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V SEMINÁRIO DOS ALUNOS DA PÓS-GRADUAÇÃO EM

FILOSOFIA DA UFF

CADERNO DE RESUMOS DAS


COMUNICAÇÕES
SEGUNDA-FEIRA, 12 DE NOVEMBRO

MESA 1
Leituras Espinosistas

Marx leitor de Espinosa


José Francisco de Andrade alvarenga (PUC-RJ)

Esta apresentação tem como objetivo analisar a relação entre o pensamento político de Karl
Marx, formulado na Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (CFDH) em 1843, e a filosofia
de Baruch de Espinosa. Com base na análise dos Cadernos Espinosa e da Crítica da Filosofia
do Direito de Hegel de Marx e do Tratado Teológico-Político de Espinosa conclui-se que
embora possa-se estabelecer uma relação de influência entre os filósofos em questão, a
análise da relação entre o pensador alemão e o pensador holandês torna-se mais reveladora
das convergências e divergências entre eles quando abandona-se a ideia que o estudo da
recepção deva ser realizada por meio da busca de citações diretas, comentários a respeito do
autor em questão e adota-se como referencial metodológico a construção de um verdadeiro
diálogo filosófico, isto é, o confronto crítico entre as duas filosofias, explicitando as
convergências e as divergências. Portanto, buscar-se-á nesta apresentação estabelecer um
diálogo entre Espinosa e Marx, com o objetivo não de privilegiar as relações de
continuidades, mas os elementos de descontinuidades, cujas discrepâncias constituem os
fatores segundo os quais reside a originalidade e relevância de cada um desses filósofos.
Palavras-chave: Democracia; Marx; Espinosa; Recepção.

A vertigem da imanência
Frederico Lemos (UFF)

Na direção de que ética somos levados desde que levemos a sério o desafio de pensar,
a partir de Espinosa, Deleuze e Guattari, uma ontologia absolutamente imanente? Dito de
outra forma, de que tipo de critério ético seletivo dispomos quando subtraímos do ser toda
hierarquia, toda organização transcendente?
O problema precisa ser colocado justamente porque, para uma grande parte de nossa
tradição filosófica, só haveria diferença possível de ser estabelecida no nível da existência em
função de categorias morais articuladas a noções metafísicas, que organizam o ser por
modelos transcendentes. É explicitamente contra essa espécie de “senso comum” filosófico,
estruturante da falsa alternativa excludente entre “cosmos” e “caos”, entre um mundo já
repartido em coisas e pessoas ou um puro abismo indiferenciado, que Deleuze propõe
elaborar sua filosofia como teoria de uma disjunção estranha, uma disjunção inclusiva, em
que qualquer dualismo só vale enquanto momento para um monismo: caosmos.
A “via espinosista” é definida por Deleuze da seguinte forma (curso de 02/12/1980):
uma ontologia que afirma imediatamente um correlato ético, e é dito ser espinosista qualquer
um que siga esta trilha aberta por Espinosa. Prolongando a letra de Espinosa, Deleuze procura
definir uma oposição entre ontologia e metafísica, correlata a uma oposição entre ética e
moral, que deve-se compreender para avaliar a originalidade de sua maneira de colocar o
problema da relação entre ontologia, ética e política.
Resumidamente, apresentamos a hipótese de que essa espécie de “ontologia
anarquista” não nos lança num caos puro e simples, cujas infinitas determinações nos
impediriam de ordenar e regular a vida, mergulhada que estaria numa “indiferenciabilidade”
generalizada; mas, ao contrário, nos serve como meio para discernir práticas e relações
segundo um critério ético da consistência dos afetos, por oposição a critérios morais que
julgam em função de essências e valores transcendentes.
Palavras-chave: Ontologia. Imanência. Ética. Consistência.

MESA 2
Filosofia Medieval e Renascimento

Breves notas sobre o sistema da ação humana de Francisco de Vitoria


Jeferson da Costa Valadares (PPGF-UFRJ)

Esta comunicação tem como principal objetivo apresentar e reconstruir com brevidade
algumas notas sobre o sistema e a estrutura dos atos humanos elaborada por Francisco de
Vitoria no âmbito do seu comentário ao texto de Tomás de Aquino, denominado De actibus
humanis (Sobre os atos humanos). Vitoria elabora um consistente sistema da ação humana ao
estudar, em primeiro lugar, o In Primam Secundae Summae Theologiae de Tomás de Aquino,
Ia-IIae, qq. 1-5, tratado De beatitudine (Sobre a felicidade), cuja função essencial dirige-se
para mostrar o modo pelo qual se alcança a felicidade; prepara, de certo modo, o estudo
sistemático sobre os atos humanos, pelos quais os homens, pela ação de liberdade, lhes fora
dado a capacidade de acessar o seu fim último como consequência direta desta felicidade; e,
em segundo lugar, particularmente o In Primam Secundae Summae Theologiae qq. 6-21
(Sobre os atos humanos). Antes mesmo de situar o tratado De actibus humanis na formação
sistemática da ação humana e da elaboração da estrutura dos atos humanos, cabe apresentar o
projeto e definição de teologia de Francisco de Vitoria. Sua definição de teologia e seu projeto
teológico tornam-se relevantes porque condicionam à teologia – como ciência que não tem
limites em comparação com outras ciências humanas – a um amplo campo de investigação do
saber. Para isso, recorremos aos Prólogos aos comentários à Summa Theologiae de Tomás de
Aquino e, igualmente, aos seus excursos às Sententiae de Pedro Lombardo. Vitoria define a
teologia, grosso modo, como sacra theologia, como ciência divina. Seu projeto teológico visa
inserir a teologia como ciência divina em todos os campos do saber sem limites, como
verdadeiro ofício do teólogo. Com isso, constrói uma noção de homem em pleno
Renascimento Espanhol. O homem (do qual fala Vitoria é o homem pecador e o redimido),
i.e., a natureza humana é o grande tema da Ia-IIae tratado tanto por Tomás, tanto quanto pelo
comentário de Vitoria. O cerne do sistema da ação humana de Vitoria segue uma estrutura na
qual o homem enquanto imagem e semelhança de Deus age livremente. A definição desta
imagem comporta três elementos (i.e., a “satisfação”, o “domínio” e a “liberdade”) conforme
apontados por Vitoria: Imago consistit in hoc quod est habere placitum et dominium suorum
actuum per libertatem. A constatação de que sendo o homem imagem e semelhança de Deus,
ele, i.e., esta imagem de Deus, é constituída na exigência de o homem possuir ‘satisfação’, o
‘domínio’ de si e a ‘liberdade’ de seus respectivos atos. Por isso mesmo, essa estrutura dos
atos humanos exige que se estabeleça e se defina como é o funcionamento e a constituição no
que diz respeito ao fim das ações humanas, pois – segundo continua Vitoria – é do fim que se
toma razão de tudo àquilo que está relacionado com o fim, segundo afirmava Aristóteles, ao
iniciar sua filosofia moral: todos desejam o bem.
Palavras-chave: Atos humanos; Filosofia da Ação; Segunda Escolástica; Renascimento.

O canibal de Montaigne
Isaac Rabelo Dobbin (UFF)

Este trabalho tem como objetivo analisar o ensaio Dos Canibais, do autor francês Michel de
Montaigne, pensando deste modo suas influências para o escrito. Analisaremos como o
filósofo utiliza seu ensaio para realizar uma crítica aos seus conterrâneos, a situação da
França de seu tempo e os elementos céticos que auxiliaram nesta reflexão. Michel Eyquem de
Montaigne nasceu no ano de 1533 na França. Podemos dizer que a geração em que o autor
nasceu – a geração de 1530 – não tinha lembranças do mundo anterior à reforma protestante e
seus conflitos sociais, econômicos e religiosos. Ele era o filho mais velho e herdeiro de um
cavaleiro gascão, sua família era nobre a poucas gerações. O próprio autor era nobre de
quarta geração. Ele foi o primeiro da sua linhagem a negar o sobrenome Eyquem,
autodenominando-se de Montaigne, que era o nome de sua propriedade herdada. O
Renascimento surgiu por volta do final século XIV e foi um movimento cultural de
redescoberta da antiguidade, quando o conhecimento recuperado dos antigos europeus
(gregos e romanos) constituiu a base intelectual da época. É importante ressaltar que os
idiomas utilizados pelos jesuítas - responsáveis pela formação intelectual neste momento
histórico - foram o grego e o latim. Nesse sentido, se buscou na cultura antiga um novo modo
de analisar a cultura europeia do mundo medieval, tanto no campo que concerne ao
conhecimento técnico-cientifico como no campo do pensamento e nas artes.

Ora, sempre se ouve dizer que o Renascimento, em sendo uma redescoberta


da Antiguidade, representou um reavivar – um risorgimento, os italianos
amam dizer – da cultura antiga. Note-se, contudo, que as linhas citadas
acima, bem como o restante do texto que as envolve, colocam a ênfase não
em alguma continuidade, mera retomada de algo antes já dado, mas em uma
espécie de deslocamento que permite aos homens da Renascença pôr em
perspectiva sua própria cultura. (AZAR FILHO, 2010, p. 1-2).

O movimento humanista floresceu nos séculos XV e XVI, durou muito tempo e envolveu
tantas pessoas que é impossível considerar esse movimento como uniforme e estável. Os
humanistas desse tempo se distinguiam de seus companheiros acadêmicos, os “escolásticos”,
que estudavam autores do período medieval, como Tomás de Aquino e o “mestre” da
escolástica, Aristóteles. Eles rejeitavam a linguagem dessa filosofia – que não era clássica –
os escolásticos concentravam todos os seus esforços na lógica, que para os humanistas, era
sem relevância em comparação ao estudo da filologia e da filosofia moral e política.
Palavras-chaves: Montaigne, Renascimento, Novo mundo, Canibal.

MESA 3
Pensando a técnica

O pós-industrialismo e a relação entre cibercultura e biopolítica na


constituição de uma nova organização econômica
Raquel Rodrigues Rocha (PPGF-UFRJ)

É pelo viés do pós-industrialismo que analisaremos a relação entre biopolítica e cibercultura


na construção de uma nova ordem econômica na contemporaneidade. Os avanços
relacionados às tecnologias da comunicação aliados ao fortalecimento do neoliberalismo,
contribuem para que os modos de produção decorrentes do pós-industrialismo constituam um
novo ethos de trabalho e vida social, tornando imprescindível a integração da cibercultura às
práticas biopolíticas de governamentalidade. Os modos de produção no século XX,
principalmente depois do advento da cibercultura, rompem os limites fabris e de produção de
bens materiais e passam a considerar a produção cognitiva, imaterial como meio de produção
e acúmulo de bens. Deste modo, as informações, a comunicação, o trabalho intelectual, são
considerados, dentro dos modos de produção pós-industrial como fundamentais para
expansão e manutenção do capital. É na produção de bens imateriais que a cibercultura é
inserida como engrenagem que movimenta as transformações econômicas e sociais,
contribuindo para o fortalecimento do neoliberalismo como nova ordem econômica na
contemporaneidade. Nesse sentido, as práticas biopolíticas, por meio da cibercultura,
relacionam-se com o fortalecimento do neoliberalismo enquanto modelo econômico e, em
certa medida, governamental. Essas novas formas de produção e trabalho, transformam a
relação entre o proletariado e o bens materiais por eles produzidos. É o capital humano a
principal ferramenta das relações de produção e consumo de bens da contemporaneidade, ele
torna-se fonte inesgotável de produção na medida em que os sujeitos são cada vez mais
dependentes das tecnologias da comunicação, não havendo mais como separar produção e
não produção, vida social e trabalho. Tudo está inserido nos modos de produção, não há
divisão entre trabalho e vida social, o trabalho converte-se em uma atividade social e na
medida em que a cibercultura é inserida no campo das produções de bens, a desvinculação
entre os produção de bens e vida social é cada vez mais difícil.
Palavras-chave: Biopolítica; Cibercultura; Pós-industrialismo; Neoliberalismo

A decomposição do autômato:
a hýbris da técnica na transgressão da phýsis, à luz de Heidegger
Irlim Corrêa Lima Junior (PUC-RJ)
Inteligências artificiais, robôs e ciborgues impregnaram a literatura de ficção científica
universal, atravessando gerações, transformando-se em realidade no estágio tecnologicamente
avançado de nossa atualidade e projetando-se como as principais tendências de
desenvolvimento do nosso porvir, o que causa um misto de expectativa e receio. Objeto
mesmo de atração e terror, o autômato, ancestral dos modernos androides cibernéticos, figura
desde os primórdios da literatura ocidental, rondando a épica de Homero, tanto a Ilíada
quanto a Odisseia, com seu fascínio e espanto – despertando o thaûma entre os deuses, como
diz Homero. Com efeito, os trípodes criados por Hefesto – divindade do saber técnico – que
servem aos deuses, são descritos como objetos autômatos, que se assemelham à vida. Nos
Trabalhos e os dias, de Hesíodo, o vocábulo autômato qualifica a espontaneidade em que
crescem os dons da terra para nutrir os homens divinais da idade de ouro, como também a
ocorrência contingente e inesperada dos males que, saídos da caixa de Pandora, doravante
grassarão pelo mundo. A palavra autômato significa aquele que é capaz de se mover por si
mesmo, o que dá ensejo, de Homero a Hesíodo, à palavra se bifurcar em direções a princípio
antagônicas: à ideia de espontaneidade, ligada ao acontecimento da phýsis, de algo que
cresce, se move ou se produz naturalmente, sem a intervenção de um agente externo; e
também à ideia de um dispositivo mecânico, um mecanismo, dotado de funções específicas e
controladas, de modo a concluir a performance por um circuito programado. Perseguindo o
rastro de Heidegger quando este afirma que a essência da técnica, designada por Gestell
(passível de ser traduzida, entre outras coisas, como composição), constitui uma imposição de
domínios, explorações, ritmos desenfreados, imperativos e relações que são absolutamente
antinaturais e desmedidos, é da intenção de nosso trabalho refletir sobre essa ambivalência do
autômato – no qual a técnica emula e simula a vida –, cujo espectro semântico alude ao dom
e ao domínio, ao espontâneo e ao automotivo, ao natural e ao mecânico. Se a composição do
autômato da tecnologia moderna é possível, não seria por que reside desde os instantes
iniciais em que ele foi sonhado uma decomposição do espontâneo e da dádiva, forjando na
imaginação simulacros que transformam a matéria bruta em movimento vivo autorrealizável,
a ponto de se espantarem seres humanos e se fascinarem os deuses? Não residiria nesse
domínio sobre a natureza uma radical transgressão provocada por um terrível poder
“heféstico” da técnica, tal como expressa por Nietzsche em A genealogia da moral: “Hýbris é
hoje nossa atitude para com a natureza, nossa violentação da natureza com a ajuda das
máquinas e da tão irrefletida inventividade dos engenheiros e técnicos [...]”.
Palavras-chave: Heidegger ; Metafísica ; Técnica ; Autômato.
Técnica, Cultura e Atenção
Sávio de Araújo Gomes (PPGP-UFRJ)

Considerando as formulações do filósofo francês Gilbert Simondon, buscar-se-á caracterizar


a contemporaneidade como uma era técnica. Sob uma das muitas perspectivas existentes em
sua obra ela será analisada a partir de sua diferenciação em relação ao conceito de cultura–
um episódio fundante na música contemporânea, representada pelo Hip-Hop, será nosso
melhor exemplo sobre essa relação nos dias atuais. Mas não a abordaremos unicamente sob
essa via de análise (descritiva conceitual), discorreremos também sobre como sua concepção
técnica, e não apenas sobre a técnica, verificada explicitamente em sua estética de escrita
criam subsídios para validar tais elaborações. Visando compreender o impacto desse arranjo
na experiência psíquico-coletiva do ser humano, elegemos a atenção como o processo que,
por diversas razões, ocupa lugar privilegiado na mediação desse contexto. Apresentamos, por
isso, duas concepções. A primeira é proposta por William James sobre o que
simplificadamente denominamos “atenção além do foco”. Nesse ponto poderá ser verificado
um diálogo mais próximo com as Ciências Cognitivas e, de maneira muitíssimo breve, com a
pintura. A segunda perspectiva recebe o título de Ecologia da atenção e se embasa nas
recentes pesquisas do professor sueco de literatura Yves Citton. Nela, entre outros muitos
deslocamentos menores, Citton busca propor a superação do conceito de economia da
atenção em prol de uma ecologia da atenção.Ambas têm como ponto de partida a expansão
do conceito de atenção, movimento que se adequa às necessidades impostas pelo cenário
tecnosocial considerado. Concluímos que pensar a atenção sob tais perspectivas ultrapassa o
nível investigativo conceitual e instaura uma discussão política sobre o processo de
coletivização instaurado pela técnica.
Palavras-chave: técnica, cultura, atenção, Gilbert Simondon.

MESA 4
Filosofia antiga e seus desdobramentos contemporâneos

Eterno retorno como coragem


Felipe Ramos Gall (PUC-RJ)
Aristóteles abre as discussões sobre as virtudes, na Ética a Nicômaco, analisando a coragem,
andreía. Ela será definida, como é sabido, como um meio termo entre a covardia e a
temeridade, uma perseverança no conhecimento daquilo que realmente se deve temer. Em
última instância, o que se deve realmente temer é uma morte vergonhosa: o corajoso,
portanto, encara destemidamente uma kalós thánatos, uma bela morte. Ocorre, contudo, que
andreía, cuja etimologia remonta a anér, varão, homem, seria, mais do que coragem, uma
virilidade, uma bravura ou valentia com conotações masculinas, guerreiras. Mas Aristóteles
reconhece também um outro modo da coragem se dar, que, segundo ele, é mais natural: seria
a coragem do ânimo, thymós. Nietzsche, ao apresentar a ideia de eterno retorno no discurso
Da visão e do enigma, em Assim falou Zaratustra, conclui a primeira parte deste com uma
série de reflexões sobre a coragem, uma coragem capaz de matar até mesmo a morte.
Gostaria de apresentar neste trabalho uma análise dessa noção de coragem em Nietzsche, que
parece ser imprescindível para se compreender o pensamento do eterno retorno. Minha
hipótese é a de que não se trata aí de uma coragem enquanto andreía, no sentido de uma
virilidade guerreira, mas sim daquela coragem vital, do thymós, do ânimo.
Palavras-chave: Eterno retorno; Coragem; Decisão; Ânimo.

O Sócrates de Michel Foucault


Priscila Céspede Cupello (PPGLM-UFRJ)

Esse trabalho tem o intuito de relacionar os percursos da vida do filósofo Michel Foucault
com suas últimas pesquisas que refletem seus interesses pela Antiguidade greco-romana, mais
especificamente, pela figura de Sócrates e suas correlações com a noção de “cuidado de si”.
No fim da vida de Foucault destaca-se seu projeto de auto estetização, colocado em voga com
mais intensidade com a reflexão sobre as “relações de forças” e “jogos de verdades” em um
projeto de uma “história crítica do pensamento” ou uma “ontologia histórica de nós mesmos”,
que nos faz analisar que mecanismo de saber/poder nos tornaram ser quem somos e os meios
pelos quais podemos nos tornar outra coisa, pensar diferente, através de um trabalho de si
sobre si, que a filosofia antiga, principalmente, com os estoicismo nos faz pensar.
Palavras-chave: ética; política; estética da existência.

A ética heraclítica e o Brasil nos dias de hoje: a alteridade como espelho


Jonathan Almeida de Souza (UFF)

O objetivo desta exposição é realizar uma leitura dos fragmentos de Heráclito partindo da
interpretação presente no livro Thánatos: da possibilidade de um conceito de morte a partir
do Lógos Heraclítico, publicado em 1999 pela EDIPUCRS, de autoria de Alexandre Costa.
Buscaremos entender como Heráclito articulou, em seu pensamento, uma possibilidade ética
que escuta e compreende o outro como referência para a vida que, no caso da cultura e da
organização social dos gregos dos séculos VII e VI a. C., pode ser entendida como uma ética
para a vivência na pólis, para uma vida necessariamente política. Diante desta compreensão
ética, proporemos uma articulação entre os fenômenos cotidianos do Brasil atual e a crítica
presente em Heráclito. Dito de outra maneira, utilizando as proposições de Heráclito que se
relacionam com o(s) sentido(s) possível(eis) que o vocábulo harmonía imprime em sua
filosofia, veremos como uma determinada compreensão da harmonía viabiliza um certo
modo de pensar e, assim, observaremos como tal pensamento se comunica com o nosso
tempo e com as nossas múltiplas formas de vida. Neste sentido, o intuito da nossa exposição
é (re)conhecer o impacto que o pensamento de Heráclito pode desvelar, dando-nos caminhos
e perspectivas para pensar o presente.
Palavras-chave: Filosofia Antiga; Ética; Brasil; Harmonía; Heráclito.

MESA 5
Problemas de Filosofia Moderna

A identidade do eu e a identidade do outro na epistemologia de Hume


Carlota Salgadinho Ferreira (PUC-RJ)

Hume mostra que a questão de saber se os objetos do conhecimento, paixões e, mais em


geral, juízos, existem exterior e independentemente da mente, é indecidível por meio de
raciocínios (probabilísticos e demonstrativos). Porém, não coloca a questão de saber como se
explica a atribuição de uma identidade a outros eus, dos quais apenas o corpo – que só se
distingue de outros objetos pela sua semelhança com o meu próprio corpo – é apreensível
pelos sentidos externos, contrariamente à sua mente. Alguns comentadores ocuparam-se da
questão da identidade pessoal em Hume que mencionam, sem abordá-la diretamente,
designadamente, K. Smith (1966), A. J. Ayer (1980), J. Passmore (1968) e D. Garrett (1997).
T. Penelhum (1992) aponta a questão da distinção entre o eu próprio e o do outro como uma
das questões que ainda carece de solução pela literatura de comentário (dado que Hume não
ofereceu uma explicação para o surgimento dessa crença). Para além disso, aponta uma
direção concreta para uma reconstrução dessa crença, a saber, por uma exploração das teses
de Hume relativas à identidade pessoal e à existência de um mundo externo (a cada uma das
quais Hume dedicou uma secção completa no Tratado da Natureza Humana). Pretendo i)
apresentar brevemente as observações dos primeiros comentadores, ii) apresentar mais
alongadamente a proposta de Penelhum, iii) descrever as teses de Hume que Penelhum
identifica como cruciais para reconstruir uma resposta à questão de saber como surge a
distinção entre o eu e o outro.
Palavras-chave: Hume, identidade pessoal, objeto externo, crença.

A superação da hermenêutica subjetiva na teoria do conhecimento de


Espinosa e uma breve análise sobre a filosofia política de Marx.
Kissel goldblum (PPGLM-UFRJ)

Na primeira parte da Ética, na qual Spinoza trata sobre Deus1, o autor expõe a estrutura
ontológica do mundo, baseada em uma substância única composta por infinitos atributos,
cada um dos quais modificados por infinitos modos: “Pois além da substância e dos modos
nada existe, e os modos nada mais são do que afecções dos atributos de Deus.” (SPINOZA,
2007, p. 51). Se além de Deus não pode existir outra substância, devemos compreender o
homem como um modo de um atributo de Deus e não como uma substância separada da
Natureza. Parte essencial da Ética, os gêneros de conhecimento2, são as maneiras pelas quais
é possível conhecer a substância e seus atributos. Estes mesmos gêneros do conhecimento
têm sido, tradicionalmente, analisados da perspectiva de faculdades humanas e
consequentemente são compreendidos como interpretações de uma hermenêutica subjetiva.
Pretendo expor uma linha de análise que revela o processo de conhecer de maneira distinta, a
saber: tomando-o como o próprio meio pelo qual Deus conhece a si mesmo, isto é,

1Vale ressaltar aos não familiarizados com o conceito de Deus na obra de Spinoza - endende-se Deus como
Natureza ou Substância, ou seja, Spinoza não conserva nenhuma característica religiosa ou antropomórfica de
Deus.

2Cf. SPINOZA B. Ética, Parte II, Proposição 40 (2007, pp. 130-134). Os três gêneros do conhecimento, a saber,
a imaginação, a razão e intuição estruturam aquilo que podemos chamar de teoria do conhecimento de Spinoza.
compreendendo o estudo da epistemologia spinozana como inerente à sua teoria ontológica.
“Seus três gêneros do conhecimento não se referem a três gêneros de alguma faculdade
humana; ao contrário, eles são as três maneiras pelas quais Deus conhece a sua própria
natureza.” (VINCIGUERRA, 2012, p. 136)3.
Parte importante da hipótese é expor a necessidade de desqualificar a razão, do poder
que lhe fora dado historicamente, como a ferramenta epistemológica capaz de compreender a
Natureza e conduzir o homem a uma vida superior. Tampouco, assim como Espinosa propõe,
meu objetivo é acabar com a imaginação e a razão, mas sim identificar a sua posição correta
na ordem do conhecimento. Dessa forma, seria possível, segundo Spinoza, direcionar o
intelecto para uma compreensão da eternidade do presente, que não está ligada às cadeias e
séries de acontecimentos que constroem as imagens da existência. Este estado só pode ser
alcançado com a compreensão exata do método. Abandonando a ideia do indivíduo
antropomorfizado, em direção à compreensão da realidade, por meio da perspectiva da
eternidade através da ciência intuitiva. “Não é mais o entendimento finito que conclui as
propriedades uma por uma, que reflete tanto a coisa e explica em relação à outros objetos. É a
coisa que se exprime, é ela mesma que se explica” (DELEUZE, 1968, p .8)4.
A terceira tese de Feuerbach nos revela um aspecto fundamental da perspectiva
epistemológica e ontológica da filosofia política de Marx que corrobora a noção de
paralelismo epistemológico de Espinosa. Neste sentido, pretendo realizar algumas analogias
do projeto espinosano e marxista.
Palavras chaves: Espinosa; Epistemologia; Ontologia; Marx

Inatismo, anti-inatismo e linguagem em Descartes, Locke e Chomsky


Filipe Monteiro Morgado (UFF)

O presente trabalho vislumbra apresentar, de modo bastante breve, um debate moderno sobre
inatismo e o anti-inatismo, especificamente entre Descartes (1596-1650) e Locke (1632-
1704), bem como a recepção da teoria inatista cartesiana e de certa teoria cartesiana da
linguagem por Chomsky e a sua crítica a certas correntes empiristas que influenciaram os
estudos da linguagem (no meio das quais, sustentamos poder encontrar o referido empirista

3“His three kinds of knowledge do not refer to three different human faculties; instead, they are the three
ways in which God knows his own nature, modified as it is by infinite and finite modes, some of them human
ones.”
4“Ce n’est plus l’entendement fini qui conclut des propriétés une par une, qui réfléchit sur la chose et l’explique
en la rapportant à d’autres objets. C’est la chose qui s’exprime, c’est elle qui s’explique”.
inglês). Por exemplo, no “Livro I” de Ensaio sobre o Entendimento Humano, Locke esboça
uma teoria da linguagem a partir do seu pensamento empirista, formulando-a, aliás, para ir de
encontro a teses inatistas. O filósofo, físico e matemático francês, por seu turno, expõe, em
algumas de suas obras (por exemplo, na “Quinta Parte” do Discurso do Método) e cartas,
uma teoria da linguagem, bem como sua tese inatista. Chomsky, autor que chegou a escrever
uma obra intitulada “Linguística Cartesiana” (cujo conteúdo já se insinua no nome), a fim de
ir de encontro ao comportamentalismo linguístico, vinculado, de certo modo, pelo linguista,
filósofo e cientista político estadunidense a correntes empiristas, evoca a teoria cartesiana das
ideias inatas e uma teoria cartesiana da linguagem, formulando, assim, a sua teoria inatista na
linguística contemporânea.
Palavras-chave: linguagem; Chomsky; Descartes; Locke.

TERÇA-FEIRA, 13 DE NOVEMBRO

MESA 6
Aristóteles e Antiguidade Tardia

A geração dos sensíveis e o problema da origem da matéria em Plotino


Deysielle Costa das Chagas (PUC-Rio)

O presente trabalho tem por objetivo apresentar uma reflexão acerca da possibilidade da
geração, natureza e função da matéria sensível no sistema filosófico de Plotino. Para tanto,
utilizaremos os tratados presentes nas Eneadas, em especial o tratado Sobre a Matéria (II, 4
[12]) e Contra os Gnósticos (II, 9 [33]). Plotino, ao discorrer sobre a ordem existente das
realidades, apresenta-nos uma hierarquia das realidades suprassensíveis originadas no Uno,
seguidas pela Inteligência e pela Alma e a relação desta com a matéria sensível. A matéria
sensível, no tratado II, 4 [12], é apresentada como aquilo que é desprovido de função
ontológica, de “ser algo”, ou seja, ela “é” um “não-ser”. Porém, esta mesma matéria é
necessária na constituição da realidade sensível para que ela possa ser distinta daquela
realidade suprassensível que lhe atribui formas. Aqui se revela o problema da conciliação da
ideia de matéria sensível, enquanto “privação/irrealidade”, ser condição necessária para
geração da realidade sensível. Para compreender essa ambiguidade, Plotino nos apresenta, em
seu outro tratado (II, 9 [33]), a relação entre as realidades sensível e inteligível como uma
eterna iluminação da matéria por intermédio da Alma. Por fim, analisar-se-á se esta eterna
iluminação pode ser compreendida como geração atemporal e constante dos seres sensíveis e,
inclusive, da própria matéria sensível.
Palavras-chave: Metafísica. Cosmologia. Sensível. Matéria.
Do corpo ao cosmos: estrutura espacial no De caelo de Aristóteles
Matheus Oliveira Damião (UFRJ)

O objetivo de nossa fala é elucidar alguns pontos de relação entre o cosmos e o ser vivo
delineados por Aristóteles em De caelo II 2. Nesse capítulo, o ser vivo é tomado como uma
espécie de paradigma para se refletir acerca dos lugares do cosmos. Tal aproximação se dá,
sobretudo, por meio dos conceitos de διαστάσεις, διαστήματα e τόποι, articulados, por sua
vez, com os pares alto-baixo, frente-traseira, direita-esquerda. O capítulo parece mostrar que
Aristóteles utiliza de um mesmo conjunto de relações explicativas e conceituais para entender
tanto configuração corpóreo-anímica dos seres vivos quanto os lugares do cosmos. Assim, a
partir de De caelo II 2 buscaremos apontar quais são esses elos que unem para Aristóteles a
espacialidade dos corpos, em seus limites e movimentos, com a estrutura dinâmica do
cosmos.
Palavras-chave: Corpos. Lugares. Espacialidade. Aristóteles.

A Diatribe IX de Musônio Rufo: “Que o exílio não é um mal”


Roberto Torviso Neto (UFF)

Esta comunicação visa ser uma apresentação comentada de tradução rascunhada da Diatribe
IX de Musônio Rufo, discutindo pontos importantes da reflexão deste estoico a respeito do
exílio. Tendo sido esta uma fonte crucial na pesquisa de mestrado sobre o cosmopolitismo
cínico-estoico, julgamos ser de interesse acadêmico expor uma primeira versão em português
do texto redigido a partir do original grego compilado por Hense em 1905 com suporte uma
tradução em língua inglesa.
Palavras-chave: Musônio; estoicismo, cosmopolitismo; exílio.

MESA 7
Arte e representação na contemporaneidade

Hermenêutica e crítica da representação


Rodrigo Viana Passos (PUC-Rio)

O presente trabalho objetiva refletir sobre o conceito de “representação” (Darstellung) no


pensamento de H-G. Gadamer. Em suas considerações acerca do modo de ser da obra de arte
o autor propõe a superação daquilo que ele chama de “consciência estética” (ästhetischen
Bewußtsein), que reduziu (ou até aniquilou) o âmbito de verdade da arte, ao considerá-la
apenas como um objeto estético. Em resposta a isso, Gadamer fundamenta uma ontologia
hermenêutico-fenomenológica da arte, tomando por ponto de partida conceitos com os quais
pretende construir a sua compreensão acerca da experiência da arte e daquilo que chamará de
“ser estético” (ästhetischen Seins). Jogo (Spiel), transformação em configuração
(Verwandlung ins Gebilde), mediação (Vermittlung), símbolo (Symbol) e festa (Fest). Com tal
arcabouço conceitual, Gadamer pretende apontar para o modo de ser da obra de arte,
reavivando o âmbito privilegiado de experiência de verdade que o fenômeno artístico nos
abre. É então que emerge nosso conceito-problema: representação. Parece bastante
consequente que Gadamer atribua elevada importância a ele, afinal é um conceito-chave de
toda a estética (e de todo o pensamento moderno). Nesse sentido, Gadamer se insere mais
ainda no “campo de batalha” da estética, e do pensamento moderno em geral, ao pretender
oferecer a sua interpretação e uso ao conceito de representação enquanto Darstellung em
oposição a Vorstellung. O outro e, pensamos, mais importante âmbito de investigação é
aquele da própria funcionalidade e produtividade do conceito para o pensamento
gadameriano.Gadamer o utilizará em dois momentos e sentidos-chave, que se comunicam e
complementam: a representação enquanto execução, interpretação, realização das artes
transitórias; e representação enquanto presentificação do ser nas artes estatuárias. A tarefa
primordial aí é explicitar a profunda imbricação de ambas as dimensões da representação,
para se dizer do modo de ser da obra de arte como declaração atualizada da verdade – ou
presentificação atualizadora do ser.
Palavras-chave: Gadamer, Hermenêutica, Arte, Representação.

História e linguagem em Fim de Partida, de Samuel Beckett


Daniel Alves Gilly de Miranda (UNESP)

Resumo: O trabalho propõe uma análise da peça teatral Fim de Partida, do autor irlandês
Samuel Beckett, a partir da concepção da obra de arte em sua dimensão histórico-filosófica.
Assim, proponho uma leitura da obra no contexto de uma resposta aos procedimentos
técnicos da ordem social capitalista da época e à proximidade da destruição causada pela
Segunda Guerra Mundial. Essas condições históricas não necessariamente serão
desenvolvidas como um tema na produção artística de Beckett, mas se refletem em sua obra a
partir da elaboração de técnicas dramatúrgicas e de um esforço linguístico de criação voltados
para a expressão de uma ordem social e política nova, na qual muitos dos pressupostos
dramatúrgicos legados pela tradição precisam ser contestados e reformulados. Assim, nas
construções dialógicas novas, na ideia de natureza como história e como decadência, na
deformação física e espiritual das personagens, na violência anônima e indizível que cerca
todo o palco, etc., o que se tenta expressar é um novo estatuto da linguagem e da
racionalidade que não pode mais se apresentar dentro das convenções de uma construção
dramática tradicional. Nesta apresentação, pretendo apresentar as novas possibilidades de
expressão de uma condição histórica da humanidade através da obra beckettiana, assim como
as eventuais limitações de ação e criação que foram colocadas
por ela.
Palavras-chave: Teatro; História; Linguagem; Natureza.

Descartes não tinha amigos: pensando a relação entre ensaio e filosofia


Jessica Di Chiara (UFF)
Partindo de uma leitura do texto “O ensaio como forma”, de Theodor W. Adorno que, além de
introduzir uma reflexão sobre a forma da crítica de arte, pensa ao mesmo tempo a
controvérsia e a resistência ao ensaio desde dentro do pensamento filosófico, esta
comunicação pretende apontar como a questão da amizade aparece como um fundo comum
ao desenvolvimento do ensaio como forma. Para tanto, propõe-se acompanhar de perto as
referências à história da filosofia que Adorno utiliza para pensar o ensaio, a saber: Michel de
Montaigne, René Descartes, o primeiro Romantismo Alemão, Georg Lukács e Walter
Benjamin. Num primeiro momento, apresentarei as referências utilizadas por Adorno para
pensar a modernidade filosófica bifurcada entre 1) o surgimento do método científico (com
Descartes) e, com isso, de um impulso sistemático e cientificista de produção do pensamento,
e 2) o surgimento do ensaio e, com ele, de um impulso formal que desejaria aproximar a
filosofia da arte. Já a segunda parte dessa comunicação será dedicada a explicitar de que
modo relações de amizade (seja entre pessoas, seja entre saberes) produzem pensamentos
filosóficos, explicitando, com esse gesto, a afinidade eletiva entre a forma do ensaio e a
forma da filosofia.
Palavras-chave: Theodor W. Adorno; Michel de Montaigne; ensaio; amizade.

MESA 8
Diálogos Foucaultianos: Loucura, Poder e Gênero

A construção do moderno e da loucura:


mulheres nos Sanatório Pinel de Pirituba (1929 – 1944)
Juliana Suckow Vacaro (USP)

Na primeira metade do século XX, na cidade de São Paulo, muitas mulheres foram internadas
em instituições destinadas ao tratamento de doentes mentais. No contexto da industrialização
e crescimento populacional da cidade é possível observar uma grande mudança na vida
cotidiana das mulheres e homens que ali viviam. A emancipação da mulher e os novos papéis
destinados a esta passam a ser discutidos em todos os setores da sociedade, incluindo
médicos e profissionais da saúde. A partir deste contexto este trabalho apresenta uma
investigação acerca da vida das mulheres internadas no Sanatório Pinel de Pirituba entre os
anos de 1929 e 1944. O tema é abordado por meio da análise dos prontuários médicos
produzidos acerca das pacientes, documento este que revela, além da prática médica da
psiquiatria da época, os modos de vida das mulheres internadas.
Palavras chave: Mulheres; Loucura; História; São Paulo; Século XX.

Uma abordagem criminológica sobre a analítica do poder em Foucault no


controle do corpo das mulheres
Simã Catarina de Lima Pinto (UFF)

O controle exercido sobre o corpo das mulheres, analisado a partir de uma abordagem
criminológica crítica, dá-se com base em discursos que legitimam esse controle por meio de
micropoderes. No campo do saberes, a criminologia, conforme aponta Andrade (2017, p.
128), foi aquele que talvez tenha se constituído de forma mais aprisionada ao adrocentrismo,
“com seu universo até então inteiramente centrado no masculino, seja pelo objeto do saber (o
crime e os criminosos), seja pelos sujeitos produtores do saber (os criminólogos), seja pelo
próprio saber.” (ANDRADE, 2017, p. 128-9).
É por meio da criminologia crítica que é possível compreender que a sociedade
corporativa e verticalizada, nos termos colocados por Zaffaroni, assume seu poder sobre três
vigas mestras: o poder do pater familiae, caracterizado pela subordinação da mulher e seu
policiamento; o poder punitivo, exercido pela vigilância e eventual coerção disciplinar e pelo
poder do saber do domínio da ciência senhorial (ZAFFARONI, 2003, p. 20-1). Essa
sociedade que se funda num poder hierarquizado opera em diferentes níveis e se efetiva
nessas esferas apontadas, respectivamente, no ambiente privado, no ambiente estatal, voltado
ao sistema dejustiça criminal e, por último, no âmbito do saber institucionalizado.
A partir disso, a intenção aqui é trabalhar na compreensão dessas três vigas mestras
colocadas por Zaffaroni relativamente aos três conceitos chave em Foucault: a microfísica do
poder, o poder disciplinar e a relação do poder-saber. Na relação que se estabelece entre esses
três conceitos de Foucault e as três vigas mestras de Zaffaroni é possível compreender a
transição do poder que ocorre nesses tres âmbitos. Deste modo, o primeiro deles, a
microfísica do poder, refere-se ao poder que “é exercido em toda a sua espessura, em toda a
superfície do campo social, segundo todo um sistema de intermediações, conexões, pontos de
apoio, coisas tênues como a família, relações sexuais, moradia etc.” (FOUCAULT, 2015, p.
207) O poder se desloca e escapa de um ponto específico e se coloca como estratégia. O
segundo deles, diz respeito ao poder disciplinar, exercido pelo poder de punir estatal, mas
legitimado por meio de uma microfísica do poder que está presente não de forma centralizada
ou localizada em alguma instituição ou mesmo no Estado, mas num outro nível
(FOUCAULT, 2014, p. 30). Trata-se de micropoderes que operam disciplinarmente e de
forma capilarizada, o que permite que o controle social se dê por meio de sutilezas. É
importante observar que tanto o poder do pater familiae quanto o poder punitivo são
marcados pelo poder disciplinar, mas um no âmbito da vida privada e o outro no âmbito da
vida pública.
Quanto ao poder do saber do domínio da ciência senhorial colocado por Zaffaroni,
visto a partir da relação entre poder e saber em Foucault, a convergência de ambos se faz na
legitimação do poder punitivo pelo seu domínio da ciência penal, o que converge ao que
Foucault apontou no sentido de que a produção do saber se dá a partir do poder, na medida
em que “poder e saber estão diretamente implicados; que não há relação de poder sem
constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao
mesmo tempo relações de poder” (FOUCALT, 2014, p. 31).
É, portanto, a partir da convergência entre os conceitos de Zaffaroni e Foucault que se
pode observar por quais meios o controle sobre o corpo das mulheres ocorre no âmbito da
criminologia crítica.

Palavras chave: Controle. Mulheres. Microfísica do poder. Criminologia.


Corpo: superfície de inscrição da normalidade (loucura, criação e
resistência)
Daniela Lima (UFF)

O grau zero da loucura é inacessível, visto que seus contornos só aparecem no momento
mesmo da cisão com a razão. Seu estado puro, selvagem, primitivo, indiferenciado, sem
separações, não é acessível. Aquilo que entendemos por loucura se constitui quando as
normas estabelecem os limites da razão. Portanto, falar de loucura é falar da força das normas
que a constituem. A loucura é essa imagem amorfa, heterogênea, mutante: cada sociedade
determina o que seria o pensar, o agir e o sentir daqueles considerados loucos. Segundo
Michel Foucault, a loucura não é um fato da natureza, mas um fato da civilização. Não existe
civilização sem loucura – sempre que a norma padrão se estabelece, a imagem da loucura
ganha contornos. Qualquer processo de invenção de novas normas é considerado anormal ou
desviante, visto que coloca a norma padrão em risco. A norma padrão restringe modos de
vida e, consequentemente, determina os modos de vida desviantes. Ninguém enlouquece
segundo seus próprios desígnios, mas perante as normas padrão previstas pela sociedade da
qual é membro. Partindo da obra de Foucault, essa comunicação pretende expor a norma
padrão como forma de controlar, estigmatizar e excluir a diferença, bem como analisar o
potencial criativo dos modos de vida desviantes.
Palavras-chave: Michel Foucault; loucura; norma; criação.

MESA 9
Epistemologia Contemporânea Francesa

Do animal às controvérsias científicas: indagações em torno do comum


Rafael de Paula Taveira Rodriguez Meire (PUC-Rio)

Em Politiques de la nature, como em outros de seus trabalhos, Bruno Latour (1999) situa o
problema da “composição progressiva do mundo comum” em um regime de pensamento cujo
ponto de partida seja a crítica à partição clássica entre “questões ontológicas” e “questões
epistemológicas”. Segundo o autor, essa partição assegura não apenas o caráter
pretensamente apolítico da epistemologia como também a organização da “vida pública” em
dois grandes compartimentos: de um lado, a natureza objetivada, sua transcendência e aquilo
a que, no encalço da noção de Ciência (grafada no singular e em maiúsculas), chamamos de
“fatos”; de outro lado, a sociedade e o dissenso entre os atores políticos humanos, o aspecto
ao mesmo tempo subjetivo e relativo de seus pontos de vista, e aquilo a que, no encalço da
noção de Política (também no singular e em maiúsculas), chamamos de “valor”. Rejeitando
tal divisão, a proposta latouriana aposta não no corte, mas na continuidade entre essas duas
instâncias, de modo a valorar o aspecto instável, parcial, progressivo e intermitente da busca
de um “comum”, de um mundo comum – redesenhando o horizonte de um relacionismo
cujos pontos de partida sejam não a unidade e a identidade, mas o múltiplo e o diverso.
Embora não faça interlocuções diretas com Latour (mas antes com Michel Foucault, Deleuze
& Guattari, Roberto Espósito, entre outros), esses problemas são caros à discussão de Gabriel
Giorgi (2016) em Formas comuns: animalidade, literatura, biopolítica. Ao colocar o animal
no centro da discussão, e rastreando produções literárias latino-americanas a partir dos anos
1960 (Lispector, Rosa, Puig, Copi e Noll), Giorgi propõe articulações teóricas entre o corpo,
a língua e a cultura de modo a destacar tanto o caráter anárquico da sexualidade, do contágio,
da classe e da raça quanto sua pertinência para que repensemos nossas comunidades.
Inscrevendo-se para além de gramáticas modernas, o comum, para Giorgi (como para
Latour), se não tem como pressuposto a objetivação dos corpos ditos naturais, não responde,
tampouco, à objetivação dos corpos sociais e/ou culturais. Em outras palavras: se tanto num
caso como no outro a natureza objetiva é posta em questão – e, com ela, os “fatos” científicos
–, isso não significa dizer que o conhecimento se restrinja a constructos sociais, tendo como
limite o relativismo dos pontos de vista. Antes, a esfera cultural explorada por Giorgi, via
literatura, e os coletivos descritos por Latour, via “controvérsias científicas”, apontam para
uma terceira via. A presente comunicação buscará discutir essas questões, dando destaque ao
papel da linguagem enquanto agente que, em continuidade com outros “não humanos”,
concorre para a emergência de processos de alteridade – problema que encontra formulações
interessantes em ambos os autores.
Palavras-chave: comum; relacionismo; coletivos; literatura

O problema do estilo em epistemologia e a epistemologia histórica francesa:


Fleck, Canguilhem, Foucault

Caio Souto (UFSCar)

O problema do “estilo de pensamento” em epistemologia parece ter tido uma primeira


formulação por Ludwik Fleck, que o deslocou de sua acepção originária na “sociologia do
conhecimento” e o empregou para a compreensão do conhecimento científico. Antes de
Fleck, Mannheim, por exemplo, já havia empregado o termo Denkstil de um modo genérico
para a história do pensamento e da arte, construindo uma “sociologia do conhecimento” que
tinha como objeto o “estilo de pensamento” de diferentes contextos e épocas, buscando
compreender como esses estilos “crescem e se desenvolvem, fundem-se e desaparecem”. Sua
abordagem não deixou de receber duras críticas de autores que alegaram que, no âmbito da
ciência, ela apenas revelava o que levaria à compreensão do “contexto da descoberta”
científica, não tendo nada a dizer a respeito do “contexto da justificação”, este sim
pertencente ao domínio da lógica e da epistemologia (segundo a introduzida por Reichenbach
em Experience and prediction, de 1938). Posteriormente, diversos autores buscaram reabilitar
a tarefa de uma “sociologia do conhecimento” que não se limitasse ao “contexto da
descoberta”: Merton, e a exploração do aspecto institucional da ciência; Kuhn e a análise da
importância das comunidades científicas como proporcionando os fundamentos para o
exercício de uma “ciência normal”; o Programa Forte para a epistemologia da Escola de
Edimburgo (Barnes e Bloor) e sua proposição de uma teoria social do conhecimento
científico que faz da ciência uma representação coletiva expressando uma correspondência
entre ordem cognitiva e ordem social; além de autores mais recentes como Bourdieu e Latour.
Mas a proposta original de Fleck não era exatamente esta, e talvez ela esteja mais próxima de
outra corrente do pensamento contemporâneo, que poderíamos caracterizar como possuindo
também um estilo próprio: a epistemologia histórica francesa (Bachelard, Koyré,
Canguilhem, Foucault). Embora não seja possível afirmar que estes autores franceses
tivessem conhecido ou sido influenciados diretamente pela obra de Fleck, há muitos pontos
em comum que sugerem um encontro entre suas obras. Trata-se de examinar os a priori (estes
sim contextuais e historicamente modificáveis) dos quais se destacam o discurso específico
das ciências, em sua historicidade intrínseca e irredutível ao contexto. Propomos, assim,
compreender as relações entre os conceitos de Denkstil (em Fleck), de ideologia científica
(em Canguilhem) e o de episteme (em Foucault), apontando para uma possível convergência
que nos permite superar o “sociologismo” sem recair numa epistemologia de estilo analítico,
nem praticar uma história propriamente internalista.
Palavras-chave: epistemologia; racionalidade; história; sociologia do conhecimento.

A noção do tempo como instante em Gaston Bachelard


Zander Lessa Gueiros (UFF)

O objetivo deste trabalho é apresentar a concepção bachelardiana do tempo como


descontínuo. A noção do tempo como instante vertical está presente nas obras A intuição do
instante (1932) e A dialética da duração (1936). Tema central na metafísica bachelardiana, o
tempo descontínuo perfaz as duas vias do espírito no pensamento do autor e une,
dialeticamente, a ciência fenomenotécnica (que realiza um conjunto de procedimentos
experimentais e racionais para produzir fenômenos técnico e matematicamente constituídos)
e o sonho poético das imagens cósmicas. Quer através da análise dos obstáculos e atos
epistemológicos, quer pelo devaneio poético da imaginação criadora, pela proliferação
ininterrupta de imagens literárias que emergem da mente do poeta, o instante vertical rompe
com as correntes do senso comum para elevar o espírito ascensionalmente.
No discurso preliminar de A formação do espírito científico: uma contribuição para a
psicanálise do conhecimento objetivo (1938), Bachelard divide a evolução do pensamento
científico em três etapas de desenvolvimento: o estado pré-científico (estado concreto), que
compreende a antiguidade clássica, o Renascimento e os séculos XVI, XVII e XVIII. O
segundo período representa o estado científico (concreto-abstrato), que começa na segunda
metade do século XVIII, atravessa todo o século XIX, até o início do século XX. Na primeira
década do século XX, com o advento da teoria da relatividade, com o surgimento das
geometrias não-euclidianas, da mecânica quântica, a ciência contemporânea adentrou no
novo espírito científico, denominado estado abstrato em função da proliferação das mais
audaciosas abstrações racionais e técnicas, que fomentam bruscas mutações intelectuais, que
rompe com paradigmas clássicos, proclamam o declínio de princípios considerados
imutáveis, que retificam verdades ditas absolutas e universais.
Da penetração na natureza íntima do universo subatômico à investigação do
macrocosmo, o novo espírito científico inaugura um território epistemologicamente novo,
marcado pelo movimento que se desloca do racional ao real, da alternância do a priori e do a
posteriori, dos valores racionais aos experimentais, é fundamental para esclarecer os
meandros que o saber científico adquiriu na atualidade.
Em sua poética de imaginação material, por sua vez, o filósofo francês nos incita a
explorar o nosso imaginário cósmico produtor de universo estético a partir da nossa interação
com o mundo sonhado. São símbolos ou metáforas de sua filosofia dos elementos ou da sua
biblioteca de imagens literárias ou celeiro rizomático da imaginação material: o
aniquilamento, a anulação de si, ao mesmo tempo, a vitalidade, a renovação e a purificação
do fogo; o turbamento aquático promovido pela viagem onírica do elemento água que nos faz
mergulhar nas lembranças melancólicas da infância, no vertiginoso tumulto das
profundidades psíquicas, mas também a água cristalina que, em sua corrente, desperta a
psique do sonhador para a renovação; o psiquismo ascensional do elemento aéreo que nos
possibilita, sob o dinamismo da verticalidade, deslocarmo-nos para as regiões mais abissais
aos vértices das alturas do psiquismo, em ininterruptos sonhos de voo e quedas imaginárias; o
devaneio terrestre representa a imaginação criadora e a força interior do artista na produção
estética sobre a matéria resistente, revelando-nos um permanente confronto entre o mundo e o
sujeito na transformação incessante da matéria.
Palavras-chave: Gaston Bachelard; Epistemologia; Poética; Instante vertical.

MESA 10
Benjamin, Lukács e a estética marxista

A guinada ao marxismo de Lukács


Bruno Victor Brito Pacífico (UFF)

Esta comunicação tem a intenção de apresentar a virada ontológica de György Lukács. Meu
objetivo é apresentar esta viragem a partir dos estudos de Lukács sobre uma estética
subjacente nas análises econômicas de Marx e Engels. Para contextualizar esta questão,
utilizarei as análises sobre o desenvolvimento histórico dos gêneros literários elaboradas pelo
filósofo húngaro.
A Teoria do romance foi redigida ainda quando Lukács era jovem, entre 1914-15, publicada
como livro somente em 1920. Neste sentido, devo analisar esta obra como um fruto do estudo
pré-marxista do autor. No segundo, O romance como epopéia burguesa, redigido em 1937, é
considerado pelo próprio filósofo uma reflexão mais madura sobre o tema. Este tem como
uma de suas finalidades é retomar as discussões presentes na obra juvenil de 1920, contudo
analisa as questões levantadas na obra anterior a partir da ótica do método marxista.
Lukács indica a diferença entre os métodos hegeliano e marxista. Ela é referenciada na noção
do desenvolvimento da literatura encarada por duas perspectivas que podem ser distinguidas
através da análise histórico-filosófica (hegeliana) e a materialista histórico-dialético
(marxista). Ambos os métodos utilizados têm a finalidade de compreender a correspondência
entre a epopéia e o romance.
Em Teoria do romance, Lukács revela a sua transição teórica do idealismo subjetivo de Kant
para o idealismo histórico-objetivo de Hegel. Vemos que a Teoria do romance mostra uma
vinculação bastante evidente entre a estética e as formas artísticas às épocas históricas. A
partir desta vinculação decorre a possibilidade de vermos uma profunda vinculação entre a
arte e a sociedade. Com a adoção do método marxista, a perspectiva de investigação de
Lukács tem como objetivo compreender a vinculação das formas da arte com o
desenvolvimento histórico da sociedade de modo concreto, isto é, sem a abstração do método
hegeliano (COUTINHO, NETTO, 2009, p. 09).
Palavras-chave: Literatura, Marxismo, Hegelianismo, História.

Os contos de Walter Benjamin


José Maurício Franklin Azevedo de Castro (UFF)

Existe uma parte da obra de Walter Benjamin que aparece com um caráter ficcional: a
sua produção de contos. Pequenas narrativas que foram escritas desde sua juventude até o
período de maturidade de seu pensamento dos anos 30. Walter Benjamin, mais conhecido
pelos seus trabalhos no campo da filosofia estética e crítica literária, também possuiu o desejo
de narrar. O objetivo deste trabalho é, a partir da análise dos ensaios de Walter Benjamin que
tratam do tema da narrativa, em particular os textos “A crise do romance: sobre Berlin
Alexanderplatz de Döblin” (1930) e “O contador de histórias: considerações sobre a obra de
Nikolai Leskov” (1936), pensar as transformações ocorridas no campo da narrativa na época
moderna conjuntamente com a proposta estética oferecida pelos seus próprios contos.
O romance aparece como gênero narrativo predominante na época moderna. Carrega
em si características diferentes das conhecidas narrativas tradicionais – epopeia, lendas,
contos de fadas – que possuem na oralidade o seu canal comunicativo. O romance aparece em
outro meio, no livro, através da escrita, e isso gera importantes consequências para a
narrativa, tanto para a sua forma de apresentação quanto para o seu modo de recepção.
Veremos que as análises de Walter Benjamin sobre o gênero romanesco são, na maioria das
vezes, de cunho negativo. As características do gênero e a recepção de seu público, a leitura
privada e isolada, acarretam problemas para a transmissibilidade do conteúdo. Para ele, há
uma dupla perda: a incapacidade de trocar experiências e a perda da capacidade de contar
histórias. Mostraremos como Benjamin busca nesses ensaios descobrir alternativas para
determinados impasses decorrentes de alguns aspectos do romance.
Acreditamos que uma das saídas para os problemas da narrativa moderna encontram-
se na própria escrita do autor que também almejou escrever as suas histórias. Talvez mais
conhecido pelos seus ensaios sobre autores que, segundo ele, buscavam levar o romance para
um outro patamar, retirando-o de suas armadilhas convencionais, criticando-o e modificando-
o, tais como Proust, Kafka, Leskov e Döblin, por exemplo, Benjamin nos seus contos nos dá
também uma alternativa para pensarmos as consequências da narração moderna. Por que
então não aliarmos a seus ensaios estéticos sobre a literatura e os romancistas aquilo que
aparece na própria ficção do autor como proposta estética? Olharemos para suas histórias à
luz de seu pensamento crítico sobre a literatura. Mas também olharemos para suas histórias
como experiências estéticas que iluminam o seu pensar sobre as narrativas.
Palavras-chave: Contos de Walter Benjamin, narrativas, romance, modernidade
A narrativa na estética materialista de Walter Benjamin
Matheus Fernandes Pinto (UFF)

No ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, Walter Benjamin


apresenta-nos um novo paradigma teórico para a análise de objetos artísticos. Por um lado, a
obra de arte possui uma existência material enquanto produto de uma determinada tecnologia,
ou fruto de um determinado modo de produção. Por outro lado, a obra de arte possui uma
dimensão política, uma vez que gera um tipo particular de público, induzindo no mesmo uma
série de reações e relações específicas. Os dois aspectos do objeto artístico são
complementares, de modo que, no caso sintomático do cinema, por exemplo, as obras de arte
cinematográficas são produzidas por técnicas de reprodução mecânica, as quais permitem a
recepção em massa das obras e também conformam as massas a uma espécie particular de
recepção, a qual oscila entre os pólos da atenção dispersa e do juízo crítico.
O quadro teórico desenvolvido no ensaio possibilita-nos compreender a inserção das
obras de arte no conjunto dos bens culturais humanos, evidenciando o papel representado por
uma forma artística no conjunto das técnicas de uma sociedade, mas também esclarecendo
nesse processo a função social exercida pela própria técnica. No entanto, se a teoria
benjaminiana parece se adequar especialmente ao estudo de formas artísticas contemporâneas
particularmente entrelaçadas à tecnologia, como o cinema e a fotografia, permanece incerta a
sua aptidão para a análise de outras formas de arte. No ensaio, Benjamin afirma que as
técnicas de reprodução mecânicas engendraram terríveis consequências na literatura, mas não
descreve quais são essas consequências e como elas se produziram. Fica um convite a
reflexão: como o pensador, que se notabilizou desde o início de sua carreira acadêmica pela
maestria na análise literária, enquadra o reino da narrativa no âmbito de sua estética
materialista, desenvolvida em seus trabalhos tardios da década de 30?
Nosso trabalho pretende delinear a concepção de narrativa presente na estética
materialista de Walter Benjamin, mediante o exame de dois ensaios, “O Narrador” e o “Autor
como produtor”. Se desejamos compreender o efeito produzido pelas técnicas de reprodução
mecânica na narrativa, precisamos em primeiro lugar distinguir a narrativa escrita, e em
particular os gêneros de narrativa que se valem dos meios de reprodução em massa da
escritura, de sua antecedente, a narrativa oral. O ensaio sobre o narrador irá descrever não
apenas as marcas deixadas pela oralidade nesse tipo de narrativa, mas também irá sugerir a
função social exercida por esta forma artística no interior das sociedades. Contra o pano de
fundo da descrição da narrativa oral, apresentaremos a reflexão, presente em “O Autor como
produtor”, acerca de uma crise da literatura escrita e da revolução necessária para a
revitalização da função social das narrativas nas comunidades contemporâneas, nas quais o
império das técnicas de reprodução mecânica demandam uma nova maneira de pensar a arte.
Palavras-chave: Walter Benjamin, narrativa, técnica, estética materialista

QUARTA-FEIRA, 14 DE NOVEMBRO

MESA 11
Platão I

Notas sobre o problema da degradação em Platão


Yasmin Tamara Jucksch (USP)

O mal não é um tema filosófico que seja objeto de tratamento sistemático e orgânico nos
diálogos platônicos. No entanto, nota-se que as ocorrências do tema são abundantes, embora
fragmentárias, e que o tratamento de diferentes aspectos do mal é bastante direto. Isso mostra
que o problema do mal não se limita, na obra platônica, apenas às implicações contidas nas
afirmações ou discussões sobre o Bem (enquanto princípio metafísico) ou sobre o bem agir
(enquanto princípio ético). Todavia, a reunião dessas numerosas ocorrências não
necessariamente manifesta a coerência conceitual que seria esperada para a admissão
unânime da existência de uma tese platônica sobre o mal, a ser extraída do conjunto de
diálogos. A primeira dificuldade encontra-se justamente na notável diversidade de más
condições ou circunstâncias postas em discussão por Platão através de seus personagens:
desde o decaimento ontológico dos fenômenos em relação à realidade perfeita das Ideias até
os males provenientes da ignorância e da confusão cognitiva, deturpadoras do juízo e das
determinações axiológicas, numerosos são os males abordados ao longo da obra platônica.
Nesta comunicação, buscaremos investigar a possibilidade de sustentar uma possível relação
fundamental de afinidade entre males psíquicos, morais e fenomênicos, tomando como base
certas passagens fundamentais do Timeu para o tratamento do tema.
Palavras-chave: Platão, mal, Timeu, ontologia.

O princípio da ananké no Timeu de Platão


Luciana Valesca Fabião Chachá (PPGLM-UFRJ)
O diálogo platônico Timeu postula vários princípios a fim de explicar a gênese do
kósmos. Talvez o mais importante deles seja o noûs ou Demiurgo, princípio de inteligência
que ordena todas as coisas segundo um fim, a saber, o melhor. Assim, ordem, inteligência e
bondade ou o Bem estão intimamente associados na cosmologia platônica. Contudo, Platão
admite que o kósmos não é perfeito. Ele é somente o melhor possível, pois atua nele um outro
princípio, a Necessidade ou Ananké, responsável pela desordem e desarmonia que, por vezes,
ocorre no mundo. De fato, contrariamente ao noûs, ele não age segundo fins, mas
erraticamente. Assim, se ele produz boas coisas é apenas por mero acaso.
Isso posto, a presente comunicação tem por objetivo analisar o princípio da
Necessidade ou Ananké no Timeu. Em segundo lugar, por considerar a Necessidade como um
princípio explicativo para a desordem exibida pelo kósmos, argumentar-se contra a visão de
Taylor e Cornford sobre esse princípio. O primeiro considera a Necessidade um “fato bruto”.
Cornford, por sua vez, argumenta que a Ananké são os meios usados pelo Demiurgo a fim de
atingir um objetivo. Por fim, pretende-se defender que a Necessidade, como um princípio
explicativo dos traços de desordem e desarmonia por vezes presentes no mundo, poderia
explicar a imperfeição ou até mesmo o mal.
Palavras-chaves: Platão. Timeu. Cosmologia. Necessidade

O que está por trás das três ondas


Heloise dos Santos Maia (UFF)

O Livro V da República de Platão é uma continuação dos Livros anteriores ao que se refere a
formação da cidade ideal. Aqui Sócrates apresenta a imagem das três ondas: a primeira trata
acerca da lei das mulheres, se podem desempenhar ou não a função de guarda caso possuam
uma natureza voltada para tal ocupação. A segunda trata do pertencimento das mulheres pelo
guardas, os casamentos controlados pelos dirigentes e o desconhecimento entre pais e filhos.
A terceira e mais árdua onda trata da escolha do Rei-filósofo como sendo aquele mais capaz
de governar a cidade. Isto levará Sócrates, a partir daqui, a discutir acerca da episteme e da
doxa. Afirma não serem objetos diametralmente opostos, dois extremos, mas sim duas
faculdades intermediárias de acesso à verdade; pois faz-se necessário sair da leitura do senso
comum de que nos diálogos platônicos só há verdade ou ignorância, uma vez que o Livro V
mostra a opinião como sendo a coisa intermediária. Neste Livro encontramos de forma
enraizada não a oposição, mas a relação conhecimento/opinião, e a distinção entre philodoxo
e philosopho. Ambos possuem graus de conhecimentos diferentes. Aquele é amigo da
opinião, baseia seu conhecimento nas aparências e imagens, amante de espetáculos, das artes
e formas belas. Este alcança o conhecimento por meio da dialética, contempla as formas
inteligíveis, o belo em si, a verdade, sendo por isso aquele mais apto a governar a cidade.
Qual a diferença então entre os pensamentos de ambos os homens? Um se trata de
conhecimento o outro de opinião. Aquele que conhece, conhece algo que existe. Mas pode ser
que determinadas coisas existam ou não existam e que venham a ocupar posição
intermediária entre o ser puro e o não-ser absoluto. Logo, se o conhecimento corresponde ao
ser e a ignorância ao não-ser, o que seria então esta coisa intermediária? A opinião, a
conjectura. Portanto, a comunicação tratará acerca de uma breve exposição do Livro V e suas
principais questões.
Palavras-chave: Philodoxo. Philosopho. Episteme. Doxa.

MESA 12
Pensando a arte contemporânea

Estética da angústia:
sobre o infamiliar de Freud e as práticas artísticas contemporâneas
Juliana de Moraes Monteiro (PUC-RJ)

O artigo pretende investigar o campo contemporâneo da arte a partir do conceito "das


Unheimliche" proposto por Freud em 1919. A partir desta palavra de difícil tradução, já que
no original em alemão ela comporta uma ambiguidade constitutiva ao justapor a dimensão do
estranho e do familiar em um mesmo conceito, busco compreender certas práticas artísticas
nas quais a estranheza se inscreve como uma marca das obras do nosso tempo. Se as obras de
arte contemporâneas aparecem como formas patológicas de linguagem, trata-se do que Freud
enunciou como o retorno do recalcado, isto é, algo que foi esquecido no curso dos processos
históricos, mas que governa secretamente os discursos e as práticas. Nesse sentido, o gesto
inaugural de Marcel Duchamp de elevar um objeto banal ao estatuto de obra de arte assinala
um problema, na medida em que perverte o mundo familiar da esfera estética ao produzir um
estranho efeito. É notável que a formulação do conceito de Freud e as criações de Duchamp
fundadoras da arte contemporânea tenham ocorrido simultaneamente. Ao recuperar esse
conceito de Freud, proponho pensar a arte contemporânea como um espaço que engendra o
que Clarice Lispector, criando um neologismo na língua portuguesa em "A paixão segundo G.
H.", chamou de infamiliaridade, palavra que corresponderia ao unheimlich freudiano. Nesse
sentido, o infamiliar diz respeito a algo que deveria ter permanecido escondido mas que veio
à luz, segundo a definição de Schelling presente no texto de Freud. O que as manifestações
artísticas contemporâneas evidenciam é o caráter angustiante e assustador da arte, que teria
sido obliterado para que a Estética operasse como um território no qual os homens viam-se
reconhecidos na familiaridade do mundo que os circundava. Neste texto, exploro o lado
unheimlich da arte na medida em que interpreto as obras contemporâneas como exemplares
daquilo que Freud descreveu como sendo as repulsivas e dolorosas sensibilidades.

Palavras-chave: infamiliar; arte contemporânea; Freud; angústia.

Ações estético-políticas: performando interseções entre arte e ativismo


Pedro Caetano Eboli Nogueira (PPGDesign-PUC-RJ)

A comunicação se destina a elucidar os vínculo entre arte e política, tomando como objeto
algumas ações de ativismo urbano perpetradas por dois coletivos e expostas como trabalhos
de arte. Tratam-se de ações promovidas pelos coletivos Frente Três de Fevereiro e Política do
Impossível, ambos sediados na cidade de São Paulo e ativos na primeira década de 2000.
Enquanto as intervenções do primeiro confrontavam o racismo institucionalizado, as do
segundo questionavam os processos de gentrificação que assolavam o bairro da Luz.
Contudo, apesar das pautas comuns aos movimentos sociais, suas formas de aparecimento
são submetidas a um cuidado específico. Invariavelmente efêmeras, estas ações foram
transpostas para mostras de arte através de suportes documentais, muitos deles incorporados
às coleções dos museus. De acordo com o pensamento de Jacques Rancière, apresentamos as
íntimas imbricações que a política estabelece com a estética, para então definirmos o traçado
conceitual de nossa hipótese: a de que haveria um pensamento poético subjacente às ações de
ativismo supracitadas, possibilitando sua inserção orgânica no meio da arte. Elucidamos de
que forma este é o ponto de interseção entre o conjunto de lógicas que estrutura o ativismo
político dos coletivos e os horizontes possíveis identificação da arte no contemporâneo,
âmbito que Jacques Rancière denomina Regime Estético. Deste modo, explicitamos a
existência de alguns princípios comuns entre os ativismos em questão e os horizontes
sensíveis próprios à arte no contemporâneo: a recusa de um télos nas ações de ativismo,
análogo à ruptura das relações de causas e consequências que estrutura a arte; a recusa ao
devir comunicativo da linguagem em ambos; um cuidado formal, similar àquilo que Roland
Barthes chama de Responsabilidade da Forma.
Palavras-chave: política da estética, estético-políticas, coletivos urbanos, arte e política

O fim da ligação entre Arte e Estética


Rosi Leny Morokawa (PPGLM-UFRJ)

Para Timothy Binkley, em “Piece: Contra Aesthetic” (1977), a identidade da filosofia da arte
nasce ligada à estética e por este motivo até hoje alguns filósofos defendem a ligação entre
arte e estética. No entanto, segundo sua visão, a arte do século XX mostrou a independência
entre os dois conceitos. Ele propõe, então, que o termo “obra de arte” seja substituído pelo
termo “peça”, o que para ele se adapta melhor à produção artística do século XX, que ele
chama de arte “não-estética”. Binkley toma como exemplos centrais de seu argumento as
obras de Marcel Duchamp e de outros artistas conceituais. O termo “peça” usado no lugar de
“obra”, para Binkley, significa uma alteração importante do meio artístico, em que para
“obra” o meio era um objeto perceptual e para “peça” o meio é “um item indexado dentro de
uma prática”. Segundo Binkley, quando Duchmap fez suas primeiras peças não-estéticas,
fazer uma obra de arte ainda era considerado como algo que envolvia a articulação de um
meio, um suporte perceptual. Mas o que ele fez não foi somente uma exceção às práticas
artísticas do período, Duchamp instituiu uma nova convenção, uma convenção que admite
arte não-estética. Nesta comunicação pretendo (1) apresentar a crítica de Binkley à ligação
entre arte e estética e (2) analisar sua proposta de arte não-estética a partir de alguns
exemplos dados por ele: Desenho de De Kooning Apagado de Robert Rauschenberg;
L.H.O.O.Q. e L.H.O.O.Q. Shaved de Marcel Duchamp; e I Got Up de On Kawara.
Palavras-chaves: Estética; filosofia da arte; arte não-estética; arte do século XX

MESA 13
Questões Contemporâneas

A dúnamis da Igualdade:
uma reflexão sobre a “teoria das capacidades” de Amartya Sen
Thiago Augusto Passos Bezerra (PPGLM-UFRJ)

Para a tradição das teorias do “contrato social” a questão da justiça é intrínseca ao contrato
enquanto um acordo, estabelecido entre os indivíduos para fundamentar a agregação
comunitária e organizar a vida social. O pressuposto desse acordo fora entendido por
pensadores modernos de diversas formas, na medida em que versaram sobre a justiça em suas
várias nuances e facetas de liberdade e igualdade. É importante notar que essa discussão está
para além de qualquer circunscrição histórica, embora em cada período os pensadores
intentassem responder às demandas próprias e tenham apresentado soluções distintas. Ao
olhar em perspectiva a história da filosofia, são-nos apresentados pensadores tais como Kant,
que endossam a precedência da liberdade como fundamento de nossas ações políticas e
jurídicas. Por outro lado, situam-se pensadores como Aristóteles insistindo que a igualdade é
a base da justiça e, por conseguinte, deve ser a norteadora das políticas públicas. Configura-
se então como um dos principais problemas da filosofia política a tentativa de equacionar de
forma satisfatória a relação entre liberdade e igualdade. Nosso intento consiste em tratar da
abordagem que o filósofo indiano Amartya Sem faz do que chamaremos aqui de “teoria das
capacidades”. De acordo com a abordagem sobre as capacidades, o bem-estar e o
desenvolvimento devem ser discutidos em termos de capacidades para realização de
determinadas funções, quer dizer, sobre suas possibilidades efetivas para realização de
determinadas atividades que os indivíduos querem exercer diante das reais condições sociais
para ser quem querem ser. O conjunto formado entre “ser” e fazer” é o que Sen chama de
“achieved functionings”. Trata-se do alcance da realização das funcionalidades de cada
indivíduo que faz com que cada vida seja valiosa. Para Amartya Sem, uma teoria da
igualdade interessante deve priorizar os indivíduos, mas também o entorno social que os
permitem desfrutar de liberdades que os conduzam ao tipo de vida que querem levar, fazendo
aquilo que planejam fazer e sendo a pessoa que desejam ser, portanto, mostrando o suposto
dilema Liberdade X Igualdade enquanto um pseudodilema.

Palavras-chave: justiça, igualdade, liberdade, política


Algumas relações entre Ontologia Social e Direito Penal
Michelle Cardoso Montoya (PPGLM-UFRJ)

Podemos considerar a Ontologia Social como um ramo da Ontologia em geral, que


busca analisar quais são as propriedades e qual é a natureza do mundo social. Analisa ainda,
várias entidades que promovem interações no mundo. Devemos destacar, que a Ontologia
Social investiga outras entidades que podem estar presentes nas interações dos grupos sociais
no mundo, tais como o dinheiro, as corporações e instituições, a linguagem, as raças, as
classes sociais, a lei e entre outras, o que amplia bastante o escopo desse ramo. Sendo assim,
utilizaremos alguns apontamentos da Ontologia Social para refletirmos acerca do que é o
crime, punitivismo e sanção no Direito Penal, tomando como ponto de partida as interações
presentes no mundo social.
Pensando no plano discursivo, devemos tratar de uma discussão muito importante, a
saber, sobre qual seria a relação entre linguagem e sociabilidade, bem como se a primeira é
capaz de construir o mundo social a partir do discurso ao impactar a segunda. Na teoria da
referência direta do significado de Kaplan e Recanati, vemos que conectamos palavras a tipos
sociais já construídos ao estabelecermos os valores semânticos das palavras que utilizamos.
Nessa concepção , a linguagem não construiria o mundo social, mas apenas se agregaria ao
que já está dado. Para autores convencionalistas como Quine e Gilbert, a linguagem exerceria
um papel muito importante no estabelecimento de convenções sociais , uma vez que seriam
fruto da arbitrariedade e da mera escolha. Já na teoria dos atos de fala, para Austin, a
linguagem não se limitaria apenas a descrever os estados de coisas do mundo, e por meio de
expressões performativas, poderia estabelecer fatos no mundo. Searle, compartilha dessa
posição, e em The Construction of Social Reality, busca apontar que as regras constitutivas
que são observáveis no mundo social, são produtos de atos de fala declarativos. Logo, de
acordo com a teoria dos atos de fala, a linguagem exerce um papel significativo na construção
do mundo social. E em nossa exposição, adotaremos a posição defendida pela teoria dos atos
de fala quanto a relação da linguagem com o mundo social.
Searle, em Making the Social World ,ao tratar do que chamou de Background power
para se referir a capacidade dos agentes sociais em exercer o poder nos mais diversos
moldes , que delineia o que é permissível ou passível de sanções, procurou mostrar como a
instituição social “governo”, utiliza seu poder e violência para manutenção da estabilidade
social. Jakobs e Zaffaroni, ao tratarem do “inimigo” no Direito Penal, buscam apontar como
tipificação das ações em crimes, trazem à tona a partir do poder de punir, a discriminação e
estigmatização do “inimigo”, e seu consequente aniquilamento. Então, trataremos em linhas
gerais de como se dá a sanção, a violência e a punição na instituição social “governo”
conforme Searle aborda, buscando refletir em seguida sobre o que é o crime à luz do direito
do inimigo de Jakobs e Zaffaroni.
Palavras-chave: Ontologia Social; Linguagem; “direito do inimigo”; mundo social.

Perceiving without representing: a response to Douglas Campbell


Deyvisson Fernandes Barbosa (PUC-RJ)

The word perception comes from latin perceptio which, roughly speaking, means a sort of
interpretation of the sensory information. Perception, on this view, no only is responsible for
grasping its object, but also for interpreting it in such and such way. If it is fair to say that
such a conception of perception is true, so an anti-representationalist take on perception is
simply considered off the table. Hutto & Myin (2017, 147) captured the spirit of this view
when they say that:
“[t]he assumption that perceiving must involve representational
content in this sense is usually bound up with the conviction that any
instance of perceiving must involve taking or depicting the world to
be a certain way such that it might not be that way (emphasis
added).”

Holding the opposite view, some philosophers have been promoting a (radically) anti-
representational view of perception. According to this view, perception should not be
understood as the source of our errors - here understood as errors applied to perceived
objects. On this account, perception tells us nothing, does not make inferences, and does not
represent features of the world in contentful ways (for an introduction to this account, see
Hutto & Myin 2017, more precisely, chapter 7). It is one thing, the story goes, to say that
perception is accompanied by representational attitudes. It is another thing to say that
perception is representational.

Prima facie, there is no clear contradiction by saying that perception is fundamentally


non-contentful and, at the same time, assuming that it is, sometimes, accompanied by
contentful attitudes, such as beliefs, desires, and judgments. The key assumption here is, I
think, that perception and representational attitudes can come apart. There is not such a thing
as a “representational perception” simply because perception is entirely non-representational.
Obviously, “judgments”, “point of view”, and “beliefs” are representationally contentful.
It appears that the localization of representational content in attitudes such as beliefs
and judgments plays two closely connected roles, as follows: first, this new location allows us
to explain how the possibility of error is given to us; second, to attribute the possibility of
error to these representational attitudes helps us clarify in what sense perception is a non-
representational cognitive attitude. The error, or more precisely, the susceptibility to optical
illusions, is, pace Campbell (2014), not made possible by perception. On contrary, it is made
possible because there is an additional attitude wich, in turn, (mis)represents the perceived
object. In short, this thesis can be formulated in the following way: (conceptual) error =
perception of the perceived object + a representational attitude (e.g., desires, beliefs, and
judgments) that misrepresents the perceived object.

With this debate in mind, my talk is structured into two main parts, as follows: in the
first half of my talk, I present (and revise) the Campbell's argument against the anti-
representationalist view of perception, the view that perception should be understood as
contentless action. In the second half, I develop a philosophical argument in order to motivate
a radically anti-representationalist conception of perception by showing some (insoluble)
theoretically-based problems that representationalism deals with.

Keywords: content; representation; perception; Campbell

MESA 14

Estética Alemã

Walter Benjamin: entre Goethe e os românticos


Thiago dos Santos Salem (UFF)

Walter Benjamin dedica a última seção de sua tese sobre O conceito de crítica de arte no romantismo
alemão à contraposição entre a teoria estética romântica e a goethiana. Intitulada, justamente, “A teoria da
arte primeiro romântica e Goethe”, essa seção parece se destacar do resto do texto, apresentando-nos
aquelas ideias que seriam mais próximas da concepção de crítica estética específica do autor. O próprio
Benjamin, em carta endereçada a Ernst Schoen, caracteriza-a como um “epílogo esotérico”, onde se
encontra a parte mais propriamente “sua” de toda tese (Briefe, p. 210). De fato, nesse epílogo, Benjamin
toma certa distância em relação à teoria romântica da arte, apontando para seus limites ‒ que devem se
manifestar a partir do conflito com a teoria estética de Goethe. Face à face, ambas as teorias se revelam em
suas potencialidades e limites, permitindo a Benjamin se posicionar frente a elas, para então constituir as
bases da sua própria ideia de crítica de arte. As teorias de Goethe sobre a arte e a natureza ‒ âmbitos, para
ele, intimamente imbricados ‒ desempenham, desse modo, um papel essencial na concepção de crítica
benjaminiana. Nesse sentido, interessa-nos, aqui, examinar as ideias desenvolvidas nessa última parte da
tese de doutorado de Benjamin, buscando compreender, ao mesmo tempo, os seus desdobramentos
ulteriores, presentes, mais particularmente, no seu ensaio sobre o “As afinidades eletivas de Goethe”. Com
isso, esperamos lançar luz sobre a particularidade do projeto benjaminiano de crítica de arte.
Palavras-chave: Benjamin; Goethe; crítica; romantismo.

Schiller e as características da tragédia moderna


Felipe Tuller Moreira Machado (UFF)

Em “Sobre o fundamento do deleite com objetos trágicos”, texto de 1792 ano no qual
Schiller apenas começava a esboçar uma proximidade com a estética transcendental de Kant,
o autor inicia sua discussão com uma alusão a uma problemática histórica acerca do papel da
tragédia: qual o nível de responsabilidade de um autor trágico em relação aos deveres morais?
É dever do tragediógrafo seguir sempre o bem moral dentro de suas obras? Irei apresentar, de
modo sintético, a hipótese de que a resposta de Schiller para esta questão, presente neste que
é seu primeiro texto filosófico, permanece a mesma durante todo o restante de sua carreira: o
fim último da tragédia é gerar deleite, e qualquer tentativa do autor trágico de fazê-la assumir,
antes disso, um compromisso maior com a moralidade seria incorrer num grave erro. Para
melhor expor tal ideia, irei recorrer aos demais artigos de Schiller do mesmo período (1792-
1793) como “Sobre a arte trágica”, “Sobre o patético” e “Do sublime”. Além de destacar
nuances e diferenças argumentativas presentes nestes textos, tentarei situar a posição do
dramaturgo no debate poético do século XVIII, principalmente no que se no que refere à
“querela dos antigos e modernos”.

Palavras-chave: Tragédia; Moral; Educação; Comoção.

MESA 15

Platão II

O discurso direto entre a voz e o texto no “Fedro” de Platão

Felipe Ayres de Andrade (PPGLM-UFRJ)


Na minha pesquisa de doutorado, debruço-me sobre a questão da escrita, tal qual ela é
apresentada explicitamente ao final Fedro. Nesta fala, gostaria de abordar tentativamente essa
questão desde um cotejo entre a função da voz (φωνή) e a função do discurso direto das
personagens na composição do diálogo. A partir desse cotejo, investigarei de que maneiras a
escrita contorna a mudez e ausência de quem a utiliza para reivindicar um discurso
“comparável” àquele das personagens Sócrates e Fedro desde a perspectiva da estrutura
composicional do diálogo. Em seguida, argumentarei que essa relativa equiparação entre o
discurso vocalizado espontaneamente pelas personagens e o discurso escrito que elas venham
a ler, como o texto de Lísias, informa a posterior tematização da questão no diálogo.
Palavras-chave: Discurso. Fedro. Texto. Voz.

A tática refutativa no Eutidemo de Platão


Ottávio de Azevedo Oliveira Rodrigues (UFF)

Eutidemo inicia sua participação no diálogo que carrega seu nome perguntando ao seu jovem
interlocutor: “Clínias, quais são, dentre os homens, aqueles que aprendem: os sábios ou os
ignorantes?” (ὦ Κλεινία, πότεροί εἰσι τῶν ἀνθρώπων οἱ μανθάνοντες, οἱ σοφοὶ ἢ οἱ ἀμαθεῖς;,
275d). A partir desta pergunta, uma série de teses serão levantadas e depois descartadas por
Eutidemo, seu irmão Dionisodoro e Clínias, a saber, que (a) aprendem os que sabem, 275e-
276b; (b) aprendem os que não sabem, 276c; (c) aprende-se o que não se sabe, 276d-277b;
(d) aprende-se o que se sabe, 277b-c. A impressão, ao final, depois de descartadas todas essas
possibilidades, é que o conhecimento não é de modo algum possível. Esta comunicação
pretenderá discorrer, nesse sentido, sobre a estratégia argumentativa adotada nestas
passagens.
Palavras-Chave: Platão; Sofística; erística; antilogia;