Вы находитесь на странице: 1из 96

Keila Brenda da Cunha

DISQUE SEQUESTRADOR:
o programa A Tarde É Sua da Rede TV!, frente aos preceitos da ética
jornalística, no caso Eloá

Belo Horizonte
Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH)
2010
Keila Brenda da Cunha

DISQUE SEQUESTRADOR:
o programa A Tarde É Sua da Rede TV!, frente aos preceitos da ética
jornalística, no caso Eloá

Monografia apresentada ao curso de Jornalismo do Centro


Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH) como requisito parcial à
obtenção do grau de Bacharel em Jornalismo.
Orientador(a): Profa. Adélia Barroso Fernandes.

Belo Horizonte
Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH)
2010
À Deus, aos meus pais, irmãos e a todas as pessoas que contribuíram
para a reflexão e realização deste trabalho, especialmente: Profa.
Adélia Fernandes, Profa. Gisa Campos, Rógel Garcia, Carol Jales, Lu
Bicalho e família Fundep.
RESUMO

O presente trabalho discute a atuação dos profissionais de jornalismo nas entrevistas feitas
pelo programa A Tarde É Sua, da Rede TV durante o sequestro da adolescente Eloá Cristina
Pimentel, na cidade de Santo André, em São Paulo. No primeiro capítulo veremos como a
ética e o jornalismo podem servir à sociedade. Será possível verificar a objetividade e a
subjetividade no jornalismo, bem como os códigos deontológicos e a missão da imprensa. O
segundo capítulo trata da televisão com seus mecanismos, estratégias e críticas. Além disso,
também será possível conhecer um pouco mais da técnica de entrevista como um diálogo
possível, a imprensa popular televisiva, o espetáculo, o sensacionalismo e a violência na TV.
A análise da conduta dos jornalistas do programa A Tarde É Sua da Rede TV!, frente aos
preceitos da ética jornalística, no caso Eloá, compreenderá o terceiro capítulo. Para situar o
leitor, faremos um breve relato do caso seguido do histórico da emissora, do programa e da
jornalista Sônia Abrão. A pesquisa propõe que as responsabilidades éticas, numa profissão
que tem tamanha influência e impacto social como o jornalismo, permitam enxergar o
exercício profissional como um campo no qual estão em jogo conflitos que impactam
diretamente a produção do sentido da informação e a própria definição do que é notícia.

Palavras-chave: Televisão; Jornalismo; Ética; Sensacionalismo.


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 02

2 ÉTICA E O COMPROMISSO JORNALÍSTICO .......................................................... 06


2.1 Ética e jornalismo a serviço da sociedade ......................................................................... 06
2.2 Informar a verdade ao público: uma missão da imprensa ................................................. 11
2.3 Objetividade e subjetividade no jornalismo ...................................................................... 16
2.4 Códigos Deontológicos e sua utilização ............................................................................ 21

3 A TV E O TELEJORNALISMO ...................................................................................... 24
3.1 Televisão: símbolo do conformismo crítico ...................................................................... 24
3.2 Os diferentes mecanismos que compõem a televisão ........................................................ 27
3.3 Entrevista: mais que técnica, um diálogo .......................................................................... 30
3.4 Imprensa Popular de TV .................................................................................................... 32
3.5 Espetáculo na TV............................................................................................................... 36
3.6 Violência na Mídia ............................................................................................................ 39

4 A CONDUTA DOS JORNALISTAS NO PROGRAMA A TARDE É SUA ................ 43


4.1 Cronologia do Caso Eloá ................................................................................................... 43
4.2 Rede TV! e o programa A Tarde É Sua ............................................................................ 46
4.3 Disque Sequestrador: as entrevistas .................................................................................. 49
4.3.1 Entrevista gravada .......................................................................................................... 49
4.3.2 Entrevista ao vivo ........................................................................................................... 54

5 CONCLUSÃO..................................................................................................................... 61

REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 65

ANEXOS ................................................................................................................................ 67
Anexo I - Códigos de ética do jornalismo ............................................................................... 67
Anexo II - Ação Civil do Ministério Público Federal ............................................................. 71
Anexo III - Documento de pesquisa ........................................................................................ 91
2

1 INTRODUÇÃO

“Vamos terminar com isso numa boa, Lindemberg. Você não é do mau, você nunca
foi. (...) Libera a Eloá, se libera também dessa história. Vamos resolver tudo isso. É
tanta gente que ama vocês, sofrendo aqui do lado de fora. Você sofrendo aí, porque
aí deve ta uma tensão total. A menina fraca. Você mesmo pediu ajuda pra ela.
Pediu comida pra ela. Você disse que não quer saber dela, então vamos botar um
ponto final direito nisso. Todo mundo sai são e salvo dessa história. Tudo, tudo dá
certo. Ninguém vai te fazer mal nenhum aqui fora. Tá todo mundo entendendo que
você não é um marginal, que você não é um bandido, que você não é um assassino,
que você sempre foi um cara bom (...)”1.

Treze de outubro de 2008. Lindemberg Fernandes Alves, mais conhecido como Liso, então
com 22 anos, invadiu o apartamento da ex-namorada, Eloá Cristina Pimentel, de 15 anos, no
Jardim Santo André, em Santo André (Grande São Paulo), onde ela e seus colegas faziam
trabalhos escolares. Inicialmente dois reféns foram liberados, restando no interior do
apartamento, em poder do sequestrador, Eloá e sua amiga Nayara Silva.

Após mais de 100 horas de cárcere privado, policiais do GATE (Grupo de Ações Táticas
Especiais) e da Tropa de Choque da PM (Polícia Militar) de São Paulo invadiram o
apartamento e entraram em luta corporal com Lindemberg, que teve tempo de atirar em
direção às reféns. O saldo da ação foi a adolescente Nayara ferida com um tiro no rosto e Eloá
Pimentel, baleada na cabeça e na virilha. Eloá não resistiu e teve morte cerebral confirmada às
23h30min de sábado, dia 18 de outubro.

Desde o início do sequestro, as principais emissoras de televisão do país já acompanhavam,


algumas em tempo real, o drama das duas jovens de Santo André. Em meio à cobertura
jornalística do fato, as entrevistas feitas pelo programa da jornalista Sônia Abrão com o
sequestrador de Eloá, transmitidas no dia 15 de outubro de 2008, pelo programa A Tarde É
Sua, da Rede TV, chamou bastante a atenção dos críticos de mídia. A primeira entrevista,
gravada, foi feita pelo repórter do programa Luiz Guerra. São nove minutos e meio de
conversa com o sequestrador. A entrevista ao vivo foi feita pela apresentadora Sônia Abrão
que transformou o caso numa das atrações principais do programa (cf. epígarfe).

1
Trecho do dia 15 de outubro de 2008, extraído do site de vídeos Youtube, acessado em 15 de novembro de
2008, disponível em http://www.youtube.com/watch?v=9_gSLc0oCic.
3

A proposta desse trabalho é discutir os limites da cobertura jornalística no que diz respeito à
atuação de apresentadores e jornalistas de televisão e evidenciar como a busca pela audiência
pode se tornar um fator decisivo no momento de selecionar o que irá ao ar. A questão deste
trabalho é: qual a conduta dos jornalistas do programa A Tarde É Sua da Rede TV!, frente aos
preceitos da ética jornalística, no caso do sequestro de Santo André/SP em outubro de 2008, a
partir das entrevistas feitas com o sequestrador e a própria vítima? Assim, será possível
analisar o papel assumido pela jornalista Sônia Abrão e seu repórter Luiz Guerra, a
informação que o programa pretende passar com as entrevistas e como a polícia se portou
diante dos abusos da mídia.

Foram transcritas as duas entrevistas para que pudéssemos fazer a análise de conteúdo. Assim,
a pesquisa permite verificar se, no programa A Tarde É Sua, as características do discurso
jornalístico são predominantemente noticiosas ou de entretenimento; discutir a missão da
imprensa, verificando se os jornalistas estão levando a informação ao público e/ou
espetacularizando o fato; investigar a atuação dos repórteres e suas funções como jornalistas
no programa; a linguagem emotiva dramática analisando o sensacionalismo para se referir ao
seqüestrador; analisar a objetividade e a subjetividade na cobertura do caso; analisar a relação
entre fonte e jornalista; e analisar o código de ética do jornalismo e sua aplicação no
programa.

A monografia está dividida em três capítulos. No primeiro discute-se as características e a


relevância da deontologia, principalmente, para o desenvolvimento cultural e social de nossa
sociedade. Serão utilizados conceitos relacionados às contextualizações e reflexões sobre ética
com Chauí (2000) e discussões que abrangem o campo do jornalismo e o seu papel na
sociedade.

Além disso, Barros Filho (1995) discute se a objetividade informativa é possível e a quem
realmente interessa a objetividade aparente da informação. Cornu (1999) completa que a
missão da imprensa é informar o público que é constituído por cidadãos. Para o autor, a
finalidade da informação é o público. O autor também aborda e defende a liberdade de
imprensa e a informação como um direito de todo ser humano.
4

Costa (2009) questiona se a verdade, a justiça e a ética ainda são pilares do jornalismo diante
da indústria da comunicação. Na mesma linha de raciocínio Bucci (2000) examina o problema
da pressa inerente ao jornalismo, da briga diária pelo furo jornalístico e da guerra pela
audiência que afastam os jornalistas e seus patrões da conduta ética oferecendo ao público
informações de má qualidade.

Assim, para Christofoletti (2008) a ética tem o objetivo de servir à sociedade, portanto, o
jornalista deve ter o compromisso com a verdade para tratar a notícia de acordo com os
princípios éticos. Barbeiro (2002) completa esse entendimento fazendo um incentivo à
conduta ética, à busca incessante do melhor comportamento possível diante dos fatos
apresentando os limites éticos do jornalismo para que se possa exigir uma postura ética dos
jornalistas e veículos de comunicação.

No segundo apresentam-se as principais características do jornalismo televisivo, o sensacional


e o espetacular. Sobre a televisão, Bourdieu (1997) desmonta os mecanismos de censura que
estão por trás das imagens e discursos exibidos na televisão e critica os jornalistas
fundamentando-se nas análises que faz da televisão na sua busca incessante pela ampla
audiência. Revela-nos a importância de se conhecer as limitações, censuras e imposições de
um campo jornalístico que é dominante em relação às produções culturais e que interferem
diretamente na vida de milhões de pessoas. Esclarece acerca da luta do índice de audiência,
que não é nada mais senão a sanção do mercado, da economia, isto é, puramente comercial.

França (2006) argumenta que o lugar dos pobres é um lugar de ausência de referências, de
ausência de conhecimento, de ausência de hábitos adequados, é a expressão de “não-cultura”.
“Os pobres não têm acesso à cultura impressa, ao cinema, ao teatro ou às belas artes, ao
conhecimento histórico e, inclusive (e em decorrência) à reflexão e à consciência crítica”
(FRANÇA, 2006, p. 39).

É nessa perspectiva que se abre para as grandes redes de TV a possibilidade de veiculação dos
chamados programas “populares”. Neles, os dramas pessoais e familiares são explorados. Por
meio desses programas, o cidadão comum chega às telas, encenando um cotidiano de dor,
miséria e esquecimento.
5

Para Barbeiro (2002) é importante esclarecer que jornalista de TV não é ator. Um lida com a
ficção e o entretenimento, o outro com a realidade. Portanto, quem deve ter o compromisso
com a notícia são os jornalistas que devem buscar a verdade e desenvolvê-la em uma
investigação isento de opiniões. Contudo, o que os jornalistas dizem, muitas vezes, pode
mexer com a emoção de seus telespectadores, mas de forma nenhuma estão ali para
representar algum personagem.

Segundo Debord (1997), a realidade surge do espetáculo e vice e versa. Assim, a notícia pode
se tornar um espetáculo, em que o importante é ter audiência sem ter um maior cuidado ao
que é retratado, podendo expor uma história trágica como a de Eloá de uma maneira
totalmente representativa, criando entretenimento para o público através da triste realidade da
situação.

Além disso, Medina (2002) revela que para ser o braço direito da comunicação humana, a
entrevista jornalística não deve ser encarada como uma simples técnica. Deve haver o diálogo
possível em que entrevistado e entrevistador se modificam, se revelam e se interagem com a
entrevista.

No terceiro capítulo, a análise das entrevistas possibilita averiguar se o programa A Tarde É


Sua da Rede TV! abusou da liberdade de comunicação, violou o código de ética do
jornalismo, os direitos da criança e do adolescente e interferiu no trabalho da polícia.
6

2 ÉTICA E O COMPROMISSO JORNALÍSTICO

Este capítulo pretende explicar que o compromisso do jornalista está na informação


verdadeira e no oferecimento de informações com credibilidade ao cidadão. E quem contribui
fundamentalmente no desempenho desta função protegendo o público contra o mau
jornalismo é a ética que deve ser usada a serviço da sociedade. Discute-se ainda neste capítulo
a objetividade e subjetividade no jornalismo e a missão da imprensa.

2.1 Ética e jornalismo a serviço da sociedade

“A ética é uma reflexão crítica sobre a moralidade: um conjunto de princípios e disposições


voltadas para a ação, produzido por meios históricos, cujo objetivo é balizar as ações
humanas” (BARBEIRO, 2002, p. 23). Para o autor, ética e moral não devem ser confundidas.
Ética é o conjunto de valores consolidados nas normas, portanto, quem não as cumpre está
sujeito a punições. Moral é servidora da ética, regula os valores e comportamentos
considerados legítimos por uma sociedade e busca a compreensão e uma justificativa crítica
universal. Em outras palavras, a ética vigia a moral para reforçá-la ou modificá-la.

De acordo com Chauí (2000), a palavra “ética” vem do grego ethos e tem duas formas de
pronunciar a letra “e”: ethos com a vogal mais longa significa costumes, hábitos de uma
determinada sociedade ou grupo; ethos com a vogal breve significa caráter, comportamento
das pessoas, conduta, temperamento, índole natural. Assim, a ética torna-se universal e trata
dos conceitos que envolvem o raciocínio prático como o bem, a ação correta, o dever, a
obrigação, a virtude, a liberdade, a racionalidade, a escolha. Ética, então, significa um
conjunto de valores, normas e regras comportamentais, um ordenamento em que todos estão
submetidos.

A ética surge como uma forma de organizar a sociedade, tirando-a de um estado primitivo de
violência. Além disso, a ética impõe regras para combater a violência, nivelando o direito de
todos. Ao contrário da violência que beneficia a quem tem força bruta. Para a autora, nossa
sociedade entende a violência como a imposição da força física a alguém com o intuito de
obrigá-la a fazer algo submetendo-a a constrangimentos morais e psíquicos, contra a sua
vontade.
7

Para Costa (2009), a ética estuda a moral. Segundo o autor, o termo “moral” vem do latim
moris, leva o mesmo significado grego para ética: costume. A moral cuida do agir humano, é
composta por valores que podem mudar ao longo do tempo. Trata-se do comportamento, da
conduta das pessoas individualmente, da prática. A moral permite enxergar dentro da ética
como o indivíduo se comporta. Se a ética persegue o amor, o bem estar, na moral se persegue
a justiça.

Christofoletti (2008) diferencia moral de ética e conceitua valores morais como sendo regras
de conduta e normas que orientam o comportamento e contribuem para um equilíbrio
coletivo. Moral é “um conjunto de valores que orientam a conduta, as ações e os julgamentos
humanos. Valores como bondade, justiça, liberdade, igualdade, respeito à vida, entre tantos
outros” (CHRISTOFOLETTI, 2008, p. 16).

Ética é “aquilo que os homens fazem com a moral, isto é, como fazem os valores funcionarem
[...]. Se a moral coloca normas, padroniza, é dura e sinalizadora, a ética é reflexiva, maleável,
praticante e questionadora” (CHRISTOFOLETTI, 2008, p. 16). Se toda escolha provoca
consequências, quem decide responderá pela opção feita. Portanto, de acordo com
Chrsistofoletti (2008), é um mito pensar que cada um tem a sua ética.

Além disso, Chauí (2000) explica a diferença entre senso moral e consciência moral. O
primeiro trata-se da razão que nos faz avaliar o mundo em relação ao que é certo e errado,
justo e injusto, bom e mau. Consciência moral é a forma que comprova quais valores o
indivíduo traz em si próprio, pois somente diante de uma decisão que trará consequências para
a própria vida e a de outras pessoas é que será possível conhecê-lo, ou seja, saber qual é a sua
consciência moral, o que o faz reagir. Mas nem sempre a consciência moral de um indivíduo
condiz com seu senso moral.

Outros dois termos que são claramente diferenciados por Chauí (2000) é o juízo de valor e o
juízo de fato. Quando alguém presencia uma criança roubando um alimento em um
supermercado, o relato do fato é um juízo de fato, pois a pessoa está proferindo o que
aconteceu. Mas quando, a partir deste fato, as pessoas comentam que a criança roubou por
8

fome, por falta de educação e de oportunidades ou pelo ambiente em que vive, trata-se de
características de um juízo de valor, pois a situação é avaliada sob uma perspectiva moral.

Chauí (2000) também explica que a filosofia moral distigue três tipos fundamentais de
conduta: a conduta moral ou ética, que segue as normas e as regras impostas pelo dever; a
conduta imoral ou antiética, que contraria as normas e as regras fixadas pelo dever; a conduta
indiferente à moral, quando as pessoas agem em situações que não são definidas pelo bem e
pelo mal, cujas normas e regras não são impostas ao dever.

Costa (2009) cita o cientista social Max Weber enfatizando que qualquer conduta ética está
sempre fundamentada em dois preceitos básicos: a ética da convicção e a ética da
responsabilidade. A primeira não se importa com as consequências e os resultados de sua
ação. A segunda conta com os defeitos dos humanos, condena qualquer ação que utilize meios
moralmente perigosos como a violência. Contudo, Costa (2009) não considera que falte
responsabilidade na ética da convicção nem convicção na ética da responsabilidade.

Para Costa (2009) a violência no jornalismo usa a manchete de forma inconsciente e


consciente para destruir reputações, dar morte a empresas ou instituições, destruir indivíduos,
bombardear ações públicas ou privadas. Isso porque a responsabilidade se conjuga com a
convicção e dita características do território da política que seriam as mesmas do território do
jornalismo. “As decisões sobre o que publicar e o que não publicar; os textos, títulos,
manchetes e chamadas se transmutam em armas poderosas carregadas pelas tintas da
imprensa, pela voz do locutor, pela imagem escolhida, pelo hiperlink” (COSTA, 2009, p.112).

Segundo Christofoletti (2008), os meios de comunicação e os próprios jornalistas exercem


muita influência na vida das pessoas do mundo atual e, em contrapartida a esse poder,
também é demandada muita responsabilidade. A mídia ajuda-nos a decidir e descartar
escolhas. O poder dessa centralidade que a mídia exerce na vida de todos traz consigo muitas
preocupações morais e éticas. A primeira pergunta a se fazer, de acordo com Christofoletti
(2008) é: afinal de contas, onde ficam os limites?

Para Christofoletti (2008) o jornalismo exige mais responsabilidade e cuidados com a ética do
que os programas de TV feitos para entreter os telespectadores. E alerta que na cobertura dos
9

fatos que interessam a sociedade, a ética é confundida com a qualidade técnica de produção
do trabalho. Contudo, os jornalistas precisam aprender que o público não dará credibilidade
aos meios de comunicação apenas pelos cuidados técnicos, mas também éticos.

O autor também comenta sobre a conduta ética nas coberturas de violência. Christoforletti
(2008) relembra que, antigamente, havia uma prática jornalística em que saía nos jornais a
versão oficial de relatos das delegacias redigidos por policiais. A cobertura chamada de
jornalismo policial confundia a profissão do jornalista com a do policial. Para diferenciar, o
autor afirma que “polícia é fonte, não é colega de trabalho. [...] O repórter que cobre a área
não é policial, nem precisa saber usar arma de fogo [...]. Ele é só um jornalista que
acompanha o trabalho de policiais [...]” (CHRISTOFOLETTI, 2008, p. 58).

Os policiais acabam mudando o comportamento quando percebem que estão sendo


acompanhados por câmeras, microfones e até mesmo caderninhos de notas. E às vezes, até
agem para se exibirem. Christofoletti (2008) alerta que por ser fonte como qualquer outra, a
polícia também deve ser checada para não ocorrer o que aconteceu com a Escola Base, por
exemplo, pois todas as pessoas devem ser consideradas inocentes até que se prove o contrário.
O autor mostra que o pré-julgamento pode ser considerado um crime e deixa uma pergunta
aos seus leitores: como relatar casos de violência, discriminação, sequestros e suicídios sem
contribuir para a estigmatização das pessoas envolvidas?

Para Barbeiro (2002), a televisão é um poderoso veículo de comunicação que teria como
funções primordiais a prestação de serviços à comunidade e a garantia do livre acesso à
informação. O serviço ocupa, segundo o autor, uma parte importante da programação. Desta
forma, a reportagem de assunto referente à prestação de serviços deve ter a mesma qualidade,
seriedade, exatidão e credibilidade do que qualquer outra matéria.

Traquina (2001), define os mídias noticiosos como um Quarto Poder, exercendo o papel
vigilante perante a democracia guardando os cidadãos dos eventuais abusos de poder por parte
dos governantes. Bistane e Bacellar (2005) complementam essa idéia afirmando que uma das
funções do jornalismo é fiscalizar administrações públicas, monitorar as políticas e os
recursos públicos e que é comum encontrar resistência em todos os níveis da administração e
nos três poderes da República.
10

De acordo com o Manual de Redação da Folha de S. Paulo, a Constituição brasileira garante


o acesso de todos à informação, a liberdade de imprensa, independente de censura e a livre
expressão do pensamento (artigo 5º). Os abusos deverão ser puníveis por lei. Sendo assim, a
liberdade de expressão engloba o direito de informar, de ser informado e informar-se. Ela visa
à proteção do direito da população de ter acesso a informações sobre os mais variados temas.
No entanto, vimos, muitas vezes, a mídia destruindo a vida de cidadãos comuns sem reparar o
erro tal qual como deveria. Nem sempre o instrumento do direito de resposta é dado ao
cidadão prejudicado pela mídia conforme previsto pela Constituição (artigo 5º, inciso V).
Assim, o autor ressalta que no início do século XXI, os agentes sociais levantam a seguinte
questão: quem protege os cidadãos do Quarto Poder?

Segundo Traquina (2001), atualmente parece que o objetivo da mídia é maximizar os lucros e
minimizar os custos. Além disso, o jornalismo cívico, aquele que se preocupa com o serviço
público, tem sido diminuído e substituído por objetivos comerciais em que o público é visto
como consumidor de produtos de lazer.

Entretanto, para o autor, isso não significa que os mídia noticiosos, proprietários e
profissionais, não devam continuar a ignorar suas responsabilidades sociais enquanto
participantes ativos na construção da realidade. E os próprios cidadãos precisam envolver-se
nos seus assuntos cívicos.

Traquina (2001) não acredita que o caminho preferido seja os controles reguladores. Desta
forma, o ideal seria equilibrar o lucro e a responsabilidade social não esquecendo que se
perderem a credibilidade, perdem tudo. Os profissionais da mídia precisam de uma
preparação especial, pois jornalismo é uma profissão, não um emprego. Para isso, faz-se
necessário uma educação mais completa que dê conhecimentos sobre a ética, a
responsabilidade social e os inúmeros constrangimentos existentes na produção de notícias,
porque “a qualidade do jornalismo está directamente relacionada com a qualidade dos
jornalistas” (TRAQUINA, 2001, p. 197).

Em conclusão, Traquina (2001), explica que os jornalistas precisam dar mais ouvido aos
cidadãos e procurar fazer coberturas de temas mais importantes à população e não apenas às
11

fontes habituais. Sendo assim, quem deverá vigiar o Quarto Poder serão os próprios cidadãos
assumindo plenamente sua cidadania.

2.2 Informar a verdade ao público: uma missão da imprensa

Chauí (2000) afirma haver três concepções para a verdade baseadas na língua grega, latina e
hebraica. Para os gregos, aletheia significa não-oculto, não-escondido, não dissimulado.
Veritas, no latim, se refere à precisão, ao rigor e à exatidão de um relato dito com detalhes,
pormenores e fidelidade ao que aconteceu. Emunah em hebraico significa confiança.

Segundo a autora, quando nos espantamos e nos admiramos com alguma coisa, nos vem a
dúvida e a perplexidade. Isso nos faz querer saber o que não sabemos criando o desejo de
superar a incerteza e buscar a verdade. “O desejo da verdade aparece muito cedo nos seres
humanos como desejo de confiar nas coisas e nas pessoas, isto é, de acreditar que as coisas
são exatamente tais como as percebemos e o que as pessoas nos dizem é digno de confiança e
crédito” (CHAUÍ, 2000, p.112).

Para Costa (2009) a verdade tem a ver com as coisas presentes, com os fatos que aconteceram
contados por palavras, pela linguagem e pelas coisas futuras. Por isso, segundo o autor,
palavras como averiguar, verificar, veredicto, verossímil e verossimilhança, que remetem à
verdade, são tão caras ao jornalismo. Desta forma, a pressão do dia a dia é decisiva para o
jornalista, pois o tratamento da verdade é constante e implica em decisões muitas vezes
irreversíveis.

Para explicar a verdade como dever fundamental aos jornalistas, Cornu (1999) agrupa em
quatro eixos as orientações sobre a ética da informação: a missão da imprensa, a liberdade de
informação, a verdade e o respeito.

Para Cornu (1999), a missão da imprensa é informar o público que é constituído por cidadãos.
Essa informação deve ser tanto sobre os fatos como sobre as correntes de idéias para criar
uma opinião pública. Segundo ele, a finalidade da informação é o público. Portanto, o
jornalista não pode recolher informações, transformá-las em notícias, textos, sons ou imagens,
12

para seu próprio prazer ou visando lucro. O jornalista deve fazer isso para informar ao público
porque, afinal, ele tem o direito à informação.

No inciso XXXIII do Artigo 5º da Constituição Federal de 1988 prevê que “todos têm direito
a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo
ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas
aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado”.

Vale ressaltar a diferença entre interesse público e interesse do público. Entende-se por
interesse público toda informação de relevância social na democracia que possa alterar,
transformar, acrescentar algo à vida das pessoas e à sociedade de um modo geral. A
intimidade das celebridades, a rotina, os relacionamentos, as separações, as brigas, dentre
outros assuntos de importância questionável, muitas vezes tornam-se pauta de renomados
veículos jornalísticos, mas não passam de curiosidade pela vida alheia, portanto, trata-se de
interesse do público.

Quando se fala em missão da imprensa, de acordo com Cornu (1999), é inevitável abordar a
sua liberdade. Para ele, o dever do jornalista é defender a liberdade da informação, do
comentário e da crítica, pois se trata de um direito de todo ser humano.

Percebe-se que no mundo moderno em que vivemos a liberdade de imprensa é capaz de


ofender os direitos da dignidade humana. Por isso, Cornu (1999) afirma que a liberdade de
informação que faz parte da liberdade de expressão não está isenta de limites. E explica que a
liberdade de imprensa está diretamente relacionada com o público a quem se destina a
informação.

Cornu (1999) também afirma que sem liberdade não se pode esperar que a verdade possa ser
respeitada, pois a liberdade de informação é o espaço necessário para a verdade e
consequentemente o respeito. Para que o cidadão seja capaz de formar sua própria opinião, o
autor nos esclarece que a missão da imprensa é informar o cidadão. Assim, segundo Cornu
(1999), a verdade intervém como dimensão ética. Por isso, deve ser permanente, deve ser o
primeiro critério normativo do conjunto de trabalho jornalístico.
13

Desta forma, Cornu (1999) reconhece a exigência da verdade como conceito normativo e
crítico da informação. Para o autor, os media estão obrigados à verdade já que a informação
verdadeira é a forma legítima da comunicação. Isto é, os meios de comunicação, as
instituições, devem exigir a verdade sem pôr em causa a sua própria razão de ser para fornecer
aos atores sociais os elementos necessários à formação da sua opinião, bem como os
instrumentos de compreensão que lhes permitam situar-se na sociedade. Se isso não ocorrer,
segundo o autor, a informação seria desviada, seria deformação. “Uma notícia que não seja
orientada para a verdade – nem que essa verdade seja parcial e provisória, e consciente de o
ser – não será uma informação” (CORNU, 1999, p. 394).

No entanto, segundo o autor, a verdade jornalística, tal como a ciência, não pode pretender
por si mesma atingir uma verdade absoluta. Toda pretensão à verdade está sujeita a crítica e,
por isso, as fontes utilizadas em uma matéria podem ser aceitáveis, mas nenhuma delas tem
uma autoridade indiscutível.

Para o autor, os jornalistas podem ser pouco estimados e até temidos, mas são sempre
cortejados. E esse benefício solicitado pode ser tanto material como moral. Por isso, o
jornalista deverá se recusar a ser comprado para falar ou para se calar, pois de acordo com a
Declaração da UNESCO citada pelo autor, “a integridade da profissão proíbe o jornalista de
aceitar qualquer forma de remuneração ilícita e de promover interesses privados contrários ao
bem-estar geral” (CORNU, 1999, p. 61).

Cornu (1999) alerta que vigiar os outros e a si mesmo dentro de uma redação nunca será
suficiente, pois a sedução muitas vezes se exerce com objetivos contrários, ou seja, não só
para difundir a informação, mas para garantir o silêncio. E essa decisão de segurar a
informação vai depender única e exclusivamente do jornalista. Isso porque a independência
dos jornalistas e dos meios de comunicação está ligada aos anunciantes de forma igual.

Como solução, Cornu (1999) apresenta uma precaução que deverá ser tomada em relação ao
público. O jornalista deve dizer ao seu público (leitor, ouvinte ou telespectador) que, por
exemplo, aquela reportagem foi um convite. Essa transparência, segundo o autor, é uma forma
de defesa. “É melhor nada dizer do que dizer conscientemente uma verdade truncada ou dar a
realidade uma visão deliberadamente orientada. A informação não é propaganda e pode
14

acontecer que das condições de uma viagem nada mais resulte senão propaganda” (CORNU,
1999, p. 64).

Outra solução é a “publi-reportagem”, uma forma, segundo Cornu (1999), admissível do


ponto de vista da deontologia para se fazer publicidade num jornal.

O anunciante compra um espaço e, em vez de o ocupar com uma imagem incitativa e


alguns slogans bem imaginados, publica um texto de caráter redactoral, destinado a
promover os seus produtos ou serviços. De acordo com as regras, a “publi-reportagem”
deve ser colocada num espaço normalmente reservado à publicidade, deve ser assinalada
como tal, a sua apresentação e tipografia devem permitir que o leitor a identifique e a
distinga da parte redactoral, não deve ser assinada por um jornalista da casa, nem mesmo
por outro jornalista profissional. (CORNU, 1999, p. 65).

Cornu (1999) resume a regra da deontologia na palavra transparência, seja das fontes ou do
jornalista para com o público. Se a fonte não pode ser identificada, de acordo com a
deontologia, o jornalista deve abster-se dela obrigatoriamente. Mas frequentemente,
percebemos alguns jornais sensacionalistas explorando notícias incertas, adulterando
informações importantes e prudentes com títulos abusivos.

No território da “caça ao furo jornalístico”, Cornu (1999) elucida que se trata de uma
informação dada por um jornalista com vontade de chegar, a todo o custo, em primeiro lugar
no mercado das informações, com receio de que algum concorrente passe à sua frente. Por
isso, muitas vezes não há confirmação para não chamar a atenção dos concorrentes. Não
importa se a notícia é falsa, pois se retificará no dia seguinte. O importante para esse tipo de
jornalista é a notícia em primeira mão que certamente aumentará suas vendas, os índices de
audiência e provavelmente seu status e seu salário.

Para Cornu (1999), os relatos de catástrofes naturais, de acidentes espetaculares visando fins
comerciais diminuem o respeito pelo outro. É uma verdadeira caça ao sofrimento alheio com
o pretexto de dar ao fato um toque humano. Quanto mais a imprensa se desenvolve, mais ela
abre espaço para o espetacular a qualquer preço, promovendo o peso das palavras e o choque
das imagens. Os jornais que atacam os sentimentos morais ou religiosos de um grupo de
pessoas não são compatíveis com a responsabilidade da imprensa, pois ninguém deve ser
discriminado.
15

Cornu (1999) esclarece também que jornalistas não podem brincar de policiais ou justiceiros,
pois não é sua missão e não possuem meios para isso. A procura da verdade no interesse do
público, de acordo com o autor, não deve ser encarada com intenções de satisfação de uma
ambição pessoal, mas com responsabilidade a serviço da informação.

Cornu (1999) afirma que a doutrina jurídica aponta três domínios da existência humana que
devem ser respeitados: a vida íntima, a vida privada e a vida pública. Na esfera íntima
podemos verificar fatos secretos que não devem ser contados à ninguém, a esfera privada
engloba acontecimentos que não são secretos, mas não podem ser partilhados e comunicados
a um público amplo. Já na esfera pública, os fatos podem ser conhecidos por todos e
divulgados sem autorização.

O direito protege a esfera privada e a esfera íntima e os jornalistas devem utilizá-la em sua
deontologia. Além disso, Cornu (1999) nos lembra que o Código protege da mesma forma as
crianças com menos de 16 anos contra perguntas ou imagens que possam atentar contra seu
bem-estar pessoal.

Barbeiro (2002) explica que deve haver mais sensibilidade no trato com fontes crianças, pois
compaixão não atrapalha a divulgação da verdade. O ECA diz que é criança toda pessoa com
idade entre 12 anos completos a 17 incompletos. Em termos jornalísticos, o autor frisa que é
melhor chamar de jovem apenas aqueles maiores de idade entre 18 e 24 anos. “A lei proíbe a
divulgação de nome, apelido, filiação, fotografia, parentesco e residência de menor de 18 anos
envolvido em atos infracionais. Também não é recomendável a divulgação de nomes de
crianças e adolescentes em situação de constrangimento” (BARBEIRO, 2002, p. 28).

Cornu (1999) afirma que deve haver igualdade na exploração das informações para se
aproximar da objetividade e da verdade. Seguindo a mesma linha de raciocínio, Hernandes
(2006) explica que o senso comum vê a realidade como definitiva como se existisse um
mundo único de uma verdade inquestionável.

Entretanto, os aspectos da realidade são muito mais complexos do que podemos imaginar.
Entender e aceitar essa complexidade, segundo o autor, é um exercício de imparcialidade e
objetividade. “O problema maior é que cada pessoa acha que seu direcionamento, que sua
16

limitação na maneira de interpretar a realidade, é a própria realidade. Que a parte é o todo.


Que o mundo é o mesmo para todos” (HERNANDES, 2006, p. 19).

2.3 Objetividade e subjetividade no jornalismo

Bourdieu (1997) entrevistou certa vez um diretor de programação que vivia numa espécie de
evidência total. Se lhe perguntassem por que um assunto estava em primeiro lugar e outro em
segundo o programador respondia que era evidente. “E é sem dúvida por essa razão que ele
ocupava o lugar em que estava; isto é, porque suas categorias de percepção estavam ajustadas
às exigências objetivas” (BOURDIEU, 1997, p. 36).

De acordo com Costa (2009), a palavra “objetivo” vem do latim objectivus e deriva de
objectus que significa a ação de colocar adiante. O substantivo “objetividade” designa
qualidade do que é imparcial; caráter daquele que é direto, age rápido, que não perde tempo. E
a palavra “imparcial” é definida, segundo o autor, como forma de adotar um critério que, no
horizonte da verdade, lhe parece ser o mais adequado. Para o autor, desde que o jornal se
transformou em um produto industrial e de massa estabeleceu-se um clichê segundo o qual o
bom jornalismo seria sinônimo de objetividade e imparcialidade.

Costa (2009) explica esse fenômeno a partir da leitura que os donos de jornais tiveram: eles
perceberam que se uma notícia mostrasse apenas uma única versão venderia menos
exemplares e que se exibissem simultaneamente os dois lados do mesmo fato poderiam
atingir mais público. E ao se mostrar neutro abrangeria ainda mais pessoas, pois quanto mais
lados o jornal pudesse mostrar, mais poderia vender já que tomando menos partido e se
mostrando mais independente, a notícia interessaria a vários lados, ou seja, interessaria a
todos.

Bucci (2000) acredita ainda que exista um conflito entre a subjetividade e o dever profissional
do jornalista. O autor explica que no jornalismo a distinção entre o sujeito e o objeto não é
clara como nas ciências naturais e exatas, por exemplo. Para Bucci (2000), a meta do
jornalismo é a objetividade. Assim, os aspectos da personalidade de cada jornalista e as
convicções pessoais de cada profissional atrapalham o distanciamento que a pretensão à
objetividade pede. “Cada um é moldado por suas próprias crenças religiosas, suas ideologias
17

políticas, suas identificações étnicas e culturais, sua preferência sexual. (...) É humano que
seja assim!” (BUCCI, 2000, p.90).

Barbeiro (2002) acredita que a objetividade é um mito, visto que os jornalistas apreendem os
fatos a partir da própria subjetividade. Para o autor, a maior prova disso é que alguns fatos são
reproduzidos e outros abandonados. No mesmo sentido, o Manual de Redação da Folha de S.
Paulo afirma que a objetividade no jornalismo não existe. “Ao escolher um assunto, redigir
um texto e editá-lo, o jornalista toma decisões em larga medida subjetivas, influenciadas por
suas posições pessoais, hábitos e emoções. Isso não o exime, porém, da obrigação de ser o
mais objetivo possível” (FOLHA DE S. PAULO, 2006, p. 46). Além disso, o Manual ainda
afirma que o jornalista precisa encarar o fato com distanciamento e frieza para relatar um
acontecimento com fidelidade. Contudo, isso não significa ser apático e desinteressado.

Hernandes (2006) afirma que o jornalista não consegue produzir um texto sem que sejam
inseridos em uma visão de mundo, uma ideologia. Para o autor ser objetivo é não se envolver
com a notícia:

A objetividade é um dos recursos jornalísticos para se tentar “apagar” o modo pelo qual a
realidade foi filtrada a partir do sistema de valores do jornal que, como empresa ou parte de
um conglomerado de informação, não quer se revelar como um ator social atuante
interessado nos aspectos sociopolíticos e nas consequências do que noticia.
(HERNANDES, 2006, p.30).

Para Bucci (2000), contém objetividade aquele discurso que expressa características próprias
do objeto e não as do sujeito, ou seja, não as do autor do relato. O texto objetivo é aquele
inteiramente fiel às características do objeto, sem que o sujeito as deforme. Essas informações
inteiramente objetivas existem, mas quem produz as notícias são os homens, ou seja, são os
sujeitos.

Desta forma, no jornalismo, de acordo com o autor, não tem objetos só existem sujeitos que
lhe servem de objetos. “O jornalista é portanto um sujeito falando de outro sujeito para um
terceiro sujeito. Ou é um sujeito falando com outro sujeito para um terceiro. E um quarto”
(BUCCI, 2000, p.93). Nesse caso, se os profissionais da imprensa são todos idênticos aos seus
objetos de notícia e aos leitores, telespectadores e ouvintes, como farão para descrevê-los
objetivamente? O autor responde a essa questão informando que a objetividade dependerá de
quem for o jornalista e de qual for a história a ser investigada e contada.
18

Bucci (2000) afirma que há um mito da objetividade, da neutralidade. Enquanto o senso


comum declara uma objetividade sobre-humana, imaginando o bom repórter imune às crenças
e paixões, o autor esclarece que o pecado do jornalista não é trazer consigo essas convicções,
mas não ser transparente com o público. O pecado seria escondê-las, não elucidando para si e
para os outros suas determinações íntimas.

Barros Filho (1995) denuncia uma falsa objetividade usada no produto informativo a ser
veiculado pelos meios de comunicação. De acordo com o autor, isso acontece devido aos
espaços destinados à opinião. Assim, a chamada “objetividade aparente” se divide em dois
aspectos: forma e conteúdo.

Para Barros Filho (1995), toda a mensagem e seus efeitos produzidos se encaixam na forma
do produto midiático, ou seja, os produtos e os meios de comunicação que os produzem
podem assumir variadas formas. Desta maneira, o autor nos mostra que a objetividade
aparente se revela na forma do jornalismo através de textos e de imagens.

O texto informativo, segundo ele, produz um “efeito real”, pois sua principal característica é a
busca do fato embora a objetividade pura seja algo impossível. Além desta, o jornalismo
informativo também tem outras características que, segundo Barros Filho (1995), justificam a
objetividade aparente e produzem o efeito real: a exposição clara dos fatos, as estruturas
simples e a velocidade da leitura no caso do rádio e da televisão.

A outra forma do jornalismo é a imagem, um elemento informativo que, de acordo com o


autor, não há nenhum outro com maior aparência de objetividade, ilusão ou simulacro do real.
“O movimento na imagem traz consigo não só um índice de realidade suplementar, mas
também uma corporalidade dos objetos, por dar à aparência das formas um „aspecto‟ de
realidade” (BARROS FILHO, 1995, p. 84).

No aspecto que diz respeito ao conteúdo da produção mediática informativa, o autor apresenta
dois lados: a coerência do texto e a coincidência na escolha dos fatos. As perguntas básicas
que compõem a notícia (o quê?, quem?, quando?, onde?, por quê?, como?) são elementos
que fazem crer, segundo Barros Filho (1995) que a matéria é uma descrição tal e qual o
19

acontecimento. Contudo, não adiantaria se cada veículo de comunicação informasse o


acontecimento noticiado de forma distinta e até oposta.

Quando os temas são assuntos nacionais, a cobertura é intensamente focada por diversos
meios, em que uns seguem os outros. O tema é onipresente, ou seja, presente em todos os
meios. Por isso, o autor acrescenta que “há maior probabilidade de um receptor consumir um
jornal diário impresso e outro televisivo no mesmo dia do que dois jornais impressos”
(BARROS FILHO, 1995, p.91).

Para Barros Filho (1995), a subjetividade nada mais é que uma individualização do sujeito, ou
seja, é o reconhecimento que se faz do sujeito. O valor que o público dá, bem como sua
interpretação sobre seus problemas, medos e simpatias em relação às pessoas e aos países é
influenciada pela visão que vem de fora.

Desta forma, Barros Filho (1995) nos elucida sobre os comentários excessivamente
sensacionalistas. Segundo ele, essa parcialidade pode ser considerada como defeitos técnicos
que desqualificam profissionalmente a informação além de contribuir para a difusão de
posturas distorcidas e até agressivas.

Por outro lado, Bucci (2000) afirma que as emoções não atrapalham a precisão. Para o autor,
o bom jornalismo não tem nada a ver com a indiferença e neutralização do sujeito, pois o
público se alimenta também de indignação. Por vezes, na tentativa de se isentar inteiramente
da emoção, pode-se produzir um alheamento no repórter tornando seu texto imprestável visto
que, sem indignação espanto e surpresa não há reportagem. Se o jornalista simular um
distanciamento entre o sujeito e os fatos não conseguirá dialogar com o público. A
objetividade não pede isenção total, mas equilíbrio.

Contudo, isso não significa que o texto deva ser meloso ou conduzido pela ira e pelo protesto.
Pois se isso acontecer, o texto será ineficiente para transmitir os fatos. “As emoções devem
integrar a reportagem assim como integram a alma humana – e, de fato, estão presentes nas
mais marcantes passagens do jornalismo, nos melhores textos, nas grandes manchetes, nas
fotos que fizeram história” (BUCCI, 2000, p.94).
20

No mesmo contexto, Hernandes (2006) afirma que é possível observar alguns textos contendo
um viés ideológico muito evidente. Acontece que o jornal sabe que seu público faria o mesmo
recorte da realidade diante de certos acontecimentos. Assim, o recorte do real não seria
sentido como parcial ou tendencioso pelo público, mas como a realidade do fato, o próprio
real, produto do olhar objetivo.

Hernandes (2006) também acredita haver uma falsa objetividade e esclarece algumas
estratégias usadas pelos jornalistas. Uma das técnicas é fazer com que a notícia seja
manifestada sem a explicação de um “eu”, ou seja, usam a terceira pessoa numa reportagem
como se o próprio assunto estivesse se apresentando para o público. Há também uma tentativa
de persuasão por parte dos jornais para que seu público-alvo acredite que o recorte da
realidade feito ao noticiar o fato é a própria realidade sem a necessidade de provar com
diálogos, fotografias, filmagens e outras possibilidades.

O que a classificação entre textos opinativos, interpretativos e objetivos mostra é que se


tenta fazer crer na idéia de que existe uma maneira de expor a notícia de maneira “neutra”.
O fazer-crer na neutralidade reforça – mas não se confunde com – o efeito de objetividade
no jornalismo, que é produto de estratégias como a de diálogos entre aspas, fotos,
filmagens. (HERNANDES, 2006, p. 34).

Além disso, a divisão entre textos opinativos, interpretativos e objetivos é, de acordo com
Hernandes (2006), mais uma estratégia com a pretensão de controlar o leitor, telespectador,
ouvinte ou internauta sobre a forma como se abordar um fato. Há uma tentativa de se fazer
acreditar que a parte de opinião está nos editoriais ou nos comentários dos colunistas.

Para Rosen (In Traquina 2000) a objetividade pode ser entendida como uma teoria da
separação. Para se conseguir chegar à verdade é preciso separar os fatos dos valores, a
informação da opinião e as notícias dos pontos de vista. Além disso, o autor entende a
objetividade como uma técnica de persuasão. É um conjunto de coisas que os jornalistas
fazem quando saem para relatar as notícias: confiam nas fontes oficiais, citam ambos os lados
e conseguem persuadir seu público.

O jornalista, para Rosen (In Traquina 2000) usa a objetividade para convencer e impressionar
seu público. Para isso abusam de todo o seu entusiasmo e convicções; baseiam seu texto numa
tradição comum ou num conjunto de valores que seu público-alvo partilha; envolvem as
emoções de seu público de forma demagoga. Com isso, o público acaba acreditando que o
21

jornalista apenas entregou os fatos tal quais como o são, não tendo qualquer envolvimento
com os fatos, como se os fatos não os preocupassem particularmente.

Cornu (1999) também esclarece sobre a objetividade jornalística que afirmando que ela deve
ser utilizada como método de orientação para a verdade. Segundo o autor, se o jornalista é
responsável pela verdade, a objetividade deve exigir que se vá ao fundo das investigações,
que se recolha todos os fatos confirmados disponíveis e que se oponha à falsificação,
deformação e mentira.

2.4 Códigos Deontológicos e sua utilização

Alguns dos mais importantes documentos como a Declaração da UNESCO sobre os meios de
comunicação de 1983, a Declaração de Bordéus revista em 1986 e a Declaração de Munique
de 1971, apresentam os princípios essenciais da liberdade de imprensa e o direito à
informação.

Barbeiro (2002) explica que o jornalismo, assim como várias outras profissões, precisa de um
código de ética, um acordo que se comprometa a realizar sua função social de forma
compatível com os princípios universais da ética. Esse código, de acordo com o autor, é
articulado por meio de uma deontologia. O código de ética do jornalista brasileiro é segundo
Barbeiro (2002), um instrumento frágil de regulação do comportamento de seus membros que
não consegue obrigá-los a cumprir seus preceitos.

Bucci (2000) afirma que para a educação dos profissionais, um código de ética pronto e
fechado não adianta muito. Para o autor os coordenadores das equipes jornalísticas e donos de
empresas de comunicação deveriam incluir em suas tarefas a formação ética permanente dos
jornalistas. Os repórteres devem ter o retorno transparente sobre cada decisão ética,
participarem de debates periódicos sobre o tema e ser recomendados a leituras e cursos de
aperfeiçoamento. Além disso, a autoridade ética deve vir da conduta exemplar dos que
comandam as redações seja para observar as regras ou para punir as desobediências.

Para Bucci (2000) é inútil esperar que a lei garanta a qualidade dos conteúdos informativos,
que determine que todo jornalismo seja bom. Ou seja, a legislação cuida das premissas para
22

que a democracia funcione, para garantir a integridade das pessoas, protegendo-as contra a
calúnia, a injúria e a difamação que consta no Código Penal.

Para Barbeiro (2002), a pressão da deontologia é somente de ordem moral. Nesse sentido é
preciso que o código seja uma convicção dos jornalistas, pois o instrumento teórico e prático
que o jornalismo dispõe é de tal ordem que precisa seguir condutas éticas específicas. Por
isso, o autor enfatiza que o jornalista deve saber quais os limites de seu trabalho, visto que a
missão de informar também comporta limites.

Desta forma, Barbeiro (2002) explica que o respeito ao ser humano também faz parte dos
limites do jornalismo. Assim, o autor faz algumas sugestões para uma conduta ética dos
jornalistas. Para Barbeiro (2002) não se deve gravar entrevistas sem o conhecimento da
pessoa, seja lá quem for, pois a busca da audiência incentiva o jornalista a falsear sua
atividade com a desculpa da investigação utilizando recursos como câmera e gravadores
escondidos. “Além de invasão de privacidade, essa atitude põe em risco a integridade dos
personagens que são julgados pela opinião pública por frases isoladas ou declarações
truncadas, fora do contexto dos acontecimentos” (BARBEIRO, 2002, p. 26).

Além disso, o autor alerta para algumas tentações que os jornalistas devem resistir. A busca
pelo chocante, por reportagens de impacto, pode invadir a privacidade dos outros sem contar
com os apelos emocionais. É preciso, segundo Barbeiro (2002), tomar cuidado com
coberturas policiais para o jornalista não cair na tentação de exercer um papel de inquisidor. O
jornalista deve apenas denunciar crimes à sociedade, pois quem apura e pune, se for o caso, é
o Estado.

Contudo, quando a vida de alguém corre perigo, a imprensa deve, segundo o autor, relatar o
acontecido ao delegado, promotor ou outra autoridade. O jornalista pode acompanhar o
trabalho das autoridades policiais, mas não é de sua alçada cooperar, visto que os direitos dos
acusados podem ser violados e a notícia pode cair no sensacionalismo.

Para o autor, o sensacionalismo é contra a missão pedagógica do jornalismo, é o caminho


mais curto para o preconceito e a maneira mais rápida de se conseguir audiência. O jornalista,
segundo Barbeiro (2002) deve ser claro na distinção entre fato e comentário, notícia e
23

entretenimento, pois o compromisso do jornalista é com a notícia correta, de qualidade e ética.


Portanto, o entretenimento deve ser objeto de outros profissionais da TV, não do jornalista.

Barbeiro (2002) atenta para o fato de que atualmente vivemos um tempo em que a facilidade
das transmissões ao vivo leva emissoras de TV a cobrirem chacinas, rebeliões, dentre outros
crimes cujas cenas são mostradas no meio da tarde. Nesses casos, de acordo com o autor, não
deve haver divulgação e isso não significa descompromisso com a informação, mas respeito
com vítimas da violência e com os próprios telespectadores. Também não devem ser
divulgadas notícias ou entrevistas que ajudam a criar uma imagem simpática ou romântica de
criminosos.

Para Barbeiro (2002) o jornalista não pode colocar a vida das pessoas em risco mesmo que
isso impeça a divulgação de uma reportagem, pois o direito à vida está em primeiro lugar.
Nesse caso, segundo o autor, prevalece o artigo 3º da Declaração Universal dos Direitos do
Homem que diz que todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. Em
caso de sequestro, o autor afirma que deve haver apuração por parte dos jornalistas, mas que o
crime não deve ser divulgado quando houver pedido da família, de autoridades ou a convicção
de que a divulgação vai colocar em risco a vida da pessoa sequestrada.

Barbeiro (2002) afirma que a justiça cuida e observa as leis penais e civis do país, mas o
código de ética não é de sua competência. Entretanto, se houver dano moral ou material
provocado pela falta de ética e não observação da legislação vigente, a justiça deverá interferir
para que a verdade se estabeleça e os ofendidos sejam reparados. Isto é, além das questões
éticas que são tratadas por uma Comissão de Ética eleita em Assembléia Geral da categoria,
há os limites estabelecidos pela lei e o jornalista pode responder tanto civil como
criminalmente.
24

3 A TV E O TELEJORNALISMO

Neste capítulo veremos como a televisão é um objeto difícil de analisar diante da inexistência
de um retorno em relação àquilo que se emite. Contudo, será possível verificar a existência de
um conformismo crítico derivado da resistência intelectual à análise da televisão e críticas
fundamentadas nas análises da televisão em relação à sua busca incessante pela mais ampla
audiência. Discutirá ainda os diferentes mecanismos que compõe a televisão, as técnicas de
entrevista, os programas populares, o espetáculo e a violência na TV.

3.1 Televisão: símbolo do conformismo crítico

“Digam-me quais os programas assistidos e eu lhes direi qual a concepção de público que
existe na cabeça dos que os produziram” (WOLTON, 1996, p. 15). Para Wolton (1996), se o
público assiste mais programas de qualidade inferior que de superior não significa que gostem
mais destes, mas que lhes são oferecidos mais programas ruins que bons. De acordo com o
autor, cada um consome a televisão individualmente com o objetivo principal de se distrair.

“A televisão não é um objeto nobre. É ambiente de discursos convencionais, de clichês. A


televisão ou o preço mínimo das idéias” (WOLTON, 1996, p. 11). O autor acredita que a
televisão é uma atividade cultural e social que mobiliza as paixões, a burrice do seu público, a
passividade do espectador e a alienação da imagem, além de fazer pouquíssimas reflexões e
influenciar bastante.

Por outro lado, Machado (2005) tem uma visão diferente nomeando a qualidade como a
questão central de sua análise: para se pensar em televisão de qualidade é preciso pensar em
recepção de qualidade. Para o autor é um engano dizer que na televisão só exista banalidade,
pois fora da televisão as coisas não são tão diferentes assim. “O fenômeno da banalização é
resultado de uma apropriação industrial da cultura e pode ser hoje estendido a toda e qualquer
forma de produção intelectual do homem” (MACHADO, 2005, p. 9).

Wolton (1996) relata que a televisão é a soma das imagens e do laço social. A imagem é
composta pelo divertimento e pelo espetáculo que dão origem à dimensão técnica. O laço
social é a comunicação que origina a dimensão social. A associação dessas duas dimensões,
técnica e social dão origem a duas ideologias que superestimam o papel do instrumento e do
25

que podemos fazê-la desempenhar. O autor faz uma abordagem sociológica e cultural da
televisão mostrando que o seu papel central deve ser compreendido mais pelo lado da
comunicação do que do laço social.

Wolton (1996) afirma que é característica da televisão a tensão entre duas escalas
contraditórias: a individual e a coletiva. Segundo o autor, o caráter da televisão é unir
indivíduos e públicos propondo-lhes a possibilidade de participar individualmente de uma
atividade coletiva. Desta forma, o espectador é o mesmo indivíduo que o cidadão, portanto,
devem-lhe ser atribuídas as mesmas qualidades. Por exemplo, se o público é influenciável e
manipulável, o cidadão também o é.

Wolton (1996) acrescenta que a televisão é um objeto de conversação e sua força está na
unção da experiência individual e coletiva, pois é a única que consegue ligar igualmente os
pobres e os ricos, os velhos e os jovens, os rurais e os urbanos. Todos nós assistimos à
televisão e depois fazemos comentários a seu respeito. Sua importância é política e social.
Desta maneira, o controle de suas imagens não garante o controle das consciências. O autor
revela que o verdadeiro desafio de uma atividade de comunicação é a conquista do grande
público.

Porém, o discurso crítico do público é diferente, pois ele faz um juízo sobre a televisão
justamente porque a assiste. Segundo Wolton (1996), o discurso do público é, na maioria das
vezes, crítico, pois aquilo o que a televisão realmente fornece não corresponde às
expectativas.

Para Wolton (1996), todo o mundo tem uma opinião sobre a televisão e assegura saber
exatamente aquilo o que ela é. Esse é o preço da popularidade que a televisão tem em uma
sociedade democrática, pois, assim como o poder político, a televisão está submetida ao
julgamento crítico do público.

Por um lado, as reclamações dos espectadores mostram que o público não é bobo, segundo o
autor. Eles reconhecem e criticam a falta de inovação, a obsessão com a audiência, a
excessiva espetacularização da informação, a escassez de programas científicos, culturais, etc.
Por outro lado, Wolton (1996) também lembra que o espectador é indiferente diante da
imagem, perde o seu senso crítico e se torna influenciável. Isso acaba favorecendo os modelos
culturais dominantes e uma verdadeira alienação que a televisão pode provocar.
26

Wolton (1996) acredita que a televisão é uma mídia difícil de aprender e muito complexa para
ser analisada já que ela ocupa um lugar determinante na vida de cada um, tanto pela
informação quanto pelo divertimento que proporciona. Desta maneira, acabamos perdendo a
vontade de refletir sobre o que a televisão é realmente, pelo fato de ela se tornar um mundo
diferente do da vida cotidiana. Ou seja, é difícil adaptar-se a um contexto e ao mesmo tempo
se distanciar dele para analisá-lo ininterruptamente.

Hoje em dia, segundo Wolton (1996), temos uma sensação de exercer a nossa liberdade
escolhendo aquilo o que desejamos assistir devido à multiplicação de canais. Surge desta
forma, a chamada “preguiça” intelectual, o conformismo crítico de se pensar a televisão com
seu caráter popular e banal fazendo com que a excluímos da pauta dos assuntos que precisam
ser pensados. Esse conformismo crítico tornou-se um estereotipo composto por um conjunto
de clichês, cuja base de sua legitimidade era a repetição.

Wolton (1996) compara a televisão com o jornal televisionado: assistimos ao telejornal


quando estamos interessados num assunto que, geralmente, é tratado rapidamente. Com isso,
passamos a assistir outros assuntos que não nos interessam a priori, mas que por sua simples
presença mostra que devem ter certo interesse ou devem, em todo caso, interessar a alguém.

O autor explica que a sociedade se vê através da televisão e que esta lhe oferece uma
representação de si mesma. “E ao fazer a sociedade refletir-se, a televisão cria não apenas
uma imagem e uma representação, mas oferece um laço a todos aqueles que a assistem
simultaneamente” (WOLTON, 1996, p. 124).

Traquina (1999) desmonta essa idéia refutando a teoria do espelho e questionando se as


notícias refletem mesmo a realidade da sociedade. Segundo essa teoria, as notícias são do
jeito que as conhecemos porque a realidade assim as determina. A imprensa funciona como
um espelho do real, apresentando um reflexo dos acontecimentos do cotidiano. Mas, na
verdade, isso é um mito porque o jornalismo recorta a realidade, não é o seu reflexo.

Machado (2005) também não concorda com essa idéia afirmando que nos últimos anos a
discussão sobre a televisão tornou-se ingênua e equivocada chegando ao extremo de “sugerir
que as formas mais degradantes de televisão „refletem‟ (a velha tese da „reflexão‟) a
degeneração social ou as mazelas da desigualdade econômica, funcionando, portanto, como
um sintoma ruidoso do estado de convulsão dos excluídos” (MACHADO, 2005, p.12).
27

Além disso, o autor considera muitos analistas intelectuais ingênuos quando procuram provar
que os telejornais não são neutros, objetivos e imparciais. Para Machado (2005), em um
debate sobre o governo, se a televisão coloca três opiniões a favor e uma contra não se pode
concluir que o espectador vai necessariamente acatar as opiniões majoritárias. “Pode até ser
que, a partir das opiniões apresentadas, ele forme uma terceira, nem sequer cogitada na tela”
(MACHADO, 2005, p. 112).

Para o autor, existe vida inteligente na televisão e de tudo o que ela produziu efetivamente em
seus mais de 50 anos de existência conhecemos muito pouco ou apenas o pior, como se tudo o
que vemos na televisão fosse sinônimo de lixo. Contudo, segundo Machado (2005), não
vemos nada além porque não queremos ver. Diante disso, o autor propõe um resgate da
inteligência, da criatividade e do espírito crítico.

O autor não aceita que a televisão pague sozinha pela culpa de uma mercantilização
generalizada da cultura e apresenta dois fenômenos para exemplificar. O primeiro é a
transformação das livrarias em “supermercados” da cultura vendendo sua subliteratura de
consolo como os manuais de auto-ajuda. O segundo é a produção de filmes descartáveis para
o cinema lotando as salas de shoppings centers.

Nas palavras de Machado (2005) é preciso pensar no conjunto de trabalhos audiovisuais


variados, desiguais e contraditórios que compõem a televisão. Da mesma forma como o
cinema é constituído por todos os filmes produzidos e a literatura é a junção de todas as obras
literárias escritas ou oralizadas.

3.2 Os diferentes mecanismos que compõem a televisão

Considerando que o objeto de pesquisa deste trabalho é um programa de TV que contém viés
jornalístico, é necessário apresentar os mecanismos que compõem esse meio de comunicação.
“Sobre a televisão, o índice de audiência exerce um efeito inteiramente particular: ele se
retraduz na pressão da urgência” (BOURDIEU, 1997, p. 38). O autor afirma que a
concorrência entre os veículos de comunicação de massa toma forma de uma concorrência
pelo furo jornalístico para serem os primeiros a noticiar.
28

Bourdieu (1997) esclarece que, na televisão, há uma censura invisível já que o assunto é
estabelecido, assim como as condições da comunicação: a limitação do tempo impõe
restrições ao discurso. Na explicação do autor, as notícias de variedades são o alimento
predileto da imprensa sensacionalista, pois tratam de sangue, sexo, dramas e crimes. São
assuntos que trazem audiência e que preocupam o respeito imposto pelo modelo de imprensa
séria que até então se afastava desse tipo de notícia.

As palavras comuns não servem para a televisão, o que de fato faz sucesso são as palavras
extraordinárias, pois segundo Bourdieu (1997), o mundo das imagens é dominado pelas
palavras. Uma foto, por exemplo, precisa de uma legenda que diz o que é preciso ler sobre
aquela imagem. E as palavras podem causar estragos, de acordo com o autor. Vemos muitos
apresentadores que falam levianamente sem ter a menor idéia da gravidade e da
responsabilidade do que dizem, pois as palavras criam fantasias, medos, fobias ou
representações falsas, de acordo com Bourdieu (1997).

As variedades, os incidentes ou os acidentes cotidianos podem estar carregados de


implicações políticas, éticas etc. capazes de desencadear sentimentos fortes, frequentemente
negativos, como o racismo, a xenofobia, o medo-ódio do estrangeiro, e a simples narração,
o fato de relatar, to record, como repórter, implica sempre uma construção social da
realidade capaz de exercer efeitos sociais de mobilização (ou de desmobilização).
(BOURDIEU, 1997, p. 28).

Assim, Bourdieu (1997) nos faz perceber que os jornalistas que seguem essa linha estão
mesmo é interessados pelo que é excepcional para eles, já que o que é banal para os outros
pode ser extraordinário para eles e vice e versa. Isso, segundo o autor, é uma forma de fazer
diferente dos outros e a consequência disso é que todos os veículos acabam fazendo a mesma
coisa em busca da exclusividade para produzir a originalidade o que resulta na banalização e
uniformização da informação.

Apesar disso, segundo Machado (2005), a televisão acumulou nesses últimos 50 anos de
história um repertório de obras criativas, maior do que se supõe normalmente. Assim, o autor
a inclui em um dos mais importantes fenômenos culturais de nosso tempo.

Há um elo entre o pensamento e o tempo, de acordo com Bourdieu (1997). O autor elucida
que a televisão não é muito propícia à expressão do pensamento, pois na urgência não se pode
pensar. O autor denomina de fast-thinkers aquelas pessoas que pensam mais rápido que suas
próprias sombras. Segundo ele, é preciso nos perguntar por que essas pessoas são capazes de
29

pensar em velocidade acelerada, pois a resposta é muito simples: os fast-thinkers pensam por
idéias prontas. Idéias banais, comuns e convencionais que quando se resolve aceitá-las, já
estão aceitas.

O campo jornalístico, segundo o autor, tem o poder sobre os meios de se mostrar


publicamente. “O que lhes proporciona ser cercados (pelo menos os mais poderosos deles) de
uma consideração muitas vezes desproporcional a seus méritos intelectuais...” (BOURDIEU,
1997, p. 66). Com isso, podem desviar uma parte desse poder em seu proveito.

Conforme palavras de Bourdieu (1997), a televisão tem condições de ter acesso à visibilidade
pública e com isso, à expressão em grande escala. A televisão impõe seus princípios de visão
de mundo, seu ponto de vista à nossa sociedade. Para o autor, os jornalistas exercem uma
censura ao reter apenas o que lhes interessam e lhes prendem a atenção. É uma seleção que os
jornalistas fazem na realidade social esquecendo a insignificância ou a indiferença que os
cidadãos mereceriam apreender.

O autor relata que certas categorias de jornalistas são recrutadas por suas aptidões de se
curvarem diante das expectativas de um público menos exigente, ou seja, públicos
indiferentes à deontologia jornalística. Esses jornalistas são levados pela concorrência e
recorrem aos velhos truques sensacionalistas dando o lugar a notícias de variedades na
televisão que acabam por produzir um vazio político reduzindo os assuntos em mexericos
nacionais ou planetários como vida das estrelas e das famílias reais (BOURDIEU, 1997).

Segundo o autor, a busca do sensacional ou do sucesso comercial leva o jornalista a selecionar


variedades abusando da demagogia, despertando o interesse bajulador das paixões e pulsões
humanas, se aproveitando de mobilizações sentimentais, passionais e agressivas “[...]
próximas do linchamento simbólico, como os assassinatos de criança ou os incidentes
associados a grupos estigmatizados” (BORDIEU, 1997, p. 74).

Contudo, para Bourdieu (1997), o jornalismo está sob a pressão do campo econômico por
causa do índice de audiência. Não se deve contentar-se somente em denunciar os
responsáveis. Fala-se muito em moral, mas é preciso que o público tenha interesse na moral.

Porém, a idéia defendida por Machado (2005) é a de que não são produzidos trabalhos
contendo uma visão positiva sobre televisão, ou seja, muito do que esse veículo tem de
30

interessante é simplesmente ignorado. Segundo o autor, as análises atuais feitas sobre a


televisão não consideram que ela pode desempenhar um papel positivo dentro da cultura, seja
como um fenômeno de massa, ou como uma possibilidade de a civilização se exprimir.

Machado (2005) afirma que, dentre outros mecanismos, a televisão também deve funcionar
como um dispositivo audiovisual pelo qual a civilização pode exprimir seus anseios e
dúvidas, crenças e descrenças aos seus contemporâneos. Desta forma, a televisão é
apresentada, geralmente, como um meio de comunicação degradado e degradante. O
argumento do autor é de que a televisão não pode ser definida como um veículo bom ou mau
sem que se considere o uso que se faz dela.

As principais críticas dirigidas à televisão, segundo Machado (2005), derivam principalmente


do desconhecimento da diversidade existente neste veículo. Portanto, é preciso se pensar em
televisão sob uma perspectiva mais valorativa, visto que a demanda comercial e o contexto
industrial não impedem o fornecimento de um serviço de qualidade. No entanto, se muitos
teóricos precedentes pecaram pelo excesso de crítica, Machado (2005) peca por se situar no
extremo oposto.

3.3 Entrevista: mais que técnica, um diálogo

Cremilda Medina (2000) conceitua a entrevista como um gênero jornalístico. “(...) uma
técnica de obtenção de informações que recorre ao particular; por isso se vale, na maioria das
circunstâncias, da fonte individualizada e lhe dá crédito, sem preocupações científicas”.
(MEDINA, 2000, p. 18).

Para Barbeiro (2002), a exposição da intimidade do entrevistado como os gestos, o olhar, o


tom de voz, o modo de se vestir é algo que, ao contrário do jornalismo impresso, somente a
entrevista de televisão pode transmitir. O autor enfatiza que a entrevista deve seguir uma
ordem cronológica contendo começo, meio e fim. A pergunta deve obedecer ao tamanho
suficiente para que o telespectador entenda o assunto, ou seja, não pode ser nem pequena,
nem grande demais. “Alguns entrevistadores falam tanto sobre o tema que acabam
respondendo à própria pergunta, deixando o entrevistado sem ter o que dizer” (BARBEIRO,
2002, p.85).
31

Segundo o autor, a entrevista não pode durar mais que o tempo necessário. O entrevistado fala
para o público por intermédio do entrevistador. É importante fugir de perguntas óbvias e não
interromper o entrevistado sem que ele tenha concluído o pensamento.

Quanto ao conteúdo ético da entrevista, Barbeiro (2002) ressalta que o entrevistado não deve,
sob nenhuma hipótese, ser enganado sobre o tema da entrevista. O jornalista também não
deve induzir o entrevistado a dar a resposta que se quer ouvir, nem fazer afirmações no lugar
de perguntas esperando conseguir apoio do entrevistado à sua opinião. Outro erro é invadir a
privacidade do entrevistado. É dever de todo jornalista preservar a vida pessoal do
entrevistado agindo sempre pautado em ações éticas.

Além disso, Cremilda Medina (2000) elucida em sua obra que, para ser o braço direito da
comunicação humana, a entrevista jornalística não deve ser encarada como uma simples
técnica. Desta forma, a autora explica como realizar o que denomina de Diálogo Possível: é
quando entrevistado e entrevistador se modificam, se revelam e se interagem com a entrevista.

Segundo Medina (2000), quando se elucida uma determinada compreensão do mundo, quando
a técnica da entrevista é ultrapassada pela intimidade, tem-se o momento raro chamado de
Diálogo Possível. Rotulada de ideal, Medina (2000) afirma que essa situação acontece no
cotidiano mesmo nas entrevistas levadas às últimas consequências.

Sendo assim, é preciso mais do que recolher fatos, informar e motivar, pois para Medina
(2000), tanto na fala do entrevistado quanto no tom das perguntas feitas pelo entrevistador, o
leitor, ouvinte ou telespectador “sente” a emoção e a autenticidade daquela entrevista. De
acordo com a autora, a espetacularização “é construída de forma artificial através de
„liberdades‟ opinativas do jornalista, que atribui qualificações, cacoetes, idiossincrasias ao
entrevistado, segundo os modismos vigentes” (MEDINA, 2000, p. 57).

Medina (2000) agrupa as entrevistas em duas tendências (espetacularização e compreensão)


que são divididas em subgêneros. Na espetacularização, o “perfil do pitoresco” é relatado
como uma caricatura do perfil humano em que são salientados o grotesco e os traços
sensacionalistas. O “perfil do inusitado” é quando se extrai da pessoa em foco uma
característica excêntrica e exótica, mesmo que à força. Já o “perfil da condenação” é aquele
32

utilizado no jornalismo policial forçando a entrevista a condenar o bandido ou, raramente, o


policial. E, por fim, o “perfil da ironia intelectualizada”, em que, ironicamente, procura-se
extrair da pessoa uma forma de contestar e condenar suas idéias, seleciona-se frases fora do
contexto com o intuito de transformar a pessoa, que no princípio era boa, em um monstro.

Na tendência compreensão, Medina (2000) classifica a “entrevista conceitual” como uma


técnica em que o repórter procura especialistas com uma bagagem informativa, ou seja, o
entrevistador se interessa pelos conceitos que a fonte entrevistada possa ter. Na
“entrevista/enquete”, Medina (2000) dá o exemplo do povo-fala para explicar esse subgênero
que salienta o critério aleatório para selecionar as fontes. A “entrevista investigativa” utiliza
geralmente a habilidade da entrevista em off ou em on, mas de consumo interno do
entrevistador. Na “confrontação-polemização”, os veículos de comunicação apelam para o
debate e temas polêmicos em que há sempre contradições entre opiniões. Neste caso, o
jornalista exerce o papel de mediador. O último subgênero relatado por Medina (2000) é o
“perfil humanizado” em que a entrevista procura mostrar os conceitos do entrevistado,
compreender seus valores, comportamentos e histórico de vida.

3.4 Imprensa Popular de TV

De acordo com França (2006), a partir da segunda metade da década de 90, a programação da
televisão brasileira passou por significativas transformações. O espaço destacando os
programas populares é a principal delas. Esses programas apresentam características
peculiares, segundo a autora, que mostram desde pessoas comuns resolvendo seus problemas
pessoais ao vivo na base da baixaria até programas com viés jornalístico que espetacularizam
as notícias valorizando a cobertura de fatos violentos, a dramatização e a exploração dos
depoimentos das vítimas.

Araújo (2006) descreve três das características mais comuns à maioria destes programas. A
primeira se refere aos protagonistas, pessoas comuns até então desconhecidas do grande
público. Uma segunda característica apontada pelo autor é a preocupação exagerada em exibir
fatos reais. Para isso, procuram inserir acontecimentos ao vivo ou gravações na rua. A terceira
trata-se da “exploração dos fatos da vida privada a partir de depoimentos, invasões na casa
das pessoas, registros com câmeras escondidas ou vigilância 24 horas por dia de um
ambiente” (ARAÚJO, 2006, p. 49).
33

Os fatos privados, de acordo com o autor, estão relacionados à esfera íntima dos indivíduos
que se transformam em fatos públicos ao ser exibidos. Quem também trata dessa linha de
pensamento é Thompson (2005) para quem “público” significava atividade ou autoridade
relativa ao estado e “privado” se referia às atividades ou esferas da vida que eram excluídas
ou separadas. Agora, a partir do séc. XIX, para o autor, as atividades econômicas e a vida
social, as relações pessoais e familiares, a invisibilidade, o segredo, aquilo que se esconde da
vista dos outros, fazem parte do domínio privado. E o domínio público são as organizações
econômicas pertencentes ao estado: significa abertura, acessível ao público, visibilidade.

Assim, de acordo com o autor, a mídia cria novas intimidades. Conhecemos pessoas através
da televisão, artistas e líderes públicos e os consideramos íntimos. Depois do
desenvolvimento dos meios de comunicação de massa, foi possível ver e ouvir nossos líderes.
A visibilidade mediática transformou a natureza do público e do privado.

“O desenvolvimento da mídia criou novas formas de publicidade que são bem diferentes da
publicidade tradicional da co-presença” (THOMPSON, 2005, p. 114). Para o autor, a
visibilidade está associada à publicidade no sentido de tornar as pessoas como produto:
aparecer, anunciar, exaltar a massa, tornar público. Na modernidade a fronteira entre público e
privado está cada vez mais tênue. O poder não é mais legitimado no sagrado, mas na opinião
pública, aberta, crítica. Assim, de acordo com Thompson, o advento da imprensa no início da
Europa moderna criou uma nova forma de publicidade ligada às características da palavra
impressa e a seu modo de produção, difusão e apropriação.

Além disso, Araújo (2006) ressalta a preocupação desses programas com os índices de
audiência a todo o custo. Em nome da adesão do público e da popularidade, alteram o que for
necessário, interrompem subitamente determinado quadro, trocam personagens, temas,
formatos e até horários. Para Araújo (2006), ao longo dos anos, a TV brasileira sempre teve
no conteúdo de sua programação a presença de pessoas famosas na condição de protagonistas.
A figura do homem comum, anônimo, sempre esteve na condição de meros espectadores,
consumidores do conteúdo dos meios.
34

Segundo o autor, essa programação que surge nos anos 1990 trazendo em sua essência a
inovação dos fatos reais, que antes eram vistos apenas no espaço do telejornalismo, torna o
homem comum o protagonista da programação televisiva. O autor explica a distinção feita na
televisão entre informação e entretenimento da cultura. A informação está preocupada,
segundo o autor, com o tratamento objetivo e fiel à realidade. O entretenimento visa ao
divertimento e à promoção da divulgação do patrimônio artístico e histórico-cultural.

Desta forma, o espaço específico para o tratamento do real na TV é o campo da informação


com o desenvolvimento das técnicas do jornalismo. “Ao mesmo tempo, programas que
copiam a fórmula jornalística, (...) esquecem a receita da objetividade e dramatizam e
espetacularizam o real de que vão tratar” (ARAÚJO, 2006, p. 56). No entanto, nos programas
populares de televisão, segundo o autor, o real não é mais tratado como informação, mas
como espetáculo. O tratamento do real que faz sucesso nos programas populares não
apresenta a realidade tal qual é apresentada na TV brasileira.

O homem comum não assume papel de estrela, mas ocupa o espaço da fama por alguns
minutos. A partir disso, é possível, de acordo com o autor, traçar cinco situações em que esse
homem simples aparece nos programas populares: 1) a pessoa se apresenta como se fosse uma
atração de circo, 2) o indivíduo leva seus problemas pessoais e os expõe no programa, 3) a
pessoa vai ao programa com o objetivo de realizar algum desejo, 4) o anônimo vai ao
programa para participar de algum jogo a fim de consegui algum prêmio oferecido ao
vencedor e 5) a pessoa é tratada como vítima e vai ao programa para expressar seu sofrimento
ou revolta diante de algum crime.

As vítimas ou as famílias de vítimas, segundo Araújo (2006), são pessoas que sofreram
alguma forma de agressão física ou psicológica que vão ao programa para narrar o
acontecimento cujos depoimentos são, muitas vezes, emocionados, pedindo por justiça.
Geralmente esses fatos são reproduzidos em simulações representadas por artistas. Mostra-se
uma foto das vítimas ou dos culpados, além de filmagens e voz.

Desta forma, Araújo (2006) apresenta algumas estratégias construídas pelos programas
populares para conferir status de real às atrações que veiculam: reforçam a aparição de
imagens que atestam que os locais são reais descrevendo-os; utilizam a expressão “ao vivo”,
35

exibem o horário, falam a hora certa ou apresentam flashes ao longo do dia para conferir
realidade aos programas utilizando o tempo da vida cotidiana; exibem falhas mostrando que
não há edições ou montagens e que o programa é autêntico; recolhem depoimentos das
pessoas que atestam a veracidade dos fatos relatados nos programas provando que são reais e
não personagens contratados.

Este conjunto de estratégias permite identificar como os programas populares tentam, em


primeiro lugar, se aproximar do universo de referência dos telespectadores, se constituir
como algo em torno de seu aqui e agora (a partir da aproximação no espaço e no tempo).
Em segundo lugar, se apresentar como a realidade, na medida em que mostram como são
produzidos, abrem as portas de seu processo de produção, eliminando a necessidade de um
questionamento (sendo encarados como “naturalmente reais”). E, por fim, buscando a
verossimilhança, conseguida a partir de uma definição coletiva, socialmente partilhada, do
que é real – obtida por meio dos depoimentos, da presença de pessoas “verdadeiras”
atestando a realidade dos fatos, e também da narrativização dos acontecimentos
apresentados. (ARAÚJO, 2006, p. 60).

Além disso, França (2006) afirma que esses participantes não representam exatamente a
figura do homem comum, mas grande parte da população brasileira que sofre diversas formas
de exclusão e problemas de sobrevivência. Eles estão no programa numa posição frágil para
serem ajudados, mostrados e até julgados. Também lhes falta a autonomia. “Foram
convocados pelos programas e atuam nos lugares e papéis que lhes foram definidos pela
produção (alguns chegam lá desconhecendo o que vai se passar, outros orientados para reagir
desta e daquela maneira)” (FRANÇA, 2006, p. 146).

A autora ressalta que não é possível saber as razões que levam essas pessoas a participarem
desses programas populares numa posição, muitas vezes, de chacota. Independente disso, o
processo que os levaram a fazê-lo foi uma escolha e em alguns casos até uma conquista.
Portanto, por mais que lhes faltem condições práticas, que vivam em situações de carência é
um engano pensar que são desprovidas de vontades, intenções e arbítrio. Segundo a autora,
em cena, esses tipos populares representam por conta própria e, ao fazê-lo, parecem
representar certo gozo.

França (2006) revela que em programas populares os apresentadores assumem papéis


variados como o de defensores dos fracos, juízes, advogados, psicólogos, assistentes sociais,
detetives, enfim, ocupam um lugar de conselheiros da moral, num momento em que os
valores morais estão enfraquecidos. Eles fundam sua legitimidade quando dizem exatamente
o que se espera que dizem defendendo os valores do bem e denunciando os desvios. Assim, a
36

autora enfatiza a rapidez e superficialidade com que os casos são julgados e classificados. “Os
personagens e histórias ali encenados não são senão um pretexto para o discurso moralista-
autoritário do apresentador” (FRANÇA, 2006, p.145).

A esses programas, completa a autora, surgem várias justificativas críticas sobre o


sensacionalismo exagerado, a exploração da dor, a brutal exibição da violência e da
sexualidade, o tratamento caricatual, desrespeitoso e antiético para com as pessoas
convocadas. “Essa TV „popular‟ incomoda por muitas razões, e entre elas, porque ela fala da
miséria e da carência; porque ela expõe – de forma cínica, sarcástica, mas também pungente –
a dor do outro” (FRANÇA, 2006, p. 148).

Para Bistane e Bicellar (2005) os apresentadores falam alto, apontam o dedo, se dizem
indignados com a impunidade e, com cinismo, pedem o fim da violência, matéria-prima de
seus programas. Estes conteúdos misturam entretenimento, informação, fofoca sobre
celebridades, sorteios e shows musicais. Além disso, dizem que fazem reportagens e usam a
expressão jornalismo. Isso confunde o público e abala a credibilidade de jornalistas
empenhados no funcionamento correto da democracia.

Contudo, de acordo com a autora, a aparição desses tipos populares é em si uma denúncia,
pois, mesmo maltratado o povo está na TV mostrando sua realidade que vai muito mais além
da televisão. Assim, a autora reflete sobre a função social que estes programas são capazes de
cumprir. Além de proporcionar o entretenimento, os apresentadores são porta-vozes de
funções exemplares para a sociedade reforçando as normas.

3.5 Espetáculo na TV

No exercício do jornalismo, por vezes, vemos distorções desencadeadas pela busca diária e
frenética por novidades. Desta forma, de acordo com Bistane e Bacellar (2005), a apuração
criteriosa pode ser sacrificada na ânsia de divulgar uma informação antes da concorrência.
Afinal, a credibilidade vem da precisão da notícia, da apuração correta, não de quem informa
primeiro.
37

Sodré (2002) ressalta que a adaptação de festas e espetáculos públicos espontâneos no Brasil
acompanhou o percurso da praça e do teatro para o rádio e deste para o cinema e a TV. Desta
forma, a partir da década de 40, passava pelo rádio uma comunicação fortalecida na indústria
do entretenimento com programas de auditório e no cinema com as chanchadas predominando
a estética do grotesco das paródias.

Para Sodré (2002) na programação da televisão brasileira em meados dos anos 1960 ainda
havia traços culturalistas. No entanto, com o objetivo de cooptar faixas mais amplas de
audiência, na tentativa de se consolidar como veículo massivo, a TV busca se popularizar da
mesma forma como o rádio outrora o fez. Com isso, a televisão acaba caindo nas malhas do
comércio e da publicidade. “A estratégica básica consistia em traduzir para o espaço
televisivo o ethos festivo de praça pública já presente nos programas de auditório radiofônico”
(SODRÉ, 2002, p. 111, grifo do autor).

Desta forma, a televisão brasileira, segundo o autor, expropriou o rádio de seu público
fazendo o auditório da televisão exercer a mesma função que lhe garantia sucesso no rádio.
Esse fenômeno, de acordo com o autor, ficou conhecido como programa popularesco que
significa “espontaneidade popular industrialmente transposta e manipulada por meios de
comunicação, com vistas à captação e ampliação de audiência urbana” (SODRÉ, 2002, p.
111-112). Assim, a TV recria a espontaneidade das festas e dos espetáculos públicos.

Para Chauí (2006) ser espectador de programas televisivos, cujo objeto central do espetáculo
é a intimidade das pessoas, é um quadro que já faz parte da vida da grande maioria da
população brasileira. A autora ressalta que esses tipos de programas obedecem aos padrões do
mercado utilizando o mesmo procedimento usado na propaganda. “Para muitos, o maior
malefício trazido à cultura pelos meios de comunicação de massa tem sido a banalização
cultural e a redução da realidade à mera condição de espetáculo” (CHAUÍ, 2006, p. 14).

Segundo nota da autora, a palavra espetáculo vem do latim e pertence ao campo da visão. O
verbo specio significa ver, observar, olhar, perceber. Specto é o mesmo que ver, olhar,
examinar, ver com reflexão, provar, ajuizar, acautelar, esperar. Spectator é o que vê, observa,
e spetaculum é a festa pública. Destra forma, a palavra espetáculo e a palavra especulação
possuem a mesma origem que estão relacionadas ao conhecimento.
38

Gomes (2007) desloca o substantivo “espetáculo” para o adjetivo “espetacular” e explica suas
características derivadas do espetáculo: “se o que é digno de apreciação é apreciável, o que
merece ser mirado é admirado, o que é objeto constante de nota é notável. Esse mesmo ritmo
e lógica nos trazem o sentido contemporâneo de „espetacular‟ como o está aí para ser visto ou,
mais que isso, como aquilo que merece ser visto e, hiperbolicamente, aquilo cuja visão enche
os olhos” (GOMES, 2007, p.393).

O espetáculo é definido de várias maneiras para Debord (1997). Segundo o autor, a imagem é
uma abstração do real e o espetáculo é tudo aquilo no mundo que se torna abstrato. É uma
relação social entre as pessoas mediada por imagens, uma visão cristalizada do mundo. Desta
forma, espetáculo também é exploração do trabalho social que se tornou um modelo atual da
vida dominante na sociedade. “Sob todas as suas formas particulares – informação ou
propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimentos –, o espetáculo constitui o
modelo atual da vida dominante na sociedade” (DEBORD, 1997, p.14, grifo do autor).

Debord (1997) chama de espetaculista a sociedade que repousa sobre a indústria moderna. A
mensagem que o espetáculo passa é a de que tudo o que aparece é bom e tudo o que é bom
aparece. Sendo assim, para o autor, o espetáculo é a principal produção da sociedade atual e é,
ao mesmo tempo, parte da sociedade. O espetáculo é foco do olhar iludido e da falsa
consciência, é um mundo à parte, objeto de contemplação onde o mentiroso mente para si
mesmo.

Por isso, Debord (1997) esclarece que se há uma abstração generalizada é por causa de uma
sociedade capitalista, ou seja, para o autor, o espetáculo é o capital no qual a mercadoria
ocupa a vida social. “O homem separado de seu produto produz, cada vez mais e com mais
força, todos os detalhes de seu mundo. Assim, vê-se cada vez mais separado de seu mundo.
Quanto mais sua vida se torna seu produto, tanto mais ele se separa da vida” (DEBORD,
1997, p.25).

Em Gomes (2007) também se pode ter uma boa contribuição a cerca do espetáculo. Para o
autor o espetáculo coloca o seu apreciador na condição de espectador. A notícia como
espetáculo, para o autor, é composta para se exibir e para ser apreciada, colocando o cidadão
39

na situação de espectador. Desta forma, é necessário ressaltar que a representação teatral é


uma das espécies do gênero espetáculo. Contém papéis, personagens, estrutura narrativa e
efeitos emocionais.

Assim, o modo como a notícia contemporânea é apresentada diante da comunicação de massa


se parece com as artes dramáticas. “Papéis são incorporados, falas são recitadas, conflitos são
simulados, há cenários, luzes, bastidores, cena, diretores, maquiadores, figurinos, platéia,
atores, antagonistas, protagonistas, peripécia e desenlace” (GOMES, 2007, p.388).

Para outro autor, por exemplo, a sociedade é viciada no espetáculo “fruto de uma indústria da
cultura que se sofistica cada vez mais na banalidade com a competente ajuda do
aparelhamento tecnológico” (COSTA, 2009, p. 194). Assim, para sintetizar e atualizar as
preocupações dos autores citados, Chauí (2006) teoriza sobre a produção do espetáculo.

A chamada cultura de massa se apropria das obras culturais para consumi-las, devorá-las,
destruí-las, nulificá-las em simulacros. Justamente porque o espetáculo se torna simulacro e
o simulacro se põe como entretenimento, os meios de comunicação de massa transformam
tudo em entretenimento (guerras, genocídios, greves, festas, cerimônias religiosas,
tragédias, políticas, catástrofes naturais e das cidades, obras de arte, obras de pensamento).
Visto que a destruição dos fatos, acontecimentos e obras segue a lógica do consumo, da
futilidade, da banalização e do simulacro, não espanta que tudo se reduza, ao fim e ao cabo,
a uma questão pessoal de preferência, gosto, predileção, aversão, sentimentos. É isto o
mercado cultural. (CHAUÍ, 2006, p. 22).

Entretanto, Sodré (2002) confessa a existência de pessoas que enxergam na programação


televisiva espetacular a realização de um projeto de cultura nacional e popular nunca antes
conseguida pelo cinema ou qualquer outro tipo de espetáculo no Brasil.

3.6 Violência na Mídia

Ramos e Paiva (2007) revelam que nas décadas de 1980 e 90 a frequência de jornalistas
fazendo dos criminosos suas fontes era grande. Era comum que a imprensa brasileira e seus
repórteres de polícia entrevistassem traficantes de drogas e armas, muitas vezes em coletivas.
Atualmente, a maioria nega que procurem criminosos como fonte e afirmam não dar voz ao
bandido.
40

As autoras alertam que essas declarações não podem ser consideradas como verdade absoluta,
pois os jornais não deixaram de publicar entrevistas com criminosos. “O autor de um crime de
grande repercussão (...) continua a ser procurado por jornalistas, interessados em „ouvir o
outro lado‟, obter informações que possam esclarecer o crime ou compreender as motivações
do ato criminoso” (RAMOS E PAIVA, 2007, p. 57).

No entanto, segundo as autoras, os bandidos ligados a organizações criminosas como


integrantes de tráfico de drogas são ignorados pela imprensa devido à preocupação de não
serem atribuídas a eles posturas de liderança. Sendo assim, deve ser constante o debate de
profissionais da comunicação em relação ao seu papel na construção e/ou na consolidação da
liderança dos criminosos e as consequências da sua exposição na mídia.

Para Ramos e Paiva (2007) é válido tentar compreender os valores e objetivos do criminoso,
desde que sem ingenuidade e impulsividade. Todo cuidado é pouco para não transformar um
criminoso em celebridade, herói ou vítima da sociedade. Os jornalistas que realizam
reportagens entrando em contato com criminosos procurados pela polícia devem estar cientes
de que essa atitude pode resultar em questionamentos legais e éticos. A sugestão é ouvir a
opinião de advogados ou outros consultores.

Segundo as autoras, apesar da dificuldade de apresentar as informações ao leitor e


telespectador de forma clara e concisa sem dar nomes, as Organizações Globo, desde o final
do ano de 2005, deixaram de publicar os nomes das facções criminosas e apelidos dos
bandidos. A justificativa dessa atitude se faz ética na medida em que a adoção desses nomes
daria às quadrilhas um status institucional que elas não têm.

Além disso, para as autoras, não publicar apelidos dos criminosos é uma postura necessária,
visto que indicam intimidade, atribuem características positivas e humanizam aos bandidos.
Ramos e Paiva (2007) acrescentam ainda que os bandidos não podem ser considerados
interlocutores válidos no debate brasileiro.

As autoras recomendam que a imprensa evite que se comentem sobre os gostos, manias,
luxos, vida amorosa, bem como a publicação de fotos de bandidos na primeira página e a
41

aparição desses em close. “Uma recomendação difícil de ser aceita, já que em muitos
momentos segui-la seria brigar com a notícia” (RAMOS E PAIVA, 2007, p. 62).

De acordo com o Manual de Redação da Folha de S. Paulo, salvo se o criminoso foi preso em
flagrante, se a pessoa ainda não foi condenada pela Justiça, deve ser tratada como suspeita,
acusada, ré ou investigado. “Esse procedimento visa evitar prejulgamentos e preservar a
imagem de personagens do noticiário” (FOLHA DE S. PAULO, 2006, p.155). Contudo, para
Ramos e Paiva (2007) ainda se pode ler nos jornais pessoas mortas por policiais serem
classificadas por traficantes baseadas em informações da polícia.

Também é pautada pelas autoras a questão das crianças e adolescentes sob suspeita. O
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é adotado para proteger menores de idade
escravizados no trabalho e submetidos à exploração sexual. Porém, apesar de o conjunto de
recomendações éticas do ECA ser observado e seguido pelos jornalistas, também é bastante
criticado pela classe e pela própria sociedade por assegurar em lei a impunidade de bandidos e
assassinos menores de idade. “A discussão sobre a legislação para adolescentes infratores é
necessária e precisa ser levada a fundo, assim como o debate a viabilidade das instituições
corretivas no Brasil” (RAMOS E PAIVA, 2007, p. 68).

Outro ponto que merece destaque pelas autoras é a forma como os sequestros são tratados na
mídia. Quando se trata de um sequestro em andamento, noticiar o fato pode ser uma decisão
complicada para a imprensa, visto que envolve a vida de pessoas em situação de risco. Na
maioria das vezes há uma exigência por parte dos criminosos que a família da vítima
mantenha a polícia e a mídia distantes do caso e se forem contrariados são capazes de agir
com violência para intimar e pressionar.

Ramos e Paiva (2007) explicam a raridade dessa modalidade de crime cometidos no passado e
que nos últimos anos são percebidos com bastante frequência o que obrigou os jornais a
avaliar sua atuação nesses casos. Desta forma, segundo as autoras, a imprensa criou padrões
alinhados em duas posições contrárias.

A primeira é que a divulgação pode atrapalhar as negociações com os sequestradores


comprometendo a integridade física das vítimas. Para essa posição temos o exemplo do
42

Manual de Redação da Folha de S. Paulo com a defesa de que o caso deve ser noticiado
apenas depois de concluído. “Em regra, a Folha publica tudo o que sabe. Mas pode decidir
omitir informação cuja divulgação coloque em risco a segurança pública, de pessoa ou de
empresa” (FOLHA DE S. PAULO, 2006, p.48).

A segunda posição é a de que a omissão favorece a ação criminosa. As Organizações Globo


defendem a publicação de todos os sequestros por se tratar de um crime público que a
sociedade tem o direito de saber. Entretanto, sem mencionar o valor do resgate nem do
patrimônio da vitima para não dificultar as negociações e estimular novos crimes.

Ramos e Paiva (2007) discutem se o silêncio, nesses casos, é realmente uma boa idéia. A
partir de comentários sobre coberturas desastrosas e favoráveis em que a imprensa se torna
aliada da família da vítima, as autoras concluem que não há uma sugestão única a fazer em
relação à cobertura de sequestros, pois divulgar ou esperar a conclusão do caso apresentam
vantagens e desvantagens.

Se por um lado, esconder a notícia pode expor o veículo a críticas de seus leitores, por outro,
divulgá-la pode atrapalhar o trabalho da polícia e colocar a vítima em uma situação de risco.
Se a imprensa auxilia a polícia na guerra de informações, divulgando versões que desorientam
os criminosos, poderá assim fraudar o contrato de informar a verdade ao leitor. Se a imprensa
divulga o fato e impõe a sensação de risco pressionando os sequestradores, poderá, ao mesmo
tempo, transformar aquele crime em entretenimento.

Como uma terceira posição, as autoras refletem que o correto seria noticiar o essencial, sem
alarde e aguardar a conclusão do fato. “O certo é que nessas situações, em que a vida de uma
pessoa está em jogo, a imprensa deve colocar o bem-estar da vítima acima dos interesses
jornalísticos, procurando avaliar, através do contrato com a polícia e a família, que atitude
tomar” (RAMOS E PAIVA, 2007, p. 125).
43

4 A CONDUTA DOS JORNALISTAS NO PROGRAMA A TARDE É SUA

Os capítulos anteriores nos serviram de base para conhecer o que é ético, antiético e as
estratégias que a televisão utiliza para convencer, entreter e capturar seu público. Neste
capítulo o objeto de trabalho será recortado em três partes. Primeiro faremos uma cronologia
do sequestro, depois conheceremos um pouco mais sobre a Rede TV!, o programa A Tarde É
Sua e a jornalista Sônia Abrão. Por último, as entrevistas, uma gravada e outra ao vivo, serão
transcritas e comentadas para que se possa verificar se houve interferência do programa na
investigação policial em curso, afronta às normas constitucionais, legais e éticas, abuso no
exercício da liberdade de comunicação e nos direitos da Criança e do Adolescente.

4.1 Cronologia do Caso Eloá

De acordo com a revista Época, de 24 de outubro de 2008, o estudante Paulo Henrique da


Silva, de 15 anos, foi ameaçado cerca de duas semanas antes do assassinato de Eloá Cristina
Pimentel. Lindemberg sabia que Paulo e sua ex-namorada estavam “ficando”. Esse foi o
estopim para as intenções homicidas de Lindemberg. Ele não se conformava com as negativas
de Eloá de reatar o namoro de quase três anos.

Lindemberg também procurou a ex-namorada na saída da escola. A conversa terminou em


agressão: ele deu um soco nas costas de Eloá. A princípio, ninguém acreditou. A mãe de Eloá,
Ana Cristina, a levou ao apartamento de Lindemberg para esclarecer a história. Ele negou ter
batido na ex-namorada. Mas Ana Cristina não se convenceu e cogitou ir à delegacia denunciar
o rapaz por agressão. Recuou a pedido do marido.

O pai de Eloá precisava se manter longe de delegacias. Fora ele quem apresentou Lindemberg
para a filha. Lindemberg já tinha passagem pela polícia e negócios ilícitos em comum com o
pai de Eloá. Aldo José da Silva é um nome falso, pois o pai de Eloá se chama Everaldo
Pereira dos Santos, é um ex-policial militar suspeito de integrar um grupo de extermínio em
Alagoas. Foragido desde 1993 foi reconhecido pela polícia alagoana ao ser flagrado pelas
câmeras de televisão durante o sequestro da filha.
44

Para relatar cronologicamente o caso do sequestro em Santo André, utilizamos o autor Márcio
Campos (2008) que nos situa o cenário: policiais civis estavam em greve há quase trinta dias.

No dia 13/10/2008, por volta das 13h30min, Lindemberg invade o apartamento de sua ex-
namorada Eloá Pimentel, Conjunto Habitacional do Jardim Santo André, onde Eloá, Nayara,
Vitor e Iago realizam um trabalho escolar de geografia. Lindemberg faz quatro reféns. Por
volta das 20h uma equipe do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) da Polícia Militar
chega ao local para negociar a entrega dos reféns e a rendição do rapaz. Pouco depois das 21h
os dois garotos, Vitor e Iago, também rendidos por Lindemberg, são liberados.

Dia 14/10/2008, às 07h30min da manhã o rapaz aparece encapuzado por duas vezes na janela
segurando Eloá pelo pescoço. Lá dentro do apartamento, Eloá apanha sem parar. Por volta das
09h20min, o número de jornalistas é bem maior, agora com carros de transmissão ao vivo.
Lindemberg atira em direção à multidão que cercava o prédio. Ele teria encontrado uma
mensagem de outro garoto no celular de Eloá. Ninguém ficou ferido.

Os jornalistas tiveram permissão apenas para se posicionar em um barranco atrás das


garagens do outro lado da rua, próximo aos outros conjuntos de prédios. Era uma distância
de aproximadamente cem metros. Mesmo assim, uma distância que permitia uma cobertura
sem censura. Aliás, se o comando da Polícia Militar quisesse, poderia ter tirado os
jornalistas da área onde nos encontrávamos naquele momento. Estávamos dentro do
conjunto habitacional; teoricamente, uma área privada e que oferecia riscos diante da
possibilidade de mais um disparo ser feito. (CAMPOS, 2008, p. 25).

Às 13h30min o advogado do sequestrador, Eduardo Lopes, passa a acompanhar as


negociações do cliente com o Gate. Por volta das 16 horas a polícia corta a energia elétrica do
prédio onde estão Lindemberg e as duas meninas. Com a falta de comunicação do
sequestrador os policiais ficam apreensivos até que o jovem resolve atender ao telefone e
disse que só voltaria às negociações se a eletricidade fosse restabelecida. O pedido é atendido.
Por volta das 23h Nayara Rodrigues, amiga de Eloá é libertada. Tudo é muito rápido e a
menina segue para um Pronto Socorro.

No dia 15/10/2008, às 08h a polícia mantém contato com Lindemberg pelo telefone. Às 10h o
sequestrador deixa de atender aos telefonemas. Na hora do almoço a imprensa consegue os
números dos telefones que são usados por Lindemberg para realizar as negociações. A equipe
do programa A Tarde É Sua é a primeira a ligar. A entrevista é gravada e exibida pouco
45

depois das 14h. Às 15h10min Sônia Abrão inicia sua entrevista ao vivo com o sequestrador.
Depois disso, várias emissoras resolvem quebrar o protocolo e seguir o mesmo exemplo
entrevistando o sequestrador.

Dia 16/10/2008, às 10h, Douglas Pimentel e Nayara Rodrigues entram no prédio com o
objetivo de negociar com Lindemberg. O sequestrador pediu a presença de Nayara como
condição para libertar a ex-namorada. O jovem engana a todos e driblando o comando das
negociações consegue fazer com que a menina chegue cada vez mais próxima da porta do
apartamento até que, sob a mira do revólver, o rapaz ameaça a garota para entrar novamente
ao apartamento. “Liso já estava nervoso, comentava que tinha assistido aos noticiários e se
preocupava quando os repórteres informavam sobre os crimes que ele estava cometendo por
conta da invasão da residência” (CAMPOS, 2008, p. 59). Por volta das 16h Lindemberg
pendura no vitrô do banheiro uma camiseta do São Paulo Futebol Clube.

Dia 17/10/2008 um conflito na capital de São Paulo que mais parecia uma guerra estourou
com a greve dos policiais civis desviando temporariamente a atenção da imprensa que
acompanhava o caso Eloá. Nas negociações, Lindemberg pede a presença de um juiz de
Direito para garantir a integridade dos envolvidos. Concomitante às negociações, Lindemberg
liga para algumas emissoras de TV pedindo que filmem o documento assinado pelo promotor
de justiça e o advogado da família. Após a divulgação do documento na TV Record, por volta
das 15h, o documento subiu pela janela da área de serviço através de uma corda feita de
lençóis já usada anteriormente para içar comida para dentro do apartamento.

O documento não faz Lindemberg se entregar e numa conversa após às 17h30min,


Lindemberg chega a pedir a polícia que invada o apartamento. O jovem insiste que o
negociador fosse substituído por outro, para que esse primeiro policial não fosse cobrado pelo
que aconteceria depois, durante a invasão. Lindemberg havia colocado uma mesa de jantar
atrás da porta para dificultar a entrada de quem tentasse abrir. Na versão de Nayara, não
houve disparos de arma de fogo antes dos policiais invadirem o apartamento por volta das
18h.

Após 100 horas de cárcere privado, a polícia resolveu invadir o apartamento alegando ter
ouvido um disparo de arma de fogo no interior do apartamento e com o objetivo de resguardar
46

a integridade dos reféns. Lindemberg ainda teve tempo de atirar em direção às reféns. Nayara
deixou o apartamento andando, ferida com um tiro no rosto, enquanto Eloá, carregada em
uma maca, foi levada inconsciente para o Centro Hospitalar de Santo André. O sequestrador,
sem ferimentos, foi levado para a delegacia e, depois, para a cadeia pública da cidade. Eloá
Pimentel, baleada na cabeça e na virilha, não resistiu e faleceu por morte cerebral confirmada
às 23h30 do dia 18 de outubro, sábado. Em 8 de janeiro de 2009 o juiz José Carlos de França
Carvalho Neto, da Vara do Júri e Execuções Criminais de Santo André, determinou que
Lindemberg irá a júri popular pela morte da ex-namorada.

4.2 Rede TV! e o programa A Tarde É Sua

Com sede no município de Osasco, na Grande São Paulo, a Rede TV! entrou no ar no dia 15
de novembro de 1999. De acordo com dados obtidos pela internet, depois de várias reuniões,
sua história inicia num acordo acompanhado pelo Ministério das Comunicações, em que a
Rede Manchete foi adquirida pela TV Ômega que hoje é a controladora da Rede TV!. Por
uma decisão do Superior Tribunal de Justiça a Rede TV! não pode ser considerada sucessora
da extinta TV Manchete e, por isso, está isenta de qualquer ônus ou dívida trabalhista deixada
pela antiga emissora.

Em 14 de novembro de 2005, por uma decisão judicial, o sinal do canal da Rede TV! foi
desligado às 21 horas permanecendo mais de 25 horas fora do ar. A medida foi tomada,
porque a emissora descumpriu uma ordem judicial em que era obrigada a exibir um programa
educativo produzido pelo Ministério Público no lugar do programa Tarde Quente, uma
atração vespertina apresentada por João Kléber. Segundo o Ministério Público, o programa
estaria estimulando a homofobia e o preconceito contra homosexuais em "pegadinhas". A
RedeTV! acatou a decisão e exibiu do dia 12 de dezembro de 2005 até o dia 20 de janeiro de
2006 o programa obrigatório Direitos de Resposta, em parceria com o Ministério Público e
ONGs de direitos humanos. A emissora demitiu João Kléber e tirou do ar seus programas
Tarde Quente e Eu Vi na TV.

A apresentadora do programa A Tarde É Sua, Sônia Abrão, é jornalista formada pela


Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Tem 20 anos de carreira, a maior parte
dedicada à área de variedades e fofocas. Trabalhou no Notícias Populares, jornal que circulou
47

em São Paulo entre 1963 e 2001, conhecido por suas manchetes violentas e com apelos
sexuais. Abrão também passou por revistas como Contigo e Amiga. Atuou não só como
colunista, mas também como redatora, repórter e chefe de reportagem.

No seu início pela TV, primeiro foi convidada para fazer programas campeões de audiência,
como os de Sílvio Santos, Chacrinha, Augusto Liberato (Gugu), Hebe Camargo, Raul Gil, etc.
Depois, tornou-se comentarista de TV no programa Aqui Agora no SBT (Sistema Brasileiro
de Televisão), e ainda como repórter do helicóptero do Gugu. Desde o início de 2006 está na
RedeTV! apresentando o programa A Tarde É Sua, dirigido por Elias Abrão, seu irmão.

Com o objetivo de analisar a estrutura e o formato do programa A Tarde É Sua foram


gravados cinco programas durante a semana de 24 a 28 de agosto de 2009. A partir disso é
possível verificar que o programa não é de auditório, mas de bancada. O cenário é composto
por uma mesa redonda, aparentemente de madeira, que serve como bancada para a
apresentadora contendo vários jornais impressos sobre ela. Atrás da apresentadora, na parede,
tem um aparelho de televisão que mostra as imagens do assunto que ela comenta. A
apresentadora recebe seus convidados na mesa redonda e em ocasiões especiais, também os
recebe em outro cenário com uma mesa de canto, um sofá de três lugares e duas poltronas.

A Tarde É Sua foi exibido pela primeira vez no dia 02 de maio de 2006 substituindo o
programa A Casa É Sua. Dividido em cinco blocos, o programa tem duração decrescente de
aproximadamente 45 minutos o primeiro bloco, 35 minutos o segundo, 25 minutos o terceiro,
10 minutos o quarto e 05 minutos o quinto. O programa vai ao ar de segunda à sexta-feira, das
15h às 17h. Traz notícias que estão em evidência, abordando assuntos ora com seriedade e
polêmica ora com humor.

A pauta do programa varia entre comportamento, cotidiano, dicas de saúde, moda, beleza,
culinária, bastidores da televisão e a vida das celebridades. Alguns quadros que compõem o
programa são significantes para que se compreenda essa pauta: Como Funciona, Blitz da
Beleza, Piloto de Fogão e Roda da Fofoca. Nem todos os dias esses quadros aparecem. Às
vezes um único quadro aparece durante o programa inteiro. É o caso do Roda da Fofoca que
dá mais audiência e acontece todos os dias em que o programa vai ao ar.
48

No início, a apresentadora Sônia Abrão faz um resumo do programa, composto por manchetes
sobre as celebridades e a novela das 21horas que a concorrente Rede Globo apresenta. A
audiência do programa gira em torno dos resumos das novelas da Rede Globo. Depois disso,
geralmente roda-se um VT de reportagens do mundo das celebridades, de comportamento ou
até mesmo matérias policiais confirmando o viés jornalístico do programa.

No quadro Roda da Fofoca sentam-se à mesa redonda da apresentadora o psicólogo e


comentarista Haroldo Lopes, a atriz Vida Vlatt que interpreta a empregada doméstica Ofrásia
e Décio Piccinini, o jornalista e ex-jurado do Show de Calouros do Programa Silvio Santos
exibido pelo SBT. Eles discutem as novelas, debatem assuntos polêmicos e comentam
notícias que aparecem na mídia sobre celebridades e bastidores da TV. A empregada
doméstica Ofrásia às vezes atua como repórter.

A todo o momento, Sônia Abrão faz pausas para dialogar com os anunciantes – em algumas
vezes, a própria apresentadora anuncia – produtos como suplementos alimentares, aparelhos
eletrônicos e de ginástica, emagrecedores, farmácias, dentistas, dentre outros. Ela caminha
para outro cenário, a cor da parede é diferente, a mesa é retangular e de vidro, mas também há
uma televisão de tela plana na parede mostrando vídeos dos produtos. Percebe-se que são
todos produtos para a saúde e a beleza da mulher indicando o público-alvo do programa.

Em outubro de 2008, durante o sequestro em Santo André, seu programa interferiu no


trabalho da polícia ao contatar por telefone o sequestrador, dificultando a complexa
negociação para a libertação das reféns. A produção do programa interrompeu subitamente
seus quadros, colocaram em cena outros personagens, temas e alterou seu formato.
Infelizmente, após o contato pioneiro do programa de Sônia Abrão e, posteriormente, de
outras emissoras de TV, as negociações regrediram e o sequestro terminou tragicamente com
a morte de Eloá. Apesar de sua conduta eticamente questionável, a apresentadora afirmou
publicamente estar com a consciência tranquila. “Eu posso fazer isso e, se tiver que fazer
novamente, farei. Se alguma coisa acontecer, não é por nossa causa”, falou dias depois em seu
programa em resposta às acusações de outro jornalista da emissora concorrente que a criticou.

O Ministério Público Federal de São Paulo (MPF/SP) moveu uma ação civil pública (anexo
II) contra a emissora Rede TV! pela exibição das entrevistas, afirmando que os jornalistas
49

interferiram na atividade policial em curso e colocaram a vida da adolescente e dos


envolvidos na operação em risco. Na ação, o MPF/SP pede indenização por danos morais
coletivos de 1,5 milhão de reais para a sociedade por utilizar imagem da menor sem
autorização judicial e por transformar em espetáculo midiático o sequestro da jovem.

De acordo com e-mails trocados com o Procurador Regional dos Direitos do Cidadão,
Jefferson Aparecido Dias (anexo III), o Juiz Federal decretou segredo de justiça da ação por
envolver uma adolescente e com o objetivo de preservar a sua memória. Para Dias, a
exposição de crianças e adolescentes na TV depende de autorização judicial, de acordo com o
ECA e pode ser considerado suficiente para o processo, já que não foi cumprida pela Rede
TV! no caso Eloá.

4.3 Disque Sequestrador: as entrevistas

As duas entrevistas foram retiradas do site Youtube gravadas em sequência num único DVD.
Além disso, consta na gravação, a sequência do programa com a cobertura do caso e
comentários de especialistas convidados.

No programa veiculado no dia 15 de outubro de 2008, Sônia Abrão apresentou o VT de uma


entrevista gravada pelo repórter Luiz Guerra momentos antes da entrevista ao vivo que faria.
Nenhum repórter, produtor ou apresentador estava autorizado a ligar para os números de
telefones usados para negociar a rendição do criminoso e a libertação da vítima. Mas, com a
intenção de dar o tão desejado furo de notícia e sair na frente ligando primeiro para falar com
o sequestrador, a equipe do programa A Tarde É Sua resolve ignorar este fato.

4.3.1 A entrevista gravada

São nove minutos e meio de conversa com o sequestrador. Nesse primeiro contato, o repórter
Luiz Guerra é quem conversa com Lindemberg. A entrevista é gravada e inicialmente ele não
se identifica como jornalista dizendo “Somos (sic) um amigo da família, a gente queria saber
se está tudo bem”. O repórter demonstra muito nervosismo e confunde o plural na frase.
“Somos um amigo”. Somente diante da insistência de Lindemberg, Luiz Guerra resolve se
50

apresentar como repórter e diz que o procurou em nome da família, o que não é verdade: “A
gente só tá em nome da sua família porque a sua mãe está desesperada. É só isso!”

Primeiramente, a lealdade no contato com as fontes é um princípio fundamental da ética


jornalística. Por isso, o Código Deontológico dos jornalistas estabelece, no seu artigo n.º 4,
que “a identificação como jornalista é a regra” e impõe que o jornalista “deve proibir-se de
abusar da boa-fé de quem quer que seja”. Em segundo lugar, faltar com a verdade é um erro
gravíssimo já que, segundo Cornu (1999) a verdade é um dever fundamental do jornalista.

“A gente quer saber se está tudo bem. A sua mãe está preocupada. A nossa preocupação é
com você. Está tudo bem com você?”, diz o repórter mostrando-se mais preocupado com o
bem estar do bandido do que com o da vítima. A impressão passada ao telespectador é que a
entrevista dá a possibilidade de insuflar o ego do sequestrador, lançando-o no terreno da
“fama”, transformando-o em uma “celebridade”. “Está tudo bem, „bicho‟”, responde
Lindemberg. Só então Luiz Guerra menciona o nome da Eloá. “está tudo bem com você, com
a Eloá, vocês dois? Tudo tranquilo aí?”.

A entrevista continua e o sequestrador só quer saber se está ao vivo: “Oh, vocês estão ao vivo
aí?”. Enquanto o repórter responde que não está ao vivo, o áudio é coberto por imagens que
refletem o desespero da garota na janela. Tais imagens, de conotação sensacionalista,
aparecem durante a entrevista nos momentos de maior emoção e revelam conteúdos
inconscientes que acabam por despertar sensações e/ou sentimentos no telespectador, como
raiva, dor, tristeza e preocupação.

No decorrer da entrevista Lindemberg logo revela porque queria tanto que estivesse ao vivo:
“Tô perguntando por que é o seguinte: se vocês estivessem ao vivo, você ia ver que ela
acabou de aparecer aí (na janela) dando um sinal de jóia”. Observa-se uma interatividade
direta entre sequestrador e mídia. Lindemberg Alves parece comandar um show.

A resposta do jornalista é: “Então vamos colocar então na TV aqui. A gente vai ver pela TV.
Estamos gravando, se você quiser a gente grava e eu coloco no ar o que você quiser”, com
esses dizeres Lindemberg percebe que consegue mandar até mesmo na imprensa, ela faz tudo
o que ele pede. “Vamos conversar, eu quero te ajudar. Eu quero dizer pra você o seguinte: o
51

capitão garante a tua integridade, você fica tranquilo, filho”. Ao chamar Lindemberg de
filho, o repórter cria uma proximidade com o sequestrador inadequada para a cobertura. Além
disso, afirma que ligou para auxiliar o sequestrador: “eu quero te ajudar”.

Lindemberg parece querer mesmo o espetáculo: “Vocês estão ao vivo já aí?”. A voz do rapaz
demonstra desapontamento quando o repórter diz que está gravando e que vai ser exibido a
partir das 14 horas. O repórter continua: “Lindemberg, me conta um negócio, você está
tratando bem ela, vocês estão conversando, como é que está?”. O sequestrador corta Luiz
Guerra por ter feito uma pergunta mal colocada: “Vocês da Rede TV! não viram a saída da
Nayara aí? (...) Então, ela deve ter falado o que está acontecendo aqui, não falou?”.
Percebe-se que Lindemberg espera que todos estejam acompanhando o caso.

O repórter ouve o “ponto” em que, pelo conteúdo da pergunta elaborada por Luiz Guerra, o
diretor do programa deve ter solicitado que fosse feita a pergunta sobre o porquê de
Lindemberg ter decidido sequestrar a ex-namorada: “Foi desespero, ciúme?”. E o rapaz é
intenso: “Que desespero, tio? Desespero? Se eu tivesse desesperado dava um tiro na minha
cara e já era”. Luiz pede para Eloá falar ao telefone. Ela, com voz trêmula, chorosa, tenta
responder que está tudo bem, mas que está fraca, com fome. O repórter dá um conselho:
“confia nele!”. Denota-se, desta forma, o caráter apelativo, sensacionalista da entrevista,
colocando-se em segundo plano os sentimentos dos familiares da adolescente. E depois o
repórter ainda espera que a menina mande recado pra mãe. O sensacionalismo e o caráter
apelativo ficam ainda mais explícitos quando a garota afirma amar seus pais e, como o áudio
não tinha ficado bom, o repórter diz: “pode falar de novo, mande um beijo de novo”.

Depois que Eloá termina de falar permanece um silêncio. A impressão que temos é de que o
sequestrador impediu a conversa. Como se o tempo tivesse acabado, pois é ele quem manda lá
dentro do apartamento naquele momento. A entrevista continua e Lindemberg diz em tom
desafiador: “Como você conseguiu o telefone daqui?” O repórter fica apertado e desconversa
dizendo que depois fala sobre isso: “o importante é que a gente quer passar tranquilidade
pra você”. O sequestrador fica nervoso e alerta o repórter: “Tô perguntando, e você vai me
responder por que eu to perguntando primeiro. Por favor, tio, não me deixa nervoso não”. O
repórter fala que conseguiu o telefone através da produção, mas o sequestrador não se satisfaz
52

e exige em tom mais nervoso: “Então fala com quem você conseguiu”. Finalmente Guerra diz
que conseguiu com alguns parentes e o rapaz quer ter segurança se ele realmente é repórter.

Depois que o jornalista consegue convencê-lo, Lindemberg começa a usar a entrevista agora
para ameaçar a polícia: “Tô esperando tudo acontecer normalmente. O policial não fazer o
que ele fez. Eu falei pra ninguém subir, ele subiu. Ele tocou a campainha. Nós estávamos
dormindo. Eu tomei um susto quase atirei nela”. Demonstrando medo, o repórter começa a
elogiar o sequestrador: “Fica tranquilo. A gente está confiando em você, sabe que você é um
rapaz de bem, que você não quer fazer nada de errado”.

Já no final da entrevista Lindemberg, então, demonstra que não está intimidado e exemplifica
com o episódio famoso do ônibus 174: “Você é repórter, você viu o que aconteceu lá no Rio
de Janeiro naquele caso do sequestro do ônibus, né? Então, o cara foi pagar de bonitinho lá,
o policial lá, foi querer fazer as coisas precipitadas. Foi atirar no cara, o cara atirou na
mulher e matou a mulher. E aí? É isso que o policial quer, meu irmão? (...) E na hora do
programa você vai colocar no ar tudo o que eu tô falando aí, entendeu?”. Nota-se que
Lindemberg tem consciência de um paralelo preocupante e de que conseguirá tudo o que
pede. “Na íntegra, na íntegra. Pode ficar tranquilo”, responde Luiz Guerra.

Na sequência do programa, a apresentadora Sônia Abrão volta ao vivo, agora recebendo


convidados: um advogado e um psicólogo. “As últimas informações que estamos recebendo
agora é que ele está prestes a se entregar, o Lindemberg, já fez contato novamente, diz que
vai se entregar vai libertar as meninas, mas ele quer as câmeras de televisão de todas as
emissoras pra registrarem esse momento pra ele se sentir seguro que nada de mal vai
acontecer pra ele”, apela a apresentadora.

Nos estúdios do programa A Tarde É Sua segue o diálogo: "Boa tarde, Dr. Ademar. E com a
sua experiência nos orientar aí sobre o que vai acontecer daqui pra frente, pra que a gente
possa ter uma idéia, claro", pede Sônia Abrão. "Bom, eu sou muito otimista, né? Eu espero
que isso termine assim em pizza, né, e num casamento futuro entre ele e a namorada, a
apaixonada dele, né? Ele tá passando uma fase momentânea, né, e ele tem a motivação de
viver, porque um rapaz jovem, quando se apaixona, muitas vezes se desequilibra, no caso
53

radicaliza, mesmo. Mas isso vai terminar realmente em final feliz, graças a Deus, eu tenho
plena certeza e convicção disto", responde Ademar Gomes.

Em momento algum a apresentadora diz qual a especialidade do “doutor”. O telespectador


fica sem saber qual profissão de Ademar Gomes. Ele usa expressões informais como “espero
que tudo termine em pizza”, o que faz perder sua credibilidade nos comentários e nas
informações veiculadas. Além disso, é incoerente, pois no início apenas espera que tudo dê
certo e no final tem convicção de que tudo vai terminar com um final feliz. Ou seja, não há
credibilidade em sua fala. Ademar Gomes fala ainda em “casamento futuro”. Será que
Lindemberg estava só numa “fase momentânea”? Como ter convicção de que o sequestro teria
um final feliz?

Neste momento são introduzidos no contexto de Lindemberg novos elementos, que ficaram
fora do controle da autoridade policial, mudando todo o processo de diálogo negociador que
vinha sendo mantido com a polícia. É fato, de acordo com depoimentos de Nayara, que o
rapaz acompanhava tudo pela televisão e ao se ver e ouvir na TV, percebera a possibilidade de
sair do anonimato, passar de sequestrador a celebridade.

Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas brasileiros, o Código de Ética “fixa as normas
a que deverá subordinar-se a atuação do profissional, nas suas relações com a comunidade,
com as fontes de informação, e entre jornalistas”. Sendo assim, as punições previstas incluem
desde advertência até expulsão do sindicato.

De acordo com o artigo 7º, inciso IV, do Código de Ética dos jornalistas, “o jornalista não
pode: IV – expor pessoas ameaçadas, exploradas ou sob risco de vida, sendo vedada a sua
identificação, mesmo que parcial, pela voz, traços físicos, indicação de locais do trabalho ou
residência, ou quaisquer outros sinais”. Assim, podemos perceber que o programa caminhou
na direção contrária da ética jornalística no caso do sequestro de Santo André. Eloá Cristina
Pimentel e Nayara Silva, feitas de reféns por Lindemberg, foram expostas livremente.

O programa não se preocupou em preservar a integridade das sequestradas, menores de idade,


divulgando o nome, o rosto (através de fotos) e a voz das mesmas. Isto fere o código de ética
no artigo 11º, inciso II, segundo o qual “o jornalista não pode divulgar informações: II – de
54

caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em


cobertura de crimes e acidentes”.

4.3.2 A entrevista ao vivo

Essa entrevista é mais longa e contém pouco mais de 24 minutos de conversa ao vivo com o
sequestrador. A pauta, a informação que o programa pretendia passar, segundo a própria
apresentadora, foi a de que o sequestrador queria algo que a polícia não podia dar, mandar um
recado para a família e também estava preocupado com a opinião pública. Lindemberg queria
deixar claro que estava se comportando. Uma música funesta ao fundo em volume muito
baixo pode ser percebida depois dos primeiros minutos de entrevista. A ligação caiu quatro
vezes durante a entrevista ao vivo e até hoje não se sabe se era ele quem desligava de
propósito, se havia realmente algum mau contato ou se alguém interferia na linha.

“Ele está querendo falar ao vivo com a gente!”, diz a apresentadora antes de colocar o
sequestrador no ar. Depois de perguntar se Lindemberg continuava disposto a libertar Eloá, o
sequestrador responde à apresentadora explicando que não foi a polícia quem o fez libertar
Nayara com o corte de energia, mas porque se emocionou com a história de vida da garota.
“Liguei 10 horas da manhã pro pai da Nayara porque ela me emocionou falando que a vida
dela inteira até os 15 anos faltou o pai dela na vida dela. (...) Porque eu também passei pela
mesma situação. (...) E tava em tempo ainda de o pai da Nayara fazer tudo diferente”.

Ao ouvir isso, a apresentadora começa a se portar como uma psicóloga: “Exatamente. Você
foi criado sem seu pai, é isso? Mas você entende a dor da Nayara, você entende o que
significa a ausência de um pai pelo menos do jeito que as pessoas precisam, é isso? Isso o
que mexeu com seu coração?”. E Lindemberg continua comentando o que Nayara teria dito
enquanto esteve refém pela primeira vez.

Nesse momento, a apresentadora aproveita para comover o bandido na tentativa de uma


negociação, de conseguir tirar bastante coisa de sua boca a fim de garantir audiência: “E não
te tocou a hora que você pôs a Eloá no telefone com o Luiz Guerra nessa entrevista quando
ela disse „pai eu te amo, mãe eu te amo‟? (...) Também não mexeu com seu coração a sua
irmã que também está desesperada falando bem de você pra todo o mundo? Todo o mundo
55

entendendo que você sempre foi um cara legal, é que nesse momento ninguém entende o que
passou pela sua cabeça, mas por enquanto você não fez mal pra ninguém. Quer dizer, dá
tempo de resolver essa situação. Vamos terminar com isso na boa Lindemberg, você não é do
mau, você nunca foi. Então porque que essa situação tá chegando nesse ponto agora?”.

Além de não ter tido treinamento, preparo e autorização para negociar com o sequestrador,
Sônia Abrão também fala coisas de que ainda não tivera conhecimento, ou seja, nem o próprio
trabalho de jornalista conseguiu exercer com responsabilidade, apurando a informação
correta. Lindemberg tinha passagem pela polícia e bateu muito em Eloá lá dentro do
apartamento, segundo relatos de Nayara. Também ameaçou e colocou uma arma na cabeça da
menina. A apresentadora insiste muito que o sequestrador é uma boa pessoa, o coloca como
vítima, supervalorizando Lindemberg e pressupõe que o rapaz não é um bandido. Sônia Abrão
o ilude, criando nele o personagem para uma novela criada por ela que conta a história de um
casal apaixonado e a apresentadora desempenha o papel de conselheira sentimental.

“Tava com quatro pessoas. Liberei uma, depois de um tempo liberei outra e no outro dia
liberei mais uma”, diz Lindemberg. Essa é a deixa para mais uma tentativa de negociação
apelativa da apresentadora.

“Libera a Eloá, se libera também dessa historia. Vamos resolver tudo isso. É tanta gente
que ama vocês sofrendo aqui do lado de fora, você sofrendo aí, porque isso aí deve está
uma tensão total. A menina fraca você mesmo pediu ajuda pra ela, pediu comida pra ela.
Você disse que não quer mais saber dela, então vamos botar um ponto final direito nisso.
Todo o mundo sai são e salvo dessa historia. Tudo, tudo dá certo. Ninguém quer te fazer
mal nenhum aqui fora. Está todo mundo entendendo que você não é um marginal, que você
não é um bandido, que você não é um assassino, que você sempre foi um cara bom. É o que
sua irmã está dizendo, teus amigos estão dizendo, o pessoal que te conhece também está
falando que você sempre foi calmo, sempre foi trabalhador, sempre foi um cara legal, que
o que você está fazendo hoje deve ser um surto que você está passando, uma crise
emocional muito séria. Mas você, de qualquer maneira, mesmo em crise está se segurando,
você está fazendo as coisas com um certo critério, você está liberando as pessoas, você não
está fazendo mal pra ninguém. Então já dá um final pra essa historia que seja, todo o
mundo são e salvo inclusive você, inclusive você. Faz isso vai?”.

Sônia Abrão abusa da comoção, do sensacionalismo e do caráter apelativo para tentar


convencer o sequestrador a se entregar, pois assim conseguiria audiência e sairia dessa
história como uma heroína, salvadora de Eloá. Em momento algum pareceu estar preocupada
com os efeitos negativos das palavras proferidas ao sequestrador. Em determinados momentos
ela se perde no raciocínio e repete falas que não produzem muito sentido. Tentou usar de certa
56

psicologia que não conhecia para transformar os pensamentos do sequestrador que acabou
ampliando sua ação criminosa e deixando-o sem opções.

“Tem duas vidas que depende de duas pessoas. De mim e do comandante que está na voz aí
embaixo. Que ele fez besteira hoje”. Diz o rapaz se referindo à tentativa da polícia de entrar
no apartamento mais cedo, ao que Sônia responde: “É eu sei”. A jornalista, nesse momento,
atua como uma entrevistadora de bandido, não como negociadora e demonstra-se de acordo
com a fonte, concorda com o sequestrador que a atitude da polícia foi realmente uma besteira
ao invés de reforçar o objetivo das autoridades competentes para o bom desfecho do caso.

E Lindemberg continua: “Eu falei com ele pra ele não se aproximar do apartamento, ele
pegou e...”, há uma pequena pausa e o som da música de fundo aumenta como se a produção
do programa quisesse mesmo dar trilha sonora para a novela de Sônia. “Nós tava cochilando,
ele pegou e apertou a campainha aqui, meu. (...) Eu pensei que ele tava invadindo, eu já ia
atirar nela”, continua o rapaz.

A apresentadora então quer saber como o comandante faz para falar com Lindemberg.
“Ontem, como vocês viram, ele apagou a luz aqui do condomínio, o telefone é sem fio, se ele
apagar...”. Nesse momento a apresentadora o interrompe ansiosamente para completar o
pensamento do bandido: “Não tem comunicação.” E Lindemberg repete: “Não tem como se
comunicar com ninguém.”. Abrão continua: “Mas você agora está com energia elétrica, não
tá?”. O rapaz responde: “Agora eu tô. Toda vez que eles tão ligando eu tô atendendo, eu tô
conversando com eles”. Não eram todas as vezes que ele atendia aos telefonemas da polícia.
Mais uma vez, a apresentadora dá voz ao bandido para que ele vendesse sua boa imagem.

“Então, dá uma chance pra essa negociação toda aí? Aí vocês já acabam com isso e você vai
descansar”, diz a apresentadora como se a atitude de Lindemberg fosse um ofício e ele
precisasse descansar após o árduo trabalho. “É, eu to com todas as intenções boas”, diz o
rapaz, mais uma vez vendendo a imagem de bom rapaz. “Olha, deixa eu te perguntar uma
coisa. Você está com medo de alguém dar tiro em você? Sabe, isso não vai acontecer!”,
afirma Sônia Abrão tocando em um assunto que, se tivesse treinamento especifico, saberia
que ao falar essa frase com o bandido poderia provocar sensações negativas em Lindemberg
prejudicando sua provável rendição espontânea.
57

“Porque você invadiu o apartamento?”, pergunta Abrão. “Queria acertar as contas com ela,
meu!”, responde Lindemberg. “Você já falou pra ela? Porque vocês estão aí há mais de 30
horas, quer dizer, acho que tudo o que você tinha pra dizer pra ela acertar as contas colocar
a situação de vocês em pratos limpos já deu tempo de fazer não deu?”, retruca Abrão. “A
Nayara tá de testemunha que não deu tempo, porque a Eloá não coopera, meu! (...) Ela quase
fez a besteira de tomar o revólver da minha mão. (...) Ela tá começando a cooperar agora”,
diz Lindemberg. E para satisfazer o interesse do público e dela própria, Sônia Abrão pergunta:
“Olha, me fala uma coisa, o que você queria dizer pra Eloá você pode falar pra gente?”.
Lindemberg começa a responder e a apresentadora o interrompe e trata como se eles fossem
um casal. “Isso é uma coisa muito íntima de vocês, né? Você já falou pra ela o que você
queria falar, agora que você disse que ela tá cooperando, você já conseguiu desabafar com
ela, esclarecer tudo o final do relacionamento?”. A apresentadora fala que Eloá está
cooperando, afinal, o papel do refém é cooperar com o bandido? Lindemberg então demonstra
que a apresentadora interrompeu uma das conversas dele com Eloá: “Essa conversa eu já tive
com ela e antes da senhora me ligar aqui eu tava conversando com ela, eu tava desenrolando
tudo o que aconteceu com ela”.

Após a apresentadora perguntar sobre o que Lindemberg queria da ex-namorada ele afirma:
“Eu quero tranquilidade dela, pra que eu pego ela e da melhor maneira possível negocie com
quem for aí fora pra ela sair viva daqui, meu”. Sônia Abrão percebe na frase de Lindemberg
que seu público poderá “confundi-lo” com bandido e tenta reverter a situação persuadindo o
sequestrador induzindo a resposta que ela quer ouvir, de que ele é um bom rapaz e não está
disposto a matar Eloá. “Mas você fala assim „pra ela sair viva daqui‟ parece que você tá
disposto a matar a menina e isso não é verdade você não é esse tipo de pessoa, Lindemberg”.

“Muita parte da imprensa aí, mano, é um cinema, inventa muita coisa, falaram aí que eu bati
na Nayara, pode ligar na casa dela aí e falar com a mãe dela, com o pai dela lá que eu não
bati nela não”. Lindemberg dá uma ordem à produção do programa. “Não, mas a Nayara já
desmentiu isso aqui fora, viu? Ela disse que você realmente não bateu nela, não bateu em
ninguém, que ela foi bem tratada ai dentro, tá? Agora ela tá sedada, ela tá descansando por
causa do nervosismo todo. Quando você sair daí também você vai precisar, sabe? Ser
sedado, dormir muito até se recuperar dessa tensão toda, não é? Você tem comido? Tem
58

dormido?”. A apresentadora exerce agora o papel de mãe do sequestrador. Isso é tão claro
que logo em seguida, após falar como tem comido e dormido o sequestrador faz um pedido:
“Ninguém dá notícia da minha mãe. Eu quero notícia da minha mãe”. E depois de dar seu
recado para a mãe, usa a entrevista para deixar claro que ele manda na situação: “Eu não vou
dar hora, não vou dar horário, não vou falar quando, na melhor hora, no melhor momento,
não vai ser por força, não vai ser por cobrança que eu vou liberar a Eloá”.

Lindemberg resolve colocar Eloá na linha para, segundo ele, “deixar claro que ela está bem”.
A garota é monossilábica. Fala pouco não por timidez, mas por está sob a mira de um
revólver. Como se não bastasse a menina é obrigada a ouvir a apresentadora falar como se a
culpa das atitudes do sequestrador fossem de Eloá: “O Lindemberg tá falando que você agora
tá cooperando, você tá mais tranquila”. Percebendo que a adolescente não tem tanto
potencial midiático quanto Lindemberg, porque é o rapaz quem tem o controle e o poder da
situação, Sônia Abrão prefere entrevistar Lindemberg à Eloá. Usa o sensacionalismo para dar
uma notícia de última hora que acaba de chegar pelo ponto para voltar a falar com o
sequestrador. “O Lindemberg tá ouvindo a gente?”, pergunta Abrão. “Tá, tá ouvindo”,
responde Eloá. “Então ele tá sabendo do recado da irmã dele então, tá?”, confirma a
apresentadora que ainda nem tocou no assunto. Eloá fica confusa com a informação diante da
falha da comunicadora e pergunta: “O que?”. A jornalista ignora a refém e devolve a palavra
e o espaço para o bandido:

“Olha, uma notícia que chega agora dizendo que a sua irmã, a Suzi, disse o seguinte,
Lindemberg: „se eu pudesse falar com ele, pediria pra que se entregasse logo porque
minha mãe está sofrendo muito e a gente‟, que é a Suzi e as suas outras irmãs, tão bem.
Segundo a Suzi, você e a ex-namorada Eloá se davam muito bem e ela diz: „não tenho o
que falar mal dele, ele não bebe, não fuma, a gente achava que eles iam voltar, eles se
gostam muito. E ela diz que você sonhava em se casar, mas queria antes montar a sua
própria casa. (...) Então você que ama tanto a sua mãe que já diz que ela foi a sua mãe e
seu pai ao mesmo tempo. Criou você, suas irmãs, faça isso por ela também ou
principalmente por ela, né?”

Lindemberg, novamente ao telefone, responde que só irá se render na hora que quiser e
explica sua estratégia para sair do prédio. A apresentadora repete a estratégia mais algumas
vezes para confirmar aos telespectadores que Lindemberg iria mesmo se render. Fala em um
tom mais eufórico como se tivesse conseguido atingir seu objetivo: fazer o bandido se render
com sua negociação inexperiente. A entrevista poderia terminar ali. Mas Abrão aproveita que
o sequestrador ainda não pensou em desligar o telefone e pergunta como os policiais estão
59

fazendo para se comunicar com ele. “Até então eles não me ligaram, desde que você tá
falando comigo ninguém ligou pra mim”, responde Lindemberg. E Sônia Abrão fica sem
saber o que dizer naquele momento, pois percebe que está atrapalhando as negociações e lhe
resta apenas um comentário: “claro, claro, claro...”.

Mas depois, o próprio sequestrador socorre a apresentadora dizendo: “Mas eu tenho um


celular também aqui porque eles retornaram a energia e eu carreguei o celular. Eu tô com o
fixo e o celular”. Salva pelo amigo sequestrador, Sônia Abrão apenas completa: “Então não
somos nós que estamos prendendo a linha. Ele tem um celular que a polícia pode ligar pra
ele”. Será que a polícia tinha o número do celular dele? E se tivesse, sabia que o aparelho já
estava com a bateria carregada?

Depois disso a apresentadora desconversa e se oferece para sua equipe ser a pioneira a
intermediar um sequestro. “Você quer que o Guerra vá lá? (...) Você precisa de alguém aí
pra intermediar? A gente tem também a nossa repórter, a Cintia Lima. (...) Que se você
precisar você pode contar com eles, entendeu?”. Lindemberg não quer e diz que tem que
desligar o telefone. Mas atende ao pedido carinhoso da apresentadora: “Você não quer me
deixar falar só mais um pouquinho com a Eloá?”. Com a menina na linha, Abrão pede que
ela mande novamente uma mensagem para os pais e “até pra mãe e pras irmãs do
Lindemberg”. A menina fala exatamente o que Lindemberg manda, é possível ouvir a voz do
sequestrador ditar as frases. Eloá embarga a voz ao dizer “minha vida tá nas mãos dos
policiais” e no final faz como a jornalista pediu: fala da família de Lindemberg “eu quero
deixar meus pais tranquilos, a família dele (Lindemberg) tranquila, ele não é uma má pessoa,
vai dar tudo certo”.

A partir destes trechos da entrevista percebe-se que Sônia Abrão demonstra estar em conluio
com o sequestrador no exato momento do crime, ao manter contato com o sequestrador sem
autorização, atrapalhando o trabalho da polícia. Segundo o artigo 221 do capítulo V que trata
da Comunicação Social da Constituição Federal de 1988 “a produção e a programação das
emissoras de rádio e televisão” deverão atender a alguns princípios como o “respeito aos
valores éticos e sociais da pessoa e da família”.
60

Além disso, por um aspecto jurídico, podemos destacar que o programa expôs a imagem das
vítimas ao público, bem como divulgou seus nomes, endereços ferindo o Estatuto da Criança
e do Adolescente (Lei 8.069/90), que diz: Art. 17. O direito ao respeito consiste na
inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente,
abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e
crenças, dos espaços e objetos pessoais. Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da
criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento,
aterrorizante, vexatório ou constrangedor.

Sendo assim, de acordo com a ação movida pelo Ministério Público Federal, a Rede TV!
abusou da liberdade de comunicação e utilizou indevidamente sua concessão federal do
serviço de radiodifusão de sons e imagens gerando danos aos interesses da coletividade e
desrespeitou os valores éticos e sociais que deveriam permear sua programação. Está certo
que a Constituição garante a liberdade de imprensa, mas a liberdade de informação e de
comunicação social não pode ser considerada absoluta e não deve abranger a intervenção na
atividade policial sob pena de incidir em abuso. A liberdade da comunicação social deve estar
em compasso com outros direitos da Constituição, como o direito à privacidade, à imagem e
intimidade dos indivíduos.

Se a liberdade de comunicação foi feita pela e para a sociedade, deve ser protegida sempre
que cumprir sua função social. Mas em um caso como este em que uma emissora de TV usou
o bem público para negar valores fundamentais da Constituição, deverá ser submetida a um
controle maior para que não mais seja utilizada contra a sociedade. O programa A Tarde É
Sua tratou o drama pessoal dos entrevistados como entretenimento e atração principal,
transmitindo sem nenhum respeito pela dor humana. Ao assumir o papel de intermediadora
das negociações, Sônia Abrão interferiu na atividade policial em curso que já estava sendo
feita por pessoas capacitadas e especializadas que sabiam com quem estavam lidando
(Lindemberg tinha passagem pela polícia). Isso pode ter colocado em risco a vida de Eloá e o
trabalho do GATE. As entrevistas podem ser consideradas invasivas que desrespeitaram a
condição de vítima da adolescente Eloá e a conduta da emissora pode ser considerada
irregular enquanto prestadora de serviço público por agir de forma contrária às normas
constitucionais, legais e éticas.
61

5 CONCLUSÃO

No capítulo I deste trabalho aprendemos que a ética nasce do desejo de os seres humanos
organizarem a sociedade e que a moral cuida do agir humano no intuito de colocar a ética em
prática. Assim, a conduta imoral ou antiética contraria normas e regras fixadas pelo dever. E
como verificamos que os jornalistas do programa A Tarde É Sua infringiram o código de
ética, podemos afirmar que se tornaram antiéticos.

Ainda no primeiro capítulo pudemos discutir a missão da imprensa e verificar que, de acordo
com o Cornu (1999), em assuntos dessa gravidade estão em jogo vidas humanas que
justificam uma cautela maior em publicar e/ou televisionar fatos do tipo, pois a função do
jornalista não pode ser confundida com o papel da polícia. Christofoletti (2008) completa que
o jornalista deve apenas acompanhar o trabalho dos policiais. Para Barbeiro (2002) não é da
alçada do jornalista cooperar, visto que os direitos dos acusados podem ser violados e o
jornalismo cair no sensacionalismo.

O capítulo II nos convida a repensar a televisão para que não caiamos mais nas garras do que
Wolton (1996) chama de conformismo crítico. Não podemos excluir da pauta assuntos de
interesse público. Não se pode transformar a realidade em produto rentável, já que a
informação deva ser compreendida como um bem social e não como uma mercadoria. O
jornalismo deve ter a missão do esclarecimento, o compromisso com a pluralidade de fontes e
com a defesa de determinados valores relacionados aos direitos humanos, ao debate público, à
liberdade e à democracia. Nesse sentido, a responsabilidade do jornalista ultrapassa a busca
pela exatidão e pela objetividade.

Além disso, no segundo capítulo conseguimos perceber que os jornalistas do programa A


Tarde É Sua, ao invés de levar a informação ao público, espetacularizaram a tragédia e o
sofrimento alheio visando audiência com o pretexto de dar ao fato um toque humano. O
espetáculo, segundo Debord (1997) está diretamente ligado ao conteúdo que nos é passado
pela mídia em geral, entretendo de maneira alienadora o público, que acompanha
assiduamente as histórias que lhe são apresentadas, esperando pelo seu desfecho e se
envolvendo na representação de sua própria realidade. Bistane e Bacelar (2006) questionam
qual o limite aceitável entre informação e espetáculo.
62

Tentar compreender uma motivação criminosa deve ser papel da imprensa? Autores de crimes
são protagonistas de fatos que interessam à sociedade e, portanto, podem ser ouvidos durante
a ação criminosa? Quais limites sustentam a cobertura de um fato? No caso de Santo André,
a imprensa foi uma agente ativa dos acontecimentos. Jornalistas como Luiz Guerra e Sônia
Abrão mentiram, usurparam funções especializadas pretendendo-se negociadores, violaram o
Estatuto da Criança e do Adolescente e interferiram indevidamente numa ação do Estado,
representado naquele momento pelas forças policiais. No entanto, não podemos afirmar que o
desfecho do caso se deu pela ação direta da cobertura televisiva durante o sequestro, mas é
fato que a grande exposição dada ao caso pode ter sido um fator que o prolongou ainda mais.

De acordo com Ramos e Paiva (2007) a presença dos repórteres em um caso como o de Santo
André pode ajudar quando, por exemplo, ladrões fazem reféns durante um assalto em um
banco e querem garantia de preservação da vida para se entregar. As câmeras testemunhariam
a rendição e inibiriam a prática de eventuais excessos contra os bandidos. Mas Lindemberg,
ao que parece, não queria se entregar, seu pensamento era matar Eloá e se matar em seguida.
Em um caso como o de Santo André, de cárcere privado, repórteres poderiam contribuir se o
sequestrador estivesse decidido a se entregar desde que a ação fosse acompanhada pelos
jornalistas, o que não foi o caso.

Lindemberg foi apresentado como coitado, trabalhador, bom rapaz e abandonado por um dos
pais. Os sentimentos dele eram instáveis. Eram muitas informações mexendo com a cabeça
dele. Afinal, Lindemberg podia acompanhar tudo pela TV, tudo o que estava acontecendo nas
imediações do condomínio, inclusive a posição dos policiais. Além disso, a cobertura
exagerada e constante foi um elemento perturbador para aqueles que deveriam tomar
decisões. Para a polícia, por exemplo, o medo da repercussão de um possível erro poderia
atrapalhar mais do que o medo de errar.

Desta forma, devemos refletir sobre o tipo de cobertura jornalística a TV tem nos oferecido. A
entrevista e o tratamento dado ao sequestro pelos jornalistas do programa A Tarde É Sua nos
remete a um modelo de jornalismo que nos leva a refletir sobre aspectos importantes ligados
ao exercício profissional e à conduta ética. Ao colocar no ar a entrevista feita com um
63

sequestrador que ainda mantinha sob a mira de uma arma a sua vítima, esses jornalistas
contribuíram para tornar ainda mais complexa a cena do crime.

No capítulo III foi possível investigar com mais aprumo a atuação dos repórteres e suas
funções como jornalistas no programa. Podemos considerar a entrevista persuasiva que
abusou da falsa objetividade desrespeitando seres humanos e divulgando informações cada
vez mais mórbidas e espetaculares. Sônia Abrão tem falas maiores que as do próprio
entrevistado e, por vezes, acaba respondendo às próprias perguntas deixando-o sem ter o que
dizer. Também interrompe o entrevistado sem que ele tenha concluído o pensamento, induz o
sequestrador a dar a resposta que ela queria ouvir e faz afirmações no lugar de perguntas
esperando conseguir apoio do bandido à sua opinião.

Os programas televisivos e, aí, incluímos os noticiários, vão muito mal no quesito ética. A
pauta é ruim, pois exclui assuntos de interesse para a cidadania e para a democracia. A
cobertura é superficial e o que dizer da interpretação? Quando existe, geralmente alardeia a
revolta e a indignação do telespectador. Além disso, na análise do programa A Tarde É Sua
foi possível verificar que apesar de existirem características do discurso jornalístico noticioso,
o programa é predominantemente de entretenimento e utiliza-se de linguagem emotiva e
dramática, tornando-se sensacionalista, subjetivo e parcial.

Foi possível verificar ainda que a relação entre fonte e jornalista nas entrevistas analisadas no
programa A Tarde É Sua ultrapassou o limite dos códigos deontológicos do jornalismo.
Podemos perceber em vários momentos da segunda entrevista, que a jornalista Sônia Abrão
exerce o papel de psicóloga, negociadora, advogada, conselheira sentimental e até de mãe do
sequestrador. Além disso, na primeira entrevista, Luiz Guerra demonstra-se disposto a fazer
tudo o que o sequestrador pede no que se refere ao processo midiático.

A discussão da conduta dos jornalistas, no âmbito deontológico da profissão, se faz precisa


diante da possibilidade de surgir modificações na legislação penal e nos códigos de ética do
jornalismo, visto que a lei de imprensa tornou-se inconstitucional no ano passado. Rodrigo
Pimentel, sociólogo e ex-comandante do BOPE, – especialista em ações táticas – afirmou em
entrevista dada ao portal Terra Magazine que os jornalistas trataram o sequestrador com muita
64

intimidade e ao tentar fazer negociações foram irresponsáveis o suficiente para deixar o


tomador dos reféns mais nervoso e atrapalhando o trabalho da polícia.

O fato de o Ministério Público Federal de São Paulo (MPF/SP) ter movido uma ação civil
pública contra a emissora Rede TV! pela exibição da entrevista justifica uma contribuição que
essa pesquisa pode trazer no sentido de proporcionar respostas aos problemas propostos. O
MPF/SP afirma que as entrevistas interferiram na atividade policial em curso, colocaram a
vida da adolescente e dos envolvidos na operação em risco e pede indenização por danos
morais coletivos de 1,5 milhão de reais.

Lembrando que a Rede TV! é reincidente. No final de 2005 foi obrigada, judicialmente, a
retirar do ar um programa que violava os Direitos Humanos e, durante um mês, colocar no
mesmo horário produções elaboradas por organizações sociais. Um fato inédito na história da
TV brasileira. Isso foi possível graças à articulação da sociedade e do Ministério Público
confirmando Traquina (2001) para quem o dever de vigiar o quarto poder é dos cidadãos.

Contudo, qualquer tentativa de controle dos abusos cometidos pela mídia acaba sendo tratado
como censura. A imprensa tem dificuldade de fazer auto-crítica. E o único limite aceitável é
dado apenas pelos índices de audiência, como se não fossem mera aprovação do mercado, de
acordo com Bourdieu (1997).

Portanto, torna-se necessária a reflexão acerca da postura dos veículos de comunicação e dos
jornalistas sobre os limites que a ética atribui sobre o que o fazer jornalístico necessita para
tornar-se válido. O modo de fazer jornalismo sensacionalista e espetacular deve ser revisto de
acordo com os critérios de jornalismo de qualidade e éticos vistos nesse trabalho. A cobertura
jornalística precisa abrir espaço para as oposições. O trabalho do jornalista deve ampliar a
cobertura de modo a favorecer análises, visto que o compromisso do jornalista deve ser o de
levar a informação ao público, aos cidadãos, que irão criar a sua própria opinião. Somente
pensando no outro é que iremos assumir esse importante papel social.
65

REFERÊNCIAS

A TARDE É SUA. Programa da Sônia Abrão. Disponível em: http://www.redetv.com.br

ARAÚJO, Carlos Alberto Ávila. Dramas do cotidiano na programação popular da TV


brasileira. In: FRANÇA, Vera Veiga (org.). Narrativas televisivas: programas populares na
TV. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. (vol. 2)

BARBEIRO, Heródoto. Manual de Telejornalismo. Rio de Janeiro: Campus, 2002.

BARROS FILHO, Clóvis. Ética na comunicação. São Paulo: Moderna, 1995.

BISTANE, Luciana; BACELLAR, Luciane. Jornalismo de TV. São Paulo: Contexto, 2005.

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão: seguido de a influência do jornalismo e os jogos


olímpicos. Tradução de Denice Barbara. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

BUCCI, Eugenio. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.

CHAUÍ, Marilena. Simulacro e Poder, uma análise da mídia. São Paulo: Editora Fundação
Perseu Abramo, 2006.

CHRISTOFOLETTI, Rogério. Ética no Jornalismo. São Paulo: Contexto, 2008.

CORNU, Daniel. Jornalismo e Verdade: para uma ética da informação. Tradução de


Armando Pereira da Silva. Lisboa: Instituto Piaget, 1999. p. 57 – 104.

COSTA, Caio Tulio. Jornalismo, ética e nova mídia – uma moral provisória. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 2009.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

FOLHA DE S. PAULO. Manual da redação. 11ª ed. São Paulo: Publifolha, 2006.

FONSECA JUNIOR, Wilson Corrêa. Análise de Conteúdo. In: DUARTE, Jorge; BARROS,
Antônio (orgs). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. 2ª ed. São Paulo: Atlas,
2006.

FRANÇA, Vera Regina Veiga. A TV, a janela e a rua. In: FRANÇA, Vera Veiga (org.).
Narrativas televisivas: programas populares na TV. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. (vol. 2)

FRANÇA, Vera Regina Veiga. O povo na TV, o povo para além da TV. In: FRANÇA, Vera
Veiga (org.). Narrativas televisivas: programas populares na TV. Belo Horizonte: Autêntica,
2006. (vol. 2)

GOMES, Wilson. Transformações da política na era da comunicação de massa. São Paulo:


Paulus, 2007.
66

HERNANDES, Nilton. A mídia e seus truques. São Paulo: Contexto, 2006.

INSTITUCIONAL. Rede TV!. Disponível em: http://www.redetv.com.br

MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. São Paulo: Senac, 2005.

MACHADO, Flavio; VERA, Andres; AZEVEDO, Solange; FERNANDES, Nelito. A história


de um namoro trágico. Revista Época, ed. 544, 24 de outubro de 2008. Disponível em:
<http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,15217,00.html>. Acesso em: 15 de
novembro, 2008.

MEDINA, Cremilda. Entrevista, o diálogo possível. São Paulo: Ática, 2000.

RAMOS, Silva; PAIVA, Anabela. Mídia e violência: novas tendências na cobertura de


criminalidade e segurança no Brasil. Rio de Janeiro: IUPERJ, 2007.

ROSEN, Jay. Para além da objetividade. In: TRAQUINA, Nelson (org). Jornalismo 2000, o
estudo das notícias no fim do século XX. Revista de comunicação e linguagem. Lisboa:
Relógio D´água editores, 2000.

SODRÉ, Muniz; PAIVA, Raquel. O império do grotesco. Rio de Janeiro: Mauad, 2002. p. 11-
32, p. 103-152.

THOMPSON, J.B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Tradução de


Leonardo Avritzer. Petrópolis: Vozes, 2005.

TRAQUINA, Nelson. Quem vigia o Quarto Poder? IN: TRAQUINA, Nelson. (org.) O Estudo
do Jornalismo no Século XX. São Leopoldo: Ed. Unisinos, 2001.

TRAQUINA, Nelson. As notícias. IN: Nelson Traquina (org). Jornalismo: questões, teorias e
estórias. Lisboa: Ed. Veja, 1999.

WOLTON, Dominique. Elogio do grande público - uma teoria crítica da televisão. São Paulo:
Ática, 1996. p. 11-24, p. 43-80, p. 122-152.
Anexo I

Códigos de ética do jornalismo

Na tentativa de manter o emprego ou até mesmo ganhar status, o jornalista acaba contrariando
algumas regras morais e éticas de sua profissão. O capítulo V da Constituição Federal de 1988
trata da Comunicação Social. O artigo 221 relata que “a produção e a programação das
emissoras de rádio e televisão” deverão atender a alguns princípios como:

I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;


II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive
sua divulgação;
III - regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais
estabelecidos em lei;
IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Para discutir a conduta dos jornalistas do programa A Tarde É Sua na cobertura do Caso Eloá
faz-se necessário o conhecimento do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, que está em
vigor desde 1987. Desta forma, separamos apenas os itens desse Código aplicáveis ao Caso
Eloá a serem comentados.

Capítulo I – Do direito à informação

Artigo 1º - O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros tem como base o direito fundamental
do cidadão à informação, que abrange seu o direito de informar, de ser informado e de ter
acesso à informação.

Artigo 2º - Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito


fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de
interesse, razão por que:
II – a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter
por finalidade o interesse público;
III – a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica
compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão;
Capítulo II – Da conduta profissional do jornalista

Artigo 3º - O exercício da profissão de jornalista é uma atividade de natureza social, estando


sempre subordinado ao presente Código de Ética.

Artigo 6º - É dever do jornalista:


VIII – respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão;
XI – defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais
e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos
negros e das minorias;

Artigo 7º - O jornalista não pode:


IV – expor pessoas ameaçadas, exploradas ou sob risco de vida, sendo vedada a sua
identificação, mesmo que parcial, pela voz, traços físicos, indicação de locais de trabalho ou
residência, ou quaisquer outros sinais;
V – usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime;

Capítulo III – Da responsabilidade profissional do jornalista

Artigo 8º - O jornalista é responsável por toda a informação que divulga, desde que seu
trabalho não tenha sido alterado por terceiros, caso em que a responsabilidade pela alteração
será de seu autor.

Artigo 10 - A opinião manifestada em meios de informação deve ser exercida com


responsabilidade.

Artigo 11 - O jornalista não pode divulgar informações:


II – de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em
cobertura de crimes e acidentes;

Artigo 12 - O jornalista deve:


I – ressalvadas as especificidades da assessoria de imprensa, ouvir sempre, antes da
divulgação dos fatos, o maior número de pessoas e instituições envolvidas em uma cobertura
jornalística, principalmente aquelas que são objeto de acusações não suficientemente
demonstradas ou verificadas;

II – buscar provas que fundamentem as informações de interesse público;


III – tratar com respeito todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar;

Capítulo V – Da aplicação do Código de Ética e disposições finais

Artigo 15 - As transgressões ao presente Código de Ética serão apuradas, apreciadas e


julgadas pelas comissões de ética dos sindicatos e, em segunda instância, pela Comissão
Nacional de Ética.
Artigo 17 - Os jornalistas que descumprirem o presente Código de Ética estão sujeitos às
penalidades de observação, advertência, suspensão e exclusão do quadro social do sindicato e
à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação.

Parágrafo único – Os não-filiados aos sindicatos de jornalistas estão sujeitos às penalidades de


observação, advertência, impedimento temporário e impedimento definitivo de ingresso no
quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de
ampla circulação.

Existe ainda um Código Deontológico dos Jornalistas aprovado em 04 de Maio de 1993 pelos
portugueses:

1. O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com


honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses
atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos
do público.
2. O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo e considerar a acusação sem
provas e o plágio como graves faltas profissionais.
3. O jornalista deve lutar contra as restrições no acesso às fontes de informação e as
tentativas de limitar a liberdade de expressão e o direito de informar. É obrigação do
jornalista divulgar as ofensas a estes direitos.
4. O jornalista deve utilizar meios legais para obter informações, imagens ou documentos
e proibir-se de abusar da boa-fé de quem quer que seja. A identificação como
jornalista é a regra e outros processos só podem justificar-se por razões de
incontestável interesse público.
5. O jornalista deve assumir a responsabilidade por todos os seus trabalhos e actos
profissionais, assim como promover a pronta rectificação das informações que se
revelem inexactas ou falsas. O jornalista deve também recusar actos que violentem a
sua consciência.
6. O jornalista deve usar como critério fundamental a identificação das fontes. O
jornalista não deve revelar, mesmo em juízo, as suas fontes confidenciais de
informação, nem desrespeitar os compromissos assumidos, excepto se o tentarem usar
para canalizar informações falsas. As opiniões devem ser sempre atribuídas.
7. O jornalista deve salvaguardar a presunção de inocência dos arguidos até a sentença
transitar em julgado. O jornalista não deve identificar, directa ou indirectamente, as
vítimas de crimes sexuais e os delinquentes menores de idade, assim como deve
proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor.
8. O jornalista deve rejeitar o tratamento discriminatório das pessoas em função da cor,
raça, credos, nacionalidade, ou sexo.
9. O jornalista deve respeitar a privacidade dos cidadãos excepto quando estiver em
causa o interesse público ou a conduta do indivíduo contradiga, manifestamente,
valores e princípios que publicamente defende. O jornalista obriga-se, antes de
recolher declarações e imagens, a atender às condições de serenidade, liberdade e
responsabilidade das pessoas envolvidas.
10. O jornalista deve recusar funções, tarefas e benefícios susceptíveis de comprometer o
seu estatuto de independência e a sua integridade profissional. O jornalista não deve
valer-se da sua condição profissional para noticiar assuntos em que tenha interesse.
Anexo II

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL


PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ FEDERAL DA VARA CÍVEL DA 1ª


SUBSEÇÃO JUDICIÁRIA DE SÃO PAULO.

O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, pela Procuradora Regional dos


Direitos do Cidadão infra-assinada, no uso de suas atribuições legais e constitucionais,
vem, com fundamento no artigo 129, II, da Constituição brasileira e na Lei n.º 7.347/85,
propor a presente

AÇÃO CIVIL PÚBLICA

em face da TV ÔMEGA LTDA, empresa concessionária do serviço público federal de


radiodifusão de sons e imagens, estação geradora da REDE TV!, inscrita no CNPJ sob o
número 02.131.538/0001-60, sediada nesta subseção judiciária, no Município de Barueri –
SP, na Rua Bahia, 205 – Alphaville, pelas seguintes razões de fato e de direito.

1
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

I - DOS FATOS

Nos autos do procedimento administrativo nº 1.34.001.008487/2007-18,


instaurado na Procuradoria da República em São Paulo a partir de notícia dando conta de
que a Rede TV! teria usado o menor G.L.N. em encenação exibida no quando “Na Trilha
de Uma Traição” do programa “Superpop” do dia 06 de novembro de 2007 violando o
Estatuto da Criança e do Adolescente (doc 01), a emissora alegou que os participantes
do programa apresentaram-se como maiores, não sendo “praxe colher cópias das
cédulas de identidade de todos os participantes de seus programas”, e que diversas
pessoas participavam ativamente dos programas sem firmar autorização de uso de
imagem/voz (doc. 02, 03, 04, 05, 06, 07).

Diante disso, em 10 de setembro de 2008, o Ministério Público Federal


em São Paulo expediu a Recomendação nº 72/2008 à emissora ré para que tomasse as
providências necessárias para assegurar o devido respeito ao direito individual à imagem,
certificando-se das idades dos participantes de seus programas, inclusive obtendo o
necessário alvará judicial quando se tratasse da participação de menores (doc. 08).

A TV Ômega, em resposta, alegou que “cumpre integralmente as


disposições constantes do Estatuto da Criança e do Adolescente” e que “jamais crianças
e adolescentes foram expostos a situações de constrangimento físico ou psicológico”.
(doc. 09).

No entanto, embora já tivesse sido advertida pela Recomendação do


Ministério Público Federal, a emissora exibiu no dia 15 de outubro de 2008, sem
qualquer autorização judicial, entrevista “ao vivo” com a adolescente Eloá Cristina
Pimental, 15 (quinze) anos, que estava sendo mantida refém pelo ex-namorado,
transformando-a, junto com o seqüestrador, numa das atrações principais do

2
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

programa “A Tarde é Sua”.

Trata-se de caso de cárcere privado amplamente divulgado pela mídia,


que resultou na morte de Eloá e em lesões em Nayara, amiga da adolescente que
também foi mantida como refém. Lindemberg, na posse de muita munição e armas e
inconformado com o fim de um relacionamento de mais de dois anos com Eloá, decidiu
invadir o apartamento da ex-namorada à força, terminando por fazê-la refém durante
cinco dias.

A notícia da entrevista, deu ensejo a instauração das peças informativas


nº 1.34.001.005924/2008, no bojo do qual o Ministério Público Federal expediu ofício à
concessionária ré requisitando a cópia do programa acima mencionado (doc.10).

Em resposta, recebeu o DVD anexo contendo o programa (doc. 11).

Analisando-se seu conteúdo, verifica-se que, de fato, a emissora


cometeu ato abusivo, explorando, durante quase uma hora, no programa “A Tarde é
Sua” a situação delicada e vulnerável em que se encontravam as adolescentes
Eloá, sua amiga Nayara, e o Lindemberg Alves, ex-namorado da primeira (doc. 12 –
degravação), interferindo, indevidamente, em investigação policial em curso.

Inicialmente foi exibida entrevista gravada pelo telefone, feita pelo repórter
Luis Guerra, do programa “A Tarde é Sua”, com Lindemberg e Eloá. Confira-se trechos
da entrevista:

“Luís Guerra: Não, mas fica tranqüilo... Eu sei que é difícil, mas
procura se acalmar. A Eloá tá com você? Tá tranqüila? ?como
é que você tá?
Lindemberg: Tá bem. Peraí, que ela vai falar.
Luís Guerra: Põe ela pra falar com a gente, por favor.
Eloá: Alô?
Luís Guerra. Oi Eloá. É o Luís Guerra da Sônia Abrão, tudo
bem?

3
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

Eloá: Quem tá falando?


Luís Guerra: Luís Guerra, repórter da Sônia Abrão, tudo bem?
Eloá: Tudo.
Luís Guerra: Querida, como é que tá aí? Tá tudo tranqüilo?
Eloá: Tá tudo tranqüilo, Eu quero almoçar.
Luís Guerra: Você quer almoçar?
Eloá: Tô fraca.
Luís Guerra: Fica tranqüilo. Eu conversei com o Lindemberg, a
gente vai conversar de novo. Ele tá te tratando bem?
Eloá: Tá, tá me tratando bem (voz chorosa)
Luís Guerra: Então confia nele, passa tanqüilidade. Os
polici ....

(....)
Luis Guerra: Oi, querido
Lindemberg: Vou falar para você uns bagulho. Deixa eu falar
uns negócio procê.
Luis Guerra: Pode falar.
Lindemberg: Oh, Luis guerra, como você conseguiu o telefone
daqui?
Luis Guerra: Filho, depois a gente conversa isso. O importante
é que a gente quer passar tranqüilidade pra você.
Lindemberg: Tô perguntanto. Você vai me reponder, porque
eu tô perguntando primeiro. Por favor, “tiu”,não me deixe
nervoso não.
Luis Guerra: Não, não. Não fique nervoso. A gente conseguiu o
telefone através da nossa produção.
Lindemberg: Então fala com quem você conseguiu. Só quero
saber, endente?
Luis Guerra: A gente conseguiu com alguns parentes seus
mesmo, tá? Tranqüilo, “velho”? Lindemberg?
Lindemberg: Se você é repórter mesmo, eu queria saber se

4
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

quem realmente tá falando comigo é o Luiz Guerra.


Luís guerra: Meu nome é Luís Guerra, sou do programa “ A
Tarde é Sua”, da Sônia Abrão. Você pode ligar a televisão à
tarde que você vai ver a sua gravação.
Lindemberg: Tô esperando tudo acontecer normalmente, o
policial não fazer o que ele fez.
Luís Guerra: E o que eles fizeram?
Lindemberg: Eu falei pra ninguém subir e ele subiu, ele tocou a
campainha, nóis tava dormindo, eu tomei um susto e quase
atirei nela.
Luís Guerra: Não, fica tranqüilo, a gente vai entrar em
contato com a polícia. A gente tá confiando em você, sabe
que você é um rapaz de bem, que você não quer fazer nada
de errado.
Lindemberg: Você é repórter. Você viu o que aconteceu lá no
Rio de Janeiro, lá naquele caso do seqüestro do ônibus, né?
Então, o cara foi “pagar de bonitinho” lá, o policial lá foi querer
fazer as coisas precipitadas, foi atirar no cara, o cara atirou na
mulher e matou a mulher. E aí? É isso que o policial quer?
Luís Guerra: Não, não vai acontecer isso, espero. Porque a
gente confia em você, e a gente vai...”

Posteriormente, foi ao ar entrevista ao vivo, feita também por telefone,


conduzida pela apresentadora do programa Sônia Abrão.

Segundo notícia veiculada no jornal “O Estado de São Paulo” no dia 16 de


outubro de 2008:

“Gate queria impedir TV de falar com invasor

O telefone do Departamento de Comunicação da Polícia Militar


disparou ontem, logo após a apresentadora Sônia Abrão, do A
Tarde é Sua, da Rede TV!, mostrar uma entrevista ao vivo com
Alves. Oficiais da tropa de elite da Polícia Militar pediam para a

5
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

corporação intervir e pedir à emissora que tirassem a


reportagem do ar.

A atitude da TV, para a PM, é 'incorreta', 'atrapalha' e coloca em


risco todo o trabalho dos negociadores. Um capitão do
Exército, que pediu para não ser identificado, estava
inconformado. “Para esse tipo de ocorrência existem pessoas
treinadas, especializadas. Às vezes, uma palavra errada da
apresentadora coloca tudo a perder”.(doc. 13)

Em conversa com o seqüestrador, a apresentadora assumiu, ao vivo,


nítida posição de intermediadora das negociações, conforme se depreende dos trechos a
seguir:

Em conversa com Lindemberg:

“Lindemberg: Você viu a “merda” que deu no Rio de Janeiro ... Se


eles invadirem eu vou atirar nela!
Sônia Abrão: Mas eles não vão invadir, Lindemberg. Eles não têm
essa intenção de maneira nenhuma. É aquilo que eu tô falando pra
vocês, a polícia tá vendo de perto o sofrimento dos seus parentes, o
sofrimento dos parentes da Eloá. Você acha que eles vão querer
provocar uma morte aí dentro? De jeito nenhum, de jeito
nenhum, tá? Eles não vão nem se aproximar mais. Cê tá me
ouvindo. Alô, Lindemberg? Alô?
Sônia Abrão: Ele avisou que a linha tava caindo. Caiu a linha de
novo ... Vamos ver se ele atende novamente a ligação e ... acho que
tá cada vez mais claro para a polícia que a única coisa ainda que tá
fazendo com que ele mantenha a Eloá presa lá junto com ele é essa
história de que um capitão teria tentado invadir o local, Então, ele tá
preocupado com isso, ele não quer saber desse tipo de coisa e a
gente tá explicando pro Lindemberg que não é essa a disposição da
polícia, que eles não querem invadir, só querem negociar a saída

6
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

dos dois, do Lindemberg e da Eloá, são e salvos ...


(...)
Sônia Abrão: Ninguém vai atirar em você, pelo amor de Deus, não
pensa isso não, a gente quer um final feliz para essa estória. Isso
não sou eu que estou aqui no ar falando não, todo mundo que tá aí
embaixo, a polícia não tem interesse em tirar a vida de ninguém,
muito pelo contrário, não tem porque tirar a sua vida, Lindemberg.
Pelo amor de Deus, não pensa isso não. Faz isso que você está
falando: ela desce primeiro com os dois revólveres descarregados,
certo? E você vai descer na seqüência com as mãos pra cima. Você
não tem nenhuma outra arma com você, você só tem esses dois
revólveres, é isso?”

Com a adolescente Eloá:

Sonia Abrão: Oi, é a Sonia Abrão. Hoje você conversou com o Luiz
Guerra, com o nosso repórter, nós estamos ao vivo. Esse tempo
todo você está vendo, o Lindemberg está conversando com a gente
e a gente queria que você falasse novamente para o Brasil inteiro,
para as pessoas entenderem que você está bem, não é? Na medida
do possível. O Lindemberg está falando que agora você está
cooperando, tá mais tranqüila, que você comeu. Você já almoçou,
não é?
Eloá: eu já almocei, já.
Sonia Abrão: Você está se sentido melhor? Sua voz está mais forte.
Eloá: aham.
Sonia Abrão: E como é que ele tá? Ele falou que vocês já
conversaram a respeito do namoro de vocês, que acabou.
Eloá: (murmura algo ininteligível)
Sonia Abrão: Oi? Não entendi. Caiu de novo a ligação ...
(....)
Sonia Abrão: Sei, me fala uma coisa. Ele deixou muito claro que não
tem intenção de fazer mal nenhum, nem a ele mesmo, né? Agora
você esta preparada pra descer com calma, ele vai entregar,

7
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

segundo ele nos disse...


Eloá: Na melhor hora, ele vai me liberar.
Sonia Abrão: Ele vai entregar as duas armas descarregadas na
sua mão, você tem condições emocionais de descer, de
entregar....
Eloá: Está tudo sob controle...
Sonia Abrão: E avisar a polícia que ele vai descer na seqüência
indefeso, desarmado e com as mãos pra cima.
Eloá: Indefeso...
Sônia Abrão: Você explica tudo direitinho?

Verifica-se, portanto, que a concessionária ré abusou da sua liberdade de


comunicação, violando os direitos assegurados às crianças e adolescentes, bem como
interferindo em investigação policial em curso.

Dessa forma, não restou outra alternativa senão a propositura da presente


ação civil pública, objetivando que a concessionária ré repare a lesão causada à
coletividade.

II - DA COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL E LEGITIMIDADE ATIVA

A competência da Justiça Federal é notória no caso em questão, já que a


empresa ré é concessionária de um serviço público federal, como se depreende da leitura
dos arts. 21, inciso XII, “a”, e 223 da Constituição.

Ademais, a Constituição Federal, em seu art. 127, prescreve que ao


Ministério Público, instituição essencial à função jurisdicional, compete a defesa da ordem
jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.

8
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

Estabelecido este vetor, dispõe em seguida:

“Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público:


[...].
II – zelar pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos e dos serviços
de relevância pública aos direitos assegurados nesta Constituição,
promovendo as medidas necessárias a sua garantia.
III - promover o inquérito civil público e a ação civil pública, para a
proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e outros
interesses difusos e coletivos”.

Em harmonia com a Carta Federal, preceitua a Lei Complementar n.º


75/93, que dispõe sobre a organização, as atribuições e o estatuto do Ministério Público
da União, em seu art. 5º, inc. IV, a atribuição expressa de “zelar pelo efetivo respeito dos
Poderes Públicos da União e dos serviços de relevância pública e dos meios de
comunicação social aos princípios, garantias, condições, direitos, deveres e vedações
previstos na Constituição Federal e na lei, relativos à comunicação social”.

Estabelece ainda o art. 39, inc. III, da Lei complementar nº 75/93:

“Art. 39. Cabe ao Ministério públcio Federal exercer a defesa dos


direitos consstitucionais do cidadão, sempre que se cuidar de
garantir-lhes o respeito:
[...]
III- pelos concessionários e permissionários de serviço público
federal”

O Ministério Público tem um dever irrenunciável e impostergável de


defesa do povo, cabendo-lhe exigir dos Poderes Públicos e dos que agem em atividades
essenciais o efetivo respeito aos direitos constitucionalmene assegurados na prestação
dos serviços considerados relevantes.

9
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

Destarte, verifica-se, no presente caso, a indevida utilização da concessão


federal do serviço de radiodifusão de sons e imagens a configurar dano a interesses que
determinam a atuação do parquet federal: a indevida prestação de um serviço concedido,
e à coletividade, pela afronta a normas constitucionais e legais, especialmente no que
concerne ao abuso no exercício da liberdade de comunicação e aos direitos assegurados
às crianças e adolescentes.

Como o Ministério Público Federal é parte e a Ré é prestadora de serviço


público federal concedido, a ação coletiva deve ser, obrigatoriamente, proposta perante a
Justiça Federal, consoante dispõe o art. 109, inciso I, da Constituição.

III - DO CABIMENTO DA PRESENTE AÇÃO CIVIL PÚBLICA

O Ministério Público Federal busca defender o direito de milhões de


brasileiros a uma programação televisiva que respeite os direitos fundamentais, os
direitos da criança e do adolescente e os valores éticos que devem permear a
programação televisiva.

Trata-se de legítimo interesse difuso, como já apontou Barbosa Moreira,


em artigo sobre o tema:
“O interesse em defender-se ‘de programas ou programações de
rádio e televisão que contrariem o disposto no art. 221’ enquadra-se
com justeza no conceito de interesse difuso.
[...]
Com efeito: em primeiro lugar, ele se caracteriza, à evidência, como
‘transindividual’, já que não pertence de modo singularizado, a
qualquer dos membros da comunidade, senão a um conjunto
indeterminado – e, ao menos para fins práticos, indeterminável – de
seres humanos. Tais seres ligam-se uns aos outros pela mera
circunstância de fato de possuírem aparelhos de televisão ou, na

10
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

respectiva falta, costumarem valer-se do aparelho do amigo, do


vizinho, do namorado, do clube, do bar da esquina ou do salão de
barbeiro.

E ninguém hesitará em qualificar de indivisível o objeto de


semelhante interesse, no sentido de que cada canal, num dado
momento, transmite a todos a mesma e única imagem [..]”.1 (grifos
nossos)

O argumento de que uma parcela dos espectadores apóia uma


programação televisiva que ofende sistematicamente os valores constitucionais não serve
para afastar o cabimento da ação coletiva. Isto porque, como bem lembrou Rodolfo de
Camargo Mancuso, é justamente no embate de coletividades extensas – uma parte
posicionando-se contra, e outra a favor de um padrão básico de qualidade na
programação televisiva – que repousa uma das notas mais típicas dos interesses difusos,
que é a sua intrínseca conflituosidade.2

E, em sendo difuso, o dano causado pela exibição de programação


indevida por emissora de televisão sujeita-se à reparação através de Ação Civil Pública
(Lei 7.347/95, art. 1º, IV).

IV - DO DIREITO

A conduta da TV Ômega constitui abuso de direito, pois usou sua


liberdade de comunicação social para desrespeitar direitos assegurados às crianças e
adolescentes e interferir numa investigação conduzida por autoridades policiais.

A Constituição Federal garante plenamente a liberdade de expressão e de

1 MOREIRA, José Carlos Barbosa. Ação Civil Pública e Programação da TV. In: MILARÉ, Edis. Ação Civil Pública: lei
7.347/85: reminiscências e reflexões após dez anos de aplicação. São Paulo: RT, 1995. p. 280-282.
2 MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Controle Jurisdicional do Conteúdo da Programação Televisiva”. in Boletim dos
Procuradores da República, nº 40, Agosto/2001.

11
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

manifestação do pensamento, de criação, de expressão e de informação, vedando


qualquer censura de natureza política, ideológica ou artística (art. 220, caput e § 2º).

No entanto a liberdade de comunicação social não é absoluta, devendo


estar em compasso com outros direitos inseridos na Constituição Federal, dentre eles o
direito à privacidade, à imagem e à intimidade dos indivíduos (art. 220, § 1º e art. 5º, X),
bem como os valores éticos e sociais da pessoa e da família (art. 221, IV).

Ademais, o art. 53 da Lei 4.117/62 declara que constitui abuso, no


exercício da liberdade de radiodifusão, o emprego desse meio de comunicação para a
prática de crime ou contravenção previstos na legislação em vigor no País, inclusive para
incitar a desobediência às leis ou decisões judiciárias; comprometer as relações
internacionais do País, ofender a moral familiar, pública, ou os bons costumes; colaborar
na prática de rebeldia desordens ou manifestações proibidas.

É importante dizer que, ao contrário do que pensa o senso-comum, a Ré


não é “proprietária” do canal em que opera. É, na verdade, uma concessionária do serviço
público federal de radiodifusão de sons e imagens, e, como tal, está sujeita às normas de
direito público que regulam este setor da ordem social.

Justifica-se o regime jurídico de direito público porque, diversamente do


que acontece nas mídias escritas, as emissoras de rádio e TV operam um bem público
escasso: o espectro de ondas eletromagnéticas por onde se propagam os sons e as
imagens. Trata-se de um bem público de interesse de todos os brasileiros, pois somente
por intermédio da televisão e do rádio é possível a plena circulação de idéias no país.

A liberdade de comunicação deverá ser protegida sempre que cumprir sua


função social, mas será submetida a controle quando incorrer em abuso. Referida
liberdade é uma garantia instituída pela sociedade e para a sociedade, não se podendo
admitir, portanto, que seja utilizada contra esta.

12
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

A empresa ré usou o bem público que lhe foi temporariamente concedido


para negar os valores fundamentais declarados na Constituição, dentre os quais os
direitos da criança e do adolescente.

O drama pessoal vivenciado pelos entrevistados, um deles, menor, foi


transmitido sem nenhum respeito pela dor humana, relegando a ética a um plano
secundário. Pode-se dizer que a emissora, no mínimo, colocou em risco o trabalho dos
negociadores especializados da Polícia e a vida da adolescente e do seqüestrador.

Como é sabido, a Constituição de 1988 impôs a todos o dever de


assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde,
à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao
respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de
toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Em reforço ao comando constitucional, o art. 15 da Lei nº 8069/90


(Estatuto da Criança e do Adolescente) dispõe que a criança e o adolescente têm direito à
liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de
desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na
Constituição e nas leis. E o art. 17 do mesmo Estatuto explicitou que “o direito ao respeito
consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do
adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos
valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais”.(grifos nossos)

Ademais, o artigo 149, II, “a”, do Estatuto dispõe sobre a necessidade de


prévia autorização judicial para participação de menor em espetáculos públicos, inclusive
programas televisivos:
“Art. 149. Compete à autoridade judiciária disciplinar, através de
portaria, ou autorizar, mediante alvará:
[...]
II - a participação de criança e adolescente em:

13
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

a) espetáculos públicos e seus ensaios;


[...].

§ 1º Para os fins do disposto neste artigo, a autoridade judiciária


levará em conta, dentre outros fatores:
a) os princípios desta Lei;
b) as peculiaridades locais;
c) a existência de instalações adequadas;
d) o tipo de freqüência habitual ao local;
e) a adequação do ambiente a eventual participação ou freqüência
de crianças e adolescentes;
f) a natureza do espetáculo.

§ 2º As medidas adotadas na conformidade deste artigo deverão ser


fundamentadas, caso a caso, vedadas as determinações de caráter
geral.”

Ocorre que, no programa da concessionária ré, não só o drama da


adolescente foi tratado como entretenimento, em flagrante desrespeito à sua condição de
pessoa em desenvolvimento, como também a emissora a inseriu em seu programa como
atração principal, fazendo com que dele participasse de modo efetivo e sem o devido
alvará judicial.
“1. É pacífico o entendimento nas Turmas de Direito Público desta
Corte Superior de que os programas de televisão têm natureza de
espetáculo público, atraindo a incidência do art. 149, II, do ECA.
2. O que impõe a exigência do alvará judicial é a efetiva participação
do menor o programa televisivo, não importando o local das
gravações, observando-se que tampouco a presença dos pais supre
tal exigência.” (STJ - AgRg no Ag 673357/RJ, Ministra Denise Arruda,
T1-Primeira Turma) (grifos nossos)

A adolescente, mantida como refém, entrou “ao vivo” durante a


programação, por meio de uma entrevista nitidamente invasiva e destituída de qualquer
respeito a sua condição de adolescente e vítima.

14
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

O legislador impôs a necessidade de autorização judicial justamente para


coibir práticas abusivas por parte dos responsáveis por espetáculos públicos.

A emissora desrespeitou ainda o disposto no art. 221 da Constituição


Federal:

“Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e


televisão atenderão aos seguintes princípios:
I- preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e
informativas;
II- promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção
independente que objetive sua divulgação;
III- regionalização da produção cultural, artística e jornalística,
conforme percentuais estabelecidos em lei;
IV- respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família”
(grifos nossos)

Ademais, ao assumir o papel de intermediadora das negociações, a


apresentadora da concessionária interferiu na atividade policial em curso, que estava
sendo promovida por pessoas capacitadas e especializadas, como policiais do Grupo de
Ações Táticas Especiais (Gate), colocando a vida da adolescente e dos envolvidos na
operação em risco.

Ora, como observa Rodolfo de Camargo Mancuso,

“Lendo-se os dispositivos que regem a programação televisiva à luz


do que visa garantir a liberdade de iniciativa e a livre concorrência
(CF, art. 170, caput e inciso IV), chega-se a esta exegese: é
autorizada a exploração comercial da difusão televisiva privada, com
natural apropriação dos lucros daí resultantes, desde que venham
observados os princípios e guardadas as restrições especificadas
para tal atividade. Em suma, livre iniciativa com responsabilidade
social; lucro empresarial sem capitalismo selvagem.

15
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

De outra parte, deve o intérprete precatar-se de não baralhar o


entendimento do que seja um padrão básico de qualidade na
programação televisiva, em face de textos outros que em verdade
apenas reflexamente tangenciam aquele tema, tais os que vedam a
censura artística e garantem a liberdade de expressão (CF, art. 220,
caput e § 2º). Aí, a nosso ver, não se trata do fenômeno conhecido
por colisão entre preceitos constitucionais, visto não ser razoável
pretender-se que os valores liberdade de expressão e vedação de
censura prévia viessem preservados às custas do aniquilamento de
outros preceitos constitucionais reguladores de uma atividade que é
estritamente regulada, como se passa com a radiodifusão de sons e
imagens.

Sem esses cuidados, o intérprete pode tomar a nuvem por Juno,


extraindo dos textos de regência o que neles não se contêm, porque
é evidente que não esteve na intenção do constituinte franquear um
laissez faire, justamente na programação televisiva, atividade para a
qual a própria constituição fixou parâmetros cogentes. seria no
mínimo estranhável, escreve José Carlos Barbosa Moreira, ‘que se
houvesse de deixar a determinação ao arbítrio das emissoras, isto é,
dos próprios infratores potenciais ou atuais [...]’.”3 (grifos nossos)

O órgão informativo tem a seu favor a liberdade de informação jornalística,


mas esta certamente não abrange intervenção na atividade policial, sob pena de incorrer
em nítido abuso. Caracterizada, portanto, a conduta irregular da emissora ré, enquanto
prestadora de serviço público federal, por agir de modo contrário às normas
constitucionais e legais.

Vislumbra-se, portanto, a necessidade de o Poder Judiciário (CF, art. 5º,


XXXV), em defesa dos direitos fundamentais e dos princípios a serem observados na
produção e programação dos serviços de radiodifusão, previstos pela Carta Magna,
reparar o dano, de modo também a coibir futuras práticas abusivas.

3MANCUSO, Rodolfo de Camargo. “Controle Jurisdicional do Conteúdo da Programação Televisiva” in Boletim dos
Procuradores da República, nº 40, Agosto/2001.

16
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

V - DO DANO MORAL COLETIVO

O dano moral está previsto em nosso ordenamento jurídico no artigo 1º da


Lei nº 7.347/85, por meio do qual é assegurada a responsabilização por danos morais e
patrimoniais causados ao meio ambiente, ao consumidor, à ordem urbanística, aos bens e
direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico e a qualquer outro
interesse difuso ou coletivo.

Também há previsão sobre o tema na Lei nº 8.078/90 - Código de Defesa


do Consumidor -, que garante a prevenção e a reparação de danos patrimoniais e morais,
individuais, coletivos e difusos e o acesso aos órgãos judiciais e administrativos, além de
trazer o avanço das definições cabíveis dentro de direito coletivo (art. 81).

A indenização pelo dano moral sofrido tem previsão, ainda, nos incisos V
e X da Constituição Federal. Vejamos:

“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer


natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à
igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
[...]
V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além
da indenização por dano material, moral ou à imagem;
[...]
X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem
das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material
ou moral decorrente de sua violação”.

No presente caso, como restou fartamente demonstrado, a conduta da

17
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

emissora ré foi inconstitucional e ilegal, por afrontar as normas constitucionais e


infraconstitucionais que regulam o serviço público federal de radiodifusão e as que
garantem direitos da criança e do adolescente, com evidente prejuízo para a sociedade e
o telespectador.

Há, no caso, o dever de indenizar porque a conduta ilícita praticada no


programa “A Tarde é Sua” ofendeu, diante de uma platéia de milhões de telespectadores,
valores fundamentais compartilhados por todos os brasileiros.

Ensina Carlos Alberto Bittar Filho4:

“[...] O dano moral coletivo é a injusta lesão da esfera moral de uma


dada comunidade, ou seja, é a violação antijurídica de um
determinado círculo de valores coletivos. Quando se fala em dano
moral coletivo, está-se fazendo menção ao fato de que o patrimônio
valorativo de uma certa comunidade (maior ou menor), idealmente
considerado, foi agredido de maneira absolutamente injustificável do
ponto de vista jurídico: quer isso dizer, em última instância, que se
feriu a própria cultura, em seu aspecto imaterial.” (grifos nossos)

Como observa, ainda, Carlos Alberto Bittar o valor devido a título de


indenização pelos danos morais coletivos:

“[...] deve traduzir-se em montante que represente advertência ao


lesante e à sociedade de que se não se aceita o comportamento
assumido, ou o evento lesivo advindo. Consubstancia-se, portanto,
em importância compatível com o vulto dos interesses em conflito,
refletindo-se de modo expressivo, no patrimônio do lesante, a fim de
que sinta, efetivamente, a resposta da ordem jurídica aos efeitos do
resultado lesivo produzido. Deve, pois, ser quantia economicamente
significativa, em razão das potencialidades do patrimônio do lesante.

4 BITTAR FILHO, Carlos Alberto. “Do dano moral coletivo no atual contexto jurídico brasileiro” in Direito do
Consumidor, vol. 12- Ed. RT.

18
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

Coaduna-se essa postura, ademais, com a própria índole da teoria


em debate, possibilitando que se realize com maior ênfase, a sua
função inibidora de comportamentos. Com efeito, o peso do ônus
financeiro é, em um mundo em que cintilam interesses econômicos,
a resposta pecuniária mais adequada a lesionamentos de ordem
moral.” 5 (grifos nossos)

Destarte, impende exigir da Ré a reparação pelos danos morais causados


à coletividade. Para tanto, necessário considerar que: a) a entrevista impugnada foi
exibida para um público virtual de milhões de telespectadores; b) a emissora já havia sido
recomendada a observar as normas constitucionais e as constantes do Estatuto da
Criança e do Adolescente referentes à participação de pessoas menores de 18 anos em
seus programas; c) o faturamento da Rede TV! foi estimado em R$ 150.000.000 (cento e
cinqüenta milhões de reais) por ano6 (doc. 14).

Por essas razões, entende o Ministério Público Federal que é razoável a


fixação de indenização por danos morais coletivos no valor de R$ 1.500.000,00 (um
milhão e quinhentos mil reais), o equivalente a 1,0% do faturamento bruto anual da
emissora.

VI - DO PEDIDO

Em face do exposto o Ministério Público requer:

1. Seja condenada a TV ÔMEGA LTDA, estação geradora da


REDE TV!, ao pagamento de indenização por danos morais
coletivos no valor de R$ 1.500.000,00 (um milhão e
quinhentos mil reais), acrescidos de juros moratórios e

5 BITTAR, Carlos Alberto. “Reparação Civil por Danos Morais” in RT, 1993, p. 220-222.
6 “Monopólio em números: Donos da opinião no Brasil”, In: <http://www.pco.org.br/conoticias/ler_materia.php?mat=414>

19
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORA REGIONAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO

correção monetária a partir da citação, importância essa que


deverá ser revertida ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos,
instituído pela Lei Federal n.º 7.347/85;

2. A citação da Ré para, querendo, contestar a presente ação,


pena de, assim não o fazendo, sofrer os efeitos da revelia;

3. A condenação da Ré nos ônus da sucumbência;

4. A intimação da União Federal para, se quiser, integrar a


presente lide, na posição de litisconsorte ativa, por intermédio
de seus advogados, na Avenida Paulista, 1804 - 20º andar –
Cerqueira César – São Paulo – SP, como lhe faculta o art. 5º,
§ 2º, da Lei 7.347/95.

Protesta o Ministério Público Federal provar os fatos alegados por todos


os meios de prova admitidos em direito, notadamente a juntada de documentos e a oitiva
de testemunhas.

Dá-se à presente causa o valor de R$ 1.500.000,00 (um milhão e


quinhentos mil reais)

São Paulo, 01 de dezembro de 2008.

ADRIANA DA SILVA FERNANDES


Procuradora Regional dos Direitos do Cidadão
Procuradora da República

20
Anexo III

Documento de pesquisa
________________________________________
De: Jefferson Aparecido Dias [jadias@prsp.mpf.gov.br]
Enviado: sexta-feira, 9 de abril de 2010 18:42
Para: Keila Brenda da Cunha
Assunto: Re: MONOGRAFIA SOBRE CASO ELOÁ

Keila
Boa noite.

Desculpe a demora em responder-lhe, mas estou precisando verificar se o processo do caso


Eloá ainda está sobre segredo de Justiça. Com relação a casos em geral, a lei já existe, pois a
exposição de crianças e adolescentes na TV depende de autorização judicial, de acordo com o
Estatuto da Criança e do Adolescente. Assim, nestes casos envolvendo crianças, me parece
que a lei existente já é suficiente, desde que seja cumprida, o que não ocorreu no caso Eloá.
Vou verificar na próxima semana e se não estiver em segredo de justiça eu te passo mais
informações. Gostaria de esclarecer, apenas, que o segredo de justiça é decretado por envolver
uma adolescente e com o objetivo de preservar a sua memória.

Um grande abraço
Jefferson

>>> Keila Brenda da Cunha <keilacunha@fundep.ufmg.br> 07/04/10 16:49 >>>

Oi, Sr. Jefferson!


Boa tarde!

Estou de volta para ver se você pode me ajudar dessa vez. Minha monografia está quase
pronta e preciso muito de sua ajuda. Preciso saber se há possibilidade de vc me dizer como
está a ação. O senhor já pode me dizer algo ou ainda está em segredo de justiça? Gostaria
muito de saber se a Rde Tv irá pagar ao MP a quantia exigida, se a emissora será punida
de alguma outra forma, se a partir deste caso poderá haverá alguma lei que proiba esse tipo de
conduta dos jornalistas da imprensa marrom. Pode me dizer pelo menos a sua opinião para
enriquecer o meu trabalho? Por favor, preciso muito de sua ajuda.

Agradeço desde já!


Um abraço,
Keila Brenda

-----Mensagem original-----
De: Jefferson Aparecido Dias
[mailto:jadias@prsp.mpf.gov.br<mailto:jadias@prsp.mpf.gov.br>]
Enviada em: quinta-feira, 10 de setembro de 2009 17:41
Para: Keila Brenda da Cunha
Assunto: Re: MONOGRAFIA SOBRE CASO ELOÁ

Olá Keila Brenda


Realmente assumi o cargo de Procurador Regional dos Direitos do Cidadão em abril e a
referida ação me foi redistribuída. Seria um prazer fornecer-lhe uma cópia dela, mas,
infelizmente, estou impossibilitado, uma vez que o Juiz Federal decretou SEGREDO DE
JUSTIÇA da mencionada ação. Assim, por força dessa decisão, estou impossibilitado de
fornecer cópia dos autos, bem como apresentar dados em relação ao seu tramite.

Sitno muito.

Um abraço
Jefferson

>>> Keila Brenda da Cunha


<keilacunha@fundep.ufmg.br<mailto:keilacunha@fundep.ufmg.br>> 10/9/2009
17:35:49 >>>

Prezado Sr. Dr. Jefferson Aparecido Dias,

Boa tarde!

Sou estudante de Jornalismo e estou analisando para o projeto de monografia qual a conduta
dos jornalistas do programa "A Tarde é Sua", da Rede TV! frente aos preceitos da ética
jornalística, no caso do seqüestro de Santo André/SP em 2008. Para isso, preciso muito dos
programas completos em que a Sônia Abrão e seu repórter Luis Guerra entrevistaram o
seqüestrador e a vítima. Tenho apenas trechos que encontrei no site Youtube. Li a ação
movida contra a Rede TV feita pela Sra. Adriana Fernandes e percebi que os senhores devem
ter esse material. Será que seria muito se eu pedir que me fornecessem uma cópia? A Rede
TV se recusa a me fornecer. Também gostaria de saber à quantas anda essa ação. O caso já
está sendo resolvido? A Rede TV irá pagar o valor da ação?

Abaixo segue e-mail de resposta que recebi da Sra. Adriana Fernandes.

Agradeço desde já,

Keila Brenda da Cunha


keilacunha@fundep.ufmg.br<mailto:keilacunha@fundep.ufmg.br><mailto:keilacunha@fund
ep.ufmg.br<mailto:keilacunha@fundep.ufmg.br>>
www.fundep.ufmg.br<http://www.fundep.ufmg.br/><http://www.fundep.ufmg.br/>

2009/9/10 Adriana da Silva Fernandes


<AFernandes@prsp.mpf.gov.br<mailto:AFernandes@prsp.mpf.gov.br>>:
> Sra. Brenda,
> A ação em face da rede TV, que está em trâmite na Justiça Federal ,
> está agora sob a responsabilidade do novo Procurador Regional dos
> Direitos do Cidadão, Dr. Jefferson Aparecido Dias.
> Caso queira entrar em contato, o e-mail do Dr. Jefferson é
> jadias@prsp.mpf.gov.br<mailto:jadias@prsp.mpf.gov.br>.
> Atenciosamente,
> Adriana Fernandes

Похожие интересы