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Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II

Após a morte de D. Henrique, D. Teresa assume


o governo e se aproxima da Galiza. Seu filho, o
MOISES, Massaud. Infante, Afonso Henriques, rebela-se contra a mãe e
A LITERATURA PORTUGUESA. inicia uma revolução que culmina com a vitória dos
São Paulo: Cultrix, 2008. revoltosos, na batalha de S. Mamede, nos arredores
de Guimarães e o Infante é declarado seu sobera-
no. Porém, somente em 1143, na Conferência de
Samora, D. Afonso VII reconhece Afonso Henriques
I - Introdução como rei. Portugal está politicamente autônomo. A
data utilizada como marco do início da Literatura
Segundo Massuad Moisés, pela sua posição Portuguesa é 1198 (ou 1189), quando o trovador
geográfica no mapa europeu, Portugal como se Paio Soares de Taveirós compõe uma cantiga, Can-
estivesse empurrado contra o mar, toda a sua histó- tiga de Garvaia, palavra que designava um luxuoso
ria, literária e não, atesta o sentimento de busca manto de Corte, dedicada a Maria Pais Ribeiro,
dum caminho que só ele representa e pode repre- também chamada A Ribeirinha, favorita de D. San-
sentar. Recebe influências exclusivas e marcantes cho I. Tudo indica que já havia uma atividade literá-
tanto étnicas como culturais (árabes, germânicas, ria anterior, porém desaparecida.
francesas, inglesas, etc.), e por essa razão gerou
uma literatura com características próprias e per- II - TROVADORISMO (1198-1418)
manentes, além da "fatalidade" de ser a Língua
Portuguesa seu meio de comunicação, o que ajuda O Trovadorismo Português foi o movimento lite-
a completar e explicar o quadro. rário caracterizado por seu caráter popular, sem
relação com a cultura da Antiguidade Clássica gre-
A Literatura Portuguesa reflete essa angústia co-latina. Era uma arte literária simples, voltada
geográfica: “o escritor português opta pela fuga ou para o entretenimento, e devido a essa simplicidade
pelo apego a terra, matriz de todas as inquietudes e e natureza popular tem a preferência pelo idioma
confidente de todas as dores, centro de inspiração e galaico-português em vez de latim, que era a língua
nutridora de sonhos e esperanças. A fuga dá-se da literatura erudita da época. Recebe considerável
para o mar, o desconhecido, fonte de riqueza algu- influência da cultura provençal, através dos artistas
mas vezes, de males incríveis e de emoção quase nômades oriundos daquela região que chegaram à
sempre; ou, transcendendo a estreiteza do solo Península Ibérica naquela época. A lírica trovado-
físico, para o plano metafísico, à procura de visuali- resca teve grande força na França naquela época, e
zar numa dimensão universal e perene a inquieta- sua influência acabou se espalhando por vários
ção particular e egocêntrica”. países da Europa.

Para o autor, é uma literatura rica em poetas - Massaud Moisés destaca quatro teses para a
Camões, Bocage, Antero, Fernando Pessoa, entre origem da poesia trovadoresca:
outros - “(...) A poesia é o melhor que oferece a
Literatura Portuguesa, dividida entre o apelo metafí- 1) A tese arábica. Relaciona a poesia trovadoresca
sico, que significa a vivência e a expressão de pro- à cultura árabe em virtude das invasões mouras à
blemas fundamentais e perenes (a existência ou Península Ibérica.
não de Deus, o ser e o não-ser, a condição humana,
os valores do espírito, etc.), e a atração amorosa da 2) A tese popular ou folclórica. Segundo essa linha
terra (representada por temas populares, folclóri- de estudo a poesia trovadoresca foi uma manifesta-
cos), ou um sentimento superficial, feito da confis- ção literária de “espontânea”, surgido naturalmente
são de estados de alma provocados pelos embates a partir das manifestações e cultura do povo da
amorosos (...)”. época.

A riqueza da poesia contrasta com a pobreza do 3) A tese médio-latinista. A poesia trovadoresca


teatro que somente algumas poucas vezes saiu “do teria se originado a partir da literatura latina produ-
nível medíocre ou meramente razoável” através de zida na Idade Média. Essa literatura teria chegado à
Gil Vicente, Garrett e António José da Silva. Península Ibérica e influenciado a produção literária
local.
O romance decai após a morte de Eça de Quei-
rós, em 1900. Voltando a viver uma época de es- 4) A tese litúrgica. A poesia trovadoresca surgiu a
plendor após 1940, pela quantidade e qualidade de partir da literatura cristã/sacra da época.
seus autores configura-se no ponto forte da literatu-
ra lusa. A crítica literária, como o teatro, pobre, so- Entretanto, parece que nenhuma das teses cita-
mente nos últimos anos começa a despontar com das acima é suficiente para determinar com certeza
rigor científico. a origem da lírica trovadoresca, dando-nos a possi-
bilidade de aceitar todas elas de modo conjun-
A Literatura Portuguesa nasceu quase simulta- to.Todavia a influência da Provença na poesia tro-
neamente com a nação. Em 1094, Afonso VI, Rei de vadoresca portuguesa é incontestável e se deu
Leão, um dos reinos em que a Península Ibérica era principalmente pelo fato de que muitos dos trovado-
dividida (os outros: Castela, Aragão e Navarra), res portugueses tiveram certa relação com a Fran-
casa suas filhas, Urraca com o Conde Raimundo de ça. (D. Afonso Henriques e D. Sancho I foram casa-
Borgonha, e Teresa com D. Henrique. Ao primeiro dos com princesas criadas em cortes ligadas à Pro-
genro, doa uma extensa região de terra correspon- vença). Além disso, muitos artistas nômades oriun-
dente à Galiza; ao segundo, o território compreendi- dos daquela região passaram pela península, e,
do entre o rio Minho e o Tejo, com o nome de "Con- ainda, as relações comerciais e os movimentos
dado Portucalense". militares (cruzadas) são fatores de influência.

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O Trovadorismo Português inicia-se em 1189 (ou Em síntese, nas Cantigas de Amor, o trovador
1198) com a “Cantiga da Guarvaia” ou “Cantiga da destaca todas as qualidades da mulher amada,
Ribeirinha”, de Paio Soares de Taveirós e se esten- colocando-se numa posição inferior (de vassala-
de até 1418, quando Fernão Lopes é nomeado gem) a ela. A mulher é colocada num patamar ele-
Guarda-mor da Torre do Tombo por D. Duarte. vado, idealizada, em geral por se encontrar em uma
posição social superior. As cantigas de amor não
A POESIA TROVADORESCA possuem variedade temática, sendo a temática mais
comum o amor não correspondido. Além disso, re-
Na Provença, o poeta era chamado de trouba- produzem o sistema hierárquico do feudalismo, pois
dour, cuja forma correspondente em Português é o trovador passa a ser o vassalo da amada (susera-
trovador, da qual deriva trovadorismo (que serve de na) e espera receber um benefício em troca de seus
rótulo geral dessa primeira época medieval), trova- “serviços” (as trovas, o amor dedicado, o sofrimento
doresco, trovadorescamente. O poeta deveria ser pelo amor não correspondido).
capaz de compor, achar os versos e a melodia para
sua cantiga. Eram poemas cantados e acompanha- CANTIGAS DE AMIGO
dos por instrumentos musicais e às vezes danças.
As cantigas de amigo focalizam o outro lado da
A poesia trovadoresca classifica-se em: lírico- relação amorosa entre ele e uma dama: o fulcro do
amorosa e satírica. A primeira divide-se em cantiga poema é agora representado pelo sofrimento amo-
de amor e cantiga de amigo; a segunda, em cantiga roso da mulher, em geral pertencente às camadas
de escárnio e cantiga de maldizer. O idioma empre- populares (pastoras, camponesas, etc.). O drama é
gado era o galego-português, em virtude da então o da mulher, mas quem ainda compõe a cantiga é o
unidade lingüística entre Portugal e a Galiza. trovador.

CANTIGAS DE AMOR Massuad Moisés diz que o “(...) trovador vive


uma dualidade amorosa, de onde extrai as duas
Poesia lírica onde o trovador, de acordo com a formas de lirismo amoroso próprias da época: em
“arte de trovar” confessa seu amor por uma dama espírito, dirige-se à dama aristocrática; com os sen-
inacessível aos seus apelos, entre outras razões por tidos, à camponesa ou à pastora.
ser de classe social mais elevada, geralmente no-
bre, enquanto ele era, quando muito, um fidalgo Por isso, pode expressar autenticamente os dois
decaído. O poema é um lamento suplicante, os ape- tipos de experiência passional, enquanto ele pró-
los do trovador “colocam-se alto, num plano de espi- prio, e enquanto a mulher que por ele desgraçada-
ritualidade, de idealidade ou contemplação platôni- mente se apaixona. É digno de nota que essa ambi-
ca”. Trata-se de um fingimento poético, de acordo güidade, extremamente curiosa ainda como psico-
com as regras de conveniência social e da moda logia literária ou das relações humanas, não existia
literária vinda da Provença. Retratam um sofrimento antes do trovadorismo nem jamais se repetiu de-
interior (coita de amor). pois”.

Geralmente é o próprio trovador quem confessa O “eu-lírico” (quem fala) é a própria mulher, diri-
seus sentimentos, dirigindo-se em vassalagem e gindo-se em confissão à mãe, às amigas, aos pás-
subserviência à dama (mia senhor ou minha senho- saros, aos arvoredos, às fontes, aos riachos. O teor
ra), e rendendo-lhe o culto que o "serviço amoroso" da confissão é sempre uma paixão não correspon-
lhe impunha: as regras do "amor cortês", recebidas dida, mas a que ela se entrega de corpo e alma.
da Provença: o trovador teria de mencionar comedi-
damente o seu sentimento (mesura), a fim de não Traduz um sentimento espontâneo, natural e
incorrer no desagrado (sanha) da bem-amada; teria primitivo por parte da mulher, e um sentimento don-
de ocultar o nome dela ou recorrer a um pseudôni- juanesco e egoísta por parte do homem, que geral-
mo, e prestar-lhe uma vassalagem que apresentava mente está “(...) no fossado ou no bafordo, isto é, no
quatro fases: a primeira correspondia à condição de serviço militar ou no exercício de armas. Por isso, a
fenhedor, de quem se consome em suspiros; a se- palavra amigo pode significar namorado e amante”.
gunda é a de precador, de quem ousa declarar-se e
pedir; entendedor é o namorado; drut, o amante. Trata-se de uma poesia de caráter narrativo e
descritivo e se classifica de acordo com o lugar
Segundo Moisés, “(...) O trovador, portanto, su- geográfica e as circunstâncias em que decorrem os
bordina todo o seu sentimento às leis da Corte amo- acontecimentos (serranilha, pastorela, barcarola,
rosa, e ao fazê-lo, conhece das dificuldades inter- bailada, romaria, alva ou alvorada - surpreende os
postas pelas convenções e pela dama no rumo que amantes no despertar dum novo dia, depois de uma
o levaria à consecução dum bem impossível. Mais noite de amor).
ainda: dum' bem (e "fazer bem" significa correspon-
der aos requestos do trovador) que ele nem sempre
deseja alcançar, pois seria por fim ao seu tormento CANTIGAS DE ESCARNIO E DE MALDIZER
masoquista, ou início dum outro Maior. Em qualquer
hipótese, só lhe resta sofrer, indefinidamente, a A Cantiga de Escárnio revela uma sátira que se
coita amorosa”. constrói indiretamente, por meio da ironia e do sar-
casmo, usando palavras ambíguas, de duplo senti-
O sofrimento segue uma ordem crescente, atra- do.
vés das estrofes (cobra ou talho) sendo reforçado
no estribilho ou refrão, onde o trovador pode rema- Na Cantiga de Maldizer, a sátira é feita direta-
tar cada estrofe, reforçando a angustiante idéia fixa mente, com agressividade, com palavras chulas e
para a qual ele não encontra consolo. muitas vezes obscenas.

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Em geral escritas “(...) pelos mesmos trovadores TERMINOLOGIA POÉTICA
que compunham poesia lírico-amorosa, expressa-
vam, como é fácil depreender, o modo de sentir e A poesia medieval utilizava requintados recursos
de viver próprio de ambientes dissolutos, e acaba- formais, apesar da aparência primitiva, espontânea,
ram por ser canções de vida boêmia (...) poesia e de ser composta para ser cantada, com regras e
"forte", descambando para a pornografia ou o mau estruturas peculiares.
gosto, possui escasso valor estético, mas em con-
trapartida documenta os meios populares do tempo, Cantigas de atafinda ou de maestria, cantigas nas
na sua linguagem e nos seus costumes, com uma quais ocorre o que chamamos hoje de encadea-
flagrância de reportagem viva”. mento, ou “enjambement”, que consiste na continu-
ação da idéia de um verso no verso seguinte, esta-
Em geral, cultivadas por jograis de “má vida”, belecendo uma ligação de sentido entre os versos.
eram acompanhadas pelas soldadeiras (= mulheres Esse esquema de organização das cantigas é con-
a soldo), cantadeiras e bailadeiras, de vida dissoluta siderado mais difícil e intelectualizado, por nele não
que faziam coro com as “chulices” presentes nas ocorrer o recurso do refrão. Acontece mais comu-
letras das canções. mente nas cantigas de amor.

Cantigas paralelísticas, cantigas nas quais ocorre


CANCIONEIROS o paralelismo, recurso que consiste na repetição de
vocábulos, na forma de sinônimos, no decorrer da
Cancioneiros são coletâneas de canções, compi- cantiga.
ladas por ordem e graça de algum mecena ou so-
berano. Dos vários cancioneiros que existiram, três Cantigas de refrão, estrutura típica da poesia po-
merecem destaque: pular, na qual ocorre a presença do refrão, verso ou
par de versos que se repete após cada estrofe (que
1) Cancioneiro da Ajuda, composto no reinado de era chamada de cobra, cobla ou talho, de acordo
Afonso III (fins do século XIII), o que exclui a contri- com a Poética Fragmentária). O recurso do parale-
buição de D. Dinis (reinou entre 1268 e 1325 e foi lismo e do refrão ocorre mais freqüentemente nas
chamado Rei Trovador); contém 310 cantigas, qua- cantigas de amigo e às vezes de amor.
se todas de amor;
Tenções, também chamadas cantigas dialogadas,
2) Cancioneiro da Biblioteca Nacional (também por apresentarem diálogos, ou seja, alternância
chamado Colocci-Brancuti, homenagem a seus dois entre as vozes de interlocutores na cantiga. Ocorre
possuidores italianos, dos quais Brancuti foi o últi- principalmente nas cantigas de amigo.
mo), é, uma cópia italiana do século XVI, possivel-
mente de original do século anterior; contém 1 647 Além dos trovadores, havia outros tipos de artis-
cantigas, de todos os tipos, e engloba trovadores tas envolvidos nas manifestações artístico-literárias
dos reinados de Afonso III e de D. Dinis; da época, como os segréis, os jograis e os menes-
tréis.
3) Cancioneiro da Vaticana (o nome lhe vem de
ter sido descoberto na Biblioteca do Vaticano, em Simplificando, o trovador era o artista completo:
Roma), também cópia italiana do século XVI, de compunha, cantava e podia instrumentar as canti-
original do século anterior, inclui 1205 cantigas de gas; as mais das vezes, era fidalgo decaído. Jogral
escárnio e de maldizer, de amor e de amigo. era uma designação menos precisa: podia referir o
saltimbanco, o truão, o ator mímico, o músico e até
mesmo aquele que compunha suas melodias; de
PRINCIPAIS TROVADORES classe social inferior, por seus méritos podia subir
socialmente e ser classificado como trovador. Se-
Moisés destaca como principais trovadores: grel designava um artista de controvertida condição:
colocado entre o jogral e o trovador, era o trovador
- João Soares de Paiva, considerado o mais anti- profissional, que ia de Corte a Corte interpretando
go, nascido em 1141. cantigas próprias ou não, a troco de soldo. Menes-
trel era como se chamava o músico e cantor da
- Paio Soares de Taveirós, autor da cantiga mais Corte.
antiga de que se tem registro.
NOVELAS DE CAVALARIA
- D. Dinis, autor de aproximadamente 140 canti-
gas, entre líricas e satíricas. O Trovadorismo ainda se caracteriza pelo apare-
cimento e cultivo das novelas de cavalaria.
- João Garcia de Guilhade escreveu 54 composi-
ções líricas e satíricas. Considerado um dos mais Originárias da Inglaterra ou/e da França surgiram
originais trovadores do século XIII. a partir das canções de gesta, antigos poemas de
temas guerreiros, que em Portugal foram traduzi-
- Martim Codax, trovador da época de Afonso III, dos, com algumas modificações que buscavam
escreveu 7 cantigas de amigo, as quais tem o méri- adaptar as novelas à realidade de Portugal.
to de constituir as únicas peças da lírica trovadores-
ca cuja pauta musical permaneceu até hoje. Circulava entre a nobreza e, traduzidas do Fran-
cês, era natural que na tradução e cópia sofressem
- Outros trovadores: Afonso Sanches, Aires Cor- voluntárias e involuntárias alterações com o objetivo
pancho, Nuno Fernandes Torneol, Bernardo Bona- de adaptá-las à realidade histórico-cultural de Por-
val, Aires Nunes, João Zorro, etc. tugal.

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Convencionou-se agrupar as novelas de cavala- Daí para frente, a narração se entrelaça, se ema-
ria em três ciclos: ranha, a fim de acompanhar as desencontradas
aventuras dos cavaleiros do Rei Artur, até que, ao
1) ciclo bretão ou arturiano, tendo o Rei Artur e cabo, por perecimento ou exaustão, ficam reduzidos
seus cavaleiros como protagonistas; a um peque no número. E Galaaz, em Sarras, na
plenitude do ofício religioso, tem o privilégio exclusi-
2) ciclo carolíngio, em torno de Carlos Magno e os vo de receber a presença do Santo Vaso, símbolo
doze pares de França; da Eucaristia, e, portanto, da consagração de uma
vida inteira dedicada ao culto das virtudes morais,
3) ciclo clássico, referente a novelas de temas gre- espirituais e tísicas.
co-latinos.
A novela ainda continua por algumas páginas,
As novelas de cavalaria têm uma forte conotação com a narrativa do adulterino caso amoroso de Lan-
religiosa e eram permeadas por ensinamentos cris- celote, pai de Galaaz, e de D. Ginebra, esposa do
tãos implícitos no enredo das histórias, refletiam o Rei Artur. Tudo termina com a morte deste último”.
culto à vida espiritual, a busca pela perfeição moral,
e a valorização de qualidades como a honra, a bra- CRONICÕES E LIVROS DE LINHAGEM
vura, a castidade, a lealdade, a generosidade, a
justiça entre outras. Chegaram aos nossos dias as Além da poesia e das novelas de cavalaria no
seguintes novelas: Amadis de Gaula, História de trovadorismo, ainda foram cultivados outras mani-
Merlim, José de Arimatéia e A Demanda do Santo festações literárias: os cronicões, as hagiografias e
Graal. os nobiliários ou livros de linhagem.

Amadis de Gaula marca com relevância a ficção Os cronicões, de pouco valor literário, deram
da época, através do enredo amoroso e guerreiro, origem à historiografia portuguesa e serviram de
bem ao gosto do gênero, do cavaleiro perfeito, des- material de suporte para Herculano compor sua
truidor de monstros, tímido e heróico, apaixonado e Portugaliae Monumenta Historica. Crônicas Breves
fiel a sua amada Oriana, seguindo o modelo dos do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, Crónica
cantares de amor. A novela surpreende, sobretudo, Geral de Espanha (1344), provavelmente elaborada
pela atmosfera de sensualidade que une o par amo- por D. Pedro, Conde de Barcelos, filho bastardo de
roso, em especial pelo fato da amada ter-se ofereci- D. Dinis.
do, gentilmente, antes do casamento.
As hagiografias (= vidas de santos), escritas em
A Demanda do Santo Graal é uma novela místi- Latim, possuem ainda menos significado literário.
ca, tem começo numa visão celestial de José de
Arimatéia e no recebimento dum pequeno livro (A Os livros de linhagens eram relações de nomes,
Demanda do Santo Graal). José parte para Jerusa- especialmente de nobres, com o objetivo de estabe-
lém; convive com Cristo, acompanha-lhe o martírio lecer graus de parentesco que serviam para dirimir
da Cruz, e recolhe-lhe o sangue no Santo Vaso. dúvidas em caso de herança, filiação ou de casa-
Deus ordena-lhe que o esconda. Tendo-o feito, mor- mento em pecado (= casamento entre parentes até
re em Sarras. O relato termina com a morte de Lan- o sétimo).
celote: seu filho, Galaaz, irá em busca do Santo
Graal. Ao lado de informações tipicamente genealógi-
cas revelam veleidades literárias: nas referências às
Conforme Moisés “(...) A Demanda do Santo ligações genealógicas se intercalam, com realismo,
Graal contém o seguinte: em torno da "távola re- colorido e naturalidade, narrativas breves, mas de
donda", em Camelot, reino do Rei Artur, reúnem-se especial interesse, como a da Batalha do Salado.
dezenas de cavaleiros. É véspera de Pentecostes.
Chega uma donzela à Corte e procura por Lancelote
do Lago. Saem ambos e vão a uma igreja, onde III – HUMANISMO (1418-1527)
Lancelote arma Galaaz cavaleiro e regressa com
Boorz a Camelot. Um escudeiro anuncia o encontro Em Portugal, o Humanismo inicia-se quando
de maravilhosa espada fincada numa pedra de Fernão Lopes, guarda-mor da torre do Tombo des-
mármore boiando n'água. Lancelote e os outros de 1418, é encarregado por D. Duarte (filho de D.
tentam arrancá-la debalde. Nisto, Galaaz chega João I) de “por em crônica as histórias de seus an-
sem se fazer anunciar e ocupa a seeda perigosa (= tepassados. e ou da sua promoção a Cronista-Mor
cadeira perigosa) que estava reservada para o ca- do Reino, em 1434, e encerra-se em 1527, quando
valeiro "escolhido": das 150 cadeiras, apenas falta- Sá de Miranda regressa da Itália trazendo a medida
va preencher uma, destinada a Tristão. Galaaz vai nova (ou o decassílabo).
ao rio e arranca a espada do pedrão. A seguir, en-
tregam-se ao torneio. Surge Tristão para ocupar o Pela primeira vez, é demonstrada uma preocu-
último assento vazio. pação com a História documentada, envolvendo a
descrição dos fatos sociais fora dos parâmetros da
Em meio ao repasto, os cavaleiros são alvoro- Corte.
çados e extasiados com a aérea aparição do Graal
(= cálice), cuja luminosidade sobrenatural os transfi- OS CRONISTAS: FERNÃO LOPES
gura e alimenta, posto que dure só um breve mo-
mento. Galvão sugere que todos saiam à demanda Autodidata, de origem humilde, foi um dos legítimos
(= à procura) do Santo Graal. No dia seguinte, após representantes do saber popular, embora já no seu
ouvirem missa, partem todos, cada qual por seu tempo um novo tipo de saber começava a surgir: de
lado. cunho erudito-acadêmico e humanista.

Bibliografia para Língua Portuguesa 93


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Das várias crônicas que teria escrito sobre os Iniciador da historiografia da expansão ultramari-
reis portugueses da primeira dinastia (Dinastia de na, Azurara não tinha o mesmo talento de Fernão
Avis) e do começo da segunda, várias se perderam, Lopes, escreve numa linha ufanista (que culminará
só restando três de autoria indiscutível: Crônica d'El- n’ Os Lusíadas). Ao contrário de Fernão Lopes,
Rei D. Pedro, Crônica d'El-Rei D. Fernando e Crôni- preocupa-se com pessoas, individualidades, e não
ca d'El-Rei D. João I. Outras, ainda lhe são atribuí- com grupos sociais, onde a ação isolada do cavalei-
das, como a Crônica do Condestável (publicada em ro predomina sobre à da massa popular e já encon-
1526). tramos em sua obra certa influência da cultura clás-
sica.
Decididamente vocacionado para a historiografia,
Fernão Lopes tem sido considerado o "pai da Histó- Foi sucedido por Vasco Fernandes de Lucena,
ria" em Portugal. Sua visão abrangente e lúcida de que nada escreveu apesar de ocupar o cargo mais
Fernão Lopes torna possível o “nascimento” da His- ou menos 30 anos.
tória documentada de Portugal compilando fatos
como a Dinastia de Avis, a expansão marítima por- RUI DE PINA
tuguesa.
Quarto cronista-mor, Rui de Pina escreveu nove
Seu valor como historiador reside acima de tudo crônicas a propósito de monarcas da 1.ª e 2.ª dinas-
no fato de procurar ser "moderno", desprezando o tias: Sancho I, Afonso II, Sancho II, Afonso III, D.
relato oral em favor dos acontecimentos documen- Dinis, Afonso IV, D. Duarte, Afonso V, e D. João II.
tados. Contesta-se a autoria integral dessas crônicas: “as
seis primeiras seriam a refundição duma obra con-
Do ponto de vista da forma, o seu estilo repre- temporânea cujos originais só muito recentemente
senta uma literatura de expressão oral e de raiz foram descobertos (na Biblioteca Pública do Porto e
popular. Ele próprio diz que nas suas páginas não na casa do Cadaval), ou, ainda, calcadas nas crôni-
se encontra a formosura das palavras, mas a nudez cas perdidas de Fernão Lopes”. Suas crônicas pos-
da verdade. “(...) nosso desejo foi em esta obra suem valor historiográfico, em especial pelos novos
escrever verdade, sem outra mistura, deixando nos e diferentes dados sobre a sociedade portuguesa de
bons aquecimentos todo fingido louvor, e nuamente seu tempo e pela sobriedade da linguagem, de in-
mostrar ao povo, quaisquer contrárias cousas, da fluência clássica.
guisa que avieram."
A PROSA DOUTRINÁRIA
Fernão Lopes enquadra-se nitidamente nas es-
truturas culturais da Idade Média. Todavia, alguns A prosa de caráter religioso girou em torno de
pormenores fazem dele um homem avançado para traduções de episódios bíblicos, muitas vezes am-
o seu tempo. pliadas com comentários ou derivações ficcionadas,
e de obras de caráter hagiográfico (vidas de san-
Dotado dum estilo maleável, coloquial, primitivo, tos). Escrita pelos monarcas portugueses, a Prosa
saborosamente palpitante e vivo, não escondia o Doutrinária era direcionada à educação da nobreza
seu gosto acentuado pelo arcaísmo, talvez em de- objetivando orientá-la no convívio social e no ades-
corrência de sua origem plebéia e seu amor ao po- tramento físico para a guerra. Conforme Moisés “O
vo, à "arraia-miúda". culto do desporto, especialmente o da caça, ocupa
o primeiro lugar nessa pedagogia pragmática. As
Fernão Lopes possui incomum sentido plástico virtudes morais também se lembram e se enalte-
da realidade, procurando oferecer ao leitor um ins- cem, mas sempre visando a alcançar o perfeito
tantâneo "vivo", "atual", dos acontecimentos. Incor- equilíbrio entre a saúde do corpo e a do espírito”.
porou em sua obra alguns recursos da novela, como
por exemplo, nos retratos psicológicos das perso- Destaca:
nagens, a cerrada cronologia, o emprego dos diálo-
gos, constituem soluções estruturais que trouxe da Livro da Montaria, de D. João I, em que se ensina
novela e caldeou com seu próprio pendor literário. a caça ao porco montes, considerado o desporto
ideal para a fidalguia;
Sua carreira como historiador é provavelmente a
mais longa, sendo sucedido por Gomes Eanes de Leal Conselheiro e Livro da Ensinança de Bem
Zurara após a aposentadoria. Cavalgar Toda Sela, de D. Duarte: na primeira,
recopila e adapta com independência e novidade
reflexões filosóficas e psicológicas de várias e con-
GOMES EANES DE ZURARA traditórias fontes, desde Cícero até S. Tomás de
Aquino; na outra, faz a apologia da vida ao ar livre,
Gomes Eanes de Azurara (ou Zurara) sucedeu a mas não esquece de exaltar as virtudes do espírito,
Fernão Lopes e continuou o propósito de escrever a especialmente a vontade;
crônica de todos os reis portugueses até àquela
data. O Livro da Virtuosa Benfeitoria, do Infante D.
Pedro, o Regente (nascido em 1392 e morto em
Escreveu a 3.ª parte à Crônica de D. João I (co- 1449, na batalha de Alfarrobeira, era filho bastardo
nhecida como Crônica da Tomada de Ceuta, sua de D. João I), contém a tradução e adaptação da
obra mais importante), Crônica do Infante D. Henri- obra De Beneficiis, de Séneca, realizada com a
que ou Livro dos Feitos do Infante, Crônica de D. ajuda de Frei João Verba, e que trata das numero-
Pedro de Meneses, Crônica de D. Duarte de Mene- sas modalidades e virtudes do "benefício", sobretu-
ses, Crônica dos Feitos de Guiné, Crônica de D. do na educação dos nobres;
Fernando, Conde de Vila-Real (desaparecida).

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Livro de Falcoaria, de Pero Menino, em que se Com relação às incertezas da vida do mestre,
ensina a tratar das doenças dos falcões. Saraiva deixa a questão de lado, achando muito
mais pertinente destacar o gênio vicentino e sua
Outras obras de destacam, como o Boosco De- autenticidade como criador: “Se ele está vivo no
leitoso, obra com forte influência de Petrarca nos meio das múmias que assinalam a história do teatro
primeiros capítulos, em que se narra a peregrinação português, isso se deve certamente ao fato de que
da alma em busca da salvação, etc. ele era Gil Vicente, o grande teatrólogo e não qual-
quer outra pessoa”.
A POESIA DO CANCIONEIRO GERAL
Com relação a Gil VICENTE não ter estudado
A poesia portuguesa quatrocentista, do reinado formalmente, não ter bebido das fontes clássicas
de D. João II e D. Manuel, foi compilada por Garcia (...) “Seu auto-didatismo possibilitou-lhe as condi-
de Resende no seu Cancioneiro Geral (1516). São ções de originalidade de sua estrutura artística,
composições escritas em português e castelhano. dando-lhe uma expressão singular, predispondo-o a
Contém aproximadamente mil composições, de 286 representar de maneira objetiva, os valores culturais
poetas, cerca de 150 são escritas em Espanhol. de seu momento histórico”.

A poesia do período se caracteriza pelo divórcio Recebeu influências do teatro medieval e tam-
entre a "letra" e a música. O ritmo é alcançado com bém de Juan Del Encina, dramaturgo castelhano,
os próprios recursos da palavra disposta em versos, seu contemporâneo, e pode ser constatada na pin-
estrofes, etc., e não com a pauta musical. tura dos quadros sociais ou através de citações
direta ao mestre espanhol.
O Cancioneiro Geral introduziu o emprego do
verso redondilha (redondilha menor, com 5 sílabas, Durante trinta e quatro anos de produção drama-
e redondilha Maior, com 7 sílabas) e trouxe novida- túrgica, pontilhados de algumas trovas, sermões e
des temáticas: a influência clássica (Ovídio), o influ- epístolas, ele nos legou 44 peças, sendo a primeira
xo italiano (Dante e Petrarca: o lirismo centrado no em 1502, com o Monólogo do Vaqueiro e a última
conhecimento do amor e suas contradições. inter- Floresta de Enganos, no ano de 1536.
nas) e o espanhol (Marques de Santilhana, Juan de
Mena, Gómez Manrique, Jorge Manrique). No teatro de Gil Vicente, conviveram elementos
característicos do medievo e do humanismo. “Em
Há, ainda, registros de poesia épica, religiosa e seu teatro desfilava uma verdadeira fauna humana,
satírica. conforme Saraiva, sendo suas personagens muito
mais tipos que se comportam segundo automatis-
Entretanto, o ponto alto do Cancioneiro Geral é mos inveterados”.
representado pela poesia lírica.
Dentre os ‘tipos’ sociais que desfilam nas peças
Poetas que se destacam no Cancioneiro Geral: vicentinas, podemos mencionar como mais recor-
João Ruiz de Castelo-Branco representa-se com a rentes: a alcoviteira, o escudeiro pobre, o clérigo
"Cantiga sua partindo-se", Garcia de Resende, com corrupto, a viloa casadoira, o almocreve, o sapatei-
as Trovas à Morte de Dona Inês de Castro, graças ro, os pajens etc. Todos são descritos com morda-
ao forte sentimento de adesão ao "caso" da amante cidade pelo dramaturgo.
de D. Pedro, a ponto de possivelmente o poema
haver estado presente no espírito de Camões quan- Gil Vicente foi autor e ator e suas representa-
do este desenhou igual episódio em Os Lusíadas, ções, cheias de improvisos já previstos, são ricas,
além de Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda. densas e variadas.

O TEATRO POPULAR DE GIL VICENTE Sua galeria de tipos humanos é imensa: o padre
corrupto, o cardeal ganancioso, o sapateiro que
Anteriormente a Gil Vicente, o teatro em Portugal explora o povo, a beata, o médico incompetente, os
consistia na representação de breves quadros reli- aristocratas decadentes, etc.
giosos alusivos a cenas bíblicas e encenados em
datas festivas, como o Natal e a Páscoa. Geralmen- Seus personagens não têm nome - são sempre
te falados em Latim, eram encenados nas igrejas. designados pela profissão, assim registrando os
Posteriormente, surge o teatro profano, de caráter tipos sociais que faziam parte da sociedade da épo-
não religioso. ca.

A biografia de Gil Vicente é muito enigmática. O teatro era sua arma de combate e de denúncia
Seria ele o ourives autor na famosa cruz de Belém? contra a imoralidade. Sua linguagem, bastante sim-
Nobre arruinado? O enigma continua a possibilitar ples, espontânea e fluente. Assim como os cenários
teses a favor e contra, na busca de esclarecer as e as montagens.
incertezas biográficas do grande teatrólogo portu-
guês. A relevância das quarenta e quatro peças de Gil
Vicente não se exauriu até os nossos dias, fossem
O concreto é que Gil Vicente mantinha proximi- elas autos ou farsas, tratassem de temas cotidianos,
dade aos integrantes da corte, em especial à rainha fantásticos ou religiosos.
D. Maria, cuja homenagem ao nascimento do filho
da monarca, mais tarde D. João III, Rei de Portugal, A genialidade e habilidade de Gil Vicente fizeram
escreveu e interpretou o Auto da Visitação (também dele o maior dramaturgo português de todos os
conhecido como Monólogo do Vaqueiro), no ano de tempos. Trata-se do princípio intemporal que, se-
1502. gundo SARAIVA, caracteriza a arte de forma geral.

Bibliografia para Língua Portuguesa 95


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Didaticamente, pode-se dividir em fases o teatro O período se encerra em 1580, ano da morte de
vicentino: Luís Vaz de Camões e do domínio espanhol sobre
Portugal.
a) 1.ª fase, de 1502 a 1514, em que a influência de
Juan del Encina é dominante, sobretudo nos primei- Para Massaud Moisés, o Renascimento foi deci-
ros anos, atenuando-se depois de 1510; sivo para a Literatura Portuguesa. O Humanismo
antecedeu ao Classicismo e preparou o movimento
b) 2.ª fase, de 1515 a 1527, começando com Quem cultural, em especial “pela descoberta dos monu-
tem farelos? e terminando com o Auto das Fadas: mentos culturais do mundo greco-latino, de modo
corresponde ao ápice da carreira dramática de Gil particular as obras escritas, em todos os recantos
Vicente, com a encenação de suas melhores peças, do saber humano, e por uma concepção de vida
dentre as quais a Trilogia das Barcas (1517-1518), o centrada no conhecimento do homem, não de
Auto da Alma (1518), a Farsa de Inês Pereira Deus”.
(1523), o juiz da Beira (1525);
A descoberta do caminho marítimo para as Ín-
c) 3.ª fase, de 1528, com o Auto da Feira, até dias, em 1498 por Vasco da Gama, e dois anos
1536, com a Floresta de Enganos, fase em que o depois o "achamento" do Brasil, permitiram a Portu-
dramaturgo intelectualiza seu teatro sob influência gal gozar de um prestígio cultural e econômico,
do classicismo renascentista. mesmo que momentâneo, no reinado de D. Manuel.

Os temas do teatro vicentino também variam: Este otimismo ufanista chega ao fim com a bata-
lha em Alcácer-Quibir, no ano de 1578, quando
Teatro tradicional, predominantemente medie- morre D. Sebastião e Portugal passa ao domínio
val: são as peças de caráter religioso (Auto da Fé, o espanhol. Sob Felipe II, Camões reflete essa atmos-
Auto da Alma), peças de assunto bucólico (Auto fera de exaltação épica e desafogo financeiro que
Pastoril Castelhano, o Auto Pastoril Português), as cruza as primeiras décadas do século XVI, mas não
peças de assunto relacionado com as novelas de deixa de refletir também o desalento dos lúcidos
cavalaria (D.Duardos, Auto de Amadis de Gaula). perante a efêmera superioridade portuguesa através
da fala do Velho do Restelo e do epílogo d’ Os Lu-
Teatro atual: caracteriza-se por conter o retrato síadas.
satírico da sociedade do tempo, em seus vários
estratos, a fidalguia, a burguesia, o clero e a plebe Do Classicismo ao teocentrismo medieval, vai
(Farsa de Inês Pereira e em Quem tem farelos? (ou opor-se uma concepção antropocêntrica do mundo,
Farsa do Escudeiro), ou pelo teatro alegórico-crítico, em que o "homem é a medida de todas as coisas".
como a Trilogia das Barcas. Enfatiza-se a imitação dos autores clássicos gregos
e romanos da antiguidade: Homero, Virgílio, Ovídio,
Sua obra, compilada por seu filho, Luís Vicente etc.; uso da mitologia: Os deuses e as musas, inspi-
segue a seguinte divisão: radoras dos clássicos gregos e latinos aparecem
também nos clássicos renascentistas (Em Os Lusí-
1) Obras de devoção (Monólogo do Vaqueiro, Auto adas: (Vênus) = a deusa do amor e (Marte) o deus
Pastoril Castelhano, Auto da Alma, Auto da Feira, da guerra, protegem os portugueses em suas con-
Trilogia das Barcas, etc.); quistas marítimas; predomínio da razão sobre os
sentimentos: a linguagem clássica não é subjetiva
2) Comédias (Comédia do Viúvo, Comédia de Ru- nem impregnada de sentimentalismos e de figuras,
bena, Divisão da Cidade de Lisboa, Floresta de porque procura coar, através da razão, todos os
Enganos); dados fornecidos pela natureza e, desta forma ex-
pressou verdades universais; linguagem sóbria,
3) Tragicomédias (Exortação da Guerra, Cortes de simples, sem excesso de figuras literárias; idealis-
Júpiter, Frágoa de Amor; mo: o classicismo aborda os homens ideais, libertos
de suas necessidades diárias, comuns.
4) Farsas (Quem tem farelos?, Auto da índia, O
Velho da Horta, Inês Pereira, Juiz da Beira, Farsa Os personagens centrais das epopéias (grandes
dos Almocreves, etc.). poemas sobre grandes feitos e atos heróicos) nos
são apresentados como seres superiores, verdadei-
Segundo o autor, “o teatro de Gil Vicente carac- ros semideuses, sem defeitos. amor Platônico: Os
teriza-se, antes de tudo, por ser rudimentar, primiti- poetas clássicos revivem a idéia de Platão de que o
vo e popular, muito embora tenha surgido e se te- amor deve ser sublime, elevado, espiritual, puro,
nha desenvolvido no ambiente da Corte, para servir não-físico; busca da universalidade e impessoalida-
de entretenimento aos animados serões oferecidos de. A obra clássica torna-se a expressão de verda-
pelo Rei”. des universais, eternas e despreza o particular, o
individual, aquilo que é relativo. O saber concreto,
"científico" e objetivo, tende a valorizar-se em detri-
IV – CLASSICISMO (1527-1580) mento do abstrato; notável avanço opera-se no
campo das ciências experimentais; a mitologia gre-
PRELIMINARES co-latina, esvaziada de significado, passa a funcio-
nar apenas como símbolo ou ornamento; em suma:
O marco inicial do Classicismo português é em o humano prevalece ao divino.
1527, quando se dá o retorno do escritor Sá de Mi-
randa de uma viagem feita à Itália, de onde trouxe Em 1527, depois de ausente seis anos, Sá de
as idéias de renovação literária e as novas formas Miranda regressa da Itália, impregnado das novas
de composição poética, como o soneto. idéias.

96 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Introduziu, ou colaborou para introduzir o verso A LÍRICA CAMONIANA
decassílabo, o terceto, o soneto, a epístola, a elegi-
a, a canção, a ode, a oitava, a écloga, a comédia Camões é grande, dentro e fora dos quadros
clássica (escreveu Os Estrangeiros em 1526). Tor- literários portugueses, por sua poesia.
nou-se o principal divulgador do Classicismo, mas o Escreveu versos tanto na medida velha quanto na
papel de teórico do movimento coube a Antonio medida nova. Seus poemas heptassílabos, geral-
Ferreira. mente são compostos por um mote e uma ou mais
estrofes que constituíam glosas (ou voltas a ele).
A ESTÉTICA CLÁSSICA
Os sonetos são a parte mais conhecida da lírica
Para Moisés, o classicismo consistia, antes de camoniana.
tudo, numa concepção de arte baseada na imitação
dos clássicos gregos e latinos, considerados mode- As composições líricas de Camões oscilam entre
los de suma perfeição estética. dois pólos: o lirismo confessional, em que o autor dá
vazão à sua experiência íntima, e a poesia pura
Imitar não significava copiar, mas criar obras de arte, em que pretende transpor os sentimentos e os
arte segundo as fórmulas, as medidas, empregadas temas a um plano formal, lúdico. Em outras pala-
pelos antigos. vras, Camões demonstra, em seus sonetos, uma
luta constante entre o amor material, manifestação
Estabelece-se, ou deseja-se, um equilíbrio entre da sensualidade e do desejo, e o amor idealizado,
Razão e imaginação, no afã de criar uma arte uni- puro, espiritualizado, capaz de conduzir o homem à
versal e impessoal. Todavia, a universalidade e a realização plena.
impessoalidade implicavam uma concepção absolu-
tista de arte onde provém que os clássicos renas- Isso faz que o poeta abstraia a mulher, ou as
centistas procurem a Beleza, o Bem e a Verdade, mulheres, em favor da Mulher. Camões pinta com o
com maiúsculas iniciais, em virtude dessa concep- auxílio da Razão o retrato da Mulher, formado da
ção absolutista e idealista de arte. Percebe-se por reunião de todas e de nenhuma em particular, por-
isso que os clássicos atribuíam à arte objetivos éti- que subordinado a um ideal de beleza perene e
cos, identificados com o Bem e a Verdade. universal. . Nessa perspectiva, o poeta concilia o
amor como idéia e o amor como forma, tendo a
O Classicismo português se inicia e termina com mulher como exemplo de perfeição, ansiando pelo
um poeta: Sá de Miranda e Camões. Numa visão de amor em sua integridade e universalidade.
conjunto, este último é o grande poeta, enquanto os
demais se colocam em plano inferior, naturalmente O poeta procura conhecer, conceituar o Amor, o
ofuscados pelo seu brilho. que só consegue realizar lançando mão de antíte-
ses e paradoxo.
LUIZ VAZ DE CAMÕES
A longa e dramática meditação acerca dos misté-
Pouco se conhece da vida de Luís Vaz de Ca- rios do Amor, Camões acrescenta idêntica reflexão
mões. Escritor de dados biográficos muito obscuros, a propósito da condição humana. A vida, tema muito
Camões é o maior autor do período. Teria nascido mais vasto que o da mulher e o amor, é que agora
em 1524 ou 1525, talvez em Lisboa, Alenquer, Co- lhe interessa. Para tanto, porém, o poeta somente
imbra ou Santarém. Pelo seu talento e cultura, teria conta com o recurso da auto-sondagem, pois em si
provocado paixões entre damas da Corte, dentre as encontra a súmula da tragédia humana espalhada
quais a lnfanta D. Maria, filha de D. Manuel e irmã pelos quatro cantos do mundo. E à proporção que
de D. João III, e D. Catarina de Ataíde. Por causa aprofunda a análise, vai reparando que uma espécie
desses amores proibidos, é "desterrado" algum de fatalismo, o "fado", o impede mesmo de recorrer
tempo para longe da Corte, até que resolve "exilar- ao desespero. A mente se debate num mar de pa-
se" em Ceuta (1549), como soldado raso. Perde um radoxos e pensamentos desencontrados, e não
olho, e regressa a Lisboa. Em 1552, na procissão pode interromper o processo nem com a ajuda da
de Corpus Christi, fere Gonçalo Borges, é preso e desesperação: é o desconserto do mundo.
solto, em seguida, sob a condição de engajar-se no
serviço militar ultramarino. Com efeito, em fim 1553, Em síntese, o núcleo da poesia reflexiva de Ca-
chega à Índia. Em 1556, dá baixa, e é nomeado mões: “a vida não tem razão de ser, e descobri-lo e
"provedor mor dos bens de defuntos e ausentes", pensá-lo incessantemente é inútil, além de perigoso,
em Macau. Ali, teria escrito parte d'Os Lusíadas. pois apenas acentua quão irremediavelmente mise-
Acusado de prevaricação, vai à Goa defender-se, rável é a condição humana”.
mas naufraga na foz do rio Mecon: salva-se a nado,
levando Os Lusíadas mas perdendo sua compa- A POESIA ÉPICA DE CAMÕES
nheira, Dinamene. Em 1572, Camões publica Os
Lusíadas, poema épico que celebrava os recentes Os Lusíadas representam a faceta épica da poe-
feitos marítimos e guerreiros de Portugal. A obra fez sia camoniana. Considerada o "Poema da Raça",
tanto sucesso que o escritor recebeu do rei D. Se- "Bíblia da Nacionalidade", etc., a epopéia constrói a
bastião uma pensão anual – que mesmo assim não visão do mundo e dos homens quinhentistas portu-
o livrou da extrema pobreza que vivia. Camões mor- gueses, retratando o exato momento em que Portu-
re pobre e abandonado, em 10 de Junho de 1580. gal atingia o ápice de sua evolução histórica.
Escreveu teatro ao modo vicentino (Auto de Filode-
mo e El-Rei Seleuco) e ao clássico (Anfitriões), mas Recorre a todo material produzido por escritores
sem alcançar maior nível, relativamente à sua poe- portugueses anteriormente: Fernão Lopes, Gomes
sia e aos comediógrafos do tempo. Sua correspon- Eanes de Zurara, Garcia de Resende e Antonio
dência contém valor biográfico ou histórico-literário. Ferreira.

Bibliografia para Língua Portuguesa 97


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
O cerne da ação desenvolve-se em torno da Após grande banquete, Tethys conduz Vasco da
viagem de Vasco da Gama às Índias. A palavra Gama ao ponto mais alto da ilha e desvenda-lhe a
“lusíada” é um neologismo inventado por André de "máquina do mundo" e o futuro glorioso dos portu-
Resende para designar os portugueses como des- gueses. Partida. Chegada a Portugal.
cendentes de Luso (filho ou companheiro do deus
Baco). Os Lusíadas representam o espírito novo trazido
pela Renascença.
Contém 10 cantos, 1102 estrofes ou estâncias e,
portanto, 8816 versos; as estâncias estão organiza- A começar do herói, como o título indica, o herói
das em oitava-rima, desta epopéia é coletivo, os Lusíadas, ou seja, os
filhos de Luso, os portugueses.
Divide-se em três partes:
PAPEL E SIGNIFICADO DA MITOLOGIA
1ª parte: Introdução EM “OS LUSÍADAS”

Estende-se pelas 18 estrofes do Canto I e subdivi- Camões utiliza a mitologia pagã pelas seguintes
de-se em: razões:

Proposição: é a apresentação do poema, com a - Obedece às regras da epopéia clássica: conter um


identificação do tema e do herói (constituem as três plano mitológico com os deuses da sua civilização,
primeiras estrofes do canto I): o poeta se propõe e tal ato apenas revela o enorme conhecimento e a
cantar as façanhas das "armas e os barões assina- profunda admiração que Camões nutria pela Anti-
lados", isto é, os feitos bélicos de homens ilustres; guidade Clássica;
Invocação: o poeta invoca as Tágides, musas do rio
Tejo, pedindo a elas inspiração para fazer o poema. - Assegura a ação interna do poema épico ao opor
Dedicatória: o poema é dedicado a D. Sebastião, rei deuses e humanos, possibilitando a demonstração
de Portugal, que custeou a publicação e uma pen- de emoções sem por isso enfraquecer o seu poder;
são vitalícia para seu autor.
- Embeleza a intriga, tornando a obra mais do que
2ª parte: Narração - (da estrofe 19 do Canto I até a um especial relato de viagem, e criando outro ponto
estrofe 144 do Canto X), o poeta relata a viagem de interesse sem, porém, tirar a importância ao pla-
propriamente dita dos portugueses ao Oriente. no da narração; "enfeita", dando mais emoção à
história, tornando-a mais uma espécie de “novela”
3ª parte: Epílogo. É a conclusão do poema (estrofes do que apenas um “relatório”;
145 a 156 do Canto X), onde o poeta pede às mu-
sas que o inspiraram para calarem a voz de sua lira, - Mostra que até mesmo os deuses conseguem
pois está desiludido com uma pátria que já não me- exprimir sentimentos como o amor, ódio, inveja e
rece as glórias do seu canto. sensualidade;

Síntese do poema: quando a ação do poema co- -Glorifica o povo português ao colocá-lo em cená-
meça (estância 19), as naus estão navegando pelo rios adversos criados pelos deuses, mas que ainda
meio da viagem, em pleno Oceano Indico. No Olim- assim conseguem ser superados, criando uma
po, os deuses se reúnem em concílio, para decidir a comparação entre a força de ambos;
sorte dos navegantes. Júpiter, Vênus e Marte são
favoráveis à sorte dos portugueses e Baco é o opo- - Evidencia a grandeza dos feitos portugueses co-
sitor ferrenho que fará o que puder para atrapalhar o mo: vencer o mar (Netuno), ultrapassar o gigante
feito daqueles que ofuscariam suas façanhas. As Adamastor e vencer as guerras (Marte);
agressões são poderosas, porém Vênus está atenta
para protegê-los sutilmente. Durante a viagem, onde - Demonstra que os portugueses enquanto heróis
aportam, Vasco da Gama vai narrando a história são deuses, pois se tornam "imortais" pelos feitos
dos portugueses, a partir da fundação da pátria, praticados.
prosseguindo com uma série de episódios históri-
cos: o de Egas Moniz, Inês de Castro, a batalha de Na verdade, o poeta se viu obrigado a colocar
Ourique, a batalha do Salado, a batalha de Aljubar- maior ênfase naquilo que era marginal ao eixo cen-
rota, a tomada de Ceuta, o sonho profético de D. tral da epopéia, como se pode observar na fisiono-
Manuel, os aprestos da viagem, a fala do Velho do mia de alguns episódios fundamentais: a Ilha dos
Restelo e a largada; a seguir, o Gama conta a pri- Amores, os Doze de Inglaterra, Inês de Castro, o
meira parte da viagem, cujas peripécias mais impor- Gigante Adamastor, a fala do Velho do Restelo.
tantes são: o fogo de Santelmo, a tromba marinha, a Essas inovações ressaltam a criatividade de Ca-
aventura de Veloso, o Gigante Adamastor, chegada mões e a edificação duma epopéia renascentista,
a Melinde. moderna.

Com a chegada a Calecut, Gama desembarca e SÁ DE MIRANDA


é recepcionado pelo Samorim. Enquanto isso, Paulo
da Gama recebe a bordo da nau capitania o Catual, Escritor português, natural de Coimbra. De famí-
a quem comunica o significado das figuras dese- lia fidalga, surge no Cancioneiro Geral de Garcia de
nhadas nas bandeiras; uma última tentativa de Baco Resende (1516), onde colaborou com poesias em
é desfeita e os navegantes devem regressar à Pá- português e em castelhano (como era habitual nos
tria. Na Ilha dos Amores, os navegantes são favore- escritores da época). Em 1521, fez uma viagem à
cidos pelas ninfas em recompensa do heróico feito Itália, lá permanecendo até 1516 onde foi introduzi-
praticado. do ao Renascimento italiano.

98 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Sá de Miranda foi o introdutor, na Literatura Por- Fernão Mendes Pinto é o maior representante do
tuguesa, do soneto, do terceto, da oitava, de subgê- gênero e autor de uma das obras mais significativas
neros poéticos como a canção, a carta, a écloga e a do século XVI e de toda a literatura de viagens de
elegia, do verso decassílabo e da comédia clássica. qualquer tempo: Peregrinação (tudo começa em
Sá de Miranda concebeu as primeiras comédias águas Portuguesas continentais, quando a caravela
clássicas portuguesas (Estrangeiros e Vilhalpan- em que vai o narrador de Lisboa a Setúbal é aprisi-
dos), embora não tenha sido bem recebido pelo onada por piratas Franceses. Daí para frente, se-
público, habituado aos autos à moda de Gil Vicente. gue um rol de complicadas e pitorescas aventuras
Sá de Miranda deixou uma importante obra episto- pelo Oriente).
lográfica e uma série de éclogas, entre outros tex-
tos. A sua obra foi publicada postumamente, em Fernão Mendes Pinto deixou um relato vivo e
1595. Influenciou decisivamente escritores, seus saboroso duma quase mítica experiência humana
contemporâneos e posteriores, como António Fer- por terras e gentes da África e Ásia.
reira, Diogo Bernardes, Pero Andrade de Caminha,
Luís de Camões, D. Francisco Manuel de Melo ou O CONTO
ainda, mais recentemente, Jorge de Sena, Gastão
Cruz e Ruy Belo, entre outros. Segundo Massaud Moisés, “(...) o conto, de re-
mota e vaga origem, cujas primeiras manifestações
A HISTORIOGRAFIA DE JOAO DE BARROS se localizam nas Mil e Uma Noites, foi pouco apre-
ciado em Portugal antes do Romantismo’. O primei-
João de Barros é geralmente considerado o pri- ro nome que merece ser lembrado historicamente é
meiro grande historiador português. Sua carreira o de Gonçalo Fernandes Trancoso, que escreveu
literária iniciou-se muito jovem, com pouco mais de breves narrativas de fundo moral, logo publicadas
vinte anos, ao escrever um romance de cavalaria, a sob o título de Contos e Histórias de Proveito e E-
Crónica do Emperador Clarimundo, donde os Reys xemplo. O êxito que de imediato conheceu não se
de Portugal descendem, dedicado ao soberano e ao alterou durante o século XVII, inclusive no Brasil,
príncipe herdeiro Dom João. Como A Demanda do especialmente no Nordeste, onde passaram a cha-
Santo Graal, a novela é dominada por um tom mes- mar-se de "estórias de Trancoso" as narrativas po-
siânico: O advento do império português. pulares de imaginação e exemplo moral.

Por sugestão de por Dom Manuel I, iniciou a Numa prosa desataviada, coloquial, ingênua,
escrita de uma história que narrava os feitos dos Trancoso mistura o sobrenatural com o real sem
portugueses na Índia - as Décadas da Ásia (Ásia de medo à inverosimilhança, aproveitando-se da tradi-
Ioam de Barros, dos feitos que os Portuguezes fize- ção oral e dos ensinamentos de contistas espa-
ram na conquista e descobrimento dos mares e nhóis, como D. Juan Manuel, e italianos, como
terras do Oriente). Boccaccio, autor do conhecido Decamerone, do
inglês Geoffrey Chaucer, autor de The Canterbury
Enquanto historiador e lingüista, João de Barros Tales, entre outros.
merece a fama que começou a correr logo após a
sua morte. As "Décadas" são não só um precioso A NOVELISTICA
manancial de informações sobre a história dos por-
tugueses na Ásia, mas, principalmente o início da A novelística segue o espírito da cavalaria, que
historiografia moderna em Portugal e no Mundo. ainda teimava em subsistir em Portugal. A matéria
cavaleiresca, que tinha sido cultivada na Idade Mé-
Obras de João de Barros: Crónica do Imperador dia, agora se nacionaliza e se aportuguesa, uma
Clarimundo, Rhopica pneuma ou Mercadoria Espiri- vez que surgem novelas de autores portugueses e
tual , Grammatica da Língua Portuguesa com os de espírito português.
Mandamentos da Santa Madre Igreja, Diálogo da
Viciosa Vergonha, Diálogo sobre Preceitos Morais, Caracteriza-se por tentar manter vivo um ideal de
Diálogo Evangélico sobre os Artigos da Fé, Panegí- vida próprio da Cavalaria medieval, mas adaptada
ricos: de D. João III e da Infanta D. Maria , Décadas ao Renascimento. O individualismo bélico cede
da Ásia. Volumes I a IV entre outros. lugar à guerra coletiva, aos torneios, em flagrante
concessão ao aprimoramento operado na confecção
A LITERATURA DE VIAGENS de armas e às novidades em matéria de tática mili-
tar. Já não se considerando como valoroso e digno
Quanto à literatura de viagens é importante res- de admiração o cavaleiro que luta mas o que ama.
saltar o objetivo maior: transmitir a beleza deslum-
brante das descobertas de novas esferas e paisa- Embora de larga circulação na Espanha e Itália,
gens. Dessa forma, nascem os relatos de viagens, em Portugal a novela bucólica e sentimental é re-
roteiros, diários ou equivale, "reportagens" do mun- presentada por Menina e Moça (ou Saudades,
do que se alargava incrivelmente. 1554), de Bernardim Ribeiro. Ao mistério que envol-
ve a vida do escritor, é preciso acrescentar a dúvida
Exemplos do gênero: História Trágico-Marítima, que ainda paira sobre a identidade da novela. A
coletânea de relatos e naufrágios ocorridos nos narrativa divide-se em duas partes, a primeira com
séculos XV, XVI e XVII, organizada por Bernardo trinta e um capítulos, a segunda com cinqüenta e
Gomes de Brito. oito. Seu caráter bucólico e sentimental se revela
pelo tom melancólico e pessimista que varre toda a
As crônicas de viajantes como Francisco Álva- novela.
res, autor da Verdadeira Informação das Terras do
Preste João (Abissínia); Fernão Cardim, autor dos Duas são as interlocutoras, a Menina e Moça,
Tratados da Terra e Gente do Brasil. que funciona como narradora, e a Senhora idosa.

Bibliografia para Língua Portuguesa 99


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Ao contrário das novelas de cavalaria em que o A obra do padre Vieira compreende:
protagonista é sempre o cavaleiro, a narrativa de
Bernardim tem como centro de interesse a mulher e a) Cartas, sermões e obras de profecia (de inte-
sua psicologia amorosa: evidente prenúncio da psi- resse documental), Vieira trata de diversos assuntos
cose romântica. relacionados à sua atuação e à questões políticas
do momento em que vivia no Brasil).
O TEATRO CLÁSSICO
b) Sermões. O sermão consistia em interpretar o
O teatro clássico, quando comparado com o texto sagrado citado à cabeça do sermão. Segundo
vigor, o brilho e a espontaneidade do teatro vicenti- a exegética tradicional, o texto tinha quatro sentidos:
no é secundário. De inspiração clássica (Plauto, o sentido literal ou histórico, o alegórico (maneira
Terêncio e Sêneca) teve como expoentes: velada de manifestar uma verdade da fé), o moral
Sá de Miranda (Os Estrangeiros, Os Vilhalpandos), (ensinamento sobre como se comportar na vida), o
Antonio Ferreira (A Castro, Bristo e Cioso), Jorge anagógico, relativo à outra vida.
Ferreira de Vasconcelos (Aulegrafia, Eufrosina,
Ulissipo). Os sermões vieirianos seguem a estrutura clás-
sica tripartida: Intróito (ou exórdio), em que o orador
Merece destaque A Castro (Tragédia de D. Inês declara o plano a utilizar na análise do tema em
de Castro - publicada em 1587), de Antonio Ferrei- pauta: desenvolvimento (ou argumento), em que se
ra, que é a primeira tragédia clássica em português apresentam os prós e os contras da proposição e os
e uma verdadeira obra-prima no gênero. exemplos que os abonam; peroração, em que o
orador finaliza a prédica conclamando os ouvintes à
V – BARROCO (1580-1756) prática das virtudes que nela se enaltecem.

Em 1578, quando Dom Sebastião desaparece na Dono de uma linguagem dramática, ainda hoje a
batalha de Alcacer-Quibir é chegado o ocaso me- leitura dos sermões demonstram o autor e ator
lancólico da pátria portuguesa. O barroco em Portu- cheio de vigor e que surpreende a cada passo pelas
gal desenvolve-se entre 1580 quando Portugal respostas paradoxais que dá às perguntas que ele
perde sua autonomia política, passando a integrar o próprio faz ao texto pregado e a si mesmo.
reino da Espanha e vai até 1756 com a fundação da
Arcádia Lusitana – uma academia poética -, e tem Uma das virtudes da eloqüência de Vieira é a
início um novo estilo: o Arcadismo. chamada “propriedade”, ou a arte de encontrar as
palavras mais próprias para o que se quer significar.
Moisés afirma que o movimento barroco, iniciado A mais famosa criação da sua imaginação é a teoria
na Espanha e introduzido em Portugal durante o do quinto império do mundo, sob a égide do rei de
reinado filipino, corresponde a uma profunda trans- Portugal, que seria inaugurado com a segunda vin-
formação cultural, cujas raízes constituem ainda da de Cristo a Terra e com a chegada do messias
objeto de discussão e divergência. dos judeus: “seria D. João IV, quem estava destina-
do a derrotar definitivamente os turcos e reconduzir
Para ele, o Barroco procurou conciliar o espírito os judeus dispersos no mundo à sua terra de ori-
medieval, considerado de base teocêntrica, e o es- gem, a Palestina.” O quinto império tem a ver com a
pírito clássico, renascentista, de essência pagã, crença na missão providencial dos Portugueses
terrena e antropocêntrica. Entendendo que conhe- (equivalente à dos Hebreus no seu tempo). A dou-
cer é identificar-se com, assimilar o objeto ao sujei- trina do quinto império, tal como é tratada por Vieira,
to, parece evidente que a dicotomia barroca (corpo especialmente na sua obra incompleta História do
e alma, luz e sombra, etc.) corresponde a dois mo- Futuro, tem um lado prático: obter o regresso a Por-
dos de conhecimento. cultismo e conceptismo: tugal dos judeus fugidos e seus capitais.

1. Cultismo ou gongorismo - valorização de for- Sua imaginação verbal, e o estilo de pensar, com
ma e imagem, jogo de palavras, uso de metáforas, os seus paradoxos, aproximam o Padre Antonio
hipérboles, analogias e comparações. Manifesta-se Vieira de Fernando Pessoa, que o considerava seu
uma expressão da angústia de não ter fé. mestre e “imperador da língua portuguesa”.

2. Conceptismo ou quevedismo - valorização do D. FRANCISCO MANUEL DE MELO


conteúdo/conceito, jogo de idéias através do racio-
cínio lógico. Há o uso da parábola com finalidade Deixou uma obra vastíssima em português e em
mística e religiosa. castelhano, repartida por todos ou quase todos os
gêneros cultivados na época, até agora só parcial-
PADRE ANTONIO VIEIRA mente publicados. Suas poesias são em parte cas-
telhanas, em parte portuguesas, ao gosto gongóri-
Nasceu em Lisboa e viveu no Brasil. Adquiriu co.
prestígio junto à Corte por ser o confessor real. Per-
seguido pela Inquisição por defender os judeus, Escreveu, ainda, nas duas línguas tratados mo-
volta ao Brasil onde passa a combater a escravidão rais, o mais célebres dos quais é a Carta de Guia de
dos indígenas e, com outros jesuítas, é expulso do Casados, muito apreciada em Portugal, porque é a
Maranhão. expressão mais completa de um certo modelo por-
tuguês de vida conjugal. Deu a sua contribuição ao
Preso pela Inquisição, é proibido de pregar e teatro com O Fidalgo Aprendiz, ao gosto vicentino,
condenado à prisão domiciliar. Sua atuação política, mas com personagens suas contemporâneas. So-
intimamente associada à sua obra, centralizou-se bre o Brasil escreve: “paraíso de mulatos, purgató-
na defesa dos judeus, negros e índios. rio de brancos e inferno de negros”.

100 Bibliografia para Língua Portuguesa


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PADRE MANUEL BERNARDES A EPISTOLOGRAFIA

Nasceu em Lisboa e compôs sua obra no silên- Durante o século XVII, a epistolografia ganhou
cio claustral. Sua existência e sua obra opõem-se fisionomia literária autônoma, como exercício literá-
às do Padre António Vieira. Era um contemplativo e rio, onde o epistológrafo imaginava um destinatário
místico por natureza, e as obras que escreveu, re- qualquer ou dirigia-se a uma audiência fictícia.
fletem essa condição e sua fé inquebrantável: “es-
creveu suas obras com os olhos voltados para o SÓROR MARIANA ALCOFORADO
plano transcendente, embora não se esquecesse
de os dirigir igualmente para os seus semelhantes, Nasceu em Beja e ingressa no Convento de
dentro e fora dos mosteiros”. Nossa Senhora da Conceição em sua cidade natal.
Conhece e enamora-se por Chamilly, oficial Fran-
Deixou Nova Floresta (5 vols), Pão Partido em cês servindo em Portugal durante as guerras da
Pequeninos, Luz e Calor, Exercícios Espirituais, Restauração e quando ele volta para a França tro-
Últimos Fins do Homem, Armas da Castidade, Ser- caram correspondência e suas cartas são publica-
mões e Práticas (2 vols, 1711), Estímulo prático das como “Lettres Portugaises”, sem declarar o
para seguir o bem e fugir o mal. nome do destinatário e o tradutor.

Segundo Moisés, o Padre Manuel Bernardes No texto das cartas vinha o nome da remetente:
tornou-se um autêntico modelo da prosa literária Mariana.
seiscentista através da linguagem, conceptista, ele-
gante, espontânea e precisa. As cartas retratam segundo Moisés, “a sincera,
franca e escaldante confissão duma mulher que se
A HISTORIOGRAFIA. desnuda interiormente para o amante cínico, ingrato
A HISTORIOGRAFIA ALCOBACENSE e ausente, com fúria de fêmea abandonada, sem
qualquer rebuço ou pudor. (...) As Cinco Cartas de
Observa-se nítida regressão na historiografia Amor, escritas por uma mulher, que alcança dizer
seiscentista. É o que se nota claramente no caso da com rara precisão os seus transes íntimos (via de
"historiografia alcobacense", assim chamada por ser regra mantidos ocultos ou disfarçados pelo comum
escrita por algumas gerações de sacerdotes do das mulheres), ganham maior relevo ainda como
Mosteiro de Alcobaça. documento "humano" e literário precisamente por-
que não visavam à publicação nem a ser encaradas
Na obra coletiva, intitula-se Monarquia Lusitana, como peça literária (...)”.
está presente uma concepção medieval e imaginosa
da História, pois “seus autores não temeram incluir A POESIA BARROCA
tudo quanto era fábula e mitologia relacionada com
a história de Portugal, a começar de Adão e Eva, ao A poesia barroca corresponde mais ao culto da
mesmo tempo que davam por verdadeiros docu- forma, do verso, que da essência, do conteúdo, do
mentos apócrifos, ou inventavam-nos quando ne- sentimento, da emoção lírica, ao contrário da litera-
cessários ao panorama que pretendiam oferecer”. tura doutrinária e moralista.

FREI LUIS DE SOUSA A poesia barroca em Portugal apresenta-se em


poetas isolados e em antologias organizadas com
Antes de entrar para a vida religiosa, chamava- idêntico espírito ao que presidiu à compilação dos
se Manuel de Sousa Coutinho. Nasceu em Santa- cancioneiros medievais.
rém, por volta de 1555, e faleceu em 1632. Depois
de prestar serviços a Filipe II em Espanha, regressa A "Fenix Renascida" e o "Postilhão De Apolo"
a Portugal e casa-se com D. Madalena de Vilhena, são as duas antologias mais importantes da poesia
viúva de D. João de Portugal, desaparecido em seiscentista em Portugal.
Alcácer-Quibir com D. Sebastião. Anos mais tarde,
quer a lenda que um peregrino vem ter a Lisboa
para dizer a D. Manuel que o primeiro marido de D. O TEATRO DO SÉCULO XVIII
Madalena ainda é vivo em Jerusalém. A morte da
filha do casal apressa a execução dum propósito Após Gil Vicente, o teatro português decai, ape-
anterior, e ambos tomam hábito, ele no Convento de sar das obras e do empenho de alguns escritores
S. Domingos de Benfica, onde assume o nome por como o Fidalgo Aprendiz, de D. Francisco Manuel
que é conhecido, e ela, no do Sacramento. Essa de Melo, voltando a brilhar com o surgimento de
história inspirou Garrett na composição de sua tra- Antônio José da Silva, alcunhado "o judeu".
gédia Frei Luís de Sousa, obra-prima no teatro ro-
mântico. Escreveu: Vida de D. Frei Bartolomeu dos Nascido no Rio de Janeiro em 1705, criou um
Mártires, História de São Domingos Particular do novo tipo de teatro. Sua primeira peça, A Vida do
Reino, Conquistas de Portugal e Anais de D. João Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo San-
III. cho Pança.

Contrariamente aos processos empregados em Em “Guerras do Alecrim e Manjerona”, ele critica


Alcobaça, Frei Luís de Sousa compõe sua obra com e satiriza “os fidalgos pretensiosos que galanteiam
rigor e severidade na interpretação dos fatos e do- as primas aperaltadas no rebuscado estilo gongóri-
cumentos. Linguagem castiça, fluente, plástica, co enquanto de caminho apalpam os braços roliços
evitou os excessos barrocos, procurou a sobriedade das criadas”. Antonio José satiriza o costume e,
na variedade, e acabou sendo um modelo da me- através dele, a sociedade lisboeta nos começos do
lhor prosa do século XVII. século XVIII.

Bibliografia para Língua Portuguesa 101


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Escreveu ainda: Esopaida ou Vida de Esopo, POETAS DA ARCÁDIA LUSITANA
Encantos de Medéia, Anfitrião ou Júpiter e Alcmena,
Labirinto de Creta, Precipício de Faetonte, além de Os poetas da Arcádia Lusitana são figuras meno-
outras peças que lhe tem sido atribuídas, como a res em comparação com os poetas de outras esco-
Ninfa Siringa, e a novela O Diabinho da Mão Fura- las portuguesas.
da.
António Dinis da Cruz e Silva, cujo pseudônimo
Suas peças recebem o nome de óperas, pois arcádico era Elpino Nonacriense, foi juiz durante o
eram acompanhadas de música e de canto. inquérito em torno da Inconfidência Mineira, escre-
veu Poesias (6 vols.), Metamorfoses (doze) em que
o poeta mitifica a natureza brasileira, misturando
ARCADISMO (1756-1825) realidade observada com imaginação e lenda. His-
sope, poema herói-cômico em que faz a sátira do
As primeiras manifestações anti-barrocas vem de espírito feudal, escolástico e clerical.
longe: já na Fénix Renascida começaram a apare-
cer notas satíricas contra alguns exageros barrocos Pedro Antonio Correia Garção, ou Córidon Eri-
e em 1756 é fundada a Arcádia Lusitana (símile da manteu, mesclando a influência clássica com a qui-
Arcádia Romana, fundada em Roma, em 1690), por nhentista, nos legou: Obras Poéticas, Discursos
iniciativa de Antonio Dinis da Cruz e Silva, Manuel Acadêmicos (proferidos nas reuniões da Arcádia
Nicolau Esteves Negrão e Teotónio Gomes de Car- Lusitana onde espelha suas principais idéias acerca
valho. A Arcádia Lusitana vigora até 1774. das doutrinas arcádicas). O principal de sua obra é
o teatro, para o qual escreveu a comédia Teatro
Seu lema - inutilia truncat - desejam testemunhar Novo, e a comédia de costumes intitulada Assem-
seu repúdio às "coisas inúteis" que adornavam pe- bléia ou Partida.
sadamente a poesia barroca, o objetivo é restaurar
a autêntica poesia clássica. Assim, empreendem A NOVA ARCADIA
uma espécie de viagem no tempo, em busca das
fontes originárias do Classicismo, aceitam o pasto- Fundada em 1790 por Domingos Caldas Barbo-
ralismo e a poesia camoniana, por coincidirem com sa tem como companheiros Belchior M. Curvo Se-
o ideal que eles, os árcades, pretendem realizar. medo, J. S. Ferraz de Campos e Francisco J. Bin-
gre, Bocage, José Agostinho de Macedo, Luís Cor-
Vão em busca da Antiguidade greco-latina, na reia França e Amaral, Tomás Antonio dos Santos e
ideal e mitológica Arcádia, região grega de pastores Silva, e outros. Predominou na Nova Arcádia a ora-
e poetas vivendo em meio a uma natureza sempre tória e a poesia, desaparecendo divergências inter-
idílica, localizam seus sonhos de plenitude poética. nas, sobretudo entre Macedo e Bocage, em 1794.
Trata-se de um exílio voluntário, uma vida em "torre-
de-marfim". OS DISSIDENTES

Segundo Moisés “é com base no mito da Arcádia Outras arcádias existiram como a Arcádia Portu-
que erguem suas doutrinas (...) procuram realizar ense, a Arcádia Conimbricense e os Árcades de
obra semelhante à dos clássicos antigos (...) imita- Guimarães, além Arcádia Ultramarina, organizada
rão dos modelos greco-latinos (...) elogio da vida em Minas Gerais, por Cláudio Manuel da Costa.
simples, sobretudo em face da natureza, no culto
permanente das virtudes do espírito; fuga da cidade Paralelamente, alguns poetas renegaram a Ar-
para o campo (fugere urbem), pois a primeira é con- cádia (como Bocage), ou fundaram outras agremia-
siderada foco de mal-estar e corrupção; desprezo ções para combatê-la (como Filinto Elísio, líder do
do luxo, das riquezas e de todas as ambições que Grupo da Ribeira das Naus), enquanto outros cria-
enfraquecem o homem; elogio da vida serena, plá- ram obra autônoma, de onde o nome "dissidentes"
cida, pela superação estóica de todos os apetites ou "independentes", que por suas características
menores; elogio da velhice como exemplo desse podem ser classificados como pré-românticos, es-
ideal tranqüilo da existência, da aurea mediocritas; pecialmente a José Anastácio da Cunha, a Marque-
elogio da espontaneidade primitiva, pré-civilizada; sa de Alorna e Bocage.
por outro lado, o gozo pleno da vida, minuto a minu-
to, na contemplação da beleza e da natureza, pres- Filinto Elísio, pseudônimo arcádico do Pe. Fran-
supõe certo epicurismo, que equilibra as tendências cisco Manuel do Nascimento é considerado o último
estóicas do movimento; por fim, a incidental presen- legítimo árcade. Freqüentou a roda literária da mar-
ça da Virgem Maria se explica por sua condição de quesa de Alorna. Foi um dos autores da “guerra dos
neoclássicos católicos. poetas”, ao lado do chamado “grupo da Ribeira das
Naus”.
Seguem os modelos antigos (defendem a sepa-
ração de gêneros, a abolição da rima, o emprego de Preceptor da futura Marquesa de Alorna e de sua
metros simples, o despojamento do poema, a impor- irmã, cai na desgraça da Inquisição e evade-se para
tância da mitologia), ao mesmo tempo em que pro- Paris, onde vive até o fim da vida e publica sua obra
curam aproveitar-se da orientação racionalista de poética: Versos de Filinto Elísio. Pré-romântico pelo
teóricos do tempo. tom confessional de alguns poemas exerceu notável
influência em vida e depois da morte, inclusive em
Para que o "fingimento" poético seja completo, Garrett.
imaginam-se vivendo num mundo habitado por deu-
ses e ninfas, numa natureza e num tempo absolu- Em posição semelhante se coloca a Marquesa
tamente fictícios e adotam pseudônimos pastoris. de Alorna (Leonor de Almeida de Portugal Lorena e
Lencastre), adotou o pseudônimo de Alcipe.

102 Bibliografia para Língua Portuguesa


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Importante pela vida que levou e pela atividade O romantismo português normalmente é associ-
sócio-literária que exerceu, inclusive por influência ado à revolução liberal de 1834. Essa revolução
à obra de Alexandre Herculano. Sua poesia, publi- representa um corte com a tradição, pois confiscou
cada em 1844, Obras Poéticas, oscila entre o culto os bens da nobreza, da Igreja e aboliu as ordens
dos clássicos e o dos românticos. religiosas. Era necessário criar uma nova literatura,
com novas formas e novos temas, para uma nova
BOCAGE sociedade, uma vez que os românticos da primeira
geração ainda estavam muito ligados aos árcades.
O maior poeta do século XVIII português foi Ma-
nuel Maria de Barbosa du Bocage, concorrente de Garrett e mesmo Herculano, ambos conheceram
Camões na vida e na obra. Foi membro da Nova “in loco” o novo gosto literário, porque foram força-
Arcádia, teve uma vida aventurosa e inquieta, que dos a emigrar para a Inglaterra, como refugiados
ele próprio comparou com a de Camões, de quem políticos. Antônio Feliciano de Castilho procurou
admirava o lado “romântico” (avant la lettre) da sua mostrar-se ao corrente da moda romântica em o-
vida e obra. Bocage foi talvez o autor dos melhores bras como A Noite do Castelo, de cenário afetada-
sonetos da língua portuguesa depois do seu mode- mente medieval.
lo, foi também grande repentista e improvisador em
assembléias e tornou-se efetivamente o autor mais Didaticamente, costuma-se dividir o romantismo
popular e mais lembrado em Portugal até hoje, tal- em três fases:
vez por certa facilidade de verso e por certa vulgari-
dade de situações em que se apresenta. Os român- a) 1ª fase (de 1825 a 1838): momento, ainda, em
ticos consideraram-no seu precursor e Herculano que atuam os valores neoclássicos. São represen-
resumiu, provavelmente, um juízo coletivo quando tantes dessa fase Almeida Garret, Alexandre Hercu-
escreveu que Bocage trouxe a poesia dos salões lano e Antônio Feliciano de Castilho.
para a praça pública. Morre na miséria e arrependi-
do pela vida desregrada que levou. Seu pseudôni- b) 2ª fase (de 1838 a 1860): há, então, a incorpora-
mo arcádico era Elmano Sadino, formado com as ção do chamado movimento ultra-romântico. Camilo
letras do seu prenome e do rio Sado, que banha Castelo Branco é seu principal representante.
Setúbal, sua terra natal. Em sua vida, Bocage publi-
cou Idílios Marítimos recitados na Academia das c) 3ª fase (de 1860 a 1865): fase de transição para
Belas-Artes de Lisboa e as Rimas. Postumamente, o Realismo. Tem como representantes Júlio Dinis e
Obras Poéticas e Verdadeiras Inéditas Obras Poéti- João de Deus.
cas. Segundo Moisés “existem dois Bocages: o que
o vulgo fixou através de anedotas, verdadeiras al- Além das características gerais (individualismo e
gumas e falsas outras, mas todas raiando na obs- subjetivismo, ânsia de liberdade, culto da natureza,
cenidade grosseira, e o que a tradição literária nos idealização da mulher, insatisfação ou “mal do sécu-
legou. Este é que importa, pois o primeiro segue lo”, etc.), convém destacar que o Romantismo por-
trajetória secundária e infensa a qualquer configura- tuguês caracteriza-se por um retorno ao passado.
ção, visto o povo atribuir-lhe todos os ditos picantes Os escritores portugueses procuram ambientar seus
que, não tendo paternidade conhecida, devem for- romances na Idade Média, tentando recuperar ide-
çosamente pertencer a alguém. (...) O segundo ais de hora e coragem. Esta tendência dá forte cu-
Bocage escreveu uma vasta obra poética fracionada nho nacionalista às obras do Romantismo portu-
em dois sectores fundamentais: o satírico e o lírico. guês, pois ao evocar o passado, exalta-se a Pátria,
Quanto ao primeiro, Bocage alcançou ser estrela de cultuam-se as tradições lusitanas. Trata-se da evo-
primeira grandeza, ao lado dum Gregório de Matos, cação saudosista de um passado de glórias.
graças ao temperamento agressivo, impulsivo, cor-
tante, amparado no dom da improvisação feliz e O PRIMEIRO MOMENTO DO ROMANTISMO
certeira. Contudo, a sátira ocupa lugar menos rele-
vante em sua obra, seja porque de cunho pessoal e O primeiro "momento" romântico, que se desen-
bilioso, seja porque dura tanto quanto o aconteci- volve mais ou menos entre 1825 a 1838. O Roman-
mento que lhe dá causa e sentido”. tismo foi introduzido em Portugal por Almeida Gar-
ret, com a publicação, em 1825, do poema Camões,
VII – ROMANTISMO (1825-1865) obra que, apesar de não representar fielmente os
ideais românticos, traz consigo algumas caracterís-
O Romantismo é a expressão literária e plástica ticas deste movimento literário.
da consciência burguesa. Acredita no progresso,
porque o progresso foi a mola econômica da bur- GARRETT
guesia; entoa o canto da liberdade, porque para o
burguês parece evidente que a liberdade não é se- O Romantismo, em Portugal, teve como marco a
não o exercício do poder por ele próprio; exalta o publicação do poema “Camões”, de Almeida Gar-
sentimento contra a barreira das convenções, por- rett, em 1825, a partir do exílio, na Inglaterra e pos-
que o sentimento é ele e as convenções são as teriormente na França. Garrett, através destas cir-
sobrevivências das barreiras sociais que ainda se cunstâncias, parece ter compreendido a necessida-
opõem à sua caminhada triunfal; inventa a alma do de de existir um novo gênero de relações entre o
povo, ou o espírito nacional, porque se considera o escritor romântico e o novo público, isto é, os espec-
legítimo representante desses mitos; reinventa a tadores do escritor passam a ser o povo e burguesi-
história porque a história lhe permite reconstituir um a, e a sua obra a maneira de chegar até este. Se-
pergaminho coletivo e apresentar-se como sendo gundo Garrett, o novo público desejava assuntos
ele o verdadeiro nobre, o representante das gera- sentimentais e focados na recuperação do naciona-
ções que, durante séculos, desbravaram o caminho lismo posto de lado pela cultura clássica. O seu
da liberdade. principal modelo literário é Filinto Elísio.

Bibliografia para Língua Portuguesa 103


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Em Camões, poema narrativo em torno de um É a fase mais intensa de sua atividade literária,
herói byroniano, Garret canta as amarguras e a e política, na defesa das idéias liberais. Interpretan-
saudade da pátria. As descrições remetem ao cená- do com desassombro e espírito crítico alguns fatos
rio romântico, os versos brancos (não rimados). Já da história de Portugal, como a batalha de Ourique,
no prefácio, o autor afirma o seu nacionalismo e cujo aspecto lendário destrói com sólida argumenta-
declara não ser clássico, nem romântico, repudian- ção, acaba provocando enérgica reação do clero.
do, tanto as regras de Aristóteles e Horácio, como a Junto com Garrett, foi um intelectual que atuou bas-
imitação de Byron, anunciado seguir apenas "o co- tante nos programas de reformas da vida portugue-
ração e os sentimentos da natureza". sa.

Em “D. Branca”, obra contemporânea de “Ca- Herculano é o verdadeiro teorizador do Roman-


mões”, reconta a história em verso de uma infanta tismo em Portugal. Pensava que uma revolução
portuguesa raptada pelo último rei mouro, introdu- política e social se devia refletir na literatura. Assim,
zindo ingredientes exóticos, folclóricos e mágicos, na ficção de Herculano, prevalece o caráter histórico
orientais e medievais. dos enredos voltados para a Idade Média, enfocan-
do as origens de Portugal como nação, temas de
A obra Viagens na minha terra, em seu conjunto, caráter religioso e na sua obra não-ficcional, reno-
narram um passeio pelas paisagens portuguesas. vou a historiografia, introduzindo o conflito de clas-
Obra híbrida em que impressões de viagem, de ses sociais para explicar a dinâmica da história.
arte, paisagens e costumes se entrelaçam com uma
novela romântica sobre fatos contemporâneos do Segundo Moisés, “Alexandre Herculano é diame-
autor e ocorridos na proximidade dos lugares descri- tralmente oposto a Garrett em todos os aspectos:
tos. A naturalidade da narrativa disfarça a complexi- personificação da sobriedade, do equilíbrio, do rigor
dade da estrutura desta obra, em que alternam e se crítico; espírito germânico, dir-se-ia, enquanto o
entrecruzam situações discursivas, estilos, narrado- outro é latino, sobretudo francês. A obra de Hercu-
res e temas muito diversos, em especial críticas lano reflete-lhe o temperamento e o caráter: mante-
sociais e políticas. ve-se imperturbável na posição de homem que ape-
nas se julga convicto das idéias que defende depois
Garrett inovou também na poesia. de longa e cuidadosa meditação. Daí sua intransi-
gência e sua indignação diante da pouca receptivi-
Em Flores sem fruto e Folhas caídas, introduz a dade de suas idéias”.
espontaneidade e a simplicidade como em "Pesca-
dor da barca bela", pela proximidade com a poesia Suas principais obras são: poesia (A Vox do
popular ou das cantigas medievais. A liberdade Profeta, mais adiante incluído na Harpa do Crente),
métrica, o vocabulário corrente, o ritmo e a pontua- romances (O Bobo, O Monge de Cister, Eurico, o
ção são marcas de sua obra. Presbítero), contos (Lendas e Narrativas), historio-
grafia (História de Portugal, História da Origem e
Garrett empenhou-se intensamente na renova- Estabelecimento da Inquisição em Portugal, Portu-
ção do teatro em Portugal, objetivando uma produ- galiae Monumenta Historica).
ção de qualidade que elevasse o gosto e a cultura
do povo. Sua vocação pela dramaturgia está repre- Impõe-se observar que o forte de Herculano era
sentada pelas obras: Um Auto de Gil Vicente, O a historiografia, por se identificar com o mais íntimo
Alfageme de Santarém, Frei Luís de Sousa, D. Fili- de seu temperamento e formação, e a tal ponto que
pa de Vilhena, além das comédias, Falar verdade a tudo quanto escreveu reflete essa afinidade e pre-
mentir, Profecias do Bandarra, Um Noivado no Da- disposição.
fundo, entre outras. Frei Luís de Sousa é indubita-
velmente o que melhor realiza o seu ideal de sobri- Para Massaud Moisés, “embora romântica pelos
edade artística, combinando o fato da tragédia clás- temas, a poesia de Herculano caracteriza-se por
sica e a atualidade do drama familiar, permanece uma contensão que jamais cede a qualquer impulso
ainda hoje um texto modelar da literatura dramática para o derramado. Antes, solene, hierática, teatral,
nacional. É, segundo Saraiva, “um dos pontos mais majestosa, é mais poesia pensada que sentida,
altos atingidos pela Literatura Portuguesa”. denotadora duma inautêntica inclinação para o gê-
nero: tendo-a cultivado apenas nos anos juvenis
(...). De sua poesia merece algum destaque o poe-
ALEXANDRE HERCULANO ma "A Cruz Mutilada", onde perpassa, apesar de
tudo, muito pensamento sem emoção, além de sub-
Alexandre Herculano nasceu em Lisboa, em sistir a tendência para o declamatório altissonante”.
1810. De família modesta, não pode fazer curso Em sua essência, Herculano era demasiado histori-
universitário, entretanto, fez vários cursos entre os ador para se entregar a uma visão poética do mun-
quais o curso de Diplomática na Torre do Tombo, do e dos homens: faltava-lhe a necessária imagina-
onde conhece a Marquesa de Alorna. ção transfiguradora da realidade sensível, e sobeja-
va-lhe o espírito crítico e a erudição.
Herculano exilou-se na Inglaterra e na França,
criando polêmica com o clero, por participar da lutas ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
liberais.
Castilho nasceu em Lisboa, em 1800 e aos seis
Em 1836, inicia sua carreira de prestígio intelec- anos, acometido de sarampo, fica praticamente
tual com a publicação d’ A Voz do Profeta. Nos anos cego para o resto da vida. Com a ajuda de seu ir-
seguintes, inicia a publicação de suas obras de fic- mão Augusto Frederico de Castilho, faz o curso
ção: as Lendas e Narrativas, O Bobo, o Monge de secundário e ingressa na Faculdade de Cânones de
Cister. Coimbra.

104 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Publica as Cartas de Eco e Narciso e A Primave- Ela fugiu do marido para viver com ele, o que era
ra e se torna figura central da Sociedade dos Ami- neste tempo um escândalo passível de ação judiciá-
gos da Primavera, organizada em sua homenagem. ria. O casal passa algum tempo como fugitivos,
Em 1865, provoca a Questão Coimbrã com sua escondendo-se de terra em terra, até que os dois
carta-posfácio ao Poema da Mocidade, de Pinheiro amantes se vêem forçados a entregar-se à prisão,
Chagas. Cercado de glória e do carinho de seguido- onde Camilo escreveu seu romance “Amor de Per-
res fiéis, falece em 1875, em Lisboa. dição”. Julgados e absolvidos, posteriormente se
casaram. Por fim, a cegueira, o levou a matar-se.
A carreira poética de Castilho inicia-se sob a
égide do Arcadismo, especialmente de Bocage, Na vastíssima produção de Camilo, é possível
quando escreve Cartas de Eco e Narciso, A Prima- distinguir o romance-folhetim, à maneira de Eugênio
vera e Amor e Melancolia. Em 1836, publica suas Sue ou Alexandre Dumas: Mistérios de Lisboa, Livro
obras sob a influência romântica: A Noite do Castelo Negro do Padre Dinis; o romance do amor trágico:
e Os Ciúmes do Bardo, seguidos mais adiante de Amor de Perdição; o romance-sátira: A Queda de
Escavações Poéticas. Um Anjo, O Que Fazem Mulheres; o romance de
costumes aldeãos: Novelas do Minho, Brasileira de
O SEGUNDO MOMENTO DO ROMANTISMO Prazins; o romance histórico: O Judeu, O Olho de
Vidro; o romance naturalista, que caricaturou: n’A
O segundo "momento" romântico, que se desen- Corja e n’O Eusébio Macário.
volve mais ou menos entre 1838 e 1860, diverge
segundo Moisés, do anterior: desfeitos os laços O pensamento mais profundo dos enredos cami-
arcádicos que inibiam os escritores do tempo, entra lianos pode talvez considerar-se como tipicamente
um período que corresponde ao pleno domínio da pré-romântico. Quem quer que se interponha no
estética romântica. caminho dos amantes aparece sob uma capa de
ridículo ou de odioso. A mulher de todas as condi-
Soares de Passos nasceu no Porto, de família ções é quase sempre o anjo adorável, capaz de
burguesa, vê-se obrigado a trabalhar no balcão do todas as abnegações e sacrificada ao egoísmo, à
armazém paterno enquanto faz seus estudos. Vai vaidade ou ao simples capricho masculino. Os he-
estudar Direito em Coimbra, onde funda O Novo róis dos seus romances, freqüentemente, são ma-
Trovador. Já formado recolhe-se no seu quarto me- nequins que vestem sentimentos emprestados pelo
ses a fio, indiferente a tudo, inclusive à poesia, em autor, e a sua vida psicológica desenvolve-se de
virtude da tuberculose adquirida nos tempos da maneira forçada e incoerente.
faculdade.
Camilo é talvez o único escritor português da
Soares de Passos reuniu suas composições num estirpe de Balzac. No entanto, falta-lhe objetividade
volume, Poesias, onde se entrega a um negro pes- e o espírito analítico que caracterizam o escritor
simismo, a um desalento derrotista, próprio de quem realista. Tende a oscilar entre o lirismo e o sarcas-
sente a morte próxima e cultiva sua presença, um mo. Freqüentemente, em vez de retrato, faz carica-
tanto por morbidez, um tanto por "literatura": é a tura. Não é por acaso que a expressão “novela ca-
poesia da decomposição, do cemitério, como em "O miliana” é freqüentemente usada, em vez de ro-
Noivado do Sepulcro." mance de Camilo: a diferença entre um e outro é
que na novela camiliana a ação é uma sucessão de
Segundo Herculano, o poeta estaria “destinado acontecimentos independente da dimensão tempo,
a ser o primeiro poeta lírico português deste século”. que tem grande importância no romance de Dickens
Soares de Passos constitui a encarnação perfeita ou de Balzac.
do "mal-do-século", pois viveu segundo Moisés, “na
própria carne os desvarios de que se nutria sua fértil O TERCEIRO MOMENTO DO ROMANTISMO
imaginação de tuberculoso narcisista e misantropo,
sua vida e sua obra espelham claramente o prazer Esse período é marcado pela presença de auto-
romântico da fuga, fuga, no caso, das responsabili- res como os poetas João de Deus, Tomás Ribeiro,
dades concretas do mundo social”. Bulhão Pato, Xavier de Novais e Pinheiro Chagas, e
do romancista Júlio Dinis.

CAMILO CASTELO BRANCO João de Deus foi um lírico de vibração interior


ficando à margem das marcas do tempo e do meio.
Camilo transita do Ultra-Romantismo para um Mantendo-se fiel até o fim a um desígnio estético e
Naturalismo coerente com suas tendências de cro- humano que lhe transcendia a vontade e a vaidade.
nista da sociedade burguesa da segunda metade do Contemplativo por excelência, sua poesia é a dum
século XIX. Reflete a angústia do ideal romântico e "exilado" na terra a mirar coisas vagas e por vezes a
o desmontar das novas correntes ideológicas de se deixar estimular concretamente. Cultiva os mes-
origem Francesa. A biografia de Camilo é uma no- tres Tomás Antonio Gonzaga, Camões, Dante, Pe-
vela camiliana. Filho bastardo, órfão de pai e mãe trarca e a Bíblia. Entre suas obras, destacam-se
desde a infância, ficou aos cuidados de parentes Campos de Flores.
religiosos em Trás-os-Montes, onde foi iniciado no
latim e conheceu a literatura dos seiscentistas e Manuel Pinheiro Chagas teve em Castilho seu
onde, também, “aprendeu a caçar bichos e rapari- grande mestre. Seu Poema da Mocidade motivou a
gas, iimpulsivo participou de guerrilhas miguelistas. Questão Coimbrã, começo da batalha entre român-
Batia-se com freqüência em jornais e duelos por ticos e realistas, em virtude da apresentação escrita
amores e por rixas literárias. Viveu amores passa- por Castilho, onde tece elogios aos ultra-românticos
geiros e escândalos pessoais até seu grande ro- e critica os jovens que começam a fazer a literatura
mance da vida real, quando conheceu Ana Plácido. realista.

Bibliografia para Língua Portuguesa 105


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Júlio Dinis Estava armada a polêmica, que passou a cha-
mar-se Questão Coimbrã: uma intensa polêmica em
Os seus enredos ambientam-se entre o meio torno do confronto literário entre os ultra românticos
mercantil do Porto ou a vida doméstica no campo liderados por Castilho e os jovens estudantes de
em casa de proprietários-lavradores. Nos romances Coimbra, cujo líder era Antero de Quental, iniciada
ambientados no Porto como “Uma Família Inglesa”, após a publicação do livro Poema da Mocidade, de
a ação gira em torno da praça, onde pululam o Pinheiro Chagas, onde Castilho escreve um posfá-
grande e o pequeno comerciante, o guarda-livros, o cio ironizando os jovens de Coimbra com o título
rapaz dos recados, o caixeiro, o capitalista reforma- "Bom senso e Bom gosto". Os jovens reagem: Ante-
do, o rico filho-família herdeiro de uma grande firma. ro escreve o folheto "A Dignidade das Letras e as
Literaturas Oficiais", Teófilo de Braga escreve o
Quando nos transporta para a aldeia como em folheto "Teocracias Literárias". Ramalho Ortigão e
“As Pupilas do Senhor Reitor”, “A Morgadinha dos Camilo Castelo Branco destacam-se na defesa de
Canaviais”, “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, o am- Castilho. Esta polêmica durou meses, com freqüen-
biente é mais convencional: a casa do lavrador a- tes publicações críticas de ambos os lados, termi-
bastado, pintada de maneira muito vaga, com cores nou com a vitória dos ideais da Geração de 1870, o
frescas, novas, e principalmente o coração dos me- que provocou uma autêntica renovação cultural e a
xericos da terra: a venda, onde se reúnem os lavra- afirmação do realismo.
dores, o brasileiro, o morgado decadente, o candi-
dato a deputado e, de passagem, a beata da aldeia Mais tarde, este grupo com alguns acréscimos
ou a criada do Senhor Abade, o ambiente burguês promove, em 1871, As Conferências Democráticas
do proprietário ou ao solar do velho fidalgo. do Cassino Lisbonense, objetivando colocar Portu-
gal na modernidade, “estudando as condições de
Seus tipos são magistralmente caracterizados transformação política, econômica e religiosa da
com uma leve formação caricatural e humorística, o sociedade portuguesa".
que não exclui a ternura.
Com a Questão Coimbrã, estava definida a crise
Júlio Dinis deu um passo decisivo na nossa pro- de cultura que inicia o Realismo em Portugal.
sa de ficção ao criar em Portugal o gênero burguês
e moderno por excelência, o romance “contemporâ- POESIA DA ÉPOCA DO REALISMO
neo”, amparado certamente por um público que
tivera tempo de amadurecer desde os primeiros A poesia do Realismo retoma o prestígio lírico de
ensaios do romance histórico. Bocage e Camões seguindo várias direções: a po-
esia "realista", a poesia do quotidiano, a poesia
O TEATRO NA ERA ROMÂNTICA metafísica e a poesia de aspiração parnasiana. Sem
se confundir com o Parnasianismo, teve caráter
O teatro português retorna no romantismo, gra- revolucionário, serviu como arma de combate, de
ças ao esforço despendido por Garrett, a grande ação, em suma, poesia "a serviço" da causa realis-
figura da época. Com seu dinamismo e imaginação ta. Entre os poetas destacam-se Guerra Junqueiro,
reformou o gênero através de suas obras de feição Gomes Leal, Antero de Quental, Teófilo Braga e
nacional e de alto sentido patriótico, uma das quais outros.
é obra-prima da dramaturgia Portuguesa e européia,
o Frei Luís de Sousa.
A POESIA METAFÍSICA: ANTERO DE QUENTAL
VIII – REALISMO (1865-1890)
Contrapondo-se à poesia, a poesia metafísica ou
Nos anos seguintes a 1860, o Romantismo entra transcendental busca responder às indagações que
em declínio e sofre os primeiros ataques por parte a consciência do homem formula: "que sou?", "por
da nova geração que surge, os rebeldes estudantes que sou?", "de onde vim?", "para onde vou?", "que é
de Coimbra. que vale?", "por que a morte?", etc. Nessa época,
esse gênero de poesia encontra o seu mais alto
Em 1861, Antero de Quental funda a Sociedade representante, Antero de Quental, porém continua
do Raio, com cerca de duzentos estudantes de Co- presente em Fernando Pessoa, Mário de Sá-
imbra, com o objetivo de instaurar a aventura do Carneiro, José Régio, Miguel Torga e outros.
espírito no seio do convencionalismo acadêmico e
político. Num gesto de ousadia, Antero em 1862, Para Moisés, “a poesia metafísica nasceria sem-
escolhido para saudar o Príncipe Humberto da Itália, pre como uma via de escape à angústia geográfica
exalta a Itália livre e Garibaldi, então ferido em com- histórica e cultural em que vive o homem português,
bate. encurralado num território diminuto entre o continen-
te europeu e o Oceano Atlântico, a sonhar glórias
Empolgados pelas novas idéias revolucionárias, perdidas no século XVI”.
Teófilo Braga publica dois volumes de versos, a
Visão dos Tempos e as Tempestades Sonoras, e De educação católica e de família conservadora,
Antero edita as Odes Modernas. de caráter profundamente religioso, sofreu um pro-
fundo abalo ao encontrar-se num meio onde pene-
Enquanto isso, no ultra-romantismo, Pinheiro travam idéias e leituras que confrontavam sua cren-
Chagas escreve o Poema da Mocidade e Castilho, ça tradicional.
seu mestre nas Letras, escreve em um posfácio
onde exalta o fiel discípulo e critica os jovens de Crente na razão e na justiça, como o tinha sido
Coimbra, em especial Antero e Teófilo, afirmando na fé, questionou e promoveu marchas e protestos
que lhes falta talento e gosto refinado. contra a academia, a sociedade, a literatura.

106 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
A publicação de seus primeiros versos confirma- A criação artística não se fazia mais em clima de
lhe o renome e insinua-lhe um caminho para o futu- febre ou de fogosa inspiração. O trabalho estético
ro. Publica em 1865 uma obra intitulada Odes Mo- passa a ser encarado como sendo tão demorado e
dernas, em cujo prefácio declara que “a Poesia é a paciente quanto o científico, nos laboratórios ou nas
voz da Revolução” e o poeta é o arauto do futuro pesquisas de campo. Por isso, o entrecho, a intriga,
que, juntamente com as Tempestades Sonoras e a é sempre, ou quase sempre, comum, trivial, girando
Visão dos Tempos, de Teófilo Braga, publicadas no em torno do casamento frustrado e do conseqüente
ano anterior, desencadeiam a revolução literária adultério. O valor do romance está nessa análise e
chamada Questão Coimbrã. na intriga e na preocupação com o estilo. O grande
expoente foi Eça de Queirós.
Em 1871, organiza as Conferências do Casino
Lisbonense e nos anos seguintes, procura instalar EÇA DE QUEIRÓS
em Portugal o pensamento socialista. Desiludido,
afasta-se do convívio social, imerso em seu drama e José Maria Eça de Queirós nasceu na Póvoa de
na meditação das idéias igualitárias que idealizara Varzim, estuda Direito em Coimbra, liga-se a uma
concretizar, já sentindo os sintomas duma misterio- ruidosa geração acadêmica, conhece Antero e inicia
sa moléstia que o acompanhará até o fim dos dias. sua carreira literária com a publicação de folhetins,
Antero viveu uma vida torturada procurando concili- mais tarde reunidos sob o título de Prosas Bárbaras.
ar idéias opostas, entretanto não obteve resultados Não participa diretamente da Questão Coimbrã,
concretos uma vez que sua vocação seguia para a porém mais tarde liga-se ao grupo do Cenáculo e
contemplação ou para a especulação metafísica, e participa das Conferências do Cassino Lisbonense
não para o combate ativo. em 1871.

Suicida-se em 11 de setembro de 1891, com Eça de Queirós tornou-se um dos maiores pro-
dois tiros na boca, desalentado, deprimido, sentindo sadores em Língua Portuguesa, sendo considerado
fechadas as portas que o conduziria de regresso por Massaud Moisés um divisor de águas lingüístico
aos mitos da infância. entre a tradição e a modernidade. Cultivou o roman-
ce, o conto, o jornalismo, a literatura de viagens e a
Antero cultivou a poesia e a prosa polêmica e hagiografia.
filosófica. No primeiro caso, temos: Odes Modernas
(1865), Primaveras Românticas. Versos dos Vinte Moisés organiza sua rica produção em três fa-
Anos (1871), Sonetos Completos (1886), Raios de ses:
Extinta Lux (1892). No segundo, seus escritos estão
coligidos em três volumes: Prosas (1923, 1926, a) A primeira fase, de indecisão, preparação e pro-
1931). Para a compreensão do caso anteriano, ain- cura, traz um escritor ainda jovem e romântico, co-
da possuem interesse as Cartas de Antero de meça com Prosas Bárbaras, e termina em 1875,
Quental (1921), as Cartas Inéditas de Antero de com a publicação de O Crime do Padre Amaro.
Quental a Oliveira Martins (1931) e as Curtas a An- Pertencem ainda a essa fase: Prosas Bárbaras, O
tonio de Azevedo Castelo Branco (1942). Mistério da Estrada de Sintra, As Farpas.

Segundo Moisés, a poesia de Antero é para sen- b) A segunda fase onde o autor adere às teorias do
tir e compreender ao mesmo tempo, pois só assim, Realismo passa a escrever obras de combate às
vendo as duas formas de conhecimento fundidas, é instituições vigentes (Monarquia, Igreja, Burguesia).
possível entender e julgar seu autor, um dos maio- São romances comprometidos com a geração de
res ícones poéticos de Portugal, ao lado de Ca- 1870 e traçam um retrato da sociedade Portuguesa
mões, Bocage e Fernando Pessoa. contemporânea, erguido em linguagem original,
plástica, já impregnada daquelas qualidades carac-
terísticas de seu estilo: naturalidade, fluência, vigor
A PROSA REALISTA. O ROMANCE narrativo, precisão, "oralidade" além de certo lirismo
melancólico, da sátira e a ironia. Pertencem a esta
No Realismo, o romance abandona o esquema fase: O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, A
do Romantismo, segundo o qual a prosa de ficção Relíquia e Os Maias.
era baseada na intriga e visava ao entretenimento, e
passa a ser obra de combate e arma de ação re- c) A terceira e última fase da carreira de Eça de
formadora da sociedade burguesa dos fins do sécu- Queirós onde o escritor resolve erguer uma obra de
lo XIX, ressurgindo como instrumento de ataque e sentido construtivo, fruto da dolorosa consciência de
demolição. Procurando mostrar os erros básicos da ter investido inutilmente contra o burguês e a famí-
mentalidade romântica, o romance realista (e o na- lia. Ao derrotismo e pessimismo analítico da etapa
turalista) propõe-se a desmascarar que os três po- anterior, sucede um momento de otimismo, de es-
deres sobre os quais se apoiava o estilo de vida em perança e fé, mas tendo por base o culto dos valo-
moda no Romantismo, não tinham mais consistên- res da Alma e do Espírito. A Ilustre Casa de Rami-
cia e força suficientes para resistir ao impacto das res, A Correspondência de Fradique Mendes e A
novas descobertas científicas e filosóficas da se- Cidade e as Serras.
gunda metade do século XIX. Em síntese, a Bur-
guesia, como classe social dominante, a Monarquia, “Prosas Bárbaras” exibe o mais fantasmagórico
como classe imperante e reinante, e o Clero, como romantismo, em que os seres da Natureza se trans-
força ideológica desse organismo social, não eram figuram e antropomorfizam. Eça faz um levanta-
capazes de transformar-se e adaptar-se aos novos mento, uma análise crítica da sociedade portuguesa
tempos. A esse intento reformador se juntava a do seu tempo. Em “O Crime do Padre Amaro”, o
preocupação de criar obra artística, o que implicava foco é a vida de uma cidade provinciana e a influên-
em considerar o romance com muita seriedade. cia clerical.

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Em “O Primo Basílio”, fortemente influenciado A filosofia de Schopenhauer, centrada sobre a
pela obra “Madame Bovary”, tem por enredo uma idéia de que o mundo é uma "representação".
família supostamente típica de Lisboa: a mulher
casada, “sem formação moral e sem outra cultura A invasão de novas teorias idealistas e metafísi-
além da leitura de romances românticos, que lhe cas, do romance russo pleno de misticismo, e da
abrem uma fuga para o tédio da vida conjugal”. A música de Wagner, a aliança com a poesia e a mú-
obra critica a deficiente educação feminina e uma sica.
literatura que exalta os valores romanescos e pinta
com cores atraentes o adultério. A pintura impressionista, adquirindo luminosida-
de e fixando estranhas paisagens que logo se as-
Em “Os Maias”, o enredo trata de uma elite ca- semelham aos ideais simbolistas.
paz de diagnosticar os males da pátria. O grupo que
convive no palácio do Ramalhete é, provavelmente, CARACTERÍSTICAS DO SIMBOLISMO
um auto-retrato da geração de 70 na fase da desilu-
são: dois irmãos que não se conhecem, filhos de O Simbolismo tem início em Portugal com a pu-
uma paixão romântica e fatal, acabam por encon- blicação de Oaristo (que em grego significa "Diálogo
trar-se em Lisboa e por ter amores incestuosos. É intímo"), de Eugênio de Castro e vai até 1915, com
uma variante da história de Édipo. a publicação da Revista Orpheu.

“A Correspondência de Fradique Mendes” é a A poesia simbolista está ligada à idéia de deca-


estória de uma personagem cosmopolita e que ma- dência, daí seu primeiro nome ter sido Decadentis-
nifesta as suas opiniões em cartas literárias por mo. Os simbolistas buscavam integrar a poesia na
vezes satíricas dirigidas a vários destinatários. vida cósmica, usando uma linguagem indireta e
figurada.
“A Ilustre Casa de Ramires”, é uma obra constru-
ída em dois planos: um heróico, que conta os feitos Essa corrente literária deu atenção exclusiva à
de um Ramires medieval, novela que está escre- matéria submersa do "eu", explorando-a por meio
vendo um Ramires contemporâneo, acomodado de uma linguagem pessimista e musical, na qual a
com a mediocridade e se corrompe ao solicitar os carga emotiva das palavras é ressaltada; a poesia
votos dos vizinhos para se eleger deputado. aproxima-se da música usando aliterações.

Enquanto escritor, Eça se mantém extraordinari- Além disso, podemos destacar as seguintes
amente vivo e atuante no espírito de grande massa característica do Simbolismo:
de leitores ainda hoje. Está entre os mais lidos em
Língua Portuguesa: aí reside, sem dúvida, seu Misticismo e espiritualismo: Os simbolistas ne-
grande e imperecível mérito. gam o espírito científico e materialista dos realis-
tas/naturalistas, valorizando as manifestações místi-
IX – SIMBOLISMO (1890-1915) cas e mesmo sobrenaturais do ser humano.

ORIGENS DO SIMBOLISMO Subjetivismo: Os simbolistas terão maior interesse


pelo particular e individual do que pelo geral e uni-
Para Massaud Moisés, as origens remotas do versal. A visão objetiva da realidade não desperta
movimento simbolista devem ser procuradas no mais interesse, e sim a realidade focalizada sob o
Romantismo: o primeiro é uma espécie de continua- ponto de vista de um indivíduo.
ção do segundo, mas com algumas características
próprias. Tentativa de aproximar a poesia da música: para
conseguir aproximação da poesia com a música, os
As origens próximas do Simbolismo estão na simbolistas lançaram mão de alguns recursos, como
França, na obra de Baudelaire que inicia um pro- a aliteração, por exemplo.
cesso de modernização da poesia, ressuscitava o
culto do vago em troca do culto da forma e do des- Expressão da realidade de maneira vaga e im-
critivo. precisa.

O Simbolismo surge como reação às correntes Ênfase na sugestão: Um dos princípios básicos
materialistas e cientificistas da sociedade industrial dos simbolistas era sugerir através das palavras
do início do século XX. Os simbolistas, negando os sem nomear objetivamente os elementos da reali-
parnasianos, aboliram o culto à forma de suas com- dade. Ênfase no imaginário e na fantasia;
posições.
Percepção intuitiva da realidade: Para interpretar
Concorre para a formação da atmosfera simbo- a realidade, os simbolistas se valem da intuição e
lista uma série de influências estéticas e filosóficas: não da razão ou da lógica.

Baudelaire, que os simbolistas acolhem como a


um mestre, por seu espírito rebelde e original, inimi- INTRODUÇÃO E EVOLUÇÃO DO SIMBOLISMO
go da moral e da poesia convencionais, sacerdote EM PORTUGAL
de cultos satânicos que desvendavam mundos inte-
riores e exteriores até então insuspeitados. A introdução do Simbolismo em Portugal deveu-
se a Eugénio de Castro e à publicação de seu pri-
A Filosofia do Inconsciente, de Hartmann, que meiro livro de poesia, Oaristos, em 1890. Compu-
explicava o mundo pela existência dum espírito nha-se de 15 poemas, antecedidos de um manifesto
inconsciente que tudo regia onipotentemente. em forma de prefácio sobre a nova tendência.

108 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
De suma importância, esse prefácio constitui a X – SAUDOSISMO (1910-1915)
plataforma doutrinária do Simbolismo português,
definindo forma e conteúdo. O vocabulário dos Oa-
ristos é escolhido e variado, apresentando inclusive No ano de 1910 surgiu, em Portugal, a revista
vocábulos raros. mensal "A Águia", dirigida por Teixeira Pascoaes. O
objetivo dessa revista era ressuscitar a Pátria Por-
Os poetas portugueses receberam o nome de tuguesa a partir do saudosismo, ou seja, por uma
"nefelibatas" (pessoas que andam nas nuvens) e o espécie de retomada das tradições do País. Movi-
nefelibatismo tornou-se uma espécie de adaptação mento literário, essencialmente poético, introduzido
Portuguesa do Decadentismo e do Simbolismo através do movimento "Renascença Portuguesa",
Francês. fundada por Jaime Cortesão, Álvaro Pinto, Teixeira
de Pascoaes e Leonardo Coimbra, cujo órgão de
EUGÊNIO DE CASTRO divulgação foi a revista "A Águia".

Sua obra recebe influência de sua estada na Pascoaes (mentor do grupo), afirmou que "o
França, inaugura o Simbolismo português com Oa- movimento da Renascença Portuguesa se realizaria
risto, cuja técnica é baseada na poesia de Paul Ver- dentro da Saudade revelada, dentro dela Portugal,
laine. sem deixar de ser Portugal, poderá realizar os maio-
res progressos de qualquer natureza."
Segundo Massaud Moisés, apesar de fazer uso
de prefácios polêmicos e agressivos para inserir os Assim, o Saudosismo foi encarado como uma
pressupostos da estética simbolista em seus livros, atitude perante a vida que definia a "alma nacional"
revela uma tendência inata para o equilíbrio clássi- em todo o seu idealismo transcendentalista.
co, para a contenção e para o formalismo de tradi-
ção. Essa tendência vai substituindo de forma gra- Pascoaes, apoiado por Leonardo Coimbra, pre-
dativa a postura simbolista. conizou um Portugal agrário, uma organização mu-
nicipalista e uma Igreja independente, e identifica o
A produção literária de Eugênio de Castro apre- Saudosismo como sendo um Sebastianismo escla-
senta versos livres, vocabulário erudito, pessimismo recido, revelado pelos novos poetas.
e ambigüidade nos temas trabalhados (blasfêmias-
liturgia; ocultismo-catolicismo). Suas principais obra Fernando Pessoa, colaborador da "A Águia",
são: Oaristo (1890), Horas (1891), Silva e Interlúdio afirma que os poetas saudosistas anunciam o pen-
(1894). samento da "futura civilização européia", que cor-
responderia à "civilização lusitana", e é neste clima
ANTÔNIO NOBRE de exaltação sebastianista que escreve "Mensa-
gem".
Publica sua obra mais importante, Só, uma cole-
tânea de poemas em que utiliza uma linguagem António Sérgio e Raul Proença acusam Pascoa-
coloquial, para voltar ao passado, à infância. Res- es de "utópico e passadista, fechado num lusitanis-
taura uma hipersensibilidade, um forte sentimento mo xenófobo, provinciano, incompatível com o mo-
de tristeza e de completa inadaptação ao mundo. derno espírito europeu", gerando bastante polêmica
Suas descrições são preenchidas por ambientes no seio do grupo.
vagos ou nebulosos, razão pela qual é chamado de
“poeta crepuscular”, isto é, voltado para as horas de Quanto ao tipo de linguagem, os Saudosistas
recolhimento. preferem uma expressão mais tradicional e clássica
("verso escultural" de Pascoaes), não se preocu-
A produção literária de Antônio Nobre apresenta pando muito com a análise do subconsciente.
vocabulário simples, temas coloquiais, apego a ter-
ra, às raízes populares, descrição de seu exílio pari- Por ser um momento de transição, uma vez que
siense e egocentrismo. Suas principais obras são: em 1915 surge a revista "Orpheu", marco inicial do
Só (1892), Despedidas (1902), Primeiros Versos Modernismo português, esse período também pode
(1921) e Alicerces (1983). ser classificado como Pré-Modernismo.
O Modernismo em Portugal é difícil de ser estrutu-
CAMILO PESSANHA rado.

Pessanha, estudioso da civilização chinesa, mor- Massaud Moisés adota a seguinte divisão: Pri-
reu em Macau. É considerado o maior simbolista meiro Momento ou Orphismo e Segundo Momento
português. ou Presencismo. As duas outras fases são classifi-
cadas como Neo-realismo e Surrealismo.
Alguns de seus poemas foram publicados na
revista Centauro em 1916, graças ao interesse e Os escritores da fase Neo-realista repudiam a
esforço de João de Castro Osório. Mais tarde, em literatura psicológica e propõem uma literatura de
1920, conseguindo outras composições às quais caráter social, muito próxima à praticada pelos auto-
reuniu as já publicadas, publicou Clepsidra. O nome res Realistas.
da obra significa relógio movido à água.
Já os escritores da fase Surrealista são influen-
Suas composições trabalham temas sentimen- ciados pelas teorias de Andre Breton, idealizador do
tais, apresentam uma musicalidade marcante e uma Surrealismo. Devido a todas estas circunstâncias, o
postura de resignação diante da adversidade. Esse ano de 1940, quando o grupo da Presença se desin-
quadro compõe imagens fugidias, carregadas de tegrou, é considerado o término do período Moder-
pessimismo, e transitoriedade da vida. nista em Portugal.

Bibliografia para Língua Portuguesa 109


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
XII – ORFISMO (1915-1927) Entra em contato com os grandes escritores da
língua portuguesa. Impressiona-se sobremaneira
O Modernismo em Portugal tem início oficial no com os sermões do Padre Antônio Vieira e a obra
ano de 1915, quando um grupo de escritores e artis- de Cesário Verde.
tas plásticos, (Mário de Sá-Carneiro, Raul Leal, Luís
de Montalvor, Almada Negreiros, o brasileiro Ronald Para situar Pessoa na história da literatura oci-
de Carvalho e Fernando Pessoa) lança o primeiro dental, é necessário colocá-lo ao nível de Dante,
número da "Orpheu", revista trimestral de literatura. Shakespeare, Goethe, Joyce. Ele é o único poeta
português que pode comparar-se a Camões.
Esses jovens artistas, também conhecidos como
Orfistas, foram influenciados pelo Futurismo de Ma- Apesar da obra de Fernando Pessoa representar
rinetti, pelos ensinamentos de Martin Heidegger, uma literatura inteira, não teve, em vida, o reconhe-
que colocava a existência individual como determi- cimento que merecia.
nação do próprio indivíduo e não como uma deter-
minação social. Viveu modestamente, em relativa obscuridade.
Em vida, teve apenas dois livros publicados: alguns
Os objetivos principais dos orfistas eram: poemas em inglês e Mensagem.

- Chocar a burguesia com sua obra irreverente (po- Pessoa, em 8 de março de 1914, faz surgir seus
esias sem metro, exaltando a modernidade); heterônimos (cada um dos quais tem um estilo e
uma atitude que os distingue dos demais), escre-
- Tirar Portugal de seu descompasso com a van- vendo de uma só vez, os 49 poemas de O Guarda-
guarda do resto da Europa. dor de Rebanhos, de Alberto Caeiro. Escreve tam-
bém os seis poemas de Chuva Oblíqua, que assina
Portanto, os traços marcantes da Geração Or- com seu próprio nome.
pheu são as tendências futuristas (exaltação da
velocidade, da eletricidade, do "homem multiplicado Fernando Pessoa ortônimo (ele-mesmo), seguia
pelo motor"; antipassadismo, antitradição, irreverên- os modelos da poesia tradicional portuguesa, usa o
cia). Agitação intelectual, "escandalizar o burguês", verso tradicional, rimado, admiravelmente musical.
o moderno como um valor em si mesmo. Poeta introvertido e meditativo, anti-sentimental,
refletia inquietações e estranhezas que questiona-
O primeiro número da revista Orpheu, publicado vam os limites da realidade da sua existência e do
em Abril de 1915, causa grande polêmica graças a mundo.
críticas violentas, encontradas nos poemas "Ode
triunfal" de Álvaro de Campos (Heterônimo de Fer- A temática de Pessoa ortônimo gira em torno da
nando Pessoa) e "Manucure" de Mário de Sá- identidade perdida; da consciência do absurdo da
Carneiro. existência, revela tensão sinceridade/fingimento,
consciência/inconsciência, sonho/realidade, duali-
O segundo e último número da revista foi lança- dade e oposição sentir/pensar, pensamen-
do em julho de 1915, com conteúdos bem mais to/vontade, esperança/desilusão), anti-
futuristas. O terceiro número chegou a ser planeja- sentimentalismo (intelectualização da emoção, es-
do, mas não foi editado por causa do suicídio de tados negativos (solidão, cepticismo, tédio, angús-
Mário de Sá-Carneiro, responsável pelos custos da tia, cansaço, desespero, frustração), inquietação
revista. metafísica (dor de viver) e auto-análise.

Os orfistas foram influenciados pelos vários ma- Autor de Mensagem, um conjunto de poemas de
nifestos de vanguarda europeus e, apesar do pre- inspiração ocultista e épico-messiânica, de exalta-
coce desaparecimento da "Orpheu", a revista deixou ção ao sebastianismo denota certo desalento, uma
uma rica herança, uma vez que surgiram várias expectativa ansiosa de ressurgimento nacional,
outras revistas. revela uma faceta misteriosa e espiritual do poeta,
manifestada também nas suas incursões pelas ci-
Ainda nesse primeiro momento do Modernismo ências ocultas. É o único livro publicado pelo autor
português, surgiram as figuras de Aquilino Ribeiro e nas vésperas da sua morte, em 1934.
Florbela Espanca, nomes de destaque na Literatura
Portuguesa, que não tiveram ligação com nenhum Os heterônimos são concebidos como individua-
dos momentos modernistas. lidades distintas da do autor, com biografia e horós-
copo próprios. Traduzem a consciência da fragmen-
Para o professor de Literatura Portuguesa Mas- tação do eu, reduzindo o eu “real” de Pessoa a um
saud Moisés, esses dois poetas são enquadrados papel que não é maior que o de qualquer um dos
em um momento literário que classifica como "Inter- seus heterônimos na existência literária do poeta.
regno".
Alberto Caeiro é o Mestre, inclusive do próprio
FERNANDO PESSOA Pessoa ortônimo. Nasceu e morreu em Lisboa, tu-
berculoso, embora tenha vivido a maior parte de sua
Nascido em Lisboa, Fernando Pessoa perdeu o vida no campo, numa quinta no Ribatejo, onde fo-
pai aos cinco anos de idade. Em 1896, a família se ram escritos quase todos os seus poemas. Para
transfere levada pelo segundo marido de sua mãe, Caeiro, “o único sentido íntimo das coisas é não
para a cidade de Durban, na África do Sul. Lá, cursa terem sentido íntimo nenhum”, o poeta nega qual-
o secundário, cedo revelando seu pendor para a quer forma “de religiosidade, qualquer coisa em si”.
literatura. Em 1903, ingressa na Universidade do Não desempenhava qualquer profissão e teria ape-
Cabo. nas a instrução primária.

110 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Caeiro era, segundo ele próprio, “o único poeta É nessa fase em que se enquadram: "Lisbon
da natureza”, procurando viver a exterioridade das Revisited", "Apontamento", "Poema em Linha Reta"
sensações e recusando a metafísica, isto é, recu- e "Aniversário", que trazem, respectivamente, como
sando saber como eram as coisas na realidade, características, o inconformismo, a consciência da
conhecendo-as apenas pelas sensações, pelo que fragilidade humana, o desprezo ao suposto mito do
pareciam ser. Adotou o verso livre. heroísmo e o enternecimento memorialista.

Caeiro escreve numa linguagem simples com o Seus poemas são marcados pela oralidade e
vocabulário limitado de um poeta camponês pouco pela prolixidade que se espalha em versos longos,
ilustrado. Procura perceber as coisas como elas próximos da prosa. Despreza a rima e a métrica
são, sem refletir sobre elas e sem atribuir a elas regular.
significados ou sentimentos humanos. Em perfeita
consonância com sua busca de simplicidade e es- Segundo Moisés, a temática dos heterônimos só
pontaneidade. pode classificar-se como metafísica: o que é a reali-
dade daquilo a que chamamos realidade? Há algum
São da sua autoria as obras O Guardador de significado nas coisas, além do seu simples ser?
Rebanhos, O Pastor Amoroso e os Poemas Incon- Que espécie de coisa se manifesta no que supomos
juntos. ser a nossa consciência? “O que em mim sente está
pensando”: este verso é uma das chaves para com-
Ricardo Reis nasceu no Porto, foi educado num preendê-la. O pensar é já a forma que toma o sentir,
colégio de jesuítas, ou seja, recebeu uma educação independentemente de doutrinas com as quais o
clássica (latina), formado em medicina nunca exer- sentimento da realidade seja contrastado. O que
ceu a profissão. Dedicou-se ao estudo do helenis- interessa, escreveu ele a propósito de outro poeta,
mo, isto é, o conjunto das idéias e costumes da não são os sentimentos, mas o uso que se faz de-
Grécia antiga e adota Horácio como seu modelo les.
literário. Sua formação clássica reflete-se em sua
obra (nível formal, temas tratados) e na própria lin- MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
guagem que utiliza, de um purismo exacerbado.
Um dos escritores portugueses mais identificado
Apesar de ser formado em medicina, não exerci- com a obra de Pessoa, de quem foi amigo. Projetou
a. Dotado de convicções monárquicas, emigrou e editou conjuntamente com os seus amigos, em
para o Brasil após a implantação da República. Ca- especial Fernando Pessoa, a revista Orpheu.
racterizava-se por ser um pagão intelectual lúcido e
consciente (concebia os deuses como um ideal Sofrendo de crises depressivas, sentimentais e
humano), limitava-se a viver o momento presente, financeiras do poeta (já por várias vezes tinha escri-
evitando o sofrimento (“Carpe Diem”) e aceitando o to a Fernando Pessoa comunicando o seu suicídio),
caráter efêmero da vida. Sá-Carneiro suicida-se, com vários frascos de es-
tricnina, a 26 de abril de 1916, num Hotel de Nice,
Álvaro de Campos nasceu em Tavira e era um suicídio esse descrito por José Araújo, que Mário
homem viajado, formado em engenharia mecânica Sá-Carneiro chamara para testemunhar a sua mor-
e naval na Escócia e, numas férias, fez uma viagem te. Deixou a Fernando Pessoa a indicação de publi-
ao Oriente (de que resultou o poema “Opiário”). car a obra que dele houvesse, onde, quando e co-
Viveu em Lisboa, dedicou-se à literatura, intervindo mo melhor lhe parecesse.
em polêmicas literárias e políticas. É da sua autoria
o “Ultimatum”, manifesto contra os literatos instala- O delírio e a confusão dos sentidos, marcas da
dos da época. Até com Pessoa ortônimo polemizou. sua personalidade, sensível ao ponto da alucinação,
Defensor ferrenho do modernismo era o cultor da com reflexos numa imagística exuberante, definem
energia bruta e da velocidade, da vertigem agressi- a sua procura de exprimir o inconsciente e a disper-
va do progresso, sendo a Ode Triunfal um dos me- são do eu no mundo.
lhores exemplos, evoluindo depois no sentido de um
tédio, de um desencanto e de um cansaço da vida, Como escritor, Mário de Sá-Carneiro demonstra,
progressivos e auto-irônicos. Representa a audácia na fase inicial da sua obra, influências do decaden-
suprema a que Pessoa se permitiu (experiências tismo e até do saudosismo, numa estética do vago,
futurista e até no campo da ação político-social). do complexo e do metafísico.

A trajetória poética de Álvaro de Campos está Escreveu algumas das páginas mais importantes
compreendida em três fases: a primeira, da morbi- da Literatura Portuguesa: A Confissão de Lúcio
dez e do torpor, é a fase do "Opiário" (oferecido a (novela), Dispersão (poesia), Princípio (coetânea de
Mário de Sá-Carneiro e escrito enquanto navegava contos) Indícios de Ouro (póstumo) e Cartas a Fer-
pelo Canal do Suez, em março de 1914), a segunda nando Pessoa (reunidas em dois volumes).
fase, mais mecanicista, é onde o Futurismo italiano
mais transparece, é nesta fase que a sensação é JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS
mais intelectualizada.
O escritor e pintor José de Almada Negreiros
levou mais longe algumas tendências implícitas no
A terceira fase, do sono e do cansaço, aquela futurismo: textos e atitudes de provocação do con-
que, apesar de parecer um pouco surrealista, é a formismo burguês e de academismo literário. “No-
que se apresenta mais moderna e equilibrada ("Não me de Guerra” é um dos grandes textos narrativos
sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer de toda a Literatura Portuguesa. A maior parte do
ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os livro trata das relações entre um homem e uma mu-
sonhos do mundo."). lher.

Bibliografia para Língua Portuguesa 111


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Conta a estória na linguagem dos “rapazes” de O neo-realismo tem no romance brasileiro nor-
Lisboa com uma desenvoltura elegante, sem buscar destino, os modelos para uma literatura de denúncia
aparentemente efeitos de estilo, mas com achados social e de intenção pedagógica, marcada pelo forte
inesperados e felizes, resultantes justamente da anseio de atingir uma transformação histórica que
vontade com que se juntam numa frase natural coi- resultaria da consciencialização de um destinatário
sas desencontradas habitualmente no pensamento. que deveria incluir proletariado e campesinato.
Almada manifesta neste seu romance uma forte
vocação teatral. O marco de afirmação da estética neo-realista,
respectivamente, nos domínios da poesia e da pro-
Orpheu abriu caminho a outras revistas igual- sa, a edição, entre 1941 e 1944, do Novo Cancio-
mente efêmeras, e dez anos depois, em Coimbra, neiro e a publicação de Gaibéus, por Alves Redol,
para a revista Presença, que duraria de 1927 a em 1939.
1940 e com a qual a Literatura Portuguesa vai defi-
nitivamente libertar-se da tutela do século XIX e do Na ficção, destacam-se romances que encon-
simbolismo de escola. À frente da revista encon- tram um fio condutor em algumas características
tram-se notáveis poetas: José Régio, Casais Mon- como "o primado da objetividade [...], tendência para
teiro, Miguel Torga e Antônio de Navarro. a exteriorização consumada pelo privilégio de certos
espaços normalmente de inserção rural (Ribatejo,
XIII – O PRESENCIALISMO (1927-1940) Alentejo, Gândara), valorização de personagens de
clara incidência socioeconômica, representação
O segundo momento Modernista surgiu da he- dinâmica de processos de transformação histórico-
rança deixada pelo orphismo. A revista literária social", conjugados com "uma concepção de ro-
"Presença", que teve o primeiro exemplar publicado mance que acentuava a necessidade de verossimi-
1927, foi o meio divulgador das idéias desse grupo, lhança e cunho documental de que deveria revestir-
também conhecido como presencismo. se". (Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, Uma Casa
na Duna, de Carlos de Oliveira, Cerromaior, de Ma-
Dentre os seus principais colaboradores, desta- nuel da Fonseca, Vagão J, de Vergílio Ferreira, ou
cam-se as figuras de José Régio, Adolfo Rocha, Casa da Malta, de Fernando Namora).
João Gaspar Simões, Miguel Torga, Irene Lisboa,
entre outros. Quanto à poesia neo-realista caracterizada pela
denúncia e de ação que preside à ficção, combina-
Além de dar continuidade às idéias do orphismo do com um otimismo que decorre da confiança nas
e de eleger os membros desse período como "mes- possibilidades de transformação que a fraternidade
tres", os presencistas pregavam uma literatura mais humana pode alcançar encontra a sua especificida-
intimista e artística, ou seja, a literatura defendida de num sentido de imanência e num consciente
por esse grupo estava voltada para uma análise equilíbrio precário entre a esfera da subjetividade e
interior e para a introspecção. a esfera coletiva. (João José Cochofel, Joaquim
Namorado, Carlos de Oliveira, Mário Dionísio ou
Recebeu críticas e dissidências em virtude de Manuel da Fonseca).
exageros do individualismo e do esteticismo.
CARACTERÍSTICAS DO ROMANCE
A revista Presença foi, em Portugal, o principal NEO-REALISTA PORTUGUÊS
veículo divulgador das principais obras e escritores
europeus da primeira metade do século. 1. A ação do romance neo-realista normalmente é
aberta, sem progresso dramático linear, composta
No ano de 1940, em plena Segunda Guerra em geral por uma acumulação de fatos, de quadros
Mundial, o grupo da Presença encerra suas ativida- panorâmicos, ligados entre si pelo narrador e pela
des e considera-se encerrando também o Moder- homogeneidade de situações que são muitas vezes
nismo em Portugal. encaradas como símbolos.
2. As personagens são quase sempre coletivas,
XIV – NEO-REALISMO (1940-1974) grupos antagônicos constituídos, de um lado, por
representantes do capital e, de outro, por conjuntos
Movimento literário do qual fizeram parte, entre de trabalhadores agrícolas e de operários oprimidos
outros, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Afonso pelo capital, localizados em zonas bem determina-
Ribeiro, Joaquim Namorado, Mário Dionísio, Vergílio das: o regionalismo alentejano, temas citadinos e
Ferreira, Fernando Namora, Mário Braga, Soeiro outros ligados à burguesia rural (O Dia Cinzento de
Pereira Gomes ou Carlos de Oliveira. Mário Dionísio, Anúncio de Alves Redol, Casa da
Duna e Pequenos Burgueses de Carlos de Oliveira,
Desenvolveu-se num contexto histórico-social Fuga de Faure da Rosa).
conturbado (crise econômica, totalitarismo, guerra 3. As personagens são tipos de uma classe. Se há
civil espanhola e o início da Segunda Guerra Mun- um protagonista que merece destaque, é por ser o
dial) e encontrou como elemento aglutinador deter- mais atingido entre a multidão ou por refletir as rea-
minante para a definição dos seus objetivos, a po- ções do todo. Diante dos fatores materiais e das
lêmica com os intelectuais da revista Presença, forças sociais que as bloqueiam, as personagens
fechados, segundo os neo-realistas, “num egotismo neo-realistas não esboçam qualquer atitude de espi-
e esteticismos estéreis”. ritualidade.
4. O autor observa as situações com neutralidade,
As revistas Seara Nova, Sol Nascente e O Diabo coloca os protagonistas em seu ambiente, deixa-os
difundiram seus objetivos (o pensamento marxista, agir e viver uma vida real. Depois faz jornalismo,
as concepções do materialismo diabético e a rejei- reportagem, entretanto analisa e interpreta fatos
ção do socialismo utópico). escolhidos em virtude de determinado objetivo.

112 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
5. Os neo-realistas minimizam o cuidado da forma, XVI – TENDENCIAS CONTEMPORÂNEAS –
colocando na fala das personagens a linguagem (GERAÇAO DE 70)
popular regional. Leva o diálogo muitas vezes a
assumir funções narrativas. Emprega frases curtas, A denominada geração de 70 é a prova cabal da
bem adaptadas ao pensamento conciso que o do- efervescência cultural que dominou a Literatura
mina, tende para a substantivação do real, usa mo- Portuguesa permitindo o surgimento de uma conste-
deradamente o adjetivo. lação de poetas e prosadores inspirados, provavel-
mente em função dos ares de liberdade política
XV – SURREALISMO (1947-1974) trazidos pela revolução de abril de 1974, que pôs
fim a um regime fascista que durava desde os anos
Surgido de um grupo de poetas liderados por 20.
André Bretón, na França, o surrealismo torna-se um
movimento artístico que defendia a volta a um primi- O autor destaca vários autores, tanto a poesia
tivismo infantil. É um movimento que pretendia ma- como a prosa de ficção, dentre os quais na poesia
nifestar espontaneidade de ordem racional ou mo- experimental, figuras como E.M. de Melo e Castro,
ral. Pretendeu definir uma prática artística alternati- Ana Hatherly e Salette Tavares.
va à tradicional.
Simultaneamente às correntes de vanguarda,
Este movimento pretendia também que os artis- Moisés não deixou de assinalar a presença nos
tas mostrassem o pensamento de maneira livre, anos 60 de uma nova onda neorrealista, reunindo
espontânea e irracional, levado além da realidade nomes bem conhecidos como Fernando de Assis
(fantasia, sonho). Pacheco, José Carlos de Vasconcelos e Manuel
Alegre.
A pintura pode ser considerada a principal mani-
festação artística do surrealismo. Moisés enfatiza o nome de Vasco Graça Moura,
poeta erudito, estudioso das formas da poesia, ro-
O movimento divide-se em duas vertentes. Uma mancista, autor de ensaios e peças teatrais, cuja
mantém o caráter figurativo, mas produz formas obra transita com facilidade pelas formas tradicio-
inusitadas a partir da distorção ou justaposição de nais como a sextina e o soneto, assim como prática
imagens conhecidas. É comum figuras que “flutuam” à intertextualidade, dialogando com poetas canoni-
no quadro ou que estabelecem uma nova proporção zados como Camões, Dante, Shakespeare entre
entre objetos e pessoas. Um exemplo é “A persis- outros.
tência da Memória”, de Salvador Dali. Os artistas da
outra vertente radicalizam o automatismo psíquico, AGUSTINA BESSA-LUÍS
para que o inconsciente se expresse livremente,
sem controle da razão. O surrealismo atrai alguns Agustina Bessa-Luís é um dos nomes consagra-
escultores. dos na Literatura Portuguesa contemporânea.

Em Portugal, o Surrelismo é concepção de litera- Estreou-se como romancista em 1948, com a


tura baseada nos conteúdos oníricos e do inconsci- novela Mundo Fechado, tendo desde então mantido
ente, predomina a “escrita automática” - automatis- um ritmo de publicação pouco usual nas letras por-
mo verbal e escrito, ilogismo, livre associação de tuguesas, contando até ao momento com mais de
idéias e de palavras, além da modificação das estru- meia centena de obras.
turas da realidade.
Consagrada internacionalmente, representa Por-
Massaud Moisés destaca alguns representantes tugal junto a diversos órgãos culturais em diversos
do Grupo Surrealista de Lisboa: Antônio Pedro, países.
José Augusto França, Alexandre O’Neill, Mário Ce-
sariny de Vasconcelos e outros como Natália Corre- A consagração vem em 1954, com o romance A
a, Henrique Rasques Pereira, Artur do Cruzeiro Sibila. Agustina é senhora de um estilo absoluta-
Seixas, Antonio José Forte, Fernando Alves dos mente único, paradoxal e enigmático. Sua obra, de
Santos e Isabel Meyrelles. caráter pessoal, possui grandeza e luz próprias,
alheia a influências estrangeiras ou mesmo portu-
XVI – TENDENCIAS CONTEMPORÂNEAS I – guesas de caráter introspectivo, marcada por uma
(1950-1970) imaginação fecunda e pelo senso de observação e
análise.

Massaud Moisés destaca alguns escritores que, Empreende a fusão entre o regionalismo e o
embora não filiados a nenhum grupo, são influenci- universalismo na análise psicológica das persona-
ados pelas tendências em voga (Neo-realismo, Sur- gens, cujas peculiaridades desvenda aos poucos.
realismo e às tendências contemporâneas). Ressal-
ta a importância das revistas literárias, em torno das Vários dos seus romances foram já adaptados
quais se congregaram algumas das vozes literárias ao cinema pelo realizador Manoel de Oliveira, de
da atualidade. quem é amiga e com quem tem trabalhado de perto.
Estão, neste caso, Fanny Owen ("Francisca"), Vale
O autor destaca a obra e acrescenta minibiogra- Abraão e As Terras do Risco ("O Convento"), para
fias dos poetas Rui Cinatti, José Blanc Portugal, além de "Party", cujos diálogos foram igualmente
Tomaz Kim e António Ramos Rosa, Raul de Carva- escritos pela escritora. É também autora de peças
lho, Sebastião da Gama, Albano Martins, Fernando de teatro e para televisão.Em 2004, recebe, aos 81
Guimarães, Fernando Echevarria, Alberto de Lacer- anos, o Prêmio Camões, o mais importante prêmio
da, Luís Amaro, José Terra e Hélder Macedo. literário da língua portuguesa.

Bibliografia para Língua Portuguesa 113


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Principais obras: Os incuráveis; A muralha; O QUESTÕES:
Sermão do Fogo; As relações humanas; Os quatro
rios; Canção diante de uma porta fechada; A dança Os textos abaixo se referem à questão 1
das espadas, com destaque para A sibila, sua obra-
prima. Texto I
Cantiga dos olhos que choram
JOSÉ DE SOUSA SARAMAGO (À maneira de Garcia de Resende)

José de Sousa Saramago nasceu em 1922, em A meu corpo perguntara


Azinhaga, autodidata, possui apenas o curso indus- (pois que triste nada achara
trial. Iniciou-se na literatura como poeta, em 1966, mais do que eu):
mas cultivou também a crônica e o teatro, além da “Esses olhos tão-somente
prosa de ficção (romance), o melhor de sua obra. “por que choram tristemente,
“corpo meu?
No plano político-social, ideologicamente ligado à
esquerda militar em defesa dos trabalhadores, con- “Não tem lágrimas a boca
tra a opressão capitalista e identificação com as “que tanta palavra louca
camadas populares. Recebeu em 1998, o Prêmio “disse a alguém;
Nobel de Literatura, o primeiro para um autor da “e o coração tão coitado,
língua portuguesa. É escritor, roteirista, jornalista, “de tanta coisa alongado
dramaturgo e poeta. Também ganhou o Prêmio “não nas tem;
Camões, o mais importante prêmio literário da lín-
gua portuguesa. “nem as há na mão dorida
“que teve na despedida
Saramago é considerado o responsável pelo “tanto dó...
efetivo reconhecimento internacional da prosa em “Por que assim só os olhos choram?
língua portuguesa, sendo o autor português mais “Por que é que as lágrimas moram
conhecido da literatura contemporânea, traduzido “neles só?...”
para várias línguas. O seu livro Ensaio Sobre a Ce-
gueira (Blindness, em inglês) foi adaptado para o É que os olhos são janelas
cinema e lançado em 2008, produzido no Japão, e há duas meninas nelas,
Brasil e Canadá, dirigido por Fernando Meirelles. sempre em vão.
É que as meninas-dos-olhos
Características da obra: ironia sutil, fina; estilo Nos olhos e só nos olhos
vigoroso, vivo, marcado pela síntese de diferentes É que estão...
níveis lingüísticos, lembrando as características do (Guilherme de Almeida)
Barroco (língua culta, erudita, mesclada à lingua-
gem oral, popular; uso de arcaísmos; preferência Texto II
por parágrafos longos, muitas vezes ocupando pá- Cantiga, partindo-se
ginas seguidas; frase desenvolta, elástica, expri- Senhora, partem tão tristes
mindo sutilezas de forma e de sentido; eliminação meus olhos por vós, meu bem,
da pontuação convencional; emprego da vírgula que nunca tam triste vistes
como principal sinal de pontuação; narrativa ora outros nenhuns por ninguém.
ágil, fluente, ora lenta, intrincada, de acordo com a
intenção do narrador. Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
Retoma na ficção a história de Portugal, entre- tam cansados, tam chorosos,
tanto através de uma visão crítica da história e da da morte mais desejosos
atualidade de Portugal; da atualização da visão cem mil vezes que da vida.
histórica de Camões, Antônio Vieira e Alexandre Partem tam tristes os tristes,
Herculano; numa perspectiva diferente da de Ale- tam fora d’esperar bem,
xandre Herculano (para Saramago, a história é viva, que nunca tam tristes vistes
e está sempre se modificando). outros nenhuns por ninguém.
(Garcia de Resende)
Considera que o século mais importante para
Portugal não é o XVI (expansão ultramarítima), mas 1) Uma das conceituações para “intertextualidade”
o XVIII, por causa do ouro do Brasil - a euforia e o seria a “influência de um texto sobre outro que o
excesso de deslumbramento teriam influenciado a toma como ponto de partida, e que gera a atualiza-
decadência portuguesa posterior. A abrangência ção do texto citado”.
temática de sua obra vai da Idade Média aos pro-
blemas do homem português contemporâneo, refle- O primeiro dos textos acima é de um poeta moder-
tindo sobre temas universais e atemporais (as con- nista e o segundo pertence ao “Cancioneiro Geral”,
tradições das relações humanas; a solidão, a falta da poética trovadorista.
de) solidariedade, o amor, a incomunicabilidade do
ser humano; a opressão dos poderosos sobre as É correta, a propósito, a seguinte observação :
camadas mais humildes; o papel do povo na cons- a) O texto I teria influenciado o texto II, já que am-
trução da história da sociedade. Suas principais bos tratam da mesma temática e exploram a ima-
obras são: Jangada de pedra; Memorial do Conven- gem dos olhos como agentes da tristeza.
to; O Ano da morte de Ricardo Reis; O Evangelho b) A “atualização” do texto II se daria, entre outras
segundo Jesus Cristo; Ensaio sobre a cegueira; razões, pela utilização, no texto I, de métrica e vo-
Todos os nomes, entre outras. cabulário próprios do “Cancioneiro”.

114 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
c) Não se pode afirmar a existência de intertextuali- 6) (UM-SP) A respeito de Fernando Pessoa, é in-
dade nesse caso, já que o enfoque temático é dife- correto afirmar que:
rente.
d) A forma como os olhos são tratados, nos dois a) não só assimilou o passado lírico de seu povo,
poemas, é razão suficiente para afastar, no caso, a como refletiu em si as grandes inquietações huma-
idéia de intertextualidade. nas do começo do século.
e) Ao escolher o subtítulo para o seu poema, o autor
do texto I pretendeu reverenciar a figura do autor do b) os heterônimos são meios de conhecer a com-
texto II, sem qualquer propósito de “atualização”. plexidade cósmica impossível para uma só pessoa.

2) (FUVEST) Aponte a alternativa correta em rela- c) Ricardo Reis simboliza uma forma humanística
ção a Gil Vicente: de ver o mundo do espírito da Antigüidade Clássica.

a) Compôs peças de caráter sacro e satírico. d) junto com Mário de Sá-Carneiro, dirige a publica-
b) Introduziu a lírica trovadoresca em Portugal. ção do segundo número de Orpheu, em 196.
c) Escreveu a novela Amadis de Gaula.
d) Só escreveu peças em português. e) a Tabacaria, de Alberto Caeiro, mostra seu dese-
e) Representa o melhor do teatro clássico portu- jo de deixar o grande centro em busca da simplici-
guês. dade do campo.

3) (FESL-SP) Em Os Lusíadas, Camões:

a) narra a viagem de Vasco da Gama às Índias.


b) tem por objetivo criticar a ambição dos navegan- 7) (FUVEST) “Já vai andando a récua dos homens
tes portugueses que abandonam a pátria à mercê de Arganil, acompanham-nos até fora da via as
dos inimigos para buscar ouro e glória em terras infelizes, que vão clamando, qual em cabelo, o doce
distantes. e amado esposo, e outra protestando, o filho, a
c) afasta-se dos modelos clássicos, criando a epo- quem eu tinha só para refrigério e doce amparo
péia lusitana, um gênero inteiramente original na desta cansada já velhice minha, não se acabavam
época. as lamentações, tanto que os montes de mais perto
d) lamenta que, apesar de ter domado os mares e respondiam, quase movidos de alta piedade (...)”
descoberto novas terras, Portugal acabe subjugado (José Saramago, Memorial do Convento)
pela Espanha.
e) tem como objetivo elogiar a bravura dos portu-
gueses e o faz através da narração dos episódios Em muitas passagens do trecho transcrito, o narra-
mais valorosos da colonização brasileira. dor cita textualmente palavras de um episódio de Os
Lusíadas, visando criticar o mesmo aspecto da vida
4) ESAL-MG - Assinale a alternativa que contém de Portugal que Camões, nesse episódio, já critica-
características incompatíveis com o estilo de época va.
conhecido por Barroco:
O episódio camoniano e o aspecto criticado são,
a) contradições, sobrenatural humanizado, céu e respectivamente:
terra ligados.
b) gosto pela polêmica, pelo panfleto, colisão de a) O Velho do Restelo; a posição subalterna da
cores e excesso de relevos. mulher na sociedade tradicional portuguesa.
c) sentido de universalidade, racionalismo e objeti-
vidade. b) Aljubarrota; a sangria populacional provocada
d) as coisas, pessoas e ações não são descritas pelos empreendimentos coloniais portugueses.
mas apenas evocadas e refletidas através da visão
das personagens. c) Aljubarrota; o abandono dos idosos decorrente
e) largo sentimento de grandiosidade e esplendor, dos empreendimentos bélicos, marítimos e suntuá-
de pompa e grandeza heróica, expressos na ten- rios.
dência ao exagero e nos hiperbólico.
d) O Velho do Restelo; o sofrimento popular decor-
5) Segundo alguns críticos, as obras de Eça de rente dos empreendimentos dos nobres.
Queirós possuem um talento raro para combinar a
ironia e a sátira com certo lirismo melancólico, o que e) Inês de Castro; o sofrimento feminino causado
lhes dá graça e sutileza, apesar do tom caricato de pelas perseguições da Inquisição.
que se revestem algumas passagens, por demais
exemplares da hipocrisia social a ser denunciada.
São romances de tese, isto é, que denunciam a
hipocrisia social, do escritor:
a) O Crime do Padre Amaro; O Primo Basílio;
Os Maias.
b) A Ilustre Casa de Ramires; Prosas Bárbaras;
O Primo Basílio.
c) O Crime do Padre Amaro; O Primo Basílio; GABARITO
Prosas Bárbaras. 1-B 2-A 3-A 4-C 5-A 6-E 7-C
d) O Crime do Padre Amaro; As Farpas; Prosas
Bárbaras.
e) A Relíquia; Os Maias; A Cidade e as Serras.

Bibliografia para Língua Portuguesa 115


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
- Nenhum ou pouco controle metalingüístico da a-
ção lingüística em curso;
SCHNEUWLY, Bernard; DOLZ, Joaquim. - Utilizado pela criança nas múltiplas praticas de
GÊNEROS ORAIS E ESCRITOS NA ESCOLA. linguagem.
Campinas/São Paulo: Mercado de Letras, 2004.
b) “Os gêneros secundários não são espontâneos.
Seu desenvolvimento, sua apropriação implica em
outro tipo de intervenção nos processos de desen-
PARTE I – OS GÊNEROS DO DISCURSO volvimento, diferente do necessário para o desen-
E A ESCOLA volvimento dos gêneros primários”. Eles introduzem
uma ruptura importante na medida em que não
1 - GÊNEROS E TIPOS DE DISCURSO: estão mais ligados de maneira imediata a uma situ-
CONSIDERAÇÕES PSICOLÓGICAS ação de comunicação; “sua forma é freqüentemente
E ONTOGENÉTICAS uma construção complexa de vários gêneros cotidi-
anos [...] tratados como sendo relativamente inde-
O texto aborda os aspectos psicológicos da a- pendentes do contexto imediato”. Em decorrência
prendizagem, ou seja, a forma como pessoas a- disso, sua apropriação não pode se fazer direta-
prendem, e seus aspectos ontogenéticos, isto é, o mente partindo de situações de comunicação con-
desenvolvimento da capacidade de um indivíduo de cretas e precisas. Os gêneros secundários não re-
adquirir conhecimentos desde a concepção até a sultam “direta e necessariamente da esfera de moti-
idade adulta. vações já dadas do aprendiz, da esfera de suas
experiências pessoais, mas de um outro mundo
Em síntese, seria obter respostas às seguintes que tem motivações mais complexas”.
questões: o que aprendemos nas trocas com outros
indivíduos, nas relações sociais, pode interferir em Para os gêneros secundários, atribuiríamos às
nosso desenvolvimento? Ou o desenvolvimento das seguintes dimensões:
pessoas é um fato biológico, independente das rela-
ções sociais? Se for um fato biológico, algumas - Modos diversificados de referência a um contexto
pessoas são mais dotadas do que outras, já nascem lingüisticamente criado;
com uma capacidade inicial que outras não possu- - Modos de desdobramento do gênero. Se os meios
em? Se forem, podemos concluir que algumas pes- de referência a um contexto lingüisticamente criado
soas nascem com "dom" para certas aprendizagens caracterizam, por assim dizer, os gêneros secundá-
e outras não? rios do interior, asseguram sua coesão interna e sua
autonomia em relação ao contexto, outros meios
Essa reflexão sobre aprendizagem - da aprendi- asseguram do exterior, seu controle, sua avaliação,
zagem x desenvolvimento - que ocorre naturalmen- sua definição.
te, se aplica à capacidade de aprender dos indiví-
duos em qualquer disciplina e em relação à apren- c) “A aparição de um novo sistema – o dos gêneros
dizagem da escrita questionamos: O que se apren- secundários, não anula o precedente, nem o substi-
de socialmente interfere no desenvolvimento cogni- tui [...] mesmo sendo diferente, o novo sistema a-
tivo? Aprender gêneros textuais amplia nossas ca- póia-se sobre o antigo em sua elaboração, mas
pacidades de linguagem? assim fazendo, transforma-o profundamente.”

Gêneros e o desenvolvimento da linguagem d) Dessa forma, os gêneros primários são os ins-


trumentos de criação dos gêneros secundários nu-
O desenvolvimento se dá por continuidade e por ma passagem que se dá num processo, ao mesmo
ruptura: Gêneros primários e secundários. tempo, de continuidade e ruptura. Continuidade
porque a passagem para um novo sistema pressu-
Aproximando essa visão instrumental do gênero põe toda a experiência vivida na apreensão do sis-
à concepção de gênero de Bakhtin, os autores refle- tema anterior e ruptura porque as condições de
tem sobre como se dá a articulação do gênero a produção dos gêneros de um e de outro sistema
uma situação concreta e como se dá o processo de são diferentes: os gêneros primários se desenvol-
transformação profunda no desenvolvimento da vem no ambiente natural das relações cotidianas e
linguagem com a entrada da criança na escola e estão diretamente ligados à situação de enunciação,
que vai se estender por toda a escolaridade. Resu- e os gêneros secundários são autônomos em rela-
midamente, o que ele diz é o seguinte: ção à situação imediata de enunciação e, por isso,
são, em geral, adquiridos em ambiente formal, a
a) “Os gêneros primários nascem na troca verbal escola.
espontânea. Estão fortemente ligados à experiência
pessoal. Eles se aplicam a uma situação, à qual
estão ligados de maneira quase indissociável, por A escola é, portanto, o lugar institucional em que
assim dizer automática, sem real possibilidade de se opera a passagem de um sistema para outro.
escolha [...] é uma relação inconsciente e involuntá-
ria”.
Na operacionalização dessa passagem, o traba-
Podem-se definir as seguintes dimensões para lho com a noção de gênero é uma ferramenta didá-
os gêneros primários: tica interessante na medida em que os aprendizes
- Troca, interação, controle mútuo pela situação; já carregam um conhecimento sobre os gêneros,
- Funcionamento imediato do gênero com entidade incorporado “ao menos como representação difusa
global controlando todo o processo, como uma só ou confusa, às vezes, antes mesmo de sua entrada
unidade; na escola”.

116 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Para concluir, os autores propõem algumas hipó- Citando Coll, os autores dizem que as principais
teses sobre tipos e gêneros de textos. Eis algumas funções de um currículo são:
hipóteses sobre tipos de textos:
a) Descrever e explicitar o projeto educativo (as
a) psicologicamente um tipo de texto é o resultado intenções e o plano de ação) em relação às finali-
de uma ou de várias operações de linguagem, efe- dades da educação e às expectativas da sociedade;
tuadas no curso do processo de produção;
b) Fornecer um instrumento que oriente as práticas
b) essas operações podem, em especial, dizer res- dos professores;
peito às seguintes dimensões:
c) Levar em conta as condições nas quais se reali-
- definição da relação à situação material de pro- zam essas práticas;
dução, tendo como possibilidades uma relação
de implicação ou uma relação de autonomia; d) Analisar as condições de exeqüibilidade, de mo-
do a evitar uma descontinuidade excessiva entre os
-definição de uma relação enunciava com o dito, princípios e as restrições colocadas pelas situações
tratado como disjunto pertencente a um outro de ensino.
mundo, lingüisticamente criado, ou tratado como
conjunto, pertencente a esse mundo; Um currículo para o ensino da expressão deveria
fornecer aos professores, para cada um dos níveis
-provavelmente a isso se somam decisões sobre de ensino, informações concretas sobre os objetivos
os modos de geração de conteúdos (como ten- visados pelo ensino, sobre as práticas de linguagem
tamos mostrar com Joaquim Dolz 1987), que po- que devem ser abordadas, sobre os saberes e habi-
demos descrever, por exemplo, referindo-nos lidades implicados em sua apropriação.
aos tipos de seqüencialidade distinguidos por
Adam(1992); Entre os diversos componentes do currículo, a
organização temporal do ensino é um problema
c) levando-se em conta o que foi dito anteriormen- complexo, difícil de resolver. É preciso que nos lem-
te, fazemos ainda a hipótese suplementar de que bremos de que as decisões relativas à ordem tem-
essas operações não se tornam disponíveis de uma poral que se deve seguir no ensino situam-se es-
só vez, mas que se constroem no curso do desen- sencialmente em dois níveis:
volvimento.
a) progressão interciclo: divisão dos objetivos
Segundo os autores, os tipos de textos – ou, gerais entre os diferentes ciclos do ensino obrigató-
psicologicamente falando, as escolhas discursivas rio;
que se opera em níveis diversos do funcionamento
psicológico de produção – seriam, portanto, cons- b) progressão intraciclo: seriação temporal dos
truções ontogenéticas necessárias à autonomização objetivos e dos conteúdos disciplinares em cada
dos diversos tipos de funcionamento e, de modo ciclo.
mais geral, da passagem dos gêneros primários aos
gêneros secundários. Portanto, constituiriam, dito de As propostas de progressão curricular propõem
outra maneira, construções necessárias para gerar agrupamentos de gêneros Narrar, Expor, Argumen-
uma maior heterogeneidade nos gêneros, para ofe- tar, Instruir e Relatar, organizados pelas semelhan-
recer possibilidades de escolha, para garantir um ças que as situações de produção dos gêneros de
domínio mais consciente dos gêneros, em especial cada um dos agrupamentos possuem.
daqueles que jogam com a heterogeneidade. Po-
demos, de fato, considerá-los como reguladores No agrupamento Narrar, são colocados os gêne-
psíquicos poderosos, gerais, que são transversais ros da cultura literária ficcional, como contos, len-
em relação aos gêneros. das, romances, fábulas, crônicas. A situação de
produção desses gêneros sempre envolve a ficção
e a criação.
2- GÊNEROS E PROGRESSÃO ORAL E ESCRITA
No agrupamento Expor, estão agrupados os
ELEMENTOS PARA REFLEXÕES SOBRE UMA gêneros científicos e de divulgação científica, e os
EXPERIÊNCIA SUÍÇA didáticos constituídos para o ensino das diversas
áreas de conhecimento. Estão nesse agrupamento
os artigos científicos de todas as áreas do conheci-
Currículo e progressão mento, os relatos de experiências científicas, as
conferências, os seminários, textos explicativos dos
Os autores trabalham com a concepção de currí- livros didáticos, os verbetes de enciclopédia e ou-
culo por oposição à de programa escolar. tros afins. A situação de produção desses gêneros
sempre envolve a necessidade de divulgar um co-
Enquanto programa escolar supõe um foco maior nhecimento resultante de pesquisa científica.
sobre a matéria a ensinar, é recortado segundo a
estrutura interna dos conteúdos, no currículo, esses No agrupamento Instruir ou Prescrever, figuram os
mesmos conteúdos disciplinares são definidos em gêneros com manuais de instrução de diferentes
função das capacidades do aprendiz e das experi- tipos, as bulas de remédio, as receitas culinárias, as
ências a ele necessárias e, além disso, os conteú- regras de jogo, os regimentos e estatutos e todos os
dos são sistematicamente elaborados em relação demais gêneros cuja função é estabelecer formas
aos objetivos de aprendizagem e aos outros com- corretas de proceder.
ponentes do ensino.

Bibliografia para Língua Portuguesa 117


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
A situação de produção desses gêneros sempre Neste caso, mais ainda que em outras aprendi-
envolve a necessidade de informar como deve ser o zagens, a cooperação é fator determinante das
comportamento daqueles que vão usar um equipa- transformações e dos progressos que ocorrem.
mento ou medicamento ou realizar um procedimen-
to. Concluindo, os autores propõem a organização
de uma progressão temporal do ensino, construída
No agrupamento Relatar, estão os gêneros rela- sobre a base de um agrupamento de gêneros e
cionados com a memória e a experiências de vida, levando em conta os diferentes níveis de operações
como memórias literárias, diários íntimos, diários de de linguagem.
bordo, depoimentos, reportagens, relatos históricos,
biografias e outros semelhantes. Nas situações de Trata-se de uma proposta provisória de um currí-
produção desses gêneros, está a necessidade de culo aberto e negociado:
contar alguma coisa que realmente ocorreu, o que
torna os relatos diferentes das narrativas, que são a) Aberto, pois não recobre a totalidade das ativi-
ficcionais. dades possíveis em expressão oral e escrita; não
pode antecipar todos os problemas de aprendiza-
No agrupamento Argumentar, ficam os gêneros gem e, assim, os professores devem adaptá-lo em
que têm origem nas discussões sociais de assuntos função de situações concretas de ensino.
polêmicos, que provocam controvérsias. Estão nes-
se agrupamento as cartas de solicitação, cartas de b) Negociado, pois esse caráter aberto de um cur-
leitor, cartas de reclamação, os debates políticos, os rículo pede contínuos ajustes não somente no nível
artigos de opinião jornalísticos, os editoriais e outros local, mas também no de progressão interciclos e
semelhantes. Nas situações de produção desses intraciclos e porque diferentes atores participam nas
gêneros, existem questões polêmicas que estão diferentes fases de elaboração e de ajuste.
sendo discutidas em sociedade, e que exigem dos
autores um posicionamento e a defesa desse posi- A progressão curricular resultante da estratégia
cionamento. discutida acima ainda deverá ser testada: entrar nas
práticas e ser avaliada do ponto de vista da validade
Os agrupamentos podem facilitar a escolha de didática.
gêneros adequados para cada série do Ensino Fun-
damental, possibilitando uma progressão em espiral 3 – OS GÊNEROS ESCOLARES –
para seu ensino. A expressão "progressão em espi- DAS PRÁTICAS DE LINGUAGEM AOS
ral" significa que podemos criar eixos no planeja- OBJETOS DE ENSINO
mento do ensino de gêneros, um eixo para cada
agrupamento. Criados os eixos, é possível escolher Neste capítulo, os autores defendem que o gêne-
os mais adequados de cada agrupamento para ca- ro é utilizado como meio de articulação entre as
da série, retomando gêneros do mesmo agrupa- práticas sociais e os objetos escolares — mais par-
mento a cada ano que passa, para que os alunos ticularmente, no domínio do ensino da produção de
possam ampliar, gradativamente, o domínio das textos orais e escritos.
capacidades de narrar, argumentar, expor, instruir e
relatar. A Idéia será abordada em três etapas: a noção
de gênero em relação à de prática de linguagem e
de atividade de linguagem; seu funcionamento no
Contra o soliptismo quadro escolar e o caminho melhor é conhecer e
Construção conjunta intencional precisar este funcionamento.

É fundamental que se considere a relação exis- Práticas, gêneros e atividades de linguagem


tente entre a aprendizagem e o desenvolvimento.
Vygotsky propõe uma concepção segundo a qual a Se considerarmos a apropriação do conhecimen-
aprendizagem é condição prévia necessária às to historicamente construído, veremos que há uma
transformações e qualitativas que se produzem ao relação intrínseca entre a noção de prática social
longo do desenvolvimento. Para Vygotsky, “a a- (que diz respeito ao funcionamento da linguagem)
prendizagem humana pressupõe uma natureza com a de atividade (esta mais centrada na constru-
social específica e um processo por meio do qual as ção interna da linguagem, ou seja, nas capacidades
crianças acedem à vida intelectual daqueles que a necessárias para produzir e compreender a lingua-
cercam”, portanto, contra o soliptismo do sujeito – o gem).
sujeito não pode estar só sem ver o pólo ativo que
representa sua relação com os outros. Tanto a a- A apropriação diz respeito tanto a uma quanto a
prendizagem incidental – advinda acessoriamente outra, na medida que a aprendizagem que conduz
no curso da realização de uma ação, quanto a a- à interiorização das significações de determinada
prendizagem intencional – em que o sujeito está prática social implica levar em conta suas caracte-
implicado numa situação que visa a um efeito, fre- rísticas, além das aptidões e capacidades iniciais do
qüentemente se realiza por meio institucional são aprendiz.
construções sociais. No que diz respeito às praticas
de linguagem, sua apropriação começa no quadro Práticas de linguagem
familiar, mas certas práticas, em particular aquelas
que dizem respeito à escrita e oral formal, realizam- Com relação às práticas de linguagem, o concei-
se essencialmente em situação escolar, na nossa to visa às dimensões particulares do funcionamento
sociedade, graças ao ensino, por meio do qual os da linguagem em relação às práticas sociais em
alunos conscientizam-se dos objetivos relativos à geral, tendo a linguagem como mediadora em rela-
produção e à compreensão. ção a estas últimas.

118 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Segundo Bautier, as práticas sociais “são o lugar 3. as configurações específicas de unidades de
de manifestações do individual e do social na lin- linguagem, traços, em especial, da posição enuncia-
guagem”, portanto, as práticas de linguagem pres- tiva de enunciador e dos conjuntos particulares de
supõem tanto dimensões sociais como cognitivas e seqüências textuais e de tipos discursivos que for-
lingüísticas do funcionamento da linguagem numa mam sua estrutura.
situação de comunicação particular e em sua análi-
se as interpretações feitas pelos agentes de situa- O gênero, portanto, é um megainstrumento que
ção são essenciais. Essas interpretações dependem dá suporte para a atividade, nas situações de co-
da identidade social dos atores, das representações municação, e uma referência para aos aprendizes.
que têm dos usos possíveis da linguagem e das
funções que eles privilegiam. A escola sempre trabalhou com os gêneros, pois
toda forma de comunicação cristaliza-se em formas
Sua natureza é heterogênea e os papéis, ritos, de linguagem específicas. Seu objetivo, no contexto
normas e códigos, que são próprios à circulação escolar, é ensinar os alunos a escrever, a ler e a
discursiva, são dinâmicos e variáveis. falar.

A relação dos atores com as práticas de lingua- A escola é eminentemente lugar de comunicação
gem também varia, e a distância que pode separá- e as situações escolares são ocasiões de produ-
los ou aproximá-los têm efeitos importantes nos ção/recepção de textos, com seus pontos fortes e
processos de apropriação. fracos.

Estudar o funcionamento da linguagem como Os autores fazem uma análise sobre os pontos
práticas sociais significa analisar as diferenciações fortes e fracos dos gêneros em virtude da importân-
e variações, em função de sistemas de categoriza- cia dos mesmos para o desenvolvimento da lingua-
ções sociais à disposição dos sujeitos observados. gem.

Atividade de linguagem PONTOS FORTES PONTOS FRACOS


- Necessidade de - Progressão como
As atividades de linguagem funcionam como criações de objetos processo linear, do sim-
uma interface entre o sujeito e o meio, e responde a escolares para um ensi- ples para o complexo,
um motivo geral de representação-comunicação. no/aprendizagem eficaz; definido através do obje-
- Pensamento em to descrito;
Tem sempre origem nas situações de comunica- progressão. - Abordagem pura-
ção e se desenvolve em zonas de cooperação soci- mente representacional,
al determinadas e, sobretudo, atribui às práticas não comunicativa.
sociais um papel determinante na explicação de seu - Leva muito em conta - Não leva em conta
funcionamento. a particularidade das explicitamente e não
situações escolares e utiliza modelos exter-
De acordo com Dolz, Pasquier e Bronckart, uma utilização destas; nos;
ação de linguagem consiste em produzir, compre- - Importância do sen- - Não modelização
ender, interpretar e/ou memorizar um conjunto or- tido da escrita; das formas de lingua-
ganizado de enunciados orais ou escritos (um tex- - Tônica na autonomia gem e, portanto, ausên-
to). dos processos de a- cia de ensino.
prendizagem nestas
Toda ação de linguagem demanda diversas ca- situações.
pacidades da parte do sujeito: - Evidencia as contri- - Negação da particu-
buições das práticas de laridade das situações
a) adaptar-se às características do contexto e do referência; escolares como lugares
referente (capacidades de ação); - Importância do sen- de comunicação que
tido da escrita; transformam as práticas
b) mobilizar modelos discursivos (capacidades dis- - Insistência na di- de referência;
cursivas); mensão comunicativa e - Ausência de reflexão
na variedade das situa- sobre a progressão e
c) dominar as operações psicolingüísticas e as ções. desenvolvimento.
unidades lingüísticas (capacidades lingüístico-
discursivas). PARTE II
PLANEJAR O ENSINO DE UM GÊNERO
Gêneros de linguagem
4 – SEQÜÊNCIAS DIDÁTICAS PARA O ORAL
É através dos gêneros que as práticas de lingua- E O ESCRITO
gem se materializam nas atividades dos aprendizes.
Para definir gênero como suporte de uma atividade Como ensinar a expressão oral e escrita? Se,
de linguagem, três dimensões parecem essenciais: hoje em dia, existem várias pistas para responder a
essa questão, nenhuma satisfaz, simultaneamente,
1. os conteúdos e os conhecimentos que são enun- as seguintes exigências:
ciados por meio dele; - Permitir o ensino da oralidade e da escrita a partir
de um encaminhamento, a um só tempo, semelhan-
2. os elementos das estruturas comunicativas e te e diferenciado;
semióticas partilhadas pelos textos reconhecidos
como pertencentes ao gênero; - Propor uma concepção que englobe o conjunto
da escolaridade obrigatória;

Bibliografia para Língua Portuguesa 119


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
- Centra-se, de fato, nas dimensões textuais da
expressão oral e escrita;

- Oferecer um material rico em textos de referên- a. apresentação de situação ‘– descrição da tarefa de


cia, escritos e orais, nos quais os alunos possam expressão oral ou escrita que os alunos deverão realizar.
inspira-se para suas produções; 1ª. Dimensão - projeto coletivo de produção - de manei-
ra bastante explícita para que eles compreendam a situ-
ação de comunicação e como devem agir, que proble-
- Ser modular, para permitir uma diferenciação do mas deverão resolver. Nesta dimensão, deve-se respon-
ensino; der às questões: Qual é o gênero que será abordado? A
quem se dirige a produção? Que forma assumirá a pro-
- Favorecer a elaboração de projetos de classe. dução? Quem participará da produção?
2ª. Dimensão – dos conteúdos – preparar e selecionar
Sem pretender, de forma alguma, cobrir a totali- os conteúdos que serão trabalhados na produção do
dade do ensino de produção oral e escrita, ele fun- texto. É vital que o aluno perceba sua importância des-
damenta no seguinte postulado: é possível ensinar ses conteúdos e com quais irá trabalhar.
a escrever textos e a exprimir-se oralmente em situ- b. produção inicial – os alunos elaboram o primeiro
texto inicial oral ou escrito. A primeira produção tem
ações públicas, escolares e extra-escolares. papel regulador, tanto para o aluno como para o profes-
sor. Ao professor permite avaliar as capacidades adquiri-
Criar contextos de produção precisos, efetuar das e ajustar as atividades e os exercícios, adaptando as
atividades ou exercícios múltiplos e variados: é isso seqüências às necessidades dos alunos, revendo e rees-
que permitirá aos alunos apropriarem-se das no- truturando o trabalho.
ções, das técnicas e dos instrumentos necessários c. os módulos – o formato modular, constituídos de
ao desenvolvimento de suas capacidades de ex- várias atividades ou exercícios, oferecem ao aluno os
pressão oral e escrita, em situações de comunica- instrumentos necessários para esse domínio, que se
ção diversas. apresenta das dificuldades mais simples às mais com-
plexas. Devem-se observar os módulos – o formato mo-
dular, constituídos de várias atividades ou exercícios,
O procedimento a ser seguido é “Seqüência oferecem ao aluno os instrumentos necessários para
Didática”. esse domínio, que se apresenta das dificuldades mais
simples às mais complexas. Deve-se observar os níveis
Uma seqüência didática é um conjunto de ativi- produção de textos: Representação da situação de co-
dades escolares organizadas, de maneira sistemáti- municação. - para quem se dirige, qual a finalidade, sua
ca, em torno de um gênero textual oral ou escrito. posição enquanto autor ou locutor e do gênero visado.
Elaboração dos conteúdos. Buscar, elaborar ou criar
Tem como principal característica: conteúdos diferem muito em função dos gêneros: técni-
cas de criatividade, discussões, debates e tomada de
notas, citando apenas os mais importantes. Planejamen-
- Ajudar o aluno a dominar melhor um gênero de to do texto. A estrutura do texto depende da finalidade
texto – escrever e falar de maneira adequada; que se deseja atingir ou do destinatário visado. Cada
gênero é caracterizado por uma estrutura mais ou menos
A estrutura de base de uma seqüência didática po- convencional. Realização do texto. Envolve a escolha da
de ser representada pelo seguinte esquema: linguagem: utilizar um vocabulário apropriado a uma
dada situação, variar os tempos verbais em função do
tipo e do plano do texto, recorrer aos organizadores
textuais para estruturar ou introduzir argumentos no
texto.
d. produção final – o aluno pode por em prática os
conhecimentos adquiridos (O que aprendi? O que resta a
fazer?) Serve para regular e controlar a revisão e a re-
escrita e avaliar os progressos realizados no transcorrer
... do trabalhado; o professor, medir os progressos alcan-
çados. A produção final serve, também, para uma avalia-
Apre M M M ção de tipo somativo, que incidirá sobre os aspectos
sen- ó ó ó trabalhados durante a seqüência.
ta- Pro d Pro
du- ul d d du-
ção
da ção o ul ul ção
situ- Ini- 1 o o fi- Orientação metodológica:
ação cial 2 n nal
O trabalho com a escrita e oralidade tem suas
especificidades: possibilidade de revisão, observa-
ção do próprio comportamento e de textos de refe-
rência, trabalha com seqüências e atividades de
estruturação da língua em uma perspectiva textual,
explorar questões de gramática e sintaxe (ortografi-
a, revisão ortográfica, escolhas lexicais, etc.), o
agrupamento de gêneros e a progressão entre as
séries/ciclos. (ver quadros abaixo)

Concretizar uma proposta na forma de material


Exemplificando: didático é por vezes, correr o risco de torná-la está-
tica ou mesmo vê-la desviada dos princípios sobre
os quais se apóia.

É por essa razão que é importante insistir ainda


em alguns pontos de ordem metodológica.
120 Bibliografia para Língua Portuguesa
Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
No material proposto, as seqüências não devem
ser consideradas como um manual a ser seguido Quadro 2
passo a passo. Para o professor, a responsabilidade
é efetuar escolhas, e em diferentes níveis. Seqüências didáticas para expressão oral e es-
crita: modelo

Quadro 1 Agru- Ciclo


pamen- 1ª – 2ª 3ª – 4ª 5ª – 6ª 7ª- 8ª – 9ª
Domínios sociais de comunicação to
1.O livro 1.O 1.O 1. A paródia
para conto conto de conto
comple- maravi- do
tar lhoso porque 2. A narrati-
ASPECTOS e do va de ficção
Domínios TIPOLÓGICOS Exemplos de gê- Narrar 2.A como científica
sociais de Capacidades de neros orais narrati-
comunicação linguagem domi- e escritos va de 2.A 3. A novela
nantes aventu- narrati- fantástica
Conto maravilhoso ra va de
Fábula aventu-
Lenda ra
NARRAR Narrativa de aven- 1. O 1. O 1. A 1. A nota
tura relato de teste- notícia biográfica
Cultura Mimesis da ação Narrativa de ficção experi- munho
literária através da cria- científica ência de uma 2. A repor-
ficcional ção de intriga Narrativa de e- Relatar vivida* experi- tagem radio-
nigma (Apre- ência fônica*
Novela fantástica sentação vivida
Conto parodiado… em áu-
Relato de experi- dio)
ência vivida 1. A carta 1. A 1. A 1. A petição
RELATAR Relato de viagem de solici- carta carta
Testemunho tação de de 2. A nota
Documentação Representação Curriculum vitae respos- leitor crítica de
e memoriza- pelo discurso de Notícia Argu- ta ao 2. A leitura
ção de ações experiências Reportagem mentar leitor apre-
humanas vividas, situadas Crônica esportiva senta- 3. O ponto
no tempo Ensaio biográfi- 2. O ção de de vista
co… debate um
Texto de opinião regra- roman- 4. O debate
Diálogo argumen- do* ce* público*
tativo 1. Como 1. O 1. A 1. A apre-
Discussão de ARGUMENTAR Carta do leitor funcio- artigo exposi- sentação de
problemas Carta de reclama- na? enci- ção documentos
sociais Sustentação, ção (Apre- clopé- escrita
controversos refutação e nego- Deliberação infor- Transmi- sentação dico 2. A 2. O relató-
ciação de toma- mal tir de um nota de rio científico
das de posição Debate regrado conhe- brinque- 2. A síntese
Discurso de defe- cimentos do e de entre- para 3. A exposi-
sa (adv.) seu fun- vista apren- ção oral*
Discurso de acu- ciona- radio- der
sação (adv.) mento) fônica* 3. A 4. A entre-
Seminário exposi- vista radio-
Conferência ção fônica*
Artigo ou verbete oral*
EXPOR de enciclopédia 1. A 1. A 1. As
Entrevista de receita descri- regras
Transmissão e Apresentação especialista Regular de cozi- ção de de jogo
construção de textual de diferen- Tomada de notas compor- nha* um
saberes tes formas dos Resumo de textos tamentos (Apre- itinerá-
saberes "expositivos" ou sentação rio*
explicativos em áu-
Relatório científico dio)
Relato de experi- 5 se- 8 se- 9 se- 13 seqüên-
ência científica qüências qüên- qüên- cias
Instruções de (sendo 2 cias cias (sendo 4
DESCREVER montagem orais) (sendo (sendo orais)
Instruções e AÇÕES Receita 3 orais) 2 orais)
prescrições Regulamento
Regulação mútua Regras de jogo
de comportamen- Instruções de uso
tos Instruções

Bibliografia para Língua Portuguesa 121


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
5 – PALAVRA E FICCIONALIZAÇÃO: Dolz & Schneuwly acrescentam que nos gêneros
UM CAMINHO PARA O ENSINO orais será necessário também considerar alguns
DA LINGUAGEM ORAL meios não-lingüísticos que, durante “a interação
comunicativa, vêm confirmar ou invalidar a codifica-
O texto trabalha com questões formuladas atra- ção lingüística e/ou prosódica e mesmo, às vezes,
vés de pesquisa a professores sobre as representa- substituí-la”.
ções habituais do oral e do ensino sobre oralidade.
Entre esses meios não-lingüísticos destacamos:
Embasado em fundamentações teóricas, o autor
conclui que toda atividade de linguagem complexa - meios paralingüísticos: qualidade da voz, melo-
supõe uma ficcionalização, uma representação in- dia, ritmo, risos, sussurros, respiração etc.;
terna, cognitiva, da situação de interação social. É
necessário que se faça uma representação abstrata - meios cinésicos: postura física, movimentos de
que se ficcionalize a situação. Ela se revela como braços ou pernas, gestos, olhares, mímicas faciais
uma operação geradora da “forma do conteúdo” do etc.;
texto: ela é o motor da construção da base de orien-
tação da produção, colocando certas restrições - posição dos locutores: ocupação de lugares,
sobre a escolha de um gênero discursivo. espaço pessoal, distâncias, contato físico etc.;

Assim, conclui o autor, há ficcionalização nos - aspecto exterior: roupas, disfarces, penteado,
gêneros complexos a serem trabalhados em sala de óculos, limpeza etc.;
aula. A particularidade do oral em relação à escrita
reside no fato de que essa ficcionalização deve se - disposição dos lugares: lugares, disposição,
articular com uma representação do aqui e agora, iluminação, disposição das cadeiras, ordem, ventila-
gerenciada simultaneamente, graças especialmente ção, decoração etc.
a meios de linguagem que são o gesto, a mímica, a
corporalidade, a prosódia. Palavra, implicação mate- Dessa forma, na análise de um texto oral de um
rial e corporal na situação de produto de linguagem dado gênero que se tornará objeto de ensino, deve-
e ficcionalização, a necessidade de construir, ao remos verificar o seu contexto de produção, a sua
mesmo tempo, uma representação da situação abs- organização textual, as marcas lingüísticas e os
trata, constituem os dois vetores a partir dos quais meios não-lingüísticos que o caracterizam, para que
se constroem as novas capacidades de linguagem. assim possamos ensinar ao aluno em que situações
poderão usar esse gênero, como estruturá-lo, qual
O fato de que essa construção não pode ocorrer linguagem e postura utilizar, ou seja, poderemos
sem uma intervenção mais ou menos maciça da levá-lo a desenvolver as capacidades de linguagem
escrita mostra o poder desse instrumento e prova e as capacidades não-verbais de que ele precisará
que é necessário que se forje uma concepção dialé- para participar plenamente das situações comunica-
tica dos diferentes aspectos do ensino da língua tivas.
materna.
Essas capacidades de linguagem são de três
6 – O ORAL COMO TEXTO: tipos, segundo Dolz & Schneuwly: capacidade de
COMO CONSTRUIR UM OBJETO DE ENSINO ação que será desenvolvida com o trabalho com a
situação de produção; capacidade discursiva, com a
De acordo com os autores, apesar de a lingua- organização textual; e capacidade lingüístico-
gem oral estar bastante presente no cotidiano das discursiva, com os aspectos lingüístico-discursivos.
salas de aula, nas rotinas, nas leituras, na correção
de exercícios, ela não é ensinada a não ser inciden-
talmente, durante atividades diversas e pouco con- Prosseguem os autores afirmando que na esco-
troladas. la, para que se possa fazer um bom trabalho com os
gêneros de modo geral, e com os orais mais especi-
O paradoxo, entretanto, consiste na análise de ficamente, será necessário, construir um modelo
que o oral está presente nas duas pontas do siste- didático do gênero, ou seja, um levantamento de
ma escolar: na pré-escola e nos primeiros anos do suas características no nível do contexto de produ-
ensino fundamental, onde os professores consoli- ção, da organização textual, da linguagem e dos
dam os usos informais da linguagem e no ensino meios não lingüísticos.
superior onde se requer um domínio da palavra em
público (jornalista, advogado, empresários, profes- A construção desse modelo requer a análise de
sores, etc.). vários exemplares desse gênero, a consulta a textos
de especialistas que discorrem sobre ele, além da
O oral como objeto de estudo não poderia ser consulta aos autores desses gêneros. Partindo des-
incluído entre as duas pontas? sas informações, conseguiremos fazer um modelo
didático que contemplará a situação de produção
Inicialmente, os autores apresentam e discutem desse gênero, sua organização textual, seus aspec-
aspectos indubitavelmente relacionados à lingua- tos lingüístico-discursivos, seus meios não-
gem oral, por sua materialidade fônica, como a pro- lingüísticos.
dução sonora vocal, a voz como suporte acústico da
fala através da articulação de vogais e consoantes, Essas características nos indicarão as dimen-
as sílabas, os fatos prosódicos, a música, a entona- sões ensináveis do gênero estudado e nos mostra-
ção, acentuação e ritmo, as falas espontâneas, os rão também que outros recursos podem ser neces-
meios não-lingüísticos da comunicação oral, etc., sários para que o aluno aprenda a agir por meio
até chegarem à interação entre o oral e o escrito. desse gênero.

122 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Por exemplo, ao se trabalhar com seminários, 1. As diferentes atividades e trabalhos levados a
requer além do ensino da apresentação em si mes- efeito ao longo da seqüência ganham em relação ao
mo, como ler os textos e pesquisar para fundamen- projeto global que a classe realiza. Para chegar a
tar a apresentação de cada um dos seminaristas; isso, cada etapa de trabalho termina numa síntese,
como fazer as transparências / slides, sinopse para construída em interação com os alunos, na qual o
distribuir ao público; como organizar o tempo antes que foi feito é resumido em forma de regras ou de
do seminário, para que o grupo pudesse se reunir constatações. Isso permite compreender, localmen-
para fazer as leituras e pesquisas, distribuir as tare- te, o sentido do que foi realizado; ao mesmo tempo,
fas, verificar os recursos técnicos, treinar a apresen- essa síntese cria a ligação com o projeto global no
tação para adequação do tempo etc. qual a turma estará envolvida; cria os meios para
melhor argumentar.
Feito esse modelo didático, as intervenções es-
colares devem ser organizadas em seqüências di- 2. Como elaborar essas sínteses? Como capacitar
dáticas, ou seja, um conjunto de atividades elabora- o trabalho sobre a oralidade que é tão fugidia? Qual
das a partir de um modelo didático que visa levar o é o estatuto da escrita no ensino da oralidade? Es-
aluno ao domínio de um gênero e ao desenvolvi- sas questões difíceis foram inúmeras vezes coloca-
mento. das nos encontros de preparação. O trabalho de-
senvolvido nesses encontros permitiu delinear al-
Enfim, o papel da escola é levar os alunos a gumas respostas.
ultrapassar as formas de produção oral cotidianas
para confrontá-las com outras formas mais institu- a) Ensinar o oral implica em desenvolver o hábito
cionais, mediadas, parcialmente reguladas por res- de registrar, para ter o traço das produções dos
trições exteriores. alunos, assim como na escrita que, naturalmente,
deixa traços duráveis. O registro permite escutar-se,
reescutar os outros, observar, analisar, criticar-se,
PARTE III – fazer proposta para melhora dos outros. Esse tipo
PROPOSTAS DE ENSINO DE GÊNEROS de trabalho implica, necessariamente, um trabalho
em grupo, um procedimento que não permite o si-
Os textos da última parte do livro “Gêneros orais lêncio absoluto, nem o trabalho solitário de cada um
e escritos na escola” (“7 – Em busca do culpado. no seu canto. Muitas vezes, os professores relata-
Metalinguagem os alunos na redação de uma narra- ram, após terem realizado a seqüência, que o traba-
tiva de enigma”, “8 – A exposição oral” e “9 – Relato lho com o oral era mais cansativo, precisamente
da elaboração de uma seqüência: o debate público”) pelo fato de que a gestão da sala de aula tornava-se
relatam atividades práticas, elaboradas a partir de mais diferenciada, mais intangível, mais interativa.
um gênero, orais ou escritas, e utilizando como mo-
delo a sequenia didática comprova a tese dos auto- b) O trabalho de observação e de análise não é
res da obra de que se aprende a escrever a partir possível sem a ajuda da escrita: é necessário anotar
da apropriação dos utensílios da escrita, no sentido as observações para lembrar-se delas ou para
vygotskiano de que essa apropriação permite trans- transmiti-las aos outros. Mesmo que a escrita não
formar a relação com o próprio processo psíquico seja o mediador do processo de ensino-
da produção de linguagem. aprendizagem do oral, acaba por se construir num
instrumento muitas vezes indispensável.
A análise do produto texto, ao longo dos três
capítulos, mostrou que um trabalho com seqüências c) A escrita é particularmente importante quando se
didáticas em torno de gênero textual determinado trata de capitalizar as construções à medida que a
tem conseqüências muito produtivas nos textos dos seqüência avança e que ela funciona como memó-
alunos. ria externa, controlável. Entretanto, passar pelo
escrito permite colocar em comum o que foi apren-
O papel do professor na seqüência didática é dido, facilita uma construção coletiva e progressiva
importantíssimo em todos os momentos. Ainda mais das aprendizagens e explicita as exigências às
que é ele que pode, pelo menos em parte, definir o quais ao fim da seqüência os alunos deverão res-
sentido dado a uma seqüência numa determinada ponder.
turma.
Em síntese, os autores apresentam três papéis
Esse papel fica ainda mais difícil de definir, à essenciais do professor no desenvolvimento do
medida que compreende, no ensino do oral, duas trabalho conforme relatado acima:
dimensões que é preciso administrar simultanea-
mente: a de criar uma situação de comunicação • o de explicitar as regras e constatações, por
interessante para o aluno (por exemplo, debate meio das observações e análises das gravações
sobre as classes mistas diante de uma câmara de efetuadas, utilizando, parcimoniosamente, a escrita
vídeo, sendo que a gravação realizada poderá ser como instrumento;
vista por outras salas) e a de ensinar, ou seja, de-
senvolver tão eficazmente quanto possível as capa- • o de intervir pontualmente, em momentos esco-
cidades de argumentação dos alunos, dando-lhes lhidos, para lembrar as normas que é preciso ter em
instrumentos para fazê-los e avaliando tais capaci- conta e para avaliar a produção dos alunos;
dades.
• o de dar um sentido às atividades levadas a efei-
Para permitir aos professores assumir o melhor to na seqüência, situando-as em relação ao projeto
possível um papel tão complexo como o seu, os global da classe.
autores orientam, nos encontros de formação, dois
aspectos essenciais:

Bibliografia para Língua Portuguesa 123


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
QUESTÕES II. No agrupamento Expor, estão agrupados os
gêneros científicos e de divulgação científica, e os
didáticos constituídos para o ensino das diversas
áreas de conhecimento. A situação de produção
1) Assinale a alternativa correta. Segundo os auto- desses gêneros sempre envolve a necessidade de
res do livro “Gêneros orais e escrito na escola”, as divulgar um conhecimento resultante de pesquisa
principais funções de um currículo são: científica.

a) Descrever e explicitar o projeto educativo (as III. No agrupamento Instruir ou Prescrever, figu-
intenções e o plano de ação) em relação às finali- ram os gêneros cuja função é estabelecer formas
dades da educação e às expectativas da sociedade; corretas de proceder. A situação de produção des-
ses gêneros sempre envolve uma expectativa em
b) Fornecer um instrumento que oriente as práticas relação a comportamento do receptor.
dos professores;
IV. No agrupamento Relatar, estão os gêneros rela-
c) Levar em conta as condições nas quais se reali- cionados com a memória e a experiências de vida.
zam essas práticas; Nas situações de produção desses gêneros está a
necessidade de contar alguma coisa que realmente
d) Analisar as condições de exeqüibilidade, de mo- ocorreu, o que torna os relatos diferentes das narra-
do a evitar uma descontinuidade excessiva entre os tivas, que são ficcionais.
princípios e as restrições colocadas pelas situações
de ensino. V. No agrupamento Argumentar, ficam os gêneros
que têm origem nas discussões sociais de assuntos
e) Todas as alternativas estão corretas. polêmicos, que provocam controvérsias.

Assinale a alternativa correta:

2) Apenas uma das alternativas abaixo não contem- a) As alternativas I, II, III e IV estão corretas.
plam os estudos sobre gêneros textuais, conforme
Schneuwly e Dolz. b) As alternativas II, III, IV e V estão corretas.

a) É através dos gêneros, orais ou escritos, que as c) As alternativas I, III, IV e V estão corretas.
práticas de linguagem se materializam nas ativida-
des dos aprendizes. d) Todas as alternativas estão corretas.

b) A escola sempre trabalhou com os gêneros, pois e) n.d.a.


toda forma de comunicação cristaliza-se em formas
de linguagem específicas. Seu objetivo, no contexto
escolar, é ensinar os alunos a escrever, a ler e a
falar. 4) Segundo Dolz & Schneuwly, no trabalho com os
gêneros orais será necessário considerar aspectos
c) A escola é eminentemente lugar de comunicação que, durante “a interação comunicativa, vêm confir-
e as situações escolares são ocasiões de produ- mar ou invalidar a codificação lingüística e/ou pro-
ção/recepção de textos, especificamente de produ- sódica e mesmo, às vezes, substituí-la”. Assinale a
ção e recepção de textos orais, com seus pontos alternativa incorreta.
fortes e fracos.
a) meios lingüísticos: qualidade da voz, melodia,
d) Uma seqüência didática é um conjunto de ativi- ritmo, risos, sussurros, respiração etc.;
dades escolares organizadas, de maneira sistemáti-
ca, em torno de um gênero textual oral ou escrito. b) meios cinésicos: postura física, movimentos de
braços ou pernas, gestos, olhares, mímicas faciais
e) Toda atividade de linguagem complexa supõe etc.;
uma ficcionalização, uma representação interna,
cognitiva, da situação de interação social. c) posição dos locutores: ocupação de lugares,
espaço pessoal, distâncias, contato físico etc.;

d) aspecto exterior: roupas, disfarces, penteado,


óculos, limpeza etc.;
3) As propostas de progressão curricular, segundo
Joaquim Dolz e Bernard Schneuwly, propõem agru- e) disposição dos lugares: lugares, disposição,
pamentos de gêneros organizados pelas semelhan- iluminação, disposição das cadeiras, ordem, ventila-
ças que as situações de produção dos gêneros de ção, decoração etc.
cada um dos agrupamentos possuem. Consideran-
do as afirmativas abaixo, assinale a alternativa cor-
reta.

I. No agrupamento Narrar, são colocados os gêne-


ros da cultura literária ficcional, como contos, len- GABARITO
das, romances, fábulas, crônicas. A situação de 1-E 2-C 3-D 4-A
produção desses gêneros sempre envolve a ficção
e a criação.

124 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Assim, em nível empírico, o sujeito da comunica-
ção é uma peça que dá suporte à ordem do sistema
SOUZA, Mauro Wilton de (org.). social; nível teórico, ele é a própria ordem do siste-
SUJEITO, O LADO OCULTO DO RECEPTOR. ma social funcionando. É a fase hipodérmica norte-
São Paulo: Brasiliense, 1995. americana.

Teoria da dependência
Sujeito, o lado oculto do receptor, escrito em
1994, é uma coletânea dos textos sobre os assun- Teoria gerada nos anos 60, onde os meios de
tos tratados em um seminário na USP, um novo comunicação impunham uma reificação ao sujeito,
olhar lançado sobre a recepção na comunicação. mantendo não apenas os padrões econômicos,
Traz dois textos extremamente teóricos, referência tecnológicos e culturais, como também os de lin-
sobre as novas tendências e estudos que serviram guagem e os estilos de concepção da vida pessoal
de base à pesquisa sobre a recepção. Os outros e da social.
textos analisam em torno do novo enfoque a produ-
ção midiática, às vezes fazendo um histórico sobre Essa teoria procurava explicitar como as rela-
o que já se discutiu e apresentando novos enfoques ções dos países centrais com os periféricos iam
teóricos. além de questões econômico-financeiras, mas en-
volviam tecnologia, cultura, saber e concepções de
RECEPÇÃO: UMA QUESTÃO ANTIGA EM UM vida.
PROCESSO NOVO
Nesse contexto, os meios de comunicação eram
RECEPÇÃO E COMUNICAÇÃO: concebidos como agentes desse processo cabendo
A BUSCA DO SUJEITO a nós resgatar o receptor dessa reificação impingida
(Mauro Wilton de Souza) pelo sistema, mediante sua conscientização para
lutar contra a dominação do Estado capitalista, alia-
O autor, professor da Escola de Comunicação e do aos interesses estrangeiros. Esse paradigma
Artes da Universidade de São Paulo, onde leciona materialista é reforçado pela instalação do regime
na graduação, na pós-grduação, além de atuar co- militar nos país.
mo pesquisador do Núcleo de Pesquisas sobre Re-
cepção. Essa concepção histórica da relação homem–
sociedade vai se desdobrar na teoria crítica.
Neste texto, ele propõe reflexões a respeito das
questões relacionadas ao receptor e à comunica- Modelo frankfurtiano (indústria cultural)
ção, tomando como ponto de referência as seguin-
tes questões “quem é, afinal, o homem no processo Entre as décadas de 60 e 80, o modelo frankfur-
de comunicação social contemporâneo? Onde se tiano, em especial a concepção de “indústria cultu-
colocar para melhor visualizá-lo?”. ral” apontava a não-linearidade na relação de domi-
nação entre as sociedades capitalistas desenvolvi-
Inicialmente, ele faz uma introdução sobre o das e subdesenvolvidas. A racionalidade técnica,
assunto-tema, explicita o novo lugar do receptor na base da modernidade, acaba se transformando em
comunicação onde ele passa a ser considerado principal instrumento de dominação. O mercado é o
como sujeito, parte do processo comunicacional. eixo explicativo do sistema, onde comunicação e
cultura interagem.
Fazendo uma retrospectiva sobre os caminhos
percorridos (entre 1950 e 1980), o autor situa o final No nível teórico, o receptor era a razão técnica;
dos anos 50, o início dos primeiros trabalhos ligados no empírico, o sujeito reificava-se em indivíduo/
ao sujeito e à comunicação no Brasil, assim como o objeto/ mercadoria/ instrumento.
princípio das primeiras intervenções do meio aca-
dêmico brasileiro com estudos inicialmente nas á-
reas de ciências sociais e humanas, e mais tarde Estruturalismo
nas escolas de comunicação.
Segundo Habermas, se a razão técnica não ha-
Nesse período, os modelos importados para a via dado respostas ao processo de dominação, de-
comunicação estavam situados em dois paradigmas ver-se-ia buscar outra forma de uso da razão, a
básicos: o positivista e o marxista, razão pela qual razão comunicativa (teoria da ação comunicativa).
não permitiram uma produção nacional mais autô-
noma. O sujeito, sendo deslocado do homem para a
estrutura, gerava o sujeito como “estrutura estrutu-
rante”, trazendo a necessidade de estudos sobre
Modelo norte-americano funcionalista esse sujeito, seu funcionamento, sua linguagem e
de análise da comunicação seus códigos, cujos desdobramentos se tornaram
fundamentais para o pós-modernismo e para os
O modelo norte-americano funcionalista de aná- pensadores do pós-68.
lise em comunicação, que surge com a expansão
das agências norte-americanas de publicidade e Na produção teórica e empírica em comunica-
dos institutos de pesquisa e opinião pública e se ção, entre os anos 50 e 80, percebe-se o movimen-
sustentava no trabalho com o indivíduo, e não com to pendular entre o individual e o social, e a decor-
a massa, porém recusa a análise das causas soci- rente dificuldade em identificar o receptor nesse
ais em nível estrutural, preservando e sustentando a processo, pois não se abdicou do social nem se
lógica do sistema sócio-econômico de produção. resgatou o receptor como indivíduo.

Bibliografia para Língua Portuguesa 125


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Neste contexto, foi inevitável surgirem crises, O descompasso entre o conhecimento epistemo-
rupturas e buscas de alternativas. lógico, as posturas teórico-metodológicas e as práti-
cas de vida geram desdobramentos.
Pós-modernismo
Na esfera teórica, a explicação da sociedade
Sob a ótica pós-moderna, o receptor é por um atual passa pela primazia da razão ou por uma nova
lado sujeito-indivíduo – que desbrava a si mesmo, e lógica, ligada à sensibilidade. Da mesma forma,
por outro sujeito-social, ou seja, o consumidor soci- passam por dificuldades as questões ligadas ao
al. papel da comunicação na vida social. Portanto, não
se pode falar de um conhecimento contínuo e linear
Trata-se de uma visão focada na negação dos nessa área de estudo, mas de pistas sobre as ques-
parâmetros que sustentavam teorias generalizantes tões em curso.
e marcoexplicativas, como o marxismo e a psicaná-
lise freudiana. Na esfera da ideologia e da cultura, está a reto-
mada do estudo sobre o sujeito, na admissão da
Embora não se constituíram como um grupo de pluralidade e da diversidade de lógicas, que seguem
estudiosos ou uma corrente de pensamento, alguns práticas específicas e remetem a novas interpreta-
autores se destacam por suas contribuições ao es- ções.
tudo das novas práticas contemporâneas. São os
pensadores que constituíram o movimento pós-68, A partir destas últimas correntes, o receptor co-
entre os quais Souza destaca: meça a ser visto como em situações e condições, e
cada vez mais a comunicação busca na cultura a
- Touraine – trabalha os movimentos sociais como forma de compreendê-lo.
formas mediadoras do encontro do homem como
ator social; É o fim da rígida concepção de lógica social sis-
têmica que fazia da cultura uma entidade macro,
- Maffesoli – destaca o lugar crescente das novas pouco explicativa no reconhecimento de práticas
tribos urbanas na definição do tempo presente; empíricas.

- Bourdieu – pesquisa como as desigualdades so- Volta-se ao estudo do sujeito, em especial na


ciais se reproduzem na cultura; América Latina, analisando-se as culturas populares
em sua interação com a cultura de massa.
- Deleuze – coloca a filosofia na costura dos frag-
mentos que fazem a diferença da linguagem do Dessa forma, é possível perceber que não existe
homem moderno; mais um cenário único de Terceiro Mundo, possível
de ser compreendido apenas sob a ótica de uma
- Foucault – escava nos fundamentos científicos da lógica global, pois existem realmente diversos Ter-
história do pensamento social as bases do saber ceiros Mundos. Uma análise apenas sob a ótica do
que se constrói nas micro-unidades da vida social; mercado também se mostra falha, pela ampliação
da sociedade de serviços e pelos espaços ocupa-
- Guttari – inter-relaciona psicanálise e tecnologia dos pelos movimentos sociais, políticos e religiosos,
como eixos explicativos das formas contemporâ- que criam novos agentes sociais advindos não so-
neas do desejo. mente da estrutura de mercado, mas também de
outras práticas de vida.
Essas várias tendências, bem diferentes entre si,
em geral, apresenta as seguintes considerações em Esses desenvolvimentos chegariam à própria
comum: comunicação, vista agora não como veículos, mas
no processo em que os veículos atuam o que dá a
- são voltadas para o espaço do cotidiano de pes- essa comunicação um lugar social, de parceiro da
soas e grupos sociais; vida. Uma forma de captar também o que foge à
expressão do lógico; o que, na sociedade excede à
- lidam com a fragmentação da vida social e indivi- ordem da razão institucional.
dual;
Os meios não existem isolados, nem as pessoas
- buscam capturar as contradições, desigualdades se expõem a eles isoladamente: compõem uma
de diferenças sociais; prática conjugada. A intermídia está tanto na esfera
da produção quanto na do consumo.
- pesquisam os condicionantes da relação do sujeito
com o mundo moderno, admitindo a interdisciplina- É preciso reconhecer a diversidade de gêneros,
ridade como caminho. linguagens e formatos presentes na interação entre
a produção e o consumo, é preciso identificar o
Uma terceira vertente, a do marxista Antonio mundo das imagens estáticas, como a imprensa
Gramsci, vai investigar a negociação e o exercício escrita, trabalhadas por analogia, no caso dos rá-
do poder político nas modernas sociedades, desta- dios e dos discos, imagens em movimento ou ainda
cando os interlocutores do processo de negociação a interação entre imagem, escrita e eletrônica.
política nas classes sociais e identificando os espa-
ços dessa negociação, redirecionando a relação É preciso pensar a tecnologia não somente como
entre ideologia e cultura. Além disso, buscam no fonte de informações, mas também como aquela
âmbito da comunicação os condicionantes do sujei- que sugere velocidade, está na vida das pessoas e
to, as mediações que vão além do determinismo na maneira de ser do mundo e das coisas.
entre emissor e receptor, sujeito e objeto.

126 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Dessa forma, a comunicação deixa de ser ape- Para Martín-Barbero, os países latino-
nas representação e se torna interação enquanto americanos vivem com muita freqüência movimen-
componente do processo social. tos pendulares, esquecendo muito rapidamente tudo
que se recuperou em determinado momento e às
A partir da consideração de novas formas de vezes até a complexidade de nossa sociedade. É
subjetivação no meio social, surge um novo prisma um dos pioneiros no tema da recepção em comuni-
de estudo: cação.

- Cotidiano: a comunicação e a cultura vivem no Para ele, a recepção não é só uma etapa no
mundo plural das práticas cotidianas, nos modos de interior do processo de comunicação, mas um de
viver e fazer. Como as pessoas encontram elos rever e repensar os estudos e a pesquisa em comu-
para relacionar-se consigo mesmas, como se vêem nicação, o processo inteiro da comunicação.
a si mesmas e como constroem sua identidade de
sujeito. Significa, portanto, explodir o modelo mecânico,
hegemônico atualmente nos estudos da comunica-
- Popular: elaboração e reelaboração das práticas ção onde não há verdadeiros atores nem intercâm-
sociais e dos conteúdos da comunicação de massa. bios. Neste contexto, comunicar é fazer chegar a
Como trabalhar com a subjetividade numa socieda- informação, onde a recepção é o ponto de chegada
de em que o indivíduo já não existe mais, é simula- daquilo que já está concluído.
cro de si mesmo?
Esta concepção epistemológica condutista está
- Meios de comunicação: espaços de processos centrada no emissor, enquanto ao receptor caberia
de construção de valores grupais, não apenas como apenas reagir aos estímulos do emissor. Esta con-
expressão do sentido dado pelo produtor ou recep- cepção está intimamente relacionada a outra, a
tor, mas no processo em que ocorre. Enfim, a satu- iluminista, onde educação era a transmissão de
ração dos meios de comunicação e de informação conhecimento para que nada sabia.
nos dias atuais não levaria à impossibilidade de
construção da subjetividade, que pode vir a ser uma O receptor era um depósito vazio que receberia
“subjetividade saturada”? conhecimentos originados e produzidos em outro
lugar. Segundo o autor, dos anos 60 até pouco tem-
O caminho dos estudos de comunicação, princi- po atrás, o que percebemos na AL é a contradição
palmente nos países da América Latina, está dei- entre dois elementos: a politização absoluta da aná-
xando um pouco de lado suas vinculações com a lise das mensagens e a despolitização, a dissocia-
sociologia e a política, e se ocupando das ligações ção do receptor que é pensado apenas individual-
dessa comunicação com o mundo plural das práti- mente.
cas culturais cotidianas, mas não somente na busca
das significações e usos sociais e sim com uma O receptor não é vítima manipulada como quer a
visão de cultura, de como a comunicação pode ser visão de crítica social de esquerda, que vê o domi-
vista com base nessas práticas. Os meios de comu- nador politicamente, mas vê o receptor individual-
nicação são, na verdade, o lugar onde a sociedade mente, isoladamente.
é simbolizada, por um lado ela é refletida, e por
outro são apresentados aos sujeitos os padrões e Esta contradição, este descompasso configura-
as possibilidades de ser. se, segundo Barbero, no ângulo novo por onde de-
vemos rever e repensar o processo da comunicação
O termo “recepção” em si se torna insuficiente, em nossos países, culturas e sociedades.
pois traduz visões de um sujeito que, em determi-
nado momento, é tido como “receptor” e em outros Mediações da recepção:
como “construtor” e “colaborador” das mensagens.
- A heterogeneidade da temporalidade. Requer a-
A ruptura da trajetória generalizadora para uma tenção às temporalidades diferentes de cada grupo
percepção mais ligada ao processo, na qual o sujei- dentro de uma mesma sociedade, em um mesmo
to começou a ser “visto”, surgiu a partir do momento país, em uma mesma região.
em que a visão do sujeito-objeto passou a não fun-
cionar mais, pois os desejos desses sujeitos se - As fragmentações sociais e culturais: o que faz
tornaram o ponto de mudança nesse olhar que pas- com que as pessoas se juntem e se reconheçam ou
sou a admitir vários ângulos, visualizando tanto o não? Aqui, significando as tradicionais e estruturais
sujeito/indivíduo como suas relações. Segundo Mar- divisões sociais. Ex: divisão entre a informação e a
tin-Barbero, “o emissor e o receptor se situam (...) cultura dirigidas para os que tomam decisões na
não tanto com relação a um canal, a um meio, po- sociedade e a informação e a cultura dirigida às
rém em relação a necessidades e problemas”. massas. Essa divisão reforça a divisão entre os que
detêm o poder e a imensa maioria a quem os meios
AMÉRICA LATINA E OS ANOS RECENTES: de comunicação se dirigem.
o estudo da recepção em comunicação social
JESÚS MARTÍN-BARBERO - Um novo organizador perceptivo, um reorganiza-
dor das experiências sociais: os diferentes sensori-
Jesús Martín-Barbero é um dos mais instigantes um: elite x popular, sexo, idade, público x privado,
pesquisadores latino-americanos da atualidade. etc.
Seus trabalhos versam sobre o fenômeno da comu-
nicação massiva, embora ele se dedique a outras Os valores de nossa sociedade estão sendo
questões como a configuração das cidades e a e- refragmentados e rearticulados.
mergência dos novos sujeitos sociais.

Bibliografia para Língua Portuguesa 127


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Exclusões culturais: Concluindo, Jesús Martín-Barbero diz que “o
gênero é hoje lugar-chave da relação entre matrizes
De acordo com o autor, não se pode estudar a e formatos industriais e comerciais. (...) O Gênero é
recepção nem observar a comunicação com base lugar de osmose, de fusão e de continuidades histó-
na recepção sem analisar o processo de exclusão ricas, mas também de grandes rupturas, de grandes
cultural, ou seja, a desqualificação e a deslegitima- descontinuidades entre essas matrizes culturais,
ção, destacando: narrativas, gestuais, estenográficas, dramáticas,
poéticas em geral, e os formatos comerciais, os
- Desqualificação do gosto popular como “mau gos- formatos de produção industrial”.
to”.

- Deslegitimação da cultura dos gêneros narrativos RECEPÇÃO: PESQUISA INTERDISCIPLINAR,


como “pobre”. INCIPIENTE E POLÊMICA

- Deslegitimação dos modos populares de recepção GÊNEROS FICCIONAIS:


mais afetivos e expressivos. materialidade, cotidiano, imaginário
SILVIA HELENA SIMÕES BORELLI
Artifícios e tentações
O texto apresentado de Silvia Helena Simões
Segundo Martín-Barbero, o estudo da recepção Borelli fala dos gêneros e da facilidade que estes
está atualmente ameaçado pela crença no slogan trazem tanto para a produção quanto para a recep-
publicitário de que o consumidor é quem tem a pa- ção. Para a autora, os gêneros funcionam como
lavra. Essa idéia é falsa. Acredita-se que o poder de possíveis indutores de “pré-leitura”, ou seja, eles
decisão é dele: ele decide o que vê, o que lê e o resgatam a memória e o leitor, a partir de conheci-
que escuta. Entretanto, ele não detém o poder so- mentos que este já possui.
bre a produção do que ele consome. Portanto, de-
pende do que ele consome e também de como ele Para ela, a análise dos gêneros ficcionais deve
consome. Não se faz boa comida com ingredientes ser entendida como um momento mais geral de
ruins. Para democratizar os meios de comunicação, reflexão sobre manifestações de massa e produtos
é preciso descer do pedestal intelectual e fazer pes- culturais industrializados, sobre a forma como eles
quisas para dar forma às demandas sociais. Mas foram produzidos em seus respectivos campos e
sem achar que o receptor, já que ativo, pode fazer distribuídos e consumidos no interior da sociedade.
coisas boas de qualquer “lixo” que lhe for oferecido. A autora faz um estudo sobre as diferentes interpre-
Por fim, o autor aponta as chaves da trama concei- tações sobre o significado dos gêneros, ressaltando
tual de onde investigar a recepção: que no campo literário o próprio conceito desperta
dissensos, controvérsias e divide opiniões. A noção
- Estudos da vida cotidiana, local onde os atores de gênero como agrupamento de obras literárias
sociais se fazem visíveis do trabalho ao sonho, da segundo uma classe e subordinado à estética, oca-
ciência ao jogo. Aqui reside o grande desafio: que sionaria uma limitação no espaço, segundo alguns
papel exerce a práxis cotidiana na comunicação? A autores.
vida cotidiana é espaço de reconhecimentos soci-
almente importantes? Nos espaços audiovisuais, a reflexão sobre gê-
neros permite interpretações variadas.
- Estudos sobre o consumo:
- consumo como prática de apropriação dos A transposição de uma obra literária para o ci-
produtos sociais; nema e a televisão, mesmo que no processo man-
tenham suas características globais, se apropriam
- consumo como lugar da distinção simbólica, de algumas das características da linguagem dos
por meio do que consumimos materialmente e portadores utilizados.
dos modos de consumir: lugar de diferenciação
social, de demarcação das diferenças, de dis- Portanto, no campo audiovisual, gênero é uma
tinções, de afirmação da distinção simbólica; categoria abrangente capaz de classificar uma série
bem diversificada de elementos e servir como elo
- consumo como sistema de integração e de dos diferentes momentos da cadeia que une espaço
comunicação de sentidos; de produção, anseios dos produtores culturais e do
receptor: verdadeiros modelos culturais.
- consumo como cenário de objetivação de de-
sejos; Os gêneros ainda podem ser percebidos como
“construções ideológicas” indutoras de uma “pré-
- consumo como lugar de processo ritual se- leitura” que restringe a livre atribuição de significa-
gundo os diferentes atores sociais, grupos, dos por parte da “comunidade interpretante”.
classes, etnias e gerações.
Nesta concepção, os gêneros são instituições
- Estudos sobre estética e semiótica da leitura: a com função de caráter ideológico, construindo signi-
leitura como interação. ficações e subjetividade capaz de relacionar “arte e
sistema”.
- História social e cultural dos gêneros artísti-
cos/narrativos. O gênero não é algo que passa ao Podem, também, ser entendidos como “estraté-
texto, mas que passa pelo texto. Não é só uma es- gias de comunicabilidade”, “fato cultural” e “modelo
tratégia de produção e de escrita, mas uma estraté- dinâmico” articulados às dimensões históricas de
gia de leitura. espaço onde são produzidos e apropriados.

128 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Possuem, na mesma matriz cultural, referenciais Assim as dificuldades enfrentadas na transmis-
comuns tanto a emissores e produtores como ao são tanto dos teleteatros como das telenovelas e-
público receptor. ram as mesmas. Porém, os primeiros exigiam mais
ensaios, quantidades de meios técnicos e disponibi-
Segundo a autora, o padrão dos produtos cultu- lidade de pessoas para o mesmo programa.
rais industrializados pressupõe, além dos gêneros
ficcionais, outros padrões específicos: tecnológicos, Assim, na evolução da ficção na televisão brasi-
de produção, distribuição, gerenciamento burocráti- leira aglutinaram-se dois fatores, sendo o primeiro, o
co-administrativo das industriais culturais. elemento dramatúrgico exercendo papel fundamen-
tal na relação do público, como aconteceu com o
Outra questão que se coloca diz respeito às al- folhetim na ampliação e formação do público leitor
ternativas de renovação ou de esgotamento. Neste do jornal no século XVIII. O segundo fator diz res-
contexto, os gêneros são modelos dinâmicos, com peito às especificidades do próprio meio televisivo:
estruturas variadas resultantes da conexão entre um as dimensões da telinha, seu lugar de prestígio em
ou mais gêneros, entre formas ou através da intro- meio à vida das pessoas pediam produtos formata-
dução de novos elementos. dos com apelo intenso, curta duração e cujo tom
indicasse proximidade com o telespectador, como
Alguns fatores de contextualização influenciam acontece com as novelas em capítulos.
no direcionamento e dinamicidade dos gêneros. O
gênero telenovela, fundamental para a consolidação Mesmo apesar das dificuldades, esses dois fato-
da televisão no Brasil, iniciou de maneira melodra- res determinaram a exigência de se criar uma lin-
mática nos anos 50 e 60, passando, progressiva- guagem específica e original para o veículo. Tam-
mente a responder às necessidades de uma socie- bém com relação à temática e à interpretação, fo-
dade que se moderniza e respondeu pela ampliação ram tratadas segundo as dimensões características
do mercado de bens simbólicos, aumento do con- da telinha, a proximidade com o receptor e a inser-
sumo de aparelhos de televisão, modernização das ção no núcleo familiar.
técnicas de estruturação empresarial e desenvolvi-
mento tecnológico, entre outros. A telenovela, neste contexto, surge com um for-
mato de dramaturgia próprio para atender, agradar
Por último, a autora cita que com relação à re- ao público e garantir o sucesso.
ceptação, as preocupações giram em torno da aná-
lise de quem é esse receptor, como se processa a No início, o número de personagens era bem
produção de seu universo simbólico e quais são as pequeno e apesar da incorporação das característi-
especificidades da cultura popular em suas condi- cas do folhetim não desenvolvia tramas paralelas.
ções de uso e relações com a cultura de massa.
Os produtores não se contentavam com os s-
cripts importados e fórmulas prontas e sentiram a
A TELENOVELA AO VIVO – necessidade de adaptações. Ao trabalhar a sua
MARTA MARIA KLAGSBRUNN própria linguagem, a telenovela brasileira lança uma
expressão própria e diferenciada para a ficção po-
No texto A telenovela ao vivo, Marta Maria pular.
Klagsbrunn fala do desenvolvimento da televisão
enquanto tecnologia e como novo aporte de estudos Assim, na constante busca da qualidade e cen-
da recepção. Diz que a partir de 1963, a utilização trada na estrutura do folhetim em capítulos, aberta a
do videoteipe na produção das novelas brasileiras experimentos e inovações aprimora uma linguagem
transformou a concepção desse produto cultural específica para o produto televisivo, conjugando
consumido por grande maioria da população. (A linguagem, temas universais com aspectos do coti-
morte sem espelho, de Nelson Rodrigues, pela TV diano brasileiro, tanto nos temas como na forma de
Rio e 205499, ocupado em São Paulo, pela TV Ex- representação.
celsior).
A televisão concedia prestigio social à família: a
A princípio, com o slogan “o rádio com imagem”, casa era o centro de convivência familiar que se
a televisão foi introduzida no país na década de 50 ampliou com a incorporação da vizinhança, pois seu
e a partir daí assumiu um papel social tanto dentro público-alvo incluía os televizinhos.
do espaço doméstico como objeto conotativo de
status social ao proprietário e canalizando para suas A crítica era feita pelo público diretamente às
residências um público específico, os televizinhos. revistas especializadas em televisão. Denotam que
No princípio, a televisão era feita “em direto”, ao o público participava ativamente do processo de
vivo, o que colocava uma responsabilidade muito desenvolvimento do meio, exercendo o papel de
maior sobre o desempenho dos profissionais: “errou crítico com o objetivo de modificar tanto em termos
ficou errado”. A improvisação dava o tom daqueles de programação, de técnica, de escolha de atores,
tempos: “aprender fazendo”. O objetivo era dominar cenários, etc.
a técnica e conquistar o público.
O público do novo veículo se situava nas classes
O teatro televisivo era o produto nobre de maior A e B e somente depois incorporou o público do
prestígio, apresentando obras de peso universal em rádio, representado pelas camadas populares.
geral de conhecimento do público.
Dessa forma, a telenovela, assim com o folhetim
Em todos os programas ao vivo, o tempo da no século XVIII, liderou e consolidou a televisão
emissão/atuação e o da recepção era o mesmo. como veículo de comunicação de massa no Brasil.

Bibliografia para Língua Portuguesa 129


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
COMPORTAMENTO E RECALL NA AUDIÊNCIA I) audiência completa:13%; II) audiência
DE TV compartilhada: 22%; III) audiência não
ANTONIO MANUEL TEIXEIRA MENDES uniforme: 3%; IV) afastamento do vídeo:
55%; V) mudança de canal: 7%
Qualificação Os homens ficam mais tempo diante da
Partindo da análise do desenvolvimento da tele- da audiência TV nos intervalos, mas dividem a atenção
visão enquanto tecnologia e como novo veículo de nos com outra atividade. Nos intervalos inse-
recepção, o texto de Antônio Manuel Teixeira Men- intervalos ridos nos programas, a atenção é maior.
des tece uma análise sobre o comportamento do 22% dos expectadores vêem TV conco-
receptor, tanto diante da programação quanto dos mitantemente a outra atividade sendo
comerciais inter-programação. mais freqüente a conversa, porém varia
de acordo com cada faixa de horário e
idade. O controle remoto impacta nos
Apresenta duas pesquisas que não apontam hábitos do telespectador.
grandes divergências na audiência, contudo apre- 74 % não se lembrou do último co-
senta diferenças em relação ao tempo de exposição mercial apresentado. As taxas de
diante da tevê e a penetração de cada gênero de lembrança das marcas são ainda
programa conforme o público estudado. menores não havendo diferença en-
tre homens e mulheres e diminuem
ainda entre os mais jovens. Quem
Para o autor, é possível que a disputa por audi- Lembrança possui controle remoto lembra menos
ência nos próximos anos se intensifique entre as dos dos comercias e marcas de produtos.
redes de TV, principalmente entre os consumidores comerciais As taxas são similares quanto à lem-
urbanos de alta renda (que consomem outros pro- brança se os comerciais são simila-
dutos: filmes, videocassete (DVD), jogos eletrôni- res nos diferentes horários. A proba-
cos, controle remoto, etc.). bilidade de lembrança de um comer-
cial é maior quando o programa é
mais longo ou está inserido no meio
Apresentação das pesquisas do programa, sendo bem menor nos
intervalos entre programas.
Primeira pesquisa: realizada em 18/05/1990 sobre
hábitos de audiência, tempo médio de exposição à
TV, conhecimento da programação, comportamento RECEPÇÃO: PESQUISA INTERDISCIPLINAR,
nos intervalos comerciais, etc., com 1080 telespec- INCIPIENTE E POLÊMICA
tadores da cidade de São Paulo.
ETNOGRAFIA DE AUDIÊNCIA:
UMA DISCUSSÃO METODOLÓGICA
Segunda pesquisa: realizada entre 19 e ONDINA FACHEL LEAL
20/05/1990 com o objetivo de detectar o comporta-
mento dos telespectadores que assistiam à progra- No texto, “Etnografia de audiência: uma discus-
mação durante os intervalos comerciais, nível de são metodológica”, Ondina Fachel Leal, antropóloga
atenção, lembrança de comerciais, recall de marcas de formação, disserta sobre os métodos de pesqui-
de produtos, etc. envolvendo 494 telespectadores sa para um estudo de recepção na análise do im-
residentes em áreas nobres da cidade de São Pau- pacto social da novela das oito. As mediações com
lo, por telefone (pesquisa flagrante). fundamentos teóricos são cruciais para a análise da
interpretação da mensagem recebida pelo telespec-
tador.

Mais de 3h00 em média e 3h45 aos do- Segundo ela, esse produto é aberto aos estudos
mingos: 20% do tempo em que a pessoa de recepção por que a mesma mensagem é decodi-
permanece acordada. As mulheres ficam ficada por grupos diferentes, “negociação do signifi-
mais 20’. Os mais jovens se expõem cado”.
Exposição à mais à TV. Quanto a escolaridade, os de
TV nível universitário se expõem menos que Ela busca empreender uma discussão metodoló-
os de nível médio, assim como é menor a gica a respeito dos estudos de etnografia da audi-
exposição daqueles com renda familiar
mais alta. ência em relação à recepção da telenovela.
Em todas as classes, o tempo de exposi-
ção aumenta nos fins de semana. A autora diz que é o olhar antropológico que
51% demonstraram conhecimento (22% conduz o direcionamento de sua análise sobre o
conhecimento baixo e 27% alto conheci- objeto, no caso, a telenovela: “eu não sou da comu-
Índice de mento). As mulheres atingiram nível mé- nicação, mas a tenho como objeto”.
conheci- dio de conhecimento maior que os ho-
mento da mens. Os mais idosos (com mais de 41 Assim sendo, embora seja um estudo de comu-
programa- anos) conhecem menos a programação nicação, é também um exercício antropológico e
ção que os mais jovens e apesar de menos
exposto à TV os mais escolarizados es- etnográfico. Sua base de discussão é o diário de
tão mais informados que os outros. campo, feito sistematicamente no curso dos traba-
TV com controle remoto: 66 % entre os lhos, segundo ela o instrumento ideal para esse tipo
Audiência mais abastados possuem, contra 33% de estudo.
nos interva- dos de todas as outras sociais. 55 % dos
los comerci- telespectadores ficaram vendo os comer- Escolhe a novela das “oito”, telenovela do horário
ais (pesqui- ciais e quanto mais jovens, a tendência é nobre da Globo, justificando sua escolha em função
sa flagrante) permanecer menos diante da TV durante do grande número de audiência que esta telenovela
os comerciais. possui.
130 Bibliografia para Língua Portuguesa
Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Segundo dados da autora, 50 milhões de pesso- Enfocando a narrativa da telenovela, a autora
as assistem à telenovela por dia. Sua intenção pri- tece considerações sobre a fórmula do mito, familiar
meira com a análise de campo é observar como tal ao antropólogo: o mito tem relação com a crença.
telenovela é entendida, decodificada, vivenciada por
grupos diferenciados de pessoas. Assim, o que é apresentado pela mídia passa
por um filtro que leva em conta o contexto social e
A delimitação do objeto se dá a partir da classe doméstico de envolvimento dos receptores acerca
social. O local escolhido para a pesquisa de campo do mito apresentado.
é um boteco, muito embora sua intenção inicial seja
observar a recepção da telenovela por uma classe Concluindo, na análise dos dados fornecidos no
social, de forma secundária, ela deseja obter alguns diário de campo, a autora evidencia sua angústia
dados particulares, através da audiência masculina em perceber as pistas encontradas em sua pesqui-
da telenovela. sa: a pertinência de um receptor ativo no processo
de codificação e decodificação da mensagem midiá-
Na escolha do recorte pela classe social, por tica é desconsiderada por uma comunidade acadê-
exemplo, Fachel se encontra com um problema de mica da comunicação e a literatura disponível nesse
ordem metodológica que é: “se o receptor é neces- meio que não tratam dessa questão.
sariamente segmentado, torna central toda a pro-
blemática metodológica de investigação a respeito Isso revela seu entendimento dos estudos de
de a recepção dar conta dessa segmentação.” comunicação tradicionais, que desconsideram a
questão da recepção em comunicação e, através do
Ondina Fachel fala, em seu texto, como se pro- desenvolvimento da pesquisa etnográfica, ela pre-
cessou a escolha de parâmetros e pressupostos tende comprovar sua hipótese contrária a essa idéia
que orientaram sua pesquisa. tradicional.

A partir da definição da classe social como pa-


râmetro básico para a análise, outras questões com A DECODIFICAÇÃO DO DISCURSO ADULTO DA
relação ao seu estudo sobre a recepção da teleno- TELEVISÃO PELO PÚBLICO INFANTIL
vela vão surgindo. Dessa forma, é possível fazer ROSELI STIER AZAMBUJA
proposições a respeito desse tema, promover inter-
pretações e entender certos sentidos implícitos no
universo do objeto analisado. Roseli Stier Azambuja fala em seu texto da audi-
ência infantil de produtos desenvolvidos para o pú-
Três procedimentos metodológicos foram utiliza- blico adulto, além de falar da recepção da criança e
dos para o empreendimento de sua investigação. da necessidade de que o conteúdo tenha caracterís-
ticas de verdade para que ela o aceite.
Primeiro, a escolha de parâmetros relativizado-
res, para nortear o cruzamento dos dados apresen- Segundo a autora, é necessário entender como a
tados. criança decodifica o discurso adulto da TV uma vez
que ela passa muito tempo em frente à TV.
O segundo foi fazer uma etnografia da audiência
e não da recepção em si, já que o termo recepção Dados de pesquisas apontam que:
abrange um universo bem mais amplo, enquanto a
audiência é considerada a partir de um evento es- - Não há diferenças significativas em termos de
pecífico. sexo, idade e classe social: crianças assistem em
média 4 horas/dia.
O terceiro ponto foi o que se considera na antro-
pologia como ‘evento de fala’, ou seja, analisar a - Embora seja a atividade mais freqüente, não é a
partir do gestual, dos comentários, das intervenções preferida, para elas, ver TV é a atividade para mo-
ou não feitas pelos receptores/audiência no momen- mentos em que estão dentro de casa, e elas vêem
to da situação receptiva. mais em dias frios e de chuva.

Um último procedimento da autora foi a análise - A TV é companhia preferida nos momentos de


da experiência de recontar a novela. solidão, sendo que os meninos, quando sozinhos
gostam mais de ver TV que as meninas. Estas gos-
Ela fundamenta seu presente trabalho com a tam tanto de ver TV quanto de ouvir música.
categoria de cultura a partir das idéias propostas por
Geertz. - Os pais interferem pouco sobre o tempo de ex-
posição da criança à TV. Aumenta um pouco em
Para justificar a escolha de um objeto da comu- relação ao tipo de programa assistido. Esse controle
nicação, ela parte da noção de cultura como um é exercido proporcionalmente à idade da criança: os
sistema de significados que transforma em secun- menores e as meninas são mais controlados, espe-
dária a questão de quem é o produtor legítimo de cialmente sobre cenas de terror e sexo muito mais
um bem cultural, pondo em evidência assim as rela- do que sobre cenas de violência, tiros, brigas, ex-
ções do consumo cultural e não da produção. plosões, etc.

Do ponto de vista da antropologia, ela considera - A TV opõe e ratifica, aos olhos infantis, uma
a televisão e a telenovela são objetos fundamentais ação masculina (que envolve força) a uma expres-
do espaço doméstico sendo essa característica são feminina (à base de sensibilidade e comunicabi-
essencial para o fazer etnográfico. lidade).

Bibliografia para Língua Portuguesa 131


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
- A forma como a criança decodifica o discurso Está detonada a guerra por audiência mais feroz
adulto na TV é muito afetada pela decodificação do da história da televisão brasileira.
discurso dos pais. Segundo a autora, mães passi-
vas em relação às propagandas de TV estimulam os A Globo permaneceu na liderança absoluta por
filhos a uma alta predisposição ao consumo. mais de vinte anos, exceto por momentos pontuais
(Dona Beija – Manchete e Pássaros Feridos – SBT),
Segundo a autora, a recepção infantil do mundo com os maiores índices de audiência da história.
da televisão indica que diante desta não existe ape-
nas um receptor infantil, mas uma célula familiar Sua fórmula consistia num mosaico de progra-
que afeta todas as condições de recepção. mação que mantém ofertas e formatos e gêneros
que quase não se modificaram no decorrer dos a-
Contra a TV, é dito que o contínuo de imagens nos: novela das seis, novela das sete, Jornal Nacio-
seguidas – novela seguida de noticiário, noticiário nal, novelas das oito. Cada novela destinava-se a
seguido de novela, etc. – confunde as crianças e um público específico:
elas constroem imagens desconexas por isso. Pes-
quisas mostram que a criança decodifica essa gama A novela das seis era direcionada a jovens, ido-
de imagens, aparentemente desarticuladas, segun- sos e donas de casa que presumivelmente não tra-
do uma lógica própria. Notícia, por exemplo, sinaliza balhavam fora, trama água com açúcar em doses
a predominância da “má-notícia”. homeopáticas em que as questões amorosas preva-
leciam sobre as sociais.
A análise do discurso publicitário reforça e/ou
ilustra pontos dessa lógica infantil, pois as crianças, A novela das sete jogava com outras linguagens
sobretudo as menores, tendem a interpretações e gêneros, alguns previamente adaptados para a TV
literais, mas lidam muito bem com simbolismos que sempre com o tempero do humor.
sejam de fácil compreensão e que sejam intrínsecos
e adequados àquilo que determinada propaganda A novela das oito direcionava-se ao público adul-
está querendo comunicar.A criança precisa de men- to, trazia temas mais fortes e polêmicos. Neste ho-
sagens claras e enredos pertinentes. Ela é crítica: o rário, não só o aspecto temático era tratado de for-
qu e não é verdadeiro, ela rejeita. ma mais contundente como os conflitos entre as
personagens eram abordados de forma mais densa
Segundo a autora, outros pontos importantes: e mais realista. Por exemplo, somente personagens
de segundo escalão eram punidas, a maioria de
- A criança gosta de informação; ricos corruptos escapa ilesa. Em linhas gerais, esse
- A criança gosta de se divertir à custa do mundo era o mosaico da Globo quando Pantanal entra e
dos adultos; abala sua liderança.
- A criança gosta do produto ou da propaganda
que a faça sentir-se mais velha. Como e por que a Manchete consegue tal proe-
za?
Enfim, a criança gosta do discurso adulto, na TV
ou não, capaz de respeitá-la como ela é. Disputavam a liderança Globo, Manchete e SBT.
A guerra pela audiência no horário gerava cenas de
“Tem gente que trata a gente como gente gran- violência e sexualidade exacerbadas para a época e
de. Eu gosto de ser tratada como criança. Por- Pantanal veio como um alento para abrandar o es-
que é verdade.” (Daniela – 9 anos) tado das “coisas na telinha”. Para retomar a audiên-
cia, a Globo mudou várias vezes sua programação,
convocou seus profissionais de maior gabarito, (Ra-
MINHA TERRA TEM PANTANAL inha da Sucata não emplacou como deveria), criou
ONDE CANTA O TUIUIÚ... novidades de última hora, filmes de violência e a
A GUERRA DE AUDIÊNCIA NA TV BRASILEIRA nudez parcial de Claudia Raia não altera a situação
NO INÍCIO DOS ANOS 90 junto ao Ibope.
ANA MARIA BELOGH
Enquanto isso, a Manchete, com o slogan “O
Neste texto, Ana Maria Belogh faz uma análise Brasil que o Brasil não conhece passa pela Manche-
da novela Pantanal com relação a outros produtos te” continuava na liderança do horário nobre e pre-
midiáticos da época. A autora credita as causas do para o telespectador para sua futura novela de fic-
sucesso da novela Pantanal, em detrimento da re- ção (Ana Raio e Zé Trovão).
paginação que os outros canais fizeram para atrair o
público, às inovações nos elementos narrativos e Considerada do ponto de vista narrativo, Panta-
discursivos, na abordagem da temporalidade da nal contrapõe um processo brutal de degradação
saga, no enredo, na locação, nos recursos técnico- com outro de melhoria. Ao contar a história da famí-
expressivos empregados e na seleção de atores, lia de José Leôncio e as das famílias com as quais
entre outros. ela se relaciona em três gerações sucessivas, se-
gue uma tendência da época (Os Waltons, Bonan-
Fazendo uma análise bem detalhada, a autora za, Dinastia e Dallas).
descreve o sucesso da novela Pantanal (1990, TV
Manchete, 21h30), escrita por Benedito Ruy Barbo- A novela traz o realismo mágico (Maria e Juma
sa e dirigida por Jayme Monjardim, que resgata as Marruá transformam-se em onças, Xeréu Trindade
paisagens incríveis, a beleza bucólica e idílica do tem pacto com o Cramulhão, o Velho do Rio trans-
Pantanal Mato-grossense, tudo filmado num plano forma-se em sucuri), os contadores de causos e os
cinematográfico que encantados abandonam o SBT violeiros cantores de modinha (Sergio Reis e Almir
e a Globo, após anos de hegemonia da segunda. Satter).

132 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Traz também um elenco de experientes atores A identidade cultural desempenha papel funda-
(Claudio Marzo, Jussara Freire e Ângela Leal), jo- mental entre sujeito, indivíduo e sociedade; ela dife-
vens e alguns desconhecidos carismáticos e que rencia o ser que apenas está diante da oferta e a-
deram certo (Cristiana de Oliveira, Paulo Gorgulho). quele que atua no produto que recebe da mídia.
Pantanal cria ainda um micro universo paralelo: a
volta do paraíso perdido e o mito do bom selvagem. Cultura Regional, questão de mediação
A exploração do espaço amplo, belo e exótico do
Pantanal, as tomadas aéreas cinematográficas, os A estratégia das grandes redes de TV pretende
amanheceres e entardeceres, enfim, a superstar de entrar no mercado nacional através da regionaliza-
Pantanal é a própria natureza, sua fauna, sua flora. ção: produção descentralizada ou emissão de cará-
O tratamento da temporalidade também se diversifi- ter regional. O foco coloca nas mãos da indústria
ca. A primeira fase da novela, nos anos 40, ocorre cultural um projeto cultural ligado às manifestações
no Paraná e corresponde às lutas pela terra por específicas de cada região.
parte dos posseiros a degradação de Gil e Maria
Marruá. A edição é rápida. Para Jacks, o foco no cotidiano regional amplia
as possibilidades de compreensão das inúmeras
A segunda parte da novela se passa nos anos condições de recepção a que estão sujeitas as
90, retrata a melhoria de José Leôncio e corre lenta mensagens massificadas, acrescentando às dife-
à moda do Pantanal, contrapondo-se ao ritmo frené- renças socioculturais determinadas pelas classes a
tico e fragmentário das novelas da Globo. questão da inserção do receptor em um contexto
histórico-geográfico com especificidades próprias.
Além dos elementos narrativos e discursivos e
dos recursos técnico-expressivos em Pantanal, há Identidade Cultural como mediação simbólica
uma escassez de merchadising na 1ª. fase (aparece
na 2ª. – cremes de beleza e insumos e máquinas Jacks afirma que a identidade cultural sempre
agrícolas). realiza a contextualização do homem com seu meio,
seu grupo social, sua história, em um processo de
Para retomar seu filão no horário nobre, a Globo consciência que impede sua alienação.
teve de se render a mudanças e inovações, além de
convocar estrelas e sex-symbols made in Pantanal Para ela, a identidade cultural desempenha um
para sua constelação. papel fundamental na interação entre sujeito, indivi-
dual ou social, e a realidade circundante, mediando
As grandes concorrentes do horário nobre conti- os processos de produção e de apropriação dos
nuam na disputa: a Manchete se “ecologiza”, a Glo- bens culturais.
bo se “moderniza” e o SBT se “mexicaniza”. Mas
isso será objeto dos próximos capítulos. É essa mediação que garante o significado da
produção cultural e o sentido do consumo de bens
simbólicos, sem o qual esse consumo torna-se um
PESQUISA DE RECEPÇÃO E processo vazio, podendo vir a ser um ato alienado e
CULTURA REGIONAL alienador. (...) a identidade cultural é a expressão do
NILDA JACKS imaginário e das condições materiais de uma popu-
lação historicamente determinada, de uma comuni-
Em pesquisa de recepção e cultura regional, dade de interpretação.
Nilda Jacks afirma que o receptor é o sujeito do
processo e da pesquisa. Região, território a conhecer

Para ela, o recente desenvolvimento dos estudos Estudar as mediações significa incursões a cam-
de recepção no Brasil está muito vinculado ao cená- pos cujos objetos não são os tradicionalmente tra-
rio latino-americano, que em meados da década de balhados pela pesquisa de comunicação. Significa
1980 trouxe para o debate as preocupações que focalizar a região em todos os seus contextos, reali-
circulavam entre parte dos pesquisadores norte- zar a compreensão total de seu território para que a
americanos e europeus. O Brasil carece de pesqui- mediação seja apreendida na sua amplitude e com-
sas sobre o tema. plexidade. A cultura regional admite a coexistência
de sub-culturas, sendo ela mesma uma sub-cultura
A produção brasileira ainda está por ser analisa- em relação à cultura geral.
da de forma mais sistemática e o levantamento so-
bre os estudos de recepção dos meios de comuni-
cação ainda estão em andamento. RECEPÇÃO:
O MUNDO POLÊMICO DAS MEDIAÇÕES
Nesse contexto, parte para a análise da recep- SOCIAIS
ção. MARIA RITA KEHL

A mensagem é uma forma cultural aberta a dife- No texto seguinte, Maria Rita Kehl, diz que desde
rentes decodificações. Já a audiência é formada por que a TV foi inventada, ela produz efeitos no espec-
indivíduos ativos, produtores de sentido. Os estudos tador.
de recepção envolvem, assim, uma leitura compara-
tiva entre os discursos da mídia e da audiência. Segundo ela, há uma relação imaginária entre
recepção de informação e produção de resposta
A cultura e a identidade influenciam os indivíduos que segue a ordem de realização de desejos que se
em seus comportamentos, sentimentos e atitudes. dá a partir do discurso televisivo.

Bibliografia para Língua Portuguesa 133


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
A interdisciplinaridade dos estudos da comunica- 3º) A imprensa cumpre seu papel de divulgar, dis-
ção social mostra-se evidente, como no texto da seminar e veicular informações inacessíveis nas
psicóloga, Maria Rita Kehl, que analisa, sob o pris- chamadas fontes oficiais.
ma da psicologia de Freud, a recepção de telespec-
tadores por meio de um enfoque no público infantil. Assim é de fundamental importância o papel da
A autora utiliza-se desta experiência de fruição para imprensa como fonte indispensável de investigação.
explicar o predomínio da “cultura do espetáculo” nos Trata-se de importante veículo de expressão das
meios de comunicação. percepções sociais quanto à criminalidade, ao cri-
me, ao criminoso e ao modo como a sociedade
A relação da televisão com o espectador em transforma o assunto num problema de interesse
geral, e com a criança em especial, é uma relação público.
de sedução. O sedutor diz: “Eu sei o que você dese-
ja”, e insinua: “Eu tenho o que você deseja”. Quais imagens a imprensa expressa sobre crimi-
nalidade?
Kehl afirma que o discurso televisivo assumiu um
papel importante demais na mediação da relação 1) A criminalidade não só aumentou como se tor-
das pessoas com o que é real e vem substituindo, nou mais violenta, além disso, aparece em grande
de forma crescente, outras dimensões da experiên- escala a criminalidade organizada.
cia, atingindo de forma violenta todas as classes
sociais. 2) Há um consenso nas causas da criminalidade,
na associação entre pobreza e criminalidade: au-
Essa violência é difícil de detectar e combater menta a pobreza, cresce a criminalidade.
porque vem travestida de sedução e produz uma
insatisfação generalizada, um desconforto crescente 3) A imprensa refere-se ao perfil dos criminosos
que seria a forma atual do mal-estar na civilização como desocupados, vindos de famílias desorgani-
segundo a teoria freudiana. zadas, maioria de negros, pobres e migrantes do
norte e nordeste.
Citando Freud, ela diz: se ele apontava a repres-
são sexual como causador desse mal-estar, o enco- 4) Atitude crítica acentuada às agências de conten-
lhimento da dimensão da experiência é o principal ção da criminalidade, à polícia, à justiça e às pri-
fator de redução das possibilidades humanas nas sões. (...) falar em direitos humanos hoje é falar
sociedades industrializadas, dos países ricos ou também no enfrentamento do crime. (...) uma políti-
dos, como o Brasil, de desenvolvimento desigual. ca de segurança pública adequada deve estar co-
nectada com sólidas políticas de direitos humanos.
VIOLÊNCIA, FICÇÃO E REALIDADE (...) se para conter a violência há abuso de autori-
SERGIO ADORNO dade, o resultado será sempre violência sobre vio-
lência, numa espiral crescente e de difícil solução.
O sociólogo e professor Sérgio Adorno tem como (...) se nesse combate não forem aplicadas com
temas centrais de seus estudos a violência urbana. toda a precisão a lei e as regras da sociedade e não
Para ele, a violência é uma constante na sociedade for punido convenientemente o criminoso, teremos
brasileira, cuja democracia, afirma o pesquisador, um vácuo de autoridade e o crescimento geométrico
ainda não está consolidada. Em “Violência, ficção e da impunidade.
realidade”, Sérgio Adorno realiza uma relevante
análise da importância dos dados da imprensa e de Segundo Adorno, “é parte do nosso projeto de
como a maneira de recepção dos espectadores pesquisa entender por que se pune de maneira tão
molda o foco das mensagens transmitidas, em rela- insatisfatória neste país. Entender como a democra-
ção ao tema da violência. cia brasileira ainda convive com os desafios coloca-
dos pelo controle da violência e do crime.”
Em sua obra, constata-se que a imprensa é fonte
indispensável de investigação que trata das percep- Para isso, ele tem seguido algumas linhas de
ções sociais. Muitas vezes, a imprensa é um retrato estudo:
do social, mas também há uma dramatização de
construção de realidades que não correspondem 1) Para ele, é necessário compreender a violência
aos dados oficiais, por exemplo. na sociedade, a violência de civis contra civis, e
como isso se vincula à carência de direitos econô-
À medida que o crime foi se tornando tema cada mico-sociais, de instituições, de um processo civili-
vez mais presente no cotidiano do cidadão e na zacional completo.
mídia, é necessário analisar alguns aspectos do
perfil da violência tal como ela se apresenta na im- 2) Além disso, o pesquisador constata, com preo-
prensa e na mídia eletrônica. cupação, certa indiferença com relação ao que se
passa nas periferias. Falta de respeito à diferença e
1º) A violência é qualificada de um modo geral como indiferença são as duas faces de uma mesma moe-
violência criminal, porém há outras formas de vio- da.
lência, não tão citadas pelas mídias como a violação
dos direitos humanos, violência no campo, violência 3) Se uma pequena parcela da população pobre
contra as crianças, violência nas relações interpes- está de alguma maneira ligada ao tráfico de drogas
soais. e outras atividades criminosas, a maioria dela assis-
te silenciosa à violência, sofrendo, também silencio-
2º) A imprensa como fonte de informação e pesqui- samente, suas duras conseqüências. Para ele, “a
sa. O autor defende a confiabilidade da imprensa miséria fragiliza essa parcela substantiva da popu-
como uma das fontes, porém havendo outras. lação.

134 Bibliografia para Língua Portuguesa


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
Por isso, enquanto nos bairros de classe média e QUESTÕES
média alta as taxas de crimes contra o patrimônio
são mais altas e as de crime contra a vida, muito 1) Leia as afirmativas abaixo a assinale a alternativa
mais baixas, nos bairros da periferia a situação é correta:
exatamente inversa”. I. No texto “Minha terra tem Pantanal onde canta o
tuiuiú... A guerra de audiência na TV brasileira no
4) A justiça é morosa e lenta para a expedição de início dos anos 90”, Ana Maria Belogh faz uma aná-
sentenças e a um custo elevado. lise da novela Pantanal com relação a outros produ-
5) As prisões são escolas de crimes. tos midiáticos da época. Ela credita as causas do
sucesso da novela Pantanal, em detrimento da re-
Os estudos de Sérgio Adorno indicam que a paginação que os outros canais fizeram para atrair o
soma de fatores como a ausência de instituições de público, às inovações nos elementos narrativos e
proteção social, um contingente muito grande de discursivos, na abordagem da temporalidade da
população jovem, um congestionamento habitacio- saga, no enredo, na locação, nos recursos técnico-
nal e um espaço social público degradado, ou seja, expressivos empregados e na seleção de atores,
a ausência de políticas abre caminho para a chega- entre outros.
da do crime organizado, para o tráfico de drogas, e II. O sociólogo e professor Sérgio Adorno, em “Vio-
para a violência tanto de grupos da sociedade civil lência, ficção e realidade”, realiza uma relevante
como da própria polícia. A solução para tudo isso, análise da importância dos dados da imprensa e de
como diz o pesquisador, “é fazer com que as pes- como a maneira de recepção dos espectadores
soas tenham uma relação de reciprocidade caracte- molda o foco das mensagens transmitidas, em rela-
rizada pela justiça e pelo mínimo de igualdade, além ção ao tema da violência. Para ele, a violência é
de criar políticas de segurança eficientes, muito uma constante na sociedade brasileira, cuja demo-
diferentes das que temos hoje”. Porém, segundo o cracia, afirma o pesquisador, ainda não está conso-
autor, a imprensa não se ocupa dessa ques- lidada. Em sua obra, ele afirma o papel da imprensa
tão.Finalizando, ele tece comentários sobre a dra- como fonte de informação e investigação.
matização da criminalidade afirmando que a im- III. Renato Ortiz, no texto “Modernidade e Cultura”,
prensa não a cria, ela é a expressão de profundos fala da modernidade e de suas conseqüências para
sentimentos populares. a vida no âmbito geral, das mudanças e alterações
que retiraram o indivíduo do campo de espectador
MODERNIDADE E CULTURA passivo para o de receptor atuante. Para ele, a no-
RENATO ORTIZ ção de modernidade pertence ao domínio da racio-
nalidade, implica uma dimensão da sociedade na
Renato Ortiz fala da modernidade e de suas qual é possível atuar, desta ou daquela maneira.
conseqüências para a vida no âmbito geral, das IV. Em “Recepção: o mundo polêmico das media-
mudanças e alterações que retiraram o indivíduo do ções sociais”, Maria Rita Kehl, diz que desde que a
campo de espectador passivo para o de receptor TV foi inventada, produz efeitos no espectador. Se-
atuante. A noção de modernidade pertence ao do- gundo ela, há uma relação imaginária entre recep-
mínio da racionalidade, ela implica uma dimensão ção de informação e produção de resposta que se-
da sociedade na qual é possível atuar, desta ou gue a ordem de realização de desejos que se dá a
daquela maneira. Neste sentido, ela não é constitu- partir do discurso televisivo. A relação da televisão
tiva da sociedade. Trata-se de uma concepção da- com o espectador em geral, e com a criança em
tada historicamente. A modernidade é ocidental e especial, é uma relação de sedução. O sedutor diz:
carrega um padrão de excelência em relação ao “eu sei o que você deseja”, e insinua: “eu tenho o
que todos os outros deveriam ser comparados. As- que você deseja”. Ela afirma que o discurso televisi-
sim povos, países e regiões “mais” ou “menos” mo- vo assumiu um papel importante demais na media-
dernos. A modernidade é realmente ocidental? ção da relação das pessoas com o que é real e vem
Para o autor, ela apenas realiza-se historicamente substituindo, de forma crescente, outras dimensões
em determinados lugares da “Europa”. da experiência, atingindo de forma violenta todas as
classes sociais.
Para Ortiz, a esfera da cultura é um domínio dos V. No texto “A telenovela ao vivo”, Marta Maria
símbolos, e sabemos, o símbolo tem a capacidade Klagsbrunn afirma que a telenovela, assim com o
de apreender e relacionar as coisas. Neste sentido, folhetim no século XVIII, liderou e consolidou a tele-
o homem é um animal simbólico, e a linguagem visão como veículo de comunicação de massa no
uma das ferramentas imprescindíveis que define Brasil. A televisão concedia prestigio social à famí-
sua humanidade. Não existe, portanto, sociedade lia: a casa era o centro de convivência familiar que
sem cultura, da mesma maneira que linguagem e se ampliou com a incorporação da vizinhança, pois
sociedade são interdependentes. Ele afirma que a seu público-alvo incluía os televizinhos. A crítica aos
cultura é constitutiva da sociedade e tem como obje- programas era feita diretamente pelo público às
tivo marcar uma dimensão às vezes esquecida do revistas especializadas em televisão e denotam que
debate intelectual. Ela caracteriza um registro de o público participava ativamente do processo de
compreensão muito diferente da idéia de “política desenvolvimento do meio, exercendo o papel de
cultural”. Supõe-se a existência de uma esfera, de- crítico com o objetivo de modificar tanto em termos
nominada cultura, e um ato cognitivo capaz de se- de programação, de técnica, de escolha de atores,
pará-la de suas outras conotações. Uma ação cultu- cenários, etc.
ral parte de uma concepção determinada, traça
objetivos e visa alcançá-los. O problema é que o a) As alternativas I, II, III e IV estão corretas
domínio da cultura como dimensão constitutiva da b) As alternativas II, III, IV e V estão corretas
sociedade não coincide com a esfera da ação políti- c) As alternativas I, III, IV e V estão corretas
ca. É isso que explica porque “o que foi planejado d) Apenas a alternativa V não está correta
não deu certo”. e) Todas as alternativas estão corretas

Bibliografia para Língua Portuguesa 135


Apostilas Solução - Professor Educação Básica – PEB II
2) Assinale a afirmação que não reflete as afirma- 4) No texto Ämérica Latina e os anos recentes: o
ções de Roseli Stier Azambuja em “A decodificação estudo da recepção em comunicação social, Jesús
do discurso adulto da televisão pelo público infantil”: Martín-Barbero, aponta caminhos que deverão ser
a) A criança precisa de mensagens claras e enre- percorridos numa pesquisa que busque investigar a
dos pertinentes. Ela não é crítica e não sabe distin- recepção em comunicação, a saber:
guir o verdadeiro do falso. Entretanto, ela gosta de I. Através de estudos da vida cotidiana, local onde
informação e do produto ou da propaganda que a os atores sociais se fazem visíveis do trabalho ao
faça sentir-se mais velha, assim a criança gosta do sonho, da ciência ao jogo. Aqui reside o grande
discurso adulto, na TV ou não, capaz de respeitá-la desafio: que papel exerce a práxis cotidiana na co-
como ela é. municação? A vida cotidiana é espaço de reconhe-
b) Crianças assistem a programas na TV em média cimentos socialmente importantes?
4 horas/dia. Embora seja a atividade mais freqüen- II. Através de estudos sobre o consumo como práti-
te, não é a preferida do público infantil, porém é a ca de apropriação dos produtos sociais; como lugar
companhia preferida nos momentos de solidão, da distinção simbólica, por meio do que consumi-
sendo que os meninos, quando sozinhos gostam mos materialmente e dos modos de consumir: lugar
mais de ver TV que as meninas. Estas gostam tanto de diferenciação social, de demarcação das diferen-
de ver TV quanto de ouvir música. ças, de distinções, de afirmação da distinção simbó-
c) Os pais interferem pouco sobre o tempo de ex- lica;
posição da criança à TV. Aumenta um pouco em III. Através de estudos sobre o consumo como sis-
relação ao tipo de programa assistido. Esse controle tema de integração e de comunicação de sentidos;
é exercido proporcionalmente à idade da criança: os como cenário de objetivação de desejos; como lugar
menores e as meninas são mais controlados, espe- de processo ritual segundo os diferentes atores
cialmente sobre cenas de terror e sexo muito mais sociais, grupos, classes, etnias e gerações.
do que sobre cenas de violência, tiros, brigas, ex- IV. Através de estudos sobre estética e semiótica da
plosões, etc. leitura: a leitura como interação e da história social e
d) A forma como a criança decodifica o discurso cultural dos gêneros artísticos/narrativos.
adulto na TV é muito afetada pela decodificação do Assinale a alternativa correta:
discurso dos pais. Segundo a autora, mães passi- a) As alternativas I, II, e III estão corretas
vas em relação às propagandas de TV estimulam os b) As alternativas II, III e IV estão corretas
filhos a uma alta predisposição ao consumo. c) As alternativas I, II e IV estão corretas
e) A análise do discurso publicitário reforça e/ou d) Todas as alternativas estão corretas e se com-
ilustra pontos dessa lógica infantil, pois as crianças, plementam
sobretudo as menores, tendem a interpretações e) Nenhuma das alternativas
literais, mas lidam muito bem com simbolismos que
sejam de fácil compreensão e que sejam intrínsecos 5) Segundo Mauro Wilton de Souza, no texto “Re-
e adequados àquilo que determinada propaganda cepção e Comunicação: a busca do sujeito” só não
está querendo comunicar. está correto afirmar:
a) Sousa propõe reflexões a respeito das questões
relacionadas ao receptor e à comunicação, tomando
3) De acordo com Silvia Helena Simões Borelli, em como ponto de referência as seguintes questões
“Gêneros Ficcionais: materialidade, cotidiano, ima- “quem é, afinal, o homem no processo de comuni-
ginário” só não está correto afirmar: cação social contemporâneo? Onde se colocar para
melhor visualizá-lo?”.
a) A transposição de uma obra literária para o ci- b) O caminho dos estudos de comunicação, princi-
nema e a televisão, mesmo que no processo man- palmente nos países da América Latina, está em
tenham suas características globais se apropriam deixar um pouco de lado suas vinculações com a
de algumas das características da linguagem dos sociologia e a política, e se ocupar das ligações
portadores utilizados. dessa comunicação com o mundo plural das práti-
b) Os gêneros são instituições com função de cará- cas culturais cotidianas, mas não somente na busca
ter ideológico, construindo significações e subjetivi- das significações e usos sociais e sim com uma
dade capaz de relacionar “arte e sistema”. Porém visão de cultura, de como a comunicação pode ser
não podem ser entendidos como “estratégias de vista com base nessas práticas.
comunicabilidade”, “fato cultural” e “modelo dinâmi- c) De acordo com a teoria da dependência em nível
co” articulados às dimensões históricas de espaço empírico, o sujeito da comunicação é uma peça que
onde são produzidos e apropriados. dá suporte à ordem do sistema social; nível teórico,
c) No campo audiovisual, gênero é uma categoria ele é a própria ordem do sistema social funcionan-
abrangente capaz de classificar uma série bem di- do. Essa teoria procurava explicitar como as rela-
versificada de elementos e servir como elo dos dife- ções dos países centrais com os periféricos iam
rentes momentos da cadeia que une espaço de além de questões econômico-financeiras, mas en-
produção, anseios dos produtores culturais e do volviam tecnologia, cultura, saber e concepções de
receptor. vida.
d) O gênero telenovela, fundamental para a conso- d) O modelo norte-americano funcionalista de aná-
lidação da televisão no Brasil, iniciou sua trajetória lise em comunicação se sustenta no trabalho com o
de maneira melodramática e, progressivamente, foi indivíduo, e não com a massa, porém recusa a aná-
se modificando para responder às necessidades de lise das causas sociais em nível estrutural, preser-
uma sociedade que se moderniza. vando e sustentando a lógica do sistema sócio-
e) O gênero telenovela é responsável pela amplia- econômico de produção.
ção do mercado de bens simbólicos, pelo aumento
do consumo de aparelhos de televisão, pela moder- GABARITO
nização das técnicas de estruturação empresarial e 1-E 2-A 3-B 4-D 5-C
desenvolvimento tecnológico, entre outros.

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