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FACULDADE DE DIREITO PROFESSOR DAMÁSIO DE JESUS

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM DIREITO DIGITAL E COMPLIANCE

A TECNOLOGIA BLOCKCHAIN E SUA REGULAÇÃO ESTATAL

GUILHERME OLIVEIRA DE ARRUDA

NITERÓI

2018

GUILHERME OLIVEIRA DE ARRUDA

A TECNOLOGIA BLOCKCHAIN E SUA REGULAÇÃO ESTATAL

Monografia apresentada à Faculdade de Direito Professor Damásio de Jesus, como exigência parcial para obtenção do título de especialista em Direito Digital e Compliance.

Orientador: Prof.

NITERÓI

2018

A 818

ARRUDA, Guilherme Oliveira de. A tecnologia blockchain e sua regulação estatal. Niterói: Faculdade de Direito Professor Damásio de Jesus 2018. 97 p.

Orientador: Prof. Thiago Giovani Romero Monografia (Direito Digital e Compliance) – Faculdade de Direito Professor Damásio de Jesus, Niterói, 2018 Orientador: Prof. Thiago Giovani Romero

1.

Inovações

tecnológicas.

2.

Blockchain

3.

Cadeia

de

blocos

distribuídos. I. Título.

 
 

CDU 330.46

.

GUILHERME OLIVEIRA DE ARRUDA

A TECNOLOGIA BLOCKCHAIN E SUA REGULAÇÃO ESTATAL

Monografia submetida à Coordenação da Faculdade de

Direito Professor Damásio de Jesus, como requisito

parcial para obtenção do título de especialista em

Direito Digital e Compliance.

Aprovada em ____

/

/

____

 

____

BANCA EXAMINADORA

---------------------------------------------------------------------------

Prof.

---------------------------------------------------------------------------

Prof.

---------------------------------------------------------------------------

Prof.

Com os velhos conceitos, teremos sempre mes-

mos resultados. É preciso inovar.

RESUMO

Blockchain, também conhecido no vernáculo por cadeia de blocos distribuídos, ou livro-razão

distribuído, que guarda um registro de transações permanente e à prova de violação, está emer-

gindo como uma nova tendência tecnológica, conforme sua evolução, características técnicas e

potenciais de inovação. Busca-se, levar o leitor a enveredar pela discussão acerca de como, a

partir do grande potencial esperado pelo uso da tecnologia da cadeia de blocos distribuídos,

assim como o instituto da regulação, pode-se alcançar a plena utilização de novas ferramentas

e, ao mesmo tempo, obter sua aplicação em proveito do bem comum.

Tema relevante para o Direito por estar essencialmente relacionada a matérias de regulação e

desenvolvimento da sociedade, para se alcançar o mandamento constitucional de efetivação e

de relevante aspecto do bem-estar social para os cidadãos dos Estados nacionais.

Essas novas ferramentas, prometem relevantes modificações em nosso estilo de vida, seja no

aspecto social quanto econômico. Considerando os possíveis impactos esperados, devendo a

ciência jurídica adotar providências para estabelecer controles, sempre tendo como objetivo a

prestação de serviços que obtenha vantagens para o interesse público.

Palavras-chave: Inovação tecnológica. Regulação. Blockchain. Cadeia de blocos distribuídos.

ABSTRACT

Blockchain, also known in portuguese by a chain of distributed blocks, or distributed ledger,

which keeps a record of transactions permanent and tamper-evident, is emerging as a new

technological trend, according to its evolution, technical characteristics and potentials of

innovation. The aim is to get the reader to start by discussing how, based on the great potential

expected using distributed block chain technology, as well as the regulation institute, one can

achieve the full use of new tools and, at the same time, obtain its application for the benefit of

the common good.

Relevant theme for Law because it is essentially related to matters of regulation and

development of society, to achieve the constitutional mandate of effective and relevant aspect

of social welfare for the citizens of the national states.

These new tools promise relevant changes in our lifestyle, both socially and economically.

Considering the possible expected impacts, legal science should adopt measures to establish

controls, always aiming at the provision of services that obtain advantages for the public interest.

Keywords: New technologies. Regulation. Blockchain. Distributed ledger.

Sumário

1

INTRODUÇÃO

Erro! Indicador não definido.

1.1

A tecnologia blockchain

14

1.1.1

- A revolução do bitcoin

14

1.2

O Código é a Lei

17

1.3

O livro-razão distribuído como a verdadeira inovação

21

1.4

Aspectos técnicos da Blockchain

22

1.5

Classificações de Blockchains

28

1.6

Confidencialidade e anonimato

31

1.7

Dificuldades atuais da Blockchain

32

1.8

Usos Práticos da Blockchain

34

1.8.1

Contratos inteligentes

35

1.8.1.1

Aplicações de uso dos contratos inteligentes

39

1.8.1.2

Aspectos acerca da legalidade dos contratos inteligentes

41

1.8.2

Internet

das coisas ..........................................................................................................

43

1.8.3

Créditos

de carbono

45

1.8.4

Comércio de petróleo bruto

46

1.8.5

Combate ao aquecimento

46

1.8.6

Segurança cibernética na indústria energética

47

1.8.7

Energia solar para a África

48

1.8.8

Educação ........................................................................................................................

48

1.8.9

Saúde

49

1.8.10

Mercado Imobiliário

49

1.8.11

Comércio Internacional

49

1.8.12

Direitos Autorais

50

1.8.13

Seguros

51

1.8.14

Combate à corrupção

51

1.8.15

Registros acadêmicos

52

1.8.16

Rastreamento de jóias

53

1.8.17

Serviços de Contabilidade

53

1.8.18

Transporte Público em Teresina

54

1.8.19

Controle Fundo Amazônia

55

1.8.20

Rússia e a democracia por meio da Blockchain

55

1.8.21

Dubai e a Blockchain para serviços públicos

56

1.8.22

Estado de Nova Iorque e sua proposta normativa

57

1.8.23

Iniciativa Delaware Blockchain

57

1.8.24

União Europeia

58

1.9

A Tecnologia dos Blocos Distribuídos e o Estado

59

1.10

Governança

dos algoritmos

61

1.11

A tecnologia Blockchain será capaz de dominar o mundo?

63

2

INTERVENÇÃO DO ESTADO NO DOMÍNO ECONÔMICO

67

2.1

Tipos de regulação

70

2.2

Os órgãos reguladores existentes em âmbito nacional

71

3

REGULAMENTAÇÃO NORMATIVA DA BLOCKCHAIN

74

3.1

Regulamentações adotadas em inovações tecnológicas recentes

77

3.1.1

Criptografia .................................................................................................................

77

3.1.2

Inteligência Artificial ..................................................................................................

81

4

REGULAMENTAÇÃO DOS USOS DAS REDES DE BLOCKCHAIN

83

4.1

Das redes de Blockchain de serviços privados

84

4.2

Das redes de Blockchain para serviços públicos

88

CONCLUSÃO .........................................................................................................................

94

8

1 INTRODUÇÃO

A presente dissertação analisa a necessidade e a possibilidade da utilização de instrumen-

tos de caráter regulatório por parte do Estado para o controle de novas tecnologias com aspectos

inovadores, notadamente as que utilizem redes de Blockchain como fundamento técnico. Com

essa finalidade, traz à baila aspectos teóricos e técnicos do direito regulatório e da nova tecno-

logia como forma de compreender a adequada utilização de novos instrumentos em benefício

efetivo para a sociedade.

Busca-se levar o leitor a enveredar pela discussão acerca de como, a partir do grande

potencial esperado pelo uso da tecnologia da cadeia de blocos distribuídos, assim como o ins-

tituto da regulação, pode-se alcançar a plena utilização das novas ferramentas e, ao mesmo

tempo, obter sua aplicação em proveito do bem comum.

A temática possui relevância para o Direito por estar essencialmente relacionada a maté-

rias de regulação e desenvolvimento da sociedade, temas de natureza relevante para se alcançar

o mandamento constitucional de efetivação de relevante aspecto do bem-estar social para os

cidadãos dos Estados nacionais.

O objetivo geral da presente pesquisa é examinar em que medida os Estados podem in-

terferir na atuação dos agentes privados que se utilizam da nova ferramenta, em proveito do

desenvolvimento nacional e social. E, como objetivos específicos, pretende-se apreender os

caminhos da regulação para as novas tecnologias em estudo, investigando-se as teorias poten-

cialmente aplicáveis.

O problema da pesquisa abrange o questionamento sobre ser cabível aos Estados nacio-

nais, a partir da regulação, organizar normas que sejam diretrizes para uso da nova tecnologia

e realizar objetivos de desenvolvimento social. Ou seja, para amparar o desenvolvimento dos

Estados, o sistema tecnológico das cadeias de blocos distribuídos deveria ser regulado, por meio

de normas, igualmente para o desenvolvimento social e não unicamente para a segurança do

próprio mercado?

Deve ser mencionado que os eventos estudados estão em curso no dia a dia, com carência

de material acadêmico disponível, seja no âmbito nacional ou em doutrina estrangeira, sendo

que as análises terão caráter eminentemente empírico e sem a apresentação de teses jurídicas

fundamentadas em outros autores que sirvam de contraponto ao ora defendido. É possível obter

muitas notícias na rede mundial de computadores pois a história está sendo escrita agora, não

9
9

havendo o relevante distanciamento temporal para a melhor análise dos institutos que serão

abordados.

O mundo de hoje está em processo de reinvenção acelerada, há uma grande profusão de

novas ideias com significativo potencial para a geração de profundas alterações no mindstet, ou

seja, alterações na percepção e no hábito de determinados comportamentos da vida. São os

denominados modelos disruptivos 1 , muitas vezes surgidos a partir de lacunas na realidade vi-

venciada, sendo bem-sucedidos por conta da inspiração de uma ideia, às vezes simples, somada

a um amplo processo de aprendizado. Então, como diz FEIGELSON, surge um fenômeno in-

teressante no qual "os comportamentos até então impensáveis, por conta justamente da sua ino-

vação, na maioria das vezes, não possuem uma previsão legal específica. O que se observará é

um cenário de completa falta de regulamentação para o novo modelo, visto que não há como

legislador ou agência reguladora proporem uma norma para uma conduta inexistente" 2 .

A realidade é dinâmica e o Direito deve segui-la, no intuito de estabelecer regramentos

para as novas situações que surgem. "O direito em muitas hipóteses vem a reboque dos fatos, o

que do ponto de vista das dinâmicas disruptivas é algo ainda mais perceptível, visto que tais

modelagens avançam na vida social em velocidade incompatível com os movimentos normati-

vos" 3 . “Esse descompasso entre a evolução tecnológica dos meios digitais e a evolução dos

institutos jurídicos é objeto de preocupação, e seus efeitos devem ser devidamente delineados

e tratados por todos os operadores do direito” 4 .

As normas jurídicas, na qualidade de mecanismo de atuação do Direito, devem buscar

alcançar as inovações que surgem com a finalidade de adequarem-se às novas tendências im-

postas e assim evitar que surjam muitas diferenças entre a realidade, o Direito e a vida em

sociedade. O sistema jurídico deve adaptar-se com a maior brevidade possível frente às novas

situações que ocorrem no mundo real.

O Estado moderno, com sua perceptível dificuldade de adaptação às mudanças sociais

modernas, atravessa intensa crise, possivelmente sem precedentes na história da humanidade,

  • 1 Considera-se disruptiva a inovação que altera radicalmente as práticas de negócio ou a integralidade de um setor industrial, estando, geralmente, associado à criação de novas tecnologias, cf.: O'SULLIVAN, David e DOOLEY, Lawrence. Applying innovation. Thousand Oaks. California: Sage, 2009, p. 25. In: JÚDICE, Lucas Pimenta e NYBO, Erik Fontenele. Direito das startups. Curitiba: Juruá Editora, 2016 p. 32

  • 2 FEIGELSON, Bruno. A relação entre modelos disruptivos e o direito: estabelecendo uma análise metodológica baseada em três etapas. In.: FREITAS, Rafael Véras de, RIBEIRO, Leonardo Coelho, FIEGELSON, Bruno. Coord. Regulação e novas tecnologias. Belo Horizonte: Fórum, 2017. p.49-58

  • 3 Idem

  • 4 SILVA, José Benedito Lázaro da. O efeito disruptivo das inovações tecnológicas frente às ciências jurídicas e sociais. In. FREITAS, Rafael Véras de, RIBEIRO, Leonardo Coelho, FIEGELSON, Bruno. Coord. Regulação e

novas tecnologias.

Belo Horizonte: Fórum, 2017. p. 155-164

10
10

motivada pela crescente insatisfação social ao modelo sob vigência. As transformações econô-

micas e sociais pelas quais a sociedade vem passando e os efeitos da globalização incomodam

alguns, gerando desestabilização daqueles que estão no controle do status quo. Por sua vez, o

que é percebido como risco, grande ameaça para uns, pode representar oportunidades e chances

de ascensão para outros.

A humanidade viveu, no último século, a maior transformação de sua história. O século

XX foi palco de acontecimentos imprevistos, até mesmo antes inimagináveis, que estabelece-

ram, e ainda estabelecem, significativos parâmetros na história da humanidade. A globalização

e a revolução tecnológica produziram mudanças na paisagem, no cotidiano e nos costumes,

gerando diversas reviravoltas econômicas e políticas. O progresso da humanidade tem sido

marcado pelo surgimento de novas tecnologias e o avanço social que elas proporcionam.

O novo ambiente digital, e suas oportunidades de inovação, permite a quebra de paradig-

mas possibilitando a ocorrência de grandes saltos evolutivos para a sociedade. Por outro lado,

é importante que os avanços apresentem uma base sustentável para que os novos modelos de

negócios não sejam catalizadores de maiores ônus sociais do que o esperado ganho econômico.

Deve-se ter em mente que o progresso da sociedade não pode ser destinado a apenas alguns

poucos privilegiados, devendo ser algo viável no longo prazo para fomentar o bem estar de

toda humanidade.

O Homem no transcorrer desse século XXI deverá fazer a si mesmo uma pergunta sem

precedentes na história: o que vamos fazer conosco? Em um esperado mundo saudável, prós-

pero e harmonioso, nossa atenção e nossa engenhosidade deverá se direcionar para que finali-

dade? Essa pergunta torna-se duplamente urgente em razão dos novos e imensos poderes que a

tecnologia da informação está nos oferecendo 5 .

Pode ser que o avanço extremado da tecnologia seja uma caixa de pandora que seria me-

lhor deixar fechada 6 . Os computadores nos escravizarão ou mesmo nos exterminarão? O ma-

chine learning 7 será instrumento de ditadores ou corporações maléficas? Conhecer o caminho

que o avanço computacional está tomando nos permitirá saber com o que devemos ou não nos

preocupar e o que fazer sobre isso.

5 DOMINGOS Pedro. O algoritmo mestre: como a busca pelo algoritmo de machine learning definitivo recriará o nosso mundo. São Paulo: Editora Novatec, 2017. p.10 6 HAWKING, Stephen: Inteligência artificial pode destruir a humanidade. Disponível em:

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/12/141202_hawking_inteligencia_pai. Acesso em: 20 jun. 2018 7 MATOS, David. Conjunto de regras e procedimentos, que permite que os computadores possam agir e tomar decisões baseados em dados ao invés de ser explicitamente programados para realizar uma determinada tarefa. Disponível em: < http://www.cienciaedados.com/conceitos-fundamentais-de-machine-learning/>. Acesso em 20 jun. 2018

11
11

Mais do que uma simples reconfiguração de todas as categorias jurídicas e da adaptação

da regulação já existente, os impactos da tecnologia em nossas vidas nos provocam uma questão

fundamental, que diz respeito a saber se é possível e desejável que a tecnologia se converta, ela

própria, no principal regulador de comportamentos, tornando o direito secundário ou mesmo

inócuo. Tal discussão, que tem desdobramentos sobre temas sensíveis, como soberania estatal

e democracia, é certamente das mais importantes da nossa época.

Devemos nos preocupar, especialmente, com o que a tecnologia poderia fazer em mãos

erradas. A primeira linha de defesa é assegurar sua utilização para o bem da sociedade. O con-

trole do uso das diversas novas tecnologias pode ser o objeto de muitas batalhas vindouras neste

século XXI, entre governos, empresas, sindicatos e pessoas 8 .

Para alguns, a tecnologia é necessariamente libertadora. Criptografia, Blockchain e outros

avanços são vistos como instrumentos de emancipação dos cidadãos diante de um Estado opres-

sor ou ineficiente. Não é mera coincidência o fascínio que muitos movimentos anarquistas atu-

ais têm pela tecnologia, vislumbrada como alternativa para substituir, com vantagens, as fun-

ções que hoje são assumidas pelos sistemas jurídicos dos diversos Estados.

Para outros, a tecnologia pode ser perigoso instrumento de dominação, uma vez que a sua

escolha não é neutra e, no atual contexto, acaba sendo feita, em grande parte, por grandes agen-

tes empresariais, sem transparência, accountability ou qualquer filtro democrático, podendo

estar a serviço exclusivo dos interesses econômicos daqueles que a detêm. Assim, a criação de

uma regulação jurídica estatal em prol da regulação pela tecnologia, longe de possibilitar um

ambiente mais igualitário, levaria, na verdade, ao domínio dos grandes gigantes da tecnologia,

alguns já chamados de net states, tamanho o poder que já titularizam.

Apesar das divergências de opiniões, o debate supramencionado é útil para mostrar que a

discussão sobre tecnologia, longe de ser meramente técnica, é também uma reflexão sobre o

poder, em várias das suas manifestações. Afinal, adotada a premissa de que sociedades com-

plexas que pretendam ser minimamente organizadas precisam de algum tipo de regulação, a

tecnologia jamais será propriamente uma alternativa à regulação, mas sim deverá se adaptar à

própria de regulação. E, a depender de quem escolhe a tecnologia e da utilização que a ela será

dada, a alocação de recursos e direitos, bem como a própria estruturação da sociedade e dos

Estados, podem ser consideravelmente alteradas.

A sociedade da informação, que vem sendo formada ao longo dos últimos anos, tem como

principal característica a migração de dados e informações para ambientes virtuais. Tal

8 DOMINGOS, Pedro. O algoritmo mestre: como a busca pelo algoritmo de machine learning definitivo recriará o nosso mundo. Editora Novatec, 2017. p. 15

12
12

iniciativa traz vantagens, tais como a economicidade, melhoria na organização e acesso às

informações de interesse público. Por sua vez, riscos também se apresentam, os quais precisam

ser devidamente acompanhados pelo Estado, como legítimo representante da sociedade, no

intuito de proteger a privacidade do cidadão e garantir a disponibilidade, a integridade, a

confidencialidade e a autenticidade das informações confiadas pelas próprias pessoas aos

órgãos e entidades, sejam estas de natureza pública ou privada.

Comenta-se que estamos presenciando uma grande mudança em nosso modo de vida,

cunhada pela expressão “quarta revolução industrial”. Assim denominada por Klaus Schwab,

em 2016, no Fórum Econômico Mundial para tratar da “revolução tecnológica que irá alterar

fundamentalmente nossos modos de vida, de trabalho e de relação como os outros” 9 , tem sido

recorrentemente mencionada e trazida para a conversa, dada sua relevância, não somente de

impacto em nossas vidas, como também pela sua escala, abrangência e complexidade.

Conforme seu idealizador, teve início no bojo da terceira revolução industrial, então chamada

de Revolução Digital, que foi o estopim de uma alteração radical na sociedade, nas formas de

comunicação e no status quo do mundo globalizado.

Nos aspectos profissional e negocial, essa grande mudança tem-se caracterizado

especialmente naquilo que foi denominado de “transformação digital”, tendo em vista que todas

as formas de negócios — sejam tradicionais ou não — estão sendo direta e rapidamente afetados

por novas tecnologias. Os relacionamentos caminham rumo à digitalização, e todos os setores

da economia, sejam públicos ou privados, passam a formar a “economia digital”, que nada mais

é do que a própria economia que sofre a influência do processo de transformação digital.

No âmbito das relações pessoais vemos que, atualmente, informações tais como senhas e

dados financeiros encontram-se, em grande parte, armazenados em computadores distantes de

nós, de forma centralizada em servidores pertencentes a grandes empresas como Amazon, Fa-

cebook ou Google, estabelecendo os parâmetros físicos para a chamada ‘nuvem computacio-

nal’.

Tal sistemática de armazenamento de informações apresenta várias conveniências, tais

como a existência de equipes compostas por especialistas para a prática do armazenamento e

proteção dos dados, e redução dos custos que relacionados com hospedagem, permitindo um

poder computacional sem precedentes. Por outro lado, constata-se também casos da ocorrência

9 Klaus Schwab.

The

Fourth Industrial

Revolution:

what

it

means,

how

to

respond.

Disponível em:

respond/> Acesso em: 20 jun. 2018.

13
13

de vulnerabilidades no sistema. A mídia vez ou outra informa sobre eventos rumorosos ocorri-

dos no mundo real nos quais pessoas denominadas como hackers, e até mesmo governos, po-

dem ter acessado de forma indesejada aos arquivos pessoais de parcela da população sem o seu

conhecimento.

Alguns defendem que esse modelo de armazenamento de informações centralizado nas

mãos de apenas poucas grandes empresas mundiais pode ser considerado o "pecado original"

da internet. Afirmam que a rede mundial de computadores teria sido concebida para ser des-

centralizada e que, considerando os rumos tomados pela sua evolução, seria necessário o sur-

gimento de novas tecnologias que pudessem contribuir com o atingimento de tal objetivo.

Por sua vez, imagine que a desejada nova tecnologia necessária para atribuir o caráter

descentralizado da internet já esteja disponível possibilitando a toda a humanidade ter acesso a

um único super-computador em escala mundial. Essa grandiosa máquina computacional, em

verdade, não seria única, mas sim materializada pela união de esforços computacionais do

conjunto de centenas de milhares de computadores espalhados pelo mundo, atuando em uma

mesma rede, de forma descentralizada, processando as mesmas informações. Este é o ponto

culminante de décadas de pesquisa e avanços em criptografia e segurança da informação.

Conforme adiante será melhor explicada, essa é a tecnologia Blockchain, também

conhecido no vernáculo por cadeia de blocos distribuídos, ou livro-razão distribuído, que, mais

do que nunca, está emergindo como uma tendência tecnológica. Estudiosos da ciência

computacional defendem a tese que podemos estar testemunhando uma dessas explosões de

potencial criativo em elevados níveis de inovação e revolução tecnológica com grandes

impactos no mundo real. Considerando já terem sido ultrapassados alguns períodos de certa

descrença em sua evolução, a tecnologia da finalmente vem sendo enaltecida pelos mais

variados grupos como a próxima grande onda, sendo cada dia mais positivamente noticiada

pela grande mídia.

É importante, por sua vez, pensar a cadeia de blocos distribuídos sob uma perspectiva de

caráter mais amplo. Muitos ainda acreditam que a Blockchain se relaciona apenas com o Bitcoin,

mas em realidade ela vai muito além disso e, conforme alguns defendem, ela possui capacidade

de gerar modelos de negócio absolutamente inéditos.

Considerando este contexto, acredita-se cada vez mais que, com os apropriados

incentivos, a tecnologia Blockchain poderá representar um significativo papel social e

econômico nas economias emergentes, especialmente nos países da América Latina, onde a

confiança sempre foi uma grande preocupação na celebração dos mais diversos acordos. Tal

tecnologia poderia ter a capacidade de entregar um novo tipo de confiança para uma ampla

14
14

variedade de serviços. Sempre que há transparência nas informações pode-se viabilizar

verdadeiras revoluções no relacionamento do cidadão com o Estado, de modo que o adequado

uso dessa tecnologia pode reformar nossos mercados financeiros, cadeias de suprimentos,

serviços de consumidores e de negócios para empresas e registros públicos.

Ainda que em âmbito global estejamos a alguns passos atrás de regiões como a América

do Norte e Europa no que diz respeito a sua adoção em aplicações reais, não podemos

permanecer inertes. Devemos buscar a melhor forma de desenvolver a tecnologia nos moldes e

em favor do nosso país.

No entanto, como teremos melhor uso da tecnologia Blockchain se não existe nenhuma

autoridade central exercendo um efetivo controle? Deve a cadeia de blocos distribuídos ser, de

alguma forma, regulamentada? Como isto poderia ser feito? A ideia da criação de uma

governança descentralizada com base nessa nova tecnologia sem a participação de uma

autoridade governamental teria, segundo alguns teóricos, o poder de desafiar autoridades do

Estado, da cidadania e democracia em diversos níveis.

Quando a tecnologia Blockchain se tornar totalmente desenvolvida, deveremos ser

cautelosos e, antes de começar a oferecer produtos e serviços diversificados precisaríamos, em

primeiro lugar, explorar todas as implicações legais e regulamentares necessárias?

Com a apresentação da presente monografia pretendemos contribuir com os

preliminares debates que surgem acerca dos aspectos legais regulamentares da nova tecnologia

Blockchain.

No decorrer deste trabalho será apresentado no primeiro capítulo a novel tecnologia,

com suas características técnicas e potenciais de inovação.

No segundo capítulo serão abordados os fundamentos legais e as possibilidades de

intervenção do Estado na atividade econômica.

Já no terceiro capítulo abordaremos sobre a intervenção regulatória do Estado em novas

tecnologias semelhantes, por serem essencialmente tecnológicas, à Blockchain.

No quarto capítulo abordaremos especificamente sobre as possibilidades e a necessidade

de intervenção estatal, por meio de regulação, especificamente nas redes Blockchain.

1.1 A tecnologia Blockchain

1.1.1 - A revolução do bitcoin

15
15

A origem da tecnologia Blockchain está intimamente ligada à divulgação do artigo

científico que previa a criação do bitcoin, no recente ano de 2008. O bitcoin surgiu oficialmente

no início do ano de 2009 — em 3 de janeiro, para ser exato. Ocorre que meses antes, em 2008,

um artigo assinado por Satoshi Nakamoto 1011 foi divulgado em grupos de discussões na internet

descrevendo o conceito do Bitcoin.

O Bitcoin é uma moeda virtual, ou criptomoeda, que propõe a criação de um novo modelo

econômico sem governos ou instituições financeiras, no qual todas as transações são feitas

diretamente de usuário para usuário. A "moeda da internet", como é denominada por alguns,

tem um funcionamento complexo baseado em um conjunto de regras, no qual os usuários são

"responsáveis" pela regulação do dinheiro eletrônico 12 .

O código aberto do Bitcoin deu origem à formação de uma empenhada comunidade de

programadores e usuários da criptomoeda que se apoderou do projeto, melhorou o protocolo

técnico e, a partir de então, criou uma série de serviços que passou a movimentar toda uma nova

economia baseada na moeda.

Os algoritmos da cadeia de blocos distribuída, ou contabilidade distribuída, ou

Blockchain, representam o fundamento técnico da inovação tecnológica, possibilitando que as

transações de Bitcoin sejam agregadas em "blocos", que são conectados um a um formando

uma verdadeira "cadeia de blocos, utilizando assinatura criptográfica. 

O livro de registro das transações do Bitcoin é construído de forma distribuída e somente

há permissão para que qualquer usuário possa adicionar um bloco à cadeia de transações quando

ocorre a resolução de um enigma criptográfico. O incentivo oferecido para que usuários gastem

energia nessa atividade é realizado por meio do oferecimento de uma recompensa na forma de

Bitcoins, concedidos ao solucionador do quebra-cabeça para cada "bloco". Dessa forma,

qualquer pessoa com acesso à internet e poder de computação para resolver os enigmas

criptográficos pode adicionar blocos de transações ao livro maior, sendo eles conhecidos como

"mineradores de Bitcoin". A utilização do termo mineraçãoé uma analogia apropriada porque

o processo de criação das unidades de Bitcoin consome intensiva quantidade de energia, pois

requer grande potência de computação.

15 A origem da tecnologia Blockchain está intimamente ligada à divulgação do artigo científico que previa< https://bitcoin.org/bitcoin.pdf > . Acesso em: 11 jun. 2018. O que é bitcoin? Entenda como funciona a moeda virtual. Disponível em: < https://tecnologia. uol.com.br/noticias /redacao/2014/03/17/o-que-e-bitcoin-entenda-como-funciona-a-moeda- virtual.htm?cmpid=copiaecola >. Acesso em: 21 jun. 2018. " id="pdf-obj-15-101" src="pdf-obj-15-101.jpg">

10 "Satoshi Nakamoto" é um pseudônimo que representa uma pessoa ou um grupo de indivíduos. Ao longo dos últimos anos, alguns nomes apareceram, mas até hoje não está claro quem realmente é essa pessoa (ou esse grupo). 11 Satoshi Nakamoto. Bitcoin: A Peer-to-Peer electronic cash system. Disponível em:

15 A origem da tecnologia Blockchain está intimamente ligada à divulgação do artigo científico que previa< https://bitcoin.org/bitcoin.pdf > . Acesso em: 11 jun. 2018. O que é bitcoin? Entenda como funciona a moeda virtual. Disponível em: < https://tecnologia. uol.com.br/noticias /redacao/2014/03/17/o-que-e-bitcoin-entenda-como-funciona-a-moeda- virtual.htm?cmpid=copiaecola >. Acesso em: 21 jun. 2018. " id="pdf-obj-15-108" src="pdf-obj-15-108.jpg">

<https://bitcoin.org/bitcoin.pdf >. Acesso em: 11 jun. 2018. 12 O que é bitcoin? Entenda como funciona a moeda virtual. Disponível em: <https://tecnologia.

uol.com.br/noticias /redacao/2014/03/17/o-que-e-bitcoin-entenda-como-funciona-a-moeda- virtual.htm?cmpid=copiaecola >. Acesso em: 21 jun. 2018.

16
16

A primeira transação comercial realizada com Bitcoin aconteceu em janeiro de 2010,

exatamente um ano depois da mineração do primeiro lote de moedas. Na ocasião, o dinheiro

virtual, um montante de 10 mil Bitcoins, foi usado para pagar uma pizza que custava US$

25,00.

Nos meses seguintes, os principais usuários da moeda virtual foram membros de

movimentos hacker e de grupos políticos de tendências anarquistas ou libertárias. Em comum,

havia o interesse no conceito de uma moeda descentralizada e baseada em criptografia, o que

tornava relativamente anônimas as transações e criava a possibilidade de financiar projetos que

não agradavam às elites financeira e política, devido ao fato de a moeda não estar submetida a

qualquer controle estatal, bancário ou regulatório de outros órgãos. Algumas experiências

financiadas com o novo dinheiro virtual deram origem ao software Tor, que permite a

navegação anônima pela internet e, especialmente, pela deep web, conhecida como o lado

obscuro da internet.

Para a comunidade de usuários e programadores o Bitcoin traz consigo inúmeras

vantagens sobre o sistema financeiro tradicional e que podem torná-la revolucionária. A

primeira seria o fato de que a criptomoeda permite a seus usuários a transferência de valores

para o outro lado do planeta instantaneamente e a baixo custo. Um segundo elemento

revolucionário seria que os pagamentos em Bitcoin permitem que o setor de varejo alimente

sua margem de lucro fugindo das taxas praticadas por operadoras de cartões de crédito e bancos

nas transações financeiras. Além disso, a moeda hacker possui um enorme potencial político,

uma vez que não é regulada pelos bancos centrais, governos ou qualquer autoridade monetária.

Isso, na visão dos entusiastas, a colocaria à frente dos bancos.

Ocorre que o objetivo do presente trabalho não é o estudo do Bitcoin,mas sim da

tecnologia algorítmica que lhe serve de fundamento técnico, e com poder de transformar os

livros contábeis digitais em ferramentas capazes de registrar, habilitar e proteger uma enorme

variedade de transações. Assim, a tecnologia básica da cadeia de blocos distribuídos, ou

Blockchain, pode ser modificada para incorporar regras, estabelecer contratos inteligentes,

registrar assinaturas digitais e uma série de outras ferramentas novas.

Por sua vez, antes de detalharmos a Blockchain, não podemos deixar de mencionar as

raízes dos movimentos que levaram à criação do bitcoin, bem como uma teoria propalada de

que as regras estabelecidas pelos sistemas computacionais poderiam se sobrepor às normas

sociais existentes no mundo real, assunto intimamente relacionado com o tema do presente

trabalho que aborda a possibilidade de regulação das tecnologias baseadas na rede mundial de

computadores.

  • 1.2 O Código é a Lei

17
17

Em meados da década de 1990, surgiu no Ocidente, para muitas pessoas, uma “nova

sociedade”. Esta foi a internet, ou, em uma definição comum na época, o “ciberespaço”.

Primeiro em universidades e centros de pesquisa e depois em toda a sociedade, o ciberespaço

tornou-se um novo fundamento para o renascimento de uma antiga utopia libertária, na qual

defendia uma liberdade para a população longe das “amarras” do Estado. A alegação dos

defensores desse movimento era que o governo não poderia regular o ciberespaço, pois este

seria, por natureza, inevitavelmente livre. Os governos poderiam ameaçar, mas o

comportamento não poderia ser controlado; leis poderiam ser aprovadas, mas elas não teriam

nenhum efeito real no mundo cibernético. O ciberespaço seria o ambiente propício para a

constituição de uma sociedade muito diferente, na qual haveria definição e direção, mas seria

construída de baixo para cima. Uma sociedade baseada neste espaço virtual e que seria livre de

controles políticos.

Difundiu-se, então, a crença cultivada por ciber-tecnólogos e cidadãos virtuais de todo o

mundo de que o ciberespaço, por suas características anarquistas e por sua natureza, seria

impossível de ser regulamentado.

No entanto, essas primeiras teorias sobre o governo e ciberespaço mostraram-se tão

equivocadas como os primeiros pensamentos sobre o governo após o comunismo 13 .

Com o decorrer do tempo percebe-se a mudança do entendimento de um ciberespaço

anárquico para a necessidade de um ciberespaço que esteja submetido a algum controle. O

ciberespaço exigiu uma nova compreensão sobre como funciona um sistema de regulação. Ele

nos obriga a vislumbrar para além desse nosso sistema atual de normas. Conforme a tese que o

professor de cyberlaws da Harvard Law School, Lawrence Lessig, defende em sua obra "Code

and Other Laws of Cyberspace", o código é a lei e nós, ou mais especificamente os

programadores de computador, somos como deuses. A expressão "Código é lei" refere-se à ideia

de que o código de computador se estabeleceu progressivamente como uma maneira

predominante de regular o comportamento ao mesmo grau que o código legal do mundo real.

Segundo a teoria de Lessig 14 , a mais importante constatação é que a artificialidade do

ciberespaço, com sua latente potencialidade, pode ser passível de uma regulamentação quase

perfeita. Seria possível codificar o ciberespaço de tal modo que toda e qualquer ato praticado

  • 13 LESSIG, Lawrence. Code Version 2.0. Ebook p.3

  • 14 Ibid.

18
18

no mundo virtual esteja cuidadosamente circunscrito e limitado ao que os "donos" do

ciberespaço nos permitirem fazer. Deveria ser idealizado um código do ciberespaço - o software

e o hardware que fazem o ciberespaço ser o que é - como uma espécie de lei. Este código, da

mesma forma que as leis do mundo real, fixaria certos valores ao ciberespaço e tornaria possível

certas liberdades. O primeiro passo seria entender os valores implícitos em tal espaço, e que em

alguns casos devemos defendê-los, e em outros, nós devemos mudá-los.

Qualquer código pode ser escrito, logicamente. Mas o código que regula o ciberespaço é

determinado por quem escreveu o programa. O próprio plano físico, o espaço (e todo e qualquer

software utilizado para o acesso à internet) é regulado pelo código. Seria o que os

programadores chamam de "código-fonte", as linhas de programação necessárias para tornar

coerente e funcional um programa ou um aplicativo. A limitação estabelecida é, teoricamente,

aquela imposta pelo programa.

Os codificadores (e programadores) escolheram que as coisas deverão ser deste ou

daquele modo. Todo espaço virtual tem um código embutido. A própria palavra

"regulamentação" pode, consequentemente, tomar um novo rumo. Quando se fala que o código

do ciberespaço regula o espaço ou plano físico, deve-se entender que ele constitui o modo como

o espaço ou o plano físico o são. A liberdade de expressão é protegida hoje porque o ciberespaço

torna difícil rastrear "quem disse o quê". Você é efetivamente livre porque o propósito atual faz

com que seja assim.

Poderíamos questionar se a conduta é regida ou não pelo meio. Mas o código pode forçar

certas condutas, tornando-as obrigatórias. Ou limitar essas condutas, proibindo-as. Os

legisladores reais poderiam então, regulamentar o próprio código, e não mais as situações dele

decorrentes.

Entretanto, para um efetivo e justo controle, deve-se entender os valores que a internet

inicialmente protegeu (liberdade de expressão, anonimato, um certo degrau de privacidade,

direito de associação, etc.) e defendê-los de mudanças tanto na arquitetura do espaço, ou nas

leis que regulam esse espaço.

À primeira vista, pode parecer que os usuários em geral da internet possuem uma

liberdade desmedida. O ciberespaço tem sido alvo de massivas propostas para intensificar a

proteção dos direitos autorais, e isto poderá remover algumas liberdades que o espaço neste

momento protege. Por outro lado, o comércio também está tendo muita liberdade na rede

mundial. Na forma com que a World Wide Web foi projetada, é simples para o comerciante

rastrear, seguir e conhecer o comportamento do consumidor, podendo coletar, gratuitamente,

dados sobre o comprador, sendo que esses dados são recursos considerados muito valiosos.

19
19

O código assim permite, mas isso pode ser mudado. Há também uma questão moral

envolvida. Todas as atitudes tomadas pelo governo norte-americano no mundo virtual poderão

ter um efeito desproporcional no resto do mundo, justamente por possuírem uma influência

dominante no controle da internet. Quando os Estados Unidos restringem a exportação de

tecnologias de criptografia de dados, tal ato pode reverter-se em um efeito profundo no resto

do mundo. Isto significa que o legislador americano deve ser mais cuidadoso no sentido de

assegurar que as regras impostas por ele na internet não interfiram nos direitos de outras nações.

A direção que o ciberespaço está se encaminhando atualmente é no sentido de criar uma

situação para acomodar uma codificação e legislação locais. Como o espaço se apresenta

atualmente, torna-se muito difícil para qualquer governo controlar qualquer coisa nesse

ambiente virtual. Isto porque é difícil saber a origem dos usuários e o que se estão fazendo. Por

outro lado, as tecnologias estão vagarosamente sendo integradas com o ciberespaço, e poderão

tornar mais fácil saber de onde alguém está vindo e em alguns casos, o que ele ou ela está

fazendo. A partir do momento que isso efetivamente acontecer, os governantes locais poderão,

então, determinar quais os comportamentos que podem ser adotados, regulando-os localmente.

A arquitetura ou o código do espaço mudam, e a regulamentação e codificação devem também

sofrer transformações - adaptando-se às características de cada país.

Portanto, se não houver um mínimo de diligência, acordaremos um dia para descobrir que

a natureza do ciberespaço foi transformada para se imposta sobre nós. O ciberespaço não mais

será um local de liberdade (ainda que relativa); em lugar disso, será um mundo com controle

perfeito onde nossas identidades, ações e desejos serão monitorados, rastreados e analisados

pela mais recente e moderna ferramenta de pesquisa construída pelo mercado.

Lessig argumenta que, em um ambiente digital, tanto as leis (código legal) quanto o

software/hardware (código de computador) regulam a atividade e que o impacto de ambos

precisa ser considerado ao construir uma teoria da regulamentação.

Uma diferença fundamental entre código legal e código técnico é o mecanismo pelo qual

cada um exerce sua influência. O código legal é "extrínseco": as regras podem ser quebradas,

mas as consequências derivadas dessa violação servem para garantir a conformidade das

condutas. O código técnico, em contraste, é "intrínseco": se suas regras são quebradas, um erro

é retornado e não ocorre nenhuma consequência, portanto a conformidade é assegurada através

da operação do próprio código. Outra característica do software é que uma máquina seguirá

rigorosamente as regras, mesmo quando essa conformidade produz resultados imprevistos ou

indesejáveis no mundo exterior.

Sistemas constituídos por livros contábeis distribuídos, como a Blockchain do Bitcoin,

20
20

mostraram que podem funcionar sem regras legais. Em vez disso, as regras que cada

participante deve seguir são definidas e aplicadas apenas pelo código técnico. Cada participante

na rede executa o mesmo software, ou compatível, que define quais tipos de transações são

permitidas.

Os sistemas são, por vezes, pensados para existir independentemente da criação de

regras humanas e governados apenas por algoritmos matemáticos. Este é um equívoco. Assim

como o código legal, o código técnico precisa ser produzido e mantido por humanos que

definem as regras que o código incorpora.

Um exemplo bem conhecido de regulamentação da Bitcoin através do código legal é o

BitLicense, emitido pelo Departamento de Serviços Financeiros do Estado de Nova Iorque para

empresas que oferecem serviços de moeda digital para residentes de Nova York 15 . O prazo para

as empresas obter a licença encerrou-se 24 de junho de 2015 e os prestadores de serviços sem

licença podem ser penalizados.

Alternativamente, o setor público poderia desenvolver um sistema de permissão

possibilitando que a influência reguladora pública seja exercida através de uma combinação de

código legal e técnico, e não exclusivamente através do código legal como

atualmente. Algumas das principais tecnologias da internet mostram que é possível para os

governos catalisar com êxito a criação de um código técnico que se tornou fundamental para a

atividade do setor privado.

Com o advento da tecnologia Blockchain, o código está assumindo um papel ainda mais

forte na regulação das interações das pessoas. No entanto, enquanto o código do computador

puder impor regras de forma mais eficiente do que o código legal, ele também pode gerar

consequências indesejadas no mundo real. Com vastas implicações regulatórias, as aplicações

de cadeias de blocos já levantaram muitas questões legais, pois oferecem novas capacidades

para envolver atividades de formas que não se encaixam perfeitamente nas estruturas legais

existentes.

Entretanto, antes de adentrarmos nas questões regulatórias, faz-se necessário melhor

esclarecer o que seria a tecnologia Blockchain, apresentando algumas ideias para os quais

poderia ser utilizado.

15 PAUW, Chrisjan. Aprovação

da BitLicense joga

luz

na relação New Iorque: cripto.

Disponível em:

21
21
  • 1.3 O livro-razão distribuído como a verdadeira inovação

Os livros-razão sempre foram o coração do comércio, desde a antiguidade, e são ainda

usados para registrar muitas coisas, especialmente ativos como dinheiro e propriedade. Ao

longo dos séculos, tais registros já foram gravados em argila, papiro e papel. Entretanto, em

todo esse tempo, a única inovação notável foi a informatização, que inicialmente era

simplesmente uma transferência dos registros realizados em papel para os bytes. Agora, pela

primeira vez, os algoritmos permitem a criação colaborativa de livros contábeis digitais com

propriedades e recursos que vão muito além dos livros tradicionais baseados em papel.

Um livro-razão distribuído é essencialmente um banco de dados de registro de ativos que

pode ser compartilhado em uma rede de vários sites, locais ou instituições. Todos os

participantes de uma rede podem ter sua própria cópia idêntica do livro-razão. Todas as

mudanças realizadas são refletidas em todas as cópias em minutos, ou, em alguns casos,

segundos. Os ativos registrados podem ser financeiros, legais, físicos ou eletrônicos. A

segurança e a precisão dos ativos armazenados em “tecnologia de livro-razão distribuído” 16 são

mantidas criptograficamente através do uso de "chaves" e assinaturas para controlar quem pode

fazer o que está dentro do livro de contas compartilhado. As entradas também podem ser

atualizadas por um, alguns ou todos os participantes, de acordo com as regras acordadas pela

rede.

A palavra Blockchain vem sendo adotado como um termo genérico para descrever o

conjunto de tecnologias que envolvem a arquitetura distribuída de sistemas computacionais,

estruturas de armazenamento de dados, protocolos de comunicação e muita, muita criptografia.

Também conhecida como tecnologia de contabilidade distribuída, é um novo tipo de

tecnologia da informação que combina dois componentes: ledgers (registros) distribuídos e

contratos inteligentes. Os livros contábeis distribuídos são registros contábeis compartilhados.

Eles criam um único registro de transações entre várias partes, gerando uma cópia "imitável"

de dados que todas as partes acessam ao mesmo tempo e pode confiar como válida.

Consequentemente, as partes não precisam manter suas próprias cópias para conciliar-se entre

si. A grande inovação criada por esse protocolo é que se trata de uma rede aberta e seus

participantes não necessariamente precisam se conhecer ou confiar uns nos outros para a

realização da interação. As transações eletrônicas podem ser verificadas e registradas

automaticamente a partir dos nóspresentes na rede por meio de algoritmos criptográficos,

16 No inglês, Distributed Ledger Technology – DTL

22
22

sem a necessidade de intervenção humana, autoridade central, pontos de controle de qualquer

tipo, tais como agências governamentais, bancos ou organizações similares.

Com essa tecnologia, é possível criar uma relação de confiança em um ambiente

desconhecido, onde os membros do sistema podem confiar uns nos outros sem que haja uma

entidade centralizada realizando qualquer tipo de verificação ou mediação entre eles.

Dentro dessa revolução tecnológica existe uma miríade de combinações em arquiteturas,

protocolos e estruturas. Algumas startups 17 brasileiras, com seus modelos de negócio mais

ágeis, já estão experimentando implementações com públicos segmentados. Um dos casos é o

da OriginalMy 18 que utiliza o Blockchain público do Bitcoin para o registro de documentos,

uma aplicação que substitui os tradicionais cartórios notariais.

Assim como toda inovação disruptiva 19 , o Blockchain ainda está em busca do seu nicho

de mercado ideal. As pesquisas e prototipações estão engatinhando. Assim, não haverá uma

substituição, no curto prazo, dos sistemas em funcionamento que já atendem às demandas atuais.

As empresas devem se preparar para uma coexistência de sistemas centralizados e novas

implementações usando Blockchain, sendo que somente um bom retorno dos investimentos em

pesquisas e protótipos poderá determinar uma curva de adoção mais acentuada do Blockchain

nos próximos anos.

  • 1.4 Aspectos técnicos da Blockchain

A tecnologia Blockchain pode ser definida como sendo uma corrente distribuída e

expansível de blocos de dados interligados por conexões criptográficas, de forma que cada um

desses blocos possui um hash 20 protegido pela criptografia do bloco anterior.

  • 17 Startup significa o ato de começar algo, normalmente relacionado com companhias e empresas que estão no início de suas atividades e que buscam explorar atividades inovadoras no mercado.

  • 19 Tecnologia disruptiva ou inovação disruptiva é o termo usado pelo professor Clayton Christensen, professor da Universidade de Harvard, para descrever a inovação tecnológica que derruba uma tecnologia já existente no mercado. In SILVA, José Benedito Lázaro da. O efeito disruptivo das inovações tecnológicas frente às ciências jurídicas e sociais.

  • 20 Uma função de hash criptográfico, muitas vezes é conhecida simplesmente como hash, é um algoritmo matemático que transforma qualquer bloco de dados em uma série de caracteres de comprimento fixo. Independentemente do comprimento dos dados de entrada, o mesmo tipo de hash de saída será sempre um valor hash do mesmo comprimento. É utilizado para certificar que arquivos digitais não sofreram alterações. Disponível em: < https://www.kaspersky.com.br/blog/hash-o-que-sao-e-como-funcionam/2773/.Acesso em: 9 de jul. 2017.

23
23

A Blockchain converteu-se em uma tecnologia fundacional, tal como foi o TCP/IP, ou,

ainda, a linguagem HTML que originou a World Wide Web (www). É um protocolo basilar sobre

o qual irão sendo criadas múltiplas tecnologias.

Sendo capaz de gerar a confiança entre os usuários por meio da autenticidade imutável

dos registros, a tecnologia Blockchain oferece: transparência; rastreabilidade; imutabilidade;

eficiência (custo e tempo); e, segurança jurídica.

Ocorre que a Blockchain, além de ser considerada como disruptiva, também se enquadra

na categoria de inovação de circunvenção (circumventive) 21 , ou seja, quando o produto ou

processo inovador criado não encontra respaldo em um ambiente regulado. E aqui encontra-se

o cerne do presente trabalho, analisando a necessidade do Estado regulamentar ou não tal

instrumento que possui tanta expectativa de utilidade para sociedade.

As tecnologias de contabilidade distribuída têm o potencial de ajudar os governos a cobrar

impostos, oferecer benefícios, emitir passaportes, manter registros de terras, garantir a cadeia

de fornecimento de bens e geralmente garantir a integridade dos registros dos cidadãos e

serviços do governo. Para o consumidor de todos esses serviços, a tecnologia oferece o

potencial, de acordo com as circunstâncias, para que os indivíduos controlem o acesso aos

registros pessoais e saibam quem acessou os mesmos.

Os métodos existentes de gerenciamento de dados na atualidade, especialmente de dados

pessoais, normalmente envolvem grandes sistemas de Tecnologia da Informação localizados

em uma única instituição. Para isso, são adicionados uma série de sistemas de rede e mensagens

para se comunicar com o mundo exterior, o que acrescenta custo e complexidade. Sistemas

altamente centralizados apresentam pontos de falha, além de altos custos de manutenção. Eles

podem ser vulneráveis ao ataque cibernético e os dados geralmente estão fora de sincronia,

desatualizados ou simplesmente imprecisos.

Em contrapartida, os registros em livros distribuídos são inerentemente mais difíceis de

atacar porque, em vez de um único banco de dados, existem múltiplas cópias compartilhadas

do mesmo banco de informações, de modo que um possível ataque cibernético deve atingir

todas as cópias simultaneamente para ser bem-sucedido. A tecnologia também é resistente a

mudanças não autorizadas ou adulterações mal-intencionadas, na medida em que os

participantes na rede detectarão imediatamente uma alteração em uma parte do livro-

razão. Além disso, os métodos pelos quais as informações são protegidas e atualizadas

21 STEWART, Luke A. The impact of regulation on innovation in the United States: a cross-industry literature review. Information Tecnology & Innovation Foundation: Junho, 2010, p. 2 In: JÚDICE, Lucas Pimenta e NYBO, Erik Fontenele. Direito das Startups. Curitiba: Juruá Editora, 2016 p. 31

24
24

significam que os participantes podem compartilhar dados e ter certeza de que todas as cópias

do livro-razão principal coincidem entre si.

Mas, afinal, o que é Blockchain? Para obtermos essa resposta, precisamos analisá-la sob

três diferentes abordagens: técnica, empresarial e legal. Em relação ao aspecto técnico, você

pode entendê-la como um banco de dados de retaguarda que possui um registro distribuído. No

campo empresarial, é uma rede de troca de valores entre pares, um mecanismo que autoriza

uma transação e a torna válida também do ponto de vista legal. Ocorre que não requer ninguém

como intermediário e aí que entra o aspecto legal e regulatório da tecnologia.

Explicitando melhor o conceito técnico, Blockchain é uma plataforma de software e um

ecossistema. Pode ser definida como um banco de dados que contém todas as transações que

são executadas na rede Bitcoin. É um registro distribuído, permanente e digital resistente a

alterações, mantido de modo sincronizado em todos os nósdo sistema. É uma cadeia de

registros imutáveis, públicos e distribuídos. Cadeia porque os registros estão cuidadosamente

encadeados, interligados uns aos outros por meio de chaves públicas, entradas e saídas.

Imutáveis porque uma vez que o registro é inserido na cadeia, não pode mais ser alterado.

Públicos porque a única condição necessária para que uma pessoa possa ter acesso aos registros

da Blockchain é que ele tenha acesso à internet, e distribuídos porque a cadeia de registros não

está armazenada em um único servidor central, mas, pelo contrário, está replicada em milhões

de máquinas distribuídas por todo o planeta e nenhuma empresa ou indivíduo pode reivindicar

a propriedade destes registros.

Cada registro (ou "bloco") contém os detalhes de uma transação, é marcado com o tempo,

bem como está associado a determinados dados que o vinculam ao "bloco" anterior na cadeia.

Quando uma nova transação ocorre, ela é autenticada em toda a rede por usuários conhecidos

como "mineiros" (utilizando dispositivos informáticos especializados) antes de serem gravados

como um novo "bloco" e sendo disponibilizados para exibição por outros membros da cadeia

de blocos.

Uma maneira mais simples de pensar em Blockchain é imaginar um livro-razão

gigantesco que contém todas as transações feitas em uma criptografia particular, armazenadas

publicamente e cronologicamente. Cada transação passa por uma verificação de autenticidade

por milhares de computadores na rede, chamados de “nós. A transação é então marcada com

o tempo antes de ser adicionada ao final da cadeia como parte de um novo bloco. O processo

de verificação prejudica qualquer transação fraudulenta e torna as transações irreversíveis. A

beleza da Blockchain é a sua transparência e responsabilidade, pois qualquer computador na

rede pode ver o conteúdo da cadeia de blocos. As partes podem criar e verificar de forma

25
25

independente transações, sem ter que confiar (ou pagar) por um intermediário para prestar esses

serviços. Para fraudar a Blockchain seria necessária a quebra da criptografia de todos os blocos

da cadeia, em todos os computadores da rede e ao mesmo tempo, o que torna a tarefa

virtualmente impossível e confere um sistema seguro.

O princípio fundamental deste protocolo é a confiabilidade computacional

descentralizada, uma vez que ocorre a transferência de confiança das pessoas que atuam como

intermediários para a infalibilidade da matemática computacional. Como bem descreveu o

eminente professor Demi Getschko em aula-palestra realizada no dia 4 de setembro de 2017 no

curso de pós-graduação em Direito Digital e Compliance da Faculdade Damásio, "com a

Blockchain o cidadão usuário não precisará mais pagar um custo pela confiança, pois esta estará

"impregnada" na rede".

A confiança é, em última análise, um julgamento de risco entre as diferentes partes, e, no

mundo digital, a determinação da confiança muitas vezes se resume à prova de identidade

(autenticação) e de permissões (autorização). Em termos mais simples, queremos saber: 'Você

é quem afirma ser?' E 'você é capaz de fazer o que está tentando fazer? No caso da tecnologia

Blockchain, a criptografia de chaves privadas fornece uma ferramenta poderosa que cumpre os

requisitos de autenticação. A posse de uma chave privada é a propriedade. Ele também poupa

uma pessoa de ter que compartilhar mais informações pessoais do que seria necessário para

uma troca, deixando-os expostos a hackers.

A autenticação, porém, não é suficiente. A autorização da transação, além de certos

requisitos lógicos como haver dinheiro suficiente, fazer o tipo de comando de transmissão

correto etc necessita de uma rede distribuída peer-to-peer como ponto de partida. A rede

distribuída reduz o risco de corrupção ou falha centralizada e deve estar comprometida com a

manutenção de registros e de segurança da rede de transação. Autorização de operações é o

resultado de toda a rede de aplicação das regras sobre a qual ele foi projetado (protocolo da

Blockchain). Autenticação e autorização fornecidas desta forma permitem interações no mundo

digital sem depender da (custosa) confiança. Atualmente, empresários de diversas áreas de

atuação em todo o mundo acordaram para as implicações deste desenvolvimento, pois

realizações antes inimagináveis, agora são possíveis.

A tecnologia Blockchain é frequentemente descrita como a espinha dorsal de uma nova

camada da internet, direcionada para as transações financeiras, a fundação da Internet do

Valor. Em verdade, a ideia de que as chaves criptográficas e livros partilhados podem

incentivar os usuários a proteger e formalizar relações digitais ultimamente tem incentivado

imaginação de muitos atores do mercado. A Blockchain foi descrita pela revista The Economist,

26
26

em 2015, como uma tecnologia extremamente disruptiva, que permitirá inovações nos sistemas

de segurança dos bancos, tornando as transações muito mais seguras e baratas do que são

atualmente 22 . Com isso, temos desde governos a empresas de TI para

bancos buscando a

construção desta camada de transação.

Autenticação e autorização, fatores vitais para transações digitais, são estabelecidos como

resultado da configuração da tecnologia Blockchain. A ideia pode ser aplicada a qualquer

necessidade de um sistema confiável de registro. A promessa da tecnologia Blockchain é uma

rede de negócios baseada em confiança e uma plataforma sem intermediações, sem descuidar

da eficiência de mercado e do custo.

Ainda é cedo para vermos como a Blockchain irá afetar os consumidores e a sociedade,

mas grandes mudanças ocorrerão quando tivermos interações peer-to-peer (ponto a ponto)

autenticadas em Blockchain. Conforme estudos do World Economic Forum, cerca de 10% do

Produto Interno Bruto global estará em Blockchain até o ano de 2027 23 .

Para um leigo que tenha costume de apenas utilizar a internet, a tecnologia Blockchain

pode não parecer tão diferente de aplicações com as quais está acostumado, como a Wikipedia.

Em uma rede Blockchain, muitas pessoas podem escrever entradas um registro de informações,

e uma comunidade de usuários pode controlar como o registro de informações é alterado e

atualizado. Da mesma forma, entradas da Wikipedia não são o produto de um único editor e

nenhuma pessoa controla a informação.

Por outro lado, aperfeiçoando a compreensão da tecnologia, as diferenças entre a

Blockchain e a enciclopédia mundial se tornam mais claras.

Embora ambas sejam executadas em redes distribuídas, ou seja, a internet, a Wikipedia é

construída na World Wide Web (www) utilizando um modelo de rede cliente-servidor. Um

usuário (cliente) com permissões associadas a sua conta é capaz de mudar entradas da

enciclopédia armazenadas em um servidor centralizado. Sempre que um usuário acessa a página

da Wikipedia, será visualizada a versão atualizada da 'cópia mestra' de entrada da enciclopédia.

O controle do banco de dados permanece com administradores da Wikipedia, pois as permissões

são mantidas por uma autoridade central.

22

Blockchains:

the

great

chain

of

being

sure

about

things.

Disponível

em:

<https://

www.

economist.com/briefing/2015/10/31/the-great-chain-of-being-sure-about-things?utm_source=blog&utm

campaign=rc_blogpost>. Acesso em: 25 jun. 2018. 23 Deep Shift Technology Tipping Points and Societal Impact Survey Report, September 2015. Disponível em:

27
27

O modo de funcionamento da Wikipedia é semelhante aos bancos de dados altamente

protegidos e centralizados que os governos, bancos ou companhias de seguros mantêm hoje. O

controle de bases de dados centralizadas descansa com seus proprietários, incluindo a gestão de

atualizações, o acesso e proteção contra ameaças cibernéticas.

Por outro lado, o banco de dados distribuído criado pela tecnologia Blockchain tem uma

espinha dorsal digital fundamentalmente diferente. Esta é também a característica mais distinta

e importante da tecnologia Blockchain.

Na Wikipedia, quando a 'cópia mestre' é editada em um servidor todos os usuários do

mundo terão acesso à nova versão. No caso de uma rede Blockchain, cada na rede está

chegando à mesma conclusão, realizando cada atualização do registro de forma independente,

com o registro mais popular tornando-se o registro oficial de fato, ao contrário de haver uma

cópia mestre.

27 O modo de funcionamento da Wikipedia é semelhante aos bancos de dados altamente protegidos e

As transações são transmitidas, sendo que cada cria sua própria versão atualizada

dos eventos registrados. Esta é a diferença que torna a tecnologia Blockchain tão útil. Ela

representa uma inovação no registro e distribuição de informações que elimina a necessidade

de um mediador confiável para facilitar as relações digitais.

No entanto, a tecnologia Blockchain, não obstante todos os seus méritos, não é uma nova

tecnologia. Ao contrário, é uma combinação de tecnologias já comprovadas, mas aplicadas de

uma maneira inovadora. Foi a orquestração particular de três tecnologias (internet, criptografia

de chave privada e protocolo descentralizado) que tornaram ideia do criador Bitcoin Satoshi

28
28

Nakamoto tão útil. O resultado é um sistema para realização de interações digitais que não

necessita de um terceiro confiável. O trabalho capaz de assegurar a confiabilidade nos

relacionamentos digitais está implícito - fornecido pela arquitetura de rede elegante, simples,

mas robusto da própria tecnologia Blockchain.

Podemos, dessa forma, resumir simplificadamente os conceitos de Blockchain como:

um banco de dados digital (ou razão), que é

distribuído através de uma rede de computadores (ou seja, uma rede descentralizada

peer-to-peer)

contendo um número crescente de registros de dados que são

protegidos por criptografia poderosa; e, portanto,

quase totalmente protegido contra erros humanos, edição, adulteração, remoção e revi-

são.

  • 1.5 Classificações de Blockchains

Como visto, a Blockchain pode ser melhor descrita como uma plataforma ou banco de

dados digital para armazenamento seguro de informações e registro de transações. No entanto,

deve ser observado que não existe uma "cadeia de blocos" que seja única ou definitiva. Em

realidade pode haver uma quantidade infinita de cadeias de blocos e qualquer pessoa com as

habilidades de programação necessárias pode criar uma, pois Blockchain trata-se um conceito,

e não apenas o software específico utilizado pelo Bitcoin. Existem dúzias de modelos

competindo por espaço que apareceram ao longo dos últimos anos, tais como a cadeia do

Bitcoin, sendo os mais conhecidos Ethereum, Ripple, Corda e Hyperledger, que operam de

forma sutilmente diferente.

As Blockchains podem ser públicas ou privadas, de acordo com a determinação sobre

qual grupo de usuários que tem acesso às informações desse livro de blocos. Essas últimas

podem ser completamente privadas, ou abertas para usuários selecionados, o que chamamos de

Blockchains permissivas. Temos uma Blockchain pública, por exemplo, quando criada para ser

usada em negociações no mercado de ações; ou 'privada', exempli gratia, quando uma cadeia

de blocos é gerenciada por empresas imobiliárias que armazenam documentos de título de

propriedades.

Seja uma cadeia de blocos privada ou pública, também pode ser: (i) sem permissão, o

que permite que qualquer pessoa contribua com dados sendo que todos os participantes

29
29

possuem uma cópia idêntica do livro; ou (ii) autorizadas ou privadas ou permissivas, que

permitem apenas atores específicos (por exemplo, bancos, pessoas aprovadas etc.) enviar

transações ou validá-las em toda a rede. Este processo de submissão e validação é conseguido

por meio de uma camada de controle incorporada ao livro-razão.

Este é um ponto de disputa na indústria da nova tecnologia, com muitos indivíduos

argumentando que as cadeias de blocos privadas não são, de fato, Blockchain e que a própria

natureza das cadeias de blocos privadas infringe um dos propósitos das Blockchains - que seria

a eliminação da necessidade de um terceiro confiável para determinar a precisão das transações

e arbitrar em caso de disputa.

As cadeias de blocos públicas, como Ethereum e Bitcoin, são acessíveis por qualquer um.

Por exemplo, qualquer indivíduo pode acessar a Blockchain do Bitcoin e entrar em transações

usando a cadeia de bits Bitcoin. Além de ter acesso livre, todos os dados registrados em cadeias

de blocos públicos são de divulgação aberta ao público. Qualquer pessoa pode acessar a cadeia

de bits do Bitcoin e ver o fluxo contínuo de transações, o valor dessas transações e as partes nas

transações (embora essas sejam geralmente anonimizadas por meio de códigos). Para um

exemplo da natureza pública da cadeia de Bitcoin, você pode visitar https://blockchain.info/ e

ver as transações que ocorrem em tempo real.

A principal vantagem de uma cadeia de blocos pública é que ninguém, seja

individualmente ou empresa, controla a informação contida ou as regras que regem a cadeia de

blocos. Não é possível que o "proprietário" altere unilateralmente as regras da cadeia de blocos

em detrimento dos usuários, sendo que e as informações contidas no bloco são autenticadas por

meio de alguma forma de acordo entre os usuários.

Portanto, não é necessário que os usuários de uma cadeia de blocos públicos depositem

sua confiança em um terceiro para usar o sistema.

Em contraste com as Blockchains públicas, as cadeias de bloco privadas são aquelas

operadas por uma organização, ou consórcio de organizações, e que são acessíveis somente a

indivíduos ou organizações que receberam permissão para usar a cadeia de blocos pelo seu

operador. As cadeias de blocos privadas são basicamente bancos de dados privados que são

estruturados como um livro de contas distribuído. Um exemplo de uma cadeia de blocos privada

é a Corda 24 , um livro gerencial desenvolvido pela R3, um consórcio de grandes bancos.

Para algumas empresas, a natureza privada de uma cadeia de blocos é uma vantagem

importante, pois mantém a confidencialidade das informações relativas às transações feitas na

24 Disponível em: < https://www.corda.net>. Acesso em: 25 jun. 2018

30
30

mesma e impede a exibição de informações comercialmente sensíveis por qualquer pessoa com

acesso à internet. No entanto, muitos defensores da cadeia de blocos pública argumentam que

a natureza confidencial das cadeias de bloqueio privadas realmente diminui a segurança, pois

elas podem ser manipuladas sem que nenhum dos usuários das cadeias de bloqueio esteja ciente

das alterações devido à natureza confidencial das transações.

Outra vantagem emergente de Blockchains privadas é a velocidade de transação mais

rápida que eles oferecem, particularmente quando comparada à cadeia do Bitcoin. As cadeias

de blocos públicas tendem a ter velocidades de transação relativamente lentas devido à grande

quantidade de informações que precisam ser transferidas e processadas para que as transações

sejam validadas. Por exemplo, demora mais de 10 minutos para que o bloco de bits do Bitcoin

confirme as transações, enquanto que as cadeias de blocos privadas provavelmente terão tempo

de confirmação significativamente mais rápidos, já que menos dados devem ser processados e

transferidos para as transações a serem validadas.

Situações apropriadas de utilização da tecnologia Blockchain são aquelas que não

apresentam autoridade central, tais como organizações governamentais em múltiplos estados

ou países que desejam verificar documentos diversos como licenças de casamento ou

certificados de nascimento. Observa-se, no entanto, que as cadeias de blocos privadas tendem

a ser mantidas com mais regularidade e os participantes da rede limitada geralmente podem

pactuar diversos acordos em níveis de serviço sobre o código do software. Dessa forma, seriam

mais indicadas as Blockchains privadas para administrar sistemas complicados, como cadeias

de fornecimento corporativas, especialmente para empresas altamente regulamentadas, como

produtos farmacêuticos.

Nos próximos anos, é provável que as cadeias de blocos públicas e privadas continuem a

coexistir, com diferentes indústrias adotando diferentes abordagens, dependendo das

características das Blockchains que são mais importantes para cada um deles.

Parece provável que as instituições financeiras continuem a ser os principais promotores

das cadeias de blocos privadas, uma vez que a verificação rápida das transações, juntamente

com o potencial de manter a informação no bloco confidencial, é altamente atrativa para eles.

Além disso, as instituições financeiras têm músculos financeiros suficientes para investir

fortemente no desenvolvimento de cadeias de blocos privadas.

Em contraste, outras indústrias parecem mais propensas a confiar em cadeias de blocos

públicas, uma vez que isso não exigirá que eles façam investimentos financeiros significativos

e o menor tempo para verificar as transações seja menos importante fora do setor de serviços

financeiros.

31
31

Se existe a possibilidade da criação de diversos tipos de Blockchain, podendo ser esta

tecnologia a base fundamental de diversas inovações que interferirão diretamente na sociedade,

como veremos abaixo, deve ser pensada seriamente sobre a necessidade de algum tipo de

controle por parte dessa mesma sociedade. Logicamente que não se fala em controle repressor

ou limitador da criatividade humana, mas em garantidor de que os usos serão em benefício da

coletividade.

Relembremos a grande crise econômica de 2008, quando diversas fraudes foram

cometidas por grandes estabelecimentos bancários nos Estados Unidos da América. Imaginando

que já estivessem registrando suas atividades em Blockchain, estaríamos seguros com relação

à apuração de responsabilidades civis e criminais? Não, se não houvesse uma regulação prévia

da forma de utilização da tecnologia, pois as Blockchains do tipo privado podem ser livremente

alterados de acordo com sua programação inicial, sem deixar rastros de possíveis

irregularidades cometidas.

  • 1.6 Confidencialidade e anonimato

Muito se discute sobre confidencialidade e anonimato na Blockchain. Críticos alegam que

a tecnologia apresenta propriedades facilitadoras para o comércio de produtos ilegais, como no

caso da Silk Road 25 e atividades ligadas ao tráfico de drogas, terrorismo e lavagem de dinheiro.

Neste ponto, um conceito precisa ficar bem claro: não existe confidencialidade na tecnologia

Blockchain. Pelo contrário, esta é uma cadeia de registros totalmente pública e todas as

transações realizadas por ela estão disponíveis para qualquer cidadão com acesso à internet.

A confusão normalmente acontece por um motivo: a Blockchain não trabalha com pessoas,

trabalha com hashes de endereços públicos. Embora seja comum dizer que Helena transferiu

uma determinada quantia para Pedro utilizando alguma moeda digital, o que acontece na

verdade é que a chave privada de Helena assinou um registro de transferência de valor para a

chave pública de Pedro. No entanto, os nomes de Pedro e Helena nunca foram gravados na

Blockchain, apenas suas assinaturas e chaves públicas. Neste sentido, é correto dizer que a

Blockchain não exige identificação, mas não está correto dizer que ele prove confidencialidade.

A identificação do usuário que acessa a Blockchain é realizada por aplicativos terceiros

que adicionam as próprias regras de identificação ao protocolo da tecnologia, seguindo um

25 Disponível em: < https://pt.wi kipedia.org/wiki/Silk_Road>. Acesso em: 25 jun.2018

32
32

conjunto de regras conhecidos como KYC (Know Your Customer). O exemplo mais comum

são as carteiras e sites de câmbio e leilão de moedas digitais, que normalmente exigem uma

identificação completa do usuário, inclusive, muitas vezes, com exigência de foto. Mas essas

regras de identificação não fazem parte do protocolo do Blockchain, são regras particulares de

programas que utilizam a rede do Bitcoin.

Em resumo, a Blockchain provê um alto nível de transparência e rastreabilidade das

transações. É possível rastrear qualquer valor até a sua transação, por mais antiga que seja. A

possibilidade de operar a tecnologia sem a necessidade de identificação é bastante atraente para

operadores do comércio ilegal, mas de modo algum invalidam o uso da tecnologia de maneira

adequada, apenas apontam para a necessidade de modernização dos instrumentos legislativos.

  • 1.7 Dificuldades atuais da Blockchain

Um relevante desafio para este novo conjunto de tecnologias é a comunicação do seu

significado e de suas potencialidades para os formuladores de políticas e para o público.

A primeira dificuldade em comunicação é a forte associação da tecnologia da cadeia de

blocos com o Bitcoin 26 , pois esta criptomoeda criou relevantes suspeitas entre os cidadãos e os

formuladores de políticas governamentais devido à sua associação no passado recente com

transações criminais e sites de negociação localizados na dark web, como o extinto Silk Road.

A segunda dificuldade em divulgação é a surpreendente variedade de terminologias. Um

termo específico que pode causar confusão é "distribuído", o que pode levar ao equívoco de

que, como algo é distribuído, não existe autoridade de controle geral ou proprietário. Isso pode

ou não ser o caso, como vimos acima nas classificações de Blockchain. Na prática, existe um

amplo leque de modelos de Blockchain geradas, com diferentes graus de centralização e

diferentes tipos de controle de acesso, para atender às diferentes necessidades do negócio.

A mensagem principal é que, ao entender completamente a tecnologia, o governo e o setor

privado podem escolher o design que melhor se adequa a um propósito específico, equilibrando

a segurança e o controle central com a conveniência e a oportunidade de compartilhar dados

entre instituições e indivíduos.

Outro desafio da Blockchain é a sua imutabilidade e irrevogalidade. Uma vez realizada a

operação, todos os participantes são obrigados a cumprir suas obrigações. Inicialmente, isso

26 Um tipo de criptomoeda, assim classificada porque é a criptografia que sustenta a oferta e o rastreamento da moeda.

33
33

oferece um grande potencial para o setor financeiro, mas também pode causar problemas. O

sistema jurídico reconheceria a anulação de um contrato sem atribuição efeito retroativo?

Quando se trata do contrato inteligente, que será abaixo esclarecido, em uma Blockchain, não

está claro o efeito que isso possa ter.

Além disso, sob certas circunstâncias, as leis atuais permitem situações em que um

contrato seja anulável. Quando um contrato foi declarado anulável, com efeito retroativo,

essencialmente tudo precisa ser trazido de volta ao estado em que se encontrava antes do

contrato ter sido celebrado. É como se o contrato nunca existisse. Uma vez que os contratos

inteligentes são imutáveis e irrevogáveis, parece que isso não será mais uma possibilidade, a

menos que seja, de alguma forma, estipulado no contrato original e contabilizado na tecnologia.

Além disso, há a questão da insolvência e da falência. Nesses casos, os ativos da parte

envolvida são bloqueados pelo apego geral à falência, perdendo o poder de administrar e alienar

seus ativos. Se esta parte possuir acordos registrados em Blockchain, isso poderia interromper

os ainda pendentes de implementação?

Por último, mas talvez o mais importante, o direito financeiro está em constante mudança.

Novos regulamentos entram em vigor todos os dias, e o direito internacional está

constantemente sendo atualizado. No mundo imutável e irrevogável da Blockchain isso

provavelmente causará séria interrupção. Como o Blockchain irá acomodar mudanças

regulatórias importantes?

Tal como acontece com a maioria das novas tecnologias, a extensão total dos usos e

abusos futuros é apenas vagamente visível. E, no caso de cada nova tecnologia, a questão não

é se a tecnologia seria "em si mesma" uma coisa boa ou ruim. As perguntas que devem ser

formuladas são: qual a aplicação da tecnologia? Para qual propósito? Aplicado de que forma e

com quais salvaguardas?

As discussões sobre as aplicações práticas da Blockchain e suas tecnologias dependentes,

tais como os contratos inteligentes e a internet das coisas, que serão vistos abaixo, apontam

para a importância de uma regulamentação uniforme, a fim de evitar que cada país crie seus

próprios marcos regulatórios, o que seria prejudicial ao mercado. Em mundo globalizado, a

capacidade de criar regulamentações internacionais é importante para garantir a segurança

jurídica para indivíduos e instituições.

1.8 Usos práticos da Blockchain

34
34

A tecnologia de contabilidade distribuída ainda está em fase inicial de desenvolvimento,

apenas o primeiro passo, embora seja muito significativo, em direção a uma revolução

disruptiva na tecnologia do livro-razão, que poderia transformar a conduta das organizações do

setor público e privado.

Há muitos problemas não resolvidos que devem ser enfrentados antes que todo o potencial

desta tecnologia, e conexas, possa ser realizado, incluindo a resolução de problemas de

privacidade, segurança, desempenho e escalabilidade. Há também uma série extraordinária de

oportunidades no desenvolvimento de algoritmos que irão adicionar sofisticação aos livros

contabilísticos apoiando contratos "inteligentes” e outras aplicações. Isso aumentará e

diversificará o valor e o alcance dos usos dos livros contábeis. Este campo está se

desenvolvendo rapidamente e muitos desses problemas já estão sendo investigados e, em alguns

casos, resolvidos.

Por sua vez, algumas considerações práticas devem ser consideradas. Por exemplo, é

dispendioso, mais lento e menos eficiente para cada participante de uma determinada rede

manter uma cópia de todos os dados da transação o tempo todo. As empresas terão que

considerar cuidadosamente se a cadeia de blocos adicionará valor suficiente para superar esses

custos.

Em segundo lugar, uma cadeia de blocos também será tão boa quanto os dados que são

adicionados. Por exemplo, se uma transação não for postada, ou for registrada de forma

incorreta (seja involuntária ou maliciosamente), o valor dessa cadeia estará prejudicado ou

totalmente perdido. Os participantes, portanto, precisam considerar a forma como eles devem

interagir com a cadeia de blocos, e como eles permitirão que outros o façam.

No entanto, o desafio mais imediato reside na identificação das aplicações que realmente

se beneficiarão da Blockchain, nomeadamente onde a tecnologia existente (ou seja, um banco

de dados simples) já seria suficiente para as soluções ao caso. Apesar de estar em moda, a

Blockchain não será uma solução adequada para todos os problemas.

No entanto, à medida que o uso e a implementação da Blockchain se tornam mais

generalizados, as empresas terão de responder ao aumento da demanda dos clientes por métodos

de entrega de serviços mais eficientes e seguros e a cadeia de blocos distribuídos pode oferecer

soluções atraentes para esses problemas.

A comunidade empresarial aproveitou rapidamente as possibilidades. Os livros contábeis

35
35

distribuídos podem fornecer novas maneiras de garantir a propriedade e a proveniência de bens

e propriedade intelectual. Por exemplo, a Everledger 27 fornece um livro-razão distribuído que

garante a identidade de diamantes, que é extraído, cortado para ser vendido e segurado. Em um

mercado com um nível relativamente alto de falsificação de certificados de autenticidade em

papel, torna a rastreabilidade mais eficiente e tem potencial para reduzir a fraude e evitar que

os "diamantes de sangue" entre no mercado.

Em 30 de julho de 2015, por volta das 11:45h da manhã, a plataforma Blockchain

Ethereum, após 18 meses de construção, foi lançada. Para um grupo global de programadores,

investidores, empresários e estrategistas corporativos "o Ethereum é o próximo grande

acontecimento, não apenas para os negócios mas possivelmente para a civilização" 28 .

A gigante de tecnologia IBM está pronta para desvendar o que está denominando a

primeira "aplicação comercial" da base de código open-source do Hyperledger 29 .

Vejamos a seguir algumas ideias sobre possíveis aplicações de uso da Blockchain, além

de exemplos já com adiantada fase de implementação no mundo real.

  • 1.8.1 Contratos inteligentes

Possivelmente os smart contracts, ou contratos inteligentes, representem a principal

inovação da tecnologia Blockchain com grandes potenciais futuros, que ainda está em fase

inicial de desenvolvimento. O termo "contrato inteligente" é enganador, uma vez que não são

inteligentes e nem contratos. Não há uma definição universalmente estabelecida e aceita de um

contrato inteligente, mas, em essência, são instruções codificadas que se auto-realizam quando

determinados critérios são atendidos.

Um contrato inteligente é um código de computador capaz de celebrar, monitorar e

executar um acordo legal, sendo armazenado, replicado e implementado em plataforma

Blockchain, assim como seus respectivos resultados. Os contratos inteligentes são algo

semelhantes aos contratos regulares na medida em que designam um conjunto de regras e

resultados para as partes contratantes. Ao contrário dos contratos do mundo real, eles são

27 Disponível em: < https://www.everledger.io>. Acesso em: 28 jun.2018 28 TAPSCOTT, Don. Blockchain Revolution: como a tecnologia por trás do Bitcoin está mudando o dinheiro, os negócios e o mundo. São Paulo: SENAI-SP Editora, 2016. p. 124. 29 Hyperledger Fabric é o sistema operacional para a IBM Blockchain, construída em um ambiente para desenvolver, administrar e operar produções em Blockchain com permissão. Disponível em: < https://www.coindesk.com/ibm-goes-live-first-commercial-blockchains>. Acesso em: 14 jun. 2018.

36
36

capazes de auto executar os resultados previstos quando determinadas condições prévias são

atendidas.

Um contrato inteligente é um programa feito para facilitar, verificar, reforçar a

negociação, avaliar o desempenho e automatizar a execução de um contrato sem a necessidade

da intervenção humana. São elaborados como um código em linguagem de programação

executados pelo sistema, mas escritos em linguagem jurídica e devem envolver duas ou mais

partes.

Nos contratos inteligentes, são definidas regras e consequências da mesma maneira do

que um documento legal faria, declarando as obrigações, os benefícios e as penalidades que

podem ocorrer para cada uma das partes envolvidas. O contrato inteligente é capaz de obter

informações, processá-las de acordo com as regras configuradas e, como resultado, tomar as

devidas ações previstas nele sem necessidade de intermediários. Existe a garantia da

imutabilidade, ou mudanças não autorizadas por alguma das partes envolvidas, graças aos

certificados digitais aplicados no registro do contrato e nos dados que ele executa.

Os contratos inteligentes são executados de maneira distribuída, com cada participante

possuindo uma cópia do acordo, mas com garantia da privacidade parcial ou total graças à

criptografia. Poderão diminuir custos de serviços de advogados, cartórios, licenciamento de

softwares, hardware etc. Também irá diminuir risco, tempo e o desgaste no relacionamento

entre participantes pois a plataforma de execução do contrato gerencia os dados pertinentes de

forma transparente, segura e eficiente. Se os dados dos participantes estiverem armazenados

em diferentes fontes (ex: o perfil do atleta pode estar armazenado em um sistema de base de

dados), a plataforma tem a capacidade de se conectar de maneira transparente e tratar essa

informação sem a necessidade de mudar nada no sistema. A atualização do sistema fonte é

realizada de maneira automatizada, por meio dos oráculos.

Todos os contratos inteligentes mais complexos requerem que a Blockchain seja

“alimentada” com informações externas, tais como: apostas, contratos financeiros, informações

da bolsa de valores, notícias, e até dados de outras Blockchains. Ocorre que os smart contracts

não são capazes, por si só, de interagir com dados externos ao Blockchain, pois o mecanismo

de consenso e segurança da Blockchain é assim definido. Dessa forma, devido aos aspectos

técnicos, todo contrato inteligente irá precisar recorrer a um middleware 30 para resolver esse

30 Middleware é o software que se encontra entre o sistema operacional e os aplicativos nele executados. Funcionando de forma essencial como uma camada oculta de tradução, o middleware permite a comunicação e o renciamento de dados para aplicativos distribuídos. Disponível em: <https://azure.microsoft.com/pt- br/overview/what-is-middleware/>Acesso em: 28 jun. 2018.

problema. Esse middleware é chamado de oráculo 31 .

37
37

O termo "contrato inteligente" foi formulado pela primeira vez pelo estudioso jurídico

Nick Szabo 32 em 1997, usando a analogia de uma máquina de venda automática. Pense sobre a

experiência do dispositivo: a máquina exibe suas bebidas (oferta), você coloca seu dinheiro

(aceitação) e troca seu dinheiro por uma bebida (conclusão). Uma vez que o item é selecionado,

o resultado não pode ser interrompido, a bebida não pode ser retornada e todo o processo é

automatizado sem intervenção de qualquer intermediário. Estes são essencialmente os

elementos de um contrato inteligente.

Para usar um exemplo básico, imagine um contrato de locação residencial escrito em

código para que os reembolsos de aluguel sejam automaticamente deduzidos da conta bancária

de um inquilino a cada mês. Você pode ver imediatamente o valor que esse arranjo oferece ao

longo de um contrato regular, pois ao automatizar o resultado, o locador não precisa mais

esperar pela ação do inquilino para efetuar reembolsos no prazo, e não necessita se preocupar

com o caminho do recurso caso esse não pague.

O desempenho automatizado é o cerne de um contrato inteligente e é conduzido pela

tecnologia Blockchain. As cláusulas contratuais e os resultados funcionais são mapeados como

códigos na cadeia de blocos. Ao implementar a execução do contrato automatizado, os custos

de transação e as dependências do desempenho da outra parte podem ser reduzidos. Uma

característica importante dos contratos inteligentes é que a tecnologia Blockchain impede a

alteração retroativa: portanto, os contratos inteligentes são não modificáveis e são finais. Isso

também implica que uma transação automática não pode ser revertida. Isso pode ser um desafio

quando um contrato ou uma ação realizada no âmbito do contrato subjacente precisa ser

declarado nulo. 33

A tecnologia Blockchain possibilita a verificação da execução adequada de um contrato

por parte de todos os participantes. A rede analisa constantemente a cadeia de blocos para

registrar a execução do contrato e, posteriormente, monitora a rede para o cumprimento dos

termos codificados do contrato inteligente.

Legalmente, as primeiras análises jurídicas dos contratos inteligentes o reduziram a um

33

Disponível

em:

&

38
38

único código, declarando efetivamente o código como a própria lei: autônomo, auto-executado

e auto-executado. Qualquer erro ou vulnerabilidade acidental do código teria que ser

considerado igualmente como parte do contrato. No entanto, uma interpretação de uma

"abordagem em duas camadas" é mais razoável, pois posiciona o contrato inteligente dentro do

sistema jurídico mais amplo: a camada técnica, o código, está delimitado por uma seção da

camada legal, o contrato. No entanto, ambas as camadas devem ser coordenadas e combinadas

para serem eficientes e juridicamente vinculativas, o que é o papel dos advogados quando se

trata de contratos inteligentes.

Formas estabelecidas e já praticadas de contratos automatizados de um contrato

subjacente (como pagamentos bancários automáticos, ordens permanentes, compra de música

on-line e download após confirmação de pagamento) diferem nos seguintes aspectos de

contratos inteligentes:

  • 1. Há terceiros envolvidos que mantêm o controle sobre a respectiva transação. Um banco

pode interferir no processo e subtrair ou adicionar dinheiro a qualquer conta, a qualquer mo-

mento. Em vez disso, contratos inteligentes não são administrados ou controlados por terceiros.

  • 2. O programa de computador é executado periodicamente no computador (servidor) de

terceiros, assegurando, por exemplo, o controle interno do banco, em vez de buscar validação

externa (o que pode ser feito através do uso da tecnologia Blockchain sem a necessidade de um

intermediário).

  • 3. As formas tradicionais de transação automatizada carecem de flexibilidade técnica: só

é possível usar as condições e os atributos fornecidos pelo desenvolvedor da respectiva aplica-

ção de automação. Por exemplo, as transações automáticas tradicionais dificilmente podem ser

ativadas, por exemplo, em condições climáticas específicas, a menos que o desenvolvedor tenha

implementado essa opção. Em contraste, um contrato inteligente permite esse gatilho mesmo

se o desenvolvedor não forneceu explicitamente essa condição ao criar o código.

  • 4. Com as execuções de contratos tradicionais automáticos, o código é exclusivamente

criado pelo terceiro responsável pela operação. Quando se trata de contratos inteligentes, o uso

da tecnologia Blockchain implica que todos os participantes estejam executando o mesmo có-

digo, sendo esse armazenado com todos os participantes (ou mesmo publicamente disponíveis).

Assim, os contratos inteligentes criam confiança usando a natureza descentralizada, aberta e

criptográfica da tecnologia Blockchain que permite que as pessoas confiem entre si e transaci-

onem peer-to-peer, tornando obsoleta a necessidade de terceiros intermediários.

A Blockchain - como um banco de dados público armazenado em todos os participantes

da rede, simultaneamente - captura e monitora todas as execuções automáticas de contratos na

ordem histórica exata.

39
39

Já existem várias plataformas que oferecem um ambiente para a execução de contratos

inteligentes. O mais proeminente (no entanto, também o mais rudimentar) é a cadeia do Bitcoin

que oferece uma capacidade limitada de implementar um código mais complexo: a cadeia de

blocos de Bitcoin pode ser usada para garantir que todas as partes contratantes relevantes

tenham assinado (eletronicamente) uma transação antes que o pagamento seja realizado. O NXT

Blockchain 34 já oferece uma seleção de contratos inteligentes (simples), mas não é possível ir

além desses modelos. Uma plataforma promissora para aplicações de contratos inteligentes é a

cadeia de blocos Ethereum 35 , permitindo que as partes implementem qualquer lógica em um

contrato inteligente.

1.8.1.1 Aplicações de uso dos contratos inteligentes

Os contratos inteligentes são perfeitamente adequados para acordos entre duas partes sem

a exigência de validação por terceiros, como por exemplo, negociação sobre o contador ou a

execução de contratos quando o evento desencadeante pode ser medido digitalmente (por

exemplo, pagamentos digitais, mudanças nos registros públicos, informações meteorológicas

como publicado por uma fonte oficial).

Outro campo para a aplicação de contratos inteligentes cabe aos agentes de custódia que

confirmam digitalmente que uma certa condição no mundo real foi desencadeada (e, portanto,

servindo como um evento necessário para uma ação automatizada, por exemplo, um

pagamento). Contratos inteligentes também podem prever uma nova abordagem nos registros

públicos (por exemplo, registro de terra, registro de população ou registro de votação), depois

armazenados de forma pública e segura na cadeia de blocos. As companhias aéreas poderiam

implementar um sistema de liquidação para os passageiros das companhias aéreas em relação

aos seus direitos, pagando compensação automaticamente após atrasos, reduzindo assim o custo

de pessoal. Outras aplicações poderiam, para a execução de certas tarefas de conformidade,

envolver a formação de organizações autônomas descentralizadas, ou seja, organizações cujos

estatutos são um pacote de contratos inteligentes, permitindo assim que um conjunto de regras

de governança seja executado e executado automaticamente através da tecnologia de cadeia de

blocos subjacente.

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40

Com um contrato inteligente existe apenas um conjunto de termos comerciais, pré-

definido como código e auto-executado no evento desencadeante (por exemplo, pagamento a

ser feito), reduzindo os mal-entendidos nos termos e pendências do contrato sobre o

desempenho da outra parte. Mas os contratos inteligentes também têm uma desvantagem: a

redação de termos com ambiguidade deliberada não é possível. Assim, cláusulas que envolvem

termos como "boa fé", "empreendendo os melhores esforços" ou "na medida do possível" não

podem ser implementadas como código e, portanto, não podem ser parte de um contrato

inteligente.

Podemos imaginar, exempli gratia, atualmente tipos de contratos inteligentes que

realizem as seguintes funções:

–Transferência: Garante que a transferência de um bem seja de maneira transparente,

aditável e segura. Todas as ações determinadas neste contrato serão realizadas de maneira

automatizada, da aplicação das regras até a execução das transações financeiras.

– Prevenção de violação: Impede um cidadão de quebrar o contrato por agir de uma forma

não autorizada. Exemplo: licenças de direitos autorais, que proíbem pessoas de copiar músicas

ou vídeos protegidos.

– Lei da propriedade: Técnicas de criptografia são utilizadas para garantir que apenas o

dono da propriedade (item ou bem material) possa consumi-lo.

– Leilão: Os contratos podem realizar leilões de forma automatizada, os quais verificam

automaticamente a maior aposta dentro de determinado período de tempo, reembolsam os

participantes, realizam loterias descentralizadas, entre outros.

– Aplicação de crédito: Podem ser utilizados também para a conformidade de crédito, tal

que o produto seja desabilitado caso o pagamento não seja feito.

– Contratos de oráculo 36 37 : Executados por entidades estranhas às partes interessadas

para que a verdade prevaleça. Contratos oráculo são contratos mediadores. Exemplo: apostas

de eventos esportivos, ao difundir os resultados de um canal de notícias esportivo.

Todos estes tipos de contratos podem ser combinados e implementados para trabalharem

de maneira uníssona e automatizada.

36 CARDOSO, Bruno. Contratos inteligentes: descubra o que são e como funcionam. Disponível em: < http://brunocardosoadv.com/contratos-inteligentes/#t6>. Acesso em: 14 jun. 2018. 37 As Blockchains não possuem acesso direto a informação de fora da cadeia de blocos, não existindo uma forma direta para validar as condições em que contratos inteligentes se baseiam. Um oráculo funciona, assim, como tradutor da informação fornecida por uma plataforma externa – como uma ponte entre o mundo real e a Blockchain, fornecendo dados para contratos inteligentes. Disponível em: <https://pt-br.insider.pro/tutorials/2017-12-06/o- que-sao-e-como-funcionam-os-oraculos-de-blockchain/ >. Acesso em: 14 jun. 2018.

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1.8.1.2 Aspectos acerca da legalidade dos contratos inteligentes

Os contratos inteligentes e suas várias aplicações terão implicações de longo alcance em

vários campos legais, como o direito dos contratos (especialmente em termos gerais, proteção

ao consumidor e lidar com contratos vazios), gerenciamento de licenças, responsabilidade por

danos resultantes de código incorreto ou incompleto, bem como como legislação societária (em

particular, organizações descentralizadas autônomas e construções similares), preocupações

regulamentares e questões de privacidade de dados.

Lidar com contratos nulos ou anuláveis pode representar um desafio, uma vez que

qualquer contrato inteligente, uma vez executado, não pode ser revertido legalmente. As partes

poderiam concordar sobre novas transações que revertam o resultado daquelas consideradas

irregulares ou não executadas, no entanto, a transação que foi desconsiderada seria mantida na

cadeia de blocos do contrato inteligente.

A questão mais pertinente para os advogados será alinhar o aspecto ou “camada” legal

(ou seja, o acordo das partes envolvidas) com as questões, ou “camadas” técnicas (ou seja, o

código do computador, quebrando certas partes do contrato como demonstrações lógicas if-

then). Se essas duas partes não estiverem alinhadas adequadamente, um contrato inteligente

pode gerar mais problemas legais do que atingir o objetivo desejado para o final do acordo.

Mas como podemos garantir que os contratos inteligentes em Blockchain cumpram com

todos os requisitos básicos de um contrato de papel? Conforme estabelece o nosso Código

Civil 38 , para que um contrato seja considerado válido devemos verificar se existem: agente

capaz, objeto lícito, possível, determinado ou determinável e forma prevista ou não vedada

em lei. É por isso que todas as cláusulas de um acordo contratual devem ser claras, e as partes

devem compreender todos os termos antes de concordar com eles. Ainda não está definido se

os contratos inteligentes na Blockchain atenderão a esses requisitos. É por isso que são

necessárias mais pesquisas e diretrizes claras.

Os contratos inteligentes provavelmente conterão menos texto do que um contrato

tradicional. Os termos legais precisarão ser "traduzidos" em linguagem de programação, o que

pode ser bastante complicado, gerando muitas possibilidades de erros. Por exemplo: contratos

tradicionais geralmente contém termos como "interpretação razoável" e "melhores

empreendimentos". Como os contratos inteligentes não permitirão transações até que as

38 Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002.

42
42

condições sejam atendidas, como traduzir termos como estes em itens executáveis que suportem

todas as situações possíveis?

No que diz respeito à criação de um contrato por consenso, surgem outros desafios. As

partes em um contrato inteligente podem estar localizadas em diferentes lugares do mundo,

possuindo variados níveis de compreensão sobre a transação que está ocorrendo. Por

conseguinte, será difícil verificar se cada parte envolvida entende e concorda claramente com

todas as condições. Especialmente porque eles serão escritos na linguagem de programação de

um smart contract. Para abordar isso, será necessária uma "tradução digital" da linguagem de

programação e, portanto, uma oportunidade para uma clara expressão do consenso, para que o

contrato seja válido.

Contratos inteligentes também precisam de humanos inteligentes. É fácil imaginar um

futuro em que as pessoas utilizem todos os dias contratos inteligentes para automatizar os

aspectos simples de algumas transações. No entanto, existem alguns elementos-chave da

maioria dos acordos contratuais, que não podem (ainda!) ser escritos, traduzidos em código.

Considere, por exemplo, o elemento da negociação de boa-fé. A interseção entre contratos

inteligentes e humanos é instigante, havendo um espaço onde os advogados serão capazes de

aumentar a eficiência e agregar valor.

Deixando de lado os aspectos puramente teóricos e caminhando para as possíveis

aplicações no mundo real, o estado norte-americano do Arizona prepara o caminho para

contratos inteligentes 39 . O governador do estado sancionou recentemente a Lei House Bill

2417 40 , que rege a possibilidade dos contratos inteligentes com tecnologia de Blockchain no

comércio. O estatuto apresenta definições sobre a tecnologia Blockchain e os contratos

inteligentes, sendo este definido como "um programa dirigido por eventos, com estado, que é

executado em um livro-razão distribuído, descentralizado, compartilhado e replicado e que

pode custodiar e instruir a transferência de ativos daquele livro de contas".

O estatuto prevê que a uma transação não pode ser negada efeito legal, validade ou

aplicabilidade apenas porque contém um termo de contrato inteligente. O estatuto também

fornece esclarecimentos adicionais em relação à propriedade das informações armazenadas em

uma rede de cadeias de blocos distribuídos.

A lei do Arizona é uma das primeiras de seu tipo nos Estados Unidos e pode fornecer um

roteiro para outros estados que buscam regulamentar o uso de contratos inteligentes. A

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segurança jurídica em relação à exigibilidade de contratos inteligentes já pode ser considerada

relevante pois muitas das tecnologias em desenvolvimento serão utilizadas em veículos

elétricos e as transações provavelmente dependerão fortemente da funcionalidade dos contratos

inteligentes.

1.8.2 - Internet das coisas

Como uma real implementação industrial, começou-se a falar sobre a internet das coisas

a partir de 1999. Olhando em perspectiva, é incrível o quão limitadas eram as expectativas até

então. A maioria das pessoas na época pensava que os computadores pudessem reunir

informações sobre o mundo ao seu redor sem que fosse necessária a inserção dos dados. Apenas

alguns viram seu potencial mais amplo.

Desde então, com a avalanche de evolução tecnologia ditando parâmetros para a quarta

revolução industrial 41 , começamos a aproveitar a capacidade de derivar dados de mais fontes

do que poderíamos imaginar anteriormente, e estamos combinando esses conjuntos de dados

para fornecer informações comerciais que estão revolucionando a tomada de decisões em

muitos setores.

A Internet das Coisas (IoT, da sigla em inglês internet of things) veio para ficar. A atual

realidade tecnológica permite e estimula a criação de uma rede de objetos físicos interligados

por um sistema altamente inteligente, no qual um dispositivo dialoga com outro em uma grande

cadeia sistêmica e produtiva. Este ecossistema de informações, cuja base é a internet,

proporciona um universo de possibilidades práticas, tanto do ponto de vista pessoal dos

cidadãos como no mundo dos negócios.

Mas a aplicação do conceito ainda enfrenta alguns receios por parte de gestores,

principalmente no que envolve aspectos de segurança. Uma empresa altamente inteligente, cuja

estrutura seja interligada harmonicamente, é uma ideia extremamente positiva e em

conformidade com as tendências do futuro. Mas basta um hacker invadir este sistema para ter

acesso, de uma só vez, a todos os dados e ao funcionamento de uma grande e complexa

organização.

Felizmente, surgiu recentemente uma ferramenta de proteção que, até o momento, é

considerada praticamente impossível de ser violada, a Blockchain. Isso ocorre porque, para

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corromper um sistema computacional comum, é necessário invadir um ou mais servidores na

qual ele está hospedado, mas, para violar a Blockchain, seria preciso invadir, individualmente,

milhares de nós entrelaçados e criptografados ao redor do planeta, em um prazo de poucos

minutos. Esta dificuldade trouxe a este sistema um grau de invulnerabilidade sem precedentes

no que se refere à segurança digital.

Podemos ainda não termos percebido, mas a internet já é das COISAS, um contingente

enorme de dispositivos usa a rede mundial de computadores e sua infraestrutura para se

comunicar, interagir e operar suas funções. Não estamos mais falando apenas de sensores e

medidores, mas também carros, eletrodomésticos, sistemas de vigilância, maquinários e robôs

que engrossam as fileiras e, por uma questão óbvia, tornar-se-ão maioria na grande rede. Serão

bilhões de dispositivos conectados a ela, brevemente.

Multiplicar dispositivos conectados à rede traz também um desafio enorme para a

segurança dos dados e principalmente a complexidade para uniformizar o tratamento dos

dispositivos e como se conectam com as regras de negócio. É aí que a Blockchain entra.

Redes permissionadas de Blockchain permitem o registro seguro dos dispositivos no

livro-razão (ledger) distribuído entre vários participantes (Peers) evitando pontos de falha e

barateando a infraestrutura necessária para operar redes de IoT. Uma vez cadastrados e gerando

informações, os dispositivos são regidos pelos contratos inteligentes (smart contracts) vigentes

na rede de Blockchain, permitindo que ações e interações possam ser feitas automaticamente

de acordo com uma condição detectada ou percebida pelo ambiente de IoT (logs, sensores,

dados vindos de máquinas e dispositivos).

Um caso de uso já amplamente discutido e com várias frentes de desenvolvimento são

redes de Blockchain para carros autônomos. Num futuro próximo quem possuir um carro

autônomo poderá cadastrá-lo em redes de transportes em Blockchain e o veículo poderá fazer

o serviço de passageiros no modelo que conhecemos hoje, mas sem os intermediários

conhecidos hoje, Uber e Cabify. O carro seguiria as regras disponíveis na rede, podendo

inclusive receber o pagamento, fechando e validando a corrida, interagindo corretamente com

os usuários do serviço. Com relação à gestão, seria possível acompanhar a performance e

informações do veículo ou incluindo o mesmo em novos contratos como eventos de

sazonalidade, promoções e afins.

Atualmente já existem empresas, como a Filament 42 , criadas para disponibilizar

tecnologias online de compartilhamento criptografado de dados para IoT. São ferramentas

42 FILAMENT. Disponível em: < https://filament.com/>. Acesso em: 17 jun.2018

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voltadas para o gerenciamento em grande escala do ecossistema, ideal para corporações de

grande porte que querem se engajar na alta conectividade. Com a sua adoção, é possível tornar

cada setor de um negócio interligado inteligentemente por meio da tecnologia, sem precisar de

grandes investimentos em segurança, escalabilidade ou camadas da rede.

As possibilidades de compartilhamento inteligente de informações entre dispositivos são

infinitas e estão no início da proporção que podem alcançar nos próximos anos.

1.8.3 - Créditos de carbono

A IBM e a empresa de tecnologia chinesa Energy-Blockchain Labs têm planos de usar a

tecnologia Blockchain para limpar o meio ambiente. As empresas recentemente se associaram

para desenvolver um programa de gerenciamento de ativos verdes baseado em cadeia de blocos

distribuídos, que será lançado em conexão com a abertura do mercado nacional de carbono

unificado da China. A empresa chinesa anunciou o que descreveu como sendo a "primeira

plataforma do mundo baseada em Blockchain de negociação de ativos verdes" 43 , construído no

código aberto Fabric com Hyperledger e implantado usando o IBM Blockchain 44 .

Dessa forma, a troca de créditos de carbono com base em Blockchain é projetada para

tornar mais fácil a comercialização de créditos para as empresas que geram poluição na China.

A expectativa é que a tecnologia Blockchain, executada por meio de contratos inteligentes,

ajudará a resolver alguns dos problemas logísticos enfrentados pelo mercado de carbono da

China, particularmente no que diz respeito ao desenvolvimento e gerenciamento de ativos de

carbono.

A natureza imutável do livro-razão distribuído contribuirá para aumentar a transparência

e a credibilidade do mercado. Esse livro também poderia reduzir a conformidade e os custos

relacionados à regulamentação, uma vez que pode ser projetado para fornecer aos reguladores

um meio eficiente de auditoria de partes interessadas. Caso seja bem-sucedida esta aplicação

de tecnologia Blockchain, poderia se tornar um modelo a ser implantado em outros países e

mercados que buscam maneiras de monitorar e controlar as emissões de carbono para atingir

metas climáticas específicas.

2018.

  • 1.8.4 Comércio de petróleo bruto

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A IBM associou-se recentemente ao grupo de negociação de commodities Trafigura e ao

banco de investimento corporativo Natixis para entregar a primeira plataforma de negociação

de finanças de petróleo bruto de tecnologia da cadeia de blocos. Construído com o código do

projeto Hyperledger da Linux Foundation, a plataforma vai permitir que os comerciantes de

petróleo bruto e seus respectivos bancos compartilhem os dados de transações em tempo

recorde, incluindo documentos comerciais, atualizações de envio e de entrega e pagamento

confirmações, em um único livro, descentralizado 45 .

O livro-razão compartilhado será "autorizado", o que significa que apenas partes pré-

aprovadas em uma transação poderão acessar e gravar dados na rede de cadeias de blocos,

garantindo que informações comerciais confidenciais não serão compartilhadas além das partes

para qualquer transação específica.

Atualmente, as transações de financiamento de petróleo bruto envolvem documentação

extensa em papel. O objetivo é substituir os processos manuais de papel pesados existentes por

fluxos de trabalho otimizados de cadeia de blocos que irão melhorar a transparência,

compartilhamento de dados e eficiência, removendo a necessidade de cada parte de manter e

atualizar seus respectivos documentos e registros de transações.

  • 1.8.5 Combate ao aquecimento global

Especialistas das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas começaram a explorar a

tecnologia Blockchain como um meio de enfrentar alguns dos desafios associados às mudanças

climáticas 46 . A Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, na sigla

em inglês) identificou várias aplicações potenciais da tecnologia para apoiar a ação climática,

incluindo: (i) melhorar o comércio de emissões de carbono através do rastreamento de

transações de ativos de carbono; (ii) o desenvolvimento de plataformas peer-to-peer ou

crowdfunding baseadas em cadeias de blocos para promover o aumento do investimento em

45 IBM lança plataforma Blockchain para o comércio de petróleo. Disponível em: <https://guiadobitcoin.com.br/ ibm-lanca-plataforma-blockchain-para-o-comercio-de-petroleo/>. Acesso em: 17 jun. 2018. 46 NAÇÕES Unidas quer utilizar a tecnologia para transmitir informações sobre a emissão de gases de efeito estufa em tempo real. Disponível em: <https://ipnews.com.br/onu-quer-usar-blockchain-para-compartilhar- informacoes-em-acoes-climaticas/>. Acesso em: 17 jun. 2018.

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apoio à ação climática; (iii) usando tecnologia Blockchain para fornecer maior transparência

em relação às emissões de gás causadores de efeito estufa e facilitar o rastreamento e denunciar

reduções de emissões; e (iv) facilitar a comercialização de energia limpa através do

desenvolvimento de redes comerciais com cadeias de blocos.

Algumas das aplicações discutidas pela UNFCC já estão sendo desenvolvidas e testadas

através de programas-piloto. Por exemplo, a empresa de tecnologia chinesa Energy Blockchain

em conexão com o mercado nacional de carbono da China e uma plataforma de crowdfunding

de cadeia de blocos já está sendo usada para promover o investimento em recursos de energia

A discussão da UNFCC reflete o crescente reconhecimento do potencial da tecnologia

Blockchain para facilitar iniciativas globais de energia e meio ambiente.

  • 1.8.6 Segurança cibernética na indústria energética

A tecnologia Blockchain pode servir como um inibidor para ameaças de segurança

cibernética no setor de energia. Historicamente, a indústria energética experimentou mais

ataques cibernéticos do que todas as outras áreas estratégicas. Isso ocorre, em parte, devido ao

uso do mercado de software desatualizado e sistemas de controle centralizados, que são

vulneráveis a ataques direcionados 47 .

Estudiosos consideram que a tecnologia Blockchain não só pode eliminar a "injeção de

código" e outros ataques de malware, mas também fornecer sistemas informáticos

descentralizados e invioláveis para implantação de infra-estrutura de energia crítica, incluindo

usinas de energia e refinarias de petróleo.

Apesar de a tecnologia Blockchain não ser capaz de resolver todas as ameaças à segurança

cibernética, a capacidade de uma rede de cadeias de blocos tornar os ataques cibernéticos mais

difíceis é um benefício adicional para o uso da tecnologia e deve ser uma novidade bem-vinda

às empresas que consideram as aplicações de tecnologia Blockchain no espaço de energia.

  • 1.8.7 Energia solar para a África

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À medida que a África trabalha para garantir um maior acesso da população à eletricidade,

a tecnologia Blockchain está emergindo como meio de facilitar o investimento em energia. Com

base na África do Sul, a plataforma de crowdfunding Sun Exchange usa uma rede de cadeia de

blocos para garantir financiamento para projetos solares 48 .

A plataforma permite que interessados de todo o mundo invistam nos projetos adquirindo

partes da instalação solar através de micro-transações com Bitcoin. Os interesses de aquisição

nos projetos são registrados em um livro criado e controlado por cadeias de blocos, e os

investidores pagam automaticamente pela sua participação na receita do projeto (em Bitcoin)

assim que um projeto é colocado em serviço.

A tecnologia Blockchain apresenta diversas oportunidades para promover o investimento

por meio de micro-transações ponto a ponto, particularmente em mercados emergentes ou em

desenvolvimento.

  • 1.8.8 Educação

A empresa japonesa Sony desenvolveu uma nova plataforma educacional em parceria

com a IBM que usa tecnologia Blockchain para proteger e compartilhar registros dos alunos 49 .

Executado por meio de sua subsidiária Sony Global Education 50 , trata-se de uma plataforma

que permitirá aos educadores trocar informações sobre o progresso do aluno e realizações.

Olhando para o futuro, a Sony disse que pretende desenvolver serviços educacionais

adicionais, com a plataforma Blockchain funcionando como uma camada de compartilhamento

de dados.

Qualquer instituição pode digitalizar certificados ou documentos relacionados a

certificações quaisquer e registrar seus identificadores únicos (espécie de número de série) de

cada um deles na Blockchain. Essa prática torna muito fáceis o combate a fraudes e a validação

da autenticidade dos diplomas por parte de reguladores, empregadores ou outras partes

interessadas. Considerando tratar-se de uma abordagem digital para a criação e o controle de

Acesso em: 12/02/2018. 49 SONY and IBM Team to Secure Education Data with Blockchain. Disponível em: