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Este clássico moderno mostra-nos Flannery O'Connor como

uma das mais originais e talentosas escritoras do Sul dos EUA. A


sua visão apocalíptica da vida evidencia-se em situações grotescas
e por vezes divertidas em que a personagem principal defronta um
problema de redenção: a avó, que enfrenta um assassino; um
rapaz de quatro anos procura o Reino de Cristo nos rápidos dum
rio; o general Sash está prestes a conhecer o seu derradeiro
inimigo.

«Selvajaria, compaixao, farsa, arte e verdade fazem parte


destas histórias. ( ... ) É-me difícil imaginar um escritor mais diver-
tido ou assustador.»
[Robert Lowell]

«Nestas histórias, o Sul rural é, pela primeira vez, retratado


por uma escritora cuja ortodoxia está em proporção com o seu
talento. Os resultados são revolucionários.»
[ The New York Times Book Review]

ISBN 976-989-641 -537-2

1111 111111111111111111111111 11
9 789896 4153 7 2
Um Bom Homem

E Difícil de Encontrar
e Outras Histórias
Relógio D'Água Editores
Rua Sylvio Rebelo, n.º 15
1000-282 Lisboa
tel.: 218 474 450
fax: 218 470 775
relogiodagua@relogiodagua.pt
www.relogiodagua.pt

© 1953, 1954 © 1955 by Flannery O'Connor,


renewed 1981, 1982, 1983 by Regina O'Connor

Título: Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias


Título original: A Good Man Is Hard to Find and Other Stories (1955)
Autora: Flannery O'Connor
Tradução: Paulo Faria
Revisão de texto: Anabela Prates Carvalho
Capa: Carlos César Vasconcelos (www.cvasconcelos.com)

©Relógio D'Água Editores, junho de 2015

Esta tradução segue o novo Acordo Ortográfico.

Encomende os seus livros em:


www.relogiodagua.pt

ISBN 978-989-641-537-2

Composição e paginação: Relógio D' Água Editores


Impressão: Europress, Lda.
Depósito Legal n.º: 393915/15
Flannery O'Connor

Um Bom Homem
,,

E Difícil de Encontrar
e Outras Histórias

Tradução de
Paulo Faria

Ficções
Para Sally e Robert Fitzgerald
Índice

Um Bom Homem É Difícil de Encontrar 11


O Rio 29
A Vida Que Salvar Poderá Ser a Sua 49
Um Golpe de Sorte 63
Um Templo do Espírito Santo 79
O Preto Artificial 95
Um Círculo no Fogo 119
Um Encontro Tardio com o Inimigo 141
Boa Gente do Campo 153
O Refugiado 177
II 199
III 211

Notas 225
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Um B om Homem É Difícil de Encontrar

A avó não queria ir para a Florida. Queria visitar uns parentes seus
no leste do Tennessee, e não perdia uma oportunidade de convencer
Bailey a mudar de ideias . Bailey era o filho com quem ela morava, o
seu único rapaz . Estava sentado no bordo da sua cadeira, à mesa, cur­
vado sobre o caderno de desporto cor de laranja do Atlanta J ournal.
- Olha para isto , Bailey - disse ela - , repara bem, lê isto . - E, ali
parada com uma mão fincada na anca magra, segurava o jornal com a
outra, fazendo-o crepitar junto à cabeça calva do filho . - Um tipo que
diz chamar-se Pária fugiu da Penitenciária Federal e vai a caminho da
Florida, e lê só aqui o que ele fez a estas pessoas . Lê só, se fazes favor.
Eu cá é que não levava os meus filhos para as bandas onde andasse um
criminoso assim à solta. Nem ficava de bem com a minha consciência,
se o fizesse .
Como Bailey não ergueu os olhos da sua leitura, ela deu meia­
-volta e encarou a mãe das crianças , uma jovem de calças , rosto largo
e inocente que nem uma couve , um lenço verde amarrado à cabeça
com duas pontas a assomar no alto , quais orelhas de coelho . Sentada
no sofá, com um boião de damascos na mão, ia dando de comer ao
bebé. - Os miúdos já conhecem a Florida - prosseguiu a idosa.
- Vocês deviam de os levar a outros lados , que é para variar, para
eles verem lugares diferentes e lhes abrir os horizontes . Eles nunca
'tiveram no leste do Tennessee .
A mãe das crianças pareceu não a ouvir, mas o rapazito de oito
anos , John Wesley, um garoto entroncado, de óculos , interveio: - Se
a avó não quer ir até à Florida, porque é que não fica em casa? - Ele
12 Flannery O ' Connor

e a rapariguita, June Star, estavam estendidos no chão , a ler os suple­


mentos infantis do jornal .
- Ela não ficava em casa nem por nada neste mundo - comentou
June Star sem erguer a cabeça loira.
- Ah, sim, e o que é que vocês faziam se este fulano , o Pária, vos
deitasse a mão? - perguntou a avó .
- Eu cá dava um murro na cara dele - replicou John Wesley.
- Ela não ficava em casa nem que lhe dessem um milhão de dóla-
res - disse June Star. - Tem medo que a gente se divirta e ela não .
Tem de ir a reboque da gente para toda a parte .
- Muito bem, minha menina - ripostou a avó . - Lembra-te bem
disso da próxima vez que quiseres que eu te faça caracóis no cabelo .
June Star disse que tinha o cabelo já de si encaracolado .
Na manhã seguinte , a avó foi a primeira a instalar-se no automó­
vel , pronta para partir. Enfiara num canto a sua grande mala de via­
gem negra, que parecia a cabeça de um hipopótamo , e, por baixo ,
escondia um cesto com Pitty Sing , o gato , lá dentro . Não queria que
o gato ficasse sozinho em casa durante três dias , porque o bicho teria
muitas saudades e ela tinha medo de que ele se roçasse sem querer
contra um dos manípulos do fogão e morresse asfixiado . O filho dela,
Bailey, não gostava de levar o gato quando se hospedava em motéis.
Sentada no centro do banco traseiro , a idosa tinha John Wesley e
June Star sentados à sua ilharga, de um e de outro lado . Bailey e a
mãe das crianças e o bebé iam no banco da frente , e deixaram Atlanta
a um quarto para as nove , com o conta-quilómetros do carro a assi­
nalar 89946. A avó anotou este número , porque achou que , quando
regressassem, seria interessante dizer quantos quilómetros tinham
percorrido . Levaram vinte minutos a chegar aos arrabaldes da cidade .
A idosa instalou-se confortavelmente , tirou as luvas brancas de
algodão e pousou-as , juntamente com a malinha, na prateleira diante
do vidro traseiro . A mãe das crianças trazia ainda umas calças vesti­
das e tinha ainda um lenço verde atado à cabeça, mas a avó trazia um
chapéu de palha de marujo , azul-marinho, com um ramo de violetas
brancas a enfeitar a aba, e um vestido também azul-marinho com um
padrão de bolinhas brancas . Tinha golas e punhos de organdi branco ,
debruados de renda, e , no decote , prendera um ramalhete púrpura de
violetas de pano , contendo um saquinho aromático . Se houvesse um
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 13

acidente , quem quer que a visse morta na estrada saberia logo que ela
era uma senhora como deve ser.
Disse que lhe parecia que aquele ia ser um bom dia para viajar
de automóvel , nem demasiado quente nem demasiado frio, e avisou
Bailey de que o limite de velocidade era de noventa quilómetros por
hora e de que os polícias de trânsito se escondiam atrás dos painéis
publicitários e das pequenas manchas de árvores, de onde saíam na
mecha atrás dos carros antes que estes pudessem abrandar. Apontou
pormenores interessantes da paisagem: a Stone Mountain; os maci­
ços de granito azul que, em certos lugares , assomavam de ambos os
lados da estrada; os taludes de argila vermelha a cintilar, ligeiramente
raiados de púrpura; e as várias culturas que formavam fiadas de ren­
dilhado verde sobre os terrenos . As árvores estavam repletas da luz
branca do Sol , em tons de prata, e até as mais humildes refulgiam. Os
dois garotos liam revistas de banda desenhada, e a mãe deles tomara
a adormecer.
- Toca a atravessar a Geórgia depressa, que é para não termos de
olhar muito para esta terra - pediu John Wesley.
- Se eu tivesse a tua idade - acudiu a avó - , não falava nesses
termos do meu estado natal . O Tennessee tem as montanhas e a Geór­
gia tem as colinas .
- O Tennessee é uma lixeira cheia de parolos , mais nada - re­
torquiu John Wesley - , e a Geórgia também é uma bela porcaria de
estado .
- Nem mais - concordou June Star.
- No meu tempo - tomou a avó, entrelaçando os dedos magros ,
de veias salientes - , os meninos mostravam mais respeito pelo es­
tado onde tinham nascido e pelos pais e por tudo o resto . Naquele
tempo, as pessoas tinham tento na língua. Ai, vejam só aquele preti­
nho pequerruchinho além ! - exclamou, e apontou para uma criança
negra, parada à porta de uma choupana. - Digam lá que não dava um
quadro bonito, bem? - perguntou , e todos voltaram a cabeça e olha­
ram para o negrito pelo vidro traseiro . Ele acenou-lhes com a mão .
- Ele não tinha calças - comentou June Star.
- Provavelmente, não tem calças para vestir - explicou a avó .
- Os pretinhos destas terras não têm coisas assim como nós . Se eu
soubesse pintar, pintava aquele quadro - declarou .
14 Flannery O ' Connor

Os garotos trocaram as revistas um com o outro.


A avó ofereceu-se para pegar no bebé ao colo , e a mãe das crianças
passou-lho para os braços por cima do banco da frente . A avó sentou­
-o no joelho e fê-lo saltitar e falou-lhe das coisas que iam vendo pelas
janelas . Revirou os olhos e franziu a boca e encostou o rosto magro e
coriáceo ao rosto macio e tenro do bebé . De vez em quando , ele fazia­
-lhe um sorriso distante . Passaram por um grande campo de algodão
com cinco ou seis campas no centro , rodeadas por uma vedação, qual
uma pequena ilha. - Olhem para aquele cemitério ! - disse a avó,
apontando-o com o dedo . - Era ali que a farm1ia sepultava os seus
mortos . Pertencia à plantação .
- E onde é que 'tá a plantação? - perguntou John Wesley.
- E tudo o vento levou - respondeu a avó . - Ah , ah .
Quando o s garotos acabaram de ler todas a s revistas de banda de­
senhada que tinham trazido , abriram a caixa que continha o almoço e
comeram-no . A avó comeu uma sanduíche de manteiga de amendoim
e uma azeitona, e não deixou que os garotos deitassem a caixa e os
guardanapos de papel pela janela fora. Quando já não mais havia na­
da para fazer, puseram-se a jogar um jogo em que cada qual escolhia
uma nuvem e pedia aos outros dois que adivinhassem qual a forma
que a nuvem sugeria. John Wesley escolheu uma nuvem em forma
de vaca, e June Star adivinhou que era uma vaca, mas John Wesley
disse não , é um automóvel, e June Star disse que ele fazia batota e
começaram a trocar sopapos por cima do regaço da avó .
A avó prometeu que lhes contava uma história se eles serenassem.
Sempre que contava uma história, revirava os olhos e meneava a ca­
beça e fazia ares muito dramáticos . Contou que , há muitos anos , nos
seus tempos de donzela, tivera um pretendente, um tal Mr. Edgar
Atkins Teagarden, de Jasper, ali na Geórgia. Explicou que ele era um
homem muito bem-parecido e um cavalheiro , que lhe levava uma
melancia todos os sábados à tarde , com as iniciais dele recortadas na
casca, E. A. T. Bom, certo sábado, contou ela, Mr. Teagarden trou­
xe a melancia do costume, mas , como não estava ninguém em casa,
deixou-a no alpendre da frente e regressou a Jasper na sua charrete ,
mas ela nunca chegou a receber a melancia, contou, porque um ra­
pazito escarumba comeu-a quando viu as iniciais , E. A. T. , «comeD> !
John Wesley achou imensa piada a esta história e riu , riu sem parar,
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 15

mas June Star não achou que fosse grande coisa. Disse que nunca se
casaria com um homem só por ele lhe levar uma melancia todos os
sábados . A avó respondeu que teria feito muito bem em casar-se com
Mr. Teagarden, porque ele era um cavalheiro como deve ser e com­
prara ações da Coca-Cola mal a companhia apareceu e tinha morrido
havia poucos anos , muito , muito rico .
Pararam na Torre para comer bifanas e pregos no pão . A Torre,
uma construção com algumas paredes de estuque e outras de madei­
ra, era uma bomba de gasolina e salão de baile situado numa clareira,
nos arrabaldes de Timothy. O dono era um homem obeso chamado
Red S ammy Butts , e havia letreiros pregados aqui e além no edifício
e na berma da estrada, ao longo de quilómetros e quilómetros num e
noutro sentido , anunciando: EXPERIMENTE o FAMOSO CHURRASCO
DO RED SAMMY. O FAMOSO RED SAMMY É O MAIOR! RED SAM! O
GORDUCHO COM O SEU RISO ALEGRE. UM VETERANO DA GUER­
RA! NÃ O HÁ COMO O RED SAMMY!
Red S ammy estava estendido na terra, diante da Torre , com a cabe­
ça enfiada debaixo de uma camioneta, enquanto um macaco cinzen­
to dos seus trinta centímetros de altura, acorrentado a uma pequena
amargoseira, ululava ali perto . Assim que viu os garotos a saltar do
carro e a correr ao seu encontro , o macaco precipitou-se para a árvore
e trepou até ao ramo mais alto .
O interior da Torre era formado por uma sala comprida e escura,
com um balcão numa ponta e mesas na outra, e uma pista de dança
no meio . Sentaram-se todos em volta de uma mesa de tábuas , junto à
jukebox, e a mulher de Red Sam, uma mulher alta e de pele tisnada,
com o cabelo e os olhos mais claros do que a pele, aproximou-se
e anotou o pedido deles . A mãe das crianças meteu uma moeda de
dez cêntimos na máquina e pôs a tocar The Tennessee Waltz , e a avó
comentou que aquela melodia lhe dava sempre vontade de dançar.
Perguntou a Bailey se ele queria dançar, mas ele limitou-se a fuzilá-la
com os olhos . Não possuía um temperamento naturalmente radioso ,
como o dela, e as viagens enervavam-no bastante . A avó tinha os
olhos castanhos a brilhar imenso . Meneou a cabeça de um lado pa­
ra o outro e fez de conta que estava a dançar na cadeira. June Star

pediu uma música que desse para dançar sapateado , e então a mãe
das crianças meteu outra moeda na máquina e escolheu uma melodia
16 Flannery O ' Connor

rápida, e June Star foi para o meio da pista de dança e executou o seu
número de sapateado .
- É bem engraçada, a cachopa - comentou a mulher de Red
Sam, debruçando-se sobre o balcão . - Queres vir morar com a gente
e ser a minha filhinha?
- Não , nem pensar nisso - retorquiu June Star. - Nem que me
dessem um milhão de dólares eu morava nesta casa a cair de podre !
- e fugiu a correr para junto da mesa.
- É bem engraçada, a cachopa - repetiu a mulher, fazendo com
os lábios um esgar delicado .
- Não tens vergonha? - sibilou a avó .
Red Sam entrou e ordenou à mulher que se despachasse a prepa­
rar a comida para aqueles fregueses , em vez de estar ali a fazer cera
ao balcão . As calças de caqui chegavam-lhe somente aos ossos das
ancas , e a barriga pendia-lhe sobre elas que nem uma saca de ração a
baloiçar-lhe por baixo da camisa. Acercou-se deles , sentou-se numa
mesa ali próxima e soltou uma mescla de suspiro e gorjeio esgani­
çado . - Não há nada a fazer - atirou . - Não há nada a fazer - e
limpou o rosto vermelhusco e transpirado com um lenço cinzento . -
Nos tempos que correm, uma pessoa não sabe em quem há de confiar
- prosseguiu . - Não é verdade?
- As pessoas não são simpáticas como eram dantes , sem dúvida
- acudiu a avó .
- Na semana passada, vieram até cá dois fulanos - contou Red
S ammy - num Chrysler. O carro era velho e ' tava cheio de amol­
gadelas , mas era uma bela máquina, e os homens pareciam-me tipos
como deve de ser. Disseram-me que trabalhavam na fábrica, e sabe
que mais, deixei-os ficar a dever a gasolina que meteram no depósito,
acredita? Ora bem, porque é que eu fiz uma coisa assim?
- Porque o senhor é um bom homem ! - declarou a avó de ime­
diato.
- Pois , deve de ser por isso - comentou Red Sam, como se aque­
la resposta o tivesse impressionado .
A mulher trouxe a comida, transportando os pratos todos de uma
só vez , sem tabuleiro , dois em cada mão e o quinto equilibrado em
cima do braço . - Não há uma só pessoa neste mundo verdejante
de Deus em quem a gente possa confiar - interveio . - E não há
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 17

ninguém que e u ponha de parte , ninguém - repetiu , olhando para


Red Sammy.
- Leram as notícias sobre aquele criminoso , o Pária, que fugiu da
cadeia? - perguntou a avó .
- Eu cá não me admirava nada que ele viesse atacar este mesmo
lugar - comentou a mulher. - Se ele ouve dizer que esta nossa casa
de pasto existe , não me admirava nem um niquinho que ele apareces­
se por aqui . Se lhe chega aos ouvidos que há nem que seja dois cênti­
mos na caixa registadora, não me admirava nem um pedacinho que . . .
- Já chega - atalhou Red Sam . - Traz mas é as Co '-Colas a
esta gente - e a mulher afastou-se para ir buscar o resto das coisas .
- Um bom homem é difícil de encontrar - disse Red S ammy. -
Uma pessoa nem sabe o que é que há de fazer à vida. Lembro-me do
tempo em que a gente podia sair de casa e deixar a porta de rede no
trinco. Agora já não .
Ele e a avó conversaram acerca dos bons velhos tempos . A idosa
disse que , na sua opinião , a culpa toda do rumo que as coisas ti­
nham tomado era da Europa. Disse que a Europa se comportava de
tal maneira que até parecia que , na América, o dinheiro caía do céu ,
e Red Sam declarou que nem valia a pena falar do assunto , que ela
tinha toda a razão . Os garotos correram para o exterior, mergulhan­
do na luz branca do Sol , e ficaram a ver o macaco na amargoseira
rendilhada. O animal estava atarefado a catar pulgas do pelo e a
mordiscá-las cuidadosamente entre os dentes , uma por uma, como
se fossem iguarias .
Tornaram a arrancar na tarde quente . A avó dormitava e acordava
a cada dois ou três minutos com o próprio ressonar. Nas imediações
de Toombsboro , despertou e lembrou-se de uma velha plantação que
em tempos visitara naquelas cercanias , nos seus tempos de menina.
Explicou que a casa tinha seis colunas brancas na fachada e que uma
alameda de carvalhos conduzia até lá e que havia duas latadazinhas
de madeira, uma de cada lado , na parte da frente , onde uma rapariga
se podia sentar com o seu pretendente depois de um passeio pelo
jardim . Lembrava-se exatamente de qual a estrada onde se fazia o
desvio para lá chegar. Sabia que Bailey não ia querer perder tempo
a olhar para uma casa velha, mas , quanto mais falava na casa, mais
lhe apetecia vê-la outra vez e descobrir se as duas latadazinhas gemi-
18 Flannery O ' Connor

nadas ainda estavam de pé . - Havia lá na casa um painel secreto -


acrescentou astutamente , sem contar a verdade mas lamentando não
estar a contá-la - , e dizia-se que as pratas todas da famt1ia ' tavam
ali escondidas desde o tempo em que o Sherman por ali passou , mas
ninguém conseguiu achar o painel . . .
- Ena ! - exclamou John Wesley. - Vamos lá ver essa casa!
Havemos de achar a prata ! Havemos de bater nas madeiras todas até
darmos com ela! Quem é que lá mora? Onde é que fica o desvio? Eh,
papá, não podemos ir até lá?
- Nunca vimos uma casa com um painel secreto ! - guinchou Ju­
ne Star. - Quero ir à casa do painel secreto ! Eh , papá, não podemos
ir ver a casa do painel secreto? !
- Não é longe daqui , fiquem sabendo - acrescentou a avó . -
Não levava mais de vinte minutos .
Bailey olhava em frente , sem desviar o rosto . Tinha o queixo rígi­
do que nem uma ferradura. - Não - declarou .
Os garotos desataram num berreiro , gritando que queriam ver a casa
do painel secreto . John Wesley desferia pontapés nas costas do banco
da frente , e June Star agarrou-se ao ombro da mãe e choramingou­
-lhe desesperadamente ao ouvido que nunca se divertiam nada, nem
mesmo nas férias , que nunca os deixavam fazer o que ELES queriam.
O bebé começou a chorar, e John Wesley pontapeava as costas do
banco com tanta força que o pai sentia as pancadas nos rins .
- Prontos ! - gritou , e parou o carro na berma da estrada. - Vo­
cês calam-se , ou quê? Vocês calam-se todos um minutinho , caramba?
Se não se calam, não vamos a lado nenhum.
- Havia de ser muito educativo para os cachopos - murmurou
a avó .
- Prontos - disse Bailey - , mas ouçam bem: é a única vez que
a gente vamos parar para uma coisa deste género . É a primeira e a
única vez .
- A estrada de terra batida onde se vira fica um quilómetro e meio
lá atrás , mais ou menos - indicou a avó . - Atentei nela quando
passámos .
- Uma estrada de terra batida - resmungou Bailey.
Depois de terem dado meia-volta, indo ao encontro da tal estrada de
terra batida, a avó recordou outros pormenores da casa, a linda vidraça
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 19

por cima da porta da frente e o candelabro no átrio de entrada. John


Wesley disse que o painel secreto se situava provavelmente na lareira.
- Não se pode entrar na casa - disse Bailey. - Vocês não sabem
quem lá mora.
- Enquanto vocês falam com as pessoas na porta da frente, eu dou a
volta a correr e entro à socapa por uma janela - sugeriu John Wesley.
- Vamos mas é ficar todos no carro - cortou a mãe dele .
Meteram pela estrada de terra batida, e o carro avançou aos so­
lavancos , num remoinho de poeira cor-de-rosa. A avó recordou os
tempos em que não havia estradas alcatroadas e em que cinquenta
quilómetros era um dia inteiro de viagem. A estrada era acidentada
e havia sulcos repentinos e curvas apertadas à beira de taludes peri­
gosos . Num momento , estavam no cume de um monte , a remirar as
copas azuis das árvores abaixo de si , quilómetros e quilómetros em
redor, e , no momento seguinte , davam por eles numa depressão ver­
melha, as árvores cobertas de poeira a fitá-los de alto .
- Acho melhor essa casa aparecer bem depressinha - avisou
Bailey - , senão dou meia-volta e raspamo-nos daqui .
Dava impressão de ninguém passar por aquela estrada havia meses
e meses .
- Já não falta muito - disse a avó , e , no preciso momento em
que proferiu estas palavras , um horrível pensamento veio-lhe ao es­
pírito . O pensamento era tão embaraçoso que ela ficou com o rosto
muito vermelho , os olhos dilataram-se-lhe e os pés saltaram-lhe num
gesto súbito , fazendo tombar a mala de viagem que se encontrava
no recanto . Assim que a mala caiu, o jornal que ela pusera a cobrir o
cesto assomou com um rosnido , e Pitty Sing , o gato , lançou-se sobre
o ombro de Bailey.
Os garotos foram projetados para o fundo do carro , e a mãe , a
agarrar o bebé nos braços , viu-se cuspida pela porta fora, para o meio
da estrada; a idosa voou para o banco da frente . O carro rolou sobre
si mesmo e foi aterrar, com as rodas para baixo , num barranco junto
à berma. Bailey permaneceu no assento do condutor, com o gato -
listado de cinzento, com a face larga e branca e o nariz cor de laranja
- agarrado ao pescoço que nem uma lagarta.
Assim que os garotos viram que conseguiam mexer os braços e
as pernas , precipitaram-se para fora do carro , gritando: - Tivemos
20 Flannery O ' Connor

um ACIDENTE! - A avó estava enroscada por baixo do painel de


instrumentos , esperando estar ferida para que a ira de Bailey não se
descarregasse sobre ela de uma só vez . O horrível pensamento que a
assaltara antes do acidente fora que a casa que ela recordara tão niti­
damente não se situava na Geórgia, mas sim no Tennessee.
Bailey soltou o gato do pescoço com ambas as mãos e atirou-o
pela janela, contra o tronco de um pinheiro . Em seguida, saiu do
carro e começou a procurar a mãe das crianças . Ela estava sentada
contra o flanco escalavrado da valeta vermelha, a segurar ao colo o
bebé, que gritava, mas tinha apenas um corte na cara e um ombro
fraturado . - Tivemos um ACIDENTE! - gritavam os garotos , num
frenesi de júbilo .
- Mas ninguém morreu - disse June Star, desiludida, quando
a avó saiu a coxear do carro , o chapéu ainda preso à cabeça mas
com a aba da frente partida, empertigada num ângulo lampeiro , e o
ramalhete de violetas a pender de lado . Sentaram-se todos na valeta,
excetuando os garotos , para recuperar da comoção . Todos tremiam.
- Talvez apareça um carro - disse a mãe das crianças em voz
cavernosa.
- Parece-me que magoei um órgão qualquer - anunciou a avó ,
apalpando o flanco , mas ninguém lhe respondeu . Bailey batia os den­
tes . Trazia vestida uma camisa desportiva amarela com um padrão
de papagaios azul-vivos , e tinha o rosto tão amarelo como a camisa.
A avó decidiu que não iria referir que a casa ficava no Tennessee .
A estrada situava-se uns três metros acima do barranco, e eles viam
apenas as copas das árvores do lado oposto . Atrás da valeta onde es­
tavam sentados estendiam-se mais bosques , imponentes e sombrios
e densos . Passados escassos minutos , viram um carro a certa distân­
cia, no alto de uma colina, a avançar vagarosamente, como se os ocu­
pantes os estivessem a observar. A avó pôs-se de pé e agitou os dois
braços dramaticamente para lhes atrair a atenção. O carro continuou a
aproximar-se devagar, desapareceu ao descrever uma curva e tornou a
surgir, avançando cada vez mais lentamente, no alto do monte que eles
tinham transposto. Era um grande automóvel negro, cheio de amolga­
delas , semelhante a um carro funerário . Lá dentro estavam três homens .
Parou mesmo acima deles , e, durante alguns minutos , o condutor
fitou-os de alto com um olhar fixo e inexpressivo , remirando-os ali
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 21

sentados sem dizer uma palavra. Em seguida, voltou a cabeça e mur­


murou qualquer coisa aos outros dois , e estes saíram do automóvel .
Um deles era um rapaz gordo de calças pretas e camisola vermelha,
com um garanhão prateado estampado na parte da frente . Caminhou
até ao lado direito deles e ficou ali parado a olhar, a boca parcialmen­
te aberta numa espécie de sorriso pouco convicto . O outro tinha cal­
ças de caqui e um casaco azul às riscas e um chapéu cinzento puxado
para baixo , a ponto de lhe ocultar grande parte do rosto . Aproximou­
-se vagarosamente pelo lado esquerdo . Nenhum deles falou .
O condutor saiu do carro e ficou parado junto deste , a olhá-los de
alto . Era mais velho do que os outros dois . Tinha madeixas grisalhas
a despontar-lhe no cabelo e usava óculos de aros de prata que lhe
davam uma aparência de erudito . Tinha um rosto comprido e sulcado
por rugas e não trazia nenhuma camisa ou camisola interior a cobrir­
-lhe o tronco . Vestia umas calças de ganga que lhe ficavam demasia­
do apertadas e segurava nas mãos um chapéu negro e uma arma. Os
dois rapazes também empunhavam armas .
- Tivemos um ACIDENTE! - berraram os garotos .
A avó teve a sensação peculiar de que conhecia de algum lado o
homem dos óculos . O rosto dele era-lhe familiar, como se o tives­
se conhecido a vida inteira, mas não se recordava de quem ele era.
Ele afastou-se do carro e começou a descer o talude , assentando os
pés no chão com cuidado para não escorregar. Calçava uns sapatos
castanhos e brancos , sem peúgas , e tinha os tornozelos vermelhos e
magros . - Boa tarde - saudou . - 'Tou a ver que vocês tiveram um
percalçozinho .
- O carro deu duas cambalhotas ! - acudiu a avó .
- Uma - corrigiu ele . - A gente vimos o acidente . Experimenta
o carro deles , a ver se arranca, Hiram - ordenou em voz serena ao
rapaz do chapéu cinzento .
- Pra que é que tem aí essa arma? - perguntou John Wesley. -
O que é que vai fazer com ela?
- M'nha senhora - disse o homem à mãe das crianças - , im­
porta-se de chamar os pequeninos pra se sentarem à sua beira? As
crianças fazem-me nervos . Quero que vocês se sentem aí muito jun­
tos , onde 'tão agora.
- Porque é que NOS ' tá a dar ordens? - perguntou June Star.
22 Flannery O ' Co nnor

Atrás deles , a fiada dos bosques surgia, biante , qual boca escura e
muito aberta. - Venham cá - ordenou a mãe das crianças .
- Ouçam lá - começou Bailey subitamente - , nós 'tamos meti­
dos num sarilho ! Nós 'tamos . . .
A avó soltou um guincho . Levantou-se com gestos precipitados e
ficou a olhar fixamente . - Você é o Páriaf - exclamou . - Reco­
nheci-o logo !
- Nem mais - retorquiu o homem, sorrindo ao de leve como se,
apesar de tudo , lhe agradasse ser reconhecido - , mas olhe que havia
de ter sido melhor pra vocês todos , m'nha senhora, se não me tivesse
arreconhecido .
Bailey virou a cabeça num movimento brusco e repreendeu a mãe
com uma frase que chocou toda a gente , até os garotos. A idosa co­
meçou a chorar, e o Pária corou .
- M'nha senhora - disse - , não se apoquente . Às vezes , um
homem diz coisas sem pensar. Não me parece que ele quisesse falar
consigo daquele jeito .
- Você não era capaz de dar um tiro numa senhora, pois não?
- suplicou a avó , e, tirando um lenço limpo do canhão da manga,
começou a dar pancadinhas nos olhos com o tecido .
O Pária cravou a biqueira do sapato no chão e escavou ali um bura­
quinho e depois tornou a tapá-lo . - Não era coisa que me agradasse
- disse .
- Escute - a avó estava quase a gritar - , eu sei que você é um
bom homem. Olha-se para você e vê-se logo que não é de baixa ex­
tração . De certeza que vem duma farm1ia como deve de ser!
- Sim, m'nha senhora - retorquiu ele - , uma família como não
há outra no mundo. - Ao sorrir, mostrou uma fiada de dentes fortes e
brancos . - Deus não criou mulher mais pura do que a minha mãe , e
o meu paizinho tinha um coração de ouro, ouro puro - prosseguiu. O
rapaz da camisola vermelha contornara-os e estava agora parado atrás
deles , com a arma à altura da anca. O Pária acocorou-se. - Vigia-me
essas criancinhas , Bobby Lee - ordenou . - Sabes bem que elas me
deixam nervoso . - Olhou para os seis membros da farm1ia ali aninha­
dos na sua frente e pareceu embaraçado , como se não lhe ocorresse na­
da para dizer. - Não há uma só nuvem no céu - notou , olhando para
o alto. - Não se vê o Sol, mas também não se vê nuvem nenhuma.
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 23

- Sim, 'tá um lindo dia - corroborou a avó . - Escute - conti­


nuou - , você não devia de se chamar o Pária, porque eu sei que , lá
no fundo do coração , você é um bom homem. Basta-me olhar para
você e vejo logo .
- Caluda ! - berrou Bailey. - Caluda ! Ninguém abre a boca,
quem trata deste problema sou eu ! - Estava agachado na posição
de um atleta prestes a lançar-se em corrida, mas permaneceu imóvel .
- Mt' agradecido, m'nha senhora - disse o Pária, e traçou um
pequeno círculo no chão com a coronha da arma.
- Demora praí uma meia hora a consertar este carro - anunciou
Hiram, levantando o rosto acima do capot erguido do automóvel .
- Bom, primeiro tu e o Bobby Lee levem ele e mais aquele ra­
pazito acolá com vocês e vão os quatro até além - ordenou o Pária,
apontando para Bailey e para John Wesley. - Os rapazes querem
perguntar uma coisa a vocês - disse a Bailey. - Importa-se de ir até
à mata acolá com eles?
- Escute - começou Bailey - , nós ' tamos metido num sarilho
terrível ! Ninguém tem noção do que isto é - e a voz fraquejou-lhe .
Tinha os olhos tão azuis e tão cintilantes como os papagaios na cami­
sa que vestia, e ficou absolutamente petrificado .
A avó ergueu a mão para ajeitar a aba do chapéu , como se pretendes­
se ir para a floresta com o filho, mas a aba soltou-se e ficou a pender­
-lhe entre os dedos. Ela ficou a olhá-la fixamente e, ao fim de alguns
momentos, deixou-a cair ao chão . Hiram puxou Bailey pelo braço, co­
mo se estivesse a ajudar um velho a levantar-se . John Wesley agarrou a
mão do pai , e Bobby Lee seguiu-os . Afastaram-se em direção à floresta
e, no preciso momento em que chegaram à orla escura do bosque , Bai­
ley voltou-se e, apoiando-se a um tronco despido e cinzento de pinhei­
ro, gritou: - Não me demoro nada, mamã, espera por mim !
- Volta aqui imediatamente ! - berrou a mãe dele em voz esgani­
çada, mas eles desapareceram os quatro nas profundezas do bosque .
- Bailey, meu menino ! - chamou a avó em voz trágica, mas deu-
-se conta de que estava a olhar para o Pária, acocorado no chão diante
dela. - Eu sei que você é um bom homem - declarou , desesperada.
- Não é de baixa extração, nem por sombras !
- Não, m'nha senhora, eu não sou um bom homem - disse o
Pária depois de alguns momentos , como se tivesse ponderado cau-
24 Flannery O ' Connor

telosamente a afirmação dela - , mas olhe que também não sou o


pior do mundo . O meu paizinho dizia que eu era duma raça diferente
dos meus irmãos e irmãs . «Sabem», dizia o meu paizinho, «há quem
consiga viver a vida inteira sem querer saber de nada, e há outros
que têm de saber o porquê das coisas, e este cachopo é destes últi­
mos . Vai querer saber tudo e mais alguma coisa! » - Pôs o chapéu
negro e ergueu o rosto subitamente e depois desviou os olhos para o
âmago do bosque, como se estivesse novamente envergonhado . -
Lamento muito não ter uma camisa vestida na presença das senhoras
- desculpou-se, arqueando ligeiramente os ombros . - Enterrámos
as roupas que tínhamos vestidas quando fugimos da cadeia, e agora
vamo-nos desenrascando o melhor que podemos até arranjarmos me­
lhor. Pedimos estas coisas emprestadas a umas pessoas que encontrá­
mos - explicou .
- Ah, mas com certeza - disse a avó . - Talvez o Bailey tenha
uma camisa a mais na mala de viagem.
- Já vou ver não tarda nada - disse o Pária.
- Para onde é que eles o 'tão a levar? - gritou a mãe das crianças .
- O meu paizinho era um belo ponto - continuou o Pária. -
Ninguém lhe conseguia passar a perna. Mas a verdade é que nunca
se meteu em sarilhos com as autoridades . Tinha jeito pra lidar com as
forças da lei, prontos .
- Você também podia ser honesto , bastava tentar - disse a avó .
- Pense só na maravilha que havia de ser, poder assentar e levar uma
vida descansada, não ter de se afligir por haver sempre gente a querer
deitar-lhe a mão .
O Pária raspava constantemente no chão com a coronha da arma,
como se estivesse a meditar no que ouvia. - Sim, m'nha senhora,
anda sempre gente a dar-nos caça - murmurou .
A avó reparou como eram magras as omoplatas dele, logo atrás do
chapéu, porque estava de pé , a olhá-lo de alto . - Alguma vez reza?
- perguntou-lhe .
Ele abanou a cabeça. Ela viu apenas o chapéu negro a menear entre
as omoplatas dele . - Não , m'nha senhora - respondeu ele .
Ouviu-se um tiro de pistola vindo dos bosques, logo seguido de
outro . Depois, silêncio . A idosa rodou a cabeça num gesto brusco .
Ouvia o vento a mover-se através das copas das árvores como al-
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 25

guém a sugar o ar longamente entre os lábios com satisfação . - Bai­


ley, meu menino ! - chamou .
- Fui cantor de gospel durante uns tempos - retomou o Pária. -
Já fui aquase tudo . 'Tive na tropa, tanto em terra como no mar, aqui
na América e no estrangeiro, fui casado duas vezes, fui cangalheiro,
trabalhei nos caminhos de ferro, lavrei a Mãe Terra, 'tive no meio
dum tomado, vi uma vez um homem queimado vivo - neste ponto,
ergueu os olhos para a mãe das crianças e para a garotinha, que es­
tavam sentadas muito perto uma da outra, de rostos muito brancos e
olhos vidrados . - Até vi uma mulher a ser chicoteada - rematou .
- Reze, reze - começou a avó - , reze, reze . . .
- Nunca fui mau rapaz, que me lembre - declarou o Pária numa
voz quase sonhadora - , mas a certa altura, nem sei ao certo quan­
do, fiz qualquer coisa ruim e mandaram-me prà penitenciária. Enter­
raram-me vivo - e então levantou o rosto e prendeu a atenção dela
por meio de um olhar fixo .
- Era aí que devia de ter começado a rezar - acudiu ela. - O que
é que fez para o mandarem para a penitenciária dessa primeira vez?
- Virava à direita, dava com uma parede - continuou o Pária,
tomando a levantar os olhos para o céu sem nuvens . - Virava prà
esquerda, dava com outra parede . Olhava pro alto, era o teto, olhava
pra baixo, era o chão . Já me esqueci do que fiz, m'nha senhora. Fi­
quei pràli sentado imenso tempo, a tentar alembrar-me do que tinha
feito, e ainda hoje não me vem à cabeça. De vez em quando, parecia­
-me que me 'tava a vir à lembrança, mas no fim de contas nunca veio .
- Se calhar, prenderam-no por engano - alvitrou a idosa em tom
vago .
- Não, m'nha senhora - disse ele . - Não foi engano nenhum.
Eles tinham os escritos pra me incriminar.
- Você deve de ter roubado alguma coisa - disse ela.
Pelo rosto do Pária perpassou um sorriso escaminho . - Ninguém
tinha nada que eu quisesse - disse . - Um médico da cabeça lá na
penitenciária disse que eu tinha matado o meu paizinho, mas eu sabia
que era mentira. O meu paizinho morreu em mil nove e dezanove, da
epidemia de gripe, e eu não tive nada que ver com o assunto . Enter­
raram-no no cemitério da igreja batista de Mount Hopewell, e você
pode lá ir ver com os seus olhos, se quiser.
26 Flannery O'Connor

- Se você rezasse - sugeriu a idosa - , Jesus ajudava-o.


- Nem mais - concordou o Pária.
- Ora bem, então porque é que não reza? - perguntou ela, subi-
tamente a tremer de júbilo.
- Não quero ajuda nenhuma - disse ele . - Governo-me bem
sozinho.
Bobby Lee e Hiram voltaram da floresta em passo vagaroso. Bobby
Lee arrastava uma camisa amarela com um padrão de papagaios azul­
-vivos .
- Atira-me essa camisa, Bobby Lee - ordenou o Pária. A camisa
veio a voar ao encontro dele e aterrou-lhe no ombro, e ele vestiu-a.
A avó não sabia ao certo o que é que aquela camisa lhe recordava. -
Não, m'nha senhora - prosseguiu o Pária enquanto estava a abotoá­
-la - , descobri que o crime pouco importa. Tanto dá uma pessoa fazer
uma coisa como fazer outra diferente, matar um homem ou roubar-lhe
um pneu do carro, porque, mais cedo ou mais tarde, acabamos por nos
esquecer do que fizemos e somos castigados na mesma.
A mãe das crianças começara a emitir ruídos arquejantes, como se
não conseguisse recobrar o fôlego . - M'nha senhora - pediu ele
- , importa-se de ir com essa sua cachopinha até acolá, com o Bobby
Lee e o Hiram, pra se juntar ao seu marido?
- Sim, com certeza - anuiu a mãe em voz débil. O braço esquer­
do pendia-lhe, sem forças, e ela segurava com o outro o bebé, que
entretanto adormecera. - Ajuda a senhora a subir, Hiram - ordenou
o Pária no momento em que ela se debatia para transpor o bordo da
valeta - , e tu, Bobby Lee, dá a mão à cachopinha.
- Não quero dar a mão a ele - atirou June Star. - Ele faz-me
lembrar um porco .
O rapaz gordo corou e riu-�e e agarro u-a pelo braço e arrastou-a
para o âmago do bosque, atrás de Hiram e da mãe dela.
Sozinha com o Pária, a avó percebeu que perdera o uso da voz .
Não se via no céu uma só nuvem, nem se via o Sol . Nada havia em
volta dela, à parte a floresta. Queria dizer-lhe que ele tinha de rezar.
Abriu e fechou a boca várias vezes até conseguir emitir algum som.
Por fim, deu por si a dizer: - Jesus, Jesus - que é como quem diz,
Jesus vai ajudá-lo, mas, da forma como proferiu a palavra, parecia
estar a praguejar.
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 27

- Pois é, m'nha senhora - disse o Pária, como se concordasse .


- Jesus virou tudo de pantanas . Aconteceu com Ele o mesmo caso
do que comigo, só que Ele não tinha cometido crime nenhum, en­
quanto comigo puderam provar que sim, porque tinham os escritos
pra me incriminar. É claro - continuou - que não me mostraram
papéis nenhuns . É por isso que agora assino sempre o meu nome .
Disse isto a mim mesmo já faz muito tempo, arranja uma assinatura e
assina tudo o que fizeres e guarda uma cópia pra ti . Então vais saber o
que fizeste e já podes comparar o crime com o castigo e ver se casam
bem um com o outro e, no fim de contas, vais ter alguma coisa pra
provar que não te trataram com justiça. Costumo dizer que sou o Pá­
ria - explicou - , mas devia antes chamar-me o Injustiçado, porque
não consigo perceber como é que o mal que fiz se ajusta aos castigos
todos a que me sujeitaram.
Ouviu-se um grito penetrante vindo do bosque, seguido de perto
pela detonação de uma pistola. - Parece-lhe certo, m'nha senhora,
que uma pessoa sofra um castigo enorme e que outra não sofra cas­
tigo nenhum?
- Jesus ! - bradou a idosa. - Você não é de sangue ruim ! Sei
que não era capaz de matar uma senhora de idade ! Sei que vem
duma família como deve de ser ! Peço-lhe por tudo ! Jesus, você não
devia de matar uma senhora de idade . Eu dou-lhe todo o dinheiro
que tenho !
- M ' nha senhora - retorquiu o Pária, olhando por cima do om­
bro dela, para as profundezas da floresta - , nunca se viu um cadáver
que desse uma gorjeta ao cangalheiro .
Ouviram-se mais duas detonações de pistola, e a avó ergueu a
cabeça, qual velha perua sequiosa a grugulejar por água, e bradou:
- Bailey, meu menino ! Bailey, meu menino ! - como se tivesse o
coração quase a estalar de dor.
- Jesus foi o único que alguma vez ressuscitou os mortos - pros­
seguiu o Pária - , e não devia de o ter feito . Virou tudo de pantanas .
Se Ele fez mesmo o que disse que fez, então não há outra alternativa
senão largarmos tudo e seguirmos o caminho d'Ele, mas, se não fez,
então não há outra alternativa senão gozarmos os poucos minutos
que nos restam da melhor maneira que pudermos, matando alguém
ou deitando-lhe fogo à casa ou fazendo-lhe outra patifaria qualquer.
28 Flannery O'Connor

O único prazer 'tá na ruindade - rematou , e a voz convertera-se-lhe


quase num rosnido.
- Talvez Ele não tenha ressuscitado os mortos - acudiu a idosa
em voz entaramelada, sem saber bem o que estava a dizer e sentindo­
-se tão zonza que tombou no fundo da valeta, com as pernas torcidas
por baixo do corpo .
- Eu não 'tava lá presente, por isso não posso dizer que Ele não o
fez - comentou o Pária. - Quem me dera ter lá 'tado - continuou,
percutindo o chão com o punho fechado . - É injusto eu não ter lá
'tado, porque, se eu lá tivesse 'tado, saberia ao certo. Escute, m'nha
senhora - disse em voz estridente - , se eu lá tivesse 'tado, saberia
ao certo, e já não seria como sou agora. - A voz dele parecia prestes a
fraquejar, e a cabeça da avó desanuviou-se durante um breve instante.
Viu o rosto do homem junto ao dela, as feições contorcidas como se ele
estivesse prestes a chorar, e murmurou: - Homessa, tu és um dos meus
pequeninos. És um dos meus filhos ! - Estendeu o braço e tocou-lhe
no ombro. O Pária deu um salto para trás , como se uma cobra o tivesse
mordido, e desfechou três tiros no peito da mulher. Em seguida, pousou
a arma no chão e tirou os óct,tlos e começou a limpá-los.
Hiram e Bobby Lee regressaram da floresta e ficaram parados jun­
to ao bordo da valeta, olhando lá do alto para a avó , que , meio senta­
da e meio deitada numa poça de sangue , de pernas cruzadas por baixo
do corpo como uma criança, fitava o céu sem nuvens com expressão
sorridente .
Sem os óculos , os olhos do Pária estavam bordejados de encarnado
e eram pálidos e tinham uma expressão indefesa. - Peguem nela e
atirem-na pra onde atiraram os outros - ordenou , pegando no gato ,
que estava a roçar-se-lhe contra a perna.
- Ela não se calava um minuto , hem? - comentou Bobby Lee ,
deixando-se escorregar para o fundo do barranco com um gorjeio
estridente .
- Ela até podia ter sido uma boa mulher - declarou o Pária - se
tivesse alguém por perto pra lhe dar um tiro na cabeça a cada minuto
da sua vida.
- Isso é que havia de ser divertido ! - comentou Bobby Lee .
- Cala-te , Bobby Lee - atalhou o Pária. - Não há gozo a valer
nesta vida.
O Rio

Sorumbático e inerte , o garoto permanecia parado no meio da sala


de estar sombria enquanto o pai lhe vestia um casaco grosso de teci­
do aos quadrados . Tinha o braço direito preso na manga, mas o pai
abotoou-lhe o casaco , mesmo assim, e empurrou-o para diante , ao
encontro de uma mão pálida e cheia de manchas que emergia através
da porta entreaberta.
- Ele não 'tá ajeitado como deve de ser - disse uma voz sonora,
vinda do patamar.
- Bom, nesse caso ajeite-o , por amor de Deus - resmungou o
pai . - São seis da manhã. - Estava de roupão de banho , descalço .
Quando levou o garoto até à porta e tentou fechá-la, deparou com
a mulher a assomar no vão, um esqueleto sarapintado de comprido
casaco verde-ervilha e capacete de feltro .
- Falta o dinheiro pro bilhete dele e mais o meu - declarou ela.
- Vamos ter de apanhar o elétrico duas vezes .
Ele tornou a entrar no quarto de dormir para ir buscar o dinheiro , e,
ao regressar, ela e o rapaz estavam ambos parados no meio da sala. Ela
examinava a divisão com ar atento. - Eu cá não era capaz de aguentar
muito tempo o cheiro de tanta beata, se alguma vez viesse ficar contigo
aqui - comentou, sacudindo o casaco do garoto para o ajeitar.
- Aqui tem o dinheiro - disse o pai . Foi até à porta e abriu-a de
par em par e esperou .
Depois de contar o dinheiro , ela fê-lo desaparecer algures nas do­
bras do casaco e acercou-se de uma aguarela pendurada na parede ,
junto do gira-discos . - Eu sei que horas são - declarou , remirando
30 Flannery O'Connor

atentamente os traços negros que invadiam planos fragmentados de


cores violentas . - Tenho obrigação de saber. O meu turno começa às
dez da noite em ponto e só acaba às cinco da manhã, e levo uma hora
no elétrico da Vine Street.
- Ah, compreendo - disse ele . - Bom, esperamo-lo de regresso
esta noite , por volta das oito ou nove horas , é isso?
- Talvez mais tarde - respondeu ela. - Vamos até ao rio , pra
uma cura. Este pregador de hoje não vem muitas vezes pra estas ban­
das . Eu cá não dava dinheiro por isto - acrescentou , indicando o
quadro com um aceno de cabeça - , preferia desenhar eu mesma.
- Muito bem, Mrs . Connin , então vemo-nos a essa hora - disse
ele , tamborilando com os dedos na porta.
Uma voz monocórdica elevou-se do quarto de dormir: - Traz-me
um saco de gelo .
- É uma pena a mãezinha dele ' tar doente - comentou Mrs .
Connin . - O que é que ela tem?
- Não sabemos - tartamudeou ele .
- Nós pedimos ao pregador que reze por ela. Ele já curou imensa
gente . É o reverendo Bevel Summers . Se calhar, ela devia de ir vê-lo
um dia destes .
- Se calhar - disse ele . - Então até logo - e, desaparecendo no
interior do quarto , deixou-os ali sozinhos .
O rapazito fitou-a silenciosamente , de nariz e olhos molhados . Ti­
nha quatro ou cinco anos. Tinha o rosto comprido e o queixo saliente
e olhos semicerrados , muito afastados um do outro . Parecia mudo e
paciente , dir-se-ia uma ovelha caduca à espera de que a soltassem.
- Vais gostar deste pregador - disse ela. - O reverendo Bevel
Summers . Devias ouvi-lo a cantar.
A porta do quarto de dormir abriu-se subitamente , e o pai enfiou a
cabeça pela fresta e disse: - Adeus , meu velho . Diverte-te .
- Adeus - respondeu o rapaz , e deu um salto como se tivesse
levado um tiro .
Mrs . Connin lançou outro olhar à aguarela. Em seguida, saíram
para o patamar e carregaram no botão para chamar o elevador. - Eu
cá não desenhava aquilo - disse ela.
Lá fora, a manhã cinzenta estava oculta de ambos os lados , tapada
pelos prédios vazios e sem luz . - Mais logo , o tempo vai ' tar me-
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 31

lhor - comentou ela - , mas esta vai ser a última vez este ano que
vai poder haver pregações no rio . Limpa o nariz , docinho .
Ele fez menção de passar a manga do casaco sobre o nariz , mas ela
deteve-o. - Isso não é bonito - repreendeu-o . - Onde é que 'tá o
teu lenço?
Ele meteu as mãos nos bolsos e fez de conta que o procurava en­
quanto ela esperava. - Certas pessoas mandam uma criança sair de
casa de qualquer maneira - murmurou ela, fitando o próprio reflexo
na vidraça da cafetaria. - É preciso cuidar dos outros . - Tirou do
bolso um lenço às flores vermelho e azul e curvou-se e começou a
tratar-lhe do nariz. - Agora assopra com força - ordenou , e ele
soprou . - Eu empresto-te esse lenço . Guarda-o no bolso .
Ele dobrou-o e guardou-o cuidadosamente no bolso , e caminha­
ram os dois até à esquina e encostaram-se à parede de uma mercearia
fechada para esperar pelo elétrico . Mrs . Connin levantou a gola do
casaco para que esta lhe chegasse ao chapéu , na nuca. As pálpebras
começaram a descair-lhe , e ela parecia prestes a adormecer contra a
parede . O rapazito apertou-lhe ligeiramente a mão .
- Como é que te chamas? - perguntou ela em voz sonolenta. -
Só sei o teu apelido , mais nada. Devia de ter perguntado o teu nome
próprio .
O nome dele era Harry Ashfield, e nunca antes lhe ocorrera mudá­
-lo . - Bevel - respondeu .
Mrs . Connin desencostou-se da parede , endireitando-se . - Ho­
messa, olha que grande concidença ! - exclamou . - Eu disse-te que
é assim que se chama o tal pregador !
- Bevel - repetiu ele .
Ela ficou a olhá-lo de alto , como se ele se houvesse convertido
num prodígio aos seus olhos. - Vou ter de arranjar modo de tu te en­
contrares com ele hoje mesmo - disse . - Ele não é nenhum prega­
dor como os outros . Ele cura maleitas . Não pôde valer a Mr. Connin,
ainda assim. Mr. Connin não tinha fé , mas disse que não se ralava de
experimentar tudo uma vez . Tinha um aperto na tripa.
O carro elétrico surgiu como uma mancha amarela ao fundo da rua
deserta.
- Agora ' tá internado no hospital público - continuou ela - e
tiraram-lhe um terço do estômago . Eu digo-lhe que deve de agrade-
32 Flannery O 'Connor

cer a Jesus pelo que ainda lhe sobrou , mas ele diz que não agradece
nada a ninguém. Palavra de honra - murmurou . - Bevel !
Aproximaram-se dos carris para esperar. - Acha que ele me vai
curar? - perguntou ele .
- O que é que tu tens?
- Tenho fome - acabou ele por se decidir.
- Não comeste o teu pequeno-almoço?
- Àquela hora, ainda não tinha tido tempo de ficar com fome -
respondeu ele .
- Bom, quando chegarmos a casa comemos os dois qualquer coi­
sa - disse ela. - Eu também já tenho uma certa fominha.
Subiram para o elétrico e sentaram-se dois ou três bancos atrás
do guarda-freio , e Mrs . Connin pegou em Bevel e sentou-o ao colo .
- Agora, porta-te com jeitinho - disse - e deixa-me dormir um
pedaço . Não saias do meu colo , ouviste? - Recostou a cabeça no
banco e , sob o olhar dele , os olhos dela fecharam-se gradualmente e
a boca abriu-se-lhe para exibir alguns dentes , não muitos , compridos
e dispersos , alguns de ouro , outros mais escuros do que o rosto dela;
começou a assobiar e a ofegar como um esqueleto melodioso . Não
estava ninguém no elétrico , à parte eles os dois e o guarda-freio , e,
quando ele viu que ela adormecera, tirou do bolso o lenço de assoar
florido e desdobrou-o e examinou-o com cuidado . Em seguida, tor­
nou a dobrá-lo e fez correr o fecho para abrir um compartimento no
forro do casaco e escondeu ali o lenço e, pouco depois , ele próprio
adormeceu .
A casa dela ficava a oitocentos metros do terminal da linha do elé­
trico , um pouco recuada em relação à rua. Era feita de tijolo cor de
papel pardo , com um alpendre a toda a largura da fachada e telhado
de zinco . No alpendre estavam três rapazitos de diferentes idades ,
com rostos sardentos parecidos , e uma rapariga alta, o cabelo preso
com imensos rolos de alumínio , tantos que cintilava como o telhado .
Os três rapazes seguiram-nos para dentro de casa e cercaram Bevel .
Olharam-no em silêncio , sem um sorriso.
- Este é o Bevel - anunciou Mrs . Connin, despindo o casaco . -
Por concidença, tem o mesmo nome do pregador. Estes rapazes são
o J. C . , o Spivey e o Sinclair, e aquela além, no alpendre , é a Sarah
Mildred. Tira esse casaco e pendura-o aos pés da cama, Bevel .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 33

Os três rapazes observaram-no enquanto ele desabotoava o casaco


e o despia. Em seguida, viram-no pendurar o casaco no balaústre da
cama e depois ficaram imóveis , a observar o casaco . Viraram costas
abruptamente e saíram porta fora e conferenciaram no alpendre .
Bevel olhou em volta de si , para a divisão onde se encontrava. Era
um misto de cozinha e quarto de dormir. A casa inteira era composta
por duas divisões e dois alpendres . Junto ao pé dele , a cauda de um
cão de pelo claro subia e descia entre duas tábuas do soalho enquanto
o animal coçava o dorso contra a parte de baixo da casa. Bevel deu
um salto para pisar a cauda, mas o cão era experiente e já se afastara
quando o pé dele bateu naquele lugar.
As paredes estavam repletas de gravuras e de calendários . Havia
duas fotografias redondas de um velho e uma velha com bocas chu­
padas , e um outro retrato de um homem cujas sobrancelhas se preci­
pitavam de dois tufos de pelo para irem colidir num amontoado , no
alto da cana do nariz; o resto da face projetava-se como uma falésia
nua, de cujo alto se podia tombar. - Este é Mr. Connin - explicou
Mrs . Connin , dando um passo atrás e afastando-se do fogão alguns
momentos para admirar o rosto juntamente com Bevel - , mas ele
agora já não se parece nada com isso . - Bevel desviou o olhar de Mr.
Connin para uma estampa a cores por cima da cama, em que se via
um homem vestido com um lençol branco . Tinha cabelo comprido e
um círculo dourado em volta da cabeça, e serrava uma tábua enquanto
um pequeno grupo de crianças o observava. Ele ia perguntar quem
era aquele homem quando os três rapazes tornaram a entrar e lhe fi­
zeram sinal para que os seguisse . Ele pensou em gatinhar para baixo
da cama e agarrar-se a um dos pés desta, mas os três rapazes ficaram
ali parados , sardentos e silenciosos , à espera, e, ao cabo de alguns
momentos , ele seguiu-os a curta distância para o alpendre e continuou
a segui-los quando eles contornaram a casa. Romperam através de um
campo de ervas daninhas , amarelas e agrestes , em direção à pocilga,
um quadrado de metro e meio de lado com uma vedação de tábuas ,
cheio de leitões , em cujo interior eles tencionavam pousá-lo à força
de braços . Quando chegaram junto da pocilga, voltaram-se e espera­
ram silenciosamente, encostados à cerca.
Ele avançava muito devagar, a bater deliberadamente com os pés
um contra o outro, como se tivesse dificuldade em caminhar. Uma
34 Flannery O'Connor

vez , tinha sido espancado no parque por um grupo de rapazes estra­


nhos , quando a ama se esquecera dele , mas , dessa vez , não percebera
o que ia acontecer até tudo estar acabado . Começou a sentir o odor
intenso a lixo e a ouvir os ruídos de um animal selvagem. Parou a
alguns passos da pocilga e esperou , pálido mas obstinado .
Os três rapazes não se mexeram . Parecia ter-lhes sucedido qual­
quer coisa. Olhavam fixamente por cima da cabeça dele, como se
vissem qualquer coisa a acercar-se por trás , mas ele teve medo de
voltar o próprio rosto e de olhar. As sardas deles tinham uma tonali­
dade pálida, e os olhos deles eram parados e cinzentos como vidro .
Só as orelhas lhes estremeciam ao de leve . Nada aconteceu . Por fim,
o rapaz do meio disse: - Ela matava-nos - e virando-se , desanima­
do e aborrecido , trepou para cima da cerca da pocilga e debruçou-se,
a olhar para o interior.
Bevel sentou-se no chão , aturdido de alívio , e ergueu para eles o
rosto sorridente .
O rapaz que estava sentado na borda da vedação olhou para ele
com expressão severa. - Eh , tu - atirou , ao cabo de alguns segun­
dos - , se não consegues trepar pra ver estes porcos , podes soltar
essa tábua aí de baixo e espreitar por aí. - Pareceu sugerir isto como
um gesto amável .
Bevel nunca vira um porco de carne e osso , mas vira um porco
num livro , e sabia que os porcos eram animais pequenos , gordos e
rosados , de cauda encaracolada e faces redondas e sorridentes , com
laçarotes ao pescoço . Curvou-se para diante e puxou a tábua avida­
mente .
- Puxa com mais força - aconselhou o rapaz mais pequeno . -
Isso 'tá tudo podre , não custa nada. Solta o prego e prontos .
Ele puxou um comprido prego avermelhado , arrancando-o da ma­
deira macia.
- Agora, podes levantar a tábua e meter a cara no . . . - começou
uma voz serena.
Ele já fizera isso mesmo, e uma outra face , cinzenta, húmida e mal­
cheirosa, desatou a empurrar a dele , derrubando-o e projetando-o para
trás , enquanto o focinho se debatia para passar por baixo da tábua.
Uma criatura qualquer passou por cima dele a roncar e depois arreme­
teu de novo , fazendo-o rebolar no chão e empurrando-o por trás até
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 35

o erguer da terra e o lançar para diante, aos gritos , através do prado


amarelo, enquanto a criatura corria a galope no seu encalço .
Os três Connins ficaram a assistir do lugar onde se encontravam.
O que estava sentado na cerca tomou a prender a tábua solta no seu
lugar com o pé pendente . Os seus rostos severos não pareceram
alegrar-se , mas dir-se-ia que ficaram um pouco menos tensos , como
se uma necessidade imperiosa tivesse sido parcialmente satisfeita. -
A mamã é que não vai gostar nada dele ter soltado aquele porco -
comentou o mais pequeno .
Mrs . Connin estava no alpendre das traseiras e pegou em Bevel
ao colo quando ele alcançou os degraus . O porco correu a enfiar-se
debaixo da casa e deitou-se no chão , arquejante , mas o garoto gritou
durante cinco minutos . Quando ela conseguiu finalmente àcalmá-lo ,
deu-lhe o pequeno-almoço e deixou-o sentar-se ao colo dela enquan­
to comia. O leitão subiu os dois degraus que davam para o alpendre
das traseiras e ficou parado diante da porta de rede , a olhar para o
interior, com a cabeça baixa e ar carrancudo . Tinha as patas compri­
das e uma corcova nas costas , e uma dentada arrancara-lhe parte de
uma orelha.
- Põe-te a andar! - gritou-lhe Mrs . Connin. - Aquele além é
parecido com Mr. Paradise , que é o dono da bomba de gasolina - co­
mentou. - Vais vê-lo hoje, lá no ritual da cura pela fé . Ele tem cancro
no ouvido. Aparece sempre por lá, pra mostrar que não se curou .
O leitão ficou ali parado a fitá-los com os seus olhos vesgos duran­
te mais alguns segundos, depois afastou-se devagar. - Não o quero
ver - disse Bevel .

Caminharam em direção ao rio , Mrs . Connin à frente com ele e os


três rapazes atrás , em fila, e Sarah Mildred, a rapariga alta, na cauda,
para gritar se algum deles corresse para o meio da faixa de rodagem.
Pareciam o cavemame de um barco vetusto , com as duas extremi­
dades pontiagudas , a velejar vagarosamente pela berma da estrada.
O Sol branco do domingo seguia a pequena distância, trepando de­
pressa através de uma espuma de nuvens cinzentas , como se quisesse
ultrapassá-los . Bevel caminhava pela orla exterior, a segurar a mão
de Mrs . Connin e a remirar a valeta cor de laranja e púrpura que se
abria junto do betão .
36 Flannery O'Connor

Ocorreu-lhe que desta vez tivera sorte por eles terem arranjado Mrs .
Connin, que o levara a passar o dia fora, em vez de uma das amas do
costume , que se limitavam a ficar umas horas lá a casa ou que iam
com ele até ao parque . Uma pessoa descobria mais coisas quando saía
do lugar onde vivia. Naquela manhã, descobrira já que fora criado por
um carpinteiro chamado Jesus Cristo . Antes� julgava que tinha sido
um médico chamado Sladewall , um gordo de bigode loiro que lhe
dava injeções e que achava que ele se chamava Herbert, mas isto era
uma brincadeira, de certeza. Brincavam imenso, lá na casa dele . Se ele
tivesse pensado antes no assunto , teria concluído que Jesus era uma
expressão como «ah» ou «raios partam» ou «valha-me Deus» , ou tal­
vez alguém que em tempos tivesse ludibriado os pais dele , privando­
-os de qualquer coisa. Quando perguntou a Mrs . Connin quem era
o homem vestido com o lençol , na estampa por cima da cama dela,
ela fitou-o durante um certo tempo , de boca aberta. Depois disse: -
É Jesus - e continuou a olhar fixamente para ele .
Escassos minutos depois , levantou-se e foi à outra divisão buscar
um livro . - Vê aqui - disse , abrindo a capa - , este livro pertencia
à minha bisavó . Não o dava a ninguém nem por nada neste mundo. -
Fez correr o dedo sob alguns dizeres castanhos numa página mancha­
da. - Emma Stevens Oakley, 1 832 - leu. - É uma perciosidade, não
achas? E tudo o que aqui 'tá escrito é a verdade verdadinha. - Voltou
a página e leu-lhe o título: - «A Vida de Jesus Cristo para Leitores
com Menos de Doze Anos .» - Em seguida, leu-lhe o livro.
Era um livro pequeno , castanho-claro por fora, com bordos doura­
dos e cheiro a betume velho . Tinha imensos desenhos , um em que o
carpinteiro expulsava uma vara de porcos de dentro de um homem.
Eram porcos a valer, cinzentos e de aparência malcheirosa, e Mrs .
Connin explicou que Jesus os expulsara todos de dentro daquele ho­
mem. Quando acabou de ler, deixou-o ficar sentado no chão , a ver
novamente as ilustrações .
Pouco antes de saírem de casa para o ritual da cura pela fé , ele
conseguiu esconder o livro dentro do forro do casaco sem que ela
o visse . Agora, o peso fazia o casaco pender um bocadinho mais de
um lado do que do outro . Bevel tinha o espírito sonhador e sereno
enquanto caminhavam e, quando abandonaram a estrada e meteram
por uma longa vereda de argila vermelha, a serpentear entre tufos de
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 37

madressilva, ele começou a dar saltos desvairados e a puxar a mão


dela para a frente , como se quisesse partir à desfilada e agarrar o Sol ,
que agora se afastava adiante deles .
Caminharam pela vereda de terra batida durante um bocado e de­
pois cruzaram um campo pontilhado de ervas de cor púrpura e pe­
netraram nas sombras de um bosque cujo chão estava coberto por
uma espessa camada de caruma. Ele nunca estivera numa floresta
e caminhava cautelosamente , olhando para um lado e para o outro
como se estivesse a penetrar numa terra estranha. Avançaram por um
trilho para cavaleiros que serpenteava pela encosta abaixo , coberto
por um manto de folhas vermelhas crepitantes , e a dado momento ,
agarrando-se a um ramo para não escorregar, ele fitou dois olhos géli­
dos , verde-dourados , enclausurados na escuridão de um buraco numa
árvore . No sopé da encosta, o bosque dava subitamente lugar a um
pasto salpicado aqui e além de vacas pretas e brancas que descia gra­
dualmente , em patamares sucessivos , até um largo rio cor de laranja
onde o reflexo do Sol estava engastado como um diamante .
Havia um grupo de pessoas paradas na margem de cá, a cantar.
Viam-se mesas compridas atrás delas , repletas de comida, e alguns
carros e camionetas estavam estacionados numa estrada que acompa­
nhava o curso do rio . Eles atravessaram o pasto em passo apressado ,
porque Mrs . Connin , pondo a mão em toldo sobre os olhos , viu que o
pregador já estava de pé dentro de água. Pousou a cesta que trazia em
cima de uma das mesas e empurrou os três rapazes diante de si, para
o meio do aglomerado de pessoas , para eles não ficarem a rondar a
comida. Continuou de mão dada com Bevel e foi avançando para a
primeira fila.
O pregador estava dentro do rio , a uns três metros da margem,
com a água a chegar-lhe aos joelhos . Era um jovem alto , de calças de
caqui , que ele arregaçara acima do nível da água. Vestia uma camisa
azul e trazia um lenço vermelho ao pescoço , mas não usava chapéu
e tinha o cabelo claro aparado em patilhas que lhe desciam em cur­
va até às covas por baixo das maçãs do rosto . A face dele era toda
ela osso e luz vermelha refletida do rio . Parecia ter dezanove anos .
Cantava numa voz aguda e fanhosa, cobrindo o canto que vinha da
margem, e mantinha as mãos atrás das costas e a cabeça inclinada
para trás .
38 Flannery O'Connor

Concluiu o hino numa nota estridente e ficou em silêncio , de olhos


baixos , a fitar a água e a mexer os pés lá dentro . Em seguida, ergueu o
rosto para olhar as pessoas reunidas na margem. Estas formavam um
grupo compacto , à espera; tinham expressões solenes mas expectan­
tes , e todos os olhares estavam fixos nele . Ele tomou a mexer os pés .
- Talvez eu saiba porque é que vocês vieram até aqui - disse na
sua voz fanhosa - , talvez não saiba.
«Se não vieram em busca de Jesus , então não vieram por minha
causa. Se vieram só pra ver se podiam deixar o vosso sofrimento no
rio, então não vieram por causa de Jesus . Não podem deixar o vosso
sofrimento no rio - explicou . - Nunca disse que podiam. - Calou­
-se e baixou o olhar para os próprios joelhos .
- Eu vi-te curar uma mulher, uma vez ! - gritou uma voz estri-
dente e repentina do meio do cômoro de pessoas . - Vi aquela mu­
lher pôr-se de pé e sair da água muito direita, depois de ter entrado
no rio a manquejar!
O pregador levantou um pé , depois o outro . Quase pareceu sorrir,
mas não era exatamente um sorriso . - O melhor é ir pra casa, se foi
pra isso que veio até cá - declarou .
Em seguida, ergueu a cabeça e os braços e gritou: - Escutem o
que eu tenho pra dizer, escutem-me bem ! Só existe um rio e é o Rio
da Vida, feito do Sangue de Jesus . É nesse rio que têm de verter o
vosso sofrimento , no Rio da Fé, no Rio da Vida, no Rio do Amor, no
rio vermelho e caudaloso do Sangue de Jesus , escutem-me bem !
A voz tomou-se-lhe suave e melodiosa. - Todos os rios brotam
desse único Rio e a ele regressam, como se fosse o grande mar ocea­
no , e, se vocês tiverem fé , podem verter o vosso sofrimento nesse Rio
e livrarem-se dele , porque esse é o Rio que foi feito pra levar os pe­
cados pra longe . É um Rio cheio de sofrimento genuíno , sofrimento
genuíno , que corre ao encontro do Reino de Cristo , que flui pra longe
devagar, escutem-me bem, muito devagar, como este rio vermelho e
antigo aqui mesmo , aos meus pés .
«Escutem - cantarolou - , li em Marcos a história dum leproso ,
li em Lucas a história dum cego, li em João a história dum morto !
Ah, escutem-me bem ! O mesmo sangue que dá a cor vermelha a este
Rio tomou limpo aquele leproso , deu a vista àquele cego , fez aquele
morto saltar da sepultura ! Vocês , que padecem de aflições - bradou
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 39

- , vertam elas nesse Rio de Sangue , vertam elas nesse Rio de Dor e
fiquem a ver elas afastarem-se ao encontro do Reino de Cristo .»
Enquanto ele pregava, os olhos de Bevel seguiam , sonolentos ,
os círculos vagarosos de duas aves silenciosas que voltejavam lá
bem alto , no céu . Na margem oposta do rio havia um bosque baixo
de sassafrás em tons de vermelho e dourado , tendo atrás colinas de
árvores azul-escuras e um ou outro pinheiro a assomar, rompendo
acima da linha do arvoredo . Mais atrás , lá longe , a cidade erguia-se
como um aglomerado de verrugas no flanco da montanha. As aves
desceram a voltejar e pousaram suavemente no topo do pinheiro
mais alto e ali ficaram de espáduas vergadas , como se estivessem a
suportar o peso do céu .
- Se é neste Rio da Vida que querem verter o vosso sofrimento ,
então aproximem-se - prosseguiu o pregador - e vertam as vos­
sas penas aqui . Mas não fiquem a pensar que a história acaba assim,
porque este velho rio vermelho não termina aqui , neste lugar. Este
velho rio vermelho , tão sofredor, continua a correr, escutem-me bem,
continua a correr devagarinho ao encontro do Reino de Cristo . Este
velho rio vermelho é bom pra nele nos batizarmos , é bom pra nele
vertermos a nossa fé , é bom pra nele vertermos o nosso sofrimento ,
mas não é esta água barrenta aqui que vos salva. Andei esta semana
inteira pra cima e pra baixo neste rio - explicou . - Na terça-feira,
'tive em Fortune Lake , no dia seguinte , em Ideal , na sexta-feira eu e
a minha mulher fomos de carro até Lulawillow pra ver um homem
doente que ali mora. Aquela gente não viu cura nenhuma - decla­
rou , e , por breves momentos , o rosto abrasou-se-lhe um pouco mais .
- Eu nunca disse que iam ver.
Enquanto ele falava, uma silhueta esvoaçante começara a avançar
com um movimento semelhante a uma borboleta, dir-se-ia - uma
velha de braços a adejar, cuja cabeça baloiçava como se fosse tombar
a qualquer momento. Conseguiu baixar-se à beira-rio e deixou os
braços marulhar na água. Em seguida, curvou-se mais ainda e enfiou
a cara na corrente e, por fim, ergueu-se, a escorrer água; e, ainda a
adejar os braços , deu duas ou três voltas num círculo cego até que
alguém estendeu a mão e a puxou novamente para o meio do grupo .
- Faz treze anos que ela 'tá assim - gritou uma voz áspera. -
Passem o chapéu e deem o bago ao rapaz . É pra isso que ele aí 'tá.
40 Flannery O ' Connor

- O grito , dirigido ao rapaz parado no rio , saíra da boca de um ve­


lho corpulento que estava sentado , qual penedo corcunda, no para­
-choques de um automóvel cinzento , comprido e vetusto . Tinha na
cabeça um chapéu cinzento que estava puxado para baixo sobre uma
orelha e levantado do lado oposto da cabeça para expor um inchaço
de cor púrpura na têmpora esquerda. Sentava-se pendido para diante ,
de mãos caídas entre os joelhos , os olhinhos semicerrados .
Bevel remirou-o uma vez e depois recolheu-se entre as pregas do
casaco de Mrs . Connin e escondeu-se .
O rapaz no rio lançou um olhar rápido ao velho e ergueu o pu­
nho fechado . - Creiam em Jesus ou no demónio ! - bradou . -
Declarem-se por um ou pelo outro !
- Sei por experiência própria - declarou uma voz feminina mis­
teriosa do meio do aglomerado de pessoas - que este pregador con­
segue curar, sei-o pela minha experiência. Os meus olhos abriram-se !
Declaro a minha fé em Jesus !
O pregador ergueu os braços num gesto rápido e começou a repetir
tudo o que antes dissera acerca do Rio e do Reino de Cristo , e o velho
sentado no para-choques continuou a fixá-lo com as pálpebras semi­
cerradas . De tempos a tempos , Bevel tomava a remirá-lo , escondido
atrás de Mrs . Connin .
Um homem de jardineiras e casaco castanho debruçou-se e mergu­
lhou a mão na água fugazmente e sacudiu-a e tomou a endireitar-se ,
e uma mulher segurou um bebé acima da orla da margem e salpicou­
-lhe os pés com água. Um homem caminhou até se afastar um pouco
do grupo e sentou-se na margem e descalçou os sapatos e entrou no
rio; ficou ali parado alguns minutos , com o rosto o mais inclinado
para trás que lhe era possível , depois tomou a caminhar pela água até
à margem e calçou os sapatos . Enquanto isto , o pregador cantava e
não parecia reparar no que sucedia à sua volta.
Assim que ele parou de cantar, Mrs . Connin ergueu Bevel nos
braços e disse: - Ouça, senhor pregador, trouxe comigo um ra­
paz da cidade , que ' tá a meu cargo . A mãezinha dele ' tá doente , e
ele quer que o senhor reze por ela. E veja só que concidença , ele
chama-se Bevel ! Bevel - repetiu , virando-se para olhar as pessoas
atrás de si - , o mesmo nome dele . Digam lá se não é uma grande
concidença?
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 41

Ouviram-se alguns murmúrios , e Bevel voltou-se e fe z u m largo


sorriso por cima do ombro dela, fitando os rostos que o olhavam. -
B evel - declarou em voz sonora e desenvolta.
- Escuta - perguntou Mrs. Connin - , alguma vez foste batizado ,
Bevel?
Ele limitou-se a fazer o seu sorriso de orelha a orelha.
- Desconfio cá que ele nunca foi batizado - disse Mrs . Connin ,
erguendo as sobrancelhas ao fitar o pregador.
- Deixe cá ver - pediu o pregador, dando um passo largo em
frente , e tomou-o nas mãos .
Segurou o garoto na curva do braço e olhou-lhe para o rosto sorri­
dente . Bevel revirou os olhos de maneira cómica e estendeu o rosto ,
aproximando-o da face do pregador. - O meu nome é Bivvvuuuuul
- disse em voz grave e sonora, e deixou que a ponta da língua lhe
deslizasse sobre os lábios .
O pregador não sorriu . O seu rosto ossudo mantinha-se rígido , e os
seus olhos estreitos e cinzentos refletiam o céu quase incolor. Ouviu­
-se uma sonora risada do velho sentado no para-choques do carro , e
Bevel agarrou a parte de trás do colarinho do pregador e fincou ali os
dedos com força. O largo sorriso já lhe desaparecera do rosto . Teve
a súbita sensação de que aquilo não era uma piada. Onde ele vivia,
tudo era pretexto para piadas . Vendo o rosto do pregador, percebeu
de imediato que nada do que o pregador dizia ou fazia era uma pia­
da. - Foi a minha mãe que me chamou assim - acrescentou muito
depressa.
- Alguma vez foste batizado? - perguntou o pregador.
- O que é isso? - murmurou ele .
- Se eu te batizar - disse o pregador - , poderás entrar no Reino
de Cristo . Serás banhado no rio do sofrimento , meu filho , e descerás
o rio profundo da vida. Queres isso?
- Sim - respondeu o garoto , e pensou: Não vou voltar para o
apartamento , nesse caso , vou mergulhar no rio .
- Não tornarás a ser o mesmo - disse o pregador. - Irás con­
tar. - Em seguida, voltou o rosto para as pessoas e começou a pre­
gar, e Bevel olhou por cima do ombro dele , para os fragmentos de
sol branco espalhados no rio . De súbito , o pregador disse: - Muito
bem, vou batizar-te agora - e , sem outro aviso , agarrou Bevel com
42 Flannery O 'Connor

mais força e virou-o de pernas para o ar e enfiou-lhe a cabeça na


água. Segurou-o debaixo de água enquanto proferia a fórmula do
batismo e depois ergueu-o novamente com um sacão e olhou com
ar severo para a criança arquejante . Bevel tinha os olhos escuros
e dilatados . - Agora contas - disse o pregador. - Antes , nem
sequer contavas .
O rapazito sentia-se demasiado chocado para chorar. Cuspiu a água
lamacenta e passou a manga molhada pelos olhos e sobre o rosto .
- Não se esqueça da mãezinha dele - pediu Mrs. Connin em voz
alta. - Ele quer que o senhor reze pela mãezinha dele. Ela 'tá doente.
- Senhor - disse o pregador - , rezamos por uma pessoa que ' tá
a padecer e que não 'tá junto de nós pra proclamar a sua fé . A tua mãe
'tá doente no hospital? - perguntou . - 'Tá com dores?
O garoto fitou-o. - Ela ainda não se levantou - respondeu em
voz aflautada e aturdida. - Está com a ressaca. - O ar estava tão
sereno que ele podia ouvir os fragmentos do Sol a percutir a água.
O pregador pareceu zangado e perplexo . A cor vermelha fugiu-lhe
do rosto , e o céu pareceu escurecer-lhe nos olhos . Ouviu-se uma so­
nora gargalhada vinda da margem, e Mr. Paradise gritou: - Ah, ah !
Curar a mulher doente que está com a ressaca! - e começou a bater
no joelho com o punho fechado .

- Ele teve um dia muito comprido - explicou Mrs . Connin , pa­


rada ao lado dele à porta do apartamento enquanto lançava um olhar
penetrante ao interior da sala, onde estava a decorrer a festa. - Se
calhar, já passou da hora dele se deitar. - Bevel tinha um olho fecha­
do e o outro semicerrado; tinha o nariz entupido e mantinha a boca
aberta e respirava por esta. O casaco húmido de xadrez pendia de um
dos lados .
Devia ser aquela, concluiu Mrs . Connin , aquela das calças pretas
- umas longas calças pretas de cetim e sandálias de tiras e unhas
dos pés pintadas de vermelho . Estava deitada em metade do sofá, de
joelhos cruzados no ar e a cabeça apoiada no braço do móvel . Não
se levantou .
- Olá, Harry - saudou . - Tiveste um dia em grande? - Tinha
o rosto comprido e pálido , macio e inexpressivo , e cabelo liso , cor de
batata-doce, puxado para a nuca.
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 43

O pai entrou no quarto para ir buscar o dinheiro . Estavam na sala


dois outros casais . Um dos homens , loiro com olhinhos azul-violeta,
debruçou-se na poltrona e perguntou: - Então , Harry, meu rapagão ,
tiveste um dia em grande?
- Ele não se chama Harry. Chama-se Bevel - emendou Mrs .
Connin .
- Ele chama-se Harry - corrigiu ela do sofá. - Onde é que já se
viu alguém chamado Bevel?
O rapazito parecia estar a adormecer de pé , a cabeça a pender-lhe
cada vez mais para diante; endireitou-a subitamente e abriu um olho;
o outro continuava com as pálpebras pegadas .
- Ele disse-me esta manhã que se chamava Bevel - informou
Mrs . Connin em voz chocada. - O mesmo nome do nosso pregador.
'Tivemos o dia inteiro numa pregação e cura pela fé , junto ao rio . Ele
disse que se chamava Bevel , assim como o pregador. Foi o que ele
me disse .
- Bevel ! - exclamou a mãe . - Valha-me Deus ! Que nome .
- Aquele pregador dá pelo nome de Bevel e não há outro melhor
por aí - prosseguiu Mrs . Connin . - E, além do mais - acrescentou
em tom de desafio - , ele batizou esta criança esta manhã!
A mãe endireitou-se repentinamente no sofá. - Mas que descara­
mento ! - murmurou .
- Além do mais - ajuntou Mrs . Connin - , ele cura pela fé , e
rezou por si , prà senhora se curar.
- Curar ! - soltou a mãe , quase num grito . - Mas curar de quê ,
por amor de Deus?
- Da sua maleita - respondeu Mrs . Connin em voz gélida.
O pai regressara com o dinheiro e estava parado junto de Mrs .
Connin, à espera para lho poder entregar. Tinha os olhos bordejados
de fios vermelhos . - Continue , continue - disse - , quero ouvir
mais explicações acerca da maleita dela. A natureza exata da doença
escapou . . . - Agitou a nota, e a voz sumiu-se-lhe . - A cura por
meio de orações é ao preço da chuva - murmurou .
Mrs . Connin ficou parada alguns momentos , a fitar o interior da
divisão , com a aparência de um esqueleto que tudo vê . Depois , sem
pegar no dinheiro , virou costas e fechou a porta atrás de si . O pai
rodou sobre os calcanhares , sorrindo vagamente , e encolheu os om-
44 Flannery O ' Connor

bros . Os restantes presentes estavam a olhar para Harry. O rapazito


começou a caminhar, trôpego , em direção ao quarto de dormir.
- Vem cá, Harry - chamou a mãe . Ele mudou automaticamen­
te de direção , encaminhando-se para ela sem abrir mais o olho . -
Conta-me o que aconteceu hoje - pediu ela quando ele se acercou .
Começou a despir-lhe o casaco .
- Não sei - tartamudeou ele .
- Sabes , sim, sabes muito bem - disse ela, sentindo o casaco
mais pesado de um lado . Abriu o fecho de correr do forro e apanhou
o livro e um lenço de assoar sujo quando estes tombaram. - Onde é
que arranjaste estas coisas?
- Não sei - respondeu ele , e estendeu as mãos, tentando agarrar
os dois objetos . - São meus . Ela deu-mos .
Ela atirou o lenço para o chão e segurou o livro demasiado alto
para ele lhe conseguir chegar e começou a lê-lo , e, ao cabo de escas­
sos momentos , uma expressão exageradamente cómica invadiu-lhe o
rosto . Os outros rodearam-na e espreitaram-lhe por cima do ombro .
- Meu Deus - soltou alguém .
Um dos homens examinou o livro com olhar vivo através de uns
óculos de lentes grossas . - Isso é valioso - comentou . - É uma
peça de colecionador - e, subtraindo o livro das mãos dos restantes ,
retirou-se com ele para outra poltrona.
- Não se deixem intrujar pelo George - comentou a namorada
dele .
- Estou a dizer-vos que é valioso - insistiu George . - 1 832.
Bevel tomou a mudar de direção para o quarto onde dormia. Fe­
chou a porta atrás de si e avançou vagarosamente no escuro ao en­
contro da cama e sentou-se e descalçou os sapatos e meteu-se debai­
xo do cobertor. Passado um minuto , um feixe de luz deixou entrar
a silhueta alta da mãe dele . Ela atravessou o quarto sem ruído , nas
pontas dos pés , e sentou-se na borda da cama dele . - O que é que o
palerma do tal pregador disse acerca de mim? - sussurrou . - Que
mentiras andaste tu a contar por aí hoje, meu querido?
Ele fechou o olho e ouviu a voz dela lá muito ao longe , como se es­
tivesse debaixo de água e ela estivesse à superfície do rio . Ela sacudiu­
-lhe o ombro . - Harry - insistiu , debruçando-se e encostando-lhe
a boca ao ouvido - , diz-me o que é que ele disse . - Puxou-o para
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 45

cima, obrigando-o a sentar-se , e ele sentiu-se como se o tivessem iça­


do do fundo do rio . - Diz-me - sussurrou a mãe , e o hálito amargo
dela cobriu o rosto do garoto .
Ele viu a forma pálida e oval a aproximar-se dele no escuro . -
Disse que agora não sou o mesmo - resmungou . - Agora conto .
Ao cabo de alguns momentos , ela baixou-o, agarrando-o pelo peiti­
lho da camisa, e deixou-o deitar-se de novo na almofada. Debruçou-se
sobre ele um instante e roçou-lhe os lábios contra a testa. Em seguida,
pôs-se de pé e afastou-se, meneando as ancas ao de leve através do
feixe de luz.

Ele não acordou cedo , mas o apartamento ainda estava escuro e


abafado quando isso sucedeu . Durante algum tempo , ficou ali deitado ,
a tirar macacos do nariz e remelas dos olhos . Em seguida, soergueu­
-se na cama e olhou pela janela. O sol entrava, pálido , manchado de
cinzento pela vidraça. Do outro lado da rua, no Hotel Empire , uma
mulher da limpeza, uma negra, olhava cá para baixo de uma janela
mais alta, de rosto apoiado nos braços cruzados . Ele levantou-se e
calçou os sapatos e foi à casa de banho e depois entrou na sala da
frente . Comeu duas bolachas de água e sal barradas com pasta de an­
chovas , que encontrou na mesinha baixa, bebeu um pouco de ginger
ale que ficara numa garrafa e olhou em volta à procura do seu livro ,
mas o livro não estava ali .
O apartamento estava mergulhado no silêncio , à parte o vago zum­
bido do frigorífico . Ele entrou na cozinha e encontrou algumas cô­
deas de pão de passas e barrou-as com meio boião de manteig a de
amendoim e espalmou-as umas contras as outras e trepou para cima
do banco alto da cozinha e sentou-se a comer a sanduíche devagar, a
limpar o nariz ao ombro de vez em quando . Quando acabou de comer,
encontrou um resto de leite com chocolate e bebeu-o . Preferia ter
bebido o ginger ale que ali via, mas eles deixavam os abre-garrafas
num lugar aonde ele não conseguia chegar. Ficou um certo tempo a
remirar o que restava no frigorífico - uns quantos legumes mirrados
que ela se esquecera que ali estavam e imensas laranjas castanhas ,
que ela comprava e não espremia; havia três ou quatro variedades de
queijo e qualquer coisa com um cheiro suspeito a peixe dentro de um
saco de papel; quanto ao resto, apenas uma costeleta de porco . Dei-
46 Flannery O ' Connor

xando a porta do frigorífico aberta, ele deambulou novamente para o


interior da sala de estar e sentou-se no sofá.
Deduziu que eles iriam ficar ferrados no sono até à uma da tarde , e
que , em seguida, teriam de ir os três almoçar fora. Ele ainda não era
suficientemente alto para chegar à mesa, e o empregado traria uma
cadeirinha para ele se sentar, mas já era demasiado grande para uma
cadeirinha. Sentou-se no meio do sofá, a pontapeá-lo com os calca­
nhares . Em seguida, levantou-se e vagueou pela sala, olhando para
dentro dos cinzeiros , para as beatas ali esmagadas , como se isto fosse
um hábito seu . No quarto , tinha livros ilustrados e cubos de madeira,
mas , na sua maior parte , estavam estragados; percebera que a melhor
maneira de lhe comprarem livros e brinquedos novos era destruir
os que possuía. Pouco havia para fazer, em qualquer altura do dia, à
parte comer; no entanto , ele não era um rapaz gordo .
Decidiu despejar uns quantos cinzeiros para o chão . Se apenas
despejasse alguns , ela julgaria que tinham caído . Despejou dois , es­
fregando as cinzas cuidadosamente contra o tapete com o dedo es­
petado . Em seguida, ficou algum tempo deitado no chão , a examinar
os próprios pés , que mantinha erguidos no ar. Tinha os sapatos ainda
húmidos , e começou a pensar no rio .
Muito devagar, a sua expressão alterou-se , como se ele visse surgir
gradualmente algo de que não sabia estar à procura. Em seguida, de
repente , percebeu o que queria fazer.
Levantou-se e entrou em bicos de pés no quarto deles e ficou ali
parado à luz mortiça, em busca da carteira dela. O olhar dele percor­
reu o longo braço pálido dela, tombado sobre a borda da cama até ao
chão , depois transpôs o montículo branco que o pai dele formava,
passou pela cómoda atulhada de objetos , até ir pousar na carteira,
suspensa do espaldar de um cadeirão . Tirou lá de dentro uma ficha
para viajar no elétrico e meia embalagem cilíndrica de rebuçados de
mentol . Em seguida, saiu do apartamento e apanhou o elétrico à es­
quina. Não trouxera uma mala de viagem, porque nada havia ali em
casa que quisesse conservar.
Desceu do elétrico no fim da linha e começou a caminhar pela es­
trada que ele e Mrs . Connin tinham percorrido na véspera. Sabia que
não estaria ninguém em casa dela, porque os três rapazes e a rapariga
iam à escola, e Mrs . Connin dissera-lhe que saía para fazer limpezas .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 47

Passou diante do quintal dela e prosseguiu pelo caminho que eles ti­
nham tomado para ir até ao rio . As casas de tijolo cor de papel pardo
eram muito afastadas umas das outras , e, ao fim de um certo tempo , a
faixa de terra batida para caminhar chegou ao fim, e ele teve de avan­
çar pela berma da estrada de asfalto . O Sol amarelo-claro brilhava lá
no alto e aquecia bastante .
Passou por uma choupana com uma bomba de gasolina cor de la­
ranja em frente , mas não viu o velho que , parado no vão da porta,
olhava cá para fora, sem fitar nada de especial . Mr. Paradise estava a
beber uma laranjada. Terminou-a vagarosamente , a remirar por cima
da garrafa, de pálpebras franzidas , a pequena silhueta de casaco aos
quadrados que ia desaparecendo ao fundo da estrada. Em seguida,
pousou a garrafa vazia em cima de um banco e, ainda de pálpebras
franzidas , limpou a boca com a manga. Entrou na choupana e pegou
numa bengala com sabor a hortelã-pimenta, de trinta centímetros de
comprido e cinco centímetros de grossura, retirando-a da prateleira
dos doces , e enfiou-a no bolso de trás das calças . Depois meteu-se no
carro e conduziu vagarosamente pela estrada, atrás do garoto .
Quando Bevel chegou ao campo salpicado de ervas daninhas de
cor púrpura, estava coberto de poeira e de suor, e atravessou-o numa
corrida cadenciada, para chegar ao bosque o mais depressa possível .
Uma vez na floresta, vagueou de árvore em árvore , tentando achar
o carreiro que tinham percorrido na véspera. Por fim, encontrou um
sulco no meio do manto de agulhas de pinheiro, e seguiu-o até que
viu o trilho íngreme a descer, sinuoso , pelo meio do arvoredo .
Mr. Paradise deixara o automóvel lá atrás , na estrada, e encaminha­
ra-se para o lugar onde se costumava sentar quase todos os dias , a
segurar uma linha de pesca, tendo na ponta um anzol sem isco mer­
gulhado na água, enquanto via o rio passar na sua frente . Qualquer
pessoa que olhasse de longe para ele teria visto um velho penedo
meio oculto nos arbustos .
Bevel não o viu de modo nenhum. Viu apenas o rio , a cintilar em
tons de amarelo-avermelhado , e saltou lá para dentro , de sapatos nos
pés e casaco vestido , e sentiu a água a entrar-lhe na boca. Engoliu uma
parte e cuspiu o resto , e depois ficou ali parado na corrente , com água
até ao peito , e olhou em volta de si . O céu tinha uma cor azul-clara,
bem límpida, todo ele uniforme - excetuando o buraco que o Sol ali
48 Flannery O ' Connor

formava - , orlado na margem inferior por uma franja de copas de


árvores . O casaco flutuou até à superfície e rodeou-o como um estra­
nho nenúfar alegre , e ele ficou imóvel , de largo sorriso nos lábios , ao
sol. Não fazia tenções de se meter novamente com pregadores , queria
antes batizar-se a si mesmo e não se deter, desta vez, até encontrar o
Reino de Cristo no rio. Não queria perder mais tempo. Enfiou a cabe­
ça debaixo de água de imediato e fez força para baixo.
Num instante , começou a arquejar e a cuspinhar, e a cabeça reapa­
receu-lhe à superfície; enfiou-se novamente debaixo de água, e o mes­
mo sucedeu. O rio recusava-se a acolhê-lo . Tentou de novo e veio à
tona, sufocado . Era assim que as coisas se tinham passado quando o
pregador o prendera debaixo de água - ele tivera de lutar com qual­
quer coisa que lhe empurrava o rosto para trás . Deteve-se e pensou
subitamente: é outra brincadeira, é mais outra brincadeira! Pôs-se a
pensar que viera até tão longe para nada, e desatou a bater e a chapi­
nhar e a dar pontapés naquele rio imundo. Os pés dele já caminhavam
no vazio . Soltou um grito surdo de dor e indignação . Em seguida,
ouviu um brado e voltou a cabeça e viu uma criatura semelhante a um
porco gigantesco a acercar-se dele aos saltos , a brandir um pau verme­
lho e branco e a gritar. Mergulhou na água outra vez, e, agora, a cor­
rente expectante agarrou-o , qual uma comprida mão suave, e puxou-o
velozmente para diante e para baixo . Por um instante , sentiu-se sub­
jugado pela surpresa; em seguida, como estava a mover-se depressa
e sabia que ia chegar a qualquer lado , toda a fúria e todo o medo o
abandonaram.
A cabeça de Mr. Paradise surgia de tempos a tempüs à superfície da
água. Por fim, num lugar bem mais a jusante , o velho ergueu-se, qual
monstro aquático vetusto, e ficou de pé, de mãos vazias, a remirar de
olhos mortiços o ponto mais distante do curso do rio que conseguia
avistar.
A Vida Que Salvar Poderá Ser a Sua

A velha e a filha estavam sentadas no alpendre quando Mr. Shiftlet


percorreu pela primeira vez o caminho que ia ter à casa delas . A velha
escorregou até à orla do assento da cadeira e debruçou-se , protegendo
os olhos com a mão da luz penetrante do Sol . A filha não conseguia
ver muito adiante de si e continuou a brincar com os dedos . Embora
a velha vivesse naquele lugar ermo somente com a filha, e nunca
antes tivesse visto Mr. Shiftlet, conseguiu perceber, mesmo de longe ,
que ele era um vagabundo e que não havia motivos para o temer.
Ele trazia a manga esquerda do casaco arregaçada, para mostrar que
somente continha meio braço , e a sua silhueta macilenta inclinava­
-se ligeiramente para o lado , como se a brisa estivesse a empurrá-lo .
Tinha no corpo um fato preto completo e , na cabeça, um chapéu de
feltro castanho levantado à frente e puxado para baixo na nuca, e tra­
zia na mão uma caixa de ferramentas de folha metálica, que segurava
pela pega. Avançou a furta-passo pelo carreiro dela, de rosto voltado
para o Sol , que parecia estar a equilibrar-se no cume de uma pequena
montanha.
A velha não mudou de posição até ele estar quase no seu terreiro;
nesse momento , pôs-se de pé com uma mão cerrada junto à anca.
A filha, uma rapariga corpulenta de vestido curto de organdi azul ,
viu-o de repente e ergueu-se de um salto e começou a bater com os
pés e a apontar e a emitir sons inarticulados e febris .
Mr. Shiftlet parou mal transpusera o limiar do terreiro e pousou a
caixa no chão e ergueu ligeiramente o chapéu para a saudar, como se
ela não sofresse de nenhuma maleita; em seguida, virou-se para a ve-
50 Flannery O ' Connor

lha e tirou o chapéu por completo com um gesto largo . Tinha o cabelo
negro , comprido e liso , que pendia da risca ao meio até lhe chegar
às pontas das orelhas , de ambos os lados . O rosto descia-lhe numa
testa ampla até mais de metade do seu comprimento , terminando de
súbito , as feições equilibradas a custo sobre um queixo proeminente,
dir-se-ia uma armadilha de aço . Parecia jovem, mas exibia um ar
de insatisfação comedida, como se compreendesse a vida e todos os
seus meandros .
- Boa tarde - saudou a velha. Era mais ou menos do tamanho de
uma estaca de vedação de cedro e tinha um chapéu cinzento de homem
puxado para baixo , até aos olhos .
O vagabundo ficou parado , a olhar para ela, e não respondeu . Vol­
tou-lhe costas e encarou o crepúsculo . Ergueu devagar os dois braços ,
o inteiro e o coto, de modo que estes assinalaram uma extensão de
céu , e a silhueta dele formou uma cruz retorcida. A velha observou­
-o , de braços cruzados sobre o peito , como se fosse a proprietária do
Sol , e a filha observou-o, a cabeça atirada para diante e as mãos re­
chonchudas e inertes pendidas nos pulsos . Tinha o cabelo comprido ,
rosa-dourado , e os olhos de um azul tão vivo como o pescoço de um
pavão .
Ele manteve-se imóvel naquela postura durante quase cinquenta
segundos e depois pegou de novo na caixa de ferramentas e aproxi­
mou-se do alpendre e deixou-se cair no último degrau . - Minha
senhora - disse em voz firme e nasalada - , dava uma fortuna pra
viver onde pudesse ver o Sol fazer isto todos os dias à tardinha.
- Faz isto todos os dias à tardinha - disse a velha, e tomou a
sentar-se . A filha sentou-se também e fitou-o com um olhar cauteloso
e matreiro , como se ele fosse um pássaro que se tivesse aproximado
imenso . Ele inclinou-se para o lado , escarafunchando no bolso das
calças , e, ao fim de um momento , tirou de lá uma embalagem de
pastilhas elásticas e ofereceu-lhe uma. Ela pegou-lhe e retirou o invó­
lucro e começou a mastigar sem tirar os olhos dele . Ele ofereceu uma
pastilha à velha, mas ela limitou-se a arreganhar o lábio superior,
indicando que não tinha dentes .
O olhar pálido e vivo de Mr. Shiftlet já percorrera tudo o que ha­
via no terreiro - a bomba junto ao canto da casa e a grande figuei­
ra em cujos ramos três ou quatro galinhas se haviam empoleirado ,
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 51

preparando-se para passar a noite - e fora pousar num barracão ,


onde viu a traseira quadrada e coberta de ferrugem de um automóvel .
- As senhoras conduzem? - perguntou .
- Aquele carro já não anda vai pra quinze anos - explicou a velha.
- Desde que o meu marido morreu, nunca mais ninguém lhe pegou .
- Já nada é como era dantes , m'nha senhora - comentou ele . -
O mundo ' tá quase virado de pantanas .
- Nem mais - concordou a velha. - O senhor é destas redon­
dezas?
- O meu nome é Tom T. Shiftlet - murmurou ele , olhando para
os pneus .
- Muito prazer em conhecer o senhor - saudou a velha. - Eu cá
chamo-me Lucynell Crater, e a minha filha, Lucynell Crater. O que é
que anda a fazer por estas bandas , Mr. Shiftlet?
Parecia-lhe que o carro era um Ford de 1 928 ou 1 929. - M'nha
senhora - disse , e voltou-se para a mulher, concentrando nela toda
a sua atenção - , deixe-me dizer-lhe uma coisa. Um desses médi­
cos que praí há, um fulano de Atlanta, pegou num bisturi e cortou o
coração humano . . . o coração humano - repetiu , curvando-se para
diante - pra fora do peito duma pessoa e depois segurou-o na mão
- e estendeu a mão aberta, com a palma voltada para cima, como se
nesta segurasse o peso ligeiro do coração humano - e então pôs-se
a olhar pràquilo como se fosse um pinto nascido na véspera, e m'nha
senhora - concluiu , deixando que decorresse uma longa pausa sig­
nificativa em que a cabeça lhe deslizou para a frente e os olhos cor
de barro lhe brilharam - , ele não ficou a saber mais sobre o coração
humano que a senhora ou eu .
- Nem mais - acudiu a velha.
- Homessa, mesmo que ele pegasse naquele bisturi e cortasse o
coração em mil bocados , não ficava a saber mais que a senhora ou eu .
Quanto é que quer apostar?
- Nada - respondeu a velha, com ar circunspecto . - E de que
terra é o senhor, Mr. Shiftlet?
Ele não respondeu . Enfiou os dedos no bolso e tirou de lá uma
bolsa de tabaco e uma embalagem de mortalhas e enrolou um cigarro
com gestos exímios de uma só mão e prendeu-o ao lábio superior,
deixando-o a pender dali . Em seguida, tirou do bolso uma caixa de
52 Flannery O ' Connor

fósforos de madeira e riscou um contra o sapato . Segurou o fósforo


a arder como se ponderasse o mistério da labareda enquanto esta lhe
viajava perigosamente ao encontro da pele . A filha começou a emitir
sons ruidosos e a apontar para a mão dele e a agitar o dedo como se
o avisasse do perigo , mas , quando a chama estava prestes a tocar-lhe ,
ele debruçou-se com a mão em concha sobre o lume , como se fosse
pegar fogo ao nariz , e acendeu o cigarro .
Atirou o fósforo apagado para longe e soprou um jorro de cinzento
para o âmago da noite . Uma expressão de astúcia invadiu-lhe o rosto .
- M'nha senhora - disse - , nos dias que correm, as pessoas são
capazes de tudo . Posso dizer-lhe que me chamo Tom T. Shiftlet e que
nasci em Tarwater, no Tennessee , mas a senhora nunca me viu antes :
comé que sabe que eu que não 'tou a mentir? Comé que sabe que
o meu nome não é Aaron Sparks , m'nha senhora, e que eu que não
nasci em Singleberry, na Geórgia, ou comé que sabe que o meu nome
não é George Speeds e que eu que não nasci em Lucy, no Alabama,
ou comé que sabe que o meu nome não é Thompson Bright e que eu
que não nasci em Toolafalls , no Mississípi?
- Não sei nada sobre você - tartamudeou a velha, aborrecida.
- M'nha senhora - prosseguiu ele - , as pessoas mentem com
a maior desfaçatez . Talvez a melhor coisa que lhe posso dizer é que
sou um homem; mas escute, m'nha senhora - continuou, e, depois
de fazer uma pausa, retomou num tom ainda mais ameaçador - , o
que é um homem?
A velha começou a mascar uma semente com as gengivas . - O que
é que traz aí nessa caixa de folha, Mr. Shiftlet? - perguntou.
- Ferramentas - respondeu ele , trazido de volta à realidade . -
Sou carpinteiro .
- Bom, se você veio até cá à cata de trabalho, eu posso dar-lhe de
comer e posso dar-lhe uma cama pra dormir, mas não lhe posso pagar.
Digo-lhe desde já, antes mesmo que comece - avisou .
Não houve resposta imediata da parte dele, nem nenhuma expressão
particular lhe assomou ao rosto . Recostou-se contra o barrote de cinco
por dez que ajudava a suportar o peso do telhado do alpendre . - M'nha
senhora - disse devagar - , há certos homens pra quem há certas
coisas mais importantes do que o dinheiro . - A velha baloiçou-se na
cadeira sem comentários , e a filha observava o gatilho que se movia
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 53

para cima e para baixo no pescoço dele . Ele disse então à velha que a
maior parte das pessoas só queria saber de dinheiro, mas perguntou-lhe
para que é que um homem viera a este mundo . Perguntou-lhe se um
homem viera a este mundo para ganhar dinheiro ou quê. Perguntou-lhe
para que é que ela achava que viera a este mundo, mas ela não res­
pondeu, limitou-se a baloiçar-se, ali sentada, a meditar se um maneta
seria capaz de lhe montar um telhado novo na latrina. Ele fez imensas
perguntas a que ela não deu resposta. Disse-lhe que tinha vinte e oito
anos e que levara uma vida variada. Fora cantor de gospel, capataz na
construção de linhas férreas , ajudante numa casa mortuária, e cantara
na rádio durante três meses com o Uncle Roy e os seus Red Creek
Wranglers . Disse que tinha combatido e dado o seu sangue nas forças
armadas do seu país e que tinha visitado todas as terras estrangeiras ,
e que por toda a parte tinha visto pessoas que faziam as coisas às três
pancadas . Disse que não tinha sido criado dessa maneira.
Uma Lua gorda e amarela apareceu entre as ramagens da figueira,
como se ali fosse empoleirar-se com as galinhas . Ele comentou que
um homem tinha de fugir para o campo para ver o mundo são , e que
gostava muito de viver num lugar ermo como aquele , onde pudesse
ver o Sol pôr-se todas as noites , assim como Deus determinara que
sucedesse .
- O senhor é casado ou é solteiro? - perguntou a velha.
Seguiu-se um longo silêncio . - M'nha senhora - perguntou ele
por fim - , onde é que se encontra uma mulher inocente , nos tempos
que correm? Eu cá é que não queria nenhuma dessas rameiras que se
andam por aí a oferecer.
A filha estava muito inclinada para a frente , a cabeça quase pendi­
da entre os joelhos , a observá-lo através de uma portinhola triangular
que rasgara no cabelo tombado em cascata; e , de súbito , caiu ao chão
como um peso morto e começou a gemer. Mr. Shiftlet endireitou-a e
ajudou-a a sentar-se de novo na cadeira.
- É a sua cachopa mais novita? - perguntou .
- É a minha única filha - respondeu a velha - , e não há no mun-
do rapariga mais meiga. Não deixava que a levassem pra longe de mim
nem por nada. E é esperta, além do mais . Sabe varrer o chão, cozinhar,
lavar, dar de comer às galinhas e sachar. Não deixava que a levassem
pra longe de mim nem que me dessem um baú cheio de joias .
54 Flannery O ' Connor

- Não - acudiu ele , em tom amável - , não deixe que nenhum


homem a leve pra longe de si .
- Algum homem que se prenda a ela - continuou a velha - vai
ter de viver aqui em casa com a gente .
Na escuridão , o olhar de Mr. Shiftlet estava fixo numa parte do
para-choques do automóvel que cintilava ao longe . - M'nha senho­
ra - disse , erguendo o braço curto num sacão , como se pudesse
apontar com o coto para a casa dela, o terreiro e a bomba - , não
há uma só coisa avariada nesta plantação que eu não conseguisse
consertar pra si , maneta mal-amanhado ou não . Sou um homem -
declarou com uma dignidade carrancuda - , ainda que não seja um
homem de corpo inteiro . Tenho - continuou , batendo com os nós
dos dedos nas tábuas do chão para sublinhar a imensidão do que ia
dizer - uma inteligência moral ! - e o rosto dele emergiu das trevas
e penetrou num feixe de luz da porta, e ele fitou-a como se ele próprio
se sentisse estupefacto ante esta verdade inconcebível .
A velha não se mostrou impressionada com aquela expressão . -
Já lhe disse que pode ficar com a gente e trabalhar em troca de comi­
da - declarou - , se não se importar de dormir naquele carro , além.
- Homessa, escute bem, m'nha senhora - disse ele, com um largo
sorriso de alegria - , os monges de antigamente dormiam nos caixões
deles !
- Não eram tão avançados como a gente - rematou a velha.

Na manhã seguinte, ele começou a consertar o telhado da latrina,


enquanto Lucynell, a filha, sentada num pedregulho, o via trabalhar.
Ainda não estava ali sequer há uma semana quando as mudanças que
introduzira na casa se começaram a tomar evidentes . Remendou os de­
graus da frente e das traseiras , construiu uma nova pocilga, recuperou
uma vedação e ensinou Lucynell , que era completamente surda e nun­
ca dissera uma palavra na vida, a dizer a palavra «passarinho» . A mo­
cetona de faces rosadas seguia-o para todo o lado, a dizer «peçarrrinho,
oopeçarrrachinho» , e a bater palmas . A velha ficava a vê-los de longe,
satisfeita lá no íntimo. Desejava ardentemente arranjar um genro.
Mr. Shiftlet dormia no banco traseiro do carro , que era duro e es­
treito , com os pés saídos pela janela da porta. Guardava a lâmina
de barbear e uma lata cheia de água num caixote que lhe servia de
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 55

mesa de cabeceira e encostou um caco de espelho ao vidro traseiro e


pendurava o casaco, muito direito , num cabide que suspendia de um
dos vidros .
Aos serões , sentava-se nos degraus e falava enquanto a velha e
Lucynell se baloiçavam violentamente nas suas cadeiras de ambos
os lados dele . As três montanhas da velha eram negras sobre o fundo
azul-escuro do céu , e vários planetas visitavam-nas esporadicamente ,
além da Lua, depois de esta abandonar as galinhas . Mr. Shiftlet sa­
lientava que a razão que o levara a fazer melhorias naquela plantação
era o facto de se ter interessado pessoalmente pela propriedade . Disse
que ia até pôr o automóvel a funcionar.
Abrira o capot e examinara o mecanismo , e disse que dava para
perceber que o carro tinha sido fabricado nos tempos em que se
fabricavam carro s a sério . Agora já não é assim , disse , veja só , um
homem aperta um parafuso e outro homem aperta outro parafuso e
outro homem aperta outro parafuso , duma tal maneira que aquilo
é um homem pra cada parafuso . É por isso que a gente tem de pa­
gar tanto dinheiro por um carro: temos de pagar àqueles homens
todos . Pois bem , se só tivéssemos de pagar a um homem , o carro
ficava-nos muito mais barato , e , além do mais , esse homem havia
de se ter interessado pelo carro que tinha nas mãos , de modos que
o automóvel era muito melhor. A velha concordou com tudo o que
ele dissera.
Mr. Shiftlet disse que o problema do mundo era que ninguém que­
ria saber, ninguém parava dois minutos para pensar e para dedicar
atenção às coisas . Disse que nunca teria conseguido ensinar Lucynell
a dizer uma palavra se não se tivesse preocupado e dedicado dois
minutos ao assunto .
- Ensine ela a dizer outra coisa - pediu a velha.
- O que é que quer que ela diga a seguir? - perguntou Mr. Shift-
let.
A velha fez um sorriso largo e desdentado e sugestivo . - Ensine
ela a dizer «coisinha fofa» - sugeriu .
Mr. Shiftlet já percebera o que ela tinha em mente .
No dia seguinte , começou a remexer no motor do automóvel e,
naquele serão , disse à velha que , se ela comprasse uma correia da
ventoinha, ele conseguiria pôr o carro a funcionar.
56 Flanne ry O ' Connor

A velha disse que lhe dava o dinheiro . --:--- 'Tá a ver aquela moça
além? - perguntou , apontando para Lucynell , que estava sentada no
chão , a um passo de distância, a observá-lo , de olhos azuis , mesmo
no escuro . - Se um homem alguma vez a quisesse levar pra longe de
mim, eu dizia logo: «Não há homem neste mundo que me leve este
docinho pra longe de mim ! » , mas se ele dissesse: «Minha senhora,
não a quero levar pra longe de si , quero ela aqui mesmo , à sua beira» ,
então eu já dizia: «Meu caro senhor, não lhe levo a mal . Eu cá é que
também não enjeitava a oportunidade de assentar num lugar e de me
casar com a moça mais doce que há neste mundo . Você não é palerma
nenhum» , era o que eu dizia.
- Que idade tem ela? - perguntou Mr. Shiftlet, como quem não
quer a coisa.
- Quinze , dezasseis - disse a velha. A rapariga tinha quase trinta
anos , mas , de tão inocente que era, tomava-se impossível adivinhar.
- Também não era má ideia pintá-lo - comentou Mr. Shiftlet. -
A senhora não quer que a chapa enferruje toda.
- A gente depois vemos isso - disse a velha.
No dia seguinte , ele foi a pé até à povoação e regressou com as pe­
ças de que necessitava e com uma lata de gasolina. Ao final da tarde ,
ruídos tremendos elevaram-se do barracão , e a velha saiu a correr de
casa, julgando que Lucynell estava algures por ali , a ter um ataque .
Lucynell estava sentada num caixote para galinhas , a bater com os
pés no chão e a gritar: «Peçarrrinho ! Tupeçarrrachinho ! » , mas es­
ta algaraviada foi abafada pelo ronco do carro . Com uma rajada de
estampidos , o automóvel emergiu do barracão , avançando de modo
feroz e solene . Mr. Shiftlet estava sentado no assento do condutor,
muito hirto . Exibia no rosto uma expressão de modéstia grave, como
se tivesse acabado de ressuscitar um morto .
Naquela noite, enquanto se baloiçava no alpendre, a velha não per­
deu tempo a abordar o assunto que lhe interessava. - O senhor quer
uma mulher inocente, não é verdade? - perguntou, em tom compreen­
sivo. - Não quer saber dessas rameiras que andam por aí.
- Não quero , não , m'nha senhora - disse Mr. Shiftlet.
- Uma mulher que seja mudinha - continuou ela - não lhe
pode responder torto nem pode dizer palavras feias . Ora aí ' tá a
mulher que lhe convém. Aqui mesmo - e apontou para Lucynell ,
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 57

sentada de pernas cruzadas na sua cadeira, a segurar ambos os pés


entre as mãos .
- Nem mais - reconheceu ele . - Ela não me havia de dar sari­
lhos nenhuns.
- No sábado que vem - sugeriu a velha - , o senhor e mais
ela e mais eu podíamos ir de carro até à povoação e vocês os dois
casavam-se .
Mr. Shiftlet mudou de posição nos degraus .
- Não me posso casar agora - declarou . - Isso que a senhora
quer fazer custa dinheiro , e eu cá não tenho um tostão .
- Pra que é que precisa de dinheiro? - indagou ela.
- Isso custa dinheiro - explicou ele. - Certas pessoas fazem tudo
de qualquer maneira, hoje em dia, mas , cá no meu jeito de pensar, eu é
que não me casava com uma mulher se depois não a pudesse levar de
viagem como se ela fosse uma senhora como deve de ser. Levar ela pra
um hotel , quero eu dizer, e trazê-la nas palminhas . Eu cá não me casava
nem com a duqueresa de Windsor - declarou em tom firme - , a me­
nos que a pudesse levar pra um hotel e dar-lhe coisas boas pra comer.
«Fui criado deste jeito e não posso fazer nada quanto a isso . A mi­
nha mãezinha educou-me assim, prontos.»
- A minha Lucynell nem sequer sabe o que é um hotel - mur­
murou a velha. - Ouça cá, Mr. Shiftlet - prosseguiu , escorregando
para diante no assento da cadeira - , o senhor ficava com uma casa
pra morar e com um poço bem fundo e com a rapariga mais inocente
que existe . Não precisa de dinheiro nenhum. Deixe-me dizer-lhe uma
coisa: não há lugar neste mundo pra um pobre aleijado sem poiso
certo e sem amigos .
Estas palavras desagradáveis pousaram na cabeça de Mr. Shiftlet
como um bando de abutres na copa de uma árvore . Ele não respon­
deu de imediato . Enrolou um cigarro e acendeu-o e depois disse em
voz firme: - M'nha senhora, um homem divide-se em duas partes ,
corpo e espírito .
A velha fechou as gengivas com um estalo .
- O corpo e o espírito - repetiu ele . - O corpo , m'nha senho­
ra, é como uma casa, não vai a lado nenhum; mas o espírito , m'nha
senhora, é como um automóvel , sempre a andar dum lado pro outro,
sempre . . .
58 Flannery O ' Connor

- Escute , Mr. Shiftlet - disse ela - , o meu poço nunca seca e a


minha casa 'tá sempre quente no inverno e não há nada nesta proprie­
dade que 'teja hipotecado . Pode ir até ao tribunal e ver por si . E acolá,
dentro daquele barracão , 'tá um belo automóvel . - Ia pondo o isco
com cuidado . - Pode pintá-lo até sábado . Eu pago a tinta.
Nas trevas , o sorriso de Mr. Shiftlet retesou-se como uma cobra fa­
tigada a acordar junto a uma fogueira. Ao cabo de uns momentos , ele
recompôs-se e disse: - Só ' tou a dizer que o espírito dum homem é
mais importante pra ele do que outra coisa qualquer. Eu havia de ter
de levar a minha mulher a passar o fim de semana fora, sem me ralar
com as despesas . Tenho de ir adonde o meu espírito me diz pra ir.
- Eu dou-lhe quinze dólares pra passar um fim de semana fora
- disse a velha em voz mal-humorada. - É o melhor que se pode
arranjar.
- Isso mal chegava pra pagar a gasolina e mais o hotel - retor­
quiu ele . - Não chegava pra lhe dar de comer.
- Dezassete e meio - tomou a velha. - Não tenho mais dinhei­
ro , por isso não vale a pena tentar sacar-me mais . Vocês podem levar
almoço aqui de casa.
Mr. Shiftlet sentiu-se profundamente magoado pela palavra «sacar» .
Não tinha dúvidas de que ela tinha mais dinheiro cosido no forro do
colchão, mas já lhe tinha dito que não estava interessado · no dinheiro
dela. - Eu hei de governar-me com isso - disse, e pôs-se de pé e
afastou-se sem conversar mais com ela.
No sábado , entraram os três na povoação , dentro do carro cuja
tinta ainda mal secara, e Mr. Shiftlet e Lucynell casaram-se diante
do notário , enquanto a velha servia de testemunha. No momento em
que vinham a sair do edifício do tribunal , Mr. Shiftlet começou a
contorcer o pescoço no colarinho . Parecia taciturno e amargo , como
se o tivessem insultado enquanto alguém o agarrava. - Isto não me
contentou nem um bocadinho - disse . - Isto foi só uma coisa que
uma mulher num escritório fez , só papelada e exames ao sangue .
O que é que eles sabem do meu sangue? Mesmo que me abrissem
o peito e me cortassem o coração pra fora com um bisturi - pros­
seguiu - , não ficavam a saber nada sobre mim . Não me contentou
mesmo nada .
- Contentou a lei - ripostou a velha em tom agreste .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 59

- A lei - soltou Mr. Shiftlet, e escarrou . - É a lei que não me


contenta.
Pintara o carro de verde-escuro, com uma faixa amarela a toda a
volta, logo abaixo das janelas . Entraram os três para o banco da frente ,
e a velha disse: - A Lucynell 'tá mesmo bonita, não acha? Parece uma
bonequinha. - Lucynell trazia um vestido branco que a mãe desen­
cantara num baú e tinha na cabeça um panamá, a aba enfeitada com um
molho de cerejas encarnadas de madeira. De vez em quando, a expres­
são plácida dela alterava-se graças a um pensamentozinho malicioso
isolado, qual um rebento de verdura no deserto. - Saiu-lhe a sorte
grande, só lhe digo ! - exclamou a velha.
Mr. Shiftlet nem sequer olhou para ela.
Regressaram a casa para deixar ali a velha e recolher o almoço .
Quando estavam prontos para partir, ela ficou a olhar pela janela do
carro , de dedos enclavinhados no bordo do vidro . As lágrimas come­
çaram a ressumar-lhe de viés dos olhos e a correr-lhe ao longo dos
sulcos encardidos do rosto . - Nunca até hoje eu tinha ' tado dois dias
separada dela - disse .
Mr. Shiftlet ligou o motor.
- E não a dava a mais nenhum homem, só a você , porque vi que
você a ia tratar bem. Adeusinho , meu bombom - disse , agarrando a
manga do vestido branco da filha. Lucynell fitou-a nos olhos e pare­
ceu não a ver sequer ali. Mr. Shiftlet fez avançar o carro devagarinho ,
para que ela tivesse de afastar as mãos .
Aquele início de tarde era límpido e desafogado , rodeado por um
céu azul-claro . Embora o carro apenas desse cinquenta à hora, Mr.
Shiftlet imaginou incríveis subidas e descidas e curvas apertadas ,
uma vertigem que lhe subiu por completo à cabeça, a tal ponto que
esqueceu toda a amargura matinal . Sempre quisera ter um automó­
vel , mas nunca antes tivera dinheiro para comprar um. Carregou no
acelerador, porque queria chegar a Mobile ao cair da noite .
Esporadicamente , detinha o curso dos seus pensamentos o sufi­
ciente para olhar para Lucynell , sentada a seu lado no assento . Ela
comera o almoço assim que haviam abandonado o terreiro , e ago­
ra estava a arrancar as cerejas do chapéu uma por uma e a atirá-las
pela janela fora. Ele sentiu-se deprimido , apesar do carro . Já havia
percorrido uns cento e cinquenta quilómetros quando deduziu que
60 Flannery O ' Connor

ela devia estar novamente com fome e , na cidadezinha seguinte por


onde passaram, parou diante de uma cafetaria pintada de cor de alu­
mínio , chamada The Hot Spot, levou-a lá para dentro e pediu um
prato de presunto com papas de milho pilado para ela. A viagem de
carro deixara-a sonolenta, e, assim que ela se sentou no banco alto ,
apoiou a cabeça no balcão e fechou os olhos·. Não estava ninguém
no The Hot Spot, excetuando Mr. Shiftlet e o rapaz atrás do balcão ,
um jovem pálido com um trapo gorduroso ao ombro . Antes que ele
conseguisse pôr a comida no prato , já ela ressonava suavemente .
- Dê-lhe isso quando ela acordar - disse Mr. Shiftlet. - Eu
pago já.
O rapaz curvou-se sobre ela e remirou o longo cabelo rosa-dourado
e os olhos adormecidos , de pálpebras semicerradas . Em seguida, er­
gueu o rosto e fitou Mr. Shiftlet. - Ela parece um anjo de Deus -
murmurou .
- Dei-lhe boleia - explicou Mr. Shiftlet. - Não posso esperar.
Tenho de chegar a Tuscaloosa.
O rapaz tomou a curvar-se e, com mil cuidados , encostou um dedo
a uma madeixa do cabelo doirado , e Mr. Shiftlet saiu .
Sentia-se mais deprimido do que nunca quando prosseguiu viagem
sozinho . O final da tarde tomara-se quente e abafado , e a paisagem
aplanara-se e deixara de haver elevações . Nas profundezas do céu ,
uma tempestade preparava-se muito devagar e sem trovões , como se
pretendesse sugar todas as partículas de ar da terra antes de rebentar.
Havia momentos em que Mr. Shiftlet preferia não estar só . Sentia
também que um homem ao volante de um carro tinha responsabilida­
des para com os outros , e mantinha-se atento a possíveis viajantes a
pedir boleia na berma. De vez em quando , via um painel que avisava:
«Conduza com cuidado . A vida que salvar poderá ser a sua.»
A estrada estreita dava lugar de ambos os lados a campos resse­
quidos , e, aqui e além, uma choupana ou uma bomba de gasolina er­
guiam-se numa clareira. O Sol começou a pôr-se precisamente diante
do automóvel . Era uma bola em tom cada vez mais encarnado que ,
vista através do para-brisas , se achatava ligeiramente na base e no
alto . Ele viu um rapaz de jardineiras e chapéu cinzento parado na ber­
ma e abrandou o carro e travou à frente dele . O rapaz não tinha a mão
erguida nem o polegar espetado para pedir boleia, estava apenas ali
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 61

parado , mas tinha uma pequena mala de cartão , e o chapéu assentava­


-lhe na cabeça de um modo que indicava que abandonara um lugar
qualquer para sempre . - Eh , moço - disse Mr. Shiftlet - , 'tou a
ver que queres uma boleia.
O rapaz não disse se queria ou se não queria, limitou-se a abrir a
porta do carro e a entrar, e Mr. Shiftlet arrancou novamente . O garoto
pousou a mala nos joelhos e cruzou-lhe os braços em cima. Voltou
a cabeça e olhou pela janela, desviando o rosto de Mr. Shiftlet. Este
sentia-se angustiado . - Rapaz - disse , ao fim de um minuto - , eu
tenho a melhor mãezinha do mundo , por isso calculo que tu tenhas a
segunda melhor.
O rapaz lançou-lhe uma olhadela rápida e sombria, e depois tomou
a virar o rosto para a janela.
- Não há nada mais doce - continuou Mr. Shiftlet - do que a
mãe dum rapaz . Foi ela quem lhe ensinou as primeiras orações , os
dois ajoelhados lado a lado , é ela quem lhe dá amor quando mais nin­
guém lho dá, ensinou-lhe o que 'tá certo e o que não ' tá e vela pra ele
não se transviar. Rapaz - disse - , o dia mais triste da minha vida
foi o dia em que deixei a minha velha mãezinha.
O rapaz mexeu-se no assento , mas não olhou para Mr. Shiftlet.
Descruzou os braços e pousou uma mão no puxador da porta.
- A minha mãe era um anjo de Deus - prosseguiu Mr. Shiftlet em
voz muito tensa. - Ele tirou-a lá do céu e deu ela a mim, e eu deixei-a.
- Os olhos turvaram-se-lhe de imediato com uma névoa de lágrimas .
O carro quase não avançava.
O rapaz voltou-se no assento com ar zangado . - Vai pro diabo que
te carregue ! - bradou . - A minha velhota é um saco de pulgas , e a
tua é uma doninha fedorenta ! - e , com estas palavras , abriu a porta
de repelão e saltou com a mala para dentro da valeta.
Mr. Shiftlet ficou tão chocado que, ao longo de uns trinta metros ,
continuou a conduzir devagar, com a porta ainda aberta. Uma nuvem ,
precisamente da cor do chapéu do rapaz e em forma de nabo , descera
sobre o Sol , e uma outra, de aparência ainda mais agreste , aninhou-se
atrás do carro . Mr. Shiftlet sentiu que a podridão do mundo estava
prestes a engoli-lo . Ergueu o braço e deixou-o cair novamente sobre
o peito . - Ah , Senhor! - rezou . - Abre as tuas comportas e lava o
lodo desta terra !
62 Flannery O 'Connor

O nabo continuava a descer vagarosamente . Ao cabo de alguns mi­


nutos , ouviu-se , vindo de trás , o estalar de um trovão que soou como
uma gargalhada ruidosa, e gotas de chuva fantásticas , semelhantes a
latas de conserva espalmadas , vieram esborrachar-se contra a traseira
do carro de Mr. Shiftlet. Num ápice , ele carregou no acelerador e ,
com o coto a assomar d a janela, fugiu diante d a chuvada galopante e
irrompeu em Mobile.
Um Golpe de Sorte

Ruby cruzou a porta da rua do prédio de apartamentos e deixou


escorregar para cima da mesa do átrio o saco de papel contendo as
quatro latas de feijão número três . Estava demasiado cansada para
afastar os braços do saco ou para se endireitar, e ficou ali , de ancas
vergadas , a cabeça equilibrada como um grande legume rubicundo
no alto do saco . Com expressão empedernida, fitou sem o reconhecer
o rosto que a enfrentou no espelho sombrio e cheio de manchas ama­
relas por cima da mesa. Contra a bochecha direita tinha uma folha ás­
pera de couve que ali se colara a meio do caminho para casa. Afastou
a folha com um repelão feroz do braço e endireitou-se , resmungando:
- Couves , couves - numa voz de ira contida e opressiva. Mesmo
depois de endireitar as costas , era uma mulher baixa, de silhueta mui­
to parecida com a de uma uma funerária. Tinha o cabelo cor de amo­
ra, amontoado em volta da cabeça em canudos semelhantes a salsi­
chas , mas alguns destes tinham-se soltado com o calor e com a longa
caminhada desde a mercearia, e apontavam agora freneticamente em
várias direções . - Couves-galegas ! - soltou , cuspindo a palavra da
boca desta vez como se fosse uma semente venenosa.
Ela e Bill Hill não comiam couves-galegas havia cinco anos , e não
era agora que ela ia começar a cozinhá-las . Comprara aquelas couves
por causa de Rufus , mas não iria voltar a fazer o mesmo . Seria de
esperar que , ao fim de dois anos nas forças armadas , Rufus voltasse
disposto a comer como uma pessoa normal , igual às outras; mas não .
Quando ela lhe perguntou que prato especial é que ele queria que ela
lhe preparasse, ele não teve a sensatez de pensar numa receita civi-
64 Flannery O ' Connor

lizada - e pediu couves-galegas . Ela esperava que Rufus se tivesse


transformado em alguém com uma certa centelha. Pois bem, ele tinha
mais ou menos tanta centelha como uma esfregona.
Rufus era o irmão mais novo dela, acabado de regressar do teatro
de guerra europeu . Tinha vindo morar com ela porque Pitman , onde
eles tinham crescido , já não existia. Toda a ·gente que morava em
Pitman tinha tido o bom senso de abandonar aquela terriola, mor­
rendo ou mudando-se para a cidade . Ela casara-se com Bill B . Hill ,
um natural da Florida que vendia produtos da marca Milagre e que
viera morar para aquela cidade . Se Pitman ainda existisse , Rufus te­
ria ido para Pitman . Se restasse nem que fosse apenas um frango
para atravessar a estrada em Pitman , Rufus estaria lá para lhe fazer
companhia. Ruby não gostava de reconhecer aquilo acerca de um
parente , muito menos acerca do próprio irmão , mas não havia como
negá-lo - ele era uma pessoa sem préstimo nenhum . - Vi logo , ao
fim de cinco minutos com ele - dissera a Bill Hill , e Bill Hill , de
rosto absolutamente inexpressivo , respondeu: - Eu cá demorei três .
- Custava imenso deixar que um marido assim percebesse que ela
tinha um irmão assim.
Parecia-lhe que não havia nada a fazer. Rufus era como os irmãos .
Ela era a única da fann1ia que saíra diferente , que possuía alguma
centelha. Tirou um coto de lápis da malinha e escreveu no saco , de
lado: Bill , traz isto para cima. Em seguida, ganhou alento na base da
escada para a subi�a até ao terceiro andar.
A escada era uma fissura delgada e negra no âmago do prédio,
coberta por um tapete cor de toupeira que parecia crescer do chão .
Os degraus subiam quase na vertical , dir-se-ia a escadaria de acesso
a uma torre sineira. Empinavam-se . Assim que ela se aproximava da
base da escada, os degraus empinavam-se e tomavam-se mais íngre­
mes em sua homenagem. Enquanto os fitava, de rosto erguido , a bo­
ca abriu-se-lhe e o queixo descaiu-lhe , numa expressão de absoluta
repugnância. Não se sentia em condições de subir escada nenhuma.
Estava doente. Madam Zoleeda já lho tinha dito , mas não antes de ela
própria se aperceber disso .
Madam Zoleeda era a quiromante da Estrada 87. Dissera: - Uma
longa maleita - , mas depois acrescentara, num sussurro , com uma
expressão intensa de eu-já-sei-tudo-mas-não-vou-contar: - Uma
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 65

maleita que lhe vai trazer um golpe de sorte ! - , e depois recostara-se


no cadeirão , com um largo sorriso , uma mulher entroncada de olhos
verdes que se moviam nas órbitas como se os tivessem oleado . Ruby
não precisava que lhe dissessem. Já se apercebera de qual o golpe de
sorte . Mudar de casa. Há já dois meses que tinha a nítida sensação de
que se iam mudar. Bill Hill não podia adiar muito mais a mudança.
Não a podia matar. Onde ela queria morar era num daqueles bairros
de vivendas - começou a subir os degraus , curvando-se para diante
e agarrando-se ao corrimão - , onde havia tabacarias e mercearias e
uma sala de cinema mesmo ao virar da esquina. Naquele lugar onde
agora moravam, na baixa, ela tinha de caminhar oito quarteirões até
às ruas principais do comércio, e até mais longe ainda para chegar a
um supermercado . Não se queixara muito durante cinco anos , mas
agora, com a sua saúde em jogo , assim tão nova, o que é que ele
julgava que ela ia fazer, matar-se? Andava de olho numa casa em
Meadowcrest Heights , um b ungalow duplex com toldos amarelos .
Parou no quinto degrau para respirar fundo . Assim tão nova - trinta
e quatro anos - , era estranho que cinco degraus a deixassem de ras­
tos . É melhor teres calma, rapariga, disse a si mesma, ainda és muito
novita pra dares cabo do canastro .
Com trinta e quatro anos não se era velho , trinta e quatro anos era a
primeira juventude . Ela lembrava-se da mãe com trinta e quatro anos
- parecia uma maçã amarela, já velha, toda engelhada, amarga, a
mãe sempre tivera um ar amargo, sempre parecera não estar satisfeita
com nada. Comparou-se aos trinta e quatro anos com a mãe nessa
idade . A mãe tinha o cabelo grisalho - o dela não estaria grisalho ,
mesmo que ela não o pintasse . Aqueles filhos todos , eis o que acabara
com a mãe - oito, ao todo: dois nados-mortos , um que tinha morrido
no primeiro ano , um esborrachado debaixo de uma ceifeira. A mãe
dela perdia mais um pouco do seu viço depois de parir cada um dos
filhos . E tudo porquê? Porque não sabia fazer as coisas de outro mo­
do . Pura ignorância. A mais pura e mais rematada ignorância !
E agora as duas irmãs dela estavam na mesma, ambas casadas havia
quatro anos , cada uma com quatro filhos . Não percebia como é que
elas aguentavam, sempre a irem ao médico para lhes espetarem instru­
mentos no corpo. Lembrava-se de quando a mãe dera Rufus à luz. De
todos os filhos , ela tinha sido a única que não suportara aquilo , e foi a
66 Flannery O ' Connor

pé até Melsy, quinze quilómetros à torreira do sol , para ir ao cinema e


se livrar da berraria, e sentou-se na sala, a assistir a dois westerns, um
filme de terror e um episódio de uma série de aventuras , depois fez o
caminho todo de regresso a pé e descobriu que aquilo ainda estava no
começo, e teve de ouvir a gritaria a noite inteira. Tanto sofrimento por
causa de Rufus ! Ele , que agora, no fim de contas , não tinha mais cen­
telha do que um pano da loiça ! Via-o à espera no meio do nada, antes
de nascer, somente à espera, à espera de transformar a mãe , que tinha
apenas trinta e quatro anos , numa velha caduca. Agarrou o corrimão
da escada com dedos ferozes e içou-se para subir mais um degrau , a
abanar a cabeça. Santo Deus , estava desiludida com ele ! Depois de
ter dito às amigas todas que o irmão estava de regresso do teatro de
guerra europeu, ei-lo que surge - e quem o ouvisse falar julgava que
ele nunca pusera os pés fora de uma pocilga.
Parecia velho , além do mais . Parecia mais velho do que ela, e era
catorze anos mais novo . Ela tinha um ar extremamente jovem, para a
idade . Trinta e quatro anos era a primeira juventude, é certo , e, fosse
como fosse , ela era casada. Tinha vontade de sorrir, quando pensava
nisso , porque se saíra muito bem, muito melhor do que as irmãs -
elas tinham-se casado com rapazes da vizinhança. - Este sufoco -
murmurou , parando de novo . Concluiu que tinha de se sentar.
Havia vinte e oito degraus em cada lanço - vinte e oito .
Sentou-se e saltou de imediato , sentindo qualquer coisa por baixo
de si . Suspendeu a respiração e depois puxou o objeto para fora:
era o revólver de Hartley Gilfeet. Vinte e cinco centímetros de lata
traiçoeira ! Era um garoto de seis anos que vivia no quarto andar. Se
fosse filho dela, ela já lhe teria dado tanta pancada, tantas e tantas
vezes , que ele já não se atreveria a deixar as suas coisas ao deus­
-dará na escada do prédio . Ela podia ter caído por aquela escada
abaixo com a maior das facilidades e ter-se magoado a valer ! Mas a
estúpida da mãe do miúdo não era capaz de o castigar, mesmo que
ela se queixasse . Limitava-se a falar com ele aos gritos e a dizer
às pessoas que ele era espertíssimo . «Ai , meu Anjinho da Sorte ! » ,
era como lhe chamava. «Foi tudo o que o paizinho dele me deixou ,
coitadinho ! » O paizinho do garoto dissera no seu leito de morte:
«Nunca te dei nada senão ele» , e ela respondera: «Rodman , deste­
-me a sorte grande ! » , e era por isso que lhe chamava Anjinho da
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 67

Sorte . - Iam ver se eu não moía de pancada o traseiro daquele


anjinho ! - resmungou Ruby.
Os degraus subiam e desciam que nem um sobe-e-desce , com ela
sentada no meio . Não queria ficar agoniada. Outra vez não . Agora
não . Não . Nem pensar. Ficou sentada no degrau, de olhos fechados ,
muito quieta, até as tonturas se desvanecerem um bocadinho e as
náuseas cessarem. Não , não vou consultar nenhum médico, disse .
Não . Não . Nem pensar. Teriam de lhe dar uma marretada na cabeça
e de a levar à força até ao consultório . Ao longo dos anos, cuidara
muito bem de si - nunca adoecera com gravidade , não tivera de
arrancar dentes , não tivera filhos , tudo isto sem ajuda de médicos . Se
não tivesse tido cuidado , por aquela altura já teria cinco filhos .
Já por mais do que uma vez perguntara a si mesma se aquela falta
de fôlego poderia ser um problema de coração . De vez em quando ,
ao subir a escada, sentia uma dor no peito juntamente com o sufoco .
Era o que ela desejava que fosse - um problema de coração . Não
lhe podiam tirar o coração , no fim de contas . Teriam de lhe dar uma
valente cacetada ·na cabeça, se a quisessem levar para perto de um
hospital , essa é que era a verdade - então e se ela morresse caso não
a levassem para o hospital?
Não havia de morrer.
Mas e se houvesse esse perigo?
Forçou-se a interromper estas reflexões mórbidas . Tinha apenas
trinta e quatro anos . Não sofria de nenhum problema de saúde cróni­
co . Era anafada, tinha boas cores . Tomou a comparar-se com a mãe
aos trinta e quatro anos e beliscou o próprio braço e sorriu . Tendo em
conta que nem a mãe nem o pai tinham uma aparência muito sadia,
ela até nem se saíra nada mal . Eles eram do género ressequido , pes­
soas ressequidas , com Pitman a ressequi-las por dentro , eles e Pitman
mirrados até se transformarem em coisas totalmente ressequid,as e
engelhadas . E eram aquelas as suas origens ! Uma pessoa tão cheia
de vida como ela ! Pôs-se de pé , de mão fincada no corrimão mas sor­
rindo com os seus botões . Era calorosa e anafada e bonita, mas não
demasiado anafada, porque Bill Hill gostava dela assim. Engordara
um bocadinho , mas ele não tinha reparado , à parte o facto de estar
mais feliz nos últimos tempos , talvez , sem que soubesse ao certo por­
quê . Ela sentia o vigor da sua própria pessoa, uma criatura sã a subir a
68 Flannery O'Connor

escada. Acabara de vencer o primeiro lanço de degraus , e olhou para


trás , satisfeita. Assim que Bill Hill desse uma queda naquela escada,
uma só , talvez eles mudassem de casa. Mas haviam de se mudar an­
tes disso ! Madam Zoleeda é que sabia. Riu-se em voz alta e avançou
pelo patamar. A porta de Mr. Jerger rangeu , pregando-lhe um susto .
Oh , meu Deus , pensou, ele. Mr. Jerger era um morador do primeiro
andar, um homem estranho .
Ele ficou a vê-la avançar pelo patamar. - Bom dia ! - saudou,
dobrando o tronco para fora da porta. - Bom dia para si ! - Parecia
um bode . Tinha olhinhos de passa e uma barbicha comprida, e o ca­
saco tinha uma cor verde que era quase negra, ou uma cor negra que
era quase verde .
- Bom dia - saudou ela por sua vez . - Comé que vai o senhor?
- Ótimo ! - bradou ele. - Estou ótimo , neste dia magnífico ! -
Tinha setenta e oito anos , e o rosto dele parecia coberto de bolor. De
manhã, estudava, e , de tarde , percorria os passeios para trás e para
diante , mandando parar as crianças e fazendo-lhes perguntas . Sempre
que ouvia alguém no patamar, abria a porta e espreitava para fora.
- Pois , 'tá um dia bonito - concordou ela em voz lânguida.
- Sabe que grande aniversário se comemora hoje? - perguntou ele.
- Hum-hum - respondeu Ruby. Ele tinha sempre na manga uma
pergunta deste género . Uma pergunta de história cuja resposta nin­
guém sabia; atirava a pergunta, depois fazia um discurso acerca do
tema. Em tempos , fora professor num liceu.
- Tente adivinhar - incitou .
- O de Abraham Lincoln - murmurou ela.
- Aba ! Não se está a esforçar - ripostou ele . - Vamos lá, pense
melhor.
- O de George Washington - sugeriu ela, começando a subir os
degraus .
- Ai , que vergonha ! - exclamou ele . - E o seu marido é de lá!
A Florida ! A Florida ! Hoje comemora-se o aniversário da Florida!
- bradou . - Entre para aqui . - Desapareceu no interior da sala,
chamando-a com um gesto do longo dedo .
Ela desceu os dois degraus e disse: - Tenho de ir andando - e
enfiou a cabeça pelo vão da porta. A sala era do tamanho de um grande
roupeiro , e as paredes encontravam-se totalmente cobertas por postais
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 69

ilustrados de edifícios da cidade, o que dava uma ilusão de espaço


amplo. Uma única lâmpada transparente pendia acima de Mr. Jerger e
de uma mesinha.
- Agora, ouça isto com atenção - disse ele. Estava curvado sobre
um livro, a percorrer as linhas com o dedo estendido. - «No Domingo
de Páscoa, três de abril de 1 5 16, ele alcançou a extremidade deste con­
tinente .» Sabe de quem é que se está aqui a falar? - indagou.
- Sim, de Cristóvão Colombo - respondeu Ruby.
- De Ponce de León ! - gritou ele . - Ponce de León ! A senho-
ra devia saber alguma coisa acerca da Florida - repreendeu ele .
- O seu marido é de lá.
- Sim, nasceu em Miami - disse Ruby. - Não é do Tennessee .
- A Florida não é um estado nobre - comentou Mr. Jerger - ,
mas é um estado importante .
- É importante , ah, isso é que é - disse Ruby.
- E sabe quem foi Ponce de León?
- Foi o fundador da Florida - respondeu Ruby, com ar satisfeito .
- Era espanhol - explicou Mr. Jerger. - Sabe de que é que ele
andava à procura?
- Da Florida - respondeu Ruby.
- Ponce de León andava à procura da fonte da juventude - ex-
plicou Mr. Jerger, fechando os olhos .
- Ah - murmurou Ruby.
- Uma certa fonte - continuou Mr. Jerger - cuja água propor-
cionava a juventude perpétua aos que dela bebessem. Por outras pala­
vras - rematou - , ele estava a tentar manter-se eternamente jovem.
- E encontrou-a? - perguntou Ruby.
Mr. Jerger fez uma pausa, de olhos ainda fechados . Ao cabo de um
minuto , disse: - Acha que ele a encontrou? Acha que ele a encontrou?
Acha que mais ninguém teria conseguido lá chegar, se ele a tivesse
encontrado? Acha que haveria uma só pessoa viva nesta terra que não
tivesse bebido da fonte?
- Não tinha pensado nisso - disse Ruby.
- Já ninguém pensa nas coisas - queixou-se Mr. Jerger.
- Tenho de ir andando .
- Sim, encontraram a fonte - disse Mr. Jerger.
- Onde? - perguntou Ruby.
70 Flannery O ' Connor

- Eu já bebi dela.
- E onde é que uma pessoa tem de ir? - perguntou ela. Debruçou-
-se um bocadinho mais para ele e sentiu-lhe uma baforada do cheiro ,
que se assemelhava a enfiar o nariz debaixo da asa de um abutre .
- Dentro do meu coração - respondeu ele , pondo uma mão no
peito .
- Ah. - Ruby recuou . - Tenho de ir andando . Acho que o meu
irmão 'tá em casa. - Transpôs a soleira da porta.
- Pergunte ao seu marido se ele sabe qual o grande aniversário que
se comemora hoje - disse Mr. Jerger, olhando para ela com ar aca­
nhado .
- Sim, com certeza. - Ela voltou-se e ficou à espera até ouvir
a porta dele soltar um estalido . Olhou para trás , para se certificar de
que estava fechada, e depois desencheu o peito de ar e ficou parada,
de frente para a ladeira íngreme e escura de degraus que lhe restava
subir. - Santo Deus - comentou . Os degraus iam ficando cada vez
mais sombrios e mais íngremes à medida que se subia.
Depois de transpor cinco degraus, sentiu-se sem fôlego . Conti­
nuou , subindo mais alguns , a ofegar. Em seguida, parou . Sentia uma
dor no estômago . Era uma dor semelhante a um fragmento de qual­
quer coisa a empurrar uma outra coisa. Já antes a sentira, alguns dias
antes . Era a dor que mais medo lhe metia. A palavra cancro ocorrera­
-lhe uma vez , e, de imediato , apagara-a do espírito , porque nenhum
horror assim poderia acometê-la, era impossível isso suceder. A pa­
lavra regressou-lhe de imediato ao espírito com aquela dor, mas ela
retalhou-a em dois , lançando mão de Madam Zoleeda. Vai acabar por
lhe trazer um golpe de sorte . Retalhou-a ao meio , tomou a cortá-la e
depois repetiu o gesto , até apenas restarem fragmentos irreconhecí­
veis . Ia parar no andar seguinte - meu Deus, se alguma vez conse­
guisse lá chegar - e conversar com Laveme Watts . Laveme Watts
era uma moradora do segundo andar, assistente de uma calista e sua
grande amiga.
Subiu até ao patamar seguinte , a arquejar, sentindo os joelhos a
fervilhar, e bateu à porta de Laveme com o punho da arma de Hartley
Gilfeet. Encostou-se à ombreira da porta para descansar e , de súbito ,
o chão de ambos os lados desabou . As paredes pintaram-se de negro ,
e ela sentiu-se a rodopiar, sem fôlego , em pleno ar, apavorada pela
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 71

queda que aí vinha. Viu a porta a abrir-se muito longe de si , e Laver­


ne, com dez centímetros de altura, parada no limiar.
Laveme, uma rapariga alta, de cabelo cor de palha, soltou uma so­
nora gargalhada e desferiu uma palmada na própria anca, como se, ao
abrir a porta, tivesse deparado com a visão mais cómica de toda a sua
vida. - Essa pistolinha! - berrou . - Essa pistolinha! Essa tua cara !
- Recuou, cambaleante, até ao sofá, e deixou-se cair no assento, as
pernas elevaram-se-lhe acima das ancas e voltaram a cair, inertes, com
um baque surdo .
O chão tomou a subir até onde Ruby o conseguia ver e ali perma­
neceu , a inclinar-se um bocadinho . Com uma expressão de tremenda
concentração, deu um passo para assentar os pés no soalho . Remirou
uma cadeira no lado oposto da divisão e depois encaminhou-se para
aí, pousando cuidadosamente os pés um à frente do outro .
- Devias entrar num espetáculo de feira! - comentou Laveme
Watts . - És de gritos !
Ruby alcançou a cadeira e, em seguida, sentou-se com gestos cau­
telosos . - 'Tá calada - soltou em tom cavo .
Laveme curvou-se para diante no assento , a apontar para ela, e
depois tomou a cair para trás no sofá, sacudida por espasmos .
- Para com isso ! - berrou Ruby. - Para com isso ! 'Tou mal­
disposta.
Laveme levantou-se e cruzou a divisão em duas ou três passadas
largas . Debruçou-se diante de Ruby e examinou-lhe o rosto com um
olho fechado , como se estivesse a espreitar pelo buraco de uma fe­
chadura. - 'Tás um bocado vermelhusca - comentou .
- 'Tou agoniada como raio - queixou-se Ruby, de cenho franzido.
Laveme ficou ali parada a olhá-la e, ao cabo de uns momentos ,
cruzou os braços e, num gesto muito intencional , espetou a barriga
para fora e começou a gingar para cá e para lá. - Bom, porque é
que entraste aqui com essa pistola, bem? Onde é que a arranjaste? -
perguntou .
- Sentei-me em cima dela - resmungou Ruby.
Laveme ficou ali de pé, a gingar, de barriga espetada, uma expressão
de grande argúcia a invadir-lhe o rosto . Ruby permanecia esparramada
na cadeira, a olhar para os próprios pés . A sala estava a imobilizar­
-se. Endireitou-se no assento e remirou os próprios tornozelos com um
72 Flannery O ' Connor

olhar cortante. Estavam inchados ! Não vou a médico nenhum, come­


çou , não vou a médico nenhum. Não vou . - Não vou - desatou a
tartamudear - a médico nenhum, não vou . . .
- Quanto tempo é que achas que vais conseguir aguentar? - mur­
murou Laverne, e começou a soltar risadinhas.
- Tenho os tornozelos inchados? - perguntou Ruby.
- A mim parecem-me iguais ao que sempre foram - respon-
deu Laverne , tornando a atirar-se para cima do sofá. - Um boca­
do gordos. - Ergueu os próprios tornozelos acima da almofada no
extremo do sofá e fê-los rodar ligeiramente . - Que tal achas estes
sapatos? - perguntou . Eram verde-gafanhoto , com saltos muito al­
tos e muito finos .
- Acho que estão inchados - comentou Ruby. - Quando vinha
a subir aquele último lanço de degraus , tive uma sensação horrível ,
parecia que i a cair pro lado , sei l á . . .
- Devias de ir ao médico, é o que é .
- Não preciso d e i r a médico nenhum - resmungou Ruby. -
Sei muito bem cuidar de mim. E não me tenho dado mal este tempo
todo .
- O Rufus 'tá em casa?
- Não sei . Mantive-me afastada dos médicos a vida toda. Mantive-
-me . . . porqueA ?.
- Porquê o quê?
- Porque é que preguntaste se o Rufus 'tá em casa?
- O Rufus é castiço - disse Laverne. - Pensei em preguntar-lhe
que tal achava os meus sapatos .
Ruby endireitou-se no assento com uma expressão feroz, muito
rosada e púrpura. - Porquê o Rufus? - resmungou com maus mo­
dos . - Ele não passa dum bebé . - Laverne tinha trinta anos . - Ele
não quer saber de sapatos de mulher.
Laverne soergueu-se e descalçou um sapato e olhou lá para dentro .
- Trinta e nove , forma estreita - disse . - Aposto que ele ia gostar
do que 'tá aqui dentro .
- Aquele Rufus não passa dum garoto ! - declarou Ruby. - Não
tem tempo pra 'tar a olhar pros teus pés . Não tem tempo pra esse gé­
nero de coisas .
- Ah, ele tem tempo de sobra - disse Laverne .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 73

- Pois - murmurou Ruby, e tornou a vê-lo , à espera, com todo


o tempo do mundo , no meio do nada, antes de ter nascido , somente à
espera de roubar à mãe mais um pouco de viço.
- Parece-me que tens os tornozelos inchados - disse Laverne .
- Pois - concordou Ruby, fazendo-os rodar. - Pois . Sinto-os
assim a modos que um bocado tensos . Tive uma sensação medonha
quando vinha a subir aquela escada, como se 'tivesse sem fôlego ,
quase a desmaiar, como se 'tivesse oprimida por dentro , como se . . .
uma coisa medonha.
- Devias de ir ver um médico .
- Não .
- Nunca foste a nenhum?
- Levaram-me uma vez à força, tinha eu dez anos - disse Ruby
- , mas consegui safar-me . Três pessoas a agarrarem-me , mas não
me conseguiram segurar.
- E o que é que tinhas dessa vez? ·

- Porque é que 'tás a olhar pra mim assim dessa maneira? - res-
mungou Ruby.
- De que maneira?
- Dessa maneira - disse Ruby - , assim a espetares a barriga
desse jeito .
- Só te preguntei o que é que tinhas dessa vez . . .
- Foi um furúnculo . Uma preta que morava ao pé da gente expli-
cou-me comé que havia de fazer, e eu fiz o que ela disse e aquilo
passou . - Estava sentada na borda da cadeira, de ombros descaídos ,
de olhar perdido diante de si , como se estivesse a recordar tempos
mais felizes .
Laverne começou a executar uma espécie de dança cómica, para
trás e para diante na sala. Deu dois ou três passos vagarosos numa
direção , de joelhos vergados , depois regressou na direção oposta e
ergueu a perna num gesto lento e penoso . Começou a cantar numa
voz sonora e gutural , a revirar os olhos: - Junta as letras todas , lê-se
MÃE ! MÃE ! - e abriu muito os braços , como se estivesse em palco .
Ruby abriu a boca, sem dizer uma palavra, e a expressão feroz des­
vaneceu-se-lhe do rosto . Durante meio segundo , permaneceu imóvel;
em seguida, ergueu-se de um salto da cadeira. - Eu não ! - gritou.
- Eu não !
74 Flannery O 'Connor

Laveme calou-se e limitou-se a fitá-la com aquele seu ar astuto .


- Eu não ! - gritou Ruby. - Eu é que não , nem pensar ! O Bill
Hill toma as suas precauções . O Bill Hill toma as suas precauções !
Desde há cinco anos que o Bill Hill toma as suas precauções ! A mim
é que isso não vai acontecer!
- Pois bem, o amigo Bill Hill teve um deslize aqui há uns quatro
ou cinco meses , minha amiga - disse Laveme. - Teve um deslize,
prontos . . .
- Cá pra mim, tu não percebes nada do assunto , nem sequer és
casada, nem sequer . . .
- Aposto que não é só um , aposto que são dois - continuou
Laveme . - O melhor é ires ao médico e descobrires quantos são ,
afinal .
- Não é nada disso ! - berrou Ruby, esganiçada. Ela achava-se
tão esperta ! Não sabia distinguir uma mulher doente quando a via,
só sabia olhar pros próprios pés e mostrá-los ao Rufus , mostrá-los ao
Rufus , que ainda era um garoto , e ela era uma mulheraça de trinta e
quatro anos . - O Rufus ainda é um bebé ! - soltou num queixume .
- Atão já vão ser dois ! - acudiu Laveme .
- Calas-te com isso e é já, ouviste? - berrou Ruby. - Calas-te
já, imediatamente . Eu não vou ter bebé nenhum !
- Ah , ah - comentou Laveme .
- Não sei porque é que achas que sabes tanto - disse Ruby - ,
assim solteira como és . Se eu fosse solteira como tu , não andava por
aí a dizer às pessoas casadas o que é que se passa com elas .
- Não são só os tornozelos - observou Laveme - , tu 'tás toda
inchada, dos pés à cabeça.
- Não vou ficar pràqui , a deixar que me insultem - atirou Ruby,
e caminhou cautelosamente até à porta, mantendo-se direita e sem
olhar para a própria barriga, ao contrário do que era o seu desejo.
- Bom, espero que todos vocês se sintam melhor amanhã - co­
mentou Laveme .
- Acho que amanhã vou 'tar melhor do coração - retorquiu Ru­
by. - Mas espero que a gente mude de casa, não tarda. Não posso
subir esta escada com estes problemas de coração , e - acrescentou ,
com um olhar fuzilante de dignidade ofendida - o Rufus não quer
saber desses teus pés enormes .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 75

- Acho melhor guardares essa pistola - aconselhou Laveme - ,


antes que dês um tiro em alguém.
Ruby fechou a porta com estrondo e baixou os olhos rapidamente
para o próprio corpo . Tinha a barriga saída, mas a verdade é que
sempre fora um bocado barriguda. A barriga não estava mais saída
do que outra parte qualquer do corpo . Era natural , quando uma pes­
soa ganhava peso , alargar na cintura, e Bill Hill não se ralava por ela
ser gorda, andava mais feliz , só isso , sem saber ao certo porquê . Viu
diante de si a imagem do rosto feliz e comprido de Bill Hill , a fazer­
-lhe um largo sorriso dos olhos para baixo , naquele seu jeito , como se
a expressão lhe fosse ficando mais feliz à medida que se aproximava
dos dentes . Ele nunca teria um deslize . Ela passou a mão sobre a saia
e sentiu o tecido justo , mas não o sentira já antes assim? Já, muitas
vezes . Era da saia - ela tinha posto a saia justa, aquela que não usa­
va muitas vezes , aquela . . . não , ela não tinha posto a saia justa. Tinha
posto a saia folgada. Mas não estava muito folgada. Mas isso não
fazia diferença nenhuma, ela era gorda, pronto .
Encostou os dedos à barriga e fez força, depois retirou-os muito
depressa. Pôs-se a caminhar ao encontro dos degraus , vagarosamen­
te , como se o chão se fosse mexer debaixo dela. Começou a subir
a escada. A dor regressou de imediato . Regressou com o primeiro
degrau . - Não - lamentou-se - , não . - Era só uma impressãozi­
ta, só uma vaga impressãozita, como se um fragmento de si própria
estivesse a voltar-se ao contrário dentro dela, mas sufocou-lhe a res­
piração na garganta. Nada havia dentro dela que devesse voltar-se ao
contrário. - Bastou um degrau - sussurrou ela - , bastou um de­
grau e senti isto a virar-se . - Não podia ser cancro . Madam Zoleeda
tinha dito que ia acabar por lhe trazer um golpe de sorte . Começou
a chorar e a dizer: - Bastou um degrau e senti isto a virar-se - , e
continuou a subir a escada mecanicamente , sem dar por isso , como se
achasse que estava parada. No sexto degrau , sentou-se de repente , a
mão a escorregar debilmente pelo balaústre abaixo até ao chão .
- Nããão - soltou , e encostou o rosto redondo e vermelhusco
entre os dois balaústres mais próximos . Olhou para o fundo do po­
ço da escada e soltou um longo urro cavo que se ampliou e ecoou
à medida que ia descendo . A caverna da escada era verde-escura
e cor de toupeira, e o urro ressoou lá no fundo como uma voz a
76 Flannery O ' Connor

responder-lhe . Ela arquejou e fechou os olhos . Não . Não . Não podia


ser um bebé . Recusava-se a ter uma criatura à espera dentro de si
para lhe roubar uma parte do viço , nem pensar. Bill Hill não podia
ter tido um deslize . Ele dizia que era seguro e tinha funcionado bem
aquele tempo todo , e não podia ser isso , não podia ser. Estremeceu
e cobriu a boca com a mão , apertando-a com força. Sentiu o rosto
a ficar engelhado: dois nados-mortos , um morto no primeiro ano
e outro esborrachado , como uma maçã ressequida e amarela, não ,
ela tinha só trinta e quatro anos , já era velha. Madam Zoleeda tinha
dito que aquilo não ia acabar com ela ressequida. Madam Zoleeda
tinha dito , ah , vai ver que isto vai acabar por lhe trazer um valente
golpe de sorte ! Uma mudança. Ela tinha dito que ia acabar numa
grande mudança.
Sentiu-se a ficar mais calma. Sentiu-se , ao cabo de um minuto , a fi­
car quase serena, e achou que se enervava com demasiada facilidade;
chiça, eram gases . Madam Zoleeda não se enganara acerca de nada
até à data, sabia mais do que . . .
Ergueu-se de um salto: ouviu-se um estrondo na base da escada e
uma algazarra a matraquear pelos degraus acima, sacudindo-os até
ao ponto onde ela se encontrava. Espreitou entre os balaústres e viu
Hartley Gilfeet, com dois revólveres erguidos , a galopar pela escada
acima, e ouviu uma voz estridente a ressoar desde o andar acima de­
la: - Olha lá, Hartley, para-me com essa barulheira ! 'Tás a incomo­
dar o prédio inteiro ! - Mas ele prosseguiu , tonitruando ainda mais
no momento em que dobrou a curva no final do primeiro lanço de
degraus e se lançou pelo patamar fora. Ela viu a porta de Mr. Jerger a
abrir-se de repelão e ele a saltar de dedos enclavinhados e a agarrar a
fralda de uma camisa que rodopiou e tomou a sair disparada com um
grito estridente de: - Larga-me , bode velho do caraças ! - e depois
se continuou a aproximar cada vez mais até que a escada estremeceu
exatamente por baixo dela, e um rosto de esquilo a arremeter veio
bater em cheio contra ela e lhe passou por cima da cabeça que nem
um projétil , cada vez mais pequeno , mais pequeno , num remoinho
de trevas .
Ela sentou-se no degrau , a agarrar o balaústre enquanto ia recu­
perando o fôlego , um pedacinho de cada vez , e a escada parava de
baloiçar. Abriu os olhos e olhou lá para baixo, para o buraco escuro ,
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 77

para o fundo do poço de onde partira havia já tanto tempo . - Anji­


nho - disse , numa voz cava que ecoou em todos os níveis da gruta
- da Sorte .
- Anjinho da Sorte - soaram lubricamente os três ecos .
Foi então que ela reconheceu novamente aquela sensação , uma
coisa a voltar-se ao contrário . Era como se aquilo não estivesse den­
tro da barriga dela. Era como se estivesse cá fora, no meio de nenhu­
res , no meio do nada, a descansar, à espera, com todo o tempo do
mundo .
Um Templo do Espírito Santo

Ao longo de todo o fim de semana, as duas raparigas não pararam


de se tratar uma à outra por Primeiro Templo e Segundo Templo ,
estremecendo de riso e ficando tão vermelhas e tão encaloradas que
se tornavam positivamente feias , em especial Joanne , que , fosse
como fosse , tinha manchas na cara . Chegaram com os uniformes
castanhos do convento que eram obrigadas a usar em Mount St.
Scholastica, mas , assim que abriram as malas de viagem , despi­
ram os uniformes e vestiram saias encarnadas e blusas berrantes .
Puseram b âton e o s seus sapatos de domingo e deambularam de
saltos altos pelos quatro cantos da casa, sempre a passarem deva­
gar diante do espelho alto do vestíbulo , para poderem contemplar
as próprias pernas . A garota não perdia pitada daqueles gestos . Se
apenas uma delas tivesse vindo , essa teria brincado com ela, mas ,
como eram duas , a garota foi posta de parte e observava-as de lon­
ge com ar desconfiado .
Tinham catorze anos - dois anos mais velhas do que ela - , mas
nenhuma delas era inteligente, e era por isso que as tinham mandado
para o convento . Se tivessem ido para uma escola normal , não teriam
feito outra coisa senão pensar em rapazes; no convento , as irmãs ,
dissera a mãe , iam mantê-las na linha. A garota concluiu , depois de
as observar durante algumas horas , que elas eram praticamente atra­
sadas , e ficou satisfeita por pensar que não passavam de primas em
segundo grau e que não poderia ter herdado nenhuma da estupidez
delas . Susan chamava a si mesma Su-zan. Era muito magricela, mas
tinha um rosto bonito e afilado e cabelo ruivo . Joanne tinha cabelo
80 Flannery O'Connor

loiro que era naturalmente encaracolado , mas falava pelo nariz e ,


quando se ria, ficava púrpura, às manchas . Nenhuma delas conseguia
dizer uma só coisa inteligente , e todas as suas frases começavam por:
«Sabem, conheço bem um rapaz que , uma vez . . . »
Iam ficar ali em casa todo o fim de semana, e a mãe da garota disse
que não sabia como é que as ia entreter, uma vez que não conhecia
nenhuns rapazes da idade delas . Ante isto , a garota, num súbito rasgo
de génio , gritou: - Há o Cheat ! Peça ao Cheat que venha ! Peça a
Miss Kirby que mande vir o Cheat, pra lhes mostrar as redondezas !
- e quase se engasgou com a comida que tinha na boca. Curvou-se
para diante , a rir, bateu na mesa com o punho fechado e olhou para
as duas raparigas estupefactas enquanto as lágrimas lhe irrompiam
dos olhos e lhe rolavam pelas bochechas gordas , e o aparelho que
tinha nos dentes cintilou que nem folha de Flandres . Nunca antes lhe
ocorrera nada tão engraçado .
A mãe riu-se com ar recatado , e Miss Kirby corou e levou o garfo
delicadamente à boca, com uma ervilha em cima. Era uma professora
primária loira, de rosto comprido , que se alojava em casa delas , e Mr.
Cheatam era o seu admirador, um velho lavrador rico que chegava
todos os sábados à tarde ao volante de um Pontiac com quinze anos ,
azul-bebé , polvilhado de poeira de argila vermelha, e pintado de pre­
to por dentro , por causa dos negros a quem ele cobrava dez cêntimos
por cabeça para os trazer até à povoação nas tardes de sábado . Depois
de os descarregar, vinha visitar Miss Kirby, e trazia-lhe sempre um
pequeno presente - um saco de amendoins cozidos ou uma melan­
cia ou um colmo de cana-de-açúcar e , certa vez , uma caixa inteira
de barras de chocolate Baby Ruth, comprada na loja. Era calvo , à
parte uma pequena franja de cabelo cor de ferrugem, e tinha o rosto
quase da mesma cor das estradas de terra batida e , tal como estas ,
sulcado por ravinas e barrancos . Usava uma camisa verde-clara com
finas risquinhas negras e uns suspensórios azuis , e o cós das calças
cruzava-lhe a barriga saliente , que ele comprimia temamente de tem­
pos a tempos com o grande polegar achatado . Tinha todos os dentes
guarnecidos de ouro , e revirava os olhos para Miss Kirby com ar
travesso e dizia-lhe: - Hau hau - , sentado no baloiço do alpendre ,
de pernas muito abertas e sapatos de cano alto pousados no chão , a
apontarem em direções opostas .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 81

- Acho que o Cheat não vem à povoação neste fi m de semana -


contrapôs Miss Kirby, sem se dar minimamente conta de que aquilo
era uma piada, e a garota tornou a ver-se sacudida por convulsões
de riso , atirou-se para trás na cadeira, caiu do assento , rebolou-se no
chão e ficou ali estendida, a arquejar. A mãe avisou-a de que , se não
parava com aquelas palermices , teria de se levantar da mesa.
Na véspera, a mãe mandara chamar Alonzo Myers para este as
conduzir ao longo dos setenta quilómetros até Mayville , onde ficava
o convento , para irem buscar as raparigas para o fim de semana, e
contratou os serviços dele para as tornar a levar até lá no domingo à
tarde . Alonzo era um rapaz de dezoito anos que pesava cento e dez
quilos e que trabalhava para a empresa de táxis, e era o único moto­
rista que se podia arranjar para levar as pessoas fosse aonde fosse .
Fumava, ou antes , mascava um curto charuto negro , e possuía um
peito bojudo e transpirado que se via à transparência através da ca­
misa amarela de nylon que usava. Quando se sentava ao volante , era
preciso abrir todas as janelas do carro .
- Pois bem, ainda há o Alonzo ! - bramiu a garota do chão . -
Chame o Alonzo pra lhes mostrar as redondezas ! Chame o Alonzo !
As duas raparigas , que tinham visto Alonzo , começaram a expri­
mir a sua indignação em altos gritos .
A mãe da garota também achou isto divertido , mas disse: - Bom,
parece-me que já chega de brincadeiras , minha menina - e mudou de
assunto. Perguntou-lhes porque é que chamavam uma à outra Primeiro
Templo e Segundo Templo, e isto desencadeou nelas uma tempestade
de risadinhas . Por fim, lá conseguiram explicar. A irmã Perpetua, a
freira mais velha do convento das Irmãs da Misericórdia, em Mayville ,
tinha-lhes feito uma preleção acerca do que fazer se um rapaz tentas­
se - neste ponto, riram-se tanto que não foram capazes de continuar
sem voltarem ao princípio da história - acerca do que fazer se um
rapaz tentasse - debruçaram-se, de cabeça no regaço - acerca do
que fazer se - finalmente, conseguiram dizer o resto, num brado - se
ele «tentasse comportar-se de modo pouco cavalheiresco com elas no
banco traseiro de um automóvel» . A irmã Perpetua disse-lhes que de­
veriam dizer: «Alto, meu caro senhor! Eu sou um Templo do Espírito
Santo ! » , e que isso poria fim aos desmandos . A garota ergueu-se do
chão, de rosto inexpressivo. Nada via nisto de muito engraçado . O que
82 Fl annery O ' Connor

era mesmo engraçado era a ideia de Mr. Cheatam ou Alonzo Myers a


servir-lhes de cicerone galante. Isso é que a deixava sem fôlego .
A mãe não se riu do que elas tinham dito . - Acho-vos bastante pa­
lermas, minhas meninas - declarou. - Afinal de contas , é isso mes­
mo que as meninas são: Templos do Espírito Santo.
As duas raparigas ergueram os rostos para ela, disfarçando educa­
damente os risinhos , mas com rostos assombrados , como se come­
çassem a dar-se conta de que ela era feita da mesma massa da irmã
Perpetua.
Miss Kirby manteve a expressão hirta, e a garota pensou: seja co­
mo for, ela não consegue pensar noutra coisa. Sou um Templo do Es­
pírito Santo , disse para consigo , e esta frase feita agradou-lhe . Fazia­
-a sentir como se alguém lhe tivesse oferecido um presente .
Depois do jantar, a mãe deixou-se cair na cama e disse: - Aquelas
moças vão dar comigo em doida, se não arranjo alguma maneira de
elas se distraírem. São medonhas .
- Aposto que sei como é que a mãe podia resolver o problema -
começou a garota.
- Escuta bem. Não quero ouvir mais histórias sobre Mr. Cheatam
- ralhou a mãe . - Tu envergonhas Miss Kirby. Ele é o único amigo
que ela tem. Oh, meu Deus - e, endireitando-se , olhou pesarosa­
mente pela janela - , aquela pobre criatura é tão solitária que nem
se importa de andar naquele carro , que cheira pior do que o último
círculo do Inferno .
E também ela é um Templo do Espírito Santo , refletiu a garota.
- Eu não 'tava a pensar nele - disse . - 'Tava a pensar naqueles
dois Wilkins , o Wendell e o Cory, que ficam na quinta da velha Lady
Buchell . São os netos dela. Trabalham pra ela.
- Ora aí está uma boa ideia - murmurou a mãe , e lançou-lhe um
olhar satisfeito . Logo em seguida, porém, tomou a deixar cair os om­
bros . - Eles não passam de rapazes do campo . Estas moças haviam
de olhá-los com desprezo .
- Hmm - acudiu a garota. - Vestem calças . Têm dezasseis anos
e têm um carro . Alguém disse que iam os dois ser pregadores da Igre­
ja de Deus , porque pra se ser isso não é preciso saber nada de nada.
- Elas estariam perfeitamente seguras com aqueles moços , é ver­
dade - comentou a mãe e , ao cabo de escassos momentos , pôs-se de
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 83

pé e telefonou à avó e, depois de falar com a velha durante meia hora,


ficou combinado que Wendell e Cory viriam jantar e depois levariam
as raparigas à feira.
Susan e Joanne ficaram tão satisfeitas que lavaram o cabelo e o
frisaram com rolos de alumínio . Aha, pensou a garota, sentada em
cima da cama, de pernas cruzadas , a vê-las tirar os rolos , esperem
só até terem passado umas horas com o Wendell e o Cory ! - Vocês
vão gostar daqueles moços - disse . - O Wendell mede um metro e
oitenta e tem cabelo ruivo . O Cory mede um metro e noventa e cinco ,
tem cabelo preto e usa um casaco desportivo, e têm um carro com
uma cauda de esquilo pendurada à frente .
- Como é que uma criança como tu sabe tanta coisa sobre estes
homens? - perguntou Susan, e aproximou o rosto do espelho para
ver as pupilas dos olhos a dilatarem-se .
A garota estendeu-se na cama e começou a contar as ripas estreitas
do teto , até que lhes perdeu a conta. Conheço-os muito bem, disse a
alguém. Combatemos juntos na guerra mundial . Eles estavam sob o
meu comando e eu salvei-os cinco vezes de pilotos suicidas japone­
ses , e o Wendell disse eu vou-me casar com aquela miúda, e o outro
disse ah isso é que não vais , eu é que vou, e eu disse nenhum de vocês
se vai casar comigo , porque eu vou levar-vos a conselho de guerra
antes que o diabo esfregue um olho . - Tenho-os visto por aí, mais
nada - explicou .
Quando eles chegaram, as raparigas fitaram-nos durante breves
momentos e depois começaram a soltar risinhos e a falar uma com a
outra acerca do convento . Sentaram-se as duas no baloiço , e Wendell
e Cory sentaram-se na balaustrada, lado a lado . Sentavam-se como
macacos , os joelhos à altura dos ombros e os braços a penderem-lhes
no meio . Eram rapazes baixos e magros , com rostos vermelhuscos
e maçãs do rosto salientes e olhos claros , parecidos com sementes .
Tinham trazido uma harmónica e uma guitarra. Um deles começou
a soprar suavemente na gaita de beiços , a observar as raparigas por
cima do instrumento , e o outro começou a dedilhar as cordas da gui­
tarra e depois pôs-se a cantar, sem olhar para elas , mantendo a cabeça
volvida para o alto, como se apenas lhe interessasse ouvir-se a si
mesmo . Estava a cantar uma canção ao estilo hillbilly que soava em
parte como uma canção de amor e em parte como um hino religioso .
84 Flannery O ' Connor

A garota estava de pé em cima de uma barrica empurrada para o


meio de uns arbustos , junto ao flanco da casa, o rosto à altura do soa­
lho do alpendre . O Sol estava a pôr-se , e o céu ia ganhando uma cor
pisada de violeta que parecia ligar-se ao som doce e funéreo da música.
Wendell começou a sorrir enquanto cantava e a olhar para as raparigas .
Olhou para Susan com uma expressão de ternura canina e cantou:

«Jesus Cristo é meu amigo ,


Ele é tudo para mim ,
É como os lírios do vale ,
Sua glória não tem fim ! »

Em seguida, dirigiu para Joanne o mesmo olhar e cantou:

«É lume que me protege ,


Já não temo a Sua lei ,
É como os lírios do vale ,
A Seu lado marcharei ! »

A s raparigas olharam uma para a outra e mantiveram o s lábios


hirtos , como que a evitarem o riso , mas Susan acabou por soltar mes­
mo uma risadinha e levou a mão à boca num gesto brusco . O cantor
franziu o sobrolho e, durante alguns segundos , limitou-se a dedilhar
as cordas da guitarra. Em seguida, começou a cantar «A Velha Cruz
Nodosa» , e elas ouviram-no educadamente , mas , quando ele termi­
nou , pediram: - Deixa-nos cantar uma ! - e, antes que ele pudesse
começar outra, elas começaram a cantar, com as suas vozes adestra­
das no convento:

«Tantum ergo Sacramentum


Veneremur Cernui:
Et antiquum documentum
Novo cedat ritui:»

A garota viu os rostos solenes dos rapazes voltarem-se um para o


outro com olhares fixos e perplexos , como se não soubessem ao certo
se estavam a ser alvo de troça.
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 85

«Praestet.fides supplementum
Sensuum defectui.
Genitori, Genitoque
Laus et jubilatio

Salus, honor, virtus quoque . . .»

Os rostos dos rapazes tinham um tom vermelho-escuro à luz cin­


zento-púrpura. Pareciam irados e estupefactos .

«Sit et benedictio;
Procedenti ab utroque
Compar sit laudatio .
Amen .»

As raparigas arrastaram o «Amen» , e depois houve um silêncio .


- Isso deve de ser uma canção de judeus - disse Wendell , e co­
meçou a afinar a guitarra .
As raparigas soltaram risadinhas idiotas , mas a garota bateu com
o pé na barrica. - Grande boi lerdo ! - gritou . - Grande boi lerdo
da Igreja de Deus ! - bramiu , e caiu da barrica e levantou-se com
gestos bruscos e desapareceu atrás da esquina da casa, no momento
em que eles saltavam da balaustrada para irem ver quem estava a
gritar assim.
A mãe providenciara para que eles jantassem no quintal das trasei­
ras e mandou pôr a mesa ali fora, debaixo de umas lanternas japone­
sas que tirava da arrecadação para as festas ao ar livre . - Eu cá não
como com eles - declarou a garota, e tirou o seu prato da mesa com
um repelão e levou-o para a cozinha e sentou-se com a cozinheira
magra, de gengivas azuis , e ali jantou .
- Proqué que a menina é tão ruim às vezes? - perguntou a cozi­
nheira.
- Aqueles perfeitos parvalhões - atirou a garota.
As lanternas tingiam as folhas das árvores de cor de laranja ao nível
a que estavam suspensas , e acima delas tudo era negro-esverdeado e
abaixo delas havia diferentes cores mortiças e atenuadas , que faziam
as raparigas sentadas à mesa parecer mais belas do que eram. De tem-
86 Flannery O ' Connor

pos a tempos , a garota virava a cabeça e lançava olhares fuzilantes


pela janela da cozinha à cena que se desenrolava mais abaixo.
- Deus podia castigar-te e pôr-te cega, surda e muda - avisou
a cozinheira - , e atão já não podias ser tão esperta assim como és .
- Ainda assim, continuava a ser mais esperta do que muitos -
retorquiu a garota.
Depois do jantar, eles saíram para ir à feira. Ela queria ir à feira,
mas não com eles , por isso , mesmo que a tivessem convidado , não
teria ido . Subiu para o andar de cima e pôs-se a andar para trás e
para diante no comprido quarto de dormir, de mãos entrelaçadas
atrás das costas e com a cabeça atirada para diante e, no rosto , uma
expressão a um tempo feroz e sonhadora. Não acendeu a luz elé­
trica, preferiu deixar as trevas adensarem-se e tomarem o quarto
mais pequeno e mais aconchegado . A intervalos regulares , uma luz
cruzava a janela aberta e projetava sombras sobre a parede . Ela
parou e ficou a olhar ao longe , para os montes sombrios , para além
do lugar onde o lago cintilava em reflexos de prata, para além da
muralha de floresta , para o céu mosqueado onde um dedo compri­
do de luz rodopiava, apontava para o alto e descrevia círculos e se
desvanecia, vasculhando os ares como se procurasse o Sol perdido .
Era o holofote da feira.
Ela ouvia o som distante do órgão a vapor e imaginou todas as
tendas erguidas numa espécie de luz de serradura dourada e o anel
cor de diamante da grande roda a girar incessantemente no ar, a subir
e a descer, e o carrossel estridente a girar incessantemente no chão .
A feira durava cinco ou seis dias e havia uma tarde especial para as
crianças e uma noite especial para os pretos . Ela tinha ido até lá no
ano anterior, na tarde para as crianças , e tinha visto os macacos e o
gordo e tinha andado na roda-gigante . Certas tendas estavam fecha­
das então , porque continham coisas que só podiam ser vistas por pes­
soas crescidas , mas ela remirara com interesse os reclames nas tendas
fechadas , as imagens de aparência desbotada na lona, representando
pessoas de collants, de rostos hirtos , tensos e serenos , dir-se-iam os
rostos de mártires à espera de que um soldado romano lhes cortasse
a língua. Imaginara que o que havia dentro daquelas tendas tinha que
ver com remédios contra doenças , e tomara a decisão de ser médica
quando crescesse .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 87

Desde então , mudara de ideias e decidira ser engenheira, mas , en­


quanto olhava pela janela e acompanhava o holofote rodopiante à me­
dida que este se alargava e se encurtava e girava no seu arco, sentiu
que teria de ser muito mais do que uma mera médica ou engenheira.
Teria de ser uma santa, porque essa era a ocupação que incluía tudo o
que uma pessoa podia saber; e, no entanto , tinha a certeza de que nun­
ca chegaria a ser uma santa. Não roubava nem assassinava pessoas ,
mas era uma mentirosa nata e uma preguiçosa e dava respostas tortas
à mãe e era propositadamente desagradável para quase toda a gente.
Também se deixava dominar pelo pecado da soberba; o pior de todos .
Troçou do pregador batista que foi à escola na cerimónia de entrega
dos diplomas , para conduzir o serviço religioso. Deixava descair os
cantos da boca e punha as mãos na testa como se estivesse a sofrer e
soltava num gemido: «Xenhor, no iníxio dexte dia» , exatamente no
mesmo tom do pregador, e exatamente como tantas vezes lhe tinham
dito para não o fazer. Nunca seria uma santa, mas achava que poderia
ser uma mártir, se a matassem depressa.
Suportaria que a matassem a tiro , mas não que a mergulhassem
em óleo a ferver. Não sabia se conseguiria suportar ser despedaçada
por leões ou não . Começou a preparar o seu martírio , imaginando-se
vestida com um par de collants , numa grande arena, iluminada por
cristãos primitivos suspensos em jaulas de fogo, emitindo uma luz
dourada e pulverulenta que tombava sobre ela e sobre os leões . O pri­
meiro leão arremeteu e caiu aos pés dela, convertido . Uma sucessão
de leões fez o mesmo . Os leões gostavam tanto dela que acabaram por
dormir juntos , e , por fim, os romanos viram-se forçados a queimá-la,
mas , para espanto deles , o corpo dela não ardia, e, percebendo que
ela era tão difícil de matar, acabaram por lhe cortar a cabeça muito
depressa com uma espada, e ela foi de imediato para o Céu . Ensaiou
várias vezes esta narrativa, regressando , de cada vez que chegava à
porta do Paraíso , para junto dos leões .
Por fim, afastou-se da janela e preparou-se para se deitar e meteu­
-se na cama sem dizer as suas orações . Havia no quarto duas pesadas
camas de casal . As raparigas ocupavam a outra, e ela tentou pensar
em alguma coisa fria e pegajosa que pudesse esconder entre os len­
çóis delas , mas não lhe ocorreu nada. Não tinha ali nenhuma das
coisas que lhe vieram ao espírito , como a carcaça de um frango ou
88 Flanne ry O ' Connor

um naco de fígado de vaca. O som do órgão a vapor entrando pela


janela impedia-a de dormir, e ela lembrou-se de que não dissera as
suas orações e levantou-se e pôs-se de joelhos e começou a rezar.
Desatou a recitar muito depressa e despachou o credo num instante
e depois ficou ali , de queixo apoiado na tábua da cama, sem pensar
em nada. As orações dela, quando se lembrava de as dizer, eram ge­
ralmente descuidadas , mas , por vezes , quando tinha feito algum dis­
parate ou ouvido música ou perdido qualquer coisa, ou às vezes sem
motivo, sentia-se invadida pelo fervor religioso e pensava em Cris­
to no seu longo caminho até ao Calvário , três vezes derrubado pela
cruz tosca. A mente dela demorava-se um bocadinho nisto e depois
esvaziava-se , e, quando algo a despertava, ela percebia que estava a
pensar numa coisa completamente diferente , num cão ou numa ra­
pariga qualquer ou em qualquer coisa que iria fazer um dia. Naquela
noite , ao lembrar-se de Wendell e Cory, sentiu-se cheia de gratidão a
Deus e, quase a chorar de alegria, disse: - Senhor, Senhor, obrigada
por não pertencer à Igreja de Deus, obrigada, Senhor, obrigada! - e
tornou a meter-se na cama e repetiu aquela frase uma e outra vez até
adormecer.
As raparigas chegaram a um quarto para a meia-noite e acorda­
ram-na com os seus risinhos . Acenderam o candeeiro pequeno , de
quebra-luz azul , para terem claridade para se despirem, e as som­
bras escanzeladas de ambas treparam pela parede e vergaram-se e
continuaram a andar para cá e para lá, suavemente , no teto . A garota
sentou-se na cama para ouvir contar o que elas tinham visto lá na
feira. Susan tinha uma pistola de plástico cheia de rebuçados baratos ,
e Joanne tinha um gato de cartão às pintinhas vermelhas . - Viram
os macacos a dançar? - perguntou a garota. - Viram o gordo e
aqueles anões?
- Todo o género de monstros - disse Joanne . E depois , virando-
-se para Susan: - Gostei de tudo, menos daquilo que tu sabes - e o
rosto dela adotou uma expressão bizarra, como se tivesse acabado de
morder uma coisa e não soubesse ao certo se gostava ou não do sabor.
A outra ficou imóvel e abanou a cabeça uma vez e indicou a garota
com um ligeiro aceno . - As paredes têm ouvidos - disse em voz
baixa, mas a garota ouviu , e o coração começou a bater-lhe muito
depressa.
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 89

Desceu da sua cama e trepou para a travessa aos pés da cama delas .
Elas apagaram a luz e meteram-se entre as cobertas , mas ela não se
mexeu . Ficou ali sentada, a olhá-las fixamente, até os rostos delas se
recortarem, bem nítidos , no escuro . - Sou mais nova do que vocês
- declarou - , mas sou praí umas mil vezes mais esperta.
- Há certas coisas - disse-lhe Susan - que uma garota da tua
idade não sabe - e ambas começaram a soltar risadinhas .
- Volta para a tua cama - ordenou-lhe Joanne .
A garota não se mexeu . - Uma vez - começou , numa voz que
soava em tom cavernoso no escuro - , vi uma coelha a ter coelhi­
nhos .
Seguiu-se um silêncio. Foi então que Susan perguntou: - Como?
- em tom indiferente , e ela percebeu que as tinha na mão . Disse que
só lhes contava se elas lhe contassem o que era «aquilo que tu sabes» .
A verdade é que nunca tinha visto uma coelha a ter coelhinhos , mas
esqueceu-se deste pormenor no momento em que elas lhe começa­
ram a contar o que tinham visto na tenda.
Era um monstro de feira que tinha um nome , mas elas não se
conseguiam lembrar do nome . A tenda onde ele estava tinha sido
dividida em duas metades por meio de uma cortina preta, um lado
para os homens e outro para as mulheres . O monstro passou de um
lado para o outro , falando primeiro com os homens e depois com as
mulheres , mas toda a gente podia ouvi-lo . O palco abarcava toda a
parte da frente da plateia. As raparigas ouviram o monstro dizer aos
homens : «Vou mostrar-vos uma coisa e , se vocês se rirem, Deus é
bem capaz de vos castigar com a mesma deformidade .» O monstro
tinha uma entoação de provinciano , lenta e nasalada e nem aguda
nem grave , uma voz monocórdica. «Deus fez-me assim desta ma­
neira e , se vocês se rirem , Ele é capaz de vos castigar do mesmo
jeito . Foi assim que Ele quis que eu fosse , e não me cabe discutir a
vontade d'Ele . Só vos mostro isto porque tenho de fazer pela vida.
Espero que se comportem como senhoras e como cavalheiros. Não
tenho culpa de ser assim deste jeito , nem tive nada que ver com
isto , mas tenho de fazer pela vida. Não discuto nada .» Houve então
um longo silêncio do outro lado da tenda, e , por fim, o monstro
saiu de junto dos homens e veio para o lado das mulheres e disse a
mesma coisa.
90 Flannery O ' Connor

A garota sentia todos os músculos tensos , como se estivesse a ou­


vir a resposta a um enigma que fosse mais intrigante do que o enigma
em si . - O monstro tinha duas cabeças , é isso? - perguntou .
- Não - respondeu Susan - , era homem e mulher ao mesmo
tempo. Levantou o vestido e mostrou-nos . Trazia um vestido azul .
A garota queria perguntar como é que se podia ser homem e mu­
lher ao mesmo tempo sem ter duas cabeças , mas não perguntou . Que­
ria voltar para a sua cama e refletir acerca do que tinha acabado de
ouvir, e começou a descer da travessa de madeira.
- Então e a coelha? - perguntou Joanne.
A garota parou , e só o seu rosto surgiu acima dos pés da cama,
abstraído , ausente . - Ela cuspiu-os pela boca - disse - , os seis
seguidos .
Estendida na cama, tentou imaginar a tenda com o monstro a ca­
minhar de um lado do palco para o outro, mas tinha demasiado so­
no para conceber essa imagem. Foi-lhe mais fácil ver os rostos das
pessoas do campo na assistência, os homens mais solenes do que na
igreja, e as mulheres severas e corteses , com olhos que pareciam pin­
tados , paradas , dir-se-iam à espera do primeiro acorde do piano para
começarem a cantar o hino . Ouvia o monstro a dizer: - Deus fez-me
assim desta maneira e eu não discuto a vontade d'Ele - , e as pessoas
a dizerem: - Ámen . Ámen .
- Deus fez-me isto e eu dou-Lhe graças .
- Ámen . Ámen .
- Ele podia castigar-vos deste mesmo jeito .
- Ámen . Ámen .
- Mas não o fez .
- Ámen .
- Ergam-vos da terra. Um templo do Espírito Santo . Vocês ! Vo-
cês são o templo de Deus , não o sabem? Não o sabem? O Espírito de
Deus tem em vocês a sua morada, não o sabem?
- Ámen . Ámen .
- Se alguém profanar o templo de Deus , Deus fará tombar sobre
ele a ruína, e , se vocês se rirem, Ele poderá castigar-vos deste mesmo
jeito . Um templo de Deus é uma coisa sagrada. Ámen . Ámen.
- Eu sou um templo do Espírito Santo .
- Ámen .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 91

A s pessoas começaram a bater palmas sem fazer muito ruído e com


um compasso regular entre os ámenes , cada vez mais baixo , como se
soubessem que havia uma criança ali perto , prestes a adormecer.

Na tarde do dia seguinte , as raparigas tomaram a vestir os unifor­


mes castanhos do convento , e a garota e a mãe levaram-nas de regres­
so a Mount St. Scholastica. - Oh , Deus nos acuda ! - soltaram elas .
- Lá vamos nós outra vez para as minas de sal . - Alonzo Myers
levou-as de carro , e a garota sentou-se à frente , com ele , e a mãe dela
sentou-se atrás , entre as duas raparigas , falando com elas , exprimin­
do a enorme satisfação que tivera em receber a visita delas e insistin­
do para que regressassem mais vezes , e depois contou-lhes os bons
tempos que ela e as mães delas tinham passado no convento , quando
eram novas . A garota não ouviu esta tagarelice , mas manteve-se o
mais próximo que conseguiu da porta trancada e pôs a cabeça do lado
de fora da janela. Julgaram que Alonzo cheiraria melhor ao domingo ,
mas não . Com o cabelo revolto a cobrir-lhe a face , ela podia olhar
diretamente para o Sol de marfim que estava emoldurado no meio
da tarde azul , mas , quando afastava as madeixas dos olhos , tinha de
franzir as pálpebras .
Mount St. Scholastica era um edifício de tijolo vermelho recuado
em relação à rua, com um jardim em frente , no centro da povoação.
De um lado erguia-se uma bomba de gasolina, e, do outro , um quartel
de bombeiros . O colégio possuía uma vedação gradeada, alta e ne­
gra, a rodeá-lo , e caminhos estreitos de tijolo entre árvores vetustas e
japoneiras carregadas de flores . Uma freira corpulenta, com cara de
lua cheia, veio abrir-lhes a porta com gestos enérgicos para as deixar
entrar e abraçou a mãe da garota e ter-lhe-ia feito o mesmo, mas ela
estendeu a mão e conservou uma expressão gélida, de cenho franzido ,
enquanto olhava para o lambrim de madeira, mesmo atrás dos sapatos
da irmã. Elas tinham tendência para beijar até mesmo as crianças de­
sengraçadas , mas a freira apertou-lhe a mão vigorosamente, ao ponto
de lhe fazer estalar ao de leve os nós dos dedos , e disse que tinham
de ir até à capela sem demora, porque a bênção do Santíssimo Sacra­
mento estava prestes a começar. Uma pessoa põe o pé nesta casa e
mandam-na logo rezar, pensou a garota enquanto se apressavam ao
longo do corredor encerado .
92 Flannery O'Connor

Até parece que vai apanhar o comboio , prosseguiu ela com a mes­
ma má disposição no momento em que entraram na capela onde as
irmãs estavam ajoelhadas de um lado e as raparigas , todas de uni­
formes castanhos , do outro . A capela cheirava a incenso . Era verde­
-clara e dourada, urna série de arcos altaneiros que terminavam com
um arco acima do altar, onde o padre estava ajoelhado diante da
custódia, de costas muito vergadas . Um rapazito de sobrepeliz esta­
va parado atrás dele , a agitar o tunbulo . A garota ajoelhou-se entre
a mãe e a freira, e o «Tantum Ergo» já ia bem adiantado quando os
seus pensamentos maldosos cessaram e ela começou a dar-se conta
de que estava na presença de Deus. Ajuda-me a não ser tão má, co­
meçou ela mecanicamente . Ajuda-me a não dar a ela tantas respos­
tas tortas . Ajuda-me a não falar assim desta maneira. A sua mente
começou a serenar e depois a esvaziar-se , mas , quando o padre er­
gueu a custódia com a hóstia a rebrilhar no centro , cor de marfim,
ela estava a pensar na tenda lá da feira que albergava o monstro . O
monstro dizia: - Eu não discuto a vontade d'Ele . Foi assim que Ele
quis que eu fosse .
No momento em que estavam a cruzar a porta do convento , a freira
corpulenta desceu sobre ela num voo picado maldoso e por pouco
não a sufocou nas pregas do hábito negro , esborrachando-lhe a bo­
checha contra o crucifixo suspenso do cinto , e depois prendeu-a nos
braços esticados e remirou-a com olhinhos azul-púrpura.
No regresso a casa, ela e a mãe sentaram-se no banco de trás , e Alon­
zo, ao volante, ficou sozinho à frente. A garota observou três pregas
de gordura na nuca dele e reparou que ele tinha as orelhas espetadas ,
quase corno um porco . A mãe, para fazer conversa, perguntou-lhe se
ele tinha ido à feira.
- Já lá fui - respondeu ele - e vi tudo o que lá havia, e ainda
bem que fui quando fui , porque já não vai haver feira na semana que
vem, apesar de terem dito que ia haver.
- E porquê? - perguntou a mãe .
- Fecharam aquilo tudo - explicou ele . - Uns quantos pregado-
res da povoação foram até lá e ' tiveram a inspecionar aquilo e chama­
ram a polícia pra fechar aquilo tudo.
A mãe deixou morrer a conversa, e o rosto redondo da garota es­
tava perdido nas suas meditações . Ela voltou a face para a janela e
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 93

olhou ao longe , para uma extensão de pasto que se elevava e toma­


va a descer, num tom de verde cada vez mais intenso , até tocar nos
bosques escuros . O Sol era uma enorme bola vermelha, semelhante a
uma hóstia erguida, ensopada de sangue , e , quando mergulhou e de­
sapareceu da vista, deixou um risco no céu semelhante a uma estrada
de argila encarnada suspensa sobre as árvores .
O Preto Artificial

Ao acordar, Mr. Head descobriu que o quarto estava cheio de luar.


Soergueu-se e olhou para as tábuas do chão - da cor da prata - e
depois para a fronha da sua almofada, que se assemelhava a brocado,
e , ao fim de uns momentos , viu metade da Lua a metro e meio de
distância, no seu espelho de barbear, ali parada como se estivesse à
espera da autorização dele para entrar. Rolando para diante , a Lua
derramou sobre todas as coisas uma luz enobrecedora. A cadeira de
espaldar direito , encostada à parede , parecia hirta e atenta, como se
esperasse uma ordem, e as calças de Mr. Head, suspensas do espal­
dar, tinha um ar quase nobre, como uma peça de roupa que um qual­
quer grande homem tivesse acabado de atirar para as mãos do lacaio;
mas a face da Lua era muito sisuda. Espraiava o seu olhar pelo quarto
e pela janela fora, onde boiava acima da estrebaria e parecia contem­
plar o próprio reflexo com a expressão de um jovem que vê diante de
si a sua velhice .
Mr. Head poderia ter dito à Lua que a velhice era uma magnífi­
ca bênção , e que apenas com o passar dos anos um homem alcança
aquele entendimento sereno da vida que faz dele um guia apropriado
para os jovens . Esta, pelo menos , fora a sua experiência.
Sentou-se e agarrou os balaústres de ferro aos pés da cama e er­
gueu-se até poder ver o mostrador do despertador, que se encontrava
em cima de um balde voltado ao contrário, ao lado da cadeira. Eram
duas da manhã. A campainha do despertador não funcionava, mas ele
não precisava de qualquer dispositivo mecânico para acordar. Ses­
senta anos não tinham embotado as suas reações; as suas reações fí-
96 Flannery O'Connor

sicas , à imagem das suas reações morais , eram regidas pela sua força
de vontade e pelo seu caráter férreo , que lhe transparecia claramente
nas feições . Tinha um rosto longo , semelhante a um tubo , de queixo
comprido , redondo e largo e nariz comprido e espalmado . Os olhos
eram vivos mas serenos , e , ao luar miraculoso , possuíam um ar de
compostura e de sabedoria secular, como se pertencessem a um dos
grandes guias da humanidade . Dir-se-ia Virgílio convocado a meio
da noite para ir ao encontro de Dante , ou , melhor ainda, Rafael des­
pertado por um clarão de luz divina para voar até à ilharga de Tobias .
O único ponto sombrio no quarto era o catre de Nelson, por baixo da
sombra da janela.
Nelson estava encolhido, deitado sobre o flanco, de joelhos encos­
tados ao queixo e calcanhares debaixo do traseiro. O fato e o chapéu
novos estavam nas caixas em que tinham chegado pelo correio, e es­
tas caixas encontravam-se no chão, aos pés do catre, onde ele poderia
deitar-lhes as mãos assim que acordasse. O penico, fora da sombra e
alvo como a neve à luz do luar, parecia estar de sentinela para o prote­
ger, qual um pequeno anjo da guarda. Mr. Head tomou a estender-se na
cama, sentindo-se inteiramente confiante de que poderia levar a cabo
a missão moral do dia que aí vinha. Fazia tenções de se levantar antes
de Nelson e de ter o pequeno-almoço ao lume quando ele despertasse .
O rapaz ficava sempre aborrecido quando Mr. Head era o primeiro a
levantar-se. Teriam de sair de casa às quatro para chegarem ao entron­
camento ferroviário às cinco e meia. O comboio ia parar para os reco­
lher a um quarto para as seis , e teriam de lá estar à hora certa, porque o
comboio ia fazer aquela paragem de propósito para os receber.
Ia ser a primeira visita do rapaz à cidade, embora ele afirmasse ser
a segunda, porque tinha lá nascido. Mr. Head tentara fazê-lo ver que,
quando nascera, ele não tinha a inteligência suficiente para perceber
em que lugar se encontrava, mas isto não causara a mais pequena im­
pressão no rapaz, e ele continuava a insistir que ia ser a sua segunda
viagem. Ia ser a terceira visita de Mr. Head. Nelson dissera: - Ainda
só tenho dez anos , e já vai ser a minha segunda vez na cidade .
Mr. Head rebateu esta ideia.
- Se já não vais lá faz quinze anos , comé que sabes que vais
conseguir encontrar o caminho? - perguntou Nelson . - Comé que
sabes que não 'tá tudo mudado?
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 97

- Já alguma vez - ripostou Mr. Head - me· viste perdido?


Nelson nunca o vira perdido , é certo , mas era uma criança que só
ficava satisfeita depois de dar uma resposta insolente , e retorquiu: -
Aqui nas redondezas não há onde a gente se possa perder.
- Há de chegar o dia - profetizou Mr. Head - em que vais des­
cobrir que não és tão esperto como julgas . - Andava a pensar naque­
la viagem havia vários meses , mas concebia-a, essencialmente , em
termos morais. Seria uma lição que o rapaz nunca iria esquecer. Ele
haveria de descobrir que não tinha razões para se mostrar orgulhoso
só porque tinha nascido numa cidade . Haveria de descobrir que a ci­
dade não era um lugar fabuloso . Mr. Head queria que ele visse tudo o
que há para ver numa cidade , para depois se sentir satisfeito por ficar
em casa o resto da sua vida. Adormeceu a pensar que o rapaz iria por
fim descobrir que não era tão esperto como julgava.
Foi despertado às três e meia pelo cheiro de couratos a fritar, e
saltou do seu leito . O catre encontrava-se vazio , e as caixas de roupa
estavam abertas . Vestiu as calças e correu até à outra divisão. O rapaz
tinha uma broa de milho a cozer e tinha acabado de fritar a carne . Es­
tava sentado à mesa, na penumbra, a beber café frio por uma lata. Ti­
nha vestido o fato novo , e o chapéu cinzento novo puxado para cima
dos olhos . Era demasiado grande para ele, mas tinham encomendado
um número acima, porque esperavam que a cabeça dele crescesse
mais . Ele nada disse , mas toda a sua figura sugeria satisfação por se
ter levantado antes de Mr. Head.
Mr. Head foi até ao fogão e trouxe a carne para a mesa, ainda na
frigideira. - Não há pressa - disse . - Vais chegar à cidade num
instantinho, e nada te garante que gostes daquilo quando lá chegares
- e sentou-se diante do rapaz, cujo chapéu deslizou para trás , vaga­
roso , para revelar um rosto feroz e inexpressivo , de contornos muito
semelhantes aos do rosto do velho . Eram avô e neto , mas pareciam-se
o suficiente para passarem por irmãos , e irmãos de idades não muito
afastadas , pois Mr. Head tinha uma expressão juvenil à luz do dia, ao
passo que a aparência do rapaz era vetusta, como se já soubesse tudo
e preferisse esquecer o que sabia.
Mr. Head tivera em tempos uma mulher e uma filha, e, quando a
mulher morreu, a filha fugiu de casa e regressou , passados uns tem­
pos , com Nelson . Depois , certa manhã, sem se levantar da cama, ela
98 Flannery O ' Connor

morreu e deixou a criança de um ano totalmente entregue aos cui­


dados de Mr. Head. Este cometera o erro de contar a Nelson que ele
nascera em Atlanta. Se não lhe tivesse contado isto , Nelson não teria
insistido que aquela ia ser a sua segunda viagem .
- Talvez não gostes daquilo nem um bocadinho - prosseguiu Mr.
Head. - Vai 'tar cheio de pretos .
O rapaz fez um esgar de quem sabe como é que se lida com um
preto .
- Muito bem - disse Mr. Head . - Tu nunca puseste os olhos
num preto .
- Não te levantaste lá muito cedo - disse Nelson .
- Tu nunca puseste os olhos num preto - repetiu Mr. Head. -
Não há nenhum preto neste condado desde que corremos com aquele
escarumba vai pra uma dúzia de anos , e isso foi antes de tu nasceres .
- Olhou para o rapaz , como que a desafiá-lo a que dissesse que já
tinha visto um negro .
- Comé que sabes que eu nunca vi um preto quando lá morei da
primeira vez? - perguntou Nelson. - Provavelmente , vi montes de
pretos .
- Mesmo que tenhas visto algum, não sabias o que ele era - retor­
quiu Mr. Head, absolutamente exasperado. - Um bebé de seis meses
não distingue um preto doutra pessoa qualquer.
- Parece-me bem que vou saber distinguir um preto , se o vir -
declarou o rapaz , e pôs-se de pé e ajeitou o chapéu cinzento , luzidio
e com um vinco bem marcado na copa, e saiu para ir à latrina.

Chegaram ao entroncamento algum tempo antes da hora marcada


para a chegada do comboio e ficaram parados a cerca de meio metro
do primeiro par de carris . Mr. Head trazia na mão um saco de papel ,
contendo algumas bolachas e uma lata de sardinhas para o almoço .
Um Sol cor de laranja, de aparência grosseira, assomando acima da
cadeia oriental de montanhas , dava ao céu atrás deles um tom mortiço
de vermelho , mas diante deles ainda tudo estava cinzento, e viram à
sua frente uma Lua cinzenta e translúcida, pouco mais nítida do que a
impressão digital de um polegar e completamente desprovida de luz .
Um pequeno painel metálico de agulheiro e um tanque de combustí­
vel negro eram tudo o que ali existia para assinalar aquele lugar como
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 99

um entroncamento; a linha era dupla, e as duas linhas só tomavam


a convergir depois de estarem ocultas atrás das curvas em ambos os
extremos da clareira. Os comboios , ao passarem ali, pareciam emergir
de um túnel de árvores e, fustigados durante breves instantes pelo céu
frio, desapareciam novamente, apavorados , nas profundezas dos bos­
ques . Mr. Head tivera de fazer diligências especiais junto do agente
que lhe vendera os bilhetes para que aquele comboio parasse naquele
lugar e, lá no íntimo , receava que isso não sucedesse; nesse caso , sabia
que Nelson diria: «Bem me parecia que nenhum comboio ia parar pra
ti.» Sob aquela imprestável Lua matinal , os carris tinham uma aparên­
cia branca e frágil . Tanto o velho como o garoto olhavam fixamente
em frente , como se estivessem à espera de uma aparição .
Então , subitamente, antes que Mr. Head pudesse tomar a decisão
de virar costas e partir, ouviu-se um balido grave de aviso , e o com­
boio surgiu a deslizar muito vagarosamente , quase em silêncio , e do­
brou a curva no arvoredo , uns duzentos metros mais adiante , na linha
férrea, com um farol dianteiro amarelo a faiscar. Mr. Head ainda não
sabia ao certo se a composição iria parar, e pareceu-lhe que faria uma
figura de idiota ainda maior se o comboio passasse muito devagari­
nho . Tanto ele como Nelson , porém, estavam preparados para ignorar
o comboio , se este passasse sem se deter.
A locomotiva arremeteu , enchendo-lhes as narinas do cheiro a me­
tal quente , e depois a segunda carruagem deteve-se exatamente no
ponto onde eles estavam parados . Um revisor com cara de buldogue
caduco e inchado encontrava-se no estribo , como se os esperasse ,
ainda que não parecesse muito preocupado com a eventualidade de
eles embarcarem ou não . - Prà direita - indicou .
A entrada deles demorou somente uma fração de segundo , e o
comboio já se precipitava a grande velocidade quando eles entraram
na carruagem silenciosa. A maior parte dos viajantes estava ainda a
dormir, alguns de cabeças pendidas sobre os braços dos assentos , ou­
tros estendidos em cima de dois bancos , e alguns esparramados , com
os pés na coxia. Mr. Head viu dois lugares desocupados e empurrou
Nelson nessa direção . - Vai pràli , pro pé da janela - disse no seu
tom de voz normal , que era muito ruidoso àquela hora da manhã. -
Ninguém se arrelia se tu ocupares aquele lugar, porque não ' tá ali
ninguém. Vá, senta-te ali .
1 00 Flannery O ' Connor

- Já ouvi - resmungou o rapaz . - Não vale a pena berrares


- e sentou-se e voltou o rosto para a vidraça. Ali , viu uma face
pálida e fantasmagórica a olhá-lo com ar carrancudo sob a aba de
um chapéu pálido e fantasmagórico . O avô , olhando também de
relance , viu um fantasma diferente , pálido mas sorridente , sob um
chapéu negro .
Mr. Head sentou-se e instalou-se no banco e tirou o bilhete do bolso
e pôs-se a ler em voz alta tudo o que ali estava impresso . As pessoas
começ aram a agitar-se . Várias acordaram e olharam para ele. - Tira o
chapéu - ordenou ele a Nelson, e ele próprio tirou o chapéu e pousou­
-o no joelho . Tinha uma pequena porção de cabelo branco que , com o
passar dos anos , ganhara uma cor de tabaco, e este cabelo cobria-lhe
a nuca, muito espalmado. A fronte era calva e cheia de sulcos . Nelson
tirou o chapéu e pousou-o sobre o joelho, e esperaram que chegasse o
revisor para lhes pedir os bilhetes .
O homem sentado do lado oposto da coxia estava estendido sobre
dois assentos , de pés apoiados no rebordo da janela e a cabeça a
assomar na coxia. Vestia um fato azul-claro e uma camisa amarela,
desabotoada no colarinho . Acabara de abrir os olhos , e Mr. Head es­
tava prestes a apresentar-se quando o revisor surgiu por trás deles e
resmungou: - Bilhetes .
Depois de o revisor se afastar, Mr. Head deu a Nelson o canhoto do
bilhete dele e disse-lhe: - Muito bem, agora guarda isso no bolso e
não o percas , ou então tens de ficar na cidade .
- Sou capaz disso - replicou Nelson, como se isto fosse uma
sugestão razoável .
Mr. Head ignorou-o. - É a primeira vez que este moço anda de
comboio - explicou ao homem do lado oposto da coxia, que estava
agora sentado no bordo do seu assento , com ambos os pés no chão .
Nelson tomou a pôr o chapéu com um repelão e virou-se para a
janela com ar zangado .
- Nunca viu nada de nada - continuou Mr. Head. - É tão igno­
rante como no dia em que nasceu , mas quero que ele se farte duma
vez por todas .
O rapaz debruçou-se diante do avô , na direção do estranho . - Eu
nasci na cidade - explicou . - Foi lá que eu nasci . Esta é a minha
segunda viagem . - Disse isto numa voz aflautada e categórica, mas
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 101

o homem do lado oposto d a coxia pareceu não ter compreendido .


Tinha fundos círculos de cor púrpura debaixo dos olhos .
Mr. Head estendeu a mão para o outro lado da coxia e deu-lhe uma
pancadinha no braço . - O melhor que há a fazer com um rapaz -
disse com ar sábio - é mostrar-lhe tudo o que há pra mostrar. Não
lhe esconder nada.
- Pois - concordou o homem . Baixou os olhos para contem­
plar os próprios pés , que estavam inchados , e ergueu o pé esquerdo
cerca de um palmo acima do chão . Ao fim de um minuto , pousou-o
e ergueu o outro . Nos quatro cantos da carru agem, as pessoas come­
çaram a levantar-se e a andar de um lado para o outro e a bocejar e
a espreguiçar-se . Ouviram-se vozes isoladas aqui e além, seguidas
de um zumbido generalizado . De súbito , a expressão serena de Mr.
Head alterou-se. A boca quase se lhe fechou, e uma luz , a um tempo
feroz e prudente, assomou-lhe nos olhos . Estava a olhar para o fundo
da carru agem. Sem se virar, agarrou Nelson pelo braço e puxou-o
para diante . - Olha - ordenou .
Um homem avantajado , cor de café, caminhava devagar. Trazia
um fato de cor clara e uma gravata de cetim amarelo com um alfinete
de rubi cravado . Tinha uma das mãos pousada sobre a barriga sa­
liente , que assomava majestosamente por baixo do casaco abotoado ,
e, com a outra, segurava o castão de uma bengala negra, que erguia
do chão e tornava a pousar com um gesto largo e deliberado de cada
vez que dava um passo . Avançava muito devagar, olhando em volta,
por cima das cabeças dos passageiros , com os seus grandes olhos
castanhos . Tinha um bigodinho branco e cabelo branco , encrespado .
Atrás dele vinham duas mulheres novas , ambas cor de café , uma de
vestido amarelo e outra de vestido verde . Pautavam o seu andar pelo
ritmo dele, e tagarelavam em vozes baixas e guturais enquanto o iam
seguindo .
Mr. Head fincava os dedos com força cada vez maior no braço de
Nelson . No momento em que o cortejo passou , a luz de um anel de
safira na mão castanha que segurava a bengala refletiu-se nas pupilas
de Mr. Head, mas ele não ergueu os olhos , nem aquele homem for­
midável olhou para ele . O grupo percorreu o resto da coxia e saiu da
carruagem. Mr. Head aliviou o aperto no braço de Nelson . - O que
é que era aquilo? - perguntou .
1 02 Flannery O ' Connor

- Um homem - respondeu o rapaz , e lançou-lhe um olhar in­


dignado , como se estivesse farto de ver insultada a sua inteligência.
- Que género de homem? - insistiu Mr. Head, numa voz inex­
pressiva.
- Um gordo - respondeu Nelson . Estava a começar a achar que
talvez fosse melhor ter cautela.
- Não sabes que género de homem era? - indagou Mr. Head, em
tom de pergunta derradeira.
- Um velho - disse o rapaz , e teve o súbito pressentimento de
que não ia apreciar aquele dia.
- Aquilo era um preto - anunciou Mr. Head, e recostou-se no
assento .
Nelson saltou para cima do banco e ficou de pé , a olhar para trás ,
para o extremo da carru agem, mas o negro já desaparecera.
- Julguei que sabias reconhecer um preto, já que viste tantos quan­
do 'tiveste na cidade, na tua primeira visita - prosseguiu Mr. Head.
- É o primeiro preto que ele vê - explicou ao homem do lado oposto
da coxia.
O rapaz deixou-se escorregar para o assento . - Disseste que eles
eram pretos - queixou-se em voz irada. - Nunca disseste que eram
morenos . Comé que ' tás à espera que eu saiba as coisas quando não
me explicas como deve de ser?
- É s um ignorante, prontos - ripostou Mr. Head e, pondo-se de
pé , mudou-se para o lugar vago à ilharga do homem do lado oposto
da coxia.
Nelson virou-se novamente para trás e olhou para o ponto onde o
negro desaparecera. Parecia-lhe que o negro caminhara deliberada­
mente pela coxia para fazer dele parvo , e detestou-o com um ódio
feroz , cru , em carne viva; além disso , compreendia agora porque é
que o avô lhes tinha aversão . Olhou para a janela, e o rosto ali refle­
tido pareceu sugerir que ele talvez não estivesse à altura das prova­
ções daquele dia. Duvidou se chegaria sequer a reconhecer a cidade ,
quando lá chegassem.
Depois de contar várias histórias , Mr. Head apercebeu-se de que
o homem com quem estava a falar tinha adormecido , e levantou-se
e sugeriu a Nelson que percorressem o comboio e vissem as partes
que o compunham . Desejava especialmente que o rapaz visse a casa
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 103

de banho , por isso começaram por ir à casa de banho dos homens e


examinaram a canalização . Mr. Head demonstrou como é que funcio­
nava a máquina de fazer gelo , como se tivesse sido ele o inventor, e
apontou a Nelson o lavatório com uma só torneira, onde os viajantes
lavavam os dentes . Atravessaram várias carruagens e chegaram ao
vagão-restaurante .
Era a carruagem mais elegante do comboio . Estava pintada de
um tom vivo de amarelo-gema e tinha um tapete cor de vinho a
cobrir o chão . Havia amplas janelas diante das mesas , e grandes
extensões da paisagem ondulante eram aprisionadas em miniatura
nos flancos das cafeteiras e dos copos de vidro . Três negros muito
pretos , de fato e avental brancos , corriam para trás e para diante
pela coxia, executando gestos largos com os tabuleiros e fazendo
vénias e debruçando-se sobre os viajantes que comiam o pequeno­
-almoço . Um deles precipitou-se para junto de Mr. Head e de Nel­
son e indagou , erguendo dois dedos: - Mesa pra dois? ! - mas
Mr. Head respondeu em voz bem alta: - Nós comemos antes de
sair de casa !
O empregado usava uns grandes óculos castanhos que tomavam
ainda maiores os seus olhos brancos . - Atão deixem passar, por fa­
vor - pediu , com um aceno leve do braço , como se estivesse a en­
xotar moscas .
Nem Nelson nem Mr. Head se desviaram um milímetro que fosse .
- Olha - disse Mr. Head .
O canto mais próximo do vagão-restaurante , contendo duas mesas ,
estava separado do resto por meio de uma cortina cor de açafrão .
Uma das mesas estava posta, mas desocupada, ao passo que na ou­
tra, de frente para eles , de costas para o cortinado , estava sentado o
formidável negro . la falando em voz baixa com as duas mulheres
enquanto barrava um queque com manteiga. Tinha um rosto pesado
e triste , e o pescoço sobressaía-lhe de ambos os lados sobre o colari­
nho branco. - Separam-nos do resto da gente - explicou Mr. Head.
Depois sugeriu: - Vamos ver a cozinha - e percorreram todo o
comprimento do vagão-restaurante , mas o empregado negro vinha a
segui-los de perto , muito veloz.
- Os passageiros não podem entrar na cozinha ! - avisou em voz
arrogante . - Os passageiros NÃO podem entrar na cozinha !
1 04 Flannery O ' Connor

Mr. Head deteve-se onde estava e voltou-se . - E há boas razões


pra isso - berrou , de rosto curvado sobre o peito do negro - , é que
as baratas corriam com os passageiros dali pra fora!
Todos os passageiros se riram , e Mr. Head e Nelson saíram da car­
ruagem com um largo sorriso nos lábios . Mr. Head era conhecido na
sua terra por ter a resposta pronta e certeira, e Nelson sentiu subita­
mente um grande orgulho nele. Deu-se conta de que o velho seria o seu
único arrimo no lugar estranho de que se estavam a aproximar. Ficaria
completamente sozinho no mundo se alguma vez se perdesse do avô.
Um incrível entusiasmo apoderou-se dele, e teve vontade de deitar a
mão ao casaco de Mr. Head e de se agarrar a ele como uma criança.
Ao regressarem aos seus lugares , repararam, olhando através das
janelas , que a paisagem ia ficando salpicada de casinhas e choupanas
e que uma estrada corria a par do comboio . Havia carro s a percorrê­
-la a grande velocidade , muito pequenos e muito velozes . Nelson
sentiu que o ar estava mais abafado do que trinta minutos antes . O
homem do lado oposto da coxia já lá não estava, e não havia ninguém
com quem Mr. Head pudesse ter uma conversa, por isso este pôs-se a
olhar pela janela, através do seu próprio reflexo , e leu em voz alta os
nomes dos edifícios que iam deixando para trás . - Indústria Quími­
ca Velho Sul ! - anunciou . - Farinha Donzela do Sul ! Portas Velho
Sul ! Produtos de Algodão Beldade do Sul ! Manteiga de Amendoim
da Patty ! Xarope de Cana Ama do Sul !
- Caluda ! - sibilou Nelson .
Por toda a carruagem, as pessoas começavam a pôr-se de pé e a reti­
rar a bagagem dos suportes acima dos assentos . As mulheres vestiam
os casacos e punham os chapéus na cabeça. O revisor enfiou a cabeça
na porta da carruagem e rosnou: - PrmeirparagEmry ! - e Nelson
ergueu-se do banco de um salto , a tremer. Mr. Head empurrou-o para
baixo pelo ombro .
- Não te levantes - disse em tom digno . - A primeira paragem
é nos arrabaldes da cidade . A segunda paragem é que é na estação
principal , no centro . - Ficara a saber isto na sua primeira viagem,
quando saíra na primeira paragem e se vira obrigado a pagar quinze
cêntimos a um homem para que este o levasse ao coração da cidade.
Nelson tomou a sentar-se , muito pálido . Pela primeira vez na vida,
percebia que o avô lhe era indispensável .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 05

O comboio parou e deixou sair alguns passageiros e tomou a des­


lizar, como se nunca tivesse deixado de se mover. Lá fora, atrás de
fileiras de casas castanhas e frágeis , erguia-se uma fiada de edifícios
azuis , e , para além destes , um céu em tons pálidos de cor-de-rosa e
cinzento desvanecia-se até ao vazio . O comboio entrou no parque de
manobras . Olhando para baixo, Nelson viu linhas e mais linhas de
carri s prateados a multiplicarem-se e a entrecruzarem-se . Em segui­
da, antes que pudesse começar a contá-las , o rosto na janela projetou­
-se na direção dele , cinzento mas bem nítido , e ele desviou o olhar. O
comboio estava na estação . Tanto ele como Mr. Head se puseram em
pé de um salto e correram para a porta. Nenhum deles reparou que
haviam deixado no banco o saco de papel contendo o almoço .
Caminharam com gestos hirtos através da pequena estação e cru­
zaram uma porta pesada, mergulhando no bramido do trânsito . As
multidões apressavam-se para o trabalho . Nelson não sabia para onde
olhar. Mr. Head encostou-se à parede do edifício e remirou o panora­
ma diante de si com um olhar fuzilante .
Por fim, Nelson perguntou: - Pois bem, comé que a gente vê tudo
o que há pra se ver?
Mr. Head não respondeu . Depois , como se a visão das pessoas a
passar lhe tivesse dado a resposta, disse: - Caminhamos - e come­
çou a andar pela rua fora. Nelson seguiu-o , ajeitando o chapéu . Tan­
tas imagens e sons se atropelavam ao seu encontro que , ao longo do
primeiro quarteirão , ele quase não percebeu o que estava a ver. Na
segunda esquina, Mr. Head voltou-se e olhou para trás de si , para a
estação que tinham abandonado , um terminal cor de massa de vidra­
ceiro , com uma cúpula de betão no alto . Pensou que , se conseguisse
nunca perder a cúpula de vista, seria capaz de voltar ao final da tarde
para apanhar o comboio de regresso .
Enquanto caminhavam, Nelson começou a distinguir pormenores
e a atentar nas montras das lojas , atafulhadas com todo o género de
produtos - ferragens , têxteis , ração para galinhas , bebidas alcoó­
licas . Passaram por uma loja para a qual Mr. Head lhe chamou es­
pecialmente a atenção , onde uma pessoa entrava e se sentava numa
cadeira, com os pés apoiados em dois suportes , e deixava que um
negro lhe engraxasse os sapatos . Caminhavam devagar e paravam
e ficavam no limiar das portas , para que ele pudesse ver o que se
106 Flannery O ' Connor

passava no interior de cada estabelecimento , mas não entraram em


nenhum. Mr. Head estava decidido a não entrar em qualquer loja
da cidade , porque , na sua primeira viagem até ali , perdera-se num
grande armazém e só conseguira encontrar a saída depois de ouvir os
insultos de muita gente .
A meio do quarteirão seguinte , chegaram a uma loja que tinha em
frente uma balança, e ambos , cada um por sua vez , subiram para
cima da balança e meteram uma moeda na ranhura e receberam um
talão . O talão de Mr. Head dizia: «0 seu peso é 55 quilos . Você é uma
pessoa honesta e corajosa, e todos os seus amigos o admiram.» Ele
meteu o talão no bolso , espantado por a máquina ter acertado na sua
personalidade , embora se tivesse enganado no peso , porque ele se pe­
sara numa balança para cereais havia não muito tempo e sabia pesar
50 quilos . O talão de Nelson dizia: «Ü seu peso é 62 quilos . Você tem
pela frente um destino grandioso , mas cuidado com as mulheres mo­
renas .» Nelson não conhecia nenhumas mulheres e pesava somente
26 quilos , mas Mr. Head sublinhou que a máquina, provavelmente ,
trocara a ordem dos algarismos , imprimindo sessenta e dois em vez
de vinte e seis.
Continuaram a caminhada e, ao fim de cinco quarteirões , a cúpula
do terminal afundou-se , desaparecendo da vista, e Mr. Head virou
à esquerda. Nelson teria sido capaz de ficar uma hora inteira diante
de cada montra, se não houvesse ao lado outra mais interessante . De
repente , exclamou: - Eu nasci aqui ! - Mr. Head virou-se e olhou
para ele com ar horrorizado . Havia no rosto do garoto uma cintilação
transpirada. - Foi daqui que eu vim ! - acrescentou Nelson .
Mr. Head ficou siderado . Percebeu que chegara o momento de exe­
cutar um gesto drástico . - Deixa-me mostrar-te uma coisa que ainda
não viste - disse, e levou-o até à esquina, onde havia uma boca de es­
goto . - Acocora-te - ordenou - e mete a cabeça aí dentro. - E se­
gurou a parte de trás do casaco do rapaz no momento em que Nelson se
baixou e enfiou a cabeça na sarjeta. Este retirou-a de imediato ao ouvir
um gorgolejar nas profundezas , sob o passeio . Em seguida, Mr. Head
explicou-lhe como funcionava o sistema de esgotos , de que modo se
estendia por todo o subsolo da cidade, como drenava todas as águas e
estava repleto de ratazanas e como um homem podia escorregar lá para
dentro e ver-se sugado ao longo de infindáveis túneis , escuros que nem
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 107

breu. A qualquer momento, qualquer homem naquela cidade podia ser


sugado para dentro do esgoto e nunca mais se ouvia falar dele. Des­
creveu tão bem aquele perigo que, durante alguns segundos , Nelson
ficou abalado. Associou as bocas de esgoto à entrada para o Inferno
e compreendeu pela primeira vez como eram compostas as camadas
inferiores do mundo. Afastou-se da berma do passeio.
Em seguida, disse: - Sim, mas a gente pode não ir pro pé destes
buracos - e o seu rosto adotou aquela expressão teimosa que tanto
exasperava o avô , - Foi daqui que eu vim ! - repetiu .
Mr. Head sentiu-se consternado , mas limitou-se a murmurar: -
Hás de fartar-te - e retomaram a caminhada. No final de mais dois
quarteirões , virou à esquerda, sentindo que estava a contornar a cú­
pula; e estava certo , porque meia hora depois passaram novamente
diante da estação ferroviária. A princípio , Nelson não reparou que es­
tava a ver as mesmas montras pela segunda vez , mas , quando passa­
ram diante daquela onde o cliente punha os pés nos suportes enquan­
to o negro lhe engraxava os sapatos , apercebeu-se de que estavam a
andar em círculo .
- Já aqui 'tivemos ! - bradou . - Acho que não fazes ideia donde
'tás !
- Desorientei-me um instantinho , mais nada - disse Mr. Head,
e meteram por uma rua diferente . Continuava a não fazer tenções
de deixar que a cúpula se afastasse demasiado e, ao cabo de dois
quarteirões naquela nova direção , virou à esquerda. Aquela rua con­
tinha habitações de madeira de dois e três andares . Qualquer pessoa
que passasse na rua podia ver o interior das divisões , e Mr. Head ,
lançando um olhar através de uma janela, viu uma mulher deitada
numa cama de ferro , a olhar para a rua, com um lençol a cobri-la.
A expressão entendida dela chocou-o . Um rapaz de ar feroz , monta­
do numa bicicleta, irrompeu pelo passeio , sem mais nem menos , e
ele teve de se desviar de um salto para não ser atropelado . - 'Tão­
-se nas tintas pros outros, querem lá saber se deitam alguém ao chão
- disse . - É melhor ficares à minha beira.
Caminharam por ruas assim durante algum tempo , até que ele se
lembrou de virar novamente . As casas diante das quais estavam ago­
ra a passar não tinham pintura, e a madeira de que eram feitas parecia
apodrecida; a rua que as separava era mais estreita. Nelson viu um
108 Flannery O ' Connor

homem de cor. Depois outro . Depois outro . - Nestas casas vivem


pretos - observou .
- Bom , então anda daí, vamos pra outro lado qualquer - disse
Mr. Head. - Não viemos até cá pra olhar pra pretos - e meteram
por outra rua, mas continuavam a ver negros por toda a parte . Nelson
começou a sentir pele de galinha, e puseram-se a caminhar em passo
mais rápido , de maneira a abandonarem aquele bairro o mais depressa
possível . Havia homens de cor de camisola interior, parados diante
das portas , e mulheres de cor a baloiçarem-se nos alpendres decré­
pitos . Garotos de cor brincavam nas sarjetas e suspendiam os seus
gestos para olhar para eles . Ao fim de pouco tempo , começaram a
passar diante de fiadas de lojas com clientes de cor lá dentro, mas não
se detiveram à entrada destas . Olhos negros em rostos negros fitavam­
-nos de todas as direções . - Sim - comentou Mr. Head - , foi aqui
que tu nasceste . . . aqui mesmo , à mistura com estes pretos todos .
Nelson franziu o cenho . - Acho que já nos perdemos por tua cau­
sa - atirou .
Mr. Head rodou a cabeça com um gesto brusco e procurou a cúpula
com o olhar. Não se via em lado nenhum. - Não nos perdemos nada
- ripostou . - Tu é que 'tás cansado de andar, só isso .
- Não 'tou cansado . Tenho fome - comentou Nelson. - Dá-me
uma bolacha.
Descobriram que tinham perdido o almoço .
- Tu é que trazias o saco - disse Nelson . - Se fosse eu , não o
tinha perdido assim com essa facilidade .
- Se quiseres ser tu a comandar esta viagem, eu vou-me embora e
deixo-te aqui sozinho - declarou Mr. Head, e teve a satisfação de ver
o r�paz ficar muito branco. No entanto, deu-se conta de que estavam
perdidos e que, a cada momento , se afastavam mais da estação. Ele
próprio sentia fome e começava a sentir sede, e, desde que haviam
entrado no bairro dos negros , ambos tinham começado a transpirar.
Nelson tinha os sapatos calçados , e não estava habituado a andar de sa­
patos nos pés. Os passeios de betão eram muito duros . Ambos queriam
encontrar um lugar onde se pudessem sentar, mas ali era impossível ,
e continuaram a andar em frente, enquanto o rapaz resmungava em
surdina: - Primeiro perdeste o saco do almoço , depois fizeste com
que a gente se perdesse - e Mr. Head recalcitrava de tempos a tem-
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 09

pos: - Se alguém tem gosto em ser deste paraíso da pretalhada, por


mim, tudo bem !
Naquele momento já o Sol estava bem avançado no céu . O odor
da comida ao lume chegou até eles . Os negros estavam todos à porta
das suas casas para os ver passar. - Porqué que não preguntas o ca­
minho a um destes pretos? - indagou Nelson . - Foste tu que fizeste
com que a gente se perdesse .
- Tu é que nasceste nesta terra - retorquiu Mr. Head. - Podes
perguntar a um deles , se te apetecer.
Nelson tinha medo dos homens de cor e não queria que as crian­
ças de cor fizessem troça dele . Mais adiante , viu uma mulher de cor
avantajada, encostada à ombreira de uma porta que dava para o pas­
seio . Tinha o cabelo eriçado, a erguer-se da cabeça uns bons dez cen­
tímetros a toda a volta, e apoiava-se nos pés descalços , castanhos ,
que adquiriam um tom cor-de-rosa dos lados . TraZia um vestido cor­
-de-rosa que lhe revelava a forma exata do corpo . No momento em
que eles chegaram diante dela, a mulher ergueu preguiçosamente
uma mão , levando-a à cabeça, e os dedos desapareceram-lhe no meio
do cabelo .
Nelson parou . Sentiu o fôlego sufocado pelos olhos escuros da
mulher. - Comé que se volta prà cidade? - perguntou , numa voz
que não parecia a dele .
Após uma pausa, ela respondeu: - Na cidade já você 'tá - num
tom de voz grave e cheio que levou Nelson a sentir que um repuxo
frio começara a jorrar sobre ele .
- Comé que se volta pro comboio? - perguntou ele na mesma
voz de cana rachada.
- Pode apanhar um carro elétrico - respondeu ela.
Ele percebeu que ela estava a fazer troça dele, mas estava dema­
siado paralisado para sequer franzir o sobrolho . Ali parado , absorvia
todos os pormenores da pessoa dela. Os olhos viajaram-lhe dos gros­
sos joelhos para a testa da mulher, depois percorreram um caminho
triangular desde o suor cintilante no pescoço , desceram para os seios
colossais, que cruzaram, e depois subiram pelo braço nu , até chega­
rem de novo ao ponto onde os dedos jaziam escondidos no cabelo .
De repente , desejou que ela se baixasse e lhe pegasse ao colo e o pu­
xasse contra ela, e depois desejou sentir na face o sopro da respiração
1 10 Flannery O ' Connor

dela. Desejou mergulhar o seu olhar no dela, cada vez mais fundo ,
enquanto ela o apertava cada vez mais nos braços . Nunca antes tivera
uma sensação assim. Sentia-se como se estivesse a rodopiar por um
buraco abaixo , um túnel negro como breu .
- Se andares mais um quarteirão, apanhas um carro elétrico ali
adiante pra te levar à estação dos comboios , amorzinho - explicou ela.
Nelson teria desfalecido aos pés dela se Mr. Head não o tivesse
afastado dali com um repelão . - Parece que não tens juízo nenhum
nessa cabeça! - resmungou o velho .
Precipitaram-se pela rua fora, e Nelson não olhou para a mulher
atrás de si . Com um gesto repentino , puxou o chapéu para baixo , so­
bre o rosto , que já lhe ardia de vergonha. O fantasma trocista que ele
vira na janela do comboio e todos os maus presságios que o tinham
assaltado na viagem tomaram a acometê-lo , e ele recordou que o ta­
lão da balança o avisara para ter cuidado com as mulheres morenas e
que o talão do avô dissera que ele era honesto e corajoso . Agarrou a
mão do velho , um sinal de dependência que raramente exibia.
Dirigiram-se para o fundo da rua, ao encontro dos carris do elétri­
co , por onde vinha a chegar um comprido carro elétrico amarelo, a
matraquear. Mr. Head nunca tinha andado de elétrico , e deixou passar
aquele . Nelson permaneceu em silêncio . De tempos a tempos , a boca
tremia-lhe ligeiramente , mas o avô , preocupado com os seus pro­
blemas , não lhe prestava atenção . Parados à esquina, nenhum deles
olhava para os negros que iam passando , entregues aos seus afazeres
·
como se fossem brancos , à parte o facto de a maioria deles se deter e
remirar Mr. Head e Nelson . Ocorreu a Mr. Head que , uma vez que o
carro elétrico andava sobre carris , podiam simplesmente seguir esses
carris . Deu a Nelson um ligeiro empurrão e explicou-lhe que iam
seguir pelos carris a pé até à estação ferroviária, e partiram os dois .
Pouco depois , para seu grande alívio , começaram novamente a ver
brancos , e Nelson sentou-se no passeio , encostado à parede de um
prédio . - Tenho de descansar um pedaço - disse . - Perdeste o
saco e fizeste com que a gente se perdesse . Agora podes esperar que
eu descanse um bocado .
- 'Tão aqui os carri s , na nossa frente - contrapôs Mr. Head. -
Basta que a gente não os perca de vista, e podias ter-te lembrado do
saco do almoço tão bem como eu . Foi aqui que tu nasceste. Esta é a tua
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 111

velha cidade natal. É a tua segunda viagem até aqui . Devias de saber
como é que te governas - e, acocorando-se, continuou neste tom, mas
o rapaz, soltando os pés ardentes dos sapatos , não respondeu.
- E tu ali parado , de boca aberta que nem um chim-pan-zé , en­
quanto uma preta te ensinava o caminho . Santo Deus ! - rematou
Mr. Head.
- Eu só disse que tinha nascido aqui , mais nada - justificou-se
o rapaz em voz trémula. - Nunca disse que ia gostar ou que não ia
gostar disto . Nunca disse que queria vir até cá. Só disse que nasci
aqui , e não tive voto na matéria. Quero ir pra casa. Eu nem queria vir
até cá, logo pra começar. Foi tudo uma grande ideia tua. Comé que
sabes que não 'tás a seguir os carri s na direção errada?
Isto também ocorrera a Mr. Head . - Esta gente toda é branca -
disse .
- Ainda não tínhamos passado por aqui - ripostou Nelson . Era
um bairro de prédios de tijolo que podiam ou não ser habitados . Al­
guns automóveis vazios encontravam-se estacionados ao longo da
berma do passeio , e via-se um ou outro transeunte . O calor do pavi­
mento passava através do fato de fazenda leve de Nelson . As pálpe­
bras começaram a descair-lhe , e, ao fim de alguns minutos , a cabeça
pendeu-lhe para diante . Contraiu os ombros uma ou duas vezes e, em
seguida, tombou sobre o flanco e ficou ali esparramado , mergulhando
num sono exausto .
Mr. Head observou-o em silêncio . Ele próprio estava muito can­
sado , mas não podiam dormir ambos ao mesmo tempo , e ele não
teria sido capaz de adormecer, fosse como fosse , porque não sabia
onde estava. Dentro de alguns minutos , Nelson iria acordar, revi­
gorado pelo sono e de nariz empinado , e começaria a queixar-se de
que ele perdera o saco e de que não sabia o caminho . Havias de ver
comé que elas mordem, se eu não ' tivesse aqui , pensou Mr. Head;
e foi então que outra ideia lhe ocorreu . Olhou para a figura espar­
ramada durante vários minutos ; por fim, pôs-se de pé . Justificou o
que ia fazer, dizendo a si mesmo que , por vezes , é necessário dar a
uma criança uma lição que ela nunca mais esquecerá, especialmente
quando a criança está constantemente a reafirmar o seu ponto de vis­
ta com novos comentários impertinentes . Dirigiu-se sem ruído para
a esquina, a cerca de cinco metros dali , e sentou-se na tampa de um
112 Flannery O ' Connor

caixote do lixo , na viela, donde podia espreitar para o exterior e ver


Nelson a acordar sozinho .
O rapaz dormitava de modo agitado, meio consciente de vagos ruí­
dos e formas negras que assomavam de um recanto sombrio da sua
mente, ao encontro da luz . O rosto contorcia-se-lhe durante o sono, e
ele encolhera as pernas , encostando os joelhos ao queixo . O Sol derra­
mava uma luz seca e mortiça sobre a rua estreita; tudo se assemelhava
exatamente ao que era. Ao fim de um certo tempo, Mr. Head, agachado
como um macaco velho sobre a tampa do caixote do lixo, decidiu que,
se Nelson não acordasse em breve, ele próprio faria um ruído , batendo
com o pé contra o caixote . Olhou para o seu relógio de pulso e viu que
eram duas em ponto. O comboio deles partia às seis , e a possibilida­
de de o perderem era demasiado horrível para ele conseguir sequer
encará-la. Bateu com o pé no caixote , golpeando-o com o tacão do
sapato, e um atroar cavo reverberou na viela.
Nelson ergueu-se precipitadamente , soltando um grito . Olhou pa­
ra o lugar onde o avô deveria estar e ficou pasmado . Pareceu rodo­
piar várias vezes sobre si mesmo e depois , erguendo os pés bem aci­
ma do chão e atirando a cabeça para trás , lançou-se pela rua abaixo
que nem um cavalinho bravio tomado de pânico . Mr. Head saltou do
caixote do lixo e desatou a correr atrás do garoto , mas este quase lhe
desaparecera da vista. Viu um clarão cinzento a eclipsar-se diagonal­
mente , um quarteirão mais adiante . Corria o mais depressa de que
era capaz , olhando para ambos os lados a cada cruzamento , mas não
o tornou a avistar. Foi então que , ao passar no terceiro cruzamento ,
já quase sem fôlego , viu mais adiante , a cerca de meio quarteirão de
distância, uma cena que o fez estacar de repente . Acocorou-se atrás
de um caixote de madeira cheio de lixo para observar e perceber o
que se estava a passar.
Nelson estava sentado no chão , com ambas as pernas estendidas , e
a seu lado jazia uma idosa, aos gritos . Viam-se artigos de mercearia
espalhados pelo passeio . Um grupo de mulheres já se reunira para
exigir justiça, e Mr. Head ouviu claramente a idosa caída no chão a
gritar: - Partiste-me o tornozelo , mas o teu paizinho vai pagar-me
o tratamento ! Até ao último tostão ! Polícia ! Polícia ! - Várias mu­
lheres repuxavam os ombros de Nelson , mas ele parecia demasiado
atordoado para se levantar.
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 13

Uma qualquer força obrigou Mr. Head a sair de trás do caixote


e a avançar, mas somente em passo miúdo . Nunca na sua vida fora
abordado por um agente da polícia. As mulheres agitavam-se em
torno de Nelson como se estivessem prestes a lançar-se subitamen­
te sobre ele para o esfrangalhar, e a idosa continuava a berrar que
tinha o tornozelo partido e a chamar a polícia. Mr. Head caminhava
tão devagar que parecia dar um passo atrás depois de cada passo
em frente , mas , quando estava a cerca de três metros , Nelson viu-o
e ergueu-se de um salto . Abraçando-o pelas ancas , ficou agarrado a
ele , a arquejar.
As mulheres voltaram-se todas para Mr. Head. A que se magoara
soergueu-se e gritou: - Ouça cá! Vai pagar as minhas contas do mé­
dico até ao último tostão por causa do que o seu cachopo fez_! Ele é
um delinquente juvenil ! Onde é que para a polícia? Alguém que tome
nota do nome e da morada deste homem !
Mr. Head estava a tentar soltar os dedos de Nelson da carne na
parte de trás das suas pernas . Baixara a cabeça, afundando o pescoço
no colarinho como uma tartaruga; tinha os olhos vidrados de medo
e de cautela.
- O seu cachopo partiu-me o tornozelo ! - berrou a idosa. - Po­
lícia !
Mr. Head pressentiu a aproximação do agente da polícia nas suas
costas . Olhou em frente , fitando as mulheres , que se haviam aglo­
merado , furiosas , qual muro intransponível , para lhe barrarem a fu­
ga. - Este aqui não é o meu cachopo - declarou . - Nunca o vi
na vida.
Sentiu os dedos de Nelson a soltarem-se-lhe da carne .
As mulheres recuaram, fitando-o com horror, como se sentissem
uma tal repugnância por um homem capaz de renegar a sua própria
imagem e semelhança que não suportassem a ideia de lhe tocar. Mr.
Head caminhou em frente , através de um hiato que elas libertaram
em silêncio , e deixou Nelson para trás . Diante de si via apenas um
túnel oco que outrora fora a rua.
O rapaz ficou parado na mesma posição , o pescoço pendido pa­
ra diante e as mãos caídas às ilhargas . Tinha o chapéu enterrado na
cabeça, de modo que este já não tinha vinco nenhum . A mulher ma­
goada pôs-se de pé e agitou o punho fechado na direção dele , e as
1 14 Flannery O 'Connor

outras lançaram-lhe olhares de comiseração , mas ele não reparou em


nenhuma delas . Não se via nenhum polícia nas redondezas .
Momentos depois , ele começou a mover-se mecanicamente , não
fazendo qualquer esforço para alcançar o avô , limitando-se a segui­
-lo a cerca de vinte passos . Caminharam desta maneira ao longo de
cinco quarteirões . Mr. Head tinha os ombros pendidos e o pescoço
inclinado para diante num tal ângulo que não era visível a partir de
trás . Tinha medo de virar a cabeça. Por fim, lançou um olhar fugaz
e esperançoso por cima do ombro . Vinte passos mais atrás , viu dois
olhinhos a cravarem-se-lhe nas costas como as pontas aceradas de
uma forquilha.
O rapaz não perdoava com facilidade , mas aquela era a primeira
vez que havia motivos para ele perdoar ao avô fosse o que fosse .
Mr. Head nunca antes se desacreditara daquela maneira. Após mais
dois quarteirões , este voltou-se e gritou por cima do ombro numa voz
estridente e desesperadamente alegre: - Vamos os dois a qualquer
lado beber uma Co ' Cola !
Nelson, com uma dignidade de que nunca antes dera mostras , vi­
rou-se e ficou parado , de costas para o avô .
Mr. Head começou a perceber até que ponto fora profunda a sua
negação . À medida que caminhavam, o rosto encheu-se-lhe de sulcos
e de cristas nuas . Nada via dos lugares por onde iam passando , mas
deu-se conta de que tinham perdido os carris do elétrico . A cúpula
não se avistava em lado nenhum, e a tarde progredia. Sabia que , se as
trevas os surpreendessem na cidade , seriam espancados e roubados .
Não esperava outra coisa para si próprio senão o flagelo da justiça
divina, mas não suportava pensar que os seus pecados iriam abater-se
sobre Nelson , e que , naquele preciso momento , estava a conduzir o
rapaz para a sua perdição .
Continuaram a caminhar, quarteirão após quarteirão, através de
um bairro infindável de pequenas casas de tijolo , até que Mr. Head
quase tombou ao tropeçar numa torneira que assomava do chão uns
quinze centímetros , junto à orla de um relvado . Não bebia água des­
de aquela manhã, bem cedo , mas achava que não merecia matar a
sede naquele momento . Depois pensou que Nelson devia ter sede e
que ambos poderiam beber e que isso os aproximaria. Acocorou-se e
inclinou a boca para junto da torneira e fez jorrar para a garganta um
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 15

caudal fresco de água. Em seguida, bradou naquela voz estridente e


desesperada: - Anda daí, bebe um poucachinho de água!
Desta vez, o garoto trespassou-o com o olhar durante quase sessenta
segundos . Mr. Head endireitou-se e continuou a caminhar como se ti­
vesse engolido veneno. Nelson, embora não tivesse bebido água desde
que bebera por um copo de papel , no comboio, contornou a torneira,
desdenhando matar a sede onde o avô bebera. Quando Mr. Head se
apercebeu disto, perdeu toda a esperança. À luz minguante da tarde ,
o rosto dele parecia escalavrado e votado ao abandono . Sentia o ódio
persistente do rapaz enquanto este caminhava em passo uniforme atrás
dele, e soube que (se, por qualquer milagre, escapassem ao assassínio
naquela cidade) as coisas iriam permanecer exatamente assim durante
o resto da sua vida. Soube que estava agora a penetrar num lugar negro
e estranho onde nada seria como antes, uma prolongada velhice sem
respeito e um final que seria bem-vindo por ser o final .
Quanto a Nelson, a mente dele petrificara em volta da traição do
avô , como se tentasse preservá-la intacta para poder apresentá-la no
Juízo Final . Caminhava sem olhar para um lado nem para o outro ,
mas , de vez em quando , a boca contorcia-se-lhe , e era então que ele
sentia, vinda de um qualquer lugar remoto dentro de si , uma forma
negra e misteriosa a assomar, de braços estendidos , como que pronta
a dissolver-lhe aquela visão petrificada num amplexo caloroso .
O Sol escondeu-se atrás de uma fileira de casas , e, quase sem da­
rem por isso , eles penetraram num bairro elegante e suburbano on­
de havia mansões recuadas em relação à rua, separadas desta por
relvados com repuxos para os pássaros tomarem banho . Ali , tudo
se encontrava absolutamente deserto . Ao longo de vários quartei­
rões , não se cruzaram sequer com um cão . As grandes casas brancas
assemelhavam-se a icebergues parcialmente submersos , vistos de
longe . Não havia passeios , somente faixas de rodagem para os carros ,
e estas serpenteavam uma e outra vez em círculos infindáveis e ridí­
culos . Nelson não fez menção de se aproximar de Mr. Head. O velho
sentia que , se visse uma boca de esgoto , se lançaria lá para dentro
e deixaria que o caudal o levasse; e imaginava o rapaz ali parado , a
observar com vago interesse enquanto ele desaparecia.
Um sonoro ladrido fê-lo estremecer e cair em si , e ele ergueu os
olhos para ver um gordo a aproximar-se com dois buldogues . Agitou
1 16 Flannery O ' Connor

os dois braços como um náufrago abandonado numa ilha deserta.


- Perdi-me ! - gritou . - Perdi-me e não consigo encontrar o cami­
nho , e eu e este rapaz temos de apanhar o comboio e eu não consigo
encontrar a estação . Oh, meu Deus , perdi-me ! Ah, ajude-me , santo
Deus , que eu 'tou perdido !
O homem, que era calvo e trazia umas calças de golfe, perguntou­
-lhe que comboio queria ele apanhar, e Mr. Head começou a tirar os
bilhetes do bolso , tremendo de forma tão violenta que mal os conse­
guia segurar. Nelson aproximara-se até ficar a cinco metros de distân­
cia e olhava-os , imóvel .
- Bom - disse o gordo , devolvendo-lhe os bilhetes - , não vai
ter tempo de regressar à cidade para apanhar este comboio a horas ,
mas pode apanhá-lo na estação suburbana. Fica a três quarteirões
daqui - e começou a explicar como é que se ia até lá.
Mr. Head permanecia de olhar parado , como se estivesse a regres­
sar aos poucos do reino dos mortos , e, quando o homem terminou a
explicação e se afastou com os cães a saltitarem-lhe junto aos cal­
canhares , virou-se para Nelson e disse-lhe , sem fôlego: - Vamos
voltar pra casa!
O garoto estava parado a uns três metros dele, de rosto exangue sob
o chapéu cinzento . Tinha os olhos frios , triunfantes . Não havia neles
luz , nem sentimento, nem interesse. Estava ali , apenas isso, uma pe­
quena silhueta, à espera. A casa não era coisa que lhe interessasse .
Mr. Head virou-se devagar. Sentia que sabia agora como seria o
tempo sem estações e como seria o calor sem luz e como seria o
homem sem salvação . Era-lhe indiferente se perdesse o comboio e ,
se não fosse aquilo que subitamente lhe chamou a atenção , como um
grito saído da penumbra que se adensava, talvez se tivesse até esque­
cido de que existia uma estação para onde se estava a dirigir.
Não caminhara sequer quinhentos metros pela rua fora quando viu ,
ao alcance da mão , a figura de estuque de um negro sentado , de costas
vergadas , em cima de um muro baixo de tijolos amarelos que formava
uma curva em volta de um amplo relvado . O negro era mais ou me­
nos do tamanho de Nelson e estava inclinado para diante num ângulo
instável, porque a massa que o prendia ao muro estalara. Tinha um
dos olhos completamente branco e segurava nas mãos uma fatia de
melancia castanha.
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 17

Mr. Head ficou a olhar para a estatueta em silêncio , até que Nelson
parou a pequena distância. E então , enquanto estavam os dois ali pa­
rados , Mr. Head soltou a meia-voz: - Um preto artificial !
Não se conseguia perceber se o negro artificial pretendia ser jovem
ou velho; tinha um ar demasiado desgraçado para ser uma ou outra
destas coisas . Pretendia exibir um ar feliz, porque tinha a boca arrepa­
nhada nos cantos , mas o olho lascado e o ângulo em que pendia, incli­
nado, davam-lhe, em vez disso, uma aparência desvairada de tristeza.
- Um preto artificial ! - repetiu Nelson , precisamente no mesmo
tom de Mr. Head .
Ficaram ali os dois de pescoço estendido quase no mesmo ângulo
e de ombros curvados quase exatamente da mesma maneira e com
as mãos a estremecer de forma idêntica dentro dos bolsos . Mr. Head
parecia uma criança vetusta, e Nelson assemelhava-se a um velho
em miniatura. Contemplaram o negro artificial como se estivessem
confrontados com um grande mistério , um monumento a uma vitória
alheia que os reunia na sua derrota comum. Ambos sentiam a estatue­
ta a dissipar as divergências entre ambos , qual um ato de misericór­
dia. Mr. Head nunca antes soubera qual o sabor da misericórdia, por­
que fora demasiado bondoso para a merecer, mas achava que agora
sabia. Olhou para Nelson e compreendeu que tinha de dizer qualquer
coisa ao garoto para lhe mostrar que ainda possuía uma grande sabe­
doria, e , na expressão com que o rapaz o fitou por sua vez , viu uma
ânsia dessa garantia. Os olhos de Nelson pareciam implorar-lhe que
explicasse de uma vez por todas o mistério da existência.
Mr. Head abriu os lábios para proferir uma declaração solene e
ouviu-se dizer: - Não têm pretos suficientes de carne e osso por
aqui . Tiveram de arranjar um preto artificial .
Ao cabo de alguns momentos , o rapaz assentiu com a cabeça, uma
estranha tremura em volta da boca, e disse: - Vamos pra casa antes
que a gente se perca outra vez.
O comboio entrou a deslizar na estação suburbana no preciso mo­
mento em que eles entravam no edifício , e eles subiram juntos para
a composição e , dez minutos antes da hora prevista para a chegada
ao entroncamento , dirigiram-se para a porta e ficaram ali , prontos a
saltar da carruagem se o comboio não parasse; mas o comboio parou ,
no instante em que a Lua, devolvida ao seu pleno esplendor, saltava
118 Flannery O ' Connor

de trás de uma nuvem e inundava a clareira com luz . Quando desce­


ram da composição, a artemísia estremecia suavemente com reflexos
prateados , e as escórias de carvão debaixo dos pés deles cintilavam
com uma luz negra e fresca. As copas das árvores , cercando o entron­
camento como os muros protetores de um jardim, eram mais escuras
do que o céu , que estava repleto de gigantescas nuvens brancas , ilu­
minadas como lanternas .
Mr. Head manteve-se muito quieto e sentiu o ato de misericórdia
a tocá-lo de novo , mas , desta vez, soube que não havia palavras no
mundo que o pudessem descrever. Compreendeu que este ato emer­
gia da angústia, que não é negada a nenhum homem e que é propor­
cionada às crianças de formas estranhas . Compreendeu que a angús­
tia era tudo o que um homem podia levar consigo para a morte , para
oferecer ao seu Criador, e sentiu-se subitamente abrasado de vergo­
nha por ter tão pouca angústia para levar consigo . Ficou aterrado , a
julgar os próprios atos com a meticulosidade de Deus , enquanto o
ato de misericórdia lhe cobria o orgulho como uma labareda e o con­
sumia. Nunca até então se achara um grande pecador, mas via agora
que a sua verdadeira depravação estivera oculta a seus olhos , para
evitar causar-lhe desespero . Compreendeu que fora perdoado por
pecados cometidos desde o começo dos tempos , quando concebera
no seu coração o pecado de Adão, até ao presente , quando negara o
pobre Nelson . Percebeu que nenhum pecado era demasiado mons­
truoso para que o pudesse reclamar como seu , e, como Deus ama em
proporção àquilo que perdoa, sentiu-se pronto naquele instante para
entrar no Paraíso .
Nelson , compondo a expressão do rosto debaixo da sombra da aba
do chapéu , observava-o com uma mescla de fadiga e desconfiança,
mas , no momento em que o comboio deslizou diante deles e desapa­
receu como uma serpente assustada no meio dos bosques , até mesmo
o rosto dele se iluminou , e ele soltou num resmungo: - Ainda bem
que fui até lá uma vez, mas nunca mais lá quero pôr os pés !
Um Círculo no Fogo

Por vezes , o derradeiro renque de árvores era uma muralha maci­


ça azul-cinzenta, um pouco mais escura do que o céu , mas naquela
tarde tinha uma cor quase negra e , por trás , o céu exibia uma to­
nalidade branca, lívida e chamejante . - Sabe aquela mulher que
teve aquele bebé quando ' tava metida naquele pulmão de aço? -
perguntou Mrs . Pritchard . Ela e a mãe da garota estavam por baixo
da janela onde a garota se encontrava debruçada . Mrs . Pritchard
estava encostada à chaminé , de braços cruzados sobre a prateleira
formada pela barriga, uma perna cruzada e a ponta do pé apontada
para o chão . Era uma mulher corpulenta , com um pequeno rosto
pontiagudo e olhos teimosos de furão . Mrs . Cope era o oposto ,
muito pequenina e esmerada, com um grande rosto redondo e olhos
negros que pareciam estar sempre a dilatar-se atrás dos óculos , co­
mo se ela estivesse constantemente a ficar estupefacta. Acocorada,
arrancava tufos de erva daninha dos canteiros que bordejavam a
casa . Ambas as mulheres traziam chapéus de abas largas que ou­
trora haviam sido idênticos , mas agora o de Mrs . Pritchard estava
desbotado e disforme , ao passo que o de Mrs . Cope continuava
hirto e verde-vivo .
- Li uma notícia sobre ela - disse esta.
- Era uma Pritchard que se casou com um Brookins , e por isso
é minha parente . . . minha prima em sétimo ou em oitavo grau pelo
casamento .
- Bom, bom - murmurou Mrs . Cope , e atirou um grande tufo de
junça para trás de si. Afadigava-se a arrancar as ervas daninhas e a
1 20 Flannery O ' Connor

junça como se fossem uma praga enviada diretamente pelo demónio


para lhe destruir a casa.
- Como ela era nossa parente , fomos ver o corpo - continuou
Mrs . Pritchard. - E também vimos o bebé .
Mrs . Cope não disse nada. Estava habituada àquelas histórias ca­
lamitosas ; dizia que a deixavam com os nervos em franja. Mrs . Prit­
chard era capaz de percorrer cinquenta quilómetros para gozar a sa­
tisfação de ver alguém a ser sepultado . Mrs . Cope mudava sempre de
assunto para um tema agradável , mas a garota notara que isto tinha o
condão de pôr Mrs . Pritchard de mau humor.
A garota achava que o céu inexpressivo parecia estar a comprimir-se
contra a muralha da fortaleza, tentando rompê-la. As árvores no extre­
mo oposto do campo mais próximo eram uma manta de retalhos de
verde-acinzentado e verde-amarelado. Mrs Cope tinha imenso medo
.

de incêndios nas suas florestas . Quando as noites eram ventosas , dizia


à garota: - Oh, meu Deus , oxalá não haja incêndios , hoje está tanto
vento - e a garota soltava um grunhido de trás do seu livro ou nem
sequer respondia, tantas eram as vezes que já tinha ouvido aquilo . Aos
serões, no verão, quando se sentavam no alpendre, Mrs . Cope dizia à
garota, que estava a ler muito depressa para aproveitar os últimos raios
de luz: - Levanta-te e olha para o crepúsculo, é magnífico . Devias
levantar-te e olhar para o crepúsculo - e a garota fazia uma careta
e não respondia ou lançava um olhar gélido por sobre o relvado e as
duas pastagens diante da casa, até à linha cinzento-azulada de árvores
semelhantes a sentinelas , e depois recomeçava a ler sem qualquer mu­
dança de expressão, murmurando às vezes , num impulso de maldade:
- Parece um incêndio. Acho melhor a mãe levantar-se e cheirar por
aí, pra ver se os bosques não 'tão a arder.
- Ela tinha o braço à volta dele, no caixão - continuou Mrs Prit­
.

chard, mas a voz dela foi abafada pelo som do trator, que o negro, Cul­
ver, estava a conduzir pelo caminho fora, vindo do celeiro. O reboque
vinha atrelado , e um outro negro estava sentado na caixa, a gingar,
com os pés a baloiçar a cerca de um palmo do chão . O negro que ia a
conduzir o trator rodou o volante e passou diante da cancela que dava
para o campo , à esquerda.
Mrs . Cope virou a cabeça e viu que ele não cruzara a cancela por­
que era demasiado preguiçoso para descer do trator e ir abri-la. Ia dar
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 121

a volta pelo caminho mais longo à custa dela. - Diga-lhe que pare e
que venha cá ! - gritou .
Mrs Pritchard desencostou-se a custo da chaminé e agitou o braço
.

num círculo feroz , mas ele fez de conta que não ouvia. Ela caminhou
em passo solene até à orla do relvado e gritou: - Anda cá, já te disse !
Ela quer falar contigo !
Ele desceu do trator e encaminhou-se para a chaminé , curvando
a cabeça e os ombros para diante a cada passo, para dar a aparência
de quem se apressa. Tinha a cabeça enterrada até ao cocuruto num
chapéu de fazenda branca, raiado com diferentes cambiantes de suor.
A aba, descaída, ocultava-lhe toda a parte de cima do rosto , excetuan­
do a orla inferior dos olhos avermelhados .
Mrs . Cope estava de joelhos , a cravar na terra a colher de jardinei­
ro: - Porque é que não passaste pela cancela, acolá? - perguntou ,
e ficou à espera, de olhos fechados , a boca repuxada e lisa, corno se
estivesse preparada para qualquer resposta ridícula.
- A gente tem de levantar a lâmina da segadeira, se formos por aí
- justificou-se ele e, com o olhar, perfurou um ponto mesmo à esquer-
da dela. Os negros de Mrs Cope eram tão daninhos e tão impessoais
.

corno a junça.
Os olhos dela, no momento em que os abriu , pareciam prestes a
dilatar-se sem cessar, até a virarem do avesso . - Então levanta-a -
ordenou, e apontou para o outro lado do caminho com a colher de
jardineiro .
Ele afastou-se .
- Eles não querem saber - comentou ela. - A responsabilidade
não é deles . Dou graças a Deus por estas coisas todas não me caírem
em cima de urna vez só . Destruíam-me .
- Pois , é verdade - gritou Mrs . Pritchard por cima do ruído do
trator. O negro abriu a cancela e ergueu a lâmina e transpôs a cerca
e desceu para o campo; o ruído diminuiu no momento em que o re­
boque desapareceu. - Não consigo perceber corno é que ela teve o
bebé ali metida - prosseguiu ela na sua voz normal .
Mrs . Cope estava curvada para diante , novamente a desenraizar
a junça com golpes encarniçados . - Ternos muito que agradecer a
Deus - comentou . - Todos os dias você devia rezar urna oração de
graças . Você faz isso?
1 22 Flannery O ' Connor

- Sim, m'nha senhora - disse Mrs . Pritchard. - Veja só , ela já


'tava há quatro meses ali metida quando ficou assim . Eu cá, se 'ti­
vesse numa coisa daquelas , deixava-me daquilo . . . como é que acha
que eles . . . ?
- Todos os dias rezo uma oração de graças - atalhou Mrs . Cope .
- Pense em tudo o que temos . Santo Deus - soltou , e suspirou - ,
temos tudo - e olhou em volta, para as suas pastagens fartas e para
os montes repletos de árvores , e depois abanou a cabeça como se
tudo aquilo fosse um fardo de que tentava desembaraçar-se .
Mrs . Pritchard remirou os bosques . - Eu cá só tenho quatro den­
tes com abcessos , mais nada - comentou .
- Bom, então dê graças por não ter cinco - ripostou Mrs . Cope ,
e atirou para trás de si um tufo de erva. - Podia vir aí um furacão e
destruir-nos a todos . Consigo sempre encontrar alguma coisa por que
agradecer a Deus .
Mrs . Pritchard pegou numa enxada que estava apoiada contra a
parede da casa e golpeou ao de leve uma erva daninha que brotara
entre dois tijolos da chaminé . - Você consegue , não duvido - disse ,
a voz um bocadinho mais nasalada do que habitualmente devido ao
desprezo .
- Ora essa, pense em todos aqueles pobres europeus - conti­
nuou Mrs . Cope - que foram metidos em vagões de gado , como se
fossem animais , e levados para a Sibéria. Meu Deus - rematou - ,
devíamos passar metade do nosso tempo de joelhos .
- Eu cá, se ' tivesse metida num pulmão de aço , sei bem que não
fazia certas coisas - declarou Mrs . Pritchard, a coçar o tornozelo nu
com a lâmina da enxada.
- Até mesmo essa pobre mulher tinha muito que agradecer a
Deus - disse Mrs . Cope .
- Podia agradecer por não 'tar morta.
- Sem dúvida - acudiu Mrs . Cope, e depois apontou a colher de
jardineiro para o alto , para Mrs . Pritchard, e acrescentou: - Tenho
a quinta mais bem cuidada do condado inteiro , e sabe porquê? Por­
que trabalho. Tive de mourejar para salvar esta propriedade e tive de
mourejar para a manter. - Sublinhou cada palavra com a colher de
jardineiro . - Não me deixo intrujar por ninguém e não ando sempre
à cata de sarilhos . Aceito as coisas como elas são .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 23

- Se alguma vez as coisas acontecessem todas ao mesmo tem­


po . . . - começou Mrs . Pritchard.
- Não vão acontecer todas ao mesmo tempo - cortou Mrs . Cope
em tom ríspido .
A garota podia avistar o ponto onde o caminho de terra batida en­
troncava na estrada principal . Viu uma carrinha de caixa aberta parar
junto à cancela e deixar sair três rapazes , que começaram a percorrer
o caminho de terra batida cor-de-rosa. Avançavam em fila indiana, o
do meio curvado para o lado , carregando na mão uma mala de via­
gem negra com a forma de um porco.
- Bom, se alguma vez esse dia chegasse - insistiu Mrs . Pritchard
- , a senhora não tinha outro remédio senão erguer as mãos ao céu .
Mrs . Cope nem sequer respondeu . Mrs . Pritchard cruzou os braços
e olhou para o fundo da estrada, como se pudesse facilmente ver
todos aqueles belos montes aplanados e reduzidos a pó . Viu os três
rapazes , que naquele momento já quase tinham alcançado o carreiro
diante da casa. - Olhe só acolá - disse . - Quem serão aqueles?
Mrs . Cope inclinou-se , apoiando-se com uma mão atrás de si , e
olhou . Os três rapazes vinham na direção delas , mas dir-se-ia que se
preparavam para continuar em frente , contornando o flanco da ca­
sa. O da mala de viagem seguia agora à frente . Finalmente , a cerca
de um metro e meio dela, estacou e pousou a mala. Os três rapazes
tinham uma aparência semelhante , à parte o facto de o de altura in­
termédia usar óculos de aros prateados e carregar a mala. Tinha um
olho ligeiramente vesgo , de modo que o seu olhar parecia vir de duas
direções ao mesmo tempo , como se cercasse as mulheres . Usava uma
camisola com um contratorpedeiro estampado , de cores desbotadas ,
mas tinha o peito tão cavado que o contratorpedeiro estava partido
ao meio e parecia prestes a afundar-se . Tinha o cabelo colado à testa
pelo suor. Parecia ter uns treze anos . Todos os três rapazes possuíam
olhares brancos e penetrantes . - Se calhar não se lembra de mim,
Mrs . Cope - disse ele .
- O teu rosto é-me familiar, sem dúvida - murmurou ela, exami­
nando-o . - Ora vamos lá a ver . . .
- O meu paizinho trabalhou aqui em tempos - disse ele , dando
uma achega.
- Boyd? - disse ela. - O teu pai era Mr. Boyd , e tu és o J. C .?
1 24 Flannery O ' Connor

- Nicles , eu sou o Powell , o segundo , só que cresci um pedaço


desde aí e o meu paizinho , entretanto , morreu . 'Tá morto .
- Morreu . Ora essa, palavra de honra - disse Mrs . Cope, como
se a morte fosse sempre uma coisa invulgar. - De que é que sofria
Mr. Boyd?
Um dos olhos de Powell parecia estar a descrever um círculo em
volta daquele lugar, examinando a casa e a cisterna branca por trás e
os galinheiros e as pastagens que se afastavam, ondulantes , de ambos
os lados , até alcançarem o primeiro renque de árvores dos bosques .
O outro olho fitava-a. - Morreu na Florda - declarou , e começou a
dar pontapés na mala de viagem.
- Ora essa, palavra de honra - murmurou ela. Ao cabo de alguns
segundos , disse: - E como é que vai a tua mãe?
- Casou-se outra vez . - Continuava a remirar o próprio pé , que
ia pontapeando a mala. Os outros dois rapazes fitavam Mrs . Cope
com ar impaciente .
- E onde é que vocês vivem agora? - perguntou ela.
- Em Atlanta - respondeu ele . - Sabe , numa daquelas urbani-
zações .
- Ah, estou a ver - disse ela. - Estou a ver. - Ao cabo de alguns
segundos , tomou a dizer o mesmo . Por fim, perguntou: - E quem são
estes outros rapazes? - e lançou-lhes um sorriso.
- Este é o Garfield Smith , e este é o W. T. Harper - respondeu
ele , acenando com a cabeça para trás , primeiro na direção do rapaz
mais corpulento , depois na direção do mais franzino .
- Como é que vai isso, rapazes? - saudou Mrs . Cope . - Esta é
Mrs . Pritchard. Mr. e Mrs . Pritchard trabalham aqui agora.
Eles ignoraram Mrs . Pritchard , que os remirou com olhos fixos ,
pequenos e brilhantes como contas . Pareciam estar os três na expec­
tativa, a aguardar, enquanto observavam Mrs . Cope .
- Bom, bom - disse ela, lançando um olhar à mala - , é simpá­
tico da tua parte parares aqui para me visitar. Acho que foi um gesto
muito bonito .
O olhar fixo de Powell parecia beliscá-la como um par de tenazes .
- Vim até cá ver comé que vai a senhora - disse em voz cavernosa.
- Escute cá - disse o rapaz mais pequeno - , desde que a gente
o conhece, ele não parou de falar desta quinta aqui . Disse que havia
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 25

cá tudo e mais alguma coisa. Disse que havia cá cavalos. Disse que
tinha passado os melhores tempos da vida dele aqui mesmo , nesta
quinta. Não para de falar disto aqui .
- Não cala a matraca um minuto com isto aqui - resmungou o
rapagão , pondo o braço diante do nariz , como que para abafar as suas
palavras .
- Sempre a falar nos cavalos que montava aqui - continuou o
mais pequeno - e disse que nos deixava montar eles também. Disse
que havia um chamado Gene .
Mrs . Cope tinha sempre receio de que alguém se magoasse na
quinta dela e lhe exigisse uma indemnização colossal . - Não estão
ferrados - disse com precipitação . - Havia um chamado Gene ,
mas já morreu , e receio bem não ser possível vocês montarem os ca­
valos , porque se podiam magoar. São perigosos - rematou , falando
muito depressa.
O rapaz mais alto sentou-se no chão com um ruído de asco e co­
meçou a soltar pedrinhas da sola do ténis com a ponta do dedo . O
pequenino dardejou olhares para aqui e para acolá, e Powell fixou-a
com os seus olhos e não disse nada.
Ao cabo de uns minutos , o rapazito disse: - Ouça, minha senho­
ra, sabe o que é que ele disse uma vez? Disse que , quando morresse ,
queria vir até aqui !
Por momentos , Mrs . Cope pareceu não compreender; depois co­
rou; em seguida, uma expressão bizarra de dor invadiu-lhe o rosto , no
momento em que se deu conta de que aqueles garotos tinham fome .
Olhavam-na fixamente porque tinham fome ! Quase sentiu o fôlego
a faltar-lhe diante deles , e depois perguntou-lhes muito depressa se
queriam alguma coisa para comer. Eles disseram que sim, mas as
suas expressões faciais , contidas e insatisfeitas , não se iluminaram.
Parecia que estavam habituados a ter fome e que o assunto não era
da conta dela.
A garota no andar de cima ficara com o rosto muito encarnado do
entusiasmo . Estava ajoelhada diante da janela, de tal modo que só os
olhos e a testa assomavam acima do parapeito . Mrs . Cope disse aos
rapazes que dessem a volta até ao lado oposto da casa, onde estavam
as cadeiras de jardim, e caminhou à frente , e Mrs . Pritchard seguiu-a.
A garota saiu do quarto de dormir da direita, atravessou o corredor e
1 26 Flannery O ' Connor

passou para o quarto de dormir da esquerda, e olhou cá para baixo ,


para o lado oposto da casa, onde havia três cadeiras de jardim bran­
cas e uma rede vermelha pendurada entre duas avelaneiras . Era uma
rapariga pálida e gorda de doze anos , com um estrabismo que a fazia
franzir as pálpebras e uma grande boca cheia de peças metálicas pra­
teadas . Ajoelhou-se diante da janela.
Os três rapazes contornaram a esquina da casa, e o maior atirou-se
para cima da rede e acendeu uma beata. O rapazito deixou-se cair
na erva, ao lado da mala negra, e apoiou a cabeça nesta, e Powell
sentou-se na borda de uma cadeira e pareceu querer abarcar todo
aquele lugar num olhar abrangente . A garota ouviu a mãe e Mrs . Prit­
chard a conferenciar em surdina na cozinha. Levantou-se e foi até ao
patamar e debruçou-se sobre a balaustrada.
As pernas de Mrs . Cope e as de Mrs . Pritchard estavam frente a
frente no vesubulo das traseiras . - Aqueles pobres meninos têm fo­
me - disse Mrs . Cope em voz mortiça.
- Viu aquela mala de viagem? - indagou Mrs . Pritchard. - E se
eles fazem tenções de passar a noite aqui consigo?
Mrs . Cope soltou um guincho abafado. - Não posso ter três rapazes
aqui em casa quando só cá estou eu e a Sally Virgínia - disse. - Es­
tou certa de que eles se irão embora depois de eu lhes dar de comer.
- Só sei que eles têm uma mala de viagem - insistiu Mrs . Pritchard.
A garota apressou-se a regressar à janela. O rapagão estava es­
tendido na rede , de pulsos cruzados debaixo da cabeça e a beata no
centro da boca. Cuspiu-a num arco no momento em que Mrs . Cope
contornou a casa, trazendo um prato de bolachas de água e sal . Ela
estacou de imediato , como se uma serpente se lhe tivesse atravessado
no caminho . - Ashfield ! - exclamou . - Por favor, apanha isso .
Tenho muito medo de incêndios .
- Gawfield ! - gritou o rapazito , indignado . - Gawfield !
O rapagão levantou-se sem uma palavra e caminhou em passo va­
garoso ao encontro da beata. Apanhou-a do chão e meteu-a no bolso
e ficou de costas para ela, a examinar um coração que tinha tatuado
no antebraço . Mrs . Pritchard acercou-se , segurando três Coca-Colas
pelos gargalos numa mão , e entregou uma garrafa a cada um deles .
- Lembro-me de tudo neste lugar - disse Powell , a olhar pelo
gargalo da sua garrafa abaixo .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 27

- Para onde é que vocês foram quando saíram daqui? - pergun­


tou Mrs . Cope, e pousou o prato de bolachas de água e sal no braço
da cadeira dele .
Ele olhou para o prato , mas não tirou nenhuma bolacha. Disse: -
Lembro-me que um se chamava Gene e outro se chamava George.
Fomos prà Florda e o meu paizinho , sabe , morreu , e depois fomos
pra casa da minha irmã e depois a minha mãe , sabe , casou-se outra
vez , e temos lá ' tado desde aí.
- Têm aqui bolachas de água e sal - disse Mrs . Cope, e sentou-
-se na cadeira defronte dele .
- Ele não gosta daquilo lá em Atlanta - disse o rapazito , sentan-
do-se e estendendo o braço para pegar numa bolacha com um ar in­
diferente . - Ele nunca gosta de ' tar em lado nenhum, a não ser neste
lugar aqui . Deixe-me contar-lhe comé que ele faz, m'nha senhora.
Nós 'tamos a jogar basebol lá num campo que serve pra se jogar
basebol na tal urbanização , 'tá a ver, e ele para de jogar e diz assim:
«Rais ma partam, havia lá um cavalo chamado Gene , e se eu o tivesse
aqui comigo rebentava com este cimento todo a montar ele , caraças !»
- Estou certa de que ele não usa palavreado desse, pois não, Powell?
- acudiu Mrs. Cope.
- Não , m'nha senhora - respondeu Powell . Tinha a cabeça com-
pletamente voltada de lado , como se estivesse à escuta dos cavalos
no campo .
- Não gosto destas bolachas de água e sal - disse o rapazito , e
tomou a pôr a sua no prato e levantou-se .
Mrs . Cope mexeu-se na cadeira. - Quer dizer que vocês moram
num daqueles bairros novos , muito bonitos - disse .
- A única maneira da gente encontrar o nosso prédio é pelo cheiro
- explicou o rapazito . - Têm quatro andares e são dez ao todo , uns
atrás dos outros . Vamos lá ver esses cavalos - propôs .
Powell voltou o seu olhar de tenaz para Mrs . Cope . - Pensámos
que podíamos passar a noite no seu celeiro - disse . - O meu tio
trouxe a gente até aqui na carrinha dele e toma a passar por aqui pra
nos apanhar amanhã de manhã.
Houve um momento em que ela nada disse , e a garota à janela
pensou: ela vai sair disparada daquela cadeira e bater em cheio contra
a árvore .
1 28 Flannery O 'Connor

- Bom, receio bem que isso seja impossível - disse ela, levantan­
do-se subitamente . - O celeiro está cheio de feno , e eu tenho medo
que haja um incêndio por causa dos vossos cigarros .
- A gente não fuma - disse ele .
- Mesmo assim, receio bem que vocês não possam lá passar a
noite - repetiu ela, como se estivesse a falar educadamente com um
gangster.
- Bom , atão podemos acampar na mata - disse o rapazito . -
A gente trouxemos os nossos cobertores , seja como for. É isso que
a gente tem naquela mala acolá. Vamos embora.
- Na mata! - exclamou ela. - Ah , não ! As matas estão muito
secas nesta época do ano , não posso ter pessoas a fumar nas minhas
matas . Vocês vão ter de acampar no campo , neste campo aqui , junto
da casa, onde não há árvores nenhumas .
- Onde ela pode ficar de olho em vocês - disse a garota a meia-
-voz .
- As matas dela - resmungou o rapagão , e desceu da rede .
- A gente dorme no campo - disse Powell , mas parecia não estar
a dirigir-se a ela em particular. - Esta tarde , vou mostrar a quinta
a eles . - Os outros dois estavam já a afastar-se , e ele pôs-se de pé
e lançou-se atrás deles , e as mulheres ficaram sentadas , com a mala
negra entre ambas .
- Nem um não , obrigado , nem nada - observou Mrs . Pritchard .
- Brincaram com a comida que lhes oferecemos , mais nada -
queixou-se Mrs . Cope em voz magoada.
Mrs . Pritchard sugeriu que eles talvez não gostassem de bebidas
sem álcool.
- Eles pareciam cheios de fome , essa é que é a verdade - disse
Mrs . Cope .
Por volta do crepúsculo , eles emergiram dos bosques , sujos e
transpirados , aproximaram-se do alpendre das traseiras e pediram
água. Não pediram comida, mas Mrs . Cope percebeu que eles que­
riam comer. - Só tenho galinha-da-índia fria - disse . - Querem
galinha-da-índia e umas sanduíches , rapazes?
- Eu cá é que não comia um bicho careca como uma galinha-da-
-índia - atirou o rapazito . - Era capaz de comer frango ou peru ,
mas galinha-da-índia é que nem pensar.
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 29

- Nem um cão comia um bicho desses - comentou o rapagão .


Despira a camisa e entalara-a na parte de trás das calças , que nem
uma cauda. Mrs . Cope evitou cuidadosamente olhar para ele . O rapa­
zito tinha um corte no braço .
- Vocês não andaram a montar os cavalos , depois de eu vos ter
pedido que não montassem, pois não? - perguntou ela, desconfiada,
e eles responderam todos: - Não , m'nha senhora! - em uníssono ,
em vozes sonoras e entusiásticas , como um coro de ámenes numa
igreja rural .
Ela entrou na casa e preparou-lhes sanduíches e , enquanto o fa­
zia, manteve uma conversa com eles a partir do interior da cozinha,
perguntando-lhes qual a profissão dos pais deles e quantos irmãos e
irmãs tinham e em que escola andavam. Eles respondiam com frases
curtas e explosivas , dando empurrões nos ombros uns dos outros e
curvando-se em acessos de riso , como se as perguntas tivessem signi­
ficados que ela desconhecia. - E lá na vossa escola têm professores
ou professoras? - perguntou ela.
- Alguns professores , algumas professoras e outros que não dá
pra perceber - bradou o rapagão .
- E a tua mãe trabalha, Powell? - perguntou ela muito depressa.
- Ela preguntou-te se a tua mãe trabalha, Powell ! - berrou o
rapazito . - Ele 'tá com a cabeça desarranjada por causa dos cavalos
que 'teve a ver - explicou. - A mãe dele trabalha numa fábrica e
deixa-o a tomar conta dos outros , só que ele não lhes liga assim mui­
to . Deixe-me contar-lhe, m'nha senhora, uma vez ele fechou o irmão
mais pequeno dentro duma caixa e largou fogo à caixa.
- Tenho a certeza de que o Powell não era capaz de fazer uma
coisa dessas - disse ela, saindo de casa com um prato de sanduí­
ches , que pousou no degrau . Eles esvaziaram o prato de imediato , e
ela pegou-lhe e ficou de pé a segurá-lo , a olhar para o Sol que descia
diante deles , quase no alto do renque de árvores . Estava inchado e
da cor das labaredas , e pendia numa rede de nuvens estraçalhadas ,
como se a qualquer momento fosse rompê-la com a sua chama e
tombar no meio da floresta. Da janela do primeiro andar, a garota
viu-a estremecer, percorrida por um calafrio , e apertar os braços
em volta do tronco . - Temos tanta coisa por que agradecer a Deus
- disse subitamente num tom lúgubre e maravilhado . - Rapazes ,
1 30 Flannery O ' Connor

agradecem a Deus todas as noites tudo o que Ele fez por vocês?
Agradecem-Lhe por tudo?
Isto fê-los calarem-se de imediato . Mordiam as sanduíches como
se tivessem perdido todo o gosto pela comida.
- Então, agradecem? - insistiu ela.
Eles mantinham-se tão silenciosos como ladrões no seu esconderi­
jo. Mastigavam sem um som.
- Bom, eu sei que agradeço - disse ela por fim, e virou costas e
tomou a entrar em casa, e a garota viu-os deixar descair os ombros .
O rapagão estendeu as pernas , como se estivesse a libertar-se de uma
armadilha. O Sol ardia tão depressa que parecia estar a tentar pegar
fogo a tudo quanto a vista alcançava. A cisterna branca adquiriu um
vidrado cor-de-rosa, e a erva exibia um verde pouco natural , como
se estivesse a converter-se em vidro . A garota esticou a cabeça subi­
tamente para fora da janela e disse: - Ugggghhrhh - em voz bem
alta, entortando os olhos e deitando a língua de fora o mais possível ,
como se fosse vomitar.
O rapagão olhou para o alto e fitou-a. - Santo Deus - resmungou
- , outra fêmea.
Ela recuou , afastando-se da janela, e ficou de pé , de costas contra
a parede , a pestanejar ferozmente como se lhe tivessem dado uma
bofetada e não pudesse ver quem tinha sido . Assim que eles abando­
naram os degraus , ela desceu para a cozinha, onde Mrs . Cope estava
a lavar a loiça. - Se eu deitasse a mão àquele rapagão , dava-lhe uma
tareia que ele nem sabia de que terra era - declarou .
- Não te metas com aqueles rapazes - avisou Mrs . Cope , vol­
tando-se bruscamente para ela. - As senhoras não dão tareias em
ninguém. Não vás para junto deles . Eles já cá não estão amanhã de
manhã.
Na manhã seguinte , porém, eles ainda ali estavam .
Quando ela saiu para o alpendre , depois do pequeno-almoço, viu­
-os parados em volta da porta das traseiras , a dar pontapés nos de­
graus . Estavam a sentir o cheiro do toucinho fumado que ela comera
ao pequeno-almoço . - Ora essa, rapazes ! - exclamou ela. - Jul­
guei que vocês iam ter com o teu tio . - Eles tinham a mesma ex­
pressão de fome endurecida que a pungira na véspera, mas hoje ela
sentia-se ligeiramente provocada.
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 131

O rapagão voltou-lhe as costas de imediato, e o mais pequeno


agachou-se e começou a fazer riscos na areia. - Mas acabámos por
não ir - disse Powell .
O rapagão virou a cabeça somente o bastante para entrever uma
pequena parcela da dona da casa e disse: - Não ' tamos a estragar
nada do que é seu .
Não pôde aperceber-se do modo como os olhos dela se dilataram,
mas pôde reparar no silêncio significativo. Ao cabo de alguns momen­
tos , ela disse em voz alterada: - Querem tomar o pequeno-almoço,
rapazes?
- A gente tem comida que chegue da nossa - disse o rapagão . -
Não queremos nada do que é seu .
Ela mantinha os olhos fixos em Powell . O rosto magro e branco
dele parecia confrontá-la, sem, no entanto , a chegar a ver. - Vocês
sabem que tenho muito gosto em receber-vos , rapazes - disse ela
- , mas espero que se portem como deve ser. Espero que se compor­
tem como cavalheiros .
Eles ficaram ali parados , cada qual a olhar numa direção diferente ,
como se estivessem à espera de que ela se fosse embora. - Afinal
de contas - acrescentou ela em voz subitamente estridente - , esta
quinta é minha.
O rapagão emitiu um ruído ambíguo , e eles voltaram costas e
afastaram-se na direção do celeiro , deixando-a ali com expressão
chocada, como se lhe tivessem apontado um holofote a meio da noite .
Pouco depois , Mrs . Pritchard acercou-se e ficou à porta da cozinha,
com a face contra o rebordo desta. - Já deve de saber que eles anda­
ram a montar os cavalos durante a tarde inteira de ontem - disse . -
Roubaram um freio da casa dos arreios e montaram em pelo , porque
o Hollis viu-os . Correu com eles do celeiro às nove da noite de ontem
e depois correu com eles da leitaria esta manhã, e eles tinham a boca
toda besuntada de leite, como se tivessem 'tado a beber das bilhas .
- Não posso permitir isto - disse Mrs . Cope , e parou diante do
lava-loiça, com os dois punhos fechados junto aos flancos . - Não
posso permitir isto - e a sua expressão era a mesma de quando ar­
rancava os tufos de junça.
- Não há nada que a senhora possa fazer - comentou Mrs. Prit­
chard. - 'Tou mesmo a ver que eles vão andar por aqui uma semana,
1 32 Flannery O ' Connor

mais ou menos , até as aulas começarem. Apeteceu-lhes umas férias no


campo, e não há nada que você possa fazer, a não ser cruzar os braços .
- Eu não cruzo o s braços - replicou Mrs . Cope . - Diga a Mr.
Pritchard que meta os cavalos nas baias .
- Ele já fez isso . Um rapaz de treze anos tem a mesma maldade
dum homem do dobro da idade . Uma pessoa sabe· lá o que ele se vai
lembrar de fazer. Ninguém pode adivinhar qual vai ser a próxima ju­
diaria. Esta manhã, o Hollis viu-os atrás do cercado do toiro , e aquele
grandalhão perguntou-lhe se não havia um lugar onde eles pudessem
tomar banho , e o Hollis disse-lhe que não , que não havia, e que a
senhora não queria rapazolas a deitar beatas nas suas matas , e ele res­
pondeu: «Ela não é dona das matas» , e o Hollis ripostou: «Ah , isso é
que é» , e aquele pequenitates acudiu: «Homessa, Deus é que é dono
destas matas , e também é dono dela» , e aquele dos óculos ajuntou:
«Se calhar ela também é dona do céu por cima desta quinta, não?» , e
o mais pequenito disse: « É dona do céu , e nenhum avião pode passar
aqui por cima sem ela dizer que sim» , e então o grandalhão disse:
«Nunca vi uma casa com tantas mulheres lá dentro como esta, raios
partam, comé que você aguenta isto?» , e o Hollis disse que não 'tava
pra aturar mais comentários insolentes deles , e virou costas e veio-se
embora sem dar resposta nenhuma.
- Vou até acolá dizer àqueles rapazes que podem apanhar boleia
daqui para fora na carrinha do leite - disse Mrs . Cope, e saiu pela
porta das traseiras , deixando Mrs . Pritchard e a garota juntas na co­
zinha.
- Escuta - disse a garota. - Eu cá tratava deles num abrir e
fechar de olhos .
- Ah, sim? - murmurou Mrs . Pritchard, lançando-lhe um longo
olhar de soslaio . - E comé que tratavas deles?
A garota uniu as duas mãos , enclavinhou-as e contorceu o rosto
num esgar, como se estivesse a estrangular alguém.
- Eles é que tratavam de ti - retorquiu Mrs . Pritchard com sa­
tisfação .
A garota retirou-se para a janela do primeiro andar, para não atra­
palhar na cozinha, e pôs-se a olhar para o ponto onde a mãe estava
a afastar-se dos três rapazes , que se encontravam agachados debaixo
da cisterna, a comerem qualquer coisa de uma caixa de bolachas .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 133

Ouviu-a cruzar a porta da cozinha e dizer: - Eles dizem que se vão


embora na carrinha do leite , e não admira que não tenham fome . . .
têm aquela mala meio cheia de comida.
- O mais provável é terem-na roubado toda - comentou Mrs .
Pritchard.
Quando a carrinha do leite chegou, os três rapazes eclipsaram-se da
vista, mas , assim que a carrinha partiu sem eles , os três rostos apare­
ceram, a espreitar pela abertura no alto do estábulo dos vitelos . - Já
se viu maior descaramento? - disse Mrs . Cope, parada diante de uma
das janelas do primeiro andar, de mãos nas ancas . - Não é que eu não
goste de os ter aqui . . . são as maneiras deles .
- A mãe nunca gosta das maneiras de ninguém - disse a garota.
- Eu vou lá dizer-lhes que têm cinco minutos pra se porem a andar.
- Não te podes aproximar daqueles rapazes , ouviste bem? - avi-
sou Mrs . Cope .
- Porquê? - perguntou a garota.
- Eu vou ter com eles , vou pôr os pontos nos ii - declarou Mrs .
Cope .
A garota postou-se à janela e , ao cabo de poucos minutos , viu o
chapéu verde e hirto a refletir o lampejo do sol , no momento em
que a mãe dela atravessou o caminho ao encontro do estábulo dos
vitelos . Os três rostos desapareceram imediatamente da abertura, e,
ao cabo de uns instantes , o rapagão cruzou o terreiro em passo ve­
loz , seguido , decorridos escassos segundos , pelos outros dois . Mrs .
Pritchard saiu de casa, e as duas mulheres encaminharam-se para a
mancha de arvoredo onde os rapazes tinham desaparecido . Os dois
chapéus de abas largas desapareceram então no bosque , e os três
rapazes emergiram pelo lado esquerdo da mata e cruzaram o campo
sem pressa e embrenharam-se noutra mancha de arvoredo . Quando
Mrs . Cope e Mrs . Pritchard chegaram ao campo , este encontrava-se
deserto , e não lhes restou outra alternativa senão voltarem nova­
mente para casa.
Mrs . Cope não regressara havia muito tempo quando Mrs . Prit­
chard veio a correr em direção à casa, a gritar qualquer coisa. - Eles
soltaram o toiro ! - berrou . - Soltaram o toiro ! - E, poucos segun­
dos depois , o próprio toiro surgiu atrás dela, a furta-passo , negro e
pachorrento , com quatro gansos a sibilarem-lhe na esteira. Ele não se
1 34 Flannery O ' Connor

enfurecia, desde que não o espicaçassem, e Mr. Pritchard e os dois


negros levaram meia hora a reconduzi-lo ao seu cercado . Enquanto
os homens estavam ocupados com esta tarefa, os rapazes verteram o
óleo do motor dos três tratores e tornaram a desaparecer nos bosques .
Duas veias azuis tinham surgido , tumefactas , de um e de outro
lado da fronte de Mrs . Cope , e Mrs . Pritchard observou-as com satis­
fação . - É como eu já lhe disse - comentou - , a senhora não pode
fazer nada de nada.
Mrs . Cope comeu o jantar à pressa, sem sequer se dar conta de que
tinha na cabeça o chapéu de abas largas . Sempre que ouvia um ruído ,
endireitava-se bruscamente na cadeira. Mrs . Pritchard entrou ime­
diatamente após o jantar e disse-lhe: - Bom, quer saber onde é que
eles ' tão agora? - e sorriu com a satisfação de quem vê premiada a
sua omnisciência.
- Quero saber já - disse Mrs . Cope , pondo-se muito direita, qua­
se em sentido , como um militar na parada.
- 'Tão lá em baixo , na estrada, a atirar pedras à sua caixa do
correio - informou Mrs . Pritchard , encostando-se confortavelmente
à ombreira da porta. - Já quase que a deitaram abaixo do suporte .
- Entre no carro - ordenou Mrs . Cope .
A garota entrou também, e as três seguiram pelo caminho fora, até
à cancela. Os rapazes estavam sentados no talude do outro lado da
estrada, a atirar pedras sobre a faixa de rodagem, fazendo pontaria à
caixa do correio . Mrs . Cope parou o carro quase diante deles e olhou
para o alto , pondo a cabeça fora da janela. Os três fitaram-na como
se nunca a tivessem visto antes , o rapagão com um ar carrancudo e
olhar fuzilante , o mais pequeno de olhos faiscantes e sem um sorriso ,
e Powell com o seu olhar vidrado e divergente a pairar, inexpressivo ,
acima do contratorpedeiro mutilado da camisola.
- Powell - disse ela - , parece-me bem que a tua mãe se havia
de envergonhar de ti - e, calando-se, esperou que estas palavras
fizessem efeito . O rosto dele pareceu contorcer-se ligeiramente, mas
ele continuou a olhar através dela, sem fitar nenhum ponto em par­
ticular.
- Pois bem, já aturei isto até onde podia - disse ela. - Tentei
ser simpática para vocês , rapazes . Não fui simpática para vocês , ra­
pazes?
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 35

Eles pareciam três estátuas , e apenas destoou o facto de o maior,


mal abrindo a boca, ter dito: - Nós nem 'tamos do seu lado da es­
trada, m'nha senhora.
- A senhora não pode fazer absolutamente nada - sibilou Mrs .
Pritchard sonoramente . A garota estava sentada no banco traseiro ,
junto a um dos lados . Tinha no rosto uma expressão furiosa e ultra­
jada, mas manteve o rosto afastado da janela, para eles não a conse­
guirem ver.
Mrs. Cope falou devagar, sublinhando cada palavra: - Acho que
tenho sido muito simpática para vocês , rapazes . Dei-vos de comer duas
vezes . Agora, vou até à povoação, e , se vocês ainda aqui estiverem
quando eu voltar, mando chamar o xerife - e, com isto, arrancou . A
garota, voltando-se depressa para poder ver pelo vidro traseiro, ob­
servou que eles não se tinham mexido; nem sequer tinham voltado as
cabeças .
- Agora, a senhora enfureceu-os - disse Mrs . Pritchard - , e só
Deus sabe o que eles vão fazer.
- Quando voltarmos , já lá não estão - disse Mrs . Cope .
Mrs . Pritchard não suportava um anticlímax . Precisava do travo
do sangue de tempos a tempos para manter o seu equilíbrio . - Em
tempos , conheci um homem que a mulher foi envenenada por um ra­
pazito que ela tinha adotado por ter tão bom coração - disse . Quan­
do regressaram da povoação , os rapazes não estavam no talude , e ela
comentou: - Preferia vê-los do que não os ver. Quando os vemos ,
sabemos o que é que eles andam a fazer.
- Ridículo - resmungou Mrs . Cope. - Eu preguei-lhes um sus­
to e eles foram-se embora, e agora podemos esquecê-los .
- Eu cá é que não os vou esquecer - disse Mrs . Pritchard. -
Não me admirava nada que eles tivessem uma arma escondida na­
quela mala.
Mrs . Cope orgulhava-se de saber lidar com o género de mentali­
dade que Mrs . Pritchard possuía. Quando Mrs . Pritchard via indícios
e maus presságios , ela mantinha a calma e demonstrava tratar-se de
produtos da imaginação , mas , naquela tarde , estava muito enervada,
e replicou: - Ouça lá, acho que já chega de disparates . Aqueles ra­
pazes foram-se embora e está o caso arrumado .
- Bom, é o que veremos - declarou Mrs . Pritchard.
136 Flannery O ' Connor

Tudo se manteve calmo durante o resto da tarde, mas , à hora da


ceia, Mrs . Pritchard veio até à casa para dizer que ouvira uma risada
estridente e maldosa a elevar-se das moitas , junto à pocilga. Era um
riso maléfico , cheio de perversidade calculada, e ela ouvira-o soar
três vezes , com toda a nitidez .
- Eu cá não ouvi nada - disse Mrs . Cope .
- 'Tou à espera que eles ataquem logo depois de escurecer -
avisou Mrs . Pritchard .
Nessa noite , Mrs . Cope e a garota sentaram-se no alpendre até qua­
se às dez da noite , e nada aconteceu . Os únicos sons provinham das
relas e de um noitibó que piava cada vez mais depressa do mesmo
ponto das trevas . - Eles foram-se embora - disse Mrs . Cope - ,
os pobrezinhos - e começou a dizer à garota que elas tinham mui­
to que agradecer a Deus , porque podiam ter sido obrigadas a viver
elas próprias numa urbanização , ou podiam ter nascido negras , ou
podiam estar metidas em pulmões de aço , ou podiam ser europeias ,
metidas em vagões de gado , que nem animais, e começou a desfiar
uma litania das suas graças divinas , numa voz compungida, que a
garota, apurando o ouvido para prestar atenção a um súbito guincho
na escuridão , não ouviu .
Na manhã seguinte , também não havia sinal deles . O renque de
árvores semelhante a uma fortaleza era de um azul pétreo de granito,
o vento levantara-se durante a noite e o Sol nascera em tom de ouro­
-pálido . A estação estava a mudar. Mesmo uma ligeira mudança no
estado do tempo enchia Mrs . Cope de gratidão , mas , quando as es­
tações mudavam, ela parecia quase assustada por causa da boa sorte
que lhe permitira escapar ao que a perseguia, fosse lá o que fosse .
Tal como por vezes fazia quando uma coisa terminava e outra estava
prestes a começar, ela voltou a sua atenção para a garota, que vestira
umas jardineiras por cima do vestido e enterrara na cabeça um velho
chapéu de feltro de homem, puxando-lhe a aba para baixo o mais
possível , e estava a armar-se com um par de pistolas , enfiando-as
num cinturão enfeitado que prendera à cintura. O chapéu estava-lhe
muito justo e parecia estar a espremer-lhe a vermelhidão para o rosto .
Descia-lhe quase até à parte de cima dos óculos . Mrs . Cope remirou­
-a com um ar trágico . - Porque é que tens de parecer uma idiota?
- perguntou . - Imagina que apareciam visitas . Quando é que vais
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 37

crescer? O que vai ser de ti? Olho para ti e tenho vontade de chorar !
À s vezes , pareces filha de Mrs Pritchard !
.

- Deixe-me em paz � retorquiu a garota numa voz estridente e


irritada. - Deixe-me em paz . Deixe-me em paz, sim? Eu não sou a
mãe - e saiu para os bosques como se estivesse a perseguir um ini­
migo , de cabeça projetada para diante e cada uma das mãos fincadas
numa pistola.
Mrs Pritchard apareceu de mau humor, porque nada tinha de ca­
.

lamitoso para anunciar. - Hoje, ' tou que não posso da boca - co­
mentou , agarrando-se ao pouco que lhe restava. - São estes meus
dentes . Cada qual me parece um furúnculo cheio de pus .

A garota lançou-se através dos bosques , fazendo as folhas caídas


ressoar sob os pés com um crepitar de mau agoiro . O Sol subira um
pouco no céu e era somente um buraco branco , qual uma abertura
por onde o vento se escapava, num céu ligeiramente mais escuro do
que o astro , e as copas das árvores eram negras , em contraste com o
clarão. - Vou apanhar-vos - disse ela. - Vou apanhar-vos um por
um e vou dar-vos uma coça que ficam todos negros . Todos em fila.
TODOS EM FILA ! - ordenou , e agitou uma das pistolas na direção
de um aglomerado de pinheiros de tronco despido , quatro vezes mais
altos do que ela, quando passou junto destas árvores . Continuou a
caminhar, murmurando e soltando resmungos em voz baixa e fus­
tigando esporadicamente com uma das pistolas um ramo que se lhe
atravessava no caminho . De tempos a tempos , detinha-se para soltar
um galho de silvas que se lhe prendia à saia, e dizia: - Deixa-me
em paz , já te disse . Deixa-me em paz - e aplicava uma pancada no
galho com a pistola e prosseguia em passo furtivo .
Acabou por se sentar num cepo para descansar, mas apoiou ambos
os pés cuidadosa e firmemente no chão . Ergueu-os e tomou a pousá­
-los várias vezes , torcendo-os ferozmente para os enterrar na poeira
como se estivesse a esborrachar qualquer coisa debaixo dos calca­
nhares . De repente, ouviu uma risada.
Endireitou-se, percorrida por um arrepio . A risada tomou a soar.
Ouviu o ruído de água a chapinhar e pôs-se de pé , sem saber ao cer­
to para que lado fugir. Não estava longe do ponto onde terminava
aquela mata e começava a pastagem nas traseiras da casa. Avançou
138 Flannery O ' Connor

com cautela na direção da pastagem, tendo o cuidado de não fazer


barulho , e, ao chegar subitamente à orla do prado , viu os três rapazes ,
a uns cinco metros dela, a tomarem banho no bebedouro das vacas .
Tinham empilhado as roupas contra a mala de viagem negra, fora
do alcance da água que escorria sobre o bordo do tanque. O rapagão
estava de pé , e o mais pequeno tentava trepar-lhe para cima dos om­
bros . Powell , sentado , olhava em frente através dos óculos , que esta­
vam salpicados de água. Não prestava atenção nenhuma aos outros
dois . Vistas através dos óculos molhados , as árvores deviam parecer
quedas-d'água verdes . A garota manteve-se parcialmente oculta atrás
de um tronco de pinheiro , a bochecha comprimida contra a casca.
- Quem me dera viver aqui ! - gritou o rapazito , equilibrando-se ,
com os joelhos fincados em volta da cabeça do grandalhão .
- Eu cá é que não queria, raios partam - arquejou o rapagão , e
deu um salto para desalojar o outro .
Powell permanecia sentado sem se mexer, como se não soubesse
que os outros dois estavam atrás dele , e olhava em frente como um
fantasma que se tivesse soerguido de repente no caixão . - Se esta
quinta já não 'tivesse aqui - disse - , nunca mais tínhamos de pen­
sar nela.
- Escuta - disse o rapagão , sentando-se serenamente na água,
com o mais pequeno ainda agarrado aos ombros - , esta quinta não
pertence a ninguém.
- É nossa - disse o rapazito .
A garota escondida atrás da árvore não se mexeu .
Powell saltou para fora do bebedouro e desatou a correr. Correu
em volta da orla do campo , como se uma qualquer criatura o esti­
vesse a perseguir, e, quando passou novamente junto do tanque , os
outros dois ergueram-se de um salto e desataram a correr com ele ,
o sol a cintilar-lhes nos corpos compridos e molhados . O mais alto
corria mais depressa, e seguia à cabeça do grupo . Deram duas voltas
ao campo a toda a velocidade e , por fim, deixaram-se cair junto às
roupas e ficaram ali estendidos , com as costelas a subir e a descer. Ao
fim de um certo tempo , o rapagão perguntou em voz cavernosa: -
Sabem o que é que eu fazia com esta quinta, se pudesse?
- Não , o quê? - disse o rapazito , e soergueu-se para o ouvir com
toda a atenção .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 39

- Construía aqui um parque de estacionamento enorme , ou coisa


do género - resmungou ele .
Começaram a vestir-se . O sol criava duas manchas brancas nos
óculos de Powell e ocultava-lhe os olhos . - Já sei o que vamos fazer
- disse. Tirou uma coisa pequena do bolso e mostrou-a aos outros .
Durante quase um minuto , ficaram sentados , a olhar para o que ele
tinha na mão . Depois , sem mais palavras , Powell pegou na mala e
eles puseram-se de pé e romperam na direção da garota e entraram no
bosque a menos de três metros do lugar onde ela estava parada, agora
um bocadinho afastada da árvore , com a marca da casca gravada a
vermelho e branco na bochecha.
Ela ficou a vê-los com expressão atordoada no momento em que
eles pararam e reuniram todos os fósforos que os três possuíam e co­
meçaram a pegar fogo ao mato . Desataram a soltar gritos e brados e a
bater na boca com as mãos abertas , e , ao cabo de escassos segundos ,
surgiu uma estreita linha de fogo a alargar-se entre ela e eles . Diante
dos olhos dela, o lume elevou-se do mato rasteiro , a lançar-se para as
alturas e a mordiscar os ramos mais baixos das árvores . O vento ar­
rastava farrapos de fogo para mais alto , e os rapazes desapareceram,
soltando guinchos , atrás das labaredas .
Ela virou-se e tentou correr através do campo , mas tinha as pernas
demasiado pesadas e ficou ali parada, sentindo-se presa ao chão por
uma nova infelicidade de origem obscura que nunca antes sentira.
Por fim, todavia, começou a correr.
Mrs . Cope e Mrs Pritchard estavam no campo atrás do celeiro quan­
.

do Mrs . Cope viu fumo a elevar-se do bosque, do outro lado da pas­


tagem. Soltou um guincho , e Mrs Pritchard apontou para o fundo do
.

caminho, onde a garota vinha a correr pesadamente , aos solavancos , a


gritar: - Mamã, mamã, vão construir aqui um parque de estaciona­
mento !
Mrs . Cope começou a chamar os negros em altos brados , enquanto
Mrs . Pritchard, agora cheia de energia, correu pelo caminho fora,
aos berros . Mr. Pritchard saiu pela extremidade aberta do celeiro ,
e os dois negros no terreiro pararam de encher o adubador com es­
trume e precipitaram-se ao encontro de Mrs Cope com as suas pás .
.

- Depressa, depressa ! - gritou ela. - Comecem a atirar terra às


chamas ! - Eles contornaram-na sem quase olharem para ela e rom-
1 40 Flannery O ' Connor

peram vagarosamente através do campo , ao encontro do fumo . Ela


correu atrás deles alguns metros , guinchando: - Depressa, depressa,
não estão a ver? ! Não estão a ver? !
- Há de lá 'tar quando a gente lá chegar - respondeu Culver, e
eles projetaram os ombros um bocadinho para a frente e prossegui­
ram na mesma cadência.
A garota parou ao lado da mãe e ergueu os olhos para lhe fitar o
rosto , como se nunca lho tivesse visto antes . Era o rosto da nova
infelicidade que ela sentia, mas , na face da mãe , parecia caduca e dir­
-se-ia poder pertencer a qualquer outra pessoa, a um negro ou a um
europeu ou ao próprio Powell . A garota voltou o rosto muito depressa
e, para além das silhuetas dos negros a correr a furta-passo , pôde
avistar a coluna de fumo a assomar e a alargar-se , sem freio , dentro
da linha granítica das árvores . Ficou tensa, à escuta, e pôde apenas
distinguir, na lonjura, alguns guinchos de alegria, estridentes , desvai­
rados , como se os profetas estivessem a dançar na fornalha ardente,
no círculo que o anjo libertara para eles .
Um Encontro Tardio com o Inimigo

O general Sash tinha cento e quatro anos . Vivia com a neta, Sally
Poker Sash, que tinha sessenta e dois anos e rezava todas as noites ,
de joelhos , pedindo a Deus que ele não morresse antes de ela se di­
plomar. O general estava-se nas tintas para o bacharelato da neta, mas
não tinha dúvidas de que iria viver até esse dia. Viver tornara-se nele
um hábito tão arreigado que não era capaz de conceber nenhuma ou­
tra condição . Uma cerimónia de entrega de diplomas universitários
não era exatamente a sua ideia de um bom divertimento , ainda que ,
como a neta dizia, fosse de esperar que ele se sentasse no palco , de
uniforme . Ela dizia que ia haver um longo cortejo de professores e
alunos de toga, mas que nada haveria que rivalizasse com ele , trajado
com o seu uniforme . Ele sabia isto perfeitamente , não precisava que
ela lho dissesse , e, quanto ao raio do cortejo, podia ir para o Inferno e
voltar, era-lhe igual . Gostava de corsos com carros alegóricos cheios
de Misses América e Misses Daytona Beach e Misses Produtos Rai­
nha do Algodão . Não queria saber de cortejos , e um cortejo cheio de
professoras primárias era, no entender dele, quase tão mortiço como
o rio Estige . No entanto , estava disposto a sentar-se no palco , de uni­
forme , para o poderem ver.
Sally Poker não estava tão certa como o avô de que ele iria sobre­
viver até ao dia do seu bacharelato . Não houvera qualquer mudança
percetível nele durante os últimos cinco anos , mas ela tinha o pres­
sentimento de que veria esboroar-se o seu triunfo , porque isso já lhe
acontecera tantas vezes . Todos os anos , desde há vinte anos , frequen­
tava cursos de verão na universidade, porque , quando começara a
1 42 Flannery O 'Connor

dar aulas , não havia sequer diplomas universitários para professoras


primárias . Naquele tempo, dizia ela, tudo era normal , mas nada fo­
ra normal desde que ela fizera dezasseis anos , e, durante os últimos
vinte verões , quando ela deveria estar a descansar, vira-se obrigada
a carregar um baú de viagem sob o calor abrasador até à escola do
magistério primário estadual; e ainda que , ao regressar a casa, no
outono , continuasse a dar aulas exatamente do modo como fora en­
sinada a não as dar, esta modesta vingança não satisfazia a sua sede
de justiça. Ela queria o general na cerimónia de entrega dos diplomas
porque queria mostrar quais eram os seus valores , ou , como costu­
mava dizer, «tudo o que havia no seu passado» , e que não havia no
passado deles . Este eles não se referia a ninguém em particular. Eram
apenas todos os fura-vidas que tinham virado o mundo de pernas para
o ar e perturbado os usos e costumes das pessoas como deve ser.
Ela fazia tenções de se perfilar naquele estrado , em agosto , com
o general sentado na sua cadeira de rodas , no palco , atrás dela, e
queria manter a cabeça bem erguida, como se dissesse: «Olhem para
ele ! Olhem para ele ! É sangue do meu sangue , seus fura-vidas ! Um
velho íntegro , coberto de glória, que simboliza as antigas tradições !
Dignidade ! Honra ! Coragem ! Olhem para ele !» Uma noite , enquanto
dormia, gritou: - Olhem para ele ! Olhem para ele ! - e, ao virar a
cabeça, deparou com ele sentado na sua cadeira de rodas , atrás de­
la, com uma expressão terrível no rosto e completamente despido , à
parte o seu chapéu de general , e ela despertou por completo e não se
atreveu a adormecer de novo naquela noite .
Pela sua parte, o general nem sequer teria aceitado comparecer na
cerimónia de entrega de diplomas da neta se ela não lhe tivesse prome­
tido que ele ficaria no palco . Ele gostava de figurar em palcos , fossem
quais fossem. Considerava-se um homem muito atraente, ainda. Nos
tempos em que era capaz de se pôr de pé , tinha um metro e sessenta e
dois de genica e virilidade em estado puro . Tinha cabelo branco que
lhe dava pelos ombros , atrás , e recusava-se a usar uma dentadura pos­
tiça, porque achava o seu perfil mais impressionante sem ela. Quando
vestia o seu grande uniforme de general , sabia bem que não havia
quem lhe chegasse aos calcanhares , fosse lá onde fosse .
Não era o mesmo uniforme que ele usara na guerra entre os estados .
Ele não fora realmente general nessa guerra. Provavelmente , tinha si-
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 43

do soldado raso; não se lembrava do que tinha sido; na verdade , não


se lembrava dessa guerra, pura e simplesmente. Era como os pés dele,
que pendiam agora, mirrados na extremidade das suas pernas , inertes
e insensíveis , cobertos por uma mantinha azul-acinzentada que Sally
Poker lhe tricotara quando era pequena. Não se lembrava da Guerra
Hispano-Americana, em que perdera um filho; nem sequer se lembra­
va do filho . Não queria saber da história, porque não fazia tenções de
se cruzar novamente com ela. A seu ver, a história estava associada a
cortejos e a vida a corsos , e ele gostava de corsos . As pessoas estavam
sempre a perguntar-lhe se ele se lembrava disto ou daquilo - um
cortejo negro e lúgubre de perguntas acerca do passado . Havia apenas
um acontecimento no passado que tinha para ele alguma relevância e
de que gostava de falar: tinha sido doze anos antes , quando lhe tinham
oferecido o uniforme de general e ele fora à estreia do filme .
- Eu 'tive naquela estreia que houve lá em Atlanta 1 - contava
às visitas , no seu alpendre da frente . - Rodeado por moças bonitas .
Não foi uma coisa provinciana, fiquem sabendo . Não foi uma coisa
nada provinciana. Escutem bem. Foi um acontecimento nacional , e
convidaram-me pra lá ' tar, pra subir ao palco . Não havia lá ralé ne­
nhuma. Quem lá 'tava tinha pagado dez dólares pra entrar e teve de ir
de smoking . Eu ' tava com este uniforme . Uma moça bonita ofereceu­
-mo naquela tarde, num quarto de hotel .
- Era uma suíte no hotel , e eu também lá estava, avozinho - acu-
dia Sally Poker, a piscar o olho às visitas . - O avozinho não esteve
sozinho com nenhuma moça bonita num quarto de hotel .
- Se tivesse 'tado , sabia bem o que havia de fazer - comentava o
velho general , com um olhar penetrante, e as visitas soltavam garga­
lhadas estridentes . - Era uma moça de Hollywood, na Califórnia -
continuava ele. - Ela era de Hollywood, na Califórnia, e não entrava
no filme . Têm por lá tantas moças bonitas de que não precisam que
lhes chamam figurantes e não as usam pra nada, a não ser pra entre­
gar presentes às pessoas e pra aparecerem nos retratos . Tiraram-me
o retrato com ela. Não , eram duas moças . Uma de cada lado e eu no
meio , com os braços à volta da cintura delas , e a cintura delas não era
mais grossa do que uma moedinha de meio dólar.
Sally Poker interrompia de novo . - Foi Mr. Govisky quem lhe
ofereceu o uniforme, avozinho , e a mim ofereceu-me um ramalhete
1 44 Flannery O ' Connor

magnífico para usar ao peito . Quem me dera que o tivessem visto , só


vos digo . Era feito com pétalas de gladíolo arrancadas da flor e pin­
tadas de dourado e reunidas de novo para parecerem uma rosa. Era
magnífico . Quem me dera que o tivessem visto , era . . .
- Era enorme, do tamanho da cabeça dela - resmungava o gene­
ral . - Eu é que 'tava a contar a história. Ofereceram-me o uniforme
e ofereceram-me a espada e disseram-me: «Pois bem, general , não
queremos que declare guerra à gente . Só queremos que marche até
ao palco quando o apresentarmos , esta noite , e que responda a umas
quantas perguntas . Acha que consegue fazer isso?» «Acho que sou
capaz ! » , respondi eu . «Escute cá, ó amigo . Eu já andava a fazer coi­
sas antes de você nascer» , e eles riram que nem uns perdidos .
- Ele fo i a vedeta do espetáculo - dizia Sally Poker, mas não
gostava muito de se recordar da estreia, por causa do incidente com
os seus pés nessa ocasião . Ela comprara um vestido novo para a ce­
rimónia - um longo vestido de noite de crepe negro , com uma fivela
de brilhantes e um bolero - e um par de moules prateadas para usar
com o vestido , pois fora decidido que subiria ao palco com o avô ,
para evitar que ele caísse . Tudo foi providenciado para eles . Uma
limusina verdadeira chegou às dez para as oito e levou-os ao cine­
teatro . Parou debaixo do toldo exatamente à hora marcada, depois
das grandes vedetas e do realizador e do argumentista e do governa­
dor e do mayor e de algumas vedetas menos importantes . A polícia
evitava que houvesse engarrafamentos de trânsito , e havia cordões
para impedir o acesso das pessoas que não tinham sido convidadas .
A multidão de pessoas que não tinham sido convidadas ficou a vê-los
sair da limusina e mergulhar nas luzes . Em seguida, eles dirigiram-se
para o átrio vermelho e dourado , e uma arrumadora com um boné de
confederado e uma saia curta conduziu-os aos seus lugares especiais .
A sala já estava cheia, e um grupo de mulheres da UDC2 começou
a bater palmas quando viu o general de uniforme , e isso levou a que
toda a gente desatasse a bater palmas . Mais algumas celebridades en­
traram depois deles , e, em seguida, as portas fecharam-se e as luzes
apagaram-se .
Um jovem de cabelo loiro e ondulado que disse representar a in­
dústria cinematográfica surgiu em palco e começou a apresentar toda
a gente , e cada pessoa que era apresentada dirigia-se ao palco e de-
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 45

clarava sentir-se felicíssima por estar presente naquele grande acon­


tecimento . O general e a neta foram apresentados em décimo sexto
lugar no programa. Ele foi apresentado como o general Tennessee
Flintrock Sash , da Confederação , embora Sally Poker tivesse expli­
cado a Mr. Govisky que ele se chamava George Poker Sash e que
nunca passara de major. Ela ajudou-o a levantar-se da cadeira, mas
sentia o coração a bater tão depressa que não sabia se ela própria ia
conseguir chegar ao palco .
O velho percorreu a coxia devagar, com a cabeça branca erguida
numa pose feroz e o chapéu encostado ao coração . A orquestra co­
meçou a tocar o Hino de Batalha dos Confederados em surdina, e as
mulheres da UDC ergueram-se como um só grupo e não se tornaram
a sentar até o general subir os degraus . Quando ele chegou ao cen­
tro do palco , com Sally Poker logo atrás , a conduzi-lo pelo braço , a
orquestra irrompeu numa interpretação tonitruante do Hino de Ba­
talha, e o velho , cheio de presença em palco , bateu continência com
um gesto vigoroso e trémulo e permaneceu em sentido até o último
acorde morrer. Duas arrumadoras de bonés de confederados e saias
curtas seguravam duas bandeiras cruzadas atrás deles , uma bandeira
da Confederação e outra da União .
O general postou-se no centro exato do clarão do holofote , e a luz
apanhou uma fatia bizarra de Sally Poker, em forma de crescente -
o ramalhete no decote , a fivela de brilhantes e uma mão fechada a
agarrar uma luva branca e um lencinho de assoar. O jovem de cabelo
loiro e ondulado introduziu-se no círculo de luz e disse que estava
muitíssimo feliz por ter ali presente , naquela noite tão especial , al­
guém, explicou , que combatera e vertera o seu sangue nas batalhas
que eles iriam ver dali a pouco recriadas no ecrã, e - Diga-me , ge­
neral - perguntou - , que idade tem?
- Noveeeeeenntta e dois ! - berrou o general .
A expressão do jovem parecia querer dizer que aquela fora a decla­
ração mais sensacional em toda aquela cerimónia. - Minhas senho­
ras e meus senhores - pediu - , vamos lá a brindar o general com
uma valente salva de palmas ! - e ouviram-se aplausos de imediato,
e o jovem, com um gesto do polegar, fez sinal a Sally Poker de que
podia conduzir o velho de volta ao seu lugar, para que a pessoa se­
guinte pudesse ser apresentada; mas o general ainda não terminara.
1 46 Flannery O ' Connor

Permaneceu imóvel, no centro exato do clarão do holofote , de pesco­


ço atirado para diante , a boca ligeiramente aberta e os olhos cinzen­
tos e vorazes a sorverem a luz ofuscante e os aplausos . Afastou a neta
com uma cotovelada rude . - Eu cá não envelheço - guinchou - ,
porque dou beijinhos a todas as moças bonitas !
Estas palavras foram acolhidas com um grande troar de aplausos
espontâneos , e foi neste preciso instante que Sally Poker baixou os
olhos para os pés e descobriu que , no seu entusiasmo , ao preparar-se
para sair, se esquecera de mudar de sapatos : dois sapatos castanhos
de atacadores , sapatos de escuteira, assomavam-lhe da fímbria do
vestido . Deu um puxão ao general e quase fugiu a correr do palco
com ele . Ele ficou furioso por não poder dizer que estava muito fe­
liz por participar naquela cerimónia e, no regresso ao seu lugar, ia
repetindo o mais alto de que era capaz: - 'Tou muito feliz por 'tar
aqui nesta estreia com tantas moças bonitas ! - , mas já havia outra
celebridade a percorrer a coxia oposta, e ninguém lhe prestou aten­
ção . Ele dormiu o filme inteiro , resmungando ferozmente de vez em
quando durante o sono .
Desde esse dia, a vida dele não tinha sido muito interessante . Ti­
nha agora os pés completamente mortos , os joelhos rodavam como
velhas dobradiças , os rins funcionavam quando lhes apetecia, mas
o coração teimava obstinadamente em bater. O passado e o futuro
eram para ele a mesma coisa, um esquecido e o outro não recordado;
não pensava mais na morte do que um gato . Todos os anos, no Dia
dos Heróis Confederados , vestiam-no a rigor e emprestavam-no ao
Museu do Capitólio Estadual , onde o exibiam da uma às quatro numa
sala a cheirar a bafio , cheia de fotografias antigas , uniformes antigos ,
peças de artilharia antigas e documentos históricos . Todas estas peças
estavam cuidadosamente preservadas em vitrinas , para que as crian­
ças não lhes mexessem com as mãos . Ele usava o seu uniforme de
general da estreia e ficava sentado , com um esgar zangado e o olhar
fixo , dentro de um recanto delimitado por cordões . Nada havia nele
a indicar que estava vivo , excetuando um movimento esporádico dos
olhos cinzentos e leitosos , mas , uma vez , quando um garoto mais
atrevido lhe tocou na espada, o braço dele disparou como uma ca­
tapulta e desferiu uma palmada na mão , repelindo-a. Na primavera,
quando as velhas mansões se abriam para as romagens de sauda-
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 47

de , convidavam-no a vestir o uniforme e a sentar-se nalgum ponto


bem visível , para criar no cenário a atmosfera certa. Em algumas
destas ocasiões , ele limitava-se a rosnar aos visitantes , mas às vezes
contava-lhes a história da estreia do filme e das moças bonitas .
Se ele tivesse morrido antes de Sally Poker se diplomar, ela pró­
pria não teria resistido ao golpe , parecia-lhe . No início do trimestre
de verão , mesmo antes de saber se iria ser aprovada, ela disse ao
reitor que o avô , o general Tennessee Flintrock Sash , da Confede­
ração , iria estar presente na cerimónia da entrega dos diplomas , e
acrescentou que ele tinha cento e quatro anos e que o seu espírito
continuava absolutamente são . Os visitantes ilustres eram sempre
bem-vindos , e podiam sentar-se no palco e ser apresentados à assis­
tência. Ela pediu ao sobrinho , John Wesley Poker Sash , um escutei­
ro , que se encarregasse de empurrar a cadeira de rodas do general .
Parecia-lhe que ia ser uma visão muito agradável , o velho vestido
de cinzento galhardo e o rapaz de caqui asseado - o velho e o
novo , pensou ela apropriadamente - , ambos atrás dela no palco
quando recebesse o diploma.
Tudo correu exatamente como ela planeara, ou quase . No verão ,
enquanto estava a frequentar a escola do magistério primário , o ge­
neral ficou com outros parentes , e estes levaram-no para junto dela,
juntamente com John Wesley, o escuteiro , pouco antes da cerimónia.
Um repórter foi ao hotel onde eles estavam hospedados e tirou uma
fotografia ao general , com Sally Poker de um lado e John Wesley do
outro . O general , que já tirara fotografias ao lado de moças bonitas ,
não ligou muito àquilo . Tinha-se esquecido de qual a cerimónia a que
ia comparecer, não sabia ao certo do que se tratava, mas lembrava-se
de que iria usar o uniforme e segurar a espada.
Na manhã da entrega dos diplomas , Sally Poker teve de se incor­
porar no cortejo académico , juntamente com os outros bacharéis em
magistério primário , e não pôde levá-lo até ao palco em pessoa -
mas John Wesley, um rapaz loiro e gordo de dez anos , com ar de exe­
cutivo , assegurou-lhe que trataria de tudo . Ela foi até ao hotel com a
sua toga académica e vestiu o velho com o uniforme . Ele parecia tão
frágil como uma aranha ressequida. - Não está entusiasmadíssimo,
avozinho? - perguntou ela. - Eu cá sinto-me tão entusiasmada que
até me falta o ar!
1 48 Flannery O ' Connor

- Põe-me a espada atravessada no regaço , raios ta partam - or­


denou o velho - , que é onde brilha mais .
Ela pousou ali a espada e depois deu um passo atrás , a contemplá­
-lo . - O senhor está magnífico - declarou .
- Raios partam isto - disse o velho num tom vagaroso , monó-
tono e convicto , como se estivesse a dizer aquilo ·ao ritmo do pulsar
do seu próprio coração . - Raios partam, o diabo que carregue esta
bodega toda.
- Pronto , pronto - disse ela, e saiu , feliz da vida, para se juntar
ao cortejo.
Os bacharéis estavam em fila atrás do edifício de Ciências , e ela
achou o seu lugar no preciso momento em que a fila se começava a
mover. Não dormira muito na noite anterior e , nos poucos momentos
em que adormecera, sonhara com o cerimonial , murmurando «Es­
tão a vê-lo , estão a vê-lo?» durante o sono , mas , de todas as vezes ,
acordara poucos momentos antes de voltar a cabeça para o remirar
atrás de si . Os diplomados tinham de percorrer três quarteirões sob o
sol tórrido , de togas negras de lã, e, à medida que caminhava penosa
e obstinadamente , ela pensava com os seus botões que , se alguém
achava aquele desfile académico um espetáculo impressionante , en­
tão que esperassem até verem aquele velho general vestido de cin­
zento galhardo e aquele jovem escuteiro asseado a empurrar-lhe vi­
gorosamente a cadeira de rodas ao longo do palco , com o sol a faiscar
na espada. Imaginava que , por aquela altura, John Wesley tivesse já o
velho pronto atrás do palco .
O cortejo negro serpenteou pelos dois quarteirões acima e rom­
peu pela alameda principal que conduzia ao auditório . Os visitantes
aglomeravam-se no relvado , cada qual tentando avistar o seu bacha­
rel . Os homens empurravam os chapéus para a nuca e limpavam a
testa, e as mulheres erguiam ligeiramente os vestidos dos ombros
para impedir que o tecido se lhes colasse às costas . Os diplomados ,
com as suas pesadas togas , transpiravam profusamente, como se as
últimas partículas de ignorância estivessem a ser expulsas do seu cor­
po numa onda de suor. O sol chamejava nos guarda-lamas dos auto­
móveis e batia nas colunas dos edifícios e atraía o olhar de um clarão
para outro . Atraiu o olhar de Sally Poker para a grande máquina ver­
melha de Coca-Cola que fora instalada junto ao flanco do auditório .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 49

Aí, ela viu o general parado na sua cadeira, de cenho franzido e sem
chapéu , ao sol abrasador, enquanto John Wesley, com a blusa solta
atrás , de anca e bochecha encostadas à máquina vermelha, bebia uma
Coca-Cola. Ela abandonou o desfile e precipitou-se para junto deles
e arrancou a garrafa das mãos do rapaz . Sacudiu-o e entalou-lhe a
blusa nos calções com gestos bruscos e pôs o chapéu na cabeça do
velho . - Agora leva-o ali para dentro ! - ordenou , apontando um
dedo hirto para a porta lateral do edifício .
Pela sua parte , o general sentia que havia um buraquinho a come­
çar a alargar-se-lhe no alto da cabeça. O rapaz levou-o rapidamente
por um passeio abaixo, subiu uma rampa e entrou num edifício e fê­
-lo transpor o rebordo do palco com um solavanco e coqduziu-o até
ao lugar que lhe fora indicado, e o general lançou olhares fuzilantes
para diante de si , para as cabeças que pareciam amalgamar-se numa
só e para os olhos que se moviam de um rosto para outro . Várias figu­
ras de togas negras acercaram-se e pegaram-lhe na mão e sacudiram­
-lha. Um cortejo negro fluía ao longo de cada coxia e, ao som de
uma música solene , formava um grande lago defronte dele . A música
parecia entrar-lhe na cabeça através do buraquinho e, por momentos,
pareceu-lhe que o desfile também ia tentar entrar por ali .
Não sabia que desfile era aquele , mas havia na cerimónia qualquer
coisa de familiar. Era-lhe certamente familiar, já que viera ao encon­
tro dele , mas um desfile negro não lhe agradava. Qualquer desfile
que viesse ao seu encontro , pensou , irritado , deveria ser formado por
carros alegóricos cheios de moças bonitas , como os carro s alegóricos
antes da tal estreia. Aquilo era certamente qualquer coisa relacionada
com o passado histórico , como os desfiles que se estavam sempre a
realizar. Não queria saber daquilo para nada. O que acontecera em
tempos não tinha importância nenhuma para um homem que estava
vivo agora, e ele estava vivo agora.
Quando todo o desfile escorrera para dentro do lago negro , uma si­
lhueta negra começou a arengar diante da multidão . A silhueta estava
a dizer qualquer coisa acerca da história, e o general decidiu que não
ia ouvir, mas as palavras coavam-se sem parar através do buraquinho
na cabeça dele . Ouviu o seu próprio nome a ser referido e sentiu que
lhe empurravam a cadeira para diante com gestos rudes , e o escutei­
ro fez uma grande vénia. Chamaram o nome dele , e o gaiato gordo
1 50 Flannery O ' Connor

fez uma vénia. Raios ta partam, tentou dizer o velho , larga-me da


mão , eu consigo pôr-me de pé ! - mas foi novamente puxado para
trás num repelão antes que pudesse pôr-se de pé e executar a vénia.
Deduzia que o ruído que estavam a fazer era para ele . Se o seu papel
ali terminara, não fazia tenções de ouvir o resto . Se não fosse o bu­
raquinho no alto da cabeça, nenhuma das palavras teria chegado até
ele . Pensou em meter o dedo lá no alto , no buraco , para as impedir de
entrar, mas o buraco era um bocadinho mais largo do que o dedo dele
e parecia estar a tomar-se mais fundo .
Uma outra toga negra tomara o lugar da primeira e estava agora a
falar, e ele ouviu o seu próprio nome referido de novo, mas não es­
tavam a falar dele , estavam a falar da história. - Se esquecermos o
nosso passado - dizia o orador - , não nos iremos recordar do nosso
futuro , mas não fará diferença, porque não teremos futuro nenhum.
- O general ouviu algumas destas palavras gradualmente . Esquecera
o passado histórico e não fazia tenções de o recordar de novo . Esque­
cera o nome e o rosto da mulher e os nomes e os rostos dos filhos , ou
até se alguma vez tivera mulher e filhos , e esquecera os nomes dos
lugares e os próprios lugares e o que sucedera neles .
Incomodava-o bastante o buraco na cabeça. Não estava a contar ter
um buraco na cabeça naquela ocasião . Fora a música negra vagarosa
que ali lho rasgara, e, embora a maior parte da música tivesse cessado
lá fora, ainda havia um bocadinho de música no buraco, a entranhar­
-se e a deambular-lhe pelos pensamentos , a conduzir as palavras que
ele ouvia até aos recantos sombrios do seu cérebro . Ouviu as palavras
Chickamauga, Shiloh , Johnston , Lee , e soube que era ele quem inspi­
rava estas palavras que nada significavam para si próprio . Perguntou
a si mesmo se teria sido general em Chickamauga ou em Lee . Em se­
guida, tentou imaginar-se, mais ao seu cavalo , empoleirado no meio
de um carro alegórico cheio de moças bonitas , a rolar lentamente
pela baixa de Atlanta. Em vez disso , as velhas palavras começaram a
agitar-se-lhe na cabeça, como se estivessem a tentar arrancar-se dos
seus lugares e ganhar vida.
O orador dera por encerrada aquela guerra e passara à seguinte ,
e agora estava a aproximar-se de outra, e todas as palavras dele , à
semelhança do desfile negro , eram vagamente familiares e irritantes .
Havia um dedo comprido de música dentro da cabeça do general ,
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 151

vasculhando vários pontos que eram palavras , deixando entrar um


pouco de luz para banhar as palavras e ajudando-as a viver. As pa­
lavras começaram a vir ao encontro dele , e ele soltou: Chiça ! Não
vou aturar isto ! , e começou a desviar-se para trás , para se furtar. Viu
então a silhueta de toga negra sentar-se e ouviu um ruído , e o lago
negro diante dele começou a agitar-se e a escorrer ao encontro dele
de ambos os lados , ao som da música vagarosa e negra, e ele ex­
clamou: Parem, raios partam ! Só consigo fazer uma coisa de cada
vez ! Não era capaz de se proteger das palavras e de barrar também o
desfile , e as palavras avançavam depressa. Sentiu que estava a correr
às arrecuas e que as palavras vinham ao seu encontro que nem fogo
de mosquetes , falhando-o por pouco mas cada vez mais próximas .
Voltou-se e começou a correr o mais depressa que conseguia, mas
deu por si a correr ao encontro das palavras . Corria ao encontro de
uma descarga delas , disparada em uníssono , e afrontava-as com im­
precações rápidas . À medida que a música se encapelava na direção
dele , todo o passado se abria na sua frente , saído do nada, e ele sentiu
o corpo crivado em mil e um lugares por punhaladas lancinantes de
dor, e tombou , proferindo uma imprecação de cada vez que era atin­
gido . Viu o rosto estreito da sua mulher a olhá-lo com ar de censura
através dos óculos de aros dourados; viu um dos filhos calvos , de
olhos piscos; e a mãe correu ao encontro dele com expressão ansiosa;
depois , uma sucessão de lugares - Chickamauga, Shiloh , Marthas­
ville3 - arremeteu sobre ele , como se o passado fosse agora o único
futuro e ele tivesse de o suportar. Em seguida, de súbito , viu que o
desfile negro estava quase a alcançá-lo . Reconheceu-o , porque aque­
le desfile lhe vinha atormentando todos os dias da existência. Fez um
esforço tão desesperado para ver para além do desfile e descobrir o
que vem a seguir ao passado que a mão se lhe fincou na espada até a
lâmina se cravar no osso .
Os bacharéis iam cruzando o palco numa longa fila, para receber
os seus diplomas e apertar a mão do reitor. No momento em que Sally
Poker, que era uma das últimas , cruzou o palco , lançou um olhar de
relance ao general e viu-o sentado , de face hirta e feroz , olhos muito
abertos , e voltou novamente o rosto para a frente e ergueu a cabe­
ça num ângulo visivelmente mais aberto e recebeu o seu diploma.
Quando a cerimónia terminou e ela deu por si fora do auditório , de
152 Flannery O ' Connor

novo ao sol, foi em busca dos parentes e esperaram juntos , sentados


num banco , à sombra, que John Wesley trouxesse o velho para o ex­
terior na sua cadeira de rodas . Aquele escuteiro engenhoso levara-o
aos solavancos pela porta das traseiras e conduzira-o a grande veloci­
dade por um carreiro de lajes , e estava agora à espera, com o cadáver,
na longa fila diante da máquina de Coca-Cola .
Boa Gente do Campo

Além da expressão neutra que ostentava quando se encontrava só,


Mrs Freeman tinha duas outras , a de aceleração e a de marcha-atrás ,
.

que usava em todos os seus contactos com as outras pessoas . A expres­


são de aceleração era firme e intensa como o avanço de um camião
pesado. Os olhos dela nunca se desviavam, nem para a esquerda nem
para a direita, antes serpenteavam à medida que a história ia serpen­
teando, como se ela seguisse uma linha amarela traçada no centro da
narrativa. Raramente usava a outra expressão, porque poucas vezes
tinha necessidade de retirar alguma coisa que tivesse dito, mas , quando
o fazia, o rosto imobilizava-se-lhe por completo, havia um movimento
quase impercetível dos olhos negros , durante o qual estes pareciam ba­
ter em retirada, e depois o observador via que Mrs Freeman, ainda que
.

ali continuasse, tão palpável como várias sacas de cereais empilhadas


a esmo , já ali não estava em espírito . Quanto a conseguir fazê-la enten­
der alguma coisa quando era este o caso , Mrs . Hopewell já desistira.
Podia falar durante horas a fio. Era impossível levar Mrs . Freeman a
reconhecer que se enganara, fosse em que assunto fosse. Ficava ali
parada e, quando se conseguia arrancar-lhe alguma frase, era qualquer
coisa do género: «Bom, eu cá não diria que sim, mas também não diria
que não» , ou então, deixando o olhar vaguear pela prateleira mais alta
da cozinha, onde havia uma panóplia variada de boiões poeirentos , ela
podia comentar: «Vejo que ainda não comeu grande parte dos figos que
guardou no verão passado.»
Elas tratavam dos assuntos mais importantes na cozinha, ao peque­
no-almoço . Todas as manhãs , Mrs . Hopewell levantava-se às sete em
1 54 Flannery O ' Connor

ponto e acendia o seu aquecedor a gás e o de Joy. Joy era a filha dela,
uma rapariga corpulenta e loira com uma perna artificial . Mrs . Ho­
pewell encarava-a como uma criança, embora ela tivesse trinta e dois
anos e fosse extremamente culta. Joy levantava-se da cama enquanto
a mãe estava a comer e dirigia-se pesadamente para a casa de banho
e fechava a porta com estrondo , e , pouco depois , Mrs . Freeman che­
gava à porta das traseiras . Joy ouvia a mãe a dizer: «Entre , entre» , e
depois as duas mulheres falavam durante algum tempo em voz baixa,
de modo que as palavras delas não se percebiam na casa de banho .
Quando Joy entrava na cozinha, geralmente elas já tinham concluído
o boletim meteorológico e estavam a falar de uma ou de outra das fi­
lhas de Mrs . Freeman , Glynese ou Carramae . Joy chamava-lhes Gli­
cerina e Caramelo . Glynese , uma ruiva, tinha dezoito anos e muitos
admiradores ; Carramae , uma loira, tinha apenas quinze anos , mas já
se casara e estava grávida. Não conseguia aguentar nada no estôma­
go . Todas as manhãs , Mrs . Freeman contava a Mrs . Hopewell quan­
tas vezes é que a filha vomitara desde o último relatório.
Mrs Hopewell gostava de dizer às pessoas que Glynese e Carra­
.

mae eram duas das raparigas mais simpáticas que conhecia, e que Mrs .
Freeman era uma senhora e que não tinha vergonha de a levar onde
quer que fosse ou de a apresentar a quem quer que pudessem encontrar.
Em seguida, contava como é que contratara os Freemans , logo para
começar, e explicava que eles eram para ela uma dádiva dos céus e que
os tinha consigo havia quatro anos . O motivo que a levara a mantê-los
tanto tempo consigo era eles não serem escumalha. Eram boa gente do
campo. Ela telefonara ao homem cujo nome eles tinham dado como
referência, e ele contara-lhe que Mr. Freeman era um bom lavrador,
mas que a esposa dele era a mulher mais metediça que alguma vez
houvera à face da terra. - Ela tem de meter o nariz em tudo - disse o
homem. - Se alguma vez acontecer alguma coisa e ela não chegar lá
antes de a poeira assentar, então é porque morreu, e 'tá tudo dito. Ela
vai querer saber tudo da sua vida. Eu dava-me muito bem com ele -
dissera o homem - , mas nem eu nem a minha mulher conseguíamos
aturar aquela mulher nesta casa nem mais um minuto . - Isto refreou
o ânimo de Mrs Hopewell durante alguns dias .
.

No fim de contas , acabara por contratá-los porque não havia mais


candidatos , mas decidira de antemão qual o método exato que iria
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 55

adotar para lidar com a mulher. Uma vez que ela era o género de
pessoa que tinha de se meter em tudo , então , decidira Mrs . Hopewell,
não só a deixaria meter-se em tudo como se certificaria de que ela
estava por dentro de tudo - encarregá-la-ia de tudo , confiar-lhe-ia
o governo da casa. Mrs . Hopewell não tinha defeitos seus , mas con­
seguia usar os defeitos dos outros de um modo tão construtivo que
nunca lhes sentia a falta. Contratara os Freemans e mantinha-os ao
seu serviço havia quatro anos .
Nada é perfeito. Esta era uma das frases feitas preferidas de Mrs .
Hopewell . Uma outra era: a vida é mesmo assim ! E outra ainda, a mais
importante, era: bom, toda a gente tem direito à sua opinião. Proferia
estas frases , geralmente à mesa, num tom de insistência suave, como
se mais ninguém acreditasse naquelas verdades a não ser ela, e Joy,
corpulenta e pesadona, cuja indignação constante lhe apagara do rosto
toda a expressão facial, fitava um ponto ligeiramente ao lado dela, de
olhos azuis e gélidos, com a expressão de alguém que alcançou a ce­
gueira por um ato deliberado e tenciona manter-se assim.
Quando Mrs . Hopewell dizia a Mrs . Freeman que a vida era mes­
mo assim, Mrs . Freeman respondia: «Foi o que eu sempre disse .»
Ninguém chegara a nenhuma conclusão a que ela não tivesse já che­
gado primeiro . Era mais despachada do que Mr. Freeman . Quando
Mrs . Hopewell lhe dissera, depois de eles estarem há algum tempo
lá em casa: - Sabe , a senhora é o volante atrás do volante - e lhe
piscara o olho , Mrs . Freeman respondera: - Eu sei . Sempre fui des­
pachada. Alguns são mais despachados do que outros , prontos .
- Não há duas pessoas iguais - comentou Mrs . Hopewell .
- Pois não , quase nenhumas - disse Mrs . Freeman .
- A variedade evita o fastio .
- Foi o que eu própria sempre disse .
A rapariga estava habituada a este género de diálogos ao pequeno­
-almoço , e mais diálogos do mesmo género ao jantar; por vezes , o
mesmo sucedida à ceia, também. Quando não tinham convidados , co­
miam na cozinha, por ser mais cómodo. Mrs . Freeman arranjava sem­
pre maneira de chegar num qualquer momento durante a refeição e de
ficar a vê-las terminá-la. Ficava parada no vão da porta, se fosse verão,
mas , no inverno, postava-se com um cotovelo apoiado no frigorífico e
olhava-as de alto, ou então ia para junto do aquecedor a gás , erguendo
1 56 Flannery O ' Connor

ligeiramente a cauda da saia. Esporadicamente, encostava-se à pare­


de e rolava a cabeça de um lado para o outro . Em nenhum momento
mostrava pressa de partir. Tudo isto punha à prova os nervos de Mrs .
Hopewell , mas ela era uma mulher de grande paciência. Sabia que na­
da é perfeito e que, nos Freemans , tinha boa gente do campo e que, nos
tempos que correm, se conseguirmos contratar boa gente do campo, o
melhor que temos a fazer é não a deixarmos fugir.
Tinha experiência de sobra com escumalha. Antes dos Freemans ,
tivera em média uma fami1 ia de rendeiros por ano . As mulheres des­
tes lavradores não eram o género de pessoas cuja presença alguém
conseguisse suportar durante muito tempo . Mrs . Hopewell , que se
divorciara do marido há muito tempo, precisava de alguém que per­
corresse os campos com ela; e, quando era preciso obrigar Joy a exe­
cutar estes serviços , os comentários dela eram geralmente tão desa­
gradáveis e ela fazia uma cara tão soturna que Mrs . Hopewell dizia:
- Se não consegues acompanhar-me com bons modos , prefiro que
não venhas - ao que a rapariga, muito direita e de ombros hirtos ,
com o pescoço ligeiramente inclinado para diante , replicava: - Se a
mãe me quer, aqui me tem . . . ASSIM COMO EU SOU .
Mrs . Hopewell desculpava esta postura por causa da perna (que
Joy perdera num acidente de caça quando tinha dez anos) . Era difícil
a Mrs . Hopewell mentalizar-se de que a filha contava agora trinta e
dois anos e que , havia mais de vinte anos, possuía apenas uma perna.
Continuava a pensar nela como uma criança, porque sentia o coração
dilacerado ao pensar, em vez disso , na pobre trintona corpulenta que
nunca dera um passo de dança nem nunca se divertira como as pes­
soas normais. O nome verdadeiro dela era Joy, mas , assim que fizera
vinte e um anos e se apanhara longe de casa, tinha ido a um notário
mudá-lo . Mrs . Hopewell tinha a certeza de que ela perdera imenso
tempo a matutar até escolher o nome mais feio em todas as línguas
que existem. Em seguida, sem dizer nada à mãe até o facto estar con­
sumado , tinha alterado o seu lindo nome, Joy. O nome dela perante a
lei era agora Hulga.
Quando Mrs . Hopewell pensava naquele nome , Hulga, vinha-lhe
à mente o amplo casco liso de um navio de guerra. Recusava-se a
usá-lo . Continuava a chamar-lhe Joy, e a rapariga reagia, mas de um
modo absolutamente mecânico .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 57

Hulga aprendera a suportar Mrs . Freeman , cuja presença a pou­


pava às caminhadas com a mãe . Mesmo Glynese e Carramae eram
úteis quando ocupavam as atenções que , de outro modo , poderiam
concentrar-se nela. A princípio , parecera-lhe que não conseguia su­
portar Mrs . Freeman , porque descobriu que não era possível ser gros­
seiro com ela. Mrs . Freeman ofendia-se com coisas estranhas e, du­
rante dias a fio, ficava mal-humorada, mas a origem destes melindres
era sempre obscura; um ataque direto , um olhar de esguelha sem re­
buços , um comentário descaradamente rude - nada disto a afetava.
E, certo dia, sem aviso , começou a tratá-la por Hulga.
Não a tratava assim diante de Mrs . Hopewell , que teria ficado fu­
riosa, mas , quando ela e a rapariga estavam as duas juntas fora de
casa, dizia qualquer coisa e acrescentava o nome Hulga no fim, e
a avantajada Joy-Hulga, com os seus óculos no rosto , franzia o ce­
nho e corava muito , como se alguém lhe tivesse violado a privaci­
dade . Considerava aquele nome um assunto só seu . Começara por
escolhê-lo unicamente com base no som desagradável , e, em segui­
da, apercebera-se do génio puro daquela escolha. Teve uma visão
daquele nome a labutar como Vulcano , feio e coberto de suor, sempre
encerrado na sua fornalha, e ao encontro de quem , presumivelmente ,
a deusa tinha de vir quando era chamada. Ela via-o como o nome
do seu ato criativo mais sublime . Um dos seus grandes triunfos era
o facto de a mãe não ter sido capaz de converter a sua poeira em
alegria, numa pessoa chamada Joy, mas o seu maior triunfo de todos
era o facto de ela própria ter conseguido converter essa poeira em
Hulga. No entanto , o ar deliciado com que Mrs . Freeman fazia uso
daquele nome tinha o condão de a irritar. Era como se os olhinhos de
Mrs . Freeman , semelhantes a contas e acerados como aço , tivessem
penetrado o suficiente para além do rosto dela para terem alcançado
um facto secreto . Havia nela qualquer coisa que parecia fascinar Mrs .
Freeman , até que , certo dia, Hulga se deu conta de que era a perna
artificial . Mrs . Freeman tinha uma predileção especial pelos porme­
nores de infeções secretas , deformidades ocultas , atentados ao pudor
cometidos sobre crianças . Das doenças , preferia as crónicas ou as
incuráveis . Hulga ouvira Mrs . Hopewell contar-lhe os pormenores
do acidente de caça, o modo como a perna fora literalmente arranca­
da pelo disparo , como ela nunca perdera os sentidos . Mrs . Freeman
158 Flannery O ' Connor

conseguia ouvir a história de todas as vezes como se tudo tivesse


sucedido somente uma hora antes .
Ao entrar a bater com os pés na cozinha, de manhã (ela era capaz
de caminhar sem fazer aquela algazarra incrível, mas não se abstinha
daquela barulheira - Mrs . Hopewell estava certa - porque o ruído
era muito desagradável) , a jovem olhava para elas e não dizia uma pa­
lavra. Mrs . Hopewell estava de quimono vermelho, com papelotes no
cabelo, que lhe tombava em volta da cabeça. Sentada à mesa, estava
a acabar o pequeno-almoço, e Mrs . Freeman, suspensa do frigorífico
pelo cotovelo espetado, olhava de alto a mesa. Hulga punha sempre os
ovos a cozer no fogão e depois ficava a vê-los , de braços cruzados , e
Mrs Hopewell olhava para ela - uma espécie de olhar indireto, repar­
.

tido entre ela e Mrs . Freeman - e punha-se a pensar que, se ao menos


a filha cuidasse um bocadinho da sua aparência, não teria um ar tão
desmazelado . Nada havia no rosto dela que uma expressão agradável
não resolvesse. Mrs Hopewell dizia que as pessoas que viam o lado
.

risonho das coisas se tomavam bonitas , mesmo que o não fossem.


Sempre que olhava para Joy desta maneira, não conseguia deixar
de pensar que teria sido melhor se a rapariga não se tivesse douto­
rado . O doutoramento não a fizera desabrochar, e , agora que já o
obtivera, não havia mais desculpas para ela tomar a frequentar a
universidade . Mrs . Hopewell achava bem que as raparigas andassem
na universidade , para se divertirem um bocado , mas Joy limitara-se
a «frequentar» a universidade . Fosse como fosse , ela não teria forças
para voltar para lá. Os médicos tinham avisado Mrs . Hopewell de
que , com os melhores cuidados , Joy talvez vivesse até aos quarenta
e cinco . Tinha o coração fraco . Joy tomara claro que , se não fosse
aquela enfermidade , já estaria há muito longe daqueles montes ver­
melhos e daquela boa gente do campo . Estaria numa universidade ,
a dar aulas a pessoas que soubessem do que é que ela estava a falar.
E Mrs . Hopewell conseguia perfeitamente imaginá-la lá, com ar de
espantalho , a perorar diante de outros espantalhos parecidos . Ali em
casa, andava o dia inteiro com uma saia que comprara havia seis
anos e uma camisola amarela com um cowboy a cavalo estampado e
já muito desbotado . Achava isto engraçado; Mrs . Hopewell achava
uma idiotice , um gesto que revelava apenas que ela era ainda uma
criança. Era brilhante , mas não tinha um pingo de bom senso . Pa-
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 159

recia a Mrs . Hopewell que , a cada ano que passava, ela se asseme­
lhava cada vez menos às outras pessoas e se tomava cada vez mais
peculiar - vaidosa, grosseira e vesga. E dizia coisas tão esquisitas !
Dissera à própria mãe - sem aviso , sem desculpa, pondo-se de pé a
meio de uma refeição , de rosto púrpura e boca meio cheia - «Mu­
lher! Alguma vez olhas para dentro de ti? Alguma vez olhas para
dentro de ti e vês o que não és? Meu Deus ! » , e, depois de bradar
estas palavras , tomara a afundar-se na cadeira e , fitando o prato ,
acrescentara: «Malebranche tinha razão: não somos a nossa própria
luz . Não somos a nossa própria luz ! » Ainda hoje, Mrs . Hopewell
não fazia ideia do que desencadeara esta explosão . Limitara-se a
dizer, esperando que Joy assimilasse o comentário , que um sorriso
não fazia mal a ninguém .
A rapariga doutorara-se em filosofia, e isto deixara Mrs . Hopewell
completamente perdida. Uma pessoa podia dizer: «A minha filha é
enfermeira» , ou «A minha filha é professora primária» , ou até «A
minha filha é engenheira química.» Ninguém podia dizer: «A minha
filha é filósofa.» Isso era uma coisa que tinha acabado no tempo dos
gregos e dos romanos. Joy passava o dia inteiro recostada numa fun­
da poltrona, a ler. À s vezes , ia dar passeios , mas não gostava de cães ,
nem de gatos , nem de pássaros , nem de flores , nem da natureza, nem
de rapazes simpáticos . Olhava para os rapazes simpáticos como se
lhes farejasse ao longe a estupidez .
Um dia, Mrs . Hopewell pegou num dos livros que a rapariga aca­
bara de pousar e , abrindo as páginas ao acaso , leu: «A ciência, por
seu lado , tem de reafirmar a sua prudência e a sua seriedade e decla­
rar que se preocupa apenas com o ente . O nada - poderá ser outra
coisa para a ciência que não horror e fantasia? Se a ciência está certa,
então uma coisa é indiscutível: a ciência nada quer saber do nada. Eis
aqui , no fim de contas , o conceito rigorosamente científico do Nada.
Conhecemo-lo ao desejarmos nada saber do Nada.» Estas palavras ,
sublinhadas com um lápis azul , abalaram Mrs . Hopewell como um
feitiço maléfico , pronunciado numa algaraviada incompreensível.
Fechou o livro muito depressa e saiu da sala como se um calafrio a
percorresse.
Naquela manhã, quando a rapariga entrou , Mrs . Freeman estava a
falar sobre Carramae . - Ela vomitou quatro vezes depois do jantar
1 60 Flannery O ' Connor

- informou - e levantou-se duas vezes de noite depois das três da


manhã. Ontem, não fez mais nada senão remexer na gaveta da cómo­
da. Não fez mais nada. Ficou ali em frente à cómoda, a ver o que é
que podia vestir hoje.
- Ela tem de comer - murmurou Mrs . Hopewell , beberricando
o café , enquanto observava as costas de Joy, que estava parada junto
ao fogão . Perguntou a si mesma o que é que a filha teria dito ao ven­
dedor de Bíblias . Não conseguia imaginar que género de conversa ela
poderia ter tido com ele .
Ele era um jovem alto e magricela, sem chapéu , que as visitara
na véspera para lhes vender uma Bíblia. Surgiu à porta, carregando
uma grande mala preta que lhe fazia tanto peso num braço que teve
de se apoiar à ombreira diante de si. Parecia quase a desfalecer, mas
disse em voz jovial: - Bom dia, Mrs . Cedars ! - e pousou a mala no
capacho . Não tinha uma aparência desagradável , ainda que vestisse
um fato azul-vivo e calçasse umas peúgas amarelas que não estavam
bem puxadas para o alto . Tinha as maçãs do rosto salientes e uma
madeixa de cabelo castanho com aparência pegajosa a tombar-lhe
sobre a testa.
- Eu chamo-me Mrs . Hopewell - corrigiu ela.
- Ah ! - exclamou ele , fingindo parecer intrigado , mas de olhos
a cintilar - , vi que dizia «The Cedars» na caixa do correio , por isso
pensei que a senhora se chamava Mrs . Cedars ! - e irrompeu num
riso prazenteiro . Ergueu a mala do chão e , a pretexto de um arquejo,
precipitou-se para dentro do vestfbulo dela. Dir-se-ia que a mala se
movera primeiro , puxando-o atrás . - Mrs . Hopewell ! - exclamou
ele e agarrou-lhe a mão . - Espero que 'teja tudo bem consigo ! - e
tomou a rir-se e depois , de repente , fez um ar muito grave . Fez uma
pausa e, lançando-lhe um olhar direto e circunspecto , disse: - Mi­
nha senhora, vim falar de coisas sérias .
- Bom, entre - murmurou ela, não muito satisfeita, porque tinha
o jantar quase pronto . Ele entrou na sala de visitas e sentou-se na
borda de uma cadeira de espaldar direito e pousou a mala entre os pés
e passeou o olhar pela divisão , como se estivesse a avaliar a anfitriã
pela aparência da casa. As pratas dela cintilavam nos dois aparado­
res; ela concluiu que ele nunca estivera numa sala tão elegante como
aquela.
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 161

- Mrs . Hopewell - começou ele , proferindo o nome dela de uma


forma que parecia quase íntima - , sei que a senhora acredita nos
rituais cristões .
- Bom, sim - murmurou ela.
- Sei - prosseguiu ele , e fez uma pausa, parecendo muito arguto ,
com a cabeça inclinada de lado - que a senhora é uma boa mulher.
Disseram-me uns amigos .
Mrs . Hopewell não gostava que a tomassem por parva. - O que é
que o senhor anda a vender? - indagou .
- Bíblias - respondeu o jovem, e o olhar dele percorreu a sala, cé­
lere, antes de ele acrescentar: - Vejo que não tem nenhuma Bíblia das
grandes na sua sala de visitas , vejo que é isso que lhe falta aqui em casa!
Mrs . Hopewell não podia dizer: «A minha filha é ateia e não me
deixa ter uma Bíblia aqui na sala.» Em vez disso , empertigando-se
um bocadinho , disse: - Tenho a Bíblia na minha mesa de cabeceira.
- Não era verdade . Estava no sótão , algures .
- Minha senhora - disse ele - , a palavra de Deus devia de 'tar
na sala de visitas .
- Bom, acho que isso é uma questão de gosto - começou ela. -
Acho que . . .
- Minha senhora - atalhou ele - , pra um cristão , a palavra de
Deus devia de ' tar em todas as divisões da casa, além de 'tar no co­
ração dele . Eu sei que a senhora é cristã, porque a senhora tem a fé
bem estampada no rosto .
Ela pôs-se de pé e disse: - Bom, jovem, eu não quero comprar
nenhuma Bíblia e já sinto o cheiro do meu jantar a queimar no fogão .
Ele não se levantou. Começou a retorcer as mãos e , baixando os
olhos para estas , disse em voz suave: - Bom, minha senhora, vou-lhe
dizer a verdade . . . não há assim muita gente que queira comprar uma
Bíblia, nos tempos que correm, e, além do mais , eu sei que sou uma
pessoa muito simples . Quando quero dizer uma coisa, digo-a e prontos.
Sou um moço do campo, mais nada. - Ergueu o rosto, lançando-lhe
um olhar fugaz ao semblante pouco amigável . - As pessoas como a
senhora não gostam de andar metidas com gente do campo como eu !
- Ora essa ! - exclamou ela. - A boa gente do campo é o sal
da terra! Além disso, cada qual tem a sua maneira diferente de ser, a
variedade é que evita o fastio . A vida é mesmo assim !
1 62 Flannery O ' Connor

- Agora é que a senhora disse tudo - comentou ele .


- Homessa, acho que não há neste mundo boa gente do campo que
chegue ! - soltou ela, entusiasmada. - Acho que é isso que está mal !
O rosto dele iluminara-se . - Ainda não me apresentei - disse. -
Sou Manley Pointer, ali das redondezas de Willohobie , nem sequer
sou duma aldeia, sou de ao pé duma aldeia, mais· nada.
- Só um minutinho - interveio ela. - Tenho de ir ver do meu
jantar. - Saiu para a cozinha e deparou com Joy especada junto à
porta, onde estivera a escutar a conversa.
- Mande passear o sal da terra - pediu esta - e vamos comer.
Mrs . Hopewell lançou-lhe um olhar sofrido e baixou o lume do
tacho dos legumes . - Não posso ser malcriada com ninguém -
murmurou , e regressou à sala de visitas .
Ele abrira a mala e, ali sentado , tinha uma. Bíblia pousada em cada
joelho .
- Pode guardar essas Bíblias , digo-lhe desde já - avisou ela. -
Não quero comprar nenhuma.
- Aprecio a sua honestidade - declarou ele . - Já não se vê
gente honesta a valer, a não ser que vamos pràs terriolas perdidas no
meio do campo .
- Eu sei - disse ela - , pessoas genuínas ! - Através da frincha
da porta, ouviu um resmungo .
- Se calhar, muitos rapazes vêm até cá dizer-lhe que andam a tra­
balhar pra pagar os estudos da universidade - disse ele - , mas eu cá
não lhe vou dizer isso . Seja lá como for - prosseguiu - , eu não quero
ir prà universidade . Quero dedicar a minha vida à causa cristã. Sabe -
e, neste ponto, baixou a voz - , tenho um problema de coração. Sou
capaz de não viver muito tempo . Quando sabemos que temos uma ma­
leita e que somos capazes de não viver muito tempo, pois bem, minha
senhora. . . - Fez uma pausa, de boca aberta, e fitou-a.
Ele e Joy sofriam da mesma enfermidade ! Ela deu-se conta de que
tinha os olhos a encherem-se de lágrimas , mas dominou-se rapidamen­
te e murmurou: - Não quer ficar para o jantar? Gostávamos imenso
que jantasse connosco ! - e arrependeu-se no preciso momento em
que formulou o convite.
- Sim, m'nha senhora - respondeu ele em voz acanhada - ,
tenho todo o gosto nisso !
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 63

Joy lançou-lhe um olhar ao ser-lhe apresentada, e depois , ao longo


da refeição , não tomou a olhá-lo sequer de relance . Ele dirigiu-lhe
vários comentários , que ela fingiu não ouvir. Mrs . Hopewell era in­
capaz de entender a grosseria deliberada, embora convivesse com ela
diariamente , e sentia que tinha sempre de manifestar uma hospitali­
dade transbordante para compensar a falta de cortesia de Joy. Incitou
o visitante a falar acerca de si mesmo , e ele não se fez rogado . Disse
que era o sétimo filho de doze e que o pai morrera esmagado debaixo
de uma árvore quando ele próprio tinha oito anos . O pai ficara com­
pletamente esfacelado , aliás , quase cortado em dois, praticamente ir­
reconhecível . A mãe criara os filhos o melhor que conseguira, traba­
lhando arduamente , e certificara-se sempre de que eles frequentavam
a catequese e de que liam a Bíblia todas as noites . Ele contava agora
dezanove anos e andava a vender Bíblias havia quatro meses . Du­
rante esse período , vendera setenta e sete Bíblias e tinha apalavradas
mais duas vendas . Queria tomar-se missionário , porque achava que
era desse modo que podia auxiliar mais as pessoas . - Quem perder
a sua vida, encontrará-la - disse simplesmente , e parecia tão since­
ro , tão genuíno e tão empenhado que Mrs . Hopewell nem por nada
deste mundo teria esboçado um sorriso . Ele impedia as ervilhas de
escorregarem para cima da mesa, detendo-as com um pedaço de pão
que depois usou para rapar o prato . Ela podia ver Joy a observá-lo
pelo canto do olho , a reparar como ele segurava na faca e no garfo ,
e viu também que , a cada dois ou três minutos , o rapaz lançava à ra­
pariga um olhar ávido de louvor, como se estivesse a tentar atrair-lhe
a atenção .
Depois do jantar, Joy levantou os pratos da mesa e desapareceu ,
e Mrs . Hopewell ficou sozinha a falar com ele . Ele tomou a contar­
-lhe a sua infância e o acidente do pai e várias coisas que lhe tinham
acontecido . De cinco em cinco minutos , mais ou menos, ela sufocava
um bocejo. Ele ficou ali duas horas , até que , por fim, ela lhe disse
que precisava de sair, porque tinha um compromisso na povoação .
Ele guardou as Bíblias na mala e agradeceu-lhe e preparou-se para
partir, mas , à porta, deteve-se e apertou-lhe a mão com força e disse
que nunca nas suas viagens encontrara urna senhora tão simpática
como ela, e perguntou-lhe se podia regressar. Ela respondeu que teria
sempre todo o gosto em vê-lo .
1 64 Flannery O ' Connor

Joy estava parada no caminho , aparentemente a olhar para qual­


quer coisa ao longe , quando ele desceu os degraus ao encontro dela,
curvado sobre o flanco devido ao peso da enorme mala. Deteve-se
onde ela estava parada e abordou-a diretamente . Mrs . Hopewell não
ouviu o que ele disse , mas tremia ao pensar no que Joy lhe responde­
ria. Pôde ver que , ao cabo de uns momentos , Joy disse qualquer coisa,
e que o rapaz começou novamente a falar, executando um gesto entu­
siasmado com a mão livre . Passados mais alguns momentos , Joy dis­
se mais qualquer coisa, e, em resposta, o rapaz começou novamente a
falar. Depois , para seu assombro , Mrs . Hopewell viu-os afastarem-se
juntos , em direção à cancela. Joy acompanhou-o o caminho todo até
à cancela, e Mrs . Hopewell , que não conseguia imaginar o que eles
teriam dito um ao outro , ainda não se atrevera a perguntar.
Mrs . Freeman reclamava a atenção dela. Afastara-se do frigorífi­
co e fora para junto do aquecedor, de modo que Mrs . Hopewell foi
obrigada a voltar-se e a encará-la para fazer de conta que a estava a
ouvir. - A Glynese saiu outra vez com o Harvey Hill ontem à noite
- disse . - 'Tava com um terçolho .
- Hill . . . - comentou Mrs . Hopewell com ar ausente . - Esse é
aquele que trabalha na garagem?
- Não , é o que anda na escola pra ser queiroprático - emendou
Mrs . Freeman . - Ela ' tava com um terçolho . Andava corri aquilo vai
pra dois dias . Ontem à noite , quando ele a trouxe pra casa, ela con­
tou-me que ele lhe disse assim: «Deixa-me livrar-te desse terçolho» ,
e vai ela: «Como?» , e vai ele: «Deita-te aí no banco do carro , que eu
mostro-te .» Ela obedeceu , e ele estalou-lhe o pescoço . E estalou-lho
outra vez e mais outra e mais outra, até que ela lhe disse que parasse
com aquilo . Esta manhã - rematou - , ela já não tem terçolho ne­
nhum. Foi-se completamente, prontos .
- Nunca tinha ouvido nada assim - disse Mrs . Hopewell .
- Ele pediu-lhe que se casasse com ele na presença do notário
- continuou Mrs . Freeman - , mas ela respondeu-lhe que não se ia
casar em escrit6rio nenhum.
- Bom, a Glynese é uma boa moça - disse Mrs . Hopewell . -
Tanto a Glynese como a Carramae são boas moças .
- A Carramae contou que , quando ela e o Lyman se casaram, o
Lyman disse que , pra ele , assim é que foi uma coisa sagrada. Ela
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 65

disse que ele lhe disse que nem que lhe pagassem quinhentos dólares
abdicava do casamento na presença do pregador.
- E quanto é que ele aceitava para abdicar? - perguntou a rapa­
riga do fogão .
- Ele disse que nem que lhe pagassem quinhentos dólares - re­
petiu Mrs . Freeman .
- Bom, todos temos muito que labutar neste mundo - comentou
Mrs . Hopewell .
- O Lyman disse que assim é que teve a sensação duma coisa sa­
grada - insistiu Mrs . Freeman. - O médico quer que a Carramae
coma ameixas secas . Diz que é melhor do que medicamentos . Diz que
as cãibras lhe vêm da pressão. Sabe onde é que eu acho que o coiso 'tá?
- Ela vai melhorar dentro de poucas semanas - acudiu Mrs . Ho­
pewell .
- Na trompa - disse Mrs . Freeman . - Se não fosse assim , ela
não andava tão agoniada como anda.
Hulga descascara os seus dois ovos cozidos e pusera-os num pi­
res e estava a levá-los para a mesa , juntamente com uma chávena
de café que enchera demasiado . Sentou-se com gestos cautelosos
e começou a comer, fazendo tenções de manter Mrs . Freeman na
cozinha por meio de perguntas , se , por qualquer motivo , ela se mos­
trasse inclinada a sair. Apercebia-se do olhar da mãe cravado nela.
A primeira pergunta indireta diria respeito ao vendedor de Bíblias , e
ela não desejava suscitá-la. - Como é que ele lhe estalou o pesco­
ço? - indagou .
Mrs . Freeman lançou-se numa descrição do modo como ele lhe
estalara o pescoço . Disse que ele tinha um Mercury de 1 955 , mas que
Glynese tinha dito que preferia casar-se com um homem que tivesse
apenas um Plymouth de 1 936, desde que ele se quisesse casar na p� ­
sença dum pregador. A rapariga perguntou-lhe então e se ele tives�
um Plymouth de 1932, e Mrs . Freeman respondeu que ela tinha fala­
do dum Plymouth de 1 936.
Mrs . Hopewell disse que não havia muitas raparigas com o bom
senso de Glynese . Disse que o que mais admirava naquelas rapa­
rigas era o bom senso delas . Disse que isso lhe trazia à lembrança
que , na véspera, tinham recebido um visitante simpático , um jovem
a vender Bíblias . - Valha-me Deus - disse - , ele aborreceu-me
1 66 Flannery O ' Connor

de morte , mas era tão sincero e tão genuíno que não consegui ser
malcriada com ele . Era boa gente do campo , sabe como é - acres­
centou - , o sal da terra.
- Eu vi-o passar - disse Mrs . Freeman - e depois , mais tarde ,
vi-o ir-se embora - e Hulga apercebeu-se da ligeira mudança na
voz dela, a vaga insinuação de que ele não se afastara sozinho , pois
não? Manteve o rosto inexpressivo , mas ficou com o pescoço muito
vermelho e pareceu engolir o rubor com a colherada seguinte de ovo .
Mrs . Freeman olhava-a como se partilhassem um segredo .
- Bom, é a variedade que evita o fastio neste mundo - comentou
Mrs . Hopewell . - Ainda bem que não somos todos parecidos .
- Certas pessoas são mais parecidas do que outras - ajuntou
Mrs . Freeman .
Hulga pôs-se de pé e encaminhou-se para o quarto a bater com
os pés , fazendo quase o dobro do barulho que lhe seria necessário ,
e trancou a porta. la encontrar-se junto à cancela com o vendedor de
Bíblias às dez em ponto . Passara metade da noite a pensar naquilo .
De início , pensara naquilo como uma grande brincadeira, e depois
começara a aperceber-se de implicações desmedidas . Deitada na ca­
ma, pusera-se a imaginar diálogos entre eles que eram tresloucados ,
à primeira vista, mas que alcançavam profundezas de que nenhum
vendedor de Bíblias se apercebia. A conversa deles na véspera fora
deste género .
Ele estacara defronte dela e limitara-se a ficar ali parado . Tinha o
rosto ossudo e transpirado e rebrilhante , com um narizito pontiagudo
no meio, e uma expressão diferente da que exibira à mesa do jantar.
Fitava-a com curiosidade franca, com fascínio , como uma criança a
observar um novo animal fantástico no jardim zoológico , e ofegava,
como se tivesse tido de correr uma grande distância para a alcançar.
Havia naquele olhar qualquer coisa de familiar, mas ela não se recor­
dava de onde fora olhada daquela forma. Durante quase um minuto ,
ele nada disse . Por fim, naquilo que pareceu um sorvo de ar, sussur­
rou: - Alguma vez comestes um frango com dois dias?
A rapariga olhou-o com expressão empedernida. Ele tinha cara de
quem acabara de pôr aquele dilema à consideração da assembleia, nu­
ma reunião de uma associação de filósofos . - Sim - acabou ef a por
replicar, como se tivesse ponderado todas as vertentes do problema.
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 67

- Devia de ser bem pequenino ! - soltou ele , triunfante , e estre­


meceu dos pés à cabeça, sacudido por risinhos nervosos , de rosto
muito encarnado , acabando por tomar a adotar aquele olhar de ab­
soluta admiração , ao passo que a expressão da rapariga permaneceu
exatamente a mesma.
- Que idade tens? - perguntou ele em voz suave .
Ela esperou algum tempo antes de responder. Depois , em voz mo­
nocórdica, declarou: - Dezassete .
Os sorrisos dele sucediam-se como ondas a rebentar à superfície
de um pequeno lago . - Vejo que tens uma perna de pau - comen­
tou . - Acho-te muito corajosa. Acho-te encantadora.
A rapariga continuava inexpressiva, hirta e silenciosa.
- Vem até à cancela comigo - pediu ele . - És uma mocita cora­
josa e encantadora e eu gostei de ti assim que te vi entrar por aquela
porta.
Hulga começou a avançar.
- Como é que te chamas? - perguntou ele , sorrindo ao fitar-lhe
o alto da cabeça.
- Hulga - respondeu ela.
- Hulga - murmurou ele. - Hulga. Hulga. Nunca tinha ouvido
dizer de nenhuma moça chamada Hulga. És esquiva, não és , Hulga? -
perguntou.
Ela fez que sim com a cabeça, observando a enorme mão dele, .--

muito vermelha, na pega da gigantesca mala.


- Gosto de moças que usam óculos - disse ele . - Penso muito .
Não sou como essas pessoas que nunca lhes entra na cabeça um pen­
samento sério . É porque sou capaz de morrer.
- Eu também sou capaz de morrer - declarou ela subitamente , e
ergueu o rosto para ele . Os olhos dele eram muito pequenos e muito
castanhos , a cintilar, febris .
- Escuta - disse ele - , não achas que certas pessoas foram feitas
pra se encontrarem, por causa de tudo o que têm em comum, e assim?
- Mudou a mala para a outra mão, de modo que a mão mais próxima
dela ficou livre. Agarrou o cotovelo dela e abanou-o ligeiramente. -
Não trabalho aos sábados - disse. - Gosto de passear pelos bosques
e de ver o que a Mãe Natureza traz vestido . De subir aos montes e ir até
bem longe . Piqueniques e isso. Não podemos ir fazer um piquenique
1 68 Flannery O 'Connor

amanhã? Diz que sim, Hulga - atirou ele e lançou-lhe um olhar mori­
bundo , como se sentisse as entranhas prestes a jorrarem-lhe do corpo .
Pareceu até tombar ligeiramente na direção dela.
Durante a noite, ela imaginou que o seduzia. Imaginou que cami­
nhavam os dois pela quinta até chegarem ao celeiro , para além dos
dois campos nas traseiras da casa, e ali , imaginou ela, as coisas as­
sumiam tais proporções que ela o seduzia com toda a facilidade e
depois , é claro , tinha de lidar com os remorsos dele . O verdadeiro gé­
nio consegue transmitir uma ideia até mesmo a um espírito inferior.
Ela imaginou que pegava nos remorsos dele pela mão e que os alte­
rava, transformando-os numa compreensão mais profunda da vida.
Livrava-o de toda a vergonha e convertia-a em qualquer coisa de útil .
Encaminhou-se para o portão precisamente às dez em ponto , esca­
pulindo-se sem atrair a atenção de Mrs . Hopewell . Não levou nada pa­
ra comer, esquecendo-se de que, geralmente , as pessoas levam comi­
da para os piqueniques . Vestia um par de calças e uma camisa branca
já suja e, depois de pensar um pouco , tinha posto pomada de mentol
Vapex no colarinho , uma vez que não tinha perfume nenhum. Quando
chegou à cancela, não estava lá ninguém.
Olhou para um lado e para o outro ao longo da estrada e experi­
mentou a sensação furiosa de ter sido ludibriada, de que ele quisera
apenas que ela caminhasse até à cancela em obediência ao convite
dele . Então , subitamente , ele pôs-se de pé , muito alto , erguendo-se
de trás de um arbusto no talude do lado oposto . Sorridente , ergueu
o chapéu , que era novo e tinha aba larga. Não o trazia na véspera, e
ela ficou na dúvida se ele o comprara para a ocasião . Era amarelo­
-torrado com uma fita vermelha e branca em volta da copa, e era um
tudo-nada grande de mais para ele . Ele emergiu de trás do arbusto ,
ainda carregando a mala preta. Vestia o mesmo fato e as mesmas peú­
gas amarelas , enrodilhadas dentro dos sapatos de tanto andar. Atra­
vessou a estrada e disse: - Eu sabia que tu vinhas !
A rapariga perguntou a si mesma com acrimónia como é que ele
sabia. Apontou para a mala e perguntou: - Porque é que trouxeste
as tuas Bíblias?
Ele pegou-lhe no braço , sorrindo enquanto a olhava de alto , como
se não fosse capaz de parar. - Nunca se sabe quando é que vamos
precisar da palavra de Deus , Hulga - disse . Houve um momento
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 69

em que ela duvidou que aquilo estivesse efetivamente a suceder, e


depois começaram os dois a trepar o talude . Desceram para o pasto ,
em direção aos bosques . O rapaz caminhava ao lado dela em passo
ligeiro , a saltitar em bicos de pés . A mala não parecia pesada naquele
dia; ele chegava até a baloiçá-la. Atravessaram metade do pasto sem
nada dizerem e depois , pondo-lhe a mão descontraidamente no fundo
das costas , ele perguntou-lhe em voz suave: - Onde é que começa
a tua perna de pau?
O rosto dela adquiriu um tom vermelho muito pouco amistoso, e
ela fuzilou-o com os olhos , e, durante um breve instante , o rapaz pa­
receu acabrunhado . - Não perguntei por mal - justificou-se . - Só
queria dizer que és muito corajosa, mais nada. Parece-me que Deus
olha por ti .
- Não - retorquiu ela, olhando em frente e caminhando depressa
- , eu nem sequer acredito em Deus .
Ante isto, ele deteve-se e assobiou . - Não ! - exclamou , como se
estivesse demasiado estupefacto para dizer outra coisa.
Ela continuou em frente , e, num instante , ele estava a saltitar ao la­
do dela, a sacudir-se com o chapéu . - Isso é muito invulgar pra uma
moça - observou , remirando-a pelo canto do olho . Quando chega­
ram à orla da floresta, tornou a pôr-lhe a mão nas costas e puxou-a
para si sem uma palavra e beijou-a pesadamente.
O beijo, que tinha atrás de si mais pressão do que sentimento , pro­
duziu na rapariga aquele jorro adicional de adrenalina que nos permi­
te carregar um baú a abarrotar para fora de uma casa em chamas , só
que , nela, a energia subiu-lhe de imediato ao cérebro . Ainda antes de
ele a soltar, a mente dela, sempre clarividente e distanciada e irónica,
remirava-o de uma grande distância, divertida mas também apieda­
da. Nunca antes a tinham beijado , e agradou-lhe descobrir que se
tratava de uma experiência banal e que era tudo uma questão de con­
trolo por parte da mente . Certas pessoas conseguiam saborear água
de despejos , se lhes dissessem que era vodca. Quando o rapaz , com
ar expectante mas inseguro, a afastou com um gesto delicado , ela
virou o rosto e continuou a caminhar, nada dizendo , como se aquele
acontecimento fosse para ela bastante corriqueiro .
Ele caminhou a par dela, arquejante , tentando ajudá-la quando via
uma raiz em que ela pudesse tropeçar. Agarrava e mantinha afastadas
1 70 Flannery O ' Connor

as compridas lâminas oscilantes das silvas até ela as ter ultrapassado .


Ela seguia à frente , e ele vinha atrás , a respirar pesadamente . Foi en­
tão que emergiram numa encosta banhada pelo sol , que , num declive
suave , dava lugar a outra, um pouco mais pequena. Mais além, viram
o telhado enferrujado do velho celeiro onde se guardavam as reservas
de feno .
O monte estava salpicado de pequenas ervas daninhas cor-de-rosa.
- Quer então dizer que não encontrastes o caminho da salvação? -
perguntou ele subitamente, estacando .
A rapariga sorriu . Era a primeira vez que dirigia um sorriso ao ra­
paz . - Na minha maneira de ver as coisas - declarou - , eu estou
salva e tu estás condenado às penas eternas , mas já te disse que não
acredito em Deus .
Nada parecia destruir o olhar de admiração do rapaz . Fitava-a ago­
ra como se o animal fantástico em exposição no jardim zoológico
tivesse enfiado a pata através das grades e lhe tivesse dado uma pal­
madinha ternurenta. Ela achou que ele parecia querer beijá-la de no­
vo , e estugou o passo antes que ele tivesse oportunidade .
- Não há um lugar onde a gente se possa sentar um bocado? -
murmurou ele , a voz a adoçar-se no final da pergunta.
- Naquele celeiro - indicou ela.
Avançaram rapidamente ao encontro do celeiro , como se este fos­
se deslizar para longe , qual comboio . Era um grande celeiro de dois
andares , fresco e escuro no interior. O rapaz apontou para o cimo da
escada de mão que conduzia ao palheiro , lá no alto , e disse: - É uma
pena não podermos ir lá pra cima.
- E porque não? - perguntou ela.
- A tua perna - disse ele em tom reverente .
A rapariga lançou-lhe um olhar de desprezo e, fincando as duas
mãos na escada, trepou-a enquanto ele permanecia parado cá em bai­
xo, aparentemente estupefacto . Ela içou-se com gestos ágeis através
do alçapão e depois olhou cá para baixo e atirou: - Bom, anda daí,
se queres - e ele começou a trepar a escada, trazendo a mala desa­
jeitadamente consigo .
- Não vamos precisar da Bíblia - observou ela.
- Nunca se sabe - retorquiu ele, ofegante. Depois de ter subido
para o palheiro, ficou alguns segundos a recobrar o fôlego . Ela sentara-
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 171

-se num monte de palha. Uma larga faixa oblíqua de luz do Sol , reple­
ta de partículas de poeira, passava sobre ela. Recostou-se contra um
fardo, de rosto desviado, a olhar para o exterior pela abertura frontal
do celeiro, por onde a palha era atirada de uma carroça para dentro
do palheiro. As duas encostas salpicadas de cor-de-rosa jaziam contra
o pano de fundo de uma crista escura de bosques . O céu era limpo e
tinha uma cor azul e fria. O rapaz deixou-se cair ao lado dela e pôs-lhe
um braço por baixo do corpo e o outro por cima e começou a beijar-lhe

o rosto metodicamente, produzindo pequenos ruídos como um peixe .


Não tirou o chapéu , mas empurrara-o o suficiente para a nuca, de modo
a não constituir obstáculo. Quando os óculos dela começaram a inco­
modar, ele tirou-lhos e enfiou-os no bolso .
A princípio , a rapariga não retribuiu nenhum dos beijos , mas em
seguida começou a fazê-lo , e , depois de lhe ter dado vários na face ,
alcançou os lábios dele e ali se deteve , beijando-o uma e outra vez ,
como se quisesse sugar-lhe todo o fôlego do peito . O hálito dele era
límpido e doce como o de uma criança, e os beijos dele eram pega­
josos como os de uma criança. Ele soltava murmúrios em que dizia
amá-la e que percebera que a amava logo da primeira vez que a vira,
mas aquele murmurar assemelhava-se aos queixumes sonolentos de
uma criança que a mãe está a meter na cama para dormir. A mente
dela, enquanto tudo isto sucedia, nem por um segundo se deteve ou
se perdeu nos seus sentimentos . - Ainda não dissestes que me amas
- sussurrou ele por fim, afastando-se dela. - Tens de dizer.
Ela desviou os olhos dele , fitando o céu côncavo , lá ao longe , de­
pois a crista negra e depois , mais longe ainda, o que pareciam ser
dois transbordantes lagos verdes . Não se deu conta de que ele lhe
tirara os óculos , mas aquela paisagem não lhe poderia parecer exce­
cional , já que ela raramente prestava atenção às cercanias .
- Tens de dizer - repetiu ele . - Tens de dizer que me amas .
Ela tinha sempre muito cuidado ao assumir compromissos . -
Num certo sentido - começou - , se usarmos a palavra sem grande
rigor, podemos dizer isso . Mas não é palavra que eu use . Não tenho
ilusões . Sou uma daquelas pessoas que vê à transparência das coisas
e reconhece o vazio por baixo .
O rapaz estava a franzir as sobrancelhas . - Tens de dizer. Eu disse
que te amava, tu também tens de dizer - insistiu .
172 Flannery O ' Connor

A rapariga olhou para ele quase com ternura. - Pobre queridi­


nho - murmurou . - Sempre é melhor não entenderes - e puxou-o
pelo pescoço , de bruços , contra ela. - Estamos todos condenados às
penas eternas - continuou - , mas alguns tiraram as vendas e veem
que nada há para ver. É uma espécie de salvação .
Os olhos estupefactos do rapaz remiravam, inexpressivos , através
das pontas do cabelo dela. - 'Tá bem - disse ele , quase num gemi­
do - , mas afinal amas-me ou não me amas?
- Sim - respondeu ela, e logo acrescentou - , em certo sentido .
Mas tenho de te dizer uma coisa. Não pode haver desonestidade entre
nós . - Ergueu a cabeça dele e olhou-o nos olhos . - Tenho trinta
anos - declarou . - Tenho vários diplomas universitários .
O rapaz fe z um ar irritado mas teimoso . - Não quero saber -
disse . - Não quero saber de nada do que tu fizestes . Só quero saber
se me amas ou se não me amas - e apertou-a contra si e cobriu-lhe
o rosto de beijos desvairados até ela dizer: - Sim, sim.
- Muito bem - disse ele, soltando-a. - Prova-o .
Ela sorriu , olhando com ar sonhador para a paisagem trémula.
Seduzira-o sem sequer ter tomado a decisão de o fazer. - Como? -
perguntou , sentindo que era preciso refreá-lo um bocadinho .
Ele debruçou-se sobre ela e encostou-lhe os lábios ao ouvido . -
Mostra-me onde é que começa a tua perna de pau � sussurrou .
A rapariga soltou um gritinho estridente , e o rosto empalideceu­
-lhe de imediato . Não foi a obscenidade da sugestão que a chocou .
Em criança, experimentara por vezes sentimentos de vergonha,
mas a educação removera os últimos vestígios disso , assim como
um bom cirurgião raspa as células cancerígenas ; seria tão difícil
sentir-se envergonhada por causa do que ele lhe pedira como acre­
ditar na Bíblia dele . Mas era tão suscetível em relação à sua perna
artificial como um pavão em relação à sua cauda. Ninguém lhe
tocava a não ser ela própria. Cuidava dela como outras pessoas
cuidariam da alma, em privado e quase desviando o olhar. - Não
- disse .
- Eu sabia - resmungou ele , soerguendo-se . - 'Tás a fazer de
mim tanso , é o que é .
- Ah, não , não ! - bradou ela. - Começa no joelho . Só no joe­
lho . Porque é que a queres ver?
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 73

O rapaz lançou-lhe um longo olhar penetrante . - Porque - disse


- é o que te faz diferente . Tu não és como mais ninguém.
Ela ficou ali sentada, a fitá-lo . Nada havia na expressão dela ou
nos seus olhos redondos , de um azul gélido , que indicasse que isto
a comovera; mas ela sentiu-se como se o coração lhe tivesse parado
e deixado à mente a tarefa de bombear o sangue . Concluiu que , pe­
la primeira vez na vida, estava confrontada com a inocência genuí­
na. Aquele rapaz , dotado de um instinto que emanava de um ponto
além da sabedoria, tocara a verdade acerca dela. Quando , ao cabo
de um longo momento , ela disse numa voz aguda e rouca: - Está
bem - , foi como se se lhe entregasse por completo . Foi como se
perdesse a própria vida e a tomasse a encontrar, miraculosamente ,
na dele .
Com gestos muito delicados , ele começou a arregaçar-lhe a per­
na folgada das calças . A perna artificial , com uma peúga branca e
um sapato castanho de salto raso , estava envolta num tecido grosso,
semelhante a lona, e terminava numa dobradiça feia, no ponto em
que se ligava ao coto . O rosto do rapaz e a voz dele mostravam-se
totalmente reverentes no momento em que ele a destapou e disse: -
Agora mostra-me como é que a tiras e a pões .
Ela tirou-a para ele ver e tomou a prendê-la, e depois ele tirou-a
com as próprias mãos , manuseando-a com tanto cuidado como se
fosse uma perna genuína. - Vês? ! - soltou , com uma expressão de
garoto deliciado . - Agora já posso tirá-la sozinho !
- Toma a pôr-ma - pediu ela. Estava a pensar que iria fugir com
ele e que todas as noites ele lhe tiraria a perna e todas as manhãs lha
tomaria a pôr. - Toma a pôr-ma - repetiu .
- Ainda não - murmurou ele , pousando a perna de pau sobre o
respetivo pé, fora do alcance dela. - Deixa-te 'tar sem ela um boca­
do . Agora tens-me a mim.
Ela soltou um pequeno grito de alarme , mas ele empurrou-a para
baixo e começou a beijá-la de novo . Sem a perna, ela sentia-se com­
pletamente à mercê dele . O cérebro dela parecera parar totalmente de
pensar e estar agora a entregar-se a uma outra função que não desem­
penhava com grande eficiência. Diferentes expressões precipitavam­
-se desvairadamente no rosto dela. De vez em quando , o rapaz , de
olhos semelhantes a duas puas de aço, olhava por cima do ombro ,
1 74 Flannery O ' Connor

para o ponto onde a perna se encontrava, ereta. Por fim, ela afastou-o
de si e ordenou: - Põe-ma outra vez , agora.
- Espera - disse ele . Inclinou-se para o lado oposto e puxou a
mala para mais perto e abriu-a. O forro era azul-claro, às bolinhas ,
e lá dentro havia apenas duas Bíblias . Ele tirou para fora uma destas
e abriu a capa. O livro era oco e continha um cantil de whiskey para
usar no bolso , um baralho de cartas e uma caixinha azul com qualquer
coisa impressa por fora. Ele pousou estes três objetos diante dela, um
de cada vez, em fila, a intervalos regulares , como quem apresenta ofe­
rendas diante do santuário de uma deusa. Pôs-lhe a caixa azul na mão .
ESTE PRODUTO DEVE SER USADO APENAS PARA A PREVENÇÃO DE
DOENÇAS , leu ela, e deixou cair a caixa. O rapaz estava a desatarraxar
a tampa do cantil . Deteve-se e apontou , com um sorriso , para o bara­
lho de cartas . Não era um baralho como os outros , havia um desenho
obsceno na parte de trás de cada carta. - Bebe um gole - disse
ele, oferecendo-lhe o cantil em primeiro lugar. Segurou-o diante dela,
mas , como uma pessoa hipnotizada, ela não se mexeu .
Quando falou , a sua voz tinha uma entoação quase suplicante . -
Não és . . . - murmurou - não és apenas boa gente do campo?
O rapaz inclinou a cabeça de viés . Parecia ter entendido naquele
preciso momento que ela talvez estivesse a tentar insultá-lo . - Sou
- disse , arrepanhando um bocadinho os lábios - , mas isso não me
embaraçou nada. Valho tanto como tu todos os dias da semana.
- Dá-me a minha perna - pediu ela.
Ele afastou mais a perna de pau com o pé . - Vamos lá, vamos
começar a divertir-nos - disse em voz insinuante . - Ainda não nos
ficámos a conhecer bem .
- Dá-me a minha perna! - berrou ela, e tentou lançar-se na dire­
ção da perna artificial , mas ele empurrou-a para baixo com facilidade .
- O que é que se passa contigo , de repente? - perguntou , fran­
zindo o cenho enquanto atarraxava a tampa do cantil de bolso e o
guardava muito depressa dentro da Bíblia. - Ainda há um niquinho
dissestes que não acreditavas em nada. Julguei que eras uma moça
de truz !
Ela tinha o rosto quase púrpura. - És um cristão ! - sibilou . - É s
um belo cristão ! É s igualzinho ao resto das pessoas , dizes uma coisa
e fazes outra. É s um perfeito cristão , és . . .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 75

O rapaz formara com a boca um esgar irado . - Espero que não


julgues - disse em tom altivo e indignado - que eu acredito nessas
patranhas ! Posso vender Bíblias , mas sei bem a quantas ando e não
nasci ontem e sei bem pra adonde é que vou !
- Dá-me a minha perna! - guinchou ela. Ele ergueu-se de um
salto num movimento tão rápido que ela quase nem o viu recolher as
cartas e a caixa azul e enfiá-las dentro da Bíblia e atirar a Bíblia para
dentro da mala. Viu-o agarrar a perna artificial e depois , por um breve
instante , viu a perna desoladoramente atravessada de viés no interior
da mala, com uma Bíblia em cada lado dos seus extremos opostos .
Ele fechou a tampa da mala com estrondo e ergueu-a do chão com um
gesto brusco e atirou-a pelo alçapão e depois ele próprio se enfiou ali .
Quando já descera o suficiente para só se lhe ver a cabeça, virou-se
e remirou-a com um olhar em que já não havia a mais pequena ad­
miração . - Já arrebanhei imensas coisas interessantes - anunciou .
- Uma vez , deitei a mão ao olho de vidro duma mulher deste jeito .
E não julgues que me apanhas , porque Pointer não é o meu nome ver­
dadeiro . Uso um nome diferente em cada casa onde bato e não fico
muito tempo em lado nenhum. E deixa-me dizer-te outra coisa, Hul­
ga - prosseguiu , proferindo o nome como se não o achasse grande
coisa - , não és assim tão esperta. Eu cá não acredito em nada desde
o dia em que nasci ! - e então o chapéu amarelo-torrado desapareceu
pelo alçapão e a rapariga ficou ali , sentada na palha, à luz poeirenta
do Sol . Quando voltou o rosto amarfanhado para a abertura, viu a
silhueta azul dele a caminhar afanos�te sem se afundar sobre o
lago verde sarapintado . )
Mrs . Hopewell e Mrs . Freeman , que estavam no pasto das traseiras
da casa, a desenterrar cebolas , viram-no assomar dos bosques pou­
co depois e romper através do prado em direção à estrada. - Ora
essa, aquele parece o rapaz simpático e um bocado palerma que me
tentou vender ontem uma Bíblia - disse Mrs . Hopewell , franzindo
as pálpebras . - Deve ter estado a tentar vendê-las aos negros que
vivem naquelas bandas . Era muito simplório - acrescentou - , mas
acho que o mundo seria um lugar melhor se fôssemos todos assim
simplórios .
O olhar de Mrs . Freeman avançou e conseguiu alcançá-lo escassos
momentos antes de ele desaparecer sob o monte . Em seguida, tomou
1 76 Flannery O ' Connor

a concentrar a sua atenção no rebento malcheiroso de cebola que


estava a arrancar da terra. - Há quem não consiga ser assim tão sim­
plório - comentou . - Eu cá é que não era capaz , de certeza.
O Refugiado

O pavão vinha a seguir Mrs . Shortley pelo caminho acima, até à


colina onde ela fazia tenções de parar. Avançando em fila indiana, pa­
reciam um desfile perfeito . Ela tinha os braços cruzados e, à medida
que subia a encosta, dir-se-ia uma giganta, a consorte daquelas terras ,
que tivesse emergido do seu refúgio ante um qualquer sinal de perigo
para ver o que se passava. Apoiava-se em duas pernas tremendas ,
com a grandiosa autoconfiança de uma montanha, e assomava, por
entre saliências cada vez mais apertadas de granito , até dois pontos
de luz , azuis e gélidos , que jorravam para diante , examinando tudo .
Ignorou o Sol branco da tarde , que se esgueirava atrás de uma mura­
lha branca de nuvens , como se fingisse ser um intruso , e espraiou a
vista ao longo do caminho vermelho de argila que emergia da estrada
principal .
O pavão parou logo atrás dela, com a cauda - a cintilar em refle­
xos verde-dourados e azuis à luz do Sol - erguida somente o bas­
tante para não tocar no chão . A cauda espraiava-se de ambos os lados
como a cauda flutuante de um vestido de noite , e a cabeça do animal,
no alto do longo pescoço azul e flexível , estava inclinada para trás ,
como se ele tivesse fixado a atenção na lonjura, em qualquer coisa
que mais ninguém conseguia ver.
Mrs . Shortley estava a observ"ar um carro preto que transpôs a can­
cela, vindo da estrada. Junto ao b � das ferramentas , a uns cinco
metros dali , os dois negros , Astor e SuJk , tinham parado de trabalhar
para ficar a ver. Tinham-se escondido atrás de uma amoreira, mas
Mrs . Shortley sabia que eles ali estavam.
178 Flannery O ' Connor

Mrs . Mclntyre estava a descer os degraus da sua casa para receber


o carro . Ostentava o seu sorriso mais rasgado , mas Mrs . Shortley,
mesmo àquela distância, conseguia detetar nos traços dela um esgar
nervoso . As pessoas que estavam a chegar eram apenas assalariados ,
como os próprios Shortleys ou os negros . Todavia, eis ali a proprie­
tária da quinta, a sair de casa para os acolher. Ali estava ela, vestida
com as suas melhores roupas e com um colar de contas , a descer os
degraus aos saltinhos , de lábios arrepanhados.
O carro parou no terreiro , assim como ela, e o padre foi o primei­
ro a sair. Era um velho de pernas compridas e fato preto , de chapéu
branco na cabeça e um colarinho que usava ao contrário , o que , tal
como Mrs . Shortley bem sabia, era o que os padres faziam quando
queriam que soubessem que eles eram padres . Fora aquele padre que
providenciara para que aquelas pessoas fossem para ali. Abriu a por­
ta traseira do carro , e do interior saltaram duas crianças , um rapaz
e uma rapariga, e depois , em passo mais vagaroso , uma mulher de
castanho , em forma de amendoim. Depois , a porta da frente abriu-se
e surgiu o homem, o Refugiado . Era baixo e tinha as costas ligeira­
mente vergadas e usava óculos de aros dourados .
A visão de Mrs . Shortley concentrou-se nele e depois alargou-se
para incluir a mulher e os dois filhos num retrato de grupo . A pri­
meira coisa que a impressionou como muito peculiar foi o facto de
eles parecerem pessoas como as outras . Sempre que os vira na sua
imaginação , a imagem que tivera fora a dos três ursos da fábula, a
caminharem em fila indiana, de tamancos nos pés como holandeses e
chapéus de marujo na cabeça e de casacos garridos com imensos bo­
tões . Mas a mulher trazia um vestido que ela própria poderia usar, e
os filhos estavam vestidos como quaisquer crianças das redondezas .
O homem usava umas calças de caqui e uma camisa azul . De súbito ,
no momento em que Mrs . Mclntyre lhe estendeu a mão , ele curvou­
-se pela cintura e beijou-lha.
Mrs . Shortley levou a própria mão à boca num gesto brusco e de­
pois , após um instante , baixou-a e esfregou-a vigorosamente nos fun­
dilhos da saia. Se Mr. Shortley lhe tivesse tentado beijar a mão , Mrs .
Mclntyre tê-lo-ia mandado dar uma grande volta, mas a verdade é
que Mr. Shortley nunca se teria lembrado de uma coisa assim. Não
tinha tempo para palermices daquelas .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 79

Apurou a vista, franzindo as pálpebras . O rapaz estava no centro


do grupo , a falar. Em teoria, era ele quem sabia mais inglês , por ter
aprendido na Polónia, e por isso cabia-lhe ouvir as frases em polaco
do pai e dizê-las em inglês e depois ouvir as frases de Mrs . Mclntyre
em inglês e dizê-las em polaco . O padre dissera a Mrs . Mclntyre
que o garoto se chamava Rudolph e tinha doze anos , e que a rapa­
riga se chamava Sledgewig e tinha nove anos . Sledgewig soava aos
ouvidos de Mrs . Shortley como um nome que se poderia dar a um
escaravelho , ou vice-versa, como se alguém chamasse a um rapaz
Bollweevil . O apelido deles era uma palavra que só eles próprios e
o padre conseguiam pronunciar. Ela entendera apenas que o apelido
era Gobblehook. Ela e Mrs . Mclntyre tinham passado a semana in­
teira a chamar-lhes os Gobblehooks , enquanto se preparavam para a
chegada deles .
Tinha havido muita coisa para fazer de modo a preparar a che­
gada deles , porque eles não tinham nada de seu , nem sequer uma
peça de mobília, nem um lençol , nem um prato , e fora preciso reunir
tudo a partir de coisas de que a própria Mrs . Mclntyre já não se ser­
via. Tinham juntado uma peça de mobília desirmanada aqui , outra
acolá, e tinham confecionado cortinas para as janelas , usando sacas
floridas de ração para galinhas , duas vermelhas e uma verde , porque
não tinham sacas vermelhas suficientes para todas as janelas . Mrs .
Mclntyre comentou que o dinheiro não crescia nas árvores e que não
se podia dar ao luxo de comprar cortinas . - Eles não sabem falar
- disse Mrs . Shortley. - Acha que eles vão sequer saber o que é
isso das cores? - e Mrs . Mclntyre disse que , depois do que aquelas
pessoas tinham sofrido , deviam estar gratas por tudo o que lhes des­
sem. Vejam só a sorte deles , escaparem daquela terra e virem para um
lugar assim, disse .
Mrs . Shortley recordou uma vez em que , nas atualidades do ci­
nema, vira imagens de uma pequena sala a abarrotar de cadáveres
despidos , amontoados numa enorme pilha, de braços e pernas en­
trelaçados , uma cabeça atirada para aqui , outra cabeça acolá, um pé ,
um joelho, um órgão que deveria estar tapado a assomar, uma mão
erguida a agarrar o vazio . Antes que uma pessoa pudesse dar-se conta
de que a imagem era genuína e a conseguisse assimilar, o plano mu­
dou e uma voz de sonoridade cava exclamou: «A marcha do tempo
1 80 Flannery O ' Connor

não para ! » Era o género de coisa que estava a acontecer todos os


dias na Europa, onde não tinha havido progresso como neste país , e ,
ao observá-los daquele miradouro privilegiado , Mrs . Shortley teve
a súbita intuição de que os Gobblehooks , quais ratazanas cheias de
pulgas portadoras de febre tifoide, eram bem capazes de ter trazido
com eles , através do oceano , diretamente para aquele lugar, aque­
les seus hábitos assassinos . Se eles tinham vindo de uma terra onde
lhes faziam aquele género de coisas , quem sabe se não eram pessoas
capazes de fazer o mesmo aos outros? A amplitude desta pergunta
quase a sacudiu dos pés à cabeça. O estômago tremeu-lhe como se
tivesse havido um ligeiro tremor de terra no coração da montanha e ,
num gesto automático , ela desceu daquele promontório e avançou
para lhes ser apresentada, como se quisesse descobrir de uma vez por
todas de que é que eles eram capazes .
Aproximou-se , de barriga espetada, cabeça atirada para trás , bra­
ços cruzados , as botas a adejarem-lhe suavemente contra as pernas
nuas . A uns cinco metros do grupo que gesticulava, estacou e fez sen­
tir a sua presença, cravando o olhar na nuca de Mrs . Mclntyre . Esta
era uma mulherzinha de sessenta anos , de rosto redondo e enrugado e
uma franja ruiva que quase lhe chegava às duas sobrancelhas arquea­
das , retocadas a lápis cor-de-laranja. Tinha uma boquinha de boneca
e olhos que eram de um azul suave quando ela os arregalava, mas que
se assemelhavam mais a aço ou a granito quando ela os franzia para
inspecionar uma bilha de leite . Sepultara um marido e divorciara-se
de outros dois , e Mrs . Shortley respeitava-a como uma pessoa a quem
ninguém ainda passara a perna - excetuando , ah ah, os próprios
Shortleys , talvez . Ela estendeu o braço na direção de Mrs . Shortley e
disse a Rudolph , o rapaz: - E esta aqui é Mrs . Shortley. Mr. Shortley
é quem me trata das vacas . Onde está Mr. Shortley? - perguntou ,
no momento em que a mulher dele se começava novamente a aproxi­
mar, de braços ainda cruzados . - Quero que ele conheça os Guizacs .
Agora era Guizac . Não se atrevia a chamar-lhes Gobblehook na
cara. - O Chancey 'tá no estábulo - respondeu Mrs . Shortley. -
Não tem tempo pra descansar nas moitas como os pretos acolá.
O olhar dela começou por raspar o alto da cabeça dos refugiados
e depois rodou vagarosamente para baixo , assim como um abutre
plana e vai descendo no ar até pousar na carcaça. Manteve-se su-
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 181

ficientemente afastada para o homem não lhe poder beijar a mão .


Ele fitou-a diretamente com olhinhos verdes e lançou-lhe um largo
sorriso que era desdentado de um lado . Mrs . Shortley, sem sorrir,
dirigiu a sua atenção para a rapariguita, que estava ao lado da mãe ,
a agitar os ombros de um lado para o outro . Tinha o longo cabelo
entrançado em dois rabichos em forma de anel , e era, sem dúvida,
uma criança bonita, mesmo que tivesse nome de escaravelho . Era
mais bem-parecida do que Annie Maude ou Sarah Mae , as duas filhas
de Mrs . Shortley, que andavam pelos quinze e dezassete anos , mas
Annie Maude nunca chegara a crescer o suficiente, e Sarah Mae tinha
os olhos tortos. Comparou o rapaz estrangeiro com o seu filho , H. C . ,
e H. C . deixava o outro a milhas de distância. H. C . tinha vinte anos ,
herdara a robustez dela e , tal como ela, usava óculos . Andava a estu­
dar para catequista e, quando acabasse, ia fundar uma igreja. Tinha
uma voz forte e doce para cantar hinos e era capaz de vender fosse
o que fosse. Mrs . Shortley olhou para o padre e recordou-se de que
aquela gente não tinha uma religião avançada. Não havia maneira
de saber em que é que eles acreditavam, uma vez que a fé deles não
fora reformada e expurgada dos disparates . Viu novamente a divisão
repleta de cadáveres amontoados .
O próprio padre falava com entoação estrangeira, em inglês , é cer­
to , mas como se tivesse a boca cheia de feno . Tinha um nariz enorme
e o rosto e a cabeça calvos e retangulares . Enquanto ela estava a
observá-lo , ele abriu a bocarra e , com um olhar fixo para qualquer
coisa atrás dela, exclamou: - Arrrrr ! - e apontou .
Mrs . Shortley rodou sobre os calcanhares . O pavão estava parado
alguns passos atrás dela, a cabeça ligeiramente pendida.
- Que affe mais boni-ta ! - murmurou o padre .
- É mais uma boca para alimentar - comentou Mrs . Mclntyre ,
olhando de relance na direção do pavão .
- E quando é que ele levanta aquela cauda esplêndida? - per­
guntou o padre .
- Quando lhe apetece - disse ela. - Dantes , havia vinte ou trin­
ta daqueles bichos aqui na quinta, mas fui-os deixando morrer. Não
gosto de os ouvir aos gritos a meio da noite .
- Tão boni-to - comentou o padre . - Uma cauda cheia de sóis
- e avançou em pontas de pés e baixou os olhos para o dorso da ave ,
1 82 Flannery O ' Connor

onde começava o padrão de dourados e verdes cintilantes . O pavão


mantinha-se imóvel , como se tivesse acabado de descer das alturas
banhadas pelo sol para se oferecer como uma visão a todos eles . O
rosto vermelhusco e grosseiro do padre pendia sobre o animal , ra­
diante de prazer.
Mrs . Shortley fez com a boca um esgar azedo ·que lhe repuxou os
lábios para o lado. - Não passa dum pavãozeco qualquer - res­
mungou .
Mrs . Mclntyre ergueu as sobrancelhas cor de laranja e trocou um
olhar com ela para indicar que o velho estava a ficar senil . - Bom,
temos de mostrar aos Guizacs a nova casa deles - disse em tom
impaciente , e tomou a arrebanhá-los para dentro do carro . O pavão
afastou-se para junto da amoreira onde os dois negros estavam es­
condidos , e o padre desviou o rosto absorto e entrou no carro e con­
duziu os refugiados até à choupana que iam ocupar.
Mrs . Shortley esperou até o carro ter desaparecido e depois dirigiu­
-se para a amoreira por um caminho sinuoso e postou-se uns três
metros atrás dos dois negros , um dos quais era um velho a segurar
um balde meio cheio de ração para vitelos , enquanto o outro era um
rapaz amarelento de cabeça curta e semelhante à de uma marmota,
enfiada num chapéu de feltro redondo . - Bom - começou ela de­
vagar - , vocês já tiveram vagar que chegue prõs ver. O que é que
acham deles?
O velho , Astor, endireitou-se . - 'Tivemos aqui a ver - explicou ,
como se ela ainda o não soubesse . - Quem é que são eles?
- Vêm do outro lado do oceano - disse Mrs . Shortley com um
gesto largo do braço . - São aquilo a que se chama refugiados .
- Refugiados - repetiu ele . - Homessa. Palavra de honra. Mas
o qué que isso quer dizer?
- Quer dizer que não 'tão no lugar onde nasceram e que não têm
pra adonde ir, assim como se corressem com vocês daqui e ninguém
vos desse guarida.
- Mas parece que eles que 'tão aqui - disse o velho em voz de
quem reflete . - Se ' tão aqui , 'tão num lugar qualquer.
- É bem verdade - concordou o outro . - Eles 'tão aqui .
A falta de lógica dos raciocínios dos negros incomodava sempre
Mrs . Shortley. - Eles não 'tão onde deviam de 'tar - retorquiu . -
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 83

Eles deviam de ' tar lá na terra deles , onde as coisas ainda são como
eles 'tavam habituados . Aqui é tudo mais avançado do que na terra
donde eles vêm. Mas eu , se fosse vocês, ficava de olho atento -
prosseguiu , acenando com a cabeça. - Há mais uns dez milhões de
biliões iguais a eles , e eu é que sei o que Mrs . Mclntyre disse .
- O qué que ela disse? - perguntou o mais novo .
- Não é fácil arranjar emprego nos dias que correm, seja pra bran-
cos ou pra pretos , mas acho que ouvi bem o que ela me disse - disse
ela em voz de quem entoa uma melopeia.
- A gente ouve com cada uma - comentou o velho, curvando-
-se para diante como se fosse afastar-se, mas mantendo-se quieto no
mesmo lugar.
- Ouvi-a dizer assim: «Isto vai incutir o temor a Deus naqueles
pretos mandriões ! » - declarou Mrs . Shortley em voz vibrante .
O velho começou a caminhar. - Ela diz coisas desse género de
vez em quando - observou . - Ah , ah. Pois , pois .
- Acho melhor entrares naquele estábulo e dares uma ajuda a Mr.
Shortley - disse ela ao outro . - Pra que é que julgas que ela te paga?
- Ele é que mandou eu sair de lá - resmungou o negro . - Ele é
que mandou eu fazer outra coisa.
- Então acho bem que te ponhas a fazer o que ele mandou - re­
torquiu ela, e não arredou pé até ele se afastar. Em seguida, ficou ali
mais um pouco , a refletir, o olhar perdido a fixar um ponto mesmo à
frente da cauda do pavão . O animal saltara para cima da árvore , e a
sua cauda pendia diante dela, repleta de planetas ferozes com olhos ,
cada qual orlado de verde e desenhado sobre um sol que era dourado
à luz de um momento e cor de salmão à luz do momento seguinte .
Dir-se-ia que tinha diante dos olhos um mapa do universo, mas não
reparou , assim como não reparou nas manchas de céu que rompiam
o verde mortiço da árvore . Em vez disso, estava a ter uma visão inte­
rior. Estava a ver os dez milhões de biliões de refugiados a ocuparem
à força novos lugares do lado de cá do oceano , e ela própria, um anjo
gigantesco com asas da largura da casa, dizia aos negros que eles iam
ter de encontrar outra terra para viver. Voltou-se na direção do está­
bulo , a meditar acerca disto, com uma expressão altiva e satisfeita.
Aproximou-se do estábulo por um ângulo oblíquo , que lhe permi­
tiu espreitar através da porta antes de ela própria ser vista. Mr. Chan-
1 84 Flannery O ' Connor

cey Shortley estava a aplicar a última máquina de ordenha nas tetas


de uma vaca malhada, branca e preta, junto à entrada, agachado dian­
te das patas traseiras do animal . Tinha uma beata com cerca de um
centímetro e meio colada ao centro do lábio inferior. Mrs . Shortley
observou cuidadosamente a beata durante meio segundo . - Se ela
te visse a fumar neste estábulo ou alguém lhe fosse contar, ia aos
arames - comentou .
Mr. Shortley ergueu um rosto lavrado por sulcos fundos , contendo
uma ravina debaixo de cada face e duas compridas fissuras carcomi­
das ao longo de ambos os lados da boca crestada. - E vais ser tu a
contar a ela? - perguntou .
- Ela tem nariz , não precisa de mim pra nada - respondeu Mrs .
Shortley.
Mr. Shortley, sem parecer pensar duas vezes antes de levar a cabo
aquela proeza, ergueu a beata com a ponta da língua, meteu-a na bo­
ca, fechou os lábios com força, ergueu-se , saiu, lançou à mulher um
longo olhar apreciador dos pés à cabeça e cuspiu a beata fumegante
para o meio da erva.
- Ah, Chancey - soltou ela - , ah, ah - e escavou um pequeno
buraco para a beata com a biqueira da bota e enterrou-a. Este truque
de Mr. Shortley era, na verdade , a maneira que ele tinha de lhe fazer
a corte . Quando namorava com ela, não trazia uma guitarra para de­
dilhar nem um presente bonito para lhe oferecer, antes se sentava nos
degraus do alpendre dela, sem dizer uma palavra, a imitar um para­
lítico que ali tivessem recostado para fumar o seu cigarro . Quando o
cigarro chegava ao tamanho apropriado , voltava os olhos para ela e
abria a boca e enfiava lá a beata e depois ficava ali , imóvel , como se
a tivesse engolido , a contemplar a sua apaixonada com a expressão
mais tema que se podia imaginar. Quase a fazia perder a cabeça e, de
cada vez que ele fazia aquilo , ela tinha vontade de lhe puxar o chapéu
para cima dos olhos e de o abraçar com força até o sufocar.
- Bom - disse , entrando no estábulo atrás dele - , os Gobble­
hooks chegaram, e ela quer que tu vás conhecê-los , pôs-se a per­
guntar «Onde é que 'tá Mr. Shortley?» , e eu respondi: «Ele não tem
tempo . . . »
- Falta pesar e somar tudo - justificou-se Mr. Shortley, tomando
a agachar-se junto à vaca.
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 85

- Achas que ele sabe guiar um trator, se nem inglês sabe falar? -
perguntou ela. - Não me parece que ela vá dar o dinheiro dela por
bem empregado . O rapaz sabe inglês , mas tem um ar muito delicado .
O que consegue labutar não sabe falar, e o que sabe falar não conse­
gue labutar. Vai dar ao mesmo do que se ela tivesse arranjado mais
uns quantos pretos .
- Eu cá preferia um preto , se fosse a ela - comentou Mr. Shortley.
- Ela diz que há mais dez milhões assim como eles , refugiados ,
diz que o padre lhe arranja tantos quantos ela quiser.
- Eu cá é que não dava muita confiança àquele padre - disse Mr.
Shortley.
- Ele não parece muito esperto - comentou Mrs . Shortley - ,
parece meio apalermado .
- Eu cá é que não vou deixar que seja o papa lá de Roma a dizer-
-me comé que se governa uma vacaria - atirou Mr. Shortley.
- Eles não são italianos , são polacos - acudiu ela. - Da Polónia,
onde havia aqueles montes até ao teto de pessoas mortas . Lembras-te
daqueles mortos todos?
- Dou-lhes três semanas nesta quinta - rematou Mr. Shortley.

Três semanas mais tarde , Mrs . Mclntyre e Mrs . Shortley foram de


carro até ao campo de cana-de-açúcar para ver Mr. Guizac começar a
manobrar a ceifeira de forragem, uma máquina nova que Mrs . Mcln­
tyre acabara de comprar porque pela primeira vez , disse , tinha ao seu
serviço alguém capaz de se servir dela. Mr. Guizac sabia conduzir
um trator, usar a enfardadora de feno rotativa, a ceifeira de forragem,
a ceifeira-debulhadora, o moinho de grão para ração de galinhas e
todas as outras máquinas que ela tinha na quinta. Desempenhava de
forma exímia as funções de mecânico , de carpinteiro e de alvenel .
Era frugal e enérgico . Mrs . Mclntyre dizia que calculava que ele lhe
poupasse vinte dólares por mês , apenas em contas de reparações . Di­
zia que contratá-lo tinha sido a melhor coisa que fizera na sua vida
inteira. Sabia operar máquinas de ordenha e era escrupulosamente
asseado . Não fumava.
Ela estacionou o carro na orla do canavial , e ambas saíram. Sulk,
o jovem negro, estava a atrelar o reboque à ceifeira, e Mr. Guizac es­
tava a atrelar a ceifeira ao trator. Este terminou primeiro e empurrou
1 86 Flannery O 'Connor

para o lado o rapaz de cor e prendeu ele próprio o reboque à ceifeira,


gesticulando com uma expressão arguta e zangada quando queria o
martelo ou a chave de parafusos . Ninguém fazia as coisas suficiente­
mente depressa para o seu gosto . Os negros enervavam-no .
Na semana anterior, deparara com Sulk à hora do jantar, a entrar
sorrateiramente no galinheiro onde estavam os jovens perus com um
saco de serapilheira na mão . Ficou a vê-lo a escolher um peru já su­
ficientemente grande para ir à frigideira, a agarrá-lo e a atirá-lo para
dentro do saco , que escondeu debaixo do casaco . Depois , seguiu-o
até à parte de trás do estábulo , agarrou-o de surpresa, arrastou-o até
à porta das traseiras de Mrs . Mclntyre e interpretou toda a cena para
ela ver, enquanto o negro tartamudeava e resmungava e dizia eu seja
ceguinho se 'tava a roubar um peru , só 'tava a levá-lo pra lhe esfregar
graxa preta na cabeça, porque ele tinha a crista inflamada. Eu seja
ceguinho se isto não é verdade , juro pela alma da minha mãezinha.
Mrs . Mclntyre mandou-o pôr o peru de novo no galinheiro e depois
esteve imenso tempo a explicar ao polaco que todos os negros rou­
bavam. Por fim, teve de chamar Rudolph e de lhe explicar em inglês ,
para que ele explicasse ao pai em polaco , e Mr. Guizac afastou-se
com uma expressão estupefacta e desiludida.
Mrs . Shortley ficou a assistir, esperando que a ceifeira de forragem
sofresse alguma avaria, mas nada aconteceu . Todos os gestos de Mr.
Guizac eram rápidos e precisos . Saltou para o assento do trator como
um macaco e conduziu a grande ceifeira cor de laranja ao encontro do
canavial; num instante, a forragem começou a jorrar do cano num jato
verde, para dentro do reboque. Ele avançou aos solavancos por aquele
rego fora até que desapareceu da vista e o ruído se tomou longínquo.
Mrs . Mclntyre suspirou de prazer. - Até que enfim - disse - ,
tenho alguém em quem posso confiar. Andei anos e anos a perder
tempo com gentinha. Gentinha. Pés-descalços brancos e pretos -
murmurou . - Roubaram-me tudo , até me deixarem na penúria. An­
tes de vocês virem para cá, tive aqui Ringfields e Collins e Jarrells
e Perkins e Pinkins e Herrins e Deus sabe quem mais , e não houve
um só deles que não se fosse embora sem levar qualquer coisa desta
quinta que não lhe pertencia. Nem um só !
Mrs . Shortley conseguia ouvir isto sem perder a compostura por­
que sabia que , se Mrs . Mclntyre a considerasse uma pé-descalço ,
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 87

não poderiam conversar as duas acerca dos pés-descalços brancos .


Nenhuma delas gostava de pés-descalços . Mrs . Mclntyre prosseguiu
com o monólogo que Mrs . Shortley já lhe ouvira tantas vezes an­
tes . - Governo esta quinta há trinta anos - disse , contemplando o
campo em volta com fundos vincos na testa - , sempre com a corda
ao pescoço . As pessoas julgam que o dinheiro cresce nas árvores . Te­
nho impostos para pagar. Não me posso atrasar com o seguro . Há as
contas dos consertos . Há as contas da ração . - Tudo aquilo pareceu
encapelar-se , e ela ficou de peito erguido , as mãos delicadas a aper­
tarem os próprios ombros. - Desde que o juiz morreu - disse - ,
mal consigo aguentar-me à tona, e eles todos levam qualquer coisa
quando se vão embora. Os pretos não se vão embora, esses ficam e
roubam. Um preto acha que qualquer pessoa a quem consegue rou­
bar alguma coisa é rica, e os pés-descalços brancos acham que é rico
qualquer um que tenha dinheiro para contratar gente sem eira nem
beira como eles . E eu só tenho de meu a terra debaixo dos meus pés ,
mais nada!
A senhora contrata e despede quem muito bem entende, pensou
Mrs Shortley, mas nem sempre dizia em voz alta o que pensava. Ficou
.

ali parada, a ouvir Mrs. Mclntyre desabafar até ao fim, mas , daquela
vez, a ladainha não terminou como habitualmente . - Só que, final­
mente, estou salva! - exclamou Mrs Mclntyre. - A desgraça de uns
.

é a sorte dos outros . Aquele homem - e apontou para o ponto onde


o Refugiado desaparecera - precisa de trabalhar! Quer trabalhar! -
Voltou-se para Mrs Shortley com o seu rosto alegre e enrugado. -
.

Aquele homem é a minha salvação ! - rematou .


Mrs . Shortley continuou a olhar em frente , como se a sua visão
perfurasse o canavial e o monte e chegasse ao lado oposto . - Eu cá
desconfiava da salvação que chega pela mão do demónio - soltou
em voz baixa e desprendida.
- Ora essa, o que é que quer dizer com isso? - perguntou Mrs .
Mclntyre, olhando-a com expressão severa.
Mrs . Shortley abanou a cabeça, mas recusou-se a acrescentar fosse
o que fosse . A verdade é que nada mais tinha a dizer, porque aquela
intuição só naquele momento lhe ocorrera. Nunca pensara muito no
demónio , porque achava que a religião se destinava principalmente
às pessoas que não tinham esperteza que chegasse para evitar os aza-
188 Flannery O 'Connor

res sem essas patranhas . Para as pessoas como ela, gente despachada,
a religião era uma ocasião social que proporcionava a oportunidade
de cantar; porém, se alguma vez tivesse pensado a valer no assunto ,
teria considerado o demónio o chefe da religião, e Deus o pendura.
Com a chegada daqueles refugiados , via-se obrigada a refletir nova­
mente em muitas e variadas coisas .
- Sei muito bem o que é que a Sledgewig disse à Annie Maude
- comentou , e, quando Mrs Mclntyre teve o cuidado de não lhe per-
.

guntar o que fora e se limitou a curvar-se e a arrancar um raminho de


sassafrás para mastigar, ela prosseguiu, num tom que pretendia indicar
que não estava a contar tudo: - Disse-lhe que eles não iam conseguir
viver os quatro muito tempo com setenta dólares por mês .
- Ele merece que eu o aumente - disse Mrs . Mclntyre . - Ele
poupa-me dinheiro .
Isto equivalia a dizer que Chancey nunca lhe poupara dinheiro .
Chancey levantava-se às quatro da manhã para lhe ordenhar as vacas ,
no frio do inverno e no calor do verão , e andava a fazer isto havia
dois anos . Ela nunca tivera assalariados ao seu serviço durante tanto
tempo . A gratidão que recebiam em troca eram aquelas insinuações
de que nunca lhe tinham poupado dinheiro nenhum .
- Mr. Shortley já se sente melhor hoje? - indagou Mrs Mclntyre.
.

Mrs . Shortley achou que já não era sem tempo , ela fazer aquela
pergunta. Mr. Shortley estava há dois dias de cama com uma crise .
Mr. Guizac tomara o lugar dele na vacaria, além de fazer todo o seu
trabalho . - Não , não se sente melhor - respondeu . - O médico
disse que ele que sofria de exaustão .
- Se Mr. Shortley está exausto - comentou Mrs . Mclntyre - é
porque deve ter um segundo trabalho nas horas vagas - e remirou
Mrs . Shortley de olhos quase fechados , como se estivesse a examinar
o fundo de uma bilha de leite .
Mrs . Shortley não disse uma palavra, mas as suas desconfianças
sombrias adensaram-se como uma nuvem negra de tempestade . A
verdade era que Mr. Shortley tinha mesmo um segundo trabalho
nas horas vagas , e que , num país livre , isto não era da conta de
Mrs . Mclntyre . Mr. Shortley fabricava whiskey . Tinha um pequeno
alambique numa das zonas mais recônditas da quinta, nas terras de
Mrs . Mclntyre , sem dúvida, mas em terras de que ela era proprietá-
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 89

ria mas que não cultivava, em baldios que não serviam para nada.
Mr. Shortley não tinha medo de trabalhar. Levantava-se às quatro
da manhã e ordenhava-lhe as vacas e , a meio do dia, quando deve­
ria estar a descansar, ia tratar do seu alambique . Não havia muitos
homens capazes de trabalhar assim. Os negros sabiam do alambique
dele , mas ele sabia do alambique deles , por isso nunca tinha havi­
do desaguisados de parte a parte . No entanto , com estrangeiros na
quinta, com gente que tudo via e nada entendia, que viera de um
lugar onde as pessoas se guerreavam sem parar, onde a religião não
fora reformada - com aquele género de gente , era preciso estar
sempre de sobreaviso . Ela achava que devia haver uma lei contra
eles . Não havia razão para eles não ficarem na sua terra e ocuparem
os lugares de alguns dos que tinham sido mortos nas suas guerras e
massacres .
- E o que é mais - acrescentou subitamente - , a Sledgewig
disse que , assim que o paizinho dela ajuntar dinheiro que chegue , vai
comprar um carro em segunda mão . Assim que eles comprarem um
carro em segunda mão , vão-se embora daqui .
- Com o que lhe pago , é impossível ele poupar dinheiro - con­
trapôs Mrs . Mclntyre - , não tenho de me afligir com isso . É claro
- disse então - que, se Mr. Shortley ficasse incapacitado , eu teria
de empregar Mr. Guizac na vacaria a tempo inteiro , e então teria de
lhe pagar mais . Ele não fuma - rematou , e era a quinta vez naquela
semana que sublinhava este aspeto .
- Não há homem - replicou Mrs . Shortley, com ênfase - que
trabalhe tanto como o Chancey, ou que seja tão meigo com as vacas ,
ou que seja mais cristão - e, cruzando os braços , perfurou a lonjura
com o olhar. O ruído do trator e da ceifeira de forragem recrudesceu, e
Mr. Guizac surgiu, a avançar do lado oposto do renque de canas . - E o
mesmo não se pode dizer de toda a gente - resmungou. Perguntou a si
mesma se, caso o polaco encontrasse o alambique de Chancey, perce­
beria do que se tratava. O problema daquela gente era não sabermos o
que eles sabiam. Cada vez que Mr. Guizac sorria, a Europa estendia-se
a perder de vista na imaginação de Mrs . Shortley, misteriosa e ruim, o
campo de experiências do demónio .
O trator, a ceifeira de forragem e o atrelado passaram, a sacolejar
e a rumorejar e a chiar diante delas . - Pense só no tempo que isto
1 90 Flannery O ' Connor

havia de ter demorado , fazer este trabalho com homens e com mulas
- gritou Mrs . Mclntyre . - A este ritmo , vamos ceifar este campo
inteiro em dois dias .
- Talvez - resmungou Mrs . Shortley - , se não acontecer ne­
nhum acidente terrível . - Pensou no modo como os tratores tinham
tomado as mulas inúteis . Hoje em dia, ninguém ·queria uma mula,
nem oferecida. A próxima coisa a ser descartada, recordou a si mes­
ma, seriam os pretos .
De tarde , foi ter com Astor e Sulk quando eles estavam no pasto
das vacas , a encher o adubador com estrume , e explicou-lhes o que
lhes ia acontecer. Sentou-se junto ao bloco de sal , sob um pequeno
alpendre , a barriga assente no regaço , os braços cruzados por cima.
- Se eu fosse a vocês , as pessoas de cor, tinha cuidado - disse . -
Sabem bem quanto é que nos dão por uma mula.
- Nada, não dão nada - disse o velho - , nem um tostão .
- Antes de haver tratores - continuou ela - , podiam ser as mu-
las a fazer o trabalho . E antes de haver refugiados , podiam ser os
pretos . Vai chegar o dia - profetizou - em que já nem sequer se vai
falar dos pretos .
O velho riu-se educadamente . - Pois é , pois é - disse . - Ah , ah.
O mais novo não disse nada. Limitou-se a fazer um ar carrancu­
do , mas , quando ela desapareceu no interior da casa, comentou: -
A Barriguda tem a mania que sabe tudo .
- Não te aflijas - disse-lhe o velho - , o teu lugar é demasiado
mesquinho pra alguém querer roubar ele a ti .
Ela não comunicou os seus receios acerca do alambique a Mr.
Shortley até ele ter retomado o trabalho na vacaria. Então , uma noite ,
depois de já estarem deitados , disse: - Aquele homem anda pela
quinta a meter o nariz .
Mr. Shortley entrelaçou as mãos sobre o peito ossudo e fingiu que
era um cadáver.
- Anda por aí a meter o nariz - prosseguiu ela, e desferiu-lhe um
rijo golpe no flanco com o joelho . - Vá lá a gente imaginar o que é
que eles sabem e o que é que não sabem . . . Se calhar, se ele encontrar
o alambique , vai a correr ter com ela e conta-lhe logo . Como é que
sabes que eles não fazem aguardente lá na Europa? Guiam tratores .
Têm montes de maquinaria diferente . Responde-me .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 191

- Não me apoquentes agora - replicou Mr . Shortley. - Eu ' tou


morto .
- Aqueles olhinhos dele é que têm um ar estrangeiro - resmun­
gou ela. - E aquele jeito de ele encolher os ombros . - Ergueu os
ombros e encolheu-os várias vezes . - Só não percebo que motivos é
que ele tem pra encolher os ombros assim - declarou .
- Se toda a gente 'tivesse morta assim como eu , ninguém tinha
arrelias - tomou Mr. Shortley.
- Aquele padre . . . - resmungou ela, e ficou em silêncio durante
longos momentos . Depois retomou: - Na Europa, eles são capazes de
ter uma maneira diferente de fabricar aguardente, mas são bem capazes
de conhecer as maneiras todas . São cheios de manhas . Nunca houve
por lá progresso , nunca reformaram a fé deles . Têm a mesma religião
de há mil anos . Só mesmo o demónio é que pode ser responsável por
isso . Sempre a guerrearem uns com os outros . A desentenderem-se. E
depois arrastam a gente prôs conflitos deles . A verdade é que já nos
arrastaram duas vezes pràs guerras deles, e nós , feitos palermas , vamos
até lá pra lhes resolvermos os sarilhos e depois eles vêm até cá e andam
a bisbilhotar por aí e descobrem o teu alambique e vão a correr contar a
ela. E aquele homem é bem capaz de lhe beijar a mão assim sem mais
nem menos . 'Tás-me a ouvir?
- Não - respondeu Mr. Shortley.
- E ainda te digo mais outra coisa - insistiu ela. - Não me es-
pantava nada que ele percebesse tudo o que tu dizes , seja em inglês
ou não seja.
- Eu cá não falo outra língua - murmurou Mr. Shortley.
- Desconfio - disse ela - que não tarda muito não vai haver mais
pretos nesta quinta. E deixa-me que te diga. Eu cá antes preferia ter
pretos do que polacos . E mais , faço tenções de apoiar os pretos , quan­
do for a altura. Quando o Gobblehook cá chegou , lembras-te como ele
lhes apertava a mão, como se não soubesse a diferença, como se pu­
desse ser tão preto como eles , mas depois , quando percebeu que o Sulk
andava a roubar perus , foi logo dizer a ela. Eu já sabia que ele andava
a roubar perus . Também lhe podia ter ido a correr contar.
Mr. Shortley respirava em surdina, como se estivesse a dormir.
- Um preto nem percebe quando é que arranjou um amigo -
disse ela. - E digo-te mais uma coisa. Soube imensas histórias pela
1 92 Flannery O 'Connor

Sledgewig . Ela disse-me que lá na Polónia viviam numa casa de ti­


jolo e que , uma noite , um homem lhes bateu à porta e lhes disse que
tinham de sair de lá antes de nascer o dia. Acreditas que eles alguma
vez moraram numa casa de tijolo?
- É pra se darem ares - continuou . - É só pra se darem ares .
Cá a mim basta-me perfeitamente uma casa de madeira. Chancey -
disse ela - , vira-te pra este lado . Detesto ver pretos maltratados e
corridos duma quinta pra fora. Tenho imensa pena dos pretos e dos
pobrezinhos . Não é verdade? - perguntou . - Não é verdade que
sempre fui amiga dos pretos e dos pobrezinhos?
- Quando chegar a altura - rematou - , vou levantar a voz pra
defender os pretos , e ' tá dito . Não vou deixar que aquele padre corra
com os pretos todos daqui .

Mrs . Mclntyre comprou um novo desterroador e um trator com um


guincho hidráulico , porque disse que , pela primeira vez , tinha alguém
capaz de manobrar a maquinaria. Ela e Mrs . Shortley foram de carro
até ao campo nas traseiras da casa para inspecionar o terreno que ele
desterroara na véspera. - Que maravilha de trabalho ! - comentou
Mrs . Mclntyre , a espraiar a vista pelo campo vermelho e ondulante .
Mrs . Mclntyre mudara desde que o Refugiado começara a trabalhar
para ela, e Mrs . Shortley observara a mudança muito atentamente: ela
começara a agir como alguém que estava a enriquecer em segredo e já
não confiava em Mrs . Shortley como antigamente . Mrs . Shortley des­
confiava que o padre estava por trás desta mudança. Eles eram muito
manhosos . Primeiro, ele ia caçá-la para a Igreja dele, depois ia meter­
-lhe a mão na carteira. Bom, pensou Mrs . Shortley, pior para ela, a
tansa! Mrs . Shortley também sabia um segredo . Sabia uma coisa que o
Refugiado andava a fazer e que ia deixar Mrs . Mclntyre de cabelos em
pé . - Continuo a dizer que ele não vai trabalhar pra sempre por seten­
ta dólares por mês - murmurou. Fazia tenções de guardar o segredo
para si e para Mr. Shortley.
- Bom - comentou Mrs . Mclntyre - , sou capaz de ter de me
livrar de alguns dos outros assalariados para lhe poder pagar mais .
Mrs . Shortley fez que sim com a cabeça, para indicar que já sabia
disto há um certo tempo . - Não 'tou a dizer que aqueles pretos não
'tivessem a pedi-las - comentou . - Mas eles fazem o melhor que
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 93

sabem. A gente pode sempre mandar um preto fazer uma coisa e ficar
a vigiá-lo até ele a fazer.
- Era o que o juiz dizia - comentou Mrs . Mclntyre, e olhou
para ela com ar aprovador. O juiz fora o primeiro marido dela, fora
quem lhe deixara a quinta em herança. Mrs . Shortley ouvira dizer
que ela se casara com ele quando tinha trinta anos e ele tinha setenta
e cinco , pensando que ia enriquecer assim que ele morresse , mas que
o velho era um patife e que , quando lhe foram analisar o património ,
se descobriu que ele não possuía um tostão . Deixou-lhe em herança
somente os vinte hectares de terra e a casa. Mas ela falava sempre
dele em tom reverente e citava-lhe os adágios , como «Ü azar de uns
é a sorte dos outros» e «Mais vale um mal conhecido do que um bem
por conheceD> .
- Ainda assim - acudiu Mrs . Shortley - , mais vale um mal
conhecido do que um bem por conhecer - e teve de desviar o rosto ,
para que Mrs . Mclntyre não a visse sorrir. Descobrira o que é que
o Refugiado andava a fazer através do velho , Astor, e não contara
a ninguém, à parte Mr. Shortley. Este soerguera-se na cama, muito
direito , que nem Lázaro a levantar-se da sepultura.
- Cala a boca! - ordenou ele .
- Sim - teimou ela.
- Não ! - exclamou Mr. Shortley.
- Sim - repetiu ela.
Mr. Shortley tornou a cair na cama que nem uma tábua.
- O polaco não sabe o que faz - disse Mrs . Shortley. - Acho
que é o padre que lhe anda a dar essas ideias . Cá pra mim, a culpa é
do padre .
O padre vinha muitas vezes ver os Guizacs, e ia sempre até à casa
fazer uma visita a Mrs . Mclntyre , e caminhavam os dois pela quinta,
e ela indicava-lhe os melhoramentos e ouvia-lhe o palavreado matra­
queante . De súbito, ocorreu a Mrs . Shortley que ele estava a tentar
convencê-la a trazer outra farm1ia polaca para a quinta. Com duas
daquelas farm1ias ali , quase não se falaria outra língua naquele lu­
gar a não ser o polaco ! Os negros desapareceriam, e haveria duas
farm1ias contra Mr. Shortley e ela própria ! Começou a imaginar uma
guerra de palavras , a ver as palavras polacas e as palavras inglesas a
lançarem-se ao encontro umas das outras , a avançarem, sorrateiras ,
1 94 Flannery O 'Connor

não frases , somente palavras , blá blá blá, proferidas em vozes agudas
e estridentes e a esgueirarem-se para diante e depois a lutarem corpo
a corpo umas com as outras . Viu as palavras polacas , reles e astutas
e que nenhuma reforma emendara, a atirarem lama às palavras ingle­
sas puras até tudo estar igualmente conspurcado . Viu-as amontoadas
numa divisão , todas as palavras mortas e sujas , as deles e também as
dela, amontoadas como os cadáveres nus das atualidades do cinema.
Deus me livre ! bradou em silêncio , do poder ascoroso de Satã ! E, a
partir daquele dia, começou a ler a sua Bíblia com atenção redobra­
da. Leu o Apocalipse de fio a pavio e começou a citar versículos dos
livros dos Profetas , e não tardou a alcançar uma compreensão mais
profunda da sua existência. Via claramente que o significado do mun­
do era um mistério que fora planeado de antemão e não a espantava
desconfiar que ela própria tinha um papel especial nesse plano , por­
que era muito forte . Via que Deus Todo-Poderoso criara as pessoas
fortes para fazerem o que tinha de ser feito e sentia que estaria pronta
quando fosse chamada. Naquele momento , parecia-lhe que a sua ta­
refa era vigiar o padre .
As visitas dele incomodavam-na cada vez mais . Aquando da últi­
ma, ele pôs-se a apanhar plumas do chão . Encontrou duas plumas
de pavão e quatro ou cinco de peru e uma velha pena de galinha e
levou-as consigo , como se fosse um bouquet. Estes gestos apalerma­
dos nem por sombras enganavam Mrs . Shortley. Ali estava ele: a tra­
zer estrangeiros aos magotes para lugares longe da terra deles , para
causarem desaguisados , para expulsarem os pretos , para instalarem
a Prostituta da Babilónia no meio dos justos ! Sempre que ele vinha à
quinta, ela escondia-se atrás de qualquer coisa e ficava a observá-lo
até ele partir.
Foi numa tarde de domingo que teve a sua visão . Fora arrebanhar
as vacas em lugar de Mr. Shortley, que tinha uma dor no joelho , e es­
tava a caminhar vagarosamente através do pasto, de braços cruzados ,
de olhos postos nas nuvens baixas e distantes que pareciam fiadas su­
cessivas de peixes brancos lançados a uma vasta praia azul . Deteve-se
ao chegar ao alto de um declive para soltar um suspiro de exaustão ,
pois tinha de carregar um peso colossal e já não era tão jovem como
dantes . Às vezes , sentia o próprio coração , semelhante ao punho de
uma criança, a cerrar-se e a abrir-se dentro do peito , e, quando essa
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 95

sensação surgia, interrompia-lhe por completo todos os pensamen­


tos , e ela deambulava como um grande casco vazio , caminhando sem
razão aparente; mas venceu aquele declive sem um tremor e ficou pa­
rada lá no alto , satisfeita consigo mesma. De súbito, enquanto olhava
em frente , o céu arredou-se em duas metades , como uma cortina a
abrir-se defronte de um palco , e uma figura gigantesca surgiu diante
dela. Era da cor do Sol ao início da tarde , branco-dourada. Não ti­
nha forma definida, mas possuía rodas de fogo , adornadas com olhos
escuros e ferozes , a girarem rapidamente a toda a volta. Não conse­
guiu perceber se a figura estava a avançar ou a recuar, tão grande era
a sua magnificência. Fechou os olhos para a contemplar, e a figura
tingiu-se de vermelho-sangue , e as rodas ficaram brancas . Uma voz
ressoante pronunciou uma só palavra: «Profecia!»
Ela ficou ali parada, a cambalear ligeiramente mas ainda direita,
de olhos bem fechados e punhos cerrados e com o chapéu de palha
de abas largas puxado para baixo na testa. - Os filhos das nações
perversas vão ser massacrados - disse em voz alta. - Pernas onde
deviam de 'tar os braços , os pés encostados à cara, a orelha na palma
da mão . Quem vai ficar são? Quem vai ficar são? Quem?
Nesse momento , abriu os olhos . O céu estava repleto de peixes
brancos , transportados preguiçosamente sobre o flanco por uma
qualquer corrente invisível , e fragmentos do Sol , submersos a certa
distância, mais além, surgiam de tempos a tempos , como se estives­
sem a ser arrastados na direção oposta. Mecanicamente , pousou um
pé diante do outro até ter atravessado o pasto e alcançado o eirado .
Atravessou o estábulo como alguém aturdido e não falou com Mr.
Shortley. Continuou pelo caminho fora até que viu o carro do padre
estacionado diante da casa de Mrs . Mclntyre . - Outra vez aqui -
resmungou . - Veio até cá pra destruir.
Mrs . Mclntyre e o padre estavam a caminhar pelo terreiro . Para
não se encontrar com eles frente a frente , ela virou à esquerda e en­
trou no barracão das rações , uma choupana com uma só divisão onde
se empilhavam, de um dos lados , sacas de farelo para ração com
flores estampadas . Havia conchas de ostra amontoadas a um canto e
uns quantos calendários na parede , velhos e sujos , fazendo reclame a
ração para vitelos e a vários remédios de marca. Um deles mostrava
um homem de ar distinto , barba comprida, sobrecasaca, a erguer um
1 96 Flannery O ' Connor

frasco , e por baixo dos pés dele lia-se a inscrição: «Esta maravilhosa
descoberta regulou-me os intestinos ! » Mrs . Shortley sempre se sen­
tira próxima daquele homem, como se ele fosse uma pessoa distinta
dos seus conhecimentos , mas agora o seu espírito estava concentra­
do somente na presença perigosa do padre . Postou-se junto de uma
fenda entre duas tábuas , onde poderia espreitar e vê-lo a caminhar
juntamente com Mrs . Mclntyre em direção à incubadora de perus ,
que estava instalada mesmo à porta do barracão das rações .
- Arrrrr ! - soltou ele ao aproximarem-se da incubadora. - Veja
só estes pintinhos ! - e , detendo-se, franziu as pálpebras para esprei­
tar através da rede de arame .
Mrs . Shortley retorceu a boca.
- Acha que os Guizacs vão querer deixar esta quinta? - pergun­
tou Mrs . Mclntyre . - Acha que eles vão partir para Chicago ou para
outro lugar assim?
- E porque é que eles haviam de fazer uma coisa dessas agora?
- indagou o padre, a agitar o dedo na direção de um peru , com o
narigão muito próximo da rede .
- Por dinheiro - disse Mrs . Mclntyre .
- Arrrr, então pague-lhes um salárrrio mais alto - disse ele, sem
prestar grande atenção . - Eles têm de se governar.
- Também eu - resmungou Mrs . Mclntyre . - Quer dizer que
vou ter de mandar embora alguns dos outros assalariados .
- E os Shortleys são satisfatórrrios? - indagou ele , mais concen­
trado nos perus do que nela.
- Encontrei Mr. Shortley a fumar no estábulo cinco vezes neste
último mês - respondeu Mrs . Mclntyre . - Cinco vezes .
- E os negrrros são melhorrre s?
- Mentem e roubam, e é preciso estar sempre de olho neles -
disse ela.
- Tsk, tsk - soltou ele . - E quem é que a senhora vai despedir?
- Decidi que amanhã vou dar o aviso prévio a Mr. Shortley -
respondeu Mrs . Mclntyre .
O padre pareceu quase não a ouvir, tão ocupado estava a agitar o
dedo dentro da rede . Mrs . Shortley sentou-se numa saca aberta de
ração para poedeiras com um baque surdo que levantou em volta de­
la nuvens de pó do cereal . Deu por si a olhar de frente para a parede
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 97

oposta, onde o homem de ar seleto do calendário segurava na mão


erguida a sua maravilhosa descoberta, mas não o viu . Olhava em
frente como se não visse absolutamente nada. Em seguida, pôs-se
de pé e correu para a sua casa. Tinha o rosto de um vermelho quase
vulcânico .
Abriu todas as gavetas e arrastou caixotes e velhas malas esfola­
das de baixo da cama. Começou a despejar as gavetas para dentro
dos caixotes , sem se deter sequer um momento, sem tirar o chapéu
de abas largas que trazia na cabeça. Mandou as duas filhas fazerem
o mesmo . Quando Mr. Shortley entrou , nem sequer olhou para ele ,
limitou-se a apontar-lhe uma mão enquanto continuava a arrumar
coisas numa mala com a outra. - Traz o carro até à porta das trasei­
ras - ordenou . - Não vais ficar à espera que ela te despeça !
Mr. Shortley nunca n a sua vida duvidara d a omnisciência d a mu­
lher. Compreendeu toda a situação em meio segundo e, limitando-se
a franzir o rosto com ar amargo , recuou porta fora e foi buscar o au­
tomóvel para o trazer para as traseiras .
Amarraram as duas camas de ferro ao tejadilho e prenderam as
duas cadeiras de baloiço dentro das camas e enrolaram os dois col­
chões entre as duas cadeiras de baloiço . Em cima deste amontoado ,
amarraram um caixote de galinhas . Carregaram o interior do carro
com as velhas malas e caixotes , deixando um pequeno espaço livre
para Annie Maude e Sarah Mae . Demoraram o resto da tarde e meta­
de da noite a fazer isto , mas Mrs . Shortley estava decidida a que par­
tissem antes das quatro da manhã, pois não queria que Mr. Shortley
manejasse nem mais uma máquina de ordenha naquela quinta. En­
quanto assim labutava, o rosto mudava-lhe constantemente de ver­
melho para branco e vice-versa, em rápida sucessão .
Pouco antes do alvorecer, no momento em que começou a chu­
viscar, eles ficaram prontos para partir. Entraram todos no carro e
sentaram-se ali , apertados entre caixotes e trouxas e cobertores en­
rolados . O automóvel , quadrado e negro , arrancou com uma sinfonia
de ruídos rangentes mais sonora do que o habitual , como se estives­
se a queixar-se daquela carga. Na traseira, as duas raparigas esguias
e ossudas , de cabelo loiro , estavam sentadas em cima de uma pilha
de caixotes , e havia um cachorro beagle e uma gata com dois gati­
nhos algures por baixo das mantas . O carro avançou devagar, qual
1 98 Flannery O ' Connor

arca de Noé sobrecarregada a meter água, afastou-se da choupana


deles , deixou para trás a casa branca onde Mrs . Mclntyre dormia a
sono solto - mal sonhando que as suas vacas não iriam ser orde­
nhadas por Mr. Shortley naquela manhã - , deixou também para
trás a choupana do polaco , no alto da colina, e seguiu em direção
à cancela pelo caminho que os dois negros estavam a percorrer em
sentido inverso , um atrás do outro , dirigindo-se para o estábulo para
ajudar na ordenha. Os negros olharam diretamente para o carro e pa­
ra os seus ocupantes , mas , embora o feixe amarelo e ténue dos faróis
lhes tenha iluminado os rostos , preferiram fingir educadamente que
não tinham visto nada , ou , fosse como fosse , não deram importância
ao que acabara de lhes passar diante dos olhos . Dir-se-ia que o au­
tomóvel carregado de mobília fora um manto de neblina à meia-luz
da madrugada. Prosseguiram pelo caminho acima no mesmo passo
regular, sem olhar para trás .
Um Sol amarelo-escuro começava a elevar-se num céu que tinha
a mesma cor cinzento-escura e luzidia da estrada. Os campos esten­
diam-se a perder de vista de ambos os lados , rijos e cheios de ervas
daninhas . - Onde é que a gente vamos? - perguntou Mr. Shortley
pela primeira vez .
Mrs . Shortley tinha um pé em cima de um caixote , de modo que
o joelho se lhe cravara contra a barriga. O cotovelo de Mr. Shortley
quase lhe chegava ao nariz , e o pé esquerdo de Sarah Mae , descalço ,
assomava por cima do espaldar do banco da frente , tocando-lhe na
orelha.
- Onde é que a gente vamos? - repetiu Mr. Shortley e , quando
ela continuou sem responder, ele voltou-se e olhou para ela.
Um calor avassalador parecia invadir-lhe o rosto numa onda vaga­
rosa e imensa, como se estivesse a encapelar-se para um assalto final .
Estava muito direita no assento , não obstante o facto de ter uma perna
torcida por baixo do corpo e um joelho quase espetado no pescoço ,
mas havia nos seus olhos azuis e gélidos uma falta de chama pecu­
liar. Toda a visão que neles havia parecia ter sido virada do avesso ,
olhando para dentro dela. Subitamente , ela agarrou ao mesmo tempo
o cotovelo de Mr. Shortley e o pé de Sarah Mae e começou a puxá-los
e a sacudi-los , como se estivesse a tentar encaixar no próprio corpo
aqueles dois membros adicionais .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 1 99

Mr. Shortley começou a praguejar e travou o carro de imediato , e


Sarah Mae gritou à mãe que parasse com aquilo , mas Mrs . Shortley,
aparentemente , fazia tenções de revolver todo o carro sem perda de
tempo . Debateu-se para a frente e para trás , fincando os dedos em
tudo a que conseguia deitar a mão e puxando as coisas para si , a ca­
beça de Mr. Shortley, a perna de Sarah Mae , a gata, um punhado de
lençol branco , o seu próprio joelho , semelhante a uma lua cheia; foi
então que, de súbito, a expressão feroz dela se desvaneceu num ar de
assombro , e os dedos dela afrouxaram, soltando aquilo que haviam
agarrado . Um dos olhos convergiu para o outro e pareceu desfalecer
silenciosamente, e ela ficou imóvel .
As duas raparigas , que não entendiam o que lhe acontecera, co­
meçaram a perguntar: - Onde é que a gente vamos , mãezinha? On­
de é que a gente vamos? - Julgavam que ela estava a pregar-lhes
uma partida, e que o pai , fitando-a com olhos parados , estava a imi­
tar um morto . Não sabiam que ela acabara de viver uma experiência
avassaladora nem que era a primeira vez que ela se via separada de
tudo o que lhe pertencia no mundo , forçada a procurar refúgio nou­
tro lugar. Assustadas pela estrada cinzenta e luzidia diante delas ,
continuavam a repetir em vozes cada vez mais estridentes: - Onde
é que a gente vamos, mãezinha? Onde é que a gente vamos? - en­
quanto a mãe , o corpo avantajado atirado para trás , muito quieto ,
contra o espaldar do assento , olhos como vidro pintado de azul ,
parecia contemplar pela primeira vez as fronteiras tremendas da sua
verdadeira terra natal .

II

- Bom - disse Mrs . Mclntyre ao velho negro - , passamos bem


sem eles . Já vimos chegar e partir muitos assim, pretos e brancos .
- Estava parada no estábulo dos bezerros enquanto ele ia limpando
o chão e , de ancinho em punho , puxava de vez em quando de um re­
canto uma maçaroca de milho reduzida ao sabugo ou apontava para
um ponto lamacento que ele se esquecera de lavar. Quando desco­
brira que os Shortleys se tinham ido embora, ficara deliciada, porque
assim não tinha de os despedir. As pessoas que contratava acabavam
200 Flannery O ' Connor

sempre por a deixar - porque eram mesmo assim. De todas as fa­


rm1ias que tivera ao seu serviço , os Shortleys eram os melhores, se
não contasse com o Refugiado . Não eram exatamente pés-descalços;
Mrs . Shortley era uma boa mulher, e ela ia ter saudades dela, mas ,
tal como o juiz sempre dizia, não se pode ter sol na eira e chuva no
nabal , e ela estava muito satisfeita com o Refugiado . - Já vimos
chegar e partir muitos assim - repetiu com satisfação .
- E eu e mais a senhora - comentou o velho , curvando-se para
raspar com a enxada por baixo de uma manjedoura - ainda aqui
'tamos .
Ela entendeu precisamente o que ele queria que ela entendesse no
seu tom de voz . Faixas de luz do Sol tombavam do telhado cheio de
fissuras sobre as costas dele e retalhavam-no em três partes distintas .
Ela viu-lhe as mãos compridas fincadas em volta do cabo da enxada
e o perfil caduco e disforme curvado sobre estas . Tu talvez aqui esti­
vesses antes de mim , disse para consigo , mas é bem provável que eu
ainda aqui fique quando tu desapareceres . - Passei metade da minha
vida a lidar com gente inútil - declarou em voz severa - , mas agora
já chega.
- Pretos e brancos - acudiu ele - , é tudo o mesmo .
- Agora já chega - repetiu ela, e deu à bata escura, que atirara
sobre os ombros como um manto , um puxão rápido no decote . Tinha
na cabeça um chapéu de palha preto de abas largas que lhe custara
vinte dólares havia vinte anos e que ela usava agora para se proteger
do sol . - O dinheiro é a raiz de todos os males - prosseguiu . - O
juiz dizia isto mesmo todos os dias . Dizia que detestava o dinheiro .
Dizia que a razão de vocês , pretos , andarem com a grimpa tão levan­
tada era haver tanto dinheiro em circulação .
O velho negro conhecera o juiz . - O juiz dizia: «Quem me dera
ficar tão pobre que já nem possa pagar a um preto pra me fazer o
trabalho» - disse . - Dizia que, quando esse dia chegasse , o mundo
'tava outra vez nos eixos .
Ela curvou-se para diante , de mãos nas ancas e pescoço esticado ,
e disse: - Bom, esse dia quase que chegou a esta quinta, e de uma
coisa vos aviso a todos: acho melhor que espevitem. Não tenho de
aturar mais disparate nenhum. Agora, tenho uma pessoa que precisa
de trabalhar!
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 20 1

O velho sabia quando devia responder e quando devia ficar calado .


Ao fim de um certo tempo , observou: - Já vimos chegar e já vimos
partir muitos assim.
- Apesar de tudo , os Shortleys não eram os piores , nem de perto
nem de longe - disse ela. - Lembro-me bem daqueles Garrits .
- Esses foram antes dos Collins - acudiu ele .
- Não , antes dos Ringfields .
- Santo Deus, esses Ringfields ! - murmurou ele .
- Os dessa laia nunca querem trabalhar - comentou ela.
- Já vimos chegar e já vimos partir muitos assim - repetiu ele ,
como se fosse um refrão . - Mas nunca tivemos nenhum - conti­
nuou , curvando-se até a encarar - como este de agora. - Tinha a
pele cor de canela, e olhos tão turvos da idade que pareciam suspen­
sos atrás de teias de aranha.
Ela lançou-lhe um olhar intenso e continuou a fitá-lo até que , bai­
xando as mãos fincadas na enxada, ele tomou a curvar-se e arrastou
uma pilha de aparas junto ao carrinho de mão . Ela disse , muito hirta:
- Ele consegue lavar aquele estábulo no tempo que Mr. Shortley
levava a decidir-se a meter mãos ao trabalho .
- Ele é da Poláquia - resmungou o velho .
- Da Polónia.
- Lá na Poláquia não é como aqui - disse ele . - Têm um jeito
diferente de fazer as coisas - e começou a tartamudear frases inin­
teligíveis .
- O que é que estás para aí a dizer? - perguntou ela. - Se tens
alguma coisa para dizer acerca dele , desembucha de uma vez por
todas .
Ele manteve-se em silêncio , fletindo os joelhos num gesto precário
enquanto raspava a parte de baixo da manjedoura com o ancinho .
- Se sabes de alguma coisa que ele fez e não devia ter feito , tens
obrigação de me contar - insistiu ela.
- Não foi uma coisa que ele devesse ou que não devesse - res­
mungou ele. - Foi uma coisa que mais ninguém faz assim.
- Não tens nada contra ele - replicou ela rispidamente - , e ele
veio para ficar.
- Nunca tivemos nenhum assim como este de agora, prontos -
murmurou ele, e soltou o seu riso educado .
202 Flannery O ' Connor

- Os tempos estão a mudar - disse ela. - Sabes o que está a


acontecer a este mundo? Está a encher-se de gente . Está a ficar tão
cheio de gente que só os espertos , frugais e vigorosos é que vão so­
breviver - e sublinhou estas palavras , espertos , frugais e vigorosos ,
batendo com os dedos na palma da mão . Olhando para o extremo
oposto da coxia central do estábulo , a vista dela espraiava-se pelo
caminho fora até ao ponto onde o Refugiado estava parado diante
da porta aberta da vacaria, com a mangueira verde na mão . Havia na
silhueta dele uma certa rigidez que parecia exigir que ela o abordasse
com algum vagar, mesmo nos seus pensamentos . Ela concluíra que
isto se devia ao facto de não conseguir manter com ele uma conversa
descontraída. Sempre que lhe dizia qualquer coisa, dava por si a gri­
tar e a acenar com a cabeça de modo exuberante , e apercebia-se de
que um dos negros estava escondido atrás do barracão mais próximo ,
a espreitar.
- Ah, nem pensar! - soltou , sentando-se numa das manjedouras
e cruzando os braços . - Decidi que já aturei nesta quinta gente reles
que chegasse para uma vida inteira, e que não vou passar os últimos
anos da minha vida às turras com Shortleys e com Ringfields e com
Collins , quando o mundo está cheio de gente que precisa de trabalhar.
- Mas porqué que há tanta gente a sobejar? - perguntou ele .
- As pessoas são egoístas - explicou ela. - Têm demasiados
filhos . Já não faz sentido nenhum.
Ele agarrara as pegas do carrinho de mão e estava a caminhar às
arrecuas pela porta fora e deteve-se , meio à luz e meio à sombra, e ali
ficou a ruminar as gengivas , como se se tivesse esquecido da direção
que queria tomar.
- O que vocês , pessoas de cor, não conseguem entender - conti­
nuou ela - é que , nesta quinta, quem mexe os cordelinhos todos sou
eu . Se vocês não trabalharem como deve ser, eu não ganho dinheiro e
não vos posso pagar. Todos vocês dependem de mim , mas fazem de
conta que o problema não é vosso .
Não era possível perceber, olhando para o rosto do negro , se ele
a ouvira. Por fim, ele saiu às arrecuas com o carrinho de mão . - O
juiz dizia que antes mais vale o mal conhecido do que o bem por
conhecer - soltou num resmungo bem audível , depois virou costas
e afastou-se a rumorejar.
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 203

Ela levantou-se e seguiu-o , com um fundo sulco vertical a aparecer­


-lhe subitamente no centro da testa, mesmo por baixo da franja ruiva.
- O juiz há muito que deixou de pagar as contas nesta casa ! - bra-
dou em voz penetrante .
Ele era o único dos negros dela que tinha conhecido o juiz , e acha­
va que isso lhe conferia um certo estatuto . Não tinha em grande conta
Mr. Crooms e Mr. Mclntyre , os outros maridos dela, e , à sua maneira
cortês e velada, dera os parabéns à patroa depois de cada um dos
seus divórcios . Quando achava necessário , trabalhava diante de uma
janela junto da qual soubesse que ela estava sentada e falava sozinho ,
um debate cuidadoso e cheio de rodeios , pergunta e resposta e depois
refrão . Uma vez , ela levantara-se silenciosamente e fechara a janela
de guilhotina com tal estrondo que ele se desequilibrara e caíra de
costas . Ou então , esporadicamente , ele falava com o pavão . O pavão
seguia-o para todo o lado , de olhar fixo na maçaroca de milho que
assomava do bolso de trás do velho , ou então , aninhando-se junto
dele , começava a catar-se . Uma vez , pela porta aberta da cozinha,
ela ouvira-o dizer à ave: - Ainda me lembro de quando havia vinte
assim como tu a andarem por esta quinta, mas agora és só tu e mais
duas pavoas . No tempo do Crooms , vocês eram doze . No tempo do
Mclntyre , eram cinco . Agora és só tu e duas pavoas .
Dessa vez, ela saiu porta fora, para o alpendre , e gritou-lhe: -
MISTER Crooms e MISTER Mclntyre ! E eu que não te tome a ouvir
falar deles de outra maneira. E aviso-te desde já: quando esse pavão­
zeco morrer, não vai haver outro para o substituir.
Mantinha o pavão somente por um receio supersticioso de irritar o
juiz na sua sepultura. Ele gostava de os ver a deambular pela quinta,
porque dizia que o faziam sentir rico . Dos seus três maridos , o juiz
era aquele cuja presença ela mais sentia, embora fosse o único que
ela sepultara. Ele repousava no cemitério familiar, um pequeno ta­
lhão delimitado por uma cerca, no meio do milharal , nas traseiras da
casa, juntamente com vários parentes , a mãe , o pai e o avô , e ainda
três tias-avós e dois primos mortos em bebés . Mr. Crooms , o segun­
do marido dela, estava a sessenta quilómetros dali , no manicómio
estadual , e Mr. Mclntyre , o último , estava embriagado , deduzia ela,
num qualquer quarto de hotel , na Florida. Mas o juiz , enterrado no
milharal juntamente com a fa1m1ia, estava sempre em sua casa.
204 Flannery O ' Connor

Ela casara-se com ele quando ele já era velho, por causa do dinheiro
dele , mas havia outra razão , que ela se recusava a reconhecer, mesmo
lá no íntimo: gostava dele . Ele era uma figura bem conhecida no tribu­
nal , um velho imundo que passava a vida a meter rapé nas gengivas ,
famoso em todo o condado por ser rico , calçava sapatos de cano alto ,
usava gravata de fio, fato cinzento com riscas negras e um panamá
amarelado, quer de inverno, quer de verão . Tinha os dentes e o cabelo
da cor do tabaco e o rosto de um cor-de-rosa em tons de argila, esca­
lavrado e sulcado por marcas misteriosas de aparência pré-histórica,
como se o tivessem desenterrado do meio de fósseis . Exalava um odor
peculiar a notas de banco amarrotadas e transpiradas , mas nunca an­
dava com dinheiro nem tinha um tostão para gastar. Ela fora secretária
dele durante alguns meses , e o velho , com o seu olho arguto, viu de
imediato que ali estava uma mulher que o admirava pelas suas quali­
dades . Os três anos que ele viveu depois de se casarem foram os mais
felizes e os mais prósperos da vida de Mrs . Mclntyre , mas , quando ele
morreu , verificou-se que estava falido . Deixou-lhe em herança uma
casa hipotecada e vinte hectares de terra, cujas florestas , antes de mor­
rer, ainda arranjara forma de cortar para lhes vender a madeira. Era
como se , à laia de triunfo final de uma vida bem-sucedida, ele tivesse
conseguido levar tudo consigo .
Mas ela sobreviveu . Sobreviveu a uma sucessão de rendeiros e
responsáveis da vacaria que o próprio velho teria tido dificuldade
em suportar, conseguiu fazer face às delapidações constantes de uma
horda de negros carrancudos e imprevisíveis , e conseguiu até não se
deixar levar pela cantiga de vampiros esporádicos , negociantes de
gado e madeireiros e compradores e vendedores de tudo e mais algu­
ma coisa que vinham até à quinta nos seus camiões desconjuntados e
buzinavam no terreiro .
Ela ficou de pé, ligeiramente inclinada para trás , de braços cru­
zados sob a bata, uma expressão satisfeita no rosto enquanto obser­
vava o Refugiado a desligar a mangueira e a desaparecer dentro da
vacaria. Tinha pena de que o pobre homem tivesse sido expulso da
Polónia e obrigado a abandonar a Europa, vendo-se reduzido a viver
numa choupana de assalariado , num país estrangeiro , mas ela não
era responsável por nada disto . Ela própria passara muitas dificulda­
des . Sabia o que era lutar pelo pão de cada dia. Era bem melhor as
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 205

pessoas terem de lutar. Provavelmente , Mr. Guizac recebera tudo de


mão beijada enquanto atravessava a Europa e viajava até à América.
Provavelmente, não tivera de lutar o suficiente . Ela oferecera-lhe um
emprego . Não sabia se ele se sentia grato ou não . Nada sabia acerca
dele , exceto que ele fazia o seu trabalho . A verdade é que ele não era
ainda para ela uma presença muito palpável . Era uma espécie de mi­
lagre que ela vira suceder e acerca do qual falava, mas em que ainda
não acreditava.
Ficou a observá-lo no momento em que ele saiu da vacaria e fez
um gesto a chamar Sulk, que vinha do fundo do eirado . Ele gesticu­
lou e depois tirou qualquer coisa do bolso , e puseram-se os dois a
olhar para aquele objeto . Ela começou a percorrer a vereda ao encon­
tro deles . A silhueta do negro era desengonçada e alta, e ele inclinava
a cabeça redonda para diante , no seu jeito idiota habitual . Era pouco
mais do que apalermado , mas , quando eram assim, os negros davam
sempre bons trabalhadores . O juiz dizia que é sempre melhor con­
tratar um preto apalermado , porque esses não têm juízo que chegue
para pararem de trabalhar. O polaco gesticulava rapidamente . Deixou
qualquer coisa na mão do rapaz de cor e depois afastou-se , e, ainda
antes de dobrar a curva da vereda, ela ouviu o motor do trator a pegar.
Ele ia a caminho do campo de cultivo . O negro continuava ali parado ,
a remirar de boca aberta o que tinha na mão .
Ela entrou no eirado e atravessou a vacaria, remirando com apro­
vação o chão de cimento , molhado e impecavelmente limpo . Eram
apenas nove e meia, e Mr. Shortley nunca conseguira ter nada lavado
antes das onze . No momento em que saiu pela porta no outro extre­
mo , viu o negro a caminhar muito devagar, a cruzar o caminho na
diagonal , defronte dela, de olhos ainda fitos no objeto que Mr. Guizac
lhe entregara. Ele não a viu e deteve-se e fletiu os joelhos e debruçou­
-se sobre a mão , descrevendo pequenos círculos com a língua. Tinha
na mão uma fotografia. Ergueu um dedo e passou-o ao de leve sobre
a superfície da imagem. Nesse momento , ergueu os olhos e viu-a e
pareceu ficar petrificado , a boca a formar um meio sorriso , o dedo
erguido .
- Porque é que não foste até ao campo? - perguntou ela.
Ele ergueu um pé e abriu mais a boca, enquanto a mão que segura­
va a fotografia se desviava à socapa para o bolso de trás .
206 Flannery O ' Connor

- O que é isso? - indagou ela.


- Não é nada - murmurou ele e , num gesto automático , estendeu-
-lhe a fotografia.
Era uma fotografia de uma rapariga dos seus doze anos , de vestido
branco . Tinha cabelo loiro , enfeitado com uma grinalda de flores , e
olhava em frente com olhos claros , meigos e recatados . - Quem é
esta criança? - perguntou Mrs . Mclntyre .
- É prima dele - respondeu o rapaz em voz aflautada.
- Bom, e o que é que tu estás a fazer com isso? - perguntou ela.
- Ela vai-se casar comigo - explicou ele em voz ainda mais
aflautada.
- Casar-se contigo ! - soltou ela num guincho .
- Eu pago metade pra ela vir até cá - explicou ele . - Pago a
ele três dólares por semana. Ela agora já é maiorzita. É prima dele .
Ela não se rala com quem se vai casar, só quer é sair dali pra fora. -
A voz aguda pareceu irromper em esguicho , como um jato nervoso
de som, e depois perder toda a força no momento em que ele viu a
expressão no rosto dela. Os olhos dela tinham a cor do granito azul
quando o sol o ilumina em cheio , mas ela não estava a olhar para
ele . Estava a olhar para o fundo do caminho , onde se ouvia o ruído
distante do trator.
- Acho que ela não vai vir até cá, seja lá como for - murmurou
o rapaz .
- Garanto-te que vais receber de volta todo o teu dinheiro , até
ao último cêntimo - disse ela em voz inexpressiva, e virou costas
e afastou-se , segurando na mão a fotografia dobrada em dois . Nada
havia na sua pequena figura hirta a indicar que estava abalada.
Assim que entrou em casa, deitou-se na cama e fechou os olhos e
fez força com a mão no peito , sobre o coração, como se estivesse a
tentar mantê-lo no seu lugar. Abriu a boca e emitiu dois ou três sons
breves e secos . Depois , ao cabo de um longo momento , sentou-se
no leito e disse em voz alta: - São todos iguais . Tem sido sempre
assim - e tomou a tombar de costas , muito direita. - Vinte anos
a comerem-me as papas na cabeça e a passarem-me a perna, e até a
campa dele me roubaram ! - e, recordando esse incidente, começou
a chorar em silêncio , limpando os olhos de vez em quando com a orla
da bata .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 207

O que lhe viera ao espírito fora o anjo junto à campa do juiz . Era
um querubim nu feito de granito que o velho tinha visto na cidade,
certo dia, na montra de uma loja de lápides . A estátua cativara-o de
imediato, em parte porque o rosto do anjo lhe lembrava a mulher,
em parte porque queria uma obra de arte genuína a adornar a própria
sepultura. Regressara a casa com a estátua pousada no banco de felpa
verde do comboio, a seu lado . Mrs . Mclntyre nunca se apercebera de
nenhuma semelhança com as suas próprias feições . Sempre achara o
anjo horroroso , mas , quando os Herrins o roubaram da sepultura do
velho , ficou chocada e furiosa. Mrs . Herrin achava a estátua muito bo­
nita e ia frequentemente até ao cemitério para a contemplar, e, quando
os Herrins partiram, o anjo partiu com eles , deixando apenas os dedos
dos pés , pois o machado que o velho Herrin usara para o partir percu­
tiu a pedra um pouco acima do ponto desejado . Mrs . Mclntyre nunca
juntara dinheiro suficiente para o mandar substituir.
Depois de verter todas as lágrimas de que foi capaz , ela levantou­
-se e foi até à sala das traseiras , uma divisão semelhante a um gabi­
nete, escura e silenciosa como uma capela, e sentou-se na borda da
cadeira articulada do juiz , forrada de negro , com o cotovelo apoiado
na secretária dele . Tratava-se de uma gigantesca escrivaninha com
tampo de correr, repleta de fiadas de compartimentos atafulhados de
papéis poeirentos . Nas gavetas entreabertas viam-se pilhas de velhos
livros de contabilidade e de registo , e um pequeno cofre , vazio mas
trancado , erguia-se, qual tabernáculo , no centro da divisão . Ela deixa­
ra aquela parte da casa inalterada desde o tempo do velho . Era uma
espécie de monumento à memória dele, sagrado porque ele tratara ali
dos seus negócios . Bastava ela inclinar-se, por pouco que fosse , para
um lado ou para o outro , e a cadeira soltava um resmungo esquelético
e ferrugento que fazia lembrar vagamente o próprio velho quando ele
se queixava da sua pobreza. Ele tinha por princípio falar sempre como
se fosse a pessoa mais pobre do mundo, e ela imitava-o , não apenas
para lhe seguir o exemplo , mas também porque era verdade. Quando
se sentava ali com o rosto febril e contraído virado para o cofre vazio,
sabia que não havia no mundo ninguém mais pobre do que ela.
Ficou sentada à secretária, imóvel , durante dez minutos ou um
quarto de hora, e depois , como se tivesse recobrado algum vigor, le­
vantou-se e meteu-se no carro e conduziu até ao milharal .
208 Flannery O 'Connor

O caminho passava por uma mancha sombria de pinheiros e ter­


minava no alto de um monte que se espraiava para baixo , qual leque ,
antes de tomar a subir numa ampla extensão de verde salpicado dos
pendões do milho . Mr. Guizac estava a progredir numa trajetória cir­
cular, do exterior do campo para o centro , onde o cemitério estava
quase oculto pelo milho , e ela avistou-o do lado oposto da encosta,
montado no trator, com a ceifeira e o reboque atrás . De tempos a
tempos , tinha de descer do trator e trepar para a borda do reboque e
espalhar a forragem, porque o negro ainda não chegara. Ela esperou ,
impaciente , parada diante do seu coupé negro , de braços cruzados
por baixo da bata, enquanto ele avançava devagar em volta da orla do
campo , aproximando-se gradualmente até estar perto que chegasse
para ela lhe acenar com a mão e o fazer descer do trator. Ele parou a
máquina e saltou do assento e veio a correr, limpando o queixo ver­
melho com um trapo sujo de óleo .
- Quero falar consigo - disse ela, e chamou-o com um aceno
da mão para a orla da mata, onde havia sombra. Ele tirou o boné e
seguiu-a, sorridente , mas o sorriso esmoreceu quando ela se virou e
o encarou . As sobrancelhas dela, finas e agrestes como patas de uma
aranha, tinham-se unido ameaçadoramente , e o fundo sulco vertical
mergulhara de sob a franja ruiva até lhe chegar à cana do nariz . Ela
tirou do bolso a fotografia dobrada e estendeu-lha silenciosamente .
Em seguida, recuou um passo e disse: - Mr. Guizac ! O senhor não
era capaz de trazer para cá esta pobre criança inocente e de a tentar
casar com um preto nojento , um escarumba apalermado , ladrão e
malcheiroso , pois não? O senhor é algum monstro , ou quê? !
Ele pegou na fotografia com um sorriso a regressar-lhe lentamente
às feições . - É minha prima - explicou . - Tinha aqui doze anos .
Primeira comunhão . Agora dez e seis .
Monstro ! disse ela para consigo , e olhou para ele como se o esti­
vesse a ver pela primeira vez . Ele tinha a testa e o crânio brancos nas
partes que o boné protegia do sol , mas o resto da face era vermelha
e estava eriçada de pelos curtos e loiros . Os olhos assemelhavam-se
a dois pregos cintilantes atrás dos óculos de aros dourados , que ha­
viam sido consertados com arame na parte sobre o nariz. O rosto dele
parecia ter sido remendado a partir dos fragmentos de vários outros .
- Mr. Guizac - retomou ela, começando devagar e falando depois
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 209

cada vez mais depressa, até que acabou , sem fôlego , a meio de u ma
.
palavra - , aquele preto não se pode casar com uma mulher branca
da Europa. O senhor não pode falar assim com um preto . Vai fazê-lo
perder a cabeça, e , além do mais , isso não é permitido . Talvez seja
permitido na Polónia, mas aqui é proibido e o senhor tem de parar
com isso . É um disparate pegado . Aquele preto não tem dois dedos
de testa, e o senhor vai fazer com que ele perca . . .
- Ela está numa campo faz três anos - disse ele .
- A sua prima - declarou ela em tom categórico - não pode vir
para a América e casar-se com um dos meus pretos .
- Ela tem dez e seis anos - insistiu ele . - Da Polónia. Mãe mor­
reu, pai morreu . Ela ficou à espera numa campo . Três campos . - Sa­
cou uma carteira do bolso e folheou o respetivo conteúdo e tirou de lá
outra fotografia da mesma rapariga, alguns anos mais velha, vestida
com uma qualquer peça de roupa escura e informe . Estava encostada
a uma parede junto de uma mulher baixa que , aparentemente, não
tinha dentes . - É mãe - explicou , apontando para a mulher. - Ela
morreu na dois campo .
- Mr. Guizac - atirou Mrs . Mclntyre , devolvendo-lhe a fo­
tografia com um gesto vivo - , não admito que desinquietem os
meus pretos . Não posso governar esta quinta sem os meus pretos.
Posso governá-la sem si, mas não sem eles , e , se o senhor toma a
falar nesta rapariga ao Sulk, não quero que trabalhe mais para mim .
Entendeu?
O rosto dele não manifestava compreensão . Ele parecia estar a en­
caixar todas aquelas palavras no espírito para criar um pensamento .
Mrs . Mclntyre recordou as palavras de Mrs . Shortley: «Ele perce­
be tudo , só faz de conta que não percebe pra poder fazer.o que muito
bem lhe apetece» , e o seu rosto readquiriu a expressão de ira chocada
do início da conversa. - Não consigo entender como é que um ho­
mem que se diz cristão - declarou - seria capaz de trazer para cá
uma pobre rapariga inocente e casá-la com uma criatura daquelas .
Não consigo entender. Não consigo ! - e, abanando a cabeça, fitou a
lonjura com uma expressão angustiada dos seus olhos azuis .
Ao cabo de escassos momentos , ele encolheu os ombros e deixou
pender os braços , como se estivesse cansado . - Ela não se importa
preto - explicou . - Ela está na campo três anos .
210 Flannery O ' Connor

Mrs . Mclntyre sentiu uma fraqueza peculiar por trás dos joelhos .
- Mr. Guizac - disse - , não quero ser obrigada a falar consigo
novamente por causa deste assunto . Se isso acontecer, o senhor vai
ter de mudar de casa. Compreende?
O rosto feito de retalhos não respondeu . Ela tinha a impressão de
que ele não a via ali na sua frente . - Esta quinta- é minha - pros­
seguiu . - Eu é que decido quem aqui mora e quem aqui não mora.
- Pois - disse ele , e tomou a pôr o boné na cabeça.
- Não sou responsável pelos males do mundo - acrescentou ela,
como uma reflexão tardia.
- Pois - disse ele .
- O senhor tem um belo emprego . Devia estar grato por viver
aqui - ajuntou ela - , mas não sei se está mesmo .
- Pois - disse ele , e executou o seu pequeno encolher de ombros
e tomou a encaminhar-se para o trator.
Ela viu-o subir para o assento e manobrar a máquina novamente
em direção ao milho . Quando ele passou diante dela e dobrou a cur­
va, ela trepou até ao alto da encosta e ficou ali de braços cruzados e
espraiou a vista pelo campo com ar carrancudo . - São todos iguais
- murmurou - , quer venham da Polónia, quer do Tennessee . Já
lidei com Herrins e com Ringfields e com Shortleys , posso bem
lidar com um Guizac - e franziu as pálpebras até o olhar se lhe
fechar totalmente em volta da silhueta cada vez mais pequena do
Refugiado ao volante do trator, como se estivesse a observá-lo atra­
vés da mira da uma arma. Passara a vida inteira a combater o refugo
do mundo , e agora tinha-o na sua frente , sob a forma de um polaco .
- É s igualzinho aos outros todos - disse - , só que és esperto e
frugal e vigoroso , mas eu também sou . E esta terra é minha - e ali
ficou , imóvel , uma silhueta atarracada, de chapéu negro , bata negra,
com um rosto de querubim caduco , e cruzou os braços como se es­
tivesse à altura de qualquer desafio. Mas o coração batia-lhe como
se tivessem já cometido sobre ela uma qualquer violência interior.
Abriu os olhos para abarcar todo o campo , de modo que a silhueta
no trator não era maior do que um gafanhoto naquele panorama
alargado .
Ficou ali algum tempo . Soprava uma brisa leve , e o milho oscilava
em grandes ondas de ambos os lados da encosta. A grande ceifeira,
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 211

com o seu rugido monótono , continuava a cuspir o cereal , devida­


mente pulverizado , para dentro do reboque , num jorro contínuo de
forragem. Ao cair da noite , o Refugiado teria dado voltas e voltas até
nada restar em ambos os flancos dos dois montes , à parte o restolho ,
e ali no centro , erguendo-se como uma ilhota, o cemitério onde o juiz
jazia, com um largo sorriso , sob o seu monumento profanado .

III

O padre , com o seu rosto comprido e afável apoiado num dedo , ti­
nha estado a falar durante dez minutos acerca do Purgatório enquanto
Mrs . Mclntyre o fitava furiosamente de pálpebras semicerradas , sen­
tada na cadeira em frente. Estavam a beber ginger ale no alpendre da
frente da casa dela, e ela não parava de chocalhar o gelo no seu copo ,
de chocalhar as contas do colar, de chocalhar a pulseira como um ca­
valo impaciente a sacudir os arreios . Não tenho nenhuma obrigação
moral de o conservar aqui , dizia a si mesma em surdina, não tenho
obrigação moral absolutamente nenhuma. De súbito , pôs-se de pé de­
sajeitadamente , e a voz dela tombou sobre o sotaque irlandês cerrado
do padre como uma pua a cair numa serra mecânica. - Escute ! -
soltou . - Eu não sou nada teológica ! Sou muito prática ! Quero falar
consigo acerca de uma questão prática !
- Arrrrr - gemeu ele , calando-se com um arquejo rangente .
Ela pusera pelo menos um dedo de whisky no seu ginger ale , para
conseguir suportar a longa visita dele , e sentou-se com um movimen­
to canhestro , deparando com a cadeira mais perto do que esperava.
- Não estou satisfeita com Mr. Guizac - declarou .
O velho ergueu as sobrancelhas num espanto fingido .
- Ele é supérfluo - continuou ela. - Não se encaixa. Tenho de
ter alguém que se encaixe .
O padre rodou o chapéu cuidadosamente sobre os joelhos . Recor­
ria a um pequeno truque, que consistia em esperar alguns momentos
em silêncio, para depois desviar a conversa novamente para o campo
que lhe interessava. Tinha cerca de oitenta anos . Ela nunca travara
conhecimento com um padre até ter ido procurar este , para lhe pedir
que lhe arranjasse um refugiado . Depois de lhe ter arranjado o pola-
212 Flannery O ' Connor

co , ele servira-se daquele pretexto prático para tentar convertê-la -


exatamente como ela deduzira que iria suceder.
- Dê-lhe tempo - pediu o velho . - Ele há de aprender a encai­
xar-se . E onde é que anda aquela sua affe belíssima? - perguntou ,
e depois disse. - Arrrrr, já a vi ! - e pôs-se de pé e olhou ao longe ,
sobre o relvado , para o ponto onde o pavão e as duas pavoas avança­
vam com atenção nervosa, os longos pescoços de penas eriçadas , o
azul violento do pavão e o verde-prateado das pavoas a cintilar ao sol
daquele final de tarde .
- Mr. Guizac - continuou Mrs . Mclntyre , voltando à carga com
uma voz monocórdica e firme - é muito eficiente . Não me custa
reconhecer isso . Mas não sabe como deve lidar com os meus pretos ,
e eles não gostam dele . Não posso deixar que os meus pretos se vão
embora. E não me agrada a postura dele . Ele não se mostra nem um
bocadinho grato por estar aqui .
O padre tinha a mão na porta de rede e abriu-a, pronto a escapulir­
-se dali . - Arrrr, tenho de ir andando - murmurou .
- Digo-lhe já, se arranjasse um branco que compreendesse os
negros , teria de despedir Mr. Guizac - declarou ela, e pôs-se nova­
mente de pé .
Nesse momento , ele voltou-se e olhou-a no rosto . - Ele não tem
para onde ir - disse . Em seguida, acrescentou: - Minha cara se­
nhora, conheço-a suficientemente bem para saber que não era capaz
de o despedir por uma ninharia ! - e , sem esperar por uma resposta,
ergueu a mão e deu-lhe a sua bênção em voz rumorejante .
Ela sorriu com ar zangado e disse: - Não fui eu quem criou a
situação dele , é claro .
O padre deixou que o olhar se lhe desviasse ao encontro dos pa­
vões . Estes tinham alcançado o meio do relvado . O macho deteve-se
repentinamente e , curvando o pescoço para trás , ergueu a cauda e
abriu-a com um ruído tremeluzente e sonoroso . Fiadas sucessivas de
pequenos sóis prenhes flutuavam numa neblina verde-dourada acima
da cabeça da ave . O padre ficou petrificado , de queixo caído . Mrs .
Mclntyre perguntou a si mesma se alguma vez teria visto um velho
tão idiota como aquele . - Cristo virá assim ! - exclamou ele em
voz vibrante e alegre , e passou a mão sobre a boca e ali ficou, em­
basbacado .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 213

O rosto de Mrs . Mclntyre adotou uma expressão hirta e puritana


à medida que ela ia ficando vermelha. As referências a Cristo numa
conversa embaraçavam-na, assim como o sexo embaraçava a mãe
dela. - Não é da minha responsabilidade que Mr. Guizac não tenha
para onde ir - disse . - Não me acho responsável por todas as pes­
soas supérfluas no mundo .
O velho pareceu não a ouvir. A atenção dele estava concentrada no
pavão, que ia dando passinhos para trás , a cabeça encostada à cauda
aberta em leque . - A Transfiguração - murmurou .
Ela não fazia ideia do que ele estava a dizer. - Mr. Guizac nem
tinha nada que vir para cá, logo para começar - atirou , lançando-lhe
um olhar duro .
O pavão baixou a cauda e começou a debicar a relva.
- Ele nem tinha nada que vir para cá, logo para começar - repe­
tiu ela, sublinhando cada palavra.
O velho sorriu com ar ausente . - Ele veio para nos redimir - dis­
se e, com ar meigo , estendeu o braço para ela e apertou-lhe a mão e
disse que tinha de ir andando .

Se Mr. Shortley não tivesse regressado escassas semanas depois,


ela teria ido em busca de um novo homem para contratar. Não o
queria de volta à quinta, mas , quando viu o automóvel negro já co­
nhecido a avançar pelo caminho acima e a parar junto ao flanco da
casa, teve a sensação de que era ela própria que , depois de uma via­
gem longa e infeliz , estava de regresso a casa. Percebeu de imediato
que era de Mrs . Shortley que sentira a falta. Não tinha ninguém com
quem conversar desde a partida de Mrs . Shortley, e correu até à porta,
esperando vê-la a subir pesadamente os degraus .
Mr. Shortley estava ali sozinho . Tinha um chapéu de feltro negro
e uma camisa com padrão de palmeiras vermelhas e azuis , mas as
covas no seu rosto comprido , escalavrado e coberto de pústulas eram
mais fundas do que um mês antes .
- Muito bem ! - disse ela. - Onde está Mrs . Shortley?
Mr. Shortley nada disse . A mudança no seu rosto parecia ter vindo
de dentro; parecia um homem que passara muito tempo sem água.
- Ela era um anjo de Deus - disse em voz sonora. - Era a mulher
mais doce do mundo .
214 Flannery O ' Connor

- E onde é que ela está? - murmurou Mrs . Mclntyre .


- 'Tá morta - respondeu ele . - Teve uma congestão no dia em
que saiu daqui . - Havia no rosto dele a compostura de um cadáver.
- Cá pra mim, foi aquele polaco que a matou - prosseguiu . - Ela
topou-o logo desde o princípio . Ela percebeu que ele veio a mando
do demónio . Disse-mo logo .
Mrs . Mclntyre levou três dias a superar a morte de Mrs . Shortley.
Disse a si mesma que qualquer pessoa acharia que elas eram parentes .
Tomou a contratar Mr. Shortley para ajudar nos trabalhos da quinta,
embora, na verdade , não o quisesse sem a mulher. Disse-lhe que , no
fim do mês , ia dar ao Refugiado o aviso prévio de trinta dias para o
despedir, e que , em seguida, ele podia recuperar o seu trabalho na
vacaria. Mr. Shortley preferia o trabalho na vacaria, mas estava dis­
posto a esperar. Disse que lhe daria uma certa satisfação ver o polaco
sair da quinta, e Mrs . Mclntyre disse que também ela sentiria imensa
satisfação . Confessou que deveria ter-se contentado com os assala­
riados que sempre tivera e que não devia ter ido buscar gente a outras
zonas do mundo . Mr. Shortley comentou que nunca gostara muito de
estrangeiros desde que combatera na Primeira Guerra Mundial e vira
como eles eram. Disse que vira todo o género de estrangeiros , mas
que nenhuns eram como a gente da terra dele . Disse que recordava o
rosto de um homem que lhe tinha atirado uma granada de mão , e que
esse homem tinha uns óculos pequeninos e redondos , exatamente co­
mo os de Mr. Guizac .
- Mas Mr. Guizac é polaco , não é alemão - interveio Mrs .
Mclntyre .
- Não há assim grande diferença entre os dois géneros - expli­
cou Mr. Shortley.
Os negros ficaram satisfeitos ao ver Mr. Shortley de regresso .
O Refugiado esperava que eles trabalhassem com tanto afinco co­
mo ele próprio , ao passo que Mr. Shortley lhes reconhecia as limita­
ções . Nunca fora um trabalhador muito dedicado , mesmo com Mrs .
Shortley para o manter na linha, mas agora, sem ela, tomara-se ain­
da mais esquecido e vagaroso . O polaco trabalhava com o mesmo
denodo de sempre , e parecia não desconfiar de que estava prestes a
ser despedido . Mrs . Mclntyre via cumpridas em pouco tempo tare­
fas que julgava que nunca chegariam a ser cumpridas . Ainda assim,
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 215

estava decidida a livrar-se dele . A visão da silhueta baixa e hirta do


Refugiado a caminhar em passo vivo para aqui e para acolá acabara
por se tomar para ela a coisa mais irritante naquela quinta, e sentia
que fora enganada pelo velho padre . Ele dissera que ela não tinha
qualquer obrigação legal de manter o Refugiado ao seu serviço , se
ele não se revelasse satisfatório , mas depois levantara a questão da
obrigação moral .
Ela fazia tenções de lhe dizer que a sua obrigação moral era para
com a sua gente , para com Mr. Shortley, que combatera na Grande
Guerra pelo seu país , e não para com Mr. Guizac , que se limitara a
chegar àquele país para se aproveitar de tudo o que pudesse . Parecia­
-lhe que tinha de dizer isto claramente ao padre antes de despedir o
Refugiado . Quando o primeiro dia do mês chegou e o padre não a
visitou na quinta, ela adiou por mais algum tempo o momento de dar
ao polaco o aviso prévio de despedimento .
Mr. Shortley disse a si mesmo que já devia saber que nenhuma
mulher era capaz de fazer o que dizia que ia fazer, nem quando dizia
que ia fazer. Não sabia quanto tempo é que se podia dar ao luxo de
aguentar aquele vai-não-vai da parte dela. Achava que ela estava a
perder o nervo e que tinha medo de expulsar o polaco , com receio de
que ele tivesse dificuldade em encontrar outro lugar para trabalhar.
Ele podia dizer-lhe a verdade a este respeito: que , se ela o despe­
disse , dali a três anos ele teria a sua própria casa, com uma antena
de televisão espetada no telhado . Por uma questão de boa política,
começou a ir ter à porta das traseiras dela todos os serões , para lhe
dizer certas verdades . - À s vezes , um branco não é respeitado assim
como um preto - dizia - , mas isso não importa, porque continua a
ser branco , mas às vezes - neste ponto , detinha-se e olhava ao longe
- um homem que combateu e sangrou e morreu ao serviço do seu
país natal não é respeitado assim como um daqueles contra quem ele
combateu . E agora eu pregunto à senhora: acha bem? - Quando lhe
fazia perguntas assim, remirava o rosto dela e percebia que a deixava
abalada. Ela não tinha ar de se sentir muito bem por aqueles dias . Ele
notou-lhe rugas em volta dos olhos que não existiam quando ele e
Mrs . Shortley eram os únicos assalariados brancos na quinta. Sempre
que pensava em Mrs . Shortley, sentia o coração a tombar-lhe no peito
como um velho balde a descer para um poço seco .
216 Flannery O ' Connor

O velho padre evitava aparecer, como que assustado pela sua últi­
ma visita, mas , por fim, vendo que o Refugiado não fora despedido,
atreveu-se a fazer uma nova visita à quinta para ministrar instrução a
Mrs . Mclntyre , retomando os ensinamentos no ponto em que , tanto
quanto se recordava, os deixara. Ela não pedira que a instruíssem,
mas ele insistia em fazê-lo , introduzindo uma breve definição de um
dos sacramentos ou de um qualquer dogma em cada conversa que
tinha, fosse com quem fosse . Sentou-se no alpendre , sem reparar no
rosto da dona da casa, que , com uma expressão em parte trocista,
em parte ofendida, se sentou também, a agitar o pé , à espera de uma
oportunidade de lhe fender o discurso com uma machadada certeira.
- Porque - estava ele a dizer, como se falasse de qualquer coisa
que se passara na véspera, na povoação - quando Deus enviou o
Seu Filho único , Nosso Senhor Jesus Cristo - fez uma ligeira vénia
com a cabeça - , como Redentor da humanidade , Ele . . .
- Padre Flynn ! - exclamou ela numa voz que o fez saltar na
cadeira. - Quero falar-lhe de um assunto muito sério !
A pele sob o olho direito do velho estremeceu .
- Cá no meu entender - declarou ela, e fuzilou-o com um olhar
feroz - , Cristo não passava de mais um refugiado .
Ele ergueu ligeiramente as mãos e tomou a deixá-las cair sobre os
joelhos . - Arrrrrr - murmurou , como se estivesse a ponderar estas
palavras .
- Vou despedir aquele homem - prosseguiu ela. - Não tenho
qualquer obrigação para com ele . A minha obrigação é para com as
pessoas que fizeram alguma coisa pelo seu país , não para com aque­
les que vieram até cá somente para se aproveitarem daquilo a que
podem deitar a mão - e começou a falar rapidamente , lembrando-se
de todos os seus argumentos . A atenção do padre pareceu retirar-se
para um qualquer oratório privativo , para ali aguardar até que ela
terminasse . Uma ou duas vezes , o olhar dele deambulou pelo relva­
do fronteiro , como se buscasse uma forma de escapar, mas ela não
se deteve . Explicou-lhe que cuidava daquela quinta, contra ventos
e marés, havia trinta anos , sempre com a corda ao pescoço , lutando
contra gente que vinha de nenhures e que não tinha futuro nenhum,
que queria apenas comprar um automóvel . Disse que descobrira que
eles eram todos iguais , quer viessem da Polónia, quer do Tennessee .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 217

Quando o s Guizacs achassem que era o momento certo, disse , não


hesitariam em deixá-la. Explicou-lhe que as pessoas que pareciam
ricas eram as mais pobres de todas , porque tinham mais aparências a
manter. Perguntou-lhe como é que ele achava que ela pagava as sa­
cas de rações . Disse-lhe que gostava de fazer obras na casa, mas que
não se podia dar a esse luxo . Nem sequer tinha dinheiro para mandar
restaurar o monumento na campa do marido . Perguntou-lhe se conse­
guia adivinhar quanto é que ela pagava de seguro todos os anos . Por
fim, perguntou-lhe se ele achava que o dinheiro nascia nas árvores , e
o velho soltou subitamente um grande urro dissonante , como se esta
pergunta fosse muito cómica.
Quando a visita terminou , ela sentiu-se desiludida, ainda que , ma­
nifestamente , tivesse triunfado sobre o padre . Decidiu então que , no
primeiro dia do mês seguinte , daria ao Refugiado o aviso prévio de
despedimento , e disse isso mesmo a Mr. Shortley.
Este nada respondeu . A mulher dele tinha sido a única mulher que
ele conhecera que nunca tinha medo de fazer o que dizia. Ela dizia
que o polaco tinha sido mandado pelo demónio e pelo padre . Mr.
Shortley não duvidava que o padre adquirira um qualquer poder bi­
zarro sobre Mrs . Mclntyre e que , dentro de pouco tempo , ela come­
çaria a assistir às missas dele . Dava a sensação de que qualquer coisa
a estava a consumir por dentro . Estava mais magra e mais agitada e
não se mostrava tão perspicaz como dantes . Olhava agora para uma
bilha de leite e não via como estava suja, e ele vira-a mexer os lá­
bios quando não estava a falar. O polaco nunca fazia nada mal feito,
mas , mesmo assim , irritava-a imenso . O próprio Mr. Shortley fazia as
coisas como muito bem lhe apetecia - nem sempre à maneira dela
- , mas ela parecia nem reparar. Reparara, porém, que o polaco e
toda a farm1ia estavam a engordar; chamou a atenção de Mr. Shortley
para o facto de eles terem deixado de ter as faces encovadas e de
pouparem cada cêntimo que ganhavam. - Sim, m'nha senhora, e
qualquer dia ele já vai ter dinheiro que chegue pra lhe comprar isto
tudo - atrevera-se Mr. Shortley a dizer, e percebeu que esta afirma­
ção a abalou .
- Estou só à espera do dia um - respondeu ela.
Mr. Shortley esperou também, e o dia um chegou e passou , e ela
não despediu o Refugiado . Ele já sabia que ia ser assim . Não era um
218 Flannery O ' Connor

homem violento , mas detestava ver uma mulher enganada por um


estrangeiro . Parecia-lhe que isso era uma coisa a que um homem não
tinha o direito de assistir de braços cruzados .
Não havia razão alguma para Mrs . Mclntyre não despedir Mr.
Guizac de imediato, mas ela ia adiando a decisão de dia para dia.
Andava preocupada com as despesas e com a sua saúde . Não conse­
guia dormir de noite , ou , quando dormia, sonhava com o Refugiado .
Nunca despedira ninguém; todos os assalariados a tinham deixado .
Certa noite, sonhou que Mr. Guizac e a farm1ia se estavam a mudar
para a casa dela, e que ela própria ia viver com Mr. Shortley. Isto era
demasiado , e ela acordou e não tornou a pregar olho durante várias
noites; e, uma noite , sonhou que o padre vinha visitá-la e que falava
em voz monótona, dizendo: - Minha cara senhora, sei bem que o
seu bom coração não lhe permite expulsar daqui o pobrrrrer homem.
Pense nos milhares e milhares de pessoas como ele , pense nos fornos
crematórios e nos vagões para gado e nos campos de concentração e
nas crianças doentes e em Nosso Senhor Jesus Cristo .
- Ele é supérfluo e veio perturbar o equilíbrio nesta quinta -
replicou ela - , e eu sou uma mulher lógica, com sentido prático, e
nesta terra não há fornos crematórios , nem campos de concentração ,
nem Nosso Senhor Jesus Cristo , e , quando ele se for embora, ainda
vai ganhar mais dinheiro . Vai trabalhar na fábrica e comprar um carro
e não me venha com isso , que eles só querem um carro , mais nada.
- Os fornos crematórios e os vagões para gado e as crianças doen­
tes - zumbia a voz do padre - e o nosso amado Senhor.
- Está a mais , pronto - declarou ela.
Na manhã seguinte , enquanto estava a tomar pequeno-almoço ,
decidiu-se a dar-lhe o aviso prévio de despedimento sem perda de
tempo , e pôs-se de pé e saiu da cozinha e percorreu o caminho , ainda
com o guardanapo na mão . Mr. Guizac estava a lavar o estábulo com
a mangueira, parado naquela sua postura de costas vergadas , com
uma mão na anca. Fechou a torneira e voltou-se para ela com uma
atenção impaciente , como se ela lhe estivesse a dificultar o trabalho .
Mrs . Mclntyre não pensara de antemão no que lhe iria dizer, limitara­
-se a ir ter com ele . Parada à porta do estábulo , remirou severamente
o chão molhado e impecavelmente limpo e as barras verticais gote­
jantes em cada baia. - Vai tudo bom? - perguntou ele .
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 219

- Mr. Guizac - disse ela - , mal consigo satisfazer os meus com­


promissos , neste momento . - Em seguida, declarou em voz mais alta,
mais forte, sublinhando cada palavra: - Tenho contas para pagar.
- Também eu - acudiu Mr. Guizac . - Muitos contas , pouco
dinheiro - e encolheu os ombros .
No outro extremo do estábulo , ela viu uma comprida sombra de
nariz adunco a deslizar como uma cobra até meio da porta aberta,
banhada pelo sol , e deter-se; e, algures atrás de si , apercebeu-se de
um silêncio onde o som dos negros a trabalhar com as pás se fizera
ouvir alguns momentos antes . - Esta quinta é minha - declarou
ela em tom zangado . - Vocês são todos supérfluos . Todos vocês são
supérfluos , do primeiro ao último !
- Pois - disse Mr. Guizac , e tomou a ligar a mangueira.
Ela limpou a boca com o guardanapo que tinha na mão e afastou­
-se , como se tivesse cumprido a tarefa que a trouxera ali .
A sombra de Mr. Shortley retirou-se da porta, e ele encostou-se à
parede lateral do estábulo e acendeu meio cigarro que tirou do bolso .
Nada mais lhe restava do que esperar que a mão de Deus desferisse o
seu golpe , mas uma coisa sabia: não ia esperar de boca calada.
Logo naquela manhã, começou a queixar-se e a contar a sua versão
do caso a todas as pessoas que via, pretos ou brancos . Queixou-se
na mercearia e no tribunal e à esquina da rua e diretamente à própria
Mrs . Mclntyre , porque nada havia nele de dissimulado . Se o polaco
conseguisse entender o que ele dizia, ter-lhe-ia dito também a ele .
- Todos os homens foram criados livres e iguais - dizia a Mrs .
Mclntyre - , e eu arrisquei a vida e o corpo pro provar. Fui até lá e
combati e sangrei e morri e regressei prà minha terra e descobri quem
é que me tinha roubado o emprego . . . exatamente quem eu tinha 'tado
a combater. Aquela granada de mão só não me matou por um triz, e
eu vi quem é que a atirou . Foi um homenzinho com uns óculos assim
como os dele . Até parece que os compraram na mesma loja. Este
mundo é muito pequeno - e soltava um risinho amargo . Uma vez
que já não tinha Mrs . Shortley para falar por ele , começara a tomar a
palavra, e descobriu que possuía esse dom. Tinha o poder de levar as
outras pessoas a ver a sua lógica. Falava muito com os negros .
- Porque é que não voltas lá pra África? - perguntou a Sulk:
certa manhã, quando estavam a limpar o silo. - É a tua terra, não é?
220 Flannery O ' Connor

- Eu cá é que não vou pra lá - respondeu o rapaz. - São capa­


zes de me comer.
- Bom, se te comportares como deve de ser, não há razão pra não
poderes ficar aqui - disse Mr. Shortley com simpatia. - É que tu
não fugiste de lado nenhum. Trouxeram o teu avô à força. Ele não foi
visto nem achado , ninguém lhe perguntou nada. O que eu não gosto
é das pessoas que fogem donde vieram.
- Eu cá nunca tive vontade de viajar - acudiu o negro .
- Bom - prosseguiu Mr. Shortley - , se eu alguma vez tomasse
a viajar, era prà China ou pra África. Quando uma pessoa vai a uma
destas terras , percebe logo à primeira vista a diferença entre nós e
eles . Quando se vai às outras terras , a única maneira de perceber é se
eles disserem qualquer coisa. E mesmo assim nem sempre se perce­
be , porque praí metade deles sabem falar inglês . É nisso que a gente
faz mal - continuou - , deixamos essa gente toda aprender inglês .
Havia muito menos complicações se toda a gente só soubesse a sua
língua. A minha mulher dizia que saber duas línguas era como ter
olhos na nuca. Ninguém lhe comia as papas na cabeça.
- Isso é bem verdade - murmurou o rapaz , depois acrescentou:
- Ela era uma mulher como deve de ser. Oh, se era. Nunca conheci
outra branca assim como ela.
Mr. Shortley virou-se para o lado oposto e trabalhou em silêncio
durante um bocado . Ao fim de alguns minutos , debruçou-se e deu
uma pancadinha no ombro do rapaz de cor com o cabo da pá. Du­
rante um breve instante , limitou-se a fitá-lo , enquanto uma expressão
intensa se lhe adensava nos olhos húmidos . Por fim, disse em voz
suave: - Minha é a vingança, diz o Senhor.
Mrs . Mclntyre descobriu que toda a gente na povoação conhecia a
versão de Mr. Shortley do que se passava na quinta e que toda a gente
censurava a conduta dela. Começou a perceber que tinha a obrigação
moral de despedir o polaco e que se estava a furtar a isso porque lhe
custava fazê-lo . Já não suportava a culpa crescente e , numa manhã
fria de sábado , saiu de casa depois do pequeno-almoço para o des­
pedir. Encaminhou-se para o barracão das máquinas , onde o ouviu a
ligar o trator.
Havia na terra uma camada espessa de geada, que fazia os cam­
pos assemelharem-se aos dorsos ásperos das ovelhas ; o Sol tinha
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 22 1

uma cor quase prateada, e as matas assomavam como cerdas secas


na linha do horizonte . A paisagem parecia estar a afastar-se do pe­
queno círculo de ruído em volta do barracão . Mr. Guizac estava
acocorado no chão , ao lado do trator pequeno , a montar uma peça.
Mrs . Mclntyre esperava ver os campos lavrados enquanto ele ainda
tivesse trinta dias para trabalhar para ela. O rapaz de cor estava ali
parado , com algumas ferramentas na mão , e Mr. Shortley estava
dentro do barracão , preparando-se para subir para o assento do tra­
tor grande e para o fazer sair em marcha-atrás . Ela fazia tenções de
esperar até que ele e o negro se tivessem afastado para encetar a sua
tarefa desagradável .
Ficou a observar Mr. Guizac , batendo com os pés no chão duro ,
porque o frio lhe trepava como uma paralisia pelos pés e pelas pernas
acima. Trazia um grosso casaco negro e um lenço vermelho na cabe­
ça, com o chapéu preto enfiado por cima e puxado para os olhos , para
os proteger do brilho do Sol . Sob a aba negra, o rosto dela tinha uma
expressão abstraída, e, uma ou duas vezes , os lábios mexeram-se-lhe
em silêncio . Mr. Guizac gritou acima do ruído do trator, pedindo ao
negro que lhe passasse uma chave de parafusos , e, quando a recebeu,
deitou-se de costas sobre o chão gelado e enfiou a cabeça e os braços
por baixo da máquina. Ela não lhe via o rosto , somente os pés e as
pernas e o tronco , a assomar insolentemente do flanco do trator. Ele
calçava botas de borracha estaladas e salpicadas de lama. Ergueu um
joelho e depois baixou-o e voltou-se ligeiramente . De todas as coisas
que a incomodavam nele , a pior era o facto de ele não se ter ido em­
bora por sua própria iniciativa.
Mr. Shortley subira para cima do trator grande e estava a fazê-lo re­
cuar para fora do barracão . Parecia que a máquina o estava a aquecer,
como se o calor e a força do motor lhe enviassem impulsos através
do corpo , a que ele obedecia de imediato . Fez avançar o trator em di­
reção ao trator pequeno, mas travou-o num pequeno declive e saltou
do assento e tornou a encaminhar-se para o barracão . Mrs . Mclntyre
estava a olhar fixamente para as pernas de Mr. Guizac , agora espal­
madas contra o chão . Ouviu o travão do trator grande a soltar-se e,
erguendo os olhos , viu-o a rolar em frente e calculou-lhe a trajetória.
Mais tarde, recordou que viu o negro afastar-se silenciosamente com
um salto, como se uma mola na terra o tivesse projetado , e que viu
222 Flannery O ' Connor

Mr. Shortley voltar a cabeça com incrível lentidão e olhar silencio­


samente por cima do ombro , e que fez menção de lançar um grito de
aviso ao Refugiado , mas que não chegou a gritar. Sentiu os olhos dela
e os olhos de Mr. Shortley e os olhos do negro a reunirem-se num só
olhar que os petrificou para sempre num momento de cumplicidade ,
e ouviu o ruído abafado que o polaco soltou no momento em que o
trator lhe partiu a espinha. Os dois homens precipitaram-se para aju­
dar, e ela desmaiou .
Lembrava-se de que, ao recuperar os sentidos , correra para qual­
quer lado , talvez para dentro de casa e novamente para fora, mas
não se lembrava para quê , ou se tomara a desmaiar quando lá che­
gara. Quando finalmente voltou para onde estavam os tratores , a
ambulância chegara. O corpo de Mr. Guizac estava coberto pelos
corpos vergados da mulher e dos dois filhos e por uma figura negra
que pendia sobre ele , murmurando palavras que ela não entendia.
A princípio , pareceu-lhe que devia ser o médico , mas depois , com
uma sensação de incómodo , reconheceu o padre, que chegara com a
ambulância e estava a meter qualquer coisa na boca do homem esfa­
celado . Ao fim de uns momentos , ele pôs-se de pé , e ela começou por
lhe olhar para as pernas das calças ensanguentadas e depois para o
rosto dele , que não se desviou dela, mas que parecia tão reservado e
inexpressivo como o resto da paisagem. Ela limitou-se a fitá-lo , por­
que estava demasiado chocada por aquela experiência para se domi­
nar. A sua mente não conseguia abarcar tudo o que estava a acontecer.
Sentiu que estava numa qualquer terra estrangeira, onde as pessoas
curvadas sobre o cadáver eram os nativos , e ficou a olhar como uma
estrangeira enquanto levavam o morto na ambulância.
Naquela noite , Mr. Shortley foi-se embora sem aviso, em busca de
um novo trabalho noutro lugar, e o negro, Sulk, sentiu-se dominado
pelo súbito desejo de conhecer o mundo e partiu para a zona sul do
estado . O velho , Astor, não podia trabalhar sem auxílio . Mrs . Mcln­
tyre quase nem reparou que já não tinha empregados , porque foi aco­
metida por uma doença nervosa e teve de ir para o hospital . Quando
regressou , percebeu que já não ia ser capaz de governar a quinta, e
entregou as vacas a um leiloeiro profissional (que as vendeu com
prejuízo) e recolheu-se em casa para viver com o que tinha, enquanto
tentava preservar a saúde periclitante. Aos poucos , ficou com uma
Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias 223

perna dormente , e as mãos e a cabeça começaram a tremer-lhe , e,


por fim, teve de ficar na cama todo o tempo , apenas com uma mulher
de cor para cuidar dela. A sua vista piorou progressivamente e ela
perdeu por completo a voz . Não havia muita gente que se lembrasse
de a ir visitar à quinta, com exceção do velho padre . Ele vinha regu­
larmente , uma vez por semana, trazendo um saco de côdeas de pão ,
e , depois de atirar as côdeas ao pavão , entrava em casa e sentava-se à
cabeceira dela e explicava-lhe as doutrinas da Igreja.
Notas

1 Trata-se da estreia mundial do filme E Tudo o Vento Levou , que teve lugar
em Atlanta, em 1 93 9 . (N. T.)
2 Sigla da United Daughters of the Confederacy, organização feminina
composta por descendentes de militares confederados . (N. T.)
3 Antigo nome de Atlanta. (N. T.)
ÜBRAS DA AUTORA NESTA EDITORA

Um Diário de Preces
O Céu É dos Violentos
NESTA COLEÇÃO

1 1 7 . Juan Carlos Onetti: Os Adeuses


1 1 8 . Jack London: O Apelo da Floresta
1 1 9 . Don DeLillo: Cão em Fuga
1 20 . John Cheever: Bullet Park
1 2 1 . Eudora Welty: O Coração dos Ponders
1 22 . Thomas Pynchon: O Leilão do Lote 49
1 23 . Clarice Lispector: A Cidade Sitiada
1 24 . Eudora Welty: Os Melhores Contos
1 25 . Robert Walser: Os Irmãos Tanner
1 2 6 . Evelyn Waugh: Corpos Vis
1 27 . Arto Paasilinna: A Lebre de Vatanen
1 2 8 . Alice Munro: A Vista de Castle Rock
1 29 . Raymond Racliguet: Com o Diabo no Corpo
1 30 . Elsa Morante: A Ilha de Arturo
1 3 1 . Arto Paasilinna: Um Aprazível Suicídio em Grupo
1 32 . John Cheever: Crónica de Wapshot
1 3 3 . Arto Paasilinna: As Dez Mulheres do Industrial Rauno Ramekorpi
1 34 . Penelope Fitzgerald: A Flor Azul
1 3 5 . Evelyn Waugh: Declínio e Queda
1 36 . Djuna Barnes : O Bosque da Noite
1 37 . Henry Green: Amores
1 3 8 . Edna O' Brien: Raparigas da Província
1 39 . Muriel Spark: Memento Mori
140 . William Trevor: Depois da Chuva
1 4 1 . Lorrie Moore: Uma Porta nas Escadas
1 42 . Cormac McCarthy: Meridiano de Sangue
1 43 . Alice Munro: Demasiada Felicidade
1 44 . Cormac McCarthy: Belos Cavalos
1 45 . William Trevor: Amor e Verão
146. Daniyal Mueenuddin: Outros Quartos, Outras Maravilhas
1 47 . Liudmila Petruchévskaia: Hora: Noite
1 48 . F. Scott Fitzgerald: The Crack-Up e Outros Escritos
149 . Don DeLillo: Americana
1 50 . William Trevor: A Viagem de Felicia
1 5 1 . Cormac McCarthy: Nas Trevas Exteriores
1 52 . Alice Munro: O Progresso do Amor
1 5 3 . Iris Murdoch: Sob a Rede
1 54 . Evelyn Waugh: As Desventuras do Sr. Pinfold
1 55 . Liudmila Ulítskaia: Caso Kukótski
1 5 6 . Jack Kerouac: Pela Estrada Fora - O Rolo Original
1 5 7 . Boris Vian: O Arranca Corações
1 5 8 . E. M . Forster: Um Quarto com Vista
1 5 9 . Evelyn Waugh : Enviado Especial
1 60 . John O' Hara: Encontro em Samarra
1 6 1 . Raymond Roussel: Impressões de África
1 62. Tom Robbins : Mais Um Número de Feira
163 . Yukio Mishima: Morte em Pleno Verão e Outros Contos
1 64. Virginia Woolf: Flush - Uma Biografia
1 65 . Isaac Babel: Contos Escolhidos
1 66 . Hiromi Kawakarni: Os Anos Doces
167 . Hjalmar Sõderberg: O Doutor Glas
1 68 . Yukio Mishima: O Tumulto das Ondas
169 . Eudora Welty : A Filha do Optimista
170. Liudmila Petruchévskaia: A Mulher Que Tentou Matar o Bebé da Vizinha
1 7 1 . Virginia Woolf: Entre os Actos
1 72. Harper Lee: Mataram a Cotovia
1 7 3 . Clarice Lispector: Água Viva
1 74. Clarice Lispector: O Lustre
1 75 . Don DeLillo: Great Jones Street
176. Denis Johnson: Sonhos e Comboios
1 7 7 . Luigi Pirandello: Contos
1 7 8 . Virginia Woolf: Noite e Dia
1 7 9 . Evelyn Waugh: Oficiais e Cavalheiros
1 80 . Lydia Davis : Contos Completos
1 8 1 . Hiromi Kawakarni: Manazuru
1 82. Carson McCullers: Contos Escolhidos
1 83 . Irene Némirovsky: Os Cães e os Lobos
1 84. Irene Némirovsky : O Baile
1 8 5 . Irene Némirovsky : David Golder
1 86 . Vladimir Nabokov: Rei, Dama, Valete
1 87 . Vladimir Nabokov: Ada ou Ardor
1 8 8 . Cormac McCarthy : A Travessia
1 89 . Dalton Trevisan: O Vampiro de Curitiba
1 90 . Dalton Trevisan: Novelas nada Exemplares
1 9 1 . Dalton Trevisan: A Polaquinha
1 92. Clarice Lispector: Um Sopro de Vida (Pulsações)
1 93 . Junot Díaz: É assim Que A Perdes
1 94. Clarice Lispector: Laços de Família
195 . Irene Némirovsky : O Vinho da Solidão
1 96 . Denis Johnson: Anjos
1 97 . Luigi Pirandello: O Falecido Mattia Pascal
1 9 8 . Vladimir Nabokov: Riso na Escuridão
1 99 . Dalton Trevisan: Guerra Conjugal
200 . Dalton Trevisan: A Trombeta do Anjo Vingador
20 1 . Vladimir Nabokov: A Verdadeira Vida de Sebastian Knight
202 . Alice Munro: Amada Vida
203 . Hjalmar Sõderberg: O Jogo Sério
204 . Vladimir Nabokov: Lolita
205 . Michel Houellebecq: As Partículas Elementares
206 . Vladimir Nabokov: Pnin
207 . Cormac McCarthy : O Conselheiro
208 . Kate Atkinson: Vida após Vida
209 . A . M . Homes: Assim para N6s Haja Perdão
2 1 0 . Jhumpa Lahiri: A Planície
2 1 1 . Alice Munro: Vidas de Raparigas e Mulheres
2 1 2 . Rachel Kushner: Os Lança-Chamas
2 1 3 . Isaac Bábel: Contos e Diários
2 1 4 . Hermano Broch: A Morte de Virgílio
2 1 5 . Elena Ferrante: Crónicas do Mal de Amor
2 1 6 . Margaret Atwood: Ressurgir
2 1 7 . Katherine Anne Porter: A Torre Inclinada e Outros Contos
2 1 8 . Nathan Filer: O Choque da Queda
2 1 9 . Alice Munro: Falsos Segredos
220 . Marguerite Duras: Moderato Cantabile
22 1 . Marguerite Duras : Olhos Azuis Cabelo Preto
222 . Saul Bellow: Agarra o Dia
223 . Michel Houellebecq: Plataforma
224 . Saul Bellow: Henderson, o Rei da Chuva
225 . Alice Munro: Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento
226 . Flannery O' Connor: O Céu É dos Violentos
227 . Saul Bellow: O Planeta do Sr. Sammler
228 . Cormac McCarthy: Filho de Deus
229 . Elena Ferrante: A Amiga Genial
230 . Saul Bellow: Contos e Novelas I
23 1 . Karl Ove Knausgârd: A Morte do Pai - A Minha Luta: 1
232. Lydia Davis: Não Posso nem Quero
233 . Vladimir Nabokov: Fogo Pálido
234 . Antoine de Saint-Exupéry: Voo Nocturno
235 . Antoine de Saint-Exupéry: Piloto de Guerra
236. Hanif Kureishi: O Buda dos Subúrbios
237 . Hanif Kureishi: A Última Palavra
238 . Richard Flanagan: A Senda Estreita para o Norte Profundo
239 . Antoine de Saint-Exupéry: Terra dos Homens
240 . Jonas Jonasson: A Analfabeta Que Era Um Génio dos Números
24 1 . Cormac McCarthy: Cidades da Planície
242 . Raymond Carver: De Que Falamos quando Falamos de Amor
243 . Antoine de Saint-Exupéry: Carta a Um Refém
244 . Rachel Kushner: Telex de Cuba
245 . Paolo Giordano: Negro e Prata
246 . Karl Ove Knausgârd: Um Homem Apaixonado - A Minha Luta: 2

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