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editorial

Gláucia Viola, editora

Manipulação emocional
R
elacionar-se não é tarefa fácil em nenhuma esfera do comportamento humano. Seja entre o casal, na
FAMÓLIA NOGRUPODEAMIGOS COMOSlLHOS3OMOSSERESCOMPLEXOSESABERLIDARCOMOOUTROEXIGE
GRANDEMAESTRIA%SSETEMAPODERENDERUMASÏRIEDEBONSDEBATESNASPÉGINASDESTAREVISTA MASA
PsiqueDIRECIONAOSHOLOFOTESDESTAEDI¥ÎOPARAUMAQUESTÎOQUELEVANTACERTAPERPLEXIDADEEMPLE-
NOSÏCULO88)AVIOLÐNCIACONTRAAMULHER QUENOÊMBITOINTERPESSOALAINDAÏUMADASMAISDIFÓCEISDESER
PREVENIDAEEVITADA-UITASMULHERESQUEVIVEMRELA¥ÜESABUSIVASMOSTRAMDIlCULDADEEMTERCONSCIÐNCIADA
SITUA¥ÎO/CIÞMEEXAGERADOGERADORDEINÞMERASPRIVA¥ÜES POREXEMPLO ÏCONSIDERADOPORMUITASPESSOAS
como prova de cuidado e amor.
/DOSSIÐABORDAOCICLODESSETIPODERELACIONAMENTO DESDEAFASEDONAMOROATÏADECISÎODOCASALDETER
lLHOS EQUIVOCADAMENTE COMAPRETENSÎODESOLUCIONARESSASQUESTÜESMALRESOLVIDAS!lNAL CASAISVIOLENTOS
tendem a seguir o mesmo modelo de conduta na gestação e depois dela, afetando inclusive as crianças.
Importante destacar que o ciclo da violência ocorre para todas as formas de agressão, não somente a física.
!VIOLÐNCIAPSICOLØGICATAMBÏMAPRESENTAAMESMASÏRIEDEEVENTOS
/QUEACONTECENAMAIORIADOSCASOSÏQUEAVIOLÐNCIAPSICOLØGICAÏ
mais difícil de ser detectada, até mesmo para quem sofre dela, dife-
rente da agressão física aparente.
Um estudo recente apresentado no artigo indica que a violência no
namoro entre casais adolescentes pode se perpetuar até a vida adulta
COMNOVASONDASDERISCOÌSAÞDEMENTALDOCASALEDOSlLHOSh%M
curto prazo, diversos efeitos danosos da violência no namoro têm sido
DOCUMENTADOS  INCLUINDO DEPRESSÎO  TRANSTORNO DE ESTRESSE PØS TRAU-
MÉTICO ABUSODEÉLCOOL DESEJODEPÙRlMÌPRØPRIAVIDAE EMCASOSEX-
TREMOS SUICÓDIOEHOMICÓDIOv EXPLICAMOSPSICØLOGOSAUTORESDOTEXTO
Romper esse vínculo de afeto, mesmo violento, é um dever ár-
duo. Condutas autolesivas são especialmente frequentes em tenta-
123RF

tivas de término, fazendo com que a vítima não saia deste padrão
de comportamento.
6ALERESSALTARTAMBÏMQUEMUITOSELEMENTOSNESSESRELACIONAMENTOSPODEMSERGRATIlCANTES E MESMOQUE
PARAALGUÏMQUEOBSERVADEFORAPARE¥AINCOMPREENSÓVELQUEUMARELA¥ÎOVIOLENTAPOSSATERMUITOSPONTOSDE
SATISFA¥ÎO ÏFUNDAMENTALENTENDERQUEÏEXATAMENTEPORISSOQUEOSENTIMENTOlCATÎOCONFUSO¡TAMBÏMPOR
ESSARAZÎOQUEAPROCURAPORAJUDAESPECIALIZADAPODEFAZERTODAADIFEREN¥APARAASOLU¥ÎODOPROBLEMA
O atendimento às vítimas e perpetradores de violência nos relacionamentos deve compor um continuum de
serviços focados no enfrentamento, prevenção e na promoção da qualidade das relações amorosas.

Boa leitura!

Gláucia Viola
www.facebook.com/PortalEspacodoSaber
“Há muitas espécies de ciúme;
o mais raro é o do coração.”
Duque de Lévis
sumário

CAPA
DOSSIÊ: Sérias
consequências emocionais
Relacionamentos abusivos
atingem até mesmo mulheres
grávidas e frequentemente as
: SHUT TERSTOCK

pessoas envolvidas encontram


GRANDEDIlCULDADEEMSE
35
IMAGEM DA CAPA

28/06/2017
18:18:20
libertar dessa situação

MATÉRIAS
08
Compreensão
do cérebro
Avanços tecnológicos
permitiram conhecer melhor
o funcionamento cerebral e

ENTREVISTA
tentam responder se a mente
pode mudar o cérebro
22
A psicóloga Luiza Elena
do Valle defende alteração
de técnicas que propiciam a
APRENDIZAGEMINmUENCIADAPELA
interação com o ambiente
O significado de tudo
O ato do nascimento mostra um ser
desprovido de qualquer noção de
SEÇÕES si e do outro, mas quando entra na
linguagem a criança descobre um
06 EM CAMPO
18 PSICOPOSITIVA
56 novo mundo
20 PSICOPEDAGOGIA
32 COACHING
34 LIVROS
50 CIBERPSICOLOGIA
52 NEUROCIÊNCIA Prejuízo à saúde
54 RECURSOS HUMANOS
64 DIVÃ LITERÁRIO
Transtorno de estresse 74
pós-traumático é considerado
66 CINEMA
um dos diagnósticos mais
70 PERFIL
populares da Psiquiatria em
72 IN FOCO
80 EM CONTATO
decorrência das sequelas da
82 PSIQUIATRIA FORENSE
violência urbana
giro escala
LIBERDADE X ESCOLHAS
R EVISTA FILOSOFIA – EDIÇÃO 127
SOFISTAS RENATO JANINE RIBEIRO

Em mais um artigo publicado em base e superestrutura e que, se nos


Uma síntese da obra de umas das maiores A importância do diálogo para o fortalecimento
correntes filosóficas de todos os tempos da democracia em tempos de cólera
ANO X No 127 – www.portalespacodosaber.com.br

na edição 127 da revista &ILOSOlA preocuparmos em manter a paz social ARISTÓTELES


A história nos

#IÐNCIA6IDA, o pesquisador do Ge- e o bom funcionamento do Estado, es- mostra que uma das
aspirações perenes
ÉMILE
DURKHEIM

des (Grupo de Estudos sobre Direito, taremos preservando a base por meio
do homem do século Como mobilizar
XXI é a Justiça argumentos baseados
nas ideias do mestre

Estado e Sociedade) e professor con- de incrementos pontuais na superes- em debates sobre


religião e socialismo

vidado do curso de pós-graduação em trutura, ou seja, não estaremos com-


Política e Relações Internacionais da batendo de forma efetiva a exploração
FESPSP (Fundação Escola de Socio- do homem pelo homem, tampouco Quando a liberdade e o
individualismo passam a ser
logia e Política), Luiz Felipe Panelli buscando a igualdade verdadeira que grandes fontes de angústia e
bloqueio do pensamento

aborda a justiça e equidade com base só virá com a coletivização dos meios O DILEMA DAS
na lição aristotélica em relação ao
Estado no século XXI. Tal estudo im-
de produção. Pensador atuante no
UNIVERSO DA &ILOSOlA DO $IREITO E DA
ESCOLHAS
pacta um de seus projetos atuais, que &ILOSOlA0OLÓTICA 0ANELLIRESSALTAUMA
REFLEXÃO E PRÁTICA: o resgate do conceito de comunidade por meio da amizade

é sua tese de doutorado, que analisa a disciplina que tem chamado atenção
QUESTÎO DE UM SUPOSTO CONmITO ENTRE DE INÞMEROS ACADÐMICOS A *USlLOSO-
o direito de liberdade e igualdade, em lA 6ALE LEMBRAR QUE UM DOS GRANDES
especial nas políticas públicas de dis- REPRESENTANTES DO TEMA Ï O lLØSOFO
tribuição de renda. Norberto Bobbio, que conseguiu es-
Para o professor, pode-se objetar tabelecer conceitos preciosos sobre a
que a teoria marxista separa o mundo democracia e a sociedade.

Caderno de Exercícios: Música negra e racismo nos Estados Unidos

UMA REBELDE NATA


www.portalespacodosaber.com.br
R EVISTA SOCIOLOGIA - EDIÇÃO 69
Uma catadora de histórias e uma Brasil. Passou a se dedicar ao cinema
REBELDE NATA !SSIM Ï POSSÓVEL DElNIR e seu primeiro longa – Nordeste: Cor-
Ego e sociedade em poucas palavras a fotógrafa, docu- del, Repente, Canção (1975) – ganhou
Lógica egoísta
e paranoica
orienta mercado
e nações, em
mentarista e cineasta Tania Quaresma, os prêmios Air France de Cinema e
livro de Frank
Schirrmacher que se enquadra em uma classe especial Coruja de Ouro de melhor som. Jun-
Inteligência
artificial
Cientistas rumo de artistas singulares, que, com talento, tamente com sua equipe, produziu e
ao algoritmo
capaz de
replicar o cérebro sempre fazem o que querem, mas sem- dirigiu uma série de projetos cultu-
humano em
meio cibernético-
-informacional pre com muita qualidade e competên- rais e sociais, culminando com o su-
Por uma ideia
de liberdade
Contracultura
cia. E isso sem ligar para o machismo cesso de Catadores de História (2016).
e transgressão
sob olhar
hegemônico e castrador, que dominava O f ilme conquistou três prêmios na
sociológico em
Easy Rider – O BRASIL DE
seu tempo de juventude, e que ainda mostra competitiva do Troféu Câma-
DARCY RIBEIRO
Sem Destino

Profissão
John Kennedy
Ferreira
comenta a não
domina a própria narrativa histórica ra Legislativa no Festival de Cinema
obrigatoriedade
do ensino de
Sociologia
humana da atualidade. Começou sua de Brasília: melhor trilha sonora,
O DIA A DIA DE CATADORES DE LIXO EM FILME DE TANIA QUARESMA
CARREIRAPROlSSIONALMUITOCEDO AOS melhor fotograf ia e melhor f ilme de
nas escolas

anos, para os padrões vigentes da épo- longa-metragem ( júri of icial). Para


ca, documentando os movimentos es- alcançar seus objetivos no trabalho,
tudantis e operários de protesto contra seja de vídeo ou f ilme, ela não dis-
o governo militar. pensa o sentido social. A entrevista
Desde então, trabalhou para as completa com Tania está na edição
mais importantes redes de TV do 69 da revista 3OCIOLOGIA.

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em campo por Jussara Goyano

SINAL DE ALZHEIMER
Na Universidade do Sul da Califórnia,
pesquisadores descobriram que
adultos idosos com níveis elevados
de placas de obstrução cerebral –
mas com cognição aparentemente
normal – experimentam declínio
mental mais rápido, sugestivo de
doença de Alzheimer. Por outro lado,
também verif icaram que a simples
presença dessas placas (chamadas
placas amiloides) no organismo já
seria um preditor do problema. Os

ARTE E COGNIÇÃO pesquisadores compararam a placa


amiloide no cérebro com o colesterol
no sangue. Ambos são sinais de alerta
PROJETOS ARTÍSTICOS ATIVAM com poucas manifestações externas,
SISTEMA DE RECOMPENSA NO CÉREBRO até ocorrer um evento catastróf ico. O
De acordo com um novo estudo realizado pela Universidade Drexel, na estudo em questão apoia a ideia de que
&ILADÏLlA  %5!  PUBLICADO NO PERIØDICO The Arts in Psychotherapy, a realização a doença começa antes dos sintomas,
DETRABALHOSARTÓSTICOSLEVAmUXOSANGUÓNEOAÉREASDOCÏREBROPERTENCENTESAO o que estabelece as bases para a
sistema de recompensa. Tal consequência ocorreria independentemente da habi- realização de intervenções precoces e
lidade artística das pessoas avaliadas, mostrando que tais atividades são fonte de ef icazes contra a evolução do quadro.
PRAZEREBEM ESTAREMPOTENCIAL NÎOIMPORTANDOSUAlNALIDADE “Para ter o maior impacto sobre a
Os pesquisadores envolvidos utilizaram espectroscopia de infravermelho doença, precisamos intervir contra
funcional para avaliar a atividade cerebral de 26 voluntários, entre artistas e a amiloide, a causa molecular básica
não artistas, enquanto todos completavam diferentes tarefas em artes, tais como do problema, o mais cedo possível”,
colorir uma mandala ou desenho livre, intercaladas a intervalos de descanso. disse Paul Aisen, autor sênior do
&OIVERIlCADOUMAUMENTONOmUXODESANGUENOCØRTEXPRÏ FRONTALDOCÏ- estudo e diretor do USC Alzheimer’s
rebro dessas pessoas, em comparação com os períodos de descanso, nos quais Therapeutic Research Institute (ATRI),
O mUXO SANGUÓNEO DIMINUIU PARA AS TAXAS NORMAIS / CØRTEX PRÏ FRONTAL ESTÉ ligado à universidade, em comunicado
associado à regulação de pensamentos, sentimentos e ações. Também está rela- à imprensa especializada. “Este estudo
cionado a sistemas emocionais e motivacionais e parte do circuito neuronal de ÏUMPASSOSIGNIlCATIVOPARAAIDEIA
recompensas do cérebro humano. de que os níveis elevados de amiloide
!ATIVIDADEQUEPROPORCIONOUMAIORmUXOMÏDIODESANGUENASÉREASMEN- são um estágio inicial da doença de
cionadas foi o chamado doodle, rabisco realizado enquanto a pessoa está distraída Alzheimer, um estágio apropriado para
ou ocupada, como, por exemplo, os desenhos que são realizados aleatoriamente a terapia anti-amiloide”.
quando se está ao telefone, ou enquanto se ouve uma palestra. O desenho livre Uma em cada três pessoas com mais
ativou igualmente o cérebro de artistas e não artistas. Já a atividade de colorir de 65 anos tem amiloide elevada no
mandalas resultou em atividade cerebral negativa nos artistas, que podem ter se cérebro, e a maioria desses indivíduos
SENTIDOLIMITADOSEMEXECUTARTAREFASTÎOBEMDElNIDAS SEMMUITAMARGEMPARA evoluirá para a doença de Alzheimer
o uso de sua criatividade. sintomática dentro de 10 anos.

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CUMPRIMENTO
DE METAS
DISTRAÍDOS DIFICILMENTE
TÊM OBJETIVOS DE LONGO
PRAZO, DIZ ESTUDO
Mentes diletantes, ou que tendem a vagar
por seus pensamentos no dia a dia, são menos
propensas a manter objetivos de longo prazo,
segundo pesquisa liderada pela Universidade
de Waterloo, Canadá, com artigo a respeito
publicado recentemente no Canadian Journal of
Experimental Psychology.
A conclusão foi fruto de três estudos distin-
tos. Nos dois primeiros, os pesquisadores anali-
RELAÇÕES E
saram a presença de mente errante, a desatenção
e o grit de 280 voluntários (grit é um traço de
INDIVIDUALIDADE
personalidade que envolve interesse e esforço ESTUDO ESTABELECE LIGAÇÃO
sustentados em metas de longo prazo, indepen- ENTRE SOLIDÃO E EGOCENTRISMO
dentemente do nível de inteligência da pessoa).
No terceiro estudo, 105 estudantes foram con- Estudos realizados ao longo de mais de uma década indicam que a
vidados a avaliar seus hábitos mentais durante solidão aumenta o egocentrismo e, em menor grau, o egocentrismo tam-
uma aula e preencher questionários a respeito. bém aumenta a solidão. O achado foi publicado no Personality and Social
Um próximo passo da pesquisa vai avaliar Psychology Bulletin por cientistas ligados à Universidade de Chicago,
como alternativas como meditação e treinamen- EUA. A descoberta pode ajudar a mitigar questões de saúde pública,
to mindfulness seriam capazes de mitigar os im- uma vez que pessoas consideradas solitárias estão mais sujeitas a doen-
pactos de tal errância mental e o quanto a força ças – essa população apresenta, inclusive, taxa de mortalidade maior que
DEVONTADEEMFAZÐ LOINmUENCIANOSRESULTADOS a de outros grupos em que a convivência social é mais intensa.
gerais de aplicação das opções citadas. Os pesquisadores escreveram que “abordar o egocentrismo como
parte de uma intervenção para diminuir a solidão pode ajudar a que-
brar um ciclo de feedback positivo que mantenha ou piore a solidão ao
longo do tempo”. Lembram ainda que, na sociedade moderna, tornar-se
mais autocentrado protege pessoas solitárias no curto prazo, mas não
no longo prazo, em que são acumulados efeitos nocivos ao bem-estar
individual. Isso levando-se em conta a noção de solidão como “um sen-
timento de angústia anômalo ou temporário, sem valor redimível ou
propósito adaptativo”.
Os dados referentes às pesquisas foram coletados de 2002 a 2013
como parte do estudo de saúde, envelhecimento e relações sociais de
Chicago. A amostra aleatória consistiu em 229 indivíduos que variaram
de 50 a 68 anos de idade no início do estudo, variando também em gê-
nero e status socioeconômico, incluindo hispânicos, afro-americanos
e caucasianos.
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

Jussara Goyano é jornalista e coach certificada pelo Instituto


ARQUIVO PESSOAL

de Psicologia Positiva (IPPC). Atua com foco em performance


e bem-estar. Estudou Medicina Comportamental na Unifesp.
E-mail: atendimento@jussaragoyano.com

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,5):!%,%.!,2)"%)2/$/6!,,%

A ).4%2!—§/ DA PESSOA
#/-/!-")%.4%02/-/6%
A !02%.$):!'%-
Para a psicóloga Luiza Elena L. Ribeiro
do Valle, os resultados da educação
no Brasil estão nos últimos lugares,
em comparação com outros países
do mundo. Então, está na hora de mudar
técnicas para reverter o quadro
Por Lucas Vasques

O
DESAlO DA APRENDIZAGEM  AO LONGO DOS que “ensina”, e, pior ainda, muitas crianças mal têm
anos, foi e continua sendo tema central TEMPO PARA BRINCAR  RECURSO ESSENCIAL NA APRENDIZA-
da preocupação de especialistas e tam- gem, se pensarmos na apropriação ativa do conheci-
bém dos pais, que buscam orientação no MENTOv AVALIA,UIZA%LENA
SENTIDODEACERTAROCAMINHOMAISElCIENTEEMRELA- A psicóloga ressalta a importância do sistema sen-
¥ÎOAESSAFASEDAVIDADOSlLHOS.AOPINIÎODE,UIZA sorial. Para ela, esse elemento é a porta de entrada dos
%LENA , 2IBEIRO DO 6ALLE  PSICØLOGA COM ESPECIALI- estímulos. As informações recebidas pelo sistema sen-
ZA¥ÎO EM 0SICOLOGIA #LÓNICA E MESTRE EM 0SICOLOGIA SORIAL SÎO CONDUZIDAS PARA ÉREAS ESPECÓlCAS DO CØR-
%SCOLARE%DUCACIONAL AAPRENDIZAGEMPODEOCORRER TEXCEREBRAL ONDEASFUN¥ÜESSUPERIORESORGANIZAM SE
através do jogo, da brincadeira, da instrução formal como sistemas funcionais complexos, o que envolve
OUDOTRABALHOENTREUMAPRENDIZEUMAPRENDIZMAIS uma integração de redes de conexão de neurônios,
experiente, demonstrando a importância da mediação UMAVEZQUEOSESTÓMULOSSÎODIVERSOSESIMULTÊNEOS
PARAQUEOSSIGNOSCULTURAISPOSSAMSERINTERNALIZADOS ,UIZA%LENAÏDOUTORANDAEM0SICOLOGIA3OCIALEDO
“São estudos que nos deixam a responsabilidade de 4RABALHO COMEXTENSÎOEM#OMPETÐNCIAS'ERENCIAIS
OFERECER OPORTUNIDADES DE APRENDIZAGEM PARA O DE- E)NTERNATIONAL#OACHING%NTREOSLIVROSLAN¥ADOSESTÎO
senvolvimento potencial de cada criança. Entretanto, A Aprendizagem na Educação de Crianças e Adolescentes,
GIOVANI SILVA E SHUTTERSTOCK E 123RF

MUITASCRIAN¥ASAINDAhESTUDAMvCOMOSEFAZIASÏCU- Adolescência. !S#ONTRADI¥ÜESDA)DADEE$ESAlOSDO-UNDO


los atrás, sentadas, em silêncio, diante de um professor 0ROlSSIONAL, todos publicados pela Wak Editora.

Lucas Vasques é jornalista e colabora com esta publicação

8 psique ciência&vida www.portalcienciaevida.com.br


E N T R E V I S T A

Segundo Luiza Elena,


a aprendizagem ocorre
pela descoberta, no momento
em que a criança está com a
maturidade adequada para
aquela determinada função

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É CORRETO AFIRMAR QUE A APRENDIZA-
GEM É O PROCESSO PELO QUAL A CRIANÇA
O quanto se pode LUIZA: ! APRENDIZAGEM ACONTECE PELA
descoberta, como um registro que se
SE APROPRIA ATIVAMENTE DO CONTEÚDO
DA EXPERIÊNCIA HUMANA , DAQUILO QUE
aprender é impossível FAZDAQUILOQUESEOBSERVOUNOAMBIEN-
te. Isso ocorre no momento em que a
O SEU GRUPO SOCIAL CONHECE? EM CASO determinar, não tem criança está com a maturidade ade-
POSITIVO, PODE - SE DIZER QUE A APREN- quada para aquela determinada função
DIZAGEM DEPENDE FUNDAMENTALMENTE limites! O processo de e esses processos obedecem a caracte-
DA INTERAÇÃO DA CRIANÇA COM O MEIO?
LUIZA: Sim, a interação da pessoa com
aprendizagem reúne rísticas pessoais, que são diferentes de
PESSOA PARA PESSOA 5MA CRIAN¥A PODE
O AMBIENTE PROMOVE A APRENDIZAGEM múltiplos sistemas aprender a andar mais depressa se tiver
Teorias bastante ricas fundamentaram oportunidade de exercitar o movimen-
esse conhecimento, comprovadas com internos e externos, to, quando alcançar a maturidade para
EXAMESSOlSTICADOSQUEAVALIAMOSPRO- essa função. Há uma sequência no de-
cessos do cérebro pela ação sobre o am- por isso cada pessoa é senvolvimento a ser mediado, que se-
biente, que leva à assimilação e acomo-
dação. Os estudos de Piaget descreveram
única e isso é fantástico! gue desde o estágio em que a criança
SEENCONTRA PORUMAZONADEDESENVOL-
passo a passo o desenvolvimento infantil ¡PRECISOlCARATENTO vimento proximal, até chegar ao apren-
e a adaptação do comportamento através DIZADO DESEJADO 6YGOTSKY  %STUDOS
DEORGANIZA¥ÜESMENTAISQUEELEDENOMI- com crianças POSTERIORES  DE 'ARDNER  MOSTRARAM
nou de “esquemas” de representação do que as inteligências são múltiplas: uma
mundo, que permitem construir conhe- LUIZA: #ONCORDO  PORQUE Ï UMA AlR- pessoa pode ser ótima em matemáti-
CIMENTOS6YGOTSKYTROUXEATEORIASOCIO- mação comprovada pela ciência. ca e ter fraca habilidade para aprender
cultural do desenvolvimento cognitivo, #RIAN¥AS QUE NÎO RECEBEM ESTÓMULO leitura, por exemplo. O quanto se pode
mostrando que as estruturas sociais e as visual, por exemplo, não desenvolvem aprender é impossível determinar, não
relações sociais levam ao desenvolvimen- a área do cérebro correspondente à TEM LIMITESå / PROCESSO DE APRENDIZA-
TODASFUN¥ÜESMENTAIS.ESSAPERSPECTI- VISÎO5MAPSICØLOGARENOMADA JÉFA- gem reúne múltiplos sistemas internos
VA AAPRENDIZAGEMPODEOCORRERATRAVÏS LECIDA  "EATRIZ ,EFRÒVE  REALIZOU UMA e externos, por isso cada pessoa é única
do jogo, da brincadeira, da instrução for- PESQUISA SOBRE APRENDIZAGEM COMPA- EISSOÏFANTÉSTICOå¡PRECISOlCARATENTO
MALOUDOTRABALHOENTREUMAPRENDIZE rando as crianças da região Sudeste com crianças porque, você sabe, na in-
UM APRENDIZ MAIS EXPERIENTE  DEMONS- DO "RASIL COM CRIAN¥AS DO .ORDESTE  fância existem períodos quase mágicos,
trando a importância da mediação para em relação à coordenação motora: ela em que as redes neurais se desenvolvem
que os signos culturais possam ser inter- nos mostrou que, enquanto as crian- muito rapidamente e a criança aprende
NALIZADOS3ÎOESTUDOSQUENOSDEIXAMA ças do Sul respondem melhor ao trei- COMUMARAPIDEZINCRÓVEL!PRENDEATÏ
responsabilidade de oferecer oportunida- no no manejo do lápis, as crianças do o que ninguém ensinou... Então, você se
DESDEAPRENDIZAGEMPARAODESENVOLVI- .ORDESTE DOMINAM HABILIDADES COMO surpreende e pergunta: como foi que ela
mento potencial de cada criança. Entre- bordados, compartilhadas por toda fa- aprendeu isso?
tanto, muitas crianças ainda “estudam” mília, de acordo com os valores locais,
COMOSEFAZIASÏCULOSATRÉS SENTADOS EM MAS FALHAVAM NA ESCRITA O QUE PODE- COMO SE DEFINE O SISTEMA SENSORIAL
silêncio, diante de um professor que “en- RIASUGERIRHABILIDADEMOTORAlNADEl- E EM QUE MEDIDA ELE INFLUENCIA A
sina”, e, pior ainda, muitas crianças mal CIENTE OQUENÎOERAVERDADE )MAGINE APRENDIZAGEM?
têm tempo para brincar, recurso essen- como foram revolucionárias essas con- LUIZA: São as portas de entrada dos es-
CIAL NA APRENDIZAGEM  SE PENSARMOS NA clusões, embora, com frequência, as tímulos. As informações recebidas pelo
apropriação ativa do conhecimento. crianças são exigidas e avaliadas sem SISTEMASENSORIALVISÎO AUDI¥ÎO OLFATO 
considerar nada disso. TATO PALADAR SÎOCONDUZIDASPARAÉRE-
DE ACORDO COM A PSICOLOGIA DA AS ESPECÓlCAS DO CØRTEX CEREBRAL  ONDE
A PRENDIZAGEM, PARA QUE SE POSSA EN- EXISTE UM PROCESSO PREDETERMINADO AS FUN¥ÜES SUPERIORES ORGANIZAM SE
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

TENDER ESSE PROCESSO É NECESSÁRIO QUE DEFINE A APRENDIZAGEM? OU SEJA, É como sistemas funcionais complexos,
RECONHECER QUE AS OPERAÇÕES COG - POSSÍVEL MEDIR COMO E QUANDO SE DEVE o que envolve uma integração de redes
NITIVAS SÃO SEMPRE CONSTRUÍDAS NA IN- APRENDER? E ESSE PROCESSO É ÚNICO OU DECONEXÎODENEURÙNIOS UMAVEZQUE
TERAÇÃO COM OUTROS INDIVÍDUOS. VOCÊ FUNCIONA DE ACORDO COM AS PARTICU- os estímulos são diversos e simultâneos:
CONCORDA COM ESSE CONCEITO? LARIDADES DE CADA CRIANÇA? você ouve, vê e sente ao mesmo tempo,

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volvem inteligência espacial: por exem-
PLO  PARA ENCONTRAR E MEMORIZAR ROTAS 
em tarefas motoras dirigidas a um alvo,
em raciocínio matemático. As mulheres
FALAMMAISmUÐNCIAVERBAL SÎOMELHO-
RESEMCÉLCULOSSIMPLESEEMMEMORIZAR
detalhes importantes de um caminho.
Existem diferenças, de modo geral, mas
DEVElCARCLAROQUEAEXPERIÐNCIASOCIAL
interfere, assim como o esforço pessoal,
EMDETERMINADAÉREAOCÏREBROÏSENSÓ-
VELAESTÓMULOS 

HÁ MUITAS CONTROVÉRSIAS SOBRE A ME -


LHOR IDADE PARA O INÍCIO DA ALFABETIZA-
ÇÃO. EM TERMOS DE COGNIÇÃO INFANTIL ,
QUAL A SUA OPINIÃO SOBRE ESSA QUESTÃO?
As estruturas e as relações sociais levam ao desenvolvimento das funções mentais e, nessa perspectiva, a LUIZA: É importante entender que a
aprendizagem pode ocorrer por meio do jogo, da brincadeira APRENDIZAGEM Ï UM PROCESSO PESSOAL E
intransferível. Em termos de cognição
MUITASVEZESATÏSEMCONSCIÐNCIADISSO
Existem, ainda, mecanismos internos de
Na infância, existem infantil, o importante é que a criança es-
teja pronta, interessada e possa interagir
regulação que acontecem sem a sua de- períodos quase mágicos, COM OS ESTÓMULOS PARA FAZER SUAS hDES-
terminação, como a condução elétrica cobertas”, que a encantam e provocam
de estímulos e a produção de hormônios em que as redes neurais uma vontade de saber mais. Por outro
que são liberados no sangue e interferem LADO AALFABETIZA¥ÎOÏUMCØDIGODETER-
em sua resposta, que se soma à memó- se desenvolvem muito minado, que ela não pode inventar e vai
RIAQUEVOCÐARMAZENASOBREOSEVENTOS
Até a percepção dos erros nos ajuda a
rapidamente e a aprender com mais facilidade se for me-
diada para aprender corretamente. Fica
nos direcionar. A conclusão que você criança aprende com NESSEPONTOACONTROVÏRSIAAAPRENDIZA-
retira das informações percebidas por gem deve ser espontânea e, ao mesmo
seu sistema sensorial irá formar o seu uma rapidez incrível. TEMPO AALFABETIZA¥ÎOPRECISASERCUIDA-
conhecimento do mundo, sua aprendi- dosa, porque é a base dos outros conhe-
ZAGEM %NTRETANTO  CONSIDERANDO A BA- Aprende até o que CIMENTOS#ONSIDEROESSENCIALVALORIZAR
gagem aprendida, a percepção de um
objeto, como um facão, por exemplo,
ninguém ensinou. Então, os passos que a criança dá, mas ela pre-
cisa receber as informações mediadas,
representa perigo, quando associado aos você se surpreende porque não dá para vencer um jogo sem
conhecimentos que você já tem, enquan- SABERASREGRAS ENAALFABETIZA¥ÎONÎOÏ
to uma criança pequena vê diferente de CURARAMRElNARABUSCAPELASDIFEREN¥AS diferente. Aos 6 anos, em geral, a criança
você o mesmo objeto e vai brincar sem motoras e sensitivas dos hemisférios. Foi já tem prontidão, se ela “descobrir” an-
preocupação. Espera-se que a criança concluído que: o hemisfério esquerdo é TESOPROCESSODELEITURA NÎODEVElCAR
possa ser mediada e não precise se ma- VERBALUSAPALAVRASPARANOMEAREDES- proibida de seguir em frente, mas, ainda
CHUCARNESSAAPRENDIZAGEM CREVER  Ï ANALÓTICO DECIFRA POR PARTES  assim, há necessidade de mediação posi-
TEMPORAL SE MANTÏM NUMA SEQUÐNCIA tiva, que a estimula a melhorar. Aquelas
COMO OS HEMISFÉRIOS CEREBRAIS SE COM- DEFAZERUMACOISAEDEPOISOUTRA ANA- que não conseguem associar as letras
PORTAM DIANTE DESSE PROCESSO? QUAL SE- LÓTICOEABSTRATODECIFRAPORPARTESEAS aos sons espontaneamente precisarão de
RIA O PRINCIPAL RESPONSÁVEL PELA APREN- UTILIZAPARAREPRESENTAROTODO ENQUAN- ajuda para provocar essas descobertas.
DIZAGEM, O DIREITO OU O ESQUERDO? to o hemisfério direito é dito “artístico”, Pode-se chamar atenção para o fato de
LUIZA: Diversos pesquisadores, desde o sintético, emocional, não verbal e espa- que as crianças nos impressionam com
século XIX, perceberam diferenças fun- CIAL-ENINOSTÐMDESEMPENHOSUPERIOR o manuseio de recursos tecnológicos,
cionais nos hemisférios cerebrais e pro- ao das meninas nas atividades que en- em que ela erra e insiste, perde a “vida”

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no joguinho e tenta de novo, até desco- DE MUDAR AS TÏCNICASå -EU INTERESSE como mudar essa realidade e acho que
brir que melhorou para mais um nível e PELA APRENDIZAGEM DA LEITURA E ESCRITA  nunca vou parar de estudar essa questão,
COMEMORA!APRENDIZAGEMDALEITURA eu acho que nasceu comigo. Quando porque a cada momento surgem novas
deve reconhecer esse incrível recurso TERMINEIOENSINOFUNDAMENTAL lZCON- possibilidades e é essencial que elas se-
que a informática oferece, que não se curso para a rede pública no magistério jam aproveitadas por tantas pessoas que
adequa às características escolares co- DO2IODE*ANEIROEFUIAPROVADA-UITO guardam no coração a vontade de que
piadas de tempos antigos, como se nada jovem, fui trabalhar em escolas e recebi nossas crianças tenham oportunidades,
houvesse acontecido de novo. CLASSES DE ALFABETIZA¥ÎO COM DIlCULDA- ainda inacessíveis, desde os primeiros
DES DE APRENDIZAGEM IMENSAS  $ESDE anos da escola. As minhas descobertas
VOCÊ JÁ FALOU SOBRE TÉCNICAS PARA então, não parei de procurar entender resultaram numa integração de todas
UM APRENDIZADO EFETIVO E RÁPIDO. as pesquisas a que tive acesso, reunin-
E XISTEM , DE FATO, ESSAS TÉCNICAS E
QUAIS SERIAM?
É importante entender do reconhecidos trabalhos numa ferra-
menta prática, que lançarei este ano: “A
LUIZA: Sem dúvida! Todos os conheci-
mentos sobre o desenvolvimento infan-
que a aprendizagem revolução das letras”. É um novo jeito de
LIDARCOMAALFABETIZA¥ÎO CONSIDERANDO
TIL  SOBRE O PROCESSO DE APRENDIZAGEM é um processo pessoal MINHAEXPERIÐNCIAEM#LÓNICA 0SICOPE-
precisam ser considerados para que a dagogia e Psicologia Educacional, que
criança aprenda rapidamente e de for- e intransferível. Em me coloca em contato com necessidades
ma efetiva. É muito comum você ouvir
QUEIXAS DE ADULTOS QUE AlRMAM QUE A
termos de cognição diversas, levando-me a criar uma turma
de super-heróis diferentes: a turma do
criança interage com videogames com infantil, o importante &UTURO6ERDEVERDEDEESPERAN¥A VERDE
mais facilidade que eles, mas, na hora de DENATUREZA VERDEDE"RASIL /TRABALHO
“estudar”, a mudança é nítida e vira uma é que a criança esteja promove a inclusão digital e social, além
guerra. De fato, com muita frequência, DOPRAZERDEAPRENDER
ainda predomina a mesma forma de pronta, interessada e
“estudar” que afastou tantas crianças
da escola. Os resultados da educação
possa interagir com os HÁ FREQUENTEMENTE UMA CONFUSÃO
ENTRE DIFICULDADE DE APRENDIZAGEM E
no Brasil estão nos últimos lugares, em estímulos para fazer A OCORRÊNCIA DE TRANSTORNOS OU DIS -
comparação com outros países do mun- TÚRBIOS. QUAIS SÃO AS DIFERENÇAS?
do, há muitos anos; então, está na hora suas “descobertas” LUIZA: 3ÎO DIFEREN¥AS QUE FAZEM A DI-
FEREN¥Aå!DIlCULDADEDEAPRENDIZAGEM
se refere à presença de um obstáculo,
uma barreira, um sintoma, que pode ser
de origem tanto cultural quanto cogni-
tiva ou até mesmo emocional. É essen-
cial que o diagnóstico seja feito o quan-
TOANTES UMAVEZQUEHÉCONSEQUÐNCIAS
EMLONGOPRAZO¡INTERESSANTELEMBRAR
QUE A DIlCULDADE DE APRENDIZAGEM 
PODE  MUITAS VEZES  SER RESOLVIDA NO
ambiente escolar, como questão psico-
pedagógica. O transtorno ou distúrbio
DEAPRENDIZAGEMESTÉLIGADOAUMADIS-
função neurológica ou biopsicossocial.
.ESSE CASO  OS PORTADORES DO DISTÞRBIO
DE APRENDIZAGEM NÎO CONSEGUEM AD-
quirir o conhecimento de determinadas
matérias e devem ser encaminhados
PARA AVALIA¥ÎO ESPECIALIZADA  PARA QUE
Quando a criança consegue decifrar as letras, ela pode ler, o que não representa uma leitura funcional, AS CRIAN¥AS NÎO SEJAM PENALIZADAS POR
porque apenas repete os sons, e não aplicará esse conhecimento SEUPROBLEMA#ONCLUSÜESCOMBASEEM

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suposições em nada ajudam a solucio- nosticado por um especialista clínico.
nar a queixa, como convencer a criança A aprendizagem Há pessoas com TDAH que passam a
de que ela “tem” de se esforçar, deixar
de ser preguiçosa, que ninguém aguenta
deve ser espontânea vida toda sem terem sido diagnosticadas
e enfrentam uma série de problemas por
MAISETC!lRMA¥ÜESASSIMPREJUDICAM e a alfabetização lhes faltar a compreensão do que pre-
SUAAUTOCONlAN¥AEATRASAMAINTERVEN- cisam nesse quadro neuropsicológico
ção que ela necessita para a adoção de precisa ser cuidadosa, que não se limita à infância. De fato, as
recursos adequados à singularidade de queixas dos adultos são as mesmas das
cada caso. Diante de dúvidas, a colabo- porque é a base dos crianças: distração, falta de concentra-
ração interdisciplinar é indispensável
para a orientação de pais e professores.
outros conhecimentos. ção, baixo rendimento nas atividades,
impulsividade, falta de persistência para
Considero essencial levar as tarefas adiante.
É POSSÍVEL PREVENIR ALGUM DOS PROBLE-
MAS DE APRENDIZAGEM? valorizar os passos COMO É REALIZADO O PROCESSO DE REA-
LUIZA: Sim. Essa é a função de todos os BILITAÇÃO COGNITIVA?
que se dedicam ao desenvolvimento in- que a criança dá, mas LUIZA: Para iniciar a reabilitação, é reco-
fantil, em qualquer especialidade. Todas
as crianças podem aprender, o que é um
ela precisa receber as MENDÉVELCONHECEROPROBLEMA#OME-
ça aí uma controvérsia, porque ainda se
direito constitucional, obrigação da fa- informações mediadas insiste tentar de “tudo” antes de buscar
mília e da sociedade e dever do Estado. AJUDA INTERDISCIPLINAR OU ESPECIALIZADA
Quando se pesquisa como os indivíduos esses sintomas, para serem considerados para avaliar a queixa. O processo de
aprendem, quais as etapas e caminhos a CLINICAMENTESIGNIlCATIVOS DEVEMESTAR reabilitação dependerá da necessidade
serem percorridos ou os fatores que in- presentes pelo menos durante seis me- VERIlCADA  MAS  BASICAMENTE  SE VOLTA
TERFEREMNOAPRENDIZADO PODEM SEAN- ses e serem nitidamente inconsistentes para atender as causas e reverter os re-
TECIPARPROBLEMASPARAPREVENI LOS.ÎO COM A IDADE DO INDIVÓDUO OU SEJA  SER sultados; pode fortalecer os fatores que
estamos falando em alterar condições muito mais desatento ou inquieto do que compensam as áreas comprometidas
biológicas, o que já se tem conseguido o esperado para uma determinada ida- NO CASO DE 4$!( PODEM SER DESEN-
em muitos casos, mas em adequar a DE  $EVE HAVER COMPROMETIMENTO EM VOLVIDOS RECURSOS DE ORGANIZA¥ÎO E DE
situação de ensino para propiciar con- PELO MENOS DUAS ÉREAS DIFERENTES CASA AUTOCONTROLE  ENTRE OUTROS  OU AUXILIAR
dições de progresso às necessidades do EESCOLA POREXEMPLO EOSSINTOMASSÎO NA UTILIZA¥ÎO DE RECURSOS QUE POSSAM
aluno, sendo preciso desenvolver ferra- prejudiciais à adaptação e ao desempe- permitir uma adaptação satisfatória
mentas que atendam os comprometi- nho. As mudanças tornaram possível RECURSOS TECNOLØGICOS  POR EXEMPLO 
mentos que não forem reversíveis. FAZER O DIAGNØSTICO DE 4$!( COM UM 3ABENDO SE QUE O CÏREBRO Ï mEXÓVEL E
quadro de autismo, mas permanecem que as conexões neurais se desenvolvem
UM DESSES PROBLEMAS É A HIPERATIVI- exigências de os sintomas não ocorre- conforme haja estimulação e processa-
DADE NO TRANSTORNO DE DÉFICIT DE rem exclusivamente durante outro qua- mento do conhecimento, a melhora da
ATENÇÃO. A HIPERATIVIDADE SEMPRE VEM DRO ESQUIZOFRENIA  POR EXEMPLO  E NÎO performance não é indicada apenas para
ASSOCIADA À FALTA DE ATENÇÃO? serem mais bem explicados por outro comprometimento, mas também para
LUIZA: / TRANSTORNO DE DÏlCIT DE ATEN- TRANSTORNOANSIEDADEOUDEPRESSÎO POR aqueles que querem melhorar seu índice
ção envolve os sintomas de desatenção e EXEMPLO  / NOVO $3-  TRAZ A OP¥ÎO de resultados. Essa foi a intenção quan-
hiperatividade, basicamente. Pode haver de TDAH com remissão parcial, que do procurei desenvolver uma técnica
predomínio de desatenção, predomí- deve ser empregado naqueles casos em que me ajudasse a estimular a memória,
nio de hiperatividade-impulsividade e que houve diagnóstico pleno de TDAH que sofre uma queda na produtividade
apresentação combinada. O TDAH foi ANTERIORMENTEISTOÏ DEACORDOCOMTO- COMOAVAN¥ODAIDADE#REIOQUECére-
revisto para publicação da nova edição DOSOSCRITÏRIOS PORÏMCOMUMMENOR bro e Aprendizagem: um Jeito Diferente de
DO $3-  E SOFREU ALGUMAS PEQUENAS número de sintomas atuais. Outra novi- Viver, livro em que reuni pesquisas sobre
MODIlCA¥ÜES 0ERMANECE A LISTA DE  dade da quinta edição é a possibilidade o assunto, ajudou bastante, especialmen-
IMAGENS: SHUTTERSTOCK E 123RF

sintomas, sendo nove de desatenção, seis DE SE CLASSIlCAR O 4$!( EM LEVE  MO- te pela proposta de brincar, em qualquer
de hiperatividade e três de impulsivida- derado e grave, de acordo com o grau de IDADE.ÎOVALEMESMOAPENASERENDER
DEESTESDOISÞLTIMOSCOMPUTADOSCON- comprometimento que causa na vida do a tensões que nos provocam diariamen-
JUNTAMENTE  DA EDI¥ÎO ANTERIOR 4ODOS indivíduo. O transtorno deve ser diag- te, não é?

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Q UAIS SÃO OS DIAGNÓSTICOS QUE PO - poderá aplicar esse conhecimento, por- soa tem uma habilidade mais destacada,
DEM SE BENEFICIAR COM A REABILITA- tanto, às diversas situações de sua expe- naturalmente, ela se sente bem ao utili-
ÇÃO COGNITIVA ? riência. A criança pode decorar também ZARODOM SEJANAESCRITA NAMÞSICA NO
LUIZA: Todos os conhecimentos são algumas palavras que vê com frequência domínio da matemática ou de artes, ou
úteis para compreender melhor a pessoa EALGUMASCHEGAMADIZERUMTEXTOIN- em qualquer domínio de conhecimento
e podem auxiliá-la a planejar e a alcan- teiro sem ler uma única palavra realmen- OU INTELIGÐNCIA #ONFORME ELA SE DEDI-
çar os objetivos que a levarão a uma re- te. A criança está se exercitando quando CA  A CAPACIDADE SE DESENVOLVE E A FAZ
ALIZA¥ÎOPESSOAL AUMAMAIORINTERA¥ÎO brinca de ler e escrever palavras em situ- se sentir bem e tende a se consolidar. É
com o meio, encontrando satisfação e ações diversas, quando tenta ler palavras claro que descobrir um dom inato numa
AUTOESTIMA#URIOSAMENTE PENSA SEQUE novas ou tenta escrever e ler o que lhe CRIAN¥AEAPOIÉ LAÏOMÉXIMOå-AS EU
OS PROBLEMAS SE LIMITAM A DElCIÐNCIAS  interessa. Ela aprendeu o nome dela em QUERODIZER QUETODOSPRECISAMDESCO-
mas as crianças bem dotadas também letra de forma, por exemplo, e descobre brir seus talentos, em qualquer idade,
sofrem: precisam acompanhar etapas que pode ser escrito com letras maiús- mesmo quem não teve oportunidade
que já superaram e são podadas em suas culas e minúsculas e que outros nomes quando pequeno.
INICIATIVASDEUTILIZARSEUPOTENCIAL TEN- também apresentam aquelas letras que
dendo à desadaptação, sem que se reco- ela conhece. Descobrir que a leitura é EXISTEM FORMAS DIFERENTES DE RACIO -
nheça a necessidade de uma orientação uma forma de comunicação, quando a CINAR? QUAIS SERIAM?
DIAGNØSTICAQUEOSBENElCIE criança tem oportunidade de perceber LUIZA: O ser humano raciocina para re-
ADIVERTIDAmEXIBILIDADEDALEITURAOUAS ALIZARQUALQUERTIPODEATIVIDADE DESDE
EM SUA OPINIÃO, QUAIS AS RELAÇÕES EN- inúmeras combinações de letras que ati- as mais simples até as mais complexas.
TRE COGNIÇÃO E LINGUAGEM? çam a curiosidade de saber mais. 2ACIOCINARÏAATIVIDADEMENTALQUEPER-
LUIZA: A linguagem é um processo cog- MITEAORGANIZA¥ÎODOPENSAMENTOPARA
NITIVO COMANDADOPORÉREASESPECÓlCAS É POSSÍVEL APRENDER A ESCREVER BEM conseguir a conclusão de ideias, deter-
do córtex cerebral em inter-relação com OU ESSA PRÁTICA É UM DOM INATO QUE SE minar resultados. O raciocínio pode ser
todo o cérebro. A área de Wernick, que MANIFESTA NA INFÂNCIA E SE CONSOLIDA VERBAL QUECONSISTENAUTILIZA¥ÎODEELE-
se situa no centro da face lateral do he- NA IDADE ADULTA? mentos verbais, ou não verbal, quando
MISFÏRIOESQUERDODOSDESTROS ÏADMI- LUIZA: .ÎO Ï UM DOMÓNIO INATO  POR- envolve exercícios de raciocínio lógico
tida como essencial para todas as moda- que você precisa conhecer o código de com problemas matriciais, geométricos
lidades de linguagem. Associada a essa linguagem para escrever bem; se você e aritméticos. O raciocínio espacial en-
ZONAHÉUMPOLOMOTORANTERIORREGIÎO nunca tiver acesso a esse recurso, será volve a capacidade de manipular repre-
DE"ROCA UMPOLOPOSTERIORPARIETOOC- impossível aprender. Quando uma pes- sentações mentais visuais. O raciocínio
CIPITAL  RELACIONADO Ì LEITURA E ESCRITA E abstrato se refere à capacidade para
um polo parietal relacionado com a ativi-
dade gestual. A linguagem é um instru-
Todas as crianças podem determinar ligações abstratas entre con-
ceitos através de ideias inovadoras. Di-
mento de comunicação entre as pessoas
EUMORGANIZADORPRIVILEGIADODOPENSA-
aprender, o que é direito versos outros tipos de raciocínio ainda
podem ser listados, mas o importante é
MENTOnÏCOMODElNOALINGUAGEMAO constitucional. Quando observar o foco o melhor possível, rela-
apresentar o livro Aprendizagem, Lingua- cionar as informações, arriscar proposi-
gem e Pensamento, que reúne importantes se pesquisa como os ções, analisar hipóteses, comparar, ouvir
autores que discutem esse tema com
base nas teorias que o consolidam.
indivíduos aprendem, as pistas internas e... relaxar. O raciocí-
nio é um super-herói que não gosta de
quais as etapas a serem pressão: brinque, solte-se e ele acontece.
EXISTEM EXERCÍCIOS INDICADOS PARA A
CRIANÇA LER MAIS E MELHOR? VOCÊ FALA percorridas ou os fatores O APRENDIZADO É CONSTANTE EM NOSSA
EM EXERCÍCIOS DE FLEXIBILIDADE NA LEI- VIDA. UMA DAS MOTIVAÇÕES , INCLUSIVE ,
TURA. COMO FUNCIONAM? que interferem no FOI A DESCOBERTA SOBRE A ELASTICIDA-
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

LUIZA: Quando a criança consegue deci-


frar todas as letras do alfabeto, ela pode
aprendizado, podem-se DE CEREBRAL . HÁ TÉCNICAS QUE PODEM
SER USADAS POR ADULTOS EM DESENVOL-
ler, mas isso não representa uma leitura antecipar problemas VIMENTO DE APRENDIZAGEM? SÃO DIFE -
funcional, porque ela apenas repete os RENTES DAS APLICADAS EM CRIANÇAS EM
SONS  SEM SABER SEU SIGNIlCADO E NÎO para preveni-los IDADE ESCOLAR? CASO SEJAM, POR QUÊ?

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DE QUE FORMA VOCÊ OBSERVA A QUES -
Não estamos falando em alterar condições TÃO DA VISIBILIDADE E INVISIBILIDADE

biológicas, o que já se tem conseguido em muitos SOCIAL DO ADOLESCENTE NO MUNDO


CONTEMPORÂNEO?

casos, mas em adequar a situação de ensino para LUIZA: Os problemas da adolescência


estão ganhando espaço social no mun-
propiciar condições de progresso às necessidades do contemporâneo com avanços em sua

do aluno, sendo preciso desenvolver ferramentas visibilidade, mas há muito a caminhar e


vencer. Frequentemente, os adolescen-
tes estão visíveis, como preocupação, e
LUIZA: Aprender é constante, resulta nosso congresso interdisciplinar, que mais pela percepção dos problemas do
de estar vivo e em relação com o am- AGORAFAZANOS que pelas soluções. A vulnerabilidade
BIENTE -ESMO DORMINDO  A APRENDIZA- dessa etapa de vida diante da violência
gem ocorre, porque o sono consolida a COMO A PSICOTERAPIA PODE CONTRIBUIR urbana, do apelo às drogas, da falta de
memória e libera a consciência de crí- PARA O TRATAMENTO DE TRANSTORNOS PERSPECTIVAS PROlSSIONAIS DE REALIZA-
ticas. Sem dúvida, saber que o cérebro MENTAIS E COGNITIVOS ENTRE OS ADO - ção pessoal ainda representa um desa-
NÎOESTABELECEUMLIMITEDEAPRENDIZA- LESCENTES? lOPARAO%STADOEASOCIEDADE3ENDO
gem, e até pode reativar funções cogni- LUIZA: O autoconhecimento é a estra- uma fase essencial para o futuro, com
tivas que possam ter sido afetadas por TÏGIAUTILIZADAEMPSICOTERAPIA#ONFOR- forte impacto na sociedade e em sua
doenças ou traumatismos, abriu um le- me o indivíduo consegue se perceber de produção, é preciso conseguir mais do
que de expectativas das quais o ser hu- forma mais consciente, com suas fra- que promover a punição de infrações e,
mano pode usufruir. As técnicas devem QUEZASEFOR¥AS ELESETORNAMAISCAPAZ também, apoiar os pais através de pro-
ser diferentes, porque devem atender as de aceitar as pessoas e de interferir no gramas que possam orientar os jovens
características de cada um. Ou seja, a mundo de forma positiva, com resulta- e prevenir desvios de conduta, espe-
APRENDIZAGEM NÎO SE LIMITA Ì INFÊNCIA  dos satisfatórios, que promovem cada cialmente nas comunidades mais ca-
embora seja um período de inestimáveis VEZMAISESSAINTERA¥ÎO rentes, que contam com menos opções
POSSIBILIDADESNAAPRENDIZAGEM/CÏRE-
BRO SENDOUMØRGÎOmEXÓVEL DEVESEGUIR
Quando a pessoa tem uma
buscando aperfeiçoamento. Eu mesma habilidade, naturalmente ela se
acabei me voltando para a Psicologia sente bem ao utilizar o dom,
Social e do Trabalho, área em que com- seja na escrita, na música ou no
PLETEIMEUDOUTORAMENTO NA530 COM domínio da matemática
a orientação do incrível prof. dr. Sig-
MAR-ALVEZZI3ABEMOSQUENEMTODOS
têm a oportunidade de receber estímu-
LOS ADEQUADOS NA INFÊNCIA MAS SEMPRE
EXISTE A PSICOTERAPIA  E ME CONVENCI DE
QUE SEREUNIRMOSOSPROlSSIONAISQUESE
DEDICAMAESTUDOSCIENTÓlCOSDECONHE-
cimentos e teorias que fortalecem esse
CAMPO  CONSEGUIREMOS FAZER MAIS PELA
educação, promovendo mais crianças.
Então, me voltei para os professores, psi-
CØLOGOS FONOAUDIØLOGOS lSIOTERAPEUTAS 
MÏDICOS  ENlM  PARA AQUELES QUE TRA-
BALHAM%MVÉRIOSLIVROSQUEORGANIZEI
tive o privilégio de ser atendida por au-
TORES QUE ADMIRO E ACEITARAM O DESAlO
de melhorar as condições brasileiras de
educação, saúde e trabalho. Escreveram
capítulos e defenderam seus temas em

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parceiros mais do que interessados em
compartilhar dessas tarefas, nem sem-
pre são alcançáveis. Acho que o mais
difícil é ouvir esses alunos, que acumu-
lam conhecimentos de fontes duvidá-
veis, e responder conforme as dúvidas,
permitindo a chance de se colocarem
no lugar do outro para aceitar cada um,
mas, principalmente, visando autoes-
TIMA  VALORIZANDO AS PRØPRIAS CARAC-
terísticas e sonhos, que, dessa forma,
POSICIONAM SEACIMADEBULLYING4AM-
bém é difícil para o adolescente lidar
com seus fracassos pessoais, que acon-
tecem nas relações diárias e advêm da
DIlCULDADEPARAAGIREMCONFORMIDADE
com seus valores, lembrando que, nessa
fase, os grupos se formam e o desejo de
Na fase da adolescência, é comum a formação de grupos, pois a necessidade de ser aceito faz o jovem SER ACEITO FAZ O JOVEM PASSAR ATÏ POR
passar até por cima de si mesmo ou se isolar cima de si mesmo ou se isolar.

DE SUPORTE -EDIDAS DE INCENTIVO PRO- Para iniciar a O UTRA QUESTÃO FUNDAMENTAL SERIA A
lSSIONALIZANTE PODEM AJUDAR A OCUPAR RELAÇÃO DO ADOLESCENTE COM A VIO -
o tempo e a energia dos adolescentes, reabilitação cognitiva LÊNCIA , EXTRAPOLANDO PARA CONFLI -
para que invistam em retorno concreto, TOS NA ESCOLA . C OMO LIDAR COM ESSE
tão necessário a essa fase que se perde é recomendável conhecer PROBLEMA?
em devaneios com facilidade. Educa-
¥ÎO SAÞDE ESPORTE CULTURA ARTEELAZER
o problema. Começa LUIZA: O estresse está presente na vida
diária e as exigências, frequentemente,
devem estar mais ao alcance dos jovens aí uma controvérsia, superam as possibilidades de o jovem
nas políticas públicas, apesar das re- CORRESPONDEROADOLESCENTEPODEABRIR
conhecidas conquistas. A visibilidade porque ainda se insiste mão de encontrar com a pessoa que
que governantes precisam ter sobre a FAZ SEU CORA¥ÎO BATER MAIS FORTE  MAS
adolescência é de conhecimentos que em tentar de “tudo” NÎOTERÉGARANTIASDEUMABOACLASSIl-
tragam respostas aos problemas, com
caminhos mais seguros para lidar com
antes de buscar ajuda CA¥ÎONUMAPROVA ¡UMMOMENTODE
desenvolvimento em que os amigos do
ELESE PARAISSO PROlSSIONAISPESQUISA- interdisciplinar ou grupo parecem ser aqueles que podem
dores deveriam ser reunidos e ouvidos, compreendê-lo, o que nem sempre se
para que os projetos sejam debatidos e especializada para CONCRETIZA3ÎOFATOSQUETORNAMAADO-
acertados, buscando os aspectos que lescência uma fase complicada, exter-
ainda estão invisíveis, que são as expec- avaliar a queixa namente, enquanto, internamente, as
tativas dos adolescentes e suas possibili- mudanças não obedecem o seu coman-
dades de contribuir com a sociedade: “A LUIZA: .ÎO DEVERIA SER UM PROBLEMA do e se evidenciam nas espinhas do
SOCIEDADEPRECISASEDISPORAFAZERMAIS conversar com alunos sobre sexuali- rosto, no corpo que muda, nos pensa-
do que críticas, ajudando a construir o DADE E GÐNEROS ! DIlCULDADE ESTÉ EM mentos que ganham o espaço. Sentir-
FUTURODOSNOSSOSJOVENSvAdolescência – conversar. O educador do século XXI -se confuso, sem saber como conciliar
as Contradições da Idade  acumulou inúmeras funções, confor- desejos e práticas, aumenta o descom-
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

me se entende cada aluno como um PASSO DE UMA FASE CARACTERIZADA POR
DENTRE OS INÚMEROS DESAFIOS PARA O ser especial em desenvolvimento, e seu uma montanha-russa de emoções, que
EDUCADOR DO SÉCULO XXI, CONVERSAR papel presume muito mais do que re- incluem também a agressividade. De
COM OS ALUNOS SOBRE SEXUALIDADE E GÊ - PASSARINFORMA¥ÜES QUE AlNAL PODEM repente, para aquele jovem grande, de
NEROS SERIA UM DOS MAIORES? ser obtidas por diversos meios. Os pais, CORPO  E AINDA IMATURO NAS A¥ÜES FAZ

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falta um direcionamento, ao seu lado,
ACOMPANHANDO SEU FAZER  SEU QUERER
e ajudando-o a se posicionar com su-
cesso, lidando com a inteligência emo-
cional, que se divorcia do adolescente
nessa fase tão inexplorada. A violência
SEFAZÌNOSSAVOLTAESELIGAAUMCOM-
portamento social que precisa ser com-
preendido, porque ela exclui indivíduos
da possibilidade de convívio. A escola
TEMACHANCEDEACOLHEROSCONmITOSE
buscar resoluções com a família, com a
0SICOLOGIAOUCOMOSPROlSSIONAISQUE
forem indicados para a resolução do
problema, na prevenção, antes que ele
aconteça. Ignorar a situação é empur-
rá-la para um agravamento, por isso,
no livro Violência e Educação – a Socie- O adolescente é um ser biologicamente programado para dormir e acordar mais tarde, sendo que na maior
dade Criando Alternativas, procuramos parte da manhã seu cérebro não está em estado de vigília
ouvir especialistas, que nos mostram
que o futuro se constrói agora. O processo de em seu bem-estar físico e psicológico
e está associada a problemas compor-
E XISTE UMA AFIRMAÇÃO DE QUE O ADO - reabilitação dependerá tamentais e neurocognitivos. Estudos
LESCENTE DORME DEMAIS , SENTE MAIS têm sugerido que os adolescentes pre-
SONO. HÁ UMA ASSOCIAÇÃO ENTRE SIN - da necessidade, mas cisam de nove a nove horas e meia de
TOMATOLOGIA DEPRESSIVA E DISTÚRBIOS
DO SONO NESSA FAIXA ETÁRIA?
se volta para atender sono por noite e, quando isso não ocor-
re, eles podem apresentar maior sono-
LUIZA: .ÎO NECESSARIAMENTE ¡ UMA as causas e reverter os LÐNCIA DIURNA  DIlCULDADES DE ATEN¥ÎO
fase de intenso gasto de energias, e a e de concentração, baixo desempenho
reposição ocorre justamente através resultados; pode fortalecer ESCOLAR  ALÏM DE mUTUA¥ÜES DO HUMOR
do sono, tema que considero da maior É importante pensar em práticas ade-
importância e que não recebe a aten- os fatores que compensam quadas de atividades físicas regulares,
ção correspondente aos danos que sua
falta provoca e poderiam ser evitados
as áreas comprometidas redução do tempo de ociosidade em
frente ao computador e à televisão e,
ORGANIZEI DOIS LIVROS SOBRE O ASSUNTO ou auxiliar no uso de ainda, um tempo para acompanhar as
e tive como coorientador de doutorado situações que lhe provocam ansiedade
O PROF DR 2UBENS 2EIMÎO  DO 'RUPO recursos que permitam – tudo isso ajuda a promover uma roti-
DE0ESQUISA!VAN¥ADAEM-EDICINADO na no período noturno para que o sono
3ONO DOQUALFA¥OPARTE !SALTERA¥ÜES adaptação satisfatória seja satisfatório. Da mesma forma, ape-
HORMONAISNAADOLESCÐNCIAINmUENCIAM NASRECLAMARDESSETRA¥OlSIOLØGICOSØ
AS MUDAN¥AS ! MELATONINA PRODUZIDA a carga de exigências escolares, que OSFAZBUSCARDISSIMULAROQUESENTEM 
pela glândula pineal e altamente envol- contribuem para que o adolescente causando uma irritação que, mesmo
vida no ciclo do sono passa a ter seu durma mais tarde, alterando o padrão CONTROLADA NÎOTRAZOSOBJETIVOSDESE-
pico de excreção mais tarde, atrasando do ciclo vigília-sono. O adolescente é jados, que devem ser enunciados junto
a sensação de sono nos jovens. Sua pro- um ser biologicamente programado COMOSJOVENS%M-"!EM'ESTÎODE
dução também é afetada com a exposi- para dormir e acordar mais tarde, sen- 0ESSOAS PODE SE CONlRMAR HOJE  LIDE-
¥ÎOÌLUZ OQUEACONTECE POREXEMPLO  do que na maior parte da manhã seu rança não é a capacidade de falar mais
no uso de aparelhos eletrônicos antes cérebro não está em estado de vigília. ALTO3AIRDOCONTROLESØCONDUZAOES-
de dormir, o que é quase uma norma. A duração do sono noturno desem- tresse, doença que se espalha facilmen-
!OLADODAMUDAN¥AlSIOLØGICA APARE- penha papel importante na saúde dos te. Por isso, se tiver dúvidas, procure
cem as mudanças sociais, assim como ADOLESCENTES TEMIMPACTOSIGNIlCATIVO um especialista.

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psicopositiva por Lilian Graziano

O que você vai ser


quando CRESCER?
VISTO POR MUITOS COMO FONTE DE SOFRIMENTO,
O TRABALHO POSSUI ESTREITA LIGAÇÃO COM A FELICIDADE.
EXISTIRIAM, ENTÃO, PROFISSÕES MAIS “FELIZES”?

D
ia desses me dirigiram uma logia anacrônica que insiste em discutir O trabalho nos desafia e, ao fazê-lo, nos
pergunta interessante: Exis- a mais valia. É sempre bom lembrar que, torna seres humanos melhores. Dessa
tem profissões mais felizes que apesar de também poder ser utilizado forma, vale dizer que uma outra implica-
outras? Podemos analisar essa como forma de exploração, o trabalho é, ção da pergunta inicial seria a existência
pergunta de várias maneiras. Come- antes de tudo, uma forma de autorreali- de uma conexão entre a felicidade e aqui-
cemos (é claro) pela mais otimista. Tal zação. Além disso, às demandas geradas lo que fazemos de nossas vidas, o que faz
questão estabelece o pressuposto de que pelo mundo do trabalho devemos boa todo sentido, uma vez que somos o exato
felicidade e trabalho sejam conciliáveis, o parte de nossas conquistas pessoais, tais produto de nossas escolhas.
que por si só representa para mim um alí- como a disciplina, a responsabilidade, o O questionamento sobre a existên-
vio, acostumada que estou a uma Psico- convívio com o outro, a tolerância etc. cia ou não de profissões mais felizes

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NAS BANCAS!
É SEMPRE BOM LEMBRAR QUE,
APESAR DE TAMBÉM PODER SER
UTILIZADO COMO FORMA DE EXPLORAÇÃO,
O TRABALHO É, ANTES DE TUDO,
UMA FORMA DE AUTORREALIZAÇÃO

demonstra também um crescente inte- de profissões mais felizes, que é a de que


resse das pessoas pelo tema da satisfação a felicidade estaria em algo externo ao
no trabalho, o que parece corroborar próprio indivíduo, tal como uma profis-
a afirmação de Seligman de que nossa são que seria mais ou menos feliz per se.
economia estaria mudando rapidamente Talvez nesse ponto devamos substi-
“de uma economia de dinheiro para uma tuir a clássica pergunta “o que você vai
economia de satisfação”. O problema ser quando crescer?” por algo do tipo
ocorre quando a opção pela satisfação “como você vai ser quando crescer”?
entra em choque com a concepção vi- Isso porque, ao questionarmos nossos
gente acerca do sucesso. Reféns de uma filhos sobre o que deverão ser, talvez
educação voltada para o “ter”, crescemos estejamos lhes ensinando, equivocada
acreditando no sucesso como prosperi- e subliminarmente, que existem profis-
dade financeira e, fundamentados por sões melhores do que outras e nos fe-
essa crença, muitas vezes nos perdemos chando para o fato de que uma pessoa
na trajetória de nossas carreiras. Nesse pode atingir o verdadeiro sucesso (leia-
sentido, ao discutir o sucesso, o psicólo- -se felicidade) por meio de uma dezena
go Viktor Frankl parece bastante atual. de profissões diferentes, desde que por
Diz ele: “O sucesso, assim como a felici- meio delas encontre meios de expressar
dade, não pode ser perseguido; ele deve o seu melhor, deixando no mundo a sua
acontecer, e só tem lugar como efeito marca individual como ser humano.
colateral de uma dedicação pessoal a Vale lembrar também que, com o au-
uma causa maior que a pessoa, ou como mento da expectativa de vida, costuma-
subproduto da rendição pessoal a outro -se falar hoje sobre múltiplas carreiras.
ser. A felicidade deve acontecer natural- Portanto, como você vai ser quando
mente, e o mesmo ocorre com o suces- crescer? Quando partir para a segun-
so; vocês precisam deixá-lo acontecer da, terceira ou mesmo quarta carreira?
não se preocupando com ele. Quero que Lembre-se de que se hoje para nós a
vocês escutem o que a sua consciência medida do sucesso parece vir de uma
diz que devem fazer e coloquem-no em comparação constante entre o nosso
prática da melhor maneira possível. E modelo de iphone ou de carro com o do
então vocês verão a longo prazo – estou nosso vizinho, acreditar na felicidade
dizendo: a longo prazo! – o sucesso vai no trabalho como resultado da maneira
persegui-los, precisamente porque vocês com que nos relacionamos com ele tal-
esqueceram de pensar nele”. vez nos faça enxergar que, como dizia
É aí então que chegamos ao que cha- Hemingway, “não há nobreza em ser
mo de premissa equivocada da pergunta superior ao próximo. Nobreza é ser su-
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK/ ACERVO PESSOAL

inicial sobre a possibilidade da existência perior ao que você já foi”.

Lilian Graziano é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão
em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora
universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento,
onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.
graziano@psicologiapositiva.com.br

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psicopedagogia por Maria Irene Maluf

A EPILEPSIA
é um problema biológico
A ESCOLA, RESPONSÁVEL PELA FORMAÇÃO DO
CIDADÃO, PRECISA FAZER PARTE DAS INTERVENÇÕES,
QUER NO ASPECTO PEDAGÓGICO OU NO
SOCIOEMOCIONAL DAS CRIANÇAS QUE TÊM A DOENÇA

D
e origem grega, a palavra A convulsão é apenas um dos sinto- através de exames específ icos, e que
epilambanei (“surpresa”) é mas da doença, a qual traduz a existên- a intervenção, medicamentosa ou
uma condição biológica, que cia ocasional de uma descarga excessiva cirúrgica, ofereça à grande maioria
revela um desequilíbrio neu- e desordenada do tecido nervoso sobre dos epilépticos uma condição de vida
rológico manifestado frequentemente os músculos do organismo. Não é con- normal, alguns fatores decorrentes
na forma de crises convulsivas inespe- tagiosa e pode surgir em qualquer idade. podem trazer prejuízos a sua vida
radas e recorrentes, com grau variável Ainda que a conf irmação des- escolar, mesmo se sabendo que não
de intensidade e duração. se diagnóstico seja da área médica, há comprometimento cognitivo asso-

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ciado ao quadro, até pelo contrário: RELATOS E que os professores saibam o que fazer
a maioria dos epilépticos tem funcio- antes, durante e após a crise.
namento normal e acima da média
REGISTROS TÊM Conhecimentos científ icos especí-
(Mattos, Duchesne, 1994). MOSTRADO QUE f icos sobre o assunto estão em bons
A epilepsia é comum a cerca de NEM TODO sites na internet, em boas revistas e
2% de nossa população, especialmen- em livros de autores experientes, além
te na infância, já que nos primeiros PROFESSOR ESTÁ de cursos de primeiros socorros que
anos de vida há mais vulnerabilida- APARELHADO PARA são indispensáveis para quem tem sob
de para infecções do sistema nervo- sua responsabilidade muitas crianças
AGIR NO CASO DE
so central, e acidentes ocorrem com e adolescentes diariamente.
certa frequência. As crises epilépticas UM ALUNO TER UMA Sabe-se que mesmo entre os alu-
podem ser de diversos tipos, confor- CRISE CONVULSIVA nos medicados e que não apresentam
me as áreas do cérebro afetadas. Há crises convulsivas típicas na escola,
crises parciais, outras generalizadas,
NA SALA DE AULA devido ao efeito de algumas dessas
assim como há as chamadas crises de medicações e a algumas interrupções
ausência, em que não há uma evidên- Mas pior é o mal-estar do ponto na frequência às aulas, podem apare-
cia motora. Os sintomas da epilepsia de vista pessoal e social: epilépticos cer prejuízos no processo de apren-
variam de acordo com os neurônios em geral relatam vergonha dos co- dizagem devido a uma relativa baixa
que estão em estado de hiperexcita- legas, sentem-se vulneráveis a ter atentiva, e de memória, um rebaixa-
ção, e em decorrência podem surgir outras crises e serem objeto de pena mento na velocidade de processamen-
confusão temporária, ausência, mo- e discriminação. Tornam-se crian- to, no desenvolvimento das funções
vimentos musculares descoordena- ças e jovens menos sociáveis, pois da linguagem, no perceptivo motor e
dos e completa perda da consciência. a sua condição repercute no aspec- no aprendizado do cálculo (Mattos;
Quando as crises ocorrem apenas em to psicossocial, de relacionamento Duchesne, 1994).
parte do cérebro, elas são chamadas com meio ambiente, tanto na famí- Se houver surgimento de uma
de crises convulsivas parciais, mas lia como na escola e, mais tarde, na eventual dif iculdade de aprendizado
quando a hiperexcitação neuronal vida prof issional. ligada à epilepsia, certamente será
não se atém apenas a uma determi- A família toda precisa de orien- complicada por fatores de ordem
nada região cerebral, ocorrem crises tação e frequentemente essa advém socioemocionais e de ensino-apren-
convulsivas generalizadas. da escola: muitos pais tornam-se su- dizagem, referente à maneira como
Relatos e registros têm mostrado perprotetores, ansiosos, permissivos a escola desenvolve a inclusão da
que nem todo professor está apare- e há um importante estresse familiar criança no grupo.
lhado para agir no caso de um aluno permeando, o que aumenta o senti- É importante não apenas lembrar
ter uma crise convulsiva e, decorren- mento de inadequação, dependência, que incentivar a criança a elaborar es-
te a esse fato, as crianças, os cole- imaturidade do epiléptico. Além dis- tratégias de aprendizagem adequadas
gas de classe também não têm esse so, nesse contato do professor com ao seu perf il de aprendiz lhe oferece
conhecimento e se assustam, pois a família, informações sobre diag- oportunidade de desenvolver suas ha-
não fazem ideia do que ocorre com o nóstico, medicação e características bilidades cognitivas e ter sucesso na
amigo em crise. especiais desse aluno trarão maiores escola, autoconf iança e motivação.
Por isso, o impacto geral é na recursos aos prof issionais, criando Mas também é preciso estar atento ao
maioria das vezes marcante para ainda condições de esclarecimento fato de que alunos com dif iculdades
quem assiste a uma convulsão, já que de base científ ica sobre o que é uma escolares de toda ordem precisam de
a ideia de morte, aliada aos mitos que convulsão, o que é a epilepsia e afas- retorno e reforço mais constante, para
envolvem a epilepsia, ainda é grande tar tabus que rondam a doença. Por que modif iquem sua conduta no senti-
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK/ ARQUIVO PESSOAL

na atualidade. Pode ser mesmo uma essa razão, é de extrema importância do da superação.
cena impactante se a crise for inten-
sa e a pessoa se machucar na queda.
Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e
Embora quem tem o ataque epilépti- Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de
co não padeça de dor física, pode se Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É autora de artigos em
machucar ao se debater contra uma publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de
especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br
superfície rígida, pontiaguda.

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NEUROPLASTICIDADE

123RF

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Processos de
SINAPSES
IGUAIS
Avanços
Avanços ttecnológicos
ecnológicos
proporcionam
proporcionam entender
entender melhor
mel ho r
o funcionamento
funcionamento da da mente,
mente,
especialmente
especialmente em em pesquisas
p e s q u i s as
realizadas pela
realizadas p ela nneurociência
eurociência q que ue
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Por Marineide
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Milton
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Cesar
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erlin M
Moura
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Marineide Almeida Fernandes é psicóloga, terapeuta de casais e família, terapeuta


EMDR, master coach, practitioner em PNL e hipnoterapeuta e ativista quântica. Site:
marineidealmeida.com.br | Fanpage: facebook.com/PsiMarineideAlmeida |
Instagram: @PsiMarineideAlmeida
( G! (G\\
IIG
 G9‚  GG  GË I:
Site: drmiltonmoura.com | Canal no Youtube: youtube.com/DrMiltonMoura | Fanpage:
facebook.com/AtivismoQuantico | Instagram: @DrMiltonMoura-AtivismoQuantico

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NEUROPLASTICIDADE

E
m algum momento al- serva e o objeto que é observado. qual a mente e o cérebro interagem:
guém já pensou sobre Como isso acontece? Como ocorre realidade e imaginação. A mente
o fenômeno da percep- essa separação entre o sujeito e o pode mudar o cérebro? Essa é uma
ção? Como se perce- objeto? Por meio da chamada ci- questão que sempre esteve pre-
bem as coisas ao redor são sujeito/objeto da observação. sente em várias discussões. Quem
e no mundo externo? Todos temos Como surge o sujeito que observa? causa quem? O cérebro, através dos
um aparato de percepção: o cére- Existe a mais pura nitidez dessa se- seus processos internos de funcio-
bro. Ele é o responsável por colocar paração: a observação é capaz de namento dos neurônios, produz a
o ser humano em contato com tudo produzir o “Eu” que percebe, que mente? A mente pode causar algu-
o que existe. É praticamente impos- dá significado, que cria a realida- ma mudança na estrutura física do
sível não se impressionar quando de. Percepção e realidade guardam cérebro? São questões importantes
se pensa na compreensão do fenô- uma íntima correlação. E a imagi- e merecem ser respondidas. Essas
meno da percepção. A cada obser- nação? Quando se fecham os olhos, respostas permitirão uma expansão
vação, o cérebro grava o ambiente o que acontece com o cérebro? da própria consciência.
externo e cria uma representação Os avanços tecnológicos de in- Consciência e cérebro guardam
interna. Um processo complexo e vestigação do cérebro permitiram uma íntima (inter)relação, o pro-
ainda pouco compreendido em sua uma expansão na compreensão de blema é acreditar que a consciên-
totalidade pela neurociência. seu funcionamento. Avançou-se cia surge devido ao funcionamento
Em cada percepção surgem, si- muito com os estudos proporciona- do cérebro. Desde muito tempo,
multaneamente, o sujeito que ob- dos pela neurociência no campo no William James – um dos fundado-
res da Psicologia moderna – já pen-
Em cada percepção surgem, sava nessa interação. Ele realizou
experimentos pessoais com o óxido
simultaneamente, o sujeito que observa e o nítrico, ou gás hilariante, com o
qual sentia a consciência se libertar
objeto que é observado. Como isso acontece? do corpo. Isso o levou a questionar
Como ocorre essa separação entre o sujeito e publicamente, em 1898, se o cére-
bro de fato produzia a consciência.
o objeto? Por meio da chamada cisão Hoje, com a utilização do mape-
sujeito/objeto da observação amento cerebral, é possível estudar
o cérebro de forma dinâmica (es-
tudar o cérebro vivo), o que trouxe
uma importante consequência para
as pesquisas da consciência. O cé-
rebro não consegue diferenciar rea-
lidade de imaginação. Os processos
de sinapses utilizados pelo cérebro
durante a percepção de um objeto
separado e externo são os mesmos
usados durante a imaginação desse
mesmo objeto, agora na percepção
interna e particular. Isso começa
a proporcionar um embasamento
científico para todas as terapias que
lidam com o campo sutil, sejam elas
oficializadas por órgãos competen-
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

tes ou não.
O fato de um grupo de pessoas
apenas imaginar que está apren-
O cérebro coloca o ser humano em contato com tudo o que existe, ou seja, a cada observação, o dendo determinada habilidade,
cérebro grava o ambiente externo e cria uma representação interna comparado com outro grupo que

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realmente está treinando mecani- dida que fossem tocadas. Ou seja,
camente essa habilidade, não mos- esse grupo estava sentado ao piano
trou nenhuma diferença signifi- e fazendo os exercícios físicos. Um
cativa entre ambos. Esse conceito outro grupo, chamado grupo do
fez despertar e emergir o conceito exercício mental, iria apenas imagi-
da neuroplasticidade: a capacidade nar a mesma sequência de notas por
que todos têm de criar novos cir- duas horas por dia, durante cinco
cuitos cerebrais para expressar no- dias. Os grupos tiveram o cérebro

HOUGHTON LIBRARY AT HARVARD UNIVERSITY/WIKIPEDIA


vas habilidades de nossa consciên- mapeado antes, durante e depois do
cia. Ou seja, estimular a formação experimento. Ambos os grupos fo-
de novas sinapses em um processo ram solicitados a tocar a sequência
denominado sinaptogênese, que aprendida e treinada enquanto um
é feito a cada momento diante das computador media a precisão de
inúmeras percepções que são cap- sua performance.
tadas do mundo exterior. As novas Pascual-Leone concluiu que
sinapses determinam novas redes Um dos criadores da Psicologia moderna, William
ambos os grupos mostraram mu-
neurais que, por sua vez, formarão James sempre acreditou que a consciência e o danças semelhantes no mapa cere-
novas memórias. cérebro têm uma íntima relação de interatividade bral. O grupo do exercício mental
produziu uma mudança física no
sistema motor semelhante ao gru-
A mente pode mudar o cérebro? Essa é uma po que executou o exercício físi-
co. Ao final do quinto dia, as mu-
questão que sempre esteve presente. danças para os músculos eram as
O cérebro, através dos seus processos internos mesmas nos dois grupos. Durante
o processo de imaginação, é pos-
de funcionamento dos neurônios, produz a sível promover mudanças físicas
mente? A mente pode causar alguma no cérebro, demonstrando que o
exercício mental provoca tais mu-
mudança na estrutura física do cérebro? danças cerebrais. Isso traz à tona

Pesquisa realizada pelo médi-


PARA SABER MAIS
co espanhol Alvaro Pascual-Leone
observou esses aspectos, um expe- TECNOLOGIA É UTILIZADA
rimento elegante e elogiado pelos
cientistas que estudam o fenôme- PARA ATIVAR NEURÔNIOS
no da neuroplasticidade. Com o
aperfeiçoamento dos equipamentos
de mapeamento cerebral, Pascu-
U m aparelho chamado Transcranial Magnetic Stimulation (TMS) foi
utilizado pela primeira vez na Faculdade de Medicina de Harvard. Trata-
se de um dispositivo que emite uma estimulação magnética transcraniana
al-Leone conseguiu levar adiante os capaz de impulsionar os neurônios. Pascual-Leone é o pioneiro no uso da
trabalhos de Ramón y Cajal, médico TMS para ativar neurônios. Ele estudou como os pensamentos alteram o
e histologista espanhol, considerado cérebro utilizando a TMS para observar mudanças nos mapas dos dedos
o “pai da neurociência moderna”. de pessoas que aprendem a tocar piano. Podemos mudar nossa anatomia
A imaginação pode mudar a cerebral simplesmente usando a imaginação. Dois grupos de estudos foram
anatomia cerebral? Os detalhes do formados, um sentado diante de um piano e executando uma sequência
experimento sobre a imaginação de notas com dedos específicos. Outro grupo imaginaria tocar a mesma
foram simples e realizados com sequência de notas sem estar diante do piano. Após algumas semanas de
pessoas que nunca tinham estuda- treinos e submetidos ao mapeamento cerebral através do TMS, observou-
do piano. Foi ensinado a um grupo se que no grupo do exercício mental o nível alcançado em performance era
uma sequência de notas, mostran- igual ao nível atingido pelo grupo do exercício físico. O cérebro não separa
do-lhes quais dedos mexer e dei- realidade de imaginação!
xando que ouvissem as notas à me-

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NEUROPLASTICIDADE

servação é capaz de provocar o “co- Quando se entra em contato


lapso” da função de onda da matéria, com o mundo externo, tornando-
simplesmente por observar. Quem -o real, ocorre na percepção a cisão
provoca o colapso da função de onda sujeito/objeto, ou seja, percebe-se a
da matéria? Para Amit Goswami, a realidade/objeto separada, ao mes-
consciência é a base de tudo e é ela mo tempo que guarda-se a sensação
que causa a realidade. de um sujeito observando. Todos
Em um futuro bem próximo, a estão a todo instante mensurando
ŒEstudo do medicina oficial incorporará em as coisas ao redor. Estímulos diver-
comportamento neural Œ suas práticas a opção da medita- sos chegam ao cérebro para se co-
A programação neurolinguística (PNL) ção, da contemplação, da oração, criar a realidade. Esses estímulos
pode ser definida como a metodologia das atividades físicas relaxantes, necessitam da luz ref letida sobre os
que estuda o aprendizado comporta- das terapias energéticas, além da objetos para que haja sua percep-
mental, ou seja, como o cérebro percebe,
codifica, organiza e armazena as infor-
abordagem alopática hoje em práti- ção, para posterior uso através do
mações, no que se refere a experiências. ca. O ser humano necessita de uma aprendizado, ou seja, a memória.
Esse processo determina as relações da abordagem integral, pois é um ser As informações advindas das
pessoa com o meio. Explica de que for- integral, constituído de intuições, diversas interações sociais que o
ma, em dado contexto e circunstância, a pensamentos, sentimentos, além da ser humano vivencia em seu dia a
pessoa age ou reage, como experimen-
ta, como influencia o mundo ao redor
biologia molecular que o envolve. dia alimentam o córtex cerebral e o
e como é influenciada por ele, positiva
ou negativamente.
Os processos de sinapses utilizados pelo
cérebro durante a percepção de um objeto
novamente que a consciência não separado e externo são os mesmos usados
pode ser o resultado do funciona-
mento dos neurônios. Pelo contrá- durante a imaginação desse mesmo objeto,
rio, a consciência deve exercer um
papel causal.
agora na percepção interna e particular
Mundo quântico
S erá que o pensamento e o mundo
quântico têm alguma relação?
Em 1988, Amit Goswami – profes-
sor PhD de Física Quântica Teórica
da Universidade de Oregon, nos Es-
tados Unidos – afirmou que sim. Le-
vou um bom tempo para se perceber
a mensagem da Física Quântica: a
matéria, assim como qualquer forma
de energia, comporta-se como on-
das de possibilidades, em potentia. A
Física Quântica traz para a fórmula
da realidade o papel do observador
até então afastado e separado. A ex-
periência da fenda dupla, idealizada
por Tomaz Young – físico, médico
e egiptólogo britânico, conhecido
pela experiência que possibilitou
a determinação do caráter ondula-
tório da luz –, sintetiza muito bem Em 1988, Amit Goswami, PhD em Física Quântica Teórica da Universidade de Oregon, nos EUA, disse
essa mensagem. O fenômeno da ob- que o pensamento e o mundo quântico têm relação direta

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hipocampo, ambos localizados no
cérebro. Esses contatos e interações
alimentam o psiquismo, bem como
o cérebro. Todas essas impressões
e vibrações vivenciadas pelo ser
humano requerem uma gama de
energias que qualificam cada ex-
periência. As células nervosas es-
timuladas por todo esse conteúdo
vibracional das experiências fazem
tocar um acorde específico no cor-
po, utilizando-se de moléculas es-
pecíficas chamadas de substâncias
informacionais: hormônios, neuro-
transmissores, peptídeos etc. Essas
substâncias, por sua vez, estimulam
o núcleo da célula a produzir, por No futuro próximo, a medicina tradicional incorporará em suas práticas as opções da meditação, da
intermédio do DNA, o R NA, men- contemplação, das atividades físicas relaxantes, entre outras
sageiro que irá até o citoplasma
para sintetizar a proteína específica O fato de um forma adequada, culminando com
para a finalidade em questão. Che- a harmonia no funcionamento do
ga-se, assim, em uma comunicação grupo apenas organismo, ou seja, saúde!
entre mente-corpo-gene. imaginar que Imaginar é poder
está aprendendo
A comunicação
O estímulo percorre então um
processo de comunicação en-
uma determinada O neurocientista Joe Dispenza,
em sua obra Evolve your Brain:
the Science of Changing your Mind,
tre mente e cérebro, depois conti- habilidade, revela que o cérebro, longe de ser
nua a comunicação entre cérebro e estático e imutável, está em cons-
corpo, que por fim chega à célula,
comparado com tante transformação e comporta-
que se comunica com o gene. Os outro grupo -se como poderoso instrumento de
trabalhos de neurocientistas corro- criação da realidade, mesmo imagi-
boram essa constatação. A mente,
que realmente nada. Segundo ele, possuímos o po-
através dos pensamentos, estimula está treinando der de, a qualquer instante, trazer
o cérebro que se comunica com o à tona uma memória desagradável
corpo, que atua na célula e chega
mecanicamente e revivê-la como se estivesse ocor-
aos genes, estimulando-os a produ- essa habilidade, rendo. Dispenza ressalta ainda que
zir proteínas específicas para exer- as células cerebrais são constante-
cerem funções específicas.
não mostrou mente remodeladas e reorganiza-
Portanto, as terapias que en- nenhuma diferença das por experiências e pensamen-
volvem exercício mental, como a tos. A atenção recorrente que se dá
meditação, contemplação, oração,
significativa tanto às frustrações quanto às pre-
sono reparador, terapias energéti- entre ambos ocupações e ansiedades não apenas
cas, exercícios físicos relaxantes e inf luencia as emoções como tam-
até mesmo a medicina convencio- diversos esquecidos ou adormeci- bém transforma neurologicamente
nal, são agora novos aliados na bus- dos irão fazer tocar um acorde dife- as pessoas.
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

ca da promoção da saúde. Serenida- rente, em que as informações, agora Esse poder exercido pela ima-
de, calma, benevolência, caridade, com um novo teor vibracional, che- ginação sobre o indivíduo justifi-
gratidão, perdão, humildade, equi- garão até as células e elas produzi- ca-se na constatação de o cérebro
líbrio, fraternidade, indulgência, rão proteínas de forma equilibrada não discernir realidade e imagina-
esperança, compreensão, valores e efetiva para exercer as funções de ção. O professor de Neurociência

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NEUROPLASTICIDADE

lembrança positiva se fortaleça, é


importante pedir ao paciente que a
imagine grande, nítida, brilhante,
colorida e focada. Da mesma forma,
a fim de que as experiências ruins
sejam extenuadas, deve-se conduzi-
-lo a representá-las de forma desfo-
cada, escura, pequena e confusa.
A neurociência demonstrou
que a imaginação, além de viabili-
zar a ressignificação e a transfor-
mação de uma experiência, tam-
bém possibilita a criação de novas
habilidades. Os neurônios ativados
durante o desempenho de uma ati-
vidade também são estimulados ao
se imaginar a execução dessa ati-
vidade. Estudo realizado com ele-
trodos implantados no cérebro de
pacientes com epilepsia mostrou a
De acordo com a neurociência, há comunicação entre mente e cérebro, depois continua entre cérebro e semelhança entre a percepção vi-
corpo, que chega à célula, que se comunica com o gene sual e a imaginação. Entre as con-
vulsões, registrou-se a atividade de
A neuroplasticidade é a capacidade 276 neurônios isolados. Segundo
Ganis, “os neurônios responderam
que todos têm de criar novos circuitos tanto aos estímulos visuais quan-
cerebrais para expressar novas habilidades to às imagens mentais visuais dos
mesmos estímulos”.
de nossa consciência. Ou seja, estimular a
formação de novas sinapses em um processo Treinamento mental
denominado sinaptogênese O utro estudo foi realizado para de-
terminar a possibilidade de ganho
de força muscular a partir de treinamen-
Cognitiva, Giorgio Ganis, apontou responsáveis pela produção dos es- to mental, sem a prática de exercícios
que pela neuroimagem foi possível tados de depressão e de êxtase. Em físicos. Nesse experimento, um gru-
identificar uma coincidência de uma linguagem mais científica, a po de voluntários realizou contrações
mais de 90% entre as regiões cere- alteração da consciência envolve o musculares mentais do pequeno dedo
brais ativadas pelas percepções vi- uso da imaginação para a transfe- abdutor, enquanto outro grupo execu-
suais e aquelas ativadas pelas ima- rência de representações presentes tou contrações físicas desse membro.
gens mentais. Isso significa que, por na memória de longo prazo para a O treinamento durou 12 semanas (15
meio da imaginação, nosso cérebro memória de trabalho. A partir disso, minutos por dia, durante cinco dias na
é capaz de produzir representações torna-se possível a reinterpretação e semana). Ao final do estudo, identifi-
internas com a mesma natureza da- a transformação de representações cou-se um acréscimo de 35% na força
quelas construídas durante a per- negativas por meio da aplicação de dos dedos daqueles que realizaram con-
cepção, sem a presença de qualquer estratégias terapêuticas. trações mentais – em contraposição ao
estímulo visual externo. A partir de recursos da progra- de 53% para as contrações físicas.
Tony Robbins – renomado es- mação neurolinguística (PNL) é Durante os atendimentos, quan-
critor e palestrante motivacional possível modificar o significado de do é apresentada alguma situação-
– elucida a importância das repre- um evento por meio da alteração -problema, é importante estimular
sentações internas para a criação de sua representação. Assim, du- o paciente a extrair pelo menos um
do estado emocional: são elas as rante o atendimento, para que uma aspecto positivo, pois essa é uma

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estratégia poderosa para o enfrenta- tados e sensações similares à reali-
mento da adversidade. O relaxamen- dade pretendida.
to no qual o paciente imagina uma
cena perfeita para a situação-pro- Sofrimento intenso
D

STEVE JURVETSON/WIKIPEDIA
blema é outra estratégia bastante entre tantos comportamen-
recorrente nos meus atendimentos. tos-problema apresentados
Peço para que ele use o maior nú- no consultório, destaco dois, por
mero de sentidos e de modalidades serem comuns na sociedade e pela
possíveis, como cores; temperatu-
ra; cheiros; sons; sensações e senti-
intensidade do sofrimento. O pri-
meiro deles é de um paciente que,
ŒPopularização da PNL Œ
O norte-americano Tony Robbins é um
mentos. Justifica-se tal conduta em mesmo sendo o melhor aluno do palestrante motivacional, escritor e estra-
razão das imagens mentais serem cursinho, foi reprovado 18 vezes tegista, responsável pela popularização da
multissensoriais. Quanto mais rica no vestibular para medicina. Revi- programação neurolinguística (PNL), além
de ser um famoso coach. Realiza palestras
em elementos for a imagem, mais as ver cada reprovação provocava um
a respeito de técnicas que permitem usar
representações internas criarão es- quadro de intensa ansiedade que o os recursos de comunicação interna e ex-
terna ao indivíduo de forma mais eficien-
te. Várias personalidades internacionais
Pesquisa realizada pelo médico espanhol receberam seu treinamento, como Andre
Agassi, Princesa Diana, Anthony Hopkins,
Alvaro Pascual-Leone observou o fenômeno Quincy Jones e Bill Clinton, entre outras.

da neuroplasticidade. Leone conseguiu levar


debilitou física e emocionalmente.
adiante os trabalhos de Ramón y Cajal, Durante os atendimentos, pedia
considerado o “pai da neurociência moderna” para ele se imaginar realizando a
prova da melhor forma possível.
Nessa cena perfeita, introduzíamos
dificuldades que costumeiramente
apresentava durante as provas, e so-
licitava que ele gerasse habilidades
para solucionar tais dificuldades.
Normalmente, ele respirava e dizia
consigo mesmo: “Eu sei. Eu sou ca-
paz. Eu consigo”. Depois de apenas
uma semana intensiva de tratamen-
to, ele foi aprovado e o relato dele
foi muito interessante: disse que a
sensação enquanto fazia a prova era
O neurocientista Joe a mesma experimentada por ele no
Dispenza descobriu
que o cérebro está
consultório durante a imaginação.
em transformação e O outro caso é de uma paciente
comporta-se como de 58 anos que, apesar de já possuir
instrumento de criação carteira de habilitação, parou de
da realidade, mesmo dirigir após um momento de expo-
imaginada
sição traumático, que desenvolveu
nela um sentimento de incapaci-
dade. Após alguns treinos de visu-
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

alização, nos quais ela se percebia


segura na direção, a paciente con-
seguiu tirar o carro da garagem.
Depois de outras intervenções, ela
passou a sair acompanhada por

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NEUROPLASTICIDADE

As informações
advindas das
diversas interações
sociais que o ser
humano vivencia
em seu dia a
dia alimentam o
córtex cerebral
e o hipocampo,
ambos localizados
no cérebro.
Esses contatos
e interações
Pesquisas demonstram que uma pessoa, apesar de habilitada a dirigir, pode desenvolver um sentimento
de incapacidade após uma exposição traumática estimulam o
psiquismo, bem
pessoas que lhe davam segurança. mente as inf luências externas define
Ao final de 12 sessões, começou a tanto o estado emocional quanto o como o cérebro
dirigir sozinha, sentindo-se cada físico, posto que, para cada pensa-
vez mais capaz, sentimento e com- mento ou sentimento, há a produção de forma sincera, quais são os vícios
portamento estes que se entende- de uma química diversa que vicia o emocionais alimentados cotidiana-
ram para outras áreas de sua vida. corpo. Desse modo, convido os lei- mente por pensamentos supérf luos.
É importante ressaltar que todo tores a fazerem uma viagem para seu Lembrem-se: nós possuímos o poder
esse processo não é realizado ape- universo interior e a identificarem, de mudar nossa realidade.
nas dentro do consultório, mas es-
sas estratégias são ensinadas aos REFERÊNCIAS
pacientes a fim de que as executem CALLEGARO, Marco. O Novo Inconsciente: como a Terapia Cognitiva e as Neurociências
o maior número de vezes possível. Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental. Porto Alegre: Artmed, 2011.
Vale dizer que essas são apenas al- DISPENZA, J. Evolve your Brain: the Science of Changing your Mind. Flórida: Health
gumas possibilidades de interven- Communication, 2007.
ção e que cada caso deve ser ana- . Breaking the Habit of Being yourself: how to Lose your Mind and Create
lisado individualmente, sempre a New One. Estados Unidos: Hay House, 2012.
levando em consideração a subje- . You Are the Placebo: Making your Mind Matter. Estados Unidos: Hay
House, 2014.
tividade de cada pessoa e o bem-
DOIDGE, Norman. O Cérebro que se Transforma: como a Neurociência Pode Curar as Pessoas.
-estar do paciente. Tradução Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Record, 2011.
Acredito que, se as pessoas as- GANIS, G. Visual mental imagery. In: LACEY, S.; LAWSON, R. (Eds.). Multisensory Imagery. Nova
similarem as informações de que o York: Springer-Verlag New York, 2013.
cérebro não distingue realidade de GOSWAMI, Amit; REED, Richard E.; GOSWAMI, Maggie. O Universo Autoconsciente: como a
imaginação e de que ninguém é mero Consciência Cria o Mundo Material. São Paulo: Aleph, 2011.
produto do meio ou de um cérebro O’CONNOR, Joseph. Manual de Programação Neurolinguística - PNL: um Guia Prático para
Alcançar os Resultados que Você Quer. Tradução Carlos Henrique Trieschmann. Rio de Janeiro:
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

condicionado a determinados com-


Qualitymark, 2015.
portamentos, se tornarão capazes de ROBBINS, A. Poder sem Limites: o Caminho do Sucesso Pessoal pela Programação
controlar a maneira como se sentem Neurolinguística. Tradução Brazil, Nova York. Rio de Janeiro: Best Seller, 1986.
em relação àquilo que é externo. A RANGANATHAN, V.; SIEMINOW, V.; LIU, J.; SAHGAL, V; YUE, G. From mental power to muscle
forma como se percebem interna- power: gaining strength by using the mind. Neuropsychologia, n. 42, Elsevier, Cleveland, 2004.

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coaching por Eduardo Shinyashiki

O TURBILHÃO do dia a dia


VIVER DESSA FORMA ACELERADA E DISTRAÍDA
EM MEIO AOS HÁBITOS AUTOMÁTICOS DO COTIDIANO
PODE DIMINUIR A PERCEPÇÃO DE SI MESMO, DO MUNDO
AO REDOR E, ASSIM, NOS DISTANCIAR DA ALEGRIA

N
os dias de hoje é comum nos sioneiras, com hábitos mecânicos e in- autoconhecimento. É importante estar
depararmos com pessoas que conscientes que afetam negativamente a conectado a si mesmo para expandir a
se sentem distantes delas mes- saúde, a família e a realização. percepção da própria vida, encontrar
mas e perdidas em uma roti- Todas essas ações nascem da forma a natureza mais profunda e ter a cons-
na incessante, prisioneiras de hábitos em que o indivíduo enxerga o mundo ao ciência do cotidiano para que os lados
mecânicos e inconscientes que afetam redor, na maneira em que ele encara as PESSOALEPROlSSIONALSEJAMMODIlCADOS
negativamente a saúde, a família e a rea- situações e o tipo de pensamentos que por uma nova perspectiva.
lização. É como se elas vivessem com o ele alimenta. Se não há como evitar as Algumas situações não podem ser
piloto automático acionado. situações estressantes, há como olhá-las evitadas, como, por exemplo, cumprir
%STARNOPILOTOAUTOMÉTICOSIGNIlCA de forma mais positiva. A vida é como horários rígidos ou ter que trabalhar
viver preso a esquemas de comporta- uma grande balança, na qual os pesos e ATÏTARDEPORCONTADADEMANDAPROlS-
mentos repetitivos, limitados e relacio- medidas devem estar equilibrados para sional. A grande questão é: o que pode
nados às experiências passadas. É como manter a motivação. É fundamental cui- ser feito, mesmo nesses momentos, para
andar com o freio de mão puxado, sem dar dos aspectos físico, mental, emocio- tentar desacelerar?
energia, força e motivação. O nível de nal e espiritual. Nesse caso, as pessoas podem criar
atenção consc iente diminui e, por conse- Embalado pela rotina, o ser huma- o hábito de dedicar um tempo a si, fazer
quência, também a qualidade das nossas no não presta atenção nessa balança. pausas ou algo diferente – que venha a
ações, além dos resultados e a percepção Cada um sabe quais são as medidas alimentar a alma, expandir a consciên-
das oportunidades. É ter a sensação de certas para que o equilíbrio predomine CIA ATRAVÏS DE PRÉTICAS COMO REmEXÎO 
estar atolado e sentir que os objetivos ATRAVÏS DA REmEXÎO  DA MEDITA¥ÎO E DO meditação e concentração, treinando a
nunca serão alcançados, vivendo grande mente para torná-la mais focada. Essa
parte do tempo cansado, desanimado e mudança de conduta traz maior percep-
com a sensação de ser incapaz de pro- A VIDA É COMO ção de si, do mundo em volta, das pesso-
mover mudanças. UMA BALANÇA, NA as ao redor e mais atenção ao que se faz
Mas por que as pessoas se sentem tão com a vida. Isso aumenta a liberdade do
perdidas e desconectadas de si mesmas? QUAL OS PESOS E ser humano, mesmo no ritmo frenético
São apenas circunstâncias sociais ou MEDIDAS DEVEM do cotidiano.
também é uma questão de personalidade, O equilíbrio entre o “fazer” e as
ESTAR EQUILIBRADOS
de escolher levar a vida dessa maneira? “pausas” é essencial para estimular a
0ODEMOSREmETIRSOBREESSESDOISPONTOS PARA MANTER criatividade, as novas ideias, a intuição,
É verdade que o excesso de ativi- A MOTIVAÇÃO. É o amadurecimento de decisões e a re-
dades, responsabilidades e tarefas – ao generação das forças criativas. Para in-
mesmo tempo em que sofremos pres-
FUNDAMENTAL corporar essas iniciativas na rotina, le-
sões para ser o melhor, o mais inovador, CUIDAR DOS vando uma vida mais leve e condizente
o mais competente e o mais feliz – pesa ASPECTOS FÍSICO, com o que acredita, é importante reco-
PARA CONSEGUIR CONCILIAR A VIDA PROlS- nhecer que você tem o privilégio de fa-
sional e pessoal. Todas essas exigências
MENTAL, EMOCIONAL zer escolhas e promover as mudanças.
induzem as pessoas a sentirem-se pri- E ESPIRITUAL Direcione a atenção nos pensamentos

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e imagens do que deseja. É importante Por isso, quando a mudança é percebida A transformação é perfeitamente
LEMBRAR SEMPRE A QUALIDADE DAS REmE- como necessária, quando a vontade está realizável e, quando tomamos a decisão
XÜES INmUENCIA AS EMO¥ÜES E  CONSE- presente e o desejo de fazer diferente su- DElNITIVA DE FAZÐ LA  ELA SE TORNA UMA
quentemente, as ações. pera a condição de estagnação, algo co- força poderosa.
Atenção com as palavras utilizadas, ME¥AASEMODIlCARPROFUNDAMENTE¡O Ao mudar o comportamento e sair
pois elas expressam as intenções e ma- começo da transformação e é sem volta. da inconsciência de viver distraidamente
nifestam as vontades. Frases como “não Nesse estágio, depois da tomada de de- no “piloto automático”, o indivíduo reto-
consigo”, “ já tentei” e “não vai dar certo” cisão, é importante persistir, direcionar ma as rédeas da vida, sem deixá-las nas
não ajudam em nada. Quando esquece- a atenção no que se quer e não desistir. mãos de outras pessoas, dos eventos e
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK E ACERVO PESSOAL

mos os sonhos e desrespeitamos a pró- Acredite no enorme poder pessoal que dos contextos externos. E, assim, se vive
pria vontade e o anseio da alma, a vida há dentro de você. a vida que merece e anseia.
se torna cinza, pois as cores vêm dos so-
nhos que são alimentados diariamente. Eduardo Shinyashiki é mestre em Neuropsicologia, liderança educadora
Não é simples abandonar velhos e especialista em desenvolvimento das competências de liderança
organizacional e pessoal. Com mais de 30 anos de experiência no Brasil e na
comportamentos e padrões para abraçar Europa, é referência em ampliar o crescimento e a autoliderança das pessoas.
os novos, mas o ser humano tem uma www.edushin.com.br
capacidade única de mudar e evoluir.

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livros Por Lucas Vasques

Histórias do cérebro (anomalias da neurociência)


Com o apurado e já conhecido talento para explicações claras, abrangentes e espirituosas, o re-
nomado jornalista e escritor Sam Kean apresenta os personagens que forjaram a surpreendente e
incrível história da neurociência. Kean explora os corredores secretos do cérebro e narra casos es-
quecidos de pessoas comuns cuja luta, resiliência e profunda humanidade tornaram a neurociência
possível. São histórias de curiosidades neurológicas que incluem membros-fantasma, cérebros de
gêmeas siamesas, vírus que comem as memórias de pacientes, pessoas cegas que “enxergam” por
meio da língua.
IMAGENS: DIVULGAÇÃO

Kean costura essas narrativas com uma prosa envolvente e espirituosa que faz as páginas passarem
voando, numa história de descoberta que remonta ao século XVI e ao notório acidente que inspirou
o título do livro – e abriu caminho para uma nova ciência.

O Duelo dos Neurocirurgiões e Outras Histórias de Trauma, Loucura e Recuperação do Cérebro Humano
Autor: Sam Kean
Editora: Zahar
Páginas: 408

Aprendizagem ativa (Psicopedagogia institucional)


Os processos de aprendizagem são singulares porque cada pessoa tem vivências particulares e um
modo peculiar de lidar com o mundo. Compreender que cada um tem seu jeito próprio de aprender
favorece a construção do conhecimento e da autonomia.
O livro Psicopedagogia Institucional – Guia Teórico e Prático tem como proposta sugerir o sujeito como
construtor de si mesmo, utilizando suas potencialidades para o desenvolvimento cognitivo-afetivo.
Recursos como diagnóstico, avaliação, tratamento, intervenção e prevenção facilitam esse olhar
integrado que faz parte da Psicopedagogia Institucional. A obra levanta questões como aspectos
psiconeurológicos, o cérebro humano e a cognição, o desenvolvimento da linguagem em Lacan,
Saussure, Chomsky e Lenneberg, como estimular a memória e aprendizagem, o papel da afetivida-
de no processo do aprender, a função do psicopedagogo, entre outros assuntos da Psicopedagogia.

Psicopedagogia Institucional – Guia Teórico e Prático


Autoras: Beatriz Acampora e Bianca Acampora
Editora: Wak
Páginas: 200

Transtornos de ansiedade (hipnoterapia cognitiva)


Ansiedade, o mal do século, encontrou um combatente à sua altura. Hipnoterapia Cognitiva: Trata-
mento Clínico dos Transtornos de Ansiedade e de seus Sintomas, escrito pelo psicólogo Benomy Silberfarb,
traz um manual prático com as técnicas adequadas para o tratamento dos seguintes transtornos:
ansiedade generalizada, transtorno do pânico, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno
obsessivo-compulsivo e fobia social.
A obra também serve para integrar a hipnose clínica com a terapia cognitivo-comportamental,
potencializando o tratamento para cada tipo de transtorno de ansiedade. O manual ainda ofere-
ce diálogos e fraseologias como sugestões para serem utilizadas durante o processo de cura dos
pacientes. Um material de apoio importante, já que a demanda por tratamentos de ansiedade nos
consultórios psicológicos é grande.

Hipnoterapia Cognitiva: Tratamento Clínico dos Transtornos de Ansiedade e de seus Sintomas


Autor: Benomy Silberfarb
Editora: Sinopsys
Páginas: 96

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Abuso psicológico
dossiê

O FANTASMA DOS
RELACIONAMENTOS
OPRESSORES

Boa parte das pessoas não


consegue se libertar das relações
abusivas e violentas, que
ocorrem com muita frequência
e atingem mulheres, inclusive,
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

durante o período de gravidez

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dossiê

De volta para CASA


Algumas mulheres encontram grande dificuldade para se libertar
de relacionamentos violentos, confundindo, frequentemente,
controle, crises de ciúme e proibições com sinais de amor
Por Sheila Giardini Murta, Estela Guida Teixeira, Carla Konrad,
Lucas Emmanuel Alves de Lara, Nagy Pereira Sardinha e Priscila Parada

R
elacionamentos violen- sinais de amor. Um estudo com incluindo o Brasil, mostram que
tos ocorrem com mui- jovens de Recife mostrou que adolescentes de ambos os sexos,
ta frequência, como muitos deles interpretam essas em relações heterossexuais e ho-
atestam os noticiários. condutas do parceiro como de- mossexuais, de diferentes classes
As histórias, quando div ulgadas, monstrações de bem-querer e sociais, podem ser vítimas e per-
em geral descrevem níveis muito cuidado (Nascimento; Cordeiro, petradores de violência no namo-
severos de abuso, que culminam 2011). Isso perpetua a violência e ro. Não se trata, portanto, de um
em suicídio ou homicídio. Mas retarda o término do namoro ou a problema restrito a poucos, mas
há muitas experiências de violên- busca de outras soluções. de alcance abrangente.
cia banalizadas e invisibilizadas, Além da violência psicológi- Infelizmente, muitas das for-
especialmente a violência psico- ca, como previsto na Lei Maria mas de violência são glorificadas
lógica. Comportamentos como da Penha (Brasil, Lei nº 11.340, em nossas produções culturais,
controlar, depreciar, diminuir a de 7 de agosto de 2006), há ainda como músicas (da bossa nova,
autoestima, gritar, xingar, impe- outras formas de violência, como passando pelo samba, até o serta-
dir de ver amigos e culpabilizar o a física, a mais visível de todas, nejo), livros e filmes. Assim, cons-
outro são sinais comuns de vio- como empurrões e tapas; a sexual, trói-se uma cultura de aceitação
lência emocional ou psicológica, como usar de ameaças à autoes- da violência, como se toda relação
a mais frequente entre namoros tima do outro para pressioná-lo a de amor envolvesse, em alguma
mundo afora, incluindo o Brasil fazer sexo e fazer sexo sem o seu medida, violência e fosse normal
(Oliveira; Assis; Njaine; Pires, consentimento; a moral, como viver “entre tapas e beijos” (o que
2014). Muitas vezes, o controle difamar o parceiro por meio da não é o caso). Nesse cenário, não
do parceiro, as crises de ciúmes e divulgação de fotos íntimas; e a é surpreendente que as relações
as proibições para mantê-lo jun- patrimonial, como quebrar o ce- amorosas sejam construídas com
to a si todo o tempo são confun- lular do parceiro e destruir seu base no pressuposto de que o ou-
didos, equivocadamente, como carro. Estudos de vários países, tro é um objeto a ser possuído, à
medida em que são abundantes
Sheila Giardini Murta é professora do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília e
modelos de relacionamentos ínti-
coordenadora do Grupo de Estudos em Prevenção e Promoção de Saúde no Ciclo da Vida mos violentos dentre as relações
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

(www.geppsvida.com.br) próximas, como amigos e familia-


Priscila Parada é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura da res, até inf luências mais distantes,
Universidade de Brasília
como personagens midiáticos.
Estela Guida Teixeira, Carla Konrad, Lucas Emmanuel Alves de Lara e Nagy Pereira Sardinha são
graduados em Psicologia pela Universidade de Brasília Soa intrigante por que ado-
lescentes e jovens sujeitam-se a

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Abuso psicológico
dossiê

indica que a violência no namoro,


entre casais adolescentes, pode
se perpetuar até a vida adulta
(Greenman & Matsuda, 2016),
com novas ondas de risco à saúde
mental do casal e dos filhos. Em
curto prazo, diversos efeitos da-
nosos da violência no namoro têm
sido documentados, incluindo
depressão, transtorno de estresse
pós-traumático, abuso de álcool,
desejo de pôr fim à própria vida e,
em casos extremos, suicídio e ho-
micídio. Condutas autolesivas são
especialmente frequentes em ten-
tativa de término (Baker; Helm;
Bifulco; Chung-Do, 2015), o que
mostra que romper esse vínculo
Casos de namoros abusivos acontecem com frequência e quando são divulgados, geralmente, estão em de afeto, mesmo violento, é uma
um estágio severo, que acabam em suicídio ou homicídio tarefa árdua.

Infelizmente, mens são desse jeito”, “mulheres O término


muitas das formas
de violência são
são assim mesmo”, “o amor tudo
suporta”, “não consigo viver sem
ele”). Hoje já se sabe que a violên-
A lguns estudos, principalmen-
te norte-americanos, têm
examinado o processo de término
cia no namoro é aprendida com de relacionamentos violentos (por
glorificadas em nossas as inf luências sociais, dos pares e exemplo, Edwards; Gidycz; Mur-
produções culturais, familiares às quais os jovens são phy, 2015). As pesquisas na área
expostos desde o início da vida. ainda são poucas, mas já apontam
como músicas (da Pertencer a culturas sexistas e alguns direcionamentos sobre as-
bossa nova, passando comunidades tolerantes para com pectos que facilitam ou dificultam
a violência, ter amigos que são dar fim a esse tipo de relação. Um
pelo samba, até o violentos com seus parceiros e primeiro aspecto que a literatura
sertanejo), livros pais que se tratam com violência científica aponta diz respeito aos
como casal e receber tratamento recursos e barreiras estruturais
e filmes. Assim, violento dos pais são algumas das para o fim da relação. Esse concei-
constrói-se uma principais razões que favorecem a to se refere a aspectos de ordem
vitimização pelo parceiro íntimo. prática, necessários à sobrevivên-
cultura de aceitação Essas experiências podem cons- cia, como ter ou não renda própria,
da violência truir atitudes de aceitação da vio- depender do parceiro financei-
lência, dificuldades em lidar com ramente, ter ou não ter casa. As-
relacionamentos violentos, dei- conf litos no namoro e inseguran- pectos como esses limitam muito
xando-se aprisionar em relações ça em relacionamentos íntimos a possibilidade de escolha de uma
tóxicas, mesmo quando ainda (“eu não sou boa o suficiente, ele pessoa que está em situação de
não têm filhos, não estão casa- é tudo o que eu tenho”). violência e dificultam que a pes-
dos e não dependem financeira- Ao fim, tem-se um amor per- soa tenha autonomia para sair do
mente do outro. Uma resposta nicioso (ainda que, em alguma relacionamento. Para uma pessoa
sucinta a essa questão é porque medida, gratificante), que aprisio- que enfrenta barreiras como essa
vínculos afetivos são poderosos na e ameaça o bem-estar e a inte- (por exemplo, alguém que não
e aprendemos a amar assim com gridade dos envolvidos, ao longo tem renda própria ou depende da
o mundo ao nosso redor (“ ho- de gerações. Um estudo recente outra pessoa para sobreviver), um

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Abuso psicológico
sentimentos quanto a vê-la naque- e, mesmo que para alguém que ob-
la relação. No entanto, é impor- serva de fora pareça incompreen-
tante ter cuidado ao comunicar sível, um relacionamento violento
isso para que, ao invés de ajudar, pode ter muitos pontos de satisfa-
o amigo ou familiar não acabem ção e é exatamente por isso que o
atrapalhando e se tornando mais sentimento fica tão confuso.
uma fonte de sofrimento. A qualidade das alternativas é
Um terceiro aspecto que os es- definida pela maneira como a pes-
ŒLiteratura recomendada Œ tudos têm investigado diz respeito
ao nível de investimento na rela-
soa analisa as opções que ela tem
disponíveis, como, por exemplo, fi-
O livro Libertando-se de Namoros
Violentos: um Guia sobre o Aban- ção. Esse conceito envolve a com- car sozinha ou buscar outros rela-
dono de Relações Amorosas Abu- preensão sobre pelo menos três cionamentos. Essa é uma avaliação
sivas (Sinopsys Editora), de Sheila aspectos: a satisfação com o rela- subjetiva e muitas coisas a inf luen-
Giardini Murta, Carlos Eduardo Paes cionamento, a qualidade das alter- ciam. Ainda há poucos estudos
Landim Ramos, Thauana Nayara Go- nativas e os investimentos irrecu- sobre isso, mas aspectos como ter
mes Tavares, Eudes Diógenes Alves
peráveis. Sobre a satisfação com baixa autoestima e não se ver ca-
Cangussú e Marina Silva Ferreira da
o relacionamento, é importante paz de ter outros relacionamentos
Costa, aborda o tema de forma rea-
lista. Os relacionamentos amorosos
lembrar que as relações violentas melhores, sentir muita ansiedade
ocupam parcela significativa do co- não têm só o lado negativo. Muitos e necessidade de ter a outra pessoa
tidiano. Quando a violência se insta- elementos nesses relacionamentos por perto, a ponto de não conse-
la nessa área entre os adolescentes, podem ser gratificantes também, guir tolerar os sentimentos difíceis
seus efeitos sobre o desenvolvi-
mento e o bem-estar dos mesmos
são devastadores.
Pertencer a culturas sexistas e comunidades
tolerantes para com a violência, ter amigos
que são violentos com seus parceiros
primeiro passo para que seja pos-
sível dar fim ao relacionamento e pais que se tratam com violência como
diz respeito a procurar formas de casal são algumas das razões que
autonomia, como conseguir uma
fonte de renda, ou buscar apoio fi- favorecem a vitimização pelo parceiro íntimo
nanceiro (ainda que de forma pro-
visória) em outras pessoas, como
familiares e amigos.
Outro ponto que vem se mos-
trando muito consistente na lite-
ratura científica sobre término
de relacionamentos violentos diz
respeito ao conceito de normas
subjetivas. Esse conceito exprime
aquilo que uma pessoa considera
que as pessoas mais significativas
para ela, como familiares e ami-
gos, pensam sobre um tema, nesse
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK E DIVULGAÇÃO

caso, a continuidade ou término


do relacionamento. Isso sinaliza
que para que uma pessoa consiga
sair de um relacionamento violen-
to é importante que pessoas ao seu
redor a apoiem nisso e expressem A violência psicológica é uma das piores, como depreciar, diminuir a autoestima, gritar, xingar, impedir de
para ela esse pensamento e seus ver amigos e culpar o outro, que são sinais comuns dessa prática

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dossiê

que a distância traz, ter outros PARA SABER MAIS


campos da vida – como estudos,
trabalhos ou projetos pessoais – AGRESSÃO CONTRA PARCEIRO
pouco desenvolvidos, de forma que
se ver sem a outra pessoa se torne
muito difícil, estar isolado ou dis-
U m estudo realizado por pesquisadores da Fiocruz, com 3.205 ado-
lescentes em dez capitais brasileiras, de todas as regiões do país,
encontrou que 86,9% dos jovens foram vítimas e 86,8% já praticaram
tanciado de relacionamentos com algum tipo de agressão contra o parceiro íntimo (Oliveira; Assis; Njaime;
outras pessoas, como familiares e Oliveira, 2011). As autoras verificaram ainda que 76,6% dos participantes
amigos, tornando aquele namoro a são tanto vítimas como perpetradores das diversas formas de violên-
única relação próxima que a pessoa cia. Os dados revelaram, por ordem crescente, violência relacional, como
tenha. Em contextos como esses prejudicar as relações afetivas e sociais do parceiro por meio de calúnias
que foram descritos, aproximar- (16%, violência sofrida; 8,9%, violência perpetrada); violência física, como
-se de outras pessoas e fortalecer espancar (19,6%, violência sofrida; 24,1%, violência perpetrada); ameaça,
amizades positivas podem ser de como prometer abandonar o parceiro como forma de coação (24,2%,
grande ajuda. Além disso, procurar violência sofrida; 29,2%, violência perpetrada); violência sexual, como
orientação terapêutica pode ser um forçar contato íntimo (43,8%, violência sofrida; 38,9%, violência perpe-
apoio importante. trada) e, com índices muito elevados, violência verbal/emocional, como
Por fim, os investimentos ir- humilhar (85%, violência sofrida; 85,3%, violência perpetrada).
recuperáveis se referem a como a
pessoa avalia que o fim da relação
trará perdas que ela não pode re- Um estudo recente indica de forma
cuperar. Exemplos de investimen-
tos irrecuperáveis são o próprio veemente que a violência durante o período
tempo de relacionamento (que de namoro, entre casais adolescentes, pode se
não pode voltar) ou o esforço em-
preendido em fazer aquela relação perpetuar até a vida adulta, com novas ondas
dar certo. Sobre esse último ponto, de risco à saúde mental do casal e dos filhos
em muitos relacionamentos vio-
lentos as pessoas fazem grandes sensação de que o casal está “qua- se refere, por exemplo, a conse-
esforços para promover mudanças se lá” e que terminar seria como guir perceber o relacionamento
e, de fato, às vezes alguns pontos jogar tudo por água abaixo. Des- não como algo que vai pelo ralo
melhoram, mas não o suficiente sa forma, uma avaliação sobre os quando acaba, mas como experi-
para trazer tranquilidade e feli- investimentos irrecuperáveis que ências que, mesmo sofridas, trou-
cidade. Essa dinâmica pode dar a favorece o fim do relacionamento xeram aprendizados importantes
e fazem parte de uma trajetória de
vida que se aproxime daquilo que
cada pessoa deseja e busca para si.
No Brasil, o Grupo de Estu-
dos em Prevenção e Promoção de
Saúde no Ciclo da Vida da Uni-
versidade de Brasília tem buscado
compreender o que impulsiona a
mudança, da violência à autopro-
teção frente a namoros com maus-
-tratos (Murta; Ramos; Tavares;
Cangussú; Costa, 2014a). As expe-
Existem diversas formas de riências de pessoas que consegui-
violência entre casais, entre
ram sair de um namoro violento
elas a patrimonial, que faz com
que um dos parceiros cometa
indicam que existe um caminho a
atos como destruir o celular ou ser percorrido, desde a percepção
o carro do outro da violência como um problema

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Abuso psicológico
que merece ser resolvido até dis-
tanciar-se do parceiro. A mudança
pode ser lenta e dolorosa. Trata-se
de um processo de mudança que
não tem tempo determinado, po-
dendo variar entre semanas e anos.
Começa-se tomando consciência
do problema e reconhecendo a re-
lação como violenta. Em seguida,
toma-se a decisão de fazer alguma
coisa para se proteger e os primei-
ros passos são dados, nem sempre
para sair da relação, mas para tes-
tar soluções, cuidar de si e se for-
talecer. Tomada a decisão, em se-
guida vem o término concreto da
relação violenta, quando diversos
cuidados precisam ser tomados
para lidar com a dor, o medo, a sau- É, no mínimo, intrigante o fato de adolescentes e jovens aceitarem relacionamentos violentos,
dade e a tensão, quando o parceiro
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¢G  GGh€  P 9G 
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é ameaçador. Por fim, na etapa fi-
nal, deve-se cuidar para não haver Alguns estudos partir da vivência de algum epi-
recaídas, com retorno à relação sódio severo e muito doloroso. A
antiga ou a outros relacionamen- têm examinado o partir daí, começaram a se inquie-
tos com o mesmo padrão violen- processo de término tar e interpretar a situação como
to. Esse processo é bem descrito grave. Começaram a observar me-
por uma teoria chamada modelo de relacionamentos lhor suas emoções diante do par-
transteórico de mudança, também
aplicada para mudança em ou-
violentos. As pesquisas ceiro e na sua ausência. O apoio
de amigos e investir em autocui-
tros alvos, como deixar de fumar. na área ainda são dados, como atividade física e te-
poucas, mas já rapia, são de muita ajuda.
Etapas
apontam alguns
O modelo transteórico de mu-
dança, indicado para deixar
relacionamentos violentos, apre-
direcionamentos sobre
Preparação
N o estágio seguinte, de prepa-
ração, a pessoa começa a se
senta etapas que devem ser segui- aspectos que facilitam dar conta de que os maus-tratos são
das para se manter protegido de graves, mas ainda se sente presa à
relacionamentos abusivos. Para
ou dificultam dar fim relação violenta. Às vezes, poderá
isso, existem exercícios que estão a esse tipo de relação experimentar, sem sucesso, algu-
disponíveis no livro Libertando-se mas estratégias para tentar resolver
de Namoros Violentos: um Guia so- ção. Perceberá a importância de a situação, como, por exemplo, ame-
bre o Abandono de Relações Amo- tomar uma atitude, ainda que não açar terminar, evitar contato com o
rosas Abusivas, Editora Sinopsys saiba muito bem o que fazer. Seu parceiro, aceitar suas imposições,
(Murta; Ramos; Tavares; Can- desejo de resolver a situação se revidá-las ou forçar uma gravidez
gussú; Costa, 2014b). mistura ao desejo de permanecer para melhorar o relacionamento.
Na fase inicial, a pessoa terá no relacionamento. Essa confusão Muitos desses testes de soluções
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

a impressão de que “a ficha caiu”. fica ainda mais forte quando de- se mostram improdutivos, como a
Perceberá a tensão que existe na seja sair do relacionamento e ao submissão à violência e a retalia-
relação e poderá sentir angústia, mesmo tempo investir na relação. ção, e outros podem ter alto custo,
confusão, culpa e acreditar que As pessoas que tomaram cons- como engravidar para revigorar a
não conseguirá resolver a situa- ciência da violência o fizeram a relação. O ideal é buscar caminhos

www.portalcienciaevida.com.br psique ciência&vida 41


dossiê

para se fortalecer e afastar-se gra-


dualmente da relação.
Assim como no estágio ante-
rior, de tomada de consciência,
continua sendo indispensável “se
olhar no espelho”, mas é impor-
tante aprender novas estratégias
e cuidados para “manter os olhos
abertos”, como por exemplo:
Escreva todas as palavras humi-
lhantes e depreciativas que você já
ouviu de seu/sua parceiro/a; ouça o
que os amigos e familiares dizem so-
bre a relação; converse com os ami-

Para uma pessoa que


enfrenta barreiras Inúmeros efeitos danosos da violência têm sido documentados, incluindo depressão, transtorno
de estresse pós-traumático, abuso de álcool, desejo de morte
para se separar, um
primeiro passo para gos. Eles podem ajudá-lo a enxer- seus relacionamentos passados. Que
que seja possível dar gar a realidade, a acreditar em você dificuldades se repetem?; invista em
mesmo e a juntar forças para seguir cuidados com a saúde mental (como
fim ao relacionamento em frente; fortaleça sua autoestima. fazer terapia) e saúde física.
Lembre-se das coisas boas que já ou- Esses cuidados ajudam a ver
diz respeito a procurar viu sobre você. Se olhe no espelho e claramente que a relação violenta
formas de autonomia, responda: quais são as minhas qua- é um problema que precisa ser re-
lidades?; preste atenção em experi- solvido. Além disso, eles também
como conseguir uma ências do passado que podem estar vão permitir que a pessoa se co-
fonte de renda ou afetando a relação atual. Há algum nheça melhor e busque forças para
aspecto do seu jeito de se relacionar se proteger, ou seja, vão fortalecer
buscar apoio financeiro que é parecido com o jeito de seus para que consiga seguir em frente
em outras pessoas pais e que você não gosta?; relembre sem adoecer.

NAS BANCAS!
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Abuso psicológico
Sobre a satisfação amor). Pode sentir medo, insegu- timule o empoderamento: tome as
rança ou outras coisas ruins nes- próprias decisões, cuide de si mes-
com o relacionamento, sa mudança e querer voltar atrás, mo, saiba quais são os direitos e
é importante lembrar isso é normal. Mas é importante lute por eles; treine assertividade:
manter a determinação e, para expresse sempre os sentimentos
que as relações isso, existem vários exercícios que e pensamentos de maneira clara,
violentas não têm só podem ajudar: direta e objetiva, sem ofender ou
Bole um plano para situações magoar as outras pessoas; acesse o
o lado negativo. Muitos que tenha medo que aconteçam. suporte social: pessoas com quem
elementos podem Por exemplo, trabalhe o autocui- pode contar, como amigos, famí-
dado: é importante zelar por si, lia, professores, médicos, agentes
ser gratificantes. procurar o próprio bem-estar; es- comunitários etc.; tente regular as
Um relacionamento
violento pode ter
muitos pontos
de satisfação
No estágio da ação, a pessoa
começará a fazer pequenas (mas
importantes) mudanças na vida.
Essa mudança pode ser no com-
portamento (por exemplo, pedir
para conversar e dizer que quer
terminar o namoro), no jeito de se
relacionar (por exemplo, não acei-
tar mais que seu companheiro ou
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

companheira faça piadas de mau


gosto sobre você na frente dos
outros) ou até mesmo no jeito de
pensar (por exemplo, se convencer Frequentemente, para que uma pessoa consiga sair de um relacionamento violento é importante que
de que ciúme não é uma prova de pessoas ao seu redor a apoiem e expressem esse pensamento

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dossiê

emoções: identifique e lide com os das estratégias para ficar longe de


sentimentos e comportamentos de situações que podem ser problemá-
forma mais eficiente. Quando se ticas. Essas estratégias envolvem:
sentir muito triste, por exemplo, manter distância de situações de
observe bem o que fez se sentir “tentação” ou risco para a recaí-
mal e pense quais são as melhores da, planejando como evitá-las ou
formas de lidar com essa tristeza. como pode sair ou resistir a elas;
Assim, vai ter certeza de que to- investir em novos interesses e ob-
mou as medidas necessárias para jetivos de vida; ter em mente que a ŒLei Maria da Penha Œ
se libertar de um namoro violento. pessoa é responsável pelo próprio Considerada pela ONU uma das três
bem-estar, não colocando a felici- mais avançadas do mundo nessa
Recaídas dade dependente do outro. questão, a Lei Maria da Penha foi

A pesar de já ter conseguido ter- É preciso pensar em como foi criada para combater a violência
doméstica e familiar, assegurando
minar a relação violenta, reca- difícil, mas ao mesmo tempo grati-
punição rigorosa aos agressores.
ídas podem acontecer por diversos ficante chegar onde se está, fazen- Cria mecanismos para prevenir a
motivos. Para evitar uma reapro- do o possível para se manter forte. violência e proteger a mulher agre-
ximação com a pessoa ou investi- É importante evitar lugares onde dida. A legislação configura violên-
mentos em novos relacionamen- possa encontrá-lo(a), afastar-se de cia doméstica e familiar contra a
tos do mesmo tipo, é importante coisas que faça recordar dele(a), mulher qualquer ação baseada no
estar atento. Essa é uma fase de investir em si, na aparência, nos gênero, que possa causar morte, le-
manutenção, onde devem ser usa- valores, nas coisas que gosta, nas são, sofrimento sexual, psicológico,
moral ou patrimonial.

A qualidade das alternativas é definida


pela maneira como a pessoa analisa as pessoas que realmente gostam de
você e que podem ajudar. Após
opções que ela tem disponíveis, como, esse momento turbulento a vida
por exemplo, ficar sozinha ou buscar segue, construindo novas oportu-
nidades para se ser feliz.
outros relacionamentos. Essa é uma avaliação
subjetiva e muitas coisas a influenciam Intervenção precoce
E m que pese a crença cultu-
ralmente compartilhada de
que a violência é parte natural das
relações, nem todos os namoros
são violentos. Adolescentes e jo-
vens podem aprender a lidar com
conf litos de modo não violento
e expressar discordâncias e emo-
ções desagradáveis, como raiva e
ciúme, de modo assertivo. Parte
crucial da qualidade das relações
amorosas é a capacidade dos par-
ceiros de perceber as necessidades
do outro e reagir a elas sensivel-
mente, apoiando e respeitando
a individualidade do parceiro e,
ainda, manifestando as próprias
necessidades e preferências sem
O processo de separação é confuso, pois a pessoa pode perceber a importância de tomar uma atitude, hostilizar ou culpabilizar o outro.
mas essa vontade se mistura ao desejo de permanecer na relação Os serviços de atendimento

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Abuso psicológico
Os investimentos
irrecuperáveis se
referem a como a
pessoa avalia que
o fim da relação
trará perdas que ela
não pode recuperar.
Esses investimentos
são o tempo de
relacionamento ou o
esforço empreendido Há situações em que a mulher elabora estratégias para tentar resolver o problema, como, por exemplo,
forçar uma gravidez para melhorar o relacionamento
em fazer aquela
relação dar certo 2016). Porém, muito ainda precisa nhecer e tratar o fenômeno e disse-
ser feito para fomentar a pesquisa minar iniciativas preventivas e pro-
às vítimas e perpetradores de vio- nacional nessa temática, alargar a motoras de qualidade das relações
lência no namoro devem compor formação profissional para reco- amorosas entre jovens.
um continuum de serviços focados
no enfrentamento e prevenção à REFERÊNCIAS
violência pelo parceiro íntimo e BAKER, C. K.; H ELM, S. H .; BIFULCO, K.; CH UNG-DO. The relationship between self-harm
na promoção da qualidade das re- and teen dating violence among youth in Hawaii. Qualitative Health Research, v. 25, n. 5,
lações amorosas. Nesses últimos p. 652-667, 2015.

aspectos, ainda é pequena a pes- EDWARDS, K. M.; GIDYCZ, C. A.; MURPHY, M. J. Leaving an abusive dating relationship: a
prospective analysis of the investment model and theory of planned behavior. Journal of
quisa nacional sobre programas de Interpersonal Violence, v. 30, n. 16, p. 2908-2927, 2015.
prevenção à violência no namoro. GREENMAN, S. J.; MATSUDA, M. From early dating violence to adult intimate partner
Os programas até agora existentes violence: continuity and sources of resilience in adulthood. Criminal Behavior and Mental
têm se centrado em dois braços: o Health, n. 26, p. 293-303, 2016.
primeiro, dirigido a adolescentes MURTA, S. G.; MOORE, R. A.; MIRANDA, A. A. V.; Cangussú, E. D. A.; Santos, K. B.; Bezerra,
de ensino médio, no contexto esco- K. L. T.; Veras, L. G. Efeitos de um programa de prevenção à violência no namoro.
lar, por meio de oficinas participa- Psico-USF, v. 21, n. 2, p. 381-393, 2016.

tivas com múltiplos encontros que MURTA, S. G.; RAMOS, C. E. P. L.; TAVARES, T. N. G.; CANGUSSÚ, E. D. A.; Costa, M. S. F.
Desenvolvimento de um website para prevenção à violência no namoro, abandono de
discutem temas como o reconhe- relações íntimas abusivas e apoio aos pares. Contextos Clínicos, v. 7, n. 2, p. 118-132, 2014.
cimento da violência no namoro; . Libertando-se de Namoros Violentos. Novo Hamburgo: Sinopsys, 2014.
papéis de gênero e direitos sexuais MURTA, S. G.; SANTOS, B. R. P.; NOBRE, L. A.; ARAÚJO, I. F.; MIRANDA, A. A. V.;
e reprodutivos; e habilidades de co- RODRIGUES, Í. O.; FRANCO, C. T. P. Prevenção à violência no namoro e promoção de
municação, tomada de decisão, ma- habilidades de vida em adolescentes. Psicologia USP, n. 24, p. 263-288, 2013.
nejo de emoções e solução de pro- NASCIMENTO, F. S. N; CORDEIRO, R. L. M. Violência no namoro para jovens moradores de
blemas (Murta et al., 2013; 2016). Recife. Psicologia e Sociedade, n. 23, p. 516-525, 2011.
O segundo, voltado também para OLIVEIRA, Q. B. M.; ASSIS, S. G.; NJAINE, K.; OLIVEIRA, R. V. C. Violência nas relações
adolescentes, via intervenções bre- afetivo-sexuais. In: MINAYO, M. M; ASSIS, S. G.; NJAINE, K. (Eds.). Amor e Violência: um
Paradoxo das Relações de Amor e do Ficar, p. 87-140. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2011.
ves em diferentes contextos, com
OLIVEIRA, Q. B. M.; ASSIS, S. G.; NJAINE, K.; PIRES, T. O. Namoro na adolescência no Brasil:
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

a finalidade de desenvolver habili- circularidade da violência psicológica nos diferentes contextos relacionais. Ciência &
dades de empatia, melhorar a qua- Saúde Coletiva, v. 19, n. 3, p. 707-718, 2014.
lidade da amizade e apoiar amigos SANTOS, K. B. Mobilizando comportamentos de ajuda na rede de amizades: uma
que vivem namoros violentos a se estratégia de prevenção à violência no namoro baseada nos pares e na abordagem do
protegerem da violência (Santos, espectador. Tese de Doutorado, Universidade de Brasília, Brasília, 2016.

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dossiê

QUESTÕES mal resolvidas


Gravidez é uma situação que, se não for bem trabalhada
entre o casal, pode trazer problemas sérios de relacionamento,
principalmente se a decisão for tomada com o objetivo
de resolução de conflitos já existentes
Por Oswaldo M. Rodrigues Jr. e Carla Zeglio

A
ideia de casal perfeito, Contudo, nem todo casal tem ener- há conflito. No entanto, há outros
família perfeita é algo gia, disposição e vontade de olhar casais em que um deseja ter filhos e
muito comum na cultura para elas e administrá-las. Então, se o outro não tem planos ou desejo de
ocidental. Dessa forma, não houver por parte do casal dedi- tê-los. Na grande maioria das vezes,
assim que se decida pela relação con- cação para solucionar ou reconhecer nada disso é discutido efetivamente
jugal, casamento, morar juntos, ou quais são as diferenças individuais, é para saber se devem continuar jun-
qualquer outra expressão que se use possível que surjam problemas que tos com todas as diferenças. Outros
para designar convivência em casal, o ciclicamente virão à tona em novas pontos importantes são quantos ter
pressuposto é que “devem ter filhos”. situações de estresse. e quando, em que momento da vida.
Toda pressão social sobre casais, in- Reconhecer as formas inadequa-
dependentemente da orientação se- das de relacionar conjugalmente, Gravidez planejada
xual, é a de que uma união gera fru-
tos. Para alguns casais iniciam-se as
transformações em seu status social.
pelo casal, sempre é o caminho de
solucionar os problemas. Sabe-se da
ideia romântica de casamento e os
O panorama geral do buscar a
gravidez já pode ser um as-
pecto problemático para o casal. Se
Alguns casais desejam ter filhos pensamentos mágicos de que os pro-
e acreditam que, mesmo não viven- blemas se solucionarão com a con-
do bem a conjugalidade, investem vivência e intimidade, mas, na rea-
nos filhos como sendo a possibili- lidade, é aí que mora o perigo e um
dade de resolução de conflitos, e a enorme engano. A imensa maioria
energia que necessitam para enfren- das pessoas não está preparada para
tar problemas no casamento, que são reconhecer os próprios problemas,
dificuldades anteriores à escolha de diferenças e dificuldades no relacio-
ter ou não ter filhos. Problemas to- namento afetivo\conjugal.
dos têm, a vida toda. É preciso saber A gravidez, ou a questão da pa-
administrá-los. ternidade e maternidade, não é algo Œ Consequências Œ
que a maioria do casal converse de Seja física, psicológica, sexual ou emo-
Problemas anteriores maneira clara. Existem casais em cional, a violência contra a mulher se

T
torna mais séria ainda durante o período
odo casal tem suas dificulda- que o sonho de ambos é ter filhos e
da gravidez, pois traz consequências
des, geralmente administráveis. construir família. Nesses casos, não
significativas para a saúde da mãe e
do filho, como baixo peso ao nascer,
Oswaldo M. Rodrigues Jr. é psicólogo, psicoterapeuta de casais e em sexualidade no Instituto abortos, partos prematuros e mortes
Paulista de Sexualidade, assessor de publicações da Alamoc – Associação Latino-Americana de materna e fetal. Os estudos que com-
Análise e Modificação do Comportamento e Terapia Cognitivo-Comportamental. provam as afirmações são da Organiza-
Carla Zeglio é psicóloga, psicoterapeuta de casais e em sexualidade no Instituto Paulista de ção Mundial da Saúde (OMS) no Informe
Sexualidade, representante no Brasil da Alamoc – Associação Latino-Americana de Análise e Mundial sobre a Violência e a Saúde.
Modificação do Comportamento e Terapia Cognitivo-Comportamental.

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Abuso psicológico
A ideia de casal e família perfeitos
é muito comum na cultura ocidental
e sempre com a exigência social
de que obrigatoriamente os
GI 
G‚ 

o ter filho não for um plano comum A ideia romântica de casamento e os


aos dois, a busca da gravidez já traz o
primeiro desconforto: objetivos dis- pensamentos mágicos de que os problemas
tintos no casal. Ao se casar em ceri-
mônias religiosas, geralmente ele já é
se solucionarão com a convivência e a intimidade
alertado, relembrado e consignado a não funcionam, pois a imensa maioria das
procriar como função religiosa dessa pessoas não está preparada para reconhecer
união. Esse momento apenas reforça
o projeto que o mundo ao redor im- as próprias dificuldades e limitações
põe a todos desde criança, e sempre
relembrando aos pequenos de que corpo e a possibilidade (percebida sa, mas utilizada por muitos casais:
crescerão, casar-se-ão e terão filhos. como certeza) de que serão rejeita- o sexo fará mal ao bebê. E isso é ex-
Para muitas pessoas apenas esse me- das. Olham-se ao espelho e perce- presso por pessoas de cultura e edu-
canismo já será suficiente para o de- bem-se gordas, inviáveis de serem cação formal altas.
sejo de gravidez na vida adulta. desejadas pelo marido. Ela se rejeita, Sexo – com as justificativas mais
Além das tão faladas questões tem certeza de que o marido a rejei- variadas, cada um no casal poderá
hormonais vivenciadas pela mulher, tará durante toda a gravidez, e será deixar de buscar sexo. Ansiedades
provocando mudanças importantes cada vez pior, quanto mais passe o e receios irracionais afastam-nos da
de humor, descontroles de impulso tempo até o parto. Mas serão essas busca de atividades sexuais, assim
e mal-estares físicos em vários mo- mulheres que evitarão o contato físi- como emoções negativas advindas
mentos da gravidez, há aspectos psi- co do marido. E a consequência para de outras dificuldades do casal du-
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

cológicos, emocionais, relacionais ele é também afastar-se, o que “con- rante a gravidez. Nos primeiros me-
para considerar. São eles: firmará” para a mulher que o marido ses há justificativas de que a náusea
Intimidade física do casal – mui- não a deseja. Uma grande confusão impede o sexo, depois é a barriga
tas mulheres mostram-se exagerada- com falta de comunicação nesses crescendo, depois é a barriga gran-
mente preocupadas com a forma do casais. Fora aquela justificativa fal- de; é não receber atenção numa

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dossiê

PARA SABER MAIS Muitos desenvolverão um ciúme e se


mostrarão muito ressentidos com es-
CASAIS VIOLENTOS SEGUEM ses meses de alienação conjugal. Ca-
O PADRÃO DURANTE A GRAVIDEZ sais que não se planejaram para que
a vida conjugal ocorresse de modo
A satisfação conjugal anterior à gravidez tem continuidade durante a ges-
tação e após o parto. Problemas com ambos se sentirem satisfeitos com
o relacionamento prejudicam o relacionamento com a gravidez e após o par-
confortável tendem a reforçar mais
as situações negativas.
Falta de comunicação e compre-
to (Lawrence et. cols., 2008). Casais nos quais existe violência no relaciona-
ensões mútuas – homens e mulhe-
mento tendem a registrar seguidamente a violência durante a gravidez e além
res percebem a gravidez de modo
(Mahenge et. cols., 2016). A violência doméstica piora as condições, pois se
diferente e cada qual deseja ser o
associa à depressão pós-parto (Ludemir et cols., 2010). A qualidade do relacio-
centro de atenções, e ser como eram
namento de casal, as condições de trabalho, uso de álcool e doenças somáticas
associam-se com estresse na gravidez e maternagem (Meyer et cols., 1994). As
antes de se iniciar essa busca de pro-
dificuldades sexuais também tendem a piorar com a gravidez. E uma sexualida-
criarem. Ser diferente não é ruim,
de saudável depende da qualidade da saúde física e mental. Se os outros fatores o problema é não saber como lidar
negativos preexistem, a saúde sexual estará comprometida durante a gravidez. com essas diferenças, atacando-se
O comprometimento sexual anterior pode ser de todas as ordens, seja no ho- e defendendo-se como estando em
mem (dificuldades com relação a desejo, excitação ou orgasmo) ou na mulher diferentes direções e não num casa-
(dificuldades com relação a desejo, excitação ou orgasmo). Importante lembrar mento. As habilidades de comunica-
que amiúde existem interações das dificuldades sexuais, fazendo com que falte ção e a ansiedade durante a gravidez
apoio para a melhoria da vida sexual ao longo do relacionamento do casal, pio- estão muito associadas por ser a sa-
rando na gravidez pelos novos fatores estressantes. tisfação marital conectada com am-
bos fatores (Malary et. cols., 2015).
Claro que existem discussões se a sa-
tisfação conjugal é produzida ou pro-
condição tão importante, é não ter Quando uma pessoa duz melhor comunicação do casal
ajuda quando outros desejos alimen- (Lavner; Karney; Bradbury, 2016).
tares aparecem, desconsiderações. integrou a ideia de Questões financeiras – embora
Depressão pré-natal – as mudan- ter filho assim que se sempre se escute que “onde comem
ças de humor ao longo dos meses de dois, comem três”, isso não funciona
gravidez, uma vez mais drásticas po- casar, o projeto do assim. Ter uma criança exige plane-
dem conduzir a quadros depressivos. mundo social fará efeito jamento financeiro por cerca de duas
Afinal, o crescer da percepção de falta décadas, ao menos. Muitas vezes a
de controle sobre o corpo que se alie direto e na qualidade discussão sairá do racional necessá-
a pensamentos negativos pode ser im- de necessidade. rio para o desejo emocional de terem
portante e decisivo nessa fase. Esses filhos. Os casais percebem que pre-
quadros diminuem a comunicação Nem sempre o casal cisarão de um quarto para a criança,
entre os cônjuges, com o marido não formou-se com a fraldas, comida, médico. Imediata-
compreendendo o que se passa, até mente ao conhecimento da gravidez
vendo que deveria ser o contrário, compreensão mútua deverá acontecer uma série de provi-
pois, afinal, terão a criança desejada. de suas necessidades, dências para o nascimento.
A insatisfação no casal é o principal
preditor de sintomas psicológicos incluindo a de Novos aparatos sociais
para a depressão pré-parto (Rosand
et cols., 2011). Um bom relaciona-
mento de casal protege contra certos
formar uma família
gravidez, todos à volta dão atenção
O momento histórico atual con-
duz à busca de saúde e não à
evitação de problemas. Novas for-
estressores. Depressão perinatal é à mulher. Esse é o momento em que mas de instituições sociais de saúde
pouco reconhecida por profissionais o homem se sente rejeitado, coloca- virão para compreender a gravidez e
de saúde por estes estarem focados na do de lado, sem função por meses, considerar o casal como importan-
saúde física da mulher e do feto. ao menos os últimos seis, quando a te, não só para a gravidez e o futuro
A rejeição ao marido – com a gravidez foi socialmente anunciada. bebê. O casal preexiste e continuará

48 psique ciência&vida
Abuso psicológico
Além das tão faladas
questões hormonais
vivenciadas pela
mulher, provocando
mudanças importantes
de humor, descontroles
de impulso e
mal-estares físicos
em vários momentos
da gravidez, há
aspectos psicológicos,
emocionais, relacionais Ao se casar em cerimônias religiosas, o casal já é alertado que deve procriar, o que reforça o projeto

para considerar que o mundo ao redor impõe a todos desde criança

a existir após o nascimento (!?). As neficiada, e, assim sendo, beneficie maior satisfação do casal, enquanto
instituições de saúde têm tido apari- a gravidez e o bebê a nascer. Ainda casal. No entanto, devemos buscar
ções nesse sentido há décadas, mas não atuamos sobre o bem-estar con- transformações para que se possa fa-
somente existe atuação positiva es- jugal e a vida e saúde sexuais para zer diferente.
porádica e quando os problemas se
tornaram maiores e mais aparentes. REFERÊNCIAS
Ainda vivemos para cuidar da HENRIKSEN, R. E.; TORSHEIM, T.; THUEN, F. Relationship satisfaction reduces the risk of maternal
gravidez. Ainda não agimos sobre o infectious diseases in pregnancy: the norwegian mother and child cohort study. PLoS One, v. 10,
casal para que essa unidade seja be- n. 1, 2015: e0116796. doi: 10.1371/journal.pone.0116796.
LAVNER, J. Á.; KARNEY, B. R.; BRADBURY, T. N. Does couples communication predict marital
satisfaction, or does marital satisfaction predict communication? Journal of Marriage and Family, v.
78, n. 3, p. 680-694, 1 jun. 2016; Epub 22 mar. 2016.
LAWRENCE, E.; COBB, R. J.; ROTHMAN, A. D.; ROTHMAN, M. T.; BRADBURY, T. N. Marital satisfaction
across the transition to parenthood. Journal of Family Psychology, v. 22, n. 1, p. 41-50, 2008. doi:
10.1037/0893-3200.22.1.41.
LUDERMIR, A. B.; LEWIS, G.; VALONGUEIRO, A. S.; DE ARAÚJO, T. V.; ARAYA, R. Violence against
women by their intimate partner during pregnancy and postnatal depression: a prospective cohort
study. Lancet, v. 376, n. 9744, p. 903-910, 11 set. 2010. doi: 10.1016/S0140-6736(10)60887-2.
MAHENGE, B.; STÖCKL, H.; ABUBAKARI, A.; MBWAMBO, J.; JAHN, A. Physical, sexual, emotional
and economic intimate partner violence and controlling behaviors during pregnancy and
Œ Pré-natal Œ postpartum among women in Dar es Salaam, Tanzania. PLoS One, v. 11, n. 10, 18 out. 2016:
e0164376. doi: 10.1371/journal.pone.0164376.
A assistência pré-natal é o momento
MALARY, M.; SHAHHOSSEINI, Z.; POURASGHAR, M.; HAMZEHGARDESHI, Z. Couples
fundamental para identificar as mu-
communication skills and anxiety of pregnancy: a narrative review. Mater Sociomed, v. 27, n. 4, p.
lheres que sofrem violência. Frequen- 286-290, ago. 2015. doi: 10.5455/msm.2015.27.286-290.
temente, é a única oportunidade de
MEYER, L. C.; PEACOCK, J. L.; BLAND, J. M.; ANDERSON, H. R. Symptoms and health problems
interromper esse ciclo. O atendimento in pregnancy: their association with social factors, smoking, alcohol, caffeine and attitude to
adequado para grávidas que sofrem pregnancy. Paediatric and Perinatal Epidemiology, v. 8, n. 2, p. 145-55, abr. 1994.
violência física, psicológica ou sexual PILKINGTON, P. D.; MILNE, L. C.; CAIRNS, K. E.; LEWIS, J.; WHELAN, .::(
‚GHGGI
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

representa apenas uma de muitas me- associated with perinatal depression and anxiety: a systematic review and meta-analysis. Journal
didas que precisam ser tomadas para of Affective Disorders, n. 178, p. 165-180, 1 jun. 2015. doi: 10.1016/j.jad.2015.02.023.
se encarar o fenômeno da violência RØSAND, G-M. B.; SLINNING, K.; EBERHARD-GRAN, M.; RØYSAMB, E.; TAMBS, K. Partner
durante a gravidez. relationship satisfaction and maternal emotional distress in early pregnancy. BMC Public Health, n.
11, p. 161, 2011. doi: 10.1186/1471-2458-11-161.

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ciberpsicologia Por Igor Lins Lemos

CRIMES cibernéticos
OS ASPECTOS LEGAIS E PSICOLÓGICOS DOS ATAQUES VIRTUAIS
SÃO TEMAS CONSTANTEMENTE DEBATIDOS NA ÁREA DO
DIREITO, DA PSICOLOGIA E NAS CIÊNCIAS DA COMPUTAÇÃO

A
pesar dos debates envolven- sites pessoais, roubo de senhas, este- conhecimento científ ico e também
do esse fenômeno, uma im- lionatos, entre outros. numa maior interação humana, ultra-
portante informação deve Barbosa, Ferrari, Boery e Filho passando as barreiras da distância e
ser salientada no começo (2014) debatem que, fruto do verti- do tempo. Todavia, ressaltam os pes-
do artigo: ainda não existem soluções ginoso desenvolvimento tecnológico quisadores, quando mal utilizada, a
sólidas para essa problemática. Ape- do século XX, a internet gerou novas internet pode resultar em invasão da
nas como referência, estão sendo cada formas de relacionamento e de socia- privacidade, crimes virtuais, apolo-
vez mais comuns os ataques ciberné- lização. Essa profunda alteração nas gia a comportamentos inadequados
ticos com amplitude mundial. Todos, relações humanas gerou maior rapi- e a atitudes preconceituosas, os quais
então, são vulneráveis a esses ataques. dez de comunicação, oportunizan- podem gerar problemas de grande
De acordo com Kim (2004), os cri- do signif icativos avanços na forma amplitude biopsicossocial, difíceis
mes virtuais mostram de forma intensa como são estabelecidas as dinâmicas de resolver e punir; uma vez que, na
que a virtualidade do ciberespaço pos- prof issionais, comerciais, científ i- internet, as informações podem ser
sui uma inegável natureza coercitiva cas, educativas e pessoais. Todas es- rápidas e facilmente disseminadas e
de realidade. Segundo, o autor, o fato sas modif icações provocam diversos nem todos países possuem aparato
é que já somos seres virtuais, ao me- benefícios econômicos e sociais, no legal para lidar com tais problemas,
nos dentro dos grandes bancos de da- aumento da geração e divulgação do originando conf litos de ordem ética e
dos de corporações e governos, e cada bioética provenientes da forma como
vez mais temos o conhecimento – “a as pessoas interagem nesse novo pal-
certeza de que os fenômenos são reais PESQUISA SOBRE co de relações humanas.
E POSSUEM CARACTERÓSTICAS ESPECÓlCASv Canetti, Gross, Waismel-Manor,
OS EFEITOS
– de que o ciberespaço, apesar de vir- Levanon e Cohen (2017), estudiosos
TUAL  Ï BASTANTE hREALv %SSA AlRMA¥ÎO PSICOLÓGICOS que realizaram uma pesquisa em Is-
do pesquisador, feita há mais de uma DOS ATAQUES rael sobre os efeitos psicológicos dos
década, é bastante atualizada. Indubi- ataques cibernéticos, revelam sinto-
CIBERNÉTICOS mas gerados por esse tipo de fenôme-
tavelmente é cada vez mais complexo
delimitar onde está a fronteira entre REVELA SINTOMAS no aos seus alvos, dentre eles: raiva,
os dois campos daquilo que pode ser GERADOS EM SEUS medo, ansiedade, desconf iança e pâ-
considerado real ou virtual. E, sim, as- nico moral. Em casos mais graves, os
sim como transtornos psiquiátricos e
ALVOS, DENTRE sintomas podem gerar transtorno do
ELES RAIVA, MEDO,
IMAGENS: SHUTTERSTOCK E 123RF

outras temáticas estão relacionados ao estresse pós-traumático, transtorno


campo da virtualidade, o mesmo ocor- ANSIEDADE, depressivo maior e ansiedade anteci-
re com atos ilícitos. Estamos, então, patória. Todas essas consequências,
vulneráveis a riscos de todos os tipos, DESCONFIANÇA E de acordo com os pesquisadores, gera
desde a instalação de vírus, ataques a PÂNICO MORAL confusão no senso de segurança e

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aumento signif icativo nos sentimen- benignos. Mesmo que não sejam cau- nhecidos benefícios como também a
tos de vulnerabilidade. Em pesquisa sados danos físicos, a oportunidade proliferação de temáticas como a ba-
desenvolvida por esses autores, par- de causar ansiedade e estresse é imen- leia azul e ataques virtuais. Fato é que
ticipantes foram divididos em dois sa, provocando paralelamente medo e atualmente não existem limites para
grupos: aqueles expostos a ciberter- distúrbios no dia a dia. a expressão sintomatológica dos seres
rorismo e o grupo que não passou por Certamente a internet é um cam- humanos e, certamente, os ataques
essa exposição. Os resultados eram po de produção plural, desde os co- serão cada vez mais frequentes.
esperados: o grupo que passou pela
experiência de ataque demonstrou Referências:
uma elevação signif icativa no nível de BARBOSA, A. S.; FERRARI, M. R.; BOERY, R. N. S. O.; FILHO, D. L. G. Relações humanas e privacidade
na internet: implicações bioéticas. Revista de Bioética y Derecho, n. 30, 2014.
cortisol. Ainda de acordo com a pes-
CANETTI, D.; GROSS, M.; WAISMEL-MANOR, I.; LEVANON, A.; COHEN, H. How cyberattacks
quisa, a resposta ao estresse foi ativa-
terrorize: cortisol and personal insecurity jump in the wake of cyberattacks. Cyberpsychology,
da quando o participante sofria uma Behavior, and Social Networking, v. 20, n. 2, 2017.
experiência de exposição, acionando o KIM, J. H. Cibernética, ciborgues e ciberespaço: notas sobre as origens da cibernética e sua
senso de insegurança e vulnerabilida- reinvenção cultural. Horizontes Antropológicos, v. 10, n. 21, 2004.
de, o que pode exacerbar a percepção
Igor Lins Lemos é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento
de ataques iminentes reais. Por f im, pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia
Canetti, Gross, Waismel-Manor, Le- Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE).
vanon e Cohen (2017) mencionam É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das
dependências tecnológicas. E-mail: igorlemos87@hotmail.com
que os ataques cibernéticos não são

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neurociência por Marco Callegaro

O perigo dos
ANSIOLÍTICOS
OS EFEITOS NEGATIVOS
DOS MEDICAMENTOS
ANSIOLÍTICOS E
HIPNÓTICOS – MUITO
USADOS PELA
POPULAÇÃO – SÃO
BEM CONHECIDOS
HÁ DÉCADAS

O
s efeitos nocivos de drogas tos, os chamados benzodiazepínicos. um período maior do que três semanas
prescritas para tratar a an- O potencial para viciar é também leva o cérebro a uma adaptação nada
siedade, como Frontal ou bem conhecido, sendo comum a to- benéf ica à saúde, que é a diminuição
Rivotril, são conhecidos lerância (necessidade de aumentar a da produção natural do neurotrans-
há muito tempo. Sonolência, quedas dose para obter o mesmo efeito) e de- missor inibitório mais importante, o
e risco aumentado de demência são pendência (a retirada ou diminuição chamado GABA (ácido gama-amino-
apenas alguns dos problemas associa- produzem abstinência). butírico). Existem neurotransmisso-
dos a essa categoria de medicamen- O uso de benzodiazepínicos por res excitatórios, como serotonina ou

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dopamina, que promovem atividade UM NOVO ESTUDO problemas se o uso for continuado.
nos neurônios, sendo parte da comu- Ironicamente, a pessoa se torna mais
COM AMOSTRA propensa à ansiedade ou insônia com
nicação de sinais no sistema nervoso.
Já os neurotransmissores inibitórios MASSIVA ENCONTROU o uso constante, tendo alívio com
promovem o efeito contrário, ajudam EVIDÊNCIAS DE doses maiores e momentaneamente.
a deslig ar a atividade dos neurônios. Realmente não podemos substi-
O GABA, sendo o principal neuro-
UM RISCO AINDA tuir um estilo de vida saudável por
transmissor inibitório, tem um papel MAIOR PARA AS comprimidos sem ter consequências.
crucial para processos que dependem DROGAS USADAS Existem muitas formas de aprender
de inibição, como relaxar, dormir, a reduzir a ansiedade e melhorar o
deslig ar pensamentos obsessivos ou
PARA TRATAR A sono de forma natural e saudável,
impulsos, e assim por diante. ANSIEDADE E INSÔNIA mas que dependem de informações
Os medicamentos benzodiaze- adequadas e de empenho na mudan-
pínicos, justamente, imitam a mo- mil pacientes que f izeram acompa- ça de hábitos. No entanto, vale muito
lécula do GABA e se encaixam em nhamento médico durante sete anos. a pena o esforço, pois o aprendizado
seus receptores, funcionando como A descoberta chocante foi: os pa- e os novos padrões de comportamen-
se fossem o neurotransmissor, pro- cientes que usaram essas drog as tive- to permanecem e se ampliam na vida,
movendo assim suas ações de inibir ram mais do que o dobro do risco de e são uma espécie de patrimônio da
a atividade neuronal. O relaxamento morte. Além disso, os pesquisadores reserva de saúde.
e sonolência são efeitos dessa inibi- observaram que os riscos são propor- A terapia cog nitivo-comporta-
ção, mas o problema é que depois de cionais à dose usada, ou seja, quanto mental, por exemplo, pode contri-
três semanas o cérebro entende que maior a dose, maior o risco de morte. buir muito para insônia ou ansieda-
já existe muito GABA e para de sin- Os autores da pesquisa aponta- de, ensinando aos pacientes técnicas
tetizá-lo naturalmente, deixando a ram que a mensagem principal do es- para lidar com pensamentos de an-
pessoa dependente de ingerir os me- tudo é que devemos ter mais cuidado siedade, hábitos saudáveis de sono,
dicamentos sob pena de f icar muito com o uso dessas drog as, uma vez técnicas de relaxamento, meditação
ansiosa ou insone. Está armada uma que crescem as evidências de que os mindfulness, entre outras estratégias.
dependência química com drog as le- efeitos colaterais são sig nif icativos e Exercícios f ísicos e nutrição ade-
g ais e prescritas pelo médico. perigosos. Seg undo os autores, temos quada são ferramentas poderosas de
É importante observar que a que fazer tudo o que for possível para controle da ansiedade e melhoria do
prescrição adequada desses medica- minimizar a conf iança excessiva nes- sono, e a divulg ação de informações
mentos não deve ser superior a três sas drog as como forma principal de sobre a implementação de hábitos
semanas, e que podem existir indica- lidar com a ansiedade ou problemas saudáveis nessas dimensões é crucial
ções para uso em períodos menores. de sono, e valorizar as alternativas. para que a população tenha acesso a
Para se ter uma ideia da seriedade Podemos dizer que não existe uma alternativas aos medicamentos. Em-
dessa questão, os conselhos de Me- forma a longo prazo de controlar a bora seja cômodo tomar um compri-
dicina de alg uns países da Europa ansiedade, ou a insônia, através de mido ao invés de toda uma trajetória
punem os médicos que prescrevem medicamentos, pelo menos sem ter de aprendizado e esforço para obter
de forma prolong ada com a cassação inúmeros riscos e danos para a saúde um resultado, hoje entendemos me-
da carteira prof issional. Os medica- e funcionamento do org anismo. De lhor os riscos de peg ar o caminho
mentos hipnóticos têm problemas forma breve, esses medicamentos são mais fácil e os benef ícios de mudar o
parecidos, e requerem cuidados em de fato efetivos, mas logo surgem os estilo de vida de forma positiva.
seu uso, ocasionando diversos efei-
IMAGENS: WIKIPEDIA E SHUTTERSTOCK E ARQUIVO PESSOAL

tos colaterais. Referências:


Weich, Scott; Pearce, Hannah Louise; Croft, Peter; Singh, Swaran; Crome, Ilana; Bashford, James et
Um novo estudo com uma amos- al. Effect of anxiolytic and hypnotic drug prescriptions on mortality hazards: retrospective cohort
tra massiva encontrou evidências de study. BMJ, v. 348, g1996, 2014.
um risco ainda maior para as duas
Marco Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento,
categorias de medicamentos, os an- diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto
siolíticos e os hipnóticos. A pesquisa, Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo
publicada no British Medical Journal, Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o
Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).
se baseou em dados de mais de cem

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recursos humanos por João Oliveira

BRANDING PESSOAL
TER RECONHECIMENTO E SER LEMBRADO FAZEM TODA
DIFERENÇA NO PLANO COMPETITIVO QUE VIVEMOS. MESMO
QUE UMA PESSOA NÃO QUEIRA IMPRIMIR SUA MARCA, CAUSA
EFEITOS POSITIVOS OU NEGATIVOS EM SUA APRESENTAÇÃO

O
mundo está se tornando sentar de acordo com as expectativas das franquias e autor de vários livros
cada vez mais uniforme. É que deseja criar em seu futuro possí- de empreendedorismo. Será que esse
fato a facilidade com que vel networking. Mesmo pessoas que já é o nome registrado pelos pais ou foi
a informação circula pelas estão inseridas e com boa visibilidade, adaptado após o sucesso de sua gran-
redes sociais ofertando, em sua time- colhendo resultados positivos de uma de rede de cursos de inglês?
line, milhares de imagens por dia de boa imagem, também devem investir Sua marca pessoal, muito antes da
pessoas oriundas de várias partes do em uma possível melhora na criação EMBALAGEM lNAL ROUPAS  Ï DElNIDA
mundo com culturas diferentes e, ao de seu branding pessoal. De fato, nem pelo cabedal linguístico que se utiliza:
mesmo tempo, muito parecidas umas se trata de um processo de alto custo, as expressões e palavras mais marcan-
com as outras. apenas de boas e sensatas escolhas. tes. Não se trata de inventar jargões
Dif icilmente podemos memorizar Um exemplo é a forma como as ou novas expressões, mas de ter uma
uma pessoa pelas roupas que vestem, pessoas são chamadas. Nem sempre estrutura de conteúdo coerente com o
pelo tipo de corte de cabelo ou ainda o nome próprio de uma pessoa é o impacto que deseja causar. Apresentar
acessórios que ostentam. Af inal, tudo mais reconhecido pela comunidade. um cuidado em usar um linguajar apro-
está muito igual. Somente algumas A própria estruturação do nome de priado e saber como, quando e onde
poucas culturas orientais, povos que trabalho faz muita diferença. Observe EXERCERUMABOAmUÐNCIAVERBALÏESTRA-
ainda resistem à globalização, man- as pessoas que não utilizam o primei- tégico na formação do seu branding.
têm um estilo particular de se apre- ro nome, ou fazem uma conjugação Um detalhe que não pode ser ne-
sentar ao planeta. Muitas vezes, essas entre o primeiro nome e algum sobre- gligenciado é a linguagem não verbal
assinaturas culturais são apenas para nome, ou utilizam apenas o sobreno- que vai abranger um vasto campo de
um público espectador pagante, turis- me. Como isso impacta na percepção signos e sinais, tais como: 1- Gestos
tas na maior parte. de cada um? e posturas: muitos devem ser evitados
Assim, a identidade pessoal se fun- Como você gostaria de ser chama- a f im de evitar uma imagem negativa;
de em um universo de calças jeans, do e por quê? Esse é o primeiro mo- 2- Acessórios e maquiagem: é prio-
blazers e tênis descolados. Para ter vimento para a criação de sua marca ritário que o ambiente seja estudado
uma aderência em um nicho de mer- própria registrada no cartão de visi- antes para que uma adequação possa
cado – entendendo “mercado” como tas ou no crachá que ostenta. Pensar ser feita. 3- Roupas: é necessário que
seu público-alvo em seu universo la- nisso por alguns minutos pode mudar o perf il da indumentária seja equiva-
boral –, é necessário imprimir uma muita coisa na valoração que você lente ao esperado de alguém que se
marca pessoal, um estilo próprio e pode imprimir no ambiente. Algumas proponha a se apresentar como repre-
que possa tornar essa pessoa em algo pessoas se apossam de nomes que sentante de algum setor do conheci-
distinguível no cenário geral. nem estão de fato na carteira de iden- mento. Dentre os aspectos que, para a
Lembrando sempre que: a primei- tidade e usam como uma real marca. grande maioria das pessoas, passa to-
ra impressão é a que f ica. É impor- Um exemplo é o empresário Carlos talmente desapercebido estão os cal-
tante que o prof issional saiba se apre- Wizard Martins, referência no mundo çados. De nada vale uma pessoa que

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É IMPORTANTE QUE O PROFISSIONAL SAIBA em si uma certa valência que pode
ser aproveitada para quem deseja ser
SE APRESENTAR DE ACORDO COM AS notado e deixar sua marca registrada,
EXPECTATIVAS QUE DESEJA CRIAR PARA SER pessoal, nas pessoas que toca no dia
a dia. Basta, para isso, ter bom senso
NOTADO E DEIXAR SUA MARCA, E ISSO VALE
e saber equalizar todas as possibilida-
DESDE ROUPAS ÀS EXPRESSÕES LINGUÍSTICAS des sem se apoiar totalmente em ape-
nas uma das vertentes.
está muito bem vestida se apresenta pera-se que um gênio da computação A culpa não é do preconceito, é da
os sapatos sujos ou desgastados. use calças jeans desbotadas e uma ca- cultura instalad a ao longo d a constru-
Uma instituição de ensino superior miseta de algodão na cor cinza. Que ção de nossa história. Ter atenção ao
de representação nacional, por exem- um médico sempre use, onde quer que perf il de marca pessoal que estamos
plo, exige em seu manual de conduta vá, um estetoscópio no ombro e uma divulgando com a nossa presença em
que todos os professores de pós-gra- modelo prof issional se equilibre em determinados ambientes pode criar
duação usem blazers para serem dife- um salto alto de 15 cm. feedbacks que irão determinar, no futu-
renciados dos professores de gradua- São estereótipos, sem dúvida, e ro, a prosperidade ou a ruína de quem
ção. Espera-se, portanto, que os alunos muitas vezes caricatos. Mas guardam idealizamos ser como prof issionais.
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK/ACERVO PESSOAL

tenham mais respeito e admiração por


professores que usem blazers. O mes-
mo se aplica às professoras que devem João Oliveira é Doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de
Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em
usar blazers ou tailleurs. Crise: Perceba Quando os Problemas Começam. Tenha as Soluções!; Jogos para Gestão
De maneira diferente, a sociedade de Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional; Mente Humana: Entenda
possui uma visão preconcebida de ou- Melhor a Psicologia da Vida; e Saiba Quem Está à sua Frente – Análise Comportamental
pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).
tros tipos de autoridades do saber. Es-

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ENSAIO PSICANALÍTICO

O SER
NA FALTA
Tudo o que acontece no momento
da entrada da criança no mundo da
linguagem tem significado e traz
consequências para o futuro,
quando ela se tornar adulta
Por Adriano Perez Climaco de Freitas
123RF E SHUTTERSTOCK

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Adriano Perez Climaco de Freitas é graduado em Psicologia, atua como
psicanalista e supervisor clínico em consultório particular, coordenou diversos
cursos de Psicanálise. O último foi no segundo semestre de 2016, “In[ter]
venções Psicanalíticas em Cena Freud e o Amor”, e atualmente coordena
o “Curso Livre de Psicanálise: Psicose Teoria e Clínica – de Freud a Lacan”.
Contato: adrianoperezpsi@gmail.com

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ENSAIO PSICANALÍTICO

Q
uando se fala do mo-
mento do parto de
uma criança, de modo
geral, a imagem que
nos vem à mente é a de
um bebê envolto
na placenta sendo retirado do útero de
sua progenitora que, em prantos, en-
contra-se de pernas e braços abertos.
Na sequência dessa cena – que tanto
assistimos em filmes e propagandas
de televisão – costumamos pensar
em uma pessoa que segura o recém-
-nascido, ato que pode ser considera-
do como um primeiro acolhimento.
Em seguida, visualizamos o rebento
sendo levado ao colo da mãe, que re-
cebe seu filho – agora do lado de fora, GII
GI 9GI GhG\G
GGI
GÔ9IH‚ :-Ô
no mundo externo – com um sorriso os cuidados iniciais, característicos da espécie humana
cansado, aliviado e, sobretudo, feliz.
A criança é limpa e conduzida para o Quando o genitor, com seu rebento
berçário, onde ficará protegida. Trata-
-se dos cuidados iniciais, característi- no colo, cria uma hipótese sobre o choro:
cos da espécie humana. “já está querendo a mãe?”, novamente esse
Tal sequência de ações provo-
ca ref lexões a respeito do quão des- ser está sendo falado pelo outro. Isso tem
protegido é o filhote humano, cuja uma função psíquica, afinal o bebê
ainda não se deu conta de que nasceu
chegada no mundo depende desse pela função materna. Importante ad-
“adulto” que o acolhe. Esses primei- vertir que, ao falarmos dessa função,
ros cuidados são repletos de nomea- não nos referimos necessariamente à
ções que vão sendo dadas, relativas a mãe – no jogo entre a criança e seus
um ser que é falado pelo outro. Nas pais, o casal circula entre os papéis,
visitas ao bebê, por exemplo, surgem logo, a função materna é por vezes
as frases típicas: “Olha o nariz dele! desempenhada pelo pai. Quando
ŒProdução do sujeito Œ Parece com o do pai”. Mesmo antes o genitor, com seu rebento no colo,
Segundo os preceitos da Psicanálise, com do nascimento, esse ser já é falado cria uma hipótese sobre o choro: “já
o ser humano ocorre da seguinte forma: a pelo outro, em situações como no di- está querendo a mãe?”, novamente
entrada na linguagem surge o sujeito. Uma
álogo entre um casal que, em estado esse ser está sendo falado pelo outro.
maneira possível de se abordar esse acon-
tecimento é a partir da angústia. Dito de de paixão, sonha com a criança tão Isso tem uma função psíquica, afinal
outro modo, é preciso se sujeitar para se esperada – “nosso filho será lindo o bebê ainda não se deu conta de que
fazer o sujeito, algo que nos habita, é como como você”, declara o namorado – ou nasceu, não tem dimensão da sua
se ganhássemos um “presente de grego”. quando, durante a gravidez, o futuro existência e, assim, não se reconhece,
Nosso “cavalo de Troia”, a angústia não é
pai leva a mão à barriga da gestante, ao mesmo tempo que não reconhece
sem função. Ela se apresenta e nesse mo-
mento se haver com a mesma é fundamen- declarando: “Vai jogar bola comigo”. o outro. No momento em que algo se
tal. É preciso recorrer às nossas ferramentas Tal cuidado em relação ao recém- inscreve – e, por estarmos em uma
psíquicas, afinal não existe uma saída uni- -nascido, assim como essa nomeação operação subjetiva, essa inscrição
forme quando se trata de uma questão que por parte das pessoas que o cercam, não é localizável –, a criança entra
diz da condição humana.
é o que na Psicanálise se entende na linguagem, o que traz uma marca,

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No momento em que algo se inscreve, outro, enquanto este último seria o
ser que reconhece o outro, ou seja,
a criança entra na linguagem, o que traz uma a criança que se dá conta de uma se-
marca, percebendo a presença desse outro. gunda pessoa. Essa complexa opera-
ção é efeito da relação entre presen-
Com tal inserção nasce o ser falante, não com ça e ausência: se a criança sabe da
palavras, mas a partir do reconhecimento de si presença da mãe – enquanto função
materna –, ela também sabe da au-
simultâneo ao de outra pessoa sência e opera nesses dois polos. Se
no ato do nascimento se apresenta
percebendo a presença desse outro. preendido pelo rompimento da bolsa, o ser desprovido de qualquer noção
Com tal inserção nasce o ser falante, vai imediatamente para o hospital. O de si e do outro, é na entrada dessa
não com palavras, mas a partir do re- parto acontece e a criança nasce sau- operação que a criança identifica o
conhecimento de si simultâneo ao de dável, mas a mãe não resiste e falece. outro, que agora deixa de ser uma ex-
outra pessoa. Com isso, esse ser pas- Na cena seguinte, é dado o salto da tensão de si. A partir de então, está
sa a demandar, o que acontece, por passagem até o ser falante, quando dada a separação: é outra voz que lhe
exemplo, quando o bebê olha para o filhote de Marlin, Nemo, ansioso fala, outro corpo que se apresenta, ou
a avó e, depois, direciona seu olhar pelo primeiro dia de aula, euforica- seja, o outro ganha uma dimensão
para um copo d’água. mente evoca o pai, tagarelando: “Está própria. Nessa dupla operação entre
A transição do bebê em gestação, na hora da escola! Está na hora da es- alienação e separação, a interdição
passando pelo seu nascimento, até cola! Acorda! Acorda! Vem, primeiro acontece. Essa interdição, enquanto
um ser falante (aquele que reconhe- dia de aula!”. lei, é o que se entende por função pa-
ce e demanda do outro) – transição Esse momento em que o filhote terna, que, tal qual a anterior, não é
esta tão complexa e, de certo modo, solicita a atenção do pai ilustra bem necessariamente executada pelo pai.
mítica na psique humana –, pode ser a demanda – neste caso, um pedido.
pensada por meio de diversas leituras Aqui, cabe mediar essa passagem do Referência
teóricas. Aqui, a ideia é abordar esse
tema tão profundo de modo ilus-
trativo. No filme Procurando Nemo,
ser de necessidade para o ser falan-
te. Podemos considerar o primeiro
como aquele que é nomeado pelo
T endo a criança como referência,
a tão complexa entrada na lin-
guagem é pensada. Mas será mesmo
vemos essa passagem bastante frag-
mentada em seu início. Os pais con-
versam distraidamente sobre o nome
que darão aos seus filhos, enquanto
as ovas se encontram confortáveis
em um habitat de corais. De repen-
te, são surpreendidos por um tuba-
rão; desesperados, tentam se abrigar.
Passada a confusão, Marlin, o futuro
pai, ainda tonto, sai procurando em
seu entorno pela esposa. Quando en-
tra no coral, encontra uma única ova
e imediatamente a segura com suas
barbatanas, oferecendo proteção ao
filhote – um recém-nascido desam-
parado que está prestes a chegar à
vida. Em um golpe trágico, para de-
IMAGENS: SHUTTERSTOCK E 123RF

sespero de Marlin, sua companheira


não está mais ali. Na vida real, é pos-
sível conceber essa situação apresen-
tada pelo desenho animado como ÈI G
Gh€
GI IGƒ€HÔ

\‚  G9
algo parecido com um casal que, sur- cuja chegada ao mundo depende de um adulto que o acolha

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ENSAIO PSICANALÍTICO

PARA SABER MAIS terno, não sem antes nos advertir


da importância de diferenciá-la de
HANS OCUPA LUGAR NOS outros afetos: “terror”, “angústia”
ANAIS DA PSICANÁLISE e “medo” são empregados erronea-
mente como sinônimos, mas podem
R egistrado no texto Análise de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos (1909),
o caso de Herbert Graf ficou conhecido na literatura psicanalítica como
“pequeno Hans”. Cheio de particularidades – como o fato de o paciente ser uma
se diferenciar de modo claro na sua
relação com o perigo. “Angústia”
criança e de Freud atuar como supervisor, e não analista –, esse caso ocupa um designa um estado como de expec-
lugar importante nos anais da Psicanálise. Apaixonado pela área, o pai de Hans, ao tativa do perigo e preparação para
observar o comportamento do filho, principalmente em relação à sexualidade e à ele, ainda que seja desconhecido;
preocupação com o corpo, passou a escrever a Freud. Hans, após ver um banho da “medo” requer um determinado
irmã mais nova – cujo nascimento teve grande impacto sobre ele –, teve um sonho objeto, ante ao qual nos amedron-
de angústia, e a fobia se anunciou. Seu pai transmitia a Freud os diálogos que tinham, tamos; mas “terror” se denomina o
o que permitiu que o psicanalista orientasse o tratamento. estado em que ficamos ao correr um
perigo sem estarmos para ele prepa-
rados, enfatiza o fator da surpresa
que se trata de um processo fácil e do sujeito. Aqui, faz-se referência à (Freud, 1920, p. 169).
dócil? Qual sentimento deve ser es- experiência de separação da mãe en- Seguindo nessa cadência, é in-
colhido para caracterizar esse mo- frentada pela criança. Em seu texto, teressante falar brevemente sobre o
mento de reconhecimento do outro, Além do Princípio do Prazer (1920), medo e o terror antes de retornar-
que marca a dualidade entre presen- Freud aborda a angústia da criança mos à angústia. Quando Freud cita
ça e ausência? Com o tato que lhe era diante da ausência desse outro ma- um objeto ligado ao medo, pode-se
peculiar, Sigmund Freud optou por
falar, entre outros, da angústia. Tal-
vez essa escolha tenha sido motivada Se no ato do nascimento se apresenta o ser
pelo fato de que a angústia não se desprovido de qualquer noção de si e do outro, é
limita apenas a um sentimento nega-
tivo que se tem de evitar a qualquer na entrada dessa operação que a criança identifica
custo, tentativa que está fadada ao o outro, que agora deixa de ser uma extensão
fracasso, já que é impossível passar
pela vida sem essa experiência. Nesse de si. A partir de então está dada a separação
sentido, uma passagem interessante
no filme referido é quando Marlin
comenta com sua amiga Dory:
Marlin – Eu prometi que nun-
ca deixaria nada acontecer com ele
[Nemo].
Dory – Que coisa engraçada de
se prometer.
Marlin – O quê?
Dory – Bem, se você nunca dei-
xar que nada aconteça com ele, nada
jamais acontecerá para ele. Mesmo antes de
nascer, o bebê
Em um primeiro momento, a já é falado pelo
fala de Dory pode parecer ingênua. outro, em situações
No entanto, trata-se de uma respos- como no diálogo
ta rica que pode surpreender, caso entre um casal
se tenha em mente o que se disse que, em estado
de paixão, sonha
a respeito da angústia. Essa é tam- com a criança tão
bém um motor que faz girar o ser aguardada
de necessidade para a constituição

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entender que este é localizável; ge-
ralmente, as crianças falam sobre
seus medos – por exemplo, quando
não querem ir a um determinado
cômodo da casa, alegando medo de
escuro – e, via de regra, evitam a si-
tuação. Eleger um objeto e fugir do
contato com ele pode ser caracterís-
tico de um caso de fobia (interes-
sante lembrar do pequeno Hans, um
menino que, por ter fobia de cavalos,
passou a não querer sair à rua). Em
Procurando Nemo, há uma cena que
demonstra o medo e sua relação com
o objeto e a situação: quando Nemo,
após ser capturado, está vivendo no
aquário, ele é convocado para um
plano de fuga, cabendo a ele colocar Quando Freud cita um objeto ligado ao medo, pode-se entender que este é localizável, pois, geralmente, as
uma pedra na engrenagem do filtro crianças falam sobre seus receios e evitam a situação
que faz a limpeza do local.
Já o terror vivido por Nemo fica a pelos demais companheiros sobre fícil verbalizá-la, mas a experiência
cargo da sobrinha do dentista que o antigos residentes do aquário que da angústia é inegavelmente viven-
pescou. Nessa complicada situação, tiveram o mesmo destino, não re- ciada. Freud (1926, p. 72) é preciso:
o jovem peixe-palhaço será dado a sistiram à menina e morreram. Um “A angústia é, em primeiro lugar,
ela como presente, mas é advertido porta-retratos com a foto de uma algo que se sente”.
criança que segura um peixe dentro
de um saco com água decora a sala Experiência inicial
Em Além do
Princípio do Prazer,
do dentista. A imagem revela uma
criança ameaçadora que, sem pudor,
agarra o animal como se fosse uma
U ma questão que se coloca dian-
te de um sentimento que esca-
pa às palavras é: quando se teve a
Freud aborda a coisa – eis o terror de Nemo, que primeira experiência angustiante?
por vezes fica paralisado, olhando Pode-se dizer que a angústia se faz
angústia diante estaticamente para a foto no lado ex- presente na passagem do ser de ne-
da ausência desse terno do vidro. É como se o peque- cessidade para o ser falante. Nesse
no Hans fosse levado aos cavalos: o instante em que a criança é acolhida
outro materno, contato inesperado que ilustra o que e cuidada pelo adulto, ela se encon-
não sem antes Freud quer dizer quando se refere a tra em desamparo. Este último, por
correr perigo sem estar preparado sua vez, é angustiante, logo, o que
nos advertir da para ele. se vê é a angústia pela separação da
importância de Esses dois sentimentos – o medo mãe. Retomando o pequeno Hans,
e o terror – em relação a situações e Freud (1909, p. 144) comenta uma
diferenciá-la de objetos localizáveis significam que fala do paciente em relação a esse
outros afetos: a criança já tem dimensão de si, do
outro e, portanto, pode nomear seus
tema: “Quando eu dormia, pensei
que você foi embora e que não tenho
“terror”, “angústia” anseios. Contudo, a angústia é sem mais mamãe para fazer carinho”.
e “medo” são objeto, o que leva Freud a ressaltar Um sonho de angústia, portanto.
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

o desconhecido ao se referir a esse Quais possibilidades se apre-


empregados sentimento, como pontua a passa- sentam diante desse quadro? Pode-
gem citada. A angústia é sentida no -se dizer que se faz necessário criar
erroneamente corpo – em geral, levamos as mãos uma borda a esse estado sem forma.
como sinônimos ao tórax quando falamos dela. É di- Freud (1920, p. 171) descreve uma

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ENSAIO PSICANALÍTICO

ausência materna, vivendo um mo-


mento de desamparo.
“Ele tinha um carretel de madei-
ra, em que estava enrolado um cor-
dão. Nunca lhe ocorria, por exem-
plo, puxá-lo atrás de si pelo chão,
brincar de carro com ele; em vez dis-
so, com habilidade lançava o carre-
tel, seguro pelo cordão, para dentro
A angústia é sem
objeto, o que leva
do berço, através de seu cortinado,
Freud a ressaltar o de modo que ele desaparecia, nisso
desconhecido ao falando o significativo “o---o---o-
se referir a esse --o”, e depois o puxava novamente
sentimento; para ele, para fora do berço, saudando o apa-
a angústia é sentida
no corpo
recimento dele com um alegre “da”
[“está aqui”]. Então era essa a brin-
cadeira completa, desaparecimen-
to e reaparição, de que geralmente
passagem muito ilustrativa: “Foi que se revelasse para mim o signifi- via-se apenas o primeiro ato, que
mais que uma observação ligeira, cado daquela ação misteriosa e sem- era repetido incansavelmente como
pois durante algumas semanas esti- pre repetida”. O que dá para acom- um jogo em si, embora sem dúvida
ve com a criança e os seus pais sob o panhar nesse relato é a brincadeira o prazer maior estivesse no segundo
mesmo teto, e levou certo tempo até de uma criança que dá contorno à ato” (Freud, 1920, p. 173).
Nessa brincadeira, o objeto mãe
é substituído pelo objeto fala, que,
“Angústia” designa um estado de por sua vez, é substituído pelo obje-
expectativa do perigo, ainda que seja to carretel. Sobre esse enredo, Freud
(1920, p. 173) pondera: “Talvez se
desconhecido; “medo” requer um determinado responda que a ausência tinha de ser
objeto, ante ao qual nos amedrontamos; mas encarnada, como precondição para
o agradável reaparecimento, que se-
“terror” é o estado em que ficamos ao correr ria o verdadeiro propósito do jogo”.
um perigo sem estarmos para ele preparados Em síntese, o que se coloca é que é
possível extrair prazer de sentimen-
tos desagradáveis.
PARA SABER MAIS
Mãe ausente
A EXPERIÊNCIA DO NASCIMENTO
É ANGUSTIANTE E m Procurando Nemo, enquanto
mãe biológica, a mãe do peque-
no peixe-palhaço é ausente em esta-
N o livro Inibição, Sintoma e Angústia, de Sigmund Freud (1926, p. 70-71),
o psicanalista considera que “a primeira experiência angustiante, ao menos
para os seres humanos, é o nascimento, e ele significa objetivamente a
do bruto, mas sobreviver foi possível
– a função materna se fez. Seguindo
separação da mãe (...)”. Segundo o autor, essa situação pode ser comparada pelo viés da criança, a angústia da
“a uma castração da mãe (segundo a equação criança = pênis)”. Tal passagem ausência não se dá na morte da mãe
contribui para a discussão a respeito do reconhecimento do outro e do momento no momento do parto, pois a crian-
em que se entende a ausência. Nesse sentido, a castração diz de uma falta – a ça não tem ainda a dimensão desse
equação ausência materna = falta para a criança (que, por ser castrada, não outro. A angústia se encontra na
completa essa mãe). Freud, nessa obra, aborda, ainda, a formação do sintoma concepção “o outro não é extensão
e o define da seguinte maneira: “Um indício e um substituto de uma satisfação de mim”, portanto “me falta”. Dito
pulsional não consolidada; um resultado do processo de recalcamento”. de outro modo, a ausência materna
é sentida enquanto função, ou seja,

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Eleger um objeto
e fugir do contato
com ele pode
ser característico
de um caso
clássico de fobia
(interessante
lembrar do
pequeno Hans, um
menino estudado
por Sigmund Freud
que, por ter
fobia de cavalos,
Em tese, a sensação de aparecimento e desaparecimento, que ocorre em determinado momento, é
passou a não vivenciada, e a criança tem a experiência de sair de cena

querer sair à rua)


do “Acho---o---o---o---o”. Em tese, ra cena em que o peixinho aparece
a sensação de aparecimento e desa- falando com o pai. Ainda assim, e
há um lugar psíquico para isso. A fal- parecimento é vivenciada; a criança até mesmo com todo o mistério que
ta desse outro aponta para a falta de tem agora a experiência de sair de essa passagem deixa em suspenso,
si. É comum, por exemplo, as crian- cena, o que é observado por Freud considere-se: é no momento da pri-
ças brincarem de esconde-esconde, no vaivém que o menino executa re- meira fala do filho no filme, em seu
e podemos pensar também em um petidamente. pedido para ir à escola, que Marlin
bebê que gargalha quando alguém “Num dia em que sua mãe es- de forma significativa o interpela:
cobre e descobre seu rosto, dizen- tivera ausente por várias horas, foi Marlin – E qual palavra combina
recebida, ao voltar, com a saudação: com “oceano”?
‘Bebi o---o---o---o!’, que primeira- Nemo – Não é seguro.
mente foi incompreensível. Logo se Em termos metafóricos, o ocea-
revelou, porém, que durante o longo no nos mostra a imensidão da vida.
período em que ficou só ele encon- Afirmar que “o oceano não é segu-
trara um modo de fazer desaparecer ro” é ter a ponta do pé na angústia
a si próprio. Havia descoberto sua – a relação simbiótica se foi, e agora
imagem no espelho que vinha quase eu não sou mais um ser de necessi-
até o chão e se acocorado, de manei- dade, um objeto falado pelo outro,
ra que a imagem foi embora” (Freud, mas sim um ser de linguagem. Com
ŒPsicanálise em filme Œ 1920, p. 172). essa perspectiva sobre o filme, a his-
O filme Procurando Nemo, uma produção A angústia se apresenta. No tória de Nemo ilustra lindamente
de 2003, é um ótimo material para analisar
filme citado, existe a lacuna entre essa passagem que, em essência, diz
a mãe ausente. Conta a história de Nemo,
um jovem peixe-palhaço, que é levado
o nascimento de Nemo e a primei- da condição humana.
de sua casa, na Grande Barreira de Corais,
IMAGENS: 123RF E SHUTTERSTOCK

para Sydney, na Austrália. Em sua jornada REFERÊNCIAS


para resgatar o filho, seu pai superprotetor,
FREUD, S. Análise de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos (1909). Rio de Janeiro: Imago, 2006.
Marlin, encontra companhia na esquecida
. Além do Princípio do Prazer (1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
peixinha Dory e traz diálogos ricos de in-
terpretação psicanalítica. . Inibição, Sintoma e Angústia (1926). São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
Procurando Nemo, dir. Andrew Stanton e Lee Unkrich, 2003.

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divã literário por Carlos São Paulo

EGO feito de alvenaria


HISTÓRIAS INFANTIS PODEM NOS LEVAR A CAMINHOS DE
REFLEXÃO E SEREM ÚTEIS PARA EXPLICAR O DESENVOLVIMENTO
DA PERSONALIDADE DE UM HOMEM OU O DA PRÓPRIA
HUMANIDADE, TAL COMO NO CONTO DOS TRÊS PORQUINHOS

E
ssa história foi resgatada na Ao chegarmos ao mundo, abrimos Um outro modo de olhar para es-
Inglaterra pelo folclorista Jose- os olhos e os espectadores percebem sas imagens é observarmos a humani-
ph Jacobs, no século XIX, que que há uma consciência. O desenvolvi- dade em seu percurso evolutivo. No
o transformou em literatura mento desse bebê segue junto à constru- princípio, sem os recursos que hoje
infantil. Os personagens do conto são ção de um Eu, que é uma estrutura para a ciência nos trouxe, a natureza, ou
os três porquinhos – Cícero, Heitor e organizar os conteúdos do que tomamos o lobo, em nossa analogia, era uma
0RÉTICOnEUMLOBOlXADONAIDEIADE consciência. Esse eu é a nossa persona- ameaça constante que deixava nossas
devorá-los. Começa quando os três por- lidade, que se fortalece quando conse- vidas efêmeras.
quinhos decidem sair da casa da mãe gue exercitar-se no embate da vida. A Um ego construído como uma casa
e foi cada um construir a sua própria estrutura, como uma ponte entre o que de madeira, unida por pregos que vão
casa. Cícero constrói uma casa de pa- foi esquecido e a realidade externa que aos poucos sofrendo a corrosão pela
lha e barro; Heitor faz a dele com ma- nos convida a interagir, nos faz construir oxidação em pontos fundamentais para
DEIRAEPREGOSENQUANTO0RÉTICOEDIlCA UMA IDEIA DE NØS MESMOS DElNIDA POR a sua sustentação, torna-se vulnerável
com cimento e tijolos. No dia em que uma imagem que se entrelaça com es- ao sopro do lobo, que, com um pouco
o lobo aparece, com um sopro desmo- ses conteúdos jogados na escuridão do mais de insistência e esforço, faz tudo
rona a casa de Cícero, que foge para INCONSCIENTEEQUEDElNIMOSCOMOEGO desmoronar. Suas partes agora não ofe-
abrigar-se com o irmão Prático. Com A construção do ego pode ser frá- recem mais coerência ao que é senti-
um esforço maior, o lobo também des- gil como uma casa de palha e barro. É do como realidade, enquanto as fadas
trói a casa de Heitor, que vai abrigar- fácil derrubá-la com o sopro do lobo, adormecidas acordam embriagadas
-se com os irmãos. No entanto, o lobo OU COM OS CONmITOS DA VIDA  E REDUZI- e descontentes. Elas são ainda vistas
tenta derrubar a casa de Prático e não -la a seus fragmentos de palha e barro, como lobos que atrapalham a vida de
consegue. Resolve então descer pela gerando assim a perda de sua unidade si próprio e dos demais. Surge então o
chaminé, mas esta estava acesa. Dessa funcional para, em lugar de um eu, fa- quadro neurótico.
forma, o lobo é assado, e os porquinhos zer surgir um feixe de “eus”. Nessa con- Essas imagens nos fazem pensar
se alimentam dele. dição, os lobos, que são apenas fadas no estágio da humanidade em que esta
Imaginar essa história como metá- adormecidas, se põem a assombrá-los oferecia alguma resistência à natureza,
IMAGENS: 123RF/ SHUTTERSTOCK/ DIVULGAÇÃO E ARQUIVO PESSOAL

fora nos permite explorá-la em várias constantemente. Surge então a loucura. MASNÎOOSUlCIENTEPARACONTROLÉ LA!
direções, como fazemos com os nossos ciência do século XVII já havia popu-
sonhos, até que possamos nos dar conta larizado os sabonetes, que passaram a
de algo importante para esclarecer nos- ter baixo custo, e, no século XIX, Louis
sos comportamentos e atitudes. Essa é UM CONTO DE FADAS Pasteur provava que existia uma rela-
- A HISTÓRIA DOS TRÊS
uma das histórias que nunca acontece- ção entre higiene corporal e saúde.
PORQUINHOS
ram, mas revelam uma verdade maior, Autor: Joseph Jacobs Chegam os tijolos, e a casa de al-
contida na engrenagem dessas imagens Editora: Zahar venaria tem seus blocos unidos por
que expressam a nossa natureza. Ano de edição: 2010 um bom cimento que a faz resistir aos

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A CONSTRUÇÃO DO
EGO PODE SER FRÁGIL
COMO UMA CASA DE
PALHA E BARRO. É
FÁCIL DERRUBÁ-LA
COM O SOPRO DO
LOBO, OU COM OS
CONFLITOS DA VIDA,
FAZENDO SURGIR
UM FEIXE DE “EUS”

nossos sonhos, mesmo os utópicos.


Não mais desprezamos do eu as partes
que, perante a sociedade ou a família,
não venham a ser desejáveis. Sentimos
o cimento que nos une e somos agora
“indivíduo”.
O desenvolvimento desse ego de-
pende de que a condução com que os
CONmITOS PRODUZIDOS NA VIDA  ENTRE
o que se quer e o que está, seja bem-
-feita. É, portanto, a infância o grande
momento de se aproveitarem as po-
tencialidades da natureza de um ser
e oportunizá-las por meio da nossa
responsabilidade de adulto. Para isso,
precisamos estimular o crescimento de
nossas crianças com uma reforma pro-
funda nos métodos pedagógicos atuais,
cuja evolução é ainda incipiente.
A humanidade, por sua vez, experi-
MENTA VIVER COM UM AVAN¥O CIENTÓlCO
que pretende dominar o lobo e alimen-
tar-se dele. É o mundo que precisa do
homem não só com a vida longa, mas
também um ego feito de alvenaria. Um
sopros do lobo. O ego, agora fortaleci- rem parte da vida e deixarem o mundo ego capaz de criar uma imagem apro-
do, mantém-se numa boa relação com mais encantado e sem lobos. Esse lobo, priada do amor, em que o tempo nada
a natureza que lhe deu origem. É um como a unilateralidade, a literalidade e vale e o eu seja capaz de enfrentar tran-
verdadeiro ato de religare, que vem do a garantia de segurança, não mais nos quilo a tristeza do inverno, sem o medo
LATIMETEMOSIGNIlCADODERELIGA¥ÎO assombra. Em vez disso, vivenciamos de que, depois dele, não venha a alegria
Refere-se a uma nova ligação entre o a sabedoria e nos alimentamos dos da primavera.
homem e a totalidade do seu ser, ou
à ideia de Deus. Os esforços do lobo
não mais abalam esse ego, ou a casa se Carlos São Paulo é médico e psicoterapeuta junguiano.
mantém em sua unidade funcional. As É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia.
carlos@ijba.com.br / www.ijba.com.br
fadas adormecidas acordam para faze-

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cinema Por Dr. Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

O dinamismo
do luto
/%-/#)/.!.4%&),-%SETE MINUTOS
DEPOIS DA MEIA-NOITE -%2'5,(!
./$/,/2/3/42!"!,(/$!
#/.6)6º.#)!$%5-!#2)!.—!&2%.4%
±$/%.—!4%2-).!,$%35!-§%

F
ilme dirigido por Juan Antonio Bayona (O Impossí-
vel/2012) e roteiro escrito por Patrick Ness baseado em
seu livro homônimo, aborda o luto e fala sobre o tema de
maneira bastante singular, tocando a emoção naquilo que
ELATEMDEMAISREGRESSIVA AlNALTODOENLUTAMENTOJOGAOSUJEITO
em conteúdos infantis, o coloca frente ao desamparo mais funda-
MENTAL/lLMEJOGAMUITOBEMCOMISSOQUANDOESCOLHECOLOCAR
em modo animação para representar os medos do protagonista.
$A OBRA FREUDIANA UM DOS TEXTOS MAIS IMPORTANTES Ï JUSTA-
mente o que traz o título Luto e Melancolia (1915), em que Freud
lança conceitos bastante caros a toda sua teoria, talvez mesmo
por fazer ver que o trabalho do luto é presente desde as mais
tenras experiências. Para entender isso é preciso ampliar o en-
tendimento sobre o luto para além da compreensão da perda de
pessoas por falecimento. O sentimento de desapego que a tarefa
reivindica é um dos mais custosos para o dinamismo psíquico,
um dos que mais põem em xeque toda sua economia (no sentido
FREUDIANO JOGODEVETORES % AOMESMOTEMPO DECERTAMANEIRA
ATAREFAQUEFUNDAOSUJEITOEOMANTÏMVIVONODESEJO

%0)$%-)!
(OJEMUITOSPESQUISADORESETEØRICOSVÐMFALANDODEUMAATUA-
lidade em que poderíamos ver a depressão (melancolia) como uma
epidemia, entre a discussão em relação ao lobby das indústrias far-
macêuticas criando demanda e o vazio de uma suposta “moderni-
dade líquida” ou do excesso, que facilitaria o vazio que descamba
no adoecimento, podemos supor que o luto está presente como a
grande questão da atualidade. Não sabemos se fomos perdendo a
capacidade de lidar com essa exaustiva tarefa ou se acumulamos
HOJE COM TANTO DESAMPARO QUE IMPLODIMOS NOSSA CAPACIDADE DE
elaborar seus conteúdos. Fato é que algo em torno desse desalento
contemporâneo é atravessado por esse tema. Podemos então pen-

www
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ww
w.portal
t lcienciae
i i vida.com
id om.b br
br
sar em que perda foi essa que de tão fun-
DAMENTALJOGOUOHUMANOEMUMABIS-
mo afetivo destituído de uma verdadeira
compreensão e com isso a capacidade
de encontrar novas saídas. O que fazer
quando o chamado da estrutura social
sublinha o acumular e pouco ensina so-
bre o perder?
Freud expõe o tema do artigo em
JANEIRO DE   MAS CONFORME NOTA DO
editor, no texto, ele o publicará em 1915.
3EUSESTUDOSSOBREOTEMAAPONTAMPARA
os primeiros postulados do complexo
de Édipo em rascunho enviado a Fliess
em 1897 e ligam os conteúdos a ques-
TÜESPROVENIENTESDAFASEORAL3EGUNDO
ainda o editor, dois conceitos foram fun-
damentais a Freud para elaboração de
seus estudos sobre luto e melancolia; são Conor é um garoto de 13 anos de idade, com muitos problemas na vida, mas o maior deles será viver a
eles o de narcisismo e de ideal de ego expectativa do luto ao sofrer vendo a mãe enfrentar o câncer em fase terminal
(diferenciar de ego ideal). A partir des-
ses apontamentos olharemos para esse que sofra disciplinadamente e comedi-
.!$)3#533§/
CURIOSOlLMEQUEESCOLHENÎOABORDARO DAMENTEJAMAISSERÉUMASOLU¥ÎOPOSSÓ-
luto de maneira sentimental, mas indo 3/"2%/6!:)/ VEL E#ONOR DIANTEDESUAAVØ3IGOUR-
fundo em seus conteúdos mais obscuros $%5-!350/34! ney Weaver), deixará isso bastante em
e de ataque, o que Freud destacou em EVIDÐNCIA%MSUASNEGOCIA¥ÜESDESEN-
seu texto citado.
h-/$%2.)$!$% volve a fantasia de que irá precisar de
Os sentimentos de revolta e raiva ,°15)$!v /,54/ SEU -ONSTRO ,IAM .ELSON  PARA QUE
fazem parte de uma das fases de ela- %34£02%3%.4%#/-/ entre em contato com seus antagôni-
boração esperadas no luto, como des- cos sentimentos que reagem diante da
CREVEAAUTORAEPESQUISADORA%LISABETH !'2!.$%15%34§/ dura experiência. Algo escapa, como
+UBLER 2OSSNEGA¥ÎO RAIVA BARGANHA  $!!45!,)$!$% um monstro. O que escapa é inimigo
depressão e aceitação). Freud fala des- OU PROTETOR %SSA Ï A PERGUNTA QUE SE
SA AGRESSIVIDADE VOLTADA PARA O OBJETO morte de sua mãe (Felicity Jones), única nutre no divã do analista.
perdido tendo como possibilidades a lGURA DE SUSTENTA¥ÎO AFETIVA QUE TEM h6OCÐSCREEMEMMENTIRASCONFORTÉ-
IDENTIlCA¥ÎOEINTROJE¥ÎODELEEPOSTE- em sua vida. veis, embora saibam a verdade doloro-
rior ataque a si mesmo. Os sentimentos 4EMOS COMO UMA CERTA TENDÐN- SAv  DIZ O -ONSTRO A #ONOR ! HISTØRIA
de culpa e autorrecriminação podem cia social manter a exigência quanto à vai então acompanhar nosso pequeno
decorrer de tal manobra. Não é inco- dissimulação de certos impulsos vistos protagonista em seu enfrentamento de
mum vermos em pessoas enlutadas como agressivos, e sabemos que ao fa- tão difíceis verdades, não por serem inu-
uma certa tendência ao irascível, uma zer isso paga-se algum tipo de tributo sitadas ou tão estranhas, mas exatamen-
diminuição da capacidade de se vin- dentro dos vetores de negociação, a te por remeterem a sentimentos usuais,
cular com alguma alegria aos eventos ENERGIA NÎO SERÉ JAMAIS IMPEDIDA PELO mas que são quase sempre barrados
ATUAIS 5M AUTOR QUE DISCORRE MUITO “verniz” social, ela impulsiona em bus- como inconscientes, e que colocados
belamente sobre essas características é ca de alguma saída. Pedir a quem sofre na situação que vive tornam-se os mais
IMAGENS: DIVULGAÇÃO E SHUTTERSTOCK

J. D. Nasio em seu livro A Dor de Amar.


.OlLMETODAESSADINÊMICASERÉMUI-
Eduardo J. S. Honorato é psicólogo e psicanalista, doutor em Saúde
to bem apresentada acompanhando o da Criança e da Mulher. Denise Deschamps é psicóloga e psicanalista.
MERGULHOQUE#ONOR,EWIS-AC$OU- Autores do livro  GG Gd 

ƒ : Participam de
gall) dará em seu estado de dor/raiva/ palestras, cursos e workshops em empresas e universidades sobre
este tema. Coordenam o site www.cinematerapia.psc.br
culpa ao acompanhar o adoecimento e

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que administramos ao longo de toda a
vida, em parte como aversivo, em par-
TE COMO UM DESEJO DE RETORNO A UM
tempo sem angústias, anterior a tudo,
ANTESDOCAOSDASPULSÜES/OBJETOOR-
ganizador das pulsões, por atrair para
SIEBALANCEAROCOMPLEXOJOGOPULSIO-
nal com seus vetores de amor e de des-
trutividade, mantém nossa economia
INTERNA EM FUNCIONAMENTO 3ABEMOS 
DESDE&REUD QUEMUITOSSÎOOSOBJETOS
que nos organizam, algumas vezes até
como uma representação de um ideal,
e, em assim sendo, a vida exige varia-
*G \
GG  9^IGI‚ :.GGG GG dos lutos em seu decorrer, uma dose
a compreensão de um luto que Conor já vivencia nessa relação e tanto de apego e desapego como os
movimentos que precisamos muscular-
OBSCUROS !PROXIMAM A VERIlCA¥ÎO DA esconde o caos que carrega dentro de mente empreender para dar os passos
ambivalência que constitui todo vínculo SI %MBORA AINDA DE ALGUMA MANEIRA no polo motor. As perdas não são de-
e do sentimento de cansaço e abandono ela tente comunicar seu desconforto, corrência apenas da morte física, al-
que acompanha o ser enlutado. SEJAPORCOMPORTAMENTOSERRÉTICOS SEJA gumas das mais cruéis, como a do par
por representações que escolherá – no amoroso, exigem um desprendimento
6°.#5,/-/24/ 6)6/ CASO DE #ONOR  SEUS DESENHOS GRITAM DOOBJETO EMBORAELEPERMANE¥AVIVO 
/ PAI 4OBBY +EBELL  Ï DISTANTE E sua angústia, mas não há ninguém que apenas não mais vinculado a quem vive
alheio, sem vínculo amoroso com o possa escutá-lo inteligentemente (como a perda, desequilibrando assim a frágil
lLHO 4ALVEZ ESSE PERSONAGEM POSSA recomendaria Winnicott). A dor expos- tendência a continuar como vetor amo-
servir para pensarmos em um luto que ta não chama o interlocutor. roso e pesando na ambivalência para as
#ONOR JÉ VIVENCIAVA  O DO AFASTAMENTO 6EMOS NO lLME O MUNDO INFANTIL  FOR¥AS DO ØDIO QUE PODERÎO ENCONTRAR
de seu pai que, tendo uma nova família, mas seria muito reducionista pensar uma agressão para o antes investido
não reservava mais nela um espaço afeti- que aquilo representa somente o es- OBJETO OU AINDA RETORNAR A SEU EGO 
VOPARASEUlLHO VÓNCULOMORTO VIVO! panto de uma criança perante a morte, ONDECOLOCARÉEMRISCOOPRØPRIOSUJEI-
solidão do menino é evidente, afora isso APERDADOOBJETOAMADO#OMOJÉDE- to em sua ira incompreendida.
sofre um pesado bullying pelos colegas monstrava Freud, somos todos infantis
de escola, todos os dias sendo persegui- diante de tão aterrador desamparo, !02)3)/.!-%.4/
do e agredido no caminho para sua casa. apesar de ele nos fundir e permane- Perder algo ou alguém é uma tarefa
! AVØ  UMA MULHER ENRIJECIDA PELA DOR cer de certa maneira como um estado que dispende muita energia, algumas
DEACOMPANHAROADOECIMENTODAlLHA  vezes empobrecendo completamente
ESTÉLONGEDADOCElGURAQUEACOLHERIAA ACAPACIDADEDOSUJEITODEREFAZERSEUS
dor e desamparo do neto. 6%-/3./&),-%/ laços com o mundo externo; quanto
!CRIAN¥A AOPERDERUMADASlGU- -5.$/).&!.4),  mais é desconhecido para ele o que
ras que sustentam seu mundo afetivo, de fato perdeu, mais se verá preso a
viverá o forte sentimento de um aban-
-!33%2)!-5)4/
UM REDEMOINHO APRISIONANTE 1UANDO
dono. Para ela há um intencional em 2%$5#)/.)34! alguém se vê diante de pessoas queri-
JULGAMENTO NESSA PARTIDA  ASSIM SEN- 0%.3!215%!15),/ das em estado terminal, essa confusão
tirá reagindo com raiva propriamente DE SENTIMENTOS MUITAS VEZES AmORA DE
dita ou ainda como um sentimento de
2%02%3%.4!3/-%.4% maneira confusa e culpada. A inevita-
perda total de autoestima, como se não /%30!.4/$%5-! BILIDADE DA PERDA ENQUANTO O OBJETO
valesse afetivamente para qualquer pes- #2)!.—!0%2!.4%! permanece ainda partindo a cada dia,
soa, destituída de importância, muitas lentamente, provoca um esgotamento
vezes provocando um distanciamento -/24% !0%2$!$/ das forças que unem à vida, e muitas
do mundo que a cerca, uma apatia que /"*%4/!-!$/ vezes um certo sentimento de querer

68 psiqu
ps
psique
iquee ciên
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lcienciiaevid
vid
ida com
ida.c om.br
br
encerrar surge alimentando ainda mais
o circuito confusional gerador de culpa.
O desapego é um sentir que mui-
tas correntes religiosas chamam para
REmEXÎO .ÎO Ï Ì TOA QUE FAZEM ISSO 
uma vez que entram sempre para ten-
tar minimizar o grande impacto da
consciência do desamparo que a ideia
DA MORTE NOS PROVOCA 3UPOSTAMENTE
somos a única espécie que teria consci-
ência de sua existência, talvez aí resida
OSEGREDODEDESEJARMOSTANTO/MEDO
que responde a essa questão nos cega
no sentido de entendermos que a vida
é uma sucessão de ganhos e de perdas,
QUEPARAAmEXIBILIDADEQUEAVIDAEXIGE .
GG  IG GIGP
I
IG ` GGG
precisamos aprender a deixar partir e GIGG
G
‚I
G
GG\


GGG G
ADESPRENDER SEDOQUEJÉNÎOVINCULA
5MASÏRIEDE46QUEVEMBATENDOFOR- à toa, trazem recados que precisam de
!02%.$%-/3
te nesse tema é Leftovers, que passeia ESCUTA E DESDOBRAMENTOS 5M SINTOMA
pelos contornos da questão de forma $%3$%-5)4/#%$/ assustador quer comunicar, quer tam-
despudorada e brinca com o delírio que 15%!!53º.#)! BÏM CURAR 0OR MAIS CONTRADITØRIO QUE
ela pode abrir. As religiões, via de regra, isso possa parecer, não são os sintomas
¡!-%!—!$/2! 
buscam seu sustento aí. O MAL QUE ASSOLA O SUJEITO  ISSO PORQUE
Aprendemos desde muito cedo que #/-%—!!,)./3 em parte eles são também uma tenta-
a ausência é ameaçadora, começa ali $)34!.#)!-%.4/3 TIVA DE CURA  E ESSE lLME Ï UMA VERDA-
nos distanciamentos maternos, mesmo deira aula sobre esse aspecto no qual a
quando saudavelmente representam
-!4%2./3  0SICANÉLISEORIENTATODASUATÏCNICA%LA
apenas faltas momentâneas. Demora- -%3-/15!.$/ começou ouvindo as “bocas de ouro”
-se toda uma infância para que se possa 3!5$!6%,-%.4% ,ACAN PARAENTENDERQUENOSSOSPIORES
prescindir da presença permanente de monstros internos são em parte nossos
quem nos fornece a primeira matriz do
2%02%3%.4!-!0%.!3 HERØISQUEBRAVAMENTEENFRENTAMAQUILO
amor (cuidado). Aprendemos na ado- -/-%.4ª.%!3&!,4!3 que nos submete. É preciso, sem dúvida
lescência que é preciso uma dose de alguma, muita coragem para olhar pela
raiva para afastar-se desse vínculo em raiva, revolta e tentativa de preservar o JANELA E BUSCAR CONVERSAR COM O ASSUS-
busca de alguma autonomia, é necessá- OBJETOhABANDONADORv TADOR -ONSTRO  UMA ÉRVORE QUE SE SOL-
rio certa tensão e um deslocamento da #ONCLUIREMOS COM O NOSSO PEQUE- TA DO SOLO E CAMINHA PARA FAZER #ONOR
GRATIlCA¥ÎO COISAQUEMAISUMAVEZSE no bravo menino que é preciso apren- COMPREENDER SEU PRØPRIO CONmITO -AS
organiza via a sexualidade, nessa fase DER A SOLTAR  A DESPRENDER SE DO OBJETO como assim, como desprender-se das
JÉEMSUAPLENITUDEDEBUSCAEDESLIZA- quando ele nos amarra ao núcleo do RAÓZES E CAMINHAR ¡ SØ ESCUTAR O FAR-
MENTOS %SSAS EXPERIÐNCIAS FUNDAM AS RESSENTIMENTO 1UE A VIDA PEDE PAS- falhar das folhas nas árvores, quando o
relações que atravessam todo e qual- sagem e requer uma boa dose de cora- vento passa, que se entenderá com faci-
QUERACONTECIMENTO SEJAELEDEORDEM gem de soltar-se para que a estagnação LIDADEQUEAVIDA DEUMJEITOOUOUTRO 
PESSOAL SEJADETODOUMGRUPOOUAIN- não alimente monstros em sentimentos remete sempre ao que se mexe, ao que se
da como um sentir coletivo. Podemos que estragam o belo que havia antes do INQUIETA AOmEXÓVEL AOQUECONTRIBUIEM
IMAGENS: DIVULGAÇÃO E SHUTTERSTOCK

ser a criança ressentida ou o adulto que lM /S MONSTROS INTERNOS NÎO NASCEM som para o belo caos que é a vida.
entende a perda como algo que poderá
IMPULSIONAR OS NOVOS VÓNCULOS %SSA Ï
AMENSAGEMQUEO-ONSTROTENTACOM -(  
G( G¢)  ((Gˆ:d=;<A:
TODAS AS SUAS FOR¥AS COMUNICAR A #O-  hÔd%G GG:"Èd!GG G9
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P9  /
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nor, que se encontra perdido em sua

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www.portalcienciaevida.com.br
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ida.com. br
br
PERlL Por Anderson Zenidarci

Frágil revolução GENIAL E POLÊMICO,


O BAILARINO VASLAV

da VIDA
NIJINSKY TRAZ EM
SUA BIOGRAFIA OS
INGREDIENTES PARA
COMPOR O PERFIL
Sua bela aparência DE UM PERSONAGEM
somada ao desempenho
excepcional na dança o INTERESSANTE
tornaram a sensação no
meio cultural e artístico E COMPLEXO

F
ILHO DE BAILARINOS POLONESES
que se apresentavam em tea-
TROS E CIRCOS  6ASLAV .IJINSKY
   ATUOU DESDE OS 
ANOS DAN¥ANDO NAS APRESENTA¥ÜES DE
SEUS PAIS )NICIOU NAS AULAS DA ESCO-
LA DE BALÏ DO 4EATRO )MPERIAL  EM 3ÎO
0ETERSBURGO NA2ÞSSIA CIDADEONDESUA
MÎESEMUDOUCOMOSlLHOSAPØSTEREM
SIDOS ABANDONADOS PELO PAI 6ASLAV TI-
NHAANOS-UITOAPLICADO SEDESTACAVA
PELA HABILIDADE E POSTURA / PRIMEIRO
PAPELDEDESTAQUEVEIOAOSANOS EM
Le Pavillon d’Armide. 3EU TALENTO FOI RE-
CONHECIDO 3UA BELA APARÐNCIA SOMADA
AO DESEMPENHO EXCEPCIONAL NA DAN¥A 
COMSALTOSEMQUEPARECIAPAIRARNOARE
GRANDEAPUROTÏCNICO OTORNARAMASEN-
SA¥ÎODOESPETÉCULOECOMENTÉRIOGERAL
NOMEIOCULTURALEARTÓSTICO
%M  FOI APRESENTADO AO EMPRE-
SÉRIO E DIRETOR DO "ALLETS 2USSES  3ERGEI
$IAGHILEV PORMEIODESEUENTÎONAMO-
RADO  O PRÓNCIPE 0AVEL ,VOV  $IAGHILEV
ERA CARISMÉTICO  CULTO E DE FORTE PERSO-
NALIDADE $IRIGIA COM MÎO DE FERRO A
COMPANHIA COM O OBJETIVO DE SACUDIR
O MARASMO QUE ACREDITAVA HAVER FEITO O
BALÏ ESTACIONAR NO TEMPO 1UERIA A EU-
LIBRARY OF CONGRESS/WIKIPEDIA

ROPEIZA¥ÎODADAN¥ARUSSAEACABOUPOR
REVOLUCIONARTOTALMENTEOBALÏ UTILIZAN-
DOOTALENTODECOREØGRAFOSINOVADORESE
DEESTRELASDEPRIMEIRAGRANDEZA COMOA
LEGENDÉRIA BAILARINA !NNA 0AVLOVA %SSE

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ENCONTRO DE DOIS TALENTOS INQUIETOS MU- / RELACIONAMENTO DELES  QUE HAVIA
DOUTOTALMENTEAVIDAPROlSSIONALEPES- SIDOMARCADOPELAPAIXÎO AGORAERADO-
SOALDEAMBOSETAMBÏMCOLABOROUCOM MINADOPELODESESPERO!SCOREOGRAlAS
ATÎODESEJADAINOVA¥ÎODADAN¥ACLÉSSICA ASSINADAS POR .IJINSKY REVOLUCIONARAM
3EUPRIMEIROPAPELDEDESTAQUE DE- AINDA MAIS A DAN¥A L’Après Midi d’un
POIS QUE CONHECEU $IAGHILEV E COME- Faune CAUSOU UM ESCÊNDALO SEM PRE-
¥OU A SE RELACIONAR COM ELE  FOI COMO CEDENTES AO MOSTRAR UMA SENSUALIDADE
!LBRECHT  EM Giselle  QUE ESTREOU EM QUASEAFRONTOSAPARAOSPADRÜESDAÏPO-

PHOTOGRAPHY DEPARTMENT OF THE IMPERIAL MARIINSKY THEATRE/WIKIPEDIA


0ARIS EM  #OM O MESMO PAPEL O CAEDEPOISPORQUEROMPIAVIOLENTAMEN-
BAILARINO PROTAGONIZOU SEU PRIMEIRO TE COM AS CARACTERÓSTICAS FUNDAMENTAIS
ESCÊNDALO .IJINSKY DAN¥OU SEM O CAL- DOBALÏTRADICIONAL.ACOREOGRAlAJeux,
¥ÎOQUECOBRIASEUleotardAMALHAJUSTA .IJINSKYCAUSAESPANTOAOSEAPRESENTAR
USADAPELOSBAILARINOS EMUMAAPRESEN- EMSAPATILHASDEPONTA TÏCNICADOBALÏ
TA¥ÎO NA QUAL ESTAVA PRESENTE A FAMÓLIA RESERVADAUNICAMENTEÌSMULHERES-AS
IMPERIAL .O DIA SEGUINTE  FOI DEMITIDO .IJINSKY SENTINDO SEABANDONADOESOLI-
DO CORPO DE BALÏ DO 4EATRO -ARIINSKY TÉRIOEMEXCURSÎOPELA!MÏRICADO3UL 
-ASAPARCERIADOSDOISNÎOFOIABALADA  ATORMENTADO PELOS CIÞMES E FACILMENTE
AO CONTRÉRIO  O BAILARINO SE TORNOU EX- INmUENCIADOEMANIPULADO CASA SEPRE-
CLUSIVODACOMPANHIADE$IAGHILEV&OI CIPITADAMENTE COM A CONDESSA 2OMOLA
UM PERÓODO DE GLØRIA  COM UMA SUCES- Nijinsky apresentava uma personalidade DE0ULSZKY MULHEROBCECADAPELOBAILA-
SÎODEEXCURSÜESEÐXITO%NCORAJADOPOR extremamente dependente e vulnerável, RINOEQUEPASSAENTÎOACONTROLARAVIDA
solicitando demasiada ajuda para decisões
$IAGHILEV PORQUEMMOSTRAVAVERDADEI- DO MARIDO 4EVE COM ELA DUAS lLHAS
mínimas do dia a dia
RA ADORA¥ÎO  .IJINSKY DECIDE ASSUMIR A +YRAE4AMARA
FUN¥ÎODECOREØGRAFOPARASEUSESPETÉ- AOS 29 ANOS, !O SABER DO CASAMENTO  QUE OCOR-
CULOS -AS NEM TUDO ERAM mORES ENTRE REU EM "UENOS !IRES  $IAGHILEV DEMITE
OCASAL$IAGHILEVAPRESENTAVAUMQUA- #/-%315):/&2%.)!  .IJINSKY DANDOOGATILHOPARAAPRIMEIRA
DRODETRANSTORNOOBSESSIVO COMPULSIVO O BAILARINO GRANDE CRISE RELACIONADA AOS PROBLEMAS
4/#  DE LIMPEZA E FOBIA A BACTÏRIA E MENTAIS DO BAILARINO !O SENTIR SE SEM
ABANDONA OS
GERMES  POIS APRESENTAVA VERDADEIRO O APOIO DO EMPRESÉRIO E NAMORADO  ELE
HORROR A DOEN¥AS E TOMAVA CUIDADOS PALCOS E PERDE ENTRA NUM PROCESSO DE DESORGANIZA¥ÎO
EXTREMOSPARANÎOSECONTAMINARVIVIA A NOÇÃO DA PSÓQUICA!OSANOS ESTAVASENDOACO-
LIMPANDOASMÎOS NÎOPERMITIAQUESEUS METIDO PELA ESQUIZOFRENIA  QUE SE MANI-
LÉBIOSFOSSEMBEIJADOSEUSAVAUMLEN¥O
REALIDADE, FESTOU INTENSAMENTE POR DUAS CARACTE-
IMACULADAMENTE LIMPO PARA PROTEGER A TENDO O ESTADO RÓSTICAS BÉSICAS ALUCINA¥ÎO PERCEP¥ÎO
FACE!GRAVIDADEDADOEN¥ADIlCULTAVA CONFUSIONAL DAQUILOQUENÎOEXISTEREALMENTE EDELÓ-
SUAVIDAÓNTIMAEGERAVAINSEGURAN¥AEM RIOSALTERA¥ÎODOJUÓZOCRÓTICO !BANDO-
.IJINSK QUEPORSUAVEZAPRESENTAVAUMA
#/-/15!$2/ NAOSPALCOSEPERDEANO¥ÎODAREALIDADE 
PERSONALIDADEEXTREMAMENTEDEPENDEN- PREDOMINANTE TENDOOESTADOCONFUSIONALCOMOQUADRO
TE E FRÉGIL  SOLICITANDO DEMASIADA AJUDA PREDOMINANTE$URANTEOSTRINTAANOSSE-
PARA DECISÜES MÓNIMAS DO DIA A DIA TO MAIS SUCESSO PROlSSIONAL  INCENSADO GUINTES ELEPASSOUPORINÞMERASCLÓNICAS
!NTAGONICAMENTE  NOS PALCOS ERA UM PORSEUSCONTEMPORÊNEOSnSUACOMPA- PSIQUIÉTRICAS  SEMPRE MUITO ALIENADO DO
SERSUPREMO SEGURO INTEIROEREVESTIA SE NHIA EXCURSIONAVA POR TODO O MUNDO E MEIOSOCIALEATORMENTADOEMSEUSDELÓ-
DE FOR¥A DESCOMUNAL AO ENCARAR E HIP- RECEBIA COLABORA¥ÜES DE COMPOSITORES RIOSEALUCINA¥ÜES ATÏQUE EM AOS
NOTIZAR A PLATEIA !LIADO A UMA TÏCNICA COMO 3TRAVINSKY  $EBUSSY E 2AVEL n  ANOSDEIDADE MORREhOBAILARINOLOU-
PERFEITA SEUCARISMALEVOUATRANSFORMA- MAIORSETORNAVAADISTÊNCIAENTREELES COvEMUMACLÓNICAEM,ONDRES
¥ÜESSIGNIlCATIVASDOBALÏDESEUTEMPO 
SENDO SEU MAIOR TRIUNFO ELEVAR A lGURA Anderson Zenidarci é mestre em Psicologia pela PUC-SP, supervisor e
palestrante. Coordenador e professor do curso de Especialização em
MASCULINAÌMESMAALTURAQUEOELEMEN- Transtornos e Patologias Psíquicas pela Facis, professor de pós-graduação no
TOFEMININO 5MDEUSDESAPATILHASQUE curso de Psicologia de Saúde Hospitalar na PUC-SP. Atua há mais de 30 anos
ARQUIVO PESSOAL

JAMAISSOUBECONVIVERCOMASLIMITA¥ÜES em atendimento clínico em diversos segmentos da Psicologia, com especial


dedicação à psicossomática, transtornos e patologias psíquicas.
IMPOSTASPELACONVIVÐNCIASOCIAL1UAN-

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in foco por Michele Müller

Quem
disse que
EDUCAR
é FÁCIL?

EDUCADORES DEVEM SER, ACIMA DE TUDO,


BONS COMUNICADORES. E BONS COMUNICADORES USAM
TODOS OS RECURSOS NECESSÁRIOS, COM CRIATIVIDADE,
PARA MANTER O PÚBLICO INTERESSADO E ATENTO

U
m novo estudo relaciona Instituto Norueguês de Saúde Públi- forem meninos, a probabilidade au-
imaturidade ao diagnóstico ca concluíram que os mais novos da menta em cerca de 40%. Resultados
de transtorno de déf icit de sala (que naquele país, assim como semelhantes já foram colhidos em
atenção com hiperatividade no Brasil, são nascidos entre outu- estudos realizados na Alemanha, Ca-
(TDAH). Após analisar informações bro e dezembro) têm quase o dobro nadá, Espanha e Israel, não deixando
de quase 510 mil crianças ao longo de chance de serem medicados com dúvidas: uma quantidade alarmante
de uma década, pesquisadores do psicotrópicos se forem meninas e, se de crianças, no mundo todo, tem sua

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imaturidade avaliada como distúrbio MUITOS ESFORÇOS SÃO DIRIGIDOS
e tratada com estimulantes.
Se a forma como as crianças são PARA QUE AS CRIANÇAS SE ADAPTEM
ensinadas pudesse ser avaliada com a AO SISTEMA EDUCACIONAL, QUANDO O
mesma precisão com que se cruzam
dados de calendários e diagnósticos,
QUE MAIS PRECISAMOS É ADAPTAR
sem dúvida encontraríamos um fator O SISTEMA EDUCACIONAL A ELAS
ainda mais fortemente relacionado
aos problemas de atenção. Os maio- çar adivinhas, criar charadas. Enf im, informação. Af inal, sua intenção é,
res índices de alunos com dif iculda- precisamos rever os hábitos desgas- acima de tudo, manter a atenção do
des para se concentrar certamente tantes e pouco ef icientes de exigir ouvinte e, para isso, sabe que deve
proviriam de classes conduzidas por atenção aos longos discursos verbais surpreendê-lo constantemente; deve
professores desmotivados e pouco e de repetir as ordens desobedecidas fazer com que ele se identif ique emo-
criativos. Muitos esforços são dirigi- gritando e, ao invés disso, inventar cionalmente com o conteúdo e que
dos para que as crianças se adaptem novas regras e maneiras de ensinar, interaja com as informações, criando
ao sistema educacional, quando o que de preferência divertidas, num exercí- novas relações.
mais precisamos é adaptar o sistema cio constante de criatividade. A comunicação só se estabelece
educacional a elas. Crianças são naturalmente atraí- quando há, além da atenção, compre-
Poderíamos colocar em discussão das pelo inesperado. Adoram ser sur- ensão. Se um meio de comunicação
disciplinas, grades horárias, quanti- preendidas, são fascinadas pelo inco- não consegue manter a atenção do
dade e teor de conteúdo, arquitetura mum e motivadas pela criatividade leitor ou do espectador, nem conse-
das escolas, métodos de ensino, siste- – que pode ser muito divertida, mas gue informá-los de forma clara, cer-
mas de avaliação e outros tantos fa- exige atitudes que nos tiram do con- tamente vai buscar novas maneiras de
tores que compõem a fórmula impre- forto da rotina e de tudo o que é feito narrar os fatos, pois culpar o públi-
cisa de uma educação de qualidade. com o mínimo de esforço possível. co e insistir no formato que não foi
Encontramos variações de tudo isso Ser criativo implica abandonar ve- aceito não irão evitar o fracasso do
com mais ou menos sucesso, sempre lhos conceitos e investir mais energia veículo. Pois a educação não deveria
dentro de limites traçados por pro- em tarefas que realizamos automati- funcionar diferente. Nem em casa,
cessos legais e burocráticos e, por- camente – mudanças que desaf iam nem na escola.
tanto, lentos. Mas se restringirmos a o comodismo ao qual nos apegamos Pensamento crítico e criatividade
discussão a fatores mais tangíveis e na vida adulta e colocam em questão não costumam ser produtos da leitu-
não menos impactantes, dependentes também a necessidade de avaliarmos ra restrita a livros didáticos e apos-
apenas de mudanças de perspectivas nossas prioridades. Ou seja, a via para tilas. Muito mais provável que se de-
e posturas na hora de ensinar, já po- chegar a soluções criativas nunca é a senvolvam nos momentos em que os
demos alcançar grandes resultados mais fácil. Mas quem disse que edu- livros são fechados e as longas expli-
em curto prazo. car é fácil? cações – destinadas a serem esqueci-
Os ensinamentos que consegui- O ensino não acontece sem uma das – trocadas por atividades que en-
mos transformar em brincadeira, comunicação ef icaz. Bons pais e bons volvem o engajamento das crianças.
com a participação ativa da criança, professores são, acima de tudo, bons Quando nos comprometemos em es-
são aprendidos com atenção e com- comunicadores. E todo bom comu- tabelecer uma comunicação ef icaz
prometimento. Todas as obrigações nicador é necessariamente criativo: com as crianças, a imaturidade que
das quais elas escapam diariamente, sempre vai procurar fugir do óbvio impede muitos de se sentarem quie-
para desespero dos pais e professores, em seu discurso. E mesmo quando a tos para ouvir passivamente deixa
também são magicamente cumpridas obviedade está presente no conteúdo de ser considerada doença e trans-
quando transformadas em desaf ios. que precisa transmitir, ele vai buscar forma-se em um desaf io saudável à
IMAGENS: SHUTTERSTOCK E ARQUIVO PESSOAL

Mas para isso precisamos reinventar se diferenciar na forma como passa a nossa criatividade.
a forma como costumamos impor ta-
refas e ensinar. Michele Müller é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências,
Muitas vezes, temos que lançar Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica
estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos
disputas, inverter papéis, estabelecer estão reunidos no site www.michelemuller.com.br
limites de tempo, contar pontos, lan-

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AMEAÇA

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Neurose de
GUERRA
Traumas provocados pela violência
urbana fazem mais vítimas que
grandes guerras. As sequelas vão
muito além das perdas materiais
Por Roberta de Medeiros

S
ituações de grande estresse, como um acidente de
carro ou um sequestro, podem deixar marcas pro-
fundas. À medida que a exposição à violência urbana
aumenta, também maiores são os casos de trauma,
especialmente entre adultos e adolescentes.
A Organização Mundial da Saúde só veio reconhecer o pro-
blema em 1994, a partir da revisão da Classificação Internacio-
nal de Doenças (CID). Depois dessa origem, o transtorno é hoje
um dos diagnósticos mais populares da Psiquiatria e já começa a
fazer parte do acervo popular com força semelhante à que acon-
teceu em relação ao termo depressão ou pânico.
Em apenas uma década do surgimento do conceito, 50 cen-
tros de estudo e tratamento foram criados nos Estados Unidos.
Em 1970 apareceram apenas 20 trabalhos científicos sobre o
trauma. Em 1990 foram 150 referências e, em 1999, chegaram a
mil. A maioria desses trabalhos é de autores dos Estados Unidos,
Austrália e Israel.
Crianças, em geral, são as maiores vítimas. Pesquisas feitas
por autores que analisam os eventos capazes de gerar traumas
em meninos concluíram que em 100% dos casos a experiência
será traumática, independentemente de aspectos como o nível
de desenvolvimento da vítima, sua história de vida ou a qualida-
de de suas relações familiares.
Pesquisadores encontraram o expressivo índice de 100% de
incidência de trauma em meninos que foram sequestrados no
ônibus do colégio em Chowchilla, na Califórnia, nos Estados
Unidos. Outro estudo obteve o índice de 94,3% ao analisar a
123RF E SHUTTERSTOCK

Roberta de Medeiros é jornalista científica. medeiros.revista@gmail.com

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AMEAÇA

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frequência do trauma em estudantes fundados intensos, agitação e a sen- Não há dúvida de que a guerra marca in-
delevelmente as gerações futuras. Um
adolescentes que, quando estavam sação de reviver o evento traumáti- estudo de Pediatria respalda esse fato
na escola, sofreram ataque de um co ocorrido. Podem surgir imagens em estatísticas. Um terço das crianças da
franco-atirador. mentais, pensamentos recorrentes Bósnia que participaram do trabalho - rea-
Diversos especialistas têm son- ou sonhos repetitivos, relaciona- lizado com 364 menores entre 6 e 12 anos
dado o impacto dessas situações na dos com o episódio traumático. O - foi testemunha de lesões ou da morte
de algum de seus pares ou irmãos. Como
população. O ranking dos principais paciente pode agir como se o even- consequência, todos eles apresentavam
fatos geradores de traumas são: se- to traumático estivesse realmente sintomas de problemas psicológicos. O
questro, ataque de franco-atirador, acontecendo de novo. transtorno de estresse pós-traumático
abuso sexual, agressão física, fura- O transtorno é considerado de aparecia em 94% deles.
cão, terremoto, guerra, incêndio, de- ordem emocional com ligação a al-
sastre nuclear, violência doméstica. gum evento traumático como, por
No Brasil, a ocorrência é maior em exemplo, história de abuso na in- Cerca de 60% dos pacientes re-
relação a acidentes de carro e violên- fância, violência sexual, violência conhecem haver sofrido alterações
cia familiar. Nesse caso, a chance de a física, ter presenciado alguém doen- psíquicas entre as primeiras horas
vítima desenvolver trauma é de 24%. te ou gravemente ferido ou ter par- e três dias depois do choque vivido
ticipado de algum desastre natural com a situação traumática. Imedia-
Sensações repetidas como terremoto ou enchente. E está tamente após o trauma, os sintomas

O quadro clínico é caracterizado


pela presença de temores in-
em quinto lugar no ranking de doen-
ças mentais.
mais frequentes são a ansiedade, o
estado de aturdimento e a desorien-
tação parcial em relação às ativida-
des cotidianas.
Segundo o Manual Diagnóstico
e Estatístico de Transtornos Mentais,
a duração mínima dos sintomas é de
um mês. Quando não está associado a
algum outro problema psicológico, o
trauma é transitório. Os sintomas, nes-
se caso, ocorrem no período de quatro
semanas após o evento traumático e
desaparecem dentro de algumas horas
ou dias. Esse período de latência médio
é de 4,5 meses.

Permanece na memória
P esquisadores testaram proble-
mas no aprendizado e na memó-
ria de pessoas vítimas de estupro.
Foram 15 vítimas que sofriam com
123RF E SHUTTERSTOCK

o trauma, comparadas a 16 pesso-


O quadro clínico é caracterizado pela presença de temor intenso, agitação e a sensação de reviver as, também vítimas de estupro, mas
o evento traumático. Podem surgir também sonhos repetitivos relacionados ao episódio sem esse transtorno. O grupo ainda

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No Brasil, a ocorrência
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último caso, a chance
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ções inesperadas, não conseguem


tirar as ‘cenas’ da cabeça e podem,
por exemplo, até chegar a reviver as
sensações de sofrimento do momen-
to do atentado ou acidente”, explica
a psiquiatra Dilza Feitosa, membro
da diretoria da Sociedade Pernam-
bucana de Psiquiatria.
foi comparado com outras 16 que torturas físicas e psíquicas, a opres-
não haviam sido expostas a experi- são política, a negligência socio- Lesões físicas
ências traumatizantes. O grupo que
tinha trauma apresentou uma inci-
dência de 53% de depressão severa,
econômica, o abandono cívico, o
sequestro, o terrorismo. “Algumas
pessoas, quando expostas a situa-
S ugerindo que as lesões fí-
sicas nem sempre acompa-
nham o transtorno de estresse
além de leve deficiência na capaci-
dade de memorização. O problema
só foi observado em 6% das vítimas PARA SABER MAIS
de estupro que não ficaram trauma-
tizadas. Nenhuma pessoa do grupo O TRAUMA DOS REFUGIADOS
É
que não foi exposta a experiências notável o sofrimento dos refugiados que testemunham o assassinato
estressantes tinha depressão. dos seus familiares ou amigos e que, ao conseguirem fugir, sendo por
A reexposição a situações que vezes os únicos sobreviventes de suas famílias, carregam consigo a culpa
recordam o trauma são muito peno- e o sentimento de abandono. Estudo feito com refugiados em Portugal,
sas às pessoas com transtorno por conduzidos pela pesquisadora Maria Cristina Ferraz Saraiva Santinho, mostrou
estresse pós-traumático. Em recente que muitos refugiados não conseguem chegar à verbalização do sofrimento
trabalho de José Luis Medina Amo- e, assim, permanecem num silêncio profundo.
re, José Luis Pérez e Inigo Gancedo, “Sobre as vítimas da ‘banalidade do mal’, como referia Hannah Arendt,
constatou-se que essa situação foi re- já não é sequer possível encontrar o rasto, perdidos que estão numa
latada por 86% das vítimas, e houve cidade/sociedade que desconhecem e que os empurra tragicamente para
reação psicofisiológica (vegetativa) a invisibilidade dos corpos e da existência, na qual o próprio conceito de
na reexposição em 79% dos casos. humano expandiu os seus limites”, diz a pesquisadora. Muitos refugiados não
São de diversas ordens as ações têm acesso à consulta psiquiátrica ou, mesmo após uma consulta psiquiátrica
violentas sobre o psiquismo huma- malsucedida, abandonam a tentativa de reconhecimento do seu sofrimento.
no. Entre as principais, citam-se as

www.portalcienciaevida.com.br psique ciência&vida 77


AMEAÇA

PARA SABER MAIS


)G
TRANSTORNOS FÓBICOS

`¢GP I9
A s percepções pessoais extremas sobre segurança são negativas, tanto
para a pessoa que se considera muito segura e invulnerável, como em
caso contrário.
HG¢
Do ponto de vista clínico, os transtornos fóbicos dominam o quadro GGGh€
inicial depois do contato com a violência cega, havendo temor exagerado
e impulsos de sair de lugares públicos. Em médio prazo são frequentes as I G 

depressões persistentes como autodepreciação e sentimentos de ser uma  ^I 


carga para os demais.
A evolução do transtorno de estresse pós-traumático nesses casos costuma 

ser muito prolongada e, finalmente, poderá ocorrer alteração da personalidade. GGG\
Essa mudança se apresenta com alterações do caráter, sendo os sintomas mais
frequentes a restrição afetiva e relacional, gerando isolamento. Pode haver ?=
 
também alguns transtornos psicossomáticos, tais como hipertensão, alterações
GIÈI G

de tireoide, diabetes, úlcera digestiva, eczemas, urticária, asma brônquica etc.
GGP I
pós-traumático, um estudo mos- transtorno de estresse pós-traumáti- Em seu estudo, o psiquiatra Ivan
trou que a maioria dos pacientes co observa-se que as alterações emo- Figueiredo salienta que, nas situ-
não sofreu lesões físicas através do cionais podem ter início desde o mo- ações em que há possibilidade de
acontecimento traumático (45%), mento do trauma até 42 meses depois guerra, o estresse pós-traumático
ou elas foram muito leves (22%). da ocorrência do fato traumático. passa a rondar as sociedades. “Foi
Em torno de 15% precisaram de um Aceita-se ainda a existência de assim na Guerra Civil Americana
breve período de hospitalização e um grupo variável de pessoas nas (síndrome do coração irritável), na
apenas 18% necessitaram de um pe- quais os sintomas de estresse pós- Primeira Guerra Mundial (choque
ríodo mais prolongado. -traumático se tornam permanen- da granada), na Segunda Guerra
Alterações psíquicas imediatas tes. A real incidência desse grupo Mundial (síndrome de esforço, neu-
ao trauma vivenciado surgiram em de cronificados é, usualmente, baixa rose de guerra), na Guerra do Vietnã
62% dos pacientes, os quais reconhe- ou muito baixa na maioria de estu- e, mais recentemente, nos atentados
ceram ter sofrido desconforto emo- dos e elevada (até 25%) em alguns do dia 11 de setembro de 2001 ao
cional nas primeiras horas até um outros poucos estudos. World Trade Center e ao Pentágono.”
máximo de três dias depois do im- Curiosamente, os pesquisadores têm
pacto do acontecimento traumático. dado pouca atenção aos desastres
Os sintomas mais frequentes ocorridos no Brasil, sobretudo mor-
desse desconforto emocional ime- tes por acidentes automobilísticos e
diato foram a ansiedade, em geral, por armas de fogo.
de forma f lutuante (ora com mais “Para que o diagnóstico do es-
ansiedade, ora com menos), um tresse pós-traumático seja feito, clí-
certo estado de aturdimento com nicos e pacientes têm que superar
desorientação parcial em relação ao diversas barreiras de comunicação.
entorno e, finalmente, alterações Ambos podem ficar constrangidos
vegetativas. As alterações dissocia- Œ+Ë IIIÈI GŒ em abordar temas que estejam asso-
A síndrome do pânico é uma das con-
tivas (da linhagem histérica) apare- ciados ao segredo e à vergonha.” O
sequências do estresse pós-traumático.
cem em 20% dos pacientes. Ela se caracteriza por uma ansiedade psiquiatra lembra a importância de
Para o típico transtorno de es- aguda na qual ocorrem crises inespe- questionar o problema de forma di-
tresse pós-traumático o período de radas de desespero e medo intenso de reta. Do contrário, o paciente dificil-
123RF E SHUTTERSTOCK

latência entre o aparecimento da que algo ruim aconteça, mesmo que não mente tomará a iniciativa de revelar
haja motivo algum para isso ou sinais de
sintomatologia correspondeu, em relevantes, tais como ter sido abusa-
perigo iminente.
média, a 4,5 meses. Entretanto, no do sexualmente na infância.

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análise bem bacana de uma dessas vertentes, sob a luz dos indicadores de saúde mental preconi-
zados por Freud, o pai da Psicanálise: a capacidade da mulher de amar e produzir. Tem tudo a ver.
A questão da produção, sob a perspectiva das atividades manuais, tem ganhado cada vez mais es-
paço nos debates. Esse tipo de trabalho, sem dúvida, se relaciona com a busca das próprias origens
DAMULHER OQUEVEMCAUSANDOUMAONDADERESSIGNIlCA¥ÎODASPRÉTICASMANUAISCOMOFORMA
de agrupamento humano afetivo de pessoas com pensamentos comuns. O artesanato, talvez a
PRINCIPALFORMADETRABALHOMANUAL SETORNOUDElNITIVAMENTETEMACENTRALDEESTUDOS PESQUISAS
e publicações. Parabéns pelo trabalho desenvolvido pela equipe que faz a revista.
Roberto Santana, por e-mail

ALMA BRASILEIRA O SER HUMANO INTEGRADO 2016. Antes, ela vinha atrás de doenças
Eu aprendo mais a cada edição da revista Abordar a saúde levando em conta uma cardíacas, câncer e acidentes. O pior é que
Psique. Dessa vez, no número 136 pude perspectiva holística do ser humano me a previsão dá conta de que seja a primeira
tomar conhecimento do que é o arquétipo parece uma prática bem interessante. em 2030. A depressão, muitas vezes causa-
trickster  QUE  POR DElNI¥ÎO  Ï O ELEMENTO Sempre acreditei ser importante dar o da pelo estresse, tem sido um grande fator
que integra o inconsciente coletivo, re- valor devido a questões como qualida- que contribui para uma vida sem qualida-
presentado por personagens do folclore, de de vida, felicidade e bem-estar. To- de, de aumento de doenças autoimunes,
da mitologia, poesia, teatro, cinema e li- dos esses fatores têm relação direta com bem como para o câncer. Infelizmente, é
teratura. O texto cita Jung, que falava que a saúde. O artigo veiculado no número uma realidade difícil que me parece sem
em momentos de profundas interrogações 136 da revista deixa isso bem claro, con- volta. Aconselho a leitura.
políticas e incertezas econômicas e espi- siderando a saúde como decorrente do Carolina Bittencourt, por e-mail
rituais, como o atual, o ser humano volta equilíbrio entre os seus corpos e as fun-
seus olhos para o futuro. E esse arquétipo ções orgânicas/físicas, mental/cogniti- O PAPEL DA PSICANÁLISE
ganha mais em importância na medida vo, emocional/psicológico e espiritual/ Adoro as entrevistas da Psique. A que
em que ele se enquadra em questões como transcendente deles decorrentes. Da saú- saiu no número 136 não fugiu à regra.
subversão não violenta, mediação de de pessoal deriva a saúde do coletivo e, Dessa vez foi com a psicóloga e psica-
opostos, identidade e sentido no âmbito da a partir daí, a importância da prevenção nalista Magda Khouri. Abordando te-
cura da alma brasileira e o diálogo que o e do cuidado nos seus aspectos globais. mas profundos, mas por meio de uma
arquétipo propõe com todas as estruturas O material fala também em Psicologia linguagem acessível até para quem não
narrativas, as formas de socialização para Integral, que, como o próprio nome diz, é da área, a entrevistada procurou en-
se chegar à possibilidade de um recomeço. se baseia na integração de todas as áreas focar, entre outros assuntos, o futuro da
Nada mais indicado para os dias atuais. DOCONHECIMENTOCIÐNCIA ARTE lLOSOlAE Psicanálise, o papel atual do psicanalis-
Cláudio Mathias, por e-mail espiritualidade. Vida longa à Psique. ta diante de um mundo novo, cheio de
Silvia de Abreu, por e-mail mudanças e velocidade, além de várias
OUTRASREmEXÜESEXIGIDASPELASOCIEDADE
OS MALES DO ESTRESSE contemporânea. E ela ainda faz um aler-
Que o estresse é o grande mal da vida ta. “O imperativo de ser feliz, de se estar
moderna não é novidade para ninguém. A sempre bem, com um corpo perfeito, as-
prova, de acordo com artigo publicado na SOCIADOÌPRESSADElCARLIVREDASANGÞS-
edição 136, é que a Organização Mundial tias, pode levar a uma forma imediatista
da Saúde (OMS) vem alertando ao longo de buscar a solução de problemas, mui-
dos anos como o estresse tem mexido com tas vezes só via descarga das tensões. Os
o bem-estar geral da população mundial. excessos de exercícios físicos, de consu-
Em dados atuais, a doença depressiva pas- mismo, de baladas, por exemplo, podem
sou da quarta para a segunda colocação ser formas ilusórias de tentar minimizar
entre os problemas que retiraram a capa- o sofrimento psíquico”. Excelente!
cidade de trabalho das pessoas no ano de Luiza Barroso, por e-mail

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Ano 12 - Edição 137
A internet revolucionou o acesso às infor- de buscas on-line relacionadas à saúde.
Ethel Santaella
mações. Em relação à saúde, não é diferen- Mais informações em matéria completa, DIRETORA EDITORIAL

te. Atualmente, é possível, por exemplo, publicada na edição 102, disponível no site Denise Gianoglio
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Julho/2017
CONSELHO EDITORIAL REALIZAÇÃO
AICIL FRANCO é psicóloga, mestre e doutora em Psicologia KARIN DE PAULA, psicanalista, doutora pela PUC-SP,
Clínica pela USP. Professora no IJBA e na Escola Bahiana professora e supervisora clínica universitária e do CEP,
de Medicina e Saúde Pública, Savador, BA. autora do livro $em? Sobre a inclusão e o manejo do dinheiro
Rua Santo Ubaldo, 28 – Torre C – CJ. 12 – Vila Palmeira – São Paulo – SP
numa psicanálise, e de vários outros artigos publicados. CEP: 02725-050 – Telefone - (11) 4114-0965
ANA MARIA FEIJOO é doutora em Psicologia pela
EDITORA: Gláucia Viola
Universidade Federal do Rio de Janeiro, autora de LILIAN GRAZIANO é psicóloga e doutora em Psicologia EDIÇÃO DE ARTE E DIAGRAMAÇÃO: Monique Bruno Elias
LIVROSEARTIGOSCIENTÓlCOS PARECERISTADEDIVERSAS pela USP, com pós-graduação em Psicoterapia Cognitiva COLABORARAM NESTA EDIÇÃO: Adriano Perez Climaco de Freitas;
Carla Konrad; Estela Guida Teixeira; Giovani Silva; Lucas Emmanuel
revistas e responsável técnica do Instituto de Psicologia Construtivista. É professora universitária e diretora do Alves de Lara; Lucas Vasques Peña; Marineide Almeida Fernandes;
Fenomenológico-Existencial do RJ. Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento. Atua Milton Cesar Ferlin Moura; Nagy Pereira Sardinha; Priscila Parada;
em clínica e consultoria. Roberta de Medeiros; Sheila Giardini Murta. REVISÃO: Jussara
ANA MARIA SERRA é PhD em Psicologia e terapeuta Lopes. COLUNISTAS: Anderson Zenidarci, Carlos São Paulo, Denise
Deschamps; Eduardo J. S. Honorato; Eduardo Shinyashiki; Guido
cognitiva pelo Institute of Psychiatry, Universidade de LILIANA LIVIANO WAHBA, psicóloga, PhD, professora da Arturo Palomba; Igor Lins Lemos, João Oliveira; Jussara Goyano;
Londres. Diretora do Instituto de Terapia Cognitiva (ITC), PUC-SP. Presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia Lilian Graziano; Marco Callegaro; Maria Inere Maluf; Michele Muller. O
Conselho editorial e a Redação não se responsabilizam pelos artigos
atua em clínica, faz treinamento, consultoria e pesquisa. Analítica. Coeditora da revista Junguiana. Diretora de e colunas assinados por especialistas e suas opiniões neles expressas.
Presidente honorária, ex-presidente e fundadora da ABPC. Psicologia da Ser em Cena - Teatro para Afásicos.
ANDRÉ FRAZÃO HELENE é biólogo, mestre e doutor MARISTELA VENDRAMEL FERREIRA é doutora em Audiologia FALE CONOSCO
EM#IÐNCIASNAÉREADE.EUROlSIOLOGIADA-EMØRIA pela University of Southampton – Inglaterra, mestre em DIRETO COM A REDAÇÃO
REALIZAÇÃO
e Atenção pela Universidade de São Paulo, Distúrbios da Comunicação pela PUC-SP, especialista em Av. Profª Ida Kolb, 551 Casa Verde – CEP 02518-000
onde também é professor no curso de Biociência e Psicoterapia Psicanalítica pelo Instituto de Psicologia da USP. São Paulo – SP – (+55) 11 3042-5900 – psique@escala.com.br
coordena o Laboratório de Ciências da Cognição no PARA ANUNCIAR anunciar@escala.com.br
Instituto de Biociências. MÔNICA GIACOMINI, presidente da Sociedade Brasileira de
SÃO PAULO: (+55) 11 3855-2179
Psicologia Hospitalar – biênio 2007/09. Especialista em
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CLÁUDIO VITAL DE LIMA FERREIRA é psicólogo, Psicologia Hospitalar, psicóloga clínica junguiana, psicóloga
SP (RIBEIRÃO PRETO): (+55) 16 3667-1800
doutor em Saúde Mental pela Unicamp, pós-doutorado em do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HCFMUSP RJ: (+55) 21 2224-0095 RS: (+55) 51 3249-9368
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de Uberlândia. Autor de Aids e exclusão social.
PAULA MANTOVANI é graduada em Psicologia pela Tráfego: material.publicidade@escala.com.br
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DENISE TARDELI, graduação em Psicologia e Pedagogia. Universidade Paulista, psicanalista, consultora editorial ASSINE NOSSAS REVISTAS
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de Estudos Pós-Graduados da PUC-SP e membro da doutor em Psicologia Social pela USP. É também professor De seg. a sex., das 9h às 18h. (+55) 11 3855-1009
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psiquiatria forense por Guido Arturo Palomba

Direitos
ou deveres
HUMANOS?
A INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA
É A PRIMEIRA MEDIDA
NECESSÁRIA QUANDO O
QUADRO CLÍNICO DO PACIENTE
REQUER CUIDADOS ESPECIAIS

É
CERTOQUENENHUMMÏDICOQUETENHANOMÓNIMOUMA possa ter entendimento da gravidade do mal que padece, do
boa formação acadêmica deixaria de recomendar a in CARÉTER MALÏlCO DO FATO  DA MISÏRIA FÓSICO SOCIAL FAMILIAR QUE
ternação ao atropelado com traumatismo de crânio, ou O SUBMETE  NÎO CONSEGUE DETERMINAR SE DE ACORDO COM ESSE
INFARTADO CARDÓACO  OU DIANTE DE APENDICITE SUPURADA entendimento, pois está escravizado pela impulsão imperiosa
No caso da Psiquiatria, nenhum psiquiatra minimamente bem para usar a droga agora ou daqui a pouco. Por isso é doente.
formado deixaria de internar certos doentes mentais, por exem Se ainda conserva alguma integridade na razão, perdeu total
PLO OSQUEESTÎOEMmØRIDOSURTOPSICØTICOOUQUANDOSETRATA MENTEOLIVRE ARBÓTRIO QUESEENCONTRADOMINADOPELOVÓCIO%
DEGRAVERISCODESUICÓDIO terceiro, em suas condições precárias e incapaz, por questão
Doença mental é como outra qualquer; porém, no caso das humanitária, precisa tomar banho, usar roupas limpas, receber
ENFERMIDADESFÓSICAS OMALESTÉPREDOMINANTEMENTENAres cor- alimentação, repor os sais minerais e as vitaminas, combater
porea (corpo), ao passo que, na doença mental, incide na res co- infecções, hidratar etc. E, é claro, toxiprivação completa. Al
gitans (mente). Isso tem algumas implicações: o médico do cor guém conhece alguma outra forma de fazer isso, ou de tratar
po, quando solicita a internação, é por uma causa que muitos UMATROPELADOEMESTADOGRAVE OUUMENFARTADOCARDÓACO OU
PODEMVER ESPECIALISTASOULEIGOS POISAMANIFESTA¥ÎOCLÓNICA uma apendicite supurada sem internar o paciente?
mostra com clareza que “o caso é grave”. Já quando o médico Lembremos, antes de responder, existem, sim, os direitos
DA MENTE IDENTIlCA A NECESSIDADE DE INTERNA¥ÎO  MUITOS NÎO humanos, mas existem também os deveres humanos, que nós mé
ENXERGAMCOMNITIDEZQUEAMEDIDAÏIMPRESCINDÓVEL dicos sabemos que há momentos em que estes se sobrepõem
%M RAZÎO DISSO  VÉRIAS PESSOAS POSICIONARAM SE RECENTE àqueles, caso não estejam alinhados, sobretudo quando o tema
mente contra a internação compulsória para os “cracômanos” é saúde, vida e a própria dignidade dos nossos semelhantes.
da Cracolândia, sob os mais diversos argumentos: o paciente Porém, desde já, internação compulsória não pode ser me
ARQUIVO PESSOAL/SHUTTERSTOCK E ROVENA ROSA/AGÊNCIA BRASIL

tem o direito de escolher se quer ou não ser tratado; internação dida isolada. É apenas o primeiro passo. Precisa muito mais do
para viciados não funciona; internação psiquiátrica é “castigo” que isso. Do contrário, soará tão somente como higienismo,
e tantas outras ideias de semelhante qualidade. UMAESPÏCIEDELIMPEZASOCIAL OQUEÏINCONCEBÓVEL
Por que é preciso internar o “cracômano” da Cracolândia*?
Resposta: por três motivos. Primeiro, porque a dependência do
crack na forma como se dá na Cracolândia é doença mental
GRAVÓSSIMA  DE DIFÓCIL CURA 3EGUNDO EMBORA O DOENTE AINDA Guido Arturo Palomba é psiquiatra forense e membro
emérito da Academia de Medicina de São Paulo.
* Cracolândia é uma denominação popular para uma região no centro da cidade
de São Paulo em que se concentram dependentes em drogas

82 psique ciência&vida www.portalcienciaevida.com.br


SIMPATIA ABRE PORTAS, ELIMINA CONFLITOS E
EVITA QUE COISAS TOLAS ATRAPALHEM O SEU CAMINHO.

Este livro mostra dez


passos que esclarecem
como nascem a simpatia
e a antipatia, e também
as cinco saias-justas mais
frequentes, apontando
como escapar delas
com elegância.

Nas bancas e livrarias!

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UMA OBRA BASEADA EM HISTÓRIAS REAIS

Este livro foi formado a partir de


histórias verídicas que aconteceram
em uma família de amigos.
Trabalhamos os fatos e mudamos os
nomes dos personagens para manter
a privacidade de cada um deles.
Não queremos louros. Tampouco
constrangimentos. Emprestamos
nossos ouvidos e nosso coração para
acolher as narrativas e interpretar os
sentimentos. Fomos fiéis aos juízos
éticos e morais, pois se há uma coisa
que a fronteira da morte nos ensina
é cancelar todos os julgamentos
e, sobretudo, as condenações que mais simples e inescrutável. A partir
lhes acompanham. Ouvindo essas dessas histórias reais, vasculhamos
narrativas, fomos capazes de entender as mais elevadas verdades. Não é um
os caminhos misteriosos da vida tratado mórbido, pois a morte não é
que velam, revelam e desvelam os mórbida, antes, é o sopro da esperança.
desfechos das mortes misteriosas. A
vida é uma gota d´água. O que há de NAS LIVRARIAS!

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