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Meus amores, Mariana e Bruna

PEDRO COIMBRA PÁDUA


Venha, vamos embriagar-nos de carícias até o amanhecer; gozemos as
delícias do amor! Provérbios 7; 16
Dedicado a Eudóxia, Rodrigo e Ricardo, Mere e Eliane, João Gabriel, Julia
e Laura.
Lembrando Euclides da Cunha, Anna e Dilermando de Assis que protagonizaram,
na vida e na morte, uma das mais lindas e trágicas histórias de amor.
Primeira parte
Prólogo

Na entrada da cidade estava assentado o acampamento cigano onde haveria uma


grande festa de Umbanda, com entidades que se manifestam na linha do Oriente.
Tudo era preparado para os espíritos dos ciganos Pablo, Wlademir, Ramirez, Juan,
Hiago, Igor, Vitor e Esmeralda, Carmem, Salomé, Rosita, Madalena, Yasmin, Maria
Dolores, Zaira, Sulamita e Sarita.
- Será um trabalho voltado para o Bem e a Liberdade -disse Adamastor para Lucas.
A grande tenda onde ocorreria estava multicolorida, os ciganos em suas melhores
roupas e iluminada por velas votivas.
Defronte a Lázaro, o cigano que era um poderoso médium, almofadas de seda com
moedas antigas, fitas de todas as cores, folhas de sândalo, punhais, raiz de violeta, cristais,
lenços coloridos, folhas de tabaco, tacho de cobre, cestas de vime, pedras coloridas, areia
de rio, vinho, perfumes, baralho, espelho, dados, moedas e medalhas.
- Os ciganos são entidades dotadas de grande sabedoria, trabalham com lindos
encantamentos e magias e escolhem para a festa um especial sob a regência da fase da Lua
- continuou Adamastor como se tivesse grande conhecimento de causa de tudo o que
ocorria a sua volta.
Havia muita música, dança, frutas, jarras de vinho tinto com um pouco de mel e
pães do tipo broa fatiado, em um de seus lados molho de tomate com algumas pitadas de sal
ou mel. Flores silvestres e muitas rosas.
Fogueiras onde os ciganos dançariam e cantariam a noite toda, acendendo a chama
interna de cada ser.
E orientando tudo Santa Sara Kali com as orientações necessárias para o bom
andamento das missões espirituais.
Lázaro falava com uma voz poderosa:
Santa Sara, minha protetora, cubra-me com seu manto celestial. Afaste as
negatividades que porventura estejam querendo me atingir. Senhora, protetora dos
Ciganos, sempre que estivermos nas estradas do mundo proteja-nos e ilumine nossas
caminhadas.
Santa Sara, pela força das águas, pela força da Mãe-Natureza, esteja sempre ao
nosso lado com seus mistérios. Nós, filhos dos ventos, das estrelas, da lua cheia e do Pai,
só pedimos a sua proteção contra os inimigos.
Ilumine nossas vidas com seu poder celestial, para que tenhamos um presente e um
futuro tão brilhantes, como são os brilhos dos cristais. Ajude os necessitados, dê luz para
os que vivem na escuridão, saúde para os que estão enfermos, arrependimento para os
culpados e paz para os intranquilos.
Santa Sara, que o seu raio de paz, de saúde e de amor possa entrar em cada lar
neste momento. Dê esperança de dias melhores para essa humanidade tão sofrida. Santa
Sara milagrosa, protetora do Povo Cigano, abençoe a todos nós, que somos filhos do
mesmo Deus.
Ouviu-se um som como o de um grande trovão e milhares de entidades negras, de
escravos com seus grilhões, que surgiram do nada e tomaram todo o espaço.
Nas mãos traziam objetos que definiam suas presenças: taça, chave, âncora,
ferradura, Lua, moedas, punhal, trevo, roda e coruja.
E finalizando uma grande arca levada nos ombros por quatro homens negros e uma
música de aruanda no ambiente:
Aruanda ê
Aruanda ê, aruanda
Aruanda ê camará
Vem de dentro do peito
Essa chama que acende
Meu corpo inteiro não pode parar
Eu sou mandingueiro de lá da Bahia
Axé capoeira salve Abadá
(Coro)
Oxalá que me guie
Por todo caminho
Não deixe na roda a fé me faltar
Sou vento que sopra eu capoeira
A luta de um povo pra se libertar
Desta grande festa de Umbanda que avançou madrugada adentro, poucos em Santa
Bárbara tiveram conhecimento, dentre eles Lucas e Adamastor.
Lucas recebeu uma pequena chave de cor branco azulado que se materializou nas
mãos de Lázaro.
- Você é o caminho, meu filho. Cumpra com sua missão.
Nesse dia também aconteceu a grande matança de ciganos em Santa Bárbara,
noticiada até mesmo pela imprensa da Capital, realizada por homens armados com
carabinas...
1
Terça-feira Gorda de Carnaval e Lucas, Luciano Pica-pau, Adamastor e Lazinho,
fantasiados de piratas, estavam de fogo de tanto beber Rum Montilla com Coca-Cola,
comprado no armazém do Batalhão da Polícia Militar.
- Agora é a vez de vermos o desfile das boazonas - disse Adamastor.
- Você é um exagerado! -disse Luciano Pica-pau - São apenas moiçolas de família -
completou.
Lucas, com a vista já embaralhada viu no final da Praça Principal, descendo a
avenida, numa cena com uma luz digna de cinema, emoldurada pela Igreja Matriz de Santa
Barbara, a primeira Grande Sociedade.
- Lá vem O Caldeirão do Diabo- disse com voz pastosa para os amigos.
Havia muito tumulto na multidão colocada nas calçadas.
O Carnaval de Santa Bárbara era cheio de ciclos que intercalavam anos bons e anos
ruins.
- Ainda bem que este ano desapareceram os gatinhos - falou Luciano Pica-pau.
Ele se referia aos mascarados com máscaras de gatos que invadiam a cidade quando
não havia algo melhor para fazer e promoviam grande confusão.
Lucas se lembrava de um Carnaval muito divertido que passara ao lado de uma
gatinha que nunca mais reconheceu.
Ele e sua turma não desfilariam numa das três Grandes Sociedades: O Caldeirão do
Diabo, Os Afilhados de Momo e Os Filhos da Folia.
- Somos profissionais da alegria e desfilar no Carnaval é para amadores - dizia
Luciano Pica-pau.
-Você tem razão! - aplaudiam Adamastor e Lazinho.
E se preparavam para ficar assentados numa mesa no Bar do Clube, com tubos de
lança-perfume escondidos debaixo das mesas, longe dos olhos dos policiais que faziam a
ronda.
Todos os anos a organização do Carnaval causava uma grande confusão,
envolvendo a Prefeitura, a Igreja Católica e toda a comunidade, desde que surgiram os
grandes blocos na década de 30.
Neste ano o problema surgira com esta terceira Grande Sociedade que se chamava
Os Filhos da Mãe, o que o Vigário da Igreja Matriz Nossa Senhora do Desterro considerara
um insulto a beatificação da Mãe Santa.
- Nunca pensamos nisso - tentou se explicar o Corimba, um sapateiro negro que
resolvera organizar a Entidade Carnavalesca e que, para não ver aumentados seus
problemas, que já não eram poucos, mudou o nome para Os Filhos da Folia.
- Só acontecem essas coisas em Santa Barbara - disse Luciano Pica-pau.
As Grandes Sociedades eram uma estranha mistura de elementos da festa que se
originou na Grécia em honra aos deuses, depois foi esquentada por bebidas e práticas
sexuais e pecaminosas, o que desagradou profundamente a Igreja Católica. Foi então que os
padres não conseguindo proibi-la, como sempre fazem os religiosos, a adotaram. O povo
que não é bobo chiou, pois a festa era só sua e pura alegria!
Em Santa Bárbara surgiram primeiro os mascarados, depois os grandes blocos, os
desfiles de carros alegóricos e os bailes de Gala, no Clube da Cidade.
Finalmente o desfile acabou tornando-se o corso de automóveis, de antigamente,
com muitas fantasias e bandas que tocavam marchinhas, o que atraiu as famílias.
Muitos foliões de cara limpa, mas a grande maioria movida pelo lança-perfume
Rodoro e pelo álcool em excesso.
Adamastor deu uma volta pela praça e voltou com boas notícias:
- O que tem de certinhas desfilando não está no gibi - ele disse.
E que as gostosonas estavam concentradas em O Caldeirão do Diabo.
- Tem um grupo de mascaradas, com fantasia de árabes, umas odaliscas, que tenho
certeza que não são daqui - ele afirmou.
Toda a cidade também esperava alguma surpresa do Corimba, que era um negro
cheio de ideias e que certamente não engolira a determinação do Vigário.
Enquanto as Grandes Sociedades iniciavam seu desfile a temperatura também se
elevava por entre as mesas.
- Sociedade é mesmo uma merda! - pontificou Luciano Pica-pau tomando um
grande gole de Cuba Libre e quase se atirando aos pés de uma tal de Margô, uma solteirona
que por sua vez não tirava os olhos dele.
Lazinho bebera e cheirara tanto lança-perfume que acabara por colocar a cabeça
sobre a mesa e apagara.
Adamastor saiu para dar mais uma conferida no que estava acontecendo, como era
seu hábito.
O desfile continuava, com muitas palmas da plateia e Lucas viu que no final da
avenida da Praça Principal Os Filhos da Folia se preparavam para suas evoluções.
Desfile que afinal não aconteceu, pois Corimba colocou a frente do corso um grande
boneco, com uma mordaça na boca e uma placa no peito: “Maiores são os poderes do
povo”.
O que criou um grande bafafá, pois logo surgiram os milicos do destacamento
querendo destruir a alegoria.
Finalmente, aquele foi o Carnaval em que Os Filhos da Folia, a maior parte negros
que moravam no Morro do Carpinteiro, deram muita pernada, levaram muita borrachada e
acabaram a noite no xilindró..
Corimba, considerado o causador da confusão passou uma semana atrás das grades
e depois desapareceu da cidade.
Para Lucas o mundo todo cada vez girava mais rápido.
- Vamos aproveitar o lança-perfume porque ano que vem não tem mais - ouviu
Luciano Pica-pau lhe dizendo.
Quando deu por si já estava junto com Adamastor, abraçados a duas odaliscas no
salão do Clube da Cidade.
Quase não entendeu que elas eram de uma cidade chamada Machado e o nome da
morena que ele abraçava Cristina.
Só percebeu que o Presidente do Clube estava ao seu lado, expulsando-o do recinto
por “por conduta indecorosa” quando já era tarde.
Cristina chorava e ele a levou para detrás da Igreja de Nossa Senhora do Desterro.
Começou a beijá-la e notou que ela parou de chorar.
- O que meu padrasto vai dizer? - ela perguntava para si mesma.
Seu padrasto era um tal de Walmiro, comerciante de gado e considerado um homem
muito violento.
Esguichou o lança-perfume num lenço e cheirou para tomar coragem.
Foi quando Adamastor apareceu esbaforido:
- Deixa a piranha por aí! - ele gritou.
Saíram os dois correndo e depois Adamastor disse-lhe que Walmiro ia lhes dar um
flagra.
- E olha que ele tá doidinho pra ver se acha um casório pra Cristina.
Chegaram na porta do Clube da Cidade e o baile estava acabando, com a orquestra
descendo as escadarias para desfilar com os foliões pelas alamedas da Praça Principal.
Lazinho continuava caído na mesa e Luciano conversava abraçadinho, com Margô,
a solteirona.
No bar do Clube contaram o que restava de dinheiro nos bolsos e pediram um bife a
cavalo, bem acebolado e com arroz:
- No capricho! - gritou, para Bruno, o garçom, Lucas, como de hábito.
Minutos depois Adamastor apareceu com a última fofoca da noite:
- Lia e João, aquele casal fresquinho da Alta Sociedade santa-barbarense,
aproveitaram que a família toda saiu pro desfile e ficaram fazendo bobagens na sala...
- E daí? - interrogou interessado Lucas.
- Daí que “seu” Thadeu, pai dela, resolveu voltar para apanhar o guarda-chuva e
flagrou os dois no maior love...
- Morreu alguém? - perguntou Luciano Coutinho, o Pica-pau.
- Que morreu! Em Santa Barbara ninguém morre por uma virgindade a menos! O
velho foi curto e grosso para João: ou casa ou vai já pra cadeia! Pra falar a verdade, João
que não tem onde morrer de tão duro, aceitou casar na hora! - finalizou entre risos
Adamastor.
Os amigos começaram a cantar A Marcha da Quarta-feira de Cinzas:
Acabou nosso Carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê


É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar


Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade
A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver


E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz
- Esse Carnaval foi um sarro! - falou Adamastor, com olhos brilhando.
Lucas pensou que de toda a sua turma era o de família mais pobre, mas o que se
divertia mais.
- Na vida a gente tem duas chances de ser rico, ele dizia.
- Lá vem besteira! - gracejava Luciano Pica-pau.
- Quais são? - quis saber Lazinho bocejando de sono.
Adamastor fez cara de sabedoria e respondeu que a primeira era quando nascemos e
a outra no dia que casamos.
- E você já escolheu a mulher que vai ser seu pote de ouro? - perguntou Lucas.
- Você sabe que não, Lucas. Mas, este dia há de chegar...
Tanto o bar quanto o restaurante eram arrendados a Cléber, que com sua barriga
proeminente controlava tudo.
- Aí o viajante perguntou pro Cléber o que tinha pro almoço - contava Adamastor.
- E o que ele disse?
- Frango ensopado e couve...Foi então que o viajante metidinho disse que na sua
terra couve era comida para porco.
- E o que Cléber respondeu?
- Gago como ele é disse que aqui também...
Todos gargalharam enquanto um grupo de mulheres damas chegava, debaixo de
uma nuvem de perfume barato.
- Olha quem está aí - disse Lazinho.
- São as garotas do Xilema & Floema Dancing Show- falou Adamastor que
imediatamente mudou para mesa das recém-chegadas, com a maior intimidade.
Lucas e Luciano Pica-pau ficam olhando a movimentação dos amigos.
O sol já nascia quando elas chamaram um carro da praça se alojando todos com
muito burburinho dentro dele...
- Carnaval não se mistura com putaria - afirmou Luciano Pica-pau.
Lucas sorri e propõe ao amigo um brinde:
- Que tenhamos mulheres lindas e filhos bonitos - disse sonolento.
Os amigos iniciaram a volta para casa pela Rua Principal, uma verdadeira ladeira,
que cortava a cidade de um extremo ao outro e que de um dos lados alojava o comércio dos
“turcos”.
- Vocês sabem porque as lojas de comércio dos “turcos” são todas do mesmo lado
da Rua Principal? - perguntou Luciano Pica-pau.
Os outros amigos fizeram um cara de desinteresse.
- Os primeiros que chegaram aqui as fizeram deste lado em razão da insolação e
para criar um aglomerado comercial agradável para as compras...
- Como?- pergunta Adamastor.
- Eles eram acostumados a comerciar desde priscas eras e conheciam todos os
segredos do comércio...
- Fala português! - disse Lazinho.
- Seus descendentes desde tempos passados eram grandes negociantes ...- disse
Luciano Pica-pau.
E na rua desembocavam vias e vielas que canalizavam um vento gélido e cortante
que provinha da Serra e que expulsava os transeuntes.
Lucas e seus amigos mantinham um bom relacionamento com os “turcos” da
cidade, mas seu grande companheiro de todas as horas era Adamastor.
- Adamastor é uma força da natureza - dizia Luciano Pica-pau.
- Citado pelos poetas de Camões a Fernando Pessoa - falou Lucas.
Lucas se lembrava do dia em que conhecera Adamastor, um menino sujinho, que
vivia junto com os engraxates que se alojavam diante da porta principal da Igreja de Santa
Bárbara.
- Sempre foi muito esperto - afirmava Luciano Pica-pau.
Aquele era o ponto para executarem mandados para os outros e fazerem suas
brincadeiras, correndo de um lado para o outro.
Desde garoto Adamastor fugia da escola da Dona Marocas e se perdia pelas matas,
com alçapão na mão, capturando passarinhos. Muitas vezes, e só ele sabia como fazer,
extraia das árvores uma seiva amarelo escuro.
- Quando o bichinho bota os pezinhos no galho com visgo nunca mais sai dali - ele
dizia.
Suas vítimas preferidas eram os cabecinhas de fogo, bem amarelinhos e que tinham
um canto muito bonito.
- Antigamente moravam na cidade - dizia Adamastor - Mas, vieram os pardais e
destruíram os ninhos, tomando conta de tudo.
Não passava nem perto dos que viviam a sombra dos chiqueiros se alimentando de
fubá.
- Os fubazeiros ficam preguiçosos, engordam e se esquecem de cantar - concluía.
Lucas acostumou com o amigo vadiando com calças remendadas, pés descalços e
Dona Clarice sempre lhe dava as roupas usadas, velhas, do filho Lucas.
Já adolescente ele se tornou o mais famoso fabricante de estilingues da região.
- O mais difícil aqui em Santa Bárbara é arranjar a borracha...
Por este motivo vivia se metendo em confusão, pois roubava as câmaras furadas dos
pneus da “jardineira”.
- Pego na oficina, e o que é pior é que quase sempre elas estão podres.
Adamastor era o terror dos passarinhos, e dos bichos que avoavam ele só não
matava canários da terra, andorinha, beija-flor, bem-te-vi, curió e bicudo.
- As andorinhas são criações muito especiais de Deus - dizia.
Amava os curiós e os treinava no canto para vender para gente que vinha de longe
para comprar.
- “Maestro” é o melhor curió da região - dizia apontando um deles numa gaiola de
bambu.
Os amigos diziam que quando estava faminto esquecia-se de suas teorias e matava
tudo que voasse e que passasse a sua frente.
Levava para casa, depenava, abria e limpava os bichinhos e os entregava nas mãos
de sua mãe Jacinta que fazia uma bela fritada.
Certo dia apareceu com uma espingarda, saiu com Lucas para a mata, e voltaram
com muitas pombas-trocal, ou pombões, mortas.
Dias depois arranjou uma outra espingarda papo-amarelo de carregar pela boca.
Lucas olhava o companheiro, que tinha um tiro certeiro, e ficava sem saber onde ele
arrumava dinheiro para comprar tanta coisa.
- Engraxar sapatos deve dar muito dinheiro - insinuava Lucas.
Passada uma semana ele apareceu com uma espingarda Flaubert.
- Atira você agora, Lucas.
Lucas não queria dizer que detestava aquela brincadeira. Pegou a arma e mirou bem
acima do corpo do passarinho. E atirou.
Para sua surpresa o bicho despencou do galho, mortinho.
Enquanto Adamastor prendia o corpo inerte na fieira no cinto ele começou a chorar.
- Chora não, Lucas - disse Adamastor - Homem não chora.
Tentou conter as lágrimas, mas chegou em casa com o rosto e olhos convulsionados.
Adamastor gostava muito de comandar os outros meninos nas invasões aos quintais
para atacar os pomares.
Sua preferência era as mangueiras bem altas, carregadinhas de frutos maduros.
Um dia saltaram o muro e invadiram a casa de Saulo, um velho meio zureta.
Estavam se fartando quando viram o velho vindo em sua direção.
Saltaram da árvore e dispararam a correr.
Para Adamastor, sempre o mais saliente e esganado, não deu tempo, e Saulo atiçou
um cachorrão chamado Boris, que arrancou um naco de sua perna.
Todos pensaram que Adamastor ia morrer, mas acabou saindo vivo da confusão e
nunca mais passou perto das mangueiras, por mais tentadoras que fossem.
Ele e mãe Jacinta criavam para comerem pequenos animais, galinhas, coelhos e
capados na velha chácara onde viviam.
- Adamastor é um homem que mata sem pena - dizia Lazinho do amigo.
Ele só perdoava os galos de briga, sua verdadeira paixão.
Ficou com fama, pois era ele quem tinha que matar o porco, com um chuço afiado.
Dona Jacinta só matava frango e galinha. Com certa pratica não chegava nem a se sujar,
apesar do sangue quente e de odor adocicado que jorrava. Calçava uma botina velha,
pegava o porco no chiqueiro e o amarrava bem. Derrubava o bicho no chão, pisava no
pescoço dele, media entre as costelas e enfiava o chuço na barriga. Fazia a sangria, abria a
barrigada dele e tirava os miúdos colocando num balde. Dona Jacinta esquentava água num
tacho de cobre e despelava o porco. Com uma machadinha enferrujada Adamastor dividia
as duas abas que eram dependuradas em dois varais de madeira, numa coberta.
Dona Jacinta apressava-se para temperar o sangue ainda quente e fazer chouriços
que tinham freguesia certa na cidade.
- Com aquele chuço Adamastor mata um homem, sem dó, nem piedade - repetia
Lazinho.
Luciano Carvalho, o Pica pau, tinha fama na cidade de poeta, filósofo, desligado das
coisas do mundo real.
Mercê de seu temperamento funcionava como a consciência crítica do grupo.
- Dizem que nascemos prá pagar nossos pecados do passado - ele falava - Mas,
quem nasce nesta merda que é Santa Bárbara, terá que pagar várias vezes.
Andava sempre com um jornal, uma revista, um livro qualquer debaixo do braço.
- Por que você é assim, Luciano Pica-pau? - curioso, perguntou Lucas.
Ele olhou o céu muito azulado, mirou a serra e respondeu:
- Cada um de nós tem uma sina, um destino. Pode progredir na vida, melhorar,
ganhar rios de dinheiro, que nada disso vai mudar sua maneira de ser perante o mundo.
E saiu assoviando, a procura do seu violão, que era sua grande paixão.
Dona Clarice, mãe de Lucas dizia que a família de Luciano, os Carvalhos foram
muito importantes no desenvolvimento de Santa Bárbara.
- Gente muita fina - ela dizia sempre.
Lazinho, primo de Lucas, foi sempre muito mimado pela mãe e cresceu fazendo
birra.
Desde que bateu os olhos em Dulce Maria pareceu entregar-se a este grande amor.
Foi ficando atrasado na escola, criava caso com os professores, não fazia os deveres
de casa e acabou por desistir dos estudos.
Mas tinha espírito empreendedor e com ajuda de sua mãe, às escondidas do pai,
abriu um boteco num lugar chamado de Planalto.
Era um estabelecimento muito mal frequentado e vira e mexe o pau quebrava,
Lazinho se metia em brigas e era necessário chamar os soldados do destacamento para
acabar com a confusão.
Foi no Xilema & Floema Dancing Show que Adamastor conheceu um vaqueiro
chamado Joaquim, o Quinzim. Ninguém sabia de onde viera, só sabiam que não era filho da
cidade. Andava o tempo todo com uma capa Ideal, que o protegia contra a chuva e o frio,
cheia de manchas, que parecia vestir seu cavalo e um chapelão de aba caída sobre os olhos.
Na boca um inseparável cigarro de palha e alguns diziam que fora o primeiro a
fumar um baseado publicamente em Santa Bárbara.
Andava sempre armado e sua fama era de ser um jagunço, acoitado na cidade.
Falava de uma forma enrolada e quase não se entendia o que dizia
- Mas, é um grande contador de causos e histórias - dizia Luciano Pica-pau e todos
concordavam.
Adamastor olhava embevecido para o velho, aproveitando cada sílaba de seus
contos.
Até o dia em que, para surpresa de todos, Joaquim e Adamastor resolveram fazer
uma grande viagem até o Sul do País.
Sem muita conversarem partiram, sabe-se lá como e voltaram seis meses depois
com uma tropa de bonitos cavalos crioulos e muitas histórias para contar, de prendas
bonitas e contrabandistas sempre armados que falavam um português enrolado e de
estâncias tão grandes que ligavam o Brasil ao Paraguai, cruzando a fronteira
Para ninguém disseram onde arrumaram dinheiro para comprar os animais e
venderam-nos para uns fazendeiros dos arredores da cidade e sem se despedir, Quinzim
desapareceu da mesma forma que aparecera, na pura magia.
- Ficou sabendo que estava jurado de morte - disse Lazinho.
Essa aventura de Adamastor marcou sua vida, dando-lhe uma noção maior de
liberdade e igualdade entre os seres humanos.
- Quinzim um dia voltará - dizia Adamastor - Tenho certeza que meu mestre
retornará!
- Volta nunca mais -dizia cabisbaixo Luciano Pica-pau.
Para ele o Prefeito Inácio Pereira tinha mandado seus homens o pegarem e o
despacharam para a Colônia, lugar de doido.
O motivo teria sido as espertezas de Quinzim em negócios de gado com Inácio
Pereira e outros fazendeiros.
- Vai tomar o Chá da Meia Noite - concluía Lucino Pica-pau para tristeza de
Adamastor.
Lucas admirava cada um de seus amigos, cada um de um modo diferente do outro.
Vez ou outra iam para a beirada do rio para uma pescaria. Os peixes nobres eram o
dourado e o jaú que eram pescado com tarrafas.
Lucas, Luciano Pica-pau, Lazinho e Adamastor pescavam com a linha larga, cheia
de anzóis no seu final, mas que era excelente para pescar o mandi, barbado, amarelo, que
chiava quando era anzolado, machucava os dedos com ferrões e a carne era saborosa, mas
com um gostinho de barro.
- Vivem no fundo do rio comendo barro - dizia Luciano Pica-pau.
Ele era um cara estranho que quase nunca participava da pescaria e ficava o tempo
todo admirando a natureza.
Numa delas foi o que mais pegou lambaris do rabo vermelho, que saltavam entre as
pedras e caiam no saco de aniagem que arrumou na venda da ponte.
Adamastor e Lazinho gostavam mesmo era de conversar com os homens que viviam
da pesca, lançando a tarrafa no meio do turbilhão de águas.
- Cada lance de tarrafa tem um nome - dizia Lazinho.
Adamastor ficava vendo o pescador com os pés apoiados nas pedras esperando o
momento de lançar a tarrafa, torcendo pra ela não agarrar nas pedras afiadas e pegar um
bom peixe.
Todos tinham a pele crestada pelo sol inclemente e o produto de seu trabalho era
vendido para fregueses certos em Santa Bárbara.
O rio era dadivoso, mas quase todos os pescadores profissionais morriam de tanto
beber.
Lucas combinou com os amigos de sempre voltarem à beira do rio, quando
pudessem.
2
Da janela da jardineira, uma carroceria de madeira montada no chassi de um
caminhão Dodge norte-americano, de propriedade de Antônio Pereira, que seria dono das
maiores linhas de ônibus do interior de Minas, depois de sete horas de viagem desde Belo
Horizonte, por uma péssima estrada de terra que serpenteava as montanhas e serras,
apareciam as fracas luzes da iluminação pública de Santa Bárbara, uma cidade colonizada
no século XVIII, por portugueses, aventureiros de todas as raças e principalmente
bandeirantes paulistas a procura do ouro, surgindo então o povoado.
Capitaneados por Frei José Maurício do Espírito Santo eles construíram uma capela
dedicada a Santa Bárbara e o povoado teve rápido crescimento, passando de arraial a vila e
mais tarde a cidade.
Um clima maravilhoso, bom de se viver e um céu de um azul indescritível.
Equidistante dos grandes centros, com influência no começo do Rio de Janeiro e depois, de
São Paulo e Belo Horizonte.
Grandes lavouras de café, que tornavam seus proprietários ricos ou miseráveis, da
noite para o dia e uma grande bacia leiteira que pouco pesava na economia local.
Nesta época Santa Bárbara, já possuía um comércio bastante ativo e diversificado,
com um importante sistema educacional e seus estabelecimentos de ensino reconhecidos
em todo o país.
O grande herói da cidade era um português oriundo da Corte chamado Manoel
Fernandes, o Zarolho, endeusado pela historiografia oficial.
De acordo com a tradição e poucos comprovantes históricos ele e sua expedição
partiram do Planalto Paulista a cata de ouro e pedras preciosas.
Enfrentaram desastres naturais, ataques de índios e depois de muitas batalhas se
dedicaram a exploração do ouro de aluvião, constituindo a povoação que originou Santa
Bárbara.
Diziam que durante toda a sua epopeia levava nos braços a imagem original de
Santa Bárbara, em madeira, que trouxera de uma capela em Portugal, como seu devoto que
era.
Não teriam sido poucos os esforços que o Zarolho empreendera para mantê-la
consigo, com perdas e achados dignos de romances de capa e espada, que culminaram com
uma flechada que lhe causou a perda de um olho.
Lino, professor de História, tinha outra versão para a cegueira parcial de Manoel
Fernandes.
Segundo ele, no seu livro A Verdadeira História de Santa Bárbara, repudiado por
toda a sociedade da cidade, o pretenso herói era um degredado, violento e sovina, sem
nenhum princípio moral.
Enricado, estabelecera em Santa Bárbara sua casa que causaria vergonha a Sodoma
e Gomorra.
Casado com Dona Leonor, a Mãe Santa, uma mulher trazida de Portugal que se
transformou em uma perfeita parideira e cumpridora dos preceitos da Santa Madre Igreja
Católica, enquanto ele se dedicava a caçar jovens selvagens com quem se amancebava.
Por ser extremamente caridosa, protetora dos pobres e desamparados, a vida de Mãe
Santa acabou por tornar-se uma lenda entre o povo santa-barbarense e da região,
principalmente depois de sua morte.
Atribuía-se a ela poderes de cura e pessoas vinham de todos os lugares para visitar
seu túmulo.
Em um dos seus mandatos como prefeito, Inácio Pereira construiu uma ermida no
pé de colina e imagens, ex-votos e fotos de Mãe Santa rapidamente encheram as paredes.
O movimento de verdadeira adoração cresceu tanto que as autoridades eclesiásticas
da região pediram ao Vaticano a sua santificação.
- Mais uma entre os milhares de santos e beatos reconhecidos pela Igreja Católica -
afirmou o Prefeito Inácio Pereira
Quando soube que os custos do processo eram altíssimos Inácio Pereira colocou
para o Bispo Dom Fernando os préstimos financeiros da Prefeitura de Santa Bárbara, o que
permitiu a contratação de Luigi Sabato, como postulador da beatificação de Mãe Santa.
- Mãe Santa vai fazer o grande milagre de tirar Santa Bárbara do buraco - antevia
Inácio Pereira que sonhava transformar a cidade num centro de peregrinação.
O próximo passo foi o reconhecimento de um milagre atribuído a Mãe Santa.
Na opinião do Professor Lino o que mais impressionava os fiéis era o que se dizia
sobre três exumações realizadas para o transporte dos restos mortais de Mãe Santa e que de
forma sobrenatural mantinham-se íntegros, como se ela estivesse simplesmente dormindo.
O postulador Luigi Sabato exigiu mais comprovações, de pelo menos trinta
médicos, acabando por se fixar na cura de um menino, portador de um imenso mioma no
rosto, cuja mãe rezou inúmeras novenas a Mãe Santa até que o mesmo desaparecesse da
face.
O que impressionava jornalistas era o fato de Mãe Santa ser venerada por católicos
e espíritas que a denominavam de Clarão de Luz.
O professor Lino considerava como bastante viável que Manoel Fernandes tivesse
morrido vitimado por estranhas doenças sexuais tropicais aos 110 anos de idade, apesar de
que alguns citavam a porfiria como a enfermidade que o vitimara e outros, que fora
necessária presença de um abafador para enviá-lo a um mundo melhor.
Quanto a perda de um olho, Professor Lino dizia ter sido um golpe certeiro do
florete de um marido francês, um dos primeiros cornos da vila. O traído chamava-se
Jacques, a mulher, muito linda, Florence e o professor anarquista dizia que fora um duelo
com muitos lances sobrenaturais e com duração de uma eternidade.
Jacques e Florence fariam parte do grupo de aventureiros e vigaristas que pululavam
pelas trilhas de Minas no período da colonização, vendendo falsos elixires da longa vida,
entre outros golpes.
Por sinal o Professor Lino, que era um adepto da História Nova do Brasil não
perdoava os heróis.
- Temos necessidade de valorizar os feitos do passado - ele dizia - Mas, na verdade
todos estes pretensos heróis não passavam de canalhas e suas ações originaram os males do
presente.
E se debruçava no exame dos senhores de escravos que viveram após Manoel
Fernandes, o Zarolho, em sua grande maioria produtores rurais, grandes plantadores de
café.
- Apesar de a escravidão ter sido importante para o desenvolvimento do país e um
mal universal o que faziam aos negros era mais do que infernal - dizia o Professor Lino.
Conforme suas pesquisas crianças de colo morreram diante das mães em torneios de
tiro ao alvo promovidos pelos famigerados patrões de antanho.
Contava que naquela época eram muitos os assassinatos e rebeliões cometidos por
negros que ao final, saqueavam as casas grandes.
Lino defendia a tese que a Grande Fortuna citada por alguns pretensos historiadores
seria este botim amaldiçoado que não se sabia que destino tomara.
Debruçava-se também sobre dois personagens que o fascinavam: “O Embuçado” e o
“Abafador”.
Figura fantasmagórica O Embuçado causava verdadeiro terror entre os negros
rebeldes e fugidos, sendo atribuídas a ele um verdadeiro arsenal de crueldades.
Quando o professor lhe tirou a indumentária assustadora surgiu a figura doce de um
tal Padre Valeriano, que seria na verdade um assecla do Zarolho e de Padre José Maurício
do Espírito Santo.
- Provavelmente nem mesmo padre era - dizia Prof. Lino.
E com relação a presença de um Abafador, homens que facilitavam os minutos
finais dos agoniados, o professor Lino concluiu que Manoel Fernandes, o Zarolho, seria na
verdade um judeu vindo de Portugal, e que no Brasil se escondiam como “cristãos novos”.
O abafamento seria uma forma de impedir que na senilidade do final de vida entregassem
segredos importantes para toda a comunidade.
Tais teorias fizeram com que o professor Lino passasse a ser execrado pelos
membros da Igreja Católica e proibido mesmo de frequentar alguns templos da região.
- Duas pragas me perseguem - dizia o Professor Lino - Sou maçom e espírita...
Mesmo sabendo a confusão que causava com suas teorias ele terminava seu livreto
dizendo que a seu ver todos os desvios da sociedade atual santa-barbarense tinham sua
origem neste passado distante e obscuro.
Lucas tinha uma opinião definitiva sobre a história e suas personagens:
- Depois de mortos todos nós nos transformamos em heróis...
- Não concordo - disse Luciano Pica-pau, que era sempre o do contra.
- Pois fique sabendo que os vencedores escrevem a história, da forma que querem.
Lucas então contou para os amigos o caso de seu tio Abelardo, irmão de sua mãe
Clarice:
- Sempre foi um zero à esquerda. Boêmio, beberrão, acabou com os poucos bens da
família.
- Concordo - afirmou Adamastor.
- Um belo dia, bêbado, levou um tombo e caiu duro, na Rua Principal.
Todos se lembravam do episódio.
Foi então que sua história pessoal mudou.
- Esqueceram-se de suas tramóias e por indicação de um vereador virou nome de
rua...
- Uma travessa vagabunda - disse Luciano Pica-pau.
- Uma travessa, porém, maravilhosa. Pois se chamava antes das Margaridas...
- Deu a volta por cima, o Abelardo - afirmou Adamastor.
No seu íntimo Lucas pensou que cada um traça o seu caminho e faz sua história.
Era o que pretendia...
3
A Semana Santa era uma data muito esperada, principalmente pelos feriados e pelas
procissões organizadas por frades que usavam um tecido grosseiro, semelhante a sarja, de
cor marrom e sandálias de dedos empoeirados.
Andavam muito, o dia inteiro, pregando de casa em casa, o caminho da salvação.
Gilberto Santa Rita, pai de Lucas, não gostava destas visitas cheias de radicalismo e
ele sabia o porquê.
No meio da cantilena contra aqueles que eram amancebados, as mulheres que
viviam na sensualidade e outros deslizes da carne, encontravam tempo para achincalhar
esta obra do Demônio que era a Maçonaria.
Ele estava na ordem desde jovem e ficara furibundo contra qualquer preconceito.
- Os homens nascem livres e não é qualquer padreco destes que vai mudar minhas
ideias.
Lucas e seus amigos também estavam furibundos com o último sermão do Vigário.
Como sempre fazia ele pregou sobre o pecado capital, o Purgatório e o Inferno.
Também disse que o único caminho para a Salvação era cumprir todos os preceitos
da Santa Madre Igreja Católica.
Falou mais de uma hora, o suor escorrendo por seu rosto vermelho.
Deixou para os minutos finais sua arenga principal: certos jovens irresponsáveis que
iam as procissões somente por atos libidinosos.
Lucas pensou que iria parar por aí, mas para sua surpresa ele desceu do altar,
colocou-se ao seu lado e com seu português num sotaque arranhado falou:
- Estes jovens pensam que no Dia do Juízo Final estarão juntos com Jesus?
Finalizou com uma séria ameaça:
- As procissões são uma devoção dos fiéis ao sacrifício de Cristo, sua morte e
ressurreição, por todos nós! Quem estiver fazendo gracinhas no seu trajeto será retirado
delas...
Enquanto o Vigário retornava ao altar as orelhas de Lucas queimavam pois
pareciam que toda a Igreja olhava para eles.
Não sabia por que insistia em ir à missa das nove, todos domingos, pois não valia o
sacrifício para ver as garotas.
- Este padre é um tirano! - murmurou Luciano Pica-pau Ele não quer fiéis, quer
escravos...
Ao chegar em casa não contou o acontecido para o pai e sim para a mãe, Clarice.
Ela pediu-lhe, calma, que talvez o Vigário tivesse razão com as estripulias dos
jovens.
Lucas lembrava-se de quando foram no casamento de um parente no Triângulo
Mineiro.
Nem bem foram chegando a Igreja o pai deu de cara com um aviso que dizia ser
proibida a entrada de maçons e espíritas. Ele se enquadrava nas duas proibições.
Chamou todos de volta, foram até o pequeno hotel onde se hospedavam e dali para
o ônibus que os levaria de volta para Santa Bárbara.
De certa feita, de tanto ouvir a arenga do frei, Lucas resolveu verificar se o pai tinha
algumas das características do demônio.
Mirou o pai com cuidado procurando cornos de bode, unhas estranhas e o cheiro de
enxofre e não encontrou.
Em certos aspectos era um homem discreto que detestava qualquer coisa que o
caracterizasse como maçom, como aqueles anelões que alguns usavam. Também não quis
batizar o filho Lucas o que era um procedimento normal entre a irmandade.
Mas era um homem cumpridor de seus deveres. Mais de uma vez presenciara o pai
ser acordado por irmãos no meio da noite para buscarem na Zona Boêmia um irmão,
chamado Salatiel, que se entregara ao vício da bebida e do sexo fácil, abandonando a
família.
- Esses frades são assexuados e não tem compreensão da condição humana - dizia
Luciano Pica-pau que os detestava.
Contava, mas sem muita certeza, que eram responsáveis por mais de uma família
desfeita em Santa Bárbara.
Lucas sabia que seu pai era um homem bom, cumpridor de seus deveres e que
detestava os políticos de arraial e suas artimanhas.
E que às vezes o levava na sua loja e lhe mostrava os corpos celestes, sol, terra, lua
e planetas, que fizera moldando o gesso. E que vez ou outra o deixava manipular o sabre
que ficava dependurado na parede e que se transformava imediatamente na espada do
pirata Barba Negra.
Mas mesmo Luciano Pica-pau se esquivava de participar das procissões da Semana
Santa.
A mais ansiada por todos e que arrastava multidões era a do enterro, em que Jesus
Cristo, depois de humilhado, torturado, crucificado e morto era levado, debaixo do som das
matracas, da iluminação das velas e do canto da Verônica, para repousar no Santo Sepulcro.
Os primos Élcio e Saulo eram quase da mesma idade de Lucas e chegavam trajando
japonas azuis, que ele invejava e sapatos brilhando, engraxados na porta da igreja.
Junto iam as garotas, as mais bonitas e simpáticas da cidade.
Mais de uma vez aconteceu dos dois desaparecerem com duas delas, no meio da
escuridão e só aparecerem no final, quando a imagem de madeira já chegava a porta da
igreja.
Esta fanfarronice dos dois acabava provocando a ira dos jovens da cidade.
Estávamos passeando pelas aleias do jardim quando fomos cercados por um bando
deles., tendo a frente um lourinho do cabelo cacheado, apelidado de Piau.
Por mais que tentássemos nos defender acabamos apanhando muito e as japonas dos
primos acabaram rasgando.
- Vou providenciar o troco para eles - disse Adamastor, que para estas confusões era
sempre o indicado.
Saiu e voltou meia hora depois com um pretinho baixinho, forte e roliço que se
chamava Antônio Bastos, alcunha Mão Preta.
Mão Preta era famoso na cidade pelas confusões que armava.
- Se tivesse estudado seria alguém na vida, pois não é burro - filosofava Dona
Clarice.
Vivia de pequenos furtos e diziam que tomava dinheiro das putas da Zona Boêmia.
- Um verdadeiro leitão, preto e escorregadio - comparava Adamastor que era seu
amigo.
Num final de semana entrou na Padaria Ítalo-Brasil, por um basculante,
empanturrou com salame e tubaína.
Quis retornar pelo caminho que entrara e não conseguiu, ou por falta de jeito, ou
como muitos diziam, acabara engordando uns quilinhos.
Os empregados o encontraram-no na segunda-feira, dormindo em cima dos sacos de
farinha.
Seu Giuseppe ficou uma fera não pelo que ele pegara no estabelecimento, mas
porque defecara solenemente no piso perto do balcão e cobrira com um saco de papel.
Cabo Júlio veio buscá-lo e levá-lo para a cadeia.
- Pegou gosto pela coisa o soldado - dizia Adamastor
Segundo ele dali para frente toda galinha que sumia em Santa Bárbara, ele caçava o
pretinho, levava para a delegacia, dava-lhe uma surra com mangueira e água e anunciava
aos quatro cantos que prendera o ladrãozinho.
Mão Preta era simpático e perguntou para Lucas e os primos quando queriam dar
uma lição na outra turma.
- Logo - disse Lucas.
- Com cabo de aço ou não? - perguntou.
- Com cabo de aço - disse Lucas.
As lutas com estas armas eram coisa de malandros mesmo e acabavam machucando.
Quem acompanhou o desenrolar da confusão foi Adamastor.
- Os cercaram numa esquina vazia e fizeram os cabos de aço zunir nas pedras do
calçamento.
- E daí? - quiseram saber.
- O Piau até mijou pernas abaixo...
- E então?
- O filho da puta do Mão Preta pegou dinheiro deles e foi-se embora.
Na opinião de Lucas o fim de Mão Preta muito triste, pois cansado de suas
aprontações, Cabo Júlio juntou os milicos do destacamento, pegaram ele, puseram o nego
peladinho como no dia que nascera, bateram muito com mangueira e enfiaram pinga pela
boca abaixo dele e o soltaram.
Nunca mais ele foi o mesmo e corria pela cidade inteira, sem destino.
Apesar da vingança não ter sido completa, Lucas e seus primos se deram por
satisfeitos...
Curioso para Lucas foram os caminhos que o destino traçou para Élcio e Saulo.
Élcio se tornou secretário de um importante político mineiro, casou e teve filhos.
Já Saulo se meteu numa grande aventura, lucrativa e perigosa.
- Saulo está contrabandeando armas para o Brasil - disse Dona Clarice, mãe de
Lucas.
Aparentemente tornara-se um milionário de uma hora para outra.
- A Polícia invadiu a casa do pai de Saulo - disse Dona Clarice choramingando.
Em seguida receberam a notícia de que Saulo fugira do Brasil e desaparecera no
Uruguai.
Luciano Pica-pau passou a chamar as amigas de Saulo em Santa Bárbara de “Viúvas
de Saulo”...
Nessa época Lucas ficou conhecendo um rapazinho mirradinho que estudava no
Colégio Interno.
Chamava-se Paul, era lourinho e saia para passear nas casas do “turcos”.
Ficou amigo íntimo de Lucas e um dia lhe contou que passava pela Igreja de Santa
Bárbara que estava em reforma e viu uma pequena imagem jogada no chão.
- Quer levar pra você? - perguntou um pedreiro.
Paul então disse que apanhou a imagem e a trouxe para o quarto onde fez uma
espécie de oratório.
Lucas viu a peça e nunca acreditou muito na história do rapazinho.
“De certo ele a comprou do pedreiro”, pensou Lucas e esqueceu o assunto pra
sempre.
Interno no Colégio era Marquinho, o Carioca, que chegou lá bem novinho.
Era louro, de olhos verdes e todas as garotas se apaixonavam por ele.
- Carioca é um cara muito namorador - dizia Lucas.
Quando saia do Internato estava sempre acompanhado pelas garotas mais
bonitas da cidade.
- Os milicos pegaram o Carioca fumando baseado - veio Adamastor contar a
novidade.
Foi o primeiro a cair na esparrela da Polícia Militar.
Decepção mesmo Lucas tivera quando Eid Silva lhe confidenciou que
Marquinho, o Carioca, não gostava de mulheres e sim de homens, o que o deixou pasmado.
4
Gilberto Santa Rita, O Príncipe, pai de Lucas, fazia questão que toda a família e
mais os amigos participassem do ajantarado de domingo.
O apelido era decorrente da elegância ao se vestir e de seu porte altaneiro.
Era um cinquentão que fizera sua independência como viajante de um laboratório
farmacêutico, percorrendo um longo trajeto por Minas Gerais.
Com seus próprios recursos e conhecimentos básicos de arquitetura, projetara e
construirá na Rua Principal de Santa Bárbara, a sua casa, com pé direito alto, uma larga
varanda e janelas de treliça.
- Todo o material é de primeira classe - gostava de se gabar.
E andava pela casa, cômodo a cômodo, as mãos segurando os suspensórios.
- Caprichei principalmente no banheiro - ele completava - Que é onde o homem e a
mulher se revelam verdadeiramente.
Em Santa Bárbara a maior parte das moradas ainda tinham latrinas em seus quintais.
E dava uma gargalhada que era ouvida a distância.
Lucas já se acostumara com as maluquices do pai, que quando chegava de suas
viagens, trancava-se com sua mãe o dia inteiro no quarto do casal e as empregadas sabiam
que não deviam deixar as crianças os perturbarem.
O rapaz só não concordava com a cor verde água com que ele mandara pintar
externamente a casa.
- É uma cidadela e tem que ser reconhecida a distância - dizia.
Afonso tinha muitas ideias sobre o desenvolvimento da cidade e as enumerava para
seus companheiros.
- Mês que vem largo a vida de representante comercial e me dedico de corpo e alma
a política.
Segundo ele, o grupo que dominava Santa Bárbara há muito tempo era
completamente atrasado e não percebiam que o mundo mudava rapidamente.
- Com a chegada da rodovia precisamos de gente moderna no poder e não destes
biltres que são os fazendeiros - falava com um exemplar na mão da revista Seleções, de que
era colecionador desde o primeiro número e ávido leitor.
Não podia nem ouvir o nome do Prefeito Ignácio Pereira, um homem que para ele
era incapaz de administrar sua própria fazenda, quanto mais uma cidade.
Gilberto, um dos seus correligionários, lhe adiantou que Ignácio Pereira jurava de
pés juntos que elegeria seu sucessor.
- Balela! - ruminava Gilberto.
A outra notícia que Gilberto trazia é que “turcos” estavam decididos a apoiar o
nome de Gilberto para prefeito.
- Desde o que aconteceu com um deles não perdoam Ignácio Pereira- dizia
Gilberto..
O fato a que ele se referia era o episódio nunca bem esclarecido do assassinato de
Tufic, um jovem fanfarrão, que depois de uma briga no Clube de Santa Bárbara, morrera
com uma canivetada desferida por um sobrinho do Prefeito Ignácio Pereira.
- Bom! Muito bom! - disse Gilberto tomando uma talagada de sua aguardente
especial.
Em seguida avisou os companheiros de partido que deviam colocar lenha na
fogueira, pois o apoio dos “turcos”, na verdade comerciantes sírios e libaneses que haviam
emigrado para trabalhar nas plantações de café, era importante.
A mãe de Lucas, Dona Clarice, veio avisar a todos que a mesa estava servida, com
frango assado, arroz de Braga, que era sua especialidade e lombo de porco assado.
As crianças e os agregados comiam numa mesa na cozinha e Lucas, já um rapazote,
sentava-se a mesa principal.
- Clarice é a melhor cozinheira da cidade - elogiava Gilberto, procurando esconder
sua gula, que transparecia debaixo de seus cento e pouco quilos.
Todos comiam e bebiam para valer e depois se despediam do dono da casa, que se
recolhia aos seus aposentos para uma “santa soneca”.
Lucas aproveitava este intervalo e trancava-se no quarto para ler algum livro ou
revista que o pai sempre trazia de suas viagens.
Depois Lucas descobriu que na verdade o pai apenas queria ficar contra Inácio
Pereira e seu grupo, pois no fundo, todos só se preocupavam consigo mesmo e não com o
progresso de Santa Bárbara e a melhora do seu povo.
- Esta classe dominante faz pequenas concessões para não perder o poder - dizia
Luciano Pica-pau.
Desde que JK apresentara seu plano de metas e introduzira a ideia do
desenvolvimento, instalação das grandes montadoras de carros, construção de usinas
hidrelétricas e de Brasília, a capital federal, havia uma grande preocupação com as
mudanças nas cidadezinhas do interior.
- Os políticos brasileiros são todos iguais - dizia o amigo Luciano Pica-pau -
Engabelam o povo com promessas e não fazem nada.
Em sua opinião os partidos brasileiros eram desorganizados, sem ideologia e não
representavam nada.
A única instituição organizada, presente em todos os lugares, era a Igreja Católica,
mas em sua grande maioria extremamente conservadora.
Muitas vezes Lucas ficava a meditar no futuro e chegava à conclusão que somente
uma revolução poderia mudar tudo. Uma revolução como a que Fidel Castro e Che
Guevara fizeram em Cuba.
Agora mesmo Luciano Pica-pau, estava falando sobre o sucateamento das ferrovias.
- Em todos os países com grande extensão de terras elas são fundamentais - ele
dizia.
Desde que a rodovia fora inaugurada cada dia diminuía mais o movimento da
Estação de Trens de Ferro de Santa Bárbara e aumentava o das pessoas que procuravam
casas para comprar ou alugar em outros pontos da cidade.
Lucas tinha certeza que seu pai, Gilberto, nunca faria nada para mudar tais coisas.
Pensar nisso fazia com que a sua cabeça doesse e ele procurou se livrar desse
incômodo dormindo o mais rápido possível.
Junto com Luciano Pica-pau, Adamastor e Lazinho, seu primo, participaram de toda
a campanha do pai, Gilberto, cujo ponto forte eram as caminhadas e visitas aos eleitores.
Ah! E os comícios.
Os eleitores participavam de todos, da oposição e da situação, prestando muita
atenção no que diziam os candidatos.
No primeiro deles, na Praça da Estação, Gilberto demonstrara seus dons de oratória,
esculhambando a administração do prefeito Inácio Pereira e seu candidato.
- Com aquela voz de quem está se afogando num balde d´água a resposta de Inácio
Pereira será um vexame - previu Luciano Pica-pau.
Nem bem acabou de falar uma chuva de pedras caiu sobre a carroceria de madeira
do caminhãozinho que fazia às vezes de palanque improvisado.
Enquanto através das cornetas do sistema de som, o apresentador roucamente pedia
calma a plateia, candidato e cabos eleitorais corriam para detrás das árvores da praça, mas
os adversários já haviam desaparecido na escuridão da noite.
- A coisa está ficando feia - Luciano Pica-pau advertiu para Lucas.
Lucas sabia que eleições na terra de Zarolho nunca acabavam bem...
Enquanto através das cornetas do sistema de som, o apresentador roucamente pedia
calma a plateia, candidatos e cabos eleitorais corriam para detrás das árvores da praça, mas
os adversários já haviam desaparecido na escuridão da noite.
Pelo bem de todos os habitantes de Santa Bárbara e da Pátria, Gilberto resolveu
enfrentar Renato Carvalho, candidato do Prefeito Ignácio Pereira nas eleições para a
Prefeitura.
- O Prefeito Ignácio Pereira é um homem como qualquer outro - disse Gilberto no
dia em que aceitou - Só que um cafajeste e um mau caráter.
No meio de todo o entusiasmo na casa de Lucas, Luciano Pica-pau lhe disse que seu
pai não tinha a menor chance de vitória.
- Ignácio Pereira representa um poder que vem da época da colonização - ele disse.
Em sua opinião as classes dominantes iam fazer o possível e o impossível para
manter tudo como sempre foi.
Seguindo a estratégia de Gilberto seus seguidores começaram a visitar cada uma das
famílias da cidade.
Lucas e Luciano Pica-pau acompanhavam o candidato distribuindo suas cédulas e
anotando num caderno de capa dura as reivindicações, reclamações e pedidos.
Já nas primeiras casas, no Catacavaco, um local muito pobre, Gilberto descobriu
que não haveria dinheiro suficiente para atender pedidos supostamente necessários, mas
mirabolantes, como uma intervenção cirúrgica caríssima.
- Ignácio Pereira deu muito mantimento para o povo da Grota- diziam os cabos
eleitorais contratados a peso de ouro por Gilberto.
Propositadamente lhe traziam notícias boas, como a de que a Família Pereira,
inimiga eterna dos Pereiras iria estar ao seu lado, como outra que o Prefeito Ignácio Pereira
prometera varrer de Santa Bárbara.
Pouco a pouco a campanha de Gilberto foi perdendo a força e o ímpeto.
- Não tenho dinheiro para atender todos os pedidos - dizia Gilberto para seus
acólitos - E este canalha do Inácio Pereira além de rico, tem a prefeitura do seu lado!
O candidato começou a ficar desorientado e num belo dia, ninguém entendeu o
porquê dele dar de presente um vestido de noiva que lhe pediram, enquanto seu adversário
doava uniformes novos para o time de futebol da cidade.
- Quem sustenta o poder é o “povinho” simples - Luciano Pica-pau disse para
Lucas.
- Quem disse isso foi Marx? - quis saber Lucas.
- Não. Eu mesmo - respondeu o outro.
Vez ou outra Lucas flagrava os companheiros do pai dizendo que se Ignácio Pereira
e sua turba pusessem a mão “naquilo” seria o fim de Santa Bárbara.
E até mesmo o Professor Lino, que dizia por todos os cantos que o que faziam não
era campanha política, mas um lixo vinha conversar em segredo com Gilberto e fez um
discurso muito aplaudido no Recanto das Vassourinhas.
Mas, segundo Luciano Pica-pau o que liquidou a campanha de Gilberto, foram os
panfletos anônimos que começaram a surgir.
Ignácio Pereira e Renato Carvalho diziam por todos os cantos que sua campanha era
limpa e na calada da noite seus asseclas distribuíam em lugares estratégicos o que a
população chamava de “capetinhas”.
O que acabou com a oposição foi um denominado “O Caixeiro Viajante e a
Professorinha”. Em poucas linhas insinuava, ou melhor, deixava claro, um caso
extraconjugal de Gilberto com uma professora do Grupo Estadual chamada Luzia.
- Quem terá escrito isso? - perguntou indignado Lucas.
- Trouxeram um cara de fora para fazer o jogo sujo - respondeu Adamastor.
Lucas achou aquilo demais e procurou o Prefeito Ignácio Pereira, para uma
conversa.
Encontrou-o no Bar do Clube cercado de capangas e admiradores.
- Uma eleição não passa de uma eleição. Depois a vida continua - disse para Ignácio
Pereira.
- Gostei da sua coragem, fedelho - afirmou o outro tomando um copo de cerveja
Brahma - Mas, quem começou tudo foi seu pai. E vou acabar com ele...
Luciano Pica-pau achou que o amigo tinha enlouquecido porque a turma de Ignácio
Pereira era barra pesada e estavam ameaçando muitas pessoas na cidade.
Mesmo assim foram para casa e tomaram atitudes que pioraram as coisas. Entre
elas, fizeram um “capetinha” que contava a história de Ignácio Pereira, que era ladrão,
corno e veado.
Esquivando-se do pessoal “inimigo” esparramaram por toda a cidade o papelucho e
ainda fizeram questão de pichar alguns muros, com a frase “Todo poder é do povo”.
Adamastor chegou um dia, com uma pasta de cartolina e preta e o fotógrafo
Joãozinho a tiracolo.
Todos diziam que ele era um talento desperdiçado em Santa Bárbara e que iria
morrer de tanto beber.
Na pasta estava um dossiê preparado por Adamastor com fotos tiradas por
Joãozinho.
A maior parte mostrava imagens do Prefeito Inácio Pereira, fantasiado de peixinho
dourado e em atitudes claramente homossexuais numa orgia Carnavalesca, onde só haviam
homens.
Lucas quase vomitou de nojo daquela sujeira toda, mas por insistência de
Adamastor e Joãozinho levou o dossiê para seu pai.
Gilberto estava sentado na sua cadeira de balanço austríaca, fumando seu cachimbo
predileto.
Folheou as fotos preto e branco, muito nítidas e depois disse para Lucas:
- Deixa tudo comigo, meu filho. E agradeça a Adamastor e o Joãozinho pelo
excelente trabalho.
Ao sair, Lucas viu que o pai se levantava e guardava a pasta em uma prateleira de
sua estante de livros e revistas.
Na mesma semana um deputado da Assembleia Legislativa fez um comício pró
Ignácio Pereira e seu grupo político e no seu discurso chamou Gilberto de todos os
adjetivos pejorativos possíveis, terminando por denominá-lo de oportunista, de olho na
Prefeitura.
Isto foi o estopim para uma grande briga entre os defensores de Ignácio Pereira e
Gilberto que os soldados do destacamento foram incapazes de controlar e que por pouco
não terminou em morte, só terminando com a vinda da tropa de choque de Beagá.
Quando Lucas encontrou o pai em sua casa ele parecia ter envelhecido uns trinta
anos.
O pleito teve todo tipo de fraudes possíveis e Ignácio Pereira mostrou a força do
dinheiro numa eleição numa cidade pequena como Santa Bárbara.
Gilberto fez uma relação das tramas dos situacionistas, entregou para Gilberto e fez
questão de dormir ao lado das urnas que seriam abertas no dia seguinte, mas foi impedido
pelos soldados do destacamento o que gerou outra grande confusão.
O cabo eleitoral apanhou, levou chutes e cacetadas por todo o corpo e saiu de lá
lesado para sempre, preso a uma cadeira de rodas.
Renato Carvalho, um beócio, candidato de Ignácio Pereira ganhou o pleito
tranquilamente e Gilberto foi considerado vencedor moral por seus eleitores.
Gilberto Santa Rita, com o apoio de amigos deputados estaduais pensou em recorrer
na Justiça contra os expedientes do Prefeito Inácio Pereira.
O Juiz Dr. João Sant´Ana o chamou para uma conversa reservada:
- Desista desses recursos, Gilberto - lhe disse de forma incisiva.
E argumentou que a vitória de Renato Carvalho tinha sido esmagadora o que
representava democraticamente a vontade dos eleitores de Santa Bárbara.
Com que Gilberto acabou por concordar.
E o casamento de Gilberto com Clarice quase desaba em razão daquele “capetinha”
que ele desmentiu sempre.
Clarice, porém, era uma verdadeira dama, descendente dos fundadores da cidade e
era considerada por todos em Santa Bárbara uma mulher de fibra.
Para salvar as finanças da família perdidas na aventura política de Gilberto, Dona
Clarice, dona de muitas prendas domésticas, começou a confeccionar bolos e tortas por
encomenda, “as mais apetitosas de Santa Bárbara”.
Com muito trabalho conseguiu ser revendedora de produtos da Avon e finalmente,
abriu um salão de beleza em sua casa, o Salão Vert.
Praticamente quebrado, deprimido, Gilberto Santa Rita, O Princípe, viu os
companheiros desaparecerem do convívio em sua casa.
Voltou aos poucos à vida de viajante e aos encontros furtivos com a professorinha
Luzia, mas nunca mais foi o mesmo homem.
Lucas e seus companheiros de asas quebradas acabaram se entusiasmando com o
movimento das mulheres no estabelecimento que progrediu de vento em popa.
Lucas, Adamastor e Joãozinho nunca souberam por que Gilberto não utilizou o
material do “dossiê” contra o Prefeito Inácio Pereira.
Por mais que procurasse Lucas nunca mais encontrou a pasta de cartolina preta nos
guardados do pai.
“Qual seria o segredo que unia seu pai e Inácio Pereira?”, pensava Lucas.
De uma coisa tinha certeza: aquelas eleições marcaram a política do município em
razão do abuso do poder do estado pelo Prefeito Inácio Pereira e suas falcatruas.
- Gerações irão passar até o restabelecimento das práticas democráticas - disse
Lucas para seus amigos Luciano Pica-pau, Adamastor e Lazinho.
5
A centenária Fazenda Capão Bonito, de Inácio Pereira, estava colocada no pé da
serra do Encapuzado ao lado de uma curva do ribeirão Santo Antônio, no município de
Santa Bárbara.
Surgiu no início do século XIX e seu primeiro proprietário foi Aires da Fonseca que
explorava a maior mina de ouro da região.
Todos descendentes de Inácio Pereira diziam que ele exibia com suas longas barbas
e bengalas em fotos e que tinha sido possuidor de longas extensões de terra.
- Desde a época das sesmarias - ele se gabava - Eram terras que começavam no
Estado do Rio de Janeiro e terminavam em Minas Gerais.
Sua fazenda atual era constituída de um casarão de pau a pique, com inúmeros
cômodos, muitos janelões e uma quarto vedado onde as mulheres paridas passavam dias a
fio, depois do parto, somente se alimentando de canja de galinha, o que fazia que nele
reinasse um constante mau cheiro.
A grande cozinha, com fogões e fornos a lenha era localizada dentro da casa e os
banheiros, verdadeiras latrinas, ficavam na horta a céu aberto.
A água corrente, nascida cristalina, descia do alto da serra, atravessava currais e
mangueiros, e corria em um rego por dentro das dependências da cozinha.
Dentre as outras construções que chamavam à atenção havia um grande galpão que
vinha a ser a senzala, lá se alojavam centenas de escravos que trabalharam tanto na
mineração quanto nas plantações de café.
Num ponto elevado, o tronco, onde os negros rebeldes eram castigados, sendo que
podiam ser escravo africanos ou mesmo brancos.
Construções mais recentes eram a fábrica de cachaça, movida por uma roda d’água
e outras, como o paiol, a estrebaria, o curral e os mangueiros.
Inácio Pereira herdou a fazenda de seu pai, Clarismundo, e se tornou uma espécie de
senhor feudal, cercado por correligionários e capangas ferozes, chefiados por Juquinha
Pauleira, um homem de que não se sabia as origens, só que era muito mau, um verdadeiro
facínora.
Jovem ainda, Inácio se elegeu pela primeira vez prefeito de Santa Bárbara e depois
muitas vezes mais, usando todo tipo de artimanhas para se manter no poder.
Com o tempo aprendeu os golpes necessários para transferir o dinheiro dos cofres
públicos para o que mantinha na Fazenda Capão Bonito, detestava agências de bancos
porque dinheiro ficava longe de seus olhos.
- As propriedades aumentam debaixo do olhar do dono - gostava de dizer.
Nas horas de folga dedicava-se, numa grande sala que transformara em seu
escritório a ler documentos históricos e plantas das grandes fazendas da região, pois seu
grande sonho eram as fortunas da época da mineração e da escravidão que haviam
desaparecido.
Aquela história do Tesouro dos Escravos deixara muita gente louca, principalmente
o Prefeito Inácio Pereira que pensava na fortuna oriunda da escravidão.
Seguindo o palpite do radiotécnico Mário, famoso na região, ele adquirira um
detector de metais, importado, capaz de localizar peças de ferro enterradas.
- Vai encontrar madeira também? - perguntou o peão encarregado de manobrar a
trapizonga.
- Se é um procurador de metais, claro que não - respondeu enfezado o Prefeito
Inácio Pereira.
O peão já havia amontoado pregos, algemas e tornozeleiras enferrujadas, do tempo
da escravidão e outros objetos metálicos, mas nem sombra do tal baú que o patrão
procurava e que o deixava endiabrado.
Inácio Pereira tinha um sonho secreto que não contava para ninguém.
“O dia que eu meter a mão neste Tesouro dos Escravos saio de fininho e vou passar
uma temporada nos States, em Las Vegas. Aquilo sim é que é uma terra do pecado,
verdadeira Sodoma e Gomorra - dizia o prefeito.
Ressabiado e por vias das dúvidas prometia que com uma parte da fortuna
construiria uma capelinha na Fazenda Capão Bonita, consagrada a Nossa Senhora do
Rosário, protetora dos pretos.
O que o deixava enraivecido era procurar por toda banda e não encontrar o tal
Tesouro dos Escravos.
- Negraiada dos Infernos! - gritava desesperado - Tem anos que estou atrás desta
porcaria e nada...
E saia para o escritório onde iria fuçar livros e mapas.
Ignácio Pereira mantinha seu sonho secreto que só se realizaria com o encontro do
Tesouro dos Escravos.
Debaixo do colchão de capim de sua cama de viúvo, guardava centenas de folhetos
e revistas sobre as cidades de Las Vegas, nos Estados Unidos, e Cannes, na França que
comprava nas suas viagens a Belo Horizonte.
Fechava as portas e janelas e ficava admirando Las Vegas, no estado americano de
Nevada, seus cassinos como o Las Vegas Boulevard, mais conhecida como Strip.
Folheava revistas que tratavam de Cannes, cidade do sul da França, à beira do mar
Mediterrâneo, na Côte d'Azur, e onde acontecia o Festival de Cinema de Cannes, o maior
evento mundial da categoria.
Depois, dormia o sonho dos justos.
E sonhava com seus antepassados, como numa foto com pompa de família
nobiliárquica pousando, as crianças com curiosas camisolas.
Em seguida se moviam e eram atacados por escravos negros que lhes arrancavam
todas as joias e até mesmo o castão de uma bengala, restando apenas fotos dos defuntos de
olhos vidrados.
Geralmente Inácio Pereira acordava sobressaltado:
- Puta que o pariu para esse tal Tesouro dos Escravos!
E não conseguia dormir mais e igual alma penada ficava andando pelo casarão, sem
comer direito, longe dos prazeres da carne, com aquela ideia fixa na mente...
6
Numa cabine revestida de Eucatex, caindo aos pedaços, Lucas e Dulce Maria
esperavam que o Sergipano, sonoplasta do momento, soltasse o prefixo do programa e
acendesse a luz vermelha indicando que a Rádio Clube estava no ar. Haviam discutido dias
e noites adentro qual música abriria o programa até escolherem Chega de Saudade, de
Vinícius de Moraes e Tom Jobim.
Sergipano aparecera na cidade ninguém sabia como, não tinha parentes em Santa
Bárbara e morava num quartinho muito simples na Pensão Santa Edwiges, perto da
Rodoviária.
Lucas que tinha mania de visitar os estúdios da Rádio Clube nas noites de domingo,
mais de uma vez o flagrara varrendo o pequeno cômodo, que ficava ao lado do Salão Bola
Sete, o maior antro de jogatina das redondezas. Ele fazia de tudo, da programação musical a
limpeza dos imundos cinzeiros que os locutores deixavam por todos os cantos. Só não se
aproximava do velho microfone RCA, pois tinha a voz esganiçada e vergonha de falar
naquela latinha velha, como era tratada pelos veteranos.
Dulce foi quem arranjou dois ou três patrocinadores para o programa a que deram o
título de Você e a MPB, não sem muita discussão no quarto dela.
Sergipano simpatizou com a ideia, principalmente por ser um horário pago, à noite,
e ele aquela época já era muito preocupado com as finanças da emissora, que era como
tratava aquela espelunca, que mal e mal conseguia pagar os locutores e técnicos.
- Vivemos de publicidade - ele nos disse - Pouca por sinal.
Na verdade a rádio parecia uma filial de um dentifrício e de um sabão em pó,
novidades dos armazéns da cidade, que eram os patrocinadores de quase todos os
programas. Tudo era direcionado por agências de São Paulo, já que a Rádio Clube fazia
parte da Cadeia Verde Amarela Norte-Sul da Rádio Bandeirantes. Na cidade diziam que a
rede de radiodifusão era propriedade do milionário político e empresário paulista Adhemar
de Barros, que pretendia ser Presidente da República e que tinha um slogan interessante,
bem galhofeiro, Rouba, mas faz. Anos mais tarde Lucas descobriu que ele tinha uma
amante que se chamava Ana Capiglioni e que guardava cofres recheados de dólares em
Santa Tereza, no Rio de Janeiro que foram roubados pela resistência a Ditadura Militar.
Afinal de contas, quem rouba de ladrão tem mil anos de perdão, diz o ditado popular!
Mas foi o Sergipano que levou ao gerente, um tal de Dr. Marcos, advogado, a
intenção dos jovens de produzir e apresentar um programa moderno, sobre Música Popular
Brasileira, a Bossa Nova.
- Não vai dar certo - disse agoureiro o rábula, sentado atrás de uma mesa, onde se
empilhavam pilhas de processo. Ele tinha a fama de ser bom advogado, bom escritor, mas
perder todos os prazos processuais. Também diziam que era mulherengo, alcoólatra e mau
pagador de suas contas.
Dulce Maria, filha de uma das mais afamadas figurinistas da cidade, amava
Lazinho, primo de Lucas e sabia de cor e salteado as letras de todas as músicas da Bossa
Nova, apesar de ter pouca voz. Lucas sabia disso, pois junto com o Luciano Pica-pau,
exímio pianista, tentaram montar com ela, no Clube de Santa Bárbara, com uma iluminação
improvisada, um pocket show, cheio de textos que garimpou por vários lugares até que
chegaram a conclusão que nem o mais possante amplificador seria capaz de fazer a voz
curtinha de Dulce Maria alcançar a primeira a fila. A carreira dela como cantora terminou
no Cine Santa Cruz, simulacro de teatro da cidade, numa apresentação debaixo de
estrepitosas vaias.
Discutiram muito no quarto dela, que tinha um carpete verde que provocava
em Lucas problemas respiratórios, até decidirem que o programa se chamaria Você e a
MPB. Dulce Maria ficaria encarregada de ler poesias ligadas ao movimento e Lucas faria a
apresentação das músicas e simularia receber correspondências e telefonemas dos ouvintes.
O piano e a voz de Tom Jobim começaram a sair do alto-falante caindo aos pedaços
dependurado na parede da cabine e um letreiro iluminado em vermelho que indicava que
estavam no ar.
Vai minha tristeza,
e diz a ela que sem ela não pode ser,
diz-lhe, numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso mais sofrer
Sergipano levantou a mão e fez um sinal para Lucas que com a sua perna encostada
na de Dulce Maria, espremidos num tosco banco de madeira, sentia o seu tremor. E o pior
de tudo é que parecia que haviam dado um nó em suas cordas vocais e nenhum som saia de
sua garganta.
- No ar, Você e a MPB - disse finalmente Lucas com a voz meio tremida.
Chega, de saudade
a realidade
É que sem ela não há paz,
não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim,
não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca,
dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você longe de mim
Não quero mais esse negócio de você viver sem mim
O Sergipano fez um sinal de positivo e soltou o final da música enquanto fazia
sinais para Lucas fazer sua introdução.
- Este é o seu programa de Música Popular Brasileira, Você e a MPB, meu prezado
ouvinte - disse finalmente Lucas.
Mais calmo completou:
-Todas as noites, Dulce Maria e eu lhe traremos neste horário o melhor da música
brasileira e informação, num patrocínio exclusivo do Ponto Chic, a loja das elegantes de
Santa Bárbara. E continuando: a Bossa Nova nasceu no apartamento da cantora Nara Leão,
aquela que tem os joelhos mais bonitos do Brasil, no final na década de 50 e início da de
60, num tempo que o desenvolvimentismo surgiu. Influenciados pelo jazz americano, seus
criadores mostraram uma nova maneira de cantar e tocar o samba. Foi o tempo de Vinícius
de Moraes, Tom Jobim, João Gilberto e Nara Leão. Desse tempo a música Chega de
Saudade que é o prefixo musical do nosso programa. Outros cantores e compositores desta
época são Lazinho Lyra, Ronaldo Bôscoli, Sylvia Telles, Roberto Menescal e Luiz Eça.
Com o sucesso esta turma começou a se apresentar nos bares do Beco das Garrafas, em
Copacabana. Dulce Maria continua esta história para vocês.
Dulce Maria começou a falar e Lucas a empurrou para perto do microfone:
- Mais tarde, nos anos sessenta, apareceram outros cantores e compositores
afastados das influências do jazz e ligados ao samba do morro: Zé Ketti, Cartola e Nelson
Cavaquinho. Influenciaram outros músicos como Marcos Valle, Dorival Caymmi, Edu
Lobo, Francis Hime que partiram para um caminho próximo ao samba de protesto. A partir
de 1965, Vinicius de Moraes e Edu Lobo, compõem a canção Arrastão, e a Bossa Nova
passa a fazer parte da MPB, dominando o cenário musical que se recicla e supera tudo que
havia até então.
Lucas completou:
- No nosso programa, Você e a MPB, você ouvinte, contará com a vasta e
selecionada discoteca da Rádio Clube e dos nossos arquivos pessoais, dos shows que
assistirmos e dos discos que adquirirmos. Dulce Maria vai dizer agora uma poesia que
representa os nossos propósitos.
- De Arena canta Zambi, de Edu Lobo - disse Dulce Maria.
É Zambi no açoite, ei, ei é Zambi
É Zambi, tui, tui, tui, tui é Zambi
É Zambi na noite, ei, ei, é Zambi
É Zambi, tui, tui, tui, tui, é Zambi
Vem filho meu, meu capitão
Ganga Zumba, liberdade, liberdade,
Ganga Zumba, vem meu irmão.
É Zambi morrendo, ei, ei, é Zambi
É Zambi, tui, tui, tui, tui, é
Zambi Ganga Zumba, ei, ei, ei, vem aí
Ganga Zumba, tui, tui, tui, é Zambi
Lucas considerou que Dulce Maria tinha dado toda a dramaticidade possível a
música da peça de teatro, mesmo com a cabine parecendo um forno, com o calor e a baixa
umidade do verão.
Sergipano colocou para tocar mais quatro músicas, sem nenhuma publicidade, o que
era uma novidade na programação da Rádio Clube e o programa se sustentou até o seu
final.
Lucas então resolveu encerrar a programação e com a voz empostada, como lhe
ensinara o Sergipano:
- E para finalizar nosso programa de hoje, ouçamos Zé Kéti interpretando a canção
Opinião, da peça do mesmo nome.
Zé Kéti era um negro retinto, sambista de primeira e um grande boêmio,
reconhecido como compositor de músicas Carnavalescas. Em 1964, ano do Golpe Militar,
ao lado de Nara Leão e João do Vale, encenou o show Opinião, em que lançou alguns
sambas de sucesso, como Opinião, Acender as velas e Diz que fui por aí. Acabou adotado
pelo pessoal da Bossa Nova.
Podem me prender
Podem me bater
Podem, até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião
Daqui do morro
Eu não saio, não
Se não tem água
Eu furo um poço
Se não tem carne
Eu compro um osso
E ponho na sopa
E deixa andar
Fale de mim quem quiser falar
Aqui eu não pago aluguel
Se eu morrer amanhã, seu doutor
Estou pertinho do céu
Sergipano botou para rodar novamente no prato o disco com a música Chega de
saudade e em seguida destravou a fita no gravador Philips e entrou no ar um programa
evangélico, que era um forte mantenedor da emissora.
Lucas e Dulce Maria ouviram um elogio entusiasmado de Sergipano e se abraçaram
na porta da Rádio Clube. Como fazia sempre, Dulce Maria vestia um vestido longo, de
tecido bem leve e não usava sutiã. Lucas pensou que aquele seria seu dia “D”, mas ela se
esquivou de carícias mais comprometedoras.
7
Naquela noite cálida, Lucas, Luciano Pica-pau e Adamastor estavam sentados
debaixo da árvore monumento de Santa Bárbara, o jatobá.
A espécie se encontrava na Praça Principal da cidade e para alguns estudiosos fazia
parte do que restava de Mata Atlântica nas cercanias da cidade.
Com altura de quarenta metros e diâmetro de três metros era provavelmente
bicentenária e teria visto as proezas do Zarolho.
Adultos e crianças adoravam o fruto, de casca bastante dura, com duas sementes e
um pó amarelado de forte cheiro, comestível.
Conversavam sobre banalidades quando Lazinho chegou com uma grande novidade.
- As Irmãs Rolinhas estão esperando a gente nos fundos da igreja - disse.
Os rapazes se alvoroçaram, pois elas os interessavam muito.
Eram três adolescentes, filhas de um sitiante chamado Vitão, e ninguém sabia do
destino de sua mãe, que um dia saíra de casa e se perdera no mundo.
- Já encontraram com ela andando pela cidade, cabelos desgrenhados - dizia
Lazinho
- O miserável do Vitão a deixou louca - completava Luciano Pica-pau.
As histórias que contavam na cidade é que o pai como vingança fazia as filhas
trabalhar além do normal e muito mais.
- Vitão abusa sexualmente das filhas - dizia Adamastor.
Diziam que mal se transformavam em mulheres o roceiro as levava prá sua cama.
- Uma forma de se vingar da mulher - falavam pela cidade.
Luciano Pica-pau tinha uma opinião sobre o assunto:
- A mãe foi morar numa casa de meretrício em São Paulo. As filhas vão pra zona
em Santa Bárbara. - dizia.
Foram chegando e se atracando com as Irmãs Rolinha, que eram bem bonitas de
rosto e com pernas torneadas, queimadas pelo sol na roça.
Mas, acabaram por não avançar muito em suas estripulias, pois dois milicos os
puseram a correr.
E elas continuaram desfilando numa carroça pela cidade, vendendo hortaliças e
melancias.
Vitão acabou por ter um fim misterioso, aparecendo afogado num fio de água que
corria pelo sítio.
- Havia sinais de pancadas na sua cabeça - afirmou Adamastor.
Alguns meses depois da morte do pai, as Irmãs Rolinha cumpriram o destino
antevisto por Luciano Pica-pau e se tornaram a grande novidade na Zona Boêmia, fazendo
grande sucesso por um tempo.
- Mas, nunca se esqueceram do pai, Vitão - disse Lazinho que era íntimo delas.
As outras moças da cidade escondiam sua sexualidade a sete chaves numa
sociedade conservadora.
E quando uma moça e um rapaz passavam do limite diziam que ele fizera mau para
ela, o levavam na cadeia e o obrigavam a se casar.
- Fazer mau o caralho! - exclamava Luciano Pica-pau - Fez foi bem pra ela.
Nos relacionamentos amorosos muita coisa ocorria debaixo dos panos e toda sujeira
era jogada debaixo do tapete.
Luciano Pica-pau afirmava sempre que era uma sociedade falsamente perfeita,
hipócrita e cínica.
- Todos vivem de fantasias - completava.
8
Lucas e Luciano Pica-pau estavam sentados na porta da Padaria do Giuseppe, a
Ítalo-Brasil, e o amigo dedilhava o violão Giannini novinho que ganhara de presente da sua
mãe.
- O que achou do primeiro programa Você e a MPB ? - perguntou-lhe Lucas.
Enquanto arrumava os óculos na testa pontuda, visualizava-se melhor a razão do
apelido de Pica-pau.
- Uma merda- ele disse como se aquilo fosse uma avaliação mais do que comum.
- Mas, por quê?- perguntou-lhe Lucas meio desorientado com a sua opinião.
- Muita falação e pouco boa música - ele afirmou.
Depois começou a dissecar o programa por partes.
Luciano Pica-pau era um grande músico, mas escondia seu talento por detrás do
curso na Escola Superior, uma exigência dos pais.
Lucas tremeu nas bases. Passava um tempão pensando na realização do programa na
Rádio Clube e agora ele vinha com esculhambação. No entanto, era seu jeito de ser. Na
medida em que a noite avançava e que ele dedilhava seu instrumento novo em folha,
reconhecia muitas verdades no que ouvia.
- Dulce Maria está bem melhor como apresentadora do que quando tentava cantar-
ele reconhecia.
- E eu? - queria saber Lucas.
- Você é a alma do programa. Sem você ele não existe - afirmava Luciano Pica-pau.
Ficaram então conversando até mesmo quando as portas do estabelecimento foram
fechadas pelo “Seu” Geraldo que saia para encontrar os amigos na boemia.
A proposta de Luciano Pica-pau é que tocássemos mais música e prestássemos
menos atenção aos textos, o que era exatamente o contrário do que pretendíamos.
- O conteúdo do programa está bom, mas não é para os ouvintes de Santa Bárbara -
disse então.
- Como assim?- Lucas perguntou.
- O rádio é uma companhia para os solitários, para os perdidos nos caminhos da
vida. No máximo eles estão acostumados a ouvir música, qualquer música, e bobagem,
lugares comuns da boca dos locutores.
- Pois vamos continuar do jeito que começamos - afirmou Lucas.
- É mesmo? - perguntou Luciano Pica-pau.
- E vamos criar o nosso público - finalizou Lucas
Ele tinha 17 anos e era fanático por jornais e rádio. Sabia tudo sobre eles. A
imprensa surgiu no Brasil em 1808 com a A Gazeta do Rio de Janeiro, que publicava
notícias sobre a natureza europeia, documentos oficiais, as virtudes da família real, enfim,
divulgava pontos a favor da família real e suas origens. Não oficial era O Correio
Brasiliense ou Armazém literário, de Hipólito José da Costa, maçom, que o escrevia na
Inglaterra e o contrabandeava para o Brasil. Em São Paulo, o primeiro jornal impresso só
foi surgir em1823, O Farol Paulistano.
Nesta época não havia liberdade de imprensa e os jornalistas vira e mexe eram
espancados, até mesmo em suas próprias casas. Em 1869, surgiu o primeiro jornal de Santa
Bárbara, cujo jornalista-proprietário era um tio-avô de Lucas e que defendia a República.
Em 1910 é fundada a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) no Rio de Janeiro.
O jornal semanal mais antigo da cidade era a A Gazeta de Santa Bárbara, fundada
pelo avô de Lucas, um sujeito empreendedor e aventureiro.
Sua outra grande paixão, o rádio, no Brasil, foi oficialmente inaugurado em 1922,
com um transmissor de 500 watts, no Rio de Janeiro, para 80 receptores. Em 1923 surge a
Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.
- Lembrei-me! A Rádio Sociedade do Rio de Janeiro tinha uma programação
dirigida para a elite, e não para as massas - Lucas afirmou para o amigo Luciano Pica-pau.
- Mas, depois se popularizou - ele respondeu olhando para os trastes no braço do
violão.
Em Santa Bárbara a primeira emissora foi a Rádio Clube fundada em 1945 e era
muito pobrezinha, não tinha sede própria e vivia a vagar pela cidade de endereço em
endereço.
Seus locutores, apresentadores e técnicos ganhavam muito mal. Isso quando
ganhavam.
Dizia-se que seu sinal, de tão fraco, não ultrapassava os limites da cidade e pouco
antes das dez horas da noite saia do ar.
Tanto o jornal A Gazeta de Santa Bárbara quanto a Rádio Clube tinham um
faturamento publicitário indigente e viviam passando de mão em mão dos grupos políticos
que só se interessavam por estes órgãos em véspera de eleições.
Lucas voltou a realidade com a buzina do Pérola Negra, um De Soto 57 preto, que
manobrava e estacionava perto deles.
- Ia me esquecendo! - disse Lucas - Hoje é o dia de dar uma geral pela cidade!
E sem abrir a porta, usando a janela, entrou no carrão.
9

Os santa-barbarenses se orgulhavam de sua cidade ter sido a quarta no Brasil a


contar com um sistema telefônico instalado.
- Uma das primeiras - dizia o Professor Lino, rindo.
- Isso tudo é folclore - dizia entre dentes Luciano Pica-Pau, limpando as unhas com
um cavaco de madeira.
Na história da cidade um italiano chamado Primo Vioti, proprietário de uma fábrica
que produzia a Farinha de Mandioca Girafa, vendida em vários estados enricara e sem
nenhuma ajuda do Poder Público, resolveu dotar Santa Bárbara de duas modernidades, a
energia elétrica e o telefone.
Para realizar seu feito constituiu a Companhia Santa Barbarense de Energia
Elétrica, Iluminação e Telefonia que tinha como um dos sócios o Dr. Marcos, advogado e
diretor da Rádio Clube.
- Os sócios eram todos fajutos - afirmou Luciano Pica-pau.
A verdade é que ninguém sabia a origem exata do dinheiro utilizado pelo italiano.
Em pouco tempo ele montou uma pequena usina em um riacho da Zona Rural e
esticou a fiação pela cidade.
Muito habilidoso fez um contrato com a Prefeitura e a cidade foi uma das primeiras
da região a contar com a iluminação pública, apesar das lâmpadas parecem pequenas brasas
vermelhas nos postes.
Primo Vioti desapareceu por algum tempo e quando voltou trazia a novidade do
telefone.
A telefonista era dona Hermenegilda, uma senhora solteirona que andava com
vestidos compridos negros, num eterno luto não se sabia o porquê e que com facilidade
atendia os poucos clientes da companhia.
- Não só atendia a todos dia e noite, porque a mesa telefônica ficava na minha casa,
como participava da vida deles - ela dizia.
Dona Hermenegilda tinha fama de ser mais poderosa do que o Pai, o Filho e o
Espírito Santo, na cidade.
- Ela conhece todas as intimidades, tudo o que acontece por debaixo dos lençóis das
camas - dizia Adamastor.
Foi quando Pedro Viotti surgiu com mais uma novidade: os primeiros telefones
eram conectados à uma central manual, operada por Dona Hermenegilda. O assinante tinha
que girar uma manivela para gerar a "corrente de toque" e chamar Dona Hermenegilda que
atendia e, através da solicitação do assinante, comutava os pontos manualmente através das
"pegas". Assim um assinante era conectado ao outro.
Pedro Viotti, da noite para o dia, instalou uma central automática. Os telefones
passaram a ser providos de "discos" para envio da sinalização. Este discos geravam a
sinalização de uma série de pulsos, de 1 a 10.
Esticou as fiações pelos postes da Companhia Santa Barbarense de Energia
Elétrica, Iluminação e Telefonia.
Quando surgiu a central telefônica mais moderna, mais sigilosa, sem passar pelos
ouvidos da telefonista Dona Hermenegilda de uma hora para outra surgiu uma onda de
trotes pelos telefones que atingiu toda a cidade.
O que parecia uma brincadeirinha no começo, num lugar onde cartas anônimas eram
comuns, começou a preocupar toda a população de Santa Bárbara.
Primo Viotti, consultou seus amigos da Capital sobre o que fazer.
- Não há nada a fazer. Isso tem acontecido em todas as cidades que automatizaram a
telefonia - um deles afirmou.
Segundo o técnico tal fato teria acontecido, por exemplo, em Governador Valadares,
no Vale do Rio Doce. Uma verdadeira febre de trotes mais ou menos maldosos.
- É coisa do novo - disse ele - Da mesma maneira que começam, de repente acabam.
Primo Viotti ficou convencido e ao retornar a Santa Bárbara, mandou publicar um
editorial na Gazeta e na Rádio Clube, e acidentalmente Lucas foi convidado para lê-lo na
Rádio Clubepor por Sergipano, com voz empostada.
-“ Amigos e usuários da telefonia de Santa Bárbara:
Envidamos os maiores esforços para propiciar nossa cidade de um moderno
sistema de telefonia.
Mas, indivíduos inescrupulosos estão utilizando de maneira errônea o nosso
sistema em prejuízo da população.
Eles já estão sendo investigados pelas autoridades constituídas, e localizados
receberão punição exemplar.
O progresso de muitos não pode ser prejudicado pela ignorância e má fé de
poucos”.
Mas, os trotes não cessaram, começando a ferir a intimidade das pessoas e causando
grande confusão nos moradores.
- Dona Hermenegilda tem alguma coisa a ver com isso - disse Adamastor..
Os trotes mais agressivos partiam de uma voz disfarçada, que se intitulava o Pato
Donald.
Adamastor se escondeu próximo da janela da casa da ex-telefonista e flagrou-a
passando um trote, numa mistura de mentiras e verdades, logo em Primo Viotti, atingindo e
quase desfazendo seu casamento que já durava mais de trinta anos.
Primo Viotti, acompanhado de Adamastor, foi até a casa de Hermenegilda e
ameaçou cortar sua pensão se continuasse com tais ações.
- A signorina não sabe o mal que está fazendo com suas histórias sem pé nem
cabeça - ele disse com seu sotaque de carcamano.
Os trotes pararam abruptamente quando ela apareceu morta em sua casa.
- Aparentemente se suicidou com chumbinho como sempre fazem as mulheres -
disse Adamastor.
E ele nunca revelou para os amigos o que Dona Hermenegilda sabia de tão íntimo
de Primo Viotti, a ponto de abalar uma família cristã considerada uma das mais sólidas de
Santa Bárbara.
10

Desde criança Lucas era fanático por leitura. No começo lia revistas em quadrinhos:
Pato Donald, Mickey, Mandrake e Fantasma. Depois passou a ler todos os livros de Victor
Hugo e qualquer outro que lhe caísse nas mãos. No tempo que sobrava estudava, praticava
esportes, item obrigatório do Colégio Americano, brincava e assistia filmes.
Acabou tornando-se o “bonzão”, como seus amigos diziam, em redação e expressão
oral. No final do ano de 1963, quando cursava o terceiro ano ginasial, houve um grande
rebuliço no Colégio Americano. Apareceram por lá uns cariocas, representantes de uma
grande emissora, munidos de pastas de cartolina coloridas e propuseram que todos os
alunos escrevessem uma redação, com um máximo de uma lauda, sobre o IV Centenário do
Rio de Janeiro. O concurso era nacional e havia a promessa de grandes prêmios para os
vencedores. Lucas tinha passado as férias de julho em Copacabana, num apartamento na
Rua Barata Ribeiro, e sentiu-se entusiasmado para a empreitada. Todos que viram o seu
trabalho julgaram que iria abiscoitar o prêmio. Menos seu tio Lincoln, que era professor de
Português e um cético por natureza.
- O trabalho é bom - ele disse depois de lê-lo - Mas...
“ O que haveria de errado? ”, pensou Lucas.
- Você é jovem e pode ficar desiludido - finalizou o Professor Lincoln.
O ano de 63 terminou e como dizia seu amigo Luciano, 1964, foi um ano muito
louco. Em 31 de março, houve a Revolução que depôs o presidente João Goulart.
- Foi em 1º de abril, e foi um golpe - ruminava Luciano Pica-pau cujo pai fora preso
e toda a família perseguida.
Mas, o que os deixara decepcionados foi saber que um pastor teria sido expulso da
Igreja Protestante por suas convicções religiosas e que não mais seria professor de Ciências
Sociais, no terceiro científico do Colégio Americano.
Aquele foi um ano realmente muito esquisito. A direção do Colégio Americano
resolveu que algumas salas seriam mistas. As moças, que eram obrigadas a usar as saias
plissadas previstas no uniforme, no recreio e no intervalo das aulas sentavam-se em um
banco de concreto e os garotos ficavam em outro defronte, espreitando os lances de pernas.
Sheila, que já estava no segundo científico e já era um mulherão segundo a opinião geral,
era a mais assanhada na exibição de suas belezas.
- É uma galinha - dizia Luciano Pica-pau.
Fosse o que fosse ela era um colírio para os olhos e muita linda, todos reconheciam.
Em 64 ela não apareceu nos primeiros dias de aula e a notícia pegou a todos de
surpresa: Sheila sofrera um acidente, diziam alguns. Suicidou-se com doses cavalares de
remédios, diziam outros.
Finalmente, surgiu a versão correta: Sheila, que se dizia uma mal amada bebera uma
mão cheia de remédios da mãe, depois amarrara uma cordinha de Val numa grade de
janela, fizera um laço e se enforcara.
- Encontraram-na roxa e de língua para fora - disse Lucas
- Por que ela fez isso? - Lucas perguntou para Luciano Pica-pau, sentindo-se traído.
- Não discorde dos desígnios de Deus - ele respondeu, pois no fundo era um
espiritualista.
Lucas não disse mais nada e guardou durantes anos uma foto da Candinha no banco,
onde brilhava a imagem de Sheila.
Nunca ficou sabendo quem ganhara aquele maldito concurso de redações.
Aquele ano também ficou na sua memória como sendo o em que por muito pouco
não fora expulso do Colégio Americano.
O motivo foi uma invasão de “catecismos” nas salas de aulas e principalmente nos
banheiros. Eram histórias em quadrinhos pornográficas, desenhadas por um tal de Lazinho
Zéfiro, que ninguém sabia quem era.
Quem mais detestava estas revistas de sacanagem eram os frades missionários que
surgiam em Santa Bárbara na Semana Santa...
- Catecismo só existe um: o de Jesus Cristo! - dizia colérico um frade de cabelo
cortado a coroinha, na porta da Matriz.
Lucas conseguiu vinte deles com Alípio, um desenhista muito talentoso, com
diversas histórias. Tudo tinha que ser feito às escondidas, pois a Revolução de 64, a
Redentora, pretendia descobrir quem era o autor de tal idiotice, nefasta a formação da
família brasileira. Nunca conseguiram seu intento e muitos artistas, como era o caso de
Alípio, ganhavam um dinheirinho a mais copiando os originais e depois criando suas
próprias histórias.
Lucas tinha certeza que havia sido dedado na sexta-feira, 13, quando um bedel o
tirou da sala de aulas e o levou, sempre acompanhado de sua pasta de couro preto, que por
sinal ele detestava. Na sala do diretor deram busca na Companhia Santa Barbarense de
Energia Elétrica, Iluminação e Telefonia até encontrar as revistinhas.
- O que vem a ser isso? - perguntou “Seu” Temístocles, um homem baixinho,
careca, muito religioso e culto.
- É liberdade de expressão - respondeu Lucas, tentando explicar o inexplicável.
E ficou esperando a expulsão inevitável, depois que na sua frente ele incinerou os
famigerados “catecismos”. No final “Seu” Temístocles deu-lhe três dias de suspensão e o
enviou para casa.
Seu pai Gilberto, que era o mais afamado viajante da região, vencedor moral à
prefeito de Santa Bárbara, ficou furibundo com aquela nova armação do filho e determinou
que ficasse no quarto, sem sair para a rua durante o tempo do castigo.
A mãe, dona Clarice, que era muito religiosa, disse que rezaria a Nossa Senhora do
Desterro, pedindo-lhe juízo para o filho e pediria perdão pelo filho Lucas, a Mãe Santa.
- Ajoelhe e reze - ela disse com voz chorosa.
Oração a Nossa Senhora do Desterro feita por Dona Clarice e seu filho Lucas:
Bem-aventurada Virgem Maria, mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rainha do Céu
e da Terra, advogada dos pecadores, auxiliadora dos cristãos, protetora dos pobres,
consoladora dos tristes, amparo dos órfãos e viúvas, alívio das almas penantes, socorro
dos aflitos, desterradora das indigências, das calamidades, dos inimigos corporais e
espirituais, da morte cruel dos tormentos eternos, de todos bichos e animais peçonhentos,
dos maus pensamentos, dos sonhos pavorosos, das cenas terríveis e visões espantosas, do
rigor do dia do juízo, das pragas, dos incêndios, desastres, bruxarias e maldições, dos
malfeitores, ladrões, assaltantes e assassinos. Amada mãe, prostrado agora aos vossos pés,
com piedosíssimas lágrimas, cheio de arrependimento das minhas pesadas culpas, por
vosso intermédio imploro perdão a Deus infinitamente bom. Rogai ao vosso Divino Filho
Jesus, por nossas famílias, para que ele desterre de nossas vidas todos estes males, nos dê
perdão de nossos pecados e nos enriqueça com sua divina graça e misericórdia.
Cobri-nos com o vosso manto maternal, ó divina estrela dos montes. Desterrai de nós
todos os males e maldições. Afugentai de nós a peste e os desassossegos.
Possamos, por vosso intermédio, obter de Deus a cura de todas as doenças, encontrar as
portas do Céu abertas e convosco ser felizes por toda a eternidade. Amém.
Ao final dona Clarice rezou 7 Pai-nossos, 7 Ave-Marias e 1 Credo ao Sagrado
Coração de Jesus, pelas sete dores de Maria Santíssima.
Por via das dúvidas Dona Clarice levou o filho em uma vidente, amiga da família.
Ela conhecia Lucas desde quando era criança e gostava muito dele. Nonagenária, já não
enxergava, estava paralítica e pediu que “seu menino”, chegasse bem perto dela, na sua
cama de viúva. Dona Clarice dourou a pílula e contou a enrascada que Lucas se metera de
uma maneira que não assustasse a anciã.
Murmurando palavras inaudíveis ela fez suas orações, sempre seguidas de sussurros
profundos.
“Estrela Guia, luz das imortais falanges”
Ao final pediu que Dona Clarice saísse do quarto e colocou ambas as mãos sobre a
cabeça de Lucas.
- Por que o meu menino fez essa traquinagem? - perguntou.
- Não sei - respondeu Lucas.
- Você é um menino tão bom, protegido por todas as entidades e principalmente
pelo anjo Gabriel - afirmou.
Lucas sentiu que não ia mais se conter e soluçou alto.
- Não fique assim, meu menino. Tudo vai se resolver.
Dona Clarice entrou no recinto semiobscurecido e ouviu a promessa que tudo iria
acabar bem. E a velha lhe disse que desse banhos de sal grosso e rosas brancas no “seu
menino”, sempre da cabeça para baixo, durante sete dias.
Ao sair para o clarão do dia Lucas se sentiu mais protegido.
A partir do episódio dos “catecismos” ficou esperando ser expulso do Colégio
Americano a qualquer momento o que a acabou não acontecendo.
Cabreiro, perguntou a Luciano Pica-pau porque o Diretor, “Seu” Temístocles, não o
mandara embora do Colégio Americano:
- "Existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia” - ele
respondeu.
- Foi Miguel de Cervantes que disse isso? - chutou Lucas.
- William Shakespeare - ele respondeu.
Luciano Pica-pau parecia saber mais sobre o assunto, mas Lucas resolveu esquecer
o episódio e deu o desenlace favorável como resultado das orações a Nossa Senhora do
Desterro, feitas por sua mãe e ao invisível do qual a velha vidente mostrava-se íntima.
Ensimesmado resolveu mudar os rumos de sua vida escolar.
O mais difícil foi procurar o Alípio, que era um sujeito muito simples e sem posses,
para dizer-lhe o que havia acontecido com as revistinhas em quadrinhos pornográficas.
Ele, que já sabia a história toda, mostrou-se surpreendentemente compreensivo.
- Isso acontece muitas vezes - disse Alípio.
- Assim que puder vou restituir-lhe os “catecismos” - disse Lucas, com convicção.
Ele nunca conseguiu cumprir o que prometera, pois Alípio morreu num desastre de
ônibus, numa romaria à Aparecida do Norte, cerca de um ano depois.
Lucas começou a se preocupar com os estudos e passou a andar com Otávio e Luís,
dois colegas repetentes.
Por essa época passou a ler os clássicos da literatura mundial começando pela
Divina Comédia, de Dante Alighieri e o Paraíso Perdido, de John Milton.
O pai de Otávio, um comerciante abastado, deu-lhe de presente um Fusca azul e
passaram a zanzar pela cidade fora do horário de aulas.
O velho dera o carro para o filho, mas não se encarregava do abastecimento. Vira e
mexe tinham que empurrá-lo pelas ruas íngremes de Santa Bárbara.
Foram os novos amigos que enfiaram na cabeça de Lucas que Mariana Helene
Bernhard, uma aluna do Internato Feminino do Colégio Americano estava lhe dando bola.
Lucas fez uma pesquisa rápida e logo descobriu que a garota era namorada de um
jogador de basquete do Colégio Americano, o Cássio, de Rondônia.
Ela era descendente de alemães e sua família morava em Chapecó, Santa Catarina e
tinha os mesmos 19 anos de idade de Lucas.
Seu pai, anos atrás, estudara no Colégio Americano e fizera questão de que a filha
repetisse a mesma experiência.
Mariana Helene Bernhard se transformou numa obsessão para Lucas, ainda mais
que Otávio e Luís, a todo tempo o provocavam sobre o assunto. Realmente ela era uma
mulher linda, muito branca e que de shorts, mostrando pernas maravilhosas, era um show,
pois jogava na equipe de vôlei do Colégio Americano.
- As jogadoras de vôlei são as garotas mais “quentes” da cidade - dizia Luís, com o
rosto avermelhado e fisionomia sem vergonha.
- Como você sabe? - perguntava Lucas.
- É científico. Todas as atletas tem uma irrigação de sangue melhor nas partes
íntimas. Consequentemente mais tesão.
Um dia Lucas tomou coragem e foi até a quadra onde as moças treinavam, num
final de tarde.
Carlão era o “treineiro” do time. Ele era um homem muito simples, um antigo
pescador e se encarregava em manter organizado o setor esportivo do Colégio Americano,
controlando a entrega de bolas para os diversos esportes e jogos de camisas que eram
utilizadas em jogos “oficiais”.
Lucas olhou para Mariana Helene Bernhard e ela também, mas não saiu uma
palavra qualquer das suas bocas.
O treino ia começar e Lucas entregou-lhe um bilhete que escrevera, prevendo
problemas de um ataque de repentina timidez.
O bilhete dizia: “Mariana Helene Bernhard, você é a mulher mais maravilhosa que
já vi, com estes olhos lindos Você não é uma simples mulher. É um ser angelical.”
Daí em diante tudo correu de maneira muito rápida. Em pouco o tempo todo o
Colégio Americano ficou sabendo que Mariana Helene Bernhard terminara com o
brutamontes do Cássio, jogador de basquetebol e estava namorando Lucas, o boêmio.
Cássio era um boa praça, todos diziam, muito forte, um grande pivô e conhecia
todos os fundamentos, pois a equipe treinava três vezes por semana. O pivô era a base de
todas as jogadas.
Diziam que Cássio seria o primeiro jogador de Santa Bárbara a ser contratado pelo
Corinthians, que foi sete vezes seguidas Campeão Paulista de Basquetebol. Ou Flamengo,
que no Rio de Janeiro era o maior.
Mas, Lucas era mesmo um crianção, pois na mesma semana que conquistou
Mariana Helene, se envolveu em mais uma grande confusão.
Dentro da aula de Religião de Dona Aimê, uma sessentona muito religiosa, esposa
de “Seu” Temístocles, surgiu do nada uma guerra de jabuticabas verdes e que só terminou
com uma plasta de bosta de vaca que explodiu no rosto da velha.
- Coco de vaca, mesmo? - interessou-se Adamastor.
- De vaca, bem verdinho - disse Lucas.
Enquanto a velha se limpava e pedia o fogo dos céus sobre aquele bando de pivetes
infernais, Lucas saiu de fininho da sala, escapando de ser punido.
Quando voltou a encontrar-se com Dona Aimê, fez sua cara de anjo e se propôs a
fazer uma cópia de uma gravura que mostrava a fuga de José do Egito...
11
Lucas, Adamastor, Luciano Pica-pau, Lazinho, Otávio, Luís e Nélson haviam
resolvido fundar a Organização Ômega depois de um incidente acontecido na madrugada
de um final de semana.
A cabeça do busto de Manoel Fernandes colocado em uma bela herma de granito
preto na Praça Principal, local onde se comemoravam datas cívicas, apareceu coberta com
um chapéu de palha.
Quando Secundino, jardineiro da Prefeitura tirou o adereço de palha deu de
encontro com um monte de merda.
- Bosta de gente! - afirmou Secundino que saiu correndo para contar o acontecido
ao Prefeito Ignácio Pereira.
O fato foi considerado mais grave do que um crime de lesa majestade por atingir a
imagem do Fundador.
A primeira reunião da Organização Ômega ocorreu nos fundos da casa de Lucas e
ficou estabelecido que sua principal atividade seria o estudo de conhecimentos gerais e a
proteção dos seus membros fundadores.
Quem primeiro usou a palavra foi Lucas:
- A finalidade desta reunião é criação da Organização Ômega para proteger os seus
associados - disse de maneira curta e grossa, esquecendo-se do estudo dos conhecimentos
gerais.
Em seguida falou sobre os principais motivos que levavam a esta decisão.
Cartas anônimas estavam circulando pela cidade e deixavam em má situação os
fundadores da Organização Ômega que eram acusados de uma série de mal feitos
acontecidos na cidade, coisas verdadeiramente absurdas.
Adamastor e Lazinho haviam sido seguidos por pessoas não identificadas e se
sentiram ameaçados.
O Pérola Negra, um magnífico De Soto modelo 57 aparecera da noite para o dia
com alguns estranhos arranhões na pintura.
Lucas e Luciano Pica-pau haviam sido ameaçados na porta do Centro Acadêmico da
Escola Superior por indivíduos que nunca haviam visto antes e só saíram de lá protegidos
por Ana e Débora, duas garotas que os acompanhavam e haviam ameaçado fazer um
escarcéu.
E a onda de violência parecia não estar dirigida só a eles, pois Estevão, um aluno
interno do Colégio Americano fora cercado na rua e levado uma surra que acabou
fraturando seu nariz.
A gota d´água aconteceu naquela semana quando Lucas acordou com os gritos da
sua mãe estarrecida com o que via.
Haviam pulado o muro da horta e decepados um por um os vasos com orquídeas
que Lucas havia começado a colecionar.
Para ele quem era capaz de fazer tal coisa com uma planta que dava flores tão lindas
podia fazer qualquer coisa.
- Já estou investigando tudo isso - disse Adamastor.
Todos achavam que o que vinha acontecendo não podia ser uma simples rixa com
estudantes do Colégio dos Padres.
Conversaram mais meia hora sobre o assunto e duas palavras prevaleciam sobre as
outras: defender-se e vingar-se.
- Neste caso temos que esquecer os nossos preceitos cristãos - disse Luciano Pica-
pau.
Ficou estabelecido também que daquele dia em diante deveriam os membros da
Organização Ômega evitar ir a festas sozinhos e sempre andar juntos.
- A união faz a nossa força - afirmou Adamastor.
Lucas achou o que o amigo disse muito bobo, mas acabou falando coisa pior ainda:
- Na Organização Ômega seremos um por todos e todos por um!
Olhou para Luciano Pica-pau que fizera um esgar no rosto e com um sorriso
amarelado completou:
- O lema dos Três Mosqueteiros será nosso também...
Em seguida passou a palavra para o convidado da noite, o Professor Lino, que faria
uma palestra sobre o segundo assunto importante da noite, sua verdadeira paixão, a história
de Santa Bárbara e dos bens roubados por escravos fugidos.
Ele narrou que pelas suas pesquisas chegou à conclusão que o O Embuçado era uma
figura tão ou quanto mais temida do que o Zarolho.
Acabou firmando a ideia que o O Embuçado era o alter ego de um tal Padre
Valeriano, que viveu na cidade naquela época e era muito amigo do Zarolho.
Quanto ao O Abafador era destinado a diminuir o sofrimento do bandoleiro, e
possivelmente tivesse sido enviado pelos “Cristão novos”, que temiam ser denunciados.
- Julgo, portanto que o Tesouro dos Escravos poderia estar em inúmeros lugares.
fazendas, cemitérios e igrejas - ele afirmou.
E para completar o rol de surpresas da noite apresentou uma foto emoldurada de um
homem de barbicha.
- Este é Dimitri Kerylenko, nascido a 14 de agosto de 1910, em Kiev, na Rússia,
filho de Yuri e Nastenka - disse com voz grave.
Professor Lino, como se falasse para uma grande plateia narrou que na disputa pelo
poder desencadeada em sua pátria, Dimitri lutou contra os comunistas do Exército
Vermelho, que foram os vencedores. Exilado da Rússia estudou na Bélgica e na Iugoslávia.
Formou-se como engenheiro agrônomo e engenheiro agrícola, na Bélgica e, na Iugoslávia,
engenheiro florestal. Em fins de 1930 imigrou para o Brasil, onde se naturalizou. Como
convidado entrou no corpo docente do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, em 15 de maio
de 1932. E como titular permaneceu nessa condição até novembro de 1933. Foi convidado
então para o serviço público em São Paulo exercendo o cargo de diretor do Colégio Graça
Aranha, em março de 1936. Retornou ao Colégio Pedro II em abril de 1939 e logo assumiu
a Coletoria Estadual de Santa Bárbara. Por sua formação acadêmica lecionou, na Escola
Superior de Santa Bárbara, disciplinas de Topografia, Química, Meteorologia, Geologia, e
outras por curto período. No Curso Médio, lecionou no Colégio Norte-Americano Física,
Álgebra, e Química. De 1950 a 1958, ministrou aulas no Curso Científico do Colégio
Norte-Americano as seguintes matérias: Geografia Geral, Geografia do Brasil, Química e
Física. Em 1959, foi aprovado no concurso de títulos e provas para professor catedrático da
Escola Superior.
E continuou:
- O professor Dimitri Kerylenko iniciou-se na Maçonaria no Grande Oriente do
Brasil, em 1938, possivelmente no Rio de Janeiro tendo frequentado as lojas maçônicas das
cidades onde morou. Faleceu, em 15 de abril de 1974, em Santa Bárbara, onde, depois de
aposentado trabalhava no Departamento de Obras da Prefeitura Municipal. A sua época foi
considerado uma das grandes personalidades da cidade e região - finalizou o Prof. Lino.
Todos se mostraram bastante interessados e lhe fizeram muitas perguntas ao final de
sua arenga.
- Qual a importância deste gringo? - quis saber curioso Adamastor.
Professor Lino bebeu do copo de água a sua frente antes de voltar a falar.
- Por minhas pesquisas concluí que Dimitri Kerylenko foi o grande protetor do
Tesouro dos Escravos durante décadas.
- Ele e a maçonaria? - perguntou Lucas.
- Não tenho como afirmar positivamente. Mas há fortes indícios...
A seguir disse que uma rápida e estranha visita de menos de um dia, sem uma
explicação lógica, de Getúlio Vargas a Santa Bárbara estaria ligada a Dimitri Kerylenko e
ao Tesouro dos Escravos.
- Será verdade? - perguntou com uma cara maliciosa Luciano Pica-pau.
- Por depoimentos comprovei que Getúlio Vargas recebeu Dimitri no seu vagão
especial no trem presidencial e que logo após apareceu em Santa Bárbara, Gregório
Fortunato, o Anjo Negro, chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas e que se meteu em
várias falcatruas por todo o País.
- Parece ficção - afirmou Lucas.
- Na história de Santa Bárbara há outro fato estranho - afirmou o Professor Lino.
A pequena plateia fixou os olhos nele que contou uma pequena história. Justo no dia
do casamento de sua tia Olinda, durante a Revolução Constitucionalista, um pequeno avião
fizera uma aterrissagem forçada num cafezal que nunca fora bem explicada. Muitos diziam
que seu plano era aterrissar na cidade. O piloto tornou-se amigo da população, seu avião foi
consertado e o Professor Lino julgava que sua grande motivação também fora localizar o
Tesouro dos Escravos, para os constitucionalistas paulistas que também andavam a procura
de financiamento para suas guerrinhas..
Conversaram mais um pouco e Lucas sentiu que haviam saído todos revigorados
com a criação da Organização Ômega.
Menos de um mês depois dessa reunião, Adamastor e Lazinho suspeitaram de um
tal de Murilinho, um sujeito magrelo, fumante inveterado e que era considerado por todas
as famílias um patife.
- Pegamos o cara rondando o Perola Negra - disse Adamastor.
Segundo contou Lazinho haviam levado o cara para o Cemitério Municipal e no
silêncio sepulcral haviam dado um esfrega nele.
- Adamastor começou jogando o maço de cigarros dele no chão e amassando com o
pé - disse Lazinho.
Murilo havia ficado sem ação nas mãos dos dois amigos e acabou confessando que
era autor das cartas anônimas e das ações contra os membros da “Organização Ômega”,
porque tinha inveja deles.
- Demos um corretivo nele e o deixamos caído em cima de um túmulo - disse
Adamastor.
- Ele jurou que nunca mais faria nada - concluiu Lazinho.
Murilinho cumpriu o que prometeu e algum tempo depois desapareceu de Santa
Bárbara.
Lucas pôs-se a matutar sobre o que dissera o Prof. Lino.
Ele era um dos poucos santa-barbarenses que tinha Doutorado na Universidade
Federal de Minas Gerais.
Um dia abandonou seu mundo intelectual na Capital e veio morar na pequena
cidade, junto com as suas duas irmãs gêmeas e quando não estava pesquisando e
escrevendo, gostava de ficar nos botequins bebendo sua caninha e numa prosa que não
acabava nunca.
- As duas irmãs dele são muito esquisitas - afirmava Lazinho.
Noeli parecia viver noutro mundo e trajava sempre um vestido que Luciano Pica-
pau assim classificava:
- Uma mortalha! - ele dizia.
Patrícia, a outra, andava sempre maquiada, os lábios carnudos bem vermelhinhos,
sobrancelhas bem tratadas, vestidos na última moda e um sorriso maroto.
- Vira e mexe está agarrada com um rapazinho num canto da cidade - dizia Lazinho
- Um negrinho qualquer!
- Tem até o apelido de Patrícia Clamor do Sexo - disse Adamastor e caíram todos na
risada.
Professor Lino quando chegou na cidade comprou de um funcionário da ferrovia
uma antiga bicicleta Phillips, quadro duplo, ano 1955, toda original e trajando um terno
quadriculado saia pedalando o que tornou os dois muito conhecidos.
Num aziago mês de agosto dois fatos perturbaram a vida tranquila do Professor.
Sua irmã Noeli introduziu nas partes íntimas uma garrafa vazia de refrigerante.
- E daí?- perguntaram todos que já tinham ouvido essa história muitas e muitas
vezes.
-Deu vácuo e não saía de forma alguma - disse Lazinho.
- Chamaram então o enfermeiro Francisco - disse Adamastor.
Com sua prática e todo cuidado ele quebrou a garrafa sem machucar a moça e
resolveu o problema.
O outro caso acontecido nesta época foi quando o Professor Lino descia uma ladeira
íngreme na bicicleta, perdeu o freio e estatelou-se contra uma casa.
- Machucou muito? - perguntou Luciano Pica-pau.
- Ficou três dias em coma - disse Adamastor -Mas, porque toda esta conversa sobre
o Professor Lino, Lucas?
- Fico pensando se ele não ficou de miolo mole e inventou todas essas histórias que
conta - disse Lucas.
-Seja o que Deus quiser - afirmou Adamastor, terminando com a conversa.
Dias depois procurou Lucas e entregou-lhe um envelope que o Professor Lino lhe
encaminhara.
Era uma folha de papel manteiga onde haviam sido desenhados diversos símbolos, a
maioria dele com formas geométricas.
- O que significa tudo isso? - perguntou Lucas.
- Ele disse que você era a única pessoa capaz de entender o caminho para o Tesouro
dos Escravos. Um iluminado...
Lucas olhou mais uma vez o rabisco sem compreender como aquilo funcionava,
afinal de contas nunca fora bom em solucionar adivinhos e quebra-cabeças.
Dobrou o papel e o guardou no bolso.
12
Adamastor apareceu correndo, esbaforido:
- Nem te conto o que aconteceu!
- O que foi que houve, Adamastor? Viu o chifrudo ?
Sentaram-no num banco debaixo de uma árvore frondosa e lhe deram um tempo de
descanso.
- Fale agora....
- Vou falar...- disse Adamastor engasgado.
Contou então que o caso envolvia os ”novos amigos” de Lucas, Luís e Otávio, e o
seu Fusca azul.
-Bateram o carro? - perguntou assustado Lucas.
- Coisa bem pior - disse Adamastor, com cara de piedade.
Os dois há muito tempo vinham paquerando Malu e Milu, duas irmãs muito
bonitinhas.
Elas moravam na Rua Industrial, perto da Estação de Trens.
Tanto deram em cimas delas que um dia conseguiram o seu intento: colocaram-nas
no Fusca azul e rumaram para a Terra do Sem Fim, uma região que não estava no perímetro
urbano e nem na zona rural.
Otávio logo percebeu que gasolina havia acabado mas não esquentou a cabeça
porque Malu era uma lourinha muito ajeitada.
Estavam no maior frege dentro do carro quando bateram com força no para-brisas
do carro.
Otávio foi quem primeiro sentiu o cano de uma espingarda 12 apontado para sua
cabeça.
Quem segurava a arma era um velho de barba branca, um chapéu de aba caída na
cabeça e olhar de poucos amigos.
Malu e Milu começaram a gritar e a chorar e Otávio e Luís se puseram a vestir suas
calcas.
- Todo mundo pra fora! - gritou o velho, chamado Damião.
Ele era um verdadeiro eremita e vivia recluso numa das fazendas de maior área no
município de Santa Bárbara.
Otávio que era mais jeitoso, cheio de mesuras pediu a Damião que os deixasse ir
embora com as moças, as duas de boa família.
Nem se lembrava mais que o Fusca azul estava sem nenhum combustível e acabou
por ter que obedecer Damião.
- De família, o caralho. Isso é mesmo muié dama, da zona...Os quatro em fila um
atrás do outro!
-Mas, porque esta maldade “sô” homem? - perguntou gaguejante Luís.
- As terras são minhas e nelas não aceito que venham fazer sacanagem ...-rosnou por
entre os dentes, Damião.
Adamastor jurou que foi o maior vexame de todos os tempos a entrada dos quatro
na cidade e o seu caminho até a Delegacia de Polícia.
Lá a choradeira foi geral até que chegasse Dr. Romano, o cirurgião dentista, pai das
duas.
No meio da confusão, Damião montou no seu cavalinho e foi-se embora com
certeza de o que fizera fora o certo.
Em seguida chegaram os pais de Otávio e Luís.
Por mais que dissessem que não, a única proposta do dentista foi para o casamento
dos quatro.
A alternativa era as grades, pois Otávio e Luís eram maiores de idade.
No final de muita conversa ficou decidido o casamento dos quatro como forma de
lavar suas vergonhas.
Lucas, Adamastor, Luciano Pica-pau e Lazinho foram convidados para o casamento
na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Desterro, seguido por uma festa bancada pelo Dr.
Romano no Salão Nobre do Clube de Santa Bárbara.
Foi uma das maiores festas de casamento já vistas em Santa Bárbara e registradas
pelo famoso fotógrafo Joãozinho, dos vestidos brancos das noivas, comprados de um
famoso figurinista da capital ao majestoso bolo de noiva confeccionado por Dona Clarice,
mãe de Lucas.
Três fatos insólitos e pouco corriqueiros quebraram a pompa e circunstância da
cerimônia, acompanhada por piano e violino.
O primeiro, a entrada do fazendeiro Damião, vestindo um terno preto encardido, que
sem ser convidado fez questão de comparecer ao enlace matrimonial, aboletando-se num
lugar na primeira fila, como principal responsável do desenlace daquela aventura pela Terra
do Sem Fim;
O segundo, causou um certo arrepio nos presentes, principalmente nas mulheres,
com a entrada de várias “mulheres damas”, que foram prestigiar Otávio e Luís, dois
tremendos putanheiros.
E por fim a declaração do fotógrafo Joãozinho, que disse que por sua experiência as
duas estavam prenhas.
A festa só não foi mais brilhante do que o esperado porque no momento das noivas
atirarem seus buquês um vendaval estilhaçou as janelas do Clube, entrando para o Salão
Nobre poeira e água.
As luzes apagaram e quando retornaram haviam desaparecido Otávio e Luís, os
noivos, seus amigos Lucas, Adamastor, Luciano Pica-pau e Lazinho.
E também a embaixada de putas mais bonitas e faceiras de Santa Bárbara.
- A festa ficou boa mesmo foi no puteiro da Alemã - disse Adamastor - Uma grande
festa, uma orgia... Uma despedida de solteiros digna do nome!
13
Habib fazia parte da turma de Lucas e era um “turco”. Na verdade era libanês e seu
pai viera para o Brasil para trabalhar nas tais fazendas de café. Não tinha vocação para isso,
trabalhou pouco tempo com a enxada na mão e começou a mascatear vendendo tecidos. As
mulheres de Santa Bárbara sabiam que quando chegava com suas grandes malas, vindo do
Rio de Janeiro, trazia produtos de qualidade. E que dele podiam comprar fiado. Enriqueceu
a custo de muito trabalho e assim que pode construiu um sobradinho no centro da cidade e
instalou ali sua Loja do Oriente, especializada na venda de enxovais para moças
casadouras.
Nasceu Habib com um pequeno defeito numa das pernas, o que fazia dele um coxo
e muitos o chamavam de Deixa que eu chuto, o que o deixava possesso.
Gorducho, com cabelos lisos muito negros, era considerado por Lucas como o mais
inteligente dos seus amigos e um bom companheiro.
Não perdia uma missa aos domingos e gostava de se dizer um inventor, trabalhando
no que chamava de seu laboratório.
Em Santa Bárbara foi o primeiro a construir um pequeno foguete com um tubo de
alumínio que voou cerca de quinhentos metros e se espatifou no chão.
- O futuro do Planeta está na tecnologia - ele dizia.
Adorava comer e era mesmo um glutão.
No Carnaval era quem ficava encarregado de comprar tubos de lança perfume
Rodouro.
Foi dele também a ideia de alugar um quarto no Hotel Central para que a turma
cheirasse lança perfume longe dos olhares dos adultos.
Seu ponto preferido na cidade era o Bar do Clube que funcionava no térreo do
Clube de Santa Bárbara.
Como era muito simpático e conversava com todo mundo, tornou-se uma fonte
inesgotável de fofocas que repassava para Adamastor.
Foi o primeiro adolescente a se trancar no quarto do hotel e cheirar lança perfume.
Como não aparecia para o Grande Baile de Carnaval, Adamastor resolveu procurá-lo e o
encontrou caído no chão sujo do quartinho e babando.
O médico que o examinou foi taxativo:
- Não morreu por pouco. Ele tem um defeito no coração e não pode se meter nestas
aventuras.
Estudava no Colégio dos Padres, organizava a Fanfarra e seu pai resolveu colocá-lo
no balcão para ver se tomava tenência na vida.
Foi quem primeiro chamou a atenção de Adamastor para o estranho comportamento
do Prefeito Ignácio Pereira.
Ele andava muito nervoso e por várias vezes ficava bebendo cerveja no Bar da
Clube com outros manda chuva da cidade.
- Estão tramando alguma coisa - dizia Habib.
Bom comerciante, talento que herdara do pai, foi quem trouxe para Santa Bárbara a
mania das pirâmides ou correntes de sapatos, o que deu muita confusão e envolveu
Adamastor.
A maior parte dos calçados existentes nas lojas das cidades eram botinas gomeiras e
os das correntes eram sapatos finos fabricados em Franca, São Paulo.
O que era uma "corrente"? Era simples. Alguém dizia que descobrira uma maneira
de ganhar dinheiro fácil. Mostrava uma folha datilografada onde estavam listados os nomes
de 10 pessoas, numerados de 1 a 10, com seus endereços. O nome do seu amigo estava no
décimo lugar na lista. Para entrar na "corrente" você deveria pagar um sapato a seu amigo e
enviar um cheque postal de tantos cruzeiros para o primeiro nome da lista. Depois, apagava
o nome do primeiro camarada da lista e passava o segundo da lista para a primeira posição.
Da mesma forma, adiantava o nome de todos da lista, avançando um lugar em direção ao
primeiro. Assim, o terceiro virava segundo, o quarto virava terceiro etc. Seu amigo
avançava de décimo para nono lugar na lista. O décimo lugar da lista ficava vazio. Neste
lugar, você escrevia seu nome. Fazia três cópias da nova lista e vendia tantos cruzeiros para
três pessoas que você confiava que não quebrariam a corrente. Só com a “venda” para três
amigos, você já pagava o que dera para seu amigo e o que enviara para a cabeça da lista e,
ainda, ganhava “x” cruzeiros.
Realmente, se as três pessoas para quem você passou também passassem a corrente
adiante e este processo se repetisse até você encabeçar a lista, quando todos enviassem os
cheques postais para sua casa, você teria recebido uma montanha de sapatos.
Mas, as “correntes” são golpes de estelionato desde que Jesus Cristo andou pela
Galileia! . Os primeiros recebem dos ingênuos que vão entrando logo depois. O modo como
surgem e crescem a partir de um pequeno grupo, ampliando o tamanho a cada nova camada
de participantes, fez com que se tornassem conhecidas como “pirâmides”. Mas, chega o
momento em que não existem mais “otários” para quem passar a corrente. É o fim!
A mania tomou conta da cidade, até que o próprio Habib descobriu que aquilo era
um grande golpe e que muitos não receberiam seus esperados sapatos.
- Não mexo mais com isso - disse Habib, que teve que pagar ao Dr. Mauricinho para
defendê-lo e a Adamastor.
E se lhe perguntavam o que teria acontecido dizia que o brasileiro não sabia
trabalhar coletivamente e por isso rompiam o combinado.
Não queria prosseguir os estudos e só pensava em se casar com Veridiana, uma
morena linda, filha de Tobias, um açougueiro.
Seus planos quase foram por água abaixo quando uma negrinha que trabalhara na
sua casa apareceu com uma criança debaixo do braço e disse a sua mãe que era seu neto.
- Escapei por pouco. Quase me fodo se não fosse a desconfiança de Dona Latifa -
disse Habib.
E por vias das dúvidas fez uma promessa de assistir à missa das 6 horas, na Matriz,
durante um ano.
Naquele ano mesmo, seu pai, Nacif, adquiriu a funerária da cidade que estava
quebrada e a denominou de “Funerária Boa Morte”. Comprou um estoque de caixões mais
modernos que fugiam do estilo habitual, revestidos com tecido roxo e um coche fúnebre
puxado por um cavalo todo enfeitado.
Passou o estabelecimento para a administração do filho Habib e foi cuidar de outros
negócios da família.
A empresa só se encarregava de funerais e sepultamentos de pessoas de recursos,
pois dos pobres e indigentes eram de responsabilidade da Irmandade do Rosário.
O primeiro caso expressivo que Habib encarou foi o velório e enterro de Dr.
Lavigne, um advogado muito famoso na região, que morreu de morte natural na chácara em
que residia.
- Era o advogado mais esperto de Santa Bárbara e região - afirmou Luciano Pica-
pau.
Uma das histórias que envolvia o Dr. Lavigne foi o caso do roubo da Joalheria Ouro
Preto, a mais tradicional de Santa Bárbara, de propriedade de Simon, um judeu baixinho e
calvo.
- Toda vez que dizem que uma joalheria foi assaltada o proprietário fica mais rico -
dizia Luciano Pica-pau.
- Por quê?
- Na verdade não ocorre o roubo e recebem do seguro - ele afirmava.
Desta vez o arrombamento ocorreu e fizeram uma limpeza no estabelecimento:
colares, pingentes, tiaras e relógios, tudo de ouro e decorado com pedras preciosas.
Simon, estrebuchou, usou seus conhecimentos políticos na Capital e os três
assaltantes foram encontrados num casebre no Recanto das Vassourinhas.
Para o delegado especial que veio comandar a ação foi mais fácil do que esperava.
Os meliantes estavam completamente bêbados, agarrados a mulheres de vida fácil e
se entregaram sem nenhuma reação.
Não há uma explicação viável, mas o Dr. Lavigne apareceu por lá e ficou
encarregado de entregar ao seu cliente todo o botim, alojado em uma pasta preta.
Entre a Delegacia de Santa Bárbara e a Joalheria Ouro Preto a tal pasta desapareceu
e nunca mais foi vista.
A morte de Dr. Lavigne ocorreu logo após o episódio e sua família encomendou e
Habib providenciou um velório e enterro de primeira classe, com café e quitandas, coroas
de flores, um terno novo para o finado e até mesmo um pouco de rouge que Habib aplicou
nas bochechas emaciadas do defunto.
A população acompanhou o coche fúnebre que levava Dr. Lavigne numa urna de
primeiríssima qualidade e de alças douradas.
Nem bem o caixão baixou a sepultura e as carpideiras contratadas cessaram seu
choro, surgiu um boato de que o Dr. Lavigne teria dado um golpe derradeiro em seus
inimigos e que estaria vivo e lampeiro e no lugar de seus restos mortais um monte de
pedras.
A história tomou tal vulto, com o defunto sendo visto em cidades vizinhas, que
preocupou Nacif.
- Se isso continuar vamos quebrar - disse o experiente comerciante para o filho
Habib.
E arquitetaram um plano para resolver de uma vez por todas esta confusão.
O mais difícil para Habib foi convencer Joãozinho, um grande fotografo a participar
da trama.
Alta madrugada, Habib, Nico e Clécio, funcionários da Funerária Boa Morte e
Joãozinho partiram para sua missão, portando longas pás.
No Cemitério Municipal localizaram e se dedicaram ao serviço de retirar o caixão
de sua cova.
Joãozinho trouxe uma garrafa de cachaça e por isso não sentiu o odor terrível que se
desprendeu quando o ataúde foi aberto.
Deformado, com os vermes começando a proliferar pelo corpo, lá estava o Dr.
Lavigne, todo chic, num terno de casimira inglesa.
Habib praticamente bateu as fotos para Joãozinho que estava caindo pelas tabelas.
Fecharam tudo novamente e na tarde do dia seguinte cópias das fotos foram
esparramadas pela cidade e região.
Habib ficou sabendo que o Juiz João não gostara do que eles haviam feito e que seu
pai Nacif, muito satisfeito com o resultado do seu plano ficou de conversar com ele.
“E conversou bem conversado”, pensou Habib, pois nunca mais o assunto voltou à
tona.
Mas, a lenda de que o Dr. Lavigne não morrera continuou na memória da cidade.
Depois disso Habib e o pai Nacif se meteram em dois grandes negócios.
Por quantia nunca divulgada compraram de Primo Viotti que havia criado a
Companhia Santa-barbarense de Energia Elétrica, a CSEE, que através de uma pequena
usina hidrelétrica na Cachoeira do Tomba-tomba, produzia uma péssima energia elétrica
para grande parte da cidade, a preços exorbitantes.
A seguir montaram uma grande loja, onde vendiam a prazo, todos os rádios
modernos que surgiam, geladeiras e outras bugigangas.
A loja fazia tanto sucesso que resolveram lhe dar o nome de Paraíso das Novidades.
- Onde você compra os melhores produtos, das melhores marcas, a venda nas
capitais e paga uma prestação pequenininha - dizia sorrindo “seu” Nacif.
O Paraíso das Novidades, que já vendia aparelhos de rádio e eletrolas dos melhores
fabricantes trouxe para Santa Bárbara a primeira televisão preto e branco que funcionava
numa espécie de palco que a entronizava.
Lucas considerava o amigo Habib e seu pai Nacif os melhores comerciantes da
região e sempre sonhou em escrever algumas páginas sobre o tino comercial dos dois.
14
E sempre que havia uma oportunidade Lucas visitava o estúdio da Rádio Clube. Ali
assistia coisas mirabolantes como os locutores produzirem e gravarem em dois aparelhos
muito velhos pequenas novelas e até mesmo um programa especial para a Semana Santa,
baseado na Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Era muito curioso e perguntava para o Sergipano como conseguiam fazer o eco se
na mesa de som não havia tal recurso.
- Gravamos a fala com duas cabeças - explicava Sergipano e ria-se do primitivo
recurso.
De tanto ir a sede da Rádio Clube acabou aprendendo a trabalhar com a mesa de
som e aos poucos substituía os locutores que se perdiam nos bares da vida.
Vez por outra calhava fazer o que mais gostava, apresentando as notícias do dia.
Eram lidas diretamente de recortes de jornal colados em folhas brancas e era preciso ter
muito cuidado para não cair na esparrela das datas erradas. Os locutores mais antigos no
metiê chamavam o recurso de gilete press...
-Reuniram-se hoje em Belo Horizonte, os mais importantes políticos da Frente
Democrática de Minas Gerais. O encontro visa estabelecer um Pacto Nacional para as
próximas eleições presidenciais... - lia Lucas, com voz empostada.
Lucas sentia-se bem ali, aquele era seu meio e cada vez chegava a conclusão que
não faria o curso superior, destino final de todos os jovens de Santa Bárbara.
Na verdade foi o pai de Lucas quem chamou a sua atenção para o rádio. Foi ele
quem o ensinou a montar um pequeno rádio "galena" ou a cristal. Um equipamento que
funcionava pelas próprias ondas eletromagnéticas, sem o uso de pilhas, baterias ou da rede
elétrica, utilizando apenas o minério Galena e fone de telefone. Para a forma das bobinas
utilizavam tubos de PVC, condutores de água. Montavam o rádio a cristal em uma tábua.
Resultado: nestas condições captava a Rádio Clube.
No Colégio Americano, durante a semana da festa de aniversário, três internos
montavam uma rádio local AM, a Vagalume.
Lucas ganhara uma coleção de revistas Eletrônica Popular e Antena e já entendia
um pouco de radiodifusão. Descobriu que a rádio experimental do Tenebroso, Didi e Zé
Lazinho era um transmissor que utilizava apenas uma válvula.
- Uma válvula 6V6, da RCA - disse Lucas para Luciano Pica-pau.
A rádio Vagalume era bastante inovadora, tocava músicas novas, sem intervalo
comercial e fazia entrevistas ao vivo. Apenas uma válvula gerava o sinal e à modulação, o
que não permitia a obtenção do máximo de qualidade de som. Dada a potência do
transmissor, sua operação devia ser feita apenas em locais fechados, mas ela ultrapassava
estas barreiras o que a caracterizavam como rádio clandestina, sem prefixo e sem registro.
Lucas fundiu a cuca para montar a fonte e depois descobriu que um funcionário do
Colégio Americano emprestava para Tenebroso a do amplificador do Salão de Festas e o
microfone que devia ser obrigatoriamente do tipo piezelétrico de alta impedância.
Tudo pronto e testado a rádio de Lucas e Luciano Pica-pau chamava-se
Esperança, a última que sai do ar em alusão a Rádio Clube que cessava as
transmissões às dez horas da noite e às vezes até antes.
Sua programação musical era feita pelos próprios ouvintes que lhes passavam o
nome de músicas que gostariam ouvir e muitas vezes emprestavam os discos de vinil.
Fato inédito na cidade, Lucas montou toda uma parafernália no seu quarto, com
microfones e amplificadores para que Luciano Pica-pau se apresentasse num concerto
de violão.
Ao final ele encerrou executando como nunca Abismo de rosas, de Dilermando
Reis.
Ele e a turminha tinham a oportunidade para enviar bilhetes musicais para
diversas garotas.
A especialidade de Lucas era enviar para Mariana versos do poeta Fernando
Pessoa:
Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão
amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te
amo?
15
Durante muito tempo o cumprimento das ordens e da lei em Santa Bárbara foi
exercido por um Capitão-mor indicado pela corte. Eles tinham poder de polícia e
faziam até mesmo Justiça ao seu modo. Nos campos de Santa Bárbara acoitaram
durante anos famigerados bandidos, depois de praticarem seus crimes hediondos. Do
Estado Novo em diante o escolhido para Delegado de Polícia foi Toniquinho Barbosa,
um rábula, homem muito bom e respeitado por toda a comunidade, apesar de ser um
pinguço de mão cheia.
Mas tudo tem seu final e Toniquinho Barbosa foi ficando cada vez mais caduco,
beirando os seus quase noventa anos. A cidade crescera muito, a população aumentara
e com a participação decisiva dos chefes políticos locais a Secretaria Estadual de
Segurança Pública resolveu enviar um novo Delegado. Foi escolhido um Bacharel em
Direito, Antônio Silveira, o Silveirinha, que trabalhara muitos anos no setor de
capturas no Vale do Rio Doce, junto com o legendário Capitão Pedro.
Ao saber o nome indicado, o Prefeito Ignácio Pereira, questionou o Secretário,
dizendo ser Santa Bárbara um município de gente calma e ordeira e o novo delegado
conhecido por suas arbitrariedades, enfrentando vários processos. O Secretário
respondeu ao prefeito que não existia um delegado sem processos e confirmou o nome
indicado.
Chegando a cidade tomou logo três atitudes. Primeiro determinou ao chefe do
destacamento, Cabo Júlio, que prendesse um pequeno grupo de domésticas que faziam,
todas as noites, algazarra em uma pracinha. E mais: mandou que lhes raspassem as
cabeças, o que causou muito desconforto na cidade, já que trabalhavam em residências
de pessoas muito ricas.
Em seguida, ele veio a saber, das rádios clandestinas e intimou seus donos para
uma conversa.
Em terceiro e último lugar, transferiu seu escritório para um botequim
escondido dos olhares públicos, onde bebia e vez ou outra despachava os problemas da
cidade.
Delegado Silveirinha era um homem alto e magro, com vasta cabeleira negra,
uma mecha branca e um bigode fino a emoldurar seu rosto. Gostava de beber conhaque
e andava sempre com um terno xadrez e por baixo do paletó um coldre com um Smith
& Wesson 38, de cano niquelado.
Na frente de Tenebroso, Didi, Zé Lazinho, Lucas e Luciano Pica-pau foi curto e
grosso:
- Vocês tem que acabar com estas transmissões clandestinas de rádio de
imediato - determinou.
Zé Lazinho que era baiano e bom orador tentou fazer a defesa dos
transgressores, mas Silveirinha determinou a Cabo Júlio, chefe do destacamento, a
apreensão do equipamento e dos discos, o que era pior, pois eram quase todos
emprestados.
Acabou a brincadeira. De uma hora para outra desapareciam duas “emissoras”,
a Vagalume e a Esperança, muito queridas por todos os alunos do Colégio Americano
e pelos santa barbarenses em geral.
Ao sair da Delegacia de Polícia, Lucas pensou que ainda teria mais problemas
com a Lei e seus mandatários, representados por Silveirinha.
Sergipano enviou um recado para Lucas substituir um locutor na sexta-feira à
noite, que iria numa romaria a cavalo até Aparecida do Norte.
O programa chamava-se “Bolero na noite” e Sergipano deixou pronta a
programação musical: Ei tu me dices; Contigo aprendi; Pexadora; Voy a pagar la luz;
Nosotros; Sabor a mi; La barca; El reloj; Solamente uma vez e Apagar la luz.
O programa ia normalmente e Lucas já estava meio sonolento.
Estava lendo o reclame comercia da “Loja Para todos”, especializada em
tecidos vindos dos grandes centros, Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte,
quando o telefone tocou e ele atendeu a Anita, uma moreninha bonita, filha de um
professor da Escola Superior.
Ela estava com uma conversa atrapalhada e Lucas, que já sabia de outras
proezas dela com outros locutores resolveu arriscar:
- Vou tocar uma música exclusivamente para você...
E colocou no prato o disco com a faixa Perdida...
Perdida, te ha llamado la gente, sin saber que has sufrido,
con desesperación
Vencida, quedaste tú en la vida, por no tener cariño,
que te diera ilusión
Perdida, porque al fango rodaste, después que destrozaron,
tu virtud y tu honor
No importa, que te llamen perdida,
Yo le daré a tu vida, que destrozo el engaño, la verdad de mi amor
Perdida, te ha llamado la gente, sin saber que has sufrido,
con desesperación
Vencida, quedaste tú en la vida, por no tener cariño,
que te diera ilusión
Perdida, porque al fango rodaste, después que destrozaron,
tu virtud y tu honor
No importa, que te llamen perdida,
Yo le daré a tu vida, que destrozo el engaño, la verdad de mi amor
Anita emitia ruídos guturais pessimamente captados pelo telefone horroroso.
- Por que você não vem aqui na rádio. Estou sozinho - arriscou Lucas.
Ela ainda fez uma boa hora com ele e depois desligou o telefone.
Lucas ficou pensando o que fizera errado para a moça desligar a ligação.
Então a estridente campainha tocou e Lucas, que esperava encontrar com algum
bêbado perdido na noite deu de cara com Anita.
Ela era muito mais bonita que Lucas imaginava, principalmente na luz fraca da
cabina de som.
Muitas vezes ele ouvira histórias de mulheres, principalmente enfermeiras, que
apareçam em escolas e hospitais.
Mas, aquela era uma visão de carne e osso e logo ele verificou que ela tinha
uma carne tenra e durinha.
E era experimentada na vida sexual pela forma como o agarrou e tirou suas
roupas.
Lucas até mesmo se esqueceu do horário para retirar a Rádio Clube do ar.
Desse dia em diante ligava para Anita e ela sempre aparecia.
Uma aparição muito bem-vinda...
16
O Pérola Negra era um grande achado do Nélson. Um De Soto 57, todo preto, que
ele dizia ter comprado de um chofer da praça com o primeiro prêmio do jogo de bicho, mas
muita gente não acreditava:
- Quem comprou pra ele foi o Nôzinho - fofocava o Luciano Pica-pau.
Nôzinho era gerente de banco, todo enfarpelado, um sujeito muito educado. De uma
hora para outra toda a cidade de Santa Bárbara começou a dizer que ele era veado,
pederasta.
- Como pode ser? - Lucas estranhava.
E dizia que o homem tinha mulher e duas filhas lindas.
- Mas faz parte do trenzinho da alegria - afirmava Luciano Pica-pau com uma cara
sem vergonha.
Esta história do trenzinho da alegria era muito antiga e sempre voltava à tona,
principalmente em uma cidade que já fora um grande centro ferroviário. O tal trenzinho da
alegria fazia parte do inconsciente coletivo da população. Por qualquer motivo colocavam
as pessoas como participantes. Uns até que merecidamente, outros por pura sacanagem,
somente para desmoralizar o coitado.
O dia em que colocaram o Antenor, um financista e político de oposição, no lugar
de Gilberto, seu pai, na lista, Lucas não entendeu mais nada:
- Mas, por que ele? - perguntou.
- Leva jeito para a coisa. Anda de camisa vermelha de gola role e de sapato branco.
- responderam seus amigos.
Lucas ficou muito tempo com aquela ideia caraminholando na cabeça até que
descobriu que tudo aquilo era uma grande mentira dos inimigos políticos. O homem era
uma fera! Já maduro cantava todas as mulheres que apareciam a sua frente. Luciano Pica-
pau mesmo foi testemunha. Antenor se engraçara pela Sofia, uma bela mulher de um dono
de laticínios.
- A coisa foi feia - disse o Luciano Pica-pau, como testemunha ocular da história.
Estavam no Bar do Clube, todos sentados em uma mesa, bebendo cerveja.
Luciano Pica-pau dizia que o empresário sem mais nem menos levantara e dera um
tapa na cara de Antenor. A coisa só não ficou pior porque eram do mesmo partido e não
podiam se desmoralizar. Mas, no final de semana o hebdomadário de Santa Bárbara trazia
uma nota com pedidos de desculpas do agressor a Antenor.
Fosse com que recursos Nélson comprara o De Soto 57 e ele era a grande diversão.
- Peróla Negra era o nome de um famoso navio pirata, ele dizia.
- Nós agora somos os piratas da madrugada - dizia Lucas.
Nélson, obviamente, era o comandante e piloto. Como passageiros, Lucas, Luciano
Pica-pau, Adamastor, e Lazinho, primo de Lucas. Muitas vezes outros amigos de Nélson
apareciam para fazer um programinha no Pérola Negra.
Nélson se encontrava com a namorada até às nove horas, fazia um social e depois
uma vaquinha para abastecer o veículo e partiam para a Rua Dr. Paulo Afonso de Almeida.
na Zona Boêmia. O Dr. Paulo Afonso de Almeida, tinha sido um político que fora até
mesmo constituinte, mas ninguém mais se lembrava dele. Diziam que aquele local era um
dos maiores antros de prostituição do Estado, pois outras ruas faziam parte do esquema.
Nelas se localizavam várias boates, prostíbulos, inferninhos, lupanares e afins.
Numa esquina localizava-se a melhor e mais famosa casa de tolerância, o
Cearense´s, apelido do proprietário, um homem alto, magro, mal encarado, que diziam
carregar nas costas o peso de inúmeros crimes de morte e que adorava nas horas vagas
cuidar de tomateiros italianos. E havia centenas de mulheres oriundas da cidade, expulsas
de casa quando caiam na vida fácil, de todas as classes sociais, bonitas, muito feias ou
lindas, escravas da mais velha profissão.
- Hoje é dia da procissão - avisava Luciano Pica-pau.
De tempos em tempos as mulheres vestiam seus melhores vestidos, com estampas
berrantes, sapatos de salto altíssimos e sombrinhas multicoloridas. Desciam em grande
algaravia, provocando todos os homens com sorrisos sensuais. Para as mulheres que faziam
o sinal da Cruz a tão estranho cortejo apenas deboche e um olhar de superioridade.
Eram várias as procissões que se via em Santa Bárbara: as da Semana Santa, a das
garotas do Internato Feminino e a das mulheres da Zona Boêmia.
- Sempre gostei mais da das putas - disse Lucas, com cara sem vergonha.
Elas desciam a rua principal e se dirigiam para o consultório do Dr. Alberto, no
centro da cidade e ele lhes dava um certificado de limpeza expedido pela Saúde Pública,
que dizia estarem sem doenças venéreas, válido por dois meses.
Nélson manobrou o Pérola Negra e estacionou defronte ao Cearense´s Club. onde
Bola Sete, irmão de Adamastor estava promovendo um show de strip-tease, apresentando a
sexy Margareth Willians, a Barbie.
Uma pequena multidão já estava na porta da boate e Bola Sete os conduziu até a
mesa que tinha reservado para eles.
Na mesa ao lado se assentava o Delegado Silveirinha e outras “autoridades” da
cidade, que em razão da autorização para a realização do show tinham todas as despesas
pagas pelo promotor do evento.
- Hoje a noite vai ser quente! - disse Bola Sete limpando com um lenço o suor na
testa antes de desaparecer na fumaça azulada que tomava todo o ambiente.
Casais dançavam pela pista embalados pelos boleros calientes cantados por Horácio,
um carteiro apelidado de “El Bigódon”.
- Para terminar nossa apresentação no que promete ser uma noite inesquecível
Contigo Aprendi, Solamente uma vez e Sabor a mi - ele dizia ao microfone com voz de
galanteio.
- E Perfídia? - gritou uma piranha de cabelo vermelho.
- E Perfídia, a pedidos - disse sorrindo “El Bigódon”.
Margareth Willians, a Barbie, era uma loura deslumbrante, todos viram, quando
acendeu uma luz sobre ela que começou a dançar lentamente ao som da orquestra de Henry
Mancini.
Abriu o botão do seu corpete e olhou para a plateia com segurança. Dispensou o
casaquinho de forma delicada, jogando-o para a pequena multidão. Deixou o vestido
vermelho paixão escorregar pelos ombros permitindo que seu colo ficasse a mostra. Soltou
os cabelos amarrados em um coque deixando os fios caírem naturalmente. Tocou os
cabelos e a nuca de um jeito bem sexy. Enquanto dançava, sorria de forma maliciosa como
se pudesse dizer "Você ainda não viu nada". Deixou cair uma alça do top e em seguida a
outra. Antes de tirar a peça virou-se de costas para o público. Insinuou abrir o sutiã e em
seguida, desistiu.
- Essas provocações aumentam a minha excitação - disse Nélson para Lucas.
Pegou agora uma cadeira para poder variar seus movimentos. Sentada tocou seu
corpo todo. Levantou-se e percorreu as coxas, a barriga e a bunda com as mãos.
- Estou me vendo bolinando-a! - exclamou Adamastor que com os dedos nos lábios
assobiava fazendo barulho como todo mundo..
Margareth Willians, a Barbie, fazia muito charme enquanto abria o zíper e virava-se
de costas, mantendo o olhar nos espectadores.
- Estou suando frio, disse Luciano Pica-pau, que se sentia asfixiado pelo odor de
perfume barato, suor, cerveja e fumaça de todas as marcas de cigarro.
E ela deixou a saia escorregar até o chão enquanto movia sensualmente os quadris.
Então tirou os pés de dentro dela lentamente sem olhar para o chão.
Ficou atrás da cadeira e com as mãos apoiadas na parede flexionou as pernas,
empinando a bunda. Deslizando as mãos pelo encosto como se estivesse massageando um
homem imaginário. Brincava com as alças do sutiã e acariciava seus seios, com delicadeza.
Fazendo mistério, virou-se de costas para desabotoar o sutiã. Fez suspense cobrindo os
seios com as mãos como se não fosse mostrá-los.
O grande final: deixou no ar a dúvida se vai ou não tirar a calcinha. Depois, sugeriu
que alguém fizesse isso para ela.
O bando de boêmios que até então só havia visto stripteases no cinema explodiu em
aplausos e gritos difíceis de serem entendidos.
Depois do show todos se puseram a dançar ao som dos boleros de “El Bigódon”.
Luciano Pica-pau encostou-se a um canto e ficou admirando o amigo Lucas
dançando com Mia, uma negra que dizia ser de Angola, mas que todos tinham certeza que
viera de uma favela de São Paulo.
- O Cearense a buscou com outras vagabundas - afirmava Luciano Pica-pau.
Verdade era que a negrona apaixonara-se por Lucas e que este gostava de estar ao
lado dela.
- Fico com a Marina oficialmente, para agradar a sociedade santanense. E a Mia é a
minha concubina - dizia para os amigos.
Pelo canto do olho Lucas percebeu que Margareth Willians, a Barbie, dançava de
forma envolvente com o Delegado Silveirinha, mas parecia flertar com ele. Entusiasmou-se
e num momento que o casal passou próximo dele tocou com suas pernas as de Barbie.
Esqueceu-se que o Delegado Silveirinha, apesar de ter tomado um litro de conhaque não
era trouxa. Quando deu por si o homem deu um grito, empurrou Mia para longe do seu
caminho e encostou sua arma na cabeça de Lucas que gelou. O homem tinha fama de ter
um dedo leve no gatilho e mandara para a terra dos pés juntos muitos pistoleiros do Vale do
Rio Doce.
Lucas reagiu de uma forma dramática, agarrando-se aos braços de Silveirinha,
confiante na sua turma do Pérola negra que já cercava o homem.
Sua salvação mesmo foi o Dr. Mauricinho, um advogado da cidade, que estava na
mesma mesa que Silveirinha. Abraçou-o e falou alguma coisa no ouvido do homem que
guardou sua arma no coldre. Olhou bem fundo nos olhos de Lucas e lhe disse entredentes:
- Seu pirralho! Agradece sua vida aos seus Santos protetores! - disse - E some daqui
seu panaca!
Enquanto Lucas se ajeitava para sair do Cearense´s, viu que Nélson e os outros já
estavam se dirigindo para a porta.
- Você está no meu caderninho - disse Silveirinha apontando um dedo para o rosto
de Lucas.
Adamastor contou para os amigos como a festa terminou.
- Com o Delegado Silveirinha, Barbie não ficou - ele disse.
- O que houve? - perguntou Lucas.
Bola Sete, o promotor do evento, prometera uma grande surpresa na noite.
E cumpriu sua palavra, realizando um leilão de quem iria com Margareth Willians, a
Barbie, para a “suíte imperial”, sendo o dinheiro apurado para as “obras de caridade” em
Santa Bárbara.
A nata da sociedade santa-barbarense participou do leilão sendo a renda arrecadada,
verdadeiramente dividida entre Bola Sete, Cearense e o “empresário” de Barbie.
- Quem ganhou foi Toinzinho da Catas Alta - disse Adamastor.
Era um fazendeiro sessentão, muito sério e um dos homens mais ricos da cidade,
grande frequentador da Zona Boêmia.
- Delegado Silveirinha e os outros ficaram de cara mucha enquanto ele se abraçava a
Barbie e rumava para o tal quarto metido a besta - contou Adamastor.
Não passou nem meia Toinzinho da Catas Alta estava de volta, vermelho que nem
um peru, muito bravo e de revólver na mão, a procura de Bola Sete que se escafedeu.
- O que houve? - quiseram saber os rapazes.
Adamastor floreou a história como era seu hábito e disse que nas chamadas
preliminares foi tudo bem, maravilhoso, até que Toinzinho da Catas Alta, descobriu que a
linda Barbie era homem!
Os rapazes se entreolharam e exclamaram a uma só voz:
- Uma bicha! Um travesti!
Adamastor confirmou a história e disse que todos quiseram saber qual atitude
tomara Toinzinho da Catas Alta.
- Ele olhou para a pequena plateia e falou, muito sério, o que dissera para a
Margareth Willians, a Barbie, que “não sendo tu, vai tu mesmo” - concluiu Adamastor,
gargalhando.
Bola Sete, o promotor de eventos, desapareceu por um bom tempo, e Barbie, a bicha
louca, ocasionalmente aparecia em Santa Bárbara com outras “amigas” e se hospedava na
Fazenda Cata Altas, pois se tornara grande amiga de Toinzinho.
17
Na praça principal, num prédio imponente estava localizado o Banco Popular,
fundado no começo do século pelo Comendador Deodato Cruz, um grande produtor rural e
que tinha o Nôzinho como gerente e mais quatro funcionários
Os depósitos no banco rendiam juros que eram pagos religiosamente a cada seis
meses, sobre qualquer valor que tivesse na conta e sobre qualquer quantidade de dias que
permanecesse na conta cada valor.
O correntista era valorizado, pois segundo o Comendador eram eles e seus depósitos
que faziam o crescimento dos bancos, aumentando o seu capital para aplicações.
Com a morte do Comendador Deodato Cruz seus familiares resolveram aceitar como
sócio, “Seu” Nacif, pai de Habib e um financista de Belo Horizonte, que estava abrindo
agências de seu banco em vários locais de Minas Gerais.
Tudo ocorreu de repente com engraxates contratados esparramando a notícia de que
o financista de Belo Horizontes estava quebrado e seus inúmeros negócios postos a venda.
Em Santa Bárbara o panfleto dizia que o Banco Popular estava quebrado e sua
agência iria fechar.
Quando viu o papel amarelo com estes dizeres, Nôzinho, apavorado, correu para
mostrá-lo a “Seu” Nacif, que estava num dos seus negócios, a Funerária Boa Morte.
Ele leu o papel e intuiu que por detrás daquilo havia um golpe.
Determinou que Nôzinho fechasse a agência, pois na porta, segundo ele já
começavam a se juntar correntistas e curiosos.
E pediu que Cabo Julio e seu destacamento protegessem a agencia de Santa
Bárbara.
E partiu para Belo Horizonte para conversar com o tal financista, que já havia
desaparecido.
Graças a sociedade de Nacif no Banco Popular, a colônia árabe havia aplicado suas
reservas financeiras no banco ao invés de guardá-las dentro dos colchões.
Nacif vendeu propriedades e honrou os correntistas.
- Com certeza Nacif ficou menos rico e tomou birra de banco- disse Adamastor.
Todas as tardes Nacif sentava-se numa cadeira de balanço, cobria com uma manta
as suas pernas e contava pra Habib e seus dois irmãos histórias do Líbano.
- A República do Líbano está localizada no oeste da Ásia e tem um clima
mediterrâneo. E já foi considerada a Suíça do Oriente - ele dizia.
Passava dias e mais dias desta maneira até que um dia, no momento em que todos
saíram da sala e o deixaram sozinho, Dona Latife ouviu um estrondo e encontrou Nacif
com o cano da espingarda 12 debaixo do queixo, o maxilar arrebentado, morto.
- Foi o enterro mais bonito feito pela “Funerária Boa Morte” em Santa Bárbara -
disse Adamastor.
Nacif era muito querido e a cidade inteira foi despedir-se dele, principalmente os
“turcos”, sírios e libaneses. Sem contar uma banda, o que não era muito comum nos
funerais de brasileiros.
O banco do tal financista fechou as portas, assim como o “Banco Popular”. Mas,
Habib continuou seguindo os passos do financista que retornou para a Capital e ficou cada
vez mais rico.
Ele continuou a administrar a “Funerária Boa Morte” e Dona Latife estabeleceu
contato com uns parentes em São Paulo, abrindo um pequeno armarinho em Santa Bárbara,
o que equilibrou a receita da família.
Mas, na família ficou aquele ranço de que os políticos eram sempre má companhia.
18
A Igreja de Santa Bárbara surgiu com o primeiro povoamento, na vila que se
formava e floresceu com a descoberta do ouro e a arte barroca, vencendo graves crises e até
o período da “Grande Fome”, quando os colonizadores tinham os bolsos recheados de ouro
e, porém nenhum alimento era negociado e caiam mortos pelos caminhos.. Denominava-se
Santa Bárbara como sincretismo religioso para os milhares de escravos, que a reconheciam
como Casa de Iansã. Tinha uma estatuária em cores vivas e dourado, ora atribuída a
Aleijadinho, ora a seu discípulo, Bento Sabino da Boa Morte. Tudo com ornamentos
acessórios como coroas e resplendores em prata e ouro, cravejados de pedras preciosas. E
mais: nas imagens, olhos de vidro, dentes de marfim e vestidos de tecido, cabelos humanos
e membros articulados, que impressionavam nas procissões.
Um lindo altar esculpido em madeira nobre, oratório, prataria e ourivesaria
religiosas, joias, mobiliário e pinturas. Um belo Presépio, feito pelo escravo Damião, para
comemorar a Natividade e livros litúrgicos.
Na década de 60, a maior parte deste acervo já havia sido roubada a mando de
colecionadores da capital, até mesmo o sino de bronze,
Construída no tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, ficava localizada
bem no centro comercial da cidade, impedindo uma possível retificação da Rua Principal.
- Poderia estar em qualquer lugar, menos onde está - Habib ouviu um construtor
afirmar para o Prefeito Ignácio Pereira.
E a todo momento tinham que ser feitas quermesses para angariar fundos para
mantê-la de pé.
Na noite fria Lucas e Luciano Pica-pau caminhavam rumo a suas escadarias onde
pretendiam, como sempre, conversar até alta madrugada.
Na vizinhança um ou outro gato pingado preparando-se para recolher aos seus
aposentos, com todos os bares e botequins já de portas cerradas.
De repente, uma grande explosão e Lucas gritou para Luciano Pica-pau, apontando
para a nuvem de fumaça e detritos no lugar onde se situava a quase dois séculos a Igreja de
Santa Bárbara:
- Olha lá! Explodiram a igreja!
Um rolo de fumaça negra já saia do chão e labaredas podiam ser vistas.
Demorou até que juntassem moradores da redondeza e que começassem a remexer
nos destroços.
Retiravam imagens e peças valiosas de prata, que muitos colocaram onde era a
entrada da igreja.
Lucas viu que muitos abraçavam-se ao que saqueavam e desapareciam na escuridão
da noite, principalmente com peças retiradas da Casa do Padre, uma construção anexa, não
atingida pela explosão.
Em pouco tempo a velha construção de taipa transformara-se num monte de
escombros.
Cabo Júlio, chefe do destacamento e outros meganhas chegaram quando não havia
nada mais por fazer.
Em seguida chegou esbaforido o delegado Silveirinha que logo verificou que nada
mais havia a ser feito e determinou que os soldados preservassem o local, isolando tudo
com cordas de bacalhau, para a perícia técnica trabalhar.
Ele tinha noção do problemão que significava aquela destruição da Igreja de Santa
Bárbara, única edificação conservada pelo Colégio Americano do Patrimônio Histórico
Nacional.
- Alguém viu o que ocorreu? - perguntou para o Cabo Júlio em voz alta.
O militar suava em bicas no seu corpo gorducho e exalava um odor de pinga de
terceira categoria.
- Aqueles dois rapazes foram os primeiros a chegar - disse apontando para Lucas e
Luciano Pica-pau.
Silveirinha sorriu e deu uma ordem:
- Leve-os para a Delegacia - disse.
- Presos?
- Detidos para averiguações...
A Delegacia, a Cadeia Pública e o Fórum funcionavam num velho prédio, no centro
de Santa Bárbara.
Lucas e Luciano Pica-pau reclamaram, mas foram levados para lá andando.
Silveirinha foi no seu Aston conversível, que diziam ter ganhado a troco de livrar da
cadeia um bicheiro da Capital.
Deixou os dois na cela apinhada de vagabundos por pouco tempo e depois mandou
que os trouxessem para serem interrogados.
Tirou a arma do coldre e a colocou na velha escrivaninha, com o cano voltado para
os dois.
- Eu falei que você estava na minha cadernetinha - disse sorrindo maliciosamente
para Lucas.
E depois começou a interrogá-los e ameaçá-los.
Seu propósito era incriminá-los pelo ocorrido na Igreja de Santa Bárbara e resolver
aquela confusão que iria render muita conversa na Secretária de Segurança Pública, na
Praça da Liberdade.
Mais uma vez quem livrou a cara dos dois foi Dr. Mauricinho que apareceu por lá
esbaforido, logo ele que tinha sido um grande velocista no passado.
Ele convenceu o Delegado Silveirinha que não havia provas conclusivas contra os
dois rapazes e conseguiu evitar que fossem denunciados como autores do sinistro, que era
como tratavam a explosão, deixando o lugar fétido como suspeitos.
- Não saiam da cidade sem minha autorização - disse Silveirinha - Estou de olho em
vocês.
Dr. Mauricinho procurou-os e disse que acompanharia o caso.
Ele era uma espécie de padrinho da turma e era considerado um dos homens mais
inteligentes da cidade.
Formado no Largo de São Francisco em São Paulo, era quase esquálido, trajando
sempre terno, sapatos brilhando, óculos com lentes de fundo de garrafa e cabelos repartidos
milimetricamente ao meio.
Nunca era encontrado no seu escritório, estando sempre assentado em uma mesa no
Bar do Clube, bebendo sua cerveja Antártica, escrevendo poesias e atendendo clientes que
em geral não lhe pagavam nada.
E observando tudo o que acontecia na cidade a sua volta, sempre com ideias para
solucionar qualquer problema.
- Fez um acordo com o José Falco, distribuidor da Brahma - contava Adamastor -
Vai ter cerveja vontade desde que seja Brahma e que deixe a garrafa exposta.
A noite Dr. Mauricinho se transformava num grande boêmio e mulherengo
desfilando seu charme pela Zona Boêmia.
Lucas desconfiava que a pedido de seu pai Gilberto Santa Rita ele recebera a nobre
missão de apresentar-lhe a geografia da Zona Boêmia que conhecia intimamente: Cearense,
Ás de Ouro, Clubinho da Mirthes, Auriverde, Casa da Alemã e outros.
Este “batizado” era um costume dos homens de Santa Bárbara e sempre havia um
deles que era escolhido para iniciar os mais novos na putaria.
19
Em Santa Bárbara não se falava em outro assunto que não fosse a festa de
aniversário de 15 anos de Helô Silva.
- Coisa de louco! - dizia Adamastor, o mais festeiro da turma.
- Mais uma demonstração do poder da burguesia - resmungava Luciano Pica-pau.
A festa seria no próximo sábado na casa de Antônio Silva, um bem sucedido
empresário no ramo de secos e molhados.
- O buffet vem de São João del-Rei - dizia Adamastor - Com milhares de diferentes
salgadinhos. Os melhores do País...
E adiantava que as bebidas tinham sido encomendadas por Antônio Silva na Capital.
- Só uísque de primeira linha, importados - completava Adamastor.
- Detesto uísque - pontificava Luciano Pica-pau só para criar caso.
Todos concordavam que seria uma das maiores festas da história da cidade. Todas
as costureiras enfrentavam a tarefa hercúlea de criar e executar vestidos a altura do evento.
- A roupa de Helô Silva foi criada por um figurinista de São Paulo. E dizem que vai
ser um show! - dizia Adamastor que nunca saíra de Santa Bárbara.
Só havia um problema: os convites de entrada na mansão da família de Antônio
Silva.
De toda a turma só Nélson, graças a ação da namorada e Dulce Maria, que fazia
parte da sociedade local, haviam sido convidados.
Adamastor fez uma cara sem vergonha e apresentou a solução.
- Eu tenho convites para todos nós - ele disse.
E por mais que perguntassem nunca disse como os havia conseguido.
- Melhor do que esta festa só o baile da Ilha Fiscal, o último da Monarquia - afirmou
Luciano Pica-pau que resmungava, mas não deixara de pleitear sua ida a festa de Helô
Silva.
Dulce Maria foi quem os vestiu para a festa e estava ao lado dos porteiros e
capangas do pai de Helô Silva na entrada, pronta para qualquer interferência.
- Todas as garotas de Santa Bárbara estão aqui - disse Lucas, enquanto Lazinho saia
agarradinho a Dulce Maria.
Menos as que estudavam no Internato Feminino e por mais que Helô Silva
implorasse suas colegas de turma não haviam sido liberadas.
Garçons enfatiotados passavam servindo bebidas liberadas para qualquer idade,
canapés, salgadinhos finos, doces e bombons maravilhosos.
Havia um pequeno palco montado num canto e ouvia-se Ray Conniff, Paul Mauriat,
Bert Kaempfert e, pouca música popular brasileira.
Através de um sorteio garotas e jovens foram escolhidos para dançar no escurinho
do ambiente, através de um clic de Helô Silva num providencial interruptor.
Ao ver Adamastor agarradinho a uma tal de Paula, Lucas que já haviam tomado
várias doses de uísque, se engraçou com Lúcia, carioca da gema, prima de Helô Silva que
viera a Santa Bárbara exclusivamente para a festa.
Depois subiram ao palco, Giza, uma lourinha bonita e Ricardo, um goiano que
usava sapatos de bico fino e salto alto, para disfarçar sua pouca altura e começaram a
dublar e dançar, Datemi un martello, da italiana Rita Pavone e Jailhouse Rock, de Elvis
Presley, debaixo de gritos de todos os convidados.
Lucas e Luciano Pica-pau foram ver o quarto da aniversariante, com uma colcha
amarela coberta por um dossel.
- A cama da Bela Adormecida - disparou Luciano Pica-Pau, num tom de voz
cáustíco.
Havia presentes por todos os lados o que fez Lucas sentir-se envergonhado, já que
ele e sua turminha não havia trazido presente nenhum.
O pai de Helô Silva, o “Seu” Antônio Silva, sua esposa e casais amigos estavam
alojados numa sala estratégica, nem muito longe, nem muito perto dos jovens.
- Dona Carmela parece um abajur com este vestido ridículo - afirmou Luciano Pica-
pau que não podia perder esta oportunidade de criticar a rainha da sociedade santanense.
Cantaram Parabéns, para você e Helô Silva dançou uma valsa vienense com seu
pai e outra com César, um cara que estudava na Escola Superior e que oficialmente era seu
namorado.
Dançou a seguir com os rapazes que escolheu.
Lucas tentou disfarçar e sair de fininho, mas ela o agarrou pelas mãos e sairam
rodopiando pelo salão.
- Você é uma graça de homem - ela disse com os lábios colados no seu ouvido -
Ainda vamos namorar um dia!
Depois encostou no seu rosto:
- Este odor de Lancaster me deixa doidinha! - ela disse.
Ele estranhou pois Helô tinha fama de ser uma garota séria.
Depois ela lhe deu um conselho para sempre:
- Quando for dançar aperte seu par com força - falou baixinho, encostando suas
coxas nas de Lucas - Para ela saber que é só sua...
De madrugada sairam todos bêbados para o meio da rua.
Lucas, Adamastor e Lazinho, carregavam escondidos debaixo dos paletó, salgados e
doces.
As garotas que estavam com eles desapareceram e todos ficaram esperando que
Nélson levasse a namorada em casa e aparecesse com o Pérola Negra.
E se mandaram para a Zona Boêmia, para festejar com as mulheres de vida fácil.
Meio tonto, Lucas pensava que apesar do sucesso de Você e a MPB na Rádio
Clube, tudo estava mudando, pelo surgimento dos Beatles e dos Rolling Stones.
- A melhor festa de debutante da história de Santa Bárbara - ainda resmungava
Luciano Pica-pau.
Na casa de um tio em Belo Horizonte, Lucas assistira na tevê o programa da Jovem
Guarda, liderado por Roberto Carlos, Erasmo Lazinho e Wanderléa, e que estava
envolvendo os jovens, com shows ao vivo e inúmeros discos, entre LPs e compactos.
Destacavam-se também Eduardo Araújo e Ronnie Von e as bandas Renato e Seus Blue
Caps, Os Incríveis e The Fevers. E havia ainda a Tropicália, que introduziu a guitarra na
tradicional MPB e o discurso político no rock, com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato
Neto, e o grupo Mutantes.
- Precisamos mudar alguma coisa - falou alto Lucas.
- O que está havendo? - perguntou Nélson.
- Estou fazendo planos para a viagem que vou fazer ao Rio de Janeiro - disse Lucas,
disfarçadamente.
Quem trouxe a notícia foi Adamastor:
- O fotógrafo Joãozinho sofreu um desastre de moto e ficara hemiplégico.
Mas, Adamastor que visitava sua casa de vez em quando, foi o primeiro a ter
contato com um ensaio fotográfico feito por ele.
Eram dez fotos preto e branco, ampliadas em tamanho 30 x 40, com grandes jogos
de luz e que mostravam o busto e o ventre de uma linda mulher da qual não se via o rosto.
Furtivamente conseguiu levá-las para mostrar para seus amigos.
- Quem é ela? - perguntou Lucas.
Cansaram-se de olhar as imagens e somente Luciano Pica-pau deu uma palpite:
-Deve ser uma puta da Zona - ele disse.
E justificou que numa cidade atrasada como Santa Bárbara, nenhuma moça de
família posaria para as fotos.
De qualquer forma era muito claro o talento do fotógrafo Joãozinho, agora
definitivamente incapaz de apertar até mesmo o obturador de suas Laica ou da Rolleiflex.
Sem dizer nada para ninguém, Adamastor enviou as fotos para um concurso em
Poços de Caldas.
Algum tempo depois recebeu um telegrama informando que o fotografo Joãozinho
ganhara o primeiro prêmio, um final de semana no Palace Hotel.
Mas, continuou a dúvida: quem era a linda mulher flagrada pelo fotografo
Joãozinho?
Adamastor olhava extasiado as imagens e dizia:
- A coisa que mais tenho dó é de mulher feia!
Passaram a chamar a modelo de A Musa de Santa Bárbara e o mistério só foi
desvendado por Lucas que descobriu que quem posara naquela noite para o fotografo
Joãozinho fora Helô Silva.
Ele descobriu porque ela apesar de quase noiva de um aluno da Escola Superior
gostava de se aninhar em seus braços e era muito vaidosa.
Um dia, disse ela, o fotografo Joãozinho falou que tanta beleza como a dela
precisava ser registrada para o futuro e lhe propôs a realização de um ensaio artístico.
- Topo, disse Helô Silva - Desde que não seja pornografia.
Ele preparou tudo e uma noite foram para Serra.
- O fotografo Joãozinho ficou tão entretido que não me encostou a mão - ela disse
rindo.
Tudo terminado lhe deu as cópias do que realizaram e ela escondeu num envelope
enfiado numa gaveta de seu guarda-roupa.
No final da história beijou Lucas e lágrimas correram por seu rosto ao lembrar-se da
situação do fotografo Joãozinho, preso a uma cama.
Lucas e seus amigos não contaram a história para ninguém e ela continuou a ser A
Musa de Santa Bárbara.
Helô Silva, vestida de luto, com um chapéu e véu negro compareceu ao velório e
enterro do fotografo Joãozinho.
Foi ele quem ensinou a arte das imagens para Lucas, Adamastor, Luciano Pica-pau
e Lazinho.
- O bom fotografo sente a alma de todas as coisas. Porque não são só as pessoas que
tem alma. Até uma cadeira de madeira tem - ele dizia.
Passou anos retratando o cotidiano de Santa Bárbara e deixou milhares de negativos
e fotos.
Sua irmã um dia acordou com a avó atrás do toco e por não encontrar alguém que a
ajudasse a manter uma exposição permanente juntou tudo e fez uma fogueira.
Mas, trabalhos de Joãozinho que estavam na mão de um ou outro reapareceriam de
tempos em tempos.
20
- Em Santa Bárbara o tempo parou - gostava de dizer Luciano Pica-pau, com ar de
enfado.
Com isso ele queria dizer que nada de novo acontecia na cidade.
Na década de trinta a cidade passara por um surto de industrialização, uma grande
fábrica de enlatados aparecera, em seguida uma metalúrgica, tudo apoiado na navegação do
rio e no desenvolvimento da estrada de ferro, pois se pretendia que na região surgisse o
maior centro ferroviário do país.
Aos poucos o complexo fabril tornou-se obsoleto, incapaz de enfrentar as
modernidades exigidas pelos clientes e a navegação e a ferrovia se enredaram num espiral
de falta de investimentos, má gestão e incompreensão do futuro por seus dirigentes.
Apoiada numa política clientelista e atrasada sua população passou a viver de êxitos
passados e os jovens, principalmente, sentiram o peso da situação de viver numa região
onde não havia quase nenhuma possibilidade de trabalho e de futuro.
- O que move o ser humano é a esperança - dizia Luciano Pica-pau.
A seu ver sem ela parecíamos mesmo com amebas que nascem, crescem e morrem
de uma forma vegetativa, sem nenhuma paixão.
O país envolveu-se no desenvolvimentismo dos anos JK e para Santa Bárbara restou
muito pouco, na opinião dos jovens: a Educação de qualidade, praticada no Colégio
Americano, no Colégios dos Padres e das Irmãs, na Escola Superior e um Batalhão da
Polícia Militar.
E os pobres e descapitalizados produtores rurais.
O resto, metalúrgica e ferrovia, tudo em constante estado pré-falimentar.
O que restava para a mocidade?
Sonhos, poucos sonhos...
Edevaldo Julião, um dono de armazém que há muitos anos esfregava sua barriga no
balcão resolveu fazer uma viagem ao Rio de Janeiro, com a mulher e lá conheceu o Bar
Luiz, na Rua da Carioca, um dos mais tradicionais da cidade e onde se servia um chope de
qualidade, na pressão.
Fascinado com a freguesia, onde se encontrava com facilidade gente como Ziraldo,
Jaguar e Sérgio Cabral e outros intelectuais, atores e músicos, enquanto comiam salada de
batatas com linguiças, veio-lhe a cabeça a ideia de abrir um estabelecimento como aquele
em Santa Bárbara, bem no centro da cidade.
- Edevaldo Julião vendeu o armazém, um estabelecimento de mais de quarenta anos
de tradição - contou Lazinho aos amigos - E ainda se endividou mais ainda para concretizar
seu sonho.
Alugou um cômodo, defronte da Praça Principal, o mais parecido com o Bar Luiz,
comprido e estreito, caprichando na decoração, com mesas de tampo de mármore branco,
cadeiras de madeira escura e balcões frigoríficos que comprou em Poços de Caldas.
Aos amigos que olhavam tudo aquilo com desconfiança, Edevaldo dizia:
- Se não lutarmos por nossos sonhos eles não se realizarão e serão apenas sonhos - e
continuava toda aquela trabalheira, no meio de latas de tintas e outros pequenos detalhes.
- De noite um professor da Escola Superior veio e pintou nas paredes uns desenhos
até bonitos, que ele chama de A Epopeia Brasileira - adiantava Adamastor.
O que chegou por último foi uma grande placa que Edevaldo Julião mandou fazer
em Beagá e escondeu o máximo de tempo possível.
Naquela época Santa Bárbara tinha vários botequins chamados de “pés sujos”, um
restaurante e bar no Clube da Cidade e outros dois em hotéis da cidade.
Depois de uma viagem, Edevaldo Julião trouxe a tiracolo um cozinheiro, que dizia
ser o melhor de Minas Gerais.
- Bicha. Veado. É o que ele é - disse Adamastor.
O dono do bar fazia segredo de um detalhe muito importante, segundo Lazinho:
- Será que ele vai conseguir servir chope na pressão como no tal bar do Rio de
Janeiro?
Esta foi a primeira grande decepção de Edevaldo Julião que depois de andar por
Seca e Meca e conversar com inúmeras pessoas desistiu do impossível.
Restava-lhe a promessa dos distribuidores que teria sempre a melhor cerveja e em
quantidade para que nunca faltasse o “líquido divino” no seu bar.
Finalmente, colocou a placa e acabou-se o mistério. O novo estabelecimento,
iluminado com lâmpadas fluorescentes que com as paredes brancas deixavam o ambiente
muito claro iria se chamar Bar Viena.
- Um nome chic para um lugar chic - disse Edevaldo Julião.
No primeiro dia de funcionamento, os garçons estavam todos com uniformes muito
limpos, ouviram uma preleção de como deveriam tratar os fregueses e ninguém pode entrar
antes que o Vigário benzesse tudo.
Depois o Prefeito Inácio Pereira e sua equipe, mais o Juiz, o Promotor, foram
encaminhados para mesas reservadas em lugares especiais.
O primeiro contratempo de Edevaldo Julião foi a falta de uma coifa para exaustão
na cozinha o que fez que uma fumaça azulada e o odor de fritura invadissem o salão.
Adamastor foi o primeiro a notar que uma aluna da Escola das Irmãs, Telma, estava
muito agarrada a Edevaldo Julião.
- Ela está na lista das sirigaitas da cidade - disse Adamastor.
O Bar Viena, mesmo assim, ficou lotado naquela noite e quase ninguém ouviu o
mau presságio de Luciano Pica- pau:
- Esta bosta não vai durar muito - ele disse e saiu para caminhar pelas ruas.
Duas semanas depois, mais um aborrecimento.
César e Marcos, dois amigos beberam tudo o que podiam, discutiram por bobagens
e foram levados pelos garçons para resolver suas diferenças na rua.
Lutaram e César acertou um murro na cabeça de Marcos que caiu e bateu a cabeça
num meio-fio.
Começou a jorrar sangue pela boca dele e num carro de praça o levaram para o
Hospital, aonde chegou morto.
Com seis meses de funcionamento Lazinho e Adamastor foram os primeiros a
perceber que havia muito movimento, mas parecia faltar sempre dinheiro para pequenas
providências.
Edevaldo Julião andava deprimido e não havia mais aquele rigor do início nos
serviços e nem na qualidade dos produtos.
- Está vendendo carne de segunda como se fosse filé - disse Lazinho depois de
conversar com um viajante seu amigo.
Para surpresa de todos um dia Adamastor chegou esbaforido com um papel na mão.
Era uma carta de Telma para Edevaldo Julião. Pelo seu teor os amigos descobriram
que a filha do Coletor Estadual estava chantageando o coitado. Pelo que indicava já tinha
tomado muito dinheiro dele e agora pretendia uma quantia maior para que não contasse seu
caso para sua mulher e para toda Santa Bárbara.
Mais alguns dias e o proprietário não veio abrir o “Bar Viena” como de costume.
Simplesmente, desaparecera. Nunca mais foi visto na cidade.
Seus credores, que eram muitos, arrombaram as portas de aço e levaram tudo que
tivesse valor.
E Telma? Perguntaram Lucas, Lazinho e Adamastor, sobre a responsável por tudo
aquilo.
Luciano Pica-pau tinha, como sempre, algo a dizer:
- Logo arruma um trouxa e se casa. É a vida....
E foi o que aconteceu: Telma conheceu um sujeito de Catanduva, muito rico,
chamado Marcelo e se casaram com toda a pompa.
- Só quero saber quem são as outras bandidas da turma dela - disse Adamastor, que
gostava de mistérios.
Lucas saiu para buscar Mariana Heléne na Rua Principal e foram correndo para o
Cine Minas para assistir Ben-Hur, com Charlton Heston.
Com a plateia lotada pelo “épico dos épicos” trocaram juras de amor e sua atenção
só foi despertada por uma corrida de quadrigas cheia de emoções a cada volta.
Lucas e Mariana Heléne se despediram com um beijo demorado e um abraço
apertado.
Enquanto andava para o Grupo Escolar Lucas pensava que teria que convencer Zé
Pratinha, porteiro do cinema a deixá-lo entrar em E Deus criou a mulher, com a
maravilhosa atriz francesa Brigitte Bardot, que lançara o biquíni, um maiô curtíssimo de
duas peças na praia de Búzios, e que era um filme proibido para menores de 18 anos.
Tinha sido convidado para ser o apresentador da Festa Junina da escola que
tinham origem na época da colonização.
Fogueiras, quadrilhas, quentão, o pau de sebo, o correio elegante, os fogos de
artifício e o casamento na roça.
E as comidas que davam água na boca de Lucas: bolos, caldos, pamonhas, bolinhos
fritos, curau, pipoca, milho cozido e canjica.
- Meus amigas e amigas! Começamos agora o Correio Elegante. Quem vos fala é
Lucas Sobrinho. E o primeiro telegrama é da Princesa apaixonada que envia para o Gato
Mimoso: Meu querido! Te espero mais tarde na porta do Cemitério.
As mensagens mais ou menos criativas eram quase todas de mentirinha ou
continham pseudônimos que só os amados entendiam.
21

Quem primeiro esparramou a notícia foi Zezé “Tartaruga”, o carteiro encarregado


de entregar a correspondência por toda a cidade e um fofoqueiro de marca maior:
- A cidade está sendo invadida por cartões vindos da Suécia, Noruega e Dinamarca -
ele confidenciou num Bar, enquanto tomava uma talagada de conhaque para continuar sua
caminhada que se encerrava a noitinha.
- São cartões muito coloridos cujas remetentes são as Helgi, Liv, Astrid, Karen,
Adala, Sofia, Agda, Emelie, Annelise, Greta e outras - ele dizia.
- Os selos são uma raridade para os colecionadores - afirmava Zezé “Tartaruga” que
também era colecionador e tinha fama de retirar selos que não tinha dos envelopes que
entregava.
Quase todos os cartões eram escritos num inglês macarrônico, I should like to say
how fondly I think of you, até o dia em que Adamastor e Lazinho descobriram que as
mensagens assinadas por Helgi, Liv, Astrid e Karen tinham vestígios de sacanagem.
Mas, como os dois conseguiam se comunicar com as garotas se não tinham
nenhuma noção de Inglês, a não ser aquele que aprendiam na escola?
Lucas e Luciano Pica-pau descobriram que pagavam a um filho de norte-americanos
que trabalhavam no “Corpo da Paz”, Thomas, para traduzir as besteiras que engendravam
em suas mentes pérfidas.
Como era impossível que as partes envolvidas pudessem se encontrar, a brincadeira
acabou por desaparecer. Com exceção de Zezé “Tartaruga” que continuou a se
corresponder, mesmo depois que Luciano Pica-pau veio com uma novidade:
- Todas as mensagens tem a mesma origem e a caligrafia é de uma mesma pessoa -
disse - E de um homem - completou.
A turma fazia uma Candinha todas as manhãs para ver as garotas que saiam do
Colégio Feminino e do das Irmãs.
Foi ali que Adamastor apareceu com a novidade.
- O Doutor Almada tem uma porção de filmes pornôs em 16 mm - disse sussurrando
- Estão guardados no consultório dele que faz sessões para convidados especiais-
completou ouriçado.
Disse que ele tinha filmes americanos com Holmes, o americano mais bem dotado
do mundo, com um pênis de mais de 33 cm.
- Eu não vou a nenhum lugar ver pinto de homem - disse mal humorado Luciano
Pica-pau.
- As mulheres dos filmes suecos são louras maravilhosas! - falou Adamastor que era
considerado o mais tarado da turma.
No fim combinaram assistir um filme para ver se era bom mesmo. Adamastor ficou
encarregado de marcar o dia e a hora.
Doutor Almada era um médico baixinho, cabelo liso muito preto, que se dizia
peruano e que aparecera em Santa Bárbara e tinha fama de ser meio esquisito.
No meio de tantas mulheres lindas acabou por namorar Luísa, uma solteirona, muito
bonita, que tinha o apelido de “Útero triste”, pelo fracasso de seus relacionamentos
amorosos e ausência da maternidade.
Dr. Almada desfilava de mãos dadas com ela pelo Jardim Principal, com cara de
caçador exibindo sua presa.
- É viciado em bolinhas - disse Adamastor como se o conhecesse há muito tempo.
- Ginecologista e obstetra - riu Luciano Pica-pau.
A brincadeira virou farra. Dr. Almada convidava os amigos a sua casa e a turminha
estava sempre escalada.
Ele gostava de novidades e um certo dia, depois de uma viagem a São Paulo,
apareceu com uma filmadora antiga Paillard Bolex.
Todos se interessavam pelo objeto, principalmente quando souberam que muitos
filmes que passavam no cinema eram filmados em 16mm e depois passados para 35mm.
- Todos os filmes muito granulados foram feitos neste processo - disse Luciano
Pica-pau.
Com o incentivo de Dr. Almada, que ensinou rudimentos de filmagem e forneceu
latas com o negativo, resolveram fazer o primeiro filme em Santa Bárbara.
Todos colocaram suas ideias no papel e Dr. Almada escolheu o que achava ser o
melhor argumento, Lua em Santa Bárbara, de autoria de Adamastor.
- Es la mejor película- disse Dr. Almada, num português macarrônico, misturado
com espanhol.
E colocou suas principais condições para a realização do filme, que era segredo
absoluto, a escolha da atriz principal seria sua e os direitos autorais da “obra” seriam seus.
E explicou que o cinema era uma indústria e como toda indústria devia visar o
lucro.
Lucas não entendeu bem o sentido da coisa, pois achava que a história que bolara
era muito melhor para ser filmada do que a de Adamastor.
Finalmente concordou com o argumento do médico, pois Lua em Santa Bárbara era
um filme erótico, um curta metragem que contava os sonhos de uma mulher chamada Lua e
interessaria ao grande público.
Dr. Almada convenceu sua namorada Luísa “Útero triste” a ser a atriz principal do
filme e ela, depois de muita conversa concordou, desde que as cenas de nus fossem feitas
por uma dublê.
Todos concordaram e Adamastor convenceu Rosa, uma sua namorada pretinha que
morava no Brejão, a tirar a roupa e substituir Luísa “Útero triste” em certas cenas, com a
promessa de que ganharia muito dinheiro e seria um sucesso nacional, com foto na revista
“Sétimo céu”.
Lazinho riu muito da solução, pois Luísa “Útero triste” era descendente de
portugueses e tinha a pele muito branca, o que daria um contraste estranho com o negrume
da pele Rosa.
- Em cinema tudo se resolve - disse Adamastor, quando Lazinho lhe colocou o
problema.
Começaram as filmagens às margem do rio Grande, mas de repente tudo acabou e
não foi pelas sessões pornôs e nem pelo filme.
Da noite para o dia o médico teve que sumir da cidade.
- Tentou se engraçar com uma paciente - afirmou Luciano Pica-pau, que a cada dia
que passava parecia não gostar mais do ser humano em geral.
E estava completamente chapado, disseram depois. O Hospital só teve uma solução:
pedir que saísse antes que o caso virasse um escândalo.
- Son lós inimigos mios - ele disse.
Antes de partir o Dr. Almada, emocionado, deu a Adamastor três dos seus melhores
filmes: Suecas Sapecas; Emmanuelle versus Drácula e Garganta Profunda com Linda
Lovelace.
E deixou também sua câmera Paillard Bolex, algumas latas de negativo 16mm e a
amada atriz Luísa “Útero triste”.
Garganta Profunda contava a história de Linda, uma mulher muito infeliz que
apesar das sacanagens todas em que se meteu jamais conseguiu atingir o orgasmo. Consulta
então um médico que descobre que o clitóris de Linda está no fundo de sua garganta.
Começa então sua procura por um pênis capaz de penetrar-lhe bem fundo.
- Apesar da Linda Lovelace é uma merda de filme - dizia Adamastor.
Todos gostavam mais de Suecas Sapecas, que não tinha história, mas era
protagonizado por adolescentes muito louras.
Luísa “Útero triste” desapareceu dos olhos da turma e corria um boato pela cidade
que ela tentara se suicidar com “chumbinho”.
- E por que não morreu? - perguntava Adamastor.
- Dizem que na última hora desistiu de morrer e deu o chumbinho pros seus gatos de
estimação - falou Luciano Pica-pau.
Todos caíram nas gargalhadas e Lucas pensou que Luísa “Útero triste” entendera o
sentido maior da existência e que sempre aparecia um otário de plantão.
Quanto aos negativos de Lua em Santa Bárbara, Adamastor sumira com eles, até
que acabou surgindo uma história de que ele os vendera para um produtor de São Paulo.
E Rosa, continuou a comprar, anos a fio, a revista “Sétimo céu” a procura de sua
foto...
22

No tempo do Brasil colonial quem mandava nas povoações e arraiais era a Igreja
Católica.
E seus representantes muitas vezes tinham poder de mando e decisão maior do que
os altos dignitários do clero.
Em Santa Bárbara também foi assim, pois o sacerdote que acompanhava os
desbravadores logo ergueu uma capela e colocou-se a serviço do poder temporal.
Conta-se que no começo deste povoamento este sacerdote já ensinava índios e
bugres a ler e escrever.
Foi a primeira escola de Santa Bárbara e seria seguida assim por outras muitas.
Tudo isso dera origem ao Colégio dos Padres e o das Irmãs, que logo se
confrontaram com o protestantismo do Colégio Americano.
No começo, católicos não frequentavam o colégio protestante, mas com o passar
este costume foi quebrado.
A existência desse quadro escolar de vez em quando trazia rixa entre os alunos,
principalmente, nos namoros.
A disputa mesmo ficava circunscrita a qual fanfarra era melhor, a disputa do desfile
de 7 de setembro e os jogos de futebol que quase sempre terminavam em confusão.
No mais, os rapazes e as moças destas escolas fingiam ter desprezo um por outro e
se encontravam às escondidas.
Acabavam, namorando, noivando e casando na própria família sem se preocupar
com o preconceito.
- Isso causava a degeneração da raça - dizia Luciano Pica-pau.
E dava o exemplo de sua família, os Carvalhos, gente muito rica, verdadeiros
latifundiários.
- Eram donos de tudo por aqui - ele dizia.
Mas, aos poucos foram surgindo doenças degenerativas, perderam a habilidade de
comercializar e encontravam-se quase todos paupérrimos.
Viviam das pompas do passado, agarrados a móveis e louças antigas que pouco a
pouco eram vendidas.
23
Lucas passou pela Delegacia caindo aos pedaços e deixou o recado para o Delegado
Silveirinha, que iria viajar.
Enquanto estivesse no Rio de Janeiro, Dulce Maria apresentaria sozinha o programa
na Rádio Clube.
Logo que chegou ao Rio, foi ao Bob´s comer um saco de batatas fritas e um suco de
laranja. Depois assistiu Liberdade, Liberdade, escrito por Millôr Fernandes e Flávio
Rangel, reunindo textos de diferentes épocas. Ao ator Paulo Autran cabia a condução do
espetáculo.
Satisfeito com o que viu Lucas resolveu matar uma curiosidade e assistir A Hard
Day's Night: Os Reis do Iê, Iê, Iê, com The Beatles. Eles haviam começado sua carreira em
1956, em Liverpool: o grupo era formado por John Lennon (guitarra rítmica e vocal), Paul
McCartney (baixo e vocal), George Harrison (guitarra solo e vocal) e Ringo Starr (bateria e
vocal).
Lucas saiu pirado do cinema e entusiasmado com a sonoridade do rock dos jovens
ingleses.
Andando pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana, comprou uma calça
Calhambeque, cor cinza, que pretendia ser a moda da Jovem Guarda e um chapéu
quadriculado a la Nat King Cole.
Sua melhor lembrança da viagem foi sentar-se num restaurante no Leblon ao lado
da Musa da Bossa Nova, Nara Leão, e achá-la uma mulher muito bonita.
Pensava ainda o que teria de conversar com Dulce Maria quando o ônibus
estacionou na velha Rodoviária.
Malungo, um vendedor de bugigangas que estava sempre por ali contou-lhe as
novidades.
Mais duas explosões haviam ocorrido. A primeira atingiu uma casa térrea, do
período da colonização, e que era conhecida como Casa do Viajante e que fora destruída
em questão de segundos. A outra atingiu um sobrado onde se alojava a Câmara Municipal
de Santa Bárbara.
- Queimou todos os arquivos do município - disse Malungo.
Lucas respirou fundo, pois agora, definitivamente, o Delegado Silveirinha tinha que
retirá-lo da lista de suspeitos.
A Perícia Técnica vinda da capital comprovou que realmente as explosões tinham
ocorrido com bombas utilizadas em pedreiras o que fez com que a investigação se
estendesse aos municípios vizinhos onde se explorava a pedra calcária.
A cidade vivia um clima de pânico e outros suspeitos faziam parte da nova lista: um
ex-pracinha podia ser o criminoso, pois vivia caminhando pelas madrugadas da cidade;
uma figura tenebrosa vista próximo as edificações e um desconhecido que escrevia em
código mensagens esparramadas por toda a cidade.
- Delegado Silveirinha está num cagaço só - disse Luciano Pica-pau quando se
encontraram
Cartas anônimas voavam por toda parte, delatando os prováveis criminosos e
antevendo quais as próximas edificações iriam para o beleléu...
Fora criada até mesmo uma brigada, formada por voluntários, já que o município
vivia quebrado e que a população deveria estar sempre alerta, pois a polícia estava de mãos
e pés amarrados.
- Se não descobrir o criminoso, Delegado Silveirinha terá que entregar seu cargo ao
Secretário de Segurança - afirmava Luciano Pica-pau em todas as esquinas da cidade.
Uma lista foi preparada com a localização de prédios que seriam os possíveis alvos
do facínora.
- O pior crime foi o primeiro - filosofou Luciano Pica-pau - A Igreja de Santa
Bárbara era um monumento nacional.
E tudo indicava que a comunidade católica santanense não engolira assistir aquele
templo histórico desaparecer.
- Nunca há de se saber quem foi o autor destes crimes - disse Lucas ao amigo.
Para Luciano Pica-pau o mais importante que aprendia no Colégio Americano
estava nas aulas do Professor Cosmos e no Curso de Filosofia de Régis Jolivet.
- Sócrates entendía que todas as classes acreditavam saber, mas na verdade não
sabiam nada. Os políticos eram os piores, não porque eram políticos, mas porque não foram
capazes de ensinar seus conhecimentos. Uma pessoa realmente sábia há de explicar seu
conhecimento aos outros - dizia o professor Cosmos.
Porém o melhor filósofo grego na avaliação de Luciano Pica-pau foi Platão que era
capaz de provar a existência da vida após a morte, coisa que só os frequentadores do
Centro Espírita ousavam fazer.
Depois de muito ouvirem falar do Pastor Wallace, da Igreja Presbiteriana, Lucas e
Luciano Pica-pau resolveram conhecê-lo.
Era um sujeito muito novo, filho de um professor do Colégio Americano e foi ele
quem lhes apresentou o existencialismo, a escola de filósofos do Século XX que, apesar de
possuir profundas diferenças em termos de doutrinas, partilhavam a crença que o
pensamento filosófico começa com o sujeito humano, não meramente o sujeito pensante,
mas as suas ações, sentimentos e a vivência de um ser humano individual. No
existencialismo, o ponto de partida do indivíduo é caracterizado pelo que se tem designado
por "atitude existencial", ou uma sensação de desorientação e confusão face a um mundo
aparentemente sem sentido e absurdo.
- O filósofo do início do século XIX, Søren Kierkegaard, é geralmente considerado
como o pai do existencialismo. Ele trabalhara a ideia que o indivíduo é o único responsável
em dar significado à sua vida e em vivê-la de maneira sincera e apaixonada, apesar da
existência de muitos obstáculos. O existencialismo tornou-se popular nos anos após as
guerras mundiais, como maneira de reafirmar a importância da liberdade e individualidade
humana - explicava o Pastor Wallace.
Durante a visita foi ele quem mais falou e no final saíram de sua casa com uma
batelada de livros que ele dizia serem importantes.
- Este considero de suma importância - disse o Pastor Wallace olhando no fundo dos
olhos dos dois rapazotes.
Era um exemplar da peça teatral Hui Clos, de Jean-Paul Sartre, que era filósofo,
escritor e crítico francês, conhecido como representante do existencialismo. Acreditava que
os intelectuais devem desempenhar um papel ativo na sociedade. Era um artista militante, e
apoiou causas políticas de esquerda com a sua vida e a sua obra. Repeliu as distinções e as
funções oficiais e, por estes motivos, se recusou a receber o Nobel de Literatura de 1964.
Sua filosofia dizia que no caso humano a existência precede a essência, pois o homem
primeiro existe, depois se define, enquanto todas as outras coisas são o que são, sem se
definir, e por isso sem ter uma "essência" posterior à existência.
-Em Huis Clos ou Entre quatro paredes vive-se em situações extremas da condição
humana e Sartre ao final diz que o Inferno são os outros - dizia o Pastor Wallace olhando
para o infinito.
Muitas vezes mais Lucas e Luciano Pica-pau retornariam a este porto seguro de
conhecimento.
- A mulher de Sartre é muita estranha - confidenciou Luciano Pica-pau para Lucas
enquanto desciam as escadas da casa.
- Quem é ? - perguntou Lucas, curioso.
- Simone de Beauvoir - respondeu o aprendiz de Filosofia - Uma feminista.
Lucas notou que ele dissera feminista como um ser de terceira categoria.
A campanha para que o Delegado Silveirinha desvendasse o mistério do terrorista
de Santa Bárbara chegara a um ponto insuportável, contou Luciano Pica-pau para Lucas
nem bem este pisou na cidade.
Até mesmo os jornais da capital haviam se debruçado sobre o assunto com
manchetes espalhafatosas.
Constava a boca pequena na cidade que o próximo prédio a ser explodido seria o
secular casarão que abrigara a Intendência.
Delegado Silveirinha pediu a Polícia Militar um reforço no destacamento da cidade
e numa noite escura homens ao seu comando detiveram em atitudes suspeitas um
construtor, Benito Debiasi, um carcamano de 46 anos, alto, com a pele queimada pelo sol,
casado e pai de quatro filhos, oriundo da Regia Calábria.
Ele havia erguido todos os edifícios e casas mais modernos de Santa Bárbara e dele
se contava que depois que fora atingido por um tijolo em uma obra, atirado por um servente
de pedreiro, nunca fora mais o mesmo.
- Benito Debiasi apanhou pra cacete - disse Luciano Pica-pau - Até confessar para o
Delegado Silveirinha ser o famigerado terrorista.
Essa história Lucas e Luciano Pica-pau nunca engoliram, nem mesmo quando ele
foi enviado para o Manicômio Judiciário.
- Um homem com a inteligência de Benito Debiasi, nunca faria tal coisa - afirmou
Lucas para a turma do A máfia do Pérola Negra.
O Delegado Silveirinha, feliz com o final da história, voltou a tomar todas, paquerar
as mulheres e passear pela cidade no seu Alston azul, de capota conversível.
E Lucas e Luciano Pica-pau deixaram de ser suspeitos de todos aqueles atos
aparentemente insanos.
24
Lazinho era filho da irmã mais velha do pai de Lucas e sempre foi muito mimado.
Era péssimo aluno, apesar de inteligente e sempre estava armando confusões.
Dulce Maria era apaixonada por ele, que se valia disso para ter outras namoradas.
Tinha um temperamento violento e gostava de mulheres, cavalos e armas, não
necessariamente nesta ordem.
Era considerado um craque de bola em Santa Bárbara.
- O melhor center foward que já jogou nos times de Santa Bárbara - dizia
Adamastor, que tinha receio de certas atitudes do amigo, mas mesmo assim o admirava.
O futebol, um esporte bretão, introduzido no Brasil, por um tal de Lauro Muller,
logo se popularizou principalmente pelas regras simples e a competitividade.
Em Santa Bárbara apesar do sucesso do atletismo, do voleibol e do basquetebol
introduzido pelos americanos, o futebol era o esporte preferido do povão.
E os torcedores somente se preocupavam com os times do Rio de Janeiro e poucos
torcedores era capazes de citar o nome dos times de Belo Horizonte, quanto mais torcer por
eles.
Pelos campos da cidade, no decorrer dos anos, se exibiram várias equipes famosas
do Rio de Janeiro e São Paulo.
De Santa Bárbara também se projetaram vários jogadores que fizeram sucesso no
cenário nacional.
E também locutores esportivos que brilharam nas emissoras brasileiras.
Na cidade havia muita rivalidade entre a Associação Atlética Santabarbarense e
Clube Desportivo Operário, até que em uma partida memorável houve um grande quebra
pau envolvendo jogadores e torcida.
Por este motivo as partidas ente os dois clubes não mais se realizavam e a atenção
do público se voltou para os campeonatos da cidade e das comunidades rurais.
Naquela tarde de domingo esplendorosa Adamastor foi para o campo do
Santabarbarense assistir uma partida do Treme-Treme, uma equipe do Capão Bonito, em
que Lazinho era a estrela e o Santa Cruz, de Marimbondos.
Nove em cada dez torcedores diziam que Lazinho deveria jogar num grande time e
que deveria ser o Flamengo.
Era a decisão do campeonato e todos esperavam uma vitória do Treme-Treme.
O jogo começou violento com uma falta de um becão no ponta do Treme-Treme.
Afinal correu moroso até o segundo tempo, sem grandes lances.
Lazinho estava muito bem marcado e tudo indicava que um empate seria o resultado
justo.
Foi quando de repente fizeram um lançamento em profundidade para Lazinho e ele
ficou dividindo a bola com Caíto, excelente goleiro do Santa Cruz.
Nenhum dos dois cedeu um centímetro sequer na determinação de chegar a bola e
finalmente Lazinho desferiu seu poderoso chute.
A chuteira resvalou na bola e acertou a testa do goleiro Caíto, que imediatamente
caiu ao chão, já desfalecido.
Todos correram para lhe prestar primeiros socorros e Lazinho ficou ao lado, meio
apalermado com o que acontecera.
Num instante os que se aproximaram de Caíto perceberam que os danos haviam
sido maiores do que os que podiam ser curados com água e mercúrio cromo.
Improvisaram uma maneira de carregá-lo e o retirar do gramado apressadamente.
Adamastor tomou uma decisão de momento e foi se colocar ao lado do amigo
Lazinho:
- Calma! Tudo vai acabar bem - ele disse para Lazinho.
Meia hora depois a notícia já corria por toda Santa Bárbara: Caíto, 16 anos, frentista
do Posto ABC, goleiro do Santa Cruz, num acidente de jogo tivera um traumatismo
craniano e já chegara morto ao Hospital Municipal.
Ninguém nunca soube direito como Lazinho, que ficara muito abatido no primeiro
momento reagira a morte de Caíto, por mais que dissessem que havia sido um acidente,
uma grande fatalidade.
Uma multidão acompanhou o enterro do goleiro e Habib cobriu o caixão com a
bandeira do Santa Cruz.
O que Adamastor e os outros amigos de Lazinho perceberam claramente foi que
nunca mais ele pisara um campo de futebol, que era seu esporte preferido.
E escondido dos amigos enchia a cara de cachaça nos botecos mais sórdidos da
cidade...
25
Lucas e Mariana começaram o namoro, que Luciano Pica-pau e os outros amigos da
turma julgavam impossível dar certo.
- Namorar uma garota interna no Colégio Feminino não vai dar certo - disse
Lazinho que já tinha vivido esta experiência.
O que eles não sabiam era que o pai de Mariana havia autorizado que ela saísse
todos os finais de semana e fosse encontrar com Lucas na residência de Paulo, seu amigo
de quando estudara no Colégio Americano.
- Ficar na casa do Paulo e da Rosa? -perguntou Adamastor, fazendo uma cara sem
vergonha.
O casal era considerado muito moderno, vivendo um casamento cheio de
liberalidades.
Mariana, com uma cor de pele muito branca, olhos profundamente azuis, boca e
dentes perfeitos e cabelos bem claros, a La Chanel, era um moça maravilhosa.
Duas outras coisas deixavam Lucas maravilhado: o sotaque sulino e as pernas
perfeitas.
Lucas fazia todo o possível para vislumbrar aqueles dois monumentos.
- Pernas e coxas de jogadora de vôlei - dizia Adamastor.
A varanda da moderna casa de Paulo e Rosa era enorme e dava para a Rua
Principal.
E eles ficavam ali namorando e conversando sem ninguém que os perturbasse.
- Tenho um sonho - dizia Mariana.
- Qual? - perguntava Lucas.
- Quero sair daqui e mudar para um grande centro para ser jogadora profissional de
vôlei - ela dizia.
Na verdade tanto para ela quanto para Lucas, havia planos de viver fora de Santa
Bárbara, fora da mesmice, fora da pieguice, fora daquele conservadorismo que sufocava as
pessoas.
Este posicionamento tornava o namoro bem mais liberal.
Enquanto isso Mariana, que era uma excelente aluna ao contrário de Lucas, se
esforçava na técnica e no preparo físico necessário a prática do voleibol.
Excelente no ataque, como ponta de rede, o técnico Charles, um carioca que adotara
Santa Bárbara como sua terra, procurava desenvolver na garota outros fundamentos como o
saque, a defesa e o bloqueio.
Seu time ganhava sempre do Colégio das Irmãs, e de muitos outros na região.
- Ouvi o Charles dizer que não tem mais nada para ensinar para a Mariana - dizia
Adamastor, que sabia de todas as confidencialidades do Colégio Feminino.
Mas, o amor que brotara e crescera naquele relacionamento, fazia com que
protelassem sua decisão final.
E continuavam a se beijar e se acariciar no meio do emaranhado de samambaias.
- Não sei do que mais gosto - dizia Mariana - Do vôlei ou de você - completava.
Lucas considerava estranha aquela comparação, mas se sentia envaidecido sabendo
do esforço de Mariana no esporte.
E o tempo passava entre carinhos na vida dos dois jovens.
Um dia Lucas se encheu de coragem e lhe propôs darem um passo além no
relacionamento dos dois.
Ela o encarou de uma forma que o fez tremer e lhe disse que o momento não era
chegado.
Beijando-a Lucas também achou que não era hora para avançar naquele ato que
poderia trazer uma grande confusão na vida aparentemente tranquila dos dois.
26
Lazinho, primo de Lucas, era um meninão, todos diziam. Gostava de fisiculturismo,
andava com as apostilas do americano Charles Atlas debaixo do braço e com duas latas de
banha, um cano velho e cimento fizera um alteres com o qual se exercitava o tempo todo.
E por qualquer coisa criava um caso e arrumava uma confusão que terminava quase
sempre em pancadaria.
Criado como rico era péssimo aluno na escola.
- É um mitômano! - Luciano Pica-pau o classificava quando estavam longe um do
outro..
- O quê? - perguntou Lucas que sempre se enredava com o vocabulário do amigo.
- Um mentiroso - explicava o outro.
Realmente Lazinho tinha mesmo tendência a narrar extraordinárias aventuras
imaginárias como sendo verdadeiras. Como a que ele chamava de “A noite dos anjos
negros”.
Aconteceu quando ocorreu um dos habituais blecautes sobre Santa Bárbara e região
e que teria durado mais de três horas.
- Não durou nem uma hora - jurava Adamastor que durante este tempo estaria
agarrado a uma cabrocha com quem estaria se encontrando.
Luzes brilhantes teriam aparecido no céu e o tabelião Eufrásio as teria mesmo
fotografado.
Em seguida Lazinho contara que dera de cara com uma nave espacial estacionada
num campinho de futebol, ao lado do Clube de Tiro ao Alvo..
Segunda sua narração era enorme e dela haviam descido extraterrestres trajando
roupas espaciais negras, que ele denominava de “Anjos Negros”.
Lazinho não conseguia explicar o que eles estavam fazendo no meio do mato, o
porquê das luzes se apagarem e qual a razão de sua presença logo em Santa Bárbara.
O dia que ele contou sua história Adamastor foi o mais prático:
- Uma outra escuridão dessa e eu acabo com Malu, a minha neguinha - afirmou.
- Não acredito nessa lenda urbana - afirmou Luciano Pica-pau.
Lazinho teve que ser segurado para que não se atracasse com aquele que o
desmentia.
Em Santa Bárbara, através dos séculos, ouvia-se falar de luzes estranhas, na terra e
nos céus.
Eduardo, professor de Física e Química, no Colégio Americano, dizia que os clarões
nos morros era o fogo fátuo, proveniente de reações que ocorriam nos esqueletos de
animais mortos.
- E as luzes no céu, fotografadas pelo tabelião Eufrásio, um homem sério? - todos
perguntavam.
- Podem ser reflexos na atmosfera - explicava Professor Eduardo - Ou mesmo
balões atmosféricos.
Como dizia Luciano Pica-pau o caso acabou se transformando em lenda, em que
alguns acreditavam e outros nem tanto.
- É mais fácil acreditar que O Conde de Monte Cristo tenha sido o terrorista -
concluiu Lucas após o primo Lazinho sair de perto deles.
Por curiosidade, Lucas passou pelo tal campinho e verificou que havia marcas
chamuscadas no mato rasteiro, mas pensou consigo mesmo que o primo Lazinho podia ter
forjado aquelas pistas.
Olhou para o céu e nada havia de extraordinário. A Lua, galáxias,
constelações, estrelas e meteoros ocupavam o mesmo lugar de sempre, desde a Criação do
Universo.
E pensou no que Luciano Pica-pau dissera:
- Não digo que não existam outros seres no Universo. Mas, não precisam de
tantos fogos de artifício para aparecerem - disse e sorriu.
27
O picnic anual do Colégio Americano iria ser realizado na próxima semana, no
Açude da Solidão. Chegava-se até lá num trem de ferro e mesmo assim era preciso andar
bastante tempo a pé, percorrendo trilhas no que sobrara da Mata Atlântica.
- Este lugar é famoso por suas histórias! - dizia Adamastor, especialista em casos
que só ele sabia.
- O que aconteceu lá? - perguntou Lucas.
Adamastor olhou a pequena plateia formada por Lucas, Lazinho, Otávio e Luís,
sentados em semicírculo na grama e começou a contar o primeiro caso.
- Foi lá que no picnic do ano passado que flagraram Odete e Livia agarradinhas no
meio do mato.
Todos se lembravam porque fora um grande escândalo no Colégio Feminino e em
Santa Bárbara. Odete, 18 anos, uma moça loura, muito bonita, era paulista, de
Pindamonhangaba e Lívia, 17 anos, morena de olhos verdes, da cidade mesmo, filha de um
grande fazendeiro. Já havia desconfianças do relacionamento muito estreito das duas.
- Foram expulsas? - perguntou Lucas.
- Por incrível que pareça, não - disse Adamastor - Ficaram mais um tempo no
Colégio Feminino e depois se mudaram para São Paulo.
- E o outro caso? - indagou Lazinho, curioso.
- O outro caso aconteceu com esta coroa, a Rosa, protetora de Mariana e Lucas -
falou gargalhando.
Rosa fora encontrada nadando nua, no Açude da Solidão, com quatro estudantes da
Escola Superior.
Lucas não gostava que misturassem Rosa, uma cortesã de mão cheia, no seu
relacionamento com Mariana, já que ela tinha uma fama terrível na cidade. E o pai de
Mariana confiava suas saídas ao companheiro de escola Paulo e não em sua mulher.
- O pior da história de Rosa foi que os estudantes a deixaram lá pelada, sem
nenhuma roupa que esconderam na mata.
- E o que ela fez? - perguntou Otávio.
- A sacana não se preocupou - disse Adamastor - Foi até a casa de um camarada de
roça e pediu uma roupa de sua patroa emprestada.
Naquela noite quando se encontrou com Mariana a convidou para assistir um filme
no cinema. Depois das histórias que Adamastor contara, Lucas se sentia mais excitado do
que o normal.
-Te quero, tanto. Você é meu único desejo - disse murmurando no ouvido de
Mariana.
- Não posso ir além disso - ela disse quase desfalecida na poltrona.
Durante o passeio ao Açude da Solidão, funcionários do Colégio Americano e
professores fizeram marcação cerrada sobre alunos e alunas, para que fatos desagradáveis
não voltassem a acontecer, maculando a centenária história dos passeios.
Quando Mariana vestiu seu maiô e entrou na água com suas colegas, Lucas ficou
embasbacado com a beleza de seu corpo e as pernas realmente lindamente torneadas.
Depois todos foram para um campinho ao lado do poço para jogar sucessivas
partidas de vôlei.
Foi quando pela primeira vez sentiu que Paulo, um nissei, não tirava os olhos de
Mariana. E o que era pior, ela estava correspondendo a paquera do sem-vergonha!
Chamou o amigo Adamastor e perguntou-lhe se estava vendo alguma coisa de
anormal no comportamento dos dois. Ele confirmou a desconfiança de Lucas.
No intervalo para o lanche Lucas ficou quieto até que Mariana indagasse o que
estava ocorrendo.
Ele então soltou um monte de impropérios, esculhambou a senhora mãe de Paulo e
disse que sentia muito que os norte-americanos não tivessem soltado mais bombas atômicas
naquele povo idiota, os japoneses.
Mariana disse-lhe que estava enganado e que nem mesmo vira o japonês.
- Você sabe, Lucas, que meu amor por você é eterno! - ela disse.
Lucas pensou em dar um chega prá lá em Paulo, mas acabou esquecendo o
acontecido e de uma pedra polida onde se assentou ficou vendo Mariana, com seu corpo de
sereia, nadando nas águas do Açude da Solidão.
E prometeu a si mesmo que nunca mais a deixaria exposta como naquele dia.
28
No primeiro dia que o Delegado Silveirinha aparecera para tomar posse na
Delegacia de Santa Bárbara vestia um terno bege, quadriculado e um revólver no coldre na
cintura, o que se justificava, pois viera do Vale do Rio Doce, uma das regiões mais
violentas de Minas Gerais.
- Ele é um “caçador” de pistoleiros - disse Otávio, assentado no seu Fusca azul.
- Quem lhe disse? - perguntou Lucas, cabreiro.
- Meu pai - ele respondeu - Conhece esta milicada toda.
O que mais impressionara Otávio, que era fanático por carros, principalmente os
importados, foi o do Delegado Silveirinha.
- Um legítimo Alston conversível. E vermelho! - ele disse, com os olhos brilhando.
Explicou que era um carro fabricado na Inglaterra, com um motor muito potente.
- O mistério do carro do Delegado Silveirinha é que custa uma nota preta - afirmou
Otávio.
Lucas estava estupefato com o que Otávio lhe dizia.
- Como um funcionário público de Minas conseguira comprar um Alston deste? -
perguntou Otávio e ele mesmo respondeu. - Meu pai me disse que é bem provável que o
tenha ganhado de um dos barões do crime, gente que banca a jogatina clandestina nas
estâncias hidrominerais...
O jogo era um poder acima do estado e fascinava as pessoas.
Nas férias, Lucas e sua turma gostavam de jogar sete e meio num prédio em
construção, no centro de Santa Bárbara, do pai de um libanês que se transformaria num dos
cirurgiões mais renomados do Rio de Janeiro e do País.
O sete e meio é um jogo de cartas de origem desconhecida, que pode ser jogado por
2 ou mais pessoas. O baralho, sem os coringas, 8, 9 e 10. O ás vale 1, as figuras valem meio
e as outras cartas valem seu número correspondente. Objetivo é somar 7 e meio com as
cartas ou chegar o mais próximo possível, sem ultrapassar esse valor. Antes do início do
jogo define-se um jogador que será o banqueiro, escolhido por sorte ou por voto. As
apostas mínima e máxima são definidas antes do início do jogo. Escolhido o banqueiro,
este embaralha as cartas e oferece o baralho para corte por qualquer jogador. Feito o corte,
o banqueiro distribui uma carta, com a face para baixo, para cada jogador, no sentido anti-
horário e iniciando pelo jogador à sua direita. Cada jogador verifica sua carta, não podendo
mostrá-la para os outros jogadores, comentar o valor de sua carta ou colocá-la com a face
para cima. Então cada jogador deverá fazer sua aposta.
- Façam suas apostas! - gritava o libanês.
Feitas as apostas, o jogador logo à direita poderá pedir mais cartas ou parar. O
jogador pode pedir tantas cartas, abertas ou fechadas, para somar sete e meio.
Se abertas, o jogador deverá deixar sua carta com a face para baixo e o banqueiro
apresentará tantas cartas quantas o jogador pedir, todas com a face para cima. Se forem
cartas fechadas, deverá abrir sua carta para que todos a vejam, e o banqueiro apresentará
tantas cartas quantas o jogador pedir, todas com a face para baixo.
- Vou dobrar minha aposta - dizia Marcinho.
O libanês verificava se estava dentro do limite definido antes do jogo iniciar.
Marcinho parava de receber cartas e passava a vez para Tobias, o próximo jogador
que soma mais de sete e meio pontos, devolvendo as cartas para o libanês e paga a aposta
para o mesmo.
Após fornecer cartas para todos os jogadores que as pediram, ele verifica sua carta e
decide se vai querer mais cartas ou não.
Não querendo mais cartas, chama todos os jogadores, um a um, pagando a aposta ao
jogador caso este faça mais pontos do que ele, ou recebendo as apostas dos jogadores que
fizerem uma pontuação menor ou igual ao banqueiro.
- O libanês “estourou” - gritava Marcinho.
Isso indicava que o banqueiro deveria pagar a aposta de todos os jogadores ainda na
mesa. Se alguém fizer sete e meio pontos, deveria ter sua aposta paga em dobro. Caso
necessário, pode-se revezar o banqueiro, fornecendo essa posição ao jogador que conseguir
fazer sete e meio pontos com 2 cartas.
Quem gostava do sete e meio estava com o caminho aberto para o Blackjack, ou 21,
e outros jogos de cartas violentos.
E assim a rapaziada passava o tempo ocioso.
29
Durante o sono Lucas sentia-se voando no meio das nuvens diante de
diferentes portas fechadas.
Aparecia como sendo uma pessoa apaixonada diante de outra pessoa
também apaixonada.
Ao seu lado coisas que indicavam um acidente.
Aos poucos todo o ambiente era invadido por muita água, clara e límpida,
proveniente de uma linda\cachoeira.
Ele olhava para o chão e achava uma aliança e uma medalha que brilhavam
sobre raios de sol.
Anjos negros e muito alvos voavam ao seu redor e depois dirigiam-se em
alta velocidade para o alto.
E o rosto de Mariana passava por ele flutuando.
Lucas acordava assustado sem entender o sentido destes sonhos.
Resolveu contá-lo para Adamastor que dizia entender destas coisas.
- Fique calmo - ele disse.
- Ficar com essa doideira?
- Tudo que vejo é bom para você. Sonhar com anjos é sempre bom...
- E o rosto de Mariana passando flutuando a minha frente?
- Você não pensava ficar com ela para o resto da vida?
- Existe algum outro significado neste sonho?
- Existe sim...
- Então diga, Adamastor...
- E o grande sonho de sua vida. Ele guarda um grande segredo. O dia que
desvendá-lo terá descoberto o sentido de sua vida...
- O Tesouro dos Escravos?
- Talvez... Mas agora não posso prever isso....
Deu uma grande risada e o adivinho desapareceu da frente de Lucas e
incorporou-se no Adamastor, o sacana...
30
Adamastor, que vivia sonhando trabalhar em grandes jornais do país e fazia
inúmeros dossiês de moradores de Santa Bárbara, mostrou a Lucas e Luciano Pica-pau uma
minibiografia de uma dondoca da sociedade santabarbarense, Elisa Campos. Segundo ele
nascera na localidade de Salto, em 1946.
- Sua vida mentirosa começava por esconder a verdadeira idade - dizia Adamastor.
Chegou a Santa Bárbara em 1960, acompanhando uma tia chamada Leocádia. Aos
poucos a menina bonitinha tornou-se uma linda moça causando inveja nas outras mulheres,
que a detestavam e nos homens que se apaixonavam por ela.
Em 1962, Elisa Campos é sequestrada sabe-se lá por quem e só reaparece em
Montes Claros, anos depois.
Em Santa Bárbara sofre o preconceito das mulheres que veem nela uma sedutora e
fazem todo o possível para evitar seu contato com a sociedade local.
Para vingar-se, Elisa Campos resolve conquistar todos os homens da cidade,
solteiros e principalmente, os casados.
Torna-se então uma doutora do sexo pecaminoso, viajando várias vezes para o
interior de São Paulo, onde tornava-se a atração da “Chacrinha da Olga”, um prostíbulo de
luxo, em São José do Rio Preto, entregando-se a homens endinheirados que ficavam
sabendo de sua fama.
- Era considerada uma Messalina - afirmou Adamastor.
Foi uma das primeiras mulheres a estudar Direito, ficando famoso um filme feito
em super 8 que a mostrava, junto com colegas de escola, numa fantástica suruba, ao final
do curso.
Abriu um escritório na rua Principal, aceitando todos os casos que chegavam até ela.
- Mais esperta do que conhecedora do Direito ficou conhecida por casos como o da
Casa Rosa - afirmava Adamastor.
A Casa Rosa era de um grande atacadista e varejista de material de construção em
Santa Bárbara, cujo proprietário, o espanhol Alfonso, havia se metido em falcatruas. O
boato era que depois de inocentado o homem abrira os cofres para a advogada.
Ela passou a morar com tia Leocádia em uma grande casa que construiu na periferia
da cidade.
Gostava de cavalgar animais de raça e num desses passeios conheceu o fazendeiro
Alex Cristiano de Souza.
Alex era muito rico e meio estranho, andava com um chapelão, desligado das coisas
materiais.
Em pouco tempo apaixonou-se por Elisa Campos e se casaram numa cerimônia a
que não compareceram os habitantes da cidade.
- Mas, casada, não deixou o hábito de se relacionar com homens comprometidos -
disse Adamastor.
Eram inúmeras as suspeitas de que continuara a enriquecer a custa das chantagens
que fazia aos coitados que caiam nas suas garras.
31
Lucas Sobrinho encontrava-se exausto no final de uma jornada de trabalho. Colocou
para tocar uma faixa do LP de Ray Conniff e começou a arrumar a bagunça no estúdio da
Rádio Clube, preparando-se para varrer o piso imundo.
A música terminou e ele ligou o microfone:
- Amigos, ouvintes. Depois de um dia inteiro dedicado a trazer-lhe o melhor da
música nacional, internacional, informações de primeira mão, a Rádio Clube, uma das
melhores emissoras radiofônicas da Região, agradece sua audiência e participação. Saímos
do ar agora, mas prometemos estar ao seu lado dentro em breve com o melhor de nossa
programação. Boa noite amigos e amigas!
Desligou a chave geral e no escuro saiu pelo corredor até a porta de ferro que fechou
com cuidado.
Enquanto caminhava pensava nos acontecimentos da manhã.
O amigo Adamastor andava sumido, não trazendo mais as informações inéditas de
acontecimentos da cidade.
Ficou sabendo de seus passos durante a tarde, na Rádio Clube, quando Padre
Donizete, checou para sua participação na Oração da Ave-Maria, em mais uma das
tentativas do Vigário em dominar aquele setor da programação.
Como todos os padres que aparecia José Donizete era um forasteiro, paulista de
Jundiai.
Chegou falando em Igreja e Justiça Social, mas Lucas logo notou que ele não era
nada progressista e era sobrinho de um general da Linha Dura, líder da Ditadura Militar.
“ A Igreja está sempre do lado das Classes Dominantes”, pensou Lucas, que passou
a deixar um exemplar do jornal Brasil Urgente, do Frei Josaphat, em cima da mesa.
- Seu amigo Adamastor tem assistido minhas missas - disse para Lucas o padre.
Ele se surpreendeu, pois, o amigo nunca revelara este seu lado religioso.
Nem bem o dia nascera Lucas entrou pela porta lateral da Igreja de Santa Bárbara.
Padre Donizete todo paramentado rezava a Santa Missa em latim, que era uma coisa
que estava sendo abandonada pelo sacerdócio seguindo determinações do Concílio
Ecumênico.
Credo in Deum, Patrem omnipotentem,
creatorem caeli et terrae.
Et in Iesum Christum,
Filium eius unicum, Dominum nostrum,
qui conceptus est de Spiritu Sancto,
natus ex Maria Virgine,
passus sub Pontio Pilato,
crucifixus, mortuus et sepultus,
descentid ad inferno,
tertia die resurrexit a mortuis,
ascendit ad caelos,
sedet ad dexteram Dei
Patris omnipotentis,
inde venturus est
iudicare vivos et mortuos.
Credo in Spiritum Sanctum,
sanctam Ecclesiam catholicam,
sanctorum communionem,
remissionem peccatorum,
carnis resurrectionem
et vitam aeternam.
Lucas fingia e olhava os poucos gatos pingados presentes a celebração até
finalmente encontrar Adamastor circunspecto.
Foi então que percebeu ao seu lado estava uma das mais belas moças de Santa
Bárbara, uma loura de cabelo compridos e repartidos ao meio, Tânia.
Filha de quem? Do Prefeito Inácio Pereira, inimigo declarado de Lucas e seus
amigos.
A missa já ia terminar e Lucas continuava a admirar o amigo.
Ave Maria Gratia plena Dominus tecum Benedicta tu In mulieribus
Et benedictus Fructus ventris tui Jesus. Sancta Maria, Sancta Maria,
Maria ora pro nobis, Nobis peccatoribus,
Nunc et in hora mortis nostrae. Amen Amen
Ao final se dirigiu ao amigo e Tânia, que muita tímida se despediu deles.
Adamastor lhe disse que estava apaixonado pela garota e tinha um motivo para
frequentar a Igreja.
- Eles tem os melhores documentos sobre o Tesouro dos Escravos - ele disse e
confirmou que o namoro com a filha do Prefeito era às escondidas e que ela era uma das
suas melhores fontes de informações.
Só tinha uma dúvida se algum dia poderiam revelar seu romance.
Continuaram a encontrar-se às escondidas e a permanência de Padre José Donizete
em Santa Bárbara durou pouco.
Adamastor que sabia de tudo disse que ele não podia ficar sozinho com meninos.
E nada mais foi dito sobre o assunto a não ser muita maledicência.
32
Adamastor e Luciano Pica-pau sabiam que o amigo Lucas, além de namorar
Mariana Helene, estava tendo um caso com Elisa Campos, a famosa advogada da Comarca.
Lucas a encontrou num chá promovido pela Paróquia de Santa Bárbara. Estava
aproximando-se dos quarenta anos, mas era uma morena muito bonita e tinha um belo
corpo.
- Uma péssima profissional - assegurava Luciano Pica-pau.
Era casada com Alex Paulino, um fazendeiro tradicional e que a encontrara em meio
a uma cavalgada.
- Um corno manso - dizia Luciano Pica-pau.
Ela gostava de escrever poesias, pagava para publicá-las na Gazeta de Santa
Bárbara e tinha fama de nunca ter se deitado com o marido. E de perder todas as suas
causas por não cumprir os prazos processuais.
- Tem estilo e poderia escrever em qualquer grande jornal do País - dizia Lazinho,
para provocar Luciano Pica-pau.
- Principalmente cartas anônimas - ele respondia puto da vida.
Lucas conhecia sua fama. Era uma cafajeste de marca maior. E autora mesmo de
inúmeras cartas apócrifas, principalmente para os seus amantes e familiares. Fizera isso
com José Lazinho, dono da Padaria Doce Vida. Lucas fora testemunha de quanto dinheiro
extorquira do coitado. Nas cartas se cognominava “Madame Pompidour”. Era detestada
pelas mulheres de Santa Bárbara. Pelas contas de Lucas e seus amigos levara para sua cama
todos os homens da cidade, das mais diferentes idades e classes sociais.
- É uma vagabunda! - dizia Luciano Pica-pau.
Mas, da mesma forma que se apaixonara por Mariana Helene, Lucas se sentia
tentado por esse lado pecaminoso, cheio de aspectos negativos de Elisa Campos. E acabou
entregando-se de corpo e alma a esta nova aventura de paixão.
- Você vai acabar como protagonista do diário secreto dela - lhe dizia Luciano Pica-
pau.
Lucas respondia que era esperto e não dava espaço para a cortesã enredá-lo.
Encontravam-se numa pensãozinha de quinta categoria ao lado do Cemitério
Municipal e a leoa foi sua grande professora no sexo sem limites.
Ensinara o Kama Sutra, uma espécie de manual indiano das posições, prazer e
diversos fetichismos: dar palmadas no seu parceiro sexual, normalmente na bunda; ser
pisado, com pés descalços ou imensos saltos de sapato, em partes do seu corpo; o prazer
sexual relacionado aos pés do parceiro; o bondage em que o prazer sexual está associado ao
sadomasoquismo; quando o homem se transforma em um pequeno cavalo.; o prazer sexual
que consiste em observar as pessoas, que podem estar nuas, apenas de lingerie, transando,
se masturbando ou dormindo e o fleur-de-rose, o beijo grego ou anal.
- Fiquei surpreso quando ela me propôs a “chuva dourada” - disse Lucas para os
amigos.
- O quê? - se espantaram.
- O Fernando, um amigo meu carioca já havia me falado dele, que faziam no seu
tempo de rapazes, nos puteiros da Lapa - contou Lucas.
- Como é? - perguntou curioso Adamastor.
Lucas disse que era bem bizarro. Sentir a urina da pessoa em partes do corpo como
forma de prazer sexual.
- E o que é o pior é que tem gente que bebe a urina - concluiu
Lucas sabia que não era o único a privar de suas licenciosidades e que um só
homem era pouco para a tara da pilantra.
- Elisa transa com você, o Vereador Totonho e... - disse Adamastor sempre bem
informado do que chamava de lado oculto da cidade.
- Quem mais? - perguntou Lucas, curioso.
- O Delegado Silveirinha também se serve de seus favores - respondeu Adamastor.
Lucas argumentou que com um carro Alston Martin conversível ele tinha cacife
para conquistar qualquer mulher, até a Claudia Cardinale.
E tudo indicava que ela continuava achacando antigos e atuais amantes, como no
caso do Vereador Totonho, um ferroviário, muito extrovertido e que andava atualmente de
boca mucha e orelha caída pelos quatro cantos da cidade.
- Anda roubando tanto para atender os desejos de Elisa que não será escolhido mais
nem pra porteiro de cabaré - dizia Adamastor.
Para Lucas viver perigosamente fazia parte do nosso cotidiano como humanos e
estimulava a sua libido, cerceada pelo conservadorismo de Mariana Helene.
A manhã seguinte nasceu debaixo de um céu de um azul maravilhoso que somente
existia em Santa Bárbara, como assegurava o tio de Lucas, Dr. José, que era médico e um
eterno exilado em Belo Horizonte.
Emerson Neto, o pau-d’água que era vigia do Parque Municipal viu alguma coisa
estranha em um dos riachos que cortavam a mata e que era um local muito usado para
despachos de Umbanda e Quibanda. Aproximou-se e viu tratar-se de uma mulher caída
numa grande poça de sangue. Esbaforido, pediu uma carona no jipe de um sitiante e foi
avisar o destacamento de Polícia Militar de Santa Bárbara. Delegado Silveirinha foi
chamado e chegou, acompanhado do Cabo Júlio e soldados do destacamento, no seu
carrinho grã-fino, num terno quadriculado, afinal de contas não era todo dia que ocorria um
crime de morte na sua jurisdição. Com seu cigarro na piteira de ouro, ajudou os soldados a
virar o corpo, em decúbito ventral e ainda quente. Com onze furos de uma faca Bowie caída
ao chão e um tiro certeiro de 38 na testa haviam matado sua amásia e de muitos outros,
Elisa Campos, 42 anos, mulher do fazendeiro Alex Paulino, da nata da sociedade
santanense. O homicídio aconteceu aos pés da Serra do Carrapato onde o casal possuía uma
bela fazenda e passava os finais de semana com os dois filhos
Delegado Silveirinha, friamente, como se nunca tivesse privado daquelas carnes
sem vida, determinou que o corpo fosse levado para um pequeno galpão no Cemitério
Paroquial e que chamassem o Dr. Viriato, um clinico geral que vivia bêbado, para fazer um
exame a guisa de autópsia e comprovar o que a matara. Ele disse que ela havia apanhado
muito, sofrera violência sexual e haviam penetrado seu ânus com qualquer coisa parecida
com um cabo de vassoura, roliço. Mais não disse e partiu para o primeiro botequim onde
foi beber cachaça, com leite e groselha e contar a todos que nunca vira um cadáver tão
esvaído em sangue e que apanhara muito antes de desencarnar.
Delegado Silveirinha então chamou os soldados do destacamento e entrou na casa
da alcoviteira Elisa. Lucas, que se juntara com uma pequena multidão, viu-o sair,
momentos depois com um maço de papéis nas mãos, e suou frio.
Dali já foi direto para a casa do Vereador Totonho e já o trouxe para a rua debaixo
de pancadas. Alex Paulino, marido da vítima estava viajando, mas foi imediatamente
incluído no rol de suspeitos.
Mas, a história é infalível e anos depois estudantes de Direito da UFMG disseram
que nunca houve um inquérito tão mal feito, repleto de erros primários e todas as confissões
tiradas da carne dos acusados. Alex Paulino foi preso no decorrer do enterro de Elisa
Campos e disse que viajara para resolver negócios com um dono de garimpo em
Uberlândia.
Segundo o inquérito mal enjambrado do Delegado Silveirinha, Alex Paulino atacou
Elisa Campos após uma discussão, motivada pelo ciúme doentio da parte do assassino em
relação à mulher. Primeiro com várias facadas e depois com um tiro de misericórdia no
meio da testa. Ele também apanhou muito de mangueira de borracha, foi currado na Cadeia
Pública pelos soldados e dizem que o Delegado Silveirinha e seus asseclas o enterraram na
areia fofa de uma praia do rio Grande para que as formigas o mordessem.
Quem conhecia Alex Cristiano de Souza sabia que detestava armas, facas e
revólveres principalmente, sabia que nunca havia possuído uma arma e nunca teve ciúme
doentio da finada Elisa Campos, pois era declaradamente um corno manso.
Por isso e por outras razões, aquele foi considerado um dos maiores erros judiciais
da História, tão grave quanto o dos irmãos Naves.
Alex Paulino foi a júri popular e condenado a 30 anos de prisão, por crime
hediondo. Suas propriedades, seus bens, que não eram poucos, desapareceram na mão de
advogados corruptos e afins.
Lucas ficou aliviado de escapar mais uma vez da sanha do Delegado Silveirinha.
- Sua sorte foi o tal diário secreto de Elisa não aparecer - disse Luciano Pica-pau.
Por via das dúvidas procurou a velha vidente cega sua amiga e ela lhe recomendou
que tomasse banhos de rosa branca durante três dias, principalmente na cabeça, para
agradecer o anjo Gabriel, seu protetor.
De terno, junto com seus amigos, foi ao enterro de Elisa Campos. Um estranho
féretro no qual por vingança da falecida as mulheres santanenses não compareceram a não
ser aquelas que viviam na zona e eram suas protegidas, com suas roupas e sombrinhas
multicoloridas, capitaneadas pela figura magrela do Cearense.
Poucas semanas depois da condenação de Alex Cristiano de Souza, o Delegado
Silveirinha entrou no seu Alston Martin conversível, vermelho e escafedeu-se de Santa
Bárbara pra a Capital, transferido para sempre.
- Agora podemos respirar - afirmou laconicamente Luciano Pica-pau com seu
habitual humor negro.
- Elisa Campos era o caminho mais curto para o Tesouro dos Escravos - disse
enigmático o Professor Lino.
33
O tempo passava e o programa Você e a MPB tornara-se um sucesso na Rádio
Clube. Até mesmo Dulce Maria estava mais segura na leitura de poesias, letras e trechos de
programa de teatros de Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro.
Vendo o interesse de Lucas pela emissora, pois ficava por ali em todo seu tempo de
folga, Sergipano começou a ensinar-lhe algumas coisas básicas, como o funcionamento das
mesas de som, a modulação do som dos microfones, as manias de cada locutor. O pulo do
gato era operar o sistema de transmissão do Estádio Municipal, com uma linha em que o fio
nu teimava em se arrebentar com qualquer vento mais forte ou enroscar nos galhos de
árvore. Antes de qualquer transmissão direta do campo de futebol era preciso checar tudo,
poste por poste, isolador por isolador.
Sergipano permitiu também que acompanhasse o “cast” de locutores, absorvendo o
que tinham de mais positivo e com voz baixa apontava os defeitos dos medalhões da Rádio
Clube:
- Fabio José tinha um vozeirão. Começou a fumar sem parar e empostá-la e perdeu
sua beleza natural, seu timbre. Poderia ter feito carreira e sucesso na Capital, mas vai
acabar mesmo é lendo notas de falecimento aqui.
Lucas tinha pavor das notas de falecimento. A Funerária Boa Morte passava o nome
completo do defunto e a hora do enterro. O pessoal da rádio as vezes enfeitava um pouco,
com o apelido do morto, nome do pai e da mãe e outras lereias.
Em Santa Bárbara todo mundo dizia que estas mensagens piedosas eram o maior
sucesso do rádio, batendo a audiência de todos os outros quadros dos diversos programas.
Mais experiente Lucas resolveu apresentar ao Sergipano uma proposta de um
programa ao qual deu o nome Charada Musical. Era muito simples: os ouvintes enviavam
por carta charadas de qualquer tipo que eram lidas nos intervalos do programa.
- Vamos as charadas de hoje no nosso programa:
- O que é uma casinha sem porta e sem janela, lá dentro vivem duas donzelas, uma
branca e outra amarela?
- O ovo - dizia Lucas - Acertei! Está certo, certíssimo!
- O que um poste disse para o outro?
- Não sei - dizia Lucas. Vamos ver a resposta certa é: Essa fiarada toda é sua?
- Prestem a atenção que vocês vão gostar desta. Continuava: Como os portugueses
tiram leite de vaca?
- Vou arriscar. Com os pés, pois são portugueses, ora pois - dizia Lucas.
- Vamos ver a resposta que nos enviou nossa ouvinte: Um português segura as
tetas, e mais quatro movem a vaca para cima e para baixo.
Aqueles cujas charadas Lucas não conseguia decifrar até o final do programa
ganhavam valiosos brindes. Esta era a parte pior, pois era necessário percorrer todo o
comércio solicitando a doação de prendas miseráveis.
E Sergipano havia criado uma novidade para ele:
- Locutores de rádio tem sempre nomes duplos. Na Rádio Clube você será tratado
como Lucas Sobrinho!
- Sobrinho de quem? - perguntou Lucas que tinha vários tios.
- De ninguém - disse Sergipano - Lucas Sobrinho será nome artístico pelo qual você
será conhecido.
Este fato fez com que Lucas prorrogasse a conversa com Dulce Maria:
- O programa de MPB não está me dando excitação de fazer - ele diria para Dulce
Maria.
Sua proposta é que encerrassem sua apresentação, pois teria atingido seu objetivo de
divulgar a Bossa Nova.
Na verdade, trabalhando na Rádio Clube Lucas tinha agora novos objetivos. Mas, o
principal é que de uma hora para outra havia aberto sua cabeça para outros gêneros
musicais.
- Fui no Rio de Janeiro - ele contava para Luciano Pica-pau - e assisti Os Reis do Yé,
Yé, com Os Beatles. Legal, cara!
Ele não andava mais atrás do Luciano Pica-pau pedindo que fizessem uma serenata
para Mariana no Colégio Interno.
- Você tá mudado, Lucas - dizia Luciano Pica-pau.
Ele agora gostava de andar com uma turma de cabeludos que tinham um conjunto
que tocava músicas modernas, e era muito aplaudido pelos estudantes.
Convenceu o Sergipano a comprar discos mais atuais que ele guardava as sete
chaves no misto de discoteca e escritório, pois temia que fossem furtados.
E numa atitude incomum deixou o cabelo crescer a “La Jovem Guarda”, com
franjinha e tudo mais.
O dia que resolveu falar com Dulce Maria, Adamastor, esbaforido o cercou na porta
da Rádio Clube.
- Dulce Maria não vai apresentar o programa hoje - ele avisou.
- Por quê? - perguntou Lucas.
O outro fez cara de alcoviteiro e contou para Lucas que Dulce Maria e Lazinho
haviam sido pegos em vias de fato na cama dela.
- Adamastor, me diga o que é estas vias de fatos.
- Lazinho fez mal para ela.
- Quem viu isso?
- O pai dela e ficou uma arara.
- Mas eles não são liberais?
- Esse pessoal só é liberal enquanto a coisa não acontece com as suas filhinhas
queridas! - afirmou Adamastor.
Saíram os dois andando pela rua pensando o que aconteceria com Lazinho, Dulce
Maria e seus pais.
Lucas dormiu pensando nisso e acordou com Lazinho, a sua porta, com sua cara de
bobo alegre, dizendo que não teria de casar com Dulce Maria. Fora levada a Dra. Yolanda,
uma ginecologista, que assegurou que ela ainda era virgem.
- Ficaram tão alegres que nem me proibiram de entrar no quarto dela - gargalhou
Lazinho.
Lucas foi andando pela rua até a Rádio Clube pensando que a vida não era uma
linha reta que findava no horizonte.
- É toda cheia de curvas e armadilhas - pensou em voz alta e foi atender o chamado
para ler a Nota de Falecimento de Tucão, um açougueiro sem vergonha que morrera de
repente.
Olhou para o Sergipano e gritou:
- Deixa pra lá. Você e a MPB continua!
34
Havia um lugar onde Lucas já era reconhecido como locutor e apresentador: o
Parque de Diversões Dragão do Mar, que ninguém sabia de onde surgia e se instalava com
sua roda gigante, o carrossel e as barracas de jogos diversos em um terreno baldio ao lado
Cemitério Municipal.
- Meus amigos, está entrando no ar o serviço de alto falantes do melhor Parque de
Diversões do planeta, o Dragão do Mar. Aproveitem os poucos dias de nossa permanência
nesta progressista cidade de Santa Bárbara e divirtam-se nos mais emocionantes e
modernos brinquedos - dizia Lucas com a voz empostada.
Ele que era o locutor e sonoplasta tudo ao mesmo tempo colocava um fundo
musical melodioso.
- E vamos a nossa primeira brincadeira da noite, no nosso Correio Sentimental. Uma
donzela de cabelos negros, blusa branca e saia vermelha envia esta mensagem de amor para
seu Don Juan - dizia Lucas, colocando no pick-up o último sucesso na voz de Anísio Silva.
Certo dia instalou-se um cirquinho mambembe ao lado do parquinho e na segunda
noite anunciaram a apresentação do Rei Roberto Carlos.
O público era pequeno e o show durou pouco tempo, mas criou uma lenda, com
duas versões diferentes.
A primeira, de Adamastor, é que estudantes da Escola Superior vaiaram o cantor,
cercaram seu entourage e ainda o apedrejaram.
A outra, de Lucas, é que nada havia acontecido. Ouviu-se alguns aplausos, mas nada
muito exagerado. No final pegaram seus carros e foram embora.
A história cresceu como desculpa de Roberto Carlos nunca mais ter se apresentado
em Santa Bárbara...
35
Lucas Sobrinho já era um nome conhecido entre os ouvintes da Rádio Clube,
até que um dia Sergipano o chamou e disse-lhe que bolasse um programa para ser
apresentado no horário após as 20 horas até a emissora sair do ar.
O jovem locutor e apresentador fingiu não se interessar muito pela proposta
e apresentou algumas condições:
1º - Que o programa se chamasse Coquetel Musical;
2º - Que tivesse um horário fixo das 8 às 22 horas, o que significava que a
Rádio Clube encerraria as transmissões;
3º- Que fosse o apresentador e programador musical do programa.
- O que significa este programador musical? - fingiu não saber Sergipano.
- Que vou lhe dar uma lista de músicas e você vai se virar para arranjá-las -
disse Lucas Sobrinho.
- Mas, como vou fazer isso? Você sabe que a Rádio Clube não tem dinheiro
- falou chorosamente o Sergipano.
Lucas Sobrinho tinha uma ideia e a passou. Em Santa Bárbara havia só uma
loja que vendia discos, o Som de Ouro. Sergipano deveria conversar com o “Seu”
Luís, dono da loja, e fazer uma permuta: o empréstimo dos discos por espaços
publicitários em o Coquetel Musical.
E do bolso Lucas Sobrinho retirou um papel com a lista de músicas que
desejava tocar no programa: Hey Jude - The Beatles; Viola Enluarada - Marcos
Valle & Milton Nascimento; Baby - Gal Costa & Caetano Veloso; Sá Marina -
Wilson Simonal; Love Is Blue - Paul Mauriat; Se Você Pensa - Roberto Carlos;
Pata Pata - Miriam Makeba; Tenho Um Amor Melhor Que o Seu - Antonio Marcos;
Última Canção - Paulo Sergio; Mrs. Robinson - Simon & Garfunkel; Pra Nunca
Mais Chorar - Vanusa; Dio Come Ti Amo - Gigliola Cinquetti; Pra Não Dizer Que
Não Falei das Flores - Geraldo Vandré; La Dernière Valse - Mirelle Mathieu;
Hello Goodbye - The Beatles; The Fool On The Hill - Sergio Mendes & Brasil '66;
Divino Maravilhoso - Gal Costa; (Theme From) Valley Of The Dolls - Dionne
Warwick; As Canções Que Você Fez Pra Mim - Roberto Carlos; Free Again -
Barbra Streisand; Aranjuez Mon Amour - Lafayette; Ciúme de Você - Roberto
Carlos; Alvorada no Morro - Clara Nunes; Helena, Helena, Helena - Taiguara;
Soy Loco Por Ti America - Caetano Veloso; Sabiá - Cynara & Cybele;
Superbacana - Caetano Veloso; Carolina - Chico Buarque; Eu Sou Terrível -
Roberto Carlos; Nem Vem Que Não Tem - Wilson Simonal; Eu Daria a Minha Vida
- Martinha; Daydream Believer - The Monkees; Alvorada no Morro - Odete
Amaral; Era Um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones - Os
Incríveis; Dom Quixote - Os Mutantes; Revolution - The Beatles; Meu Primeiro
Amor - José Ricardo; Samba do Criolo Doido - Cynara & Cybele; Lapinha - Elis
Regina; Anjo Triste - Sergio Reis e Ela Desatinou - MPB-4.
Quem visse a programação musical de Lucas Sobrinho saberia como estava
confusa a sua cabeça.
Sergipano se virou e fez a permuta com a advertência de que somente Lucas
Sobrinho poderia manusear os LP´s e se responsabilizava por ocasionais estragos
que acontecessem.
- No ar, Coquetel Musical, o nosso programa de todas as noites - dizia Lucas
Sobrinho - Você irá se inebriar ouvindo as melhores músicas da discoteca da sua
Rádio Clube até a meia noite.
Quando se encontrou com Adamastor ele lhe fez uma pergunta importante:
- Quanto a mais você irá ganhar, Lucas?
Foi então que Lucas descobriu que na sua ânsia de fazer o programa se
esquecera de pedir um aumento de salário.
Coquetel Musical se transformou num sucesso e líder de audiência. E por
toda a cidade falavam do apresentador, um jovem talento.
Adamastor dizia que Santa Bárbara de vez em quando era vitimada por uma
praga rogada por Manoel Fernandes, o Zarolho.
Roberto Carlos, o Rei da Jovem Guarda, jurara nunca mais pisar no solo de
Santa Bárbara após vaias e pedradas durante uma apresentação.
Luciano achava que o amigo Adamastor estava certo quanto as pragas,
porém nunca conseguiu comprovar este acontecimento.
O outro acontecimento que virou confusão foi comprovado por grande parte
da população.
Os jovens da cidade resolveram promover no Centro Acadêmico um baile
para movimentar a cidade.
Seria a eleição da Rainha da Cidade, com um baile em que se apresentaria
um famoso conjunto e apresentado pelo xodó do momento, Lucas Sobrinho.
Tudo bem ensaiado Lucas Sobrinho achou que o evento seria um sucesso,
com dez moças da cidade concorrendo ao título inédito.
Percebeu logo que Shirley, uma lourinha espigada, filha de uma cabeleireira
conhecida e Nilma, uma morena, filha de uma professora de música se distanciavam
das outras.
- Senhoras e senhores, o nosso júri já tem o resultado para a eleição da nossa
Rainha da Cidade - disse com voz empostada Lucas Sobrinho.
Olhou para as candidatas e para o papel em suas mãos e disse:
- A Rainha da Cidade é a Nilma...
Nem bem terminou de falar e a mãe de Shirley, uma bruaca de quase cem
quilos, o pai, um ferroviário brutamonte, todos gritando que fora um roubo e
pulando sobre ele.
Em poucos minutos o que tinha sido uma festa ordeira se transformou num
bafafá, com vestidos sendo rasgados e cadeiras voando pelo salão.
Quando o destacamento chegou tudo estava quebrado no salão, até mesmo
os instrumentos do conjunto.
Com o terno novo comprado para a festa Lucas Sobrinho sentou-se na
beirada do palco e pensou que devia ser mesmo uma das tais pragas de Manoel
Fernandes, o Zarolho, porque Shirley era mesmo mais bonita de rosto e corpo e o
resultado tinha sido mesmo uma armação.
36
Em Santa Bárbara, em razão do trabalho dos educadores americanos, a prática de
esportes era uma verdadeira mania entre os jovens, que sonhavam com as alturas, sendo
campeão brasileiro ou Sul Americano.
Rapazes e moças, após o café da tarde se embrenhavam nas quadras e campos
esportivos, praticando corridas de velocidade e de fundo, salto em extensão, salto triplo,
salto em altura, salto com vara e dardo.
Professor Souza, quarentão, com seus monitores, se encarregava de incentivar os
mais talentosos.
O futebol era uma paixão nacional e a cidade de Santa Bárbara tinha bons times,
rivais em qualquer situação, mas que se apresentavam em partidas amistosas contra equipes
cariocas, com uma grande plateia que os animava. Todos os jogos eram diurnos pois ainda
não havia iluminação nos campos.
Mas, as duas grandes manias eram o basquetebol e o voleibol, duas práticas
desportivas que tiveram origem na Associação Cristã dos Moços (ACM) norte-americana.
O basquete era uma prática comum aos moços que quando não havia treino jogavam
em dupla, na metade do campo.
As mulheres se dedicavam ao vôlei, havendo muitas disputas com outros colégios.
Nas férias, moças e rapazes, em bandos, se encontravam no Clube Social
Santabarbarense e faziam grandes rachas de vôlei, que só terminavam, com a escuridão da
noite.
Lucas gostava destas atividades, mas era muito ruinzinho em qualquer uma delas.
Quem descobriu o motivo de tal comportamento foi Dona Clotilde, professora de
Inglês, que notou sua dificuldade em ler o que ela escrevia no quadro negro e disse para seu
pai levá-lo no oftalmologista.
Dr. Alberto era considerado um especialista em sua área. Pingou um remédio para
dilatar as pupilas e fez os exames de praxe.
- Você, caro Lucas, é míope e vai ter que usar óculos de grau.
Ele e o pai encomendaram os óculos e quinze dias depois ele foi buscá-lo.
Experimentou-os e descobriu que o mundo que via antes não tinha nada a ver com
realidade...
Mariana Helene Bernhard foi a melhor jogadora de vôlei da história desportiva do
Colégio Americano.
Suas cortadas antecipavam o desenvolvimento que o voleibol feminino teria nas
próximas décadas, deixando de ser uma modalidade cheia de frescuras, para contar com
habilidade e força.
- Você tem que desenvolver os fundamentos do voleibol - dizia Carlão
Ela adorava jogar, até mesmo treinar e sempre foi precoce na intimidade das
quadras, uma grande atleta que assumiu posição de destaque por onde passou.
“E era muito linda”, pensava Lucas.
- Fala pra mim de que você gosta mais na vida? - ele indagava.
- Do voleibol - ela respondia, fazia um biquinho e completava - De você.
Muitas vezes ele pensava se aquilo estava certo. Ser preterido pelo tal de voleibol.
Então ela o beijava com ardor e ele se esquecia desse problema, pois sabia que a
vida lhes reservava muito chão pela frente.
Um grande público assistia naquele ano ao jogo entre a equipe do Colégio
Americano e a do Mackenzie de Belo Horizonte que foi sensacional e qualquer dos dois
times mereciam ser vencedores. Os donos da casa abriram 2 a 0 e pareciam caminhar para
um triunfo tranquilo. Uma caloura, morena bonita, Mara, recém transferida de Belo
Horizonte estava numa tarde de graça e a jovem e muito promissora Mariana era o nome do
time. Mas as belorizontinas, quase perfeitas nos contra-ataques, forçavam o jogo, na raça.
Veio o quinto set e o Colégio Americano perdeu Mara, que saiu de quadra chorando.
- O técnico deles chamou a Mara de "piranha da Savassi" - disse Adamastor que
estava ao lado da quadra.
Para piorar, a equipe do Colégio Americano, em uma noite apagada no ataque,
passou a se defender mal e passar bolas piores ainda. Mas Carlão encontrou em Mariana o
desafogo que precisava. Ela virou bolas decisivas, fez dois bloqueios consecutivos e
saques violentos para fechar a partida. Os torcedores choravam e gritavam. Mariana saiu da
quadra carregada e abraçou Lucas.
- Você é tudo pra mim e muito mais! - disse Lucas e ela lhe deu um beijo proibido.
- Doces ilusões da juventude ... - disse em tom de gozação Luciano Pica-pau, como
fazia sempre e saiu.
- Você Mariana será uma atleta de alto rendimento - disse Carlão e saiu para
recolher as bolas usadas no jogo.
37
O Colégio Americano era um complexo educacional formado pelos ginásios e
colégios masculino e feminino, internato e a Escola Superior, localizado em três enormes
áreas verdes em Santa Bárbara. Não era para existir na cidade, o que acabou acontecendo
em razão do surgimento da febre amarela no interior de São Paulo onde era sediado.
- Os americanos são vigaristas e imperialistas - dizia Luciano Pica-pau sentado na
banqueta de um órgão no qual executava melodias maravilhosas.
O seu melhor amigo vivia de mal com a vida, meditava Lucas, lendo a placa afixada
no instrumento e que dizia que ele fora doado por fazendeiros do Middle West dos Estados
Unidos da América.
- Tudo fantasia e esses velhinhos e velhinhas acabam ficando milionárias na Bolsa
de Valores - continuava Luciano Pica-pau.
Por este tempo o Colégio Americano já era conhecido em todo o país, sendo o
Diretor-Geral Mr. Kim, um americano que viera dos States para esta missão, e o Diretor do
Colégio Masculino, “Seu” Temístocles, muito querido pelos alunos e que gostava de fazer
piadinhas sem muita graça.
A instituição enfrentava uma grande crise.
Duas coisas eram realmente importantes naquela organização: o culto aos ex-alunos
e a prática esportiva, comandada pelo Professor Souza, um carioca formado em Educação
Física pela Escola Militar do Exército.
Todos os dias, depois das três horas da tarde, enxurradas de alunos invadiam o
Estádio Central para a prática do atletismo, futebol, basquetebol e voleibol. Desta multidão
saiam os mais talentosos que passavam a ter tratamento privilegiado.
Lucas não tinha habilidade para nenhum esporte, presumia-se por ser muito míope,
mas gostava de basquete e vôlei.
Mariana era alta e tinha um corpo muito próprio a prática do voleibol. Seu time era
formado por Ana, Claudia, Luísa, Beth, Paula e ela. Era a que levava seu treinamento aos
extremos nos fundamentos do saque, ataque e defesa. Terminado o treino coletivo
permanecia horas sacando em adversários invisíveis.
Lucas memorizou os horários dos treinos para ver as lindas pernas da namorada que
usava shorts bem pequenos.
- Quero ser profissional de vôlei - ela disse um dia para Lucas.
- Onde? - ele perguntou.
- No Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte - ela confirmou.
Ele também sonhava em ir para capital e estava preparando toda uma estratégia para
que isso acontecesse.
Os dois estavam vivendo momentos da paixão que unia os desesperados.
E se beijavam loucamente nas doces tardes de domingo, afastados do muro e pela
disciplina do Internado Feminino.
- Um dia eu vou ser a melhor jogadora de vôlei do Brasil - ela lhe dizia, com os
lábios colados em seu ouvido.
E se permitiam intimidades por que nunca alguém da casa aparecia, não sendo
nunca vigiados e incomodados em suas ações.
- Mariana, você sempre será a titular do meu time - Lucas dizia, abraçado a ela, nos
poucos momentos que se aproximavam da sacada que dava para Rua Principal.
- Ela está acabando com você - lhe dizia rindo, Adamastor - Você vai acabar tendo
uma tuberculose brava! - completava.
Lucas chamava o amigo de maluco e continuava na cola de Mariana, esquecendo-se
de suas tarefas e compromissos no Colégio Americano.
- No ponto de vista escolar foi o pior ano de minha vida - confidenciava para
Luciano Pica-pau.
- É melhor você curtir este momento, porque o passado já era e o futuro não nos
pertence - filosofava Luciano Pica-pau e ele estava coberto de razão, Lucas sabia.
38
A máfia do Pérola Negra, com Nélson ao volante do De Soto 57 vinha fazendo a
maior arruaça dentro do carro.
Lucas estava do lado da janela oposta a do motorista quando ele avistou a pracinha e
nela uma loura com pernas maravilhosas.
- Aproveita, Lucas! - disse Nélson subindo no passeio para passar o mais perto
possível da garota.
Quando ficaram lado a lado, Lucas levantou seu vestido e passou a mão na sua
bunda. Tudo num piscar de olhos.
A mulher era loura e usava uma saia tipo escocesa.
A Máfia do Pérola Negra ainda estava dando gargalhadas quando encostou uma
moto com o irmão dela.
Ele era milico e estava muito bravo, querendo a cabeça de Lucas que foi escondido
pela turma pois estava chapado.
Nélson, Adamastor e Luciano Picau-pau foram os mais importantes no bate boca
tentando provar que tudo não passara de uma brincadeirinha de mau gosto.
- Passar a mão no traseiro da minha irmã, não! - dizia o cara enfurecido.
Mas, tanto falaram nas orelhas dele que acabaram convencendo que tudo não
passara de uma brincadeira de estudantes.
- Está certo. Vou deixar passar. Mas não repitam isso - ele disse finalmente.
Montou na sua motocicleta Indiana e saiu a toda.
Relaxados, os componentes da Máfia do Pérola Negra dispararam a dar
gargalhadas.
O mais estranho é que nunca mais conseguiram identificar a “loura da esquina do
posto” por mais que tentassem.
E seguiram sua viagem para a Zona Boêmia.
Adamastor descolou uma grana sabe-se lá como e chamou Lucas para bater ponto
no Berço dos Anjos, o botequim da Ciça e do Paolo, localizado no Cerradinho.
Ciça, sorria com um dente de ouro e tinha traços de quem já fora uma morena
bonita, que gostava de se dizer carioca da gema, nascida e criada em Copacabana.
- Tem uma tatuagem estranha na virilha - dizia Adamastor que já fora algumas
vezes para cama com aquela baleia.
- E Paolo? - perguntou Lucas.
- É 171, um vigarista de marca maior - disse Admastor.
Paolo que teria vindo passar o Carnaval no Rio de Janeiro e lá, numa roda de samba,
encontrou Ciça.
- Vieram para Minas para armar algum golpe - disse Adamastor - E acabaram na
Zona Boêmia de Santa Bárbara.
Ciça conheceu um velho fazendeiro, um tal de Leopoldo, viúvo, muito carente e
rico que a tirou do puteiro onde se alojara e montou o Berço dos Anjos.
- Mas ser puta era a natureza de Ciça - disse Adamastor.
Uma coisa todos reconheciam: os tira gostos do estabelecimento eram fora de série.
Foi ali naquela espelunca que Adamastor confidenciou alguns segredos:
- Sabe aquela história do Roberto Carlos cantando num circo mambembe, do lado
do Parque de Diversões Dragão do Mar, aqui em Santa Bárbara? - ele perguntou.
- Eu era o apresentador do Parque - Lucas disse.
- Pois é! Eu armei toda a trama. Fiquei sabendo que em Volta Redonda tinha um
cara que era uma verdadeira cópia do Roberto Carlos.
- É mesmo? - espantou-se Lucas.
- Tudo teria dado certo se não fosse uns alunos da Escola Superior que
desconfiaram de tudo e armaram um bafafá...
Os dois caíram na gargalhada.
Enquanto devoravam uma costelinha de porco, Adamastor confidenciou:
- Vou contar-lhe um segredo porque você é uma peça importante nesta história.
O Prof. Lino e eu seguimos todos os que estiveram com O Tesouro dos Escravos
nas mãos. Desde a colonização...
- E daí? - perguntou curioso Lucas.
- O Tesouro dos Escravos tem um feitiço, uma magia, coisa das crenças dos negros
e é capaz de perceber a avidez, que uma determinada pessoa tem por ele.
- E o que isso significa/
- Significa que só vai encontrá-lo e desfrutar dele uma pessoa do bem...
Lucas fez uma expressão de espanto e encarou Adamastor.
- Para o Professor Lino em Santa Bárbara essa pessoa seria você, Lucas.
Conversaram mais um pouco até se afastarem com Lucas sentindo a
responsabilidade que havia colocado nos seus ombros.
39
Uma das festas mais bonitas de Santa Bárbara era o desfile de 7 de setembro em que
todos os alunos das escolas desfilavam nas ruas centrais.
A frente do desfile do Colégio Americano ia Mara, baliza, filha do Professor Souza
que com suas acrobacias e exercícios de ginástica encantava a todos.
- Ela é muito certinha. Tem as pernas mais lindas da sua faixa etária - elogiava,
coisa rara, Luciano Pica-pau.
A seguir Clayton, que com seu piston dourado comandava a fanfarra constituída por
cerca de 70 elementos: bumbos, surdos, tarois, caixas de guerra e cornetas.
Como os músicos da fanfarra tinham uma série de regalias e faziam boas excursões,
Luciano Pica-pau resolveu participar e escolheu um instrumento pouco popular, esquisito
mesmo, que era a tuba.
O desfile começava no pátio do Colégio Americano e subia até a Praça Principal da
cidade, onde eram esperados pela população e autoridades do município.
- Você não vai sair nos carros alegóricos? - perguntou Luciano Pica-pau.
- Este ano quero fazer barulho - disse Lucas repicando na caixa de guerra.
Na verdade, numa das vezes representara no desfile o poeta Olavo Bilac, necrófilo e
na outra um parente, advogado, jornalista e político que morrera muito cedo, antes dos 30
anos e nas duas vezes fora muito aplaudido. Mas, não sabia por que acabara meio
traumatizado com as representações e não aceitava mais os convites.
Marchavam tranquilamente, com pelotões de alunos a acompanhá-los quando bem
próximo do velho prédio do Fórum e da casa de Luciano Pica-pau, o Professor Souza se
aproximou dele, segurou o instrumento que ele tocava e saíram os dois apressadamente da
formação.
Em seguida um zum-zum percorreu todo desfile, de boca em boca: o pai de Luciano
Pica-pau fugira de casa e deixara apenas um bilhete em que dizia que a vida era feita de
constantes desafios.
Diziam que fugira com a Nelma, uma puta da Zona Boemia e Lucas nunca
conseguiu entender o motivo daquele gesto que toda a sociedade repugnava.
Alguns diziam que era paixão mesmo, outras que o motivo fora uma briga com a
esposa, dívidas e muitos que era doideira mesmo, coisa de família.
Verdade é que Luciano Pica-pau nunca mais foi o mesmo, pois sem o arrimo de
família todos tiveram que se virar.
Teoricamente católico, Luciano começou a frequentar outras religiões e quase não
falava mais com os amigos.
Até o dia que Lazinho e Adamastor chagaram com uma novidade:
- Luciano Pica-pau pirou de vez! - disseram os dois.
- O que houve? - quis saber Lucas.
- Agora deu pra ver anjos e santos! - Eles disseram.
E o chamaram para ir até a “Matinha das Borboletas Azuis” ver o que acontecia
com o amigo.
Chegando lá deram de cara com ele, conversando com um ser celestial.
- Com quem você está falando? -perguntou Lucas.
- Com meu irmão, o Anjo Gabriel.
Achou que era sacanagem de Luciano Pica-pau, pois ele sabia que o anjo era seu
protetor, como dissera a velha vidente.
- Não estamos vendo nada, Luciano - disse Adamastor.
- Os anjos são invisíveis, mas percebemos sua presença - afirmou Luciano Pica-pau
com uma inflexão de voz profunda que nunca haviam ouvido antes, mirando o vazio a sua
frente.
- Não estou vendo nada - disse Adamastor com um olhar maroto.
- Sinto sua presença - falou Lazinho, com a voz trêmula e Lucas logo percebeu que
ele, que era um grande mentiroso, não falava a verdade.
- Rezemos juntos uma oração para Gabriel, o nosso Anjo da Guarda- propôs aos
amigos Luciano e colocou-se com os joelhos na relva úmida:
Sinto-te no escuro sem ter medo
Tua luz envolve todo o meu ser
Ouço o roçar das tuas asas
Teu perfume faz-me adormecer

Vejo-te sem rosto, sei teu nome


Guias-me com leveza e amor
Sabes meu desejo mais profundo
Transformas meus medos e dor

Falo contigo sempre que desejo


Agradeço-te ao deitar e acordar
Peço tantas coisas num só dia
Com fé continuo a caminhar

Teu sorriso brilha como o sol


Teus olhos são pérolas do mar
Teu corpo é feito só de luz
Contigo, às estrelas vou voltar

Amém

Enquanto estiveram por lá, Lucas presenciou o amigo conversar com falanges de
anjos, Santa Bárbara e um estranho dialogo com pai.
- Pai, o senhor está bem? Está muito longe da gente? Vou conversar com o senhor e
vai sentir-se melhor. Por que o senhor nos deixou? Qual o motivo?
Continuou com essa conversa por um longo tempo e depois disse aos amigos:
- Ele está bem. Arrependido, mas bem - disse aos amigos.
Acabaram ficando por ali ouvindo o amigo ter longas conversas com os seres
invisíveis, de outras dimensões como ele dizia.
- Ela está nos pedindo que pratiquemos o bem sem saber a quem - dizia Luciano
Pica-pau, verdadeiro zumbi de entidades que invocava.
- Pergunte a Santa Bárbara sobre mim e Dulce Maria - reclamava todo pimpão
Lazinho.
- Ela nos diz que o amor constrói - respondia Luciano Pica-pau, numa linguagem
entremeada por chavões e respostas dúbias.
Foi quando apareceu a mãe de Luciano Pica-pau acompanhada do Padre Joseph,
Vigário da Paróquia de Nossa Senhora do Desterro, um alemão muito alto e muito
vermelho e que falava com um sotaque arrevesado apesar dos muitos anos que exercia seu
sacerdócio no Brasil. Enquanto a mãe abraçava o filho chorando ele ouvia a sua cantilena
meio sem nexo. No final de algum tempo em silêncio retirou da pasta de couro que portava,
água benta e paramentos e começou a rezar a poderosa “Oração de São Bento”, contra os
demônios de toda espécie:
"A Cruz Sagrada seja a minha luz! / Não seja o dragão o meu guia,/ Retire-se
Satanás,/Nunca me aconselhes coisas em vão,/É mal que tu ofereces,/Bebe tu mesmo o teu
veneno.”
Em seguida orou em latim:
Credimus in unum Deum Patrem omnipotentem. Factorem caeli et terrae,
Visibilium omniumet invisibilum Conditorem. Et in unum Dominum Iesum Christum,
Filium Dei unigenitum. Et ex Patre natum ante omnia seacula. Deum ex Deo. Lumem de
lumine. Deum verum ex Deo vero. Natum non factum. Omousion Patri: Hoc est, eiusdem
cum Patre substantie. Per quem omnia facta sunt, quae in caelo et quae in terra. Qui
propter nos homines et propter nostram salutem descendit de caelis. Et incarnatus est
Spiritu Sancto Natus ex Maria Virgine. Et homo factus est. Passus sub Pontio Pilatus.
Sepultus, tertia dia resurrexit. Ascendit ad caelos, sedet at dexteram Dei Patris
omnipotentis. Inde venturus est iudicare vivos et mortuos.
Cuius regni non erit finis. Et in Sipritum Santcum Dominum vivificatorem et ex
Patre et Filio procedentem. Cum Patre et Filio adorandum et conglorificandum. Qui
locutus est per prophetas. Et unam Sanctam Catholicam et apostolicam Ecclesiam.
Expectamus resurrectionem mortuorum et vitam venturi seaculi. Amen.
- Ele vai ficar bem por que agora está em caminhão com Deus - disse Padre Joseph
com seu sotaque, colocou tudo de volta no seu local de origem na pasta de couro preta e
saiu apressado por que seu rebanho era muito grande para um só pastor e cheio de
problemas.
Mal o padre se foi Luciano Pica-pau voltou a narrar em voz alta seu encontro com
os santos:
- São Bento passa para São Judas Tadeu, que entrega para Santo Antônio que faz o
longo lançamento colocando Nossa Senhora do Desterro defronte ao goleiro que ela dribla
e com um corte sutil coloca a bola para os fundos da rede. É gol!!! Do time do céu!!!
Nos intervalos combinava encontros, dia e hora, com todos esses amigos celestiais.
Sua mãe não conversou e buscou o Reverendo Wallace, da Igreja Presbiteriana. Ele
chegou, os dois sentaram-se numa pedra debaixo de uma árvore e começaram a discutir
sobre os filósofos: Sócrates, Platão, até chegarem aos existencialistas, durante mais de duas
horas. Depois ele colocou suas mãos na cabeça de Luciano Pica-pau e pediu ao Nosso Pai,
que lhe curasse de males presentes e futuros. E fez a oração do Pai Nosso, em inglês, pois
se sentia com mais fé:
Our Father, who art in Heaven, hallowed be thy name;
thy kingdom come, thy will be done on Earth as it is in Heaven.
Give us this day our daily bread, and forgive our trespasses
as we forgive those who trespass against us;
and lead us not into temptation, but deliver us from evil. Amen.
Depois olhou Luciano Pica-pau nos olhos e lhe disse:
- Tomem cuidado. Ele está armado - disse o Reverendo Wallace.
“Mais um abacaxi para descascar”, pensou Lucas com medo que o amigo se
matasse ou saísse atirando a torto e direito.
Correu a pedir que a vidente sua amiga rezasse pelo amigo que enfrentava uma
situação tão difícil.
- Não se preocupe, meu filho - Disse ela - Espíritos irão lançar sua luz de cura sobre
ele.
Quando voltou a matinha onde se desenrolavam estes estranhos acontecimentos,
Luciano Pica-pau já se acalmara, entregara a arma que fora do seu pai para a mãe e chorava
nos seus braços, enquanto Dr. Viriato lhe aplicava um sossega leão. A seguir o colocaram
deitado no banco de trás de um carro de aluguel e a mãe disse que ia levá-lo para a Pinel em
Beagá.
Lucas, Adamastor e Lazinho ficaram olhando o carro partir.
- Não podemos mudar nossa natureza - filosofou Lazinho.
- Como assim? - quis saber Lucas.
- A família do pai é toda doida. Luciano Pica-pau não poderia ser diferente.
Lucas e Adamastor miraram Lazinho com um olhar de repugnância, cuspiram no
chão e se foram.
40
Luciano Pica-pau retornou a Santa Bárbara quase dois meses depois. Num primeiro
momento Lucas achou que nada havia mudado e que era o companheiro de sempre,
discutindo ateísmo e religião.
- Não considero o ateísmo como resultado, menos ainda como acontecimento: em
mim decorre do instinto. Sou demasiado curioso, demasiado problemático, demasiado
insolente, para me contentar com uma resposta grosseira. Deus é uma resposta grosseira,
uma indelicadeza para conosco, pensadores - no fundo, é mesmo apenas uma grosseira
proibição: não deveis pensar!...
Lucas olhou para o amigo e perguntou:
- Sartre?
- Não - respondeu Luciano Pica-pau - Ecce Homo , de Nietzsche.
Ele era considerado o aluno que mais lera livros na Biblioteca do Colégio
Americano, tudo comprovado na ficha de frequência. E ler Nietzsche, um filósofo
pessimista que se suicidara não era o melhor caminho para ninguém.
Resolveram que depois de tanta conversa com o Pastor Wallace estavam preparados
para dar um passo a frente.
Todos os dois tinham famílias que por séculos se dedicaram a fé cristã,
principalmente ao catolicismo.
Podia-se contabilizar em suas árvores genealógicas inúmeros bispos, freiras, padres
e monsenhores.
Luciano Pica-pau crescera ouvindo histórias de Dom Antônio Peralva, o Monsenhor
Negro, natural de Arcos de Valdevez, em Portugal, e que viera para o Brasil Colônia, se
alojando na região de mineração. Dele muitos diziam ser um santo homem, percorrendo as
trilhas na mata virgem, fazendo caridade e construindo capelas pelo caminho. Outros que
sua alcunha de “Monsenhor Negro” era oriunda da maneira desumana que tratava os seus
serviçais, todos eles negros. Adotava um critério simplório para selecionar os escravos que
comprava. Os de canela fina eram excelentes trabalhadores braçais, escolhidos para as
roças e os de canela grossa cuidavam da arrumação da casa e da culinária na cozinha. Antes
da Abolição ocorreu uma grande revolta na região onde morava e os escravos o mataram e
esquartejaram. Desse fato pode ter se originado a lenda do “Tesouro dos escravos” que teria
se acumulado durante o tempo.
Luciano Pica-pau tinha uma opinião fulminante sobre o parente:
- Cristo para ele era conversa fiada - dizia.
-Por quê? - indagava Lucas.
- Era um hedonista.
- O quer dizer isso?
- Dedicava-se ao prazer dos sentidos. Para sua alcova levava tanto as negras de
canela finas, como as de canela grossa... Deixou uma prole de mais de vinte filhos naturais.
Haviam chegado a chácara que sediava a décadas o Colégio Americano e foram
atrás do Diretor, o “Seu” Temístocles.
Ele estava debaixo de uma Sapucaia, lendo um livro de capa grossa.
Lucas foi direto ao assunto:
- Luciano Carvalho e eu meditamos muito e queremos ser batizados na Igreja
Presbiteriana - disse Lucas.
“Seu” Temístocles os olhou de cima a baixo e depois lhes disse que não era o
momento de optarem por outra religião.
- Deem tempo ao tempo - ele disse e saiu andando devagarinho, olhando as nuvens
no céu
Luciano Pica-pau e Lucas ficaram estupefatos, olhando um para o outro e sem fala
por alguns minutos.
- Foi bom - disse Lucas - Pois tenho dúvidas da diferenciação que eles fazem entre
pobres e ricos.
Caminharam juntos até a entrada da Rádio Clube e se despediram lá.
Realmente, Luciano Pica-pau já não era o mesmo. Quem confirmou foi Adamastor
que chegou com a notícia de que o encontrara de terno e gravata - logo ele que detestava
vestir-se assim -, e uma Bíblia Sagrada nas mãos. Ele lhe dissera que agora estava
frequentando uma igreja evangélica e iria se batizar lá.
A partir deste dia mudou radicalmente seu comportamento e passou a exigir que o
chamassem de Luciano Carvalho.
- Enterrei muito bem enterrado o Luciano Pica-pau - ele disse quando se encontrou
com Lucas.
41
Lucas estava sentado no quartinho que era usado como Estúdio B da Rádio Clube,
assistindo Sergipano e dois locutores gravarem A Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de
Jesus Cristo, uma pequena novela que seria transmitida na Sexta-Feira Santa.
O roteiro radiofônico era uma adaptação do Evangelho Segundo Mateus e sofria
significativos cortes em razão do diminuto cast da Rádio Clube.
- Quando cheguei aqui em Santa Bárbara já encontrei este calhamaço - dizia
Sergipano - Deve ter sido escrito por algum padre que passou pela paróquia.
Sergipano se responsabilizava pela parte técnica das gravações feitas em dois
antigos gravadores Philips.
Josuel, um locutor de voz empostada, era quem vendia as cotas de publicidade de
cada um. No final dividiam tudo entre si o que melhorava o faturamento mensal.
Uma grande dificuldade era uma voz feminina, pois na rádio não havia nenhuma
locutora. Em razão disso as personagens femininas foram todas eliminadas do texto
original.
A parte mais emocionante da peça dramática era o Sermão da Montanha que
emocionava os ouvintes, principalmente os que moravam nas roças mais próximas da
cidade.
Outras cenas de sucesso eram quando Jesus expulsava os vendilhões do templo e a
Ressurreição.
Levavam horas de trabalho para obter um resultado acima da média.
Foi ali que Sergipano convidou Lucas para fazer dois programas muito importantes:
o Rádio Clube em notícias e a A Hora de Ângelus. Lucas tremeu nas bases, mas acabou
aceitando.
O Rádio Clube em notícias já nasceu fracassado e foi um dos poucos enganos de
Sergipano na sua programação. Era trabalhoso porque depois de esperar os jornais da
Capital, que sempre atrasavam, era preciso recortar cada notícia com gilete. E tomar
cuidado ao lê-la porque sempre sobrava ou faltava um rabicho, um pedaço de linha.
Outro defeito era ausência de notícias locais da cidade.
- Parece que o Mundo gira e Santa Bárbara está parada, sem nada acontecer - dizia
Lucas, decepcionado.
- O melhor era acabar com a novidade - afirmou Sergipano, porque a Rádio Clube
não tinha infraestrutura para montar uma equipe de jornalismo local.
A Hora de Ângelus era um programa de curta duração, sempre as 18 horas e cujo
conteúdo era apenas a oração da Ave Maria, em honra a Maria, mãe de Jesus, baseada no
cântico Magnificat registrado no Evangelho de Lucas 1:28, 42 e o locutor que a apresentava
era chamado respeitosamente de “Locutor da Ave Maria”.
Lucas, de tanta preocupação com a voz, sua inflexão e tom, tinha que ler o pequeno
texto que vivia esqu/ecendo:
Ave Maria, cheia de graça,
o Senhor é convosco.
Bendita sois vós entre as mulheres,
e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, Mãe de Deus,
rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte.
Amém.
Durante algum tempo o programa foi apresentado por padres ou leigos da paróquia
de Santa Bárbara, mas a experiência foi considerada péssima por Sergipano que preferia
usar o que ele chamava de prata da casa.
Uma tarde, durante a Semana Santa, o Sergipano e o Dr. Marcos, gerente da Rádio
Clube, foram convidados para uma conversa com o vigário da Paróquia.
O teor da fala do clérigo foi curto e grosso: o programa A Vida, Paixão, Morte e
Ressurreição de Jesus Cristo era contra a Santa Madre Igreja Católica.
- Criticou principalmente as gravações do programa - disse Sergipano.
No calor infernal do Estúdio B, muitos locutores apelavam e ficavam vestidos
apenas com cuecas.
Dr. Marcos prometeu que a atração seria retirada do ar e disse para Lucas:
- A Igreja Católica tinha uma grande rede de emissoras de rádios e jornais e está
acabando com tudo.
- Por quê? - perguntou Lucas.
- Porque é péssima administradora de seus bens - disse e voltou para seu escritório e
suas pilhas de processos.
Ele se referia aos grandes terrenos urbanos doados por fiéis e que estavam se
transformando em loteamentos.
Sertanejo disse que se o Vigário resolvesse pregar na igreja e no seu serviço de alto-
falante contra a Rádio Clube seria o fim da emissora.
Pela primeira vez Lucas sentiu na carne que a propalada força da liberdade de
imprensa tinha limites e que em Santa Bárbara eles eram ditados pela classe dominante e
por um merda de um vigário...
42
- Lucas! O Dr. Mauricinho quer falar com você! - disse Adamastor na porta da
cabine da rádio.
Curioso passou no escritório do Dr. Mauricinho na Praça principal. Ele era um
advogado famoso por livrar seus clientes dos rigores da lei, ser muito habilidoso e
estudioso.
Estavam os dois sentados em uma grande mesa de mogno e Lucas ouvia o que ele
lhe dizia.
- A imprensa em Santa Bárbara é uma atividade muito antiga - ele dizia - enquanto
folheava velhos jornais.
A Gazeta de Santa Bárbara havia fechado as portas depois de comprada por um dos
grupos políticos da cidade.
- Uma cidade que se preze tem que ter pelo menos um bom hebdomadário -
continuou o Dr. Mauricinho.
Ele devia ter no máximo trinta anos, era casado, pai de dois garotos e se formara em
Belo Horizonte.
- Precisamos de um jornal moderno e eficiente - completou.
Sua proposta era de que ele bancaria o jornal que seria impresso numa cidade
próxima e queria convidar Lucas, para ser seu sócio e principal editor.
- Um jornal exige gente de caráter e coragem - disse para Lucas.
Ao término da conversa os dois tinham se acertado e escolhido o nome do jornal:
Anonymous.
Lucas saiu do escritório pensando ser uma boa oportunidade para trabalhar no
jornalismo, sentindo-se um daqueles repórteres de filmes americanos.
Procurou Dulce Maria, contou-lhe a novidade e ela se comprometeu a escrever
notícias da juventude da cidade.
“Esta Dulce Maria é um a grande companheira! ”, pensou Lucas.
Em pouco tempo o primeiro número do jornal estava nas ruas e era um sucesso. Foi
assim sem grandes problemas, a não ser os costumeiros erros de entrega dos exemplares.
Tudo correu às mil maravilhas até que o Dr. Mauricinho disse para Lucas que iria
ocupar uma página inteira do jornal.
Foi uma das matérias mais violentas que Lucas já vira publicada em um jornal da
cidade. Tratava do Promotor Rafael e do Juiz João de Energúmenos.
- O que é isso? - perguntou Adamastor.
- Olha aqui no pai dos burros: indivíduo desprezível, que não merece confiança,
boçal e ignorante.
- E eles são mesmos - disse Adamastor.
No final da matéria Dr. Mauricinho dizia que os membros da Justiça em Santa
Bárbara eram corruptos, estavam achacando os cidadãos de bem e enriquecendo
ilicitamente. Com muita coragem, o advogado apresentava provas do que escrevera.
Lucas que tinha uma visão ideal da justiça, sendo os juízes velhinhos de cabeça
branca, muito honestos, se assustou com o que leu, Mas lembrou-se do que dissera o Dr.
Mauricinho sobre a necessidade do jornalista ser uma pessoa de caráter e coragem.
O Anonymous começou a ser distribuído depois da Hora do Angelus e logo
indivíduos não identificados haviam apreendido algumas pilhas e ateado fogo nos
exemplares.
Durante a madrugada atiraram nas fachadas das casas de Dr. Mauricinho e do pai de
Lucas.
- Antes que alguém morra é bom vocês fecharem este Anonymous- disse o pai de
Lucas enquanto tomava café com leite.
- Mas, e a liberdade de imprensa, pai? - perguntou Lucas.
- Acabe e ponto final - disse o pai carrancudo.
Lucas foi até o escritório de Dr. Mauricinho, discutiram a situação e resolveram
editar mais um número. Para esta despedida escreveram juntos um grande editorial.
Elaboraram matérias polêmicas: a primeira isentava o italiano Benito Debiasi da
destruição dos prédios históricos de Santa Bárbara; a segunda, contestava a possibilidade de
seres extraterrenos terem aportado na cidade e, a terceira, narrava uma estranha reunião
realizada pelo Prefeito Ignácio Pereira antes das explosões começarem.
Dr. Mauricinho juntava uma série de fatos que inocentavam Benito Debiasi, num
artigo intitulado “Um emigrante italiano para Cristo”. O advogado dizia que Benito
Debiasi não fora pego em flagrante delito, nunca foram encontrados explosivos na sua casa
ou nos seus serviços de construção contratados, tinha bons antecedentes tanto na Itália
quanto no Brasil, e que o laudo médico que o enviara para o Manicômio Judiciário não se
sustentava. Terminava pedindo justiça para Benito Debiasi e sugerindo que os verdadeiros
culpados ainda estavam à solta, caminhando tranquilamente pelas ruas de Santa Bárbara,
convivendo com a sociedade.
O artigo sobre os extraterrenos na cidade, escrito por Lucas, dizia não existirem
provas conclusivas quanto a possibilidade do pouso de um UFO na cidade e nem de laudos
técnicos das fotografias. Para o autor do artigo tudo podia não passar de uma psicose
coletiva dos moradores de Santa Bárbara.
“Uma estranha reunião” foi escrita por Dr. Mauricinho e Lucas, tendo como
principal depoimento o de Adamastor. Ele dizia que antes dos casarões serem explodidos,
por pura curiosidade, assistira a uma reunião do Prefeito Ignácio Pereira, com Alberto
Santos, comerciante, Expedito Neves, proprietário de uma transportadora e Heleno Bastos,
conhecido por suas ligações com o crime, principalmente. Os homens falaram muito sobre
a inauguração da Rodovia Fernão Dias, ligando São Paulo a Belo Horizonte.
Argumentavam com o prefeito que a cidade não poderia ficar aparte do desenvolvimento da
região. No final, ficou acertado que Heleno Bastos tomaria as providências necessárias para
acelerar o progresso em Santa Bárbara. Os articulistas insinuavam que este grupo era
suspeito de explodir os casarões.
Quando este número foi publicado ouve um grande reboliço na cidade, com as
pessoas disputando os exemplares e somente não sofreram mais retaliações violentas em
razão da opinião pública que deu razão as matérias do Anonymous. Entre perdas e danos
lucraram os dois editores: Dr. Mauricinho passou a ser reconhecido como um homem sem
medo e por isso líder da oposição política municipal e Lucas como um jovem talentoso e de
caráter. Os achaques de membros do judiciário aparentemente pararam, mas as
apropriações indébitas não foram desfeitas. E os outros acusados preferiram o silêncio.
43
Em Santa Bárbara anualmente ocorria três acontecimentos sociais no Clube, todos
muito aguardados pela sociedade: o Carnaval, o Baile das Debutantes e o Baile de
Formatura da Escola Superior. Este último era o mais famoso, principalmente porque a
Comissão de Formandos se esmerava na contratação de uma orquestra.
- Este ano será a Good Times, do interior de São Paulo. Um show! - disse
Adamastor que era um excelente repórter informal.
Como sempre seria um grande baile de gala, homenageando os formandos, suas
famílias e amigos.
As moças iniciavam-se nas suas viagens para Belo Horizonte, afim de comprar
sapatos na Nikolas da Avenida Augusto de Lima e tecidos finos, com os desenhos dos
vestidos feitos pelos figurinistas das lojas.
- Um bando de bichas loucas - esbravejava Luciano Pica-pau, mal-humorado.
Depois era só procurar uma afamada costureira local que estivesse disponível e em
seguida enfrentar as provas.
Os homens corriam as alfaiatarias a procura de smokings para serem alugados e se
esforçavam para comprar camisas finas.
O Clube de Santa Bárbara passava por uma faxina geral, com uma pintura nova.
Luciano Pica-pau gostava de dizer que ali era a sede da burguesia de Santa Bárbara.
Na verdade, era uma edificação moderna, um grande caixote, onde outrora havia um
casarão térreo. Presenciara grandes bailes, noites culturais e reuniões políticas. E também
ao mais famoso Carnaval.
No andar térreo havia mesas de sinuca e bilhar, as melhores da cidade, e uma sala
com mesas de tampo redondo, coberto de feltro verde, onde o jogo de pôquer corria
violento. Ali um tio de Lucas entrou um dia, rico, e saiu no outro, sem nada, perdendo duas
grandes fazendas de café herdadas pela mulher.
Por uma escadaria de mármore gasto pelo tempo subia-se do térreo para o primeiro
andar, onde se localizava o salão, testemunha de grandes paixões, traições sem fim e
grandes confusões. A mais lembrada fora uma briga entre duas famílias, por razões
políticas, iniciada ali e que prosseguiu pelas escadas abaixo.
Na portaria ficava sempre “Seu” Paulo, um porteiro de olhos embaciados, que vivia
chapado. Certo dia, encrencou com Luciano Pica-pau que insistia em tocar no piano de
cauda. Lucas então roubou-lhe um grande chaveiro com todas as chaves do prédio e o
jogou no primeiro bueiro que encontrou na praça. “Seu” Paulo era alcoólatra, mas não era
bobo, denunciou-os a Diretoria, e foram impedidos de frequentar o Clube por três meses.
Na noite do grande evento o porteiro era da Comissão de Formatura;
Pouco antes Adamastor distribuiu para cada um o convite especial.
- Sem nenhuma falsificação - disse - E não contou para ninguém como os
conseguira.
E falou para chegarem cedo no Clube, pois havia assistido o ensaio do Good Times
e era um espetáculo.
Chegaram no Clube no Pérola Negra, brilhando de tão limpo, com Nélson
chamando a atenção no volante.
Correu tudo às mil maravilhas e quando entraram no salão as luzes estavam
apagando e se acendendo os spots coloridos do Good Times.
Nem bem haviam encontrado as mesas onde iriam alojar-se quando a música
começou, e Lucas prestou bastante atenção: A Summer Place, Put Your Head On My
Shoulder; Everybody's Somebody's Fool;The Green Leaves Of Summer - The Brothers
Four; Puppy Love; Pillow Talk; I'm Sorry; Where Or When; I'll Never Fall In Love Again;
Adam and Eve; Cathy's Clown; Billy Boy; I Like Girls; It's Now Or Never; Lonely
Boy;Long Tall Sally, Blue Moon; Surrender; Ansiedad;The Twist; Calcutta; Look For A
Star; Apache; Runaway; My Home Town;Wonderland By Night; Pony Time; Michael; G.I.
Blues;Wheels; Never On Sunday; Run Samson Run; Boudah;,Save The Last Dance For
Me; My Love For You; Hey Mama; Multiplication; Peppermint Twist; Midnight In
Moscow;The Wanderer; Rock-A Hula Baby; Stella By Starlight; Las Secretarias; Ya Ya;
Moon River; Stranger On The Shore; Breaking Up Is Hard To Do; Speedy Gonzales; Come
September; Garota Solitária; Can't Help Falling In Love; I Can't Stop Loving You e Hava
Nagila.
O Good Times era um conjunto supercompetente, com dois crooners e quatro
cantoras no vocal. Mais músicos que sabiam o que estavam fazendo. Sua seleção musical
era muito dançante e logo a pista estava cheia de casais.
- Este Good Times é um espetáculo! - disse entusiasmado Adamastor.
Os formandos de Escola Superior sempre se esforçavam para que sua festa fosse
inesquecível depois de quatro anos de estudos, naquela que era considerada uma das
melhores escolas do país.
Muitos eram de outras cidades e estados, alguns deles moraram no Internato
Masculino do Colégio Americano e alguns constituíam repúblicas detestadas pelos
moradores de Santa Bárbara.
- Custou uma nota esta contratação - repetiu Adamastor.
Os formandos podiam se dar ao luxo da festa, pois desde o começo recolhiam sua
contribuição para o aparato da formatura.
Suas famílias eram convidadas e muito deles tinham namoradas firmes entre as
moças da cidade.
Uma equipe de fotógrafos procurava captar cada momento de emoção dos
formandos.
Uma equipe bem treinada de garçons servia bebidas e canapés em todas as mesas.
Nélson se assentara em uma mesa ao lado da namorada. Otávio e Luís dançavam
com Cora e Leda, duas irmãs consideradas galinhas pela turma.
Luciano Pica-pau estava cabisbaixo, bebendo uísque sem parcimônia, como se
estivesse em outro mundo.
Adamastor andava por todos os cantos do salão, conversava com todo mundo e
parecia tratar aquela festa como se fosse sua.
Lucas já estava um pouco alto quando viu Rebeca em pé ao lado de sua mesa. Ela
era bonita, tinha um corpão, mas estranhamente se encaminhava para ser uma eterna
solteira. No hospital onde trabalhava como enfermeira era considerada uma excelente
profissional, mas mais de um dos médicos do corpo clínico que tentara a conquistar
quebrara a cara.
- Não misturo amor com serviço - ela havia dito mais uma vez.
Agora ela estava ao lado de Lucas, com um lindo sorriso escancarado.
-Vamos dançar comigo? - ela disse, quebrando a tradição de que somente os rapazes
convidavam seus pares.
O Good Times tocava Let's Twist Again um sucesso do momento, na voz de um
gorducho chamado Chubby Checker.
- Por que logo eu? - quis saber Lucas.
- Você faz meu gênero - ela respondeu.
Lucas segurou sua mão e saíram dançando pela pista.
Ele estava alegre como nunca, apesar de saber que estava procurando confusão. No
meio de toda aquela gente havia amigas de Mariana Helene e ele já se encontrava
comprometido em rolos com garotas do Colégio das Irmãs.
A seleção musical terminara e para manter o pique uma cantora moreninha atacou o
hit do momento de Celly Campello:
Tomo banho de lua, fico branca como a neve
Se o luar é meu amigo, censurar ninguém se atreve
Mas é tão bom sonhar contigo, ah! Lua tão cândido
Sob um banho de lua, numa noite de esplendor
Sinto a força da magia, da magia do amor
Mas é tão bom sonhar contigo, ah! Luar tão cândido,
Tim,tim,tim raio de lua./tim,tim,tim, baixando vem ao mundo
Oh! Lua,oh! Cândida Lua vem
Tomo banho de lua, fico branca como a neve
Se o luar é meu amigo, censurar ninguém se atreve
Mas é tão bom sonhar contigo, ah! Lua tão cândido
Tim,tim,tim raio de lua./tim,tim,tim, baixando vem ao mundo
Oh! Lua, oh! Cândida lua vem
Sob um banho de lua, numa noite de esplendor
Sinto a força da magia, da magia do amor
Mas é tão bom sonhar contigo, ah! Luar tão cândido,
Mas é tão bom sonhar contigo, ah! Luar tão cândido,
Mas é tão bom sonhar contigo, ah! Luar tão cândido.
A cabeça de Lucas girava sem parar, acompanhando os passos de Rebeca pelo
salão.
Com o rabo dos olhos viu Dulce Maria, num lindo vestido dourado, caminhando
para a escadaria abraçada a Lazinho, todo enfatiotado.
Foi até a mesa Otávio e lhe pediu o Fusca azul emprestado por meia hora. Ele
morria de ciúmes do carrinho, mas sabe-se lá por que cargas d´água resolveu emprestá-lo
ao amigo.
Lucas apanhou o chaveiro e saiu abraçado com Rebeca. Sentia como se todas as
mulheres no salão estivessem de olho nos dois.
Os efeitos do álcool pareceram diminuir quando saíram no Fusca azul e foram para
a “Terra do Sem Fim” que era como denominavam uma região além dos trilhos da ferrovia
que fora desativada.
Rebeca era uma mulher experiente e conhecia todas as manhas.
- Ela tem um filho com o famoso cantor Nélson Gonçalves - dizia Adamastor - É
gago e baba como o pai.
- O filho canta bem? - perguntou Luciano Pica-pau.
- Não canta nada - afirmou Adamastor.
- Então não tem graça nenhuma - disse Luciano Pica-pau e saiu chutando o chão
como era seu hábito.
Os dois se beijavam e se abraçavam no pequeno espaço da cabina do carro e Rebeca
parecia uma maritaca falando sem parar, narrando suas experiências na vida sexual.
De repente um jipe encostou ao lado do Fusca Azul e cabo Júlio, chefe do
destacamento desceu com um trezoitão na mão.
- Ah, é você, seu metidinho! - disse-lhe o meganha com o foco da lanterna no seu
rosto e de Rebeca que estava toda enrodilhada aos seus pés.
Apesar daquele ser um local perigoso para namorar, Lucas sabia que o cabo Julio
aumentava seu soldo com flagrantes igual aquele.
- Passa na Rádio Clube amanhã - resolveu arriscar Lucas.
O militar com quem Lucas já tivera várias pinimbas resolveu aceitar a proposta.
- Cuidado! - disse antes de entrar no jipe - Aqui é um lugar muito perigoso...
- E agora? - perguntou toda lânguida Rebeca.
Lucas inventou uma desculpa e tocou o Fusca azul de volta ao Clube de Santa
Bárbara, certo que se insistisse aquela seria a maior brochada de sua existência.
O Good Times, alta madrugada, encerrava com uma seleção de músicas brasileiras
aquele que foi na opinião de todos o maior baile que a cidade de Santa Bárbara já vira:
Menina Moça; Não Tenho Namorado; Marcianita; Espante a Tristeza; Bat Masterson;
Biquini de Bolinha Amarelinha; Ninguém é de Ninguém; O Barquinho, A Lua é dos
Namorados e Feche os olhos.
Nem bem Lucas pisou no salão Adamastor veio com a pergunta:
- Gostosa a Rebeca?
Não respondeu ao amigo certo de que teria de enfrentar mais confusões.
44
Dia seguinte ao Baile da Escola Superior vários boatos e fofocas corriam pela
cidade, alguns amplamente comprovados e outros não.
O maior deles é que Lazinho e Dulce Maria haviam fugido juntos.
- Fugir? Para que? Eles tinham toda a liberdade na casa dela - disse Lucas.
Estava pensando como faria sozinho o programa musical quando um engraxate
negrinho, apelidado de “Bola Sete”, apareceu trazendo um bilhete de Dulce Maria para ele.
No bilhete Dulce Maria lhe dizia que ela e Lazinho haviam resolvido morar juntos,
sem casamento e que por este motivo estavam se mudando para São Paulo.
Ela dizia que Lucas conhecia o temperamento arrebatado de seu primo que dizia que
os e habitantes de Santa Bárbara era todos medievais e não iam entender o relacionamento
dos dois.
Afirmava que as moças e rapazes da cidade eram criados para repetir o que os pais,
avós e outros descendentes faziam a décadas, que era trabalhar de sol a sol e se reproduzir
de forma eficiente. Não só na procriação como nos atos rotineiros, na moral e na ética.
Pretendiam que seu casamento fosse aberto o que não seria compreendido por
ninguém e todos pensariam que sua intenção final era pura sacanagem.
Ao final, Dulce Maria pedia desculpas por ter que deixá-lo na mão em um
importante momento como foi a criação de Você e a MPB e prometia dar notícias.
Lucas leu o escrito no papel apergaminhado, com flores decorativas nas
extremidades, bem ao estilo de Dulce Maria, colocou no bolso da camisa e se dirigiu a sala
de Sergipano para avisá-lo que de agora em diante faria o programa Você e a MPB sozinho,
até que porventura Dulce Maria se cansasse de sua aventura e voltasse para casa. Afinal de
contas haviam criado aquela atração da Rádio Clube juntos.
Nem bem pisou na Cerâmica São Caetano vermelha, ele lhe disse que o Dr. Marcos
queria falar com os dois.
Ele os recebeu meio perdido entre pilhas de processos e curto e grosso disse-lhes
que seria construída mais uma linha física até a sala de reuniões da Câmara Municipal de
Vereadores, permitindo que a sessão semanal fosse transmitida ao vivo.
A Lucas caberia a responsabilidade da transmissão que não era das mais complexas.
Ele aceitou de pronto, pois sua determinação era adquirir experiência radiofônica e
já fazia bastante coisas na emissora, que lhe tomavam o tempo vago quando não estava no
Colégio Americano.
Na opinião de Lucas aquele era o programa mais hilário da Rádio Clube e os
ouvintes se divertiam com ele.
Os vereadores, que não recebiam nada, eram eleitos pelo povo e o representavam da
mesma forma de um corte em uma laranja, com aspectos bons e ruins.
- Esta é uma Câmara totalmente diferente - dizia o Vereador José Armindo,
comerciante e presidente.
Lucas achava que ele tinha razão, pois além de umas figurinhas carimbadas, havia
dois advogados da Comarca e dois professores, sendo um deles “Seu” Temístocles, diretor
do Colégio Americano.
Quem pensava que esta seria a melhor representação legislativa da cidade, logo viu
que estava enganado.
Impossibilitados de propor ações que gerassem despesas e diante de uma Prefeitura
Municipal com os cofres vazios, se meteram numa discussão fútil sobre a possibilidade de
trazerem até a Casa o Vigário que abençoaria um crucifixo a ser colocado acima da mesa
diretora.
Esta discussão durou exatamente três meses, virou assunto dos jornais da capital
pela intransigência das partes e terminou como começou, na estaca zero.
- Somos um poder laico - afirmou o Vereador Presidente José Armindo, que tinha a
experiência de vários mandatos.
Pessoas da cidade asseguravam que um vereador que pedira a ligação de água em
um determinado local, fora informado pelo Chefe de Obras da Prefeitura que seria
impossível em razão da Lei da Gravidade. O vereador então propusera ao plenário a sua
revogação...
Lucas assegurava que assistia a todas as sessões e isto não acontecera. Era folclore
ou perseguição política.
Bem ou mal, Lucas gostava de abrir e fechar as transmissões, pois não havia
publicidade a ser lida, pois Dr. Marcos conseguira a façanha do horário ser patrocinado
pelo Poder Público.
Era também uma experiência gratificante se relacionar com aqueles políticos de
arraial que criticavam o Prefeito Ignácio Pereira, que durante todo o seu mandato não
conseguira uma audiência sequer com o Governador do Estado, seu correligionário...
Foi ali que Lucas começou a entender como funcionava a mecânica da atividade
estudantil na União Colegial Municipal de Santa Bárbara (UCMS).
Seu grupo foi ficando forte a cada Assembleia realizada até conseguir juntar
representantes dos colégios da cidade e eleger João Paulo Cunha, presidente da entidade e
que era de uma pequena cidade próxima a Santa Bárbara.
- Entrei em contato com Travassos e Zé Dirceu - reportava João Paulo Cunha depois
de uma viagem a capital.
Para Lucas aquele era um tempo que não esqueceria jamais.
45
Lucas chegou a casa de Paulo e Rosa já meio amuado e viu a sacola que Mariana
trazia com suas roupas colocada sobre uma poltrona.
Além do acontecido com Rebeca no Baile de Formatura ele havia se envolvido em
outras confusões com Elizângela e Telma, duas garotas que estudavam no Colégio das
Irmãs.
- O homem é danado! - afirmava Adamastor - Saiu com as duas irmãs.
O amigo o pressionara o tempo todo para saber onde levara as duas que eram
consideradas levadas da breca.
Lucas nunca lhe disse o que considerava “seu grande segredo”, mas as duas
sirigaitas acabaram contando para a cidade inteira que haviam passado horas na cabine de
locução da Rádio Clube.
Volta e meia Sergipano chamava as falas um dos locutores mais velhos, que
quebrava o regulamento de regras não escritas e levavam mulheres para o recinto da
emissora, o que poderia significar demissão sumária de gente que necessitava daquele
trabalho para sobreviver.
- Dizem que Elizângela e Telma aprenderam tudo que sabem de sacanagem nos
“catecismos” - aventurou Adamastor.
Sergipano apenas olhou Lucas sorrateiramente e não disse nada.
Realmente, havia sido uma noite memorável, melhor do que a escapada com
Rebeca.
Mariana entrou na sala de repente, com o semblante sério e um biquinho na boca.
Ao aproximar-se desferiu uma bofetada no rosto de Lucas e que doeu muito. Se não
tivesse segurado seus dois braços a agressão continuaria, pois ela encontrava-se
completamente fora de si.
- Não sei qual delas é mais vagabunda - gritou finalmente - Mas o pior de todos é
você.
E despejou um monte de palavrões e impropérios de um inusitado repertório e que
visavam principalmente o caráter de Lucas.
- Você é um calhorda, um tarado sem vergonha! - ela gritava em altos brados sem se
preocupar que os moradores da casa pudessem ouvi-los.
Depois sentou-se na poltrona e começou a chorar deixando Lucas sem ter o que lhe
dizer.
Mas, logo ele se recuperou e lhe disse de chofre, seu último argumento, a carta que
retirava da manga:
- Não sou só eu... Você também está aprontando com aquele japonês, o Paulo...
-Quem lhe disse isso? - ela perguntou assustada e cessando de imediato a
choradeira.
Ele não ia lhe dizer, mas fora Adamastor que dava notícia de tudo o que acontecia
na cidade;
- Você tem uma defesa - disse-lhe o amigo - Mariana também está de asa caída para
aquele tal de Paulo, o japonês.
Desde o picnic Lucas percebera isso, mas achava que seria coisa passageira, própria
de quem vivia trancada num quarto acompanhada de outras mulheres.
Mariana olhou bem nos seus olhos e reconheceu o seu erro.
Tudo poderia ter acabado naquele momento e continuariam juntos.
- A vida é assim mesmo. O amor é assim. Sempre foi assim, paixão, desejo, ciúmes
e traição... - ela disse.
E falou por quase meia hora, dizendo que eram jovens demais e muitas vezes não
podiam compreender estes fatos da vida.
Contou então que seus pais haviam namorado e noivado por anos e depois ficaram
juntos mais um bom tempo. Até o dia que sua mãe, que era de uma família tradicional, fez
as malas e fugiu com um caixeiro viajante. Seu pai ficou furioso e saiu para matá-los, lavar
a honra ferida. Não os encontrou, caiu em depressão. O que o salvou foi a necessidade de
criar os filhos. Ela nunca mais voltou e nem mesmo procurou pelos filhos.
Em questão de minutos Lucas reconheceu que para Mariana mais importante do que
Rebeca, Elizângela e Telma era que o que pensavam ser um amor eterno que estava
chegando ao fim.
Já sentia que o prazer de estarem juntos acabara e não fora coisa de momento, mas
algo que só fora bom enquanto durara...
- E então? - ela lhe perguntou.
Ele olhou o casario pela moldura da varanda e lhe disse que esperava que fosse
muito feliz, com Paulo, ou outro alguém.
Convidou-a então para irem até um barzinho que fora inaugurado perto da praça, o
Pub, que só tocava rock.
- Como despedida- ele disse.
O lugar era agradável e conversaram pouco e beberam muitas Cuba Libre.
Em pouco tempo Mariana estava chapada e com ânsias de vômitos.
- Que despedida de araque! - disse e resolveu levá-la a um médico que morava num
sobrado na praça.
O médico, acordado em plena madrugada diagnosticou como início de coma
alcoólica e disse que aplicaria uma injeção. E disse o preço da consulta e da injeção que
pareceu a Lucas um absurdo.
Ainda mais que Mariana começou a dormir nos seus braços e teve que chamar um
carro de praça para deixá-los na casa
Tocou a campainha, Paulo apareceu de pijama e entregou-lhe Mariana.
Virou as costas e deixou Mariana para trás, uma doce lembrança do passado.
- Até mais - disse-lhe e se encaminhou para as escadas que levavam até o hall da
entrada do prédio.
Na rua assoviou Ninguém é de ninguém e apressou os passos em direção da Rádio
Clube, único local em que pensara se dirigir...
Ninguém me ama, ninguém me quer
Ninguém me chama de meu amor
A vida passa, e eu sem ninguém
E quem me abraça não me quer bem
Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso
E hoje descrente de tudo me resta o cansaço
Cansaço da vida, cansaço de mim
Velhice chegando e eu chegando ao fim.
“Antônio Maria era um gênio”, pensou.
46
De todos os seus amigos Lucas tinha um apreço todo especial por Adamastor.
Filho de uma família tradicional de Santa Bárbara, viu seus pais decaírem cada vez
mais na escala social, fruto, principalmente, do alcoolismo do pai Betão.
Betão, muito letrado, acabou através de um político da cidade sendo nomeado
secretário da maior escola estadual da cidade e dizimava seu salário nos lupanares da Zona
Boêmia.
Adamastor era um dos seus cinco filhos, viviam agastados e acabou por desenvolver
dons que fascinavam Lucas, como os investigativos, que faziam dele uma das pessoas mais
bem informadas da cidade e a honestidade com os amigos.
- São gostosas tanto mãe quanto a filha - ele exclamava ao cruzarem por Rose, 32
anos e sua filha Natália, 15 anos.
O pior é que ele estava cheio de razão, pensava Lucas.
Mas, vira e mexe, se metia em grandes confusões, quase todas resolvidas pelo
amigo Lucas e pelo advogado Dr. Mauricinho.
Diziam que sua especialidade era surrupiar peças antigas ou forjá-las e vender para
os trouxas.
- Ele compra uma roca novinha, feita pelo Sô Eufrásio Marceneiro, deixa sessenta
dias num galinheiro e a transforma em uma peça antiga - dizia Lazinho rindo das estripulias
do amigo.
Sobre ele pesava a suspeita do desaparecimento do forro pintado por um discípulo
de Aleijadinho na Igreja de Santa Bárbara.
- Numa das obras de restauração retirou peça por peça de madeira - dizia Luciano
Pica-pau.
Em seguida tudo fora transferido para Belo Horizonte e ornamentava o vão de
entrada do apartamento de um grande colecionador de Minas Gerais, diziam.
Mr. Stanley contratou Adamastor para vasculhar toda a região, “trocando” imagens
de santos do período barroco por outras de gesso.
Lucas não gostava de Mr. Stanley, que era muito louro e de pele avermelhada:
- O “Camarão” é um grande vigarista, um escroque!
Todos sabiam que Adamastor vivia de pequenos expedientes, alguns deles muito
pouco legais e até mesmo perigosos.
E num belo dia Mr. Stanley, o “Camarão”, apareceu com dois americanos a tiracolo,
num Galaxy americano, vermelho:
- São da AMCO INC e vão instalar um escritório de negócios em Santa Bárbara.
Lucas ficou pensando que já ouvira este nome em algum lugar, mas resolveu deixar
o assunto em segundo plano.
Ben e Smith, os “gringos” alugaram a maior e mais bonita casa da Rua Principal,
que transformaram em escritório e residência.
Passaram então a fazer compras, de roupas, eletrodomésticos e a vender cotas de sua
empresa para os cidadãos santa-barbarenses. E a namorar as moçoilas da cidade...
Lili, que morava defronte a casa deles foi a primeira pessoa a desconfiar do silêncio.
Subiu numa janela e deu o alerta:
- A casa está vazia. Não tem ninguém lá!
Cabo Julio foi chamado e verificou que Ben e Smith haviam desaparecido com tudo
que haviam comprado.
Mr. Stanley, o “Camarão”, também sumiu do mapa e Adamastor só não foi preso
graças a seu amigo Dr. Mauricinho.
Ele descobriu que Ben e Smith faziam parte de uma quadrilha e nem mesmo
estrangeiros eram, sendo originários de São Paulo.
Dr. Mauricinho, bolou um plano, e junto de cinco das muitas vítimas, partiram para
São Paulo, o que foi uma péssima ideia.
Do bando fazia parte até um delegado e foram recebidos a bala.
Voltaram para Santa Bárbara, assustados, com o rabo entre as pernas e resolvidos a
esquecer do assunto.
Adamastor deu Graças a Deus por escapar de mais esta encrenca.
Da história, só restaram as namoradas, que passaram a ser chamadas de “As viúvas
dos gringos”...
47

Era a última semana de trabalho de Lucas Sobrinho na Rádio Clube.


O Sergipano ainda não chegara e ele resolveu sentar-se na sua mesa para passar o
tempo.
Hoje estrearia um programa dos crentes. Há muitos anos a Rádio Clube transmitia
programas evangélicos gravados em fitas.
Sem mais nem menos entrou o prefixo do novo programa e em seguida uma voz
masculina.
"A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria,
ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais,
cantando ao Senhor com graça em vosso coração." [Colossenses 3:16].
- Acompanhem-nos num louvor ao Senhor. Tudo Cristo Fez Por Nós-disse a voz.
Tudo por Jesus foi feito,
Nada por fazer deixou.
Vida de prazer perfeito
Pela morte nos legou.
Seu, o feito; nosso o gozo;
Nossa, a vida; sua, a cruz;
Seu, o cálice amargoso;
Nossa, a glória a que conduz.
Lucas levantou-se de repente, pois reconhecia aquela voz.
Foi até a cabine e viu seu amigo Luciano Pica-pau, o Luciano Carvalho, ao lado de
uma mulher de cabelos presos com um coque, cantando acompanhado por um violão.
Esperou o término da apresentação do programa e foi cumprimentá-lo.
Ele apresentou a mulher ao seu lado, com um vestido comprido, sem nenhuma
maquiagem, como Diva, sua noiva.
-Descobri o meu caminho e me converti - ele disse.
Em seguida contou que Diva, que era filha do pastor de sua igreja, e ele iriam se
casar no próximo final de semana.
Disse também que desde que começara a frequentar a igreja nunca mais tivera
visões e nem ouvira vozes.
-Eram coisas do demônio - disse.
Lucas estava pasmo com a mudança do amigo, seu companheiro de todas as paradas
e farras.
Ele disse que agora dedicava todo seu tempo para estudar as escrituras e a
evangelização.
-Descobri uma finalidade divina para meu dom para a música e o meu violão -
disse.
Antes de se despedir ele contou um segredo que guardara por tanto tempo. No caso
daquela pornografia toda Lucas não fora expulso do Colégio Americano porque havia um
outro caso tratado às escondidas.
- Qual outro? - quis saber curioso Lucas.
Havia uma suspeita de que um professor havia assediado sexualmente um aluno.
Luciano Carvalho não disse quem era. Ele, com seu violão, sua Bíblia e um terno
escuro, tomou as mãos de Diva e saíram da emissora.
Este programa de Luciano Carvalho e Diva continuou a ser apresentado durante
anos.
- Nunca falham. E o pagamento é feito com moedinhas do dízimo - disse Sergipano.
Lucas estava se preparando para apresentar Você e a MPB sozinho, como já vinha
fazendo, quando Dulce Maria entrou no estúdio e o abraçou.
- Voltei! - ela disse e ele percebeu por baixo do vestido uma barriguinha
proeminente.
Contou então que ela e Lazinho quando saíram do Baile de Formatura caíram no
mundo e foram muitos felizes.
- Um dia a gente estava num cidadezinha linda, chamada Conservatório, no Rio de
Janeiro quando o dinheiro que havíamos juntado para a aventura de nossa vida acabou. Dia
seguinte acordei e Lazinho tinha sumido. Ele falava muito de Bonito, no Pantanal. Deve ter
ido para lá ... Mas, um dia volta - ela disse.
Depois como se nada houvesse acontecido neste tempo que passara sentou-se no
banquinho para apresentar o programa.
- Vou fazer como você. Vou continuar o programa sozinha.
E riu:
-Sozinha, não! Eu e o bebê...
48
Por puro hábito Lucas havia passado pela Rádio Clube e deu de cara com o
Sergipano sentado a sua mesa, com uma pilha de LP´s ao seu lado.
- Não consegue se desligar da gente? - perguntou sorrindo.
Na cabine de som estava Mário Oliveira, apresentando seu programa O Sertão em
sua casa.
Lucas Sobrinho admirava muito Mário Oliveira, por seu talento e devoção as artes
numa cidade que não dava valor a este tipo de gente.
- No circo sempre fiz o papel de palhaço - ele contava para Lucas Sobrinho.
E dizia que o palhaço era uma espécie de alter ego.
- Ao assumir o palhaço Tenebra posso criticar todas as pessoas que nem percebem
isso - ele dizia rindo.
Lucas Sobrinho, de certa feita, foi assistir uma apresentação dele em uma cidade
vizinha, num circo mambembe, de arquibancada cheia de tábuas quebradas e a lona com
grandes rasgos.
Neste dia ele estava inspirado e criticou a cidade inteira, o Padre, as beatas, os
milicos.
E todos davam gargalhadas de suas piadas simplórias, mas que cortavam na carne.
Adeus meu bem adeus, adeus que eu já vou embora
Sigo viagem chorando quem fica não sei se chora
Vou tirar meu coração fazendo um corte no peito
E deixo pra quem eu amo pra guardar com muito jeito
Se tiver um lugar no mundo que ainda ninguém pisou
Eu saio agora sofrendo chorando pra lá eu vou.
Mário Oliveira era apaixonado pelo que chamava de música sertaneja de raiz e se
deixassem fazia um programa só com as músicas de Tião Carreiro, de Montes Claros, e
Pardinho, que conhecera no tempo em que morara em São Paulo.
Mas seu ídolo era José Bettio, o Zé Bettio, renomado radialista brasileiro, nascido
em São Paulo, simples e bem-humorado, que conquistou grande audiência em São Paulo.
- Uma espécie de santo protetor de muitos artistas, como Milionário e Zé Rico -
dizia Mário Oliveira.
Lucas Sobrinho gostava de vê-lo apresentando seu programa, cabelos lisos fixados a
custa de brilhantina Glostora, penteados para trás com um pente de osso, que carregava no
bolso e sua pasta de couro preto, onde transportava seus papéis.
Vira e mexe juntava seus amigos e família e montava uma peça teatral.
Lucas Sobrinho fingia não saber, mas ele era o autor do original tripudiado pela
Igreja Católica de A Vida, Paixão e Morte de Jesus Cristo, onde com vozeirão interpretava
o Diabo.
- Se o Diabo não existisse como é que íamos diferenciar o Bem do Mal? - ele
perguntava.
Tinha um olho vazado e escrevia com letras bem grandes.
Um dos seus grandes sucessos era a interpretação do monólogo As mãos de
Eurídice, de Pedro Bloch, que apresentava sempre a convite de clubes da cidade.
O espetáculo conta a história do bem-sucedido escritor Gumercindo, que decide
abandonar os familiares e fugir com a bela e jovem Eurídice para Mar Del Plata, na
Argentina. Aos poucos, no entanto, ele chega à ruína, pois Eurídice gasta toda sua fortuna.
Algum tempo depois, os dois se separam e, arrependido, ele volta para casa, mas a família
que encontra não é mais a mesma. A esposa, por exemplo, já tem um novo marido.
E levava as plateias as lágrimas, com sua histriônica e trágica forma de representar.
Um dia, confidenciou a Lucas Sobrinho que tinha várias peças teatrais registradas e
músicas sertanejas que lhe davam algumas migalhas.
-No Brasil o direito autoral é uma zona! - ele dizia gargalhando.
Na época das campanhas políticas se travestia de apresentador oficial dos comícios
de Inácio Pereira
Lucas Sobrinho queria saber sua opinião sobre o político:
- Um crápula! Como grande parte dos políticos brasileiros - resumia.
Para Lucas Sobrinho confidenciava que Tancredo Neves e Magalhães Pinto eram
meros aproveitadores do Povo.
Lucas Sobrinho sabia que admirava Leonel Brizola, de quem guardava vários
quilômetros de fios gravados com discursos, num aparelho Philips holandês que ganhara
em São Paulo.
- Só ele e o paulista Ulysses Guimarães podem mudar o Brasil - dizia.
Lucas Sobrinho concordava, apesar de nunca ter ouvido falar de Ulysses Guimarães.
E ele voltava para seu reino, na minúscula cabine de locutor:
- Meus amigos, continuamos com nosso programa, com o melhor da música
sertaneja. Nosso abraço para Dona Quica e seu marido Bastião, na Fazenda Boqueirão. E
um até breve muito especial para o jovem Lucas Sobrinho, nosso companheiro aqui na
Rádio Clube e que em breve estará nos deixando para novas empreitadas no rádio das
Alterosas. Que Nossa Senhora do Desterro o proteja e lhe dê muito sucesso, amigo”
Fez-lhe um aceno pelo vidro e acenou-lhe com a mão, enquanto Sergipano soltava o
prato do toca-discos.
- Ouçamos agora Pena Branca e Xavantinho...
“Grande figura o Mário Oliveira”, pensou Lucas Sobrinho.
Os versos e os números na roleta...
Nem bem entrou no alpendre de sua casa viu os dois urubus sentados nas poltronas
metálicas
Do outro lado sua mãe Clarice os ouvia atentamente.
Eles traziam um convite de certa forma irrecusável: ofereciam cama e mesa em Belo
Horizonte pra Lucas se alojar.
-São casas muita amplas, limpas e organizadas, disse Clécio, que era de Santa
Bárbara.
A seguir o outro informou que os jovens que moravam na casa rezavam várias vezes
por dia.
- E vocês não terão que pagar nada pela estadia de Lucas- disse Clécio.
Quando saíram Lucas disse para mãe que não queria morar com aqueles fanáticos.
Felizmente Dona Clarice entendeu o que o filho dizia e o assunto foi encerrado...
Ao sair de casa deu de cara com Adamastor.
- Me apresentei hoje no Tiro de Guerra - ele disse com uma cara de poucos amigos.
O Tiro de Guerra era um órgão do Exército Brasileiro mantido pela Prefeitura
Municipal.
- E daí? - perguntou Lucas.
- Eu e aquele tal de Tenente Fajardo não vamos nos dar bem.
O Tenente Fajardo ou Sargento Tainha como também era chamado era autoritário e
pegava no pé da rapaziada.
- Ninguém sabe quem é ele e de onde veio - disse Adamastor - Ele pensa que é o
próprio Exército Brasileiro - concluiu.
Lucas não teria que enfrentá-lo pois iria se apresentar no CPOR, em Belo Horizonte.
Mas, todos os jovens santa-barbarenses colecionavam uma série de histórias do
Sargento Tainha que vivia encrencando principalmente com os atiradores mais pobres.
Segundo as lendas com os ricos ele não se metia a besta.
- Ele colocou quatro atiradores para encerar a sede - contava Adamastor - E ficou
defronte deles pisando no que já fora feito.
Na versão de Adamastor, começou a importuná-los, chamando-os de mariquinhas.
- Foi quando o Orestes, filho de um fazendeiro muito rico lá da Vargem Grande,
lhe disse para tirar as patas do chão.
Ele ficou vermelho, quase roxo, mas se conteve. Se fosse outro qualquer perderia
pontos e seria enviado para o Exército.
Sargento Tainha se vingava dos mais revoltados com seus métodos na Grande
Marcha, uma corrida de longa duração que deixava muitos caídos pelo caminho.
- Orestes foi o primeiro a sair carregado direto para o Hospital - dizia Adamastor -
Quase morreu - completava.
Outra especialidade do Sargento Tainha era convocar os atiradores para dar um
banho nos mendigos e alienados da cidade na fonte da Praça Principal, até o dia em que
quase matou afogado um pedinte muito querido chamado de Zé Pitimba.
- Dr. Mauricinho vai ter uma conversa com ele a meu respeito - disse Adamastor
que confiava muito no amigo.
Dali Lucas saiu para uma festa no Colégio Americano, para se encontrar com
Mariana Heléne.
Estavam na alameda principal, defronte da residência do Diretor Geral do Colégio
Americano, Mr. Kim.
- Nunca vou esquecer de você, Mariana - dizia Lucas.
-Você foi meu grande amor - falava Mariana.
E se abraçavam e se beijavam ardentemente.
Foi quando apareceu Mr. Kim, lhe deu uma grande bronca e os separou.
- Se não estivéssemos no final do ano vocês seriam expulsos do Colégio - ele
gritava, vermelho que nem um peru.
Naquela noite Lucas foi para a Rádio Clube de Santa Bárbara para um programa
especial, de despedida, com uma seleção de músicas fenomenal.
Ao programar as músicas ficou em dúvida com qual delas abriria a programação.
Finalmente, falou:
- Meus amigos da Rádio Clube. Vamos iniciar esta seleta programação musical que
marca a minha despedida deste prefixo com esta música...
E fez sinal para que Sergipano soltasse o LP.
- Tom Jobim canta Insensatez, letra e música de sua autoria – disse.
A insensatez
Que você fez
coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor
o seu amor um amor
tão delicado
Ah porque você
foi fraco assim
assim tão desalmado
Ah, meu coração
quem nunca amou
não merece ser amado
Vai meu coração
ouve a razão
usa só sinceridade
Quem semeia vento,
diz a razão,
colhe sempre tempestade
Vai meu coração
pede perdão
perdão apaixonado
Vai porque quem não
pede perdão
não é nunca perdoado
“Este programa especial tem o patrocínio das Organizações Habib, que oferecem as
últimas novidades do mercado com qualidade para seus clientes” - disse Lucas Sobrinho.
Nunca sentiu-se tão emocionado com a presença de Dulce Maria, Adamastor,
Lazinho e Dr. Mauricinho. Uma ausência sentida era de Luciano Pica-pau que não mais
andava com sua velha turma.
Em seguida Sergipano soltou os discos de Roberto Carlos em “Quero Que Vá Tudo
Pro Inferno”; Elis Regina com “Arrastão”; Caetano Veloso em “Alegria, Alegria”; The
Beatles em “Twist and Shout” e “Roda Viva” com Chico Buarque.
Riu ao pensar que Luciano Pica-pau não aprovaria a inclusão de “Roda Viva”, pois
detestava os Buarque de Hollanda.
- Vermelhinho de barzinho - ele vivia dizendo do músico consagrado.
- Agradeço a vocês todos que me acompanharam através das ondas da Rádio Clube.
Um grande abraço e me despeço de vocês com uma música bem alegre, dançante: Neil
Sedaka em “Oh! Carol”.
Mas a sua grande surpresa foi quando viu sentada perto de Sergipano, a
companheira de muitas noites, Anita, que sorriu para ele.
49
Naquela manhã quando Lucas chegou a Rodoviária ainda não havia quase nenhum
movimento.
Lucas olhou e viu num canto, cercada de malas, Mariana Heléne e seu pai.
Ela veio cumprimentá-lo e disse
- Estamos indo para o Sul. Vou fazer teste num grande time de vôlei.
E voltou para o lado do pai.
Foi quando chegou Adamastor, “O homem das novidades”.
- O Dr. Mauricinho me chamou para conversar - ele disse - Quero voltar com a
circulação do Anonymous. Com muito mais exemplares. E vai comprar uma máquina
impressora offset. Vou escrever no jornal e ser diretor comercial. Que achas?
- Parabéns. E quem vai pagar esta farra toda? - perguntou Lucas
- Como assim? - disse Adamastor.
- Que grupo político? - disse Lucas desconfiado.
- Um grupo que pretende eleger Dr. Mauricinho prefeito ou deputado - afirmou
Adamastor.
-Como sempre! - exclamou Lucas.
- E ele mandou lhe dizer que os seus processos foram todos arquivados - concluiu o
amigo.
Ficaram conversando até que o ônibus em que Mariana Helene e o pai embarcariam
para São Paulo estacionou.
Foi até ela e deu beijo despedida.
- Boa sorte - disse Lucas
A seguir chegou o ônibus para Belo Horizonte.
Viu os acenos de Mariana Helene e se despediu do amigo Adamastor.
O ônibus estava cheio de jovens que estudavam ou trabalhavam em Belo Horizonte,
Anos atrás iam todos para o Rio de Janeiro. Depois da construção da Rodovia
Fernão Dias, o fluxo foi mudado para São Paulo ou Belo Horizonte onde havia melhores
escolas e mais empregos.
Lucas se adiantou e ele e Mariana Helene se abraçaram.
- Que nosso destino seja o melhor possível - ela disse.
- É que desejo - afirmou Lucas.
Ignorando o pai de Mariana Helene ele a beijou com ardor.
Segunda parte

Na tua força, Senhor, o rei se alegra Salmos 21

50
Lucas Sobrinho prometera ao pai que iria estudar Filosofia, mas levado por
um amigo, o bancário e poeta HélioValadão, fez um teste na Rádio Itatiaia, em Beagá e foi
aprovado.
Caminhando contra o vento - falou com voz empostada;
Sem lenço, sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou
O sol se reparte em crimes,
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou
Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot
O Sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou
Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não
Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço, sem documento,
Eu vou
Eu tomo uma Coca-Cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou
Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome sem telefone
No coração do Brasil
Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou
Por que não, por que não.
Foi pautado para entrevistar o artista plástico e locutor lavrense Elcídio Grandi.
Ele havia viajado o mundo todo, trabalhado em várias emissoras e se notabilizara por criar o
slogan da Rádio Globo: O Globo no ar!
Na sua cidade natal, efetuou uma campanha para erguer um monumento em homenagem a
mocidade lavrense que participara da Segunda Guerra Mundial, e que era chamado de pirulito, pelo
seu formato que começava quadrangular e ia afinando até o topo.
Era um homem muito culto e estava assentado numa poltrona de tecido, vestindo um robe
vermelho.
Um rosto cheio de sardinhas e cabelos louros ondulados, um xale xadrez no pescoço e uns
óculos Ray-ban.
Sobre as pernas cruzadas uma manta escocesa e na mão uma piteira com um cigarro que ele
tragava continuamente.
Conversaram por mais de uma hora, sobre sua carreira e suas proezas.
Lucas Sobrinho fez-lhe uma pergunta se o monumento que erguera tinha ligação com a
Maçonaria e ele respondeu que sim, da mesma que o “Tesouro dos Escravos”.
- Lógico. São proteções ao desenvolvimento no Universo - disse Elcídio Grandi de forma
misteriosa.
No final deixou claro que Dimitri Kerylenko e Santa Sara Kali eram os guardiões do
“Tesouro dos Escravos” de Santa Bárbara.
Quanto terminaram a conversa percebeu que Elcídio Grandi deixava vislumbrar uma pistola
Mauser por baixo da coberta e suou frio.
Mas, para ele, o mais importante, foi ouvir pela enésima vez, ser um premeditado para
resolver o segredo do “Tesouro dos Escravos”.
51
Lucas Sobrinho mantinha-se no rádio e participava de manifestações contra a Ditadura
Militar.
De Santa Bárbara recebia notícias enviadas por Adamastor e pelo que diziam Luciano Pica-
pau e Lazinho, cada dia que se metiam em mais confusões.
Adamastor dizia que o Brasil se acinzentara depois da emissão do AI-5 e que Luciano Pica-
pau pirara de vez e fazia discursos públicos contra os militares e autoritários em geral.
Lucas Sobrinho fazia seu protesto através das músicas que criticavam o status quo:
Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento


Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro

Você que inventou a tristeza


Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal
Lá lá lá lá laia

Era um tempo difícil e para um telefonema entre Santa Bárbara e Beagá eram horas de
espera.

E Lucas Sobrinho comunicava-se com cartas, para Adamastor, principalmente.

Ia no Posto da Rua Tupis, para esperar horas, para falar com sua mãe Clarice.

Foi quando chegou a notícia da morte de Inácio Pereira, encontrado morto na sua fazenda.

Dr. Dirceu Ferreira, Delegado Especial, resolveu o crime de maneira inusitada, com a ajuda
do Dr. Mauricinho, Luciano Pica-pau, Lazinho e Adamastor.
Corriam mil boatos na cidade do autor do crime e resolveram fazer uma lista dos
suspeitos: os capangas de Ignácio Ferreira, sua esposa e um matador qualquer.

Lucas Sobrinho foi para Santa Bárbara e prometeu para Gilberto Santa Rita que não se
meteria em confusão.
Caminhava com os amigos pela madrugada quando viram um homem de capa Ideal e
chapelão.
Quando os viu ele tentou correr, mas foi cercado pelos amigos,
Estava armado de um revólver Shmith Weston 38 e uma pistola 32.
O mais surpreendente é que fosse conhecido de todos, principalmente, de Adamastor.
- É Quinzim! - disse Adamastor.
Mas, o que ele estaria fazendo em Santa Bárbara?
Com sua voz tatibitate ele contou uma longa história.
Ela envolvia o relacionamento do estranho personagem com Ignácio Ferreira.
Segundo ele o fazendeiro se envolveu com sua mulher, Celina.
A mulher mais bonita que ele conhecera, afirmou.
Iniciaram seu relacionamento num barzinho de Diamantina.
- Ela tinha olhos grandes e lábios carnudos - afirmou Quinzim.
Diante dos amigos estupefatos, falou que Celina tinha pernas compridas e ancas largas.
O som saia do meio dos fios compridos da barba branca e era uma estranha história de um
amor estranho.
Celina, segundo Quinzim, era sua mulher mercê do que ele lhe dava para sua comodidade.
Luciano Pica-pau lhe deu uma revista geral e tirou mais um punhal, uma faca, muita
munição e no cavalo amarrado em um mourão, atrás de um casebre, uma carabina, palha e fumo.
E um inusitado estojo de maquiagem, com rouge carmim e batom vermelho vivo.
Começou então fazer um paieiro, com o material que Adamastor lhe dera, e a falar:
- Linda, maravilhosa, Celina era. Eu a vi, no meio das mulheres damas, putas e cortesãs,
ela, sofrida, perseguida olhou pra eu, no fundo dos meus óios...
Em seguida, falou que Inácio Pereira, mandou seus capangas, persegui-la por todos os
muquifos e trazê-la até ele.
- Então Inácio Pereira, não era bicha? - perguntou Lazinho.
- Sei não, se gostava de machos - disse Quinzim - No entanto gostava de ter todas as
mulheres nas mãos.
Chegando de uma viagem, não encontrou Celina em sua casa, levada pelo bando de
canalhas.
- O que fez com ela? - perguntou Lucas Sobrinho.
- No começo a encheu de bugigangas luminosas e depois disse aos seus homens que
batessem nela com os reios...
- Mas, por que? - todos perguntaram.
- Pela fortuna que os escravos roubaram da parentada dele...
- E então? - perguntaram todos.
Neste momento o Delegado Dirceu Ferreira, chamado por vizinhos chegou.
Foi o momento crucial da arenga de Quinzim.
- Cheguei que nem relâmpago, quando os homis iniciaram a espancar Celina.
- O que queriam dela? - perguntou o Delegado Especial Dirceu Ferreira.
- Falavam sem parar que ela havia roubado um mapa de um tesouro...- respondeu Quinzim.
O delegado então pediu que contasse o que fizera a seguir.
- Cheguei na boca da noite e o homi estava enfiando uma vela na xereca de Celina.
Não só enfiava, como rodava e ela urrava de dor. Fiquei no viés da porta, rezei pra São Damião. Foi
ele que permitiu que os homis do coroné não estivessem presentes. Ele tava ficando louco, cercado
por todo canto de papel. Cheguei por trás dele e cortei num golpe só o seu gogó. Ele ficou gemendo
e golfando sangue. Inté até que caiu aos meus pés.
Quando o Delegado Ferreira levou Quinzim, Adamastor, que buscara Dr. Mauricinho,
começou a chorar e teve que ser consolado pelos amigos.
Lucas Sobrinho voltou para Beagá e na rádio escolheu uma homenagem a Quinzim:
Vim aqui só pra dizer
Ninguém há de me calar
Se alguém tem que morrer
Que seja pra melhorarem

Tanta vida pra viver


Tanta vida a se acabar
Com tanto pra se fazer
Com tanto pra se salvar
Você que não me entendeu
Não perde por esperar
52
De vez em quando, Lucas Sobrinho deixava seus amigos em Beagá e viajava para Santa
Bárbara.
Foi num destes retornos que encontrou Bruna, uma afrodescendente, que estava com os
amigos em um botequim próximo da Igreja.
Sua pele tinha cor achocolatada, cabelos alisados, presos para trás e falava muito.
Lucas Sobrinho, era tímido, mas acabou chegando perto dela e sentando ao lado de suas
companheiras.
Estudava o Ensino Fundamental e daquele dia em diante não se separaram mais.
Em pouco tempo ficou conhecendo a família de Bruna, principalmente sua avó, Sá Maria,
que era considerada uma bruxa por algumas pessoas.
- Qual seu grande sonho? - perguntou-lhe Bruna, certo dia.
- Quero fazer sucesso na minha carreira e voltar definitivamente para Santa Bárbara - ele
disse.
- E o que mais? - ela perguntou.
- O que mais é um segredo - ele lhe disse, e ela fez uma cara de tristeza.
Mas, Bruna, era a grande paixão de Lucas Sobrinho.
Um dia, sentada debaixo do jatobá, examinando as nuvens que apareciam entre os galhos,
Bruna disse:
- Tenho um grande sonho.
- Qual?
- Montar uma rede de salões de beleza...
Lucas Sobrinho que lia um livro de Roberto Drummond ficou a meditar.
- Você só pensa em você - disse Bruna, se enroscando nele.
Lucas Sobrinho agarrou o gato Julião e disse que iria pensar,
No fundo sabia que iria perder para a morena e as milhares de afrodescendentes.
Poucos dias depois estavam montando o primeiro estabelecimento da Studio Hair´s.
Acordo pensando em você
E o dia inteiro é assim
Sonho em ti ver chegar são tantas lembranças sem fim
É grande o meu bem querer saudade não aguento mais
E a tristeza se vai quando pra que você vem
Te amo demais vem logo pra mim
Vem para ser minha paz,
Dona de um amor sem fim
Te espero chegar pertinho de mim
Quero poder te abraçar
Quero você sempre assim
Deusa, deusa luz da minha vida quero te amar
Vem cá meu bem, luz da minha vida, minha deusa

Em São Paulo Bruna fizera um treinamento rápido, mostrou talento e estava aprendendo
cortes afros que em Santa Bárbara ninguém conhecia.
Lucas Sobrinho sabia da beleza dos afrodescendentes, oriundos das inúmeras etnias que
haviam chegado a Santa Bárbara durante a colonização e grandes plantações de café.
Logo abriram outros salões e Bruna ficou cada vez mais bela aos olhos de Lucas, que a
levava a conhecer vários lugares novos.
Seus amigos mostravam-se enciumados com o relacionamento de Lucas e Bruna.
Estava sentado com ela no sofá vermelho, de baixo de uma foto de seu pai, Gilberto Santa
Rita, com duas preocupações. A primeira referente a saúde de seu pai, atingido por doenças de sua
idade. A segunda, era sobre o amigo Lazinho, que apresentara um tumor cancerígeno no esôfago e
fora operado.
Não podia comer nada sólido, falava como se fosse um pato e tinha a pele amarelada.
Gilberto Santa Rita, andava sem destino pelas ruas de Santa Bárbara, sem saber bem que o
fazia, mexendo com todas as mulheres que encontrava.
- Vai levar um tiro a qualquer hora - disse Adamastor.
E de vez em quando se lembrava do que muitos lhe diziam sobre a sua missão com o
“Tesouro dos Escravos”.
Seu amigo Lazinho sofreu muito, tomou muita morfina e acabou morrendo.
Lucas Sobrinho, Luciano Pica-pau e Adamastor participaram do seu funeral e choraram
baixinho.
Bruna consolou Lucas Sobrinho e manteve seus estabelecimentos fechados.
No Bar do Felipe tomaram uma caninha produzida na região e fizeram um brinde ao que o
amigo fora em vida.
53
Chegou na rádio amuado, afinal a amizade com Lazinho tinha anos, uma vida e sentiu a
tristeza da marcha lenta da Kombi que levou seus restos mortais para o Cemitério Paroquial São
Gabriel.
Quero que o sol
Não invada o meu caixão
Para a minha pobre alma
Não morrer de insolação
Quando eu morrer,
Não quero choro nem vela,
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela.
Se existe alma
Se há outra encarnação
Eu queria que a mulata
Sapateasse no meu caixão
Não quero flores
Nem coroa com espinho
Só quero choro de flauta
Violão e cavaquinho
Estou contente,
Consolado por saber
Que as morenas tão formosas
A terra um dia vai comer.
Não tenho herdeiros
Não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos
Mas não paguei a ninguém
Meus inimigos
Que hoje falam mal de mim,
Vão dizer que nunca viram
Uma pessoa tão boa assim.

Dr. Mauricinho ficou incumbido de enrolar umas mulheres que haviam aparecido no
velório, dizendo-se amantes e compamheiras de Lazinho.
Lucas Sobrinho, levado pela nostalgia e o sucesso de Bruna acabou voltando
definitivamente para Santa Bárbara, fazendo um programa de variedades, “Vitrina da cidade” que
sempre começava com um bordão:
Meus amigos de Santa Bárbara!
O programa era o maior sucesso no rádio e atraia milhares de ouvintes, principalmente
quando se metia a fazer uma parte sentimental.
Minha querida mariposa esquecida:
Pense que a vida é para ser vivida.
Todos os dias medite que o passado passou, que vive o presente alegre e satisfeita e que o
futuro a Deus pertence...
Faça sempre um relaxamento, ouvindo boas músicas...
Na Rádio Clube o maior número de cartas era para o programa “Vitrina da cidade” e
durante uma hora de duração o telefone tocava sem parar.

Pelas dificuldades técnicas da Rádio Clube, horas antes que entrasse no ar, dava uma volta
pela cidade, tomando conhecimento do que fora importante nas últimas horas.
As quinta-feiras entrevistava alguém que julgasse importante, ligado a comunidade.
Adamastor, chegou esbaforido, dizendo que Celina, a mulher que fora a causa da morte de
Inácio Ferreira, estava na cidade, na Zona Boêmia.
Depois da cena de sangue, mudara-se para São Paulo e dizia nada saber do “Tesouro dos
Escravos”.
- Está falando mentira - disse Adamastor.
Ele não sabia por quê, não tinha nada de material, era só uma percepção, uma coisa que
vinha do coração.
Visitou-a mais algumas vezes na Boate Sonora, mas ela temia em não dizer nada.
Um dia, abraçado a Bruna, lhe disse algo muito importante:
- Tenho que tirar esta história do “Tesouro dos Escravos” da cabeça. Veja esta filosofia
barata: namoro no portão, domingo sem chuva, segunda sem mau humor, sábado com meu
amor. Chope com os amigos, viver sem inimigos, ver filme na TV. Ter uma pessoa especial
e que ela goste de você.
Foram comer feijoada na casa da mãe de Bruna: carne seca, lombo de porco
salgado, bacon, linguiça defumada, paio, pé, orelha e rabo de porco.
Dormitou e viu vários escravos negros que dançavam ao seu redor.
Bruna o chamou, colocaram as caipirinhas de lado e foram falar com Ana, sua mãe.
- Você está sofrendo muito, meu filho - ela disse com os cabelos presos por um
lenço colorido.
Tomo Bruna e Lucas Sobrinho pelos braços e levou-os até Sá Maria, sua avó.
Ela colocou suas mãos sobre a cabeça do jovem e ele tirou uma lista do bolso que
continha desenhos esquemáticos e nomes: Taça, Chave, Âncora, Ferradura, Lua, Moedas,
Punhal, Roda e Coruja.
Sentiu tomado e caiu sobre as almofadas que cercavam Sá Maria,
Um texto de Clarice Lispector lhe veio a cabeça, pois o lia no seu programa:
“Tenho em mim, objeto que sou, um toque de santidade enigmática. Sinto-a em
certos momentos vazios e faço milagres em mim mesma: o milagre do transitor era mudar
de repente, a um leve toque em mim, a mudar de repente de sentimento e pensamentos, e o
milagre de ver tudo claríssimo e oco: vejo a luminosidade sem tema, sem história, sem
fatos. Faço grande esforço para não ter o pior dos sentimentos: o de que nada vale nada. E
até o prazer é desimportante.”
54
Chamou Adamastor e Luciano Pica-pau e contou o que Sá Maria havia dito:
“A Taça representa o Sagrado; a Chave, a Ciência; a Âncora a Firmeza; a Ferradura,
representa a Sorte; a Lua, o Enigma; Moedas, segurança; Punhal, a Justiça; Trevo, a Natureza;
Roda, o Destino e Coruja, a Inteligência. E acima de tudo, o Olho que tudo vê no Universo”.
Luciano Pica-pau ou Carvalho, disse que sua religião não permitia que acreditasse nisto,
que era uma bobagem.
- Na sua religião tudo é bobagem, até ela mesma, afirmou Adamastor.
Lucas Sobrinho viu que os amigos iam brigar por uma bobagem que era religião e resolveu
interferir.
- Chamei vocês aqui para discutir sobre coisas enigmáticas,
- Religião é uma coisa enigmática - insistiu Adamastor.
E ele tinha razão, pensou Lucas Sobrinho.
Depois de horas de discussão resolveram chamar mais dois companheiros para opinar.
Um deles, Habib, na atualidade, um dos homens mais ricos de Santa Bárbara.
- E do Estado - dizia Adamastor, que o indicara.
- Diz que é religioso, mas tem opiniões ateias - resmungou o Pastor Luciano Carvalho.
O outro indicado foi o Dr. Mauricinho, que cada vez menos aparecia como advogado e sim
mais como conselheiro de assuntos gerais.
Lucas Sobrinho marcou a reunião na Rádio Clube, depois das 23:00 horas, quando saia do
ar.
Logo no começo disse que havia convidado os três por julgar que poderiam resolver o
mistério do “Tesouro dos Escravos”.
Mostrou o papel com os símbolos para que opinassem.
- Existem milhares de símbolos. Até mesmo a nossa escrita é decorrente de símbolos - disse
o Pastor Luciano Carvalho.
- Sou bom nisso - afirmou Habib que disse ser especializado na leitura das cartas
enigmáticas nas revistas de entretenimento.
Adamastor fez uma cara de anjo e disse que seus conhecimentos exotéricos seriam
importantes.
Lucas Sobrinho, abraçado a Bruna, contou a história do “Tesouro dos Escravos” desde o
início.
No final, Habib opinou que Dimitri Kerylenko era o protetor do tal tesouro. Mas, que não
podia esquecer a participação de Elisa Campos.
Adamastor afirmou que sabia de uma parente de Elisa Campos que morava em Santa
Bárbara.
Combinaram que Adamastor falaria com esta mulher e ouviria o que ela sabia do tesouro.
Saíram todos para a madrugada fria de Santa Barbara certos que estavam de resolver aquele
mistério.
- Esta história do “Tesouro dos Escravos” está obcecando você - disse Bruna.
- Tenho de chegar ao fim de tudo isso - ele lhe respondeu.
E a beijou ardentemente, enlaçando-a pela cintura.
- Faça um corte bem curo no cabelo e pinte-o de loura sugeriu.
Queria uma mulher fogosa como as que conhecera na Capital.
No dia seguinte, jogaram uma pedra na sua janela e ele acordou esbaforido.
- Conversei com a moça que faz parte da família de Elisa Campos - disse Adamastor.
- Conversei com Clara e Eliseu, sobrinhos entre aspas de Elisa Campos e eles disseram não
acreditar que Alex Paulino, seu marido a tenha assassinado - ele contou.
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A seguir Adamastor contou uma história bem fantasiosa. Lucas Sobrinho o admirava desde
garoto, vivendo de pequenos expedientes. Depois ficou amigo do Dr. Mauricinho e era conhecido
por sua capacidade investigativa.
Para Clara e Eliseu, que moravam em Beagá, o autor do assassinato de Elisa Campos era
Ignácio Pereira.
- Pelo menos o mandante - disseram os dois.
Eles possuíam um caderno brochura, uma espécie de diário de Elisa Campos.
Clara havia folheado e estudado os rabiscos e dissera que a maior parte deles tratava da
escravidão, as lutas entre os escravos e o “Tesouro dos Escravos”.
- Havia muita coisa enigmática - disse Eliseu.
Um fato muito interessante é que demonstrava que os santabarbarenses cultivavam a prática
de seitas secretas.
Pelo visto, Ignácio Pereira arquivou milhares de fotografias e documentos e criou uma
Irmandade, a do Olho Eterno.
Preocupava-se com o poder e o acúmulo de dinheiro e de joias.
A prática do sexo saudável era um assunto secundário para ele, observava Elisa Campos.
Pelas suas observações, suas pequenas e grandes traições, fazia que estivesse na lista de
Ignácio Pereira de pessoas que seriam exterminadas.

Dois aspectos importantes surgiram da reunião dos amigos de Lucas Sobrinho: o primeiro
de Habib é que Dimitri Kerylenko tinha sido um homem muito respeitável ao seu tempo,
responsável por muitas obras em Santa Bárbara e região o que todos já sabiam. O outro, de
Adamastor, é que no diário de Elisa havia uma carta enigmática muito semelhante a que Lucas
Sobrinho possuía.

Mas, nada mais do que isto, o que fez que todos saíssem desconcertados do encontro, com
apenas uma certeza intuitiva: Dimitri Kerylenko era o homem procurado por todos. Ele possuía o
perfil desenhado por Lucas Sobrinho.
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Com a noite tranquila, abraçado a Bruna, Lucas Sobrinho teve mais um sonho.
Caminhava por entre as ondas revoltas do mar, quando ouviu uma frase sussurrada: “Sem a
cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja,
não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro. ”
- De quem é? - perguntou-lhe Bruna.
De Albert Camus - disse Lucas Sobrinho.
- Mas o que ela tem a ver com o “Tesouro dos Escravos”?
- Tem tudo a ver - replicou ele, enlaçando o corpo primaveril da morena.

Por tanto amor


Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu, caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta


Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Reuniu-se reservadamente com Habib, no Bar Ti Papo, e lhe ocorreu uma intuição.
- Ignácio Pereira e outros procuraram o “Tesouro dos Escravos” como se estivesse
guardado na bíblica arca dos israelitas.
Ele se referia ao tamanho do objeto que guardava o conteúdo do tesouro.
- Na verdade a igreja mais rica de Minas possui poucas gramas de ouro, que era
transformado em finas folhas de ouro e aplicado sobre imagens, paredes, altares e tetos.
- E daí? - perguntou Lucas Sobrinho.
- Daí que pode ser um mero cofrinho - respondeu Habib.
E logo veio com sua ideia:
- Dimitri Kerylenko, tem que ser o guardador do “Tesouro dos Escravos”...
Chegada a esta conclusão Habib e Adamastor ficaram encarregados de fazer um
levantamento das obras que Dimitri Kerylenko havia participado ao seu tempo.
Não era nada fácil porque ele havia sido um homem voltado para o bem e eram
inúmeras as construções que realizara em Santa Bárbara e região.
Com uma lista na mão, Habib, sugeriu onde o “Tesouro dos Escravos” estaria
guardado.
- Dentre muitas obras de Dimitri está a herma de Manoel Fernandes, o Zarolho, na
Praça Principal.
Todos olharam surpresos para o turco e Lucas Sobrinho fez a pergunta chave:
- Como vamos saber se está lá mesmo?
O turco tinha uma solução: escavar debaixo da base da herma até encontrar a caixa
em que eram colocados jornais da época, cartas e coisas afins.
- Mas como fazer esta escavação? - questionou Adamastor.
- Deixa comigo! - disse Habib.
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Neste dia, Lucas Sobrinho estava muito feliz no seu programa na Rádio Clube.
- Meus queridos ouvintes! O Ser Humano não pode viver sem sonhar! Ouçamos esta música
que trata deste assunto com toda alegria!
Sonho meu, sonho meu
Vai buscar quem mora longe
Sonho meu
Vai mostrar esta saudade
Sonho meu
Com a sua liberdade
Sonho meu
No meu céu a estrela guia se perdeu
A madrugada fria só me traz melancolia
Sonho meu

Sinto o canto da noite


Na boca do vento
Fazer a dança das flores
No meu pensamento

Traz a pureza de um samba


Sentido, marcado de mágoas de amor
Um samba que mexe o corpo da gente
E o vento vadio embalando a flor

Ao lado dos amigos Adamastor, o Pastor Luciano Carvalho e Habib foi ver a herma de
Manoel Fernandes, o Zarolho, na Praça Principal.
Era toda esculpida em mármore branco, com multas reentrâncias, relevos e a figura de
como teria sido Manoel Fernandes, o Caolho.
- Feio que dói - disse Habib.
- Estas cobras enroladas são imitação de colunas jônicas ou gregas - complementou o Pastor
Luciano Carvalho.
O artista contratado para esculpir o busto colocara no Manoel Fernandes, o Caolho, uma
fisionomia greco-romana dificilmente encontrada nos colonizadores, gente com uma raça
indefinida.
- É um belo busto - afirmou Habib.
Foi ele quem providenciou com o Prefeito Toniquinho, para gratuitamente, efetuar a
limpeza do monumento.
No convencimento ele gastou uma grana para suborná-lo e uma garrafa de pinga, mas no
final deu tudo certo.
Num final de semana o turco colocou seu pessoal para trabalhar na limpeza e até mesmo no
jardim que cercava a herma.
Na calada da madrugada, remexeu na base até encontrar uma caixinha de metal que retirou
e levou para o seu escritório.
Nela estavam jornais da época, copias dos discursos e um texto de Dimitri Kerylenko em
que contava como “Tesouro dos Escravos” chegara até suas mãos e a maneira que resolvera
distribuí-lo entre instituições beneficentes.
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Lucas Sobrinho e Bruna estavam em sua casa no Bairro Santa Terezinha, antigo
Quebra Pau, admirando as luzes da cidade. Ela estava muito satisfeita com a rede de salões que para
Lucas Sobrinho eram um sucesso. Em uma cidade em que os afrodescendentes chegavam a mais de
70% isto tinha que acontecer.

- Tem cidade por aí que você não encontra um negro para fazer um chá - ele disse para Bruna.

E explicou que a população dos escravos envolvidos na mineração e na cultura de café tinha sido
quase igual à dos brancos.

Lucas Sobrinho seguiu animado para os estúdios da Rádio Clube e selecionou uma música
especial de Nilo Amaro e os Cantores de Ébano:
Meu assum preto
Meu canário cantador
Quem quiser eu dou
mas minha grauna
Não quero vender nem dou
Minha graúna e de estimação
E uma lembrança
Uma recordação
Minha graúna poe-se a cantar
Bem cedinho
E no seu canto
Tem saudade
Tem carinho
Mesmo quem tenha no mundo
A maior fortuna
Não tem dinheiro
Pra comprar minha graúna
E é por isso que eu digo
Meu assum preto
Quem quiser eu dou
Mas minha graúna
Não quero vender nem dou...

Lucas pensava no destino dado ao “Tesouro dos Escravos”, estava feliz por saber
que a maçonaria através de Dimitri Kerylenko distribuíra toda fortuna para instituições
beneficentes de Santa Bárbara. Pensava, agora ninguém mais precisa se preocupar com o
tal tesouro.
Na sua mente os personagens, bons ou maus, desta ou de outra dimensão,
desfilaram diante de seus olhos: Pablo, Wlademir, Ramirez, Juan, Hiago, Igor, Vitor,
Esmeralda, Carmem, Salomé, Rosita, Madalena, Yasmin, Maria Dolores, Zaira, Sulamita,
Sarita, Lázaro, Luciano Pica-pau ou Carvalho, Adamastor, mulheres damas, Dona Clarice,
Quinzim, Inácio Pereira, Frei José Maurício, o Embuçado. Manoel Fernandes, o Zarolho,
Elisa Campos, Dimitri Kerylenko, Professor Lino, Dona Leonor, a Mãe Santa, Gilberto
Santa Rita, Celina, Célia, Antônio Bastos, o Mão Preta, o Piau, Cabo Júlio, Gilberto Santa
Rita, Renato Carvalho, povo do Catavaco, Recanto das Vassourinhas, Joãozinho Fotografo,
Professor Lino, Dr, Mauricinho, Habib...

Lucas Sobrinho terminou o programa, falando para o ouvinte;


- Meus amigos, encerramos nossa participação de hoje, deixando registrado o preço
da liberdade. De cada um de nós e todos nós, A liberdade tem mais poder do que o
autoritarismo de alguns,
Bom dia e até manhã!

Fim