dessa cultura religiosa errante,

42 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


inserem-se aqueles que emigraram fora ou à margem deles (Novaes, 2013).
das religiões institucionais, aqueles Ou ainda uma vida espiritual destacada
de religiosidade não determinada ou da vida religiosa instituída. Por fim,
núcleos daqueles que foram classificados vale lembrar que a pluralização em
entre os sem religião. Na visão de curso não exclui a possibilidade de
Leila Amaral, o número reduzido de inserções identitárias mais radicais e
declarações nesse campo tem também exclusivistas, que visam um “regime forte
a ver com o fato de que as pessoas que de intensidade religiosa”. Os diversos
se inserem no circuito neo-esotérico matizes de fundamentalismos estão aí
não se definem ou se reconhecem nessa para não desmentir esse dado.
rubrica. São segmentos que acabam se
pulverizando entre as diversas categorias
disponibilizadas pelo censo. O traço REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
peculiar dessa “cultura religiosa errante”
ALMEIDA, Ronaldo de. Trânsito
é a experimentação e o trânsito. O
religioso. Religiões no Brasil. IHU-
que há nela de central “é a suspensão
Online, Ano 4, nº 169, p. 40, 19 de
dos comprometimentos identitários
dezembro de 2005.
que possam se apresentar como um
obstáculo para a experimentação de _____. Pluralismo religioso e espaço
sentido” (Amaral, 2013:306). metropolitano. In: MAFRA, Clara &
ALMEIDA, Ronaldo de. Religiões e
CONCLUSÃO cidades. Rio de Janeiro e São Paulo. São
Paulo: Fapesp/Terceiro Nome, 2009.
Algumas considerações gerais podem
ser tecidas após esse olhar atento ALTMANN, Walter. Censo IBGE 2010 e
sobre o campo religioso brasileiro. religião. Horizonte, v. 10, nº 28, p. 1122-
Destaca-se o traço de uma progressiva 1129, out./dez. 2012.
pluralização religiosa, que vai aos AMARAL. Cultura religiosa errante. O
poucos quebrando a forte hegemonia que o Censo 2010 pode nos dizer além
cristã que ainda predomina no país. E dos dados. In: TEIXEIRA, Faustino &
também a dinâmica de uma crescente MENEZES, Renata (Orgs). Religiões em
desinstitucionalização religiosa, movimento: o Censo de 2010. Petrópolis:
com enfraquecimento das filiações Vozes, p, 295-310, 2013
tradicionais. Ao lado da multiplicação e BERGER, Peter. A dessecularização do
diversificação das instituições portadoras mundo: uma visão global. Religião e
de sentido, uma “menor fidelidade a Sociedade, v. 21, nº 1, p. 9-23, 2001.
elas”. Pesquisadores chamam a atenção BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Crença
para as mudanças que ocorrem hoje na e identidade. Campo religioso e
relação identitária que vincula os fiéis às mudança cultural. In: SANCHIS, Pierre
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mais de forma rígida e engessada, mas pluralismo cultural. São Paulo: Loyola, p.
de maneira fluida, criativa e novidadeira. 7-74, 1992.
Os conteúdos e significado da identidade
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religiosa tendem a ser menos totalizantes
TEIXEIRA, Faustino & MENEZES,
e abertos a modalizações diversificadas.
Renata (Orgs). Religiões em movimento:
Daí ser pertinente, como apontou
o Censo de 2010. Petrópolis: Vozes, 2013.
Pierre Sanchis, complexificar “o sentido
das declarações de pertença religiosa” CAMARGO, Cândido Procópio F.
(Sanchis, 2013). Pode também ocorrer, de. Católicos, protestantes, espíritas.
com lembrou Regina Novaes, uma Petrópolis: Vozes, 1973.
dinâmica de representação e prática CAMPOS, Leonildo Silveira.
religiosa que escapa aos “circuitos “Evangélicos de missão” em declínio
institucionais”, operando muitas vezes no Brasil: Exercícios de demografia

CAMPO RELIGIOSO EM TRANSFORMAÇÃO // 43


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movimento: o Censo de 2010. Petrópolis:
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CAMPO RELIGIOSO EM TRANSFORMAÇÃO // 45


O CENSO NÃO DIZ TUDO,
MAS QUE AJUDA, AJUDA...
– O CATOLICISMO EM CIDADES DO ESTADO MENOS CATÓLICO.

SÍLVIA REGINA ALVES FERNANDES1

1. Socióloga, professora
INTRODUÇÃO 2000, o Rio vem sendo apontado como o
do Programa de Pós-
Graduação em Ciências estado que reúne a mais baixa proporção
Sociais da UFRRJ/PPGCS, A longa espera dos resultados do de católicos em todo o país. A tendência
pesquisadora sênior Censo sobre religião no Brasil gerou uma se confirmou no Censo 2010. Sendo
CAPES, Pós-doutorado na
Universidade da Flórida/ alta expectativa entre os pesquisadores assim, havia 55,7% de católicos em 2000 e
EUA (2013-2014).
brasileiros. Fato curioso é que tal no ano de 2010, eles passaram a totalizar
2. Carismas e instituições expectativa se consolidou não obstante o 45,8% da população do estado. Apesar
– a crise do catolicismo no
Estado do Rio de Janeiro e o fato de que a produção de estudos sobre da obviedade da afirmação seguinte,
paradoxal avanço das novas
religião no Brasil segue majoritariamente quero enfatizar: é para isso que serve o
comunidades religiosas.
uma orientação qualitativa. Por outro Censo das religiões; o levantamento nos
3. Boa parte da reflexão
deste artigo foi feita em lado, os números e tendências revelados instiga a novas leituras, interpretações
outro trabalho intitulado pelo Censo favorecem a orientação do e pesquisas, para além da convencional
Os números de católicos
no Brasil – mobilidades, campo de estudos dos pesquisadores crítica de que os números por si só não
experimentação e propostas
de religião e os incitam a considerar “falam” muito.
não redutivistas na análise
do Censo (Fernandes,
2013b).
A INTERESPACIALIDADE, A MOBILIDADE HUMANA E A RELAÇÃO DOS
SUJEITOS COM OS LUGARES E A MATERIALIDADE DA VIDA SÃO CHAVES
IMPORTANTES PARA A COMPREENSÃO DOS USOS, APROPRIAÇÕES E
DESCARTE DA RELIGIÃO NA CONTEMPORANEIDADE DE UM MODO GERAL,
E DO CATOLICISMO, EM PARTICULAR.

aspectos que eventualmente venham Reafirmo - como feito anteriormente3


sendo sistematicamente ignorados. (Fernandes, 2013b) - a relevância das
Atentando para as sinalizações pesquisas censitárias, não obstante
os problemas que lhes são inerentes,
do Censo desde o ano de 2000,
próprios a qualquer pesquisa de campo
empreendemos uma pesquisa2 que
com tal magnitude. As pesquisas
combinou ferramentas quantitativas e
qualitativas devem estar, a meu ver,
qualitativas em quatro cidades do estado
de algum modo, informadas por esses
do Rio de Janeiro detentoras de distintas números, além de esmerar-se nos
proporções de católicos: Campos dos desvendamentos de respostas que o
Goytacazes, Laje do Muriaé, Rio de censo não nos pode fornecer. Neste texto,
Janeiro e Silva Jardim. Desde o Censo de averiguamos a situação do catolicismo no

46 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


estado do Rio de Janeiro, especificamente múltiplos e não redutíveis analiticamente
as dinâmicas da Renovação Carismática a uma questão de individualização
em paróquias católicas em duas cidades como vimos defendendo até aqui
e as transformações que esta corrente seguindo a interpretação de autores
vem atravessando no interior da Igreja. como Danièle Hervieu-Léger (2005) e
Como segundo aspecto, sugiro que o Antonio Pierucci (2006b). Sem negar a
processo de migração e mobilidade contribuição dessas análises, proponho
humana constitui-se como uma variável que a elas seja agregado o estudo das
importante para a compreensão das transformações que ocorrem na vida das
mudanças no campo religioso brasileiro e pessoas na ordem do cotidiano, em sua
procuro analisar esta situação no sudeste relação com o mundo material e com o
brasileiro, reconhecendo, entretanto, o próprio corpo, capazes de conduzir os
caráter exploratório dessa correlação a indivíduos a diferentes experimentações
partir dos dados disponíveis. do religioso. Desse modo, enfatizo
Há elementos concretos da vida das a urgente necessidade de se buscar
pessoas que pode alterar seus modos correlações das variáveis econômica,
de vínculo (religiosos ou outros); social e cultural, além da subjetividade
suas formas de participação e, ainda, individual, que agreguem elementos a
seu sistema de crenças. Desse modo, nossas interpretações.
tomo como argumento principal que O fator mobilidade humana é
as mudanças quantitativas sugerem explorado nesse texto apenas para
que novos esforços sejam envidados a região Sudeste, pelo fato de que o
na percepção dos contextos sociais estado do Rio de Janeiro, com menor
em que as transformações ocorrem. proporção de católicos em todo o país,
Sob a luz dos autores Manuel Vásquez está localizado nessa região. Entendo
(2011) e Kim Knott (2005) e de ser a mobilidade humana um vetor
dados de pesquisa, proponho que a plausível no contexto atual e uma vez
individualização e os processos de que se procure agregar fatores múltiplos,
fortalecimento da individualidade em o estudo da mobilidade religiosa se
nossa época não podem ser assumidos viabilizará abrangendo esferas mais
de modo exclusivo para compreender amplas da vida dos indivíduos.
a lógica atual dos indivíduos em seus
movimentos de adesão, rejeição ou CATÓLICOS NO SUDESTE – O CASO DE
evasão das instituições religiosas. Mas a ALGUNS MUNICÍPIOS DO RIO DE JANEIRO
interespacialidade, a mobilidade humana E O DESAFIO INTERPRETATIVO
e a relação dos sujeitos com os lugares O índice de 64,6% da população que
e a materialidade da vida são chaves se declara católica no Brasil, conforme o
importantes para a compreensão dos último censo brasileiro (2010), resulta de
usos, apropriações e descarte da religião uma persistente tendência que ameaça
na contemporaneidade de um modo a hegemonia da Igreja Católica em um
geral, e do catolicismo, em particular. cenário de diversificação sociocultural e
Entre os pesquisadores da religião no mudança nos modos de representar, aderir
Brasil, há um consenso sobre a existência e/ou abandonar uma determinada religião.
de um processo de mobilidade religiosa Contudo, cada região brasileira apresenta
no qual os indivíduos se lançam numa diferenças de grau nas tendências
atitude de experimentação do religioso observadas.
(Fernandes, 2012; 2009; 2006), seja pela O sudeste brasileiro é tido como
via institucional, seja pela capacidade uma das regiões mais desenvolvidas,
de composição e recomposição da juntamente à região Sul. Com efeito, se,
identidade religiosa num movimento por um lado, o Sul e o Sudeste destacam-
mais autônomo. Contudo, os fatores que se em termos de desenvolvimento
ajudam a explicar essa mobilidade são socioeconômico, por outro, ocupam

O CENSO NÃO DIZ TUDO, MAS QUE AJUDA, AJUDA...O CATOLICISMO EM CIDADES DO ESTADO MENOS CATÓLICO // 47
4. Confira o dossiê posições polares quanto ao percentual Gráfico 1 – Católicos no Sudeste – 2000-2010
preparado pela equipe do
ISER assessoria a partir de católicos. A menor proporção de
dos vários comentários de católicos está no Sudeste (59,4%), e
especialistas veiculados
na grande mídia: http:// o Sul abraça a segunda posição do
www.iserassessoria.org. ranking das regiões brasileiras com
br/. Acesso em: outubro
de 2012.
maior proporção de católicos (70%), de
acordo com o Censo 2010. Destaque-se
5. Denomino de campo
cultural religioso as ainda que enquanto o Sudeste possui
manifestações religiosas no uma proporção de católicos inferior à
país que são engendradas
na cultura brasileira, de média nacional, a região Sul supera essa
modo que muitos aderem média.
a elas como uma forma de
participação da vida social. A simples menção a esses índices já
permite vislumbrar a complexidade
de correlações que não venham a
considerar variáveis múltiplas. Por
exemplo, não é possível assegurar que
o desenvolvimento de uma região Conforme mencionado, a principal
provocaria maior ou menor estabilidade tendência observada por analistas do
dos católicos em sua religião de batismo, censo4 é que há um declínio proporcional
uma vez que é o nordeste brasileiro histórico na representação dos católicos
que apresentará a maior proporção de no Brasil. Considerando os estados da
católicos e seu déficit socioeconômico região Sudeste, Minas Gerais e São Paulo
é suficientemente conhecido. Em mantêm proporções mais altas em uma
adicional, municípios do estado do década, ao passo que Espírito Santo e Rio
Rio de Janeiro com baixo índice de de Janeiro apresentam-se como estados
desenvolvimento e com áreas rurais com menor proporção de católicos.
extensas podem apresentar situações Em termos de dados nacionais, o
díspares na proporção de católicos, censo de 2010 apresentou uma novidade:
como são os casos de Laje do Muriaé e pela primeira vez a população católica
Silva Jardim, que apresentaremos neste diminuiu também em termos absolutos,
texto. passando de aproximadamente 125
O caso do Sudeste explicita a questão milhões de seguidores para um milhão e
da heterogeneidade do campo religioso seiscentos mil adeptos.
e, mais especificamente, do catolicismo A tendência aparentemente linear
em uma mesma região. Isso significa sobre o decréscimo do catolicismo nos
dizer – e essa foi a nossa problemática exige, primeiramente, o reconhecimento
de pesquisa – que um estado como o das dinâmicas internas dessa tradição
Rio de Janeiro, marcado pelo “estigma”, religiosa, compreendendo que os modos
sob o ponto de vista institucional, de de vínculo, crenças e assimilação do
“menos católico” possui municípios campo cultural religioso5 mudaram
com alta proporção de católicos, como tanto ou mais do que a mobilidade
é o caso de Laje de Muriaé, que agregou religiosa que transporta indivíduos de
em 2000, 82,9% e em 2010, 77%, com uma religião para outra. Em segundo
visível queda percentual, mas ainda se lugar, o processo de modernização
mantendo como o município com maior da sociedade brasileira produz uma
proporção de católicos, e de outros mobilidade migratória que, em nossa
com menos da metade da população hipótese, relança os indivíduos em novas
assumindo a identidade católica nas experiências socioculturais, econômicas
pesquisas censitárias, como é o caso de e religiosas que ora fortalecem a adesão
Silva Jardim. ao catolicismo e ora fragiliza suas bases.
Vejamos a situação dos católicos na O estudo que realizamos em quatro
região Sudeste. municípios do estado do Rio visou

48 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


olhar de perto a dinâmica de católicos economia são fortemente prejudicadas 6. Os critérios para a
definição desses municípios
praticantes em cidades com tão díspares por essas razões. A incidência da bem como os caminhos
percentuais de católicos. O quadro abaixo pobreza em Laje do Muriaé é de 48,4%,7 metodológicos adotados na
pesquisa foram explicitados
nos dá uma noção dessa realidade: considerada alta. em detalhes em recente
Tab. 1. Municípios pesquisados no estado do Rio de Janeiro
O pesquisador de campo fez as seguintes publicação (Fernandes,
2013 b).
CATÓLICOS CENSO 2000 CENSO 2010 observações a partir de um encontro com
7. Dados do Mapa de
Estado do Rio de Janeiro 55,7 45,8
lideranças católicas na paróquia: Pobreza e Desigualdade
2003 associados ao link
Campos 59,2 50,1 A política do município também é proble-
Cidade, do IBGE. As faixas
mática, assim como sua economia. Segun- de incidência de pobreza
Laje do Muriaé 82,9 77
do eles [os católicos pesquisados], quem são: 10,9 a < 21,27; 21,27
Rio de Janeiro 60,7 51,0 não trabalha na prefeitura ou para ela; não a < 29,08; 29,08 a < 39,21;
Silva Jardim 33,2 26,8 tem comércio ou presta serviços na cidade 39,21 a < 76,37. O cálculo
considera capacidade de
ou é agricultor, tem que buscar emprego
Fonte: IBGE, 2000; 2010 consumo.
fora8.
8. Bruno Marinho, bolsista
Esse quadro demonstra que há Aproximadamente 31% da população PIBIC/CNPq, graduando
uma distribuição não homogênea dos possui rendimento mensal a partir de em História na UFRRJ.
católicos nos diversos municípios do meio até um salário mínimo, e outro 9. Todos os dados sobre os
estado do Rio de Janeiro e nosso objetivo terço declara ausência de rendimento9. municípios nessa pesquisa
foram retirados do IBGE/
foi compreender essa heterogeneidade, Os demais habitantes estão distribuídos SIDRA e IBGE – cidades.
partindo do dado quantitativo, de modo em diferentes faixas de rendimento e Cf.: http.ibge.org.br.

qualitativo. A escolha desses municípios apenas três pessoas ganham acima de 30 10. Informação também
ocorreu levando em conta não apenas salários mínimos. Em relação à religião,
disponível em: http://www.
diocesedecampos.org.br/
o ranking de católicos, mas também a distribuição populacional das três paroquias/laje_muriae/
situações contextuais, como é o caso de principais correntes corresponde a 77% nossa_senhora_piedade.asp.
Acesso em 23 de novembro
Campos dos Goitacazes, município em de católicos; os evangélicos totalizam de 2012.
que as inovações do Concílio Vaticano 17%; e os sem religião, 4,3%.
II encontraram forte resistência, e de
Há uma única paróquia católica em
Silva Jardim que, a apenas 100 km do
Laje do Muriaé, denominada Nossa
Rio, possui praticamente a metade
Senhora da Piedade, onde foi realizada
proporcional de católicos da capital6.
a pesquisa qualitativa visando conhecer
Note-se que em todos os municípios a dinâmica da Renovação Carismática e
houve perda de fiéis católicos. Mas, do catolicismo. A paróquia é responsável
afinal, quais seriam as características do por doze capelas distribuídas, inclusive,
catolicismo e dos adeptos que persistem na em municípios vizinhos. O padre possui
Igreja Católica, não obstante a tendência limitações físicas em razão de um
observada? Em razão do espaço deste acidente sofrido e o trabalho pastoral é
texto, serão apresentados aqui apenas os acompanhado mais de perto pelos leigos.
casos de Laje do Muriaé e Silva Jardim. Em termos da dinâmica do catolicismo
Laje do Muriaé – RJ na cidade, há 15 pastorais e movimentos;
De acordo com o Censo 2010, a Conselho Pastoral e Econômico; 31
população do município de Laje do ministros da eucaristia; 12 catequistas; 06
Muriaé totaliza 7.487 habitantes. Em escolas; 01 hospital; creche; conferência
regiões rurais de Laje, algumas casas e vicentina; jornal paroquial mensal e
escolas foram abandonadas em razão do programa radiofônico, na Rádio Escola10.
êxodo que vem ocorrendo no município. Cabe observar que a catolicidade do
O Censo notificou que em todo o estado município pode ser percebida durante o
do Rio a população de Laje foi a que mais trabalho de campo em situações como,
encolheu no período de 2000 a 2010. A por exemplo, os estudantes da escola
principal razão para o êxodo, sobretudo pública saindo da escola e passando
nas áreas rurais, é a crise econômica da na Igreja para confessar, algo bastante
região provocada pelo péssimo estado raro em municípios com maior grau de
das estradas e pelas constantes enchentes. urbanização. Ou, ainda, os jovens que
A agricultura e, consequentemente, a fazem o sinal da cruz na testa ao passar

O CENSO NÃO DIZ TUDO, MAS QUE AJUDA, AJUDA...O CATOLICISMO EM CIDADES DO ESTADO MENOS CATÓLICO // 49
em frente à Igreja na praça da cidade, demonstra a existência dessa corrente
mesmo em situação de lazer. no município. A atuação na RCC
Os católicos praticantes aparentam pode ocorrer de modo concomitante
idade média de 35 anos, mas há jovens a outros grupos no catolicismo, como,
estudantes que participam da missa e por exemplo, a Pastoral da Criança,
algumas atividades religiosas da paróquia ministros da eucaristia, Pastoral da
e são eles que mais movimentam essas Saúde, Legião de Maria, entre outras.
atividades a partir de dois grupos de Como mencionamos, os jovens estão
oração. Por outro lado, a participação mais envolvidos com a RCC e os adultos,
de grupos tradicionais como a Liga com outras pastorais.
Católica é ativa. Os membros são bastante Quando analisamos as atividades
atuantes e cumprem a função de expansão religiosas praticadas pelos católicos,
do catolicismo na cidade a partir das vimos que mesmo aqueles que não fazem
visitações feitas em casas e hospitais. mais parte da RCC, já tiveram algum
Várias mulheres católicas na paróquia contato com o grupo de oração, seja por
são professoras ativas ou aposentadas. incentivo de conhecidos (até mesmo de
Há ainda homens que são pequenos um padre antigo da paróquia), ou por
empresários ou comerciantes locais. curiosidade e iniciativa própria. Alguns
Em termos de cor da pele, a maioria nos dizem o que mais lhe chamou a
se identifica como branca, morenos, atenção quando este contato ocorreu:
pardos, ou, ainda, de cor negra ou “ação do Espírito Santo”, “reavivamento
preta. É comum a herança geracional da igreja”, “acesso à palavra de Deus”,
no campo profissional, pois vários “oração forte’, “experiência com Deus”
professores são também filhos de e “maior liberdade” são algumas das
professores secundários. Por outro lado, razões indicadas como sustentáculo da
encontramos católicos praticantes que pertença religiosa.
não concluíram a educação básica e O favoritismo da RCC e das
foram identificados como analfabetos ou comunidades carismáticas é alto perante
semianalfabetos. os católicos em Laje do Muriaé. Boa
A tradição católica assume papel parte deles conhece essas comunidades,
relevante não apenas por meio de grupos sejam as mais famosas, como a Canção
tradicionais como pastoral da criança, Nova, Shalom e Maranatha, sejam outras
catequese e Liga Católica, mas muitos menos conhecidas, como Trindade Santa
fiéis afirmavam nunca ter pertencido e Ide. Contudo, observamos também
ou participado de outra religião senão o alguma rejeição de membros católicos à
catolicismo. Costumam enfatizar que a RCC, mencionando que os carismáticos
Igreja Católica “foi fundada por Cristo” tendem a atuar isoladamente na paróquia
e “ajuda a pessoa a se tornar melhor”. e não trabalham para a comunidade
Também a expressão “paixão por Cristo” como um todo. Na realidade, essa
foi usada como motivo para ser católico, crítica representa um desejo de parte
principalmente pelos carismáticos que dos paroquianos de que os membros da
sublinham como a RCC foi importante RCC se dedicassem mais a trabalhos
para que se tornassem católicos de evangelização na cidade e menos ao
praticantes. Assim, ao que parece, a trabalho intraparoquial. Conflitos dessa
RCC continua exercendo um papel natureza, envolvendo católicos com
ambivalente no catolicismo, podendo ora diferentes vínculos no catolicismo, são
aproximar os fiéis da religião de origem comuns, mas a emergência da RCC nas
e ora afastá-los em razão da semelhança dioceses brasileiras tende a intensificá-los.
com o pentecostalismo. A mobilidade religiosa é baixa entre as
Há na paróquia raros casos de pessoas lideranças católicas em Laje do Muriaé e,
que frequentaram o espiritismo na em geral, esses adeptos não declararam
juventude acompanhando a mãe, fato que frequência a outras Igrejas ou religiões,

50 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


ainda que tenha sido mencionada a ida a Essas estratégias sugeridas por muitos
igrejas evangélicas em situações sociais tais informantes e disseminadas pelos
como casamentos de amigos ou familiares. documentos eclesiásticos em nível
Há uma alta valorização da doutrina nacional ignoram que as razões sobre
católica, da diversidade do catolicismo e evasão de fiéis do catolicismo, bem
dos sacramentos. Os fiéis tendem a não como a evasão de Igrejas protestantes
criticar a Igreja, mas os próprios católicos históricas, não se reduzem à mera
são tidos como “sem compromisso com a questão formativa ou de engajamento.
Igreja” ou “acomodados”. Trata-se de uma das consequências
Notou-se que a figura do padre é da dinâmica de nossas sociedades em
determinante, seja pela afirmação de processo de modernização com todas
que há ausência de padres para atender as suas contradições e benesses. Nos
a demanda católica, seja pela crítica últimos anos, o acesso a bens culturais,
ao racionalismo de alguns padres. por meio de novas tecnologias e da
Por um lado ou por outro, a figura do expansão dos canais de informação,
padre recebe destaque na dinâmica do pode funcionar como um dos vetores da
catolicismo nas cidades. mobilidade religiosa.
O processo de tentativa de Silva Jardim - RJ
fortalecimento do catolicismo na O município de Silva Jardim possui
sociedade brasileira sem dúvida tem 21.349 moradores e está localizado na
alguns de seus pilares na ação dos região da Baixada Litorânea. A atividade
veículos de comunicação católicos, da lavoura é presente desde a fundação
sobretudo as redes de TV católicas do município no século XIX, bem como
(Canção Nova, Século XXI) e na ação a pecuária. Com o passar do tempo, a
dos padres midiáticos, como Fábio de cultura do café tornou-se proeminente,
Melo e Marcelo Rossi, para citar os juntamente com a cana-de-açúcar e a
principais e mais conhecidos pelos fiéis. cultura de cereais.
Vários católicos em Laje mencionaram O baixíssimo desenvolvimento
acessar esses recursos, agregando, ainda, econômico do município é percebido
a informação de que acessam sites de nas ruas pela simplicidade dos
padres e os vídeos católicos disponíveis no estabelecimentos comerciais e pelo
youtube. Do ponto de vista da estratégia perfil da população. Segundo dados
de massa, esse parece ter sido o principal oficiais, a taxa de incidência da pobreza
caminho para atingir fiéis afastados ou no município é alta, chegando a 52%.
conquistar católicos menos assíduos. Atualmente, boa parte da população
Para os católicos praticantes em Laje, possui o Fundamental incompleto ou
um dos motivos da evasão de adeptos do nenhuma instrução, totalizando 11.666
catolicismo é a “falta de fé”; além disso, pessoas com 10 anos ou mais de idade
sugerem que muitos buscam meios mais nesta condição, conforme o Censo 2010.
fáceis para a obtenção do que desejam e Cerca de 27% da população recebem
anseiam por curas imediatas e milagres mais de meio até um salário mínimo
(destacam que essas são as promessas e 40% da população não possuem
principais das igrejas evangélicas). Por nenhum rendimento, o que confirma
outro lado, argumentam que a dispersão o alto grau de pobreza do município.
ou evasão dos católicos ocorre porque Aproximadamente 16% recebem entre
os padres não mantêm contato mais um e dois salários mínimos, os demais
próximo com os fiéis, que são, então, estão distribuídos de modo disperso
atraídos facilmente por outras tradições entre diferentes faixas de renda ou
religiosas. Missões de evangelização mais nenhum rendimento.
fortemente implementadas aparecem Em termos de perfil religioso, os três
como uma das sugestões dos fiéis para principais segmentos são: católicos, que
conter a evasão de adeptos. atingem apenas 26,8% da população;

O CENSO NÃO DIZ TUDO, MAS QUE AJUDA, AJUDA...O CATOLICISMO EM CIDADES DO ESTADO MENOS CATÓLICO // 51
os evangélicos, com 45,6%; e os que o ponto de vista quantitativo. O grupo de
se declaram sem religião, totalizando oração possui apenas “um ministério”,
24,3%. A Igreja Católica em Silva como são chamadas as articulações
Jardim, nitidamente, enfrenta de perto internas à RCC, o “ministério da
a difusão das igrejas pentecostais e intercessão”; não há um líder que assuma
neopentecostais. Em uma dada esquina, o papel de pregador e nem mesmo o
é possível contar três igrejas evangélicas “ministério da música”, que, em geral, é
e muitas se avizinham da única paróquia presente em todos os grupos da RCC. A
da cidade, mesmo havendo mais 14 coordenadora atual declara que, apesar
capelas católicas espalhadas a longas das dificuldades para agregar as pessoas,
distâncias. Faz parte da rotina do padre, trabalha “sem desanimar”. O grupo faz
alcançar fiéis nas ruas para dar carona até reuniões nas casas e eventualmente
as capelas. organiza encontros de cunho religioso.
A Renovação Carismática Católica Nas comunidades católicas, também
não é muito expressiva na paróquia, conhecidas como capelas, não há grupo
mas não foi sempre assim. O primeiro de oração da RCC. Há fiéis que acreditam
grupo – Nossa Senhora das Graças - foi haver muita resistência na paróquia em
fundado em 1996 e, apesar de ser menos relação à RCC, seja na paróquia, seja nas
ativo do que no período de sua fundação, capelas. Muitos atribuem a resistência
permanece na igreja. Foi comum ouvir à falta de conhecimento dos católicos
depoimentos de pessoas que passaram sobre o que é a RCC.
a frequentar a RCC por insistência ou Há mulheres e homens assumindo
convite de familiares, como visto em funções de liderança, com a idade média
pesquisas anteriores (Fernandes, 2009). de 40 anos. A dinâmica estrutural da
Alguns relatam que pessoas de outros paróquia obedece a do catolicismo
municípios vinham participar do grupo universal. Assim, há grupo de casais,
de oração e isso atraía os próprios Pastoral do Dízimo, catequese, ministras
moradores de Silva Jardim. Por outro da Eucaristia, dentre outras. A população
lado, se muitos são católicos por tradição católica é majoritariamente branca, mas
familiar e valorizam a própria igreja, há pessoas pardas, de cor preta e, ainda,
uma importante mobilidade religiosa mestiços integravam várias atividades
entre os fiéis e vários deles declararam observadas. Durante o trabalho de
ter se afastado do catolicismo e passado campo, vimos poucos jovens na paróquia
a frequentar denominações evangélicas, e nas comunidades visitadas. Entretanto,
retornando posteriormente. A crença na há um investimento do padre na
Eucaristia e, em alguns casos, a menção formação de novas gerações, sendo
a Maria funcionaram como relevantes muito grande o grupo de crianças que
motivos para o retorno dos fiéis, sob assumem a função de coroinhas.
o ponto de vista do sistema de crenças Os católicos praticantes são de camada
cultivado na tradição católica. média baixa. Dentre nossos informantes,
O grupo de oração Nossa Senhora das encontramos mulheres assumindo as
Graças encerrou as atividades porque funções do lar, aposentados, pequenos
a liderança que o coordenava saiu da comerciantes; jovem estudante e
Igreja. Como consequência, muitos quase todos com nível de formação
membros do grupo abandonaram Fundamental incompleto ou Médio.
o catolicismo. Contudo, tempos Alguns jovens estavam cursando nível
depois, outra coordenação retomou superior.
as atividades do grupo, mas o público O catolicismo vivido em Silva Jardim
é bastante oscilante. No período da apresenta traços tradicionais. Os
pesquisa, constatamos a presença de fiéis carregam terços e Bíblia para as
aproximadamente 20 pessoas no grupo, o atividades religiosas. Algumas reuniões
que demonstra seu enfraquecimento sob dos paroquianos são feitas com a

52 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


arrumação de um pequeno altar com a incentivo por parte do padre para as
imagem de Maria e a Bíblia aberta. As orações tradicionais com tom mais
orações do Pai-Nosso e Ave-Maria são solene e as missas são liturgicamente
frequentemente feitas nessas reuniões, bem preparadas.
além da tradicional oração católica A questão do cotidiano paroquial em
denominada Vinde Espírito Santo. tempos de evasão do catolicismo se torna
O padre da paróquia Nossa Senhora da um desafio para os próprios párocos,
Lapa declarou que há muitas dificuldades que tanto podem endurecer no reforço
para atender a todas as comunidades, pois da doutrina quanto flexibilizar e buscar
ele é único na paróquia. Além do baixo alternativas que atendam às demandas
número de sacerdotes, as dificuldades dos fiéis. Assim, se um católico muda de
financeiras impedem que um novo padre religião, é comum ouvir por parte dos
possa auxiliar o trabalho pastoral, uma padres que a Igreja não está preocupada
vez que é a própria paróquia que deve com a quantidade de fiéis, mas com a
prover a subsistência dos padres e não a qualidade dos mesmos. A “qualidade
arquidiocese de Niterói, responsável por dos fiéis” nesse caso diz respeito à adesão
esse município. do católico à sua Igreja, devendo este,
Na visão do padre, a paróquia na visão dos padres e da hierarquia
enfrentou muitos problemas com as católica, possuir pleno conhecimento da
próprias lideranças católicas; problemas doutrina e ativa participação. “Fiéis de
de autoridade e conflito entre padres e verdade” - na visão do padre em Silva
fiéis foram relatados. Algumas estratégias Jardim - são “os que não se deixam levar
foram adotadas pelo sacerdote para por promessas de felicidade e solução
realizar a reforma pastoral, uma delas rápida dos problemas”. Observamos
foi rearrumar as coordenações pastorais que o líder religioso é sobremaneira
realocando pessoas em diferentes conhecido no município e onde quer que
funções. Há um trabalho de reforma vá, há católicos que se aproximam para
material da paróquia reconhecido por pedir a benção, algo típico de cidades de
todos os paroquianos e o padre se orgulha pequeno porte que ainda cultivam um
de ter feito importantes melhorias catolicismo tradicional. O padre busca
estruturais no espaço físico. O objetivo reforçar a identidade católica através
dele é que a comunidade se engaje nessa dos ritos e tradições da Igreja, do uso de
reforma financeira e pastoralmente. sacramentais e fortalecendo o sentido de
Assim, com a campanha do “tijolo comunidade.
solidário”, o dinheiro arrecadado vai para A frequência de católicos na paróquia
a compra de materiais de construção em dias de adoração eucarística costuma
que ajudam na reforma da matriz e na ser mais intensa, o que revela a adesão
construção de novas capelas. dos fiéis às práticas tradicionais do
Outra estratégia adotada pelo padre catolicismo. Desse modo, foi observado
local para a expansão do catolicismo em que em um período de 12 horas, 95
Silva Jardim é a procissão. Como meio de pessoas passaram pela Igreja Matriz para
dar visibilidade ao catolicismo, o padre, fazer seu momento de oração. Mas esse
que atua há cerca de cinco anos em número pode oscilar, conforme registros
Silva Jardim, implementou as procissões de campo, entre 60 a até 130 pessoas.
com alguma frequência para “mostrar à Os fiéis demonstraram grande afeto
cidade que a Igreja Católica estava viva”. pelo padre e pelo catolicismo fazendo
Os católicos que iam à Igreja estavam, comparações entre a Igreja Católica e
em sua maioria, identificados, por outras denominações. Esmeram-se em
exemplo, com crucifixos, terços, blusas, contar suas histórias de vida enfatizando
fitinhas, bolsas e adesivos nos carros, as causas de sua devoção a determinados
de modo a tornar visíveis os símbolos santos e/ou curas e apoio da religião
do catolicismo. Do mesmo modo, há diante de dificuldades cotidianas. Há

O CENSO NÃO DIZ TUDO, MAS QUE AJUDA, AJUDA...O CATOLICISMO EM CIDADES DO ESTADO MENOS CATÓLICO // 53
11. Cabe mencionar o comunidades católicas oriundas da “meu marido era católico, então eu
clássico estudo de Cândido
Procópio F. Camargo RCC e a assiduidade dos fiéis a algumas voltei”; “meus filhos podiam se perder na
(1973) em que as questões dessas comunidades foi relatada, mas vida e era importante ter uma religião”;
migratórias aparecem
como chave para entender elas não estão diretamente vinculadas aprendi que as dificuldades devem ser
as mudanças do campo à paróquia. Com efeito, os católicos em oferecidas a Jesus que nos deu a vida e
religioso brasileiro. Por
outro lado, aqui enfatizamos
Silva Jardim reconhecem a evasão de que sofreu por nós”; “encontrei alegria e
que na atualidade essa fiéis e tentam explicá-la a partir do que paz”.
seria uma chave relevante,
não necessariamente por
consideram equívocos dos próprios
significar o pentecostalismo católicos que, atualmente, deixam-se MOBILIDADE MIGRATÓRIA E RELIGIOSA –
uma opção religiosa
levar pelos discursos e promessas das O SUDESTE EM FOCO
de consolo, mas sim
porque o ato de transpor Igrejas evangélicas. Essa percepção dos Nesta seção, procuro analisar alguns
espacialidades territoriais
fiéis foi similar em várias das cidades aspectos da dinâmica migratória na
e culturas favorece a
mobilidade religiosa na pesquisadas. Assim, para os católicos região Sudeste visando levantar um
medida em que amplia o praticantes, a evasão soa como símbolo campo futuro de investigação que pode
leque de ofertas religiosas e
as trocas socioculturais. de falta de convicção religiosa. Poucos vir a contribuir para a compreensão
são os que consideram que o catolicismo das mudanças do catolicismo na região.
como religião deveria passar por Não ignoro, entretanto, a contribuição
mudanças ou teria algo a ser reavaliado, de autores clássicos que estudaram a
mas alguns sinalizaram para questões associação entre fenômeno migratório
que podem prejudicar a expansão do e religião em outras décadas11, mas é
catolicismo, tais como a falta de atrativos preciso admitir que na atualidade a
para a juventude ou o grande intervalo migração tornou-se menos intensa
para a celebração das missas nas capelas, que em décadas pós-industrialização
em razão das distâncias. brasileira e as formas de inserção nos
Os católicos de Silva Jardim tendem diferentes lugares passam por gramáticas
a ser favoráveis à ideia de que a Igreja e dinâmicas distintas de décadas atrás.
aborde temas sociais, como, por Alguns autores sugerem que os estudos
exemplo, meio ambiente, educação, qualitativos nesse campo podem ser
família ou política. Mas quanto à extremamente férteis para compreender
política, ressaltam que a abordagem a lógica micro associada ao macro
deve seguir uma linha esclarecedora e processo de migração (Assunção;
nunca partidária. Destarte, destacam Ferreira, 2006). Importa assinalar que
que, embora o tema sexualidade deva ser Mariz (2009) já havia chamado a atenção
abordado pela Igreja Católica, entendem para a importância da análise dos
ser este o principal divisor de águas entre deslocamentos e dos diversos aspectos
os fiéis. Na visão dos praticantes, o tema da sociedade global contemporânea para
sexualidade nem sempre é abordado entender os fluxos transnacionais de
de maneira devida pela Igreja e alguns missionários. Nas palavras da autora:
salientaram que possuem dúvidas a
Para entender os novos fluxos missionários
respeito de determinados ensinamentos será necessário ampliar o leque de hipóte-
a esse respeito. ses e refletir sobre o contexto social global
Subliminarmente, os católicos e sobre os seus estímulos em relação aos
praticantes em ambas as cidades foram nos deslocamentos dos mais diversos tipos.
informando sobre as agruras cotidianas (MARIZ, 2009:167).
que enfrentam e como o catolicismo, por O IBGE (2010) mapeia dois tipos
meio de seus bens simbólicos, funciona de migração que podem ajudar no
como uma âncora para a dinâmica da levantamento de hipóteses sobre a
vida, com todas as suas contradições, mobilidade religiosa da população e o
alegrias e dificuldades. Fica claro que os consequente declínio do catolicismo. A
processos de adesão e rejeição religiosa primeira é a chamada migração interna,
estão associados à materialidade da vida, que expressa a migração ocorrida no
conforme expressam esses depoimentos: país de uma forma geral, e a segunda é

54 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


a migração de retorno, que representa a passando de 70,3% no ano 2000 para 12. Todos os dados sobre
migração foram retirados
mensuração das pessoas que nasceram 60% em 2010. Assim, os estados do relatório divulgado pelo
na Unidade da Federação em que com as capitais mais desenvolvidas IBGE: Censo Demográfico,
2010 – resultados gerais
residiam em 2010, mas estavam em outro socioeconomicamente do Sudeste da amostra. Destaco ainda
estado no último levantamento feito pelo assumem a liderança na perda de fiéis que a correlação entre
migrantes e mobilidade
Instituto. católicos e o estado do Rio coloca-se em religiosa só pode ser
Segundo o IBGE (2010)12, no período segundo lugar no ranking da região nesse diretamente estabelecida
se houver possibilidade
de 2005-2010 houve um declínio quesito, passando de 55,7% para 45,8% de comparação estrita
no processo de mobilidade espacial de católicos em 2010. em termos de período
em análise (os resultados
interna da população brasileira, quando No que tange ao declínio relativo de do IBGE apresentam
comparado ao quinquênio 1995-2000. católicos na região, o Espírito Santo distribuição no quinquênio
e não no decênio, como o
A relação de migrantes para cada mil perdeu 8,2% de adeptos no decênio Censo) e sofisticação no
habitantes representou 26,3 migrantes 2000-2010, sendo o segundo estado com cruzamento das variáveis.
Nesse sentido, enfatizo
no período 2005-2010, enquanto no menor população de católicos (53,2%). uma vez mais o caráter
penúltimo levantamento realizado esse A migração interna na região Sudeste hipotético da correlação, no
sentido de estimular novas
número era de 30,6 migrantes por mil apresentou mobilidade mais intensa pesquisas.
habitantes. Esses números variam de no quinquênio 2005-2010, ainda que o 13. Saldo migratório
acordo com as regiões e vamos nos ater volume de imigrantes e emigrantes tenha corresponde à diferença
ao caso Sudeste. diminuído, conforme observado em todas entre imigrantes e
emigrantes.
A região Sudeste apresenta uma as suas Unidades da Federação. Estamos
situação curiosa. O estado de Minas tratando, portanto, de circulação de pessoas
Gerais se mantém como o que reúne o e não necessariamente de migração e
maior número de católicos na região, permanência. Cabe sublinhar, entretanto,

AS EXPERIÊNCIAS DE MOBILIDADE HUMANA DEVEM NOS INSTIGAR À


COMPREENSÃO DE SEUS EFEITOS NA PESSOA, NA CULTURA E EM VÁRIOS
LUGARES DE SENTIDO DA VIDA, JUNTAMENTE COM A TRADIÇÃO E O
ENFRAQUECIMENTO DOS DISCURSOS DE AUTORIDADE

70,4%, bem acima da média nacional. que o estado do Espírito Santo teve um
Nenhum outro estado no Sudeste aumento em seu saldo migratório13, e o
mantém proporção semelhante de Rio de Janeiro manteve a sua posição de
católicos e, ainda que acompanhe a rotatividade migratória (equilíbrio entre
tendência nacional de perda, Minas imigrantes e emigrantes) apresentando
se destaca na região pela menor perda um pequeno saldo migratório positivo.
relativa de católicos, apresentado uma Minas Gerais, apesar de ter permanecido
taxa de 8,2%. A tradição católica em como área de rotatividade migratória,
Minas e a pouca mobilidade demográfica apresentou saldo migratório ligeiramente
são variáveis sugeridas por Gracino negativo, representando maior evasão
Júnior (2008) para uma regulamentação populacional; o Espírito Santo seguiu
cultural que desfavorece o crescimento como espaço de média absorção, mas
do pentecostalismo em algumas regiões com aumento no saldo migratório. Como
ou mesorregiões do estado. vimos, esse estado obteve a maior taxa de
Quanto ao estado do Rio de Janeiro, crescimento dos evangélicos. O estado
embora se configurando como líder da de São Paulo teve um ligeiro declínio no
minoria de católicos, a perda percentual saldo migratório e manteve-se como área
de católicos correspondeu a 9,8% contra de baixa absorção migratória.
uma perda percentual em São Paulo de No que se refere à migração de retorno,
10,2% de católicos. Assim, São Paulo enquanto Minas e Espírito Santo tiveram
assume a primeira posição na região redução na proporção de retornados, os
quanto ao declínio relativo de católicos, estados do Rio de Janeiro e São Paulo

O CENSO NÃO DIZ TUDO, MAS QUE AJUDA, AJUDA...O CATOLICISMO EM CIDADES DO ESTADO MENOS CATÓLICO // 55
viram aumentar esse tipo de população no têm um forte acento na elaboração
período analisado pelo IBGE, sendo 18,9% individual e restringe, a meu ver, a
no período de 2005-2010 em São Paulo e ação mediadora das instituições e dos
20,3% no estado do Rio de Janeiro. Isso processos macro que alteram os modos
significa que ambos os estados tiveram de vida e de construção das identidades.
maior trânsito populacional no período Entra em questão o próprio processo de
e puxaram a região no que se refere à modernização da nossa sociedade, cujo
intensidade do fenômeno migratório. efeito sobre as escolhas religiosas tem se
Vimos que São Paulo é o estado com mostrado intenso e desafiador, uma vez
maior perda relativa de católicos dentre que a tradição não é abandonada de modo
os demais na região. inconteste, mas antes, ressignificada
Nossa hipótese é de que toda essa e reelaborada por meio das práticas e
circulação de pessoas e as experiências crenças religiosas plurais e, em muitos
que fazem no decorrer da vida em casos, aparentemente contraditórias. A
termos de acesso a novas tecnologias; função social da religião está, portanto,
relações afetivas; trabalho e lazer; e, em processo de transformação porque se
até mesmo, a formação educacional tornou mais elástica e abrangente.
são potenciais fatores de influência que Acredito haver uma tensão instaurada
alteram a relação com o supramundano entre a tendência individual à plasticidade
e, por consequência, com a religião. do vínculo ou adesão religiosa e a
Assim, não reduziríamos a relação simultânea busca das instituições de
dos indivíduos com a religião a uma referência pelos indivíduos (Fernandes,
questão essencialmente socioeconômica 2006). Ambas as atitudes são decorrentes
ou de foro íntimo, mas buscaríamos a de alterações que vimos presenciando na
compreensão dos diversos fatores de realidade, isto é, a expansão das novas
influência que dão à religião o estatuto tecnologias e modos de comunicação
que possui hoje em nossas sociedades: e circulação da informação, capazes de
flutuante e presente, mas por vias menos provocar múltiplos inputs dos segmentos
lineares e formais, como desejariam as juvenis na reelaboração de suas
grandes tradições religiosas. pertenças e relacionamentos; a relação
com o espaço e a mobilidade migratória,
MAIS QUE INDIVIDUALIZAÇÃO E como vimos, além da permanente
PRIVATIZAÇÃO – PISTAS A PARTIR DE incorporação da experimentação como
ESTUDOS QUALITATIVOS. atitude diante da vida.
O processo de mobilidade religiosa e Muitos depoimentos que vimos
o consequente declínio do catolicismo colhendo em nossas últimas pesquisas
tem tido como chave analítica principal (Fernandes, 2006; 2009; 2011) a
a intensificação da individualização. respeito de mudança de religião ou de
Hervieu-Léger (2005) relativiza, permanência falam de uma experiência
inclusive, a “herança religiosa sentida que “preenche o vazio”; que “dá
transmitida” (2005:72), sugerindo que a força”; “que faz sentir Deus no dia a dia”.
identidade sociorreligiosa é construída Embora profundamente centrada no
pelo indivíduo a partir de diversos indivíduo, a atitude de experimentação
recursos simbólicos postos à sua não pode incorporar como elemento de
disposição. Para a autora, os processos plausibilidade apenas a intensificação
pelos quais os indivíduos tecem a sua do processo de individualização. Este
identificação religiosa passam pela processo não seria a explicação, mas
combinação de quatro dimensões típicas: a consequência de outros inerentes
a comunitária, a cultural, a emocional e a às nossas sociedades, oriundos de
dimensão ética. um cotidiano social que impõe e
Essas dimensões típico-ideais demanda escolhas e que irá redefinir a
sugeridas por Hervieu-Léger (2005) dimensão religiosa entendida de modo

56 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


experimental, por meio da subjetividade que por ele transita. O mesmo se aplica 14. Foram realizadas
100 entrevistas em
individual, ou formal, por meio das às comunidades nacionais. profundidade com católicos
instituições e instâncias mediadoras. Os Nossa pesquisa qualitativa com residentes nos municípios
de Campos, Laje do
casos de contestação de católicos acerca católicos no estado do Rio de Janeiro Muriaé, Silva Jardim e Rio
das narrativas institucionais no campo (Fernandes, 2012)14 demonstra que a de Janeiro. Agradeço o
apoio do CNPq/FAPERJ
da sexualidade são prova de que a adesão mobilidade religiosa acontece numa e aos graduandos Bruno
religiosa é ou pode ser também mediada esfera de articulação com a vida social, Marinho, Olga Chiapim e
Elizabeth Santos Souza do
pela corporeidade (Vásquez, 2011). isto é, é possível frequentar a Igreja curso de História da UFRRJ
Sendo assim, podemos investir na do outro ou a religião do outro por e, ainda, a Vanessa Palagar
e Michelle Piraciaba, do
construção de teorias não redutivistas e motivo de convites e amizades e, ainda, curso de Ciências Sociais
no abandono de olhares mono causais no para participação em eventos sociais. da UENF. Estas últimas
atuaram sob a coordenação
estudo do fenômeno religioso, seguindo Entre as justificativas dos fiéis para esse da professora Wania Amélia
a sugestão de Manoel Vásquez (2011) ao movimento estão a relativização da Mesquita.

estudar os imigrantes latino americanos, religião como um valor e a afirmação 15. Depoimento concedido
em entrevista para esta
asiáticos e africanos nos Estados Unidos. do valor da crença: “a religião não é
pesquisa. Mulher, 39 anos,
Para o autor, um de nossos principais importante, mas sim Deus, que pode Rio de Janeiro.
desafios é de-provincialize o estudo da ser encontrado em qualquer lugar”15 16. Não determinada.
religião para historicizá-lo e materializá- (Mulher, 39, RJ).
lo. Nesse sentido, ele sugere que em lugar Um católico e ex-frequentador de
de considerar a religião simplesmente Igreja Evangélica16, reintegrado ao
como crenças privadas, de certo modo, catolicismo por meio da Renovação
insuficientemente representadas por Carismática Católica – RCC, ou melhor,
suas manifestações externas (ritos, por meio dos programas do padre
símbolos etc.), deve haver um esforço Marcelo Rossi, nos conta que em seu
em explorar o consumo, a circulação processo de busca do religioso ouviu as
e a produção transnacional de bens palavras do padre em um programa de
religiosos. Explorar os caminhos pelos rádio, identificou-se com esse discurso
quais a religião adentra nas redes e fluxos religioso e foi “buscar de onde ele
físicos e virtuais, incluindo a internet, a vinha”. O fiel entende que a RCC é um
cultura considerada de massa, ou, como complemento da missa onde não se tem
afirma o autor, abordar a religião “como acesso pleno à palavra de Deus, mas seu
ela é vivida pelos homens e não por discurso sugere um vínculo frouxo com
anjos” (VÁSQUEZ, 2011:3). o catolicismo: “Não faço distinção de
Sugiro que as experiências de Igreja não, o importante é buscar a Deus
mobilidade humana devem nos instigar acima de todas as coisas”. A prática
à compreensão de seus efeitos na religiosa que o informante mais exalta é
pessoa, na cultura e em vários lugares a oração pela mediação institucional do
de sentido da vida, juntamente com grupo religioso. Contudo, foi a interação
a tradição e o enfraquecimento dos com os meios televisivo e radiofônico
discursos de autoridade. Nessa direção, que funcionou como fator determinante
Kim Knott (2005) considera que as para seu retorno à instituição católica,
comunidades religiosas transnacionais que foi por ele criticada pela falta de
se expressam por meio da mobilidade acolhimento quando comparada às
de seus adeptos, das palavras ditas nos igrejas evangélicas. O conteúdo da
espaços cibernéticos e por meio de suas narrativa do padre Marcelo Rossi
ações que transpõem os espaços. O fez eco numa dimensão subjetiva do
espaço, segundo Kim, não é uma tábula sujeito, cujo depoimento nos leva
rasa onde tudo é posto, mas possui a crer que aderiria a tal conteúdo
características multidimensionais e, a independentemente da instituição que
meu ver, agrega fatores como memória, o introduzisse.
cultura(s), dinamicidade e identidade(s) Nossas pesquisas sinalizam ainda para
capazes de fazer sentido ao indivíduo o fato de que os lugares e as experiências

O CENSO NÃO DIZ TUDO, MAS QUE AJUDA, AJUDA...O CATOLICISMO EM CIDADES DO ESTADO MENOS CATÓLICO // 57
socioculturais a eles associadas são docspdf/ABEP2006_497.pdf. Acesso em
compartilhadas a partir do processo de 02 de setembro de 2012.
mobilidade e das diferentes inserções CAMARGO, Cândido Procópio F.
individuais nos espaços cotidianos. Católicos, protestantes e espíritas.
A Igreja Católica enfrenta o desafio Petrópolis, Vozes, 1973.
de se lançar nos espaços e inovar nas FERNANDES, S. R. A. Sobre artífices
possibilidades de interlocução com os e instrumentos – o estudo da religião
indivíduos modernos. Na visão de seus no Brasil e algumas tendências
seguidores no estado do Rio, os católicos metodológicas. Estudos de Sociologia,
“não sabem acolher”; “são acomodados vol. 18, nº 34, 19-37, 2013a.
e não visitam os outros”. A transmissão
_____. Os números de católicos no
religiosa supõe, portanto, troca, interação
Brasil – mobilidades, experimentação
em contextos diversos, uma vez que
e propostas não redutivistas na análise
a nossa época é de simultaneidade e
do censo. In: TEIXEIRA, F. Menezes, R.
justaposição; do próximo e do distante;
Religiões em Movimento – o Censo de
do lado a lado e do disperso (Knott,
2010. Petrópolis: Vozes, 2013b (prelo).
2005).
_____. (re) construção da identidade
Mas a religião é também consequência
religiosa inclui dupla ou tripla pertença.
de uma prática simbólico-espacial.
Entrevista IHU online. 2012. Disponível
Sair, voltar, permanecer, abandonar
em: http://www.ihu.unisinos.br/
as instituições religiosas são ações entrevistas/511249-estamos-falando-
mediadas pela assimilação do indivíduo d e - re - c onst r u c a o - d e - i d e nt i d a d e -
a contextos e esferas mais amplos de religiosa-entrevista-especial-com-silvia-
sua inserção na sociedade não restritos fernandes. Acesso em 07/07/2012.
apenas à visão purista da instituição
_____. Carismas e instituições – a crise
ou a um sistema de crenças fechado
do catolicismo no estado do Rio de
e supostamente constituído como
Janeiro e o paradoxal avanço das novas
imutável pelo indivíduo. Desse modo,
comunidades religiosas. Projeto de
a associação entre as razões que os
pesquisa FAPERJ/CNPq/Pibic/CNPq,
indivíduos encontram para suas
2011, mimeo.
mobilidades (espaciais, culturais e
religiosas); o reconhecimento da atitude _____. Novas Formas de Crer – católicos,
de experimentação religiosa como uma evangélicos e sem-religião nas cidades. São
prática contemporânea e o olhar atento Paulo: CERIS/Promocat, 2009._____.
sobre os contextos socioculturais dos Mudança de religião no Brasil –
tempos atuais podem ainda nos render desvendando sentidos e motivações (Org.)
boas interpretações para a análise dos São Paulo: Palavra e Prece, 2006.
dados censitários sobre religião no GRACINO JÚNIOR, P. “Minas são
Brasil. Para tal, precisamos de articulação muitas, mas convém não exagerar”:
metodológica e inventividade analítica, identidade local e resistência ao
sem reducionismos. pentecostalismo em Minas Gerais.
Caderno CRH, Salvador, vol. 21, n. 52,
p.145-162, 2008.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HERVIEU-LÉGER, D. O peregrino e o
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no XV Encontro Nacional de Estudos Resultados Gerais da Amostra. Rio de
Populacionais, ABEP, realizado em Janeiro, 2012.
Caxambu- MG – Brasil, de 18 a 22 de KNOTT, K. Spatial theory and method
setembro de 2006. Disponível em: http:// for the study of religion. Temenos, vol.
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58 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


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VÁSQUEZ, M. A. More than Belief – A
materialist theory of religion. New York:
Oxford, 2011.

O CENSO NÃO DIZ TUDO, MAS QUE AJUDA, AJUDA...O CATOLICISMO EM CIDADES DO ESTADO MENOS CATÓLICO // 59
RELIGIÕES, NÚMEROS E
DISPUTAS SOCIAIS

RENATA DE CASTRO MENEZES1

1. Doutora em Antropologia Os dados sobre religião do Censo 2010 como os reunidos no livro Religiões em
Social, professora adjunta
do Departamento de foram divulgados pelo IBGE em 29 de Movimento, publicado pela editora Vozes
Antropologia do Museu junho de 2012, quase dois anos após o em 2013 (Teixeira; Menezes, 2013),
Nacional, Universidade
Federal do Rio de Janeiro. levantamento censitário que, segundo citando alguns exemplos próximos de
2. “Em 2010, o IBGE
informações do próprio instituto, teria uma bibliografia que não para de se
realizou o XII Censo se dado entre agosto e outubro de 2010; multiplicar.
Demográfico (...). O
Censo 2010 é um retrato
e aproximadamente um ano e meio após É preciso destacar que o interesse pelos
de corpo inteiro do país a divulgação dos primeiros resultados2. números veio e vem, obviamente, dos
com o perfil da população
e as características de
Ao serem apresentados, os números pesquisadores da religião, mas envolveu
seus domicílios, ou atingiram uma ampla repercussão na também as próprias igrejas e seus
seja, ele nos diz como mídia e nas redes sociais: no mesmo sacerdotes, e outros segmentos sociais,
somos, onde estamos e
como vivemos. A fase dia, foram anunciados nos noticiários numa movimentação que caracterizei,
preparatória da operação televisivos em horário nobre; na manhã em entrevista que dei sobre o tema,
censitária teve início em
2007 e seus trabalhos foram seguinte, ocuparam a capa dos principais como uma “comoção surpreendente”
intensificados a partir de jornais nacionais; tornaram-se objeto (Menezes, 2012a). Diante deste quadro de
2008. A coleta teve início
em 1º de agosto de 2010, de destaque nas revistas semanais; manifestações, este artigo pretende trazer
durando três meses. E os motivaram a circulação de tabelas e reflexões no sentido de desenvolver uma
primeiros resultados foram
divulgados em dezembro do comentários entre especialistas por atitude “reflexiva” em torno da produção,
mesmo ano”. Disponível em: correio eletrônico e em redes sociais. da divulgação e da repercussão dos
http://censo2010.ibge.gov.
br/sobre-censo. Acesso em Foram também tema de debates entre dados sobre religião no censo. Ou seja,
26/12/2013. acadêmicos, envolvidos com a área de trata-se de identificar a grade de leituras
religião, ou com a área de indicadores a partir das quais os números foram
sociais, estimulados a comentar os recebidos e interpretados, procurando
resultados para adensar a interpretação entender porque a visualização do
do material divulgado. Outro indicador perfil religioso nacional se tornou uma
significativo dessa repercussão está na questão relevante para tantos. Assim, a
quantidade de trabalhos acadêmicos expectativa e a repercussão dos dados do
dedicados aos dados de religião, IBGE são tomadas aqui como um sinal
lançados desde então, como os contidos do peso socialmente atribuído à religião
nos números especiais das revistas na sociedade brasileira contemporânea.
IHU-online (número 400, agosto de Tal proposta justifica-se, seguindo
2012), Debates do Ner (ano 14, número uma pista aberta por Pierre Bourdieu
24 de 2013), ou os disseminados em (BOURDIEU, 1989), pela concepção
vários outros periódicos, ou ainda de que não basta conhecer os números

60 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


censitários, mas para melhor interpretá- altos do governo são proporcionalmente 3. Além de nos artigos
citados, minhas reflexões
los, é preciso refletir criticamente sobre reservados para representantes de certas aqui trazidas foram
o interesse em produzi-los e divulgá-los comunidades religiosas4. amadurecidas em
discussões promovidas
e sobre o alcance que eles possam ter. No caso brasileiro, e mesmo após pelo ISER, pelo ISER
Para isso, pretendo retomar algumas a instauração de uma república laica, Assessoria e pela Associação
dos Cientistas Sociais da
ideias já presentes em trabalhos a religião é uma categoria dos censos Religião do Mercosul,
anteriores (Menezes, 2012a; 2012b; desde 1872 (salvo em 1920 e 1930), ainda entidades as quais agradeço.
2013) incorporando, no entanto, novos que com as variações de classificação 4. Os mesmos autores
argumentos surgidos ao longo do (já apontadas por Procópio Camargo
assinalam que esse uso dos
dados é sustentado por um
longo) caminho de debates sobre o tema3. (1984). Os cientistas sociais começam a censo de 1932, ainda na
época da ocupação francesa
se apropriar desses dados para apontar
CENSO: DESCRIÇÃO E PRESCRIÇÃO (1920-1943), quando 54%
mudanças no campo das religiões a da população eram cristãos,
e 46%, muçulmanos.
O ponto de partida da reflexão aqui partir dos anos 1970 (em Camargoet Esses resultados têm sido
desenvolvida é a constatação de que al., 1973). Nessa década, notou-se uma contestados desde então,
o Estado brasileiro é laico, portanto, redução discreta no número de católicos, pois favoreceriam grupos
cristãos, numa situação
não é óbvio nem natural que um com o crescimento de “espíritas e que provavelmente se
instituto governamental nacional use protestantes”, como assinalou Procópio alterou muito desde
então. Mas, curiosa
financiamento público para a contagem Camargo (Camargo et al. 1973), ou ou sintomaticamente,
do pertencimento religioso de seus de “pentecostais e umbandistas”, justamente por conta de
seu uso político, até 2008
cidadãos. Como nos lembra Clara como propuseram Peter Fry e Gary não se havia conseguido
Mafra (2013), nem todos os Estados Howe (1975), uma mudança religiosa aplicar um novo censo no
país, sob pena de provocar
Nacionais contam sua população a partir que foi interpretada a partir de uma instabilidade (Kertzer; Arel,
de variáveis religiosas: há países como perspectiva até certo ponto funcional, de 2008).
os Estados Unidos e a França que, por refazimento da tessitura de laços sociais
considerarem o Estado laico e a religião, em uma sociedade que se urbanizava
assunto de foro íntimo e/ou de garantia e modernizava a largos passos. Como
de liberdades individuais, não admitem uma espécie de contrabalanço da
que se produza um mapeamento de modernidade, à religião, isto é, aos novos
cidadãos a partir da categoria religião. pertencimentos religiosos, caberia o
Seja para que o Estado não tenha esse papel de atender às carências de uma
gasto, seja para que ele não detenha esse população marcada pela transformação
conhecimento, o fato é que há países que radical das condições de vida, por um
não perguntam sobre religião em seus “milagre econômico” que gerara uma
censos oficias. industrialização crescente, pelo êxodo
Numa posição radicalmente oposta, rural–urbano. Para esses autores, o
como Kertzer e Arel (2008) demonstram, catolicismo, tradicional modalidade
há Estados que não apenas produzem religiosa da sociedade brasileira,
dados censitários sobre religião, mas estaria sendo trocado por formas de
que os utilizam na distribuição de cargos pertencimento religioso mais adequadas
governamentais, como no caso do Líbano, ao desafio do urbano, da sociedade de
país organizado a partir de uma forma classes, da identidade individual no
de consorciação na qual os postos mais mundo moderno, por serem capazes de
POPULAÇÃO RESIDENTE, POR RELIGIÃO – BRASIL 1980 - 2010 (%)

1980 1991 2000 2010

CATÓLICOSROMANOS 89,0 83,3 73,6 64,6

EVANGÉLICOS 6,6 9,0 15,4 22,2

ESPÍRITAS 0,7 1,1 1,3 2,0

UMBANDA E CANDOMBLÉ 0,6 0,4 0,3 0,3

OUTRASRELIGIOSIDADES 1,5 1,4 1,8 2,9

SEMRELIGIÃO 1,6 4,8 7,4 8,0

Fonte: IBGE, Censos 1980; 1991; 2000; 2010.

RELIGIÕES, NÚMEROS E DISPUTAS SOCIAIS // 61


5. Um exemplo dessa refazer grupos e teias de solidariedade e e o crescimento dos evangélicos
diversidade pode ser
identificado com clareza fornecer sentido em situações de anomia pentecostais, apesarda novidade do
na vigília inter-religiosa e desfiliação. decréscimo de católicos, não apenas em
que marcou a Eco-92,
a conferência do meio Nas décadas seguintes, essas chaves de números percentuais (de 73,6% em 2000
ambiente da ONU, realizada
leitura, ou ao menos seus prognósticos, para 64, 6% em 2010), mas, absolutos (de
no Rio de Janeiro. Para
essa vigília, as organizações foram colocadas em suspenso, pois, a 124.976.912 em 2000 para 123.280.172
não governamentais partir dos anos 1980, a transformação em 2010).Também o crescimento dos
responsáveis lançaram
uma convocatória, que das religiões do Brasil acelera-se, “sem religião”, ainda que em velocidade
resultou na participação dos complexifica-se e muda de sentido. menor do que das últimas décadas, foi
seguintes grupos: Judaísmo;
Espírita; Catolicismo; Santo Avança a diminuição de católicos, há percebido numa linha de continuidade
Daime; Kaiowá (indígena); um veloz crescimento do segmento com as mudanças em curso6. E
Candomblé; Ananda
Marga; Bioarquitetura evangélico; mas os espíritas deixam como mudança inesperada no campo
do sagrado; Evangélicos; de crescer tanto, e há uma redução pentecostal, acolheu-se o decréscimo
Muçulmanos; Ciranda de
Luz; Umbanda; Hinduísmo percentual da umbanda, embora com de membros da Igreja Universal do
(GuinanaMandiram e um pequeno aumento de membros do Reino de Deus, paralelo ao crescimento
Ordem Rama Krishna);
Umbanda estudos espíritas;
candomblé. Cresce também o número maior da Assembleia de Deus,
Luteranos; Budismo do dos que se declaram sem religião, a também inesperado. Assinalo que esse
Japão (riskhokosei-kai);
Budismo tibetano, Zen
ponto desta categoria se tornar a terceira deslizamento envolve, respectivamente
Budismo e Theravada; no universo religioso do país. e para além de diferenças teológicas e
Hare-Krishna; Igreja
Messiânica; Baha’i,
Movimento Sathya Sai Baba; O DESTAQUE AO DECRÉSCIMO MASSIVO DE CATÓLICOS, A DIMINUIÇÃO
Brahma Kumaris; Grande
Fraternidade Branca. Todos
OU O BAIXO CRESCIMENTO DE RELIGIÕES DE MATRIZES AFRICANAS, A
esses grupos possuíam POSSIBILIDADE DE HAVER UM GRANDE NÚMERO DE PESSOAS SEM RELIGIÃO
representação na cidade do
Rio de Janeiro, com adeptos E O FLORESCIMENTO DE FORMAS DE VIVÊNCIA CRISTÃ RELATIVAMENTE
brasileiros (Brandão, 1993).
RECENTES NO PAÍS APONTAM PARA UM CONJUNTO DE QUESTÕES QUE
6. Os “sem religião” vinham
crescendo desde a década SUBJAZEM À ANÁLISE DOS NÚMEROS DO CENSO. O QUE PARECE ESTAR EM
de 1980, em percentuais
consideráveis: eram 0,8 JOGO (...) É A NOÇÃO DE QUE AS MUDANÇAS NO CAMPO RELIGIOSO PODEM
%, em 1970, dobrando em
1980 (1,6%), tornando-
ESTAR RECONFIGURANDO A CARA DO PAÍS.
se três vezes maiores em
1991 (4,8%), e novamente E mesmo que em percentuais censitários litúrgicas entre ambas, uma igreja de
quase dobrando em 2000
pequenos, novas identidades religiosas modelo hierárquico, centralizado e
(7,3%). Em 2010, esse bloco
aumentou mais uma vez, se fazem presentes de maneira crescente episcopal e uma igreja de modelo mais
chegando à taxa de 8,0% da no cenário nacional5. Portanto, se o congregacional, capilar e deliberativo, o
população e permanecendo
como a terceira categoria que estava em jogo nas transformações que nos impediria de tratar os evangélicos,
no universo religioso do de pertencimento religioso era o mesmo os pentecostais, num bloco
país (bem acima da quarta
colocada, a categoria atendimento de necessidades diante unívoco, e nos obrigaria a considerar as
espírita, com 2,0%). A de processos de modernização, ficou diferentes modalidades de agregação e
desaceleração de seu
crescimento demonstraria evidente que algumas mudanças pertencimento compreendidas por essa
de forma exemplar os religiosas eram privilegiadas em relação identidade religiosa (Ver Menezes, 2012:
limites do exercício de
“futurologias” a partir de
a outras, ainda que configurações 10. Para uma análise desse conjunto
um censo: nas análises inusitadas tenham aparecido, o que de dados de forma mais complexa, ver
do Censo 2000, houve Teixeira; Menezes, 2013).
alguns prognósticos de
de certa maneira colocava em xeque o
que eles cresceriam num modelo interpretativo. Esse é o quadro Mas o destaque ao decréscimo massivo
ritmo igual ou maior
ao dos pentecostais, e
de transformações entre os anos 1980 de católicos, a diminuição ou o baixo
que este crescimento e 2010, que as panorâmicas dos censos crescimento de religiões de matrizes
estaria relacionado a sucessivos tornaram perceptível. africanas, a possibilidade de haver um
uma mudança mais
profunda no processo de Por causa do acompanhamento grande número de pessoas sem religião
construção de identidades
e pertencimentos religiosos atento à dinâmica de transformações, e o florescimento de formas de vivência
no Brasil, hipótese que em alguns dados do Censo 2010 foram cristã relativamente recentes no país
2010 não se concretizou.
recebidos como “mudanças esperadas”, apontam para um conjunto de questões
como o decréscimo do catolicismo que subjazem à análise dos números

62 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


do censo. O que parece estar em jogo como um “repto” à cultura católico- 7. Refiro-me aqui aos
textos de Pierre Sanchis
nessas análises, que por vezes correm o brasileira (Sanchis, 1994). presentes nas referências
risco de desembocar numa “sociologia Em estudos sucessivos7, Pierre Sanchis bibliográficas deste artigo
(Sanchis, 1994; 1997; 2001;
de elevador” (ou seja, aquela que aponta tem chamado a atenção para o lugar das 2008).
quem sobe e quem desce e, a partir daí, religiões nas representações sobre o Brasil.
tece considerações que extrapolam em Segundo Sanchis, houve um tempo em
muito o suporte empírico dos dados), é que parecia haver uma correspondência
a noção de que as mudanças no campo inescapável entre a religião católica
religioso podem estar reconfigurando e a sociedade e cultura brasileiras.
a cara do país. As perguntas básicas Nessa concepção, o processo histórico
que norteiam a recepção dos números de formação do país, em que a Igreja
parecem ser: o Brasil ainda tem uma Católica teve um papel fundamental,
maioria católica ou vai se tornar um teria marcado indelevelmente as formas
país evangélico? Em se tornando um de organização e de pensamento da vida
país evangélico, esse evangelismo será nacional. No entanto, este autor destaca
pentecostal? Em se tornando um país ainda a manipulação ideológica dessa
evangélico pentecostal, as religiões de construção:
matrizes africanas desaparecerão? E Sabe-se como o catolicismo foi identifica-
quais as implicações para a política e do juridicamente com a entidade Brasil,
a cultura nacionais, tradicionalmente desde o início da colonização pelas auto-
ridades políticas, que necessitavam de um
associadas ao catolicismo e às religiões
cimento social para o empreendimento co-
afro? lonial. Sabe-se também como, no decorrer
Ou seja, as transformações intensas que dos séculos, elaborou-se do lado da Igreja
ocorrem desde os anos 1980 naquilo que uma ideologia do Brasil essencialmente e
sociogeneticamente “católico”, ideologia
alguns chamam de “o campo religioso que assegurava à estrutura eclesiástica um
brasileiro”, e que envolve uma área lugar central no mundo da “Pátria”, permi-
nebulosa que abraçaria o conjunto de tindo-lhe reivindicar legitimamente um
religiões, religiosidades, espiritualidades papel correspondente nos meios políticos
do país, colocam o senso comum da “Nação” (Sanchis, 1997: 29).
sobre as especificidades brasileiras na A cada década, um novo censo
lida com o sagrado em questão. Há traz consigo a tensão de apresentar
uma espécie de mitologia nativa da uma imagem do país que pode nos
constituição do país a partir das matrizes surpreender e com a qual precisaremos
portuguesa, africana e indígena, que se nos acostumar e tentar interpretar. É
reflete também no campo da religião, como se a dinâmica de transformações
compondo determinadas representações do universo religioso estivesse
que os brasileiros fazem deles mesmos, continuamente redefinindo a cara do
com a crença no sobrenatural fazendo Brasil, ao redesenhar os contornos do
parte de “nosso” ethos e de “nossa” visão pertencimento religioso de seu povo. O
de mundo. Haveria, assim, uma forma censo tem funcionado, assim, como uma
específica da brasilidade lidar com o espécie de espelho da nação, em que
sagrado, espécie de forma elementar nos miramos a cada década, para ver se
da vida religiosa constitutiva do jeito (ainda) nos reconhecemos.
de ser nacional. E são justamente essas
representações do Brasil, ou seja, a ideia UM INSTRUMENTO DE CONTAGEM E
de uma associação entre povo, nação, SEUS LIMITES
cultura e religião que a dinâmica de O jogo de espelhos que se forma entre a
transformações religiosas das últimas sociedade e o censo, porém, tem problemas,
décadas está colocando em questão, o que pois nem sempre aquilo que se gostaria de
faz com que o crescimento pentecostal ver consegue ser mostrado. É preciso estar
seja tratado por alguns, como bem atento aos riscos da apropriação desse
formulou o antropólogo Pierre Sanchis, instrumento metodológico para subsidiar

RELIGIÕES, NÚMEROS E DISPUTAS SOCIAIS // 63


8. Lembra o historiador interpretações mais profundas sobre a Isso quer dizer que a contagem
Benedict Anderson,
quanto aos recenseadores dinâmica da vida religiosa do país: “o aparentemente natural efetuada pelo censo
coloniais, sua “paixão (...) Censo é uma fotografia da autodeclaração é, na verdade, uma contagem interessada.
por uma categorização
exaustiva e inequívoca. Daí religiosa em determinado contexto: ele O Estado conta com aquilo que considera
a intolerância deles diante não possibilita qualificar a mudança, importante e, para isso, deixa de lado
de identificações múltiplas,
politicamente ‘travestidas’,
ou entender suas nuances, mas apenas certas características das pessoas, certos
indistintas ou variáveis”. nos ajuda a visualizar as macrolinhas papéis sociais e certas modalidades de
(Anderson, 2009:229).
das transformações de uma década” agregação, enfatizando outros. Nada é
9. Analisando o papel do (Menezes, 2012:10). “óbvio” nessa forma de apresentação do
censo na relação entre
os Estados Nacionais Como um instrumento de análise, o povo de um país: quem será contado (os
Modernos e suas colônias,
censo é incapaz de capturar movimentos cidadãos, todos os moradores, também os
Anderson (1983) demonstra
que as categorias censitárias finos, pois, para gerar visões em escala estrangeiros, só os adultos, só os homens),
eram constantemente
nacional, opera a partir de conjuntos o que será contado (pessoas, sexo, idade,
unificadas, separadas
e recombinadas, e amplos, fixos e homogêneos e, para raça, religião, riqueza, produção) e as
longe de expressarem formas de agrupamento dessas contagens
produzi-los, nivela, simplifica e demarca
princípios classificatórios são parâmetros que variaram e variam
inquestionáveis e universais, com nitidez posições que, no cotidiano,
eram constantemente largamente no tempo e no espaço9. Se
são marcadas por complexidade,
alteradas, ao sabor da algumas categorias de classificação a
conjuntura e dos interesses variação e ambiguidade8. A pergunta
partir das quais o censo opera - como
em jogo. enunciada por um recenseador não
sexo, idade, renda, local de residência,
10. Michel Foucault, admite titubeios.
indo mais longe com a escolaridade – parecem autoevidentes,
análise, afirma que as Além disso, apesar da aparência neutra outras são menos, pois cumprem o papel
estatísticas, superando
outras unidades de
de um mero instrumento de contagem de identidades culturais, como raça/cor,
agrupamento significativas, em que os números falam por si mesmo, etnicidade e religião, e geralmente só
como, por exemplo, a ou seja, de ser apenas uma apresentação passam a ser contadas quando começam
família, produziram
um nível de realidade numérica da população e/ou da riqueza a desempenhar papéis de identidades
específica, a população, e dos recursos de determinada área, país políticas, isto é, a canalizar demandas
que permitiu uma nova
forma de exercício do ou região, dentro de certas categorias, (Jung, 2008).
poder, o poder disciplinar para a produção de conhecimento, com
(FOUCAULT, 1979, 2007). Sejam quais forem as categorias, as
amparo da ciência estatística, um censo
Para Foucault, a população contagens corroboram o suposto de
é uma ideia e uma oculta dimensões bem mais complexas.
realidade absolutamente um Estado composto por indivíduos
moderna, em relação ao
Historicamente, tanto o censo como a isolados, cujas características individuais
funcionamento do poder estatística que lhe confere suporte surgiram se potencializam e adquirem consistência
político, mas também em
relação ao conhecimento e
no contexto da formação dos Estados específica na escala da população. As
à teoria política anterior ao Nacionais Modernos, servindo de alicerce categorias do censo produzem um
século XVIII (FOUCAULT,
2007).
à sua construção. Para que o Estado- efeito de reificação: se as identidades
Nação se consolidasse, era necessária são construídas e contextuais, o censo as
uma visão categorizada, hierarquizada, apresenta como reais. Se elas são fluidas,
de sua população e seus domínios, cuja locais e circunstanciais, o censo as
leitura o censo, ao enquadrá-los em apresenta como gerais e substantivadas
categorias pré-determinadas, permitiu (Kertzer; Arel, 2008)10. Há, portanto,
(Kertzer; Arel, 2008; Anderson, 2009). E uma relação intrínseca entre censo e
para tanto, o censo produziu uma escala poder estatal: a finalidade primordial
singular de agrupamento de pessoas, da contagem é subsidiar as ações do
através de um processo de simplificação e Estado. Diz explicitamente o manual do
homogeneização: fez desaparecer formas Censo 2010, produzido pelo IBGE para
de agregação intermediárias como família, jornalistas:
vizinhança, associação, congregações
Para que serve o Censo?
religiosas, subsumindo as diferenças e
as nuances evidentes no dia a dia em O Censo é a principal fonte de dados so-
bre a situação de vida da população nos
categorias mais genéricas, colocando municípios e localidades. São coletadas
indivíduos diante do Estado, a partir de informações para a definição de políti-
determinados princípios classificatórios. cas públicas em nível nacional, estadual e

64 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


municipal. Os resultados do Censo tam- porque tem um papel fundamental na
bém ajudam a iniciativa privada a tomar representação e legitimação de grupos e
decisões sobre investimentos. Além disso,
a partir deles, é possível acompanhar o
no estabelecimento de políticas públicas
crescimento, a distribuição geográfica e a (Kertzer; Arel, 2008).
evolução de outras características da popu- Cabe-nos, então, proceder a dois
lação ao longo do tempo. caminhos de relativização dos dados
Que políticas públicas podem ser gera- censitários sobre religião: diante da
das a partir dos resultados do Censo? especificidade do instrumento, que
Através do Censo, o poder público pode processos a contagem do censo deixa de
identificar áreas de investimentos prioritá- fora, isto é, que inferências não podemos
rias em saúde, educação, habitação, sanea- fazer a partir dele? E, num segundo
mento básico, transporte, energia, progra-
mas de assistência à infância e à velhice. E eixo de questões, para quê os dados de
também selecionar locais que necessitam religião estão sendo utilizados, isto é, a
de programas de estímulo ao crescimento quem eles estão interessando?
econômico e desenvolvimento social.
O Censo interfere nos repasses de verbas O QUE O CENSO NÃO MOSTRA
públicas?
A pergunta censitária, como foi
Ao contar a população, o Censo produz re- dito, não admite titubeios. Sabe-
sultados que servem de parâmetro para sa- se, no entanto, que no cotidiano o
ber quanto cada cidade receberá de repasse
federal. São os resultados do Censo que pertencimento religioso é uma coisa mais
fornecem as referências para as estimativas complexa. No universo das religiões, são
populacionais realizadas nos anos seguin- diversos os graus de envolvimento e as
tes, com base nas quais o Tribunal de Con- formas de participação possíveis que o
tas da União (TCU) define as cotas do Fun-
censo não captura: há aqueles que vão
do de Participação dos Estados e do Fundo
de Participação dos Municípios. Além de regularmente a cerimônias religiosas,
fornecer informações imprescindíveis para isto é, que são praticantes, envolvendo-
a distribuição orçamentária das pastas da se nas estruturas organizativas ou
Educação, Cultura, Saúde e Infraestrutura, nos processos de iniciação. Há os que
baseadas no número e distribuição da po-
vão apenas eventualmente a uma ou
pulação.
outra cerimônia. E, por fim, há os
O Censo interfere na representação po- que procuram a religião apenas nos
lítica?
momentos solenes de sua vida pessoal
Sim. São os resultados do Censo que forne- e familiar – nascimentos, casamentos,
cem as referências para as estimativas po-
pulacionais, com base nas quais é definido
mortes - ou em momentos de crise –
o número de deputados federais, estaduais doença, desemprego, etc, mantendo com
e vereadores de cada estado e município. o religioso uma relação de clientela.
(IBGE, s/d:4-5) O censo oculta também o tempo
Se uma série de ações do Estado de adesão e, consequentemente,
são embasadas em dados censitários, impossibilita a percepção de circulações
o censo é uma contagem altamente de pessoas entre religiões que ocorram
qualificada e impactante, pois serve no intervalo de uma década. Mais
de suporte a essas ações. Por isso, é ainda: o censo tem dificuldades no trato
recorrente em determinados contextos do pertencimento múltiplo, isto é, de
sócio-históricos a recusa à resposta pessoas que lidem simultaneamente
ao questionário do censo, ou a sua com duas ou mais religiões. Ou mesmo
manipulação, pois se vê risco em com aqueles que, sendo adeptos de
fornecer ao Estado uma informação uma religião, colocam-se abertos a
que pode se voltar contra os próprios conhecer outras, seja por “curiosidade”
cidadãos recenseados (Kertzer; Arel, (por um desejo de conhecer coisas
2008). Nesse sentido, compreende-se que novas), seja por “necessidade” (por estar
o censo se torne um campo de disputas, buscando solução para um problema
não apenas por questões técnicas, mas em que considera sua religião ineficaz),

RELIGIÕES, NÚMEROS E DISPUTAS SOCIAIS // 65


11. Embora saibamos que seja por julgar que “todas elas têm religiosa (Teixeira; Menezes, 2006). Mas
se trata de uma pergunta
aberta, as respostas a coisas boas”, e que por isso é possível nada disso é visível através do censo.
ela são posteriormente combiná-las. E ainda com aqueles que A incapacidade de o censo capturar
enquadradas pelos
pesquisadores do IBGE em realizam uma combinação singular de dinâmicas mais finas tem sido discutida,
determinados descritores. crenças e práticas de várias matrizes no sentido de procurar lhe conferir
Portanto, é preciso que haja
um mínimo de evidência
religiosas, constituindo, numa espécie de maior qualidade. Para alguns, o
para uma resposta ser “bricolagem”, “sua própria” religião. problema estaria nas condições técnicas
tabulada e não cair em
rubricas como “outras”, ou Enfim, o censo não tem como (insuficientes) do instrumento. Os dados
“indeterminada”. classificar aqueles que definem suas de religião se baseiam em apenas uma
12. O IBGE aplica dois práticas espirituais, místicas, reflexivas pergunta, aberta – “qual a sua religião ou
tipos de questionário: o
básico, na maioria dos como sendo uma filosofia, uma fé, uma seu culto”? -, a qual está contida somente
domicílios, e o completo, explicação, uma cosmologia, e não uma no questionário completo, que é aplicado
a uma amostra de 11%
deles. E apenas no completo
religião. A estes, e aos demais casos seletivamente, e não em todos os
aparece a questão sobre ambíguos acima citados, caberá, ao domicílios12. Quanto a isso, há sugestões
religião.
responder o questionário, reduzir sua para o desdobramento da pergunta em
experiência a uma das possíveis categorias outras que ajudassem a lhe conferir
religiosas existentes11, sob pena de acabar maior precisão. Há, também, demandas
agrupado em “outros”, “indeterminados”, de estender sua aplicação à totalidade
ou a se incluir nas rubricas “sem religião”, dos domicílios visitados. Outras críticas
ou “sem declaração”. As diversas formas técnicas referem-se ao treinamento
de relacionamento com a religião que insuficiente dos recenseadores para
acabamos de citar, baseadas em Brandão perceber as sutilezas do campo religioso
(1993), estão, todas elas, presentes e interpretar as respostas com mais
no cotidiano do Brasil atual, mas não acuidade. E ao fato de os descritores, isto
aparecem no censo. Elas se tornam é, as palavras que indexam a informação,
perceptíveis apenas ao olharmos para serem pouco precisos.
as religiões mais de perto, em pesquisas O IBGE tem sido sensível às demandas
qualitativas, pelo ângulo da relação por maior rigor e transparência dos
indivíduo-religião. dados, o que pode ser demonstrado
Também não aparecem no censo através da parceria que estabeleceu com
as relações que as religiões ou igrejas uma organização não governamental
estabelecem entre si, pois estas nacionalmente reconhecida no campo
não são suas unidades de análise. dos estudos da religião, o Instituto de
Sabemos que, entre elas, há aquelas Estudos da Religião (ISER), para auxílio
abertas à conquista de mais adeptos, no tabelamento dos dados; pareceria
numa dinâmica concorrencial que que, apesar de envolver uma assimetria
envolve aperfeiçoamento de técnicas considerável, se renova há três censos
proselitistas; enquanto que há outras (Ver sobre o tema CAMURÇA, 2013).
cuja doutrina defende o fechamento Outro exemplo da sensibilidade do órgão
exclusivo a uma etnia, a um povo público a demandas de melhoria da
eleito. E há os segregacionismos, os qualidade dos dados está na apresentação,
fundamentalismos, o fechamento dos neste censo, do bloco dos “sem religião”
que consideram a sua religião como a com matizes internos, isto é, subdivido
forma exclusiva de chegar a Deus, de nas categorias “sem religião”, “ateus” e
pessoas que tentam criar um mundo “agnósticos”; e na abertura à possibilidade
apartado, tratando os adeptos das outras de registro de duplo pertencimento.
religiões com reservas, com desdém Tratava-se de antigas demandas dos
ou até mesmo com violência, por pesquisadores para tentar identificar,
considerá-los inferiores, ou errados, ou através do censo, os movimentos
ignorantes, ou endemoniados. Vê-se, de trânsito e o “caráter múltiplo” do
desde os anos 1980, o crescimento de pertencimento religioso nacional, que
“batalhas espirituais” e da intolerância já mencionamos13. Curiosamente, duas

66 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


tentativas que não funcionaram, ou OS USOS DO CENSO
13. Acredita-se que nos sem
religião há, além de ateus
ao menos, não do modo esperado. De e agnósticos, parcelas de
qualquer forma, ao IBGE, sempre é Nota-se a partir dos anos 1980, pessoas em trânsito entre

possível jogar com duas ponderações: tanto pelas transformações do campo religiões ou entre igrejas,
e aquelas que compõem
o que o censo perde em sutileza, ganha religioso que já citamos, como por um seu próprio panteão, em
em amplitude; e qualquer mudança tem maior esforço em manter e aperfeiçoar espiritualidades mais
pessoais. Quanto ao duplo
que ser feita levando em consideração as os dados (Camargo, 1984), ou ainda ou triplo pertencimento,
séries históricas, sob pena de, ao inovar, pelo retorno do país à normalidade trata-se de uma tentativa

perder possibilidades de comparação democrática, procurando atender às de evidenciar aquilo que a


maioria acredita ser uma
com as categorias do passado14. demandas de coletividades definidas característica “nacional”, o
por múltiplas identidades, que os dados “poliglotismo” religioso, ou
Outras críticas à incapacidade de captura a capacidade de identificar-
religiosos do censo têm sido utilizados se com várias religiões
do censo não focalizam propriamente o
na esfera pública de diversas maneiras, simultaneamente (Ver um
instrumento, mas sim os entrevistados. exemplo dessa posição em
não só pelos pesquisadores do tema. FERNANDES, 1988).
O baixo percentual de religiões afro-
brasileiras, como umbanda e candomblé, Os dados de religião entram em 14. Embora Cândido

ou mesmo dos espíritas, é considerado disputas internas ao campo religioso, Procópio Camargo tenha
relativizado o alcance
um problema de recusa de declaração quando a diminuição de membros de das séries históricas, ao

do “verdadeiro” pertencimento religioso, determinadas igrejas ou denominações assinalar uma grande


variação, até o censo de
provocando distorções. Essas recusas é interpretada como resultado de 1980, nas classificações
estariam associadas a um histórico de equívocos pastorais ou teológicos, em das religiões existentes no
país. Afirma este autor que
trocas de acusações entre as igrejas, ou
perseguições e preconceitos sofridos pelos “os resultados de vários
mesmo entre correntes de uma mesma censos, na realidade, menos
adeptos dessas crenças e práticas num país
igreja (ver exemplos em Camurça, 2013). representam a composição
em que até 1889 o catolicismo era religião religiosa da população,
como evidenciam a
hegemonia do catolicismo”
OS NÚMEROS DO CENSO, PORTANTO, PROVOCAM EFEITOS MUITO ALÉM DO (CAMARGO, 1984: 215).

CAMPO DO CONHECIMENTO, INFLUINDO NA CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES 15. Ver a respeito,


discussões sobre a política
CULTURAIS E POLÍTICAS, NO DESENVOLVIMENTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS, de santuarização da Igreja
Católica em Menezes,
NO ESTABELECIMENTO DE ALIANÇAS PARTIDÁRIAS, ENFIM, EM TODO UM 2009; 2012a. Para disputas
CONJUNTO DE DINÂMICAS SOCIAIS entre evangélicos e afro-
brasileiros, ver Almeida,
2009; Silva, 2006.
Por outro lado, o crescimento de certos
oficial do Estado, e que mesmo depois do
grupos provoca críticas à ingenuidade ou
advento republicano, teve dificuldade em
à ignorância das pessoas, que estariam
acolher práticas de matriz africana como
sendo manipuladas através de técnicas
verdadeiras religiões. Mas, por outro lado,
proselitistas e de ocupação da mídia e
é preciso indagar se os recenseadores (bem
do espaço público – condenações que
como os pesquisadores e alguns agentes
muitas vezes acobertam ou acompanham
religiosos) estão a tratar como religião
a incorporação desses mesmos modelos
aquilo que, do ponto de vista “nativo”,
de atuação pelos próprios críticos15.
recebe outros qualificativos. Ou se a
questão clássica do sincretismo envolve Os dados do censo têm também
um pluralismo identitário mais amplo embasado mobilizações das igrejas e
e mais simbiótico, a ponto de qualquer outras entidades religiosas diante do
demarcação exclusivista carecer de Estado, em demandas por participação
significado. em políticas sociais e culturais, pela
presença em conselhos representativos da
Concordando grandemente com as
sociedade civil, pela obtenção de recursos
críticas e os esforços para melhorar
ou isenções para o desenvolvimento de
a qualidade dos números do censo,
ações sociais, seja em parcerias com o
gostaria, no entanto, de trazer à discussão
poder público, seja executando funções
alguns elementos que nos permitam
públicas por delegação. Têm motivado
pensar nas dimensões políticas da
também a formação de alianças político-
contagem das religiões pelo Estado.
eleitorais, em que lideranças religiosas

RELIGIÕES, NÚMEROS E DISPUTAS SOCIAIS // 67


são estimuladas ou a se candidatarem, ou religiões (intra e inter-religiosas), como
a manifestarem publicamente seu apoio também entre esse universo e outros
a determinado candidato, tornando-se, domínios da vida social. Os números
em contrapartida, membros de governos do censo, portanto, provocam efeitos
em caso de eleições bem sucedidas. muito além do campo do conhecimento,
Chamo a atenção para esses tópicos influindo na construção de identidades
porque acredito ser preciso levá-los em culturais e políticas, no desenvolvimento
consideração em qualquer discussão de de políticas públicas, no estabelecimento
uma maior presença da religião no censo. de alianças partidárias, enfim, em todo
Se o censo é uma instância legitimadora um conjunto de dinâmicas sociais que
de identidades, vemos que contar religião acima já mencionamos.
significa dar algum tipo de magnitude a No entanto, as referências críticas
esse dado, e que a legitimidade obtida ao censo, tanto minhas, como de
pode ser usada de diferentes maneiras. outras pessoas citadas, mesmo
Meu objetivo, no entanto, não é quando apontam para seus defeitos e
denunciar lutas sociais travadas com limites, permanecem lhe atribuindo a
ajuda do censo, ou desqualificar as capacidade de produzir uma “imagem
demandas pela melhoria da qualidade de comunidade” única e singular, afinal
dos dados. Pelo contrário. Meu trata-se de uma construção em escala
objetivo é demonstrar a espessura do nacional (Anderson, 2009), e, portanto,
campo de interesses que se articula em reconhecem a importância do censo.
torno dos números. Tomando como Nesse sentido, o desafio que se
ponto de partida o interesse crescente coloca, para um Estado que se pretenda
manifesto em vários segmentos sociais democrático e plural, é o de como utilizar
por esses dados, procurei estabelecer este instrumento, o censo, de forma que
relações entre esse interesse ao peso ele não sirva apenas para o exercício de
que determinadas religiões ou forma controle, mas que seja uma ferramenta
de expressão de religiosidades têm na de apoio efetivo na construção de uma
construção de representações do Brasil, sociedade mais justa e igualitária. Quanto
num imbricamento entre religião, à sociedade civil e suas organizações,
cultura e sociedade que a dinâmica de coloca-se (da mesma forma que para
transformações das últimas décadas outras peças de governo como, por
pode estar reconfigurando, ou colocando exemplo, o orçamento público), o desafio
em questão. Depois, procurei atentar de construir canais de participação nos
para os limites de captura de movimentos processos de elaboração dos parâmetros
religiosos por parte do censo, e de que e de divulgação dos resultados. Isso
forma esses limites estariam relacionados porque sabemos que os números em
a problemas técnicos (que poderiam questão não são inertes.
ser aperfeiçoados) ou a características
específicas do instrumento (o que
demandaria sua combinação com REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
outras estratégias de pesquisa).
Procurei introduzir alguns elementos ALMEIDA, Ronaldo. A Igreja Universal
políticos na análise, relacionados tanto e seus demônios. São Paulo: Terceiro
às “dificuldades” dos entrevistados Nome, 2009.
auto-declararem sua religião; como às ANDERSON, Benedict. “Censo, mapa,
peculiaridades do censo, enquanto uma museu” In: _____. Comunidades
ferramenta de auxílio da governança do Imaginadas. 2ª. ed. São Paulo:
Estado. Companhia das Letras, 2009, pp. 226-
Quanto à religião, afirmei que seus 255. (1ª. Reimpressão)
números trazem implicações tanto BOURDIEU, Pierre. “Introdução a uma
para relações internas ao universo das sociologia reflexiva” In: _____. O poder

68 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


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70 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


ENSINO RELIGIOSO NO RIO DE
JANEIRO:
UM BOM CASO PARA SE PENSAR RELIGIÃO, DIREITOS HUMANOS E
AS RELAÇÕES ENTRE ESTADO E IGREJA1

SANDRA DE SÁ CARNEIRO

1. Uma versão Primeiramente, eu gostaria de Atualmente, a chamada “luta religiosa”


provisória deste texto foi
originalmente apresentada agradecer o convite feito pelo ISER para refere-se, quase sempre, a ocorrências
na mesa redonda Direitos participar desta mesa2, particularmente bastante externas, a processos ao ar
Humanos e Religião: o
papel do Estado,durante à Christina Vital e Renata Menezes. É livre que acontecem em praça pública
a Conferência das sempre um prazer e uma honra participar – choques em vielas, audiências em
Nações Unidas sobre
Desenvolvimento
de debates como este. Éuma honra, mas tribunais superiores. Desta forma, temos
Sustentável (Rio+20), em 15 étambém um grande desafio, pois a assistido a discussões em torno de políticas
de junho de 2012, Cúpula
dos Povos, Aterro do
proposta é discutir a questão dos direitos de imigração, problemas das minorias,
Flamengo. humanos, da religião e do papel do currículos escolares, observância do
2. Antropóloga, professora Estado. Como os temas são abrangentes sabá, xales para cobrir a cabeça e debates
adjunta do Departamento e bastante complexos, eu gostaria de sobre o aborto. Não hánisso nada de
de Ciências Sociais e
Programa de Pós Graduação esclarecer logo de início de que lugar particularmente privado, encoberto,
em Ciências Sociais do eu estarei falando. Escolhi tomar a talvez sub-reptício, mas, dificilmente,
IFCH/UERJ.
posição que me deixa mais à vontade, privado (GEERTZ, 2001).
que é a da condição de antropóloga Entendo que no Brasil, as relações entre
que tem se dedicado nos últimos anos Estado e religião ficam mais inteligíveis
a refletir sobre a relação entre religião e quando adotamos uma perspectiva
modernidade. Assim, quero apresentar histórica capaz de verificar as operações
algumas reflexões e inquietações que que produziram modalidades distintas
tenho feito a partir das pesquisas que desta presença – da religião, no espaço
tenho realizado sobre trânsito religioso, público.
peregrinações modernas, interfaces entre Neste caso, o primeiro aspecto a ser
turismo e religião e, particularmente, destacado é o fato de que certas formas
sobre o ensino religioso, tema que irei de presença da religião no espaço público
tratar mais adiante. não foram construídas por oposição
Quero iniciar afirmando, como o faz àsecularização, mas, por assim dizer,
Sanchis (2001), que, em nosso tempo, no seu interior. Ou seja, foi no interior
o religioso se transforma, desloca-se, da ordem jurídica, em um Estado
reconfigura-se. A religião na modernidade comprometido com os princípios da
não se tornou “invisível”, uma realidade laicidade, que certas formas de presença
meramente subjetiva, privatizando-se. da religião ocorreram. Ao problematizar
Como lembra Geertz (2001), as questões essa situação, quero destacar não sóa
religiosas, no mundo atual, se movem em complexidade do chamado campo
direção ao centro da vida social e política. religioso brasileiro, bem como a sua

72 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


plasticidade. Isto nos leva diretamente concepção remete às dinâmicas em
ao tema da laicidade, àreferência que que atores sociais, códigos simbólicos e
ela assume nas sociedades ocidentais, e discursos – pertencentes, em princípio,
ànecessidade de qualificá-la e entendê-la a campos distintos – interagem para
no contexto da situação na qual emerge. conferir visibilidade e legitimidade social
Entendo que as colocações de Asad a determinados temas e problemas.
podem nos ajudar a pensar esta situação, Entendo, seguindo as perspectivas aqui
primeiro por sua crítica ferrenha às apresentadas, que, ao invés de estudar
definições universalistas de religião e, o secular como um dado inerente à
em segundo lugar, por sua proposta modernidade, o mais relevante seria
de uma “antropologia do secularismo”, buscar compreendê-lo como um ponto
na qual este éentendido como parte de vista, ou como vários pontos de
da modernidade (Asad, 2003). O vista que foram sendo construídos em
objeto éexatamente a modernidade de diferentes estados-nação, associados às
raiz ocidental, concebida tanto como clivagens sociais e seus movimentos.
projeto que busca institucionalizar Em diferentes contextos, é bastante
alguns princípios (secularismo ou recorrente vermos referência à
laicidade, entre eles), quanto como demarcação entre religião e política como
conjunto de tecnologias que produzem esferas distintas. Por isso, situações nas
“sensibilidades, estéticas e moralidades quais se percebe que as fronteiras entre
distintivas” (Asad, 2003:14). Nesse estas esferas estão tênues ou apagadas
projeto e nessas tecnologias, o Estado- causam sempre a sensação de que algo
nação, e seu aparato legal, é um elemento está fora do lugar.
crucial, percebido em seu papel de
Como sabemos, o Brasil se afirma
formador dos sujeitos-cidadãos.
como um Estado laico, que reconhece
Para Asad, “secular” e “religioso” a liberdade de crença e de culto em
constituem pares indissociáveis na todas as suas constituições, menos na
modernidade, e o que é necessário de 1934 e, ao mesmo tempo, adota o
é problematizar o religioso e o princípio da separação Igreja/Estado
secular como categorias claramente e da neutralidade do Estado frente às
diferenciadas e, investigar as condições questões religiosas.
nas quais essa diferenciação é afirmada e
Contudo, no caso brasileiro, a
sustentada como tal (Asad, 2010).
reconfiguração do espaço público com a
Dentro desta perspectiva,épossível crescente participação religiosa trouxe de
constatar acomodações de agentes volta ao debate a temática da secularização
religiosos em Estados seculares, mas e do caráter religioso e/ou secular do
também definições seculares do Estado e da sociedade. A validade e as
religioso, como o autor demonstra ao limitações do emprego desse conceito
analisar alguns desenvolvimentos da ganharam relevância nos últimos anos
controvérsia sobre o véu em escolas também nos fóruns internacionais por
francesas, apontando a atribuição secular motivos próximos aos que se apresentam
de motivações religiosas. atualmente no Brasil, a saber, novas formas
Defendo ainda que a noção de de presença religiosa e o entrelaçamento
controvérsia proposta por Paula Montero cada vez mais intenso e visível desta
(1999) também pode nos ajudar a repensar com causas relacionadas à política, ao
as questões anteriormente mencionadas. pluralismo religioso, aos direitos humanos,
Próxima da ideia de mediação, ou de à intolerância e à emergência de demandas
tradução, a de controvérsia ganha um identitárias. Nesta medida, devemos
estatuto metodológico importante, nos ater nas clivagens, nas alianças, nos
revelando-se mais produtiva do que a embricamentos e nas separações ou
clássica definição de Bourdieu (2004) aproximações entre os domínios secular e
de campo religioso. Com efeito, tal religioso, em situações específicas.

ENSINO RELIGIOSO NO RIO DE JANEIRO: UM BOM CASO PARA SE PENSAR RELIGIÃO, DIREITOS HUMANOS E AS RELAÇÕES ENTRE ESTADO E IGREJA // 73
Assim, quando comecei a me interessar constitucional de garantir a liberdade
pela discussão em torno da implantação religiosa, uma vez que esta éum dos
do ensino religioso no estado do Rio direitos fundamentais da humanidade,
de Janeiro, que adquiriu um caráter como consta na Declaração Universal
confessional, passei a problematizar dos Direitos Humanos (1948), da qual
tanto a noção de laicidade quanto as o Brasil éum dos signatários. Contudo,
relações entre Estado e religião. Entendo o que éprevisto na constituição não
que a presença do religioso na sociedade assegura por si sóa sua aplicação.
brasileira está sempre relacionada com Após 1948, uma série de atos, resoluções
os dispositivos estatais, apesar, ou por e medidas foram desenvolvidos para
causa, da laicidade. Mas, quando falamos proteger o direito das minorias e, acima
de laicidade no contexto brasileiro, disso, garantir a igualdade de direitos,
sempre nos remetemos ao período independentemente da orientação
republicano e sempre o temos como um política, sexual ou religiosa. Assim,
marco, pois é quando se adota de modo com a busca por um sistema de Direitos
assumido o princípio da separação Humanos calcado na liberdade religiosa
entre Estado e igrejas. Em termos mais não mais fazia sentido o laicismo
precisos, podemos dizer que équando e, paulatinamente, este foi sendo
se rompe, atécerto ponto, com o arranjo transmutado pela laicidade, ou seja, a
que oficializava e mantinha a Igreja não interferência do Estado em questões
Católica. Neste momento, o ensino é religiosas e vice-versa. Havia, portanto,
declarado leigo, os registros civis deixam um novo cenário para o Estado e para
de ser eclesiásticos, o casamento torna- a Igreja: a segunda tem total liberdade
se civil, os cemitérios são secularizados; na sociedade, desde que não atue
ao mesmo tempo, incorporam-se os politicamente ou, tampouco, influa no
princípios da liberdade religiosa e da poder decisório do Estado.
igualdade dos grupos confessionais, o No contexto brasileiro, o que écerto
que daria legitimidade ao pluralismo éque a Igreja Católica teve um papel
religioso. Em termos mais globais, estou crucial na definição do novo regime de
me referindo ao final do século XIX e à relações entre Estado e religião no Brasil
amplitude desse projeto de laicização republicano e que foi contrária à sua
que coloca o Brasil ao lado de outros separação com o Estado. E, como jáfoi
países igualmente comprometidos estudado por diferentes autores, seus
com aqueles princípios. Dentro deste líderes e representantes se empenharam
contexto, o que estava em jogo eram na defesa do regime contrário ou de
os dispositivos que configuravam a algum tipo de reconhecimento, por
relação entre Estado e religião dentro parte do Estado, da preeminência
das exigências da laicidade, partindo-se do catolicismo na constituição da
da constatação de que esse modelo não nacionalidade.
sóera adotado em muitas nações, mas Podemos dizer que tais empenhos
que deveria ser seguido aqui. Naquele foram, em parte, recompensados no texto
momento histórico havia muitos da Constituição de 1934, no qual, por
experimentos de laicidade, ou melhor, o exemplo, o ensino religioso é permitido
princípio da laicidade era vivenciado de e o casamento religioso volta a ter
forma diferente nos contextos onde era validade civil; além disso, o princípio da
experimentado. separação é mediado pela possibilidade
Podemos dizer, grosso modo, que a de “colaboração” entre Estado e religiões.
liberdade de religião éconsiderada como Ou seja, a ideia de “colaboração”
um direito humano fundamental, sendo conferiu um fundamento constitucional
que esta liberdade incluiria também o para as possíveis aproximações entre
direito de não seguir ou adotar nenhuma Estado e religiões, o que, naquele
religião. O Estado brasileiro tem o dever momento histórico, traduziu as vitórias

74 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


conquistadas pela Igreja Católica. Na ordenamento aderia – a religião deveria
verdade, essa concepção veio a oficializar estar ausente. Assim, um regime de
aproximações que já se faziam dentro do poucas restrições e especificações sobre
regime constitucional anterior – e desde as associações religiosas, como queria a
seu início. Igreja Católica, precisa ser entendido no
Como lembra Giumbelli (2008), o quadro que articula uma expectativa de
que é preciso destacar é a definição que auto-regulação e uma regulação indireta
se conferiu ao princípio da “liberdade do domínio religioso.
religiosa”. E, nesse caso, é importante Desde que a Lei de Diretrizes e Bases
colocar que a mesma Igreja Católica que da Educação Nacional (1996) incluiu
foi contra a separação se colocou a favor o ensino religioso como disciplina de
da liberdade. Ao traduzir o princípio, oferta obrigatória no currículo pleno
estavam em jogo discussões sobre a de alunos do Ensino Fundamental
autonomia jurídica das associações das escolas públicas, uma pluralidade
religiosas. de modelos de ensino religioso foi
A lei de 1890 que produziu a separação implementado Brasil a fora. É através
entre Estado e Igreja Católica reconhecia do debate público – que envolve agentes
a “todas as igrejas e confissões religiosas” religiosos e laicos, alunos, professores e
“a personalidade jurídica para representantes do Estado – que podemos
adquirirem os bens e os administrarem”, perceber que a presença da religião na
mas “sob os limites postos pelas leis”. escola serve como ponto de partida para
Na Constituição de 1891, venceu a entendermos as disputas e mudanças do
seguinte formulação, com o apoio das campo religioso brasileiro, bem como o
lugar da religião na esfera pública.

A RELIGIÃO, HOJE, NÃO ESTÁ CIRCUNSCRITA À VIDA PRIVADA COMO


ALMEJAVA O MODELO REPUBLICANO DE SEPARAÇÃO ENTRE IGREJA E
ESTADO, AO CONTRÁRIO, SE OBSERVA UMA EXPANSÃO DAS RELIGIÕES EM
DIVERSOS DOMÍNIOS DO ESPAÇO PÚBLICO.

forças católicas: “Todos os indivíduos O ensino religioso faz parte do


e confissões religiosas podem exercer currículo de escolas públicas de Ensino
publicamente o seu culto, associando- Fundamental desde a Constituição
se para esse fim e adquirindo bens, Federal de 1988. O artigo referente
observadas as disposições do direito àoferta obrigatória do ensino religioso
comum”(art. 72 §3). prescreve que a matrícula é facultativa
Mas o que estava em jogo neste aos alunos, apesarde oferecida nos
debate jurídico? Era, principalmente, a horários normais das escolas públicas.
definição sobre a autonomia jurídica das Depois de muita discussão em torno
associações religiosas. De fato, construiu- da presença do ensino religioso e da
se um fundamento jurídico para conferir formação de um lobby promovido
personalidade aos coletivos religiosos, o por representantes de instituições
que significava reconhecer sua existência cristãs, o ensino religioso volta a ser
e ação legais em várias esferas, sem tema do debate público, mas desta vez
nenhuma restrição específica aos seus através da aprovação do artigo 33 da
atos civis. Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (LDBN/1996) que trata desta
Não se pode esquecer também que o
questão. Mas, somente em 1997 este
ordenamento jurídico se construía de
artigo foi reformulado fazendo constar
modo a regulamentar outras esferas,
a proibição do proselitismo em sala de
das quais – obedecendo a uma das
aula, a responsabilidade do Estado na
expectativas da modernidade a que tal

ENSINO RELIGIOSO NO RIO DE JANEIRO: UM BOM CASO PARA SE PENSAR RELIGIÃO, DIREITOS HUMANOS E AS RELAÇÕES ENTRE ESTADO E IGREJA // 75
3. O Rio de Janeiro foi contratação e pagamento dos professores tê-la como fundamento da ordem social
a primeira unidade da
federação a instituir o e a participação de uma “entidade civil” e seus representantes presentes no espaço
concurso para professores composta por representantes de diversas público.
do ensino de religião na
rede pública, bem como a religiões para servir de auxiliar das A presença dessa disciplina nas escolas
transferir para as entidades Secretarias de Educação na escolha dos públicas se insere, portanto, em um
religiosas o poder de
credenciar e descredenciar
conteúdos a serem ministrados pelos movimento mais importante que é o
esses docentes, delegando- professores. do crescimento do religioso na esfera
lhes o poder de incluir ou
excluir professores de seu Assim, a partir de 1997, o ensino pública, que conduz à desprivatização ou
quadro. religioso é ressignificado, passando a publicização do religioso (Burity, 2001).
ser entendido como parte integrante A religião, hoje, não está circunscrita à
da construção de um novo cidadão e vida privada como almejava o modelo
não apenas para formar ou confirmar republicano de separação entre Igreja
um “fiel”. Mas, a justificativa mais e Estado, ao contrário, se observa uma
poderosa dada para a implantação do expansão das religiões em diversos
ensino religioso nas escolas públicas era domínios do espaço público.
a de contribuir para a formação de um Recentemente, vimos ressurgir,
novo cidadão e não para a criação de na sociedade brasileira e, mais
um fiel ligado à determinada confissão particularmente, no Rio de Janeiro, esse
religiosa. Caberia ao ensino religioso tema que envolve o Estado e a religião,
enquanto disciplina incutir valores de através de uma questão que sempre foi
fundo religioso, que possibilitassem delicada: a formação básica oferecida
o desenvolvimento de uma sociedade pelas escolas públicas e dirigida aos
mais justa e equilibrada, posto que futuros cidadãos deve incluir ou não
representa um instrumento de controle a dimensão religiosa? Dito em outros
social. termos, o ensino religioso deve ser
No Rio de Janeiro, onde foi aprovado oferecido nas escolas públicas? Se sim,
o modelo confessional, é evidente que em que moldes? Se não, por quê? Em
os valores morais que passaram a ser que medida a ideia de um Estado laico
exaltados e transmitidos nas aulas de totalmente separado da esfera religiosa
ensino religioso são valores morais seria apenas um mito da república
vinculados a cada credo religioso brasileira? Ou, em que medida as
do professor. Sendo que este “novo” conquistas republicanas do Estado laico
professor de ensino religioso passou e da liberdade religiosa têm ainda lugar
a ser contratado pelo Estado, através na sociedade brasileira?
de concurso público, justamente por O fato ocorrido no Rio de Janeiro,
professar uma religião específica. O em 2000, se apresenta como um bom
concurso promovido pelo governo caso para pensarmos e atualizarmos
estadual previa vagas específicas para a discussão sobre este assunto na
católico, evangélico e outras religiões. contemporaneidade, na medida em que
Numa situação sui generis de sistema de uma das suas consequências foi um
“cotas” para religiosos. intenso debate público que envolveu
Deste modo, como já destaquei em não só distintos atores sociais, como
outro artigo (Carneiro, 2003), talvez trouxe à tona as mudanças recentemente
esteja se impondo de forma difusa para ocorridas no campo religioso e na
certos segmentos populares, a partir de relação entre as esferas pública e privada.
uma cultura religiosa que adquire cada Estou me referindo às discussões em
vez mais importância, a ideia de que a torno da aprovação da lei estadual 3.459,
religião na escola pública é importante e, promulgada em 14 de setembro de
talvez, seja a única fonte de moralidade 2000, pelo então governador Anthony
existente na sociedade capaz de garantir o Garotinho. Foi essa lei que determinou
comportamento “correto” dos indivíduos a implantação do religioso confessional
na esfera pública. Daí a importância de nas escolas públicas estaduais do Rio

76 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


de Janeiro3 e acabou provocando um majoritariamente, os alunos das classes
amplo debate que envolveu atores sociais populares e é para este público que se
distintos que buscavam trazer para deve garantir o ensino religioso.
o centro das discussões as principais Nessa medida, a implantação do ensino
implicações decorrentes desse processo. religioso, enquanto política pública,
De fato, o oferecimento do ensino não estaria colocando em questão a
religioso nas escolas públicas não pode própria função social dessa escola?
ser tratado simplesmente como mais Dessa perspectiva, ao deixar que os
um componente curricular. Por trás professores do ensino religioso definam
desse tema está encoberta uma série de seus conteúdos de acordo com a religião
questões bem mais amplas, como a que que professam, a gestão ficaria sob a
envolve a dialética entre secularização orientação das chamadas “denominações
e laicidade no interior de contextos religiosas”.
socioculturais específicos. Ou seja, d) Os professores concursados para
tal fato nos remete a uma discussão ministrar o ensino religioso no Rio de
que emerge da vida pública, desde a Janeiro precisaram ter o aval de alguma
instauração da República: a que se refere denominação religiosa.
aos distintos sentidos atribuídos à noção
A Secretaria Estadual de Educação
de laicidade do Estado (especificamente,
do Rio de Janeiro vem promovendo
o estatuto da religião na escola), bem
alguns eventos e seminários como
como ao direito da liberdade religiosa
forma de capacitar os professores
garantido pela constituição brasileira.
para o exercício de suas atividades em
Nessa medida, à guisa de conclusão, consonância com uma orientação mais
gostaríamos de levantar algumas geral. No entanto, como o ensino é
indagações sobre certos pontos confessional, os professores deveriam
que merecem um tratamento mais seguir a sua orientação religiosa. Como
minucioso. isso vem ocorrendo na vida cotidiana?
a) A ideia de que o ensino religioso é Como os professores conciliam essa
um componente curricular importante questão e como fazem com os alunos
porque integra a formação para a que pertencem a outras denominações,
cidadania. uma vez que sabemos que o número de
Do meu ponto de vista, essa questão, professores de religião é muito aquém da
dependendo de seu entendimento, demanda?
poderia sugerir o pressuposto de que uma e) Como entender que a formação de
pessoa “religiosa” seria melhor cidadã, em professores do ensino religioso deve
virtude de professar uma crença. Abre- ser distinta da dos demais docentes do
se, assim, o flanco para o menosprezo Ensino Fundamental?
dos que anunciam não cultivar qualquer Nesse caso, o dilema deriva de uma
“religião” e mesmo para a intolerância questão básica: no Rio de Janeiro, o
religiosa no ambiente escolar. ensino religioso foi entendido como
b) A ideia de que o ensino religioso formação religiosa. No entanto, a
se justificaria pela necessidade de formação docente deve ser entendida
propiciar formação moral para os como formação profissional, e não
alunos. constitui formação religiosa.
Se isto é válido, em que medida se f) Como avaliar o material didático
estaria afirmando que o ensino religioso que vem sendo elaborado pelas
deve ser entendido como uma “religião chamadas religiões institucionalizadas
civil”, segundo a qual os “princípios e – como a Igreja Católica e as igrejas
valores religiosos” seriam a base para evangélicas, que puderam rapidamente
consolidar a solidariedade social? confeccionar material didático para
c) A escola pública hoje atende, orientar seus professores?

ENSINO RELIGIOSO NO RIO DE JANEIRO: UM BOM CASO PARA SE PENSAR RELIGIÃO, DIREITOS HUMANOS E AS RELAÇÕES ENTRE ESTADO E IGREJA // 77
Nesse caso, poderíamos dizer que o pública. Esse debate ébastante complexo
Estado estaria legitimando e reforçando e abarca uma série de questões que
a disputa do mercado religioso brasileiro. tanto dizem respeito às definições sobre
g) A princípio, os valores éticos o Estado, a religião e o espaço público,
que fundamentam a formação para quanto ao cotidiano escolar, sobre as
a cidadania aparecem definidos condições concretas em que este ensino
na Constituição Federal. São eles: vem sendo ministrado nas escolas, o
soberania, cidadania, dignidade da que permanece como uma questão
pessoa humana, valores sociais do fundamental de pesquisa.
trabalho e da livre iniciativa, pluralismo Em relação a este último aspecto,
político e liberdade religiosa. resultados preliminares de pesquisas
No artigo 32 da LDB, fica estabelecido e observações vêm indicando um
que tais valores devem determinar os comportamento que parece predominar
conteúdos mínimos de todas as áreas entre os professores de ensino religioso
do conhecimento, inclusive do ensino em escolas estaduais no Rio de Janeiro.
religioso. Seria, assim, com base nesses Apesar da diretriz recebida estar pautada
valores, que o Ensino Fundamental na confessionalidade, existe uma
obrigatório deveria estruturar seu preocupação por parte dos professores de
projeto político-pedagógico. Nesse caso, ensino religioso em oferecer aos alunos
qual o lugar dos chamados valores ou (independente da religião professada)
princípios religiosos? uma discussão mais ampla sobre alguns
“valores”, que entendem fazer parte da
h) Uma das justificativas
formação do cidadão.
frequentemente acionadas por aqueles
que defendem o ensino religioso Em tese, poderíamos dizer que
confessional é a de que o Estado a separação do Estado da religião
estaria assim respeitando a diversidade pressupõe que o primeiro, ao separar-
religiosa. se juridicamente de determinado
grupo religioso, promoveria a
No entanto, o que gostaríamos de
desmonopolização religiosa, eliminando,
questionar é em que medida é possível
ou pelo menos minimizando, os
atender à diversidade religiosa dentro da
privilégios facultados ao grupo religioso
escola, estruturando o ensino religioso
ao qual era aliado, garantindo, assim, a
por credos, tendo em vista as atuais
liberdade religiosa. Portanto, o quadro
mudanças ocorridas no campo religioso
desse campo de disputa não é novo,
brasileiro. Dois pontos que se destacam
sendo recorrente ao longo de nossa
são a diversificação de opções religiosas
história. No entanto, ao se reatualizar,
e o aumento significativo dos “sem
através da discussão da religião na
religião”.
escola, nos obriga a perguntar sobre a
Em suma, a discussão a respeito da natureza atual desse debate, verificando
escola pública está, pois, relacionada à em que circunstâncias e por meio de que
tarefa de socialização que o Estado se projetos e objetivos reintroduzir o ensino
atribui, o que este supõe como formação religioso confessional se apresentou
para o público que pretende atingir com como importante para certos segmentos
vistas à integração de um segmento social da sociedade fluminense.
específico – em sua maioria, jovens das
classes populares – a um projeto mais
amplo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Com isso, fica relevada a importância
de se discutir qual o projeto de sociedade ASAD, Talal. Formations of the Secular.
e de nação que se encontra na base Christianity, Islam, Modernity. Palo Alto:
dessa discussão e qual é o papel que, Stanford University Press, 2003.
nesse processo, está adquirindo a escola _____. “A construção da religião como
uma categoria antropológica”. Cadernos

78 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


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da teoria do símbolo na antropologia
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ENSINO RELIGIOSO NO RIO DE JANEIRO: UM BOM CASO PARA SE PENSAR RELIGIÃO, DIREITOS HUMANOS E AS RELAÇÕES ENTRE ESTADO E IGREJA // 79
RELIGIÃO E POLÍTICA:
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE CONFLITO E POSIÇÕES

PAULO VICTOR LEITE LOPES1

1. Cientista Social pela Tendo um ponto de partida diferente ao de nosso momento histórico. A origem
Universidade do Estado
do Rio de Janeiro, dos meus colegas de publicação que, em comum e a íntima relação entre os
mestre e doutorando em suas contribuições, partem de análises fundamentos de uma ética, uma moral
Antropologia Social pela
Universidade Federal do sócio-antropológicas de controvérsias, cristã e os valores daquilo que hoje
Rio de Janeiro. observando as respectivas críticas e chamamos de Direitos Humanos já
2. Esta comunicação justificações em seus diferentes campos, foram amplamente abordadas por
teve origem em minha a minha comunicação, conservando antropólogos, filósofos, juristas e
participação na mesa
Direitos Humanos e o sentido de “uma comunicação” e a teólogos. Se, por exemplo, nas questões
Religião: O Papel do Estado, própria apresentação que deu origem à relativas aos “direitos sociais” (trabalho,
coordenada por Christina
Vital (UFF) na Conferência mesma2, procura ter uma preocupação, assistência social e à saúde, segurança
Internacional Rio+20, na falta de uma palavra melhor, alimentar etc.) essa relação pode parecer
sendo parte de um ciclo
de encontros promovido militante/ativista. Por essa razão, ao mais evidente, isso não significa, é claro,
por ela e por Renata longo do texto, algumas colocações serão a ausência desses contatos/mediações
Menezes (UFRJ), ambas
coordenadoras dessa edição
feitas na primeira pessoa, no singular e em questões relativas aos direitos civis
da Comunicações do ISER. no plural, com o claro objetivo de me (liberdade de pensamento, credo, reunião
Algumas reflexões aqui
apresentadas são fruto da
reconhecer e posicionar no interior etc.) e políticos (direitos de participação
pesquisa que deu origem desse(s) conflito(s). política etc.)3.
ao livro Religião e Política:
uma análise da atuação de Ao ser convidado para fazer a Na história recente do Brasil, por
parlamentares evangélicos apresentação que trago aqui, foi sugerido exemplo, uma série de iniciativas de
sobre direitos das mulheres
e de LGBTs no Brasil, de
que eu abordasse algumas questões grupos cristãos ou ligados a essas
Christina Vital e Paulo relativas às dificuldades que as pautas instituições religiosas atuaram na defesa
Victor Leite Lopes, editado
pelo ISER/Fundação
feministas e LGBTs enfrentam hoje em dos direitos humanos. Na Igreja Católica,
Heinrich Böll em 2013. dia. Como podemos acompanhar em podemos mencionar, por exemplo,
3. Vale destacar que esses nossas atividades de militância, nas ainda na primeira metade do século
últimos, inclusive, são/ leituras de jornais, estudos e mesmo em passado, as ações de Ação Católica
foram constitutivos para
o pluralismo religioso que um cotidiano que se estende para além Brasileira (e seus desmembramentos
hoje observamos. dessas dimensões, esse embarreramento, na Juventude Estudantil Católica (JEC),
essa dificuldade de avançar, em geral, é Juventude Operária Católica (JOC) e
justificado pela ação de forças religiosas, na Juventude Universitária Católica
mais notadamente cristãs (católicos e (JUC)), mais tarde, a atuação de diversos
evangélicos). religiosos e leigos durante a ditadura
Antes de tratar da expressão mais clara militar e o lugar das Comunidades
desse conflito, é importante fazer algumas Eclesiais de Base com o seu trabalho de
indicações para a melhor compreensão politização, como o nome diz, na “base”;

80 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


entre os evangélicos, ainda que mais maior tensionamento independente de 4. Ainda que eventos
específicos fiquem na
timidamente, também se observou a eventos específicos4. memória e retratem de
atuação de algumas destacadas lideranças A indicação disso, contudo, não deve modo exemplar estes
conflitos, como no caso
durante a ditadura, mas também um nublar outros agenciamentos presentes das eleições de 2010 e no
intenso trabalho de questionamento no interior desses segmentos religiosos. cancelamento da produção
do material pedagógico
social realizado por pentecostais, como Grupos como “Católicas pelos Direitos parte do programa Escola
etnografado por Regina Novaes (1985). de Decidir” – que tem sua atuação focada Sem Homofobia, analisados
por Machado (2012),
A indicação desses temas/eventos onde no direito das mulheres e, entre outras Christina Vital e Lopes
religião e direitos humanos caminham coisas, se diferencia do discurso oficial (2012) e Leite (2014), é
possível observar que
juntos, lado a lado, não tem a intenção, católico ao defender a descriminalização os embates, tendo estas
é claro, de apagar todos os outros temas do aborto – e o “Diversidade Católica” questões como centro,
permanecem para além
e momentos de conflito. Contudo, em – que adota uma postura mais dessas situações – são
alguns desses campos de maior tensão, “progressista”, “inclusiva”, com relação suscitados por falas livres
em outros campos de disputa, é possível à diversidade sexual – questionam a (sem ‘um contexto maior’),
após a divulgação de dados
aprofundar um pouco mais o nosso olhar partir do catolicismo um discurso mais populacionais (oficiais ou
e, consequentemente, conferir maior “conservador”. Do mesmo modo, grupos não) e, mesmo, dado o grau
de tensionamento ‘entre os
complexidade à nossa compreensão. de teólogas feministas, igrejas inclusivas lados’, os conflitos existem
até mesmo na ausência de
falas ou gestos direcionados
DEVEMOS LEMBRAR A PRÓPRIA EXISTÊNCIA DE UM HIATO, DE UM ao outro, pois a expectativa
(ou o reconhecimento) do
DISTANCIAMENTO, ENTRE AS ESFERAS DE COMANDO, COMPOSTA PELOS conflito converte o próprio
LÍDERES, PASTORES, BISPOS E MISSIONÁRIOS, E A BASE, FORMADA PELOS silêncio em um clamor por
confronto.
FIÉIS. ISTO É, ENTRE AS NORMAS, OS DOGMAS, SEUS CRIADORES E AQUELES
A QUEM ESSAS REGRAS DESEJAM/DEVEM ATINGIR,

Hoje em dia, podemos considerar que (como a Igreja ICM Betel no Rio de
as tensões do religioso se apresentam/ Janeiro) e algumas igrejas históricas
se expressam, mais notadamente, na produzem questionamento similar
esfera pública, com temas relativos à das leituras hegemônicas a respeito
moral comportamental, familiar e sexual das temáticas que, hoje, chamamos de
e, de algum modo, no outro tema que direitos sexuais e reprodutivos – temas
também enfrentamos aqui, a relação relativos ao aborto, homossexualidades,
desses grupos com a política partidária/ travestilidades, reprodução assistida,
institucional e o Estado – contudo, planejamento familiar, entre outros.
ainda nesses casos, é na interface com Assim, é possível indicar e reconhecer
“os direitos sexuais e reprodutivos” que algumas minoritárias possibilidades
parece “ser mais polêmico”. É verdade, de reação a partir do próprio discurso
como destacam Carneiro (2004), religioso cristão.
Giumbelli (2011b), Mafra (2011), Além disso, devemos lembrar a
Sant’Anna (2013), Menezes (2012), Vital própria existência de um hiato, de
da Cunha (prelo), entre outros, que um distanciamento, entre as esferas
na “educação religiosa (confessional)”, de comando, composta pelos líderes,
nas “políticas culturais”, nos sentidos pastores, bispos e missionários, e a
de “patrimônio” e “memória”, assim base, formada pelos fiéis. Isto é, entre
como nas concessões públicas de rádio as normas, os dogmas, seus criadores
e televisão, ocorrem intensos debates e aqueles a quem essas regras desejam/
acerca da legitimidade desses sujeitos em devem atingir, os que ‘devem seguí-las’,
suas reivindicações e direitos. Contudo, há (ou não) uma distância. Nesse sentido,
ainda que esses episódios possam por exemplo, não é todo evangélico que
provocar grande controvérsia pública, há reconhecerá no homossexual um sujeito
um contínuo, no que se refere às pautas em pecado que precisa ser curado, ou
feministas e LGBTs, que produz um todo católico que desaprovará o aborto

RELIGIÃO E POLÍTICA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE CONFLITO E POSIÇÕES // 81


5. A leitura como benefício como uma opção que uma mulher poderá Frente Parlamentar Evangélica, símbolo
é possível tendo como
norte interpretativo/teórico tomar em qualquer momento de sua contemporâneo mais estridente e evidente
a compreensão de que o vida (Machado (1996), Mariz e Machado do proselitismo religioso em articulação/
conflito é criativo, nesse
sentido, como destaca (1996), e Duarte e Gomes (2008)). no Estado6.
Simmel (1969), positivo, e Assim como todos os indivíduos, o fiel Hoje, boa parte das lideranças
que, através dele, é possível
tratar de pontos que,
cristão também se compõe a partir de religiosas na política partidária (de
sem a sua presença/ação, múltiplas influências, pertencimentos e diferentes vertentes, mas, sobretudo,
não seriam conhecidos,
tematizados e alterados.
crenças (religiosas ou não), não havendo os evangélicos7) advoga-se articulada
qualquer sentido em estabilizá-los em função do grupo de interesse
6. Aqui, é importante
explicitar que não estou me em uma (distorcida) referência a uma específico que dizem representar. Sob
referindo a (maior) eficácia/ identidade religiosa. esse argumento, se apresentam como
sucesso em suas ações,
mas tratando em termos Por mais que essa minha fala um grupo tão digno/equivalente
de visibilidade, projeção,
introdutória seja óbvia, ela é necessária de representação política como os
reconhecimento.
como um meio de definirmos bem o sindicalistas, professores, médicos etc..
7. Um pouco pela
postura mais claramente “fenômeno” a que estamos nos dedicando Tais lideranças têm, portanto, a sua
identitária, um pouco pela e, desse modo, não simplificar o debate. legitimidade assegurada por “darem
tendência ainda forte em
naturalizar o catolicismo Não é o cristianismo em si (seja o católico voz” a uma ampla parcela da população
e seus representantes na ou o evangélico) que, podemos considerar, que compartilha determinados valores,
esfera pública, é possível
torna-se um empecilho para a garantia de experiências e expectativas.
dizer que os evangélicos
são mais incitados a direitos às mulheres e aos LGBTs, mas É na mesma direção que também
produzirem justificativas
para a sua participação
uma expressão específica dele – que, é acionam a defesa do Estado laico como o
em determinados debates claro, não é o único grupo que compõe fundamento e justificativa de sua atuação.
públicos.
um campo mais amplo que se opõe à Como todos os conceitos/noções, os
8. Aos que defendem o ampliação desses direitos, mas apenas se sentidos atribuídos à “laicidade” são
cerceamento ou controle
das organizações religiosas constitui como um agente entre outros. diversos e encontram-se em disputa.
em relação/no Estado, Se para segmentos dos militantes dos
estes setores forjam seus
discursos de denúncia
SOBRE O CAMPO E ARGUMENTOS: A direitos sexuais e reprodutivos a existência
e acusações entorno SITUAÇÃO ATUAL de uma frente parlamentar organizada a
da noção de “laicismo”.
partir de uma identidade religiosa por si
Para conhecer um pouco Em recente pesquisa que desenvolvemos
mais dos argumentos e só já fere esse princípio, setores religiosos
no ISER – e que resultou na publicação
consequências, ver Vital da apoiadores e articulados a partir dessas
Cunha; Lopes (2012). do livro Religião e Política: uma análise
composições argumentam que tais
da atuação de parlamentares evangélicos
organizações não ferem a independência
sobre direitos das mulheres e de LGBTs no
do Estado. Na verdade, para estes últimos,
Brasil (Vital da Cunha; Lopes, 2012) –,
é justamente o interdito a essas associações
destacamos algumas das dificuldades em
que representa um problema, pois tratar-
caracterizar o Brasil como um Estado,
se-ia de um sinal de perseguição à
em termos conceituais, laico. Seguindo o
liberdade religiosa8.
caminho desenhado por Giumbelli (2008;
2011a) para pensar a relação entre religião Esse debate composto pelas críticas e
e Estado no Brasil, tomamos a formulação justificativas acerca da legitimidade dessas
de Michael Taussing (1999) para dizer que representações religiosas na política
um benefício5 dessa crescente participação político-partidária e em ações estatais,
dos setores evangélicos é evidenciar como nos remete às reflexões de Mafra (2011)
a dissociação entre Estado e religião e Sant’Anna (2013) sobre o modo como
os evangélicos manipulam a “cultura
não se efetivou plenamente ao longo da
como uma arma” em um contexto de
história do Brasil. Ainda nessa direção,
multiculturalismo e em sua interface com
indicamos desde alguns momentos nos
o Estado e com a esfera pública.
quais isso esteve mais evidenciado através
de projetos, personalidades e legislações, Inspirada nas reflexões de Marshall
em geral, com um claro privilégio à Igreja Sahlins, Mafra define desse modo a
Católica, até as recentes transformações questão inicial de seu artigo:
que ocorreram na organização da Sobretudo na metáfora da “cultura como

82 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


arma” está em relevo a capacidade de “ob- em que segmentos evangélicos 9. Novaes (2012) explora
jetificação” do reconhecimento da cultura, a apropriação da noção de
recorrem a uma concepção, mesmo que “diversidade cultural” entre
algo que ocorre quando alguém de fora se
difusa, daquela noção e de correlatas um grupo heterogêneo
dispõe a representar o que as comunidades de jovens envolvidos em
vivem e experimentam. Mais do que isto, (diversidade cultural9, pluralismo, determinados espaços
temos a continuidade em reverso desse reconhecimento das diferenças etc.) para públicos: seja na formulação
de uma variedade de
processo, como quando o sujeito “objeti- autorizarem a sua fala e a sua ocupação manifestações que vão do
vado” se apropria da representação e dos de determinados espaços na esfera estilo “gospel” na cena do
pressupostos do observador, explorando hip-hop até a participação
a borda de reconhecimento mútuo a fim
pública (dentro ou fora do Estado). A de “religiosos” em espaços
de propiciar a emergência de um “terceiro partir do trecho de Mafra (2011) trazido como o Acampamento
da Juventude do Fórum
termo” ou algo novo (Sansi, 2007). Neste acima, é possível pensar que os próprios
Social Mundial, a Marcha
caso, a “arma da cultura” pode ser contra- evangélicos, determinados segmentos, é das Vadias, a Conferência
bandeada e apropriada pelos vizinhos “ob- claro, como um meio de se constituírem Nacional e o Conselho
servados” na expectativa política de que Nacional da Juventude.
eles defendam seus próprios valores em
como sujeitos políticos de direito/ Ao contrário do modo

um espaço mais abrangente e multicultural representação, manipulam determinada como a Frente aqui
analisada atua, esses atores
(MAFRA, 2011: 608-609). “’objetivação’ do reconhecimento da operam com uma lógica
Após examinar como três distintas cultura” que, afirmamos Sant’Anna muito mais dialógica,
inclusiva e democrática no
denominações evangélicas manipulam (2013) e eu, pode ser agenciado por eles acionamento dessa noção.
“a cultura” em situações específicas em disputas nas quais a cultura sirva 10. Recente matéria da
(Assembleia de Deus, Igreja Presbiteriana como arma. Voltarei a esse ponto a seguir. Carta Capital trás alguns
outros números sobre
e Igreja Universal do Reino de Deus), a Independente de essa justificativa esse grupo: “Nunca tantos
autora conclui que os evangélicos possuem ser acionada e do seu sucesso quando pastores foram candidatos
como nestas eleições. O
uma dificuldade maior em utilizar a cultura ocorrem as eleições, este é um segmento número subiu de 193, em
como arma, evidenciado, por exemplo, amplamente representado nas Casas 2010, para 270 neste pleito,
um aumento de 40%. Como
pelo estranhamento suscitado pela noção Legislativas de todo o país. Hoje, termo de comparação,
“cultura evangélica” – em comparação considerando o Congresso Nacional somente 16 padres católicos
são candidatos em todo o
com as similares “cultura católica” ou (Câmara dos Deputados e Senado País. A bancada evangélica
“cultura afro-brasileira”. A partir das ideias Federal), a Frente Parlamentar Evangélica projeta um crescimento
aqui apresentadas, no entanto, é possível dispõe de mais de 73 parlamentares, de 30%, podendo chegar
a 95 deputados federais e
refletir em outra direção. oriundos de diferentes estados e partidos senadores.” (LOCATELLI;

Em artigo que dialoga com Mafra, políticos11. No caso da Câmara Federal, há MARTINS, 2014).

Sant’Ana (2013) mostrará que ao redor da uma organização que garante a presença 11. Recente matéria da
Carta Capital trás alguns
categoria “gospel”, como mercado, estética, de, ao menos, um representante da Frente outros números sobre
estilo de vida, elabora-se determinado em todas as comissões da casa, tornando esse grupo: “Nunca tantos
pastores foram candidatos
sentido de cultura, acionado por possível que tais parlamentares assumam como nestas eleições. O
segmentos evangélicos em busca de seu a relatoria de diversos projetos e, desse número subiu de 193, em
2010, para 270 neste pleito,
reconhecimento social e pela conquista modo, que sejam decisivos ao longo da
um aumento de 40%. Como
de políticas públicas, mais claramente das tramitação de diversas proposições. Como termo de comparação,

chamadas “políticas culturais”. O “gospel”, me contou uma assessora parlamentar somente 16 padres católicos
são candidatos em todo o
construído não como representativo de dessa frente, esse é o lugar onde os País. A bancada evangélica

uma denominação e mais próximo de projetos “nascem e são sepultados”. Além projeta um crescimento
de 30%, podendo chegar
uma experiência, parte de um modo de disso, podemos destacar a assunção desses a 95 deputados federais e
vida mais abrangente, que ele manifesta personagens à presidência de comissões12, senadores.” (LOCATELLI;
MARTINS, 2014).
com excelência, torna-se “cultura” e, desse responsável por “distribuir” a relatoria
12. Em 2013, por exemplo,
modo, é avalizado/legitimado como algo das proposições, e também a liderança assumiram as comissões
que pode ser financiado pelo Estado. É de partidos com grande projeção no de Legislação Participativa

nessa direção que a discussão desenvolvida Parlamento13. e de Direitos Humanos,


respectivamente, os
por Sant’Ana pode ser tomada aqui. Mas quais são os sentidos, as atitudes e deputados Lincoln Portela
(PR/MG) e Marco Feliciano
Ainda que não se apresente claramente os desejos dos sujeitos envolvidos nesse (PSC/SP). Para conhecer
a partir de um recurso ao conceito de projeto de poder? um pouco mais sobre as
transformações, estratégias,
“cultura” (e, consequentemente, da Para responder a essa questão, é idas e vindas da Frente
composição “cultura evangélica”), é importante observar que as suas ações Parlamentar, vale consultar
Duarte (2011) e Vital da
possível observar algumas situações como uma frente específica, e de boa parte

RELIGIÃO E POLÍTICA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE CONFLITO E POSIÇÕES // 83


Cunha; Lopes (2012). desses parlamentares individualmente, feiras em um dos plenários da Câmara
13. Os líderes do PMDB, diante das pautas feministas e LGBT, dos Deputados. Embora pudéssemos
Eduardo Cunha, e do PR,
Anthony Garotinho, são
não se constituem como uma resposta entrar pelas discussões da própria
exemplos disso. a ameaças contra a experiência religiosa organização de uma frente dessa
14. Como, por exemplo, a ou à fé desses parlamentares-religiosos. natureza ou da realização de um culto
proposição que visa reverter Do mesmo modo, poderíamos destacar em um espaço como o da Câmara, a
a decisão do Supremo
Tribunal Federal quanto que os seus comportamentos em temas minha intenção aqui é outra.
ao reconhecimento dos relativos a políticas de educação, como no Pude presenciar, nesses dois eventos,
direitos (previdenciários,
sucessórios etc.) conferidos caso do Programa Escola sem Homofobia, um claro movimento de cerceamento de
aos casais heterossexuais mas também no recente debate sobre o direitos a, já que estamos nesse marco
para os homossexuais.
Plano Nacional da Educação, ou ainda político-estatal, cidadãos. Deputados,
15. Lembro, sobretudo, da
tentativa de acompanhar
no que se refere à política de redução pastores, pastores-deputados, deputados-
um debate sobre a de danos e/ou de prevenção no campo pastores discutiam formas de se articular
concessão de rádios,
da saúde, também não interferem em para que proposições que estendam
tematizado pelo deputado
Arolde de Oliveria (PSD/ sua própria prática religiosa. Como é direitos a mulheres e a LGBT não sejam
RJ). possível imaginar, nesses debates não se aprovadas, e para que programas de
16. Sobre ‘essa campanha’ e está colocando sob risco a existência de saúde destinados aos seus corpos/saúde
um caso dzze intolerância
religiosa relacionada à seus grupos, tampouco há a intenção deixassem de existir. Além disso, em
mesma, ver Miranda (2012). de retirar dos mesmos qualquer direito sua agenda propositiva, as sugestões se
fundamental às suas experiências ou referem às tentativas de cercear, limitar
crenças. Não se trata, portanto, da e retirar direitos/conquistas14. Devo
defesa da representação de um grupo de destacar que também se mobilizavam em
interesses políticos, mas de outra questão. outras questões15, mas aquelas ocupavam
maior tempo: a extensão desses direitos
DOIS EVENTOS: CONTRA-ARGUMENTOS despertava uma emoção particular
E ESTRATÉGICAS PARA A (NOSSA) LUTA. naqueles deputados. Lembrei-me do
Como parte das atividades da pesquisa adesivo de carro que circulou bastante
do ISER a que me referi acima, estive, pelo Rio alguns anos atrás: “Bíblia Sim!
durante dois dias, em junho de 2012, Constituição Não!”16.
no Congresso Nacional para realizar Sob esse aspecto e dando continuidade
algumas entrevistas e “observação em ao meu diálogo com um determinando
campo”. Sempre adotei uma postura desenho clássico de relativismo, algumas
relativista, um fundamento da disciplina/ leituras poderiam argumentar que o
área de conhecimento a que me afiliei: a fundamento proselitista desse segmento
antropologia. A necessidade de ir até o religioso torna essa atuação política
outro, ouvi-lo, compreendê-lo segundo um imperativo. Como se não houvesse
seu modo de ser, agir e pensar, para nós, escolha, pois no mapa cosmológico,
não é apenas um esforço metodológico, no modo como pensam o mundo,
mas o fundamento político dessa não é possível atuar de outra maneira
disciplina e, talvez um pouco romântico, em relação a essas bandeiras. A partir
de nossa existência como antropólogos. dessa perspectiva, então, a sua atuação
Este também é um “fundamento” meu, também estaria resguardada sob o manto
do Paulo, como um sujeito que pretende do direito de livre expressão religiosa, da
“ser legal e ativista/político” no mundo. liberdade de opinião.
Contudo, um questionamento que vinha Contudo, o direito a manifestar
amadurecendo na minha cabeça se opiniões deve ser pensando no limite
consolidou com essa visita. de onde ele viola os direitos humanos
Dentre as atividades que acompanhei das pessoas e, junto com isso, o que
nesses dias, duas delas me chamaram significa “expressar opinião”. Devemos
especial atenção: a reunião da Frente compreender que o debate não está
Parlamentar Evangélica e um culto centrado no tema da liberdade de
evangélico que ocorre todas as quartas- opinião, mas que estamos falando de

84 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


direito à vida, à integridade física, à psicanalistas etc.. Destituídos de aparente
“saúde como bem-estar físico e mental” crueldade, tais aliados amolam a faca e en-
fraquecem a vítima, reduzindo-a a pobre
– como o estabelecido pela Organização
coitado, cúmplice do ato, carente de cuida-
Mundial da Saúde. Existem pessoas que do, fraco e estranho a nós, estranho a uma
estão sendo colocadas em uma categoria condição humana plenamente viva. (BAP-
de menos humano e, nesse sentido, além TISTA, 1999:46)
da própria alienação de direitos que são A atuação dessa Frente produz esse
objetivamente negados, opera-se como efeito junto àqueles sujeitos que eles
um potencializador de diversas outras reconhecem como seus oponentes.
formas de violações que vitimam uma Há uma racionalização e domínio de
parcela da população. técnicas que, intencionalmente ou
Não obstante isso, é importante não, conduzem a uma desumanização
estar claro que “dizer” não deve ser de determinados segmentos sociais,
compreendido como um gesto que o que, como consequência, dificulta a
expressa algo livremente, sem qualquer conquista de direitos por esses grupos
implicação. Dizer deve ser encarado como subalternizados – ou o seu deslocamento
um ato de criação, de estabelecimento de desse lugar de assujeitamento.
moralidades, de definição de mundos, Nessa trama operada por estes
lugares, possibilidades, enfim, de segmentos, como Vital da Cunha e
criação. Dessa perspectiva, por exemplo, Lopes (2012) destacam, o agenciamento
tratar como “homossexualismo”, ao de “pânicos morais” tem se constituído
invés de homossexualidade, é conferir como uma eficaz estratégia para esses
a essa identidade sexual o estatuto setores. Por esta noção, compreende-
de anormalidade, doença; é fazê-la se um comportamento específico de
marginal, inferior. Não reconhecer a rejeição às transformações sociais, em
identidade de gênero de uma pessoa geral, consideradas perigosas e rápidas.
transgênera, é não reconhecê-la como Para isto, no entanto, é necessário
sujeito de direito, em sua autonomia e que um grupo mobilize-se a partir da
liberdade; é torná-la subindivíduo. denúncia de determinada coisa (evento,
Nesse sentido, ao produzirem fortes ato administrativo, práticas, políticas,
discursos de condenação moral aos ideologias etc.), operando, inclusive,
homossexuais, às possibilidades com falseamentos e ambiguidades,
de experimentação do corpo e da para a simplificação (ou vulgarização)
sexualidade e às mulheres que desejam da questão, facilitando a sua ampla
recorrer ou recorreram ao aborto etc., tematização pública. Além disso, essa
esses sujeitos podem não ser os agentes simplificação/vulgarização será capaz
de violências diretas, os sujeitos que não só de constituir com eficácia a
agridem nas ruas ou que excluem nos coisa denunciada, mas de nublar,
cotidianos de vizinhança, trabalho de escamotear, o profundo sentido
e família, que proferem os golpes de que possibilita a emergência desse
facadas de ações violentas, mas são, no pânico. No livro mencionado, por
entanto, “os amoladores” dessas “facas”. exemplo, indicamos como a recusa ao
Essa metáfora é retirada do texto A atriz, reconhecimento da conjugalidade entre
o padre e a psicanalista – os amoladores LGBT está referida a um plano mais
de facas, em que Baptista (1999) nos diz: amplo de tensionamentos em direção às
O fio da faca que esquarteja, ou o tiro transformações sociais que colocam em
certeiro nos olhos, possui alguns aliados, xeque determinado padrão heterossexual,
agentes sem rostos que preparam o solo monogâmico, com prole etc., para
para esses sinistros atos. Sem cara ou per- aquele arranjo que hoje é nomeado
sonalidade, podem ser encontrados em
discursos, textos, falas, modos de viver,
como “casamento” – transformações
modos de pensar que circulam entre famí- e questionamentos que, como se sabe
lias, jornalistas, prefeitos, artistas, padres, bem, não são realizados apenas pelas

RELIGIÃO E POLÍTICA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE CONFLITO E POSIÇÕES // 85


17. Por outro lado, um existências homossexuais, mas também sua articulação com a “bancada da bala”.
discurso conservador que
pode ser considerado sem pela visibilidade de novos padrões de É evidente que os parlamentares
fundamentação religiosa relacionamentos entre heterossexuais. da Frente não estão sós, tampouco a
também encontrará eco
entre alguns de seus Do mesmo modo, a recusa à ampliação força deles é autosuficiente. Há um
personagens – por exemplo, de direitos para grupos específicos, que cenário de conservadorismo, de valores
a proposição quanto à
modificação da maioridade conduziriam a uma maior autonomia, morais retrógados que possibilitam
penal, apresentada pelo igualdade e liberdade para sujeitos em esse espaço no qual, poderíamos
Senador Aloysio Nunes
(PSDB-SP), é amplamente posição político-social inferior, para os considerar, esses sujeitos são, hoje,
defendida por figuras como chamados subalternos, será moldada a os principais protagonistas. Não é
o Senador Magno Malta
(PR-ES) e pelo candidato à
partir de uma denúncia sobre tentativas apenas a bancada evangélica, mas
presidência Pastor Everaldo de obter “privilégios”, “superpoderes” e também o deputado Bolsonaro e outros
(PSC). Isso indica que,
para tal segmento, noções
“abusos” por parte de segmentos que já parlamentares conservadores, figuras
como “fundamentalismo são olhados com desconfiança por esse midiáticas religiosas (como o Silas
religioso” não são tão
representativas como
corpus social mais amplo. Malafaia) e outras não religiosas que
“discursos conservadores” Diante deste cenário, tomá-los como atuam nas pautas relativas aos direitos
ou uma espécie de junção
religiosos e fazer o esforço relativista sexuais e reprodutivos17. Contudo, não
entre “discursos de direita e
de inspiração religiosa”. de buscar compreendê-los nos torna podemos silenciar a respeito dos locais
também, de algum modo, “amoladores de autoridade, espaços de visibilização
de faca”. Não é possível negar a expertise e possível capilaridade que tornam a
política que lhe caracterizam em prol da sua atuação um capítulo especial. Além
indicação de que são “religiosos” e/ou disso, nesse contexto de disputas, como
como “apenas” atores que transportam sustentei, dar voz não é um meio apenas
de tornar público alguma coisa, mas é
O ACIONAMENTO DOS “PÂNICOS MORAIS”, POR EXEMPLO, NÃO APENAS
SERVE A UMA NEGATIVA MORALIZAÇÃO DE DETERMINADOS SETORES
SOCIAIS, MAS, AO MESMO TEMPO, IMPEDE O PRÓPRIO CAMINHAR NA
DIREÇÃO DE UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA E IGUALITÁRIA –
NO SENTIDO QUE MOBILIZA O QUE HÁ DE MAIS CONSERVADOR,
VIOLENTO E PRECONCEITUOSO NA SOCIEDADE.
seus valores religiosos para um espaço
historicamente definido como “laico”. construí-la, é fazê-la existir e potencializá-
la (e ainda mais com toda a organização
Há, na verdade, um projeto claro de
que possuem fora e dentro da política
expansão de poder e domínios que pede
partidária e estatal). O acionamento
que estejamos em vigilância. Com um
dos “pânicos morais”, por exemplo, não
movimento ascendente ao longo dos anos,
apenas serve a uma negativa moralização
é possível observar esse grupo ampliando
de determinados setores sociais, mas,
as suas forças nas diferentes estruturas
ao mesmo tempo, impede o próprio
do poder e desqualificando processos,
caminhar na direção de uma sociedade
meios, caminhos que poderiam conduzir
mais justa e igualitária – no sentido que
a uma maior igualdade entre os sujeitos;
mobiliza o que há de mais conservador,
influenciam eleições, ganham espaços
violento e preconceituoso na sociedade.
no Executivo e são atores fundamentais
em barganhas características de algumas DOIS ÚLTIMOS ASPECTOS FUNDAMENTAIS:
Casas legislativas – vide a negociação que DISPUTAS ENTRE A “OBJETIVAÇÃO”
culminou no cancelamento de parte do DOS EVANGÉLICOS” E DO “ESTADO”
programa Escola sem Homofobia como
forma de “blindar” o então Ministro É sob tal perspectiva que a defesa
Antônio Palocci, as associações dessa da laicidade, de determinado controle
Frente com a “bancada ruralista” na sobre a atuação de setores específicos,
tramitação do novo Código Florestal, e a deve se constituir como um dos nortes

86 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


para as nossas ações políticas. A defesa mas, ao mesmo tempo, como uma forma 18. Como exemplo disso,
gosto de citar as eleições
da laicidade está referida, portanto, de não superdimensionar e, desse modo, de 2012 na cidade de São
não apenas a um debate sobre o modo fortalecer o lado conservador – é preciso Paulo. Como vários jornais
noticiaram, o pastor Silas
de atuação, os valores que orientam mostrá-lo, reconhecê-lo com seu real Malafaia se empenhou
instâncias públicas estatais, mas a uma tamanho, força e poder18. Outro caminho ativamente na campanha
de José Serra, pois seu
disputa discursiva, ideológica, a respeito de objetivação “dos evangélicos” aciona adversário, Fernando
das possíveis e legítimas formas de algumas outras características sociais Haddad, “criou o kit gay”.
Concluída a apuração
existir, se relacionar, viver. O Estado, de que o fazem inferiores em termos de dos votos e reconhecida
certo modo, é apenas um artefato, um status social, ou, ainda, preconceitos a eleição do ex-ministro
da educação, não houve
elemento de um embate discursivo que o relativamente difundidos e associados qualquer nota que indicasse
engloba, mas não se limita a ele – ainda ao segmento: ingenuidade, a presença uma “derrota de Malafaia”.
Por outro lado, em diversos
que seu papel como cristalizador de de mulheres, a baixa escolaridade, outros pleitos, uma rápida
verdades, legitimidades, oficialidades, radicais/fundamentalistas, intolerantes, leitura indica, desde logo,
o faça de algum modo especial nesse a localização em bairros populares, a o “grande impacto” dos
evangélicos, conservadores,
campo mais amplo. pobreza etc.. Portanto, devemos observar rejeitando determinados

Dado que o cenário está bem longe que ao “conservador”, “evangélico”, candidatos.

de parecer um dos melhores, é preciso nesses discursos apressados e não 19. Nesse sentido, uma
demonstração interessante,
pensar formas de romper com tais atentos à complexidade do tema, pode- que merece ser visibilizada,
dificuldades e reverter essa relação de se acoplar, ou melhor, compor-se a eles, são caminhos como os
construídos pelos jovens
forças. Nesse sentido, talvez tenhamos de imediato, outras imagens acionáveis, analisados por Novaes
que pensar modos, estratégias, conhecidas, desse grupo, reformulando (2012), as manifestações/
expressões que indiquei no
caminhos, discursos para ir às bases, outras hierarquias em voga em nossa início desse texto e diversos
disputar valores e compreensões no dia a sociedade: “são todos fundamentalistas fóruns ecumênicos e de
diálogos inter-religiosos,
dia das pessoas. Mais uma vez, portanto, enganados”, “uma gente pobre, sem como o Movimento Inter-
vale retomar aqueles pontos iniciais educação e conservadora”, “uns religioso (MIR).

dessa comunicação: nosso problema fanáticos que não compreendem as


não é com o cristianismo (católico ou transformações”. É preciso, recuperando
evangélico) ou os seus adeptos, mas um termo que Mafra (2011) adota no
com determinados grupos e formas de trecho citado anteriormente, atuar na
manifestação da fé. Ter isso em mente “borda de reconhecimento mútuo” que
é importante, pois evitamos incorrer produz a objetivação “dos evangélicos”,
na produção de novas hierarquias e para não valorizar os nossos inimigos,
subalternidades, consequência de tratar os potencializando, nem silenciar os
todo esse campo de modo unívoco e nossos aliados, os enfraquecendo19 - ou,
homogêneo, sem considerar dissidências, ainda, a demarcação de novas fronteiras,
nuances e disputas internas. hierarquias e a construção de novas
A partir desse cenário, é importante desigualdades.
assumirmos dois comportamentos Nesse sentido, é importante reconhecer-
específicos no que se refere à se e afirmar-se como parte de um projeto
“objetivação” dos evangélicos nesses político e, assim, a consequência é
embates entorno dos direitos sexuais, observar que do outro lado também se
reprodutivos e da defesa do Estado laico. constitui outro projeto político (com ares
Primeiro, é fundamental lançar luz sobre religiosos, mas não só!). Embora isso
a heterogeneidade e diversidade no possa parecer, em um primeiro momento,
interior do próprio campo, não dando vazio de significados, esse movimento,
margem para que atores conservadores, acredito, evidenciará a existência de um
como os destacados aqui, assumam a conflito político e, desse modo, caberá a
“representação”, o “protagonismo” público nós entender que, como diversos outros
(unívoco) dessa identidade religiosa. conflitos, eles não se encerram com o
Destacar essa variedade e disputá-la fim, com a dissolução dos mesmos, com
são ações indispensáveis não só para um consenso entre as partes, mas apenas
observar as diversidades lá existentes, com a transformação dos mesmos. Na

RELIGIÃO E POLÍTICA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE CONFLITO E POSIÇÕES // 87


20. Na verdade, ele examina verdade, talvez não tenhamos, no plano De certo modo, as defesas do Estado
o formato constituído a
partir de uma tríade, mas imediato, que buscar convencer os nossos laico, os embates entre religiosos e
indica que essa composição oponentes, transformá-los, mas apenas ativistas, constroem-se como um efeito, a
pode ser maior, sendo
três apenas o seu número alterar a correlação de forças em nosso partir da crença, da inquestionabilidade
mínimo. favor, dado que se trata de uma disputa desse modo de ser, da existência do
pelo projeto político que apoiamos e Estado a partir dessa concepção do
desejamos para a sociedade. “Estado-ideia”. Não só isso, mas elas
Ainda pensando em termos de reforçam, criam, dão significado a isso.
“projetos de sociedade”, vale chamar Os argumentos passam pela valorização
a atenção para outro aspecto desse da isonomia estatal, o seu caráter de
conflito. Apesar de aparentemente se dar reconhecer e garantir direitos, a sua
entre “conservadores” e “progressistas”, capacidade de incluir pessoas que estão às
é preciso lançar luz para um terceiro margens etc.. Ainda que se possa observar
ator nessas cenas: o Estado. Esse diversas situações que se contrapõem a
personagem, ainda que sempre presente, essas assertivas, esse ideário é tão forte
se constitui, no conflito, como uma que as silencia, oblitera ou, nos casos
espécie de mediador, ‘ponto de disputa’ em que isso não é possível, singulariza,
entre os outros dois; é dessa posição particulariza, localiza determinados
que, portanto, constrói e reforça a sua gestos/atos como sendo consequência
legitimidade, ampliando o seu poder. de uma deformação, de um mau uso,
Nessa direção, é profícua a de um abuso específico de determinada
contribuição de Simmel (1969) sobre o instância, gestão, funcionário, projeto,
entendimento do “conflito” através de comando etc.. Portanto, ao ser elaborado
embates performados por uma tríade20. entorno daquelas falas e ter esses efeitos,
Segundo ele, a partir desta composição, o conflito é composto por dois atores que
pode-se reconhecer a lógica do “divide estão claramente em luta, mas também
et Impera”, dado que o terceiro elemento por um terceiro que pode administrá-
(re)conhece as disputas, os atores, e la, estimulá-la ou reduzí-la, tendo como
sabe manipulá-los tendo em vista a referência esse norte de autopromoção e
demarcação do seu próprio comando, a ampliação de seu comando.
ampliação do seu controle. É nessa direção que, em nossas atuações,
A defesa do Estado laico, nessas falas, devemos estar atentos às possíveis
está submersa a uma concepção de Estado consequências indiretas dos discursos que
como um ente composto apenas por suas produzimos no interior do debate tratado
instâncias administrativas/burocráticas aqui. Em um período marcado por uma
(representáveis por organogramas série de violências perpetradas por seus
claros, cheios de associações internas), braços militares, cerceamento, violação e
que se comporta/age a partir de uma negação de direitos básicos, como saúde
racionalidade objetiva, imparcial, e educação, e a ausência de políticas que
procurando, sempre, a construção de promovam igualdade e a valorização
um bem comum, de melhorias etc. para das diversidades, a nossa defesa da
a nação que ele cria e da qual é fruto. laicidade não deve operar, digo, reforçar
Essa elaboração que, a partir de Abrams aquela imagem do Estado, sob o risco de
(1978), podemos chamar de “Estado- silenciar dinâmicas que conduzem, em
ideia”, produz uma série de apostas, outros cenários, à própria marginalidade
crenças, gestos, concepções que dão liga dos grupos que representamos e/ou
à própria legitimidade do Estado, como defendemos.
um bem em si, como algo que deve
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ser resguardado e defendido e, como
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RELIGIÃO E POLÍTICA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE CONFLITO E POSIÇÕES // 89


VITAL DA CUNHA, Christina.
“Evangélicos na mídia: refletindo
sobre conservadorismos, diversidade e
democracia” [nesta publicação].

90 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


A ESFINGE DA UPP E OS
ORÁCULOS DA RELIGIÃO:
PERCEPÇÃO DE LIDERANÇAS RELIGIOSAS NATIVAS SOBRE
UNIDADES DE POLÍCIA PACIFICADORA EM FAVELAS CARIOCAS1

CLEMIR FERNANDES SILVA2

INTRODUÇÃO: CONTEXTO E PROBLEMA3 que foi previamente objetivado. Para 1. Este texto resulta de um
trabalho investigativo feito
aprofundamento desta discussão, ver pelo ISER sobre religião e

Um dos desafios do atual contexto social Rodrigues, Siqueira e Lissovsky (2012). UPP, levado a cabo pelos
pesquisadores Clemir
do Rio de Janeiro, mais precisamente na No que diz respeito à sua distribuição Fernandes, Raquel Fabeni
e Suellen Guariento, em
área da segurança pública, diz respeito a geográfica, a implantação da unidade meados do ano de 2013, no
uma prática de policiamento em favelas pioneira da UPP ocorreu no Morro Rio de Janeiro. Atuamos
da cidade mais conhecida como Unidades Santa Marta, região do bairro Botafogo,
juntos desde a concepção
do objeto até o processo
de Polícia Pacificadora, as chamadas na Zona Sul do Rio, em fins de 2008, preliminar de análise dos
UPPs. Elas conformam a principal seguida pela inauguração de outras dados. Agradeço a estas
colegas pela oportunidade
estratégia da Secretaria de Segurança do unidades, somando 37 UPPs instaladas, de trabalho coletivo e pelos
Estado do Rio de Janeiro na tentativa de a maior parte na cidade do Rio e uma diálogos enriquecedores
neste percurso.
combater a violência ocasionada pelo na Baixada Fluminense. Exceto duas na
domínio armado exercido por traficantes Zona Oeste (Cidade de Deus e Batan), a
2. Sociólogo, bolsista da
FAPERJ, é pesquisador do
de drogas em áreas de pobreza4. No grande concentração se dá em áreas das ISER (Instituto de Estudos
site oficial da UPP, uma declaração Zonas Norte e Sul7. da Religião), doutorando
em Ciências Sociais pelo
formal do então governador explicita
Um diferencial da UPP em relação a Programa de Pós-graduação
seu objetivo geral:“combater facções em Ciências Sociais da
outros programas que o precederam – Universidade do Estado
criminosas e devolver à população a paz
como os Grupamentos de Policiamento do Rio de Janeiro (PPCIS/
e a segurança.”5 Mais de dois anos após a UERJ).
de Áreas Especiais (GPAE) – diz respeito
instalação da primeira UPP, outro decreto 3. Quero reconhecer e
à permanência na favela, evitando
apresenta dois objetivos específicos: agradecer a várias pessoas,
1) “consolidar o controle estatal sobre incursões policiais pontuais que, ao como colegas do ISER, que
leram o texto em diferentes
comunidades sob forte influência da buscarem reprimir ações de traficantes de
estágios de versão e deram
criminalidade ostensivamente armada” drogas, causavam confrontos violentos excelentes contribuições

e, 2) “devolver à população local a paz nessas localidades resultando na morte críticas e sugestões,
principalmente André
e a tranquilidade públicas necessárias de muitas pessoas8. Rodrigues, Christina Vital
e Paola Oliveira. Também
ao exercício da cidadania plena que São várias as contribuições de agradeço às sociólogas
garanta o desenvolvimento tanto social pesquisadores, a partir de recortes Cecília Mariz e Lia Rocha,
professoras do PPCIS/
quanto econômico.”6 São várias as diferentes, que visam compreender
UERJ, pela interlocução,
oscilações entre estes discursos político essa prática da UPP para favelas/áreas comentários e sugestões.
e institucional e seus respectivos popularesdo Rio de Janeiro, como 4. Sobre os territórios da
resultados operacionais, os quais, além ilustram os trabalhos de Machado da pobreza como espaços
estigmatizados de moradia
de nem sempre evocarem coerência, Silva (2010), Fleury (2012), Leite (2012), de pobres e de domínio
até desembocam no oposto daquilo Cano (2012), Rodrigues, Siqueira e armado de traficantes

A ESFINGE DA UPP E OS ORÁCULOS DA RELIGIÃO: PERCEPÇÃO DE LIDERANÇAS RELIGIOSAS NATIVAS SOBRE UNIDADES DE POLÍCIA PACIFICADORA EM FAVELAS CARIOCAS // 91
e, portanto, como lócus Lissovsky (2012), Birman (2012), Banco presença consolidada na área geográfica
idealizado da “violência
urbana”, ver Machado da Mundial (2013). Todos procuram onde se encontram, desde a mais antiga,
Silva, 2008. pistas para descrição e compreensão como uma igreja católica presente há
5. Disponível em: http:// desse cenário, principalmente a partir mais de 80 anos, até a mais recente, uma
www.upprj.com/index.php/
as_upps. Acessado realizado
de enfoques do campo político como igreja pentecostal, que tem 20 anos de
em 26/02/14. segurança, defesa de direitos, pobreza, atuação em seu contexto.
6. Disponível em: http:// abordando assuntos como motivação, Os serviços estritamente religiosos
solatelie.com/cfap/html32/ implantação, efetivação, eficácia, desafios, que prestam às suas comunidades, como
decreto_42787_06-01-2011.
html. contradições, paradoxos, problemas e celebrações, acolhimentos, reflexões
7. A primeira UPP
resultados relativos a essa modalidade éticas, empoderamento pessoal e coletivo,
instalada fora dos limites de atuação policial adjetivada pelo termo orações, rezas, passes e outros apoios
do município do Rio “pacificadora”.9 espirituais, se somam a diversas ações que
aconteceu em janeiro de
2014, no Complexo da Embora trabalhos como alguns destes oferecem, em geral sem qualquer custo
Mangueirinha, em Duque
de Caxias, cidade da
acima citados possam ter tangenciado para os usuários, como capacitações
Baixada Fluminense. Para o campo religioso, nomeadamente o profissionais, doação de bolsas de
um panorama de instalação
de todas as UPPS, ver:
texto de Birman (2012) e mais o de alimentos, mediação de conflitos,
http://www.upprj.com/ Esperança (2012), além do próprio reforço escolar e nutricional, apoio
index.php/historico.
artigo de Rodrigues e Siqueira (2012), o psicológico e psicopedagógico, educação
Acessado em 27/02/14.
presente esforço destaca a dimensão da ambiental, distribuição de sopa, corte de
8. Sobre a experiência
do GPAE, podem ser religião procurando aferir a percepção cabelo, aplicação de flúor e orientações
consultados os trabalhos de lideranças religiosas nativas de áreas de cuidado dentário para crianças,
de Fernandes (2003) e de
Carballo Blanco (2003).
com UPP acerca de sua presença e ação assistência jurídica e outros serviços,
Sobre a ação histórica local, recorrendo, sempre que possível, alguns deles mediante parcerias externas,
da policia em favelas e
consequente conflito com
à memória do período antes das UPPs e feitas com diferentes entidades religiosas
traficantes de drogas, suas expectativas para o futuro.10 e mesmo órgãos privados e públicos.
inclusive com graves
danos à população sem Nossa premissa é que os grupos
vínculos com o problema religiosos detêm capilaridade e, 1. UM PRESENTE DE “PACIFICAÇÃO”13
entre polícia e traficantes,
de maneira geral, reconhecimento ARMADA E VIOLÊNCIA VELADA (ÀS
dentre vários trabalhos, ver
produções mais recentes e e legitimidade por sua presença VEZES, EXPLICITADA)
de dimensão testemunhal
como Sousa Silva (2012)
historicamente ativa e valorativa nesses A cada instalação de uma Unidade
e também Soares, Bill e contextos. Condição assimétrica da UPP de Polícia Pacificadora em favelas do
Athayde (2005).
que, além de comparativamente recente Rio, marcadas por cerimônias oficiais
9. Optamos por grafar a (em busca de meios de se estabelecer e com a presença de autoridades, às vezes
expressão sempre entre
aspas, pois, além de se consolidar nessas áreas favelizadas), não até do próprio governador, veicula-se
tratar, neste caso, de uma possui sólida estrutura institucional, notícias na grande imprensa e nos órgãos
categoria da polícia, ela é,
também, alvo de criticas
nem parâmetros e procedimentos legais públicos de comunicação, algumas
diversas, que questionam detalhadamente definidos11. A atuação da delas fazendo fé de que a violência mais
e problematizam a (im)
precisão desse termo para
UPP resulta, às vezes, em gestão pública explícita e de maior potencial ofensivo
definir o referido trabalho segundo critérios mais particulares é uma página virada e de que tem
policial. Como mostram, ou definidos pela subjetividade do
por exemplo, Leite (2012) e início uma “nova era” em áreas antes
Rodrigues e Siqueira (2012). comandante em vigor e até dos policiais, controladas pelo tráfico de drogas, com
10. Ainda que as percepções do que por uma política rigorosamente a entrada da UPP. No discurso retórico
das lideranças religiosas pública, isto é, democrática e de caráter do próprio governador, a instalação de
sobre o tema das UPPs
possam convergir com
republicano. uma Unidade de Polícia Pacificadora
as dos atores com outras
equivale a “devolver à população a paz
inserções, esta pesquisase BREVE REGISTRO DA PRESENÇA E
justifica pela delimitação e a segurança”. Tal concepção e sua
ATUAÇÃO DAS ENTIDADES/LIDERANÇAS
de um campo específico reprodução por meios de comunicação
de investigação no qual RELIGIOSAS12
se situam personagens atenderiam a um projeto que visa
essenciais à vida pública Procurando identificar a origem, demonstrar a mudança de paradigma
e cotidiana nas favelas
cariocas. trajetória e ação das entidades religiosas na “política de segurança”, operada
11. A estrutura
participantes da pesquisa, verificamos pela UPP. A construção dessa realidade
institucional-legal – que todas elas têm uma história e sem fundamentação empírica destoa,

92 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


significativamente, das percepções de de segurança são mais complexos do que sobretudo a falta ou
fragilidade dela, na
religiosos ativos no cotidiano de favelas essa prática de policiamento chamada de implantação e manutenção
onde fazem mediação e prestação de “pacificação”. E todos reiteram a presença da UPP pode ser percebida
pelo teor do próprio
serviços religiosos e sociais. ativa do tráfico, mesmo sem a exposição decreto que a institui.
A chegada e permanência da UPP nas das armas. Esse discurso converge para Datado de 21/01/2009, um
mês após a instalação da
favelas são vistas de maneira diferenciada, uma fala do secretário de segurança de primeira Unidade de Polícia
com reconhecimento de alguma que a UPP não pretende acabar com Pacificadora, o documento,
contando com a assinatura
melhoria em relação ao passado de o tráfico, mas com violência armada e
do governador, tem apenas
violência explicitada, especialmente pela a retomada do território (Rodrigues e 233 palavras e menos de

exposição de armamentos, bem como Siqueira, 2012:10-11). uma página. Ver a íntegra
do decreto em: http://
da redução de conflitos entre policiais e Pai de santo, que residiu na favela até solatelie.com/cfap/html6/
decreto41650_21-01-2009.
traficantes, mas com percepções críticas 2005, comenta sobre presença da UPP: html. Rodrigues e Siqueira
de problemas que persistem e outros Eu não estou vendo diariamente. Enquanto também comentam sobre
isso (2012). Outro (curto)
que surgem, o que gera dúvidas sobre estou lá vejo que as coisas estão tranquilas. decreto, com data do dia
a real eficácia, além de futuro (melhor) Nenhum membro que se identifique do seguinte a este, trata apenas
dessa ação governamental. Um exemplo trabalho armado, só vejo a polícia e isso da gratificação dos policiais
nos dá uma segurança. A gente sabe que o ativos na UPP: http://
é a forte presença do tráfico de drogas, tráfico continua, mas não sei aonde, nem solatelie.com/cfap/html6/
embora mais dissimulado em algumas nunca soube. Eu nunca me senti inseguro
decreto41653_22-01-09.
html. Somente dois anos
áreas e em outras, nem tanto, além da lá, mas a UPP nos dá uma sensação melhor depois, outro decreto, mais
própria polícia, que recrudesce certas de segurança. Mas o fato de eu não morar extenso, apresenta outras
lá, não dormir e nem acordar lá, torna as disposições da implantação,
práticas que resvalam, em parte, para estrutura e funcionamento
coisas diferentes. Talvez, eu não tenho uma
atitudes que negam o próprio sentido radiografia correta. Mas quando eu mora-
das Unidades de Polícia
Pacificadoras. Este decreto
de proximidade e “pacificação” segundo va lá eu lembro que as pessoas achavam pode ser consultado
o modelo propalado da UPP14. Uma normal, acabam se adaptando àquela rea- integralmente em: http://
única entrevistada revelou grande lidade de ver mais de 30 homens armados, solatelie.com/cfap/html32/
era a realidade deles. Eu percebo que tem decreto_42787_06-01-2011.
entusiasmo com o contexto da UPP, pessoas que não conhecem outra realidade,
html. Acesso em 24/03/14.
embora já fazendo senões à realidade do vivem aquela ali20. 12. Registro aqui nosso
novo comando15. A seguir, os relatos dos pleno agradecimento
Dentre três religiosos de uma mesma a todas as lideranças
entrevistados16.
favela, as percepções do padre e do pastor religiosas e comunitárias
que nos concederam
“O tráfico existe, é fato isso. O que nós estão mais alinhadas em comparação à entrevistas, doando-nos
não temos hoje é a presença do tráfico visão do líder umbandista. Disse o padre: seu tempo – no geral, nos
recebendo em seus templos
armado, mas ainda assim, o tráfico
Há muitos relatos. Há pessoas que dizem –, colaborando com seus
de drogas continua. Numa proporção que, de fato, melhorou, que mudou muita conhecimentos e avaliações.
menor, mas continua”, revelou uma coisa. Outros dizem, dependendo do lu- Reiteramos nosso muito
obrigado.
pastora. Já um pastor pentecostal, gar que a pessoa mora aqui dentro, a coisa
está pior. Dependendo do plantão de cer- 13. Sobre pacificação numa
afirmou: perspectiva crítica, ver
tos policiais as coisas continuam... Com a
artigo de Leite (2012), que
Melhorou bastante algumas questões, mas presença da polícia há uma modificação da analisa o contexto anterior
a gente sabe que a violência sempre vai geografia da violência, mas que continua. E da “metáfora da guerra”
existir17, não adianta. Aqui ainda continua aquela pretensão de que vamos desarmar marcado por disputa
um lugar muito violento, então, a UPP veio a favela, isto ainda está longe de acontecer. entre policias e traficantes
trazer melhora nessas questões relaciona- ao ambiente atual da
Há tiroteios quase que diariamente. Essa
“pacificação” pela UPP.
das à segurança.18 Hoje você não vê mais noite, inclusive, lá pelas dez horas, houve
aquele movimento do traficante dentro da um tiroteio terrível. Muito grande. Hoje 14. Ao se comparar
comunidade com a ostentação de armas, percepções de moradores e
está assim, meio dividido, parte de cima
outros líderes em pesquisas
daquele poderio bélico, você não vê. Mas e de baixo, com dois grupos que estão se anteriores a esta, se percebe
dizer que isso acabou; não acabou. Isso não confrontando, e a presença da polícia. En- uma mudança na redução
é só aqui. Em todas as comunidades ditas tão há relatos de pessoas e de famílias de da importância e confiança
pacificadas, inclusive as com UPPs, a vio- que a polícia barbariza. Há relatos de que na UPP, ao mesmo tempo
lência continua, isso está explodindo sem- em que revelam e concebem
há esse confronto entre duas facções. A
maior acomodação
pre no jornal. No Tuiuti, na Mangueira19 e presença é muito forte. e presença do tráfico
por aí vai. Como já foi afirmado em outros (Rodrigues e Siqueira,
2012).
Percebe-se certo cuidado ao se falar trabalhos, alguns aqui citados, cada UPP
15. Esse depoimento reforça
dos supostos benefícios da UPP, mas com tem sua própria realidade, que depende a concepção já comum
o reconhecimento de que os problemas do contexto local, do comandante e entre outros pesquisadores

A ESFINGE DA UPP E OS ORÁCULOS DA RELIGIÃO: PERCEPÇÃO DE LIDERANÇAS RELIGIOSAS NATIVAS SOBRE UNIDADES DE POLÍCIA PACIFICADORA EM FAVELAS CARIOCAS // 93
que a UPP – como já visto de outras forças que operam no lugar. entrevista, o que foi reiterado pela
neste trabalho – carece de
parâmetros normativos Segundo a entrevista do sacerdote acima, própria entrevistada.
ou institucionalização também as percepções dos moradores As diferenças entre as diversas áreas com
de seus procedimentos,
entretanto, em grande parte, são díspares, em função de fatores UPP se revelam bastante significativas,
fica “refém” do controle do diferenciados num contexto geográfico especialmente considerando se a
comandante em exercício.
e social tão diverso quanto de uma liderança religiosa mora ou não na favela
16. Por razões de segurança
grande favela. Um destaque da fala dele, onde está a sua organização religiosa,
dos entrevistados,
resolvemos não informar entretanto, é a presença armada do tráfico como atestam as falas acima. O caso
seus nomes bem como de drogas, inclusive com disputa de de uma favela da Zona Sul é exemplar
manter discrição sobre
o lugar onde residem e a facções por pontos de venda de tóxicos. neste sentido. O relato do padre, que
identificação mais específica As armas podem não estar visíveis, como mora na área, é mais agudo na descrição
da entidade religiosa à qual
pertencem. disse o pastor evangélico, o pai de santo e dos problemas do que o testemunho do
17. Articula a teoria de
o padre, mas o barulho dos tiros denuncia pastor, que vai à favela pelo menos duas
Peter Berger sobre o a presença ativa das mesmas21. vezes na semana, mas não reside no local.
problema da criminalidade
(Berger, 1985). Já a líder católica, destacou uma E mais distante ainda do pai de santo, que
18. Embora esse
mudança relativa, considerando uma vai menos vezes e também não tem sua
depoimento do pastor, ele perspectiva mais econômica: residência no local. É importante atentar
designou um líder de sua
Agora as coisas estão menos duras. Teve para o fato de o trêsatuarem em áreas
igreja para nos apanhar
e guiar desde o ponto do mudanças em muitas coisas, como no co- distintas do complexo da favela.
ônibus, no alto da estrada, mércio. Os que já tinham comércio estão
seguindo a pé pelos diversos
Embora reconheçam e testemunhem
ampliando, outros comércios se instalaram
becos até chegar ao templo uma mudança no ambiente, com
da igreja, bem dentro da aqui. Esses restaurantezinhos self-service
favela. Era um domingo, dia tem um monte, lojas de roupas, até casa de violência atenuada em comparação ao
claro, de sol, por volta de estética tem agora aqui. O território mudou passado sem UPP, os dados apontam
16 horas. De igual forma,
ele pediu a outro rapaz da e as pessoas têm investido mais aqui sim. um contexto de violência que insiste e
igreja para nos conduzir
Dentre os locais pesquisados, a persiste, tanto por parte de traficantes,
no retorno, até o ponto de
realidade de uma favela da Zona Norte, mas também por parte de policiais,
ônibus, na estrada que corta
a favela. conforme relato da líder evangélica, especialmente em determinados
19. No contexto da salienta uma diferença em relação aos plantões. “Esses policiais barbarizam”23,
entrevista (junho de 2013),
demais lugares e percepção de seus líderes como classificou o padre.
havia tido problemas de
violência nos dois locais religiosos. Disse ela: “A UPP foi a melhor Os testemunhos de dois religiosos de
citados pelo pastor e
coisa que aconteceu aqui no morro. Sim, uma mesma favela da Zona Norte são
amplamente divulgados
pela imprensa. foi a UPP entrar aqui. Hoje eu não sei comedidos quanto à nova realidade.
20. O final de sua fala o que seria de nós sem essa UPP, acho A líder católica enfatiza que a situação
tematiza a teoria de que voltaria a mesma guerra de antes”. agora é “menos dura”, exemplificando
interiorização pelo
processo de socialização, A percepção dessa liderança religiosa com a ampliação e diversificação do
como tratado por Berger revela um desejo: “Eu acho que tinha que comércio local.
e comentado aqui
anteriormente (Berger, ter UPP em todas as comunidades do Rio A “pacificação” feita pelo braço
1985). de Janeiro. É uma nova metodologia da armado do Estado, que seria o “único
21. Na pesquisa realizada ação da polícia, porque eles têm o escutar detentor legítimo do uso da força física”
pelo ISER entre 2010 e 2012 e o ouvir”. Ao terminar a fala, ela revela a (Weber), revela pelo menos um paradoxo
em áreas de UPP, conforme
texto de Rodrigues e importância de uma abordagem policial e um desafio. O paradoxo consiste no
Siqueira, moradores da dialógica, respeitadora de direitos, como significado que a “pacificação” tem tido
Providência e do Batan
atestaram o “cessar-fogo” deve ser no Estado democrático, o que para moradores, que corresponde à
em suas áreas, constatação é semelhantea um policiamento de troca de um grupo armado por outro
coerente com o que é uma
promessa e uma premissa proximidade ou mesmo comunitário22. grupo de poder armado, como vimos em
da existência da UPP. Bem Outro fator que deve ser considerado na depoimentos de nossos entrevistados.
diferente da realidade da
favela onde vive o padre.
fala dessa líder diz respeito ao território Seria possível e preciso falar de paz com
Segundo ele, os tiros ali dela, que já foi considerado como uma este tipo de configuração/estruturação
são diários por causa de
conflitos entre facções do
das experiências mais plausíveis do por meio de armas? Quanto ao desafio,
tráfico e também com a modelo UPP, especialmente no período o braço armado do Estado não tem
polícia. Além disso, o padre
de certo comandante, mas que já havia usado legítima e legalmente a força física
assegura, com base em
sido transferido quando da referida estritamente dentro dos limites impostos

94 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


pelo Estado democrático de Direito24, pastor, entretanto, revelou muito de seu testemunhos de moradores,
a própria UPP –, que viria
assim como prevalece, mesmo em menor desconforto e distanciamento nesta curta para prover a “pacificação”
proporção e capacidade de fazer valer sua sentença, bem como na sequência da –, “barbariza”, dependendo
do grupo de policiais de
vontade, o braço armado ilegal do tráfico entrevista. Essa questão da desconfiança plantão.
de drogas. Neste sentido, “pacificação” dos moradores de favela em relação à 22. Sobre o tratamento
é um conceito ainda distante, já que polícia e ao trabalho que realiza, bem policial em relação aos
a violência por parte de supostos como dos policiais ao contexto da favela e moradores, policiamento
comunitário e polícia de
criminosos e, às vezes, das próprias seus habitantes, tem uma longa trajetória, proximidade, Rodrigues e
forças legais de segurança pública geralmente marcada por signos muito Siqueira fizeram breves e
pertinentes considerações
continua e se insinua a prevalecer. Esse deletérios.27 (2012:41-42).
contexto coloca em xeque a proposta- No contexto de favela da Zona Norte, 23. A entrevista foi
promessa governamental quanto à o pastor explicou sua posição a partir concedida no contexto
responsabilidade da UPP, que seria de sua percepção, imbuída de forte ética
de grande abordagem
da imprensa do “caso
“combater facções criminosas e devolver religiosa: Amarildo”, ajudante de
à população a paz e a segurança.” pedreiro desaparecido
Como a gente preza por obedecer o que a quando estava sob a tutela
de policiais da UPP na
palavra de Deus diz, nós entendemos eles
RELAÇÕES DE AUTORIDADE: RELIGIOSOS Rocinha. Cabe questionar
[policiais] como os principados que vem se haveria alguma ligação
E UPP com espada28. Eles só são ameaça pra quem entre esse episódio e essa
O relacionamento entre religiosos anda errado, pra quem anda certo não há classificação do padre e do
problema com eles. Logicamente, como que ele diz ouvir de seus
e/ou organizações religiosas e UPP é igreja, não podemos atropelar a autoridade fiéis.
bastante diverso, às vezes controverso, que eles tem29. O cumprimento da pala- 24. O já mencionado “caso
como se pode verificar nos relatos abaixo, vra30 é obedecer e graças a Deus não temos Amarildo”, ocorrido no
contexto de uma UPP,
que explicitam disputas de autoridade e tido problema nenhum com eles. Muitos, é emblemática dessa
legitimidade, à luz da teoria apresentada inclusive, dos chefes deles viabilizam mui- discussão.
to o trabalho da igreja no que tange a libe-
por Weber. Questionada sobre essa 25. Dentre tantos
ração, a obstrução de alguma via, sempre
relação, a pastora respondeu com firmeza: exemplos, destacamos,
com a liberação deles31. ilustrativamente, o caso
Não é uma relação boa, é suportável. A UPP de reações e críticas à
De maneira direta, o líder umbandista instalação da UPP no
não tem adesão da comunidade, então, é
uma relação muito difícil porque a maneira respondeu negativamente: “Nenhuma Borel, como registrou a
cobertura da imprensa no
como eles foram colocados dentro da co- relação. Eu nunca fui ativista, nem fazia período (junho de 2010),
munidade, foi uma troca de poderes. Essa parte de associação de moradores, pois que culminou com o
interlocução com a comunidade, o diálogo a gente sabe que a associação sempre foi
movimento Ocupa Borel,
no final de 2012, reunindo
é algo ainda muito precário. E a gente in-
comprometida com o tráfico, senão ela lideranças comunitárias,
siste nisso pra que se dialogue, se converse. ONGs, organizações
nem estaria lá”, sentencia. religiosas e outros atores de
Para além de líder religiosa, ela fala Já a líder evangélica, respondeu reconhecimento local.
também como líder comunitária, positivamente acerca da relação com a 26. Em pesquisa já
exacerbando desconforto mais geral da mencionada feita pelo
UPP: “É muito boa. Conhecemos todos ISER, um entrevistado do
população com a presença da UPP25,
de lá. Quando tem festa, o bolo é feito Morro da Providência,
por sua imposição na área da favela, sem abordando essa “troca de
aqui32, quando tem cachorro-quente
diálogo ou pouca interlocução com as poderes”, referiu-se à UPP
é a gente que faz aqui, estamos sempre e seu comandante como
lideranças locais e as pessoas em geral. os novos donos do morro
em contato”. Esse depoimento revela
Ela avalia a chegada da UPP como uma (Rodrigues; Siqueira,
a proximidade e mesmo a parceria 2012:45).
“troca de poderes”, fazendo referência à
informal entre igreja e UPP33. 27. Rodrigues e Siqueira
semelhança niveladora da ação da polícia (2012) atualizam dados
com o modelo autoritário dos traficantes Descrição detalhando uma relação sobre essa relação
de drogas26. mais individual e particular, mediada tensionada, a partir de
pesquisa já mencionada,
pela aproximação religiosa de matriz
Entre um tom irônico e lacônico, o desenvolvida pelo ISER,
cristã, foi feita pelo padre católico: especialmente no artigo que
pastor pentecostal comentou: “a relação escrevem sobre UPP e seus
da igreja com essas unidades pacificadoras Nós temos relação com um policial que dilemas.
é presbiteriano. A gente tenta trabalhar a
tem sido pacífica. Nós não temos 28. Referência aleatória ao
questão religiosa aqui dentro. Tem um semi-
tido nenhum problema”, descartando nário de um monge beneditino que tem um
contexto bíblico.

uma resposta mais complexa, como projeto de meditação espalhado no mundo 29. Alguns textos bíblicos,
tomados literalmente,
vinha fazendo em outras perguntas. O todo e tem um núcleo em Copacabana. Ele

A ESFINGE DA UPP E OS ORÁCULOS DA RELIGIÃO: PERCEPÇÃO DE LIDERANÇAS RELIGIOSAS NATIVAS SOBRE UNIDADES DE POLÍCIA PACIFICADORA EM FAVELAS CARIOCAS // 95
enfatizam o respeito e
mesmo submissão às
[o policial presbiteriano] teve aqui com ou- UPP nesses locais não consegue fácil
autoridades legais, como
tro presbiteriano que está com interesse de
na clássica passagem adesão ou amplo apoio dessas estruturas
da Epístola de Paulo abrir um núcleo de meditação aqui dentro.
aos Romanos, cap. 13, Então, a relação nossa é muito de pessoas institucionais. Falta diálogo, como
versículos de 1 a 7. para pessoa. De instituição para instituição, explicitou uma pastora, o que resulta,
30. Palavra é um substituto não. Você conhece o policial, que é teólogo, além de distanciamento, desconfiança e
para a Bíblia, tida, para eles, presbiteriano, ele nos conheceu, então nós críticas, até certa oposição às diretrizes
como “Palavra de Deus”. já fizemos umas atividades em conjunto,
da UPP, como se depreende da análise
31. Para a realização de que foi este seminário da paz, este outro
culto ou outra atividade seminário de meditação. Na UPP aqui, eu dos discursos apresentados acima,
na rua, é necessário ter conheço um major, que me parece uma principalmente os deste tópico. Embora
autorização da UPP. pessoa muito séria, mas não seria institu- velado, é um conflito de poderes, uma
32. A entrevista foi feita cional a Igreja e a UPP. disputa por autoridade (Weber), que
nas dependências da
igreja evangélica da qual Enquanto no contexto de uma favela produz mais incertezas e insegurança
é líder, sendo, inclusive, da Zona Norte a líder e o pastor falaram à sedimentação e manutenção da UPP
responsável pela cozinha do
templo.
da proximidade e apoio à UPP, o padre e seus objetivos. Maior proximidade,
na Zona Sul enfocou distanciamento interlocução, diálogo e mesmo uma
33. O pastor dessa igreja,
que participou de um institucional, embora com contato mais pitada de humildade para ouvir e acolher
encontro no ISER no pessoal com um soldado que é teólogo as sugestões e contribuições das entidades
período preliminar desta
pesquisa, comentou essa protestante. O contexto de implantação presentes nas favelas, com histórico de
relação próxima e de e desenvolvimento de ações da UPP ações reconhecidas no contexto – como
confiança com a UPP em
sua favela.
na favela da líder evangélica da Zona os grupos religiosos – poderiam ser
34. A favela de Acari, na
cidade do Rio de Janeiro,
é um exemplo ilustrativo
dessa realidade, conforme
MAIOR PROXIMIDADE, INTERLOCUÇÃO, DIÁLOGO E MESMO UMA PITADA DE
dados quantitativos e HUMILDADE PARA OUVIR E ACOLHER AS SUGESTÕES E CONTRIBUIÇÕES
qualitativos produzidos
por Vital da Cunha (2008). DAS ENTIDADES PRESENTES NAS FAVELAS, COM HISTÓRICO DE AÇÕES
Ver também Jacob, Hees,
Waniez e Brustlein (2004). RECONHECIDAS NO CONTEXTO – COMO OS GRUPOS RELIGIOSOS –
PODERIAM SER ELEMENTOS PARA CONSIDERAÇÃO VISANDO POSSÍVEL
ADENSAMENTO, LEGITIMAÇÃO E MESMO MAIOR ÊXITO GERAL DESSA
PRÁTICA DE POLÍCIA “PACIFICADORA”

Norte em comparação à UPP do padre elementos para consideração visando


na Zona Sul, além de seus comandos possível adensamento, legitimação e
diferenciados, sinaliza outra vez a falta mesmo maior êxito geral dessa prática
de procedimentos institucionais claros e de polícia “pacificadora”.
universais, como já mencionado acima, A suposta dominação racional-legal,
nas práticas da UPP. Esse cenário denota operada em particular nessas áreas de
que a autoridade racional-legal, operada favela pelo braço armado do Estado, isto
por este braço armado do Estado (que, é, por policiais da Unidade de Polícia
neste caso, seria a polícia), atua, às vezes, Pacificadora, resvala, às vezes, para
conforme uma racionalidade pessoal uma dominação ilegal, ao se apropriar
ou particular do comandante e de seus de práticas não necessariamente
policiais, resvalando para uma ação que institucionais e públicas, com base
pode ser classificada como tangenciando em direitos humanos, mas segundo
o ilegal ou, pelo menos, pouco formal- critérios mais pessoais e até particulares
legal. de comandantes e policiais. Isso – para
Igrejas e outras entidades religiosas ficar no básico – por falta de sólida
estão entre as organizações comunitárias institucionalidade da UPP, sobretudo de
de grande capilaridade e reconhecido um regimento legal de funcionamento,
prestígio nos territórios de favela no Rio com suas atribuições e responsabilidades,
de Janeiro34. Entretanto, a instalação da como já foi apontado.

96 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


2. UM FUTURO DE MAIS INCERTEZAS de dever, mas também de direito. Nesse 35. Grupos de fora da
país a educação é a moeda mais preciosa favela fazem, às vezes,
QUE ESPERANÇA pra alguma coisa. O rico parece que quer a
trabalho voluntário na
ONG e outros atendem
Instados a refletir sobre o que pensam desgraça do pobre, parece que não, mas as também a convites da
cotas40 que temos em universidades, uma igreja. No dia de nossa
acerca do futuro no tocante a presença e estada na favela para esta
possível melhoria de uma comunidade,
permanência da UPP, as considerações como um asfalto ou um saneamento bási- pesquisa, encontramos um
grupo de jovens e adultos,
dos entrevistados mesclam esperança co, é fruto de muito protesto. Cada vez que de uma igreja evangélica
com desconfiança, às vezes mais o cidadão se torna paciente ele se torna útil de classe média da cidade
de São Paulo, que veio à
ceticismo do que uma considerável pra si e pra sociedade.
favela para realizar trabalho
certeza. Entretanto, por sua própria Ele concluiu com uma perspectiva mais social e religioso. Segundo
condição de pessoas de fé, os religiosos religiosa, sem abandonar a complexidade informações da Jocum, uma
ONG evangélica presente
vislumbram boas possibilidades, mas da situação. “Embora eu acredite que a há décadas em algumas
não sem alguma desesperança. solução do problema do ser humano é favelas do Rio, grupos dessa
referida igreja paulistana
“São boas perspectivas”, disse a pastora, se voltar pra Cristo. Mas existe a questão de quem tem apoio, vem
algumas vezes a cada
que ampliou suas análises a partir do social também”, acrescentou, arrematou
ano, já por algum tempo,
desenvolvimento de suas atividades: o pastor pentecostal. desenvolver serviços de
assistência social. Agora,
Eu vejo que esse momento só tende a faci- A opinião do umbandista revela uma com maior possibilidade de
litar o nosso trabalho, com a ausência do abordagem para além de sua condição de circulação pela favela.
tráfico armado e da violência acentuada, líder religioso: 36. Referia-se a Raquel
das incursões policiais a qualquer mo- Fabeni e Clemir Fernandes,
mento e com truculência. Não tendo isso Olha, eu não acho que seja como religioso, que fizeram a entrevista,
já ajuda o trabalho interno e o externo no mas como ser humano. Acho que estamos sendo o segundo o autor
recebimento de equipes35. Por exemplo, a num momento político muito conturbado. deste artigo. Para chegar
No dia em que fui ao ISER,41 o momento à igreja, utilizamos
vinda de vocês hoje. Se tivéssemos um mo- transporte uma kombi
mento com o tráfico de drogas autorizando era um e hoje é outro42. Fazer essa previsão até um ponto próximo
quem sai e quem entra, nós teríamos que é muito arriscado. Acho que as coisas estão de uma rua principal
arrumar um esquema pra alguém buscar mudando, essa questão das manifestações do bairro. Subimos com
acho muito válida, mas logo começam a outras pessoas e saltamos
vocês36 lá embaixo e hoje vocês subiram
próximos à sede da ONG
sem problemas. Há três ou quatro anos colocar vândalos, tudo pra esvaziar o mo-
evangélica Jocum, que está
atrás isso não seria tão fácil37. mento. Eu acompanho muito as redes so- localizada mais ou menos
ciais e acho que o povo tá acordando. As no meio do morro. Pedimos
Pastor pentecostal comentou, num informação e uma pessoa,
coisas estão aos poucos mudando.
misto de incerteza e esperança: solicitamente, nos levou
Mesmo sem oferecer explicações até a igreja, que fica numa
Bem, por especulação não sei se por viver área um pouco mais acima,
tanto tempo na realidade que nós vivemos, nem razões mais abalizadas para suas num beco mais fechado.
é normal acreditar que depois de todos os considerações, ele manifestou sua As instalações da igreja
e da ONG, que funciona
eventos38 que tivermos, eles [policiais] vão posição diante dos desafios do contexto no mesmo prédio, nos
embora ou vai enfraquecer a coisa [UPP]. vivido. Embora tenha fugido do cerne dois andares superiores ao
Mas acredito que não, por que o Brasil com templo, são muito boas. A
essa onda de protestos39 está mostrando
da questão que era uma avaliação pastora, segundo informou,
que não dá pra ficar mais do jeito que tava. atual sobre o futuro da UPP, a fala do começou a atuar ali como
missionária.
Não dá pra ficar sendo simplesmente a testa umbandista pode ser enquadrada numa
que sua, a mão que faz e carregar nas cos- dimensão que considera importante 37. A partir da pesquisa
tas um país, sem ter opinião. Então acredito que coordenaram e que
a manutenção e desenvolvimento da também resultou em artigo,
que futuramente eles não vão sair daqui.
polícia “pacificadora”, como se pode Rodrigues e Siqueira (2012)
Ele prolongou sua avaliação depreender também do conjunto da
abordam essa questão
tratando da circulação de
considerando mais amplamente o entrevista concedida por ele. pessoas tanto de dentro
contexto brasileiro, destacando tópicos para fora como de fora para
Líder evangélica detalhou sua visão dentro da favela, após a
socialmente importantes, mas numa
numa perspectiva mais crítica e mesmo instalação da UPP.
linguagem, às vezes, não tão clara e com
com certa desconfiança, em função do 38. Refere-se aos
um jargão que poderia se associado megaeventos que têm o
que vem percebendo de alterações em
tradicionalmente a uma posição política Rio como sede (visita do
seu ambiente: papa, Copa do Mundo,
de esquerda. O pastor terminou a Olimpíadas). A percepção
manifestação num tom mais afeito a um Hoje eu faço uma crítica: Acho que eles de diferentes atores é
[policiais] fingem que não estão vendo cer- de que a UPP tem o
discurso tido como de direita: tempo de validade de tais
tas coisas. Quando outro comandante esta-
acontecimentos na cidade.
A realidade do nosso país é de que cada va aquiera mais firme. Mas com esses que
vez mais está ficando consciente, não só estão aí, a boca43 já tá andando. Não tem 39. É importante considerar

A ESFINGE DA UPP E OS ORÁCULOS DA RELIGIÃO: PERCEPÇÃO DE LIDERANÇAS RELIGIOSAS NATIVAS SOBRE UNIDADES DE POLÍCIA PACIFICADORA EM FAVELAS CARIOCAS // 97
o ambiente da coleta de arma, mas o crack tá funcionando e antes, aproximação e legitimidade por parte
dados, marcado pelos
protestos populares, com com outro comandante, não funcionava. dos dirigentes da UPP com grupos
milhares de participantes,
Depois de ter feito explícitos elogios locais reconhecidamente respeitados,
ocorridos no Rio e em
centenas de cidades à UPP, essa senhora de mais de 60 anos, como é o caso dessa entidade religiosa,
brasileiras, sendo de cuja maior parte da vida foi vivida nessa a mais antiga igreja evangélica na área.
caráter difuso, mas, em
geral, reivindicando uma favela – tendo sido líder comunitária e Com muitos serviços prestados aos
sociedade, a partir de seus presidente da associação de moradores, moradores da favela, tanto em parceria
governantes e instituições
públicas, com mais ética conforme já informado – manifestou com órgãos privados e públicos, quanto
pública, liberdade e uma das mais duras avaliações sobre o por iniciativa própria, segundo detalhou
defesa de direitos, além
de buscarem melhores futuro da UPP. Ela contrastou a liderança a entrevistada45.
resultados nos diversos e a equipe da antiga comandante com o O pastor assembleiano, antes de
serviços públicos para a
população.
grupo atual da UPP. Também acusou considerar essa questão acerca do futuro
os policias de fingimento ou “vista da UPP, perguntou se deveria responder
40. O pastor revelou ter
pouca escolaridade, mas grossa” quanto às novas modalidades à pergunta com o gravador ligado ou
razoável conhecimento de de ação do tráfico de drogas, adaptadas desligado.46 Desliguei e ele falou com
debates públicos, como
o sistema de cotas para e acomodadas ao novo modelo da UPP. ênfase e francamente47: “Depois de
negros, e mesmo capacidade Este é um discurso coerente com a 201648 a bandeira do estado do Rio não
analítica da realidade.
afirmação do secretário de segurança de será mais azul e branca, mas vermelha”.
41. Referência ao encontro
de religiosos, preliminar
que essa prática de policiamento não tem Então, perguntei por quê. Ele começou
a esta pesquisa, em maio como objetivo acabar com a atividade a contar sobre o que aconteceu há um
de 2013.
ilícita predominante nas favelas sob o mês, quando saía de carro da favela e
42. Pouco depois de um controle de traficantes, mas combater foi abordado por policiais: “Eles sempre
mês do encontro no ISER,
sem que ninguém previsse, suas armas. Entretanto, segundo fazem três perguntas: Quem é você? O
o país foi tomado por depoimento da líder evangélica, o antigo que estava fazendo aqui? E, para onde
ondas de manifestações
nas ruas de capitais, como comandante não tolerava tais delitos, o você vai?”. Ele respondeu que é pastor,
o Rio, São Paulo e muitas que reitera a falta de institucionalidade que estava saindo do culto da igreja e
outras cidades brasileiras,
com ampla cobertura dos
e previsibilidade no trabalho policial voltando para casa. Ao que o policial
meios de comunicação, em áreas com UPP, como já mostrado disse: “Você é pastor, então encosta essa
redes sociais e análises de
especialistas.
por Rodrigues e Siqueira (2012). Assim, merda ali que agora eu quero te revistar”.
a líder evangélica revela sua posição Ele disse que parou “o carro e o policial
43. “Certas coisas”, refere-se
ela ao tráfico de drogas, cuja demonstrando certa decepção com o nem revistou direito”, liberando-o em
“boca”, isto é, o ponto de novo comando policial. Numa curiosa seguida. “Ele só queria ser truculento
vendas de drogas, tornou-se
ambulante e com discrição. linguagem metonímica, ela diz que “a e disse tudo isso apontando a arma
Sua critica volta-se para boca já tá andando” e que “o crack tá assim para minha cara.”, disse o pastor
policiais e comando da
UPP, que estariam fazendo
funcionando”. Trata-se de um serviço encenando com o dedo como se fosse a
“vista grossa” a essa suposta sem armas e dinamicamente ambulante. arma virada para seu rosto.
prática ilícita.
A líder evangélica, no entanto, insiste Continuando, o pastor indaga:
44. José Mariano Beltrame, em crer no futuro da UPP, com base na “Como é que vocês acham que a
secretário de segurança
pública do estado do Rio suposta eficácia dessa prática, bem como comunidade vê uma polícia assim? Eles
de Janeiro (e entusiasmado na confiança dos governantes e seus representam o Estado?” E esclareceu: “A
defensor das Unidades de
Polícia Pacificadora). auxiliares. cor da bandeira do nosso Estado será
45. O próprio ISER tem Eu acho que nenhum governador tira mais vermelha porque estará suja de sangue”.
interlocução com essa isso. Sérgio Cabral pode ter todos os de- Assim, encerrou reafirmando que não
igreja, onde já desenvolveu feitos, mas teve coragem, força e vontade
projetos em parceria
política de meter o dedo na ferida da segu-
acredita na UPP, narrando um fato e
com outras organizações
externas à favela. rança pública. E ele arranjou um secretário fazendo uma avaliação. Ele disse que
de segurança na altura, que é o nosso se- o comandante da UPP se reuniu com
46. No começo da
entrevista, como sempre
cretário Beltrame44. Beltrame já veio aqui, pastores da comunidade e solicitou que
fazia, perguntava se poderia roda no morro, já veio até aqui na igreja. preenchessem uma ficha com nome e
gravar. E deixava a opção
de desligar o gravador O tom ligeiramente envaidecido endereço dos membros de suas igrejas.
em algum assunto que, dessa última informação – o Nessa hora, ele torceu o rosto e disse:
porventura, o entrevistado
não se sentisse bem em secretário é próximo e já esteve até A gente tem que ser prudente como a ser-
gravar. Aqui o pastor fez na igreja – revela também a busca de pente49. Para quê eles querem esses ende-

98 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


reços?! Eu disse que não faria isso e eles governo. O governo está desgastado”. a pergunta sugerindo
disseram que nós não queríamos colaborar. desligar a fim de ficar mais à
Depois, mais condicionalmente, ele vontade para se expressar. E
Qual o interesse deles? Ir à casa das pessoas
ponderou: foi o que ele fez.
e começar a fazer perguntas e ameaças? E
Ela tem futuro se avançar naquilo que ela 47. As informações do
depois que eles [a UPP] saírem, como é que
pastor neste item não foram
eu volto aqui? Eu não tenho expectativa de se propõe. Não só segurança armada. Ela gravadas, mas registradas
alteração nenhuma. Pois a função deles é tem futuro, se junto dela chegar essa maior por um amigo que me
outra. A igreja continua aqui, independen- presença do Estado aqui dentro, de uma acompanhou na entrevista,
te da presença deles ou não. forma eficaz, de dignidade, de aberturas, Rodrigo Pinheiro, a quem
agradeço por essa ajuda
de respeito, porque quem mora aqui é um
Essa manifestação do pastor revela resistente.
fundamental.
muitas nuanças, sobretudo da perspectiva 48. Último grande evento
Ele explicou com a clareza de quem
de moradores de favela em relação à agendado para o Rio nos
conhece a realidade local, sobretudo essa próximos anos. O primeiro
polícia, como já visto antes, inclusive foi a visita do papa em
questão da resistência dos moradores:
em outra pesquisa feita pelo ISER e 2013, o segundo, a Copa
do Mundo em 2014, e o
aqui já mencionada acerca desse tema. Imagina: a pessoa sai do Nordeste, em de-
terceiro, as Olimpíadas,
terminada situação, chega aqui, quase que
Percebe-se também uma desconfiança em 2016.
jogado aqui, ele é um resistente. Então o
da lisura e do verdadeiro objetivo futuro da UPP vai ter se ela não ficar para- 49. Provérbio bíblico,
citado metaforicamente
com essa tentativa de busca de dados da só na questão da arma, da policialesca, por Jesus no Evangelho de
pessoais dos moradores por parte do mas ela terá futuro se junto dela vier me- Mateus 10.16, cujo contexto
comando da UPP. O pastor da Zona Sul, lhoria do saneamento, da questão do lixo, evoca a necessidade de
do urbanismo da própria comunidade, a cuidado e perspicácia dos
assim como a pastora da Zona Norte,se discípulos no cumprimento
questão da saúde, da educação, da cultura.
eximiu de colaborar com tal atividade Aí ela tem futuro.
de sua missão em meio à
perseguição de governantes
policial, devido a não confiabilidade e outros opositores.
Ele completou com uma adversativa:
dessa interlocução. Ele descrê de uma
“mas se ela ficar só nessa questão 50. É possível uma leitura
mudança efetiva e continuada por parte análoga à teoria de
policial, vai se criando uma resistência, Hannah Arendt, como já
da prática da polícia, mesmo da polícia
o fechamento do próprio povo que vai se mencionada antes aqui,
da UPP, “porque a função deles é outra”. sentir de novo quase que enganado”. Para
mostrada por Rodrigues e
Siqueira (2012).
Ele também discorreu sobre a presença o padre, o objetivo da UPP de reduzir
histórica e previsível da igreja na favela, ou excluir a presença das armas dos
51. Conforme artigo de
Rodrigues e Siqueira (2012),
em contraste à estada circunstancial traficantes – que efetiva e amplamente a partir de pesquisa anterior
e imprevisível da polícia50 na área. Ao não ocorreu em sua favela, conforme
do ISER sobre UPP, já
mencionada neste trabalho,
final, o pastor da Zona Sul revelou sua relatos acima –, trocando pelo poder outro entrevistado na UPP
percepção quanto à relação entre UPP e armado da polícia somente, sem outros
da Providência fez uma
colocação similar.
tráfico de drogas, como uma espécie de equipamentos de serviços públicos,
suposto acordo tácito: sobretudo a existência de um poder não
Hoje o tráfico ainda existe e é protegido mantido pelo controle policialesco, não
por eles [polícia]. Não estou dizendo que tem futuro, pois enfrentará descrédito
nada melhorou; agora a comunidade não
e resistência dos próprios moradores51.
vê as armas dos traficantes, não está expos-
ta a isso [realidade da UPP]. Até quando? Cabe questionar se mais do que uma
O que vocês acham que acontecerá depois (indesejada) previsão de um líder
de 2016? religioso, trata-se de uma (triste) profecia
Assim, ele questionou desconfiado e de uma autoridade carismática.
mesmo desesperançado em relação ao
que está por vir, revelando que as armas CONSIDERAÇÕES FINAIS
continuam lá – como os tiros frequentes Além de algumas reflexões parciais
informados pelo padre –, mesmo sem já ensaiadas no decorrer do texto,
serem ostensivamente expostas. apresentamos e/ou reiteramos aqui outras
Quanto ao futuro ou continuidade possíveis conclusões nesta parte final.
da UPP, o sacerdote católico, assim Conforme verificado nos depoimentos,
considerou: “Eu acho que não vai. No os religiosos salientam relativos ganhos
início eu até imaginava que pudesse ou alterações positivas com a instalação
continuar. Hoje eu percebo que não vai de Unidades de Polícia Pacificadora em
tão longe não. Depende um pouco do suas áreas. Eles também apontam algumas

A ESFINGE DA UPP E OS ORÁCULOS DA RELIGIÃO: PERCEPÇÃO DE LIDERANÇAS RELIGIOSAS NATIVAS SOBRE UNIDADES DE POLÍCIA PACIFICADORA EM FAVELAS CARIOCAS // 99
52. Sobre “donos do mudanças plausíveis na realidade geral caráter da autoridade diferente (legal:
morro” e suas alterações
de pertencimento, existem da favela, mas destacam pouca influência Estado/polícia; e ilegal: traficantes/
algumas referências a essa no trabalho específico que desenvolvem criminosos) entre as práticas da UPP e as
consagrada percepção de
moradores (Cano, 2012; com a presença da UPP. Esses discursos ações do tráfico de drogas – embora se
Rodrigues e Siqueira, parecem sugerir que os religiosos verifique certa alteração –, não existiria
2012). Segundo a teoria
da autoridade de Weber,
estariam, de certa forma, acostumados a diferença substantivamente radical
conforme abordada neste essas “ondas de controle” tipificadas num para o cotidiano do cidadão na favela,
trabalho, trata-se de
uma possível disputa por
“dono do morro”, seja traficantes, seja sobretudo um ambiente “pacificado”,
dominação, legal e ilegal. polícia ou outros grupos52. Além disso, como querem mostrar e demonstrar
a presença deles há longo tempo nesses os poderes governamentais e mesmo
contextos orienta-os para a previdência alguns grupos de mídia. Desse patamar,
de falar de um “antes” e um “depois” a realidade da “pacificação” parece estar
como algo substantivamente diferente. numa dimensão ainda bem distanciada.
Por tal perspectiva, este trabalho sugere Os religiosos e suas entidades lidam com
que há mais continuidade do que efetivas a presença da UPP tal como conviviam
ou profundas mudanças na realidade da como tráfico de drogas, ficando cada um
favela com a presença e ação das UPPs. na sua área de interesse e competência,
A narrativa elaborada pelos sem interferir diretamente na esfera do
entrevistados sobre o passado recente outro. Mesmo que algumas entrevistas
dessas favelas, hoje com UPP, aponta mostrem percepção e compreensões
para um ambiente em parte assemelhado que produzem alguma dissonância, isso
a certas descrições veiculadas por pode ser compreendido como revelador
meios de comunicação e reproduzidas de conflito, possivelmente de autoridade,
pelo senso comum como sendo de um no ambiente “pacificado”. As falas dos
contexto singularizado por intensa e religiosos alternam convergências,
ostensiva presença do tráfico de drogas, polifonias e mesmo natureza antagônica
com excessiva exibição de armamentos. quanto à realidade de seus contextos.
Esse cenário contribuía para tornar o De maneira bastante semelhante ao
cotidiano dos moradores marcado, às tráfico de drogas, que procurava ser
vezes, por impedimento à plena liberdade onipresente e onipotente no controle
de ir e vir, isto é, de circulação no interior espacial e social da favela, impondo seu
e na relação dentro-fora-dentro da favela, domínio pelo poder das armas, a UPP
principalmente em função de frequentes trilha caminho aproximado, buscando,
tiroteios que põem em risco as vidas inclusive, apoio e legitimação entre a
humanas, conforme relataram. Afora população e as entidades reconhecidas,
isso, a própria exposição, e até exibição como grupos religiosos e associações de
de armas, mesmo que nem sempre moradores. O tráfico de drogas praticava
utilizadas para dar tiros, causava mal assistência através da ajuda material,
estar e constrangimento aos moradores, cooptando assim pessoas e organizações,
pois, como dizem, era uma situação as quais se não manifestassem apoio
imposta, obrigando-lhes à convivência transparente, implicitamente evocavam
com tal realidade. conivência, especialmente por meio do
Sobre a percepção dos religiosos que silêncio. Já a UPP, promove e viabiliza
buscamos aferir, também identificamos atividades esportivas, recreativas e
que esta não se difere substancialmente assistenciais na tentativa de, também,
da média dos demais habitantes da favela. de auferir apoio e legitimação ou,
Ou seja, eles sentem o impacto da UPP pelo menos, mitigar a indisposição
bem próximo do nível e conteúdo dos dos moradores. Dessa forma, tanto o
moradores em geral. Também se salienta tráfico de drogas quanto a UPP tentam
que apesar das diferentes nomenclaturas conseguir obediência a seu poder de
(facções diversas de traficantes, UPP), mando, o que, segundo concepção de
de cores (vermelho, azul, branco) e do Weber, denotaria terem alcançado a

100 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


autoridade perante o grupo, e, para de reflexão e apontamento de luzes, não
mantê-la, é necessária a permanente como teorias simétricas ou justapostas
renovação ou uma reconfiguração de sua aos dados empíricos da pesquisa.
legitimidade. Em suma, mesmo tendo Certamente, há muitas outras
amparo legal, por ser uma força estatuída possibilidades de investigação no
pelo Estado democrático, a UPP carece contexto desse assunto, como a visão dos
de sustentação, reconhecimento e policiais da UPP acerca dos religiosos e
legitimação social para estar e continuar. suas entidades, pelo trabalho e presença
O poder das armas é insuficiente para se histórica nas favelas, bem como sua
conseguir a autoridade entre a população. autoridade; também a identificaçãoda
Os traficantes, com todos os seus percepção dos traficantes tanto em
armamentos e consequente imposição de relação aos religiosos e suas organizações
medo, não possuíam autoridade, como quanto à presença, atuação e futuro
os próprios supunham ou tentavam da UPP. Como as esfinges mudam e
fazer acreditar. Eles tampouco tinham os oráculos que estão em permanente
legitimação, uma vez que a dominação, circularidade e disputa se transmutam,
mais que ilegal, era irracional. há vários possíveis recortes de pesquisa
A eficácia do trabalho da UPP, num determinado ambiente social.
conforme a perspectiva teórica Cabe esclarecer que o título desse
weberiana, depende de que seu poder artigo é tomado como metáfora, isto é,
seja aceito e reconhecido, isto é, que como fator de reflexão, não arrogando
haja correspondência na obediência uma pretensa arrogância de explicação
da população, quando, então, se terá teórico-metodológica, supostamente
alcançado a tão desejada autoridade. elucidativa do mundo real.
Enquanto isso, líderes religiosos seguem É necessário colocar ainda que esta é
seu caminho análogo ao da autoridade uma percepção delimitada pelos vieses
carismática, evocando disputas explícitas desse trabalho, mas reconhecemos haver
ou veladas, conscientes ou involuntárias, outras possibilidades de leitura e visão
com o poder armado de plantão, seja desse cenário sobre o qual nos detivemos
do tráfico - no passado, que parece no recorte limitado dessa pesquisa e,
não ser tão passado ainda -, seja da sobretudo, deste texto. Reiteramos a
UPP, num presente que não se sabe premissa de que buscamos produzir
até quando, ou mesmo se terá futuro. conhecimento visando sempre contribuir
Nesse conflito, embora desarmados com esclarecimentos da realidade,
de qualquer instrumento bélico, esses bem como corroborar possíveis
líderes renovam/ampliam conquistas transformações sociais no diapasão da
e a legitimidade de sua autoridade. justiça e dos direitos humanos.
Do contrário, eles não seriam alvos de
interlocução e mesmo de sedução dos
poderes armados, quaisquer que sejam. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Nossa tentativa nesse trabalho
Banco Mundial. O retorno do Estado
foi apresentar as percepções dos
às favelas do Rio de Janeiro: Uma
religiosos sobre o contexto marcado
análise da transformação do dia a dia
pela presença de UPPs, fazendo uma
das comunidades após o processo de
ligeira comparação com outro tipo
pacificação das UPPs. Rio de Janeiro:
de dominação, a do tráfico armado,
Banco Mundial, 2012.
pelo viés não da explicação, mas da
compreensão e interpretação. Para isso, BERGER, Peter. O dossel sagrado.
foi utilizado um quadro de referência Elementos para uma teoria sociologia da
aproximado ao da perspectiva teórica de religião. São Paulo: Paulus, 1985.
análise compreensiva de Max Weber, em BIRMAN, Patrícia. Cruzadas pela paz:
diálogo com outros autores, como fonte Práticas religiosas e projetos seculares

A ESFINGE DA UPP E OS ORÁCULOS DA RELIGIÃO: PERCEPÇÃO DE LIDERANÇAS RELIGIOSAS NATIVAS SOBRE UNIDADES DE POLÍCIA PACIFICADORA EM FAVELAS CARIOCAS // 101
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102 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


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A ESFINGE DA UPP E OS ORÁCULOS DA RELIGIÃO: PERCEPÇÃO DE LIDERANÇAS RELIGIOSAS NATIVAS SOBRE UNIDADES DE POLÍCIA PACIFICADORA EM FAVELAS CARIOCAS // 103
COMO SE DISCUTE
RELIGIÃO E POLÍTICA?
CONTROVÉRSIAS EM TORNO DA “LUTA CONTRA A INTOLERÂNCIA
RELIGIOSA” NO RIO DE JANEIRO

ANA PAULA MENDES DE MIRANDA1

1. Bacharel e licenciada
INTRODUÇÃO Portanto, este artigo não pretende
em Ciências Sociais pela
Universidade Federal abordar a relação entre os campos da
Fluminense e doutora Pensar as relações entre religião e religião e da política como num cenário
em Antropologia Social política representa um grande desafio, já de oposição radical, que muitas vezes
pela Universidade de
São Paulo. É professora que são considerados comumente como marca as análises. Também não se trata
adjunta do Departamento temas que deveriam ficar fora do debate de uma discussão acerca das disputas
de Antropologia
e do Programa de público. Quem nunca ouviu que política, no campo religioso no que se refere às
Pós-Graduação em religião e futebol não se discutem no religiões de matriz afro-brasileira e aos
Antropologia da
Universidade Federal Brasil? Certamente, esse dito popular não evangélicos. O foco é pensar a religião
Fluminense. Atualmente condiz com a prática, já que todos estão como um fator que conforma as relações
exerce os cargos de
Coordenadora do Curso de fortemente presentes na sociabilidade entre as pessoas e as instituições estatais,
Especialização em Políticas e definição de identidades públicas. especialmente no que se refere às formas
Públicas de Justiça Criminal
e Segurança Pública e Basta uma olhada rápida nos fóruns de administração de conflitos, no âmbito
Coordenadora do Programa virtuais contemporâneos para verificar policial e judicial, e à formulação de
de Pós-Graduação em
Antropologia (UFF). É
que esses constituem os assuntos mais políticas públicas no plano do governo
pesquisadora associada comentados. O que importa ressaltar estadual. Esta perspectiva privilegia
do Instituto de Estudos
Comparados em
aqui é que o dito revela uma intenção, pensar como conflitos, cuja motivação
Administração Institucional que é o da evitação de conflitos, ou seja, é de natureza religiosa, são enfrentados
de Conflitos (INEAC) da
UFF.
há uma moralidade que deveria orientar por distintas agências públicas que
os debatese que consagra a explicitação formalmente atestam que o Estado
de opções como algo que representa brasileiro é laico. Para este fim, tomo
um risco aos laços sociais, dificultando como base casos classificados como de
a emergência de problemas públicos. intolerância religiosa (Miranda, 2010
Este é um dado muito importante para e 2012), identificados a partir de uma
pensar como o conflito é representado pesquisa etnográfica desenvolvida desde
na sociedade brasileira. É a partir desse 2008.
aspecto que proponho desenvolver
uma discussão acerca de processos de A CONSTRUÇÃO DE UMA AGENDA A
mobilização em torno dos conflitos PARTIR DA VISIBILIZAÇÃO DE CONFLITOS
relativos à intolerância religiosa no Rio de Inicialmente, é preciso esclarecer
Janeiro, bem como da recente proposta que legalmente, no Brasil, não existe
de formulação e implementação de uma tipificação para intolerância
políticas públicas, no âmbito do governo religiosa. A legislação se refere ao crime
estadual. de discriminação, que é inafiançável,

104 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


conforme estabelece a Lei nº 7.716/89 internet (youtube) vídeos com “ataques” 2. Segundo Vagner
Gonçalves da Silva (2007), a
(conhecida como Lei Caó), que se refere, aos pais-de-santo, onde questionavam visibilidade desse fenômeno
inicialmente, apenas à discriminação a legalidade e a legitimidade do Estado tem cerca de duas décadas,
sendo a Bahia o primeiro
racial, mas que incorporou outras e das autoridades policiais e judiciais, estado a organizar o
expressões de preconceitos, a partir da Lei faziam a defesa do lema “Bíblia sim, Movimento Contra a
Intolerância Religiosa, no
nº 9.459/97, sob a forma de manifestações Constituição não!”, e ironizavam a Lei ano 2000, e o segundo foi
verbais e/ou comportamentais, ou seja, Caó, chamada de Lei “Caô”, expressão o Rio Grande do Sul, em
2002, a partir de reações
de visões pré-concebidas acerca de que, na gíria carioca, significa mentira.
da Comissão de Defesa das
qualidades físicas, intelectuais, morais, 4) a mãe que perdeu, provisoriamente, Religiões Afro-Brasileiras
estéticas ou psíquicas de sujeitos, a guarda do filho caçula porque a juíza
(CDRAB).

ou ainda pela perpetração de ações entendeu que ela não tinha condições 3. Enquanto este artigo
estava sendo revisado,
discriminatórias que propiciam um morais de criar a criança por ser surgiu no noticiário um
tratamento diferencial em função de candomblecista. caso semelhante, dessa
vez envolvendo mães de
características étnicas, raciais, religiosas Desde a sua constituição, a CCIR santo no Morro do Amor,
(Guimarães, 2004). tem entre seus objetivos estimular no Complexo do Lins, e
no Parque Colúmbia, na
Embora a existência de conflitos as vítimas a apresentar demandas Pavuna, ambos situados
envolvendo grupos religiosos de matriz judiciais para o reconhecimento de na zona norte no Rio
de Janeiro. Disponível
afro-brasileira não seja um tema novo no seus direitos e organizar manifestações em: http://oglobo.
Brasil, tomo como referência o destaque públicas visando “combater o globo.com/rio/crime-
preconceito-maes-filhos-
que a intolerância religiosa passou a preconceito religioso”, lançando mão de-santo-sao-expulsos-
ocupar na esfera pública no Rio de Janeiro dos instrumentos legais com vistas ao de-favelas-por-traficantes-
evangelicos-9868841.
a partir da composição da Comissão de cumprimento da Constituição no que Acesso em 07/09/2013.
Combate à Intolerância Religiosa2, que diz respeito à liberdade de credo. 4. O termo ataque está
se constituiu como um movimento de Foram noticiados na imprensa vários sendo utilizado porque
organizações religiosas, inicialmente ataques4 aos templos, o que provocou
representa a forma pela qual
as investidas públicas de
apenas de matriz afro-brasileira, de a indignação e a mobilização de neopentecostais têm sido
representantes do movimento negro e candomblecistas e umbandistas, levando- designadas pelos grupos
atingidos (Silva, 2007).
de organizações não governamentais, a os a organizar uma manifestação pública
partir de 2008, em reação a uma série de na Assembléia Legislativa do Estado do
acontecimentos no Rio de Janeiro, dos Rio de Janeiro (ALERJ).
quais o grupo destaca quatro eventos
A Comissão de Combate à Intolerância
como exemplares do tipo de conflito
Religiosa acusou, na época, as Igrejas
existente:
neopentecostais, em especial, a Igreja
1) a invasão por traficantes de drogas Universal do Reino de Deus (IURD), de
a barracões, quebrando imagens e atentarem contra a liberdade religiosa,
ameaçando de morte os religiosos que não ameaçarem a democracia e de estarem
se convertessem ao Evangelho no Morro “enterrando a possibilidade de as
do Dendê,Ilha do Governador (RJ)3; comunidades de terreiro, estabelecidas
2) a existência de comunidades nas favelas e comunidades carentes,
dominadas pelas milícias, cujos “líderes” garantirem o mínimo de dignidade em
começaram a perseguir os religiosos de sua prática religiosa que a Constituição
matriz africana; Federal lhes faculta”. Segundo
3) a invasão de um terreiro, no bairro representantes da Comissão, membros
do Catete, e sua depredação por quatro dessas igrejas perseguem, ameaçam,
evangélicos neopentecostais, que foram agridem e demonizam as “religiões
detidos em flagrante, suscitando grande de matriz africana” e também outras
repercussão na mídia devido à prisão do religiões.
pastor Tupirani, da Igreja Geração Jesus A intolerância religiosa aparece nos
Cristo, situada no Morro do Pinto, zona discursos dos religiosos que participam
portuária do Rio, e de Afonso Henrique da Comissão como anteposta à
Alves Lobato, que frequenta a mesma liberdade religiosa, representando um
igreja, pois os dois haviam colocado na desafio ao convívio numa sociedade

COMO SE DISCUTE RELIGIÃO E POLÍTICA? CONTROVÉRSIAS EM TORNO DA “LUTA CONTRA A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA” NO RIO DE JANEIRO // 105
5. Uma das atividades plural. As formas de manifestação da Brasileira”, estabelecendo punições
realizadas pela CCIR foi
a produção do Relatório intolerância seriam variáveis, indo de àquelas que não se enquadrarem
de Casos Assistidos e atitudes preconceituosas, passando por imediatamente; a realização do censo
Monitorados pela Comissão
de Combate à Intolerância ofensas à liberdade de expressão da fé, nacional das casas de religião de matriz
Religiosa no Rio de Janeiro, até as manifestações de força contra africana, através das Secretarias Especiais
que foi entregue à Comissão
de Direitos Humanos da
minorias religiosas. De todo modo, as de Inclusão Racial e Direitos Humanos e
ONU, em 2009. Disponível muitas práticas de intolerância religiosa do Ministério de Assistência Social, em
em http://ccir.org.br/
downloads/relatorio_onu.
são identificadas como demonstrações parceria com universidades em cada
pdf. Acesso em 12/09/13. de falta de respeito às diferenças e às estado; e a criação de uma delegacia
6. A Delegacia de Crimes liberdades individuais e que, devido especializada em crimes étnicos e raciais,
Raciais e Delitos de à ausência de conhecimento e de tal como existe em São Paulo6, proposta
Intolerância de São Paulo
é a única do país, atua informação, podem levar a atos de que além de não ser consensual tem
com uma equipe de duas perseguição religiosa, cujo alvo seria a deixado de ser apresentada nos debates
delegadas, dois escrivães
e oito investigadores.
coletividade. públicos.
A delegacia está em A proposta da Comissão é combater Para dar divulgação a esta agenda,
funcionamento desde 2006,
mas surgiu em 2000, a a intolerância religiosa, relacionando, a Comissão tem promovido uma
partir da criação do Grupo assim, as suas manifestações ao fascismo interlocução com a mídia para enfatizar
de Repressão e Análise
da Intolerância (GRADI), e aos atos antidemocráticos. Segundo a relevância do tema, o que é feito pela
na Secretaria da Justiça e a Comissão, a proposta não é a de Coordenação de Comunicação, que vem
Defesa da Cidadania de São
Paulo. iniciar uma “guerra santa”, mas lutar estabelecendo um diálogo com setores da
7. A Praia de Copacabana,
pela possibilidade de optar por uma sociedade civil e do Estado. Este diálogo
além de um espaço de crença, ou optar por não crer, e não ser tem sido fundamental para a repercussão
lazer, é conhecida por
desrespeitado ou perseguido por isso. do tema da intolerância e da própria
ser utilizada nos finais de
semana para manifestações Assim, faz parte dos debates na Comissão CCIR, sendo realizado de diferentes
políticas. No caso da a defesa da liberdade religiosa associada à maneiras. A estratégia de comunicação
Caminhada, há ainda uma
justificativa de caráter liberdade de expressão, como forma de utilizada pela Comissão tem o objetivo
simbólico para a escolha mobilizar mesmo as pessoas que não são de tornar público as questões referentes
desta praia. Durante muitas
décadas, este foi o local religiosas: a reivindicação é pelo “direito aos temas da liberdade e da intolerância
utilizado para a realização de acreditar e de não acreditar”. religiosa, particularmente no cenário
de rituais e de oferendas
na passagem de ano. A Ressalta-se que na agenda estabelecida do Rio de Janeiro, buscando agregar
partir da década de 1990,
pelo grupo “lutar contra a intolerância” e distintos atores e instituições sociais
a prefeitura começou a
explorar de forma turística “defender a liberdade” religiosa são ações como novos aliados.
a celebração do ano correspondentes, e não há uma distinção O evento mais importante promovido
novo e, assim, o local foi
sendo progressivamente clara entre elas no plano do discurso. pela Comissão, que se tornou um marco
abandonado como local Porém, durante o trabalho de campo de seu trabalho, é a “Caminhada em
de culto.
foi possível observar que o “combate Defesa da Liberdade Religiosa”, que
à intolerância” se refere à realização em 2013 alcançou a sexta realização.
de atos públicos que demonstrem que Trata-se de uma manifestação realizada
“todas as religiões são uma só”, que sempre no mês de setembro, na orla da
devem conviver harmonicamente, e a Praia de Copacabana, local escolhido
divulgação da necessidade de realização por proporcionar maior visibilidade ao
de registros de ocorrências em delegacias evento, em que milhares de pessoas levam
para a proposição de ações judiciais. cartazes e faixas com suas reivindicações
A Comissão tem buscado dar por reconhecimento de direitos7.
visibilidade às suas demandas5, das Dentre as atividades regulares da
quais destaco o desejo de construção Comissão, está a realização de reuniões
de um Plano Nacional de Combate à semanais na sede da Congregação
Intolerância Religiosa; a aplicação efetiva Espírita Umbandista do Brasil (CEUB),
da Lei 10.639/03 em todas as escolas do localizada no bairro do Estácio, na cidade
Brasil, que introduziu no currículo oficial do Rio de Janeiro, para o recebimento
da Rede de Ensino a obrigatoriedade de denúncias de casos de intolerância
da temática “História e Cultura Afro- religiosaque são encaminhadas ao poder

106 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


público. Participam dessas reuniões os sociais realizado pelos dispositivos que 8. A criminalização é
entendida como um
integrantes da Comissão, convidados e neutralizam os operadores de poder processo social que supõe
vítimas, mas merece destaque o fato de previstos em lei (flagrantes, indícios uma interligação entre a
reação moral dominante e a
que há dois integrantes da Comissão materiais, testemunhos, reconstituições lei penal (Misse, 1997).
que são representantes do sistema de técnicas e atuações nos tribunais) durante 9. A categoria “sujeição
justiça criminal: um delegado da Polícia as interações acusatórias, de modo que criminal” possibilita
problematizar a capacidade
Civil, cuja participação é vista como uma representantes do acusado, do Estado e do “poder de definição
significativa contribuição no sentido de da sociedade recriem dramaticamente o da incriminação a um
discutir junto à Polícia Civil o valor do conflito com vistas a construir a sujeição indivíduo e de construí-lo
como pertencente a um
registro das ocorrências relativas aos criminal.9 Desta forma, é possível afirmar tipo social. Amplia-se a
casos de intolerância religiosa, já que o que os dispositivos utilizados nos ritos sujeição criminal como uma
potencialidade de todos os
próprio delegado relata as resistências judiciais não produzem a incriminação indivíduos que possuam
que os policiais têm em reconhecer a das transgressões, mas sim dos atributos próximos ou afins
ao tipo social acusado”
“importância do problema”, o que faz indivíduos. Isso acontece com base na (Misse, 1999:70 – grifo no
com que muitas vezes as ocorrências ação da polícia, que interpreta o evento original).

sejam “bicadas”, ou seja, a vítima seja como uma transgressão à lei e o crimina, 10. Art. 20. Praticar, induzir
ou incitar a discriminação
convencida a não registrar; e um retirando-o da condição de ofensa moral, ou preconceito de raça,
promotor do Ministério Público Estadual, e o leva para a condição de transgressão cor etnia, religião ou
procedência nacional. Pena:
integrante da Sub-Procuradoria-Geral de à lei, por meio de dispositivos estatais
reclusão de um a três anos e
Direitos Humanos e Terceiro Setor, que de criminação, que iniciarão o processo multa (apud Silva, 2009).
defende a investigação pelo Ministério de incriminação pela construçãode um
Público de “casos emblemáticos”, como sujeito-autor e seu indiciamento.
uma forma de reduzir a impunidade Assim, se a intenção da CCIR é trazer
vigente no país, mas que pensa que a para a esfera pública as agressões, para
“luta” contra a intolerância religiosa não identificar quem são os agressores, o
pode ser apenas jurídica, mas sim de que acaba acontecendo é que as vítimas,
“conscientização popular”. quando vão à delegacia formalizar sua
Percebe-se que a estratégia da CCIR queixa num registro de ocorrência,
tem se voltado a dar visibilidade aos acabam tendo suas demandas
casos, seja por uma mobilização social desqualificadas, pois os policiais resistem
a partir da mídia, seja pela incorporação fortemente a aplicar o art. 20 da Lei
de agentes públicos ao debate, de forma Caó10 (Boniolo, 2011). Para o delegado
a buscar a adesão dos mesmos à causa. que participa da Comissão, a resistência
Além disso, há também um esforço de à Lei Caó está relacionada ao fato da lei
buscar a punição dos agressores, o que ter “marcado uma época”, referindo-se
é não consenso entre os integrantes explicitamente a um posicionamento do
no que se refere a sua eficácia no Estado em relação à discriminação racial,
processo de mobilização. Assim, a CCIR sem criticar diretamente, no entanto,
pretende retirar o conflito relacionado a atuação do ex-governador Leonel
à intolerância religiosa do campo da Brizola, que foi o primeiro a propor a
intimidade para levá-lo à esfera pública, introdução de princípios democráticos
revelando um modo de operar poderes para regular os procedimentos policiais,
nas relações sociais para atingir direta, o que foi mal recebido no interior das
ou indiretamente, os cursos de ação instituições policiais. Até hoje, é comum
criminalizáveis8. se ouvir que “os direitos humanos”
No entanto, é preciso distinguir a atrapalham a atuação policial. O
acusação da incriminação (Misse, 1999), delegado também chama a atenção para
iniciando pelo fato de que a última o fato de que “a discriminação é um
retoma a “letra da lei” para jogar com problema que resiste, persiste...”, mas que
a ambivalência dos interesses entre o não seria exclusivo dos policiais.
acusador e o acusado. A incriminação A Comissão atua, portanto, numa
é, portanto, um controle de acusações intermediação entre as vítimas e o

COMO SE DISCUTE RELIGIÃO E POLÍTICA? CONTROVÉRSIAS EM TORNO DA “LUTA CONTRA A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA” NO RIO DE JANEIRO // 107
11. Para John Locke ([1689] Estado, motivada por interesses de A liberdade e a intolerância religiosa:
1964), o “problema da
intolerância” resultava intervir no processo, o que é considerado os dois lados do conflito.
da confusão entre os fundamental tendo em vista que, na Nos casos analisados ao longo da
domínios civil e religioso,
daí a necessidade de sua maior parte dos casos, se a vítima pesquisa, que envolvem manifestações
separação como domínios vai direto à delegacia, não é atendida de intolerância religiosa, ficou evidente
autônomos. Porém, é
importante ressaltar que as adequadamente, ou mesmo não é que, embora a liberdade religiosa tenha
ideias liberais de Locke não atendida, já que os policiais consideram sido consagrada como um direito
tiveram impacto nos países
de tradição católica até o
que este tipo de conflito é algo de “menor civil básico relacionada à liberdade de
século XIX, quando o tema importância”. Assim, ir à delegacia expressão11, os agentes públicos optam
volta à tona com as ideias de
Stuart Mill, que ampliaram
acompanhada por um advogado por não intervir nos conflitos, mesmo
a discussão sobre a representa outro tipo de atendimento, quando estes se revelam atentatórios ao
liberdade, que deixou de
estar focada na liberdade
pelo menos se tem a certeza de que o direito das pessoas ou ao funcionamento
de crença para se pensar a registro será realizado, o que é necessário da sociedade (Miranda, 2010).
liberdade para toda conduta
para se iniciar um procedimento Apesar de a expressão liberdade
social (Cardoso, 2003).
judicial. É possível compreender não religiosa ser utilizada para exprimir o que
só a desconfiança que muitas vezes as seria o primeiro direito civil reconhecido
vítimas manifestam em relação a esses pelas democracias ocidentais, ressalto
órgãos, como também tem sido possível que a categoria tolerância se mostra
identificar problemas no atendimento mais adequada para descrever, no
e no acompanhamento dos casos, que caso do Rio de Janeiro, a expressão de
demonstram como os policiais tendem diferenças identitárias étnico-religiosas e
a minimizar a intolerância religiosa, seus reclamos por direitos de cidadania
tratando-a como um problema de diante das instituições representativas do
“menor importância”, ou de acordo com Estado. Isto porque, ao contrário da ideia
as categorias policiais, uma “feijoada” de liberdade que pressupõe indivíduos
(Giuliane, 2008). em condições de igualdade jurídica, a
É preciso esclarecer que os integrantes tolerância expressa a percepção de que
da Comissão têm clareza de que a o “outro” está numa relação assimétrica.
demanda por reconhecimento de direitos Tolerar significa levar e suportar, mas
não se esgota no registro de ocorrência também significa destruir e combater.
policial. É possível observar diversas “Assim, a ideia de guerra e de esforço
manifestações que expressam que o subjazem à noção de tolerância”
reconhecimento legal não é considerado (Sahel, 1993:12). Portanto, a tolerância
suficiente para lidar com os ataques, já representa apenas uma concordância
que não dá conta da dimensão do insulto provisória em face de um conflito
moral (Cardoso de Oliveira, 2002:31), iminente relacionado a manifestações de
ou seja, reconhece-se que as agressões situações de intolerância em contextos
sofridas não são facilmente definidas anteriores, sem que, no entanto, isto
pela linguagem tradicional do direito e represente uma alteração das preferências
tampouco exprimem o ressentimento subjetivas, mediante a conversão ou o
e os sentimentos das vítimas. Porém, é reconhecimento legítimo da diferença,
possível constatar que o encaminhamento ou a compreensão da alteridade.
dos conflitos ao Judiciário é uma Entre os integrantes da CCIR, a
demonstração de desconfiança quanto à tolerância é representada como uma
possibilidade de autorregulação entre as forma de reação ao ódio de que são alvo,
pessoas em função de suas vinculações que possibilitaria a construção de um
religiosas e, consequentemente, por seus reconhecimento público das religiões
interesses manifestamente opostos, o que de matriz afro-brasileiras como mesmo
está associado à visão de que a autoridade status que as demais religiões, em
do juiz pode representar um elemento especial, a católica e a protestante.
fundamental no reconhecimento de Essa aspiração do grupo a ter sua
direitos. diferença reconhecida pode estar

108 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


relacionada às formas de opressão público. Ao reprimir as práticas que 12. O próprio Locke deixa
claro como é difícil lidar
sofridas no passado e no presente. Assim, não se enquadravam na concepção de com o tema na prática.
tolerar a fé de outrem significa uma religião vigente, com direito à proteção Na Carta, ele afirmou que
não se poderia tolerar “de
atitude política, pois corresponderia à legal, torna-se explícita uma distinção modo algum os que negam
garantia de interesses particulares, sem entre o status concedido a uma parte a existência de Deus. Para
o ateu não têm autoridade,
que isso leve necessariamente a uma da população e a outro segmento, cujas promessas, acordos,
definição do respeito ao bem público, o tradições, por não seguirem a matriz juramentos, que são os
laços da sociedade humana”
que para Locke12 deveria ser a medida de cristã, não teriam direito à liberdade de (1964:53). Assim, apesar
toda a legislação. A tolerância permite, expressão, podendo ser criminalizadas. de a doutrina da tolerância
postular que a liberdade
portanto, explicitar a tensão entre a Atualmente, o reconhecimento legal das de consciência seria um
identidade e a diversidade, em especial, religiões de matriz afro-brasileira já está direito natural do homem,
o ateísmo não era aceito
em contextos sociais marcados pela legitimado no ordenamento jurídico, no como argumento para a
desigualdade. Para Locke, a tolerância se entanto, permanecem distintas práticas defesa da tolerância, pois
encontra circunscrita à esfera religiosa, de privilégios legais a outras religiões, não se poderia duvidar da
existência de Deus.
não chega a constituir uma esfera bem como é comum ouvir relatos de que
13. Nesse momento
pública, mas pressupõe a aceitação ainda existem práticas repressivas por surgiu no Rio de Janeiro a
da diversidade humana como base da parte de agentes públicos em relação aos Inspetoria de Entorpecentes
e Mistificação, voltada à
construção da ordem política. religiosos. repressão ao uso de tóxicos
No caso do Brasil, é preciso mencionar Assim, é a partir de regulações e e à prática de sortilégios
(Montero, 2006:54). Na
que, embora o país tenha adotado a intervenções que a laicização pode ser Bahia, uma lei estadual,
forma político-jurídica republicana, as pensada como um processo político de n. 3.079 de 29/12/1972,
obrigou os cultos afro-
instituições do Estado funcionaram, construção de limites entre os campos brasileiros a se registrarem
e ainda funcionam, por meio de da religião e do Estado, que foi sendo na Delegacia de Polícia
da circunscrição até 1976
representações e práticas próprias dos instituído a partir da proclamação da (Silva Jr, 2007:310). No
princípios jurídicos que estruturam República, mediante a atuação das Rio Grande do Sul até a
década de 1990 havia a
sociedades de cunho piramidal, instituições do chamado sistema de obrigatoriedade de “tirar
marcadas por um modelo de hierarquia justiça criminal, vinculando-se, de forma uma licença” na delegacia,
apesar da legislação
em que a desigualdade é a medida direta, com a regulação dos direitos somente exigir o registro
da liberdade (Kant de Lima, 2008). A civis, seja pelas atribuições de controle em cartório, desde a década
de 1960 (Silva, 2011).
afirmação constitucional da igualdade e repressão das polícias, seja pela
de todos perante a lei coexistiu, e ainda imposição de moralidades no tratamento
coexiste, com regras jurídicas na esfera dos casos e das pessoas envolvidas
pública e com um espaço público por parte do judiciário. Cabe ressaltar
onde a desigualdade e a hierarquia são que essa forma discriminatória da
princípios organizadores de grande parte intervenção policial e da administração
das interações sociais. Esse paradoxo da justiça expressa uma pretensão
entre a igualdade/desigualdade formal “educativa”, pretensamente formadora
e a hierarquia social reflete-se, de forma de civilidades, mas que funcionava como
paradigmática, nos mecanismos de um processo de negação da alteridade, já
administração de conflitos no espaço que a expressão das relações de força do
público (Kant de Lima, 2000; Teixeira Estado não considerava a possibilidade
Mendes, 2004). de haver resistência ou reação, o que
A definição de crimes e suas penas significa a rejeiçãodo conflito como
antes do estabelecimento dos direitos é elemento de produção de consensos e
revelador do “papel político destinado disputa por direitos (Misse, 1999).
ao processo penal” em cada sociedade Se o período de intensificação das
(Kant de Lima, 2008:127), o que permite práticas repressivas dirigidas aos grupos
apontar distintas concepções de ordem de matriz afro-brasileira se deu durante
pública e social que determinam as o Estado Novo,13 quando esses cultos
escolhas feitas nas diferentes instituições foram associados à prática de crimes
para implantar estratégias de controle (charlatanismo, curandeirismo, uso
social e administração de conflitos em ilegal da medicina e ao uso de drogas),

COMO SE DISCUTE RELIGIÃO E POLÍTICA? CONTROVÉRSIAS EM TORNO DA “LUTA CONTRA A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA” NO RIO DE JANEIRO // 109
o ressurgimento do tema na atualidade que compunham a sociedade brasileira.
não possui o mesmo significado no A ideia da existência de um credo ou de
que se refere às relações entre Estado uma raça superior resultou na produção
e religião. Hoje, além dos conflitos de uma compreensão verticalizada e
que têm sido visibilizados pela CCIR, piramidal relativa ao mundo público –
é possível identificar outra ordem de no topo as religiões de matriz europeia e
relações conflitivas entre o Estado e as na base as religiões de matrizes africanas
religiões de matriz afro-brasileira no ou indígenas – destinando direitos
que se refere à realização de sacrifícios e garantias particularizadas a estas
rituais e os “despachos” no espaço instituições, ora reconhecendo-as de
público, a inclusão do ensino religioso forma desigual como parte constitutiva
obrigatório e confessional no Rio de da identidade nacional, ora recusando-as
Janeiro, a atuação da chamada “bancada ou criminalizando-as na esfera pública e
evangélica” no parlamento, o debate no espaço público.
acerca da concessão de canais de rádio Do mesmo modo, essa concepção
e televisão para grupos religiosos, a hierárquica e desigual a respeito da
imunidade tributária. construção de um espaço público laico
Pode-se concluir, portanto, que permitiu que no Brasil se constituísse
a ideia da liberdade religiosa como uma arena pública, na qual as regras
forma de manifestação da diversidade de acesso aos bens disponibilizados
de cultos e liberdade de expressão não pelo Estado não são gerenciadas de

A INEXISTÊNCIA DE UM PRINCÍPIO UNIVERSALISTA E DE TRATAMENTO


IGUAL E UNIFORME QUE ABRANGESSE TODOS OS SISTEMAS RELIGIOSOS
INVIABILIZOU O PLENO RECONHECIMENTO DOS DIREITOS DE CERTAS
MATRIZES RELIGIOSAS, PROMOVENDO O ACESSO PARTICULARIZADO E
DESIGUAL DE DETERMINADAS RELIGIÕES AO ESPAÇO PÚBLICO BRASILEIRO,
COMO SE UM SISTEMA RELIGIOSO FOSSE MAIS LEGÍTIMO QUE O OUTRO,
E, POR ESTA RAZÃO, SEUS SÍMBOLOS PODENDO SER APRESENTADOS E
OSTENTADOS NO MUNDO PÚBLICO.

foi a base política que fundamentou as forma universalista e igualitária para


intervenções do Estado brasileiro, mas todos os credos. Tal situação gerou
seu produto, em função das reações uma espécie de dissonância entre as
sociais aos mecanismos estatais que regras impessoais e universais impostas
reforçaram durante muito tempo a pela esfera pública e os princípios
ligação entre a discriminação étnica e hierárquicos, desiguais e personalistas
a perseguição religiosa (Vogel, Mello, presentes na esfera e no espaço público
Barros, 1998). brasileiros. De fato, a inexistência de um
É possível identificar ainda que as princípio universalista e de tratamento
controvérsias a respeito da construção igual e uniforme que abrangesse todos
da identidade nacional brasileira os sistemas religiosos inviabilizou o
nos primeiros períodos da história pleno reconhecimento dos direitos de
republicana teve como resultado uma certas matrizes religiosas, promovendo
consagração da “fábula das três raças” o acesso particularizado e desigual
(DaMatta, 1984), como uma ideologia de determinadas religiões ao espaço
inscrita nas relações sociais, o que por público brasileiro, como se um sistema
sua vez ensejou a constituição de uma religioso fosse mais legítimo que o outro,
visão hierárquica e complementar entre e, por esta razão, seus símbolos podendo
as unidades raciais, étnicas e religiosas ser apresentados e ostentados no

110 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


mundo público.14 Tal concepção produz Gilda, associada a uma reportagem 14. Recentemente, houve
um debate judicial, no
consequências para a administração sobre o “charlatanismo”, com o título Rio de Janeiro, acerca da
institucional dos conflitos por parte dos “Macumbeiros charlatões lesam o bolso permanência ou não de
crucifixos em espaços
agentes do Estado, como discutiremos e a vida dos clientes”. Outro movimento públicos, em especial nos
mais à frente. semelhante aconteceu, em 2002, no tribunais, ficando a critério
do juiz a sua permanência
Ademais, uma compreensão homóloga Rio Grande do Sul, com a criação da ou não.
à “fábula das três raças” desempenhou Congregação de Defesa das Religiões 15. Jornal vinculado à Igreja
um importante papel na produção dessa Afro-Brasileiras (CEDRAB), que teve Universal do Reino de Deus

compreensão sobre a tolerância religiosa como fundadora a Mãe Norinha de (IURD), que, na época,
tinha uma tiragem de mais
no Brasil: as ideias da democracia racial Oxalá. O grupo se institucionalizou em de 1 milhão de exemplares

e do sincretismo religioso. Tais premissas 2004, passando a ter sócios e prestando distribuídos gratuitamente.

partilhavam da ideia da ausência de auxílios diversos, inclusive jurídico, no


conflito e da presença de harmonia que se refere a casos de discriminação.
existente entre partes opostas, porém A intolerância religiosa aparece nos
complementares e hierarquicamente discursos dos religiosos que participam
dispostas no espaço público. Nesse da CCIR como anteposta à liberdade
sentido, elas terminaram reforçando a religiosa, o que representa um desafio
ideologia da “fábula das três raças”, que ao convívio numa sociedade plural. As
pressupunha a recusa dos conflitos e das formas de manifestação da intolerância
diferenças existentes entre os grupos seriam variáveis, indo de atitudes
raciais, étnicos e religiosos que compõem preconceituosas, passando por ofensas
a sociedade nacional. Portanto, a Nação à liberdade de expressão da fé, até as
una e indivisível deveria prevalecer agressões aos religiosos. De todo modo,
sobre as formas culturais e religiosas as muitas práticas de intolerância
particulares, permitindo a difusão religiosa são identificadas como
da ideia de que no Brasil não existe a demonstrações de falta de respeito às
prática de racismo ou de intolerância diferenças e às liberdades individuais e
religiosa devido à nossa miscigenação, que, devido à ausência de conhecimento
ao sincretismo e à nossa cordialidade. e de informação, podem levar a atos de
Contemporaneamente, a temática perseguição religiosa, cujo alvo seria a
da intolerância religiosa se constituiu coletividade.
como uma bandeira de luta, marcada A intolerância está ligada à expressão
por diferentes vieses. Se de um lado é de sentimentos, em especial o ódio, e, ao
considerada uma “outra face do racismo”, ser pensada a partir do viés religioso, é
por outro, é representada como uma possível se analisar que a tolerância seria
expressão pública de reconhecimento uma forma de se contrapor uma crença
por direitosna medida em que consegue a outra sem que haja uma conversão,
mobilizar diferentes grupos religiosos mas reconhecendo a possibilidade da
e aglutinar reivindicações políticas convivência entre os diferentes mediante
comuns, a despeito das disputas internas um acordo tácito de não agressão.
que caracterizam o campo religioso. Assim, a discussão não gira em torno
As intervenções suscitadas pela da construção de políticas a partir do
CCIR não podem ser consideradas as respeito a princípios fundamentais –
primeiras no enfrentamento do tema igualdade jurídica e liberdade. Tangencia-
no Brasil, já que foram precedidas se a discussão sobre o reconhecimento de
pelo Movimento Contra a Intolerância direitos a partir da dignidade e respeito
Religiosa, o primeiro que ocorreu ao outro, privilegiando a discussão
em torno do caso emblemático da sobre mecanismos que possibilitem
publicação pela Folha Universal15 no a expressão de identidades públicas
estado da Bahia, em outubro de 1999, diferenciadas, sem que isso implique
de uma foto da Iyalorisà Gildásia dos numa reconfiguração das relações de
Santos e Santos, conhecida como Mãe direitos.

COMO SE DISCUTE RELIGIÃO E POLÍTICA? CONTROVÉRSIAS EM TORNO DA “LUTA CONTRA A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA” NO RIO DE JANEIRO // 111
16. Vale lembrar que se A construção de uma agenda política ou “picuinhas” (Pinto, 2011), indica
trata do Dia Nacional
da Consciência Negra, em torno da luta contra a intolerância que a apresentação das demandas por
instituído nacionalmente representa, portanto, uma estratégia reconhecimento de direitos esbarra
em 2011, mas que foi
incluído no calendário de lidar com um Estado idealizado, no na prática com um mosaico de
escolar em 2003. qual a segurança e a justiça deveriam profissionais, que, movidos por uma
Atualmente, é considerado
feriado através de decreto
trabalhar para garantir os direitos, sem crença religiosa naturalizada, orientam
estadual pelos seguintes enfrentar as limitações práticas que as seus processos decisórios, sem que seja
estados: Alagoas, Amapá,
Amazonas, Mato Grosso
pessoas enfrentam ao demandar uma explicitado que se trata de uma privação
do Sul, Rio de Janeiro e Rio causa a essas instituições. de direitos. Não se trata de afirmar que
Grande do Sul.
A forma como esses conflitos são todos os casos não foram atendidos por
recebidos pela polícia e pelo Judiciário – motivações religiosas, mas sim trazer ao
como problemas não pertinentes de serem debate um aspecto que não costuma ser
tratados nessas instituições, seja a partir mencionado, que é o fato de que o Estado
de recusas formais de não registro, seja a é composto por pessoas, as quais podem
partir de procedimentos de desqualificação ter opções religiosas que influenciarão o
das demandas e até mesmo das pessoas julgamento delas, sem que apresentem
– evidencia que a intolerância religiosa uma “escusa de consciência” e se
pode ser representada como uma forma declarem impedidas de atuar.
de discriminação cívica (Cardoso de
AS DEMANDAS POR POLÍTICAS
Oliveira, 2002), na medida em que nega
PÚBLICAS: “FAZER VALER” AS LEIS
o reconhecimento de direitos, pois no
Brasil a classificação no plano moral teria A mobilização política e midiática
precedência sobre o respeito a direitos, desenvolvida no Rio de Janeiro a partir da
que acaba condicionado a manifestações atuação da CCIR teve como um de seus
de “consideração” e deferência. Como os objetivos demonstrar a “inexistência”
praticantes de religiões de matriz afro- de políticas públicas voltadas ao
brasileira historicamente não foram enfrentamento da intolerância religiosa.
tratados como “pessoas dignas”, que O primeiro ato nesse sentido foi a
merecem reconhecimento pleno de discussão e elaboração de uma carta,
direitos de cidadania, a agenda política que foi assinada pela Comissão de
contemporânea deles tem sido marcada por Combate à Intolerância Religiosa, pela
solicitações que reafirmam suas identidades Federação Israelita do Estado do Rio de
diferenciadas como um elemento positivo Janeiro e pela Confederação Nacional
na luta pelo reconhecimento em face da dos Bispos do Brasil, e foi entregue em
sociedade nacional. uma reunião fechada ao presidente
Outro aspecto importante a se pensar Lula, no dia 20 de novembro de 200816.
é que a categoria intolerância religiosa se Na ocasião, foram relatados casos de
afasta da categoria discriminação, muitas agressões verbais e físicas aos religiosos
de diferentes credos; foi questionado se
vezes associada às questões raciais no
a programação realizada por redes de
Brasil, o que permite revelar uma tensão
televisão e rádio evangélicas não faria
existente na Comissão entre aqueles que
apologia à discriminação religiosa, e,
desejam determinar que as agressões
portanto, feriria as regras de concessões
sofridas estariam relacionadas a um
(Lei 9.612, de 19 de fevereiro de 1998);
racismo difuso na sociedade brasileira,
bem como foi apresentada a seguinte
posição assumida por militantes do
pauta de reivindicações:
movimento negro, e os que pensam que
as agressões sofridas não têm relação com • Elaboração de um Plano Nacional
a “cor”, mas com uma ofensa a um direito de Combate à Intolerância Religiosa,
civil básico, que é a liberdade de expressão. em parceria com a sociedade civil
A desconsideração dos casos de organizada;
intolerância religiosa no âmbito policial • Aplicação efetiva da Lei nº 10.639/03,
e judicial, chamados de “problemas” e/ através da LDB, por todas as escolas

112 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


do Brasil, com punição àquelas que formas de violência); e à educação, no
não enquadrarem-se na Lei imediata- que se refere à aplicação da lei 10.639.
mente; O documento com as propostas foi
• Atualização de todas as delegacias do encaminhado ao governo federal que se
país, através da Secretaria Nacional comprometeu em reunir os religiosos
de Segurança Pública, com a Lei nº numa audiência interministerial, a ser
7.716/89, Lei Caó; convocada pelo presidente da república,
o que não aconteceu.
• Realização do censo nacional das
casas de religião de matriz africana, Quando começou o processo eleitoral
através das Secretarias Especiais de seguinte, a CCIR encaminhou uma
Inclusão Racial e Direitos Humanos carta compromisso a então candidata
e Ministério de Assistência Social, em Dilma Roussef, com teor semelhante
parceria com universidades em cada ao documento enviado anteriormente
estado; ao presidente Lula, ao que a candidata
• Punição através do Ministério das respondeu com outra carta, em outubro
Comunicações com retirada da pro- de 2010:
gramação do ar e aplicação de multa Aos companheiros e companheiras da
às emissoras de TV e rádio que pro- Comissão de Combate à Intolerância
movam a intolerância religiosa, mes- Religiosa (CCIR),
mo as que comercializem a veiculação
O Brasil vive hoje um momento ex-
de programas de caráter religioso que
traordinário. Pela primeira vez em
façam a apologia à intolerância reli-
nossa história estamos vivendo um
giosa.
período de crescimento econômico
• Proibição de patrocínio e/ou incen- com distribuição de renda, respeito ao
tivo  de estatais a veículos de comu- meio ambiente e inserção internacio-
nicação que possuem em sua grade nal soberana.
programas que incitam a intolerância Esse novo país está sendo construído
religiosa. em bases sólidas com respeito à de-
A resposta do presidente Lula se deu mocracia e às crenças de brasileiros e
sob a forma de uma “promessa” verbal de brasileiras.
elaborar um Plano Nacional e de enviar Nos últimos 8 anos estive ao lado de
um projeto de lei tornando as punições Lula construindo um governo para
mais rigorosas em casos de intolerância todos.
religiosa. Como desdobramento desta
Neste período, além das políticas so-
“promessa”, a Secretaria Especial de
ciais que melhoraram a vida dos brasi-
Políticas de Promoção da Igualdade
leiros, sancionamos a lei que cria o Dia
Racial (SEPPIR) promoveu um encontro
Nacional da intolerância Religiosa (Lei
em abril de 2009, no Rio de Janeiro, 11.635/2007) e a lei que regulariza a si-
com segmentos comprometidos com tuação da ocupação de áreas públicas
a liberdade de expressão religiosa de destinadas a construção de templos e
várias regiões do Brasil (Rio de Janeiro, organizações filantrópicas (através da
São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Pará), lei 11.481/2007).
que delinearam uma “coluna vertebral”
No meu Programa de Governo, reitero
do Plano de Combate à Intolerância
que a democracia é nosso maior patri-
Religiosa em nível nacional. O debate
mônio. Além de um sistema de gover-
se concentrou em três eixos principais, no, é uma forma de vida que deve per-
levando-se em consideração a mear as relações econômicas e sociais.
transversalidade do tema no que se refere O fortalecimento da democracia po-
à mídia (acesso à informação e o direito à lítica, logrado nos últimos anos, será
liberdade de crença); à segurança pública mantido e consolidado pela garantia
e justiça (os marcos legais, mecanismos irrestrita da liberdade de imprensa e
de proteção e defesa dos direitos, de expressão e da liberdade religiosa.

COMO SE DISCUTE RELIGIÃO E POLÍTICA? CONTROVÉRSIAS EM TORNO DA “LUTA CONTRA A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA” NO RIO DE JANEIRO // 113
17. Ver: http://ccir. Quero reafirmar meu compromisso A estratégia da CCIR de aproveitar o
org.br/wp-content/
uploads/2013/04/carta-da-
com a construção de um país mais calendário eleitoral para dar visibilidade
ccir-a-DILMA-ROUSSEF. justo e solidário e estando à frente do à demanda por políticas públicas, que
pdf. Acesso em 15/09/2013. Governo Federal estarei sempre a dis- já havia sido utilizada no processo de
18. O debate público posição para receber e dialogar com sucessão à presidência, é justificada como
suscitado pelo não os representantes de todas as religiões,
seguimento da discussão um momento oportuno para se delinear
tendo a certeza de que para construir o
foi atribuído à pressão as estratégias políticas de atuação e as
da bancada evangélica. país que queremos, devemos preservar
Ver: http://www. uma das características mais nobres do agendas prioritárias dos programas de
observatoriodaimprensa.
povo brasileiro: a diversidade religio- governo. Tal estratégia foi reproduzida
com.br/news/view/o_
que_a_imprensa_nao_viu. sa.17 (grifos meus). na eleição municipal, após a implantação
Acesso em 23/02/2010. do ensino religioso na rede municipal,
Noto que as ações destacadas pela
suscitando a realização de um debate
candidata são anteriores ao encontro
“Eleições Municipais e Luta contra a
da CCIR com o presidente Lula, e,
Intolerância Religiosa”, que resultou na
embora o uso do verbo na primeira
elaboração de um termo de compromisso
pessoa do plural (“sancionamos”) possa
contra a intolerância religiosa para
suscitar uma ideia de ação coletiva de
a cidade do Rio de Janeiro, que foi
governo em prol de políticas sobre o
apresentado aos candidatos à prefeitura,
tema, é necessário pensar que o ato
na eleição de 2012, sendo assinado apenas
de sancionar a lei remete a uma ideia
por um candidato, o Marcelo Freixo
de consagração de uma intenção, que
(PSOL). A “Carta Compromisso contra a
deve tornar-se ação e produzir efeitos.
Intolerância Religiosa” teve o propósito de
Partindo dessa interpretação, é possível
“pautar na agenda dos futuros dirigentes
pensar que a carta da candidata seria
uma confirmação de uma ideia de que a municipais o combate à intolerância e a
resposta à cobrança de políticas públicas defesa ao direito de liberdade religiosa”.
se dá através da produção de leis. A partir da reflexão sobre “que cidade
se quer e para quem se está construindo
Após a eleição da presidenta Dilma essa cidade?”, procurou-se levantar o
em 2010, a CCIR seguiu questionando
debate sobre políticas públicas de caráter
o “engavetamento” do plano e a falta
inclusivo e não discriminatório, bem
de políticas para o setor18, até que em
como tornar público o compromisso com
2011 aconteceu uma reunião com o
a temática. A carta partiu da constatação
ministro Gilberto Carvalho, na qual
de que o Estado brasileiro é laico e que
o foco principal era a discussão junto
há legislação (civil e penal) adequada
a militantes do movimento negro e
e pertinente para tratar do tema, o que
religiosos, de diversos estados, sobre
reforça a ideia de que o compromisso a
a busca da isonomia de direitos para
ser “firmado” está relacionado a “fazer
as religiões de “matriz africana” e o
valer” o que já está previsto no plano legal,
combate à intolerância religiosa, mas
bem como a definição de compromissos
tudo continuou como estava.
políticos pelo combate a intolerância
Em 2011, o debate passou a ter como religiosa, como pode ser analisado neste
foco o âmbito municipal, a partir da trecho da carta:
realização de uma audiência pública na
Câmara dos Vereadores da cidade do Rio (...) firmo aqui o compromisso público
de atuar, respeitando a diversidade e re-
de Janeirosobre o Projeto Lei 862/2011,
conhecendo as diferenças dos brasileiros,
que propunha a criação de concurso vítimas da intolerância, impedidos de
para preenchimento de 600 vagas para exercer plenamente seus direitos, de reali-
professores de ensino religioso nas zar livremente suas práticas religiosas e de
escolas públicas municipais. A audiência professar sua fé.
contou com a participação da CCIR, Desde já assumo que o combate à into-
com representantes de órgãos ligados lerância religiosa será uma das prioridades
à educação e professores de várias do meu mandato. (...)
instituições Assumo, caso seja eleito(a)

114 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


Não permitir influências de qualquer tipo organizado pelo professor de teologia 19. É preciso ressaltar que
nas decisões, que impeçam de aprovar leis fui convidada a coordenar
Leonardo Mariano, em 2013, retomando o GT da Educação durante
ou implementar ações necessárias para
a discussão, agora sob a forma de grupos uma das reuniões de
combater a intolerância religiosa; trabalho da CCIR, da
de trabalho, voltados aos seguintes temas: qual participei durante a
Atuar na articulação política pela imple- Comunicação; Segurança e Justiça; pesquisa. E que, ao aceitar,
mentação de ações e aprovação de leis que deixei claro minha posição
Educação19; Cultura e Identidade; Meio
contribuirão para erradicar práticas de contrária à existência do
discriminação ou preconceito contra reli- Ambiente e Saúde. ensino religioso em escolas
públicas, indagando ao
giões. Embora não esteja vinculado a um grupo se esta posição
Garantir proteção aos defensores dos di- processo eleitoral, é possível pensar que não seria um obstáculo
ao debate com os demais
reitos humanos e líderes religiosos que se tratou de uma reação aos resultados integrantes religiosos, pois
atuam no combate à intolerância religiosa das discussões em torno da construção sabia que há alguns que
e na defesa da liberdade a manifestação re- do Plano Estadual de Enfrentamento da defendem a manutenção
ligiosa; do ensino religioso. Ao
Intolerância e Discriminação Religiosa que foi respondido que
1. Dar proteção ao que é religioso e sagra- para a Promoção dos Direitos Humanos, todos conheciam minha
posição com relação ao
do de cada cidadão.
organizado pela Superintendência de tema, mas que o que
2. Assegurar atendimento e defesa a todos Direitos Individuais, Coletivos e Difusos interessava no momento
era a possibilidade de
os segmentos que venham a ter seu es- (SUPERDIR), vinculada à Secretaria articular o debate de forma
paço religioso violado e/ou sofram prá-
Estadual de Assistência Social e Direitos “acadêmica”, garantindo a
ticas de intolerância religiosa. pluralidade de opiniões.
Humanos, que me convidou para
3. Reconhecer os diferentes saberes das ser membro do Grupo de Trabalho 20. Grupos religiosos
representações religiosas, bem como de matriz afro-brasileira

compreender suas raízes históricas,


responsável pela elaboração do Plano , (umbanda e candomblé);
representações de
defendendo, dentre outros contex- representando a universidade. instituições religiosas
tos, o ensino obrigatório da História O GT foi composto a partir de convites (católica, neopentecostais,
da África e da História e das Culturas islâmicas, budista,
feitos por representantes da SUPERDIR messiânico, bahá’i,
Afro-brasileiras nas escolas das redes
pública e privada do país, a luz da Lei
a mais de quarenta representantes de espíritas kardecistas,
harekrishna, judaica,
10.639/03. vários segmentos20, com o objetivo de protestante); representantes
construir a ideia de que há uma “dialogia de “sociedades e grupos
4. Criar estruturas de controle social con- tradicionais” (ciganos,
tra a Intolerância Religiosa, em especial inter-religiosa” e uma “intersetorialidade maçons, indígenas);
de Ouvidoria Municipal. do poder público”. O trabalho durou cerca representantes de
organizações não
de um ano, com reuniões que aconteciam
5. Destinar recursos e garantir apoio po- governamentais;
lítico para a manutenção das ações de na SUPERDIR. A metodologia adotada representantes de
fiscalização de denúncias que resultam foi a da divisão em subgrupos para a organizações estatais
(SUPERDIR, Defensoria
no combate a intolerância religiosa e na redação de um pré-plano, que após a Pública, Secretaria de
defesa. discussão no GT seria levado à discussão Ambiente, Secretaria
de Segurança Pública);
6. Estender às diversas áreas da cidade a pública. As temáticas selecionadas foram representantes de
compreensão da paz, como espaço de quatro: Direitos Humanos, Segurança, organismos de classe
convivência das diferenças e da diver- (OAB, Conselhos de
Justiça e Meio Ambiente; Cultura, Serviço Social e de
sidade, eliminando todas as formas de
Comunicação, Mídia e Novos Temas; Psicologia), “especialistas”
discriminação, em especial a religiosa. ou “acadêmicos” que
Saúde, Assistência e Previdência Social se dedicam ao tema da
Por fim, se eu me desviar destes compro- e; Educação, Ciência e Tecnologia. intolerância religiosa. Para
missos, asseguro que renunciarei ao meu ver os integrantes do grupo:
mandato, e em caso de qualquer pessoa A organização das reuniões previu http://www.rj.gov.br/web/guest/ex

que ocupe cargo público sob minha res- que o Plano seria disponibilizado para ibeconteudo;jsessionid=63EFDBF

consulta pública em meados de 2013,


AED611F256E91CFED84F34776.
ponsabilidade será prontamente exonera-
lportal1?p_p_id=exibeconteudo_
do. (grifos no original). mas até o momento da redação deste INSTANCE_2wXQ&p_p_

artigo (dezembro de 2013) isto não lifecycle=0&refererPlid=11702&_


exibeconteudo_INSTANCE_2wXQ_

As estratégias de construção de um aconteceu. Também não ocorreram mais struts_action=%2Fext%2

plano nacional voltaram à cena com reuniões do grupo de trabalho. Fexibeconteudo%2Frss&_


exibeconteudo_INSTANCE_2wXQ_

a apresentação de um documento Os eixos que orientaram a discussão groupId=132962&_exibeconteudo_


INSTANCE_2wXQ_articleId=762883.
intitulado “Religião e Democracia no do Plano Estadual de Enfrentamento Acesso em 09/12/2013.
Brasil: Subsídios para o Plano Nacional da Intolerância e Discriminação
de Combate à Intolerância Religiosa”, Religiosa para a Promoção dos Direitos
idealizado por Ivanir dos Santos e Humanos foram dois. Um voltado à

COMO SE DISCUTE RELIGIÃO E POLÍTICA? CONTROVÉRSIAS EM TORNO DA “LUTA CONTRA A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA” NO RIO DE JANEIRO // 115
atuação repressiva, entendida como variadas e com efeitos distintos nas
uma ação protetiva para a vítima, e a sociedades, em especial no que se refere
atuação promocional de direitos, que às formas político-jurídicas de tratar a
é entendida como uma forma de evitar diversidade de manifestações religiosas
novas agressões, segundo as linhas no espaço público. Assim, a laicidade
estabelecidas pela coordenação geral pode ser pensada como um processo
do GT. A definição das linhas está político que se desenvolve a partir do
fundamentada em uma interpretação de Estado para delimitar seu afastamento
ações afirmativas como modos de “tratar em relação às religiões. Torna-se
desigualmente os desiguais”, a fim de relevante, portanto, compreender como
compensar desigualdades históricas. isso ocorre na prática, já que o fato
Como esta atividade encontra-se de um Estado proclamar-se laico não
formalmente em andamento, podendo significa o fim de conflitos entre Estado
ser retomada a qualquer momento, a e religião, ao contrário, pode representar
análise proposta aqui é direcionada a a explicitação de novas disputas, já que
indicar que a participação observante os cidadãos que professam alguma
durante os debates permitiu identificar religião tendem a defender seus valores
distintos sentidos sobre o que significa e interesses.
a laicidade do Estado, mas não houve De concreto até o momento, a
nenhum encaminhamento na construção Superintendência de Direitos Individuais,
de um consenso, ao menos no GT. Coletivos e Difusos (SUPERDIR), da
Dentre os participantes, foi possível Secretaria de Estado de Assistência Social
perceber que a laicidade se apresentou e Direitos Humanos (SEASDH), em
sob três perspectivas: parceria com o Departamento de Direitos
da Pontifícia Universidade Católica
1. A impossibilidade de um agente
– PUC-Rio, produziu uma cartilha
público representar a religião,
de  Legalização das Casas Religiosas de
uma vez que a separação absoluta
Matriz Africanas, e anunciou a criação
entre as esferas pública e religiosa
de um Centro de Referência de Combate
levaria a um cenário impossível no
à Intolerância Religiosa. Essas escolhas
Brasil, já que a religião está muito
permitem indicar que certos dispositivos
presente no espaço público;
são criados e, independentemente de
2. A independência entre poder sua aplicação na prática, indicam que há
público e representações um interesse em produzir um impacto
religiosas já existe. O problema sobre a ordem social, no que se refere a
estaria na relação que alguns processos de visibilização da intolerância
grupos religiosos teriam com o religiosa como um problema público.
Estado. Alguns teriam privilégios Nesse sentido, há que se perguntar se
assegurados, enquanto os demais uma “política pública”, entendida como
seriam discriminados; tudo aquilo que o Estado realiza como
3. A independência entre poder um resultado de seu funcionamento
público e instituições religiosas frequente, financiado pelos impostos
não pode significar nem a ausência arrecadados ou recursos obtidos
de religião, nem a predominância mediante cooperação internacional,
de uma, ou seja, a independência com o fim de assegurar direitos, pode se
não é representada pela figura da limitar a produzir mais visibilidade em
neutralidade, mas na construção torno dos conflitos, o que já é feito pelos
de mecanismos que permitam chamados movimentos sociais.
a compensação de grupos Comparando as discussões que
historicamente discriminados. envolvem a elaboração do Plano Estadual
Tais abordagens permitem demonstrar e do Plano Nacional, julgo ser importante
como a laicização se deu de formas salientar um aspecto em comum,

116 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


que é um esgotamento das atividades dilemas da cidadania no Brasil, Quebec
logo após a identificação de distintas e EUA. Rio de Janeiro: Relume Dumará,
formas de conflito. Nos dois casos não 2002.
é possível se falar numa dimensão de CARDOSO, Clodoaldo Meneguello.
resultado das “políticas públicas”, porque Tolerância e seus limites: um olhar
pouco se realizou no desenvolvimento latino-americano sobre diversidade e
de mecanismos de intervenção para desigualdade. São Paulo: Unesp, 2003.
atender às demandas sociais em
DA MATTA, Roberto. “Digressão: a fábula
consonância com a garantia de direitos
das três raças, ou o problema do racismo
já estabelecidos pela legislação nacional,
à brasileira”. In: ____. Relativizando: uma
por meio das quais os agentes do Estado
introdução à antropologia social. Rio de
buscariam transformar comportamentos
Janeiro: Rocco, 1984.
e valores. A descontinuidade das ações
após os debates não é uma exclusividade GIULIANE, Érika Andrade Souza.
da formulação de políticas públicas de Feijoada completa: reflexões sobre a
enfrentamento à intolerância religiosa, administração institucional e dilemas
mas, neste caso, é possível observar nas Delegacias de Polícia da Cidade do
uma característica especifica. Para além Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado,
das disputas do campo religioso, a Instituto de Ciências Humanas e
impossibilidade de formular um plano Filosofia, Universidade Federal
para o setor revela que a expressão Fluminense. Niterói, 2008.
intolerância religiosa, no contexto atual, GUIMARÃES, Antônio Sergio Alfredo.
é ressignificada como uma bandeira de Preconceito e Discriminação. São Paulo:

A IMPOSSIBILIDADE DE FORMULAR UM PLANO PARA O SETOR REVELA


QUE A EXPRESSÃO INTOLERÂNCIA RELIGIOSA, NO CONTEXTO ATUAL, É
RESSIGNIFICADA COMO UMA BANDEIRA DE LUTA CAPAZ DE SUPLANTAR
DIVERSIDADES EM FUNÇÃO DE UMA EXPERIÊNCIA VIVIDA DE INSULTO
MORAL, OU SEJA, A VITIMIZAÇÃO É QUE UNIFICA AS DIFERENÇAS.

luta capaz de suplantar diversidades Editora 34, 2004.


em função de uma experiência vivida KANT DE LIMA, Roberto. Carnavais,
de insulto moral, ou seja, a vitimização Malandros e Heróis: O dilema brasileiro
é que unifica as diferenças. Porém, na do espaço público. In: Laura Graziela
hora de formular e implantar as decisões Gomes, Livia Barbosa, e José Augusto
que poderiam beneficiar os grupos Drummond. (Org.). O Brasil não é para
vitimizados, há uma prevalência de Principiantes. 1 ed, p. 105-124. Rio de
interesses particulares, muitas vezes Janeiro: FGV, 2000.
associados às disputas eleitorais. _____. Tradição inquisitorial no Brasil,
da Colônia à República: da Devassa ao
Inquérito Policial. ________. Ensaios de
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Antropologia e de Direito. Rio de Janeiro:
BONIOLO, Roberta Machado. Da Lúmen Juris, 2008.
“feijoada” à prisão: o registro de ocorrência LOCKE, John. 1964. Carta a respeito da
na criminalização da “intolerância tolerância. [1689]. São Paulo: IBRASA,
religiosa” na região metropolitana do Rio 1964.
de Janeiro. Monografia de conclusão de TEIXEIRA MENDES, Regina Lúcia.
curso em Ciências Sociais, Universidade “Princípio da Igualdade à brasileira:
Federal Fluminense, 2011. cidadania como instituto jurídico no
CARDOSO DE OLIVEIRA, Luís Brasil”. Revista de Estudos Criminais, ano
Roberto. Direito Legal e Insulto Moral: 4, 13:81-98, 2004.

COMO SE DISCUTE RELIGIÃO E POLÍTICA? CONTROVÉRSIAS EM TORNO DA “LUTA CONTRA A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA” NO RIO DE JANEIRO // 117
MIRANDA, Ana Paula Mendes de. Entre
o privado e o público: considerações
sobre a (in) criminação da intolerância
religiosa no Rio de Janeiro. Anuário
Antropológico, 2009 - 2, pp. 125-152,
2010.
_____. A força de uma expressão:
intolerância religiosa, conflitos e
demandas por reconhecimento de
direitos no Rio de Janeiro. Comunicações
do ISER, vol.66, pp.60-73, 2012.
MISSE, Michel. Malandros, marginais
e vagabundos e a acumulação social
da violência no Rio de Janeiro. Tese de
doutoramento, Rio de Janeiro, Instituto
Universitário de Pesquisas do Rio de
Janeiro, 2012.
MONTERO, Paula. “Religião, pluralismo
e esfera pública no Brasil”. Novos Estudos
CEBRAP, n. 74: 47-65, 2006.
PINTO, Vinicius Cruz. Picuinha de
vizinho ou problema cultural? Uma
análise dos sentidos de justiça referentes
aos casos de intolerância religiosa no Rio
de Janeiro. Monografia de conclusão de
curso em Ciências Sociais, Universidade
Federal Fluminense, Niterói, 2011.
SAHEL, Claude (org.). A Tolerância:
por um humanismo mais herético. Porto
Alegre: L&PM, 1993.
SILVA, Jorge da. Guia de luta contra a
intolerância religiosa e racismo. Rio de
Janeiro: CEAP, 2009.
SILVA JUNIOR, Hédio. Notas sobre o
Sistema Jurídico e Intolerância. In: Silva,
Vagner, G. (ed.). Intolerância Religiosa:
impactos do neopentecostalismo no
campo-religioso brasileiro. São Paulo:
EDUSP, 2007.
SILVA, Vagner Gonçalves da (ed.).
Intolerância Religiosa: impactos do
neopentecostalismo no campo-religioso
brasileiro. São Paulo: EDUSP, 2007.
VOGEL, Arno; MELLO, Marco Antonio
da Silva; BARROS, José F. P. Galinha
d’Angola: Iniciação e Identidade na
Cultura Afro-Brasileira. 2a ed. Rio de
Janeiro: Pallas, 1998.

118 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


RELIGIÕES X DEMOCRACIA?:
REFLEXÕES A PARTIR DA ANÁLISE DE DUAS FRENTES RELIGIOSAS
NO CONGRESSO NACIONAL1

CHRISTINA VITAL DA CUNHA2

Sem a separação entre Estado e religião, o traço que porventura ocorrer de modernidade religiosa 1. Versões preliminares da
discussão que proponho
aqui ou acolá será apenas um prenúncio dela, oxalá um anúncio, mas não ela própria, não a neste artigo foram por mim
modernidade religiosa propriamente dita. apresentadas em mesas
redondas na ANPOCS,
Pierucci (2008:12-13) 2013-Águas de Lindoia, e
na USP, durante o Encontro
Internacional da ABHR,
2013.

INTRODUÇÃO sobre laicidade e democracia destacando 2. Antropóloga, professora


adjunta do Programa de
as narrativas que as apresentam Pós Graduação em Cultura
Diferentes estudiosos vêm como forma de “salvar” ou “livrar” o e Territorialidades/UFF e
apresentando de modo muito qualificado Estado, a política, o espaço público, Colaboradora do ISER.
as articulações entre religião e sociedade enfim, das religiões, dos religiosos, 3. Machado, 2006, 2012;
com ênfase nas interfaces da primeira de seus discursos, atuações e valores.
Burity, Machado (2006);
Burity, Andrade (2011);
com a política partidária e com o que As elaborações conflitantes em torno Duarte (2009), entre outros.
vem sendo tematizado nos direitos dessas noções e dos papeis que cada uma 4. Trata-se da pesquisa
humanos em nível nacional3. Neste delas (democracia, laicidade e religião) Religião e Política no Brasil:
um estudo sobre a atuação
artigo proponho uma reflexão sobre deve ter no Brasil contemporâneo são de lideranças evangélicas no
noções de laicidade e democracia em informadas, tanto no movimento social cenário político nacional,
disputa contrapondo, principalmente, os quanto na academia, no mais das vezes,
coordenada por mim e por
Paulo Victor Leite Lopes,
resultados de duas pesquisas: uma sobre por ideais secularizantes que preconizam em uma parceria entre o
a Frente Parlamentar Evangélica4 e outra como indesejável, ou como uma
ISER e a Fundação H. Böll,
2011-2012, e que resultou
sobre a Frente Parlamentar de Terreiros5. reminiscência, uma obscuridade, uma no livro Religião e Política:
A perspectiva que norteou a elaboração mácula à modernidade, a atuação de uma análise da atuação de
parlamentares evangélicos
e a realização dessas pesquisas, assim religiosos na política e nas demais esferas sobre direitos das mulheres
como as análises subsequentes, baseia-se da vida social. Sugiro que a atuação de e de LGBTs no Brasil, de
autoria dos coordenadores.
na compreensão de que a esfera pública religiosos na política é diversa, ainda que
brasileira é constituída pelo elemento 5. Trata-se da pesquisa
seja enfatizada mais a sua uniformidade Religiões no Espaço
religioso. Isso implica afirmar que os conservadora. Não pretendo, portanto, Público: uma análise
atores religiosos em relação constante questionar a legitimidade da presença de
socioantropológica da
Frente Parlamentar em
de embates, cisões e associações com os religiosos na política, mas, ao enfatizar Defesa das Comunidades
demais integrantes dessa mesma esfera suas diferentes performances, proponho Tradicionais de Terreiros,
coordenada por mim com
pública são formadores legítimos das rediscutir a colagem visível em alguns financiamento da FAPERJ
noções que se constituem nessa arena6. círculos específicos entre religião e 2012-2013. Contei com a
colaboração competente e
Sendo assim, neste artigo, estarei atenta conservadorismos; religião e negação de vivaz de Ariadne Trindade,
à polissemia que marca o debate público direitos, da laicidade e da democracia. bolsista PIBIC, e de Raquel

RELIGIÕES X DEMOCRACIA?: REFLEXÕES A PARTIR DA ANÁLISE DE DUAS FRENTES RELIGIOSAS NO CONGRESSO NACIONAL // 119
Fabeni na coleta do material
LAICIDADE À FRANCESA (BATTAGLIA, 2013)11. Disse ainda: “a
da pesquisa.
questão da laicidade não deve se tornar
6. Inspirada nas análises Atores sociais com as mais diferentes uma obsessão contra o islã. A maioria
do filósofo político Jürgen
Habermas, Montero
inscrições traçam elaborações do que dos compatriotas muçulmanos está
(2009) afirma que a seria a verdadeira república, a verdadeira convencida dos benefícios da laicidade.
presença de atores e
de discursos religiosos
democracia. Nesses casos, comumente, Cada um é livre para ter as suas opiniões.
na esfera pública não a França é citada como uma referência Mas não de contestar um ensinamento. A
significa, necessariamente, fundamental no debate, quase como um carta nos fará lembrar dos princípios”12.
o comprometimento dos
processos, da consolidação modelo puro, uma espécie de tipo ideal A Carta da Laicidade na Escola seria
e da defesa da democracia. de república, de democracia, de Estado lançada em 2015, segundo declaração
Habermas produziu uma
revisão (e impulsiona laico, de sociedade secularizada7. Há feita pelo ministro em agosto de 2013.
outras) da tese weberiana elementos empíricos que subsidiam,
que associa modernidade Mas, depois de uma pesquisa de opinião
de algum modo, essas avaliações. Além
à secularização, resultando pública cujo apoio ao lançamento da
em uma compreensão dos fatores históricos que se referem à
da religião como um carta era de 90% da população francesa,
constituição do Estado francês, pesam
componente legítimo o ministro reconsiderou o prazo inicial.
da esfera pública. Sendo contextos mais recentes, tais como o
assim, deixaria de fazer
alto percentual de declarantes ateus na O lançamento da Carta da Laicidade
sentido a associação
França – que o faz, entre outros fatores, e as controvérsias em torno dela não
direta entre secularização
e conquista da laicidade ser uma referência nos debates sobre poderão ser melhor exploradas nos
(essa compreendida
processos de secularização. Segundo limites deste artigo, contudo, esse caso é
como o afastamento das
religiões do Estado, a não dados do Eurobarômetro de 2005, 18% significativo para o debate que ocorre no
interferência deste sobre a
dos entrevistados na União Europeia Brasil atualmente porque os argumentos
esfera religiosa). Conforme
nos lembra Montero (2009: disseram não acreditarem em nenhum articulados pelo ministro da educação
206): “Em seu trabalho de
“espírito, Deus ou força vital”. Na na França na defesa do Estado Laico se
2006, Habermas reconhece
que, ao contrário do que França, segundo dados de uma pesquisa assemelham a argumentos e a sentidos
a teoria weberiana da
veiculada em 2006 no Financial Times, dados à laicidade no Brasil. Nessa chave,
secularização postulara, a
história da modernização 32% se declaram ateus, um número bem conforme diferentes atores sociais
não coincidiu sempre com
acima da média informada na outra envolvidos em sua defesa, a garantia
a história da secularização.
Nos Estados Unidos, a pesquisa para a Europa8. da laicidade significaria a garantia da
introdução da liberdade paz (redução ou extinção de conflitos
religiosa não significou a Outra situação mais amplamente
religiosos violentos presentes em nossa
vitória da laicidade, mas, divulgada na mídia nacional deu
sim, a introdução da ideia sociedade), do respeito às diferentes
de tolerância para com as
destaque à “Carta da Laicidade”, criada
crenças e “não crenças” (como os ateus
minorias religiosas”. Para pelo ministro da educação da França,
outras análises sobre a e agnósticos vão sendo referidos nesse
Vincent Peillon, em 09 de setembro
relação de religião e espaço debate)13 e, de modo mais ou menos
público. Ver Giumbelli de 20139. A carta abre com a seguinte
(2002, 2008), entre outros. explícito conforme o contexto, o
declaração do ministro:
7. Nos limites deste artigo, combate ao avanço dos evangélicos no
não farei uma revisão Refundar a escola republicana é retornar a espaço público, sobretudo político, na
bibliográfica mais detida ela a seu lugar na transmissão do bem co-
sobre o debate acadêmico mum e das regras, princípios e valores que atualidade14.
em torno das noções de lhe fundaram. Porque a Republica porta A repercussão causada e o
secularização e laicidade.
uma exigência de razão e justiça, retornan- comportamento de políticos engajados
No entanto, destaco que o
do à escola francesa a possibilidade de con-
quadro de referências que em duas frentes religiosas em Brasília
tomo nessa discussão é tribuir para o bem comum, para a igual-
composto, principalmente, dade, a liberdade e fraternidade. É preciso são importantes para refletirmos sobre
por Balibar, 2001; Pierucci, acompanhar os alunos em seu desenvolvi- os sentidos de laicidade e de democracia
1998; Cunha, 2008;
Mariano, 2011, Montero,
mento como cidadãos sem ferir nenhuma em curso. Na primeira seção deste
2006, 2009; Giumbelli, consciência: esta é a própria essência da artigo, apresento dados das pesquisas
2002; Asad 2003. laicidade. (Charte de lalaïcité à l’École)10 anteriormente citadas, destacando os
8. Não é possível estabelecer
uma comparação direta
Interpelado sobre se essa medida mecanismos e técnicas de operação
entre os números revelados não significaria, ao fim e ao cabo, uma política dos integrantes da Frente
por essas pesquisas, restrição aos mulçumanos, Peillon disse: Parlamentar Evangélica no Congresso
visto que não tenho
conhecimento sobre “a laicidade não é um combate de uns Nacional, assim como os argumentos
a compatibilidade das contra os outros, mas um combate a que acionam na arena pública na direção
metodologias que os
quem quer opor uns contra os outros” de algumas minorias. Na seção seguinte,

120 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


farei o mesmo em relação aos integrantes da ampliação de direitos de diferentes produziram. No entanto,
esses números dão
da Frente Parlamentar em Defesa dos minorias: negros, mulheres, população visibilidade à questão da
Povos Tradicionais de Terreiro. Na LGBT. laicidade, religião na esfera
pública, etc. e interferem
terceira seção, e à guisa de conclusão, Com a afirmação da existência de uma no debate público no Brasil,
pretendo estabelecer as conexões entre os maior coesão interna à FPE, não sugiro justificando, assim, sua
citação neste artigo.
dados apresentados sobre as duas frentes, que todos os parlamentares evangélicos
9. A Carta da Laicidade
confrontando-os às considerações que votam sempre juntos, mesmo em suas (Charte de lalaïcité à
produzem a equalização entre direita, agendas prioritárias, e que tenham sempre l’École) pode ser acessada
conservador, religioso e antidemocrático. o mesmo posicionamento diante dos
na íntegra no endereço
www.education.gouv.fr.
temas que emergem na agenda política17. 10. Este trecho, assim como
A FRENTE PARLAMENTAR EVANGÉLICA No entanto, analisando etnografias os subsequentes sobre a
carta da laicidade, é uma
A Frente Parlamentar Evangélica passadas e demais publicações, e “tradução livre” feita pela
(FPE) conta com 73 parlamentares entre considerando as entrevistas realizadas autora deste artigo.
deputados e senadores15. A maioria com diferentes parlamentares evangélicos 11. BATTAGLIA,
desses parlamentares está vinculada ao em nossa pesquisa, observa-se a presença Mattea. “Face aux
communautarismes,
Partido Socialista Cristão (PSC) e ao de algumas lideranças afinadas que Vincent Peillon présente
Partido da República (PR)16. Essa frente articulam não só os demais parlamentares sa ’charte de lalaïcité’.
Le monde. Société, 07
existe no Congresso Nacional desde evangélicos como também deputados e de setembro de 2013.
1993, sendo, assim, a segunda frente senadores os quais não estão diretamente Disponível em: http://
www.lemonde.fr/societe/
religiosa presente no parlamento. A vinculados a essa frente. Esse núcleo article/2013/09/07/face-
primeira foi a dos católicos, nominada afinado é responsável pela produção aux-communautarismes-m-
peillon-presente-sa-charte-
Pastoral Parlamentar Católica e reunia, de alianças, pela formação e difusão de de-la-laicite_3472853_3224.
em 2012, 22 deputados, sendo a opinião, de um repertório e de modos de html.
maioria deles vinculada ao Partido dos atuação política que vão sendo seguidos 12. Idem.
Trabalhadores (PT). e tomados como parâmetro por uma 13. No sentido da inclusão
Durante esses anos de atuação da FPE, gama de atores sociais no parlamento. de diferentes atores sociais
nesse debate, religiosos
podem ser observadas mudanças relativas Vide atuação do Deputado Federal Jair e não religiosos, crentes
ao seu grau de institucionalização e, diria Bolsonaro (PP-RJ), que formalmente e “não crentes”, têm-se
tematizado sobre as
até, de coesão interna. Até 2002, a FPE se não integra a FPE, diante das políticas, liberdades laicas (LOREA
constituía como um grupo de religiosos ações estatais e do debate público sobre 2007).

que se reunia informalmente, segundo a ampliação e garantia de direitos para 14. Na França, a defesa

eles, para orar no ambiente do Congresso LGBTs a partir de 201118. ardente da laicidade
soa para muitos uma
Nacional e para discutir, de modo muito A maior coesão interna da FPE, perseguição ao Islã, tal
como vimos na resposta de
menos articulado do que se observaria sua capacidade de interferir de modo Peillon à entrevista realizada
depois, os temas que tramitavam e que contundente nas pautas do Congresso sobre a Carta da Laicidade.
No Brasil é notório que o
tocavam à moral religiosa, mas, com Nacional e de cooptar deputados federais
debate sobre a laicidade
igual força, se articulavam em torno de e senadores não vinculados diretamente tenha ganhado fôlego na
questões ligadas à assistência social, à à FPE, teria relação, entre outros, com a década de 1990, período
no qual o crescimento dos
presença na mídia e em torno da demanda maior organicidade adquirida pela frente evangélicos, sobretudo
por espaço em diferentes instâncias de em 2003, como já sugeri. A partir de então, pentecostais, apontava
para uma consolidação
poder como o Executivo e o Judiciário. A passou a contar com regulamento interno, e ampliação da presença
partir de 2003, com a regulamentação da diretoria, presidência e com os seguintes evangélica que vinha
sendo verificada de modo
FPE, observa-se uma maior articulação grupos temáticos: saúde, educação, acentuado desde os anos
e coesão interna que se realizam a partir questão indígena, questão da mulher, 1980, segundo dados do
Censo do IBGE.
de uma estrutura organizada com fins violência contra a criança, questão LGBT,
15. Vale ressaltar que a
explícitos de obter ganhos políticos em pedofilia. Isso significa que cada grupo oscilação no número de
suas agendas prioritárias. A essa altura, as temático fica sob a responsabilidade de integrantes das diferentes
agendas prioritárias da FPE se voltavam um(a) parlamentar por legislatura, que frentes parlamentares
existentes no Congresso
cada vez mais para as questões dos tem como compromisso acompanhar a Nacional é comum, sendo
Direitos Humanos que, desde a primeira tramitação de projetos de lei, assim como mais fortemente observada
no início e ao final das
gestão do então Presidente Luiz Inácio fazer propostas nas “pastas” que lhes legislaturas. Os números
Lula da Silva, passam a tratar com força concernem. citados neste artigo se

RELIGIÕES X DEMOCRACIA?: REFLEXÕES A PARTIR DA ANÁLISE DE DUAS FRENTES RELIGIOSAS NO CONGRESSO NACIONAL // 121
referem ao ano de 2012. Foi também a partir de 2003, com esse lei, o que chamam de “entupimento do
16. Para obter maiores novo modelo de organização, que cada judiciário”, mas, por outro lado, elaboram
informações sobre a FPE
e sobre seus mecanismos
parlamentar passou a disponibilizar contundentes críticas ao “ativismo
e técnicas de atuação, ver um de seus assessores regularmente judicial”, como no caso da aprovação do
Vital da Cunha, Lopes
(2012).
lotados em seus gabinetes para cuidarem casamento entre pessoas do mesmo sexo
dos assuntos da FPE. Esses assessores pelo Superior Tribunal Federal (STF),
17. Ver o posicionamento
de diferentes evangélicos técnicos, como são chamados na frente, alegando uma crise quanto à separação
diante da questão do devem contatar os parlamentares a fim de de poderes22.
aborto em Machado,
2006 e 2012; Gomes, lhes informarem sobre o que será votado, Aos mecanismos e técnicas de poder,
Menezes, 2008; Vital da em quais sessões, qual a orientação observa-se, entre os integrantes da FPE,
Cunha, Lopes, 2012. Ver
também Luna (2013) da FPE tirada em reunião, buscando o acionamento de argumentos com
sobre o posicionamento qualificar o voto do parlamentar da a finalidade publicamente difundida
de evangélicos sobre a
questão do aborto e das
frente. Como estratégia, eles passaram de salvar ou guardar a moral social.
pesquisas em células-troco a adotar também a ocupação de Sendo assim, por exemplo, diante
embrionárias.
espaços de liderança em comissões da agenda LGBT e de mulheres,
18. Para saber mais sobre parlamentares estratégicas, tais como
o caso específico da acionam argumentos ancorados em
distribuição do material Comissão de Constituição e Justiça, de conservadorismos políticos que se
didático de combate à Finanças, Direitos Humanos, de Ciência estruturam sobre pânicos morais. Esses,
homofobia nas escolas
públicas ver Vital da Cunha, e Tecnologia e Seguridade Social, e conforme Miskolci (2007), podem
Lopes (2012). ainda disputam a liderança de partidos ser resumidos como mecanismos de
19. Dos nove líderes aqui na Câmara. Em 2013, por exemplo, dos resistência e controle da transformação
contabilizados, cinco
integram à FPE. Os outros
16 líderes de partidos na Câmara dos social diante de situações de eminente
quatro estão fortemente Deputados, nove estavam ligados direta mudança e se materializam através
ligados à ela, como o
presidente do PSC que
ou indiretamente à FPE19. da exploração de ambiguidades e da
não consta na lista de Em termos dos mecanismos e técnicas distorção de fatos e informações. Mills
integrantes da FPE, mas
preside o partidocom de atuação da FPE, é de se notar também explora anteriormente a Miskolci noção
o maior número de a atuação conjunta dela com a Pastoral similar ao dizer que
parlamentares da frente e
que ganhou visibilidade Parlamentar Católica (PPC). Essa quando as pessoas estimam certos valores
pela defensa da presidência aproximação existe, pelo menos, desde e não sentem que sobre eles pesa qual-
do pastor Marco Feliciano quer ameaça, experimentam o bem-estar.
na Comissão de Direitos
2006, mas vem se intensificando ao
Humanos em março de longo dos anos, conforme observamos Quando os estimam, mas sentem que estão
2013. Fonte: www2.camara. ameaçados experimentam uma crise – seja
leg.br. Acesso em 18 de
na pesquisa20. Essa atuação conjunta como problema pessoal ou questão públi-
março de 2013. ocorre, principalmente, com fins ca. E se todos os seus valores estiverem
20. Fato também registrado ao fortalecimento de ações contra a em jogo, sentem a ameaça total do pânico
por Machado em diferentes ampliação de direitos para mulheres (Mills, 1969:17-18).
apresentações e publicações,
com destaque para 2012. – aborto –, para a população LGBT e Diante do medo de mudanças que
Carlos Steil e Rodrigo na questão das políticas de combate às ameaçariam valores estimados, as pessoas
Toniol (2012) vêm
desenvolvendo análises doenças sexualmente transmissíveis. se sentem mais vulneráveis aos discursos
sobre os posicionamentos
da Igreja Católica no Brasil
Ainda sobre os modos de operação que se apresentam como solução a tais
frente ao escopo dos direitos dos parlamentares da FPE, verifica-se o ameaças. Nesse momento, a exploração
humanos na atualidade. que chamamos de uma atuação em rede da ambiguidade e a distorção dos fatos
21. Para além do uso do e na rede. Nesse sentido, lançam mão e informações abundam, conforme
ciberespaço nos mandatos,
lideranças e candidatos de recursos disponíveis em plataformas acompanhamos na pesquisa. Os
evangélicos durante o pleito como blogs, twitter, facebook, sites, sms exemplos registrados em nosso livro são
de 2010 fizeram franco uso
dessa ferramenta lançando
para divulgar seus argumentos, convocar muitos (Vital da Cunha; Lopes; 2012).
o que foi considerado apoio dos fieis em torno das agendas que Destacarei somente um que ativa o medo
por Machado (2012) uma
tendência que viria a afetar
estão sendo conduzidas, assim como através do fornecimento de informações
o universo de políticos para difamar e acompanhar as ações dos cuidadosamente distorcidas com
religiosos.
opositores21. São demandantes do Poder vistas a não perder a verossimilhança,
22. Sobre o que se Judiciário na tentativa de, a partir da somando a isso um toque de humor
convencionou chamar
de “ativismo judicial” ou revisão de constitucionalidade, barrar que revelaria o (suposto) absurdo das
processo de “judicialização ou postergar a votação de projetos de propostas em curso. Sendo assim, no

122 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


panfleto produzido pelo Dep. Fed. Jair NOME PARTIDO/UF
da política” ver Cittadino
(2002) e Eisenberg (2002).
Bolsonaro23 (PR-RJ) sobre o Plano Para demais artigos sobre
Érika Kokay (Presidente da FPT) PT-DF
Nacional de Promoção da Cidadania e a tensão entre os três
Janete Rocha Pietá PT-SP poderes acessar a coletânea
Direitos Humanos de LGBT, uma das organizada por Werneck
Valmir Assunção PT-BA
iniciativas que integra um conjunto de Vianna (2002).

ações de combate à homofobia, lia-se: Amauri Teixeira PT-BA 23. Conforme já mencionei,
esse deputado não pertence
PNLGBT - Garantir a segurança em áreas Luiz Alberto PT-BA
formalmente à FPE, mas
frequentadas pela população LGBT com Domingos Dutra PT-MA está presente em cultos
grupos de policiais especializados, sobre- e reuniões, tendo atuado
Jean Wyllys PSOL-RJ de modo afinado com os
tudo nas quais há grande incidência de dis-
evangélicos em diferentes
criminação e violência Sarney Filho PV-MA
pautas como a da agenda
Daniel Almeida PCdoB-BA LGBT no Congresso
PANFLETO – Garantir a segurança em Nacional.
áreas frequentadas pela população LGBT João Paulo Lima PT-PE
com grupos de polícia especializados 24. Material educativo
Vicente Cândido (Vicentinho) PT-SP do Programa Escola Sem
(criação de batalhões de policiais gays nos Homofobia do Ministério
Estados – Bgay); Eudes Xavier PT-CE da Educação.

PNLGBT – Estabelecer política pública Edson Santos PT-RJ 25. O nome oficial da
para assegurar o respeito à orientação se- FPT foi alterado em
A interface com o movimento social 2013, passando de Frente
xual e identidade de gênero nas casas estu- é fundante dessa frente28. Dois grupos Parlamentar Mista em
dantis mantidas pelo poder público e pela Defesa das Comunidades
iniciativa privada
são explicitamente reconhecidos como
Tradicionais de Terreiro
os principais impulsionadores da para Frente Parlamentar
PANFLETO – Casas estudantis para hos- formalização da FPT: Fórum Religioso Mista em Defesa dos
pedagem de travestis e transexuais (Repu- Povos Tradicionais de
Afro-brasileiro do Distrito Federal Terreiro. Segundo entrevista
blica Gay).
e Entorno (FOAFRO) e Coletivo de realizada por telefone
em julho de 2013 com
No mesmo panfleto no qual o referido Entidades Negras (CEN), que representa a secretária da frente,
deputado chama o PNLGBT de “Plano mais de 1.100 terreiros em 18 estados. essa mudança seria uma
Nacional da Vergonha”, é possível ler, Esse coletivo, inclusive, arroga a si o estratégia que visaria a
tomar a aura da causa dos
em alusão às iniciativas de combate lugar de articulador fundamental. Nas povos indígenas para a
à homofobia na escola24, a seguinte palavras de Marcos Rezende: “somos causa negra e dos religiosos
de matriz africana pela
frase, novamente acionando o pânico nós do CEN que estamos articulando avaliação de que os povos
com a manipulação de informações e esta ação em benefício dos Religiosos de indígenas alcançaram mais
êxito histórico em suas
exploração de ambiguidades: “Querem, Matrizes Africanas”.29 No mesmo blog demandas do que os negros
na escola, transformar seu filho de 6 a 8 do repórter Paulo Henrique Amorim, e religiosos do candomblé,
umbanda e demais
anos em homossexual!”. Marcos Rezende ressaltou: “A criação tradições de matriz africana.
da Frente Parlamentar foi uma demanda 26. Passou por outros
A FRENTE PARLAMENTAR MISTA EM de organizações do movimento negro, “lançamentos oficiais” que
DEFESA DOS POVOS TRADICIONAIS DE entre os quais o Coletivo de Entidades estamos acompanhando no
projeto de pesquisa “A aura
TERREIRO25 Negras (CEN), e contou com o apoio dos da cultura”: uma análise da

Outra frente parlamentar que neste deputados Valmir Assunção (PT-BA) e presença das religiões afro-
brasileiras no espaço público
artigo emerge como um contraponto Érika Kokai (PT-DF)”.30 através do acompanhamento
da Frente Parlamentar
de análise é a Frente Parlamentar Mista Além dessa importante interface em Defesa dos Povos
em Defesa dos Povos Tradicionais de com o movimento social, a FPT está Tradicionais de Terreiros

Terreiros, que foi lançada em 29 de umbilicalmente ligada à Secretaria de no Congresso Nacional, sob
minha coordenação, com
junho de 201126. Em minha perspectiva, Políticas de Promoção da Igualdade o apoio da bolsista PIBIC-
essa frente se estabelece como uma das Racial (SEPPIR) e possui intensa relação CNPQ Franciene Reis
(UFF).
reações à “guerra santa”. Se na década de com o Ministério da Cultura. Mais
27. Ver artigo de Mariz
1990 as reações eram tímidas (Oro, 1997), recentemente, observamos a relação (1997) analisando artigo
a partir dos anos 2000 elas se multiplicam entre a FPT e os movimentos em defesa de Ari Pedro Oro sobre a

e ganham visibilidade social27. A Frente da laicidade do Estado, com destaque reação dos religiosos de
matriz africana às ofensivas
Parlamentar de Terreiros (FPT), como para o Movimento Estratégico pelo em sua direção. Já sobre

ficou conhecida na mídia, é composta Estado Laico (MEEL). o período que marca a
mais forte e publicizada
por 13 parlamentares (sendo 10 do PT). Segundo matérias veiculadas quando reação desses religiosos
às ofensivas, sobretudo
Tabela 1: Deputados da FPT do lançamento da FPT na grande

RELIGIÕES X DEMOCRACIA?: REFLEXÕES A PARTIR DA ANÁLISE DE DUAS FRENTES RELIGIOSAS NO CONGRESSO NACIONAL // 123
evangélicas, que vinham imprensa e em diferentes blogs e em posts social, agrupamos algumas dessas
sofrendo, destacaria o
surgimento de iniciativas na fanpage do facebook31, os objetivos formulações referentes à justificação
diversas, como a criação, principais da frente seriam: fiscalizar o da criação da FPT. Com base neste
em 2008, da Comissão de
Combate à Intolerância Poder Executivo para que este aplique levantamento, a frente seria (uma):
Religiosa, o Grupo de as políticas públicas às comunidades de Forma de salvar/preservar uma cultura;
Trabalho pela Liberdade
Religiosa da Secretaria de terreiro propostas por elas mesmas e por Forma de combate às intolerâncias
Assistência Social e Direitos organizações a elas ligadas; propor leis étnica e religiosa; Forma de garantir a
Humanos do Rio de Janeiro,
que atua desde 2008 e foi
que deem às casas religiosas de matrizes democracia (entendida como igualdade
formalizada em 2012, além africanas os mesmos tratamentos que no acesso aos bens políticos e sociais) e
do Comitê de Diversidade
Religiosa, criado no âmbito
outras tradições religiosas gozam em a pluralidade (entendida como garantia
da Secretaria Nacional de nosso país; impedir manifestações da valorização da diversidade – tal como
Direitos Humanos em 2011,
além da própria FPT.
e ações discriminatórias contra a discute Novaes, 2012). Os argumentos
comunidade negra no Brasil; propor um que acionam na arena política e na mídia
28. Entre as entidades
apoiadoras da FPT temos, diálogo inter-religioso com a finalidade com vistas a se legitimarem como grupo
além do CEN do Brasil e de comprometer diferentes segmentos da político em atividade no Congresso
Foafro, a CETRAB, CNPIR
– Conselho Nacional de vida política, social e econômica do país articulam o discurso da vitimização,
Promoção da Igualdade com a agenda da diversidade religiosa. ativam, a partir dessa afirmação, a
Racial, entre outros.
Em diferentes ocasiões, os deputados necessidade de políticas compensatórias,
29. Conf.: blog Conversa
Afiada. Sobre Marcos da FPT apresentam justificações em reparadoras, que deem conta de gerir o
Rezende: “é membro torno de seu surgimento, combinando a sofrimento das populações no presente
do Fórum de Entidades
Nacionais de Direitos defesa de um novo lugar social (a partir e a desigualdade que marca a trajetória
Humanos e bacharel da ocupação de um espaço político das mesmas. Ativam, ainda, o elemento
em História, lecionou
em escolas públicas e específico) de duas minorias que, na étnico, promovendo equivalências entre
particulares buscando
aproximação dos alunos
com a história da cidade, ALÉM DESSA IMPORTANTE INTERFACE COM O MOVIMENTO SOCIAL, A FPT
enfatizando a questão da
desigualdade social e racial.
ESTÁ UMBILICALMENTE LIGADA À SECRETARIA DE POLÍTICAS DE PROMOÇÃO
Presta auxílio a pequenas DA IGUALDADE RACIAL (SEPPIR) E POSSUI INTENSA RELAÇÃO COM O
entidades e afoxés que
participam do Carnaval MINISTÉRIO DA CULTURA. MAIS RECENTEMENTE, OBSERVAMOS A RELAÇÃO
e atua com destaque no
Coletivo de Entidades ENTRE A FPT E OS MOVIMENTOS EM DEFESA DA LAICIDADE DO ESTADO, COM
Negras (CEN), organização
não-governamental,
DESTAQUE PARA O MOVIMENTO ESTRATÉGICO PELO ESTADO LAICO (MEEL)
sem fins lucrativos e
sem vínculos político- articulação que produzem, estão histórica as noções de religião e cultura33.
partidários, que tem o
objetivo de estabelecer
e culturalmente vinculadas e ajustadas: a Nesses poucos anos de existência (se
o diálogo e diminuir a minoria negra e de religiosos de matriz comparado às outras frentes), a FPT
intolerância entre diferentes
segmentos raciais e sociais.
africana. Vale lembrar que, diferente conseguiu realizar algumas reuniões que
Também é Conselheiro da Frente Parlamentar Evangélica, esta resultaram na produção de seminários
Nacional de Segurança
frente não é integrada por nenhuma
Pública do Ministério da e de uma exposição fotográfica no
Justiça, recebeu a Medalha liderança religiosa autodeclarada. Nas
Zumbi dos Palmares da
Congresso Nacional. Mais recentemente,
apresentações públicas, seja na grande
Câmara Municipal de os parlamentares da FPT se engajaram
Salvador por serviços mídia, seja nos pronunciamentos
em uma campanha pela criação do
prestados a comunidade no congresso, os políticos da frente
negra. É religioso do Museu Afro-Brasileiro de Cultura e
Candomblé”. Disponível em: insinuam um pertencimento religioso ou
Memória no Distrito Federal34. Como
http://www.conversaafiada. uma “simpatia cultural” pelas religiões
com.br/brasil/2012/02/25/ a FPT é composta quase integralmente
marcos-rezende-e-o-negro- de matriz africana. Assim, não legitimam
por deputados do PT, têm acesso muito
da-casa-grande. Acesso em sua participação política ou sua
março de 2011. direto às secretarias e ministérios,
integração à FPT operando pela via da
30. http://www. tendo alcançado alguns feitos relativos
confessionalização da política32, tal como
conversaafiada.com.br/ à formação de editais para grupos que
brasil/2011/03/21/frente- fazem evangélicos e, mais recentemente,
parlamentar-para-defender- trabalham pela garantia de direitos para
os católicos no Congresso Nacional.
religioes-de-matriz- as comunidades tradicionais de terreiros
africana/. A partir das declarações de políticos (o que articula a defesa de um patrimônio
31. Acesso em 15 de maio e de integrantes do movimento

124 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


histórico, cultural, religioso, étnico) e ‘historicamente’ como de minorias de 2013.

ao mapeamento dessas comunidades afirmando a democracia com práticas 32. Nos termos de
Machado (2006), essa
tradicionais, com o objetivo de dar afinadas as dos grupos identificados no confessionalização da
visibilidade à quantidade e à diversidade parlamento como de esquerda ou centro política corresponderia
a uma apresentação
dos terreiros de candomblé e casas de esquerda. dos candidatos
umbanda no Brasil35. Isso conformaria durante as campanhas
uma tentativa de, por via dessa CONSIDERAÇÕES FINAIS eleitorais explorando o
pertencimento religioso
contabilização, alcançar relevo político – Os integrantes de ambas as frentes com vistas a obter ganhos
políticos. No entanto,
acesso a políticas públicas, etc. –, disputa aqui analisadas afirmam a importância constata a autora e
que vem sendo fervorosamente travada do seu lugar no parlamento articulando outros estudiosos em
por este segmento religioso desde, pelo a existência delas à força da democracia
pesquisas subsequentes, a
confessionalização ocorre
menos, o censo de 200036. e da laicidade no Brasil. Nessa chave, não somente durante a
campanha, pois a afirmação
Os projetos de lei e demais ações a existência dessas frentes religiosas da identidade religiosa
legislativas propostas pelos deputados da significaria novos segmentos organizados vem sendo um elemento
importante no jogo político
FPT visam à igualdade de acesso aos bens e legitimamente ocupando uma cadeira no parlamento.
políticos, econômicos e sociais, o respeito no Congresso, confrontando a histórica 33. Em paper apresentado
à cultura afro-brasileira (emergindo aqui hegemonia católica no Brasil39 e nas XVII Jornadas sobre
a religião como um dado da cultura marcando o que seria uma ampliação do Alternativas Religiosas da
América Latina, UFRGS
afro-brasileira), à promoção de ações acesso aos bens políticos. Apresentam- - 2013, explorei mais
reparadoras dos danos historicamente se, assim, como “atores políticos atuando detidamente essa questão
que vem sendo foco de
causados aos negros brasileiros. Assim, nas muitas modernidades existentes minhas análises. Para
buscam o reconhecimento, pelo sistema na contemporaneidade” (Machado, acessar boas discussões
sobre as relações de religião
previdenciário, da categoria de líder 2012:25). Em minha perspectiva, e cultura, ver: Novaes (2012,
2013), Giumbelli (2008),
Mafra (2011).
A EXISTÊNCIA DESSAS FRENTES RELIGIOSAS SIGNIFICARIA NOVOS
34. Esforço esse resultou,
SEGMENTOS ORGANIZADOS E LEGITIMAMENTE OCUPANDO UMA CADEIRA em 26 de novembro de
2013, na fundação da Frente
NO CONGRESSO, CONFRONTANDO A HISTÓRICA HEGEMONIA CATÓLICA NO Parlamentar em Apoio à
Criação do Museu Afro-
BRASIL39 E MARCANDO O QUE SERIA UMA AMPLIAÇÃO brasileiro em Brasília, cuja
DO ACESSO AOS BENS POLÍTICOS coordenação fica a cargo
do Dep. Fed. Edson Santos
(PT-RJ).
religioso dos terreiros de candomblé essa argumentação dos religiosos 35. “O mapeamento é ponto
(Ialorixás e Babalorixás) para efeito de não conforma um mero “efeito de chave nas reivindicações,
aposentadoria; a implementação do retorsão” que pode ser caracterizado
pois, o reconhecimento
das condições de vida das
Plano Nacional de Desenvolvimento pela colocação no “terreno discursivo comunidades tradicionais
Sustentável dos Povos Tradicionais e ideológico do adversário e o combate de terreiro, deverá
subsidiar o governo no
de Matrizes Africanas (as questões da com as armas deste, as quais, pelo fato desenvolvimento das
juventude e do atendimento médico de serem usadas com sucesso contra ele, políticas públicas adequadas
a esta população. O objetivo
emergem como prioritárias nessa deixam de pertencer-lhe, pois que agora é identificar, reconhecer
política)37; a ampliação do número jogam pelo adversário. A retorsão opera e apresentar dados para
a promoção de políticas
de cestas de alimentos designadas às assim, de uma só vez, uma retomada, públicas de segurança
comunidades tradicionais de terreiros do uma revirada e uma apropriação- alimentar e nutricional
e melhoria da qualidade
DF38, a extensão da imunidade tributária, despossessão de argumentos: ela tem por de vida nas comunidades
assegurada a territórios sagrados pela objetivo impedir ao adversário o uso de tradicionais”. Disponível
em: http://cenbrasil.
Constituição Federal, às casas de matriz seus argumentos mais eficazes, pelo fato blogspot.com.br/2011/04/
africana; entre outras ações. mesmo de utilizá-los contra ele (Taguieff, as-condicoes-de-vida-das-
comunidades.html. Acesso
A análise de pronunciamentos e 1986b; também Angenot, 1982). em 05 de maio de 2013.
das demais atividades políticas dos (Pierucci, 1990:11). Sendo assim, sugiro 36. Para acessar uma
parlamentares que compõem à FPT nos que quando esses religiosos afirmam interessante análise sobre
o Censo Religioso do
permite dizer que eles atuam em torno a presença deles na política como IBGE, as religiões de
da ampliação da garantia de direitos representativa do avanço da democracia matriz africana e seus
representantes, ver Menezes
de segmentos sociais reconhecidos e da laicidade, devemos pensar não que

RELIGIÕES X DEMOCRACIA?: REFLEXÕES A PARTIR DA ANÁLISE DE DUAS FRENTES RELIGIOSAS NO CONGRESSO NACIONAL // 125
2012, 2013. empregam de modo pragmático, frouxo, expressas na Constituição de 1891 e
37. O plano foi lançado em equivocado e/ou espúrio ambas noções, que estabeleceu oficialmente o Estado
29 de janeiro de 2013.
mas quais são os sentidos que atribuem brasileiro como não religioso, sem
38. “A ampliação da
a elas. religião oficial, laico. Mais recentemente,
política de cestas de
alimentos é uma demanda A observação dos casos nos leva a o aparelhamento identificado quase
segundo o movimento, de
concluir que o sentido de democracia exclusivamente com a Igreja Católica,
caráter transitório, com
metas objetivas de sanar que operam é absolutamente compatível estaria sendo verificado também entre
necessidades emergentes
com as noções contemporâneas de entidades evangélicas. Esse aparelhamento
destas comunidades
historicamente desassistidas democracia representativa na qual do Estado pelos religiosos estaria no
pelo poder público.
diferentes atores sociais, por meio de centro de debates contemporâneos sobre
Segundo Patrícia Ahualli,
Coordenadora do Coletivo um processo consensuado ocupam a intolerância religiosa praticada por
de Entidades Negras espaços de poder. Os religiosos, como funcionários públicos em juizados, escolas
do DF e membra das
Comunidades de Terreiros representantes legítimos de grupos e delegacias40, no sistema prisional41 e de
do DF, a demanda por que compõem a sociedade, teriam o assistência a menores em conflito com
ações programáticas do
movimento passa pela direito, como outras categorias, de a lei42.
criação de políticas de ter seus representantes no Congresso O “aparelhamento do Estado” no Brasil
inclusão produtiva, onde
as atividades tradicionais Nacional e de levarem suas plataformas não é exclusivamente operado pelos
destas comunidades se à arena pública. Em chave semelhante, a religiosos. Ele é revelador, entre outros,
transformem em ações
geradoras de renda.
laicidade do Estado, entendida por parte da relação estabelecida no Brasil entre
Exemplo das reivindicações desses religiosos não como a negação da público e privado no qual uma esfera se
de inclusão produtiva
são as oficinas de trajes
religião pelo Estado, mas como a garantia sobrepõe a outra43. Assim, nos contextos
tradicionais do terreiro, que ao acesso igualitário das religiões/ citados, ao sabor dos dirigentes máximos
podem ser vendidas em
lojas especializadas. Outro
dos religiosos à esfera pública, estaria do Executivo e dos diferentes órgãos que
potencial produtivo das sendo afirmada com suas presenças no o compõem, iam sendo favorecidas umas
comunidades tradicionais Legislativo nacional. tradições em detrimento de outras.
de terreiros é a produção
agrícola. Contudo, as A consideração desses sentidos dados Uma segunda frente explicativa
comunidades se vêem
impedidas de produzir
pelos atores ao lugar social que ocupam do incômodo social causado pelo
por não se enquadrarem leva ao questionamento sobre: Qual crescimento dos evangélicos no espaço
nos critérios da DAP -
Declaração de Aptidão ao
o problema então? Qual a questão público (destaco aqui esses religiosos,
Pronaf - da Agricultura de fundo? Qual o grande incômodo pois o debate sobre a necessidade de
familiar. Um dos critérios
de exigência para adquirir
provocado pela presença da religião na garantia do Estado laico no Brasil
a DAP é a regularização política? é marcado por uma oposição aos
da situação imobiliária da
área de produção, o que Uma tentativa não conclusiva de evangélicos e seus modos de ação, a uma
não é o caso de muitas resposta a essas questões poderia necessidade de refrear sua capilaridade)
comunidades tradicionais
do país. As comunidades
ser elaborada em três frentes (não estaria ligada a) à utilização que fazem
do DF estão entre estas. necessariamente excludentes). A primeira de mecanismos de ação considerados
Entre as vantagens de se
delas nos conduz a considerar que o “agressivos” ou “estridentes” e que
obter a DAP é a venda
direta ao Programa de problema social causado pela relação entre promovem a identificação de conexões
Aquisição de Alimentos –
Estado e religiões no Brasil estaria ligado antes obscuras entre religião, poder,
PAA, do Governo Federal.
Segundo Patrícia, no DF, já à verificação de um aparelhamento do economia, Estado, sociedade, política,
existe uma parceria entre Estado por instituições religiosas desde, judiciário; b) ao sentimento difuso de
a EMATER – Empresa
de Assistência Técnica e principalmente, já no período republicano, invasão, em sentido cultural. Conforme
Extensão Rural”. Disponível a Constituição de 1934. A Igreja Católica argumenta Regina Novaes (2005)44, a
em: http://cenbrasil.
blogspot.com.br/2011/04/ é amplamente identificada com ganhos cultura brasileira ou “ser brasileiro” estava
as-condicoes-de-vida-das- advindos de dispositivos introduzidos umbilicalmente identificado à Igreja
comunidades.html. Acesso
em 05 de maio de 2013. nessa Carta tais como o reconhecimento Católica, a ser católico, e o crescimento
39. Em Vital da Cunha
civil do casamento religioso, a cooperação dos evangélicos e o questionamento de
e Lopes (2012), é entre Estado e entidades religiosas no antigas e arraigadas práticas sociais foi
possível encontrar o oferecimento de programas sociais de propulsor de um sentimento de repulsa,
pronunciamento de
diferentes lideranças interesse público etc. Esses dispositivos se negação e preconceito em relação a esses
evangélicas articulando a contrapunham à perspectiva iluminista e religiosos e às instituições as quais estão
força da democracia e da
republicana que orientou as formulações ligados.

126 // COMUNICAÇÕES DO ISER | RELIGIÕES EM CONEXÃO: NÚMEROS, DIREITOS, PESSOAS


Um terceiro elemento explicativo população LGBT como no caso do Kit laicidade na atualidade com
a presença dos evangélicos
do incômodo causado pela relação Antihomofobia. Já entre os integrantes no Congresso Nacional.
entre Estado e Religião; Religião e da Frente Parlamentar de Terreiros Um dos argumentos
que acionam é de que
Política estaria calcado em certo senso há mais homogeneidade em torno do os evangélicos são mais
comum savant que confere ao religioso posicionamento político que defendem um grupo de força
naquele espaço, eleitos
um amalgama necessário com o e de suas trajetórias públicas alinhadas conforme as regras do jogo
conservadorismo. Essa última tentativa à defesa de bandeiras históricas da democrático, assim como
existem militares, médicos,
de explicação é a que gostaria de explorar esquerda no Brasil sendo identificados metalúrgicos, negros e
um pouco mais nos limites deste artigo. com discursos vanguardistas e pela mulheres.

Os religiosos na política não estão ampliação e defesa de direitos de crianças 40. Miranda nesta

todos afinados com uma perspectiva e de minorias como negros, mulheres e publicação.

conservadora. Os estilos de atuação população LGBT. 41. Quiroga, Vital da Cunha


2005.
dos parlamentares investigados são As disputas e posicionamentos
42. Simões 2010a; 2010b.
diversos, assim como parte dos objetivos aqui apresentados nos instigam a
43. Matta, 1997; Carvalho,
declarados dessas frentes religiosas. Em refletir sobre quais as composições 1988; Faoro, 2001.
termos dos discursos que ativam, uns possíveis e desejáveis da democracia
44. “Milagres da
são mais identificados com um ativismo no Brasil. Em alguns meios e contextos multiplicação dos votos”
conservador religioso45, enquanto outros sociais as religiões são acusadas, In http://www.diplomatique.
org.br/acervo.php?id=1247.
se afinam mais ao discurso histórico contemporaneamente, de interferirem Acesso em 02 de agosto
da esquerda em torno da defesa de negativamente no processo democrático de 2014. Ver também
“O que significa ser
minorias e da garantia do respeito à por desrespeitarem direitos individuais, católico no Brasil”: http://
pluralidade. Podemos dizer que não seria por tentarem barrar a ampliação de epoca.globo.com/Revista/
Epoca/0,,EDR77276-6014,00.
precisamente o pertencimento religioso direitos de segmentos sociais específicos html. Acesso em 02 de
que forjaria atores conservadores ou de como o de mulheres e LGBTs. A agosto de 2014.

direita46. É preciso considerar trajetórias acusação moral e política lhes recai sobre 45. Segundo Vaggione , o

pessoais e políticas47. Assim é preciso os ombros. Mas, seriam os religiosos termo ativismo conservador
“permite enfatizar o
considerar diferenças na atuação política os únicos produtores e proclamadores propósito central, que
de integrantes da Frente Parlamentar desses discursos? é o de influenciar as
políticas públicas e as
Evangélica tais como Gilmar Machado Como vem sendo alvo da análise legislações. São setores
que não só defendem uma
(PT-MG) e Benedita da Silva (PT-RJ) por de cientistas políticos, antropólogos, cosmovisão específica
um lado, e Eduardo Cunha (PMDB-RJ), sociólogos e historiadores, o Brasil sobre a sexualidade e a
família que se encontraria
Marco Feliciano (PSC-SP) e Anthony e o mundo vivem um momento de ameaçada pelo feminismo