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Paidéia

ISSN: 0103-863X
paideia@usp.br
Universidade de São Paulo
Brasil

Pimenta Carvalho, Ana Maria


Maturidade emocional, locus de controle e ansiedade em pré- adolescentes obesos
Paidéia, vol. 11, núm. 20, 2001, pp. 39-47
Universidade de São Paulo
Ribeirão Preto, Brasil

Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=305425346005

Como citar este artigo


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MATURIDADE EMOCIONAL, LOCUS DE CONTROLE E ANSIEDADE EM
1
PRÉ- ADOLESCENTES OBESOS

2
Ana Maria Pimenta Carvalho
EERP- Universidade de São Paulo

RESUMO: Investigou-se aspectos do funcionamento psicológico como a maturidade emocional, locus


de controle e ansiedade em pré-adolescentes obesos, através dos instrumentos: Teste do Desenho da Figura
Humana (DFH), Escala de Locus de Controle para crianças e Escala de Ansiedade "RCMS". Os resultados
não apontaram uma tendência específica quanto ao locus de controle ser mais interno ou externo. Em relação
à ansiedade, enquanto traço de personalidade, a maioria dos sujeitos situou-se dentro do esperado para seu
grupo etário. No DFH os índices relativos à Escala Evolutiva e à Escala Emocional encontraram-se também
dentro do esperado, em sua maior parte. Tais resultados sugerem que não existe diferença entre pré-adolescen¬
tes obesos e pré-adolescentes em geral, quanto às variáveis estudadas. Entretanto, ser obeso pode estar asso-
ciado a dificuldades de elaboração de aspectos evolutivos e emocionais para alguns indivíduos.

Palavras chave: obesidade; avaliação psicológica; pré-adolescentes

EMOTIONAL MATURITY, LOCUS OF CONTROL AND ANXIETY


IN OBESE PREADOLESCENTS

ABSTRACT: Aspects of psychological functioning such as emotional maturity, locus of control and
anxiety had been evaluated in obese preadolescents. The following instruments were used: Draw a Person
Test - DAT; Locus of Control Scale for Children and the Revised Children Manifest Anxiety Scale (Portuguese
versions). Results show no tendency for the locus of control to be more external or internal, when compared
to normative data. The scores of anxiety, as personality trait, are compatible to the normative data. The DAT
analysis showed that most of the results related to Developmental and Emotional Scales are within the norm
values. These results suggest no differences between obese preadolescents and preadolescents in general,
related to the aspects approached in this study. They also suggest that, for some individuals, being obese may
be associated to some emotional suffering and difficulties in dealing with developmental aspects.

Key words: obesity; psychological evaluation, preadolescents

Tem havido, nos últimos anos, um avanço mento de 500% entre estas últimas. Entre os adoles-
acelerado da obesidade em toda a população. Entre centes o índice de obesidade é 25% (Folha de São
crianças e adolescentes a proporção deste aumento é Paulo, 1999).
ainda maior. Segundo dados do Instituto Brasileiro A obesidade é uma situação de difícil contro-
de Geografia e Estatística (IBGE) e da Sociedade le, apresentando um alto percentual de insucessos
Brasileira de Pediatria, no ano de 1975, 8% das mu- terapêuticos e de sérias repercussões orgânicas e
lheres eram obesas, 3 % dos homens e 3% das crian- psicossociais ao longo do tempo. Assim, sua preven-
ças. Já no ano de 1997 estes números aumentaram ção e controle devem ter início na infância (Escri-
para 13% entre as mulheres, 7% entre os homens e vão & Lopes, 1995).
15% entre as crianças, havendo portanto, um cresci- Fisberg (1995) considera que, entre as altera-
ções do nosso corpo, a obesidade é a mais complexa
1

2
Artigo recebido para publicação em 06/2001; aceito em 10/2001 e de difícil entendimento, havendo a necessidade de
Endereço para correspondência; Ana Maria Pimenta Carvalho,
Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas, Escola
uma abordagem multidisciplinar do problema. Nes-
de Enfermagem de Ribeirão Preto-USP, Av. Bandeirantes, 3900, Monte te sentido, Kahtalian (1992) argumenta que é preci¬
Alegre, Ribeirão Preto, SP, CEP 14040-901, E-mail anacar@eerp.usp.br
so abordar a fome em seu aspecto psicossocial, já tos de suas vidas, baseia-se nas formulações teóricas
que, juntamente com a sede, estas são as mais im- de Rotter (1966). Este autor propôs o construto locus
portantes forças motivadoras conhecidas. Assim, os de controle, no qual são identificadas duas tendênci-
aspectos psicológicos também devem ser levados em as - a interna e a externa. As pessoas com locus de
conta, visto que os casos de obesidade causados por controle interno tendem a atribuir a si mesmas o con-
patologias endocrinas ou genéticas bem definidas, trole, enquanto que os externamente orientados ten-
constituem um percentual muito pequeno (Escrivão dem a atribuir a outras pessoas ou ao meio ambiente
& Lopes, 1995). o controle sobre o que ocorre em suas vidas.
Andrade (1995) em um estudo no ambulató- Do ponto de vista operacional, a presença
rio de Obesidade Infantil da Universidade Federal desses componentes da personalidade tem sido ava-
de São Paulo, em 134 casos atendidos, verificou que liada através de escalas. Estes são instrumentos de
76,8% destas crianças apresentavam razões emocio- auto-relato em que o sujeito lê alternativas e avalia
nais importantes, associadas ao surgimento e à evo- se concorda ou não com elas e em que grau. As res-
lução da obesidade. Assim, estudos que busquem postas são avaliadas e traduzidas em escores.
entender as características psicológicas ligadas à Stotland e Zuroff (1990) verificaram, em mui-
obesidade são muito importantes. tas pesquisas, uma significativa relação entre locus
Campos (1993) identificou as seguintes ca- de controle e perda de peso. No estudo de Aldersberg
racterísticas psicológicas em adultos obesos por e Mayer (1949), verificou-se que indivíduos com
hiperfagia: passividade e submissão, preocupação excesso de peso possuíam uma tendência à
excessiva com comida, ingestão compulsiva de ali- externalidade. Para Rotter (1966), locus de controle
mentos e drogas, dependência e infantilização, interno é um potencial preditor para sucessos em
primitivismo, não aceitação do esquema corporal, programas de perda de peso. Contudo, pesquisas
temor de não ser aceito ou amado, indicadores de posteriores tanto validaram tal afirmação (Balch &
dificuldades de adaptação social, bloqueio da Ross, 1975; Ross, Kalucy & Morton, 1983), quanto
agressividade, dificuldade para absorver frustração, a contrariaram (Gormally, Rardin & Black, 1980;
desamparo, insegurança, intolerância e culpa. No que Tobias & MacDonald, 1977). Entretanto, estes estu-
diz respeito às crianças obesas, esta autora afirma dos foram realizados com adultos. Não foram en-
ainda que elas são mais regredidas e infantilizadas; contrados trabalhos que relacionassem locus de con-
tendo dificuldades de lidar com suas experiências trole e obesidade infantil.
de forma simbólica, de adiar satisfações e obter pra- Outro fator bastante citado como presente na
zer nas relações sociais, de lidar com a sexualidade, dinâmica da personalidade do indivíduo obeso é a
além de uma baixa auto-estima e dependência ma- ansiedade. Andrade e Gorenstein (1998), afirmam
terna. que este é um estado emocional com componentes
Kahtalian (1992) considera que o ato de co- psicológicos e fisiológicos, que faz parte do espec-
mer, para os obesos, é tido como tranqüilizador, como tro normal das experiências humanas, sendo propul-
uma forma de localizar a ansiedade e a angústia no sora do desenvolvimento. Ela pode tornar-se patoló-
corpo, sendo apresentadas também dificuldades de gica quando é desproporcional à situação que a de-
lidar com a frustração e com os limites. sencadeia, ou quando não existe um objeto específi-
Portanto, segundo a literatura, a obesidade co ao qual se direcione.
pode estar relacionada a fatores psicológicos como O estudo sobre a ansiedade, do ponto de vista
o controle, a ansiedade e o desenvolvimento emoci- psicológico, salienta uma diferenciação quanto à for-
onal. Desta forma, faz-se necessário uma investiga- ma com que ela se apresenta - ansiedade estado e
ção sistemática, quando se propõe construir conhe- traço. A ansiedade estado é conceituada como um
cimentos que possam subsidiar uma prática de assis- estado emocional transitório ou condição do orga-
tência. nismo humano, caracterizada por sentimentos desa-
Uma forma de avaliar a percepção das pesso- gradáveis de tensão e apreensão, conscientemente
as sobre o controle que exercem em relação a even- percebidos e por um aumento na atividade do siste¬
ma nervoso autônomo. Os escores de ansiedade/es- severos, como anorexia e bulimia em meninas (Candy
tado podem variar em intensidade de acordo com o & Fee, 1998). Por outro lado a obesidade em meni-
perigo percebido e flutuar no tempo (Andrade & nos também tem aumentado conforme os dados vei-
Gorenstein, 1998). culados na Folha de São Paulo (1999). Dessa manei-
Já ansiedade traço, segundo esses autores, ra, julga-se oportuno comparar meninas e meninos
refere-se a diferenças individuais relativamente es- obesos quanto aos fatores aqui avaliados, configu¬
táveis na propensão à ansiedade, isto é, a diferenças rando-se assim, um segundo objetivo deste trabalho.
na tendência de reagir a situações percebidas como
ameaçadoras com intensificação do estado de ansie- Método
dade.
Os escores de ansiedade traço são menos sus- Sujeitos
cetíveis a mudanças decorrentes de situações
ambientais e permanecem relativamente constantes Os sujeitos deste estudo foram 26 pré-adoles-
no tempo. centes (11 meninas e 15 meninos), com idades entre
a a
Soifer (1987, conforme citado por Andrade, nove e treze anos, que estão freqüentando da 4 a 7
o
1995), afirma que um alto nível de ansiedade pode série do 1 grau. A maior parte deles pertence a fa-
ter como sintoma a obesidade, que possivelmente mílias com renda mensal de média a baixa.
mascara dificuldades internas, afetivase relacionais, Em relação ao peso, todos os sujeitos situa-
requerendo um tratamento psicológico urgente. ram-se no percentil 95. Isto significa que, segundo
Quando se trata de avaliar crianças e adoles- critérios da National Center of Health Statistics,
centes sob a perspectiva projetiva, uma técnica de Height and Weight of Youth 12-17 years (1981, apud
investigação bastante utilizada e que abarca aspec- Must, Dallal & Dietz, 1991), todos se enquadravam
tos cognitivos e emocionais tem sido o Desenho da no critério de obesidade.
Figura Humana. Estes sujeitos foram encaminhados pelo Pro-
Azevedo (2000), comparando os resultados grama de Assistência à Saúde do Escolar (PROASE)
obtidos com a aplicação do Desenho da Figura Hu- da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto/SP, ao
mana em 30 crianças obesas e 30 crianças não obe- Programa de Atenção Multiprofissional, que é com-
sas, encontrou que os primeiros apresentaram mais posto por psicólogos, enfermeiros, nutricionistas,
indicadores emocionais. médicos e educadores físicos.
Venturini (2000), utilizando o DFH cora 15 De acordo com a Resolução 196/96 do Mi-
crianças obesas verificou que suas produções evi- nistério da Saúde, os aspectos éticos foram conside-
denciaram transtornos no esquema corporal, ansie- rados através da obtenção do consentimento livre e
dade, insegurança, insatisfação consigo mesmas e esclarecido dos pais para que seus filhos fossem sub-
sinais de agressividade, entre outros. metidos à avaliação.
A partir dessas considerações, objetivou-se
primeiramente neste trabalho, investigar itens Procedimento
evolutivos e emocionais, locus de controle e ansie-
dade, tendo como sujeitos pré-adolescentes atendi- Foram aplicados, coletivamente, três instru-
dos no Programa de Atenção Multiprofissional a mentos, cada um em uma sessão, que teve duração
Obesidade da Universidade de São Paulo no campus média de 50 minutos. Os sujeitos foram acomoda-
de Ribeirão Preto, a fim de melhor compreender seu dos em mesas individuais em uma ampla sala. A apli-
funcionamento psicológico e orientar futuras inter- cação dos instrumentos foi realizada por duas psicó-
venções com esta clientela. logas, após três encontros destinados ao estabeleci-
A literatura sobre obesidade e os distúrbios mento do rapport.
alimentares vem focalizando, sobretudo, sujeitos do Os instrumentos foram aplicados na ordem
sexo feminino. Esta ênfase fundamenta-se na pers- que se segue: Teste do Desenho da Figura Humana,
pectiva da evolução negativa para distúrbios mais Escala de Ansiedade "O que Penso e Sinto" e a Es¬
cala de Locus de Controle para crianças. Quanto ao múltipla escolha, que vão daquelas que atribuem a
Teste do Desenho da Figura Humana, a instrução responsabilidade do desfecho mais ao próprio sujei-
solicitava que os sujeitos desenhassem, inicialmen- to àquelas que a atribuem totalmente ao outro.
te, apenas uma pessoa inteira. Posteriormente, era
entregue uma nova folha e solicitava-se que fosse Resultados
desenhado somente uma pessoa do sexo oposto à do
primeiro desenho. Foi avaliado apenas o desenho do Os resultados das avaliações de cada sujeito,
mesmo sexo da criança. A padronização utilizada deste grupo, foram comparados com os dados
para este teste foi a de Hutz e Antoniazzi (1995), normativos dos instrumentos utilizados. Tomou-se
com base no esquema de Koppitz (1968). Também como referência as médias e desvios padrão. Anali-
foi realizada uma análise qualitativa baseada em Van sou-se a distribuição de meninos e meninas separa-
Kolck (1984). A Escala de Ansiedade "RCMAS" foi damente pois este era um dos objetivos do trabalho.
desenvolvida por Reynolds & Richmond (1978) e Foi aplicado o Teste Exato de Fisher para ava-
padronizada por Gorayeb (1994) com o título "O que liar a significância das diferenças entre as distribui-
Penso e Sinto". Compõe-se de 28 frases em que o ções dos escores de meninos e meninas. Esta prova
sujeito deve escolher a resposta sim ou não. Este é foi escolhida uma vez que as freqüências de ocor-
um instrumento que propõe medir a ansiedade en- rência de sujeitos com escores situados nas posições
quanto traço de personalidade. acima, na média e abaixo eram pequenas.
A Escala de Locus de Controle construída por Iniciando-se a apresentação dos resultados, a
Milgram e Milgram (1975) e padronizada por Feres Tabela 1 mostra a distribuição dos sujeitos segundo
(1981), é composta por 24 itens, que retratam situa- seus resultados na Escala Evolutiva do Teste do De-
ções de sucesso ou fracasso, com alternativas de senho da Figura Humana -DFH.

Comparando-se as distribuições de meninos loca abaixo da média. É necessário lembrar que, os


e meninas encontrou-se p= 0,40435, para @=0,05 o dados normativos do DFH não apresentam diferen-
que aponta para a não significância da diferença en- ças entre meninos e meninas. Os valores normais são
tre as distribuições. Para o grupo como um todo, ve- válidos para ambos os sexos (Hutz & Antoniazzi,
rificou-se que a maior parte dos sujeitos, 73,1 %, 1995).
situou-se nos valores médios e 26,9% apresentaram Os valores relativos à Escala Emocional es-
escores que, comparativamente à população, os co- tão assinalados na Tabela 2.
Comparando-se as distribuições de meninos meninos apresentaram sinais indicativos de proble-
e meninas, foram considerados os valores acima e mas emocionais.
na média, para uma primeira comparação. Obteve- De acordo com uma análise qualitativa do DFH,
se um valor de p= 0,22488 para@@a##=0,05. Portanto, baseada na proposição de Van Kolk (1984), aparece-
as distribuições entre ambos não têm diferença es- ram com freqüência indicadores de: dependência ma-
tatisticamente significante. terna, dificuldades no contato social, dificuldades em
Comparando-se as ocorrências na média e lidar com os sentimentos e com os impulsos sexuais e
abaixo, obteve-se uma probabilidade po=0, 35968, agressivos, preocupação com uma aparência social
também não significante. aceitável, conflitos em relação à virilidade, à sexuali-
Portanto, conclui-se pela não diferença entre dade e entre autonomia e dependência.
as distribuições de meninos e meninas nas diferen- Os resultados exibidos na Tabela 3 mostram
tes posições em relação aos valores médios. A maior uma distribuição relativamente semelhante entre os
parte dos sujeitos teve escores compatíveis com as sujeitos, nas diferentes posições, em relação às me-
médias de suas faixas etárias. Entretanto, apenas dias da Escala de Locus de Controle.

Não se verificam tendências à internalidade distribuições acima e abaixo da média, de meninos e


ou externalidade, neste grupo de sujeitos. Compa- meninas, a despeito das meninas tenderem à
rando-se as distribuições dos meninos e meninas atra- externalidade e os meninos à internalidade.
vés do Teste Exato de Fisher (eliminando-se os va- Em relação à Escala de Ansiedade "O que
lores relativos à media) obteve-se p= 0,2068 para Penso e Sinto", os sujeitos obtiveram os resultados
@@a##= apresentados
0,05. Não foram encontradas diferenças entre as na Tabela 4.
Os dados mostram que os sujeitos estão situ- personalidade, apenas 3,8% dos sujeitos apresenta-
ados dentro da média, exibindo, em sua maioria, ní- ram sinais de ansiedade aumentada, 38,5% obtive-
veis de ansiedade esperados para crianças nessas fai- ram escores compatíveis com ansiedade reduzida e
xas etárias. A comparação entre as distribuições de 57,7%,dentro do esperado para o sexo e idade.
meninos e meninas, pelo Teste Exato de Fisher (eli- A seguir são apresentados os dados relativos
minando-se os valores iguais à media), confirmam a à Escala da Mentira. Esta é uma sub escala da Escala
hipótese de uma não diferenciação entre eles. Foi Ansiedade Infantil "O que Penso e Sinto" e propõe-
obtido um p= 0,5449 para@@a##=0,05. se a avaliar o quanto o sujeito responde de acordo
Segundo os dados obtidos com esta escala, com o que ele pensa que se espera dele, no sentido
que se propõe a medir a ansiedade enquanto traço de de mostrar uma imagem positiva de si mesmo.

Verificou-se que a maior parte dos sujeitos, p= 0,40370 para@@a##=0,05. Eliminando-se os valores
73,1%, situou-se na faixa correspondente aos valo- abaixo da média, obteve-se p= 0,5714 para@@a##X=0,05.
res médios. Portanto, a maioria apresentou resulta-
dos que estão dentro do esperado, de acordo com as Discussão
normas de padronização do instrumento.
Comparando-se as distribuições de meninos Com base no que a literatura vem mostrando
e meninas não se verificaram diferenças estatistica- acerca das relações entre aspectos da personalidade
mente significantes, através do teste Exato de Fisher. e obesidade, este trabalho propôs-se a avaliar um
Eliminando-se os valores acima da média, obteve-se grupo de pré-adolescentes obesos - meninos e meni¬
nas - e verificar as tendências evolutivas, emocio- guma evidência de problemas emocionais nos meni-
nais, de locus de controle e de ansiedade traço apre- nos, ocorrendo de forma concomitante ao excesso
sentadas pelo grupo. de peso. Esta observação justifica esclarecimentos e
Embora com limitações, dentre as quais des- atenção a esta clientela que, tende a constituir-se na
tacam-se o número reduzido de sujeitos e a ausência maior parte da população de crianças encaminhadas
de um grupo controle, as questões formuladas pude- a serviços de saúde mental (Silvares, 1993.)
ram ser respondidas. Quanto ao locus de controle, não se verificou
Com relação aos aspectos evolutivos e emo- tendência à internalidade ou externalidade. Há vari-
cionais, avaliados pelo DFH, não se verificou uma ações individuais e, de modo geral, um equilíbrio na
tendência do grupo a diferenciar-se da população identificação de sujeitos em uma e outra categoria.
geral de pré-adolescentes. Isto já foi objeto de investigação em adultos,
Entretanto, alguns indivíduos apresentaram na década de 70, e para este grupo também não fo-
sinais de imaturidade e indicadores de problemas ram encontradas tendências claras à externalidade
emocionais. (Gormanous & Lowe, 1975).
Do ponto de vista dos aspectos evolutivos, A investigação sobre a tendência do locus de
meninos e meninas não se diferenciaram. Os dois controle constituiu-se numa forma de operacionalizar
subgrupos exibiram resultados compatíveis com a a investigação sobre uma crença de que as pessoas
média esperada e alguns indivíduos exibiram resul- obesas têm pouco controle sobre si e suas vidas:
tados inferiores aos esperados para suas faixas etárias. Nessa linha de raciocínio, Stotland e Zuroff (1990)
Entretanto quanto aos aspectos emocionais, verifi- propuseram que a avaliação do locus de controle geral
cou-se uma tendência dos meninos a exibir mais si- não discrimina obesos e não obesos. Para estes pes-
nais emocionais que as meninas. quisadores, deve-se buscar avaliar essa variável em
Tais resultados diferenciam-se dos de Azeve- relação ao comportamento alimentar. Eles propuse-
do (2000), que encontrou através do DFH, mais si- ram uma escala para a situação de alimentação a ser
nais de problemas emocionais num grupo de crian- utilizada com adultos. Entretanto, seria necessário
ças obesas, comparadas com um grupo de não obe- adaptar essa escala para crianças e pré-adolescentes
sas. No que tange à identificação de problemas emo- pois, ela é útil na previsão do engajamento das pes-
cionais, numa análise qualitativa das produções do soas a programas de reeducação e modificação do
DFH, verificaram-se sinais semelhantes aos encon- comportamento alimentar, com vistas à perda de peso.
trados por Venturini (2000). Quanto à ansiedade, encontrou-se que a mai-
A literatura sobre obesidade e distúrbios ali- or parte do grupo apresentou escores abaixo do es-
mentares tende a focalizar mais as mulheres e meni- perado para a população desta faixa etária. Seria essa
nas adolescentes, sobretudo, porque os estudos vêm uma tendência: apresentar níveis reduzidos de ansi-
demonstrando uma evolução negativa para distúrbi- edade enquanto traço?
os mais severos como a bulimia e a anorexia, cuja Pode-se supor, como Kahtalian (1992), que a
prevalência é maior em mulheres (Candy & Fee, obesidade tem em si a função de conter toda a ansi-
1998). edade e angústia não permitindo sua manifestação
Outro fator que parece relacionar-se à pouca através de um instrumento de auto relato?
atenção dada aos meninos foi mostrado no trabalho Os resultados obtidos através da Escala da
de Pierce e Wardle (1993) quanto à apreciação dos Mentira permitem dizer que as crianças responde-
pais com relação à imagem corporal de seus filhos e ram de forma adequada. Infere-se, portanto, que não
sua relação com a massa corporal e a auto estima. ofereceram respostas que julgavam socialmente cor-
Estes pesquisadores encontraram que, para os meni- retas e aceitas. Entretanto há, ainda, que lembrar que
nos, uma baixa auto-estima esteve relacionada com os resultados mostram variações individuais e alguns
o sentir-se magro e ser avaliado como magro. Para sujeitos mostram sinais mais evidentes de ansieda-
as meninas esta associação se faz com o ser gorda. de.
O presente estudo, no entanto, apresentou al- Finalizando, os resultados parecem sugerir
que não há, em relação a traços mais estáveis de per- tos gerais das escalas de avaliação de ansiedade.
sonalidade, como o locus de controle, tendência uni- Revista de Psiquiatria Clínica, 25, n.6, p.285-
lateral para externalidade ou internalidade. 290.
Quanto à ansiedade encontrou-se uma propor-
Azevedo, M.A.S.B. (2000). Obesidade na infância:
ção de sujeitos com níveis abaixo da média, embora
visão psicológica [Resumo]. Em José Onildo B.
a maior parte esteja apresentando resultados compa- o
Contel (Org.). Anais do 8 Ciclo de estudos em
tíveis com o esperado para sua faixa etária.
saúde mental (p.280), Ribeirão Preto: Pós-Gra-
De outro lado, utilizando o DFH, que apreen-
duação em Saúde Mental - FMRP-USP.
de aspectos situacionais, verificou-se sinais de ima-
turidade emocional, como manifestação atual na di- Balch, P. & Ross, A.W. (1975). Predicting success
nâmica intrapsíquica, também para alguns indivídu- in weight reduction as a function of locus of
os. control: a unidimensional and multidimensional
Acredita-se que tais resultados estejam indi- approach. Journal of Consulting and Clinical
cando que nem sempre ser gordo se faz acompanhar Psychology, 43, 119.
de traços de personalidade que definam um perfil, a Campos, A.L.R. (1993). Aspectos psicológicos da
despeito de alguns indivíduos estarem apresentan- obesidade. Pediatria Moderna, 29 (2), 129-133.
do, no momento da avaliação, sinais indicativos de
problemas emocionais. Candy, C.M. & Fee, V.E. (1998) Underlying
Pode-se concluir neste estudo, que não há di- Dimensions and Psychometric Properties of the
ferenças entre pré-adolescentes obesos e não obe- Eating Behaviors and Body Image Test for
sos quanto às variáveis medidas. Ainda, no âmbito Preadolescent Girls. Journal of Clinical Child
deste trabalho, não se verificaram diferenças entre Psychology,27, n.l, p,117-127.
meninos e meninas. Contudo, chamou a atenção os Escrivão, M.A.M.S. & Lopez, F.A. (1995). Prog-
dados relativos à presença de meninos com indica- nóstico da Obesidade na Infância e na Adoles-
dores emocionais acima do esperado e a ausência cência. Em Fisberg, M. (Org.), Obesidade na
deles para as meninas. Isto sugere a necessidade de infância e adolescência (pp.146-148). São Pau-
maior atenção aos meninos em relação às condutas lo: Fundação BYK. Cap.2.
alimentares. Além disso, verificou-se que alguns in-
divíduos apresentaram sinais de sofrimento psicoló- Feres, N.A.L. (1981). Locus de controle e compa-
gico que demandaria atenção. Considera-se que es- ração social na atribuição de causalidade por
tudos desta natureza sejam relevantes para elucidar crianças. Tese de Doutorado Não-Publicada,
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