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LEROI-GOURHAN, André. O gesto e a palavra: técnica e linguagem. Trad. Vitor Golçalves. Ed. 70. Lisboa.1990. p.131-146

LEROI-GOURHAN, André. El gesto y la palabra. Trad. Felipe Carrera D. Ed. Biblioteca de la Universidad Central de Venezuela. Caracas, 1971. p.130-144. 1

Seminário apresentado por Pedro Kritski

14/03/2018

Capítulo IV: Os neantropos 2

O homem futuro

(p.131/130)

Questão: É possível modificar a trajetória humana?

O homem como dispositivo já se encontra em completo desenvolvimento há, pelo menos, 1 milhão de anos.

Isso se for tomado pelas suas características fundamentais:

1. Posição vertical;

2. Mão;

3. Útil;

4. Linguagem.

Se a intenção é encontrar como o homem ainda pode evoluir, chega-se ao edifício da caixa craneana (conjunto parieto-occipital). Para uma modificação ali, seria necessária uma mudança da sua orientação erguida.

A abóboda, inclusive na sua parte média, parece estar estabilizada e o leque cortical está completamente

desconectado, livre.

Houve ganho no território pré-frontal pela perda da viseira orbital, e depois pela perda dos dentes do siso.

No entanto, esse processo ainda não está definido, para que se tenha uma definição das mudanças nas características fisiológicas e mentais do homem.

No final do século XIX, especulou-se o futuro do homem com base na comparação com o feto humano. Assim, os homens teriam cérebros enormes, rosto reduzido e corpo minúsculo.

Essa imagem é falsa, uma vez que é preciso dezenas de milhares de anos para sentir-se o efeito de tais mudanças consideráveis.

O homem possui apenas 30 mil anos, de modo que falta muito para que se sinta as derivações da espécie.

Pode-se, no máximo, chegar a mudanças com relação ao aumento da massa cerebral por meio da seleção natural, sem que alguém característica relevante possa ser retirada como seu efeito.

O que nenhuma especulação previu foi que nenhuma mudança significativa se poderia dar sem a perda da

mão, da dentadura e consequentemente da posição vertical.

Uma humanidade anodonte 3 e que viveria deitada utilizando o que lhe restasse dos membros anteriores para se apoiar em bengalas não é completamente inconcebível e alguns livros de ficção, na pesquisa de todas as fórmulas possíveis criaram os ‘marcianos’ ou os ‘venusianos’, que se aproximam desse ideal evolutivo.

1 O fichamento seguirá duas paginações: a primeiro da esquerda para a direita se refere à versão em português seguida, naturalmente, da paginação referente à tradução para o espanhol.

2 Os títulos sublinhados e em negrito correspondem à divisão feita pelo próprio autor. Os subtítulos apenas em negrito correspondem à divisão feita pelo autor do fichamento.

3 Sem dentes.

Questão: Ainda trata-se de um homem?

Verifica-se, na paleontologia, casos de espécies que atingem o estado de equilíbrio que torna-se permanente.

(p.131/131)

Existem dois tipos, então, de estabilidade:

Caso dos tubarões, que adquiriram uma estabilidade imutável.

Em outros casos a estabilidade traduziu-se no desaparecimento da espécie.

O caso do ser humano parece ser o segundo tipo de estabilidade.

(p.132/131)

No entanto, é preciso lembrar que o homem está na corrente de derivação das espécies e talvez isso tarde algumas dezenas de milhares de anos para que ocorra

Há ainda a possibilidade da intervenção do homem, e assim a possibilidade dele desacelerar a sua mutação genética e mudar o curso da sua evolução. “De qualquer modo, não vemos como ele se poderia ‘libertar’ sem ao mesmo tempo mudar de espécie.

A evolução cerebral dos neantropos

O último episódio verdadeiramente espetacular da evolução foi o desanuviamento pré-frontal.

Questão: Quais foram as consequências no funcionamento cerebral de uma modificação tão importante no edifício craniano?

(p.132-133/131)

O volume cerebral não variou desde os paleantropídeos mais evoluídos

(p.133/131)

As mudanças essenciais devem ter-se dado nas proporções das diferentes partes do cérebro, e não no acréscimo de matéria.

Mantém-se, no entanto, uma verdade estatística: houve um ganho global para a humanidade dos territórios pré-frontais.

Embora a relação entre tamanho da testa, o volume do cérebro e a inteligência não seja sine qua non. A

relação entre o tamanho da testa e a inteligência estabeleceu-se no final do século XVIII, com Daubenton

e Camper.

(p.133/131-132)

Estudo da neurofisiologia e da neurocirurgia do encéfalo.

(p.133/132)

Encéfalo está dividido em duas partes:

1. Neocórtex (córtex pré-frontal): Elemento principal da personalidade, base das operações, responsável pela previsão e consciência lúcida

2. Lóbulo olfativo: Estrutura antiga do cérebro dos vertebrados. Tinha como função nos vertebrados inferiores o papel principal da interpretação dos dados olfativos. Modificou-se e tornou-se, nos mamíferos superiores, área responsável pela revelação de emoções.

Deste modo:

O desenvolvimento adquirido pelo lóbulo olfativo no nível superior da escala animal e a sua proximidade do córtex de comando permitem compreender, pelo menos em parte, o que o desanuviamento pré-frontal implicou no homem. O cérebro anterior do homo sapiens, pelo seu dispositivo de regulação pré-frontal, insere-se, de certo modo, entre o córtex da motricidade técnica e o do desencadeamento emotivo. As leucotomias pré-frontais, que durante alguns anos tiveram importância no tratamento de certos doentes mentais, fizeram surgir papel de amortização e de estímulo que o córtex pré-frontal tem no desenrolar de manifestações afetivas e motoras.

Essa disposição integrativa entre os impulsos dos sentimentos e o dispositivo de organização motora foi extremamente importante para o desenvolvimento da inteligência.

(p.134/132)

Na medida que o córtex pré-frontal adquire importância preponderante que se pode falar em noções de inteligência e reflexão, no sentido humano do termo.

Além disso, da libertação da testa seguem-se transformações profundas das relações entre o homem e o mundo biológico.

O desenvolvimento da utensilagem só pode ser concebido através dos dispositivos motores e promotores.

(caso dos antropídeos)

O papel de um cérebro frontal também era muito importante para o zijantropo, nas suas reações motoras

de fabricação e de organização técnica.

Há, portanto, um constante aumento do domínio frontal nas atividades exercidas. Isso é mostrado pelo reflexo da inteligência e a sua evolução nas técnicas desenvolvidas.

Ao indagar-se de como se manifestava a inteligência criadora de modo individual, encontrou-se (nos australantropos e nos arcantropos) o desenvolvimento das técnicas seguidas aproximadamente do desenvolvimento do crâneo.

(p.134/132-133)

Creio efetivamente que, a estes níveis, ligando o progresso técnico com o biológico, mais não faço que verificar um fenômeno comparável à ligação, a partir do homo sapiens, do mesmo progresso técnico com a organização do grupo social. O fato mais claramente se destaca, a partir da libertação de parte anterior do cérebro, é a importância da sociedade em relação à espécie. No momento em que as diferentes variações individuais adquirem uma ação preponderante no progresso, imediatamente o registro de valores se modifica. Nesta evolução, é facilmente compreensível que os paleantropídeos tenham um papel de charneira 4

(p.134/133)

Com relação aos paleantropídeos, isso se dá por ainda pertencerem à ordem zoológica, onde a técnica e a linguagem ainda não adquiriram as suas possibilidades.

Porém,

detalhes

que

mostram

que

os

paleantropídeos

pertencem

ao

mundo

do

homem

contemporâneo.

Por isso a importância da análise ir além da busca por crâneos, uma vez que os australantropos são “os protagonistas do penúltimo ato da nossa história.”

Diversificação e ritmo de evolução das técnicas

(p.134-135/133)

Antes de entrar no domínio do Homo sapiens é necessário, após o que foi dito sobre a realidade física e sobre a sua inteligência, utilizar o testemunho da histórias das suas técnicas.

(p.135/133)

Assim, será feito uma retomada cronológica do progresso material essencial, de modo a mostrar as ligações entre o progresso técnico e o progresso biológico.

Os estágios da evolução técnica

O conhecimento que se possui da evolução técnica dos antropídeos está fundamentalmente baseado na

utensilagem do sílex, da pedra lascada. Todo o material que seja mais perecível que o sílex não pode dar

o seu testemunho.

Imagem pobre do homem pré-histórico desde o século XIX: imagem criada por simples transição.

Traje completo=pele de urso em volta dos rins;

4 Dobradiça.

Machado de cortador=biface atado a um pau;

Casa=caverna;

Essa imagem comum na cultura atual não corresponde nem mesmo aos primitivos atuais mas “que teve origem por simples empobrecimento do homem moderno”

(p.135/133-134)

De fato, os australianos e os esquimós podem, por comparação, alimentar a reflexão de um pesquisador, mas o caráter preciso e superabundante de tudo o que eles possuem, proíbe levar o paralelismo muito além, de modo que a imagem técnica do homem pré-histórico permanece, no fundo, extremamente pobre. Esta pobreza chega em um grau quase equivalente o zinjantropo, que devia de fato possuir uma cultura técnica muito escassa, e o homo sapiens fóssil, que deixou somente pedras e um pouco de ossos trabalhados, mas cujo mobiliário deve ter sido considerável.

(p.135/134)

Homo sapiens (30.000 a.C à 8.000 a.C)

Construía cabanas e tendas;

Vestuário feito de peles cosidas;

Usavam adornos, colares e enfeites de cabelos feitos de dentes de animais, de conchas ou de objetos de osso talhado;

Caçavam com zagaias (arpão);

Cortadores e peleiros muito habilidosos.

Utensilagem apropriada à lascagem do sílex e a um trabalho mais fino dos ossos.

Provável conjunto de trabalho em cestaria, em madeira e em chifre.

Esse seria um padrão razoável, mais ou menos rico de um conjunto de culturas primitivas mortas ou vivas.

(p.136/134)

Paleantropóides, Musteriense da Europa

Sabia construir abrigos, cabanas ou tendas;

Caçava provavelmente com zagaias;

Habilidades de esfolar e matar animais;

Utensilagem reduzida, não trabalhando o osso mas sim a madeira e o chifre.

Testemunho substancial mais empobrecido.

Sobre a cultura dos paleantropídeos e arcantropídeos não se pode dizer muito mais coisa, uma vez que as descobertas em seu habitat são raríssimas.

Apesar de tudo, uma certa trajetória de evolução técnica é sensível, do homo sapiens aos australantropos, mas confunde-se com o desgaste da documentação à medida que nos afastamos no tempo, o que dificulta a fundamentação em bases suficientemente seguras. Se, na realidade, é possível obter uma imagem evolutiva real, ela só poderá ser baseada na indústria lítica.

Indústria lítica

A quase totalidade da utensilagem de pedra possui gume, ou seja, é destinada a cortar, raspar e furar.

(p.136/135-136)

A imagem da evolução da técnica da humanidade através da pedra talhada é a de objetos cortantes. O conhecimento dos homens fósseis se reduz a esses objetos cortantes.

Há muito que os pré-historiadores europeus fizeram esta comprovação empírica: que a dimensão média dos utensílios de sílex diminuía do Abbeviliense até ao Mesolítico. Os grande bifaces são progressivamente subsituíidos pelas lascas musterienses, depois pelas lâminas do Paleolítico Superior e ‘micrólitos’ do Mesolítico. Surpreendido com a similitude de certas evoluções paleontológicas, há alguns anos, pensei que esta verificação podia referir-se a um fenômeno técnico geral, independente da forma dos utensílios, parecendo uma verdadeira ‘ortogênese’. À partida, a hipótese era que a extracção de um objeto cortante a partir de um bloco de sílex variava

com o tempo em função da relação entre o comprimento do objeto obtido e o volume do sílex necessário para o obter.

(p.137/136)

Primeira relação do homem com as reservas de subsolo: pela relação entre o comprimento dos objetos

cortantes por quilograma de sílex pode-se perceber a progressão dessa ligação que se dá em paralelo com

a evolução dos homens propriamente ditos,

o que confere um carácter singularmente biológico à pré-história dos objetos cortantes. Esse paralelo é ainda mais nítido se considerarmos, no detalhes, o encadeamento das formas.

[

]

O desenvolvimento de material cortante vai do chopper (pedra lascada com borda cortante, ainda sobre

núcleo que serve de protótipo para uma longa série de outros objetos cortantes) ao biface, que consiste em uma pedra lascada nas duas faces, formando assim uma amêndoa.

O biface

tornar-se,

assim, já

uma

faca

rudimentar.

aproximadamente, 400.000 anos.

Este

objeto

evolui

de

forma

lenta

durante,

Em um primeiro momento obtido por uma série de batidas perpendiculares (com sessenta centímetros)

No

Acheulense antigo, adquire uma forma mais regular e precisa a partir pancadas tangenciais destacando

as

primeiras lascas alongadas (um metro e vinte centímetros)

Finalmente, a biface torna-se uma amêndoa de sílex, “espessa mas bem equilibrada”.

Chopeer > Biface > Ponta levalloisiense > micrólitos

(p.139/136)

Grande revolução técnica musteriense: trata-se do melhoramento do dispositivo de extração, via o aperfeiçoamento dos ângulos de choque que permitiram o alongamento do núcleo e a obtenção de verdadeiras lâminas.

(p.139/137)

Esse progresso do Paleolítico superior se deve ao aperfeiçoamento dessas lâminas em utensílios de formas variadas, eliminando quase todo o desperdício (a partir do Gravettiense 25.000 A.C.), uma vez que das lascas faziam-se outros utensílios.

No

Magdalenense, dois ou três kilos de sílex serviam para várias centenas de utensílios. Assim, encontra-

se

o sílex nos habitats, a centenas de quilómetros das fontes naturais.

Fim do Magdalenense (8.000 a 6.000 a.C.): acentuada tendência ao microlitismo e articulação suplementar

na série técnica. As lâminas extraídas do núcleo geram pequenas peças geométricas. A lâmina como fonte

de outros produtos.

Neolítico: as relações de peso nos objetos cortantes são subitamente modificadas. Há permanência, no entanto, das tradições gerais.

A

relação de peso modifica-se modifica pela agricultura: assim, a necessidade é de um peso superior para

o

machado e a enxó.

No aparecimento da metalurgia, na França, em 2000 a.C, ainda se extraem punais de enormes núcleos,

chegando até 30cm de comprimento.

Assim, a obtenção de utensílios cortantes, desde o primeiro chopper até as longas lâminas de Grand-Pressigny, segue uma única linha evolutiva, que conduz, etapa após etapa, sem consideração das formas, a uma melhor adaptação da matéria à sua função.

Relação

desenvolvimento da relação utensílio cortante-peso.

cronológica

da

confrontação:

1

-

com

o

volume

cerebral

dos

diferentes

fósseis

e

2-

(p.141/138)

A confrontação entre os dados biológicos e o progresso técnico permite retirar uma evolução muito

característica.

Tendência ascendente das duas curvas nos antropídeos e arcantropídeos > tendência fortemente ascendente durante o Musteriense e desenvolvimento dos paleantropídeos > curva da indústria lítica quase na vertical e a do volume mantem-se até os nossos dias.

Tese do último capítulo: desenvolvimento do leque cortical traduz-se em aumento da capacidade craniana

e prossegue até os paleantropídeos > crise > resolve-se com o desanuviamento pré-frontal.

Atividade técnica: traduz fielmente a situação biológica

] [

transformava o homem em um ser biológico submetido às leis normais do comportamento das espécies. No homo sapiens, a técnica já não está ligada ao progresso celular parece exteriorizar-

parece que o ‘desenvolvimento pré-frontal’ distorceu a curva da evolução biológica, que

se e ser independente. Esta separação aparecerá com esclarecimento diferentes em cada uma dos capítulos seguintes.

A diversificação dos produtos

Ao fazer o inventario das aquisições sucessivas da utensilagem em correlação com os estados de evolução técnica, tem-se uma imagem de conjunto da evolução dos utensílios para um especialização.

Há uma importância do osso no último estado e das criações estranhas à simples subsistência.

Os três primeiro estados resultam da acumulação das novas formas derivadas das antigas e sem o abandono total das últimas

uma única corrente, a da industria, desde a pebble-culture ao Musteriense, reafirmando a

conclusão que se extrai da evolução biológica coerente dos australantropos aos neandertalenses.

]é [

Há uma transição rápida para o quarto estado, entre 35,000 e 30.000.

(p.141/140)

Novo mundo técnico – “o nosso”: não só há uma tripla variedade (pedra, osso e madeira) como também de utensílios que encontram eco direto nas culturas primitivas atuais.

Indústria lítica do quarto estado (Paleolítico Superior) possui raízes nos estados anteriores, ou seja, há um encadeamento rápido e progressivo das novas formas nas antigas.

As duas curvas (relação utensílio-peso e diversificação das formas) atingem a vertical no fim do Musteriense

e

o Maglenense. Há uma aceleração e não modificação dos fatos.

O

mesmo acontece com a indústria do osso.

 

No entanto, não se pode afirmar a existência de uma verdadeira indústria óssea.

Esta carência é muito singular e pode ligar-se a fenômenos de comportamento geral muito importantes. Numa primeira análise parece inexplicável que os arcantropos e os paleantropos, que eram técnicos notáveis e previam a forma dos seus bifaces ou das pontas num bloco de pedra, tenham sido incapazes de talhar um buril ou uma zagaia em osso. Da sua utensilagem lítica e alguns testemunhos materiais parece, por acréscimo, terem possuídos chuços e zagaias de osso. É também curioso que a utensilagem de osso surge ao mesmo tempo que os objetos de adorno igualmente de osso: buris, zagaias, juntamente com pendentes talhados e dentes de animais arranjados para serem suspensos.

(p.144/142)

A diversificação das etnias

Hipótese: parece surgir uma transformação profunda no momento do desanuviamento pré-frontal. Produz- se uma separação grande nas curvas ascendentes do progresso industrial e do volume cerebral.

O cérebro atinge o seu volume máximo, enquanto que o utensílio ascende verticalmente.

Passagem de uma evolução cultural dominada pelos ritmos biológicos > evolução cultural dominada por fenômenos sociais.

Questão: é possível verificar a segunda hipótese?

Para isso seria necessário dispor de pelo menos um critério de diferenciação étnica nos vestígios deixados pela pré-história.

Ao supor um domínio dos fenômenos sociais, supõe-se também a coesão dos homens em grupos de afinidades culturais.

Isso significa eliminar uma coesão de homens baseada no paralelismo com as sociedades existentes nos vertebrados superiores.

No mundo vivo, a busca de critérios similares é fácil e a linguística é um auxiliar cômodo, mas os costumes sociais ou religiosos e as tradições estéticas, asseguram igualmente o meio para traçar fronteiras étnicas no interior das capas humanas. Infelizmente, nenhum desses critérios é acessível ao pré-historiador. A arte chega muito tarde para assegurar uns elementos de diferenciação no nível em que nos encontramos ainda nestes capítulos. O único recurso é a técnica. (Tradução da versão em espanhol, p.142)

Mas os critérios técnicos tampouco são suficientes como critérios para montar-se um quadro étnico do mundo vivo.

É possível diferenciar, pelos detalhes, uma foice dinamarquesa, de uma austríaca, de uma espanhola ou turca.

No entanto, para objetos recuados para a pré-história, não é possível observar tais distinções, não é possível observar com clareza os testemunhos de personalidades culturais tão diferenciados.

Porém, por mais medíocres que esses utensílios sejam para determinar a diversidade étnica, são o único meio para atestar a sua existência.

Os pré-historiadores sempre foram tentados a diferenciar etnias. Há uma tendência de diferenciar por entidades étnicas e antropológicas.

(p.145/143)

Isso se dá pela descoberta de objetos surpreendentes como as folhas de loureiro solutrenses. Assim, os solutrenses tornam-se um povo que se espalha pela Europa e pelo mundo em todas as direções.

Porém, os solutrenses, como no exemplo, são somente um certo modo de fabricar um objeto, ou um estilo de trabalhar o sílex aplicado a um objeto.

Pode-se explicar, portanto, o feito solutrense pelo comércio das ideias, pela progressão da ideia solutrense através da Europa “como pode-se atualmente estabelecer o mapa de distribuição de aparelhos de televisão nos meios rurais da Europa ocidental”.

Este último exemplo mostra a presunção de querer mostrar a personalidade íntima de uma etnia através dos objetos que marcam uma época pelo caráter revolucionário da sua inovação. Isso bem estabelecido, fica ainda para a pré-história não mais delimitar as etnias a partir dos utensílios, mas buscar nos objetos o que pode ser, apesar de tudo, o reflexo de uma diversificação étnica. Em outras palavras, a cartografia dos tipos principais e sobretudo das variantes, época por época, deveria dar indicações utilizáveis. A pré-história não é capaz de fazer este trabalho[ ]

Resumo. São 4 estados:

Primeiro estado

Os documentos que possuímos são somente a pedra utilizável. Temos o chopper e o fragmento clactoniense que são reconhecidos como caracteres pertinentes do primeiro estado.

Segundo estado

Apesar de grandes lacunas, possui um sentido de “capas de civilização” pela existência de grandes capas industriais (com o bifacial, fragmentos clactonienses, fragmentos de corte tangencial) distribuídos por todo o globo.

Paleolítico inferior: capas ou áreas culturais homogêneas. As diferenças são da ordem dos materiais, matéria prima, onde a diferenciação permanece no mesmo nível zoológico, determinada pelos acidentes de configuração e pelo clima do continente.

(p.145/144)

Abbevilliense e Acheulense europeu e africano: parece haver pequenas unidades culturais. A descoberta de uma língua Acheulense poderia desmentir e trazer a existência de uma profusão de dialetos.

O que se tem, na verdade, é uma homogeneidade pelos bifaces existentes. A técnica é a mesma.

Terceiro estado

Abrange o conjunto Levallooise-Musteriense.

Número de formas mantêm-se pouco elevado

Quarto estado

Situação completamente diferente

É possível constatar a diferença na utensilagem das divisões regionais

Biface se mantém inalterada no paleolítico superior em um período de 20.000 anos

Essa variabilidade pode ser explicada, não pelas etnias, mas em relação ao desenvolvimento dos objetos cortantes e peso do material utilizado

Colocar a etnia como causa, seria inverter a ordem real dos fatos, uma vez que foi a diversificação cultura o principal regulador da evolução ao nível do homo sapiens

Apesar da utensilagem ser o pior critério para aventar o surgimento das etnias, a arte mostra, a partir do Paleolítico superior, unidades regionais distintas convivendo lado-a-lado imersas na mesma cultura material mas separadas umas das outras pelos milhares de detalhes da sua personalidade grupal.