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HERMENÊUTICA

“A SUA UNÇÃO VOS ENSINA A RESPEITO DE TODAS AS COISAS”


1 Jo 2.27

“A sabedoria é a coisa principal; adquire pois, a sabedoria; sim com tudo


o que possuis adquire o conhecimento” (Pv 4.7).
SUMÁRIO

I. INTRODUÇÃO............................................................................................................................... 3

II. BREVE HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA.........................................................3

III. AS REGRAS DE INTERPRETAÇÃO:......................................................................................11

IV. HERMENÊUTICA SAGRADA - ANÁLISE HISTÓRICO-CULTURAL E CONTEXTUAL.........14

V. HERMENÊUTICA SAGRADA - PRINCÍPIOS TEOLÓGICOS DE INTERPRETAÇÃO...............15

VII. HERMENÊUTICA SAGRADA - PRINCÍPIOS TEOLÓGICOS DE INTERPRETAÇÃO...........33

X. PRINCÍPIOS TEOLÓGICOS DE INTERPRETAÇÃO - TIPOLOGIA............................................49

XI. HERMENÊUTICA SAGRADA - MILAGRES.........................................................................68

XIII. PRINCÍPIOS GERAIS DE INTERPRETAÇÃO - AS PROMESSAS...........................................82

2
HERMENÊUTICA SAGRADA

I. INTRODUÇÃO
“Toda leitura de um texto exige uma interpretação. Não solucionamos as questões simplesmente
citando um texto da Bíblia. Ao lê-lo surge, ainda que implicitamente, a pergunta: O que quer dizer este
texto lido? Portanto, impõe-se uma hermenêutica que, em um sentido geral e amplo, é a ciência e arte
de interpretar. Há diversas hermenêuticas: literalista, histórico-gramatical, alegórica, existencial,
racionalista etc.” (Para que serve a teologia? – Alberto F. Roldán)
“Os três momentos da construção teológica são:
¾ O momento positivo, que corresponde à escuta da fé (Hermenêutica);
¾ O momento especulativo, que consiste na explicação da fé (Teoria);
¾ O momento prático, que busca atualizar ou projetar a fé na vida (Prática)” (Clodovis Boff).
“Entendemos que toda teologia que se preze deve percorrer esses três momentos: a hermenêutica,
a teoria e a prática”. (Para que serve a teologia? – Alberto F. Roldán).
Uma abordagem correta da interpretação bíblica é a necessidade cruciante nestes últimos dias.
Precisamos de alimento sólido... não apenas de migalhas. Precisamos aprender a arte de mastigar...não
de ficar somente a sugar mamadeiras. Precisamos abandonar as “ondas” do século 21 e voltarmos às
Escrituras Sagradas.
“Cristianismo costumava ser um toque de trombeta chamando para uma vida santa, pensamento
elevado e sólido, e estudo da Bíblia; agora é um tímido e apologético convite para um suave debate”.
“Cristianismo é peculiarmente religião de um só livro. Elimine a Bíblia, e você terá destruído o
meio pelo qual Deus decidiu apresentar Sua revelação ao homem através de sucessivas era. Segue-se,
pois, que o conhecimento da Bíblia é o requisito indispensável para o crescimento na vida cristã” (Frank
E. Gaebelain)

 DEFINIÇÃO. Hermenêutica. É a ciência e a arte da interpretação.


É ciência porque estabelece regras positivas e invariáveis.
É arte porque suas regras são práticas.
A palavra hermenêutica é derivada do termo grego Hermēneutikē (e(rmhneutikh=) que,
por sua vez, se deriva do verbo Hermēneuō ( e(rmhneu/w. Platão foi o primeiro a empregar como
termo técnico. Diz-se que a palavra hermenêutica deve sua origem ao nome de Hermes ( e(rmej o
deus grego que servia de mensageiro dos deuses, transmitindo e interpretando suas comunicações aos
seus afortunados ou, desafortunados destinatários.

II. BREVE HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA1


A igreja primitiva

Os pais apostólicos no século II acompanharam o pensamento dos apóstolos. A


manifestação de falsos ensinos (em particular o gnosticismo) e os desafios à ortodoxia
criaram tumulto a interpretação. Para provar a unidade das Escrituras e sua mensagem, estudiosos
como Irineu (c. 140-202 d.C.) e Tertuliano (c. 155-225 d.C.) desenvolveram estruturas teológicas.
Essas estruturas serviram como diretrizes de fé na igreja.

1
DOCKERY, David S. Manual Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 129-131.
3
Aprender a ler a Bíblia pelos olhos dos cristãos de um tempo e lugar
diferentes revela provavelmente o efeito distorcível de nossas próprias lentes
culturais, históricas, lingüísticas, filosóficas e, sim, até mesmo as teológicas. Isto não
é afirmar que os pais não tiveram sua própria perspectiva distorcida e seus pontos
obscuros. Deve-se argumentar, porém, que não chegaremos à perspectiva e claridade a
respeito de nossas próprias forças e fraquezas, se nos recusarmos a olhar ao longo
da história da Igreja e despojamos-nos, nós mesmos, dos dons do Espírito Santo,
quando nos recusamos a nos movermos além da zona de conforto de nossas próprias
idéias.2
Mantendo a ênfase cristológica do primeiro século, a regra de fé esboçava as crenças teológicas
que encontravam seu centro no Senhor encarnado. Às vezes, porém, a interpretação das Escrituras por
intermédio dessa estrutura teológica forçava o texto bíblico a se adaptar a um conjunto preconcebido de
convicções teológicas.
Essa abordagem resultou salvaguarda para a mensagem da igreja, mas reduziu a possibilidade de
os intérpretes serem criativos como indivíduos. Ela também tendia a divorciar o texto bíblico de seu
contexto literário ou histórico.
A interpretação bíblica alcançou novos níveis com o surgimento da escola de Alexandria no
século III, com o desenvolvimento da interpretação alegórica. A inovação da interpretação alegórica
desenvolveu-se nesse contexto. A interpretação alegórica pressupõe que a Bíblia diz mais do que
indicam suas palavras textuais. Os dois grandes representantes da escola de Alexandria foram Clemente
(150-215 d.C.) Orígenes (185-254 d. C.).
O sentido literal, porém, não era mensagem principal da Bíblia para os alexandrinos. Orígenes,
em particular, considerava absurdo que a Bíblia, inspirada por Deus, não pudesse ser interpretada de
maneira espiritual.
Dessa suposição, seguiu-se a abordagem hermenêutica tríplice de Orígenes. Ele sustentava que
a Bíblia possuía três sentidos diferentes, mas complementares: (1) um sentido literal ou físico, (2)
um sentido alegórico ou espiritual e (3) um sentido antropológico ou moral. Mas por vezes os
alexandrinos desconsideravam o sentido literal e encontravam numerosas mensagens espirituais
numa única passagem, criando assim toda uma escala de interpretações alegóricas. 3 A interpretação
alexandrina era basicamente prática. A obra desses intérpretes alegóricos é compreendida apenas
quando se percebe isso.
Os sucessores de Orígenes foram questionados pela escola de Antioquia, que dava ênfase à
interpretação literal e histórica. Entre os mais destacados intérpretes da escola de Antioquia estavam
João Crisóstomo (347-407 d.C.) e Teodoro de mopsuéstia (c. 350-428 d.C.). Eles entendiam a
inspiração bíblica como uma ativação momentânea da percepção e compreensão dos autores, em que a
atividade intelectual permanecia sob controle em nível consciente. 4 Os intérpretes de Antioquia
concentravam-se nos alvos e nas motivações dos escritores bíblicos, no uso que faziam das palavras e
em seus métodos. Eles acreditavam que o sentido literal e histórico da Bíblia era primordial e as
aplicações morais eram dele extraídos.
A exegese madura de Teodoro e Crisóstomo, ainda que literal, não era um literalismo cru nem
rígido que não reconhecia figuras de linguagem no texto bíblico. Dando continuidade aos costumes
anteriores de Jesus e da igreja primitiva, os mestres de Antioquia liam as Escrituras de maneira
cristológica, pela aplicação da interpretação tipológica.
Quando a igreja entrou no século V, desenvolveu-se uma abordagem eclética e multifacetada de
interpretação5, que às vezes destacava o literal e histórico, e às vezes, o alegórico, mas sempre o
teológico. Agostinho (354-430 d.C.) e Jerônimo (c. 341-420 d.C.) definiram os rumos desse período.
O texto bíblico era interpretado em seu contexto mais amplo, compreendido como o cânon da Bíblia.

2
HALL, Christopher A. Lendo As Escrituras Com Os Pais da Igreja. Viçosa-MG: Ultimato. 2003, p. 39.
3
BERKHOF, Louis. Princípios de interpretação bíblica. São Paulo: Cultura cristã. 2004, p. 76.
4
BLANKENBAKER, Frances. Quero entender a bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p.98.
5
PESTANA, Álvaro César. Do texto à paráfrase. São Paulo: Editora Vida cristã. 1992, p.126.
4
O cânon estabelecia parâmetros para validar tanto a interpretação tipológica como alegórica, de
modo que o significado histórico permanecesse básico, ainda que o sentido espiritual mais profundo
não fosse desconsiderado. Não predominavam nem as práticas alegóricas de Alexandria, nem as ênfases
históricas de Antioquia. Emergiu um equilíbrio influenciado por interesses pastorais e teológicos. A
Bíblia era vista da perspectiva da fé, produzindo interpretações que davam ênfase à edificação da igreja,
ao amor ao próximo e, principalmente, ao conhecimento de Deus e amor por ele.
Será proveitoso identificar as metodologias da igreja primitiva com os seguintes modelos ou
pontos de apoio:
a) O modelo “pietista” ou “funcional,” dos pais apostólicos;
b) O modelo “dogmático” ou “autorizado,” dos apologistas;
c) O modelo “alegórico” ou “orientado para o leitor,” dos alexandrinos;
d) O modelo “histórico-literal” ou “orientado para o autor,” dos antioquenos e
e) O modelo “canônico” ou “orientado para o texto,” de Agostinho e Teodoreto. 6

A Idade Média e a Reforma

Da época de Agostinho, a igreja, seguindo a liderança de João Cassiano (que morreu em cerca de
433), abraçou a teoria do sentido quádruplo das Escrituras:
1) O sentido literal era o que podia nutrir as virtudes da fé, esperança e amor. Quando não o
fazia, o intérprete podia apelar às três virtudes complementares, em que cada sentido equivalia a uma
das virtudes.
2) O sentido alegórico referia-se à igreja e à sua fé, àquilo em que ela devia crer.
3) O sentido tropológico7 ou moral referia-se aos indivíduos e ao que eles deviam fazer,
correspondendo ao amor.
4) O sentido anagógico 8 indicava a expectativa da igreja, correspondendo à esperança. Por
exemplo, a cidade de Jerusalém, em todas as referências na Bíblia, era compreendida literalmente
como uma cidade judaica, alegoricamente como a igreja de Jesus Cristo, antropologicamente como
as almas de homens e mulheres e anagogicamente como a cidade celestial. O sentido quádruplo
caracterizou a interpretação na Idade Média.

Martinho Lutero (1483-1546), o grande reformador, começou empregando o método alegórico,


as depois afirmou tê-lo abandonado.
Martinho Lutero (1483-1546), o grande reformador, começou empregando o método
alegórico, mas depois afirmou tê-lo abandonado.
Foi Erasmo (1466-1536), mais que Lutero, quem redescobriu a primazia do sentido literal.
João Calvino (1509-1564), o maior intérprete da Reforma, desenvolveu a ênfase no método
histórico-gramatical como base para o desenvolvimento da mensagem espiritual a partir da Bíblia. A
ênfase de Lutero num sentido mais pleno localizado no significado cristológico das Escrituras ligava os
reformadores a Jesus, aos apóstolos e à igreja primitiva.
Geralmente se acredita que os sucessores dos reformadores encolheram a liberdade de
interpretação empregada por Lutero e Calvino. Apesar de ser uma declaração genérico e super-
simplificada, é verdade que eles conduziram sua exposição da Bíblia ao longo de novas fronteiras
teológicas. Essa nova forma resultou numa interpretação autorizada e dogmatizada. Quase
simultaneamente, o pensamento iluminista começou a se desenvolver.
Esse movimento rejeitava as abordagens autorizadas e dogmáticas, resultando em duas reações:
(a) um novo pietismo associado a Philipp Jakob Spener (1635-1705) e August Herman Franke (1663-
6
DOCKERY, David S. Hermenêutica contemporânea à luz da igreja primitiva. SP: Vida, 2005, p. 153.
7
Tropologia. [Do gr. tropología, ‘linguagem figurada’.] Substantivo feminino. 1.Uso de linguagem figurada. 2.Tratado
acerca dos tropos.
8
Anagogia. [Do gr. anagogé, ‘ação de fazer subir’, + -ia1.] Substantivo feminino. 1.Elevação da alma na contemplação das
coisas divinas; êxtase, arrebatamento, enlevo. 2.Interpretação das Sagradas Escrituras, ou de outras obras, como as de
Virgílio, Dante, etc., que permite passar do sentido literal ao sentido místico.
5
1727) e (b) um método histórico-crítico que destacava a importância da interpretação teológica da
Bíblia.
Inicialmente, também Lutero ainda se encontrava no âmbito da tradicional doutrina
eclesiástica do sentido quádruplo da Escritura e estava convencido da legitimidade e
necessidade da alegorese. Seu rápido abandono do método escolástico, bem como
sua compreensão totalmente nova da tarefa da teologia e da essência da Igreja como
comunidade que vive da palavra anunciada, não resultaram apenas na ênfase cada
vez maior no sentido literal (sensus literalis). Lutero continuou a usar amplamente o
método alegórico. Sua reforma, porém, trouxe mais do que uma modificação do método
exegético. Ela deu início à libertação da Escritura do cativeiro babilônico da Igreja sob
o predomínio da doutrina eclesiástica, magistério, tradição e harmonização
alegórica. Também a reação da ortodoxia posterior – bem como de toda neo-ortodoxia –
somente conseguiu frear ou encobrir essa tendência, mas jamais conseguiu detê-la. Se
a Escritura é norma normativa, então a interpretação se torna a principal tarefa
teológica.9
A era atual tem geralmente se mantido em uma das três direções; a abordagem reformada, a
pietista ou histórico-crítico.

A era atual

A era atual testemunhou o surgimento e o desenvolvimento de várias abordagens críticas das


Escrituras. A interpretação existencial tem sido amplamente cultivada no século XX,
principalmente sob a influência de Rudolf Karl Bultmann (1884-1976). Essa abordagem declarava
que os intérpretes deviam projetar-se na experiência do autor para revivê-la.
A “Nova Hermenêutica” desenvolveu-se da abordagem existencial. Eles consideravam a
interpretação como a criação de um “evento lingüístico” em que a linguagem autêntica da Bíblia
confronta leitores contemporâneos, desafiando-os à decisão e à fé.
Foi Deus quem nos deu a capacidade de raciocinar e de analisar logicamente as coisas.
Entretanto, o racionalismo esqueceu-se de que a razão do homem está corrompida pelo
pecado. A simples análise racional não pode trazer o verdadeiro conhecimento de Deus
ao homem. “O homem natural não entende as coisas do Espírito de Deus” (1 Co 2.14).
É somente com a assistência do Espírito, trazendo cativo todo pensamento à obediência
de Cristo (2 Co 10.5), que podemos apropriadamente entender as coisas de Deus.
A exegese racionalista predominou por muitos anos a Igreja. Mas seu predomínio
começou a ser quebrado quando dos próprios intérpretes racionalistas perceberam as
limitações do método histórico-crítico. Aí, entramos no período chamado de pós-
moderno.
Essa fase da história da interpretação cristã das Escrituras nos ensina muitas lições
preciosas. Desejamos destacar apenas uma, que consideramos muito importante. Os
intérpretes racionalistas tentaram interpretar a Bíblia deixando de lado o pressuposto
da sua inspiração e divindade, defendendo uma abordagem “neutra”. Insistiram que o
método histórico-crítico era ‘científico’. Entretanto, a História demonstrou que não
houve essa “neutralidade” e que o método não era tão científico assim. Os
pesquisadores se aproximavam da Bíblia já com o pressuposto de que o sobrenatural
não invade a História e, portanto, já descartando a priori os relatos miraculosos da
Bíblia. Tiraram o pressuposto da fé e adotaram o da incredulidade.
Em termos práticos, nenhum de nós pode ler a Bíblia sem a influência do que cremos.
A própria Bíblia exige de nós que creiamos nela para podermos chegar ao
conhecimento de Deus. O importante é que tenhamos os pressupostos corretos em
nossa leitura. E esses pressupostos são aqueles exigidos pela própria Palavra de Deus:
que reconheçamos seu caráter divino e humildemente creiamos no que ela nos afirma. 10

9
GUNNEWEG, Antonius H. Hermenêutica do AT. São Leopoldo-RS: Sinodal, 2003, p. 46.
10
LOPES, Augusto Nicodemos. A bíblia e seus interpretes. SP: Editora cultura cristã, 2004, p. 195.
6
Além da hermenêutica existencial, entre os interesses recentes estão as abordagens lingüística,
literária, estruturalista e sociológica.
Essas abordagens tendem a destacar o contexto histórico de um texto e a vida em seu ambiente
original. São mais frutíferas as abordagens hermenêuticas da “história da interpretação” e da
hermenêutica canônica.
A primeira vê o texto bíblico pela ótica da atividade salvadora de Deus e encontra-se no auge
em Cristo.
A Segunda interpreta o texto bíblico de acordo com o cânon bíblico com um todo.
Observe o quadro abaixo. Ele apresenta os três elementos constitutivos do processo de
interpretação: o autor, o texto que ele produziu, e o leitor. No período da Reforma, o autor era o foco da
hermenêutica, que julgava encontrar na sua intenção a chave para a compreensão do texto.
No período moderno, o foco deslocou-se para o texto, sua formação e sua história, que seriam
descobertos pelos métodos críticos.
Na pós modernidade, o foco move-se para o leitor, rejeitando-se a intenção autoral e o processo
de formação do texto. O sentido encontra-se, agora, na interação do leitor com o texto.

O Deslocamento do Sentido 11

A hermenêutica canônica deve estar atenta para não reduzir as ênfases distintas dentro do cânon
em favor de harmonizações superficiais.

 HÁ QUATRO PARTES BÁSICAS NO ESTUDO CORRETO DA BÍBLIA:


1. OBSERVAÇÃO. Que responde à pergunta: “Que vejo?”. Aqui o estudante da Bíblia aborda o texto
como um detetive. Nenhum pormenor é sem importância; nenhuma pedra fica sem ser virada. Cada
observação é cuidadosamente arrolada para consideração e comparação posteriores.
2. INTERPRETAÇÃO. Que responde à pergunta: “Que significa?” Aqui o intérprete bombardeia o
texto com perguntas como: “Que significam estes pormenores para as pessoas às quais foram
dados? [Por que o texto diz isto?]” “Qual a principal idéia que ele está procurando comunicar?”.
3. CORRELAÇÃO. Que responde à pergunta: “Como isto se relaciona com o restante daquilo que a
Bíblia diz?” O estudante da Bíblia deve fazer mais do que examinar somente passagens individuais.
Deve coordenar o seu estudo com tudo mais que a Bíblia diz sobre o assunto. A precisa
compreensão da Bíblia leva em conta tudo que a Bíblia diz sobre aquele assunto.
4. APLICAÇÃO. Que responde à pergunta: “Que significa para mim?” Esta é a meta dos outros três
passos. Um especialista nessa área disse-o sucintamente: “Observação e interpretação sem aplicação
é aborto”.
A Bíblia é Deus falando. Sua Palavra exige resposta. Essa resposta tem de ser nada menos do
que obediência à vontade de Deus revelada.

 A HERMENÊUTICA SUBDIVIDE-SE EM:

11
Ibid. p. 201.
7
a) Hermenêutica Geral;
b) Hermenêutica Especial.
A Hermenêutica Geral se aplica à interpretação de qualquer obra escrita. Henry A. Virkler, no
seu livro: Hermenêutica – Princípios e Processos de Interpretação Bíblica – Ed. Vida, afirma:
“Hermenêutica Geral é o estudo das regras que regem a interpretação do texto bíblico inteiro. Inclui os
tópicos das análises histórico-cultural, léxico-sintática, contextual, e teológico”.
A Hermenêutica Especial se aplica a determinado tipos de produção literária, tais como, lei,
história, profecia, poesia. A definição de Virkler diz: “Hermenêutica Especial é o estudo das regras que
se aplicam a gêneros específicos, como parábolas, alegorias, tipos e profecia”.

 A HERMENÊUTICA SE RELACIONA COM OUTRAS CIÊNCIAS:


A Hermenêutica se relaciona com o estudo do cânon, da crítica textual, da crítica histórica, da
exegese, e da teologia bíblica bem como da teologia sistemática.
1. Estudo do Cânon é o processo histórico mediante o qual certos livros entraram para o Cânon e
outros não. A palavra cânon é o aportuguesamento do vocábulo grego kanw/n (cana, régua) (Gl
6.16; Fp 3.16; 2Co 10.13,15,16), que talvez seja derivada do hebraico ( henfq) KANEH,
significando uma vara de medir ou uma régua (Ez 40.3). Usado, porém, para classificação ou
seleção dos livros sagrados quer do Novo quer do Velho Testamento, ele tem os seguintes
significados:
a) Uma linha reta;
a) Uma medida exata;
b) Uma regra ética;
c) Um prumo;
d) Um limite que não se pode ultrapassar.
2. A Crítica Textual é a tentativa de averiguar o fraseado de um texto. Tal crítica é necessária porque
não possuímos os originais dos manuscritos; temos apenas muitas cópias dos originais, e essas
variam entre si. Sua tarefa consiste em determinar com a maior exatidão possível o texto grego (ou
hebraico) que deverá servir de base para a tradução e pesquisa posteriores.
3. Crítica Histórica. Os eruditos deste campo estudam a autoria de um livro, a data de sua
composição, as circunstâncias históricas que cercam sua composição, a autenticidade de seu
conteúdo, e sua unidade literária.
4. Exegese. Somente após um estudo da canonicidade, da crítica textual e da crítica histórica é que o
estudioso está preparado para fazer exegese. Exegese ( e)ch/ghsijé a aplicação dos princípios
da hermenêutica para chegar-se a um entendimento correto do texto.

Seguindo a exegese estão os campos gêmeos da Teologia Bíblica e da Teologia Sistemática.

5. Teologia Bíblica é o estudo da revelação divina no Antigo e no Novo Testamentos.

8
6. Teologia Sistemática é o estudo organizado e lógico dos dados bíblicos. L. S. Chafer define a
Teologia Sistemática como “a coleção cientificamente arrumada, exibida e defendida de todos os
fatos de toda e qualquer fonte referentes a Deus e às Suas obras”. A Teologia Sistemática tenta
reunir toda a informação sobre determinado tópico de sorte que possamos entender a totalidade da
revelação de Deus dada a nós sobre esse tópico.

O diagrama abaixo resume a discussão anterior e mostra o papel decisivo e central que a
hermenêutica desempenha no desenvolvimento de uma teologia adequada.

TEOLOGIA
ESTUDO CRÍTICA CRÍTICA HERMENÊUTICA BÍBLICA
DO CÂNON TEXTUAL HISTÓRICA EXEGESE
TEOLOGIA
SISTEMÁTICA

 A IMPORTÂNCIA DA HERMENÊUTICA
A importância do assunto dificilmente pode ser exagerada, pois a hermenêutica é a base teórica da
exegese, que por sua vez, é o alicerce tanto da Teologia (quer bíblica, quer sistemática) como da
pregação.
O diagrama abaixo ilustra estas relações:
Hermenêutica Exegese Teologia Bíblica Teologia Sistemática Pregação

Parece que, atualmente, pelo menos no Brasil, estas disciplinas têm sido relegadas por alguns
segmentos evangélicos a segundo plano. Exegese, doutrina e pregação têm sido substituídas por coisas
“mais práticas” (tais como ação social, o engajamento político, administração eclesiástica, etc. Quando
se nega a importância da exegese, da doutrina e da pregação, na teoria, nega-se na prática.
Convém observar, entretanto, que o apóstolo Paulo exorta Timóteo a cuidar “de si mesmo e da
doutrina”, de modo que possa ser ele mesmo salvo bem como os seus ouvintes (1Tm 4.16). Ele
admoesta a apresentar-se a Deus “aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que
maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15). E afirma que devem “ser considerados merecedores de
dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na Palavra
e no ensino” (1Tm 5.17).
Não se pode esquecer de que “aprouve a Deus salvar aos que crêem, pela loucura da pregação”
(1Co 1.21); e de que “a fé vem pela pregação e a pregação pela Palavra de Cristo” (Rm 10.17).
A importância da doutrina é vista especialmente nas cartas do apóstolo Paulo e no tratamento
que faz da questão da justificação pela fé na carta aos Gálatas. Nem a Igreja de Corinto, com todos os
seus problemas morais, foi tão duramente tratada pelo apóstolo quanto as igrejas da Galácia, em função
do seu desvio doutrinário.
A verdade de Deus expressa em sua Palavra é o instrumento empregado pelo Espírito Santo para
salvar e santificar. “São as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo
9
Jesus”, e fazer com que “o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”
(2 Tm 3.15,17).
Aí está a importância da hermenêutica: ela é a base teórica da exegese, que por sua vez é o
fundamento da teologia e da pregação, das quais depende a saúde espiritual da Igreja, e da nossa
própria vida. Uma hermenêutica deformada fatalmente resultará em exegese deformada,
produzirá teologia e pregação deformadas, e se manifestará tragicamente em igrejas e vidas
deformadas.

 A NECESSIDADE DA HERMENÊUTICA
A Hermenêutica é, em essência, uma codificação dos processos que normalmente empregamos
em um nível consciente para entender o significado de uma comunicação. Quantos mais bloqueios à
compreensão espontânea, tanto maior a necessidade da hermenêutica.

Há diversos bloqueios a uma compreensão espontânea do significado primitivo da mensagem:


1. Há um abismo histórico no fato de nos encontrarmos largamente separados no tempo, tanto dos
escritores quanto dos primitivos leitores;
2. Há um abismo cultural resultante de significativas diferenças entre a cultura dos antigos
hebreus e a nossa;
3. Há um terceiro bloqueio à compreensão espontânea da mensagem bíblica que é a diferença
lingüística. A Bíblia foi escrita em hebraico, aramaico e grego – três línguas que possuem
estruturas e expressões idiomáticas muito diferentes da nossa língua.
4. Um quarto bloqueio significativo é a lacuna filosófica. Opiniões acerca da vida, das
circunstâncias, da natureza do Universo diferem entre as várias culturas. Para transmitir
validamente uma mensagem de uma cultura para outra, o tradutor ou leitor deve estar ciente
tanto das similaridades como dos contrastes das cosmovisões.

Portanto, a Hermenêutica é necessária por causa das lacunas históricas, culturais, lingüísticas e
filosóficas que obstruem a compreensão espontânea e exata da Palavra de Deus.

10
III. AS REGRAS DE INTERPRETAÇÃO:
1. Regra um: A Bíblia é a autoridade suprema em questões de religião, fé e doutrina.
2. Regra dois: A Bíblia é a melhor intérprete de si mesma.
3. Regra três: A fé salvadora e o Espírito Santo são imprescindíveis para a compreensão e
interpretação da Bíblia.
4. Regra quatro: Deve-se interpretar a experiência pessoal à luz das Escrituras e
não as Escrituras à luz da experiência pessoal.
5. Regra cinco: O propósito principal das Escrituras é mudar nossas vidas e não multiplicar
nossos conhecimentos.
6. Regra seis: Os exemplos bíblicos só têm autoridade prática quando amparados por uma
ordem que os faça mandamento universal.
7. Regra sete: Todo cristão tem o direito e a responsabilidade de interpretar as Escrituras
segundo princípios universais aceitos pela ortodoxia bíblica.
8. Regra oito: Apesar da importância da história da Igreja, ela não chega a ser decisiva na fiel
interpretação das Escrituras.

 AS REGRAS DE INTERPRETAÇÃO SE DIVIDEM EM QUATRO CATEGORIAS:

a) Princípios Gerais de Interpretação. São os que tratam da matéria global da interpretação.


São universais em sua natureza, não se limitando a considerações específicas, incluídas estas
nas outras três seções.
b) Princípios Gramaticais de Interpretação. São os que tratam do texto propriamente dito.
Estabelecem as regras básicas para o entendimento das palavras e sentenças da passagem em
estudo.
c) Princípios Históricos de Interpretação. São os que tratam do substrato ou contexto em que
os livros da Bíblia foram escritos. As situações políticas, econômicas e culturais são
importantes na consideração do aspecto histórico do seu estudo da Palavra de Deus.
d) Princípios Teológicos de Interpretação. São os que tratam da formação da doutrina cristã.
São, por necessidade, regras “amplas”, pois a doutrina tem de levar em consideração tudo que
a Bíblia diz sobre dado assunto. Embora tendam a ser regras um tanto complicadas, nem por
isso são menos importantes, pois desempenham papel de profunda relevância na obra de dar
forma àquele corpo de crenças a que você chama suas convicções.

 PRIMEIRA REGRA DE HERMENÊUTICA (At 8.26-35; Is 53.7,8)

Scritura sacra sui ipsius interpres.

“A Bíblia interpreta a si mesma”

11
O primeiro intérprete da Bíblia foi o Diabo (Gn 2.16,17; 3.1-5). Satanás não negou as palavras
ditas pelo Senhor, mas torceu-as, dando-lhes um sentido que não tinham. Esse tipo de erro dá-se por
omissão e por acréscimo.

 Omissão – citar só parte que lhe convém e deixar de lado o restante. Há dois tipos de morte
na Bíblia, física e espiritual. Morte física é separar-se a alma do corpo. Morte espiritual é
separar-se a alma de Deus. Quando Deus disse a Adão: “Certamente morrerás” (Gn 2.17),
estava se referindo à morte física e à morte espiritual. Quando a serpente disse a Eva: “É
certo que não morrereis” (Gn 3.4), estava omitindo de propósito o fato da morte espiritual.
 Acréscimo – dizer mais do que a Bíblia diz. Em sua conversa com Satanás, Eva cita o que
Deus falou a seu marido. Mas acrescenta à Palavra de Deus a frase: “Nem tocarei nele” (Gn
3.3). Você pode torcer a Escritura fazendo-a dizer mais do que de fato diz. Geralmente o
motivo é o desejo de tornar irracional a ordem de Deus e assim indigna de ser obedecida.

 BÍBLIA INTERPRETA A SI MESMA. COMO?


1. Mediante a lei do contexto:
1.1. Precedente;
1.2. Subseqüente.
2. Mediante os textos paralelos;
3. Mediante o ensino geral “do livro” e de “seu autor”;
4. Mediante o ensino geral da “própria Bíblia”.

 A BÍBLIA É CRISTOCÊNTRICA (Jo 5.39; Lc 24.27,44).


1. Espírito Santo é o melhor intérprete (Jo 14.26; 16.13; 1Co 2.6-13; 2Pe 1.20,21)
1. A Bíblia é a Palavra de Deus (a questão da inerrância – Berkhof Pág. 43; Virkler Pág.21).
R. C. Sproul sugeriu que se pode apresentar um princípio lógico mais rigoroso em favor da
infalibilidade bíblica. Damos a seguir uma adaptação do raciocínio de Sproul:
Premissa A: A Bíblia é um documento basicamente confiável e digno de confiança;
Premissa B: À base deste documento confiável temos prova suficiente para crer confiantemente
que (1) Jesus Cristo reivindicou ser Filho de Deus (Jo 1.14,29,36,41,49; 4.42; 20.28) e (2)
que ele forneceu prova suficiente para fundamentar essa reivindicação (Jo 2.1-14; 4.46-54;
5.1-18; 6.5-13,16-21; 9.1-7; 11.1-45; 20.30,31);
Premissa C: Jesus Cristo, sendo o Filho de Deus, é uma autoridade inteiramente digna de
confiança (i.e.; infalível);
Premissa D: Jesus Cristo ensina que a Bíblia é a própria Palavra de Deus;
Premissa E: A Palavra de Deus é completamente digna de confiança porque Deus é
perfeitamente digno de confiança;
Conclusão: À base da autoridade de Jesus Cristo, a Igreja crê que a Bíblia deve ser totalmente
digna de confiança.

 CONDIÇÕES INDISPENSÁVEIS AO ENTENDIMENTO DA BÍBLIA:


12
1. Ser convertido a Jesus Cristo: Is 55.7; Jr 18.11; Ez 33.11; Mt 18.3; 1Pe 2.25;
2. Ser espiritual: 1Co 2.14-16; 1Rs 3.9; Mt 16.3; Lc 12.56; Hb 5.14;
3. Fazer do Espírito Santo o Mestre por excelência: Jo 14.17,26; 15.26; Gl 5.16;
4. Estudar com diligência a Palavra de Deus: Dt 6.17; Pv 13.4; 1Tm 4.14,15;
5. Ser humilde e despido de preconceito: Tg 1.5; Sl 119.18,19; Jó 22.29; Tg 4.6;
6. Ser um homem de oração e não apenas um teórico: 1Rs 9.3; 2Rs 19.4; Rm 12.12;

 A CAUSA DA EXISTÊNCIA E PROLIFERAÇÃO DAS SEITAS É:


1. A ignorância da hermenêutica;
2. Desprezo de suas regras lógicas;
3. Ausência de espiritualidade, humildade, sinceridade e bom senso, que expõe ao perigo
constante de Pv 30.6; Ap 22.18.

1° Teste prático: Jz 11.29-40. Jefté sacrificou ou não a sua filha?


A ignorância da lei por parte de Jefté era muito grande, tendo-se em vista passagens como Lv
18.21; 20.2-5; Dt 12.31;18.10. Se de fato ofereceu sua filha em holocausto (oferta queimada), como
sentido literal do texto indica, pode-se afirmar, com certeza, que não agradou a Deus. O sacrifício
humano, que se encontra em passagens como 2Rs 3.27; 16.3,17; 2Cr 33.6; Jr 7.31; 32.35, revela que tal
costume pagão não era desconhecido entre os hebreus. Louvamos o zelo de Jefté; condenamos seu voto
temerário. Desde a Idade Média, há intérprete que argumentam que Jefté jamais teria sacrificado sua
filha única, mas que somente a consagrara à virgindade perpétua. As frases <esse será do Senhor> e
<Jamais foi possuída por varão> são as mais preferidas em prol dessa opinião.

13
IV. HERMENÊUTICA SAGRADA - ANÁLISE HISTÓRICO-CULTURAL E CONTEXTUAL

INTRODUÇÃO: Mt 12.3-6; 19.3-6. Os fariseus faziam descaso das leis hermenêuticas e tornavam a
lei antipática ao povo:
1. Rigorismo sabático: Ex 20.8-11; Mt 12.3-5;
1. Desleixo divorcista: Dt 24.1; Mt 19.3-6;
2. O exemplo de Cristo: Lc 24.7

 REGRAS FUNDAMENTAIS (Leia: “Hermenêutica” – Pág. 28-43 – E. Lund e P. C. Nelson)


1. Nunca se deve interpretar um “termo” ou “texto” isoladamente, interprete escritura com
escritura;
2. Nunca se deve basear doutrina “em um verso isolado”, interprete à luz da Bíblia;
1. Toda dúvida ou incerteza sobre o sentido de “uma palavra” ou “texto” deve ser submetido
ao “consenso geral” da Bíblia;
2. A única exceção a estas regras diz respeito à interpretação dos provérbios.

 AUXÍLIOS À APLICAÇÃO DESSAS REGRAS:


1. O contexto;
1. O vocabulário do escritor;
2. O vocabulário bíblico;
3. O paralelismo;
4. O propósito do escritor.

 O VALOR PRÁTICO DESSAS REGRAS:


1. Contexto: “Não há Deus” (Sl 14.1) – É verdade tal afirmativa?
“Estamos mortos para a lei”. Rm 7.1-7; Ex 20.17.
NOTA: Ao interpretar-se o contexto imediato – anterior e posterior – não for suficiente para
aclarar o sentido, busque o contexto remoto! Interpretar desprezando o contexto é
forçar o texto a dizer o contrário do que diz. Como repete o Pr. Silas Malafaia:
“O texto fora do contexto é um pretexto para a heresia”.
2. O vocabulário do escritor:
Mandamento: 1Jo 3.23; Jo 6.29; 13.34; 15.12; 1Jo 2.4
3. O vocabulário geral da Bíblia:
Justificação: Rm 4.1-5; 4.18-23.

NOTA: Às vezes o interprete tem que recorrer a toda Bíblia para aplicação desta regra.
Teste Prático: Há contradição na Bíblia? Is 55.8,9; 1Co 2.16.
Leia: “Hermenêutica: Princípios e Processos de Interpretação Bíblica” – Pág. 57-70 (Henry A. Virkler).

14
V. HERMENÊUTICA SAGRADA - PRINCÍPIOS TEOLÓGICOS DE INTERPRETAÇÃO

 PARALELISMO:
1. Verbais: A mesma palavra em diferentes textos: GRAÇA (Jo 1.16,17; Tt 2.11; Rm 5.15; 1Co
1.4; Ef 2.5,8) (ver o livro Hermenêutica de P.C. Nelson Pág. 51-57);
2. Reais: Textos diversos tratando do mesmo assunto: Mt 26.36-46; Mc 14.32-42; Lc 22.39-46;
Jo 18.1-11 (ver o livro Hermenêutica de P.C. Nelson Pág. 58-61).
3. Doutrinários: Inclui estudos tópicos sobre as grandes doutrinas da Bíblia, tais como os
atributos de Deus, a natureza do homem, a redenção, a justificação, e a santificação. Neste
tipo de estudo você reúne todas as peças de informação e extrai uma conclusão. O estudo
indutivo da Bíblia é importante no desenvolvimento das suas convicções. Estudando as partes
você pode captar um retrato cada vez mais claro do todo.

Regra 1: “É necessário consultar as passagens paralelas”


Regra 2: “Uma doutrina não pode ser considerada bíblica, a não ser que resuma e
inclua tudo o que a Escritura diz sobre ela”.
Regra 3: Quando parecer que duas doutrinas ensinadas na Bíblia são contraditórias,
aceite ambas como escriturísticas, crendo confiantemente que elas se explicarão dentro
de uma unidade mais elevada. (Exemplos: A Trindade, A Dual natureza de Cristo, A
Origem e Existência do Mal, A Soberana Eleição de Deus e a Responsabilidade do
Homem.
(Leia: Princípios de Interpretação da Bíblia – Pág. 67,68. Walter A. Henrichsen)
Regra 4: A história da Igreja é importante, mas não decisiva na interpretação das
Escrituras.

É necessário consultar as passagens paralelas, “explicando cousas espirituais pelas espirituais”


(1 Co 2.13, original). 12

l. Com passagens paralelas entendemos aqui as que fazem referência uma à outra, que tenham
entre si alguma relação, ou tratem de um modo ou outro de um mesmo assunto.

2. Não só é preciso apelar para tais paralelos a fim de aclarar determinadas passagens obscuras,
mas ao tratar-se de adquirir conhecimentos bíblicos exatos quanto a doutrinas e práticas cristãs. Porque,
como já dissemos, uma doutrina que pretende ser bíblica, não pode ser considerada no todo como tal,
sem resumir e expressar com fidelidade tudo o que estabelece e excetua a Bíblia em suas diferentes
partes em relação ao particular. Se sempre se houvesse tido isto presente, não se propagariam hoje
tantos erros com a pretensão de serem doutrinas bíblicas.

3. Neste estudo importante convém observar que há paralelos de palavras paralelos de idéias e
paralelos de ensinos gerais.

12
E. LUND / P. C. NELSON. REGRAS DE INTERPRETACÃO DAS SAGRADAS ESCRITURAS. EDITORA VIDA,
1968, p. 51-61.
15
1. Paralelos de palavras

Quanto a estes paralelos, quando o conjunto da frase ou o contexto não bastam para explicar uma
palavra duvidosa, procura-se às vezes adquirir seu verdadeiro significado consultando outros textos em
que ela ocorre; e outras vezes, tratando-se de nomes próprios, apela-se para o mesmo procedimento a
fim de fazer ressaltar fatos e verdades que de outro modo perderiam sua importância e significado.
Exemplos: 1° - Em Gl 6.17, diz Paulo: “Trago no corpo as marcas de Jesus.” Que eram essas
marcas? Nem o conjunto da frase, nem o contexto no-lo explica. Iremos, pois, às passagens paralelas.
Em 2 Co 4.10, encontramos em primeiro lugar, que Paulo usa a expressão “levando sempre no corpo o
morrer de Jesus”, falando da cruel perseguição que continuamente Cristo padecia, o que nos indica que
essas marcas se relacionam com a perseguição que sofria. Porém ainda mais luz alcançamos mediante
2 Co 11.23,25, onde o apóstolo afirma que foi açoitado cinco vezes (com golpes de couro) e três vezes
com varas; suplícios tão cruéis que, se não deixavam o paciente morto, causavam marcas no corpo que
duravam por toda a vida. Consultando, assim, os paralelos, aprendemos que as marcas que Paulo trazia
no corpo não eram chagas ou sinais da cruz milagrosa ou artificialmente produzidas, como alguns
pretendem, porém marcas ou sinais dos suplícios sofridos pelo Evangelho de Cristo.
2° - Na carta aos Gálatas 3:27, diz o apóstolo dos batizados: “de Cristo vos revestistes”. Em que
consiste estar revestido de Cristo? Pelas passagens paralelas em Rom. 13:13,14 e Col. 3:12,14, tudo se
esclarece. O estar revestido de Cristo, por um lado consiste em ter deixado as práticas carnais, como a
luxúria, dissoluções, contendas e ciúmes; e por outro em haver adotado como vestido decoroso, a
prática de uma vida nova, como a misericórdia, benignidade, humildade, mansidão, tolerância e
sobretudo o amor cujos atos os cristãos primitivos simbolizavam no seu batismo, deixando-se sepultar e
levantar em sinal de haverem morrido para essas práticas mundanas e de haverem ressuscitado em
novidade de vida, com suas correspondentes práticas novas. Assim é que, consultando os paralelos,
aprendemos que o estar revestido de Cristo não consiste em haver adotado tal ou qual túnica ou vestido
“sagrado”, mas em adornos espirituais ou morais próprios do Cristianismo simples, santo e puro (1
Pedro 3:3-6).
3° - Segundo Atos 13:22, Davi foi um “homem segundo o coração de Deus”. Quererá a Escritura
com esta expressão apresentar-nos a Davi como modelo de perfeição? Não, porque não cala suas muitas
e graves faltas, nem seus correspondentes castigos. Como e em que sentido, pois, foi homem conforme
o coração de Deus? Busquemos os paralelos. Em 1 Samuel 2:35, disse Deus: “Suscitarei para mim um
sacerdote fiel, que procederá segundo o que tenha no coração” do que resulta, tomando toda a passagem
em consideração, que Davi, especialmente em sua qualidade de sacerdote-rei, procederia segundo o
coração ou a vontade de Deus, Esta idéia se encontra plenamente confirmada na passagem paralela do
cap. 13, verso 14, onde também verificamos que era em vista do rebelde Saul, e contrário à sua má
conduta como rei, que Davi seria homem segundo o coração de Deus.
Se bem que Davi, como vemos pela história e pelos seus Salmos, de modo geral foi homem
piedoso, em muitos casos digno de imitação, não nos autorizam de nenhum modo os paralelos de nossa
passagem a considerá-lo como modelo de perfeição, sendo seu significado primitivo, como temos visto,
que Davi, em sua qualidade oficial, o contrário do rebelde rei Saul, seria homem que procederia
segundo o coração ou a vontade de Deus.
4° - Um exemplo da utilidade de consultar os paralelos em relação aos nomes próprios, temo-lo
no relato de Balaão, em Números, capítulos 22 e 24, deixando-nos em duvida quanto ao verdadeiro
caráter e de sua pessoa. Foi ele realmente profeta? E, em tal caso, qual foi a causa de sua queda?
Consultando os paralelos do Novo Testamento, verificamos por 2 Pedro 2:15,16 e Judas 11, que ele foi
um pretenso profeta que atuava levado pela paixão da cobiça, e por Apocalipse 2:14, que por suas
instigações Balaque fez os israelitas caírem em pecado tão grande que lhes custou a destruição de
23.000 pessoas.
5° - Convém observar também que por este estudo de paralelos se aclaram aparentes contradições.
Segundo 1 Crônicas 21:11, por exemplo, Gade oferece a Davi, da parte de Deus, o castigo de três anos
de fome, e segundo 2 Samuel 24:13, lhe pergunta Gade se quer sete anos de fome. Como pôde
16
perguntar-lhe se queria sete e ao mesmo tempo lhe oferece três? Simplesmente porque pelo paralelo de
2 Samuel 21:1, na pergunta de Gade compreendemos que toma em conta os três anos de fome passados
já, com o que estão passando, enquanto no oferecimento dos três anos só se refere ao porvir.
6° - Atenção. Ao consultar-se este tipo de paralelos convém proceder como segue: primeiramente
buscar o paralelo, ou seja, a aclaração da palavra obscura no mesmo livro ou autor em que se
encontra, depois nos demais da mesma época e, finalmente em qualquer livro da Escritura. Isto d
necessário porque, às vezes, varia o sentido de uma palavra, conforme o autor que a usa, segundo a
época em que se emprega, e ainda, como já temos dito, segundo o texto em que ocorre no mesmo livro.
Exemplos: 1° - Um exemplo de como diferentes autores empregam uma mesma palavra em
sentido diferente, encontramo-lo nas cartas de Paulo e Tiago. A palavra obras, quando ocorre só, nas
cartas aos Romanos e aos Gálatas, significa o oposto à fé, a saber: as práticas da lei antiga como
fundamento para a salvação. Na carta de Tiago se usa a mesma palavra, sempre no sentido da
obediência e santidade que a verdadeira fé em Cristo produz. Neste caso, e em casos parecidos, não se
aclara, pois, uma pela outra palavra; daí compreendemos a necessidade de buscar paralelos com
preferência no mesmo livro ou nos livros do autor que se estuda. Notemos, todavia, que um mesmo
autor emprega, às vezes, uma palavra em sentido diferente, em cujo caso também uma expressão
explica a outra. Lemos em Atos 9:7, que os companheiros de Saulo, no caminho de Damasco ouviram a
voz do Senhor, e no capítulo 22:9 do mesmo livro, que “não perceberam o sentido da voz” ou, como diz
outra versão, “não ouviram a voz”. É porque entre os gregos, como entre nós, a palavra ouvir se usava
no sentido de entender. Ouviram, pois, a voz e não a ouviram, significando: ouviram o ruído, porém
não entenderam as palavras. Do mesmo modo distinguimos entre ver e ver, como o faziam os hebreus,
usando a palavra em sentido diferente. Assim lemos em Gênesis 48:8, 10, que Israel “viu” os filhos de
José, e em seguida, “os olhos de Israel já se tinham escurecido por causa da velhice, de modo que não
podia ver bem”. Significa que os viu confusamente, porém não os podia ver com clareza, sendo
necessário colocá-los perto, como também diz o contexto. Busquem-se, pois, os paralelos, com
preferência e em primeiro lugar num mesmo autor, porém não se espere, mesmo assim, que sirvam de
paralelos sempre todas as expressões iguais.
2° - Prova de como pode mudar o significado de uma palavra segundo a época em que se
emprega, temo-la na palavra arrepender-se. Novo Testamento é usada constantemente no sentido de
mudar de mente o pecador, isto é, no sentido de mudar de opinião, de convicção íntima, de sentimento,
enquanto no Antigo Testamento tem significados tão diferentes que unicamente o contexto, em cada
caso, os pode aclarar. Tanto é assim, que no Antigo se diz do próprio Deus que se arrependeu, expressão
que nunca é empregada pelos escritores do Novo ao falarem de Deus, exceto no caso de citarem o
Antigo Testamento. Daí ser evidente que ao dizer que Deus se arrepende, não devemos de nenhum
modo tomar no mesmo sentido do que nós compreendemos por arrependimento de um homem. Devem-
se, pois, buscar os paralelos, em segundo lugar, nos escritos que datam de uma mesma época de
preferência aos que se puder encontrar em outras partes das Escrituras.

2. Paralelos de idéias

1. Para conseguir idéia completa e exata do que ensina a Escritura neste ou naquele texto
determinado, talvez obscuro ou discutível, consultam-se não só as palavras paralelas, mas os ensinos, as
narrativas e fatos contidos em textos ou passagens esclarecedoras que se relacionem com o dito texto
obscuro ou discutível. Tais textos ou passagens chamam-se paralelos de idéias.
Exemplos: 1° - Ao instituir Jesus a ceia, deu o cálice aos discípulos, dizendo: “Bebei dele
todos.” Significa isto que só os ministros da religião devem participar do vinho na ceia com exclusão da
congregação? Que idéia nos proporcionam os paralelos?
Em 1 Co 11.2-29, nada menos que seis versículos consecutivos nos apresentam o “comer do pão e
beber do vinho” como fatos inseparáveis na ceia, destinando os elementos a todos os membros da igreja
sem distinção. Invenção humana, destituída de fundamento bíblico é, pois, o participarem uns do pão e
outros do vinho na comunhão.
17
2° - Ao dizer Jesus: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja”, constitui ele a Pedro como
fundamento da igreja, estabelecendo o primado de Pedro e dos papas, como pretendem os papistas?
Note-se primeiro que Cristo não disse: “Sobre ti, Pedro”. Nada melhor que os paralelos que oferecem
as palavras de Cristo e Pedro, respectivamente, para determinar este assunto, ou seja, o significado deste
texto. Pois bem, em Mateus 21:42,44, vemos Jesus mesmo como a pedra fundamental ou “pedra
angular”, profetizada e tipificada no Antigo Testamento. E em conformidade com esta idéia, Pedro
mesmo declara que Cristo é a pedra que vive, a principal pedra angular, rejeitada pelos judeus, em
Silo, esta pedra foi feita a principal pedra angular, etc. (1 Pedro 2:4, 8). Paulo confirma e aclara a
mesma idéia, dizendo aos membros da igreja de Éfeso (2:20) que são “edificados sobre o fundamento
dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo Cristo Jesus, a pedra angular, no qual todo edifício, bem
ajustado cresce para santuário dedicado ao Senhor”. Deste fundamento da igreja, posto pela pregação de
Paulo, “como prudente construtor” entre os coríntios, disse o apóstolo “porque ninguém pode lançar
outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Co 3:10,11).
Cotejando estes e outros paralelos, chegamos à conclusão de que Cristo, neste texto, não constitui
a Pedro como o fundamento de sua igreja.
2. O modo de proceder, tratando-se deste tipo de paralelos, é pois o de aclarar as passagens
obscuras mediante paralelos mais claros: as expressões figurativas, mediante os textos paralelos
próprios e sem figura, e as idéias sumariamente expressas, mediante os paralelos mais extensos e
explícitos. Vejamos a seguir novos exemplos:
Exemplos: 1° - Acentua-se muito o amor aos crentes em 1 Pedro 4:8, porque o amor cobre
multidão de pecados. Como explicar este texto obscuro? Pelo contexto e cotejando-o com 1 Cor. 13 e
Col. 1:4, compreendemos que a palavra amor é usada aqui no sentido de amor fraternal. Porém, em que
sentido cobre o amor fraternal muitos pecados? Em Rom. 4:8 e Salmo 32:1, vemos o pecado perdoado
sob a figura de “pecado coberto”, “sepultado no esquecimento”, como nós diríamos. Consultando o
conteúdo de Prov. 10:12, citado por Pedro neste lugar, compreendemos que o amor fraternal cobre
muitos pecados no sentido de perdoar as ofensas recebidas dos irmãos, sepultando-os no esquecimento,
contrário ao ódio que desperta rixas e aviva o pecado. Não se trata, pois, aqui de merecer o perdão dos
próprios pecados mediante obras de caridade, nem de encobrir pecados próprios e alheios mediante
dissimulações e escusas, como erroneamente pretendem os que não cuidam de consultar os paralelos,
explicando a Escritura pela Escritura.
2° - Segundo Gálatas 6:15, o que é de valor para Cristo é a nova criatura. Que significa esta
expressão figurada? Consultando o paralelo de 2 Cor. 5:17, verificamos que a nova criatura é a pessoa
que “está em Cristo”, para a qual “as cousas antigas passaram” e “se fizeram novas”; enquanto em Gál.
5:6 e 1 Cor. 7:19 temos a nova criatura como a pessoa que tem fé e observa os mandamentos de Deus.
3° - Paulo expõe sumariamente a idéia da justificação pela fé em Filipenses 3:9, dizendo que
deseja ser achado em Cristo, “não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé
em Cristo, a justiça que procede de Deus baseada na fé”. Para conseguir clareza desta idéia é preciso
recorrer a numerosas passagens das cartas aos Romanos e aos Gálatas, nas quais se explica
extensamente como pela lei todo homem é réu convicto diante de Deus e como pela fé na morte de
Cristo, em lugar do pecador, o homem, sem mérito próprio algum, é declarado justo e absolvido pelo
próprio Deus. Rom. 3, 4, 5; Gál. 3, 4.

3. Paralelos de ensinos gerais

1. Para a aclaração e correta interpretação de determinadas passagens não são suficientes os


paralelos de palavras e idéias; é preciso recorrer ao teor geral, ou seja, aos ensinos gerais das
Escrituras. Temos indicações deste tipo de paralelos na própria Bíblia, sob as expressões de ensinar
conforme as Escrituras, de ser anunciada tal ou qual coisa por boca de todos os profetas, e de usarem
os profetas (ou pregadores) seu dom conforme a medida da fé, isto é, segundo a analogia ou regra da
doutrina revelada. (1 Cor. 15:3, 14; Atos 3:18; Rom. 12:6.)

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Exemplos: 1° - Diz a Escritura: “O homem é justificado pela fé sem as obras de lei.” Ora, se
desta circunstância alguém tira em conseqüência o ensino de que o homem de fé fica livre das
obrigações de viver uma vida santa e de conformidade com os preceitos divinos, comete um erro, ainda
quando consulte um texto paralelo. É preciso consultar o teor ou doutrina geral da Escritura que trata do
assunto; feito isso, observa-se que essa interpretação é falsa por contrariar por inteiro o espírito ou
desígnio do Evangelho, que em todas as partes previnem os crentes contra o pecado, exortando-os à
pureza e à santidade.
2° - Segundo o teor ou ensino geral das Escrituras, Deus é um espírito onipotente, puríssimo,
santíssimo, conhecedor de todas as cousas e em todas as partes presente, coisa que positivamente consta
numa multidão de passagens. Pois bem, há textos que, aparentemente, nos apresentam a Deus como ser
humano, limitando-o a tempo ou lugar, diminuindo em algum sentido sua pureza ou santidade, seu
poder ou sabedoria; tais textos devem ser interpretados à luz de ditos ensinos gerais.
O fato de haver textos que à primeira vista não parecem harmonizar com esse teor das Escrituras,
deve-se à linguagem figurada da Bíblia e à incapacidade da mente humana de abraçar a verdade divina
em sua totalidade.
3° - Ao dizerem as Escrituras: “O Senhor fez todas as coisas para determinados fins, e até o
perverso para o dia da calamidade” (Prov. 16:4), quererão aqui ensinar que Deus criou o ímpio para
condená-lo, como alguns interpretam o texto? Certamente que não; porque, segundo o teor das
Escrituras, em numerosas passagens, Deus não quer a morte do ímpio, não quer que ninguém pereça,
mas que todos se arrependam. E, portanto, o significado da última parte do texto deve ser que o Criador
de todas as coisas, no dia mau, saberá valer-se inclusive do ímpio para levar a cabo seus adoráveis
desígnios. Quantas vezes, pela divina providência, não tiveram de servir os perversos qual açoite e
praga a outros, castigando-se a si mesmos ao mesmo tempo!

4. Paralelos aplicados à linguagem figurada

Às vezes é preciso consultar os paralelos para determinar se uma passagem deve ser tomada ao pé
da letra ou em sentido figurado. Várias vezes os profetas nos apresentam a Deus, por exemplo, com um
cálice na não, dando de beber aos que quer castigar, caindo estes por terra, embriagados e aturdidos.
(Naum 3:11; Hab. 2:16; Salmo 75:8, etc.) Esta representação, breve e sem explicação em certos textos,
encontra-se aclarada no paralelo de Isaías 51:17,22,23, onde aprendemos que o cálice é o furor da ira ou
justa indignação de Deus, e o aturdimento ou embriaguez, assolações e quebrantamentos insuportáveis.
A propósito da linguagem figurada, é preciso recordar aqui que alguma semelhança ou igualdade
entre duas cousas, pessoas e fatos, justifica a comparação e uso da figura. Assim, pois, se houver certa
correspondência entre o sentido figurado de uma palavra e seu sentido literal, não é necessário, como
tampouco é possível, que tudo quanto encerra a figura se encontre no sentido literal. Pela mesma razão,
por exemplo, quando Cristo chama de ovelhas a seus discípulos, é natural que não apliquemos a eles
todas as qualidades que encerra a palavra ovelha, a qual aqui é usada em sentido figurado. Em casos
como este sói bastar o sentido comum para determinar os pontos de comparação. Assim
compreendemos que, ao chamar-se Cristo de o Cordeiro, somente se refere a seu caráter manso e a seu
destino de ser sacrificado, como o cordeiro sem mácula o era entre os israelitas. Do mesmo modo
compreendemos em que sentido se chama ao pecado de dívida; à redenção de pagamento da dívida, e
ao perdão, remissão da divida ou da culpa.
É evidente que o sentido de tais expressões não deve ser levado a extremos exagerados: se bem
que Cristo morreu pelos pecadores, não se admite em conseqüência, por exemplo, que todos os
pecadores são ou serão salvos; e se bem que Cristo cumpriu toda a lei por nós, não resulta daí que
tenhamos o direito de viver no pecado; ou se consta que o homem está morto no pecado, não quer dizer
que está de tal modo morto que não se possa arrepender e que fique sem culpa se deixar de ouvir o
chamamento do Evangelho. Tratando-se de figuras de objetos materiais, não será difícil determinar o
justo número de realidades ou pontos de comparação que designa cada figura, nem a conseqüência lícita
ou ensino positivo que encerra cada ponto.
19
Maiores dificuldades oferecem as figuras tomadas da natureza humana ou da vida ordinária.
Muitos têm-se recreado em formar castelos de doutrinas sem fundamento, rebuscando e comparando
tais figuras e símiles, tirando conseqüências ilícitas, e até contrárias às Escrituras. O espírito humano
parece encontrar gosto especial em semelhantes fabricações caprichosas e jogos de palavras. Devem-se,
pois, estudar as figuras com sobriedade especial e sempre com toda a seriedade.

Existe nas Escrituras certo número de aparentes contradições ou paradoxos. “Aparentes” porque
na realidade não o são. Parecem contraditórias porque a mente finita do homem não pode compreender
a mente infinita de Deus.
Eis alguns dos conhecidos paradoxos para a mente humana:
1. A TRINDADE. Não servimos a três deuses, mas sim, a só Deus; contudo, cada Pessoa da
Divindade é plena e completamente Deus, e não apenas um terço Deus. Em essência podemos concluir
que um mais um são iguais a um. Nenhuma ilustração humana pode explicar adequadamente este
mistério teológico. Está inteiramente além da nossa compreensão.
2. A DUAL NATUREZA DE CRISTO. Jesus Cristo é Deus e homem completo. Não é meio Deus
e meio homem; todavia, Ele não é duas pessoas, mas somente uma.
3. A ORIGEM E EXISTÊNCIA DO MAL. Em termos lógicos, a mente humana deduz que de
duas coisas, uma pode ser verdadeira. Ou Deus criou o mal, ou este Lhe é co-eterno. A Bíblia nos induz
a crer que nenhuma destas é verdadeira. É um mistério.
4. A SOBERANA ELEIÇÃO DE DEUS E A RESPONSABILIDADE HUMANA. Paulo afirma
que Deus escolheu o crente em Seu soberano conselho antes da fundação do mundo (Ef 1.4). Pedro,
porém, diz: “Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, Ele
é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao
arrependimento” (2Pe 3.9). Através de todas as Escrituras há um bem intencionado oferecimento do
Evangelho a todos os homens. O homem é visto como agente moral responsável de quem Deus pede
contas, e “Todo aquele que invocar o nome do Senhor, será salvo” (Rm 10.13). Não há maneira pela
qual as nossas mentes possam conciliar estas duas verdade difíceis e aparentemente antagônicas.
De todas as dificuldades, nenhuma causa tanta controvérsia emocional como a última.
Possivelmente porque as três primeiras soam mais como questões acadêmicas, ao passo que a quarta
toca as nossas sensibilidades morais. Ela tem a ver com o destino eterno do homem.
Quando a Bíblia deixa duas doutrinas “conflitantes” sem as conciliar, você deve fazer o mesmo.
Viver em tensão não é agradável, mas você deve ter cuidado para não perder o equilíbrio bíblico ao
procurar aliviar a tensão. Não arranque partes da Escritura na tentativa de forçar acordo entre as duas
doutrinas “conflitantes”.
Você pode fazer aplicação dessas doutrinas “conflitantes” pregando a doutrina certa à pessoa
certa. Por exemplo, como cristão você prega a si próprio que Deus o escolheu; você não O escolheu. Se
a escolha fosse sua, você votaria contra Ele. Tudo que você é e tem é dom da Graça de Deus. Isto deve
enchê-lo de humildade e singeleza.
Mas você pode proclamar com arrojo ao não-cristão que Deus o ama, pois Jesus mesmo disse:
“Deus amou ao mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito” (Jo 3.16).
Nossa lealdade não é primeira e primordialmente a um sistema de teologia, mas à Escritura.
Quando você interpretar a Bíblia, não permita que a lógica humana a faça dizer nem mais nem menos
20
do que de fato diz. Na proporção em que as Escrituras falam com clareza, você pode falar com clareza.
Quando as Escrituras fazem silêncio, você deve ficar em silêncio. Onde a Bíblia ensina duas doutrinas
“conflitantes”, você deve seguir o exemplo dela e sustentar ambas, mantendo cada uma em perfeito
equilíbrio com a outra.

“A Igreja não determina o que a Bíblia ensina; A Bíblia determina o que a Igreja ensina”.

Nas questões de religião o cristão se submete, consciente ou inconscientemente, a uma das


seguintes autoridades, acatando-a como autoridade última: a tradição, a razão, ou as Escrituras.
Conquanto todas as três autoridades sejam importantes e tenham seu lugar próprio, a razão e a tradição
têm de se render à Escritura. Quando houver desacordo entre os três tipos de autoridade, a Escritura tem
de ser supremo tribunal de recursos.
Quando estudamos a Cristologia somos devedores à história da Igreja, pois no decorrer dos anos
as questões cristológicas foram solucionadas.
Jesus Cristo é Deus, Jesus Cristo é homem. Ele é “verdadeiro Deus de verdadeiro Deus”. Nunca
houve época em que Ele não o fosse. Porém as interpretações da Igreja têm autoridade somente na
medida em que estejam em harmonia com os ensinamentos da Bíblia como um todo.

 PROPÓSITO DO ESCRITOR:

NOTA 1: Cada escritor bíblico sob a inspiração divina, teve um propósito específico ao escrever.
Conhecê-lo nos coloca na posição ideal de saber o seu ponto de vista e podermos seguir seus
próprios pensamentos. Exemplos:
1. O propósito do Evangelho de João (Jo 20.30,31);
2. O propósito do Evangelho de Lucas (Lc 1.1-4);
3. O propósito de Paulo em 1Timóteo (1Tm 1.3,4);
4. O propósito de Apocalipse (Ap 1.19);
5. O propósito de Eclesiastes (Ec 1.3).

Nota 2: Às vezes para descobrir o propósito do escritor, você tem que ler o livro todo várias vezes,
até ter uma visão geral, para então definir o seu propósito. Mas dá resultado fazê-lo!

 CORRELAÇÃO
A Bíblia é um todo harmonioso:
1. Uma só doutrina harmoniosa e perfeita: 2Tm 3.16,17;
2. Um só Autor: 2Sm 23.2; 2Pe 1.20,21;
3. Profecia: Zc 9.9 – Cumprimento: Mt 21.5;
4. Tipo: Gn 22.6-13 – Protótipo: Jo 19.17,18;
5. Há verdades enunciadas em linguagem doutrinária: Jo 15.1-8;
6. Há verdades enunciadas em linguagem moral: Mt 7.12;
7. Há verdades enunciadas em linguagem filosófica: Pv; Mt 5.

21
Nota 3: Levando-se em consideração que um sistema doutrinário de um sábio, que eleva o espírito
acima dos acidentes da vida é filosofia – o sermão do monte é perfeita filosofia.
Teste: Comparando Is 64; Tt 3.4-7; Ap 3.5; 19.8 – que regra empregamos? Paralelismo Doutrinário.
Comparando Jo 14.6 com Lc 15.3-7.

Estudar as regras oito e nove do livro “Princípios de Interpretação da Bíblia” de Walter A. Henrichsen
Pág. 29 –35.

DEUS É TRIPESSOAL. 13

Em nenhum ponto a alma devota sente mais suas limitações do que quando é confrontada com a
responsabilidade de entender a PESSOA de Deus. O homem tornou-se incapaz, à parte da iluminação
divina, de compreender o Criador soberano, e o salvo só recebe esse conhecimento de Deus através da
iluminação do Espírito Santo.
O estudo da personalidade de Deus está amalgamado ao estudo da Trindade, pois “Deus na sua
essência é uno, Ele é um ser simples, único, no sentido que não existem nele partes componentes que,
quando adicionada uma à outra, componham o ser de Deus. Ele é essencialmente um, porém a
pluralidade de pessoas na deidade não nega a unidade essencial de Deus” (R.C. Sproul).
“Precisamos ter o cuidado de não estabelecer a personalidade humana como padrão pelo qual
avaliar a personalidade de Deus. A forma original da personalidade não está no homem, mas em Deus;
Sua personalidade é arquetípica, ao passo que a do homem é ectípica. A grande diferença entre ambos é
que o homem é unipessoal, enquanto Deus é tripessoal” (Berkhof).

“Estamos acostumados a pensar em relação segundo a qual um ser equivale a uma pessoa. Cada
pessoa que conheço no mundo é um ser distinto. Entretanto, nada existe no puro conceito do ser que
requeira que limitemos tal ser a uma única personalidade, simplesmente porque estamos acostumados a
pensar em uma pessoa que envolve um ser” (R.C. Sproul).

“Na trindade, temos uma essência (ser) e três subsistências. As três pessoas da deidade subsistem
na essência divina” (R.C. Sproul).
“Dizemos que há três personas ou subsistências, verdadeira e adequadamente assim chamadas,
que são mutuamente distintas, cada uma possuindo inteligência, subsistindo por si mesma e não
transmitida ou transmissível às outras, quais chamamos pessoas, de acordo com a definição que temos
desse termo” (Hermann Venema).
As três subsistências, ou pessoas, têm a mesma natureza divina (ousia) (Hermann Venema).
“Deus não poderia existir em nenhuma forma a não ser a tripessoal” (Berkhof).
“Deus não poderia contemplar-se a si mesmo, conhecer-se e comunicar-se Consigo mesmo, se não fosse
trino em Sua constituição” (Shedd).
Cada membro da trindade é uma Pessoa com aquelas faculdades e elementos constituintes que
pertencem à personalidade. Personalidade é a soma total das características necessária para descrever o
13
Copiado da apostila de “Teontologia” do Pr. Bentes.
22
que é uma pessoa (intelecto, sensibilidade e volição). Estas faculdades e elementos de Deus são
perfeitos em grau infinito, mas em sua natureza mantêm uma semelhança extraordinária com aquelas
faculdades imperfeitas e os elementos que fazem parte do homem. Deus afirma nas Escrituras que o
homem, diferentemente das outras coisas do mundo, foi criado à Sua própria imagem e semelhança (Gn
1.26,27).
“A Bíblia dá testemunho que o homem, os anjos e Deus, todos possuem aqueles elementos
essenciais que juntos constituem a personalidade” (Chafer).
A alma é sede da personalidade e as Escrituras revelam Deus não só como Espírito, mas também
como Alma: Is 42:1; Mt 12:17,18; Sl 11:5; Jr 9:9 ERC; Am 6:8 ERC; Hb 10:38; Jo 4:24.
A verdade fundamental de toda a Escritura é o fato de que Deus é um Deus que subsiste em três
pessoas.
“Na trindade temos uma essência (ousia - um só Espírito) e três almas, ou Pessoas, e após a
encarnação um corpo (o do filho)”.

Além de ser espiritual e vivo, Deus é pessoal. Ele é um Ser individual com autoconsciência e
vontade, capaz de sentir, escolher e ter um relacionamento recíproco com outros seres pessoais e
sociais. Em Deus temos personalidade sem corporalidade. O que é então a essência da personalidade?
Autoconsciência e autodeterminação (vontade própria). Deus é revelado nas Escrituras como Espírito e
Alma:
Is 42.1: “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se
compraz; pus sobre ele o meu Espírito”.
Mt 12.18: “Eis aqui o meu servo, que escolhi, o meu amado, em quem a minha alma se compraz.
Farei repousar sobre ele o meu Espírito, e ele anunciará juízo aos gentios”.
Jr 9.9: “Porventura, por estas coisas não os visitaria? --diz o SENHOR; ou não se vingaria a
minha alma de gente tal como esta?”.
Hb 10.38: “Mas o justo viverá da fé; e, se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele”.
Am 6.8: “Jurou o Senhor JEOVÁ pela sua alma, o SENHOR, Deus dos Exércitos: Tenho
abominação pela soberba de Jacó e aborreço os seus palácios; e entregarei a cidade e tudo o que nela
há”.
Jo 4.24: “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade”.

 AUTOCONSCIÊNCIA:
Êx 3.14: “E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de
Israel: EU SOU me enviou a vós”.
Is 45.5: “EU SOU O SENHOR, e não há outro; fora de mim, não há deus; eu te cingirei, ainda
que tu me não conheças”.
1 Co 2.10,11: “Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as
coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o
espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de
Deus”.

23
 AUTODETERMINAÇÃO (VONTADE PRÓPRIA):
Jó 23.13: “Mas, se ele está contra alguém, quem, então, o desviará? O que a sua alma quiser, isso
fará”.
Rm 9.11-16: “porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o
propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que
chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei Jacó e aborreci Esaú. Que
diremos, pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma! Pois diz a Moisés:
Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim,
pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece”.

 CONSCIÊNCIA MORAL. Uma pessoa tem consciência do que é direito e do que é errado e da
obrigação de fazer o bem e de evitar o mal. Autoconsciência e Autodeterminação só têm sentido
para quem tem consciência moral. Deus tem consciência moral. Ele é santo e justo; conhece
absolutamente o bem e o mal (Gn 2.9, etc). A Autoconsciência, a Autodeterminação e Consciência
Moral, estas faculdades da personalidade estão em grau superior de perfeição em Deus, porque Ele é
Personalidade Perfeita.

VI. HERMENÊUTICA SAGRADA PRINCÍPIOS GRAMATICAIS DE INTERPRETAÇÃO


 AUXÍLIOS EXTERNOS
Introdução: O conhecimento das línguas originais da Bíblia – hebraico e grego – são de valor
inestimável ao intérprete, porque elucidam melhor tudo que se queira analisar do texto sagrado. Nada se
compara com o intérprete poder ler as Escrituras nas línguas em que elas foram escritas.

LEITURAS: Mc 15.34,35; At 2.22,23; 2Rs 17.26-28.


a. Os soldados romanos interpretaram errado as palavras de Jesus – “Eis que Ele chama por
Elias” – Mt 27.46: Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá
sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
Mt 27.46 peri\ de\ th\n e)na/thn w(/ran a)nebo/hsen o( )Ihsou=j fwnv= mega/lv
le/gwn, Hli hli lema sabaxqani; tou=t' e)/stin, Qee/ mou qee/ mou, i(nati/ me
e)gkate/lipej;
Mc 15.34: “À hora nona, clamou Jesus em alta voz: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? Que quer dizer: Deus
meu, Deus meu, por que me desamparaste?”.
Mc 15.34: “À hora nona, clamou Jesus em alta voz: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? Que quer dizer: Deus
meu, Deus meu, por que me desamparaste?”.
Mc 15.34: “kai\ tv= e)na/tv w(/r# e)bo/hsen o( )Ihsou=j fwnv= mega/lv, Elwi elwi
lema sabaxqani; o(/ e)stin meqermhneuo/menon (O qeo/j mou o( qeo/j mou, ei)j
ti/ e)gkate/lipe/j me”. (Mc 15.34)
b. Eles não conheciam que Jesus falava em aramaico (O texto de Mateus está em aramaico).
c. Pedro apelou aos conhecimentos que os judeus tinham dos fatos alusivos a Jesus e aos Seus
feitos notáveis.

24
Regra 1: O intérprete deve conhecer as línguas originais.

Regra 2: O intérprete deve conhecer a história antiga dos tempos dos povos egípcios,
cananeus, judeus e do cristianismo primitivo.

Regra 3: O intérprete deve conhecer o mais possível os costumes das épocas em que
foram escritos os livros da Bíblia.

 AUXÍLIO DAS VERSÕES MODERNAS


1. As muitas versões modernas que pudermos consultar comparando-as entre si, nos ajudarão
muito a assimilar o sentido verdadeiro do texto estudado, porém não substituem o
conhecimento das línguas originais.
2. A história antiga e a arqueologia elucidam muito com respeito aos costumes, as condições
ambientes da época e a maneira de viver do povo de então.
3. A geografia da Palestina, a História Natural dali e a legislação antiga, igualmente são recursos
externos que muito ajudam o intérprete a entender certos textos bíblicos.
 Exemplo frisante:
Salmo 126.1-6 nos dá um exemplo de como a geografia e a história natural nos ajudam a
entender a Bíblia:
1. Volta do cativeiro: v.1
2. O júbilo conseqüente: v.v. 2,3
3. A súplica ardente: v.4
4. As torrentes do Neguebe: v.4
5. A semeadura penosa: v.5
6. O resultado maravilhoso: v.6
Estátua de Moisés, esculpida por Michelangelo, na catedral de São Pedro, em Roma. Devido a um
erro de tradução na Vulgata latina, do texto de Ex 34.29 (que traz “chifres” em vez de
“resplandecia”), Moisés era retratado com chifres na cabeça.

25
Ex 34.29: Ao descer do monte Sinai com as duas tábuas da aliança nas mãos, Moisés não sabia que o
seu rosto resplandecia por ter conversado com o SENHOR.
Ex 34:29 cumque descenderet Moses de monte Sinai tenebat duas tabulas testimonii et ignorabat quod
cornuta esset facies sua ex consortio sermonis Dei.
Cornuta = cornos, chifres.

ὡς δὲ κατέβαινεν Μωϋσῆς ἐκ τοῦ ὄρους, καὶ αἱ δύο πλάκες ἐπὶ τῶν χειρῶν Μωυσῆ· καταβαίνοντος δὲ
αὐτοῦ ἐκ τοῦ ὄρους
Μωϋσῆς οὐκ ᾔδει ὅτι δεδόξασται ἡ ὄψις τοῦ χρώµατος τοῦ προσώπου αὐτοῦ ἐν τῷ λαλεῖν αὐτὸν αὐτῷ.
δεδόξασται = brilhava, resplandecia

ֶׁ֣‫שהֶׁ֣ דִבמרָ֑דִד תת מּוֹּ֖ ממןִ־ההֶׁ֣ ההֶׁ֣רָ֑ ומ מּ ששה‬ ‫חת דִביְּדדִב ררָ֑ מּוֹּ֖ ההֶׁ֣העָֽעדֵדתֻת דִביְּיד־מ מּ שֹ ש‬
ּ‫שנְׁעָֽני דֵל ח מ‬
ִ‫שתֻהֶׁ֣ עָֽמ יְּ שהֶׁ֣רָ֑ מסישֹיְּני ו ד‬
‫יְּוֹּ֖י דִהְמהֶׁ֣י דִב ש חרָ֑שדת מ מּ ש‬
‫הלא־י ההְיְּדע מ רכי הק יְּ ררָ֑ןִ רע מּוֹּ֖רָ֑ הפ תהניוֹּ֖ מא הת מּוֹּ֖׃‬

ֹּ֖‫ הפ תהניו‬Karan
26
E foi ao descer Moisés do monte Sinai, estando as duas tábuas do testemunho na mão de Moisés em sua
descida do monte, Moisés não sabia que resplandescia a pele de seus rosto por ter falado (Deus) com ele
(Tradução do Rabino Meir Meir Matzliah Melamed).

}arfq = resplandecer, brilhar (qal); ter chifres (hifil)


}ereq = qeren = chifre
2072 }arfq (qāran) brilhar (qal); ter chifres (hifil). Verbo denominativo.

Substantivo de Origem
2072ª }ereq (qeren) chifre
Esse verbo denominativo de qeren denota primeiramente, aqueles raios fulgurante que brotam
do rosto de Moisés depois de ele se encontrar com Deus (Ex 34.29) e, em segundo lugar, o ter chifres
(Sl 69.31[32]. Foi esse erro de tradução na Vulgata, em que a palavra que aparece é “chifre”, que levou
Miguelangelo a colocar dois chifres pequenos na cabeça de Moisés na famosa estátua que fez. Observe-
se o mesmo erro de tradução na KJV em Habacuque 3.4. O uso do qal denota a forma de um chifre em
vez do chifre propriamente dito. Deve-se contrastar a raiz com `āhal, ‘ôr, hālal, et al., que denotam um
“brilho” e não a forma. A raiz ocorre 77 vezes (quatro como verbo).

Qeren. Chifre, raio (de lu), monte. O vocábulo denota basicamente o chifre de diversos animais
(carneiro, boi selvagem). (Cf. o ugarítico qrn, UT 19: nº 2279). Presas de elefante eram chamadas de
chifres (ou erroneamente interpretadas como tais, Ez 27.15). uma denotação derivada que ocorre com
certa freqüência tem que ver com força, orgulho e vigor. L.Schmit acertadamente declarou: “No AT o
chifre não é apenas uma expressão de força física na ação simbólica dos profetas (2RS 22.11) ou na
descrição visionária do poder que dispersou Israel (Zc 21-4); é um termo direto para poder” (TWNT,
v.3, p. 669). (Cf Dt 33.17; 2Sm 22.3; Sl 18.2[3].)

DEUS SE ARREPENDE?
Deus nunca se arrepende: Nm 23.19, I Sm 15.29, Ez 24.14, Ml 3.6.
Deus se arrepende: Gn 6.6, Ex 32.14, Dt 32.36, 1 Sm 15.11, 15.35, 2 Sm 24.16, 1 Cr 21.15, Is 38.1-5,
Jr 15.6, 18.8, 26.3, 26.13, 26.19, 42.10, Am 7.3, 7.6, Jn 3.10
Descontradizendo
Segundo o Novo Dicionário da Bíblia da editora Vida Nova
“Os vocábulos “arrepender-se” e “arrependimento” são raramente usados no Antigo Testamento com
referência aos homens. Como traduções da raiz hebraica nãham (ֹּ֖‫ םחניו‬- ), essas palavras são mais
frequentemente aplicadas a Deus”.
No hebraico, quando a palavra arrependimento está relacionada ao homem é shübh (ֹּ֖‫ )בשיו‬e a Deus é
nãham (ֹּ֖‫)םחניו‬.
Shübh = Está sempre aplicada ao pecado, ao erro, ao remorso. Ou seja, o homem reconhece o seu erro
e se arrepende do que fez.
Nãham = Está ligada a relação de Deus para com o homem. Por exemplo: Deus diz que vai destruir o
homem se ele não se arrepender. Porém, o homem se arrepende. Então a Bíblia diz que Deus se
arrependeu do que disse. Ou seja, Deus não destruiu o homem porque este se arrependeu. O
arrependimento aqui não está dizendo no sentido como se Deus reconhecesse o seu erro e se arrepende.
E sim, que Deus não mais destruiria o homem. Ou seja, a sua atitude de destruir o homem foi anulada
pelo arrependimento deste.
Quando os textos acima dizem que Deus não se arrepende está dizendo que a sua atitude para com o
pecado não mudará sem o arrependimento do ser humano. E quando Ele “se arrepende” está dizendo
que a sua atitude é de não mais fazer o que faria sem o arrependimento do homem.

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Muitos questionam sobre a pessoa de Deus, se Ele se arrepende ou não. A Bíblia traz inúmeros textos
que fazem menção ao arrependimento de Deus, mas também há textos como Nm.23:19 que diz: “Deus
não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa; porventura, diria ele e não o
faria? Ou falaria e não o confirmaria?” Como entender isso? Afinal, Deus se arrepende ou não?

A palavra arrependimento traz consigo a idéia de mudança, o desejo de não ter cometido algo, pois o
seu significado está inteiramente relacionado a algo que não deu certo, por isso almeja a mudança, nos
arrependemos porque erramos. Pode ser um crime, um pecado qualquer, uma omissão, ou algo que não
deu certo.

Se levarmos em consideração a idéia de Deus se arrepender, estamos também fazendo uma afirmação
de que Deus está sujeito a errar, uma vez que arrependimento está ligado a algo que não deu certo. No
entanto, seria um cúmulo pensar assim sobre Deus já que Ele é perfeito e erro nenhum se encontra em
seus atos. Até porque, entendemos também que Deus é Onisciente, isto é, sabe de todas as coisas, e isso
não está relacionado tão somente ao presente, mas também ao futuro em seus mínimos detelhes.
Portanto, pensar que Deus ao saber que algo vai dar errado e o faz, é uma contradição de sua própria
Divindade. Por isso, os mínimos atos de Deus em nenhum momento precisam de arrependimento, pois
tudo caminha conforme a sua soberana e perfeita vontade. Ele não precisa de plano B ou C, em pensar
que o primeiro não tenha dado certo, já que nada foge do Seu controle.

Contudo, ainda fica a pergunta, como entender certos textos que fazem menção ao ato de Deus se
arrepender? Por exemplo, Gn.6:6 que diz: “Então, arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem
sobre a terra, e pesou-lhe em seu coração.” É importantíssimo saber que a Bíblia é rica em seus
ensinamentos e não pode ser mal interpretada, até porque, não pode haver discordâncias e contradições
em si mesma, por ser ela a Palavra de Deus.

Há textos que não se deve interpretar de forma literal, por se tratar muitas vezes de uma figura de
linguagem para expressar a sua verdade a quem a mensagem está sendo transmitida. Quando a Bíblia
diz que Deus tem asas, não diz de forma literal, mas unicamente para expressar o cuidado sobre os seus
filhos. Essa e outras passagens da Sagrada Escritura, ao serem interpretadas, deve-se levar em
consideração o propósito da mensagem.

Portanto, quanto aos textos que mencionam Deus se arrepender, é uma forma de expressar Seu
sentimento em relação ao ocorrido se revelando de forma que o homem em sua limitação possa
compreendê-Lo. Entretanto, Deus continua Soberano e infalível e imutável em todos os seus atos, sem
precisar alterar ou se arrepender de nada, por que tudo o que ele faz é bom e perfeito.
Deus abençoe a todos.

Um exemplo

Estas linguagens humanas que frequentemente encontramos na Bíblia para expressar o que Deus disse
fazem parte do limitar-se de Deus para que haja uma comunicação Divino-Humana entendível.

Deus não se comunica ou se relaciona conosco baseando-se na sua onisciência. Um exemplo:

Digamos que eu saiba de tudo, que eu seja uma pessoa onisciente. Como vocês acham que eu deveria
me relacionar com meu filho se ele não é onisciente?

Um dia eu chego para ele e digo: “ - Filho! Eu sou um homem que nunca me arrependo do que digo!

E se você fizer tal coisa um dia, você será punido”.


28
E digamos que o menino vai e faça justamente o que eu disse para não fazê-lo.

Porém, ele se arrepende e chega até mim e diz: “- Pai! Lembra que o Senhor disse que não era para eu
fazer aquilo?”.

“- Lembro!” - lhe respondo.

“- Pois é, eu fiz papai. Porém, estou muito arrependido”.

Então eu lhe respondo: “Ok filho, se você se arrependeu, eu não punirei você!”

Porém, os ateus desejam que meu filho reaja assim: “Não pai! O senhor tem que me punir porque você
não pode se arrepender (mudar a ação) do que disse”.

Eu lhe responderia: “- Filho o que eu quiz dizer, é que não me arrependo (mudo minha ação) se você
não se arrepender. Porque caso você não tivesse se arrependido, eu certamente o puniria pelo teu erro”.

Observação: Sem o uso de linguagem humana, tudo isto que disse acima perderia o sentido.

Por exemplo: Digamos que eu chegasse e falasse assim com ele: “- Eu jamais me arrependo. Vou
destruir aquele povo”.

Porém, o povo se arrepende. E ainda assim digo: “- Não importa, quando eu disse o que disse, eu já
sabia que eles iam se arrepender e isso não importa. O que importa é que eu disse que os destruiria e eu
nunca me arrependo do que digo”.

29
PRINCÍPIOS DE INTERPRETAÇÃO BÍBLICA (L. BERKHOF – Pág.72,73)
PRINCÍPIOS GRAMATICAIS DE INTERPRETAÇÃO
O uso da palavra Sarks (sa/rc). A palavra sarks pode designar:
1. A parte sólida de um corpo, exceto os ossos, (1Co 15.39; Lc 24.39);
2. Toda substância do corpo, quando sinônimo de soma (sw=ma) – (At 2.26; Ef 2.15; 5.29);
3. A natureza animal (sensual) do homem (Jo 1.13; 1Co 10.18);
4. A natureza humana enquanto dominada pelo pecado, lugar e veículo dos desejos pecaminosos
(Rm 7.25; 8.4-9; Gl 5.16,17).
Se um intérprete atribuísse todos esses significados à palavra como encontrada em Jo 6.53, ele
iria, assim, atribuir pecado, em um sentido ético, a Cristo, a quem a Bíblia representa como aquele sem
pecado.

Exercícios: (L. Berkhof): Qual é o significado das seguintes preposições?:


dia, em Rm 3.25; 1Co 1.9; Hb 3.16; Ap 4.11; en, em Mt 11.11; At 7.29; Ap 5.9; anti, em Mt 2.22;
20.28; huper, em 1Co 16.12; 3Jo 2; eis, em Mc 1.39; At 19.22; 20.29; Jo 8.30.

A. O SIGNIFICADO DAS PALAVRAS ISOLADAS

A Bíblia foi escrita em linguagem humana e, conseqüentemente, deve ser interpretada


gramaticalmente em primeiro lugar. No estudo do texto, o intérprete pode proceder de duas maneiras.
Ele pode começar com a sentença, com a expressão do pensamento do escritor como uma unidade e,
então, descer aos particulares, à interpretação das palavras isoladas e dos conceitos; ou ele pode
começar do último e, então, gradualmente subir para uma consideração da sentença, do pensamento
como um todo. De um ponto de vista puramente lógico e psicológico, o primeiro método merece
preferência. Cf. Woltjer, Het Woord, zijn Oorsprong en Uitlegging, p. 59. Mas, por razões práticas, se
aconselha geralmente começar a interpretação de literatura estrangeira com um estudo das palavras
isoladas. Daí, devemos seguir essa ordem em nossa discussão. Três coisas pedem consideração aqui.

1. A ETIMOLOGIA DAS PALAVRAS. O significado etimológico das palavras merece atenção


em primeiro lugar, não por ser o mais importante para um exegeta, mas porque, logicamente, precede
todos os outros significados. Como regra, não é aconselhável que o intérprete deva entregar-se muito às
investigações etimológicas. Esse trabalho é extremamente difícil e pode, ordinariamente, ser deixado
para especialistas. Além disso, o significado etimológico de uma palavra nem sempre joga luz sobre seu
significado corrente. Ao mesmo tempo, é aconselhável que o expositor da Escritura note a etimologia
estabelecida de uma palavra, uma vez que isso pode ajudar a determinar seu significado real e pode
iluminá-lo de uma maneira surpreendente. Tomemos as palavras hebraicas kopher kippurim e ka-
pporeth, traduzidas respectivamente por “resgate”, “redenções” ou “expiações” e “propiciatório”. Todas
elas são derivadas da raiz kaphar, que significa “cobrir” e contém a idéia de uma redenção ou expiação
realizada por uma certa cobertura. O pecado ou o pecador é coberto pelo sangue expiatório de Cristo,
que foi tipificado pelo sangue dos sacrifícios do Antigo Testamento. Ou, pegue a palavra ekklesia do
Novo Testamento, derivada de ek e kalein. Ela é uma designação da Igreja, tanto na Septuaginta quanto
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no Novo Testamento, e aponta para o fato de que essa consiste de um povo “chamado”, isto é, separado
do mundo em devoção especial a Deus.
EXERCÍCIO:
Encontre o significado original das seguintes palavras:
a. Hebraico: hata' avah, tsaddiq, qahal, ‘edhah;
b. Grego: kleronomia, makrothumia, eutrapelia, spermologos.

2. USO CORRENTE DAS PALAVRAS. O significado corrente de uma palavra tem muito mais
importância para o intérprete do que seu significado etimológico. Para interpretar corretamente a Bíblia,
ele deve ter conhecimento dos significados que as palavras adquiriram no curso do tempo e do sentido
em que os autores bíblicos as usaram. Esse é um ponto importante a ser estabelecido. Pode-se pensar
que isso deve ser facilmente feito por meio da consulta a alguns bons léxicos, que geralmente dão os
significados originais e derivados das palavras e geralmente designam em que sentido elas devem ser
usadas em passagens particulares. Na maioria dos casos, isso se aplica perfeitamente. Ao mesmo tempo,
é necessário manter em mente que os léxicos não são absolutamente infalíveis e menos ainda quando
descem aos particulares. Eles simplesmente incorporam os resultados das obras exegéticas dos vários
intérpretes que confiaram o julgamento discriminatório do lexicógrafo e, freqüentemente, revelam uma
diferença de opinião. E bem possível e, em alguns casos, perfeitamente evidente, que a escolha de um
significado foi determinada por preferência dogmática. Tregelles adverte contra esse perigo, na obra
introdutória da segunda edição do seu Gesenius. Diz ele: “Daí surge a importância peculiar, mencionada
acima, de se prestar a atenção adequada à filologia hebraica. Um conhecimento real daquela língua, ou
mesmo a habilidade de escritores competentes em usar adequadamente as palavras, freqüentemente
mostrará que a afirmação dogmática de que algo muito peculiar deva ser o significado de uma palavra
ou sentença hebraica é somente uma petitio principii delineada em nome de certas deduções a que se
pretende chegar. Qualquer estudioso competente pode ver que esse significado estranho é não só
desnecessário como também, muitas vezes, inadmissível, a não ser que seja permitido nos valermos das
mais arbitrárias conjecturas... O modo pelo qual alguns têm introduzido dificuldades no departamento
da filologia hebraica tem sido pela atribuição de significados novos e estranhos às palavras hebraicas,
afirmando que tais significados devem estar certos em passagens particulares (embora em mais nenhum
outro lugar), e limitando o sentido de uma raiz ou de um termo para, assim, concluir que se pode
encontrar alguma incorreção de declaração por parte dos escritores sagrados”.
Se o intérprete tem alguma razão para duvidar do significado de uma palavra, como apresentado
no Léxico, ele terá de investigar por si mesmo. Tais trabalhos são, indubitavelmente, muito frutíferos
mas, também, extremamente difíceis. (a) A maioria das palavras tem muitos significados, alguns literais
e outros figurados; (b) O estudo comparativo de palavras análogas em outras línguas requer uma
discriminação cuidadosa e nem sempre ajuda a fixar o significado exato de uma palavra, uma vez que
palavras correspondentes em línguas diferentes nem sempre têm, exatamente, o mesmo significado
original e derivativo; (c) No estudo das palavras do Novo Testamento, é imperativo que a avaliação do
koiné escrito e também do falado, seja considerada; (d) Não é sempre seguro concluir o significado de
uma palavra do Novo Testamento a partir do seu significado no grego clássico, uma vez que o
Cristianismo acrescentou um novo conteúdo a muitas palavras. Além disso, é precário admitir que uma
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palavra sempre tem o mesmo significado na Palavra de Deus. O Deus revelador falou “muitas vezes e
de muitas maneiras”; sua revelação foi progressiva, e pode ter enriquecido o significado das palavras no
curso do seu desenvolvimento.
Mas, por mais difícil que essa tarefa seja, isso não pode deter o intérprete. Se necessário, ele
deve fazer, por si mesmo, um estudo completo de uma palavra. E o único modo pelo qual ele pode fazer
isso é pelo método indutivo. Será sua incumbência: (a) apurar, com a ajuda das concordâncias grega e
hebraica, onde a palavra é encontrada; (b) determinar o significado da palavra em cada uma das
conexões em que ocorre; e (c) fazer isso por meio das ajudas internas em vez das externas. Na busca de
tal estudo, os vários significados de uma palavra irão, gradualmente, se tornar aparentes. No entanto, o
intérprete deve tomar cuidado com as conclusões precipitadas, e nunca basear sua indução somente
numa parte dos dados disponíveis. Esse estudo indutivo pode capacitá-lo a (a) determinar se um certo
significado, confiantemente atribuído pelo léxico a uma palavra, é, de fato, correto; ou (b) obter
segurança a respeito do significado representado como duvidoso no léxico; ou (c) descobrir um
significado que nunca antes havia sido atribuído a uma determinada palavra.
Os chamados hapax legomena constituem uma dificuldade especial. Esses podem ser de dois
tipos, a saber, (1) absoluto, quando uma palavra é encontrada mais apenas uma vez em toda a extensão
da literatura conhecida; e (b) relativo, quando há apenas um único exemplo do seu uso na Bíblia. O
primeiro é, particularmente, desorientador para o intérprete. A origem de tais palavras está
freqüentemente perdida na obscuridade, e seu significado só pode ser determinado de forma
aproximada, por meio da conexão em que ocorre e pela analogia de palavras relacionadas na mesma
língua ou em outras. Reflita em epiousios de Mt 6.11; Lc 11.3; e pistikos em Mc 14.3; Jo 12.3.

3. USO DE PALAVRAS SINÔNIMAS. Todas as línguas contêm antônimos e sinônimos. As


palavras sinônimas são aquelas que têm o mesmo significado, ou concordam em um ou mais de seus
significados, embora possam diferir em outros. Elas, freqüentemente, concordam em seus significados
fundamentais, mas expressam diferentes nuanças. O uso de sinônimos contribui para a beleza da
linguagem tanto quanto capacita um autor a variar suas expressões. Além disso, enriquece uma
linguagem, fazendo-a capaz de expressar mais detalhadamente as diferentes nuanças e aspectos de cada
idéia particular.
As línguas em que a Bíblia foi escrita são também ricas em expressões sinônimas e antônimas. É
de se lamentar que essas não tenham sido retidas, a uma grande extensão, nas traduções. Em alguns
casos, isso foi completamente impossível, mas, em outros, poderia ter sido feito. Mas, embora algumas
das mais refinadas distinções tenham sido perdidas na tradução, o intérprete nunca pode perdê-las de
vista. Ele deve atentar para todas as idéias relacionadas da Bíblia e perceber rapidamente o que elas têm
em comum e em que diferem. Essa é a condição sine qua non de um conhecimento distintivo da
revelação bíblica.
O Novo Testamento fornece um belo exemplo em João 21.15-17. Quando o Senhor ressurreto
indagou pelo amor do Pedro caído, usou duas palavras, a saber, agapao e phileo. A distinção entre as
duas é feita por Trench nas seguintes palavras: “A primeira expressa um afeto mais racional de escolha
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e seleção, a partir do fato de se ver no objeto desse afeto algo que é digno de consideração; ou ainda, a
partir de um senso de que isso é devido à pessoa então considerada, como um benfeitor ou semelhante;
enquanto a segunda, sem ser necessariamente um afeto irracional, dá menos explicação de si mesmo a si
mesmo; é mais instintivo, mais de sentimentos ou afeições naturais, implica mais paixão”. A primeira,
baseada em admiração e respeito, é um amor controlado pela vontade e tem um caráter duradouro;
enquanto que a última, baseada na afeição, é um amor mais impulsivo e propenso a perder seu fervor.
Então, quando o Senhor colocou primeiramente a questão a Pedro, “tu me amas?”, ele usou a primeira
palavra, agapao. Mas Pedro não ousou responder afirmativamente à questão, se ele amava ao Senhor
com um amor permanente que alcança seus maiores triunfos nos momentos de tentação. Assim, em
resposta, ele usou a segunda palavra, phileo. O Senhor repetiu a questão, e Pedro novamente respondeu
da mesma forma. Então o Salvador desceu até o nível de Pedro e, em sua terceira questão, usou a
segunda palavra, como se ele duvidasse até mesmo do philein de Pedro. Não é de se admirar que Pedro
se entristecesse e fizesse um apelo à onisciência do Senhor.
Jo 21.15-17: Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, você
me ama (a)gap#=j me) mais do que estes?” Disse ele: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo” (filw=
se). Disse Jesus: “Cuide dos meus cordeiros”. 16 Novamente Jesus disse: “Simão, filho de João, você
me ama? (a)gap#=j me)” Ele respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo” (filw= se). Disse
Jesus: “Pastoreie as minhas ovelhas”. 17 Pela terceira vez, ele lhe disse: “Simão, filho de João, você me
ama?” (filei=j me) Pedro ficou magoado por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez “Você me
ama?” (Filei=j me) e lhe disse: “Senhor, tu sabes todas as coisas e sabes que te amo” (filw= se).
Disse-lhe Jesus: “Cuide das minhas ovelhas”.

Esses exemplos bastam para provar a grande importância do estudo dos sinônimos. Um
interessante campo de estudo se abre aqui para o intérprete. Mas, justamente por ser um estudo tão
fascinante, ele pode se tornar perigoso. As palavras sinônimas têm sempre um significado geral como
também um distintivo especial; e o expositor não deve prosseguir no princípio de que sempre que essas
palavras são usadas, o significado distintivo deve ser enfatizado porque, assim, ele estará sujeito a se
encontrar enredado em todos os tipos de interpretações fantasiosas. O contexto em que a palavra é
usada, os atributos atribuídos a ela e os adjuntos somados a ela devem determinar qual o sentido em que
deve ser entendida, se o geral ou o especial. Se duas ou mais palavras ou expressões sinônimas são
encontradas em uma mesma passagem, geralmente é seguro admitir que seu significado especial requer
atenção.
Logos e Rhema, a polêmica da semântica.
Segundo Michael Horton, não existe nenhuma grande diferença entre estes dois vocábulos, que
seriam como os sinônimos ―enorme‖ e ―imenso‖ no português. Ele declara que ―os ensinadores da fé
inventavam uma falsa distinção de significado entre essas duas palavras gregas. Rhema, dizem eles, é a
―palavra‘‖ que os crentes usam para ―decretar‖ ou ―declarar‖ a fim de trazer prosperidade ou cura para
esta dimensão‖. Em uma linguagem mais coloquial, o vocábulo rhema é o ―abracadabra‖ que os

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neopentecostais pronunciam para materializar o objeto desejado. Depois vem logos, ou ―a palavra de
revelação‖ que é a palavra mística, direta, que Deus fala aos iniciados. O termo pode-se referir também à
Bíblia, mas é geralmente empregado no contexto de sonhos, visões e comunicações particulares entre Deus e
seu ―agente‖. Dessa forma, podemos perceber no movimento neopentecostal duas fontes de autoridade:
uma objetiva – a Bíblia, e outra subjetiva, a revelação ou palavra da fé. Assim, quando alguém lê uma
referência na literatura do pregador da fé à ―Palavra de Deus‖, ou ―agir sobre a Palavra‖ e outras, o autor
pode não está mais se referindo à Palavra de Deus escrita, a Bíblia, mas ao seu próprio ―decreto‖ (rhema)
ou uma palavra pessoal de Deus para ele (logos).
Os apologistas da confissão positiva fazem um cavalo de batalha sobre as palavras gregas logos e
rhema que significam palavra, dizendo que há uma distinção entre eles no sentido de que logos é a Palavra
escrita, revelada de Deus, e que rhema é a palavra dita, expressa de Deus, que faz com que as coisas sejam
realizadas. A palavra rhema seria uma espécie de ―vara de condão‖ capaz de materializar o objeto da nossa
cobiça. Desta forma, eles afirmam que podemos usar a palavra rhema para realizarmos no mundo espiritual
e físico tudo aquilo que desejamos. Entretanto, na Palavra de Deus não há sequer uma distinção teológica
entre estes dois termos. O Dr. Russel Shedd afirma que Pedro não fez distinção sobre estes termos em sua
primeira carta, capítulo 1.23-25: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível,
pela palavra (Gr. Logos) de Deus, viva que permanece para sempre. Porque toda a carne é como a erva, e
toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; Mas a palavra (Gr. Rhema)
do Senhor permanece para sempre; e esta é a palavra (Gr. Rhema) que entre vós foi evangelizada” . Como
se pode ver, na mente do apóstolo não havia distinção entre estas palavras. Sendo assim fica desfeita a
pretensão daqueles que querem forçar uma interpretação e aplicação errônea destes termos.

Exemplos onde RHEMA e LOGOS são sinônimas:


At 18.24: “Nesse meio tempo, chegou a Éfeso um judeu, natural de Alexandria, chamado Apolo,
homem eloqüente e poderoso nas Escrituras”.
At 18.24: “)Ioudai=oj de/ tij )Apollw=j o)no/mati, )Alecandreu\j t%= ge/nei, a)nh\r
lo/gioj, kath/nthsen ei)j )/Efeson, dunato\j w)\n e)n tai=j grafai=j”.
Mt 7.28: “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras (lo/gouj), estavam as multidões
maravilhadas da sua doutrina;”
Mt 7.28: “Kai\ e)ge/neto o(/te e)te/lesen o( )Ihsou=j tou\j lo/gouj tou/touj,
e)ceplh/ssonto oi( o)/xloi e)pi\ tv= didaxv= au)tou=“.
Mt 8.8,16: “Mas o centurião respondeu: Senhor, não sou digno de que entres em minha casa; mas
apenas manda com uma palavra (lo/g%), e o meu rapaz será curado. Chegada a tarde, trouxeram-lhe
muitos endemoninhados; e ele meramente com a palavra (lo/g%) expeliu os espíritos e curou todos os
que estavam doentes”.
Mt 8.8,16: “8 kai\ a)pokriqei\j o( e(kato/ntarxoj e)/fh, Ku/rie, ou)k ei)mi\ i(kano\j i(/na
mou u(po\ th\n ste/ghn ei)se/lqvj, a)lla\ mo/non ei)pe\ lo/g%, kai\ i)aqh/setai
o( pai=j mou. 16 )Oyi/aj de\ genome/nhj prosh/negkan au)t%= daimonizome/nouj

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pollou/j: kai\ e)ce/balen ta\ pneu/mata lo/g% kai\ pa/ntaj tou\j kakw=j e)/xontaj
e)qera/peusen”.
Mt 26.75: “Então, Pedro se lembrou da palavra (rhēmatos) que Jesus lhe dissera: Antes que o galo
cante, tu me negarás três vezes. E, saindo dali, chorou amargamente.”
Mt 26.75: kai\ e)mnh/sqh o( Pe/troj tou= r(h/matoj )Ihsou= ei)rhko/toj o(/ti Pri\n
a)le/ktora fwnh=sai tri\j a)parnh/sv me: kai\ e)celqw\n e)/cw e)/klausen pikrw=j.

Mc 14.72: “Marcos 14:72 E logo cantou o galo pela segunda vez. Então, Pedro se lembrou da palavra
(rhema) que Jesus lhe dissera: Antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes. E, caindo
em si, desatou a chorar.”
Mc 14.72: “14.72 kai\ eu)qu\j e)k deute/rou a)le/ktwr e)fw/nhsen. kai\ a)nemnh/sqh
o( Pe/troj to\ r(h=ma w(j ei)=pen au)t%= o( )Ihsou=j o(/ti Pri\n a)le/ktora
fwnh=sai di\j tri/j me a)parnh/sv: kai\ e)pibalw\n e)/klaien”“““.
Hb 11.3: “Pela fé, entendemos que os mundos, pela palavra de Deus, foram criados; de maneira que
aquilo que se vê não foi feito do que é aparente”.
Hebrews 11:3: “Pi/stei noou=men kathrti/sqai tou\j ai)w=naj r(h/mati qeou=, ei)j to\
mh\ e)k fainome/nwn to\ blepo/menon gegone/nai”“.
Jo 14.16: E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Conselheiro para estar com vocês para sempre.
Jo 14.16 ka)gw\ e)rwth/sw to\n pate/ra kai\ a)/llon para/klhton dw/sei u(mi=n, i(/na
meq' u(mw=n ei)j to\n ai)w=na v)=,
a)/llon - a)/lloj = outro (da mesma espécie)

TESTE: Jz 12.4-6 – Qual era o problema que havia com esta palavra que causou tantas mortes?
Nota: Na resolução deste teste entra em jogo o conhecimento da língua original.

Shibolete (tlbv ;
v) Sibolete ( S) tlbs
S = Sámek; V = Shin

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VII. HERMENÊUTICA SAGRADA - PRINCÍPIOS TEOLÓGICOS DE INTERPRETAÇÃO
 O CONHECIMENTO DO TEMPO:
Introdução: Identificar e distinguir o tempo em que certo fato teve lugar e o modo e
circunstâncias em que ocorreu, é fundamentar ajuda ao intérprete na elucidação do mesmo.
Portanto, o intérprete deve distinguir o tempo, levando-o na devida consideração em seus
estudos e interpretações da Bíblia.

LEITURAS: Gn 2.8,16,17; 3.17; 12.1,2; Dt 5.1-21; Jo 1.11-13,16,17.


NOTA 1: Adão foi colocado por Deus no Éden com plena liberdade, exceto para comer do fruto
da árvore da ciência do bem e do mal. Desobedecendo, Deus o expulsou dali e desde então ele e
seus descendentes jamais tiveram tal liberdade (Ap 2.7).
1. Abraão nasceu na idolatria (Js 24.2). Deus o chamou para uma terra que seria sua e da sua
descendência que se constituiria em uma grande nação (Gn 17.1).
2. Com os israelitas Deus fez um pacto legal, diferente dos que fizera com seus pais, que igual
não fizera com ninguém.
3. Falhando tudo, 1500 anos depois daquele pacto, Deus enviou ao mundo Seu Filho a quem os
judeus rejeitaram. Ele, porém, deu aos que crêem no Seu nome, o direito de se tornarem
filhos de Deus (Dt 14.2; 33.29; Mc 16.15,16; Tt 2.11-14.

REGRA 1: Deus é imutável. O homem é mutável.


REGRA 2: Saiba distinguir o tempo

 COMO DEUS DIVIDE A HUMANIDADE: 1Co 10.32


1. Os Judeus - o Povo da Promessa. Ezequiel descreve história profética até a sua glória.
1. Gentios - descritos em Daniel, livro que fala do tempo e da plenitude dos gentios.
3. Igreja - composta de judeus e gentios salvos.

ADÃO GENTIOS ABRAÃO JUDEUS /GENTIOS CRISTO IGREJA/JUDEUS/GENTIOS CRISTO POVOS DE DEUS ∞

REGRA 3: Nunca espiritualize o que é material.

REGRA 4: Nunca aplique à Igreja aquilo que é atribuído pelo Velho Testamento a Israel.

1. A lei – Ex 19.; 20.1,2; Dt 5.1-6;


1. Testemunhas de Jeová – Is 43.1-12; 44.1-8
O Velho Testamento é Israelita: Is 1.1.; 54.1-17;
A Igreja era mistério nos tempos do Velho Testamento: Cl 1.24-29
O Novo Testamento é cristão: Mt 26.28; Hb 8.13.
Nele Israel se equipara a todos: Ef 2.13-18; Cl 3.9-13.
NOTA 2: O que aconteceu a Israel nos serve de aviso: 1Co 10.1-11.
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Teste Prático: Ap 1.19 – Divida todo o livro de Apocalipse de acordo com este texto.

A VISÃO FUNDAMENTALISTA SOBRE A IGREJA E ISRAEL:

TRÊS POVOS E UM REINO (Extraído do Livro O Dia do Senhor – Pr. Bentes)

O MINISTÉRIO DOS PROFETAS ABRANGE O CAMPO DAS PROFECIAS:


1. Messiânicas: 1 Pe 1.11; Lc 24.27,44;
2. Hebraicas: Rm 11.26;
3. Gentílicas: Lc 21.24
4. Eclesiásticas: Ef 3.10

O MINISTÉRIO DOS PROFETAS TEVE E TEM COMO PROPÓSITO:


1. Cristo, o Rei de Israel;
2. Cristo, o Juiz das Nações
3. Cristo. O Senhor da Igreja

AS PROFECIAS BÍBLICAS REVELAM:


1. Juízo e benção sobre Israel: Is 5.5; Ez 34.24-31;
2. Juízo e benção sobre as nações: Is 14.24-26; 23.8,9; Jr 49; Is 2.2-5

Antes de entrarmos no capítulo em que trataremos do Reino de Deus é necessário distinguirmos


que Deus trata com três povos: Israel, Igreja e as Nações (Gentios):
“Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de
Deus” .
Um dos grandes temas da profecia bíblica é o destino de Israel. Desde o nascimento de Israel
enquanto nação até à consumação final do seu destino, cada estágio foi predito pelos seus profetas.
Entretecido na história de Israel encontra-se o destino da Igreja. A mesma teve origem no interior
de Israel, mas ao longo dos séculos os destinos destes divergiram largamente. No entanto, tem havido
uma contínua interação entre ambos.
As profecias sobre estes dois povos têm se cumprido e com certeza aquelas futuras cumprir-se-ão.
Uma função vital da profecia é fornecer ao povo de Deus uma visão clara do seu destino
divinamente traçado. Sem tal visão o povo de Deus perecerá.
“Não havendo profecia, o povo se corrompe; mas o que guarda a lei, esse é bem-aventurado”

Quem é Israel?

Tem havido uma distorção sobre o que é Israel. Muitos dos Pais da Igreja confundiram a nação de
Israel com a Igreja. Eles desenvolveram a doutrina de que a Igreja substituiu Israel nos propósitos de
Deus e que, por isso, a Igreja ficou conhecida como o “novo Israel”. Este tipo de ensino foi promulgado
cerca de 150 D.C. por Justino Mártir e posteriormente adotado por Irineu, Orígenes e Agostinho. O
Velho Testamento foi sendo interpretado de uma forma “alegórica”.
Depois do ano 400 D.C. os teólogos, comentadores e tradutores da Bíblia têm utilizado o termo
Israel como sinônimo de Igreja. Porém após o reconhecimento de Israel como Nação em 24 de maio de
1948, e a tomada da Velha Jerusalém como capital em 1967, a velha interpretação teve de ser
reformulada.
A verdade essencial é em geral simples e a verdade é esta: Israel é Israel e a Igreja é a Igreja.
Derek Prince descobriu 77 ocorrências no Novo Testamento em que surgem as palavras Israel ou
Israelitas. E concluiu que os apóstolos nunca utilizaram Israel como sinônimo da Igreja.
Nem tão pouco a frase “o novo Israel” surge em algum lugar no Novo testamento.
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O termo Israel é freqüentemente utilizado como “tipo” da Igreja (1 Co 10.10). Porém, retratar
Israel como “tipo” da Igreja é completamente diferente de identificar a Igreja como Israel.

Quem é judeu?

A palavra judeu ocorre cerca de 200 vezes no N.T. De todas essas referências, a única passagem
em que judeu é claramente utilizado de uma forma diferente é Rm 2.28,29:
“Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne.
Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não na letra, cujo
louvor não provém dos homens, mas de Deus”.
Derek Prince em “O Destino de Israel e da Igreja”, nas 77 referências que contou as palavras
Israel e Israelitas, afirma que em nove casos são uma citação direta das Escrituras do Velho Testamento,
em cada exemplo o significado no N.T. é precisamente o mesmo do V.T. Há mais 66 passagens que não
são citações do V.T. mas em todos estes casos, o uso no N.T. concorda com o V.T. Desse modo
permanecem apenas duas passagens no N.T. em que Israel é utilizado com um sentido especial (Rm
2.28,29; Ap 2.9; 3.9).
“Eu sei as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem
judeus e não o são, mas são a sinagoga de Satanás”;
“Eis que eu farei aos da sinagoga de Satanás (aos que se dizem judeus e não são, mas mentem),
eis que eu farei que venham, e adorem prostrados a teus pés, e saibam que eu te amo”.
O termo judeu, que é derivado do nome Judá, significa “louvor” ou “ações de graças”. Quando
Lia deu a luz o seu quarto filho, chamou-o Judá (em hebraico Yehudah), ou judeu é louvor. Assim,
Paulo diz que se alguém é um verdadeiro judeu, então o seu louvor deve vir de Deus e não dos homens.
Em certo sentido, ele está dizendo que não basta ser judeu exteriormente. Um verdadeiro judeu deve ter
uma condição íntima de coração que o faz merecer o louvor de Deus. Para ser um verdadeiro judeu não
basta que a pessoa tenha todas as marcas exteriores; ela deve também possuir a condição espiritual
íntima que dê louvores a Deus e dEle obtenha louvor.

A IGREJA NÃO É ISRAEL

Quando o Senhor prometeu fundar a Sua Igreja, Israel já existia há quase dois mil anos. Deus
criou esta nação especial, realizando um milagre biológico em Abraão e Sara. Este povo foi primeiro
chamado de hebreus, depois israelitas e, mais tarde, judeus. Deus deu a eles a promessa simples de que
se O adorassem e lhe obedecessem, Eles os abençoaria. Se desobedecessem e adorassem outros deuses,
porém, Ele os amaldiçoaria.
A história da desobediência de Israel é bem conhecida. Seiscentos anos antes de Cristo vir ao
mundo, Deus permitiu que fossem levados para a Babilônia (70 anos de cativeiro por não terem
guardado os sábados da terra).
O povo não tirou proveito dessa experiência nem das profecias de Daniel, Isaías, Jeremias e
outros.
Rejeitaram o Messias, crucificaram-no e por esta razão Israel foi colocado em “suspensão”
profética e a Igreja fundada no Pentecoste tornou-se o centro especial da atenção de Deus.
Deus ainda não terminou sua obra com Israel.

“Naquele dia (O Dia do Senhor), tornarei a levantar o Tabernáculo de Davi, que caiu, e taparei as
suas aberturas, e tornarei a levantar as suas ruínas, e a edificarei como nos dias da antiguidade; para que
possuam o restante de Edom e todas as nações que são chamadas pelo meu nome, diz o SENHOR, que
faz estas coisas.
Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que o que lavra alcançará ao que sega, e o que pisa as
uvas, ao que lança a semente; e os montes destilarão mosto, e todos os outeiros se derreterão.

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E removerei o cativeiro do meu povo Israel, e reedificarão as cidades assoladas, e nelas habitarão,
e plantarão vinhas, e beberão o seu vinho, e farão pomares, e lhes comerão o fruto.
E os plantarei na sua terra, e não serão mais arrancados da sua terra que lhes dei, diz o SENHOR,
teu Deus” (Am 9.11-15).
Pedro cita esta passagem dizendo que esta restauração ainda é futura:
“E com isto concordam as palavras dos profetas, como está escrito: Depois disto, voltarei e
reedificarei o tabernáculo de Davi, que está caído; levantá-lo-ei das suas ruínas e tornarei a edificá-lo.
Para que o resto dos homens busque ao Senhor, e também todos os gentios sobre os quais o meu nome é
invocado, diz o Senhor, que faz todas estas coisas que são conhecidas desde toda a eternidade”.
As promessas não cumpridas de um Reino de Justiça, como o “Trono de Davi seu pai”, devem ser
ainda cumpridas durante o Reino Milenar, quando Cristo, o herdeiro legal de Davi, governará o mundo
como Rei dos reis e Senhor dos senhores. Todas promessas para Israel serão realizadas nessa época.
Reunir Israel e a Igreja, como sendo uma e a mesma coisa, sugerindo que a Igreja é agora herdeira
das promessas feitas a Israel é não discernir a Economia Divina. Os reconstrucionistas, alguns pós-
milenistas, e outros esperam que a Igreja (como Israel de Hoje) antecipe o Reino.
Deus tem um propósito Eterno, Ele quer que os Gentios, a Igreja e Israel entrem no Reino Eterno
do Pai após o Milênio. Até lá Ele tratará com cada um desses povos.
Durante a Graça – O Ano Aceitável do Senhor, Ele está separando um remanescente dentro da
Igreja para no arrebatamento entrar no Reino de Deus. Hoje em dia, muita gente pensa na Igreja como
uma estrutura física de madeira, tijolos ou pedras, mas não é essa a utilização que o Novo Testamento
faz do termo.
No grego do N.T., a palavra geralmente traduzida por igreja é eklesia (e)kklhsi/a). Refere-se
a um grupo de pessoas colocadas para um propósito especial. A palavra portuguesa que mais se
aproxima é “assembléia”. Em Atos 19.32,39,40 é a palavra usada para descrever o corpo de cidadãos de
Éfeso que foram convocados para decidir os assuntos da comunidade.
EKLESIA é uma assembléia de pessoas chamadas da presente ordem mundial para servirem a
Jesus Cristo e serem por Ele preparadas para se tornarem os governantes (reis e sacerdotes – Ap 1.6;
2.26,27; 5.10) do Reino vindouro.
A Igreja é o corpo de Cristo (Ef 1.22,23), não é uma organização, mas um organismo. Cada
membro deste corpo tem uma relação pessoal de fé com Cristo, como sua cabeça, através dEle com
todos os outros membros.
Este conceito tem sido, através dos séculos, corrompido e distorcido. Hoje a Igreja apresenta
pouca ou nenhuma semelhança com o modelo original estabelecido no N.T. Muitos dos que se
consideram membros da Igreja hodierna não possuem nenhuma relação viva e pessoal com Cristo e são
freqüentemente inimigos de outros cristãos professos. Apenas uma pequena minoria dos que são em
geral chamados cristãos são membros da verdadeira Igreja neo-testamentária.
No meio de toda esta confusão, porém, a verdadeira Igreja ainda se mantém na terra.
“Todavia, o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e
qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniqüidade” (2 Tm 2.19).
Durante as Setenta Semanas de Daniel Deus tratará de Israel, a fim de separar o remanescente que
no fim da Grande Tribulação será salva.
“E, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador (Goel=rhuómenos
- óoV), e desviará de Jacó as impiedades” (Rm 11.26).
“Virá o Redentor (GOEL) a Sião e aos de Jacó que se converterem, diz o SENHOR” (Is 59.20).
Charles Ryrie na Bíblia Anotada faz o seguinte comentário sobre este último texto:
39
“Em seu segundo advento Ele (Goel) julgará Seus inimigos (v.v. 17-19) e trará salvação a Israel
(v.v. 20,21; Rm 11.26,27). A palavra aqui traduzida por Redentor (Is 59.20) significa Parente
Resgatador; i.e., alguém que tem laços de sangue com aqueles que resgata, o que indica a necessidade
da encarnação (Hb 2.14-16)”.
No Antigo Testamento, não existe em lugar nenhum, a situação de duas vindas de Cristo a este
mundo, mas somente uma. O aparecimento de Jesus é um todo: nascimento, morte, e ressurreição e
retorno para o seu reino eterno, “que não terá fim”. Embora a maioria não saiba disso, Israel aceitará o
Mestre. Não só os livros de Salmos e Isaías, mas toda a Bíblia faz referência ao fato de que o Messias
virá como Rei, não só para salvar Israel, mas para estabelecer um Reino milenar para toda a
humanidade. Este é um acontecimento irrevogável que atingirá o nosso povo e que nós judeus,
esperamos com muita alegria, principalmente porque Ele já nos perdoou na cruz: “Pai, perdoa-lhes, pois
não sabem o que fazem”.
“Deus colocou uma venda nos olhos de Israel” e só o GOEL pode retirá-la (Rm 11.8-10).
“...derramarei o espírito de graça e de súplica; olharão para mim, a quem traspassaram; pranteá-
lo-ão como quem pranteia por um unigênito e chorarão por ele, como se chora amargamente pelo
primogênito” (Zc 12.10).

CONSIDEREMOS AS DIFERENÇAS ENTRE ISRAEL E A IGREJA:


1. A origem de Israel é diferente da Igreja.
O Senhor Deus fez surgir Israel de maneira singular, não só na escolha de Abraão e Sara,
como também na escolha da esposa de Isaque para preservar sua identidade étnica.
O próprio Cristo, porém fundou a sua Igreja (Mt 16.13-20) e enviou o Espírito Santo para
habitar nela.

2. Eles têm fundamentos diferentes.


Jesus Cristo é o fundamento vivo da Igreja (1 Co 3.11). O Messias não tinha nascido quando
Israel foi fundada. A Igreja não podia ser estabelecida até que Cristo tivesse morrido, fosse sepultado,
ressuscitasse e subisse ao céu (Ef 2.20-22). Cristo é a Pedra angular.
Israel não foi fundada sobre a obra consumada na cruz, mas nas promessas de Deus para a
nação, que ainda estão vigorando e serão cumpridas.

3. Eles têm propósitos diferentes.


Israel nunca recebeu a grande comissão (Mt 28.18-20). Deus queria que Israel fossem um
reino de sacerdotes e nação santa (Ex 19.6), e que através deles a Sua glória se manifestasse aos gentios,
todavia falharam. Mas como diz Paulo (Rm 11.25): “...veio endurecimento em parte a Israel, até que
haja entrado a plenitude dos gentios”.
“Ora, se a transgressão deles redundou em riqueza para o mundo, e o seu abatimento, em riqueza
para os gentios, quanto mais a sua plenitude!” (Rm 11.12).
A Igreja, o candeeiro de Deus nesta dispensação, goza dos privilégios da Nova Aliança. Tem a
grande missão de divulgar o Reino de Deus, mas um dia Deus há de restaurar o Reino de Israel (At 1.6)
quando os judeus serão os ministrantes do Reino no Milênio.
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4. Seus futuros proféticos são diferentes.
As promessas de Deus a Israel giram em torno da Restauração do Reino (At 1.6; Ez 37). Depois
da Reforma, quando o povo começou a ler de novo a Bíblia e aceitá-la literalmente, os cristãos
passaram a esperar a Restauração dos Judeus à terra de Israel. Eles chegaram até a fundar sociedades
para missões aos judeus nos primeiros dias dos reavivamentos pré-milenistas em 1740.
Em contraste, a Igreja não espera um reino terreno (Hb 11.9,10). Enquanto Israel procura
identidade como nação, e tem esse direito, a Igreja está aguardando a Vinda do Senhor para levá-la à
casa do Pai. Israel planeja reconstruir o seu templo em Jerusalém, mas a Igreja anela a Nova Jerusalém
(Hb 12.18-24; Ap 21). Como a Noiva de Cristo, ela está à espera das Bodas do Cordeiro. Israel, a
esposa de Deus, foi rejeitada por causa do seu adultério (Is 54.5-8). Irá, porém, residir na Jerusalém
terrena e um novo coração será implantado nela durante o Milênio (Zc 12.6,10; Mq 4.1-7).
O fato de que Jacó deverá suportar o período da Grande Tribulação (Dn 12.2; Mt 24.21), o
chamado de “tempo da aflição de Jacó” (Jr 30.7), a 70ª Semana de Daniel, nos faz refletir. Esse período
de angústia para Israel terá início após a Igreja ser arrebatada. Após a conversão de Israel os judeus
entrarão no Reino.
No período da Graça Deus trata com a Igreja para inseri-la no Reino;
Nas Setenta Semanas de Daniel Deus trata com Israel para inseri-la no Reino;
E no Milênio Deus tratará com os Gentios separando as ovelhas dos bodes, o joio do trigo, para
inseri-los no Reino.
Para um maior discernimento sobre o propósito de Deus com estes três povos (1 Co 10.32) leia a
obra de Derek Prince: “O Destino de Israel e da Igreja”.

A VISÃO REFORMADA (ORTODOXA) SOBRE A IGREJA E ISRAEL:


Copiado do livro de Teologia Sistemática de Wayne Grudem (pág. 720-723)
A Igreja e Israel. Entre os protestantes evangélicos tem havido diferença de posição sobre a questão do
relacionamento entre Israel e a Igreja. Essa questão foi trazida à tona como proeminente pelos defende
um sistema teológico “dispensacionalista”. A mais extensa teologia sistemática escrita por um
dispensacionalista, a Systematic Theology de Lewis Chafer, destaca muitos aspectos distintos entre
Israel e a Igreja, e até mesmo entre o Israel fiel do Antigo Testamento e a Igreja do Novo Testamento.
Chafer argumenta que Deus tem dois planos distintos para dois diferentes grupos de pessoas que ele
redimiu: os propósitos e as promessas de Deus para Israel são bênçãos terrenais e serão cumpridos nesse
mundo em algum tempo no futuro. Por outro lado, os propósitos e as promessas de Deus para a Igreja
são bênçãos celestiais, as quais serão cumpridas no céu. Essa distinção entre os dois diferentes grupos
que Deus salva será vista especialmente no milênio, conforme Chafer, pois naquela ocasião Israel
reinará na terra como povo de Deus e desfrutará o cumprimento das promessas do Antigo Testamento,
mas a Igreja já terá sido levada para o céu na ocasião da volta secreta de Cristo para os seus santo (“o
arrebatamento”). Conforme essa posição, a igreja não começou antes do Pentecostes (At 2). E não é
correto pensar nos salvos do Antigo Testamento com os do Novo Testamento como partes de uma
Igreja.
Embora a posição de Chafer continue a ter influência em alguns círculos dispensacionalistas, e
certamente na pregação mais popular, alguns líderes dentre os dispensacionalistas mais recentes não têm
41
seguido Chafer em muitos desses pontos. Diversos teólogos dispensacionalistas de hoje, como Robert
Saucy, Craig e Darrell Bock, chamam-se “dispensacionalistas progressistas” e têm conquistado muitos
seguidores. Eles não vêem a Igreja como um parêntese no plano de Deus. Do ponto de vista do
dispensacionalismo progressista, Deus não tem dois propósitos separados para Israel e para a Igreja,
mas sim um único propósito – o estabelecimento do Reino de Deus – no qual tanto Israel como a Igreja
terão parte. O dispensacionalismo progressista não vê nenhuma distinção entre Israel e a Igreja no
estado eterno futuro, pois todos serão parte de um só povo de Deus. Além disso, eles defendem que a
Igreja reinará com Cristo em corpo glorificado na terra durante o milênio.
No entanto, há ainda uma diferença entre os dispensacionalistas progressistas e o restante do
evangelicalismo em um aspecto: eles afirmam que as promessas do Antigo Testamento referentes a
Israel ainda serão cumpridas no milênio pelo povo judeu, que crerá em Cristo e viverá na terra de Israel
como “nação-modelo” para que todas as nações o vejam e dele aprendam. Portanto, eles não diriam que
a Igreja é o “novo Israel” nem que todas as profecias serão cumpridas no Israel étnico.
A posição tomada nesse livro difere muito da interpretação de Chafer sobre essa questão e difere
também um pouco da dos dispensacionalistas progressistas. Todavia, é preciso dizer que questões sobre
o modo exato como as profecias bíblicas sobre o futuro se cumprirão são, pela própria natureza do caso,
difíceis de decidir com certeza, e é sábio chegar a conclusões que permitam certo grau de indefinição
nesse assunto. Com isso em mente, podemos dizer o seguinte:
Tanto teólogos protestantes como católicos que não compartilham da posição dispensacionalista
afirmam que a Igreja inclui tanto os salvos do Antigo Testamento como os do Novo Testamento em uma
só Igreja, ou no corpo de Cristo. Até mesmo do ponto de vista não dispensacionalista pode-se sustentar
que haverá uma conversão em massa do povo judeu no futuro Rm 11.12,15,23,24,28-31), embora essa
conversão resulte apenas em cristãos judeus que se tornam parte da verdadeira igreja de Deus – eles
serão “enxertados na sua própria oliveira” (Rm 11.24).
Com respeito a essa questão, devemos notar os muitos versículos do Novo Testamento que
entendem a Igreja como o “novo Israel” ou o novo “povo de Deus”. O fato de que “Cristo amou a Igreja
e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5.25) sugere isso. Além disso, a presente era da igreja, que trouxe
a salvação de muitos milhões de cristãos, não é uma interrupção ou um parêntese no plano de Deus, mas
a continuação de seu plano de chamar um povo para si mesmo, expresso em todo o Antigo Testamento.
Paulo diz: “Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na
carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não
segundo a letra” (Rm 2.28,29). Paulo reconhece que ainda que haja um sentido literal ou natural no qual
os fisicamente descendentes de Abraão devem ser chamados judeus, há também um sentido mais
profundo e espiritual no qual um “verdadeiro judeu” é quem tem a fé interiormente, cujo coração foi
purificado por Deus.
Paulo afirma que Abraão não deve apenas ser considerado pai do povo judeu no sentido físico do
termo. Ele é também um sentido mais profundo e verdadeiro “o pai de todos os crêem, embora não
circuncidados [...] e pai da circuncisão, isto é, daqueles que não são apenas cincuncisos, mas também
andam nas pisadas da fé que teve Abraão, nosso pai, antes de ser circuncidado” (Rm 4.11,12,16,18).
Portanto, Paulo pode dizer: “Nem todos os de Israel são, de fato, israelitas; nem por serem descendentes
de Abraão são todos seus filhos [...] estes filhos de Deus não são propriamente os carne, mas devem ser
42
considerados como descendência os filhos da promessa” (Rm 9.6-8). Paulo indica aqui que os
verdadeiros filhos de Abraão, que são no sentido mais correto “Israel”, não são a nação de Israel
fisicamente descendente de Abraão, mas sim os que creram em Cristo. Aqueles que verdadeiramente
crêem em Cristo são agora os que têm o privilégio de serem chamados “meu povo” pelo Senhor (Rm
9.25, citando Os 2.23); portanto, a igreja é agora o povo escolhido de Deus. Isso quer dizer que quando
o povo judeu segundo a carne for salvo em massa futuramente, eles não formarão um povo de Deus
separado nem serão como uma oliveira separada, mas serão “enxertados na sua própria oliveira” (Rm
11.24). Outro texto que também indica isso é Gálatas 3.29: “E, se sois de Cristo, também sois
descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa”. De igual modo, Paulo afirma que os cristãos
são a “verdadeira circuncisão”(Fp 3.3).
Longe de considerar a igreja um grupo separado do povo judeu, Paulo escreve aos cristãos
gentios de Éfeso, dizendo-lhes que anteriormente estavam “separado da comunidade de Israel e
estranhos às alianças da promessa” (Ef 2.12), mas agora eles foram “aproximados pelo sangue de
Cristo” (Ef 2.13). E quando os gentios foram incluídos na Igreja, judeus e gentios foram unidos em um
novo corpo. Paulo afirma que Deus “de ambos fez um; e, tendo derribado a parede da separação que
estava no meio, a inimizade [...] para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a
paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz” (Ef 2.14-16). Portanto,
Paulo pode dizer que os gentios são “concidadãos dos santos e da família de Deus, edificados sobre o
fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Ef 2.19,20).
Com o seu amplo conhecimento do pano-de-fundo do Antigo Testamento aplicado à Igreja do Novo
Testamento, Paulo pode ainda dizer que “os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo” (Ef
3.6). O texto inteiro fala enfaticamente da unidade entre cristãos judeus e cristãos gentios em um corpo
em Cristo e não apresenta nenhuma indicação de algum plano distinto para o povo judeu ser salvo fora
dessa inclusão no único corpo de Cristo, a Igreja. A Igreja incorpora em si mesma todo o verdadeiro
povo de Deus, e quase todos os títulos usados para o povo de Deus no Antigo Testamento são em uma
passagem ou outra aplicados à Igreja no Novo Testamento.
O capítulo oito de Hebreus apresenta outro forte argumento para que a Igreja seja vista como
receptáculo e cumprimento das promessas do Antigo Testamento com respeito a Israel. No contexto da
Nova aliança à qual os cristãos pertencem, o autor de Hebreus faz uma citação extensa de Jeremias
31.31-34, em que diz: “Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e
com a casa de Judá [...] Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias,
diz o Senhor: na sua mente imprimirei as minhas leis, também sobre o seu coração as escreverei; e eu
serei o seu Deus, eles serão o povo” (Hb 8.8-10). Aqui o autor cita a promessa do Senhor, isto é, que Ele
faria uma Nova Aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá, e afirma que essa é a Nova Aliança
agora feita com a Igreja. Essa Nova Aliança é a aliança da qual fazem parte os cristãos da Igreja. Parece
difícil evitar a conclusão de que autor vê a Igreja como o verdadeiro Israel de Deus, no qual as profecias
do Antigo Testamento encontram o seu cumprimento.
De maneira semelhante, Tiago escreve uma carta geral para muitas das primeiras igrejas cristãs e
diz que está escrevendo “às doze tribos que se encontram na Dispersão’ (Tg 1.1). Isso indica que ele
evidentemente vê os cristãos no Novo Testamento como sucessores e como cumprimento das doze
tribos de Israel.
43
Pedro também fala da mesma maneira. Desde o primeiro versículo, no qual chama seus leitores
“forasteiros da Dispersão’ (1Pe 1.1) até o penúltimo versículo, em que chama “Babilônia” a cidade de
Roma (1Pe 5.13), Pedro fala com freqüência dos cristãos do Novo Testamento usando imagens
veterotestamentárias e promessas dadas aos judeus. Esse tema recebe proeminente atenção em 1Pedro
2.4-10, em que Pedro diz que Deus concedeu à Igreja quase todas as bênçãos prometidas a Israel no
Antigo Testamento. A morada de Deus já não é o templo de Jerusalém, porque os cristãos são o novo
“templo” de Deus (v.5). O sacerdócio apto para oferecer sacrifícios aceitáveis a Deus já não é o que
descende de Arão, porque os cristãos são agora o verdadeiro “sacerdócio real”, com acesso ao trono de
Deus (vv. 4,5,9). O povo escolhido de Deus já é o que descende fisicamente de Arão, porque os cristãos
são agora a verdadeira “raça eleita” (v.9). A nação abençoada por Deus já não é a nação de Israel,
porque os cristãos – tanto judeus como gentios – são agora “povo de Deus” e os que “alcançaram
misericórdia” (V.10). Além disso, Pedro extrai essas citações de contextos veterotestamentários que
repetidamente advertem que Deus rejeitará o seu povo que persistir em rebelião contra Ele que rejeitar a
preciosa “pedra angular” (v.6) que Deus estabeleceu. Que outra declaração seria necessária para afirmar
com segurança que a Igreja agora se tornou o verdadeiro Israel de Deus e que receberá todas as bênçãos
prometidas a Israel de Deus no Antigo Testamento?

Qual a melhor interpretação? A visão REFORMADA ou a FUNDAMENTALISTA

44
VIII. PRINCÍPIOS GRAMATICAIS DE INTERPRETAÇÃO - FIGURAS DE RETÓRICAS

INTRODUÇÃO: A Bíblia tem dois tipos de linguagem:


1. Linguagem Literal;
2. Linguagem Figurada.

Os teólogos conservadores concordam em que as palavras podem ser usadas em sentidos literal,
figurativo, ou simbólicos. As três sentenças seguintes servem-nos de exemplo:
1. LITERAL: Foi colocada na cabeça do rei uma coroa cintilante de jóias;
2. FIGURATIVA: (Um pai bravo com o filho) “Na próxima vez que me chamar de coroa você vai
ver estrelas ao meio dia”.
3. SIMBÓLICA: “Viu-se um grande sinal no céu, a saber, uma mulher vestida do sol com a lua
debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça” (Ap 12.1).
O intérprete deve ser realista e cuidadosamente distinguir o tipo de linguagem usado no texto de seu
interesse, para analisá-lo e entendê-lo com proveito.

 LEITURA BÍBLICA: Zc 9.9; Mt 21.5; Sl 22.18; Mt 27.35; 25.1-13; Jo 10.1-14; 15.1-8.

 FIGURAS PRINCIPAIS USADAS NA BÍBLIA. Os escritores da Bíblia usaram claramente das


seguintes figuras em seus escritos: metáforas, metonímia, sinédoque, hipérbole, ironia, prosopopéia,
antropomorfismo, antropopatismo, símile, enigma, alegoria, símbolo, tipo, parábolas, etc.

NOTA: Não pense o aluno que esta é uma aula de retórica, pois não é; o que ocorre é que o conteúdo da
Bíblia está cheio dessas figuras de retóricas, que devemos conhecer para melhor endendê-las.
1. METÁFORA: É aquilo que se afirma de um ser, que o representa (Zc 3.8; Jo 15.1; 10.9; 14.6;
6.51).
Esta figura tem por base alguma semelhança entre dois objetos ou fatos, caracterizando-se um
com o que é próprio do outro.
Exemplo: Ao dizer Jesus: “Eu Sou a Videira Verdadeira”, Jesus se caracterizou com o que é
próprio e essencial da videira (pé de uva); e ao dizer aos discípulos: “Vós sois as varas”, caracterizou-os
com o que é próprio das varas.
Outros exemplos: “Eu Sou o Caminho”, “Eu Sou o Pão Vivo”, “Judá é Leãozinho”, “Tu és minha
Rocha”, etc.

2. METONÍMIA: É o emprego do efeito pela causa, progenitores por seus descendentes. Também se
emprega em sentido inverso: a causa pelo efeito, autores por seus escritos. Emprego do sujeito pelo
atributo. Sonhadores por seus sonhos: Gn 25.23; 41.13; Lc 16.29; Jó 32.7.
Emprega-se esta figura quando se emprega a causa pelo efeito, ou o sinal ou símbolo pela realidade
que indica o símbolo.
Exemplos: Jesus emprega a causa pelo efeito: “Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos”, em lugar
de dizer que têm os escritos de Moisés e dos profetas. (Lc 16.29).
45
Jesus emprega o símbolo pela realidade que o mesmo indica: “Se eu não te lavar, não tem parte
comigo”. Lavar é o símbolo da regeneração.

3. SINÉDOQUE: É o emprego do gênero pela espécie, o geral pelo particular. Emprega também a
ordem inversa: Mt 3.5;6.11; Gn 3.19; 6.12; At 27.37; Lc 2.1. Faz-se uso desta figura quando se toma a
parte pelo todo ou o todo pela parte, o plural pelo singular, o gênero pela espécie, ou vice-versa.
Exemplos: Toma a parte pelo todo: “Minha carne repousará segura”, em vez de dizer: meu corpo. (Sl
16.9). Toma o todo pela parte: “...beberdes o cálice”, em lugar de dizer: do cálice, ou seja, parte do que
há no cálice.

4. HIPÉRBOLE: É a afirmação em que as palavras significam mais do que a realidade das coisas: Dt
1.28; Nm 13.33; Gn 22.17; 2Cr 28.4. É a figura pela qual se representa uma cousa como muito maior
ou menor do que em realidade é, para apresentá-la viva à imaginação. É um exagero.
Exemplos: "Vimos ali gigantes... e éramos aos nossos próprios olhos como gafanhotos... as cidades são
grandes e fortificadas até aos céus." (Num. 13.33).
"Nem no mundo inteiro caberiam os livros que seria, escritos". (Jo. 21.25).
"Rios de águas correm dos meus olhos, porque não guardam a tua lei". (Sl 119.136)

5. IRONIA. É uma expressão que literalmente pode significar o oposto: Gn 3.22; Jó 12.2; 1Rs 18.27.
Faz-se uso desta figura quando se expressa o contrário do que se quer dizer, porém sempre de tal modo
que se faz ressaltar o sentido verdadeiro.
Exemplo: “Clamai em altas vozes... e despertará”. Elias dá a entender que chamar por Baal é
completamente inútil. (1 Rs 18.27)

6. PROSOPOPÉIA. É a personificação das coisas e dos seres: Sl 35.10; Is 55.12; Lc 19.40. Esta
figura é usada quando se personificam as cousas inanimadas, atribuindo-se-lhes os feitos e ações das
pessoas.
Exemplos: "Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" (I Cor 15.55) Paulo trata a morte como se fosse
uma pessoa.
"Os montes e os outeiros romperão em cânticos diante de vós, e todas as árvores do campo
baterão palmas." (Is 55.12)
"Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram. Da terra brota a verdade, dos
céus a justiça baixa o seu olhar." (Sl 85.10,11)

7. ANTROPOPATISMO. É uma figura na qual se atribui a Deus, emoções, paixões e desejos


humanos: Gn 6.6.
8. ANTROPOMORFISMO. É a linguagem que atribui a Deus atributos humanos: Gn 8.21.
9. ALEGORIA. É uma narrativa em que as pessoas representam idéias ou princípios. A alegoria
geralmente consta de várias metáforas unidas, representando cada uma delas realidades
correspondentes: Gl 4.21-31; Jo 6.51-65; Is 5.1-7.
É uma figura retórica que geralmente consta de várias metáforas unidas, representando cada uma
delas realidades correspondentes.
Exemplo: "Eu Sou o Pão Vivo que desceu do céu, se alguém dele comer, viverá eternamente; e o
pão que eu darei pela vida do mundo, é a minha carne... Quem comer a minha carne e beber o meu
sangue tem a vida eterna", etc. Esta alegoria tem sua interpretação nesta mesma passagem das
Escrituras. (Jo 6.51-65)
46
10. ENIGMA. É o que comumente chamamos adivinhação: Jz 14.14. Exemplo: "Do comedor saiu
comida e do forte saiu doçura”. (Jz 14.14).

11. SÍMILE. Procede do latim “similis” que significa semelhante ou parecido a outro. Emprega-se as
palavras ‘como’, ‘assim’, ‘semelhante’, etc: Gn 13.16; Pv 26.1. É uma analogia. Comparação de cousas
semelhantes.
Exemplos: "Pois quanto o céu se alteia acima da terra, assim (do mesmo modo) é grande a sua
misericórdia para com os que o temem". (Sl 103.11);
"Como o pai se compadece de seus filhos, assim (do mesmo modo) o Senhor se compadece dos
que o temem". (Sl 103.13)

12. SÍMBOLO. É o emprego de algo material significando algo espiritual, etc: Lv 17.11. Representa
alguma cousa ou algum fato por meio de outra cousa ou fato familiar que se considera a propósito para
servir de semelhança ou representação.
Exemplos: Representa-se: A majestade pelo leão, a força pelo cavalo, a astúcia pela serpente, o
corpo de Cristo pelo pão, o sangue de Cristo pelo cálice, etc.

13. TIPO. É a representação de pessoas ou coisas na esfera espiritual por intermédio de pessoas ou
coisas puramente material:
Exemplos: A serpente de metal levantada no deserto foi mencionada por Jesus como um tipo
para representar sua morte na cruz. (Jo 3.14)
Jonas no ventre do grande peixe, foi usado como tipo por Jesus para representar a sua morte e
ressurreição. (Mt 12.40)
O primeiro Adão é um tipo para Cristo o último Adão. (1 Cor 15.45).
Rm 5.14; 1Co 5.7; Jo 3.14; Mt 12.40; Lc 4.14-18
Ano aceitável do Senhor = Graça;
O Dia da Vingança = A Grande Tribulação;
Parente Remidor (Goel) = Jesus;
Jubileu = Milênio.

14. PARÁBOLAS. É uma narrativa que pode ser real ou imaginária, em que tanto as pessoas como as
coisas e suas ações correspondem a verdade espirituais e morais: Mt 13.24-30.

 REGRAS:
Regra 1. Há textos que devem ser entendidos literalmente.
Regra 2. Há textos que exprimem ensinos em linguagem figurada.
Regra 3. O intérprete deve deixar que a Bíblia exprima exatamente aquilo que o Espírito Santo
quis significar nas palavras do escritor, haja ele usado linguagem literal ou figurada.

TESTE PRÁTICO: Leia Sl 6.6; Ef 4.30; Gn 4.10. Que figuras de retóricas usaram os escritores nesses
textos?
Sl 6.6 = Hipérbole
Ef 4.30 = Antropopatismo
Gn 4.10 = Prosopopéia

47
IX. PRINCÍPIOS TEOLÓGICOS DE INTERPRETAÇÃO - SÍMBOLOS
INTRODUÇÃO. Devido o grande número de símbolos que encontramos na Bíblia e o seu valor para o
intérprete, dedicamos esta lição exclusivamente a eles.
O dicionário Webster define símbolo como algo que representa ou lembra alguma coisa por
relação, associação, convenção ou semelhança acidental; especialmente, um sinal visível de uma coisa
invisível.
 LEITURA BÍBLICA: Lv 17.11; Ap 1.20; 1Co 15.45; Ex 25.1-9; 27.1

 ESPECIFICANDO OS SÍMBOLOS:

1. OBJETOS REAIS:
1.1. sangue representando a vida (Lv 17.11);
1.2. Vestidos representando mérito, justiça real ou suposta, salvação (Mt 11,13; Is 64.10);
1.3. Linho fino representando justiça dos santos (Ap 19.8; Fp 4.5; Mt 5.20);
1.4. Ouro representa a glória de Deus;
1.5. Prata representa resgate;
1.6. Cobre representa resistência ao fogo
1.7. Fogo representa juízo (2Ts 1.8)
1.8. Fogo também representa o E. Santo (Mt 3.11; At 2.3);
1.9 Óleo, azeite representam o E. Santo (Sl 133.10);
1.10. Sal representa preservação (Mt 5.13)
1.11. Fermento representa a maldade e a corrupção (1Co 5.7,8);
1.12. Água representa a regeneração (Jo 3.5; Tt 3.5);
1.13. Pão e vinho representa o corpo e o sangue de Jesus (1Co 11.23-26; Mt 26.26-29);
1.14. A passagem dos israelitas pelo Mar Vermelho (Ex 14.22; 1Co 10.2) simboliza o seu
batismo.
2. VISÕES:
2.1. Castiçais representam as igrejas (Ap 1.12,13,20);
2.2. Estrelas e Anjos representam pastores (Ap 1.12,20);
2.3. Amendoeiras representa vigilância (Jr 1.12);
2.4. Gafanhotos representam calamidades (Am 7.1,2);
2.5. Frutos de verão maduros representam a aproximação do fim (Am 8.1,2).
3. ATITUDES:
3.1. Prostrar-se representa reverência e humilhação (Et 3.1,2); Sl 95.6);
3.2. Levantar as mãos representa juramento (Gn 14.22-24);
3.3. Cingir-se representa dispor-se a partir, prontidão (Ex 12.11; Lc 12.35-37).
3. NOMES PRÓPRIOS:
4.1. Adão – Cristo: 1Co 15.45 (duplo símbolo)
a. Positivo = Pai da raça
b. Negativo = Perdição, salvação (Rm 5.12,17)

48
TOPÔNIMOS:
a. Babel, Babilônia = confusão (Gn 11.7-9)
b. Sodoma = corrupção (Gn 13.12,13)
c. Egito = mundo
4. NÚMEROS. Um = unidade, primazia; DOIS = relação, divisão, diferença; TRÊS = solidez,
plenitude, Trindade; QUATRO = fraqueza, fracasso, mundo, etc; CINCO = o fraco e o forte
– Emanuel, capacidade, responsabilidade, etc; SEIS = limitação, domínio humano,
manifestação do mal, etc; SETE = Plenitude, perfeição; OITO = novo começo; DEZ =
Perfeição ordinal; DOZE = Governo de Deus manifesto ao mundo.
5. CORES: azul = Céu, montes, distância, perfeição; PÚRPURA = realeza; CARMESIM =
identificação (Js 2.18) e por ser indelével – o pecado (Is 1.18), poder purificador (1Jo 1.7).
6. FORMAS: QUADRADO = universalidade; CÚBICO = solidez, firmeza absoluta, etc.

 REGRAS:
REGRA 1. O intérprete deve ter noção dos símbolos, para entender os tipos, que muitas vezes
são enunciados em linguagem simbólica.
REGRA 2. É preciso ter idéia exata dos símbolos para entender as profecias que muitas vezes
foram enunciadas mediante símbolos.
REGRA 3. O Novo Testamento em seus ensinos é o resultado dos símbolos constantes no Velho
Testamento.
REGRA 4. As figuras devem ser vistas em seus aspectos gerais e comuns, e não em seus
mínimos detalhes ou algo apenas suposto pelo intérprete.
REGRA 5. Os símbolos devem ser aplicados coerente e uniformemente, nunca passando do
sentido figurado para o literal ou deste para aquele, forçando o texto; ao contrário, deve ser dado
tratamento harmonioso aos objetos do conjunto, conforme o caso.

TESTE PRÁTICO: Estude biblicamente Ap 12.1-6 e descubra o que simboliza a mulher, a coroa de
estrelas, o filho varão, o dragão vermelho e o deserto.
Ap 12.1-6 = Gn 37.9,10; A mulher = Israel; A coroa de estrelas = As 12 tribos de Israel; O Filho varão =
Jesus; A lua; O sol; O Dragão = Satanás; Deserto = Refúgio
Exercícios (L. Berkhof): Qual foi o significado simbólico dos seguintes eventos, ou sinais?
1. Colunas de nuvem e fogo (Êx 13.21);
2. A história da incredulidade e rejeição de Israel em Cades-Barnéia (Nm 14);
3. A travessia do Jordão (Js 3);
4. A ressurreição dos ossos secos (Ez 37.1-14);
5. O casamento de Oséias (Os 1);
6. Josué vestido com roupas imundas (Zc 3);
7. A purificação do templo (Jo 2.13-25);
8. A cura do cego de nascença (Jo 9);
9. A ressurreição de Lázaro (Jo 11);
10. O dom de línguas (At 2).
49
A Mulher e o Dragão 14

Apocalipse 12 explica com detalhes qual será o destino de Israel, durante a segunda metade da
Grande Tribulação.
[“A primeira vez que aparece a figura feminina no Apocalipse é no capítulo 2, versículo 20. Ao
todo temos quatro mulheres representativas neste livro, cada uma delas sendo a expressão de uma
reunião de pessoas em um sistema.
1. Jezabel (2.20) – a Igreja passada e corrupta.
2. A Mulher investida com a inteireza de autoridade governamental (12.10) – Israel (Gn
37.9,10; Jr 31.35,36).
3. A grande prostituta (17.1) – A Igreja corrupta futura.
4. A Noiva, a esposa do Cordeiro (19.7) – a Igreja glorificada no céu”.] 15

“Identificamos a mulher destes versículos com Israel. A relação é estabelecida por várias razões,
algumas das quais são:
1. Em muitas ocasiões fala-se de Israel como a filha de Sião e a desposada (Jr 6.2; Os
2.19,20);
2. Isaías fala de Israel como uma mulher que está para dar à luz e concebe um filho (Is 9.6;
66.7; Mq 5.3);
3. Vestida do sol, tendo a lua debaixo dos pés, uma coroa de doza estrelas sobre a cabeça,
relaciona-se com os filhos de Israel, os progenitores da raça escolhida (Gn 37.9,10).
4. Em Daniel vemos que Miguel é o príncipe do povo de Israel. Miguel também aparece aqui
neste capítulo vínculado a Israel (Dn 12.1; Ap 12.7)”.16

Há diferentes identificações da “mulher vestida de sol”. Alguns dizem ser ela a Virgem Maria.
Outros identificam-na como a Igreja, mãe de todos nós.
A Bíblia nunca usa a imagem de uma mulher para simbolizar a Igreja. A Igreja é a virgem noiva
de Cristo, não uma mulher que está para dar à luz. Porém, não podemos nos esquecer que a Igreja foi
formada após o nascimento, vida, morte e ressurreição de Cristo. Ele é Quem deu origem à Igreja, Ele é
a Pedra Fundamental, e não o contrário.
Esta passagem não se refere a Maria pessoalmente, pois esta não será perseguida durante a
metade da Grande Tribulação, como o texto diz que a mulher será (Ap 12.13-17).
A mulher de Ap 12 é certamente Israel. Rejeitamos o fato de que esta mulher seja Maria, a mãe
de Jesus.
Seguindo a história, vemos que Satanás tentou destruir, desde o início, a descendência real da
qual Cristo teria de nascer. Desde Caim (que assassinou Abel) até a matança das crianças por Herodes,
Satanás tem perseguido em seu propósito. Então, a figura de uma mulher grávida que gritava com
dores de parto é perfeita.
Israel é muitas vezes citada como a mulher casada (Is 54.1-6; Jr 3.1-11; Os 2.14-23). Jesus
procedeu da tribo de Judá. Foi Israel que se tornou a mãe do Messias (Is 9.6; Mq 5.2; Rm 9.5).
“Canta alegremente, ó estéril, que não deste à luz; exulta com alegre canto e exclama, tu que não
tiveste dores de parto; porque mais são os filhos da mulher solitária do que os filhos da casada, diz o
SENHOR”. Isaías 54 é um texto expressivo. Afirmar que a mulher de Ap 12 representa a Igreja
significaria ter ela dado à luz a Cristo. Mas foi a angústia dele que produziu a Igreja.
Foi Israel que deu o berço a Cristo e à Igreja, e todos os povos, línguas e nações, receberam a
promessa, através do concerto feito a Israel (Jo 10.16; Rm 11.17,18; Ef 2.11,12,17,18).
O simbolismo do sol, lua e estrelas sugere um resumo da história de Israel, como apresentado
em Gn 37.9,10, onde a família inteira é representada da maneira semelhante. Nos luminares celestes
14
Bentes, Antônio Carlos Gonçalves. O Dia do Senhor. 2ª ed. Belo Horizonte: Editora Raiz, 2007, p. 84, 85.
15
LOCKYER, Herbert. Apocalipse: O Drama dos Séculos. 3ª ed. São Paulo: Editora Vida, 1988, p. 121.
16
NIGH, Kepler. Manual de Estudos Proféticos. 2ª ed. São Paulo: Editora Vida, 2001, p.107.
50
temos a apresentação de um sistema completo de governo. Estes luminares, pois, simbolizam as doze
tribos do Israel Nacional.
O Filho varão é o Go’el – o Redentor de Israel que virá para salvar Israel perseguida na última
metade da Grande Tribulação. A Mulher será transladada pára o deserto:
“A mulher, porém, fugiu para o deserto, onde lhe havia Deus preparado lugar para que nele a
sustentem durante mil duzentos e sessenta dias” (Ap 12.6).
Nos últimos três anos e meio de seu reinado, o Anticristo, com o poder de Satanás perseguirá
Israel como nunca antes esta nação foi perseguida; este tempo é também chamado “A Angústia de
Jacó” (Jr 30.7; Dn 12.1). Mateus 24.13-22 descreve esta perseguição e esta fuga profetizada aqui em
apocalipse 12.14-16.
Israel, aprenderá que não pode “resgatar” a terra com “seu esforço próprio”. Terá que aceitar o
seu Parente Remidor – Go’el. Só Ele pode resgatar a Israel.
“E, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: Virá de Sião o Libertador (Go’el) e ele
apartará de Jacó as impiedades” (Rm 11.26).
“Virá o Redentor (Go’el) a Sião e aos de Jacó que se converterem, diz o SENHOR” (Is 59.20).
Redentor significa, neste texto, Parente Remidor – Go’el, isto é, alguém que tem laços de sangue
com aqueles que resgata.
Na sua Segunda Vinda (Ap 19) o Go’el destruirá todos os exércitos da Besta que vierem contra
Israel (Zc 14.2).

O grande dragão é a antiga serpente chamada Diabo ou Satanás, que engana o mundo
todo.
Ap 12.9: O grande dragão foi lançado fora. Ele é a antiga serpente chamada Diabo ou Satanás,
que engana o mundo todo. Ele e os seus anjos foram lançados à terra (na metade da Grande
Tribulação).
O leviatã com sete cabeças faz referência ao Dragão dos capítulos 12 e 13 do livro de Apocalipse.
É o próprio diabo que tem sete cabeças que dá poder ao anticristo (Ap 13.1) que também tem sete
cabeças. A palavra dragão em Ap 12.3,9,17 no Novo Testamento hebraico é tanin – (}yiNaT).
O dragão terá o seu fim: Então o Senhor Jesus esmagará a cabeça da serpente, o Dragão, e
esmiuçará a Grande Estátua (Ap 19; Dn 2).
“Então, vi descer do céu um anjo; tinha na mão a chave do abismo e uma grande corrente. Ele
segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, e o prendeu por mil anos; lançou-o no
abismo, fechou-o e pôs selo sobre ele, para que não mais enganasse as nações até se completarem os mil
anos. Depois disto, é necessário que ele seja solto pouco tempo” (Ap 20.1-3).
“O diabo, o sedutor deles, foi lançado para dentro do lago de fogo e enxofre, onde já se
encontram não só a besta como também o falso profeta; e serão atormentados de dia e de noite, pelos
séculos dos séculos” (Ap 20.10).

51
X. PRINCÍPIOS TEOLÓGICOS DE INTERPRETAÇÃO - TIPOLOGIA
INTRODUÇÃO: A tipologia bíblica é vastíssima e instrutiva. Quando o intérprete estuda a Bíblia
através dos tipos sem extremismo e sem vaidade pode obter melhor conhecimento do plano de Deus
para a redenção humana, que quase sempre é apresentada no Velho Testamento através da tipologia.
Para uma maior informação leia: “Hermenêutica” (Henry A. Virkler) – Pág. 140 à 146.
Definição: É uma relação representativa preordenada que certas pessoas, eventos e instituições têm com
pessoas, eventos e instituições correspondentes, que ocorrem numa época posterior na história da
salvação.
 LEITURA BÍBLICA: Rm 5.14; At 7.44; 1Co 10.6-11; Hb 9.11,12.
NOTA: Estes textos do Novo Testamento claramente evidenciam que pessoas, eventos e ritos religiosos
contidos no Velho Testamento tipificam ensinamentos constantes do N.T. Os tipos são comumente
classificados para efeito de estudo, em duas ordens: a) Tipos Históricos e b) Tipos Rituais.

 TIPOS HISTÓRICOS PESSOAIS:


a. Adão – Cristo: Rm 5.14; 1Co 15.45;
b. Melquisedeque – Cristo: Hb 5.6; 7
c. Moisés – Cristo: Dt 18.15; At 3.22
d. Jonas – Cristo: Jn 1.17; 2; Mt 12.40

 OS TRÊS MINISTÉRIOS DE JESUS CRISTO:


PROFETA. Em potencial, todos os profetas do V.T., foram tipos de Cristo. Em sentido restrito,
porém, Moisés foi o tipo específico. Como profeta (Dt 18.15,18; At 3.22). No nascimento (Ex
1.15,16; 2.1; Mt 2.1-16). Rejeitado por seus irmãos (Ex 2.11-14; Jo 1.1). Casado com gentia durante
a rejeição (Ex 2.15-21; At 13.46,47; 15.14). Reconhecido e aceito na segunda vez (Ex 4.29-31; Rm
11. 25-29; Zc 12.10).
SACERDOTE. Nesta acepção, são dois tipos bem frisantes de Cristo no Velho Testamento:
a. Melquisedeque = Gn 14.18-20; Hb 5.6; 6.20; 7.1-7.
b. Arão = a) escolhido por Deus (Ex 28; Sl 110.4); b) Lavado (Ex 29.4; Mt 3.14,15); c) Ungido
(Ex 29.4; Mt 3.16; At 10.38); d) Ministrando os negócios do Pai (Hb 5.1-5; Lc 2.49).
REI. Igualmente neste caso, todos os reis fiéis entre os de Israel e Judá, foram em potencial tipos de
Cristo, por estarem ocupando o trono de Davi (Lc 1.31-33). Mas, entre todos eles, Davi é um
verdadeiro tipo de Cristo. Exemplifiquemos:
3.1. Segundo o coração de Deus (1Sm 13.14; Mt 3.17);
3.2. Descendente de Judá (Gn 49.8-12; 1Sm 16.11-13; Lc 1.26,27,31-33; 2.4,7);
3.3. Cheio do Espírito Santo (1Sm 16.13; At 10.38).
 TIPOS HISTÓRICOS COLETIVOS: A Igreja é representada no Velho Testamento por três tipos
especiais:

1. Em Israel liberto da escravidão egípcia (Ex 12);


2. Na peregrinação de Israel pelo deserto;
3. Na posse de Israel da terra prometida;
52
 TIPOS RITUAIS:
1. O Tabernáculo é tipo de Cristo (Ex 12);
2. Os sacrifícios são tipos de Cristo;
3. As ofertas legais são tipos de Cristo.
NOTA: É riquíssima a tipologia bíblica com respeito a Cristo e a Igreja. É-nos impossível nesta lição
dar um exemplo de todos os tipos existentes a seu respeito no V.T. (1Co 10.1-11; 5.7).

TIPOLOGIA (COPIADO DA TEOLOGIA SISTEMÁTICA DE L. S. CHAFER – PÁG. 18 A 20):


O Dr. Patrick Fairbairn começa o seu valioso tratado sobre os tipos com a seguinte declaração:
“A Tipologia das Escrituras tem sido um dos departamentos mais negligenciados da ciência teológica”.
Esta declaração é significativa não apenas porque reconhece uma inestimável perda da Igreja de Cristo,
mas porque a tipologia, segundo este teólogo de valor, recebeu o seu lugar de direito na ciência da
Teologia Sistemática. O Dr. Patrick Fairbairn não afirma que nenhuma atenção foi dada à tipologia nas
gerações passadas. Pelo contrário, ele prossegue mostrando que desde os dias de Orígenes até o
presente momento tem havido aqueles que enfatizaram este tema, e alguns o enfatizaram além da razão.
A alegação é que a teologia, como ciência, tem negligenciado este grande campo da revelação. A
tipologia, como a profecia, tem freqüentemente sofrido mais dos seus amigos do que seus inimigos. O
fato dos extremistas terem falhado em distinguir entre aquilo que é típico e aquilo que é meramente
alegórico, análogo, paralelo, uma boa ilustração, ou semelhança, afastou os teólogos conservadores do
campo. Quando a verdade é torturada pelos novidadeiros e extremistas, os mestres conservadores têm
sua obrigação acrescida na declaração de suas proporções exatas. É obvio que negligenciar uma verdade
é um erro maior que superenfatilizá-la ou expô-la falsamente; e a tipologia, embora tenha sido abusada
por alguns, ficou conspicuamente ausente das obras da Teologia Sistemática. Que a tipologia foi
negligenciada está evidente no fato de que mais de vinte obras de Teologia Sistemática examinadas,
apenas uma apresenta este assunto em seu índice, e este autor fez apenas uma pequena referência a ela
numa nota de rodapé.
Um tipo é uma antecipação divinamente planejada que ilustra o seu antítipo. Estas duas partes de
um tema relacionam-se pelo fato de que a mesma verdade ou o mesmo princípio foram incorporados em
ambas. Não é prerrogativa do tipo estabelecer a verdade de uma doutrina; antes ele realça a força da
verdade apresentada no antítipo. Por outro lado, o antítipo serva para destacar o seu tipo do lugar
comum levando-o para o que é inexaurível e investindo-o com riquezas e tesouros até então não
reveladas. O tipo do Cordeiro da Páscoa está inundado da graça redentora de Cristo com riqueza de
significado, enquanto que a redenção propriamente dita investe o tipo do Cordeiro da Páscoa de todo o
seu maravilhoso significado. Embora seja verdade que o tipo não é realidade, como o antítipo é, os
elementos encontrados no tipo devem ser, principalmente, observados no antítipo. Assim o tipo pode, e
é o que acontece, orientando especificamente na correta compreensão e estrutura do antítipo. O tipo é
obra de Deus tanto quanto o antítipo. Através do reconhecimento da relação existente entre o tipo e o
antítipo como a profecia no seu cumprimento, foi estabelecida a continuidade sobrenatural e a
inspiração plenária de toda a Bíblia. Os dois campos, da tipologia e da profecia são vastos, havendo
mais de cem tipos legítimos, sendo que toda uma metade se refere apenas ao Senhor Jesus Cristo,
havendo ainda um campo maior de profecia no qual existem mais de trezentas predições detalhadas
53
referentes a Cristo que foram cumpridas com o Seu primeiro advento. Existem três fatores importantes
que servem para exibir uma unidade entre os dois Testamentos: tipo e antítipo, profecia e seu
cumprimento, e continuidade no processo da narrativa e da doutrina. Estes fatores, como fios
entretecidos num e noutro Testamento, ligando-os não apenas num único tecido, servem também para
traçar um plano que, por seu maravilhoso caráter, glorifica o Autor do plano.
As duas palavras gregas (typos) tu/pojehypodeigma)u(po/deigma servem no Novo
Testamento para expressar o pensamento daquilo que é típico. Tu/poj significa uma impressão que
serve de molde ou padrão, e aquilo que é típico no Antigo Testamento é um molde ou padrão daquilo
que é antítipo no Novo Testamento. A raiz tu/poj foi traduzido por cinco palavras (“modelo”, Fp 3.17;
1Ts 1.7; 1Pe 5.3; “exemplo”, 1Co 10.11; 2Ts 3.9; “figura”, At 7.43; Rm 5.14; “padrão”, Tt 2.7; 1Tm
4.12; “sinal” dos cravos”, Jo 20.25). significa um “espécimen” ou “exemplo”, e quando
combinado com Vindica aquilo que está explicitamente apresentado aos olhos dos homens.
u(po/deigma hypódeigma)traduzido por três palavras (“exemplo”, Jo 13.15; Hb 4.11; “figura”,
Hb 8.5; 9.23; “modelo”, Tg 5.10). Os tipos de devem ser classificados como: pessoas (Rm 5.14; comp.
Adão, Melquisedeque, Abraão, Sara, Ismael, Isaque, Moisés, Josué, Davi, Salomão, etc.);
acontecimento (1Co 10.11; comp. Com a preservação de Noé e seus filhos na arca, a redenção do Egito,
a comemoração da Páscoa, o êxodo, a passagem pelo Mar Vermelho, o maná, a água que saiu da rocha,
a serpente levantada e todos os sacrifícios), coisas (Hb 10.20; comp. O tabernáculo, a pia, o Cordeiro, o
Jordão, uma cidade uma nação); instituição (Hb 9.11; comp. O Sábado, o sacrifício, o reino); cerimônia
(1Co 5.7; comp. Toda a ordenação de sacrifício do Antigo Testamento). Seria impossível neste espaço
fazer uma lista de todos os tipos reconhecidos que se encontram no Antigo Testamento.
Um verdadeiro tipo é uma profecia do seu antítipo e, sendo designado por Deus, não deve ser
considerado como uma especulação humana, mas como parte vital da própria inspiração. Naturalmente,
Cristo é o antítipo notável uma vez que o objetivo supremo de ambos os Testamentos é o “testemunho
de Jesus”.
Respondendo à pergunta sobre como um tipo pode ser distinguido de uma alegoria ou de uma
analogia, algumas regras foram criadas. Entre estas declara-se que nada deve ser considerado típico se
não encontrar apoio como tal no Novo testamento. Esta declaração fica sujeita a duas críticas: a) Á luz
de 1 Co 10.11, não há definição quanto ao limite das palavras “estas coisas”; mas seja o que for que está
incluído é considerado como tipo. b) Existem muitos tipos facilmente reconhecíveis que não foram
diretamente sancionados por nenhuma passagem específica do Novo Testamento. Como o problema da
aplicação primária e secundária da Verdade, o reconhecimento de um tipo deve ser deixado, em
qualquer caso, ao discernimento de um julgamento orientado pelo Espírito.
É prerrogativa da ciência da Teologia Sistemática descobrir, classificar, exibir e defender as
doutrinas das Escrituras; e os aspectos exatos da tipologia ainda são incertos principalmente porque os
teólogos dedicam sua atenção a outras coisas; mas quem se atreveria a calcular as restrições impostas à
vida espiritual e às bênçãos do próprio estudante da teologia e, através dele , de todos aqueles aos quais
ele vai ministrar, quando os tipos que são os grandes quadros da verdade de Deus são omitidos em todos
os cursos de estudos destinados a fim de prepará-lo para um ministério frutífero e digno da Palavra de
Deus! Não basta dedicar a estes temas uma identificação passageira no estudo das evidências; o
54
estudante deveria ficar saturado com estas maravilhas da mensagem de Deus para que todo o seu ser se
ilumine com essa radiância espiritual que não pode nunca ser obscurecida”.
Chafer na sua Teologia Sistemática no capítulo XXIII “DEUS FILHO: SUA ENCARNAÇÃO” e
na divisão: “III. COM QUE PROPÓSITO ELE ENCARNOU?” e na subdivisão: “7. PARA SER UM
PARENTE REMIDOR – GOEL”, usa o tipo Goel cujo antítipo é Jesus Cristo.
Traslado este texto de Chafer para enriquecer o estudo da TIPOLOGIA:
“7. PARA SER UM PARENTE REMIDOR – GOEL. Quando considerarmos a principal divisão
da Teologia Sistemática, a Soteriologia, demonstraremos que pelo menos quatorze razões são
apresentadas na Bíblia para a morte de Cristo e, considerando que Ele nasceu para morrer, segue-se que
Ele nasceu, ou se encarnou, por cada um desses motivos. Contudo, a maior parte desses motivos não
passam de variantes do tema geral da cura do pecado, que, no que diz respeito à encarnação, será
examinado sob um dos aspectos da verdade soteriológica: O Parente Remidor (Goel). Como acontece
nos muitos exemplos, é uma doutrina que transcende todo o entendimento humano; pois ninguém
poderia entender inteiramente nesta vida o motivo da redenção que é o pecado, preço da redenção pago
que é o precioso sangue de Cristo, ou o fim da redenção que é o estado daqueles que são salvos. As
verdades envolvidas neste tema estão prefiguradas no Antigo Testamento no que devidamente foi
designado O Parente Remidor. Duas linhas gerais de ensinamentos são inerentes ao tipo do Antigo
Testamento: a) a lei que governa aquele que vai remir (Lv 25.25-55) e b) o exemplo do remidor (o Livro
de Rute). O tipo de redenção é muito simples; mas o antítipo conforme representado por Cristo na cruz
é realmente complexo, embora siga implicitamente as mesmas linhas encontradas no tipo. As linhas do
tipo são: a) o remidor tem que ser um parente (Lv 25.48,49; Rt 3.12,13); b) o remidor tem que ser
capaz de remir (Rt 4.4-6; comp. Jr 50.34); e c) a redenção é efetuada pelo remidor, ou Goel, pelo
cumprimento das devidas exigências (Lv 25.27). A redenção era de pessoas ou propriedades e na
redenção típica havia provisão para que o indivíduo pudesse remir a si mesmo, para que a posição ou
herança não pudesse ser arrebatada ao proprietário original e de direito se ele estivesse em condições de
reclamá-las. Por trás disto está a concessão divina de terras às tribos e famílias que, conforme era a
intenção, deveriam permanecer como herança perpétua através das gerações subseqüentes. O aspecto da
redenção própria não tem lugar na redenção antítipica; pois há lugar para Cristo remir a si próprio, nem
há como o pecador remir-se do pecado. O grande ato redentor do Antigo Testamento é o que foi
realizado por Jeová quando Ele remiu Israel do Egito. Nesse ato, que é verdade no plano da verdade
redentora e no qual muitos tipos, a redenção foi totalmente operada por Jeová (Êxodo 3.7,8); foi
realizada através de uma pessoa, Moisés; pelo sangue (Ex 12.13,23,27); e por meio de poder: Israel foi
tirado do Egito por meio de poder sobrenatural. A redenção do Novo Testamento segue os mesmos
passos. Foi operada por Deus, por meio de Cristo, pelo Seu sangue e o livramento da escravidão do
pecado é pelo poder do Espírito Santo. A redenção de Israel foi a redenção da nação para aquela e todas
as gerações futuras. Os israelitas ficaram diante de Jeová como uma nação remida para sempre. A sua
redenção típica foi verificada e estabelecida na morte de Cristo.
Retornando aos principais aspectos do tipo do Parente Remidor do Antigo Testamento,
podemos notar o seguinte: a) O Goel tem de ser um parente. Esta é, realmente, a razão dentro do
propósito celestial da encarnação do Filho Eterno na família humana. Para que os escravos do pecado
cujo estado diante de Deus é de perdição pudessem ser remidos, era necessário que o seu remidor fosse
55
um parente deles. Contudo, o que é essencial no tipo não é necessário no antítipo. É o oposto. A
necessidade que se vê no antítipo cria a necessidade no tipo. O tipo não pode fazer mais do que refletir
o que é verdade no antítipo. b) O remidor tem que ser capaz de remir. É uma verdade que contemplada
no antítipo envolve fatos e forças em Deus que o homem não consegue esquadrinhar. O fato do sangue
(At 20.28) ter sido derramado na redenção, sob a orientação da sabedoria infinita e possuidor de
recursos infinitos, indica o mais alto grau que nenhuma outra redenção poderia alcançar. Só a morte de
Cristo é a resposta para o estado perdido do homem. Ele é O Parente Remidor, ou GOEL, capaz de
pagar o preço; Ele é o Deus-Homem que derramou o Seu “precioso sangue”, que, por causa da unidade
do Seu ser, foi no sentido mais explícito o sangue de Deus. c) Uma das revelações mais vitais referente
a Cristo foi que Ele mesmo estava disposto a remir. A suposição racionalista da disposição do Pai de
sacrificar a Pessoa do Seu Filho foi uma imposição atroz e imoral (um ato que nem mesmo um pai
humano cometeria) e desaparece quando reconhecemos que o Filho esteve de acordo e cooperante nesse
sacrifício. Na verdade, a união dentro da Divindade cria uma identidade de ação que ficou expressa nas
palavras: “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo mesmo o mundo” (2Co 5.19).
Todo o tema da sujeição do Filho ao Pai é tão extenso quanto a vida terrena do Filho. Falando do
Pai, o Filho disse: “Eu faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8.29). Contudo, a sujeição do Filho ao Pai está
totalmente dentro do relacionamento da humanidade da Pessoa encarnada com o Seu Pai e não é
principalmente uma sujeição da Deidade, ou Segunda Pessoa à Primeira Pessoa. Entre as duas Pessoas
divinas há uma cooperação eterna, mas não sujeição. Além disso, é preciso notar que a sujeição ao
Criador da parte do homem é uma coisa inerente à própria ordem das coisas criadas e que o Deus-
Homem não seria o homem perfeito que a encarnação garantiu, se não estivesse, como homem,
totalmente sujeito ao Pai. Assim, o GOEL, o Parente Remidor, Cristo, cumpre o tipo estando disposto a
remir.”

TESTE PRÁTICO: Leia atentamente Gn 24.3 e descubra de quem eram tipos: Abraão, o servo
Eleazar, Isaque e Rebeca.

56
A ARCA: O CENTRO DO TABERNÁCULO 17

A arca ocupa um lugar muito significativo dentro da Bíblia. Foi o primeiro item mencionado por
Deus quando ordenou a Moisés que construísse o tabernáculo. No dia em que o tabernáculo foi
levantado, foi o único objeto colocado no lugar santíssimo, embora no átrio se encontrasse o altar da
oferta queimada e a pia, enquanto que no lugar santo havia o castiçal, a mesa com os pães da proposição
e o altar de ouro com o incenso (vede Êxodo 40:17-33). Ali no lugar santíssimo Deus se encontrava
com os homens, e do propiciatório sobre a arca, entre os dois querubins, falava-lhes. A arca foi,
portanto, o centro do tabernáculo.

Primeiro

Vamos, em primeiro lugar, examinar o nome. No livro do Êxodo o nome é “arca” ou “arca do
testemunho”. Mas também recebeu o nome de “arca da aliança”. O próprio nome e sua localização
dentro do tabernáculo mostram que o testemunho de Deus está no meio do povo de Israel. Onde está a
arca, está a presença de Deus. Onde se encontra, há também a lei de Deus. No livro de Números a arca
recebeu outro nome - a arca da aliança (vede 10:33; 14:44). Isto indica o relacionamento entre a arca e a
aliança. Onde estiver a arca, estará a aliança do Senhor. Além disso, no livro de Samuel, recebe ainda
outra designação. É chamada de “arca de Deus” (vede 1 Samuel 4:11, 13, 17, 19, 21, 22). Simboliza o
fato de que a presença da arca também é a presença de Deus. A arca representa Deus. Sua presença com
o povo prova a presença de Deus com ele.

Segundo
Vamos ainda investigar mais sobre o que a arca tipifica. Muito simplesmente, tipifica o Senhor
Jesus: 1) A arca no tabernáculo significava a presença de Deus com seu povo. Semelhantemente, o
Senhor Jesus veio para indicar a presença de Deus conosco hoje, e por isso ele é chamado Emanuel
(Mateus 1:23). Onde ele está, Deus também está. 2) A arca do Antigo Testamento encontrava-se no lugar
santíssimo; e Cristo está hoje no santuário celestial (Hebreus 8:2, comp. 9:24). 3) Quando Deus ordenou
aos israelitas que construíssem o tabernáculo, a primeira coisa que mencionou foi a arca. E isto dá a
entender que o Senhor Jesus é o centro de todas as coisas. 4) A arca era feita de madeira de acácia,
recoberta de ouro puro por dentro e por fora. A madeira de acácia é muito resistente, por isso sugere a
humanidade de nosso Senhor. E o ouro puro nas Escrituras sempre representa a justiça de Deus, a glória
de Deus e tudo o que se refere a Deus; e, assim, indica a divindade de nosso Senhor. Cristo é ambos,
homem e Deus; tem natureza humana como também divina.

Muita coisa mais na arca ainda fala de Cristo, conforme veremos nos parágrafos seguintes.
A arca tinha dois côvados e meio de comprimento, um côvado e meio de largura, e um côvado e
meio de altura. Sobre ela se encontrava o propiciatório que servia de tampa para a arca. Era feito de ouro
puro e tinha o mesmo comprimento e largura da arca. Além disso, dois querubins de ouro batido
encontravam-se assentados nas duas extremidades do propiciatório, com suas asas abertas cobrindo-o.
Estes dois querubins olhavam para o propiciatório um de frente para o outro (e sabemos que os
querubins manifestam a glória de Deus - vede Ezequiel 9:3, Hebreus 9:5). Deus dissera a Moisés: “Ali
virei a ti, e; de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins que estão sobre a arca do testemunho,
falarei contigo acerca de tudo o que eu te ordenar para os filhos de Israel” (Êxodo 25:22). Dali ele os
guiaria daquele momento em diante. Durante o período do Antigo Testamento toda a graça de Deus fluía
da arca; e, igualmente, durante o período da Nova Aliança, recebemos tudo através de Cristo. Somos
informados em Levítico 16 que, uma vez por ano, no sétimo mês, no grande dia da expiação, o sumo
sacerdote levava o sangue do novilho e do bode para dentro do lugar santíssimo e aspergia com ele o
propiciatório. Do mesmo modo o Senhor realizou a obra da redenção, derramando o seu sangue, e o seu

17
NEE, W. O Testemunho de Deus. Miami, Florida. Editora Vida, 1980, p. 41-60.
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sangue lembra a Deus continuamente o nosso perdão, uma vez que a obra da redenção já foi realizada.
Resumindo, a arca tipificava como a graça nos foi dada através de Cristo. Tendo Cristo, temos a
presença de Deus conosco: por causa dele podemos receber a orientação de Deus.
Nos quatro cantos da arca havia quatro argolas de ouro e duas varas de acácia recobertas de ouro
eram colocadas nessas argolas para carregar a arca. As varas ficavam nas argolas da arca; não deviam ser
retiradas. Isto significava que a arca podia ser carregada a qualquer hora. Portanto a arca tinha uso
duplo. De um lado, era o centro da adoração, estando colocada no lugar santíssimo, onde Deus se
encontrava com os homens. Se alguém desejasse adorar a Deus tinha de se colocar diante da arca, pois
sem a arca não era possível a adoração. De outro lado, servia de guia para o povo de Deus - ia na frente,
com o povo de Israel a segui-Ia (vede Números 10:33, Josué 3:3). Não podiam ir simplesmente para
onde desejassem; tinham de seguir a arca. Vemos aqui simbolicamente como Cristo nos leva pelo
caminho que está a nossa frente. Como a arca viajava? Eis o que dizem as Escrituras:

Quando partir o arraial, Arão e seus filhos virão, e tirarão o véu de cobrir, com ele
cobrirão a arca do testemunho; e, por cima, lhe porão uma coberta de peles de animais
marinhos, e sobre ela estenderão um pano, todo azul, e lhe meterão os varais (Números
4:5-6).
Temos aqui a explicação detalhada de que para viajar a arca devia ser coberta com três
coberturas: primeiro, o véu que separava o lugar santíssimo do lugar santo era retirado e colocado sobre
a arca; segundo, uma coberta de peles de animais marinhos; e terceiro, uma coberta toda azul por cima.
Quando a arca era trazida para fora, proclamava a vinda de Cristo, pois sabemos pelo Novo Testamento
que o véu apontava para a carne de Cristo (veja Hebreus 10.20). E, agora, depois que foi rasgado (vede
Marcos 15.38), o Cristo que proclamamos tornou-se, assim, passível de aproximação. A pele dos
animais marinhos tem uma aparência grosseira, expressando em figura a santidade de nosso Senhor -
como ele foi rejeitado pelos homens. O pano todo azul tem significado espiritual por causa de sua cor. O
azul na Bíblia representa aquilo que é celestial (pois o céu é azul), assim como o branco representa a
justiça, o ouro a glória de Deus, e a púrpura indica autoridade. O Cristo que seguimos parece que não
tinha beleza exterior, tal como a pele dos animais marinhos, mas ele é celestial como indica o pano todo
azul. Embora fosse rejeitado pelos homens, não obstante agradou a Deus. Resumindo, então, o Cristo
que proclamamos ser o Senhor, é passível de aproximação, foi rejeitado pelos homens, mas agradou a
Deus.

Terceiro

Vamos agora examinar rapidamente a história da arca, no que perceberemos não só o


relacionamento entre a arca e o povo de Israel, mas também o de Cristo e nós.

A arca atravessando o Rio Jordão

Como o povo de Israel atravessou o Rio Jordão quando entrou em Canaã?

Disse mais Josué: Nisto conhecereis que o Deus vivo está no meio de vós ... Eis que a arca
da aliança do Senhor de toda a terra passa o Jordão diante de vós ... porque há de acontecer
que, assim que as plantas dos pés dos sacerdotes que levam a arca do Senhor, o Senhor de
toda a terra, pousem nas águas do Jordão, serão elas cortadas, a saber, as que vêm de cima,
e se amontoarão. Tendo partido o povo das suas tendas, para passar o Jordão, levando os
sacerdotes a arca da aliança diante do povo; e quando os que levavam a arca chegaram até
ao Jordão, e os seus pés se molharam na borda das águas (porque o Jordão transbordava
sobre todas as suas ribanceiras, todos os dias da sega), pararam-se as águas, que vinham de
cima; levantaram-se num montão, mui longe da cidade Adão, que fica ao lado de Zaretã; e

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as que desciam ao mar da Arabá, que é o Mar Salgado, foram de todo cortadas; então
passou o povo defronte de Jericó. Porém os sacerdotes que levavam a arca da aliança do
Senhor, pararam firmes no meio do Jordão, e todo o Israel passou a pé enxuto;
atravessando o Jordão Josué 3:10-17).

Esta passagem da Bíblia nos fala de como a arca conduziu o povo de Israel para Canaã. A arca
foi a última a sair da água, como também a primeira a entrar. Disto percebemos que um poder maior do
que a morte conduziu os israelitas em segurança na travessia do rio Jordão. Do mesmo modo, nós que
morremos, também somos ressuscitados com Cristo, exatamente como Israel passou pela “morte” do
Jordão sob a liderança da arca.

A arca na tenda de Silo

Depois que os filhos de Israel entraram em Canaã e a guerra acabou, toda a congregação reuniu-
se em Silo para levantar ali a tenda da congregação (vede Josué 18:1). Quando Eli, o sacerdote,
envelheceu, seus dois filhos tornaram-se homens desprezíveis. Não conheciam a Jeová, embora
servissem como sacerdotes. Eli nada podia fazer, pois amava os filhos mais do que a Deus. E assim um
homem de Deus profetizou o seguinte: “E verás o aperto da morada de Deus” (1 Samuel 2:32). Isto
significava que Deus se afastaria da tenda.

O jovem Samuel servia ao Senhor perante Eli. Naqueles dias a palavra do Senhor era
mui rara; as visões não eram freqüentes. Certo dia, estando deitado no lugar acostumado
o sacerdote Eli, cujos olhos já começavam a escurecer-se, a ponto de não poder ver, e
tendo-se deitado também Samuel, no templo do Senhor, em que estava a arca, antes que
a lâmpada de Deus se apagasse, o Senhor chamou o menino (1 Samuel 13:1-4).

Embora a lâmpada ainda não estivesse apagada diante da arca no santuário de Deus, e a
aparência exterior da tenda continuasse como antes, a presença de Deus logo se ausentaria. Então, nesse
momento, Deus não chamou a Eli, mas a Samuel; não transmitiu sua palavra a Eli, mas a Samuel. Mais
tarde deixou Eli de lado e escolheu o menino Samuel. Estabeleceu este último por profeta em Israel (1
Samuel 3:20).
Não muito tempo depois a arca teve de sair de Silo. Está registrado em 1 Samuel 4 que “voltando
o povo ao arraial, disseram os anciãos de Israel: Por que nos feriu o Senhor hoje diante dos filisteus?
Tragamos de Silo a arca da aliança do Senhor, para que venha no • meio de nós, e nos livre da mão de
nossos inimigos” (v. 3). Enquanto o povo de Israel se ocupava na luta contra os filisteus, achou que se
carregasse a arca sairia vitorioso. E por isso retiraram a arca da tenda de Deus em Silo e a levaram para
o campo da batalha. Quando a arca entrou no arraial, todo Israel gritou em altas vozes (1 Samuel 4:5).
Vemos, assim, que em momentos de apertura o povo pensava aproveitar-se da arca; mas, como
conseqüência, até a arca foi feita prisioneira. Pensaram que com a arca entre eles, Deus tinha obrigação
de ajudá-los, pois como poderia ele abandoná-los? Mas Deus não fez o que eles esperavam. Deixou que
fossem derrotados e até permitiu que a arca fosse capturada pelos inimigos (vede 1 Samuel 14:10-11).
Oh! como este assunto é sério. Se alguém imagina que sairá vitorioso só porque repete
vaidosamente, palavras tais como “eu tenho Deus”, “em nome do Senhor”, “é claro que Deus está
conosco”, comete o mesmo erro dos israelitas de antigamente. A nação de Israel foi derrotada pelos
filisteus porque se esqueceu de resolver a questão dos seus pecados. Não teve em mente que, enquanto
os pecados não fossem resolvidos, jamais alcançariam vitória. Ignoravam o fato de sua rebeldia contra
Deus, enquanto sonhavam com a vitória apegando-se à arca. Que erro trágico! Ninguém pode usar a
arca deste modo.
Vamos nos lembrar sempre que as coisas espirituais não ficam sujeitas ao uso da carne, nem o
nome de Cristo deve ser jamais usado pela carne. Se alguém pensa aproveitar-se das coisas espirituais,
usando o nome do Senhor, será totalmente derrotado. Não sabendo que a glória do Senhor já havia
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partido, o povo de Israel pensou em usar a arca de Deus. Deus, entretanto, permitiu que sua arca fosse
feita prisioneira. Vamos entender que o Senhor não abandonou a tenda de Silo porque a arca foi feita
prisioneira; antes, a arca foi capturada porque o Senhor abandonou o tabernáculo de Silo (comp. Salmo
78:60-61). Depois que a arca de Deus saiu do tabernáculo de Silo, nunca mais retornou.

A Arca entre os filisteus

O que aconteceu à arca depois que foi levada à terra dos filisteus? Vamos nos lembrar novamente
através deste acontecimento o que aprendemos antes, que a arca era capaz de proteger-se sozinha.

Os filisteus tomaram a arca de Deus, e a levaram de Ebenézer a Asdode. Tomaram os


filisteus a arca de Deus, e a meteram na casa de Dagom, junto a este. Levantando-se,
porém, de madrugada os de Asdode, no dia seguinte, eis que estava caído Dagom com o
rosto em terra diante da arca do Senhor; tomaram-no e tomaram a pô-lo no seu lugar.
Levantando-se de madrugada no dia seguinte, pela manhã, eis que Dagom jazia caído de
bruços diante da arca do Senhor; a cabeça de Dagom e as duas mãos estavam cortadas
sobre o limiar; dele ficara apenas o tronco ... Porém a mão do Senhor castigou
duramente os de Asdode, e os assolou e os feriu de tumores, tanto em Asdode como no
seu território (1 Samuel 5:1-6).
Os homens de Asdode ficaram aterrorizados e por isso mandaram reunir todos os príncipes dos
filisteus para se aconselharem sobre o que fariam. A decisão foi levar a arca· de Deus a Gate. E
aconteceu que, depois que a arca chegou lá, os homens da cidade, grandes e pequenos, foram
acometidos de tumores. Por isso enviaram a arca de Deus a Ecrom, mas os ecromitas gritaram:
“Transportaram até nós a arca do Deus de Israel, para nos matarem, a nós e ao nosso povo” (v. 10). Eles
também mandaram reunir todos os príncipes dos filisteus, pedindo que a arca fosse enviada de volta ao
seu lugar original. Enquanto isso a arca de Jeová ficou na terra dos filisteus por sete meses.
Como finalmente mandaram de volta a arca de Deus para Israel? Os sacerdotes e os adivinhos
deles inventaram um modo novo e singular: 1) Construíram um carro novo, colocaram nele a arca de
Jeová e fizeram-no ser puxado por duas vacas leiteiras afastadas de suas crias. 2) Prepararam também
uma oferta pela culpa na forma de cinco tumores de ouro e cinco ratos de ouro e os colocaram em um
cofre ao lado da arca que deveria ficar sobre o carro. Então sugeriram aos filisteus que observassem e,
“se subir pelo caminho rumo do seu território a Bete-Semes, foi ele Jeová] que nos fez este grande mal;
e, se não, saberemos que não foi a sua mão que nos feriu; foi casual o que nos sucedeu” (6:9). Sabemos
que aconteceu um milagre, pois o carro puxado pelas duas vacas leiteiras foram diretamente pelo
caminho até o território de Bete-Semes. Com isto os príncipes dos filisteus ficaram plenamente
convencidos. E foi por isso que dissemos antes que a arca de Deus era capaz de proteger-se a si mesma.

A arca em Bete-Semes

O que aconteceu depois que a arca chegou a Bete-Semes? “Andavam os de Bete-Semes fazendo
a sega do trigo no vale, e, levantando os olhos, viram a arca; e, vendo-a, se alegraram” (1 Samuel 6:13).
Mas seguiu-se uma tragédia, pois

Feriu o Senhor os homens de Bete-Semes, porque olharam para dentro da arca do


Senhor, sim, feriu deles setenta homens; então o povo chorou, porquanto o Senhor
fizera tão grande morticÚlio entre eles. Então disseram os homens de Bete-Semes:
Quem poderia estar perante o Senhor, este Deus santo? e para quem subirá desde
nós? Enviaram, pois, mensageiros aos habitantes de Quiriate-Jearim, dizendo: Os
filisteus devolveram a arca do Senhor; descei, pois, e fazei-a subir para vós outros
(6:19-21).

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A presença de Cristo é realmente a coisa mais bendita que existe; não obstante, as pessoas
também precisam ser santas. Por terem olhado dentro da arca de Deus, negligentemente, sem nenhum
temor em seus corações, Deus matou muitos dos homens de Bete-Semes. E por causa disso não
quiseram conservar a arca entre eles. Como é triste que, em lugar de resolver a causa do castigo, o povo
de Bete-Semes rejeitasse a presença do Senhor.

A Arca em Quiriate-Jearim

Qual foi a atitude dos homens de Quiriate-Jearim para com a arca?


Então vieram os homens de Quiriate-Jearim, e levaram a arca do Senhor à casa de
Abinadabe, no outeiro; e consagraram a Eleazar, seu filho, para que guardasse a arca do
Senhor. Sucedeu que, desde aquele dia, a arca ficou em Quiriate-Jearim, e tantos dias se
passaram que chegaram a vinte anos; e toda acasa de Israel dirigia lamentações ao
Senhor (1 Samuel 7:1-2).

A arca saiu de Silo para nunca mais retomar. Em lugar disso, ficou em Quiriate-Jearim na casa
de Abinadabe durante vinte anos. O tabernáculo ficou em Silo, mas não havia arca nele. Como Silo
ficou vazio! Agora, entretanto, a casa de Abinadabe foi privilegiada com a presença do Senhor. Temos
de sublinhar o fato da arca nunca mais ter retornado a Silo e fazer esta pergunta séria a nós mesmos:
Será que somos como os homens de Bete-Semes que tiveram medo da presença do Senhor, ou como os
homens de Quiriate-Jearim que receberam bem a presença do Senhor?

A Arca na casa de Obede-Edom

Vinte anos se passaram e Davi tornou-se rei. Imediatamente desejou que a arca fosse levada para
Jerusalém. “Consultou Davi os capitães de mil e os de cem, e todos os príncipes, e disse a toda a
congregação de Israel: “ ... tornemos a trazer para nós a arca do nosso Deus; porque nos dias de Saul
não nos valemos dela” (1 Crônicas 13:1-3). Foi certo e bom que Davi pensasse em levar a arca de Deus
para Jerusalém. Mas como ele e o povo fizeram a transferência?
Puseram a arca de Deus num carro novo, e a levaram da casa de Abinadabe, que estava
no outeiro; e Uzá e Aiô, filhos de Abinadabe, guiavam o carro novo ... Davi e toda a
casa de Israel alegravam-se perante o Senhor, com toda sorte de instrumentos de pau de
faia, com harpas, com saltérios, com tamboris, com pandeiros e com círnbalos (2
Samuel 6:3-5).

De todo inesperadamente, entretanto, urna coisa horrível aconteceu nesta ocasião de grande
regozijo.
Quando chegaram à eira de Nacom, estendeu Uzá a mão à arca de Deus, e a segurou,
porque os bois tropeçaram. Então a ira do Senhor se acendeu contra Uzá, e Deus o feriu
ali por esta irreverência; e morreu ali junto à arca de Deus ... Temeu Davi ao Senhor
naquele dia, e disse: Como virá a mim a arca do Senhor? Não quis Davi retirar para
junto de si a arca do Senhor, para a cidade de Davi; mas a fez levar à casa de Obede-
Edom, o geteu. Ficou a arca do Senhor em casa de Obede-Edom, o geteu, três meses; e o
Senhor o abençoou e a toda a sua casa (2 Samuel 6:6-11).

Davi não investigou a causa do acontecido; em lugar disso, recusou-se a levar a arca para a
cidade de Davi simplesmente porque Uzá fora morto. Mas observem que a casa de Obede-Edom
recebeu bem a arca, resultando que foi abundantemente abençoada por Deus. Novamente, precisamos
perguntar: Será que devemos evitar a presença do Senhor para que Deus não nos toque? Ou será melhor
que, tal como a casa de Obede-Edom, recebamos bem a sua presença?
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Onde estava o erro de Davi? Quando desejou levar a arca de Deus a Jerusalém, deixou de
examinar o livro da Lei para saber como a arca deveria ser carregada, mas consultou os capitães de
mil e os de cem. De acordo com o registro de Números 4:4-15, a arca devia ser carregada pelos
levitas. Deus jamais instruíra Israel a levar a arca sobre um carro de bois; isto Davi e seus
conselheiros aprenderam com os filisteus incircuncisos. Considerando que os filisteus não sabiam
nada, foram desculpados por Deus. Mas para Davi foi imperdoável seguir o modo dos filisteus em
lugar da ordem do Senhor. Isto deveria nos ensinar que se inventamos um novo modo de expressar
nosso zelo por Deus, outro que não o definido na Bíblia e que não se conforma com a sua vontade,
não teremos capacidade de mantê-lo por muito tempo, pois dentro de pouco tempo alguma coisa
vai acontecer. No começo pode haver música e danças, grande entusiasmo e grandes multidões,
mas logo tudo cessará. Qualquer coisa que seja simplesmente motivada pela paixão temporária não
é agradável ao Senhor.
Em todos os assuntos relacionados com a vida pessoal do crente e a igreja, Deus não
permite qualquer toque da carne do homem nem vai permitir que qualquer pessoa altere o que ele
estabeleceu. É inegável que Uzá estendeu sua mão para ajudar a arca (sem dúvida por causa do seu
amor e zelo). Mas sabemos que Deus não ficou satisfeito, porque não permitiu que Uzá tocasse a
arca com sua mão de carne. Em outras palavras, o Senhor não tolerará que carne alguma apóie
nosso erro. Você pode achar que o seu modo de pensar é melhor do que o modo estabelecido por
Deus; não obsta;nte, você está proibido de fazer como quer. Você só pode seguir o que Deus
ordenou; caso contrário, sofrerá as conseqüências do juízo do Senhor.
Alguns talvez perguntem por que não vemos o juízo de Deus na igreja onde muitos estão
substituindo a vontade de Deus pelos meios carnais? Vamos responder, dizendo, com temor e tremor, se
não for pelo fato de não ter ainda chegado a hora de Deus julgar a situação, talvez seja porque a
arca (isto é, a presença de Deus) já se ausentou. Que jamais sejamos tentados a zombar do Senhor
por causa de sua indulgência e paciência.

A Arca no Tabernáculo de Davi

Ignorando por que Deus feriu Uzá de morte, Davi não se atreveu a levar a arca para
Jerusalém. Mas quando ouviu contar que Jeová abençoara a casa de Obede-Edom por causa da
arca, desceu e foi buscar a arca, levando-a daquela casa para a cidade de Davi com alegria (vede 2
Samuel 6:12 e 1 Crônicas 15:25). Desta vez, entretanto, foi diferente do primeiro episódio. Pois
desta vez Davi cuidadosamente preparou a subida da arca, dizendo que “ninguém pode levar a arca
de Deus, senão os levitas; porque o Senhor os elegeu, para levar a arca de Deus, e o servirem para
sempre” (1 Crônicas 15:2). Ele tinha aprendido a lição. Primeiro pensava que podia fazer o que os
filisteus tinham feito; desta vez ele sabia que devia servir a Deus como Deus queria, não segundo o
homem. Por isso, agora, mandou que os levitas carregassem a arca. E o resultado foi que:
“Introduziram, pois, a arca de Deus, e a puseram no meio da tenda que lhe armara Davi; e trouxeram
holocaustos e ofertas pacíficas perante Deus. Tendo Davi acabado de trazer os holocaustos e ofertas
pacíficas, abençoou o povo em nome do Senhor” (1 Crônicas 16:1-2).

Salomão e a Arca

A arca teve mais um outro incidente. “Foi o rei [Salomão] a Gibeom para lá sacrificar, porque
era o alto maior; ofereceu mil holocaustos Salomão naquele altar” (1 Reis 3:4). De noite Jeová lhe
apareceu em um sonho. Ele pediu ao Senhor que lhe desse sabedoria, e a recebeu junto com outras
coisas que não pedira. O que Salomão fez, depois que acordou? “Veio a Jerusalém, pôs-se perante a arca
da aliança do Senhor, ofereceu holocaustos, apresentou ofertas pacíficas, e deu um banquete a todos os
seus oficiais” (vede 1 Reis 3:5-15). A esta altura precisamos ler 2 Crônicas 1:3,4:

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E foi [Salomão] com toda a congregação ao alto que estava em Gibeom, porque ali
estava a tenda da congregação de Deus, que Moisés, servo do Senhor, tinha feito no
deserto. Mas Davi fizera subir a arca de Deus de Quiriate-Jearim ao lugar que lhe havia
preparado, porque lhe armara uma tenda em Jerusalém (2 Crônicas 1:3-4).

Nessa ocasião a tenda já estava em Gibeom, mas a arca não estava lá. O problema era o seguinte:
em Gibeom estava a tenda enquanto que a arca estava em Jerusalém. A primeira coisa que Salomão fez
depois que recebeu sabedoria foi retomar a Jerusalém para oferecer sacrifícios diante da arca. Nunca
mais continuou a oferecê-los em Gibeom. Isto marcou um ponto alto na vida de Salomão.
Aparentemente a tenda de Silo tinha tudo. Não continha o altar de bronze, a pia, o candelabro, a mesa
com os pães da proposição e o altar de ouro para o incenso? (Pois devemos entender que o tabemáculo
de Gibeom foi aquele que originalmente estava localizado em Silo, uma vez q.ue 2 Crônicas 1 declara
explicitamente que o tal tabernáculo em Gibeom foi o que “Moisés, servo do Senhor, tinha feito no
deserto”, v. 3). Mas, uma coisa faltava, e era a arca. As pessoas consideram a sua ausência como coisa
sem importância, não reconhecendo que a arca representa a presença de Deus. Contudo, por melhor que
o restante seja, nem o coração de Deus nem nossos corações ficarão satisfeitos se a sua presença estiver
faltando.
Antes do Senhor lhe aparecer, Salomão não percebeu nem sentiu o significado da arca; mas
quando experimentou a presença do Senhor, tomou consciência da preciosidade dela sobre todas as
outras. coisas. Resultou daí que imediatamente retomou a Jerusalém e ofereceu sacrifícios diante da
arca de Jeová. Em Gibeom Salomão só oferecera holocaustos, mas agora ofereceu holocaustos e ofertas
pacíficas e fez uma festa para todos os seus servos. Oh! adorar diante de Deus é verdadeira adoração, ter
comunhão com Deus é ter verdadeira comunhão e regozijar-se na presença de Deus é verdadeira
alegria. Foi o que Salomão experimentou, experiência partilhada por muitos que conhecem o Senhor.
Então, depois que Salomão construiu o santo templo, colocou a arca nele. E a arca tornou-se o centro
do santo templo (vede 2 Crônicas 5:1-9). Oh! Arca de Deus, Arca Preciosa, todos os que te
conhecem te buscam e adoram diante de ti.

Quarto

Tendo recapitulado tanto a história da arca, deveríamos agora desejar compreender de


maneira mais clara o relacionamento entre Cristo e a igreja. Já vimos que a arca é um tipo de
Cristo. E a travessia do Jordão pela arca são figuras da morte e ressurreição de nosso Senhor.
Portanto, depois de nós mesmos nos apropriarmos da morte e ressurreição do Senhor, podemos
começar a proclamá-lo, dizendo às pessoas que o véu foi rasgado e que Cristo já abriu para nós um
caminho novo e vivo que leva diretamente a Deus. Também informamos às pessoas que o Cristo
que proclamamos é desprezado pelos homens, mas exaltado por Deus; ele é desprezado como a
pele dos animais marinhos, mas agradável a Deus como o pano azul; ele é o Cristo glorioso.
No começo a igreja anunciava um Cristo celestial. Isto, entretanto, sofreu mudanças já no
tempo dos apóstolos. Pois, no tempo de Paulo, havia alguns que pregavam “um evangelho
diferente” (Gálatas 1:6-7). Pedro, também, percebeu-o e advertiu contra “as heresias destruidoras”
(2 Pedro 2:1-3). Além disso, João exortou os crentes a vigiarem por causa do “enganador e o
anticristo” (2 João 7). Todas estas advertências nos dão alguma indicação quanto ao começo da
confusão da palavra do Senhor. Constantino foi elevado à posição de César romano e, logo depois,
fez do Cristianismo a religião do estado. O bispo em Roma mais tarde tornou-se titular de todo o
sistema católico. O nome de Cristo, que deveria ficar exclusivamente na igreja, saiu - nessa
conjuntura - fora dos limites da igreja. Tal acontecimento não foi diferente do que aconteceu com a
arca de antigamente. A arca que estava originalmente em Silo foi então removida para a terra dos
filisteus. E tendo deixado Silo, nunca mais retornou para lá. Lembrem-se das palavras de Deus na
boca de Jeremias: “Então farei que esta casa [o templo de Salomão] seja como Silo, e farei desta
cidade maldição para todas as nações da terra” (Jeremias 26:6). O que mais tarde aconteceu ao
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templo aconteceu ao tabernáculo de Silo; isto é, embora o tabernáculo permanecesse em Silo, fora
abandonado por Deus desde que sua presença [a arca] já não estava mais lá.
Oh! como os filhos de Deus precisam de revelação, o tipo de revelação que Salomão
recebeu. O Senhor apareceu-lhe e lhe abriu os olhos para ver a preciosidade da arca e a vacuidade
do tabernáculo sem a arca. E, como conseqüência, que· grande mudança houve em sua vida.
Deixem-me perguntar: O que vocês desejam - a arca de Deus ou o tabernáculo sem a arca?
Você prefere Cristo em forma religiosa sem o próprio Cristo? Devemos considerar se honramos o
Senhor, se o tornamos o centro de tudo ou se simplesmente queremos manter o tabernáculo de Silo
sem a arca. As pessoas sempre entesouram o tabernáculo em Silo e apegam-se tenazmente a ele.
Presumem que, tendo uma vez constituído o santo templo, será assim para sempre. Tal presunção
não é verdadeira, entretanto, pois Jeremias profetizou: “Não confieis em palavras falsas, dizendo:
Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor é este” Jeremias 7:4). Deus reprovou o povo de
Israel porque eles não se preocupavam com coisa alguma a não ser em confiar em palavras mentirosas.
Três vezes a frase “templo do Senhor” foi enfaticamente repetida pelo profeta. Quem realmente em
Israel sabia que o templo era o templo do Senhor só porque Deus estava ali no centro? Se Deus se
ausentasse do templo, aquele templo não seria nada mais que um edifício comum.
Oh! vamos reconhecer que o que é precioso é a arca e não o tabernáculo, porque a arca é o centro do
tabernáculo. Nossa questão, portanto, deve-se resumir nisto: Será que Cristo é verdadeiramente o cen-
tro, ou o que há é um mero tabernáculo vazio? Se verdadeiramente apreciamos Cristo, precisamos pro-
curar o lugar onde ele é realmente o centro. Onde quer que esteja o nome de Cristo, nós também
deveríamos estar lá. O lugar no qual você se encontra agora é o centro? Se é, vamos louvar e agradecer
a Deus. Mas se não é, que Deus abra nossos olhos para que possamos imediatamente retornar à
“Jerusalém lá de cima” (Gálatas 4:26) e adorarmos diante da arca da presença de Deus como Salomão
fez depois de receber a revelação. E se o fizermos, perceberemos como foram vãs nossas obras zelosas
do passado; vamos desfrutar a alegria e o descanso diante da arca; e vamos começar a servir e a adorar
verdadeiramente. Que todos nós tenhamos a revelação de ver a preciosidade do Senhor, de torná-lo o
tesouro e o centro, que ofereçamos o holocausto da consagração e que vivamos para Deus e para sua
satisfação!

64
PRINCÍPIOS GRAMATICAIS DE INTERPRETAÇÃO - PARÁBOLAS

INTRODUÇÃO: O ensino mediante o uso de parábolas, na Bíblia, é muito comum, especialmente no


N.T., onde está escrito de Jesus que “nada lhes falava sem parábolas” (Mt 13.34). Daí o valor imenso
que tem as regras indispensáveis à interpretação das parábolas, a fim de podermos tirar delas o grande
ensino que ministraram.

 LEITURA BÍBLICA: Mc 4.2-20


NOTAS:
1. Uma parábola para ser perfeita, deve ter as seguintes características:
1.1. Forma histórica;
1.2. Ter verossimilhança;
1.3. Ter naturalidade;
1.4. Ter correspondência entre os elementos naturais e as verdades espirituais enunciadas.

2. Ao estudar as parábolas, muitas vezes nos vem à mente a mesma pergunta que fizeram os discípulos
a Jesus: “Por que lhes fala por parábolas?’ (Mt 13.10).Ao nosso modo de entender, eram três os
motivos porque Ele ensinava através de parábolas:
a. A parábola não entendida, promove o interesse de entendê-la e os levava a pedir explicações a
Jesus (Mt 13.36);
b. O ensino recebido por meio de parábolas é mais fácil de ser retido na mente do estudante (Mt
13.11,12);
c. Quando se quer ocultar de alguém presente algo da aula – que deve ser entendido apenas de uma
parte da assistência, conseguimos mais facilmente mediante o uso de parábolas (Mt 13.13).

 COMO SE DEVEM INTERPRETAR AS PARÁBOLAS? (Leia Princípios de Interpretação da


Bíblia – Pág. 50-52. Walter A. Henrichsen)

Jesus é o nosso exemplo na interpretação de parábolas. Ao interpretar aquela que consideramos uma
parábola-modelo. Exemplo: Mc 4.2-20:
a. A semente = a Palavra de Deus;
b. As aves = Satanás;
c. A semente caída sobre pedregais = Recebimento do Evangelho de maneira superficial;
d. O ardor do sol = Provações e Tribulações:
1) Cuidados do mundo;
1) Enganos das riquezas;
2) Ambições de outras coisas;
3) A boa terra = os que recebem o Evangelho com sinceridade.
NOTA: Observe-se que Jesus deixou de interpretar a figura do semeador. Dizem os entendidos que Ele
assim procedeu porque pelo menos o semeador simboliza três elementos:

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1) O próprio Jesus (Mt 13.37);
2) Os apóstolos e seus sucessores (Mc 16.15, e a Igreja em geral (2Co 9.10);
3) O próprio Israel, no futuro (Sl 68.11; 126.5,6) e nós ousaríamos acrescentar um quarto
elemento - os anjos (Ap 14.6,7; Hb 1.14).

 REGRAS PARA INTERPRETAÇÃO DAS PARÁBOLAS:


1. Deve-se identificar a figura central da parábola;
2. Todos os elementos da parábola devem ser interpretados;
3. Deve-se dar atenção especial ao princípio e ao fim da parábola. Eles são as chaves para
penetrar-se na parábola;
4. As regras para interpretação dos símbolos são aplicáveis às parábolas, que muitas vezes
foram enunciadas em linguagem simbólica;
5. Deve-se interpretar de acordo com a analogia da fé – nunca em contrário ao claro ensino da
Bíblia;
6. Os elementos não podem ter sentido diverso nas parábolas – o que vale numa também vale
noutra;
7. Em certos casos, porém, um termo, mantendo a unidade fundamental, pode ser aplicado com
várias modalidades e circunstâncias, como no caso do semeador.

TESTE PRÁTICO: Leia Mt 21.33-46 e interprete de acordo com modelo dado acima e as regras.

O proprietário da terra é Deus


A vinha é o Reino de Deus
Os servos são os profetas
O Filho é Jesus
Os lavradores são judeus que se opõem a Jesus
A morte do filho é a crucificação
A remoção dos lavradores é a transferência do Reino de Deus para um povo que inclui os gentios

OS MISTÉRIOS DO REINO (extraído do livro “O Dia do Senhor” – Pr. Bentes)

O Reino é misterioso. Ele chega à maneira mais simples para confundir os abastados. Os
entendidos e sábios o esperavam com a Lei aberta. Sabiam o lugar onde nasceria o Messias! Poderiam
discutir sobre as profecias claramente ! Mas Deus ocultou o Reino e os seus mistérios aos sábios e
entendidos. Eles sabiam tanto a Lei que se confundiram com João Batista (Jo 1. 19-21). Eles conheciam
o lugar de onde viria o Messias, mas não sabiam o tempo! De que lhes adiantava saber o lugar sem
conhecer o tempo? (Mt 2.4,5). Deus os fez desprezíveis (Mt 2.9) diante de todo o povo! Ocultou-lhes os
mistérios do Reino.
O tempo da sua vinda ele o revelou aos gentios do Oriente (Mt 2.1-12). A maternidade onde
nasceu o Rei ele a revelou aos ignorantes pastores do campo. Por quê? Porque ela era tão “luxuosa” que
somente os malcheirosos pastores poderiam entrar lá sem sentir que estavam entrando numa estrebaria!

66
Imagine-se um fariseu lá dentro... Nem dá para imaginar. Creio que procurariam em vão um lugar
limpo para poder pisar...
Mateus 11.5,8,25;13.11. Os mistérios do Reino dos Céus são dados a conhecer aos pequeninos,
aos pobres, aos humildes. Aquele que tem poder de si mesmo, conhecendo de si mesmo, em lugar de
dependência à Sabedoria divina, não pode conhecer os mistérios deste Reino. A velha geração que havia
saído do Egito não pôde entrar na Terra da Promessa porque menosprezou os seus pequeninos, que eram
seus próprios filhos, mas foi a eles que Deus revelou a terra, e estes a possuíram (Dt 1.13,39).

Quais São os Mistérios do Reino

Primeiro Mistério: Mt 13.1-23 - O reino ganhará espaço, pessoas e reinos pela Arma da
Palavra.
Nenhum reino terreno conseguiu triunfar pelo poder da sua palavra, da sua demagogia e da sua
diplomacia. Mas o Reino de Deus vencerá pelo Poder da Palavra Viva de Deus!
A Palavra é a Verdade (Jo l7. 17).
A Palavra é Poder (l Co 2.1-16).
A Palavra é a Palavra do Reino (Mt 13.19). É o Evangelho Eterno (Ap 14.6). O Evangelho é um
só, todavia tem vários nomes (Lc 8. 11; At 20.24; Rm 1. 1; 1Tm 1. 11; 2Co 10.14; G1 2.7 etc.).
Esta é a arma espiritual que Deus usa contra o inferno. A tática de guerra que Deus usa é diferente
da que os homens costumam usar.
Deus usa Luz contra trevas; Água contra fogo; Ovelhas contra lobos. Algum homem pode
compreender isso? Por que Deus fez assim?
Porque primeiro ele ganhará espaço com a Palavra Viva; pois ela é a Espada do Espírito. A
armadura de Deus sem ela é nula (Ef 6. 10-19).
A Palavra de Deus é a semente que cai! Que semeia! Se ela cair em boa terra, produzirá frutos. Se
alguém comer indignamente, come para a sua própria condenação (l Co 11.29). A Palavra é Vida, é
Poder, é Juízo!
A semente fala de Novo Nascimento. Ninguém entra no Reino de Deus em carne e sangue; não se
entra no Reino de Deus usando dos hábitos do velho homem nem com a própria vida. Uma das
exigências para se entrar no Reino é o Novo Nascimento. Para nascer de novo deve-se morrer. A
semente ilustra esse processo (Jo 12.24).
Antes se entrava no Reino por esforço próprio; isso veio acontecendo até João Batista (Mt 11.12),
ou, melhor dizendo, até Cristo morrer por nós, pois agora é pelo Novo Nascimento (Jo 3.3,5; Mt
18.3).Este Reino é pregado desde João(Jo 1.35-51).Nesse texto vemos os seus primeiros frutos.

Segundo Mistério: Mt 13.24-30, 36-43 - Os filhos do Reino serão identificados finalmente em


glória.

a. O Reino teria um problema: a mistura dos filhos do Maligno no Reino, sem aparência. Mas no futuro
os filhos do Reino serão identificados e passarão à glória, e os filhos Maligno enfrentarão o Juízo.
b. A posição atual e a posição futura dos filhos do Reino: Dn 12.3; Mt 13.36 - 43. O ensino e a vida (Mt
5.19) determinam a sua dignidade no Reino. O fato de ensinar, de fazer, em nada coopera, mas o viver é
tudo e o mais importante.
c. Os maus serão julgados. O servo impiedoso é uma ilustração bem clara neste mistério. O serviço e o
perdão são duas coisas importantíssimas no Reino (Mt 18.23-35).
d. O problema da aparência exterior (Lc 17.20) - o Reino não viria com esta aparência. Mas, devido não
conter aparência exterior, o Reino há de enfrentar um problema: o problema da mistura. Embora a falta
de experiência denote a vinda de um reino espiritual , devemos fazer a seguinte pergunta: por que Deus
permite que os filhos do Maligno se alojem entre os filhos do Reino? Para que Deus promova com
Justiça a vinda do Reino em sua aparência total, a fim de despojar os filhos do Maligno do “campo”.
67
Mateus 13.24-30, 36-43 tanto tem a ver com o tempo presente como com o tempo futuro.
Relacionando este texto com Mt 25.31-46, vemos que ambos os textos têm mais a ver com as nações
durante o Milênio do que com a Igreja, pois hoje pode haver disciplina na Igreja quando alguém está em
pecado. Paulo manda lançar fora aquele que está em falta. Apesar de o excluirmos da comunhão da
Igreja, não podemos tirá-lo do Reino, pois isso só acontecerá se ele morrer ou no Arrebatamento. Não
podemos esquecer, por exemplo, que os judeus são filhos naturais do Reino (Mt 8.11,12) e que na atual
Dispensação os gentios se tornam filhos do Reino através do Novo Nascimento. Durante o Milênio, as
nações gentílicas terão nova oportunidade. Ali, o Senhor, fará a separação entre ovelhas e bodes. Ali,
Ele fará separação entre o joio e o trigo, entre a palha e o trigo (Mt 3.12). A prova disto é que somente
no fim do Milênio é que as nações justas entrarão no Reino Eterno, preparado desde a fundação do
mundo; e que as nações bodes (palhas, joio) só enfrentarão o Juízo definitivo também no fim do
Milênio, pois o Fogo Inextinguível (Mt 3.12), a Fornalha de Fogo (Mt 13.42), o Fogo Eterno, o Castigo
Eterno (Mt 25.41,46) só poderá vir no fim do Milênio (Ap 20.10, 14).
Nessa parábola do joio no meio do trigo nos chama a atenção o seguinte:
1. Praticamente não há referência à Igreja de Jesus. Ela é citada somente à margem.
2. A “boa semente” são os “filhos do reino” (v.38) e não a Igreja de Jesus, que já terá sido
arrebatada.
3. Essa parábola trata da entrada no “reino do Pai”. Esse reino que segue logo após o Milênio.
No final do Milênio, o bem será separado do mal.
A Igreja de Jesus jamais passará por esse julgamento, no qual se decidirá quem poderá entrar e
quem não poderá no reino Eterno do Pai. Pois, para todos que lhe pertencem, isso já foi
decidido na cruz do Gólgota.
4. Nessa parábola, o Senhor trata especialmente da noite do Plano da Salvação, em que o
inimigo (o Diabo) se lançará sobre a terra e semeará o joio no meio do trigo. No Milênio nós
teremos trigo e joio. Há um paralelo com a passagem de Mateus 25, onde o Senhor fala da Sua
volta e do julgamento da Nações:
“E diante dele serão reunidas todas as nações; e ele separará uns dos outros, como o pastor
separa as ovelhas dos cabritos; e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos à esquerda.
Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por
herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo...
Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai- vos de mim, malditos,
para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos” (vv. 32-34,41).

Quando acontecerá isso? A resposta é: No fim do Milênio.


“O inimigo que o semeou é o Diabo; a ceifa é a consumação do século, e os ceifeiros são os
anjos. Pois assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será no fim do mundo. (Mt
13.39,40).
Essa passagem não trata de um julgamento no final da Grande Tribulação, pois, o joio é
recolhido para ser lançado no fogo. Evidentemente fogo aqui é fogo eterno e este só virá no fim do
Milênio. A Bíblia não fala de anjos recolhendo ímpios no fim da Grande Tribulação, mas fala de santos
sendo arrebatados. Os “filhos do reino” serão recolhidos pelos anjos para o Reino Eterno no celeiro do
Pai – A Nova Terra, após o Milênio.

Terceiro Mistério: Mt 13. 31,32.


“Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda que
um homem tomou, e semeou no seu campo; o qual é realmente a menor de todas as sementes; mas,
depois de ter crescido, é a maior das hortaliças, e faz-se árvore, de sorte que vêm as aves do céu, e se
aninham nos seus ramos.”
a. O Reino passaria por uma fase de crescimento desproporcional e tomaria caminhos não
planejados.
68
b. Aqueles que não forem como crianças não poderão entrar no Reino: Mt 19.14; Mc 10.13-16; Lc
18.15-17.
d. É difícil os ricos entrarem no Reino: Mt 19.23; Mc 10.23; Lc 18.24,25.
e.
Quarto Mistério do Reino: Mt 13.33-35.

A falsa igreja que contaminará a farinha: Mc 8.15; l Co 5.6-8; G15.9. Pode ser também: A mulher
sendo o Reino; as três medidas de farinha = os três elementos do Reino (l Co 10.32): os judeus, a Igreja
e os gentios.

Quinto Mistério do Reino: Mt 13.44.

Um povo que para ser seu deveria ser adquirido, com o campo (tipo da terra). O quinto mistério
consiste nisso: o Reino tem um Tesouro, mas para tomar posse do Tesouro, é necessário, primeiro,
comprar a terra; é o papel do Parente Remidor.
O Mistério do Reino dá importância à terra, ao campo. Significa que devemos buscar o Reino em
primeiro lugar e as outras coisas serão acrescentadas (Mt 6.33; Lc 12.31).
O Reino será dado à nações justas (Mt 25.32-34,46; 5.5).

Sexto Mistério: Mt 13.45,46


O Reino tem uma Pérola. A Pérola vai se formando em mistério.

Fala de preciosidade da Igreja no Reino.

a. Por uma Pérola o Rei pode deixar tudo (Mt 8.11).


b. Os que estão no Reino serão maiores do que João (Mt 11.11; Lc 7.28).
c. Deve-se deixar a parentela por Ele (Lc 9.61,62). Os mortos enterrarão os seus mortos. Não há tempo
para deixar os parentes morrerem e depois vir ao Reino e se filiar a ele.
d. O Reino está dentro de nós, como uma pérola está dentro de uma ostra morta (Lc 17.21).
e. Sacrifício de bens pessoais pelo Reino (Mt 19.11.12; Lc 18.29).
f. Uma parábola pode ser aplicada com vários significados, mas o Reino está sempre em primeiro lugar.

Sétimo Mistério: Mt 13.48


A extensão do Reino no Fim.

A Rede é o mistério.

a. Fala do julgamento do Reino. Será implantado com Juízo (Lc 17. 20-37).
b. Há peixes (homens) bons e maus, e no final haverá um julgamento. A Rede é a Terra no Milênio (Mt
9-14). Habacuque refere-se a uma rede; a rede, ali, é a Terra, que será sacrificada pelo Juízo por causa
dos pecados dos homens. Aqui, é a rede recebendo toda espécie de nações para serem julgadas, com o
fim de separar um grupo de nações justas em relação à sua vontade de glorificar a Deus (Zc 14. 16-21).

Reino Milenar será a última separação das que já houve até aqui e o arrebatamento.
Separação de:
 trigo, da palha (Mt 3.12);
 os bons, dos maus (Mt 13.48);
 trigo, do joio (Mt 13.24-3O,36-43);
 as ovelhas, dos bodes (Mt 25.31-46).
69
Oitavo Mistério: Mt 13.52 - No Reino há coisas novas e velhas.

O Reino tem elementos que creram no Senhor desde os tempos anteriores à Graça e,
especialmente, frutos que foram colhidos na Graça. Ambos os grupos participam dele. O Reino é
abrangente, universal e nele não há acepção de pessoas!

Nono Mistério: Mt 20.1-16 - Os últimos trabalham mais do que os primeiros!

A parábola da vinha fala da Ceifa do Reino. O Pentecostes foi a Festa das Primícias. Mas o Reino
introduzirá o seu último elemento, assim como os outros foram introduzidos. A última festa de que se
tem notícia em relação ao Milênio é a Festa dos Tabernáculos (Zc 14.19).
De que fala a Festa dos Tabernáculos? Fala da última Ceifa. Fala da colheita abundante e final.
Para cada elemento a ser introduzido no Reino haverá uma colheita final:
1. Para Israel (Ez 34.14-22). Ele trará as ovelhas perdidas à terra.
2. Para a Igreja (Jo 4.36,37; Lc 5.1-11). Estamos prestes a vivermos essa grande festa da colheita final!
Vamos precisar de outros barcos! Vamos precisar de ajuda! Basta descobrirmos que não é somente à
noite fria que pescamos! Mas, à Palavra de Cristo, podemos lançar a rede! É tempo quente. Mas é a
hora, é a undécima hora! Vamos viver a Festa dos Tabernáculos! A colheita é grande.
3. Para as nações a colheita final do Milênio (Mt 25.31-46). O dono do Reino dá a quem quer o
galardão segundo a sue vontade, mas os derradeiros trabalharão mais do que os primeiros! Vamos
lançar a rede!

70
XI. HERMENÊUTICA SAGRADA - MILAGRES

INTRODUÇÃO: Ocupar-nos-emos desta lição com um dos assuntos algo controverso em meio aos
evangélicos – o milagre, do qual muitos afirmam haver passado com o primeiro século cristão,
enquanto nós, os pentecostais, persistimos em crer e em afirmar a sua atualidade na esfera da Igreja
hodierna, a fim de ajudá-la no desempenho da missão que tem na terra.

 LEITURA BÍBLICA: Jo 6.1-14,24-35.


Observações Importantes:
1. Um milagre, em regra geral, é também um sinal, que evidencia algo extraordinário na prática –
At 2.1-4,7,8; 1Co 14.22; Jo 3.2; 6.2,14,26; 7.31; 20.30,31; At 5.12,14; 6.8-10; 9.35-43; 19.11,12
1. O nosso texto nos diz da maneira prática da aplicação do milagre como sinal, quando Jesus logo
em seguida ao milagre apresentou-se à multidão maravilhada como o Pão da Vida;
2. O milagre revela a procedência daquele que foi usado como instrumento direto à sua
manifestação – Jo 3.2;
3. O milagre é um modo objetivo de ensinar, muito do agrado de Jesus (At 1.1) que usava sempre
em seguida ao milagre aplicar a lição que tinha em mente ministrar (Lc 5.1-10);
4. É possível haver falsos milagres (Mt 24.24) porém, esses nunca são feitos do modo como
ensinados pela Bíblia (At 3.1-16);
5. Pelo propósito do evangelho de João (20.30,31), percebe-se pelo bom senso e pela lógica, que os
sinais (milagres) operados por Jesus e descritos pelo apóstolo, tinham a finalidade de provar que Ele
era o Filho de Deus.

 DUAS COISAS A EVITAR


1. A incredulidade e a dúvida (1Jo 5.10; Tg 1.6,7) que são os maiores inimigos do cristão e
devem ser evitados a todo custo (Mc 9.23; 1Jo 5.4; Hb 11.1,6);
2. A credibilidade extrema que torna o homem fanático e cego (1Ts 5.21) e é outro pecado em
nada inferior a incredulidade.

 REGRAS PARA A INTERPRETAÇÃO DOS MILAGRES


1. Desde que os milagres pertencem a categoria dos símbolos (sinais) em sua interpretação
devemos empregar as regras mencionadas na lição 7;
2. Nalguns aspectos, os milagres assumem a função de parábola, e portanto, quando assim
acontece, devemos empregar em sua interpretação as regras constantes da Lição 9;
3. Considerando que os milagres são intervenções sobrenaturais da livre misericórdia de Deus
para conosco (Lm 3.22-24) ao interpretá-los sempre devemos levar tal manifestação na
devida consideração, a bem do robustecimento de nossa fé e esperança.

71
AS ORIGENS DO TERMO MILAGRE 18

INTRODUÇÃO

O estudo etimológico e terminológico de um determinado assunto nem sempre desperta grandes


interesses. Mas sem eles é praticamente impossível o vero conhecimento sobre assuntos teológicos. Conhecimen -
to teológico pressupõe conhecimento etimológico e terminológico. A etimologia e a terminologia do assunto são
importantes porque refletem a visão primária do fato. Portanto, é muito importante que tenhamos conhecimento
da etimologia e da terminologia do assunto “milagres”.

OS MILAGRES NA CULTURA JUDAICA

A língua hebraica não é considerada uma língua multo rica, pelos filólogos gentílicos, devido à sua pequena
quantidade de vocábulos, bem ao contrário da língua grega. No entanto, ela se faz primordialmente importante,
pela sua antigüidade e relevância histórico-escriturística. É necessário que a estudemos, pois assim fazendo,
entenderemos melhor o significado do termo milagre.

Verifica-se pelo estudo bíblico da etimologia e terminologia hebraica, que o termo “milagre” é conhecido
desde a época da redação do Gênesis, primeiro livro da Bíblia, e desde a criação até as mensagens dos Profetas
menores, permeando as páginas de todo o Velho Testamento. De uma forma muito peculiar, na língua hebraica,
existem três termos que são usados para designar um “milagre”, esses termos são usados com vários sentidos,
dificultando o entendimento imediato, fazendo com que existam diferentes interpretações e aplicações. Porém com
o auxílio do contexto, é possível verificá-Ias e conhecer corretamente os seus respectivos significados.

I. OS SINAIS DE JAVÉ

Entre os termos usados para designar-se o milagre, encontramos a palavra ÔT (tO)) que é geralmente
traduzida por “sinal”. Esta palavra dentro da etimologia hebraica tem sua origem na narrativa da criação, quando
Deus, após haver criado os luminares, declara que os havia colocado como sinais (“milagres”) dos tempos, o sol, a
lua, e as estrelas (Gn 1.14). A expressão usada é MÊÔRÔT (toro):m) para “sinais”. Esta palavra aparece pela úl-
tima vez, referindo-se ao sábado, quando o próprio Deus, afirma tê-lo dado ao povo de Israel também como “sinal”,
entre Ele e o povo (Ez 20.20 tO):l).
Os ÔTS recebem vários significados nas páginas do Velho Testamento. Entre estes, destacam-se dois. O
significado conseqüente do uso natural da palavra e o sobrenatural. O uso natural, refere-se sempre a algum
elemento, físico ou espiritual, escolhido por Deus para testemunho entre Ele e o Seu povo. Este elemento, que pode
ser denominado como objeto do milagre, deveria servir de “memorial” aos que haviam recebido benefícios divinos,
feito um pacto com Deus, ou ainda, haviam recebido urna ordem objetiva dEle. Os ÔTS são usados especialmente
referindo-se: a colocação dos luminares como determinantes do tempo (Gn 1.14), a circuncisão dos primogênitos
(Gn 17.11 tO):l), a aspersão do sangue pascal (Ex 12.13 tO):l), a institucionalização do sábado (Ez 20.20
tO):l), a obrigação de conhecimento da lei (Dt 6.8 tO):l), a pessoa do profeta (Ez 24.27). É importante observar
que estes acontecimentos possuem o caráter de peculiaridade; somente o povo de Deus ou o escolhido por Ele
podem usufruir deste milagre.

O outro sentido destacável dos “OTS” é o sentido sobrenatural da palavra, o qual possui uma relação
direta com o nosso vocábulo “milagre”. Os principais acontecimentos, onde aparecem o uso do termo “ÔT”
destacando o elemento sobrenatural, caracterizam uma Intervenção divina. O sinal na testa de Caim (Gn 4.15
tO)), a criação do Arco-iris (Gn 9.12 tO)), os milagres realizados perante Moisés no Monte Sinal (Ex 3.12 ), os
prodígios realizados no Egito (Êx 10.1,2 [te):w]; Nm 14.14; Sl 78.43 [wyftOto)]; Jr 32.21; Is 20.3).
18
COSTA, Sirgisberto Q. da. MILAGRES. 1ª ed. João Pessoa, PB. Avelar Gráfica e Editora, 1991, p. 12-22.
72
Os milagres. denominados “ÔTs”. são instrumentos educativos de Deus na formação e dlreção do
conhecimento do Seu povo. Eies são Instrumentos usados para imprimir na mente, do homem, dos povos, das
tribos, de todos, lembranças vivas d'Aquele que os realizou. Os ÓTs são atos distintos de poder de Javé, são
elementos didáticos d’Aquele que pode torná-los singular, para a humanidade, para a nação judaica, para o
homem que contemplou o sinal (milagre) do Seu poder.

II. OS MILAGRES DE JAVÉ

O segundo termo hebraico usado para designar o milagre, é o termo “MÔFET” (t”pOm), os
“MÔFETs”, têm uma conotação totalmente diferente do termo “sinal”. E direcionam a nossa atenção, não para o
ensino do fenômeno, mas para o fenômeno em si, os MÔFETs estão diretamente relacionados com os
acontecimentos sobrenaturais.

Desde o princípio, quando Moisés e Arão foram ordenados por Deus para realizarem seus “MÔFETS”
(milagres) diante de Faraó (Ex 4.21: {yit:poMah - hamôfetim), até o uso final, os “MÔFETS” são uma
demonstração de poderes extraordinários.
De maneira suscinta, poderíamos dizer que a singularidade do uso do termo, refere-se: a acontecimentos
onde a mão de Javé esteve presente, aos acontecimentos do Egito, aludidos tanto ao presente, como ao passado
(Ex 4.21; 7.3; 11.9; Dt. 4.34; 6.22, 26.8), em seguida refere-se ao que Deus fez no meio de Israel (Is 8.18), e
finalmente, ao que Deus fará no futuro (JI 2.30). Os “MÔFÊTS”, atos sobrenaturais do Deus de Israel são
incomparáveis, são feitos grandiosos, pois “só Ele” pode realizar, estas grandes e terríveis cousas diante dos
olhos humanos (Dt 10.21). Os “MÔFÊTS”, são singulares, são grandes e terríveis pela atuação do único que pode
realizá-los, de Javé.

III. AS MARAVILHAS DE JAVÉ

Finalmente, outro termo de notável destaque, é o termo Pēlē’ ()eleP), cuja raiz, encontra-se no verbo
Pālā (y)efaaelfP). Este verbo é usado para designar coisas maravilhosas. O construto masculino do
substantivo, é traduzido por milagre.
A ênfase dos Pēlē’s é que o homem deve carregar consigo a Imagem do que foi realizado por Deus, não o
evento em si, nem tampouco os ensinamentos dos mesmos, mas a pessoa que os realiza. A ênfase está na
capacidade de fazê-los – “Ó Senhor, quem é como Tu entre os deuses? quem é como Tu glorificado em
santidade, terrível em louvores, obrando maravilhas?” (Ex 15.11). O emprego da palavra é algo característico da
ação de Deus, de forma poderosa e soberana, que é capaz de “encantar” e “assusta!”, levando o homem a
glorificá-lo. Por Isso Davi afirma: “Certamente me lembrarei das maravilhas da antiguidade”. (Sl 77.11) Eliú
convida-nos a considerarmos as suas maravllhas – “Considera as maravilhas de Deus” (Jó 34.14,16).
As maravilhas, denominadas Pēlē’s, implicam peculiaridade reservada a Deus. Os milagres, denominados
Pēlē’s, estão potencialmente n'Ele, devendo ser atribuidos somente a Ele (Ex 15.11; Sl136.4).
Segundo a terminologia e etimologia hebraica os milagres são sinais, portentos e maravilhas. Os sinais
são milagres educativos, elementos didáticos d’Aquele que criou e govema todas as cousas. Os portentos são
milagres de poder, de exuberância, de superabundância de capacidade. As maravilhas são milagres peculiares,
exclusivos, inconfundíveis, que trazem sobre si o selo de Deus.

73
OS MILAGRES NA CULTURA DOS HELENOS
(ETIMOLOGIA GREGA)
Segundo a etimologia grega, as palavras “milagres” e “maravilhas” referem-se a “assombro” e
“espanto” causados através de meios incomuns e Inexploráveis. Em contextos religiosos, semelhantes
eventos têm a sua origem atribuída a Influência divina transcendente e embora incomum, não
representam necessariamente uma contradição das leis naturais. Desde o início, porém, a fé cristã
procura entender e interrogar acontecimentos que foram experimentados. O assombro e o espanto que
se sente diante da confrontação com semelhantes eventos, ou por semelhantes impressões, expressam-se
mediante o grupo de palavras: THAUMAZÔ e TERÁS. Sendo conceitos especificamente religiosos,
que talvez tenham sua origem na mitologia grega ou na magia, ambas lançam alto relevo sobre o
aspecto extraordinário e originalmente o aspecto de terror, revestido de “sinal” milagroso.
Por contraste a palavra SEMEION, originalmente não religiosa, é ressaltadora do aspecto
funcional do evento, ela ressalta o sinal que atrai a atenção visual na primeira instância do fato. É
somente quando se cumpre esta condição, que podemos falar em milagres. Este aspecto é ressaltado
quando SEMEION, combina com TERÁS. A investigação etimológica destas palavras vai além destes
artigos, especialmente, quando são enfatizados todos estes aspectos do milagre.

O MILAGRE COMO ESPANTO

No clássico

O emprego da palavra “THAUMÁZŌ” (qauma/zw), e as suas variantes adjetivas, levar-nos-


ão à origem helenista da palavra “milagre” e a sua relação direta com “espanto”. Este grupo de palavras
deriva-se da palavra THAUMÁ (qauma/), e aparece em onze formas variadas no grego clássico,
tendo origem em épocas remotas, como aparecimento provável nos Séculos Sétimo e Oitavo antes de
Cristo, aparecendo sempre para designar aquilo que “aparecendo causa espanto”, admiração, e
assombro. Sua raiz cognata THEOMAI (qeomai) “olhar para” designa a raiz da admiração, e quando
empregada no acusativo designa o objeto da admiração. Podemos afirmar que embora sendo o centro da
ação, a admiração não é um fim em si mesma, mas uma diretriz para o objeto da ação.

No livro de Siraque, uma espécie de Eclesiástico apócrifo, este vocábulo aparece enfatizado pela
preposição APÓ, e é traduzido por “ficar grandemente atônito”. O grupo variante e palavras associadas
são usadas desde Homero no clássico, e são traduzidas por “admiração”. As primeiras traduções
bíblicas como a Vulgata, por exemplo, traduziram-na por amedrontar, aterrorizar, ter medo.

Nas Epopéias Homéricas, dos tempos helenísticos, “OS THAUMAZIOS” fazem referências a
Hélio de Aristides do segundo século a.C. o famoso adorador de Asciépio.

No Velho Testamento

No uso bíblico do termo, os tradutores do Velho Testamento (LXX) empregam o termo e as suas
variantes adjetivas, especialmente, no livro de Jó (Jó 17.8; 18.20; 21:15; 20.8). Porém, as suas variantes
abundam pelas inúmeras vezes que aparecem no Velho Testamento. O termo original (THAUMAZŌ -
qauma/zw) está relacionado com “visão”, havendo sempre uma combinação com “rosto”,
demonstrando o favor de Deus para com os homens. Os Objetivos demonstram que Deus é:
“maravilhoso”, “inspirado!'“ e Suas características estão sempre associadas à reverência e justiça. Aos
Seus atos são empregados os mesmos significados, “atos maravilhosos”, “atos terríveis”, demonstrados
e indicados no universo, em lugares específicos onde Ele estende a Sua mão. Isto evidencia-se tanto na
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criação, como na História. Segundo uma referência apócrifa de Siraque, até nas estrelas podemos
contemplar os “THAUMAZIOS” (qauma/sioj) de Deus, pois estas fazem acompanhamento de
louvor.
Davi aplica o termo para referir-se a contemplação de Deus pelo homem que O louva pelos Seus
THAUMATOS (qaumatoj) e THAUMAZIOS [qauma/sioj] (milagres e maravilhas). Seria muito
prolíxa a tentativa de colocar todos os exemplos neste trabalho, à disposição do leitor. Para não deixá-
Ios desapercebidos, cito alguns exemplos específicos. O primeiro refere-se às maravilhas realizadas por
Deus na terra de Cão, aos milagres realizados no Egito (Sl 106.2), em seguida temos uma demonstração
de desejo, o desejo de contá-las a todos (Sl 26.7: )lP Pēlē’ = qauma/sia), e, finalmente, uma
referência ao Deus que opera maravilhas (Sl 86.10: )lP Pēlē’ = qauma/sai).

No Novo Testamento

No Novo Testamento o termo original é empregado apenas duas vezes. Uma delas para prevenir-nos,
para que não nos assustemos pelo fato de o diabo transformar-se em anjo de luz (2 Co 11.14), e outra quando o
apóstolo João se encontra diante da mulher embriagada com o sangue dos mártires (Ap 17.6). As suas
variações, no entanto, aparecem muitas vezes no Novo Testamento. Merece destaque o termo THAUMAZŌ
(qauma/zw) empregado em relação aos atos de Jesus, aos quais transliterando, parafraseando, mais
exatamente poderíamos denominar: “atos maravilhosos” de Jesus.

Recebem destaque especial os casos de endemoniados; o endemoniado Gadareno (Mc 5.20), o


amaldiçoamento da figueira (Mt 21.20), a cura do endemoniado surdo e mudo (Lc 11.14). Mateus de forma
especial, traduz tal afirmação como “Jamais se viu tal coisa em Israel” (Mt 9.33), enquanto que Marcos prefere a
expressão original “possuídos de grande temor” (Mc 4.41) e Lucas faz uma narrativa etimológica “possuídos de
grande temor e admiração” (Lc 8.25).

O uso do termo THAUMÁ comprova a existência de acontecimentos sobrenaturais na vida dos povos
antigos. Os acontecimentos sobrenaturais causavam espanto e eram classificados pelos filósofos gregos como
milagres. O uso bíblico do termo revela a singularidade de Deus e as conseqüências para o homem, admiração,
medo, espanto e temor. Algumas vezes, os THAUMAZIOS causavam um sentimento especial, encantador,
deliciava a testemunhar. Ainda hoje, podemos perceber a existência dos mesmos sentimentos em relação aos
milagres. O homem moderno sente o mesmo que sentiu o homem da antiguidade diante do sobrenatural.

O MILAGRE É UM SINAL

Origem e Significado
De uma forma semelhante, hebraico e grego empregam um termo para milagre, que é traduzido por
“sinal”, ou ainda usado para indicá-Io. Não temos condições de afirmar uma Influência judaica no grego, ou
vice-versa, pois na realidade, segundo a história etimológica do termo SEMÉION (shmei=on), este possui
origem secular e não religiosa, porém a exatidão de sua origem é ainda desconhecida.
O sentido, porém é autenticar, comprovar, marcar, ou ainda aprovar. Teologicamente, porém recebe a
postura de “sinal”, sendo usado a princípio para distinguir pessoas ou objetos específicos, sendo um marco
comprobatório e autenticador, ou mesmo corroborativo. Nos seus vários matizes, pode também chamar a atenção
para o verbo da ação dos acontecimentos de realizações futuras, apocalípticas ou escatológicas.
Quando se refere a sinal milagroso, ou a algo maravilhoso, a palavra adquire a conotação de
THAUMATURGO, que contradiz o curso da natureza das coisas, recebendo também o auxílio de outro
substantivo TERATÁ. formando a expressão SEMEIA KAI TERATA - shmei=a kai\ te/rata (sinais e
maravilhas). Esta referência é atestada pelo escritor helenista clássico Pilíbio, do segundo século a.C.
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No Velho Testamento, a palavra SEMEION é o termo que é usado para traduzir ÔT.

No Novo Testamento existem mais de sete dezenas de usos do vocábulo com os mesmos significados
anteriores. Desde os Evangelhos até o Apocalípse, encontraremos feitos e marcas de “milagres” e “sinais” rea-
lizados.

Estes sinais neo-testamentárlos são muitos, e têm uma grande amplitude. Referern-se à pessoa do profeta
(Mt 12.39). Neste caso, usada para designar a pessoa de Jonas, mostrando-o como sinal para os ninivitas,
comparando-o a Jesus, o Sinal para os judeus.
São abundantes os textos onde aparecem milagres denominados SEMEION, existindo alusões aos
mesmos, como possíveis de realizações pelos judeus e mágicos. Há até um certo paralelismo com os milagres
realizados pelos mágicos de Faraó (Ex 7.22). Porém em ambos os casos, estes são inferiores, os milagres
realizados pelos encantamentos no Egito foram inferiores aos realizados por Moisés e Arão (Ex 9.18), e os reali-
zados pelos mágicos e exorcistas judeus, inferiores aos realizados por Jesus e seus apóstolos (Atos 19.13-20).
Os sinais realizados por Jesus apontam para o seu senhorio e autoridade divina, do mesmo modo que os
sinais do Velho Testamento apontavam para Iavé (Jo 2.21; 1.23, At 2.22). Estes sinais foram, também,
realizados pelos apóstolos (At 2.43; 4.22; 5.12; 6.8 etc.); Estes, ainda, autenticavam a autoridade
apostólica (2 Co 12.12).
O MILAGRE É UM ACONTECIMENTO TERRÍVEL
Nos clássicos
Desde Homero pode ser atestado o uso e o aparecimento da palavra TERAS. Embora a sua
etimologia exata seja desconhecida, o sentido é notório, designando: “aparecimento terrÍvel”, o qual
evidencia medo, temor e espanto, horror e sinônimos. Também contradiz o curso da natureza, e assim
sendo, originou-se TÉRAS [te/raj] (sinal espantoso). Desde Homero é verificável o vínculo do termo
com a religião popular, pois segundo escritos do mesmo, existem interpretações que fazem necessária a
presença de um vidente para Interpretá-Ias.

Na Septuaginta, a palavra TERÁS (te/raj) foi usada para traduzir MÔFÊT (t”pOm) de forma
objetiva, sendo este o termo mais usado pelo hebraico para designar o milagre em si.

No Novo Testamento, a palavra milagre com sentido de acontecimento terrfvel ocorre dezesseis
vezes, nove das quals encontram-se em Atos, ocorrendo somente em combinação com Seméia, (Seméia
Kal Térata = shmei=a kai\ te/rata) demonstrando fatos tais, quais a cura do cego realizada por
Jesus, a multiplicação dos pães e a ressurreição.
Quando comparamos o uso dos termos no Velho Testamento, sentimos uma preocupação com a
grandiosidade do evento; no Novo Testamento, porém, uma revelação da natureza do evento, algo
sobrenatural.
CONCLUSÃO

O estudo etimológico e terminológico do termo “milagre”, especialmente o estudo das


etimologias e terminologias hebraica e grega, revela os dois tipos mais comuns de visão que podemos
ter dos milagres. A primeira visão, fruto da terminologia e etimologia hebraica, é a visão teológica A
segunda visão, fruto da terminologia e etimologia grega, é a visão antropológica. Na primeira, Deus
interpreta o milagre para o homem. Na segunda, o homem interpreta o milagre por si só. Para Deus, o
que é maravilhoso, para o homem é espantoso, para Deus, o que é sinal da Sua presença, para o homem
é sinal da presença do desconhecido. Mas, apesar de todas as diferenças, convém salientar as
semelhanças. Tanto para os judeus quanto para os gregos os milagres são realidades, sinais,
demonstrativos de poder. Em Cristo, a visão teológica judaica e a visão antropológica grega encontram
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o caminho da confluência. Ele é o sinal de Deus e o espanto dos homens (Mt 12.39). Ele é a exuberante
manifestação do poder de Deus e a plenitude do terror para os homens (Ef 1.19-20; Ap 6.12-17). Ele é a
maior de todas as maravilhas de Deus e o maior de todos os milagres para a transformação do homem
(Cl 1.2,9-14).

A POPULARIZAÇÃO DO TERMO

O termo “milagre” popularizou-se com a evolução dos tempos e desenvolvimento da


comunicação, recebeu uma poderosa influência do linguajar cotidiano, especialmente pela prática do
seu uso de forma corriqueira. Hoje,a palavra milagre é empregada multiformemente, para quaisquer
atos surpreendentes, tal como ir à rua e não ser assaltado nas grandes cidades, bem como conseguir
viver com um salário mínimo etc. Além destes fatos, existem ainda muitos outros acontecimentos que
recebem uma conotação miraculosa.

A palavra alcançou também a economia, recebe conotação técnica para designar fatos
inexplicáveis. Ainda outras áreas tais como: psicologia, psicoterapia e áreas de atuação das ciências
sociais, receberam esta influência, e passaram a usar tecnicamente o termo.
Espiritualização do contéudo

Dentro da teologia, houve uma espiritualização da essência do milagre, pois este passou a ser
usado para designar acontecimentos espirituais, a salvação, a regeneração, e outros elementos
soterológicos, sendo notável a aplicação introspectiva, significando abrangêncla quanto à extensão.
Mas, transferência de finalidade etimológica. Pois no uso da palavra “milagre” o elemento material
sempre fez parte da terminologia inicial. Esta espiritualização teológica do termo é uma evidêncla da
impossibilidade de se negar o milagre, é uma influência da perspectiva teológica reformada acerca dos milagres.
Uma influência da interpretação pretérita dos milagres.

Preservação dos aspectos etimológicos

No entanto, alguns aspectos etimológicos são mantidos em todas as suas formas, dentro das diferentes
áreas, revelando que existe sempre uma possibilidade, ou até mesmo eventos, que pareciam impossíveis ou que
dificilmente aconteceriam, mas, que por circunstâncias adversas, aconteceram, deixando na mente do homem uma
admiração ou espanto, seguidos pela sensação de que algo Impossível aconteceu.
Com a evolução semântica, o termo milagre ampliou os limites do seu significado e as áreas de sua ação. Hoje ele
é usado desde áreas científicas até áreas sociais e teológicas. Com esta evolução, porém vários aspectos dos
milagres são negados: a grandiosidade, a intensidade sobrenatural e muitos outros, desgastando a conceituação
primitiva. Por Isto, devemos expllcá-lo bem, para que a comunicação seja perfeita.
Teste Prático: Leia João 9 e descubra qual o propósito que Jesus tinha ao operar aquele milagre ali
descrito.
1º) Corrigir a idéia falsa de que toda enfermidade é fruto do pecado
2º) Focalizar a atenção dos discípulos no verdadeiro propósito da cura: a glória de Deus.

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XII. HERMENÊUTICA SAGRADA - PROFECIA

Introdução: A profecia é a base da mensagem de Deus ao homem (Hb 1.1). O seu estudo portanto, se
reveste de profundo e indispensável interesse ao cristão, para aprofundamento espiritual e maior firmeza
na fé (2Pe 1.19).
 LEITURA BÍBLICA: 2Pe 1.19-21; 1Pe 1.10,11.
 OBSERVAÇÕES:
1. O Valor da Profecia:
1.1. É luz que alumia em lugar escuro (Sl 119.105);
1.2. É necessária em todo tempo – até que Cristo venha;
1.3. Devemos estar atentos a ela (Farol);
1.4. Ela é guia seguro (Sl 119.11; Mt 24.35).

1. Sua procedência:
2.1. Não é terrena – “nenhum profecia foi dada por vontade humana” (Am 7.12-15);
2.2. É divina – “homens santos falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2Sm 23.2).

 ESCOPO DA PROFECIA
1. Predizer a vinda de Cristo:
1.1. Seu nascimento: Is 7.14; 9.6; Mq 5.2;
1.1. Sua origem Davídica: Is 11.15;
1.2. Seu ministério e morte: Is 53;
1.3. Sua segunda vinda: Zc 14..4,5;
1.4. Seu reinado de paz: Is 9.7; 11.5-10, etc.
2. A Igreja era um mistério aos profetas (Cl 1.24-29). No entanto, em simbolismo profético
ela é também prevista (1 Co 10.1-11);
3. No estudo da profecia, muito preocupa a alguns exegetas a cronologia profética que, de fato,
é um problema de difícil solução. Mas, afirmamos, ele em nada afeta nem influi na verdade
profética nem na fé cristã.

 A PROFECIA REFERE-SE A TRÊS COISAS:


1. Predizer eventos futuros (Ap 1.3; 22.7,10; Jo 11.51);
2. Revelar fatos ocultos (Lc 1.67-79; At 13.6-12);
3. Ministrar instrução, consolo e exortação (Amós; At 15.32; 1Co 14.3,4,31).

 PROBLEMAS NA INTERPRETAÇÃO DA PROFECIA:


1. Princípios hermenêuticos. A maioria dos eruditos evangélicos (Berkhof, Tenney, Pentecost,
Payne, e outros) concorda em que a interpretação da profecia começa com procedimentos de
análise contextual, histórico-cultural, léxico-gramatical, e teológico;
2. Sentido mais profundo. Há um significado mais profundo num texto profético, significado que
Deus tinha em mente mas não claramente intencionado pelo escritor humano?
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3. Literal versus simbólico. Como determinar quanto deve ser interpretado literalmente, e quanto
simbolicamente ou analogicamente.
4. Universalidade. Concernente à universalidade de certos símbolos. Um símbolo significa ou não
a mesma coisa toda vez que é empregado. Ex.: O azeite sempre foi símbolo do Espírito Santo; o
fermento, sempre foi símbolo do mal?
5. Condicionalidade. Todas as declarações proféticas são condicionais ou não? Ex.: Deus é
imutável (Ml 3.6; Hb 6.17,18; Tg 1.17); Deus se arrepende (Ex 32.14; Sl 106.45; Jn 3.10).
6. Significado único versus significado múltiplo. Os textos proféticos têm sempre o mesmo
sentido ou podem conter significados múltiplos?

 REGRAS PARA A INTERPRETAÇÃO DAS PROFECIAS:


1. Devemos entender a profecia literalmente. Se ela houver sido enunciada em linguagem
figurada, empregue-se em sua interpretação as regras na Lição 6.
2. “Nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação”. Esta regra é fundamental e
bíblica. Significa que sua interpretação deve harmonizar-se com o consenso geral profético e
com o ensino geral da Bíblia.
3. Deve-se empregar com o máximo cuidado na interpretação da profecia, as regras do contexto
que são indispensável a um perfeito entendimento delas.

Temos 27% das profecias bíblicas que são preditivas


 A PROFECIA PREDITIVA PODE SERVIR A VÁRIAS FUNÇÕES IMPORTANTES:
1. Pode trazer glória a Deus dando testemunho de sua sabedoria e soberania sobre o futuro;
2. Pode conceder segurança e consolo aos crentes oprimidos;
3. Pode motivar os ouvintes a uma fé mais vigorosa e uma santidade mais profunda (Jo 14.29; 2Pe
3.11).

 VARIEDADES DE TEORIAS ESCATOLÓGICAS


1. Pré-Milenismo. É a teoria de que Cristo voltará antes do milênio. Ele descerá à terra e
estabelecerá um reino terrenal de 1000 anos, com sua sede em Jerusalém.
2. Pós-Milenismo. É o ponto de vista de que através da evangelização, o mundo finalmente será
alcançado para Cristo. Haverá um pequeno período em que o mundo experimentará alegria e paz
em virtude de sua obediência a Deus. Cristo voltará à terra no fim do milênio.
3. Amilenismo. É conceitualmente uma forma de pós-milenismo. O milênio, nesta teoria, é
simbólico e se refere ao tempo entre a primeira e a segunda vindas de Cristo, e não a um período
literal de 1000 anos. Durante este tempo Cristo governa simbolicamente no coração dos homens.
Alguns amilenistas crêem que Cristo nunca terá um governo terreno, mesmo simbólico. Para
eles o milênio refere-se ao governo celestial de Cristo na eternidade.

O Pós-Milenismo – o ponto de vista que a Igreja finalmente conquistará o mundo para Cristo e
introduzirá o milênio – rapidamente perdeu popularidade durante a primeira metade do século vinte. A
carnificina das guerras mundiais foi implacável lembrete à maioria dos pós-milenistas de que o mundo

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não estava sendo ganho para Cristo. Daí que a maioria dos cristãos evangélicos hoje se identifica ou
como pré-milenistas ou como amilenistas.
Hermeneuticamente falando, o principal problema que separa os pré-milenistas dos amilenistas é
o de determinar quanto da profecia deveria ser interpretado literalmente e quanto simbolicamente. O
pré-milenista interpreta quase tudo literalmente. Ele crê que Cristo realmente virá à terra, estabelecerá
um reino terrenal físico, e reinará por mil anos literais. Crê que as promessas feitas a Israel e à Igreja
devem manter-se separadas, e que não é válido tomar promessas físicas feitas à Israel, espiritualizá-las,
e aplicá-las à Igreja. Ele baseia seu método hermenêutico no princípio de que a Escritura deve ser
interpretada literalmente, a não ser que o contexto mostre, de modo definido, que o autor tencionava
outra coisa.
O amilenista interpreta as coisas mais simbolicamente em face da linguagem simbólica
empregada em passagens proféticas. Ludwgson dá um exemplo: “Cristo amarrou Satanás
(simbolicamente): (1) resistindo-lhe no deserto; (2) pagando a penalidade do pecado para redimir o
homem; (3) destruindo, em sua ressurreição, o poder da morte; e (4) oferecendo salvação aos gentios,
impossibilitando a Satanás continuar enganando as nações...Satanás ainda pode enganar indivíduos,
[mas] já não pode mais enganar as nações. De igual modo, o amilenista interpreta o governo milenial de
Cristo simbolicamente ao invés de fazê-lo literalmente; o reino já está presente no coração dos crentes.
Os crentes do Novo Testamento representam o Israel espiritual e, portanto, as promessas do Antigo
Testamento aplicam-se ao novo Israel, a Igreja.
Há uma base hermenêutica para ambos os modelos de interpretação, pré-milenista e amilenista.
É correto, conforme assevera o pré-milenista, entender as passagens bíblicas literalmente, a menos que
o contexto indique de outro modo. Contudo, o amilenista também está certo em afirmar que a maior
parte da profecia e da literatura apocalíptica é simbólica, justificando uma interpretação simbólica.
Ao atracar-se com o problema, verifique a coerência interna de cada posição por sua vez em
relação a todos os dados bíblicos. Este método de “bom encaixe” pode ser útil na tomada de uma
decisão acerca dos méritos das duas teorias. Em última análise, a mais importante implicação espiritual
de todo o estudo escatológico encontra-se em 1Jo 3.2,3:
“Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos
que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é. E a si
mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro”.

Copiado do livro “O Dia do Senhor” do Pr. A. Carlos G. Bentes:


EXISTEM TRÊS LINHAS ESCATOLÓGICAS:
1. Amilenismo; 2. Pós-Milenismo; 3. Pré-Milenismo
Amilenismo - Embora seja o mais claro e simples dos sistemas, o Amilenismo apresenta
dificuldades especiais. Este ponto de vista pode ser declarado de modo breve: não haverá um reino
terrestre de Cristo de mil anos de duração.
O Amilenismo não crê em duas ressurreições físicas (Ap 20.4-6 ). A primeira ressurreição, dizem
os amilenistas, é espiritual, a segunda é física . Vários autores advogam este sistema, entre os quais
Floyd, E . Hamilton e Ray Summers.
A outra doutrina importante do Amilenismo é a sua interpretação dos mil anos em Ap 20.2. Neste
texto, fala-se de Satanás sendo preso por mil anos, e em Ap 20.4, daqueles que foram decapitados por
causa de seu testemunho de Jesus, reinando com Ele por mil anos. Para os amilenistas, estes mil anos

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não são uma expressão literal, para eles estes mil anos constituem o período da Ressurreição do Senhor
até a Parusia. Acham que Cristo está reinando, de modo espiritual, nos corações dos salvos. Acham que
a Igreja é a Nova Israel de Deus .
Pós-Milenismo - Esta interpretação escatológica facilmente se confunde com o Amilenismo.
Afirmam seus adeptos que o Reino de Cristo é espiritual, não geográfico, de modo que onde há
indivíduos que recebem Cristo e reconhecem Sua soberania sobre suas vidas, ai está o Reino de Deus.
Há também a esperança da conversão de todas as nações do mundo, não na totalidade, mas a grande
maioria da população de todos os povos da Terra. Assim, será inaugurado um longo período de paz
entre os homens no mundo, que se identifica com o Reino milenar. Os pós-milenistas não interpretam os
mil anos literalmente (Ap 20) . Afirmam que haverá um curto lampejo de maldade antes da vinda do
Senhor, seguido da ressurreição de todos, o julgamento e a consignação dos homens ao estado
permanente do céu e do inferno.
As raízes do Pós-Milenismo são reconhecíveis nas idéias de Ticônio e Agostinho. Jonathan
Edwards, primeiro presidente da Universidade de Princeton no século XVIII, e os Hodges e B.B.
Warfield, os famosos teólogos do seminário de Princeton, representavam este ponto de vista. Hoje, o
Pós-Milenismo tem poucos adeptos em conseqüência dos acontecimentos históricos, nada animadores,
mais do que pelas demonstrações de provas bíblicas.
O Pré-Milenismo subdivide-se em duas correntes:
1. O Pré-Milenismo Histórico (Não Dispensacional) – O Pré-Milenismo Histórico sustenta
que o retorno de Cristo será precedido de certos sinais, depois seguidos de um período de paz e justiça
no qual Cristo irá reinar em pessoa como Rei. Os Premilenistas históricos entendem a volta de Cristo e
o arrebatamento como um só e o mesmo evento. Eles vêem unidade. Portanto, eles são distintos dos
premilenistas dispensacionais, que os consideram como dois eventos separados pela Grande Tribulação
de sete anos. O premilenismo foi a interpretação escatológica predominante nos três primeiros séculos
da igreja cristã. Os antigos pais Papias, Irineu, Justino Mártir, Tertuliano e outros sustentaram essa
concepção.
A principal diferença entre o premilenismo histórico e o dispensacionalista é a distinção que os
dispensacionalistas fazem entre Igreja e Israel. O premilenismo histórico considera a Igreja como o
verdadeiro Israel espiritual de Deus. O Reino de Deus se concretiza presentemente na Igreja, embora os
judeus ainda venham a ter um tempo de participação especial na história da salvação, convertendo-se e
fazendo parte da Igreja.

2. Pré-Milenismo Dispensacional – A passagem básica do Pré-Milenismo é Ap 20.4-6. Os Pré-


Milenistas observam que aqui estão as provas de um período de mil anos e duas ressurreições, uma no
início e outra no fim. O Pré-Milenismo insiste numa interpretação literal e coerente dessa passagem.
Uma vez que o mesmo verbo – ezesan (viveramé empregado em referência a ambas as
ressurreições, logo devem ser do mesmo tipo. Ambas as ressurreições são físicas, porém não são iguais.
A primeira é chamada de A Primeira Ressurreição, e é destinada somente aos salvos. Estes receberão
corpos glorificados, espirituais; A Segunda apesar de ser física não será gloriosa, pois os que dela
participarem provarão o dano da Segunda Morte.
natureza, que “geme e suporta angústias”, aguardando sua redenção, será libertada da maldição
da Queda (Rm 8.19-23). Até os animais viverão em harmonia uns com os outros (Is 11.6,7; 65.25), e as
forças destrutivas da natureza serão acalmadas. Os santos governarão junto com Cristo nesse Milênio.
Os Pré-Milenistas crêem que Jesus voltará antes dos mil anos (Ap 20.2-6) e que reinará sobre o
mundo, o qual sobreviverá à destruição e ao julgamento e que os homens serão visitados por Deus sobre
a terra na Grande Tribulação. Muitos pais da Igreja Primitiva eram milenistas (khiliastas: do grego
khilias - V. Com a posição adotada por Agostinho (século V), o Pré-Milenismo caiu no desprezo
81
geral até a revitalização ocorrida no século passado. Muitos crêem que o Pré-Milenismo é sinônimo do
“dispensacionalismo” criado e popularizado por John Nelson Darby, destacado líder dos Irmãos Livres
de Plymouth, Inglaterra. Com sua esquematização escatológica, ele obteve grande aceitação entre os
evangélicos (principalmente no norte dos Estados Unidos), no movimento evangelístico que gerou
muitos institutos bíblicos, “missões de fé” e a famosa Bíblia de Scofield. Aqui no Brasil, os batistas
regulares, o Instituto Bíblico Palavra da Vida, a Chamada da Meia-Noite , as Assembléias de Deus e
outras missões estrangeiras e escolas iniciadas por missionários da outra América divulgam esta posição
teológica.
Diversos teólogos dispensacionalistas de hoje, como Robert Saucy, Craig e Darrell Bock,
chamam-se “dispensacionalistas progressistas” e têm conquistado muitos seguidores. Eles não vêem a
Igreja como um parêntese no plano de Deus. Do ponto de vista do dispensacionalismo progressista,
Deus não tem dois propósitos separados para Israel e para a Igreja, mas sim um único propósito – o
estabelecimento do Reino de Deus – no qual tanto Israel como a Igreja terão parte. O
dispensacionalismo progressista não vê nenhuma distinção entre Israel e a Igreja no estado eterno
futuro, pois todos serão parte de um só povo de Deus. Além disso, eles defendem que a Igreja reinará
com Cristo em corpo glorificado na terra durante o milênio.
No entanto, há ainda uma diferença entre os dispensacionalistas progressistas e o restante do
evangelicalismo em um aspecto: eles afirmam que as promessas do Antigo Testamento referentes a
Israel ainda serão cumpridas no milênio pelo povo judeu, que crerá em Cristo e viverá na terra de Israel
como “nação-modelo” para que todas as nações o vejam e dele aprendam. Portanto, eles não diriam que
a Igreja é o “novo Israel” nem que todas as profecias serão cumpridas no Israel étnico

O ESQUEMA DISPENSACIONAL DE JOHN NELSON DARBY:


1. Dispensação da Inocência - Da Criação à Queda.
2. Dispensação da Consciência - Da Queda ao Dilúvio.
3. Dispensação do Governo Humano - Do Dilúvio à chamada de Abraão.
4. Dispensação da Promessa ou Patriarcal - Da chamada de Abraão à saída do Egito.
5. Dispensação da Lei ou Israelita - Do Monte Sinai ao Monte Calvário.
6. Dispensação da Graça ou da Igreja - Do Calvário ao Arrebatamento.
7. Dispensação do Milênio ou Governo Divino - Da Parusia ao Grande Trono Branco.
De acordo com o sistema apresentado pelos dispensacionalistas, há sete épocas da história da
Salvação: Inocência, Consciência, Governo Humano, Patriarcal, a Lei, a Graça e o Milênio, que
será o governo divino. A chave imprescindível para a compreensão do futuro é Daniel 9.24-27. As 70
semanas se referem a 490 anos (70 x 7) e não a dias. As primeiras 69 semanas de anos terminaram com
a crucificação de Jesus, encerrando a época na qual Deus tratava principalmente com Israel. Com a
rejeição do Messias que Deus ofereceu a Israel no ministério e na pessoa de Jesus, Deus fez o relógio
escatológico parar. No intervalo entre 69 e 70 semanas, Deus estabeleceu a Igreja, a realidade não
prevista pelos profetas do Antigo Testamento.
A Igreja, portanto, é o ministério revelado a Paulo e aos escritores do Novo Testamento (Ef.3; Cl
1; Rm 16.25-27). Terminado este período da Graça, no qual os gentios e judeus são convidados a formar
a “Noiva” de Cristo, ocorrerá o Arrebatamento (l Ts.4.13-18). Este maravilhoso evento se realizará sem
aviso prévio. O relógio profético então será reativado, com a atenção de Deus voltada para Israel. A 70ª
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semana de Daniel 9 marcará os sete anos da Grande Tribulação. Dentro da última semana de Daniel
haverá o desenvolvimento do seguinte quadro:

1. Israel, a nação judaica, estará no centro do plano divino de Deus para com a humanidade.
Restaurada, Israel reconstruirá o Templo e restabelecerá os sacrifícios exigidos pela lei mosaica.
2. O poder político internacional será exercido pelo Anticristo, a Besta ou o Homem de Iniqüidade (l
Jo 4.3; Ap 13; 2 Ts 2.3).
3. O cristianismo apóstata, unindo o Catolicismo, a Igreja Ortodoxa e o Modernismo protestante,
chamado a Meretriz, se aliará com o Anticristo (Ap 17) e prosperará através da união adúltera
durante um tempo.
4. O pecado aumentará entre os homens e chegará a uma profundidade e intensidade jamais vistas a
não ser na época do Dilúvio.
5. A ira de Deus será derramada sobre a Terra numa série de julgamentos e cataclismos.
6. Quando a Besta (o Anticristo) romper (Dn 9.27) com a nação Israelita, provocará uma crise
internacional que atingirá seu auge na guerra de Armagedom. Tudo culminará no fim dos sete anos
da Grande Tribulação com a vinda de Jesus Cristo com os seus santos. Após a Parusia, o reino do
Anticristo será destruído e Cristo passará a reinar sobre a terra (Zc 14.9,16-19; Mt 25.31-46, 19.28).
Assim se cumprirão literalmente as profecias do Antigo Testamento que prevêem um reino
messiânico na Terra. Passados os mil anos previstos em Ap 20, Satanás será solto da sua prisão,
encabeçará uma revolta breve dos habitantes não regenerados, nações-bodes (Mt 25.31-46), mas que
será esmagada . Sucederá então o último julgamento, do Trono Branco (Ap 20.11-15). Os mortos
não convertidos serão julgados segundo as suas obras. A Igreja depois do Milênio gozará a Nova
Jerusalém, e os judeus e as nações justas (ovelhas) gozarão a Vida Perfeita na Nova Terra,
eternamente (Mt 25.31-46; Ez 37.21-28)

DE UM MODO GERAL, HÁ QUATRO MANEIRAS DE INTERPRETAR A


ESCATOLOGIA BÍBLICA:
1. A preterista - vindica a revelação do passado, interpretando a Escatologia em relação aos judeus e
cristãos como em relação ao império Romano e à História.
2. A espiritualista - trata tudo como símbolos, e nada é literal, tudo é figurado.
3. A histórica - tudo vem-se cumprindo através da História.
4. A futurista progressiva - crê que tudo está por acontecer no seu devido tempo e lugar. Crê no
cumprimento profético da Revelação no passado, presente e futuro. Embora muitos escritos proféticos
tenham sido revelados através de simbolismo, todavia terão cumprimento literal.

Teste Prático: Leia Amós 9.11,12, estude com cuidado esta profecia, descubra em quantas partes ela se
divide e quais os sentidos lógicos que têm as mesmas.

Leia: “Princípios de Interpretação Bíblica” – Pág. 155 à 160 – L. Berkhof.


“Princípios de Interpretação da Bíblia” (Walter A. Henrichsen) – Pág. 52 à 55.
“Hermenêutica – Princípios e Processos de Interpretação Bíblica” - Pág. 146 à 160) [Henry A.
Virkler].

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SUMÁRIO DE HERMENÊUTICA GERAL
Análise Histórico-Cultural e Contextual Análise Léxico-Sintática Análise Teológica
1. Determinar o ambiente geral histórico e 1. Indicar a forma literária geral. 1. Determinar sua própria perspectiva
2. Investigar o desenvolvimento do da natureza do relacionamento de
cultural do escritor e de sua audiência.
tema do autor e mostrar como a
a. Determinar as circunstâncias Deus com o homem.
passagem sob consideração se
históricas gerais. encaixa no contexto. 2. Apontar as implicações desta
a. Estar cônscio das circunstâncias e 3. Indicar as divisões naturais perspectiva para a passagem que
(parágrafos e sentenças) do texto. você está estudando.
normas culturais que acrescentam 4. Indicar as palavras conectívas
significado a determinadas ações. 3. Avaliar a extensão do conhecimento
dentro dos parágrafos e sentenças e
b. Discernir o nível de compromisso mostrar de que modo elas auxiliam teológico disponível às pessoas
espiritual da audiência. a entender a progressão de daquele tempo.
pensamento do autor. 4. Determinar o significado que a
2. Determinar o objetivo que o autor tinha 5. Determinar o que significam as
em escrever um livro, mediante: passagem possuía para seus
palavras tomadas isoladamente.
a. Notar as declarações explícitas ou a. Indicar os significados primitivos destinatários à luz do
repetição de frases. múltiplos que uma palavra possuía conhecimento que tinham.
em seu tempo e cultura. 5. Indicar o conhecimento
a. Observar as seções parenéticas ou b. Determinar o significado
hortativas. complementar acerca deste tópico
único que o autor tinha eme mente
b. Observar os problemas omitidos em determinado contexto. que hoje temos disponível por causa
ou os focalizados 6. Analisar a sintaxe para mostrar de de revelação posterior.
que modo ela contribui para a
3. Entender como a passagem se enquadra compreensão da passagem.
em seu contexto imediato. 7. Colocar os resultados de sua
a. Apontar os principais blocos de análise em palavras não-técnicas, de
material no livro e mostrar como se fácil compreensão, que transmitam
com clareza o significado que o
ajustam num todo coerente. autor tinha em mente.
a. Mostrar como a passagem se
encaixa na corrente de argumento do
autor.
b. Determinar a perspectiva que o
autor tencionava comunicar –
numenológica ou fenomenológica.
c. Distinguir entre verdade
descritiva e verdade prescritiva.
d. Distinguir entre detalhes
incidentais e o núcleo de ensino da
passagem.
e. Indicar a pessoa ou a categoria de
pessoas para as quais a passagem se
destinava.

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XIII. PRINCÍPIOS GERAIS DE INTERPRETAÇÃO - AS PROMESSAS
As promessas de Deus na Bíblia toda estão disponíveis ao Espírito Santo a favor dos
crentes de todas as gerações.

As promessas de Deus, que se acham na Bíblia, são um meio pelo qual Deus revela Sua vontade
aos homens. Ao dizer isto, devemos reconhecer que reclamar promessas é algo subjetivo. Por
conseguinte, assim se dá com o uso de qualquer método para determinar a vontade de Deus para a vida
de uma pessoa.
Muita gente fica inquieta quando se usam as promessas bíblicas, em parte porque muitas vezes
elas são mal utilizadas. Uma caricatura nada engraçada de uma pessoa em busca de uma promessa
bíblica, mostra-a abrindo a Bíblia com os olhos fechados e pondo o dedo no meio da página. Onde o
dedo marca, ali está a promessa de Deus para ela.
O problema não é pretender uma promessa em si, mas descobrir a vontade de Deus. Ao reclamar
as promessas de Deus, tenha a mesma cautela que tem quando procura descobrir a vontade de Deus. O
Senhor requer que em tudo ajamos baseados na fé. As promessas são-nos dadas como valioso
instrumento para ajudar-nos a reagir adequadamente.
Reclamar as promessas de Deus é uma forma específica de aplicação. O propósito primário da
Bíblia é mudar as nossas vidas, não aumentar o nosso conhecimento. Exatamente como é essencial que
você interprete apropriadamente a passagem antes de aplicá-la, também é essencial interpretar
apropriadamente a promessa antes de reivindicá-la.
Se você não for cuidadoso sobre o que diz a passagem, todos os tipos de interpretação fantasiosa
podem seguir-se. Por exemplo, você pode desejar que o Senhor guie a sua vida. Depois de muita oração,
você apela para Isaías 30.21: “Quando te desviares para a direita e quando te desviares para a esquerda,
os teus ouvidos ouvirão atrás de ti uma palavra, dizendo: ‘Este é o caminho, andai por ele’”. Você pede
ao Senhor que lhe diga quando virar à direita e quando à esquerda. De agora em diante você vai receber
as indicações do rumo diretamente de Deus, pois não foi isto que Ele prometeu?

Estudando o contexto de Isaías 30.21, você vê que a palavra que lhe é dita por detrás é dos seus
mestres de Deus, sim, mas através dos seus mestres. Falhar na interpretação adequada do versículo
poderá levá-lo a entender mal como Deus quer guiá-lo.

É-lhe permissível reclamar uma promessa fora do seu contexto histórico, contanto que seja fiel
ao que diz e significa a passagem. Digamos, por exemplo, que você está cercado por circunstâncias
adversas e sofre acusação falsa. Você ora, pedindo a Deus que o oriente. Ele o induz a apoiar-se em
Êxodo 14.14: “O Senhor pelejará por vós, e vós vos calareis”. Esta promessa foi feita originalmente a
Moisés quando Israel estava rodeado de circunstâncias adversas. Mas com esta promessa Deus aquieta
o seu coração, e você espera nele para que as coisas andem.

A Bíblia dá numerosos incentivos para contarmos com as promessas desta maneira. Pedro,
exortando o seu rebanho a uma vida devota e santa, disse: “Visto como pelo seu divino poder nos têm
sido doadas todas as cousas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que
nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui
grandes promessas para que por elas vos tomeis co-participantes da natureza divina, livrando-nos da
corrupção das paixões que há no mundo” (2 Pedro 1.3,4). O salmista o expressou deste modo: “O
conselho do Senhor dura para sempre, os desígnios do seu coração por todas as gerações” (Salmo
33.11).

É importante assumir atitude apropriada ao abordar as promessas. O Senhor lhas deu para ajudá-
lo a fazer a Sua vontade. No entanto, muitas vezes as pessoas as usam para tentar levar Deus a fazer a

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vontade delas. Diz a Bíblia: “Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi, e recebereis, para que a
vossa alegria seja completa” (João 16.24). Foi Jesus mesmo quem fez essa promessa. Você ama alguém
e quer casar-se com essa pessoa. Ou você e seu cônjuge querem um filho. Assim, você apela para esta
promessa, mas não recebe o que deseja. Por quê? Possivelmente porque Deus não lhe fez aquela pro-
messa particular. Você se apropriou dela. Mas Deus não é seu servo; você o é dele. Você frustra o
propósito das promessas quando as faz servi-lo.

Promessa é compromisso de Deus, de fazer alguma coisa, e requer sua resposta de fé em forma
de obediência. Às vezes essa obediência significa esperar pacientemente que o Senhor faça o que Ele
promete. Outras vezes pode significar lançar-se ao desconhecido ou enfrentar grandes riscos. As
promessas de Deus constituem o fundamento da expressão da fé. Sem a promessa você não tem base
para pedir. Com a promessa você responde pela fé. A fé é sempre ativa, nunca passiva. Quando você,
pela fé, responde à promessa de Deus, Sua vontade éfeita e Ele é glorificado.

Suponhamos que você responda à promessa e ela não se cumpra. A aparência é de que Deus não
fez o que prometeu. A que conclusões pode chegar? Há três possibilidades:

1. Deus o deixou na mão. Ele não conseguiu finalizar Sua parte no trato. Sendo assim, a Bíblia
não merece fé; não vale a pena seguir a Cristo; em suma, o Deus das Escrituras não existe. Pois Deus
mesmo disse: “Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa.
Porventura, tendo ele prometido, não o fará? ou tendo falado, não o cumprirá?” (Números 19.23).

Embora coloquemos “Deus o deixou na mão” como uma possível conclusão, é na verdade uma
impossibilidade. uma impossibilidade porque Deus promete que nunca falhará conosco. Paulo estava
falando com Timóteo quando disse, sobre a fidedignidade de Deus: “Ele permanece fiel, pois de
maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo” (2 Timóteo 2.13). Podemos rejeitar esta primeira
possibilidade de conclusão simplesmente porque Deus sempre cumpre o que promete.

2. Você errou ao reclamar a promessa. Esta é uma possibilidade desagradável, mas real. Se
você já teve a desventura de esperar o cumprimento de uma promessa que Deus nunca tencionou para
você, não pense que está sozinho nisso. Muitos já o fizeram. Normalmente acontece isso quando os seus
motivos ficam confusos. A promessa foi requerida com o sincero desejo de fazer a vontade de Deus e
nada mais? Ou você queria uma intervenção em algum ponto do seu percurso?
Se você verificou que procurava somente agradar a Deus, deve então suspender o julgamento
sobre o que aconteceu. Até Paulo não tinha certeza dos seus motivos. Disse ele: “Todavia, a mim mui
pouco se me dá de ser julgado por vós, ou por tribunal humano; nem eu tão pouco julgo a mim mesmo.
Porque de nada me argúi a consciência; contudo, nem por isso me dou por justificado, pois quem me
julga éo Senhor. Portanto, nada julgueis antes de tempo, até que venha o Senhor, o qual não somente
trará à plena luz as cousas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações; e
então cada um receberá o seu louvor da parte de Deus (1 Coríntios 4.3-5).
Deus conhece o seu coração e algum dia revelará o que aconteceu. Talvez você se tenha
apropriado erroneamente da promessa, mas resta uma terceira opção.
3. A promessa se cumprirá numa ocasião posterior e/ou de um modo que você não espera. Deus
prometeu a Abraão que os seus descendentes seriam numerosos como as estrelas dos céus. Ele e Sara
continuaram esperando pacientemente pelo cumprimento depois de Sara já ter passado da menopausa e
estando Abraão com quase 100 anos de idade. Tinham tentado ajudar Deus a cumprir a Sua promessa,
mas tudo em vão. Abraão tivera um filho com a criada de Sara, Hagar, mas não era isso que Deus tinha
em mente. A velhice atingira o casal e ainda não havia filhos. Não haveria de ocorrer o cumprimento
natural da promessa. Deus a queria cumprida de maneira sobrenatural.
Falando disso, diz o escritor de Hebreus: “Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por
sua fé, não obtiveram, contudo, a concretização da promessa” (Hebreus 11.39). Ali estavam os heróis de
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Deus, os heróis da fé, que não viveram para ver cumpridas as promessas de Deus. Deus as cumpriu
noutra geração. Eles não “abandonaram o navio” e desistiram. Apegaram-se com tenacidade às
promessas e confiaram em que Deus as cumpriria a Seu modo.
Deus não falhou com você, e talvez você não tenha errado ao reclamar a promessa. O Senhor
poderá cumpri-la de um modo e numa ocasião que você nem desconfia. O que todos devemos estar
tentando seguir é a vontade de Deus conforme o calendário e o horário de Deus.

Talvez seja útil considerar os dois tipos de promessas que se acham na Bíblia.
1. Promessas Gerais. São feitas pelo Espírito Santo a todos os crentes. Quando foram escritas
pelo autor não visavam a nenhuma pessoa ou época em particular. Antes, são gerais, isto é, destinadas a
todas as pessoas, de todas as gerações.

Eis um exemplo deste tipo de promessa: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo
para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1.9). Esta promessa era válida
para as pessoas a quem João estava escrevendo, e é igualmente válida para você hoje. Há muitas
promessas desse tipo na Bíblia toda.

2. Promessas Específicas São feitas pelo Espírito Santo a indivíduos específicos em ocasiões
específicas. Como as promessas gerais, as específicas são-lhe disponíveis, de acordo com a direção do
Espírito Santo. A diferença é que as promessas específicas têm de ser feitas pelo Espírito Santo
especificamente a você como o foram aos beneficiários originais. Neste sentido elas são muito mais
subjetivas do que as promessas gerais. Você pode saber que todas as promessas gerais são-lhe dadas, e a
todos os demais. Contudo, as promessas específicas estão disponíveis para você, mas não lhe
pertencerão, a não ser que lhe sejam dadas por Deus. As promessas específicas são dadas mais
freqüentemente para orientação e bênção.

O Espírito Santo pode querer fazer-lhe uma promessa específica para ajudá-lo a determinar a
Sua vontade. Isto é, quando Ele quer guiá-lo numa direção particular. Exemplo: “As tuas portas estarão
abertas de contínuo; nem de dia nem de noite se fecharão, para que te sejam trazidas as riquezas das
nações, e, conduzidos com elas, os seus reis” (Isaías 60.11).
Quando você ora, meditando neste versículo, e fica crescente-mente convencido de que o
Senhor quer que você o aplique à sua vida, talvez você se decida a abrir sua casa vinte quatro horas por
dia para todos os que o Senhor lhe enviar. A promessa foi feita originalmente ao Messias, mas o Espírito
de Deus pode fazê-la a você, para o seu ministério.

Em sua primeira viagem missionária, Paulo e Barnabé sofreram oposição dos judeus quando
ministravam a Palavra em Antioquia da Pisídia. Sentiram-se chamados por Deus para os gentios, e para
tornar concreta essa orientação Paulo citou Isaías: “Porque o Senhor assim no-lo determinou: ‘Eu te
constituí para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação até aos confins da terra’” (Atos 13.47;
ver Isaias 42.6,7). Paulo citou um versículo messiânico que o Senhor lhe dera para orientação.

Bênção é outro modo pelo qual as promessas específicas podem ser utilizadas. Pode suceder que
o Espírito Santo não esteja procurando guiá-lo, mas simplesmente revelar a bênção que planeja para a
sua vida. Para ilustrar isto, digamos que a sua igreja esteja sem pastor. O último fora insatisfatório, e os
dirigentes da igreja têm sido cautelosos na busca do sucessor. Passaram-se meses, e você está
preocupado, querendo que o Senhor dê o pastor certo. Orando sobre a situação, o Senhor lhe dá certeza
de Sua bênção prometida com as palavras: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos
apascentem com conhecimento e com inteligência” (Jeremias 3.15).
Visto que as promessas específicas são subjetivas, se faz pouco tempo que você é cristão, é
melhor ficar com as promessas gerais que se acham no Novo Testamento durante o primeiro par de

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anos. Quando se julgar pronto para requerer promessas específicas, deverá seguir certas linhas de
roteiro:
1. O Espírito de Deus as faz aos cristãos individualmente, em ocasiões particulares das suas
vidas, conforme Lhe apraz.
2. Muitas vezes as promessas são condicionais, e a condição é obediência Você pode captar a
condição pela presença da pequena palavra se no versículo ou no contexto.
3. O Espírito Santo de Deus é soberano. “O conselho do Senhor dura para sempre, os desígnios
do seu coração por todas as gerações” (Salmo 33.11). Ele pode falar partindo de qualquer passagem, a
qualquer pessoa, em qualquer ocasião.
4. Não prejulgue o Senhor sobre quando e como a promessa se cumprirá em sua vida.
5. Deus faz Suas promessas para tornar você mais dependente dele, não, independente. Busque-
as com espírito de dependência e humildade.
6. O propósito de Deus é glorificar-se fazendo-lhe promessa Nunca deixe de Lhe dar glória
quando se cumprir a promessa.
Mais uma precaução é oportuna antes de concluir este ponto. Quando você reivindica uma
promessa da Bíblia, você está determinando a vontade de Deus nessa matéria particular. Por sua vez,
isto o isola de qualquer outro conselho, pois, quem quer aconselhar contra a vontade de Deus?
Digamos, por exemplo, que você está orando e buscando conselho acerca da mudança de emprego.
Você pode apoiar-se numa promessa da Palavra que com efeito lhe diz: “A vontade de Deus é que se
faça a mudança”. Nesse ponto não se necessita mais nenhum conselho. Agora você precisa agir com
base no que Deus disse.
Todavia, fazendo isso você coloca toda a responsabilidade da decisão sobre os seus ombros.
Você mesmo determinou qual é a vontade de Deus. Isto não é mau, a menos que você tenha reclamado
erroneamente a promessa. A precaução consiste em garantir que você dê tempo e oração suficientes para
tornar a promessa uma convicção em sua alma, de que é verdadeiramente isso que Deus quer.

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XIV. BIBLIOGRAFIA

1. ALMEIDA, Abraão. O Tabernáculo e a Igreja. Rio de Janeiro. Ed. CPAD, 1985.


2. BERKHOF, L. Princípios de Interpretação Bíblica. Rio de Janeiro. Ed. JUERP, 1981.
3. BLANKENBAKER, Frances. Quero entender a bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 1999.
4. CHAFER, Lewis Sperry. Teologia Sistemática. 1ª ed. Vol. 1. São Paulo: Imprensa Batista Regular,
1986.
5. DOCKERY, David S. Manual Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2001.
6. ERICKSON, M.J. Introdução à Teologia Sistemática. 1ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1997.
7. GILBERT, Floyd, L. A Pessoa de Cristo no Tabernáculo. São José dos Campos – SP. Ed. FIEL,
1991.
8. GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. 1ª ed. São Paulo: Editora Vida Nova, 1999.
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10. HENRICHSEN, Walter A. Princípios de Interpretação da Bíblia. São Paulo. Ed. Mundo Cristão,
1980.
11. JEREMIAS, J. As Parábolas de Jesus. Ed. Paulinas.
12. LIETH, Norbert. Parábolas Proféticas. Porto Alegre – RS. Ed. Chamada da Meia Noite.
13. LUND, E. & NELSON, P. C. Hermenêutica. Miami. Ed. Vida, 1968.
14. MARANHÃO, Zélia F. ENTENDENDO AS PARÁBOLAS DE JESUS. Ed. Profecias Bíblicas, 1991.
15. MELO, Joel L. Sombras, Tipos e mistérios da Bíblia. Rio de Janeiro. Ed. CPAD, 1989.
16. NEE, W. O Testemunho de Deus. Miami, Florida. Editora Vida, 1980.
17. PESTANA, Álvaro César. Do texto à paráfrase. São Paulo: Editora Vida cristã. 1992
18. ROLDÁN, Alberto F. Para que serve a teologia?. Curitiba. Editora Descoberta, 2004.
19. RYRIE, Charles Caldwell. Vem depressa Senhor Jesus
20. RINCE, Derek. O destino de Israel e da igreja.
21. VIRKLER, Henry A. Hermenêutica – Princípios e Processos de Interpretação Bíblica. Miami. Ed.
Vida, 1987.

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Biografia do autor
O pastor Antônio Carlos Gonçalves Bentes é capitão do Comando da Aeronáutica,
Doutor em Teologia pela American Pontifical Catholic University (EUA) , conferencista,
filiado à ORMIBAN – Ordem dos Ministros Batistas Nacionais, cuja matrícula é 745,
professor dos seminários batistas: STEB, SEBEMGE e Escola Teológica Koinonia e
também das instituições: Seminário Teológico Hosana, UNITHEO, Escola Bíblica
Central do Brasil e JAMI (Junta Administrativa de Missões da CBN) atuando nas áreas
de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Apologética, Escatologia,
Pneumatologia, Teologia Bíblica do Velho e Novo Testamento, Hermenêutica, e
Homilética. Reside atualmente em Lagoa Santa, Minas Gerais. Exerce o ministério
pastoral na Igreja Batista Getsêmani em Belo Horizonte - Minas Gerais. É casado com a
pastora Rute Guimarães de Andrade Bentes, tem três filhos: Joelma, Telma e Charles
Reuel, e duas netas: Eliza Bentes Zier e Ana Clara Bentes Rodrigues.

Pedidos ao Pr. A. Carlos G. Bentes


Tel. (031) 3681.4770; Cel. (031) 8661.4070; 9684.9869
E-mail: pastorbentesgoel@gmail.com

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