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CORREIO BRAZILIENSE

OU

ARMAZÉM LITERÁRIO

JULHO - DEZEMBRO, 1816


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CORREIO BRAZILIENSE
DE JULHO, 1810.

Na quarta parte nova os campos ara,


E se mais mundo houvera Ia chegara.
CAMOENS, c . v n . e. 14.

POLÍTICA.
Documentos officiaes relativos ao Reyno Unido de Por-
tugal dos Algarves e do Brazil.

E D I T A I , D A J U N C T A DA S A Ú D E .

Lisboa, 21 de Junho.
A J U N T A da Saúde Pública faz saber, que por Aviso
expedido pela Secretaria de Estado dos Negocio* Es-
trangeiros, da Guerra e Marinha, em data de 7 do corrente,
lhe foi communicada a gazeta de Amsterdam de 24 de
Mayo próximo passado, na qual. vem incluído um artigo
de Haarlem de 22 do mesmo mez, cujo theor he o seguin-
t e — " O Conselho d'Estado, governador do Norta de
Hollanda, authorizado para o fazer assim em similhantes
casos, participa sem demora a quem poder pertencer, que
conforme as noticias recebidas de Christiansand, em data
de 10 do presente, em Siindfior, distante trinta e seis horas
da parte do Norte da Cidade de Bergen, julga ter appare-
cido uma perigosa, e contagiosa doença, que ataca as pes-
soas, fazendo-as morrer em menos de doze horas ; e dizem
que procede de algumas relíquias de um naufrágio, de
pessoas que vierao parar á costa. Assim se acha necessário
avisar a todos os negociantes, e pessoas marítimas para se
Voi.. X V I I . No.98. A2
4 Politica.
livrarem daquella Costa da Norwega, c naõ terem com-
municaçaõ cora as embarcações, que de lú vierem, c po-
derem ser encontradas no mar. No mais Sua Magestade
mandou já tomar todas as providencias necessárias para o
dicto rim."—Em conseqüência pois deste desagradável, e
perigoso acontecimento, a Junta recorre sem perda ile
tempo ás seguintes providencias para por meio dellas
evitar a communicaçaõ deste novo flagello, que ameaça a
segurança da saodé pública do Reyno.
1. Saó considerados como contagiados deste flagello
todos os portos da Norwega inelusivamente os da Tinmark ;
especificamente—Bergen, Stavangcr, Oroutliein, Chris-
liaii.suud, 11a Ilha de Tosscn, Ctiristiania, Cbristiansanil,
Laitrwigen, Risocr, Tonsberg, Abbcfiord, Frcdcrick-
Shall, Frcdcrickstadt, e o pequeno porto de Wareii^cr.
2. As embarcações procedentes dos portos comprehen-
didos no artigo antecedente, naõ se admittem em nenhum
porto do Reyno ; e quando sueceda que cheguem a entrar
cm algum dos portos do Reyno, seraõ obrigadas a saliir
com as cautelas, que as suas circumstancias especifica*, e
a> do porto, em que tiverem entrado, rccommeiidarcin, ou
fizerem necessárias, prevenindo primeira todos os portoi
do Reyno ; e apenas se lhes concede lançarem fora cartas,
ou papeis, que tragam a seu bordo, para serem cutregues
ás repartições, ou pessoas, a quem se dirigem, depois de
purificados pelos desiiifuclantes mais enérgicos, que aclu-
aliiienlc se praticam em similtiautcs casos; ficando rcslrin-
gida esta mesma liberdade ao porto de Lisboa, pelo perigo
que roubaria á segurança da saúde pública, se este nu-
liudroiissimo ramo Ac policia externa de saúde se pcrinit-
tisse em qualquer outro porto do Reyno.
3. Saõ considerados como muito suspeilosos tlisle con-
tagio totlos os porto» ria Julland na Dinamarca, especifi-
camente—Homens, Sabic, .Nickiopirg, Alburg, Mariager,
Arhusen, Freilcricia, líilicii, Kingkiepmg, Wcile, ion-
Politica. 5
ningen, Husum, Hoyer, Flensborg, Apenrede, Hadersle-
ben, e a Ilha de Nordstrand :—Todos os portos da costa
occidental da Snecia, especificamente — Gothenburg,
Marstrand, Uddevall, Kongsbaka, Warburg, Falkcnlierg,
Halmstadt, Lageholm, Engeihorm, Helsingborg, Malmo,
Landseron, Ystad, Falsterdo ;—e o porto de Amai, per-
tencente ao Lago Venere.
4. As embarcações procedentes dos portos comprehen-
didos no artigo antecedente, saõ admittidas só, e exclusi-
vamente no porto de Lisboa, debaixo de uma quarentena
rigorosa.
5. Saõ considerados como levemente suspeilosos deste
contagio todos os portos das Ilhas Dinamarquezas, especi-
ficamente na Ilha de Fyen; os portos de Odenseo, Asseus,
Suenborg, Nieborg, Faborg, na Ilha de Alsen; o porto de
Sonderborg, na Ilha tle Langeland, o porto de Rudkio-
ping : na Ilha de Laland, os portos de Naskou, Saxkio-
bing, Rodbye, Nisted; na Ilha de Falster; o porto de
Niektoping: na Ilha de Moen, o porto de Steege: na
Zeeland, os portos de Copenhagne, Wordingborg, o
pequeno porto dcNestued, Skilskiocr, Korsor, Niekioping,
ELsenor, Kiogc, Fririicsborg, Frcdericsund ; todos os
portos do Holstein, especificamente Lubeck, Travcmunri,
Neustadt, Gluckstat, Meldorf, Hciligenafcn, Rcndsborg,
Kiel porto pertencente á Rússia. Todos os portos Suecos
das provincias de Bleking, e de Smalaod, especifica-
mente ; os portos de Carlscrona, Carlsliam, Christiaxistadt,
Calmar: a Ilha de Oeland : a Ilha de Gothland com o
seu porto de Wisby ; e a Ilha de Bornholm com os dous
portos de Ronde, e Ncxoc.
6. As embarcações procedentes dos portos comprehen-
didos no artigo antecedente, saõ admittidas só, e exclusi-
vamente no porto de Lisboa debaixo de uma observação
de 10 dias.
7. As providencias que ficam adoptadas nos seis artigos
7
6 PolitiCmU
antecedentes, seraõ reduzidas n sua fiel observância de-
baixo das medidas, cautelas e responsabilidades, que se
eslalieleeôrani peloe artigos 8, 9, e 10, do edital de 30 de
Março do corrente anno.
E para que chegue á noticia de todos, e se nn6 possa
allegar ignorância, se mandou atfaxar o presente edital em
Iodas as praças, c lugares públicos dos porto» do Reyno
para ser cscrupulosauiente observado, era quanto naõ for
dispensada, ou modificada por outro a sua litleral obser-
vância.— Lisboa, 19 de Junho, de 1816.—Luiz Antonio
Rebello da Silva.

ÁUSTRIA.
(Puhlicáram-sc quatro patentes imperiaes, ou decretos
relativos ás finanças. O primeiro, ordena, que se naõ
ponha cm circulação papel-moeda, que tenha circulação
forçada ; e estabelece o modo por que se ha de extinguir
o antigo.)
Resumo do decreto, para extincçaõ do papel-moeda.
As árduas convulsoens, que acommettêrnm a Europa,
pelos vinte e cinco annos passados, nos obrigaram, desde
o principio de nosso reynado, a tomar parte nas continuai
guerras deusoladoras, que puzérara em perigo a segurança
e independência do Império—objectos de inestimável
valor tanto para os soberanos como para os povos. Con-
seguintemente, para a nossa independência e segurança
naõ podíamos nem devíamos poupar esforços alguns.
A dcsenvoluçaõ de toda a força do Estado, porém, oc-
casionou despesas, que excediam muito os meios dos que
haviam de pagar os tributos. Invocamos a confiança do
nosso povo. O papel, representando o valor do ouro, nos
habilitou a prover ás urgentes necessidades do Estado, c a
manter o perigoso conflicto, CUJA renovada terminação
tornou a pôr a Monarchia de posse daquellas provincias,
que lbe foram arrancadas; e confirmou d? novo a sua se-
Politica. 7
gurança e independência. O nosso primeiro cuidado tem
lido restabelecer as nossas desordenadas finanças; e desde
as ultimas negociaçoens de paz nos temos empregado era
preparar os meios necessários para obter este fim.
O resultado tem conrespondido a nossos esforços; e ex-
perimentamos particular satisfacçaõ em poder tomar me-
didas, que nos conduzirão a este objecto, sem infringir os
direitos e legitimas pretençoens de nossos fieis vassallos.
As medidas, que temos adoptado, saõ fundadas na livre
cooperação do nosso bom povo: e descançamos na sua
confiança, que de si mesma se unirá aos arranjamentos que
temos publicado, e que se justificarão completamente por
seus resultados.
Para o futuro naS se porá em circulação papel-moeda,
qoe tenha valor forçado nos pagamentos: nem se aug-
mentará o que ja está em circulação. Se algumas circum-
stancias extraordinárias exigirem despezas, além dos re-
cursos ordinários do Estado, a administração da repartição
de Finanças tomará as medidas necessárias para cubrir as
despezas por novos recursos, e meios extraordinários, sem
introduzir, em caso nenhum, papel moeda, que tenha cir-
culação forçada.
O papel-moeda existente poderá ser trocado no computo
de dous septimos, por notas do novo banco, que se ha de
erigir; e essas notas do banco seraõ trocadas por dinheiro
da convenção, em sua somma total; e no computo de cinco
septimos de sua somma total; e a extensão de cinco sep-
timos, por assignados nas dividas do Estado, vencendo
juro de um por cento, em dinheiro da convenção. Poderá
também o dicto papel-moeda ser empregado como capital,
entrado no novo banco; com esta intelligencia, porém,
que por cada acçaõ (consistindo o capital em 50.000
acçoens) se adiantarão 2.000 florins em papel, e 200
florins e dinheiro da convenção. A vantagem dos possui-
dores do papel moeda consiste na segunda alternativa,
• Política.
1*. no gozo das vantagens, que o banco apresenta; e í*.
no rédito de ÍJ por cento de juros em dinheiro de con-
venção, que seraõ pagos pelo banco em obrigaçoens, que
o banco expedirá para esse objecto.

Decreto, para estabelicimento do banco.


O banco sen* denominado " Banco Nacional Austriaco
privilegiado." Começará as suas operaçoens, logo que
se tiverem tomado sufficiente numero de acçoens ; e até
aquelle periodo fará as suas transacçoens, começando qo
1*. de Julho, trocando as notas por acçoens, e será condu-
zido por uma direcçaõ provisional. Para este fim se es-
colherá d'entre a deputaçaõ para a extincçaõ do papel-
moeda, c d'entrc os principaes negociantes e banqueiros,
oito directores provisionaes do banco, cujo officio será
fazer todas as preparaçoeus necessárias para o seu com-
pleto estabelicimento. Esta direcçaõ provisional se con-
respondera immediatamente com o Ministro de Finanças,
e, pelo que respeita a extincçaõ das nota*, dirigirá o
banco, até que se tenham tomado mil acçoens; sendo a
somma de cada uma 2.000 florins, em papel-moeda, e 200
florins era dinheiro da convenção.
Logo que estiver completo o numero de acçoens, o banco
ficará sendo propriedade dos possuidores das acçoens ; e
começarão as operaçoens a que elle he destinado, como
estabelicimento especialmente privilegiado. Os dictos
accionistas nomearão, d'cntre si mesmos, um committé de
50 membros, que junctamente com os directores provi-
sionaes do banco, e commissarios, que nós houvermos
de nomear, esboçarão um systema completo de regula-
mentos para o banco, o qual será submettido á nossa ap.
provação.
O banco U-iá authoridade para estabelecer, em qualquer
parte da Monarchia, que julgar conveniente, ramificaçoena
Politica. 9
do mesmo banco : e nenhum outro banco, além deste pri-
vilegiado poderá obrar como banco de cambio.
O banco circulará notas pagaveis ao portador, de 5, 10,
50, 100, e 1000 florins, que seraíí pagas, quando forem
apresentadas, em dinheiro da convenção; sendo, porém,
as dietas notas do banco declaradas reconhecido modo de
pagamento, e favorecido pela ley. Mas nas transacçoens
entre os indivíduos, ninguém será obrigado a recebêllas;
e por outra parte seraõ usadas em pagamento dos tributos
ao Estado; e os cobradores dos direitos as receberão como
moeda corrente.
O papel-moeda, que for entrado ao banco por acçoens,
naõ tornará, em caso algum, a ser posto era circulação;
mas sim, de tempos a tempos, será queimado, na presença
de uma deputaçaõ dos accionistas, e dos commissarios,
que hemos de nomear ; recebendo o banco da administra-
çaõ das Finanças obrigaçoens, que vencerão o juro de 2 |
por cento; e estes juros seraõ divididos, como prêmio,
pelos accionistas.
A moeda, que se pagar pelas acçoens, constituirá os
fundos de um futuro banco de câmbios, por n-eio do
qual se descontarão as letras de cambio e outros bilhetes
commerciaes de casas de negocio bem abonadas. Porém o
banco naõ emprestará dinheiro com hypolecas, até qüe
estejam em plena actividade as suas aperaçoens para a
extincçaõ do papel-moeda, e dos câmbios; e atê que
possua sufficiente somma de dinheiro corrente para ambos
estes fins.
O banco consistirá em 50,000 acçoens, cada uma nas
sommas acima especificadas ; e continuará a receber sub-
scripçoens, até que aquelle numero esteja completo; e
terá o direito exclusivo de preparar e porem circulação as
notas do banco, por cujo pagamento ficam responsáveis,
além de todo o dinheiro, que se achar no banco, todas as
minas da Monarchia.
V O L . X V I I . N o . 98. B
10 Politica.
O terceiro decrelo serve de nppentliz aos dous prece-
dente, econtem um regulamento para restabelecer a ordem
na circulação da moeda: deeigna as vendas, que ficam
separadas, e que podem ser pagos nas notas do banco ; e
as pequenas sommas, qtie se pagarão em dinheiro da con-
venção. Estas rendas, saõ, os direitos d'alfandega nn
importação e exportação, cm totlos os dominios hereditá-
rios de S. M. ; o direitos provenientes dos processos judi-
ciaes ; alem dos direitos políticos e douriniciaes ; em
toda a extençaõ da monarchia; o tributo das loges,
introduzido n s provincias d'Aleiiianha ; o tributo pes-
soal ou capttaçaõ, que pagam os vassallos Alemaens de
S.M. ; e o imposto sobre os Judeus.

O quarto decreto diz respeito ao valor da pequena


moeda de cobre, em circulação, que se manda receber
nos pagamentos, como dinheiro da convenção.

INGLATERRA.

Falia do Orador da Casa dos Communs, a S. A. R. o


Principe Regente, no encerramento du Sessaõ do Par-
lamento, aos 2 de Julho, 1810.
SENHOR l—No encerr imento de uma sessaõ laboriosa,
nós os Coramuneiros, fulelissimos vassullos de S. M. nos
apresentamos ante Vossa Alteza Real, com o nosso ultimo
Bill dos subsídios.
No decurso de nossas deliberaçoens, obedecendo ás
ordens de V A. R. examinamos os diversos tractados c
convençoens, que st- nos oprezentáram. Vimos nelles a
tranquillidade da Europa restabelecida sobre at bazes do
Govemo legitimo, pelos mesmos conselho» que presidiram,
c fizeram o plano das medidas denotlailas, providontes e
comprehctisivas, começadas nas negociaçoens de Chau-
3
Politica. 11
mont, levadas i madureza no Congresso de Vienna ; e
completadas na paz de Paris. Temos visto também a
sabia e generosa política das Potências Alliadas, que, re-
nunciando a todos os projectos de desmembraçaõ da grande
e antiga monarchia de França, se contentaram com adop-
tar aquellas medidas de precaução, que podem proteger
eficazmente o mundo, contra a renovação de seus passados
soffrinientos; e nos alegramos mui especialmente de que
este importante encargo fosse confiado, de commum con-
sentimento, ao mesmo viclorioso commandante, cujos tri-
umphos te:u tam varonilmente contribuído para a gloria
de sua Pátria, e para a felicidade geral do gênero humano.
Nos nossos negócios domésticos, a grande c súbita
transição de um estado de guerra extensa, para a nossa
presente situação, produzio necessariamente muitos males
consideráveis, e difficuidados, a que naõ faltamos era
applicar a nossa mais anxiosa attençaõ. Aos apertos dos
interesses agricultores temos prestado aquelles auxílios im-
mediatos, que se puderam descubrir, esperando também)
que elles possam diminuir diariamente, e confiando muito
na cicatrizanfe influencia do tempo. Para beneficio do
commercio, e commodidade geral de todas as classes de
vassallos de S. M. se providenciou bater-se nova moeda ;
e de vários modos por disposiçoens e indagaçoens prepara-
tórias, temos empregado muito do nosso trabalho, no
melhoramento geral da condição do povo, seu alivio, e
sua instrucçaõ.
N o ajuste de nossos.arranjamentos financiaes; as despe-
zas para os serviços dos nossos estabelicimentos militar e
civil; tem sido consideradas relativamente aos recursos
pecuniários deste anno; e entre as mais importantes destas
medidas, que affectam os interesses unidos da Gram Bre-
tanha e Irlanda, he a ley que passamos para consolidar os
rendimentos de ambas as porçoens do Reyno Unido.
Porém, Senhor, no meio de todos os nossos vaiios, e
B2
12 Politica.
importantes negócios, domésticos e estrangeiros, naõ lia
nenhum em qne esta naçaõ jamais tomasse mais profundo
interesse, do que no que diz respeito ao esplendor c digni-
dade do throno, e felicidade da Casa Real, que reyna
sobre nós. Penetradosdesles sentimentos, temos trabalhado,
por um novo arranjamento da lista civil, cm separar aquellas
rendas, que saó especialmente assignada* á mantença do
estado Ri ai, pondo-as daqui em diante fora do alcance
de quaesquer despezas incidentes, que pertencem mais pro-
priamente a outros e tlifferentes ramos do serviço publico :
e no mesmo espirito de lealdade c affeiçaõ saiulanos, cora
satisf<cçaõ cordeal, o venturoso casamento, pelo qual a
paternal escolha de V A. R. tem gratificado os desejas
universaes da naçaõ; e tem adoptado para a familia tio
nosso Soberano um lllustre Principe, cujas alta» qualidades
ja o tem feito amável ao povo, entre o qual elle tem fixado
o futuro destino de sua vitla.
Estes saõ, Senhor, os objectos a que os nossos pensa-
mentos e trabalhos se tem principalmente dirigido ; o para
completar os subsídios» que he do nosso especial dever e
privilegio providenciar, agora apresentamos a Vossa Al-
teza Real um Bill, intitulado; " Um Acto para conceder
a Sua Magestade certa somma, no fundo consolidado da
Gram Bretanha; e applicar certo? dinlieiros, nelle men-
cionados, ao serviço do anuo, de 1816; e para apropriar
os subsídios concediJos nesta sessaõ do Parlamento ;" pari
o quul Bill pedimos, com toda a Imunidade, o Real
assenso de Sua Magestade.

Falia do Principe Regente.


My Lords e Cavalheiros.
Naõ p<>*so encerrar C s , a sessaõ do Parlamento, sem ex-
pressar outra vez o meu profundo sentimento, na conli-
nuaçaÕ da lamentável indisposição de Sua Majestade.
Politica. 13
O cordeal interesse, que tendes manifestado no feliz
acontecimento do casamento de minha filha a Princeza
Carlota, com o Principe de Saxonia-Coburg, e o liberal
provimento, que tendes feito, para o seu estabelicimento,
apresenta uma prova mais de vossa aífeiçaó e amor á
pessoa e familia de Sua Majestade; e exige os meus mais
ardentes reconhecimentos.
Tenho o prazer de vos informar, que dei o consentimento
Real a um casamento entre a filha de Sua Magestade, a
Princeza Maria, e o Duque de Gloucester; e estou per-
suadido de que este acontecimento será altamente agra-
dável aos vassallos de Sua Majestade.
As seguranças, que ten ho recebido, das disposiçoens paci-
ficas c amigáveis das potências, que entraram na ultima
guerra, e da sua resolução de executar inviolavelmente os
termos dos tractados, que eu vos annunciei na abertura da
sessaõ; promettem a continuação daquella paz taõ es-
sencial aos interesses de todas as naçoens do Mundo.
Cavalheiros da Casa dos Communs.
Eu vos agradeço os subsídios, que tendes outorgado para
o serviço deste anno ; e sou sensível aos benéficos eflèitos,
que se pôde esperar resultem do saudável systema de
providenciar para elles de maneira, calculada a sustentar o
credito publico.
Os arranjamentos, que tendes adoptado, para desem-
baraçar a lista civil de seus cargos, e fazer que, para o
futuro, o seu rendimento seja igual á despeza, aleviando-a
de uma parte dos encargos a que estava sugeita, me saõ do
maior prazer e satisfacçaõ ; e vos podeis estar seguros de
que nada se omiti irá de minha parte, para dar pleno eíFeito
aquelles arranjamentos.
O provimento que tendes feito, para consolidar os rendi-
mentos da Gram Bretanha c Irlanda, sem duvida produ-
zirão as mais felizes conseqüências, reunindoe adiantando
os interesses do Reyno Unido; e deve offerecer mais outra
U Política.
prova da constante disposição do Parlamento em aliviar as
difficuldades, e promover o bem da Irlanda.
My Lord e Cavalheiros.
As medidas aque me vi obrigado a recorrer, para sup-
pressaõ dos tumultos c desordens, que infelizmente oceor-
rêram cm algumas partes do Reyno, produziram o mais
saudável effeito.
Lamento profundamente n continunçaódeqticUes apertos
c penúrias, que as circumstancias do paiz tem inevitável-
menntc trazido a muitas classes dos vassallos de Sua Ma.
jestade.
Estou plenamente persuadido, que, depois dos árduos
soffrimenlos porque tem passado, no tlccursoda cruel con.
tenda, cm que estivemos empenhados e o final bom suc-
cesso, que accompanhou os seus gloriosos e perseverantes
esforços, posso descançar com perfeita confiança no seu
espirito publico, c fortaleza, em suppoitar-sc nestas dificul-
dades, que espero se acharão provir de causas de natureza
temporárias ; e que naõ podem deixar de ser essencial-
mente remediadas, pelo progressivo melhoramento do
credito publico; c pela diminuição, que já tem tido
lugar, nos encargos do Povo.

FRANÇA.

Resumo da Ordenança sobre o modo de admittir, educar


e promover os candidatos, para o Officio de Vice-Con-
tules.
Sendo os consulados destinados para a protecraõ do
commercio e navegação de nossos vassallo-., nos paizes es-
trangeiros, e para administrar a justiça, c u policia aos
dictos nossos vassallos, c uiinistrar ao Governo ni informa-
çoens, que o habilite ni a promover o commercio estran-
geiro; lie evidente, que taes otlicio^ nuõ pódera ser pro-
priamente servidos, a menoj que as pessoas nome mim para
Politica» 15
os consulados tenham adquirido, por estudos convenientes,
e adequada experiência, o conhecimento positivo do
direito publico, e da legislação e negócios commerciaes.
Os artigos I o . e 2 o ; nomeam os candidatos, para Vice-
Consules, que se devem collocar com os Cônsules Geraes,
e Cônsules, tanto no Levante como em outros paizes ; fixa
o seu numero a 12 ; e destina 24.000 francos para as des-
pezas deste estabelecimento.
Pelos artigos 3°. e 4". se determina que a idade dos
candidatos deve ser desde os 20 até os 25 annos; e
passarão por exames sobre as suas qualificaçoens. Os
candidatos para Vice Cônsules viviraõ e comerão em casa
dos Cônsules, recebendo estes em consideração disso a
somma annual de 500 francos ; a qual se ha de descontar
do salário assignado aos Candidatos.
(Segue-se dahi,o systema de regulamentos, formalizados
pelo duque de Richelieu, Ministro dos Negócios Estran-
geiros ; cora que estes candidatos se devem conformar, e
segundo os quaes devem ser educados : saõ os seguintes.)
ART. 1. Os candidatos devem provar, que tem acabado
os seus estudos na faculdade de Letras, e que tem ouvido
o curso de liçoens, em Paris, do código de Commercio.
2. Os candidatos devem também provar, que sabem ao
menos uma das três línguas Alemaã, Ingleza, ou Hespanhola;
serem instruídos no curso de Arithmetica de Bezout,
poderem medir os vasos, fazer planos, e fixar a latitude e
longitude dos lugares.
3. Os filhos e sobrinhos dos Cônsules seraõ preferidos
aos outros candidatos, se tiverem as qualificaçoens pre-
scriptas.
4. Os candidatos Vice-Consules seraõ postos debaixo
da direcçaõ e authoridade dos Cônsules, com quem resi-
direm.
5. Os consoles teraõ cuidado de cultivar nos seus edu-
candos os sentimentos de Religião e de moral; assim co-
1g Politica.
mo aquella dignidade e elevação de character, que deve
pertencera homens destinados a servir a El R e y , e a hon-
rar o nome Francez, em paizes estrangeiros.
6. Os estudos dos educando*» teraõ por objecto, 1*. O
conhecimento tloque constittie o officio de Cônsul : elles
faraõ unia analyse das ordenaçoens, regulamentos, e in-
strucçoens relativos ás funcçoens tios Cônsules, seja no que
respeita ns suas relaçoens com as authoridades estrangei-
ras, seja no exercicio da justiça e policia a respeito de
seus compatriotas, mercadores, marinheiros, e outros ; ou
naquelle ramo de atlminislruçaõ, que lhes possa ser dele-
gado, a respeito dos nt^sos estabelicimentos commerciaes
e serviço da nossa marinha. 2 . O conhecimento dos in-
teresses commerciaes de França, a respeito tios paizes em
que residem : elles estudarão e analyziraõ os melhores
livros sobre a matéria de commercio, e economia politica :
as obras estatísticas sobre a França, e paiz tle sua residên-
cia ; as instttuiçociiH, leys, e regulamentos desse paiz, cm
suns relaçoens directas ou indirectas com o commercio :
os tractados e convençoens de commercio, feitas por
aquella potência com outras naçoens, e particularmente
com a França.
7. Os educandos estudarão a lingua do paiz aonde resi-
dem, e se faraõ mestres delia, tendo jn disso algum conhe-
cimento. Os que se mandarem para o levante estudarão
o Turco, e o Grego.
8. Os educandos ajudarão os Cônsules no exercicio de
suas funcçoens; seraõ empregados em transcrever a con-
respondencia, e as memórias.
9. N o fim do cada anno, o Secretario tle lotado dos
Negócios Estrangeiros assignara uma matéria, sobre que
os educandos seraõ obrigados a escrever uma memória,
que deverá estar acabada no mez de Agosto do anno se-
guinte. Esta memória será transmitlida ao Secretario de
Politica. 17
Estado, e o habilitará a julgar da capacidade e applicaçaõ
do educando.
10. Os educandos seraõ mandados recolher, se faltarem
á subordinação aos Consules-geraes, e cônsules ; se o seu
comportamento apresentar irregularidades, inconsistentes
com as qualidades moraes, que requer o officio de Cônsul;
se, a pezar das admoestaçoens dos Cônsules, elles se aban-
donarem á dissipaçaõ ou indolência habitual; se casarem
sem o consentimento d'El Rey.
11. Os educandos naõ poderão ser apresentados a £ 1
Rey, para serem nomeados para os lugares de vice-cousu-
les, em quanto naõ tiverem estado dous annos como edu-
candos. Os que se tiverem dtstinguido por seu bom com-
portamento, applicaçaõ, e capacidade, seraõ promovidos
em preferencia ; sem attençaõ á senioridade.

Ordenança conferindo a Legiaõ oVHonra aos Príncipes


de Sangue.
Luiz, &c. Desejando dar novo lustre á Real Ordem
da Legiaõ d'Honra, e solemnizar a festividade de nosso
Augusto antecessor, Henrique IV Patrono da Ordem.
Temos ordenado e ordenamos o seguinte : —
Art. 1. Conferimos a Gram Cruz da Legiaõ de
Honra a
O nosso amado Irmaõ, Monsieur.
O nosso amado sobrinho o Doque d'Angouleme.
O nosso amado sobrinho o Duque de Berri.
O nosso primo o Duque de Orleans.
O nosso primo o Principe de Conde.
O nosso primo o Duque de Bourbon.
Art. 2. O nosso Gram Chanceller da Real Ordem da
Legiaõ de Honra he encarregado da execução da presente
ordenança.
(Assignado) Linz.
(Contrasignado) RICHELIEU.
VOL. X V I I . N o . 98. c
|g Politica.

Ordenança mandando adaptar as formulas das leys ao


Governo actual.
Luiz, &c. Estamos demasiadamente convencidos dos
inales, que pode causar ao Estado a instabilidade das leys,
para que pensemos agora era uma revisão geral dos cinco
Códigos, que estavam era vigor no nosso Reyno ; quando
promulgamos ao povo a Carta Constitucional; e somenre
a nós reservamos propor leys parciaes, para reformar tudo
aquillo, que fosse susceptível de melhoramento : porém
se taes reformas só pódcni ser a obra do tempo, e o fructo
de longas mcditaçoens, he indispensável supprimir, desde
agora, as denorainaçoens, expressoens, e formulários dos
differentes Códigos, que naõ concordam com os principios
de nosso Governo ; e que lembram tempos e circumstan-
cias, cuja memória desejamos poder abolir. Por estas
causas, com o parecer de nosso Conselho, e relatório de
nosso Chanceller, temos ordenado e ordenamos o se-
guinte :—
Art. 1. As denominaçoens, expressoens, e formulários,
que trazem á Icinbrt.nçu os differentes governos, anteriores
á nossa volta para o Reyno, saõ e ficam riscados do có-
digo civil, do código dos processos civis, do Código de
Commercio, do código dos processos criminaes, e do có-
digo penal; e daqui em diante seraõ substituídos por de-
nomiuaçoens, expressoens, c formulários, conformes ao go-
verno estabelecido pela Carta Constitucional.
2. Em conseqüência prohibimos ás nossas Cortes de
justiça, tribunaes, prefeitos, subprefeitos, conselheiros
de prefeitura, e a todos os outros nossos oflicinc-s c sub-
ditos, que empreguem, nas cilaçorns, que tenham de
fazer de alguma ley, ordenação, decreto ou acto qual-
quer, as denominaçoens e expressoens tuppren&a* pelo ar-
tigo precedente.
3. Publicar-se-ha immediatamente, debaixo da direc-
Politica. 19
çaõ do nosso Chanceller, encarregado interinamente da
pasta da repartição da Justiça, uma nova ediçaõ dos di-
versos Códigos, contendo as alteraçoens aqui ordenadas.
4. Nesta nova ediçaõ, continuará a ser textualmente a
mesma substancia e forma da expressão, cm todos os arti-
gos, que estaõ actualmente em vigor. E até conterão
aquelles artigos dos differentes códigos, que tem sido ab-
rogados ou modificados por leys posteriores; porém em
uma nota, ou na margem, se mencionarão as leys, que as
alteram ou modificam; e estas leys seraõ impressas no
fim dos dictos códigos.
5. As novas ediçoens dos códigos seraõ submettidas á
nossa approvaçaõ, e cada uma será inserida no bulletim
das leys; depois do que será permittido a todos os li-
vreiros o publicar por sua conta as ediçoens, que lbe pa-
recer. (Assignado) Luiz.
Julho 17, 1816.

PAIZES-RAIXOS.

Decreto sobre o Culto Catholico.


Nós, Guilherme, pela graça de Deos, Rey dos Paizes-
Baixos, Principe d'Orange-Nassau, Gram-Duque de
Luxemburgo, &c. &c. &c.
Vista a Concordata concluída entre o Governo Francez
e a Sancta Sé, a 26 de Messidor do anno 9». ; e juncta-
mente os Artigos orgânicos e relativos á ella, da mesma
data, promulgados ao mesmo tempo pela ley de 18 Ger-
minal do anno 10*. ; vista a Bulla de S. Sanctidade, dada
em Roma a 18 das kalendas de Septembro, de 1801, pela
qual a dieta Concordata foi ratificada e publicada com a
notificação a todos os Ecclesiasticos de a ella estreitamente
se conformarem em todo o tempo e sem contradicçaõ;
Vista a Bulla de S. Sanctidade em data de 3 das kalendas
c2
20 PotitiCmU
de Dezembro, de 1801, publicada pela Resolução de 29
de Germinal do anno 10°., a qual, em virtude dos artigos
orgânicos acima mencionados, institue o Arcebispado de
Malinas, tal qual ao presente existe, e os seus suftraganeos,
os Bispados de Namur, Touniai, Gante, e Liege, suppri-
rnindo o Arcebispado entaõ existente de Camhrai, e seus
suffiaganeos, os Bispados de Tournai e de Namur, e o de
Malinas, e os Bispados suffragancos de Liege, Ypres,
Gante, Ruremonde, e Bruges ; vistas as modificações fei-
tas nos artigos orgânicos pelo decreto de 20 de Fevereiro,
e pela nossa R solução de 7 de Março, de 1815 ; consi-
derando que o exercicio do culto publico no Arcebispado
de Mal mas, e Bispados seus suffraganeos, a authoridade
espiritual dos Ecclesiasticos, a sua circumscripçaõ territo-
rial, e o pagamento das congruas e pensões continuara a
ser regidas conforme os disposições enunciadas pelos so-
bredictos actos, e que a fruição das dictns prerogativas se
alliga necessária mente á repulsa dos abusos de que os Ec-
clesiasticos poderiam fazer-se culpados no exercicio de
suas funoções, e que por estes actos se acham previstos;
mas que a este respeito a mudança das circumstancias po-
líticas tem feito necessário desiguar positivamente as au-
thoridades e os funccionarios, que, no estado actual das
cousas, deveram substituir os que existiam no tempo do
regimen Francez, ao menos até á época cm que se houver
concluído nova Convenção com 8. Sanctidade; temos
determinado, e determinamos o seguinte :
Art. 1*. As funcções attribuidaa pelos actos acima men-
cionados ao Conselho d'Estado da França, ao Conse-
lheiro d*Estado incumbido de todos os negócios concer-
nentes ao Culto, ao Ministro dos Cultos c aos Prefeitos
Franceses, saõ interinamente confiados, a saber, á Com-
missaõ do Concelho d'Estado encarregada dos negócios
concernentes ao Culto Catholico, residente cm Bruxellas
todo o que era da jurisdicçaõ do Conselho d'Ectado da
7
Politica. 21
França; ao Director Geral dos negócios concernentes ao
Culto Catholico, tudo o que estava a cargo do Conselho
d'Estado, incumbido dos negócios concernentes ao Culto e
aos Ministros dos Cultos; e aos Governadores das Provin-
cias, tudo o que estava confiado aos Prefeitos Francezes.
2° O Director Geral dos Negócios concernentes ao
Culto Catholico vigiará particularmente em qne todas as
determinações, assim como as formulas prescriptas pela
Concordata, e pelos Artigos orgânicos, sejam estreitamente
observadas, salvas as modificações feitas pelos decretos ou
resoluções lormacs, a fim de se poderem reprimir ou cas-
tigar os abusos commettidos por Ecclesiasticos no exerci-
cio das suas funcçõcs.
3: Todas as authorísaçôes ou permissões, que, em vir-
tude da Concordata e dos Artigos orgânicos, nos devam
ser pedidas, ser-nos-haõ apresentadas por via do sobredicto
Director Geral. Elle nos fará igualmente todas aquellas
propostas que julgar necessárias nas circumstancias.
4°. A Commissaõ do Conselho d'Estado residente em
Bruxellas, os nossos Ministros da Justiça e do Interior,
e o Director-gerat dos Negócios concernentes ao Culto
Catholico, saõ encarregados, cada um no que lhes toca,
da execução do presente Decreto, e o Nosso Ministro da
justiça o transmittirá ás duas Cortes Superiores de Justiça,
e aos Tribunaes estabelecidos nas Provincias Meridionaes,
recommendando respectivamente ás authoridades, que o
cumpram sem demora, connivencia, ou dissimulação.
Dado em Haia, a 10 de Maio, de 1815. Terceiro do
nosso reynado.
(Assignado) GUILHERME.

R E P U B L I C A DAS ILHAS I O N I C A 8 .
Corfu, 21 de Abril, 1816.
Aos 23 deste mez, o Baraõ E. Theolofcy, Presidente do
Senado de Corfü, pronunciou, perante um grande con-
22 Politica.
corso de pessoas de todas as classes, que por causa da so-
lemnidade do dia se tinham ajunctado na igreja de nosso
illustrissimo Sancto, uma eloqüente oraçaõ em Grego, que
tocou profundamente os ouvintes, e encheo de alegria os
seus coraçoens. Para satisfazer os desejos de muitos que
a ouviram, assim como de outros, que naõ estiveram pre-
sentes, damos a traducçaõ delia, que he com tudo mui
inferior ao original. Daremos uma idea desta oraçaÕ pe-
los seguintes notáveis extractos.
" O tractado de Paris, estipulado entre dous ministros
de Inglaterra e dous da Rússia, um dos quaes he nosso
mui estimado patrício, nos fez felizes, bonrando-nos com
a protecçaõ da Inglaterra.
" Desde os tempos mais remotos, que Homero cantou,
nenhum periodo houve taõ a propósito para nos fazer fe-
lizes.
" Lédc a nossa historia, nos historiadores antigos e mo-
dernos ; lembrai-vos do que nos tem acontecido, durante
os 30 annos passados ; e vereis que temos passado a me-
lhor parte de nossas vidas em feudos e discórdias, ou de-
baixo de Governos arbitrários e fluetuantes. Algumas
vezes como subditos de naçoens estrangeiras, que nos des-
prezavam ; outras vezes protegidos por naçoens, que sin-
ceramente desejavam a nossa felicidade, porém demasiado
longe para poderem contribuir para ella.
Passou depois a provar, que na presente situação das
Ilhas, nenhuma potência lhes pôde dar com soa protecçaõ,
tantas vantagens como a Gram Bretanha, por causa de
sua riqueza, de sua força marítima, de seu extenso com-
mercio, esua eminência na agricultura, artes e manufac-
turas.
" Nenhuma das naçoens Europeas nos tem feito a justiça
que merecemos, em tal gráo como os escriptores Inglczcc
cm suas obras ; somente elles viram c reconheceram em
nós aquellas boas qualidades, que os Francezes, os Ale-
Politica. 23
maens, os Italianos, os Russianos tem tantas vezes procu-
rado depreciar em suas obras.
« Nenhuma he taõ versada na nossa lingua, como a In-
gleza.
** Alegrai-vos, pois, habitantes das Ilhas Ionicas, com o
vosso futuro destino. O Lord Gram Commissario de S.
M. Britannica está a chegar; bem depressa vereis Sir Tho-
maz Maitland, cujo nome se naõ pôde pronunciar sem
veneração: com elle entram nas nossas Ilhas a segurança,
e a felicidade.
" Elle removeo todos os obstáculos do commercio de
nossos portos, e outra vez abundarão entre nós os manti-
mentos.
" Elle tornou a abrir os nossos templos, e ordenará a res-
tituição de sua propriedade.
" As medidas adoptadas por elle, e cuidadosamente exe-
cutadas pelo Major-General Phillips, fizeram parar as de-
vastaçoens da peste, e nos fazem esperar que a vejamos de
todo extirpada.
" Elle vos restituirá o vosso Bispo, e a ordem ecclesias-
tica terá o seu estabelecimento legal.
" A nossa Igreja orthodoxa florecerá, e terá preferencia
sobre todas as outras.
" As leys aristocráticas nao conromperaõ mais os vossos
custumes ; mas vos tereis leys livres e justas, como as que
governam as grandes naçoens ; e vós vereis que se esco-
lhem, para as executar, os mais sábios e mais rectos ho-
mens, os pays e os amigos do povo.
" A vossa industria revivirá; melhorar-se-ha a vossa
agricultura: vós podereis exportar os vossos productos,
em vossos vasos, e uma bandeira inconquistavel segurará
o vosso commercio contra todo o insulto.
" Abertos para nós os portos da Inglaterra, elles nos offe-
receraõ vantagens particulares. As nossas cidades flore-
ceraÕ; o nosso paiz será o empório dos negociantes dos
24 PoKtica.
artistas e doe sábios. Estabelecer-se-haó hospil**" para
os pobr« e enfermos ; e escholas publicas para instruc-
çaõ da nossa mocidade; assim como livrarias, que distri-
buirão os thesouros da literatura antiga e moderna. O
illustre Soberano, que nos protege, fazendo-nos dignos de
seus favores, nos fará dignos de nossos antepassados, e nós
vi viremos perfeitamente felizes."

Proclamaçaõ dè Sir Thomaz Maitland, sobre o azylo nos


templos.
Entre os vários, e grandes deveres, confiados à admi-
nistração de S. Ex'., por seu benigno Soberano, nenhum
he mais importante em si mesmo, do que a conservação de
todos os direitos, privilégios e prerogativas da religião
dominante e tolerada.
Sempre foi, e sempre será, uma fixa máxima da po-
litica tia Gram Bretanha, e um priucipio invariável de
seu comportamento, tanto a respeito daquelles paizes, que
estaõ debaixo de sua immediata soberania, como dos que
se acham sob a sua exclusiva protecçaõ, garantir e manter
os differentes estabelicimentos religiosos ; por serem encen-
ei ai me te connetos com ns principios viLtes do bom go-
verno, da moral, e da felicidade.
S. Ex» , imbuído desta verdade, e tendo observado, com
pezar que os Francezes, com aquella impia indifferença,
que distinguio a sua carreira revolucionaria, agora feliz-
mente acabada, tiraram por força muitos do* lugares sa-
grados, destinados ao culto publico dt Mi» cidade, c os con-
verteram para uios militares e outros ; c havendo S. Ex*.
entendido, pelo relatório que lhe tez, lia ires dia», a alta
policia, cuja constante assiduidade mereci* o maior louvor
que alguns oíficiae* daquella reparação, levados de selo
extremo, haviam emrado era uma igreja da religião domi-
nante, para prender uma pec^soa, suspeita de grave de-
Política. 25
licto ; e que naõ existe regra geral expressa, sobre este
objecto ; S. Ex'., cm conseqüência disto, determina o se-
guinte : —
1". Que sejam evacuados todos os lugares de culto pu-
blico, e entregues aos respeitáveis cabeças da respectiva
religião a que pertencerem.
2 o . Que nenhum soldado, official de policia, ou outro in-
divíduo qualquer, presuma ou pretenda, por qualquer
pretexto que seja, seguir pessoa alguma, seja qual for o
delicto de que se ache suspeito, dentro do sanctuario ou
interior de qualquer igreja ; mas se limitarão unicamente
a pôr em torno da igreja as sentineDas, que forem neces-
sárias, para prevenir a fugida da pessoa suspeita, partici-
pando ao mesmo tempo o negocio ao Governador, que to-
mará as medidas necessárias, para entregar tal pessoa nas
maõs da justiça, pela intervenção do cabeça daquella re-
ligião, a que a igreja pertencer.
A presente será impressa em Grego e Italiano, e publi-
cada para conhecimento de todos.
Por ordem de S. Ex*.
W . M. M E Y E R , Secretario Publico.
Palácio de Corfu, 19 de Março, 1810.

Proclamaçaõ do General Maitland, sobre a intelligencia


da Constituição das Ilhas Ionicas.
Pouco tempo depois de haver chegado a estes Estados, S.
Ex*. descubrio, com profunda magoa, que existia, entre as
pessoas removidas do Senado pelo decreto de 92 de Maio,
certa disposição para manter pretençoens, que saõ em
contravenção directa do tractado de Paris ; um tractado,
que foi negociado e concluído pelos Soberanos Alliados,
com o objecto unanime de segurar a felicidade e liberdade
das Ilhas Ionicas.
O quarto artigo daquelle tractado diz expressamente,
VOL. X V I I . N o . 98. D
2b' Política.
" que até que se ar range a carta constitucional c seja de-
vidamente ratificada, continuarão cm vigor as Constitui-
çoens existentes nas differentes ilhas, c naõ se fará nisso al-
teração alguma, excepto por ordem da 8. M. Britannica
em Conselho."
Assim he expressamente declarado, que até que seja
definitivamente arranjada e ratificada a Carta Constitu-
cional dos Estados Unidos, continuarão ns differentes
Ilhas a ser governadas pelas suas respectivas constitui-
tuiçoens, assim como existiam ao tempo da assignatura do
tractado.
As pessoas excluídas do Senado mantém agora, em
contratlicçaÕ de factos tam notórios, que naõ existia mis-
tas ilhas outra Constituição mais que a de 1803; e que as
constituiçoens, outorgadas depois ás outras ilhas, saõ nul-
las e tle nenhum effeito ; c que o Senado de Corfu éra
actualmente o corpo representante de todos os Estados
Ionicos.
Contra taes asserçoens ; contra uma interpretação taõ
falsa, tanto da letra como do espirito do citado artigo, se-
ria absolutamente inútil empregar a linguagem da razaõ,
ou applicar os principios da conciliação. De facto, ellas
saõ sustentadas por uma espécie de infutuaçaõ, a que so-
mente iguala a sua falsidade.
Nestas circumstancias se achou S. Ex*. na necessidade
de solicitar a attençaõ de S. M. para estn questão ; c foi
S. M. servido fazer saber a sua vontade, a este respeito,
pôr uma ordem em Conselho.
S. Ex*. tinha recebido noticias officiaes desta ordem e
de seu objecto, quando publicou a proclamaçaõ acima
lembrada, de 22 de Maio ; porém naõ podia citar us pa-
lavras delia, por naõ ler ainda recebido o documento offi-
cial. Agora que esta decisaõ, dada cm CotibcJho, lhe
chegou á maõ, S. Ex*. deseja que se proclame immedia-
tamente a sua substancia, para informação do publico.
Politica. 27
(Este documento insere o Relatório ao Conselho, e ao
depois os artigos do tractado relativos a este objecto e
continua assim :—)
" E como a dieta Carta Constitucional nem está ainda
arranjada, nem devidamente ratificada, Sua Alteza Real,
tomando em consideração as proposiçoens, que lhe fôram
submettidas, e observando que éra conveniente declarar as
intençoens de S. M. a respeito da Administração provi-
sional das dietas Ilhas, he servido ordenar, em nome e a
bem de S. M. com e pelo parecer de seu Conselho Pri-
vado ; e fica pela presente ordenado, que os Governos
existentes nas dietas Ilhas, na data da assignaturado dicto
tractado, continuarão em força como Governos provisio-
naes, era cada uma das dietas Ilhas, até que a dieta carta
constitucional seja arranjada e devidamente ratificada ; a
menos que todos ou alguns daquelles Governos recebam
alguma alteração em virtude de alguma ordem expedida
por S. M. em Conselho, da maneira e forma providen-
ciada no dicto tractado. Também ordenamos, e fica
consequentemente ordenado, que todas as pessoas, que ti-
verem sido deputadas, nomeadas ou eleitas antes ou de-
pois da data da dieta ordem, como membros de algnm
Senado ou Conselho qualquer, que exista ou possa existir
na Ilha de Corfü, durante a existência de taes Governos
provísionaes, podem e devem ser excluídos, a menos que
naõ sejam naturaes desta Ilha. H e outrosim ordenado,
pela presente, que esta ordem continuará em vigor, até
que a dieta Carta Constitucional seja arranjada e devida-
mente ratificada ; a menos que tal ordem seja revogada
ou alterada por outra ordem era Conselho, como se pro-
videnceia no dicto tractado. O Muito Honrado Conde
Bathurst, um dos Principaes Secretários de Estado de
S. M. dará as ordens necessárias, na conformidade da pre-
sente."
D2
28 Commercio e Artes.
E a presente será impressa em Grego e Italiano, c pu-
blicada para informação geral.
Por ordem dr S. Ex*.
GUILHERME M E V B R , Secretario do Governo.
Palácio de CorfA, em 29 de Maio, de 1816.

COMMERCIO E ARTES.

Estado decadente do Commercio de Portugal.


mPím. GAZETA de Lisboa de 28 de Junho, mencionou al-
gumas noticias da Inglaterra, sobre o numero de obreiros
despedidos das fabricas de Birmingham e outras ; e por
occasiaõ disto sato-se com a seguinte reflexão.
<(
Desejamos que as pessoas, que se entretrm em descrever as
desvantagens do Commercio e recunos do nosso pais, sem en-
trarem, nem serem capazes de entrar, nestes assuinptos de Eco.
nomia Politica, fuçam redexaÕ DOS artigos, que acima ficam
transcriptos, tanto a respeito dos Eitados Unidoi, que taei
pessoas julgam uma voragem do dinheiro da Europa, cuja
importação he tam superior á exportação, • cujo excesso naS
pôde ser tuprido seoaS em numerário, e do embaraço de
suas finanças; como relativamente £ Saina, Alemanha, e In.
glaterra, aonde tantas emigraçoens saõ um aignal da falta de
emprego para aquellas peisoss; e de»U falta hr necessária con-
seqneDCÍa a pobreza das classes laboriosas; entretanto que Isto
também demonstras diminuiçaS em alguns dos ramoi do com-
mercio daquelles psires. Com éit* reflexão e comparação
deve certamente cessar a lamúria dos que na3 sabem senaõ
dixer mal d u coutas de casa, e louvar ai de fora."

Temos tido, por mais de uma vez, occasiaõ de obser-


Commercio e Artes. 29
var, a respeito desta gazeta de Lisboa, e outras publica-
çoens Portuguezas do mesmo gênero, que se achara sem-
pre cora uma promptidaõ infinita para referir o que se
passa de máo em outras partes do mundo, e alegar com
isso para exemplo de Portugal. He bem verdade que os
Ministros e Governos de outros paizes taõbera daõ cabe-
çadas, mas dahi naõ deve o Gazeteiro de Lisboa argumen-
tar, que, para se seguir aquelle exemplo, os senhores d o
Governo Portuguez sejam obrigados a ir de propósito le-
vantar um muro, para terem em que marrar com a cabeça.
He certo que os termos da pacificação geral fôram mui
des vantajosos, pelo que respeita a Inglaterra. O partido
da opposiçaõ, no Parlamento e fora delle, bastante tem
clamado contra isso; e bem claramente predicéram os
políticos as difficuldades, em que se veria a Inglaterra, em
conseqüência da linha de comportamento que adoptára na
paz geral, era que tudo se sacrificou para segurar os Bour-
bons em França.
He verdade também, que a intollerancia de muitos G o -
vernos da Europa, as persegniçoens civis, o pezo dos tri-
butos desnecessários, &c. ; tem occasionado a estrondosa
emigração, que se observa de todas as partes da Europa,
de gente, que procura refugiar-se nos Estados Unidos da
America.
Mas i como quer o Gazeteiro de Lisboa, que nós con-
cluamos daqui, que Portugal deva cair nos mesmos erros 5
desprezar o seu commercio, as vantagens, que possue, e
que os outros naõ tem ; para se desculpar depois com os
males, que também soffrem as outras naçoens ?
Recommenda o Gazeteiro, que se faça a comparação da-
quelles paizes com Portugal, e cessará a lamúria dos que
nao sabem senaõ dizer mal das cousas de casa. Os males
dos outros naõ servem de nos mostrar que estamos bem ;
mui principalmente quando o nosso mal tem remédio seu
privativo, qne naõ pertence ao dos outros. Porém faça.
30 Commercio e Artes.
mos a comparação ; e veremos s? dahi nos resulta a oon-
solaçaõ, que suppoem o Gazeteiro de Lisboa.
A Inglaterra empenhou-se em uma de guerra de vinte
annos, o que Portugal naõ teve. A Inglaterra fez a paz,
sem cuidar na segurança de seu commercio ; e a iramensa
divida publica, que por esses motivos contrnhio, naõ lhe
permitte abaixar os tributos, que saõ agora uma das prin-
cipaes fontes da miséria publica : Portugal naõ tem essa
divida publica ; porque felizmente naõ tinha credito, nin-
guém lhe fiava, c portanto por necessidade naõ tem cre-
dores, que se comparem com os da Inglaterra. A Ingla-
terra naõ tem producçoens naturaes de valor importante;
senaõ he o carvaõ, estanho e algum cobre : Portugal tem
producçoens suas de riquíssimo valor. A Inglaterra fun-
dava as suas riquezas na sua industria, e na exportação de
suas manufacturas ; e na navegação; as outras naçoens
tem tido o cuidado do prevenir esta superioridado In-
gleza, fomentaudo cada uma as suas próprias fabricas ;
logo hc isto outra fonte da miséria, e falta tle emprego
dos trabalhadores, em Inglaterra, que naõ deve comparar-
se com Portugal; porque este naõ exportava manufacturas,
para o estrangeiro.
Desta comparação e parallelo resulta, que Portugal naõ
tem razaõ para soffrer os encoramodos, que padece a Ingla-
terra ; porque naõ existem a seu respeito as mesmas causas,
e o mal que se observa provém da ignorância dos que
governam ; cm naõoccurrer ao que tem remédio.
E por exemplo. A Inglaterra tem perdido o emprego
de 10.000 fabricantes de chita ; porque nos paizes, para
onde exportava as suas chitas, se estabeleceram fabricas,
que diminuíram a necessidade de usar destes artigos In-
glezes. Portugal deixa tle empregar muitos fubricanlcs de
chitas ; porque dentro dos seus Estados se promove a
entrada deste artigo vindo do Estrangeiro. A razaõ de
differença he clara : a Inglaterra naõ pôde impedir o seu
Commercio e Artes. 81
mal ; porque elle depende dos regulamentos das naçoens
estrangeiras : Portugal pode remediar este seu mal; porque
de seus próprios regulamentos depende a entrada das fa-
zendas estrangeiras e a annihilaçaõ de suas fabricas.
A navegação Ingleza (outro exemplo) diminue ; porque
em toda a parte do mundo se está favorecendo a nave-
gação nacional, em preferencia da estrangeira, e assim
naõ podem os Inglezes ir Ia fazer o commercio, que até
aqui tinham em suas maõs pela força marítima, que em-
pregavam na guerra : pelo Contrario Portugal vê a sua
navegação diminuída; porque deixa aos estrangeiros fazer
o seu negocio de cabotage, e naõ dá superioridade alguma
de vantagcn, aos seus navios e commercio, considerado em
comparação do estrangeiro.
Por tanto, se a Inglaterra padece be por causas que naõ
está em seu poder remediar ; se Portugal soffre he porque
feixa os olhos a seus interesses.
Vamos ainda a um ponto em que Portugal erra tanto
como quasi todos os paizes da Europa ; e vem a ser a
intolerância civil e religiosa, que afugenta os nacionaes,
e naõ convida os estrangeiros. Nisto convimos, que
Portugal naõ he singular, e ainda se acham talvez exem-
plos peiores, tal he a Hespanha; e peior que o Governo
Hespanhol he difficultoso de considerar ou de imaginar
outro. Mas porque as demais naçoens vaõ erradas, naõ se
segue que os Portuguezes naõ tenham o direito de se
queixar da parte que lhe toca, quero Gazateiro do Governo
lhe chame lamúria quer naõ.
O anno passado requerêram alguns Negociantes de
Lisboa, que se tornasse a impor a prohibiçaõ de admittir
no Reyno o arroz do estrangeiro, cujo despacho se tinha
facultado, com o pretexto da munição dos exércitos. Naõ
havendo ja esta razaõ, a renovação das ordens anteriores
éra naõ só necessária para favorecer o cousummo de um
32 Commercio e Artes.
artigo nacional, mas também para que os navios vindos do
Brazil acliss«em carga, visto que o algudaõ se exporia di-
rectamente para Inglaterra.
O tribunal da Fazenda consultou, que se continuasse a
admittir o arroz estrangeiro, até que este artigo se ven-
desse nas tendas a 35 reis o arratel, como tfanteséra:
sem se lembrar que o trigo naõ custava entaõ 400 reis, e
todos os mais artigos tem subido á proporção; que os
fretes naõ podem abaixar ; e que o maior preço pelos gê-
neros nacionaes be sempre lucro que fica em casa. Qui-
zeramos que algum dos nossos conrespondentes nos infor-
masse do estado em que isto se acha.
Os homens públicos em Portugal, saõ ordinariamente
empregados pelo favor da Corte, c a proporção dos pa-
drinhos que tem; porque nem o Soberano, nem os seus
ministros tem meio algum de conhecer os homens tle mereci-
mento ; quando estes naõ querem fazer de cortezaõs, met-
tendo-se á cara dos Ministros, e passando pelas humilia-
çoens das salas de espera. Depois, pela mesma razaõ, os
homens empregados, naõ tem meios de saber as necessi-
dades do povo, nem averiguar as causas da miséria publica.
2 Qual he o remédio disto I
No exemplo de que tractamos, que he o commercio,
fácil he o acertar; deixando que os negociantes publiquem
as suas ideas; permittindo, que as suas queixas, bem ou
mal fundadas, se façam patentes a todo*. Entaõ a verdade
apparecerá; todos os homens instruídos poderão julgar
das causas da decadência do commercio, e o mesmo Go-
verno será instruído pela vóz publica.
Se o Ministro se uconselha particularmente com algum
indivíduo; ou aindacomalguma corporação, authorizada,
como he ajuncta do Commercio, iwõ só corre risco de
obter ura conselho errado ; mas estabelece com isso pode-
rosos defensores do erro, qoe saõ aquelles, que, havendo
Commercio e Artes. 33
dado a sua opiaõ ao Ministro, por orgulho, por teima,
ou por outros motivos peiores, empregam toda a força da
authoridade, que lhe provem de seus lugares, para sustentar
o que disseram.
Naõ he assim quando se ouvem os pareceres dos
demais indivíduos publicamente; uns refutara os outros,
sem temor de prepotência; porque a disputa he entre
iguaes, e desta concurrencia de opinioens resulta saberem-
se os factos ; e comparando os diversos raciocínios, se
conhece entaõ de que parte está a verdade. Sem esta
faculdade da parte dos indivíduos particulares, de fallar,
escrever e representar livremente as suas queixas, a verdade
naõ chega ao pê do throno senaõ tarde e a más horas» se
he que alguma vez Ia chega.

Contracto do Tabaco.
O monopólio do tabaco, que tem enriquecido a mais de
um individuo, nos tem offerêcido occasiaõ para instarmos,
repetidas vezes, sobre a necessidade de aproveitar este ramo
das rendas publicas em beneficio do Etado, e naô con-
sentir que só seja em proveito dos particulares monopo-
listas.
A primeira vez, que expuzemos ao publico o abusivo
modo da arremataçaõ do Contracto do tabaco; porque
esta matéria nunca se tinha feito publica pela impressa em
Portugal, causaram as nossas observaçoens grande ruído.
Os Contractadores chamaram-nos intromettidos, por fallar»
nos do que nos naõ importava. Os do Governo, que
sabiam as razoens porque deviam proteger os Contracta-
dores, assaltaram-nos logo com o nome de jacobino e revo-
lucionário ; incendiario, que deseja tirar as cousas da boa
ordem em que estaõ. Os Desembargadores da Juncta do
Tabaco, também acharam muito mal feito, que depois
d'elles haverem consultado a favor do tal Contracto, se
Y O L . X V I I . No. 98. E
34 Commercio e Artes.
puzcsse o Correio Braziliense a bacharelar, contra a sua
opinião. Os do povo, que naõ querem ter o trabalho de
pensar, admiraram-se que o Correio Braziliense assim fal-
lasse ; porque se o que dizia fosse verdade, ja alguém o
teria dicto dantes. Assim causou o que nós dissemos do
Contracto uma geral desapprovaçaõ do Correio Braziliense,
naquellas classes de pessoas.
Os homens pensantes e imparciaes naõ julgaram assim ;
e nós deixando os outros com as suas teimas, continuamos
a clamar contra o Contracto ; quando elle teve de se arre-
matar a segunda vez. O que escrevemos entaõ, ja naõ
causou tanta admiração : uns diziam que talvez fosse ver-
dade o que trazia o Correio Braziliense ; porque a resposta
que lhe dera o Investigador éra mais para atirar com
chufas ao Redactor, do que para convencer o publico com
argumentos. Outros diziam, que sempre éra bom provai
que o Correio Braziliense éra mentiroso, pondo a lanços
o contracto, e dando assim a conhecer ao publico, que,
naõ havendo quem lançasse nelle, os ganhos dos con-
tractadores naõ eram os que espalhava o Braziliense. O
mesmo Governo foi desse parecer, que éra necessário por
o contracto a lanços para tapar a boca aos falladores.
O modo, porém, de se escapar a uma justa compe-
tência foi pôr o Contracto a lanços taõ tarde, que nenhum
arrematante, a naõ serem os actuaes contractadores, que
poderiam (cr tomado as suas medidas, tinha tempo de
mandar as ordens á Bahia para as compras do tabaco,
antes da saffra seguinte ; assim ninguém be quiz arriscar a
lançar no Contracto, para evitar o perigo de naõ poder
fornecer o tabaco conforme os ajustes.
Nestes termos naõ havendo arrematantes, tornou-se a dar
o Contracto aos antigos Contractadores, os quaes modes-
tamente o aceitáiara por fazer senriço a El Hiy. Mas o
Correio Braziliense, sem se cançar com estas repetidas
tramóias ; tomou a expor estas circumstancias da falta do
Commercio e Artes. 35
tempo na arremataçaõ ; e tanto se gritou com isto; que
por fim veio ordem a Lisboa, para se fazer a arremataçaõ
do Contracto com a devida anticipaçaõ. He possivel,
qoe ainda desta vez se naõ consiga todo o bem, que dese-
jamos ; porém, como ja começa a abalar esta velha e
ruinosa fabrica, devemos ter mui boas esperanças de a ver,
antes de muito tempo, cahir por terra.
Convém portanto explicar o que se esta fazendo em
Lisboa, em cumprimento da ordem do Rio-de-Janeiro,
para se arrematar o Contracto do tabaco cora a devida an-
ticipaçaõ.
Puzéram-se editaes, annuncicando o tempo em que se
receberiam os lanços; pois tal éra a ordem Regia: mas
taõ escondidos ficaram os taes èditaes, que nenhum dos
nossos Correspondentes pôde achar uma sô copia para
nolla remetter. £ com tudo apparecéram alguns pertur-
badores da boa ordem estabelecida, que offerecêram dar
mais pelo Contracto cem mil cruzados. Isto escandalizou
muito a Juncta do Tabaco ; porém ficaram atônitos,
quando os mesmos lançadores offerecêram mais a quinta
parte dos lucros do contracto, no caso de haver lucros ;
para o que offereciam-se também a patentear os seus livros,
a pessoas, que de ordem Regia os examinassem.
Os que offerecêram este lanço fôram Jozé Diogo de
Bastos, Raton, Clamouse, e Rocha do Porto. Sobre o
qual mui cavalheiramente perguntou Quintella, na quella
mesma noite, em uma assemblea em que se achava, e na
presença de um dos Governadores do Reyno, se o tal Rocha
éra Thomas da Rocha Pinto ; on a casa de Roxe ? A
pergunta parecia de zombaria, mas tendia a produzir o
effeito de mostrar a insignificancia de uma casa de com-
mercio, que até naõ he bem conhecida. Vamos ao resto.
Apparecêrem logo novos lançadores, por parte de Bra-
hamcamp e seus sócios, que offerecêram as mesmas con-
diçoens, e mais duzentos e cincoenta mil cruzados.
E2
3$ Commercio e Artes.
Uy, Senhores Contractadores antigos ; pois ja lhes faz
conta augmentar os lanços? Ja *• ossos senhorias nao tem
medo de perder uo contracto ; e arremataho só por lazer
serviço a S. Majestade l
Naõ para aqui o negocio. Estes contractadores, naõ
puderam concordar entre si, sobre qual delles serta o caixa;
porque naõ queriam que fosse Brahamcamp ; assim naõ foi
adiante o que projectaram ; e no entanto, no terceiro dia de
lanços, estava dobrada a primeira offerta : isto he o lanço
estava ja em 200 mil cruzados.
O prazo estava a tindir, quando Brahamcamp apre-
sentou um requirimento dizendo, que tinha ainda que of-
ferecer. Com isto se sospendeo a arremntaçaõ na Juncta,
até obterem novas instrucçoens do Governo.
Na manhaã seguinte foi o Secretario Salter a ('asa de
Quintella ; c posto que nos naõ deva importar muito con-
ferências particulares, com tudo esta visita naõ deixou de
ser em occasiaõ critica.
Com effeito a deshavença entre Brahamcamp e Quintella
desmanchou uni pouco os planos dos antigos Contracta-
dores ; mas no entanto decidio o Governo, que se tor-
nasse a pôr o contracto a lanços, e que preceilt-ssc o Edic-
tal, com toda a publicidade na forma das Ordens Regias.
Deste Edictnl pudemos ter copia ; e he o seguinte : —
" A Juncta da Administração Tabaco, em cumprimento
do Avizo de 25 do Corrente, que ultimamente lhe loi ex-
pedido, põem de novamente a lanços o mesmo contracto,
para se arrematar na forma do uso do Reyno e systema
até agora seguido; e os que se propuserem á mia arre-
mataçaõ apresentarão os seus lanoçs na mesma Juncta nas
tardes dos dias 6,9, e 13 do Julho próximo futuro.
Lisboa, 26 de Junho, de 1SI6."
" LOUBENÇO ANTÔNIO I>K A R A Ú J O . "
Commercio e Artes. 37
He importante explicar as palavras deste edictal, que
puzemos em Itálicos " na forma do uso do Reyno e sys-
tema até agora seguido." O uso do Reyno nunca foi ar-
rematar estes monopólios em basta publica, como agora
se pretende : o uso do Reyno éra dar o ministro d'Estado
o monopoilo ao que lá se chama os meninos bonitos. • A
que se refere, portanto, a expressão de pôr o contracto a
lanços na forma do uso do Reyno ?
A explicação deste enigma he a seguinte. Como uma
das offertas dos novos lançadores éra, que, alem do que
offereciam de mais que os passados, dariam também a
quinta parte dos lucros; acharam os sábios que na matéria
tiveram voto; qne éra mui indecoroso ao Soberano ser as»
sociado nos lucros com os particulares negociantes : assim
para se livrar El Rey da vergonha de metter no Erário mais
a quinta parte dos lucros do Contracto; se tornou a pôr o
Contracto a lanços na. forma do uso do Reyno ; isto he,
sem que se aceite a offerta de alguma parte dos lucros.
A outra questão he a respeito do tempo, que deve durar
o Contracto; e porque um dos partidos declarou, que
a naõ se fazer a arremataçaõ por nove anuos, naõ lança-
ria ( o outro partido disse, que se a arremataçaõ fosse por
três annos, lançaria mais ; com tanto que naõ fosse obri-
gado a manifestar os lucros.
A Juncta da Administração do Tabaco tem toda a razaõ
de querer, que a arremataçaõ se faça segundo o uso do
Reyno ; porque a naõ ser assim, a primeira cousa, que os
novos contractadores haviam de requerer, éra a abolição
da Juncta, que lhes naõ servia de nada, e causava uma
despesa de quize ou desasseis contos de reis ; e como a ley
da própria conservação he geral no universo, mui bem
fazem os Desembargadores da Juncta, em votar que naõ
se alterem os usos do Reyno; visto que essa alteração pode
causar a morte da dieta Juncta. Ergo deve conservar-se
o systema até agora seguido.
38 Coaisxercio e Artes.
Agora observamos mais, que se naõ declara cousa al-
gnraa a respeito do sabaõ c do rape. Donde podemos con-
cluir que esta ommissaõ he para algum fim. E suppo-
nhamos, que os afilhados levara o contracto J comprehende-
se nelle o sabaõ e o rape ? Supponhamos, que os com-
petidores dos afilhados saõ os arrematantes ; pertence-lhe
ou naô, e sabaõ e o rape ? Aqui haõ de variar os doutores,
segundo os casos.
As condiçoens da arremataçaõ de um monopólio tam im-
portante para o Erário, uma vez qne os do Governo naõ
sabem ou naõ querem saber como haõ de cobrar o direito
por este artigo, senaõ continuando o monopólio, devem
ser públicos, e ao menos, ja que o mal do monopólio ex-
iste, seja com o maior proveito possivel para o Erário, a
Mas o uso do Reyno he que os direitos sobre o tabaco,
sobre o sabaõ, &c. se cobrem por monopólio ; he verdade,
que assim he ; e he verdade que nos desejávamos ver co-
brado o direito sobre estes artigos, on por excisa, como
na Inglaterra; ou por outros modos; mas ja qne assim he
o uso do Reyno, e systema atê agora seguido, dé o Erário
esses lucros ao raouopolista, que mais offerecer para a Real
Fazenda. Façam-se as arremataçoens publicas; declarem-
se as condiçoens, que se esperam ; e diga-se que artigos
comprehenderá o monopólio.
Foi por via da Inglaterra, que se soube primeiramente
em Lisboa, qoe o Governo no Rio-de-Janeiro, queria fazer
a experiência de administrar o Contracto por conta do
Erário, a fim de averiguar, quaes eram os verdadeiros
lucros dos monopolistas. Isto fez com que Quintella, o
seus companheiros offerecesaem mais 200 mil cruzados, e
que se lhes desse a elles o contracto, som se esperar pela
decisaõ do Soberano. Agora acerescem mais outros 200
mil cruzados.
i E naõ presta o contracto; e o Correio Braziliense me-
rece ser queimado por andar a fallar em taes coutas ?
2
Commercio e Artes. 39
A nossa opinião, por diversas vezes explicada, tem sido
sempre e ainda he, que, mesmo no caso em que os mo-
nopolistas pagassem ao Erário uma somma equivalente aos
seus lucros ; ainda assim éra mais conveniente ao Estado,
que essa quantia fosse cobrada por um direito de alfândega,
na importação do gênero ; e deixar aos particulares ma-
nufacturar o tabaco da forma que cada um quizesse, e ve-
dêllo pelo preço que pudessem alcançar; porque assim se
dividiam por muitas pessoas industriosas os lucros, que se
concentram só nos monopolistas ; excita-se a competência
entre os fabricantes a qual fabricara melhor, e os consum-
midores comprarão aquelles, que mais barato venderem.
Quando o tabaco chamado Rape se fabricava em Lisboa
da folha terceira, que de refugo vem da Bahia, e que se
vendia a 800 reis a libra, éra freqüente o contrabando do
Rape da França, que sahindo ás vezes por metade do preço
do de Lisboa, e outras vezes pela terça parte, offerecia tal
lucro ao contrabandista, queeste arrostava todos os perigos
das tomadias. Este rape de França he fabricado com o
tabaco de Virgínia, que a industria Franceza, com a
mixtura de outras folhas, leva ao ponto de perfeição, que
lisongea o olfato dos que usara deste cheiro, naõ obstante
que o tabaco da Bahia he superior ao de Virgínia.
Martinho de Mello, conhecendo isto, trabalhou quanto
pôde por aperfeiçoar o tabaco nacional, mas nunca foi
apoiado pelos contractadores, nem pela Juncta; porque o
lucro certo, e o privilegio exclusivo, produzem sempre a
inércia, em vez de fomentar o aperfeiçoamento do artigo ;
visto que o monopolista está seguro da venda, quer o ar-
tigo seja bom quer máo. Tanto isto he assim, que offere-
cendo um sugeito ao Contractador Quintella a descuberta
do methodo, por que se podia fazer o Rape em Lisboa
igual ao Francez, disse o Contractador, que daria por
isso cincoenta moedas, quando o Mestre, que offerecia a
descuberta, exigia emprego e sallario perpetuo. Daqui
40 Commercio e Artes.
naõ resultou outra cousa senaõ obterem os Contractadores
permissão de importar tabaco de Virgínia, com o pretexto
de o mixtnrar com o da Bahia, c com manifesta deterio-
ração do gênero nacional.
Por estes pretensos serviços dos Contractadores se lhes
permittio augmentar o preço do Kapé a 1.200, <* 1.600
reis a libra ; o que opera como novo imposto ao urtigo, e
por conseqüência mais pezatlo tributo ao povo, sem que
dahi resultasse maior rendimento ao Erário. Chegou a
tal ponto o abuso, que até mandaram os Contractadores
buscar á França, e introduziram em Portugal Rape já
manufacturado; sem haver no Governo quem reflectisse
nos males que dahi resultam á naçaõ, e que o melhor
modo tle augmentar o consummo do gênero, e por isso ac-
crescentar os rendimentos do Erário, he fazer o tabaco me-
lhor, e vendado pelo preço mais barato possível.
Havia o Bispo da China obtido da Raynha, D. Maria I.
que Deus haja, uma ordem para que os Contractadores
lhe mandassem todos os annos uma pequena porçaõ de
tabaco (parece que eram 32 libras) para fazer presentes a
certos Mandaiins, e facilitar com isso as suas negociaço-
ens. Passados alguns annos deixaram os Contractadores
de fazer a remessa, queixou-se o Bispo, deram-se novas
ordens ; estas naõ foram executadas ; «• os contractadores
pediram ser aliviados daquella pensaõ. O Governo de
Lisboa, naõquizdccidir a questão, remetteo o negocio para
o Rio-de-Janeiro. Assim com arecusaçaõ desta insificante
remessa, para li.is taõ úteis, se pretendeo fazer crer a pe-
núria dos Contractailores, que naõ podiam dis|>crisar 32
libras de tabaco.
Exaqui as grnndes vantagens, que pode esperar o Estado
de eugortlar monopolistas particulares a custado povo, e
em deterioramenlo da industria geral.
C •« 3
Preços Correntes dos principaes Productos do Brazil em
Londres, 25 de Julho, 1816.

Gcncros. Qualidade. Qautldade Preço de Direitos.

ASSUCAR. branco . . . IIS lib. ">5s. Op 65s. (lp Si. I4s. 7Jd.
trigueiro , 42s. Op 46s. Op
mascavado 37s. Op 41». (lp
Algodão1 , Rio . libra Ss.Td. pMOOlih.
Bahia . . . K.Tlp 2?. Ò'p eut navio Inglez
Maranhão . ls. l l p <<!s. Op ou Portuguez
Pernambuco Ss. l p Ss. Sp S5s. 6d. em na-
Minas novas vio doiitras ca-
D*. America melhor . . . . Ss. 2p 2s. 8p çoe ns.
Annil Brazil ls. 9p 4>. Op 4}d. por libra.
Arroz 119 lib. It. Os. Ofá.
Cacao . . . . Para fios. Op. 76s. Op .ls. 4d. por libra.
Caffé Rio libra .. 56 s. Op. 6-ls. Op Ss. 4d. por libra.
Cebo Bom II* lib. 4Hs. Op. t9s. Op. .<ia.2d.pM 12 lib.
Chifres . . , . . grandes . . . . 1SS . . . . 40s. Op. lis. Op. 5H. 6p. por 100.
Couros de Boy Rio grande libra . . 0s. 5 j p . Os. 8p. 9Jd. por couro.
Rio da Prata Os. 6p. Os. 8}p.
D*, de Cavallo 3s. Op. 6s. Op.
Ipecacuanba boa libra 9s. Op. 9s. 6p. 3s. 6d. por libra.
Quina pálida . . ls. Op. l s . típ. Is.ljd. por lib.
ordinária 1>. 5p.
mediana Ss. Ip. Ss. Sp.
ána Ss. Op. Ss. 6p.
vermelha 6a. 6p. Ms. 9p
amarctla ls. Sp. 1*. 4p
rbata . . . 2s. Op.
torcida . 4s. 6p. 5s. Op
Pao Brazil tooel, 115/. 120/. 4/. a tonelada.
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Tabaco.... rolo libra . . . '
Os. 4p. 44 4 a4 d ' S 3 s . i n i p . lib. exciie
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Rio DA P R A T A . . . I l i d a 3 G \ ;
vinda o mesmo

a
VOL. X V I I . N o . 98.
[ 42 ]

LITERATURA E SCIENCIAS.

NOVAS P U B L I C A Ç O E N S EM I N G L A T E R R A .

JFLEYyES on Classical Instruction, 12mo. preço 3s.


Ensaio sobre o methodo mais efficaz tle obter Instrucçaõ
Clássica; junctamente com uma noticia de sua applica-
çaõ practica : em que se exemplifica sistematicamente o
principio geral d o novo modo de educação. Por K.
Kcynes.

Ho/me» on Coal Wtnes, 8vo. preço lOs. Gd. Com es-


tampas. Tractado sobre as minas de carvaõ em Durliam
e Nortliumberl;.nd, com noticias sobre as camadas ou
strata daquelles condados ; e contém inlormuçocns sobre
as explosoens oceasianadus pelos fluidos aeriformes infla-
raaVeis, que tem succediilo muitas vezes duiante os ultimou
vinte" annos : suas causas, e meios propostos paru os reme-
diar, e para o mollioramento geral tio systema das .-ninas,
por novos inethodos de ventilação. Por J . R. 11. Iloltnc.
. o
Bingleys Useful Knowledgc, 3 vol. ISmo. preço 11. 1#.
Conlicciracntos uteis, ou exposiçoens familiares tbts diffe-
rentes producçoens da Natureza, que principalmente se
empregam para o uso dos homens, nos reynos iiiimr.il,
vegetal e animal. Illustrados com numerosa» estauipus,
que fazem esta obra própria para estudo, e para cotutiltur.
Pelo Rcv. Guilherme Bindley.

Parkin'- Monastic Remains, 2 vol. 8vo. preço Al.


Cora mais de cem estampas. Ruínas Monasticas <• de
habitaçoens de poderosos Senhores, com outros intcrt-Miin-
Literatura e Sciencias. 43
tes fragmentos de antigüidades, na Inglaterra, Gales, e
Escócia. Por G. J. Parktns, Esc.

Macmloch on making Wine, 12mo. preço 7s. Notas


sobre a arte de fazer vinho, com suggestoens para a appli-
caçaõ de Réus principios ao melhoramento dos vinhos ca-
zeiros. Por Joaõ Macculocb, M. D .

BullocVs Isle of Man, 8vo. preço 15s. com uma


estampa do Castello de Peel, e um mappa. Historia da
ilha de Man ; com uma vista comparativa do estado actual,
e passado da sociedade, custumes, e maneiras ; e contem
também anecdota» biographicas de pessoas eminentes, con-
nexas com aquella ilha. Por H. A. Bullock; residente
por dez annos naquella ilha.

SmitV» Flora Britannica;. 12mo. preço 7s. Corapeu-


dinni Florae Britannicae. Authore Jacobo Eduardo
Smith, Equ. Aur. M. D. Societatis Linnaeanas Prceside,
&c. &c.

Ring's Answer to Dr. Kinglake, 8vo. preço 5s. 6d.


Resposta ao D r . Kinglake ; mostrando o perigo do tracta-
mento refrigerante na moléstia da Gota. Por Joaõ Ring;
Membro do Collegio Real de Cirurgioens em Londres, e
das Sociedades Médicas em Paris.

Ottleifs Inquiry into Engraving, 2 vol. 4to. preço


81. 8*. Investigação sobre a origem e historia primitiva
da gravura, em cobre, e em páo; com uma noticia dos
gravadores, e suas obras, desde a invenção da chalcogra-
phia por Maso Finiguerra, até o tempo de Marco An-
tonio Raimondi; e incluindo observaçoens, sobre alguns
F2
44 Literatwra e Sciencias.
dos primeiros livros, ornados com eslampas abertas em
páo. IIlustrada cora numerosas copias de exemplos raros
desta arte ; c enriquecida com impressoens tle gravuras
em páo originaes de Alberto Uurer. Por Gflilherme
Young Otlley, F - S . A.

WootVs FooUtept to Draxring, 4to. grande, preço 1/. 1*.


Passos para o desenho, conforme as regras da perspectiva,
explicadas em diálogos familiares, e il lustradas por vinte
estampas de liçoens progressivas; calculadas para com-
binar o conhecimento da perspectiva com a practica do
desenho ; e conduzir o principiante imperceptivelmt nle
ao conhecimento das principaes regras desta útil arte.
Por Joaõ George Wood, F. S. A. Leitor em Perspectiva.
e
Kerr on Circulation of the Blood, Ifmo. preço 4s.
Observaçoens sobre a doutrina Ilarveyana da circulação
do sangue. Por George Kerr.

Frost'* Art of Stoimming, 8vo. preço 8s. Nadar Sci-


entificamente : serie de instrucçoens practicas, sobre nm
plano original e progressivo; pelo qual se obtém facil-
mente a arte de nadar, com toda a vantagem da força na
água. Acompanhada de 12 estampas abertas em cobre,
comprehendendo 26 figuras, que exhibera e illustrnm a
acçaõ e postura, em todos os ramos daquella inapreciavel
arte. Por Joaõ Frost.

Vaudoncourt, Memoirs of the lonian Islands, 8vo.


preço 15». Memórias da Ilha» Ionicas; consideradas
nos pontos de vista commercial, jxjlitico, e militar; em
que se descrevem as vantagens de sua posição, assim como
as suas relaçoens em o continente Grego ; e inclue a vida
e character de A U Pacha, o actual governador da Giecia .
Literatura e Sciencias. 45
junctamente uma vista comparativa da geographia antiga
e moderna do Epiro, Thcssalonia, Morea, parte da Mace-
donia, &c. Cora um grande mappa original. Pelo
General Guilherme Vaudocourt; e traduzida do original
manuscripto por Guilherme Walíon.
O mappa que accompanha a obra comprehende as sette
ilhas, Albânia Meredional, parle da Macedonia, o Epiro,
Thesaalonia, Livouia e Morea.

PORTUGAL.
Tractado de câmbios; offerecido aos Estudantes da
Real A ula do Commercio, para terem um verdadeiro co-
nhecimento deste ramo de commercio, o mais difficuUoso e
importante ; e se faz também digno de todos os negocian-
tes : preço 400 reis.

Triumpho do Clero Portuguez em geral: 1-. parte; e


do da cidade de Évora em particular 2*. parte ; contra a
memória politica, inserida no N°. 37 do Investigador Por-
tuguez em Londres : preço 300 reis.

JVova Grammatica Latina, composta por Miguel lie


Bourdiee, Reitor do Collegio Francez estabelecido em
Lisboa no Pateo do Porsili, juncto ao soccorro: preço 720
reis.

Collecçaõ Systematica das Leys Militares, pertencentes


á tropa de linha, em dous volumes de 4to. o primeiro
comprehende a constituição do exercito: o segundo a sua
disciplina tanto em paz como em guerra. Preço 4.000
reis.

O JVo. 1°. do Jornal das Bellas Artes, ou Mneraosine


Luzitana. Contém este N*. uma breve memória sobre a
batalha do Bussaco : uma descripçaõ da vista de Lisboa:
um artigo sobre a construcçaõ naval Portugueza, &c.
4(> Literatura c Scicucias.
Consta de trrs folhas este |» » . , cm bello typo ; e por
isso custa avulso 100 ICI> : tis números sc^ililllcs serão tle
duas folhas, e a 120 reis.

Abertura da Academia Real das Scienrias.


Lísln-a, I». tle J u l h o .
Sepunda feira 24 de .Iiinho, relebrou a Academia Keal
das Sciencias de- Lislioa a sua Sess u"> publica t o m IIHM-.-
tencia tio Corpo Acadêmico, c numeroso concurso tle Pes-
soas litternt.is. A brio a Sessaõ o lllustrisúmo e K x t e l -
Icntissimti M a t q u t z de Borba, seu Vice-Presidente, lendo
um conciso e eloqüente Discurso, em que mostrava, quanto
importa ao Fslado a cultura tias Sciencias, animando a
Academia a proseguir constante nus suas e m p u / a s liieia-
riag. Leo depois o Vicc-Secrt lario Francisco tle Mello
Franco outto Dist urso, em que dava conta dos trabalhos
e tarefas Acadêmicas desile 25 de J u n h o , de ISJ5, até ao
dia 24 de .)unho, de ISIG. Seguio-se o Sócio .lustiniano
de Mello F r a n c o , a q u e m , por ter acabado tle Secretario
d a Instituição Naccinica, competia tlnr conta tios piogic.s-
sos, qu<* a Instituição lizeru tanto cm Lisboa, t o m o nas
Províncias, durante o c s p ' ç o do tempo acima dicto. Le-
ram-se depois as seguintes Memórias: O So< i<> J o a q u i m
José da Costa de Macedo leo uma sobre as verdadeiras
E p o c h a s , e i n q u e principiai.nu as nossas navegações no
Oceano Athlaiitico; o S o n o I i.mcisi o Manoel Trigoso
leo o 1'iuli^'n tia Cruuimatica 1'lnlosophiiM tio falU-culo
Professor tle Khetorica na 1'iiiveisnlndc tle Co ii-bra J e -
ronynio Soares Barbosa ; o SDCIU Seb.tstiaõ Francisco de
Mendo T r i g o s o leo uma Memória acerca de um verme,
que actualmente existe vivo no olho de um c a v a l l o ; o
Sócio J o s é Maria Soares foi incumbido ti • ler paitc de
uma Memória do Sócio Francisco Soares F r a n c o sobre a
identidade do systema muscular na cconomi i animal, o
Sócio J o a q u i m Pedro Fragoso leo ultimamente uma Me-
Literatura e Sciencias. 47
morta sobre as Queimadas no Alémtéjo, e sobre o modo
de as acautellar, e remediar.

NOVO M E T R O N O M O .

Carta ao Edictor.
SENOR !—Como he provável, que alguma considerável
porçaõ de vossos Leitores se interessem pela invenção, que
faz o objecto desta carta ; e de que anticiparaos grandes
vantagens para a musica em geral, nós vos ficaremos obri-
gados, se a inserirei» na vossa publicação periódica, o
mais cedo que for possivel.
Tractamos do Metronomo de Mr. Maelzel; ou instru-
mento para bater o compasso; cujo objecto principal he
ministrar aos compositores os meios de indicar com pre-
cisão, e conforme a um padrão universal, o gráo de ra-
pidez que se requer para cada tempo de sua composição :
e com isso escusar a necessidade de recorrer aos termos
vagos e insuficientes de Adagio, Allcgro, Presto, &c.
Ha muito tempo que tal instrumento éra um desideratum
por toda a Europa, e se tinham feito varias tentativas para
o construir, que naõ fôram bem succedidas; por fim ap-
parecêo o Metronomo de Maelzel, que nos parece ter al-
cançado tudo quanto se desejava. He elegante, portátil
e de preço racionavel: simples na construcçaõ ; a escala
hc fundada na divisão do tempo em minutos ; e he uni-
versalmente intelligi vel; as pancadas audíveis, que bate,
podem regular-se para o mais vagaroso adagio, assim como
para o mais rápido presto.
Os melhores compositores do /íbntinente,* tem ja adop-

* Em Vienna, o» Seahores Salieri, Weigt, Gyrowetz, Beethoven,


Hummel, Gelinek, &c. Em Paris, os Senhores Mehul, Berton,
Cherubiai, Paer, Le Sueur, Boyeldieu, Catei, Spontini, Nicolo,
Pleyel, Kreutzer.
48 Literatura e Sciencias.
lado a escala mclronomica, indicando o tempo de seus
movimentos ; e a republica musica pôde cm fim esperar ter
um padrtiõ universal de medida musica em toda a Kurupa ;
e para contribuir-mos com a nossa parte para este desejável
fim, declaramos por este modo publicamente a nossa in-
tençaõ de marcar o tempo, daqui em diante, em todas as
nossas compo-siçoena, segundo a escala de Mr. Maeliel.
Também nos parece que o Metronomo offerece as maiores
vantagens aos principiantes, que aprendem Musica; porque
bale o compa-so com precisão nmthematica, em qualquer
gráo tle velocidade, que se ponha o ponteiro; e serve de
perfeita guia ao discípulo, durante a ausência do mestre.
O único motivo que temos, para pedir-vos a publicidade
desta carta, he o adiantamento da sciencia, que professa-
mos ; e naõ duvidamos, Senhor, que os vossos Leitores
Músicos -sejam stilücicntcmonlc sensíveis á importân-
cia da matéria, para nos julgarem plenamente justifi-
cados, em havermos adoptado este modo de expressarmos
os nossos sentimentos.
Temos a honra de ser,
Senhor, vossos obedientes criados,
T . Attwood, A. S. Klengel,
II. R. Bisliop, F . Lalour,
Joaõ Brilham, J . Mnzzinghi,
Muzio Clemcnti, Fertl. Ries,
J . B. Cramcr, W m . Shield,
F. Di/t, J . P. Viotli,
J . G . Grat ff, Sam. W r b b e ,
G. K. Grifliin, S. W c s l e y ,
Fred. Kalkbrenncr,
Londres, Julho 1816.
Literatura e Sciencias. 49
Economia Politica de Simonde.
(Continuada de Vol. XVI. p. 591.)
LIVRO PRIMEIRO.
Dos Capitães.
CAPITULO PRIMEIRO.
Origem da Riqueza National.
O principio ou a fonte commum de todas as riquezas
dos homens he o trabalho ; he elle quem cria umas, e que
dá o valor a outras. A accumulaçaõ do trabalho produc-
tivo de uma naçaÕ hc, pois, o que constitue o seu capital;
e lhe dá, ao mesmo tempo, o direito, ou, para melhor
dizer, o meio, de fazer executar um novo trabalho igual
ao primeiro em valor : de sorte que uma naçaÕ he rica em
razaõ da obra que tem feita, ou da que pode exigir, que
be a mesma cousa.
Esta definição da riqueza nacional, que serve de fun-
damento a todo o systema de Adam Smith, precisa de ser
aclarada. Nós perdemos facilmente de vista, em os bens
de que fazemos uso, a industria que os produzio; portanto,
he necessário mostrar que ha um trabalho, que he suscep-
tível de accumulaçaõ ; outro que naõ o he ; e que o pri-
meiro, a que se dá o nome de produetivo, está realmente
accumulado nos objectos, em quem reconhecemos algum
valor.
Que seria a terra e que seriam os seus habitantes, sem o
trabalho accumulado do homem ? Podemos observar a
primeira ainda virgem, cm um dos mais bcllos climas do
universo. O continente austral, que se chama a nova
Hollanda, eslá tal como sahio das maõs da natureza ; os
seus habitantes nao lhe tem mudado o aspecto ; nus, des-
garrados, e tímidos, vagam perseguidos pela fome sobre
uma terra inculta, posto que própria para se cobrir dos
fructos mais exquisitos, e das mais abundantes searas : em
VOL. XVII. No. 98. o
50 Literatura e Sciencias.
em ver de obterem isto delia, so fundam a esperança tia
sua subsistência m* producto da caça : perseguem e des-
troem continuamente os animaes, que saõ o seu único recur-
so ; e, impedindo tlcste modo a sua reproducçaõ, tornam
inútil o único presente, que a fecundidade da sua terra
lhes pode fazer, uma vez que naõ seja ajudada tle cultura.
Em vaõ se cobre cila tle vegetaes ; cm vaõ andam os ho-
mens sotterratlos na herva, que os prados cobre ; nunca a!i
a cnça selvagem hc proporcionada aos pastos, que se lhe
oíTereccm, e deminuc á proporção que a povoaçaõ aug-
ineiita ; pondo assim limites á miiltipliçnõ dacspccic huma-
na, como esta os poem constantemente á sua.
Qual he a riqueza destes povos miseráveis ? naõ hc de
cerfo a sua terra, que aliás pudera valer mais doque n
nossa-, ina-s o seo trabalho. Elles caçara, e o producto da
sua caça os nutre, c os veste, e nos tendoens c nos ossos dos
animaes lhes fornece ns suas armas e a sua melhor ferra-
menta ; em fim, a caça fnllos viver, e constituca sua renda.
Entre lanto, como cadaselvnge nnõ cuida senaõ de s i ; como
tudo faz para si, c nada para os outros ; como repousa
logo que acaba de satisfazer as suas primeiras necessidades ;
est» s povos consomem catla anno tudo quanto produzem ou
quanto apanham; naõ economizam, nem enriquecem
nunca. Só depois que os homens comtneçam a prover ás
suas necessidades por meio de trocas ; e que catla um,
dedicando-se a uni gênero particulur de industria, fornece
tios outros uquillo que faz melhor que elles, cm troco
do que elles tazem melhor doque elle, he que commeçam
a extender a sua ambição além do presente momento, c
produzem pelo seu trabalho mais do que querem actual-
mente consumir.
Quando os n.embros tle umn sociedade, animados pela
facilidade que acham de fazer estas trocas, adoptam a de-
terminação de se repartirem em differentes profissoens,
produzem a revolução mais importante de quantas pode
Literatura e Sciencia». 51
ter nm povo que caminha para a civilaçaõ. Esta hc que
fixa a primeira época da accumulaçaõ do trabalho ; porque
dá pela primeira vez ao artífice o desejo e os meios de pro-
duzir nm supérfluo além do seu consumo. Este desejo
naõ existia para elle em quanto naõ conhecia as trocas,
porque nada via além das suas necessidades actuaes ; e
mesmo quando pudesse fazer provisoens de caça, por ex-
emplo, para varias semanas, estas provisoens vir-lhe-hiam
a ser inúteis, se lhe nao servissem para viver em descanso
em quanto durassem. Mas, desde o instante que, por uma
so espécie de trabalho, achou meio de prover a todas as
suas necessidades, logo lhe deve nascer o desejo de aceu-
mular infinitamente os productos desse trabalho, uma vez
que vé a possibilidade de o fazer, seja para se segurar de
nunca mais ter precisão, ou para buscar recreios na satis-
facçaõ das necessidades factícias que logo principia a ter.
O artífice adquire, com o desejo de trabalhar mais, os
meios de o fazer com maior ganância; porque, naõ se
empregando já unicamente para seu serviço, em uma so
operação, mas sim para uso de outras pessoas, mais as fa-
culdade produetivas de sua industria se augmentaraõ.
Para isso concorrem três diversas causas : a I a he adquirir o
artífice maior dexteridade no trabalho a que se destina uni-
camente ; a 2*. he naõ perder tempo em passar de um tra-
balho para outro; e a 3*. he, que a simplificação do tra-
balho, de que se encarrega, lhe da logar de inventar
machinas, que ou lho possam facilitar, ou mesmo dispen-
sallo de uma parte delle.
A divisão dos officios começa no segundo ou terceiro
periodo da sociedade. Entre os povos pastores, ou entre
os agrícolas, existe desde que o mesmo homem já naõ he
labrador, artífice, e pastor ao mesmo tempo; e multiplica-
se infinitamente ã proporção que a sociedade faz pro-
gressos: cada ollicio se subdivide, e cada obreiro faz
Q2
52 Literatura e Sciencias.
tanta mais obra quanto a sua operação hc mais simpli-
ficada.
Entre os povos, que apenas vaõ sahindo da barbaridade,
o mesmo artífice trabalha comniumentc todos os metaes ;
e a sua habilidade para mancar o martello, e fazer uso do
fogo para forjar c derreter, hc o fructo de uma primeira
repartição do trabilho. O caçador selvagem, que deve
primeiro que tudo pensar todos os dias cm mattar a tome,
por muita precisão que tenha de armus e ferrumentns,
nunca aprenderá por si a extrahir os melões da terra, e
ainda menos, a forjados c a pôllos em obra.
A proporção que os homens se multiplicam c se enri-
quecem, cessa o mesmo artífice de trabalaar em todos os
roctaes : logo de entre aquelles que forjam o ferro, se
separam os ferreiros, os serralheiros, os ferradores, os cs-
padeiros, &c. Sec. para formarem outras tantas profissoens
á parte; a final vemos concorrerem vinte c cinco officiaes
diferentes para fazerer um alfinete, de maneira que ura
lhe fax a cabeça outro lha corta, outro lhe faz o bico, &o.
Todas as vezes que se divide um officio, cada official
adquire um novo grão de dexteridade, na parte
cm que ?-e occupa exclusivamente ; cada qual poupa
o tempo que perderia em quanto se passa de uma
occupaçaõ a outra; e cada um nperfeiçoa o» seus in-
strumentos: ou mesmo achando-o no trabalho reduzido
á t)|>eraçaõ mais simples, descobre uma machina que lho
suppra ; vindo deste modo uma machina inanimada a ser
um obreiro produetivo. Hc deste modo que a manufac-
tura dos alfinetes se tem facilitado a ponto de vinte al-
fineteiros fazerem cora toda a facilidade ccn(o-c-viute-mil
por dia ; c t>c um homem, que uaõ entendesse nada do officio,
quisesse fazer um alfinete, ainda que habilidade lhe nnõ
faltasse, rustar-lhr-hia muito a fazer um. O mesmo he
cm todas as outra» profissoens, cm que se tem repartido
Literatura e Sciencia». 53
o trabalho por muitos officiaes ; e o producto da industria
humana já multiplicado prodigiosamente pela divisão dos
officios, ainda he susceptível de ser multiplicado mais.
Depois que os homens viram que por esta repartição dos
seus trabalhos podiam produzir mais do que no estado sel-
vagem, em que toda a sua industria apenas chegava para
poderem existir, começaram a economizar e a accuroular
uma parte dos fructos dos seus suores, e das suas retidas.
Lancemos os olhos sobre a terra que habitamos, e con.pa-
remolla com a terra selvagem, e entaõ julgaremos se assim
he ou naõ.
Separemos na nossa imaginação todos os trabalhos, que
tem sido precisos para produzir o paõ que comemos , e do
padeiro, o do moleiro, o do labradôr, o dos homens que
inventaram e aperfeiçoaram a sciencia da agricultura, o da
quelles que descobriram, no deserto onde elle cresça sem
ser conhecido, a propriedade nutriente do seu graõ; e
acharnos-hemos por fim com uma planta selvagem e de
nenhum valor, único presente que a terra faz á especeie
humana : portanto, cada um daquelles, cujo trabalho con-
correo para nos procurar o paõ, deixou-nos traços do seu
trabalho, de que nós nos aproveitamos; cada um delles
creou um valor, ou o accumulou sobre a sua producçaõ.
O que primeiro descobrio as propriedades do trigo, e
inventou a sua cultura deo um valor á terra inculta, porque
a fez susceptível de se cobrir de um producto útil; a quelle
que roteou o campo, em que o trigo foi colhido, realizou
igualmente o seu trabalho, e o seu valor se acha no preço
au mentado da terra melhorada. O caseiro que semeou
esta terra roteada acrescentou o valor do seu trabalho ao
dos seus predecessores ; e a seara, que elle obteve, devia
conter uma retribuição para o proprietário da terra roteada
e outra para elle, como labrador. O trigo, pois, que elle
levou ao mercado, representava todos estes trabalhos aceu-
mulados, e o paõ contém mais a compensação do mo-
64 Literatura r Sciencias.
leiro e do padeiro. Ilc desta sorte que os trabalhos se ic-
alizam, e que se vé uns accumularein-se c fixarcm-sc em
um immovel, como os dous primeiros, c os outros augraen-
tarem o valor dos moveis que o immovel produzio, como
os três últimos.
Se as mesmas producçoens da terra recebem do trabalho
o valor que tem, com maior razaõ as producçoens das
artes : separai de umas e das outras o trabalho, que lhes tem
accumulado as idades anteriores, e nada ficará que possa
considerar-se riqueza entre os homens.
Porem saõ todos os trabalhos susceptíveis de accumu-
laçaõ ? Naõ : ha muitos que naõ se empregam sobre ob-
jectos materiaes, ou que ao menos naõ os alteram de ma-
neira que lhe augmentem o valor. Onde iremos buscar,
por ememplo, o valor accumulado das marchas c contra-
marchas de um exercito, dos estudos de um jurisconsulto,
ou de um medico ; dos discursos de um pregador, ou dos
sons agradáveis de um musico r E mesmo quando o artí-
fice trabalha em alguma cousa material, o barbeiro o
guarda-roupa, e outros, augmentam estes com o seu tra-
balho o valor daquillo que preparam ou arrumam ? ao
mesmo tempo que o relojoeiro accresccnta o valor do seu
trabalho ao das matérias primas de um relógio ; o tccclaõ
ao do seu fio ; o çnpateiro ao do seu cabedal; o assim
muitos outros. Pode-se, portanto, chamar com boa rnzud
produetivo o trabalho, que se paga a si mesmo, que produz
debaixo de uma nova forma um novo preço que custou ; e
improductii o n quelle, que naõ deixa signal tle si, c que
deve constantemente ser pogo pelo producto de outro tra-
balho.
Ha um signal certo e invariável, pelo qual se pode. co-
nhecer se um trabalho lie ou n iõ produetivo : o qui* o he
conbe<e-M- ; porque depois de feito podf--»<- sempre dar cm
troco por alguma cousa, ou por outro trabalho por fazer;
e do improductivo nada fica tmceptivcl de trocar-»'' ou
Literatura e Sciencia». 55
de occasionar a existência de algum objecto real. Qual.
quer destes trabalhos, antes de estarem feitos, podem con-
siderar-se do mesmo valor; o musico poderá ganhar tanto
como o relojoeiro, e o salário de um e do outro podem
trocar-se por um novo trabalho ; mas o que pagou ao re-
lojoeiro seu trabalho acha-se com um relógio nas maõs,
que pode dar a qualquer pelo mesmo preço; e o que pagou
ao musico nada recebeo com que possa fazer o mesmo.
No primeiro caso ha dous valores por um trabalho ; a saber
o preço do relógio que recebeo o relojoeiro, e o relógio
que recebeo o comprador : c no segundo naõ ha mais que
ura, que he o pagamento que recebeo o musico; porque
os sons que o ouvinte recebeo em troco, acabados de pro-
duzir já naõ tem valor. O primeiro pagador fez uma
troca; o segundo uma despeza. A mesma regra pode ap-
plicar-se aos trabalhos dos pedreiros, carpinteiros, dos que
trabalham em barro, &c. que se fixam sobre um immovel:
os que acerescentam ao valor deste immovel saõ produc-
tivos ; c os que dieta a fantasia, e que nada acerescentam
ao seu valor, que seja troca vel, naõ o saõ.
Nenhum animal he dotado desta disposição para fazer
trocas; he própria só dos homens; e, como já acima
dissemos, he a causa do aperfeiçoamento do seu trabalho,
por ser ella que oceasionou a separação das profissoens.
Em conseqüência desta divisão, cem homens, que repar-
tiram entre si as profissoens de labrador, pastor, moleiro,
padeiro, tecelaÕ, carpinteiro, e pedreiro, produzem era
um anno mais mantimento, vestuário e casas, do que os
mesmos cem podem utilizar no mesmo espaço de tempo.
Se elles naõ abandonam o trabalho, depois de haverem
provido a todas as suas necessidades, fica-lhes um supér-
fluo, que naõ podem destinar para seu uso, o que os resolva
a dispor delle para uso de outros, mediante certas condiço-
ens. Se hoje lhes naõ falta nada, talvez lhes falte para o
futuro; e poder-lhes-ha convir trocar o producto de ura
56 Literatura e Sciencias.
trabalho feito, por um trabalho para fazer. O trigo, por
exemplo, tlesle nnno, pelo do anno que vem ; OU, uma
ves que haja introduzida no commercio uma mercadoria
commum, a que se chama numerário, ou dinheiro, entaõ
convir-llies-ha trocar o seu supérfluo por esta mercadoria
commum, porque a todo tempo lhes eqüivalera a ura
escripto obrigatório para qualquer homera industrmsu
lhes fazer trabalho, ou para obter o fructo do seu
antigo.
No primeiro periodo da civilisaçaõ, quando uma naçaõ
naõ hc composta *e naõ de caçadores, nuõ hn distioeçaõ
de ricos nem tle pobres, e cada um de seu» membros cuida
per si mesmo em satisfazer as suas próprias necessidades.
A divisão das profissoens, fuzeudo possivel n accumulaçaõ
das riquezas, introduzio pela primsira vez esta desigual,
dade na sociedade. Quando ella coromeçou, era rico
aquelle que, depois de ter provido ao seu consumo pela
troca dos fructos do seu trabalho, ficava-lhe ainda um su-
pérfluo; e era pobre aquelle que naõ tinha de aute-maõ e
de seu, de que subsistir em quanto trabalhava, até quo a
sua obra estivesse acabada e em estado de se trocar.
Como todo homem forçosamente lia de consumir ante»
de produzir, o artífice pobre acha se na dependência do
rico, e nem pode viver nem trabalhar uma vez que naõ
obtenha mantimentos e mercancias jú existentes, em troco
tlaqucllas, que elle promette dr produzir pelo seu trabalho.
Este mercado, ou coutracto, naõ pode ser gratuito, por-
que eutaó toda a \autageni estaria do lado do artífice po-
bre, uma vez que o rico naõ lucrasse nelle; e para que
este se resolvesse afazrll», era precisoconvir cm que, toda
vez que elle Irocasir trabalho leito por trabalho para lazer
«te deveria ser de valor superior ao oulro : ou, por ou-
tros termos, que o proprietário tio supérfluo accumu-
lado obteria um lucro proporcionado á quantia adian-
tada.
5
Literatura e Sciencias. 57
Logo que os proprietários do supérfluo accumulado,
(que daqui em diante chamaremos capital) viram que o
podiam augmentar, trocando-o por trabalho por fazer,
multiplicaram estas trocas o mais que puderam, e tiveram
sempre cuidado em naõ suspender a faculdade productiva
de seus capitães, pondo-os de morto.
Ha dois modos de os por a render; o primeiro he fixai-
los na erecçaõ ou aperfeiçoamento de uma machina qual-
quer, por meio da qual facilitem ou multipliquem o traba-
lho humano. Nunca a palavra machina teve uma accep-
çaÕ mais extensa do que lhe eu quizera dar neste logar;
porque desejava comprehender debaixo deste nome, desde
o arado até o mechanismo mais complicado ; ate á terra
cultivada, que nas maõs dos homens he uma machina
productiva; até ao mesmo artífice, que quando elle he
formado com uma instrucçaõ apropriada ao seo estado,
com um avanço de capitães, pode comparar-se a um officio
vivo ; porque faz duas vezes mais obra doque outro.
O segundo modo, que os proprietários de capitães tem
de empregar com vantagem as suas riquezas he, fazellas
circular debaixo da forma de mercadorias, applicaveis
para uso dos homens; dando-as ao consumidor em troco
de um trabalho de que poderão outra vez trocar o fructo;
e cada um destes mercados produz um augmento das suas
riquezas, que constitue a sua renda. Destas duas maneiras
de collocar os capitães he que nos vamos agora occupar.

[Conünuar-se-ha.J

V O L . X V I I . No. 98.
C *> ]

MISCELLANEA.
KDVCAÇAÕ BLBMENTiB.

N \ 4.
Emprego» das differentes Classes de menino» na Eschola.
Primeira Classe.
liiSTA classe he composta dos meninos mais novos, e que
entram para ella sem saber cousa nenhuma, e a quem he
preciso ensinar o alphalieto, e fazer decorar as oraçoens da
cartilha : o seu lugar lie nos bancos mais próximos ao
mestre ; e diante dos quaes estaõ as inezas cubertos de
arêa.
Como cada um dos indivíduos desta classe precisa ser
instruído separadamente, naõ podem haver nesta clasnc
mais de vinte meninos para cada decuriaÕ. A primeira
operação he ensinar-lhes as letras do alphabeto, e para isso
se servem, nas novas escholas, de um engenhoso methodo;
que consiste em fazer que os meninos escrevam as letras do
alphabeto cm uma grande taboa negra, que está suspen-
dida diante delles, como uma espécie de púlpito, e cuberta
de arca : o decuriaõ escreve tom o dedo a primeira letra
diante tio discípulo, e este a copia logo, da maneira, qu*
lhe diz o decuriaõ ; JKW este modo aprende o menino a ler
a a escrever sem despeza de pcnnas, papel ou tinta ; e tu
lhe ensinam ao mesmo tempo a» duas operaçoens, manual
e íntellec tual de conhecei e fazer a» letras: operaçoens,
que, nas eschola» ordinárias, saõ dislincla», e requerem
dous tempo».
Quando se tem corrigido a-, letras ctciiptas pelos me-
nino», o tlecuriaò pas»a por cima da arca uma taboinha
P-»ra a alizar, e dispõlla a servir para nova escripU. As-
sim além da» outras utilidades se poupa o tempo dos mc-
7
Miscellanea. 59
ninos, e se evitam distracçoens, que occorem, com o ar-
ranjamento do papel penna, e tinta.
Quando os meninos tem por esta maneira aprendido a
escrever e conhecer todas as letras do alphabeto, tanto
pequenas como maiúsculas, se lhe põem diante uma
grande carta do A, B , C ; grudada n'um papelão : entaõ
elles nomeam e escrevem as letras na arêa, imitando as da
carta, o que lhes imprime definitivamente na memória, a
figura das letras. O decuriaõ lhes pergunta os nomes das
letras salteadas; e aqui começa nesta classe o systema
fundamental da eschola, de se adiantar ou retrogadar era
classe, conforme o gráo de aproveitamento dos meninos, e
os progressos que fazem.
Calcula-se que os meninos precisam cerca de três sema-
nas, ao mais tardar, para conhecer bem todas as letras;
e dez semanas, quanto muito, para as escrever bem na
arêa.
Logo que tenham copiado sufficiente numero de vezes
as letras da carta, se lhe tira esta de diante, e se lhes faz
escrever as letras de memória ; até ficar certo, que as sa-
bem todas perfeitamente.
Do mesmo modo se procede para os fazer escrever, co-
nhecer e pronunciar algumas syllabas simplices, como Ba,
be, b i ; que elles deverão imitar, e soletrar; mas ter-se-
ha sempre cuidado de lhes naõ dar novas liçoens, sem que
elles estejam perfeitos nas precedentes. Porém, para que
se naõ fatiguem com demasiadas repetiçoens, se interrom-
perá esta occupaçaõ, fazendo-os aprender de t ó as ora-
çoens e o cathecismo. NaÕ se lhe fará repetir mais de
três ou quatro palavras ao mesmo tempo, e se interrompe-
rão, fazendo continuar ao seu vizinho; a fim de estar
certo de que todos estaõ attentos, e que naõ repetem ma-
chinalraente o que acabam de ouvir. Esta instrucçaõ ele-
mentar dura ordinariamente três mezes, ao mais, ainda
com os meninos de menor talento.
H2
60 Atiscellanea.
O methodo de escrever na nría, qne fixa a atfençaôdo»
meninos» o*, diverte ; e he tle grande economia nas escho-
l.is publicas. O Dr. Bell achou este methodo praclicado
na índia, destle tempo immemorial, c elle foi o primeiro,
que o nitrodiizio na Kurnpa.
Cm menino menos instruído deve sempre ser collocado
ao pé dtiuiro, que saiba formar ns letras melhor; e os
que naõ a*, uaõ snln-m absolutamente fazer, as escreverão
sempre depois tio decuriaõ ter escripto a Iclra, para o imi-
tarem immcdiniamenlc, continuando assim até que possa
escrever a letra por si mesmo.
As niftmas letras tio alphabeto se devem dividir em
classes, secundo as suas analogias tle figura : primeira-
mente as letras que constam de linhas rectns, como I, II,
T , L, í' : depois ns que exigem a formação de um an-
gulo, como A, V, M, N , Z , K, Y , X ; dahi ns que con-
stam de curvas; como O, U, C, J , (í, I), P,B, R, Q,
S. Estas classes de letras se nprendem melhor, em con-
seqüência da siinilhança tia figura. A maior tlidiculdatle,
cm ensinar estas letras, (acorre naquellas, cuja forma he
mui similhante, e unicamente tlistint Ia pela variedade de
posição; p, q, b, d, freqüentemente se tomam uma por
outra; poi ém fazendo nuibai no mesmo tempo, os meni-
nos facilmente apreiitlein a tlisliiigiiilla». A demais, elles
-aõ Iodos empregados ao mesmo tempo, em rscrevéllai, c
lie c.iriu»ti tibsci v.ir, como totlos os meninos levantam o
dedo ao mesmo tempo, e escrevem catla um a sua letra
imitando os que menos s*boiu, os seus vizinhos que melhor
escrevem.
lia outio iiiclhodo tle ensinar o alfabeto, que he e»crc-
ventlo-o cm letras mui grandes, em um papel grudado em
papcLó, c (K-ndurado n i parede. Oito meninos, da classe
do» q U l csi rcveiu ua arêa, formam um cenncirciilo cm
i rno drsta caria, e--t.ut.lo de pe conforme os seus nume-
'" • '- -• 3 , «!vc. ate 8. t s t e s numero» estaõ pintados em
Miscellanea. 61
um pedacinho de papelão, pendurado ao botaõ da vestia ;
ou ao pescoço por um cordel. O menino mais aprovei-
tado, tem o N*. 1., e além disso uma tira de couro dou-
rado, como insígnia honrosa de merecimento. Este me-
nino he sempre a quem o decuriaõ pergunta primeiro as
letras salteadas, apontando com o ponteiro para uma letra,
e perguntando? " que letra he esta?" cm quanto elle
responde acertadamente conserva o seu lugar, e insígnia
de honra ; porém logo que erra, perde o numero e a de-
coração, que se dára ao menino seguinte, que responde com
acerto.
Este plano promove uma constante emulação ; e em-
prega constantemente a attençaõ do decuriaõ ; porque
elle naõ pôde olhar para outra parte em quanto pergunta
as letras aos meninos, sem que a sua distracçaó seja logo
percebida, pelos que aspiram ao prêmio. O decuriaõ
naõ somente tem obrigação de ensinar ; mas ver que os
subdeenrioens de sua classe ensinem também com o mesmo
cuidado. Se um menino, quando be perguntado, chama
ao A, B ; o decuriaõ naõ lhe diz, " isso naõ he B , " sim-
plesmente manda ao menino seguinte que diga o nome da
letra, e corrija o erro do precedente. Estes dous metho-
dos da carta no papelão e escrever na aréa, saõ usados al-
ternadamente todos os dias, servem de corrigir um ao
outro, e de variar o emprego dos meninos, que sempre se
fatigam mais, e esgotam a attençaõ, continuando, por muito
tempo, no mesmo exercicio. As letras de conta se apren-
dem do mesmo modo.
O ensino da primeira classe, portanto, he intimamente
connexo com a escriptura ; mas na segunda classe começa
pela escripta ; e he necessário attender a esta distineçaõ;
porque na segunda classe aprendem os meninos a escrever
na pedra o alphabeto, e depois syllabas de duas letras, ba,
be, bi, & c . ; aprendendo também a soletrar estas syllabas
62 Miscellanea.
em cartas conrespondentcs grudadas era papelão, e pen-
duradas na parede.

Segunda Classe.
Esta classe consiste principalmente dos meninos, que,
tendo aprendido a escrever na área todas as letras do ai-
phabeto, e figuras tle conta ; c a distinguillas perfeita-
mente no papel, estaõ capazes tle passar para esta classe,
comparativamente superior.
Aqui aprendem a soletrar syllabas de duas letras, c a
escrever na pedra, com o ponteiro, ns mesmas syllabas,
que aprendem a soletrar na carta. O decuriaõ manda es-
••rever, ix>r exemplo, a sillaba mi ; todos o> meninos a es-
crevem com o ponteiro na pedra, ao mesmo tempo, e a
soletram ; depois voltam as pedras para a parte tle fora ;
para que o decuriaõ as veja: este vai ao longo do banco
olhando pira todas as pedras, e notando as que naõ estaõ
Ivm 1-scrip'as : dahi manda voltar ns pedras para dentro ;
limptllas com a rqionja ; e prepni.tr para escrever nova
syllaba.
A pedra, em que os meninos escrevem, deve ser a pedra
negra, ou sclusin, commumente usada para este» fins;
com oito poli-.ríttl ts de longo, e quatro de largo, com seu
caixilho tle páo ; e um cordel por que está pendurada ao
pescoço tio menino : o ponteiro tle pedra, tom que se es-
t r o e, ileveiá lambem rstai alado á pedra por um cordel
de sutlii ieule cumprimento, para se poder usar sem ficar
solto. N i parte 8ii|H*rior da pedra deve haver um alpha-
beto gr.i-.ado de maneira permanente; o qual servirá de
traslado aos meninos.
Segundo o methodo antigo se ensinava aos meninos a
soletrar qualquer palavra, começando pela primeira »vl-
laba, c repelindo depois »empre, com as outras syllabas,
que soletravam, as s\ llab is precedentes ; o que perde tem-
po considerável, íatiga os meninos, cansa distracçaõ c de-
Miscellanea. 63
mora, em vez de adiantar, os seus progressos. Pelo con-
trario, pelo novo methodo, se dá aos meninos um perfeito
conhecimento de todas as syllabas, fazendo que as palavras
naõ sejam mais do que um composto de duas, Ires ou qua-
tro syllabas, que nao precisam mais do que ser divididas
para serem logo soletradas. Assim se acha que os meninos
sabem ler, logo que sabem as syllabas ; assim como se sabe
dançar, logo se sabe dar os passos. Saõ elementos tios
elementos, e uma marcha proporcional á intelligencia do»
meninos, e ao gráo de attençaõ de que elles saó susceptíveis.
Este methodo permitte ainda seguir a leitura com a escrip-
tura ; porque naõ ha mais difficuldade em escrever uma
syllaba cujas letras se vêm ; do que em a pronunciar,
quando se conhecem as letras.
As liçoens desta classe, pelo que respeita á arithmetica,
se limitam unicamente a escrever as letras de conta, e a
entender o seu valor abaixo de cem, pela uniaõ de duas
letras.

Memória sobre o estado actual da Ilha de S. Miguel, sua


agricultura, e recursos.
Por um habitante da mesma Ilha.
1. As tristes conseqüências dos vagarosos passos, que a
agricultura tem dado na ilha de S. Miguel, desde o seu
descobrimento, que excede três séculos, e o interesse pu-
blico, me instam a fazer a este respeito as seguintes re-
ílexoens, as quaes, se naõ forem bastantes para banir a
actual indolência, ao menos poderão ter a utilidade de
mover algum homem sensato : a discorrer com mais acerfo,
e com efficacia tal, que promova o bem commum ; ficando-
me sempre a desculpa, que supro quanto posso a falta
de forças, com os desejos de ser útil aos meus nacionaes.
2. A ilha de S. Miguel, em que me acho estabelecido,
uma das nove dos Açores, está situada em 365". ôO7 longi-
64 Miscellanea.
tutle ; e 3S-. IO latitude N o r t e ; e por ésía vantajosa
posição he naturalmente fértil, pois n-iõ está sugeita a ex-
cessivos colore-, nem frios ou geadas; que ou esterilizam
as terras, ou destruem os fructos, ou produzem ambos os
sobredictos effeitos.
3 . Tem esta ilha, na sua maior extençaõ, de Leste a
a Oeste, 1S léguas Portuguezas ; e na sua largura, que
lie mui desigual, tluas a tres léguas. Consequentemente he
a sua superfície quadrada de 45 léguas, com pouca dilTe-
rença.
4 . Os seus terrenos mctlem-se por varas, alqueires, e
moios: catla vara tem doze palmos em quadro; cada
alqueire tem duzentas varas cm (piadro ; cada moio tem
sessenta alqueires. N a villa da Ribeira-Grande medem-se
alguns poucos terrenos por vara de dez palmos ; e o
alqueire tem 200 dessas varas ; mas esta naõ lie a medida
geral. O alqueire quasi que conrespoude á geira do nosso
Portugal.
5 . A légua Portugueza tem 2 8 . 1 6 8 palmo*; de comprido
(diecionario das moedas) r, sendo a ilha 45 léguas em
quadro. {% 3 ) vem a ter 20.682 moios de terreno, omittinde
umas pequena* fracçoens.
6. Sendo a producçaõ ordinária de graõs de 34.000
moios, e produzindo regularmente cada um alqueire de
terra 15 alqueires de graó, segue-se que estaõ applicados
a esta cultura l2 2 6 6 moios de terreno, com pouca diffe-
rença. Vinhas, pomares, casas c estradas, poderão coro-
prchender 3.500 moios, pouco mais ou menos.
7. Donde se segue, que, estando, pelo calculo sobre-
dicto de aproximação, apenas utilizada a quarta parte da
Ilha, e sendo a agricultura o fundamento dos soccorros
neces ario» ás humana» precisoens, cumpre empregar todos
os meios, que parecerem próprios, para qne ella se pro-
mova ; c a terra nos felicite com a abundância, a qual in*
parece se poderá conseguir nesta ilha pelos seguinte» meioi.
Miscellanea. 65
8. Seja S. A» R. servido crear mais nesta Ilha um lugar
de Letras, com o predicamento, que competir, e titulo de
Jnspector d'Agricultura, que será provido em bacharel de
experimentada aptidão, e constituição capaz de supportar
as continuadas jornadas, que em todos os tempos deve
fazer pelo interior da Ilha, para assistir ás divisoens, de-
marcaçoens, plantaçoens, estradas e mais diligencias si-
milhantes, para que for requerido, e precisarem da sua
presença, sendo particulares, ou para melhor execução
sendo publicas : e será sempre preferido o bacharel, que
tiver testemunho d'alguma das faculdades naturaes da
Universidade de Coimbra.
9. Como os planos para o melhoramento da agricultura
precisam de tempo; porque sem elle a natureza nada
produz, e o de três annos, ordinário nos lugares de Letras,
he diminuto para dentro nelle se perceber beneficio, e
completarem os projectos, que o Inspector, tiver adoptado
pela experiência adquirida nos primeiros annos do seu
lugar ; será de seis annos o seu tempo ordinário; porque
no fira delles ja se conhecem as conveniências, ou descon-
veniencias, que somente se percebem com o tracto do
tempo ; e se evita que um successor, amante da novidade,
e sem conhecimento do terreno, que o antecessor tinha
adquirido nos primeiros annos de serviço venha contrariar
disposiçoens principiadas, e que no pequeno lapso do
triennio naõ tenham ainda mostrado os seus effeitos, que
ja se deverão conhecer no sexennio; e entaõ segundo elles
mais difficil ou própria será a mudança. Os dictos seis
annos seraõ prorogados, pelo mais tempo que for do Real
agrado, se as Câmaras desta Ilha, e a mais saã parte delia
pedir a reconducçaõ do dicto Ministro, assim como seraõ
abreviados se se mostrar ter elle prevaricado no seu Of-
ficio.
10. Terá um escrivão, que será proposto pela Câmara
da cidade de Ponta-Delgada e provido pela Meza do De-
V O L . XV11. No. 98. x
66 Miscellanea.
zembargodoPriço. na foi ma custumada ; no qual escrivão"
concorrerão as qualidades tle agilidade para acompanhai
o seu Ministro, uns diligencias sobredictas, c os mais, que
elle lhe ordenar; e d e perfeito conhecimento tia cultura
do paiz : escreverá todos os papeis, que se tracUirem pe-
rante o seu Ministro; c o mais, que elle lhe ordenar do
Serviço. Mais haverá um Meirinho, nomeado pelo In-
spector. Nos impedimentos dos dictos officiaes, ou ainda
para os ajudar, accresccndo trabalho para que elles naõ
sejam bastantes, servirão outros officiaes de qualquer juizo,
que o Inspector pedir oficialmente aos respectivos minis-
tros.
11. Terá o Inspector 800.000 reis de ordenado; o
Escrivão 400.000; e o Meirinho 300.000; pagos pelo
rendimento da Alfândega desta Ilha ; e os mais salários,
que pertencera respectivamente ao Juizo da correiçnõ.
12. Tudo o que for a bem da agricultura; como as
plantaçoens das madeiras, nos sertoens próprios para ella»,
e borda dos caminhos ; a sementeira das batatas lnglezas;
íxentas de pagar dizimo nos primeiros dez annos, &c;
competirá ao Inspector, o qual será muito exacto na
execução das leys agrárias, que forem compatíveis com o
estado da terra, como a de 20 de Junho de 1774, e outras;
fazendo vigorar especialmente a Ordenação do liv. 4. tt.
43 ; e as posturas agrárias das Câmaras, ficando-lhe cumu-
lativa com as Câmaras e Magistrados a jurisdicçaõ qne
elles ja tem, tocante a agricultora; e entre os dictos terá
prevenção o que primeiro principiar e continuar sem
interrupção qualquer acto rural. Terá o luspector juris-
dicçaõ coactiva, e correcciouul, no que toca a agricultura,
e nella terá alçada competente ao seu predicamento; e
versar/t a »ua jurisdicçaõ sobre as pessoas e bens, na forma
abaixo declarada.
13. Quanto ás pessoas. St-ra braços naõ pode haver
cultura ; por este motivo S. A. li. será servido izentur eita
Miscellanea. 67
Ilha de recrutas, á excepçaõ daquellas, que os Ministros
de Policia devem fazer nos vádios, que forem inhabcis
para a vida do campo : todos os mais naturaes delia naõ
se poderão embarcar sem faculdade por escripto do dicto
Inspector, na qual se especificarão os motivos, que
obrigam a concedêlla, esó por muitourgentes ejustíssimos
seconcederá a homens campestres, ou aquelles que raciona-
velmcnte se deverem empregar no louvável exercicio da
agricultura. Faltando a dieta faculdade, Be naõ passará
passaporte, sendo punidos os transgressores cora a pena
da ley de 4 de Julho, de 1758, a qual também se verifi-
cará nos mestres dos navios, donos, e agentes, que a
titulo de tripulação embarcarem algum individuo desta
Ilha, sem a sobredicta faculdade.
14. Os reos de pena de sangue sairão para soffrer o devido
castigo. Porém os de degredo ou galés, sendo homens
braçaes e mechanicos, deverão cumprir a pena nesta Ilha,
até a terceira transgressão exclusive; dobrando-se-lhes
pela segunda vez o tempo de degredo, etriplicando-se-lhe
o das galés ; os quaes tempos crescerão na mesma por por-
çaõ no caso de reincidência, no qual todos traraõ grilhão,
e os das galés sempre, e trabalharão em rotear os matos, e
nas obras mais penosas. O Inspector distribuirá uns e
outros, era pregando-os primeiramente nas obras publicas,
nas quaes seraõ pagos, conforme o seu merecimento, pelos
dinheiros das Câmaras, de que abaixo faltaremos ( -j 3 2 ) :
e naõ havendo similhantes obras, os distribuirá pelas dos
particulares. Os réos de galés e reincidentes de degredo,
que traraõ grilhão, na forma sobredicta, pernoitarão,
sentlo commodo (o que fica ao arbítrio dos donos das
obras) e jazerão nos dias vagos, nas cadeias mais próximas
aos trabalhos ; e os donos das obras assignaraõ termo de
os entregar, logo que ellas forem acabadas, com pena de
serem punidos, como receptatlores de criminosos, segundo
a sua malicia e crime dos reos ; impondo-se-lhes as penas
i2
68 .Miscellanea.
da ley de 2S de Julho, de 1751 ; os mais reos devera*
soffrer a pena da ley no lugar aonde ella determine.
15. Também se deveraõ extinguir os mendigos, que
ordinariamente o saõ por modo de vida ; e para isso nin-
guém poderá mendigar sem licença por escripto do In-
spector, o qual unicamente a concederá oo» que tôrera
totalmente inúteis para os trabalhos do campo ou das
obras publicas; ás quaes applicarft os capaze6, que men-
digarem; c naõ as tendo os distribuirá pelos trnbulhos dos
particulares, para serem pagos conforme o seu mereci-
mento. Os transgressores seraõ punidos, pela primeira
vez, com 30 dias de cadêa, da qual sairnõ todos os dias
para os dictos trabalhos, c pernoitarão na cadêa mais
próxima do lugar do trabalho : pela segunda vez a mesma
pena, com grilhão no pé, dobrando.se-lhe a pena em
cada transgressão. O mesmo practienrá com os publica-
mente ociosos.
16. Similhante faculdade do Inspector precisarão
todos os moços, que se dedicarem á vida ecclesiastica,
tanto secular como regular; por ser esse um dos meios
com que se enfraquese a população, e por conseqüência a
agricultura : e, para que £sta faculdade se conceda com
acerto, seraõ obrigados todos os professores a dar annual-
mente ao Inspector, uma lista jurada dos seus discípulos;
com informação tia bua applicaçaõ, ou negligencia ; c por
ésla lista se dirigirá o Inspector, para fazer applicar n
empregos ruraes os que achar serem próprios pata estes
fim ; e tendo grande vigilância, que se naõ pretenda, com
a capa de estudo, atlistracçaõ ou indolência da mocidade,
que, t-onsummindo inutilmente os melhores annos de sua
vida, fica depois sem pirstimo algum entregue a vicios ;
ou, para acabar iniseiavt Imeitte em terras estranhas, de-
sertando desta Ilha, aonde podia subsistir, c ser útil com o
seu trabalho, se tivesse a educação como devfira.
17. O meio de augmentar a população hc o promover os
Miscellanea. 69
casamentos, os quaes se facilitarão, applicando-se para
dotes de 100.000 reis, aquelles que a Misericórdia éra obri-
gada a dar para profissoens de freiras; os quaes se daraõ an-
nualmente a moças honestas, preferindo sempre as parentas
pobres dos institui dores, que por falta d'outro dote naõ
acharem casamento ; e seraõ entreges á vista da certidão
do matrimônio, ainda que de presente se achem applicados
para outros fins os dictos dotes deixados para freiras :
tendo applicaçaõ os dotes vencidos, e que ainda naõ esti-
verem conferidos. O Inspector, será nesta parte vm dos
executores da ley de 16 de Outubro de 1806; poderá
examinar as contas das Misericórdias, e, achando omissão,
fará distribuir os dotes na forma sobredicta.
18. Quanto aos bens. Attendendo á utilidade publica,
naõ se accumularaõ nas maõs de cada lavrador mais do
qne dous moios de terra, para que a possa tractar e estimar
como sua, que por isso produzirá muito mais do que
actualmente; para o que terá oito rezes e dahi para cima.
Os senhorios poderão também cultivar três moios de terra,
a mais será toda aforada in perpetuum, ou ao menos por
três vidas, na forma abaixo ( % 2 0 ) ; e teraõ escolha da-
quella com que quizerem ficar, antes de aforada • e po-
derão arrendar estes três moios, que lhe ficam, a quem
lhes parecer, por arrendamentos amoviveis a seu arbítrio,
regulados pelas regras de direito ; ainda que estes rendeiros
ja tenham os outros dous moios sobredictos ; o que se per-
mitte aos senhorios, em attençaõ ao seu dominio ; cora
tanto que os rendeiros cultivem devidamente.
19. Havendo porém justos motivos, para se accumula-
rem, em uma mesma maõ, mais do que os dictos dous mo-
ios de terreno, o Inspector e as câmaras do districto do
terreno, ouvindo os supplicantes e interessados, resolverão
como parecer justo ; com tanto que se naõ aceumulem mais
do que outros dous moios; porque entaõ será necessário
70 Miscellanea.
recorrerá Juncta do commercio, que decidirá, precedendo
as sobredictas diligencias por informe.
20. Naõ obstante os prejuisos, que resultam dos vincu»
los, e que se acham ponderados no luminoso proeraio da
ley de 3 de Agosto, de 1770, está vinculada uma grande
parte d u possessoens desta Ilha, com evidente detrimento
da lavoura ; porque, pela desigualdade da repartição dos
terrenos, uns senhorios de grandes porçoens as cultivam
por si muito mal; outros, naõ as querendo ou naõ" podendo
cultivar, as arrendam a rendeiros temporários, os quaes
unicamente cuidam em as cançar, para tirarem dellas
grandes interesses, naõ as alimpando, nem tapando perfei-
tamente ; visto que a experiência lhes tem mostrado, qoe,
se as alimpam, muram, ou fazem algum outro beneficio
de proveito futuro, logo apparecem atravessadores, qne
fazem cora que se lhes acerescente a renda, ou sejam des-
pedidos ; para evitar estes males os rendeiros desanimados
so tractam de colher de presente sem olhar para o futuro.
A fim de que cessem os inconvenientes, que resultam deste
procedimento, o Inspector aasignnrá nos senhorios rario-
navel prazo peremptório, para que dentro delle aforem,
pelos preços presentes, ou in perpetuum, ou ao menos por
três vidas, os arrendamentos aos actuaes rendeiros ; que-
rendo-os estes ; e, naõ os querendo, os aforem a novos cul-
tores ; cujo contracto será celebrado perante o Ioipector,
exhibindo-se titulo legal, por onde conste do preço pre-
sente, para se continuar de futuro. O mesmo practicará
com os senhores, que cultivarem maior terreno do que ot
três moios do S 16 ; os qu us aforarão os dictos excessos,
pelos preço» em que forem avaliados, segundo o» prédios
vizinho<i. Passando o tiicf> prazo, sem que un» e outro»
senhorios tenham cumprido a parle, que lhes toca, o In-
spector logo uforará, tt mo lhe parecer melhor (naõ ob-
stante o % 21., que naõ comprehende esta esperte, em pena
da conluiuacia dos senhorios) aos actuaes rendeiros, na
Miscellanea. 71
forma sobredicta, os bens presentente arrendados, e os ou-
tros terrenos cultivados pelos senhorios, além dos três mo-
ios, como se ignorasse o sed arrendamento ; faxendo o In-
spector avaliar judicialmente os aforamentos, em praça
publica, ao maior lanço dado presentemente, e sem eraula-
çoens ; o mesmo practicará com os arrendamentos, em que
naõ quizerem ficar os actuaes rendeiros; e de que os se-
nhorios naõ tiverem disposto, conforme a este $., no prazo
que lhes tiver sido fixado. As terras naõ vinculadas tam-
bém seraõ aforadas, como fica dicto nas outras; havendo
cuidado em que se naõ accumulem em uma só maõ maiores
terrenos do que os ja prescriptos: e, para maior facili-
dade e certeza, os proprietários seraõ obrigados a entregar
ao Inspector um mappa jurado de todas as suas rendas e
prédios, com as declaraçoens que forem necessárias.
21. Os aforamentos anteriormente feitos ficarão era seu
vigor nos dous moios (-3 18) os quaes seraõ escolhidos pelo
foreiro ; e, havendo excesso, este se regulará pelo % ante-
cedente. Os novos foreiros entrarão logo nos bens, que
estiverem arrendados por contractos annuaes, que ainda
durarem, depositando as melhorias que houver, pelo jura-
mento dos interessados, para serem liquidadas ; e, no caso
de revelia, procederá o I nspector a louvamento, deposito
e introducçaõ do novo foreiro.
22. Aos senhorios compete decitlir, se os seus bens de-
vem ser aforados perpetuamente ou em vidas ; e, naõ de-
cidindo no prazo, qve lhe for assignada pelo Inspector,
este decidirá como parecer justo. Os bens aforados vita-
liciamente, findo o tempo, ficara na livre administração dos
senhorios, para disporem delles dentro de um anno, na
forma constante deste plano, intervindo nova avaliação,
para serem satisfeitos, conforme a direito, as melhorias oa
damnos. Os senhorios sempre aceitarão as disposiçoens,
que o Inspector esta authorizado para poder fazer, de seus
bens, e sempre teraõ* preferencia os novos foreiros, que os
5
72 Miscellanea»
senhorios quiserem introduzir, tendo os requisitos necessá-
rios. Naõ apparecendo os senhorios, ou seus procurado-
ndores, tendo sido convocados, »e procederá as suas re-
velias.
23. Os bens dos senhorios auzentes seraõ aforados cm
praça, na forma sobredicta, pelo Juizo da Inspecçaõ, no-
meando-se pelo Juizo competente curador, que assista aos
dictos actos ; porque assim o pede o favor du agricultura :
bem entendido, que a arremataçaõ só procede nos três mo-
ios de terreno facultado aos senhorios, nos dous moios tia
mato, quintas, e vinhas dos Sh 18 e 24, e 2 9 ; porque oi
demais terrenos se devem aforar na forma sobredicta, aos
rendeiros actuaes ; ou quaesquer outros lavradores, pela
renda actual , e só no caso de naõ haver quem os queira
por este preço, deverão ser avaliados c arrematados,
fazendo os cortes contra o novo foreiro. Este aforamento
será feito sobre um ou mais corpos de terreno, que com-
prehenda três moios. Succcdendo vir o auzente, c que-
rendo cultivallos por si, e ao dicto mato, vinhas e quintas ;
ou mandando procuração, que regule a forma da sua ad-
ministração, naõ siiido contraria ao que hc concedido aos
outros senhorios, se praclicará com os auzentes o mesmo
que com os senhorios presentes : ficarão sem eíTcito estes
aforamentos, c se pagarão aos foreiros os melhorias.
24. As quintas e vinhas fiquem na livre administração
de seus donos, que se contentarão cm conservar as exis-
tentes, sem que possam fazer novas plantaçoens, excepto
em terrenos incapazes do produzir graó, cujo conheci-
mento dependerá d' averiguação, que fará o Inspector,
por vestoria, com homens peritos, ouvindo o Procurador
do Concelho do Districto, que servirá tle Fiscal; c, con-
cordando-sc na dieta plantação, a concederá com esta»
previas diligenciai, c d'outra sorte naõ; pcl is razoas
seguintes.
25. Quanto ás Quintas. As larangeiras, nesta Uhs,
Miscellanea. 73
produzem muito fructo, e bom, quasi espontaneamente,
em terreno incapaz para graõs ; e por esta razaõ; se naõ
deve prodigalizar o bom terreno nesta cultura, quando ha
muito próprio para ella, e que para nenhuma outra serve:
também porque faltarão para os outros ramos da primeira
necessidade oa braços necessários ; pois o trafico da laranja
occupa muita gente ; e, finalmente, porque as quintas ex-
istentes, dentro em dez annos, em colheita regular, haõ de
carregar acima de 200 navios de mil caixas cada ura ;
sendo as laranjas, aqui, melhores do que as de Portugal, e
mais baratas ; porque os proprietários das quintas naõ fa-
sem com ellas as grandes despezas, que se fazem no Reyno;
necessariamente os estrangeiras as haõ de vir aqui procu-
rar, e ha de decair esta negociação no Reyno ; cujos in-
convenientes cessarão^ reduzindo-se esta cultura a termos
proporcionados, e com elles florecerá este commercio na
nossa Ilha, principalmente se se empregarem os meios se-
guintes.
26. O primeiro meio be crear uma companhia de nego-
ciantes nacionaes, e naturalizados, que ec encarreguem
desta negociação ; e assim ficarão nas maõs dos nossos os
grandes interesses, que vemos passar ás dos estranhos.
Naõ se expõem aqui algumas idêas convenientes a este es-
tabelicimento, por serem alheias do presente assumpto.
27. O segundo meio he o fazer-se nesta Ilha Porto
Franco, de todas as fazendas, que de Inglaterra vierem
por troco de laranjas, que daqui saírem; a exemplo da
Ilha da Madeira com os seus vinhos: com faculdade de
poderem ser reexportadas para as outras Ilhas dos Açores
somente a troco de gêneros próprios dellas. D: ste modo
cessarão os inevitáveis contrabandos, crescerá o rendimento
desta alfândega consideravelmente, os compradores se avan-
çarão a maiores compras, que naõ podem fazer com mo-
eda, ou fazendas de ley, que sejam coiisumiveis nesta
Ilha ; por se precisarem para ella mudo menos do que o
V O L . XV11. No. 93. K
71 Miscellanea.
producto da laranja ; e se promoverá o gyro do commer-
cio entre esta* ilhas, ficando livres tle umas para outras a
importação e exportação dos gêneros produzidos nellas,
pagando os competentes direitos.
2S. Quanto ás vinhas. Os vinhos ordinariamente, nesta
Ilha, saõ inferiores, c naõ chegam para o seu consumo ;
ao mesmo tempo que algumas das ilhas circumvizinhu
•blindam neste gênero, em boa qualidade e preço. O es-
tado pois das cousas nos ensina, que troquemos por este
gênero, de que somos faltos, aquelles em que abundamos;
isto he as fazendas lnglezas, que naõ podem ser consumi-
das nesta ilha, e adquiridas na forma do S 2 7 ; e com esta
epcculaçaõ vem as nossas laranjas a ser a moeda com quo
adquirimos o vinho de que precisamos, sem ser necessário
que saia metal. £ as Câmaras prudentemente regulem o
numero de tavernas, que deve haver, de vinhos tis
fora ; de sorte que se naõ perca a cultura dos vinhos desta
Ilha.
29. Os matos, que oecupam uma boa parte desta Ilha,
podem produzir muito paõ : para isto ac deverão aforar,
pelo preço, que se mostrar ser a renda ou valor actual;
com obrigação dos colonos roslarem c reduzirem a cultura
•stas terras. Advertindo, que nunca se accumularaõ cm
uma só maõ mais do que dez moios de mato, para ferem
tractados na forma sobredicta. Os senhorios poderão con-
servar também para si vinte moios com as mesmas condi-
çoens. Ser i applicavel a estes prédio», quanto poderem
t. r, as doutriuaa dos S •) '"> 18, li), 20, e 21 ; c uqui-llcs
matos, impróprios para a cultura de paõ ou pasto, deve-
rão ficar na maõ do hcnhorio, para uur delles como lhe
parecer ; havendo cuidado que se naõ destruam os lugares,
que so presta ni para mato.
30. O Inspttoi designará, com peritos, lugares para
pasta», quando as partes naõ concordarem entre ni.
Jl. Pela» mcBuias justíssimas razoens, quo o» corpos de
Miscellanea. 75
maõ morta estaõ prohibidos de adquirir, parece que o estaõ
também de augmentar as suas rendas: pelo que, em favor
do publico, o Inspector fará reduzir o pagamento das ren-
das de similhantes corpos na forma segninte. A terceira
parte na própria espécie, e as duas partes pelo preço cor-
rente nos tempos dos aforamentos, com tanto que estes naõ
excedam a quarenta annos; visto que d'nntes se aforavam
os prédios a gêneros, em quantidade módica; porque estes
pagavam na própria espécie ; naõ obstante quaesquer es-
cripturas ou cláusulas, ainda que sejam irritantes.
32. O dicto Ministro vigiará sobre os prédios urbanos,
fazendo que se conservem em estado de habitação ; e tam-
bém terá, cumulativamente com as Câmaras, inspecçaõ
sobre as estradas, a mais obras publicas, necessárias ou
úteis á agricultura : c como similh antes trabalhos por jus-
tas razoens notórias aos moradores desta Ilha se naõ podem
(ou custumam ordinariamente) fazer por ajuste mas sim
por jornaes, deverão as Câmaras desta Ilha por manda-
dos approvados pelo Inspector, nos actos das respectivas
folhas, dispender annualmente até a décima parte do seu
rendimento, se sobejar da despeza dos expostos, águas, e
ordenados : quando naõ, somente o sobejo, para ser em-
pregado nas dietas obras ; e se formalizarão contas bem
especificadas do emprego desta despeza.
33. Estará sempre devassa aberta a respeito dos omis-
sos na devida cultura, que lhe estiver incumbida, na forma
do fj 20 ; e seguintes : e se procedera contra elles arbitra-
riamente, segundo a omissão ou malicia, e nunca a pena
será menor de dous mil reis por cada alqueire, que se nao
achar devidamente cultivado; a qual pela segunda vez
será paga da cadêa, com expulsão da propriedade, e
perca das melhorias, que nella tiver, até o valor de dez
mil reis; e dahi para cima seraõ satisfeitas pelo novo
colono. Sendo nobres será dobrada a pena pecuniária em
lugar da cadêa, que se naõ practicará com elles; porém
K2
76 Miscellanea.
todo o mais. Esta pena será metade para o accusador, e
metade para as obras publicas. Da imposição desta pena
c de todos os mais procedimentos do Inspector, que exce-
derem a sua alçada, haverá recurso para a KelaçaÕ, com
suspensão por um anno somente, em todo o caso improro-
gavcl ; menos que se naõ mostre impedimento sem culpa
das parles.
34. O lns|>cctor remctferá anmwlmente tluai idênticas
relaçoens accompaidia<la» de mappas; uma para a Secre-
tarli de Estado tios Negócios do Reyno, c outra para a
Kcal Juncta tio Commercio, as qiiae» exponham com todu
a iudividuaçaõ o estado tia agricultura desta Ilha no anno
antecedente, a sua producçaõ c individual progresso, esta-
ção ou retrocesso de cada ramo do cultura ; expondo ss
causas; os meios que tem practicado para a melhoraçaõ
dos ramos decadentes, e o seu resultado. Haverá na Câ-
mara de Ponta-Delegada um livro particular, para serem
registradas estas relaçoens annuaes, cujo registro será
assignado pelo Inspector, e será patente a todas a» pessoas,
que o quizerem ver : e todas poderão formar memórias
sobre o seu assumpto, confirmando, modificando, ou con-
trariando concludente e urbanamente a» ideas do Inspector,
no qual ellas seraõ dirigidas, para usar dellas conforme o
merecimento que lhes achar; ou á lieal Juncta do Com-
mercio, para a» mandar examinar, e fazer pôr era execução,
»e as julgar dignas. Naõ se passará certidão de corrente
ao dicto Inspector, sem mostrar ter cumprido com as
ordens da dicla Juncta neste artigo, e ter-lhe enviado
annualmente as relaçoens.
35. Haverá outro livro, particularmente destinado para
se lançar toda a receita e despeza, que o Inspector mandar
faacr; o qual lançamento será assignado por ella e seu
escrivão, que o escreverá. Da mesma forma se escreverão
em outro todas as ordens, que o Inspector passar. A
Miscellanea. 77
despeza destes livros sairá da metade das penas do tj 32.
Estes livros seraõ examinados na residência do Inspector.
36. A utilidade do plano, que se pôde formar sobre
estes imperfeitos apontamentos, he evidente, pelo infalível
augmento da cultura das terras, que fará abundar os seus
fructos, e consequentemente a riqueza do paiz, donde nasce
a commodidade dos particulares; e o acerescentamento
das rendas Reaes, e especialmente dos dizimos, que ren-
dendo actualmente sessenta e quatro contos, e duzentos e
vinte moios de trigo, em poucos annos renderão mais uma
terça parte, que muito excederá a despeza, que se fas* com
os ordenados dos officiaes novamente empregados.
37. Queira o Ceo, que estas informes ideas sejam bem
aceitas, e se executem, em quanto naõ apparecerem outras
melhores, ás quaes voluntariamente me sugeitarei conven-
cido da melhoria ; e sem obstinação de defender as minhas
proposiçoens, no que se mostrar serem defeituosas *, que
supposto ja o pareçam por atacarem os livres direitos dos
proprietários, com tudo o reparo cessa, attendendo-se á
utilidade publica, que deve prevalecer á particular.
Ilha do Senhor S. Miguel, 24 de Outubro, 1810.

INGLATERRA.
Processo contra o Tenente-general Gore.
F o i este processo uma acçaõ, que poz Carlos Perkin
Wyatt, Esc. contra o Tenente-general Gore, Governador
da Provincia do Canada Superior, por haver publicado
um libello famoso, falso e malicioso; e por ter suspendido o
dicto Wyatt do seu Officio de Medidor-geral das terras da
Coroa naquella provincia, sem motivos sufficientes ; pelo
que soffreo consideráveis damnos.
O advogado Best, que dirigia a accusaçaõ; disse que
havia três fundamentos no libello da demanda, para qne o
A. puzesse esta acçaõ: 1° que sendo o A. Medidor-geral
das terras da Coroa ua província, do Canada Superior, fôra
78 Miscellanea.

suspenso do seu lugar pelo Reo, oqual éra entaõ Governa-


dor-general tia mesma província, sem que paru isso bou-
v o s c justa causa ou razaõ : 2*. Que depois de assim haver
suspendido o A., escrevera cartas ao Secretario de Estado
da Repartição das Colônias, contendo taes representaçoens,
que fizeram coinque o A. nunca mais fosse restituido ao
seu otticio : e 3*. Que o R. publicou contra o A. ura
falsi-simo e infame libello. A ultima parte tio caso, disse
elle que o poderá provar com as mais completas e cabaes
provas ; e conseguindo isso, quaesquer que fossem as dif-
ficuldade-., que houvesse tle encontrar nas outras parles do
caso, teria direito de pedir para o seu cliente ampla indem-
nizaçaõ. A respeito do segundo fundamento de accusaçaõ,
elle diria canditlamente, que a devia perder ; porque naõ
podia sustentar com provas aquella parte. Tinham-se pe-
dido ao Governo as cartas, que o Governatlor-general
escreveo ao Secretario de Estatlo ; porém o Governo naõ
au quiz dar, c portanto i\,\õ podia apparecer a prova no
tribunal. Elle uaõ se queixava, nem o seu cliente inten-
tava queixar-se tio Governo ossim obrar. Sem duvida ha-
veria razoens sufficientes para naõ deixar apparecer us car-
tas ; a t lie podia conceber muitos caso-,, cm que a pru-
dência exige, que taes cartas se naõ façam publica».
Portanto linntar-sc-hia, ao primeiro e terceiro fundamento
da accusaçaõ ; e ambos uaõ linha duvida, que poderia
provar, tanto á satisfacçaõ tio tribunal, como do jurado,
Mostr tva-se tjue o Reo Mispcndéra o A. de »cu officio, e
por constqueucia que o privara tle seus emolumentos;
fazendo ibsu, t oiiiotlle advogado provaria, maliciosamente,
e sem iirnhuiii.i justa t ama ou pretexto. A ley a este
respeito he clara e explicita. O Governador de qualquer
provii o a ou colônia pôde, se quizer, demittir uma pessoa
de »• u lugar, siispeutlclla do exercício de »eu» deverei;
me»mti ainda que naõ haja razaõ sufficiwite para isso ; coro-
taulo que appareça que o Governador ua quelle tempo
Miscellanea. 79
julgou, que havia razaõ sufficiente ; e que assim o fez oo
exercicio do que considerava ser o seu dever, para com o
Governo que o nomeara Governador. Portanto amenos
qoe elle advogado naõ pudesse provar, no caso presente,
qoe o General Gore tinha suspendido Mr. Wyatt, sabendo
que naõ havia causa bastante para tal suspençaõ ; e fa-
zendo isso por motivos de malicia e perseguição ; naõ
tinha direito a pedir indemnizaçoens. Elle advogado
conhecia bem a difficuldade de produzir taes provas, e ha
uma que nunca se poderia obter, se naõ fosse um folheto,
que elle advogado tinha em suas maõs, o qual desenvolvia
ao mesmo tempo as razoens do extraordinário comporta-
mento do General Gore. Neste folheto (cuja publicação
constitue o libello, que serve de fundamento á ultima
parte desta accusaçaõ) dá o Governador as razoens por
que suspendco o A.; e provar-se-ha naõ só que todas essas
razoens eram falsas, mas que o General Gore sabia que
ellas eram falsas, ao tempo em que as allegava. Se um
homem faz o que naõ tem direito para fazer ; e se pôde
mostrar que elle sabia que naõ tinha direito de assim obrar,
ao momento cm que obrava, a conclusão obvia que dahi se
tira he- que elle obrava por motivos maliciosos. O advo-
gada leo entaõ extractos do folheto, que éra em forma de
uma carta a Lord Castlereagh, queixando-se do compor-
tamento de certos indivíduos facciosos e turbulentos, cujas
intençoens eram pertubar a paz e tranquillidade da pro-
vincia. Entre esses indivíduos se incluía o A., juncta-
mente com o Juiz Thorpe, Mr. Wilcox, e outros. O
folheto parecia ser em justificação do comportamento do
Governador, em resposta ás queixas de Mr. Wyatt, e de
outros indivíduos. Tendo narrado a natureza de seus
procedimentos, como pessoas desaffèctas e sediciosas,. pas-
sava a reprehender o seu desaforo, em trazer similhantes
queixas perante o publico, altudiudo ás petiçoens, que elles
tinham apresesentado ao Parlamento. Em oura parte do
7
90 Miscellanetu
folheto se dizia ; que o A. lançara fôra de seu lugar um
homem velho, que tinha servido por muitos annos ; mera-
mente porque votara pelo partido do Governo (allegaçaõ
completamente falsa ; porque o indivíduo de que se tracta
solicitou permissão de largar o seu lugar) e além disso
afirmava, que o A. havendo obtido uma data de terras de
1. 200 acres, lançou a vista sobre 200 acres junetos ao
Niagara, que um homem chamado Young tinha roçado c
cultivulo; o qual Young tinha sido sargento no regimento
dos Rangers. O A. suppondo que o titulo, que Young
tinha as terras, éra tlefeituoso, começou a machinar, da
maneira mais oppressiva e injusta, roubou aquelle idoso
veteranode suas bem merecidas recompensas, e reduzio-o k
mendit idade. Young morreo pouco depois, e deixou
numerosa familia, em grande pobreza. Este caso foi ex-
posto ao General Gore, que mandou devaçar disso, c pôde
por fim desmanchar a bem urdida trama. " Quero," con-
tinua o Governador, no seu folheto, " depois de taes actos,
pôde duvidar da justiça, e propriedade de demittir de seu
officio similhante pessoa ?" Aqui temos, disse advogado,
a prova tios motivos porque o A. foi demittido de seu lu-
gar ; e com tudo elle tlenodadamentc nega os factos , por-
que pode provar a sua asservaõ ; que nem uma só palavra
desta allci-açaõ, a respeito da» (erras do Niagara, éra sa-
bida do Gem-ral Gore, ao tempo em elle tuspendeo Mr.
Wyatt. \lc verdade, que se mandou proceder ao depois a
uma averiguação ; mais isso foi depois tle Mr. Wyatt «star
suspenso, ter deixado aquella província, c achar-se na
viagem para lugtaterra. Portanto, deve haver alguma
outra razaõ, que o Governador se naõ atrevia a produzir ;
vi»to tpie no --eu folheto tiAsiguou mua, que éra falsa.
Quanto ao ca»o tias terras cm Niagara, naõ tinha elle he-
sitação em declarar, que o Governo em Inglaterra, depois
de ter examinado todns a» circiniuiaiit ias, desonerou com-
pletamente Mr. Wyatt de toda a impulaçaó, que a tal
Miscellanea. 81
transacçaõ podia trazer contra a sua honra e character.
Pelo qoe respeita a accusaçaõ contra Mr. Wyatt, de que
elle éra uma pessoa desafecta e sediciosa, e empregada em
perturbar a tranquillidade publica ; elle chamaria pessoas
de alto character naquella provincia, Mr. Thorpe o Juiz ;
e o Procurador Geral da Coroa na província, para provar
qoe o seu comportamento éra o mais exemplar. Também
se insinuava, que o A. tinha intrigado com os índios; mas
elle podia exbibir ao jurado o chefe de uma daquellas tri-
bus, vassallo Britannico, o qual provaria, que naõ havia
fundamento para tal accusaçaõ. Pelo que respeita o
ultimo fundamento desta acçaõ, qne he o libello in-
fareatoi io, e as partes delle, que se tinham lido, naõ
havia justificação, que se lhe pudesse oppor. Se n'um
homem commum seria grande crime circular taes libellos
escandalosos e falsos, quanto maior se naõ deve considerar
no Governador de uma provincia, cujo primeiro dever he
manter as as leys, a abater os libelistas. E com todo o
General Gore se aventurou a circular o libello mais ca-
lumniador, que jamais se publicou. Accusava o A.
de grande abuso de seu officio, de ser traidor ao Governo,
e de se ligar com pessoas desafèctas. Que o libello éra
falso, devra elle tomar por concedido; porque o Reo naõ
tinha tentado alguma justificação, o que podia ter feito se
pudesse provar a verdade de suas assersoens. ; E quando
foi que o General Gore se nao dedignou de se fazer li-
bellista ? Depois do A. ter sido demittido do seu lugar;
depois de estar arruinado ; depois de ter sahido da pro-
víncia, foi entaõ que o Reo representou esta ignóbil parte ;
que mandou imprimir e circular o libello ; e que tentou
destruir de todo o character de um homem, que ja tinha
arruinado por seu impróprio, e desarrazoado comporta-
mento. O officio, de que o A. foi privado, rendia-lhe
cerca de L000 libras por anno ; e até elle naõ limpar o
Vor,. XVII. No. 98. x.
82 Miscellanea.
seu nome das negras imputaçoens, que lhe tinha feito o
Reo, nunca poderia ter outro emprego dado pelo Governo.
Estes eram os factos do caso, que passaria a provar pelas
testemunhas.
Mr. Guilherme Frith apparecêo como testemunha; Unha
sitio Procurador Geral da Coroa, na provincia do Canada
Superior, desde o anno de 1807 ; até 1811. O A. deixara
a provincia antes de elle ali chegar em 1807. O officio
de Medidor-geral éra de grande importância e confiança.
As suas obrigaçoens consistem em regular os arrendamentos
das terras, medulas, e registrar na sua secretaria as datas
das terras. O ordenado he de 300 libras por anno; os
emolumentos montam a muito mais. Lembra-se a teste-
munha de que em uma conversação cora o General relativa
aMr. Wyatt . .
Aqui o interrompeo o tribunal, e observou, que Mr.
Frith naõ devia communicar nenhuma parte da conversa-
ção, que elle considerasse ser cm conseqüência do otficio
publico, que exercitava na provincia.
A testemunha continuou dizendo, que tendo ido fallar
ao Governador, pelo fim do anno 1809, o mandaram en-
trar para a livravia do Governador. Que em quanto ali
estavar o General Gore tirou o folheto de que se tracta
de uma caixa, que parecia conter muitos mais, e o deo a
tlle testemunha para que lesse. Naõ se lembra se houve
alguma conversação nessa occasiaõ. Elle tinha ja visto
outros exemplares do mesmo folheto, nas maõs de diffe-
rentes empregados do Governo.
A cariado, pelo advogado do Reo (Mr. Lins) a teste-
munha disse, que nunca tinha visto a sunima do folheto,
na gazeta chamada Guardiun, cujo edictor éra favorá-
vel a Mr. Wyatt.
Examinou-se entaõ o Dr. Thorpc. Elle cxercilou a
situação de Juiz da província do Canada Superior. O A.
Miscellanea. 83
restdioali por algum tempo, durante aestada da testemunha
no Canada. Lembra-se do tempo de sua suspensão ; mas
naõ se lembra de que houvesse algum exame ou indagação
official ; a respeito do arrendamento das terras em Niaga-
ra. A gazeta Guardian apparecêo pela primeira vez, de-
pois de Mr. W y a t t ter deixado aquella provincia. Antes
de se estabelecer aquella gazeta naõ havia outra imprensa
senaõ a do Governo.
O advogado Best, ia a chamar, para examinar como
testemunha, ao Coronel Norton, um chefe de índios, com
quem se havia de provar, que nunca existira intelligencia
alguma, entre as naçoens Indianas e o A . ; porém Mr. Lens,
que éra o advogado do R. fez objecçaõ a que se exa-
minasse esta testemunha, a objecçaõ foi recebida pelo tri-
bunal.
Aqui concluio o caso da parte do A.
Levantou-se entaõ o advogado Mr. Lens, a fazer a de-
feza do R., e contendeo, que o A. naõ tinha por forma al-
guma provado que o General Gore obrasse por motivos de
malicia e injustiça, quando suspendeo o A. de seu officio.
De facto, nem ao menos se tentava mostrar, que tivesse ha-
vido querellas ou inimizades entre o Governador e Mr.
W y a t t , antes deste facto ; nem que o primeiro tivesse ja-
mais expressado intenção de privar o segundo de seu of-
ficio, fossem quaes fossem as circumstancias. Faltando as-
sim toda a prova de presumpçaõ 4- que outra causa se pode
assignar para a suspensão de Mr. Wyatt, senaõ a existên-
cia de certas causas, que fôram ultimamente participadas
ao Governo em Inglaterra, para sua consideração e deci-
saõ ? Com effeito assim obrou o Governador : e até o dia
de hoje ainda o Governo naõ restituio Mr. Wyatt, ao seu
lugar. Seguramente se naõ houvessem fundamentos jus-
tos ou sufficientes para o que obrou o Governador Gene-
ral, deveria suppor-sequeoA. teria podido segurar a pro-
tecçaõ do Governo de S. M . , e que teria sido restituido a
L 2
84 Miscellanea.
seu antigo officio. Tal naô houve. Todo este negocio
t**m dormido desde 1807 ; e depois de passarem 9 annos,
durante os quaes, sem duvida, tem havido a devida inda-
gação da matéria, naõ se julgou o Governo justificado em
restituir Mr. Wyatt; oo mesmo tempo que o Geral Gore
foi immediatamente restituido. Elle advogado conside-
rava, que este facto, somente, éra resposta sufficiente ao
primeiro artigo de accusaçaõ, que imputa ao R. motivos
maliciosos e sem fundamento, na suspensão que fez ao A.
Agora quanto ao libello, o Jurado determinaria, que porçaõ
de injuria ou damno soffreo o A., que se possa razoavel-
mente attribuir aquella publicação ; a qual só apparecêo
dous annos depois da suspensão ; e, de facto, depois delle
ter deixado aquella terra. Deve lembrar-se aqui lambem,
que o tal libello nunca teve extensa circulação. Foi dado
meramente em um quarto particular, e a um individuo,
que occupava um alto emprego publico ; o que acciden-
talmente tinha sido chamado pelo Governador. Elle ad-
vogado admittia, que houvera sido muito melhor, que o
R. nunca tivesse publicado tal cousa ; porém naõ apparece
que por este modo de publicação se pudesse ca mar grande
damno. O advogado expressou mais o seu sentimento de
que a testemunha (Mr. Frith) que éra entaõ Procurador
Geral da Coroa, quando se lhe deo o libello, naõ exerci-
tasse aquella discrição, que se podia esperar de seu lugar,
e aconselhasse immediatamente o Governador a supprimir
Ioda a ulterior publicação do folheto. Tal comporta-
mento éra o que deveria ter seguido Mr. Frith ; e, se as-
sim o ti/esse, ter-se-hia sufifocado no principio o mal de
que se faz queixa agora.
Mr. Frith levantou-se e fallou ao tribunal. Disse, que
havia grande delicadeza a observar ; quando se fazem re-
presentaçoens de contrariedade a um Governador de
provincia. Sua Senhoria entendia o que elle queria
dizer.
Miscellanea. 85
Um dos Juizes (Sir V. Gibbs) — Eu naõ entendo o que
quereis dizer. O que sei he, que um Procurador Geral da
Coroa neste paiz, e espero que seja o mesmo nas colô-
nias, deve fallar (ao afFoitaraente aos que o consultam,
como se expressam estes a elle.
Mr. Frith.--Assim fiz eu, mas respeituosamente.
Sir V. Gibbs. — Sim, sim ; o mais respeituosamente que
vos parecer. Quero somente observar; que o advogado
do Reo naõ disse cousa alguma, que haja de excitar sen-
timentos desagradáveis no espirito de Mr. Frith.
Mr. Best (advogado do A.)—My Lord a testemunha
na sua deposição disse, que elle tinha aconselhado ao Go-
vernador General, que naõ circulasse o libello, quando
V. S. o interrompeo.
Sir V- Gibbs.—Nem elle tal disse, nem eu o inter.
rompi. Mas eu lhe farei a pergunta outra vez £ Acon-
sel hastes vós o General Gore a que naõ publicasse o li-
bello ?
Mr. Frith.—Penso que sim—penso que he mui natural
que o fizesse.
Sir V Gibbs.—Exactamente—essa he a resposta que
eu ja tinha. £ Como posso eu receber, em prova, o que
diz um cavalheiro, que pensa.
Mr. Lens (advogado ao R.) continuou, e observou, que
se Mr. Frith depois de ter levado para sua casa o libello,
e de o ter lido, voltasse ao Governador, e lhe representasse
o que devia, sem duvida se houvera parado toda a circu-
lação ulterior.
Mr. Frith tornou a fallar ao tribunal, e disse —naõ me
lembra que adoptasse aquelle methodo. Eu observei ao
Governador, que como éra provável que Mr. Wyatt naõ
voltasse outra vez a provincia, seria melhor naõ fazer
cousa alguma, que transtornasse as suas vistas futuras.
Sir V Gibbs. — i Circulou elle o libello depois disso ?
Mr. Frith. —Naõ que eu saiba.
2
86 Miscellanea.
Mr. Lens, continuou ; c insistio em que se naõ provava
ter-se mostrado o libello a nenhuma creatura humana
senaõ a Mr. Frith ; e, portanto, perguntava ao jurado se
éra este um dos casos, em que se devesse dar indemniza-
çaõ exemplar ? s Que injuria ou dnmno tinha padecido
Mr. Frith ? Elle advogado lamentava que o General Gore
tivesse sido assas imprudente para publicar o papel de
qne se tractava ; e lamentava isso tanto mais por naõ ter o
General recebido o devido conselho da pessoa que éra
competente para o dar, e obrigada a isso. Com estas ob-
servaçoens deixaria o caso ao Jurado.
Sir V Gibbs.—Fez entaõ a recapitulaçaõ do custume
ao Jurado; começou com algumas observaçoens a respeito
de M \ Frith, a fim de remover de seu espirito qualquer
sentimento desagradável, que daqui lhe resultasse. Elle
deveria saber, que o methodo e decurso das cousas seguido
a respeito de sua deposição, éra o que se practicava, c éra
permittido em todas as Cortes de justiça. Naõ se havia
dicto couso alguma, de que elle se devesse julgar ofleodido;
e acerescentaria, que na sua deposição naõ havia nada,
que fosse reprehcnsivel. A respeito do merecimento geral
da causa, naõ lhe parecia (a elle Juiz) que se linha pro-
vado a primeira parte da accusaçaõ ; porque naõ havia no
folheto alguma passagem por onde se mostrasse ou con-
cluísse, que os fundamentos ali alegados, fôram os que
motivaram a suspensão de M'. Wyatt. Do facto, o
folheto parecia ser somente a re.sjiosta u alguma cousa, que
tinha publicado o I)'. Thorpe, e outros. A publicação
do folheto éra um crime contra as leys, que se naõ pocb i
defender; e, em tanto quanto isso assim he, (em o A.
direito a esperar a sentença a seu favor. Pertence porém
ao Jurado o avaliar o gráo de damno, que be provável
que soffrcsse o chorar ter de M'. Wyatt, em conseqüência
da pubtuaçaõ deste folheto ; tendo sempre ua lembrança
Miscellanea. 87
a maneira de sua publicação, e a sua limitadíssima circu-
lação.
O Jurado retirou-se por breve tempo; e arbitrou os
damnos em 300 libras.

Exéquias de Sua Majestade Fidelissima.


Sexta-feira, 12 de Julho se fizeram as exéquias solemnes,
na Capella Portugueza, em Londres, de S. M. Fidelissima,
a defuncta Raynha de Portugal. A capella estava forrada
de preto, e decorada da sejuinte forma. Sobre a capella
mor e altar haviam sanefas e baudinellas pretas, e nas
paredes de ambos os lados escudos com as armas de Por-
tugal. No centro da capella estava erigida a eça, e sobre
ella o túmulo cuberto com um rico panno de veludo preto;
e quatro escudos com as armas de S. M. Sobre o túmulo
estava, em uma almofada, a coroa e sceptro; e nos de-
gráos da eça 18 tocheiros, e dez grandes plumas pretas:
do centro do tecto da capella pendia um docel circular,
com sanefas, plumas, escudos, e cyfras. O púlpito estava
cuberto de preto, e nelle a (lixo o escudo das armas de S. M.
A tribuna eslava toda forrada de preto, e ornada com
escudos d'armas, cyfras, e placas. Todos os assentos,
grades, e pilares, que sustentam as galerias estavam tam-
bém cubertos de panno preto, e rodeava tudo uma sanefa
continuada : nos pilares estavam fixos escudos, cyfras, e
placas de espelhos. Em ambas as paredes lateraes havia
dous grandes escudos de armas, e uma continuação de
coroas, cyfras, e placas de espelhos, &c.
A musica, que se cantou pelos músicos da capella e
outros, éra dos seguintes compositores.
Introitus—Requiam Aeternam—David Perez.
Kyrie Eleison—Portugal.
Tractus -—Absolve Domine—Dicto.
G»~..»..<• r-«* T „ ÇMozart, e o canto chaÕ
Sequentta-Dtes I r e . \ p o r ^ N o y d o
88 Miscellanea.
Offertoriuin—Domine Jesu Christe—Portugal.
Sanctus—Mozart.
Agnus Dei—Haydn.
Responsiorum—Libera—David Pcreze Pergolezi.
Rcquiescat—N. Novello.
Prelúdio no Orgaõ—Marcha em Saul—Handel.

ITÁLIA.
Roma, I a de Maio.
T E N D O a Sanctidade de Nosso Senhor Pio V i l . feliz-
mente Reinante dispensado da Entrada publica S. Exc.
9 Senhor Conde de Funchal, Embaixador extraordinário
de S. A. R. o Principe Regente do Reino-Unido de Portu-
gal, do Brazil, e dos Algarves, junto da Sancta Sé, e tendo
concedido ao mesmo se dirigisse na manhaã de Terça feira
30 de Abril á sua Audiência publica, fez S. Exc. partici-
par isto mesmo aos Eminentíssimos Senhores Cardeaes, ao
Excellentissimo Corpo Diplomático, Prelados, Príncipe»,
e alta Nobreza ; pelos quaes foram mandadas á residência
de S. E x c , no palácio do Senhor Duque de Fiano, as car-
ruagens, com os seus Gentishomens, para o Cortejo, e
foram estes tractados com exquisitos refresco».
Pela volta das dez horas, partio da sobredicta residência
o Senhor Embaixador encaminhando-se para o Pontifício
Palácio Quirinal. Eis-aqui a ordem do noblissimo cor-
tejo : Hia adiante um criado abrindo o passo, c após ette
outro criado com oguarda.sol franjado de ouro; seguia-se a
vistosa berlinda onde hia a grande almofada, e traz ella
do*e criados com fardas ricas agaloadas de prata.—Se-
guia-se após estes uma bellissinia Estufa lustrosamente or-
nada, onde hia o Excellentissimo Senhor Embaixador em
uniforme rico, com todos os seus Hábitos e Insígnia».
Hiam nu carroagem com S. Exc. os MonsenboresGuerrieri
Arcebispo de Alhcnas, Serlupi Auditor da Rola, c Fro»ini
Camerario. Aos lados desta, além do Decano, c .Sub-Dc-
Miscellanea. 89
cano vestidos de preto, caminhavam os Pagens luzidaraente
vestidos de veludo com guarniçaõ de ouro. Seguiam-se a
estes Os Guardaportões com suas bandas ricas, e dois
Volantes esplendidamente adornados com barretinas em
que se via o escudo das armas do Regio Embaixador.—
Vinham depois mais três carroagens elegantes, na primeira
das quaes hia o Senhor Cavalheiro Alvares ex-Encarre-
gado dos Negócios de S. M. Fidellissima, o Senhor Cava-
lheiro Suterman Mordomo da Legaçaõ, Monsenhor Nadini,
e o Senhor Cavalheiro João Gherardo Rossi. Na segun-
da carroagem da coiuativa hiam o Senhor Francisco Pe-
reira Arquivista, o os Senhores Innocencio da Rocha
Galvão, e João Theodoro W y s , Secretários, e o Gentil-
homem da Corte o Senhor Giuntotardi. Na ultima car-
roagem hiam os Senhores Hypolito da Costa, Camillo
Silveira, e os dous Adjutantes da Câmara de S. Exc.—
Succedia a estas uma numerosa comitiva de carroagens
dos Eminentíssimos Cardeaes e da Nobreza.
Com este luzidissimo accompahamento, caminhando
sempre em meio de immensa multidão de povo de todas as
classes, chegou o Embaixador de S. M. Fidellissima ao Pa-
lácio Apostólico Quirinal, onde, com a formalidade do
estylo, foireeebido pela familia Nobre de Sua Sanctidade,
e depois foi introduzido por dous Mestres de ceremonias
Pontifícias à Audiência do Summo Pontífice Reinante
Pio VIL
Depois de haver beijado o Pé, e a Maõ, e de ter sido
admittido ao abraço, começou em genuflexaõ o seu cumpri-
mento, apresentando ao Sancto Padre as Credenciaes do
seu Real Principe Regente. Acenou S. Sanctitade ao il-
lustre Portador dos Soberanos sentimentos, que se levan-
tasse, e sentasse. Prosegnio elle, sentado, o seu discurso,
expondo a nobre occasiaõ da extraordinária Embaixada,
naõ dirigida a outra cousa mais que a congratular Sua
Sanctitade em nome do Principe Regente pelo seu feliz e
VOL. X V I I . N o . 98. M
90 Miscellanea.
fausto regresso a Roma, e pela desejada e applaudida re-
cuperação dos Estados Pontifícios, assim como também
para dar um novo testemunho publico tio filial respeito,
summa devoção, e fidelidade daquella generosa Real
Corte para com a Sancta Sé, implorando a Apostólica ben-
ção para o Sereníssimo Principe Regente, para a Regia
Corte, e para todos os Subditos do Reino-Unidodc Portu-
gal, do Brazil, e dos Algarves.
O Santo Padre respondeo com affectuosissimos senti-
mentos, manifestou o sincero agradecimento de seu animo
por este acto de religiosa veneração prestado á Sancta Sé, e
fazendo um publico e distincto elogio do Sereníssimo
Regente, e de toda a Real Familia pelas brilhantes e re-
petidas provas de sua piedade Christaã, * encarregou o
Senhor Embaixador de assegurar cada vez mais ao Se-
reníssimo Principe de seu paternal affecto, e da sua reci-
proca inclinação a toda aquella Fidelissima Real Corte.
Proferio finalmente S. Sanctidade obsequiosas expressões
de estima, e affeiçaõ para com a mesma Pessoa do Senhor
Fmbaixador pelas muitas virtude», que, além de sua
nobilissima ascendência e talentos, o fazem acecito, c dis-
tincto.
Terminada a resposta do Summo Pontífice, conservou-»*
o indvtoReal Interprete na audencia do Sancto Padre, em
quanto este se dignou admittir suecessivamente toda» as
pessoas do seu cortejo a beijar o Pé.—Daqui passou S.
Exc. a visitar o Eminentíssimo Senhor Cardeal Consalvi
Secretario d'Eilado do Nosso Soberano.

* Notlii 21 «le Novembro, de 1802, por ordem tis irieims Hesl


Curte, o Conde de Som* e Holileio, Kmbaixador Kxtraordinariv ds
S>- M. Fidelitsima dingio-ie - Audiência publu - de S. Sanctidade. a
congratular a SJ-IIH Padre em nome do S> r e n m i m o Regente pela
*u. exaltação ao Pontiticado, r para dar um publico testem un li» de
tua filial >enc<4c.<> c rc-.|>ea<>.—(Notm éê mesmo DUria és Roma
dandt eopimmot a prctcnU rtlaft.)
Miscellanea. 91
Depois dirigio-se com o memo séquito o Senhor Em-
baixador a venerar a sacrosanta Patriarchal Basílica Vati-
cana do Principe dos Apóstolos, onde ao sahir deixou uma
abundante esmola aos pobres.—Dahi passou S. Exc. a
visitar o Excellentissimo Senhor Cardeal Mattei, Decano
do Sacro Collegio, que, em companhia de vários Prelados
lhe sahio ao encontro á Sala, e o introduzio na Câmara das
visitas, aonde se entretiveram era conversação : e neste
meio tempo fez S. Eminência Reverendissima servir um
profuso refresco ao Senhor Embaixador, e ao numeroso
cortejo.
Restituio-se S. Exc. á sua habitação, onde deo um
lauto jantar áos Prelados, e Fidalgos Nacionaes, que o ha-
viaõ obsequiado no Cortejo, sendo em numero de 40.—
Depois do jantar mandou repartir outra copiosa esmola
aos pobres, e ao passar a Musica e tambores da Milicia
Pontifícia, além da costumada propina, lhe mandou dar
um generoso refresco.—No mesmo dia á noite recebeo o
Excellentissimo Embaixador no seu Quarto vistosamente
illuminado, as visitas, chamadas de amizade, e lhes fez
servir contínuose delicados refrescos.

Eis aqui o Discurso pronunciado por S. Exc. ao Santo


Padre, e que na Relação se a ponta.
<< Beatíssimo Padre :—Os sinceros sentimentos de Reli-
gião, naõ menos que de summa veneração para com a
Sancta Sé, que o Principe Regente do Reino-Unido de
Portugal, do Brazil, e dos Algarves, meu Augusto Amo,
professa, assaz se deram a conhecer ao Mundo inteieo,
quando a primeira participação da felicíssima Exaltação
de Vossa Sanctidade ao Solio Pontifício, Elle expedio um
Embaixador Extraordinário, a fim naõ so de dar um pu-
blico testemunho do seu filial respeito ; mais também de
M2
92 Miscellanea.
expressar todo o júbilo que o seu fiel coraçaÕ experimen-
tava em ver terminadas as perseguições contra a Igreja, o
dissipadas as tenebrozas msquinaçoens com qoe a Iropie-
dade pretendia em vaõ apagar, e interromper a gloriosa
successaõ do Principe dos Apóstolos nesta sua Suprema
Cadeira.
44
Devo agora para louvor do Principe Regente meu
Amo accrescentar, que ainda mesmo no meio daquellas
yicissitudes, a que Elle, com os outros Soberanos da Eu-
ropa, se vio sujeito, jamais perdeo de vista o bem da
Igreja, quando seja digno de ter aquelle glorioso titulo de
Fidellissimo, por esta Sancta Sé concedido aos illustres
Soberano» seus predecessores. Porém Elle, que nos pri-
meiros Glorioso Podtificado havia admirado o zelo, e a
moderação Apostólica, com que Vossa Sanctidade conseguio
reconduzir ao grêmio da Igreja povos extraviados e per-
dido» : e que no» successivos tempos mais calamitosos ob-
servou, e admirou igualmente a heróica firmeta, e a angé-
lica resignação taõ altamente por V. Santitade patenteadas
no meio da mais longa, e mais injusta perseguição, se-
guida da mais atroz violência ; c que vio, como naõ cu-
rando nem do seu damno próprio, nem das privaçoens de
toda a espécie, havia deste modo conservado intacta a
honra da Sancta Sé, e illibada a dignidade do Sumrao Sa-
cerdote : Penetrado por tudo isto da mais profunda vene-
ração para com a Sagrada Pessoa de Vossa Sanctidade, naõ
podia deiraçaõ ao receber a fautissima certeza da restitui-
ção do sempre Venerando Vigário de Jc»u Christo á sua
Suprema Sede, e a reintegração de Vossa Sanctidade na
posse de todos o» Estados Pontifícios ; renovando deste
modo um glorioso testemunho da sua generosa obediência
filial.
44
Determinou-se pois 8. A. R. a enviar-me i Sagrada
Pessoa de Vossa Sancidade em qualidade de Embaixador
Miscellanea. 93
Extraordinário, e fim de manifestar a Vossa Sanctidade
toda a extensão dos seus religiosos, e aíTectuosos senti-
mentos. Que um tal pensamento, e resolução sejaõ dignos
de um Principe Magnânimo, Pio, e Filho obediente da
da Igreja, ninguém o pode duvidar ; mas talvez poderá
haver quem faça algum reparo sobre a escolha de um Ora-
dor inhabil,para exprimir dignamente os sentimentos que
em seu peito nutre o seu Soberano, e aquelles que saõ tam-
bém próprios das relevantes circumstancias desta Missaõ.
Seja com tudo permittido, Beatíssimo Padre, ao mesmo
Orador o justificar a escolha delle feita por motivos
que redundaõ em máximo louvor do seu Augusto So-
berano.
Quando no anno de 1807, submettidas, ou pacificadas
as Potências do Norte, e occupada perfidamente a Hespa-
nha, e Portugal, parecia subjugada quasi toda a Eu-
ropa, prévio S. A. R . (naõ foi vaõ o seu receio) que
estaria imminente á Igreja Catholica novo e ainda
maior perigo: e de facto, ainda bem S. A. R. se naõ
havia posto em salvo, tomando aquella generosa reso-
lução, que já forma época na Historia, de transferir
a Sede da Monarquia para outro hemisfério; quando
lhe chegarem as primeiras noticias dos insultos feitos a
legitima authoridade na mesma Capital do Mundo Ca-
tholico, e depois, do sacrilego at tentado commettido
contra a sacrosanta pessoa de Vossa Sanctidade.
Bem sabia que as portas do abysmo jamais haviam de
prevalecer contra a Igreja; mas em que tempo, e com
que remédios a Providencia a quereria salvar, era então
vedado ao humano entendimento o penetrallo. Por tanto,
Beatíssimo Padre, naquelles mesmos momentos em que,
apenas firmada a Sede da Monarquia na America, sollicito
volvia seus paternaes cuidados aquelle valoroso e fiel povo,
que por um temporário e inevitável sacrifício se vira na
94 Miscellanea,
necessidade de deixar como em victima ao inimigo;
aquelle seu paiz natal, berço da Monarquia, pátria de tan-
tos Heroes e Soberanos illustres pela piedade e pelo valor;
e entretanto que S. A. R. parecia unicamente applicado a
dar e procurar poderosos auxílios aos seus fieis e valoro-
síssimos Vassallos Portuguezes, os quaes por instincto de
Lealdade, concorrendo nos mesmos intuitos do seu amado
Principe, se esforçavam em sacudir o jugo do Usurpador:
nestes gravíssimos momentos, digo, deanxiedadee pertur.
baçao, que teriam bastado para abater uma alma menos
forte e menos pia, foi quando S. A. R. repetidas veses or-
denou ao seu Enviado em Londres, de vivamente recom-
mendar, e apoiar os interesses do Sancto Padre, e dos Esta-
dos Pontifícios juncto daquelle Governo, e daquella po-
derosa NaçaÕ, cuja situação insular, e innata energia sem-
pre pareceram justificar a metáfora, com que a Gram-Bre-
tanha foi comparada nestes últimos tempos a um inações-
sivel rochedo, poeto no meio das violentas vagas da Re-
volução Franceza.
O Orador, quedebilmente agora exprime os sentimentos
que animaõ o Real coração, teve a fortuna de ser nesse
tempo o Ministro encarregado de tão magnânima e pia
commissaõ-, e Vossa Sanctidade se ha dignado de reco-
nhecer o zelo por ri Ir demonstrado na execução dos Sobe-
ranos preceitos. Razaõ porque, quaesquer que ser possam
os defeitos do Orador, pareceo a S. A. R. que estes fica-
riam todos saneado» pela sua attençaõ de fazer recabir a
escolha na mesma pessoa, que já fôra mais de uma vez o
órgão dos seus sentimentos de adhesaõ ao» intere»sesde V.
Sanrtida Ir ; e todos quantos tem a felicidade de poder
contemplar dr perto como no Throno Pontifício »e reúnem
as qualidade» mais amáveis ao exercício de todas ai vir-
tudes Apostólicas, facilmente hão de crer, que a delicada
sensibilidade drS. A. R. será bem capaz de encobrir a in-
Miscellanea. 95
suficiência do Orador no expressar dignamente os senti-
mentos do Soberano, que elle tem a honra de representar.
Confiado nesta única, mas nobre esperança ; e pedindo
humildemente para o Principe Regente seu Augusto Sobe-
rano, para toda a Real Familia, para todos os Subditos
Portuguezes, e para si mesmo a BençaÕ Apostólica, se in-
clina a beijar os sagrados Pés.
(N. B. Em outro numero do mesmo Diário de Roma se
annuncia, que no dia seguinte ( 1 . . de Maio,) recebera
também S. Exc*. á noite visitas dos Cardeaes, Corpo Di-
plomático, & c . ; e que no dia 2 de Maio, dera o primeiro
jantar diplomático, ao qual assistiram vários Cardeaes, o
Principe de Saxonia-Gotha, os Ministros Estrangeiros,
& c , &c. admirando-se neste jantar 44 grande profusão,
magnificência, e delicadeza."

Reflexoens sobre as Novidades deste Mez.


REYNO UNIDO DE P O K T U G A L DO BRAZIL. E DOS
ALGARVES.

População. Nova Capital no Brazil.


Indicamos no nosso N*. passado algumas breves noçoens;
sobre a necessidade de promover a immigracaÕ de estrangeiros
no Brazil; e fomentar os estabelecimentos de terra dentro,
edificando uma nova cidade, para ser a capital e sede do Governo
do Brazil. O Leitor nos permittirá ainda outravez o faltarmos
desta matéria, que julgamos de grandíssima conseqüência, paraa
prosperidade daquelle paiz.
O systema, que recommendamos, de favorecer a immigraçaÕ
de estrangeiros, tem sempre em vista o facilitar-lhes todos os
meios de se estabelecerem no interior do paiz ; deixando os
96 Miscellanea.
portos demar, os rios eas costas, sem este immediato patrocínio;
porque pela natureza das cousas estes lugares obtém por si
mesmo concurrencia de habitantes.
O grande ponto deste plano seria, depois de escolhido o
lugar mais apto para a capital; abrir as estradas dali para
todas as provincias; e edificar as aldeas ao longo dessas estradas,
em distancias convenientes, e nos lugares fornecidos de água,
madeira, e pedra.
O Brazil naõ tem necessidade de ter mendigos ; e portanto
os que ap parecessem se deveriam empregar na abertura dessas
estradas, junctamente com os destacamentos de tropas, segando
deixamos indicado.
A residência do Governo na capital deve necessariamente
levar ali concurso de gente de todas as partes. As passagens
dos rios, seja em barcos, seja cm pontes, deve ministrar nma
fonte de rendimento para a mesma abertura das estradas ; arre-
matando-se estas passagens a quem por ellas mais desse; e
fazendo com qne as pontes, caminhos, &c. sejam construídos,
nao por conta da Fazenda Real, mas sim por companhias de
indivíduos particulares, a quem se dém os lncros provenientes
do que pagam os viajantes, que passam por essas pontes,
estradas, &c.
A vantagem deste modo de proceder he mui considerável.
Em primeiro lugar, arrematando-se essas passagens todos os
annos, oa de dous cm dons annos, em publica atmoeda, o Go-
verno está seguro de obter a maior somma possivel. Em segando
lugar, as companhias de particulares, que em prenderem aquelles
trabalhos, os administrarão como cousa sua, c com a devida
economia; quando que, sendo isso feito por conta do Governo,
os empregados, que forem nomeados para taes inspecçoens,
cuidarão cm cobrar os seus salários, sem se importar com o de-
mais, o que a experiência nos ensina todos os dias.
Seria desnecessário entrar aqui nas particularidades destes
arranjamentos, nem explicar as differentes formas, porque se
podem pôr em practica; mas daremos um exemplo.
Supponhamos, que se quer arematar a passagem de um rio,
Miscellanea. 97
que atravessa a estrada da capital para Bahia. Por-se-ha a
lanços, descrevendo quanto deverá pagar naquella passagem
cada homem, cada besta, cada carro. &c. E se arrematará
isto a quem se obrigara abrir, e ter em bom reparo, uma porção
de estrada de cada parte do rio. O lançador que offerecer a
abertura e concerto de maior extensão de estrada, cobrando o
que se estipular pelas passagens, será aquelle aquém se arremate
o contracto.
Haverá, porém, lugares, em que se nao possa applicar este
methodo ; porque requererão despezas tam consideráveis, que
para ellas naõ baste o que razoavelmente se pode exigir dos
passageiros. Hc nestes casos, que o Governo deve contribui*;,
pagando aos trabalhadores, empregando os mendigos e os soldados
licenciados ; fazendo também isto por meio da arremataçaõ a
indivíduos, em hasta publica.
He ordinariamente juncto aos rios, aonde se acham as me-
lhores situaçoen» para edificar povoaçoens; e um destacamento
de tropa», juncto com os trabalhadores na estrada; e as
pequenas datas de terras aos que as quizerem cultivar, formarão
em breve outras tantas aldeas, nos lugares em que se emprehen-
deretn taes obras.
Porem em todos os casos he necessário evitar cuidadosa-
mente as administraçoens por conta da Fazenda Real, e a
ingerência do Governo, excepto nas cousas que forem de abso-
luta necessidade. Se uma companhia de particulares empre-
hende a abertura de alguma estrada juncto a um rio, como no
exemplo que temos figurado; nao he preciso outra ingerência
da parte Govemo, senaõ que o seu engenheiro marque o rumo
da estrada e suas dimensoens, que tire um mappa ropographico
dos orredores; qne nelle designe as datas aos indivíduos, sempre
com a condição de as perderem, seasnao cultivarem dentro do
tempo limitado; e qne estes mappas, datas, e confrontaçoens
sejam registradas e depositadas nos archivos competentes; para
segurar os titulos das propriedades a seus legitimos donos.
Julgamos que seria de sununa utilidade, empregar o Governo
todas as sommas, que lhe pudessem restar de outras repartiçoens,
m comprar instrumentos de agricultura, que se repartissem
VOL. XVII. No. 98. w
98 Miscellanea.
pelos novos colonos, sendo estes obrigados a pagallos, dentro
em certo numero de annos, a pagamentos annuaes. Estes paga-
mentos se poderiam receber em gêneros, como os dizimos; e
serviriam para o mantimento das tropas, e dos trabalhadores
empregados nas obras publicas. Assim o Governo nao perderia
cousa alguma das despezas feitas nestes avanços ; e o pagamento
nao se faria oneroso ao novo colono.
Quanto aos trabalhos da capital; parece-nos, que ali se deve-
riam empregar exclusivamente os criminosos condemnados a
galés, em toda a parte do Brazil; porque com facilidade se
podiam fechar durante a noite, na prisaõ destinada a este ser-
viço ; quando que nas estradas publicas, principalmente as
distantes de povoaçoens, o custo de guardar os prezos, e o
perigo de sua fuga, saõ muito maiores que o proveito de seu
trabalho.

Expedição contra o Rio-da-Prata.


As ultimas noticias chegadas do Brazil nos informam, que
estava a dar á vela do Rio-de-Janeiro uma expedição, que con-
sistia em quatro para cinco mil homens, das tropas, que tinham
ido de Portugal; e o destino deste exercito se conjecturava
ser o Rio-da-Prata; entre outras razoens; porquo as tropas
do Rio-Grande, também de quatro a cinco mil, tinham ja feito
um movimento de avançada, contra as fronteiras do Uruguay;
donde se concluia com toda a probabilidade, que estes exércitos
se destinavam a tomar posse da margem septentrional do Rio-
da-Prata; e do território comprehendido entre este rio, o
Paraná, e as fronteiras do Brazil, na Capitania do Rio-Grande.
O território, de quo falíamos acha-se dominado por um dos
chefes revolucionários, chamado Artigas ; o qual, sendo um
contrabandista nas fronteiras limitroplies do Rio-Grande e
Montevideo; foi nomeado pelo antigo Governo Hespanhol,
tenente de Belendengos, que he uma espécie de tropa de policia,
empregada a perseguir e prender contrabandistas.
Como mestre daquelle mesmo officio ninguém sabia melhor o
modo de apauhar os Contrabandistas; e, quando aconteceo a
6
Miscellanea. 99
revolução de Buenos-Ayres, deram a este partidário um com-
mando considerável; e pouco depois se declarou Governador
em chefe do território Hespanhol ao Norte do Rio-da-Prata;
sem obedecer á Juncta Revolucionaria de Buenos-Ayres; nem
a El Rey de Hespanha.
A Juncta de Buenos-Ayres mandou um Exercito contra
Artigas, que alcançou sobre elle algumas victorias; mas aquelle
exercito foi obrigado a retirar-se para marchar a outro destino,
contra outro chefe independente chamado Goyeneche, que
fazia a guerra contra os do Buenos-Ayres pela parte do Peru;
e Artigas tornou a ficar de posse de seu território.
Três supposiçoens se podem daqui formar, para explicar os
motivos da expedição, que vai do Brazil contra aquelle terri-
tório.
Uma, que o Governo do Brazil vai de acordo com Artigas ;
e que este lhe deseja entregar o território, que commanda.
Outra, que El Rey de Portugal vai a tomar posse daquellas
terras, em conseqüência de ajustes, e de intelligencia com EI
Rey de Hespanha.
Terceira, que nao ha nisto nenhum ajuste, e que a Corte
do Rio-de-Janeiro, obra de seu motu próprio, tomando este
território, para se livrar de um vizinho incommodo; porque
Artigas favorece a deserção dos soldados Portuguezes; porque
abriga os escravos, que fogem do Brazil; e porque naõ cuida
em cohibir nem o commercio illicito entre as duas naçoens, nem
os crimes que commettem os subditos de ambas as partes.
Em qualquer destas hypotheses ; se a Corte do Brazil mos-
trasse ficar satisfeita unicamente com a posse do território, que
temos descripto, e que se acha governado por Artigas, a Juncta
de Buenos Ayres se daria por mui contente, vendo-se por esse
meio livre de tao formidável rival, como he Artigas. Mas se
os de Buenos-Ayres virem, que as vista do Governo Portuguez
se estendem além daquelle objecto, de necessidade se haõ de
pôr em campo contra os Portuguezes.
Em todos os casos Artigas está perdido ; porque he impossível,
que ache dentro do pequeno território, qne commanda, recursos
bantantes para se oppôr à preponderante força Portugueza, que
N 2
100 Miscellanea.
ovai atacar: e de fora naõ tem quem lhe dè auxílios; porque
os de Buenos-Ayres lhe tem tal ódio, que nunca se uniraõ com
elle* nem o gênio de Artigas deixa a menor razaõ para suppôr,
que elle se submetteria ao Governo de Buenos-Ayres, que he
a única hypothese em que poderia esperar o seu apoio.
As tropas Portuguezas do Rio-Grande, entraram ja por
Missoens, passaram o Uruguay, e iam a atacar Corrientes;
que he o principal posto fortificado, que Artigas tem no Paraná.
Depois, vindo por este rio abaixo, nao terão difficuldade em
tomar S'1- Fé, que he a chave da passagem para a margem
Meredional do Rio-da-Prata; assim ficará inteiramente cortada
a retirada de Artigas para o interior do paiz; ainda que elle
ali tivesse, o que nao tem, amigos que o acolhessem, e pro-
tegessem.
Se Artigas for com suas tropas de Montevideo a oppôr-se a
estes planos dos Portuguezes ; deixa Montevideo, Colônia do
Sacramento, Maldonado, e toda a margem do Rio-da-Prata
daquella parte, sem forças para restitir ao desembarque de
cinco mil homens, que por mar ali chegarão do Rio-de-Janeiro;
e apertado entre dous exércitos, cada um delles superior ao seu,
Artigas naõ tem meio algum de resistir.
NaÕ queremos com tudo dizer, que as tropas Poshiguezas
poderão tomar posse daquelle território ás maõs lavadas. Ar-
tigas he um chefe de partidistas, de summa actividade e valor ;
em parte nenhuma do Mundo se entende, melhor do que na-
quelle paiz, a pequena guerra; que se denominou agora na
Hespanha guerrilhas; e os ataquaes desta natureza saõ capazes
de fatigar os melhores exércitos regulares, como experimen.
taram os Francezes na Hespanha, na guerra passada.
As conseqüências, porém, desta conquista dos Portuguezes,
qu« pelas razoens, que temos dicto, suppómos quasi infallivel,
devem ser objecto de nossas observaçoens, a seu tempo.

Freiras em S. Miguel.
Na parte da conrespondencia, neste N°., achará o Leitor a
narraçaS de um facto, acontecido na Ilha de S. Miguel; que he
Miscellanea. 101
digno de lêf-se, e de meditar.se. Elle prova qnam justas saõ
ai nossas ideas, a respeito dos conventos de frades e freiras.
A nossa opinião a respeito das ordens mouachaes, naS he
ignorada de nossos Leitores ; porque temos sido nisso mui de-
cididamente claros. Consideramos os conventos como azvlos
mal úteis, para onde se retirem as pessoas de ambos os sexos, a
quem uma verdadeira vocação, ou o desgosto do mundo, faça
necessário um retiro daquella natureza. Em Inglaterra, aonde
nao ha estes refúgios, os suicídios saõ freqüentemente o resul-
tado desta falta.
E com tudo, nada he mais horroroso do que o cruel expedi-
ente de algum pays de familias, que para favorecer o filho ou
filha mais velho , mettem os demais nestas prizoens perpétuas,
enganando.os em idade, em que nao saS capazes de escolha; e
sustentando estes aleivosos procedimentos até com a força ar-
mada do Governo.
O easo presente he o de duas meninas, que na tenra idade de
7 ou 8 annos deviam ser fechadas n'um convento, aonde sem
ver outra cousa mais do que as instituiçoens do Convento, e
obedecendo ás ordens de suas mestras; chegam a idade de
profissão ja feitas freiras, e a cerimonia do veo nao he senaõ
uma mera formalidade, para lhes tirar toda a esperança de
«ahir daquella prizaõ ; porque quanto ao mais, freiras eram
desde a idade de 7 annos,
Este roubo, feito ao Estado, de crianças, que assim se forçam
a ser freiras, tem sido de algum modo obviado, pela necessidade
de obter licença Regia, antes que alguma menina seja por esta
forma emparedada. Mas o DeaÕ de Angra, nao obstante as
leys em contrario, violentamente introduzio duas meninas no
Convento de S. Miguel; e porque as freiras nao quizéram
obrar contra as leys, foi ao Convento com uma tropa de sol.
dados, mandou que os portamachados arrombassem as portas,
preudeo a abbadessa, e vi et armis, fez entrar as meninas no
Convento.
i Se as freiras naõ queriam receber as educandas (ainda sem
fallar na ley a seu favor) que utilidade pôde ter o Governo, em
as obrigar a isso, usando até da tropa ? Os Conventos devem
102 Miscellanea.
ter suas leys particulares, ou compromissos, assim como as
mais irmandades, e por ellas se devem regular: se um sócio, em
qualquer corporação particular, offende os mais, estes devem
queixar-se aos mioistros de justiça; e naõ somente sendo a of-
fensa contra as leys do Estado; mas ainda mesmo contrariasas
suas leys ou estatutos particulares, pôde e deve o magistrado
obrigar o individuo, qne quebrantou as leys, a reparar o
damno que fizesse com isso a seus collegas : faltando á obser-
vância dessas leys.
Porém prestar o Governo a força armada, para introduzir
violentamente duas meninas n'um Convento de freiras, he ab-
surdo indesculpável, repugnante a toda a boa legislação, e con-
trario a todos os interesses do Estado.
Olhando para este caso, somente pelo que pertence a utili-
dade publica, e ao que nos parece ser o principio mais justo
de legislação, sobre as ordens monasticas, naõ podemos deixar
de descer desta consideração a observar o padre DeaÕ, que
representou tam notável papel nesta farça.
Jamais vimos um exemplo tam conspicuo de hypocrisia, do
que a Pastoral, que vem copiada na narrativa, que publicamos
sobre esta matéria. O tal Padre Deaõ, por favorecer os seus
empenhos, atropella as leys, mandando admittir no convento as
meninas, que naõ tinham nem idade competente, nem licença
Regia. Porque as freiras resistem a isto, enfurece-se o DeaÕ;
pede o auxilio de tropas, arromba as portas do convento, mette
nelle as crianças, que estava empenhado em fechar ali; atira
com as freiras no cárcere; insulta-as;—em fim mostra em todo o
seu procedimento a ira, o furor, o orgulho, e todas as mais
paixoens que lhe ferviam u'alma—e vem com uma suave pasto-
ral, com o nome de Jezus Christo, com o Apóstolo amado,
com a sancta amargura de seu coração, e com todo o resto da
bateria da mais refinada hypocrisia.
Ehepara sustentar procedimentos desta natureza, que o Go-
verno presta o seu braço armado—e que haja quem supponlia
ser justo obrigar, por meio da força, a que as pessoas illudidas
continuem a ser victimas de sua illusaõ ; e que nao haja meio
Miscellanea, 103
de salvar, pelo arreprendimente, mesmo uma resolução, tomada
em momentos inconsiderados!

Monie-pio literário, em Lisboa,


Copiaremos, no numero seguinte, o Compromisso oa Estatutos
particulares de uma sociedade estabelecida em Lisboa, para for-
mar um fundo applicavel a remir as necessidades das familias de pes-
soas literatas, que, tendo sorvido o publico com seus estados, naõ
tenham adquirido bens sufficientes para o estabelicimento de
•nas familias.
Ha na Inglaterra grande numero de sociedades estabelecidas
para similhantes fins, e uma justamente para este das pessoas
literatas. O Governo naS tem nisto inspecçaõ ; e somente no
caio de que as pessoas nomeadas, pelos sócios, para administrar
a sociedade, naS compram com as leys a que ss sugeitam, pôde
haver recurso aos magistrados, que saõ entaS obrigados a fazer
executar o compromisso.
Como naõ tivemos lugar para inserir neste N". o com-
promisso, reservamos para o N°. seguinte fazermos sobre elle
algumas observaçoens; porque nos parece o plano mal ntil, e
digno de ser imitado por outras classes de cidadaSs.

Embaixada para Roma.


A p. 91, damos a falia que fez a Sua Sanctidade, o Em-
baixador, que S. M. Fidelissima mandou a cumprimentar o
Papa, pelo sen restabelicimento e volta para Roma.
Nada nos parece mais próprio do qne estes cumprimentos de
civilidade de um Soberano Catholico, ao cabeça de sua Igreja,
o qual he ao mesmo tempo um dos Monarchas da Europa ; e
ainda qoe taes cerimonias sejam acompanhadas com despesas
consideráveis, assim o requer o esplendor da monarchia, e &
dignidade Real.
Mas ao mesmo tempo nada podia ser taõ inferior ao objecto,
como a falia do tal Embaixador, comparada com o apparato
104 Miscellanea.
da missaõ, e com o objecto a que se destinava; porque, em vez
de conter o elogio dos sentimentos de seu Soberano, que o in-
duziram a dar este passo, e um louvor á pessoa de Sua
Sanctidade, a quem o obséquio éra destinado; o Embai-
xador empregou a maior parte de sua esfarrapada oração em
fallar de si mesmo; e esforçar-se em provar, que elle éra a
pessoa mais própria, que seu Soberano podia escolher para en-
carregar desta commissaõ.
O principal fundamento, em que o Embaixador se estribou,
para se elogiar a si mesmo, e provar que a escolha de sua no-
meação nao podia recahir em melhor pessoa ; be, que, durante
a sua residência em Inglaterra, como Embaixador de Portugal,
tivera ordens para apoiar os interesses do Sancto Padre.
Essas ordens, como he bem de suppôr, fôram geraes a todos
os Ministros de Portugal, em todas as Cortes da Europa; por.
que, sendo nascidas do desejo, que tinha S. M. Fidelissima, de
mostrar o seu respeito ao Summo Pontífice, apoiando os seus
interesses, naõ podia limitar-se unicamente a representaçoens
á Corte de Inglaterra.
E se todos os Ministros Portuguezes deviam obrar da mesma
maneira, sobre este negocio, naS vemos como daqui se siga,
que o Conde da Funchal, um desses Ministros, devesse por
força ter a preferencia nesta missaõ.
Se S. Ex a . rerlectisse, no modo por que se comportou em
Londres, acharia facilmente os motivos porque foi nomeado
para esta embaixada; depois da grande repugnância qne mos-
trou em sair da Inglaterra.
Mas supponhamos, que tinha o Embaixador razaõ; que a
sua pessoa éra a mais apta, a mais capaz, a mais própria; tudo
quanto se quizer de bom, em fim que tinha nm direito exclusivo,
inquestionável, inherente a elle para ir a esta embaixada; se-
guramente a sua modéstia lhe deveria ensinar, qne lhe naõ es-
tava bem ser elle que blazoneasse desses merecimentos pró-
prios, em uma falia destinada a cumprimentar o chefe da Ig-
reja, por ordem de seu Rey. O menos, que se pôde dizer nisto
he, que he uma presumpçosa arrogância, mixtarar o seu nome e
Miscellanea. 105
as suas qualidades pessoaes, com os nomes e acçoens dos Sobe-
ranos, de quem devia fallar em seu cumprimento.
Talvez esta seja a ultima vez, que elle tenha occasiaõ de se
estender, em publico, nos seus próprios elogios; a menos que
$èja na falia de despedida; e entaõ recommendariamos a S.
Ex"., que, para acabar com a mesma limpeza a sua carreira di-
plomática, se alargue quanto puder cm louvor do excellente
modo, por que se conduzio nesta embaixada de Roma; dando
com isso o final divertimento a seus ouvintes.

CONGRESSO DOS SOBERANOS.

As gazetas da França o da Alemanha Teferem, que o Con-


gresso dos Soberanos, que assignâram a Sancta Aliiança, terá
lugarem Carlsbad, em vez de Toeplitz, como se premeditava, e
que assistirão á conferência mais Soberanos do que a principio
se suppunha. Um artigo de Carlsbad diz, que El Rey de Ba-
viera será um dos Monarchas, que entrará naquelle Congresso;
e que ali se esperava o Imperador de Rússia, • o Imperador de
Áustria por todo o mez de Julho.

ALEMANHA.

Tem-se publicado em Darmstadt varias patentes, a respeito


das cessoens territoriaes, feitas pela Convenção de Frankfort.
A primeira contem a cessaÔ, que faz o Gram Duque á Prus.
sia, do Ducado de Westphalia, e dos condados de Wittgenstein
e Bcrlcbóurg.
A segunda diz respeito ao juramento de fidelidade dos habi-
tantes do território cedido ao Eleitor de Hesse.
Pela terceira cede o Gram Duque a El-Rey de Baviera qua-
tro bailliados, situados nos principados de Linange, e Loewen.
stein-Wertheim.
Outras duas patentes tem por objecto tomar posse dos ter-
ritórios recebidos em troca, pelas sobredictas cessoens; que
VOL. X V I I . No. 98. o
106 Miscellanea.
saõ a cidade de Mayence e sen território, com Kastel, e Kos-
theim ; o circulo de AIzei, os cantoens de Worms e Pledders.
heim, e o principado de Isembourg; á excepçaõ de algumas
aldeas cedidas as Eleitor de Hesse. O Gram Dnque assegura
a seus novos vassallos as mesmas vantagens, que elles d'antes
gozavam, entre outras, a igual distribuição dos impostos, a li
berdade de consciência, e da imprensa, &c.; e manter a ex-
tincçaõ do regimen feudal, dizimos, e corvées. Os funcciona-
rios públicos continuarão provisionalmcnte em seus lugares.
A ultima patente, re-estabclece os Landgraves de Homburg
nos sens antigos direitos, no bailliado daquelle nome, á excep-
çaõ da Commum de Petcrwels, que fica unida ao Gram Ducado
de Hesse.
Sua Alteza Real o Gram Duque de Hesse, assumio o titulo
de Gram Duque de Hesse e do Rheno Superior.

O direito ao Ducado de Bouillon, que, pelo Acto do Con-


gresso de Vienna, se tinha referido a uma Commissaõ de Árbi-
tros, foi decidido no 1*. de Julho, nas conferências, que se fize-
ram em Leipsick, a favor do Principe Carlos Alain de Rohan.
Montbason ; por uma maioridade de 4 votos contra 1 ; con.
sistindo a Commissaõ de cinco pessoas.

ÁUSTRIA.

O casamento entre o Principe Leopoldo de Napoies, e a


Archiduqneza Maria Clementina de Áustria, terá lugar em
Schoenbrunn aos 27. Depois disso irá o Imperador de Áustria
para a Galicia, aonde se avistará com o Imperador de Rússia;
Dizem que, dali, partirá o Imperador Alexandre a abrir a Dieta
do sen novo Reyno de Polônia, em Warsovia.
Por um tractado concluído entre Áustria e Prússia, esta
Potência adquire novas possessoens na margem esquerda do
Rheno, que lhe cede a Áustria: os destrictos cedidos saõ os
cantoens de Sarbourg, Merzig, Warden, Otteveiller; hc que
formavam parte do antigo departamento do Sarre.
Miscellanea. 107

ESTADOS U N I D O S .

Os Estados Unidos nomearam Mr. Pinkney, para seu Mi-


nistro juncto á Corte de Nápoles ; e partio de Annapolis, aos 7
de Junho, com o commodoro Chauncey, que he o comman-
dante da esquadra, que os Americanos Unidos fazem tençaÕ de
conservar no Mediterrâneo; a fim de fazer com que os Mouros
executem as condiçoens dos tractados em que entraram.
A legislatura do Estado de Massachusetts passou um acto
para separar de si o districto de Maine, que se formará em
estado independente, annexo á UniaÕ, com a approvaçaõ do
Congresso. Esta parte do Estado de Massachussets, chamada
o districto do Maine, estava separada, por lhe ficar entre meio
0 Estado de New-Hampshire ; assim este novo arranjamento naõ
pôde deixar de convir aos povos de ambos os Estados, assim
como também á UniaÕ em geral.
As gazetas de Nova-York, de 10 Junho, dizem, que dous
commissarios da Marinha Americana, os Commodoros Rodger
e Porter, partiram para a bahia de Chesapeake, a fazer uma
minuta investigação da entrada daquella bahia, com as vistas
de averiguar a possibilidade, e o custo de a defender por meio
de baterias, erigidas no meio e nas costas conrespondentes da
bahia. Alem deste grande objecto, se julgava que os Commis-
sarios examinariam os portos de Norfolk, York, &c. a fim
de escolher a situação mais vantajosa, para um extenso deposito
naval.

FRANÇA.

O Duque de Wellington, commandante em chefe das tropas


alliadas, deixadas em França para vigiar na execução dos
tractados, apparecêo inesperadamente em Inglaterra; dizendo
que vinha, por causa de sua saúde, a tomar as águas de Chel-
tenham.
A viagem de uma personagem de tanta conseqüência, deo
lugar a varias conjecturas e rumores: atribmio-se isto a varias
o 2
108 Miscellanea.
causas mas ha bem poucos que pensem, que a moléstia do Duque
seja o motivo de sua vinda a Inglaterra.
J a ninguém duvida, que a França está fazendo consideráveis
preparativos militares ; e sabe-se, ao mesmo tempo, que o
Governo tem grande difficuldade em pagar as contribuiçoens a
que se obrigara.
Dizem que as instrucçoens particulares do Duque de Wel-
lington saõ de fazer marchar as tropas alliadas para Paris, caso
as contribuiçoens nao sejam pagas a tempo.
O Prefeito de Lisle expedio uma circular, mandando recolher
alguns soldados, que se achavam com licença sem tempo; e
que serão destinados a servir na Legiaõ do Norte, que se está
organizando com muita actividade. Nesta circular dirigida aos
sub-prefeitos observamos a seguinte passagem.
•>' Naõ se tracta agora de levar a guerra a paizes distantes;
nem mesmo de defender o nosso território, ou castigar re-
beldes : a integridade da França, a duração da paz, a estabili-
dade do throno saõ garantidas pela fé dos tractados, pelo inte-
resse e honra de todos os Soberanos, pela necessidade que todos
tem de descanço, pelas vantagens que o povo começa a sentir,
pelo desejo nacional, e, sobre tudo, pela veneração universal,
que inspira o mais justo, o mais sábio dos reys; este principe
tam desejado e amado, que Deus nos tem duas vezes restituido,
para nollo conservar para sempre. Com tudo a França pre-
cisa um exercito, cujos corpos possam todos dar um constante
exemplo de fidelidade e devoção : um exercito que possa ser o
escudo do Monarcha, e a gloria da NaçaÕ. • Em que outra
provincia he a mocidade mais digna de tal destino, do que os
numerosos filos do Norte ? El Rey e a honra chama por elles.
A ignomínia existe na desobediência, j Haverá algum Francez,
que possa hesitar na escolha ?
Aos 14 de Julho, El Rey, depois de ouvir missa, entrou no
gabinete do Conselho, estando presentes S. A. R. Monsieur, e
e o Duque e Duqueza de Berry, foram introduzidos, pelo Se-
cretario da guerra, os Marachacs de França abaixo nomeados,
que suecesivamente prestaram o juramente de fidelidade nas
maõs d'El Rey. O Duque de Cornegliano, Conde Jourdan,
Miscellanea. 109
Duque de Trevito, Duque de Tarentum, Duque de Reggio,
Duque de Albufera, Conde Gouviou St. Cyr. Duque de Coigny,
Conde Beurnonville, Duque de Feltre, Duque de Valmy, e
Conde Perignon.
Os marechaes de França, que, ou por moléstia, ou por
outras razoens naõ assistiram, para prestar o juramento de
fidelidade, fôram—Massena, DuquedeRívoli; Davoust, Duque
de Auerstadt; Victor, Duque de Belluno; Lcfebvre, Duque
de Dantzic; Conde Serrurier, e Conde Vio menil.
Estes repetidos juramentos de fidelidade, prestados por ho-
mens, que tem jurado fidelidade a quantos Governos tem tido
a França, durante a sua revolução, e que se tem voltado con-
tra esses Governos, logo que tem achado conveniente servir aos
Governos subsequentes; tem dado motivo a que muitas pessoas
ridicullzasscm muito esta cerimonia.
Nôs convimos nisto, em parte, mas achamos naquelle proce-
dimento mais alguma cousa do que mera formalidade. Con-
jectnramos daqui, que El Rey de França intenta empregar os
Marechaes tanto antigos, como os que nomeou de novo, em
organizar o seu exercito; e isto naõ pôde combinar-se com a
idea de profunda paz, e sentimentos pacíficos em todos os gabi-
netes da Europa.
Pelo decreto, qne vai copiado a p. 17, El Rey conferio a
Ordem da Legiaõ de Honra a todos os Príncipes do Sangue;
medida que traria com sigo o signal da maior incohcrcncia, se
nao fosse a consideração de que ella he destinada a fias ulte-
riores.
El Rey, por outro decreto, que apparecêo posteriormente, e
cuja data se naõ publibou, conferio aos mesmos Príncipes do
Sangue, a decoração de Gram-Cruz da Ordem de S. Luiz.
Alem de. que os Príncipes da Familia de Bourbon naõ po-
diam julgar-se condecorados, recebendo uma Ordem inventada
por Luciano Bonaparte; fundada para vigorar o republica-
nismo em França ; c cujos membros fôram os assaninos do
Duque d'Enghien, e os mais acermimos perseguidores da Fa-
mília dos Bourbon» ; El Rey data esta ordenança, que confere
a Ordem a seus parentes, no vigésimo primeiro anno de seu
110 Miscellanea.
reynado, incluindo neste periodo o reynado de Bonaparte, e o
tempo da Republica, em que esta mesma ordem foi instituída.
Naõ hc, portanto, possivel explicar este comportamento por
meio algum, que o faça racionavcl, e congruente com seus prin-
cipios, senão suppondo que a França se teme seriamente dos
Alliados, e que por este passo tenta o Governo reunir a seu
partido os militares espalhados pela França, e que se pretende
tornar a incorporar.
A questão he, que Potências tomarão o partido do Rey de
França e quaes seraõ contra elle, no caso de ruptura. A
Rússia tem todo o interesse em sustentar o Rey dos Paizes
Baixos, que nunca poderá conservar a Flandres sem o auxilio
de Potências estrangeiras. A' Inglaterra importa diminuir a
influencia da Rússia na Hollanda. Assim a Rússia e a Ingla-
terra haõ de tomar partidos oppostos; e ja se vè daqui qual
he a serie de combinaçoens, que seguirão as demais Potências.
Talvez vejamos, nestes tempos de suecessos extraordinários,
antes do veraõ que vem, a Inglaterra e França ligadas contra
a Rússia e Hollanda; e o que mais he, o continente da Ame-
rica envolvido nestas coutendas—
Quanto ao interior da França, parece que os espíritos-nao
se acham ainda inteiramente socegados; como se vè da seguinte
circular do Director das alfândegas em Grenoble, transmittida
pelo Prefeito do Isere, aos Mayoraes das Communs.

" Grenoble, 2 de Julho, 1«16.


" Ha uma classe de homens, que naõ podendo achar em si
mesmos aquella paz de que tem sido privados, pelos crime*,
que os enegrecem, olham com inveja para a segurança que as
pessoas bens dispostas gozam; e que elles trabalham cm per-
turbar espalhando rumores tendentes á revolta, ou a enfraque-
cer os sentimentos de amor e respeito, devidos por tantos titu-
los ao nosso amado Monarcha.
44
Ha também outra classe de pessoas, que naÕ podem deixar de
obter a reprovação de todos os bons Francezes. SaÕ estes os
homens, a quem nada aflecta, que soffrem que se diga tudo, e
se faça tudo, ainda que freqüentemente elles poderiam, com
Miscellanea. 111
uma só palavra, prevenir o mal, que a insensibilidade permitte
que se commétta.
(' Lisongeo-rnc de que as pessoas empregadas na vossa divisão
saõ animadas por sentimentos mais justos e legitimos; porém
como pode haver alguns, que nao conheçam a plena extensão
de seus deveres, os Inspectorcs-Geraes me tem expressamente
encarregado, de vos ordenar, que façaes saber a todas as pes-
soas que estaõ debaixo das vossas ordens, que como cidadãos,
e pessoas pagas pelo Governo, saõ elles obrigados individual-
mente, e sem distineçaõ de graduação, a informarem nao só os
seus superiores na repartição das alfândegas; mas também os
magistrados locaes, de tudo quanto vier ao seu conhecimento,
que possa ser contrario á segurança do Estado, e ao respeito
devido a Sua Majestade. Intimai-lhe, que o seu comporta,
mento deve ser tal, que os faça o terror dos agitadores; e que
a menor hesitação, a menor demora de sua parte, será grande
crime, que eu me verei obrigado a trazer ao conhecimento da
ley. Lembrai-lhes também, incessantemente, que todo o offi-
cial do Governo deve proclamar altamente a sua devoção a
El Rey, por cuja pessoa, e por sua pátria deve estar preparado
a fazer todos os sacrifícios até o da mesma vida.
44
Os bons sentimentos, que vos guiam, me dam o seguro
penhor, de que vós nao deixarei» de empregar meio algum dos
que estaõ em vosso poder, para inspirar os mesmos sentimentos
nos officiaes subalternos de vossa RepartiaaÕ, e fazêllos con.
formar-se punctual e promptamente com os regulamentos aqui
apontados, cuja execução encarrego á vossa responsabilidade.
Rogo-vos que me annuncieis a recepção desta.
Tenho a honra de vos saudar, &c.
(Assignado) + B A D O N , Director das Alfândegas.

El Rey promulgou uma ordenação, para reorganizar a Gu-


arda Nacional: o regalamento mais importante desta ordenação
he o que sugeita as promoçoens ao Ministro do Interior, quan-
do até aqui só dependiam do seu commandante em chefe que he
Monsieur. Este acontecimento he olhado como um passo para
diminuir a influencia do Usltra- realistas; e como prova de que
a Corte deseja attrahir a si a boa vontade das tropas.
5
112 Miscellanea.
Alem disto, o Ministro do Interior notificou aos Prefeitos,
que nenhum Mayoral, Adjuncto ou Conselheiro municipal po.
dera ser demitlido por arretes especiaes, mas sim dor motivos
declarados, e accusaçoens sustentadas por factos ; o que im.
pedirá consideravelmente os effeitos da espionagem, e delaçoens
secretas.

HESPANHA.
Apparecêo em Londres uma lista de navios Hespanhoes, que
os corsários de Buenos-Ayres tem aprezado juncto a Cadiz; e
as cartas particulares daquella cidade dizem, que o Governo se
acha sem forças ou meios de fazer sahir ao mar vazos de
guerra, com que possa reprimir aquelles insultos.
As gazetas Francezas trazem uma curiosa noticia de Hespa-
nha, aununciada em uma carta de Madrid, de 17 de Maio; e
he o seguinte extracto dafalla, que fez o Jezuita, nomeado para
abrir a aula de Malhematica.
44
Todos os males," disse o Professor, 44 que a Europa tem
soffrido por estes 30 annos passados, tem sido effeito dos ga-
bados conhecimentos do século passado; e que levaram os ho-
mens á irreligiaõ e á rebelião. Eu, portanto, somente vos ex-
plicarei a Anthtnetica, a Álgebra, e a Geometria; porque
temo que o resto das Mathematicas só sirvam de vos conduzir
ao atheismo e materialismo."
Continua a carta dizendo, que todas as pessoas presentes,
que seriam 120, se escandalizaram com similhante proposição.
N o segundo dia só apparecéram na aula 30 pessoas ; no ter-
ceiro, quatro, e no quarto dia um só discipulo.
Esta falia do tal Jezuita contém um longo commentario,
breve como he, da DeducçaÕ Chronologica. Hespanha he sem
duvida o paiz da Europa mais próprio para arreigar estas dou-
trinas Jezuiticas.

A Raynha de Etruria parece que tem por fim consentido,


em ceder, a favor de Áustria, as suas pretençoens aos Ducados
de Parma e Placencia.
Miscellanea. 113
INGLATERRA.
A p. 10, copiamos a falia do Orador da Casa dos Com-
muns a S. A. R. o Principe Regente; ea falia deste ; mandando
fechar a sessão do Parlamento.
Depois disto chegaram noticias dos estabelicimentos Ingle-
zes na índia, que daõ por certo nova guerra entre os Inglezes,
e algumas potências da peninsula Indiana.
O Soberano do Nepaul, com quem Lord Moira tinha feito o
tractado de paz, depois da ultima guerra, morreo antes que o
tractado fosse ratificado ; e suecedeo-lhe no throno sen irmaõ,
que recusou ratificar o tractado, e entrou em conrespondencia
com Scindia e com o Rajá de Berar; que se preparam para
atacar os estabelicimentos da Inglaterra naquella parte da
índia.

Segunda-feira 22 de Julho, se celebrou em Londres, o Ca-


samento do Duque de Gloucester, sobrinho d'EI Rey, com a
Princeza Maria, filha de Sua Majestade. Esta aliiança, sum-
mamente grata á Familia Real, tem merecido a geral approva-
çaõ da Naçaõ, pelo bom nome, qne tem aquelle Principe e a
Princeza ; de que se pôde agourar a sua felicidade domestica;
assim como o lustre da Familia reynante, e a satisfacçaõ do
povo em geral, que de taes unioens sempre resultam quando
os Príncipes assim alliados merecem os elogios, que o publico
instruído nunca deixa de offerecer em similhantes oceasioens.

A p. 77, publicamos o processo contra o Gen. Gore, Go-


vernador do Canada Superior, por ter suspendido de seu officio
Mr. Wyatt, o Medidor-geral da Provincia.
O motivo porque copiamos este caso, com alguma extensão,
foi para dar a conhecer a nossos Leitores no Brazil, uma idea
do modo porque se administram as leys na Inglaterra, e o como
he possível fazer com que os Governadores, e outros homens
públicos nas provincias distantes da Monarchia, se abstenham
de procedimentos injustos, ainda nos casos que saõ de sua le-
gitima competência.
VOL. XVII. No, 98. *
114 Miscellanea.
Os Governadores das provincias, nos estabelicimentos In-
glezes, tem sempre um Conselho, que saõ obrigados a consultar
em todos os casos de importância. Além disto ha duas assem-
bléas eleitas pelo povo ; uma composta de personages da maior
consideração, que tem funcçoens análogas á casa dos Pares no
Parlamento Britannico; outra composta de proprietários de
bens de raiz ; e que se assime-lha á Casa dos Commums.
Nestas duas corporaçoens se fazem as leys particulares para o
Governo da Provincia, que precisam também da approvaçaõ
do Governador em Conselho ; e em certos casos da approvaçaõ
d'El Rey; como acontece em Portugal com as posturas das
Câmaras.
Depois disto resta ainda ás partes, que se julgarem aggrava-
das pelo Gevernador, pôr contra elle uma acçaõ nos tribunaes
da Inglaterra, aonde o processo he sempre publico ; e a deci-
saõ do facto verificada pelo Jurado; na forma ordinária de
todos os processos.
Similhantes procedimentos, nem saõ, nem ninguém, em In-
glaterra reputa que sejam, contra a dignidade Real. El Rey
nomeia para Governador de provincia, uma pessoa que sup-
poem idônea: para prevenir os abusos sujeita esse Governador
a ouvir o parecer da um Conselho; e a outras formalidades uteis;
e como, ainda assim, pôde haver uma applicaçaõ injusta da au-
thoridade delegada, as partes tem ampla faculdade, e toda a fa-
cilitaçaÕ dos meios, de expor as suas queixas publicamente per-
ante os tribunaes ; e pedir a compensação dos damnos ou in.
jurias, que tenham soffrido; obtendo a decisão por meio de
um jurado imparcial.
Notaremos aqui também outro caso, acontecido neste mez
em Londres; que prova o modo da administração da justiça,
nos recursos contra os superiores ; e he um caso mui singular.
Por uma ley, ou acto âo Parlamento, todas as vezes, que se
aprehende algum individuo comettendo distúrbios, e seja vaga-
bundo, sem modo de vida conhecido, ou provado ; o magis-
trado, segundo as circumstancias do caso e da pessoa, deve
mandar prender o vagabundo por um espaço de tempo que naõ
Miscellanea. 115
exceda um mez; e açoitallo particularmente na Cadea. A p -
parecêo, neste mez, um individuo nestas circumstancias perante
o Lord Mayor, que he o Principal Magistrado de Londres ; o
qual, uaõ julgando necessário mandar açoitar o delinqüente, o
condemnou unicamente á prizaõ por um mez.
Este individuo mesmo, logo que saio de cadea, poz uma ac-
çaõ contra o Lord Mayor, no tribunal superior, pedindo com-
pensação de percas e damnos, pela prizaõ ter sido illegal, pois
naõ cumprira o Lord-Mayor com a determinação do Actodo
Parlamento, visto que omittio a pena dos açoites.
O tribunal conheceo mui bem a pouca vergonha, e Impudente
desaforo do queixoso, em alegar contra o Lord Mayor uma des-
obediência da ley, que consistia unicamente na clemência com
que obrara a respeito do queixoso; e no entanto naõ teve
alternativa senaõ declarar que o Lord Mayor tinha obrado
illegalmente, e dirigir ao Jurado, que determinasse, qual éra a
compensação que tal individuo merecia pelo damno e injuria
de que se queixava.
O Jurado cumprio com a ley, attendendo igualmente á natu-
reza da injuria, e se contentou com arbitrar um ceitil de con-
demnaçaõ, que o Lord Mayor devia pagar ao queixoso.

ORDEM DE MALTA.

O Veneravel Bailio Miariari tem entrado em negociaçoens


com o Imperador de Áustria, para obter a cessaõ da ilha de
Lissa, para a Ordem de Malta. Esta ilha está situada quasi
no meio do mar Adriático, tem um bello porto, algumas forti-
ficaçoens, e he susceptível de boas defezas. Dizem, que o Im-
perador concordou ja em fazer a cessão, e que as negociaçoens
só pendem a respeito das condiçoens.

POTÊNCIAS BARBARESCAS.

A Inglaterra resolveo mandar uma esquadra ao Mediterrâ-


neo para reprimir os insultos dos piratas da Barbaria. O AI-
P2
116 Miscellanea,
mirante Lord Exmouth volta com parte da esquadra que tinha
estado ali; e se lhe ajunctam outros vasos, entre os quaes saõ
o Hebrus, Granicus, Heron, e Mu tine. O Imprcgnable, e
Saperb estaõ também municiados mas falta-lhe gente.
O navio bombardeiro Belzebub está também prompto; e
leva grandes morteiros; o maior destes he das seguintes dimen-
çoens, que daraõ uma boa idea do effeito, que pode ter o poder
deste morteiro.
pés. polegadas.
Comprimento do morteiro 4 0
Calibre . . 1 1
Diâmetro da boca 2 11
Toneladas, quintaes. arr. lib.
ou 113 lib.
Pezo , 5 1 0 18
Ditto do leito 1 0 0 0
pés. polegadas.
Calibre da Câmara • 0 «4
Profundidade D". 1
Comprimento até a boca . 2 0
Exige para cada carga 24 lib. de pólvora.
Os navios desta expedição teraõ amarras de ferro, e appa-
ratos para fixar estas amarras na popa e proa; caso seja ne-
cessário fundear em frente de baterias inimigas. As lanchas e
botes levarão pequenos morteiros c carronadas.
A náo Queen Charlotte, de 110 peças, he a que tem a ban-
deira do Almirante Lord Exmouth; e vai na expedição outra
bella náo que he a Minden, de 74 ; a Promethus foi ja para o
Mediterrâneo, levando as cartas de officio para o Almirante
Penrose, que está em Malta. O Albion será a náo para o Al-
mirante Penrose, e assim haverá na expedição sette náos de
linha.
O total da expedição Ingleza, sob o commando do Almirante
Lord Exmouth acaba de dar á vella, e consiste dos seguintes
vasos, além da esquadra, que tem em Malta o Almirante Pen-
rose.
Miscellanea. 117

Queen Charlotte de 100 peças.


Albion 74
Impregnable 98
Superb 74
Minden 74
Leander 50

Fragatas.
Severn 40
Glasgow 40
Hebrus , 36
Granicus 36

Chalupas.
Britomart; Mu tine ; Heron, Prometheus, Cordelia.

Bombardeiras.
Belzebub ; Herla; Fury; Infernal.
Dizem alguns, que ao Imperador de Rússia se devem estes
preparativos contra os piratas de Barbaria. S. M. Imperial
tem feito deste negocio um artigo importante em todas as ne-
gociaçoens, em que tem ultimamente entrado com outras na-
çoens ; e consente em que as outras potências contribuam par
a despeza da expedição, que se está preparando na Inglaterra.
Também se diz, que uma esquadra Hollandeza acompanhará
a Ingleza.

RÚSSIA.

S. M. Imperial, por um Ukase dirigido ao Senado, em data


de 23 de Mayo, (Estilo antigo) ordenou, que se continuasse a
observância do tractado de commercio, concluído entre a Rús-
sia e Portugal, aos 27 de Dezembro, de 1798 ; e que expirava
ao 1*. de Junho desto anno; e que ficará em vigor até o 1°. de
Janeiro, de 1817.
Nós annunciamos já Isto no nosso N°. passado, por uma
circular do Ministro de S. M. Fidelissima, em Londres.
118 Miscellanea.
Dizem que a Rússia fez novo tractado de aliiança com os Es-
tados Unidos, pelo qual concederam os Americanos ao Impe-
rador de Rússia dous portos nas costas da America do mar Pa-
cifico.

SUÉCIA.

A Dieta em Christiana, que na Norwega se denomina


Storking, tem sido prorogada cinco ou seis vezes, e por fim
dissolvida; sem que se fizessem públicos os resultados de suas
deliberaçoens. Nem se quer se sabe, se será ou naõ adoptado
o plano de finanças que foi discutido na Dieta.
El Rey de Suécia, que ha muito tempo andava enfermo, e
achacoso, está perigosamente mal; e declararam os médicos,
que S. M. uaõ poderia sobreviver muitas semanas; esta circum-
stancia fez com que o Principe da Coroa deixasse appressada.
mente a Norwega; e voltou para Stockholmo.
Agora se fez mui publico o facto, que ha alguns mezes an-
nunciamos como mero rumor; de que o Governo Russiano
tinha em vista intrometter.se na questão da successaõ á Coroa
de Suécia, oppondo-se ao actual Principe da Coroa, c mettendo
em seu lugar o filho do Ex-Rey ; porém acerescentam também,
que se desvaneceram taes projectos, e que existe presentemente
a melhor intelligencia entre o Imperador de Rússia, e o Principe
da Coroa de Succia.

WURTEMBERG.

Uma gazeta Alemaã nos dá a seguinte conta dos tributos,


que se pagam naquelle reyno. Em 1800, as rendas publicas
montavam á somma de 1:226.437 florins; pagos por uma popu-
lação de 650.000 almas, em um território de 150 milhas qua-
dradas. O actual reyno, com uma população de 1:386.66$
almas, em um território de 380 milhas quadradas, pagou em
tributos, em 1815, a somma de 6:328.090 florins: portanto, com
uma população dobrada, o augmento dos tributos he o quin-
tuplo. Se, continua a mesma gazeta, mettermos em conta
outros pagamentos e encargos públicos, como dizimos, muletas,
6
Conrespondencia. 119
&c, avaliando isto em 4 milhoens, e as taxas de parochia, c
das communs, em dous milhoeus e meio, terem osuma somma
total, que dá mais de nove florins por cabeça, em homens,
mulheres, e crianças.
As disputas, entre El Rey e os Estados de Wurtemberg,
estaõ ainda bem longe de alguma acommodaçaÕ amigável. Os
Estados, entre outras representaçoens e queixas, apresentaram,
aos 18 de Junho, uma Nota a El Rey, a respeito do estabelici-
mento de um novo fundo de amortização : reconhecera as bené-
ficas intençoens do decreto de Sua Majestade, mas apontam
vários defeitos no plano, e declaram que todoshe inconstitu-
cional c arbitrário ; incompatível com os direitos dos Estados ;
e portanto o regeitam e invalidam definitivamente. Aos 24, El
Rey dirigio um rescripto aos Estados, em que, depois de re-
provar asperamente o seu modo de proceder, e repetir o desejo
que tem de dar ao reyno uma Constituição livre e durável, lhes
diz, que elles nao tem direito de se introroetter com o Governo ;
mas que se devem inteiramente limitar a ajudar a formar a tal
Constituição ; e que, portanto, naõ prestará attençaõ alguma
a qualquer Nota, Queixa, ou Representação da parte delles,
que se naõ limitar absolutamente a este objecto.

CONRESPONDENCIA.

Narrativa das violências practicadas pelo Rev>™. Deaõ


da Sé de Angra, contra as Religiosas do Convento
de S. Joaõ Evangelista da cidade de Ponta Delgada,
na Ilha de S. Miguel.
ACHANDO-SE vaga a Sé de Angra, servia o Deaõ, ex officio, de
Prelado das Religiosas do convento de S. Joaõ Evangelista da Ilha
de S. Miguel. Quiz este Ecclesiastico introduzir no dicto convento
duas meninas como educandas, filhas de Bento Jozé de Medeiros,
morador na mesma ilha. Conseguio isto, que éra contra as ordens
Regias, promettendo á Abbadessa, que dentro em um anno apre-
sentaria a necessária dispensa d'El Rey. Passou o anno da promessa ;
e representaram as freiras, que nao podiam conservar as meninas no
Convento; porque segundo os cânones, e bulla da confirmação de
lâO Conrespondencia.
seu mosteiro, naõ podem receber meninas senaõ da idade de 12
annos, e estas tinham uma 7, e outra 8 : e que ainda que tivessem a
idade competente, he necessário licença expressa, ou da Juncta do
Melhoramento das ordens Religiosas, ou d'El Rey. Naõ atendeo a
isto o DeaÕ, e portanto foram as freiras abrigadas, em cumprimento
de suas leys, a mandar as meninas para casa de seus parentes.
0 Deaõ, que reside em Angra, informado disto, foi ter á Ilha de
S. Miguel, trazendo uma ordem do General para metter as meninas
no Convento á força armada se fosse necessário; e intimou-se esta
ordem ao Governador e Corregedor de S. Miguel t e tornaram as
meninas a entrar no Convento.
Queixaram-se as freiras disto ao tribunal competente, a Juncta
do Melhoramento, e esta expedio uma provizaõ para que as meninas
fossem logo lançadas fora do Convento. 0 Deaõ, a quem foi coro-
roettida a execução da Provisão naõ a quiz cumprir; e passou a
seguinte pastoral.
" Jozé Maria de Bettanrourt Vasconcellos Lemos, Fidalgo Capelão
da Casa de S. A. R., Freire Conventual da Ordem dos mijitares de
S. Bento d'Aviz, Deaõ Presidente da Sancta Igreja Cathedral de
Angra, e Prelado Ordinário dos Mosteiros de Nossa Senhora da
Conceição da dieta cidade de Angra Ilha Terceira, e do de S. Joaõ
Evangelista desta cidade de Ponta Delgada, Ilha de S. Miguel, Sede
Episcopal Vacante. Juiz Executor das Dispensas Apostólicas, &c.
" A' Reverenda Madre Abbadessa, e mais Religiosas do referido
Mosteiro de S. Joaõ Evangelista, desta cidade de Ponta Delgada;
saúde e paz em Jezus Christo nosso Redertiptor ; e o mais proveitoso
exemplo e mercê.
" Sendo a charidade o principal c mais interessante mandamento
da sua divina ley, e a mais respeitosa obediência aos superiores,
nella sempre smnraamente recommendada, e sellada com o sagrado
exemplo do mesmo nosso Salvador, diante das authoridades da Judéa,
he com a mais profunda magoa do meu coração, que tenho visto,
dentro desta casa religiosa, violados aquelles dous principaes funda-
mentos da sua ley sanetissima. Nestes últimos tempos o maligno
espirito da discórdia e da rebelliaõ, que foi desde o Céo até á terra a
origem de todos os males, tem procurado estabelecer-se no centro
deste sagrado Claustro, que, sendo dedicado ao Sancto Evangelista,
tinha nisto mesmo ainda mais estreita e rigorosa obrigação de res-
plandecer nos exemplos do amor fraternal, que elle com tanto des-
vello recommendou, e pregou aos seus amados filhos em Jezus
Christo: e he tanto mais acerbe a minha amargura, quando consi-
Conrespondencia. 121
dero, que doas innocentes, na idade de dez a doze annos, Barbara
Caetana, e Maria Claudia, recolhida* neste Mosteiro por authori-
dade legitima, tem rido as victimas escolhidas para o desenvolvi-
mento do ódio e falta do fraterno amor, qne me obriga hoje a
ftllar & dieta Reverenda Madre Abbadesm e mais Religiosa* deite
Mosteiro.
" Recolhidas aquellas innocentes neste sagrado azylo, aondo
deveriam deivelar.se todas ai que as excediam em idade, para lhes
darem oi bons exemplos de paz, de charidade, e de obediência,
sanctas e brilhantes virtudes, qne fazem o explendor e o adorno do
nma habitação verdadeiramente religiosa, e da profissão monastica,
a que ellas ce destinavam; tem vindo aprender aqui, tó com oa
factos a seu respeito practicados, as liçoens diametralmente op-
posto».
" Constituído pois eu, pelos destinos da Sancta Providencia, pro
tempore, na prelazia deste Mosteiro i e devendo-me as suas Reli-
giosas inteira obediência, pelos votos, que solemnemente fizeram na
sua profissão, decidi, como entendia, a insignificante questão, que
se havia desgraçadamente suscitado sobre ai prestaçoens, com que o
Mosteiro devia contribuir aquellas duas donzellas • mandando prac-
ticar o que me parecia expresso nai eccriptnras de teu padroado, e
nas bullas de sua confirmação, e ordenando qne a minha decisaõ se
publicasse em plena Communidade, e se guardasse no archivo, para
a todo o tempo constar, e delia se poderem interpor os recursos com-
petentes, no caso de qualquer se achar offendida.
" A obediência e respeito, com que esta minha deliberação foi
recebida, foi o facto escandalosissimo de algumas Religiosas particu-
lares, que, sem authoridade ou sciencia da Reverenda Madre Ab-
badessa, que entaõ existia, se abalançáram ao desatino de lançaram
todavia fora da clausura as dietas meninas, qne nella haviam
entrado, por legitima authoridade: procedimento, que nem a
mesma Abbadessa, ainda que quizesse, podia practicar, por aquella
regra, a todos conhecida, de qne só quem abre as portas da clausura
para o ingresso,* he que também as pôde abrir para a sabida.
" Mandei immediatamente corrigir este desacerto, recolhendo as
dietas meninas a este Mosteiro, donde naõ deveriam ter saldo, por,
aquella maneira, sem legitimo mandado. Consta-me, que esta pro-
videncia na6 foi recebida, com a cordialidade qne exigia a doçura do
meu procedimento, esquecendo-se as Religiosas, que nisto tiveram
parte, de que a desculpa, que eu por aquella vei dei ao seu facto
VOL. XVII. No. 98. o
122 Conrespondencia.
Iam estrondoso, considerando-o mais filho do erro, qne de culpa, as
Obrigava a conresponder-me com unia inteira abnegação d'outras
similhantes rebelioens ; para que me poupassem a indispensável ne-
cessidade de desembainhar a espada dos castigos, que eu tinha da-
quella vez occultado Ora a Reverenda Madre Abadessa e mais
Religiosas me dispensarão de referir aqui todos os resultados funestos
e ruinosos as consciências de cada uma, eque magoam acerbamente
o meu coração: permittam-me que cubra com um denso vêo taes
horrores; basta que ellas os conheçam ; e por isso deixo de per-
petuar sua memória, relatando-os nesta minha carta pastoral.
" Filhas minhas muito amadas em Jezus Christo, a minha vóz
somente se levanta, para reprehender, quando absolutamente lhe
naõ he permittido nem louvar, nem disfarçar estes máos exemplos
de procedimentos de factos, practicados por quem deve obede er,
contra os decretos daquelles, a quem toca a authoridade para mandar,
tem sido a funesta origem de tantos males, nos nossos dias, que nin-
guém pôde ser desculpado, quando os imita.
" O altar igualmeute que o throno gritam sobre a minha consci-
ência, para que extirpe até a ultima semente desta planta venenosa,
que autos estragos lhe causou ; e eu naõ posso deixalla vegetar
neste Mosteiro, por agora entregue á minha prelazia, sem me fazer
responsável a Deus e ao Soberano do maior de todos os crimes, com
que um e outro podem ser offendidos.
" As desobediências e procedimentos de facto da parte das Reli-
giosas deste Mosteiro, contra as determinaçoens do Prelado, a quem
devem obedecer, saõ ensaios para a desorganização da ordem reli-
giosa e politica no meio da sociedade, para a qual eu nem directa
nem indirectamente, nem próxima, nem remotamente, quero con-
correr.
" Portanto estranhando e reprovando os factos acima referidos,
como os mais oppostos ã charidade Christiaã, que neste Claustro
deve resplandecer, e à obediência, que nella Se deve guardar; or-
deno a todas as Religiosas deste Mosteiro, debaixo de preceito formal
de sancta obediência, que se abstenham de todo e qualquer facto
inquietador da paz e tranquillidade, que neste Mosteiro devem gozar
as mencionadas meninas, comminando aquellas, que transgredirem
este meu preceito, á prizaõ e suspensão (ipso facto) de todos os em-
pregos, que da religião tiverem ; e da vóz activa e passiva nas elei-
çoens religiosas, pelo tempo de seis annos futuros, além das mais,
que a gravidade e circumstancias dos casos oceurrentes exigirem.
Conrespondencia. 123
E á Reverenda Madre Abbadessa, Definitorio, e Escrivaã ordeno,
outrosim, debaixo da mesma pena de suspensão (ipso facto), de
todos os seus empregos e dignidade, e de inhabilidade para terem
outros, que inteiramente cumpram e guardem as minhas determina-
çoens acima referidas sobre a subsistência das mencionadas meninas,
em quanto por outra authoridade à minha superior naõ forem corri-
gidas; declarando illegaes todas as despezas, que se fizerem de fu-
turo com as Religiosas, uma vez que outras iguaes naõ sejam feitas
com as dietas meninas, eque ellas naõ estejam inteiradas de pretéritos
de tudo o que as Religiosas tem recebido, e ás meninas se tem fal-
tado ; fazendo também responsável o. Procurador Geral do Mosteiro,
a quem esta será igualmente lida, pelo cumprimento, ou transgressão
desta minha disposição, devendo elle, pelos recebimentos que fizer,
inteirar as dietas meninas de tudo quanto vir prestar ás Religiosas,
uma vez que naõ veja se lhes satisfaz igualmente a ellas; porque essa
sua despeza lhe será levada em conta, como por mim expressamente
determinada. E á Reverenda Madre Abbadessa, e Definitorio or-
deno, outro sim, debaixo das mesmas penas, de suspensão e inhabili-
dade, que procedam com as referidas penas contra toda e qualquer
Religiosa, que ousar ofiender ou insultar as dieta» meninas, por
aciute a esta minha disposição. A mesma Reverenda Madre Abba-
dessa e Definitorio fiquem na intelligencia, que assim o poder militar
do Governo, como o eivei da sua Correiçaõ foram por mim depre-
cados, e se acham promptos para lhes darem todo o auxilio da força,
que se lhes fizer necessário, para sustentar a obediência e respeito
devido ás minhas ordens, e disposiçoens acima dietas, e para manter
a interna tranquillidade do Mosteiro, contra quaesquer motins, as-
suadas, e tumultos, que nelle se practicarem, em ódio ás referidas
meninas, e que a mesma Correiçaõ foi outro sim deprecada, para
compellir, pelos meios da sua jurisdicçaõ, o dicto Procurador Geral do
Mosteiro, a inteirar as dietas recolhidas de tudo aquillo, que lhes
tenho mandado assistir, quando por ellas lhe seja requerido, na falta
de inteiro cumprimento desta minha pastoral. E conhecendo eu,
que a brandura e docilidaJe, que he natural ao sexo feminino pôde
ter grande parte nos males, que justamente me affligem e magoam,
tendo as Religiosas máos conselheiros, que em vez de dissipar pro-
curem nutrir as suas dissençoens; ordeno mais t que nenhum requi-
rimento, representação DU carta me seja dirigida sobre a matéria,
que traclo de remediar, ou seja pela Reverenda Madre Abbadessa ou
Definitorio, ou maioria da Communidade, ou finalmente por qual-
quer das Religiosas, sem que traga a assignatura de algum dos
124 Conrespondencia.
Advogados, habilitados para isso nos Juizos Ecclesiastico ou Civil
desta cidadei querendo assim que o conselho presida, em vez das
paixoens, no meio desta religiosa habitação. A's dietas D. Barbara
Caetana, e D. Maria Claudia ordeno também, e muito recommendo
todo o respeito e consideração, para com todas as Religiosas deste
Mosteiro, a fim de que por sua boa indole e virtudes concorram pela
sua parte para a concórdia, que desejo estabelecer. Ordeno final-
mente, que esta minha pastoral seja lida em plena communidade, no
termo de viute e quatro horas; que seja conservada no archivo do
Mosteiro, e que a Reverenda Madre Abbadessa me envie por certidão
em forma, na qual se declare, que foi lida, e guardada na forma
transcripta, e registrada no livro competente.
" Eu espero na mizericordia do Senhor, que as perturbaçoens
passadas sejam substituídas de futuro, pela sancta paz e suave har-
monia, que deve animar as verdadeiras esposas de Jezus Christo.
Espero que a minha alma terá ainda muitos motivos de consolação
por este respeito, em recompensa dos sacrifícios que tenho feito,
expondo a minha vida aos encommodos e perigos do mar, a fim de
preencher as obrigaçoens da minha prelazia; e abençoando com
ternura e cordialidade de pay todas as Religiosas deste Mosteiro, rogo
humilde e fervorosamente ao nosso Divino Salvador, que as tenha em
sua sancta guarda. Dada em o Convento de S. Agostinho desta cidade
de Ponta Delgada, aos 30 de Abril, 1816.
0 Deaõ, Jozê Maria de Bettencourt Vasconcellos
Lemos.
O Deaõ léo as freiras, no seu parlatorio, eu locutorio, em plena
Communidade, a sobredicta pastoral, estendeo-se em reprehensoens
verbaes; e as freiras appeüárani das detcnninaçoens do Deaõ, qne
mandou escrever a appellaçaõ sem suspensão; mas passados três
dias resolveram as freiras em acto.de comuuinidade expulsar as
meninas, e aos 3 de Maio as enviaram outra vez para casa de sua tia.
Nesse mesmo dia o Deaõ aprestou-se com uma tropa de soldados,
deo cerco ao Mosteiro com tambor batente, mandou avançar com
bayonetas caladas, e os portamachadns arrombar as portas, as freiras
assustadas fugiram para o corpo da igreja ; vencido assim pelo Deaõ
o importante corpo mulheril, passou o iuvicto Deaõ a gozar de sua
conquinta; encontrou as freiras no Coro, descompôllas, fez entrar
as meninas de novo no convento; e mandou prender nos cárceres,
sem limitação de tempo, a Abbadessa, Vignria, &c. embarcando-se,
no mesmo dia, depois deste tiiampho, para a Ilha Terceira.
CORREIO BRAZILIENSE
D E AGOSTO, 1816.

Na quarta parte nova os campos ara,


E se mais mundo houvera Ia chegara.
CAMOENS, C. Vil. e . 1 4 .

POLÍTICA.
REYNO UNIDO DT PORTUGAL BRAZIL E ALGARVES.

Nota do Ministro Russiano, sobre a prorogaçaõ do Trac-


tado de Commercio com Portugal.
O ABAIXO assignado, Secretario de Estado de S. Majes-
tade o Imperador de todas as Russias, em resposfa á nota,
que íbe dirigio no 1°. do corrente mez o Senhor CommeH-
dador de Saldanha da Gama, Enviado Extraordinário, o
Ministro Plenipotenciario de S. A. R. o Príncipe .Regente
de Portugal, tem a honra de o informar, que levou ao
conhecimento de S. Majestade Imperial os seus differentes
officios, tendentes a abrir negociações para a renovação do
tractado de commercio entre a Rússia e Portugal, cujo termo
se acha próximo a findar. Tomou S. Magestade cm ma-
dura consideração esta abertura, c em quanto naõ manda
annunciar aò Senhor Commendador de Saldanha uma reso-
lução diffiiiitiva a este respeito, tem o mesmo Senhor con-
sentido, por uma justa consideração dos prejuizos, que
poderiam soffrer as relaçoens commerciaes dos dous paizes,
era conseqüência de uma simultânea interrupção das esti-
VOL. XVII. No. 99.
126 Politica.
pulaçõesdo sobredito tractado, que elle se conserve em seu
vigor até ao I o . de Janeiro do anno próximo. Por cujo
motivo o Ministério das Finanças, informado desta proro-
gaçaõ, acha-se ao mesmo tempo encarregado de expedir as
ordens correspondentes aos officiaes das Alfândegas nos
portos do Império; e o abaixo assignado se lisonjêa de
que o Senhor de Saldanha, dará da sua parte os passos
necessários, para que iguaes medidas, dictadas pela reci-
procidade, e pelas considerações devidas aos interesses dos
respectivos vassallos, sejam igualmente adoptados nos
estados de S. A. R. o Principe Regente de Portugal: e
tem a honra de offerecer ao Senhor Commendador de Sal-
danha as reiteradas seguranças da sua distincta considera-
ção.
(Assignado) NESSELRODE.

St. Petersburgo, 14 de Maio, de 1816.

Avizo á Juncta do Commercio do Rio-de-Janeiro, sobre a


Ilha de Sancta Helena.
Tendo-se assentado e resolvido entre os Soberanos Allia-
dos, em conseqüência dos últimos acontecimentos succe-
didos na Europa, que a Ilha de Sancta Helena fosse o lugar
da residência futura do General Napoleaõ Buonaparte, e
que, era quanto elle ali existisse, fosse prohibida a quaes-
quer navios, ou embarcações estrangeiras, toda a commu-
nicaçaõ com a referida ilha; julgou S. A. R. o Principe
Regente meu senhor conveniente mandar remetter á Real
Juncta do Commercio, Agricultura, Fabricas, e Navegação
deste reyno e dominios ultramarinos, a copia inclusa por
traducçaõ da nota circular, que o ministério Britannico
fez passar ao ministro de S. A. R . na corte de Londres
sobre este objecto, a fim de que a mesma Juncta faça con-
2
Politica. 127
star ao corpo do commercio o seu contetído para sua devida
intelligencia.
Deos guarde a V. S.
Marquez DE A G U I A R .
Senhor Luiz José de Carvalho e Mello.
Paço em 30 de Janeiro, de 1816.
Traducçaõ.
Circular.—O abaixo assignado, um dos principaes se-
cretários de estado de Sua Magestade tem a honra de com-
municar ao Senhor Freire, para informação da sua corte,
que em conseqüência dos últimos acontecimentos succedi-
dos na Europa julgou-se conveniente, e determinou-se de
acordo com os soberanos alliados, que a ilha de Sancta
Helena será o lugar designado para a futura residência do
General Napoleaõ Buonaparte, debaixo daquellas regula-
ções, que possam ser necessárias para a perfeita segurança
da sua pessoa; e para este fim resolveo-se, que todos os
navios estrangeiros ou embarcações quaesquer, seraõ ex-
cluídas de communicarem, ou aproximarem-se aquella
ilha, em quanto ella continuar a ser o lugar da residência
do dicto Napoleaõ Buonaparte.
O abaixo assignado roga ao Senhor Freire, haja de
aceitar a segurança da sua alta consideração.
(Assignado) BATHURST.
Senhor F R E I R E .
Secretaria dos Negócios Estrangeiros, 26 de Agosto, de
1815.
CAMILLO MARTINS L A G E .

Portaria do Governo de Portugal, sobre os incêndios dos


pinhaes, Scc.
Tendo sido presentes ao Principe Regente Nosso Senhor,
era conta do Intendente Geral da Policia, da data de 21 de
R2
128 Politica.
Maio próximo passado, os meios, que lhe pareciam prcfe*»
riveis para se evitarem, quanto fosse possivel, os incêndios,
que se lançavam nos pinhaes, vinhas, e herdades, nas diffe-
rentes provincias do reyno, com gravíssimo prejuizo dos
seus respectivos proprietários; visto que as repetidas
ordens, e providencias, que se haviam dado ao dicto res-
peito naõ eram sufficientes para ao menos se minorar o mal,
quando totalmente o naõ podessem extinguir : Ha o mesmo
Senhor por bem determinar, que na provincia da Estrema-
dura, e comarca de Setúbal se observem interinamente as
providencias seguintes:
1*. As Justiças da cabeça do julgado, sejam juizes de
fora, ou ordinários, deverão formar uma lista exacta de
todos os trabalhadores, que houverem nos seus districtos,
tanto dos que trabalharem na cultura dos campos, como
dos que se occuparem nas cidades, villas, e lugares,
fazendo companhias separadas em cada vintena dos que
forem nellas moradores, e sujeitos aos J uizes respectivos,
bem como nas cidades, e villas, em que residirem, para
que possam acodir promptamente aos fogos que houverem,
tanto nos próprios districtos, como nos que apparecercm
até á distancia de uma legoa.
2*. Logo que se descobrir qualquer incêndio, o Juiz da
cabeça do julgado, assim como todos os Juizes dos distric-
tos, que ficarem a distancia de uma legoa da sua existência,
deverão concorrer pessoalmente ao lugar do fogo., acom-
panhados dos escrivaens, e mais officiaes respectivos, e de
todos os trabalhadores, que se acharem alistados ; c o Juiz
do lugar, em que começar o incêndio, mandará logo fazer
sio-naes, que se façam conhecer, seja por toque de sinos,
seja por bozinas, que devem ter, para avisar tanto as jus-
tiças confinantes, como os trabalhadores, a fim de acodirem
promptamente ao lugar incendiado.
3 a . Os trabalhadores, que forem alistados, teraõ obriga-
ção, ouvindo o signal que annunciar a existência do incen-
Politica. 129
dio, e achando-se nas cidades, villas, e lugares, de con-
correrem immediatamente á porta da residência do respec-
tivo Juiz, ou de quem suas vezes fizer, para todos partirem
para o sitio do incêndio; e quando estejam nos trabalhos
do campo, deverão logo informar-se do lu<-;ar aonde este
he, e caminhar sem demora para ali receberem as ordens
das respectivas Justiças, indo uns, e outros munidos com
os Instrumentos próprios para o trabalho a que saõ cha-
mados, debaixo da pena, naõ o cumprindo assim, de pa-
gar cada um que faltar, a quantia de dous mil réis, que
será applicada para as despezas do Conselho, a que per-
tencer o multado.
4». Seraõ obrigados a acodir na dieta forma todos os
Trabalhadores, que se acharem a distancia de uma legoa
do lugar do incêndio, ainda que residam em differentes
districtos, debaixo da mesma pena de dous mil réis, em
que seraõ condemnados na conformidade da Providencia
antecedente.
5*. NaÕ acodindo os Trabalhadores logo ao lugar do
incêndio, e allegando que os Donos dos Prédios, ou seus
Feitores, e Amos iníluiram para que naõ concorressem
promptamente ao mesmo lugar do incêndio, ficarão
aquelles sempre sujeitos ás mesmas penas, e estes respon-
sáveis pelo prejuizo, que causar o incêndio, como auxilia-
dores delle.
o". NaÕ será admittida escuza alguma, á excepçaõ de
quando se provar legitimo impedimento, moléstia, ou au-
sência.
7a. Os Trabalhadores, que concorrerem para a extinc-
çaõ dos fogos, seraõ sempre pagos do seu jornal, ou pelos
Proprietários daquelles Prédios próximos do incêndio, que
naõ chegaram a receber prejuizo, em razaõ das fadigas
dos mesmos Trabalhadores em atalhar o fogo, fazendo-se a
este respeito um arbítrio pelos Juizes da Cabeça do J u l -
gado com os respectivos Louvados, na proporção do lu-
130 Politica.
cro, que tiveram por naõ serem reduzidas a cinzas as suas
Propriedades, ou pelos que ficarem pronunciados, e vie-
rem a ser condemnados pela culpa de lançar o fogo ; de-
vendo os referidos Juizes na occasiaõ de avaliar o pre-
juizo, que este causar, fazer entrar em despeza os Salários
dos Trabalhadores, queacodiram, ajunctando para isso re-
lações assignadas, para se lhes pagar conforme os preços
correntes ; naõ devendo retardar-se de forma alguma este
pagamento, nem deixar de se fazer primeiro que algum
outro.
8 a . Todas as CondemnaçÕes, que se impozerem, seraõ
cobradas pelas Justiças das Cabeças dos Julgados a que
pertencerem os Trabalhadores, que foram, a bem do pa-
gamento dos jornaes daquelles que o vencerem, quando
naõ chegarem, ou deixarem de ter lugar os dous modos de
pagamento declarados na Providencia antecedente, appli-
cando-se o remanescente, quando o haja, para as despezas
dos respectivos Conselhos.
9». Os Escrivaens da Cabeça do Julgado, e os do Dis-
tricto, em que houver o incêndio, como também os que
Tesidirem dentro de uma legoa contada ao lugar do fogo,
logo que ouçaõ signal de que o há, teraõ obrigação de se
apromptar, procurando a residência do seu Juiz para dali
se encaminharem ao lugar do incêndio, incorrendo na sus-
pensam de seus Officios quando faltem, recuzem, ou in-
fluam para que com toda a promptidaõ se deixe de acodir
ao fogo posto.
10a. Seraõ obrigados os Escrivaens, logo que cheguem
ao lugar do incêndio; a tomar em relação todos os Traba-
lhadores alistados do seu Districto, que compareceram
nesse acto, fazendo apontamento dos que faltarem, cuja
relação se deverá verificar logo que o fogo esteja apagado,
tanto para effeito de se condemnarem os que naõ compa-
recerem, como para conhecimento dos que deixaram de
se appresentar promptamente para se lhes diminuir nos
Politica. 131
Diários, e se lhes arbitrar o que deveram vencer em pro-
porção do trabalho que fizeram ; e sendo a dieta Rela-
ção assignada pelo Escrivão, será entregue ao respectivo
Juiz.
11 a . Os Juizes da Cabeça do Julgado, sempre que ti-
verem noticia que ha incêndio no seu Listricto, deverão
pessoalmente acodir com os seus Officiaes, e trabalhadores
alistados, como fica declarado na Providencia 2*. naõ só
para fazerem as diligencias, que as Leys recommendam,
como para dirigir, e combinar com os outros Juizes, que
apparecerem, sobre o modo mais fácil, e prompto de ex-
tinguir o incêndio, sendo privativo do seu Cargo receber
as Listas de todos os Trabalhadores, que se empregaram
no incêndio, naõ só para regular os Salários, que se lhes
devem pagar, como para tomar conhecimento dos que fal-
taram, e se applicarem as CoudemnaçÕes para os Jornaes
que se vencerem, quando naõ cheguem os meios aponta-
dos na Providencia 7*.
12». E porque succede freqüentes vezes principiar o
incêndio nas Estradas Reaes, lançado pelos Viajantes, e
Almocreves, para naõ serem tara facilmente surprehendi-
dos pelos Saltcadores, seraõ constrangidos os Proprietá-
rios dos Pinhaes, e grandes Matas situadas nas dietas Es-
tradas, a cortarem, e desbastarem na distancia de doze
passos de cada lado da Estrada aquellas Matas, ou Pi-
nheiros, que possam servir de embuscada aos Ladrões, e
Malfeitores, dentro do prazo de trinta dias, contados da
publicação desta, debaixo da pena de ser mandado fazer
á sua custa este corte pelas Justiças dos respectivos Dis-
trictos, e de lhes serem imputados os incêndios, que come-
çarem por similhantes em buscadas.
13*. Haverá o maior cuidado na exacta observância
das Providencias da Ord. L \ 5'. Tit*. 86. §. 7*. ; sendo
obrigados os caçadores, pastores, e carvoeiros a pagar pelos
seus bens, quando se naõ ache que outrem foi o incendia-
132 Politica.
rio, todo o damno, que o fogo tiver feito ; devendo para
esse fim serem naõ só encoimados os pastores, mas também
os gados, que forem achados na infracçaõ, com a pena de
mil réis por cada cabeça de gado vaccum, e cem réis por
cada carneiro, ovelha, cabra ou chibarro; e as coimas
executadas nos mesmos gados, sendo citados para as vêr
condemnar pelos maioraes, que as guardarem, tanto pelo
que respeita aos gados do termo, como pelo que respeita
aos de fora.
14». E por que similhantes damnos costumam ser causa-
dos em muitas occasiões por effeito de interesse de terceiras
pessoas, sem advertência do prejuizo publico, nem parti-
cular dos donos dos prédios, faz-se necessário, que nos
livros das câmaras se tome assento dos gados, que pastam
nos seus districtos, e juncto deste haja de declarar o pastor
o seu nome, o sitio aonde ha de apascentar, e o tempo que
se demorará. Da mesma forma se deverá praticar com os
carvoeiros, e caçadores, ficando uns, e outros sujeitos ao
resarcimento dos damnos dos fogos em quanto ali apascen-
tarem gado, fizerem carvoarias, ou caçarem ; c além desta
reparação do damno ficarão obrigados á satisfação das
despezas da diligencia de que tracta a providencia 7 a . em
falta de réos do delicto, descobertos por prova directa,
todos aquelles contra quem se provar que se occuparam
nestes exercícios, nao se tendo antecedentemente manifes-
tado á câmara, e obtido licença delia, na qual se imporá
impreterivelmente ao individuo, que a impetrar, a obriga-
ção de acompanhar-se sempre no exercicio de apascentar
gado, de preparar carvaõ, ou de caçar, de uma bozina,
para com ella dar signal do incêndio, sempre que o desco-
brir começado.
15 a . As providencias dadas para os incêndios das cou-
tadas no alvará de 29 de Agosto de 1783, seraõ applicaveis
geralmente ás mais terras, ficando sujeitos os que se acha-
rem apanhando, e conduzindo cinzas das queimadas, a
Politica. 133
perderem os carros, e bestas destinadas para a dieta n-
ducçaõ, além de serem prezos por oito dias ; e as justiças
faraõ cavar, e confundir com terra as referidas cinzas, com
pena de suspensão de seus officios, e de serem tidos como
anxiliadoresde taes extracções, se assim o naõ cumprirem)
cujos effeitos apprehendidos, e cavalgaduras, seraõ arre-
matados em praça publica, com applicaçaõ de metade
para as despezas do Concelho, e outra metade para quem
os denunciar.
16*. Os que se acharem apanhando lenha das queimadas,
sem licença de seus donos dada por escripto, ou forem
encontrados com lenha conhecidamente de queimadas, que
naõ mostrem pertencer-lhes por meio legitimo, ainda
mesmo que sejaõ vistos já fora das dietas queimadas, ficam
sujeitos âs penas estabelecidas na providencia antecedente,
e com as mesmas applicações.
17*. Seraõ permittidas licenças aos que as pedirem, tendo
terras suas, ou que tragam de renda, para porem fogo, e
queimarem restolbos, moitas, ou mato para as suas lavou-
ras, e sementeiras, ou para porem bacelo, e fazerem adubos,
como se costuma praticar, ordenando os Juizes, que derem
as licenças, nos seus despachos, que os donos das terras
que as pedirem sejaõ obrigados a ter as vigias necessárias,
e homens prompíos para atalhar o fogo, se acontecer sepa-
rar-se dos terrenos, que pertendem queimar, ficando assim
mesmo responsáveis por todo o prejuizo, que disso resultar
aos seus vizinhos.
18a. Além das referidas providencias, que os Juizes da
cabeça de cada julgado faraõ descrever nos livros da câ-
mara para por elles se regularem, nos casos de incêndio,
tirarão os mesmos Juizes as devassas, quea ley lhes in»
cuiube, remettendo todos os mezes uma certidão do estado
das mesmas devassas ao corregedor da comarca, na fôrma
das Reaes ordens, que lhes tem sido communicadas pela
Intendencia geral da policia.
VOL. X V I I . No. 99.
134 Politica.
19*. Os corregedores das respectivas comarcas averi-
guarão se no seu districto se cumprem exactamente as
referidas providencias, e daraõ logo parte na dieta Inten-
dencia, quando encontrem alguma falta, ou omissão na
observância de todo o referido.
E manda que o Intendente Geral da Policia o tenha
assim entendido, e faça executar com as ordens necessárias.
Palácio do Governo, em 2 de Julho, de 1816. Com três
Rubricas dos Governadores do Reyno.

LISBOA.
Edictal da Juncta da Saúde.
9 de Julho.
A Juncta da Saúde Pública faz saber, que por Aviso ex-
pedido pela Secretaria de Estado dos Negócios Estrangei-
ros, da Guerra e Marinha, em data de 28 de Junho próximo
antecedente, lhe foi communicada a noticia official de se
ter manifestado na cidade de Cagliari, capital da Ilha de
Sardenha, uma terrível moléstia, da qual se acbavaõ ata-
cadas 680 pessoas no dia 24 de Abril próximo passado ; e
entre estas, 200 em grande perigo de v i d a : Em conse-
qüência pois deste desagradável e perigoso acontecimento,
a Juncta recorre, sem perda de tempo, ás seguintes provi-
dencias, para por meio dellas evitar a communicaçaõ deste
novo flagello, que ameaça por mais um lado a segurança
da saude pública do reyno.
1. Saõ considerados como contagiados deste flagello
todos os portos da Ilha de Sardenha, especificamente—
Cagliari, Ogliastro, Terra Nova, Stagno, Oristagni,
Alghieri, Porto Tore, CapoFrasque, Ilha Santo Antioche:
Todos os portos da Ilha de Corsega; especificamente,
Ajaccio, Girelate, Bonifácio, Calvi, Saõ Fiorenzo, Alga-
giola. ContiuuaÕ a ser comprehendidos nesta mesma
classe todos os portos especificados no artigo I . do edictal
Política. 135
de 30 de Março, do corrente anno, por continuarem os
motivos porque alli foram considerados como taes.
2 As Embarcações procedentes dos Portos comprehen-
didos no Artigo antecedente, naõ se admittem em nenhum
Porto do Reyno : e quando succeda que cheguem a entrar
em algum dos Portos do Reyno, seraõ obrigadas a sahir
com as cautellas, que as suas circumstancias especificas, e
as do Porto era que tiverem entrado, recommendarero, ou
fizerem necessárias, prevenindo primeiro todos os Portos do
Reyno; e apenas se lhes concede lançarem fora as cartas
ou papeis, que tragam o seu bordo, para serem entregues
ás Repartições, ou pessoas, a quem se dirigirem, depois de
purificados pelos desinfectantes mais enérgicos, que actual-
mente se pratiçaõ em similhantes casos; ficando restringida
esta mesma liberdade ao Porto de Lisboa, pelo perigo que re-
sultaria á regurança da Saúde Pública, se este rnelindro-
sissimo ramo de Policia externa de Saúde se permittisse
em qualquer outro Porto do Reyno.
3. Saõ considerados como muito suspeitosos desse con-
tagio os Portos da Ilha d'Elba ; especificamente, Porto
Feraio, e Porto Longon. Na Toscana o Porto de Liorne:
Na Campanha de Roma, Sancto Stefano, Civita Vechia,
Fiumicino, e Porto Dansa : No Reyno de Tunis, Biserta,
Tunis, Galipoli, Susa, e Monaster : ISo Senhorio de Al-
ger, Alger, Bonna, Bougic, Arzeni, Storo, Ilha Taburgo,
Oran, Tenes, e Marsalquivir. Continuam a ser compre-
hendidos nesta mesma classe todos os Portos especificados
no Artigo III. do Edictal de 80 de Março, do corrente
anno por continuarem os motivos por que alli foram con-
siderados como taes.
4. As Embarcações procedentes dos Portos comprehen-
didos no Artigo antecedente, saõ admittidas só, e exclusi-
vamente no Porto de Lisboa, debaixo de uma quarentena
rigorosa.
5. As AmbarcaçÕes precedentes dos Portos de Itália
s2
136 Politica,
que nao ficam expressamente nomeadas no Artigo I I I . ; as
que procederem da Ilha de Malta; e as que procederem
em geral dos Portos de Barbaria, que naõ ficam expressa-
mente nomeados no sobredicto Artigo III., saõ admittidas
só, e exclusivamente no Porto de Lisboa, debaixo de uma
quarentena de 20 dias.
6. Os Artigos VI. e V I I . do Edital de 30 de MaTço,
do corrente anno continuam na sua literal observância.
7. As Providencias, que ficam adoptadas nos seis Arti-
gos antecedentes, seram reduzidas á sua fiel execução, de-
baixo das medidas, cautellas, e responsabilidades, que se
estabeleceram pelos Artigos VIII., I X , e X , do Edictal
de 30 de Março, próximo passado.
E para que chege á noticia de todos, e se nao possa al-
legar ignorância, se mandou affixar o presente Edictal em
todas as Praças, e Lugares Públicos dos Portos do
Reyno, para ser escrupnlosaraeiite observado, em quanto
naõ for dispensada, ou modificada por outro a sua literal
observância.
(Assignado) L u i z ANTÔNIO REBELLO DA SILVA.
Lisboa, 3 de Julho, de 1816.

FRANÇA.

Ordenança sobre certas annuidades da Legiaõ a"Honra.


L u i z , &c.—Haveudo-nos sido representado, que exis-
tiam nos cofres dos sêllos, e nos da nossa Ordem Real da
Legiaõ d'Honra, obrigaçoens chamadas annuidades, que
foram assignadas em beneficio dos dictos cofres ; ja por
titulares de dotaçoens situadas fora du uosso Reyno, ja
por viuvas de titulares, a quem se Unham concedido pen-
soens sobre estas dotaçoens, e que os titulares das dietas
dotaçoens e pensoens tem cessado de gozar das mesmas ;
temos ordenado e ordenamos o seguinte.
Art. 1.—As obrigaçoens chamadas annuidades, que es-
taõ vencidas e naõ pagas, ou que para o diante se vence-
Politica. 137
rem, havendo sido assignadas em pagamento de reclama-
çoens feitas aos cofres dos sellos e da nossa Real Ordem da
Legiaõ d'Honra, por titulares de dotaçoens, cuja proprie-
dade esta situada fora do presente território de nosso Rey •
no, e pelas viuvas de titulares, a quem se tenham assig-
nado pensoens sobre as dietas dotaçoens, saõ e continua-
rão a ser annuladas; revogando a este respeito todos os
estatutos, que forem de contraria natureza.
2. A nullidade, e extincçeõ pronunciada pela presente
ordenação naõ dará lugar ao re-embolço das dietas annui-
dades, que até aqui tiverem sido pagas pelos titulares das
dietas dotaçoens ou pensoens, ou por cuja conta se tives-
sem feito algumas reservas.
(Assignado) Luiz.
Dada no Palácio das Thuillerias, aos 24 de Julho, de
1816.

HESPANHA.

Decreto, para estabelecer a educação publica nos con-


ventos dos frades e freiras.
A Historia de todos os Povos demostra cora evidencia,
que as mais assizadas leys e os mais bem meditados regu-
lamentos saõ iii8ufficientes, para obterá fruição dos fins da
Sociedade, quando pelo decurso do tempo, ou por acon-
tecimentos extraordinários chegam os costumes a um certo
gráo de relaxaçaÕ. Por isso os mais profundos pensado-
res nestas matérias tem estabelecido por principio incon-
cusso, que o único meio de evitar este mal, ou de cortar
seus progressos, se por desgraça chega a introduzir-se, he
o de attender com o maior esmero ao digníssimo objecto da
Educação publica. Por meio desta se insinuara, nos ten-
ros corações da mocidade de ambos os sexos, aquelles saõs
principios com que depois no decurso da vida resistem
aos seduetores impulsos do excessivo deleite, e aos sophis-
138 Politica.
mas do erro, que saõ a origem da perversidade dos cos-
tumes. Bem penetrados destas verdades os meos augus-
tos Predecessores formaram em diversos pontos da Monar-
chia vários estabelecimentos, cujos vantajosos effeitos ex-
perimentou feliz a naçaõ por uma dilatada serie de annos.
Chegada a época da terrível crise, que todos havemos la-
mentado, o turbilhão da maldade, que inundou de sangue
nossas formosas Provincias, destruio, com igual furor, to-
das as fundações, qne tantos desvélos haviam custado
aquelles Soberanos. Os desmoralizados invasores, ao
passo que destruíam por um lado, edificavam por outro
com o seu exemplo e com sua desenfreada libertinagem os
cimento» da corrupção geral dos costumes. Poucos annos
de taõ desgraçada desordem bastaram para abrir uma bre-
cha immensa na publica moral, e se por fortuna houve in-
finitas pessoas que formadas já na virtude souberam resis-
tir aquella torrente, muitas outras, especialmente entre a
débil juventude, cederam aos nimiamente fortes impulsos
do vicio.—Apenas fui restituido pela Providencia ao
throno de meus Progenitores, notei com summa dôr estes
resultados, e julgando desde logo pelos rápidos progres-
sos de taõ grave mal, que chegaria a ser irremediável se
naõ se atalhasse com promptns e eficazes remédios, cuidei
em conter os já viciados, mediante uma naõ interrompida
vigilância sobre a sua conducta, e attender ao futuro com
o restabelecimento das Casas de Educação. Naõ me per-
mittiram as estreitas circumstancias do Erário realizar as
minhas idéas com aquella presteza, que requeriam os males,
que tractava de remediar; e para supprir de algum modo,
mandei formar quantas escolas fosse possivel para a pu-
blica instrucçaõ e formação dos costumes. Convidei além
disso os Religiosos das diversas Ordens do Reyno a que
as estabelecessem nos seus Conventos, e ainda qüe corres-
ponderam immediatamente aos meus desejos com um zelo
« com uma actividade qne promettem os melhores effeitos,
Política. 139
impedindo a natureza dos seus institutos que attendessem
& educação do sexo, que tanto influxo tem no bem e no
mal do Sociedade, ficava um vácuo nesta parte que assaz
era sensível ao meu coração. Foi a minha mente encar-
regar às Religiosas taõ digno objecto ; porém o sagrado
de seus claustroB e de suas místicas occupações exigia uma
authorisaçaõ Pontifícia, por cujo motivo me dirigi ao
Sancto Padre, por meio do meu Ministro Plenipotenciario
era Roma, expondo-lhe a graveza do mal e a necessidade
do Temedio. Persuadido Sua Sanctidade de taõ justas
considerações mandou á Sagrada Congregação de Emi-
nentíssimos e Reverendissiroos Cardeaes da Sagrada Ig-
reja .Romana, que dirigisse ao meu Capellaõ Mór e Pa-
triarca das índias o seguinte Decreto :
**• Illustrissimo e Reverendissimo Senhor e Irmaõ : En-
tre as maltas e saudáveis providencias tomadas pela Ma-
jestade d'El Rey Catholico cm beneficio de seus Reynos,
merece o maior louvor o ter posto toda a sua attençaõ e
esforço em corrigir e reformar os costumes dos seus sub-
ditos relaxados com a passada desordem. Para este effeito
expoz o piedosíssimo Monarca ao nosso Sanctissimo Pa-
dre Pio V I I . , por via do Cavalheiro D. Antônio de Var-
gas, sujeito do maior zelo, e seu Ministro Plenipotenciario
juncto da Sancta Sé, com quanto ardor desejava que se
applicassem saudáveis remédios a este mal cada dia mais
grave; e que naõ lhe parecendo haver outro mais efficaz
que o de imbuir nos tenros ânimos dos meninos de ambos
os sexos os saÕs e iocorruptos princípios do Catholicis-
mo, teria adoptado o meio de estabelecer Casas publicas de
Educação, de que carecem muitas Cidades, se as passadas
desgraças naõ tivessem feito impossível attender a gastos.
ta6 crescidos ; que por esta consideração tinha procurado
excitar os Religiosos Regulares, os quaes haviam já dado
principio ao seu trabalho na instrucçaõ dos meninos ; mas
que desejava S. M. animar as Sagradas Virgens á educa-
140 Politica.
çaõ das meninas, para cujo effeito pedia á Sé Apostólica
que concedesse faculdades aos Arcebispos, Bispos, e mais
Prelados das Hespanhas para estabelecerem Escolas nas
paragens e Mosteiros que julgassem conveniente, ficando
sempre em vigor os votos com que aquellas virgens se con-
sagraram a Deos, e as Regras de cada Ordem Religiosa,
dispensando somente as occupadas nestas Escolas naquel-
les artigos, cuja rigorosa observância poderia ser obstá-
culo ao exercicio do ensino.
Esta ardente caridade e zelo de taõ grande Rey, que
tem dado tantas e taõ singulares provas do seu Catholi-
cismo e do seu respeito á Sancta Sé, communicada ao
nosso Santo Padre em 29 de Março, do presente anno, pelo
fnfrascrito Sub-Secietario da Sagrada Congregação dos
Eminentíssimos e Reverendissimos Cardeaes da Sancta Ig-
reja Romana, qne tracta dos assumptos e consultas
dos Bispos e Regulares, nao podia deixar de mover o ani-
mo do Summo Pontífice ; e Sua Sanctidade, approveitando
esta occasiaõ de adherir a seus rogos, mandou escrever-
vos esta Carta para vos communicar que Sua Sanctidade,
depois de haver ponderado a petição d'El Rey Catholico,
tendo em consideração as circumstancias dos tempos, lu-
gares, e outras, e naõ sendo menos ardentes os desejos de
sua Beatitude de vêr restabelecidos em Hespanha os an-
tigos bons costumes, tem determinado conceder por meio
de vós faculdades aos Arcebispos, Bispos, e mais Prela-
dos, como realmente volla da, para que possais communi-
car e dar aos sobredictos Arcebispos, Bispos, e mais Pre-
lados, a cujo cuidado estaõ confiados os Claustros das Re.
ligiosas nos dictos Reynos, todas as faculdades conveni-
entes e necessárias, para que estas possam e devaõ estabele-
cer Escolas em seus Mosteiros a vosso arbítrio, do modo e
forma que prescre verdes em quanto durar a necessidade, e
naquellas paragens e Conventos era qne julgardes no Se-
nhor serem convenientes; com tanto que permaneçaó in-
7
Politica. 141
tetros e invioláveis os votos solémnes e as regras de cada
Ordem Religiosa, exceptuando aquelles artigos que, po-
dem accommodar-se com o trabalho da educação, dos
quaes consente Sua Sanctidade que (precedendo as dero-
gações opportunas e necessárias, e dignas de especial
mençaõ) possais isentar somente aquellas Religiosas, que
se oecupam diária e cuidadosamente na educação, dis-
pensando-as do Officio divino com commutaçaõ em algum
cutro exercício espiritual, e devendo-se entender estas
dispensas só naquelles dias, em que se empregarem na
educação das discípulas.
Procurareis exceptuar deste encargo aquelles Mosteiros,
que por seus votos particulares de observância mais rigo-
rosa, por costume approvado, por preceitos ou por outras
causas estaõ de todo separados do tracto secular • porém
se nesses sítios naõ houver outros Couventos aptos para o
effeito, e a necessidade o exigir, podferáõ também as suas
Religiosas empregar-se na Educação.
Encarregareis aos mencionados Arcebispos, Bispos, e
prelados que animem as sagradas virgens a esta obra, que
abrange os mysterios da Fé, a formação dos costumes, e
rudiraentos dos lavores do sexo taõ necessários na Socie-
dade, fazendo-lhes entender quaõ agradável he esta em-
preza ao Suramo Pontífice e ao Rey, o qual, naõ menos
por sua magnanimidade e illustrada Religião, que pêlo
bem dos seus Subditos, cuidará em que, corregidos os cos-
tumes, e restabelecidas as cousas no fiorentissimo Reyno
das Hespanhas, voltem todas as Religiosas à completa ob-
servância de seus respectivos institutos.
Espera finalmente S. Sanctidade que os mesmos Prela-
dos conseguirão com a sua prudência, que as Religiosas
entendam, que, dedicando-se por mandado, e com animo
tranquillo ás oecupações de Martha, nada teraõ perdido
dos méritos de Maria, &c.
Visto e approvado pelo meu Real Conselho este Decreto
VOL. X V I I . N o . 99. T
142 Politica.
tenho determinado se ponha em pratica para se conseguirem
os expressados fins. Assim o tereis entendido, o commu-
nicareis a quem competir, e disporeis na parte que vos
toca o necessário ao seu cumprimento. Rubricado por
S. M. No paço a 8 de Julho, de 1816.
A. D. P E D R O CEVALHOS.

INGLATERRA.

Tractado de paz com o Rajá de Nepaul.


Tractado de paz, entre a Honrada Companhia das ín-
dias Orientaes, e Maharajá Bikam Sah, Rajá de Nepaul;
ajustado pelo Ten.-coronel Bradshaw, por parte da Honra-
da Companhia, em virtude dos plenos poderes, que lhe
foram concedidos por S. Ex a . o Muito Honrado Francisco
Conde de Moira, Cavalheiro da nobilissima Ordem da
Jarreteira, um dos do Honradíssimo Conselho Privado de
S. M., nomeado pela Corte dos Directores da dieta Hon-
rada Companhia para dirigir e superintender todos os seus
negócios nas índias Orientaes:—e pelo Seree Gooroo
Gujraj Misser, e Chunder Seekur Opadeeah, da parte do
Marajá Griraaur Jode Bikram Sah Behauder Shumshees
J u n g ; em virtude dos poderes, que para esse effeito lhes
fôram concedidos pelo dicto Rajá de Nepaul:
Por quanto se havia rompido a guerra entre a Honrada
Companhia das índias Orientaes, e o Rajá de Nepaul: e
porquanto estaõ as duas partes mutuamente dispostas a
restabelecer as relaçoens de paz e amizade, que antes das
ultimas differenças haviam por longo tempo subsistido
entre os dous Estados, se concordou nos seguintes termos:
A R T I G O 1. Haverá perpetua paz e amizade entre a
Honrada Companhia das índias e o Rajá de Nepaul.
2. O Rajá de Nepaul renuncia as suas pretençoens ás
terras, que fôram objecto de discussão entre os dous Esta-
Politica. 143
dos, antes da guerra, e reconhece o direito da Honrada
Companhia á Soberania daquellas terras.
3. O Rajá de Napaul cede, por este acto, á Honrada
Companhia das índias Orientaes, em perpetuidade, todos
os territórios abaixo mencionados ; a saber :
Primeiro. Todas as terras baixas, entre os rios Rair e
Rapti.
Segundo. Todas as terras baixas (á excepçaõ do
Bootcoul Khaas) que existem entre o Rapti e o Gunduck.
Terceiro. Todas as terras baixas entre o Gunduck e o
Coosah, aonde se tem introduzido a authoridade do Go-
verno Britannico, ou onde está ao ponto de ser introduzida.
Quarto. Todas as terras baixas entre o rio Meilchec e
o Teesah.
Quinto. Todos os territórios da parte de dentro das
colinas, para o nascente do rio Meilchec, incluindo o forte
e terras de Naggree, e o passo de Nagarcote, que vai de
Mornng para as colinas, junctamente com o território que
existe entre aquelle passo e Naggree. O dicto território
será evacuado pelas tropas de Goorka dentro em 40 dias
da data desta.
4. Para o fim de indemnizar os Cheler c Barahdars do
Estado de Nepaul, cujos interesses padecem pela alienação
das terras cedidas no artigo precedente; o Governo Bri-
tannico convém em dar pensoens até á somona total de
duas laças de rupias por anno aquelles chefes que escolher
o Rajá de Nepaul, e nas proporçoens que o dicto Rajá
fixar. Logo que se faça a escolha, se expedirão Sunnunds
sob sêllo e signal do Governador General, para as respec-
tivas pensoens.
5. O Rajá de Nepaul renuncia, por si, seus herdeiros e
successores, toda a pretençaõ ou connexoens, com os
paizes que existem ao poente do rio Kali; e se obriga a
naõ ter negócios alguns com aquelles paizes, nem com seus
habitantes.
T 2
144 Politica.
6. O Rajá de Nepaul se obriga a naõ molestar ou per-
turbar o Rajá de Siccem, na posse de seus territórios; e
convém em que, no caso de se levantarem algumas disputas
entre o Estado de Nepaul e o Rajá de Siccem, referir-se á
arbitraçaõ do Governo Britannico, a cuja decisaõ o Raja
de Nepaul se obriga a submelter-se.
7. O Rajá de Nepaul se obriga, por este acto, a naõ
receber nem reter em seu serviço algum vassallo Britannico,
nem subdito de algum Estado Europeo ou Americano, sem
o consentimento do Governo Britannico.
8. Em ordem a segurar e melhorar as relaçoens de ami-
zade e paz, estabelecidas por este entre os dous Estados*
fica concordado, que residirão nas respectivas Cortes,
ministros acreditados de cada uma das partes.
9. Este tractado, que consiste em nove artigos, será
ratificado pelo Rajá do Nepaul, dentro em quinze dias da
da data deste ; e as ratificaçoens seraõ entregues ao Ten.-
coronel Bradshaw, que se obriga a obter e entregar ao
Rajá, a ratificação do Governador-general, dentro em
vinte dias; ou antes »e for possivel.
Dado em Segowley, aos 2 de Dezembro, de 1815.
L . S. L Sêllo verme-} P A R I S BRADSHAW, Ten.-Cor.
L . S.< lho do Rajá b. GOOROO G U J B A J MISSER.
L . S . / d e Nepaul. \ C H U N D E R SECKUR O P A O E E A H .

Publicado por Ordem de S. Ex 1 . o Governador-gene-


ral, cm Conselho.
(Assignado) J. ADAM, Secr. do Governo.

ORDEM G E R A L .

Por S. Ex". o Governador-general em Conselho,


Forl William, 15 de Maiço ? 1816.
O Governador-general, em Conselho, he servido orde-
nar, que se dê uma salva Real, e três descargas de mus-
Politica. 145
queteria, em todos os postos principaes do exercito, em
honra da conclusão da paz entre o Governo Britannico e o
Rajá de Nepaul.
(Assignado) J. ADAM, Secr. do Governo.

SUÉCIA.

Falia de S. A. R. o Principe da Coroa, no encerramento


da Dieta, em Cristiania, aos 6 de Julho, 1816.
SenhoreB Membros do Storthing 1
Tem decorrido um anno, desde o dia em que, em virtude
da Constituição, vos ajunctastes para preencher as funcço-
ens, a que tostes chamados pela escolha de vossos conci-
dadãos. A assemblea nacional de Norwega tem declarado,
que estaõ acabados os seus trabalhos ; e eu satisfaço a um
dos meus deveres, que he mui agradável ao meu coração,
expressando aqui os sentimentos d'El Rey, para com o leal
povo Norweguez.
Também me he mui agradável, Senhores, o ter de annun-
ciar-vos da parte de S. M., que, continuando a estar em
paz com todas as potências, as relaçoens de amizade, que
nos unem com os Estados mais visinhos, Rússia, Prússia,
e Inglaterra, adquirem de dia em dia maior vigor. Vos
sabeis, de maneira mui particular, as relaçoens que tendes
com o Governo, de quem fostes antigamente subditos.
He com prazer que vos informo, que a negociação com
Dinamarca, a respeito dos brigues de guerra, e paquebotes,
foi concluída pelo Almirante Fabricius, com plena satis-
facçaõ de ambos os Governos. O Commissario üinamar-
quez rennnciou as pretençoens, que tinha Dinamarca aos
vasos de que se tracta, em consideração de uma somma de
dinheiro, cujo primeiro pagamento se fará do fim do anno
de 1817.
El Rey tem visto com satisfacçaõ a confidencia com que
os Norvegas pegaram na maõ fraternal, que lhe apresenta-
146 Politica.
ram os Suecos. Algumas pessoas impacientes esuspeitosas
tinham presumido, que naõ poderia subsistir por um anno
aquella perfeita harmonia, entre El Rey e a Assemblea dos
Representantes. Vós tendes provado o contrario. Vós
tendes provado, que a boa fé e a justiça produzirão sempre
unioens duráveis.
El Rey estava apercebido das difficuldades, que vós
encontrastes, na nova entrada que tinheis de trilhar. O pa-
triotismo saudou com ardencia a aurora da liberdade
Norwegueza ; porém éra somente pelo progresso do
tempo, que se podiam unir as liçoens da experiência, e o
triumpho da razaõ sobre os prejuizos. Vós tendes ultima-
mente adquirido a faculdade de fallar sobre os vossos di-
direitos. Vos tendes discutido os vossos interesses e pre-
rogativas sociaes; e devemos esperar, que felizes resul-
tados sejam, para o futuro, o fructo de vossos trabalhos.
O meu primeiro desejo foi participar delles com vosco;
peréin a minha auzencia, oceasiouada pelo desejo de dar-
vos uma prova da minha estima e confiança, deve ter pro-
vado, ao mesmo tempo, aquelles que poderam invejar a
vossa liberdade presente e o vosso destimo futuro, quam
longe estava o Governo de desejar exercitar algbraa in-
fluencia em vossas deliberaçoens.
O primeiro dever dos Representantes de um povo he,
conhecer e apreciar devidamente a sua situação. Naõ nos
enganemos a respeito da nossa; pelo que toca os re-
cursos que o paiz nos apresenta. O producto das nossas
minas e dos nossos matos he limitado : o nosso commercio
padece obstáculos; e he com difficuldade que podemos
obter da terra colheitas incertas. E no entanto ; quantos
objectos prescriptos pela humanidade, patriotismo, pru-
dência, e até pela necessidade, faltam ainda por completar ?
Deste gênero saõ os hospitaes nas provincias : um hospital
para os defensores da pátria, a cujos avançados dias hc do
nosso dever prestar consolação e conforto; armazéns paro
Politica. 147
nos proteger contra os eflèitos de más colheitas, e para
nos cubrir contra acontecimentos externos. Quanto aos
meios de obter estas cousas, confiemos naquella Providen-
cia, que, na uniaõ das naçoens Scandinavias, nos deo o
primeiro penhor de sua Divina protecçaõ.
A natureza, negando aos filhos do Norte as vantagens,
que concedeo aos habitantes de climas mais brandos, com-
pensou isto por dons preciosos—energia d'álina, e amor
da liberdade. Para guiar a estes nobres objectos ella no-
meou a sobriedade, a industria e o trabalho; c para com-
pletar os seus benefícios, faz retumbar em seus coraçoens
aquella vóz interna, mil vezes repetida pelos túmulos, e
pela lembrança do seus maiores, que lhes grita ; " Sede
pobres, mas independentese respeitados." Possa esta voz
ser sempre sagrada para vós 1 Entaõ achará a Liberdade
sempre herdeiros no Norte ; entaõ a paz no interior, e o
no exterior, seraõ a herança de vossos descendentes, muito
depois de vós havereis deixado de existir. A Deus Se-
nhores.
Resuma, cada um de vós, voltando para suas casas, as
tuas antigas occupaçoens , sejam ecclesiasticas, adminis-
trativas ou judiciaes ; tornem os cultivadores, a empregar-
se novamente em tudo quanto diz respeito á agricultura;
e o negociante nos meios de fazer prosperar o seu com-
mercio. Os meus bons desejos vos seguirão em vossas oc-
cupaçoens, e rogo a Deus que vos guie, com sua poderosa
eprotectora maõ.

Resposta da Dieta.
Senhor!—Chegou o momento, que ha tanto tempo éra
o objecto dos desejos do Naçaõ, e de Storthiug : termi-
naram as nossas deliberaçoens.
He com uma boa fe cordeal, que temos constantemente
trabalhado em dar aos negócios públicos um resultado,
148 Política.
conforme aos desejos, e communs esperanças d' El Rey e
da Naçaõ. Tivemos sempre em vista este objecto, naõ
obstante os obstáculos, que se nos opposéram pelas dificul-
dades das matérias, pela sna complicação, pelas novas cir-
cumstancias e formas a que éra necessário attender. Forti-
ficados pela consciência da pureza de nossas intençoens, e
pelo zelo que temos empregado no preenchimento de
nossos deveres para com a nossa amada pátria, e para
com um Governo sábio e paternal, submettemos os nossos
trabalhos ao juizo de nossos contemporâneos, e da poste-
ridade.
Ainda que tivéssemos de lamentar, que algumas de nossas
resoluçoens, que nós julgávamos de considerável importân-
cia, naõ houvessem tido naquelle momento o desejado
effeito, comtudo lisongeamo-nos de ter feito alguma cousa
para o bem do Reyno.
A constituição, que serve de garantia a nossa liberdade
legal; a uniaõ da peninsula Seandinavia debaixo de um
sábio Governo, que assegura a nossa condição politica; as
bases, que temos trabalhado por fixar, de parte dos nosso-
arranjamentos internos ; e as medidas, que podemos espe-
rar para o futuro, quando as assembléas nacionaes tiverem
adquirido maior experiência, nos fazem esperar a futura
felicidade da Norwega. Ouça o Ceo os nossus rogo!
Vós, Senhor, segundo o desejo da NaçaÕ, oecupaes
presentemente o lugar de Vice Rey ; e vós nobre Prín-
cipe, que segundo as esperanças, que S. M. nos tem dado,
em breve o exerci tarei s ; estais ao ponto de voltar para nm
povo composto de nossos irmaõs. O pezar, que temos, de
naõ ver mais prolongada a vossa estada entre nós, he com-
pensado somente pela convicção de que vós sereis, juncto
ao throno, o interprete da Naçaõ, e o protector de seus
direitos.
Concidadãos, Membros doStorthing;—Depois de haver
terminado os nossos difficeis e importantes trabalhos esta-
7
Politica. 149
mos aos ponto de voltar para nossas casas. Esforceroonos
cada um de nós, por varonil comportamento, e prudentes
discursos, em derramar em torno de nós o respeito ás leys,
e ordenanças do Estado; e a confiança e affeiçaõ aos que
o governam. Porém, sobre tudo, demos as graças ao Ora-
nipotente, que nos tem permittido gozar aquella paz e
felicidade, que tantos outros paizes tem desejado em
vaõ.
Deus guarde a El Rey e ao seu Reyno.

WURTEHBERO.
Memorial dos Estados a Sua Majestade.
Temos sido informados com certeza, de que Vossa Ma-
jestade tem ordenado uma leva de recrutas de 900 homens.
Esta ordenação foi expedida, sem que os Estados tivessem
nenhuma communicaçaõ official délla, em profunda paz,
sem nenhuma razaõ plausível; a tempo em que está ainda
em pé uma força militar, calculada para otempo de guerra,
eque excede muito os meios do paiz: quando os tra-
balhos do campo requerem imperiosamente os braços de
tados os trabalhadores ; quando tudo indica a necessidade
de diminuir as despezas do Estado, e quando a miséria,
que existe entre o povo, he tal, que he impossível descre-
velia. Elles souberam com grande susto, que a sua penú-
ria, que parecia haver chegado ao seu maior auge, havia
ainda de ser augmentada.
Os elementos, de dia em dia, privam o cultivador do
prospecto, que até aqui o tinha snpportado prevenindo a
desesperaçaõ; mas estas misérias augmentam diaria-
mente, e excitam o temor da mais tremenda extremi-
dade. Em taes circumstancias os abaixo assignados naõ
podiam ter esperado tal ordenação : nella vêm uma nova
e triste prova, que os convence da pouca razaõ que tinham,
para fomentar, no espirito dos povos, esperanças de al-
VOL. XVII. No. 99. u
150 Politica.
<ruma mitigação em sua sorte ; e de que voltasse outravez
a ordem politica solidamente confirmada ; porque, ainda
que se debandasse igual numero de tropas, o povo via,
que, depois desse debandamento das tropas, as que ficavam
excediam muito os meios do paiz; e naõ podia assim ficar
satisfeito de que esse beneficio naõ havia de ser inutilizado
pela medida de novas levas de gente. Em conseqüência,
os Estados se vem obrigados a rogar encarecidamente a
S. M., que se sirva condescender em revogar a dieta
ordenação.
H e verdade que V- M. declarou aos abaixo-assignados,
pelo rescripto de 24 de Junho," que se naõ receberia, nem
se responderia a nenhuma petição ou representação, que elles
apresentassem, a naõ ter por objecto o seu peculiar negocio,
que he a Constituição." Porém naõ obstante que essa
declaração seja de taõ pouca satisfacçaõ aos Estados
assim como a todo o povo, nem por isso deixam os abaixo-
assignados de se supporem desligados das obrigaçoens,
que os seus deveres lhes impõem. Se elles se deixassem
ficar mudos expectadores da execução da sobredicta me-
dida, elles teriam sido tanto mais culpados da violação da-
quelles deveres, quanto estes tem sido reconhecidos da
forma mais authentica, tanto por Vossa Majestade e pelo
povo, como por seus representantes. No rescripto de 21
de Julho do anno passado, V. M. expressou que naõ tinha
duvidas, a respeito do direito dos abaixo assignados, em
protestar quanto ás levas de tropas : em outro rescripto da
mesma data, V. M. até declarou da maneira mais formal,
que as negociaçoens entre o Governo e os Estados, sobre as
queixas do paiz, eram independentes das discussoens sobre
a Constituição ; e naõ deviam soffrer demora. Os direitos
do povo, e os dos Estados, de fazer representaçoens ante o
vosso throno, naõ precisam de novas provas. Se, peta
nova convocação, dos Estados, assim como pelos rescriptos
de Vossa Majestade de 16 de Outubro, e 13 de Novembro,
Politica. 151
de 1815, o povo tinha de ser abandonado ao poder arbi-
trário; se os seus representantes naõ separarem os direitos
dos deveres ; se, ainda mesmo sem novo compacto consti-
tucional, elles naõ podem oliiar para o infeliz povo Wur-
temburguez como um povo sem direitos; se, por todos os
seus procedimentos, naõ só os que se referem meramente
ás negociaçoens sobre o restabelicimento da Constituição,
elles tem trabalhado por manter um estado de direitos, que,
até independentemente de toda a constituição primitiva,
existe entre todo c qualquer Governo e o povo, que he
representado por Estados :—naõ se deduz daqui nenhum
fundamento plausível para aceusar a sua assemblea de ter
espirito revolucionário.

HANOVER.
Patente do Principe Regente, pela qual declara a cessaõ
do Ducado de Lauenbvrgo á Prússia.
George, Principe Regente em nome e a bem de Sua
Majestade George III, pela graça de Deus, Rey do Reyno
Unido da Gram Bretanha e Irlanda, Rey de Hanover,
Duque de Brunswick e Lunebuig, &c.
Na final libertação da Alemanha de um jugo estrangeiro,
effectuada pelo auxilio das Potências Alliadas, era o nosso
mais anxioso desejo tomar a unir debaixo do nosso sceptro
todas as possessoens da nossa casa em Alemanha, e con-
servallas inseparáveis; e para poder remunerar os vasallos
dellas, pela lealdade e affeiçaõ, de que elles nos tem dado
as mais assignaladas provas, mesmo debaixoda opressão
de uma occupaçaõ estrangeira. Este esforço, que,
em todos os tempos, temos preferido ao engrandeci-
mento do território de nossos Estados, tinham também
por seu objecto especial a conservação indivisível do
ducado de Saxe-Lauenburg, cujos habitantes tinham
sempre, e especialmente nos últimos tempos calamitosos,
u2
152 Politica.
debaixo de um jugo estrangeiro, dado indubitaveis provas
de sua devoção e aflecto a nós e a nossa Casa: e para o
alcance deste objecto nós o fièrecemos promptamente o fazer
todos os sacrifícios, que fossem compatíveis coma verda-
deira felicidade dos nossos Estados Alemaens como um
todo.
Como, porém, he uma das conseqüências das diversas
mudanças, que tantos dos Estados Europeos tem sido
obrigados a soffrer, pelo aperto das circuinstâncias ; que,
para a confirmação das futuras relaçoens territoriaes da
Alemanha, nem se desprezassem as opinioens das Potências,
com cujo auxilio se libertou o nosso paiz de um jugo es-
trangeiro ; nem que se separassem os interesses da Ale-
manha, e seus differentes Estados, do que éra necessário
para a execução dos differentes tractados concluídos entre
as Potências Estrangeiras, e para a manutenção da tran-
quillidade geral, que delles dependem ; assim dahi se
seguio, que ficasse connexa com as importantes conseqüên-
cias da felicidade de nossos outros Estados da Alemanha,
em geral, a cessaõ ao Rey de Prússia da quella parte do
Ducado de Saxe-Lauenburg, que fica na margem esquerda
do Elbe. Este consentimento de nossa parte foi tam im-
periosamente necessário, que qualquer ulterior demora, que
nisso puzessemos, naõ seguraria aos nossos vassallos desta
parte a sua connexaõ com o nosso sceptro.
Nestas circumstancias, e convencido de que he do nosso
dever fazer este sacrifício, por mais árduo que elle seja a
nosso coração, para utilidade do todo, temos resolvido, em
conformidade de um tractado, concluído com El Rey de
Prússia aos 29 de Maio do anno passado; e ao depois
modificado por outro tractado de 23 de Septembro se-
guinte, ceder, e pôr á disposição de S. M. Prussiana,
aquella porçaõ do Ducado de Lauenburg situada na mar-
gem direita do Elbe, á excepçaõ do Cantaõ de Nenhaus e
do território incluído entre elle e Mecklenburg; por quem
Politica. 153
elle tem de ser immediatamente cedido e traspassado a
Sua Majestade El Rey de Dinamarca.
Temos ao mesmo tempo estipulado a manutenção de
todos os actuaes direitos e privilégios da dieta porçaõ ce-
dida do ducado de Lauenburg • e particularmente o recesso
concluído com os Estados delle aos 15 de Septembro, de
1702, e ratificado por S. M. El Rey aos 21 de Junho de
1765; assim como também, que o novo oecupante tome
sobre si as dividas do Estado, e o prompto e justo paga-
mento dos gastos e dividas contrahidas durante a occupa-
çaõ dos Francezes.
Temos dado commissaõ e poderes a Joaõ Christiano
Duriug, Commendador da nossa Ordem dos Guelfos, para
que ponha em execução a sobredicta sessaõ, e para que,
em nosso nome absolva os Estados e habitantes, era geral,
do juramento de fidelidade e homenagem, porque ate aqui
se achavam ligados á nossa casa ; e ao mesmo tempo que
elle lhes recommenda, que mostrem a mesma fidelidade
e affeiçaõ ao seu novo Governante, que até aqui tem mos-
trado a nós e á nossa Casa, tios lhes communicamos a se-
gurança de que a lembrança de sua lealdade e effeiçaõ a
nós e a nossos antepassados, nunca se riscará de nossos
coraçoens.
Por ordem especial de Sua Alteza Real o Principe
Regente.
C. Von DECXEN,
Von BRBMER,
Von ABNSWALDT.
Hanover, 16 de Julho, 1816.

PAIZES-BAIXOS.
Memorial dos Estados Provinciaes de Liege, á Segunda
Cornara dos Estados Geraes.
Altos e Poderosos Senhores 1—do momento em que a at-
tençaõ dos Estados Geraes he chamada para a organiza-
154 Politica.
çaõ do systema de tributos, no momento em que El Rey
submette á vossa deliberação os planos de seu Ministério,
sobre este importante e delicado ramo da administração, he
do dever daquelles, que S. M. tem chamado a formar os
Estados Provinciaes, o apresentar-vos o tributo de suas
meditaçoens, revelar-vos as suas anxiedades, e fazer-vos
conhecer os desejos do povo. Este dever he também uma
das mais importantes funçocns constitucionaes dos Estados
Provincionaes; e julgamos que, preencbendo-o, conre-
spondemos á confiança de S. M. De todos quantos re.
speitos se lhe podem prestar, a verdade he a que elle
dá mais valor, e que he mais agradável ao seu co-
ração.
Estamos convencidos da necessidade de supprir ás ne-
cessidades do Estado, e invariavelmente daremos o ex-
emplo dos sacrifícios : mas, a fim de que a divida dos
cidadãos para com o Estado seja paga sem queixumes,
he necessário que se observe a ordem natural das contri-
buiçoens, e que a sua repartição seja feita entre todos os
membros do Estado com aquella igualdade, sem a qual
naõ pôde haver justiça. He neste ramo especialmente,
que o Governo se deve mostrar pay commum de todos
os cidadãos, e trabalhar pelos convencer de que, vi-
vendo debaixo das mesmas leys, tem direito ás mesmas
vantagens.
Nesta matéria dos tributos, ha um pequeno numero de
ideas simplices, de principios fundamentaes, de que se
naõ pode o Estadista afastar sem grandes inconvenientes.
Assim, devem impor-se tributos aos productos estrangeiros,
em preferencia aos nacionaes : os objectos de luxo e
mero commodo, antes que os de primeira necessidade ;
e também, ao mesmo tempo que pôde submetter-se aos
tributos o que entra no consuromo doméstico, os artigos
de exportação e o alimento da industria devem ficar
izentos: estes saõ os únicos meios de obter um balanço
Politica. 155
favorável. A questão que se offerece agora he, se o plano
do Ministério he ou naõ conforme a estas ideas e prin-
cipios ? Propôrem-se segeitar o sal a um direito de mais
de 3 florins por 100 libras: a cerveja a um tributo de 1
florim e 14 soldos por hectolitro : e vinho a 24 florins por
pipa : os espíritos ardentes estrangeiros a 40 florins ; e os
nacionaes a 53 florins por pipa ; ao mesmo tempo que o
chá, café, assucar, algudaõ, cacáo, e outros productos
coloniaes estrangeiros saõ quasi izentos de direitos.
Tal systema nos parece destructivo de toda a confiança,
pernicioso á agricultura e ao commercio : parecenos cal-
culado a nutrir uma fatal rivalidade, encadeara industria
e fazer o nosso terreno e a nossa industria tributários aos
estrangeiros. Em primeiro lugar carrega particularmente
sobre o consummo de algumas das provincias do Reyno,
em quanto outras ficam quasi izentas. Em um paiz de
certa extençaõ, o consummo varia, segundo os custumes e
usos : a sciencia da legislação consiste, em pezar devida-
mente estas matérias; taxando os artigos por tal maneira,
que se possa manter a igualdade ; e que a differença das
necessidades dos habitantes naõ seja causa da exempçaõ
de alguns e de sobrecargos em outros. A cerveja he um
artigo de uso geral, nas províncias do Sul: o chá he prin-
cipalmente consummido nas provincias do Norte : entaõ
i porque se naõ ha de establecer ura balanço, taxando o chá
ea cerveja na mesma proporção, em relação ao seu valor. ?
I Porque se naõ ha de lançar antes uma parte destes ex-
orbitantes direitos sobre os productos coloniaes, que está-
vamos acustumados a comprar pot taõ alto preço, em vez
de carregar com elles a cerveja, o sal, e outros artigos de
primeira necessidade, como se pretende no plano dos Mi-
nistros ? i Porque ha de obter uma izençaõ, que nada
justifica, o tabaco, que he um artigo, cujo uso he mera
creatura do habito, e naõ da necessidade ?
O relator do plano dos tributos naõ pôde dissimular,
7
156 Politica.
que seria próprio favorecer a uso da cerveja, bebida sau-
dável, e pouco própria a fomentar o excesso da bebedice:
l como acontece, entaõ, que a par desta judiciosa obser-
vação se acha um regulamento, que eleva o tributo sobre a
cerveja a mais de 50 por cento de seu valor médio nas
provincias? i He a isto que chama favor ? Este direito
he exhorbitante ; assim como os outros, e o he em tal grão,
que o resultado enganará os que o propuzéram : elle
acabará interiamente com as fabricas de cerveja, naquellas
partes, aonde os direitos actuaes, posto que muito menores,
ja as tinham diminuído bastante.
O imposto sobre o vinho hede 40 por cnato do seu valor
médio : a genebra do paiz cento por cento de seu valor
ordinário. A proposição de taõ pezados direitos só se
pôde explicar pelo total esquecimento de grade numero de
artigos, cujo consummo he menos necessário á vida; e
parece que o objecto destas medidas he concentrar as con-
tribuiçoens, em vez de as estender, e de as fazer communs
a todos. Porem ao menos naõ se devia perdoar aos espí-
ritos ardentes estrangeiros, nem deviam estes receber
alguma vantagem, na competência, que éra inevitável; e
com tudo, neste plano, elles tem a quarta parte de menos
nas impossiçoens ; e a genebra fabricada nos paizes vi-
zinhos ao Reyno, sendo admissível, como os espíritos ar-
dentes estrangeiros, ameaça, com uma repentina e desas-
trosa annihilaçaÕ, os lambiques nacionaes, tam úteis a nossa
agricultura.
Propôem-se, contra o exemplo de todas as naçoens es-
trangeiras, e particularmente da Inglaterra, impor um di-
reito sobre o carvaõ, o que causaria rápida diminuição em
nossas fabricas. De toda a parte se tem feito representa-
çoens ; porém a Provincia de Liege deve especialmente
temer as calamidades, que resultariam deste imposto. As
manufacturas de pannos, de pregos, de armas, e de ferro
em geral, as de pedra hume, cobre, e zinco, constituem
Política. 157
haõ somente a riqueza, mas a existência de nossa provin-
cia ; e todas estas forjas, todas estas fabricas, dependem
do uso do carvaõ. Augmentando-se o preço daquelle
combustível (e tal seria o effeito do proposto tributo) rora-
per-se-hia toda a balança, e se daria a superioridade aos
estrangeiros. O Reyno, cercado por industriosas provin-
cias, veria passar para suas maõs o capital das fabricas, e
se substituiria ao que presentemente he objecto de lucrativa
exportação, uma ruinosa importação. Este engano, em
matérias de tam grande interesse, he inconcebível em um
século, em que a competência da industria he um dos mais
csienciaes ramos da política ; e quando o gênio dos ho-
mens se tem applicado, com tam bom successo, em sup-
prir as faltas da natureza, c as desvantagens da posição.
A Inglaterra faz esforços perpétuos, para supprir, pelos
melhoramentos nas artes mechanicas, o que lhes nega o
seu terreno e sua população : o carvaõ, por meio de seus
engenhos de vapor, tem vindo a ser o movei universal de
suas fabricas, i E quererão os povos dos Paizes-Baixos
privar-se dos recursos, que se apresentam á sua industria,
pela fácil extracçaõ do baixo preço do carvaõ? Se a Ze-
lândia, a Hollanda, c Frizelandia tiram a sua opulencia
do commercio e navegação, a Provincia de Liege, e algu-
mas outras da Belgia, devem a sua prosperidade à sua in-
dustria fabricante.
Estes dous interesses tem igual direito á protecçaõ;
porque saõ igualmente preciosos ao Estado : com esta
differença porém, que o commercio marítimo deve sempre
ser precário, em quanto existir uma naçaõ superior no
mar: ao mesmo tempo que as nossas fabricas, fundadas
nos recursos de nosso território, e na industra de seus ha-
bitantes, apresentam uma baze muito mais solida.
Estas penosas verdades nos fôram extorquidas, por um
sentimento de dever, pelo conhecimento das necessidades
do povo, pelo desejo de prevenir as calamidades, qne um
VOL. X V I I . N o . 99. x
158 Commercio e Artes.
máo systema deve ocasionar, e especialmente pela necessi-
dade de estabelecer o Reyno sobre a baze de uma uniaõ
franca e desinteressada. Esta uniaõ só pôde ser estabele-
eida e mantida por uma igual distribuição dos encargos
públicos : os zelos perturbam as familias, assolam as ci«
dades e solapam os fundamentos sobre que descança a se-
gurança do Estado. A uniaõ de todos os vassallos he a
verdadeira garantia da prosperidade das naçoens.

COMMERCIO E ARTES.

Edictal da Juncta do Commercio, sobre as reclamaçoens


que se haõ de fazer da França.
Lisboa, 26 de Julho.
]\_' REAL Juncta do Commercio, Agricultura, Fabricas,
e Navegação, baixou o seguinte
AVISO.
Havendo Sua Majestade authorisado o seu Ministro,
ou Encarregado de Negócios na Corte de Paris, para so-
licitar do Governo d ' E l Rey Christianissimo a devida in-
demnisaçaõ dos interessados nos Cascos, e Cargas dos na-
vios Portuguezes, que no anno de 1806, foram queimados
pela Esquadra do Almirante Francez Willaumer com o
objecto de evitar, que o rumo da mesma Esquadra fosse
denunciado ás esquadras lnglezas, que decorriam o Ocea-
no em seu alcance, tendo intervindo naquella occasiaõ
promessa do referido Almirante de serem os respectivos
donos, e carregadores dos navios queimados, plenamente
indemnisados pelo Governo de França, e sendo taes in-
Commercio e Artes. 159
demnisações comprehendidas, por paridade de razaõ, nas
do §. 9°. do Art. 2*. da Convenção de 20 de Novembro,
de 1815, relativa ao exame, e liquidação das reclamações
a que tem direito os Vassallos das Potências Alliadas con-
tra a França : He o Mesmo Senhor Servido Ordenar, que
a Real Juncta do Commercio, Agricultura, Fabricas, e
Navegação proceda quanto antes ás diligencias necessá-
rias, a fim de se conhecer, verificar, e legalizar com a con-
veniente authenticidade o valor do Casco, e Carga de cada
uma das embarcações Portuguezas, que assim foram quei-
madas, cumprindo, que á medida que os interessados forem
apresentando á Juncta os respectivos documentos em de-
vida fôrma, vaõ sendo estes immediata, e suecessi vãmente
remettidos a esta Secretaria d'Estado, para serem trans-
mittidos ao dicto Ministro ou Encarregado de Negócios.
O que participo a V. S*. para o fazer assim presente ua
Joncta, e se dar à execução.
Deos guarde a V- S".
D. M I G U E L PEREIRA F O R J A Z .
Senhor Desembargador
JOAÕ DE SAMPAIO F R E I R E DE A N D R A D E .
Palácio do Governo, em 17 de Julho, de 1816.
Em observância do sobredicto Aviso, todos os interes-
sados devem concorrer no mesmo Tribunal, com a brevi-
dade possivel, com os seus documentos, e reclamações.
E para assim constar, se mandaram affixar Editaes.
JOSÉ ACCURSIO DAS N E V E S .
Lisboa, 24 de Julho, de 1816.

Observaçoens sobre o Edictal acima.


Pelo tractado de Paris, de 30 de Maio, 1814, artigos
18 e seguintes (veja-se no Corr. Braz. vol. xii. p. 799,) se
ajustou, que o Governo Francez pagaria a todas as Po-
tências Alliadas as sommas, que os anteriores Governos da
x2
160 Commercio e Artes.
França lhes devessem, a titulo de contracto, subsídios,
&c.
Depois, na Convenção sobre a liquidação dessas recla-
maçoens (vêja-se no Corr. Braz. vol. xv. p. 675,) se de-
terminou, que as potências, que tinham a fazer taes recla-
maçoens da França nomeariam duas commissoens, uma
de Liquidação, para averiguar a legalidade das reclama-
çoens ; outra de Arbitraçaõ, para decidir, no caso de se
levantarem duvidas na commissaõ de Liquidação, desem-
bargando as duvidas, que occurrercm.
Portugal tem a reclamar da França, entre outras cousas,
o valor dos navios e cargas, pertencentes a vassallos Por-
tuguezes ; e que o Almirante Francez Villaumer mandou
queimar, no anno de 1806, para impedir que por elles
fosse a sua derrota conhecida da esquadra Ingleza : como
isto se fez, estando a França em paz com Portugal, pro-
metteo o Almirante, que o Governo Francez pagaria estas
percas e damnos. Para as averiguar publicou a Juncta
do Commercio em Lisboa o edictal, que deixamos copia-
do acima; e para servirem nas commissoens, que os trac_
tados exigem nestas reclamaçoens, nomeou S. M. Fidelis-
sima os seguintes.
Para a Commissaõ de Arbitraçaõ, Francisco Jozé Ma-
ria de Brito: Jacome Ralton : e Ambrozio Joaquim dos
Reys.
Para a Commissaõ de Liquidação Bernardo Daupias:
e Joaquim Andrade.
O edictal da Juncta naõ falia senaõ de reclamar o valor
dos navios e cargas, queimados pelo almirante Francez
Villaumer ; porém nós julgamos, que a contribuição de
Junot em Portugal está precisamente incluída na letra c
espirito daquelles tractados, e que naõ terá esquecido nas
instrucçoens, que a Corte do Brazil tem dado aos dictos
Commissarios das reclamaçoens.
Daqui se vê agora mui claramente, com quanta razaõ
Commercio e Artes. 161
nos queixamos de haver o Conde de Funchal, no tractado
de Paris, cedido a Cayenna, até decidindo a sua entrega
sem estipular o tempo necessário para se obter a ratifica-
ção do tractado.
Felizmente, a Corte do Brazil desapprovou o que fez
aquelle indigno Ministro, e reteve até agora a Cayenna,
com muita razaõ; porque he o único penhor, que tem
em seu poder de que a França cumprirá com as estipula-
çoens que prometteo.
E com effeito, se a França tirou todo o partido da fra-
queza de Portugal, para lhe extorquir injustas contribui-
çoens a titulo de promessas de paz, que eram violadas logo
que se queria obter do Governo Portuguez mais dinheiro ;
naõ ha motivo algum para que S. M. Fidelissima deixe
de se aproveitar agora da fraqueza em que está a França,
para exigir delia a justa retribuição dos roubos que lhe
fez.

Decadência do Commercio de Portugal.


As observaçoens, que fizemos no nosso N° passado,
sobre o paragrapho da Gazeta de Lisboa, em que se inten-
tou paliar a bem manifesta decadência do Commercio de
Portugal, devem ser aqui ampliadas, principalmente pelo
que respeita o commercio de Lisboa.
A pezar da fanfarronada do Gazeteiro, a Regência de
Portugal está taõ persuadida, e tem tanta razaõ de saber
da decadência do Commercio em Lisboa, que esta matéria
tem sido objecto de sérias discussoens entre os Governa-
dores do Reyno ; e o meio, que lhes pareceo mais obvio,
para impedir o progresso da pobreza do Reyno, foi a pro-
hibiçaõ de exportar moeda de qualidade alguma; e agora
se tracta de prohibir até a exportação do ouro e prata,
mesmo em obra, ou jóias de qualquer natureza.
Estas tentantivas, e projectadas medidas dos Governa-
162 Commercio e Artes.
dores de Portugal, só servem de mostrar, que elles estaõ
persuadidos da existência do mal, apezar do que manda-
ram publicar por seu Gazeteiro ; e o que nós agora temos
a dizer sobre isto he, que o remédio, que o Governo pro-
jecta, he de si mesmo um mal, e que naõ pôde servir de
remediar o outro mal. Também tocaremos de passagem no
icmedio único, que pode ter a decadência ilo commercio,
a que os Governadores pertendem obstar, prohibindo a ex-
portação do ouro e prata.
Os Governadores do Reyno, pasmados pela conta que
se lhe apresentou da exportação da moeda, mandaram
consultar, sobre isto, a Juncta do Commercio, e esta quiz
ouvir a vários negociantes ; valendo-se, no caso de aperto,
do plano, que tantas vezes se lhe tem recommendado, de
ouvir as pessoas inteiligentes em cada um dos ramos; mas
ainda que a Juncta isto agora fez, procedeo, como sempre,
puxando para a parte d o a r r o x o ; isto he, fazendo essas
consultas em particular, para depois atribuírem a si o me-
recimento do bom conselho que alguém der.
Como o mal que se apresentava éra a exportação da
moeda, lembrou logo, como remédio, a prohibiçaõ dessa
exportação;—remédio a qne sempre se recorreo nos Go-
vernos despoticos e ignorantes, aonde os Satrapas julgam,
que as suas ordens tem força de mudar a natureza das
cousas; porque, com o habito de olhar para a sua vontade
como ley suprema, até chegam por fim a persuadir-se,
que os mesmos elementos saõ obrigados a obedecer-lhe.
Mostrarem os pois aos Governadores do Reyno, que a sua
prohibiçaõ naõ pôde ser obedecida, senaõ em mui pequeno
gráo; e que nesse gráo em que for attendida, está taõ
longe de ser de utilidade ao Reyno, que concorre para a
maior ruína do Commercio.
A razaõ porque qualquer naçaõ exporta para outra o
dinheiro, he porque naõ tem gêneros seus bastantes, e de
que a outra careça, para dar em troco dos que delia re-
Commercio e Artes. 163
cebe; o que era economia politica se chama pagar o ba-
lanço do commercio.
Assim, quando uma naçaõ naõ tem gêneros sufficientes
para satisfazer com a permutaçaõ os que recebe da outra,
ou ha de pagar o balanço a dinheiro, ou ha de passar sem
esses gêneros; porque os estrangeiros de certo lhos naõ
daraõ de graça.
Portanto a prohibiçaõ de exportar a moeda, se fosse
possivel a sua perfeita execução, montaria justamente ao
mesmo, que prohibir o uso desses gêneros estrangeiros, a
que a tal moeda servia de pagamento; prohibiçaõ ab-
surda, quando taes gêneros saõ de primeira ou ainda de
segunda necessidade. Dopde se segue que a prohibiçaõ
da exportação do dinheiro, só serve de estagnar aquelle
ramo de commercio, a que tal dinheiro se propunha fo-
mentar, sem que a naçaõ possa obter o gênero, que pre-
cisa, e que com tal dinheiro se destinava a comprar.
Se o negociante, ou consumidor, achar no seu paiz o
gênero de que necessita, certamente o naõ mandará com-
prar fora pelo mesmo preço; logo o remédio está em fazer
com que haja o gênero em casa, taõ bom como no estran-
geiro; e, se sair mais caro, impor ao outro tal direito de
entrada, que o ponha alguma cousa ainda mais caro que o
similhante artigo obtido no Reyno.
Porém, além disto, a moeda he um artigo de tam fácil
exportação por contrabando, que o Governo nunca seria
capaz de fazer executar á risca as suas prohibiçoens a este
respeito, e todas as precauçoens, que tomasse, serviriam
unicamente de vexar os negociantes, sem nunca obter o
fim proposto.
Temos outro elemento a considerar nesta matéria, que
he peculiarmente applicavel ao Commercio de Lisboa, a
quem a prohibiçaõ total da exportação do ouro e prata,
deve muito arruinar ; e pela razaõ seguinte.
Grande parte da moeda, exportada de Lisboa, e que
164 Commercio e Artes.
entrava nas listas de exportação feitas pelo Juiz da saca
da moeda, que tanto assustou os Governadores do Reyno,
éra moeda que tinha vindo de Hespanha. Essa moeda
exportaram os negociantes de Lisboa para a índia e ou-
tros paizes; e com ella compraram fazendas, que trouxe-
ram a Lisboa, e dali as levaram depois a vender aos Hes-
panhoes, que dellas necessitavam.
A prohibiçaõ da exportação dessa moeda Hespanhola,
sendo exactamente executada, deve por termo aquelle
gyro; e longe de ganharem os Portuguezes com isso cousa
alguma, ficam perdendo a commissaõ da negociação,
que lhe passava pelas maõs, o frete dos seus navios, as sol-
dadas dos seus marinheiros, os salários dos carregadores,
e infinidade de outra gente, a quem este trafico dava occu-
paçaõ em Portugal; e ultimamente perde o Erário os di-
reitos da alfândega, que as fazendas de tal gyro pagavam
na sua importação em Lisboa. Demos disto um ex-
emplo.
Custa na China uma peça de ganga, um cruzado: na
Hespanha pagam por ella dous cruzados ; logo sendo ella
trazida da China pelos Portuguezes; e introduzida na
Hespanha por via de Lisboa, o cruzado de lucro deve ficar
em Portugal, distribuído pelo negociante, marinheiro,
fabricante de navios, barqueiro, &c. &c. e nos direitos da
da alfândega. Este lucro seria absolutamente perdido
para Portugal, se o negociante de Lisboa naõ pudesse ex-
portar dali a pataca Hespanhola, com que fosse á China
comprar a tal peça de ganga; porque naõ tem outro
meio de fazer aquelle gyro de commercio.
He pois evidente, neste caso, que prohibir a exportação
daquella pataca, he impedir os lucrosque o Reyno obteria
daquelle commercio ; e fundamentar a prohibiçaõ na re-
gra geral de que he bom naõ exportar dinheiro ; he taõ
racionavel, como prohibir ao lavrador que deite á terra o
trigo, que semeia, e julgar desperdício, ou perca, á se-
2
Commercio * Artes. 165
mente, que para este fim sáe do celeiro, e sem o que he
impossível ter colheita.
Isto que dizemos, a respeito das fazendas da índia, he
também applicavel, em alguma extençaõ, ás fazendas de
outros paizes, que fazem o transito de Portugal para serem
vendidas na Hespanha; aonde a falta de credito, os vexa-
mes do Governo, e a desconfiança geral naõ permittem,
que os negociantes estrangeiros façam por si mesmos
aquellas especulaçoens, que se tornam mais seguras com o
entreposto de Lisboa.
Adiantamos o mesmo principio da exportação do di-
nheiro, até ao que se leva para o Brazil; naõ só porque
aquelle paiz, sendo parte da Monarchia Portugueza, naõ
deve causar zelo a este respeito, pois a riqueza de uma
provincia redunda em vantagem de todas as mais; mas
porque a exportação da moeda de Lisboa para algumas
praças do Brazil he taõ essencial, que, a naõ se permittir
essa exportação, deve diminuir muito a communicaçaõ
commercial dos dous paizes, com a ruina manifesta do
commercio de Lisboa,
Portugal naõ tem gêneros bastantes para dar em permu-
taçaõ pelos algudoens de Pernambuco; logo lie necessário
que mande para lá dinheiro para o comprar. Mas esse
dinheiro que sahio para Pernambuco está taõ longe de em-
pobrecer o Reyno, que lhe procura os lucros resultantes
desse algudaõ vindo de Pernambuco ; porque he evidente
que os negociantes naõ haõ de mandar o seu dinheiro para
o Brazil, senaõ para terem os lncros da torna viagem, e das
especulaçoens subsequentes; e a riqueza que assim adqui-
rem esses negociantes ; he, por conseqüência, riqueza
que adquire o Estado, resultada daquella exportação da
moeda, em primeiro lugar.
Muitas cidades ha e tem havido (Amsterdara, Hambur-
go, Gênova, &c.) que obtiveram chegar a grande auge de
prosperidade, sem riquezas nenhumas suas, e com mui
VOL. X V I I . No. 99. T
166 Commercio e Artes,
pequena navegação, mas valendo-se da industria de faze-
rem de seus portos c empório do commercio de outras
naçoens. He logo summamente impolitico, que se afu-
gente de Lisboa o coimiiercio até de outras provincias da
mesma monarchia Portugueza; o que effectivãmente se
practica, prohibindo se que vá o dinheiro de Portugal
pagar em Pernambuco, o algudaõ, que tem de se vender
a o depois em Lisboa.
Consideremos por este lado a medida da prohibiçaõ da
exportação da moeda para o Brazil. Segue-se dessa pro-
hibiçaõ, que o algudaõ de Pernambuco será vendido a
outras naçoens, que lá o forem comprar ou a troco de suas
mercadorias, ou a dinheiro. Portugal perde os lucros,
que tiraria das transacçoens sobre o tal algudaõ serem
feitas cm Lisboa; e naõ pôde ganhar o ficar com a moeda;
porque necessariamente a ha de dar em pagamento dos
gêneros estrangeiros, em cuja pcrnuitaçaõ alias empregaria
0 tal algudaõ, que a nao ser a prohibiçaõ houvera de ter
recebido de Pernambuco.
Naõ seria certamente politico obrigar os Portuguezes a
que trouxessem sempre os seus productos do Brazil a ven-
der a Lisboa ; mas he também muito contra os interesses
da monarchia inventar medidas, como esta da prohibiçaõ
da exportação da moeda, pela quaes se impede indirecta-
mente, que o commercio daquelles portos do BrnzLl venha
fazer-se em Lisboa ; porque taes medidas privam o porto
de Lisboa de vantagens, que por isso mesmo haõ de passar
necessariamente para os portos estrangeiros.
Esta prohibiçaõ da exportação do ouro e prata vem a
ser um absurdo indesculpável; quando se tracta de joyas.
1 Que mais quereriam os Portuguezes do que o supprirem
com joyas todos os mercados da Europa ? As riquezas
que assim adquiririam, coin os lucros da maõ d'obra,
commis-soeus, &c. seriam immensas : mas ja que he impos-
sível terem tudo isto, hc um absurdo, como dicemos,
Commercio e Artes. 167
privarem-se da parte desses lucros que podiam ter, com a
improvidente medida de prohibir a exportação do ouro e
prata em joyas.
O Governo de qualquer paiz deve estar persuadido, de
que lhe naõ compete ensinar no negociante como ha de
obter os seus lucros. Um homem de negocio de Lisboa
naõ se desacommodaria em procurar patacas Hespanholas
em Lisboa, mettêllas a bordo do seu navio, fazer sahir este
a comprar escravos em África, mandados vender no Rio-
da-Prata ; e trazer dali uma carregação de couros e pa-
tacas—nao faria tudo isto, dizemos, se naõ tivesse a proba-
bilidade de ver, no fim desta expedição mercantil, mui
augmentada a sua fazenda e riqueza : e naõ he preciso
que digamos, que quanto mais ricos forem estes indivi-
dous, mais rica será também a naçaõ.
Agora será preciso responder nos que suppozerem, que
avançamos um paradoxo, quando recommendamos, que se
permitia a exportação da moeda de Portugal; porque
a regra geçd he, que tanto mais rica será a naçaõ, quanto
menos ouro e prata exportar.
Nós admittiraos também esta regra; porém contende-
mos em que o modo de a verificar, naõ he prohibindo a
exportação daquelles metaes, mas sim diminuindo a neces-
sidade dos gêneros estrangeiros, e augmentando os artigos
que se possam exportar: assim he que queremos, que se
previna a exportação do ouro e prata, mas naõ com a pro-
hibiçaõ directa, que hc sempre em desvantagem do com-
mercio.
Daqui fica ja claro, que o expediente, que propomos,
para impedir a saida do ouro e prata do Reyno, he pro-
mover a agricultura cm todos os seus ramos : c as fabri-
cas na maior extençaõ possivel; porque, em quanto no
Reyno naõ houverem productos ou gêneros, que sejam
bastantes para se permutarem pelos que se recebem do es-
trangeiro, o balanço ha de necessariamente ser pago a di-
v 2
168 Commercio e Artes.
nheiro e todas as prohibiçoens a este respeito naõfaraÕ mais
do que aggravar o mal, promovendo o contrabando.
Durante o ministério do Marquez de Pombal 6e facilitou
a exportação dos vinhos para Rússia. Com este expedi-
ente adquirio o Reyno um capital em paiz estrangeiro, que
lhe servia, ja para pagar os gêneros que obtivesse da mesma
Rússia; ja para o fazer passar a outros paizes, para sal-
dar contas, sem ter necessidade (em tanto quanto éra o va-
lor desses vinhos) de exportar o dinheiro do Reyno.
As pescarias era Portugal, evitando a necessidade de ob-
ter o peixe salgado da America, fôram outro expediente
para reter no Reyno o ouro ou prata, que devia aliás satr,
para pagar o peixe salgado do estrangeiro.
Naõ he necessário enumerar aqui as fabricas, que se
procurou introduzir no Reyno, durante aquelle ministério;
basta dizer, cm geral, que o systema do Marquez de Pom-
bal, de augmentar os objectos que se podiam exportar, e
diminuir a necessidade de obter os gêneros de fora, éra o
mais efficaz, para impedir a saída do ouro e prata.
E naõ deve esquecer aqui; que a naõ exportação do
ouro e prata, naõ constitue por si mesmo a prosperidade
da naçaõ, mas he simplemente nm índice ou signal de que
essa prosperidade existe. Portanto, prohibir que se ex-
portem os metaes preciosos be querer que exista o effeito
sem que haja a causa.
Quando a agricultura de uma naçaõ he bem attendida,
tem os povos abundância de mantimentos ; quando tem
muitas fabricas, ha muita gente empregada; e por conse.
quencia augmenta-se a população; quando abundam os
comestíveis, os vestuários, e os gencros mesmo de luxo, a
naçaõ naõ depende dos paizes estrangeiros, e nestes casos
naõ tem necessidade de exportar ouro ou prata para obter
os gêneros; porque os tem em casa ; e portanto a naõ ex-
portação do ouro ou prata he o índice da prosperidade e
abundância, de que a naçaõ goza.
Commercio e Artes. 169
A situação geograpbica da monarchia Portugueza exige
necessariamente uma marinha de guerra, para unir e
proteger as provincias dispersas em ambos os hemispherios.
Esta marinha de guerra naõ se pode obter sem marinha
mercante ; c daqui resulta a necessidade de promover a
navegação nos dominios Portuguezes : óra deixamos ja
apontados dous exemplos, cm que a prohibiçaõ da expor-
tação da moeda tornava impossível a expedição ma ri li ma
do negociante, que quizesse mandar comprar algudaõ em
Pernambuco para o vender na Europa, ou escravos na
África para os vender no Rio-da-Prata. Notamos isto
para exemplo ; porque os casos da mesma natureza saõ
numerosíssimos.
De boa mente convimos ; em que he trabalhoso este
meio de reter a moeda no Reyno; mas o outro mais fácil,
e que lembra a todo o ignorante, que he, a prohibiçaõ di-
recta de exportar o ouro ou prata, naõ somente senaõ pode
executar em toda a sua extençaõ, mas até na parte em que
se executa fica servindo de impedir, em vez de promover,
a industria e prosperidade do Reyno.
i Mas como se obterá isto em Portugal ? Assim.
Impondo pezados direitos, no Brazil, sobre os productos
estrangeiros, que se podem obter de Portugal; como saõ
os vinhos.
Impondo pezados direitos, em Portugal, sobre os pro-
ductos estrangeiros, que se podem obter do Brazil; como
he o arroz.
Impondo, em toda a monarchia, pezados direitos, nos
artigos de luxo estrangeiros.
Facultando a exportação de todos os manifactos de Por-
tugal, seja para o Brazil seja para outro qualquer paiz.
(vêja-se sobre isto o Alvará de 4 de Fevereiro, de 1811.)
Extinguindo e abolindo os embaraços, que existem a re-
speito da navegação; tanto nos direitos que pagam, como
170 Commercio e Artes.
nas formalidades dos despachos : de que se sem apontado
vasios exemplos, em diversos N ° ' . deste Periódico.
Outra vez repetimos, que naõ julgamos fáceis estes
meios ; pelo contrario, elles exigem trabalho, talento e
constância da parte do Governo; mas para isso nos su-
geitamos a ser governados ; isto he, para que os Gover-
nantes trabalhem em nossa utilidade ; e naõ para que
vivam no ócio, e na indolência.

Contracto do Tabaco.
A continuação deste monopólio, depois do clamor que
sobre isto se tem feito, he ja tam escandalosa, que até os
mais vis aduladores do Governo se naõ atrevem a defen-
dêllo. Quem tal diria ! O Investigador Portuguez mesmo,
no seu No. 62, p. 256, se declarou abertamente contra o
Governo de Lisboa, incluindo o Principal Souza (he
verdade que ja naõ está em Londres o Conde de Funchal;
por tanto, diz o rifaõ ; " agora frades agora, que anda o
guardião por fôra.) pelos procedimentos que tem practi-
cado sobre a arremataçaõ deste Contracto. Veremos depois
que o Investigador advogou esta causa de má vontade,
pelo mal que a defendeo.
Achamos porém publicadas as condiçoens, que offere-
cêram os negociantes rivaes dos actuaes contractadores, e
dizem que o seguinte papel he copiado que elles apresen-
taram á Juncta do Tabaco.

Pnmeira proposta.
1. O Abaixo assignado Diogo Ratton, Fidalgo Cavalei-
ro da Casa de S. A. R. e negociante desta praça, se pro-
põem fazer um serviço muito relevante ao mesmo Senhor,
pelo qual espera da sua Real benignidade, que conhecido,
Commercio e Artes. 171
haja de o tomar na sua Regia contemplação, para o at-
tender como for servido.
2. Esta lembrança hc filha das repetidas conversas, quu
elle teve com seu pay, Jacomo Rattnn, sobre este assumpto
quando antes de sua deportação viviam junetos : e isto cm
razaõ de ter sido um dos principaes estudos do dicto sen
pay a economia politica, pela precisão que tinha de o
fazer, para desempenho do lugar que servia, de Deputado
do Tribunal da Real Juncta do Commercio, que tantos
annos teve a honra de occupar.
Foi sempre um ramo das rendas Reaes, que mereceo
muito a sua attençaõ, o contracto geral do tabaco c das
saboarias, e o modo porque se poderia fazer mais produe-
tivo ao Real Erário ; e, ao mesmo tempo, o Governo pu-
desse conhecer fia sua administração, e de seus lucros, pa-
ra que assim naõ continuasse a ser uma espécie de patri-
mônio de um pequeno numero de negociantes, sem que se
habilitassem outros, para haver para o futuro a necessária
concurrencia na sua arremataçaõ.
3. Para este fim tem formado uma companhia de nego-
ciantes honrados, c abonados desta praça, e da do Porto,
dos quaes tem procuração bastante, e tendo combinado os
seus próprios interesses com os da Real fazenda, se pro-
põem augmentar o rendimento do contracto gerai do ta-
baco e saboarias, c fazer conhecer ao Governo, qual seja o
seu verdadeiro, e effectivo rendimento, na forma e com as
condiçoens seguintes. A saber.
Ia. Que o contracto geral do tabaco e saboarias, lhe ha
de ser arrematado por nove annos, que haõ de principiar
em o 1*. de Janeiro, 1818, e haõ de acabar em o ultimo de
Dezembro, de 1826 ; pelo mesmo preço e condiçoens, que
o trazem os actuaes contractadores, fazendo as mesmas
despezas da arremataçaõ que elles fizeram ; pagando to-
das as propinas que estaõ cm practica, sem alteração al-
guma ; assim como se obrigarão á mesma forma dos pa-
172 Commercio e Artes.
gamentos cm mezadas, e quartéis, nos dias determinados
sem nenhuma differença.
2*. Que além do dicto preço e condiçoens, por que os
trazem os actuaes contractadores, que todas faz certas, of-
ferece á Real fazenda a quinta parte dos lucros, que se li-
quidarem annualmente ; para o que se obrigará a com-
panhia a trazer sempre a sua cscripturaçaÕ ein dia, com
toda a regularidade ; para no fim de cada anno se fazer
um balanço geral, pelo qual se venha no conhecimento dos
dictos lucros, e quinze dias, depois de fechado o dicto ba-
lanço annual, entrará no Real Erário com a somma, que
importar a dieta quinta parte.
3*. Que quando, porém, sueceda haver perdas (o que Deus
naõ perraitta) ou haver lucros tam diminutos, que a quinta
parte delles naõ preencham cem mil cruzados, a compa-
nhia se obrigará a preenchêllos á sua custa; e a entrar com
elles sempre annualmente no Real Erário, na dieta forma,
quinze dias depois do balanço.
4'. Que para desvanecer toda e qualquer duvida, que
se possa offerecer a respeito do comportamento e boa fé
da companhia, ou delles contractadores, se lhe nomeará
um Fiscal por parte da Real fazenda, que diariamente ex-
amine c fiscalize a exacçaõ da escripturaçaÕ, e do balanço
annual, para o qne lembra Alexandre Antonio das Neves,
por ja se achar aprovado por S. A. R., ou outro qualquer
de reconhecida probidade, e conhecimentos necessários, á
eleição do Governo.
5*. Que, no caso de haver perdas, estas recairão sempre
sobre a companhia, ou sobre elles contractadores, sem que
dellas possam pedir indemnizaçaõ, salvo o cazo de invazaõ
do inimigo, o que Deus taõ permitta.
(Assignado) D I O G O RATTON.
Lisboa, 18 de Junho, 1816.
Nomes dos sócios e fiadores do sobredicto Diogo Rat-
ton: a saber; em Lisboa, Nicolao Clamouse, Browne &
Commercio e Artes. 173
C*. Joze Diogo de Bastos. No Porto, a Casa de Bernar-
do Clamoose Browne and C\, que se compõem dos se-
guintes sócios, Pedro de Clamouse Browne, Joaõ Luiz de
Ia Roque, Manuel de Clamouse Browne, Francisco de
Clamouse Browne.

Segunda proposta feita em 22 de Junho, ultimo dia da


arremataçaõ.
O abaixo assignado Diogo Ratton, Fidalgo Cavalleiro
da Casa Real, e negociante desta praça, por si, e em nome
dos sócios, que representa, de quem he procurador bas-
tante, como pela procuração juncta, á vista dos lanços,
que hoje tem havido, offerece a este Regio Tribunal em
accrescentamento das propostas, que ja fez, em 18 do
corrente, as condiçoens seguintes, para assim melhor
conseguirem lhes ser arrematado o contracto geral do ta-
bace e saboarias. A saber ;
1*. Que em lugar da 5*. condição, mencionada nas pro-
postas de 18 do corrente, a qual naõ foi approvada, seja
ella riscada e concebida na forma seguinte :—" Que, no
caso de haver perdas (o que naõ he de esperar, nem Deus
tal permitta) estas recairão sempre sobre elles contracta-
dores, sem que dellas possam pedir indemnizaçaõ."
2*. Que em lugar dos cem mil cruzados, que ja se tem
obrigado em fazerem certo o rendimento da quinta parte
de interesse da Fazenda Real, agora offerecem e se obri-
gam a fazer certo o rendimento da dieta quinta parte de
mais outros cem mil cruzados, o que prefaz a total quantia
de duzentos mil cruzados annuaes, para entrar com elles
no Erário, quinze dias depois de fechado o balanço an-
nual.
3*. Que elles naõ se consideram na precisão de maior
abonaçaõ do que a que tem, mas havendo emulos, que po-
deraõ suscitar essa duvida perante a Real prezença, para
VOL. XVII. No. 99. z
174 Commercio e Artes.
a desvanecer, se for necessário, naõ teraõ duvida dobrar o
deposito morto, que existir no Real Erário, de duzentos
mil cruzados; levando o dicto deposito morto a quatro
centos mil cruzados, pagando-se-lhe do exceço deste capi-
tal morto o juro, á razaõ de seis por cento por anno, livre
de décima, como he de justiça, e se lhe levarão em conta
os dictos juros, sendo descontados no producto da quinta
parte, que produzir o interesse da Real fazenda.
4*. Que esse mesmo deposito naõ parecendo bastante,
nesse caso, fazendo-se-lhe certa a arremataçaõ do contracto
geral do tabaco e saboaria, debaixo de todas estas suas
condiçoens, ás quaes se obrigara, naõ teraõ duvida de
nomearem maior numero de sócios de igual ou maior abo-
naçaõ, para assim se desvanecer toda e qualquer duvida, e
também para confusão dos seus emulos.
5*. Que em todas as presentes condiçoens, e as mais
que apresentaram em 18 de corrente, naõ levam princi-
palmente em vista outro objecto, que o de fazer conhecer
ao Governo, o verdadeiro e effectivo rendimento do re»
ferido contracto geral, e portanto fazer um dos mais re-
levantes serviços, que cabe na possibilidade do abaixo as-
signado.
Mas quando haja quem proponha quaesquer outras con-
diçoens, que pareçam ser mais vantajosas á Real fazenda (o
que elle e seus sócios naõ podem deixar de duvidar) pelo
presente protestam serem ouvidos, na certeza, que ninguém
tem maiores desejos de servir a S. A. R. com todo o des-
interesse, franqueza, e honra, augmentando por esta forma
os recursos da Real fazenda.
(Assignado) DIOGO RATTON.

Notamos ja no nosso N*. passado, que depois de se haver


dado o Contracto aos negociantes, que fizeram as pro-
postas acima copiadas, foi à Juncta do Tabaco um avizo
da Regência de Lisboa, pelo qual se reputou nulla a ar-
Commercio e Artes. -1&
retnataçaõ, e se mandou pôr o Contracto outra vez a lanços.
0 Avizo de que se tracta também o achamos publicado da
maneira seguinte :—
u
IIlm\ e E x " . Snr.—O principe Regente N . S. man-
da remetter á Juncta da Administração do Tabaco o in-
cluso requirimento do Baraõ do Sobral, para que o Con-
tracto do Tabaco seja novamente posto a lanços, para se
arrematar na forma do uso do Reyno; e he servido, que
a Juncta, tornando a pôr o dicto contracto na praça, aceite
os lanços que houverem tanto na forma proposta por Joze
Diogo de Bastos, como segundo o systema até agora se-
guido. O que V. Ex*. fará presente na mesma Juncta
para que assim se excute. Deus guarde a V Ex". Pa-
lácio do Governo, em 25 de Junho, de 1816.
(Assignado) JOAÕ ANTÔNIO SALTER DE MENDONÇA.
S/ir. Conde de Peniche.

Temos desenvolvido varias vezes, e ainda.no nosso N.


passado, os males que tem feito ao Re yno o Monopólio do
tabaco; mas naõ desejamos ver deffendida a verdade com
argumentos falsos O Investigador, querendo reprehender o
Governo por ésla segunda ordem, para se tornar a arre-
matar o Contracto diz o seguinte :—
(p. 25T,) " Nós naõ sabemos o que as leys e usos do Reyno (se al-
guns ha que devam citar-se) dizem a este respeitoi sabemos com tudo,
que as leys de Portugal e as de todas as naçoens dizem —que quando
se faz um contracto, pede a honra, a boa fé, e a dignidade dos que o
fizeram, que elle se cumpra. Tivesse embora a Juncta da Adminis-
tração, por ignorância ou qualquer circumstancia. deixado de fazer
O que devia: ella estava authorizada par eontractar, contractou, e
assignou o ajuste ; este he logo valido e legal. He o mesmo, que se
um procurador particular tivesse feito cousas contra a vontade de
quem lhe deo a sua procuração: o que este pode fazer he retirar-lha,
e nunca mais se tornar a fiar nelle» mas no entanto he responsável
pelos ajustes que se fizeram em seu nome. Destruídos estes princi-
Z2
17(5 Commercio e Artes.
pios com elles acabou toda a confiança e credito publico, e ja naS ha
que fiar na palavra dos particulares nem dos Governos."

Começam os Redactores por dizer, que naõ sabem o


que as leys do Reyno dizem a este respeito ; mas ninguém
receberá está declaração como escusa; porque os Redac-
naõ se deviam a metter a fallar do que confessam igno-
rar ; e causar com isso mais mal á causa, que desejam de-
fender.
A questão naõ he aqui se, pela legislação de Portugal e
de todas as naçoens, os homens saõ obrigados a cumprir
com seus ajustes, em regra geral. A questão he, se o Go-
verno de Lisboa tinha razaõ bastante para se arredar do
primeiro ajuste, e tornar a pôr o Contracto a lanços. Ha-
vendo para isto razaõ bastante, tanto as leys de Portugal,
como de todos os mais paizes civilizados, permittem, que
as partes se arredem do contracto, e em muitos casos o de-
claram nullo.
Neste mesmo mez de Agosto aconteceo em Londres,
que havendo-se arrematado a grande propriedade, que in-
clue a Casa da Opera, em leilaõ publico, por ordem do
Chanceller Mor, e perante um dos Mestres da Chancel-
laria, com todas as solemnidades da l e y ; mandou o
Chanceller depois declarar nulla a arremataçaõ, e pôr de
novamente a propriedade a lanços ; porque se omittio al-
guma cousa na descripçaõ da propriedade, que éra impor-
tante para se lhe conhecer o valor.
Pelas leys Portuguezas, ha muitos casos em que naõ só
as partes se podem arredar dos contractos, mas até se de-
claram nullos ; entre outros exemplos vêja-se a Ord. do
Liv. 4. tt. 13, in pr. e tj. 6. que extende a legislação
a todos os contractos; e especialmente no §. 7, aonde
falia especificamente do cazo da arremataçaõ, em praça
publica.
Commercio e Artes. 177
He pois demonstrado que tanto na legislação pátria co-
mo na estrangeira ha casos, em que se podem desmanchar
os ajustes, e mesmo annullar as arremataçoens em praça
publica; e he desnecessário asseverar o contrario, que he
uma falsidade, para ter que dizer contra o monopólio do
tabaco; e como ha casos era que he permittido a todos o
arredar-se dos seus ajustes, a questão aqui deve ser • seo
Governo Portuguez estava ou naõ nas circumstancias de o
fazer cora justiça e razaõ ?
Este ponto o tractaremos em outra occasiaõ.
C 178 ]
Preços Correntes dos principaes Productos do Brazil.
LOJVDRES, 20 de Agosto, de 1816.
Gêneros. Qualidade. Quantidade Preço de Direitos
f Redondo.... 112 lib. 56s. Op 60s. 0p.\
ASSUCAR < Batido 44s. Op 48s. Op.' I
( Mascavado . . 38s. Op 40s. Op. I Livre de direitos por ex.
Arroz Brazil 20s. Op. 28s. Op. ' ) portaçaS.
Caffé Rio 54s. Op S4s.
Cacao
Cebo
Pará
Rio da Prata
CrOs. Op G5s.
49s. Op 50s.
:J
3s. 2p. por 1121b.

f
Pernambuco. libra... 2 s . • P 2s.
Ceará 26. èP- 2s.
Bahia ls. llp 2s.
Maranhão .. Is. l l p . '8s. Tp. por lb. 100 em na-
Pará vio Portuguez ou Inglez.
Minas novas
Capitania. ..
An n il Rio 3s. 6p. 4s. 6p. 4|p. por lb.
Ipecacuanha Brazil 9s. 6p. lOs. 6p. 3s. 6|p.
Salsa Parrilha Pará 3s. 8p. 4s. 2p. ls 2*P.
Óleo de cupaiba 3s. 6p. 9p. ls UJp.
Tapioca Brazil 8p. 12p 4p.
Ourocu ls. 6p. 2s. Sp. direitos pagos pelocompdor
Tabaco . em rolo 4p. 5p. > Livre de direitos por e».
Í em folha . . . .
ÍA
4p.
9p.
5p.J portaçao.
9Jp
j
'Rio da Prata pilha < B 8p. 8ip
(C 6íp. 7p.
CA v9|p. por couro em navio
Couros \ Rio Grande <B Portuguez ou Inglez.
c
(
Pernambuco salgados
-Rio Grande de cavalho couro • • 4s. 6p. Ts. 6p.
Chifres RioGrande. 12|3 38s. 6p. 40s. 6p. 5s. 6jp. por 100.
Páo Brazil Pernambuco Tonelada 115/.
Páo amar rello . . . . Brazil
r.
120/. ) direitos pagos pelo com
7s. 0p.| 8s. Op. J prador

Esp<
ecie.
Ouro em barra £%
Peças de 6400 reis.
Dohroens Hespanhoes, por onça.
Pezos dictos
Prata em barra
Câmbios.
Rio de Janeiro 58| Hamburgo 36
Lisboa 55$ Cadiz . . . . 34
Porto 55i Gibraltar.. 31
Paris 25 90 Gênova . . .
Amsterdam 12 6 43*

Prêmios de Seguros.
Brazil Hida 2 Guineos Vinda 2 a2£Gnineo8.
Lisboa )
Porto J .... U
•5 li.
Madeira 1 •í.
Açores 21.
Rio da Prata 2 .
3i. 3 .
Bengala 3
C 179 ]

LITERATURA E SCIENCIAS.

NOVAS P U B L I C A Ç O E N S EM I N G L A T E R U A .

UANIELES Oriental Scenery, 3 vols. 4to. preço 181.


I8s. Architectura, Antigüidades e Paizagem do Hindos-
tan; com 150 estampas. Por Thomaz e Guilherme Da-
niell. Compendiado da edicçaõ de folio, e corrigido pelos
mesmos authores.

Howship on the Urinary Organs, 8vo. preço 15s. Ob-


servaçoens practicas sobre as moléstias dos orgaõs urina-
rios; particularmente as da bexiga, glândula próstata, e
urethra J illustradas com casos, e quatro estampas illumi-
nadas. Por JoaÕ Howship : Membro do Real Collegio
de Cirurgioens, em Londres, e da Sociedade Medico Ci-
rúrgica

Salisbury's Botanist, 2 vols. 12mo. preço I2s. O


Companheiro do Botânico ; ou Introducçaõ ao conheci-
mento da Botânica practica, e usos das plantas, que ou
crescem selvagens na Gram Bretanha, ou se cultivam para
os fins da Agricultura, Medecina, Economia rural, ou Ar-
tes; em novo plano. Por Guilherme Salisbury.

Conversations on Political Economy, 12mo. preço 9s


Conversaçoens sobre a Economia Politica, em que se ex-
plicam de maneira familiar os elementos desta Sciencia.
Pelo Author das Conversaçoens sobre Chimica.

Lawrence'» Comparative Anatomy, 8vo. preço 6s. In-


troducçaõ á Anatomia Comparativa e Pbisiologia; em duas
7
180 Literatura e Sciencias.
Licçoens Introductorias, explicadas no Real Collegio de
de Cirurgioens, aos 21 e 25 de Março, de 1816. Por
Guilherme Lawrence: Professor de Anatonica e Cirurgia
do Collegio.

Narrative qfa Residence at Tripoli, 4to. preço 2l. 8s.


Narrativa de dez annos de residência em Tripoli, na Bar-
baria. Tirada da conrespondencia original, que se con-
serva na familia do falecido Ricardo Tully, Cônsul Britan-
nico ; e comprehende memórias e anecdotas authenticas
do Baxá reynante, sua familia, e varias pessoas de distine-
çaõ ; e uma conta dos costumes domésticos dos Mouros
Árabes e Turcos. Com um mappa e varias estampas illu-
ininadas.

Florisfs Manuel, I2mo. preço 4s. 6d. Manual do Fio-


rista; ou suggestoens para a construcçaõ de um jardim
de flores ; com observaçoens sobre o melhor methodo de
prevenir os estragos dos insectos. Com duas estampas.
Pela Authora dos Diálogos sobre Botânica.

Scudamore on the Gout, 8vo. preso 12s. Tractado


sobre a natureza e cura da gota; comprehendendo uma
vista geral do estado mórbido dos orgaõs digestivos, e do
regimen ; com algumas observaçoens sobre o Rheumatis-
mo. Por Carlos Scudamore, M. D.

Jansorís View of Barbary, 12mo. preço 5s. Vista da


condicçaõ actual dos Estados da Barbaria ; e exposição de
seu clima, terreno, producçoens, população, manufacturas,
forças militares e navaes de Morroco, Fez, Argel, Tripoli
e Tunes; e a descripçaõ do seu modo de fazer a guerra;
com anecdotas do seu cruel tractamento dos christaõs es-
cravos. Por W . Janson. Illustrada com um novo e cor-
Literatura e Sciencias. 181
recto mappa Hydro-geographico desenhado por J. J.
Assheton.

PORTUGAL.
o
Sahio a luz : o 2 . tomo do Guarda-livros Moderno, ou
curso completo de instrucçoens elementares sobre o Com-
mercio, tanto em mercadorias, como em banco. Preço
1800 réis.

Formulário Farmacêutico, adoptado nos paizes milita-


res da França. Por M. M. Parmantier, &c. Traduzido
por Caetano Jozé de Carvalho. Boticário em Lisboa.
Preço 480 réis.

O I*. N°. do Negociante Perfeito. Obra que tracta de


Commercio e Geographia. Preço 60 reis.

O Io. tomo do Novo Methodo de Educar os Meninos e


Meninas, principalmente nas villas e cidades : tracta da
Grammatica e da lingua Portugueza, desde o primeiros
elementos da palavra pronunciada, até os últimos preceitos
da palavra escripta. Por Fr. Jozé da Virgem Maria.

Epicedio á memória da Augustissima Senhora D. Maria


Primeira, Raynha de Portugal, do Brazil, e dos Algarves.
Por Joaquim Pedro Lopes.

A, B, C, Escola de Meninos. Contem todas as letras e


monosyllabos, que os meninos devem soletrar antes de
principiarem a lêr, e quinze exemplares de escripta de di-
versas proporçoens, necessários para aprenderem a escre-
ver o character de letras do melhor gosto. Preço 600 reis.

Collecçaõ dos cincos mappas do Mundo: a saber, o da


VOL. XVII. No. 99. 2A
182 Literatura e Sciencias.
Europa, Ásia, África, America, e o de todo o Globo
Nas margens de cada mappa se acha um diccionario geo-
graphicodos seus respectivos nomes, em que para facilitar
a invenção se apontam os gráos de longitude e latitude da
sua situação, e em terceira columna o numero d'habitantes-
que contém as suas mais principaes povoaçoens, o Estado a
que pertence, &c. Nas margens de cada frontespiscio se
apontam os seus principaes Estados, a Religião dominante
de cada um, e o numero de habitantes que contém.
Preço 2000 reis.

Descuberta importante para as minas de Carvaõ.


Occupamo-nos com este objecto; porque o Investiga-
dor Portuguez N°. 62, p . 178, traz um artigo, que pôde
servir de grande prejuizo se naõ for refutado ; e vem a ser
a recommendaçaõ, que aquelle Jornal faz da descuberta
de Sir Humphrey Davy, para prevenir as explosoens, oc-
casionadas pelo gaz inflammavel, que existe nas minas de
carvaõ.
Como aquelle Jornal tem presumpçoens de Scientifico,
quem lesse a sua memória julgaria, que a descuberta de
Sir Humprey éra a ultima nesta matéria, e geralmente
approvada; quando que nenhuma das cousas he assim.
E como naõ suppómos, que se intentasse de propósito en-
ganar os leitores, em ponto tam interessante, e de que
podem depender as vidas de muitos, atribuímos isto á ig-
norância dos Scíentificos Redactores, que propondo-se a
dar novidades scienti ficas, naõ sabem o progresso e mar-
cha das descubertas, nos objectos de que se propõem
tractar ; He melhor naõ fallar das matérias do que fallar
nellas sem conhecimento de causa.
E se os Redactores estaõ ao facto destas cousas, o que
por lhes fazermos justiça naõ suppómos, deveriam infor-
mar os seus leytores do que se tem passado a respeito da
6
Literatura e Sciencias. 183
descuberta de Sir Humphrey, e que he bem sabido era
todas as sociedades literárias da Inglaterra.
Esta matéria foi discutida na Sociedade das Artes em
Londres, quando se conferio a Mr. Ryan a medalha de
ouro e uma bolça com cem guinés, pela sua descuberta
sobre o modo de ventilar as minas de carvaõ, e livrállas
do gaz inflammavel. Copiaremos aqui o relatório do
Comitté encarregado deste exame, e que foi approvado
pela Sociedade em geral; factos notórios, c que naõ ha
ninguém em Londres, que freqüente as companihas dos
homens de letras, que os possa ignorar, pois até correm
impressos.

Relatório sobre as lâmpadas de segurança nas minas de


carvaõ, pelo Presidente do Committé.
Tendo empregado tempo considerável em examinar as
minas de carvaõ em Durham eNorthumberland, e traba-
lhado por me aproveitar de todas as informaçoens, que,
sendo publicadas, possam tender a dar maior sesegurança
ás pessoas empregadas no perigoso trabalho das minas,
peço licença para offerecer algumas observaçoens, sobre
as lâmpadas de segurança. Tenho examinado estas, uni-
formemente com precançaÕ; e tal miudeza, que só pode
justificar-se pelos terríveis effeitos, que devem resultar, de
introduzir em uma mina instrumentos, que naõ saõ capa-
zes de contender com as circumstancias, que sempre ali
existem.
A lâmpada isolada, original invenção do Dr. Clanny,
naõ podia produzir perigo algum, hevendo cautella e
firmeza, porem em outras circumstancias, como succede
nas minas, éra susceptível de virar-se, e perder a água,
que forma a sua válvula; isto remediou elle agora e fez
o apparato muito mais portátil. Este sugeito, cujos in-
defatigaveis trabalhos, por oito annos, a favor dos minei-
ros, lhe da direito á gratidão da Sociedade, inventou de-
2A2
184 Literatura e Sciencias.
pois outras lâmpadas, e acabo de receber uma, feita para o
fim de arder ou com azeite ou com g a z ; porém naõ a
tendo eu experimentado, nem visto experiências, que com
ella se fizessem ; deixo, presentemente, de dar sobre ella
a minha opinião.
A lâmpada, feita por Mr. Ryau, acautella que se entorne
a água, tendo-a perfeitamente segura, e pondo-lhe um
vidro cylindrico, quç a cerca e está fixo no fundo por
um caixhilho. Nesta lâmpada o ar ou azote, que aboia
na superfície do ar, e que por meio de foles he ali enviado
para a combustão, be dali expellido para baixo por um
tubo a travez da água, e embaixo se escapa por uma vál-
vula. Esta lâmpada difiere consideravelmente da outra
do Dr. Clanny no feitio ; porem Mr. Ryan me pedio que
dissesse, que tinha adoptado o mesmo principio do Dr.
Clanny.
Examinei a lâmpada de Mr. Stephenson, quando elle a
apresentou ã Sociedade Literária e Philosophica de New-
castle. Esta lâmpada tinha certo numero de orifícios em
um fundo de cobre, por onde recebia o ar para a com-
bustão, e éra extremamente leve e portátil. Quando vi o
apparato e seu inventor, que naõ podia dar a razaõ do seu
principio, admirei-me de que elle se tivesse aventurado a
entrar na mina com similhante lâmpada ; posto que acre-
dito, que elle assim o fez; e naõ obstante que, em taes
casos, sempre desejo ver demonstrada a ley e operação
da natureza.
A alteração, que Sir Humphey Davy fez nesta lâmpada,
formando os orifícios com um tecido em forma de rede,
em vez de os abrir com um punçaõ, naõ melhora, na minha
opinião, aquella invenção ; porque nao acho, que, mesmo
este babil chimico, possa dar a razaõ, porque a chama
naõ haja de sair pelos taes orifícios, posto que pequenos.
Mr. Ryan diz, que nunca permittiria a trabalhadores
debaixo de sua inspecçaõ a usar do engenho de aço, por-
Literatura e Sciencias. 185
que he bem sabido que causa explosão, do que estaõ sem-
pre temerosos os que o usam. Quando Mr. Buddle e
Mr. Ryan desceram á mina de Hepburn, Mr. B. naõ se
atreveo a approximar-se a vinte varas de distancia na ex-
cavaçaõ; agora pergunto eu i em que situação está o mi-
neiro, que naõ tiver outra lâmpada, e estiver fazendo o
corte da excavaçaõ ?
Quando voltou para Londres, Mr. Ryan tomou uma
pequena lâmpada, das de Sir H . Davy, que expoz áo
hydrogenio carbonizado, e achou que naõ causava explo-
são ; assoprou-lhe algum pó de carvaõ; que a lâmpada
teria de encontrar, nas minas, aonde ha sempre uma con-
tinuada atmosphcra de poeira de carvaõ. Acendeo a lâm-
pada, pola sobre um tubo de gaz, e atirando-lhe com o
pó do carvaõ achou que acendia o gaz, que estava pela
parte de fora. Repetio a experiência varias vezes, e sem-
pre com os mesmos resultados.
Sabendo que nas minas se usa da pólvora para quebrar
o carvaõ, e que se entorna grande parte delia ; elle mis-
turou com pó de carvaõ alguma pólvora, que regular-
mente causava explosão.
Mencionando-me Mr. Ryan estas circumstancias, con-
cordou em que as experiências naõ eram ainda conclusi-
veis, por terem sido feitas com uma lâmpada, que somente
tinha uma polegada de diâmetro ; porém, tendo procurado
outra de Mr. Newman em Lisle Street, fui hontem com
Mr. Ryan á manufactura de gaz em Dorset Street, aonde
experimentamos a lâmpada, variando muitas vezes as cir-
cumstancias, na presença de Mr. J . Wentcroft, Mr. May,
Mr. Pitcher, e Mr. Moris, os quaes todos atestam as ex-
periências.
Experimentei a lâmpada, primeiro sobre um pequeno
tubo de gaz, com pó de carvaõ e pólvora; que acendeo o
gaz da parte defóra ; depois com pó de carvaõ somente,
que, depois de repetidas experiências, produzio os mes-
186 Literatura e Sciencias.
mos resultados, e deixou uma inílammaçaÕ no fim do
tubo.
Invertendo uma chicara, das que se usam para cha, so-
bre o cylindro, demaneira que fizesse uma leve com-
pressão sobre o gaz, produzio por varias vezes explosão
com o carvaõ.
Fui depois ter â loge de um boticário, e ali forcei al-
gum gaz, que se continha n'uma bexiga, contra um dos
lados do cylindro ao mesmo tempo que apertava levemente
do lado opposto o gaz, que se continha em outra bexiga ;
em breve tempo se inflamraon o gaz que estava de fora :
eu comparo isto com o que succede na excavaçao ; posto
que a força, que nós podíamos usar, éra mui inferior á
que se produz pela velocidade da excavaçao, quando
arrebenta debaixo da terra.
Tenho entrado com alguma extençaõ nestas particulari-
dades ; para dar occasiçaõ a que pessoas scientificas ellu-
cidem mais a matéria. E considero, que o systema de
ventilação de Mr. Ryan he calculado para obviar, no
maior gráo possivel, todos os perigos que resultam da ex-
istência do bydrogenio carbonizado, e gaz ácido carbô-
nico, nas minas.
Achei, que a chama do pavio naõ podia penetrar o cy-
lindro de tecido ; porém que este éra penetrado pela in-
ílammaçaÕ do gaz, quando havia corrente de ar.
Induzio-me a fazer estas experiências com mais parti-
cularidade, a circumstancia de se ter dicto na Casa dos
Communs, que Sir H. Davy tinha direito a um prêmio do
Parlamento, pela invenção de sua lâmpada; assim como
pelo desejo que tenho de mostrar, que as objecçoens, que se
acham contra o seu plano, naõ saõ fundadas em prejuizo
pessoal, mas na convicção de sua falta de segurança; ao
mesmo tempo que assevero, que ó Dr. Clanny, e Mr. Ste-
phenson tem a preferencia na invenção, e por conseqüência
o direito á gratidão da pátria, neste caso, &c.
(Assignado) J , H. H. HOLMES.
Literatura e Sciencias. 187

BRAZIL.
Prelecçoens Philosophicas sobre a Theorica do Discurso e
da Linguagem, a Estética e Dicecsina, e a Cosmologia.
Por Silvestre Pinheiro Ferreira. Rio-de-Janeiro,
1813.
No vol. xiii. p . 460, deste Periódico, annunciamos ja
esta obra; e demos uma breve idea das oito Prelecçoens,
que até entaõ tinham apparecido. Agora, neste mez de
Agosto, nos chegaram ás maõs as outras Prelecçoens,
desde a nona até a vigessima segunda, a que acompanha
uma traducçaõ das Cathegorias de Aristóteles ; pelo mes-
mo Author.
Na prelecçaõ nona ; e primeira das que tivemos o gosto
de ler por esta vez; começa o A. a examinar a philoso-
phia dos antigos e modernos Authores ; e dá principio á
matéria pelas Cathegorias de Aristóteles, como aquelle que
sem duvida tem a primazia ; a qual abundantemente se
mostra, nesta sua obra das Cathegorias; aonde se encon-
tram as mais bellas regras de raciocinar, e fallar com
justeza. Esta prelecçaõ nona explica os principios e jus-
tifica as razoens em que Aristóteles fundou as suas catego-
rias, ou distribuição das ideas em differentes classes ; pelo
que vem esta prelecçaõ a ser mui importante, naõ só para
entender o que o A. diz para o diante ; mas para facilitar
a intelligencia da mesma obra d'Aristoleles.
Nada he mais justo do que a importância que o A. dá
(§ 315) á nomendatura das sciencias: os conhecimentos,
que qualquer homem adquirisse por sua experiência e por
sua meditação, findariam com elle, se naõ pudesse com-
municallos aos demais homens por termos intelligiveis:
assim vemos, que muitos remédios, descubertos pelos anti-
gos, se nao podem usar, ja porque a descripçaõ dos medi-
camentos naõ he intelligivel, já porque ás mesmas enfer-
midades naõ saõ suficientemente characterizadas: e nada
188 Literatura e Sciencias.
contribue mais para a clareza, na communicaçaõ de nossas
ideas, do que a boa nomenclatura.
E com tudo, apenas podemos convir com o A. quando
elle leva isto ao ponto de dizer (322) que " as sciencias
nada mais saõ do que o conhecimento do valor das pala-
vras e phrazes, que constituem a particular nomendatura de
cada uma dellas."
Segundo o mesmo A. (^ 10) a nomenclatura das scien-
cias naõ he senaõ um dos cinco elementos de que ellas se
compõem ; e por isso he difficil de entender porque o A.
neste lugar reduza as sciencias unicamente ao conheci-
mento da nomenclatura. Se nós tivéssemos de diffinir a
sciencia meramente por um dos ciuco elementos, que o A.
lhe assigna, diríamos antes, que " as sciencias nada mais
saõ do que o conhecimento dos factos, sobre que cada
uma dellas se versa." Assim aquelle que soubesse maior
numero de factos seria o mais sábio; mas se julgamos esta
nossa difíiniçaõ defeituosa, por naõ abranger quanto he
necessário, muito menos podemos adimittir a do A., que,
conrespondendo com a nossa no demais, em lugar dos
factos põem a nomenclatura.
Nós conhecemos na America Septentrional, em New-
Jersey, um índio mudo, c que naõ sabia lêr nem escrever.
Este homem éra o curandeiro de sua tribu, e tinha feito
um extraordinário estudo de botânica, e dizem, que tinha
aprendido de sua mãy o conhecimento das virtudes de
muitas plantas; e o mais notável he, que, havendo feito
uma espécie de erbolario, ou collecçaõ de plantas secas, as
tinha classificado, em parteleiras, na sua cabana, segundo
a configuração das raízes, e dahi segundo os usos á que as
destinava; como vomitorios, purgas, antídotos para mor-
deduras de cobras, &c.
Deixando de parte o pequeno gráo de perfeição; ou,
para melhor dizer, a imperfeição da sciencia daquelle
índio, he evidente, que elle possuía em algum gráo ás
Literatura e Sciencias. 189
sciencias da botânica e da matéria medica, sem conheci-
mento do valor de palavras e de phrases ; porque as naõ
tinha; e éra mudo. Se porém o tal Índio quizesse com-
municar essa sciencia, que tinha adquirido, entaõ as pa-
lavras e phrases lhe seriam necessárias ; e tanto melhor
daria a conhecer aos outros o que elle sabia, quanto mais
correctas e mais bem diffinidas fossem as palavras e phra-
ses, que para isso usasse, porque em fim concordamos
perfeitamente com o que o A. diz ($ 323) de que as diffini-
çoens, axiomas, theoremas, e problemas abrangem todas
as partes de um tractado de qualquer sciencia; posto
que naõ sejam a mesma sciencia; pois esta, quanto a nós,
consiste no conhecimento que tem o que a possue, e a
quem chamamos sábio, dos factos, que lhe saõ relativos, e
de um bem dirigido raciocínio, na sua combinação. Neste
sentido he impossível admittir a distineçaõ, que o, A. faz,
($ 538) entre conhecimentos e sciencia: porquanto o
mesmo A., quando tracta de distinguir o estado das scien-
cias do gráo de conhecimentos do sábio escriptor (ç 633),
chama sciencia a massa de doutrinas espalhadas por todos
os escriptos, que delia tractam."
A prelecçaõ décima contem explicaçoens ao segundo
aphorismo das Cathegorias d'Aristóteles; por occasiaõ
disso mostra a importância de bem entender os termos de
Aristóteles horaonymo, e synonymo; assim como os do A.
equivoco, e uoivoco; porque traduz os de Aristóteles. A
undecima prelecçaõ continua ainda com o segundo apho-
rismo : e na duodecima passa ao terceiro e quarto» A
décima terceira prelecçaõ oecupa-se com os aphorismos 5*.
e8™.
O A., tractando nesta ultima prelecçaõ a utilissima ma-
téria dos systemas ; c havendo dado aos systemas natural,
e artificial, os nomes de exegetico e diagnostico; inter-
rompe a sua série de explicaçoens sobre os aphorismos de
Aristóteles; e no $ 494, final desta prelecçaõ, diz as ma-
VOL. X V I I . No. 99. 2B
190 Literatura e Sciencias.
terias que se propõem tractar para o diante, do seguinte
modo : —
" Mais teria eu a observar-vos, sobre a arte e a historia dos sys»
temas. Porém o apontado basta por ora, para o fim de vos desen-
volver a doutrina de Aristóteles, e mostrar-vos na applicaçaõ a este
assumpto, a grande comprehensao de suas utilidades. E portanto,
reservando para mais opportuna occasiaõ o voltar á doutrina dos
systemas, passarei a fallar de outra applicaçaõ por extremo interes-
sante das quatro quandes cathegorias de que tractamos, bem como
das três mencionadas nos três aphorismos de Aristóteles; e vem a ser s
a de estabelecer uma espécie de harmonia entre os differentes idiomas -
facilitar o estudo das linguas estrangeiras; e resolver de um modo
indirecto o grande problema de uma lingua universal: ou ao menos
de um modo de conrespondencia geral entre todas as oraçoens; ao
que os modernos tem dado o nome de passigraphia: na seguinte pre-
lecçaõ tractarei destes differentes usos, a que os philosophos naõ
tem prestado toda a attençaõ, que a importância das suas incalculá-
veis vantagens, no tracto social, lhes devera ter aconselhado."
O A. satisfaz ao diante (% 583) a objecçaõ, que aqui se-
ria mui obvia, de interromper a analize das Cathegorias
d'Aristoteles,estendendo-seem todas as seguintes prelecçoens
(14 a ., ate 22 a .) no parallelo entre as sciencias phisicas e
mathematicas com as moraes, para examinar qual dellas se
acha mais adiantada.
A composição e publicação immediata das prelecçoens,
que naõ permitte a escolha das matérias ; e a considera-
ção de que estas prelecçoens philosophicas, sobre as sci-
encias em geral, naõ eram destinadas a servir de curso
elementar de Philosophia; saÕas razoens do A. para naõ se-
guir uma ligação methodica das ideas, que, sé existisse,
haveria mostrado, que o A. trabalhava sobre ura plano
systematico, em que a distribuição das matérias fosse con-
forme ao arranjamento que o A. tivesse adoptado. Porém
segundo esta declaração do A. parecenos que o Leitor so
deve esperar disserlaçoens sobre vários pontos das sci-
encias, e destinadas para aquella classe de pessoas, que,
Literatura e Sciencias. 191
tendo ja feito um curso de estudos, possue os principios, e
entende a linguagem das sciencias.
Nós naõ podemos aqui deixar de observar, que O A.
mostra vasta amplitude de conhecimentos, nos exemplos de
que se vale, para explicar os seus principios. A cada
passo se acham exemplos tirados dos termos técnicos da
Historia Natural, da Medecina, de todos os ramos das
Mathematicas, da Jurisprudência, &c. Ora he evidente,
que a classe de homens estudiosos, que se tenham appli-
cado ao conhecimento geral das sciencias, ainda sem passar
muito além da nomenclatura, he uma classe bem limitada
de pessoas ; c se fallarmos da mocidade, aquém o A.
dirige as suas prelecçoens, os indivíduos, que possam ter
os conhecimentos, que os exemplos de que se usa nestas
prelecçoens prcsupôem, saõ na verdade rarissimos. O A.
mesmo convém, que pudera ter tirado os seus exemplos,
se quizesse, de cousas triviaes ; e que estivessem portanto
ao capto do commum dos ouvintes de suas prelecçoens;
mas aprouve-llie obrar de outra maneira.
O parallelo do progresso das sciencias em que o A, en-
tra, desde a décima quarta prelecçaõ em diante, merece
bastante attençaõ, naõ só pela importância da matéria, mas
também pelo methodo e arranjamento com que o A. tracta
esta questão.
Havendo o A. reduzido a cinco os elementos das sci-
encias ; a saber, factos, nomenclatura, systema, theoria e
methodo, procede a comparar, as sciencias naturaes com
as moraes, em cada uma destas cinco divisoens, para
chegarão resultado de saber, quaes dellas se acham mais adi-
antadas, e em que parte ou partes destes elementos existe
o tal adiamento; e para provar a necessidade de examinar
a questão com estas distineçoens, se explica com o exemplo
da medecina. (§ 437)
" Be assim, que a medecina, rica em factos, he pobríssima em
nomenclatura • e os mesmos factos acham-se ali até o presente isola-
2 B 2
Í92 Literatura e Sciencias.
dos, sem sustenta. Porém muito mais feliz do que outras Sciencias
no que respeita a theorica, pode apontar sobre as causas, razoens, e
effeitos da maior parte dos symptomas senaõ tudo, ao menos, o que
mais nos importa conhecer He evidente, que, estando taõ atrazada
em nomenclatura, e taõ destituída de systema ; nem mesmo podem
estar lançadas as bases para o methodo, ou, como alguns se explicam,
para uma Philosophia Medica.'"
Tara se entender o bem deduzido parallelo, que o A.
faz das sciencias, he mui essencial ter em vista as divisoens,
e subdivisoens, que dellas faz; assim como as deffiniçoens,
que lhes ajuncta (desde o § 507 até % 512); aqui transcre-
veremos esses lugares do A. antes de dar-mos a nossa
opinião sobre o seu parallelo.
" §507 Abordemos á proposta questão do parallelo das sci-
encias Moraes com as sciencias Phisicas e Mathematicas, debaixo
deste mesmo ponto de vista. E primeiro que tudo fixemos os limites
década uma daqueltas sciencias."
" Appellidara-se pois Phisicas aquellas, que tractam das proprie-
dades dos corpos. Todas as outras intitulam-se Moraes como j s
acima notamos (§495). O campo das primeiras abraça todos os phe.
nomenosnaí inlellectiia.es da Natureza: o destas ultimas naõ se estende
além de uma parte dos phenomeuos do Reyno Animal; quero dizer
aquelles, cujo complexo constitue o que se chama Intelligencia."
" 508. £ ainda he de advertir, que, supposto a alçada das sciencias
denominadas Moraes comprehenda todos os phenomenos da Intelli-
gencia ; de facto póde-se dizer, que até ao presente se acha unica-
mente limitada â Psycologia do Homem. Mas he certo, e convém
fazer-vos notar, que cada uma das innumeraveis familias do Reyno
Animal offerece á sciencia uma nova ordem de intelligencias. E sem
duvida enriqueceria a Psycologia com a descuberta de novos entes o
Philosopho que descrevesse com mais exactidaõ e miudeza, do que
até agora se tem feito, algumas das immensas variedades de entes sen-
sives, que o altento observador contempla extasiado nas differentes
classes de animaes, que povoam o universo, desde o homem até ao
Poljpo."
" 509. Tanto as sciencias Phisicas como as Moraes se dividem em
Positivas e fíypotheticas; e tanto umas como outras saõ históricas ou
theoreticas."
" 510. A parte histórica das sciencias Phisicas affeclou-se o nome
Literatura e Sciencias. 193
de Historia Natural. E á theoretica os de Phisica e de Chimica, na
maneira que expuzemos nos •}§ 156, e 160, advertindo que, quando
assim se contrapõem phisico e chimico, significa o mesmo que me-
chanico."
" 511. Quanto ás sciencias Moraes, distinguindo-as igualmente
naquellas mesmas rubricas, denominaremos umas Sciencias Moraes
Históricas, (ou Historia Natural dos Entes Intelligentes) : e as outras
thepreticas $ que vem a ser a Lógica, a Grammatica, a Esthetica e a
Diceosina.
" 512. Assim como as sciencias Phisicas, logo que saem da es-
phera dos phenomenos, que nos offerecem os corpos da natureza, e
simplificando os objectos e as expressoens, se remontam á vasta re-
gião das hypotheses, se appellidatn Sciencias Mathematicas; do
mesmo modo as Sciencias Moraes, partindo dos phenomenos
intellectuaes, que a experiência nos mostra, criam um mundo hypo-
thetico, edam origem a uma nova ordem de sciencias, que eu de-
nominarei Sciencias Moraes Hypotheticas,e que se poderiam chamar
as Mathematicas das Sciencias Moraes; porque também aqui, por
meio da abstracçaõ e simplificação dos objectos, se chega a deduzir
daquellas hypotheses certas formulas, que, supposto naõ representem
os objectos moraes, taes como elles saõ na natureza, servem com
tudo para os virmos a conhecer por approximaçaõ. E para isso naõ
temos mais do que substituir ás expressoens geraes, e indetermina-
das daquellas formulas, as expressoens determinadas, que a sciencia
Moral Histórica nos offerecer, para o caso que se tractar. Quantas
questoens, por exemplo, naõ resolvemos nós cada dia, com a citação
de uma sentença, de uma máxima, de um provérbio ? Pois estas
nada mais saõ do que expressoens geraes, de que a questão que ven-
tilamos he um caso particular; bem como o saõ das formulas da
Mathematica as questoens, que, pela citação detlas, se resolvem."
Discorrendo o A. pelas differentes sciencias, segundo a
divisão que dellas fez ; e em cada uma dellas pelos cinco
elementos, que deixamos apontado; em todos elles acha
que a preferencia está da parte das sciencias moraes ; e
nos que somos perfeitamente de acordo com a opinaõ do A.
somente pudemos notar neste parallelo, que o A. apontando
a maior parte das faltas, que, em cada um dos cinco ele-
mentos, se observam nas sciencias Naturaes ou Phisicas,
naõ se encarrega sempre do mesmo trabalho, pelo que re-
194 Literatura e Sciencias.
speita as sciencias Moraes; o que notamos, naõ por aceu-
sar o A. de parcialidade, mas porque nos parece que a
comparação seria cabal mente entendida, se a pardas faltas
das Sciencias Naturaes viessem os defeitos das Sciencias
Moraes ; e immediato ás vantagens das Sciencias Moraes
viessem expostos também os melhoramentos das sciencias
Phisicas. Explicaremos com um ou outro exemplo o que
dizemos.
Comparando o A. as sciencias, pelo que respeita a sys-
tema, na prelecçaõ J9 ; desenvolve com a maior clareza
cinco differentes espécies de systemas; expõem mui judicio-
samente os systemas artifial e natural, nota os defeitos
dos systemas nas sciencas naturaes, e decide-se pelas
moraes.
Do % 641 em diante toma para segundo exemplo o es-
tado da Jurisprudência ; e lembra o que ha nesta matéria
de bom pelo que respeita ao systema. Mas nós deseja-
ríamos ver comparados o melhor systema de Historia Na-
tural, com o melhor systema de Jurisprudência, para vêr
entaõ qual destes systemas conrespondia melhor aos seus
fins.
Supponhamos que a comparação éra feita entre a Histo-
ria Natural de Linneo, e o Digesto i Qual destas duas
obras classifica melhor os seus objectos ? Qual tem as di-
visoens mais adaptadas á natureza das matérias i Qual
offerece mais auxilio á memória pela ligação dos differentes
assumptos uns depois de outros ?
Quando o A., notando os defeitos do systema de Linneo,
aponta o acharem-se connexos em uma divissaõ o bugie
e a balea; nos teria muito satisfeito, se notasse também,que
os escravos, no Direito Romano, saõ considerados como
cousas e naõ como pessoas, e que por tanto os titulos sobre
os escravos naõ devem entrar na divisão daquelles em que
se tracta de pessoas.
Pelo que respeita a nomenclatura, quando o A. mortra
Literatura e Sciencias, 195
os defeitos da nomenclatura nas sciencias naturaes ; po-
deria também ajunctar logo os grandíssimos defeitos da
nomenclatura na jurisprudência; e que tem sido mo-
tivo de tam bem fundadas queixas de muitos Juriscon-
sultos.
O A. leva esta súperidade das sciencias Moraes ao
ponto de dizer, pelo que respeita a linguagem, que " naõ
constando as línguas vulgares senaó de palavras e de
phrases, cujo valor tem sido determinado e fixado pelo
uso dos povos, naõ pode jamais ser incerto, ainda que al-
gumas vezes possa ser difficil de definir."
Era para desejar, que o A. lembrasse também aqui as
immensas duvidas que occorrera todos os dias, em conse-
qüência da incerteza do valor das palavras e phrases.
Continuamente he necessário recorrer á decisaõ de juizes
ou de árbitros, para dar alguma intelligencia ás disposi-
çoens testamentarias, ainda quando o testador se tem es-
forçado por expressar claramente a sua vontade. As pa-
lavras de que usaõ os indivíduos nos seus contractos, saõ
constantemente a causa de demandas, para averiguar o
seu valor ; e na legislação Romana este inconvemente foi
sentido a tal ponto, que se determinaram certas formulas
das quaes deviam os contractantes usar, sobpena de serem
nullos seus contractos ; formulas que outros legisladores
acharam ser remédio quasi tám pernicioso, como a mal a
que se propunham curar : e assim se puseram outra vez
essas formas ou em desuso, ou sugeitas a muitas excepçoens
e modificacoens.
As mesmas leys, cujas palavras saõ ponderadas com to-
do o cuidado, offerecem exemplos de tanta incerteza na
sua intelligencia, como as expressoens do testador, ou do
contractante.
Isto posto naõ será fácil o provar, em toda a sua exten-
çaõ, que nas línguas vulgares o valor das palavras naõ
pôde jamais ser incerto.
196 Literatura e Sciencia».
O A. fazendo-se cargo de responder a alguma objecçaõ
contra a jurisprudência, diz, (S 646) que he preciso naõ
confundir os erros dos Sábios, com o estado das sciencias;
mas nos julgamos, que nao ha outro modo de comparar o
estado dai sciencias, senaõ comparando os coriíeos de cada
uma dellas um com outro, seja em todos, seja em parte
dos elementos das sciencias. H e por isso que neste paral-
lelo desejávamos ver comparado Linneo com oDigesto,
Tournefort com Coufucio, Boheraave com o Koran. Ou
olhando para os authores novíssimos desejaríamos ver com-
parados o systema nomenclatura e methodo de Cullen, na
Medecina, com Bentham, na Legislação.
Mas nem por isso, que desejávamos ver o parallelo, que
o A. se propôs a fazer das sciencias, exemplificado de
escriptor a escriptor, differimos em opinaõ quanto á con-
clusão, que a vantagem se acha da parte das sciencias
Moraes ; e tanto somos nisto da opinião do A. que naõ
podemos convir na expressão do % 647 (se elle se deve
entender como soa) " de que nenhum dos que escreveram
sobre a Jurisprudência abraçou o plano de recopilar em
um só corpo e tractar methodiamente da Nomenclatura e
Systema da Sciencia:" Porquanto, na nossa opinião isso
fizeram quanto ao Direito Romano, os compiladores das
Institutas deJustiniano,e depois delles Heinecio; e quanto
ao Direito universal Bentham, e outros : a questão he, se
elles fizeram as suas recapitulaçoens com tanto methodo,
taõ boa nomenclatura, e taõ bem aranjado systema, como
Linneo na Botânica, Cullen na Medecina Chaptal na Chi-
raica, &c.
Concluiremos agora esta breve noçaÕ das matérias, que
o A. se propõem tractar nestas Prelecçoens, copiando o
modo porque elle se exprime, sobre a causa da alternativa,
que se tem experimentado em todas as naçoens do mundo,
passando do estado de ignorância ao de instrucçaõ, e deste
outra vez ao estado de ignorância. Ha sem duvida outras
Literatura e Sciencia». 1-97
causas, que a historia nos ensina terem produzido, em al-
gumas naçoens, a fatal passagem das luzes para as trevas,
ott do estado de civilazaçaõ para o da barbaridade, mas
a causa, que o A. assigna, tem sido algumas vezes a única ;
em outras, tem obrado em concurrencia com as demais ;
e se acha taõ enérgica c succinctamente deduzida, que
temos grande prazer em a expor aos nosros Leitores pelas
mesmas palavras do A. (§ 573)
" O vulgo, qualquer que seja a naçaõ, conserva-se sempre em um
destes dous estados. Em quanto o numero dos homens de letras e
de educação he limitado, o vulgo permanece naquella infância de
conhecimentos, a que se chama barbaridade. E depois que, espa-
lhando-se a instrucçaõ, se forma entre os homens de letras e o vulgo
uma classe media, composta de homens encyclopedicos ou charla-
taens $ isto he; que de todas as palavras scienlificai tem idea informe
e estropeada; entaõ começa o império das homonymias ou equí-
vocos."
" 574. Ora como similhante sciencia consista toda em um jogo
de palavras, cousa fácil, e ao alcance de todo o mundo; cresce tanto
mais rapidamente o numero dos adeptos, quanto he agradável a sur-
preza, cora que conduzidos pelo mágico charlatão de metaphora em
metaphora, aprendem e se habituam a discorrer sobre qualquer ma-
téria que se offerece i por quanto dado um thema, isto he uma pro-
posição, em que se affirma ou nega algumas cousa, vara-o sueces-
sivatnente transformando, pela substituição dos synonimos e horao-
nymos, década amadas palavras do mesmo thema: de modo, que
cada nova forma em que elle apparece, por virtude destas suecessi-
vas substituiçoens he uma nova conclusão : he para elles uma nova
verdade, tanto mais notável e preciosa quanto mais paradoxal ou
fora da natural expectaçaõ. Por esta arte o charlatão confunde-se aos
olhos do vulgo com o sábio, naõ só pelo estylo e linguagem, de que
•e serve; mas até pela deducçaõ de novas, e admiráveis conclusoens,
que recebe como outras tantas verdades. Mas aos olhos do vulgo o
charlatão deve apparecer tanto mais superior ao sábio, quanto forem
mais espantosas as conclusoens, que elle deduzir dos seus errôneos dis-
cursos."
" 674. Cresce pois com o numero dos sábios o dos charlat&ens *.
com a differencia porem que a proporção cresce sempre, e com rá-
pido progresso em favor destes: bem depressa a numerosa cohortt
VOL. X V I I . N o . 99. 2 c
198 Literatura e Sciencias.
dos falsos sábios, naõ podendo fazer triumphar seus erros pela per-
suasão, recorre á força : guerras de opinião devastam os Estados *, e
o vulgo, confundindo outra vez os verdadeiros com os falsos sábios,
proscreve de envolta os bons com os máos conhecimentos : mas naõ
podendo banir de uma vez todos os conhecimentos, capitula, e faz
escolha. Ora a verdade he inflexível, naõ sabe capitulai*; a verdade
he uma só, naõ pode haver escolha. A verdade he pois banida, e
dos erros voltam a dominar aquelles, que parecem menos compatíveis
com os erros, que acabam de fazer a desgraça dos poros. Assim
passam alternativamente as naçoens das trevas da barbaridade ás luzes
da razaõ, e destas tornam a cair, sempre conduzidas pela maõ de
charlatanismo, no cahos da ignorância."

Economia Politica de Mr. de Simonde.


[Continuada de p. 57.]
CAPITULO II.

Dos Capitães Fixos.


Deixámos dieto que o primeiro modo por que os ricos
podem empregar os seus capitães com ganância, be fixando-
os de sorte que ajudem as forças produetivas do trabalho.
Toda a naçaõ civilizada possue capitães fixos deste modo
em grande quantidade; e esta he uma das causas a que
se deve attribuir a superioridade dos productos de sua in-
dustria aos de uma naçaÕ selvagem.
O primeiro trabalho produetivo, que o homem fixou, foi
destinado a beneficiar a terra. A sua fecundidade he fonte
de riquezas tanto mais abundante, quanto melhor o ho-
mem sabe como ha de obter delia, aquillo de que tem pre-
cisão. Pode-se, com Mr. Canard, considerar a desco-
berta da arte de obter colheitas, como o resultado do tra-
balho do homem; he o fructo das primeiras experiências
do primeiro cultivador. Nesta hypothese, nunca houve
trabalho mais produetivo que o seu, porque a sua inven-
gaõ, que talvez se deva tauto ao acaso como á diligencia,
0
Literatura e Sciencias. 19*
deo origem ao valor de toda a terra. O homem activo faz
algumas vezes destas descobertas felizes, que mudam a
sorte do gênero humano ; e como he pelo seu trabalho que
elle vem a dár nellas, podem olhar-se como fructos delle.
Mas este fructo he, como se vê, de natureza differente da-
quelle, que, proporcionando-se ao tempo e aos meios em-
pregados pelo obreiro, se acha realmente no valor dos
objectos produzidos.
Depois desta primeira descoberta pode-se a terra ficar
considerando como uma obreira productiva; o homem
poem-a a trabalhar, ella opera, e o valor do seu trabalho
accumula-se no valor das suas producçoens. O direito de
pôr ao trabalho esta obreira tam útil, he o que se chama
propriedade do chaõ. O valor do seu trabalho, primeira
origem da renda dos immoveis, pertence aquelle que se
acha apoderado da superfície de uma porçaõ de terreno, e
do qual o direito he reconhecido pelos seus concidadãos.
Quando a povoaçaõ cresceo nas naçoens civilizadas, já os
que vinham achavam o território repartido por differentes
donos: Os que assistiram á primeira repartição das ter-
ras tiveram a vantagem sobre os outros ; e mesmo quando
naõ cultivavam a terra, que lhes coubera em sorte, essa
terra era avaliada em razaõ da propriedade virtual, que
tinha de fazer um trabalho produetivo, sendo posta em ac-
çaõ. He por isso que nas naçoens civilizadas, a terra in-
culta também tem seu valor.
Vai, porem, muito do preço da terra inculta ao do solo
roteado; he neste ultimo que commeça a accumulaçaõ
real do trabalho produetivo do homem. He preciso para
tornar fértil um terreno selvagem, para o minar, murar, e
fazer-lhe plantaçoens, um trabalho tanto mais considerável,
quanto mais aperfeiçoada a agricultura se acha; e o pro-
prietário, ou alguém por conta delle, faz este trabalho,
cujo Valor total se ajuncta ao do immovel.
Como a sua efficacia naõ se limita a um so anno, mas
2Q%
200 Literatura e Sciencias.
dura quasi para sempre ; e a terra, depois de estar acostu-
mada á cultura, vem a produzir mais ; o direito de pro-
priedade ou de cultivar uma terra melhorada, fica sendo
mais precioso do que o de cultivar uma terra virgem, por-
que produz mais a seu donno; e s e este o chega a ceder a
outrem, he por um preço muito maior. A retribuição,
pela qual o proprietário do solo larga este direito ao seu
rendeiro, he o que se chama renda das terras, ou o ganho
liquido da cultura. He, portanto, em parte uma com-
pensação pelo direito de propriedade da terra inculta; e
em parte uma producçaõ do trabalho accumulado nella,
para a pôr cm estado de se poder cultivar.
O trabalho que o agricultor faz depois, para pôr imme-
diatamente a terra em acçaõ, so se accumula na colheita
de um ou mais annos ; e se fixa sobre o solo, naõ he se-
naõ momentaneamente, até que o recobra nas suas produc-
çoens. Pertence, portanto, á classe dos capitães circu-
lantes.
Depois do trabalho que se fixa no roteamento das terras,
o que se fixa na construcçaõ das habitaçoens faz um dos
capitães nacionaes mais importantes e viziveis. Naõ
quero dizer que a muitos respeitos as casas naõ possam ser
consideradas antes como objectos de consumo, que como
um capital fixo : a casa he uma das necessidades do ho-
mem, e he para elle uma despeza da mesma forma que o
be o mantimento; mas, como a agricultura, as artes, e o
Gommercio naõ poderiam existir sem os edifícios destina-
dos a recolher os labradores, os artífices, os commercian-
tes, os seus instrumentos e os seos productos, o custo da
sua habitação, a venda do trabalho empregado em a con-
struir, ha de accrescer naturalmente ao valor do producto
da sua industria ; de sorte que esta parte dos edifícios, que
he destinada para habitação e officinas de artífices pro-
ductivos, forma uma porçaõ de capital nacional fixo, e
Literatura e Sciencia». 201
«ontribue para augmentar o valor do trabalho, qne a naçaõ
fizer dali por diante.
Outros edifícios ha que produzem por si mesmos dés
que saõ postos em acçaõ. Estes saõ artífices materiaes
creados pela industria humana : o seu trabalho, da mes-
ma sorte que o da natureza, se realiza no valor dos objec-
tos que criam ou modificam. Os moinhos, as forjas, as
serras, os fornos, e, em geral, todas as maquinas, perten-
cem a esta classe, uma vez que estaõ construídas, a sua
renda ou o seu aluguer representa o valor, que o trabalho
accumulado nellas augmeata no trabalho annual do ho-
mem.
O capital fixado nos edifícios ou nas maquinas naô fica
ali para sempre, como o que se fixa nas terras ; deminue
gradualmente, á proporção que o edifício se consume, e vai
achar-se nos objectos produzidos pela industria dos que o
habitavam. O capital empregado nas ferramentas e in -
strumentos da agricultura e dos officios mechanicos ainda
menos tempo subsiste; alguns ha que duram annos, e ou-
tros apenas alguns mezes, e vai entrar no valor de todas as
mercadorias produzidas por essas ferramentas: de sorte
que estas mesmas saõ em parte objectos de consumo, e em
parte capitães fixos.
Como os mesmos objectos se reputara em mais estando á
ma5 dos consumidores, do que estando distantes; convi-
nha á sociedade fixar uma parte dos seus capitães em fa-
cilitar os transportes. A esta classe dos trabalhos accu-
mulados pertencem, de uma parte, as estradas, os cana es, e
os portos; e da outra, os carros, e as embarcaçoens : a
renda de uns e outros se recobra uo augmento do valor
das mercancias, postas por meio delles no logar aonde d e -
vera ser consumidas.
Uma naçaõ he rica em proporção do numero que pos-
sue de obreiros productivos ; e esta he a ultima espécie
de capital fixo. He preciso que o trabalho da idade viril
202 Literatura e Sciencias.
de um artífice compense o consumo de toda a sua vida s
porque na sua infância gastou-se muito com elle, e muito
tempo se passou antes de elle estar capaz de fazer algum
trabalho, ou ao menos, antes de fazer trabalho equivalente
á sua despesa: consumio os alimentos e mercadorias, que
haviam sido produzidas pelo trabalho de outros artífices.
Todos os que hoje existem foram creados e tem vivido do
trabalho dos seus predecessores; se o seu numero, se tiver
augmentado, he forçoso que houvesse previamente uma
accumulaçaõ de trabalho para os alimentar e vestir. Esta
accumulaçaõ se fixa e se realiza na sua existência. A
proporção que as suas forças vitaes se consumem, recobra-
se a dieta accumulaçaõ de capital pelos productos do seu
trabalho.
Quando morrerem os que formam a geração actual, se
tiverem estado toda a sua vida assíduos nas suas officinas,
todo o seu consumo se terá recobrado, e nada se haverá
perdido.
Aquelles artífices, que tem adquirido uma habilidade
particular para o trabalho, seja applicando.se, nos annos
em que poderiam trabalhar, a adquirir uma industria mais
productiva; seja empregando no mesmo objecto um capi-
tal, isto he, a somma do trabalho dos outros; estes, digo
eu, tem fixado em sua própria vida maior quantia de
trabalho accumulado ; e nem por isso a naçaõ deixará de
ser mais rica, possuindo um so artífice distincto, que mui-
tas vezes lhe causará mais proveito que 10 ou 100 artífices
ordinários : naõ somente porque elle produzirá mais annu-
almente, mas até porque lhe custou mais a formar. *

* A habilidade adquirida pelos artistas improduetivos lambem faz


parte do capital fixo ; porque os meios de procurar regalos e fazer
serviços aos homens devem ser contados entre as riquezas nacionaes:
se, pois, fizermos o inventario da riqueza de uma naçaõ, poremos a
habilidade dos seus jurisconsultos, dos seus médicos, dos seus come-
Literatura e Sciencias. 203
O valor real do capitai fixo he o trabalho que está ac-
tualmente accumulado nelle ; e a sua renda be a quantia
que elle augmenta no valor annual do trabalho humano.
Porem, como o capital fixo naõ pode separar-se quando se
queira dos objectos em que está accumulado; ou elle ali
fique para sempre, ou se extráha gradualmente no valor
dos gêneros que por meio delle se obtém, quando se tracta
de o avaliar, olha-se menos para o que custou, do que
para o que poderá inda render. Ora a relação que ha
entre a renda e o capital fixo que ella suppoem, depende,
como a diante se verá, da relação que existir entre o lucro
e o capital circu lante; de sorte que o valor do terreno dos
immoveis varia com os lucros do commercio. Se, por
exemplo, succede que, por um progresso de augmento
da riqueza nacional, o lucro do capital circulante abate
de 20 por cento a 10 por cento por anno, o valor capital
dos immoveis comparado com a venda que daõ será do-
brado : naõ porque elles contenham na realidade mais ca-
pital accumulado; mas porque o seu rendimento, pela
proporção admittida naquelle periodo da sociedade, re-
presentará mais.
De todas as fontes de renda, que vimos de enumerar, so
uma he por sua natureza inexgotavel, e d'onde o trabalho
accumulado pelo homem naõ pode jamais sair todo em
algum espaço de tempo maior ou menor. Esta he a que
representa a propriedade virtual, que a terra tem, de pro-
duzir, logo que he convenientemente posta em acçaõ. Esta

diantes, e dos seus músicos, na mesma linha dos seus artífices de toda
espécie.
Isto naõ destroe a distineçaõ entre as duas classes de artistas, por-
que continuando o mesmo inventario, por-se-hia na parte do mo vi-
vei, ou do capital circulante, os productos dos artífices, e até os vi-
veres por consumir, que saem de suas loges ; mas naõ se metteriam
lá as sentenças dadas, as junctas e visitas dos médicos, nem as repre-
sentaçoens, nem os concertos com que o povo se diverte.
204 Literatura e Sciencias.
parte da renda, como já dissemos, naõ he verdadeiramente
um fructo do trabalho humano, mas sim a compensação
de um privilegio; e resulta da espécie de monopólio que
disfructamos proprietários de terras sobre todos os seos
concidadãos.*
Os artífices, e aquelles que possuem trabalho accumu-
lado nunca poderiam obter colheitas, se os proprietários
do solo lhes naõ alugassem o trabalho de terra para con-
correr com o seu. Desta espécie de monopólio resulta,
que o aluguer do trabalho da terra naõ he tam proporcio-
nado á sua força productiva, como á necessidade que delle
ha, ou maior ou menor concurrencia a elle; e que a ren-
da de um campo fértil vale pouco em ura deserto, ao mes-
mo tempo que a de um campo estéril se estima em muito
nas vizinhanças de uma cidade rica e populosa.
0 monopólio he, pois, a base da parte da renda, que se
pagaria pela terra inculta, em quanto a outra parte, que
representa o trabalho que o proprietário tem accumulado
sobre o seu solo, segue a mesma marcha, e he sujeita ás
mesmas regras que a renda dos outros capitães fixos.

* Este monopólio he necessário, e conveniente á sociedade,


porque naõ poderiam as terras ser bem cultivadas se se dividissem por
todos os cidadãos, tam pouco se naõ fossem dadas em propriedade.
C 205 ]

MISCELLANEA.
EDUCAÇÃO ELEMENTAR.

N-.5.
Emprego dos meninos nas differentes classes.
Terceira classe e seguintes,
\JS MENINOS, que chegam ao ponto de conhecer bem
as sylabas de duas letras, entram na terceira classe aonde se
lhes ensinara as sylabas de três letras; justamente pelo
mesmo methodo; e isto constitne os estados da terceira
classe; assim como o conhecimento dos números na com-
binação de três letras de conta.
A quarta classe aprende as syllabas de quatro letras; e
os algarismos também até quatro letras.
A quinta classe estuda as palavras de muitas sylabas,
soletrando sylaba por sylaba, e mui devagar, mas com o
acento próprio da palavra, e imitando o decuriaõ. As
syllabas precedentes naõ se repetem depois das subse-
quentes. Por exemplo Re-li-gi-aõ consta de quatro syl-
labas, que o menino pronuncia rc, li, gi, aõ, sem que fa-
tigue a atenção, nem restrague a intelligencia e o tempo,
com a desnecessária repetição das syllabas. Por este me-
thodo adquire a liçaõ da palavra em menos tempo, e
aprende ao mesmo tempo o acento, que lhe deve dar.
Quanto á arithmetica, o estudo dos algarismos se leva
nesta classe até cinco letras, e se aprende também a for-
mação das fracçoens.
A sexta classe consta dos meninos, que, lendo bem as
palavras, podem ja ler algum livro. Tem-se escripto em
Inglaterra varias obras para este fim; como resumos da
Bíblia, Cathecismos, contos moraes, &c.; e as palavras
saõ lidas sem primeiro repetir as syllabas separadamente.
Vot. XVII. No. 99. 2D
206 Miscellanea.
N a escripta cessam os meninos de escrever na pedra, e
principiam a escrever em papei ; mas para evitar a des-
peza do papel ; que be um artigo considerável nas escholas
gratuitas, inventaram em Inglaterra o uso de um papelão
envernizado com certo verniz, que admite bem a tinta;
mas que se limpa lavando as letras com uma esponja hu-
medecida com água ; o que faz com que o papelão sirva
para muitas escriptas.
Nesta classe começam os meninos a aprender as opera-
çoens de arithmetica ; e portanto daremos aqui o methodo,
que nisto segue Mr. Lancaster, posto que ha outros, que
se dizem ser igualmente úteis e fáceis.
Segundo o methodo antigo, o mestre escreve em um
livro ou papel, para cada discípulo, as somas que elle
deve somar, multiplicar, &c. os menimos vaõ para os seus
lugares, aondem fazem a operação, e depois o mestre ex-
amina se está correcta.
Os defeitos deste methodo consistem; na despeza do
p a p e l ; no tempo que perdem o mestre e os discípulos ; e
na duvida de que a operação foi feita pelo mesmo discípu-
lo ou por outro. Tudo isto se remedeia escrevendo os me-
ninos as somas, quem o decuriaõ manda escrever a todos
ao mesmo tempo, usaudo da pedra em vez de papel; e
fazendo a operação immediatamente á vista do decuriaõ.
Por este methodo o decuriaõ á frente do seu banco,
manda a todos os meninos escrever uma soma, por ex-
emplo 6 4 0 ; por baixo desta outra, 320; e por baixo
desta outra 160 ; dahi manda soinmar as três addiçoens, e
todos os meninos, logo que acabam a operação, voltam
a pedra para fora, para a inspecçaõ do decuriaõ.
Por este modo o decuriaõ vê em primeiro lugar,
quaes saõ os meninos mais expeditos em fazer a
operação; c, em segundo lugar, observa os erros de
cada nm para os corrigir. Daqui provém também a fa-
cilidade de conhecer o gráo de melhoramento dos meninos
2
Miscellanea. 207
para a divisão das classes de arithmetica, assim como de
leitura e escripta ; porque deve sempre haver o cuidado,
de naõ demorar em uma classe inferior, o menino, que tem
feito assás progressos para ser posto na classe comparativa-
mente superior.
O mesmo methodo he exactamente applicavel ás outras
operaçoens de diminuir, e repartir ; porque naõ ha mais
do que o decuriaõ ensinar a todos os meninos a um tempo,
aquilo que nas escholas ordinárias se ensina a cada menino
individualmente. A differença de fazerem todos a mesma
operação, com os mesmos algarismos, naõ altera em cousa
alguma o adiantamento dos meninos, como he manifesto,
ao mesmo tempo que poupa um incançavel trabalho ao
mestre.
Quanto ás operaçoens da somma, e diminuição, os meni-
nos começam por aprendêllas uos papeloens da parede
como as letras do a, b, c ; assim, formando os meninos
um circulo de oito ao redor da carta, em que estaõ os al-
garismos, o decuriaõ lhes pergunta individualmente ; por
exemplo - 9 c 9 quantos saõ ?; o menino deve responder,
18. Se o menino naõ responde acertadamente, a mesma
pergunta se faz ao menino seguinte : assim se dividem as
classesd'arithmetica como as de lêr, com as mesmas distinc-
çoens, números, prêmios, &c. e só depois qne os meninos
podem bem responder a estas perguntas entram na opera-
ção desommar na pedra, como fica dicto.
Como em todas as operaçoens d'arithmetica he necessá-
rio começar por poucos algarismos, e Silos auginentando â
proporção do adiantamento dos discípulos, assim na classe
de sommar se deverão fazer subdivisoens dos meninos, que
sommam addiçoensdeduas, três, quatro, &c. letras de conta.
Nestas novas escholas ha livros, em que se acham ex-
emplos de muitas contas em todas as operaçoens ; e cada
decuriaõ tem um livro destes, para por elle dictar aos
discípulos as parcellas sobre que tem de fazer as opera-
2 D 2
208 Miscellanea.
çoens ; e assim sem ter o trabalho de fazer elle mesmo a
operação, olhando simplesmente para o resultado no livro,
decide se a operação dos discípulos está ou naõ correcta.
Donde se vê, que naõ he necessário que um menino seja
mui provecto cm arithmetica, para poder servir de de-
curiaõ nestas classes d'arithmetica; dictar as somas para
as operaçoens, e decedir se as que fizeram os discípulos
estaõ ou naõ certas. Além de que um decuriaõ gasta o
mesmo tempo em ensinar dez, que em ensinar vinte dis-
cípulos.
Outro methodo para os meninos trabalharem as opera-
çoens, he em circulo ao redor do papelão aonde estaõ es-
cripta s as parcellas que se devem sommar. Cada um dos
meninos copia aquellas parcellas para a sua pedra; e faz
a somma : dahi o decuriaõ pergunta ao primeiro menino
qual he a somma total; se este responde errado; o decuriaõ
naõ o emenda mas pergunta ao menino segundo, o qual, se
diz a somma certa, he premiado com tomar o primeiro lugar,
e decoração honorífica; que conserva até qne responda
alguma vez errado ; porque entaõ he substituído pelo que
primeiro depois delle disser a somma certa.
Seria agora desnecessário decorrer por todas as classes,
tanto de lêr e escrever como de contar; porque os exem-
plos dados mostram bem o systema das divisoens, a dimi-
nuição do trabalho do mestre, e a economia do tempo dos
discípulos. As mesmas regras saõ applicaveis a todas as
classes, e a mesmas vantagens se seguem em todos os pe-
ríodos da educação elementar.
Ainda mais, estas mesmas regras se tem applicado no
ensino de outros objectos ; como he, por exemplo, nas
escholas de meninas, no ensino da custura, aonde este
novo methodo se tem applicado com iudizivel vantagem.
Resta-nos agora examinar a econômica e arranjo geral
adoptado nestas novas escholas ; que muito contribue
para a boa ordem aproveitamento dos discípulos, e rc-
Miscellanea. 209
ducçaó do tempo necessário para os meninos aprenderem
as primeiras letras. Isto será o objecto dos ensaios se-
guintes.

Reposta aos Folhetos de Jozé Agostinho de Macedo.


Presbitero Secular.
Eu detesto a arrogância, e a soberba, e o caminho corrompido,
e a boca de duas línguas, Frov. Cap. 8. V*. 13.
Senhor: livraa minha alma dos lábios iníquos, e da lingua enga-
nadora. Psalra. 119. Vo. 2.
Estas poucas palavras seriam sufficientes para uma com-
pleta refutaçaõ dos vossos Folhetos. A reposta, que dei
ao Opusculo, em que pertendestes ostentar erudição,
deveria ter fechado os vossos beiços iníquos, e a vossa boca
de duas línguas. Mas como querereis tirar do nosso si-
lencio a vaidade de um triunfo, eu vou mostrar ao mundo
o vosso abominável caracter, e a innocencia de homens,
que taõ cruelmente tendes, e estaes perseguindo.
Se medito sobre as abortivas producçoens do vosso en-
genho, attino com as suas cauzas. Primeira: Porque
naõ sendo admittido â Sociedade, a pezar dos maiores
empenhos, e esforços, publicastes os Folhetos como um
rasgo do vosso animo vingativo. Segunda : Escrevestes á
medo o primeiro, eaté occiiltasteso nome ; mas vendo que
aos pres-oens dos cegos tinha sido a sua venda lucrativa,
multiplicastes as compoziçoens de Barruel e os vossos
aditamentos em razaõ de utilidade. Terceira : Vistes ap-
provado o vosso primeiro ensaio pelas Authoridades Con-
stituídas, entaõ apparecéram os Folhetos com o vosso re-
speitável nome. Que gloria tendes ganhado !
Vos naõ sois juiz establecido por alguma Authoridade,
e por conseqüência naõ tendes ura poder legitimo para vos
erigirdes em Julgador. Há Tribunaes, a que pertence o
210 Miscellanea.
exame, tanto no que diz relação á Politica, como do que
respeita á Religião. Naõ pertencendo á alguma destas
classes, que direito tendes para levantar uma voz estron-
doza, e declamar contra erros, revoluções, heresias, re-
bcllioens, e impiedades, que só tem existência na vossa
imaginação afogueada ? Quero suppôr-vos por um in-
stante munido de Authoridade, e que saõ verdadeiras as
vossas ficçoens. Neste cazo a Religião Christaã, de que
fazeis tanto alardo, mas que professaesde nome, vos manda,
que tenhaes compaixão, e que vos humilheis. Com-
paixão dos seus desvios ; humiliaçaõ porque podeis cahir
nos mesmos. Saõ verdadeiros todos estes crimes, de que
aceuzaes os Pedreiros Livres : Naõ deveis uzarde injurias,
e de insultos para combater o erro, e persuadir a verdade.
Attendei ao que vou dizer: Nunca a verdade deve ser
persuadida por meios violentos, e cruéis. Esta máxima
hé para vos um paradoxo. Ella com tudo hé emanada da
Sancta Religião de Jesus Christo. Este o espirito da sua
ley. Que será pois doque sem missaõ se erige em disf,emi-
nador de imposturas, e de calumnias ? Este Apóstolo da
mentira, que só tem uma Religião apparente, e que per-
tende com ella authorizar o seu insensato fanatismo, e a
sua cruel perseguição, dirá sem remédio, com os infelizes de
que falia, a Escritura ;—logo nós nos extraviamos do ca-
minho da verdade.*
Sois um compilador das extravagâncias, que achastes
escriptas. Sem talento, e sem estudos para uma composi-
ção seguida, aonde á uma eloqüência grave se ajuntem
pensamentos sólidos, toda a vossa applicaçaõ tem sido re-
colher quantas injurias encontrastes dispersas em Escriptores
ignorantes, fanáticos, e mal intencionados, t Chilon de

* Ergo erravimus á via veritatis, Sapient. Cap. 5. V». 6.


+ A guerra hé sempre funesta â Religião, e á Sociedade. Esta
guerra, que principiou pelo Continente, e veio fazer da Peninsula
Miscellanea. 211
Sparta, um dos sette sábios da Grécia, se fez memorável
pelas suas virtudes, e pelas máximas da moral mais
pura : Máximas, qoe eram a expressão dos seus cos-
tumes graves, e austeros. Elle fez insculpir no Templo de
Delphos em letras de ouro este celebre Oráculo.—Co-
nhece-te ati, ati mesmo.—* Sc o tivesseis lido, evitarieis
dar ao publico folhetos, que se naõ conformam com a
vossa conducta, c caracter. Sim, a primeira das virtudes
hé o conhecimento próprio. Este conhecimento vos en-
cheria de susto ao pegar ua penua ; e a humanidade naõ
soffrería.
Chamais á sociedade dos P. L. uma seita infame : Hé
delírio. Naõ há cousa mais difficil, e mesmo extraordi-
nária, que a mudança de religião. Os principios, e máxi-
mas, que bebemos com o leite, adquirem com o tempo o
mais obstinado affêrro. A natureza habituada reziste á
força, que se lhe applica em contrario. O arbusto tenro
cede á maõ, que o indireita. Sobre a arvore annoza toda
a violência hé inútil. Observai esse grande numero de
seitas, que em todos os séculos tem derramado a aflição, e
amargura sobre a Igreja de Jezus Christo. Vede quanto
saõ raros os que abrem os olhos á luz da verdade, e abjuram
os seus erros. Se perguntaes as cauzas, saõ muitas, que

um theatro de calamidades, e de horrores, tem por toda a parte des-


serainado a ignorância, e embrutecido a razaõ. O espirito assustado
pelas desgraças actuaes, e imminentcs naõ lê, naõ inédita e naõ dá
um só passo no conhecimento das sciencias úteis. A estas tem sue-
cedido um tropel de periódicos frivolos, que tem deslustrado as Na-
ções, e ecelipsado a sua gloria. Mas Portugal tem excedido á todas
nestas Compoziçoens superficiaes, e irrizorias. Sem applicaçaõ, e
sem estudos a» producçoes do espirito saõ bagatellas e desvarios. Eu
naõ quero maior prova do que o trabalho, em que tendes consumido
o tempo. Gritaes contra os P. L.; quereis revoltar a Naçaõ inteira
contra a Sociedade; dezejarieis ver todos os Sócios numa só cabeça
para dar cabo delles . . . . Que fructos gloriozos do vosso talento !
Que homem útil ao gênero humano !
* Chilon Diccionaire Histoiique. Condillac Tora. 4. Cap. 18.
212 Miscellanea.
simultaneamente concorrem. A educação, as máximas, e
exemplos paternos ; a authoridade de pe&soas respeitáveis,
que seguem, e ensinam a seita; o interesse, e a honra, que
resultam da conservação dos cargos; e outros motivos re-
unidos fazem, que o homem naõ examine prova alguma,
e presista convencido de ser verdade, o que realmente hé
illusaõ. Ora como pertendeis persuadir nos vossos folhe-
tos, que milhares de indivíduos deixam instantaneamente a
religião de seus paiz, e abraçam uma seita pernicioza, e
infame 1* Succede algumas vezes, que este, ou aquelle
individuo muda de religião, ou para conseguir algum em-
prego honrozo, e lucrativo, ou arrebatado de paixão vio-
lenta para ver coroadas as suas pertenções n'um casamento,
a que aspira. Mas sem sahir de Portugal, três a quatro
mil homens actualmente na sociedade desprezaram a reli-
gião de Jezus Christo, única, em que há salvação, e se
alistaram na imaginada seita dos pedreiros livres ? Simi-
lhante credulidade indica vergonhoza estupidez. Este só
argumento bastaria a dissipar as vossas preocupações, se
naõ tivesseis cuberto o entendimento com o espesso véo do
fanatismo. Para confuzaõ vossa, e convencer-vos da ig-
norância com que fallas, reforço o argumento ajuntando
a reflexão seguinte. Para esta sociedade o amigo convida
os seus amigos; o irmaõ os seus irmaõs, e o pay os seus
filhos. Ora hé factível, que a amizade, o amor fraterno,
e a submissão filial chegera ao ponto de obedecer cega-
mente contra a consciência; contra verdades ja radicadas
no coração ; e mais que tudo contra um habito inveterado
na observância de uma ley até entaõ seguida ?
Esta multidão de obriculas contra os P. L. he um sonho,
que tivestes. Ainda sonhando escreventes; e o resultado
foi apparecer um tropel de frioleiras, e disparates. Sabeis
* Homens de religioeos differentes ajuntando-se, naõ podem unir-
se em pontos de religião. Cada um tem seus princípios; e suas
máximas, que defenderá ate a effusaõ de sangue.
Miscellanea. 213
muito bem, que tudo o que se apresenta em sonhos parece
realidade, e a alma para assim dizer, como a dormecida com
o corpo nada entaõ reprova, e tudo crê. Por isso o sonha-
dor lhe parece estar voando, precipitar-se dos rochedos
sobre as ondas, apresentar-se em duello, fartar-se em ban-
quetes voluptuosos, assistir á orquestas &c. & c . ; mas
acordando fogem estas imagens vaãs, e enganadoras.
Porem vos unicamente sonhando com os P. L. vedes que
elles se ajuntam ; que estaõ com espadas nuas; que assas-
sinam ; que faliam contra a religião, e contra o principe;
que saõ perturbadores da sociedade, e a peste do gênero
humano; nesta variedade de objectos, vos, que sois som-
nambulo pegaes na penna, e escreveis todos estes sonhos.
Como ainda estaes dormindo tendes por realidade as qui-
meras, que vagaÕ pela vossa fantezia. Sc algum dia aca-
barem o vosso somno, e os vossos sonhos vos envergonha-
reisde ter dado ao publico as mais irrizorias extravagâncias.
[Continuar-se-lia.]

Rio-de-Janeiro, 6 de Abril.
Por Decreto de 31 de Janeiro deste anno, foi S. M.
Servido tendo consideração ao reconhecido merecimento
do Cavalleiro José Corrêa da Serra, de o nomear seu Mi-
nistro Plenipotenciario junto dos Estados Unidos da Ame-
rica.

Quinta feira 4 do corrente, desembarcaram as tropas


ultimamente chegadas de Lisboa, tendo á sua testa o Illus-
trissimo e Excellentissimo Tenente-general Carlos Frede-
rico Lecor, acompanhado do seu Estado Maior Pessoal, e
dos pertencentes ao Quartel Mestre General; marcharam
em columnas por pelotões, tendo a primeira Brigada á sua
frente o Brigadeiro Jorge de Avillez, e a segunda o Briga-
deiro Pizarro, cora seus Ajudantes de Campo; foraÕ-se
VOL. XVII. No. 99, 2 E
214 Miscellanea,
mettendo em linha de batalha, e formaram em esquadra,
pelo terreno assim o permittir. Feitas as continências á
Suas Magestades e A A. RR. mandou o Excellentissimo
Tenente-general metter em columna, unir, e passaram as
tropas em continência por defronte das janellas, em que
estavam SS. MM. e voltaram aos seus lugares. Mandou
entaõ o dicto tirar barretinas, e chapéos, e disse três vezes
Viva El Rey ; o que foi repetido por toda a tropa ; que
logo depois embarcou, passando os Generaes e Officiaes a
terem a honra de beijar a Mão de S. M.
Tudo isto se executou na melhor ordem, acompanhado
de excellente musica; e as tropas Portuguezas mostraram
pelo sen ar marcial que eram os illustres vencedores da Pe-
ninsula.

Quartel-general do Rio Comprido, 4 de Abril, de 1816.


Rio-de-Janeiro, 10 de Abril.
Sua Magestade El Rey Meu Senhor Foi Servido deter-
minar a parada, que hoje se fez dos quatro batalhões de
Voluntários Reaes do Principe, para dar ás tropas desta
Divisão do exercito de Portugal um testemunho lisonjeiro
da Sua Real Approvaçaõ e Satisfacçaõ, e para as honrar
taõ immediatamente depois da sua chegada com a Sua
Presença, e com a Sua Regia e Pessoal Inspecçaõ, Honra,
e Bondade, que o Marechal General está bem certo, que
ha de ser plenamente apreciada pelas mesmas tropas.
Sua Magestade Dignou-Se benignamente de Ordenar
mais ao Marechal General que communicasse a esta Divi-
são quanto Sua Magestade eslava satisfeito, assim como os
Seus Agradecimentos pela Lealdade, e Amor patenteados
pelos indivíduos de todas as classes, que compõem para
com a Augusta Pessoa de Sua Magestade, e por o Seu
zelo para cora os interesses da Sua Coroa na offerta volun-
ária, que taõ zelosamente fizeram era a conjunetura actual,
Miscellanea. 215
e que lhes da direito ao nome, com que foi honrada esta
Divisão com tanta verdade, como propriedade, o de—
Voluntários Reaes do Principe.—
Sua Magestade deo também Ordem ao Marechal Ge-
neral, para que expressasse ao Tenente-general Lecor, aos
Officiaes Generaes, Officiaes, Officiaes inferiores e Solda-
dos dos Batalhões, que fizeram hoje Parada, a Sua Real
Satisfacçaõ, e o gosto, com que a apparencia regular e
militar do Corpo ; Ordem, cuja execução causa o maior
prazer ao Marechal General.
Sua Magestade houve por bem Mandar que se desse
hoje aos Soldados dobrada raçaõ de Etapa.—Assignada
pelo Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marechal Ge-
neral Marquez de Campo Maior.
(Assignado) SEBASTIÃO P I N T O DE ARAÚJO CORRÊA.
Marechal de Campo e Ajudante General.
Lisboa, 19 de Julho.
O Brigadeiro Antonio Hippolyto da Costa, por Decreto
de 9 de Dezembro, de 1815, íbi remunerado com uma
Commenda pelos seus relevantes serviços, como melhor se
verá do seguinte honroso Aviso:—
O Principe Regente Meu Senhor, sendo-lhe presente
que Antonio Hippolyto da Costa, Brigadeiro de Seus
Reaes Exércitos, depois de haver muito co-operado com
reconhecido zelo e patriotismo para a memorável Restau-
ração do Reyno do Algarve, servira no Seu Exercito no
decurso de toda a Campanha, com grande valor e intelli-
gencia, distinguindo-se especialmente com a Brigada do
seu commando nas Batalhas do Bussaco e Albuera, nos
sitios feitos á Praça de Badajoz, no lugar de Alva de
Tormes, cujo ponto defendeo por quatro dias, na Batalha
de Vittoria, no dos Pyrencos em 30 de Julho, de 1813, em
que foi gravemente ferido, tornando ainda mal convaleci-
do para o Exercito, onde depois teve a gloria de se ver
2E2
216 Miscellanea.
taõ dístinctamente elogiado na Ordem do Dia de 25 de
Dezembro do dicto anno, pelos seus valorosos esforços á
testa da sua Brigada na Batalha de 13 do mesmo mez,
merecendo sempre até á conclusão da guerra os maiores
louvores dos Generaes seus Superiores : Por taõ assignala-
dos Feitos, c em remuneração de taõ relevantes Serviços, e
de todos os mais que tem feito aíé ao presente desde 18 de
Julho,de 1789, em que foi remunerado pelos que antece-
dentemente havia practido: Ha por bem fazer-lhe Mercê,
alem de outra, de uma Commenda da Ordem de S. Bento
de Aviz, da lotação de duzentos mil réis, que se achar
vaga, ou houver de vagar em sua vida; de que se lhe
passarão os despachos necessários.
Marquez de AGUIAR.
Palácio do Rio-de-Janeiro, em 23 de Fevereiro, de
1816.
Foi também promovido a Marechal, e Governador da
praça de Peniche.

FRANÇA.

Tribunal Correctional; sessaõ de V. de Agosto.


Escriptos sediciosos.
O Procurador d'El Rey começou uma acçaõ contra o
Abbade Vinson ; o qual pedio licença para lêr um papel,
em que se continham os motivos; porque desejava, que
o processo se adiasse para outra secçaõ.
O Presidente.—Antes que comeceis a vossa defeza, he
necessário que respodais aos interrogatórios, que se vos
devem fazer.
Abbade Vinson.—A citação que me foi mandada se in-
timou estando eu auzente, e naõ ha senaõ quinze dias. Eu
naõ tive tempo para preparar os meios de defeza; e naõ
posso responder ás perguntas.
7
Miscellanea. 217
Procurador d'El Rey. Em 1816 o Sieur Vinson fez
imprimir, vender e distribuir uma obra, em que desen-
volve os princípios mais perigosos, e mais capazes de ex-
citar novas perturbuçoens no Estado. A obra tem este
titulo. " A Concordata explicada a El Rey, segundo a
doutrina da Igreja, e os direitos canonicos dos legitimos
bispos da França ; seguida de ura esboço histórico da re-
moção do nosso Sanctissimo Padre Papa Pio V I I . ; dos
seus soffrimentos, sua coragem, e principaes aconteci-
mentos de seu captiveiro. Pelo Abbade Vinson, com esta
epigraphe." Se existe na Igreja Catholica nm Bispo
universal, segue.se, que nós ja naõ somos bispos. Se naõ
conservarmos para cada bispo a sua própria jurisdicçaõ
; que outra cousas fazemos senaõ confundir e destruir a
ordem ecclesiastica, da qual nos, como soberanos pontí-
fices, devemos ser os mais fies protectores ?—" Senhor,
cercados por sacrilegas ruínas,"—e acaba com, " os al-
tares de S. Luiz."
E como em muitas passagens o Sieur Vinson ataca tanto
o artigo 13 da ley da concordata, do mez de Julho, de
1801, como o artigo 9 da Charta Constitucional de 4 de
Junho de 1814; e, por exemplo, denuncia como ladro-
ens, despojadores sacrilegos, transgressores ira penitentes
de todas as leys divinas, &c. e ameaça com a eterna con-
demnaçaõ os leygos, que possuem bens da Igreja, aliena-
dos desde 1791 :—
E como o Sieur Vinson tem assim publicamente espa-
lhado sustos, a respeito da inviolabilidade da propriedade
chamada Nacional, e que saõ actos sediciosos, contra o
que se acha providenciado nos artigos 8°, 9*, e 10*, da
ley de 9 de Novembro, de 1815 ; e como, finalmente, a
obra de Sieur Vinson deve ser considerada uma provoca-
ção directa ou indirecta do acima mencionado gênero de
culpa, por causa da perigosa, e errônea doutrina, que
218 Miscellanea.
professa, e da sua formal opposiçaõ ás leys políticas, civis
e penaes, porque somos governados.
E como o processo naô pôde ser publico sem perigo,
Solicito, que se diffira o processo para daqui a oito dias;
e que tenha entaõ lugar, as portas fechadas.
O Presidente expressou o consentimento da Corte de
Justiça a esta petição ; e a requirimento do Abbade Vin-
son, concedeo, que a demora fosse de quinze dias.

Carta do Duque de Otranto ao Duque de Wellington.


M Y LCRD!—Todas as cartas, que recebo de Paris,
mencionam abondade de vossos sentimentos em meu favor.
De todas as partes ouço, que vós, em todas as occasioens,
livre, e inequivocamente fazeis justiça á minha admiração.
A minha gratidão me iuduz n'este momento a exceder os
limites de sua usual expressão. Resolvi mandar-vos al-
gumas linhas de reconhecimento, e fazer-vos conhecer
algumas causas secretas do ódio de meus inimigos; e,
sendo possivel, accrcscentar alguma cousa aos sentimentos
de vosso respeito, e ao interesse, que vos tendes testem un.
hado para comigo, naõ pude chegar á conclusão, a mi-
nha alma se sentio impellida a pôr tudo patente ante vós:
tenho-vos escripto um livro, possa elle ser recebido por
vós cora bondade, e lido com indulgência. Em outra
occasiaõ examinarei a ley de condemnaçaõ, que foi pu-
blicada ; assim como a intenção de me incluir nella, sem
se aventurar a pronunciar o meu nome. He necessário
estar de todo cego para esperar que El Rey, que da ma-
neira mais solemne e inviolável soffreo, que se extendesse
a mim uma excepçaõ, naõ se irritasse, se lhe fosse apre-
sentada, para a sua signatura, uma ordenação, em que se
incluísse o meu nome entre o numero dos banidos, por
virtude de uma ley, que me naõ nomêa. Naõ he possível
que eu concilie a carta d'El Rey, em que elle me chamou
Miscellanea. 219
para o Ministério da Policia, cm que elle me nomêa seu
Ministro em Dresden, com uma ordenação de extermínio,
assignada pela mesma maõ.
A. posteridade perguntará a causa desta estranha con-
tradicçaõ, e naõ quererá suppôr que os motivos, que naõ
impediram EI Rey a receberme-no seu Conselho, e na sua
inteira confiança, no momento de perigo, me removessem
delle, e me banissem da minha pátria, quando se crêo
que estava acabado o perigo, i Quem poderia descançar
no sagrado da palavra Real, se as Câmaras tem o direito
de abrogar e annihilar os seus effeitos ? Quem acreditaria
na Constituição, se as Câmaras tem o direito de excluir
um de seus Membros, e julgállo até sem pronunciar o seu
nome ? Depois de tal violação, aonde acharia a Europa
um Governo em França ?
(Assignado) O Duque de O T R A N T O .

Carta do Duque de Otranto ao Duque de Wellington.


Um Legislador da antigüidade, celebre por sua sabe-
doria, Solon, depois de longas convulsoens, quando vol-
tou a ordem de cousas, collocou a reconciliação e a paz
publica debaixo da protecçaõ e garantia do Ceo. My
Lord, eu recommendei este exemplo a El Rey, para sua
imitação. Appéllo para o vosso testemunho, cujo pezo
descança tanto no vosso character como na vossa repu-
tação.
Os males saõ grandes. Era necessário naõ ser enganado
a respeito dos remédios : disso dependia a nossa felicidade
e a nossa existência social; a minha vóz foi suffocada
pela vóz das paixoens, e os conselhos da moderação fôram
representados como ciladas, e homens insensatos, nos des-
manchos de seus entendimentos, calumniáram ao mesmo
tempo a minha administração no tempo da Republica, no
de Napoleaõ, e no de Luiz XVIII.
220 Miscellanea.
Eu naõ desejaria occupar a Europa com a minha longa
e laboriosa administração, se ella naõ estivesse connexa
com o conhecimento da verdade. Representarei os factos
em ordem, e sem sophismas : muitos saõ desconhecidos,
outros desfigurados: produzirei as cauzas de nossos
grandes acontecimentos : tenho visto de perto as molas
secretas, que puzéram as paixoens em movimento: ex-
plicarei aquella revolução porque a França se mudou de
uma antiga monarchia para uma Republica, e veio a ser
o império de Napoleaõ, e depois o reyno dos Bourbons.
Em quanto me emprego nesta importantíssima obra (por
que cila servirá de materiaes para a historia) conheço que
me he necessário crer que ella será olhada como nova
prova de meu amor por minha pátria.
Porem, My Lord, o tempo foge, e eu naõ sei se as
cousas mudarão, antes que a minha memória esteja
prompta. No entanto satisfarei os desejos daquelles, que
urgentemente me pedem, que illumine a opinião publica
sobre relaçoens, que me dizem respeito pessoalmente, e
que tem sido estranhamente desfiguradas. Ninguém me-
lhor do que V. S. pode fazer justiça aos meus sentimentos
e principios. Desde os 19 de Junho, dia em que tive
pela primeira vez a honra de conresponder-me com vosco,
até o momento em que deixei Paris, todo o meu compor-
tamento está patente ante os vossos olhos. Eu sei My
Lord, que vós, em todas as oceasioens, solemne e com-
pletamente, me fazeis a justiça, que invoco, he por esta
razaõ, que tomo a liberdade de vos dirigir a narração,
que intento fazer, para qüc vós acheis nella novas armas
para minha defenza. De nenhum modo temo augmentar
os vossos direitos á minha gratidão ; sinto que o meu co-
ração he assas rico para as satisfazer.
As circumstancias a respeito de que as informaçoens se
desejara, saõ—Ia. Sobre a volta d'El Rey: 2°. Sobre a
minha aceitação do Ministério de Policia: 3". Sobre a or-
Miscellanea. 221
denança de 24 de Julho : e 4 o . Sobre a minha missaõ para
Dresden, e as circumstancias, que me impediram de entrar
na Câmara dos Deputados.
Eu éra Presidente do Governo Francez, quando os ex-
ércitos das Potências Alliadas avançaram para Paris.
Napoleaõ tinha abdicado: porem ainda se achava no
Etiseo; e desejava ser considerado como General á frente
do Exercito Francez: esta offerta nao podia ser aceita,
1:100.000 bayonetas estrangeiras tinham penetrado o
nosso território por todas as partes, e nós naõ tínhamos
100.000 homens em armas. Portanto resolveo-se a retirada
do exercito, e convidou-se Napoleaõ para que saísse de
Malmaison, para onde se tinha retirado, e que se embar-
casse para os Estados Unidos.
Elle podia interpretar mal as minhas urgentes represen-
taçoens para este fim : na adversidade, a alma he facil-
mente accessivel ás suspeitas ; mas eu pelo menos estou
certo de naõ ter merecido nenhuma. Eu naõ o tinha ser-
vido, como os cortezaõs, eu naõ segui o exemplo delles,
abandonando-o com a sua boa fortuna. Ninguém apre-
ciou mais do que eu, o poder de seu gênio, mas, ao mes-
mo tempo, ninguém estava mais convencido de que a sua
presença devia submergir a França no mais profundo
abysmo de miséria, eu, portanto, o conjurei a que dei-
xasse o Continente. O exercito Francez, recordando-se de
suas glorias, naõ contava os seus inimigos, mas ardia com
impaciência de se medir com elles : somente aquelles,
que, como vós, My Lord, conhecera o seu valor, sabem
apreciar o merecimento da resignação, que elle mostrou
na retirada.
Na temível crise, em que nos achávamos, éra diffical-
toso abraçar um partido sem excitar suspeitas. Em
França, o povo estava mui divido na escolha do Monar-
cha, que devia sueceder a Napoleaõ ; éra para temer que
a reacçaõ e a vingança seguisse a volta dos Bourbons; o
VOL. XVII. N o . 99. 2F
222 Miscellanea.
povo nao se podia persuadir de que uma dynastia, que
tinha soffrido tanto pela Revolução, podia sinceramente
perdoar-lhe; os males que se temiam podiam ser imagi-
nários, mas estes eram precisamente os mais perigosos;
porque elles naõ tem limites, e naõ ha remédio para elles,
Todos aquelles, que, durante os últimos 28 annos,
tinham adquirido, na carreira civil ou militar, conside-
ração, propriedade e reputação, olhavam para a volta dos
Bourbons como um acontecimento de cruel e tristes ap-
prehensoens : um partido desejava um principe estrangeiro,
que conGrmaria mais imparcialmente o que estava estabe-
lecido J outro se declarava por uma Regência ; porém tal
Regência, que governasse era nome da mulher e filho de
Napoleaõ, daria demasiado credito á idéa de que o mesmo
Napoleaõ éra quem governava ; isto teria exposta a França
e a Europa a reciprocas apprehensoens. Uma parte de
França chamava o Duque de Orleans; as qualidades pes-
soaes deste Principe, a lembrança de Jemappe, e outras
victorias da Republica, com que a sua primeira mocidade
estava connexa; ura interiamente novo compacto social,
que êra natural e fácil concluir com elle, e o seu nome de
Bourbon, que se naõ podia vantajosamente empregar nas
negociaçoens com as Potências Estrangeiras; estas e outras
causas mostravam, na escolha delle, um prospecto de
descanço, mesmo aquelles que nelle naõ achavam alguma
felicidade. Outros insistiam nos principios da legitimi-
dade , porém applicávam-nos falsamente; este principio
naõ he outra cousa senaõ uma ley politica, peculiar a
cada naçaõ aonde ella he recebida; ella confere a cada
paiz grandes vantagens; porque previne as desordens e
perturbaçoens ; porém quanto ao direito das gentes naõ he
ley. A legitimidade entre os Soberanos naõ he senaõ uma
conseqüência do reconhecimento de cada um delles: a
guerra e a conquista revogam ou abolem este reconheci-
mento,e consequentemente esta legitimidade: he disto prova
Miscellanea. 223
a partição da Polônia. Napoleaõ podia ser ou naõ ser le-
gitimo (elle o éra, porém, para com todos os Soberanos
excepto Luiz XV111.) e com tudo havia de ser derribado.
Com os principos, que agora predominam na Europa,
seria necessário fazer a guerra contra aquelle soberano, que
quizesse obrar como Napoleaõ; mais, o principio de le-
gitimidade, ainda considerado meramente como uma ley
politica he sugeito a importantes excepçoens. Montesquieu
suppoem, que a relação entre uma dynastia e urn povo
pôde vir a ser tam intolerável, que esta ley deva ser mu-
dada absolutamente a fim de salvar o mesmo paiz.
A minha conrespondencia com os Membros dos Altos
Alliados, e com os generaes de seus exércitos, será annexa
á minha Memória : ella mostrará, quanto eu sei vindicar
a dignidade da naçaÕ. Houveram, nas negociaçoens,
pequenas differenças, que eram de intenção, e naturaes : eu
esperava, que as minhas provas dariam mais pezo a cada
uma das minhas pretençoens. Por mais desesperada que
seja a situação dos negócios, sempre lia pontos secundários
de que se pôde lançar maõ; porque, na perca da inde-
pendência, ha varias gradaçoens de desgraça. Forma-se
uma opinizõ mui falsa da situação, em que eu me achava
quando se me fazem reproches, de naõ ter insistido no di-
reito da naçaõ de escolher o seu Príncipe, e fixar-lhe as
condiçoens do seu poder. Ambas as questoens foram de-
cidas pela força das circumstancias ; o presente ja naõ está
na minha raaÕ : tudo teria sido fácil, se Napoleaõ abdi-
casse no campo de Maio ; a sua demasiado tardia remoçaÕ
nos fez curvar ao jugo dos acontecimentos. E u creio que
a necessidade me livra de toda a culpa.
Naõ se tem bem concebido qual éra a difficuldade real:
os que desejavam remover os Bourbons imaginavam, que
a escolha do Principe, que havia de governar a Frauça,
éra cousa de um interesse subordinado ; deveriam ter visto,
que a questão havia de ser considerada de outra maneira.
2 F 2
224 Miscellanea.
Affirmam, que eu decepei a enérgica disposição do ex-
ercito: os que isso cren-i, naõ sabem a disproporçaõda
nossa força ; novos milagres de valor só teriam servido
para ariscar a flor do nosso exercito ; e ao mesmo tempo
teríamos expolto a capital a todos os horrores de umu in-
vasão armada. O maior perigo de um paiz he a disso-
lução de todos os laços sociaes, que destroe ao mesmo
tempo a prosperidode publica e particular, e nao deixa
esperança de algum prospecto futuro.
Entre este conflicto de opinioens se aproximava Luiz
X V I I I . a Paris ; aonde quer que estavam os exércitos es-
trangeiros éra elle proclamado; daqui éra de prever, que
o mesmo espirito produziria as mesmas apparencias na ca-
pital. El Rey estava em S. Denis, quando eu tive a pri-
meira conferência com V- S. em Neuilly. Eu naõ pro-
curei desculpar aquelles, que tinham atraiçoado o throno;
porém affirmci, que desde o momento em que o seu throno
foi restabelecido, éra do in lei esse d'El Rey amalgamar
todos cm um systema seguido de brandura e de esqueci-
mento : o que, em um estado bem ordenado de cousas, he
sabedoria, pode ser loucura era ura momento de confusão,
varias pessoas, de quem se suspeitava traição, tinham sido
meramente desencaminhadas, pelos devios, a que a crisis
os tinha conduzido. A prudência requeria muita circum-
specçaõ a seu respeito ; em quanto qualquer pessoa crê,
que naõ tem largado o caminho de seus deveres, ha ainda
a possibilidade de o trazer a elle.
As minhas vistas, My Lord, obtiveram a vossa appro-
vaçaõ : as ideas de moderação pareceram ganhar mais
força, á proporção que vós tosteis o orgaõ dellas ; nas in-
comparaveis relaçoens, e considerando os altos empregos em
que nós estávamos, esta entrevista devia ter uma influencia
poderosa, talvez na sorte eterna da França e da Europa.
N o dia seguinte eu usei da mesma inguagem para com El
Rey, quando tive a honra de o vér, em S. Denis, e lhe
Miscellanea. 225
entreguei uma carta, em que lhe disse com franqueza tudo
quanto me pareceo mais adaptado para ganhar todos os
coraçoens, unir todos os partidos, e pôr-nos uniformes com
os desejos dos Monarchas. A minha linguagem aberta e
franca pareceo fazer alguma impressão em El Rey : elle
conheceo, que nos precisávamos descanço, a fim de tornar
a colligir os elementos da ordem, que o tempo e as des-
graças tinham dispersado : que éra necessário cubrir todas
as faltas com uma illimitada benevolência, e empregar
todos os meios possíveis, para augmentar todos os senti-
mentos de sinceridade. Esta conversação, que eu pro-
curei circular entre o publico, deo razaõ a presumir, que
nós tínhamos chegado ao fim de nossos trabalhos e de nos-
sas dissençoens ; porém o povo. Francez desejava alguma
cousa mais do que presumpçoens. Somente o positivo
pode garantir o que o naõ be.
Alguns me aceusam por ter aceitado d'EI Rey o Minis-
tério de Policia. Indubitavelmente éra cousa segura para
mim, depois da capitulação, o retirar-me dos negócios
publios ; mas éra ainda mais seguro fazer face aos aconte-
rimentos. Aquelles que tinham acompanhado a £1 Hey,
na sua adversidade, voltaram com fortes opinioens antici-
padas, a respeito de nossa situação: elles estavam em
terrível erro. O tempo, que destroe tudo naõ tinha podido
destruir os seus prejuizos, alguns trouxeram cora sigo a
sua rotina antiquada, como se fôra experiência ; s Naõ
seria entaõ na minha situação o mais sagrado dever, fazer
face a essas nuvens, e trabalhar pelas dissipar? i Seria le-
var a simplicidade demasiado longe, quando eu esperei,
que, espalhando a luz sobre todos os objectos, pudesse
acalmar os sentimentos hostis, moderar as opinioens,
ainda dos homens mais violentos, e submetter cada um
aos seus deveres, para impedir as reacçoens ? He bem
sabido aonde principiam as reacçoens ; porem ignora-se
quando se pôde mandar que ellas parem: ao menos a
226 Miscellanea.
primeira ardencia descarregou sobre mim somente, e nem
se desenvolveo, nem cxtendeo, senaõ depois que eu saf de
Paris. A minha entrada para os negócios foi um acto
de imolaçaõ própria—um sacrifício real.
Para um homen desconhecido e vaõ, um Ministério pôde
ter encantos, ainda quando he acompanhado de perigos ;
porque elle naõ os vê ; mas para mim ja naõ podia ser ob-
jecto de ambíçaõ; tudo éra confusão, estorvo e perigo.
Quando a gente vio que eu aceitava o Ministério poderia
crer, que eu intentava illustrar a minha morte como tinha
honrado a minha vida.
Se eu tivesse algumas vistas pessoaes eu teria inflamado
mais a generosa indignação do exercito, em vez de o sup-
primir. Eu naõ teria tremido na contemplação da dís-
tracçaõ e do sangue, que havia encher Paris. Nisto po-
deria a ambição achar ainda o seu interesse : no partido
que abracei, só se pôde ver a resolução de um homem bem
disposto.
He bem comprehensivel, que a baixa ambição se teria
contentado com entrar para a administração, com a con-
dição de vir a ser nm dócil instrumento do partido. Porém
na elevação, a que a minha consciência e a estimação do
publico me tinham elevado, eu naõ podia estipular outra
condição para meus serviços senaõ o interesse nacional.
Lea-se a minha carta a El líey, em S. Denis, no momento
em que eu aceitei o Ministério : ella foi impressa no Mo-
niteur. j Coraprometti eu os meus principios ? i Dá a
minha linguagem esperança a algum partido, de que eu o
deixaria predominar como conquistador ?
Julgue-se das minhas acçoens e das minhas palavras,
naô comparativamente de um tempo com outro, mas se-
gundo o padraõ do que se disse e se obrou em torno de
mim, quando eu fullei c obrei, se eu naõ pude governar
os acontecimentos, pelo menos, tenho certamente feito tudo
para abrandar a violência da sua careira. c* Naô tenho eu
Miscellanea. 227
lido visto constantemente entre o oppressor eoopprimido ?
Porém, nao me farei mais generoso do que sou. A expe-
riência dos tempos metem mostrado, que a gente he muitas
mais vezes moderada, activa, e racionavel na adversidade
do que na prosperidade.
Eu achei-me entre dous partidos: um me accusava por
ter servido a El Rey, o outro me fazia urn crime de ter es-
tado no serviço de Napoleaõ.
Este ultimo partido ja se esqueceo de que o temia meno»
á proporção que eu me achava mais próximo delle. j Que
lhe disse eu, quando elle voltou da ilha de Elba? Con-
jurci-o a que naõ vilipendiasse a NaçaÕ, com amnestia»
sem fundamento; e incessantemente lhe repeti, que elle
parecia ignorar tudo.
Toda a minha carreira, como Ministro, tem provado
uma cousa; que eu dei aos meus deveres para cora a pá-
tria a preponderância sobre tudo o mais. He somente á
reputação, que eu gozava na opinião da Naçaõ, que saõ
devidos os serviços que fiz, debaixo de vários Governos,
qne se suecedêram uns aos outros, e que fôram á ruína;
porque (atrevo-me a asseverállo) regeitáram a verdade,
queen tive a coragem de lhes apresentar patente.
Eu confundi-me com a accusaçaõ, que se me fez, de ter
enganado a El Rey, a respeito do amor de seu povo.
! Que baixa lisonja! Naõ se envergonha essa gente de
dizer a um Principe illuminado e judicioso, que, depois
de 25 annos de ausência elle tinha repentinamente vindo a
ser o objecto do amor universal, do amor de uma naçaõ,
cujas geraçoens, varias vezes renovadas, tinham sido edu-
cadas nas paixoens e na convulsão, e em principios taõ
oppostos ao amor dos Bourbons! Que confiança, usar de
tal linguagem, depois de testemunhar o que se passou, na
entrada de Napoleaõ em Paris, depois que elle voltou de
Elba, quando os Bourbons naõ acharam um só lugar de
refugio na França 1 Naõ, E u naõ fui perjuro, quando
228 Miscellanea.
pedi a El Rey, qne tranquillizasse o espirito dos po-
vos, por ideas de segurança: naõ havia outros meios
de fortalecer o Estado, e dar segurança ao throno.
0 perdaõ éra uma parte da justiça; quem pode negar,
em nossos dias, que as tormentas políticas naõ saõ conse-
qüência de calculas, e a obra de alguns indivíduos, c que
tudo o mais he involuntariamente levado pelo turbilhão ?
A tolerância tem seus inconvenientes; porém poderiam
tam complicadas circumstancias, a capitulação, que se
acabava de assignar, admittir outro tractamento, outro
systema? Todas as medidas de severidade, depois das
proclamaçoens d'El Rey, que se tinham publicado, pare-
ciam desmentir a palavra, que elle tinha dado. Naõ se
confiaria em cousa alguma, se a Convenção concluída
hontem naõ fosse valida no dia seguinte.
1 Em que momento éra isso mais necessário, do que
quando todos deviam estar convencidos de que a palavra
d'El Rey éra sagrada e irrevocavel ? A mais leve a mais
insignificante apparencia de qualquer violação das obriga-
çoens contrahidas, havia de ferir todos os sentimentos; a
suspeita de ter sido enganado devia apossar-se de todos os
espíritos, e a confidencia seria banida de toda a parte,
para sempre.
El Rey só podia mostrar generosidade e regularidade.
Ura único acto arbitrário teria lançado os fundamentos a
uma perigosa opposiçaõ. 1 Como castigar ? j Aonde
parar ? E se naõ ha limites ; Como haverá descanço de-
pois da confusão ? Era necessária plena e illimitada am-
nestia; por isso mesmo, que éra impossível o castigo; a
menos que se naõ ficasse exposto ás maiores difficul-
dades.
Com tndo, fiz sair eu de Paris todos aquelles, cuja pre-
sença seria imprópria. Mandei-lhes dar passaportes, e (eu
o confesso) até procurei a alguns os meios de se retira-
rem, do qac se achavam destituídos.
6
Miscellanea. 229
Esta medida naõ agradou : a adversidade nem sempre
dá juizo: naõ se podia comprehender que fosse possivel
reynar sem uma lista de proscripçoens : entaõ, como
agora, cada um deseja ver na lista os seus inimigos. O
Ministério deixou nella somente aquelles nomes, que se
naõ podiam riscar.

[Continuar-se-ha.]

INGLATERRA.

Extracto da Exposição feita á Câmara des Communs


pelo Committé encarregado de se informar dos Decretos
e Regulamentos que existem nos Estados Estrangeiros
relativamente a seus vassallos Catholicos Romanos, nas
matérias Eeclesiásticas.
Os diversos Documentos mencionados foram obtidos em
virtude de instrucçóes dadas por Lord Castlereagh, em
1812 e depois, aos Ministros de S. M. nas Cortes estran-
geiras.—O Committée se abstem de fallar de tudo aquillo
que diz respeito ás controvérsias Theologicas.—A atten.
çaÕ do Committé se dirige a dois objectos: 1*. A' nomea-
ção ou eleição do Clero Catholico principalmente na Or-
dem Episcopal; 2°. A's restricções postas á missaõ dos
Rescritos dô Papa ; a que está addicta a jurisdicçaõ de ap-
pellaçaõ exercida pelo Supremo Magistrado Secular. Um
3*. titulo comprehende outros assumptos de disciplina Ec-
clesiastica. Faz-se distineçaõ entre os regulamentos em
vigor nos Estados que estaõ em communhaõ com a Sé de
Roma, a saber ?s Igrejas Grega e Russiana, e os das Con-
fissões de Augsburgo e da Helvécia.

1.—Áustria, Bohemia, Hungria.


Os Bispos Anstriacos saõ nomeados ou indicados pelo
Imperador, e esta nomeação tem lugar de eleição ou pos-
VOE. X V I I . No. 99. 2G
230 Miscellanea.
tulaçaõ pelos Cabidos das respectivas Cathedraes, e tem o
mesmo effeito, sendo obtida depois disso, pelo Ministro da
Áustria em Roma, a confirmação do Papa. O Arcebispo
de Olmutz he a única excepçaõ neste modo, tendo o Ca-
bido desta Sé o direito de escolher Arcebispo.
Na Hungria, nomeia o Imperador todos os Bispos, e
estes entram a exercer as suas funcçÕes no que toca á ju-
risdicçaõ, antes de serem confirmados pelo Papa. Naõ he
assim em outras partes dos Estados do Imperador.
Na Áustria o Regium Placitum (ou Regio Prazme) he o
direito de requerer que todos os Estatutos e Decretos Ec-
clesiasticos sejam submettidos ao Estado antes de se pu-
blicarem : saÕ exceptuadas as absolvições, quando saõ con-
cedidas pelo Penitenciário de Roma, quando naõ dizem
respeito senaõ á consciência, quando o caso naõ admitte
demora, ou quando periga a reputação de alguém.
Nenhum vassallo Austriaco pode ser excommungadosem
o consentimento do Imperador.

H.-—Arcebispados Eleitoraes de Moguncia, Trévers, e


Colônia ; Arcebispado de Saltzburgo, Congresso d'Ems.
Em Agosto de 1706, foi celebrado em Ems um Con-
gresso por todos os Eleitores Ecclesiasticos, e se co-orde-
náraõ 23 artigos de regulamento, reconhecendo a inde-
pendência da Igreja d'Alemanha a respeito das usurpaçoes
da Corte de Roma.—Nestas resoluções se sustenta a au-
tiga disciplina da Igreja Alemãa no que diz relação ás no-
meações e eleições para os Benefícios Ecclesiasticos ; e se
declara : " Que nenhuns Breves, Bullas ou Decretos Pon-
tifícios sejam obrigatórios para com os Bispos em quanto
estes naõ houverem regularmente notificado o seu assenso
formal."

IIL —Estados d? Itália ; Milanez, e Lombar dia Austríaca.


O Arcebispado de Milaõ, os Bispos de Pavia, Cremona,
2
Miscellanea. 231
Lodi, e Como, saõ da nomeação e apresentação immediata
do Imperador d'Áustria, o qual com tudo, a respeito dos
quatro últimos Bispados, deve principalmente nomear os
Sujeitos que podem ser recommendados pelo Papa.—Nes-
tes Estados o direito Soberano do Regium Placitum fica
em plena força e vigor.

IV.—Estados Veneziano».
Nestes Estados, durante a sua independência, os dous
Patriarcas de Veneza e de Aguila eram escolhidos pelo
Senado;—-quando vagava uma Se Episcopal, enviava o
Senado a Roma os nomes de três Ecclesiasticos, e a Bulla
da instituição pedida era enviada pelo Papa aquelle cujo
nome era o primeiro na Lista.—Nestes Estados existem a
respeito do Regium Placitum (ou Regio Prazme) os mes-
mos regulamentos que ha nos já mencionados.

V.—Toscana.
Quando vaga um Bispado, apresenta o Governo de Tos-
cana ao Papa os nomes de quatro indivíduos, recommen-
dando ao mesmo tempo, pelo orgaõ do Ministro em Roma,
aquelle que he mais particularmente designado para oc-
cupar a Sé vaga.—Existe ali também o Regium Placitum.

VI.—Napoies e as Duas Sicilias.


Em Napoies ha presentemente uma negociação relativa
á nomeação dos Bispos.—Na Sicilia a nomeação pertence
exclusivamente á Coroa.—O Regium Placitum existe em
um e outro paiz.

VII.—Sardenha, Piemonte, Saboia.


Por um Breve do Papa Nicolao V., de 1451, tem o So-
berano a regalia de nomear todos os Bispos. Estendeo-se
á Saboia por uma Concordata, em 1727.—O Regium Pla-
citum he inteiramente reconhecido.
2o2
232 Miscellanea.
VIII.—França.
Pela Pragmática Sancçaõ de S. Luiz, em 1268, eram
eleitos os Bispos de França pelos Deoens e Cabidos; porém
naõ eram valiosas estas eleições sem a licença de eleger
dada pelo Rey.—-Pela Concordata concluída em Bolonha
entre o Papa LeaÕ X. e o Rey Francisco I. em 1515 (que
abolio a Pragmática) tinhaõ os Monarcas Francezes o di-
reito de nomear Bispos para todos os Bispados da França.
O Regio Prazme está alli estabelecido.
I X . —Hespanha.
As nomeaçoens para todos os Benefícios Ecclesiasticos
pertencem ao Rey. Apresenta todas as Sés vagas, e requer
que sejaõ immediatamente enviadas as Bullas necessárias
ao Prelado novamente nomeado.—Todos os Rescripos e
Bullas saõ snbmettidos ao Regio Prazme.
X.—Portugal e Brazil.
IL Coroa sempre reclamou e manteve as suas prerogativas
no que respeita á nomeação dos Bispos, assim como na in-
troducçaõ dos Rescriptos do Papa.
XI.—Suissa.
E m Coira, naõ tem a Corte de Roma direito de entrevir
na nomeação dos Bispos; e qual se faz livremente segundo
os 24 Cânones. Depois da eleição dá a Corte de Roma
o Placet.—No Vaiais propõem o Cabido á Dieta quatro Su-
jeitos, dos quaes ella escolhe um e o apresenta ao Papn, o
qual primeiro o rejeita, e depois o nomeia de sua própria
authoridade.—Nos Cantões Catholicos, os Mosteiros im-
mediatos escolhem o seu próprio Prelado, sem a menor in-
fluencia da parte dos Governos, dependendo a sua confir-
mação da Sé Apostólica.—O Regium Placitum está em
vigor na Suissa.
XII.—Igreja Grega e Império da Rússia.
O Arcebispo de Mohilow e todos es outros Bispos saõ
Miscellanea. 239
nomeados pelo Imperador e confirmados pelo Papa.—O
Regium Placitum existe na Rússia.

XII.—Dinamarca.
Naõ ha alli Bispos Catholicos Os Sacerdores Catho-
licos recebem as suas nomeaçoens d o Bispo de Hildesheim,
que exerce por delegação a authoridade de Vigário
Apostólico a respeito de vários Estados em que elle naõ
reside.
X I Vi—Suécia.
O Rei authorisa, " por diploma," os Vigários Apostó-
licos para exercerem as suas funcçoens no Reyno, confor-
mando-se aos Edictos de tolerância. Naõ ha alli regula-
mento para o exercio do Regium Placitum.

XV.—Prússia.
A nomeação para o Episcopado pertence geralmente á
Coroa; mas quando a nomeação do Bispo naõ tem sido
reservada á Coroa, exerce o Cabido o direito de eleição.
—O Regium Placitum está em vigor na Prússia.
XVI.—Paizes-Baixos.
Ha presentemente negociaçoens relativas a novos regu-
lamentos entre o Papa e o Rey.
XVII.—Hamburgo.
Naõ ha alli Bispos Catholicos, e naõ se deixa publicar
edicto algum do Papa.
XVIII.—Saxonia.
Depois da Reforma, naõ ba alli Bispo Catholico ex-
cepto o Confessor do Rey, que tem authoridade de Vigário
Apostólico. Naõ se obtiveram informaçoens algumas a
cerca do Regium Placitum.
234 Miscellanea.
X I X . — H a n o v e r , Hessia, Baden.
Estaõ actualmente entabolatlas negociações a respeito
dos regulamentos Ecclesiasticos.

X X . — C a n a d a e Colônias lnglezas.
O Rey de Inglaterra nomeia para cada Sé que vaga, e o
Bispo he depois confirmado pelo Papa.
O Appeodix contém documentos relativos ás Eleiçoens
pelos Cabidos.

Refiexoens sobre as Nunndades deste Mez.


B E Y N O U N I D O OB P O R T U G A L , B R A Z I L B ALGARVES
Guerra do Rio-da-Prata.
(Com um mappa.)
O Jornal Pseudo-Scientifico, no N°* 62, declarou-se contra
a medida da guerra no Rio-da-Prata, dizendo, que ao Brazil
nada convinha senaÕ a paz; e cimo aquelle Jornal tem tantas
vezes diversificado em opinião com o nosso, reprovando nós
algumas medidas do Governo do Brazil; naõ será cousa que
lhe pareça feia defendermos nós aquelle Governo, quando
as suas medidas saõ desapprovadas, sem razaõ, pelo mesmo
Scientifico.
Os nossos Leitores, que naõ tenham visto o tal N* 62. do
Scientifico, talvez lhes cnste a crer, que similhante Jornal,
digna creatara Roevidíca, e cortezao por essência, ousasse re-
provar uma medida do seu mesmo partido, e da corte e Govemo,
de quem tem sido o mais rasteiro clogiador. Porém aos qni
fizerem similhante reparo só temos de lembrar, que isto he mui
natural; e que seria muito para admirar, que um Jornal, insti-
tuído pelo Conde Funchal, fosse conseqüente em seus prin-
cipios, ou. 6ol ao partido, que abraçou.; porque essa conse-
qüência com sigo mesmo, ou estabilidade de character, nunca
a observamos nem no Insfituidor do tal Jornal, nem em pessoa
alguma, que com elle obrasse: assim teria notável aberração
Corr.£rwí. Voljml? $g.

U.tl-1-jJ.
Miscellanea. 236
ila regra, se este Jornal instituído, e conduzido como tem
údo, continuasse a defender coherentemente o partido, qne o
i intenta.
Voltou pois o Scientifico acazaca, justamente em um ponto,
em que os seus padrinhos, e mantenedores precisavam do apoio
de sua vozerla, para os ajudar a fazer qne a guerra fosse me-
nos impopular do que he ; e esta deserção dos Scientificos he
ainda mais digna da censura; por ser justamente em ponto,
em que a razaõ está da parte do Governo do Brazil, como
provaremos. Pelo que he bem de suppôr, que os taes Scien-
tificos escolheram de propósito esta occasiaõ de se fazerem
populares, á custa do character de seus protectores, e dos de
seu partido; nao obstante a sem razaõ com que argúem o
Governo do Brazil.
Eis aqui o fira dos trabalhos e dos gastos suggeridos pelo
Conde de Funchal; eis aqui o apoio Scientifico, qne elle pro-
curou com sua habilidade ao Governo do Brazil; defensores,
que voltaram a cazaca quando eram precisos—em fim projectos
Funchalenses.
Nós porém, que nao estamos dispostos, naõ precisamos,
nem desejamos procurar a aura popular, nem estamos acustu-
mados a cortejar o favor de ninguém, tractaremos de expor os
motivos, que julgamos haverem determinado a Corte do Rio-
de-Janeiro a invadir o território de Montevideo; e, se os mo-
tivos forem os que suppómos, mui justificado julgamos aquelle
Governo por obrar como obra; n.iõ tendo a Jornal Pseudo
Scientifico dado outra razaõ do seu dicto, seuaÕ o ipse dixit,
de que ao Brazil nao convinha fazer guerra a ninguém. As
guerras trazem comsigo grandes males, mas nem por isso
deixam de ser necessárias muita* veses. Entre os indivíduos as
disputas decidem-se recorrendo aos magistrados ; e por tanto
ne alguém se determinasse a nunca ter demandas, fossem quaes
fossem as injurias ou damnos que lhe tfzcssem, acharia em breve
que o mundo naõ possue as virtudes, qu-: aquella determinação
B-dge, para se viver socegado. Entre as naçoens nao pôde
haver essa decisaõ de magistrados • e assim também, aquelle
poro que se determinar a aunca ter guerra, sejam quaes forem
236 Miscellanea.
as injurias que lhe fizerem, será sempre o escarneo das outras
naçoens, e acabará por ser escravo.
Amittindo-se pois que a guerra he algumas vezes necessária;
resta-nos o mostrar, que no caso presente ha motivos, que
justificam aquella medida no Governo do Brazil.
Informados, como nós estamos, do incommodo que a vizi-
nhança do general Artigas tem causado ao Brazil, achamos mui
racionavel, que a Corte do Rio-de-Janeiro tentasse a conquista
de todo o território ao Norte do Rio-da-Prata, e a Leste do
Paraguay.
He indubitavel que a addiçaÕ daquelle território ao Brazil,
lhe procura limites mui naturaes, e izentos de controvérsias;
mas naõ bastava isso para que a Corte do Brazil tivesse direito
de invadir os paizes vizinhos. Menos poderia justificar a
guerra, a utilidade da aquisição ; porque, além de que essa
utilidade nunca dá tal direito a naçaÕ alguma; tal utilidade
nao existe, fadando simplesmente do valor do terreno, a respeito
do Brazil; aonde o que sobram saõ terras, sem que haja habi-
tadores que as cultivem.
Mas a justiça, que suppómos, e com que nos parece se deve
defender a medida desta guerra no Rio-da-Prata, provém da
necessidade, que tem El Rey de Portugal, de proteger os seus
subditos, naquella parte do Brazil, contra os repetidos incom-
modos, que lhe causam os Insurgentes debaixo do Governo de
Artigas; e no que concordam exactamente os outros Insur-
gentes de Buenos Ayres. Examinando a origem deste mal se
vè, que elle nao tem outro remédio senão a guerra.
Pelo tractado de Madrid, que fez o embaixador D. Fran-
cisco Ignocencio ; pay do outro celebre negociador Conde de
Funchal; entre outros muitos despropósitos e mostras da igno-
rância daquelle ministro, foi o deixar um campo neutral, entre
os territórios de Hespanna e de Portugal; campo, que, nao
podendo ser occupado por nenhum dos Governos, naõ podia
deixar de servir de couto aos contrabandistas e facinorosos de
ambas as partes. Outro mal que causou D. Francisco com
aquelle tractado, foi deixar para os Hespanhoes os povos
das Missoens, o que punha por aquella parte os habitantes de
Miscellanea. 237
ambas as naçoens em demasiado contacto uns com outros, por
nao serem os limites bem demarcados, por conhecidos rios, ou
outras divisoens naturaes.
No tempo do antigo Governo Hespanhol se remediava o
grande inconvenieute do Campo Neutral, mandando ambas as
naçoens partidas de soldados de cavallo a explorar aquelles
territórios; e supposto que as taes partidas militares pouco
fizessem, além de receber peitas dos contrabandistas, com tudo
sempre atemorizavam de algum modo os facinorosos ali refu-
giados.
Agora, Artigas nao attende a isto ; e como tem necessidade
desses mesmos contrabandistas e facinorosos, para apoiar as
suas pretençoens ao Governo do paiz, qne se naõ fundamenta
em outra cousa, sao baldadas todas as representaçoens do Go-
verno Portuguez, para que elle contenha em ordem os seus sol-
dados. Isto he tanto mais temivel ao Governo Portuguez,
quanto Artigas, nem quer, nem pôde, ainda que quizesse,
manter boa disciplina entre seus soldados.
Constam as tropas de Artigas de bomens alevantados, con-
trabandistas por officio, e malfeitores por habito : nao tem
outra paga senaõ o que obtém com a pilhagem, nao ja contra
os seus inimigos somente, mas até contra os mesmos povos, que
vivem sugeitos ao Governo de Artigas; e este general nao
pôde conduzir taes tropas por outro meio, que nao seja o que
empregam os cabeças de salteadores, que vém a ser, deixando
os de seu bando fazer quanto querem, e capitaneando-os uni-
camente ao combate, quando se tracta da defensa commum.
Os escravos, que fogem do Brazil, os desertores, os facino-
rosos saõ todos bem acolhidos pelas partidas de Artigas no
campo neutral; e se o Governo do Brazil nao puzer cobro a
isto, com tempo, tomando occupaçaõ militar daquelle terri-
tório, o campo neutral se povoará, dentro em bem pouco
tempo, de homens levantados, que se faraõ temíveis com suas
correrias, e que pela natureza do paiz, e modo de vida de seus
habitantes, seraõ ao depois inconquistaveis pelas forças, que o
Brazil lhe pôde oppôr.
Veja-se no mappa a contiguidade daquelle campo neutral
VOL. XVII. No. 92. 2H
238 Miscellanea.
aos estabelicimentos Portuguezes; considere-se a qualidade de
gente, que infecta aquelle território ; aonde nao chega a juris-
dicçaõ de nenhuma das naçoens; reflicta-se na impossibilidade,
quando naõ seja a falta de vontade, em Artigas, de tranqüili-
zar aquelles povos—e se achará que a Corte do Rio-de-Janeiro
nao tem outra alternativa, senaõ tomar posse militar daquelle
paiz. Ora isto he o que se chama fazer a guerra.
Depois deste motivo, que resulta do miserável arranjo da-
quelle tractado, que estipulou a existência do tal campo neu-
tral; ha outro, que vem a ser os Povos das Missoens.
Quando a Hespanha declarou a Portugal a guerra, que fina-
lizou com o tractado de Badajoz, e depois com a paz geral
d'Amiens, tomaram as tropas Portuguezas do Rio-grande vá-
rios povos das Missoens, que pelo citado tractado de Madrid
tinham ficado a Hespanha. Portugal nunca restituio esta con.
quista, e muito máo tempo éra de a restituir, quando as pro-
vincias vizinhas se achavam em estado de revolução.
Os insurgentes commandados por Artigas, assim como os
outros pertencentes a Buenos-Ayres; de quem os primeiros
saõ inimigos declarados ; e os de Sancta F é , aonde ha um Go-
verno separado, que nem obedece ao de Montevideo, nem ao
de Buenos-Ayres, todos concordam na idea de tirar aos Por-
tuguezes esta sua conquista das Missoens; ede certo o teriam
ja feito, se tivessem podido acommodar as rixas, que tem
entre si.
A entrada dos insurgentes nas Missoens, deixa-lhes o campo
aberto até o território do Rio-pardo, ponto de grande impor-
tância na capitania do Rio-grande ; donde se segue que, para
segurar a posse das Missoens, he necessária a posse de todo o
paiz na margem esquerda do Paraná ; principalmente as pas.
sagens deste rio em Corrientes e Sancta F é ; porque saÕ as
chaves de todo aquelle território.
N o estado pois actual das cousas he impossível obter a ne-
cessária segurança da provincia do Rio-grande, tanto da parte
do campo neutral como da parte das Missoens, sem que por
meio da guerra se tome occupaçaõ militar de todo o território
de que tractamos.
Miscellanea. 239
Creaçaõ de novos Lugares de Letras no Brazil.
por alvará com força de ley, dado no Rio-de-Janeiro aos 5
de Dezembro, de 1815, se creou na villa do Penedo, commarca
das Alagoas, um lugar de Juiz-de-fóra do crime, eivei e orfaõs,
com o mesmo ordenado, aposentadoria, e propinas, que vence
o juiz-de-fóra da villa do Recife de Pernambuco; e pelo mes-
mo alvará se erigiram em villas as povoaçoens de Maceió e
Porto-das-Pedras; creando-se para cada uma dellas os offi-
ciaes respectivos, e determinando os termos, qne lhes hao de
pertencer.
Ja em outros N o s . dicemos a nossa opinião, sobre a escu-
sada multiplicação de Lugares de Letras ; e, se nos aceusarera
de repetiçoens, responderemos, que he a repetição do mal,
quem nos obriga a repetir a queixa.
Aqui achamos o exemplo de três villas, nma em que se esta.
belece Juiz-de-fóra, outras em que bastam os Juizes-Ordina-
rios. Se se averiguar a razaõ de differença naS se achará ou-
tra, senaõ a maior ou menor população daquellas villas ; ou,
por outros termos, que as villas de menos habitantes naõ
produzem bastante rendimento para sustentar Juiz-de-
fóra. De maneira que, o que se consulta nao he a melhor
ou peior administração de Justiça; porém sim o maior ou
menor rendimento do Juiz-de-fóra.
De outro modo, se para a Justiça ser bem administrada, na
villa rendosa, he preciso que haja Juiz-de-fóra, também este he
necessário na villa menos rendosa; pois tanto em uma como
em outra podem oCcurrer os mesmos casos para a decisaõ do
Juiz.
Ha alguns annos, que, tocando nesta matéria, citamos o ex.
emplo da Inglaterra, depois tornamos, por occasiaõ similhante,
a lembrar a mesma practica Ingleza; e agora pela terceira vez
nao podemos deixar de metter á cara do Governo do Brazil o
estabelicimento dos Justiças na Inglaterra. Os Juizes Supre-
mos na Inglaterra (exceptuando o paiz de Gales) saõ única,
mente doze, distribuidos nos três tribunaes supremos; o Crimi-
nal chamado Kings-bench; o Civil, chamado Comtnon-pleas ,*
2 H 2
240 Miscellanea.
e o da Fazenda Real, chamado Exchequer. Os Juizes além
de attenderem as causas nos seus respectivos tribunaes, vaõ
quatro vezes no anno fazer a correiçaõ das provincias, distri-
buindo entre si por turnos, e em rotação de dous em dous jui-
zes, as commarcas ou Condados, em que tem de fazer a correi-
çaõ, em cada estação do anno.
Desta pouquidade dos Juizes Letrados se segue, que o res-
peito, que se tem aos seus lugares, he igual ao das maiores per-
sonagens do Reyno ; elles saõ muitas vezes mandados chamar á
Casa dos Lords para darem o seu parecemos debates, sobre a
formação das leys, que respeitam a administração da Justiça;
e o Juiz mais antigo do primeiro tribunal, que he o Criminal,
chamado Kings-bench, he sempre nomeado Lord e Par do
Reyno, com titulo que fica sendo hereditário em sua familia.
He verdade que, sendo os processos na Inglaterra de viva
vós, e nao por escripta como em Portugal, se despacham as
cansas com summa brevidade; e como, por essa razaõ, um juiz
pôde despachar muitos processos em um dia, menos juizes vem
a ser precisos do que em Portugal; aonde para se evitar este
mal seria necessário introduzir a mesma forma de processos
verbaes da Inglaterra.
Mas ainda assim mesmo, sem recommendar uma reforma de
tal magnitude, julgamos que o numero de magistrados letrados
he excessivo em Portugal, e faltando dos Juizes-de-fora, nao
sô o seu numero he demasiado, porém he inútil para a adminis-
tração da Justiça, e pernicioso ao respeito que se deve conser-
var á magistratura; assim como incommodo ao Governo, que
tem deacommodar tantos pretendentes; e pezado aos povos, que
tem de pagar os tributos para a sustentação de empregados
inúteis; inúteis dizemos, por que seus officios podiam ser exer-
citados pelos homens ricos, que seraõ Juizes Ordinários, mera-
mente pela honra do lugar.

DINAMARCA
A p. 151, publicamos a Patente do Principe Regente de
Hannover, pela qual elle cede, como agora se dáá Dinamarca, o
Miscellanea. 241
ducado de Lauenburg. A entrega foi feita em Ratzburg por
um Commissario Prussiano, aos 27 de Julho. Esta cessaõ he
em conseqüência de se haver dado á Prússia a Pomerania, e a
Norwega á Suécia. A porçaõ pois de Lauenburg, que per-
tencia a Hannover foi em primeiro lugar cedida á Prússia.
Estes documentos só tem de interessante, o constituírem parte
do direito publico da Europa: como taes saõ necessários na
nossa colecçaõ.

ESTADOS UNIDOS.

A expedição, que saio dos Estados Unidos, para ir a Cartha-


gena exigir a soltura dos Americanos, que os Hespanhoes ali
tinham prezos por commerciarem com os insurgentes, nao so-
mente obteve o seu fim, mas até alcançou a soltura de alguns
Inglezes, que se achavam na mesma situação ; porque o Gene-
ral Murilho, nao menos do que o Dey de Argel, nao gosta dos
argumentos, que os Americanos produzem, acompanhados da
artilheria de seus navios de guerra.

FRANÇA.

A rapada ligeireza com que os Francezes passam de um


extremo a outro, se verefica mui galantemente nesta occasiaõ,
n'um objecto da maior seriedade; que he o da Religião- A
reintroducçaÕ dos Jezuitas foi seguida pela de outras ordens
monasticas; e a respeito dos frades de Ia Trappe, achamos nas
gazetas Francezas a seguinte carta do Ministro do Interior ao
Marquez de Villeneuve, Prefeito do Cher :—
" Monsieur Prefeito 1—Depois de longa dispersão, os restos
dos antigos frades de Ia Trappe se ajunctáram de todas as par-
tes do Mundo, entre as ruínas de sua antiga abbadia. A sua
propriedade tinha sido vendida, e a maior parte dos edifícios
alienados ou demolidos. A benevolência somente supprio a
M. Delestranges, o seu respeitável Abbade, com os meios de
tornar a comprar alguns edifícios, aonde estes bons padres tem
242 Miscellanea.
edificado de novo um telhado, debaixo do qual se acha mui
mal abrigada a sua velhice. A sua virtude lhes tem attrahido
homens de varias classes e até guerreiros, que voluntariamente
vam a participar de suas austeridades. A ordem de Ia Trappe
conta ainda cousa de trinta membros."
" Penosa como he a sua vida, consistindo somente em priva-
çoens, ainda assim estaõ ao ponto de carecer mesmo com que a
sustentar: o telhado que os cobre deverá cair por terra, se a
charidade nao vier em seu soccorro ; e he para o fim de evitar
a necessidade de tornar a recorrer á hospitalidade estrangeira,
que Mr. Delestranges solicita permissão de fazer uma colecta
de esmolas em França."
" Julguei que éra do meu dever, M. Prefeito, authorizar o
petitorio de M. Delestranges. Elle nao pôde deixar de ser in-
teressante aos bispos, e eu vos rogo, que lhe ministreis toda a
facilidade, que depender de vossa administração.
" Recebei as seguranças de meus mais distinetos sentimentos
(Assignado) " LAINE."
Mas naõ pára aqui, nem he por este acto de protecçaõ do
Governo aos frades de Ia Trappe, que nós queremos mostrar a
excessiva affectaçaõ com que os Francezes se querem mostrar
mui devotos nas matérias de religião, que ha tam pouco eram
tam solícitos em perseguir.
NaÕ contentes com introduzir n'uma comedia o sacrifício
de Abraham ; a dança, que no theatro acompanhou essa co-
media, éra tirada da historia de SansaÕ. SansaÕ dança um
solo, carregando ás costas as portas de Gaza. Dalilah corta,
lhe os cabelos nos intervallos de uma jiga escoceza; e os Phi.
listeos cercam e aprisionam a sua victima no meio das evolu-
coens de uma contradança.
Chamam a isto os Francezes, voltar aos principios de uma
pura Religião!
A p. 216. publicamos a accusaçaõ feita contra o Abbade
Vinson, cujo processo, assim como o do Abbade Fleury, por
similhante crime foi adiado por quinze dias, e para se fazer en-
taõ em segredo; ou a portas fechadas.
Miscellanea. 243
O Abbade Vinson he mui conhecido na Inglaterra, como
clérigo Francez emigrante, e protegido dos Duques de Angou.
Irene, e Berry. He natural que a esta circumstancia devesse
elle o ter de se lhe fazer o processo em segredo, visto qne o
Governo naõ se pôde eximir de tomar conhecimento de sua
obra, que toca grande numero de Francezes, pela parte mais
capaz de excitar nova revolução, tal qual he o temor de se
perderem as propriedades alienadas no tempo da passada revo-
lução.
Politicamente fallando, julgamos que he mni importante dar
ao clero bens e rendas sufficientes com que se mantenham, do
contrario será quasi impossível achar homens de educação, que
preencham as importantes funcçoens «"eclesiásticas ; e cuidem
na educaçaçaS e moral do povo. Porém religiosamente fal-
tando, naõ achamos nenhuma passagem na Sagrada escriptura,
por onde se dè aos ecclesiasticos melhor titulo aos seus bens,
do que tem as outras corporaçoens, ou indivíduos no Estado.
Se julgamos pois justo e próprio, que se providenceie uma
congrua sustentação aos ecclesiasticos, nao se segue daqui que
os seus bens naõ estejam á disposição das leys, assim como o
está a propriedade de todos os mais cidadãos. Logo naõ ha
mais razaõ para que se restitua a propriedade ecclesiastica
Franceza, alienada durante a revolução, do que a propriedade
dos Nobres, e de muitas instituiçoens caritativas, que fôram
alienadas, durante a mesma epocha. Convém que o Governo
providenceie rendas para todos estes estabelicimentos necessá-
rios, mas o clero deve entrar na regra geral; muito principal-
mente quando a seu respeito houve a sancçaõ do chefe da sua
Igreja, em uma Concordata solemne. Mas naõ ha argumen-
tar com gente, que alega com direitos divinos, para o que lhe
'-- conta, e ao mesmo tempo prcttnde ser o interpetre da di-
vina vontade.
Publicou.se nas gazetas Francezas, que trinta tenentes-gene-
r
* « ; cora o titulo de Inspectores d'arraas, e secenta mare-
chaes de campo, com o titulo de Sub-inspectores d'armas en-
traram era serviço activo. As gazetas Hollandezas menciona-
ram o rumor de que o Governo Francez pretendia levantar,
244 Miscellanea.
por conscripçaõ, no mez de Septembro, recrutas para o exercito
em numero de 60.000 homens. A nos parece.nos isto mui na-
tural, quanto a leva; mas que o modo seja o da conscripçaõ,
contra que tanto fallou o mesmo Rey de França, e que pro.
metteo nunca empregar, he o que nos parece digno de alguma
duvida.
O Governo julgou, que éra assáz importante esta noticia,
para a mandar contradizer officialmente no Moniteur, asseve-
rando que tal promoção nao existira. A pezar disto as noti-
cias de Bruxellas, de 10 de Agosto, dizem, que haviam chegado
aos Departamentos Francezes do Norte dous tenentes-generaes,
e quatro marchaes de campo, com grande numero de officiaes
superiores de engenharia e artilheria. Trazem elles ordem
para examinar as fortalezas oecupadas pelas tropas Francezas,
a artilheria, os arsenaes e as tropas de todas as armas; e para
accelerar e promover o recrutamento do exercito. Havia al-
guns dias antes disto, que se tinham posto em serviço activo
vários officiaes, que estavam a meio soldo. Também se afflr-
mava, que o Governo Francez intentava estabelecer terceira
linha de alfândegas, a fim de prevenir mais efficazmcnte o con-
trabando das mercadorias prohibidas, qne vem dos Paizes-
Baixos.
Em noticias de Lisle, de 8 de Agosto se refere, que o Prefeito
daquelle departamento escrevera uma carta circular aos Subpre-
feitos e Maioraes, em que, depois de fallar geralmente da boa
intelligencia, que reyna, entre os habitantes daquelle departa.
meuto, e as tropas aluadas, cuja discipliua louva, diz o segu-
inte :-—
" E com tudo tem acontecido haver rixas individuaes, e até
crimes sérios, que em alguns lugares tem perturbado esta pre-
ciosa harmonia. Sem duvida he difficil conservar constante-
mente uma perfeita tranquillidade, no meio de grandes corpos
de homens, pertencentes a differentes naçoens, c que naõ fal-
iam a mesma lingua : a inhabilidade, ou ainda mesmo a diffi.
culdade de se explicarem dá muitas vezes occasiaõ a más iutel-
Hgencias, cujas conseqüências bem depressa se lamentam
Porém a nós compete o prevenir as desordens em tanto quanto
isso he possivel, e nao omittir cousa alguma, para manter o es-
Miscellanea. 245
pirito de reciproca boa vontade. Sc algum militar estrangeiro
for accusado de insulto, offensa ou crime a respeito de um
Francez; será isso denunciado ao commandante do destaca-
mento a que o individuo pertencer; porém nao poderá ser
prezo pelas authoridades Francezas, excepto no caso de ser
apanhado em flagrante delicto, ou se os generaes ou officiaes
do exercito aluado requererem a nossa intervenção, ou a da
«endarmeria R e a l ; o u s e forem soldados estrangeiros em es-
tado de deserção ; os quaes nesse caso deverão ser prezos e en-
tregues ao commandante mais próximo das tropas alliadas, se-
gundo o artigo addicional da Convenção Militar de 20 de No-
vembro, de 1815."
" Vários exemplos nos tem convencido de que o culpado
sempre vem a soffrer o castigo, que tem merecido, segundo as
leys de sua naçaõ. O mesmo methodo tem de seguir os chefes
das tropas alliadas, a respeito dos Francezes, que se fizerem
reos de algum crime ou offensa, para com os militares, que
estiverem debaixo do commando daquelles chefes : os accusa-
dos deverão ser entregues aos Procuradores d'El Rey, os quaes
tem recebido instrucçoens, sobre o comportamento que devem
seguir em taes casos. O Promotor da Justiça aceusará o cul-
pado, com justa severidade ; c os tribunaes teraõ cuidado em
que nao sejam violadas impunemente nem á fé dos tractados,
nem as leys do Estado."
El Rey publicou uma ordenança, pela qual determina, que
todos os indivíduos particulares (com certas excepçoens) que
tiverem armas, as entreguem aos respectivos Mayoraes. O
preâmbulo rèfere-se aos decretos e regulamentos, expedidos a
este respeito, desde o anno de 1774 até o tempo presente,
como se isto fosse matéria de mero regulamento ordinário í
porem a publicação de tal ordenança neste tempo nao pode
deixar de considerar-se como indicativa do temor que tem o
Governo, de deixar as armas nas maõs dos particulares.
Dizem que M. Richelieu, M. de Cazes e M. Lainé fizeram
a El Rey uma representação em estylo similhante ás de Fouché,
sobre o estado interno da França. A representação hé uma
espécie de relatório mostrando os procedimentos arbitrários das
V O L . X V I I . N o . 99. 2i
246 Miscellanea.
Cortes de justiça Prevetaes, os máos effeitos das execuçoens
nos Departamentos do Sul; e invectiva contra a practica in.
quisitoria de procurar e aliciar victimas, remunerando os de-
nunciantes ; e pinta com negras cores os abusos, que nisto se
tem commettido em nome de Sua Majestade. O relatório con*
clue recommendando a demissão de vários Prefeitos e Juizes,
em que El Rey concordou.
Corre que El Rey de França, em nma conferência, que
tivera com o Gen. Pozzo di Borgho, mostrara que se admirava
de que o Imperador de Rússia julgasse necessário mandar re-
forços de tropas para o seu contingente no exercito de occu-
paçaõ. O Embaixador Russiano respondeo a isto, que seu
amo naõ podia olhar com indiferença para os preparativos mi-
litares, que se estavam fazendo em França, e para o dillace.
rado estado das diversas facçoens políticas, que ameaçavam
uma convulsão, em que os Estados estrangeiros, ainda os mais
distantes, podiam ser involvidos; e aproveitou o Embaixador
aquella occasiaõ de communicar a El Rey uma carta do Im-
perador a esse respeito. O Rey, depois de ler a casta, termi-
nou a conferência, remettendo o Gen. Pozzo di Borgho para o
Conde d'Artois, o qual daria as explicaçoens necessárias, que
se desejassem. Consequentemente foi o Embaixador Russiano
ter com Monsieur, o qual, havendo lido a carta, e sem fazer
observação nenhuma sobre o seu coutheudo, disse, " e quem
me diz a mim que esta carta vem do Imperador de Rússia ?"
O Gen. Pozzo di Borgho, replicou " <• E quem diz a V. A. R.
que eu sou o Enviado do Imperador de Rússia ?"
Entre as provas da instabilidade do character Francez, acha-
mos nas mesmas gazetas Francezas a seguinte anecdota. Na
ultima viagem, que o Duque de Angouleme fez ás provincias,
foi recebido aquelle Príncipe emLons le Saulnier com grandes
demonstraçoens d'alegria. Entre as principaes personagens,
que lhe saíram ao encontro, o Prefeito era o mais conspicuo;
e querendo dar acclamaçoens ao Duque, gritou vivas, mas por
engano disse " viva o Imperador:" lembrando-se, porem, da
personagem que tinha presente, gritou outra vez, <( Mon
Miscellanea. 247
Dieu! Vive le Roi." Assim se vê, qne os Francezes estaõ
promptos para approvar tudo, dar acclamaçoens a todos, com
tanto que isso sirva, para a utilidade do momento, i Quem,
depois disto, poderá descançar nas suas demonstraçoens de
fidelidade á casa reynante ?

HESPANHA.
As noticias particulares de Madrid referem, que aos 19 de
Julho, pela meia noite, fôram tirados das prisoens solitárias
em que se achavam em Ceuta os seguintes prezos d'Estado,
Arguelles, Alvarez Guerra, Merino, Rico, Goycoche, Serrano,
Calvo, Puga, Mesequer, Perez Rosa, e vários outros partidis-
tas das Cortes. Todos elles fôram aquella mesma hora mettidos
abordo de um xaveco; carregados de ferros; e o xaveco se
fez logo a vela sem ninguém saber para onde. Diziam uns,
que os prezos seriam lançados ao mar (porque tudo o que he
máo se suspeita de Fernando VII.) outros, que seriam lança-
dos em terra na ilha dezerta de Cabrêra, juncto a Majorca,
para que ali morressem á fome.
El Rey de Hespanha acaba de dar um passo mui impor-
tante a favor do despotismo, naõ ja em administração, mas
na Constituição do Estado. Havia no reyno de Navarra uma
Commissaõ permanente de Deputados do Povo, a cuja revisão
e approvaçaõ eram submettidas todas as leys e ordens Regias,
antes de se porem em execução naquelle Reyno. Agora man-
dou El Rey uma ordem pasa ser promulgada ; e sem o consen.
timento dos Deputados do Povo, os quaes se oppuzéram a isto.
0 Vice-Rey (Espeleta) prende-os todos em uma noite, pôllos
cm prizoens incommunicaveis, e acabou com isto peremptoria-
raente, e pela simples ordem de um Vice Rey a mais importante
parte da Constituição de Navarra, que tinha escapado invio-
lável a todas as concussoens dos mais despoticos Soberanos da
Hespanha.
0 general Abadia, que estava encarregado da inspecçaõ
das tropas destinadas a uma expedição contra as colônias, foi
demittido daquelle lugar, e partio para Valencia, aonde deve
2i2
248 Miscellanea,
residir debaixo das vistas do Capitão General Elio. Lardiza-
bal, ex Ministro de Estado, foi também desterrado de Madrid,
ficando sugeito á inspecçaõ do CapitaÕ-general Eguia.
As queixas do exercito e marinha pelas faltas de pagamento,
obrigaram o Ministro da guerra a expedir uma ordem do dia
circular, em que se promette aos soldados o terem os seus
pagamentos na mesma proporção dos empregados na lista civil.
Esta ordem confessa, que muitos officiaes de marinha e do ex-
ercito tem morrido de fome e á mingua. Mas ainda assim
esta promessa vai mui pouco ao ponto; por queos mesmos
empregados civis naõ recebem a quarta parte do que lhes he
devido.
Tudo na Hespanha ameaça a dissolução do Estado, por sua
própria fraqueza : a expressão das noticias, que dali vem he,
que a machina politica parará por si, quando as suas differen-
tes partes começarem a quebrar de fraqueza, acontecimento,
que naS pôde estar mui distante.
Eis aqui a copia daquella incrivel ordem do dia :—-
" O Secretario de Estado e da Marinha deo parte a El Re; Nosso
Senhor, de que no Departamento do Fero), o tenente da armada
Real, D. Jozé Labradores, um capitão de fragata, D. Pedro Quevedo,
e um official de Fazenda, morreram de fome, e á mingua: e que
um capitão de mar e guerra, dous commandantes de fragata, e mui-
tos outros de várias classes estavam moribundos, e obrigados ajazer
sobre palha: nesta occasiaõ, elle além disto manisfestou a S. M.,
que a causa da deplorável situação destes meritorios, leaes e dignos
membros da marinha, procedia da maneira desigual, em que a pe-
quena propriedade, que se continha no Real Thezouro, éra distribuí-
da entre os criados d'EI Rey, pelos que dispunham dos fundos do Es-
tado. E havendo-se movido o animo de S. M. no mais alto gráo,
ouvindo o relatório e observaçoen s do dicto Secretario, foi servido
resolver e ordenar, que sejam observadas rigorosissimamente ai suas
Reaes ordens, a respeito de serem os membros da marinha pagos
em igual e regular maneira, cora o resto das pessoas empregadas pelo
Estado: de sorte que se a esta meritoria classe senaõ pagar mais do
que metade, terça ou quarta parte de seu soldo mensal, nenhuma
outra pessoa poderá receber maior proporção ; quer pertença á
repartição do Thesouro, quer ao Militar, Civil ou Ecclesiastico. 0
que participo a V. E. de Ordem Real," &c.
Miscellanea. 249
A p. 137, deixamos publicado o decreto, pelo qual El Rey
encarrega a educação da mocidade de ambos os sexos aos con-
ventos de frades e freires. Esta medida, depois da admissão
dos Jezuitas, e do restabelicimento da Inquisição, nos mostra
bem as intençoens de Fernando VII. Em outro qualquer paiz
teríamos julgado, que esta medida de aproveitar os religiosos
para educar a mocidade, ao menos nas primeiras letras, seria
de summa vantagem ao Estado; porém, considerando o fa-
natismo d'El Rey catholico, os seus esforços para arraigar a
ignorância em sua pátria, e o aborhecimento do clero a tudo que
saõ conhecimeutos úteis, nos faz olhar para o decreto, que men-
cionamos, como baze do systema com que se intenta reduzir a
Hespanha a uma naçaÕ de frades.
Se nós sentíssemos alguma veneração ou respeito por Fer-
nando VII. aconselharíamos, que desistisse de tam terrível em-
preza; mas como as cousas vam, desejamos, que elle continue,
e obre ainda peior; porque elle mesmo trará o remédio ao mal.
Apresse-se pois Fernando V I I , com a sua obra; aperte cada
dia mais e mais as medidas, que vai seguindo, que quanto mais
pressa nisso se der, mas cedo acabará a sua tarefa.

COLÔNIAS HESPANHOLAS.

Temo-nos ha muito tempo deixado de publicar as noticias


sobre a guerra civil nas Colônias de Hespanha; pela falta de
documentos officiaes daquelles paizes, aonde as hostilidades saÕ
levadas ao ponto de que nenhum dos partidos dá quartel ao
outro, e as noticias confusas, que nos chegam, nao mostram
nenhum plano seguido de operaçoens, nem de uma parte nem
da outra.
Agora, porém, recebemos as gazetas de Buenos Ayres, em
que achamos a noticia official da inauguração do Congresso
das Provincias Unidas do Rio-da-Prata, aos 24 de Março, na
cidade de Tucuman.
Em quanto isto ali se passava os de Buenos-Ayres tentaram
uma accommodaçaõ com Artigas, o qual propôs como preli-
minar de toda e qualquer negociação, a demissão do Director
250 Miscellanea.
Interino do Estado D. Ignacio Alvarez; foi esta condição
aceita, e outro Director Interino do Estado nomeado pela
Juncta chamada de Observação e pelo Cabildo. Este novo
Director he D. Antonio Gonzalez Balcarce, o qual expedio a
sua primeira proclamaçaõ aos 18 de Abril; e participaram isto
ao Congresso Geral, em Tucuman.
Por oito annos se tem entretido os povos daquellas provin-
cias, com fallar de theorias sobre os principios abstractos de
Governo; disputando com a espada as suas differentes opinioens;
enfraquecido-se com esforços inúteis, e repeditas mudanças
de governo; e só se lembram destes arranjamentos essenciaes,
quando um inimigo poderoso lhe bate á porta com a intenção
de acommodar os distúrbios. Qual será o resultado deixamos
ja apontado em outro lugar.
Ha outras noticias, que mui deproposito deixanos de publicar,
e dizem respeito ao que está obrando o General Bolivar em
Caracas. Os nossos Leitores facilmente conhecerão, que os
nossos motivos, para nao fallar nessas matérias, saõ a contem-
plação do estado presente do Brazil. Desejava.mos que o
Governo ali tomasse medidas sérias para acabar a escrava-
tura. . . . . .

INGLATERRA.

O tractado de paz entre o Governo Britannico e o Rajá de


Nepaul foi concluído em Segouley aos 2 de Dezembro, 1815;
e ratificado pelo Govemador-Gencral em Conselho, aos 9 do
mesmo mez ; e finalmente ratificado pelo Rajá de Nepaul. As
ratificaçoens fôram devidamente trocadas, entre o Major-
General Sir David Ochterlony, Cav. Comm. de Bath., agente
do Governador-General, e os agentes acreditados do Governo
de Nepaul, no acampamento Britannico, juncto a Muckuam-
pore, aos 4 de Março, e se publicou na índia o mesmo trac-
tado, que deixamos transcripto a p. 142.
Miscellanea. 251

NÁPOLES.

El Rey de Nápoles publicou um decreto, em data de 17 de


Julho, pelo qual ordena a plena execução das leys, que prohi-
bem aos vassallos de S. M. o pedir á Sancta Sé dispensas, bre-
ves, ou ordens algumas, relativas ás matérias espirituaes e ec-
clesiasticas, excepto em cousas, que respeitem unicamente a
casos de consciência, sem ter primeiro obtido permissão do
Soberano. Alem disto, as dispensas, breves e ordens doSummo
Pontífice, ainda concedidas depois da previa permissão Regia,
naõ poderão ter effeito sem obterem o placito Regio; e como
taes mandados Pontifícios saõ commumente dirigidos aos Ordi-
nários prohibe-se a estes, que os executem, sem que vejam o
Placito Regio; e se comminam graves penas, contra os que
evadirem as leys a este respeito.
As noticias do Continente dizem, em um artigo de Vienna,
que, depois da morte do actual Rey das Suas Sicilias, se sepa-
rarão as duas coroas de Napoies e Sicilia; passando a primeira
ao Principe Leopoldo, que acaba de se casar com uma Ar.
chiduqueza Austríaca; e a segunda ao Principe Francisco,
actual herdeiro d'El Rey. O Ministro Napolitano em Londres,
vendo que as gazetas lnglezas copiavam esta noticia, a mandou
desdizer officialmente pela seguinte nota :—

" Great Cumberland-street, 24 de Agosto, 1816.


" Ao EDICTOR, &C.
" Senhor! Requeiro-vos, que contradigais, da maneira mais ine-
quívoca, o rumor que tendes publicado no vosso papel de hoje,
sobre a separação das coroas de Napoies e Sicilia; e a intenção de
que o segundo filho de S, M. Siciliana succeda na coroa de Napoies,
quando Deus for servido levar deste mundo Sua preseute Majestade.
Tal disposição seria um flagrante acto de injustiça para com o Prín-
cipe Hereditário ; e El Rey meu amo nunca privará seu digno e
amado filho do que lhe he devido, pela ley de successaõ, e pelo di-
reito de nascimento.
" Sou, &c.
(assignado) " CASTELCICALA."
252 Miscellanea.
Naõ obstante esta contradícçao formal, ainda nos restam
alguns escrúpulos; porque o Ministro Siciliano so falia do que
sabe officialmente; e quanto a razaõ, que dá, para o acredi-
tarmos, de que seu amo naõ faria tal injustiça, a seu próprio
filho, nao parece mui convincente; porque El Rey pôde ser
obrigado, talvez contra sua vontade, a entrar nesse arranja-
mento.
A Áustria desejava, mais que nada, tornar a entrar na posse
de seus territórios Italianos: consegnio isto na paz geral; e
agora todos os políticos Austríacos dizem, que para segurar
estas possessoens Italianas precisam do Reyno de Napoies.
Para o centro da Itália se tem mandado tropas Austricas:
Austriaco he o General Nugent, que El Rey de Napoies
agora acaba de nomear para commandar o seu exercito; e
Austríaca he a Princeza, que cazou com o filho segundo d'El
Rey, preconisado pelos rumores para aquella coroa. A carta
do Ministro Siciliano, portanto, naõ se faz cargo de responder
a estes motivos de conjectura.

POTÊNCIAS BARBARESCAS.

Um artigo de Gênova refere, que o Dey de Argel trouxera


para a cidade 6 000 escravos, que empregava nos trabalhos
das fortificaçoens, apressando-se em concertar as partes que
mais necessitavam de defeza: acerescentou dous bastioens ex-
teriores, e formou de ambos os lados da cidade campos entrin-
cheirados, contemplando um desembarque. O Dey se achava
em pessoa á frente dos trabalhadores; e tinha mandado tirar a
artilheria de alguns vasos para a assestar pelas muralhas; as
quaes dizem que ficariam guarnecidas com 1.500 peças de vá-
rios calibres. He incrivel a actividade do Dey; elle vive na
sua barraca de campanha, armada sobre as muralhas ; e al-
gumas vezes dorme no acampamento fora da cidade. Os Arge-
linos mostram o maior enthusiasmo. Somente os Francezes
saõ respeitados naquelle lugar; e todo o ódio dos Bárbaros
parece dirigir-se contra os Inglezes; e a populaça tem com-
mettido novos insultos contra indivíduos desta naçaÕ. O Dey
Miscellanea. 253
passa revista ás tropas mui freqüentemente ; anima-as, e faz
pelas enthusiasmar : a populaça beija os seus vestidos e as suas
armas, e conclue diariamente por levállo em triumpho para o
seu palácio. Tudo annuncia, que a defeza será igual ao vigor
do ataque; mas he de esperar que os foguetes de Congreve
possam abater a insolencia daquelles Bárbaros. He de presumir
que o Dey será auxiliado pelo Imperador de Mor roços. Este
Musulmano, que faz alarde de sua politica, dizem que faz
zombaria de Lord Exmouth, por nao se aproveitar das vanta-
çens que tinha na sua expedição passada. He de esperar que
o Almirante Inglez obre agora de maneira, que tire ao Mar-
roquino a vontade de rir.
Outra noticia de Cagliari refere, que o navio Inglez, Kent,
fôra atacado e tomado por dous corsários Mouros, abordo de
um dos quaes se achava o sobrinho do Dey de Argel, Hassan
Yusuf. Este bárbaro depois de haver insultado os Inglezes,
que havia feito prisioneiros, disse ao capitão, que as Potências
da Barbaria tinham mais ódio aos Inglezes do que medo dos
tigres do deserto ; e que desejavam que a sua illa se submer-
gesse debaixo das ondas, como elle tinha tido a felicidade de
ver submergir.se o seu navio.

SUÉCIA.

A p. 145, trasladamos a falia do Principe da Coroa de


Suécia ao Storthing de Norwega, e a resposta daquella assem-
blea, terminando a sua sessão. O Principe saio de Stock-
holmo, para este fim, acompanhado do Duque de Sudermania,
aos 23 de Junho : e chegou a Christiania aos 23.
Aos 6 de Julho se fez a cerimonia do encerramento da Dieta;
e a falia que fez o Principe era em Francez, e foi traduzida e
repetida na lingua Norwegueza, por seu filho o Duque de
Sudermania.

VOL. XVII. No. 99. 2E


254 Miscellanea.

WURTEMBERG.

Os Estados do Reyno apresentaram ultimamente a El Rey


vários memoriaes, que tem excitado bastante a attençaõ do pu-
blico. Um delles se oppóem á leva extraordinária de 900
homens, que El Rey ordenara ; e o deixamos copiado a p. 149,
por ser interessante nao só quanto á matéria, mas também
quanto a linguagem por que se exprime, pois mostra o aze.
dume que existe entre El Rey e os Estados.
A segunda representação he contra a nova organização dos
departamentos do interior, e contra as medidas de finanças,
que o Governo tem adoptado sem consultar os Estados. A
terceira pede a El Rey que nomee uma commissaõ para se in-
formar da situação actual do Reyno, e aconselhar as medidas
que se devem adoptar, para melhorar a condição da maioridade
dos cidadãos, cujas misérias o memorial representa no maior
auge.
[ 255 ]

CONRESPONDENCIA.

Catalogo das Obras de J. D. Bomtempo, publicadas em


Londres.
Umas variaçoens para Piano-forte, sobre o Minuete Afandaga-
do. Preço 480 reis.
Um segundo grande Concerto para P. f. Preço 1,280 reis.
Uma Fantasia para P. F. sobre o motivo conhecido de Paiseilo Nel
cor piu non mi sento. Preço 800 reis.
Ura terceiro grande Concerto, para P. f. com acompanhamentos
para uma orchestra completa. Preço 1,680 reis.
Cappriccio e God save lhe King, com variaçoens. Preço 800 reis.
Três grandes Sonatas para P. F. a terceira com acompanhamento
de Violino obrigado. Obra 9. Preço 1,920 reis.
Hymno Lusitano com Coros, e acompanhamento de uma Orchestra
completa. Preço 4,800 reis.
Marcha de Lord Wellington tirada do Hymno Lusitano, e arran-
jada em Dueto, para Piano-forte. Preço 480 reis.
A mesma musica do IIj. mno Lusitano arranjada para Piano-forte
com palavras Italianas adaptadas. Preço 1,600 reis.
Acompanhamentos para uma Orchestra completa, da mesma mu-
sica. Preço 1,600 reis.
Primeira grande Symphonia, para uma Orchestra completa. Pre-
ço 1,280 reis.
A mesma arranjada em Dueto para P. f. Preço 96o reis.
Quarto grande Concerto para P. f. com acompanhamentos para uma
Orchestra completa. Preço 1,680 reis.
Uma Sonata para P. f. com acompanhamento (ád libitura) para Vi-
olino. Obra 13. Preço 640 reis.
Grande Fantazia para P. f. composta de uma Introducçaõ, Canta-
wile, Agitnto; motivo com variaçoens, fugato, Graciozo, Allegro
brilhante, e final. Obra 14. Preço 800 reis.
Duas Sonatas para Piano f. com acompanhamento de Violino.
Obra 15. Preço 1,200 reis.
6
256 Conrespondencia.
Um grande Quintelto para P. f. dous Violinos Alto, e Violoncello.
Obra 16. Preço 1,280 reis.
Uma Waltz para P. f. Preço 160 reis.
Marcha Portugueza para P. f. Preço 240 reis.
A Paz da Europa, Cantata a quatro vozes, com Coros, e acom-
panhamento de P. f. obrigado. Preço 3,200 reis.
Três Sonatas para P. f. com acompanhamento (ad libitum) para
Violino. Obra 18. Preço 1,200 reis.
Elementos de Musica, e Methodo de tocar Piano-forte, com Ex-
ercícios em todos os Gêneros, seis Liçoens progressivas, trinta Pre-*
ludios em todos os tons, e doze estudos. Obra offerecida á naçaõ
Portugueza. Preço 1,920 reis.
Estas Obras se a chaõ em Londres na Loje de Clementi e Comp,
Cheapside, N°. 26. Em Lisboa, na rua larga de S. Roque, N°. 55.
N. B. Em breve tempo sahiraõ á luz as obras seguintes.
A Opera d'Alessaudro ín Efeso.
Uma grande fantasia para P. f.
Quinto grande Concerto para P. f.
CORREIO BRAZILIENSE
DE SEPTEMBRO, 1816.

Na quarta parte nova os campos ara,


E se mais mundo houvera Ia chegara.
CAMOENS, C. VII. e . 1 4 .

POLÍTICA.

REYNO UNIDO DE PORTUGAL ALGARVES E BRAZIL.


Portaria do Governo de Lisboa, sobre o pagamento dos
Officiaes reformados.

. H A V E N D O El Rey Nosso Senhor tomado era Considera-


ção os meios mais efficazes de facilitar o pagamento dos
Militares Reformados, que envelheceram,e se incapacitaram
no Seu Real Serviço, e igualmente o do Monte-Pio, a que
tem direito as familias dos Officiaes fallecidos : E que-
rendo contemplar com a distineçaõ, de que se faz digna, a
uma Classe de Vassallos, que com tanto valor, fidelidade,
e gloria defendeo os sagrados Direitos de Sua Real Coroa,
Tealçatido com illustres feitos a fama ganhada por nossos
Maiores no campo da Honra : He Sua Magestade Servido
Ordenar:
I* Que em todos os Cofres, e Arrecadações, cujos Ren-
dimentos tem a natureza de Rendas Reaes, e que entram no
Erário Regio, comprehendidos os das Commendas vagas,
e nas execuções e prestações da Real Fazenda, se acceitem
daqui em diante em pagamento, e como dinheiro as Ce-
VOL. X V I I . N o . 100. 2L
258 Politica.
dulas ou Valles passados pelos três Thesoureíros Geraes
das Tropas do Centro, Norte, e Sul, e pela Pessoa com-
petente, authorizada pela Juncta da Fazenda da Marinha,
provenientes de Recibos de Soldos de Reformados, Pen-
sionistas, e Monte-Pio, que estiverem vencidos, desde o
primeiro de Janeiro de mil oitocentos e nove, e se forem
vencendo até ao fim do anno corrente, daquelles interes-
sados e seus Cessionários, que quizerem aproveitar-se
desta providencia, ou que naõ possam esperar pelos paga-
mentos ordinários, e possíveis das respectivas Thesoura-
rias; ficando porém inhibida a acceitaçaõ das referidas
Ced ulas nos Contractos, cujos Contractadores tiverem anteci-
padamente pago os preços delles ; pois naõ devem receber
em diversas espécies daquellas em que fizeram os paga-
mentos ; nem seraõ admittidas nos Rendimentos da Casa
e Estado das Senhoras Raynbas deste Reyno; da Sancta
Igreja Patriarchal: da Basílica de Santa Maria Maior; da
Bulla da Cruzada, e do Subsidio Litterario, por terem de-
terminadas applicaçoens.
I I . Que a sua admissão nos pagamentos feitos á Real
Fazenda, será permittida até ao fim de Março próximo
futuro ; e as que forem enviadas ao Real Erário, depois
deste prazo, pelos diversos Exactores, Rccebedores e The-
soureíros, faraõ elles constar legalmente, que as acceitáram
dentro do referido tempo; contendo as mesmas Cédulas, ou
Valles os pertences, como se pratica com as Apólices dos
Reaes Empréstimos.
I I I . Que para fazer também extensiva esta providencia
aos Reformados, Pensionistas, e Pessoas comprehendidas no
Monte-Pio, que tem os seus Assentamentos nas diversas
Pagadorias Militares do Reyno, e que quizerem gozar deste
indulto, apresentarão por si, ou por seus Cessionários, a
cada um dos Thesoureíros, a que pertencerem as pagado-
rias, os Recibos dos seus vencimentos, authorizados com
as assignaturas dos respectivos Pagudores, para a vista
2
Politica. 259
daquelles documentos os mencionados Thesoureíros das
Tropas expedirem as Cédulas ou Valles com as preven-
ções e formalidades, que fazem o objeclo de ouíra Portaria
da data desta, expedida a fim de que conste com le-
galidade a maneira por que se praticaram estas trans-
acçoes.
IV". Que as entregas, que se fizerem no sobredicto Erário
Regio dos mencionados Titulos, sejam sempre accompa-
nhadas de Certidões na fôrma do estilo practicado cora as
Apólices dos dictos Reaes Empréstimos.
V. E sendo mais que sufficientes para satisfacçaõ das
referidas Cédulas ou Valles as dividas activas do Estado,
vencidas até ao fim do anno de mil oitocentos e doze, naõ
solvidas antes por embaraços superiores a todos os esforços,
naõ seraõ as mesmas Cédulas admittidas em rendimentos
dos já declarados no primeiro artigo, que tenhao a sua
origem no principio do anno de mil oitocentos e treze cm
diante.
As Autboridades a quem competir, o tenham assim en-
tendido, e cumpram pela parte que lhes toca. Palácio do
Governo, em 13 de Agosto, de 1816.
Com as Rubricas dos Governadores do Reyno.

FRANÇA.

Ordenança à"El Rey, determinando a convocação de nova


Câmara de Deputados.
Luiz, &c. A todos os que as presentes virem saúde.
Depois que voltamos para os nossos Estados, cada dia nos
tem demonstrado a verdade do que proclamamos, naquella
solemne occasiaõ, que a vantagem dos melhorameníos he
acompanhada de perto pelo perigo das innovaçoens : esta-
mos convencidos de que as necessidades e desejos de nos-
sos subditos se unem em preservar intacta aquella Carta
2L 2
260 Politica.
constitucional, que he a baze do Direito Publico Francez,
e a garantia da tranquillidade geral.
Temos portanto julgado necessário reduzir a Câmara
dos Deputados ao numero determinado pela Carta, e
chamar para ella somente homens da idade de mais de 40
annos ; porém, a fim de effectuar esta reducçaõ de maneira
legal, lie indispensável convocar de novo os Collegios
Electoraes, em ordem a proceder â eleição da Câmara dos
Deputados.
Por estes motivos, tendo ouvido os nossos Ministros,
temos ordenado e ordenamos o seguinte:—
Art. I. Nenhum dos artigos da Carta Constitucional
será revisto.
2. A Câmara dos Deputados he dissolvida.
3. O numero de Deputados para os Departamentos hc
fixo segundo o artigo 36 da Carta, e na conformidade da
tabeliã annexa.
4. Os Collegios Electoraes das Redondezas (Arrondis-
sements), e Departamentos, continuarão a ser compostos
na forma em que fôram reconhecidos, e taes quaes deviam
ser completos pela nossa ordenança de 21 de Julho
de 1815.
5. Os Colégios Electoraes de Redondeza, se ajunetaraõ
aos 25 de Septembro do presente anno. Cada Collegio
elegerá um numero de Candidatos igual ao numero de De-
putados para o Departamento.
6. Os Collegios lilectoraes de Departamento se ajuneta-
raõ aos 4 de Outubro. Cada um escolherá, pelo menos
metade dos Deputados, d'entre os candidatos apresentados
pelos Collegios de Redondeza. Se os Deputados do De-
partamento formarem um numero impar, a divisão será
feita a favor da porção, que se ha de escolher d'entre os
candidatos.
Aquelles Collegios de Departamento, que tem de no-
Politica. 261
mear um só Deputado, teraõ faculdade de o escolher ou
d'entre os da lista de Candidatos, ou de outras quaesquer
pessoas.
7. Toda a eleição, em que naõ estiverem presentes ame.
tada e mais um dos Membros do Collegio, será nulla, e
invalida. A maioridade absoluta dos Membros presentes
he necessária para a validade da eleição dos Depu-
tados.
Se os Collegios das Redondezas naõ tiverem completado
a eleição do numero de Candidatos, que saõ authorizados
a escolher, os Collegios de Departamento poderão, com
tudo, proceder nos seus deveres.
8. As minutas da Eleição seraõ examinadas na Câmara
dos Deputados, que pronunciará sobre a regularidade das
eleiçoens. Requerer-se-ha dos Deputados escolhidos, que
apresentem certidoens de nascimento, provando que tem
chegado á idade de 40 annos : e extractos dos roes,
devidamente authenticados pelos prefeitos, provando que
pagam pelo menos mil francos de taxas directas.
9. Elles contarão :
Pelo marido, as contribuiçoens pagas por sua mulher,
ainda que seja por propriedade sua delia :
Ao pay as de seus filhos infantes ;
As da viuva ; que naõ tornou a casar para o filho que
ella escolher.
Ao genro, as de sua sogra, sendo viuva, cuja filha única
elle tenha casado;
Ao filho, e genro as do pay e sogro, se elles lhe transferi-
rem o seu direito.
10. Ajunctar-se-haõ os Collegios, e se faraõ as eleiçoens
segundo as formas e regras prescriptas para os collegios

11» A sessaõ de 1816 se abrirá aos 4 de Novembro de


presente anno.
262 Política.
12. Saó revogadas as resoluçoens da ordenança de
13 de Julho, 1815, que forem contrarias á presente.
O nosso Ministro e Secretario de Estado do Inferior,
Le encarregado da execução da presente Ordenança.
Dada no Castelo das Tuillerias, aos 5 de Septembro,
de 1816 ; no 22 anno do nosso reynado.
(Assignado) Luiz.
O Ministro Secretario d'Estado do Interior.
(Assignado) LAINE.

Ordenação, nomeando os Presidentes dos Collegios de


Departamento.
Luiz, &c. Temos nomeado e nomeamos os seguintes
Presidentes dos Collegios de Departamentos.
Departamentos. Nome e graduação dos Presidentes,
Ain - Camillo Jordan. Proprietário.
Aisne Baraõ de Courval. Deputado na
Câmara passada.
AUier - Desroys. Ex-Mayoral de Moulins.
Alpes (Basses) - Gravier. Deputado na Câmara
passada.
Alpes (Haules) Aneles. Prim". Preside. da Corte
Real em Grenoble.
Ardeche - - Marquez de Latourétte, Ex-Prefeito.
Ardennes - Desrousseau. Deputado na Câ-
mara passada.
Arriege - Calvcl Madaillan. Dicto.
Aube • Labriffe (o Conde). Dicto
Aude - Catelan. Dicto.
Aveyron • Bergon. Conselheiro d'Estado, Di-
rector das matas.
Bouches-du-Rhone - Barthelemi. Banqueiro em Paris.
Politica. 263

Calvados Hautefeuille (o Conde). Deputado


na Câmara passada.
Cantai - Tournemine. Dicto.
Charente Rastignac (Marquez). Proprietário.
Charente-Inferieur Jounneau. Deputado na Câmara
passada.
Cher Augier (Baraõ). Dicto.
Correze - Faucand. Dicto.
Corsica - Peraldi (d'Ajacio). Proprietário.
Cote-d'Or Maleteste (Marquez). Deputado na
Câmara passada.
Cotes-du-Nord Courson de Villevalio. Coronel na
Guarda Real.
Crcuse - Michelet. Deputado na Câmara
passada.
Dordogne Maine-Biran. Dicto.
Doubs Meyronet de S. Marc. Procurador
d'El Rey ern Besançon.
Drome - Conde de Ia Porte. Marechal de
Campo.
Eure Terneaux. Negociante, Coronel d*
guarda Nacio mal.
Eure-et-Loir - Lacroix-Fraiuv-lIe. Ex-chefe dos
Advogados em Paris.
Finistere - D'Augier. Contra-almirante, De-
putado na Câmara passada.
Gard - Briehe (Visconde). Tenente-ge-
neral.
Garoune (Haute) Bastard de 1'Estang. Presidente da
Corte em Lyons.
Gero O Conde Fesenzac. Sênior Tenente-
general.
Gi ronde Ravez. Advogado.
Herault Montcalm (Marquez). Deputado
na Câmara passada.
264 Politica.
llle-et-Vilaine - Moreau. Administrador dos Cor-
reios.
Indre Barbancois. (Marquez.)
Indre-et-Loir - Destouches. Prefeito do Seine-et-
Oise.
Isere Planelli de Lavalette. Deputado
na Câmara passada.
Jura Jobez. Dicto.
Landes - Poisere de Cere. Dicto.
Loire-et-Cher SarrazLn (conde). Ex-membro da
Assemblea Constituente.
Loire O Conde Vougy. Deputado na
Câmara passada.
Loire (Haule) - Chabron de Solilhac. Dicto.
Loire (Inferieur) Dufou. Ex-Mayoral de Nantes.
Loiret Baest. Deputado na Câmara pas-
sada.
Lot Bessieres (o Cavalheiro). Negoci-
ante.
Lot-et-Garonne Dijeon (Conde). Deputado na Câ-
mara passada.
Lozere - Dumanoir. Contra Almirante. De-
putado na Câmara passada.
Mame (Haute) Becquey. Sub-Secretariod'Estado.
Dicto.
Mayenne- Pasquier (Baraõ). Dicto.
Meurthe - Bouteiller. Presidente da Corte em
Nancy.
Morbillan Gaetan de Ia Rochefoucault. Pro-
prietário.
Moselle De Wendel. Deputado na Câmara
passada.
Nievre - Chabrol Chamiane. Proprietário.
Nord - Jumilhac (Marquez). Tenente-ge-
neral.
Politica. 265
Oise 0 Duque d'Estissac. Marechal de
Campo.
Orne - - - O Principe de Broglie. Dicto.
Pas-de-Calais - Blanquart de Bailleul. Procurador
d'El Rey em Douay.
Puy-de-Dome Montaignac (Marquez). Proprie-
tário.
Pyrenées (Basses) - Faget de Baure. Presidente da
Corte Real e Deputado na Câ-
mara passada.
Pyrenées (Orientales) Arnaud. Dicto.
Rbin (Bass) Levrault. Conselheiro de Prefei-
tura.
Rliiu (Haut) - De Serre. Presidente da Corte Real
e Deputado na Câmara passada.
Rhone - Cotton. Deputado na Câmara pas-
sada.
Saone (Haute) - Gramont (Marquez). Dicto.
Saone-et-Loire Ganay (Marquez). Dicto.
Sarthe Labouillerie. Dicto.
Seine Bellart. Dicto, Procurador d'El
Rey.
Seine-et-Marnc Saint Criq. Director-geral d'Alfân-
degas.
Seine-et-Oise - Jumilhac-Chapelle (Baraõ). De-
putado na Câmara passada.
Seine-Inferieur Beugnot (Conde). Mininistro d'Es-
tado.
Deux-Sevres Chauvin Boissavary. Deputado na
Câmara passada.
Somtne Morgan. Dicto.
Tarn-et-Garonne VialettedeMortarieu. Ex-Mayoral
de Montauban.
Var . . Gallois. Ex-Deputado.
Vauclose Daramon. Proprietário.
VOL. X V I I . No. 100. 2M
266 Pohhca.
Vandée - Dufougerais. Deputado na Câmara
passada.
Vienne Nieul (Conde). Proprietário.
Vienne (Haute) Bourdeau. Procurador d'El Rey
em Rennes.
Vosges - - Falatieu (Joseph). Deputado da
Câmara passada.
Yonne - Jacquinot. Procurador d'El Rey
em Paris.
(Assignado) Luiz.
LAINB.

HESPANHA.

Documentos relativos á prizaõ do Vice Cônsul dos Estados


Unidos em Cadiz, por ordem do Governo Hespanhol.
N \ 1.
Carta do Cônsul Americano ao Governador de Cadiz.
Cadiz, 14° de Maio, de 1816.
S E N H O R !—Quando voltei para esta cidade, aos 11 do
corrente, me deram a mais extraordinária informação, de
que Mr. Meade um cidadão dos Estados Unidos, e seu pro-
consul em minha ausência, tinha sido requerido a pagar a
Sua Majestade certa somma de dinheiro, ou dar fianças
idôneas, approvadas pelo Consulado desta cidade, para o
dicto pagamento; e na falta de ambas as cousas, que fosse
a sua pessoa posta em custodia : que, naõ approvando o
dicto Consulado a fiança de Mr. Meade, V. Ex 1 . o mandou
prender no castello de St». Catalina, aonde continua de-
tido, debaixo de uma guarda militar.
Naõ me he possivel, Senhor, expressar a minha surpreza
com este ultragem, depois de ter visto pelos mais irrefra-
gaveis documentos, apresentados ante mim por Mr. Meade,
que S. M. Catholica tinha, pela própria signatura de seu
punho, reconhecido, que a somma, de que se tracta, de-
Politica. 267
via ser considerada como depositada no Real thesouro ; e
em que, em data de 14 de Agosto do anno passado, se com-
municou ao predecessor de V. Ex a . uma ordem Real, nas
seguintes palavras:—
« S. M. foi servido ordenar, por seu Real decreto, sob
signatura de seu punho, que, no entanto, e até que se re-
alizem os fundos deste deposito, o Governador ou subde-
legado das rendas Reaes em Cadiz, suspenda todos os pro-
cedimentos ulteriores contra Mr. Meade, e que o processo
se remetta ao Conselho Supremo, e que o pretexto allegado
pela pessoa, que pede o dinheiro, que produzio esta or-
dem, éra que Mr. Meade estava a ponto de fugir desta ci-
dade, e que por isso éra necessário segurar-se da pessoa de
Mr. Meade :"
V. Ex a . deve vêr o pouco fundamento, que deve haver
para tal assersaõ; porém, ainda admittindo que fosse ver-
dadeira, deve parecer naõ menos extraordinário, que um
cidadão dos Estados Unidos fosse prezo pelo pagamento
de uma somma de dinheiro, que S. M. mesmo admitte ter
em sua maõ. O caso he certamente o mais extraordiná-
rio, que se pôde achar na historia da Europa : e Eu, no
meu lugar, como Cônsul dos Estados Unidos da America,
e reconhecido como tal por S. M. Catholica, sendo espe-
cialmente encarregado pelo meu Governo de vigiar e pro-
teger os cidadãos de minha, naçaõ, peço licença a V. Ex*.,
da maneira mais respeituosa, para protestar, como pro-
testo solemnemente, contra a detenção e prisaõ da Mr. Ri-
cardo Meade, um cidadão dos dictos Estados Unidos, o
qual estava, quando foi prezo, encarregado e desempe-
nhando os deveres do meu officio consular, nesta cidade :
e,também, por ser absolutamente contrario ao 7m°. e 20"*0.
artigo do tractado de Commercio, que existe; entre os
Estados Unidos e S. M. Catholica. O sobre-dicto Mr. Ri-
cardo Meade está actualmente prezo em um lugar, que até
aqui tem sido unicamente usado como masmorra, com
2M 2
268 Politica.
sentinella constantamente á vista ; e tudo isto meramente
porque elle se naõ quiz submetter ao pagamento de uma
somma, que S. M. tem reconhecido estar em sua maõ.
Portanto, Eu naõ posso fazer menos do que declarar
a Ex*., que como este acto deve ser olhado por meu Go-
verno com notável desapprovaçaõ, me deve ser permittido
valer-me do meu character official, no seu mais pleno sen-
tido e extensão, para pedir a libertação de Mr. Ricardo
Meade : e, no caso em que V. Ex% se naõ considere ple-
namente authorizado para o fazer, em conseqüência desta
prizaõ ter sido feita por ordem superior, que me dizem
expressar-se assim, " que, no caso que elle naõ pague, ou
naõ dê fiança pela somma, se ponha a sua pessoa em cus-
todia." Eu me apresento, e, sem hesitação, empenho,
tanto o meu character publico como particular, em que
responderei pela pessoa de Mr. Meade, para que lhe seja
permittido voltar para a casa de sua habitação, pedindo
ao mesmo tempo que V. Ex". seja servido conceder-lhe o
seu passaporte, a fim de que elle e sua familia possam ir
a Madrid, e representar ali a peculiar dureza de seu caso
a S. M. Catholica, e defender os seus direitos sob a pro-
tecçaõ do Enviado Extraordinário e Ministro Plenipoten-
ciario de minha naçaõ ; e no caso de que V. Ex*. se naõ
considere sufficientemente authorizado para conceder os
passaportes necessários até Madrid ; peço que lhe seja
permittido, debaixo de minha responsabilidade, oficarem
sua casa, até que receba resposta da Corte; assim como
noticia da chegada do Ministro Plenipotenciario, que se
espera dos Estados Unidos, Tenho também de solicitar
a V. E x \ , que seja servido ordenar, se me dem copias au-
thenticas da Ordem Real, e de todos os procedimentos
que delia se seguiram, assim como da carta official ao
Governador do Castello, aonde está prezo Mr. Meade ; e
também desta carta, a qual declaro, que he o meu protesto
formal; e da determinação ou decreto, que V. Ex% for
Politica. 269
servido expedir sobre isto; a fim de que eu possa re-
metter tudo para Madrid, por um Correio extraordinário,
para informação do sobredicto Ministro Plenipotenciario
dos Estados Unidos, que ali se espera brevemente.
(Assignado) JAIMES LEANDRO CATHCART.

N». 2 o .
Resposta do Cap*. General de Andaluzia, datada de
Cadiz, 16 de Maio, de 1816.
SENHOR !—A prizaõ de Mr. Ricardo Meade teve lugar,
em conseqüência de um decreto do Real e Supremo Con-
selho de Guerra, com o parecer e consentimento de S. M.
o qual ordenou, que, se a somma requerida naõ fosse im-
mediamente depositada na thesouraria do Consulado, ou
afiançada com plena satisfacçaõ daquelle tribunal, se
practicasse a sua prizaõ: e que elle naõ pôde fazer nem
uma cousa nem outra, he circumstancia de que vós pareceis
estar plenamente informado, pelo que eu observo na vossa
carta official de 14 do corrente, a qual contém uma serie de
raciocínios absolutamente desnecessários, emprehendendo
provar, que eu naõ devia ordenar a prizaõ de Mr. Meade
por ser isso contrario aos tractados, e á justiça de sua
causa, &c. tudo o que se poderia representar de maneira
mais decorosaá authoridade suprema, aonde se originou o
decreto de sua prizaõ; e naõ a mim, que sou um mero of-
ficial executor : nem eu posso conceber porque seja re-
querido a dar-vos copias officiaes dos procedimentos, que
vós requereis, havendo as mesmas sido ja dadas a Mr.
Ricardo Meade; como parte mais immediatamente inte-
ressada. Este tribunal está bem longe de ter aggravado o
caso de Mr. Meade ; antes pelo contrario tem toda a dis-
posição de lhe conceder todas as facilidades em seu poder,
consistentes com a fiel execução de suas ordens, que lhe
prohibem a permissão de ir para Madrid : porem se vós
ficareis responsável por Mr. Meade, em plena extençaõ, eu
7
270 Politica.
representarei isso ao Consulado, e se elle considerar que
isso satisfaz, entaõ poderei ordenar o que for de justiça e
de direito.

N°. 3o.
Carta do Cônsul Americano ao Governador de Cadiz.
Cadiz, 17 de Maio, de 1810.
S E N H O R !—Em resposta á carta de V. E x \ datada de
16 do corrente, a respeito da prizaõ de Mr. Meade, um
cidadão dos Estados Unidos, seja-me permittido represen-
tar a V. E x \ , que, além das instrucçoens, que tenho de
meu Governo, sempre tem sido, e he o meu desejo, tractar
as authoridades constituídas, juncto as quaes resido, com
aquelle docôro e respeito, que lhes saõ devidos; porém
V. Ex". se naõ admirará, que, como representante de
minha naçaõ, eu deva arguir com aquella energia, que
convém ao presente caso, quando vejo um cidadão dos
Estados Unidos, e um de seus mais respeitáveis sugeitos,
tractado como criminoso, e tido até agora prezo em uma
masmorra, com sentinella a vista, que lhe naõ permitte
sair á distancia de dez passos da porta de sua prizaõ,
quando se practica tal procedimento com um cidadão da
naçaõ que eu represento, faltaria ao meu dever para com
meu Governo e para commigo mesmo, se naõ usasse de
meus maiores esforços para averiguar a causa, e obter os do-
cumentos, efficiaes pelos quaes possa averiguar, se este in-
dividuo tem comettido crime, que mereça tal tractamento;
e particularmente quando vejo, por papeis originaes, que
o caso he absolutamente de natureza civil, e actualmente
pendente ante um tribunal commercial, naõ posso fazer
menos do que expressar a V. Ex a . a minha surprezaaos
procedimentos, que se practicáram com este sugeito, por
nenhuma outra razaõ mais do que por elle recusar o pagar
a mesma somma segunda vez, tendo-a elle ja depositado,
Politica. 271
segundo as ordens de um tribunal competente, no thesouro
de S. M., como se reconheceo formal e solemneraente sob
o signal do punho de S. M., com a determinação de S. M.
que se ajunctassem fundos de outros recursos, para o ex-
presso fim de re-embolçar o Real thesouro.
Tenho requerido a V. Ex*. que se communicassem os
procedimentos, que tiveram lugar, em conseqüência da
ultima ordem Real, que ordenou a prizaõ da pessoa de
Mr. Meade. V- Ex*. responde, que naõ he obrigado a
dar-me isso; porque ja fôram dados a Mr. Meade. Como
representante de minha naçaÕ, tenho de dar contas ao En-
viado Extraordinário e Ministro Plenipotenciario de meu
Governo, de qualquer occurrencia que succeda nos limites
de minha jurisdicçaõ, relativa a cidadãos da minha naçaõ,
e igualmente ao Governo do meu paiz; e, anxioso de des-
empenhar o meu dever, com aquella precisão que exige um
negocio taõ extraordinário e de tanta publicidade, e que in-
volve naõ menos do que a liberdade de um cidadão America-
no e os direitos do meu paiz; hedo meu indispensável dever
repetir o meu requirimento, que V. Ex*. seja servido orde-
nar, que o escrivão encarregado deste negocio me dê copias
authenticas da dieta ordem Real, e de todos os outros pro-
cedimentos, que tiver havido até esta data, incluindo as
ordens do Governador do castello de St». Catalina, aonde
Mr. Meade está prezo, cujas despezas eu pagarei.
Eu observo, que V. Ex*. naõ pôde annuir a meu requi-
rimento de permittir que Mr. Mead volte para sua casa,
e menos conceder-lhe passaporte para Madrid ; e sois ser-
vido acerescentar, que se eu ficar por fiador, na plena ex-
tensão de minha responsabilidade vós apresentareis isto ao
tribunal do Consulado, e, sendo approvado, dareis as or-
dens necessárias. Tenho offerecido, e repito a minha
offerta outra vez a V. Ex". de que estou prompto a em-
penhar a rainha responsabilidade, em toda a sua extensão
e sentido, pela pessoa de Mr. Meade, sendo tudo quanto
272 Politica.
a Real ordem exige, fazendo-me responsável, tanto na
minha qualidade publica como na particular, de que elle
se naõ auzentará desta cidade, antes da terminação do ne-
gocio de que se tracta.
(Assignado) JAIMES LEANDRO CATHCART.

N-. 4 o .
Replica do Capitão General a Mr. Catheart.
Cadiz, 20 de Maio, de 1816.
SENHOR]—Em conseqüência da vossa carta de 17 do
Corrente expedi a rainha ordem, cuja copia aqui achareis
para vossa informação.
Cadiz, 20 de Maio, de 1816.
S. Ex*. O Capitão General de Andaluzia, Governador
civil e militar desta cidade, tendo visto e examinado os
procedimentos, assim como a ultima carta official do Côn-
sul dos Estados Unidos, a respeito do caso de Mr. Ri-
cardo Meade, foi servido ordenar, que se apresentasse ao
Consuldado desta cidade uma copia do ultimo paragrapho
da dieta carta official, para que, com o pleno conheci-
mento que elle tem da resolução tomada pelo Real e Su-
premo Couselhode Guerra, que ordena, que a fiança que
se receber de Mr. Ricardo Meade seja de sua plena satis-
facçaõ, seja servido significar se approva a que agora of-
ferece o sobredicto Cônsul, tanto na sua publica qualidade
como na particular; e, obtida a sua resposta, se ordenará
outro sim o que respeita ás instrucçoens dadas ao governa-
dor do castello de St». Caí ali na, assim como á pro-
priedade de dar copias autlienliçadas dos procedimentos
em que taõ fortemente se insiste : no entanto se lhe dará
copia desta ordem, acompanhada de uma carta official,
para que até este ponto seja elle informado para seu go-
verno.
Politica. 273
Assim decretado e adoptado, com o conhecimento e
approvaçaõ do Auditor de Guerra, e assignado por S. Ex*.
o Governador.
LINARES.
RODRIGUEZ PELAEZ.
Verdadeira copia do original registrado, em obediência
das ordení do Real e Supremo Conselho de Guerra, para
pedir e obter de Mr. Ricardo Meade, certa fiança por este
tribunal, agora certificado, o principal escrivão da repar-
tição de guerra nesta cidade : em prova do que puz o meu
signal sos 20 de Maio, de 1816.
(Assignado) J O S E F RODRIGUEZ P E L A E Z .

N*. 5°.
Carta do Governador do Castello de Sta. Catalina, ao
Governador-general.
Castello de S'\ Catalina, 18 de Maio, 1816.
0
Ex *». S E N H O R !—D. Ricardo Meade foi conduzido a
esta fortaleza, aos 2 do corrente, pelo Ajudante D. Sebas-
tião Ortiz, como informei a V. Ex*. na minha participa-
ção official do mesmo dia : e, em conseqüência da ordem
de3, foi aqui deixado na qualidade de pessoa debaixo de
prizaõ. Alguns dias depois elle observou-me, que se V.
Ex*. requeresse officialmente ser informado de se achar
elle ou naõ suficientemente seguro na fortaleza, que eu lhe
faria mercê de responder na affirmativa, para que elle naõ
fosse mudado; ao que respondi com a minha custumada
franqueza, que o meu comportamento havia de ser inteira-
mente governado pelo lheor de minbas ordens, e que se
filas exigissem a segurança de sua pessoa, eu naõ podia
deixar de o mudar para uma das casas próprias para esse
fim; porque nunca quiz correr o risco de me implicar por
pessoa alguma, nem quereria que corresse algum risco o
VOL. X V I I . No. 100. 2N
274 Politica.
official da guarda. Aos 13 recebi a carta de V. Ex*., da-
tada de 11, a que alludo, e desejando remover todas as
duvidas, que se podiam levantar, sobre a fugida de Mr.
Meade, V- Ex*. ordenava que o informasse, se o quarto,
em que elle estava prezo nesta fortaleza, éra suficientemente
seguro, sob a responsabilidade das pessoas encarregadas
de sua guarda; no que eu lhe communiquei francamente
a ordem, e que éra indispensável que elle fosse removido
para o quarto que lhe éra destinado, como representei a
V. Ex*. na minha nota de 14. Porém devo observar, que
naõ he uma masmorra, como as que se usam para crimi-
nosos sentenciados a castigo capital, como tam fortemente
exaggera o Cônsul dos Estados Unidos da America; pelo
contrario, he um quarto decente, caiado, com uma grande
janella, e tal que he segundo as circumstancias occupado
por pessoas de todas as classes ; e, se Mr. Meade se naõ
prejudicasse pela sua sensibilidade exaltada com a prizaõ,
devia reconhecer, que o tenho tractado com tal amizade,
respeito e consideração, qual he compatível com a neces-
sária segurança de sua pessoa,como ordena o Supremo Con-
selho ; porque he um facto, que elle pôde passear todo
o dia acompanhado de seus parentes e amigos, sem ne-
nhuma outra mortifiençaõ mais do que a de estar fechado
de noite, o que eu naõ posso evitar ; pois ainda que sup-
ponha, pelo respeitável character de Mr. Meade, que es-
taria igualmente seguro passeando nas ruas de Cadiz, ou
prezo no mais apertado calabouço, com tudo naõ ha ley
pela qual eu possa persuadir o official da guarda, que a sua
responsabilidade naõ augmentaria, se o prezo tivesse a plena
liberdade da fortaleza, que pela sua localidade muito fa-
cilitaria a sua fugida, se a intentasse, o que tem aconte-
cido com outros.
O Cônsul dos Estados Unidos veio aqui antes de hontem
e me aceusou de que V. Ex*. ignorava absolutamente, que
Politica. 275
Mr. Meade estava em estreita prizaõ: e eu nao pude
deixar de observar pelo seu tom imperioso, que elle tinha
tomado este negocio com muita ardencia, tudo o que peço
licença para communicar a V Ex*. em resposta á carta
official de V. Ex*. datada de hontem, pedindo, em con-
seqüência, que V- Ex*. tenha a bondade de me instruir,
em que qualidade continua Mr. Meade nesta fortaleza.
Deus guarde a vida de V Ex*. muitos annos.

N \ 6'.
Decreto official do Consulado.
Temos visto a communicaçaõ official de V- Ex*., da-
tada de hontem, e tendo plenamente considerado o seu
contheudo, somente podemos informar a V- Ex*. que a
fiança proposta pelo Cônsul dos Estados Unidos, como
ali se explica, naõ he, nem em sua natureza nem em seu
objecto, tal que possa ser approvada ou admittida neste
tribunal.
Deus guarde a V. Ex*. muitos annos.
(Assignados) M I G U E L DE MASSOU.
NJCOLAÓ B L A N A .
MIGUEL DE CARRASGUEDA.

Decreto do Capitão General.


Cadiz, 22 de Maio, de 1816.
S. Ex". o Capitão General D . Francisco Xavier de Oso,
Marquez de Castelldorius, vendo plenamente os procedi-
mentos e resolução passada no tribunal do Consulado,
assim como a explicação dada pelo Governador do Cas-
tello de Sta. Catalina, sobre as differentes representaçoens
feitas pelo Cônsul dos Estados Unidos, a favor do cidadão
de sua naçaõ Mr. Ricardo Meade. S. Ex*. declara, que
sentindo-se obrigado a observar fielmente o theor da Real
2 N2
276 Politica.
ordem do Supremo Conselho de Guerra, a que tem obede-
cido, e mandado que seja estrictamente executada ; redu-
zida, em substancia, á alternativa de que se deposite a
somma em litígio, ou que a ella se dê fiança á satisfacçaõ
do Consulado desta cidade, e que na falta de ambas as
cousas, se prenda e guarde a pessoa do dicto Meade; e naõ
tendo elle cumprido a primeira parte, e naõ satisfazendo
o tribunal do Consulado quanto à segurança offerecida
pelo dicto Cônsul, fica por esta declarado, que a sua li-
bertação e soltura se naõ pôde conceder, debaixo da dieta
fiança ; e porquanto vem a ser um imperioso dever segurar
a pessoa do dicto Meade, no castello de S**». Catalina, que,
pela sua localidade exige todas as precauçoens adoptadas
pelo seu Governador, e sendo estas mui compatíveis com
a humanidade e respeito devido ao dicto Meade, e pro-
vavelmente seriam mais aggravadas, se elle fosse mudado
para outra prizaõ para maior segurança, o que requereria
as mesmas precauçoens; decreta S. Ex*. que elle continue
aonde se acha, nas circumstancias acima mencionadas, se
elle naõ preferir a prizaõ Real (cadea commum) e que esta
resolução seja communicada ao Cônsul dos Estados Uni-
dos, sendo-lhe dadas copias destes procedimentos, e de
todos os outros que elle pede, á excepçaõ da Ordem Real
do Supremo Conselho, a qual contém expressoens, que
indicam segredo; e se elle se quizer queixar daquelle Su-
premo Tribunal elle resolverá se lhe deve ou naõ dar co-
pias de seus procedimentos. Assim decretado e ordenado
com o conhecimento e approvaçaõ de D . Rafael Linares e
Quadrado, auditor de Guerra.
(Assignados) CASTELLDORIUS.
LINARES.
J O S E F RODRIGUEZ PELAEZ.
O sobre dicto saõ copias verdadeiras da conrespondencia
official e original dos procedimentos, como se acham nos
meus registros, na conformidade da Real ordem do Su*
Politica. 277
premo Conselho de Guerra, e deste tribunal, e escriptorio,
que está a meu cargo, ao que me reporto, em conse-
quenciadas ordensali contidas, doque tudo se daraõ copias
ao Consnl dos Estados Unidos, accomganhadas da se-
guinte carta de S. Ex*.
(Assignado) J O S E F RQDRIGUEZ P E L A E Z .

Cadiz, 24 de Maio, de 1816.


Pelas copias inclusas dos procedimentos sereis informado
da determinação que tomou o tribunal do Consulado, assim
como o Governador do Castello de S ta . Catalina deste lugar,
e também da minha; adoptada em conseqüência, que exige
a prizaõ e detenção de D . Ricardo Meade, um cidadão
de vossa naçaõ.
(Assignado) El Marquez de CASTELLDORIUS.
Ao Cônsul dos Estados Unidos da America, nesta cidade.

NÁPOLES.
Documentos sobre a disputa com os Estados Unidos.

Carta do Marquez de Gallo, Ministro dos Negócios Es-


trangeiros em Napoies, a Mr. Degen, Cônsul Ameri-
cano.
Napoies, 9 de Julho, 1809.
SENHOR!—Havendo El Rey tomado em conside-
ração a vossa Nota de 28 de Maio, relativa á escuna
Americana Kait, Cap. Thomsou, que saio de Baltimore
para Napoies, com uma carga de café, e provida com os
papeis necessários em devida forma, tem decidido, que
seja o dicto vaso restituido ao capitão Thomson, o qual
pode fazer livre uso da mercadoria e propriedade, que elle-
contém. Ao mesmo tempo tem S. M. decidido, como
medida geral, que todos os vasos Americanos, que che-
garem a este Reyno, directamente carregados e destinados
a seus portos, sejam ali admittidos livremente, com tanto
278 Politica.
que venham munidos com os certificados de origem, e
papeis de viagem ; e que naõ seja em contravenção dos
Reaes decretos de 20 de Dezembro, 1806, e 9 de Janeiro,
de 1808, relativos ao commercio Inglez, e ao das Potências
Nentraes, os quaes decretos devem ser mantidos em pleno
vigor.

WURTEMBERG.
Decreto do Ministro de Estado, dirigido aos Chefes das
differentes Repartiçoens, sobre os procedimentos, que
tem havido, a respeito da Constituição do Reyno.
Por varias representaçoens, feitas aos Ministros de Es-
tado tem elles visto, com admiração, as errôneas ideas,
que tem naõ somente prevalecido entre grande parte dos
vassallos de S. M. mas que tem sido fomentadas e disse-
minadas pelos chefes de Repartiçoens e Communs, a res-
peito das transacçoens, que tem tido lugar relativamente
á Constituição do Reyno : ideas que tem representado
como suspeilosos actos de S. M., originados nos mais
puros e benéficos motivos.
Ha muito tempo, que S. M. tem publica e inequivoca-
mente pronunciado a sua determinação, de collocar a pros-
peridade de seu povo sobre bazes permanentes, por meio de
uma Constituição, adaptada ás suas relaçoens, preservan-
do ao mesmo tempo o Governo Executivo, na sua firme
e regular carreira, livre de ingerências da parte da pre-
sente Assemblea dos Deputantados, constituída unicamento
para deliberar a respeito da Constituição.
Ainda que S. M. nesta determinação se naõ movesse por
forma alguma, nem pelas demonstraçoens de impaciência
daquelles que pensavam, que os procedimentos tinham sido
demasiadamente prolongados, nem pelo juizo prematuro
de outros, que expressavam as suas duvidas de um resulta-
do proveitoso, nem ainda mesmo pelas transacçoens alheias
7
Politica. 279
deste êxito, que tem tido lugar ; com tudo S. M. tem tra-
balhado com anxiedade, em tanto quanto he possivel, para
corrigir as vistas errôneas, que entretem a parte bem dis-
posta de seus vassallos, e refutar, com verdade e franqueza,
aquelles que imaginam, que naõ podem melhor servir a
sua pátria doque representando todos os actos do Governo
n'uma luz falsa e injusta.
Para este fim os chefes das repartiçoens saõ informados,
pelo presente acto, da situação dos nossos negócios, para
que assim possam instruir, rectificar e tranqüilizar aquelles,
que estaõ debaixo de sua administração.
Desde a introducçaõ do plano de Constituição, annun-
ciado aos 15 de Março do anno passado, que tendia á uniaõ
dos antigos com os novos dominios de S. M . em um todo
bem regulado, tem os Estados, entaõ convocados, causado
demoras; e por isso, depois de varias vicissitudes, se abri-
ram os procedimentos actuaes, na conformidade dos prin-
cipios contidos no Rescripto de 13 de Novembro do anno
passado, e no Ponto Fundamental que lhe éraappenso ; o
fim de S. A. R . tem invariavelmente sido a acceieraçaõ e
feliz terminação desta importante obra: e ainda que éra
de prever, que o complemento deste objecto requeria con-
siderável espaço de tempo; pois involvia naõ somente a
adopçaõ daquellas partes da antiga Constituição, que eram
compatíveis com o bem do Estado, na que se fazia de novo»
e o satisfazer as vistas e expectaçoens dos differentes mem-
bros do Estado, mas também o prevenir todas as futuras
apprehensoens, e falsas concepçoens, por uma explicação
distincta dos mútuos deveres e relaçoens; com tudo S. M .
nunca deixou de aproveitar todas as occasioens de promo-
ver, com a maior actividade, o progresso da obra.
Além disso, S. M. informando-se, em Abril deste anno,
do resultado dos procedimentos, expedio, com as vistas de
os accelerar, vários Monitorios, como testemunham os
280 Política.
Rescriptos de 26 de Maio, e 9, e 21 de Agosto, deste anno,
dirigidos ao Committé para os negócios dos Estados: e
quanto S. M. está ainda anxioso pelo final arranjamento
deste negocio, se tem inequivocamente mostrado nas in-
strucçoens dadas ao Committé Real, para que façam um
relatório de seus progressos duas vezes por semana.
Mas, por outra parte, as differentes representaçoens dos
Estados, estranhas á obra da Constituição, e seus esforços,
antes de seu acabamento, para se metterem de posse dos
direitos dos Estados do paiz, cuja verificação só pôde
começar com a nova Constituição, nao somente distrahe
por muitos modos os Membros do Committé Real de seu
principal objecto; mas também deve obrar geralmente em
forma prejudicial á natureza dos procedimentos. Foi a
respeito destes passos, que S. M. expressou o seu sério
desprazer, e pelos quaes se vio ultimamente obrigado, no
Rescripto de 24 de Junho deste anno, a fazer saber á As-
semblea dos Estados, que naõ tomaria em consideração
nenhum de seus memoriaes e representaçoens, que naõ
fossem exclusivamente limitados ao estabelicimento da
Constituição, único destino daquella Assemblea.
Alem disto, he da natureza dos procedimentos de nego-
ciaçoens, que em nenhum caso he possivel ás authoridades
do Governo effectuar uma terminação mais breve da obra,
se os Estados naõ forem a igual passo com ellas. He tam-
bém sabido, que a declaração do Committé dos Estados, a
respeito dos pontos mais importantes da Constituição; a
saber, o que he relativo aos tributos e organização dos Es-
tados, só ha mui pouco tempo he que fôram transmittidos
aos Commissarios Reaes; e que, se os funccionarios Reaes
nao subemettem estes pontos a uma exacta e attenta con-
sideração, naõ somente obram contra os seus deveres para
com El Rey e a Pátria, mas se expõem ás mais justas accu-
saçoens, da parte dos Estados; e tanto mais quanto estes,
Politica. 281
em sua resposta á Nota dos Commissarios Reaes aos Pleni-
potenciarios dos Estados, em 28 de Junho deste anno, naõ
hesitaram declarar o seguinte:—
"A culpa da demora naõ he imputavel á falta dos bons
progressos, no negocio, mas unicamente á convicção de
que o primeiro e superior dever dos Estados he, o conti-
nuarem tam importante obra, como sangre frioedelibera-
ção Alemaã : e por mais que a Assemblea dos Estados par-
ticipe nos sentimentos de S. M . , quanto ao desejo de que o
povo entre expeditamente na fruição de seus direitos, com
tudo o Committé dos Estados naõ pôde nisso achar justifi-
cação para proceder com demasiada pressa, em negocio,
que deve servir de ley para séculos; porque isso naõ ser-
virá de desculpa, ante a posteridade, aos traços de preci-
pitação, que se desêjam,para poupar as despezas de uma
sessaõ."
Em primeiro lugar, aos 13 do mez, os Estados entrega-
ram vários papeis, relativos aos direitos públicos dos cida-
dãos, communs, e corporaçoens, á legislação, e á proprie-
dade da Igreja Catholica; e elles tem ainda de declarar
os seus sentimentos, a respeito da administração da justiça
civil e criminal, poder do Governo nas matérias de policia,
instituiçoens de educação, matas e caçadas; do que se
pôde facilmente vêr, que credito merece a asserçaõ de que
os Estados tem feito tudo quanto está de sua parte, e que a
conclusão somente espera o assenso de S. M.
No entanto, porém, S. M. tem pensado sobre o modo,
porque seria menos inconveniente a seus fieis vassallos a
demora, inseparável de uma obra de tanta magnitude, e
destinada para a mais remota posteridade; fornecendo
aos dictos seus vassallos meios de deduzir dali toda a ale-
gria e satisfacçaõ possíveis, mesmo antes do acabamento
do todo. Com estas vistas destinou a actual contribuição
Franceza, para a fundação de um estabelicimento, desti-
nado a pagar a divida publica, cujos bons effeitos deveriam
VOL. XVII. No. 100. 2 o
282 Politica.
ser tanto menos mal entendidos pelos Estados, quanto
expressamente se reservara a concurrencia da futura As-
semblea constituída dos Estados.
Pelos regulamentos relativos a impedir o estrago da caça,
se obtinha o objecto, mais efficaz e rapidamente, do que
segundo as antigas providencias, chamadas Commun-
Wildschuetzen ; e se prohibia aos guardas das tapadas, da
maneira mais expressa, que commettessem excesso algum.
Quanto á constituição dos lugares de Chancellaria
(Kauzleistellen) tem-se introduzido melhoramentos essen-
ciaes; e pelo que respeita ás queixas sobre vários outros
objectos, que tem sido representados a S. M., tem-se reme-
diado os aggravos, em tudo quanto elles se tem achado
que eram verdadeiros.
Se, nao obstante os desejos que tem S. M. de aliviar o»
encargos de seu fiel povo, por todos os modos possíveis,
naõ tem até agora podido abaixar a proporção dos impos-
tos ; isto tem em parte sido necessária conseqüência dos
acontecimentos passados, que apertam também em maior
gráo sobre outros Estados ; e deve-se trazer á lembrança,
que, ainda sem diminuir os tributos, o thesouro tem sido
privado de sommas consideráveis, pelo favor, que se man-
dou practicar com as classes inferiores, de pessoas sugeitas
aos tributos, e especialmente pelo atrazamento daquelles,
que estavam em melhores circumstancias e mesmo, em
parte, pelas classes superiores do povo, ao mesmo tempo
que, naõ somente se tem pago sommas consideráveis âs
communs, em compensação de reclamaçoens originadas
em tempos antigos, mas também, em conseqüência da es-
cassez (em vez de tirar partido dos altos preços, como os
proprietários de terras; augmentando por isso as rendas)
se tem repartido dos armazéns Reaes grande quantidade
de mantimentos ; parte a preço módico, e parte a troco de
obrigaçoens de compensação futura, e parte também sem
nenhum equivalente. 7
Commercio e Arte». 283
Nestas circumstancias, por mais penoso que seja a S. M.
Real vêr mal representadas suas vistas paternaes, por tam
vários modos, e por maior que seja a responsabilidade
aque se sujeitam aquellas pessoas, que para isso contribuem
de alguma maneira, com tudo elle continuará com inflexí-
vel seriedade, do modo aqui designado, a usar de seus
maiores esforços, para obter, no mais breve tempo possivel,
o objecto a que se dirigem unanimemente os seus desejos, e
os desejos de todos os amigos da Pátria.
Decretado em Stuttgard, aos 22 de Agosto, de 1816.
O R E A L MINISTRO DE ESTADO.

COMMERCIO E ARTES.
PORTUGAL.
Edictal da Juncta do Commercio em Lisboa, sobre os
regulamentos da Saúde no Baltico.
XJOM Aviso da Secretaria d'Estado dos Negócios Estran-
geiros, Guerra, e Marinha, de 29 de Julho próximo pas-
sado, baixou á Real Juncta do Commercio a copia de um
officio, que dirigio o Ministro da Rússia na Corte de Madrid
ao Ministro de Portugal D . José Luiz de Souza; cuja
traducçaõ he a seguinte :—Senhor. Em conseqüência das
medidas de precaução, adoptadas ultimamente na Rússia,
nenhum navio poderá ser recebido nos portos do Baltico,
e do Mar Branco sem um certificado de segurança do
Governo Dinamarquez, ou documento comprovativo de
ter feito quarentena, ou seja na Norwega, ou na Inglaterra.
Quanto aos navios procedentes dos paizes, que naõ estaõ
bocados da peste, nem mesmo suspeitos delia, mas que
tiverem a seu bordo carregações susceptíveis de commu-
nicar uma moléstia contagiosa, naõ poderão ser admittidos
na Rússia senaõ depois que a authoridade respectiva tomar
as suas informações, sobre o estado da saúde da equipagem,
2o 2
284 Commercio e Arte».
e verificada a natureza das doenças, e das mortes aconteci-
das durante o seu ultimo transito: e no em tanto similhan-
tes navios ficarão debaixo de observação, e naõ poderão
ter alguma communicaçaõ com os outros, nem com algum
ponto da costa. Se se apresentar um navio, que nem possa
produzir o certificado do Governo Dinamarquez, nem
provar authenticamente haver feito a quarentena em um
dos Lazaretos da Inglaterra, ou da Norwega, ou que tiver
a seu bordo producçoes susceptíveis da propagação dos
germes de uma moléstia contagiosa, será obrigado a affas-
tar-se das costas com as precauções ordenadas. Como
naõ ha Cônsul da Rússia em Lisboa, apresso-me neste
momento a communicar a V- Ex*. as sobredictas disposi-
ções, rogando-lhe queira facilitar o seu conhecimento aos
negociantes e navegadores Portuguezes : e aproveito esta
occasiaõ para reiterar a segurança da muito distincta con.
sideraçaÕ com que tenho a honra de ser de V- Ex*. hu-
milde e obediente creado—Tatistcheff—A. S. Ex 1 . Mon-
sieur de Souza.—Madrid, 19 de Julho, de 1816.
E para que chegue á noticia de todos se mandou affixar
o presente Edital. Lisboa, 9 de Agosto, de 1816.—José
Accursio das Neves.

Decadência do Commercio de Portugal.


Dissemos no nosso N*. passado, tractando desta matéria,
que a exportação ou naõ exportação do ouro e prata, eram
os symptomas porque se conhecia a abundância ou escassez
dos gêneros necessários ou úteis á vida, produzidos ou ma-
nufacturados no paiz; d'orrde se segue, que, para impedir
aquella exportação, he necessário promover dentro do
Reyno a producçaõ ou fabrico de gêneros, que bastem
J)ara se trocarem pelos que vierem do estrangeiro: isto
posto ja se naõ exportará o ouro nem a prata.
A vantagem desta permutaçaÕ de gêneros promovem os
governos instruídos, fomentando directamente a industria
Commercio e Artes. 285
do interior, e desviando indirectamente a competência do
exterior, por meio de bem pensados c bem calculados di-
reitos da alfândega. E neste ponto he muito necessário
advertir, quanto ao Commercio de Lisboa, os males que
se seguem da existência dos direitos chamados do Consu-
lado, que pagam as fazendas em sua exportação.
Os direitos nesta repartição cresceram gradualmente,
com vários pretextos, até 5 por cento; e depois, para a
guerra e para os negócios do Mediterrâneo, se lhe aceres-
centaram mais 3 por cento. Mudaram as circumstancias,
mas continuam os direitos ; deixando também de se cum-
prir o Alvará de 4 de Fevereiro, de 1811; do que resultam
males gravíssimos; porque estes direitos de consulado re-
caem principalmente nas fazendas, que de Portugal se
exportam para o Brazil, conservando-se livre a exportação
dos gêneros coloniaes.
O direito de consulado na saida, quando os portos do
Brazil eram privativos ao commercio de Portugal, obravam
como direitos de entrada, em geral, no Reyno ; mas logo
que o commercio dos portos do Brazil se abrio ás naçoens
estrangeiras, similhante direito de exportação em Portugal
só serve de pôr ao negociante do Reyno, que leva fazendas
dali para o Brazil, em peior condição, que o estrangeiro,
que naquelle mercado concorre com elle; porque, suppondo
que o gênero custa o mesmo preço tanto ao negociante
Portuguez como ao Estrangeiro, este pôde vender o seu 8
por cento mais barato que o Portugnez, que tanto importa
o que pagou de direitos no consulado: assim a continuação
dos direitos de consulado serve de fazer decair o commer-
cio de Lisboa, na proporção de 8 por cento, comparado com
0
dos estrangeiros ; e por tanto em 1 2 | annos deve o es-
trangeiro adquirir o dobro da propriedade do Portuguez;
quando ambos continuem a commerciar nas mesmas cir-
cumstancias.
Se taes 8 por cento se naõ pagassem por direito de saida
286 Commercio e Artes.
no Consulado, muitas fazendas estrangeiras destinadas ao
Brazil, fariam escala por Lisboa, e ali ficariam naô só os
direitos de entrada, mas os outros lucros, que sempre resul-
tam do negocio de transito ; quando que, pela mal enten-
dida economia de querer ganhar estes direitos de saída,
afugentam dali os negociantes, qne vam levar as suas fazen-
das directamente ao Brazil, e, cuidando o Governo ga-
nhar, perde, além desses direitos de saída, as direitos de
entrada, e os lucros de tranzito, que alias teria, se naõ afu-
gentasse as fazendas com o ameaço deste direito do Con-
sulado.
Diraõ alguns, que, nesse caso, nao devendo as fazendas
pagar duas vezes os direitos de entrada, havendo elles
sido cobrudos em Lisboa, ficava o Brazil sem esse rendi-
mento.
Nos suppómos, que o Errario de S. M. he só um; e que
as differentes partes da machina politica obram simnlantea
e uniformemente : sendo assim, deve ser perfeitamente in-
differente a El Rey, em que alfândega da monarchia se
tenha cobrado o direito, porque de qualquer parte se pôde
passar a somma para outra, em que se necessite, por meio
de letras. O Erário deve ser um só, a somma das rendas
publicas uma só, e deve ser absolutamente igual o resul-
tado seja qual for a parte da Monarchia, em que se cobra-
rem as rendas, destinadas ao serviço geral, e seja aonde
for que a despeza se faça para o beneficio do todo.
Outra cousa diria-mos, se os rendimentos das alfândegas
fossem de natureza local como saõ as posturas das câmaras
&c.; porque, em taes casos, a natureza dessas contribui-
çoens pede, que ellas se dispendam aonde foram cobradas.
Ha, porém, nisto ainda outra consideração de grande
importância, que devia mover o Governo a desejar, que as
fazendas destinadas ao Brazil passassem por Lisboa, se isso
se pudesse sempre fazer sem constrangimento do Com-
mercio. Esta consideração, he a utilidade de fomentar a
navegação nacional; porque nesse caso se nao devia per-
Commercio e Artes. 287
mittir, que outros vasos se empregassem, neste commercio
de Portugal ao Brazil, senaõ os nacionaes.
O absurdo destes direitos de exportação no consulado,
he summamente manifesto, nas fazendas da Índia: estas,
quando o Brazil éra vedado ao commercio estrangeiro, naô
podiam ir ali se naõ de Portugal, logo o direito de saída
no Consulado obrava unicamente como direito mais pezado
para o consumidor do Brazil, que naõ tinha remédio senaõ
pagállo; porque naõ podia obter de outra forma os gêneros
da índia. Mas hoje em dia, que os pôde ler directamente
dali, ou por via dos estrangeiros, be peior que inntil con-
servar este direito de exportação em Lisboa ; porque nin-
guém quererá Levar de Lisboa ao Brazil fazendas da índia,
pedendo-as obter de outra parte, a 8 por cento mais barato ;
e assim so serve este direito de afugentar absolutamente de
Lisboa este ramo de commercio, concurrendo assim para a
decadência geral da quelle porto.
O commercio de transito he um daquelles, que os Go-
vernos devem ter mais melindre em taixar; porque he
aquelle que os tributos mais facilmente afugentam, e vem
o Governo a perder os direitos que lhe pretendia impor,
e os lucros, que de certo teria, se com taes direitos naõ
obrigasse os negociantes a procurar outra carreira.
Isto pelo que respeita os direitos de exportação no Con-
sulado, sobre fazendas estrangeiras ; porém, quando se
tracta dos gêneros ou manufacturas de Portugal, expor-
tadas para o Brazil, este direito de exportação he taõ in-
justo e impolitico, que realmente deve envergonhar o Go-
verno Portuguez, por se ter até aqui descuidado de pensar,
como devia, nesta matéria.
i Que quer dizer um direito de exportação nos produc-
tos que saem de Portugal para o Brazil, se naõ um meio
de os pôr em condição inferior, aos similhantes estran-
geiros, que com elles concorrerem nos mercados do
Brazil ?
Em uma palavra, mudando «se absolutamente o systema
288 Commercio e Artes.
commercial do Brazil, com a abertura de seus portos aos
Estrangeiros, tem o Governo de Portugal tido o descuido
de naõ examinar nem alterar os regulamentos antigo?, pelo
longo espaço de oito annos, quando a sua applicaçaõ he
absolutamente incompatível com o estado actual das cou-
sas ; e tem por todo este tempo servido de ir arruinando
a fazendo decahir a importante navegação de Portugal ao
Brazil.
Por um Avizo da Secretaria de Estado de Lisboa, datado
de 25 de Fevereiro, de 1811 (Veja-se o Corr. Braz. vol.
vi. p . 328), se ordenou, que os gêneros, que se expor-
tassem, pagassem unicamente os direitos de 4 por cento
por baldeaçaõ, a fim de augmentar o commercio e navega-
ção tanto de Portugal como do Brazil.
O decreto, expedido no Rio-de-Janeira aos 2Q de Ja-
neiro, de 1811 (veja-se o Corr. Braz. Vol. VI. p. 466),
reduzio estes direitos de baldeaçaõ a 2 por cento, em to-
dos os productos do Brazil, que se re-exportassem de Lis-
boa ; admittindo-se neste decreto os principios, que dei-
xamos expendidos.
Naquelle mesmo lugar,, em que copiamos esses docu-
mentos, demos ao Governo o devido louvor, por ter adop-
tado estas medidas, e lembramos alguns pontos, em que
ellas se podiam ainda aperfeiçoar. A esse lugar remette-
mos o Leitor.
Isto, porém, naõ mereceo do Governo a attençaõ que
lhe éra devida ; e mostraremos esta falta em um exemplo,
que ja apontamos em outra occasiaõ, e para diverso fim.
As chitas lnglezas pagam 16 por cento de entrada, em
Portugal e no Brazil. Os pannos, em que se estampam as
chitas pagam 15 por cento de entrada, e mais 3 por cento
logo que tem manufacturaçaõ; logo temos que os fabri-
cantes Portuguezes, que se oecupam em estampar as chitas,
se acham mais opprimidos do que os estrangeiros, com 4
por cento, e portanto naõ podem concurrer no Brazil a
vender, as suas manufacturas com estrangeiros, que tem
Commercio e Artes. 289
sobre elles o favor desses 4 por cento ; e além disto, caso
alguém se arrisque a levar as suas chitas ao Brazil, o Con-
sulado carrega-lhe mais 3 por cento de saida; exaqui uma
desavantagem total de 7 por cento ; sem faltar nas des-
pezas dos fretes, e outros motivos de. prefencia dos es-
trangeiros.
Os negociantes deviam ter ampla faculdade de fallar,
de escrever, e de representar estas matérias, em que elles
saõ ptacticamente mais instruídos, que nenhum dos empre-
gados públicos; e ainda que Be achem muitas de suas
queixas desarrazoadas, desse concurro de opinioens deve
resultar o conhecer o publico, e a final os mesmos que
governam, quaes saõ os abusos, que merecem reforma;
mas quer a infelicidade dos Portuguezes, que para taes
cousas se publicarem seja precizo usar da imprensa In-
gleza; a qual por justos direitos naõ deve servir para
fomentar o bem dos outros, mas sim o de sua própria
naçaõ : com o que parece, que Portugal quer de propósito
conservar-se na escuridão; como se os empregados do
Governo realmente tivessem inveja de ver promovida, e
instigada a prosperidade publica.
O Leitor verá quam necessária he a reforma nas reparti-
noens, que respeitam o commercio, pelas quatro differentes
formas de despacho na alfândega de Lisboa, a respeito dos
couros, que ali se importam.
Couros importado» para consummo do Reyno.
Direitos por cada couro 60 reis.
Comboy - - 100
Fragatas - - 9
Consulado - - 9
Donativo - 12
Obras - - 5
Contribuição - - 8
Marcas - - 2
Total - - 205 reis.
VOL. XVII. No. 100. 2 P
290 Commercio e Artes.
Para as fabrias do Reyno, por Resolução de 6 de Maio,
de 1795, e Alvará de 28 de Abril, de 1809.
Donativo - 12 reis.
Fragatas - - 9
Obras - - 5
Contribuição - 8
Ordenados - 10
Total - 44 reis.

Para fora dos Reyno por terra.


Donativo - - 12
Fragatas - 9
Obras - 5
Contribuição - - - 8
Marcas - - 2
Ordenados - 10
Total - 46

Para fora do Reyno por mar.


Avaliados commumente em 3.000 reis, conrespondem
os dous por cento a 60 reis por COUTO.
Alem disto dos que se exportam por mar exigem os
officiaes da alfândega o seguinte.—
Os da Balança pela baldeaçaõ - 2,400 reis.
O Feitor - 2.400
O Termo - 2.400
Avaliador - - 1.200
Porteiro e Almazem - - 2.400
Marcas e Escrivão - - 1.200
Conducçaõ e guia - - 1.880

Total - - 13.680
Commercio e Artes. 291
Accresce ainda a isto a despeza de 600 reis por dia para
o guarda-de-bordo, em quanto a embarcação naõ s á e :
donde se segue, que naõ he possivel exportar ou baldear
100 couros, porque fariam a despeza de 220 reis cada ura,
que he maior do que depachando-os para terra; e fica
assim neste caso a providencia da baldeaçaõ mais nociva
do que o mal, para o negociante, e uma pequeníssima
parte destes direitos he a que vem a entrar no Erário ; as-
sim se perde a exportação de pequenas quantidades de
couros, que alias se fariam nas erabarraçoens pequenas
para Ayamonte, Galiza, &c. ; o que tam pezados tributos
fazem impossível; como se vê do seguinte calculo :—
100 Couros avaliados a 3.000 reis pagam pelos
dous por cento - 6.000
Emolumentos da baldeaçaõ - - 13.680
Guarda, pelo menos 3 dias, a 630 reis 2.400

reis 22.080

Isto conresponde a 220 reis por couro, quando o des-


pacho para o consummo do paiz, no seu maior rigor naõ
excede a 205 reis por couro.
Naõ he vergonhoso aos homens, que estaõ á frente do
Governo ignorar estes cálculos, que todos os negociantes
sabem muito bem, por ser esse o seu officio: mas he se-
guramente culpa mui grave nos do Governo, o naõ pro-
curar, sobre estas importantes matérias, as informaçoens
necessárias, das pessoa? que as podem dar, em vez de ou-
virem um ou outro parazita como o Jozé Accursio, que
apenas tem habilidade para chamar sua, uma ou outra
idea, que apanhou de orelha ; e que por isso que naõ co-
nhece as cousas a fundo, representa tudo confusamente, e
dahi defende a torto e a direito, com a authoridade da
Juncta do Commercio os despropósitos, que fôram ouvidos
pelo Governo corao oráculos, ás escondidas ; e de que
portanto naõ resulta outro bem senaõ os prêmios, que se
2 P 2
292 Commercio e Artes.
daõ ao supposto inventor, que obra por trás das cortinas;
e cujo merecimento naõ consiste em outra cousa senaõ em
ter paciência, para exercitar os calcanhares pelas sallas
de espera.
i Que cousa éra mais fácil do que reduzir as quatro dif-
ferentes formas do despacho da alfândega, no exempio que
puzemos, a uma só, constante e geral ?
Arbitrando-se um valor médio aos couros, fossem grandes
ou pequenos, deduzir desse valor os 2 por cento chamados
de baldeaçaõ ; a fim de que o negociante pudesse sem de-
mora verificar a sua especulação de exportação, no mo-
mento em que a concebe favorável. Nos que se destinam
ao consummo da terra, se lhe accresce o direito estipulado;
o qual se restitue na exportação por via de drawback.
Vejamos o que poderia ganhar o Governo com este systema
simples, fundando-nos nas exportaçoens de 1814 e 1815;
dous annos em que esta exportação de couros foi mui
diminuta.
1814. 1815. Termo médio. Pagaram.
Exportados por mar 271.752 311.455 291.603 a 60r . 17:496.180
Por terra - 35.529 28.765 32.147—46— 1:478.762
Fará fabricas do Reyno 28 864 32.864 32:965—44— 1:450.460
Para consumo do paiz 4.594 5.276 4.935—205—1:011.675

339.940 383.360
339.940
Total de 2 annos 723.300 361.650 Total 21:437.077
Termo médio de 361.650 — a 65, importa 23:507.250

Lucro da Fazenda Real 2:070.173

Este lucro da Real Fazenda, deve por conseqüência


ser proporcional ao consummo e exportação do gênero;
pelo que be necessário remover todos os embaraços no ex-
pediente do despacho, a fim de que o gyro da importação
e exportação se faça o mais rápido que for possivel; pela
bem conhecida razaõ de que quanto mais embaraços hou-
Commercio e Artes. 293
verem em Portugal para esta exportação tanto mais se
aproveitarão disso os estrangeiros, para fazerem elles
o que poderiam haver feito OB negociantes de Lisboa, e
tanto proporcionalmente perde o Governo em seus rendi-
mentos, na diminuição desses direitos d'atfandega, qne alias
cobraria.
O mesmo dizemos do algudaõ, e de todos os mais pro-
ductos, que se devera re-exportar de Lisboa, com toda a
Tacilidade, fazendo-se assim daquelle porto o empório do
coramereio da America Portugueza, em vez de nutrir com
elle escalas estrangeiras.
Agora, depois de termos apontado estes vários exera-
perlos de deterioração do commercio de Portugal, resul-
tantes da falta de attençaõ e inércia do Governo ; notara-
mos outro, que (se estamos bem informados do facto) he
alguma cousa peior que desmaséllo; e monta a violação
dus leys e costumaria na desobediência ás ordens mais
bem pensadas do Soberano. Falíamos do Commercio da
índia, e exportação das manufacturas do Reyno.
O % 36 do Decreto de 4 de Fevereiro, de 1811, (Veja-se
o Corr. Braz. Vol. VII. p. 420), diz assim:—
" As fazendas conhecidas pelos nomes de elefantes, ba-
fetas, callepaties, doties, doreas, garrazes, laccoreas, bi-
zamputs, e toda sas mais qualidades de pannos de alu udt-õ,
caças, e metins brancos, e mais fazendas brancas da Índia,
que se despacharem, para se tingir, pintar, estampar, ou
bordar nas fabricas nacionaes, gozarão da reslituiçaõ da
metade dos direitos, que tiverem pago de entrada, nos
portos de quaesquer dos meus domínios, quando voltarem
ao sello, depois de tinctas, estampadas, pintadas, ou bor-
dadas."
" S 40. Todas as manufacturas de fabricas nacionaes,
que forem despachadas dos portos de Portugal, Brazil,
Iliias dos Açores, Madeira, Ilhas de Cabo Verde, cosia.
de África Occidental, e ilbas adjacentes, pertenceutes á
294 Commercio e Artes.
minha Real Coroa, seraõ izentas de todos os direitos de
saida, nem pagarão direitos de entrada, em qualquer
porto dos meus dominios, apresentando os proprietários
certidoens autbenticas das competentes alfândegas, que
declarem e certifiquem ser de fabricas nacionaes."
Daqui se segue, que a falta de favor, que experimentam
as fazendas da Índia, exportadas de Lisboa para o Brazil,
naõ só he impolitica, mas directamente contra a ley, que
temos citado.
O Governo do Brazil podia fazer mais : isto he, podia
impor nas fazendas da índia, importadas no Brazil por
estrangeiros, Iam altos direitos, que montassem a uma
prohibiçaõ; pois essa faculdade ao menos lhe ficou, ainda
depois do infeliz tractado com Inglaterra, de 1810; mas
em quanto o naõ faz, o Governo de Lisboa naõ devia in-
comraodar mais este gênero de commercio nacional com
regulamentos, que saõ uma manifesta infracçaõ da ley ;
principalmente, quando esta matéria lhe tem sido mais de
uma vez representada pelos negociantes de Lisboa, que se
empregam naquelle commercio.
[ 295 ]
Preços Correntes dos principaes Productos do Brazil.
LOWDRES, 20 de Septembro, de 1816.
Gêneros. Qualidade. Quantidade Preço de Direitos
( R e d o n d o . . . . 112 lib. 52s. Op, 66s. Op^
ASSUCAR -{Batido . . . . . 4Is. Op, 44s. Op.
( Mascavado . . 38s. Op. 40s. Op. ^Livre de direitos por er-
Arroz Brazil 42s. Op, 45s. Op, portaçaõ.
Caffé R''° 57s. Op, 66s. Op.
Cacao Pará....... 65s. Op. 75s. Op.
Cebo R i o d a Prata 52s. Op, 54s. 0p.'3s. 2p. por 112 1b.
Pernambuco. libra. 2s. lp. 2s. 2p.'

Annil
Ipecacuanha
{ Ceará
Babia
Maranhão . .
Pará
Minas novas
Capitania...
Rio
Brazil
2s.
ls.
ls.

3s.
9s.
èp.
llp,
llp.
2s.
2s.
I p.
lp.
2s. Op. )8s. 7p. por lb. 100 em na-

6p lOs. 6p 3s. 6|p.


vio Portuguez ou Inglez.

6p. 4s. 6p 4|p. por lb.

Salsa Parrilha Pará 3s. 8p 4s. 2p. ls. 2ip.


Óleo de cupaiba 3s. 6p. 9p. ls. l l i p .
Tapioca Brazil 8p llp. 4p.
Ourocu ls. 6p 2s. 3p. direitos pagos pelo compdo r
jem rolo 4p 5p. Livre de direitos por ex-
Tabaco , 4P portação.
em folha . . . . 5p.
9p 9Jp.
,K 8p
•Rio da Prata pilha < B 8*p
6|p 7p.
(C \ 9|p. por couro em navio
CA Portuguez ou Inglez.
Couros ( Rio Grande <B
(C
Pernambuco salgados 4s. 6p 7s. 6|>..
.Rio Grande de ravalho couro
Chifres Rio Grande. 123 38s. 6p 40s. 6p. 5s. 6Jp. por 100.
115/. 120Í. ) direitos pagos pelo com
Páo Brazil Pernambuco. Tonelada 6s. 5p 7s. Op. J prador.
Páo amarrello . . . . Brazil .

Espécie.
Ouro em barra =£3 19 0
Peças de 6400 reis 3 19 0
Dobroens Hespanhoes 3 14 6 > por onça.
Pezos dictos 0 4 10J
Prata em barra 0 0 0
Câmbios.
Rio de Janeiro 594 Hamburgo 36 11
Lisboa 55 Cadiz 34
or
E !° -*.;.'"!".""".' 55 Gibraltar 38 |
Parir; 2 6 Gênova 43i
Amsterdam......'."""'''' ] \ \ \" j2
Prêmios de Seguros.
Brazil Hida 2 Guineos Vinda 2 a2fGuineos.
Lisboa)
Porto \
Madeira 2 2 .
Açores 3 .
Rio da Prata 3 4
Bengala H 3*
[ 296 ]

LITERATURA E SCIENCIAS.
NOVAS PUBLICAÇOENS EM INGLATERRA.

JFoRSTER^s Flora Tunbrigensis, 8vo. preço 9s. Flora


Ttinbrigensis, ou Cathalogo das plantas selvagens, nas
visinhanlins de Tur.bridge Wells, arranjado segundo o
systema de Linneo, da Flora Britannica de Sir J . E. Smith.
Por T. F . Forster.

Accum on Chemical Re-agents, 12mo. preço 8s. En-


saio practico sobre os re-agentes chimicos ; illustrado com
uma serie de experimentos; calculados para mostrar a
natureza geral dos re-agentes chimicos; os eflèitos, que
produz a acçaõ destes corpos: os usos particulares a que
se podem applicar, nos vários fins da sciencia chimica; e
a arte de os applicar com bom successo. Por Frederico
Accum, Chimico operário.

Faringtorís Views of the Lakes, 4to. preço 81. 8s.


Elegantemente impresso, com um mappa illuminado. Os
Lagos de Lancashire, Westmoreland, e Cumberlaud, de-
lineados em 43 gravuras, pelos mais eminentes artistas.
Por José Farington.
Com descri pçoens históricas, topograpbicas e pictures-
cas ; rt-sulfado de uma viagem feita no veraõ do anno de
1816. Por Thomas Hartwell Horne.

Galt's Life and Stndies of West, 8vo. preço 7s. A.


vida e estudos de Benjamin West, Escudeiro. Presidente
da Academia Real, antes da sua chegada a Inglaterra.
Por Joaõ Galt.
Literatura e Sciencias. 297
BelVs Surgical Operations, Part I. 8vo. preço 6s.
Observaçoens cirúrgicas ; ou relatório de trimestre de
casos de cirurgia. Part I. illustrada com estampas. Por
Carlos Bell.
O objecto desta obra be illustrar os princípios de cirur-
gia, por observaçoens feitas n'um hospital publico, e n'uma
eschola d'anathomia; aonde tudo eslá patente á inspec-
çaõ, e aonde, consequentemente, se fazem as narrativas dos
casos, na presença de muitos observadores. O Author
naõ intenta publicar mais de três volumes de casos. Estes
espera elle que abracem toda a practica de cirurgia, e sir-
vam de livro para consultar na historiadas moléstias cirúr-
gicas, e na miúda relação dos symptomas.

Emigranfs Guide, 8vo. preço 2s. 6d. Guia dos emi-


grantes ; ou pintura da America; que exhibe uma vista
dos Estados Unidos, despida do colorido democrático;
tirada do Original, actualmente na maõ de Jaimes Madi-
son, e dos seus vinte um Governos. Igualmente um esboço
das provincias Britannicas, delineando as suas belezas
naturaes; e attracçoens superiores. Por um velho pintor
de scenas.

Report of the Committee on Education, 8vo. preço


15s. Relatório do Commité Selecto da Casa dos Com-
muns, nomeado para inquirir o estado actual de educação
das classes de gente inferior na Metrópole ; com o 1*. 2 o .
3°. e 4 o . relatório das minutas dos depoimentos das teste-
munhas, examinadas perante o Committé. Mandado im-
primir por ordem da Casa dos Communs. Ao que se
fjuncla um appendix ; e um index methodico.

Bistorical Memoirs of Barbary, 18mo. preço 2s. 6d.


Memórias históricas da Barbaria, e seu poder marítimo,
pelo que respeita os roubos no mar; incluindo um esboço
VOL. X V I I . N o . 100. 2a
298 Literatura e Sciencias.
d'ArgeI, Tripoli e Tunes, maneiras e custumes dos habi-
tantes, vários ataques, que se lhe fizeram principalmente
o de Carlos V. era 1541; o de Inglaterra em 1635, e 1670;
o de França, e bombardeamento de Argel por Ou Quesne,
em 1683; e o de Hespanha em 1775 e 1784. Ao que se
ajuncta um calculo do presente estado de defeza da costa
de Barbaria, e os tractados originaes feitos por Carlos II.
em 1662 (e depois repetidas vezes renovados) com Argel,
Tripoli, e Tnnis.
Com uma estampa da cidade de Argel, vista do mar.

System of the School Society of London, 8vo. preço


6s. Manual do systema da Sociedade de escholas Bri-
tannicas e Estrangeiras, para ensinar a ler, escrever, con-
tar, e custura, nas escholas elementares.

Webster'» Mechanical Philosophy, 8vo» preço lOs.


Elementos de Pholosophia Mechanica e Chimica. Illus-
trados com numerosas estampas abertas em madeira. Por
Joaõ Webster.

PORTUGAL.
Saio á luz o 3*. tomo do Diccionario Geographico de
Portugal, preço 400 reis : e uma collecçaõ de mappas de
Portugal e Algarves, por 400 reis, para intelligencia do
mesmo Diccionario.

Saio á luz, o 4o- N°. do Negociante Perfeito.

Reportorio Geral, ou indice alphabetico das leys ex-


travagantes do Reyno de Portugal, publicadas depois das
Ordenaçoens, comprehendendo também algumas anterio-
res, que se acham em observância. Tomo l*. que con-
tém a letra A até 1, preço 3.800 reis.
Literatura e Sciencias. 299
Collecçaõ systematica das leys militares de Portugal.
Esta collecçaõ he dividida em três partes. A primeira
das leys pertencentes á tropa : a segunda das leys perten-
centes ás milicias : e a terceira das leys pertencentes ás
ordenanças.
Primeira parte, dous volumes: o 1 \ tracta da consti-
tuição do exercito, e comprehende os titulos seguintes:—
organização do exercito, composição dos corpos, uniformes,
armamento, fornecimento, arsenal Real do exercito, the-
sourarias, transportes, officiaes reformados, soccorros das
viuvas, recompensas, tractamentos, privilégios. O 2'.
volume tracta da disciplina tanto em paz como em guerra;
comprehende os titulos seguintes: Generaes, governadores
de praças, serviço dos engenheiros, ajudantes d' ordens,
coronéis, majores, capitaens, cadetes, auditores, aggrega-
dos, graduados, desertores, castigos, continências, guar-
das dos generaes, leys geraes para todos os militares.
Segunda parte ; um volume; composto dos titulos se-
guintes :—Constituição, organização dos corpos, força dos
corpos, uniformes, armamento, fornecimento, districtos,
propostas, recrutamento, honras e privilégios ; disciplina,
livros, licenças e passagens, baixas e reformas, castigos,
exercícios, serviço.
Terceira parte; comprehende os titulos seguintes: —
Organização das ordenanças, eleiçoens dos officiaes, uni-
formes, privilégios, recrutamento.
Todas as leys, comprehendidas nestas três partes, saõ as
que se achara era actual vigor; e transcriptas de maneira,
que com surama facilidade se ache a ley que se precise;
bem como em poucas horas pôde qualquer official ver as
obrigaçoens mais essenciaes do seu posto. Preços a I a .
parte 4.000 reis ; a 2o 500 reis ; a 3 a . 1.000 reis.

Ephemerides Astronômicas, calculadas para o merediano


do Observatório Real da Universidade de Coimbra, para
2 Q2
300 Literatura e Sciencias.
uso do mesmo Observatório, e para o da Navegação Por-
tugueza : Vol. 13°. para os annos de 1819, e 1820.

HISTORIA DO BRAZIL.
Annuncio ao Publico.
O Redactor do Correio Braziliense se está empregando
em escrever a Historia do Brazil, desde o seu descobri-
mento, até a epocha em que para ali se mudou a Corte e
Familia Real Portugueza.
Para isto tem ajunctado uma numerosa biblioteca, de
livros tanto Portuguezes como estrangeiros, em que se
tracta de alguma cousa da America; naõ se tem poupado,
nem a despezas, nem a trabalhos, para obter de todas as
partes as informaçoens necessárias.
Porém ainda assim naõ sobram materiaes, para fazer a
connexaõ dos differentes períodos, e ligar a historia das
differentes capitanias ; assim como noticias locaes, e mo-
dernas, que se nao podem achar nos authores, que até
agora tem escripto sobre aquella matéria.
Pedio, portanto a todos aquelles Portuguezes, seus
amigos, ou que julgou interessarem-se em ver ellucidada
a historia do Brazil, que lhe enviassem as noticias, que
pudessem obter a este respeito, para o que lhe indicou os
seguintes pontos ; que aqui publica ; temendo que alguma
de suas cartas naõ cheguem ás maõs a que eram des-
tinadas.
I o . Os livros Portuguezes, antigos, que tractam do Bra-
zil, alguns dos quaes, por sua escassez e raridade, o Redac-
tor naõ tem podido obter.
2 a . Listas dos Governadores, de cada capitania, com as
datas de seus governos, e familias a que pertenceram;
ajunctando a cada um os factos notáveis, que houverem.
3s Copias das Ordens, e Providencias Regias, destina-
das a cada capitania, ou governo.
4°. Listas dos Bispos das differentes cidades e datas de
Literatura e Sciencias. 301
sua instituição; com os factos notáveis na vida de cada
um, relativos á historia Ecclesiastica.
5\ Noticias sobre os tempos em que se formaram as
differentes freguezias; nomes de seus parochos, e popu-
lação.
6". Bullas Pontifícias, que tenha havido, sobre os ne-
gócios ecclesiasticos do Brazil.
7a. Genealogias das principaes familias das pessoas il-
lustres, que fôram donatários, e primeiros povoadores das
differentes capitanias.
8*. Noticias estatísticas, incluindo população, agricul-
tura, fabricas, artes, &c.

Economia Politica de Mr. Simoude.


(Continuada de p. 204.)
CAPITULO III.
Do Capitães Circulantes.
Já vimos como ha dous modos de fazer render um capital
accumulado; um que he fixando-oou empregando-o, como
mostrámos no capitulo precedente; e outro fazendo-o
girar; e deste he que tractaremos agora.
O proprietário de um capital pode dar a um official os
productos de um trabalho concluído, consistindo em gêne-
ros applicaveis ao uso e consummo dos homens, por um
trabalho para fazer, com um lucro proporcionado á quantia
adiantada. Este he o contracto que se exprime mais sim-
plezmente dizendo, que o capitalista fornece o necessário
a um obreiro produetivo, que trabalha para elle : ou ainda
mais simplezmente dizendo, que lhe paga o seu salário:
"ias cumpre notar aqui, que todas as vezes que se emprega
um official produetivo, e que se lhe paga um salário,
troca-se o presente pelo futuro ; o que se tem, pelo que se
ha de ter; o alimento e o vestuário que se lhe dá já, pelo
producto do trabalho que logo fará. O dinheiro naõ
302 Literatura e Sciencia»,
entra neste contracto senaõ como um signal; e representa
sempre uma riqueza movei, applicavcl à serventia e con-
summo do homem ; e este he que he o verdadeiro capital
circulante.
O numerário he como uma ordem ou lettrn, que o ca-
pitalista dá ao artífice sobre o padeiro, carniceiro, alfaiate,
&c. para que estes lhe dem os comestíveis e mais artigos
de consummo, que já tle alguma sorte pertencem ao ca-
pitalista, porquanto possue o seu representante. O artífice
leva esta ordem a uma loge, onde a tmea por aquillo de
que tem precisão para viver. O que lhe pagou o seu sa-
lário, d.mdo-lbe dinheiro, quilou-se mui siraplezraenle o
cuidado de lhe fazer elle mesmo o provimento necessário *
mas o effeito he exactamente o mesmo ; sempre he elle
quem fornece ao official o mantimento, e aquillo de que
elle precisa, em troco da obra que espera, que elle lbe
faça.
Ora, o artífice que naõ tem trabalho accumulado, ca-
pital seu, nem cou-,a em fim de que se alimente e se vista,
naõ somente acha vantagem em trocar o que pode fazer,
mas que inda naõ tem, por aquillo de que necessita, e que
outro actualmente possue ; mas até este he o único meio
que elle tem de existir. Oa parte do capitatista, pelo
contrario, naõ somente naõ ha vantagem em trocar um
sacco de trigo, por exemplo, este anno, por outro a re-
ceber para o anno que vem ; mas antes pode haver incon-
venientes : porque, fazendo-o, separa-se da sua proprie-
dade, priva-sc de dispor delia livremente, e talvez corra
mesmo alguns riscos. Para se fazer um contracto, entre
estas duas classes de homens, he preciso que aquella, que
delle tira todas a vantagens, as reparta com a outra que
delle tira so inconvenientes. Os artífices podem-o fazer
facilmente; porque ja vimos que a sociedade, quanto mais
se auginenta em população e riquezas, tanto mais, por meio
da divisão dos officios, o trabalho de cada artífice produz
Literatura e Sciencias. 303
de sobejo além do seu consumo : deve, portanto este ceder
uma parte desse supérfluo aquelle que o emprega e o sus-
tenta: e muitas vezes acontecerá que lho ceda todo, e
ainda fique mui satisfeito de por esse meio haver ô que lhe
hc necessário. E as duas classes da sociedade, achando
desta sorte vantagem mutua em taes contractos, prucuram-
se uma á outra: os capitalistas cuidam muito em dar o
que hoje tem pelo que haõ de receber daqui a tempos ; e
os artífices buscam também achar quem lhes de o que ac-
tualmente precisam, pelo tiabalho que faraõ para o diante.
Aos lucros que provém ao capitalista he que se deve
attribuir a conservação da riqueza nacional. Porque, se
elle naõ tirasse lucro de fazer trabalhar a gente iiulustriosa,
naõ tractana de lazer mais trocos doque os necessários para
o seu consumo; e gastaria suecessivaraente o seu cabedal
com sigo mesmo, sem produzir cousa alguma, até se acabar.
Os lucros do capitalista devem ser sempre proporciona-
dos ao capital que emprega ; porque, da mesma sorte que
te naõ tiraria proveito de fazer trabalhar artífices, se os
productos do seu trabalho naõ valecem mais que o que
elles consomem; também se naõ tiraria mais proveito de
empregar um cabedal considerável doque um menor, se os
lucros naõ fossem proporcionados á somma destinada á
empreza.
Quanto ma;s se augmenta a população e a riqueza, tanto
mais impossível he fazer-se algum trabalho sem que um ca-
pital o ponha em movimento. Com o progresso da civili-
çaõ augmentam-se as necessidades dos homens : ora já se
• í qne he preciso um capital para adiantar ao official com
<jne as suppra, até que os productos do seu trabalho se
vendam ; também he preciso outro para lhe procurar as
matérias primas, e os instrumentos, sem os quaes naõ pode
trabalhar; e, emfira, muitas vezes he preciso outro para
prover ao seu sustento e á sua instrucçaõ, até estar em es-
tado de fazer a obra de que se encarregara. Portanto, o
7
304 Literatura e Sciencias.
capital que o pôs em movimento naõ he outra cousa se-
naõ os alimentos, o vestuário, a ferramenta, e as matérias
primas, que elle consummio ; e naõ o dinheiro que as re-
presenta : porque, se ha todas estas cousas e naõ ha di-
nheiro, nem porisso deixará elle de trabalhar muito bem ;
mas se houver dinheiro, e elle o nao puder trocar por to-
das estas cousas, ser-lhe-ha impossível trabalhar.
Um homem activo e industrioso naõ achará, pois, occu-
paçaõ alguma útil, se previamente naõ obtiver um capi-
tal que o sustente, em quanto ella dura, e até que esteja con-
cluída ; outros capitães, que tenham posto à sua disposi-
ção as matérias primas, as ferramentas, e memo a scien-
cia necessária para a sua obra ; e além destes, o capital
de um negociante, que se encarregue de a levar ao con-
summidor, logo que esteja acabada, e que no entanto lhe
adiante o seu dispendido.*
O relojoeiro que destina parte de seus relógios para os
consummidores das Índias, se naõ achasse um capital jà
empregado no commercio da relojoaria, e prompto a
reembolçallo do seu despendido, ver-se-hia obrigado, logo
que tivesse acabado as seus relógios, a procurar outro ca-
pital para fazer as despezas necessárias para os mandar
para as índias; c outro para continuar a trabalhar durante
a viagem, até estarem vendidos, pagos, e o valor posto
em sua casa : ou, como este gyro se naõ faz em menos de
dous ou três annos, ainda que elle tisesse os fundos necessa-

* Quasi todos os artífices possuem algum pequeno fundo, ou tra-


balho accumulado, com o qual supprem a si mesmos as coutas de
seu consummo durante um dia, uma semana, ou mais tempo, até
que o seu salário ou a sua obra lhe seja paga. Porem este fundo,
ordinariamente naõ lhe chega para esperarem pela permutaçaÕ ou
venda da obra; mas, ou lhes seja bastante ou naõ, todavia a posses-
são do fundo lhos faz reunir em si mesmos a dupla capacidade de
capitalistas, e de obreiros productivos : o que em nada se oppóem
aos principio» desenvolvidos no texto.
Literatura e Sciencia». 305
lios parar fazer o primeiro relógio, seria obrigado a fechar
a loge, se naõ fosse sempre tendo paia continuar durante
este longo espaço de tempo. Todo trabalho he, pois,
fructo de um capital. Assim, mui inútil seria cm uma
naçaõ augmentar a necessidade do primeiro, sem ao mesmo
tempo augmentar o segundo, que só elle pode fazer accu-
dir à obra as classes industriosas: máxima importante,
freqüentemente esquecida, e que teremos occasiaõ de ad-
vertir moitas vezes.
O capital fixo naõ pode snpprir à falta da riqueza mo-
vei. Supponhamos uma naçaõ, que tivesse sido extrema-
mente rica, que tenha, por conseguinte, fixado um capital
immenso em beneficiar a ferra, em construir habitaçoens,
fundar fabricas e machinas, formar artífices industriosos.
Supponhamos, depois, que vem uma invasão de bárbaros
immediatamente depois da colheita, lança maõ de toda a
riqueza movei, e abala com quanto he susceptival de trans-
portar-se. Ainda que estes bárbaros levando toda a sua
preza, naõ destruíssem as casas nem as officinas ; nem po-
dessem tirar às terras a sua fertilidade, nem aos artífices
restantes a sua industria, todo o trabalho cessará logo:
porque, para restituir à terra a sua actividade, he preciso
arados e bois para a labrar, graõ para a semear, e sobre
tudo paõ para sustentar os labradores até a colheita próxi-
ma. He preciso, para que as fabricas trabalhem, graõ
ao moinho, ferro na forja-, e por toda a parte alimento para
o trabalhador: em fim, a massa dos homens industriosos
precisa ferramentas, matérias primas, c alimentos. NaÕ
>e trabalhará, portanto, na proporção da extençaõ dos
campos, do numero das fabricas, e dos artífices ; mas em
proporção da pouca riqueza movei, que tiver escapado aos
bárbaros. Todos os que naõ puderem obter uma porçaõ
delia, cm vaõ pedirão que trabalhar, e perecerão de fome.*

* Küta doctrina he, como se vé, directamente contraria à


dos economistas, que pretendem que oi proprietários de terras
Vot. XVII. No. 100. 8R
306 Literatura e Sciencias.
A China, e o Indostaõ tem-se visto muitas vezes em
casos similhantes de invasão. He entaõ que o dinheiro
enterrado pelos habitantes se desenterra; de sorte que
sahidos os bárbaros, pode o numerário ser tam abundante
como antes da invasão; mas nem o numerário, nem os
capitães fixos podem supprir a verdadeira riqueza movei,
e só um uso se pode fazer delle, que he exportallo todo
para comprarem fora o mobilhamento da naçaõ. Querer
impedir esta exportação do numerário seria condemnar
todos os habitantes á inacçaõ, e â fome, que seria o resul-
tado de tal medida.
Dependendo pois todo o trabalho produetivo dos pro-
prietários da riqueza mobiliária, nunca haverá algum sem
que estes participem no seu producto. A sua porçaõ he o
que se chama o lucro, por opposiçaõ ao salário, que hc a
porçaõ do artífice. Estas duas partes, reunidas á renda
do immovel, que produziu a matéria prima, constituem o
preço da obra; e a proporção entre ellas he fixada pela
sua concurrencia respectiva.
Se ha muitos capitães em circulação, destinados a fazer
trabalhar, mais os capitalistas levantam o salário dos obrei-
ros, luetando uns contra os outros para os attrahir a si; e
antes querem ter menos lucro ou menor parte do seu tra-

gozam de uma independência absoluta a respeito dos capitalis-


tos ou proprietários de moveis i que a condição destes últimos he
necessariamente precária; e que todo o poder politico he também
necessariamente ligado â possessão da terra. Pode suppor-se, dizem
elles, uma liga entre os proprietários para excluírem os capitalistas
de um paiz, e estes seriam obrigados a sujeitar-se a isso, uma vex
que aquelles naõ violassem as suas leys t (Garnier, nota XXXII. p.
306) mas também se pode suppôr a exclusão* completa dos capitalis-
tas com a dos seus gêneros todos, ou somente a anniaílaçaõ de toda
a propriedade movei; e a conseqüência seria, que todos os proprie-
tários, ou quiaessem ou na. violar suas leys, seriam em cinco dias
vindimados pela fome, e as suas propridade* achar-s«-hiam de repente
•em valor de espécie alguma.
Literatura e Sciencias. 307
bnllto supérfluo, doque deixar de empregar os seus capitães.
E pelo contrario, quanto maior he o numero de artífices a
pedir que trabalhar, em proporção ao capital que os deve
por em movimento, mais estes artífices abatem as suas pre-
tenções, e maior parte do supérfluo de seu trabalho consen-
tem em abandonar ao capitalista, menor em fim he o salá-
rio que pedem, porque antes querem limitar-se ao simplez
necessário trabalhando, do que naõ terem que trabalhar
nem de qne viver. Portanto, a concurrencia dos capitães
determina a proporção do lucro ao preço total; e a con-
currencia entre os artífices determina a proporção do salá-
rio ao mesmo preço ; mas de uma e outra banda ha limites
immoveis, que esta dupla concurrencia naõ pode fazer
passar.
Seja qual for o numero de obreiros que houver, em pro-
porção ao capital que os deve sustentar, nunca se poderão
contentar com menor salário do que lhes for absolutamente
necessário para viver; a morte seguir-se-hia logo á misé-
ria, e o equilíbrio restabelecer-se-hia togo por meto deste
contrapezo tam temível como efficaz.*
E também da outra banda, seja qual for o numero ou o
valor dos capitães destinados a manter o trabalho, nunca
poderão ser reduzidos a naõ darem proveito algum liquido:
porque se no seu paiz naõ achassem emprego, em que os
podessem fazer girar com lucro, pôllos-hiam logo a render
nos paizes estrangeiros; e pelo emprego fora de uma parte
das riquezas da naçaõ restabeleceriam o equilíbrio interior.
Se te podesse suppôr que a terra toda naõ offerecesse
legar onde se empregassem com vantagem; ou se o Go»

• No que he absolutamente necessário ao artífice para viver he


preciso comprehender, naõ somente o requisito para a sua própria
subsistência, mas também os alimentos que elle deve fornecer a seus
filhos. Que a miséria oceasione a mortandade entre os homens feitos,
ou que impétsa que os tilhos possam nascer ou poisam viver, destroe
igualmente a povoaçaõ.
2*2
308 Literatura e Sciencias.
verno achasse meio de por obstáculos ao commercio exte-
rior, e ao emprego de capitães fora dos limites da naçaõ,
os donos prefeririam entaõ gastallos em objectos de luxo
e consummillos sem produzirem, mas de maueira que re-
galassem os seus sentidos, ou lisongeassera a sua vaidade,
antes do que fazellos consumir por obreiros productivos,
que em nenhum tempo podem lisongear a sua vaidade
nem os seus sentidos, e que no caso supposto lhes naõ da-
riam proveito algum. De sorte que empregando-se assim
uma quantidade de capitães, cm manter ura trabalho im-
produetivo, seria consumraida, sem ser substituída por
outra, e a sua dissipaçaõ restabeleceria o equilíbrio.
Em quanto os capitães destinados a manter o trabalho
grangeain proveito ao seu proprietário, este sente uma ne-
cessidade habitual de os fazer circular, a fim de viver do
seu lucro, e de poder consagrar às suas commodidades os
rendimentos do seu cabedal, e naõ o seu principal. Nem
desanimará ainda que os lucros dos seus fundos diminuam,
uma vez que naõ cheguem a ser absolutamente nada, por-
que até esse tempo naõ pode o rico resolver-se a comer o
seu capital.*
Admiro-me de que o já citado Canard tenha supposto o contrario,
e annunciado que a accumulaçaõ do capital faz diminuir o desejo ou a
necessidade de empregar cada um os seus fundos em melhorar as fontes
da renda. Refutarei de passagem uma observação daquelle author,
que parece havello conduzido a esta supposiçaõ. Observa elle, que a
gente industriosa naõ accumula senaõ para ao depois disfruetar a sua
riqueza e fazer paragem; e daqui parece concluir, que acaba por gos-
tar quanto tem ajunetado; o que de facto naõ be assim. Em geral,
o homem industrioso, em trabalhar, propoem-se adquirir uma somma
sufficiente para viver de suas rendas descançado e satisfeito. Tanto
que alcança o fim desejado, algumas vezes succede qoe faz ponto ali;
mas o mais ordinário he crescer-lhe a ambição com o augmento do
cabedal: porem ainda que ás vezes o vejamos sacrificar a. vaidade, e
dispender mais do que os seos meios lhe permittem, quasi que naõ ha
exemplo d'homem, que, levando maõ do trabalho, diga cem sigo mes-
mo, agora naõ torno a fazer mais nada, vou viver das minhas rendas-
e comer o cabedal que tenho ajunetado.
Literatura e Sciencias. 309
Naõ somente era todos os paizes os dissipadores saõ mui
raros mas, se estudarmos os costumes de cada naçaõ, ob-
servaremos por toda parte o espirito de economia augmen-
tar-se com a diminuição dos lucros mercantis. Em
Hollanda chegou ao maior gráo que podia ser, contentan-
do-se os negociantes com o ganho mais arrastrado. Pelo
contrario, o luxo e amor da ostentação sufibeavam todo o
espirito de economia entre os negociantes em Cadiz, cujos
lucros eram inda assim as as consideráveis para fazerem
subir a 10 por cento a taxa do juro.
Em França, fiiialmeute, e diminuição do capital, e o
augmento dos lucros do commercio tem augraentado o luxo
e diminuído o poupar dos negociantes. Esta he a marcha
da natureza : e com effeito, quando o capitalista vé de-
minuir o lucro, que forma a sua renda, deve muito mais
cuidar em o manter ou augmentar, do que em dissipar o
capital de que elle lhe provém. E quando, pelo contrario,
vé augmentar os seus lucros e as suas rendas, entaõ mais
de pressa dá largas ao desejo de dispender e procurar re-
creios, e naõ se lhe dà tanto de augmentar um capital,
que já he sufficiente para as suas necessidades.
He verdade que a accumulaçaõ dos capitães oceasiona
muitas vezes o luxo e a priguiça dos que os possuem ; de
sorte que, se os ricos naõ podessem dispensar-se do tra-
balho de cuidarem por si mesmos de fazer render ou seu ca-
pital, talvez que o desleixo e a prodigalidade fossem o re-
sultado immediato da sua fortuna. Entaõ ver-se-hiam os
capitães diminuir, depois de se haverem formado, e a so-
ciedade descahir da sua prosperidade tanto mais de pressa,
quanto mais rapidamente a havia adquirido. Porem as
riquezas accnmuladas podem muito bem ser empregadas
e
m beneficio da sociedade p<>r outras maõ» sem serem as
dos ricos; por meio de dar a juros e a interesse ; e he, era
parte, % este contracto, que se deve a sua conservação.
310 Literatura e Sciencias.
Todos os proprietários e conservadores de capitães po-
dem, debaixo desta consideração, dividir-se em duas clas-
ses : uma, a daquelles que os manejam por si mesmos ; e ou-
tra, a daquelles que os emprestara a outras pessoas mais ac-
tivas que elles, as quaes se incumbem de os fazer girar, asse-
gurando-lhes nos lucros deste giro uma parte que se de-
signa pelo nome de juros. O uso tem reservado exclu-
sivamente para os que pertencem a esta ultima classe o
nome de capitalistas. A primeira comprehende os homens,
que consagram os seus capitães ao aperfeiçoamento da
agricultura, ou os labradores, os que emprebendem manu-
facturas, minas, pescas, ou que põem em movimento um tra-
balho produetivo qualquer; ou, em fim, aquelles que fa-
cilitam a outros a obra, que tem emprehendido, re-crobol-
çando os fabricantes ou labradores de seus capitães, ou
destinando o seus ao ccmmercio.
Todos os contractadores de bens moveis de toda a
espécie, ou lhes pertençam de propriedade, ou os hajam
adquirido por empréstimo contraindo, saõ constantemente
animados do desejo de fazer render seus capitães; todos
tendem a tirar delles o maior lucro possivel, e com este
intuito fazem por manter o trabalho, ou por trazer a girar
o seu cabedal no commercio, on nas especulaçoens que
lhes parecem mais lucrativas. Naõ que elles tenham em
vista unicamente o lucro pecuniário ; mas accumulam ou
apoderam-se de todas as diversas vantagens de cada gênero
de trabalho, na consideração que lhes anda anncxa, da se-
gurança, da promptidaõ das re-entradas, do ajuste de te-
rem os seus capitães perto de si, e quasi delaixo de seus
olhos; assim como, de outra parte, também carregam com
todos os incommodos e inconvenientes, como saõ a im-
mundice, o cheiro, o estrondo, a fadiga, a dependência,
e algumas vezes a infâmia. A vista de todas estas conside-
rações reunidas fazem uma avaluaçaõ media, pela qual s*
governam para todas as outras.
Literatura e Sciencias. 311
He por isto que o lucro ordinário de uma manufactura
ou de um commercio decente, c á maõ, he de 10 por cento
por anno; o de um proprietário cultivador, mais feliz,
mais socegado, c respeitado, naõ poderá montar a mais de
6 por cento; e ja o de um negociante para a America re-
putar-sc-ha a 15 porcento, porque os retornos saõ mais va-
garosos e incertos; e, assim por diante, se reputara a 20
por cento o de um negociante para as índias, cujos retor-
nos ainda saõ mais arriscados ; e a 30 o do segurador de
contrabandos, cujo risco he continuo ;* o de um taberneiro
que nunca he senhor em sua casa, eque se constitue creado
do publico e dos borrachos. Pela mesma regra, o que tem
os seus almnzens cheios de peixe salgado, ou de azeites,
terá direito de exigir em compensençaõ do fétido e da por-
caria alguma cousa mais do qne aquelle que, negociando
em tecidos, naõ lida senaõ com fazendas asseadas e ele-
gantes. Entretanto, todos estes lucros se reputarão iguaes,
servindo os inconvenientes de cada profissão de contraba-
lançar a disproporçaõ.
Os contractadores em capitães distribuem-se nestes di-
versos ramos de trabalho, segundo suas ínclinaçoens, ou
gundo saõ mais ou menos aptos para vencer a repugnância
que alguns delles lhes inspiram. Mas, desde o momento
cm que esta igualdade de vantagens for destruída, porque

* Um leitor pouco attento julgará ver, talvez nos mesmos exem-


plosqueeu dou,indicação de uma proporção inteiramente differente :
porá a objecçaõ, que em um paiz rico as terras naõ rendem senaõ 3
ou 4 por cento; que de outra parte, em geral, o seguro do contraban-
do se faz á razaõ de 10 p, c,: porem naõ se lembra que o lucro deve
calcular-se em relação ao capital empregado somente. O labrador
naõ deve ganhar 6 p. c. sobre o valor da sua terra, mas somente sobre
o capital que empregara era a cultivar. O contrabandista naõ re-
cebe senaõ 10 p. c. sobre o preço das fazendas que faz entrar por
fraude; mas o seu ganho sobe a mais de 30 p. c. se se compara ás
suas despezas, e a somma que serve de garantia aos negociantes que •
empregam.
312 Literatura e Sciencias.
ura monopólio, ou algum outro favor concedido a um
delles, o torne mais lucrativo; ou, pelo contrario, que
algum imposto diminua suas vantagens ; os proprietários
de capital circulante, que naõ estaõ de forma alguma mais
pegados a um ramo de trabalho do que a outro, largam o
que acham desfavorável e pegam de algum dos outros;
ou, pelo contrario, açodem ao ramo privilegiado, até que
pela sua concurrencia de um lado, e o seu abandono do
outro, restabeleça o equilíbrio.
Os capitalistas, que querem dispensar-se absolutamente
de todos os inconvenientes annexos á circulação de suas ri-
riquezas, e que nesta idea, em vez de pretenderem o ren-
dimento por inteiro que poderiam ter, se contentam com
uma parte nos lucros daquelles a quem os emprestam, saõ
indifferentes ás vantagens e aos inconvenientes de uni ramo
de commercio particular, e regulam-se, no que haõ de pe-
dir, pelo lucro médio das emprezas mercantis : nem mes-
mo attendem á segurança do commercio que emprehende
o que pede emprestado, mas á segurança do empréstimo,
e á facilidade que teraõ de se fazer re-embolçar, quer o seu
devedor ganhe ou perca na empreza.
Todo o contracto, que se estipula entre os homens, he o
resultado de uma lucta entre os contractantes ; porque sen-
do os seus interesses oppostos, trabalha cada qual pelo seu
e contra o do seu adversário ; e as duas partes naõ concor-
dam senaõ depois de haverem dividido a differença entre
ambas, em proporção ás suas forças respectivas. Ora estas
forcas saó sempre na razaõ inversa do numero dos contrac-
tadores, e do seu desejo de contractar; o primeiro aug-
menta a concurrencia que as pessoas interessadas na mesma
cousa fazem umas ás outrus; o segundo apressa-as a con-
cluir. O interesse d'um capital, por exemplo, se deter-
mina pelo resultado de uma lucta entre duas classes de
pessoas: as que emprestam, que querem disfruetar sem
trabalho; e os que tomam emprestado, cujos fundos nao
2
Literatura e Sciencias. 313
bastam para o seu trabalho, mas que o querem fazer, e
que se acham em circurastacias de offerecer segurança suf-
ficiente pelo capital que recebem. Ora bem se vé, que,
quanto maior for o numero dos qnequerem pedir emprestado
em proporção ao dos capitalistas, e mais estes últimos pu-
derem augmentar as suas pretençoens (suppondo o desejo
de concluir igual das duas partes)se se quizer prever qual
será o valor médio do interesse em qualquer naçaõ, ou ex-
plicar as suas variações de um paiz a outro, convirá in-
dagar e determinar quaes sejam as circumstancias, que in-
fluem sobre o numero dos contractantes, e sobre o seu de-
sejo de concluir o mercado. A vista do que ellas saõ de
multiplicadas, sentir-se-ha que se naõ pode taxar o juro
em uma naçaõ, pelo thermometro único da sua prosperi-
dade.
A primeira causa que deve augmentar o numero dos
que emprestara, e por conseqüência diminuir ns suas forças,
he o augmento da riqueza movei da naçaõ: com effeito,
tanto mais esta se vai augmentando, mais razaõ ha para
crer que uma parte delia se accumulará nas maõs de al-
gumas pessoas, que naõ teraõ inclinação de fazer uso delia
para si. Toda via, outras causas poderão inflnir também
para crescer o numero, taes como o prejuizo desfavorável
que uma mudança nos costumes nacionaes pode annexar
ás profissões lucrativas; os progressos da ociosidade, da
molleza e do luxo, que mesmo quando o capital da naçaõ
naõ experimenta variação alguma, induzem cada dia um
grande numero de ricos a renunciar ao commercio e ás es-
peculações, para entrarem na classe de capitalistas, e por
conseguinte augmentarem a concurrencia que assim fazem
uns aos outros.
Por outra parte, o desejo dos capitalistas de contractar
também pode deminuir-se por differentes causas j enfra-
quecer-se-ha, por exemplo, se a religião fizer considerar
e empréstimo a juros como usurario ; se o Governo naõ
VOL. X V I I . No. 100. 2s
314 Literatura e Sciencias.
proteger os que emprestam; se o recobramento dos fundos
naõ for facilitado pela administração de uma boa e prompta
justiça; se a propriedade he mal segura; se o commercio
for exposto a freqüentes avarias, que podem arruinar ao
mesmo tempo o que empresta e o qoe recebe; e em fim,
se a má fé he commum, e se a maior parte dos devedores
inspiram pouca confiança.
Entaõ, os capitalistas, desgostados por todas estas cir-
cunstancias, custa-lhes mais a largar os seus fundos; e para
os resolver a isso será preciso assegurar-lhes maior parte
nos lucros que se poderão obter.
O numero e o desejo dos que pedem emprestado pode
também crescer por differentes causas: he bem certo qne
nem todos os que contrahem empréstimos he para pôr em
movimeuto algum trabalho produetivo, e dar actividade
à industria. Os dissipadores que pedem emprestado para
manter os seus gastos profusos; e o Governo que faz uso
do mesmo expediente para oceorrer as depezas extraordi-
nárias do Estado, fazem uns e outros concurrencia aos
que pedem para objectos de industria; e como as suas ne-
cessidades saõ ainda mais urgentes, naõ so diminuem as
suas forças pelo augmento do seu numero, mas também
pelo seu desejo de contractar ser maior.
Pelo que respeita aos que contrahem empréstimos, para
applicarem os fundos, que recebem, para a manutenção de
alguma espécie de trabalho, o seu numero e os seus desejos
saõ modificados, ja pelo caracter e prejuizos nacionaes,
que elevam ou abatem o estado daquelles que se dedicam
ao commercio e às manufacturas, comparativamente ao
dos obreiros improduetivos e ociosos; já, e muito mais,
pelos lucros que podem esperar das emprezas a que se
querem entregar; quanto mais considerável elle he, maior
se lhesfigurao mercado para que trabalham, e mais o de-
sejo de ter parte nesse lucro os torna fáceis, para se sujei-
tarem às condições e vantagens, que exigirem os capital**-
7
Literatura e Sciencias. 315
tas* porque estes últimos saõ os únicos que os podem pôr
em estado de também as obterem para si mesmos.
Em geral, pode-se muito bem considerar a diminuição
do juro como nm signal da prosperidade nacional;
seja porque indica augmento da riqueza circulante; ou
seja porque dá logar a suppôr, que o lucro mercantil tem
diminuído na mesma proporção; e que na repartição
que se faz entre o obreiro e o que o emprega, o pri-
meiro tem ganhado o que o segundo tem perdido; de
sorte que a classe mais numerosa e mais interessante da so-
ciedade naõ está reduzida ao simplez necessário, pelo lu-
cro dos capitalistas. Comtudo, também pode mui bem
acontecer que o interesse se sustente nas mesmas propor-
ções, ou mesmo que augntiente, sem que esta alteração seja
signal de uma diminuição do valor dos capitães nacionaes,
e indica somente que um mercado mais extenso, ou um
commercio mais vasto se tem aberto para a naçaÕ, que he
chamada a ter maior industria, saõ-lhe precisos mais fun-
dos para a por em acçaõ ; e que por conseguinte o luero
pode ter augmentado, sem que os salários tenham soffrido
diminuição.
O juro esteve em França por mais de um século, e
desde o tempo de Colbert até a época da revolução, a cin-
co por cento, pouco mais ou menos ; e cntretinto os capi-
tães Francezes haviam-se augmentado consideravelmente
durante este intervallo ; mas eram empregados era manter
uma industria mais vasta, e em dar actividade a um com-
mercio cada vez maior. Para que o juro dos fundos
abaixasse em França seria preciso qu<" o angnienlo da sua
riqueza fosse mais rápido doque a extençaõ dada à sua in-
dustria. Mas, quando um Estado ainda está longe de
checar ao cume, da sua prosperidade, cada dia se lhe pa-
tenteara novos ramos de industria e de commercio; e bem
que os seus capitães T.ira em augmento, as suas neces -ida-
des augmentam algumas vezes ainda mais de pressa; ou os
2 s2
316 Literatura e Sciencias.
luceros do commercio, e o juro dos fundos, seguem o pro-
gresso destes últimos. He o que acontece de um modo
bem evidente nos Estados Unidos da America, aonde o
juro e o lucro mercantil naõ tem soffrido diminuição algu-
ma, a pezar da rapidez extrema do accrescimo da ri-
queza publica.
Como acontece freqüentemente que as diversas causas
que temos enumerado, c que determinam o numero e as
necessidades dos que pedem empréstimos e dos que os
fazem, se contrapczam entre si, o resultado he pela maior
parle, que estas duas classes repartem em porções iguaes
os lucros do commercio; e tanto assim, que quando o
juro, está a 5 por cento, pode-se mui bem suppôr que
o lucro ordinário do fabricante ou do negociante he de 10
por cento. Mas algumas das causas moraes que temos in-
dicado, reunem-se em alguns paizes, em Hespanha, por
exemplo, para abaixarem muito o juro dos capitães, re-
lativamente ao lucro do commercio.
Convirá lembrar ultimamente, que o capital que gira,
assim como o que se empresta, naõ he o dinheiro amoe-
dado, mas as mercancias para o uso dos homens, fructos
do seu trabalho, trocaveis por um trabalho para fazer, e
que saõ algumas sezes, mas naõ sempre, representados pelo
numerário.
Acontece freqüentíssimas vezes no commercio, que uma
commandita,* uma entrada nos fundos, ou ura eredito, se
fazem em mercadorias, e naõ em dinheiro. Também
acontece mui freqüentemente entre os cutivadores, que
os avanço do proprietário ao labrador, se fazem em
graõs, em forragens, era gado, e em instrumentos de
laboira: o effeito, entretanto, he o mesmo. Todas

* No commercio. Contracto entre dous sócios dos quaes um for-


nece o dinheiro, e o outro tracta do negocio. Termo de Jurispru-
dência Franceza.
Miscellanea. 317
as vezes que um capital se põem em circulação, pouco
importa que o dinheiro seja ou naõ o signal; o trabalho
commeça, e a producçaõ substitue com abundância o
consumo.
[Con ti n u ar-se-ha. ]

MISCELLANEA.

EDUCAÇÃO ELEMENTAR.

N \ 6.
Disciplina das escholas. Prêmios.
xS ESTE artigo temos de observar três cousas ; os prêmios
os castigos, e a averiguação das faltas. Nas escholas mui
numerosas faz-se suraraamente difficil ao Mestre attentar por
estas cousas com a necessária exactidaõ ; e o methodo, que
sobre isto se tem adoptado nas novas escholas, tem a grande
vantagem de obviar todas as difficu Idades, facilitar o tra-
balho do mestre, e melhorar muitíssimo a condição moral
dos discípulos.
Ninguém ignora quam grande seja o estimulo da emu-
lação em todas as idades do homem ; e quanto os prêmios
de distineçaõ servem para despertar a energia do espirito,
em uma louvável competência : os prêmios pois destas es-
cholas saõ fundados nestes principios, e a experiência tem
amplamente demonstrado a sua utilidade.
A leitura e escripta dos meninos esta sujeita, como te-
mos visto, á inspecçaõ constante do subdecuriaõ da classe;
muitas vezes he examinada pelo decuriaõ geral; e o mestre
de vez em quando attende também ás classes. Segundo o
resultado desta constante inspecçaõ, saõ os meninos collo-
cados oa sua classe pelos números 1, 2, 3, &c. tirando-se
318 Miscellanea.
a precedência unicamente do seu merecimento; e os nu-
meros estaõ pintados em um pedacinho de papelão, que o
menino traz pendurado ao botaõ da vestia; e logo que
qualquer menino excede aoque lhe fica superior, dando-lhe
quináo em alguma resposta, muda o lugar com elle e
toma-lhe por conseqüência o seu numero. Assim, por ex-
emplo, se o menino N". 7, naõ pôde responder a uma
pergunta; e o menino N°. 8, respondeo a ella certo, este
toma logo o N°. 7, e dá ao que o tinha o N°. 8. O me-
nino que obtém ser N°. 1, traz, além do N°. uma tira de
couro dourado, aonde está escripta a palavra mereci-
mento ; ou merecimento em ler, merecimento em escrever,
merecimento em arithmetica; conforme for o gênero, em
que elle se houver distingnido. Esta distineçaõ honorífica
também se perde perdendo o N°. o que succede logo que
outro lhe der quináo. Os menios ordinariamente se delei-
tam com estes signaes de aprovação, e trabalham ás inve-
jas uns dos outros para os obter e conservar.
Quando os meninos acabam a liçaõ entregam os seus N°.
e marcas de distineçaõ ao decuriaõ; porem aquelles meninos
que tem além disto recebido o prêmio extraordinário de
trazer certa pintura ao pescoço, grudada n'uni papelão, tem
jus, quando a entregam ao decuriaõ, depois da liçaõ, para
receber outra pintura similhante, que fica sendo sua :
prêmio que muito satisfaz aos meninos mais novos, e he
mui ambicionada de todos.
Estas pinturas, além de servirem de prêmio, saõ também
outra fonte de instrucçaõ, pelas inscripçoens nellas escrip.
tas, contendo sentenças moraes, que os meninos se esforçam
em ler e entender ; e explicar uns aos outros. Os prêmios
de brincos, como pioens, cavallinhos, &c. naõ saõ taõ
próprios; porque satisfazem os meninos naquelle gênero até
que ficam saciados ; ao mesmo tempo que nas pinturas se
recebe grande varidade de liçoens e de divertimentos, que
podem mudar em cada premiu ; e com o mesmo custo nas
Miscellanea. 319
estampas, sempre mais baratas, do que qualquer outro
objecto que se escolha para premiar os meninos.
Algumas das estampas saõ feitas por maneira, que se
podem cortar em varias partes, e dar cada uma dellas a
differentes meninos, com igual satisfacçaõ delles ; dema-
neira que a medíocre somma de um shilling, ou 15 reis,
chega para dar cem prêmios destes.
Também se daõ prêmios unicamente de escriptos, em
pedacinhos de papel, aonde está impressa uma passagem em
verso ou prosa, historia, & c . ; prêmio mui interessante
pela applicaçaõ, que excita no menino para o ler.
A distribuição destes prêmios, nas escholas numerosas,naõ
pôde deixar de ser feita pelos decurioens; e pelo que res-
peita o lêr e contar, facilmente pôde o decuriaõ decedir
do merecimento relativo dos meninos; porque tem a regra
geral de fazer mudar para o lugar do que responde errado
oprimeio seu inferior, que lhe deo quináo. Na compara-
ção do merecimento da escripta, porém, este trabalho he
mais difficil; e por isso devem os mestres ter grande cuida-
do em escolher meninos de bom discernimento, para serem
decnrioens, e distribuírem os prêmios, na classe da es-
cripta. Nas escholas pouco numerosas poderá o mestre
fazer esta inspecçaõ da escripta de todos os discípulos ;
porém he isso impossível em grande multidão de meninos,
pelo que em taes casos o mestre se limitará á boa escolha
de decurioens, e a examinar de vez em tempos, se os de-
curioens decidem com justeza do merecimento compara-
tivo da escripta dos discípulos.
Em algumas escholas ha ainda outra sorte de prêmio,
que heem dinheiro; distribue-se este aos meninos que so-
bresáem, dando-lhes um bilhete, em que está escripto o
valor do prêmio; por exemplo 5 reis, \0 reis, &c. ; o
menino que continua por trcs ou quatro vezes, sem perder
0 seu N°. 1, da classe, recebe este bilhete ; mas se outro
lho tira pelo exceder, antes de chegar ao determinado nu-
320 Miscellanea.
mero de vezes, caso o torne o primeiro a alcançar, prin-
cipia a contar do novo as vezes, que he necessário para
obter o prêmio, que lhe he pago, apresentando o bilhete ao
mestre, com a certidão do decuriaõ. Estes prêmios os
limitam ordinariamente á classe de arithmetica.
A emulação nestas escholas naõ só se applica como esti-
mulo entre menino e menino na mesma classe, mas entre
uma classe e outra classe; no que se interessa ja a compe-
tência dos decurioens, em procurar o adiantamento de suas
respectivas classes, e exista um espirito de partido, tra-
balhando todos os meninos em sustentar a honra da dis-
tineçaõ de sua classe.
A classe mais adiantada occupa o mais honrado lugar
na eschola ; cuja honra naõ consiste em outra cousa, se-
naõ em que aquelle lugar he designado como tal; bem
como os números entre os meninos de uma classe. A classe
que excede a outra occupa o seu lugar de preferencia; e
a decisaõ tem lugar examinando a escripta de todos os me-
ninos de uma classe, com todos os meninos de outra; fa-
zendo a comparação de dous a dous ; e vendo no fim em
qual das classes houve maioridade nas preferencias.
O espirito de partido e de corporação he taõ sensível
nestes exemplos, que ordinariamente se observa ser maior
a alegria dos meninos, na elevação de sua classe sobre
outra, do que na preferencia individual, que obtém, sobre
o companheiro da mesma classe : a industria, portanto,
que este methodo excita, he proporcional ao efeito do es-
timulo; e summamente vizivel nos esforços dos decuri-
oens, em excitar cada um os meninos de sua classe, ja com
reproches aos remissos, ja com louvoures aos applicados.
Quando este concurso tem lugar, he tal o interesse dos
decurioens, que naõ cuidariaõ de outra cousa se os dei-
x assem, pelo que estes exercícios se fazem mais raras vezes;
para evitar o pôr a eschola em demasiado fermento. Or-
dinariamente os árbitros saõ tirados dos mesmos meninos
Miscellanea. 321
mais provectos em numero de doze, e presididos pelo
mestre. Os meninos escolhidos para esta funcçaõ de
juizes do facto, ou como lhe chamara nos tribunaes da
Inglaterra, para jurados, inspira aos meninos certo ar de
importância, que os move a decidir com a maior rectidaõ
que podem, e tende consideravelmente a destruir um dos
peiores vicios da educação tanto publica como particular,
que he o habito de mentir, para occultar as faltas de seus
camaradas.
Nas escholas ordinárias o mestre parece ser um ente de
ordem differente, e portanto ha entre os meninos uma
conspiração geral para o enganar; daqui vem esta dissi-
mulação taõ geral na infância, que suffoca muitas vezes as
sementes das mais elevadas virtudes. E se a principa
vantagem da educação publica he, apresentar uma ima-
gem da Sociedade, naõ pôde esta vantagem ser completa,
sem que as differentes relaçoens de superiores e inferiores,
julgados e julgadores, sejam practicadas entre os me-
ninos : pelo contrario a única differença entre mestre e
discípulos, só traz á idea obediência cega, um proceder
de escravo, ura temor do despotismo, d' onde se deve
seguir a dissimulação, a mentira, e outros vicios, que pro-
duzindo habito na infância, nem ainda a maior reflexão
da idade provecta chega a poder remediallos.
O merecimento e naõ o capricho do Mestre be o meio
da promoção ; e a authoridade dos decurioens e dos ár-
bitros, saõ os anéis da cadea, que ligam os superiores
aos inferiores, pelos lugares intermediários, a que todos
tem o direito de aspirar ; e essa consideração diminue o
pezo da authoridade, ao mesmo tempo que o desejo de
•W* a ella promovido estimula o zelo ; e a rotação dos
empregos, obtidos segundo o merecimento, e por árbitros
imparciaes, destróe a tendência aos ódios, e abhorreci-
mento do mestre ; tam geral n' outras escholas.

VOL. XVII. No. 100. 2i


322 Miscellanea.

Resposta aos folhetos de Jozé Agostinho.


[Continuada de p. 213.]
A avareza, e a má fé constituem o vosso caracter. Nao se
pode ler sem horror os crimes de que accuzaes os P . L.
implorando o Ceo, e a terra para fartardes no castigo de
homens innocentes a vossa insaciável vingança. Vejo
misturadas com mil puerilidades impertinentes as falsas
supposições de Barruel, para denegrir a gloria da Socie-
dade. Vos sois uma copia servil daquelle mercenário es-
criptor. Tudo quanto ajunctastes da vossa cabeça respira
fogo, perseguição, e crueldade. Que bella linguagem de
um Sacerdote ! E com ella pertendeis conciliar os applau-
zos dos prezentes, e dos vindouros ? Mas, para vergonha
vossa, e para subterrar um taõ audacioso intento, porei aos
vossos olhos um Imperador PagaÕ, e confrontarei as suas
grandes acçÕes com os horrores da vossa conducta. Anto-
nino, este Imperador taõ famigerado pelas suas virtudes,
hé agora o espectaculo, que eu aprezento para vossa con-
fuzaõ. A Historia, fiel relatora dos suecessos, o descreve
como o Pay da Pátria, o amigo dos homens, e o bem fei-
tor da humanidade. Dotado de um coração por extremo
bom, julgava perdido o dia, em que naõ fazia algum bene-
ficio. Aos ambiciosos, que lhe inspiravam desejos de
conquistas, respondia com brand ura natural, que apreciava
mais a vida de um Cidadão, que a morte de mil inimigos.
Reflecti agora no excesso da sua caridade. Quando o
Phylosopho J ustino, que de pouco tinha abraçado a Reli-
gião lhe aprezentou uma Apologia dos Christaõs cruel-
mente perseguidos na Azia, elle ordenou por um Edicto
publico naõ só o perdaõ dos seus suppostos crimes, mas
ainda mais um castigo severo contra os seus accusadores.
Notai agora, que elle era gerado no seio do paganismo, e
vos Ministro de um Deos summamente bom, antes Reli-
gioso no Claustro Augustiniano, aonde a oraçaõ, o silencio,
e os bons exemplos deveriam ter-vos inspirado o amor do
Miscellanea, 323
próximo, o perdaõ dos inimigos, e a beneficência para
com os vossos similhantes.
Se tendes pegado na penna para escreveres, naõ hé zelo.
Escreveis, porque sois pago, ou effectivamente, ou na es-
perança. Promessas lisongeiras de honras, e de fortuna
saõ capazes de attrahir corações baixos ao exercício de ac-
çSes indignas. Affectais amor da Religsaó, e caridade
para com o próximo, e estes motivos especiosos cobrem a
malícia mais tenebroza, e refinada. A acrimonia, e o fel,
cm que estaõ envolvidas as vossas expressões, convencem
todo o homem sensato de que saõ virtudes fingidas. A
verdadeira caridade naõ respira este hnmor raivozo, este
modo altivo, esta declamaçaÕ ardente, e fogoza, que acom-
panham sempre o vosso caracter. Nenhuma virtude sem
estar fundada no alicerse da humildade. Uma alma
cheia de Deos lamenta as desgraças do próximo, naõ
rompe em invectivas. * No original tudo hé paixaõ,
furor, e injustiça. As vossas traducçÕes apparecera tisna-
das do mesmo mal. E que naõ pôde a inveja sobre cora-
ções empestados do seu veneno !
Se pois o vosso zelo naõ hé animado pela caridade, hé
um zelo falso. Elle só serve para cobrir com artificiosa
mascara o vosso refinado ódio. Gritais contra crimes

* Quereis que a vossa collecçaõ de mentiras seja para a povo um


Sjmbolo de eternas verdades. Para as inculcar, e persuadir, tomais,
como o Camaleão, differentes cores. Ora sois um bypoerita affec-
tando virtudes *. Ora mostrando um zelo ardente em favor da Reli-
ginõ, o que so hé acrimonia impetuosa do vosso gênio, e do vosso
mal talhado coração. Umas vezes fingis derramar lagrimas pela
perda de tantas almas, que tem abraçado a infame Secta da Maçona-
ria i mas saõ lagrimas similhantes ao pranto das Carpideiras, que
nos enterros choravam por dinheiro. Ontras vezes pedis ao Ceo raios
para consumirem, a malvada caterva de homens sem Religião, e
semfidelidadeao Soberano.
2 T 2
324 Miscellanea.
suppostos. Voltai uns olhos de reflexão sobre a vossa
alma, e os achareis verdadeiros. Naõ fallo da vossa con-
ducta moral: Eu naõ sou constituído nem para a exami-
nar, nem para a julgar. Offereço em prova da minha as-
serçaõ os vossos Folhetos. As vossas malignas invecti-
vas, e mais que tudo o facinorosó desejo de ver sacrifica-
dos milhares de innocentes saõ effeitos terríveis, e abomi-
náveis de uma alma negra, e atroz.
Se me dais liberdade pergunto. Estes vossos escriptos
servem de algum bem á Religião, e ao Estado ? Venturoso
trabalho, que naõ teve outro fim, senaõ a ostentação, e a
vaidade de querer parecer um verdadeiro Christaõ, defen-
sor do Principe, e da Pátria, sendo realmente o inimigo
da humanidade, e dos seus similhantes. Obra, cuja futi-
lidade o homem de juizo reconhece, ao simples exame
de incohcrencias, de repugnancias, de falsas supposições,
e de horrores, que só podiam gerar-se num cérebro es-
quentado, e propenso á loucura. Sem duvida, quando es-
crevestes, tinheis ou na imaginação, o u á vista, uma destas
torrentes caudalosas, que tudo arrastam, destroem, e deixam
por toda a parte os espectaculos funestos do estrago, e da
ruína. NaÕ parecem differentes os vossos desejos, quando
pedis a morte de milhares de pessoas, banhando-vos ante-
cipadamente de prazer pela sua desgraça, que infeliz-
mente para o vosso coração deshumano, e feroz nunca po-
derá acontecer.
Ainda mesmo provados esses crimes horrorosos, que
imputaes á Sociedade dos P . L . , procedeis contra elles de
um modo anti-Christaõ. Naõ se ganha ja mais o pecca-
dor ou scisraatico, ou hereje a fim de rejeitar os seus erros,
e voltar á Religião, lançando sobre elle os temíveis raios
da perseguição, e do furor. Um zelo cheio de doçura, e
de beneficência hé o único hyman, com que elle pode ser
gostozamente attrahido. Esta attracçaõ tem mais império
sobre o coração humauo, que a força violenta de um rigo-
Miscellanea. 325
roso castigo.* Mas como podeis vós dar lições desta ca-
ridade, se a naõ tendes ? As vossas palavras sahem da
boca inficionadas do ódio, que está concentrado no vosso
coração. Clamaes pela Religião offendida, e vós sois
delia um escandaloso infráctor. A ley de Jezus Chisto
naõ só manda ter amor ao próximo, mas até mesmo nos
obriga pela pureza de sua moral a querer bem aos nossos
inimigos.t Os Farizeos, tendo as almas cheias de crimes,
e sendo toda a sua sciencia um montaõ de superstições,
violavam sem escrúpulo os mais sagrados Preceitos da Re-
ligião, e denegriam com calumnias a reputação dos ou-
tros. Com tudo tinham de si mesmos a orgulhosa, e falsa
persuasão de que eram em extremo virtuosos, e sanctos.
Vós sois um digno discípulo destes homens, famosos pela
sua extravagante condncta.
Vós julgais a Sociedade como um aggregado de mon-
stros, e estes de differentes naturezas. Chamais a impul-
sos da vossa caridade Christaã, á uns, Materialistas, á ou-
tros, Deistas, aquelles, Apóstatas, á estes, Atheos. Se na
Sociedade se falia em Religião, naõ me ensinareis como
se conserva ella há tantos Séculos ? Podem por ventura
unir-se os sentimentos de homens, cuja crença, e naõ
crença seria logo uma origem de ardentes disputas, de in-
sultos, e de rupturas escandalosas ? O insensato Atheo
diz, que naõ há Divindade. O Materialista, pondo-se na
classe dos animais, attesta, que tudo acaba com o corpo.
0 deista confessa que existe o Supremo Creador do Uni-
verso, e a feito nega a Revelação Divina. Ora deponde
a vossa maligna prevenção, e fallai com sinceridade.
Pode subsistir esta Sociedade, se nella há uma só palavra

Kegle genei ale : en fait de changement de religion, les invita-


tions sont plus fortes, que les peines. De PEsprit des Loix. Liv. 25,
Cap. 12.

t Math. Cap. 5, N*. 44.


326 Miscellanea.
em ponto de Religião ? Sustentando este paradoxo sois
obrigado a dizer, que o tigre, o leaõ, o urso, a onça, e
outros animaes análogos na ferocidade, podem conservar-se
no mais aprazível ajunctamento. Eisaqui, sem o presen-
llnles, o abismo, em qne vos lançou a anciã de divertir
o povo com as vossas enfeitadas calumnias.
O povo certamente naõ decide sobre os horrores, que
imputaes ã Sociedade. Elle gosta de tudo o que tem um
certo ar de novidade. Saõ os homens sábios, qoe tem fat-
iado da Sociedade com os maiores elogios; e Pessoas de
grande authoridade, representação, e caracter, que ali
tem sido admittidas, cujos votos devem preponderar ás
calumnias, com que infamais uma Instituição taõ bella, e
taõ útil. Confesso, que as Assembléas, e Associações oc-
cultas justamente saõ prohibidas. Quando se ignora, qual
seja o seu fim, hé perigozo o consentillas. Muitas vezes
se fermentam no silencio das trevas conjurações funestas
ao Estado. Mas naõ deve ser comprehendida nestes Ajune-
tamentos a benéfica Sociedade, ainda que ás vezes ooc*
turna, dos P. L.—Ouvi, e ouçaõ os qne vos applaudem,
o celebre Baraõ de Bielfeld nas suas Instlutições Políticas.
Esta ordem está espalhada por toda a terra, e subsiste de-
pois de muitos Séculos nos paizes mais polidos. Ella naS
se tem jamais ingerido nos negócios do Estado; e tem
feito sempre todo o bem á Republica, e aos Cidadãos.
Há tantos Soberanos, Pessoas de taõ alta Grandeza, tantos
Magistrados, tantos Ecclesiasticos, que saõ membros desta
Sociedade, que o Estado nada pode temeT destas Assem-
bléas, antes sim muitos sujeitos, e principalmente muitos
pobres acbaõ nella todo o soccorro, e alivio. *
[Continuar-se-ha.]

* Cet Ordre est repandn par toute Ia Terra, il subsiste depois bieo
des Siecles dans les pais les plus policéa; il me s'est jamais ingere
dans les afiaires d'Etet * il n'a jamais fatt que du bien a Ia Bepn-
Miscellanea. 327

Compromisso de um Monte-pio que em seu commum bene-


ficio, e de suas mulheres, filhos, pays e irmaãs instituem
os Professores e Mestres, assim Regios, como os parti-
culares licenciados na Corte, sob a invocação da virgem
Soberana e Immaculada da Conceição protectora des-
tes Reynos, e em especial dos estudos, e letras, que
nelles florecem: e ordenado pela mesma Corporação
para delle se servirem, debaixo dos auspícios de Sua
Alteza Real o Principe Regente Nosso Senhor. Seu
Primeiro Author Joaquim Antonio de Lemos Seixas e
Castle-Branco, Professor Regio na Corte de Lisboa.

Omnium societatum nuJla prawtantior est,


•ulla firmior, quam cum viri boni moribus
similes, sunt familiare conjuncti.
Cie. de Offic. L. 1. Cap. XVII.
Introducçaõ ao Compromisso,
fj 1. Quem, reflectindo na instabilidade das coisas uma-
nas seriamente, debilidade de nossas forças assim phisicas,
que moraes, riscos de uma vida mortal, e as conseqüências
todas, que daqui se podem deduzir, naõ teme, e treme
4 vista de um futuro duvidoso, depois de uma cangada
velhice, consumidas as forças, e tolhidos os meios de ad-
quirir a necessária subsistência ? A raznõ pois natural
mesmo nos insinua a precaver a nossa desgraça antes que
ella aconteça : e he sem dúvida esta providencia do ho-
mem a que tem dado lugar a tautos estabelicimentos de
piedade, que se observaõ na Europa civilizada ; e que o
»«á aieda hoje do presente Compromisso de um Monle-

Mqne, et á ces Citoyens ; il j a tant de Souverains, tant de Grands,


tant de Magistrats, tant d'EccIésiastiques qui sont JVlembrcs de cett«
Societé, que PEtat ne peu rien craindre de ces Assembleés, mais
qu'a ucontraire beaucoup de sujets, et surtout de pauvrçs n'ont que
dubiená en attendre. Inst. Politq. Tom. I*. de Ia Police Cap. 7.
s*l.
tf.28 Miscellanea.
Pio, que os Professores e Mestres, assim Regios, eomo os
particulares Licenciados dos Estudos, e Escolas menores
na Corte, querendo cimentar os laços em que já se unem
como Membros de uma mesma Corporação, cujos tra-
balhos se reúnem em um mesmo fim, que he a Educação,
e Instrucçaõ publica da Mocidade, e isto debaixo do mais
sólido fundamento, e base a mais firme, qual he a uniaõ
Christaã em Jesu Christo, e o amor reciproco para com
o próximo ; assim e do mesmo modo que oppôr algum re-
paro ás calamididades, que antevém, resolveram de una-
nime accordo establecer desta época em o futuro, para o
fim de soecorrerem delle aquelles de seus concorrentes,
que ou a decrepitez da idade, ou alguma outra molés-
tia tenha inhabilitado de suas funeçoes, procurando evitar,
deste modo que elle fique exposto á maior indigencia, e
mendicidade ; e por sua morte, suas mulheres e filhos de-
samparados.
\ 2. Ora para se formar um igual estabelecimento lie
necessário que todos os interessados contribuam para elle,
que haja um Cofre seguro, cm que se reservem os fuitdo»
desta Sociedade para se repartirem em tempo opportuno a
qualquer dos Compromissarios, que se ache nas circum-
«'ancias da applicaçaõ do seu soccorro : precaver as fraudes
e abusos, que o decurso, e a diuturnidade dos tempos
possa introduzir : quem fiscalize e ministre tanto a arreca-
dação, applicaçaõ, e manutenção do Cofre; como a regra
certa, constante e invariável, que deve seguir-se tanto no
geral como no particular de sua Administração, Eco-
nomia, &c. e eis o que nos propomos nos seguintes Capí-
tulos.

CAPITULO 1.—Titulo do Monte-Pio.


He este Monte-Pio privativo dos Professores c Mestre»
assim Regios, como dos particulares Licenciados dos Estu-
dos, e Escola» menores na Corte, que o instituem para si
Miscellanea. 329
e seus futuros successores : e como tal querem que seja
sempre reconhecido sem que possa jamais por motivo, ou
principio algum variar de nome, nem altera-lo com mu-
dança, on accrescentamenlo de letra: Graça esta, que em
especial supplicamos a Sua Alteza Real Real, por conser-
varmos a gloria da sua Instituição: assim como a de nos
permittir, naõ sermos jamais associados a outra qualquer
Instituição, qoe possa, ou venha no fnturo a imaginar.se,
ainda que seja debaixo do mesmo, ou equivalente plano ;
mas só sim o de existir sempre per si, e debaixo da mesma
Regra, Conducta, e o Titulo, &c. com que o temos esta-
belecido, e esperamos de confirmar.

CAPITULO II.—Das Pessoas que tem direito forçoso,


ou. gracioso para serem admittidas ao Monte-Pio.
S I. O Titulo deste Monte-Pio dá bem a conhecer, que
sóficadevolvido aos seus Instituidores, isto he, aos seus
Professores, e Mestres assim Regios, como particulares Li-
cenceados dos Estudos, e Escolas menores na Corte, nm
Direito forçoso á sua admissão a este Compromisso ; mas
porque o nosso desejo he o de ser prestavcl a todos, exten-
dendo no maior número possivel o commum beneficio deste
Monte-Pio, e muito principalmente entre Collegas a quem
a mesma Profissão, e gênero de vida parece unir de mais
perto, c naõ he justo por tantofiquemprivados desta van-
tagem todos os qne, em conseqüência de seus diversos des-
tinos, saõ obrigados a residências alheias e remotas, sejaõ
no Termo, Provincias do Reyno, e seus Senhorios conforme
«* diversos locaes, que ou o seu arbítrio, ou já era fim o
Svttema» e Plano Geral d'Educaçaõ de nossa Monarquia
lhe tem determinado ; portanto he de nossa vontade li-
vre
» e espontânea que os Professores, e Mestres assim Re-
gios, como os particulares Licenceados, sejaõ do Termo
de Lisboa, ou fôra delle de qualquer Provincia do Reyno,
Senhorios, &c. tenhaõ á sua admissão um direito em tudo,
VOL. XVII. No. 100. 2u
330 Miscellanea.
c por tudo igual ao dos próprios Instituidores, que para
isso desde agora lho outorgaõ, e cedem de uma vez para
sempre.
h 2. Que este mesmo direito se entenda a respeito de
qualquer que ten ha exercido o Magistério, ainda que de pre-
sente naõ continue seu exercicio por algum motivo; menos
ode suspensão pela Real Junta em quanto naõ provar por
documento autlienticod'ella, que naõ foi por immoralidade,
ou devassidaõ de costumes.
tj 8. E porque na classe dos Estudos e Escolas, pelo
que pertence á sua Real direcçaõ, ha infinitos empregados,
aos quaes em iguaes circunstancias ás nossas vivendo de
ordinário de precários soldos, e ordenados, julgamos que
faríamos prazer se lhes déssemos accesso a este Compro-
misso ; por tanto julgamos necessário declarar, como com
effeito declaramos, qne pelo presente § se devolve um di-
reito gracioso para poder requerer sua admissão a este
Compromisso a todos os empregados da Real Junta da Di-
rector ia Geral dos Estudos, ou sejaõ na Secretaria d'ella,
ou já era fim em qualquer de suas Commissões, Estabeli-
cimentos, Collegios, &c.
$ 4. Pelo mesmo motivo, e com muita mais razaõ, que
nestes últimos deve dar-se um em tudo igual, e mesmo
gracioso direito a todo o homem de letras publicamente
estabelecido, como saõ Advogados, Ministros, Escrivães,
Tabelliães, &c. todo e qualquer Empregado nas Reaes
Contadorias, Secretarias, Arquivos, Conselhos, &c. e que
seus Privilégios igualem aquelles dos Instituidores, ou qoe
elles Instituidores julguem nesta parte dispensar; pois que
se uns saõ aqui contemplados como necessários instru-
mentos para manutenção das mesmas Escolas, e Estudos,
os últimos só podem e devem reputar-se creaturas, e filhos
d'ellas.
Miscellanea. 331
CAPITULO 111.—Habilitação para o Monte-Pio.
Todo o que se achar nas circumstantias declaradas nos
^. 1. 2. 3. e 4. do Capitulo segundo, e pertender ser
concorrente a este Monte-Pio deverá dirigir-se por seu
requerimento ao Provedor da Meza da Administração do
Cofre do Monte-Pio dos Professores, e Mestres sejaõ Re-
gio», ou particulares Licenceados na Corte, para ser ad-
mittido, devendo outro sim declarar sua Profissão, Em-
prego público, Residência, e Idade, ajuntando os que
ficaõ comprehendidos nos h\ 1. e 2. o seu Titulo taõ so-
mente, e os outros além deste, por onde provem e conste a
Ugitimidade do allegado em seus ditos requerimentos, nma
Certidão do corrente, e outra do Parrocho.—de vita et
moribus.—da mesma sorte qne aos primeiros se requer
quando se bablitaõ para o Magistério, e na conformi-
dade do Edital de convocação de Oppositores ás Cadeiras
vagas pela Real Junta da Directoria Geral dos Estudos,
datado de 31 de Janeiro, do anno de 1800. E sendo de-
feridos, em o primeiro dia de conferência se apresentarão
nella para Matricular-se pagando a Jóia, que se lbe ar-
bitrar na conformidade deste Compromisso, e a qual se
carregará ao Thesoureiro do Cofre, e pagando-se-lhe o
Titulo conveniente, e do estilo a todos os Compromissarios,
para que a todo o tempo conste o direito, que ao mesmo
Cofre tem, e seu beneficio.
CAPITULO IV.—Da Jóia.
%. 1. Todo o compromissario no acto da Matricula
será obrigado a pagar uma jóia a arbítrio da Víeza da Ad-
minibtraçao do Cofre do Monte-Pio, regulando-se sem-
pre esta pela differença das idades em tantos concorrentes,
e qualidades de seus prestimos.
S 2. Mas esta regra de conducta só terá lugar três
mezes depois do estabelecimento deste Monte-Pio, contados
2 u 2
332 Miscellanea.
desde o dia da sua publicação em diante, depois de obtida
a approvaçaõ, e Authorisaçaõ de Sua Alteza Real: sendo
agora uma mesma Jóia igualmente para todos: medida
que pareceo conveniente guardar-se naõ só por equidade,
e justiça; mas ainda pela utilidade, que delia deve re-
sultar ao Monte-Pio, facilitando os meios de maior concor-
rência a elle em seus primeiros fundamentos.
§. 3. N o futuro mesmo deverá haver summo cuidado a
este respeito; pois além de muitas judiciosas reflexões,
que deixamos a fazer sobre este ponto á Meza da Admi-
nistração do Cofre do Monte-Pio, eque seria impossível
precaver na providencia humana, assim como he limitada,
todavia advertiremos que pelo que toca aos Concorrentes
providos em Cadeiras de Concurso, como he necessário,
que ellas vaguem para dar-se o caso do seu provimento,
parece que já mais poderia arguir-se a um tal de omissão,
pelo respeito á idade, ainda que nella se mostre adiantado;
antes que em seu favor pôde bem suppor-se que se mais
cedo a obtivesse, mais cedo teria concorrido : naõ poden-
do nunca attribuir-se-lhe a culpa aquillo que só o hedesua
pouca ventura. Mas se um tal fosse já particular Liceu-
ceado, entaõ naõ mereceria a indulgência que lhe conce-
demos, e que deve ser igualmente applicavel a outro qual-
quer Concorrente provado o propinquo estabelecimento.
§4. Da proporção destas medidas, pelo que toca ao arbítrio
da Jóia, naõ se julgue pois que nossa intenção he a de sobre-
carregar os Concorrentes a este Monte-Pió, sendo so sim o
de regular-nos precavendo do modo possivel no futuro to-
do o dolo, ou malícia da parte daquelle, que podendo ter
contribuído á muito tempo, para o accrescimo, e aug-
mento do Cofre, de propósito o naõ tem feito por sórdida
avareza, ou uma mal entendida economia, podendo-se pre-
sumir de ura tal ainda entaõ, quando o faz, que naõ he
fundado em alguma razaõ da caridade Christãa, ou amor
do próximo; mas só sim na intenção de disfructa-lo, por-
Miscellanea. 333
que a um similhante pôde bem apropriar-se-lhe aquelle
Texto de S. Paulo.—Siquis non vult operari, nec mandu-
ceí—Se algum naõ quer trabalhar, naõ coma : (11. Thes-
sal. 10) e escusa de vir defraudar o patrimônio de pobres,
que se o tem adquirido he á força de operar para elle.

CAPITULO V.—Das Contribuições dos Compromissarios.


§ 1. Todo o Compromissario fica responsável um mez
contado depois do dia de sua Matricula em diante, e to-
dos os mais que se seguirem conforme o seu computo ás
prestações mensaes para o Cofre do Monte-Pio, que será
obrigado a satisfazer ao Thesoureiro delle no primeiro dia
de Meza, ou conferência depois do seu vencimento, co-
brando um recibo geral, que sirva a todo o tempo de
clareza para a sua descarga.
% 2. Como pode sueceder porém que algum, por
qualquer incidente, seja impossibilitado de cumprir a esta
satisfacçaõ, c que a falta seja por isso involuntária, con-
cede-se um prazo de três mezes de espera a um tal, findo
o qual no caso de nao ter satisfeito ainda ou por si, ou
por seu bastante Procurador, ou ao Continuo, a quem na
forma deste Compromisso authorizamos para fazer simi-
lhantes cobranças ; será elle notificado por Aviso expe-
dido pelo Secretario da Meza da Administração do Cofre
deste Monte-Pio, para o fim de apresentando-se em Meza
dar na primeira conferência conta dos motivos, que lhe
assistem para a falta do prompto pagamento de suas Con-
tribuçoens mensaes : os quaes se forem todavia justos, a
Meza deverá deferir a elles ; mas se pelo contrario ou se
provar revelia, porque nesse caso será entaõ banido para
sempre desta Sociedade, e perderá a Jóia, e Entradas, que
tiver no Cofre em beneficio do Monte-Pio. Advertindo-
» porém, que qualquer que seja o motivo, que possa dar
causa à Meza da Administração do Cofre para a expulsão
de um dos Concorrentes a elle, todavia elle naõ poderá
nunca proceder desta maneira abitraria, mas só definitiva-
334 Miscellanea.

mente por resolução tomada em Meza á pluralidade de vo-


tos, de que se lavrará o competente Termo, e nunca sem
que primeiramente seja ouvida a Parte interessada, ou se
prove nella revelia.
[Continuar-se-ha.]

FRANÇA.
Processo do Abbade Vinson.
Paris, 4 de Septembro. Ainda que o processo do Ab-
bade Vinson, author da Concordai expliqueê au Roí,
teve lugar hontem, como cousa de Policia Correctional, e a
portas fechadas, com tudo ajunctou-se muita gente para
ouvir a decisaõ, sabendo que a sentença por força havia
de ser publica.
Mr. Emery, o Advogado d'El Rey requereo, que se
supprimisse a obra, e que se declarasse seu author cul-
pado de instigaçoens sediciosas, contra a ley de 1815.
Mr. Roussaible, Advogado, fallou a favor do Abbade
Vinson.
A s 5 horas a Corte pronunciou a sentença, que,em sum-
ma, he a seguinte :—
Considerando ; 1*. Que o Sieur Abbade Vinson, he, se-
gundo a sua mesma confissão, author da publicação de que
se tracta :
2°. Que em todo o decurso daquella obra o Abbade
Vinson, desattendendo o artigo 9 da Carta, e o artigo 13 da
Concordata, tem characterizado de pilhagem, e roubo ma-
nifesto a venda dos domains nacionaes ; e os seus compra,
dores e possuidores, ainda mesmo os do presente dia, la-
droens sacrilegos : que elle tem trabalhado por assustar
as consciências dos dictos possuidores, ameaçando-os com
a vingança do Ceo ; e mantendo que o Papa e os Bis-'
pos naõ podiam legalizar a confiscaçaõ dos bens da
Igreja. 1
Considerando, que, em outra passagem, elle censur;
Miscellanea. 335
severamente o procedimento do nosso Sancto Padre o
Papa, e o Corpo da igreja Gallicaua, que elle designa
debaixo do nome de Concordataire, e denomina scisma-
tica; qac, obrando assim, o Abbade Vinson, quaesquer
que tenham sido as suas intençoens, tem instigado o povo
Francez a violar a ley do Reyno, mantida, ao menos pro-
visionalmente, pela charta, etem faltado ao respeito a El
Rey, e tem até fomentado a desobedencia á sua authori-
dade:
Portanto, o tribunal supprime a obra, sentencea o Sieur
Abbade Vinson a três mezes de prizaõ ; podendo o Procu-
rador d'El Rey fazer a este respeito, um arranjo com os
superiores ecclesiasticos do Abbade Vinson ; e outro sim
o condemna em 50 francos de muleta, e a continuar por
dous annos debaixo da superintendência da Alta Policia ;
e fixa a somma da sua fiança em 300 francos ; e ordena
outrosim que pague as custas.

Carta do Duque de Otranto ao Duque de Wellington.


(Continuada de p. 239.)
Rogo aos que me aceusam por ter assignado a ordena-
ção de 24 de Julho, que se supponham naquelle periodo.
Se mefossepossivel riscar alguns dos nomes, que nella se
incluem, inserindo o meu no seu lugar, eu naõ teria hesi-
tado um momento. Porém julguemos sem prejuizo a si-
tuação das cousas.
Todos os espíritos se achavam de antemão penetrados da
idea de que o throno tinha sido derribado, em conseqüên-
cia de uma extensa conspiração ; que grande numero de
pessoas estava involvido na intriga, que tornou a pôr Na-
poleaõsobre o throno ; que a maioridade entretinha contra
o Governo certa aversão, cuja desenvoluçaõ poderia al-
gum dia perturbar a Europa.
Eu tenho combatido este erro com todas as minhas forças,
ede lodosos modos possíveis ; elle éra, porém, tam ge-
ral, etinharaizes tam profundas, que os mesmos, que érara
336 Miscellanea.
mais intressados em dissipállos guardavam o silencio
Processos solemnes tem justificado as minhas palavras, e
os meus escriptos.
O numero das pessoas affeiçuadas a Napoleaõ naõ éra
mui grande. O povo desejava nova ordem de cousas;
porém temia o seu despotismo; e a fim de empregar a
opinião publica foi obrigado a annunciar, que a Inglaterra
e a Áustria o supportávam : as suas proclamaçoens fizeram
crer ao povo, que elle voltava ainda maior homem, com
os fructos da reflexão durante o seu extermínio; que estava
curado de sua ambição, depois de ter experimentado
todas as suas inesperadas e terríveis desgraças, que
contra elle haviam trazido os accasos, e os acontecimentos
da guerra.
Os Francezes mudam-se com extraordinária facilidade,
e depressa adq u^rem confiança: elles creram que Napoleaõ
começava agora nova vida, e novo reynado, depois de
ter, durante um anno, ouvido na ilha de Elba, como
n'um túmulo, tudo quanto a verdade assim como o ódio
disse na Europa de seu primeiro reynado e de sua pri-
meira vida.
A idea de uma conspiração tinha-se espalhado por to-
dos aquelles, que desejavam as proscripçoens. A minha
demissão, antes que eu tivesse provado a falsidade e per-
versidade disto, teria feito milhares de victimas. Eu
tomei a resolução de assignar a ordenação de 24 de Julho,
a fim de reprimir a reacçaõ e de diminuir o numero da-
quelles que ella desejava sacrificar. Se eu me tivesse reti-
rado, ter-nie-hiaõ imputado todos os males, que preveni,
deixando-me ficar no meu posto.
Era ordem a apreciar cabalmente o meu comporta-
mento, observe-se, naõ que as paixoens adquiriram a
ascendência, mas que lugar me assignâram essas pai-
xoens, qual hc a primeira victima que ellas marcaram.
Leam-se outra vez os meus relatórios a El Rey ; (elles
Miscellanea. 337
tem sido mutilados ; e os publicarei genuínos, eu sçm al-
teraçoens) procurem-se nelles as causas do excessivo ódio
de que eu sou objecto. A naçaõ os tem entendido. En-
trarei em algumas particularidades, a fim de responder aos
que tem achado, que os meus relatórios a El Rey naõ eram
assas respeituosos, e que a minha administração naõ éra
vantajosa no seu serviço.
Menos me importa que me accusem de ter dicto a
El Rey cousas serias e ainda mesmo árduas, do que de lbe
ter dado consolaçoens mal fundadas e vaãs, ou incertas
esperanças, i Quam dignos de compaixão saõ os Prín-
cipes ? Os seus palácios retumbara com alegrias, e o povo
o diz e deseja para todos, excepto para elles.
Como éra do meu dever descubrir, sem algum paliativo,
a intenção do Estado, éra necessário que, antes de ne-
nhuma outra cousa chamasse a attençaõ do Rey para os
males mais próximos, e para os perigos que cercavam o
seu poder. O throno estava abalado pelos alicerces; e éra
altamente importante naõ errar, a respeito das cousas. se-
cretas e profundas, que eram somente as que conduziam
a taes acontecimentos ; e podiam ainda preparar outros si-
milhantes, se naõ fossem conhecidas.
Expliquei portanto a S. M. todas as difficuldades, que
se oppunham ao firme estabelicimento de sua authoridade.
O maior interesse de qualquer naçaõ hc, que o seu Go-
verno seja immutavel; porque os laços que unem as
partes do corpo social (obra de séculos) apenas podem
tornar a ganhar a sua solidez original, quando uma revo-
lução tem tido tempo de os dissolver. He também quasi
sem exemplo, que uma Monarchia, interrompida na sua
duração, se possa tornar a restabelecer ; ao menos he im-
possível, depois de uma interrupção de vinte e cinco an-
nos, edificalla de novo como d'antes éra, particularmente
em uma naçaÕ, cujas ideas saõ sugeitas a tam rápidos
movimentos. Acha-se entaõ apenas uma pequen parte
VOL. XVII. N o . 100. 2 x
338 Miscellanea.
dos elementos de seu antigo poder: seus principios, leys,
interesses, ja naõ saõ os mesmos, elles se tem unido com o
decurso do tempo e progressos dos conhecimentos.
Entre os obstáculos tenho distinguido aquelles, que se
originam do nosso actual estado de guerra, e os que pro-
cedem das nossas infelizes dissençoens domesticas. A
exposição dos primeiros apresentava as maiores difficul-
dades. Eu naõ temia apresentar ante os Soberanos Allia-
dos verdades úteis, e dirigir a sua attençaõ á representa-
ção de nossas desgraças. As tropas estrangeiras, que in-
undaram a França, pareciam dar occasiaõ a duas ob-
servaçoens oppostas : por uma parte ellas preenchiam os
nossos desejos trazendo-nos a paz ; e, neste pouto ds
vista, ellas tinham tanto direito á nossa gratidão como á
nossa confiança. Por outra parte os excessos de alguns
corpos acarretavam sobre nós todas as misérias, que po-
dem cair sobre uma naçaõ. A volta d'El Rey, por cir-
cumstancias, que lhe eram inteiramente extranhas, viria a
ser a mais infeliz era da nossa historia ; e o mesmo throno
seria como derribado por uma maõ, quando a outra o
tinha levantado.
Taõ sérias consideraçoens me tinham obrigado a repre-
sentar a El Rey, as conseqüências tam fataes ao respeito
que a naçaõ lbe devia ter, e que se seguiriam deste ines-
perado systema de gradual occupaçaõ de nossas provincias,
quando naõ se lhe fazia opposiçaõ alguma; e daquellas
medidas violentas continuadas em uma guerra, que prin-
cipiara generosamente para tam elevado objecto. O amor
de um povo para com seu Governo, sempre soffre pelas
desgraças do paiz.
Requeria-se alguma coragem para fazer estas verdades
conhecidas: ellas produziram um saudável e prompto
melhoramento na nossa condição. Os meus serviços a este
respeito nem ao menos fôram mencionados; naõ se tinham
exigido serviços deste gênero.
Miscellanea. 339
Até para o interesse das Potências Alliados foi do meu
dever fazer-lhes a mesma pintura. Quanto o character
Francez possue de energia, particularmente em ele-
mentos para uma respentina explosão de soa força, naõ
lhes éra suficientemente conhecido ; e a este respeito te-
riam ellas razaõ de se queixar doroeusilencio.
£u tinha de fallar a Soberanos generosos e de altos es-
píritos ; eu podia aventurar-me a observar-lhes, qoe, na
nossa idade illuminada, a victoria naô basta para justificar
todos os abusos do poder. Ninguém faz mal a si ex-
presando sentimentos nobres e elevados, perante grandes
Príncipes; muitos tem sido egregiamente enganados, pen-
sando entregar-me ao ódio das naçoens estrangeiras ; a
minha linguagem foi julgada conforme os deveres, que
me incumbiam.
Em outro relatório sobre a situação da França, em
que a considerei relativamente á sua desunião politica,
tive de escolher entre duas cousas, que naõ se podiam de
fotma alguma conciliar: ou supprimir a verdade, ou
dizêlla inteiramente. Eu naõ hesitei; perigava o bem do
Principe, a quem eu servia ; eu tinha simplemente de con-
sultar o meu dever, pintei os differentes partidos como
elles eram ; mostrei a sua fraqueza ; fiz patentes as suas
vistas, e submissão que delles se devia esperar, e as con-
cessoens que elles esperavam. Representei as duas grandes
facçoens, que nos perturbam, e cujo conflicto traria o
Estado ao maior perigo. Se assim se engana aos grandes
da terra, he preciso confessar, que he ura novo modo de
enganar. Eu naõ tenho descuberto a El Rey os nomes dos
Bealistas, que se declararam contra a sua authoridade, e
n
egociaram com Napoleaõ. Eu naõ desejei levantar a
cortina • aquelles, cuja honra foi salva, poderão voltar á
virtude.
Havia somente dous meios de servir a El Rey ; aug-
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mentar o seu poder phisico ou o moral. O poder phisico
he algumas vezes necessário, para supprimir as desordens;
mas naõ he sufficiente para estabelecer uma ordem du-
rável de cousas.' Veremos se a este respeito eu fiz tudo
quanto estava em meu poder. Na minha Memória repe-
tirei ainda algumas observaçoens, que fiz, sobre o Exer-
cito, a Guarda Nacional, as Câmaras, Opinaõ Publica, &c,
Devo confessar, que a Administração, a que eu perten-
cia, possuía juizo, amor do que éra bom, grande habilidade
para os negócios ; porém os novos trabalhos sobre o pas-
sado lhes fez esquecer demasiado os perigos do futuro :
vários de nossos actos careciam de precaução ; faltava-nos
energia, uniaõ contra nossos opponentes, e uma idea com-
mum em nossos trabalhos. Queixavam-se da pouca ener-
gia da Policia ; porque se naõ dirigia unicamente contra
aquelles, que se desejava ver arruinados. Com tudo man-
tinha-se cm respeito toda a espécie de má disposição :
nada ficava sem castigo: o exercito estava inquieto mas
obedecia : nos trabalhávamos por trazer todos os partidos
á submissão, ao sacrifício de suas ideas exaggeradas, á
ordem. Naõ bastava moderar as paixoens no Sul do Rey-
no : ellas deviam estar encadeadas. Eu repeti aos magis-
trados daquellas partes o que a consciência do gênero hu-
mano nos diz tantas vezes, que naõ ba senaõ uma van-
tagem, de que naõ precisamos separar-nos: a Justiça.
Eu disse a El Rey, que, no meio das reacçoens, naõ havia
tranqüilidade publica, nem throno, nem naçaõ.
Se a multidão receber o exemplo da violência daquelles
que lhe devem dar o exemplo de moderação, deve esperar-
se, que ella derribará todas as barreiras entre ella e os
crimes. Quando a licenciosidade e a servidão tem alter-
nativamente inflamado as paixoens de um povo, ha mui
poucos homens, que altendam á vóz da razaõ. i Que im-
porta aquelles, que voluntariamente deixam ao furor e
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raiva governar em vez das leys, que se arisque a indepen-
dência do seu paiz, e que estremeça o throno? i Que
lhos importa o lucto das familias, as execraçoens publicas,
com tanto qne elles possam satisfazer ás suas vinganças ?
Parece que ha dias, em que a lembrança do passado, o
aperto do presente, e a esperança ou temor do futuro pro.
duzem nas cabeças dos homens toda a sorte de desordens e
loucura, i Que scena naõ apresenta a França aos olhos
da Europa ? Quando as prisoens estaõ cheia?», quando el-
las se tem acerescentado, poderá esta severidade dar á au-
thoridade d'El Rey tam durável solidez como ella teria se
a França se tivesse tranquillizado por ideas de segurança
e brandura ? i Que se fará, quando os homens fallarem
uns com os outros, o que he sempre o caso depois da op-
pressaõ ? Se uma parte do povo tem sido dsencaminhada,
impedillo-ha a perseguição e a desgraça a que naô tome
parte em nova rebelião ? Todas as cousas humanas tem seus
limites; a paciência he susceptível somente de certo gráo
de submissão. Um povo naõ pôde permanecer socegado,
quando lhe põem constantemente diante a idea de nm fu-
turo, que o drshonra ou o ameaça. Até o seu descanço,
caso se pudesse manter, seria somente um estado de con-
strangimento.
Eu fui encarregado de vigiar pelo apoio do throno, e
segurança do Estado. NaÕ se deve crer que estes deveres,
depois de tam grandes mudanças no nosso espirito publico,
nas nossas instituiçoens, e nas nossas maneiras, se podiam
preencher pelos mesmos meios. Tudo se tem mudado
durante os progressos da civilização. Tem feito um feliz
progresso ; porém também nos tem levado a novos desvios.
Naõ se acha ja a mesma submissão; nada está no mesmo
wtado. Trabalhos de novo gênero tem sido produzidos
Pelo conflicto antes desconhecido das opinioens políticas:
e em quanto a segurança do Estado e a tranquillidade
publica estaõ expostas a mais perigos, a suppressaõ delles
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tem perdido em celeridade e mesmo em vigor, pelas ga-
rantias concedidas á liberdade do individuo. Ja se naõ
pode governar o gênero humano da mesma forma. Os
meios de ganhar influencia sobre o povo, os maiores resul-
tados a que um Governo pôde chegar, tem soffrido em
igual gráo. A Religião e a moral naõ saõ senaõ um fraco
auxilio das leys : a opinião publica, ingrediente inteira-
mente novo na ordem social, tem adquirido tanta conside-
ração e poder, que se tem feito a rival do Governo. A
obediência, que tem agora os seus direitos, se exerce no
maior gráo para defender esses direitos. Pode-se castigar
a opposiçaõ, porém mostra-se mais abilidade em a con-
quistar. O poder pode fazer com que as ordens sejam
executadas : porém a linguagem da violência possue mui
pouca consideração, se naõ he supportada pela persuasão,
e fundada na razaõ. A fim de ser ouvido pelos diferentes
partidos he necessário entrar nestas paixoens, fallar a cada
um na sua linguagem. J a naõ ha uma eloqüência uni-
versal.
No meio de tantas difficuldades a Policia ha mister de
novos meios e acoroçoamento. Ainda que em geral a sua
esphera de acçaó he extensa, havia pontos cm que a fize-
mos desnecessária. -t De que serve ao Governo Real
aquella inquieta e mesquinha pesquiza das relaçoens do-
mesticas, expressoens inconsideradas, e at