You are on page 1of 27

Carlos Doin

Carlos Doin*

O título engloba características de personalidade e comporta-


mento frequentes nos que nasceram por último na série de irmãos. Em-
bora esses traços, em sua maioria, não sejam exclusivos dos caçulas, é
neles que costumam se manifestar com maior nitidez e confluência, de
modo a constituir um quadro mais ou menos típico, sujeito a variações
decorrentes da dinâmica familiar e das disposições individuais. O reco-
nhecimento de tais relativismos previne contra os estereótipos correntes
a respeito dos caçulas. Em cada um deles existe uma mistura peculiar de
características contraditórias, resultantes da interação de diferentes
determinismos, propensões e defesas, aceitação e recusa de papéis fa-
miliares e sociais. Só nesses termos cabe entender a “síndrome do caçu-
la” e tirar bom proveito de sua aplicação na clínica psicanalítica. Entre
os inúmeros componentes da síndrome, sobressaem aqueles relativos
ao narcisismo, à identidade e autoestima, ao desenvolvimento pessoal, à
diversidade de relações e compromissos grupais, às culpas e necessida-
de inconsciente de castigo. O texto inclui citações de autores psicanalí-
ticos e de áreas afins, bem como referências a vários caçulas e suas
famílias, personagens bíblicos, literários, e personalidades dos nossos
tempos, além de alguns analisandos.
Família. Irmãos. Narcisismo.

Tem-me interessado, há bastante tempo, a condição


dos que nascem por último na sequência de irmãos, seus
modos de ser e relacionar-se, conforme aparecem na vida
comum e nos tratamentos psicanalíticos. Creio que nossa
literatura ainda não deu o destaque devido ao conjunto de

1
Este trabalho é uma nova versão do que foi apresentado como tema livre no
XVIII Congresso Brasileiro de Psicanálise, Recife, 2003.
2
Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.
características e inclinações que os caçulas de ambos os sexos tendem a
manter em suas relações pessoais pela vida afora, a partir da posição inicial
que lhes coube na constelação familiar. Já este tema, o da organização das
famílias, tem recebido bastante atenção. Mesmo assim, parece que é mais
frequente privilegiar o relacionamento de cada filho com os pais, deixando
em segundo plano o dos irmãos entre si.
No mesmo contexto, poderíamos descrever uma síndrome do mais
velho ou do intermediário, mas a do caçula me interessou especialmente
por encontrá-la mais amiúde no meu trabalho de analista e de supervisor.

Não cabe aqui uma revisão da complexa dinâmica familiar, dos pa-
péis, muitas vezes de origem transgeracional, que são atribuídos a cada
criança pelos pais, irmãos e demais parentes, de acordo com as necessida-
des daquele grupo singular e de cada membro, com as características indi-
viduais dos componentes, com as circunstâncias da família em torno do
nascimento e criação do caçula, com as disposições somatopsíquicas deste
e inúmeros outros fatores a examinar em cada caso, sem esquecer a
especificidade ímpar da relação analítica em questão.
Existe uma vasta literatura sobre tais assuntos em diversas áreas de
conhecimento, e a psicanálise não constitui exceção. Freud lançou o tema,
em “A Interpretação dos Sonhos” (1900, p. 250):

Consideremos primeiro a relação das crianças com seus irmãos e ir-


mãs. [...] A criança mais velha maltrata a mais nova, fala mal dela e
rouba seus brinquedos, enquanto a mais nova se consome numa raiva
impotente contra a mais velha, inveja-a e teme-a, ou enfrenta a opres-
sora com os primeiros movimentos de amor à liberdade e ao senso de
justiça.

Melanie Klein assinalou, em “A Psicanálise de Crianças” (1949, p.


155-156): “A atitude passiva de Kurt havia sido reforçada pelo fato de que,
durante muitos anos, foi o mais moço dos irmãos. [...] Sofria muito ao ser
Carlos Doin
comparado com seus irmãos mais velhos, ativos, cuja superioridade era
mais opressiva porque a faziam sentir”.
Por outro lado, ela registrou em Sobre o Mundo Adulto e Outros En-
saios (1963, p. 19): “Uma criança maior pode orgulhar-se das realizações
de um irmão ou irmã menor e fazer tudo para ajudar”.
Eizirik et al. (2001) oferecem uma súmula da dinâmica familiar e seus
desdobramentos.
Na literatura especializada há quase unanimidade quanto à importân-
cia da ordem dos nascimentos, variando, porém, os quadros descritos.
Sulloway (1996) verificou que os nascidos no fim da série têm uma ten-
dência maior a se tornar criativos, rebeldes, a correr riscos. Parecem empe-
nhados em conquistar a atenção dos pais, cujos esforços e expectativas em
geral se polarizam na criação dos mais velhos.
Stewart (1991) constatou, em um grupo numeroso de celebridades do
mundo da política, das ciências e das artes, que existe uma relação entre o
tipo de papel assumido na vida adulta e a posição que a pessoa teve na
sequência dos irmãos. Em casos de colapso institucional, guerra, invasão
do território nacional, os primogênitos tendiam a ser mais conservadores.
Já os caçulas ou os últimos de um determinado sexo se mostravam mais
propensos a reagir, liderar movimentos revolucionários, defender os fracos
e oprimidos. Alguns vanguardeiros históricos eram caçulas, como Descar-
tes, Bolívar, Gandhi e talvez Moisés.

Conforme a descrevo, a síndrome se refere a um conjunto de traços de


personalidade e funcionamento que se encontra com grande frequência nos
caçulas, destacando-se os relativos ao narcisismo, à identidade e à
autoestima, ao modo de desenvolvimento pessoal e de relacionamento
interpessoal, de aceitação e recusa dos papéis familiares, às culpas e ao
masoquismo culposo. Dadas as enormes variações das características
somatopsíquicas e relacionais do indivíduo e da família, a síndrome não
pode obedecer a um padrão único, uniforme. Ela costuma ser mais
marcante em proles numerosas.
É necessário, portanto, bastante cuidado para se evitarem generaliza-
ções e reducionismos descabidos, como são os clichês correntes: todos os
caçulas são estragados por mimos, privilégios e superproteção; continuam
sendo o bebê, o mascote, o palhacinho, a alegria da família; são sempre
carinhosos, engraçadinhos, de bem com todos, muito populares, originais
e criativos. Ou, pelo contrário, são todos egoístas, antipáticos, arrogantes e
antissociais, não conseguem criar nada que preste. Leman (1985) também
alude a esses tipos polares, que raramente configuram pessoas reais.
Na maioria dos caçulas se encontram mescladas características extre-
mamente contraditórias, desenvolvidas nas reviravoltas da criação. É o que
acontece, por exemplo, com crianças negligenciadas nos primeiros meses
de vida e que depois passaram a ser tratadas adequadamente, ou até
superprotegidas e mimadas por causa do despreparo, ambivalência e culpa
dos pais.
Diversas dessas características não podem ser rotuladas, de jeito ne-
nhum, como exclusivas dos caçulas, mas são incluídas na síndrome devido
à frequência com que neles aparecem. A imaturidade, que muitos pensam
seja típica do caçula, a aversão ao crescimento – a figura de Peter Pan ou
Sereiazinha – marcam, muitas vezes, algum outro filho, principalmente
aquele que se supunha seria o último.
Contudo, tenho para mim que, sobre todas essas ressalvas predomina
largamente o valor teórico-técnico de um estudo destacado das caracterís-
ticas dos caçulas – opinião que é compartilhada por diversos colegas e
procurarei demonstrar com vários exemplos clínicos.
Há semelhanças entre o que costuma suceder com os filhos únicos e
os derradeiros, como a fantasia de ter esterilizado os pais. Mas também se
encontram diferenças: as injunções narcísicas e edípicas parecem atingir
mais intensamente os unigênitos. Também estes, quando criados sem a pre-
sença significativa de um dos pais, tendem a ficar excessivamente apega-
Carlos Doin
dos ao remanescente, por vezes também muito imaturo, simbiótico e sedu-
tor.
Em muitas famílias numerosas, o caçula se apega a uma irmã ou ir-
mão mais velho, igualmente simbiótico, incestuoso e pedofílico.
De maneira geral, pode-se dizer que o caçula oscila entre as vantagens
e desvantagens de cada ponta do dilema – crescer ou não crescer – conser-
vando por algum ou muito tempo a pretensão limítrofe de crescer e não
crescer, na tentativa de ganhar dos dois lados. Não se perca de vista, espe-
cialmente nesses casos, a indecisão de inúmeras famílias entre alimentar a
dependência e fomentar a emancipação dos seus jovens.
São complexas as expressões de ambivalência de um caçula, como
prazer e ressentimento por ser tratado com tolerância e condescendência,
por ser poupado ou, ao contrário, estimulado a crescer, a assumir responsa-
bilidades e direitos, conforme seja considerado diferente ou igual aos ir-
mãos. Alguns propendem à submissão e ao apagamento, outros à rebelião
e autonomia.
Os percalços relativos à inserção na temporalidade e nas realidades
da vida adulta costumam sobressair-se nos que chegaram por último. É
como se entrassem tarde num mundo já feito, ora se sentindo muito moços,
ora muito mais velhos, por identificação com os irmãos, ora acreditando
dispor de um tempo imenso pela frente, ora sem tempo nenhum. Vacilam
entre crescer depressa, correr “na ponta dos pés” para acompanhar os ou-
tros, ou não virar adulto para não envelhecer e morrer. Ou se consolam
com a crença de que só hão de acabar seus dias depois de todos os outros,
e se consideram roubados quando morre alguém de pouca idade. Fantasias
de eterna juventude, atemporalidade, imortalidade em geral se tornam mais
fortes em todos os que sofreram (não só nos caçulas) intensas vivências de
morte por sofrimento perinatal, falhas acentuadas da maternagem (mães
rejeitadoras, deprimidas), doenças e traumas graves, acidentes quase fa-
tais, coma e anestesias prolongadas, ou seja, nos que “viram a morte de
perto”.
A hesitação entre crescer e perder as vantagens da infância e juventu-
de, e, por outro lado, as pressões e o desejo de ir adiante, dependem das
experiências individuais, do que cada um observou na vida dos pais, ir-
mãos e conhecidos, de como avalia os encargos e prazeres da vida adulta.
Alguns desanimam diante dos sofrimentos que imaginam à sua espera, in-
clusive por conta dos sacrifícios que têm causado aos pais, já pelo fato de
terem nascido e lhes imposto os ônus de sua criação (LOTTERMAN, 2003).
Ou então se supõem incompetentes para satisfazer as expectativas, própri-
as e alheias, sobre o que deverão fazer “quando forem grandes”; não raro
pressentem as decepções que os aguardam. Outros permanecem prisionei-
ros do medo pelos abusos que cometerão na plenitude dos seus poderes,
tidos como enormes, perigosos, incontroláveis, vingativos, revanchistas, e
não se liberam para crescer.
A necessidade de idealizar os mais velhos, dos quais dependem, de
negar os defeitos deles e de exaltar suas qualidades vai se complicando em
inúmeros caçulas com o medo de arrasá-los por meio de críticas justas e
bem fundamentadas. Ainda mais se elas forem postas a serviço do ressen-
timento pela dependência e submissão humilhante, pelas agressões e frus-
trações sofridas, pelas injustiças de que se consideram vítimas: “Eu só ga-
nhava as sobras, o camarão era feito para o papai, a roupa e os livros eram
os que já tinham sido usados pelos meus irmãos...”.
A inibição do crescimento ou a liberação do mais novo também pode
ser motivada pela ambivalência que este percebe e/ou projeta nos maiores.
Muitos caçulas, principalmente moças, se sentem na obrigação de se sacri-
ficar pelos pais, de continuar em casa para cuidar deles – praxe tradicional
em diversas culturas. Ou se culpam por encerrar a carreira deles como
criadores de jovens dependentes, supondo que vão determinar sua morte
ou, quando menos, condená-los à depressão, à “síndrome do ninho vazio”.
Não poucos têm angústias persecutórias e culposas por estarem contrari-
ando os irmãos, desbancando-os de suas posições de supremacia.
Em diversos caçulas, a criatividade e a originalidade podem ser cerce-
adas pela família: “Seus irmãos já fizeram tudo isso, todos esses desenhos.
Carlos Doin
Fulano fazia melhor”. Mesmo quando seus trabalhos recebem elogios,
soam condescendentes, sem denotar a real admiração que desperta algo
inédito, com valor próprio. À semelhança de todo mundo, os caçulas têm
necessidade, talvez até maior, de se sentirem reconhecidos como existen-
tes, amados e valorizados pelo que são individualmente. É comum o derra-
deiro cultivar algum traço idiossincrásico próprio que o distinga dos ou-
tros, uma marca singular, boa ou ruim, visando ser único ou campeão em
alguma categoria. Paradoxalmente, acaba às vezes assumindo um papel
grupal imposto inconscientemente, como o do transgressor que realiza de-
sejos latentes de uma família superconservadora.
De fato, costuma ser mais acentuada nos caçulas a problemática
narcísica em torno da aquisição de uma identidade própria bastante inte-
grada e segura, do senso de vitalidade e de autoestima em grau razoável, de
uma relativa independência de existir, de tomar iniciativas e agir. Ao lado
da luta por tais conquistas, não é excepcional ver-se a aparente renúncia a
esses valores, depois de um acúmulo de desestímulos, decepções e tentati-
vas fracassadas.
Mais que todos, alguns caçulas em formação psicanalítica costumam
se queixar de que os analistas dão sempre mais importância e razão aos
outros, de que deixam os estudantes excluídos das discussões dos “gran-
des”, de que nas reuniões científicas os candidatos só têm a palavra no fim.
Certamente, com alguma dose de verdade familiar ou institucional para
tais queixas, os caçulas são particularmente sensíveis a essas preterições e
procuram consolar-se com a ideia de que sua vez há de vir, quando forem
os “grandes” dos futuros candidatos.
Se muitos caçulas se conservam imaturos por conluio familiar, tam-
bém não são poucos os que se queixam de terem sido forçados a crescer
depressa, a acompanhar os outros e liberar logo os pais, não tendo vivido
por tempo suficiente uma dependência satisfatória – precondição (ou se
pode falar em direito natural da criança?) indispensável ao amadurecimen-
to normal. Nessas circunstâncias se formam estruturas de falso-self, de
adultização artificial, precoce e precária (WINNICOTT, 1976).
Enquanto espera, o caçula pode ir imaginando o futuro maravilhoso
que acredita estar-lhe reservado, garantido para quando quiser. Terá, pois,
tudo o que os outros tiveram e muito mais; já que todas as chances irão se
repetir – nada se perde, tudo é reversível, e as condições da família vão
melhorar em seu proveito. Não tem pressa, tudo o que é seu virá às suas
mãos. Ou só se dará por crescido quando tiver assegurada a vida feliz,
perfeita. É claro que as fantasias grandiosas zombam da realidade e não
anulam os medos de base, e tendem mesmo a perdurar em função deles.
São bastante mais dramáticos os sofrimentos de quem foi caçula
temporão e não desejado, tendo nascido de uma mãe sem mais saúde ou
disposição para a maternagem primária, de pais cansados demais para edu-
car um filho fora do programa, para prepará-lo durante décadas para a vida
prática, mesmo que tenham sido bem-sucedidos com os outros.
Bem pior é a situação dos filhos mal recebidos que percebem, anos a
fio, a rejeição e a má vontade dos pais – quando não são informados clara-
mente da sua condição de indesejados: “Sua mãe (ou “seu pai”) queria
mandar abortar, eu é que não deixei”. Fica nesses, mais do que em outros,
o estigma do “estranho no ninho”, do que não pertence nem faz parte, do
que não tem direitos, do que precisa ser bonzinho ou invisível, do que
acredita estar no corredor da morte tentando adiar o abortamento pendente,
a execução da pena capital, trocando-a por uma existência infeliz, mortifi-
cada, uma vida pela metade.
Não é demais repetir: os elementos da síndrome do caçula aparecem
em graus diversos, ou estão parcialmente ausentes, dependendo do caso,
da história familiar e das experiências de cada um, seja no sentido da acen-
tuação das vantagens, seja no das inconveniências da condição. Os compo-
nentes aparecem geralmente mesclados, oscilando entre um extremo e ou-
tro, pelo direito ou pelo avesso, expressos diretamente ou invertidos em
formações reativas, ou negados. Creio que só como hipótese-limite pode-
mos pensar em um caçula que não apresente nenhum dos traços da
síndrome.
De área vizinha nos vem um dado interessante sobre determinado gru-
Carlos Doin
po de caçulas. Bledin e Walder (1985) observaram que algumas multíparas,
esterilizadas após o parto, apressavam o último filho para o uso da comuni-
cação verbal. Acredito que a precocidade de alguns caçulas, inclusive
quanto à aquisição da linguagem, se deva em parte a motivos maternos,
mas outros fatores precisam ser lembrados, em cada caso, como as dispo-
sições constitucionais da própria criança e os estímulos advindos de outros
familiares, ainda que seja quando se negam a lhe fazer demasiadas conces-
sões.
Nos tópicos seguintes veremos diversas manifestações da síndrome
do caçula em personagens bíblicos e literários, bem como em pessoas dos
nossos tempos.

A complexidade das relações familiares se estampa em documentos


de todas as culturas, em textos sagrados e profanos, históricos e ficcionais.
Caim mata Abel por não suportar a preferência que o Senhor deu às
oferendas do caçula.
Tempos depois, Esaú, quase morto de fome, vende a seu irmão gê-
meo, Jacó, por um guisado de lentilhas, o direito de primogenitura. Na
geração seguinte, Jacó se vê no meio das tramas e disputas dos filhos, so-
frendo especialmente pelos bem-amados José e Benjamim, frutos do casa-
mento com Raquel, a mulher eleita e conquistada a duras penas. O nome
do último, Benjamim, se tornou sinônimo de caçula em várias línguas,
inclusive na nossa. Ao recontar essas vidas, Thomas Mann (1978) delineou
com mestria o drama de Benjamim, cujo nascimento acarretara a morte da
mãe, esvaída em sangue. Desde que entendeu o acontecido, o menino pas-
sou a viver acabrunhado pela condenação de assassinato que se fazia e
julgava confirmada por Jacó e por José. No entanto, este irmão é quem
teve para com ele cuidados e carinhos de mãe e de pai, muito mais disponí-
vel como fonte do amor indispensável do que o próprio pai, velho e cansa-
do de desgraças. Benjamim acompanhou José em múltiplos lances de uma
vida cheia de peripécias, enfrentando ambos as animosidades dos meio-
irmãos, dentre os muitos que Jacó pôs no mundo com diferentes mulheres.
Shakespeare esmiuçou em “O Rei Lear” as desditas da caçula
Cordélia, caída em desgraça junto ao pai por não lhe ter declarado seu
amor com bastante efusão, enquanto as duas mais velhas se desmancha-
vam em agrados. Depois de muito sofrerem, pai e filha acabaram se reen-
contrando graças à força de suas afeições verdadeiras. Embarcando no re-
alismo dos retratos que o Bardo traçou, fico tentado a imaginar o que teria
feito Cordélia se apresentar tão desajeitada, até mesmo rude, no torneio
com as irmãs. Protesto contra a bajulação hipócrita e interesseira das duas?
Reação típica de jovem ao jogo imposto pela autoridade? Ou a tentativa de
disfarçar sua paixão de forte colorido incestuoso, que afinal entremostrou,
quando admitiu não ter se casado para não dividir o amor que dedicava ao
pai? Uma caçula real não teria ficado menos atrapalhada.
Em Psychoanalytic Studies of Biography (MORAITIS; POLLOCK,
1987), encontramos diversos subsídios ao estudo dos papéis familiares e
da síndrome do caçula, como nos capítulos referentes ao poeta Thomas
Stearns Eliot e a Alice James, irmã do filósofo e psicólogo William James
e do escritor Henry James, todos nascidos nos Estados Unidos em fins do
século l9.
T. S. Eliot é autor de The Waste Land (A Terra Devastada), talvez o
poema mais famoso da língua inglesa no século passado. Os pais já tinham
quarenta e três anos quando Thomas nasceu, caçula inesperado
(indesejado?) de sete crianças, dois anos depois da morte da que deveria
ter sido a última, uma menina. Absorvidos por suas atividades fora de casa,
os pais o deixaram nas mãos dos empregados. Cresceu com pouca saúde,
retraído, solitário, como um estranho diante dos próprios irmãos, nunca à
vontade com os de sua geração, principalmente com as meninas.

Sentia-se isolado e desconfortável em sua masculinidade mal resolvi-


da. Embora tendo se mudado para a Inglaterra ainda jovem, tentando
separar-se dos vínculos familiares, continuou ansiando por protetores
externos. É provável que durante os períodos de isolamento regressivo
Carlos Doin
tenham se ativado interesses homossexuais inaceitáveis [...], a que re-
agia em pânico, [...] transformado-os em sublimações estéticas e refi-
namentos de dândi. (MORAITIS; POLLOCK, 1987, p. 202).

The Waste Land “[...] foi escrito após uma série de crises pessoais
(fracasso sexual, morte do pai, abandono pela mãe), que desembocaram
em depressão e num breve período de psicoterapia” (p. 216-217). Repudi-
ava a insinuação de que o poema se inspirara na perda de um amigo íntimo
muito especial, morto na guerra. Apesar dos esforços para melhorar, vivia
exausto, indeciso, hipocondríaco, apavorado com a loucura. Fez um casa-
mento desastrado com uma psicótica, que o traiu com vários homens, in-
clusive com Bertrand Russell, o famoso filósofo e político, seu protetor,
em casa de quem o casal morou por algum tempo.
Ao nascer na família James, Alice juntou contra si duas desvantagens:
caçula e única menina, depois de quatro rapazes. Todos já pareciam satis-
feitos com a constelação estabelecida antes do seu aparecimento (ou intro-
missão?); não pôde contar com a mãe. Os homens a tratavam como uma
bonequinha, mimada, porém inferior, não levada a sério, nem por Henry,
tão sensível à condição feminina em seus romances. William tinha em re-
lação a ela condutas e declarações de teor francamente incestuoso.
Sem ninguém que a valorizasse pelo que se creditava de positivo, vi-
via reclusa em casa a maior parte do tempo, em atividades limitadas. Repe-
liu todos os pretendentes. Fraca e instável, tida como histérica e inválida
profissional, forçava as pessoas a se ocuparem com ela por meio de crises
nervosas espetaculares.
Bem perto da morte, em 1891, escreveu a William: “Quando eu tiver
partido, te suplico: não penses em mim apenas como uma criatura que
poderia ter sido outra coisa, se já tivesse nascido a ciência neurótica” – que
já estava a caminho.
Na Analise do Self, Kohut (1971) refere-se a uma paciente narcísica
cujo único irmão, três anos mais velho, roubava sempre a atenção que os
pais iam dar a ela, ao que ela dizia ou fazia cheia de orgulho.
Hendrika Halberstadt-Freud (1998, p. 45) assim se pronunciou a res-
peito de uma conhecida nossa:

Anna, a caçula mal recebida da família Freud, sentiu-se negligenciada


pela mãe e desapontou-se com ela. Tornou-se então muito apegada ao
pai, a quem idolatrava, como Electra, sem ter chegado a fazer uma
escolha heterossexual de objeto [...]. Anna compartilhou sua vida com
uma mulher; tinha uma fascinação constante pelas mães e pela mater-
nidade, embora adotando sempre o ponto de vista da criança, não con-
siderando nunca as necessidades da mãe (tanto Freud quanto Anna não
levaram bastante em conta a depressão pós-parto de Martha).

Gay (1988) registrou a relação multifacetada entre o pai e a filha, a


mútua dependência e devoção (por exemplo, p. 428-443), bem como o
complexo envolvimento de Anna com Dorothy Burlingham e seus filhos
(p. 540-541).
É de supor que tenha ocorrido na família Freud uma conjuntura bas-
tante comum, especialmente com caçulas: quando a mãe falha na função
primária, a menina ou menino vai encontrar maternagem em uma outra
pessoa da casa, frequentemente no próprio pai, identificando-se com ele e/
ou complicando-se no Édipo.

Apresento, a seguir, alguns quadros que observei de perto em trata-


mentos psicanalíticos de caçulas. Para proteger o anonimato dos envolvi-
dos, usei os recursos habituais de editoração (GABBARD, 2000), elimi-
nando dados dispensáveis, camuflando outros. Por lidar com material de
profissionais do nosso meio, optei por empregar as expressões analista,
terapeuta de modo genérico, englobando a minha pessoa e a de
supervisionandas e supervisionandos.
Reconheço que, dessa maneira, priorizando o sigilo, deixei de lado
uma informação crucial em certos casos, sobretudo quando a problemática
sexual é especialmente relevante. O amor de transferência, mais ainda o
Carlos Doin
homossexual, continua sendo um desafio contratransferencial, cem anos
depois dos apuros de Breuer e Freud.
Não menos perturbadora é a convocação regressiva feita ao analista
(principalmente homem) para que acolha, em termos psicanalíticos ade-
quados, a demanda transferencial de maternagem primária, no bojo do
psiquismo primitivo e das vivências ditas psicóticas. É aí que o analista e a
analista têm a sua razoável e indispensável normalidade verdadeiramente
testada.

5.1 Ernst
Caçula de um casal de estrangeiros, com quatro crianças. A mais ve-
lha e única menina não sobreviveu a um acidente doméstico ainda bem
pequena. Quando Ernst tinha sete anos e pouco, seu pai, muito moço, mor-
reu de infarto. A mãe criou os três rapazes com imenso trabalho e uma vida
bastante austera e sacrificada, sempre meio deprimida, preocupada em vi-
ver, ao menos, até o menor se tornar adulto, já que não tinham parentes no
Brasil e conservavam poucos laços com os que deixaram no exterior. Ernst,
agora com dezenove anos, era deprimido e acossado por fantasias culposas
que limitavam seu desenvolvimento pessoal, profissional e afetivo.
Considerava-se responsável pelo encerramento da carreira
reprodutiva dos pais – “Fechei a fábrica” –, impedindo o nascimento de
uma segunda menina que substituísse a morta. Outras vezes, se sentia obri-
gado a preencher a falta da irmã, o que reforçava suas vivências homosse-
xuais e femininas. Julgava haver causado a morte do pai e que seu cresci-
mento acabaria com a mãe, demitindo-a da função de criar meninos, sua
razão de viver. Permanecer criança, a seu modo, também implicava não
deixar inteiramente para trás a idade que tinha quando o pai morreu para
não admitir como definitiva a morte dele. Evitava avançar no tratamento e
aproximar-se da alta, o que causaria a demissão-morte do analista.
Achava o terapeuta muito sério, trajado de modo por demais conser-
vador, à semelhança da mãe. Sonhou que o via bem informal, de sandália e
bermuda, e fez uma interpretação: “A verdade só é dita quando a pessoa
está à vontade”. Comentou, então, que só naquele momento tinha percebi-
do o resfriado do analista, talvez por medo de vê-lo deprimido, esgotado
pelas preocupações, com alguma doença grave. E, logo depois, contou que
se irritara com o sobrinho pequeno, que não aprendia a respeitá-lo. O ana-
lista interpretou que o paciente o comparava à sua mãe, firme no trabalho,
mas não suportando que lhe apontassem falhas, relutante em reconhecer
quando estava cansada ou doente. Ernst acrescentou que receava estar sa-
crificando demais a mãe e que temia perdê-la, pois já não tinha pai. A
correlação transferencial ficou evidente.
Disse, então, que o chefe da mãe resolvera liberar-se de algumas tare-
fas, delegando-as a ela. Lembrou-se, em seguida, de mais um sonho: acha
que um homem quer assaltá-lo, mas, olhando bem, reconhece nele um
amigo. Trocam sorrisos. O analista lhe deu a seguinte interpretação: “Pen-
so que você mostra que não há assalto, que eu lhe passo maiores poderes
sobre a sua e nossa análise, sem desrespeito ou prejuízo para mim, até com
agrado, que você também pode interpretar os sonhos”. O rendimento da
análise foi bastante bom.

5.2 Pedro
Caçula temporão, com vários irmãos e irmãs. Embora estivesse che-
gando aos vinte anos, conservava traços muito infantis, para delícia de
quase todos os familiares. Falava errado em casa. Na faculdade de Direito,
apresentava-se mais despreparado e ingênuo do que era. Tinha medo de
crescer e contrariar os familiares, inclusive fazendo críticas muito acerta-
das sobre os erros deles. Preferia não ter razão e desistir de um argumento
que sentia válido, com medo de usá-lo de modo agressivo, por causa dos
ressentimentos acumulados contra os que o tratavam como criança boba,
embora também colaborasse para isso.
Estava acostumado a se omitir, deixando os problemas para os “gran-
des”. Por livre iniciativa, vendeu os móveis velhos da casa de campo da
família, mas entrou em confusão na hora de comprar outros. Quis passar a
incumbência para um irmão, que lhe disse o que naquele momento queria
Carlos Doin
e não queria ouvir: “Você já está bem grandinho, leve adiante o que come-
çou”.
Mostrava muita pressa em concordar com as interpretações do analis-
ta antes de ter insights verdadeiros, pretendendo agradar, mas também fu-
gir das pechas de “retardado e ignorante”, que lhe atiravam em casa. Ma-
goava-se ao achar que o analista perdia a paciência com sua “burrice”. Por
outro lado, pedia-lhe conselhos a torto e a direito. Certa vez, quando o
analista lhe disse que poderia solucionar por conta própria um pequeno
problema, Pedro voltou a falar como criança, atrapalhando-se com as pala-
vras.
Na sessão seguinte, comunicou que não conseguira resolver o proble-
ma, cometendo erros que pareciam exageradamente grosseiros, talvez para
provar a sua incapacidade e acusar o analista.
Também se rendia depressa aos argumentos da primeira e única na-
morada, temendo perdê-la. Mas favorecia a posição dela de uma maneira
tão tendenciosa que ela não se convencia de sua sinceridade. Essa entrega
acintosa servia para mostrar que ele estava fazendo um jogo, uma zomba-
ria, que não era tão bobo nem tão submisso. Examinando a repetição dos
esquemas, a mistura de tendências opostas e respectivas defesas em seus
diversos relacionamentos, especialmente na transferência, foi possível
abrir caminho para o seu desejo de crescimento.

5.3 Cristina
Última de uma série grande de irmãos e irmãs. A mãe estava bem
perto da menopausa e não contava ter outra criança. Gravidez e parto fo-
ram tumultuados. Cristina vivia sempre insegura, como se não tivesse nas-
cido completa, bem-feita, não possuísse um lugar garantido na família e no
mundo. Suas angústias se acentuavam com as brincadeiras, muitas vezes
sádicas, que ouvia desde pequena: “sobra de massa, raspa do tacho”, “Você
só ficou porque a cegonha não aceitou te levar de volta”. Esse sentimento
de ser diferente para pior se acompanhava de outro, o de não ter sido vista
como diferente no bom sentido, como uma pessoa original. Parece que o
cansaço da mãe e a experiência com muitos filhos não lhe permitiram aco-
lher uma criatura nova, o que talvez se denotasse nas frases habituais:
“Criança é tudo igual, para quem já criou tantos, não tem mais novidade”,
“Quando você nasceu, não precisamos comprar nada, já tinha de tudo aos
montes”.
Buscando impor-se individualmente, ter traços e opiniões próprias,
tornava-se extremamente crítica em relação aos “dogmas dos donos da
verdade”, às ideias políticas do pai e dos irmãos, às beatices da mãe, às
interpretações do analista. Em casa, era a única torcedora de determinado
time de futebol, dos menos populares, e de uma escola de samba quase
desconhecida, com os quais se identificava, tomando aguerridamente sua
defesa. Em outros momentos, se mostrava bastante dócil, carente de uma
dependência confiante, o que se comprovava pelos esquecimentos, no divã
do analista, de óculos, livros, documentos e do seu diário íntimo.
Num equivalente transferencial, reclamava: “Vocês, analistas, querem
encaixar a gente nas suas teorias, parece que já sabem tudo!”. Ficava extre-
mamente injuriada quando o analista não entendia direito alguma de suas
frases, errava ao designar um dos seus sentimentos, esquecia-se de algum
detalhe do que ela dissera, ou confundia o nome dos irmãos e amigos.
Obteve ótimos resultados numa análise que durou longos anos.

5.4 José Antônio


Nasceu do último arranco de vida da mãe, deprimida crônica, que o
amamentou por três meses, vindo logo a morrer, acidentada na direção do
automóvel. Foi criado pela antiga empregada e pelo pai, até que este se
casou com a amante de muitos anos. José Antônio se desenvolveu razoa-
velmente bem, trabalhando na empresa da família. Casou-se e tornou-se
pai de um menino. Procurou análise por causa da “sem-gracice” da vida e
do casamento. Usava duas saídas para esse “tédio”. A primeira, a grande
camaradagem que tinha com um amigo, desde a adolescência. Encontra-
vam-se quase diariamente por trabalharem e morarem perto e suas esposas
serem grandes amigas. Conversavam com toda a intimidade e apoiavam-
Carlos Doin
se mutuamente, chegando a trocar alguns afagos, “nada demais”. Esse re-
lacionamento, que chamava de “amor platônico”, parecia satisfazer a am-
bos, “sem problema”. O que o incomodava conscientemente era o segundo
tipo de escape, a necessidade compulsiva de “fazer sexo virtual” com rapa-
zes pela Internet, todas as noites, até conseguir dormir. Os resultados do
tratamento foram bastante modestos, principalmente por causa do
primitivismo dos traumas, da tenacidade e eficácia das defesas e, não me-
nos, das resistências transferenciais e contratransferenciais à reedição dos
problemas na relação.

5.5 Tadeu
Tinha um único irmão, cinco ou seis anos mais velho. Sempre perdido
entre submeter-se ou revoltar-se contra um mundo pronto, sentia-se humi-
lhado por querer acompanhar o desenvolvimento do irmão, sem se dar bas-
tante conta da diferença de idade. De outra parte, já tendo vinte e dois anos,
a sua vivência de tempo, a noção de prazos ainda era bastante confusa.
Oscilava entre chegar muito atrasado ou adiantado para os encontros, entre
afobar-se ou relaxar na realização das tarefas. Começou a treinar cedo para
o exame vestibular, entrou com a idade mínima na faculdade em que o
irmão estudava, mas custou a vencer os primeiros anos. Tanto reclamava
da duração longa da análise quanto se tranquilizava com a ideia de que os
tratamentos são mesmo demorados. Fazia esforços concentrados numa
sequência de sessões e depois desaparecia por uma semana ou mais.
Vacilava entre o desejo de suplantar o pai e o irmão em termos profis-
sionais, e a suposta obrigação de ficar sempre atrás deles. O mesmo verifi-
cava-se na relação analítica.
Às vezes se queixava de que o analista dizia as coisas muito devagar,
como se Tadeu fosse um idiota e não pudesse acompanhar seu raciocínio.
Outras vezes o acusava de precipitar-se nas interpretações, não respeitan-
do seu tempo de entendimento. Achava que o analista podia estar impaci-
ente com sua demora, talvez o considerasse “lerdo” e tivesse pressa de se
livrar dele, à semelhança dos familiares. Até a namorada o pressionava,
queria que se excitasse rapidamente na cama. Com isso, ele sentia-se mais
à vontade com uma prostituta que lhe dedicava todo o tempo que quisesse.
No momento do registro do material, o tratamento prosseguia com boas
perspectivas.

5.6 Ester
Filha caçula de um ministro religioso muito severo, tinha mãe e ir-
mãos submissos ao que lhes era passado como a vontade de Deus, a lei, a
ordem natural das coisas, e que incluía obediência aos mais velhos, ao pai,
à mãe, aos irmãos, numa sequência hierárquica rígida em que Ester ficava
sempre por último. Debateu-se, desde cedo, entre acatar o código ou rebe-
lar-se abertamente contra ele, sempre com medo do castigo humano e divi-
no, de perder o amor e o lugar entre os “bons”.
Às vezes, tentava assumir o posto mais alto da escala, criticando
ferinamente os “pecados” do pai, a contradição entre seus sermões e o
comportamento em casa. Fiava-se na “ordem natural das coisas” para se
dispensar de ter pressa, já que viveria muito, ainda teria bastante tempo
para fazer o que quisesse, iria enterrar todos. Mas entrava em perplexidade
e revolta quando a suposta ordem era contrariada pela morte de algum
jovem.
O pai mostrava um xodó pela caçulinha (“minha herege”), o que fazia
Ester desejar a quebra de uma outra ordem, fantasiando inconscientemente
namorar o pai. Tinha, na verdade, um namoro distante com um colega dele.
Mas continuava solteira e virgem, aos vinte e tantos anos. O amor de trans-
ferência não chegou a configurar-se bastante. As vantagens de permanecer
a filhinha querida na casa dos pais se opunham à análise, que já começara
sem muita convicção (“porque todo mundo está fazendo”), como se a
ambivalência e a irresolução também pertencessem à “ordem natural das
coisas”, em relação aos caçulas. O tratamento não foi longe.

5.7 Ana Teresa


Caçula de três irmãos e irmãs, nasceu durante uma crise depressiva da
mãe, cronicamente frágil e carente de proteção. Ana Teresa (detestava ser
Carlos Doin
chamada por diminutivos e apelidos) fez sempre questão de demonstrar
que não precisava dela nem de ninguém, ou só o mínimo indispensável.
Competia intensamente com os familiares, chegando a revelar-se mais ca-
paz do que eles em algumas áreas. Procurava não depender do analista,
contestava com veemência suas interpretações, zombava delas, ou as
intelectualizava e, quando afinal parecia aceitar alguma, procurava reduzir
seu valor e necessidade, alegando que não trazia nada de novo, que o as-
sunto focalizado já não tinha a importância que o analista lhe emprestava.
Por outro lado, enchia-se de cuidados quase maternais para com o analista,
preocupava-se com a saúde dele, sua alimentação, dava-lhe conselhos em
várias questões. Em suma, procurava negar sua dependência ou inverter a
direção dela, zelando pelo analista como fazia com os pais e irmãos, na
tentativa de encobrir suas próprias necessidades.
No início da análise, mostrou que seu desempenho na faculdade era
bom e que só não se expandia por causa de uma das opiniões que mantinha
sobre si mesma: considerava-se uma pré-adulta, uma estudante precoce
que ainda não estava jogando para valer, não tinha que dar o seu melhor
porque, para a idade que subjetivamente se atribuía, já estava indo muito
bem, até demais. Ficou por isso espantada quando uma coordenadora lhe
disse que o seu rendimento era bastante satisfatório, mas que ela se impe-
dia de produzir mais, de acordo com suas excelentes habilitações. Lem-
brou-se, então, em análise, da dificuldade que tivera na pré-adolescência,
quando o treinador de tênis lhe propôs passar para um grupo mais adianta-
do. Tentou esquivar-se com medo do fracasso, mas acabou aceitando. Teve
êxito, com esforços bem maiores. Ficava às vezes saudosa do tempo em
que a tratavam como uma aspirante promissora, com condescendência.
Concluiu: “É, o futuro está chegando”. Os resultados terapêuticos foram
excelentes, depois de vários anos.

5.8 Murilo
Jovem caçula com dificuldades narcísicas e sexuais graves. Quando
menino, até além dos seis anos, fora tratado como um bonequinho pelos
muitos irmãos e manipulado sexualmente pela irmã mais velha, bastante
problemática, com aparente complacência ou conivência de todos, inclusi-
ve dos pais: “Que mal faz, criança não tem malícia! E ele não é mesmo
uma gracinha?”. Produziram-se danos graves à sua identidade e caráter.
Aprendeu desde cedo a se fazer de bobo, afetando inocência para tirar pro-
veito de situações escusas. Tornou-se usuário e traficante de drogas. Pro-
curou análise “por modismo”. O terapeuta resistiu, criteriosamente, às ten-
tativas de Murilo de seduzi-lo por intermédio de presentes cada vez mais
caros, visando obter concessões antianalíticas e mesmo antiéticas. Inter-
rompeu a tentativa de análise em poucos meses.

5.9 Lourival
Desde pequeno, foi estimulado a seguir os três irmãos mais velhos por
razões famíliares, já que os pais trabalhavam fora e havia facilidade de
colocar os meninos no colégio de amigos. Lembrava-se de estar sempre
correndo, desde muito pequeno, para acompanhar a caminhada dos irmãos,
ou de ter que se pôr na ponta dos pés para ver, pela janela, o que eles
estavam fazendo lá fora. Era considerado precoce. Chegou à análise como
um jovem professor bem-sucedido, na esteira dos pais, irmãos e tios, mas
com um desconforto interno indicativo de falso-self – não se sentia nunca
“na sua”. Bem educado e falante, algo posudo, caprichava no “jogo do
contente”, do “familiarmente correto”, seguindo a carreira que já o espera-
va, namorando a garota maravilhosa que a família sonhara para ele,
caprichando para ser o paciente ideal, porém, incapaz de realizar-se em
termos pessoais e afetivos. Dolorosas palavras que o autodefiniam: “Um
garoto precoce [que] continua garoto”. Depois de um ano e pouco de trata-
mento, conseguiu uma bolsa de estudos no exterior, o que valeu como um
avanço – “desgrudar-se da família” –, mas, por outro lado, do ponto de
vista inconsciente, significou obediência a um destino familiar pré-traçado
que a análise poderia atrapalhar.
Carlos Doin
5.10 Natália
Caçula temporã e indesejada, teria arruinado definitivamente a pouca
saúde materna. A interrupção da gravidez foi seriamente cogitada pela mãe
e pelo cardiologista, tendo prevalecido os escrúpulos religiosos do lado
paterno. No entanto, o ressentimento familiar contra a menina parecia ex-
travasar-se nas referências constantes às infelizes circunstâncias do seu
nascimento, ou nos ditos maldosos que a feriam e enchiam de culpa (“filha
da tabelinha”, “sobra de massa”, “raspa do tacho”, “extranumerária”,
“lanterninha”, “rabada”, “refugo”). Tal situação determinou em Natália um
modo de ser exageradamente manso, submisso e concessivo. Raramente
se queixava ou exigia, à diferença dos irmãos, como se ela não tivesse os
mesmos direitos.
Quando procurou análise, já tinha alguma noção das suas dificulda-
des, que se estendiam a outros setores, principalmente ao profissional,
onde se esmerava em fazer gentilezas, deixava-se “passar para trás” e não
reivindicava o justo reconhecimento e paga pelo seu trabalho, como se
também ali estivesse condenada a ser uma “extranumerária”, pessoa de
segunda classe ou intrusa, sem direito ao posto.
A repetição transferencial desses dramas permitiu que se liberassem
sentimentos de toda ordem, a começar pelos de revolta contra as injustiças
que sempre sofrera. Pôde um dia dizer com toda a convicção: “Não pedi
para nascer”, reformulando por completo seu modo de posicionar-se na
família, na análise, no mundo.

5.11 Rodrigo
Quando nasceu, depois de duas meninas, os pais haviam acabado de
se separar. Foi totalmente negligenciado pela mãe, que logo passou a viajar
com o novo companheiro, deixando-o entregue a parentes e babás e a um
pai desconsolado e perplexo. Rodrigo apresentou desde cedo um compor-
tamento que mobilizava toda a família: dar sustos, criar suspense, sumir.
De início, se escondia dentro dos armários, debaixo dos móveis, e foi pas-
sando para esquemas sempre mais ardilosos e surpreendentes. Adorava
saber das aflições e comentários que promovia. Já rapazinho, saía sem avi-
sar, ou dava informações insuficientes, ou deixava pistas falsas, e desapa-
recia por alguns dias, criando enorme alvoroço e sofrimento, até ser encon-
trado ou aparecer de volta com cara de triunfo mal disfarçado, para ser
coberto de abraços e beijos, e não poucas repreensões e castigos.
Este padrão narcísico-sadomasoquista se repetiu várias vezes na rela-
ção analítica, com atrasos e chegadas nos últimos minutos, ou já na hora do
outro paciente, enganos sobre o horário, faltas, pedidos de sessão extra a
que não comparecia, mal-entendidos quanto a feriados e férias, recados
confusos deixados na secretária eletrônica do consultório ou na casa do
analista, despertando neste as mesmas reações que Rodrigo conseguia para
si e para a família: produzir angústias, culpa e raiva, sentimentos de impo-
tência; por outro lado, conseguia para si poder e importância, obrigando a
tomada de providências desesperadas e atabalhoadas para localizá-lo e,
finalmente, para o alívio geral.
Aos poucos, a trama transferencial-contratransferencial foi sendo tra-
balhada. O analista parou de se envolver nos acting-outs, à medida que
aumentava sua confiança nos recursos da análise. Ajudou muito a ambos
compreenderem a identificação do paciente com a mãe irresponsável e
fugidia. A partir da relação analítica, Rodrigo passou a encontrar outras
formas de afirmação pessoal, obtendo crescente sucesso em uma carreira
artística que lhe permitia exibir-se à vontade e conseguir o reconhecimento
justo.

5.12 Taís
Nasceu da “grande virada” da mãe, que decidiu lançar-se numa “vida
livre”, depois de se desiludir com os homens, principalmente com o ex-
marido, pai das duas primeiras filhas. Repetindo teorias e expressões ma-
ternas, Taís se declarava “fruto da modernidade”, resultado de uma “pro-
dução independente”, do sêmen doado por um “grande amigo” homosse-
xual, que Taís não chegou a encontrar, embora soubesse de sua existência
Carlos Doin
em detalhes. A mãe nunca lhe escondeu suas peripécias, porque “hoje em
dia o principal é a transparência, é a opção”.
Claro que Taís sofreu o reverso de tanta “modernidade”, pois as men-
talidades e os superegos não mudam tão depressa quanto os comportamen-
tos, e as desilusões maternas deixam, quase sempre, sobras amargas e mar-
cas indeléveis, à revelia dos discursos. Taís se tornou uma “tiete selva-
gem”, das que assediam cantoras de sucesso até nos camarins, donde foi
muitas vezes retirada com violência. Conseguiu ter um caso tormentoso
com uma de suas “ídolas”, em que não faltaram drogas, espancamentos,
quebradeiras, interferências policiais e passagens pelo pronto-socorro. O
seu desejo de ter uma vida “mais normal” esbarrou na gravidade da patolo-
gia, na facilidade com que satisfazia, embora precariamente, as urgências
primitivas e, com certeza, nas muitas angústias e algumas atuações bastan-
te inadequadas do psicanalista.

5.13 Karin
Era a sexta e última numa série de irmãos e irmãs. Nasceu três anos
depois de Margareth, a qual continuou como se fosse a caçula, excessiva-
mente frágil, dependente e paparicada. Restou a Karin portar-se como a
mais velha, a mais individualizada, independente, amadurecida e forte. Em
diversos pontos, denunciava-se o teor artificioso e defensivo dos seus es-
forços exagerados. Fazia muita questão de ter hábitos alimentares bem di-
ferentes dos da família, recusando os petiscos da casa. Gostava quando
comentavam que ela era a única a ter tal ou qual característica, como o
interesse precoce pelo idioma japonês, que começou a aprender com vizi-
nhos e ao qual dedicava horas e horas de estudo sacrificado. Negava-se a
herdar a roupa das irmãs e ficava extremamente irritada quando trocavam
o seu nome pelo de outra.
Procurou análise por causa da tensão, insegurança e mau humor cons-
tantes. Reclamava das interpretações, alegando que eram clichês que o
analista usava com todos os pacientes, ou que ele tinha aprendido com
outros e lhe aplicava indiscriminadamente, sem nada específico da pessoa
dela; ou, ainda, que o analista a estava confundindo com outra paciente,
“mais querida”, que ele lhe atribuía frases e fatos pertencentes à “outra”.
A definição e consolidação da sua identidade verdadeira e o aumento
da confiança no valor próprio, a superação dos funcionamentos compulsó-
rios, reativos, rígidos e torturantes se fez ao correr do tratamento, em gran-
de parte por meio da elaboração de vivências transferenciais, como as cita-
das acima.

5.14 Maria Alice


Foi uma caçula bastante mimada por toda a família, especialmente
pelos avós maternos, muito ricos e socialmente bem posicionados, em cuja
mansão moravam todos. Superprotegida por conta de problemas de saúde
nada graves – bronquite alérgica e um pequeno defeito visual congênito,
quase eliminado por meio de tratamentos bem-sucedidos. Tendo vindo
para a análise por causa de seus repetidos fracassos nas áreas amorosa e
profissional, começou a entender, depois de poucos meses, o quanto parti-
cipava de um pacto familiar para mantê-la afastada da vida adulta normal.
As tentativas de namoro eram sabotadas por ela mesma, por exemplo,
faltando frequentemente aos encontros por motivos fúteis ou dizendo coi-
sas que sabia desagradarem o rapaz. Em diversos concursos e entrevistas
para um posto profissional melhor, era tomada de um “branco”, apresen-
tando-se muito aquém de suas capacidades. Evidentemente, manteve por
muitos anos um comportamento semelhante com o analista, tentando fazê-
lo desistir para conservar as vantagens da condição imatura, como parecia
já ter conseguido com outros terapeutas. Modificações efetivas só se pro-
duziram muito lentamente, por força do trabalho analítico, mas também
pelas mudanças da constelação familiar após a morte dos avós, que ali-
mentavam a dependência de todos, inclusive dos pais de Maria Alice.

5.15 Marcílio
O último de três rapazes, nasceu uns quatro anos depois do segundo.
Este, sendo muito submisso e pouco criativo, tornou-se alvo da competi-
Carlos Doin
ção e das zombarias de Marcílio. Enquanto os pais e os irmãos eram profis-
sionais de engenharia e informática, o caçula se distinguiu desde cedo por
gostar de bichos e plantas, tendo seguido uma carreira ligada às ciências
biológicas. Procurou tratamento analítico por indicação do clínico, devido
à tensão permanente e ao medo de vir a sofrer um infarto do miocárdio,
“mal de família” – fatalidade com a qual cooperava, inconscientemente, já
pelos excessivos esforços em sua área profissional, sob a justificativa de
que tinha de chegar rapidamente ao topo da carreira para se impor diante
dos colegas. Conseguiu um bom resultado terapêutico, sobretudo com a
elaboração das questões de identidade e valor pessoal. Acabou descobrin-
do por que detestava quando diziam que o gosto por seres vivos, que con-
siderava como um distintivo seu, não era original, pois provinha da “força
do nome”: o avô, Marcílio, havia sido uma autoridade de fama mundial em
um ramo da biologia. E o pai, José Marcílio, teve que fincar pé para não
ceder aos empurrões da família para que seguisse a mesma especialidade.

5.16 Nairo
Depois de três rapazes, a mãe tinha como certa a chegada de uma
menina, que receberia o nome da avó materna, e preparou o enxoval para
ela. “Nairo” corresponde a uma versão masculina, inusitada, desse nome.
O menino cresceu sem problemas aparentes quanto à identidade sexual,
apesar de saber da origem do seu nome, que abominava, e da decepção que
causou à mãe. Acompanhava o pai e os irmãos em suas atividades e, curi-
osamente, adotou alguns traços duros da mãe, o jeito autoritário de falar e
os gestos ríspidos que ela usava com seus empregados, numa profissão
tradicionalmente masculina em que ela obtinha muito sucesso. Nairo se
preparava para uma carreira no mesmo ramo, fazendo cursos superiores
para ultrapassar a formação técnica da mãe. Procurou tratamento psicana-
lítico por suas dificuldades com as namoradas. Estava prestes a perder a
terceira, com quem desejava casar-se, e que reclamava, como as anterio-
res, dos seus modos de machão. A análise se desenvolvia promissoramente
no momento deste registro.
The title includes habitual features of personality and behavior of those who
were born in the last series of siblings. Although most of these traits are not exclusive of
the youngest, they tend to express it more clearly and collected, to form a more or less
typical situation, subject to variations resulting from the family dynamics and the indivi-
dual dispositions. The recognition of such relativisms warns against the current stereotypes
about the youngest. In each one of them occurs a peculiar mixture of contradictory
characteristics, resulting from the interaction of different determinisms, inclinations and
defenses, acceptance and refusal of familiar and social roles. Only in this terms it is possible
to understand “the youngest’s syndrome” and take good advantage of its application in
clinical psychoanalysis. Among the many components of the syndrome, those on narcissism,
identity and self-worth, personal development, diversity of relationships and group
commitments, guilt and unconscious need for punishment, shine through. The text includes
quotes from psychoanalytic authors and related areas, as well as references to several
youngest and their families, biblical and literary characters and personalities of our time,
besides some patients.
Brothers. Family. Narcissism.

Resumen: El título reúne características de personalidad y comportamiento frecuentes en


los que nacieron por último en la serie de hermanos. Más allá de que esos razgos, en su
mayoría, no sean exclusivos de los hermanos menores, se suelen manifestar en ellos con
mayor nitidez y confluencia, de modo a constituir un cuadro más o menos típico, sujeto a
variaciones relacionadas con la dinámica familiar y las disposiciones individuales. El
reconocimiento de tales relativismos previene contra los estereotipos corrientes respecto
de los hijos menores. En cada uno de ellos existe una mistura peculiar de características
contradictorias, resultantes de la interación de diferentes determinismos, propensiones y
defensas, aceptación y rehusa de papeles familiares y sociales. Solamente en estos térmi-
nos se puede entender el “sindrome del hijo menor” y sacar buen provecho de su aplicación
en la clínica psicoanalítica. Entre los innumerables componentes del sindrome se destacan
aquellos relativos al narcisismo, a la indentidad y a la autoestima, al desarrollo personal,
a la diversidad de relaciones y compromisos grupales, a las culpas y necesidad incons-
ciente de castigo. El texto incluye citas de autores psicoanalíticos y de áreas afines, así
como referencias a varios hijos menores y sus familias, personajes bíblicos, literarios y
personalidades de nuestro tiempo, además de algunos analizantes.
Palavras-clave: Familia. Hermanos. Narcisismo.

BLEDIN, K. D.; WALDER, C. P. Sterilised Women and Their Last-Born Children:


a pilot investigation. Journal of Reproductive and Infant Psychology, v. 3, n. 1,
p. 9-13, 1985.
Carlos Doin
EIZIRIK, C. L.; KAPCZINSKI, F.; BASSOLS, A. M. S. O Ciclo da Vida Huma-
na: uma perspectiva psicodinâmica. Porto Alegre: Artmed, 2001
FREUD, S. (1900). The Interpretation of Dreams. In: . The Complete
Psychological Works of Sigmund Freud. S. E. London: The Hogarth Press, 1966.
v. 4.
GABBARD, G. O. Disguise or Consent: problems and recommendations
concerning the publication and presentation of clinical material. International
Journal of Psycho-Analysis, v. 81, p. 1071-1086, 2000.
GAY, P. Freud, a Life for our Time. Nova York: W. W. Norton, 1988.
HALBERSTADT-FREUD, H. C. Electra versus Oedipus. Femininity reconsidered.
International Journal of Psycho-Analysis, v. 79, p. 4l-56, 1998.
KLEIN, M. On Adult World and Other Essays. Londres: Heinemann Medical
Books, 1963.
KLEIN, M. The Psycho-analysis of Children. Londres: Hogarth, 1949.
KOHUT, H. The Analysis of the Self. Nova York: International Universities Press,
1971.
LEMAN, K. The Birth Order Book. Nova York: Dell Publishing, 1985.
LOTTERMAN, A. C. Guilt about Being Born and Debt Concerning the Gift of
Life. Journal of the American Psychoanalytic Association, v. 51, n. 2, p. 547-
578, 2003.
MANN, T. Joseph and his Brothers. Harmondsworth: The Penguin Books, 1978.
MORAITIS, G.; POLLOCK, G. H. Psychoanalytic Studies of Biography.
Madison, CT: International Universities Press, 1987.
STEWART, L. H. The World Cycle of Leadership. Journal of Analytical
Psychology, v. 36, n. 4, p. 449-459, 1991.
SULLOWAY, F. Born to Rebel: birth order, family dynamics and creative lives.
New York: Pantheon, 1996. citation Elsevier Sciences, 14, 3, 1999, Internet 016-
5347/99.
WINNICOTT, D. W. Ego Distortions in Terms of True and False Self. In: .
The Maturational Processes and the Facilitating Environment. Londres: The
Hogarth Press, 1976.