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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Cartografias do convívio
Subjetivaçã o e E spaço na C asa que acolhe a R ua

Projeto de intervenção

Daniel De Lucca Reis Costa

O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível


de receber modificações constantemente. Ele contribui para a conexão dos campos, para o
desbloqueio dos corpos sem órgãos [ ] Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a
montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação
social. Pode-se desenhá-lo na parede, concebê-lo como obra de arte, construí-lo como uma
ação política ou como uma meditação. [ ] Um mapa tem múltiplas entradas [ ] é uma questão
de performance. (Deleuze e Guattari, Mil Platôs)

São Paulo
Julho de 2008

1
Introdução

Este projeto de intervenção tem como objetivo geral promover a reflexão


conjunta sobre as relações espaciais dos residentes de uma moradia provisória
localizada no centro de São Paulo. Como o processo educativo não é um fenômeno
puramente mental ou cognitivo, mas envolve de maneira crucial investimentos materiais
e concretos na transformação dos próprios objetos, assume-se aqui que as dinâmicas
relativas à produção e apropriação do conhecimento são sempre situadas, corporificadas
e marcadas por processos localizados e posicionados. Daí a importância de se
considerar a dimensão espacial, não só no processo de aprendizagem, mas no próprio
ato de pensar. Ato que transcorre num terreno marcado por posições, proximidades,
intervalos, domínios e fronteiras, variações que podem permitir ou impedir a visão de
um sujeito sobre um dado objeto (Haraway, 1995; Frago & Escolano, 2001).
Busca-se neste projeto promover dinâmicas e interações entre os participantes,
de modo a articular seus entendimentos espaciais sobre o corpo, a casa e a rua.
Recorrendo aos conhecimentos colocados em jogo pelos participantes, suas narrativas,
quadros mnemônicos e mapas afetivos, pretende-se relacionar e comparar diferentes
pontos de vista sobre os distintos espaços de vida e sítios da experiência. Espera-se que,
no interior dos intercâmbios, estes jogadores desenhem mapas mentais através de seus
saberes da experiência, traçando imagens e pintando seus territórios existenciais para,
ao longo das atividades, estas referências espaciais serem experimentadas, observadas,
cotejadas, contestadas e, quiçá, transformadas.
Apesar de o projeto possuir um caráter eminentemente educativo, sua finalidade
não é pedagógica ou manuducteur no sentido estrito. A intenção não é ensinar, instruir,
explicar algo, prever suas experiências ou então conduzir os participantes a um
conhecimento externo e supostamente superior. Trata-se, tal como O Mestre Ignorante
de Jacques Ranciére (2007), de provocar a vontade dos interessados através de uma
“ignorância audaciosa”, buscando coisas comuns entre inteligências, multiplicando estas
coisas e este solo comum, ampliando o território destas inteligências, competências e
potências, para ver o que daí sai de novo e o que daí se pode aprender e descobrir1.

1
Ao analisar a igualdade das inteligências e as estratégias de emancipação intelectual propostas pelo
revolucionário Joseph Jacotot, Jacques Rancière critica a “ordem explicadora” que impõe, pelo ato
pedagógico, precisamente uma desigualdade que busca superar, ato pedagógico que separa espíritos
maduros e imaturos, capazes e incapazes, sábios e ignorantes. Para o autor “a explicação não é necessária
para socorrer uma incapacidade de incompreender. É, ao contrário, essa incapacidade, a ficção

2
A casa que acolhe a rua

“A casa acolhe a rua”, programa social gerido pela Organização do Auxílio


Fraterno (OAF), é uma moradia provisória localizada na Baixada do Glicério, região
central de São Paulo. Apesar da localização central, ao lado da Praça da Sé, a dinâmica
urbana e as personagens que dão vida ao lugar – a forte presença de moradores de rua,
albergues, catadores de materiais recicláveis, depósitos clandestinos de recicláveis,
cooperativas, sem falar nas precárias condições de moradia, nas habitações ocupadas e
encortiçadas, na economia da droga e no conjunto das demais relações tidas como
informais, ilegais ou ilícitas – acabam por configurar a Baixada do Glicério como uma
“periferia do centro”. Não por acaso as autoridades públicas atuais classificaram o
Glicério, assim como a já conhecida “Cracolândia”, como uma das duas “regiões-
problema” do Centro. E é nesta região que se localiza esta moradia provisória, espécie
de república voltada às pessoas em “situação de rua”.
Cada vez mais, em São Paulo e no Brasil, as vidas de rua figuram como
elementos constituintes das paisagens das grandes metrópoles. O crescimento
exponencial deste contingente, sua presença maciça nos espaços públicos, a miséria que
expõe e a radicalização da questão social que expressa, colocam a população de rua
como um dos grandes desafios a ser enfrentado neste século não só pelas políticas
públicas e pelas novas formas de governança urbana, mas também pelos novos padrões
de civilidade e sociabilidade de rua a serem criados nas cidades.
No caso brasileiro, a população de rua, tal como hoje concebemos, aparece
enquanto idéia e realidade na passagem da década de oitenta para noventa (Vieira;
Bezerra; Rosa, 1994), como uma categoria estatal e estatística, uma forma de
problematização particular agenciada por múltiplos entrelaçamentos institucionais,
discursos religiosos e de saber, manifestações políticas e racionalidades governamentais
formatadas especificamente para lidar com este fenômeno. Um fenômeno que, cada vez
mais, foi sendo tratado em termos de massa (De Lucca, 2007). Embora a definição da
população de rua, enquanto uma classe de sujeitos “problemáticos” e “em situação de
risco”, seja controversa e instável desde seu nascimento, pelo menos quatro
características mais genéricas balizam discursivamente aquilo que seria o perfil deste

estruturante da ordem explicadora de mundo. É o explicador que tem necessidade do incapaz, e não o
contrário, é ele que constitui o incapaz como tal. Explicar alguma coisa a alguém é, antes de mais nada,
demonstrar-lhe que não pode compreendê-la por si só” (Rancière, 2007:23).

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heterogêneo grupo populacional: pobreza extrema; inexistência de residência
convencional e uso dos logradouros públicos ou abrigos como moradias temporárias ou
permanentes; vínculos familiares interrompidos ou fragilizados; e relações precarizadas
de trabalho ou ausência completa de emprego. Junto a estas caracterizações aderem-se
outros elementos estigmatizadores que, no final das contas, terminam por dar o sentido
de fundo presente no conjunto dos discursos voltados a este público-alvo: mendicância,
alcoolismo, drogadição, loucura, degeneração, incapacidade, sujeira, preguiça e, até
mesmo, perigo2.
Seja como for, o modelo de coabitação e convívio proposto pelas “moradias
provisórias” só foi reconhecido e tornou-se uma política pública efetiva a partir da
gestão municipal de Marta Suplicy (PT, 2001-2004), quando foi regulamentada a
primeira Lei Municipal de Atenção à População de Rua. No entanto, ainda hoje, a
principal política pública voltada para esta questão social permanece sendo a criação e a
multiplicação dos albergues. Espaços institucionais estes que, apesar de serem semi-
fechados, são muito próximos àqueles estudados por Erving Goffman (1974) e Michel
Foucault (2001).
Nos albergues as normas são rígidas e as relações humanas mais impessoais. Os
mecanismos de seleção e codificação do albergue acabam por definir os diversos
estágios da vida dos usuários, os diferentes graus de “autonomia”, recortando e
construindo “categorias-tipo” dentro deste grupo populacional. As explicações para a
“situação de rua” são extraídas dos usuários, examinadas, filtradas e registradas num
processo maquínico contínuo. No albergue se tem horário definido para entrar, comer,
ver televisão, dormir, acordar, comer e sair de novo. Também os albergados são
marcados por números, possuem uma identificação institucional, assim como suas
camas, seus arquivos, seus registros individuais e seus pertences no maleiro. Lá os
corpos são todos bem distribuídos em filas, colunas, séries e disposições num minucioso
esquadrinhamento do espaço e do tempo da instituição.

2
Dada a complexidade do fenômeno (a multiplicidade de determinantes) e a simplicidade de sua definição
(os adjetivos pueris que a acompanham), neste trabalho considero a classificação população de rua como
uma etiqueta e um estereótipo. Na medida em que sua nomeação revela um sujeito, trazendo-o à
superfície do discurso e ao conhecimento de todos, esta categoria também termina por configurar-se
enquanto um desconhecimento, já que chapa, fixa, decalca e trata de maneira homogênea uma enorme
pluralidade de percursos de vida, práticas de saúde, experiências de rua e de casa, trajetórias familiares,
escolares e profissionais. Assim, de modo a não reforçar o preconceito e o estigma que marca todo este
contingente populacional, neste trabalho evito, dentro do possível, nomear os sujeitos do projeto através
desta categoria.

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Embora diferentes e demarcados, o albergue e a moradia provisória possuem
fortes relações de contigüidade e troca. Ambos fazem parte da rede de serviços e de
atenção à população em situação de rua na cidade de São Paulo, a maior da América
Latina desse tipo. No entanto, o sistema albergal é o aparato predominante e a principal
peça institucional desta rede, enquanto a moradia provisória apresenta-se como uma
experiência marginal, senão residual, no conjunto dos serviços e práticas desenvolvidas
na rede.
“A casa acolhe a rua” foi o primeiro programa de trabalho com a população de
rua desenvolvido nos moldes de uma república, lugar onde o espaço de moradia é
comum e auto-gerido por seus residentes. Também foi esta experiência inaugural que
serviu de referência para o posterior estabelecimento de uma política pública deste tipo.
Atualmente, este programa de moradia provisória é composto por um conjunto de seis
casas geminadas, seis casinhas antigas que foram construídas na passagem para o século
XX. Em sua capacidade máxima, o conjunto destas casas atende 44 pessoas, sendo que
destas apenas 4 são mulheres. Esta proporção desigual de gênero corresponde
justamente à esmagadora presença dos homens neste grupo populacional. Em cada casa
moram oito pessoas, com exceção de duas casas onde moram dez pessoas e de uma que
serve como “centro comunitário”, espaço de referência, convívio e troca entre o
conjunto dos residentes. Também é neste centro comunitário que permanecem os dois
funcionários que participam na organização do projeto, uma coordenadora e um
educador. Neste espaço há um pátio com televisão, mesa, cadeiras, um fogão, um forno
a lenha, pia para lavar louça, lousa, banheiros, uma pequenina biblioteca, além de duas
pequenas salas, uma funcionando como escritório do projeto e outra para acesso à
internet para os moradores. E é nesta casa, neste centro comunitário, que as atividades
aqui propostas seriam desenvolvidas.
De maneira geral, em São Paulo, a procura por moradias provisórias é sempre
maior do que a oferta. Isso por que nestas casas os usuários se vêem em “condições
muito mais dignas que nos albergues”, como um albergado me explicou. Enquanto nos
albergues a população é literalmente gerida em massa, por operações e mecanismos
impessoais, nas moradias provisórias os modos de organização interna aproximam-se
muito mais de um modelo auto-gestionário, ainda que não completamente. Numa
conversa com Juliana, coordenadora do programa “A casa acolhe a rua”, ficamos
sabendo um pouco mais sobre o funcionamento desta moradia provisória, os

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mecanismos de seleção dos moradores, a mediação dos conflitos internos e a regulação
dos problemas cotidianos3.

Aqui, as pessoas vêm encaminhadas pelos albergues, pela rede de


albergues. O albergue é maior, ele acolhe todas as pessoas. Já a
moradia só acolhe pessoas que já estão trabalhando, pessoas que têm
uma renda mínima, que têm uma alternativa. Não precisa ser um
trabalho registrado, algo formal, nem nada. A pessoa tem que ter um
ganho financeiro de alguma forma. Ele precisa ter um certo controle
com o uso de bebida alcoólica, também, né? Já a droga, é meio
complicado, porque o controle é mais difícil da pessoa ter. Então a
pessoa precisa ter uma relação legal com o trabalho e com o uso de
todas estas coisas, álcool, drogas, enfim. A pessoa precisa ter uma certa
estabilidade para vir para cá.
Este projeto funciona em parceria, parte o projeto oferece e parte eles
são responsáveis. Eles são responsáveis pela limpeza, pela organização
da casa. Eles são responsáveis pela alimentação, cada um cuida de sua
alimentação. (...)

Eles fazem um pagamento de 50 reais por mês. A gente fala que é uma
contribuição. E este dinheiro é reinvestido no próprio projeto, nos
gastos coletivos. E o que que é gasto coletivo? É produto de limpeza,
gás para cozinhar, essas coisas. Aqui eles fazem a própria limpeza das
casas. Tem casa que se organiza bonitinho e tudo mais, fazem a escala
(da limpeza) e põem na parede. E tem casas que eles pedem para nós
irmos lá, fazer a escala. Tem casa que pede para eu carimbar para a
escala valer de verdade. Só vale a escala quando tem um carimbo. Cada
casa tem um jeito de funcionar, cada casa estabelece entre eles um
esquema. Mas quando a gente vê que eles estão muito rígidos e duros, a
gente tenta deixar, flexibilizar, dizer: “vocês podem fazer do jeito de
vocês”, “o que vocês dizem pode valer, não é o que eu digo, eu não to
aqui, eu não durmo aqui, quem dorme são vocês”. (...)

Porque eles fazem caminhos muito individuais. Eles não têm essa coisa
de “vamos cozinhar todos juntos!”. A gente até que estimula, mas aí dá
confusão por que “fulano comeu a mais”, “Não vou sustentar fulano!”.
Até acontece, assim, de alguém que não sabe cozinhar, então ele paga a
comida, o outro cozinha e lava a louça. Então é meio que uma troca. Só
que às vezes acontece de tudo mudar, aí eles já brigam e já acaba a
história de troca. Um rouba o danone do outro, come a comida do outro.
Mas essas coisas têm diminuído, não é com freqüência. Eles têm
conseguido se entrosar mais. Eu falo: “se vocês se entenderem lá dentro,
conseguirem ficar bem, beleza, maravilha. Eu vou lá faço uma visita (na
casa), bato um papo com vocês e tchau. Se vocês não se entendem, aí eu
tenho que ir lá e é chato.” (...)

3
Juliana foi entrevistada por mim e Robert Cabanes no dia 28/05/2008, no centro comunitário da moradia
provisória, em seu horário de trabalho. Aproveito para agradecer a atenção prestada, as explicações
gentilmente detalhadas e o rico relato fornecido, que neste ensaio apenas figura parcialmente.

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E na verdade o que é mais complicado, eu sempre digo para eles logo na
entrevista (de admissão): é o desafio da convivência. Porque no
albergue eles têm regras, horários, de entrada, de saída. As regras são
mais rígidas. Por outro lado, as regras são importantes como uma forma
de prepará-los para vir para cá. Porque aqui é mais flexível. Aqui ele já
tem as chaves, ele entra e sai a hora que ele quiser. Mas ele não pode
levar visitas, levar estranhos na casa. Então ele precisa saber da
importância da chave, de ter uma chave, de estar na casa, de não
comprometer o convívio com os demais. Porque se não se compromete,
aí ele chega tarde e causa bagunça. E já sabe: bebe, fez bagunça,
acende a luz e acorda todo mundo. Maior bagunça. Ou então, não lava a
louça, faz comida e larga tudo sujo. São coisas muito do cotidiano, as
discussões são sempre em torno do cotidiano: não lavou a louça, não fez
a limpeza, levou uma estranha para dentro da casa. Ou então, ninguém
dormiu aquela noite porque a pessoa estava muito alcoolizada. (...)

Mapeamentos cognitivos e cartografias do convívio

No decorrer do relato, Juliana pontua o convívio como principal campo de tensão


no qual gravitam os dissensos e os conflitos entre os residentes. Conflitos não só
presentes nas “escorregadas” dos moradores, quando porventura bebem ou levam
alguém de fora, mas no âmago do dia-a-dia: no interminável jogo das relações de
proximidade entre os corpos; na minúscula disputa pela melhor posição dos cômodos no
quarto; na preocupação em torno do melhor lugar para se pendurar roupa no varal; no
uso “inadequado” dos objetos alheios; na louça suja; na comida estragada; no rádio que
está alto; na cama desarrumada; na toalha molhada; no sapato que cheira; no outro que
não toma banho; naquele que não tranca a porta; naquela incômoda mania do estranho
companheiro de quarto. Tudo isso, e mais um pouco, é motivo para olhares,
interpretações, mal entendidos, inquirições, reclamações, negociações, conversas e mais
conversas.
No entanto, estas microconflitualidades não operam unicamente nas casas, na
vida doméstica das residências. Elas penetram em boa parte da vida social da metrópole.
Assim, o residente da moradia provisória também vive a experiência urbana, convive
com a cidade: enfrenta o desafio da coexistência humana, do entrelaçamento dos
diferenciados fluxos de informações, do circuito das mercadorias, da multidão e do
aglomerado de estranhos, dos dispositivos de identificação e das normas de acesso. Os
residentes encontram-se nas tramas da cidade, circulam pelos espaços urbanos, lutam

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por recursos e possibilidades, traçam percursos privilegiados, conhecem lugares, são
barrados, promovem desvios táticos, identificam limites e bloqueios, e, por fim,
constroem uma paisagem que lhes é própria.
Estes saberes que provêm da experiência, saberes locais, menores, singulares e
diferenciais – ainda que incapazes de uma linearidade, uma sistematicidade disciplinada
e um funcionamento unívoco – são poderosas fontes de conhecimento e constituem
aquilo que poderíamos chamar de mapas cognitivos (Gregory, 1994). Todos nós
necessitamos de mapas cognitivos para transpor o ambiente espacial em que nos
encontramos. Estes mapas são também mapas afetivos, já que marcados por conteúdos
altamente subjetivos, tais como os lugares dos desejos e dos medos, dos amores e das
dores, do encontro e da renúncia. As coordenadas e referências práticas de orientação
espacial, urdidas e atualizadas no decorrer da vida cotidiana, compõem mapas
cognitivos e estão diretamente implicadas em políticas de visão, na capacidade de
contemplar, enxergar e manter certos pontos de vista em relação a outros e em relação
ao mundo (Geertz, 2003, Haraway, 1995).
De fato, todos estes conhecimentos sobre locais e localizações são sustentados
por experimentações práticas, pelo registro das experiências mais marcantes, aquelas
que ficaram e resistiram ao tempo. Como comenta Bernard Lepetit a respeito da obra de
Maurice Halbwachs: “o território é essencialmente uma memória, e seu conteúdo é todo
constituído de formas passadas” (Lepetit, 2001:149). No entanto, a memória é seletiva e
a lembrança tem um papel tão importante quanto o esquecimento. Por isso, as formas
passadas não estão prontas nem dadas de antemão, mas são continuamente
presentificadas pelos quadros sociais da memória, figurações vivas e dinâmicas
atualizadas de acordo com as vontades e necessidades do “aqui agora”. Neste processo a
experiência “já vivida” é desentranhada do passado e lançada para o futuro pelo desejo
pulsante que sempre acompanha o presente em andamento. Através de uma adaptação,
ativa a memória, ao se aderir aos lugares, orquestra e orienta novas práticas, e, ao
mesmo tempo, as imagens espaciais registradas são testadas, reinterpretadas,
transformadas e ganham maior flexibilidade. Assim, os enquadramentos mnemônicos
participam ativamente na construção destes mapas cognitivos e destes conhecimentos
sobre as relações espaciais e as diferentes formas de convívio nos espaços.
Nas atividades aqui propostas dá-se maior importância para a imaginação
geográfica dos participantes do que para as formulações disciplinares das ciências
espaciais, por isso os produtos dos trabalhos serão tratados em termos de narrativas

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espaciais. Estas narrativas serão basicamente compostas por desenhos representando
espaços e relações espaciais especificadas. Deste modo, as atividades buscam valorizar
os saberes locais, registrando-os através de traços, cores, formas, símbolos e palavras.
Estes documentos cartográficos são a própria materialização de uma memória e de um
pensamento sobre o espaço e suas relações, são relatos de espaço que nos falam sobre os
territórios existenciais destes sujeitos, nos informam sobre a experiência do convívio e
sua cartografia.
De modo geral, buscar-se-á representar e qualificar os espaços da vida cotidiana,
identificar os lugares queridos e malditos, registrar os pontos de tensão e as zonas de
conflito, delimitando as fronteiras em jogo. Longe dos discursos disciplinares, as
narrativas espaciais, que se busca aqui mobilizar, são mapeamentos cognitivos,
cartografias acopláveis, mutantes e mutáveis, interpretações móveis e leituras
particulares sobre o mundo. O trabalho sobre estas narrativas busca reativar estes
saberes sujeitados, interpelar as memórias locais, dessujeitar estes saberes menores e
estes conhecimentos desqualificados pela hierarquia da ciência. Nas palavras de
Foucault: “trata-se, na verdade, de fazer que intervenham saberes locais, descontínuos,
desqualificados, não legitimados, contra a instância teórica unitária que pretenderia
filtrá-los, hierarquiza-los, ordená-los em nome de um conhecimento verdadeiro”
(Foucault, 2002:13).

Atividades programadas

Além de praticar propriamente o exercício da representação do espaço e suas


relações, a seqüência das atividades busca exercitar a prática da exposição, da escuta, da
interpretação e do diálogo coletivo. Sempre após a produção de um mapa se abre um
momento especial para cada participante expor e explicar seu trabalho. Após as
apresentações os mapas vão circular entre os participantes para serem observados,
decifrados, relacionados, comparados e comentados pelos companheiros. Espera-se que
o grupo de trabalho não ultrapasse o número de oito pessoas e que todos os integrantes
participem de livre e espontânea vontade. O material utilizado nas atividades será
basicamente cartolina, lápis, canetas e giz de cera. O tempo total estimado do projeto
serão vinte e uma horas, possuindo sete encontros de cerca de três horas cada.

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O projeto é composto por diferentes etapas. Serão trabalhadas representações
espaciais através de registros cartográficos, imagens e formas espaciais desenhadas
livremente de acordo com os valores atribuídos à experiência cotidiana do convívio, às
relações de proximidade e distância dos objetos e dos sujeitos representados. Alguns
dos espaços desenhados livremente também serão visitados para uma posterior
discussão coletiva.

Atividade 1 - O mapa do corpo


O corpo do participante, seu nome, sua origem, sua trajetória, suas habilidades e
seus significados, serão os temas na criação destes mapas. Na cartolina os participantes
farão o desenho de si mesmos, pintando e registrando os conteúdos de sua pessoa,
pintando uma cartografia do eu na qual figurem os componentes que mais gostam ou
que menos gostam, aquilo em que acreditam, suas vontades, aquilo que almejam e
procuram. Alvo de poder e foco de resistência, o corpo é o espaço físico primário da
identidade pessoal, lócus em torno do qual as definições de doença e saúde são
construídas e superfície imediata onde se manifesta o prazer e a dor (Butler, 2001). O
mapa do corpo aqui proposto não diz respeito a um estudo de anatomia humana, mas à
possibilidade de apresentação dos participantes para si mesmos e para os outros. Esta
espécie de auto-retrato permite a reflexão sobre os sentidos do corpo e da vida, permite
construir um primeiro mapeamento do sujeito e de sua situação no mundo.

Atividade 2 – O mapa do centro comunitário


Esta atividade busca trabalhar o espaço do centro comunitário, as reuniões e as
atividades coletivas lá desenvolvidas. Os temas a serem desenhados giram em torno da
sala de reuniões, sua localização, sua função no conjunto da casa, seu tamanho, os
objetos que comporta e aquilo que porventura lhe falta. Esta atividade busca: situar os
participantes e as atividades no interior do centro comunitário, ponderar sobre a
comunidade de sentido produzida na troca e interação, discutir sobre as melhores ou
piores condições de intercâmbio e diálogo, refletir sobre as possibilidades de uso deste
espaço e de sua otimização, pensar como as formas espaciais incidem sobre os
processos coletivos e balizar a importância do círculo enquanto princípio de igualdade e
de reconhecimento mútuo.

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Atividade 3 – O mapa da casa
Neste encontro busca-se refletir sobre o espaço interno das casas, sua
organização e distribuição, os residentes de cada casa, a divisão dos quartos, seu
funcionamento, suas diferentes regras, os diversos modos de geri-la, suas
particularidades e suas semelhanças. A casa é normalmente concebida como o lócus da
reprodução individual e social. Comer, dormir, limpar, criar filhos, fazer sexo e as
necessidades fisiológicas são atos rotineiros baseados – mas não exclusivamente
praticados – no lar e em torno dele. No caso das pessoas com experiência de rua, as
práticas da reprodução pessoal facilmente extrapolam o espaço doméstico, de modo que
a importância da reflexão sobre a casa coloca-se como uma questão relevante a ser
debatida. Esta atividade não busca domesticar os participantes nem ensinar para eles o
que é ou deveria ser um lar. Longe de ideais normativos, a feitura do mapa da casa
permite cartografar as relações concretas e as questões mais importantes envolvidas na
manutenção cotidiana de cada casa, bem como situar o autor dos mapas, e seu corpo, no
espaço da casa.

Atividade 4 – Visitando a casa


Esta atividade está diretamente conectada com a anterior e dela decorre. Aqui os
participantes serão anfitriões e receberão seus companheiros em suas próprias casas,
apresentando o espaço e explicando seu funcionamento. Esta atividade tem dois
objetivos imediatos: permitir uma reflexão comparativa entre as representações
cartográficas produzidas e a vida concreta das casas; e possibilitar que os residentes
tenham acesso e conheçam as casas de seus companheiros, observando diferentes
formas de organização doméstica.

Atividade 5 – O mapa do Centro


O quinto encontro busca mapear a região central da cidade, suas relações com a
Baixada do Glicério, a localização da moradia provisória neste território, a situação dos
participantes no conjunto desta malha urbana, seus itinerários e os lugares mais
significativos. As pessoas mais diretamente envolvidas com o universo das ruas têm no
deslocamento espacial uma de suas características mais marcantes. Circula-se
continuamente em busca de “bocas de rango”, “bicos”, bebidas, amigos, pernoites, sem
falar nas táticas de fuga e desterritorialização articuladas em face das violências –
simbólicas e materiais – a que estas pessoas estão cotidianamente sujeitas. Este tipo de

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nomadismo urbano – a chamada “viração” e outras formas de mobilidade que lhe são
próprias – acaba por construir uma relação muito específica e um conhecimento muito
singular sobre o espaço urbano e público da cidade (Frangella, 2005). O mapa do
Centro busca explorar este rico conhecimento territorial, registrando percursos de
acesso, traçando rotas de circulação e trajetos urbanos privilegiados que ajudem a
compreender o lugar da moradia provisória e de seus residentes na região central da
cidade.

Atividade 6 – Explorando o Centro


Esta atividade é decorrente da anterior e busca “experimentar” alguns itinerários
propostos nos mapas do Centro e visitar os lugares já assinalados e debatidos. Aqui se
pretende montar trilhas exploratórias e derivas psicogeográficas capazes de lançar novos
entendimentos sobre os espaços já conhecidos. Aqui, também se busca exercitar o
raciocínio comparativo e um olhar mais atento para o ambiente espacial de modo a
refletir sobre aquelas coisas que nos passam despercebidas no decorrer da vida cotidiana
na cidade.

Atividade 7 – Avaliação e confraternização


O último encontro pretende refletir sobre o conjunto das atividades, pontuar os
elementos mais importantes e as descobertas reveladas ou ainda por se revelar na
seqüência das atividades, bem como levantar as dificuldades e as sugestões de melhoria
do projeto. Também este encontro é um importante momento de celebração e
confraternização no qual os participantes podem se divertir e traçar abertamente suas
impressões sobre a experiência do convívio.

Corpo, grupo, casa, rua:


escalas da experiência e modos de subjetivação

Tanto geógrafos, quanto antropólogos e historiadores, têm afirmado que a


variação de escalas, ao trabalhar com contextos de diferentes dimensões e proporções,
oferece um poderoso instrumento de reflexão, visto que a mudança de perspectiva que a
escala suscita causa um estranhamento e permite, em alguns casos, inverter o ponto de
vista sobre o mundo social (Revel, 1998, Smith, 2000). As atividades aqui propostas

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buscam trabalhar diferentes escalas da experiência social de modo a problematizar a
posição do próprio sujeito-participante, objetivando o jogo de relações em que se
encontra. E a posição que os sujeitos ocupam não pode ser tratada como um espaço
social homogêneo. Por isso a importância em trabalhar o sujeito através de vários
níveis: sua relação consigo, com os outros, com a moradia e com a própria cidade.
Parte-se da hipótese que uma reflexão sobre o espaço corporal, seu lugar no grupo, na
casa e na rua, bem como sobre suas relações com o espaço privado e público, permite o
desdobramento de novos modos de subjetivação.
Michel Foucault concebe a subjetivação como um modo de objetivar o próprio
sujeito através de uma relação de si consigo. As diversas formas de problematização da
experiência induzem normalmente a modos também diferenciados de subjetivação
numa complexa dinâmica. Segundo o pensador: “é a experiência, que é a racionalização
de um processo ele mesmo provisório, que redunda em um sujeito, ou melhor, em
sujeitos. Eu chamaria de subjetivação o processo pelo qual se obtém a constituição de
um sujeito, mais precisamente de uma subjetividade, que evidentemente não passa de
uma das possibilidades dadas de organização de uma consciência de si” (Foucault,
2004a:262).
Vemos, portanto, que esta dobra do sujeito sobre si mesmo pode se realizar em
várias escalas: no recinto primário do corpo, na situação imediata da troca, no terreno da
vida doméstica e no próprio espaço urbano aberto. E todas estas escalas podem ser
cartografadas, buscando sempre situar o sujeito no conjunto das relações representadas.
É, portanto, a partir destas reflexões e destas diferentes voltas sobre si, destas diversas
grafias e escritas de si, que o conjunto das atividades aqui programadas busca trabalhar
os territórios onde se desenrolam e se criam novos modos de subjetivação.
Acredito que este tipo de trabalho, ao valorizar os conhecimentos locais e
mobilizá-los, partilhá-los e registrá-los ao gosto do narrador, permite alargar não só o
repertório de linguagens (não só cartográficas), mas fundamentalmente proporcionar
uma ampliação dos conhecimentos de cada um a partir dos conhecimentos dos outros.
Conhecimentos e formas de entendimento sobre o convívio e os diversos espaços de
vida, sobre os sentidos da casa e do urbano, do privado e do público. Todas estas
práticas de localização dos sujeitos, que os mapeamentos e as discussões mobilizam,
implicam numa ética do cuidado de si, atitude entendida por Foucault como “prática de
liberdade” (Foucault, 2004b; Ramos do O, 2001). Uma prática que diz respeito a novas
formas de se relacionar com o mundo. Diz respeito a uma arte de governar não

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necessariamente os outros, mas de governar a si mesmo, de governar sua casa, de
governar melhor suas relações com os outros e com a própria cidade.

Referências bibliográficas

Bastos, C.; Toseli, C.; Aquino Jr., F.; Bove, M.; Oliveira, M.; Manoel, R. Pastoral da
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