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REVISTA E AMPLIADA Sérgio Lellis Santiago
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Belo Horizonte 2006 Bibliotecária responsável: Maria da Conceição Araújo
CRB 6/1236
que os primeiros textos jurídicos estejam associados ao aparecimento da escrita, não se pode
considerar a presença de um direito entre povos que possuíam formas de organização social e
Capítulo 1 política primitivas sem o conhecimento da escrita. Autores como John Gilissen questionam a
própria expressão direito primitivo , aludindo que o termo tem um alcance
O DIREITO NAS SOCIEDADES PRIMITIVAS
mais abrangente para contemplar múltiplas sociedades que passaram por uma evolução social,
ANTONIO CARLOS WOLKMER1 política e jurídica bem avançada, mas que não chegaram a dominar a técnica da escrita. Assim
SUMÁRIO: 1. Introdução 2. Formação do direito nas sendo, as inúmeras investigações científicas têm apurado que as práticas legais de sociedades
sociedades primitivas 3. Características e fontes do direito
arcaico 4. Funções e fundamentos do direito na sociedade sem escrita assumem características, por vezes, primitivas, por outras, expressam um certo
primitiva 5. Conclusão 6. Referências bibliográficas.
nível de desenvolvimento.
1. INTRODUÇÃO Certamente que a pesquisa dos sistemas legais das populações sem escrita não se

Toda cultura tem um aspecto normativo, cabendo-lhe delimitar a existencialidade reduz meramente à explicação dos primórdios históricos do direito, mas evidencia, sobretudo, um

de padrões, regras e valores que institucionalizam modelos de conduta. Cada sociedade enorme interesse em curso, porquanto milhares de homens vivem ainda atualmente, na segunda

esforça-se para assegurar uma determinada ordem social, instrumentalizando normas de metade do século XX, de acordo com direitos a que chamamos arcaicos ou primitivos . As

regulamentação essenciais, capazes de atuar como sistema eficaz de controle social. Constata- civilizações mais arcaicas continuam a ser as dos aborígenes da Austrália ou da Nova Guiné, dos

se que, na maioria das sociedades remotas, a lei é considerada parte nuclear de controle social, povos da Papuásia ou de Bornéu, de certos povos índios da Amazônia no Brasil .2

elemento material para prevenir, remediar ou castigar os desvios das regras prescritas. A lei Não parece haver dúvida de que o processo contemporâneo de colonização gerou

expressa a presença de um direito ordenado na tradição e nas práticas costumeiras que um surto de pluralismo jurídico, representado pela convivência e dualismo concomitante, de

mantêm a coesão do grupo social. um direito europeu (common law nas colônias inglesas e americanas, direitos romanistas nas

Certamente que cada povo e cada organização social dispõe de um sistema outras colônias) para os não indígenas e, por vezes, para os indígenas evoluídos; e outro, do
3
jurídico que traduz a especialidade de um grau de evolução e complexidade. Falar, portanto, tipo arcaico para as populações autóctones

de um direito arcaico ou primitivo implica ter presente não só uma diferenciação da pré- Tendo em conta estas asserções iniciais, cabe pontualizar alguns aspectos do

história e da história do direito, como, sobretudo, nos horizontes de diversas civilizações, direito nas sociedades primitivas como a formação, caracterização, fontes e funções.

precisar o surgimento dos primeiros textos jurídicos com o aparecimento da escrita.


Não só subsiste um certo mistério, como falta uma explicação cientificamente 2. FORMAÇÃO DO DIREITO NAS SOCIEDADES PRIMITIVAS

correta e respostas conclusivas acerta das origens de grande parte das instituições jurídicas no A dificuldade de se impor uma causa primeira e única para explicar as origens do
período pré-histórico. Entretanto, ainda que prevaleça uma consensualidade sobre o fato de direito arcaico deve-se em muito ao amplo quadro de hipóteses possíveis e proposições

1
explicativas distintas. O direito arcaico pode ser interpretado a partir da compreensão do tipo
Professor Titular de História das Instituições Jurídicas da UFSC. Doutor em Direito e membro do Instituto dos
Advogados Brasileiros (RJ). É pesquisador integrante do CNPq, CONPEDI e da Fondazione Cassamarca de sociedade que o gerou. Se a sociedade pré-histórica fundamenta-se no princípio do
(Treviso Itália). Professor visitante dos cursos: Mestrado e Doutorado em História Ibero-Americana
(UNISINOS-RS); Pós-Graduação em Direito Processual do IBEJ (Curitiba-PR) Mestrado em Criminologia e parentesco, nada mais natural do que considerar que a base geradora do jurídico encontra-se
Direito Penal da Universidade Cândido Mendes (RJ); Doutorado em Derechos Humanos y Desarrollo na
Universidad Pablo de Olavide (Sevilha - Espanha). Autor e organizador de inúmeros livros, dentre os quais:
primeiramente, nos laços de consangüinidade, nas práticas de convívio familiar de um mesmo
Direito e justiça na América indígena: da conquista à colonização. Porto Alegre: Livraria dos Advogados, 1998;
História do direito no Brasil. 3. ed, Rio de Janeiro: Forense, 2003; Introdução à História do Pensamento
Político. Rio de Janeiro: Renovar, 2003; Humanismo e Cultura Jurídica no Brasil. Florianóplis: Fundação
2
Boiteux, 2003; Direitos Humanos e Filosofia Jurídica na América Latina. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2004; GILISSEN, John. Introdução histórica do direito. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988, p. 33.
3
Fundamentos do Humanismo Jurídico no Ocidente. São Paulo: Manole, 2005. GILISSEN, John. Op. cit., p. 34.
grupo social, unido por crenças e tradições.4 claramente, três grandes estágios de evolução: o direito que provém dos deuses, o direito con-
É neste sentido que a lei primitiva da propriedade e das sucessões teve em grande fundido com os costumes e, finalmente, o direito identificado com a lei.
parte sua origem na família e nos procedimentos que a circunscreveram, como as crenças, os Nas sociedades antigas, tanto as leis quanto os códigos foram expressões da
sacrifícios e o culto aos mortos. Ninguém melhor que Fustel de Coulanges para escrever que o vontade divina, revelada mediante a imposição de legislador-administradores, que dispunham
direito antigo não é resultante de uma única pessoa, pois se impôs a qualquer tipo de de privilégios dinásticos e de uma legitimidade garantida pela casa sacerdotal. Escreve H.
legislador. Nasceu espontânea e inteiramente nos antigos princípios que constituíram a Summer Maine que algumas experiências societárias, ao permitirem o declínio do poder real e
família, d das crenças religiosas, universalmente admitidas na idade primitiva desses o enfraquecimento de monarcas hereditários, acabaram por favorecer a emergência de
5
povos e exercendo domínio sobre as inteligências e sobre as vontades . aristocracias, depositárias da produção legislativa, com capacidade de julgar e de resolver
Posteriormente, num tempo em que inexistiam legislações escritas, códigos conflitos.8 Mas este momento inicial de um direito sagrado e ritualizado, expressão das
formais, as práticas primárias de controle são transmitidas oralmente, marcadas por revelações divindades, desenvolve-se na direção de práticas normativas consuetudinárias. Certamente
sagradas e divinas. Distintivamente da ênfase atribuída à família feita por Fustel de que ainda não se trata de um direito escrito, porém de um conjunto disperso de usos, práticas e
Coulanges, H. Summer Maine entende que esse caráter religioso do direito arcaico, imbuído costumes, reiterados por um longo período de tempo e publicamente aceitos. É a época do
de sanções rigorosas e repressoras, permitiria que os sacerdotes-legisladores acabassem por direito consuetudinário, largo período em que não se conheceu a invenção da escrita, em que
ser os primeiros intérpretes e executores das leis. O receio da vingança dos deuses, pelo investida do poder judicial era o único meio que poderia
desrespeito aos seus ditames, fazia com que o direito fosse respeitado religiosamente, Daí conservar, com algum rigor, os costumes da raça ou da tribo .9 O costume aparece como
que, em sua maioria, os legisladores antigos (reis sacerdotes)6 anunciaram ter recebido as suas expressão da legalidade, de forma lenta e espontânea, instrumentalizada pela repetição de
leis do deus da cidade. De qualquer forma, o ilícito se confundia com a quebra da tradição e atos, usos e práticas. Por ser objeto de respeito e veneração, e ser assegurado por sanções
com a infração ao que a divindade havia proclamado. sobrenaturais, dificilmente o homem primitivo questionava sua validez e sua aplicabilidade.
Neste aspecto, nas manifestações mais antigas do direito, as sanções legais estão A inversão e a difusão da técnica da escritura, somada à compilação de costumes
profundamente associadas às sanções rituais. A sanção assume um caráter tanto repressivo tradicionais, proporcionam os primeiros códigos da Antigüidade, como o de Hamurábi, o de Manu,
quanto restritivo, na medida em que é aplicado um castigo ao responsável pelo dano e uma o de Sólon e a Lei das XII Tábuas. Constatam-se, destarte, que os textos legislados e escritos eram
reparação à pessoa injuriada.7 Para além do formalismo e do ritualismo, o direito arcaico melhores depositários do direito e meios mais eficazes para conservá-lo que a memória de certo
manifesta-se não por um conteúdo, mas pelas repetições de fórmulas, através dos atos número de pessoas, por mais força que tivessem em função de seu constante exercício .10
simbólicos, das palavras sagradas, dos gestos solenes e da força dos rituais desejados. Esse direito antigo, tanto no Oriente quanto no Ocidente, na explicação de H.
Os efeitos jurídicos são determinados por atos e procedimentos que, envolvidos Summer Maine, não diferenciava, na essência, a mescla de prescrições civis, religiosas e
pela magia e pela solenidade das palavras, transformam-se num jogo constante de ritualismos. morais. Somente em tempos mais avançados da civilização é que se começa a distinguir o
Entretanto, o direito primitivo de matriz sagrada e revelado pelos reis-legisladores (ou chefes direito da moral e a religião do direito. 11 Certamente, de todos os povos antigos, foi com os
religioso-legisladores) avança, historicamente, para o período em que se impõe a força e a romanos que o direito avançou para uma autonomia diante da religião e da moral.
repetição dos costumes. Daí que, no dizer de H. Summer Maine, o direito antigo compreende, Pode-se dizer, por fim, que outra regularidade desse processo normativo foi a

4
LUHMANN. Niklas, Sociologia do direito. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 75, 1983, v. I, p. 182-184.
5 8
COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. São Paulo: Hemus, 1975, p. 68-150. Cf. SUMMER MAINE, Henry. EI derecho antiguo: parte general. Madrid:
6
Sobre o papel dos antigos reis-sacerdotes, consultar: FRAZER, Sir James George. O ramo de ouro. São Paulo: Alfredo Alonso, 1893, p. 18-19.
9
Círculo do Livro, [s/d], p. 32-33. SUMMER MAINE, Henry. Op. cit., p. 20.
7 10
Cf. RADCLIFFE-BROWN, Alfred R. O direito primitivo. In: Estrutura e função na sociedade primitiva. SUMMER MAINE, Henry. EI derecho antiguo: parte general. Madrid: Alfredo Alonso, 1893, p. 22.
11
Petrópolis: Vozes, 1973, p. 262-263, 269. SUMMER MAINE, Henry. Op. cit.
longa e progressiva evolução das obrigações e dos deveres jurídicos da condição de status (as garante o cumprimento das normas de comportamento.14
obrigações são fixadas na sociedade, de acordo com o status que ocupam seus membros), Ainda, seguindo as incursões históricas do erudito pesquisador belga, cabe
inerentes ao direito primitivo, para o da relação contratual dependente da vontade e autonomia mencionar urna breve passagem pela questão das fontes do direito entre as sociedades sem
das partes, características já do direito legislativo e formal. escrita. Do pouco que se sabe e que, com certeza, pode-se apontar, é que as fontes jurídicas
primitivas são poucas, resumindo-se, na maioria das vezes, aos costumes, aos preceitos
3. CARACTERÍSTICAS E FONTES DO DIREITO ARCAICO verbais, às decisões pela tradição, etc.
No que concerne aos costumes, há de se reconhecer corno a fonte mais importante
Pode-se distinguir, segundo as lições de John Gilissen, algumas características do direito e mais antiga do direito, manifestação que se comprova por ser a expressão direta, cotidiana e
nas sociedades arcaicas. Primeiramente, o direito primitivo não era legislado, as populações não habitual dos membros de um dado grupo social. Novamente, aqui, a religião aparece corno
conheciam a escritura formal e suas regras de regulamentação mantinham-se e conservavam-se pela fenômeno determinante, na medida em que o receio e a ameaça permanente dos poderes
tradição. Um segundo fator de conhecimento é que cada organização social possuía um direito único, sobrenaturais é que garante o rígido cumprimento dos costumes.15
que não se confundia com o de outras formas de associação. Cada comunidade tinha suas próprias Neste quadro, colocam-se, igualmente, certos preceitos verbais, não escritos
regras, vivendo com autonomia e tendo pouco contato com outros povos, a não ser em condições de proferidos por chefes de tribos ou de clãs, que se impõem pela autoridade e pelo respeito que
beligerância. Um terceiro aspecto a considerar é a diversidade dos direitos não escritos. Trata-se da desfrutam. Trata-se de verdadeiras leis ainda que não escritas, repousando no prestígio
multiplicidade de direitos diante de uma gama de sociedades atuantes, advinda, de um lado, da daqueles que detêm o poder e o conhecimento.
especificidade para cada um dos costumes jurídicos concomitantes, de outro, de possíveis e inúmeras Por fim, parece significativo mencionar, corno fonte criadora de preceituações
semelhanças ou aproximações de um para outro sistema primitivo. Além de apontar a inexistência de jurídicas nas sociedades arcaicas, certas decisões reiteradas utilizadas pelos chefes ou anciãos
uma legalidade não escrita, de uma certa unicidade de jurídico para cada comunidade e, por fim, a das comunidades autóctones para resolver conflitos do mesmo tipo. Conjuntamente ao que
pluralidade dos direitos não escritos, Gilissen reconhece também que o direito arcaico está designa de precedente judiciário , Gilissen acrescenta também os procedimentos orais
profundamente contaminado pela prática religiosa.12 Tal é a influência da religião sobre a sociedade e propagados por gerações corno os provérbios e adágios .16
sobre as leis, que se toma intento pouco fácil estabelecer uma distinção entre o preceito sobrenatural e
o preceito de natureza jurídica. Na verdade, o direito estava totalmente subordinado à imposição de 4. FUNÇÕES E FUNDAMENTOS DO DIREITO NA SOCIEDADE PRIMITIVA
crenças dos antepassados, ao ritualismo simbólico e à força das divindades. Um secretismo nebuloso
mesclava e integrava, no religioso, as regras de cunho social, moral e jurídico.13 Algumas reflexões mais genéricas sobre a formação, características e fontes do
Por último, Gilissen chama atenção para o fato de que os direitos primitivos são direito primitivo, toma-se relevante destacar um pouco mais as funções e os fundamentos das

direitos em nascimento , ou seja, ainda não ocorre uma diferenciação efetiva entre o que é formas de controle social em sociedades ainda não possuidoras do domínio técnico da escrita.
jurídico do que não é jurídico. Assinala-se, no entanto, que as regras de controle podem variar Para urna outra leitura da natureza e das funções do direito arcaico, tomar-se-á em conta as

no tempo e no espaço. Os critérios que permitem auferir, na sociedade moderna, o que é investigações pioneiras e clássicas de Bronislaw Malinowski (1884-1942), feitas
jurídico podem não ser aplicados às comunidades da pré-história. Admite-se, assim, que um empiricamente com populações das Ilhas Trobriand, ao nordeste da Nova Guiné, e que

costume de épocas arcaicas assume em caráter jurídico na medida em que, constrangendo, resultaram em 1926, na obra Crime e costume na sociedade selvagem.
Inicialmente, constata-se que em cada cultura humana desenvolve-se um corpo de

14
GILISSEN, John. John. Introdução histórica ao direito. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988.
12 15
Cf. GILISSEN, John. Introdução histórica ao direito. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988, p. 35. GILISSEN, John. Op. cit., p. 37.
13 16
GILISSEN, John. Op. cit. GILISSEN, John. Op. cit., p. 37-38.
obrigações, proibições e leis que devem ser cumpridas por motivos práticos, morais ou Um terceiro aspecto é apontar a particularidade de que o direito não funciona por
emocionais. Há que se considerar, para Malinowski, que, além das regras jurídicas sancionadas si mesmo, pois é parte integrante da dinâmica de uma estrutura. Torna-se desnecessária uma
por um aparato social com poderosa força coagente, subexistem outros tipos diferenciados de maior constatação, para Malinowski, porquanto as manifestações legais e os diversos fenôme-
normas tradicionais gerados por motivos psicológicos. Naturalmente, a base de toda nos de tipo jurídico encontrados na Melanésia não constituem instituições independentes. O
17
investigação do direito primitivo está na imposição rígida e automática aos costumes da tribo. direito é mais um aspecto da vida tribal, ou seja, um aspecto de sua estrutura do que
A importância da interpretação de Malinowski está no fato de que, ainda que propriamente um sistema independente, socialmente completo em si mesmo .21
priorize a criminalidade, as formas de castigo e a recomposição da ordem, acaba tratando, Ao fazer uma crítica à teoria antropológica do direito, Malinowski avança no
igualmente, dos conflitos entre sistemas jurídicos (penal e civil), do direito matrimonial, da exame dos aspectos práticos de determinadas funções do direito, bem como à explicitação dos
vida econômica, dos costumes religiosos, do desenvolvimento do comunismo primitivo e do princípios legais que regem as relações sociais do grupo. Seu questionamento é feito
princípio da reciprocidade corno base de toda a estrutura social. basicamente contra a falsa perspectiva criada pela antropologia tradicional de que inexiste um
É necessário reconhecer o significado de algumas de suas premissas enquanto primeira direito civil e que toda lei é expressão dos próprios costumes autóctones, sendo obedecidos
tentativa de análise antropológica da lei primitiva. Um primeiro aspecto que chama a atenção, na automaticamente por pura inércia.22 Ora, as normas de controle social que impõem obediência
proposta de Malinowski, está na tentativa de desmistificar a lei criminal entendida como núcleo ao homem primitivo são afetadas por necessidades sociais e por motivações psicológicas.23
exclusivo de todo e qualquer direito primitivo, pressuposto que se tornou entre alguns antropólogos do É neste contexto que se deve interpretar o direito primitivo. A função principal do
direito. Acertadamente, a regra jurídica primitiva não se reduz tão-somente a imposições, direito é, para Malinowski, liminar certas inclinações comuns, canalizar e dirigir os instintos
tampouco a lei dos selvagens é somente lei criminal. Não se pode pretender que, com mera descrição humanos e impor uma conduta obrigatória não espontânea (...) , assegurando um modo de
do crime e do castigo, o tema do direito se esgote no que concerne à comunidade primitiva .18 cooperação baseada em concessões mútuas e em sacrifícios orientados para um fim comum.
Com decorrência desse processo, o autor dos Argonautos do Pacífico Ocidental Uma força nova, diferente das inclinações inatas e espontâneas, deve estar presente para que
24
apontou corno segundo aspecto a inconsistência da tese de que não haveria um direito civil esta tarefa seja concluída.
entre as sociedades aborígines. Assim, divergindo da posição de muitos antropólogos de sua Este fator novo que se distingue das imposições religiosas e das forças naturais
época que insistiam na base religiosa e no teor exclusivamente criminal da jurisprudência vem a ser revelado pelo conjunto prático de regras jurídicas civil que, enquanto instrumento
primitiva, Malinowski introduz o argumento de que existia um direito civil consensualmente integrador, é ca reciprocidade, incidência sistemática, publicidade
19 25
aceito e respeitado. As regras de direito civil caracterizadas por uma certa flexibilidade e e ambição . Assim, o papel do direito é fundamental como elemento que regula, em grande
abrangência, enquanto ordenação positiva regulamentadora dos diversos momentos da parte, os múltiplos ângulos da vida dos grupos na Melanésia e as relações pessoais entre
organização tribal, compreendiam um conjunto de obrigações impositivas consideradas parentes, membros do mesmo clã e da mesma tribo, fixando as relações econômicas, o
26
como justas por uns e reconhecidas como um dever pelos outros, cujo cumprimento se exercício do poder e da magia, o estado legal do marido e da mul Esta modalidade
assegura por um mecanismo específico de reciprocidade e publicidade inerentes à estrutura da de regras civis distingue-se das regras fundamentais penais que protegem a vida, a
sociedade . 20 A lei civil primitiva não tem apenas um aspecto negativo no sentido de que todo propriedade e a personalida e que instituem-se pela sansão do castigo tribal. Mas se não há
o descumprimento resulta num castigo, mas assume um caráter positivo através da recompen- sanção religiosa e tampouco castigo penal, quais são as forças poderosas que fazem cumprir
sa para os que cumprem e respeitam as regras de convivência.
21
MALINOWSKI, B. Op. cit.
22
MALINOWSKI, B. Op. cit., p.78.
17 23
Cf. MALINOWSKI, Bronislaw. Crimen y costumbre en la sociedad salvaje. Barcelona: Ariel, 1978, p, 26, 69 e 70. MALINOWSKI, B. Op. cit., p. 78-79.
18 24
MALINOWSKI, Bronislaw. Op. cit., p. 71. MALINOWSKI, B. Op. cit., p. 79-80.
19 25
MALINOWSKI, B. Op. cit., p. 73-74. MALINOWSKI, B. Op. cit., p. 83.
20 26
MALINOWSKI, B. Crimen y costumbre en la sociedad salvaje. Barcelona: Ariel, 1978, p. 74. MALINOWSKI, B. Op. cit., p. 82.
estas regras de direito civil? Para Malinowski esta fundamentação há de se buscar na certo evolucionismo darwinista. Sua concepção societária parte de uma lenta evolução cujo
concatenação das obrigações, que estão ordenadas em cadeia de serviços mútuos, seja, um processo permitiu que o direito transpusesse o período antigo do status para a fase moderna
dar e tomar que se estende sobre longos períodos de tempo, cumprindo ambos aspectos de do contrato . Naturalmente transpareceu, em sua clássica e erudita investigação, a
interesses e atividades (...) . Por conseqüência, a força compulsiva destas regras procede da superioridade da cultura jurídica européia moderna sobre a ingenuidade e o primarismo
tendência psicológica natural pelo interesse pessoal (...) posta em jogo por um mecanismo normativo das sociedades arcaicas.31
27
social especial, dentro do qual se demarcam estas ações obrigatórias Parece claro aqui uma Por último, cabe elencar algumas críticas às concepções jurídicas de B.
das teses nucleares que explicita e fundamenta a presença do legal nas sociedades autóctones: Malinowski, autor que foi privilegiado em boa parte deste artigo. Para isso, seguem-se as
o direito não é exercido de forma arbitrária e unilateral, mas produto de acordo com regras considerações de Norbert Rouland, para quem as teses jurídicas de Malinowski não gozam
bem definidas e dispostas em cadeia de serviços recíprocos bem compensados .28 mais do grande prestígio que alcançaram no passado. Trabalhos de antropologia jurídica mais
Em suma, de todos os sistemas de regras legais das sociedades primitivas, o recentes apontam certas inverdades sujeitas a comprovação. Um dos erros é conceber que, nas
destaque maior é atribuído ao direito matrimonial. Não só é o mais abrangente sistema legal, sociedades primitivas, o direito civil não podia ser violado. Por outro lado, o direito seria
como o fundamento essencial dos costumes e das instituições. A força do direito matriarcal objeto de consenso, sendo muito mais respeitado entre os autóctones do que na sociedade
define que o parentesco só se transmite através das mulheres e que todos os privilégios sociais moderna. Escreve Norbert Rouland que algumas investigações etnográficas mostram o
seguem a linha materna.29 Daí decorre a rigidez da lei primitiva com relação ao comércio contrário, pois o indivíduo, pensando que há menos vantagem do que inconveniência em
sexual dentro do clã, fundamentalmente, no que se refere ao crime de incesto (principalmente respeitar a lei, acaba muitas vezes violando-a.32
com a irmã) que gera práticas de punição mais severas. Em suma, foi pertinente começar a longa trajetória histórica das instituições
jurídicas através de uma breve reflexão sobre as formas, natureza e características da
5. CONCLUSÃO legalidade nas sociedades primitivas.

Resta, no final, levantar alguns questionamentos críticos sobre interpretações


6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
elaboradas por antropólogos acerca das origens do direito em sociedades primitivas.
Certamente uma primeira ponderação, respaldada nos elementos trazidos pela COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. São Paulo: Hemus, 1975.
FRAZER, Sir James George. O ramo de ouro. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
etimologia jurídica atual, aponta para a fragilidade das teses evolucionistas que dão conta de
GIUSSEN, John. Introdução histórica ao direito. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988.
que o direito primitivo passou por uma longa progressão constituída pela comunhão de
LUHMANN, Nilkas. Sociologia do direito. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 75, 1983,v.I
grupos, pelo matriarcado, patriarcado, clã e tribo, Tal evolução sistemática é, no dizer de John MAUNOWSKI, Bronislaw. Crimen y costumbre en la sociedad salvage. Barcelona: Ariel, 1978.
Gilissen, por demais simplista e sobejamente lógica para ser correta. Não há comprovações RADCLIFFE-BROWN, Alfred R. Estrutura e função na sociedade primitiva. Petrópo1is: Vozes, 1973.
científicas de que a legalidade acompanhou e refletiu os diversos estágios das sociedades ROULAND, Norbert. Anthropologie juridique. Paris: PUF, 1988.

primitivas de acordo com a premissa evolucionista. Não existe certeza se o matriarcado SUMMER MAINE, Henry. El derecho antiguo: parte general. Madrid: Alfredo Alonso, 1893.
30
realmente ocorreu e se foi, posteriormente, sucedido pelo patriarcado.
Com relação à obra de H. Summer Maine, um dos fundadores da antropologia
jurídica moderna, apesar de sua inegável importância, não deixou de compartilhar com um
27
MALINOWSKI, B. Op. cit., p. 82-83.
28
MALINOWSKI, B. Op. cit., p. 61.
29 31
MALINOWSKI, B. Op. cit., p. 99, 100 e 128. Cf. ROULAND, Norbert. Anthropologie juridique. Paris: PUF, 1988, p. 50.
30 32
Cf. GILISSEN, John. Introdução histórica ao direito, p. 38. ROULAND, Norbert. Op. cit., p. 101.