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NTRODUÇÃO

– Na sequência do estudo sobre os dez mandamentos, hoje analisaremos o décimo e último


mandamento – não cobiçarás.

– Jamais podemos cobiçar aquilo que não é nosso.

I – QUAL É O DÉCIMO MANDAMENTO


– Na sequência do estudo sobre os dez mandamentos, hoje analisaremos o décimo e último
mandamento.

– O décimo e último mandamento, a última palavra proferida pelo Senhor ao povo de Israel no
monte Sinai é: “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo,
nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do
teu próximo” (Ex.20:17).

– Após ter proferido esta palavra, começaram a ser ouvidos trovões, vistos relâmpagos, ouvido
o sonido da buzina e o monte começou a fumegar, mostrando que se haviam encerrado as
palavras, mas o povo não soube esperar o sonido longo da buzina, após o qual deveriam subir
o monte (Ex.19:13), resolvendo retirar- se e não mais ouvir a voz do Senhor (Ex.20:18,19), de
sorte que esta lei não pôde ser inscrita nos corações dos israelitas, ficando gravadas primeiro
num livro, escrito por Moisés (Ex.24:4) e, depois, em tábuas de pedra (Ex.32:15m16; 34:1).

– Moisés, em seu primeiro discurso de despedida, repetiu este mandamento, com palavras
ligeiramente diferentes, mas que não modificaram nem o sentido nem a justificativa do
mandamento, demonstrando, pois, ser um preceito moral.

Eis a forma como Moisés enunciou este mandamento: “E não cobiçarás a mulher do teu
próximo, e não desejarás a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a
sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo” (Dt.5:21).

– Entre um enunciado e outro, vemos, por primeiro, que, quando do pronunciamento divino,
iniciou-se pela proibição da cobiça da casa do próximo e, na repetição feita por Moisés,
começa-se pela proibição da cobiça da mulher do próximo.

Tem-se aqui, portanto, a nítida demonstração de que estamos diante de apenas um


mandamento, tanto que, numa relação, o início é pela casa do próximo e, na outra, pela mulher
do próximo, a mostrar quão artificial foi a divisão feita na “fórmula catequética” de Agostinho,
adotada pela Igreja Romana e pelos luteranos, que transforma este mandamento em dois, um
que proíbe a cobiça das coisas do próximo e o outro, que proíbe a cobiça da mulher, divisão
que permitiu continuar se falando em “dez mandamentos”, mesmo diante da conveniente
supressão do segundo mandamento, que proíbe fazer imagens de escultura.

– A artificialidade desta divisão do décimo mandamento em dois na fórmula romanista é tanta


que o próprio Catecismo Romano, elaborado após o Concílio de Trento, trata dos “nono e
décimo mandamentos” em um único dispositivo, ou seja, o capítulo décimo da terceira parte, a
comprovar que se trata de um único mandamento e não de dois como consta nos documentos
doutrinários romanistas.

OBS: “…Aqueles que buscam dois mandamentos na proibição da cobiça, ainda que eu me
cale, o sábio leitor julgará estarem eles, em virtude de perverso seccionamento, a fracionar o
que era apenas um.
Nem se contrapõe a esta concepção unificada o fato de que a expressão Não cobiçarás se
repete uma segunda vez, porquanto onde o mandamento referiu o termo casa, enumera-lhe a
seguir as partes, começando pela esposa.
Donde se evidencia claramente que se deve ler o todo como uma unidade entrelaçada, o que
fazem, corretamente, os hebreus, e que Deus preceitua, em suma, que permaneça incólume e
intocado, não só de dano ou do desejo de defraudar, mas ainda de sequer a mínima cobiça
que solicite os ânimos, o que possui cada um.…” (CALVINO, João. As Institutas ou Tratado da
Religião Cristã, v.2, pp. 172-3).

– Os judeus consideram ser este também o décimo mandamento, tanto que Flávio Josefo, ao
explicar o sentido dos mandamentos, em seu livro Antiguidades Judaicas, diz que o significado
do décimo mandamento é “não se deve desejar coisa que pertence a outrem” (Antiguidades
Judaicas III, 4. In: História dos hebreus. Trad. de Vicente Pedroso, v.1, p.69).

– Outra distinção entre as duas relações das dez palavras com respeito a este último
mandamento é que, na primeira relação, é utilizada apenas a palavra “cobiçarás”, enquanto
que, na segunda relação, o termo “cobiçarás” é utilizado apenas para a mulher, enquanto que,
para o demais é utilizada a palavra “desejarás”.

– No texto hebraico original, a palavra “cobiçarás” é “hamadh” (‫)חמד‬, que, segundo a Bíblia de
Estudo Palavra Chave, significa “sentir prazer em, desejar, cobiçar, ser desejável, desejar
muito” (Dicionário do Antigo Testamento, n.2530, p.1642), enquanto que a palavra “desejarás”
é “ ’awah ” (‫)אוה‬, cujo significado é, segundo a mesma Bíblia de Estudo Palavra Chave, de
“desejar”, “almejar”, “desejar muito”, “desejar ardentemente” (Dicionário do Antigo Testamento,
n.183, p.1511).

– Notamos, portanto, que apesar da utilização de palavras diferentes, o significado é o mesmo,


pois as palavras são sinônimas, não havendo, portanto, qualquer alteração de sentido do
mandamento numa ou noutra relação, a confirmar que estamos diante de um preceito moral,
que não admite exceções.

– Trata-se nitidamente de um preceito horizontal, ou seja, de um mandamento que prescreve o


relacionamento com o nosso próximo, um mandamento da “segunda tábua” da lei. A expressão
“próximo” é explícita, como também no mandamento anterior.

– Para os que entendem que cada tábua da lei tem cinco mandamentos, temos aqui a
correspondência entre este mandamento e o quinto mandamento, o que manda honrar pai e
mãe.

“… “Honra a teu pai e a tua mãe” forma par com “Não cobiçarás a casa do teu próximo”. Uma
criança que não honra seus pais, cresce sem limites, torna-se uma pessoa invejosa e percorre
todo o caminho para começar a desejar o que é dos outros.…” (Os dez mandamentos,
ordenanças e estatutos. Disponível em: http://www.rudecruz.com/estudos- biblicos/antigo-
testamento/exodo/os-10-mandamentos-exodo-20.php Acesso em 06 jan. 2015).
– “…Há (…) uma relação muito curiosa entre o quinto e o décimo mandamentos. É raro ver
alguém cobiçar os pais de outros, pois isso é um fato imutável na vida do ser humano. Da
mesma forma, não se deve cobiçar nada que não é seu.

Assim como cada pessoa tem seus próprios pais que a trouxeram ao mundo, todo ser humano
tem seu quinhão e sua missão na vida. Não se deve, portanto, cobiçar o que pertence a
outrem.…” (COHEN, Avraham. Shavuot: os dez mandamentos. Disponível
em: http://www.morasha.com.br/conteudo/artigos/artigos_view.asp?a=793&p=0 Acesso em 06
jan. 2015).
– É importante também verificar que, na “segunda tábua”, temos uma ordem inversa que na
“primeira tábua”, ou seja, “…A Torá, portanto, nos ensina que a crença em D’us deve ser
traduzida por cada pessoa em pensamentos, sentimentos, palavras e atos corretos e bondosos
em relação aos outros.

O primeiro e segundo mandamentos tratam do pensamento: deve-se acreditar em D’us e


rejeitar a idolatria. O terceiro mandamento trata da fala: não se deve jurar em falso. O quarto e
quinto dizem respeito a ações:
os atos referentes ao respeito aos pais e o cumprimento das ordens de D’us, simbolizadas pelo
Shabat, que é a aliança entre o povo de Israel e o Criador. É interessante notar que na
segunda tábua, é invertida essa ordem -pensamento, fala e ação.

O sexto, sétimo e oitavo mandamentos tratam de ações que não devem ser cometidas:
assassinato, adultério e roubo. O nono mandamento trata da fala: o não testemunhar em falso.
O décimo mandamento diz respeito ao pensamento: não se deve cobiçar.

A segunda tábua ensina que não é suficiente não ferir nem prejudicar os outros. Também não
devemos falar ou pensar mal dos demais. De fato, o ser humano só consegue alcançar sua
plenitude quando age corretamente nesses três campos: o do pensamento, da fala e da
ação.…( COHEN, Avraham. end.cit.).

– Por isso mesmo, este mandamento, conquanto seja nitidamente um mandamento


relacionado ao próximo, não deixa, também, de ter uma dimensão interna, relacionada a nós
mesmos. Como bem explica o Catecismo Romano: “…a instituição desta lei nos leva não só a
enfrear nossas paixões, como também a reconhecer que o paternal amor de Deus para
conosco não tem medida.

Pelos Preceitos anteriores, Deus nos cercou com uma espécie de baluarte, para que ninguém
nos lesasse tanto a nossa pessoa como a nossa propriedade.

Ora, acrescentando este Preceito, quis antes de tudo evitar que nos lesássemos a nós
mesmos com os nossos desejos desordenados: o que de certo aconteceria, se nos fora lícito,
sem nenhuma restrição, nutrir todos os desejos e ambições.…” (MARTINS, Leopoldo Pires.
op.cit. III, 10, § 4º, p.498) (destaques originais).

Portanto, trata-se da dimensão interna do segundo grande mandamento, que é a síntese da


segunda tábua (Mt.22:39), ou seja, aquele que se refere ao “amor a nós mesmos”.

II – O DÉCIMO MANDAMENTO
– O décimo mandamento proíbe que se “cobice” qualquer coisa pertencente ao próximo. Ora,
“cobiçar” é “desejar ardentemente”, “desejar muito”, ou seja, “desejar de modo descontrolado”,
“deixar-se dominar pelo desejo”. Temos aqui, portanto, a figura da “concupiscência”.

– A “concupiscência” é o elemento pecaminoso que existe em cada um de nós depois da


queda do primeiro casal. É o que o apóstolo Paulo denomina de “carne”, a “imagem e
semelhança de Adão” que tem sido transmitida geração após geração (Gn.5:3).

Por isso, João Calvino, muito propriamente, disse que este mandamento não é algo que seja
repetitivo, diante dos mandamentos anteriores que já havia proibido adulterar ou furtar, visto
que, nestes casos, o que se proibia era a intenção deliberada de se quebrar a fidelidade
conjugal ou a castidade e de se subtrair coisa alheia, enquanto aqui se está diante da mera
cobiça, ou seja, quando ainda não se tem a intenção, mas, mesmo assim, “…a mente é apenas
espicaçada e titilada de objetos vãos e pervertidos.…” (CALVINO, João. As Institutas ou o
Tratado da Religião Cristã, v.2, p.171).

OBS: Por sua biblicidade, reproduzimos aqui o Catecismo da Igreja Romana: “No sentido
etimológico, a “concupiscência” pode designar qualquer forma veemente de desejo humano. A
teologia cristã lhe deu o sentido particular de moção do apetite sensível que se opõe aos
ditames da razão humana.
O Apóstolo Paulo a identifica com a revolta que a carne provoca contra o “espírito”. Provém da
desobediência do primeiro pecado. Transtorna as faculdades morais do homem e, sem ser
pecado em si mesma, inclina-o a cometê-lo” (§ 2515 CIC).

– Por isso, este décimo mandamento, embora esteja em último lugar na relação, nem por isso
é o menos importante. Como salienta o Catecismo Romano: “…devemos saber que estes dois
Preceitos [para os católicos, há aqui dois mandamentos – observação nossa], não obstante
virem em último lugar, constituem por assim dizer a base para a observância de todos os mais.

Pela sua formulação, inculcam que muito importa ao indivíduo coibir a concupiscência, se
quiser observar fielmente os Preceitos anteriores. Pois quem não arde em desejos
desordenados, e vive satisfeito com o que possui não cobiçará o alheio; alegrar- se-á com a
felicidade do próximo; glorificará a Deus imortal, e render-Lhe-á infinitas graças; respeitará o
sábado, isto é, gozará de uma paz inalterável; respeitará os Superiores; não lesará ninguém,
por atos ou palavras, nem de qualquer outra maneira.

Na verdade, germe e raiz de todos os males é a má concupiscência(Cf. I Tm.6:10; Tg.1:14; 4:1


e ss.). Os que se deixam abrasar por ela, precipitam-se em toda a sorte de crimes e
maldades…” (MARTINS, Leopoldo Pires. Catecismo Romano. III, 10, § 1º, p. 497).

– Este mandamento, portanto, tem por finalidade fazer com que nossos pensamentos se
submetam ao Senhor. Como diz Calvino: “…Portanto, da mesma forma que até aqui o Senhor
ordenou que a norma da caridade presida a nossas vontades, a nossos esforços, a nossas
ações, assim agora ordena sejam conduzidos à mesma norma os pensamentos de nossa
mente, para que não haja nenhum pensamento corrupto e pervertido, que incite a mente em
outra direção.

Da mesma forma que proibiu que a mente fosse inclinada e induzida à ira, ao ódio, à
fornicação, à rapina, à mentira, assim proíbe agora que ela seja sequer incitada a essas
transgressões.…” (op.cit., pp.171-2) (destaques originais).

– Como diz Tomás de Aquino, este mandamento mostra-nos que “… Há (…) diferença entre a
lei divina e a lei humana: a lei humana juga fatos e ditos, mas a divina, não só estas coisas,
mas também os pensamentos.

E a razão disto é que aquela é dada por homens, que julgam o que sai ao exterior e a divina
procede de Deus, que vê o exterior e o interior. Sl.73:26: ‘Deus é a fortaleza do meu coração’; I
Sm.16:7: ‘o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração’.…”
(Os dez mandamentos. Trad. de Salvador Abascal. Cit. Ex.20:12-17. n.188. Disponível
em: http://www.clerus.org/bibliaclerusonline/pt/index.htm Acesso em 06 jan. 2015) (tradução
nossa de texto em espanhol).
– O décimo mandamento traz-nos um preceito negativo, qual seja, o que proíbe a
“concupiscência”, “…um certo impulso da alma, que leva os homens a cobiçarem coisas de seu
agrado, que ainda não estão em seu poder.…” (MARTINS, Leopoldo Pires. op.cit. III, 10, § 6º,
p. 499), sempre que ela for desordenada e não estiver sob o controle do Espírito Santo.

Assim, é evidente que não se proíbe desejos, mas, sim, apenas aqueles desejos que,
incontrolados, nos levem à prática do pecado, a que cometamos dano ao nosso próximo.

– Mas, além deste preceito negativo, temos um preceito positivo, qual seja, o que nos manda
querer bem ao próximo, desejar tudo o que for bom e favorável ao outro. É por isso que o
Catecismo Maior de Westminster, ao falar dos deveres oriundos deste mandamento, diz o
seguinte: “147.

Quais são os deveres exigidos no décimo mandamento? Os deveres exigidos no décimo


mandamento são: um pleno contentamento com a nossa condição e uma disposição caridosa
da alma para com o nosso próximo, de modo que todos os nossos desejos e afetos relativos a
ele se inclinem para todo o seu bem e promovam o mesmo. Hb 13:5; I Tm 1:5; 6:6; Fp 2:4; Rm
12:15.” (Catecismo Maior de Westminster. Disponível
em: http://www.monergismo.com/textos/catecismos/catecismomaior_westminster.htm Acesso
em 06 jan. 2015).
– Em outras palavras, o mandamento impõe-nos a “pureza de coração” e a “prática da
temperança”. Com efeito, “…Pela interdição da cobiça, expressa neste Mandamento, Deus
providenciou que o aguilhão dos desejos, causa para nós de perigosas tentações, fosse de
certo modo abalado pela força deste Preceito, e não nos perturbasse com tanta insistência.

Aliviados, assim, da importunação dos maus desejos, temos mais folga para nos entregar às
obras de religião e piedade, que são muitas e numerosas, conforme as devemos a Deus.…”
(MARTINS, Leopoldo Pires. op.cit., III, 10, § 4º, p.499).

– “…A expressão “puros de coração” designa aqueles que entregaram o coração e a


inteligência às exigências da santidade de Deus, principalmente em três campos: a caridade, a
castidade ou a retidão sexual, o amor à verdade e à ortodoxia da fé.

Existe um laço de união entre a pureza do coração, do corpo e da fé (…) Aos “puros de
coração” está prometido ver a Deus face a face e ser semelhantes a Ele. A pureza de coração
é a condição prévia da visão.

Desde já nos concede ver segundo Deus, receber o outro como um “próximo”; permite-nos
perceber o corpo humano, o nosso e o do próximo, como um templo do Espírito Santo, uma
manifestação da beleza divina” (§§ 2518-2519 CIC).

– Com a pureza de coração, adquirimos uma qualidade do fruto do Espírito, que é a


benignidade (Gl.5:22), ou seja, o “querer bem” ao próximo, característica que é própria de
Deus, que é benigno (Sl.145:8; I Pe.2:3). Deus quer bem aos homens e isto demonstrou
claramente ao mandar Seu Filho para morrer por nós.

Afinal de contas, não foi isto que proclamaram os coros angelicais quando do nascimento de
Jesus, dizendo que havia boa vontade de Deus para com os homens (Lc.2:14)?

III – O DESCUMPRIMENTO DO DÉCIMO MANDAMENTO


– Visto o que é o décimo mandamento, verifiquemos quais são os principais pecados
cometidos em afronta a este mandamento que, por se referir ao próprio interior do homem, aos
seus pensamentos, trata-se de um preceito extremamente difícil e que exige uma grande
autodisciplina espiritual.

Como diz Tomás de Aquino: “… é necessário esforçar-se muito para fugir deste pecado, por
ser interior, pois é muito difícil vencer a um inimigo de casa…” (op.cit. Cit. de Ex.20:12-17.
n.201. Disponível em:

http://www.clerus.org/bibliaclerusonline/pt/index.htm Acesso em 06 jan. 2015) (tradução nossa


de texto em espanhol).
– A primeira forma de descumprimento deste mandamento é por intermédio da
“concupiscência da carne”, que é um dos elementos de que se compõe o mundo (I Jo.2:16),
ou seja, “…aquelas manifestações da concupiscência, que excedem os termos da razão, e não
se detêm nos limites marcados por Deus.…” (MARTINS, Leopoldo Pires. op.cit., III, 10, § 10, p.
501).
É a concupiscência, o desejo incontrolado, nascido em a natureza pecaminosa do homem e
que o leva ao pecado, a desejar aquilo que é vedado por Deus, aquilo que vai além do
permitido pelo Senhor e que sempre causa dano ao próximo.

– A primeira manifestação desta “concupiscência” vemos na queda do primeiro


casal, quando, instigada a descrer no que Deus disse, a mulher passa a desejar o fruto da
árvore da ciência do bem e do mal (Gn.3:6), considerando-o “bom para se comer”, apesar de
tudo o que o Senhor lhes havia dito a respeito.
– A “concupiscência da carne” exsurge como uma alternativa ao que Deus nos diz, como uma
sugestão de nosso “eu” em detrimento do que nos ensina e orienta o Senhor e, quando somos
seduzidos por esta “concupiscência”, entramos em tentação, que nos levará ao cometimento
do pecado, como bem nos ensina Tiago, o irmão do Senhor (Tg.1:13-15).
– “…Tal concupiscência é reprovável, ou porque cobiça o mal, como sejam adultérios,
bebedeiras, homicídios e outros crimes nefandos, dos quais talou o Apóstolo: “Não cobicemos
o mal como eles [os judeus] cobiçaram” (I Co.10:6) ou porque há outras razões, para não
cobiçarmos coisas, que aliás não são más por sua natureza, Nessa categoria entram todas as
coisas, cuja posse nos é defesa por Deus(…), pois não nos é lícito cobiçar o que nos for
absolutamente proibido de possuir.

Tal acontecia outrora, na Antiga Lei, com o ouro e a prata, de que eram fundidos os ídolos. No
Deuteronômio, o Senhor havia proibido que alguém os cobiçasse (Dt.7:25)…” (MARTINS,
Leopoldo Pires. op.cit. III, 10, § 11, p.501).

– A “concupiscência da carne” representa a “impureza do coração” e, ante a impureza do


coração, somos levados a ter desejos pecaminosos, seja no campo sexual, em que se tem a
“impureza” (Gl.5:19; Ef.4:19) que nos conduz à lascívia e ao que o texto bíblico denomina de
“porneia”, já estudada quando abordamos o sétimo mandamento; seja no campo da intenção,
quando passamos a desejar o mal para o próximo, muitas vezes alimentando e maquinando
pensamentos maus contra alguém (Sl.62:3; Pv.12:20; Jr.18:18; Mq.2:1); seja no campo dos
olhos, principal veículo pelo qual se ingressam as trevas espirituais em todo o nosso ser
(Mt.6:22,23).

– A segunda forma de descumprimento deste mandamento é o descontentamento com o


nosso estado, como afirma a resposta à pergunta 148 do Catecismo Maior de Westminster.
Com efeito, como diz conhecido adágio popular: “quem tudo quer nada tem”.
Se passamos a desejar ardentemente, de modo descontrolado o que não é nosso ou que nos
é vedado, é porque não nos contentamos com o que temos, desprezamos aquilo que temos,
consideramos que aquilo que possuíamos nada é.

OBS: “148. Quais são os pecados proibidos no décimo mandamento? Os pecados proibidos
no décimo mandamento são: o descontentamento com o nosso estado; a inveja e a tristeza
pelo bem de nosso próximo, juntamente com todos os desejos e afetos desordenados para
com qualquer coisa que lhe pertença. Dt 5:21; Sl 112:9,10; Ne 2:10; I Co 10:10; Gl 5:26; Tg
3:14,16; Rm 7:7;13:9;Cl 3:5.” (Catecismo Maior de Westminster. Disponível
em: http://www.monergismo.com/textos/catecismos/catecismomaior_westminster.htm Acesso
em 06 jan. 2015).
– Este descontentamento com o nosso estado, com a nossa condição é, indubitavelmente, um
pensamento extremamente pernicioso e prejudicial, pois se revela uma revolta contra Deus,
uma recusa de que devemos nos manter na posição e lugar postos pelo Senhor.

– Foi isto que despertou a concupiscência em Eva que, enganada pela serpente, passou a
desejar um lugar que, em absoluto, lhe havia sido dado por Deus, ou seja, a posição de “ser
igual a Deus, sabendo o bem e o mal” (Gn.3:5,6). Trata-se da perigosíssima atitude de deixar
de observar o que Deus diz, de deixar de contemplar o Senhor para se passar a olhar para si,
para o “eu”, passar a tomar o seu “eu” como parâmetro, como diretriz e não mais o Senhor,
Criador de todas as coisas.

– Este descontentamento com o nosso estado é a característica básica da natureza


pecaminosa que em nós habita, da carne e que deve ser enfrentada a cada instante, a cada
momento. Temos de “aprender” a se contentar com o que temos, com o que somos, prova de
que não se trata de algo que esteja em nós, mas que é fruto de um intenso aprendizado,
aprendizado que exige que mantenhamos contínua comunhão com Deus.

Não é à toa que o apóstolo Paulo diz que havia aprendido a se contentar com o que possuía
(Fp.4:11). Como afirma o “príncipe dos pregadores britânicos”, Charles Haddon Spurgeon
(1834-1892): “…contentamento é uma das flores do céu e, se nós a tivermos, ela deve ser
cultivada! Ela não crescerá em nós por natureza; é a nova natureza apenas que pode produzi-
la e, mesmo assim, devemos ser especialmente cuidadosos e vigilantes para mantermos e
cultivarmos a divina graça que Deus semeou em nós.
Paulo disse: ‘aprendi a contentar-me’, o que equivale a dizer que ele não sabia como fazê-lo de
uma só vez. Custou-lhe algumas dores para alcançar o mistério desta grande verdade de
Deus…” (SPURGEON, Charles H. Contentamento. Sermão pregado na noite do domingo de
25 de março de 1860 na Capela de New Park Street em Southwark. Disponível
em: http://www.spurgeongems.org/vols4-6/chs320.pdf, p.1) (tradução nossa de texto em
inglês).
OBS: “…O apóstolo Paulo foi um homem muito erudito, mas uma que não é das menores das
suas diversas aquisições em ciência foi esta — ele tinha aprendido a se contentar. Tal
aprendizado foi muito melhor do que muito que ele aprendeu nas escolas. (…)
Quanto melhor foi o aprendizado do apóstolo! É uma coisa sempre útil para o presente e de
proveito inigualável para todas as gerações — uma das mais raras — mas uma das de
realização mais desejável…” (SPURGEON, Charles H. Contentamento. Sermão pregado na
noite do domingo de 25 de março de 1860 na Capela de New Park Street em Southwark.
Disponível em: http://www.spurgeongems.org/vols4-6/chs320.pdf, p.1) (tradução nossa de texto
em inglês).
– A terceira forma de descumprimento deste mandamento é a “concupiscência dos
olhos”. “…A “concupiscência dos olhos” (1 Jo 2,16) leva à violência e à injustiça, proibidas
pelo quinto preceito [para nós, o sexto mandamento – observação nossa]. A cupidez tem sua
origem, como a fornicação, na idolatria proibida nas três primeiras prescrições da 1ei.…” (§
2534 CIC).
– A “concupiscência dos olhos” é o desejo ardente de possuir aquilo que é do outro, é o desejo
de ter para si aquilo que não lhe pertence, aquilo que é contemplado pelos nossos olhos e que
se encontra em poder do outro. É um desejo incontrolável de poder, de aquisição daquilo que
não lhe pertence.

– Tal concupiscência também se manifestou em Eva quando da tentação que levou à queda da
humanidade. A mulher viu a árvore da ciência do bem e do mal como algo que lhe poderia dar
aquilo que não era seu, ou seja, a posição de Deus, e, por isso, a árvore se tornou “agradável
aos olhos” (Gn.3:6).

– A “concupiscência dos olhos” é outro elemento de que se compõe o mundo (I Jo.2:16) e, se a


“concupiscência da carne” age sobre os instintos do homem, levando a ser dominado por eles,
a “concupiscência dos olhos” afeta a alma, a sede da personalidade do homem, fazendo-o
espiritualmente cego, deixando de enxergar as coisas espirituais para se ater, somente, às
materiais e às ilusões, fazendo-o desejar aquilo que não lhe pertence, que não é seu.

– A quarta forma de descumprimento deste mandamento é a inveja e a tristeza pelo bem


do nosso próximo. Como afirma o Catecismo da Igreja Romana: “ A inveja é um vício capital.
Designa a tristeza sentida diante do bem do outro e do desejo imoderado de sua apropriação,
mesmo indevida. (…) Agostinho via na inveja “o pecado diabólico por excelência”.
“Da inveja nascem o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria causada pela desgraça do
próximo e o desprazer causado por sua prosperidade.” (§ 2539 CIC).

– O proverbista diz que “a inveja é a podridão dos ossos” (Pv.14:30), a demonstrar quão
maléfico é este sentimento, sentimento que fez com que se cometesse o primeiro homicídio da
humanidade, como também que fizesse com que houve a rebelião de Coré, Datã e Abirão
(Sl.116:16,17) e, ainda, fizeram os príncipes dos sacerdotes engendrarem todo o plano que
levou à prisão e condenação do Senhor Jesus (Mt.27:18).

– Devemos tomar muito cuidado, máxime num mundo com a mentalidade materialista aguçada
como são os dias em que vivemos, para não sermos tomados por este sentimento, que pode
nos conduzir à perdição eterna, como quase aconteceu com o salmista Asafe (Sl.73:2,3).

– Devemos ter um coração que se alegre com o bem-estar do próximo, que não sinta qualquer
rancor ou ressentimento com o sucesso e o êxito do outro. Por isso, o apóstolo Paulo foi bem
claro ao dizer: “Alegrai- vos com os que se alegram e chorai com os que choram” (Rm.12:15).
Não foi descuidadamente que o apóstolo primeiro mandou que nos alegrássemos com o
próximo, antes de falar que deveríamos chorar com ele. É porque o egoísmo natural de cada
ser humano é muito mais propenso a compartilhar as tristezas do que em compartilhar a
alegria com o bem-estar, o sucesso e o êxito do outro.

– A inveja mostra um coração doente, ou seja, uma personalidade enferma, fraca e que, por
isso mesmo, não para diante da inveja, indo adiante e cometendo atos ainda mais graves,
como os que já foram aqui mencionados (homicídio, no caso de Caim; rebelião, no caso de
Coré, Datã e Abirão; suborno, falsos testemunhos e toda sorte de manipulação no caso dos
príncipes dos sacerdotes). Ninguém consegue parar diante da inveja (Pv.27:4).

– A quinta forma de descumprimento deste mandamento é o apego às coisas


terrenas. Somente cobiçamos as coisas alheias quando estamos presos às coisas terrenas,
quando nosso coração está preso aqui na Terra (Mt.6:19-21).
– O apego às coisas terrenas, a inversão de valores que nos faz deixar de lado as coisas de
Deus, as “coisas de cima” (Cl.3:1-3) é uma atitude que nos leva a cobiçar as coisas dos outros
inevitavelmente. “…Com efeito, a ganância dos bens alheios é desmedida, é infinita e nunca se
dá por satisfeita. como diz a Escritura: “O avarento jamais se fartará de dinheiro” (Ec.5:9).

Em Isaías, também se lê a seguinte passagem: “Ai de vós que aglomerais casas e casas e
emendais campo a campo” (Is.5:8)…” (MARTINS, Leopoldo Pires. op.cit. III, 10, § 13, p.502).

OBS: “…Quando a Lei nos diz:


“Não cobiçarás”, ordena-nos, em outros termos, que afastemos nossos desejos de tudo aquilo
que não nos pertence. Pois a sede dos bens do próximo é imensa, infinita e nunca saciada,
como está escrito: “Quem ama o dinheiro nunca se sacia de dinheiro” (Ecl 5,9).” (§ 2536 CIC).

– Este apego às coisas terrenas leva-nos à perda da salvação, pois, estando nosso coração
preso nas coisas desta vida, jamais poderá se aplicar ao céu e às “coisas de cima”, pois o
amor às riquezas exclui o amor a Deus (Mt.6:24).

Se nosso coração está preso a este mundo, não poderá estar, simultaneamente, no céu e
somente aqueles cujo coração está nos céus é que poderão viver eternamente com o Senhor.
Lembremos do mancebo de qualidade que, por ter seu coração preso às coisas desta vida,
perdeu a oportunidade de ser salvo, embora tenha estado diante do Salvador (Mt.19:16-22).

OBS: “Todos os fiéis de Cristo “devem dirigir retamente seus afetos para que, por causa do
uso das coisas mundanas, por causa do apego às riquezas contra o espírito da pobreza
evangélica, não sejam impedidos de tender à perfeição da caridade”. (§ 2545 CIC).
– Vivemos dias de intenso materialismo e, em virtude disto, muitos são os que estão a violar
este mandamento por estarem apegados às coisas terrenas, inclusive querendo usar de Cristo
como simples instrumento para obter riquezas e benesses materiais, como ensinam tanto a
teologia da prosperidade quanto a teologia da confissão positiva.

Tenhamos, pois, muito cuidado, pois não serão poucos os que terão a mesma decepção que
teve o mancebo de qualidade e, o que é pior, sem nem sequer terem bens para desfrutar como
tinha aquele jovem.

IV – O CUMPRIMENTO DO DÉCIMO MANDAMENTO


-Tendo visto as principais atitudes que constituem em violação do décimo mandamento,
vejamos que ações levam ao cumprimento deste preceito moral.

– O primeiro comportamento que se constitui em cumprimento deste preceito é a “vida em


Espírito”. Como afirma o apóstolo Paulo: “…Andai em Espírito e não cumprireis a
concupiscência da carne” (Gl.5:16), “Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as
coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito, para as coisas do Espírito. Porque a
inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz” (Rm.8:5,6).
– Quando passamos a “viver em Espírito”, ou seja, permitimos que o Espírito Santo atue em
nosso ser de modo que nosso espírito, que foi vivificado no instante em que cremos em Jesus
como nosso Senhor e Salvador, domine sobre a carne, fatalmente estaremos cumprindo o
décimo mandamento, porquanto passamos a ter “a mente de Cristo” (I Co.2:16), ocupando a
nossa mente apenas com aquilo que é verdadeiro, honesto, justo, puro, amável, de boa fama e
que possui alguma virtude ou algum louvor (Fp.4:8).

– Desta forma, não há espaço que se dê à natureza pecaminosa e, vivendo deste modo, a
carne sempre estará subjugada (I Co.9:27), crucificada com Cristo (Gl.2:20) e, portanto, não se
terá como se deixar prevalecer a “concupiscência da carne”, cumprindo-se, assim, o décimo
mandamento.

– Para isto, entretanto, se faz mister que renunciemos a nós mesmos e deixemos ser
dominados pelo Espírito Santo, que anulemos o “eu” e, deste modo, possamos tomar a nossa
cruz e seguir a Jesus.

– Daí vermos a grande importância deste mandamento, uma vez que é o seu cumprimento que
dá o passo inicial para que possamos seguir a Cristo e, desta maneira, chegarmos aos céus.

Por isso, o Senhor Jesus foi enfático ao dizer que quem não renuncia a si mesmo não pode ser
tido como Seu discípulo (Lc.14:33). Por isso, dizer com muita razão o Catecismo Romano que
este mandamento “…não obstante virem em último lugar, constituem por assim dizer a base
para a observância de todos os mais.…” (MARTINS, Leopoldo Pires. op.cit. III, 10, § 1º, p.497).

– Para se ter esta “vida em Espírito”, necessário se faz que se viva em santificação constante,
ou seja, que se esteja, a todo tempo e a todo instante, separado do pecado. Há uma luta
constante em nosso interior entre a carne e o espírito (Gl.5:17) e somente alimentando
convenientemente o espírito poderemos vencer a carne.

Esta alimentação do espírito se dá pela santificação, pela contínua aproximação a Deus, o que
se faz mediante a meditação diária nas Escrituras (Jo.17:17); pela oração (I Tm.4:5), à qual se
alia o jejum frequente (Mt.9:15); pelo temor de Deus (II Co.7:1) e pela participação digna na
mesa do Senhor (I Co.11:27,28).

Sem a santificação, ninguém verá o Senhor (Hb.12:4) e este desejo de ver a Deus que nos faz
cumprir este décimo mandamento.

OBS: “O desejo da felicidade verdadeira liberta o homem do apego imoderado aos bens deste
mundo, (felicidade) que se realizará na visão e na bem-aventurança de Deus. “A promessa de
ver a Deus ultrapassa todas as bem-aventuranças”.
Na Escritura, ver é possuir. Aquele que vê a Deus obteve todos os bens que podemos
imaginar. Ao povo santo de Deus resta lutar, com a graça do Alto, para alcançar os bens que
Deus promete. Para possuir e contemplar a Deus, os fiéis de Cristo mortificam sua
concupiscência e superam, com a graça de Deus, as seduções do gozo e do poder” (§§ 2548-
2549 CIC).

– A segunda forma de cumprirmos o décimo mandamento é o pleno contentamento com a


nossa condição, ou seja, termos o aprendizado que teve o apóstolo Paulo, que aprendeu a se
contentar com o que tinha (Fp.4:11).
Quando nos contentamos com o que temos, não nos deixamos abalar pelas circunstâncias
desta vida e, como o apóstolo, podemos dizer: “Sei estar abatido e sei também ter abundância;
em toda a maneira e em todas as coisas, estou instruído, tanto a ter fartura como a ter fome,
tanto a ter abundância como a padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me
fortalece” (Fp.4:12,13).
– Quando nos contentamos com o que temos e com o que somos, nada nos abala, não nos
tornamos ansiosos nem nos deixamos iludir seja com os momentos de fartura, seja com os
momentos de necessidade.

Temos uma visão que vai além deste plano terreno, daquilo que é visível. Contemplamos a
glória celeste e temos a convicção de que estamos aqui para cumprir um propósito divino em
nossas vidas, propósito este que somente contém aquilo que é o melhor para nós (Rm.8:28),
pois sabemos que Deus só nos tem bons planos, “…pensamentos de paz e não de mal, para
vos dar o fim que esperais” (Jr.29:11).

– Outro modo de cumprirmos este mandamento é seguirmos a “pureza do coração”, ou seja,


permitirmos que o Espírito Santo nos domine a ponto que tenhamos a temperança, ou seja, o
domínio próprio, que outra coisa não é senão sacrificarmos a nossa vontade para que a
vontade de Deus se cumpra em nós.

Devemos ter o mesmo comportamento do Senhor Jesus que disse, certa feita, que a Sua
comida, ou seja, o que lhe mantinha sobrevivendo nesta terra, era realizar a vontade d’Aquele
que O enviara (Jo.4:34).

– Esta “pureza de coração” não se consegue com as próprias forças, pois “…Eu julgava que a
continência dependia de minhas próprias forças… forças que eu não conhecia em mim. E eu
era tão insensato que não sabia que ninguém pode ser continente, se vos lho concedeis.

E sem dúvida mo teríeis concedido, se com gemidos interiores vos ferisse os ouvidos e, com
firme fé, pusesse em vós minha preocupação (Agostinho. Confissões 6, 11. 20)…” (§ 2520
CIC).

– “A pureza exige o pudor. Este é uma parte integrante da esperança. O pudor preserva a
intimidade da pessoa. Consiste na recusa de mostrar aquilo que deve ficar escondido. Está
ordenado castidade, exprimindo sua delicadeza. Orienta os olhares e os gestos em
conformidade com a dignidade das pessoas e de sua união.

O pudor protege o mistério das pessoas e de seu amor. Convida à paciência e à moderação na
relação amorosa; pede que sejam cumpridas as condições da doação e do compromisso
definitivo do homem e da mulher entre si. O pudor é modéstia. Inspira o modo de vestir.
Mantém o silêncio ou certa reserva quando se entrevê o risco de uma curiosidade malsã.
Torna-se discrição” (§ 2521-2522 CIC).

– Nota-se, pois, que é cumprimento do décimo mandamento o comportamento decoroso,


pudico, que, lamentavelmente, tanto se tem perdido mesmo entre os que cristãos se dizem ser.
Devemos nos comportar com pudor e discrição, pudor e discrição que, se existentes no
coração, serão revelados em nosso comportamento exterior, máxime nas vestimentas, que
devem ser sempre orientadas pela modéstia (I Tm.2:9).

– “Existe um pudor dos sentimentos, como existe o do corpo. O pudor, por exemplo, protesta
contra a exploração do corpo humano em função de uma curiosidade doentia (como em certo
tipo de publicidade), ou contra a solicitação de certos meios de comunicação ir longe demais
na revelação de confidências íntimas.

O pudor inspira um modo de viver que permite resistir às solicitações da moda e à pressão das
ideologias dominantes. As formas revestidas pelo pudor variam de uma cultura a outra. Em
toda parte, porém, ele permanece como o pressentimento de uma dignidade espiritual própria
do homem. O pudor nasce pelo despertar da consciência do sujeito. Ensinar o pudor a crianças
e adolescentes é despertá-los para o respeito à pessoa humana” (§§ 2523-2524 CIC).

– Nos dias de intenso desenvolvimento das comunicações, quase não se sabe mais o que é
preservação da intimidade, o que é discrição. Entretanto, estaremos a cumprir o décimo
mandamento se preservarmos a intimidade do próximo, se dermos a ele o legítimo direito de
ficar só, de ter algo que lhe é peculiar, se não invadirmos a esfera privada do outro.

– Não é por outro motivo que o Catecismo Maior de Westminster considera como sendo dever
relacionado a este mandamento o de ter “…uma disposição caridosa da alma para com o
nosso próximo, de modo que todos os nossos desejos e afetos relativos a ele se inclinem para
todo o seu bem e promovam o mesmo” (resposta à pergunta 147).

Quem realmente deseja o bem do próximo, quem lhe quer bem não admite, de modo algum,
que a intimidade do próximo seja violada, que ele se torne “desnudo” diante das pessoas, que
tenha indevidamente revelada a sua esfera privada, que o deixe em situação extremamente
vulnerável perante os outros, o que é, sem sombra de dúvida, um mal que se lhe causa.

– Outro modo pelo qual cumprimos este mandamento é não nos conformando com a
“permissividade dos costumes”. Como bem diz o Catecismo da Igreja Romana: “A pureza cristã
requer uma purificação do clima social. Exige dos meios de comunicação social uma
informação que não ofenda o respeito e a modéstia.

A pureza do coração liberta a pessoa do erotismo tão difuso e afasta-a dos espetáculos que
favorecem o “voyeurismo” e a ilusão. O que se costuma chamar permissividade dos costumes
se apoia numa concepção errônea da liberdade humana; para se edificar, esta última tem
necessidade de se deixar educar previamente pela lei moral.

Convém exigir dos responsáveis pela educação que deem à juventude um ensino respeitoso
da verdade, das qualidades do coração e da dignidade moral e espiritual do homem” (§§ 2525-
2526 CIC).

– Bem se vê, portanto, quantos que cristãos se dizem ser estão distantes de cumprir os
deveres oriundos deste mandamento quando não só promovem como estimulam e incentivam
a audiência a programas de televisão e a alguns sites da internet onde o pudor, a discrição e a
pureza estão anos-luz de tais produções.

– Temos, por fim, o cumprimento deste mandamento quando vivemos o desapego às coisas
terrenas.

Como bem explica o Catecismo Romano, “…a segunda parte do Preceito, [que] consiste em
não prender o coração ás riquezas, quando elas se tornam abundantes (Sl.62:10); em dispor-
nos a abrir mão delas, por amor à religião e à piedade; em gastar dinheiro, de bom coração,
para acudirmos às necessidades dos pobres; em suportar a pobreza, com alegre resignação,
quando não possuímos bens de fortuna.

Na verdade, se formos liberais em dar do que é nosso, conseguiremos extinguir em nós a


cobiça dos bens alheios.…” (MARTINS, Leopoldo Pires. op.cit. III, 10, § 21, p. 504).

V – O ALCANCE DADO PELO SENHOR JESUS A ESTE MANDAMENTO


– Este décimo mandamento não é posto por acaso no final do Decálogo, pois é como que uma
ponte para o fim de toda a lei, que é o Senhor Jesus, que deu o devido alcance a todos os dez
mandamentos, como temos visto ao longo deste trimestre.

– Como já se disse supra, este mandamento, embora esteja em último lugar, é como que a
base para a observância de todos os demais. Como bem afirmou o Catecismo Romano:
“…Estes Preceitos [lembrando que, para os católicos romanos, há aqui dois mandamentos –
observação nossa] eram duplamente necessários.

Primeiro, para melhor se alcançar o sentido do Sexto [sétimo mandamento para nós –
observação nossa] e Sétimo [oitavo mandamento para nós – observação nossa]
Mandamentos. Ora, pela simples luz da razão, devia ser evidente que a proibição do adultério
inclui também a proibição de desejar a mulher do próximo; pois, se fora licito cobiçar, licito
também seria o possuí-la.

Entanto, a maioria dos judeus, cegos pelo pecado, eram irredutíveis em não acreditar que isso
fosse proibido por Deus. Ainda mais. Depois de promulgada esta lei de Deus, muitos que se
diziam doutores da lei persistiram na mesma aberração.

E’ o que deduzimos das palavras de Nosso Senhor no Evangelho de São Mateus: “Ouvistes
como foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo que todo homem que
lançar olhares cobiçosos a uma mulher, já cometeu adultério com ela em seu coração”(Mt.5:27
e ss.).

Em segundo lugar, estes Preceitos são necessários, porque proíbem, clara e terminantemente,
alguns pontos, que não são objeto de formal proibição no Sexto [sétimo para nós – observação
nossa] e Sétimo [oitavo mandamento para nós – observação nossa] Mandamentos. Vejamos
um exemplo.

O Sétimo [oitavo para nós – observação nossa] Mandamento proíbe que alguém cobice o
alheio e se disponha a tirá-lo. Mas o presente Mandamento interdiz qualquer desejo, ainda que
se possa satisfazer, justa e legalmente, se de sua consecução resultar algum dano para o
próximo.…” (MARTINS, Leopoldo Pires. op.cit. III, 10, § 3º, p. 498).

– Assim, a partir deste décimo mandamento, o Senhor Jesus deu o devido alcance para os
demais mandamentos, mostrando que a lei precisa estar inscrita nos corações, que a
santificação se processa primeiramente no interior para depois chegar ao exterior e que é
assaz relevante para o Senhor a nossa disposição interior.

– Mas, ao dar o devido alcance aos mandamentos, fazendo-os partir do interior, não teria,
então, o Senhor Jesus esvaziado o décimo mandamento, que teria sido apenas um “trampolim”
para que se desse o verdadeiro significado dos preceitos morais? Não teria, então, ele perdido
a sua razão de ser e sido absorvido pelos demais?

– Não é o que nos ensina o Senhor Jesus. Conquanto os demais mandamentos, em especial o
sétimo e o oitavo, tenham tido um alcance maior, como que absorvendo o décimo
mandamento, o fato é o que o Senhor Jesus considerou como passo inicial para sermos Seus
discípulos a “renúncia de si mesmo”, a abnegação, a negação do próprio “eu” (Mt.16:24;
Mc.8:34; Lc.9:23) e esta “abnegação” é o alcance maior que o Senhor dá ao décimo
mandamento, pois somente poderemos evitar de cobiçar qualquer coisa do outro se nos
anularmos a nós mesmos, se não mais vivermos mas Cristo viver em nós (Gl.2:20).

– Assim, vemos que o décimo mandamento atinge um nível ainda mais extremo que os dos
demais mandamentos voltados ao próximo que, de um aspecto exterior, passaram a um
aspecto interior.

O décimo mandamento, que, no Decálogo, já era interior, agora nos leva à autoanulação, à
abnegação, faz-nos compreender que jamais poderemos entrar em comunhão com o Senhor
se não nos fizermos um com Ele, se não formos absorvidos por Ele.

– Observemos que esta absorção não é um esvaziamento de existência, mas, sim, um


esvaziamento de vontade, um “amor à vontade de Deus”, de tal modo que, sem deixarmos de
ser um indivíduo, tornamo-nos parte do Senhor, passamos a querer realizar a Sua vontade,
deixando a nossa de lado.

Não é um aniquilamento de existência, como defendem os budistas, mas, antes, uma adesão
completa ao projeto divino, à vontade do Senhor.
– O Senhor Jesus faz-nos entender, portanto, que a proibição de cobiçar é muito mais do que
isto, mas uma adesão completa, íntegra e incondicional do nosso ser a Deus, o que permite
que tenhamos, assim, realizada em nós, a própria finalidade de toda a obra salvífica do Senhor
Jesus que é a reconstituição, entre Deus e o homem, da plena unidade e comunhão que existe
entre as Pessoas Divinas (Jo.17:21-23).

– O décimo mandamento, neste novo alcance dado pelo Senhor Jesus, faz-nos entender que o
passo primeiro para que possamos construir esta unidade com o Senhor e, assim, podermos
desfrutar da comunhão com Deus, da Sua santidade, do Seu amor é o de renunciarmos a nós
mesmos e, a partir de então, podermos caminhar em direção à comunhão, à santidade e ao
amor.

– O décimo mandamento, assim, mesmo ante a ampliação de sentido dos demais


mandamentos, que passam a ser vividos a partir do interior, continua sendo a base para a
observância de todos os outros.

– Esta postura fica bem evidenciada no Catecismo de Heidelberg (1563), uma das principais
exposições doutrinárias advindas da Reforma Protestante, na sua pergunta 113, “in verbis”:
“113. O que Deus exige no décimo mandamento?

1. Jamais pode surgir em nosso coração o menor desejo ou pensamento contra qualquer
mandamento de Deus. Pelo contrário, devemos sempre, de todo o coração odiar todos os
pecados e amar toda justiça (Rm.7:7)”.
Este mandamento, pois, impele-nos a cumprir os demais, a adotar a vontade do Senhor como
nosso objetivo. É, pois, a base para os demais mandamentos.

– Em dias de individualismo crescente, de egocentrismo, de egolatria, é oportuno verificarmos


da extrema necessidade que temos de cumprir este décimo mandamento.

– Por fim, ao assim analisarmos o décimo mandamento, vemos como há um extraordinário


fechamento nas “dez palavras”, pois o décimo mandamento, ao nos fazer voltar para o nosso
interior e a nos fazer, na amplitude dada por Nosso Senhor e Salvador, renunciar a nós
mesmos em prol de Cristo, faz-nos voltar ao primeiro mandamento, que nos manda não ter
outros deuses diante d’Ele.

Com efeito, quando renunciamos a nós mesmos, entramos em comunhão e unidade com o
Senhor, e passamos a tê-l’O como único e exclusivo Deus. Fecha-se, pois, o círculo e voltamos
do décimo ao primeiro mandamento, a nos mostrar como o Decálogo tem, mesmo, a síntese
de todos os preceitos morais.

Ev. Dr. Caramuru Afonso Francisco


Site: http://portalebd.org.br/files/1T2015_L12_caramuru.pdf

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