Вы находитесь на странице: 1из 2

Resenha

VOEGELIN, Eric. Ordem e história. Platão e Aristóteles (vol. III), São Paulo: Ed.
Loyola, 2010, p. 445.

No volume III de Ordem e histó- Leis. A segunda parte, dedicada ao pen-


ria, Eric Voegelin dá continuidade à samento de Aristóteles, compõem-se de
investigação sobre a polis iniciada no quatro eixos-temáticos: primeiramente,
volume II. O objetivo é o mesmo das comparam-se ambos os filósofos gre-
obras anteriores e posteriores a Platão gos; em seguida, discute-se o alcance
e Aristóteles: elaborar “uma investigação da ciência política em Aristóteles;
filosófica concernente aos principais avança-se no tratamento da natureza
tipos de ordem da existência humana da polis, no qual a reflexão de Voe-
na sociedade e na história, assim como gelin concentra-se na Política II para,
as correspondentes formas simbólicas”, finalmente, examinar a distinção entre
como ele mesmo diz (p. 54). ordem e natureza. Aqui, formula-se o
Para Voegelin, a forma simbólica aparato conceitual sobre o qual a inves-
da polis é a filosofia, e esta tem uma tigação voegeliniana procura registrar
pré-história que remonta a pensadores a realização da ordem aristotélica, cuja
como Xenófanes, Heráclito e Parmê- importância é dada à constituição e aos
nides, tratada em O mundo da polis. cidadãos: respectivamente como forma
Contudo, é Platão quem resgata esse e matéria da ordem aristotélica da polis.
simbolismo das mãos dos sofistas, que Em relação aos diálogos platônicos,
pretendiam destruí-lo, como escreve o Voegelin não procura extrair deles uma
editor Dante Germino na introdução “filosofia” ou “doutrina”, mas o modo
(p. 13-14). Isso não significa que os como o filósofo resistiu à desordem
sofistas não tiveram importância para de Atenas e de outras poleis helênicas,
o desenvolvimento da filosofia ao expressa, por exemplo, na condenação
proporem uma educação, uma ética de Sócrates à morte. Nesse sentido, todo
e uma política, mas que foi Platão o o esforço de Platão consiste em “res-
responsável por apresentar uma ordem taurar a ordem da civilização helênica
para a polis, tarefa mais tarde seguida por meio do amor à sabedoria” (p. 65).
por Aristóteles. Essa importância con- Desse modo, os diálogos são símbolos
ferida à filosofia platônica também dessa nova ordem.
é revelada na estrutura do livro, que Além disso, do ponto de vista meto-
reserva maior atenção aos diálogos de dológico explica-se que “os grandes
Platão, comparativamente ao tratamento problemas de Platão [...] não são blocos
do pensamento político de Aristóteles. de significados trancados nas subdivi-
A primeira parte é subdividida em sões de seu esquema, mas linhas de
seis capítulos, que tratam respectiva- significado que percorrem o seu cami-
mente da Apologia, Górgias, República, nho intricado ao longo de toda obra” (p.
Fedro e Político, Timeu e Críticas, e 112). É, por exemplo, nessa perspectiva

HYPNOS, São Paulo, número 25, 2º semestre 2010, p. 252-253


que se propõe a interpretação da Repú- cresce em oposição aos muitos eide de 253
blica (p. 113 ss.). Segundo Voegelin, desordem na alma” (p. 123).

Resenha
toda a história do drama é enunciada na Por isso, como sublinhamos acima,
abertura do diálogo, a descida de Sócra- a filosofia não pode ser vista como
tes ao porto de Atenas. Num ambiente uma doutrina da ordem reta, mas “a
sujo os artistas promoveram um festival luz da sabedoria que incide sobre a
tão bom quanto o dos atenienses, fato luta; e a ajuda não é uma informação
que surpreende a Sócrates. O filósofo é sobre a verdade, mas o esforço árduo
impedido, por seus amigos, de retornar para localizar as forças do mal e iden-
ao Partenon da era de Maratona. Sob tificar a sua natureza” (p. 122). Platão
essas condições, tem-se o começo da retoma o sentido de aletheia presente
“subida espiritual pela construção em na tradição dos “filósofos-místicos”,
palavras da politeia erigida no céu que na terminologia voegeliniana, e dos
deve se tornar o modelo para as almas poetas desde Hesíodo segundo os
daqueles dispostos a responder ao cha- quais a verdade era experimentada em
mado divino” de realizar uma conversão oposição às convenções da sociedade.
interior. Toda essa abertura sintetiza Decorre disso a necessidade de explorar
a finalidade da República: apresentar os pares conceituais (justiça-injustiça,
“uma forma simbólica da vida boa” – saúde-doença, por exemplo) para mar-
como explica Germino (p. 19). car posição contrária à sua época, em
especial à dos sofistas.
Mas como a República simboliza
A interpretação voegeliniana dos
essa ordem reta para a polis? Antes de
diálogos platônicos supera, em exten-
tudo, é preciso reconhecer que a ordem
são, o seu exame da filosofia política
platônica não é apresentada como um
aristotélica. Contudo, as páginas dedica-
“estado ideal”, e, nesse sentido, Platão
das a Aristóteles oferecem uma síntese
e Aristóteles nada têm de “moralistas”,
igualmente crítica e profunda, dentro
no sentido de imporem virtudes para o
da proposta de investigação filosófica
restante dos cidadãos. Mas, ao contrário,
do autor. Recai sobre a primeira parte
buscam compreender o ser humano
do livro o maior número de críticas à
na diversidade e dinamismo em que interpretação do pensamento platô-
vivem. Daí entenderem que a realização nico, debate resumido por Germino na
das virtudes pode dar-se em diferentes introdução (p. 39-47). De todo modo,
graus (p. 16-17). qualquer avaliação que se possa fazer
Seguindo essa compreensão, temos da reconstrução voegeliniana da expe-
que a ordem reta da polis emerge em riência humana por meio dos símbolos
oposição à desordem da sociedade. em Platão e Aristóteles, em vista de cap-
Do mesmo modo que a “justiça não é tar a ordem presente na realidade, deve
definida no abstrato, mas em oposição considerar a intenção, o método e o
às formas concretas que a injustiça modo de argumentação empreendidos
assume”, também “os elementos da por Voegelin. Perspectivas de estudos
ordem reta são desenvolvidos em que essa edição reabre.
oposição concreta aos elementos de
desordem na sociedade circundante”. E, Anderson Felix
assim, Voegelin prossegue explicando: PUC-SP
“a forma, o eidos, da Arete da alma E-mail: felixander@gmail.com

HYPNOS, São Paulo, número 25, 2º semestre 2010, p. 252-253