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TRIBUNAL DE JUSTIÇA

PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

Registro: 2015.0000252780

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos do Apelação nº


0129970-35.2009.8.26.0003, da Comarca de São Paulo, em que é apelante NILTON
STRINGASCI MOREIRA, é apelado ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE EDUCAÇÃO E
CULTURA APEC.

ACORDAM, em 29ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça


de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Negaram provimento ao recurso. V. U.", de
conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores


PEREIRA CALÇAS (Presidente sem voto), SILVIA ROCHA E FABIO TABOSA.

São Paulo, 15 de abril de 2015

HAMID BDINE
RELATOR
Assinatura Eletrônica
TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

.Voto n. 10.012 – 29ª Câmara de Direito Privado.


Ap. com revisão n. 0129970-35.2009.8.26.0003.
Comarca: São Paulo.
Apelante: NILTON STRINGASCI MOREIRA.
Apelada: ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE EDUCAÇÃO E CULTURA -
APEC.
Juiz: Marco Aurélio Pelegrini de Oliveira.

Prestação de serviço. Curso de mestrado não reconhecido pela


CAPES. Pretensão de indenização por danos materiais e
morais. Prescrição. Aplicação do prazo quinquenal previsto no
art. 27 do CDC. Tese consolidada no E. STJ e neste Tribunal.
Termo inicial. Ciência inequívoca da irregularidade do curso.
Interrupção do prazo prescricional com a notificação judicial da
instituição de ensino. Eficácia imediata. Recomeço instantâneo
do prazo prescricional. Posterior ajuizamento de ação cautelar
que não interrompe novamente o curso do prazo prescricional.
Unicidade da interrupção. Sentença mantida. Recurso
improvido.

A r. sentença de fs. 225/232, cujo relatório se


adota, julgou improcedentes os pedidos de condenação da ré ao
pagamento de danos materiais e morais, sob o fundamento que
ocorreu a prescrição da pretensão indenizatória do autor.

Inconformado, o autor apelou. Sustentou que não


ocorreu a prescrição, tendo em vista que o i. sentenciante não
considerou o ajuizamento de ação cautelar em momento anterior
ao processo principal. Afirmou que deve ser indenizado pelos
prejuízos suportados com o não reconhecimento do curso de
mestrado pela CAPES.

Recurso regularmente processado, com preparo


(fs. 263/267) e contrarrazões (fs. 305/318).

É o relatório.

APELAÇÃO nº 0129970-35.2009.8.26.0003 2/7


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O recurso não merece provimento.

De acordo com o conjunto probatório dos autos, o


apelante somente teve ciência de que o curso de mestrado oferecido
pela apelada entre 1995 e 1999 não era reconhecido pela CAPES em
junho de 2003, conforme notificação extrajudicial de fs. 35/36.

Assim sendo, o termo inicial do prazo prescricional


nesse caso deve ser contado da ciência inequívoca de que o curso
não apresentava os requisitos necessários para ser reconhecido pelo
MEC, data em que o apelante conheceu os prejuízos suportados.

Como se encontra pacificado no E. STJ e neste


Tribunal, aplica-se o prazo prescricional quinquenal, previsto no art.
27 do CDC, nas hipóteses em que alunos pretendem ser indenizados
por danos materiais e morais em decorrência do não reconhecimento
do curso de mestrado pela CAPES:

“Esta Terceira Turma, em precedente de minha


relatoria, já teve a oportunidade de se posicionar
no sentido de que, nas hipóteses de
inadimplemento absoluto , não se estaria no âmbito
do art. 18 (e, conseqüentemente, do art. 26 do
CDC), mas no âmbito do art. 14, que, quanto à
prescrição, leva à aplicação do art. 27, com prazo
de cinco anos para o exercício da pretensão do
consumidor” (REsp n. 773.994, rel. Min. Nancy
Andrighi, j. 22.5.2007).

“A jurisprudência desta Corte proclama que aplica


ao caso sob exame a prescrição quinquenal do art.
27 do CDC” (REsp n. 1.125.863, rel. Min. Sidnei
Beneti, j. 25.11.2009).

APELAÇÃO nº 0129970-35.2009.8.26.0003 3/7


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“Em caso análogo ao dos autos, no qual o


mestrando também requeria a restituição das
quantias pagas e indenização por dano moral por
curso de mestrado não recomendado pela CAPES,
este E. Tribunal de Justiça reconheceu a
incidência da prescrição quinquenal emoldurada
no art. 27 do Código de Defesa do Consumidor,
consoante se infere do v. aresto sintetizado na
ementa a seguir transcrita” (Ap. n.
0016870-40.2010.8.26.0562, rel. Des. Correia
Lima, j. 18.8.2014).

“PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EDUCACIONAIS -


DECLARATÓRIA DE INEXIGIBILIDADE C.C.
INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS
- Danos manifestos - Prestação deficiente dos
serviços - Inadimplemento contratual - Curso de
mestrado não reconhecido - Responsabilidade
objetiva da prestadora de serviços - Art. 14 do CDC
- Indenizações devidas Fixação - Razoabilidade e
proporcionalidade Observância Necessidade -
Recurso desprovido” (Ap. n.
9218446-02.2009.8.26.0000, rel. Des. Melo
Bueno, j. 6.3.2014).

“Correta a r. sentença que reconheceu a aplicação


do artigo 27 e não o artigo 26 do Código de Defesa
do Consumidor. O oferecimento de curso de
mestrado ao aluno, com fornecimento de
especialização não reconhecida pela CAPES/MEC,
não implica adimplemento defeituoso da obrigação
contratual, mas inadimplemento absoluto. E,
sendo essa hipótese, não se aplica o exíguo prazo
decadencial do art. 26 do CDC” (Ap. n.
9112745-86.2008.8.26.0000, rel. Des. Manoel
Justino Bezerra Filho, j. 25.6.2013).

“No entanto, somente a partir do momento em que


o centro universitário réu emitiu certificado de
conclusão do curso como se fosse de Pós-
Graduação “Lato Sensu”, em 21 de março de 2006
(fl. 88), é que o autor da demanda teve
conhecimento inequívoco do dano sofrido, ou seja,

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de que o curso não tinha sido considerado como de


mestrado. Então, é a partir dessa última data que
o prazo quinquenal previsto no art. 27 do CDC
deveria ter sido contado, e não a partir da data em
que o aluno teve seu último movimento acadêmico
no curso, como entendido na sentença, pois até
então havia a expectativa de reconhecimento do
curso de mestrado pelo órgão do MEC” (Ap. n.
0024593-47.2009.8.26.0562, rel. Des. Soares
Levada, j. 15.4.2013).

“CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇO


EDUCACIONAL. RELAÇÃO DE CONSUMO.
NULIDADE DE CLÁUSULA CONTRATUAL.
INDENIZAÇÃO. PRAZO PRESCRICIONAL DO ART.
27 DO CDC. PRESCRIÇÃO AFASTADA.
DANOS MATERIAIS CARACTERIZADOS.
INDENIZAÇÃO DEVIDA. AFASTADO DANO
MORAL. RECURSO PROVIDO EM PARTE. Aluna
surpreendida no início do terceiro semestre do
curso de turismo com a informação de
cancelamento do curso por número insuficiente de
alunos, dando-se sua transferência para outra
instituição de ensino. Inadimplemento absoluto da
obrigação do prestador do serviço, de forma a
incidir a norma do art. 27 do CDC, que fixa prazo
prescricional de 5 anos para o exercício da
pretensão indenizatória do consumidor. Obrigação
de indenizar pelos danos patrimoniais. Afastados
os danos morais' (Ap. n.
9211914-46.2008.8.26.0000, rel. Des. Marcia
Tessitore, j. 14.8.2012).

Note-se que o apelante sequer se insurgiu contra a


aplicação do prazo quinquenal previsto no art. 27 do CDC, sendo
que seu inconformismo em razões recursais quanto à prescrição se
limita à fixação do termo inicial e da retomada do curso do prazo
prescricional.

Conforme sustentado acima, o prazo prescricional

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deve ser contado da data que o apelante teve ciência dos prejuízos
suportados em razão do não reconhecimento do curso de mestrado
pela CAPES, o que ocorreu em 24 de junho de 2003 (fs. 35/36).

Diante da inércia da apelada, como bem


acautelado pelo i. sentenciante, há de se considerar que a
notificação judicial proposta pelo apelante foi responsável por
interromper o curso do prazo prescricional, nos termos do art.
202, V do CC.

Note-se que, tratando-se de notificação judicial, a


retomada do prazo prescricional é imediata, iniciando a partir da
data em que o ato interruptivo aconteceu, de acordo com lição de
Humberto Theodoro Júnior em Comentários ao Novo Código
Civil: Dos Defeitos do Negócio Jurídico ao Final do Livro III,
Forense, 2003, p. 276.

Como se vê, a eficácia da notificação judicial para


interromper o prazo prescricional é instantânea, de modo que não
há que se falar que o prazo prescricional somente voltou a fluir a
partir do último ato do processo, que se deu com o arquivamento
dos autos da notificação judicial em julho de 2005 (fs. 254).

Conforme se extrai da petição de fs. 37/38, a


notificação judicial foi proposta pelo apelante em 28 de abril de
2004, data em que o prazo prescricional de cinco anos recomeçou
(CDC, art. 27).

Nessas condições, tendo em vista que o apelante

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somente ajuizou a presente ação indenizatória em novembro de


2009, ocorreu a prescrição de sua pretensão.

Mesmo que, em outubro de 2006, o apelante tenha


ajuizado ação cautelar preparatória, tal ato é ineficaz para nova
interrupção do prazo prescricional, uma vez que ela somente
poderá ocorrer uma vez, de acordo com o art. 202 do CPC.

Novamente, a respeito do tema, Humberto


Theodoro Júnior esclarece que:

“Não importa que existam vários caminhos para se


obter a interrupção da prescrição. Usando um
deles, a interrupção alcançada será única. Não
terá o credor como se valer de outra causa legal
para renovar o efeito interruptivo. Se usar o
protesto judicial, por exemplo, não terá eficácia de
interrupção o posterior ato de reconhecimento da
dívida pelo devedor” (Comentários ao Novo
Código Civil: Dos Defeitos do Negócio Jurídico
ao Final do Livro III, Forense, 2003, p. 255).

Destarte, considerando a unicidade da interrupção


do prazo prescricional e a eficácia instantânea da notificação
judicial para interromper o curso do prazo da prescrição, a r.
sentença deve ser mantida integralmente, pois a pretensão
indenizatória do apelante está mesmo prescrita.

Diante do exposto, NEGA-SE provimento ao


recurso.
Hamid Bdine
Relator

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