You are on page 1of 25

2 DO SURGIMENTO DA MEDICINA SOCIAL AO SURGIMENTO

DA INTERSETORIALIDADE

Luiz Odorico Monteiro de Andrade

2.1 Do Surgimento da Medicina Social

O mundo ocidental, liderado pela Europa, pôde presenciar no século


XIX um grande avanço científico influente em todo o século XX. Na área da
saúde este avanço repercutiu tanto do ponto de vista da Medicina Clínica
como, principalmente após a “Revolução Pasteuriana”, na microbiologia,
patologia, fisiologia, parasitologia e Medicina Preventiva.

Foi dentro do processo de crescimento das cidades, fruto de brutal


processo de urbanização provocado pela revolução industrial, que os
intelectuais e lideranças políticas européias passaram a fazer as primeiras
relações sistemáticas entre a situação saúde/doença da sua população e as
condições de alimentação, trabalho, de habitação e sanitárias, bem como a
perceber qual deveria ser o papel do Estado sobre estes determinantes.

Como em todos os momentos da história, neste também pode ser


observada a contribuição de expressivos nomes da época como René
Villarmé, Jules Guérin e Rudolf Virchow, entre os pesquisadores da área
médica (ROSEN, 1979; SIGERIST, 1996; RESTREPO; MÁLAGA, 2001).

Já em 1807, na França, o chefe de polícia de Dubois apresentou um


relatório sobre as terríveis condições de saúde do operariado. Em 1822, Patissier
criou um programa para melhoria das condições de trabalho segundo o qual
trabalhos perigosos deveriam ser proibidos terminantemente, pesquisas deveriam
ser realizadas com o objetivo de melhorar as condições de trabalho e reduzir os
danos à saúde produzidos pela indústria, e, finalmente, os trabalhadores que se
tornassem incapacitados em conseqüência do trabalho deveriam ser
compensados com uma pensão por idade avançada. Outro relatório, de Louis
René Villarmé, médico francês do século XIX, foi publicado em 1840, em dois
volumes, sobre as condições de saúde dos trabalhadores franceses da indústria
têxtil (SIGERIST, 1996).

No século XIX os problemas de saúde da Alemanha tornaram-se tão


graves quanto os ocorridos na França e na Inglaterra, também como
conseqüência da industrialização e do processo acelerado de urbanização. Neste
período, aconteceu poderoso movimento de reforma que antecedeu a Revolução
de 1848, em oposição à burocracia, aos privilégios e ao obscurantismo do clero,
e por uma completa reorganização dos serviços de saúde. O líder deste
movimento foi Rudolf Virchow, tornado, posteriormente, o mais respeitado
patologista alemão. Virchow nasceu em 1821 e ainda era jovem nos anos
revolucionários. Em 1847 o governo alemão, pressionado pela opinião pública,
designou um comitê, do qual Virchow foi membro, para controlar uma epidemia
de tifo que estava devastando o distrito industrial de Silésia. Virchow logo concluiu
serem as causas da epidemia tanto econômicas e sociais quanto físicas
(SIGERIST, 1996). Nesta ocasião, sugeriu que a população vítima daquela
epidemia necessitava, entre outras intervenções médicas, de “completa e ilimitada
democracia, educação, liberdade e prosperidade”. As recomendações de Virchow
para sanar a epidemia de tifo na Silésia do século XIX podem ser consideradas
um prenúncio das políticas públicas saudáveis no campo da promoção da saúde.

Em 1948 Virchow fundou,


conjuntamente com Leubuscher, o
jornal Die Medizinische Reform, que
se tornou o principal meio de
divulgação do Movimento de
Reforma Médica Alemã (SIGERIST,
1996; ROSEN, 1979). Ele escreveu
no primeiro editorial: “Os médicos
são os advogados naturais dos
pobres, e os problemas sociais
quedam em grande monta dentro de
sua jurisdição” (VIRCHOW, apud
SIGERIST, 1996, p. 225).
Vichow
Members.tripod.com/.../vichowobituary.htm

Em outra frase de efeito, Virchow mais uma vez enfatiza as relações


entre a medicina e os problemas sociais: “A medicina é uma ciência social e a
política nada mais é do que a medicina em grande escala” (VIRCHOW, apud
ROSEN, 1979, p.80).

O Movimento de Reforma Médica Alemã liderado por Virchow, e do


qual foram participantes destacados Neumann e Leubuscher, tinha três
princípios bem definidos:

1o. A saúde do povo é um objeto de inequívoca responsabilidade


social;

2o. As condições econômicas e sociais têm um efeito importante sobre


a saúde e a doença e tais relações devem ser submetidas à
investigação científica;

3o. Devem ser tomadas providências no sentido de promover a saúde e


combater a doença e as medidas concernidas em tal ação devem
ser tanto sociais quanto médicas (ROSEN, 1979).

O Movimento pela Reforma Médica na Alemanha do século XIX


caracterizou-se por ser um movimento da classe média liberal, que não
questionava o direito de propriedade, nem mesmo dos meios de produção.
Sigerist (1996, p.226) ao se referir a Neumann, membro do Movimento de
Reforma Médica Alemã do século XIX, afirma que este justificava o direito à
saúde da seguinte forma:

O Estado clama ser um estado que protege o direito de


propriedade. Seu propósito é proteger os bens do povo. A
maioria das pessoas, entretanto, possui apenas seu poder
de trabalho, que depende inteiramente de sua saúde. Esta é
sua única propriedade e o Estado, portanto, tem o dever de
protegê-la e o povo tem o direito de exigir que sua saúde,
sua única propriedade, seja protegida pelo Estado
(SIGERIST, 1996, p. 226).

Segundo Garcia (1989), não foi Virchow o primeiro a utilizar o termo


“Medicina Social” para designar a terapêutica dirigida às condições sociais
que alteram a fisiologia normal. Jules Guérin é quem primeiro designa esta
terapêutica como Medicina Social:

Em lugar das abordagens imprecisas e descoordenadas que


costumamos incluir sob a denominação de polícia médica,
saúde pública, medicina forense, chegou o momento de reunir
todas elas em um todo organizado e elevá-las a seu mais alto
nível sob o nome de Medicina Social, nome que melhor
expressa seu propósito (GARCIA, 1989, p. 165).

O próprio Guérin esclarece o propósito da Medicina Social, com um


exemplo:

Uma grande dúvida está presente hoje em dia em todos nós:


quais seriam os efeitos dos salários mais altos e horas de
trabalho mais curtas? Examinada à luz da Medicina Social,
esta pergunta se responde fácil e satisfatoriamente. Horas de
trabalho mais curtas significarão maior energia e maior bem-
estar [...] que resultarão numa força de trabalho melhor e mais
produtiva (FABER, 1922, apud GARCIA, 1989, p. 165).

Na Inglaterra do século XIX as condições de saúde dos


trabalhadores eram miseráveis. Houve então um esforço governamental, de
cunho utilitarista, para revisão das Leis dos Pobres, no qual Edwin Chadwick
desempenhou importante papel, tendo publicado em 1842 o documento
intitulado: Report on the sanitary condition of the labouring class. Chadwick,
pioneiro do movimento inglês de saúde pública, justificava a importância
desta revisão como “não sendo uma questão de filantropia, mas de interesse
de todos ter uma classe trabalhadora saudável” (SIGERIST, 1996).

Como afirma Ashton (1993), Chadwick pode ser considerado um


visionário precursor do movimento contemporâneo por Cidades Saudáveis
em virtude da sua grande colaboração teórica na publicação Report on the
sanitary condition of the labouring class, e na sua práxis contribuiu para
melhoria das condições sanitárias das cidades inglesas em sua época.

Outras contribuições a merecer destaque quando se fala nas


relações entre condições de vida e o processo saúde/doença foram as
reflexões de Engels, a partir de visitas por ele realizadas pessoalmente a
cidades inglesas no século XIX, tendo registrado suas observações com
detalhes no texto A situação da classe operária na Inglaterra. No capítulo
onde Engels descreve a cidade de Manchester sobressaem os seguintes
trechos:

[...] As grandes cidades são principalmente habitadas por


trabalhadores [...] Estes trabalhadores não têm
absolutamente nenhuma propriedade e vivem do salário, que
quase sempre passa da mão para a boca [...] As moradias
dos trabalhadores são, sem exceção, mal arranjadas, mal
construídas, mantidas em más condições [...] insalubres. O
vestuário dos trabalhadores é [...] na maioria dos casos
esfarrapados [...] Os alimentos são em geral ruins,
freqüentemente intragáveis, e em muitos casos,pelo menos
temporariamente, em quantidades insuficientes, de tal forma
que, no caso extremo, se morre de fome (ENGELS,1972, p.
318).

Segundo reforçado por autores da atualidade, como Restrepo (2001)


e Ashton (1993), as políticas concebidas nesta época tanto podem ser
arroladas como precursoras das hoje chamadas políticas públicas saudáveis no
campo da promoção da saúde quanto dos recentes movimentos por Cidades
Saudáveis. Todavia, desde este momento histórico ocorre uma disputa importante
neste campo entre, de um lado, a forma de conceber e explicar o processo de
determinação da doença a partir das condições de vida da população e, de outro,
com base na revolução pausteriana, que fundamentou o paradigma da
determinação biológica do processo saúde/doença. A partir da explicação
biológica para a gênese das doenças foi consubstanciada a prática da
biomedicina, hegemônica na sociedade ocidental no século XX.

2.2 Do Surgimento da Promoção da Saúde

A produção discursiva européia científica e política sobre a


determinação social do processo saúde/doença no século XIX gerou a
Medicina Social, e foi, sem dúvida, uma das precursoras modernas da
promoção da saúde, pois até então não utilizava esse termo. Este só foi
usado por Henry Sigerist, sanitarista norte-americano, que ao reordenar as
funções da medicina assim definiu: a) Promoção da Saúde; b) Prevenção de
Enfermidades; c) Cura; d) Reabilitação (SIGERIST, 1996).

Desta forma, Sigerist (1996) foi o primeiro formulador a usar o termo


promoção da saúde para denominar as ações embasadas em educação
sanitária e ações do Estado com vistas à melhoria das condições de vida. Em
um capítulo denominado Health, publicado originalmente no livro Medicine
and human welfare, editado pela Imprensa da Universidade de Yale em 1941
e reeditado em 1996 no Journal of Public Health Policy, Sigerist defendeu um
programa de saúde com poucos itens apto a ser aplicado em todos os
países. Entre estes itens, constam: a) educação livre para toda a população,
incluindo educação em saúde; b) melhores condições possíveis de trabalho e
vida para a população; c) melhores meios de recreação e lazer; d) um
sistema público de saúde de acesso universal, com pessoal médico,
responsável pela saúde de determinada população, pronto e capaz de
aconselhar e ajudar a manter a saúde na sua restauração, quando a
prevenção falhar; e) centros médicos de investigação e capacitação
(SIGERIST, 1996).

Outro trabalho importante, o qual


comprovou as fortes inter-relações entre
saúde e situação socioeconômica da
população, foi o de Thomas Mckeown.
Ele estudou o comportamento da
tuberculose na Inglaterra e Gales de
1948 a 1971. Segundo demonstrou, a
mortalidade por tuberculose diminuiu
paulatinamente durante os anos
estudados, e a maior parte da
diminuição das taxas de mortalidade
ocorreu antes da introdução da
estreptomicina, como mostra o gráfico a
Sigerist
webapps.jhu.edu/namedprofessorships/professor seguir. Nas considerações finais de seu
estudo, Mckeown concluiu que as
medidas implementadas pela medicina tiveram na Inglaterra e Gales pequeno
peso relativo na redução das taxas de mortalidade por tuberculose e doenças
semelhantes, e que os determinantes fundamentais foram decorrentes das
transformações ocorridas no processo produtivo capitalista, como o surgimento da
máquina, a reordenação das relações de produção e o imenso crescimento da
produção, que modificaram o nível de vida dos grupos sociais. Como assinala
Jaime Breilh, Mckeown inverteu o modo tradicional de estudo epidemiológico que
faz inferências do particular para o geral e procedeu inversamente na colocação
do processo saúde/doença (BREILH; GRANDA, 1986).

Taxas de Mortalidade (por Milhão)


4000
3500 Identificação do bacilo da tuberculose

3000

2500 Quimioterapia
2000
1500

1000
Vacinação BCG

500

1838 50 60 70 80 90 1900 10 20 30 40 50 60 1970

Gráfico 1 Tuberculose pulmonar: taxas médias anuais de mortalidade (Padronizado


para população de 1901): Inglaterra e Gales
Fonte: Breilh e Granda (1986).

O trabalho de McKeown veio somar-se à contribuição de Sigerist, tendo


tido como uma de suas repercussões imediatas o informe produzido pelo
governo canadense, em 1974, intitulado Uma nova perspectiva sobre a saúde
dos canadenses, conhecido por Informe Lalonde. Este último exerceu profundo
efeito no pensamento sanitário, especialmente nos países desenvolvidos, e
conduziu de forma indireta o movimento por Cidades Saudáveis. O Informe
Lalonde assume os argumentos da determinação do processo saúde/doença
por múltiplos fatores, aplicando estes princípios à realidade canadense, com
definição de estratégias nacionais de saúde, e sugerindo que as ações de
promoção da saúde deveriam se constituir numa importante prioridade
(HANCOCK, 1993; ASHTON, 1993; DUHL, 1993; BUSS, 1998).

O trabalho de McKeown (BREILH: GRANDA, 1986) também contribuiu


consideravelmente com a fundamentação do marco teórico da PS, bem como
foi somado a uma rica produção teórica, ocorrida na América Latina,
denominada de Epidemiologia Social. Esta formulação discursiva latino-
americana, conforme Nunes (1999), na década de 70 “bebeu na fonte” do
materialismo dialético, e, como a produção no campo da PS nos últimos trinta
anos, surge como uma reação à medicalização da saúde na sociedade e no
interior do sistema de saúde. Estudiosos da PS na atualidade consideram a
Epidemiologia Social um marco de referência mais amplo do que o enfoque
utilizado por Leavell e Clark. Estes últimos autores caracterizaram a promoção
da saúde apenas como um nível de atenção da medicina no esquema da
História Natural da Doença (BUSS, 1998).

Dentro destes processos, vários autores brasileiros fundamentaram


também as bases discursivas da Reforma Sanitária Brasileira, as quais,
posteriormente, nortearam a criação do Sistema Único de Saúde. Esta é uma
ligação importante entre as duas produções discursivas, de um lado, a da PS,
de outro, a do Movimento de Reforma Sanitária Brasileira que fundamentou o
SUS.

Tal produção discursiva não estava isolada, pois a partir dos anos 70
a maioria dos países do mundo passou a viver a crise do setor saúde, crise
de custos e de paradigmas, para a qual foram propostas transformações nas
políticas de saúde, com ênfase na atenção primária à saúde e no
desenvolvimento comunitário (ASHTON, 1993).

De acordo com Mendes (2000), a partir deste período passou-se a


assistir, portanto, a importantes mudanças na saúde pública relacionadas às
crises que impulsionaram as transformações históricas da sociedade. Houve
drástica alteração na estrutura da população, as pessoas começaram a viver
mais, em decorrência de descobertas de causas de doenças até então
desconhecidas, e de novas terapêuticas, contribuindo para o aumento
progressivo dos níveis de urbanização. Como acrescentou a autora, este foi
também um período no qual se evidenciaram as diferenças. Os países ricos
tornaram-se cada vez mais ricos, e as desigualdades geradas por um modelo
social e econômico excludente aumentaram os níveis de pobreza e carências
sociais dos países pobres.

2.3 A Promoção da Saúde e a Medicina Preventiva


Leavell e Clark (1976), entre as décadas de 50 e 70, descreveram e
divulgaram a História Natural da Doença, dividindo-a em dois períodos: o pré-
patológico e o patológico. O período pré-patológico corresponderia ao intervalo
de tempo anterior ao adoecimento dos indivíduos. Neste período ocorreriam as
interações entre os agentes mórbidos, o hospedeiro humano e os fatores
ambientais, correspondendo à fase de suscetibilidade. O período patológico
corresponderia ao curso da doença no organismo humano, desde as primeiras
alterações internas sem manifestações clínicas (fase patológica pré-clínica), ao
período da sintomatologia franca (fase clínica), e aos momentos finais do
curso da doença (fase de incapacidade residual), podendo esta evoluir para
cura, cronicidade, invalidez ou morte.

As medidas preventivas foram classificadas por Leavell e Clark de


acordo com o período da História Natural da Doença em que atuariam. A
prevenção primária incluiria as ações desenvolvidas para evitar a “ocorrência da
doença”; a prevenção secundária, as ações com o objetivo de prevenir a
“evolução do processo patológico no organismo”, levando à cura ou evitando
complicações; e a prevenção terciária incluiria as ações destinadas à fase final
do processo, visando atenuar a invalidez.

As três fases de prevenção foram desdobradas em cinco níveis:

- Promoção da Saúde: correspondendo à educação sanitária e


medidas gerais para o bem-estar dos indivíduos, como alimentação e
habitação adequadas;

- Proteção Específica: vacinação, exame pré-natal, quimioprofilaxia e


outras;

- Diagnóstico e Tratamento Precoce: exame de contactantes de


doenças infecciosas, auto-exame de mama, etc.;

- Limitação do Dano: acesso facilitado a serviços de saúde;

- Reabilitação: próteses, órteses e terapia ocupacional.

Quadro 1 Níveis de aplicação das medidas preventivas na História Natural da


Doença
PERÍODO PRÉ- PERÍODO PATOLÓGICO
PATOLÓGICO
Interação entre o agente, o Reação do hospedeiro aos estímulos
hospedeiro e o meio Patogênese precoce Sintomas iniciais Doença instalada
ambiente Convalescença
Promoção Proteção Diagnóstico e Limitação do dano Reabilitação
da saúde específica tratamento precoces
Prevenção primária Prevenção secundária Prevenção terciária
Níveis de aplicação das medidas preventivas
Fonte: Adaptado de Leavell e Clark (1976).

A concepção contemporânea de promoção da saúde tem sido muitas


vezes confundida com “o nível de aplicação de medidas preventivas”,
conforme adotado por Leavell e Clark. Há de se fazer uma distinção entre
estes dois conceitos. Apesar desta esquematização da História Natural da
Doença ter sido extensamente utilizada pela saúde pública, muitos autores a
criticam tendo em vista a ênfase nos fatores estritamente biológicos,
secundarizando a determinação do processo saúde/doença dada pelas
condições sociais e econômicas.

A promoção da saúde nesta perspectiva se limita ao


desenvolvimento de ações de educação sanitária, como se os determinantes
do adoecimento nos indivíduos e na coletividade se devessem apenas à
ignorância e maus hábitos. Ora, o entendimento de promoção da saúde de
forma mais ampla, que pode ser aportado na Reforma Médica Alemã de
Virchow, na Medicina Social de Jules Guerin, nos escritos de Engels sobre as
Condições da Classe Operária, e mais tarde nas análises de Sigerist, entre
outros, era de que os determinantes do processo saúde/doença estavam
intrinsecamente ligados ao complexo contexto histórico e socioeconômico.
Estes determinantes não atuariam apenas no período pré-patológico da
doença, mas teriam influência decisiva em todo o percurso do adoecimento, e
mais, determinariam uma distribuição desigual das doenças na sociedade,
pois as condições de vida e reprodução social também eram desiguais,
cabendo aos setores menos favorecidos da sociedade capitalista uma cota
bem maior de sofrimento que aos setores da classe média e empresários.
Assim sendo, as medidas para combater a doença na Alemanha do século
XIX, como foram defendidas por Virchow, e, posteriormente, a concepção de
promoção da saúde, como propôs Sigerist, tinham um caráter bem mais
amplo, e passariam por reformas sociais mais profundas e por maior
intervenção do Estado no setor social, levando à melhoria da qualidade de
vida da população de uma forma geral.

2.4 O Movimento Internacional da Promoção da Saúde e a


Intersetorialidade

A partir deste movimento surgido na década de 70, se configurou na


década de 80 todo um processo denominado por Buss (1998) de estratégia
da “Nova Promoção da Saúde”, que tem seu desenvolvimento, como
movimento ideológico e social, de forma mais intensa, no Canadá, Estados
Unidos e países da Europa Ocidental, nos anos 70, com avanços mais
lentos na América Latina e Caribe. As Conferências Internacionais, desde a
Primeira Conferência Internacional de Promoção da Saúde realizada em
Ottawa em 1986, têm difundido conceitos básicos que exigem o
fortalecimento da saúde pública em torno do compromisso de saúde para
todos. As discussões de Ottawa tiveram como parâmetro a Declaração de
Alma-Ata para os Cuidados Primários em Saúde (1978) e debates
posteriores realizados ao redor do mundo. O tema da Conferência de Ottawa
centrou-se na nova conceituação de saúde e de promoção da saúde.

É importante destacar, aqui, alguns pontos: o primeiro é que começa


a se delinear nova tensão paradigmática no campo da saúde respeitante ao
modo como a promoção da saúde foi formulada, como se a disputa
paradigmática ocorrida no século XIX fosse retomada. O eixo central do
debate passa a ser o processo de produção social da saúde e doença. Assim
a promoção da saúde está relacionada a um “conjunto de valores”: vida,
saúde, solidariedade, eqüidade, democracia, cidadania, participação,
parceria, desenvolvimento, justiça social, revalorização ética da vida.
Portanto, as determinações da saúde foram relacionadas ao impacto das
dimensões sociais, culturais, econômicas e políticas nas coletividades para
alcançar um desenvolvimento social mais eqüitativo. Ressalta-se, ainda, a
“combinação de estratégias”, ou seja, a promoção da saúde demanda uma
ação coordenada entre os diferentes setores sociais, ações do Estado, da
sociedade civil, do sistema de saúde e de outros parceiros intersetoriais. Em
suma, a saúde não é assegurada apenas pelo setor da saúde. Observa-se,
também, forte “componente internacionalista” presente nos documentos, cartas e
conferências, que definem sua natureza política (BUSS, 1998; ANDRADE;
BARRETO; MARTINS JR., 2002).

A I Conferência Mundial de Promoção da Saúde realizada em


Ottawa, Canadá, em 1986 ficou mundialmente conhecida pela Carta de
Ottawa (1986). A Carta de Ottawa teve o grande mérito de clarificar o
conceito de promoção da saúde. Consoante ela definiu, a promoção de
saúde consiste em proporcionar aos povos os meios para melhorar a saúde e
exercer maior controle sobre a mesma. A saúde se percebe, pois, não como
o objetivo, mas sim como a fonte de riqueza da vida cotidiana. As condições
e requisitos para a saúde são: a paz, a educação, a moradia, a alimentação,
a renda, o ecossistema estável, a justiça social e a eqüidade. Entre as
condições-chave para promover a saúde se incluem o estabelecimento de
políticas públicas saudáveis, a criação de ambientes favoráveis, o
fortalecimento de ações comunitárias, o desenvolvimento de habilidades
pessoais e a reorientação dos serviços de saúde (BRASIL, 2001).

A II Conferência Mundial de Promoção da Saúde foi realizada em


Adelaide, Austrália, em 1988. A Conferência de Adelaide não só reafirmou a
Conferência de Ottawa como apontou que as políticas públicas de todos os
setores influenciam os determinantes de saúde e são importantes veículos para
reduzir iniqüidades sociais e econômicas, assegurando o acesso eqüitativo de
bens e serviços, incluídos os serviços de saúde. Na Conferência de Adelaide, o
conceito de política pública saudável foi aprofundado e ressaltada a orientação
de que a elaboração de políticas públicas saudáveis necessita, acima de tudo,
de vontade e compromisso político de todos os setores envolvidos com saúde. A
II CMPS indicou quatro áreas para a sua introdução imediata: saúde das
mulheres, acesso à alimentação e nutrientes saudáveis, redução do consumo
de tabaco e álcool, e criação de ambientes saudáveis (BRASIL, 2001).

A III Conferência Mundial de Promoção da Saúde aconteceu em


Sundsvall, Suécia, em 1991. O tema central desta conferência foi a criação de
ambientes saudáveis. Como ela ocorreu um ano antes da Conferência das
Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92, realizou-se
em um contexto de muita efervescência. Foi uma espécie de pré-Rio-92. Teve o
grande papel de colocar o tema do ambiente na agenda da saúde. Segundo
afirmou, um ambiente favorável é de suprema importância para a saúde.
Ambiente e saúde são interdependentes e inseparáveis. Ressaltou que os
conflitos armados, o rápido crescimento da população, a alimentação
inadequada, a falta de meios para garantir a autodeterminação e a degradação
dos recursos naturais são fatores prejudiciais à saúde (BRASIL, 2001).

A IV Conferência Mundial de Promoção da Saúde - IV CMPS, foi


realizada em Jakarta, Indonésia, em 1997. Nela os impactos da Carta de
Ottawa foram revistos e deu-se também a convocatória de novos atores para
enfrentar os desafios impostos pela nova era. Foi a primeira das quatro a ser
promovida em um país em desenvolvimento. Na IV CMPS constatou-se que
a estratégia de promoção da saúde, desenvolvida após a I CMPS, mostrou-
se eficiente para o melhoramento das condições de saúde e a prevenção de
enfermidades, tanto em países desenvolvidos como em países em
desenvolvimento. A Declaração de Jacarta estabeleceu cinco prioridades
para promoção da saúde até o século XXI:

1. Promover a responsabilidade social da saúde;

2. Aumentar a capacidade da comunidade e o apoderamento dos


indivíduos;

3. Expandir e consolidar alianças para a saúde;

4. Aumentar as investigações para o desenvolvimento da saúde;

5. Assegurar uma infra-estrutura para a promoção da saúde (BRASIL,


2001).

As cinco prioridades para a promoção da saúde foram tomadas como


eixos centrais para a V Conferência Mundial de Promoção da Saúde. Esta
conferência teve como meta analisar a contribuição dada pela estratégia de
promoção da saúde na melhoria da qualidade de vida de pessoas que vivem em
condições adversas. Teve três objetivos básicos:
1. Demonstrar como a promoção da saúde faz uma diferença na
saúde e na qualidade de vida, especialmente para as pessoas que
vivem em circunstâncias adversas;

2. Posicionar a saúde na agenda das agências de desenvolvimento


internacionais, nacionais e locais;
3. Estimular alianças para a saúde entre os diferentes atores em
todos os níveis da sociedade.

Esta conferência teve dois componentes programáticos: Cinco dias


de programa técnico e dois dias de programa ministerial. Ambos os grupos se
reuniram em espaços conjuntos. A preparação do programa ministerial
desenvolveu a Declaração Ministerial do México para a Promoção da Saúde,
firmada por dez ministros de saúde ou por seus representantes. Os ministros
declararam que:

- Afirmam a contribuição das estratégias de promoção da saúde para


manutenção das atividades de saúde em nível local, nacional e
internacional;
- Comprometem-se que seus países desenhariam Planos Nacionais de
Ação para monitorar o progresso feito pela incorporação das
estratégias de promoção da saúde na política de planificação em nível
nacional e local.

Um programa técnico foi estruturado levando em consideração as


prioridades da promoção da saúde estabelecidas na Declaração de Jakarta
(1997) e na Resolução sobre promoção da saúde da Assembléia Mundial da
Saúde (1998). As seis sessões técnicas tiveram os seguintes temas:

1. Fortalecer as bases de evidência em promoção da saúde;


2. Incrementar a inversão para o desenvolvimento da saúde;
3. Promover a responsabilidade social para a saúde;
4. Incrementar a capacidade das comunidades e apoderar os
indivíduos e as suas comunidades;
5. Assegurar a infra-estrutura necessária para a promoção da saúde;
6. Reordenar os sistemas e serviços de saúde com critérios de promoção
da saúde.
Da V CMPS resultaram cinco produtos: a) seis informes técnicos; b)
estudos de casos; c) declaração ministerial do México para a promoção da
saúde; d) marco de trabalho para os planos de ação para a promoção da
saúde; e) o Informe da V Conferência Mundial de Promoção da Saúde.

Algumas questões-chave foram evidenciadas como resultados da V


Conferência: a) Reafirmação da importância da promoção da saúde; b) a
necessidade de focalizar os determinantes da saúde; c) a grande necessidade
que a humanidade tem de buscar construir um mundo mais eqüitativo; d) a
promoção da saúde; e) a promoção da saúde é socialmente relevante; f) a
promoção da saúde é politicamente sensível; g) a importância das mulheres
para o desenvolvimento de ações de promoção da saúde (BRASIL, 2001).

A formulação e implementação de políticas públicas saudáveis são


diretrizes e componentes centrais das estratégias de promoção da saúde.
Esta expressão passou a designar a idéia de que muito do que influi na
saúde se encontra fora do campo das intervenções médicas ou da saúde
pública tradicionais (KICKBUSCH, 1996).

De acordo com Mendes (2000), há duas abordagens de políticas de


saúde prevalecentes na promoção da saúde. Na primeira abordagem, uma
política de saúde envolve fazer investimentos em setores para tratar de um
problema específico de saúde. Ela trata da promoção e prevenção no campo
da saúde e requer participação de outros setores. Tal política é o que
estimula os definidores de políticas e planejadores a perceber os efeitos de
suas decisões sobre a saúde.

Além de governos e profissionais de saúde, muitas outras pessoas


devem estar envolvidas na elaboração desse tipo de política. Referidos
atores podem representar, por exemplo, os setores do bem-estar social, das
indústrias, da educação, da economia e comércio, da mídia e das
comunidades.

Uma política de saúde pode também significar que todos os setores


públicos avaliem suas políticas entre outras coisas com base nos possíveis efeitos
sobre a saúde.

Este conceito leva à segunda abordagem, que Milio (apud RESTREPO;


MÁLAGA, 2001) denominou de “política pública saudável”. Uma política pública
saudável é caracterizada por uma preocupação explícita com saúde e
eqüidade promovidas por várias áreas e com uma responsabilidade conjunta
pelo impacto em saúde.

A principal diferença em relação à primeira abordagem é que o ponto


de partida para essa política não é um problema de saúde, mas pode ser
qualquer questão, por exemplo, de economia, de tráfego, ou de segurança.
Nessa visão, é fundamental integrar as preocupações de saúde no processo
de tomada de decisão de setores como o ambiental, o do trabalho, o do
transporte, o da habitação e outros, que têm repercussões nas condições de
saúde de uma população (MENDES, 2001).

A noção de políticas públicas saudáveis, nesse sentido, está


estreitamente vinculada à construção de políticas públicas intersetoriais. Para
Buss (1996), a criação de um conjunto de mecanismos, de caráter político,
promovendo a integração da ação pública, com participação na
implementação das políticas sociais integradas, constitui uma estratégia de
operar as políticas públicas saudáveis.

Nesse sentido, na implementação de políticas de promoção da


saúde, entre as quais se inserem as propostas por Cidades Saudáveis,
apoiadas e impulsionadas por atores territoriais, é possível se promover
espaços políticos negociados com vistas a impulsionar o desenvolvimento
local, incidindo positivamente na gestão do espaço público local. Isto significa
firmar, contudo, compromissos de interesse público, redefinir o papel do
Estado e da sociedade ante o estabelecimento de políticas sociais, definir
fóruns participativos e pactuados expressivos da diversidade de interesses e
necessidades sociais (MENDES, 2000).

2.5 O Movimento Internacional de Cidades e Municípios


Saudáveis e a Intersetorialidade
Quando se observa o movimento produzido pelos formuladores e
defensores, conscientes ou não da idéia de promoção da saúde do século
XIX até os dias atuais, entende-se terem sido suas formulações embasadas
principalmente nas contradições vivenciadas nas cidades. Daí o motivo por
que a idéia de Promoção da Saúde é tão próxima da de Cidades Saudáveis.

Na afirmação de autores como Aston (1993), Hancock (1993), Duhl


(1993) e Rosen (1994), o movimento pela “saúde das cidades” não é novo, e
faz relação com o processo conduzido por Edwin Chadwick, na Inglaterra no
século XIX, quando este produziu o primeiro relatório da Comissão da Saúde
das Cidades, o qual apontou as péssimas condições a que estava submetida
a população: alta densidade demográfica, pobreza, crime, insalubridade e
alta mortalidade, apresentando medidas de melhoria. Ao relacionar a pobreza
às doenças, e reconhecendo ser a doença importante fator de aumento do
número de pobres, Chadwick concluiu que seria econômico tomar medidas
preventivas.

Com o objetivo de disseminar conhecimentos sobre condições


urbanas e organizar a opinião pública para apoiar as ações legislativas a
favor da saúde pública, várias associações foram formadas. Destas a mais
significativa foi a Associação da Saúde das Cidades, fundada em 1844 por
Southwood Smith. Ao longo do século XIX, de acordo com Rosen (1994), os
sanitaristas usaram essa abordagem de esclarecimento e formação de
opinião pública para atrair a atenção do governo e, assim, chegar à
legislação remediadora.

Desde o final do século XIX, a idéia sanitária com um delineamento


ambientalista continuou a exercer grande influência na definição das políticas
públicas dos países desenvolvidos, com ênfase na ação ambiental e prevenção
individual.

Conforme analisado na evolução das políticas de promoção de saúde,


um dos principais marcos foi o Relatório Lalonde. Este relatório passa a ter a
mesma referência quando se estuda a evolução das Políticas de Cidades
Saudáveis, por seu poderoso efeito no pensamento sanitário, especialmente nos
países desenvolvidos, e por conduzir de forma indireta o recente movimento por
Cidades Saudáveis, com influência no movimento da América do Norte,
principalmente no Canadá e na Europa.

O processo de construção de Cidades Saudáveis no Canadá surgiu


em 1978, com a iniciativa do governo local de Toronto de estabelecer um
comitê de planejamento que publicou o informe intitulado A saúde pública nos
anos 80. Este informe inspirou-se no Informe Lalonde e advogava uma saúde
pública com ênfase na dimensão política e social e no desenvolvimento
comunitário, para transformar Toronto na cidade mais saudável da América
do Norte (MENDES, 2000).

De acordo com Ashton (1993), a Oficina Européia da Organização


Mundial de Saúde acompanhou o processo de Toronto e apresentou o
conceito desenvolvido no Canadá no Primeiro Simpósio sobre Cidades
Saudáveis ocorrido em Lisboa, Portugal, em 1986. Como decorrência é
elaborada uma proposta para um projeto de promoção da saúde, a ser
desenvolvido em onze cidades, denominado de Projeto Cidades Saudáveis,
com o intuito de unir os setores públicos e privados e as organizações
voluntárias para enfrentar os problemas de saúde urbanos. Em 1987, ocorre
o segundo simpósio em Dusseldorf, Alemanha, e outras quatorze cidades
são designadas em 1988. No ano de 1997, 36 cidades européias, localizadas
em 23 países, eram participantes do Projeto WHO/EURO de Cidades
Saudáveis.

O processo canadense de Cidades Saudáveis evoluiu e expandiu-se


depois, por meio da OPAS, pela América Latina. Hoje, no Canadá, os
projetos vêm se desenvolvendo mediante quatro redes provinciais: British
Columbia, Manitoba, Ontário e Quebec, mas outras duas, New Brunswick e
Saskatchewan, estão tentando formalizar suas redes (MENDES, 2000;
FERRAZ, 1999) .

A proposta de Cidades Saudáveis vem ganhando adeptos e


crescendo rapidamente, tanto em importância quanto em abrangência. Este
movimento constitui-se em uma das mais importantes iniciativas da
Organização Mundial da Saúde (OMS/WHO) para o desenvolvimento das
condições de saúde e qualidade de vida urbanas. O contingente de cidades
abrangidas em nível mundial cresceu rapidamente de onze cidades filiadas à
rede em 1986 para 650 cidades (em 15 países) em 1993, interagindo por
meio de dezenove redes nacionais e internacionais. Foi o reconhecimento da
importância da urbanização e seu impacto na saúde das populações que fez
com que a OMS elegesse o tema “Saúde Urbana” para a Assembléia Mundial
da Saúde de 1991 (MENDES, 2000; RESTREPO, 2001).

A proposta de Cidades Saudáveis enfatiza fortemente a idéia de um


planejamento sistemático continuado e intersetorial. Pode-se conceituar uma
cidade saudável como aquela a colocar em prática, de modo contínuo, a
melhoria de seu ambiente físico e social, utilizando os recursos de sua
comunidade, com o intuito de oferecer aos seus cidadãos uma aptidão mútua
em todas as atividades humanas que levem à sua plena realização
(HANCOCK, 1993).

A reorganização dos serviços públicos, pela proposta de Cidades


Saudáveis, pressupõe uma perspectiva “intersetorial”, superando a
fragmentação funcional, típica das propostas burocráticas clássicas. Assim, a
saúde diz respeito ao conjunto de “políticas públicas”, e não apenas à
assistência à saúde, stricto sensu, mas a vários aspectos a ela relacionados:
meio ambiente, saneamento básico, água, transporte urbano, etc. “A saúde,
como qualidade de vida, é colocada como objeto de todas as políticas
públicas, dentre elas as políticas de serviço de saúde” (LAURENSE, apud
MENDES, 2000).

A proposta de Cidades Saudáveis dissemina-se com intenso vigor no


período pós-80, concomitante ao aprofundamento do processo de globalização e
abertura econômica. Entre os impactos a se destacar na gestão pública advindos
deste processo menciona-se o enfraquecimento dos Estados Nacionais – por
instâncias de caráter supranacional de tipo político-econômico, como os mercados
regionais, a Organização Mundial do Comércio ou até mesmo pelas próprias
empresas, em especial as que realizam transações financeiras em nível global. Na
outra “ponta” deste processo tem-se um movimento de fragmentação ou de
localismo, destacando o papel da região (muitas vezes em oposição à idéia de
nação), fortalecendo as instâncias locais de poder e concretizando a tendência no
sentido da descentralização (KEINERT, 1997).

A idéia de Sistemas Locais de Saúde desenvolvida em vários países


da América Latina, nos anos 80, e conduzida pela OPAS é o antecedente
mais próximo do projeto por Cidades Saudáveis. Esta idéia tinha como
proposta modificar os tradicionais enfoques de atenção primária, enfatizando
a descentralização e a reorientação dos serviços de saúde (OPAS,1990;
OPAS,1992).

A proposta dos SILOS partiu do setor saúde na busca da eqüidade,


qualidade, eficiência, com ênfase na participação social. Os SILOS
defendiam a divisão do trabalho nos sistemas nacionais de saúde, baseada
no critério geográfico-populacional.

Ambas as estratégias, SILOS e Cidades Saudáveis, fortalecem a idéia


do “município pela saúde” e aderem à proposta de um governo local
conjuntamente com os cidadãos no desenvolvimento de um plano de promoção
da saúde (RUIZ, 1998).

No geral as propostas de construção de SILOS não passaram de um


processo discursivo, e foram “atropeladas”, em alguns países, de um lado,
pelas reformas do setor saúde em curso na América Latina, e, de outro, pelo
embate discursivo produzido pelos formuladores da corrente da
Epidemiologia Social. No entanto, como ressalta Andrade e Barreto (2002),
esta proposta teve influência discursiva em algumas reformas, como, por
exemplo, a vivenciada no Brasil, pelo seu caráter descentralizador e
fortalecedor do processo de municipalização.

Na América Latina em 1992 foi realizada a Conferência de Santa Fé-


Bogotá com o objetivo de estabelecer o significado da promoção de saúde
para a região da América Latina.

Em recente trabalho publicado, Ferraz (1999) avalia a pertinência do


conceito municípios saudáveis no Brasil, relacionando fatores favoráveis e
desfavoráveis à adoção do termo Cidades Saudáveis. Para a autora, os fatores
favoráveis são: a) comprometimento dos municípios no processo de
descentralização; b) exemplo da cidade de Curitiba; c) congruência entre
os princípios do movimento sanitário no Brasil e os princípios de Cidades
Saudáveis; d) interesse e ação do Movimento Sanitário como agente político.
Como fatores desfavoráveis a autora menciona: a) herança de uma cultura
política de ação setorial em nível local;b) instabilidade política em nível local;
c) ausência de apoio logístico para execução de projetos; d) cultura sanitária
dos programas verticais.

Um município saudável, conforme a OPAS (1992), é aquele que


busca não apenas atingir a atenção universal em saúde mas afirmar que:

1. Existe compromisso político manifesto para fazer da saúde uma


prioridade e um objetivo fundamental da gestão pública;

2. Se expressa compromisso de governabilidade para melhorar a


saúde, entendida como bem-estar, e disposição para mobilizar os
recursos sociais, institucionais e comunitários da municipalidade;

3. Apresentam-se mecanismos mínimos para convocar e coordenar


os setores institucionais e organizações locais;

4. Explicitam-se procedimentos para negociar propósitos de saúde


sem reduzi-los somente a metas de cobertura dos serviços;

5. Manifestam-se fórmulas para acordar compromissos e


responsabilidades dos diferentes atores sociais e institucionais
para alcançar as metas de saúde conveniadas;

6. Explicita-se a maneira de concretizar o seguimento e o


cumprimento dos compromissos adquiridos, das metas
consensuadas e do desenvolvimento de processos de
transformação das relações para o sucesso da eqüidade em
saúde.

2.6 O Movimento da Reforma Sanitária Brasileira, O SUS e a


Intersetorialidade

Foi na década de 70, em pleno regime repressivo imposto pela


ditadura militar, que pela primeira vez fundamentou-se em lei o Sistema de
Saúde que legitimou o modelo médico-assistencial privatista iniciado na
década anterior. Tal sistema recebeu fortes críticas de setores acadêmicos,
localizados nas Universidades, Departamentos de Medicina Preventiva e Social e
Escolas de Saúde Pública, além de setores da sociedade civil. Esse discurso
fundamentou o alicerce do movimento pela Reforma Sanitária Brasileira.
Ressalta-se nesse período o surgimento do Centro Brasileiro de Estudos de
Saúde, resultante da mobilização de vários médicos e demais profissionais
da área da saúde oriundos dos departamentos de Medicina Preventiva e de
serviços de saúde, o qual vai funcionar como uma espécie de “braço civil” do
emergente movimento sanitário.

Conforme afirma Escorel (1998), o CEBES passa a funcionar como um


centro de difusão de um movimento, que nascido no interior do Aparelho de
Estado torna-se capaz de articular o movimento sanitário com os demais
movimentos sociais.

Não se pode deixar de evidenciar a produção acadêmica da década


de 70. De acordo com Nunes (1999), foi nesse período que a abordagem
teórica procedente do materialismo histórico configurou-se como referencial
teórico na produção das ciências sociais em saúde dentro dos
Departamentos de Medicina Preventiva e Medicina Social nas Universidades
Brasileiras. Ele destaca como produções emblemáticas as de Donnangelo
(1975), Arouca (1975), Donnangelo e Pereira (1976), Machado et al. (1978) e
Gonçalves (1979).

Ainda segundo Nunes (1999), esta “produção irá tratar das relações
medicina e sociedade, medicina estatal, análises históricas e programas de
saúde” e exerce grande influência na produção na área da década seguinte
onde a partir de 1985 deu-se o nascimento do movimento da Reforma
Sanitária.

O grande marco histórico nesse processo, sem dúvida alguma, foi a VIII
Conferência Nacional de Saúde, ocorrida em março de 1986. Contou com a
participação de diversos setores organizados da sociedade, havendo um
consenso de que para o setor saúde no Brasil não era suficiente uma mera
reforma administrativa e financeira, mas sim uma mudança em todo o
arcabouço jurídico-institucional vigente, que contemplasse a ampliação do
conceito de saúde segundo os preceitos da reforma sanitária. O relatório
produzido nessa conferência serviu de referência para os constituintes
responsáveis pela elaboração da Constituição de 1988.

Um outro fato inovado na Constituição Brasileira foi a introdução do


conceito de seguridade social, pois esta foi a primeira Constituição a aplicar
este conceito. A seguridade social está composta pelo tripé: saúde,
previdência e assistência social (CAMPOS,1992; DALLARI,1995).

Em relação à saúde, a Constituição (CF, 1988), em seu artigo 196,


determina que

a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido


mediante políticas sociais e econômicas que visem à
redução do risco de doença e de outros agravos e ao
acesso universal e igualitário às ações e serviços para a sua
promoção, proteção e recuperação.

Na regulamentação infra-constitucional a Lei n° 8.080/90, nos seus


artigos 2.° e 3°, regulamenta:

- que saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o


Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício;

- que o dever do Estado de garantir a saúde consiste na


reformulação e execução de políticas econômicas e sociais que
visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao
acesso universal e igualitário às ações e serviços para a sua
promoção, proteção e recuperação da saúde;

- que as políticas sociais e econômicas protetoras da saúde


individual e coletiva são as que atuam diretamente sobre os fatores
determinantes e condicionantes da saúde como alimentação,
moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a
renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e
serviços essenciais;

- que o dever do Estado de prover as condições indispensáveis ao


exercício do direito do cidadão à saúde não exclui o dever das
pessoas, da família, das empresas e da sociedade;

- que além das ações diretamente derivadas da política de saúde e


das políticas econômicas e sociais, dizem respeito também à
saúde as ações que se destinam a garantir às pessoas e à
coletividade condições de bem-estar físico, mental e social.

No início da década de 90 todo processo de regulamentação do SUS


do qual participavam os atores do então Movimento Sanitário passa a contar
com novos atores, como os Secretários Municipais de Saúde, liderados pelo
Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde, e os Secretários
Estaduais de Saúde, liderados pelo Conselho Nacional de Secretários de
Saúde. Em continuidade a este movimento se iniciou todo o processo de
pactuação infraconstitucional, onde se editou a chamada Lei Orgânica da Saúde
Brasileira, seguida de duas Leis Complementares à Constituição (a Lei nº
8.080/90 e a Lei nº 8.142/90). A Lei nº 8.080/90 disciplina a descentralização
político - administrativa do SUS, enfatizando seus aspectos de gestão e
financiamento, regulamentando as condições para sua promoção, proteção,
recuperação e funcionamento. A Lei nº 8.142/90 regulamenta a participação da
comunidade bem como as transferências intergovernamentais de recursos
financeiros.

Como forma de regulamentar esta transição entre o antigo modelo


organizacional e o SUS, o Ministério da Saúde vem utilizando-se de
instrumentos normativos editados com o objetivo de regular as transferências de
recursos financeiros da União para Estados e Municípios, o planejamento das
ações de saúde e os mecanismos de controle social. Estes instrumentos são as
Normas Operacionais Básicas. Até o momento foram editadas quatro NOBs:
01/91; 01/92; 01/93 e 01/96. As NOBs são, acima de tudo, produto da
necessidade de um processo político de pactuação intergestores, que vem,
após a edição da Lei Orgânica da Saúde, criando condições privilegiadas de
negociações para viabilizar a descentralização e construção do SUS
(ANDRADE, 2001).

A atual NOB em vigor é a 01/96. Esta NOB estabeleceu como uma de


suas finalidades prioritárias a transformação do modelo de atenção à saúde, até
então hegemônico. Conforme enfatizou, isso implicava o aperfeiçoamento da
gestão dos serviços de saúde no país e a própria organização do sistema, pois
o município passou a ser, de fato, responsável imediato pelo atendimento das
necessidades e demandas de saúde de sua população e das exigências de
intervenções saneadoras em seu território. Como tema principal estabeleceu:
“Gestão plena com responsabilidade pela saúde do cidadão”. Buscava, assim,
construir a plena responsabilidade do poder público municipal, sobre a gestão
de um sistema de saúde e, não somente, sobre a prestação de serviços de
saúde. Criou duas categorias de gestão: a Gestão Plena da Atenção Básica e a
Gestão Plena do Sistema Municipal.

Esta NOB inova quando garante, em coerência com as prerrogativas


constitucionais, as suas responsabilidades no campo da promoção da saúde,
pois uma das preocupações levantadas por ela foi a de propiciar as condições
para a construção da integralidade das ações e serviços de saúde, e, mais do
que isto, evidenciar a necessidade das ações fora do campo específico da
saúde. Diferentemente da norma anterior que organiza o conjunto das ações no
campo da assistência, a NOB/ 96 definiu a atuação do setor saúde em três
campos: a) o da assistência; b) o das intervenções ambientais; c) o das
políticas externas ao setor saúde.

Este último interfere nos “determinantes sociais do processo saúde-


doença das coletividades, de que são partes importantes questões relativas
às políticas macro-econômicas, ao emprego, à habitação, à educação, ao
lazer e à disponibilidade e qualidade dos alimentos” (BRASIL, MINISTÉRIO
DA SAÚDE – NOB-SUS, 1996).