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UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAPÁ

DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


CURSO DE BACHARELADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
1
Adriene Neves
2
Marta Gomes
3
Thiago Guedes

Campanha eleitoral no Facebook: uma análise das eleições municipais de


2016 em Macapá

Resumo​: O presente trabalho busca por meio da análise de conteúdo mostrar como o
Facebook, em sua dinâmica de rede social, foi usado como uma ferramenta de campanha no
segundo turno das eleições municipais de 2016 na cidade de Macapá. Propõe uma reflexão
acerca da democracia e do dinamismo dessa rede e sua influência no modo de fazer política. É
com a observação e análise das postagens que traçaremos inferências que podem contribuir
com os estudos das plataformas digitais que vem alcançando mudanças neste campo,
somando-se a uma nova forma de comunicação e se fazendo substancial nos processos
eleitorais no Brasil.

Palavras-chave​: Facebook; política; comunicação; campanhas eleitorais.

Introdução

​Os processos de campanhas eleitorais no país incorporaram as dinâmicas das plataformas


digitais para promover uma interação maior com o eleitorado, explorando e se apropriando
desse contato digital como parte do processo democrático. A análise que o presente artigo
pretende fazer nasce da importância que as campanhas online tem tido nos últimos anos para
os processos eleitorais no Brasil e no mundo, esta análise perpassa um contexto histórico,
social, político e democrático como pano de fundo das questões que envolvem este fenômeno
e traz essas questões para as campanhas online, por meio do Facebook, desenvolvidas na
cidade de Macapá durante o segundo turno das eleições de 2016 pelos candidatos que
concorreram ao pleito no município, onde apresentaram características que são identificadas
como estruturantes de uma cultura política no Brasil, em nível local, contido nos papéis dos

1
Acadêmica de Bacharelado em Ciências Sociais, da Universidade Federal do Amapá - UNIFAP.
2
Acadêmica de Bacharelado em Ciências Sociais, da Universidade Federal do Amapá – UNIFAP.
3
Acadêmico de Bacharelado em Ciências Sociais, da Universidade Federal do Amapá – UNIFAP.
candidatos Clécio Luís (REDE) e Gilvam Borges (PMDB). E mostraremos assim como esses
dois candidatos usaram esta rede social.

Jornadas de Junho de 2013 e as redes sociais

A Mobilização dos usuários de redes sociais foi o principal fio condutor nas
manifestações populares de junho de 2013 por todo Brasil. Por trás dos atos públicos que
ocorreram por todo país existiam milhares de usuários que organizavam a dinâmica desses
protestos. “O Twitter é apontado por usuários entrevistados pela BBC Brasil como uma das
principais fontes de informação em tempo real sobre o que acontecia durante as
manifestações. O Facebook, por outro lado, foi usado principalmente para organizar atos de
protesto e demonstrar posicionamentos políticos”. (BRASILEIROS..., BBC BRASIL 2013).
Considerando-se que o Facebook a partir das jornadas junho de 2013 se tornou uma
plataforma de organização, convocação e interação política. Há um grande interesse de
personalidades políticas e partidos políticos dominarem e terem acesso a esse espaço de
interação virtual se adaptando à linguagem desta plataforma.

Facebook e as campanhas eleitorais

O Facebook foi fundado em 2004 por estudantes da universidade de Harvard, criado


dentro de uma perspectiva de rede social restrita e fechada. O Facebook no ano de 2007 se
torna mais popular e passa a ser uma plataforma social muito importante entre as redes sociais
no planeta. Em 2014, o Facebook já contabilizava mais de 1 bilhão de usuários ativos e o
sucesso de público no Brasil não foi diferente. Logo a rede social se tornou uma das mais
importantes para a comunicação social e política nos últimos anos. Atraindo instituições
públicas, atores sociais e políticos diversos, veículos de comunicação e jornalistas, partidos,
movimentos sociais e eleitores que interagem, consomem, produzem e circulam informações
(Parmelee, Bichard, 2012; Effing et al, 2011). Este Espaço político digital só veio ganhar
notoriedade a partir do processo de modernização de desenvolvimento tecnológico das
sociedades e cabe às instituições de poder nessas sociedades tecnológicas se adaptarem a esse
novo espaço de influência e organização política.
No Brasil o cenário político digital só começou a ganhar força e espaço nas campanhas
eleitorais do ano de 2010, em que a presença e atuação virtual dos candidatos deram um salto
no primeiro ano de propaganda eleitoral permitida em uma rede social. No Twitter esse
fenômeno foi algo não apenas percebido no comportamento estratégico das campanhas,
mas também no comportamento dos usuários, o que levou as ferramentas digitais a
ganharem uma importância ainda maior (Mar-ques; Sampaio; Aggio, 2013).
A força para tal salto foi impulsionado por uma legislação eleitoral que autorizou o uso
nas campanhas eleitorais de 2010. Mas é só no pleito de 2012, nas eleições municipais, que
essa ferramenta passou a ser utilizada amplamente no país a partir de regras aprovadas em
2009 durante o governo do ex-presidente Lula (PT), com a lei 12.034/2009. Já em 2013, a
presidenta Dilma Rousseff (PT) através da aprovação da lei 12.891/2013, denominada
popularmente como “minirreforma eleitoral”, permitiu novos usos da internet nas campanhas
eleitorais (​Sangirardi, P., & Sanglard, F. N, 2014).
No contexto das redes sociais esse espaço já é considerado por muitos estudiosos uma
plataforma importante para o agrupamento de uma série de interações, que visam
compartilhar todo tipo de informação a partir da pluralidade de eixos temáticos permitindo
que os participantes das redes sociais mantenham interesses em comum, consumindo
informações políticas. Diferenciando-se em alguns aspectos da mídia tradicional que durante
muito tempo se apresenta como a principal via para fazer campanha, o fato disso é a valoração
do tempo de televisão no processo de campanhas eleitorais. Mas com o surgimento das redes
sociais, na medida que seu uso se mostrou uma indispensável ferramenta para campanhas
eleitorais, as campanhas digitais se tornaram uma alternativa, porém, a grande mídia
tradicional ainda ocupa maior relevância nesse processo.

Era digital e campanhas eleitorais online

Tomamos como ponto de partida o momento em que surgem fenômenos que marcam
a ideia de comunicação expressada na modernidade. As ideias de superação do
Espaço-Tempo materializam-se na contemporaneidade como uma marca nos tipos e meios de
comunicação atualmente. A democracia gerou uma espécie de acomodação que se mostrou
como um limite da chamada “era das ideologias”, mobilizadora da ação política. Os meios de
comunicação de massa vem ser a via da ideologia, modificando assim a ordem das relações
sociais em detrimento das transformações culturais onde a mediação dessas relações passam a
ser conduzidas pela comunicação, a forma de compreender o mundo deixa de ser o partido, o
sindicato e passa a ser os meios de comunicação de massa. (THOMPSON, John B, 1995 p.
156-157).
Após a surgimento da televisão e a importância que ganhou se mostrou como principal meio
de comunicação ao superar o jornal impresso, a internet vem se somar à esse campo da
comunicação, rompendo em certa medida com a separação entre emissor e receptor que a
grande mídia propôs em seu surgimento. Mas devemos considerar que o Facebook é uma rede
privada e que no Brasil a mídia tradicional pauta as informações que circulam no Facebook
Faz-se necessário ressaltar que, segundo Wilson Gomes (2005), a internet surge em um
contexto onde a democracia passa por alguns questionamentos sobre seu modelo
representativo, questionamentos que nasceram na Europa e que chegaram na América Latina
na forma do neoliberalismo. A internet era vista em meados dos anos 2000, antes do
surgimento das redes sociais em 2010, como uma via que aumentaria a participação política,
pensada pelo ótica da ideia de esfera pública de Habermas, como uma contrapartida a crise de
representatividade, uma superação do espaço-tempo na participação política. Mas a internet
não surge em uma condição política que possibilite a efetiva participação política.
Em 2010 emerge a predominância de formas de interação através das redes sociais que
alcançou uma relevância que não pode ser ignorada. O aprofundamento dessas formas de
interação nos mostra que existe uma cultura política no país que tem como característica
principal o individualismo. A manutenção dessa cultura culmina na perpetuação de práticas
que marcam a política brasileira, como é o caso do personalismo que é maciçamente expresso
nas campanhas eleitorais no país, e nas campanhas online não é diferente. A relação entre
eleitores e candidatos não é construída pela via da ideologia ou pelo programa de governo,
mas sim pela via personalista, muito presente nas democracias e semi-democracias dos países
menos desenvolvidos, como é o caso do Brasil. (​MAINWARING, Scott; TORCAL, Mariano;
2005). Essa relação no Facebook se desenha nas postagens que os candidatos fizeram na rede,
inserindo o campo pessoal no jogo político.

Resultados
Para avaliarmos as campanhas no Facebook analisamos as postagens através da análise
de conteúdo, que consistiu em verificar o conteúdo das postagens feitas no segundo turno
pelos candidatos à Prefeitura de Macapá, foram analisadas todas as postagens realizadas do
dia 03/10/2016 até o dia 30/10/2016. Escolhemos analisar os perfis pessoais, em virtude da
falta de publicação nas páginas oficiais. Assim encontramos poucas publicações referentes ao
segundo turno, o que pode indicar pouca utilização dos recursos do facebook para
engajamento da campanha.
Elaborada a verificação do perfil pessoal Clécio Luís, verificou-se que este publicou
apenas sete vezes, de acordo com a tabela abaixo:

Tabela 1- Postagens de Clécio Luis Vieira (REDE)

Dia Curtidas Comentários Compartilhamentos


06/10/16 – Comemorando 217 28
dia do prefeito
07/10/16 – Foto com 407 47 05
prefeitos
08/10/16 – Adesivaço 424 43 108
09/10/16 – Foto Círio 2016 303 06
09/10/16 – Compartilhou 224 05
foto do Círio 2016
12/10/16 – Atualização de 968 99 23
foto do Perfil (Dia das
Crianças)
17/10/16 – Atualização de 1002 151 132
foto do Perfil (Filtro “Eu
sigo com Clécio”

Desse modo é possível inferir que este optou por aparecer menos no segundo turno na
sua página, ficando então um pouco ausente nesta rede. Outra postagem que observamos foi
que as publicações estavam vinculadas a eventos pessoais da vida do candidato, no qual as
publicações mais curtidas e a mais comentada neste período foram as de mudança de foto do
perfil.

Em contrapartida Gilvam Borges (PMDB) publicou 16 vezes no período, como


podemos verificar na tabela abaixo:

Tabela 2- Postagens de Gilvam Borges (PMDB)


Dia Curtidas Comentários Compartilhamentos
10/10/16 – Compartilhou 149 07 28
link, recebendo apoio de
Aline Gurgel
11/10/16 – Compartilhou 71 07
vídeo, apoio do Dep.
Ericláudio
11/10/16 – Compartilhou 64
evento, Adesivaço
13/10/16 – Publicação 40
sobre isolamento
15/10/16 – Publicação 81 02 24
sobre professores
17/10/16 – Publicação 203 18 43
informando que a TV
Band foi multada por falar
mal de Gilvam
18/10/16 – Publicação 199 33 53
sobre pesquisa IBOPE
20/10/16 – Compartilho 75 03
vídeo de lideranças
femininas declarando
apoio a campanha
20/10/16 – Publicação 133 02 56
vídeo, sobre IBOPE
25/10/16 – Publicação 113 01
comentando evento da
campanha
26/10/16 – Publicação 83 02 21
reportagem do G1
27/10/16 – Compartilhou 116 04
acontecimento, Dep. Dr.
Furlan e Dra. Karlene
declaram apoio
27/10/16 – Compartilhou 87
foto
27/10/16 – Publicação 90
“VAMOS
COMPARTLHAR A
VERDADE”
28/10/16 – Publicação nota 223 26 60
de esclarecimento
30/10/16 – Publicação de 436 39 38
foto votando

Este candidato preocupou-se em estar presente nesta rede, informando seus eleitores a
respeito de quem aderiu a sua campanha e como andam as pesquisas. Diferente de Clécio
Luis, que manteve uma relação com os usuários mais interativa, Gilvam propõem-se a apenas
publicar e não responde comentários o que o coloca distante dos eleitores nesta rede. A
publicação que mais rendeu curtida foi quando este postou sua foto indo votar, o que pode
indicar que os eleitores esperam que nesta rede as pessoas se mostrem mais e interajam com a
sua vida pessoal.
Observada todas as postagens elaboraram-se as seguintes categorias: 1. Demonstração
de apoio (na qual foi considerado todas as postagens que apareciam a palavra apoio: Clécio
01, Gilvam 04; 2.Mobilização (posts chamando para participar de atividades ou ir votar):
Clécio 01, Gilvam 02; 3. Entrevista (considera-se todo post que apareceu um link para
entrevistas): Clécio 0, Gilvam 01; 4. Informativo (apresentação de informes sobre a
campanha): Clécio 0, Gilvam 05; 5. Comemoração (divulgação de eventos comemorativos):
Clécio 03, Gilvam 01; 6. Foto do perfil (mudança da foto do perfil): Clécio 02, Gilvam 0; 7.
Provocação (considerado os posts que indiretamente provocam o adversário): Clécio 0,
Gilvam 03.