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O USO DE ALGEMAS: BREVE COMPARATIVO ENTRE A SITUAÇÃO BRASILEIRA E A SITUAÇÃO NOS ESTADOS UNIDOS

Italo de Sousa Lima Machado *

1. INTRODUÇÃO

A discussão sobre o uso de algemas no Brasil está passando por muitas reviravoltas. Outrora assunto sem definição legal definitiva, agora já se tem conhecimento de dois projetos de lei que tratam do assunto, visando políticas de uso diferentes. E é certo que a participação do Supremo Tribunal Federal teve suma importância nesse movimento, independentemente dos méritos ou deméritos de suas ações. Diante desta situação, é útil analisarmos como o assunto é abordado em outros países. A intenção desse artigo, assim, é a de retratar a forma como o assunto é tratado pela polícia, pela lei e pela jurisprudência dos Estados Unidos, antecedida por breve retrato de como o assunto se encontra no Brasil.

2. ALGEMAS NO BR ASIL

Recentemente o Supremo Tribunal Federal regulou, por meio da Súmula Vinculante nº 11, o uso de algemas em todo o território brasileiro, com o seguinte texto:

Só é lícito o uso de algemas em caso de resistência e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade por escrito, sob pena de responsabilidade disciplinar civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado.

Antes da edição dessa Súmula Vinculante, o uso de algema pelas forças policiais, fosse para detenções, fosse para transporte de pessoas detidas, se dava de forma discricionária. Diante da ausência de lei específica e da lição predominante

* Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Goiás. Policial Rodoviário Federal.

nas Academias e Cursos de Polícia no Brasil, notava-se uma grande maioria - mas não totalidade - de prisões em que o uso de algemas ocorria, o que parecia ser, aos olhos dos Ministros do STF e de muitos críticos, uma política policial degradante. Não há, no Brasil, notícia de registro sobre uso de algemas. E se desconhece

. Devemos lembrar, no entanto, que já foi considerado irregular o uso de algemas em Sessão de Júri (HC 70001561562, TJ-RS; HC 9152, STF). A Súmula Vinculante surgiu, em tese, por conta desses precedentes. Os policias brasileiros justificam o uso de algemas tendo em vista a garantia da segurança dos detidos e deles próprios. Afirmam ser a reação do preso indefinida, podendo variar desde o consentimento até a violência máxima visando à fuga. Segundo eles, casos reais em que a tentativa de fuga de presos não algemados resultaram em morte de policiais, terceiros (juízes, promotores, cidadãos) ou do próprio preso corroboram essa política.

a

nulidade de alguma prisão por conta de seu uso, mesmo que indevido.

3. ALGEMAS NOS ESTADOS UNIDOS: LEIS E POLÍTICAS POLICIAIS

A situação do uso de algemas no exterior também é citada como fonte de referência por policiais brasileiros. Mas não se trata da existência de uma doutrina única em que esse uso seria obrigatório em todo e qualquer caso, como fazem pensar alguns policias que falam à imprensa. Parece-nos claro, no entanto, o foco principal adotado no exterior: a integridade do detido frente ao Estado, bem como a do próprio policial. A garantia da dignidade da pessoa humana, que, de acordo com

o STF, seria ferida 1 com o uso das algemas na forma como ocorre hoje, também é

tratada, mas de forma diferente. Nos Estados Unidos, o uso de algemas é regulado de acordo com as leis municipais, estaduais ou federais, que se aplicam às respectivas forças policiais. Essas leis podem, como é o caso de Los Angeles, Califórnia, dar ao chefe de polícia

site

<http://oglobo.globo.com/pais/mat/2008/08/12/marco_aurelio_critica_uso_de_algemas_em_operacao_da_pf_su

perintendente_do_orgao_defende_procedimento-547713422.asp>, em que o Ministro Marco Aurélio diz, expressamente: “Se não há periculosidade, se é crime financeiro, de falcatrua, o chamado crime do colarinho branco, não há necessidade de algema. A regra é o preso ser conduzido preservando-se a dignidade dele.” Críticos afirmam que o destino do detido é, via de regra, uma cela, o que, por si só, já constitui uma ofensa ao

indivíduo, mas plenamente aceita pela legislação em vigor, o que torna o uso de algemas mero consectário lógico da prisão. O constrangimento residiria, portanto, na ordem de prisão, não no uso de algemas. A respeito dessas críticas, recomenda-se acessar o artigo “Algemas, sim”, em < http://www.conjur.com.br/static/text/69016,1>.

1

A

respeito,

acessar

a

reportagem

online

no

poder para instituir regramentos como o Manual of Los Angeles Police Department 2 . Tal documento prevê, no volume 4 (quatro), que o policial, mesmo ao se deparar com um crime mais grave, chamado de felony - que traduziremos como delito mais grave- tem discricionariedade no uso de algema. Mas esse uso, o manual ressalta, é o normal, não a exceção:

217.30 USO DE ALGEMAS. O propósito primário no uso de algemas em um

detido é a manutenção do controle sobre o detido e a minimização da

possibilidade de escalada da situação até um ponto em que seria necessário

meios mais drásticos de detenção.

Detidos por delitos mais graves (Felony) normalmente deverão ser algemados; no

entanto, podem existir circunstâncias que tornam a algemação de um detido

inapropriada. Tais circunstâncias são mais bem percebidas pelo policial

encarregado. (tradução nossa)

Note-se, ainda, que é o policial quem tem autonomia para definir se é ou não caso de uso de algemas, de acordo com vários fatores, dentre os quais:

Possibilidade de fuga do detido.

Possibilidade de escalada desse incidente.

Potencial ameaça aos policiais e outras pessoas.

Conhecimento dos encontros prévios do detido com a polícia.

O policial deve constantemente monitorar as ações do detido sem algemas. Se o/a

policial acreditar que elas são necessárias, ele/ela pode, a qualquer tempo,

algemar o detido. (tradução nossa)

Para os casos de crimes de pequeno potencial ofensivo (misdemeanors), a prisão com algemas também é discricionária. Mesmo o uso de algemas não sendo o normal, como nos crimes mais graves, o policial continua tendo autonomia plena para algemar o suspeito. E quando o preso for beligerante, o uso é obrigatório.

217.32 ALGEMAÇÃO POR DELITOS MENORES (MISDEMEANOR).

A algemação por delito menor é discricionária. (

217.34 ALGEMAÇÃO DE DETIDOS BELIGERANTES.

Se um detido dá qualquer indicação de que ele/ela pode se tornar beligerante, as

mãos do detido devem ser algemadas para trás. (tradução nossa)

)

2 Para facilitar a compreensão do texto, traduzimos as citações em inglês para o português. Os textos originais podem ser encontrados nos sites mencionados nas Referências Bibliográficas, ao fim do artigo.

Naquele país, o uso de algemas é mais comumente abordado, por especialistas do setor de segurança, quanto aos prejuízos que o mau-uso dessa ferramenta pode gerar para as polícias. Discutem-se, ainda, as vantagens e desvantagens das duas políticas de uso de algemas: a obrigatória e a discricionária:

Políticas de algemação obrigatória obrigam o policial a algemar qualquer um sob custódia. Ao contrário, políticas de algemação discricionária informam ao policial um conjunto de regras que o ajudam a tomar a decisão sobre o uso ou não de algemas em um dado indivíduo. Qualquer uma das opções tem alguma desvantagem. A política de obrigatoriedade defende a idéia de segurança para o policial. No entanto, ela elimina qualquer imunidade que o policial teria se a política fosse a discricionária. A política de algemação obrigatória também pode dar espaço para críticas, por exemplo, quando um policial algema uma freira católica de 55 (cinqüenta e cinco) anos para transportá-la até um posto policial para que se pague uma fiança por conta de uma multa. A política discricionária garante ao policial imunidade discricionária, mas podem surgir alegações de discriminação contra o policial e o departamento. (BRAVE; PETERS, Jr. 1993) (tradução nossa)

Assim, enquanto a política discricionária de uso de algema pode levar a alegações de discriminação (por exemplo, um criminoso branco não ser algemado, enquanto um negro o é), a algemação obrigatória pode gerar outras críticas. O texto ilustra o último problema citando o caso de encaminhamento para pagamento de fiança por multa de trânsito, situação inexistente no Brasil. Melhor exemplo seria a algemação de um nonagenário por conta de um mandado de prisão em aberto por pensão alimentícia não paga. Contudo, para essa ocorrência, serviria um alerta comum a qualquer uma das políticas: levar em conta a situação do detido, que pode ser deficiente, fraco, adoentado, ferido ou mesmo uma mulher grávida.

4. ALGEMAS NOS ESTADOS UNIDOS: SUPREME COURT OF U.S.

A Supreme Court dos Estados Unidos tem recente decisão a respeito da matéria. No caso MUEHLER ET Al.v. MENA, de 2005, se relata que Iris Mena havia sido algemada e interrogada por cerca de 2 a 3 horas, durante o cumprimento de mandado de busca e apreensão, apenas por se encontrar em um dos compartimentos da residência alvo da ordem judicial, sem que contra ela fosse

apresentada qualquer acusação. A referida ordem visava deadly weapons and evidence of gang membership, e o entendimento daquela Suprema Corte foi:

O uso de força na forma de algemas para detenção de Mena foi razoável porque o interesse governamental em minimizar o risco de dano para os policiais e os ocupantes, que alcança o máximo quando um mandado autoriza uma busca por armas e um membro de gangue foragido reside no local, supera a intrusão marginal. Ver id., em 396-397. Além disso, a necessidade de deter múltiplos ocupantes faz o uso de algemas mais do que razoável. Cf. Maryland v. Wilson, 519 U.S. 408, 414. Apesar da duração de uma detenção poder afetar o balanço de interesses, as 2 ou 3 horas de detenção com algemas, nesse caso, não superam o interesse contínuo de segurança do governo. (tradução nossa)

A Supreme Court dos Estados Unidos ainda afirma, citando precedentes

(Michigan v. Summers, 452 U. S. 692, 705), que não há qualquer ilegalidade que justifique reparação quando uma pessoa que se encontra em local submetido à busca e apreensão, legalmente concedidas pela justiça, é algemada ou detida temporariamente.

O voto que prevaleceu naquela corte foi do Chief Justice Rehnquist, que

menciona a situação arriscada em que se deu a busca e apreensão, o que motivou a utilização do grupo especial denominado SWAT (Special Weapons and Tatics). Esses policiais, ao se depararem com as pessoas dentro da residência, procederam na algemação de todos e no encaminhamento desses até um cômodo da casa, que continha camas e outros móveis. Nesse local, os suspeitos permaneceram algemados, apesar de poderem caminhar. Afirma o Chief Justice que foram

encontrados uma arma de fogo, munições, bastões de baseball com inscrições de gangue criminosa e um pacote com maconha, sendo que Mena foi liberada com a saída dos policiais. Relata, ainda, que Mena processou os policiais responsáveis pela busca e apreensão, ganhando essa ação, inicialmente. Os policiais apelaram até chegar à Supreme Court.

O mesmo Justice menciona o caso Michigan v. Summer, em que se afirmou

que policiais procedendo em busca e apreensão legalmente concedida têm autoridade para efetuar detenções em certas situações. A presença de um mandado garantiria que um magistrado neutro determinou “causa provável” para as buscas.

O referido Justice lembra que há três interesses legítimos que justificam a detenção de um ocupante: prevenção de fuga, caso alguma evidencia incriminadora seja encontrada; minimização dos riscos contra os policiais; e a finalização ordenada da busca, inclusive com a ajuda do detido, evitando uso de força para abertura de portas ou outros compartimentos. Cita, ainda, que a situação fática da ocorrência, em que apenas dois policiais cuidaram dos detidos, enquanto os outros 16 policiais procediam na busca e apreensão, contrabalança o fato da suspeita ter ficado algemada por longo tempo. 3 Nessa decisão, o Justice Kennedy. J. emitiu uma concurring opinion, espécie de opinião paralela à adotada pela corte que, guardando semelhança quanto à decisão, por vezes tem fundamentos diferentes. Lembrou que o uso de algemas não é livre ou desimpedido, tendo que ser, sempre, objetivamente razoável. Inclusive, afirma, o detido deve ser colocado em situação que impeça desconforto considerável ou dor real causados pela longa submissão a esses instrumentos. Afirmou, ainda, que o uso das algemas deve ser limitado no tempo, até o momento em que razoavelmente se possa perceber que elas não são mais necessárias. O referido julgamento teve opiniões que destoaram do entendimento majoritário daquela corte. Os Justices Stevens, Souter, Ginsburg e Breyer expressaram a seguinte opinião: as características físicas de Mena (mulher, jovem e de baixa estatura), somado ao fato de que havia muitos recursos disponíveis à polícia, além do resultado da busca preliminar em Mena e seu quarto resultar em nada ilícito encontrado justificariam o entendimento de uso objetivamente não- razoável das algemas durante a busca, justificando reparação. O uso, inicialmente aceitável, ultrapassaria o razoável por conta do mencionado, principalmente em relação ao resultado preliminar das buscas e da existência de recursos policiais.

5. ALGEMAS NOS ESTADOS UNIDOS: CONCLUSÃO

Há de se notar que tanto a opinião majoritária 4 como a minoritária daquela corte garantem o poder, ao policial, de usar algemas. Esse uso, no entanto, deve ser

3 Não podemos deixar de notar a semelhança com o HC 91952, deferido pelo pleno do Supremo Tribunal Federal, em que o réu ficou algemado durante Sessão do Júri com a alegação de que apenas dois policiais civis faziam a segurança. Mas, é evidente, as possíveis repercussões do caso brasileiro (julgamento indevido pelos membros do júri) o diferenciam da situação de detenção por algema prévia ao próprio processo criminal ou mesmo ao inquérito policial.

razoável. Assim, um detido, independente de sua condição física, pode sim ser algemado, como o foi a própria Mena, jovem mulher de pequena estatura, mesmo sem ordem de prisão prévia ou situação de flagrante delito. Ocorre que o uso das algemas deve ser o mínimo possível (seja até o fim da busca e apreensão, seja até o razoável tempo para se perceber a não-existência de risco para os policiais), sempre levando em conta a segurança dos policiais que efetivam as determinações legais e judiciais, e sempre garantindo a integridade física dos detidos. É isso que a jurisprudência - e os manuais policiais - afirmam. Parece-nos certo, portanto, sugerir que a extensão de ambos os entendimentos, majoritário e minoritário, daquela Supreme Court garantem, aos policiais dos Estados Unidos, respaldo quando efetuam detenções ou transporte de presos com o uso de algemas, desde que esses procedimentos nem se alonguem em demasia no tempo, nem provoquem mal objetivamente mensurável aos detidos, observando-se o caso concreto. Como não foi alvo do julgamento, não podemos prever o entendimento daquela corte em relação à exibição de pessoas detidas à imprensa. Certo, no entanto, é que esta é livre naquele país. E parece razoável pensar que somente a exibição proposital do detido algemado à imprensa seria considerada um mal objetivamente causado ao suspeito.

REFERÊNCIAS

BRASIL, Notícias STF, 11ª Súmula Vinculante do STF limita o uso de algemas a casos excepcionais, 2008. Disponível em <http://www.stf.gov.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=94467&cai xaBusca=N>, Acesso dia 20 de agosto de 2008.

BRAVE, Michael A.; PETERS, Jr., John G. Liability Constraints on Human Restraints. 1993. Disponível em: <http://www.laaw.com/finalre2.htm>, Acesso em 20 de agosto de 2008.

ESTADOS UNIDOS, Supreme Court of the United States. MICHIGAN V. SUMMERS, 452 U. S. 692 (1981), 1981. Disponível em : <http://www.altlaw.org/v1/cases/398034>, Acesso em 20 de agosto de

2008.

ESTADOS UNIDOS, Supreme Court of the United States. MUEHLER ET AL. v. MENA, 544 U.S. 93 (2005), 2005. Disponível em : <http://a257.g.akamaitech.net/7/257/2422/22mar20051115/www.supre mecourtus.gov/opinions/04pdf/03-1423.pdf>, Acesso em 20 de agosto de 2008.

LOS ANGELES, Los Angeles Police Department. Manual of the Los Angeles Police Department. Disponível em : <http://www.lapdonline.org/lapd_manual/>, Acesso em 20 de agosto de 2008.