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ANTROPOLOGIA E FILOSOFIA POLITICA: UMA RELAGAO ESTRANHA? OU COMO ANALISAR CONTROVERSIAS ENTRE CIDADAOS SECULARES E RELIGIOSOS EM UMA DEMOCRACIA LIBERAL Cleonardo Mauricio Junior! Roberta B. C. Campos? Eduardo Henrique Gusmao® Resume: Levando em consideracao a presenga constante da religiio nos dilemas do século XI, questionamos neste artigo como deve se dar a anilise dos eventos que poem em rota de colisio as identidades religiosas e seculares no seio das democracias liberais. Reconhecendo que o tema em questo tem sido objeto privilegiado da Filosofia Politica, pretendemos nos perguntar até onde a Antropologia, que sempre privilegiou a descrigao etnografica como modo privilegiado de conhecimento, deve acompanhar uma ciéncia abertamente normativa no intuito de dar conta dos intimeros conflitos envolvendo a religido na esfera publica, Ao transpormos 0s termos da comparacao feita por Joel Robbins entre a Antropologia ca Teologia para a nossa contraposigio com a Filosofia Politica, pretendemos mostrar como a Antropologia Brasileira tem assumido contornos normativos em detrimento da autorreflexéo ao encarar os dilemas de abordar o fendmeno religioso na esfera piiblica diante das transformacées que a disciplina enfrenta, Palavras-chave: Religiao; Controvérsias; Antropologia; Filosofia Politica; Reflexividade. ' Doutorando no Programa de Pés-Graduagao em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco, E-mail: cleonardobarros@gmail.com PhD em Antropologia pela University of Saint Andrews. Professora Associada II do Departamento de Museologia e Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco © do Programa de Pés- robertabivar@gmail.com raduagio em Antropologia da mesma universidade. E-mail Doutor em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco, Professor Adjunto III do departamento de Psicologia da Universidade Federal de Campina Grande, E-mail: eduardo. henrique@ufcg.edu.br Depares po NER, Porto ALEGRE, ANO 18, N. 32, P. 143-170, JUL/DEZ, 2017 144 Cleonardo Mauricio Junior, Roberta B. C. Campos, Eduardo Henrique Gusmao Abstract: Taking into consideration the constant presence of religion in the dilemmas of the twenty-first century, we question in this article how the analysis of events that collide religious and secular identities within liberal democracies should be analyzed. Recognizing that the subject in question has been a privileged object of Political Philosophy, we want to ask ourselves how far Anthropology, which has always privileged ethnographic description as. a mode of knowledge, must follow an openly normative science in order to deal with the numerous conflicts involving religion in the public sphere. As we transpose the terms of Joel Robbins’ comparison between anthropology and theology for our contraposition to political philosophy, we intend to show how Brazilian anthropology has assumed normative contours to the detriment of self-reflection in addressing the dilemmas of approaching the religious phenomenon in the public sphere before the transformations that the discipline faces Keywords: Religion; Controversies; Anthropology; Political Philosophy; Reflexivity. Desares po NER, Porto ALEGRE, ANO 18, N. 32, P. 143-170, JUL./DEZ. 2017 ANTROPOLOGIA E FILOSOFIA POL[TICA: UMA RELAGAO ESTRANHA?, 145 No século XXI, discusses e debates que tomam a religiao como problema parecem ocupar todos os lugares. Artigos de jornais, documen- tatios, grupos de discussao on-line, blogs, cada um destes espagos e veiculos de comunicagio, na sua especifica esfera de atuagéo, busca transmitir a histéria ou narrativa mais envolvente ¢ atual sobre a questo religiosa. Sao frequentes, por exemplo, relatos que associam a religiio com atos de violéncia ou exploragdo. No tocante a esse aspecto, a consideragao de que atitudes motivadas religiosamente precisam ser levadas mais a sério, pelo fato da sua possivel associag4o com ideologias e agdes extremistas, é uma das expressées mais repetidas atualmente, seja em universidades ou em redagoes de jornais. Compreensivelmente, os episédios relacionados ao 11/09 deram voz e destaque a argumentos desta natureza. Nomes da ciéncia e da cultura como Richard Dawkins, Sam Harris, Christopher Hitchens, entre outros, estéo entre aqueles cujas consideragées denunciaram os riscos para o estilo de vida das sociedades ocidentais advindos de comunidades religiosas € defenderam a mecanica relagdo entre religido ¢ arcaismo, fé e sectarismo, crenga e violéncia. Pares, portanto, que compéem as pautas de intimeros programas e debates no mundo contemporaneo. Um olhar mais atento sobre essas questées, no entanto, revela o quio estreito e seletivo é 0 foco, seja midiatico ou académico, muitas vezes dirigido ao fendmeno religioso ¢ temas correlatos. De um ponto de vista metodo- légico, nao se costuma reconhecer, ou perceber, a diversidade intrinseca as manifestagées de um fendmeno social como a religiao. Ora, se as expecta- tivas acerca da modernizacio e do consequente desaparecimento da religio revelaram-se ingénuas, é porque o referido fendmeno, em diferentes fases da modernidade, adquiriu complexidade e relevancia. Logo, se hé talvez algum consenso no que diz respeito & religido, é que ela esta em todos os lugares. E, portanto, na diregao dessa constante presenga da religiéo nos dilemas e conflitos do século XXI que pretendemos apontar o foco neste trabalho. Tomamos como ponto de partida a constatac4o jd levantada por Casanova (1994) de que nas sociedades europeias ocidentais, no seio das quais o moderno processo de secularizacao se desenrolou, a religido nao foi mantida Depares Do NER, Porto ALEGRE, ANO 18, N. 32, P. 143-170, JUL/DEZ. 2017