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FUNDAÇÃO EDUCACIONAL DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL


PIAUIENSE – FUNEAC
FACULDADE DAS ATIVIDADES EMPRESARIAIS DE TERESINA- FAETE
DIREÇÃO DE ASSUNTOS ACADÊMICOS E COMUNITÁRIOS
COORDENAÇÃO DO CURSO DE DIREITO

UMA VISÃO DO COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO


CONTEMPORÂNEO NO BRASIL PELA ÓTICA DOS
DIREITOS HUMANOS

DIEGO PARENTES FORTES DIAS DE CASTRO

TERESINA-PIAUÍ
2016
Formatted: Left
1

DIEGO PARENTES FORTES DIAS DE CASTRO

UMA VISÃO DO COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO


CONTEMPORÂNEO NO BRASIL PELA ÓTICA DOS
DIREITOS HUMANOS
Monografia apresentada à Faculdade das
Atividades Empresariais de Teresina- FAETE,
como requisito parcial para obtenção do título de
Bacharel em Direito, sob orientação da Profª.
Vitória Josefina Rocha D’almeida Mota e em
seguida publicado no saibaseusdireitos.org

TERESINA-PIAUÍ
2

2016
DIEGO PARENTES FORTES DIAS DE CASTRO

UMA VISÃO DO COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO


CONTEMPORÂNEO NO BRASIL PELA ÓTICA DOS
DIREITOS HUMANOS
Monografia apresentada à Faculdade das
Atividades Empresariais de Teresina- FAETE,
como requisito parcial para obtenção do título de
Bacharel em Direito.

Monografia aprovada em ___/___/___

BANCA EXAMINADORA

________________________________________
Prof.(a) Vitória Josefina Rocha D’almeida Mota

________________________________________
Prof(a)
Instituição

________________________________________
Prof(a)
Instituição
3

RESUMO

A presente monografia tem como objetivo abordar a temática do trabalho escravo no


Brasil à luz dos princípios fundamentais dos Direitos Humanos. Após mais de cento e
vinte anos da abolição da escravatura ainda pode-se encontrar inúmeros casos
comprovados de empresas que desrespeitam a Constituição Federal de 1988 e seus
princípios fundamentais, colocando trabalhadores em condições inumanas. Discute-
se também como os tratados internacionais de direitos humanos se integram à
legislação brasileira e sua hierarquia em relação às outras leis, além da necessidade
de uma melhor aplicação das leis nacionais e da necessidade de mudanças nas
políticas públicas para um efetivo combate ao trabalho escravo. Analisa-se também
um caso concreto onde o Brasil pela primeira vez assumiu frente a Comissão
Interamericana de Direitos Humanos que havia casos de trabalho forçado em território
nacional. Desse modo, o trabalho demonstra que é necessário buscar uma maior
discussão com a sociedade, Organizações Não Governamentais e o poder público em
busca de soluções para a erradicação de trabalho escravo em território nacional, além
de demonstrar que as soluções já em andamento estão tendo resultados satisfatórios
e esperados. Além de demonstrar que a solução amistosa em frente a Comissão
Interamericana de Direitos Humanos levou à criação de inúmeros projetos de frente
social ao combate ao trabalho escravo.

PALAVRAS-CHAVES: Direitos Humanos. Trabalho Escravo. Escravidão. Atualidade.


4

ABSTRACT

This monograph aims to clarify the slave labor in Brazil in the light of the fundamental
principles of Human Rights. After more than one hundred and twenty years of the
abolition of slavery, one can still find countless proven cases of companies that
disregard the Federal Constitution of 1988 and the fundamental principles, placing
workers in inhuman conditions. It also discusses how international human rights
treaties can integrate with Brazilian legislation and its hierarchy in relation to other laws,
as well as the need for a better application of national laws and the need for changes
in the public policies for an effective fight against slave labor. It also analyzes a
concrete case when Brazil for the first time in front of the Inter-American Commission
of Human Rights assumed that there were cases of forced labor in national territory. It
seeks to a greater discussion with society, Non-Governmental Organizations and the
public power in search of solutions for the eradication of slave labor in the national
territory, and if the solutions already underway are having satisfactory and expected
results. In addition to analyzing how the friendly solution in front of the Inter-American
Commission on Human Rights led to the creation of numerous social front projects to
combat slave labor.

KEYWORDS: Human Rights. Slavery. Slavery. Actuality.


5

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ............................................................................................................7
1 TRABALHO ESCRAVO NO BRASIL ..................................................................... 10
1.1 Conceito de trabalho escravo no Brasil ...............................................................10
1.2 O trabalho escravo na constituição federal da república brasileira .....................13
1.3 A legislação e convenções sobre o trabalho escravo .......................................... 14
2 DIREITOS HUMANOS NO BRASIL ....................................................................... 18
2.1 Conceito de direitos humanos ............................................................................. 18
2.2 A hierarquia dos tratados internacionais de direitos humanos ............................20
2.3 Principais tratados e convenções internacionais de direitos humanos sobre o
trabalho escravo ........................................................................................................ 22
3 FORMAS DE COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO .......................................... 28
3.1 Principais formas de combate ao trabalho escravo no Brasil ..............................28
3.2 Caso concreto ..................................................................................................... 31
3.3 Entraves ao combate do trabalho escravo ..........................................................35
CONCLUSÃO............................................................................................................ 38
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 39
Formatted: Font: (Default) Arial, 12 pt
6

INTRODUÇÃO....................................................................................................

INTRODUÇÃO Formatted: Font: Not Bold


Formatted: Heading 1

O trabalho escravo é uma mazela que assola o Brasil destes os tempos


mais remotos de sua existência, acarretando as mais complexas consequências do
ponto de vista jurídico, social, econômico e sobretudo humano. Nesse sentido,
observa-se este trabalho com o objetivo de discutir a correlação entre os direitos
humanos e o do combate ao trabalho escravo no Brasil.
Temas estes que se ligam de forma intrínseca, sendo ambas
complementares entre si, procurando entender até que ponto a exploração de mão de
obra é uma violação aos direitos fundamentais instituídos pela Constituição Federal e
inúmeros tratados internacionais de proteção aos direitos humanos
Justifica-se este trabalho pela necessidade de compreender e alcançar
meios capazes de restabelecer a condição de dignidade inerente a todos os homens,
em conformidade com sentido de vida que não pode ser limitado a uma condição de
sobrevivência, mas, para além disso, ser caracterizado na dignidade humana.
Para se compreender o trabalho escravo no Brasil e como a aplicação dos
direitos humanos é uma das principais formas de combate, precisamos primeiro
entender o conceito destes dois assuntos, levando em consideração seus
surgimentos, suas evoluções e os principais e mais eficientes instrumentos de
combate à escravidão.
Outro aspecto importante acerta dos temas é de conseguir reunir as
diferentes denominações e doutrinas que já se debruçaram sobre os mesmos, visto
que assim como os direitos humanos vem crescendo e evoluindo ao longo dos anos,
o mesmo aconteceu com o trabalho escravo, que se modifica em diferentes formas
como tentativas de fraudar a lei, porém continua criando verdadeiros prejuízos sociais.
Assim procura-se desenvolver ao decorrer deste trabalho cientifico um
estudo de cunho bibliográfico sobre o trabalho escravo na atualidade, visto pela ótica
dos Direitos Humanos, além de entender quais são os modos utilizados pelo Estado
para diminuir esta mesma prática.
7

Importa destacar que o poder estatal brasileiro já tomou algumas decisões


em relação ao combate ao trabalho escravo e a um caminho mais humano nas
relações de trabalho, como por exemplo a criação pelo ex-presidente Luís Inácio Lula
da Silva da conhecida como “Lista Suja”, que é um cadastrado criado pela Portaria n.
540/2004 do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que coleciona os nomes dos
empregadores no Brasil que foram descobertos explorando trabalhadores em
condições análogas às de escravidão.
Há de se citar também o caso em que o Brasil apareceu como polo passivo,
pela primeira vez, na Comissão Internacional de Direitos Humanos em razão da
realização de trabalho escravo, aonde a comissão entendeu que o estado brasileiro
era o responsável por inúmeros violações à Convenção Americana e à Declaração
Universal dos Direitos Humanos.
O acordo firmado ao fim do processo foi um marco nas decisões relativas
à violação dos direitos humanos no país, pois o Brasil nunca havia assumido sua
responsabilidade internacionalmente, o que levou à criação da Comissão Nacional de
Erradicação do Trabalho Forçado (CONATRAE) e uma série de compromissos para
erradicação no país de trabalhos análogos a condição de escravo.
Mais recentemente, em 2014, ocorreu a adoção por parte do Brasil, de um
Protocolo e uma Recomendação que complementaram a Convenção n° 29 da OIT,
fornecendo orientações específicas sobre medidas a serem tomadas pelos Estados
Membros para eliminar todas as formas de trabalho forçado, proteger vítimas e
assegurar-lhes acesso à justiça e compensação.
Além das citadas, são inúmeras as formas de combate nacional e
supranacional que visam a erradicação à exploração de trabalhadores, porém ainda
é bastante comum encontrarmos diariamente casos comprovados de trabalho
escravo.
Desta forma se verifica que ainda há um grande caminho a ser percorrido,
visto que não há níveis aceitáveis de escravidão, e a sociedade como um todo deve
encontrar os modos mais eficazes de combate ao trabalho escravo.
Erradicar a escravidão não se trata de simplesmente retirar o trabalhador
do local de trabalho e efetuar multas e prisões para os empregadores, é importante
visualizar a necessidade de mudança no modelo de desenvolvimento que escolhemos
como sociedade, de se criar uma nova perspectiva de convívio e crescimento
8

sustentável, em que o respeito à dignidade humana e aos princípios fundamentais dos


direitos humanos sejam a vanguarda de todas as relações.

Para dissertar sobre as questões aqui propostas, este trabalho está


estruturado em 3 capítulos que se organizam da seguinte maneira: No capítulo 1 será
feito uma análise acerca do trabalho escravo no Brasil, bem como à legislação atinente
ao tema, no capítulo 2 far-se-á uma abordagem sobre os Direitos Humanos e os
tratados sobre o tema, já o 3º capitulo se propõe a analisar as forma de combate ao
trabalho escravo, e as maiores dificuldade para sua redução.
9

1 TRABALHO ESCRAVO NO BRASIL Formatted: Font: Not Bold


Formatted: Heading 1, Left
Formatted: Font: 14 pt, Not Bold
1.1 Conceito de trabalho escravo no Brasil

A conceituação de trabalho escravo é tarefa árdua, tendo em vista que a


constante mudança na sociedade e nas relações de emprego na modernidade torna
necessária as análises sobre diferentes ângulos, sejam eles sociais, jurídicos,
histórico, sociológico, antropológico, entre outros, além de seus reflexos no passado
e possíveis no futuro.
Um dos entendimentos mais amplos disponíveis hoje, foi emitido por
Sakamoto (2006, p. 17), em seu estudo realizado pela Organização Internacional do
Trabalho que define:

No Brasil, há variadas formas e práticas de trabalho escravo. O conceito de


trabalho escravo utilizado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) é
o seguinte: toda a forma de trabalho escravo é trabalho degradante, mas o
recíproco nem sempre é verdadeiro. O que diferencia um conceito do outro é a
liberdade. Quando falamos de trabalho escravo, estamos nos referindo a muito
mais do que o descumprimento da lei trabalhista. Estamos falando de homens,
mulheres e crianças que não têm garantia da sua liberdade. Ficam presos a
fazendas durante meses ou anos por três principais razões: acreditam que têm
que pagar uma dívida ilegalmente atribuída a eles e por vezes instrumentos de
trabalho, alimentação, transporte estão distantes da via de acesso mais
próxima, o que faz com que seja impossível qualquer fuga, ou são
constantemente ameaçados por guardas que, no limite, lhes tiram a vida na
tentativa de uma fuga. Comum é que sejam escravizados pela servidão por
dívida, pelo isolamento geográfico e pela ameaça às suas vidas. Isso é trabalho
escravo.

Além desta definição, pode-se citar também Sento-Sé (2011, p. 60):

Dessa maneira, poderíamos conceituar o trabalho escravo contemporâneo


como sendo a atividade laboral desenvolvida pelo trabalhador em benefício de
terceiro, em que se verifica restrição à sua liberdade e/ou desobediência a
direitos e garantias mínimos (sujeição à jornada exaustiva ou a trabalho
degradante, dívida abusiva em face do contrato de trabalho, retenção no local
de trabalho por cerceamento do uso de qualquer meio de transporte,
manutenção de vigilância ostensiva e retenção de documentos) dirigidos a
salvaguardar a sua dignidade enquanto trabalhador. Trata-se de conceito que
segue a previsão do art. 149 do Código Penal e que, a nosso ver, esclarece a
compreensão da matéria
10

A Organização Internacional do Trabalho na Convenção 29, que dispõe


sobre a eliminação do trabalho forçado ou obrigatório em todas as suas formas,
classifica em seu artigo 2º o trabalho forçado ou obrigatório como:

Artigo 2º - 1. Para fins desta Convenção, a expressão "trabalho forçado ou


obrigatório" compreenderá todo trabalho ou serviço exigido de uma pessoa
sob a ameaça de sanção e para o qual não se tenha oferecido
espontaneamente.

Assim, para um conceito didático, pode-se utilizar de fatos concretos


para a caracterização do trabalho escravo contemporâneo, podendo citar entre outros
a dependência econômica, péssimas condições de trabalho, subjugação em frente
aos patrões e falta de segurança mínima para realização das atividades.
Ao contrário da crença popular de que o trabalhador em condições
análogas ao escravo estaria acorrentado, morando em senzalas, torturados e em
constante terror. A escravidão nos tempos contemporâneos não se caracteriza
apenas pela restrição da liberdade, mas também pelas péssimas condições de
trabalho impostas pelo trabalhador, conforme explica Sento-Sé (2011, p. 1):

Sob um outro prisma, é possível afirmar que o escravo da atualidade não se


encontra numa situação de exploração muito distante da que estava envolto
o escravo da Idade Antiga ou do período da colonização portuguesa no Brasil
a partir do Século XVI. Como se constituía em parte integrante do patrimônio
do seu amo, este tinha toda preocupação e cuidado de alimentá-lo e vesti-lo,
como também de curar as suas doenças, já que o escravo representava um
investimento econômico vultoso e caro. Na atualidade, ao contrário, a mão
de obra que se encontra nessa situação de escravidão é considerada
descartável e inutilizável pelo explorador, particularmente quando se
encontra idosa, doente ou, por qualquer outra razão, desnecessária para o
trabalho. O patrão não tem qualquer espécie de compromisso com esses
trabalhadores e, além disso, tem a sua disposição um autêntico exército de
pessoas para substituí-los já que estariam disponíveis para trabalhar em
condições semelhantes, por viverem num quadro de pobreza e miséria que
lhes impõe sujeitar-se ao labor de tal jaez

Diante a explicação é fundamental que se entenda que o trabalho escravo


contemporâneo não se apresenta somente na forma de restrição de liberdade, com
celas e grilhões semelhantes aos escravos dos livros de história. Cada vez mais a
exploração da mão de obra se modernizou para novos sistemas, o que faz
compreender que a exploração continua tão prejudicial quanto nos tempos de
escravidão no Brasil.
Conforme explica Sento Sé (2011, p. 58), o grau de exploração e de
maleficio ao trabalhador é tão agressivo que não haverá qualquer erro em utilizar-se
11

do termo trabalho escravo, inclusive sendo possível afirmar que o trabalhador dos dias
de hoje que se encontra nesta condição não está muito distante da que estava envolto
o escravo da Idade Antiga ou do período da colonização portuguesa no Brasil a partir
do Século XVI.
Inclusive destacou que a diferença na visão do patrão que se utiliza de mão
de obra escrava, é que no período antes da abolição o escravo representava um
investimento econômico vultoso e caro, tendo o mesmo a preocupação de alimentá-
lo e de curar suas doenças, ao contrário dos dias de hoje, época em que o trabalhador
é considerado descartável pelo empregador.
Nas palavras de Arruda (1995, p. 687):

[...] em muitos casos, o escravo grego, por exemplo, tinha situação melhor
que a dos explorados da modernidade, uma vez que possuía roupas,
alimentação e moradia, enquanto o atual explorado, além de igualmente não
possuir liberdade, não tem sequer o acesso às suas necessidades básicas.
A sociedade, quando escravocrata, reconhece a necessidade de escravos
para a sua sobrevivência, enquanto em uma sociedade democrática,
baseada na liberdade de trabalho, a existência de trabalho escravo é uma
amostragem inequívoca de sua ruína

Maranhão Costa (2010, p. 40) também comenta sobre o assunto:

A categoria “trabalho escravo” atualmente utilizada no país refere-se à


escravidão contemporânea e guarda inúmeras diferenças com formas
anteriores de escravidão. Essas eram legais, tinham longa duração e, em
alguns casos, como a escravidão africana nas Américas, passavam de uma
geração para outra. A escravidão contemporânea, por sua vez, é de curta
duração; a pessoa é tratada como se fosse mercadoria; há um poder total
exercido sobre a vítima, ainda que temporariamente; a maioria esmagadora
das vítimas é migrante de estados distantes das fazendas onde são
exploradas e tem idade superior a 16 anos.

Diante o exposto, e da constante evolução das relações patronais é


possível verificar que na sociedade atual o conceito de trabalho escravo é melhor
visualizado no caso concreto, utilizando-se do afastamento das garantias
fundamentais dos direitos humanos nas relações do trabalho para sua caracterização.
Com a negação destes fundamentos basilares do direito brasileiro, não se
encontra maiores dificuldades na caracterização do trabalho escravo. Privar o
trabalhador de sua dignidade é mais do que desrespeitar a legislação trabalhista em
vigência, pois ao ferir sua liberdade, impedir o trabalhador de deixar o serviço e retirar
12

a dignidade da pessoa, o patrão rebaixa a pessoa a uma condição de não ser humano,
submetendo o mesmo a uma enorme humilhação, sendo uma violação direta e literal
aos direitos humanos e as garantias fundamentais previstas na constituição de 1988.

1.2 O trabalho escravo na constituição federal da república Formatted: Heading 1, Left

brasileira

A Constituição Federal de 1988 tem como ideia principal a igualdade dos


seres humanos, o respeito a sua dignidade, o seu crescimento pessoal e profissional.
A carta de 1988 alargou significativamente o campo dos direitos e garantias
fundamentais, colocando-se entre as constituições mais avançadas do mundo no que
diz respeito à matéria, conforme Piovesan (2013 p. 84).
Sejam estas ideologias demonstradas por leis expressas ou por conjunto
de princípios que saturam suas páginas, a Carta Maior repudia a todas as custas o
trabalho escravo. De forma exemplificativa se pode citar o artigo 1° que determina
como fundamento da republica a dignidade da pessoa humana. Além disso, o artigo
5° coloca como pilar da sociedade a garantia fundamental a liberdade do ser humano.

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel


dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado
Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V - o pluralismo político.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes:
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de
representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição

O artigo 5°, inciso XLVII, alínea “c”, da Constituição Federal de 1988


também demonstra que nem mesmo o Estado pode obrigar os condenados a pena
privativas de liberdade ao trabalho forçado.
Pode ser retirado do artigo supracitado, que todo trabalho realizado por
presos só pode tomar lugar se houver o consentimento destes, como por exemplo, o
13

instituto da detração penal, que prevê que a cada 03 (três) dias trabalhados subtrai-
se 01 (um) da pena. Além disso, a recente modificação do Art.243 da Constituição
Federal de 1988, que foi modificada pela Proposta de Emenda à Constituição nº 57A,
de 1999, prevê que ocorrerá a expropriação de propriedade e destinação à reforma
agrária, sem qualquer indenização, de propriedades rurais aonde forem encontrados
exploração de mão de obra escrava:

Art. 243. As propriedades rurais e urbanas de qualquer região do País onde


forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou a exploração de
trabalho escravo na forma da lei serão expropriadas e destinadas à reforma
agrária e a programas de habitação popular, sem qualquer indenização ao
proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei, observado, no
que couber, o disposto no art. 5º. (Redação dada pela Emenda Constitucional
nº 81, de 2014)
Parágrafo único. Todo e qualquer bem de valor econômico apreendido em
decorrência do tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins e da exploração
de trabalho escravo será confiscado e reverterá a fundo especial com
destinação específica, na forma da lei. (Redação dada pela Emenda
Constitucional nº 81, de 2014) (BRASIL, 1988).

1.3 A legislação e convenções sobre o trabalho escravo Formatted: Heading 1, Left

A existência do crime de submeter alguém a condição análoga a escravo,


previsto no Art.149 do Código Penal Brasileiro, quanto a obrigação de garantir os
Direitos Trabalhistas, previsto em toda a Consolidação das Leis Trabalhistas, não são
coisas novas e desconhecidas, não podendo o proprietário de empresas que utilizam
mão de obra escrava argumentar de seu desconhecimento sobre o tema, e que são
na maioria das vezes pessoas com alto grau de escolaridade e com grande apoio
jurídico e financeiro.
Além das leis já previstas na legislação brasileira, há inúmeros acordos e
convenções internacionais que tratam da escravidão contemporânea, sendo tratadas
principalmente nas convenções 29 de 1930 e 105 de 1957, todas ratificadas pelo
Brasil.
A convenção de 29 de 1930 dispõe sobre a eliminação do trabalho forçado
ou obrigatório em todas suas formas, admitindo algumas exceções de trabalho
obrigatório, como o serviço militar e em casos de emergências, como guerras e
desastres naturais; Já convenção 105 de 1957 é a Convenção sobre Abolição do
14

Trabalho Forçado, a qual se proíbe toda forma de trabalho forçado como meio de
coerção ou convencimento político.
Essas duas convenções citadas anteriormente foram reconhecidas por
quase toda a comunidade internacional, recebendo o maior número de ratificações
dentre todas as convenções realizadas pela Organização Internacional do Trabalho.
É possível citar também a Convenção Americana sobre Direitos Humanos
(Pacto de São José da Costa Rica) de 1969: ratificada pelo Brasil em 1992, no qual
os signatários firmaram um compromisso de repressão à servidão e à escravidão em
todas as suas formas.
Já na legislação infraconstitucional, a principal lei sobre o trabalho escravo
é previsto no Código Penal Brasileiro de 1940 em seu Art.149 que define o crime de
redução à condição análoga de escravo:

Art. 149. Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer


submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-
o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer
meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou
preposto:

Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente


à violência.

§ 1o Nas mesmas penas incorre quem:

I - cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador,


com o fim de retê-lo no local de trabalho;

II - mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de


documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no
local de trabalho.

§ 2o A pena é aumentada de metade, se o crime é cometido:

I - contra criança ou adolescente;

II - por motivo de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem


(BRASIL, 1940).

O crime é realizado quando o agente reduz a vítima à condição semelhante


à de escravo, tornando a mesma totalmente submissa à vontade de outra pessoa. A
conduta é impossível de ser praticada em por meio de omissão ou culpa, porém
admite-se a tentativa.
Diante o exposto, se torna clara a tipificação penal de sujeitar alguém a um
estado de submissão absoluta, impedindo sua liberdade e reduzindo sua condição a
de objeto, sendo o julgamento do crime de redução a condição análoga de escravo
15

pertencente à maioria das vezes à Justiça Federal, por advento do informativo nº 450
do Supremo Tribunal Federal:

Crime de Redução a Condição Análoga à de Escravo e Competência - 2


Em conclusão de julgamento, o Tribunal, por maioria, deu provimento a
recurso extraordinário para anular acórdão do TRF da 1ª Região, fixando a
competência da justiça federal para processar e julgar crime de redução a
condição análoga à de escravo (CP, art. 149) - v. Informativo 378. Entendeu-
se que quaisquer condutas que violem não só o sistema de órgãos e
instituições que preservam, coletivamente, os direitos e deveres dos
trabalhadores, mas também o homem trabalhador, atingindo-o nas esferas
em que a Constituição lhe confere proteção máxima, enquadram-se na
categoria dos crimes contra a organização do trabalho, se praticadas no
contexto de relações de trabalho. Concluiu-se que, nesse contexto, o qual
sofre influxo do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana,
informador de todo o sistema jurídico-constitucional, a prática do crime em
questão caracteriza-se como crime contra a organização do trabalho, de
competência da justiça federal (CF, art. 109, VI). Vencidos, quanto aos
fundamentos, parcialmente, os Ministros Gilmar Mendes e Eros Grau, que
davam provimento ao recurso extraordinário, considerando que a
competência da justiça federal para processar e julgar o crime de redução a
condição análoga à de escravo configura-se apenas nas hipóteses em que
esteja presente a ofensa aos princípios que regem a organização do trabalho,
a qual reputaram ocorrida no caso concreto. Vencidos, também, os Ministros
Cezar Peluso, Carlos Velloso e Marco Aurélio que negavam provimento ao
recurso.
RE 398041/PA, rel. Min. Joaquim Barbosa, 30.11.2006. (RE-398041)

Desta forma, o Supremo Tribunal Federal entendeu que será da Justiça


Federal a competência para julgar crime de redução a condição análoga à de escravo
nos casos em que haja ofensa aos princípios formadores da organização do trabalho.
Sobre o tema, cita-se também os julgados do Superior Tribunal de Justiça:

CONFLITO DE COMPETÊNCIA. CRIME DE REDUÇÃO A CONDIÇÃO


ANÁLOGA À DE ESCRAVO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL.
PRECEDENTES DESTA CORTE E DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.
COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL. - Nos termos da jurisprudência
firmada nesta Corte e no Supremo Tribunal Federal, compete à Justiça
Federal processar e julgar o crime de redução a condição análoga à de
escravo, pois a conduta ilícita de suprimir dos trabalhadores direitos
trabalhistas constitucionalmente conferidos viola o princípio da dignidade da
pessoa humana, bem como todo o sistema de organização do trabalho e as
instituições e órgãos que o protegem. Conflito conhecido para declarar
competente o Juízo Federal da 11ª Vara da Seção Judiciária do Estado de
Goiás, ora suscitado.(STJ - CC: 132884 GO 2014/0056244-2, Relator:
Ministra MARILZA MAYNARD (DESEMBARGADORA CONVOCADA DO
TJ/SE), Data de Julgamento: 28/05/2014, S3 - TERCEIRA SEÇÃO, Data de
Publicação: DJe 10/06/2014)

CONFLITO DE COMPETÊNCIA. PROCESSUAL PENAL. CRIME DE


REDUÇÃO A CONDIÇÃO ANÁLOGA À DE ESCRAVO. ART. 149 DO
CÓDIGO PENAL. RESTRIÇÃO À LIBERDADE DO TRABALHADOR NÃO É
CONDIÇÃO ÚNICA DE SUBSUNÇÃO TÍPICA. TRATAMENTO SUBUMANO
16

AO TRABALHADOR. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL. 1. Para


configurar o delito do art. 149 do Código Penal não é imprescindível a
restrição à liberdade de locomoção dos trabalhadores, a tanto também se
admitindo a sujeição a condições degradantes, subumanas. 2. Tendo a
denúncia imputado a submissão dos empregados a condições degradantes
de trabalho (falta de garantias mínimas de saúde, segurança, higiene e
alimentação), tem-se acusação por crime de redução a condição análoga à
de escravo, de competência da jurisdição federal.
(STJ - CC: 127937 GO 2013/0124462-5, Relator: Ministro NEFI CORDEIRO,
Data de Julgamento: 28/05/2014, S3 - TERCEIRA SEÇÃO, Data de
Publicação: DJe 06/06/2014)

Porém, a lei ainda é bastante inócua e ineficiente em relação a efetiva


aplicação e inibição da prática de exploração de mão de obra, sendo a sanção penal
insuficiente, visto que menos de 10% dos envolvidos em trabalho escravo no sul-
sudeste do Pará, entre 1996 e 2003, foram denunciados por esse crime, segundo o
relatório do OIT denominado Trabalho Escravo no Brasil do Século XXI.
O mesmo relatório afirma que é cada vez mais imperativo que os
legisladores endureçam as penas sobre o tema em conjunto com uma aplicação
efetiva por parte do poder público, para uma concreta redução da escravidão
trabalhista que ainda ocorre no país.
Por enquanto a melhor ferramenta ainda será a verificação e aplicação dos
direitos fundamentais previstos na Constituição Federal de 1988, visto que a sua
ausência é um dos principais fatores que levam a constituição de trabalho escravo ou
análogo ao trabalho escravo.
17

Atualmente a sociedade enfrenta inúmeras discussões sobre o papel do


cidadão na criação de uma sociedade em que os direitos basilares sejam garantidos
e respeitados, tanto pelo estados como daqueles que nele vivem, restando evidente
que esta mesma sociedade saiba da importância dos Direitos Humanos como cimento
para solidificação da democracia e do respeito aos direitos do cidadão.
Destaca-se que o conceito de Direitos Humanos está intimamente ligado
com a dignidade da pessoa humana. Para que uma pessoa, seja ela estrangeira,
cidadão ou apátrida possa viver uma vida digna, se faz importante a sua aplicação na
vida de cada um e na comunidade como um todo.
Para que possamos entender melhor o conceito de Direitos Humanos,
podemos citar Casado Filho (2012, p. 21):

Somando todas essas ideias, temos que os Direitos Humanos são um


conjunto de direitos, positivados ou não, cuja finalidade é assegurar o respeito
à dignidade da pessoa humana, por meio da limitação do arbítrio estatal e do
estabelecimento da igualdade nos pontos de partida dos indivíduos, em um
dado momento histórico

Fica explicado então que os Direitos Humanos representam valores


fundamentais expressos na Constituição sendo o fundamento último do Estado
Brasileiro e base para aplicação e interpretação da nossa Carta Magna em toda a sua
forma.
As principais características ou ideias-chaves dos Direitos humanos são
sua universalidade, essencialidade, superioridade normativa e a vedação do
retrocesso; Ramos (2014, p.25) conceitua estas características:

A universalidade consiste no reconhecimento de que os direitos humanos são


direitos de todos, combatendo a visão estamental de privilégios de uma casta
de seres superiores. Por sua vez, a essencialidade implica que os direitos
humanos apresentam valores indispensáveis e que todos devem protegê-los.
Além disso, os direitos humanos são superiores a demais normas, não se
admitindo o sacrifício de um direito essencial para atender as “razões de
Estado”; logo, os direitos humanos representam preferências
preestabelecidas que, diante de outras normas, devem prevalecer.
Finalmente, a reciprocidade é fruto da teia de direitos que une toda a
comunidade humana, tanto na titularidade (são direitos de todos) quanto na
sujeição passiva: não há só o estabelecimento de deveres de proteção de
direitos ao Estado e seus agentes públicos, mas também à coletividade como
18

um todo. Essas quatro ideias tornam os direitos humanos como vetores de


uma sociedade humana pautada na igualdade e na ponderação dos
interesses de todos (e não somente de alguns).

A universalidade explica que deve-se alcançar todos os seres humano sem


distinção, independe de raça, cor, nacionalidade ou qualquer outro fator. Já a
essencialidade explica que os Direitos Humanos são inerentes ao ser humano, tendo
como base os valores maiores, como o respeito à dignidade e seus aspectos formais.
Entende-se que a superioridade relativa dos Direitos humanos é como um
prisma, através do qual devemos olhar todos as outras leis, tratados e acordos. Já a
vedação do retrocesso, como o próprio nome diz, explica que os Direitos Humanos
jamais podem ser reduzidos ou diminuídos no que tange o aspecto ao tamanho da
sua proteção.
Através desta explicação já se consegue enxergar a importância dos
Direitos Humanos, cujo conjunto de direitos possibilita uma vida digna para o indivíduo
que vive em uma sociedade em equilíbrio consigo mesma e com os outros.
Os Direitos Humanos também não surgiram instantaneamente, e foi na
verdade o resultado de muitas conquistas em diferentes partes do mundo, como
qualquer outra grande conquista passou por inúmeras fases, cada uma com suas
características próprias, seus pontos positivos e negativos, e permitiram de modo que
as evoluções cientificas, sociais e tecnologias chegassem ao que se entende por
Direitos Humanos nos dias atuais.
Olhamos para o passado, para não cometer os mesmos erros, por isso a
extrema importância de se compreender o significado atual de Direitos Humanos, para
que se eliminem os erros e aperfeiçoe os acertos. Assim como explica Ramos (2014,
p.28):

Não há um ponto exato que delimite o nascimento de uma disciplina jurídica.


Pelo contrário, há um processo que desemboca na consagração de diplomas
normativos, com princípios e regras que dimensionam o novo ramo do Direito.
No caso dos direitos humanos, o seu cerne é a luta contra a opressão e busca
do bem-estar do indivíduo; consequentemente, suas “ideias-âncoras” são
referentes à justiça, igualdade e liberdade, cujo conteúdo impregna a vida
social desde o surgimento das primeiras comunidades humanas. Nesse
sentido amplo, de impregnação de valores, podemos dizer que a evolução
histórica dos direitos humanos passou por fases que, ao longo dos séculos,
auxiliaram a sedimentar o conceito e o regime jurídico desses direitos
essenciais.
A contar dos primeiros escritos das comunidades humanas ainda no século
VIII a.C. até o século XX d.C., são mais de vinte e oito séculos rumo à
afirmação universal dos direitos humanos, que tem como marco a Declaração
Universal de Direitos Humanos de 1948.
19

2.2 A hierarquia dos tratados internacionais de direitos humanos Formatted: Heading 1, Left

A doutrina nacional sempre entendeu que os tratados de direitos humanos


possuem status constitucional, porém este não era o entendimento do Supremo
Tribunal Federal.
A corte maior entendia que os tratados possuíam a mesma hierarquia que
as leis federais, como consequência, lei posterior ao tratado poderia afastar a
aplicação de tratado anterior que fosse incompatível com a lei. Esse posicionamento
era o vigente antes da Emenda Constitucional n.45/2004, que foi estabelecido no
julgamento do Recurso Extraordinário n. 80.004, em 1977.
Como resume Castilho (2012, p. 118):

Em suma, para o STF, independentemente de qual fosse a matéria versada


em tratado internacional, seu status, em nosso ordenamento, seria sempre o
de lei federal, de modo que nada impediria que fosse ele posteriormente
revogado por lei que a ele sucedesse e que com ele fosse incompatível.

Com a vinda da Emenda Constitucional n. 45, de 8 de dezembro de 2004,


houve significativas alterações, ao modificar o art. 5º, § 3º da Constituição Federal do
Brasil com a seguinte redação:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes:
§ 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que
forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por
três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às
emendas constitucionais. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 45, de
2004) (Atos aprovados na forma deste parágrafo)

Porém, mesmo com a Emenda Constitucional n. 45, não se resolveu por


completo qual seria a hierarquia dos tratados internacionais de direitos humanos, pois
o dispositivo não esclarece que status os mesmos possuiriam caso não tramitassem
da forma prevista pelo artigo.
Inclusive, criando-se uma dúvida sobre aonde se encaixariam os tratados
anteriores à emenda, questiona Casado Filho (2012, p. 116)
20

Entretanto, surgia uma dúvida: e os tratados sobre direitos humanos


anteriores à Emenda Constitucional n. 45/2004, como ficavam na ordem
constitucional brasileira? Seriam equivalentes às leis federais, como os
demais tratados internacionais? Seriam equiparados à Constituição? Ou se
encaixariam em alguma outra categoria hierárquica?

O atual entendimento do Supremo Tribunal Federal, foi modificado em 3 de


dezembro de 2008, quando por unanimidade, os ministros negaram provimento ao
Recurso Extraordinário n. 466.343-1, que tinha como tema de debate a prisão civil do
devedor como depositário infiel.
Esta prisão entrava em conflito com o art. 7º, § 7º, da Convenção Americana
de Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), que proíbe a prisão por
dívida.
A tese que tomou corpo a partir dessa decisão, foi a do Ministro Gilmar
Mendes, de que os tratados internacionais possuíam status infraconstitucionais, mas
acima das leis ordinárias, como explicado pelo próprio Ministro:

Em conclusão, entendo que, desde a ratificação, pelo Brasil, sem qualquer


reserva, do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (art. 11) e da
Convenção Americana sobre Direitos Humanos – Pacto de San José da
Costa Rica (art. 7º, 7), ambos no ano de 1992, não há mais base legal para
prisão civil do depositário infiel, pois o caráter especial desses diplomas
internacionais sobre direitos humanos lhes reserva lugar específico no
ordenamento jurídico, estando abaixo da Constituição, porém acima da
legislação interna. O status normativo supralegal dos tratados internacionais
de direitos humanos subscritos pelo Brasil, dessa forma, torna inaplicável a
legislação infraconstitucional com ele conflitante, seja ela anterior ou posterior
ao ato de ratificação. Assim ocorreu com o art. 1.287 do Código Civil de 1916
e com o Decreto-Lei n° 911/69, assim como em relação ao art. 652 do Novo
Código Civil (Lei n° 10.406/2002).
(RECURSO EXTRAORDINÁRIO 466.343-1 SÃO PAULO RELATOR: MIN.
CEZAR PELUSO RECORRENTE(S): BANCO BRADESCO S/A
ADVOGADO(A/S): VERA LÚCIA B. DE ALBUQUERQUE E OUTRO(A/S)
RECORRIDO(A/S): LUCIANO CARDOSO SANTOS)

Entende-se então que houve uma grande evolução no pensamento da


corte, que até aquele momento entendia que que os tratados possuíam apenas status
de lei ordinária.
Porém, o entendimento mais vanguardista é de Piovesan (2013, p.475)

8) Por força do art. 5º, § 2º, da Constituição Federal de 1988, todos os


tratados de direitos humanos, independentemente do quórum de aprovação,
são materialmente constitucionais, compondo o bloco de constitucionalidade.
O quórum qualificado introduzido pelo § 3º do mesmo artigo (fruto da Emenda
Constitucional n. 45/2004), ao reforçar a natureza constitucional dos tratados
de direitos humanos, vem a adicionar um lastro formalmente constitucional
aos tratados ratificados, propiciando a “constitucionalização formal” dos
tratados de direitos humanos no âmbito jurídico interno. Nessa hipótese, os
tratados de direitos humanos formalmente constitucionais são equiparados
21

às emendas à Constituição, isto é, passam a integrar formalmente o Texto.


Com o advento do § 3º do art. 5º surgem, assim, duas categorias de tratados
internacionais de proteção de direitos humanos: a) os materialmente
constitucionais; e b) os material e formalmente constitucionais. Frise-se:
todos os tratados internacionais de direitos humanos são materialmente
constitucionais, por força do § 2º do art. 5º. Para além de serem
materialmente constitucionais, poderão, a partir do § 3º do mesmo dispositivo,
acrescer a qualidade de formalmente constitucionais, equiparando-se às
emendas à Constituição, no âmbito formal.
9) Essa conclusão advém de interpretação sistemática e teleológica do Texto,
especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade humana
e dos direitos fundamentais, como parâmetros axiológicos a orientar a
compreensão do fenômeno constitucional. A conclusão decorre ainda do
processo de globalização, que propicia e estimula a abertura da Constituição
à normatividade internacional — abertura que constitui um traço marcante da
ordem constitucional contemporânea, alargando o “bloco de
constitucionalidade”, como forma de densificação ou revelação específicas
de princípios ou regras constitucionais positivas. Também em favor da
natureza constitucional dos direitos enunciados em tratados internacionais,
acrescente-se a natureza materialmente constitucional dos direitos
fundamentais, como ainda o princípio da máxima efetividade das normas
constitucionais referentes a direitos e garantias fundamentais, o que justifica
estender aos direitos enunciados em tratados o regime constitucional
conferido aos demais direitos e garantias fundamentais.

O entendimento da autora é de que todos os tratados internacionais de


direitos humanos teriam força constitucional, sendo estes equivalentes às emendas à
constituição, afastando de lado o pensamento segundo o qual todos os tratados de
direitos humanos já ratificados seriam recebidos como lei federal, pois não teriam
recebido o quórum qualificado de três quintos, visto que não seria razoável sustentar
que os tratados de direitos humanos já ratificados fossem recepcionados como lei
federal, enquanto os demais adquirissem hierarquia constitucional exclusivamente em
virtude de seu quórum de aprovação, conforme explica Piovesan (2013, p.129).

2.3 Principais tratados e convenções internacionais de direitos Formatted: Heading 1, Left

humanos sobre o trabalho escravo


Formatted: Font: Not Bold

Conforme explica Piovesan (2013, p. 107), os tratados internacionais são


acordos internacionais juridicamente obrigatórios e vinculantes que constituem hoje a
principal fonte de obrigação do Direito Internacional, sendo os mesmos disciplinados
e regulamentados Convenção de Viena, concluída em 1969, que teve por finalidade
servir como a Lei dos Tratados.
Conceito explanado por Castilho (2012, p.100):
22

Tratados são acordos internacionais concluídos por escrito entre Estados e


regidos pelo Direito Internacional, quer constem de um instrumento único,
quer de dois ou mais instrumentos anexos, qualquer que seja sua
denominação específica. Constituem a principal fonte de obrigação do Direito
Internacional. O termo “tratado”, em verdade, é genérico, e abrange também
pactos, convenções, cartas, convênios e protocolos firmados entre países

Estes tratados internacionais só criam regras para os estados-membros


que expressamente consentiram com sua adoção, conforme explica Piovesan (2013,
p.129):

Se assim é, a primeira regra a ser fixada é a de que os tratados internacionais


só se aplicam aos Estados-partes, ou seja, aos Estados que expressamente
consentiram em sua adoção. Os tratados não podem criar obrigações para
os Estados que neles não consentiram, ao menos que preceitos constantes
do tratado tenham sido incorporados pelo costume internacional. Como
dispõe a Convenção de Viena: “Todo tratado em vigor é obrigatório em
relação às partes e deve ser cumprido por elas de boa-fé”. Acrescenta o art.
27 da Convenção: “Uma parte não pode invocar disposições de seu direito
interno como justificativa para o não cumprimento do tratado”. Consagra-se,
assim, o princípio da boa-fé, pelo qual cabe ao Estado conferir plena
observância ao tratado de que é parte, na medida em que, no livre exercício
de sua soberania, o Estado contraiu obrigações jurídicas no plano
internacional.

Castilho (2012. p.108) também comenta sobre o assunto:

Enfatize-se que os tratados são, por excelência, expressão de consenso.


Apenas pela via do consenso podem os tratados criar obrigações legais, uma
vez que Estados soberanos, ao aceitá-los, comprometem-se a respeitá-los.
A exigência de consenso é prevista pelo art. 52 da Convenção de Viena,
quando dispõe que o tratado será nulo se a sua aprovação for obtida
mediante ameaça ou pelo uso da força, em violação aos princípios de Direito
Internacional consagrados pela Carta da ONU.

Podemos então entender que os tratados internacionais são acordos entre


estados-membros, que ao aceitá-lo, tornam os mesmos leis a serem seguidas em seu
território, não podendo usar do direito interno para negar o cumprimento do tratado.
Inúmeros tratados internacionais de direitos humanos foram assinados e
ratificados durantes os anos pelo Brasil, como A Declaração Universal de Direitos
Humanos (DUDH) de 1948, o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos
(PIDCP), a Convenção n.º 29 da OIT, sobre o trabalho forçado ou obrigatório, a
Convenção n.º 105 da OIT, sobre a Abolição do Trabalho Forçado, o Protocolo de
2002 relativo à Convenção da Organização Internacional do Trabalho sobre a
Segurança e a Saúde dos Trabalhadores, entre outros.
Porém ao citarmos os tratados internacionais de direitos humanos que
tenham conexão com o trabalho escravo, é necessário indagar quais são os
precedentes históricos da proteção desses direitos.
23

Segundo Piovesan (2014, p. 187), O Direito Humanitário, a Liga das


Nações e a Organização Internacional do Trabalho situam-se como os primeiros
marcos do processo de internacionalização dos direitos humanos. Sendo estes os
percursores de todos os tratados que o Brasil é consignatário.
A principal evolução para o tema aqui discutido, foi a criação da
Organização Internacional do Trabalho (OIT), única agência das agências das Nações
Unidas com uma estrutura tripartite, composta por representantes de governos e de
organizações de empregadores e de trabalhadores.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) é uma agência
especializada das Nações Unidas que tem por missão promover oportunidades para
que homens e mulheres possam ter acesso a um Trabalho Decente.
Esta entidade tem a competência de realizar tratados, convenções e
recomendações de matéria trabalhista entre seus países membros. Sua criação
decorreu do entendimento constante no preâmbulo de sua constituição de que a paz
universal só pode basear-se na justiça social.
Segundo a Constituição da Organização Internacional do Trabalho
(Declaração de Filadélfia), em seu próprio preâmbulo:

Considerando que existem condições de trabalho que implicam, para grande


número de indivíduos, miséria e privações, e que o descontentamento que
daí decorre põe em perigo a paz e a harmonia universais, e considerando que
é urgente melhorar essas condições no que se refere, por exemplo, à
regulamentação das horas de trabalho, à fixação de uma duração máxima do
dia e da semana de trabalho, ao recrutamento da mão-de-obra, à luta contra
o desemprego, à garantia de um salário que assegure condições de
existência convenientes, à proteção dos trabalhadores contra as moléstias 3
graves ou profissionais e os acidentes do trabalho, à proteção das crianças,
dos adolescentes e das mulheres, às pensões de velhice e de invalidez, à
defesa dos interesses dos trabalhadores empregados no estrangeiro, à
afirmação do princípio "para igual trabalho, mesmo salário", à afirmação do
princípio de liberdade sindical, à organização do ensino profissional e técnico,
e outras medidas análogas;

A OIT com coordenação de Leonardo Sakamoto (2006, p. 4) também


lançou o livro Trabalho Escravo no Brasil do Século XXI, que é considerado o estudo
mais completo feito já feito sobre a situação do trabalho escravo contemporâneo no
Brasil, fruto de um esforço conjunto do Escritório da Organização Internacional do
Trabalho e de especialistas no tema.
Através deste estudo, e do apoio da Organização Internacional do
Trabalho, pode-se ter uma ideia sobre a realidade do trabalho escravo no Brasil na
24

atualidade e a efetividade das ações ao combate ao trabalho forçado. Conforme


Sakamoto (2006, p. 7-8):

Já tendo demonstrado importante liderança internacional nessa matéria, o


Brasil tem uma chance real de desenvolver um modelo integrado para a
Aliança Global contra o Trabalho Forçado. Avançando no fortalecimento de
uma rede de proteção social e na criação de oportunidades de geração de
renda e trabalho decente, integrando medidas preventivas com a rigorosa
aplicação das leis, o País pode atacar as raízes da pobreza e da impunidade
que suprem e fomentam o trabalho forçado, assim como punir os ofensores
que lucram ilegalmente abusando da vulnerabilidade dos que tem menos
condições. Por tirar proveito da vulnerabilidade dos mais pobres através de
meios e procedimentos que ferem não apenas os direitos e princípios
fundamentais no trabalho, como também os mais elementares direitos
humanos à vida e à liberdade, o trabalho forçado é a verdadeira antítese da
Agenda de Trabalho Decente promovida pela OIT.

Outro importante fator para o combate ao trabalho forçado foi a assinatura


da Convenção nº 29 da OIT de 1930 que definiu sob o caráter de lei internacional o
trabalho escravo como todo trabalho ou serviço exigido de uma pessoa sob a ameaça
de sanção e para o qual não se tenha oferecido espontaneamente.
Esta mesma Convenção, proibiu o trabalho forçado em geral, incluindo à
escravidão, que constitui-se no absoluto controle de uma pessoa sobre a outra, ou de
um grupo de pessoas sobre outro grupo social. Com destaque para o seu art. 2:

Art. 2 — 1. Para os fins da presente convenção, a expressão ‘trabalho forçado


ou obrigatório’ designará todo trabalho ou serviço exigido de um indivíduo sob
ameaça de qualquer penalidade e para o qual ele não se ofereceu de
espontânea vontade.

2. Entretanto, a expressão ‘trabalho forçado ou obrigatório’ não


compreenderá, para os fins da presente convenção:

a) qualquer trabalho ou serviço exigido em virtude das leis sobre o serviço


militar obrigatório e que só compreenda trabalhos de caráter puramente
militar;

b) qualquer trabalho ou serviço que faça parte das obrigações cívicas normais
dos cidadãos de um país plenamente autônomo;

c) qualquer trabalho ou serviço exigido de um indivíduo como consequência


de condenação pronunciada por decisão judiciária, contanto que esse
trabalho ou serviço seja executado sob a fiscalização e o controle das
autoridades públicas e que dito indivíduo não seja posto à disposição de
particulares, companhias ou pessoas privadas;

d) qualquer trabalho ou serviço exigido nos casos de força maior, isto é, em


caso de guerra, de sinistro ou ameaças de sinistro, tais como incêndios,
inundações, fome, tremores de terra, epidemias, e epizootias, invasões de
animais, de insetos ou de parasitas vegetais daninhos e em geral todas as
circunstâncias que ponham em perigo a vida ou as condições normais de
existência de toda ou de parte da população;
25

e) pequenos trabalhos de uma comunidade, isto é, trabalhos executados no


interesse direto da coletividade pelos membros desta, trabalhos que, como
tais, podem ser considerados obrigações cívicas normais dos membros da
coletividade, contanto, que a própria população ou seus representantes
diretos tenham o direito de se pronunciar sobre a necessidade desse
trabalho.

Este artigo, além de definir a proibição do trabalho escravo, também cita as


exceções ao mesmo, como por exemplo o serviço exigido em virtude das leis sobre o
serviço militar obrigatório ou trabalhos em casos de força maior, como guerras.
A convenção 105 da Organização Internacional do Trabalho também é
muito importante para a erradicação do trabalho forçado, visto que prevê em seu art.
1:

Todo País-membro da Organização Internacional do Trabalho que ratificar


esta Convenção compromete-se a abolir toda forma de trabalho forçado ou
obrigatório e dele não fazer uso:
a) como medida de coerção ou de educação política ou como punição por ter
ou expressar opiniões políticas ou pontos de vista ideologicamente opostos
ao sistema político, social e econômico vigente;
b) como método de mobilização e de utilização da mão-de-obra para fins de
desenvolvimento econômico;
c) como meio de disciplinar a mão-de-obra; d) como punição por participação
em greves;
e) como medida de discriminação racial, social, nacional ou religiosa

É possível citar também a Declaração Universal dos Direitos Humanos de


1948, que segundo Casado Filho (2012, p. 70):

A partir da Declaração, pode-se dizer que o ser humano começou a ter voz
no plano internacional, com uma Declaração realizada e idealizada na
perspectiva dos governados.
A Declaração estabeleceu uma gama completa de direitos aplicáveis a todos
os povos do mundo. A autoridade suprema deixava de ser a vontade do
soberano ou as “razões de Estado” para passar a ser a qualidade de
humanidade que todos os povos do mundo têm em comum.
O Preâmbulo já coloca a dignidade da pessoa humana como fundamento da
liberdade, da justiça e da paz no mundo. Em seguida, estabelece como
direitos as necessidades essenciais que todos os indivíduos têm,
independentemente das diferenças entre eles.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos teve importante papel na


construção dos direitos fundamentais, visto que pela primeira vez colocou a dignidade
humana como fundamento da liberdade, criando segundo Casado Filho (2012, p. 71),
um ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, iniciando um
movimento mundial para promover o respeito universal a esses direitos que
proclamou.
26

Neste panorama, cita-se também o Pacto Internacional dos Direitos Civis e


Políticos, adotado pela Assembleia Geral da ONU em 1966, no seu artigo 8º, inciso §
1º, dispõe que “ninguém poderá ser submetido à escravidão; a escravidão e o tráfico
de escravos, em todas as suas formas, ficam proibidos”, e, ainda, em seu § 2º
“ninguém poderá ser submetido à servidão”.
Também, destaca-se a Convenção Americana de Direitos Humanos de
1969, conhecida como Pacto San Jose da Costa Rica, ratificada pelo Brasil em 1992,
que também consagra a proteção específica que proíbe a escravidão e a servidão
conforme previsto em seu artigo 6º prevendo que “ninguém pode ser submetido à
escravidão ou à servidão, e tanto estas como o tráfico de escravos e o tráfico de
mulheres são proibidos em todas as formas” (BRASIL, 1992).
27

Há de se verificar quais são as formas atualmente utilizadas pelo poder


estatal para o combate de trabalho forçado no Brasil, conferindo sua eficácia e
comparando resultados com outras possíveis formas de erradicação ao trabalho
escravo.
Um das primeiras atitudes positivas nesse sentido foi a reformulação em
1995, quando aconteceu a criação do Grupo Executivo de Repressão ao Trabalho
Forçado (GERTRAF) para combater o trabalho escravo, prevendo a articulação de
diversas áreas do Governo Federal e o seus ministérios, conforme Figueira (2004, p.
360):

Nesse sentido, em 1995 foi criado o Grupo Executivo de Repressão ao


Trabalho Forçado (GERTRAF) para “combater o trabalho escravo”, em um
contexto em que as autoridades governamentais manifestavam-se em
documentos escritos utilizando, preferencialmente, o termo “trabalho
forçado”.
Sua atuação previa a articulação de diversas áreas do Governo, contando,
desse modo, com representantes de sete ministérios - Ministérios da Justiça,
do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal, da
Agricultura e do Abastecimento, da Indústria do Comércio e do Turismo, da
Política Fundiária, da Previdência e Assistência Social -, sob a coordenação
do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Em 2002, foi criado o projeto “Combate ao Trabalho Escravo no Brasil”,


momento em que o governo brasileiro em parceria com a Organização Internacional
do Trabalho, buscou fortalecer as instituições nacionais que defendem os direitos
humanos, conforme Costa (2010, p. 126):

Em sintonia com as particularidades e necessidades brasileiras para o


enfrentamento da questão, o Projeto de Cooperação Técnica “Combate ao
Trabalho Escravo no Brasil”, desenvolvido pela OIT, desde abril de 2002, tem
buscado fortalecer a articulação das instituições nacionais parceiras
(governamentais e não-governamentais) que defendem os direitos humanos,
além de contribuir para a prevenção do trabalho escravo e a reabilitação de
trabalhadores resgatados, de modo a evitar o seu retorno às condições de
trabalho análogas à escravidão. A OIT-Brasil, desse modo, atua em uma
lógica complementar ao Governo Brasileiro, que centra esforços nos
mecanismos de repressão do trabalho escravo.

Atualmente, os esforços se concentram na Comissão Nacional para a


Erradicação do Trabalho Escravo (CONATRAE), que foi primeiro elaborada em março
de 2003 e reúne aspirações das diferentes instituições que atuam no combate ao
problema, sendo formada por representantes dos poderes Executivo, Legislativo e
Judiciário e de vários segmentos da sociedade civil.
28

A CONATRAE tem como objetivo fiscalizar e acompanhar as metas


estabelecidas em um conjunto de ações propostas pelo Governo Brasileiro no Acordo
de Solução Amistosa assinado perante a Organização dos Estados Americanos
(OEA), tendo ampla participação do OIT-Brasil na elaboração do projeto, solução esta
a ser estudada no próximo capitulo.
O Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo obteve
importantes resultados, ajudando o Brasil ao combate ao trabalho forçado e ao
cumprimento da solução amistosa realizada com a OEA.
Esta solução foi implementada após a denúncia do Brasil a Comissão
Interamericana de Direitos Humanos, que é um órgão autônomo da Organização dos
Estados Americanos. Segundo Casado Filho (2012, p. 85):

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos, na forma do que dispõe a


Convenção Interamericana de Direitos Humanos, é um órgão autônomo da
OEA, cuja função principal é promover a observância, a defesa e a promoção
dos Direitos Humanos e servir como órgão consultivo da OEA sobre a
matéria.

A CIDH é formada por 7(sete) membros, com mandatos de 4(quatro) anos,


renováveis por mais 4(quatro) anos, que tenham se destacado na área de
conhecimento dos direitos humanos, com sede em Washington (EUA), cuja atividades
estão previstas no Pacto de San José, entre seus arts. 34 a 51.
Segundo Casado Filho (2012, p.87), a Comissão não tem função
jurisdicional, mas exerce importante papel nos países membros, colocando sua
influência para o efetivo cumprimento dos acordos:

A Comissão não tem função jurisdicional, mas exerce uma enorme influência
sobre os países-membros. É ela que recebe as denúncias de violações que
lhe são apresentadas pelas vítimas ou por quaisquer pessoas ou
organizações não governamentais, contra atos que violam os direitos
fundamentais por parte dos Estados ou que não tenham encontrado
reconhecimento ou proteção por parte dos mesmos Estados. Tal fato faz com
que a Comissão tenha uma função, nesta área, semelhante à atuação do
Ministério Público.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos processa essas denúncias,
e, após examiná-las e admiti-las, faz recomendações aos Estados. Ao final,
decide se apresenta ou não o caso à Corte Interamericana. Assim, a Corte
só passa a decidir sobre os casos que lhe são apresentados pela Comissão
ou por um Estado-parte.

Casado Filho considera que apesar de não possuir função jurisdicional, a


comissão tem mostrado ser o órgão mais eficaz do sistema interamericano, pelo
29

menos no que se refere ao Brasil, alcançando importante conquistas (Casado Filho,


2012)
Outro importante projeto foi o cadastro instituído pela Portaria n. 540/2004
do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que prevê o agrupamento dos nomes
dos empregadores flagrados na exploração de trabalhadores em condições análogas
às da escravidão e condenados administrativamente pelas infrações à legislação do
trabalho.
Além de ficarem expostas perante a sociedade, as empresas incluídas na
lista “suja” do trabalho escravo perdem, o acesso a financiamentos em bancos
públicos, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
e o Banco do Brasil, que assinaram o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho
Escravo
Podemos também citar as ações dos grupos móveis de fiscalização,
Integrados por auditores fiscais do Trabalho, procuradores do Trabalho e policiais
federais, segundo Sakamoto (2006, p. 54):

Em 1995, atendendo a reivindicações da sociedade civil, o governo federal


criou os grupos móveis de fiscalização com o objetivo de averiguar as
condições a que estão expostos trabalhadores rurais, principalmente em
locais remotos. Quando encontram irregularidades, como trabalho escravo,
trabalho infantil e superexploração do trabalho aplicam autos de infração que
geram multas, além de garantir que os direitos sejam pagos aos empregados.
Auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), agentes e
delegados da Polícia Federal e procuradores do Ministério Público do
Trabalho (MPT) integram esses grupos. Hoje, são sete equipes – podendo se
desdobrar em 14 – que rodam o país e respondem diretamente a Brasília.

O Brasil obteve relativa eficácia com as ações dos grupos móveis de


fiscalização, sendo integrados por auditores fiscais do Trabalho, procuradores do
Trabalho e policiais federais, liberando mais de 17 mil pessoas do trabalho forçado,
através de 395 operações, conforme Sakamoto (2006, p. 24):

De 1995 até 2005, 17.983 pessoas foram libertadas em ações dos grupos
móveis de fiscalização, integrados por auditores fiscais do Trabalho,
procuradores do Trabalho e policiais federais. No total, foram 1.463
propriedades fiscalizadas em 395 operações. As ações fiscais demonstram
que quem escraviza no Brasil não são proprietários desinformados,
escondidos em fazendas atrasadas e arcaicas. Pelo contrário, são
latifundiários, muitos produzindo com alta tecnologia para o mercado
consumidor interno ou para o mercado internacional. Não raro nas fazendas
são identificados campos de pouso de aviões. O gado recebe tratamento de
primeira, enquanto os trabalhadores vivem em condições piores do que as
dos animais.
30

3.2 Caso concreto Formatted: Heading 1, Left

Para melhor compreensão do combate ao trabalho escravo é necessário


que se veja a aplicação dos mecanismos no caso concreto, estudando aspectos da
disciplina jurídica do trabalho forçado no Brasil o funcionamento do Sistema de
Proteção Interamericano aos Direitos Humanos, especificamente no que se refere à
Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
Com referência de modo específico ao caso do adolescente José Pereira,
vítima dessa prática na Fazenda Espirito Santo, localizada no sul do Estado do Pará,
onde foi alegado a cumplicidade de agentes do Estado do Pará, dado que, em alguns
casos, policiais estaduais prendem e devolvem para a fazenda os trabalhadores que
conseguem escapar ou em outros casos, a polícia finge não ver quando os vigilantes
privados tentam deter os trabalhadores fugitivos.
Através dessa denuncia, ficou claro que o próprio Estado é cúmplice da
situação, ao ignorar os repetidos casos de ocorrência de trabalho escravo pelas
mesmas empresas e empregadores.
Segundo Scaff (2010, p. 203), a denúncia foi realizada por Organizações
Não Governamentais (ONGs) em 16 de dezembro de 1994:

Em 16 de dezembro de 1994, as organizações não governamentais Américas


Watch e o Centro da Justiça e Direito Internacional apresentaram uma petição
à Comissão contra o Brasil denunciando a prática de trabalho forçado
(submissão de outrem a condições análogas à de escravo), além de violação
ao direito à vida e à justiça no sul do estado do Pará.
O Brasil é acusado de violar os artigos I (direito à vida, à liberdade, à segurança
e integridade física da pessoa), XIV (direito ao trabalho e à justa remuneração)
e XXV (direito à proteção contra a detenção arbitrária) da Declaração
Americana dos Direitos e Deveres do Homem, e também dos dispositivos 6
(proibição da escravidão e da servidão), 8 (garantias judiciais) e 25 (proteção
judicial) em consonância com o art. 1 da Convenção Americana dos Direitos
Humanos.

Um dos principais fatores apontados pelas Organizações Não


Governamentais foi a cumplicidade dos agentes do Estado do Pará, frisando a
corrupção no Brasil, alegando-se que a Policia Federal não havia investigado
nenhuma denúncia feitas desde 1987, só sendo realizado alguma diligência sobre o
31

caso após diversos pedidos dos grupos de Direitos Humanos, conforme explica Scaff
(2010, p. 205):

A despeito disso, argumentaram as peticionarias que até a data da denúncia


ninguém no estado do Pará havia sido procurado ou condenado por este caso
em particular, e que as investigações estavam muito lentas. Frisaram a
corrupção no Brasil. Isto porque constataram existir cumplicidade dos
agentes do estado do Pará, pois, não raras vezes, os policiais devolvem à
fazenda os trabalhadores que tentam escapar.
Afirmam que as autoridades do Ministério do Trabalho e as da polícia federal
não tomaram medidas capazes e eficazes para prevenir, impedir ou reprimir
o crime em análise. Por fim, concluíram que o estado brasileiro é omisso
quanto ao combate ao trabalho forçado. Isto porque a polícia federal não
investigou as denúncias feitas desde 1987 com respeito à Fazenda Espírito
Santo.
As investigações somente começaram sobre o caso José Pereira, após muita
insistência por pressão de grupos de Direitos Humanos. Com isso,
acrescentaram que as investigações começaram em 1989 e somente em
1994 as investigações da Polícia Federal foram levadas ao Judiciário para
instauração do processo penal. Sob o argumento de que os recursos internos
se esgotaram em face da demora na prestação jurisdicional brasileira,
ingressaram com a petição na Comissão.

Em 18 de setembro de 2003 firmou-se uma solução amistosa junta a


Comissão Interamericana de Direitos Humanos, momento em que o Brasil pela
primeira vez assumiu sua responsabilidade internacionalmente, conforme destaca
Scaff (2010, p. 207):

O acordo constituiu um marco nas decisões relativas à violação dos direitos


humanos para o país. Apesar de ser comum este tipo de solução entre os
países membros da Organização dos Estados Americanos, o Brasil nunca
havia assumido sua responsabilidade internacional.
Diante da incapacidade do Estado em prevenir e punir a prática do trabalho
escravo neste particular, o caso em análise permaneceu impune no
ordenamento jurídico interno. Isto porque a pena aplicada a um dos autores
não pôde ser executada em virtude do excesso de tempo transcorrido entre
o inquérito e o oferecimento da denúncia, a chamada prescrição retroativa.

Essa solução amistosa ficou prevista no Relatório Nº 95/03, CASO 11.289,


e ocorreu em 23 de outubro de 2003, na qual previu que o Brasil tomaria Medidas de
Prevenção, como modificações legislativas, medidas de fiscalização e repressão do
trabalho escravo e medidas de sensibilização contra o trabalho escravo. Nesse
sentido previu-se as modificações legislativas a seguir:

IV.1 Modificações Legislativas

10. A fim de melhorar a Legislação Nacional, que tem como objetivo


proibir a prática do trabalho escravo no país, o Estado brasileiro compromete-
32

se a implementar as ações e as propostas de mudanças legislativas contidas


no Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, elaborado
pela Comissão Especial do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa
Humana, e iniciado pelo Governo brasileiro em 11 de março de 2003.

11. O Estado brasileiro compromete-se a efetuar todos os esforços


para a aprovação legislativa (i) do Projeto de Lei Nº 2130-A, de 1996 que
inclui, entre as infrações contra a ordem econômica, a utilização de
mecanismos “ilegítimos da redução dos custos de produção como o não
pagamento dos impostos trabalhistas e sociais, exploração do trabalho
infantil, escravo o semi-escravo”; e (ii) o Substitutivo apresentado
pela Deputada Zulaiê Cobra ao projeto de Lei Nº 5.693 do Deputado Nelson
Pellegrino, que modifica o artigo 149 do Código Penal Brasileiro.

12. Por último, o Estado brasileiro compromete-se a defender a


determinação da competência federal para o julgamento do crime de redução
análoga à de escravo, com o objetivo de evitar a impunidade.

Percebe-se então a preocupação do Estado Brasileiro em trilhar pela via


da sensibilização, o que remete ao olhar humanístico de preservação da dignidade.
O mesmo Relatório Nº 95/03, CASO 11.289, também tratou de medidas de
fiscalização e repressão do trabalho escravo:

IV.2. Medidas de Fiscalização e Repressão do Trabalho Escravo

13. Considerando que as propostas legislativas demandarão um


tempo considerável para serem implementadas na medida que dependem
da atuação do Congresso Nacional, e que a gravidade do problema da prática
do trabalho escravo requer a tomada de medidas imediatas, o Estado
compromete-se desde já a: (i) fortalecer o Ministério Público do Trabalho; (ii)
velar pelo cumprimento imediato da legislação existente, por meio de
cobranças de multas administrativas e judiciais, da investigação e a
apresentação de denúncias contra os autores da prática de trabalho escravo;
(iii) fortalecer o Grupo Móvil do MTE; (iv) realizar gestões junto ao Poder
Judiciário e a suas entidades representativas, no sentido de garantir o
castigo dos autores dos crimes de trabalho escravo.

14. O Governo compromete-se a revogar, até o fim do ano, por meio de


atos administrativos que lhe correspondam, o Término de Cooperação
assinado em fevereiro de 2001 entre os proprietários de fazendas e
autoridades do Ministério de Trabalho e do Ministério Público do Trabalho, e
que foi denunciado no presente processo em 28 de fevereiro de 2001.

15. O Estado brasileiro compromete-se a fortalecer gradativamente a


Divisão de Repressão ao Trabalho Escravo e de Segurança dos Dignatários-
DTESD, criada no âmbito do Departamento da Policia Federal por meio da
Portaria-MJ Nº 1.016, de 4 de setembro de 2002, de maneira a dotar a Divisão
com fundos e recursos humanos adequados para o bom cumprimento das
funções da Polícia Federal nas ações de fiscalização de denúncias de
trabalho escravo.

16. O Estado brasileiro compromete-se a diligenciar junto ao Ministério


Público Federal, com o objetivo de ressaltar a importância da participação e
33

acompanhamento das ações de fiscalização de trabalho escravo pelos


Procuradores Federais.

E por último no mesmo documento acima mencionado no que diz respeito


as medidas de sensibilização contra o trabalho escravo:

IV.3. Medidas de Sensibilização contra o Trabalho Escravo

17. O Estado brasileiro realizará uma campanha nacional de


sensibilização contra a prática do trabalho escravo, prevista para outubro de
2003, e com um enfoque particular no Estado do Pará. Nessa oportunidade,
mediante a presença dos peticionários dar-se-á publicidade aos termos deste
Acordo de Solução Amistosa. A campanha estará baseada num plano de
comunicação que contemplará a elaboração de material informativo dirigido
aos trabalhadores, a inserção do tema na mídia pela imprensa e através de
difusão de curtas publicitários. Também estão previstas visitas de
autoridades nas áreas de enfoque.

18. O Estado brasileiro compromete-se a avaliar a possibilidade de


realização de seminários sobre a erradicação do trabalho escravo no Estado
do Pará, até o primeiro semestre de 2004, com a presença do Ministério
Público Federal, estendendo o convite para a participação dos peticionários.

Com a assinatura dessa solução em 1995, o Brasil se tornou um dos


primeiros países no mundo a assumir a existência de trabalho escravo, sendo um forte
passo ao caminho da erradicação do trabalho forçado, conforme comenta Sakamoto
(2006, p. 23):

Em 1995, o governo federal brasileiro – por intermédio de um pronunciamento


do então presidente da República Fernando Henrique Cardoso – assumiu a
existência do trabalho escravo 4 O trabalhador é levado para longe de seu local
de origem e, portanto, da rede social na qual está incluído. Dessa forma, fica
em um estado de permanente fragilidade, sendo dominado com maior
facilidade. • 23 perante o país e a OIT. Com isso, tornou-se uma das primeiras
nações do mundo a reconhecer oficialmente a escravidão contemporânea. Em
27 de junho daquele ano, foi editado o decreto número 1538, criando estruturas
governamentais para o combate a esse crime, com destaque para o Grupo
Executivo de Repressão ao Trabalho Forçado (Gertraf) e o Grupo Móvel de
Fiscalização, coordenado pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Em março
de 2003, o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, lançou o Plano Nacional
para a Erradicação do Trabalho Escravo e instituiu, em agosto do mesmo ano,
a Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).

3.3 Entraves ao combate do trabalho escravo Formatted: Heading 1, Left

Primeiramente temos que destacar a ineficácia ainda existente quanto a


aplicação das leis no Brasil, principalmente na área penal, conforme demonstra
Sakamoto (2006, p. 105):
34

Apesar de 17.983 trabalhadores61 terem sido libertados em 1.463 fazendas


fiscalizadas, houve muitos poucos casos de condenação pelo artigo 149 do
Código Penal, que prevê de dois a oito anos de prisão. Além disso, nenhum
dos condenados, cumpriu pena na prisão. Esse é o caso publicamente
conhecido de Antônio Barbosa de Melo, proprietário das fazendas Araguari e
Alvorada, em Água Azul do Norte, Sul do Pará, cuja condenação foi revertida
em doação de cestas básicas. Vale salientar que este fazendeiro foi reincidente
no crime de trabalho escravo.
É verdade que houve um número maior de julgamentos desfavoráveis ao réu
do que apenas nesses casos. Contudo, devido ao longo tempo de tramitação
do processo na Justiça, ele acaba prescrevendo, a condenação é anulada e o
proprietário rural permanece como réu primário.
A lei número 109 do Código Penal especifica o prazo para a prescrição de um
crime. O cálculo considera o tempo entre o momento da denúncia do Ministério
Público e a sentença do juiz. Isso não seria um problema caso fosse dada a
pena máxima prevista (oito anos), o que implicaria um prazo de prescrição de
12 anos. Nesse espaço, dificilmente não haveria tempo para o julgamento e os
recursos. Porém, normalmente a Justiça opta pela pena mínima, de dois anos.
De acordo com a legislação, se o processo durou quatro anos e o juiz deu dois,
o crime prescreve

Destaca-se que houve um maior número de julgamentos contra o trabalho


escravo, porém como a justiça opta pela pena mínima de dois anos, a pena acaba
prescrevendo ou o infrator se livra com pagamento de apenas uma multa, perdendo
toda sua eficácia no combate ao trabalho forçado.
É importante também que haja a prevenção, principalmente em estados
mais carentes economicamente, aonde há um índice maior de trabalhadores
escravos, conforme Sakamoto (2006, p. 108):

A erradicação do trabalho escravo no Brasil passa pela adoção de políticas


de prevenção nos locais de origem dos trabalhadores libertados. Oriundos de
municípios muito pobres do Norte e Nordeste (os estados do Piauí,
Maranhão, Tocantins e Pará concentram 80% dos casos), com baixo Índice
de Desenvolvimento Humano, estes brasileiros são constantemente iludidos.
Ao ouvir histórias de serviço farto em fazendas, mesmo em terras distantes,
esses trabalhadores são aliciados por gatos e transportados em caminhões,
ônibus ou trem por centenas de quilômetros.
O destino principal é a região de fronteira agrícola, onde a floresta amazônica
tomba para dar lugar a pastos e plantações.
A reforma agrária é considerada por entidades da sociedade civil e setores
do governo federal como um dos mais importantes instrumentos de
prevenção ao trabalho escravo.
Apesar disso, o orçamento destinado a ela é pequeno e o Instituto Nacional
de Colonização e Reforma Agrária (Incra), órgão responsável pela
demarcação de terras, enfrenta dificuldades operacionais. Há muitas
fazendas baseadas em documentos de propriedade fraudulentos que não são
destinadas à reforma agrária por falta de infraestrutura e de servidores
públicos para investigar a situação.

Destaca-se a importância da reforma agrária como instrumento de combate


ao trabalho escravo, que até nos dias atuais, não há uma grande movimentação por
parte do poder estatal para sua efetiva realização, dificultando com que haja
35

propriedades para o pequeno produtor rural, evitando que o mesmo tenha que se
submeter a trabalhos em condições degradantes.
No Brasil também há pouco ou quase nenhum projeto nacional de geração
de emprego e renda, voltados especificadamente para os miseráveis, conforme
destaca Sakamoto (2010. p. 110):

Não há projetos nacionais de geração de emprego e renda elaborados


especificamente para evitar que populações miseráveis caiam na rede da
escravidão ou para reinserir os escravos libertos de modo a evitar que não
sejam aliciados novamente que estejam implantados e produzindo resultados
– como mostra a avaliação da meta 53 do Plano Nacional pela Erradicação
do Trabalho Escravo. O que existe são projetos locais e regionais, com
alcance limitado, ou projetos maiores que não conseguiram ser viabilizados
por falta de recursos, de pessoal e de coordenação.

Nota-se que a falta de planos nacionais de geração de emprego e renda


acabam por levar ao empregado a se sujeitar a qualquer trabalho disponível, mesmo
que o emprego seja nas piores condições possíveis.
Além de formas de combate, um importante fator que deve ser mais
explorado no Brasil é a publicidade das decisões, pois apesar de já existir alguns
projetos do Ministério do Trabalho e de outros órgãos estatais, ainda há um grande
caminho a ser percorrido, expõe Braga (2015, p. 37)

Os dados referentes às operações de fiscalização são organizados e


divulgados, o que caracteriza uma medida tanto de repressão como de
prevenção por meio da conscientização. Em verdade, apesar da relevância
destas ações para os casos já existentes, os empenhos no sentido da
prevenção desta prática tão condenável devem receber a maior atenção.
Para além da validade intrínseca aos métodos que preveem e buscam evitar
a concretização dos problemas, fato observado pela CPI do Trabalho Escravo
em São Paulo é que muitas das empresas flagradas em condutas delitivas,
embora passem a empregar discursos de viés social e se comprometam com
mudanças, estas promessas não passam de estratégias de marketing a fim
de recuperar a boa imagem, já que pouco fazem na prática, continuando a
ignorar as irregularidades de sua cadeia produtiva e a incidir no crime.
As tentativas de se escusar da responsabilidade se fundam sobre o
argumento de que as violações se dão em oficinas contratadas para
fornecimento, negando ocorrência de terceirização irregular

É importante levar ao consumidor o conhecimento de que marcas estão ou


utilizaram trabalho escravo em suas empresas, para que o cidadão comum consiga
criar real impacto e evitando futuros casos de trabalho forçado.
É importante também que haja um aumento financeiro do poder público
voltado ao combate ao trabalho forçado, como Sakamoto (2006, p. 119) explica:
36

a) Aumentar os recursos financeiros. As três esferas de poder – federal,


estadual e municipal – devem aumentar o repasse de verbas de órgãos e
entidades envolvidas no combate ao trabalho escravo para que possam atuar
com plena capacidade e fazer frente ao tamanho deste desafio.

Além de aumentar a integração das entidades envolvidas, conforme


Sakamoto (2006, p. 120):

c) Aprimorar a integração das entidades envolvidas. A estrutura de combate


carece da existência de um núcleo coordenador que possua respaldo político,
chame para si responsabilidades e acompanhe a ação das entidades
envolvidas. Sem isso, o processo continuará em um ritmo mais lento que o
desejado. Essa integração poderia ser obtida mediante um fortalecimento das
atribuições da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo
(Conatrae)

Diante o exposto é notório uma maior necessidade de envolvimento da


sociedade e do poder público no combate ao trabalho escravo em todas as suas
formas, desde de criação de mais instituições voltadas ao tema, como maior
integração e investimento financeiro.
37

A adoção de políticas públicas de combate ao trabalho escravo necessita


de um apoio intenso da sociedade, ONGs e principalmente do poder público, que por
respeito aos inúmeros tratados assinados pelo Brasil, tem obrigação legal de fazer
tudo possível para que se consiga o fim do trabalho forçado.
Pode-se afirmar também que o escravismo contemporâneo pouco se
distingue dos praticados séculos anteriores. Tais semelhanças comprovam-se
primeiramente pelas características ainda existentes, tais como as condições
precárias e desumanas obrigando os trabalhadores a trabalhar em ambientes não
higienizados, restrição a concessão de ambiente para necessidades fisiológicas, para
lazer e repouso.
Unem-se a tais fatos as jornadas de trabalho exaustivas extrapolando
demasiadamente o estipulado em lei, fiscalização exacerbada pelos patrões da pratica
de trabalho, ligação forçada ao meio de trabalho degradante, etc.
Apesar de o Governo Federal e as instituições que compões o CONATRAE
terem combatido intensamente o desrespeito as garantias fundamentais, ainda há
muito a se discutir em relação as melhores estratégias de fiscalização e
responsabilização.
Portanto, é essencial que os trabalhadores tenham seus princípios
fundamentais e previstos na Carta Magna de 1988 respeitados. Garantindo os direitos
trabalhistas, como a jornada normal, condições razoáveis de moradia, alimentação e
higiene adequada.

Formatted: Font: (Default) Arial, 16 pt, Bold

W. ABRAMO, Laís. Trabalho Escravo no Brasil do Século XXI, Organização


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SCAFF, Luma Cavaleiro de Macedo. Estudo do caso - José Pereira: o Brasil na


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