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"A relação entre direito e o paradigma

religioso no processo de formação das


leis"
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Porgiovaniecco- Postado em 14 dezembro 2012

Autores:
ARAÚJO, Guilherme Rocha.

INTRODUÇÃO
Ao longo do processo de formação das sociedades, um fato de clareza solar se torna cada
vez mais evidente quando se equipara Direito e Religião: o fato de que há uma congruência
tamanha entre ambos, a ponto desta última exercer influência sobre o primeiro, que se torna
forçoso perguntar o quão correto está um magistrado ao prolatar um comando sentencial
com fundamentação religiosa, qual a linha tênue que separa ambos os lados e como pode
ser verificado o pressuposto de validade de uma norma à qual se atribui caráter sagrado,
posto que há uma relativização (ou não) dessa norma, em função da cultura e do lapso
temporal em que se insere.

Dentre as acusações que pesavam sobre Sócrates, estava a que lhe imputava o crime de não
reconhecer os deuses do Estado ateniense. Não caracterizando uma prática passível de
penalização branda, a primeira das acusações é a que mais controvérsia causa, ao se
verificar que o próprio Sócrates não era um completo descrente das divindades (como será
exposto aqui), mas que rejeitou penas alternativas para obedecer estritamente ao que
julgava ser correto perante a lei, acreditando derivar esta, inclusive, da vontade divina.

1. O CULTO AOS DEUSES


Em sociedades primitivas, a noção de religião não se aproxima, por dedução óbvia, daquela
instituída pelas civilizações mais avançadas. Mas, ao se fazer um estudo acerca da obra A
Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges, é possível notar, ainda que em análise perfunctória,
que boa parte dos costumes e tradições daqueles povos foram incorporadas pelas
civilizações ocidentais – algumas delas praticadas até hoje, como, por exemplo, a
desigualdade no tratamento de filho e filha, onde os pais dão ao homem uma maior (e
prematura) independência em relação à mulher. Não obstante, na obra supracitada, fica
claro que a religião é o elemento que estrutura a família. "A religião fez com que a família
formasse um corpo nesta e na outra vida. A família antiga é assim uma associação religiosa,
mais que uma associação natural" (COULANGES, 1998, p.16).
Ainda nesse sentido, discorre Coulanges acerca da individualidade dessa religião, por parte
de cada família, explicitando que "nesta religião primitiva, cada um dos seus deuses não
podia ser adorado por mais de uma família. A religião era puramente doméstica"
(COULANGES, 1998, p.14). Individualizada, também, era a autoridade sobre cada uma
dessas famílias; Papel que cabia exclusivamente ao pater familias, ao exercer os mais
distintos poderes no seio de seu lar.
Permite-se inferir, ante o exposto, que a religiosidade dos povos – em sua origem – possui
caráter pluralista (na medida em que se adoram vários deuses) e segmentado, ao se
verificar uma ramificação de religiões de acordo com as respectivas famílias, individualizando
a aplicabilidade das leis daí advindas, para cada uma delas. Isto é tão verdade que, mesmo
após a união de várias famílias, os deuses daquela família específica continuarão a serem
adorados só, e somente só, por ela. A essência destas doutrinas religiosas não pode ser,
portanto, atirada deliberadamente sobre as mais diversas culturas e pessoas, visando
converter ideologicamente as distintas camadas.

2. A LEI DOS POVOS ANTIGOS


Aqui, corrobora-se o que foi asseverado no item anterior, visto que as primeiras leis a
surgirem eram originadas e fundamentadas na religião. "Os antigos códigos reuniam um
conjunto de ritos, de prescrições litúrgicas, de orações e, ao mesmo tempo, de disposições
legislativas" (COULANGES, 1998, p.72). O referenciado autor atribui até mesmo a Sólon,
cuja reforma representou um passo decisivo para o desenvolvimento da democracia,
consolidada posteriormente na legislação de Clístenes, o fato de que sua obra possui ligação
com rituais e cultos sagrados, dispondo que

O código das Doze Tábuas, embora mais recente, continha, ainda assim, minuciosas
prescrições sobre os ritos religiosos da sepultura. A obra de Sólon era, ao mesmo tempo,
código, constituição e ritual; a ordem dos sacrifícios e o preço das vítimas achavam-se ali tão
regulamentados como os ritos das núpcias ou o culto dos antepassados (COULANGES, 1998,
p.72).

Justamente em função de se proceder à estruturação de códigos arraigados a regras de


ordem sacra, é que o vínculo de cidadania vai significar o instrumento através do qual as
pessoas de um mesmo culto estão reunidas. No caso, o culto da cidade. Com Atenas isto não
será diferente; Em decorrência do vínculo de cidadania, será observada uma profunda
aversão ao estrangeiro (xenofobia), por se acreditar que este seria uma mácula à imagem
dos cidadãos que ali se encontram reunidos. Mesmo após as reformas de Clístenes, onde se
verificou verdadeiramente uma ampliação dos direitos políticos dos cidadãos (homens
nascidos livres), a característica predominante da democracia ateniense era que, quando um
cidadão ultrapassava os limites da polis, era imediatamente privado de exercer seus direitos
políticos.

Como assinala Jones (1997), em sua obra sobre a cultura ateniense, as póleis gregas
mantiveram seu sentido de comunidade política através de leis de cidadania escritas e
geralmente exclusivas. Atenas tinha leis de cidadania que eram escritas até pelos padrões
gregos. Após a lei de cidadania promulgada por Péricles em 451, só os homens que tivessem
a mãe e o pai atenienses podiam ser cidadãos. Durante o processo de formação das cidades,
o que se percebe é a criação de instrumentos que obriguem a permanência dos cidadãos, em
detrimento da presença dos estrangeiros, como, por exemplo, o censo ou a cerimônia da
Lustração; Instrumentos, estes, que denotam, inicialmente, um caráter religioso.
O declínio deste tipo de organismo começa quando o homem passa a questionar sobre o
porquê de estar sempre cumprindo normas. Estas, por sua vez, sempre apresentam uma
qualidade inerente à alguma entidade metafísica; Passa o homem, então, a questionar
acerca do sentido de toda essa organização, surgindo, a partir daí, a figura do sofista, que
vai, paulatinamente, contribuindo para a mudança da fundamentação religiosa do direito,
visando estribar sua concatenação política.

Sócrates, assim como os filósofos antigos, possuía grande apego às leis de seu
tempo, pois não as concebia como sendo fruto da atividade humana, mas sim
oriundas da natureza divina. Diferentemente do que seus acusadores apontam
como crime, Sócrates defende-se utilizando argumentos que o colocam como
caluniado e, surpreendendo os jurados que ali se encontravam, juntamente com a
população ateniense, afirma que não parte em sua defesa, como era esperado, mas
sim em defesa dos cidadãos, alegando que, ao ser condenado, só quem poderia
perder com tal fato seria a própria população de Atenas. Sócrates foi acusado por
Meleto, Âniton e Lícon de não reconhecer os deuses do Estado, de introduzir novas
divindades e de corromper a juventude (MOSSÉ, 1991), primeira acusação da qual
quis oferecer defesa.3. O JULGAMENTO DE SÓCRATES
Através de seu método maiêutico, Sócrates pregava que a ignorância deveria ser vista como
uma doença do espírito. Seu trabalho restringia-se, dessa forma, a expor a ideia, apenas.
Quem deveria encontrar sua própria verdade era seu interlocutor, demonstrando, ademais, o
caráter extremamente racionalista, o qual ele tanto defendia. O fato é que

Qualquer manifestação de dúvida ou de indiferença a respeito da religião da cidade era


considerada atentado à unidade da comunidade, e não é por acaso que a impiedade,
a asebeia, era passível de uma graphaí, de uma ação pública (MOSSÉ, 1991, p.114).
Conforme depreende-se da análise da obra de Justino Romano, o que Sócrates passou não
foi mais que uma mera perseguição infundada, justamente por seus opositores alegarem que
ele estava a "introduzir novos demônios" na mente juvenil à época. Como segue observação:

Aqueles que, antes de Cristo, tentaram investigar e demonstrar as coisas pela razão,
conforme as forças humanas, foram levados aos tribunais como ímpios e amigos de
novidades. Sócrates, que mais se empenhou nisso, foi acusado dos mesmos crimes que nós,
pois diziam que ele introduzia novos demônios e que não reconhecia aqueles que a cidade
considerava como deuses (JUSTINO, 1995, p.4-5).

Sócrates, ao falar aos atenienses, tenta explicar a forma como Meleto se contradiz ao acusá-
lo de corremper os jovens, ensinando-os a respeitar outras divindades, mas afirmando, ao
mesmo tempo, que Sócrates não acreditava inteiramente em nenhum deus. Como assinala o
diálogo de sua Apologia, in verbis:
É claro, segundo a acusação escrita por ti mesmo, que ensino a não respeitar os deuses que
a cidade respeita, porém, outras divindades novas. Não dizes que os corrompo, ensinando
tais coisas?

- Sim, é isso mesmo que eu digo, sempre que posso.

- Assim, pois, Meleto, por estes mesmos deuses, de que agora está falando, fala ainda mais
claro, a mim e aos outros. Não consigo entender se dizes que eu ensino a creditar que
existem certos deuses - e em verdade creio que existem deuses, e não sou de todo ateu,
nem sou culpado de tal erro - mas não são os da cidade, porém outros, e disso exatamente
me acusas, dizendo que eu creio em outros deuses. Ou dizes que eu mesmo não creio
inteiramente nos deuses e que ensino isso aos outros?

- Eu digo isso, que não acreditas inteiramente nos deuses (PLATÃO, 1987, p.11).

Werner Jaeger, em sua obra Paideia, trata da perspectiva que se tem de Sócrates,
posteriormente, na Idade Média, mostrando que o filósofo, apesar de ser apenas um "nome
famoso", possui um importante papel ao contribuir para a criação de uma religião moderna,
caracterizando Sócrates, inclusive, como "o apóstolo da liberdade moral", posto que o pai da
maiêutica seguia de maneira veemente apenas o que estava de acordo à sua consciência,
afastando dogmas e tradições do período helênico, mas não se caracterizando, puramente,
um ser avesso aos deuses, como expõe:
É preciso frisar que o Sócrates anti-escolástico não é, exatamente, um anticristo! Bem ao
contrário, Sócrates tem agora a missão de conciliar o helenismo com o cristianismo – Jesus
Cristo e o homem helênico – e assim ser o protagonista de uma religião,
dita moderna (JAEGER, 2003, p.493).
Ainda que se reputasse caluniado, Sócrates, como bem mostram seus discípulos, apresenta-
se como um inconteste seguidor das leis, ao se entregar mansamente à sua condenação,
tão-somente por assim exigir a lei. Na época, as penas alternativas poderiam conceder ao
condenado o exílio, proposta que foi colocada à Sócrates, sendo, impetuosamente, recusada.
A aludida pena significaria a perda da cidadania e, ante a realidade que ali se vivia, nada
poderia ser mais desonrável que a perda desta. Os textos de Xenofonte – um de seus mais
fieis discípulos – mostram um Sócrates temeroso aos deuses, patriota e amigo da juventude,
expondo que aquilo que matou seu mestre não foi o envenenamento, mas, em verdade, a
inveja de seus acusadores.

Sócrates, como exímio cumpridor das leis, recorre à legalidade ao afirmar que estaria sendo
vítima de uma aplicação viciada das mesmas, explanando que "o juiz não toma assento para
dispensar o favor da justiça, mas para julgar; ele não jurou favorecer a quem bem lhe
pareça, mas julgou segundo as leis" (PLATÃO, 1987, p.20). Ainda assim, dos 501 juízes do
tribunal, 280 votaram pela condenação e 221 votaram pela absolvição (MOSSÉ, 1991), o que
permite afigurar que o fator religiosidade proporcionou a condenação de maneira mais
notável que a legalidade, ao se verificar que duas das acusações eram concernentes ao culto
aos deuses e que o filósofo cumpriu sua sentença – abjurando a um plano de fuga já
arquitetado por seus seguidores – acreditando que obedecendo às leis, obedecia,
voluntariamente, aos deuses.

4. LEGADO HISTÓRICO
Não é possível negar, ante o exposto, que a religião interfira (forte ou brandamente,
mediante a conjuntura histórico-política) no processo legislativo da maioria dos povos. Seja
no Período Arcaico, quando o homem vive segundo suas crenças; Seja quando se observam
os principais institutos dos povos da Mesopotâmia e a formação de seus códigos (Manu,
Hamurabi, Esnunna etc.); Na Idade Média, com a criação do corpus iuris canonici, através do
qual a Igreja Católica fundamenta todo o ordenamento que desencadeia e alicercia a
Dogmática Canônica, até os dias atuais, é factível a constatação de princípios religiosos na
estruturação e aplicação do direito, como aponta o Prof. Dr. Urbano Zilles:
Percebemos que a questão do conhecimento de Deus é atual. (...). Apesar dos
questionamentos críticos à metafísica tradicional, nos tempos modernos e contemporâneos,
a questão de Deus permaneceu como a mais desafiadora e, ao mesmo tempo, a mais
interessante para a reflexão filosófica (ZILLES, 1997, p.8 e 12).

Prova disso é que, no cenário jurídico atual, a insurgência da religião em casos relacionados
a questões como aborto, relações homoafetivas, drogas e, até mesmo, controle de
natalidade, estabelece um regramento paralelo, muitas vezes não condizente com o foro
jurídico, culminando em ações viciadas por conta da legalidade cristã que é imposta em
determinadas sociedades. É razoável, no entanto, perscrutar acerca da validade de tais
ensinamentos, posto que, tanto as instituições evangélicas quanto a instituição eclesiástica
mais persuasiva do planeta, se preocupam em transmitir apenas os preceitos divinos que
tangem ao bom comportamento do homem, fidelidade, honra e abstinência, estabelecendo
(e impondo), dessa forma, a postura de galhardia a que o homem se deve valer.

Sem dúvidas, constam na Bíblia Sagrada alguns dos feitos mais memoráveis de homens
ínclitos que viveram à época de Cristo, ou antes dele. Mas há, também, registros de
atividades tão contrárias à "lei de Deus", e tão reprováveis aos olhos humanos, quanto as
práticas mais pungíveis aos bons costumes internalizados pelas civilizações. A título de
exemplo, todos lembram de Davi como sendo um dos grandes reis de Israel, sendo sua
história contada aos homens, desde a mais tenra idade, como aquele que enfrentou o mais
temido dos filisteus (Golias), pondo fim a uma guerra que se estendia por gerações.
Ninguém comenta, no entanto, que Davi mandou seu melhor e mais fiel amigo, Urias, para
morrer na guerra, para que pudesse se casar com a esposa dele (BÍBLIA, II Samuel, 11:1-
27).

Torna-se imperioso reconhecer, portanto, que, apesar de todo o legado deixado pelos povos
antigos, é perigoso se fazer uma interpretação da lei como sendo um aspecto da religião,
visto que a historicidade apresenta uma alternância dos princípios religiosos em função da
cultura, da temporalidade e da localização geográfica em que estão inseridos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A originalidade da obra de um filósofo perde-se ao serem apregoadas a ela (à obra)
ideologias religiosas das mais diversas perspectivas históricas. A genialidade de Sócrates se
dava justamente por ele ser visto como um mártir da antiguidade pagã, mantendo seu
pensamento enraizado na busca racional da felicidade, o bem maior a ser alcançado. Ao
auferir conhecimento, o homem estaria de posse do único instrumento responsável pela sua
liberdade moral, ao desencadeamento das ideias que proporcionariam a suspensão de todo o
conhecimento parcial que se tem acerca da matéria, ensejando na busca pela verdade na
qual se crê, autenticamente.

Não distante disso, deve repousar o entendimento dos aplicadores da lei, atualmente, com
vistas a se proceder a uma correta prestação jurisdicional, livre de manifestações compostas
de pluralidades religiosas, fixando o Direito como uma instituição social independente e
produtiva, pronta a dirimir os distintos interesses da coletividade.

A universalidade significa que ela visa todos os seres humanos, independente de barreiras
nacionais, étnicas ou culturais. (...). A autonomia significa que esses seres humanos
individualizados são aptos a pensarem por si mesmos, sem a tutela da religião ou da
ideologia, a agirem no espaço público e a adquirirem, pelo seu trabalho, os bens e serviços
necessários à sobrevivência material (ROUANET, 1993, p.09). (Grifou-se)
O julgamento de Sócrates permite, portanto, que a historiografia jurídica desconfie das
controversas relações que se observam entre o Direito e a Religião.

REFERÊNCIAS
BÍBLIA. Português. A Bíblia sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. 6. ed. rev.
atual. São Paulo: Editora Geográfica, 2005.
COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga. Tradução de Fernando de Aguiar. São Paulo:
Martins Fontes, 1998.
JAEGER, Werner. Paideia. Trad. Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
JONES, Peter V. O mundo Atenas: uma introdução à cultura clássica ateniense. São Paulo:
Martins Fontes, 1997.
JUSTINO. I e II Apologia / Diálogo com Trifão. Trad. Ivo Storniolo e Euclides M.
Balancin. 2. ed. rev. São Paulo: Paulus, 1995.
MOSSÉ, Claude. O processo de Sócrates. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.
PLATÃO. Defesa de Sócrates. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987. Coleção "Os
Pensadores".
ROUANET, Sergio Paulo. Mal-estar na modernidade: ensaios. 2. reimp. São Paulo:
Companhia das Letras, 1993.
ZILLES, Urbano. O problema do conhecimento de Deus. 2. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS,
1997.