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“ Paraíso zona sul”de Jô Bilac

COPACABANA

“Escorial do medo ”

(Mauro, armado, coagindo Fatinha num quarto barato de um motel.)

Mauro: (violento, descontrolado, sacudindo a jovem) Cadê a vagabunda da sua amiga?

Fatinha: Me larga, você está me machucando!!!

Mauro: É pra machucar mesmo, sua pilantra! Ordinária!

Fatinha: Covarde! Me solta!

Mauro: Escuta aqui, escuta! (num controle viril) Vocês pensam que eu tenho cara de otário?
Olha aqui! Olha aqui na minha cara, sua vagabunda! Olha! Diz se eu tenho cara de otário! Diz!
Diz aqui na minha cara!!!!

Fatinha: Vai pro inferno! (cospe nele)

(tempo)

Mauro: (mais calmo, diabólico) Tudo bem. Eu vou esperar. Ela vai chegar uma hora. Isso. Uma
hora ela chega. Daí... Daí a gente bate um papo.

Fatinha: (caída no chão, num sopro) Vai embora... Eu já disse que eu não sei de nada...

Mauro: O lance é com sua amiga. E se você é parceira dela, sinto muito. Vai pagar junto.

Fatinha: Você pensa que eu tenho medo de você? Eu não tenho medo de você.

Mauro: Não? Pois deveria ter...

Fatinha: E por causa de que? Só porque você está armado? Isso não faz de você uma ameaça.
Eu não tenho um pingo de medo.

Mauro: Qual é seu nome?

Fatinha: Não interessa.

Mauro: (puxa o cabelo dela) Minha paciência tem limite! Responde! Qual é o seu nome!

Fatinha: Ai! Me solta!!!! Socorro!!! Socorrro!!

(solta a jovem)

Mauro: Fatinha. Seu nome é Fatinha.

Fatinha: Bruto! Se sabia, por que perguntou?

Mauro: Ela também se chama Fatinha. E a que morreu também se chamava Fatinha... Deveria
ser proibido, ouviu? Deveriam proibir mulheres como vocês usarem o mesmo nome que o
dela. Ela não merecia ter o nome maculado de maneira tão ordinária!
Fatinha: Ela era a pior de todas!

Mauro: Cala a boca!

Fatinha: (numa gargalhada satânica) A pior! Não valia nada! Esgoto, estrume, estrupício de
marca maior!

Mauro: Eu não permito!

Fatinha: Ah, você não permite! Não permite o que? O que você não permite? Vai lá! Fala!
Agora eu quero saber! Não permite o que?

Mauro: (infantil, agarrado na lembrança vã) Fatinha...

Fatinha: Fatinha pintava os canecos!

Mauro: Não a que morreu!

Fatinha: A que morreu sim!

Mauro: Você está confusa. Está falando da sua amiga ordinária...

Fatinha: (deprimida, chorosa ) Sim. A minha amiga ordinária... Ela não vai voltar Mauro.

Mauro: Você não pode ter certeza...

Fatinha: Ela deixou esse bilhete pra você...

Mauro: (toma o bilhete e lê rapidamente) Quando foi isso?

Fatinha: Ontem. De tarde. Quando cheguei já não havia mais nada além do bilhete.

Mauro: Cadela! Cadela!!!!!!!!!!!!!! Como ela foi fazer isso comigo?

Fatinha: A que morreu te amava, Mauro, assim como eu. Mas a que foi embora só queria o seu
dinheiro! Será que você não consegue perceber? Seu estúpido! Fatinha é uma rameira
gananciosa, seu coração apodreceu dentro do peito.

Mauro: (desnorteado) Mentira! Isso é mais um golpe de vocês duas!!! Eu vou esperar aqui! Ela
vai chegar!

Fatinha: Aceita a verdade, Mauro!

Mauro: Não...

Fatinha: Aceita!

Mauro: Não!!!

Fatinha: Então vai embora e me deixa em paz!

Mauro: A sua amiga não presta. Você não presta.


Fatinha: E você presta, Mauro? (possessa, com lágrimas, firme!) Você presta? Me diz! Quem
aqui presta? Ninguém, entendeu? Ninguém aqui presta! Estamos com a lama até o pescoço e
isso nos basta!

Mauro: (chora) Um bilhete escrito a batom... Foi tudo o que ela me deixou: um bilhete escrito
a batom...

Fatinha: Eu escrevi o bilhete.

Mauro: O que?

Fatinha: Ela foi embora, fiquei com pena de você e escrevi o bilhete.

Mauro: Mentira!

Fatinha: Verdade! Cheira a minha boca. Cheira! É o mesmo cheiro desse batom. Está vendo.
Ela foi embora sem te dar satisfação. Ela se lixou pra você e você fica aí, que nem um babaca
chorando, com arma na mão. Ela não merece uma bala, Mauro! Uma bala!

Mauro: Por que você fez isso?

Fatinha: Pena! Eu tenho pena de você. Eu vi toda a cena. Você chegando aqui, armado,
procurando por Fatinha... A que foi embora. Ela saiu daqui gargalhando, fazendo a sua caveira.
Fiquei com dó de você. Achei que poderia aplacar a sua dor com um bilhete supostamente
escrito por ela. Um bilhete de amor. Escrito a batom.

Mauro: Mas isso não é um bilhete de amor! Ela diz aqui que me odeia!

Fatinha: (muito digna) Na metade do caminho fiquei com raiva e acabei colocando algumas
verdades.

Mauro: Eu odeio você, Fatinha! Você não vê a minha cara nunca mais!

Fatinha: (se agarra aos pés dele) Não! Mauro! Não! Foi tudo da boca pra fora!

Mauro: Não se brinca com os sentimentos dos outros, Fatinha! Você nos usou como
marionetes em suas mãos! E nós dançamos a sua música! Mas agora: acabou!

Fatinha: (agarrada nele) Mauro! Não! Não vá embora! Por favor!

Mauro: Me solta!

Fatinha: Eu não quero ficar aqui sozinha!!! Não me deixa!

Mauro: Pois é assim que você vai ficar a partir de agora: sozinha! Largada! Desistida!
Recusada!

Fatinha: Não me deixa, Mauro! Pelo amor de Deus! Não me deixa!

Mauro: (cruel) Tá com medo agora?

Fatinha: Estou.
Mauro: Com medo de que?

Fatinha: Dela.

Mauro: (interessado) Fatinha?

Fatinha: (num pavor cego) Fatinha...

Mauro: Ela volta aqui?

Fatinha: Volta... Sempre depois da meia noite...

Mauro: Ela vem hoje?

Fatinha: Seguramente.

Mauro: Ela não fugiu com o meu dinheiro! Foi tudo uma invenção sua, não é? (animado,
animalesco)Diz, vagabunda! Você me atraiu até aqui com seu orgulho de mulher rejeitada e
quis envenenar o meu amor! Não é isso? Diz! Fatinha me ama! Isso você nunca poderá mudar!
Você é um monstro, uma fossa entupida de rancor!

Fatinha: Estúpido! (transportada, vidrada) A que morreu... Estou falando da que morreu... Ela
volta aqui... Se sente culpada... Quer o meu perdão...

Mauro: Perdoa...

Fatinha: Não. O que ela me fez não merece perdão.

Mauro: Então fica aqui com seus fantasmas!

Fatinha: Eu quero um tiro! Eu mereço um tiro!

Mauro: Não. Aqui só tem duas balas. E essa bala já tem dona. Eu vou até o fim do mundo, se
for preciso, para entregar pessoalmente.

Fatinha: E a outra? A outra bala!

Mauro: A outra é minha. Vai ficar aqui, bem aqui. (em sua fronte)

Fatinha: Mauro! Eu quero um tiro! Me dá um tiro! Prefiro um tiro a ter que ficar aqui com ela!!
Eu não quero ficar aqui com ela!!

Mauro: Um cemitério de Fatinhas... Isso... Um cemitério com todas elas...

(entrada lenta, espectral de todas as Fatinhas, mortas. Rostos cobertos por véu.)

Mauro: Um cemitério de Fatinhas e você será o coveiro!

Fatinha: Não! Isso nunca!

Mauro: Você fica viva pra contar a história! Enterrada viva! No meio das mortas!

Fatinha: (desesperada) Não! Me dá um tiro! Eu te imploro! Eu mereço! Eu mereço esse tiro!


Mauro: (saindo gargalhando) Um cemitério de Fatinhas e você de coveiro!!!

( Mauro sai)

Fatinha: Não!!!! Não!!!! Isso nunca! Nunca!!! (tomada por cólera, para as mortas) Vai
embora! Vai embora!!!! Eu nunca vou perdoar você! Nunca! Nunca!!!!!!!!!!!!!!!!! Vai
embora!!! Vai embora!!!

(luz caindo em resistência)

(escuridão)

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GLORIA

Personagens: Vicentinho, meio careca.


Bruna, meio sensual.

Voz rouca, meio vingativa.

(telefone toca)

Vicentinho: (gentil, coçando a cabeça com um lápis) Doceria “Paraíso na boca”, em que posso
servi-lo?

Voz rouca: Alô, Vicentinho?

Vicentinho: Sim é ele. Quem fala?

Voz rouca: Alguém que não gosta de ver os outros fazendo papel de palhaço.

(tempo)

(o lápis cai no chão)

Vicentinho: (trêmulo, já suando nas têmporas) Algum doce especial? Uma encomenda?

Voz rouca: (risada sardônica) Tá sentado, meu camarada? Porque segura que é badejo..............

Vicentinho: O senhor poderia ser mais específico... Não estou ouvindo bem?

Voz Rouca: É sobre Bruna, a sua mulher.

Vicentinho: (dissimulado) Fala mais alto, por favor, senhor.

Voz Rouca: Bruna, a sua mulher, faz barba, cabelo e bigode!


(silencio)

Voz rouca: Você está aí?

(silencio)

Voz rouca: Vicentinho?

(silencio)

Voz rouca: Vicentinho...

Vicentinho: Duas xícaras de leite e meia dúzia de ovos. Separa a clara da gema, mas não joga a
gema fora, se aproveita mais tarde.

Voz rouca: Tem alguém aí com você? Chegou alguém na loja? Você ouviu o que eu falei?

Vicentinho: Como se faz um bolo de nozes. Duas xícaras de leite e meia dúzia de ovos. Separa a
clara da gema, mas não joga a gema fora, se aproveita mais tarde.

Voz rouca: Não faz o louco! Você me ouviu muito bem... Bruna, a sua mulher, faz vida na zona!

Vicentinho: (sem expressão alguma) Sim, um bolo de nozes é mais fácil do que você imagina. O
segredo está na farinha, às vezes o barato sai caro, é melhor pagar um pouco mais e ter uma
farinha mais digna.

Voz rouca: (intrigado) Isso é um código? O que tem a farinha... Repete.


Vicentinho: A farinha deve ser aquela bem branquinha, pra dar liga com a gema mais tarde. Ao
contrário da manteiga, que no caso pode ser qualquer uma.

Voz rouca: Seu abestalhado! Por um acaso está debochando da minha cara? (nova gargalhada,
mais amarga) Sei até o preço que a sua mulher cobra! Sei até o preço!

Vicentinho: As nozes realmente são caras, mas se preferir pode substituir por amendoim, é
mixuruca, mas engana. Empapuce as nozes, ou o amendoim, na farinha e bata tudo por vinte
minutos. Unte a forma com claybon , despeje tudo e leve ao forno brando.

Voz rouca: Bruna, a sua mulher, se lambuza com batom cereja e vai desfilar no calçadão!Bebe
água de coco com americano! Com americano! Será que você não consegue entender? Você é
o escárnio geral, a piada mal contada, o berro da tartaruga! Eu tenho pena de você Vicentinho,
morro de pena! Mas não deveria, pois tem gente que nasceu com vocação pra trair, outros
com resignação pra ser traído! Se você prefere fingir que nada aconteceu, lavo as minhas
mãos. Mas se tiver um pingo de vergonha na cara: escorraça essa pilantra da sua casa à base
de sopapo!!! Bruna, a sua mulher, não vale um alfajor! (desliga)

(silencio profundo.)

(O fone cai lento das mãos de Vicentinho ainda com as últimas palavras ecoando em sua
cabeça)

Vicentinho: (parado contemplando nada)

(entra Bruna pelos fundos, sem que ele veja)

Bruna: (sorridente, tapando os olhos do marido por trás dele, ao pé do ouvido) Um queijo ou
um beijo?

(Vicentinho apático)
(Bruna retira as mãos dos olhos do marido e lasca um beijinho de estalo)

Bruna: (com a inocência de quem trai) Eu tenho um segredo pra te contar... Faz algum tempo
que venho escondendo isso de você... Mas acho que chegou a hora de você ficar sabendo...

(tira um envelope grande de sua bolsa)

Bruna: Sabe o que está em minhas mãos agora? (emocionada) Aqui... (indica o envelope) Você
não consegue imaginar...? (uma lágrima de alegria escorre em seu rosto) Vicentinho... O nosso
maior sonho... (sorri) Vicentinho... Nesse envelope... Vicentinho... Aquilo que a gente mais
esperava. (ajeita os cabelos por trás das orelhas, suspira fundo e revela) O resultado do exame:
Eu estou grávida... Você vai ser pai.

(Vicentinho tonto. Sem ar.)

Bruna: Você esperou tanto por esse dia, meu doce. Tanto! Seremos enfim uma família
completa. Esse é o dia mais feliz da minha vida.

(Vicentinho sai do balcão cambaleando)

Bruna: (numa maravilha cega, protegendo a barriga com doçura) Nosso filho... Ele está aqui,
Vicentinho... O fruto do nosso amor. Um rebento. O seu sucessor.

(Vicentinho abrindo uma garrafa de água ardente escondida numa prateleira e virando no
gargalo)

Bruna: Já fazia um tempo que eu desconfiava, mas queria ter certeza. Tinha que ser especial.
Tentamos tantas vezes, eu não queria gerar uma expectativa pra te frustrar depois... Me parte
o coração. Mas eu rezei tanto, Vicentinho! Tanto! Muito mais do que você pode imaginar... Fiz
promessa pra meia dúzia de santo! E quando eu vi o resultado do exame, hoje pela manhã,
nem pude acreditar! Quase fui atropelada lá no centro da cidade, de tão pasma! Eu vim
correndo pra cá... Confesso que não só apenas por conta disso, Não vou mentir, serei mãe e
mãe não mente. Pois bem: No segundo seguinte em que tive a confirmação, meu primeiro
desejo de grávida me veio implacável: como uma ordem divina, uma ânsia incontrolável... Uma
vontade de comer um doce! Como se a minha própria existência dependesse disso. Mas eu
não sei qual doce, ainda... Corri pra cá pra escolher! Meu primeiro desejo de grávida vai ser
saciado aqui!

(Vicentinho virando a garrafa toda)

Bruna: (se colocando no centro da loja de doces, entre as máquinas de balas, chicletes,
algodão doces, um paraíso açucarado) Eu quero comer um... (pensa, muito sapeca) Um... (olha
todos os doces da loja, muito coloridos e atraentes) Um... (saliva enquanto seus olhos correm
por cada prateleira abarrotada de guloseimas) Um... (acaricia os lábios numa expectativa
libidinosa) Um... (perde o ar maravilhada avistando o doce cobiçado, quase num sussurro)
Alfajor... Eu quero comer um alfajor!... (num murmúrio vampiresco, com o coração na
boca)Você não pode me negar, Vicentinho, não pode... Desejo de mulher grávida não se
contraria... Eu quero aquele alfajor... Eu quero todos eles... Todos em minha boca agora... Eu
quero Vicentinho... Você quer que seu filho nasça com cara de alfajor? Não quer. Então vai me
fazer a vontade... Pega pra mim... (mais sussurrada, mas vampiresca, com os braços
estendidos, com as pontas dos dedos nervosas) Eu quero comer todos... Todos... Todos na
minha boca... Agora... A cobertura de açúcar quebradiça... O recheio cremoso, com um toque
de limão... Camada por camada... Derretendo... Escorrendo entre os meus dentes... Quero
lamber o laminado protetor... Nenhum grãozinho poderá ser desperdiçado... Eu os quero! Um
por um... Deixa. (mais vampiresca, compulsiva) Estraçalhar sem pena! Enfiar três na boca ao
mesmo tempo! Esfregar nos meus lábios até inchar! Eu quero engolir tudo sem morder! Deixa,
Vicentinho... Deixa! (possuída) À mulher grávida não se contraria!

Vicentinho: (frio) Não.

Bruna: (caindo das nuvens) Como assim?...

Vicentinho: (numa raiva surda) Qualquer um, ouviu? Você pode escolher por qualquer um...
Menos por esse. Esse: você- não- come. Ouviu? Não encosta um dedo. Nunca mais! Você não
come esse doce nunca mais.

(Bruna catatônica)
Vicentinho: (frio como um tubarão) Escuta, pois é a última vez que lhe digo: o dia em que eu
souber que você encostou, viu, sentiu o cheiro desse doce... Eu espanco você até matar...
(tempo) Entendeu?

(Bruna chocada)

Vicentinho: Entendeu?

Bruna: (num sopro) Sim.

Vicentinho: (mudando o tom absolutamente) Agora vamos comemorar! Hoje aqui: é feriado!
(animalesco) Eu vou ser pai! (gritando pela porta da loja) Eu vou ser pai!!! Hoje é o dia mais
feliz da minha vida!!!!!!!! Eu quero tomar banho de mar.

(Luz caindo em silêncio profundo)

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“As unhas vermelhas da noiva”


CATETE

Personagens

Mariano, moço, mais sensato que bonito.

Elisa, Coluna ereta, com uma beleza austera.

(Mariano e Elisa num banco de praça, beijando-se descontroladamente. Muito desejo. Elisa, de
supetão, afasta o noivo e confessa)

Elisa: Queria trocar uma palavra contigo.

Mariano: (ainda tonto de desejo) Daqui a pouco, vem cá vem. (avança no beijo)

Elisa: (afastando-o) Daqui a pouco não. (firme) Agora.

Mariano: (sacana) Então fala, fala aqui no meu ouvidinho, fala...

Elisa: É sério.

(Mariano suspira fundo e busca controle. Arruma os cabelos.)

Mariano: Sobre o que você quer falar?.

Elisa: O resultado do concurso.

Mariano: (numa careta) Ai, isso novamente?! Cismou!


Elisa: Não é cisma, é precaução.

Mariano: Pra mim, mais parece exigência!

Elisa: Saía hoje o resultado do pra Justiça Federal, não é? (maravilhada) Já pensou: Você, na
Justiça Federal!

Mariano: É só nisso que você pensa, né? ( caricatural) Na Justiça Federal!

Elisa: Não é isso... (sem jeito) Você sabe como é importante pra mim, não sabe?

Mariano: Pra mim também é, mas nem por isso fico tocando no assunto todo santo dia.

Elisa: É que eu morro de medo.

Mariano: Mas a gente não combinou?

Elisa: Combinou sim, eu sei, mas até quando, Mariano? Até quando eu vou ter que esperar?

Mariano: ( já de ovo virado) Foi você que quis assim. Por mim a gente casava ontem. Mas
mania. Não tira essa idéia da cabeça.

Elisa: Casar pra passar perrengue, não quero!

Mariano: Se todo mundo enfiar na cuca que só casa se passar num concurso público_ igreja só
vai servir pra batizado e enterro. Se você não está disposta a largar o bem e bom pra ficar
comigo, eu não posso fazer mais nada.
Elisa: (manhosa) Não fala assim. É que eu tenho medo. A minha pensão é pouca, mas é
garantida. De fome não morro. Isola! Agora, se eu me caso contigo: eu perco. Daí, se você não
tem um emprego certo, a gente se lasca! Eu me recuso a ter que comer o pão que o diabo
amassou, ouviu? Me recuso!

Mariano: (riso amargo) Então faz você um concurso público. Você vira arrimo de família e fica
tudo certo. Hoje em dia é mais que normal mulher sustentar marido.

Elisa: As suas nêgas! Pode tirando o cavalinho da chuva. O pai do meu filho não vai ser um
vagabundo desempregado!

Mariano: Sempre se dá um jeito. Num país em que todo mundo quer ser patrão, o que não
falta é empregado.

Elisa: Assim eu não caso... Nem adianta. Não quero ver o nosso amor sendo triturado sem
choro nem vela, por conta de um prato de comida. Não quero ir pra fila do posto de saúde, de
madrugada, pegar número pra ser atendida 12 horas depois. Não quero, Mariano, não quero!
Olha, (mostra o braço nu) fico toda arrepiada só em pensar em ver o meu filho com uniforme
de escola Estadual, enchendo a barriga de merenda pública, pra não dar prejuízo em casa! Ai!
Que horror! Não gosto nem de pensar! Assim eu não caso!

Mariano: Mas eu já te disse, a gente se junta, e você não perde sua pensão. Amigado com fé,
casado é.

Elisa: ( olha com desdém) Capaz. Depois você paga o enterro da minha mãe. Porque ela vai
morrer, né? Vai ter um troço. Cair preta e dura se eu chegar com uma notícia dessas em casa.

Mariano: (sem saco) Pelo amor de Deus... Sua mãe vive em que mundo?

Elisa: Esse negócio de se amigar, não rola.

Mariano: Então o que eu faço?


Elisa: Passa num concurso público!

Mariano: (grunhido. Levanta-se e chuta o nada, pra segurar a raiva. Amargo) Sabe o que me dá
mais raiva, Elisa? É você pensar que é fácil passar numa merda dessas! A vontade que tenho é
de mandar tudo pro inferno e deixar de ser palhaço.

Elisa: Eu sei que não é fácil... É preciso esforço.

Mariano: E eu não me esforço, Elisa? Diz pra mim? Eu não me esforço? Faço das tripas coração
pra conseguir passar numa prova! Estudo feito condenado, não faço nem metade das coisas
que meus amigos fazem, pra ficar com a fuça enfiada nos livros e eu não me esforço o
suficiente?

Elisa: Mas poderia estudar só um pouquinho mais...

Mariano: (risada surpresa) Você quer que eu não faça mais nada além de estudar.

Elisa: Eu só quero que você me coloque como prioridade em sua vida.

Mariano: E não é isso o que eu faço?

Elisa: Em partes.

Mariano: Em partes?

Elisa: Em partes sim.

Mariano: Elisa, se eu não te vejo com tanta freqüência, é porque você mesma exigiu que eu
ficasse em casa estudando no lugar de sair contigo.
Elisa: Muito bem, foi como você mesmo acabou de dizer: EU abri mão de passar mais tempo
contigo, para que VOCÊ ficasse em casa ESTUDANDO.

Mariano: E é o que eu faço.

Elisa: (perspicaz) Tem certeza?

(Mariano interrogativo.)

(tempo)

Elisa: (muda o tom) Sua avó, por exemplo.

Mariano: O que tem a minha avó?

Elisa: Você não deveria se ocupar tanto dela.

Mariano: (sentido) Que isso Elisa? Minha avó é como se fosse minha mãe. Me criou desde
pequeno, sem soltar um ai.

Elisa: Mas está velha e requer sua atenção o tempo todo.

Mariano: Natural. Existem limites pra pessoas na idade dela, ela precisa da minha ajuda.

Elisa: Mariano, você é tão ingênuo.

Mariano: Ingênuo...
Elisa: Eu adoro a sua avó. Amo de paixão. Não quero que você pense que eu vá separá-la de
você, pelo contrário. Eu a admiro muito. Ela cuidou de você com todo o afeto e juízo que uma
criança deve ser cuidada. Sua mãe não faria melhor, se fosse viva.

Mariano: Então, qual é o problema?

Elisa: O problema é que ela está velha.

Mariano: Sim e daí?

Elisa: Daí que uma pessoa velha se sente muito só e começa a inventar coisas pra chamar
atenção. E com isso ela acaba te desviando dos seus estudos, mesmo que sem querer.
(ardilosa) Talvez seja o caso de pagarmos uma pessoa para cuidar dela, alguém que ficasse a
total disposição. Que fizesse companhia. Um profissional mesmo. Ou até mesmo... Ou até
mesmo, não sei (sugere vã, com a eloqüência dos demônios) colocá-la num lugar mais
adequado, com mais infra-estrutura. Tem um lugar ótimo que eu vi numa revista noutro dia,
assim, por acaso, que eu até achei nem muito caro e...

Mariano: Que absurdo, Elisa. (com a cara no chão.)

Elisa: (sem notar o noivo assombrado) O que foi, meu doce?

Mariano: To de queixo caído. Olha a quantidade de besteira que você acabou de dizer...

Elisa: Que besteira?

Mariano: (fraco, boquiaberto) Elisa, não é possível que você pense dessa maneira...

Elisa: (lépida) Dessa maneira como? Não entendi...

Mariano: Dessa maneira desumana, feia, mesquinha, cruel...


Elisa: Mas eu só estou pensando no futuro da gente. Ou você achava que a sua avó ia vir morar
conosco?

Mariano: Que horror, meu deus...

Elisa: Não é horror, Mariano, é praticidade. Quando eu falei que não ia separar vocês, eu
queria dizer no sentido afetivo, porque é impossível dividir uma casa com a sua avó. Você vai
me desculpar. Mas eu quero ter liberdade. Quem casa, quer casa. Esse negócio de enfurnar
parente, não dá certo.

Mariano:...Um horror atrás do outro...

Elisa: Não é horror, me respeite...

Mariano: Horror total, só horror, você é toda horror!

Elisa: Olha o tom, Mariano, não é horror, é o que eu penso...

Mariano: Horror.

Elisa: (corta quase no grito) Não é Horror!

(silencio. Clima)

Elisa: ( contundente) Não é Horror. Ela está velha. Isso é um fato. Sabe que você precisa
construir sua própria família, na qual ela NÃO está inclusa. Ela não quer te perder. Só que não
percebe que atrapalhando os seus estudos, ela só te prejudica ainda mais. Ela precisa perceber
que está atrapalhando. E uma enfermeira, pra ajudá-la ou até mesmo um asilo, não tem nada
de tão horroroso assim.
Mariano: ( saturado, não acredita no que acabou de ouvir) Chega...... Olha, eu vou pra casa. Eu
não quero mais esse papo.

Elisa: Que isso? Você vai sair andando e me deixar aqui falando sozinha? É isso mesmo?

Mariano: Hoje, você perdeu suas estribeiras! E pra eu não ficar aqui e correr o risco de perder
as minhas, prefiro ir embora. (vai saindo)

Elisa: O seu mal, Mariano, é que você não encara a vida de frente. Você está empurrando o
nosso noivado com a barriga. Quer vencer no cansaço! Mas eu não caso, ouviu, eu não caso
sem seu nome sair na folha dirigida!

Mariano: Paciência!

Elisa: Você está muito enganado, ouviu? Muito enganado se pensa que eu vou ficar esperando
eternamente até você ser concursado.

Mariano: Você quer dar um tempo?

Elisa: Eu quero dar um prazo!

Mariano: Prazo? Você quer mesmo um marido? Está me parecendo mais interessada num
empregado.

Elisa: Eu quero um marido com ambição! Eu não quero me casar com um estorvo fracassado.
Tá Cheio de gente nessa porcaria de país que no lugar de querer o inteiro, se satisfaz com a
porcaria da metade! E com essa mentalidade colonizada, você não passa nem em concurso pra
mico de circo!

Mariano: Pois é isso mesmo que eu deveria ser: Mico de circo! (ironia violenta) Esse foi o único
concurso que eu ainda não fiz e talvez seja a minha verdadeira vocação. Virar mico de circo!
Assim, banana, não vai faltar na nossa mesa! (imita um macaco) Yes! Nós teremos banana!
(tira um jornal de sua bolsa e joga na cara da noiva. Lamenta.) Você tem o dom de estragar
tudo. (Sai.)

Elisa: ( puta da cara, sem olhar o jornal) Volta aqui, Mariano! Eu não vou falar duas vezes!
Volta aqui! Mariano! Volta aqui!!! Mariano eu vou contar: 1... Eu vou contar: 2... Mariano!!! ( o
noivo já está longe. Despenca no banco, vencida. Pega o jornal, ainda muito irritada e abre. É a
folha dirigida, na página central um círculo feito de caneta bic, evidenciando o nome do noivo:
Mariano, aprovado como funcionário público. Ela fica levemente tonta. Sussurra sem ar,
coração na boca) Funcionário público... (agarra o jornal contra o peito e corre para alcançar o
noivo. No alvoroço da emoção, não percebe que o sinal abriu e leva uma trombada de um
ônibus. Pára no outro lado da rua, cabeça ensangüentada. Em pouco segundos, uma roda de
curiosos se abre ao redor dela. Sua visão está turva, respira mal, não sente as pernas. Com as
unhas tingidas de sangue_ cravadas no jornal_ ainda sorri, emocionada. Uma lágrima
escorrendo dos olhos. Sussurra ) Meu noivo é funcionário público... (morre agarrada ao jornal.)

(O corpo só é levado pro IML, 16 horas depois.)

Fim

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“Veneno colorido”

URCA

Personagens

Vilma: apática.

Tiago: moço, traços finos.

Dona Ângela: meio ridícula pra idade que tem.

Seu Lilico: variando entre o mau humor e o tédio.

Sala da casa do Seu Lilico e da Dona Ângela

(mobília simples, tudo muito enfeitado com bibelôs e retratos emoldurados pelas paredes.
Simpático: a estampa da cortina combina com os motivos florais do conjuntinho da Dona
Ângela. Acabaram de jantar_ seu Lilico com queixo afundado entre os ombros, prostrado em
sua poltrona carmim, Vilma e Tiago de mãos dadas no sofá. Dona Ângela rompe a cena, com
uma garrafa de licor na mão)

D. Ângela: (risonha como um porquinho. Indica no rótulo)23 anos! Errei por um! Mas eu sabia
que era por aí! Só não fazia idéia de tanto... 23 anos! Dá uma pena...

Tiago: Dona Ângela, Por favor, se a senhora não quiser...

D. Ângela: Não esquenta a cabeça. É pra isso mesmo que serve. (enquanto abre a cristaleira
retirando os cálices)Mais velho que você, Vilminha! Nem era nascida!

Tiago: A gente pode guardar pra beber depois, se a senhora preferir, não precisa ser agora.

D. Ângela: 23 anos! Eu tenho muito cuidado com as minhas coisas. Acredita que tenho até hoje
minha primeira boneca? Na caixa! Ninguém diz. Lilico queria porque queria que eu desse a
Vilminha quando ela nasceu. (desdém) Capaz. Vilminha tem mão de ferro. Não ia durar uma
semana. (quase chora emocionada olhando a garrafa)23 anos! Uma vida. Uma-vida!
Tiago: (recorre à noiva) Diz a ela que não precisa se não quiser.

Vilminha: (apática)Mãe, o Tiago disse que não precisa se não quiser...

D. Ângela: (digna) Eu quero. Tem cabimento? Só estava guardado porque até hoje não havia
surgido um motivo apropriado pra abrir. Mas agora há. E eu nem sei se está prestando, pois :
bom de guardar é vinho...Não é Lilico? Héin. Lilico. Bom de guardar é vinho, né? Licor, nunca
ouvi falar. Se bem que esse aqui veio do exterior, lembrança do irmão de Lilico. Vilminha,
minha filha, você não era nem nascida!Ih! Nem sonhava! Se eu deixasse, Lilico entornava tudo
em dois tempos. Mas eu disse que era pra abrir só num dia especial... (num suspiro triste)23
anos...

Tiago: Dona Ângela, fico muito lisonjeado.

D. Angela: (tentando abrir a garrafa. Sem sucesso)

Tiago: Posso tentar?

D. Ângela: (pimpona)À vontade, meu querido.

(Tiago se esforça pra abrir. Expectativa das mulheres. Frustração.)

D. Ângela: Tudo bem, Tiago. São 23 anos! (sorri débil) Olha,(pega nas mãos do rapaz)São mãos
de cirurgião... (beija) Não é pra ficar abrindo garrafa velha.

(Tiago sorri meigo)

D. Angela: (muito emocionada) Eu fico muito feliz com o noivado de vocês. Faço muito gosto!
A Vilminha se casando com um doutor! Parece sonho! Um médico na família. Me belisca,
Lilico!
Vilma: Tiago não é médico. É dentista.

D. Angela: Ah! E dentista não é médico? Mais médico impossível. Dentista é o maior médico
que existe, eu acho. Tirando o cardiologista, que também tem muita importância. (orgulhosa
com os olhos marejados) Um doutor! Minha filha vai se casar com um doutor!

Seu Lilico: (grave como um sapo) Tiago.

Tiago: (sobressalto) Senhor.

(tensão clara na sala)

(silêncio)

Seu Lilico: Qual é o mistério?

Tiago: (sem compreender)Como, senhor?

Seu Lilico: O mistério. Qual é o mistério?

Tiago: (sorri amarelo) Não entendo...

Seu Lilico: Isso aqui nâo é carnaval. (tempo) Você sabe disso, não sabe?

Tiago: (nó na garganta) Sei sim senhor.

Seu Lilico: A honestidade é o maior bem que um homem possui. Não tem coisa no mundo
maior que a honestidade. Mais vale um pobre honesto que um picareta marajá. Assina
embaixo?
Tiago: Sim senhor.

Seu Lilico: (fixo nos olhos do rapaz) Recebemos você aqui de portas abertas, com direito a
pudim de leite... Não é verdade?

D. Ângela: Lilico!

Seu Lilico: É ou não é verdade?

Tiago: É verdade sim senhor.

Lilico: Então eu quero que seja honesto comigo e com minha filha.

D. Ângela: Lilico...

Lilico: Fica na sua, Ângela. Fica na sua. (ao rapaz) Vai ser honesto comigo e com minha filha?

Tiago: Sim senhor.

Lilico: Eu quero que me responda uma coisa.

Tiago: Sim senhor...

Lilico: Acha minha filha um bagulho?

(Tiago se engasga com a própria língua)

Tiago:(lambendo os lábios ressecados) Eu a amo.


Lilico: Não foi isso que perguntei. Acha ou não acha minha filha um bagulho de marca maior?

D. Ângela: Agora já está demais, Lilico!

Lilico: Acha ou não acha? Responde, criatura!

Tiago: (firme) Não acho.

Lilico: Pois é. Vilma é um bagulho de marca maior!

Vilma:(num sopro) Pai...

Lilico: É um bagulho sim, minha filha e você sabe disso. Digo isso porque sou seu pai e tenho
propriedade. Eu nunca a amaria se não fosse minha filha. Um homem tem todo o direito de ser
feio. Se aceita, se arruma. Quando ve: já está casado. Com mulher é diferente. Mulher não
pode ser feia. Tem que se aproveitar alguma coisa, se não a cara , o corpo. Se nada presta, vira
jogral em boca de vagabundo, todo mundo se serve, mas ninguém leva pro altar. Se alguém se
interessa em se casar com uma mulher feia é porque quer se servir de outra coisa.

Tiago: Eu amo a Vilma, e pra mim ela é perfeita como é, sem tirar nem por.

Lilico: (treme a boca) Qual é o mistério? Vilma é o catiço, medo e delírio na terra do sol. Além
de tudo não tem onde cair morta. Você tem jeito de afeminado , mas é boa pinta, tem casa
própria, pode arrumar partido melhor. Por que minha filha?

Tiago: Já disse, eu a amo e no amor não se recorre à razão.

Lilico: Uma ova! (levanta da poltrona exaltado) Seja honesto rapaz! A mim você não engana.
Não engana!
(D. Ângela segura o marido)

Lilico: O que você quer com minha filha?

D. Ângela: Pára com isso, Lilico! Olha o papelão!

Lilico: Você é mulher , Ângela, não tem partido nisso. Mulher é uma outra história! Eu quero
ver esse calhorda olhar nos meus olhos e dizer que ama uma mulher feia como a nossa filha.

D. Ângela: Fixação!

Lilico: Um homem deve ser honesto à cima de qualquer coisa. Ouviu? Se chegasse aqui e me
dissesse que havia se encantado com a feiura da minha filha, eu até poderia tentar acreditar.
Tentar! Tem gente que gosta. Fazer o que? Mas ignorar total e sumariamente essa carranca
animalesca, isso pra mim já é demais. Pra mim a pior coisa no mundo é a mentira! Minha filha
se casa com um Percevejo! , mas não se casa com um mentiroso!

D. Ângela:(chorando) Já chega, Lilico! Pelo amor de deus!

Lilico: O que você quer com minha filha? Responde!

D. Ângela: (agarrada no marido, desesperada) 23 anos, Lilico! 23 anos! Já chega!

Lilico: Um homem que mente, pra mim não passa de um esgoto! Se não me disser o que
acontece aqui, eu te expulso da minha casa à base de tapona! Sou muito capaz! (avança no
colarinho do rapaz, sacudindo descontroladamente) Me responda!! Fala, patife!

(gritos histéricos de Dona Ângela)

Lilico: O que você quer da minha filha? O que você quer da minha filha? Fala ou eu te quebro a
cara! Seja homem! Fala: O que você quer da minha filha????????
Vilma: (fria como uma viúva cansada) Os dentes.

(silêncio litúrgico)

(Seu Lilico e Dona Ângela, petrificados numa careta espantosa)

Vilma: (do sofá, sem mover um músculo) Ele quer meus dentes. Eu disse a ele que se casasse
comigo eu lhe daria meus dentes como presente. Um dote. Poderia arrancar com as próprias
mãos. Sem anestesia. Um por um. Ele topou. Chorou feito criança. Nunca, nenhuma mulher no
mundo seria capaz de coisa semelhante por ele. Me amou verdadeiramente desde então.
(sorri numa profundidade triste)

(Silêncio)

(Seu Lilico, estupefato, despenca em sua poltrona carmim, enquanto D. Ângela guarda o licor:
colorido como um veneno.)

Fim.

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“Maçã do amor”

IPANEMA

Personagens:

Breno: Belo moço, com casaca e cravo na lapela.

Seu Osvaldo: Calado. De costas.

Dona Deise: Ainda atraente para a idade que tem.

Rosane: No quarto.

(depois de um longo silêncio, ousou dizer)

Breno: Quero agradecer mais uma vez pela a confiança do senhor...

(sem resposta)

Breno: De verdade. A Rosane é uma moça especial. Especialíssima. E eu a respeito muito.

(sem resposta)

Breno: Estaremos aqui antes de meia noite. Honrarei com a confiança que o senhor depositou
em mim.

(sem resposta)

Breno: Rosane é especial.

(sem resposta)
Breno: Eu gosto dela... E por isso muito a respeito. Não pretendo apressar as coisas entre nós...

(sem resposta)

Breno: Rosane é formidável. O senhor deve se orgulhar muito dela, não é?

(sem resposta)

Breno: Eu me orgulharia... Não que o senhor não se orgulhe, não é isso que eu quero dizer...
Eu também me orgulharia em ter um pai como o senhor. Sem dúvidas. Me orgulharia muito.
Muito mesmo. Porque daí eu seria uma moça assim... Como a Rosane... Não que eu queira ser
uma moça, não! É que a Rosane.... Enfim... Ela é uma moça tão... Tão... Educada.

(sem resposta)

Breno: E muito bonita... A casa do senhor... É muito bonita.

(sem resposta)

Breno: Ampla...

(sem resposta)

Breno: De fora não parece... (sorri débil)

(sem resposta)
Breno: (constrangido) Não que pareça pequena... Não é isso... É que não parece tão grande...
De fora... Mas de dentro... É diferente...

(sem resposta)

Breno: Será que a Rosane já está pronta?

(surge dona Deise)

Dona Deise: (com uma bandeja e um copo) Um refresco de tangerina. Gosta, Breno?

Breno: (sorri) Não precisava, dona Deise...

Dona Deise: De modo algum. Você está com quantos anos?

Breno: 17.

Dona Deise: Hum... Lástima, eu poderia misturar com gin, mas na sua idade...

Breno: Não é necessário, obrigado.

Dona Deise: Osvaldo te importunou muito com seu fatigante ponto de vista a respeito das
coisas?

(Osvaldo em silêncio)

Breno: Não. Seu Osvaldo é uma companhia adorável.


Dona Deise: (explode numa gargalhada) Adorável? (acendendo um cigarro) Você realmente é
um querido, Breno. Um querido! (oferece o cigarro)

Breno: Obrigado, não fumo.

Dona Deise: É de menta.

Breno: Realmente, eu não fumo.

Dona Deise: Nem de menta?

Breno: Nem de menta.

Dona Deise: Rosane está no quarto. Passou a semana toda se cuidando pra ficar bem bonita...

Breno: Impossível... (percebendo a mancada) Quer dizer, impossível ela ficar mais bonita do
que já é...

Dona Deise: Eu entendi, meu querido.

Breno: Posso...? (ao refresco)

Dona Deise: Claro, Breno. Fiz pra você. (sorri maliciosa)

Breno: (se servindo) Acabava de falar com seu Osvaldo o quanto a Rosane é especial. Um
biscoito fino.

Dona Deise: Rosane... (solta a fumaça do cigarro de forma quase vulgar)


Breno: (suando nas têmporas) Falava também da casa. Muito bonita. Ampla. (bebe)

Dona Deise: (se aproximando dele com olhar fixo)

Breno: (constrangido com a proximidade) A casa é realmente... Grandona...

Dona Deise: (mais próxima)

Breno: (paralisado sem entender) A casa é diferente... Ampla... Eu já disse ampla? (ri sem
graça) Mas é mesmo. Muito ampla...

Dona Deise: (bem próxima ao rosto do rapaz, sentindo o vapor de sua respiração)

Breno: (tenso com a audácia da mulher frente ao marido) Eu achei bem... Bem... Como se
diz...? É... Bem...

Dona Deise: (com seu olhar de aranha) Uma espinha...

Breno: O que?

Dona Deise: (bem próxima) Tem uma espinha aqui, na pontinha do seu nariz...

Breno: Sério?

Dona Deise: (faz que sim)

Breno: (ainda com a mulher em cima de seu rosto) Que lástima...


Dona Deise: Posso espremer?

(sem resposta, a respiração cada vez mais tensa do rapaz)

Dona Deise: (manhosa) Deixa... Eu gosto... Por favor...

Breno: (virginal) Vai marcar... Melhor não...

Dona Deise: (sinuosa) Deixa... Marcas são provas extremas da frivolidade viva dos nossos
dias... Não vai doer... Deixa...

Breno: (faz que sim)

Dona Deise: (debruça delicadamente suas unhas azuis na ponta do nariz do rapaz. Espreme a
espinha. Limpa a sujeira com seu lencinho bordô, retirado do decote) Viu? Nem doeu...

Breno: (levanta-se aflito) A Rosane está demorando...

Dona Deise: O primeiro baile é o primeiro baile.

Breno: Mas já são dez para as nove... Daqui a pouco não chegamos a tempo...

Dona Deise: A tempo de que...?

Breno: (desconcertado) Ah... Não sei... A tempo de... Dançar... Beber... Um pouco... Beber só
um pouco...

Dona Deise: Ora, não seja por isso... Façamos uma prévia do baile por aqui...
Breno: Oi?

Dona Deise: (colocando um disco na vitrola) Podemos dançar um pouco... Faz um tempo que
não danço... Osvaldo não gosta... Osvaldo não gosta de nada...

Breno: Não sei se é um bom momento, dona Deise...

Dona Deise: (dançando enquanto fuma.) Nunca é um mau momento para dançar... Dançar é
divino, celestial... Os anjos dançam o tempo inteiro enquanto os homens dizem amém! Vem...
(puxa o rapaz que se vê compelido a dançar)

Breno: Será que a Rosane vai demorar muito ainda?

Dona Deise: (dançando colada ao rapaz) Rosane aprendeu a dançar comigo, sabia? Eu sou uma
boa professora...

Breno: Ela está demorando tanto, não seria melhor a senhora ir chamá-la?

Dona Deise: Não sei se Rosane é uma boa aluna... Ensinei tudo de perto... Dei boas aulas de
conduta e a importante capacidade de ser superior às coisas pequenas que nos magoam
tanto...

Breno: Rosane deveria ter tido aulas de pontualidade! (ri amarelo)

Dona Deise: Rosane é ruim de aprender as coisas... Entra num ouvido e sai no outro... Eu
também falei da pontualidade e da importante capacidade de superar pequenos obstáculos da
vida... Você poderia me dizer...

Breno: O que a senhora quer saber?

Dona Deise: Se Rosane foi uma boa aluna com você...


Breno: Na escola?

(os dois sempre dançando)

Dona Deise: Nas coisas práticas da vida... Ela fez jus às boas aulas que dei?

Breno: Não compreendo...

Dona Deise: (sofrida) Me sinto tão fracassada... Me sinto tão frustrada com tudo isso, me
perguntando onde foi que eu errei...sabe?

Breno: A Rosane é uma grande garota...

Dona Deise: Eu fui uma péssima professora...

Breno: Não a senhora não foi, dona Deise...

Dona Deise: Deise. Me chama só de Deise...

Breno: Deise?

Dona Deise: Era um nome de uma personagem trágica num conto de inverno...

Breno: De Quem?

Dona Deise: De quem era o conto?


Breno: Não. De Quem a senhora está falando?

Dona Deise: Rosane.

Breno: A personagem trágica...?

Dona Deise: A autora do conto de inverno.

Breno: A senhora deu o nome da autora sua filha...

Dona Deise: Deise. A autora se chamava Deise.

Breno: E a personagem: Rosane?

Dona Deise: Exatamente.

Breno: E ela acaba como?

Dona Deise: Morta.

Breno: A personagem trágica do conto de inverno?

Dona Deise: Não. Rosane, a minha filha, dentro do quarto, se enforcou hoje às cinco e meia.

Breno: (tomado por uma vertigem assombrosa. Num sopro) O que?

Dona Deise: (chora) Eu não fui uma boa professora, Breno... Eu fracassei...Me perdoa, ela não
vai ao baile com você.
Breno: Rosane... Rosane...

( tomado pelo sinistro impacto da revelação, vai em direção ao quarto da jovem)

Dona Deise: (chorando, corroída pela dor) Eu não fui uma boa professora, Breno... Me
perdoa!!!!!

( Breno abre a porta. Breno num grito profundo.)

Dona Deise: (possessa de forma animalesca, bradando frente ao marido) A culpa foi sua,
Osvaldo! A culpa foi sua!!!!! Eu odeio você! Eu odeio você!!!!

( Breno apavorado, cambaleando pela casa em estado de choque )

Dona Deise: (na sinceridade de sua dor de mãe. Possuída pelo ódio) Eu odeio você, Osvaldo!
Eu odeio você!!!!! Eu odeio você!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

(na vitrola o disco rodando furioso, em alto volume, embalando o cadáver de Rosane, que
como um pêndulo, dança no ar, vestida de debutante.)

Fim.
“ A cegueira do gato”

LEBLON

Personagens:

Leila: loura, Pinta de artista americana.

Bianca: olhos azuis penetrantes.

Sávio: mais simpático que bonito.

Eram uma ternurinha os dois, estavam prestes a se casar, mas, no entanto era a primeira vez
que conheceria alguém de sua família.

Leila: Estou nervosa.

Sávio: Fica calma, ela vai gostar de você.

Leila: Será? Fico tão tensa.

Sávio: Relaxa. Você é uma mulher incrível.

Leila: Ela gosta muito de você e você dela. E se não me aprovar como cunhada? Não quero
nem pensar... Nunca que vou me colocar entre vocês , nunca, ouviu? Nunca!

Sávio: Meu doce, não precisa disso. Bianca vai adorar você.
Leila: Mas foi você mesmo que disse que ela implica com tudo que é namorada sua.

Sávio: Pirraça. Depois que nossos pais morreram, ficamos sozinhos e eu virei uma espécie de
monte cristo pra ela. Mas fique tranqüila, ela é um amor.

Leila: Não sei... E se não gostar de mim...?

Sávio: Escuta, aconteça o que acontecer, eu juro que você será a minha escolhida.

Leila: Não diz isso nem brincando, Sávio. Irmã é sagrada.

Sávio: Aconteça o que acontecer, gostando ou não gostando, eu fico contigo a qualquer preço.

Sávio agarra a moça num beijo apaixonado.

Tinha verdadeira devoção pela jovem. Parecia que pela primeira vez se envolvia a fundo com
alguém.

Conhecera Leila numa batida de carro, quando ele salvava a vida de um cão. Assim, comovida
pela atitude corajosa do rapaz, não se largaram desde então.

Chegado o dia, Leila finalmente conhece a sua cunhada.

Bianca: Como é bonita. Tem cara de boneca! É bem magra... O Sávio fala muito de você! Fisgou
o coração dele. Já estava na hora! Você faz lembrar aquela artista... Como é mesmo? Aquela
com luvas até aqui? Como é mesmo o nome dela, Sávio? Alguma coisa com M... Tá na ponta
da língua... Ela se jogava numa fonte... Ai, Sávio, lembra!

Sávio: Bianca adora fitas americanas.

Bianca: É a mais bonita de todas, Sávio. Disparado! A mais bonita. Sávio, vez e outra, traz uns
buchos que doem! Sávio não é nenhum galã de novela, mas é um homem decente e
trabalhador, merece uma mocinha bonita como você. Assim, desse jeitinho. Lembra da Emily?
Era isso? Emily?

Sávio: Evelyn.

Bianca: Isso, Evelyn. Lembra da Evelyn, Sávio? Uma coisa horrorosa, uma cara de camelo. Um
bico... Horrorosa. Graças a deus Sávio logo desencantou. Evelyn tinha umas orelhas de
abano... Fazia lembrar aquela fita... Como é mesmo? A do elefante! Ela parecia com aquele
elefante orelhudo!!!!

(caem na risadaria)

Bianca: Ai desculpa... Mas fala, você faz o que, Leila?

Sávio: Leila é arquiteta.

Bianca: Além de bonita, arquiteta! Sávio, essa é a melhor, em disparada, a melhor.

Todos riam e trocavam amenidades, quando, inesperadamente, Bianca mata um mosquito


no ar com as próprias mãos, gabando-se da rapidez do movimento. Leila estremece. Ver um
ser vivo tão pequenino, esmagado monstruosamente a deixou por cinco segundos em total
estado de perplexidade.

Sávio: Acredita que ela estava nervosa, achava que você não iria gostar dela! Veja só!

Bianca: Imagina, Leila. Uma moça tão educada. Senti logo de cara. Meu santo bateu com o
seu!

Repara no estado da moça.

Bianca: Tudo bem?


Leila ainda ardida pela morte do mosquito

Bianca: Leila?

Leila: Sim. Desculpe.

(sorri. Bianca puxa um maço de cigarros)

Bianca: Você fuma...? (oferece)

Leila: Não, obrigada.

Bianca: Hum...É uma pena. Acho bonito, viu? Mulher fumando... Acho lindo. Se for loura
então, um luxo. Fica mais parecida ainda com uma estrela de cinema. Você iria ficar linda
fumando.

Sávio: Bianca tem cada idéia!

Bianca: Sávio, porque você não vai buscar um pouco de gelo pra mim, meu anjo? Pode? Tem
bacardi. A gente mistura com laranja, fica ótimo.

Leila: Não obrigada, eu Também não bebo.

Bianca: Quer comer alguma coisa? Tem biscoito de chocolate... (sorri maternal)

Leila: Não. Muito obrigada.

Binca: Então traz um Bacardi com laranja pra mim, Sávio. Com muito gelo.
Sávio sai para cozinha, deixando as duas moças a sós.

Um estranho silêncio se estabelece, enquanto Bianca, numa tragada reflexiva, analisa a


jovem cunhada.

Bianca: Gosta do meu irmão, Leila?

Leila: Amo. E farei de tudo para torná-lo o homem mais feliz do mundo.

Bianca: Vejo sinceridade em seu olhar. Fico tranqüila. Gostei muito de você.

Leila: Obrigada.

Bianca: Gosta de ser arquiteta?

Leila: Gosto.

Bianca percebendo a inverdade

Bianca: Seja sincera... Seremos da mesma família, devemos evitar melindres.

Leila: Bem... Na verdade o meu grande sonho era ser veterinária... Minha família insistiu em
arquitetura... Fez um inferno. Acabei cedendo e acho que essa é única infelicidade que tenho.
Desde pequena sou louca por animais. Não me interessa qual! Não posso ver um bichinho na
rua que já quero levar pra casa! Quando vi Sávio salvando um cachorro de um atropelamento,
tive a certeza de que era o homem com quem eu deveria me casar. Acredito, de verdade, que
quem não gosta de animais, não deve valer um centavo.

Bianca: Acha mesmo isso?


Leila: Com toda a certeza. Fico muito incomodada com agressão aos animais. Agora a pouco,
por exemplo. Perdoe-me a sinceridade, mas me sinto a vontade em dizer, posso?

Bianca: Por favor.

Leila: Então, agora a pouco, quase tive um negócio quando a vi matando um mosquito!

Bianca: Sério?

Leila: De verdade. O pobre bicho não teve nem a escolha de fugir. Foi trucidado. Mas não te
condeno, por favor, não me leve a mal. Sei que por muitas vezes agimos inconscientemente e
partimos para esse tipo de violência espontânea.

Bianca: (vai rindo)

Leila: Desculpa, eu disse alguma coisa que não deveria...?

Bianca: ( rindo) Não, meu anjo, eu é que peço Desculpas... Um amor, você realmente é um
amor! .

Leila: Então?

Bianca: É que lembrei de uma história agora...

Leila: Com bicho?

Bianca: Sim... Um gato...

Leila: E o que aconteceu...?


Bianca: ... Ë que... (rindo mais) É serio esse negócio com o mosquito??? (ri mais ainda)

Leila: (sem graça) Sim.

Bianca: (gargalhando) Então vai enfartar com a história do gato...

Leila: Era siamês?

Bianca: Malhado! Malhadinho... Desse tamanhinho...

Leila: E o que aconteceu?

Bianca gargalha ainda mais, surpreendida com tal recordação.

Leila: (irritada) Conta... O que aconteceu?

Bianca: Uns quinze dias atrás...

Leila: (irritada ao extremo) O que tem?

Bianca: Você não vai acreditar!!!! Apaguei um cigarro aceso na vista de um gato uns quinze
dias atrás. (de uma crueldade satânica) O animal ficou cego. Birutinha! (rindo) Você precisava
ver! Você iria ter um enfarte! (rindo) Aquela criaturinha malhada e cega, se debatendo pelos
cantos... (rindo) Desse tamaninho, ele era desse tamaninho...

Mais gargalhadas de Bianca, simulando o ato desumano.

Leila: Você me cede por um momento o seu cigarro?


Bianca: Ah! Resolveu fumar! Não queria fumar na frente do meu irmão, não é? Mas não tem
problema, Leila... Olha, você vai ficar linda fumando, ele vai te amar ainda mais, porque
mulher fumando é...

(Bianca é dominada por Leila, que apaga em seus olhos azuis a brasa quente do cigarro.)

(Larga a cunhada cega, enchendo o edifício com seus gritos animalescos. Sávio ressurge
correndo, impressionado com tal aberração. Leila, na poltrona, espera_ de braços cruzados,
sem remorso. )

Leila: Bacardi com laranja, acho que ela não vai querer tomar.

Fim.

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