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DICIONÁRIO DE CIENCIAS SOCIAIS

o Dicionário de clencias SOCiaiS, em preparo no Instituto de Documentação


da Fundação Getulio Vargas, deverá ser enviado ao prelo em 1982. Trata·se
de obra composta de verbetes selecionados e traduzidos de A diclionary of lhe
social sciences e do Diccionario de ciencias sociales, o primeiro (um volume)
publicado simultaneamente em Londres e Nova Iorque em 1965 e o segundo
(dois volumes) publicado em Madri, em 1975 e 1976, ambos sob os auspícios
da Unesco. Além dos contingentes estrangeiros, o Dicionário de ciências sociais
inclui 260 verbetes originais de cerca de 60 autores brasileiros. Ao todo, o
Dicionário de ciências sociais conterá mais de 1.500 verbetes, sendo o único
no gênero no mundo de fala portuguesa.
A titulo de amostra, em benefício dos futuros usuários, publicamos no presente
número os verbetes Serviço civil e Teoria da organização, integrantes do Dicio-
nário de ciências sociais. assim como publicaremos outros verbetes afins em
nossos próximos números. O verbete Serviço público (Serviço civil) é de autoria
de S. E. Finer, cientista social inglês; a nota complementar é de autoria de
Belmiro Siqueira, professor na Escola Brasileira de Administração Pública da
Fundação Getulio Vargas. O verbete Teoria da organização é de autoria de
José A. Garmendia, da Comissão Editorial do Diccionario de ciencias sociales,
acima indicado.

Serl'iço público (sen-jço civil) (civil service) popularidade. e daí em diante passou a ser
usada como a expressão oficial.
A. A expressão serviço civil designa geral-
mente o corpo de funcionários do governo B. 3 ~os ELA a expressão apareceu pela
central de status permanente e apolitico, que primeira vez cerca de 1863. importada da
não pertencem ao Judiciário nem às Forças Inglaterra. Foi reconhecida oficialmente em
Armadas. 1871 no Estatuto daquele ano que concedia
permissão ao presidente para "regulamentar
B. 1 A expressão foi inicialmente aplicada à a admissão de pessoas no serviço civil dos
parte administrativa da Companhia das In- EUA ". A razão do empréstimo dessa expres-
dias Orientais, desempenhada por funcioná são da I nglaterra é que o movimento de re-
rios contratados que não pertenciam às For- forma que culminou na criação da Comissão
(,.c!- Armadas. do Serviço Civil dos EUA em 1883 foi ca-
meçado por T. A. Jenckes (membro da Câ·
B. 2 Na Inglaterra a expressão apareceu com mara dos Representantes, 1863-71) e por C.
o significado estabelecido em Acts, cerca de Schurz, que se inspiraram na Inglaterra e
1853. Sir Rohert Peel escrevia por volta de que se correspondiam com os reformadores
1841-42 sobre "emprego no serviço civil dLl :ngleses, como Trevelyan, por exemplo.
país" e sobre "os funcionários civis da Ca-
roa". querendo assim distinguir entre esses e C. 1 a) ~a Grã-Bretanha a definiçãa-padrão
os funcionários "políticos" e "ministeriais" é a do Relatório da Comissão Real do Ser-
(cf. Hughes. E. Civil service reform: 1853- viço Civil. 1929-31 (conhecida como Comis-
t 855. Public Administration. v. 32, p. 17-9. são Tornlin):" Os funcionários da Coroa, que
1954), Foi o Report on the organization of não os ocupantes de cargos políticos ou ju-
lhe permanent civil service. de Trevelyan- diciários. que exercem uma função civil e
Northcote (1854). que deu à expressão sua cuja remuneração é paga integral 1! direta-

R. Adm. públ .• Rio de Janeiro, 15(4):127·/3/. out./dez. 1981


mente com dinheiro votado pelo Parlamen- cons:gnadas expressivamente ao serviço civil.
to" (Cmd. 3909. London, HMSO. 1931. par. Defesa e segurança internas e externas são
9), b) Os funcionários das administrações atividades próprias do serviço militar. mas
locais não se intitulam "Serviço ...:ivil 10ca1"', que não obstante se esteiam fundamental-
mas "o Serviço do governo local"', e indivi- mente no serviço civil. Quaisquer atividades
dualmente são "funcionários do governo lo- estatais ou governamentais, se não se capi-
cal". Os trabalhadores manua;s não são con- tulam no serviço militar, acabam sendo ser-
siderados como fazendo parte do "Serviço viço civil.
do governo local" e são individu31mente de- Antes de nascer, o cidadão é de alguma
nominados "servidores do governo locar', forma beneficiado pelo serviço civil, que for-
ÇO! os seus pais a comparecerem diante do
C. 2 a) );"os ELA, serviço civil ~ignifica os cartório ou pretoria para um casamento le-
grupos de cargos do Governo feJeral reser- gal; depois que nasce, o cidadão é envolvido
vados para serem preenchidos por pessoas por todos os lados pelo serviço civil, que
escolhidas não com base no fav,Jr político, dele exige papéis e documentos, taxas, im-
mas no mérito demonstrado em exames pro- postos. contribuições de melhoria e pedágios,
moyidos pelos membros da Comissão do Ser- afora um sem-número de formalidades legais
v:ço Civil. Daí as expressões sen'jço ciril, para ir e vir, para ser ou deixar de ser, para
scn'iço competitil'o e sen'jço classificado se- ter, dispor ou questionar. Até depois de mor-
rem em certo aspecto consideradas sinônimas to o cidadão é atingido pelo serviço civil,
nos ELA. b) A expressão é tallbém, por que exige dos seus herdeiros o inventário.
extensão, aplicada a grupos semelhantes de confiscando parte dos bens deixados pelo de
cargos nos Estados e cidades dos ECA. cujus.
S. E, Finer O serviço civil está sempre presente em
procedimentos bem definidos da União, dos
Sota: o sen'iço cil'il é a estruturação e o fun- estados, dos municípios e dos territórios, co-
cionamento da máquina administrativa do mo através dos poderes governamentais do
Estado - como nação politicamente organi- Estado. Editando leis. dirimindo dúvidas a
zada ou como unidade integrante da União, respeito das leis e tornando efetivo o cum-
da Federação de estados ou mesmo de muni- primento das leis que se dizem baixadas no
cípios e territórios. interesse do cidadão, da coletividade e da
O serviço civil e o serviço militar se com- preservação do próprio país.
pletam e integram necessariamente a Admi- O serviço militar (Forças Annadas. Polí-
nistração Pública. ou o serviço p-.1blico. que cias ~ilitares e Corpo de Bombeiros) atua
é o Estado em ação. O que são e o que fa- como suporte eficaz do serviço civil. visando
zem, no desenvolvimento de suas atividades, à segurança e à preservação das instituições,
os Poderes Legislativo, Judiciár:o e Executi- da ordem e das autoridades constituídas.
vo, constituindo governos, é tarnb~m por ex- Embora se tome serviço civil como o com-
tensão o serviço civil do país considerado. plexo administrativo do Estado, em sua con-
A Administração direta - órgãos da Pre- tínua prestação de serviços às coletividades,
sidência da República ou das governadorias não raro a expressão serviço civil se con-
dos estados ou das prefeituras, os ministérios fronta com a massa de sen'idores do Estado
ou órgãos equivalentes, grandes u1idades de- ou, ma:s especificamente, do governo - dos
partamentais subordinadas à presidência, às governos federal, estadual e municipal ou
governadorias ou às prefeituras, e a Admi- local.
nistração indireta - autarquias, sociedades Do portentoso desenvolvimento de nossa
de economia mista, empresas públicas. bem civilização decorreu um paralelo desenvolvi-
como órgãos autônomos e funda.;ões públi- mento do serviço civil. As sociedades civili-
cas. em sua inteireza, excluído o que seja zadas tornaram-se tremendamente complexas,
típico serviço militar, compõem o serviço e o Estado, por força, transformou-se. cres-
civil em sentido amplo. cendo em magnitude e alargando seus es-
O Estado antigo em seus pri-nórdios. o copos.
Estado medieval e o Estado moderno ou o
Estado de nossos dias tiveram e têm forço- O Estado antigo extorquia impostos. poli-
samente os seus serviços civis e seus serviços ciava em seu interesse e dizia-se instrumento
militares. Mas a expressão serviço civil é da justiça. O Estado moderno apresenta-se
mais recente e usada como sinônimo de fun- primacialmente como protetor e servidor. E
cionalismo público. com isto se desenvolveu o serviço civil.
Tanto o serviço civil como o serviço mio Nos dias que correm. notamos. entre ou-
litar sempre foram instituídos para prestar tras. as seguintes tendências: "a) dilatação
serviços à coletividade. de fonna direta e da ação do Estado em benefício da maioria
imediata ou de forma indireta e mediata. social: bl fortalecimento do Executivo: c)
Segurança, saúde. transporte, educação. Poder Le,l!islativo retirado em grande parte
agricultura. indústria, comércio, comunica- das assembléias políticas e entregue a órgãos
ção, justiça, etc., exemplificam atividades técnicos" (Ramalho, Newton Corrêa. Racio-

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nalização da administração orçamentária. Rio cidadão ordinário atente para isso, está fa-
de Janeiro, Imprensa Nacional, 1944. p. 24). zendo uma larga mobilização de profissio-
Para os economistas clássicos o Estado de- nais, técnicos e especialistas, desde o simples
ve ser meramente passivo: laissez-faire, Iais- tipógrafo até o radiologista, desde o chaul-
sez-passer. Isto porque "_ .. o Estado não pos- leur até o psicologista, desde o capataz de
sui nem iniciativa, nem inventiva, nem plas- campo até o geofísico, o geneticista, o ento-
ticidade, nem senso de proporção, nem inte- mólogo. o economista etc. Por quê? Porque
resse estimulante, nem espírito de parcimô- o Estado moderno é usina, é laboratório. é
nia, nem império sobre si mesmo (self-con- universidade, é estação experimental, é em-
tro!), nem sequer inteligência!" (Pôrto Car- presa de prospecções e sondagens, é fábrica,
reira, Carlos. Lições de economia política e é empresa editora, é agência de publicidade,
noções de finanças. Rio de Janeiro, F. Bri- é construtor de represas - que é, em suma,
guiet, 1931. p_ 169-70). Os economistas de que o Estado moderno não é?" (Silva, Be-
nossos dias já não pensam assim. Para eles nedicto. A Importância do funcionário pú-
"o Estado moderno não pode limitar suas blico Cil·il. Rio de Janeiro, Imprensa ~acio­
funções às de simples garantidor da ordem e nal, 1941. p, 20),
distribuidor da justiça. Nem lhe é possível ~o Brasil, nos EUA, na Inglaterra, no Ca-
estabelecer como norma a tese dos fisiocratas nadá, na Argentina etc., significativa percen-
- ne pas trop gourerner - que fez o seu tagem dos cidadãos é constituída de servido-
tempo como reação salutar contra o espírito res do Estado, de homens e mulheres que tra-
de regulamentação legislativa da época an- balham nas respectivas administrações pú-
terior" (ld. ibid. p. 170). blicas. Para exemplificar, basta dizer que os
O Estado moderno, direta ou indiretamen- quadros e tabelas do serviço civil brasileiro
te, é forçado a intervir em todos os setores compreendem perto de 4 milhões de nomes
da vida da nação; não que o queira, mas e qUe os executivos norte-americanos empre-
porque os grupos sociais assim exigem. Como gam hoje mais de 10 milhões de profissionais,
diz. em outras palavras, Frederic A. Ogg: c1assificando-se os mesmos em cerca de 15
"Todo mundo hoje espera que o governo faça mil tipos de trabalhos.
alguma coisa em seu favor, mesmo quando Belmiro Siqueira
teme que o faça demasiadamente" (European
gOl'ernments and politics. New York, Mac- Ver também, ADJIlNISTRAÇÃO
millan. 1938. p. 4). O Estado moderno - CARGO
protetor e prestador de serviços - ao con- MISISTRO
trário das professias e dos anseios dos libe-
rais, surgiu como poderosa organização po-
lítico-administrativa de nações adiantadas. Teoria da organização (Teoría de la organi-
!'\ão se quer dizer que em todas as épocas zación)
o Estado, em maior ou menor grau, não te-
nha sido intervencionista. Ainda em eras A. As origens da teoria da organização po-
imemoriais. quando podemos vislumbrar as dem ser situadas. no nível macrossociológico.
mais primitivas formas de Estado, já se veri- nos próprios clássicos da Sociologia, como
ficam atividades de interferências governa- por exemplo em H. Spencer. F. Toennies, G.
mentais. Sim mel. E. Durkheim. Max Weber. E. Dur-
~os nossos dias, porém. com a multiplica- kheim apresenta diversos tipos de sociedade
ção fantástica da ciência - "Mas. do século em função da diferente organização social de
XVI ao século XX, o que as ciências cres- cada uma. mais ou menos rudimentar e ra-
ceram. é incomensurável" (Barbosa, Rui. cional (cf. Las RegIas deI método sociológico.
Oração aos moços. Rio de Janeiro, Organiza- Buenos Aires. La Pleyade. 1970. p. 123 e
ção Simões, 1949. p. 42) - com o incrível segs.). Costuma-se com freqüência atribuir a
aperfeiçoamento tecnológico e com a filoso- Max Weber o fundamento da teoria da or-
fia de democratização ampla, orientando a ganização, embora sua teoria da burocracia
vida em sociedade. o Estado, através da dificilmente pudesse incluir o conceito mo-
Administração Pública. ou do serviço civil, derno de organização, conceito em que en-
passou a ser o Grande Leviatã. que tudo e tram explicitamene elementos formais e in-
todos envolve (ver Carlos Alberto Lúcio Bit- formais. funcionais e não-funcionais, enquan-
tencourt. em súmula da 1'- lição do Curso to que a eficiência da teoria de Max Weber
de Fundamentos de Administração Pública e definia-se. embora fora da forma típico-ideal,
Estrutura do Serviço Público Brasileiro: exclusivamente através de critérios de racio-
... a máquina administrativa. ampliando-se nalidade. Renate Mayntz (Soziologie der Or-
paulatinamente, pode hoje sem exagero re- ganisation. Hamburg, Rowohlt, 1963. p. 27)
ceber o epíteto que lhe deu Wallace, ao de- lembra o interesse momentâneo da Organisa-
nominá-Ia o Grande Leviatã''). tionslehre (também Briefs, G. Vber das Or-
E para realizar suas numerosíssimas fina- ganisations Problem. Berlin, 1919; Plenge, J.
lidades. para cumprir suas variadíssimas fun- Drei Vorlesungen über die AlIgemeine Orga-
ções sociais, "o Estado moderno, sem que o nisations Lehre. Essen. 1919; Erdmann, R_

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Grundlage Einer Organisations Lehre. Leip- nalidade. estrutura informal, interesses dos
zig, 1921), que apesar disso reduziu-se a uma operários etc.), i.e., enfrenta o "dilema da
teoria da empresa. organização" (Etzioni, A_ Soziologie der Or·
ganisationen. Trad. de Modem organizatian.
A.l A teoria da organização começou pro- München, 1967_ p. 70). Por outro lado, a
priamente a se desenvolver na América do teoria da organização já não se concentra
Norte a partir da chamada Classical Theory apenas na empresa, mas considera qualquer
01 Administration, ou também Scientilic Ma- tipo de organização: hospitais, universidades,
nagement (F. W. Taylor, L. Gulkk e outros), cárceres, partidos políticos etc. Observa-se
cuja mais fiel contínuidade em nossos dias é assim sua conotação interdisciplinar, sendo,
encontrada na linha da Business Administra- portanto, mais inclusive do que uma socio-
tion. Na França cabe assinalar a obra de logia da organização, e oferecendo um qua-
H. Favol: Administration indusrrielle et gé- dro geral das organizações e de todos os
nérale" (Paris. 1917). O caráter desta orienta- seus aspectos, embora "caiba duvidar da
ção geral foi antes um caráter de ordenação, possibilidade de uma teoria (integrada) da
limitando-se a formular regras de comporta- organização capaz de articular um sistema
mento destinadas a garantir a máxima efi- logicamente consistente de proposições gerais
ciência numa empresa concebida como uma do tipo 'se ... então .. .' .. (Mayntz, R. 50-
forma racional e formal de autoridade bem ziologie der Organisation_ In: Koenig, R.
hierarquizada. A chamada escola de relações Handbuch der empirischen sozialforschung.
humanas é uma reação à orientação anterior Stuttgart, Enke, 1969. v. 2, p. 458). que po-
e sua concepção do ator social como homo deriam ser usadas não SÓ para explicar a
ceconomicus, a qual não levou em conta a maior ou menor eficiência da organização,
realidade da organização informal. Elton mas também o porquê de sua estrutura e
~1ayo. lohn Dewey e Kurt Lewin estão en- dos processos correspondentes de estrutura-
tre os representantes clássicos desta corrente ção. Isto significa que a teoria da organiza-
que chamou a atenção para os f atores sociais ção é acusada de adotar um enfoque não-
da empresa-organização e procurou mostrar histórico e demasiado generalizante, no sen-
que o rendimento não depende apenas de va- tido de que não leva em conta suficiente-
riáveis físicas. ou de uma meticulosa espe- mente que uma organização não se repete
cialização e controle de tarefas. Pelo contrá- (Finn1aligkeit) - nem o "indivíduo históri-
rio. a realidade do grupo e de sua estrutura co" de Max Weber - e ainda que as dife-
(organização informal) deve ser levada em renças entre as distintas organizações podem
conta para se obter maior eficácia (cf. o que s.:r mais decisivas do que as supostas seme-
dizem os famosos estudos relacionados com lhanças descobertas teoricamente. A mesma
o tema. realizados de 1927 a 1932 nas ofici- autora observa que embora a teoria da or-
nas da Western Electric em Hawthorne: Roe- ran:zação adote um enfoque de sistema aber-
thilberger. F. T. & Dickson. W. l. .\fanaj!e- to - Le., imerso numa contínua interação
men! and the ",orker. Cambridge, 1939). com o Umn'elt mediante mecanismos e pro-
Acentua-se. pois. a importância do grupo na cessos de retroalimentação que submetem
tomada de decisões e no cO'TIportamento, S'.l3 estrutura a uma mudança constante -
inaugurando-se dessa forma uma série de es- é preciso abandonar o quadro geral para
tudos sobre liderança e a vida na organiza- estudar, em cada caso concreto, que proprie-
ção (Lippit. R. & White. R. K. An experi- dades da organização (tamanho. objetivos.
mental study of leadership and group lire. sistemas de autoridade etc.) podem ser con-
In: SlI'anson, G. E. Readings i'1 social psy- siderados expostos à retroalimentação e em
chology. !\ew York, 1952). relação a que Umwelt (outra organização. a
sociedade global etc.). Apontam-se. pois, as
B. Or~ginando-se con;untamer.te das duas dificuldades de uma teoria geral da organi-
.Q"randes correntes apontadas. nasce a chama- zação e a necessidade de se percorrer um
da teoria moderna da organização. que parte longo caminho de base como, por exemplo.
de um novo conceito da organização. ba- o do estudo comparativo e o da constante
seado na teoria dos sistemas (cf. von Berta- correção de proposições gerais quando do
lanffy. L. General system theory. A criticai trato de organizações concretas.
re\·iew. In: Bucklev, N. Modem S\'stems re-
search .for the behol'ioral scientist: Chicago. C. A moderna teoria da organização, con-
Aldine. 1974. p. 11-31). As organizações são tudo, abriu promissoras perspectivas ao tra-
concebidas como sistemas parciais e estuda- tar a organização como sistema e1aborador
das em relação ao Umwelt (outras organiza- de informações e comunicação. mais do que
ções. por exemplo). Como sistema ou "inter- como estrutura hierárquica de autoridade:
relacão de partes", a organização absorve e "O conceito generalizado de organização está
relaciona sistematicamente os elementos des- estreitamente vinculado ao de informação e
tacados pela teoria clássica (racionalidade. comunicação, porque convém conceber o sis-
estrutura formal. interesses empresariais. etc.) tema sócio-cultura1 como conjunto de elemen-
e pela escola de relações humanas (irracio- tos ligados entre si, de forma completa, me-

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diante a intercomunicação da informação quando o ritmo de trabalho não é uniforme
mais do que através da energia ou da subs- ou o mercado é instável (5tinchcombe, A. L.
tância, como é o caso dos sistemas físicos Bureaucratic and craft administration of pro-
ou organizacionais" (Buckley, W. La Socio- duction. A comparatiye study. Administrative
logia )' la teoria moderna de los sistemas. Science Quarterl)', v. 4, 1960) etc. (cf. tam-
Buenos Aires, Amorrortu, 1973. p. 127). A bém Katz, D. & Kahn, R. L. The Social
concepção da organização iria mais além da psych%gy o/ organizations. New York.
m\':ra "racionalidade burocrática", ligando-a 195ó).
aos momentos não-racionais: "Administrar
uma organização social segundo critérios pu- Co! À diferença do enfoque clássico, a teo-
ramente técnicos de racionalidade é algo ria moderna da organização lida com um
irracional, porque ignora os aspectos não-ra- modelo mais "natural" que "racional" (A.
cionais do comportamento social" (Blau, Pe· W. Gouldner), i.e., ela é analisada tal como
ter ~1. Bureaucrac)' in modem societ)'. New realmente se estrutura e funciona, em lugar
Yark, Randam Hause, 1956. p. 58). H. A. de se limitar a um estudo das relações entre
Siman (Administrative behavior - a study os recursos e as metas. O mesmo tipo de
of decision-making process in administrative análise moderna foi usado por A. S. Tannen-
organization. New York. 1945) corriiÍu o baum e B. 5. Georgopoulos (A study of or-
modelo tradicional da teoria das decisões a ganizational effectiveness. American Sociolo-
partir do pressuposto da "racionalidade li- gical Re~'iell", Y. 22, p. 534-40, 1957, os quais,
mitada", afirmando conseqüentemente que ao estudarem o êxito de uma empresa de
os atores não perseguem tanto a maximiza- transportes, não centram sua atenção nos
ção de vantagens quanto os resultados sa- objetiyos, mas sim no comportamento de
tisfatórios. Algo parecido cabe afirmar a res- três relevantes características da organização
peito das relações com o Umwelt cuja "com- (produtividade das diferentes filiais, estrutu-
plexidade" deve ser reduzida na medida do ra do controle-autoridade, flexibilidade em
possível, mediante coalizões, reestruturação relação às perturbações internas e externas),
de normas etc. (cf. Luhmann, N. Funktionen referindo os resultados não à imagem ideal
und Folgen Formaler Organisationen. Berlin, e oficial da organização, mas sim compa-
1964). A organização é assim concebida a rando-os entre si no conjunto das filiais. Esta
partir do aspecto da flexibilidade, da condi- análise sistêmica da organização se aplica
cionalidade interna e externa (W. R. Ashby), também à ambiência organizacional ou con-
dos graus de liberdade (l. Rothstein), da con- junto de organizações que mantêm entre si
tingência social (N. Luhmann). A realidade relações de intercâmbio de produtos, de in-
da organização e de suas metas específicas formação etc. Assim, A. M. Rose (Voluntary
- característica diferenciadora da organiza- association under conditions of competition
ção relativamente a outros sistemas sociais and conflict. Social Forces, v. 34, 1956) estu-
- não a torna equivalente à realidade ou dou como as relações de competência e de
êOS objetivos manifestos e formais (como, oposição podem vir acompanhadas de maio-
por exemplo, os contidos nos estatutos), mas res flexibilidade, coerência e atividade. Th.
sim aos esquemas que realmente orientam a Caplow (Principies of organization. New
tomada de decisões do ator (indivíduo. orga- York. 1964) oferece um quadro das distintas
nização). A apontada elasticidade está au- variedades de cooperação e conflito entre
sente da teoria tradicional das decisões (R. organizações.
D. Luce. H. Raiffa), embora menos na teo- A orientação interorganizacional pode ser,
ria dos jogos (l. von Neumann, O. Mor- sem nenhuma dúvida, frutífera, se vinculada
genstern). ambas abundantemente criticadas à intra-organizacional (não apenas no nível
(A. Rapoport, R. C. Snyder) e, para muitos, dos departamentos, grupos etc., mas também
representativas da teoria moderna da orga- dos indivíduos: atitudes, comportamentos).
nização. Partindo de esquemas menos for- Em todo caso, a análise em vários níveis re-
mais. foram sublinhados os elementos dis- c:procamente relacionados pode contribuir
funcionais que constituem o fenômeno bu- para reduzir o excessivo nível de abstração
rocrático (cf. Crozier, M. EI Fenômeno buro- - e, pela mesma razão, o escasso interesse
crático. Buenos Aires, Amorrortu, 1974) ou de suas proposições nos casos concretos -
rechaçada. em realidade. a idéia weberiana que tão freqüentemente se reprova na teoria
de que o modelo burocrático responde à for- da organização.
ma de organização mais eficiente: com efei- José A. Garmendia
to. assinalou-se que as organizações são me-
nos burocratizadas quando o grau de pro- Ver também: CIBERNETICA
fiss:onalização de seus membros ,ç ",levado COMUNICAÇÃO
(Blau, P. M.; Heydebrand, W. V. & Stauffer, INFORMAÇÃO
R. E. The Structure of small bureaucracies. ORGANIZAÇÃO SOCIAL
American Sociological Rel'iew, v. 31. 1966), SISTEMA SOCIAL

Dicionário de Ciências Sociais 13/