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LEIS PENAIS ESPECIAIS Sumário 1. Lei dos Crimes Hediondos e Equiparados (Lei 8.072/90) 2 2.

LEIS PENAIS ESPECIAIS

Sumário

1. Lei dos Crimes Hediondos e Equiparados (Lei 8.072/90)

2

2. Lei de Drogas (Lei 11.343/06)

13

3. Lei de Terrorismo (Lei 13.260/16)

41

4. Lei de Tortura (Lei 9.455/97)

48

5. Estatuto do Desarmamento (Lei 10.826/03)

55

6. Lei de Contravenções penais (Decreto-Lei 3.688/41)

74

7. Crimes de Trânsito (Lei 9.503/97)

94

8. Crimes contra o Consumidor (Lei 8.078/90)

112

9. Crimes contra as Relações de Consumo (Lei 8.137/90)

122

10. Lei de Genocídio (Lei 2.889/56)

126

11. Lei de Abuso de Autoridade (Lei 4.898/65)

130

12. Crimes de Preconceito ou Discriminação (Lei 7.716/89)

146

13. Crimes contra o Sistema Financeiro Nacional (Lei 7.492/86)

155

14. Crimes de Licitações (Lei 8.666/93)

175

15. Crimes contra a Ordem Tributária (Lei 8.137/90)

183

16. Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98)

193

17. Lei de Lavagem de Dinheiro (Lei 9.613/98)

219

18. Lei de Organização Criminosa (Lei 12.850/13)

233

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LEIS PENAIS ESPECIAIS

Aula 01. Crimes hediondos e equiparados. Lei 11.343/06.

1. Lei dos Crimes Hediondos e Equiparados (Lei 8.072/90)

I. Introdução

Art. 5º, XLIII.

A lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da

tortura , o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como

crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem.

Trata-se de um mandado de criminalização e mandado de recrudescimento do

tratamento destes crimes pela legislação infraconstitucional, já que a lei considerará

inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia.

O dispositivo alcança os crimes hediondos e os crimes equiparados a hediondos

(3 Ts).

II. Rol dos crimes hediondos

Lei 8.072/90.

O caráter hediondo de um crime depende da previsão legal.

A natureza hedionda do crime independe de o crime estar consumado ou ser tentado

(art. 1º).

Art. 1º. São considerados hediondos os seguintes crimes, todos tipificados no Código Penal, consumados ou tentados:

Homicídio

simples,

quando

praticado

em

atividade

típica

de

grupo

de

extermínio, ainda que cometido por um só agente, e homicídio qualificado;

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Doutrina Homicídio simples praticado em atividade típica de grupo de extermínio:

basta que seja caracterizado por uma impessoalidade na escolha da vítima. Ex.: matar alguém que pertença determinada classe social, que seja homossexual, policial etc.

Basta que o crime de homicídio tenha sido exercido em atividade típica de grupo de extermínio. Não é necessário que o agente faça parte de algum grupo de extermínio.

Se houver efetivamente um grupo de extermínio, aplica-se a causa de aumento de 1/3 ao crime de homicídio (121, §6º, CP).

Homicídio qualificado-privilegiado

Doutrina diverge sobre a possibilidade ou não de o homicídio qualificado-privilegiado ter caráter hediondo:

1ªC: Damásio. O crime de homicídio qualificado-privilegiado não é hediondo.

Fundamento: o CP diz que devem preponderar circunstâncias de caráter subjetivo. O privilégio é subjetivo.

Entendimento majoritário e adotado pelo STJ.

2ªC: o homicídio qualificado-privilegiado deve ser considerado hediondo, pois não se deve equiparar a qualificadora com o privilégio.

Fundamento: a qualificadora implica nova tipificação (novo intervalo da pena). O privilégio é simples causa de diminuição da pena. Logo, deve preponderar a qualificadora. Entendimento minoritário.

Lesão corporal dolosa de natureza gravíssima e lesão corporal seguida de morte,

quando praticadas contra autoridade ou agente descrito nos arts. 142 e 144 da Constituição Federal, integrantes do sistema prisional e da Força Nacional de Segurança Pública, no exercício da função ou em decorrência dela, ou contra seu cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até 3º grau, em razão dessa condição;

Lesão corpora gravíssima funcional e homicídio preterdoloso funcional.

Perceba: a expressão parentesco consanguíneo foi utilizada para excluir o parentesco por afinidade.

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Doutrina: caso o agente de segurança pública tenha um filho adotivo, haverá incidência do dispositivo para incluir o crime como hediondo. Não haveria analogia in malam partem, pois a CF proíbe qualquer distinção entre filhos. Trata-se de interpretação extensiva.

Latrocínio

Roubo seguido de morte, culposa ou dolosa, decorrente de violência.

Extorsão qualificada pela morte

extorsão qualificada pela morte decorrente de violência.

Lembre-se: o sequestro relâmpago pode

caracterizar o crime de extorsão:

158, § 3 º. Se o crime é cometido mediante a restrição da liberdade da vítima, e essa condição é necessária para a obtenção da vantagem econômica, a pena é de reclusão, de 6 (seis) a 12 (doze) anos, além da multa; se resulta lesão corporal grave ou morte, aplicam-se as penas previstas no art. 159, §§ 2 o e 3 o , respectivamente.

Este sequestro relâmpago pode ser qualificado pelo resultado morte.

Doutrina: o crime de sequestro-relâmpago qualificado pela morte é ou não é crime hediondo, visto que não há expressamente na Lei 8.072/90 a previsão do art. 158, §3º?

1ªC: não é hediondo. Fundamento: não cabe analogia in malam partem. Precedentes dos Tribunais Superiores.

2ªC: é hediondo. A lei manda aplicar as mesmas penas do crime de extorsão mediante sequestro qualificado, e este é sempre crime hediondo (art. 1º, V, da Lei 8.072/90). Se é para aplicar as mesmas penas, quer dizer que é crime hediondo.

3ªC:

O sequestro relâmpago é uma modalidade do crime de extorsão. A extorsão, quando é qualificada pela lesão corporal grave, não é hedionda. Então o sequestro-relâmpago qualificado pela lesão grave também não poderá ser hediondo.

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A extorsão, quando qualificada pelo resultado morte, será considerado crime hediondo. Então, o sequestro-relâmpago, quando qualificado pelo resultado morte, também deve ser considerado crime hediondo. Victor Rios Gonçalves.

Extorsão mediante sequestro e na forma qualificada

Veja: a extorsão mediante sequestro simples é crime hediondo.

Estupro

Estupro de vulnerável

Epidemia com resultado morte (267, §1º, CP)

Epidemia: surto de uma doença que atingirá número indeterminado de pessoas de uma determinada região ou local. Isto se dá através de propagação de germes patogênicos.

Provocar a epidemia, por si só, não é crime hediondo. Para ser hediondo, é preciso que essa epidemia tenha resultado em morte. A epidemia deve ser de forma dolosa. Não é hedionda a epidemia culposa com resultado morte (267, §2º, CP).

Falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de produto destinado a fins

terapêuticos ou medicinais Para que incida a natureza hedionda do delito, esta falsificação deve ter se dado dolosamente. Caso tenha se dado culposamente, não haverá crime hediondo.

Favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de

criança ou adolescente ou de vulnerável

Genocídio previsto nos arts. 1 o , 2 o e 3 o da Lei n o 2.889/56, tentado ou

consumado

Art. 1º. Constitui crime de genocídio quem, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso:

Mata membros do grupo: será aplicada a pena do homicídio qualificado

(12 a 30 anos).

Causa lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo:

será aplicada a pena da lesão corporal gravíssima (2 a 8 anos).

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Submete intencionalmente o grupo a condições de existência capazes

de ocasionar a eles a destruição física total ou parcial: aplica-se a pena do envenenamento de água potável ou de substância alimentícia ou medicinal (10 a 15 anos).

Adota medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo:

aplica-se a pena do aborto provocado por terceiro (3 a 10 anos).

Efetua a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo:

aplica-se a pena do sequestro (1 a 3 anos).

Art. 2º

II) Crime de associação para fins de genocídio: associarem mais de 3 pessoas para

prática dos crimes de genocídio. Pena: metade da cominada aos crimes ali previstos.

Art. 3º

III) Crime de incitação ao genocídio: incitar, direta e publicamente, alguém a cometer

qualque r dos crimes de genocídio. Pena: metade da cominada aos crimes ali previstos. §1º do art. 3º: a pena pelo crime de incitação será a mesma de crime incitado, se este se consumar.

§2º do art. 3º: a pena será aumentada de 1/3, quando a incitação for cometida pela imprensa.

Art. 4º: a pena será aumentada de 1/3, no caso dos arts. 1º, 2º e 3º,

quando cometido o crime por governante ou funcionário público.

Art. 5º: será punida com 2/3 das respectivas penas a tentativa dos crimes

definidos nesta lei.

Art. 6º. Os crimes acima previstos não serão considerados crimes políticos para efeitos de extradição.

Posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso restrito (art. 16 da Lei 10.826/03) incluído pela lei 13.497/17. Novatio legis in pejus.

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Existe discussão sobre a abrangência do tipo penal: se alcança o caput e o parágrafo único do artigo 16 do ED, ou apenas o caput.

Apesar de entendimentos em sentido diverso, entendemos que as figuras descritas no parágrafo único são alcançadas pela nova lei e, portanto, são também consideradas crimes hediondos.

Fundamentos:

A) onde o legislador não diferenciou, não cabe ao intérprete diferenciar.

B) o legislador pune as condutas do caput e do parágrafo único com a mesma pena, de

maneira que possuem igual reprovabilidade, o que significa que merecem idêntico tratamento.

Apesar de entendimentos em sentido diverso, entendemos que as figuras descritas no parágrafo único são alcançadas pela nova lei e, portanto, são também consideradas crimes hediondos.

Fundamentos:

A) onde o legislador não diferenciou, não cabe ao intérprete diferenciar.

B) o legislador pune as condutas do caput e do parágrafo único com a mesma pena, de

maneira que possuem igual reprovabilidade, o que significa que merecem idêntico

tratamento.

Artigo 16 da Lei 10.826/03:

Art. 16. Possuir, deter, portar, adquirir, fornecer, receber, ter em depósito, transportar, ceder, ainda que gratuitamente, emprestar, remeter, empregar, manter sob sua guarda ou ocultar arma de fogo, acessório ou munição de uso proibido ou restrito, sem autorização e em desacordo com determinação legal ou regulamentar:

Pena reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, e multa.

Parágrafo único. Nas mesmas penas incorre quem:

I suprimir ou alterar marca, numeração ou qualquer sinal de identificação de arma de fogo ou artefato;

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II modificar as características de arma de fogo, de forma a torná-la equivalente a arma de fogo de uso proibido ou restrito ou para fins de dificultar ou de qualquer modo induzir a erro autoridade policial, perito ou juiz;

III possuir, detiver, fabricar ou empregar artefato explosivo ou incendiário, sem

autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar;

IV portar, possuir, adquirir, transportar ou fornecer arma de fogo com numeração,

marca ou qualquer outro sinal de identificação raspado, suprimido ou adulterado;

V vender, entregar ou fornecer, ainda que gratuitamente, arma de fogo, acessório, munição ou explosivo a criança ou adolescente; e

VI produzir, recarregar ou reciclar, sem autorização legal, ou adulterar, de qualquer

forma, munição ou explosivo.

Observações:

1.

STF e STJ: o crime de associação para o tráfico de drogas (art. 35 LD) não é

considerado crime equiparado a hediondo.

Fundamento: a Lei 8.072/90 não faz menção ao crime.

2. A Lei 8.072/90 não faz menção aos crimes militares. Dessa forma, o crime militar, ainda que seja uma das condutas previstas como hediondas, não será considerado hediondo.

Fundamento: infrações penais cometidas por militares em serviço são crimes militares.

III. Anistia, graça, indulto e fiança

Art. 2º. Os crimes hediondos, a tortura, o tráfico ilícito de drogas e o terrorismo são:

Insuscetíveis de anistia, graça e indulto

Insuscetíveis de fiança

CF não tinha mencionado o indulto. A Lei dos Crimes Hediondos acrescentou a insuscetibilidade do indulto.

STF: não há qualquer inconstitucionalidade, pois graça e indulto ontologicamente não se distinguem.

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Graça: perdão de caráter individual

Indulto: perdão em sentido coletivo.

Se está vedada a graça, está vedado o indulto.

Lei de Torturas (Lei 9.455/97) veio após a Lei 8.072/90 e não previu a insuscetibilidade de indulto para tortura, apenas abrangendo a anistia e a graça. Existe discussão doutrinária.

CESPE (Delta GO/2017) considerou correta a seguinte assertiva: “Embora tortura, tráfico de drogas e terrorismo não sejam crimes hediondos, também são insuscetíveis de fiança, anistia, graça e indulto”.

Art. 44 da Lei de Drogas proíbe expressamente o indulto, graça e anistia aos crimes de tráfico de drogas e equiparados.

IV. Regime inicial fechado

Art. 2º, §1º. A pena por crime hediondo será cumprida inicialmente em regime fechado.

STF: essa redação é inconstitucional. Viola o princípio da individualização da pena. Aplica-se o art. 33, §2º, do CP.

V. Regras para progressão de regime

Art. 2º, §2º. A progressão de regime, no caso dos condenados aos crimes hediondos ou equiparados a hediondos, se dará:

Primário: após o cumprimento de 2/5 da pena Reincidente: após o cumprimento de 3/5 da pena.

Pela redação originária da Lei 8.072, o sujeito deveria cumprir a pena em regime integralmente fechado. STF reputou inconstitucional.

Posteriormente, a Lei 11.464/07 trouxe a nova redação (cumprimento de 2/5 pelo primário e 3/5 pelo reincidente), qualquer que seja a reincidência.

STF, SV 26: para efeito de progressão de regime no cumprimento de pena por crime hediondo, ou equiparado, o juízo da execução observará a inconstitucionalidade do art. 2º da Lei 8.072/90, sem prejuízo de avaliar se o condenado preenche, ou não, os requisitos

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objetivos e subjetivos do benefício, podendo determinar, para tal fim, de modo fundamentado, a realização de exame criminológico.

Conclusão

Até 2007, como não havia a regra da Lei 11.464, aplicam-se as regras previstas no Código Penal e da Lei de Execuções Penais: progressão de regime por meio do cumprimento de 1/6 da pena, desde que cumpridos os demais requisitos objetivos e subjetivos.

VI. Direito de apelar em liberdade

Art. 2º, §3º. Em caso de sentença condenatória, o juiz decidirá fundamentadamente se o réu poderá apelar em liberdade.

Em verdade, o direito de apelar independe da liberdade. Mesmo que o indivíduo esteja foragido, poderá o sujeito interpor recurso de apelação.

Refere-se à prisão preventiva.

VII. Prisão temporária

Dá-se no curso do inquérito policial (imprescindível para as investigações policiais ou para esclarecimento da identidade do investigado)

Regra: prazo de 5 dias, prorrogável por mais 5 dias.

Art. 2º, §4º. A prisão temporária, sobre a qual dispõe a Lei n o 7.960/89, nos crimes hediondos e equiparados, terá o prazo de 30 dias, prorrogável por igual período em caso de extrema e comprovada necessidade.

VIII. Estabelecimentos penais

Art. 3º. A União manterá estabelecimentos penais, de segurança máxima, destinados ao cumprimento de penas impostas a condenados de alta periculosidade, cuja permanência em presídios estaduais ponha em risco a ordem ou incolumidade pública.

IX. Livramento condicional

Art. 5º da Lei 8.072/90 inseriu o inciso V ao art. 83 do CP.

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LC para condenados por crime hediondo, tortura, tráfico de drogas, tráfico de pessoas e terrorismo (redação Lei 13.344/16). Necessário que o condenado:

Cumpra mais de 2/3 da pena

Não seja reincidente específico em crimes de natureza hedionda ou equiparada

a hedionda

Lembrando

(artigo 83 do CP):

Art. 83 - O juiz poderá conceder LC ao condenado a pena privativa de liberdade igual ou superior a 2 anos, desde que:

I - cumprida + de 1/3 da pena se o condenado não for reincidente em crime doloso e tiver bons antecedentes;

II - cumprida + da 1/2 se o condenado for reincidente em crime doloso;

III - comprovado comportamento satisfatório + bom desempenho no trabalho + aptidão

para prover à própria subsistência mediante trabalho honesto;

IV - tenha reparado o dano, salvo impossibilidade de fazê-lo

Art. 44, parágrafo único, da Lei de Drogas:

Nos crimes dos arts. 33, caput e § 1º, e 34, 35, 36 e 37, caberá o LC após o cumprimento de 2/3 da pena, vedada sua concessão ao reincidente específico.

Vale lembrar: o crime de associação para o tráfico de drogas (art. 35 da LD) não é hediondo nem equiparado. Bastará o cumprimento de 1/6 da pena para progressão de regime. Por outro lado, STJ: o prazo para se obter o LC será de 2/3 porque este requisito é exigido pelo parágrafo único do art. 44 da LD (Inf. 568).

X. Delação eficaz

Art. 7º. Ao art. 159 do CP (extorsão mediante sequestro) fica acrescido o §4º:

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Se o crime é cometido por quadrilha ou bando, o coautor que denunciá-lo à autoridade, facilitando a libertação do sequestrado, terá sua pena reduzida de um a dois terços.

Causa de diminuição da pena. Requisitos necessários:

Número plural da agentes

Delação feita por um deles

Eficácia da delação para proporcionar a libertação da vítima

O quantum da redução variará conforme a maior ou menor contribuição para a libertação da vítima.

XI. Associação criminosa qualificada

Art. 8º. Será de 3 a 6 anos de reclusão a pena prevista no art. 288 do Código Penal, quando se tratar de crimes hediondos, prática da tortura, tráfico de drogas ou terrorismo.

Lembrando: há associação criminosa quando 3 ou mais pessoas se reúnem para a prática de crimes.

Perceba: a associação criminosa qualificada não é crime hediondo.

Não constitui crime hediondo a conduta de associarem-se 3 ou mais pessoas, para o fim específico de cometer crimes hediondos.

XII. Traição benéfica

Art. 8º, § único. O participante e o associado que denunciar à autoridade o bando ou quadrilha, possibilitando seu desmantelamento, terá a pena reduzida de um a dois terços.

Lei 11.343/06, art. 35. Associação para o tráfico. Delito específico.

Art. 35. Associarem-se duas ou mais pessoas para o fim de praticar,

reiteradamente ou não, qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1 o , e 34 desta Lei:

Apesar de a redação do artigo dizer “reiteradamente ou não”, a jurisprudência entende que, para a configuração da associação para o tráfico, são necessárias a estabilidade e permanência.

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2. Lei de Drogas (Lei 11.343/06)

I. Crimes e das penas

a) Porte e cultivo para consumo próprio

Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:

I - advertência sobre os efeitos das drogas;

II - prestação de serviços à comunidade;

III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.

§ 1 o Às mesmas medidas submete-se quem, para seu consumo pessoal, semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência física ou psíquica.

Destrinchando o tipo:

“Adquirir”: crime instantâneo.

“Guardar”, “ter em depósito”, “transportar” ou “trouxer consigo”: crime

permanente.

“Para consumo pessoal”: elemento subjetivo do tipo. Especial fim de agir.

“Droga”: Portaria 344 da Anvisa. Norma penal em branco.

“Sem autorização ou em desacordo com determinação legal”:

normativo do tipo.

Penas:

advertência sobre

os efeitos das drogas,

prestação de

elemento

serviços à

comunidade e medida educativa de comparecimento à programa ou curso educativo.

Não há pena privativa de liberdade.

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Lei de Introdução ao CP para ser crime, é necessário haver pena de reclusão ou de detenção no preceito secundário.

Lei específica pode prever crime sem pena privativa de liberdade.

STF: houve apenas a despenalização, mas não a descriminalização do delito de porte ou cultivo para consumo próprio da droga. Outros: houve apenas a descarcerização.

Crime de ação múltipla: tipo misto alternativo.

Observe: o tipo penal não pune o uso pretérito da droga.

Sujeito que faz o teste antidoping em que fica constatado que, há menos de 60 dias, fumou maconha não responderá pelo crime. A lei pune quem coloca em risco à sociedade, ou seja, o perigo social. Esse perigo é representado pela detenção atual da droga.

→ Elemento subjetivo do tipo

Ter a droga para uso exclusivamente seu, consumo próprio.

Norma interpretativa: art. 28, §2º.

Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz atenderá:

À natureza e à quantidade da substância apreendida

Ao local e às condições em que se desenvolveu a ação

Às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes

do agente

→ Natureza do crime

Crime de perigo abstrato.

Jurisprudência: não se aplica o princípio da insignificância para este crime.

Sujeitos do crime

O

sujeito ativo poderá ser qualquer pessoa.

O

sujeito passivo é a coletividade, ou seja, a saúde pública.

Consumação

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Quando o agente adquire (momento em que fecha o negócio, bastando o acordo).

STJ:

para configurar

a conduta

de "adquirir",

não

é necessária a tradição do

entorpecente e o pagamento do preço, bastando que tenha havido o ajuste.

Não é indispensável que a droga tenha sido entregue ao comprador e o dinheiro pago ao vendedor, bastando que tenha havido a combinação da venda (Inf. 569). Este julgado serviu para o tráfico de drogas, mas seus fundamentos são válidos.

Com relação às condutas “guardar”, “ter em depósito”, “transportar” ou

“trouxer consigo”: crime é permanente. A consumação se protrai no tempo. A captura do

agente em flagrante é admitida enquanto não cessar a permanência.

Captura, porque não se admite a prisão em flagrante para o crime de porte de drogas para uso próprio.

→ Pena

Pena para o crime de porte de drogas para uso próprio será de:

Advertência sobre os efeitos das drogas;

Prestação de serviços à comunidade;

Medida educativa de comparecimento à programa ou curso educativo.

Art. 27. As penas previstas neste Capítulo poderão ser aplicadas isolada ou

cumulativamente, bem como substituídas a qualquer tempo, ouvidos o Ministério Público e o defensor.

§3º do art. 28.

As

penas

de

prestação

de

serviços

à

comunidade

e

de

medida

educativa

de

comparecimento à programa ou curso educativo serão aplicadas pelo:

Prazo máximo de 5 meses

Prazo máximo de 10 meses, em caso de reincidência.

§5º. A prestação de serviços à comunidade será cumprida em programas comunitários, entidades educacionais ou assistenciais, hospitais, estabelecimentos congêneres, públicos ou

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privados sem fins lucrativos, que se ocupem, preferencialmente, da prevenção do consumo ou da recuperação de usuários e dependentes de drogas.

§6º.

Para

garantia

do

cumprimento

das

medidas

educativas,

caso

o

agente,

injustificadamente, se recuse a cumpri-las, poderá o juiz submetê-lo, sucessivamente a:

Admoestação verbal

Multa

Dias-multa: mínimo de 40 e máximo de 100, devendo o juiz atender à reprovabilidade da conduta do agente.

Valor do dia-multa: de 1/30 avos até 3 vezes o valor do maior salário mínimo, obedecida à capacidade econômica do agente.

Os valores serão creditados ao Fundo Nacional de Antidrogas.

§7º. O juiz determinará ao Poder Público que coloque à disposição do infrator, gratuitamente, estabelecimento de saúde, preferencialmente ambulatorial, para tratamento especializado.

Art. 30. Prescrevem em 2 anos a imposição e a execução das penas, observado, no tocante à interrupção do prazo, o disposto nos arts. 107 e seguintes do Código Penal.

Lembrando: caso o agente seja menor de 21 anos na data do fato, a prescrição deverá ser reduzida da metade - art. 115 CP.

STF: não é possível aplicar nenhuma medida socioeducativa que prive a liberdade do adolescente caso tenha praticado ato infracional análogo ao delito do art. 28 da LD, tendo em vista que o tipo penal não prevê penas privativas de liberdade caso um adulto cometa esse crime (Inf. 772).

→ Ação penal e procedimento

Pública incondicionada.

Procedimento: Lei 9.099/95. Trata-se de IMPO.

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b) Tráfico ilícito de drogas

Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar:

Pena - reclusão de 5 (cinco) a 15 (quinze) anos e pagamento de 500 (quinhentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa.

→ Sujeitos do crime

Crime comum.

A pena será aumentada de 1/6 a 2/3 se o agente pratica o crime:

Prevalecendo-se da função pública

No desempenho da função de educação, função de poder familiar, função de guarda ou função de vigilância.

O sujeito passivo é a coletividade.

Crime de ação múltipla.

→ Elemento subjetivo

Crime doloso.

Especial fim de agir: intenção de entregar a droga para outra pessoa.

→ Objeto material

É a droga (Portaria 344 da Anvisa - norma penal em branco em sentido estrito).

Art. 1º, Parágrafo único, LD. Consideram-se como drogas as substâncias ou os produtos capazes de causar dependência, assim especificados em lei ou relacionados em listas atualizadas periodicamente pelo Poder Executivo da União.

→ Consumação

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No momento em que o indivíduo pratica o núcleo do tipo.

STJ: para que se configure a conduta de "adquirir", prevista no art. 33 da Lei nº 11.343/2006, não é necessária a tradição do entorpecente e o pagamento do preço, bastando que tenha havido o ajuste.

“Dessa forma, a conduta consistente em negociar por telefone a aquisição de droga e também disponibilizar o veículo que seria utilizado para o transporte do entorpecente configura o crime de tráfico de drogas em sua forma consumada (e não tentada), ainda que a polícia, com base em indícios obtidos por interceptações telefônicas, tenha efetivado a apreensão do material entorpecente antes que o investigado efetivamente o recebesse” (Inf.

569).

→ Flagrante preparado

Policial finge-se de usuário.

Crime impossível apenas na modalidade “vender” drogas.

Na modalidade “ter em depósito” ou “guardar”, por se tratar de crime permanente, poderá ser realizada a prisão em flagrante.

Portanto, o flagrante será considerado válido.

→ Pena

Art. 42 da LD. O juiz, na fixação das penas, considerará, com preponderância sobre as circunstâncias judiciais do art. 59 do CP, a:

Natureza e a quantidade da substância ou do produto; E

Personalidade e a conduta social do agente.

STF: o grau de pureza da droga é irrelevante para fins de dosimetria da pena. Preponderam apenas a natureza e a quantidade da droga apreendida para o cálculo da dosimetria da pena (Inf. 818).

Art. 43. Na fixação da multa, o juiz, atendendo ao que dispõe o art. 42 desta Lei, determinará o número de dias-multa, atribuindo a cada um, segundo as condições

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econômicas dos acusados, valor não inferior a um trinta avos nem superior a 5 vezes o maior salário-mínimo.

§ único. As multas, que em caso de concurso de crimes serão impostas sempre

cumulativamente, podem ser aumentadas até o décuplo se, em virtude da situação econômica do acusado, considerá-las o juiz ineficazes, ainda que aplicadas no máximo.

STF

Se o réu, não reincidente, for condenado, por tráfico de drogas, a pena de até 4 anos, e se as circunstâncias judiciais do art. 59 do CP forem positivas (favoráveis), o juiz deverá fixar o regime aberto e deverá conceder a substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos, preenchidos os requisitos do art. 44 do CP.

A gravidade em abstrato do crime não constitui motivação idônea para justificar a

fixação do regime mais gravoso (Inf. 821).

→ Progressão de regime

Para haver a progressão de regime nos crimes da LD, exige-se o cumprimento de:

2/5 da pena, se for primário

3/5 da pena, se for reincidente

→ Livramento condicional (art. 44, §único, CP)

LC para condenado a tráfico de drogas: necessário que se obedeça, além dos demais requisitos do CP, o cumprimento de 2/3 da pena, desde que o agente não seja reincidente específico.

Reincidente específico: agente que tenha cometido anteriormente outro crime de tráfico de drogas, associação, fabricante, informante

→ Ação penal: pública incondicionada.

→ Tráfico privilegiado

19

Art. 33, §4º. Nos delitos definidos no art. 33, caput, e no art. 33, §1º, as penas poderão ser reduzidas de 1/6 a 2/3, vedada a conversão em penas restritivas de direitos, desde que o agente seja:

Primário

Bons antecedentes

Não se dedique às atividades criminosas

Não integre organização criminosa

STF considerou inconstitucional a disposição do art. 33, §4º, que dizia ser “vedada a conversão em penas restritivas de direitos”.

Se o réu é primário e possui bons antecedentes, o juiz pode, mesmo assim, negar o benefício do art. 33, § 4º da LD argumentando que a quantidade de drogas encontrada com ele foi muito elevada?

1ªC: 1ª Turma do STF a grande quantidade de droga pode ser utilizada como circunstância para afastar o benefício.

“Não é crível que o réu, surpreendido com mais de 500 kg de maconha, não esteja integrado, de alguma forma, a organização criminosa, circunstância que justifica o afastamento da causa de diminuição prevista no art. 33, §4º, da Lei de Drogas (HC 130981/MS, Rel. Min. Marco Aurélio, 18/10/2016. Info 844).

2ªC: A 2ª Turma do STF: a quantidade de drogas encontrada não constitui, isoladamente, fundamento idôneo para negar o benefício da redução da pena previsto no tráfico privilegiado (HC 138138/SP, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgado em 29/11/2016. Info 849).

STJ, Súmula 512 (CANCELADA): a aplicação da causa de diminuição de pena prevista no art. 33, § 4º, da LD não afasta a hediondez do crime de tráfico de drogas.

Acompanhando entendimento do STF, a Terceira Seção do STJ estabeleceu que: o tráfico privilegiado de drogas não constitui crime de natureza hedionda (Inf. 595).

20

STF

Há evidente constrangimento ilegal ao se enquadrar o tráfico de entorpecentes privilegiado às normas da Lei 8.072/90, especialmente porque os delitos desse tipo apresentam contornos menos gravosos e levam em conta elementos como o envolvimento ocasional e a não reincidência.

Critério que o juiz levará em conta para aplicar a causa de redução de pena do tráfico privilegiado. Lei silente.

STF: não é possível considerar a quantidade e natureza da droga na primeira fase da dosimetria da pena e usar novamente na terceira fase, a fim de diminuir para menos de 2/3 da pena. Princípio do ne bis in idem.

STF não diz qual seria o critério para reduzir de 1/6 a 2/3 para o tráfico privilegiado.

Observação:

Como o crime de associação para o tráfico de droga exige estabilidade e permanência, o agente não poderá ser beneficiário da causa de diminuição de pena do tráfico privilegiado.

Conclusão: quem está sendo condenado por associação ao tráfico de drogas não poderá, ao mesmo tempo, receber a causa de diminuição de pena do tráfico privilegiado.

STJ

O fato de o crime ter sido cometido nas dependências de estabelecimento prisional (inciso III do art. 40) não pode ser utilizado como fator negativo para fundamentar uma pequena redução da pena na aplicação da causa de diminuição de pena do tráfico privilegiado e, ao mesmo tempo, ser empregado para aumentar a pena. Bis in idem. A circunstância deverá ser utilizada apenas como causa de aumento do art. 40, III (Inf. 586).

STJ: ainda que o réu comprove o exercício de atividade profissional lícita, se, de forma concomitante, ele se dedicava a atividades criminosas, não terá direito à causa especial de diminuição de pena prevista no art. 33, § 4º, da Lei nº 11.343/2006 (Lei de Drogas).

Além disso, o tráfico de drogas praticado por intermédio de adolescente que, em troca da mercancia, recebia comissão, evidencia que o acusado se dedicava a atividades criminosas,

21

circunstância apta a afastar a incidência da causa especial de diminuição de pena prevista no art. 33, § 4º, da LD (Inf. 582, STJ).

STJ

É possível a utilização de inquéritos policiais e/ou ações penais em curso para formação da convicção de que o réu se dedica a atividades criminosas, de modo a afastar o benefício legal previsto no art. 33, § 4º, da Lei n.º 11.343/2006 (Inf. 596).

c) Figuras equiparadas ao tráfico de drogas

Condutas relacionadas a matéria-prima, insumo ou produto químico destinado à preparação de drogas

§1º do art. 33. Nas mesmas penas de reclusão de 5 a 15 anos e pagamento de 500 a 1.500 dias-multa incorre quem:

I - importa, exporta, remete, produz, fabrica, adquire, vende, expõe à venda,

oferece, fornece, tem em depósito, transporta, traz consigo ou guarda, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, matéria-prima, insumo ou produto químico destinado à preparação de drogas;

A matéria-prima, insumo ou produto químico não precisam ser drogas, bastando que sejam idôneos à preparação dos entorpecentes.

preparação de drogas

Condutas

relacionadas

a

plantas

que

se

constituam

em

matéria-prima

para

II - semeia, cultiva ou faz a colheita, sem autorização ou em desacordo com

determinação legal ou regulamentar, de plantas que se constituam em matéria-prima para a preparação de drogas;

A simples posse de sementes não se encontra no tipo penal.

Se o sujeito é encontrado na posse de semente de planta que é matéria-prima para droga, é necessário fazer um exame químico-toxicológico da semente, a fim de verificar se, na semente, há o princípio ativo da Lei de Drogas.

Se tiver o princípio ativo, haverá o crime do art. 33, caput.

22

Se a semente em si não contiver o princípio ativo, como o é a semente de maconha:

1ªC: O indivíduo não comete o crime do art. 33, §1º, II, mas cometerá o crime do art. 33, §1º, I, tendo em vista que, apesar de não ser planta, não deixa de ser matéria-prima, insumo ou produto químico destinado à preparação de drogas.

2ªC: Fato atípico. A semente da maconha não contém o tetrahidrocanabinol (THC). A semente é matéria-prima, mas não é utilizada para a preparação da maconha, e sim para a produção da maconha. Como não há vedação à produção da maconha no art. 33, §1º, I, o fato seria atípico.

STJ: classifica-se como "droga", para fins da Lei de Drogas, a substância apreendida que possua "canabinoides", ainda que naquela não haja tetrahidrocanabinol (THC) (Inf. 582).

Art. 32 da Lei de Drogas.

As plantações ilícitas serão imediatamente destruídas pelo delegado de polícia por meio de incineração, que recolherá quantidade suficiente para exame pericial, de tudo lavrando auto de levantamento das condições encontradas, com a delimitação do local, asseguradas as medidas necessárias para a preservação da prova.

Art. 243 da Constituição Federal.

Haverá a expropriação da terra, como medida sancionatória, e sem qualquer direito à indenização, nas propriedades rurais e urbanas de qualquer região do País onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas. Essas terras serão destinadas à reforma agrária e a programas de habitação popular, sem qualquer indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei.

Parágrafo único.

Todo e qualquer bem de valor econômico apreendido em decorrência do tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins e da exploração de trabalho escravo será confiscado e reverterá a fundo especial com destinação específica, na forma da lei.

Para a desapropriação confiscatória, é necessário processo judicial. Competência: JF. A União proporá "ação expropriatória" contra o proprietário do imóvel. Vale ressaltar: apenas

23

a União é competente para realizar a expropriação de que trata o art. 243 da CF/88, não podendo ser feita pelos outros entes federativos.

STF: a expropriação recairá sobre a totalidade do imóvel, ainda que o cultivo ilegal ou a utilização de trabalho escravo tenham ocorrido em apenas parte dele.

STF: o proprietário poderá evitar a expropriação se provar que não incorreu em culpa, ainda que in vigilando ou in eligendo, pelo fato de estarem cultivando plantas psicotrópicas em seu imóvel (Info 851). Responsabilidade Subjetiva.

Para que a sanção do art. 243, não se exige a participação direta do proprietário no cultivo ilícito, mas como se trata de sanção, exige-se algum grau de culpa.

Culpa in vigilando: é a falta de atenção com a conduta de outra pessoa. Ocorre quando não há uma fiscalização efetiva.

Culpa in eligendo: consiste na má escolha daquele a quem se confia a prática de um ato. Também chamada de “responsabilidade pela má eleição”.

a

expropriação mesmo que apenas um deles tenha participação ou culpa. Restará ao inocente apenas o direito buscar reparação daquele que participou ou teve culpa.

Se

o

imóvel

pertencer

a

dois

ou

mais

proprietários

(condomínio),

haverá

Importante destacar: cabe ao proprietário, e não à União, o ônus da prova de que não agiu com culpa.

Utilização de local ou bem para o tráfico ou consentimento de uso de local ou bem para que terceiro pratique tráfico

Art. 33, §1º, III. Nas mesmas penas incorre quem utiliza local ou bem de qualquer natureza de que tem a propriedade, posse, administração, guarda ou vigilância, ou consente que outrem dele se utilize, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, para o tráfico ilícito de drogas.

O crime só se consuma com o efetivo tráfico no local, ainda que por uma única vez.

Atenção: não há menção sobre a punição para o indivíduo que cede a utilização do local ou bem para o uso de drogas.

24

Art. 63 da LD. O juiz, ao proferir a sentença de mérito, decidirá sobre o perdimento do produto, bem ou valor apreendido, sequestrado ou declarado indisponível.

Aula 02. Lei 11.343/06 (continuação).

d) Induzimento, instigação ou auxílio ao uso de droga

§ 2 o Induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso indevido de droga:

Pena - detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa de 100 (cem) a 300 (trezentos) dias- multa. I Médio PO.

ADIN 4.274

STF deu interpretação conforme ao art. 33, §2º, a fim de excluir qualquer intepretação que enseje proibição de manifestação ou debate público sobre a descriminalização ou da legalização do uso de drogas, mais especificamente à maconha, denominada “Marcha da Maconha”.

Fundamento: liberdade de expressão. Não há instigação ao uso de drogas. Não há direcionamento especial a qualquer pessoa.

→ Sujeitos do crime

Sujeito ativo é qualquer pessoa

Sujeito passivo é a coletividade.

→ Consumação

No momento em que a pessoa instigada, induzida ou auxiliada efetivamente faça uso da droga.

→ Ação penal

Pública Incondicionada.

e) Oferta eventual e gratuita para consumo conjunto

25

§

3 o

Oferecer droga, eventualmente e sem objetivo de lucro, a pessoa de seu

relacionamento, para juntos a consumirem:

Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 1 (um) ano, e pagamento de 700 (setecentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa, sem prejuízo das penas previstas no art. 28. IMPO

O oferecimento da droga deverá ser:

Eventual

Sem objetivo de lucro

A pessoa do relacionamento do ofertante

Com finalidade de juntos consumirem

Não pode haver habitualidade nem finalidade lucrativa.

Sujeitos do crime

Sujeito ativo é qualquer pessoa

Sujeito passivo é a coletividade (saúde pública).

→ Consumação

Doutrina: trata-se de crime formal.

Consuma-se no momento em que a droga é oferecida, ainda que não haja o efetivo uso da droga.

→ Ação penal

Pública Incondicionada.

f) Maquinismos e objetos destinados ao tráfico de drogas

Art. 34. Fabricar, adquirir, utilizar, transportar, oferecer, vender, distribuir, entregar a qualquer título, possuir, guardar ou fornecer, ainda que gratuitamente, maquinário, aparelho, instrumento ou qualquer objeto destinado à fabricação, preparação, produção ou transformação de drogas, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar:

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Pena - reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e pagamento de 1.200 (mil e duzentos) a 2.000 (dois mil) dias-multa.

Crime de conteúdo misto.

Há subsidiariedade entre os crimes do tráfico de drogas e o tráfico de maquinismos e objetos destinados ao tráfico.

O art. 33 absorverá o art. 34, quando não houver contextos autônomos.

Ex.: sujeito comprou maquinário para produzir aquela droga. Tendo terminado a produção, o instrumento ou maquinário já não mais subsiste. Nesse caso, o crime do art. 33 absorverá o delito do art. 34.

→ Objeto material do crime

É o objeto utilizado na criação da droga.

Ex.: não se pode punir quem porta lâmina de barbear para separar cocaína em doses, ou cachimbos para uso da maconha. Ambos não auxiliam no processo criativo da droga.

→ Sujeitos do crime

Sujeito ativo é qualquer pessoa

Sujeito passivo é a coletividade (saúde pública).

→ Ação penal Pública Incondicionada.

g) Associação para o tráfico

Art. 35. Associarem-se duas ou mais pessoas para o fim de praticar, reiteradamente ou não, qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1 o , e 34 desta Lei:

Pena - reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e pagamento de 700 (setecentos) a 1.200 (mil e duzentos) dias-multa.

Parágrafo único. Nas mesmas penas do caput deste artigo incorre quem se associa para a prática reiterada do crime definido no art. 36 desta Lei.

Crime plurissubjetivo.

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Requisitos:

Envolvimento de ao menos 2 pessoas (crime de concurso necessário)

Prática de tráfico de drogas (art. 33, caput), figuras equiparadas ao tráfico (art. 33, §1º) ou tráfico de maquinário (art. 34).

STJ:

A participação do menor pode ser considerada para configurar o crime de associação

para o tráfico (art. 35) e, ao mesmo tempo, para agravar a pena como causa de aumento do

art. 40, VI, da Lei nº 11.343/2006 (Inf. 576).

STJ e doutrina

A associação deve ter estabilidade e permanência.

→ Sujeitos do crime

Sujeito ativo é qualquer pessoa

Sujeito passivo é a coletividade (saúde pública).

→ Consumação

Crime formal. Consuma-se no momento em que há a união dos envolvidos para a prática do tráfico.

Caso efetivamente pratiquem o tráfico, haverá associação em concurso material com tráfico.

→ Ação penal Pública Incondicionada.

h) Financiamento ao tráfico de drogas

Art. 36. Financiar ou custear a prática de qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1 o , e 34 desta Lei:

Pena - reclusão, de 8 (oito) a 20 (vinte) anos, e pagamento de 1.500 (mil e quinhentos) a 4.000 (quatro mil) dias-multa.

Veja: esta pena é a mais severa da lei.

28

O financiamento atingirá os crimes de tráfico de drogas (art. 33, caput), figuras

equiparadas ao tráfico (art. 33, §1º) ou tráfico de maquinário (art. 34).

→ Sujeitos do crime

Sujeito ativo é qualquer pessoa

Sujeito passivo é a coletividade (saúde pública).

→ Consumação

No momento em que o agente financia ou custeia de forma habitual o tráfico de drogas (Victor Rios Gonçalves e José Baltazar).

Fernando Capez: é desnecessária a habitualidade. Para consumação basta um só financiamento.

→ Ação penal

Pública Incondicionada.

→ Causa de aumento x crime de financiamento

O financiamento também pode ser causa de aumento de pena (art. 40, VII, LD).

Se o agente trafica e financia, somente responderá pelo tráfico com a pena majorada. Princípio da especialidade.

Se o agente apenas financia, responderá pelo art. 36.

i) Informante colaborador

Art. 37. Colaborar, como informante, com grupo, organização ou associação destinados à prática de qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1 o , e 34 desta Lei:

Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e pagamento de 300 (trezentos) a 700 (setecentos) dias-multa.

O agente não integra efetivamente o grupo, mas colabora por meio do seu papel de informante. Ex.: fogueteiro.

29

Se o agente integrar efetivamente o grupo, não responderá por este crime, e sim pela associação para o tráfico (art. 35).

Policial que informa aos traficantes sobre a data da operação de combate ao tráfico

que ocorrerá no morro: crime de colaboração ao tráfico de drogas (informante colaborador).

Se receber dinheiro para isso, concurso material com corrupção passiva.

Em geral, o informante recebe dinheiro para colaborar, mas não há exigência legal

nesse sentido.

Funcionário público que se aproveita de suas funções para informar traficantes sobre eventual diligência e recebe dinheiro por isso: corrupção passiva + 37 da LD, na forma do art. 69 CP.

→ Sujeitos do crime

Sujeito ativo: qualquer pessoa. Passivo: coletividade.

→ Ação penal Pública Incondicionada.

j) Prescrição culposa

Prescrever ou ministrar, culposamente, drogas, sem que delas necessite o

paciente, ou fazê-lo em doses excessivas ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar:

Art. 38.

Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e pagamento de 50 (cinqüenta) a 200 (duzentos) dias-multa. IMPO

Parágrafo único.

O juiz comunicará a condenação ao Conselho Federal da categoria

profissional a que pertença o agente.

Prescrever: receitar.

Ministrar: introduzir a substância.

→ Sujeitos do crime (crime próprio)

Sujeito ativo: médico ou o dentista, no caso de prescrever.

30

Sujeito ativo: médico, dentista, farmacêutico ou profissional de enfermagem, no caso de ministrar.

Sujeitos passivos: a coletividade e a pessoa a quem a droga foi ministrada.

→ Ação penal Pública Incondicionada.

k) Condução de embarcação ou aeronave após o consumo de droga

Art. 39. Conduzir embarcação ou aeronave após o consumo de drogas, expondo a dano potencial a incolumidade de outrem:

Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 3 (três) anos, além da apreensão do veículo, cassação da habilitação respectiva ou proibição de obtê-la, pelo mesmo prazo da pena privativa de liberdade aplicada, e pagamento de 200 (duzentos) a 400 (quatrocentos) dias- multa. I Médio PO

Crime qualificado:

Parágrafo único. As penas de prisão e multa, aplicadas cumulativamente com as demais, serão de 4 a 6 anos e de 400 a 600 dias-multa, se o veículo referido no caput deste artigo for de transporte coletivo de passageiros.

É necessário que, em razão do consumo da droga, o agente conduza a embarcação ou aeronave de forma anormal. Não é necessário que uma pessoa específica tenha ficado em situação de risco. Basta demonstrar que o agente conduziu de forma anormal. Crime de perigo concreto. Se for veículo automotor, art. 306 do CTB.

→ Sujeitos do crime

Sujeito ativo é qualquer pessoa

Sujeito passivo é a coletividade (saúde pública).

→ Ação penal

Incondicionada.

II. Causas de aumento de pena

31

Art. 40. as penas previstas nos arts. 33, 34, 35, 36 e 37 desta Lei são aumentadas de 1/6 a 2/3, se:

A natureza, a procedência da substância ou do produto apreendido e as circunstâncias do fato evidenciarem a transnacionalidade do delito;

Competência: Justiça Federal.

Não é necessário que o agente consiga sair do país ou ingressar no país com a droga. Basta que fique demonstrado que esta era a sua finalidade.

O

agente

praticar

o

crime

prevalecendo-se

de

função

pública

ou

no

desempenho de missão de educação, poder familiar, guarda ou vigilância;

A infração tiver sido cometida nas dependências ou imediações de estabelecimentos prisionais, de ensino ou hospitalares, de sedes de entidades estudantis, sociais, culturais, recreativas, esportivas, ou beneficentes, de locais de trabalho coletivo, de recintos onde se realizem espetáculos ou diversões de qualquer natureza, de serviços de tratamento de dependentes de drogas ou de reinserção social, de unidades militares ou policiais ou em transportes públicos;

O espírito que orienta a norma é a maior reprovabilidade do comportamento e a maior capacidade de difundir o uso.

STJ: para incidência dessa causa de aumento de pena pelo tráfico de drogas em transporte público, exige-se a comercialização efetiva da droga no transporte público.

STF: se o agente vende a droga nas imediações de um presídio, mas o comprador não era um dos detentos nem qualquer pessoa que estava frequentando o presídio, ainda assim deverá incidir a causa de aumento. É irrelevante se o agente infrator visa ou não aos frequentadores daquele local (Inf. 858).

O crime tiver sido praticado com violência, grave ameaça, emprego de arma de

fogo, ou qualquer processo de intimidação difusa ou coletiva; Autoriza interpretação teleológica.

No caso de o indivíduo utilizar de arma de fogo para traficar, o sujeito não responderá pelo crime de tráfico de drogas e pelo crime de porte ilegal de arma de fogo, mas apenas pelo

32

tráfico majorado pelo emprego de arma de fogo, salvo se ficar constatado que o sujeito utiliza a arma em outros momentos diversos das atividades de tráfico de drogas.

Caracterizado o tráfico entre Estados da Federação ou entre Estados e o Distrito Federal;

Competência: Justiça Estadual.

Para a incidência, basta que fique demonstrada a finalidade de transporte para outro Estado da federação, não sendo necessária a efetiva transposição de um Estado para outro.

Observação

Agente que importa droga com objetivo de vendê-la apenas em seu Estado da Federação.

Ainda que para chegar ao seu destino tenha a droga que passar por outros Estados, incidirá apenas a causa de aumento da transnacionalidade (art. 40, I). O fato de o agente, por motivos de ordem geográfica, ter que passar por mais de um Estado para chegar ao seu destino final não é suficiente para caracterizar a interestadualidade. (Inf. 586, STJ).

Sua prática envolver ou visar a atingir criança ou adolescente ou a quem tenha,

e

por

determinação;

qualquer

motivo,

diminuída

ou

suprimida

a

capacidade

de

entendimento

Vulnerável como vítima ou coautor.

Quem pratica tráfico na companhia de um menor não responde por corrupção de menores, mas pelo tráfico majorado pelo envolvimento do menor. Princípio da especialidade.

STJ

Na hipótese de o delito praticado pelo agente e pelo menor de 18 anos não estar previsto nos arts. 33 a 37 da Lei de Drogas, o réu poderá ser condenado pelo crime de corrupção de menores.

Por outro lado, se a conduta estiver tipificada em um desses artigos (33 a 37), não será possível a condenação por aquele delito, mas apenas a majoração da sua pena com base no art. 40, VI, da Lei de Drogas (Inf. 595).

33

STJ

Participação do menor pode ser considerada para configurar associação para o tráfico (art. 35) e, ao mesmo tempo, majorar a pena como causa de aumento do art. 40, VI, da LD (Inf. 576).

Causa de aumento do art. 40, VI, LD pode ser aplicada tanto para majorar o tráfico de drogas (33) quanto para majorar a associação para o tráfico (35) praticados no mesmo contexto.

Fundamento: não há bis in idem. São delitos diversos, totalmente autônomos, com motivação e finalidades distintas.

STJ

O fato de o agente ter envolvido um menor na prática do tráfico e, ainda, tê-lo retribuído com drogas, para incentivá-lo à traficância ou ao consumo e dependência, justifica a aplicação, em patamar superior ao mínimo, da causa de aumento de pena do art. 40, VI, da Lei nº 11.343/2006, ainda que haja fixação de pena-base no mínimo legal. Gravidade concreta do delito. (Inf. 576, STJ).

O agente financiar ou custear a prática do crime.

Agente que, além de traficar, financia o tráfico.

III. Causa de diminuição de pena (colaboração premiada)

Art. 41. O indiciado ou acusado que colaborar voluntariamente com a investigação policial e o processo criminal na identificação dos demais coautores ou partícipes do crime e na recuperação total ou parcial do produto do crime, no caso de condenação, terá pena reduzida de um terço a dois terços.

Quanto maior a colaboração, maior a redução de pena devida.

IV. Procedimento penal

a) Fase policial

34

Art. 50. Ocorrendo prisão em flagrante, a autoridade de polícia judiciária fará, imediatamente, comunicação ao juiz competente, remetendo-lhe cópia do auto lavrado, do qual será dada vista ao órgão do Ministério Público, em 24 (vinte e quatro) horas.

Após a prisão, para lavratura do APF e estabelecimento da materialidade, é necessário laudo de constatação provisória sobre a natureza e a quantidade da droga.

O laudo provisório é firmado por um perito ou, na falta do perito, por uma pessoa idônea. Normalmente, será o escrivão, agente da polícia, policial militar, etc.

Para lavratura do APF é suficiente o laudo de constatação.

Após a prisão, prazo para conclusão do IP: 30 dias.

Caso o indivíduo esteja solto, prazo de 90 dias.

Os prazos poderão ser duplicados pelo juiz, ouvido o MP, desde que haja pedido justificado do delegado de polícia.

Art. 53. Em qualquer fase da persecução criminal relativa aos crimes previstos nesta Lei, são permitidos, além dos previstos em lei, mediante autorização judicial e ouvido o MP, os seguintes procedimentos investigatórios:

I. Infiltração por agentes de polícia, em tarefas de investigação, constituída pelos órgãos especializados pertinentes;

II. Não-atuação policial sobre os portadores de drogas, seus precursores químicos ou outros produtos utilizados em sua produção, que se encontrem no território brasileiro, com a finalidade de identificar e responsabilizar maior número de integrantes de operações de tráfico e distribuição, sem prejuízo da ação penal cabível.

Parágrafo único. Na hipótese do inciso II, a autorização será concedida desde que sejam conhecidos o itinerário provável e a identificação dos agentes do delito ou de colaboradores.

STJ

A investigação policial que tem como única finalidade obter informações mais concretas acerca de conduta e de paradeiro de determinado traficante, sem pretensão de identificar

35

outros suspeitos, não configura a ação controlada do art. 53, II, da LD, sendo dispensável a autorização judicial para a sua realização (Inf. 570, STJ).

b) Instrução criminal

Terminado o IP, os autos serão remetidos ao juízo, o qual remeterá os autos ao MP, a fim de que, no prazo de 10 dias:

a) requeira o arquivamento,

b) requeira novas diligências ou,

c) entendendo suficiente, ofereça denúncia.

Denúncia: MP arrola testemunhas (número máximo 5).

Após, o juiz determina a notificação do acusado para apresentação de defesa prévia

no prazo de 10 dias.

Após, volta ao juiz, que irá, no prazo de 5 dias, receber a denúncia, rejeitá-la ou

determinar diligências que repute imprescindíveis.

Se determinar diligências imprescindíveis, o juiz fixará um prazo máximo de 10 dias,

a fim de que sejam realizados estes exames ou perícias. Depois, o juiz terá mais 5 dias para

receber ou rejeitar a denúncia.

Recebida a denúncia, o juiz determinará a citação do acusado e intimação do MP para o dia e hora da audiência de instrução, e requisitará laudos periciais faltantes.

Obs.: se estivermos diante do art. 33, caput, §1º, ou do art. 34 a 37, o juiz, ao receber a denúncia, poderá decretar o afastamento cautelar do denunciado de suas atividades, se for funcionário público, comunicando ao órgão respectivo. Especialmente se o sujeito se valeu

remuneração.

Se o sujeito não for encontrado para citação pessoal, será então citado por edital.

Caso o sujeito não compareça à audiência nem nomeie defensor, o juiz suspenderá o processo e o prazo prescricional, nos moldes do art. 366 do CPP.

36

da

função

de

funcionário

público

para

a

atividade.

O

sujeito

continuará

recebendo

O acusado será citado para audiência de instrução e julgamento, a qual deve acontecer no prazo de 30 dias, a contar do momento em que foi recebida a denúncia.

Observe: isso irá acontecer, caso não tenha sido determinada a realização de perícia para verificar se o acusado é dependente de drogas. Neste caso, o prazo para a AIJ será de 90 dias (art. 56, §2º).

Começada a audiência, SEGUNDO A LETRA DA LEI (ARTIGO 57) o primeiro ato será o interrogatório do acusado. No CPP, o interrogatório é o último. Hoje prevalece que o interrogatório, mesmo no procedimento da Lei de Drogas, será o último ato do processo.

ATENÇÃO:

INFORMATIVO 609 DO STJ

O art. 400 do CPP prevê que o interrogatório deverá ser realizado como último ato da instrução criminal.

Essa regra deve ser aplicada:

nos processos penais militares;

nos processos penais eleitorais e

em todos os procedimentos penais regidos por legislação especial (ex: lei de

drogas).

do interrogatório como último ato da instrução em todos os procedimentos

penais só se tornou obrigatória a partir da data de publicação da ata de julgamento do HC 127900/AM pelo STF (11/03/2016).

A tese

Os interrogatórios realizados nos processos penais militares, eleitorais e da lei de drogas até o dia 10/03/2016 são válidos mesmo que tenham sido efetivados como o primeiro ato da instrução. STF. Plenário. HC 127900/AM, Rel. Min. Dias Toffoli (Info 816). STJ. 6ª Turma. HC 397382-SC (Info 609).

Art. 57. Na audiência de instrução e julgamento, após o interrogatório do acusado e a inquirição das testemunhas, será dada a palavra, sucessivamente, ao representante do

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Ministério Público e ao defensor do acusado, para sustentação oral, pelo prazo de 20 (vinte) minutos para cada um, prorrogável por mais 10 (dez), a critério do juiz.

Obs.: se o réu declara-se dependente e o juiz percebe que há indícios nesse sentido, deve determinar a realização do exame para verificar essa dependência do acusado.

Art. 58. Encerrados os debates, proferirá o juiz sentença de imediato, ou o fará em 10 (dez) dias, ordenando que os autos para isso lhe sejam conclusos.

Na sentença, o juiz deverá decretar também a perda de veículos, embarcações, aeronaves, bem como de maquinários, utensílios e objetos utilizados para a prática do crime.

c) Destruição da droga

§ 3 o Recebida cópia do APF, o juiz, no prazo de 10 dias, certificará a regularidade formal do laudo de constatação e determinará a destruição das drogas apreendidas, guardando-se amostra necessária à realização do laudo definitivo.

Art. 72. Encerrado o processo penal ou arquivado o inquérito policial, o juiz, de ofício, mediante representação do delegado de polícia ou a requerimento do Ministério Público, determinará a destruição das amostras guardadas para contraprova, certificando isso nos autos.

d) Competência

Art. 70. O processo e o julgamento dos crimes previstos nos arts. 33 a 37 desta Lei, se caracterizado ilícito transnacional, são da competência da Justiça Federal.

Parágrafo único.

Os crimes praticados nos Municípios que não sejam sede de vara

federal serão processados e julgados na vara federal da circunscrição respectiva.

STJ, Súmula 528: compete ao juiz federal do local da apreensão da droga remetida do exterior pela via postal processar e julgar o crime de tráfico internacional.

e) Laudo de constatação e laudo toxicológico

Apreendida a droga, dois exames serão necessários:

Laudo de constatação: laudo provisório, sem caráter científico, que é feito por um perito oficial ou pessoa idônea, caso não haja perito oficial.

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O laudo de constatação afere a natureza e a quantidade da droga. Com ele, permitem-

se a lavratura do APF, o oferecimento da denúncia e o recebimento da denúncia.

laudo

comprovando a materialidade do delito.

Laudo

definitivo:

que

resulta

de

exame

químico-toxicológico,

Art. 50, §2º. O perito que subscrever o laudo de constatação não ficará impedido de participar da elaboração do laudo definitivo.

Atenção:

O laudo definitivo deverá ser juntado antes da realização da AIJ.

É comum que não seja juntado a tempo, sendo realizada a AIJ com a oitiva das

testemunhas e interrogatório e, após, aguarda-se a chegada do laudo definitivo para que as partes se manifestem acerca dele nas alegações finais, apesar da ausência de previsão legal. Após, o juiz prolata a sentença, já que não há qualquer prejuízo ao réu.

f) Inimputabilidade na Lei de Drogas

Art. 45 da LD. É isento de pena o agente que, em razão da dependência, ou sob o efeito, proveniente de caso fortuito ou força maior, de droga, era, ao tempo da ação ou da omissão, qualquer que tenha sido a infração penal praticada, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.

Há 3 espécies de inimputabilidade na Lei de Drogas:

Dependência da droga: réu que, em razão da dependência, era, ao tempo da

ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de

determinar-se de acordo com esse entendimento.

Enseja absolvição imprópria

Caso fortuito: réu que, por estar sob o efeito de droga, proveniente de caso

fortuito, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.

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Força maior: réu que, por estar sob o efeito de droga, proveniente de força

maior, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.

Hipóteses de caso fortuito ou força maior: absolvição própria.

Os semi-imputáveis serão condenados, mas sua pena será reduzida de 1/3 a 2/3, e, eventualmente, substituída por medida de segurança.

Art. 26.

A pessoa condenada pela prática de qualquer infração penal, que seja dependente de

droga, e que esteja cumprindo pena privativa de liberdade ou medida de segurança, deverá ter assegurado o tratamento dentro do sistema penitenciário ou dentro do hospital de custódia.

O condenado dependente que esteja cumprindo pena fora do sistema prisional deverá

ser submetido a tratamento por um profissional de saúde.

g) Exame de dependência

A realização do exame de dependência toxicológica deverá ser determinada pelo juiz, caso o acusado declare ser dependente ou se houver indícios nesse sentido.

Não suspenderá o trâmite da ação penal.

h) Apreensão, arrecadação e destinação dos bens do acusado

→ Bens ou valores obtidos com o tráfico

Sendo um bem móvel, imóvel ou valores consistentes em produtos ou proveitos dos crimes, o juiz poderá determinar a apreensão desses bens móveis, imóveis ou valores.

Art. 61. O juiz poderá autorizar que o bem apreendido seja utilizado por órgãos ou pelas entidades que atuam na prevenção do uso indevido de drogas, na atenção e reinserção social de usuários de drogas, exclusivamente no interesse dessas atividades.

Ao proferir a sentença, o juiz vai decretar a perda desses bens e valores que sejam decorrentes do tráfico de drogas.

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h) Bens utilizados para o tráfico

Ex.: carro utilizado para o tráfico (o agente comercializa drogas dentro do carro por ser mais discreto).

Art. 62. Os veículos, embarcações, aeronaves e quaisquer outros meios de transporte, os maquinários, utensílios, instrumentos e objetos de qualquer natureza, utilizados para a prática dos crimes definidos nesta Lei, serão apreendidos e ficarão sob custódia da autoridade de polícia judiciária, excetuadas as armas, que serão recolhidas na forma de legislação específica.

A perda desses bens e valores apreendidos será decretada na sentença pelo juiz, caso em que serão perdidos em favor da União, devendo ser revertidos ao Fundo Nacional Antidrogas (FUNAD).

3. Lei de Terrorismo (Lei 13.260/16)

Art. 1º. Esta Lei regulamenta o disposto no inciso XLIII do art. 5º da Constituição Federal

e:

Disciplina o terrorismo

Trata de disposições investigatórias e processuais

Reformula o conceito de organização terrorista

Art. 5º, XLIII, da CF (mandado de criminalização):

A lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a

prática da tortura , o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos

como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem.

A Lei 13.260/16 concretiza esse dispositivo constitucional.

I. Conceito de terrorismo

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Art. 2º. O terrorismo consiste na prática dos atos definidos no §1º do art. 2º, quando praticados por um ou mais indivíduos:

Por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e

religião

Cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado

Expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública.

Perceba:

Ato descrito no §1º

+

Motivação (ex.: xenofobia)

+

especial fim de agir (ex.: provocar terror social)

+

Exposição a perigo (crime de perigo concreto).

 

Crime

formal:

o

sujeito

não

precisa

provocar

efetivamente

o

terror

social

ou

generalizado. Basta tal finalidade.

 
 

II. Atos de terrorismo

 

Art. 2º, § 1º. São atos de terrorismo:

 

Usar

ou

 

ameaçar

usar,

transportar,

guardar,

portar

ou

trazer

consigo

explosivos, gases tóxicos, venenos, conteúdos biológicos, químicos, nucleares ou outros meios capazes de causar danos ou promover destruição em massa;

Autoriza interpretação analógica.

Tipo penal misto alternativo.

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A lei pune atos preparatórios (ameaça usar, portar, guardar e transportar o explosivo

Direito Penal de 3º Velocidade).

Sabotar o funcionamento ou apoderar-se,

com violência, grave ameaça a pessoa ou servindo-se de mecanismos cibernéticos, do controle total ou parcial, ainda que de modo temporário, de meio de comunicação ou de transporte, de portos, aeroportos, estações ferroviárias ou rodoviárias, hospitais, casas de saúde, escolas, estádios esportivos, instalações públicas ou locais onde funcionem serviços públicos essenciais, instalações de geração ou transmissão de energia, instalações militares, instalações de exploração, refino e processamento de petróleo e gás e instituições bancárias e sua rede de atendimento.

Entidades com enorme relevância social.

Ex.: o indivíduo apodera-se do sistema aeroportuário para derrubar aviões e causar terror social, tendo em vista entender que os cidadãos brasileiros são inescrupulosos.

Atentar contra a vida ou a integridade física de pessoa

Basta uma única pessoa.

Pena - reclusão, de doze a trinta anos, além das sanções correspondentes à ameaça ou à violência.

Sistema de cúmulo material.

§ 2 o

O disposto neste artigo não se aplica à conduta individual ou coletiva de pessoas em manifestações políticas, movimentos sociais, sindicais, religiosos, de classe ou de categoria profissional, direcionados por propósitos sociais ou reivindicatórios, visando a contestar, criticar, protestar ou apoiar, com o objetivo de defender direitos, garantias e liberdades constitucionais, sem prejuízo da tipificação penal contida em lei

Art. 3 o Promover, constituir, integrar ou prestar auxílio, pessoalmente ou por interposta pessoa, a organização terrorista:

Pena - reclusão, de cinco a oito anos, e multa.

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A lei pune a associação para o terrorismo. O autor poderá ser:

Líder da organização: “promover”;

Fundador da organização: “constituir”;

Integrar posteriormente à criação: “integrar”;

Auxiliar de qualquer forma: “prestar auxílio, pessoalmente ou por interposta

pessoa”.

Art. 5º. Realizar atos preparatórios de terrorismo com o propósito inequívoco de consumar tal delito.

Pena: a correspondente ao delito consumado, diminuída de 1/4 até 1/2.

O artigo 5º diz que o ato preparatório “do ato preparatório” é crime. Princípio da

ofensividade absolutamente ignorado.

O tipo penal não diz quais atos são considerados preparatórios de terrorismo.

Violação ao princípio da legalidade estrita.

§ 1º. Incorre nas mesmas penas, o agente que, com o propósito de praticar atos de terrorismo:

Recrutar, organizar, transportar ou municiar indivíduos que viajem para país distinto daquele de sua residência ou nacionalidade; ou

Fornecer ou receber treinamento em país distinto daquele de sua residência ou nacionalidade.

Terrorismo com caráter transnacional.

Tipo misto alternativo.

Treinamento ou recrutamento privilegiado.

§2º. Nas hipóteses do § 1º, quando a conduta não envolver treinamento ou viagem para país distinto daquele de sua residência ou nacionalidade, a pena será a correspondente ao delito consumado, diminuída de 1/2 a 2/3.

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Financiamento do terrorismo

Art. 6º. Receber, prover, oferecer, obter, guardar, manter em depósito, solicitar, investir, de qualquer modo, direta ou indiretamente, recursos, ativos, bens, direitos, valores ou serviços de qualquer natureza, para o planejamento, a preparação ou a execução dos crimes de terrorismo.

Pena: reclusão de 15 a 30 anos.

É pena mais grave do que a de terrorismo.

Parágrafo único.

Incorre na mesma pena de reclusão de 15 a 30 anos quem oferecer ou receber, obtiver, guardar, mantiver em depósito, solicitar, investir ou de qualquer modo contribuir para a obtenção de ativo, bem ou recurso financeiro, com a finalidade de financiar, total ou parcialmente, pessoa, grupo de pessoas, associação, entidade, organização criminosa que tenha como atividade principal ou secundária, mesmo em caráter eventual, a prática dos crimes de terrorismo.

Pune o lobista, ou seja, aquele que arrumou o financiador.

Art. 7º. Salvo quando for elementar da prática de qualquer crime de terrorismo, se de algum deles resultar:

Lesão corporal grave: aumenta-se a pena de 1/3

Morte: aumenta-se a pena da 1/2 (metade)

Art. 10. Mesmo antes de iniciada a execução do crime de terrorismo, na hipótese do art. 5 o desta Lei, aplicam-se as disposições do art. 15 do CP (arrependimento eficaz e desistência voluntária).

Ex.: sujeito alugou local para guardar os explosivos para atentado terrorista, mas desiste de o fazer. O sujeito somente responde pelos atos até então praticados.

III. Competência

Art. 11.

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Para todos os efeitos legais, considera-se que os crimes previstos nesta Lei 13.260/16 são praticados contra o interesse da União, cabendo à Polícia Federal a investigação criminal, em sede de inquérito policial, e à Justiça Federal o seu processamento e julgamento, nos termos do inciso IV do art. 109 da Constituição Federal.

IV. Medidas assecuratórias

Art. 12. O juiz, DE OFÍCIO, a requerimento do MP ou mediante representação do

delegado de polícia, ouvido o MP em 24 horas, havendo indícios suficientes de crime de

terrorismo,

assecuratórias de bens, direitos ou valores do investigado ou acusado, ou existentes em nome de interpostas pessoas, que sejam instrumento, produto ou proveito dos crimes de terrorismo.

medidas

poderá

decretar,

no

curso

da

investigação

ou

da

ação

penal,

§1º. Proceder-se-á à alienação antecipada para preservação do valor dos bens sempre que estiverem sujeitos a qualquer grau de deterioração ou depreciação, ou quando houver dificuldade para sua manutenção.

§2º.

O juiz determinará a liberação, total ou parcial, dos bens, direitos e valores quando comprovada a licitude de sua origem e destinação, mantendo-se a constrição dos bens, direitos e valores necessários e suficientes à reparação dos danos e ao pagamento de prestações pecuniárias, multas e custas decorrentes da infração penal.

§3º. Nenhum pedido de liberação será conhecido sem o comparecimento pessoal do acusado ou de interposta pessoa a que se refere o caput deste artigo, podendo o juiz determinar a prática de atos necessários à conservação de bens, direitos ou valores, sem prejuízo do disposto no §1º.

§4º. Poderão ser decretadas medidas assecuratórias sobre bens, direitos ou valores para reparação do dano decorrente da infração penal ANTECEDENTE ou da prevista nesta Lei ou para pagamento de prestação pecuniária, multa e custas.

Art. 13.

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Quando as circunstâncias o aconselharem, o juiz, ouvido o MP, nomeará pessoa física ou jurídica qualificada para a administração dos bens, direitos ou valores sujeitos a medidas assecuratórias, mediante termo de compromisso.

Art. 14. A pessoa responsável pela administração dos bens:

Fará jus a uma remuneração, fixada pelo juiz, que será satisfeita preferencialmente

com o produto dos bens objeto da administração;

Prestará contas, por determinação judicial, além de dar informações periódicas da

situação dos bens sob sua administração, bem como explicações e detalhamentos sobre

investimentos e reinvestimentos realizados.

Parágrafo

único.

Os

atos

relativos

à

administração

dos

bens

serão

levados

ao

conhecimento do MP, que requererá o que entender cabível.

Art. 15. O juiz determinará, na hipótese de existência de tratado ou convenção internacional e por solicitação de autoridade estrangeira competente, medidas assecuratórias sobre bens, direitos ou valores oriundos de crimes de terrorismo praticados no estrangeiro.

§1º. Será aplicada essa disposição, independentemente de tratado ou convenção internacional, quando houver reciprocidade do governo do país da autoridade solicitante.

§ 2 o Na falta de tratado ou convenção, os bens, direitos ou valores sujeitos a medidas assecuratórias por solicitação de autoridade estrangeira competente ou os recursos provenientes da sua alienação serão repartidos entre o Estado requerente e o Brasil, na proporção de metade, ressalvado o direito do lesado ou de terceiro de boa-fé.

Art. 16. será aplicado ao crime de terrorismo as disposições da Lei nº 12.850/13 para a investigação, processo e julgamento dos crimes previstos nesta Lei.

Art. 17. Aplicam-se aos crimes de terrorismo as disposições da Lei de Crimes Hediondos (Lei 8.072/90).

Art. 18. No caso de crimes de terrorismo, caberá também prisão temporária, inserindo a alínea “p” ao rol dos crimes que a autorizam.

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Aula 03. Tortura. Estatuto do desarmamento.

4. Lei de Tortura (Lei 9.455/97)

A Declaração Universal dos Direitos do Homem, que é de 1948, vai dizer no seu art. 5º

que ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante. A CF

também diz o mesmo no art. 5º, III, da CF.

A CF ainda diz, no art. 5, XLIII, que a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis

de graça ou anistia a prática da tortura , o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem.

Perceba que o dispositivo traz o chamado mandado de criminalização.

I. Crimes em espécie

a) Tortura-prova, tortura-crime e tortura discriminatória

Segundo o art. 1º, inciso I, constitui crime de tortura a conduta de constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento físico ou mental:

Com a finalidade de obter informação, declaração ou confissão da vítima ou de terceira pessoa:

Esta é a denominada tortura-prova. Ex.: pai tortura filho para que faça uma confissão de uma travessura. Mãe tortura o filho para que o pai confirme que traiu a mãe.

Para provocar ação ou omissão de natureza criminosa:

Denominada pela doutrina de tortura-crime. Ocorre quando alguém tortura outrem para que pratique um crime, seja omissivo ou comissivo.

Em razão de discriminação racial ou religiosa:

É a tortura-discriminatória.

A pena do crime é de reclusão de 2 a 8 anos.

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Perceba que acima estão os elementos subjetivos especiais do agente.

Importante ressaltar que o crime de tortura poderá ser absorvido, caso constitua um meio imediato e direto para a prática de crimes mais graves, como o crime de roubo e de extorsão.

Perceba que, para o legislador, o crime de tortura é mais leve do que tais crimes, tendo em vista que a tortura possui pena de 2 a 8 anos, enquanto o roubo e a extorsão possuem pena de 4 a 10 anos. Dessa forma, se alguém tortura para roubar, a tortura ficará absorvida pelo crime de roubo. Esta é a posição do Samer.

Eu, particularmente, discordo desse entendimento.

Por esta razão, entendo que deveria haver concurso formal impróprio, tendo em vista que a tortura e o roubo têm bens jurídicos absolutamente distintos, além de ser possível que o agente atue com desígnios autônomos.

Ora, se o agente tem a intenção de torturar, digamos que para a prática de um crime (tortura crime), não seria possível que este mesmo desígnio estivesse inserido dentro do elemento subjetivo especial no caso do roubo (animus rem sibi habendi), motivo pelo qual não poderia se falar em princípio da consunção.

Na tortura-crime, o agente que tortura responderá pelo crime de tortura, por óbvio, mas também responderá em concurso material pelo crime que a vítima da tortura praticar, caso este crime seja efetivamente praticado. Não é necessário que este crime ocorra para consumar a tortura-crime.

Neste caso, o torturador será autor mediato do crime.

Não abrange aqui o emprego de violência

ou

grave ameaça para a prática de

contravenção penal. A lei penal não fala em tortura para a prática de contravenção.

Caso alguém torture outrem para que haja a prática de contravenção penal, não haverá o crime de tortura, motivo pelo qual este constrangimento configurará o delito de constrangimento ilegal em concurso material com a contravenção que o constrangido praticar.

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Perceba que nos casos de tortura-prova, tortura-crime e tortura discriminatória trata- se de um crime formal, ou seja, há um especial fim de agir, mas não precisa este acontecer para consumação do crime de tortura.

No caso de crime de tortura perpetrado contra criança, em que há prevalência de relações domésticas e de coabitação, não configura bis in idem a aplicação conjunta da causa de aumento de pena prevista no art. 1º, § 4º, II, da Lei nº 9.455/1997 (Lei de Tortura) e da agravante genérica estatuída no art. 61, II, "f", do Código Penal (Inf. 589, STJ).

Sujeitos do crime

O

sujeito ativo é qualquer pessoa.

O

art. 1º, §4º diz que a pena será aumentada de 1/6 até 1/3 se cometido por agente

público.

O

sujeito passivo é qualquer pessoa.

No entanto, o art. 1º, §4º, diz que poderá a pena ser aumentada de 1/6 até 1/3, caso o crime seja cometido contra criança, gestante, portador de deficiência, adolescente ou maior de 60 anos.

Lembrando que, no caso de o agente torturar o filho para que o pai confesse alguma coisa, haverá dois sujeitos passivos do crime de tortura.

→ Ação penal

É incondicionada.

→ Competência

A competência é da Justiça Comum, podendo ser federal ou estadual, a depender do

caso.

Ainda que o crime de tortura seja praticado por policial militar em serviço, o crime será de competência da Justiça Comum. Isso porque a Justiça Militar somente julga delito previstos no Código Penal Militar e esse código não prevê o crime de tortura.

b) Tortura-castigo

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O art. 1º, II, diz que constitui crime de tortura a conduta de submeter alguém, sob sua

guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou sofrimento mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou medida de caráter preventivo.

A pessoa quer educar dessa forma, causando intenso sofrimento físico ou sofrimento

mental à criança, por exemplo.

A

pena do crime é de reclusão de 2 a 8 anos.

O

crime é de ação livre, ou seja, não se sabe como dará a prática do crime. Ex.: privar a

criança de alimentos, privar a criança de cuidados indispensáveis, privar da liberdade da criança, etc.

Há aqui um elemento subjetivo especial, que é a conduta de expor à vítima a um intenso sofrimento físico ou mental, para a finalidade de aplicar castigo ou alguma medida de caráter preventivo. Na tortura-castigo exige animus corrigendi, ou seja, ânimo de correção. O agente quer educar!

Essa forma de tortura se assemelha ao crime de maus-tratos. A diferença é o elemento normativo da tortura, que é o “intenso sofrimento físico ou mental”. A caracterização do crime de tortura-castigo fica reservada para situações extremas.

→ Sujeitos do crime

No caso da tortura-castigo, há um crime próprio, motivo pelo qual somente poderá cometer o crime quem tem dever de guarda, poder ou autoridade para com a vítima. Ex.:

babá.

→ Ação penal

É incondicionada.

c) Tortura de preso ou de pessoa sujeita à medida de segurança

De acordo com o §1º do art. 1º, na mesma pena de reclusão de 2 a 8 anos incorre quem submete pessoa presa ou sujeita a medida de segurança a sofrimento físico ou mental, por intermédio da prática de ato não previsto em lei ou não resultante de medida legal.

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Estamos diante de uma norma penal em branco, pois é necessário fazer algo contra a lei para configurar o crime.

→ Sujeitos do crime

Qualquer pessoa poderá praticar esse crime, apesar de geralmente ser o agente público. Ex.: agente penitenciário, carcereiro, etc.

Agente sujeito à medida socioeducativa não poderá ser vítima desse crime, pois não está abrangido no tipo penal. A tortura praticada contra este indivíduo poderá ser enquadrada em outro inciso do caput do art. 1º, mas não neste.

→ Ação penal

É incondicionada.

d) Tortura-omissão

O art. 1º, §2º, diz que, aquele que se omite em face dessas condutas, quando tinha o dever de evitá-las ou apurá-las, incorre na pena de detenção de 1 a 4 anos.

Trata-se de infração de médio potencial ofensivo, pois cabe suspensão condicional do processo.

Segundo Victor Eduardo Rios Gonçalves, em relação ao dever de evitar que a tortura ocorra e o sujeito deixa de agir, em verdade, deveria responder pelo próprio crime de tortura. E é essa interpretação que deve ser dada, segundo Samer.

Mas pela leitura do tipo, percebe-se que há uma exceção à teoria monista, de forma que, aquele que não impede a tortura, quando deveria fazê-lo para impedir, não responderá pela tortura, mas sim pelo crime de omissão pela tortura.

Em relação àquele que não apura o delito de tortura, haverá um crime próprio, visto que incumbe às autoridades policiais.

Nesse caso, apesar de haver previsão de causa de aumento de pena de 1/6 a 1/3, quando o crime é cometido por agente público, não haverá incidência dessa majorante, eis que tal circunstância é inerente ao próprio tipo penal do art. 1º, §2º, sob pena de bis in idem.

II. Formas qualificadas

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O §3º do art. 1º diz que, se resulta:

Lesão corporal de natureza grave ou gravíssima: a pena é de reclusão de 4 a 10

anos

Morte: a pena é de reclusão é de 8 a 16 anos.

Veja, trata-se de infrações preterdolosas, pois tanto a lesão corporal ou a morte foram causadas culposamente.

Com relação à morte, devemos diferenciar o homicídio qualificado pela tortura deverá se diferenciar da tortura qualificada pela morte.

No homicídio qualificado pela tortura, há pena de 12 a 30 anos, enquanto a tortura qualificada pela morte tem pena de 8 a 16 anos.

A diferença é de que, na tortura qualificada pela morte, o agente quer torturar, mas

acaba matando culposamente. No homicídio qualificado pela tortura, o agente quer matar, ou assume o risco de matar, mas se vale da tortura como meio para alcançar o resultado morte.

III. Causas de aumento de pena

Segundo o §4º do art. 1º, aumenta-se a pena de 1/6 até 1/3:

Se o crime é cometido por agente público;

Se o crime é cometido contra criança, gestante, portador de deficiência, adolescente ou maior de 60 anos;

Se o crime é cometido mediante sequestro.

Veja, é preciso que haja um nexo de causalidade entre o crime e a função que o sujeito exercer. Ou seja, que tenha sido praticado o crime no exercício da função ou em razão da função pública, pois, do contrário, não incidirá a causa de aumento.

No caso criança, gestante, portador de deficiência, adolescente ou maior de 60 anos, por óbvio, o agente deve ter conhecimento dessa condição da vítima para incidir a majorante, sob pena de responsabilidade penal objetiva.

53

Com relação à majorante do sequestro, é necessário compreender que, em geral, o crime de tortura exige uma certa privação da liberdade da vítima, por algum curto espaço de tempo. O dispositivo somente se justificará se o período de privação da liberdade ser um período relativamente longo.

IV. Efeitos da sentença condenatória

O art. 1º, §5º diz que a condenação acarretará a perda do cargo, função ou emprego público e a interdição para seu exercício pelo dobro do prazo da pena aplicada.

Ex.: se o indivíduo foi condenado a 4 anos pelo crime de tortura, não poderá exercer cargo, função ou emprego público pelo prazo de 8 anos.

Essa é uma consequência obrigatória, dispensando motivação específica na sentença para decretação da perda do cargo, função ou emprego público.

Veja, apesar de se tratar de um efeito automático da condenação, é indispensável que o juiz se manifeste expressamente na sentença, como por exemplo “o condenado perderá a função pública com base no art. 1º, §5º, da Lei 9.455/97”.

V. Vedações processuais e penais

O art. 1º, §6º, diz que o crime de tortura é inafiançável e insuscetível de graça ou anistia.

Essa previsão traz uma discussão, quando comparara à Lei de Crimes Hediondos, pois nesta lei veda a graça, anistia e o indulto. A Lei de Tortura não fala nada sobre o indulto, e a Constituição Federal não fala em indulto.

1ªC: Entendem que graça é gênero e indulto é espécie, motivo pelo qual não caberia, no crime de tortura, indulto.

2ªC: Entende que a CF não veda indulto para quem pratica a tortura, sendo possível conceder indulto.

Lembrando que o CESPE (Delta GO/2017) considerou correta a seguinte assertiva:

Embora rotura, tráfico de drogas e terrorismo não sejam crimes hediondos, também são insuscetíveis de fiança, anistia, graça e indulto”.

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VI. Regime inicial de cumprimento de pena

O §7º diz que o condenado por crime de tortura, salvo a hipótese de tortura omissão,

iniciará o cumprimento da pena em regime fechado.

Todavia, esta previsão é inconstitucional, pois, na verdade, será analisado o regime inicial do cumprimento de pena conforme o quantum da pena, aplicando-se o art. 33, §2º, do CP.

VII. Extraterritorialidade da lei

O art. 2º diz que o disposto nesta Lei de Tortura aplica-se ainda quando o crime não

tenha sido cometido em território nacional, sendo a vítima brasileira ou se o agente torturador estiver em local sob jurisdição brasileira.

Ex.: o crime de tortura não foi praticado no Brasil, mas a vítima é brasileira, ou o crime não foi cometido no Brasil, porém o torturador está agora no Brasil, então será aplicada a lei brasileira.

5. Estatuto do Desarmamento (Lei 10.826/03)

I. Posse irregular de arma de fogo de uso permitido

Segundo o art. 12, constitui crime a conduta de possuir ou manter sob sua guarda arma de fogo, acessório ou munição, de uso permitido, em desacordo com determinação legal ou regulamentar, no interior de sua residência ou dependência desta, ou, ainda no seu local de trabalho, desde que seja o titular ou o responsável legal do estabelecimento ou empresa.

A

pena é de detenção, de 1 a 3 anos, e multa. Cabe suspensão condicional do processo.

O

bem jurídico é a incolumidade pública.

O

art. 3º diz que é obrigatório o registro de arma de fogo no órgão competente. O

órgão competente é a Polícia Federal, que emitirá um certificado de registro de arma de fogo. Esse certificado vai autorizar o proprietário da arma ter a posse de arma na sua residência ou no seu local de trabalho, desde que seja o titular ou responsável legal pelo estabelecimento ou empresa.

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Pergunta: e se esse registro, que tem validade de 3 anos, vencer e o sujeito não renovar o registro junto à Polícia Federal, haverá o crime do art. 12 ou não?

Segundo o STJ, não configura o crime de posse ilegal de arma de fogo a conduta do agente que mantém sob guarda, no interior de sua residência, arma de fogo de uso permitido com registro vencido. Se o agente já procedeu ao registro da arma, a expiração do prazo é mera irregularidade administrativa que autoriza a apreensão do artefato e aplicação de multa. A conduta, no entanto, não caracteriza ilícito penal. (Inf. 572).

Pergunta: e se o indivíduo tiver a arma na residência alheia?

Neste caso, haverá o crime de porte ilegal de arma de fogo.

Pergunta: motorista que dorme no caminhão, mas leva a arma consigo no caminhão?

Neste caso, cometerá o crime de porte ilegal de arma de fogo.

As armas de fogo são de uso permitido conforme aquilo descrito pelo Comando do Exército.

Ou seja, arma de fogo de uso permitido ou de uso restrito dependem de outa norma, motivo pelo qual se trata de uma norma penal em branco em sentido estrito. Atualmente este rol de armas estão descritas no art. 17 do Decreto 3665/2000.

Via de regra, a jurisprudência entende que é inviável a aplicação do princípio da insignificância para o crime de posse ilegal de arma, munição ou de acessório. Na verdade, é crime de perigo abstrato (presumido), sendo dispensável colocação do bem jurídico em risco. Esta é a posição do STJ.

Vale lembrar que o STF decidiu que é atípica a conduta daquele que porta, na forma de pingente, munição desacompanhada de arma (Inf. 826).

a) Sujeitos do crime

Poderá praticar qualquer pessoa.

Sujeito passivo é a coletividade.

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Há aqui um crime permanente, pois enquanto o sujeito tiver a arma em sua casa, a consumação estará se protraindo no tempo, admitindo prisão em flagrante a qualquer tempo, enquanto não cessar a permanência.

b) Vigência do dispositivo

É necessário compreender o teor do art. 30 do Estatuto.

Este dispositivo concedeu um prazo para que os possuidores e proprietários de arma de

fogo de uso permitido ainda não registrada solicitassem até o dia 31 de dezembro de 2009

o registro, apresentando nota fiscal da arma ou comprovando a origem lícita da arma, de

maneira que se fosse encontrada arma de uso permitido na casa de alguém, e esta tivesse origem ilícita, e o sujeito não tivesse o registro, o indivíduo não poderia ser punido.

Isso porque presumia-se a boa-fé. Isto quer dizer que se presume que o sujeito iria solicitar o registro dessa arma dentro do prazo penal.

Tanto é que o STJ fala que a abolitio criminis para a posse de arma de uso permitido, restrito ou com numeração raspada teve final em 2005, mas para as armas, munições e acessórios de uso permitido se prorrogou até o dia 31/12/2009, pois estariam abarcadas pela abolitio criminis.

Armas de fogo de uso restrito poderiam ter sido registradas ou entregues até 23/10/2005, mas as armas de fogo de uso permitido puderam ser entregues até 31/12/2009.

Dito de outra forma:

De 23/12/2003 a 31/12/2009: não é crime a posse de arma de fogo de que trata

o

art. 12.

De 24/12/2003 a 23/10/2005: não é crime a posse de arma de fogo de que trata

o

art. 16.

O STJ diz que ainda que a abolitio criminis temporária do Estatuto do Desarmamento só abrange o crime de posse ilegal de arma de fogo, não abrangendo o crime de porte ilegal de arma de fogo.

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Por conta disso, o STJ editou a Súmula 513, estabelecendo que a abolitio criminis temporária prevista na Lei n. 10.826/2003 aplica-se ao crime de posse de arma de fogo de uso permitido com numeração, marca ou qualquer outro sinal de identificação raspado, suprimido ou adulterado, praticado somente até 23/10/2005.

c)

Entrega da arma

O

Estatuto regula a entrega da arma.

O

art. 32 diz que os possuidores e proprietários de arma de fogo poderão entregá-la à

Polícia Federal, espontaneamente, mediante recibo, e, presumindo-se de boa-fé, serão indenizados, na forma do regulamento, ficando extinta a punibilidade de eventual posse irregular da referida arma.

Perceba que este dispositivo não prevê qualquer prazo para a entrega da arma, motivo pelo qual até hoje é possível entregar a arma, ficando extinta a punibilidade do crime de posse ilegal de arma de fogo.

II. Omissão de cautela

Segundo o art. 13, constitui crime a conduta de deixar de observar as cautelas necessárias para impedir que menor de 18 anos ou pessoa portadora de deficiência mental se apodere de arma de fogo que esteja sob sua posse ou que seja de sua propriedade.

A pena é de detenção, de 1 a 2 anos, e multa. Trata-se de IMPO.

Segundo a doutrina, trata-se de um crime culposo, pois a pessoa foi negligente.

Ex.: Pessoa deixa a arma no banco de um carro e não tranca a sua porta, ou deixa a arma em uma gaveta da sala de casa, sem trancá-la etc.

a) Sujeitos do crime

Qualquer pessoa poderá praticar o crime.

Se o agente não possui o registro da arma de fogo, incorrerá no crime de omissão de cautela em concurso com o delito de posse ilegal de arma de fogo.

Perceba que a omissão de cautela em relação a munição ou acessório não está prevista no tipo penal.

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O sujeito passivo é a coletividade, bem como o menor ou deficiente mental que se

apodere da arma de fogo.

b) Consumação

A consumação deste crime se dá no momento em que a criança ou pessoa com

deficiência se apodera da arma.

É crime de perigo abstrato, mas não é necessário demonstrar que houve uma situação de perigo, quando a criança ou pessoa com deficiência pegou a arma.

III. Omissão de comunicação de perda ou subtração de arma de fogo

É preciso ter um controle muito rígido de quem é que tem a arma, se ela foi perdida ou se ela foi subtraída.

O parágrafo único do art. 13 vai dizer que, nas mesmas penas de detenção, de 1 a 2

anos, e multa, incorrem o proprietário ou diretor responsável de empresa de segurança e transporte de valores que deixarem de registrar ocorrência policial e de comunicar à Polícia Federal perda, furto, roubo ou outras formas de extravio de arma de fogo, acessório ou munição que estejam sob sua guarda, nas primeiras 24 horas depois de ocorrido o fato.

Perceba que estamos diante de um crime a prazo. Crime omissivo puro não admite tentativa.

É

crime a prazo, pois necessita do prazo de 24 hrs para que se perfectibilize o crime.

O

art. 7º diz que as armas de fogo utilizadas pelos empregados das empresas de

segurança privada e de transporte de valores, devem ficar no nome dessas empresas, devendo

a

empresa apresentar ao SINARM, semestralmente, a lista de seus empregados habilitados.

Esses empregados poderão portar armas de fogo, mas apenas em serviço.

Caso haja a perda ou subtração da arma, deverá comunicar em 24 horas a Polícia Federal

e

registrar boletim de ocorrência.

Segundo o STJ, o fato de o empregador obrigar seu empregado a portar arma de fogo durante o exercício das atribuições de vigia não caracteriza coação moral irresistível capaz de excluir a culpabilidade do crime de "porte ilegal de arma de fogo de uso permitido" atribuído

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ao empregado que tenha sido flagrado portando, em via pública, arma de fogo, após o término do expediente laboral, no percurso entre o trabalho e a sua residência (Inf. 581).

a) Sujeitos do crime

Sujeito ativo é próprio, pois somente poderá ser cometido pelo proprietário da arma ou pelo diretor responsável pela empresa de segurança ou de transporte de valores.

IV. Porte ilegal de arma de fogo de uso permitido

Segundo o art. 14, constitui crime a conduta de portar, deter, adquirir, fornecer, receber, ter em depósito, transportar, ceder, ainda que gratuitamente, emprestar, remeter, empregar, manter sob guarda ou ocultar arma de fogo, acessório ou munição, de uso permitido, sem autorização e em desacordo com determinação legal ou regulamentar.

A pena é reclusão, de 2 a 4 anos, e multa.

Quando houver a posse da arma na sua própria casa ou no seu trabalho, quando se é o responsável pela empresa, mas o sujeito não tenha autorização para possuir a arma, ainda que ele oculte, incidirá no crime de posse ilegal de arma de fogo.

Por outro lado, se o agente ocultar a arma na casa de outrem, o crime será o de porte ilegal de arma de fogo do art. 14.

Trata-se de crime de mera conduta, pois não se prevê qualquer resultado para a infração penal.

Além disso, se a pessoa porta mais de uma arma de fogo ao mesmo tempo, neste caso, o agente cometerá crime único. Isso porque há uma única situação de perigo.

Caso João porte uma arma de numeração raspada, que será considerada de uso restrito (art. 16) e outra arma de uso permitido (art. 14), neste caso, estará praticando crime único descrito no art. 16, pois é mais gravoso.

Todavia, este não é o entendimento do STJ.

Segundo o STJ, o referido entendimento não pode ser aplicado no caso em que a conduta praticada pelo réu se amolda a tipos penais diversos, sendo que um deles, o do artigo 16, além da paz e segurança públicas também protege a seriedade dos cadastros do

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Sistema Nacional de Armas, razão pela qual é inviável o reconhecimento de crime único e o afastamento do concurso material.

O art. 25 do Estatuto exige a elaboração de um laudo pericial das armas de fogos, munições e acessórios apreendidos, a fim de demonstrar que havia potencialidade lesiva dos instrumentos.

O CESPE adotou na prova de delegado de Goiás de 2017 o gabarito como sendo crime único.

Para se condenar alguém pelo porte de arma de fogo de uso permitido, não é necessário que essa arma de fogo tenha sido apreendido. Ex.: fotos no facebook demonstram que o sujeito portava arma de fogo em certa festa.

Após, ainda que tenha sumido a arma, é possível condenar alguém por conta das fotos

e

sem que tenha havido perícia da arma. Ainda que não se tenha apreendido a arma, as fotos

e

testemunhas podem comprovar que o sujeito portava ilegalmente uma arma de fogo de uso

permitido.

Todavia, se a arma foi apreendida, ela deverá ser submetida à perícia. Caso a perícia constatar que não há potencialidade lesiva na arma, não haverá a incidência no crime.

Se a arma estiver desmuniciada, da mesma forma haverá o crime de porte ilegal de

arma de fogo. Isso porque, se portar munição é crime, muito mais será considerado se portar

a arma.

Segundo o STF, a posse (art. 12) ou o porte (art. 14) de arma de fogo configura crime mesmo que ela esteja desmuniciada. Da mesma forma, a posse ou o porte apenas da munição configura crime. Isso porque tal conduta consiste em crime de perigo abstrato, para cuja caracterização não importa o resultado concreto da ação (Inf. 844).

Da mesma forma, não há crime de porte ilegal de arma de fogo quando o instrumento está quebrado e totalmente inapto para realizar disparos, conforme constatado pela perícia. Se ficar constatado que as munições estão aptas, haverá o crime, pois o porte das munições já se mostra suficiente para configurar o crime (Inf. 570, STJ).

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O STJ entende também que o porte de arma de fogo a que têm direito os policiais civis

não se estende aos policiais aposentados.

Isso porque, de acordo com o art. 33 do Decreto 5.123/2004, que regulamentou o art. 6º da Lei 10.826/2003, o porte de arma de fogo está condicionado ao efetivo exercício das funções institucionais por parte dos policiais, motivo pelo qual não se estende aos aposentados (Inf. 554, STJ).

Por outro lado, o Conselheiro do Tribunal de Contas Estadual que mantém sob sua guarda arma ou munição de uso restrito não comete o crime do art. 16 da Lei 10.826/2003.

Os Conselheiros dos Tribunais de Contas são equiparados a magistrados e o art. 33, V, da LC 35/79 (LOMAN) garante aos magistrados o direito ao porte de arma de fogo (Inf. 572, STJ).

a) Sujeitos do crime

O crime é comum.

Segundo a jurisprudência do STF (Inf. 775), o crime de porte ilegal de arma de fogo de uso permitido poderá ser absorvido quando a arma for utilizada exclusivamente para a prática do outro crime.

Ou seja, se não houver provas de que o réu já portava a arma antes de um homicídio, ou se ficar provado que ele a utilizou somente para matar a vítima, ficará o porte absorvido pelo homicídio.

Ex.: sujeito porta arma de fogo exclusivamente para roubar. Neste caso, não haverá condenação pelo crime de porte ilegal de arma de fogo, tendo em vista que o sujeito somente responderá pelo crime de roubo majorado pelo emprego de arma.

Diferentemente é o caso do sujeito que porta ilegalmente arma de fogo em outras oportunidades. Ex: a instrução demonstrou que João adquiriu a arma de fogo três meses antes de matar Pedro e não a comprou com a exclusiva finalidade de ceifar a vida da vítima. Neste caso, o crime de porte não será absorvido se ficar provado nos autos que o agente portava ilegalmente a arma de fogo em outras oportunidades antes ou depois do homicídio e que ele não se utilizou da arma tão somente para praticar o assassinato.

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V. Disparo de arma de fogo

Segundo o art. 15, constitui crime a conduta de disparar arma de fogo ou acionar munição em lugar habitado ou em suas adjacências, em via pública ou em direção a ela, desde que essa conduta não tenha como finalidade a prática de outro crime.

A pena é de reclusão, de 2 a 4 anos, e multa.

A realização de vários disparos, em um mesmo momento, configura crime único, não se

aplicando a regra do concurso formal ou da continuação delitiva, já que a situação de risco à coletividade é única.

O projétil tem de ser verdadeiro. A deflagração de balas de festim não configura