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Análise Psicológica (2005), 4 (XXIII): 391-400

Discursos sobre o Rorschach: Construções


na intersubjectividade

ANA MARIA PINA MARTINS (*)

«O céu, a terra e eu temos a mesma origem As metamorfoses que ali têm lugar constituem,
As dez mil coisas e eu somos da mesma substância.» a esta luz, o resultado potencialmente alquímico
Sojo, Mestre Zen, (384-414 d. C.) dessa dialéctica de subjectividades. A função de
rêverie – “co-rêverie”, como a redefine René Kaës
(2001) ao acentuar a relação entre a qualidade do
sonho e do espaço do sonho, com a do espaço oní-
A dimensão transferencial/contratransferencial rico que liga o sonhador ao analista – permite acres-
envolvida na relação analítica funda uma episte- centar, nessa relação uma reverberação imaginá-
mologia que acentua a construção do conhecimen- ria propiciatória de novas ligações e integrações.
to como um processo generativo com sede na emer- Comunicações múltiplas num espaço potencial
gência e expansão de espaços de intersubjectivi- que comporta uma espiral de ilusão onde o afecto
dade onde circulam objectos internos em diálo- detém um lugar maior. Espaço de expansão fan-
gos entrecruzados e sobreponíveis. O conceito de tasmática, com um ponto de fuga no horizonte da
esperança.
identificação projectiva, permite entender a co-
Este espaço de subjectividade, criada e com-
municação aí desenvolvida como resultante do es-
partilhada, que Thomas Ogden (1994) designa
tabelecimento de pontes relacionais, geradoras
como “o terceiro analítico intersubjectivo”1 ou
potenciais do pensamento, que configuram um es-
“o terceiro sujeito de análise criado em conjun-
paço comum de experiências diferentemente vi-
to”2 (co-criação mútua, embora assimétrica, e in-
vidas pelas características únicas de cada um dos
consciente, que influencia a estruturação da rela-
participantes, nele autores e intérpretes. Assume
ção analítica), faz emergir o conhecimento, agora
assim relevo uma relação entre as esferas intra e
plenamente entendido como produto de subjecti-
interpsíquicas, bem como entre realidade interna
vidades e não já como resultado objectivado de
e realidade externa. Afectos, fantasias, pensamen-
tos e deambulações de rêverie, surgem aí como
resultado desse experienciar.

1
“The intersubjective analytic third” (Dada a difi-
culdade de tradução optámos por referir também os ter-
mos originais deste e de alguns outros conceitos de que,
(*) Psicóloga Clínica. Instituto Superior de Psicolo- a seguir, faremos referência).
2
gia Aplicada, Lisboa. “The third co-created subject of analysis”.

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processos de apreensão alheios à envolvência par- do”4 (1984). Compreensão mais nítida quanto mais
ticipante do sujeito do conhecimento com o seu tolerante ao desconhecimento e permeável ao des-
objecto do conhecimento. conhecido. Considera Meltzer o sonho como: «uma
E posto que a tarefa do analista envolve assim forma de pensamento inconsciente, (...) que o co-
capacidade de acolhimento (que permita o enten- loca no centro do processo de pensarmos sobre o
dimento da experiência vivida na análise à luz da significado das nossas experiências emocionais»
sua realidade subjectiva e do contexto da relação es- (p. 86). Compreensão constitutiva do que Bion de-
tabelecida entre este e o paciente, e facilite aquele signou por “função α”, como elaboração da vi-
experienciar), capacidade empática (que possibi- vência emocional que digere a experiência e nu-
lite a ressonância afectiva), e capacidade de so- tre o pensamento.
nho (que conduza a uma mobilidade flexível nas Parece-nos interessante visitar aqui algumas
viagens ao inconsciente), o conhecimento do ana- expressões das filosofias orientais, tais como o
lisando compreende em si o conhecimento do ana- taoismo ou o budismo Zen, naquilo em que nos
lista, e também a experiência desse outro “tercei- transportam a um convite à rêverie, através da cons-
ro”, situando-se sujeito e objecto de conhecimen- trução de lugares transitivos. Os jardins orientais,
to como constituintes de uma nova matriz, for- cuidadosamente dispostos simbolizando uma cos-
mulação epistémica e realidade cognoscível. mogonia própria, e configurados pelos mestres Zen,
É assim que o conhecimento, que é, por essên- suscitam no visitante evocações que o conduzem
cia, afectivo, dá origem a cognições emergentes. do micro ao macro cosmos, mas também a espa-
Surgindo do seio de um processo inconsciente que ços afectivos íntimos. Escutemos como são evo-
convoca afectos e fantasias, ele vai criando pau- cados e que deambulações suscitam: «Entrar num
latinamente uma nova história. Aí, o tempo inflec- jardim é como abrir um livro. Entra-se, olha-se em
te direcções, retoma-as e sobrepõem-nas, entre- volta, reconhecem-se algumas das característi-
laçando lugares para tecer a história. cas únicas do jardim. Podem ver-se formas cla-
A comunicação, através desta viagem que en- ras, padrões formais de crescimento nitidamente
tretece mundos, assiste à expressão de subjectivi- moldados, extensos relvados perfeitamente dese-
dades que se encontram na criação de um novo nhados, ou ter-se a impressão de uma natureza sel-
significado. Capaz de criar porque banhada na ma- vagem deixada mais ou menos entregue a si pró-
triz primordial, misticamente pressentida por S. pria. Podemo-nos sentir suavemente tocados pela
João da Cruz: «Que bem sei eu a fonte que mana paz do jardim, pelas suas colinas e flores, ou per-
e corre, / mesmo, se é noite! / Aquela eterna fonte turbarmo-nos profundamente com a sua estranhe-
está escondida. / Que bem sei onde tem sua gua- za. Pode provocar-nos uma sensação de tranqui-
rida, / mesmo se é noite! (...) Nunca é a sua luz lidade, permitir ao espírito divagar docemente ou,
escurecida / e toda a claridade lhe é devida, / mes- como um livro, conduzir-nos a algum lugar des-
mo se é noite»3 (1542-1591 / 1990, p. 61). conhecido da mais secreta natureza de nós pró-
A capacidade de rêverie convoca assim a com- prios» (A. al-H. Moore, 1992, pp. 9-10).
preensão intuitiva do analista. Este processo ima- Estes jardins, construídos de acordo com aque-
ginário, aparentado a uma espécie de deambula- las filosofias, situavam-se numa área potencial-
mente produtora de rêverie e criação. Na mesma
ção onírica, institui o que Meltzer, em relação ao
reflexão suscitada pela arte do arranjo dos jardins
sonho, designa como “o teatro que gera o senti-
Zen: «À medida que se vai lendo um livro talvez
se possam encontrar características que estavam
antes escondidas, esbatidas, ou apenas delicada-
mente enunciadas. Num jardim, tal como num li-
vro, rodeados por estranhos cenários e coisas pa-
3
«Que bien sé yo la fonte que mana y corre, / aunque ra serem olhadas, pode ser que a nós próprios
es de noche! / Aquella eterna fonte está escondida. /
Que bien sé yo do tiene su manida, / Aunque es de no-
che! / (...) / Su claridad nunca es escurecida, / y sé que
toda luz de ella es venida, / aunque es de noche» – Can-
tar del alma que se goza de conocer a Dios por fe (S.
4
Joao da Cruz, 1542-1591 / 1990, p. 60). “The generative theatre of meaning”.

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nos encontremos. Num livro, que nos envolve com ciar uma ambição de transcendência na produção
a sua própria disposição da realidade, nada é de uma fala/escuta internas e compartilhadas.
real. Quando o lemos deixamo-nos invadir pela Fala poética como matriz. Disse Manuel Ale-
satisfação de participarmos numa ilusão, na gre a propósito da poesia: «Talvez ela não seja
esperança de obtermos conhecimento ou prazer. mais do que o primeiro verso. (...) Talvez tudo es-
Desta mesma forma existem num jardim realida- teja neste primeiro verso que é o instante da re-
de e fantasia. Foi cultivado intencionalmente, tem velação e da relação mágica com o mundo» (1997,
um princípio e um fim, uma entrada e uma saí- p. 743). E talvez que o seja pelo facto mesmo de
da, foi construído por uma determinada razão e ser o primeiro...
pode colocar-nos num estado de espírito inabi- À semelhança da poesia, a interpretação na co-
tual, guiando-nos para que vejamos as coisas de municação analítica, move-se neste universo de
uma maneira nova» (idem, pp. 12-13). Estado de diálogos de emanação idiossincrática (porque pro-
espírito inabitual, habitante da dimensão da fan- venientes de ressonâncias íntimas), porém cons-
tasia e criador de histórias (narradas umas, sussur- trutores de uma matriz de onde procederá a inte-
radas outras, e ainda das que, não sendo feitas ele- gração; de pontes relacionais (porque resultantes
mentos da fala, permanecem ocultas ou cindidas de um teatro interno constituinte do discurso par-
de um processo de construção significante). Dis- tilhado, e ali mesmo criador, entrelaçando reali-
posição empática de onde procede a interpreta- dade e fantasia e a ambas permitindo, formando,
ção. acrescentando e enriquecendo. Construindo a iden-
Pensamos poder este processo, de acolhimen- tidade, também a comunicação analítica propicia,
to empático e formulação interpretativa, ser de na- a seu tempo, a experiência da ilusão. Relembran-
tureza próxima ao da formação da linguagem poé- do Winnicott: «O subjectivo tem um valor imen-
tica, assente num terreno potencial, área de ilu- so, mas é tão alarmante e mágico que não se po-
são onde o real e o imaginário, com tudo o que a de desfrutar se não for paralelo ao objectivo. Ver-
um basta e a outro sobeja, convivem de mãos da- -se-á que o fantasma não é uma coisa que o in-
das, recriando e descobrindo mundos e transfor- divíduo cria para fazer face às frustrações da rea-
mando adamastores em cabos da boa esperança. lidade exterior. (...) O fantasma é mais primário
Reflectindo acerca da compreensão do poema que a realidade, e o enriquecimento do fantasma
Miguel Serras Pereira comenta «Perante a lin- a partir das riquezas do mundo depende da ex-
guagem, o poeta não usa, mas ousa. Se trabalho periência da ilusão» (1945/1969, p. 43).
poético há, trata-se do trabalho do poeta sobre Pela linguagem é conquistada uma cidadania
si próprio através do que não é ele próprio, e no- psíquica, e a interpretação, concebida na fala, ar-
meadamente através de uma linguagem escutada ticula-se como construtora de metáforas que sub-
e tacteada no que tem de mais irredutível a um vertem a linearidade discursiva, nomeiam o ino-
simples objecto externo e de mais fugidio e rema- minado, habitam o vazio, ordenam o caótico. Fun-
nescente perante qualquer desígnio de objectiva- dando e ampliando novas cadeias significantes,
ção exaustiva, ou seja, de uma linguagem em es- ela constitui-se num terreno onde, para além de
tado nascente» (1986, p. 59). E acrescenta: «esse as variações repercutirem, reinventarem e suble-
diálogo [o que se faz perante o poema] – à seme- varem o tema original, é, ele próprio, composi-
lhança do diálogo analítico – só se torna possí- ção. Toma pois relevo a relação apontada por Eduar-
vel e se faz sempre no estofo pré-pessoal da voz do Cortesão: «A atitude empática e a empatia de
do leitor ou intérprete que interroga ou escuta, Kohut, tanto na relação mãe-bebé como na rela-
no estofo de uma outra voz que, para ler ou es- ção analista-analisando, possuem um terreno e
cutar deveras, sai de si própria ousando nesse mo- um objectivo comuns com a teoria das relações
vimento reabitar um espaço intermediário ou po- de objecto de Winnicott, com a identificação pro-
tencial onde como sugerem já estes termos cunha- jectiva de M. Klein e a função alfa de W. Bion»
dos por Winnicott a partir de um horizonte clíni- (1990, p. 35).
co próprio, se abre nova encruzilhada entre a li- Criação do conhecimento, num processo de vai-
teratura e a psicanálise» (idem, p. 59). Nesse es- vém propiciatório de ligações, em que o genuíno
paço intermédio habitado pelo desejo e povoado interesse que o objecto dedica ao sujeito é alicer-
pelo exercício da função semiótica, é possível anun- çado na curiosidade acesa perante o deslumbra-

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mento inicial. Isto é: a possibilidade de acreditar com o Outro, o cumprimento da sua dupla apre-
na capacidade para o encontro essencial, criador sentação, como ser semelhante, onde pode ser pos-
do acolhimento e contenção, como marca da pul- sível encontrar os próprios traços, e como reali-
são epistemofílica, renovo do que Meltzer (1985/ dade, diversa e inexpugnável.
/1990) designou por “conflito estético” (condição Esse processo captativo encontra condição de
para o conhecimento como resposta ao impacto emo- existência nesse cruzamento enigmático que, en-
cional que escuta aqui os ecos da experiência es- tre dois, descobre novos mares, tanto mais nave-
tética inicial). Como explica Coimbra de Matos: gáveis quanto possível for a atitude não selectiva
«A função analisante está alimentada por duas e de atenção flutuante de que fala Bion. A adver-
fontes de energia: 1) a curiosidade (pulsão episte- tência de Coimbra de Matos explicita-o: «Sem me-
mofílica) – é sua intenção querer saber, conhecer mória, sem desejo, e até sem compreensão, quer
– e 2) o amor (pulsão libidinal) – esse contínuo, apenas dizer: a) sem selecção (à nossa vontade)
imperecível e humano desejo de criar» (A. C. Ma- da informação, b) sem desejo de impor ou satis-
tos, 1991, p. 97). fazer o nosso desejo, c) sem compreensão que anule
Emmanuel Lévinas (1982) coloca a questão do ou altere a compreensão do analisando». (A. C.
conhecimento numa relação indestrinçável dos li- Matos, 1991, p. 97).
mites da consciência do próprio sujeito cognos- Facilitando pois a compreensão da vivência
cente, isto é, inseparável àquele que conhece, apon- com o Outro, como essência que emana do en-
tando o conhecimento do outro, inesgotável pela contro, na captação intuitiva de uma fala, escuta-
sua (dele) alteridade, como a residir sempre num da, acolhida e transformada. Movidos pela fé,
conhecimento de si. Implicação máxima consti- mas não pelo fado. A este propósito poderíamos
tutiva de uma responsabilidade relacional inalie- aqui citar Manuel Alegre: «Quando chegares a
nável. Tem assim o pensamento uma identidade Samarcanda / Procura o velho manuscrito. Tal-
indestrinçável com o pensador, e o objecto do co- vez / não reste mais do que uma letra / a sombra
nhecimento é o produto obtido pelo sujeito cria- de um insecto sobre / a página e a poeira. Mas é
dor de representações quando estas constituem, pa- aí / que está o canto. / O vinho a mulher a dolo-
ra ele, uma forma de sentido. Mas é também uma rosa / beleza do instante que / passa. / E o mur-
forma de sentido construída na mutualidade, por- múrio discreto da poesia / o cheiro do jasmim e
que o que se conhece é fruto relacional subjectiva- da lavanda. / Escuta essa música secreta / pro-
mente criado e retomado. Por isso conhecer é com- cura a flor e a geometria. / Talvez então encon-
preender, personalizar por apropriação, interio- tres Samarcanda.» (1997, p. 729).
rização, o que antes era diverso, exterior, outro. Socorremo-nos aqui de uma forma de poesia
Convertendo o estranho em familiar, o outro em japonesa do século XVI, os haikus, pequenos poe-
parte de si. mas imbuídos da filosofia taoista de Lao-Tsé e
O conhecimento, que é apropriação do Outro, dos mestres do budismo Zen, de contornos im-
é movido pelo desejo de conhecer, de aceder à sua pressionistas e evocativos, para darmos nota de
outralidade. Porém, ao ser constituído, não coin- uma descrição produtora de um estado contempla-
cide nunca com esse outro e inalcançável sujeito, tivo onde a brevidade do poema e do instante des-
para sempre detentor de uma alteridade que nele crito e a ausência de convite a uma reflexão deli-
permanece pela sua própria natureza. Esse esta- berada, conduz o leitor a uma forma particular de
tuto de inatingibilidade do Outro é que lhe con- compreensão que encontra fundamento no vazio
fere um carácter a situar-se para além dos limites
do conhecimento.
O desejo de alcançar aquela transcendência de
que fala S. João da Cruz em estrofes plenas de
misticismo: «Não soube nunca onde entrava, / 5
mas eu quando ali me vi, / sem saber onde pa- «Yo no supe dónde entraba, / pero cuando allí me
vi, / sin saber dónde me estaba, / grandes cosas enten-
rava, / grandes coisas entendi (...) E o espírito di (...) Y el espíritu dotado / de un entender no enten-
dotado / de entender não entendendo, / toda a diendo, / toda sciencia trascendiendo» – Coplas echas
ciência transcendendo»5 (1542-1591 / 1990, p. sobre un éxtasis de harta contemplación (1542-1591 /
39). Desejo que consegue, no encontro pessoal 1990, p. 38).

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apriorístico a que esse mesmo estado conduz. Para ***
exemplo um desses poemas que parece reflectir,
na forma e no conteúdo, a particular atitude de À semelhança do que acontece na relação ana-
escuta que suscita e que se aparenta com a atitu- lítica, tendo por metáfora da experiência emocio-
de de despojamento de que atrás falámos: «Os nal esta pequena visita à poesia, focaremos agora
cisnes selvagens não se reflectem intencionalmen- o(s) discurso(s) sobre o Rorschach (pois são – co-
te / a água não forma o propósito de lhes rece- mo veremos – múltiplos, esses discursos).
ber a imagem» (Basho, 1644-1694). A interpretação desses discursos (agora, já –
A imagética suscitada pelos haikus, consegue porque interpretação – momento outro) poderá, a
um poderoso efeito pictórico, que provoca no lei- nosso ver, encontrar semelhanças, nas suas carac-
tor uma espécie de imersão emocional na cena terísticas, ao exercício da interpretação na relação
descrita, onde estão presentes os elementos do analítica.
real externo, de características sensoriais marca- Num primeiro tempo, o discurso produzido pe-
das (as formas da natureza, as cores, os contras- rante o material Rorschach, solicitado pelas evo-
tes), mas que se reveste também de um clima cações fantasmáticas possíveis perante as manchas
afectivo muito especial já que, ao registar como informes, constitui uma recolocação do material
uma fotografia, ela capta as sensações fugazes de interno do sujeito na relação com o clínico, numa
um momento, a intemporal beleza do efémero, ou reorganização que acontece após o caos da disper-
a imensa carga dramática de um pequeno lapso são inicial e retoma a anterior integridade exis-
temporal: conduz o leitor a um estado meditativo tente no self, nesse momento colocada perante a
que lhe permite uma compreensão que transcen- presença do Outro, a equacionar e realçar os mo-
de a palavra (redutora porque veículo), símbolo dos de relação aí expressos e o acesso possível a
de, objecto colocado no lugar de um outro (en- uma identidade.
contrado porque conhecido), para sempre pro- O paciente formula as respostas, solicitado pe-
curando a transcendência, rebelde e insatisfeita. los apelos internos activados pelas características
Escutemos de novo o mais famoso criador de formais e materiais das manchas e das sequên-
haikus, o poeta japonês Matsuo Basho, que faz cias em que elas se apresentam. Formula-as evo-
ressoar uma presença mística nos momentos na- cando afectos convocados transferencialmente pe-
turais que descreve: «A Primavera parte / os pás- rante a relação com o clínico, em direcção a esse
saros choram / os olhos dos peixes estão cheios outro, terceiro elemento, entre ambos e por am-
de lágrimas». Ou: «O vento do Outono / mais bran- bos criado. De acordo com as suas capacidades
co / do que as rochas na montanha gelada», ou de elaboração mental, possibilidades de pensa-
ainda: «De todas as direcções / o vento trás péta- mento ou curto-circuitos das representações men-
las de cerejeira / para dentro do lago» (in Yotsuya, tais sob a forma de elementos do agir, comporta-
Ryu & Fuyuno, Niji, 2002a). Ou as palavras de mentos ou elementos suspensos numa matriz mo-
outro mestre de haikus, Buson Yosa (1716-1783) tora ou sensorial. Naquele trabalho, na fronteira
que aliou as suas qualidades de pintor às de poe- do interno e do externo, movimenta-se dialectica-
ta na construção dos seus poemas, tendo-lhe sido mente o sujeito, entre real e imaginário, reencon-
possível criar uma linguagem luminosa e expres- trando novos espaços de ligação ou deparando-se
siva: «O ar brilha / pálido voo / de um insecto des- com fronteiras intransponíveis.
conhecido». Ou: «Flutua o papagaio de papel / O clínico, por sua vez, acolhe (pela escrita e
até ao lugar no céu / para onde voou ontem». Ou pela escuta atentas e disponíveis) a palavra do
ainda: «Quatro ou cinco homens dançam num cír- paciente, e reencontra aquele texto, aquela ima-
culo / sobre eles / a lua está prestes a tombar» (in gética, consigo e perante si constituída, aquelas
Yotsuya, Ryu & Fuyuno, Niji, 2002b). Uma for- palavras noutro tempo formuladas (a invocar ou-
ma poética que se apresenta, embora não sem vir- tros tempos ainda...) e empresta-lhes a sua voz,
tuosismo estilístico ou propósito expressivo, co- delas fazendo uma leitura viva. Retoma esses di-
mo presentificação simples e breve de um instan- zeres acolhendo-os, no seu saber e nas suas me-
te imagético de contornos fugazes e quase impal- mórias, face à sua experiência vivida na relação
páveis, proporcionando com isso uma forte expe- com o sujeito, e com o seu conhecimento e dese-
riência emocional. jo de conhecimento. Mas também com a sua ca-

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pacidade intuitiva, pois pensamos que de intui- que nelas se possa encontrar presente, perceber
ção se trata aqui também. Porque a compreensão as configurações em que progressivamente se
do texto de um protocolo implicará análise e sín- incluem e organizam todos estes elementos: um
tese, mas a segunda antecederá a primeira. Ante- sem número de componentes da configuração ini-
cedê-la-á como vivência, eco e construção da fala. cial e essencial que organiza, transforma e reor-
O texto recolhido, tendo como fundo o propó- dena.
sito que lhe deu origem (os motivos – clínicos ou E a toda esta classificação é necessário o en-
de investigação – que presidiram à sua recolha; o tendimento prévio que permita categorizar e or-
pedido – latente e/ou manifesto – que o apresen- denar; saber como foi que as respostas se orga-
tou), o contexto em que foi aplicado, a natureza nizaram, em função de quê, sob que aparência ma-
da relação ali criada, o que se conhece acerca da terial, a que conceitos deram origem (ainda que,
história do sujeito e os modos como ela reverbe- sob formas menos prosaicas, aquelas sejam ape-
ra, tanto na história pessoal do clínico quanto na- nas moldadas por outras necessidades/possibili-
quela ali construída, impregna o leitor com as suas dades internas, somente apresentando reacções com-
tonalidades afectivas. A vivência de que se faz portamentais, siderações bloqueantes ou limita-
veículo, constitui capítulo de uma outra história ções imagéticas ou discursivas). Entendimento teo-
emergente, feita de integrações e transformações, ricamente fundamentado que permite compreen-
coadjutora da fala, nela e após ela criada. der os processos mentais ali implicados e a rela-
Aceitar, partilhar e pensar as páginas dessa his- ção que ali teve lugar, abrindo caminho a novos
tória, banhá-la no fermento maturativo que cons- significados enriquecedores.
titui a génese de todas as curiosidades e saberes, Implica porém, e sobretudo, um outro proce-
traz consigo a necessidade de poder acolher, com- dimento de ordem mais impalpável e indefinida
preender, e imaginar, de poder viver entendimen- e que tem a ver com a experiência vivida no e pe-
tos e experiências e de a uns e a outras conseguir rante o discurso sobre o Rorschach. Aquela que
convocar e ligar. acontece quando se está no momento da prova, pe-
E depois de os reportar, recolocar no processo rante a fala do Outro, a acordar memórias, fazer
de comunicação devolvendo-os ao sujeito, na as- ocorrer rêverie, produzir novas falas (falas que a
sumpção de podermos com isso continuar a tal Um e Outro transportam e movimentam). A que
cadeia discursiva que possa permitir a amplifica- sobrevem depois, perante essa memória, feita ago-
ção de algo, em que podemos encontrar semelhan- ra discurso escrito, memória de afectos e momen-
ças com aquilo a que Ogden (1992) referiu como tos. Toma corpo, então, um novo discurso, o da es-
“o sistema que gera o sentido”6 – que acontece crita sobre a escrita (discurso sobre o discurso).
na relação vivida entre a criança e a mãe e con- Não encontramos forma mais fiel e fiável de
duz, através da identificação projectiva, à transi- expor o resultado reportado dessa co-construção,
ção entre a posição esquizo-paranóide e a posi- que aquela que ambos, afectos e saberes nossos,
ção depressiva. nos podem ditar. Podemos assim dizer que tam-
Entender a natureza das respostas formadas bém a escrita sobre o material projectivo produ-
perante o Rorschach implica um procedimento zido perante o Rorschach é, por essência, afectiva.
de natureza técnica e objectiva: averiguar correc- Constituída entre real e imaginário, entre leitura,
tamente a sua localização (configurações percep- reflexão e rêverie, situando-se sobre um espaço
tivas formadas através dos modos de apreensão), transitivo, numa área potencial da esfera do íntimo
as componentes perceptivas ou projectivas que as e espraiando-se e ganhando corpo e alento num
determinaram (cor, esbatimento ou movimento), espaço de trocas e de intersubjectividade.
Aproxima-se a escrita sobre a escrita Rorschach
e a constituição e teor do produto concebido (con-
(material que retoma e acrescenta as produções
teúdo). Implica ainda entender a carga simbólica
originais) produzida pelo clínico (agora sujeito,
de conhecimento – anteriormente objecto, de re-
lação) no encontro com os dizeres do paciente (ago-
ra objecto, de conhecimento – anteriormente su-
jeito, na relação), por um processo de acolhimen-
6
“The meaning generating system”. to num continente (ali parte integrante; informa-

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do pela experiência decorrente do saber e do sa- as onde a palavra escrita perde em competição
ber-fazer), e de cooperação numa experiência (par- com a vida na procura de reportar o que o encon-
tilhada no que ali se produziu e viveu), numa apro- tro com o Outro ai permitiu experimentar.
priação, geradora de novos significados. Há pois que aceitar o mistério da tarefa, captan-
Também aqui, falamos da construção desta fala. do pela escrita o que para nós sentimos na inte-
As palavras, que podem virtualmente abarcar a rioridade, entregando nas mãos do leitor o que lhe
inesgotável multitude dos acontecimentos, acer- pertence por direito próprio, convidando-o a reu-
car-se mesmo de abraçar a irisada gama dos in- nir-se-nos, visitando-nos neste lugar de intersub-
constantes matizes do humano, são potencialmen- jectividade.
te desdobráveis, múltiplas, falas sobrepostas de di- Os trabalhos sobre o Rorschach inspirados pe-
zeres transformáveis que desenham movimentos la teoria psicanalítica têm apontado sentidos di-
de retorno largo, acrescentado. Nelas se consome versos. Acentuando os constructos alicerçados na
o propósito de explicar o mundo, tocado perante herança freudiana com relevo para os que confi-
o acontecer da contemplação. São irmãs do silên- guram a análise tradicional da escola francesa (Rausch
cio na sua natureza de música, parceiro essencial de Traubenberg, Boizou, Chabert, entre outros) ou
para a celebração concertada de afectos e saberes nos que põem a tónica no estudo das relações de
indizíveis. objecto (de onde destacamos os pioneiros Rapa-
É deste universo grande que dispomos e este port e Schafer, colocando em lugar de primeiro
universo somos nós. Ao escrever depomos no pa- plano transferência e contra-transferência).
pel a substância viva da nossa compreensão e do Parece-nos porém que os estudos do Rorschach
nosso espanto. Regressando a uma terra de via- têm mantido, mesmo quando acentuam as dimen-
gens, precedidas que foram estas de outras, par- sões transfero-contratransferenciais envolvidas
tilhadas, sempre, ainda e sempre interiores. Ou- no processo, uma forte incidência no desvela-
tras sonoridades se juntaram ou juntarão a elas, mento como âmago da interpretação. Entende-
são as companheiras, obreiras jovens, filhas dilectas mos pois que: 1) O aprofundamento de uma re-
do sol e da lua, a reencontrarem-se consigo mes- flexão sobre a questão da intersubjectividade po-
mas nesse eirado largo. Essas outras correm o cor- derá concorrer de forma profícua para o desenvol-
po e os olhos dos outros, gentes afinal do mesmo vimento de uma ponderação sobre a interpreta-
chão que somos. ção, discursos sobre discursos, perante o material
No espaço intersticial que medeia aqueles mui- Rorschach, e sobre o papel e as funções da co-cons-
tos lugares de subjectividade ganha terreno um trução matricial aí envolvida; 2) O desenvolvimen-
território novo, de transição, tomado pelas meta- to do estudo da resposta como coisa emergente nesse
morfoses. Aqui, neste lugar onde se constitui o espaço terceiro permitirá uma melhor aproxima-
texto, situa-se também o discurso-sobre-o-discur- ção à questão das relações entre corporalidade, sub-
so-sobre-o-Rorschach (e até onde esta cadeia po- jectividade e situação relacional.
deria ser acrescentada...). Ele tem ao seu dispor E voltando aos discursos sobre os discursos...
as ferramentas do possível. Repercute no leitor (con- «Uma vez [o poema] escrito, – diz-nos Ogden –
tinuação da mesma cadeia discursiva), diapasão perdem importância as questões da autoria e das
que lhe acrescenta cambiantes sensíveis que o vi- intenções (conscientes) do autor, uma vez que o
vificam. leitor é o autor das suas próprias reacções ao que
São assim, a leitura e a escrita, etapas da alqui- foi dito, ou escrito. Tendo o poema sido escrito a sua
mia que é a comunicação. Processos de mutabili- parte foi cumprida, torna-se então o leitor, à me-
dade propagada, jamais os pólos da cadeia discur- dida que o experimenta (e por ele é transforma-
siva, ainda que em vias paralelas, permanecerão do), o criador de significados, o autor de um sen-
idênticos tocados que são por ela. tido próprio para o poema, tentando (por vezes)
Na sua condição incontornável de seres vivos, encontrar palavras com que exprimir o que sen-
descodificadores dinâmicos gradientes, ao contrá- tiu» (1999, p. 207). Necessita pois o leitor de se
rio de receptores passivos, co-construtores por- apropriar do que leu. Assim entendemos o desti-
tanto do discurso (tal como as suas fontes o foram, no da escrita Rorschach, a que é dita pelo paci-
como já vimos, das condições que o fizeram emer- ente e recapitulada, re-escrita pelo clínico: uma
gente) são os leitores que aí reporão as harmoni- necessidade de que a linguagem crie uma relação

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significante e que não esgote o significado, já que dialecticamente como sujeito/objecto de obser-
este pode ser sempre múltiplo e auto-generativo. vação.
Que possa criar uma relação tal como a relação Também aquele mesmo sujeito/objecto do
interpretativa que precisa ser mantida no que diz discurso captado no protocolo, pela própria na-
respeito à metáfora de Freud do “umbigo do so- tureza medianeira de intersubjectividades e de
nho”, que não conduza a um esgotamento da fonte, outras cadeias relacionais mais primevas (senso-
do encontro de sentido. riais e motoras – elementos que se reportam à
Perante a criação de reacções do sujeito, no pro- sensibilidade táctil, térmica, olfactiva, postural...
cesso-resposta Rorschach, reacções que se situam – designações sem substantivação nem adjecti-
no plano do imaginário (por produção imagética vação, subjacentes aos conceitos criados, ou que
e conceptual) incide e organiza-se a leitura e a têm lugar por via da actuação motora, e que in-
interpretação do protocolo, colocando contenção, cluem no processo projectivo a presença de ele-
rêverie e conhecimento num espaço potencial, de mentos de corporalidade) – que é a natureza in-
encontro criativo e de transformação. Uma área trínseca do processo de constituição do discurso
de criatividade onde o pensamento, aí emergen- Rorschach – quando perante o material da prova,
te, alcança expressão na interpretação e co-cons- no momento em que acontece o que se usa desig-
trução de significados, no encontro com aquilo nar por “processo-resposta”, produz o seu dis-
que ali teve lugar. Área onde residem pre-dispo- curso (agora não entendido como um discurso de
sições indefiníveis de objectos em devir. génese unilateral, embora contextualizada, objecto
A sós com o texto do protocolo, ressonância de interpretação, mas sim como produto relacio-
íntima de um macro-cosmos que o excede e o faz nal intersubjectivo) que se metamorfoseia e res-
ressurgir numa visibilidade de sentido, o trabalho surge em novas significações/produções de sen-
tido.
essencial (porque sobre a essência efectuado) si-
No momento de leitura retomada, em que o clí-
tua-se nesse momento, também momento inter-
nico reencontra o texto e se deixa impregnar por
subjectivo, do deixar fluir a interpretação, como
ele, ele permite em si a ordenação de uma ima-
elaboração procedente de uma intuição com sede
gem do outro e de si próprio – representação das
numa espécie de gestalt afectiva paulatinamente
representações de si e da relação, expressão da vi-
substantificada e proveniente da relação existente.
vência nela criada, integração constitutiva de uma
Assim, seria redutor que o primeiro movimen-
geometria corporal e do imaginário, onde se reper-
to sobre o texto de um protocolo procurasse obser- cutem a coesão do self (psíquico e corporal) e a
var uma preocupação com a cotação. Mais enri- constituição do objecto. Por capacidade de reconhe-
quecedor será permitir primeiro a captação da to- cimento da diferenciação pessoal e da alteridade
nalidade geral residente no discurso e que dele se do outro, dá-se um processo de apropriação em-
desprende. Não é também o assento objectivo, ca- pática do discurso do paciente, por exercício da
tegorizável e categorizado, da síntese das cotações, função de rêverie e transformação integrativa dos
reportada no psicograma equacionado ao norma- elementos presentes nas respostas. A dar lugar a
tivo, que deve nortear as formulações subsequen- um novo discurso, que congrega elementos dis-
tes. Muito embora o informe como parte dele inte- persos e cria uma representação do sujeito peran-
grante, o pensamento do clínico na ocasião da in- te as configurações relacionais em que ele se situa.
terpretação prosseguirá aquela captação e acres- É, pois, o Rorschach um espaço privilegiado
cento dos movimentos anteriormente desenvol- de interacções fantasmáticas, produção intersub-
vidos ou enunciados. Vale, pois, dizer que ao de- jectiva e dinamização metafórico-metonímica, bem
senvolver considerações sobre o texto do proto- como de articulação de modalidades defensivas
colo há que atender (...entender) a toda a conjun- perante situações potencialmente desencadeantes
ção processual nele presente: os sujeitos e a sua de maiores ou menores break-downs vivenciais
circunstância, em que se cruzam, repercutem e de- com repercussão interna, fazendo soçobrar os re-
senham personagens, tempos e lugares, sendo cursos defensivos e podendo alterar a natureza
que esses mesmos sujeitos do discurso (discurso do processo projectivo. Possíveis oscilações en-
criado pelo paciente e pelo clínico), numa resul- tre corpo real e corpo imaginário (Sami-Ali, 1977,
tante relacional e epistemológica, se constituem 1987) a patentear situações de impasse relacio-

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nal, abalo elaborativo e questionamento identitá- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
rio, contribuindo para a definição de um estatuto
teórico da projecção, no seu carácter onde, como Alegre, M. (1997). 30 Anos de Poesia. Lisboa: Publica-
demonstra Sami-Ali (1970) no seu estudo sobre ções D. Quixote.
Cortesão, E. L. (1990). Narcisismo e relações de objecto.
a projecção, o psíquico e o corporal se articulam. Os trabalhos de H. Kohut e a investigação das re-
Na leitura do protocolo a sucessão das respos- lações de objecto. Revista Portuguesa de Psicaná-
tas patenteia, a traços largos, a impressão geral lise, 8, 31-42.
dos afectos dominantes, ou a ausência destes; o Kaës, R. (2001). La polyphonie du rêve et ses deux om-
movimento, mais ou menos fluente, de vaivém bilics. Introduction à une recherche sur l’espace oni-
intra-instâncias, ou a lisura de um registo sem fu- rique commun et partagé. Journal de la Psychana-
lyse de l’Enfant, 28, 39-60.
gas nem permeabilidade ao fantasma; formula-
Lévinas, E. (1982). Ethique et infinie. Paris: Fayard.
ções com assento no real externo mas onde está Matos, A. C. (1991). La función analizante. Anuario Ibé-
presente o recurso à fantasia, ou o aplanamento rico de Psicoanálisis, 2, 89-102.
adaptativo sem subjectividade e sem brechas; uma Meltzer, D. (1984). Dream-life. A Re-examination of the
angústia tolerável com manejo defensivo variado Psychoanalytical Theory and Technique. London:
e eficácia criativa, ou uma angústia invasora e Clunie Press.
incomportável, com falência do processo defen- Meltzer, D. (1985). L’objet esthétique. Revue Française
de Psychanalyse, 5, 1385-1387.
sivo, de reportório escasso e insuficiente, com si-
Meltzer, D. (1990). O conflito estético e o seu lugar no pro-
deração e esgotamento. Através destas impres- cesso de desenvolvimento. Revista Portuguesa de
sões, formadas e integradas à medida que a leitu- Psicanálise, 8, 5-29.
ra decorre, tece-se a complexidade do sujeito (da Moore, A. al-H. (1992). Zen Rock Gardening. Philadel-
resposta) e articulam-se as suas capacidades repre- phia: Running Press.
sentativas, expressivas, comunicativas e de cons- Ogden, T. (1992). The matrix of the mind. Object rela-
tituição self-objectal. tions and the psychoanalytical dialog. Londres: Kar-
nac Books.
Procede-se pois como que à construção de um
Ogden, T. (1994). The analytic third: Working with in-
puzzle tridimensional, de valências desdobráveis tersubjective clinical facts. International Journal of
e lógicas complementares e inter-dependentes. Psycho-Analysis, 75, 3-20.
Estabelece-se, aos poucos, segundo um ritmo pró- Ogden, T. (1999). Rêverie and interpretation. Sensing
prio, uma sequência de imagens, comentários, ges- something human. Londres: Karnac Books.
tos e dizeres que vai construindo uma imagética Pereira, M. S. (1986). Poesia e Psicanálise. Um diálogo
pessoal, ao mesmo tempo que uma conceptuali- interminável. Revista Portuguesa de Psicanálise, 4,
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zação própria, que permite formar uma imagem
S. João da Cruz (1542-1591 / 1990). Poesias Comple-
dinâmica do funcionamento do sujeito, perante as tas. Lisboa: Assírio & Alvim.
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fundamentar toda uma relação particular ao ima- chanalytique. Paris: Payot.
ginário e ao subjectivo, bem como à corporalida- Sami-ali, M. (1977). Corps réel. Corps imaginaire. Pour
de e ao banal (Sami-Ali, 1980). une épistémologie psychanalytique. Paris: Dunod.
Construção pela palavra do desafio à inapelá- Sami-ali, M. (1980). Le Banal. Paris: Gallimard.
Sami-ali, M. (1987). Penser le somatique. Imaginaire et
vel fissura que separa o sujeito da posse do objecto
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(destino da alucinação do seio à coisa objectal), Winnicott, D. W. (1945). Le développement affectif
conseguida quando alicerçada na matriz intro- primaire. In D. W. Winnicott (1969), De La pédia-
jectada de uma relação essencial promotora de cres- trie à la psychanalyse (pp. 33-47). Paris: PUF.
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ro da figurabilidade ordenadora perante a cosmo- 10 haikuists and their works – Basho. (Consultado
gonia possível que institui o self, o discurso Rors- em Fevereiro de 2002). http://www.big.or.jp/
~loupe/links/ehisto/ebasho.shtml.
chach congrega e põe à prova, admiravelmente, Yotsuya, R., & Fuyuno, N. (2002b). History of haiku –
as possibilidades lúdicas e criativas do ser na sua 10 haikuists and their works – Buson. (Consultado
grandeza face à finitude, encontrando a pertur- em Fevereiro de 2002). http://www.big.or.jp/
bante caminhada da sua humana condição. ~loupe/links/ehisto/ebuson.shtml.

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RESUMO ABSTRACT

Evocando as similitudes entre a comunicação pre- Evoking similarities between communication pre-
sente no processo projectivo, com o Rorschach, e as sent in the projective process, with the Rorschach, and
características especiais que ela assume no encontro the very special characteristics it assumes within the
analítico, a autora defende a necessidade de um mode- analytical encounter, the author sustains the need of an
lo intersubjectivo que permita ao clínico o tipo de com- intersubjective model that allows the clinician to achieve
preensão necessário para formular a interpretação do the type of comprehension needed to formulate Rors-
Rorschach. chach’s interpretation.
Palavras-chave: Rorschach, intersubjectividade, pro- Key words: Rorschach, intersubjectivity, projective
cesso projectivo, rêverie, espaço potencial. process, rêverie, potential space.

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