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Artes e manhas da entrevista compreensiva

Article  in  Saude e Sociedade · January 2014

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Vítor Sérgio Ferreira


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Artes e manhas da entrevista compreensiva1
Arts and tricks of comprehensive interview

Vitor Sérgio Ferreira Resumo


Pós-Doutor em Sociologia pelo Instituto de Ciências Sociais da
Universidade de Lisboa. O lugar que as entrevistas vieram a ocupar dentro
Endereço: Av. Professor Aníbal de Bettencourt, 9, 1600-189, Lisboa, da pesquisa social é muito mais relevante e equa-
Portugal. cionado de forma substancialmente diferente do
E-mail: vitor.ferreira@ics.ul.pt
passado. Ao sucesso das técnicas de entrevista ditas
1 Este artigo foi produzido no âmbito da preparação para o traba- “semidirectivas” ou “semiestruturadas” próprias aos
lho de campo do projeto “Tornando profissões de sonho realidade. paradigmas estrutural-funcionalistas, tem-se se-
Transições para novos mundos profissionais atrativos aos jovens”, guido o uso de formas mais criativas de entrevistar.
financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), Entre estas, dá-se destaque neste artigo à entrevista
Portugal (Ref. PTDC/CS-SOC/122727/2010). Para informações sobre
o projeto, ver <http://dreamjobs.pt.to/>.
compreensiva, uma técnica qualitativa de recolha de
dados que articula formas tradicionais de entrevista
semidiretiva com técnicas de entrevista de natureza
mais etnográfica. Isto na medida em que a entrevista
compreensiva é o culminar técnico e epistemológico
do processo de criativização a que o uso das técni-
cas de entrevista tem sido recentemente sujeito na
pesquisa social. Já não é necessariamente concebida
como uma técnica neutra, estandardizada e impes-
soal de recolha de informação, mas como resultado
de uma composição (social e discursiva) a duas vo-
zes, em diálogo recíproco a partir das posições que
ambos os interlocutores ocupam na situação especí-
fica de entrevista (de interrogador e de respondente).
A aplicação da entrevista de tipo compreensivo pres-
supõe a obtenção de um discurso mais narrativo que
informativo, resultado da intersubjectividade que
se desenrola entre entrevistado e entrevistador. Tal
exercício pressupõe da parte do entrevistador uma
postura criativa e de improvisação na condução da
entrevista, que requer artes e manhas específicas.
Refletir sobre as condições de interação da entrevis-
ta enquanto situação excecional de comunicação, e
os respetivos efeitos na produção de conhecimento
e na epistemologia da pesquisa social, é o objetivo
central deste artigo.
Palavras-chave: Entrevista Compreensiva; Entrevis-
tador Criativo; Improvisação; Interação Entrevista-
dor/Entrevistado.

DOI 10.1590/S0104-12902014000300020 Saúde Soc. São Paulo, v.23, n.3, p.979-992, 2014 979
Abstract Introdução
The place that interviewing techniques came to A entrevista tem sido, provavelmente, a técnica de
occupy within social research is more relevant and pesquisa qualitativa mais mobilizada nos traba-
differs substantially from the past. The success lhos de campo de estudantes e pesquisadores em
of more directive interviewing techniques among ciências sociais, sob diferentes formatos2 e mídia3.
structural-functionalists paradigms has been Esse sucesso advém, em grande medida, do facto de
followed by the use of more creative forms of inter- as técnicas de entrevista potenciarem uma forma
viewing. Among these, this article wants to highlight relativamente económica e acessível a um largo e di-
the comprehensive interview, a qualitative data versificado conjunto de material empírico. Suposta-
collection technique that articulates traditional mente, seria apenas necessário ter um instrumento
forms of semi-directive interview with interview te- de gravação, alguma audácia, empatia e capacidade
chniques of a more ethnographic nature. The reason de comunicação para fazer algumas questões an-
for this option is that comprehensive interviewing tecipadamente preparadas, para depois retirar do
is the epistemological and technical culmination material recolhido elementos de informação e de
of the creativization process to which the use of ilustração de hipóteses previamente desenvolvidas.
the interviews has recently been subjected within E, de facto, é assim que é frequentemente con-
social research. Interviewing is no longer meant as siderada a entrevista, presidindo uma atitude de
a neutral, standardized and impersonal technique dureza mole à sua escolha como técnica de pesquisa
of gathering information, but as the result of a com- principal, ou mesmo única, no desenho metodológi-
position (social and discursive) between two voices, co de muitas pesquisas: dureza relativa ao formato
in reciprocal dialogue from the positions that both estandardizado que a aplicação da entrevista tende
parties occupy in the specific situation of the inter- a assumir de entrevistado para entrevistado, cega às
view (of questioner and respondent). The application idiossincrasias narrativas e culturais deste; mole na
of the comprehensive interview presumes obtaining reflexividade teórica e epistemológica que subjaz à
a kind of discourse that is more narrative than infor- escolha da própria técnica em função do objeto de
mative, resulting from the intersubjectivity develo- estudo definido, bem como na reflexividade sobre os
ped between interviewee and interviewer. Such an efeitos de toda dinâmica social implicada no decurso
exercise requires a creative posture on the part of de qualquer entrevista.
the interviewer and improvisation in the conduct of Na tradição estrutural-funcionalista que domi-
the interview, requiring specific arts and tricks. To nou durante décadas as ciências sociais, as técnicas
reflect on the interaction conditions of interviewing de entrevista eram aplicadas, sobretudo, para veri-
process as an exceptional communicative situation, ficar a potencialidade e variabilidade cognitiva de
and the respective effects on the production of kno- um mesmo indicador utilizado num inquérito por
wledge and epistemology of social research, are the questionário, este sim, considerado o instrumento
main objectives of this article. por excelência de recolha de dados “objetivos”. As
Keywords: Comprehensive Interview; Creative In- entrevistas, quase sempre muito dirigidas e es-
terviewer; Improvisation; Interaction Interviewer/ truturadas, eram ainda usadas como forma de dar
Interviewee. vida a demonstrações numéricas áridas, ou mar-
ginalmente guardadas para estudos exploratórios
perante problemáticas ainda desconhecidas. À entre-
vista eram tradicionalmente reservadas, portanto,
funções verificativas e ilustrativas, subjugadas à

2 King e Horrocks (2010), bem como Flick (2005, p. 77-126), dão um amplo panorama sobre vários tipos de entrevistas utilizadas na inves-
tigação em ciências sociais (e além dela), a partir de variadas abordagens teórico-metodológicas, e tendo como alvo entrevistados com
perfis muito diversificados.
3 Em interação face a face, por telefone, telemóvel, skype, chats, correio eletrónico, fóruns, redes sociais, etc.

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lógica dedutiva e causal característica dos métodos de entrevista de natureza mais etnográfica, na ten-
quantitativos. tativa de evitar quer o dirigismo do modelo de ques-
Com o ressurgimento das abordagens compreen- tionário aberto, quer o laisser-faire da entrevista não
sivas no decorrer dos anos 604, diversas formas de diretiva. Foi proposta contra a tradição de um certo
recolha, registo e tratamento de material empírico empiricismo abstrato associado à produção exten-
qualitativo vieram a ter um lugar de destaque na pes- siva e supostamente impessoal de dados, sobretudo
quisa social (Jovanovic, 2011). Na expectativa de os quantitativos, mas também no sentido de superar
pontos de vista dos sujeitos serem mais facilmente um certo formalismo metodológico característico
entre-vistos,5 os estudos baseados exclusivamente da herança estrutural-funcionalista na pesquisa
em técnicas de entrevista, de formato mais aberto e qualitativa, seguidora de uma lógica dirigista de
menos estandardizado (Foddy, 1996; Flick, 2005), e recolha de dados estandardizada. Acaba por evitar
envolvendo pequenas “amostras” de interlocutores, ainda o que Back (2007) denomina de “empiricismo
começaram a ser cada vez mais frequentes por entre intrusivo” (p. 18), particular de algumas formas de
as ciências sociais, sendo a sua legitimidade epis- etnografia que fazem corresponder à densidade
temológica profundamente discutida e reconhecida e à proximidade características desta perspetiva
(Crouch e Mckenzie, 2006; Lieberson, 1992; Small, metodológica, uma torrente cumulativa e excessiva
2009). de detalhes e curiosidades, hiperempiricista e sem
Neste processo, o lugar que as entrevistas vie- qualquer discernimento em termos de eixo analítico,
ram a ocupar dentro da pesquisa social passou a o que acaba por fazer camuflar o que está verdadei-
ser muito mais relevante e equacionado de forma ramente em jogo no terreno em análise.7
substancialmente diferente. Ao sucesso das técnicas O desafio assumido pela entrevista de tipo com-
de entrevista ditas “semidirectivas” ou “semiestru- preensivo pressupõe um saber-fazer mais pessoal
turadas” próprias aos paradigmas estrutural-fun- do que estandardizado, decorrente do próprio en-
cionalistas,6 tem-se seguido o uso de formas mais volvimento do investigador no desenvolvimento da
criativas de entrevistar (Fontana, 2001; Platt, 2001). pesquisa num terreno concreto, havendo, contudo,
Entre estas, a designada entrevista compreensiva é lugar a um grau de formalização e de sistematiza-
paradigmática (Bourdieu, 1993; Kauffman, 1996). ção mais elevado que as técnicas etnográficas de
recolha de informação. Promotora de uma lógica de
Artes da entrevista: composição, criatividade e de descoberta científica fundadora de
novas teorias e conceitos, mais do que uma lógica de
criatividade e improvisação demonstração e ilustração de teorias previamente
A entrevista compreensiva trata-se de uma técnica construídas, a entrevista compreensiva procura
qualitativa de recolha de dados que articula formas produzir novas preposições teóricas, através de
tradicionais de entrevista semidiretiva com técnicas uma articulação estreita e contínua entre o processo

4 Em contraponto às metodologias hipotético-dedutivas, que dão enfase à explicação das regularidades, funções e causalidades da ação
social, os ditos «paradigmas compreensivos» (interacionismo simbólico, etnometodologias, fenomenologias, grounded theories, etc.)
têm em comum o facto de se centrarem na compreensão dos sentidos concedidos pelos atores às suas ações e interações (subjetividades
e intersubjetividades), às suas racionalidades e reflexividades, às suas motivações e justificações, às suas interpretações e valorações
(Guerra, 2006).
5 Entre-vistar permite ir além da visão parcial que o «olhar» do pesquisador, nomeadamente do antropólogo observador e participante,
proporciona sobre o fenómeno, por vezes insuficiente para compreender os seus sentidos nativos e as suas significações antropológicas.
Entre-vistar pressupõe «um ouvir todo especial» por parte do pesquisador (Oliveira, 2000), cujas habilidades e condições necessárias
irão ser objeto de discussão neste artigo.
6 A tipologia de formas de entrevista mais tradicional foi pensada segundo o grau de estruturação do guião e de diretividade na sua apli-
cação, considerando os objetivos que lhe são atribuídos: entrevista diretiva (verificação/controlo), semidiretiva (aprofundamento), e não
diretiva (exploração) (Ghiglione e Matalon, 1992; Patton, 1987; Roulston, 2010; Ruquoy, 1997).
7 Trata-se de um risco muito comum entre debutantes no trabalho de campo etnográfico. Ver, por exemplo, a experiência relatada por
Vasconcellos e colaboradores (2002).

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de recolha de dados e o processo de formulação de Deverá, contudo, paradoxalmente, gerir essa
hipóteses. Estas serão tanto mais criativas quanto posição de entre-ver por forma a ser o menos imposi-
enraizadas nos dados recolhidos. Uma formulação tiva possível sobre o ponto de vista do entrevistado.
bottom up, portanto, que deriva de baixo para cima, Uma entrevista bem improvisada exige da posição
do terreno empírico para o terreno teórico, até for- de entrevistador conhecimento (sobre a temática a
malizar o que se convencionou chamar de grounded abordar), planeamento (sobre os tópicos interessan-
theory, nas suas formulações mais antigas (Glaser tes para ambos, quem pergunta e quem responde)
e Strauss, 1967; Glaser, 1978) ou atuais (Strauss e e experiência (em gerir encontros sociais deste
Corbin, 1990; Glaser, 2001, 2003). tipo com algum à vontade e coloquialidade). Mas,
Pode dizer-se que a entrevista compreensiva é o sobretudo, implica a constante capacidade do entre-
culminar técnico e epistemológico do processo de vistador em se colocar, dialógica e reciprocamente,
criativização a que a conceção do uso das entrevistas diante do ponto de vista do entrevistado, para que
tem sido recentemente sujeito. A entrevista já não o exercício de com-posição improvisada resulte da
é necessariamente concebida como uma técnica melhor maneira para ambos. Daí que a “boa pergun-
neutra, estandardizada e impessoal de recolha de ta” não seja, necessariamente, aquela que havia sido
informação, mas como resultado de uma composição previamente preparada pelo entrevistador, mas a
(social e discursiva) a duas (por vezes mais) vozes, que faz sentido ao entrevistado e o convoca a tomar
em diálogo recíproco a partir das posições que am- uma posição, a narrar um ponto de vista com densi-
bos os interlocutores ocupam na situação específica dade narrativa. Ou seja, como se argumentará, a “boa
de entrevista (de interrogador e de respondente), resposta” é a que resulta do sucesso de um exercício
dando lugar a um campo de possibilidade de improvi- criativo de composição improvisada.
sação substancialmente alargado quer nas questões
levantadas, quer nas respostas dadas.
Não se trata, note-se, de uma forma de improvisa-
A entrevista como situação social
ção anárquica, mas de uma forma de improvisação de exceção
preparada, informada e controlada. Na música, a O que têm em comum as várias formas de entrevista,
improvisação é concebida como a habilidade de, pode-se perguntar. Desde logo, o facto de implicar
simultaneamente e ao correr da pena, produzir e uma situação específica de interação social, predo-
interpretar sons, dentro de determinados parâ- minantemente – ainda que não apenas – discursiva.
metros harmónicos, melódicos, ou rítmicos. Ora, A especificidade dessa interação social pode ser
para improvisar, os bons intérpretes têm de deter encontrada em vários níveis. A começar, o fato de a
o controlo recíproco dos parâmetros sobre os quais entrevista introduzir um momento de rutura relati-
estão a trabalhar musicalmente – particularmente se vamente aos hábitos de comunicação dos indivíduos,
não tocam sozinhos –, ou o resultado sonoro criado distinguindo-se de outras relações de troca verbal
soará incongruente. O mesmo acontece nas artes de ocorridas quotidianamente. É importante insistir
entrevistar.8 No encontro de posições que constitui na diferença substancial entre o formato da entre-
qualquer entrevista (com-posição), a posição de en- vista e os inúmeros outros formatos interativos que,
trevistador não é impessoal, não se quer demasiado em situações correntes da vida quotidiana, podem
técnica, e muito menos se quer estandardizada. organizar os discursos dos mesmos atores sobre os
Assumir uma função de comando através do ato de mesmos temas.
perguntar é assumir claramente uma posição, a de A relação de entrevista não se trata de uma sim-
entrevistador, que implica um ponto de vista – in- ples “conversa” (Patton, 1987, p. 108)9, mas oferece
quirir, e delimitar sobre que domínio(s). uma situação de comunicação verbal excecional.

8 Como refere Grawitz, “existe, indubitavelmente, uma técnica de entrevista, mas, mais do que uma técnica, é uma arte” (1990, p. 762).
9 Mesmo que se trate de uma «conversa etnográfica», informal, que ocorre como parte dos processos de observação de campo desenvolvidos
pelo investigador com interesses científicos (Patton, 1987, p. 110-111).

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Uma conversa presume a existência de simetria um encontro formalizado, sempre pretendido e
na troca verbal, mesmo quando os atores ocupam solicitado pelo entrevistador, e cujo modelo de
posições e papéis diferentes no terreno. Pressupõe interação reconhecido como adequado é baseado
também que o desenrolar de uma conversa possa num diálogo estruturado em termos de relação de
acontecer a qualquer momento, não sendo clara- inquirição, modelada segundo uma sequência de
mente delimitado no tempo e no espaço. Supõe ainda pergunta/resposta que identifica claramente os
uma delimitação muito fluida dos papéis de entre- papéis sociais dos intervenientes: ao entrevistador
vistador e de entrevistado, bem como da sequência cabe fazer perguntas sobre os tópicos que lhe inte-
da ação discursiva. Uma conversa não tem que ser ressam e ao entrevistado dar respostas às questões
estruturada em torno de pares de perguntas/respos- definidas pelo primeiro.
tas, podendo o diálogo estabelecido ir muito além Trata-se de um modelo que define um sentido
dos temas interessantes no âmbito da problemática unilateral do fluxo de dados, concedendo ao entre-
do pesquisador, e dar lugar a um fluxo recíproco de vistador o direito de circunscrever as temáticas
informação entre este e o entrevistado. consideradas relevantes para a pesquisa, formular
Já a situação de entrevista pressupõe “todo o as questões que melhor representam essas temá-
encontro em que o pesquisador solicita explicita- ticas, bem como organizar e conduzir a interação
mente aos atores informações sobre determinados com os entrevistados. É uma relação desigual
temas ou tópicos, estruturado em termos de uma porque estes últimos partilham a sua visão sobre o
alternância pergunta/resposta e de uma definição fenómeno em estudo sem grandes contrapartidas
inicial dos estatutos de participação em termos por parte do entrevistador (embora alguns entrevis-
assimétricos – isto é, estabelecendo uma separação tados gostem de nos redirecionar as perguntas…).
explícita entre o estatuto de entrevistador e o de O afrouxamento desse modelo pode transfigurar
entrevistado” (Nunes, 1992, p. 274). De facto, a en- a entrevista em conversa, reduzindo a assimetria
trevista supõe um caso particular de interação entre própria dos estatutos de participação na entrevista,
os vários interlocutores, configurando uma troca mas nunca reformulando os termos da relação entre
social desigual, em que a iniciativa e o controlo da os participantes. Mesmo quando o entrevistador é
situação é, em grande medida, da responsabilidade levado a abandonar o seu guião ou a improvisar a
do pesquisador. sequência da entrevista em função das respostas
O seu sentido de excecionalidade emerge das que vai recebendo, a assimetria da relação original
expectativas associadas à situação entre os que dela continua a ser conservada através da manutenção
participam, decorrentes da própria raridade quoti- da sequência pergunta-resposta.
diana das circunstâncias que configuram o processo
de interação reconhecível como uma entrevista. Tais O discurso como composição
circunstâncias remetem para o fato de a entrevista
configurar: um encontro privado com um estranho,
intersubjetiva
em que potencialmente acontece a partilha de vivên- A situação de entrevista, embora se trate de um even-
cias e experiências pessoais, muitas vezes íntimas, to discursivo excecional e controlado, não correspon-
partilha essa sujeita a regras de confidencialidade, de nunca às condições de uma experiência científica:
anonimato e tolerância (em termos de controlo dos é limitadamente manipulável, sendo praticamente
juízos de valor); um encontro localizado no tempo e impossível, sequer aconselhável, estabelecer-lhe
no espaço de forma explícita, através de marcadores protocolos perfeitamente estandardizados. Os cons-
claros que o separam de outras ocasiões quotidianas trangimentos a que a entrevista está sujeita variam
caracterizadas pela rotina e pela informalidade10; de situação para situação, contemplando infinitas

10 A utilização do gravador, por exemplo, é um desses marcadores. Não só pela sua presença no decorrer de toda a interação verbal, impli-
cando a seu registo áudio, mas também porque a sua manipulação através do ato de ligar e desligar acaba por contribuir para a definição
do princípio e do fim do tempo da entrevista.

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possibilidades difíceis de prever antecipadamente. ração que os comenta, valoriza, interpreta, relaciona
Como propõe Ruquoy (1997), “ao colocarmos frente e contrasta com outros factos.
a frente dois sujeitos com a sua subjetividade, não No contexto de uma entrevista, essa narração
podemos garantir que as informações obtidas sejam não é construída isoladamente, pois o narrador
idênticas noutra situação de interação. É igualmente não está sozinho. O entrevistador não se limita a
impossível garantir uma comparabilidade perfeita recolher informações e/ou discursos sobre experi-
dos dados, uma vez que o dispositivo de interrogação ências, vivências e opiniões do entrevistado, e as
não pode ser rigorosamente idêntico” (p. 85). respostas deste não representam meras descrições
Tal significa que, mesmo tentando normativizar dessas vivências, experiências ou opiniões com um
procedimentos, não há possibilidade de eliminar certo nível de detalhe e densidade. Correspondem a
eventuais “fatores perturbadores” na situação so- construções intersubjetivas, ou seja, descrições e
cial que uma entrevista envolve. Este entendimento posições discursivas que são construídas a partir de
implica renunciar às reivindicações de neutralidade uma situação de interação estruturada a partir de
dos dados obtidos através da entrevista, e reconhe- pares pergunta-resposta, modelo em que a narração
cer que o respetivo processo de validação passa pela do entrevistado não é automática, e a intervenção
contextualização das situações sociais em que são do entrevistador não é neutra. Um bom entrevista-
produzidos. Mais do que pensar na inteira remoção dor quererá sempre que o seu entrevistado produza
dos ditos “fatores perturbadores” da situação de descrições e expresse pontos de vista que vão além
entrevista – no sentido de dela se extraírem dados da contagem superficial do fenómeno, utilizando
“não distorcidos”, ou informações –, valerá a pena técnicas para assisti-lo e pô-lo o mais confortável
refletir sobre os seus efeitos: efeitos de expetativa, e à vontade possível numa situação que, para ele,
resultantes do que esperam e motiva os interlocuto- como vimos, não é usual.
res a concederem a um desconhecido o seu tempo e A entrevista, nesta perspetiva, não dá conta de
opiniões; efeitos de inquirição, decorrentes da forma como as pessoas criam internamente o seu mundo
como o guião está construído, como as questões são de vida através das palavras (como seria um diário,
colocadas e como a entrevista é conduzida; e efeitos por exemplo), mas como o criam perante a presença
de interação, derivados dos sinais sociais exteriori- ativa de um interlocutor (Holstein e Gubrium, 1995),
zados pelo entrevistador e pelo entrevistado. o qual não apenas escuta mas também interage
A tradição considerava a entrevista como um através da pergunta, estimulando reflexividade
dispositivo técnico-metodológico através do qual e narratividade. O informante não se limita a dar
seria relativamente fácil recolher informações jun- informações sobre si próprio, mas implica-se num
to de quem tivesse vontade e capacidade de as dar. trabalho de fabricação identitária ao tentar ensaiar
No entanto, os dados que se obtêm através desse perante o entrevistador posições de unidade e coe-
dispositivo não podem ser reconhecidos no estatuto rência biográfica ou, pelo contrário, tentando dar
epistemológico de dado informativo, mas de dado conta da sua incoerência e contradição. Os resulta-
narrativo que informa e é informado por pontos de dos das entrevistas são, portanto, dados discursivos
vista. Como colocam Blanchet e Gotman (1992), “o que não refletem objetivamente uma realidade,
questionário provoca uma resposta, a entrevista faz mas que resultam de uma com-posição discursiva e
construir um discurso” (p. 40). Ou seja, um conjunto intersubjetiva, muitas vezes improvisada por parte
de afirmações que concedem densidade simbólica e de ambos os intervenientes no decorrer da situação,
coerência narrativa ao fenómeno estudado sob di- configurando uma espécie de situação experimental,
versos pontos de vista. A narração não é informação como lhe chama Kauffman (1996).
factual, é uma rememoração reflexiva que implica a De facto, o discurso narrativo que é (co)produzido
interpretação subjetiva sobre os episódios narrados no seu decorrer é, não raras vezes, um encadeamento
(Garcia, 2000). E é justamente esta a grande mais- de ações e interpretações que talvez nunca tivesse
-valia da entrevista: mais do que recolher informação sido formulado pelo entrevistado antes deste ser
“realista” sobre factos, permite o acesso a uma nar- interpelado. Grande parte das vezes, na lufa-lufa

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diária, não se para para refletir sobre o que se faz belecimento de uma ponte intersubjetiva através da
e o que se vive e, quando tal acontece, há sempre qual seja possível a circulação de interesses e pontos
aspetos mais conscientes e refletidos do que outros. de vista diferenciados. Só assim, do confronto entre
Assim, o sentido, a racionalidade e a coerência que os mundos do pesquisador e do pesquisado que de-
se constroem sob o estímulo de uma pergunta, fre- corre em qualquer situação de entrevista, resultará
quentemente, não são prévios aos factos, mas en- um verdadeiro “encontro etnográfico”, mutuamente
contrados e improvisados no momento da narração: compreensível e reciprocamente gratificante (Oli-
“aí, os elementos que na altura pareciam dispersos e veira, 2000).
as racionalidades que no momento emergiam como
espontâneas estruturam-se num todo coerente que
amarra o fio condutor de múltiplas decisões e ações”
O estatuto de entrevistador criativo
(Guerra, 2006, p. 19). Ser um encontro privado, formalizado, localizado
A entrevista constitui uma situação social que e assimétrico são características processuais da
implica uma injunção de reflexividade junto de quem entrevista que configuram a excecionalidade quoti-
é entrevistado. Quando já se refletiu sobre o que se diana desta enquanto situação de interação verbal
pergunta, a resposta é pronta, rápida, “na ponta da específica, com as consequentes implicações em
língua”; quando não, o entrevistado mostra-se pen- termos da gestão intersubjetiva da informação pre-
sativo, surpreso, relutante… (Adler e Adler, 2001). En- tendida e recebida. Se é ao entrevistador que cabe
trevistar provoca um exercício de auto-análise que iniciar e instituir as regras do jogo de entrevistar,
opera um trabalho de explicitação discursiva, por esta iniciativa obriga-o a ter de gerir de forma ativa
vezes gratificante, outras doloroso, na enunciação e intencional todos os recursos necessários à ma-
de experiências e reflexões, umas vezes reservadas nutenção do envolvimento dos entrevistados, para
ou reprimidas, emaladas no baú do tempo biográfico, que a entrevista seja bem-sucedida. Cabe, portanto,
outras vezes nunca pensadas… Obrigar o outro a ao entrevistador criar as condições de emergência e
falar, a tomar a palavra, a transformar a sua história de desenvolvimento de um discurso extra-ordinário
vivida em história contada, muitas vezes sobre o que por parte do entrevistado, que nunca seria produzi-
jamais se havia colocado como questão, é exercer um do em qualquer conversa quotidiana com amigos,
enorme poder de arbítrio. Trata-se de um exercício familiares, conhecidos, eventualmente até outros
que, sendo provocado pelo entrevistador, requer desconhecidos.
deste responsabilidade, cuidado e realismo no seu Ainda que a entrevista seja sempre uma situação
acompanhamento, mais do que impassibilidade e extraordinária, é arte do entrevistador, paradoxal-
impessoalidade. mente, saber balizar essa excecionalidade no sentido
Nesta perspetiva, o que se conta na situação de a banalizar tanto quanto possível durante a situ-
de entrevista acaba por ser sempre um conto edi- ação de interação com o entrevistado. Este encontra
tado pelo entrevistador, ativamente implicado na na entrevista uma ocasião excecional, que lhe é
composição das narrativas que dão conta das ex- oferecida para testemunhar a sua existência, para
periências e dos sentidos. Perguntar nunca é uma trazer a sua experiência da esfera privada para uma
atitude imparcial, e não existem perguntas neutras. certa esfera pública intimista, para se fazer explicar
Cada pergunta formulada constitui uma tomada e se dar a entender (ao outro e a si próprio). Mas se
de posição do pesquisador. A qual, contudo, deve ir é a excecionalidade concedida ao momento de ser
ao encontro da ordem de relevâncias e interesses entrevistado que funda a vontade do interlocutor
subjetivos do entrevistado, conectada com a ordem em aproveitar esse raro pedaço de espaço-tempo que
de relevâncias e interesses científicos da pesquisa lhe é oferecido, caberá posteriormente à manha do
levada a cabo. Para ambos, entrevistador e entre- entrevistador fazer o interlocutor acreditar que tal
vistado, as perguntas devem resultar relevantes e momento se trata de uma situação banal de conversa
interessantes. Perguntar, portanto, não se trata de a dois, tentando agir com simplicidade, descontra-
um mero ato de pedido de informações, mas o esta- ção, e disponibilidade.

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Um dos tradicionais receios partilhados na poderão ser objeto de padronização cega. Está, sem
visão clássica da aplicação da entrevista é a perda dúvida, na criatividade e capacidade de improvisa-
de objetividade do entrevistador, por via de uma ção do entrevistador algumas das suas habilidades
“interação intimista entre entrevistado e entrevis- para fazer uma boa entrevista (Douglas, 1985),
tador que altera e modifica imediatamente a pureza alguma das suas artes de entrevistar. Ao fazê-lo, o
necessária à observação científica” (Bravo, 1983, p. entrevistador tem o papel de fazer entrever e fazer
319). Dominada pela fidelidade aos velhos princípios emergir o ponto de vista a partir do qual o entrevis-
metodológicos de neutralidade e de padronização tado, ele próprio, se coloca perante determinados
dos procedimentos de recolha, em nome de um ideal tópicos. Isso pressupõe tratá-lo não apenas como
positivista de rigor científico, essa visão presumia um informante – através da colocação de “perguntas
por parte do entrevistador uma postura que supos- feitas em busca de respostas pontuais” que “criam
tamente erradicaria os efeitos da sua intervenção um campo ilusório de interação” – mas como um
pessoal na situação de entrevista. verdadeiro interlocutor, ativamente ouvido e inter-
A sua fidelidade a um guião previamente prepa- pelado numa relação de diálogo permanente e mutu-
rado na base de hipóteses teóricas de partida, com amente significativo (Oliveira, 2000, p. 23). Está nas
o fim de reduzir ao mínimo as variações da sua competências do entrevistador, que serão técnicas
aplicação de entrevista em entrevista, bem como a mas também sociais, saber conduzir o entrevistado
manutenção de uma postura emocionalmente con- sem o dirigir, ou seja, implicar-se no diálogo sem lhe
tida e distanciada, muitas vezes consubstanciada impor um ponto de vista, nomeadamente o das suas
em entrevistas administradas como questionários, eventuais hipóteses de partida (Arce, 2000, p. 110).
seriam condições que garantiriam uma espécie de Quanto mais implicado estiver o entrevistador
impessoalidade e invisibilidade ao entrevistador, e nas suas crenças (mesmo que supostamente cien-
que, supostamente, o neutralizariam de qualquer tíficas, através de um elenco de hipóteses prévias),
forma de violência simbólica e epistemológica capaz mais difícil será a sua comunicação com o outro, no-
de afetar as respostas do entrevistado (Beck, 2007; meadamente com aquele que não as replique. Como
Bourdieu, 1993; Kaufmann, 1996). Este modelo de Rubio (2005/2006) chama a atenção, em muitas
virtude metodológica dava total protagonismo ao ocasiões, o entrevistador mais técnico e/ou tímido,
entrevistado, no seu estatuto de informador privi- armado do seu guião previamente construído, não
legiado, assumindo a entrevista como um mero dis- consegue mais do que uma “réplica do seu próprio
positivo técnico de recolha de informação, material discurso”, impondo ao entrevistado conteúdos, ca-
supostamente asséptico. tegorias, premissas, periodizações, perspetivas, ou
No entanto, tal como equaciona Kaufmann outros marcos de sentido que constituem, no fundo,
(1996), será que a suposta postura impessoal do o seu próprio ponto de vista sobre o fenómeno em
entrevistador e de não personalização das questões causa.
que coloca não conduzirá também à não personali- Este é, justamente, o tipo de “fator perturbador”
zação das respostas? Ou melhor, será que esta forma que deve ser matizado o mais possível durante o
de entrevistar, mais impessoal e estandardizada, momento privilegiado da entrevista, no sentido de
consegue ir além das opiniões normativas, superfi- reduzir ao máximo a intervenção do entrevistador
ciais e imediatamente disponíveis do entrevistado, ao nível de indução de elementos de conteúdo e
estimulando a sua consciência e reflexividade? E da violência simbólica e epistémica que pode ser
não constituirá a não personalização das questões exercida. Não se trata, portanto, de evitar que o
também uma forma de violência simbólica e episté- entrevistador faça notar a sua presença no decor-
mica junto dos entrevistados, muitas vezes diante de rer da entrevista, mas de tentar controlar o mais
perguntas tão deslocadas, colocadas com linguaja- consciente e reflexivamente possível o que pode
res distantes das suas vivências sociais e culturais? ser controlado enquanto efeito dessa presença, no
De facto, se existem aspetos técnicos a ter em sentido de assegurar algumas garantias de empatia
conta na aplicação de qualquer entrevista, estes não compreensiva, de comunicação não violenta (nome-

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adamente no nível e tipo de linguagem utilizado), Manhas de entre-vistar
de colaboração e de amplitude no aprofundamento
do “espaço dos pontos de vista” dos entrevistados A condução de uma entrevista pressupõe compe-
(Bourdieu, 1993, p. 9-10). tências específicas no que concerne à postura ética
Tal pressupõe da parte do entrevistador o domí- dos entrevistadores, às maneiras de obter dados
nio de um saber-fazer que implica não um conjunto relevantes e densos, bem como às estratégias e pro-
de normas e preceitos generalizados e/ou generali- cedimentos técnicos para o adequado andamento
záveis, mas capacidades e competências específicas dessa situação de interação particular. É, sobretudo,
e circunstanciais que facilitem no entrevistado um importante considerar algumas precauções que
levem o entrevistado a ter empatia e confiança no
processo de descoberta e de exploração do tópico
entrevistador e a entregar-se o máximo possível ao
proposto, com interesse e densidade, segundo as
jogo da entrevista. O entrevistador é sempre o prin-
suas próprias categorias de pensamento, e seguindo
cipal responsável quer pela instauração de um clima
o seu próprio percurso narrativo. Ora, isto implica
de confiança e de conforto para o encontro, quer pela
da parte do entrevistador não um papel de neutra-
gestão do impacte das condições (interpessoais,
lidade no terreno e no contacto com as pessoas a
materiais, sociais e culturais) em que a interação
entrevistar, mas a sua implicação ativa na dinâmica
decorre, tratando de fazer reduzir ao máximo os
de entrevista e na formulação criativa de questões,
fatores que poderão tender a bloquear a confiança
no sentido de suscitar o empenho do entrevistado
e a comunicação do entrevistado desde o início ao
na própria entrevista.
final do jogo da entrevista.
Não se trata, claro, de mostrar aprovação ou re-
Ainda que, em geral, o entrevistador se trate de
provação perante determinadas respostas, mas de um desconhecido para o entrevistado, durante o
humanizar a sua presença de forma pessoalizada, tempo de entrevista ele deverá propiciar as condi-
ainda que discreta, na relação de interação, através ções para tornar-se íntimo, sujeito a confissões de
das suas competências comunicacionais, de abertu- segredos, a revelações nunca pensadas em verba-
ra ao outro e de improvisação. Assim, contra a ilusão lizar: “o sociólogo que faz entrevistas longas é um
que consiste em procurar a neutralidade através da tipo particular de confidente: um confidente que de-
anulação do entrevistador, há que admitir que não é saparece uma vez a confidência feita” (Lahire, 2002,
a “espontaneidade” que define a “pureza” dos dados p. 27), não se obrigando à continuidade da relação
que são obtidos da entrevista, mas a capacidade de entre entrevistador e entrevistado para além da si-
possibilitar o que Bourdieu chama de construção tuação de entrevista, ou à eventualidade de devolver
realista (Bourdieu, 1993, p. 916). os dados transcritos e/ou analisados. Desta feita,
Na construção de uma situação de entrevista, é o tornar claro ser um desconhecido a tratar o material
papel do entrevistador seguir a linha de pensamento decorrente da entrevista, garantindo ao entrevistado
do seu interlocutor e, ao mesmo tempo, zelar pela as condições de anonimato e confidencialidade dos
pertinência das perguntas e respostas relativamente conteúdos conversados, é desde logo uma condi-
ao objetivo da pesquisa. Trata-se de um exercício ção fundamental para que o diálogo se inicie com
de composição a duas vozes, intersubjetivamente alguma confiança. Deve também ser explicado ao
controlada, em que a criatividade e a capacidade de entrevistado, numa linguagem entendível para este,
improviso do entrevistador é condição sine qua non quais são os propósitos da entrevista, articulando-a
para que seja colocada a “boa pergunta”. Esta não é com os objetivos da pesquisa.
obrigatoriamente a que está contemplada no guião, A opção pela utilização do termo de consentimen-
que até pode mostrar-se forçada ou deslocada consi- to livre e esclarecido, um procedimento que começa
derando o desenvolvimento da interação. A melhor a ser comum hoje em dia, deverá ser refletida consi-
questão será sempre encontrada a cada momento derando a população e o contexto em análise. A ética
da situação de entrevista, a partir do que é dito pelo do pesquisador deverá ir além de procedimentos
entrevistado, nas suas últimas respostas. formais e burocráticos, que podem fazer pouco sen-

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tido para a população estudada, sobretudo quando lidade diante do entrevistado e de seu discurso ao
esta tem pouca ou nenhuma familiaridade com a longo da situação de entrevista não é uma faculdade
linguagem que preside a tais documentos, bem como automática, mas uma competência que necessita ser
com os procedimentos científicos e direitos que nele treinada, o saber ir ao encontro de quem se tem pela
são descritos.11 O que passa por ser a instituição de frente. Exige do entrevistador uma certa experiên-
um ato de informação, pode acabar por configurar cia acumulada de situações distintas de entrevista
mais uma forma de violência simbólica e epistémica, (Rubio, 2005/2006, p. 17), uma vez que raramente
a qual poderá comprometer a prossecução de uma a exerce continuamente nas circunstâncias da sua
“boa entrevista”. Os direitos de pedir informações vida quotidiana, enquanto cidadão. De facto, em
adicionais sobre o projeto, de não responder a grande parte das conversas correntes, cada pessoa
qualquer questão, e/ou até mesmo a interromper tende a reagir ao outro com os seus próprios esque-
definitivamente a entrevista, deverão ser comunica- mas de pensamento. O entrevistador mais novato
dos ao entrevistado de forma clara – mas tal poderá corre o risco de cair neste tipo de situação, quanto
acontecer de maneira mais informal, em momentos mais não seja aplicando o esquema de pensamento
que se mostrem adequados ao entrevistador, no- (supostamente científico) subjacente ao guião de que
meadamente quando o entrevistado mostre algum vai armado, o seu escudo protetor contra a surpresa
sintoma de mal-estar perante determinada pergunta. e a timidez, contra a incerteza de, numa situação de
Mais do que assinaturas em documentos, as artes conversa relativamente aberta, falhar objetivos de
e manhas do entrevistador têm de estar orientadas pesquisa. Acaba por falhar o principal: des-cobrir o
para a promoção das condições de empatia e de que ainda está coberto pelas armaduras das certezas
confiança favorecedoras de um discurso denso por científicas.
parte do entrevistado, por forma a introduzir-se o Mas além do domínio de algumas artes de impro-
mais possível na intimidade afetiva e no universo visação, algumas manhas técnicas podem também
categorial do seu interlocutor. Isso exige recursos ser ativadas no decurso da entrevista no sentido de
comunicativos e de simpatia pessoal, mas também, favorecer e incentivar o entrevistado a revelar os
a par, recursos de vigilância profissional por parte seus pensamentos mais profundos. Convém desde
do entrevistador, que terá que ter a capacidade de logo não relaxar a atenção, confiando no facto de que
suspender no decurso da entrevista toda a sua mo- tudo o que for dito vai ficar registado. Desenvolver
ral, opiniões e categorias de pensamento próprias. uma atitude de escuta ativa (Back, 2007; Blanchet
Durante esse momento excecional, o entrevistador e Gotman, 1992; Bourdieu, 1993), paciente e dispo-
terá de esquecer-se de si enquanto cidadão, e de- nível, mas também atenta e curiosa perante o que
monstrar uma aceitação incondicional e calorosa está a ser dito, permitirá ao entrevistador seguir
perante as opiniões e sentimentos manifestados continuadamente o discurso do entrevistado e, ao
pelo entrevistado, sabendo colocar-se no lugar deste, mesmo tempo, improvisar adequadamente novas
na sua estrutura de pensamento, de linguagem, até questões ou sequências de questões mais pertinen-
de postura corporal. É neste sentido que Bourdieu tes do que as que estavam previstas. Enquanto ouvin-
(1993, p. 906) fala de uma “espécie de mimetismo” te, o entrevistador deverá sinalizar que a narrativa
por parte do entrevistador relativamente ao entre- escutada lhe desperta interesse e que se esforça
vistado, exercitando uma postura de submissão por compreendê-la, encorajando o entrevistado a
absoluta à singularidade do caso que tem pela frente. prosseguir com ela até ao fim, através da utiliza-
Também Lahire (2002) atenta para o facto de a entre- ção de expressões breves (“estou a ver…”, “humm…,
vista compreensiva dever constituir um “verdadeiro compreendo…”).
exercício democrático”, tornando real e concreta a Algumas técnicas mais sofisticadas de escuta
clássica máxima do “respeito pelo outro” (p. 401). ativa ajudam também a esclarecer, a aprofundar
A manutenção desta postura de total disponibi- ou a relançar uma discussão no momento próprio:

11 Sobre questões éticas em torno da técnica de entrevista, ver King e Horrocks (2010, p. 103-124).

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• técnicas de espelho: a repetição da palavra ou -la­depois de o entrevistado terminar o raciocínio,
da frase que acaba de ser dita confirma que o através de técnicas de relançamento (“disse-me
entrevistador entendeu a mensagem do entre- atrás que...”);
vistado e incentiva o entrevistado a prosseguir • técnicas silenciosas: do mesmo modo que não se
e a aprofundar a ideia exposta; deverá interromper o discurso do entrevistado,
• técnicas de resumo: a realização intercalada de também cabe ao entrevistador saber gerir os seus
sínteses parciais quando se quer fechar um tema, silêncios. Como se disse, muitas vezes o entrevis-
ou a reformulação de uma parte do discurso do tado é confrontado com perguntas sobre as quais
entrevistado sob forma de interpretação, têm os nunca havia pensado e necessita de algum tempo
mesmos efeitos de confirmação de entendimento para pensar. Outras vezes, o silêncio advém da
e de incentivo a continuar no mesmo tópico (“por questão colocada tocar pontos emocionalmen-
outras palavras, está a dizer que…”); te exigentes e difíceis para o entrevistado, e o
• técnicas de complementação: ajudam a aprofun- entrevistador terá de ser sensível e eticamente
dar ou a clarificar determinados aspetos de uma responsável nesses momentos. O entrevistador
narrativa, através de pedidos de clarificação (de deverá saber não ocupar estes silêncios, dando
palavras, frases ou partes mais substanciais da espaço à reflexão e/ou à expressão da dor. Do
entrevista), ou de continuação de uma história, mesmo modo, o silêncio por parte do entrevista-
um argumento, ou uma explicação (“pode-me dor também sugere ao informante que se espera
dizer um pouco mais sobre o assunto?”, “pode mais, encorajando-o a falar mais.
dar-me alguns exemplos concretos?”, “quer falar
um pouco mais sobre este ponto?”); Considerações finais
• técnicas de confrontação: a utilização de contra-
Qualquer uma das artes e manhas faladas são proce-
-exemplos ou de cotejo do que é dito com outras
dimentos que não garantem, à partida, a entrevista
informações, quando empregues de forma
como um encontro perfeito entre entrevistador e en-
cautelosa, podem introduzir nas cognições já
trevistado. Todos os procedimentos e técnicas que se
estruturadas novas informações, as quais são
podem imaginar para reduzir essa distância têm os
suscetíveis de conduzir o entrevistado a restru-
seus limites. Nada pode neutralizar ou suspender os
turar o campo das suas cognições e a produzir
efeitos sociais da dissimetria subjacente a qualquer
um discurso mais rico e menos normativo;
situação de entrevista. Mas pode e deve reflectir-se
• técnicas de incompreensão voluntária: são ma- sobre eles, ou seja, refletir sobre as condições nas
nifestações de não conhecimento do campo, que quais a entrevista é realizada, e os seus dados são
podem favorecer efeitos de pedagogia do entre- produzidos e interpretados. Já muitos outros, para
vistado sobre o entrevistador, não deixando dar trás, mostraram que o conhecimento social não
por adquirido o conhecimento deste sobre a ex- surge de assepsia cognitiva. Na impossibilidade de
periência do fenómeno em observação e análise não haver qualquer efeito de contaminação inter-
(“não percebo muito bem o que pretende dizer, subjetiva na produção de dados e de conhecimento
porque não conheço”, “esta expressão significa sobre eles, há que trazer esses efeitos para o centro
o quê?”); da análise e torná-los objeto de reflexão por parte do
• técnicas de relançamento: evitar interromper o pesquisador (Roulston, 2010, p. 115-128).
discurso do entrevistado é uma regra de ouro no Mais do que tentar não intervir durante a entre-
decurso da entrevista de tipo compreensivo, não vista, ou seguir regras gerais ditadas por manuais
apenas por questões de cortesia, mas também (que são inúmeros, os disponíveis…), a formação de
para que este tenha oportunidade em seguir um entrevistador deve passar não apenas pela elu-
com a estrutura do seu argumento até ao fim. cidação acerca das condições mínimas que evitam o
Se, entretanto, outra questão surge na cabeça do mais possível esse tipo de efeitos, mas também pela
entrevistador, este deverá anotá-la e só introduzi- aquisição do hábito de refletir sobre a formulação

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e sequência das suas perguntas, os efeitos das suas O trabalho de campo para que é convocada não
perguntas sobre o discurso do entrevistado, e as se resume à mera aplicação de um guião prévio.
condições (estruturais e situacionais) que tornam Embora este deva existir – contendo os tópicos orien-
possíveis tais discursos e inteligíveis tais efeitos. tadores da entrevista, priorizando as dimensões
Vale a pena, no fim de cada entrevista, fazer um de análise mais relevantes, e controlando o que é
exercício de autorreflexividade (ou, eventualmente, periférico em função da problemática que se preten-
até fazê-lo com o próprio entrevistado) sobre o que se de elucidar ao longo da pesquisa –, o guião deverá
fez e como se fez, por forma a informar o que ainda funcionar apenas como instrumento-guia para fazer
está por fazer (King e Horrocks, 2010, p. 128-130; falar os sujeitos acerca do que importa pesquisar,
Roulston, 2010, p. 115-129). demonstrando-se suficientemente plástico para, na
Até porque cada questão, em cada entrevista, sua aplicação, ativar um diálogo mais rico do que a
é suscetível de análise crítica quanto aos erros e simples resposta a questões. Tal presume por parte
potencialidades heurísticas que revelou, exercício do entrevistador uma atitude de permanente atenção
precioso no sentido de diagnosticar se valerá a pena e abertura à perspetiva e narrativa do entrevistado,
transferi-la ou não para a próxima entrevista, sob no seu conteúdo e sequência, bem como de flexibi-
a mesma ou outra roupagem discursiva. Como se lidade e habilidade em responder adequadamente,
viu, entrevista de tipo compreensivo não se encon- sob a forma de pergunta, aos tópicos que emergem
tra reduzida à aplicação de um guião previamente no decorrer da entrevista. Por vezes, um tópico que
desenhado com base em pressuposições teóricas, é inicialmente presumido como supérfluo, ou ao
mas implica um guião em plena reconstrução pelo qual sequer se dá relevância, manifesta-se central
pesquisador – quer no decorrer da própria situação a desenvolver com um determinado entrevistado.
de entrevista, quer de entrevista para entrevista –, A entrevista de tipo compreensivo pressupõe,
tal como as próprias hipóteses vão sendo continu- portanto, uma postura epistemológica própria, em
adamente colocadas e reformuladas no contexto de que a tradicional relação de comando da teoria sobre
novas descobertas proporcionadas no decorrer da a pesquisa empírica é invertida. O terreno não é tido
pesquisa. como uma instância de verificação de um modelo
É neste sentido que Kaufmann (1996) fala do preestabelecido, mas o ponto de partida de uma pro-
pesquisador como um “artesão intelectual” (p. blematização; não é apenas o contexto de demons-
12-13), cuja criatividade e artes de improvisação tração de hipóteses preestabelecidas, mas contexto
investidas na construção da sua teoria e do seu de descoberta de novo conhecimento (Guerra, 2006;
próprio método são, simultaneamente, estimuladas Pais, 2002). A entrevista compreensiva supõe, em
e controladas – numa palavra, fundamentadas – no suma, uma forma específica de rutura epistemoló-
terreno, através da capacidade que demonstra em gica entre saber científico e senso comum, que não
matizar e personalizar os instrumentos teóricos e passa pela rutura radical característica do modelo
metodológicos, no decorrer de um projeto concreto mais clássico de ciência, mas por um modelo de ru-
de pesquisa empírica. No tipo de entrevista que se tura progressiva (Kaufmann, 1996, p. 21-22).
quer fazer passar por impessoal e neutro, a teoria Este implica um contínuo movimento de ir e
tende a ser produzida logo no início da pesquisa sob vir por parte do pesquisador, criativo, interativo
a forma de modelo, sendo o protocolo de entrevista e recíproco, entre a escuta atenta do entrevistado
posteriormente fixado como instrumento de recolha que tem pela frente, a compreensão do seu esquema
de dados e de verificação das hipóteses modeladas. narrativo, categorial e valorativo, a produção de
O roteiro de questões deverá ser estandardizado e instrumentos concetuais adequados à interpretação
estabilizado, e a condução da entrevista marcada e explicação da evidência específica e, por fim, a
por uma certa reserva do entrevistador. A entrevista análise reflexiva sobre a sua própria intervenção,
de tipo compreensivo opõe-se radicalmente a esta voluntária e/ou involuntária, ao longo de todo o seu
atitude epistemológica e respetivos procedimentos processo de produção de conhecimento. Um trabalho
operativos. sempre a duas (ou mais) vozes, polifonia em que a

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voz do pesquisador não deve esganiçar-se ao ponto GLASER, B.; STRAUSS, A. L. The discovery of
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Recebido em: 03/12/2012


Aprovado em: 13/05/2013

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