You are on page 1of 3

O excerto, do qual é alvo a atual recensão, insere-se no segundo capítulo da

referida obra, enquadrando-se, portanto, na grande temática sobre o mistério trinitário


de Deus, a Trindade Económica e a Trindade Imanente.
Assim sendo, o autor começa por dizer que só com a revelação em cristo é que
temos acesso ao conhecimento de Deus, Uno e Trino, de outro modo não poderá ser.
Logo, a Trindade Económica é o único caminho para o conhecimento da “teologia”, isto
é, a Trindade Imanente.
De facto, como é exposto na obra, esta relação entre a economia e a teologia foi
muito discutida na teologia por muitas ocasiões. Um motivo para o qual foi a formulação
de K. Rahner, o “axioma fundamental” da teologia trinitária: “a Trindade econômica é a
Trindade imanente, e vice-versa”. Ou, por outras palavras: Deus uno e trino revela-se na
“economia”, tal como é sua vida imanente, através da revelação de Cristo temos um
acesso verdadeiro à “teologia”.
A revelação do mistério de Deus em toda a sua profundidade acontece
unicamente em Jesus. Só pela fé nele temos acesso a esse mistério. Se acreditamos nele
realmente como o Filho de Deus podemos ver nele o Pai (cf. Jo 14,9). A revelação de
Deus, enquanto revelação salvífica em si mesma acontece na realização mesma de nossa
salvação por obra de Jesus Cristo. E, assim, o Deus que se nos revela mostra-nos tal
como é em si mesmo, caso contrario, não haveria revelação verdadeira. A revelação de
Deus é em si mesma um ato de salvação, acontece só na concretização da nossa salvação
por meio de Cristo. O modo como a Trindade se nos apresenta na economia da salvação
espelha, portanto, o modo como é em si mesma.
Um erro que poderia ocorrer seria dizer que as pessoas divinas agem
“separadamente”. Há que evitar explicar muito este princípio, pois Deus tem sempre
em si mesmo a distinção pessoal. Em toda a sua atuação de Deus fora de si, ad extra,
trabalham unitariamente as três pessoas divinas. Deus é um só princípio da criação e da
história da salvação, e assim não podemos nunca falar de três princípios. Mas não se
pode deduzir que este seja o único princípio em si mesmo indistinto.
Existe um caso em que sabemos que há uma atuação para fora, em que as
pessoas atuam diferenciadamente: a encarnação. Somente o Filho assumiu
hipostaticamente a natureza humana. Não se trata de afirmar que as outras pessoas não
tiveram parte nesse evento: sabemos muito bem que não é assim. “Foi o Pai que enviou
o Filho ao mundo, e também isso é uma atuação própria da pessoa do Pai” (cf. Jo
3,17.34; Rm 8,3; Gl 4,4). Por outro lado, “o Espírito Santo que desce sobre Maria faz
possível a encarnação” (cf. Lc 1,35; Mt 1,20; DS 150). Na encarnação, em toda a vida de
Jesus sobre a terra, e na sua ressurreição e exaltação à direita do Pai e no dom do
Espírito que se segue a essas, temos uma atuação diferenciada das pessoas divinas na
história salvífica. Durante alguns tempos foi doutrina comum que qualquer das pessoas
divinas poderia ter-se encarnado, embora sempre se tenha insistido na “conveniência”
da encarnação do Filho. Assim pensaram, por exemplo, os escolásticos, Boaventura e S.
Tomás de Aquino. Quanto a Pedro Lombardo terá sido o primeiro a dizer que qualquer
uma das três pessoas se poderia ter encarnado. Contudo, houve sempre a conveniência
de ser o Filho a encarnar. Pois se o filho encarnou é porque é, em si mesmo, o revelador
do Pai, ao ser a sua imagem perfeita.
A encarnação mostra-nos a verdade última do ser do Homem. Existe uma relação
fundamental e interna entre o Logos e a natureza Humana: “o Homem é possível porque
é possível a alienação do Logos” (K.Rahner). Deus comunica-nos tal como é em si mesmo
e assim o Deus Uno e Trino é a nossa salvação e claro o nosso Salvador.
O amor de Deus manifesta-se quando nos deu o Filho como o salvador do
mundo. O Pai envia-nos o Espirito do Filho aos nossos corações. Assim, há portanto uma
correspondência entre a Trindade económica e a imanente, são a mesma, diz-nos
K.Rahner.
Uma questão que pode causar problemas, isto é, mal-entendidos, na segunda
parte do axioma de K. Rahner, o “vice verça”. A revelação da Trindade na economia
salvífica funda-se na Trindade imanente, mas esta última poderia existir sem a
manifestação económica. Mas é necessário destacar que a comunicação económica da
Trindade imanente é “gratuita e livre”, como nos diz Rahner. Não significa que a
Trindade imanente tenha mais valor que a económica. A Trindade imanente comunica-
se livre e gratuitamente na economia da salvação. K. Rahner explica-nos que há uma
certa distinção, mas não separação. A Trindade imanente não se realiza, nem se
completa, nem se dissolve na economia. A Trindade é uma unidade que se realiza num
processo de doação reciproca. Assim, Deus não é Deus sem o mundo, pois pertence à
sua essência, ser o Criador do mundo.
O mistério de Deus trino, transcendente a este mundo, só se pode conhecer
através da revelação da Trindade económica, o mesmo que dizer, através da revelação
de Jesus. Mas, como a Trindade imanente não se realiza nem se perceciona com o
desenvolvimento da economia da salvação nem se “dissolve” nela, nem tao pouco se
“esgota” na dispensação salvadora em que se comunica livre e gratuitamente. Deus faz-
nos ver mais acerca do seu mistério insondável, não o elimina. Deus dá-nos como é
realmente, mas o seu ser é infinitamente maior do que o que nós podemos receber.
De facto, temos que ser discretos quando dizemos “e vice-versa”, pois só na
consumação dom escatológica é que Deus se auto-comunica. Esta segunda parte do
axioma fundamental foi por alguns teólogos católicos questionada se não seria melhor
a sua eliminação, para fugir desse problema. Para Ladaria, esta parte do axioma não se
pode suprimir, se assim fosse, era possível questionar a revelação do mistério trinitário.
Sem a segunda parte do axioma, a primeira fica sem conteúdo.
O teólogo, Balthasar diz-nos que, a Trindade económica aparece como a
interpretação da Trindade imanente que, não obstante, o ser princípio fundante da
primeira, não pode ser identificado sensivelmente com ela, pois caso isso a Trindade
imanente corre o risco de reduzir a Trindade económica.
Deve-se evitar toda a confusão entre o acontecimento de Jesus Cristo e a
Trindade. A Trindade não se constituiu simplesmente na história da salvação pela
encarnação, cruz e pela ressurreição de Jesus Cristo, como se Deus necessitasse de um
processo histórico para chegar a ser trino. Há que manter, portanto, a distinção entre a
Trindade imanente, em que a liberdade e a necessidade são idênticas na essência eterna
de Deus e a economia trinitária da salvação, em que Deus exerce a sua própria liberdade.
A liberdade não significa por conseguinte que a economia salvadora não afunda as suas
raízes no ser divino. Por o contrario. Pelo derrame do seu amor, Deus quis desde toda a
eternidade criar o Homem para o fazer participante na sua vida.