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NEUROPEDAGOGIA

Mara Rúbia Ribeiro Welferinger


Governador do Estado do Maranhão Edição
Flávio Dino de Castro e Costa Universidade Estadual do Maranhão - UEMA
Núcleo de Tecnologias para Educação - UEMAnet
Reitor da Uema
Prof. Gustavo Pereira da Costa Coordenadora do UemaNet
Profª. Ilka Márcia Ribeiro de Sousa Serra
Vice-reitor da Uema
Prof. Walter Canales Sant’ana Coordenadora Pedagógica de Designer Educacional

SUMÁRIO
Profª. Maria das Graças Nery Ferreira
Pró-reitor de Administração
Prof. Gilson Martins Mendonça Coordenadora Administrativa de Designer Educacional
Cristiane Costa Peixoto
Pró-reitor de Extensão e Assuntos Estudantis
Prof. Paulo Henrique Aragão Catunda Professora Conteudista
Mara Rúbia Ribeiro Welferinger
Pró-reitora de Graduação
Profª. Andréa de Araújo Designer Pedagógico
Lidiane Saraiva Ferreira Lima
Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação
Prof. Marcelo Cheche Galves Designer Educacional
Clecia Assunção Silva
Pró-reitor de Planejamento
Prof. Antonio Roberto Coelho Serra Revisoras de Linguagem
Layla Magalhães Araújo
Lucirene Ferreira Lopes

Editoração Digital/Capa
Luis Macartney Serejo dos Santos

Universidade Estadual do Maranhão - UEMA

Núcleo de Tecnologias para Educação - UEMAnet APRESENTAÇÃO


Campus Universitário Paulo VI, Tirirical - São Luís-MA

Fone-fax (98) 2106-8970

http://www.uema.br
UNIDADE I: ORIGEM E HISTÓRICO DA NEUROPEDAGOGIA
http://www.uemanet.uema.br

Ficha catalográfica 1.1. Neurociências e neurocientistas .......................................................... 11


Welferinger, Mara Rúbia Ribeiro.
1.2. Pesquisas e Descobertas em Neurociências ....................................... 14
Neuropedagogia Mara Rúbia Ribeiro Welferinger/. – 1.3. Origem do conceito de Neuropedagogia .............................................. 17
São Luís: UemaNet, 2017
1.4. Por que Neuropedagogia? ................................................................... 23
... p 103 1.5. A neuropedagogia atualmente: a batalha entre conceitos ................... 25

ISBN:

1. Neuropedagogia. 2.Neurociências. 3. Aprendizagem


I.Título

CDU: 331.45(094.5)
UNIDADE II: NOSSO CÉREBRO HOJE

2.1 O Cérebro um sistema de conexão: o papel do corpo caloso .................... 32


2.2 Componentes de base: ............................................................................... 37 APRESENTAÇÃO
2.3 Exigências físicas do cérebro: movimento, oxigênio e alimentação ............. 62
Neuropedagogia? Do que se trata?
2.4 Nossas capacidades, conceitos-chave: potencialidade, conectividade e
plasticidade ..................................................................................................69 NEUROPEDAGOGIA RUMO A UMA NEURO
REFERÊNCIAS ..................................................................................................74 APRENDIZAGEM

NEURO E PEDAGOGIA

UNIDADE III: RUMO A UMA NEURO APRENDIZAGEM E


CÉREBRO APRENDER

3.1 Problemas a serem resolvidos ..................................................................... 79 A contribuição das Uma nova abordagem
Neurociências da pedagogia
3.2 Colocando em perspectiva ............................................................................101

Fonte: Eleborado por Mara Welferinger

A Neuropedagogia é um conceito que foi criado na França pela pedagoga


e linguísta Hélène Trocmé Fabre*. É uma passarela entre as neurociências e a
pedagogia.

A Neuropedagogia aborda a aprendizagem sob um novo enfoque, partindo


de dois elementos que nos são inerentes: nosso cérebro e nossa capacidade
para aprender, tendo como objetivo final a autonomia daquele que aprende.

*
Ver o quadro com um pequeno resumo dos trabalhos de Hélène Trocmé-Fabre.
Neuropedagogia 5
Trata-se de uma abordagem sistêmica, transdisciplinar, integradora. Logo, Sem perder de vista o caráter abrangente do assunto, fizemos a opção de
essa disciplina não se destina a uma área específica, mas a todos os que se organizá-lo, da maneira mais simples possível, esperando que desperte em você,
sentem engajados com o ato de aprender. Como diz a referida autora, precisamos aluno/aprendente, o desejo de explorar, descobrir, compreender, criar e sobre
repetir com insistência “Nascemos para aprender” e aprendemos ao longo de tudo questionar.
nossa existência. Aprendemos com nosso corpo inteiro regido por nosso cérebro.
Consciente ou não, ambos, cientista ou o comum dos mortais possuem um sistema
nervoso central e praticam o aprender, que é considerado como a mais antiga das
profissões. A lógica do Vivente é antes de tudo aprender!
Hélène Trocmé-Fabre é uma renomada especialista da aprendizagem,
Nosso cérebro ainda é um fabuloso mistério. Nós estamos infinitamente longe
doutora em Linguística, em Letras e Ciências Humanas. Autora de vários
de obter todas as respostas sobre o potencial que se encontra encerradas nele e
livros e artigos de referência sobre a Ciência da Educação, métodos de ensino
sobre o potencial do verbo aprender, porém atualmente, com os avanços científicos
e aprendizagem de línguas.
das neurociências e das ciências cognitivas “já temos informações suficientes para
tentar compreender esse mistériol”. Livros publicados:

Na Universidade Estadual do Maranhão, a neuropedagogia como disciplina Apprendre Aujourd’hui (Aprender Hoje), 1994;
caminha de maneira natural e legítima, ao lado da Filosofia. A preocupação de Né pour apprendre (Nascemos para Aprender), série de 7 videofilmes, 1994 ;
ambas consiste em desenvolver no ser humano valores fundamentais que formam
Réinventer le Métier d’Apprendre (Reinventar o Ofício de Aprender), 1999 ;
o pensamento crítico, porque somente este ajuda a ser livre e autônomo.
J’apprends, donc je suis (Aprendo, logo existo), 2002 ;
Este e-Book foi organizado em três Unidades, levando em consideração os
rítmos do Vivente que são, na maioria dos casos, rítmos de estrutura ternária : rítmo L’Arbre du Savoir-Apprendre ( A Árvore do Saber-Aprender), 2003 ;
cardíaco, rítmo respiratório, rítmos cerebrais (vigília, sono e sonho)... O ternário Le Langage du Vivant (A Linguagem do Vivente), 2013.
permite o ritmo. O ritmo, que vem do verbo grego pεĩν (rhein), “fluir, escorrer”,
permite à duração “fluir”. A autora traduziu do inglês para o francês, vários autores engajados em
pesquisas sobre a cognição, a aprendizagem e a comunicação como, por
É necessário esclarecer que a neuropedagogia será abordada aqui, exemplo, Tony Buzan, Use your head (Une tête bien faite – Use sua cabeça);
tomando respaldo nos trabalhos da referida linguísta e pedadoga e que fora alguns L. V. Williams, Teaching for the two-sided mind (Deux cerveaux pour apprendre
acréscimos feitos por mim, o essencial do trabalho é um resumo de alguns temas – Dois cérebros para aprender); E. de Bono, Thinking Course (Réfléchir mieux
tratados por ela. – Refletir melhor); Charles Hampden-Tuner, Maps of tthe Mind (L’Atlas de
notre cerveau – O Atlas do nosso cérebro); Francisco Varela e Humberto R.
Este e-Book contará um pouco da história e da origem do conceito de
Maturana, The Tree of Knowledge (L’Arbre de la Connaissance – A Árvore do
“neuropedagogia”, os avanços das pesquisas em neurociências. Nele também
Conhecimento).
falaremos sobre nossos recursos, sobre o funcionamento de nosso cérebro, sobre
nossas capacidades e sobre os problemas que precisam ser resolvidos.

Neuropedagogia 6 Neuropedagogia 7
UNIDADE I
ORIGEM E HISTÓRICO DA
ÍCONES NEUROPEDAGOGIA

Caro estudante,

Além do texto com as informações do conteúdo da disciplina, estamos lhe


apresentando os ícones, elementos gráficos que ampliam as formas de linguagem
e simplificam a organização e a leitura hipertextual. Você deve clicá-los para ter
acesso às informaçôes que cada um representa. Observe os significados:
Objetivos:
• Adquirir conhecimentos sobre as neurociências;
SUGESTÃO DE LEITURA – indica outras leituras,
• Descobrir os mecanismos do funcionamento do cérebro; e
contendo temas relacionados com o conteúdo do
• Refletir sobre o papel das neurociências na aprendizagem.
texto;

1.1 Neurociências e neurocientistas

ABC ou Glossário – define uma palavra, termo ou Atualmente, nosso cérebro tornou-se o centro das atenções. Sua história e a
expressão utilizada no texto; maneira como ele funcionam vem despertando o interesse de um grande número de
cientistas e da maioria das disciplinas que se reúnem sob o termo de Neurociências.

As neurociências fazem referência a toda uma categoria de setores ou áreas


de exploração do sistema nervoso central (SNC), tanto a morfologia cerebral como
Saiba mais – traz informações, curiosidades ou a fisiologia, as relações entre a organização cerebral e os processos mentais, ou
notícias acrescentadas ao texto e relacionadas ao ainda os distúrbios e as terapias.
tema estudado.
A história das neurociências está ligada ao conceito de neurônio, forjado por
Waldeyer. Ela se impôs nos anos 50 com a neurobiologia que orientou as pesquisas
para o nível celular.
É um imenso campo de estudo, onde os pontos de pesquisas são diversos, Ela também está no centro das preocupações de muitos cientistas voltados
como o funcionamento do cérebro (desde os aspectos mais elementares: molecular, para a busca de soluções e tratamentos para doenças, problemas e lesões no
celular e sináptico); a sensação, a percepção, a aprendizagem, a memória, a atenção, cérebro como, por exemplo, a doença de Alzheimer, a doença de Parkinson, os
as emoções, o sono, o envelhecimento, as doenças neurológicas e psiquiátricas, o AVC, a dor crônica, o autismo, a depressão, os tumores cerebrais, as lesões da
estresse, o comportamento, além das funções cognitivas1. medula espinhal2 .

Atualmente, praticamente todas as disciplinas colocaram o “chapéu neuro”. Ela se enriqueceu a partir dos anos 50, com o avanço considerável provocado
Alguns exemplos: a neuroanatomia, neurofisiologia, neuroquímica, neurobiologia, pela emergência de novas ciências e novas teorias como a cibernética de A. Wiener
neuropsicologia, neuropediatria, neuroendocrinologia, neurofísica, neuropsicologia e de W. McCulloch, a teoria dos Sistemas e a Nova Comunicação, com a escola
etc. Elas fazem parte de uma familía maior, as ciências da bioevolução (paleontologia, de Palo Alto, a termodinâmica, a física quântica e post-quântica, a cosmologia, a
antropologia, etnologia, genética, etologia etc). informática, a eletrônica... etc.3
Figura 1 - Sistema nervoso central

O fascínio provocado pelas ciências de exploração cerebral parece ser


Cérebro compartilhado por um vasto público. Termos permanecido durante séculos na
Sistema Nervoso Central
ignorância de nós mesmos, agora com o advento de todas essas novas ciências e
novas tecnologias temos a sensação que podemos conhecer melhor nosso mundo
Cerebelo
interno. Mas, o desejo de conhecer melhor nosso funcionamento interno talvez seja
Tranca Encefálico uma necessidade diante do aumento das ameaças do meio ambiente.

Um fenômeno interessante que surgiu com as neurociências foi à supressão


Medula Espinisal
de todos os tipos de fronteiras, entre continentes, entre disciplinas, entre ciências.
Dendrito As pesquisas são obrigadas a levar em conta o sentido de globalidade, de
Mitocôndria Nodo de Rainvier complexidade e de relatividade.

Mas, a vida cerebral continua sendo um mistério embora atualmente as


Figura 2 - Imagem de neurônio

Bainha de mielina Célula schwann


técnicas de imageamento/imagiologia nos permitam observar o funcionamento de
um cérebro humano, em atividade, dando-nos a possibilidade para compreender
os mecanismos fundamentais do ato de aprender e as correspondências entre
atividades cognitivas e as ativações cerebrais.
axônio
Terminaçôes do axônio
Corpo

Núcleo 2
Fonte : Society for neuroscience. University of Washington, citado por http://braincanada.ca/files/
Fiche_informations_FR.pdf
1
CNRS, dossier d’actualité veille et analyses n° 80. Setembro, Neurosciences et éducation : la ba-
3
Hélène Trocmé-Fabre, J’apprends, donc je suis (Aprendo, logo existo), 2002.
taille des cerveaux (a batalha dos cérebros)
Neuropedagogia 10 Neuropedagogia 11
As pesquisas que exploram a química do cérebro estão em plena expansão. Figura 3 - A química do cérebro
A descoberta dos neurotransmissores, da endorfina e das novas moléculas lança
uma nova luz sobre o funcionamento cerebral. Através dos mecanismos reguladores
do cérebro hormonal, os pesquisadores mostram conceitos de importância capital
para o processamento da informação. Esses conceitos são palavras-chave
indispensáveis para a compreensão dos nossos mecanismos de base. Citemos
alguns: Precursor, receptor, reconhecimento, processo de maturação, re-captação,
armazenamento, síntese local, retroação, inibição, pré-sináptico etc.4

Em 1971, nos Estados Unidos, diante da paixão e da correria rumo ao “neuro”,


o biólogo Francis Otto Schmitt, junto com uma equipe de pesquisadores decidiram
criar um projeto chamado “The neurosciences Research Program” (NRP). O objetivo inicial era descrever os “acontecimentos” cerebrais como a
cognição ou as emoções, em termos moleculares, ou seja, em termos de neurônios,
De um simples programa de pesquisa, essa nova abordagem sobre o cérebro moléculas, receptores, neurotransmissores e outros elementos moleculares e
transformou-se em uma verdadeira disciplina com suas práticas e discursos e uma celulares.
nova comunidade de especialistas, os neurocientistas. Porém, esse conceito só
entrou no imaginário popular na década de 1990, chamada a década do cérebro.5 Como explica M. Abi-Rached e Nikolas Rose, esse projeto “neurocientífico”
tinha também outro objetivo, baseado na crença de um conhecimento universal
Na verdade, neurociência era uma palavra nova para uma nova visão de do cérebro, além dos diversos mecanismos subjacentes: celular, molecular,
como as pesquisas sobre o cérebro deveriam ser conduzidas, na esperança de comportamental, linguístico, psicológico que era unificar o objeto de estudo que
acabar com o debate sobre o dualismo espírito-cérebro e permitir os grandes parecia disperso por meio das disciplinas e escolas de pensamento. Essa abordagem
avanços sociais e individuais. era guiada pela crença profunda na possibilidade de melhorar o bem-estar humano
e social graças à ciência6 .
No primeiro artigo sobre as neurociências, publicado em Nature, em 1970,
Otto Schmitt explica que as neurociências englobam as ciências do cérebro Segundo esses mesmos pesquisadores, ainda em 1990, Otto Schmitt
e do comportamento e que atuam em quatro níveis: molecular, celular, neural ressaltava a função social das neurociências e a possibilidade de resolver os
e comportamental. Resumindo: o termo “neuro” reuniria as ciências de base do problemas psicológicos, comportamentais, sociais (drogas, violência, esquizofrenia,
cérebro, incluindo a psicologia e a psiquiatria. retardo mental, problemas genéticos etc.).

“As neurociências nos trazem a esperança que uma melhor compreensão das
origens biológicas da natureza humana poderá favorecer as perspectivas de bem-
4
HélèneTrocmé-Fabre, Op.Cit., 2002. estar social e até mesmo de sobrevivência da vida humana neste planeta”7.
5
Joelle M Abi-Rached et Nikolas Rose, Historiciser les neurosciences (Historizar as neurociências), 6
Joelle M. Abi-Rached et Nikolas Rose, Op. Cit. 2014.
2014. https://scholar.harvard.edu/files/jabirached/files/abirached_rose_chap2_-_moutaud_chamak. 7
Francis O. Schmitt, Promising trends in Neuroscience, 1970, Nature n° 227, citado por Rached e
pdf
N. Rose.
Neuropedagogia 12 Neuropedagogia 13
Durante esse período (décadas de 60 e 70), os investimentos na pesquisas aprendizagem, reorganização e adaptação) que permite ao cérebro humano realizar
em ciência fundamental foram consideráveis, sobretudo nas pesquisas sobre o performances extraordinárias;
cérebro. Esses anos foram marcados pela corrida à superioridade técnico-científica.
Os anos 1990: considerado como a década do cérebro. Desenvolvimento da
Tudo o que era suscetível de trazer benefícios sociais significativos era facilmente
biologia molecular. Identificação e clonagem de neuromediadores, receptores e
financiado.
canais iônicos. Melhor compreensão da fisiologia intracelular e dos mecanismos
Ainda segundo esses autores, o que começou como um simples programa intrínsecos dos neurônios. Atualização e desenvolvimento da imagiologia funcional
acabou por criar uma nova categoria de especialistas, os neurocientistas, mas do cérebro que permite ver o cérebro humano em ação. Em 1992, foram observadas
as primeiras imagens do cérebro através do IRMf (Imagem por Ressonância
também uma nova disciplina com suas subdisciplinas (neurociências celular,
Magnética Funcional);
molecular, cognitiva etc.) e novas plataformas para traduzir os produtos epistêmicos
(conhecimentos, técnicas, práticas etc.) em aplicações socialmente e clinicamente 1996 – Primeiro transplante de neurônios em pacientes com distúrbio neurolológico
significantes. Em 1973, Amherst College foi à primeira instituição a propor diplomas hereditário, caracterizado pela falta de coordenação e movimentos corporais
em neurociências. anormais. (George Huntington é um médico americano, 1850-1916) (equipe de
científicos franco/belga);
A virada “neuro”, só se realizou plenamente durante a década do cérebro. O
que é importante ressaltar é a crença e o desejo de intervir no cérebro para melhorar 1999 – Descoberta da capacidade de divisão de certas células dentro do cérebro
a saúde e o bem-estar dos seres humanos individualmente e coletivamente. adulto;

2000 – Arvid Carlsson, Paul Greengard e Eric Kandel – Prêmio Nobel de Fisiologia
e Medicina para o conjunto de seus trabalhos e contribuição na descoberta,
1.2 Pesquisas e Descobertas em Neurociências envolvendo a comunicação e transmissão de sinais entre células nervosas no
cérebro e o papel da dopamina na doença de Parkinson;

AGUMAS DESCOBERTAS EM NEUROCIÊNCIAS 2000 – Descoberta das células-tronco;

A explosão dos conhecimentos sobre nosso órgão de aprendizagem vem Anos 2000 – Emergência da noção de « big data » ou « megadados » para
do avanço das descobertas em neurociências ocasionado pelo avanço das novas armazenar e processar a massa de dados disponíveis na Internet, incluindo os
tecnologias. Os anos abaixo relacionados são alguns elementos de referências para dados da Biologia e os da Neurobiologia;
nos situar no espaço-tempo. Essas informações, a seguir, provêm do [site] que está
2001 – Publicação da sequência do genoma humano;
na nota de rodapé de n° 8 “compreender o cérebro, um século de neurociências”8.
2003 – Laureados com o Nobel de Fisiologia e Medicina, os cientistas Peter Mansfield
Observe : e Paul Lauterbur por seus trabalhos sobre o IRM, iniciados nos anos 1970;

1985 – 2000: Destaque e estudo da plasticidade cerebral (capacidade de 2004 – Richard Axel e Linda Buck – Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina por seus
trabalhos sobre a decodificação genética dos receptores de odores e a organização
8
http://www.frcneurodon.org/comprendre-le-cerveau/a-la-decouverte-du-cerveau/un-siecle-de-neu-
do sistema olfatório;
rosciences/
Neuropedagogia 14
14 Neuropedagogia 15
2008 – Primeira estimulação profunda para o TOC (Transtorno Obsessivo- 1.3 Origem do conceito de Neuropedagogia
Compulsivo). Esse método foi utilizado para tratar a doença de Parkinson ;

2010 – Avanços da optogenética. Termo que se refere às proteínas codificadas O conceito de neuropedagogia é relativamente recente, mas suas raízes
que respondem à luz para monitorar e controlar a atividade específica dos circuitos estão fixadas em uma longa história passada. Como sabemos aprendizagem,
neurais ; pedagogia, educação, ensino e didática são termos que existem desde a Grécia
antiga, talvez mesmo antes. A diferença é que esses conceitos são abordados hoje
2012 – Robert Lefkowitz e Brian Kobilka – Prêmio Nobel de Química por suas
à luz das novas descobertas sobre o cérebro.
descobertas dos receptores acoplados às proteínas G, particularmente abundantes
no sistema nervoso ; Nos Estados Unidos ela surgiu sob o nome de MBE (Mind, Brain and the
Education Science = Mente, Cérebro e Ciência da Educação). As pesquisas de
2013 – A Europa decide financiar (1,2 bilhões de euros) por um período de dez
Tracey Tokuhama-Espinosa oferecem um panorama relevante sobre como evoluiu
anos, o “Human Brain Project” que visa simular o funcionamento do cérebro, por
a história do cérebro e da aprendizagem9.
computador. No mesmo ano, os Estados Unidos lança o “Brain Initiative”, dotado de
3 bilhões de dólares em dez anos, para mapear o funcionamento dos neurônios ; Foi somente na segunda metade do século XIX e início do século XX que
surgiram as descobertas mais significativas sobre o funcionamento do cérebro.
2014 – Yasuo Kurimoto e sua equipe fazem o primeiro transplante de célula-tronco
Por exemplo, as descobertas sobre as funções específicas, por Paul Broca
para tratar a DMRI (Degeneração/Degenerescência Macular Relacionada à Idade) ;
(1862) e Carl Wernicke (1874),correspondendo a produção e a compreensão da
2014 – John O’Keefe, May-Britt Moser e Edvard Moser – Prêmio Nobel de Fisiologia linguagem. Inclusive, essas áreas são chamadas áreas de Broca e de Wernick
e Medicina por sua descoberta do sistema de posicionamento espacial dentro do respecticvamente. Broca e Wernicke descobriram que a maioria das pessoas (90%
cérebro “place cells”, no hipocampo e “grid cells” no córtex entorhinal. Espécie de destros e 70% canhotos) tem uma área principal no lobo frontal esquerdo (Broca)
GPS Mental ; e outra área principal no lobo parietal esquerdo (Wernicke) para tratar a linguagem.
Em 1909, Korbinian Brodman recenseou as áreas do cérebro e fez um mapa geral.
2014 – Eric Betzig, Stefan W. Hell e William E. Moerner – Prêmio Nobel de Química Em 1911, Santiago Ramón y Cajal faz uma descoberta sobre o papel das sinapses
pela invenção da “nanoscopia”, métodos de imagem em microscopia óptica que ou conexões entre neurônios. Ele mostrou que o neurônio era a unidade estrutural
permite observar o funcionamento de objetos de tamanho inferior a 200 nm, ou e funcional de base do cérebro10.
seja, nano-estruturas celulares.

Esses são apenas alguns exemplos de descobertas, mas os pesquisadores


em neurociências do mundo inteiro aceleram suas pesquisas. Desde que os
9
A Brief History of the science of learning: Part 2 (1970s-present). Tracey Tokuhama-Espinosa,

cientistas se colocaram sobre o “chapéu neuro”, transformando-se em uma “grande Director of IDEA (Instituto de Enseñanza y Aprendizaje or Teaching and Learning Institute), and Pro-

família”, compartilhando suas experiências, fazendo uma análise coletiva de suas fessor of Education and Neuropsychology at the of the University of San Francisco in Quito, Ecuador.

hipóteses e “erros”, os avanços têm sido consideráveis e cada dia surge novas
10
H. Trocmé-Fabre, 2002 ; T. Tokuhama-Espinosa, 2011; Renato M.E. Sabbatini, Neurônios e sinap-

descobertas. ses (A história de sua descoberta),


http://www.cerebromente.org.br/n17/history/neurons1_p.htm

Neuropedagogia 16 Neuropedagogia 17
No final do século XIX, o alemão Heinrich Waldeyer, continuando as Ele está na origem do conceito de “assembleias neuronais” (cell assembly),
pesquisas de Santiago Ramón y Cajal, cria o termo neurônio para designar ou seja, certas conexões sinápticas entre grupo de neurônios quando reforçadas,
as células nervosas e o inglês Charles Scott Sherrington propõe o conceito de levam os circuitos formados por esses neurônios a agirem como uma entidade
synapses, para designar a junção funcional que existe entre os neurônios. Esses única.
cientistas influenciaram as neurociências, dando uma nova visão sobre a natureza
Segundo ele, os neurônios, mesmo estando distantes uns dos outros
do cérebro e da aprendizagem.
colaboram mutuamente no processo da informação dentro do cérebro. Ele considera
Nesse contexto, surgiram outras teorias científicas sobre o assunto, como a essas assembleias neuronais como sendo unidades funcionais de base do cérebro
da biologia da aprendizagem, cujo foco era a influência da natureza ou da cultura e, por exemplo, ele sugere que mesmo na ausência de estímulos externos, uma
sobre a aprendizagem e a inteligência. A questão subjacente era saber se somos assembleia neuronal pode sustentar a atividade cerebral autônoma.
dependentes dos genes que recebemos de nossos pais ou da maneira como fomos
A frase “neurons wire together if the fire together” de Siegrid Löwel é sempre
criados. Esse debate está na origem do controverso tema da eugenia e dos diversos
associada ao postulado de Hebb. Resumindo: Si dois neurônios são ativados ao
problemas éticos decorrentes, como por exemplo, a discriminação de pessoas por
mesmo tempo, as sinapses entre esses neurônios serão reforçadas. A regra de
categorias, etiquetadas como sendo aptas ou não para a reprodução.
Hebb continua a ser um dos fatores determinantes para se saber quais as sinapses
Em 1896, James Mark Baldwin elabora uma teoria sugerindo que o que serão reforçadas em uma rede de neurônios.
comportamento constante de um indivíduo ou de um grupo influencia sua capacidade
A sinapse de Hebb é fundamental para a nossa compreensão global da
de aprendizagem, não estando limitado exclusivamente aos fatores genéticos, ou
plasticidade do cérebro e para a aprendizagem, porque esta última se apoia sobre
seja, quando uma aprendizagem é benéfica à sobrevivência da espécie, ela será
a plasticidade dos circuitos de nosso cérebro, ou seja, a capacidade dos neurônios
inscrita nos genes e transmitida às gerações futuras.
de alterar de forma durável a eficácia de sua transmissão sináptica11. Nesse
Em seguida surgiram inúmeras outras teorias, tentando conectar o mesmo contexto, Jean Piaget elabora um novo quadro teórico de referência para a
comportamento à biologia, como, por exemplo, a do Behaviorismo (Pavlov, Hull e psicologia, chamado o Construtivismo.
Skinner). Essa teoria é bastante conhecida, quando Pavlov fez sua experiência com
Para Piaget a inteligência humana é de inspiração biológica e evolucionista.
cães, descobrindo assim os princípios de base do comportamento. Nessa teoria dos
O pensamento é uma forma de adaptação do organismo a seu meio ambiente.
reflexos condicionados, todas as respostas comportamentais do indivíduo seriam
A inteligência se desenvolve por etapas sucessivas: sensório-motor (0 a 2 anos),
determinadas pela a entrada sensorial.
correspondendo a passagem de uma atividade reflexa a uma atividade voluntária;
Em 1949, Donald Hebb, psicólogo canadense, lança um livro intitulado The pré-operatória (2 a 6 anos), caracterizada pelas funções semióticas e utilização dos
Organization of Behavior (A Organização do Comportamento), que se tornou um significantes, por sinais ou símbolos, mas também caracterizada pela incapacidade de
livro de referência mundial na área da neuropsicologia. Hebb critica a teoria do controlar as operações reversíveis; operações concretas (8 a 12 anos), caracterizada
estímulo-resposta de Pavlov, porque segundo ele Pavlov não leva em conta, além pela capacidade que tem a criança para objetivar, dominar as operações lógico-
dos estímulos (aferências sensoriais), outros fenômenos intrínsecos que também
11
Stanislas Dehaene, Le Code de La Cosncience ( O Código da Consciência), Ed. Odile Jacob, 2014;
intervêm no comportamento, como a generalização perceptiva (estímulos sensoriais
Tokuhama-Espinosa, Op. Cit, 2011 e, Bruno Dubuc, http://lecerveau.mcgill.ca/flash/i/i_07/i_07_
diferentes podendo determinar um mesmo comportamento).
cl/i_07_cl_tra/i_07_cl_tra.html
Neuropedagogia 18 Neuropedagogia 19
matemáticas e a seriação (capacidade de classificar os objetos de acordo com a Um dos conceitos mais conhecidos de Vygotsky é o conceito de Zona
forma, a cor, tamanho etc). Essas operações concretas são ações internalizadas, Próxima de Desenvolvimento, ou área potencial de desenvolvimento cognitivo,
reversíveis, organizadas em sistemas e se refere aos objetos; a fase das operações onde a criança aprende por meio da interação social com outros que têm mais
formais ou do pensamento hipotético-deductível (11/12 a 14/15 anos) é considerada experiências, mais conhecimentos. Segundo Vygotsky, a criança faz primeiro com
por Piaget como a última fase do desenvolvimentoto cerebral 12. a ajuda de outro, para em seguida realizar de maneira autônoma.

Esse modelo de fase após fase, linear e cumulativo, porque sistematicamente Continuando os trabalhos de Vygotsky, Alexander Luria deu um grande
ligado a ideia de aquisição e de progresso foi bastante contestado pelas recentes impulso à psicologia histórico-cultural. Um de seus questionamentos era saber
pesquisas que mostram que os bebês já possuem uma capacidade cognitiva como a cultura, por meio da linguagem, influenciava o pensamento.
bastante complexa que foi ignorada por Piaget e que não se restringe a um
Alexander Luria é um renomado neurologista e psicólogo de origem russa,
funcionamento estritamente sensório-motor. Conclusão: parece que a inteligência,
como Vygotsky. Luria contribuiu de maneira considerável para o conhecimento
em vez de seguir uma linha ou um plano que leva do sensório-motor ao abstrato,
da memória. Estudou durante mais de quarenta anos os diferentes aspectos
ela prefere avançar de maneira singular e não linear.
mnêmica
do processo mnêmico, aquele
ao nível que tem
celular, reminiscências,
molecular lembranças.
e morfofisiológico. Ele
Nesse mosaico de ideias, aparece Lev S. Vygotsky, filósofo, epistemologista Termo usado na psiquiatria freudiana.
optou por um conceito mais preciso do que o do rastro mnêmico, ou seja, a própria
e psicólogo russo. Se Piaget considera que o entorno social só influencia de maneira estrutura da atividade mnêmica. Luria confirmou o papel do sistema límbico,
“marginal” o desenvolvimento cognitivo, Vygotsky, ao contrário, considera que a sobretudo do hipocampo no “armazenamento” e na consolidação das impressões
criança cresce em interação estreita com dois aspectos da cultura: as ferramentas corticais e na conservação das impressões procedentes da experiência direta14.
que ela produz, por exemplo, a língua oral e escrita, e as interações sociais entre
Suas experiências como, por exemplo, os dois pacientes citados abaixo, a
adultos e crianças e entre crianças. A popularidade de Vygotsky na educação é
memória sinestesicamente perfeita, prodigiosa de Chereshevsky e a incapacidade
tal que ele se tornou o porta-voz da pedagogia ativa, encarnando a ruptura com a
de se lembrar de Zasetsky (que foi atingido por uma bala no cortex parieto-ociptal
pedagogia e a psicologia tradicional.
esquerdo), levaram Luria a concluir que existiam vários tipos de memória. Luria
Sua principal tese teve o efeito notável na psicologia mundial dos anos 20 contribuiu amplamente para memória como um conceito plural “memórias”15.
e 30. Como ele lia fluentemente inglês, francês e alemão, tudo que era publicado
Entre os anos 60 e 80 surgiu à teoria do “ambiente enriquecido” elaborada
não lhe escapava. Vygotsky, dando a volta em torno das pesquisas científicas da
por Mark Rosenzweig, Marian Diamond e Arnold Scheibel, entre outros, que até hoje
época e das interpretações teórica propostas concluiu que as relações sociais não
é fonte de controvérsias, ou seja, o mito da necessidade de estímulo precoce, entre
são um fator de desenvolvimento psíquico, entre outros, elas são a fonte e a origem
0 e 3 anos de idade suscetível de assegurar o desenvolvimento ideal do cérebro.
do desenvolvimento das funções psíquicas da criança que surgem primeiro no meio
Segundo essa teoria os três primeiros anos de vida seriam cruciais e determinariam
coletivo, depois se tornam funções psíquicas integradas à personalidade13.
o que o humano iria ser no futuro.

12
T. Tokuhama-Espinosa, 2011; H. Trocmé-Fabre, 2002. 14
H. Trocmé-Fabre, Op. Cit., 2002.
13
Ludmila Chaiguerova, Yure Zinchenko e Fréderic Yvon, « Vygotsky, une théorie du développement 15
Alexandre Luria, L’homme dont le monde volait en éclats (O homem cujo o mundo se fragmenta-
et de l’éducation », 2011. http://www.unige.ch/fapse/leforcas/files/9214/2608/9943/Vygotsky_1-428. va), 1995.
pdf
Neuropedagogia 20 Neuropedagogia 21
Em 1997, a partir dessa teoria do “ambiente enriquecido” William Greenough, 1.4 Por que Neuropedagogia ?
fazendo experiências com ratos, pode observar que a densidade sináptica podia

aumentar quando indivíduos eram colocados em um ambiente complexo, por
exemplo, no caso da experiência com outros ratos e diversos objetos a serem França, na década de 70, Hélène Trocmé-Fabre, uma dessas vozes em
explorados. Quando esses ratos foram submetidos a um teste de aprendizagem permanente questionamento procura novos caminhos para o ato de aprender. Ao
em um labirinto ficou demonstrado que eles passavam o teste com sucesso e mais longo de sua experiência como professora, em contato permanente com diferentes
rapidez que os outros ratos que se encontravam em ambientes pobres. Resumindo: parceiros da situação de aprendizagem, ela pode constatar que apesar de todos os
a lógica da sinaptogênese é que, quanto mais sinapses disponíveis houver, mais a meios utilizados, como a renovação dos conteúdos, as ferramentas e as diversas
atividade e a comunicação neurais potenciais serão elevadas, mais será possível abordagens metodológicas, os problemas de assimilação de novos conhecimentos
aprender melhor. e os problemas relativos ao “como aprender”, a atenção e a motivação, entre outros
continuavam sendo ignorados.
John Bruer (filósofo americano) afirmou inúmeras vezes que os estudos
efetuados sobre esse assunto dos três anos cruciais não permitem formular Mas ela observava também que os parceiros do sistema educacional tomavam
princípios fundamentais sobre a maneira de melhorar a educação. Como ele diz consciência de que havia uma lacuna entre os recursos dos”aprendentes” e suas
“as crianças precisam de alguém para cuidar delas. As primeiras experiências são realizações; entre os esforços que todos faziam e os resultados obtidos; entre as
importantes, mas não decide tudo para o resto da vida. As crianças não precisam expectativas de uns e de outros e os objetivos alcançados. Essa constatação levou-a
de “estímulos especiais” para se desenvolverem normalmente16. concluir que era preciso mudar de atitude sobre a “aquisição de conhecimentos”. O
sistema educacional continuava voltado somente para os conteúdos, dando muito
No meio de todas essas pesquisas e controvérsias, a aprendizagem ganha
pouco interesse ao “processo” de aprendizagem, aos recursos perceptivos e ao perfil
um espaço importante. Ao mesmo tempo, o interesse por parte dos pesquisadores
do aluno. Para ela não existe aprendizagem humana possível, sem compreensão
aumenta no que se refere a certos aspectos envolvidos na aprendizagem como a
de si mesmo, sem compreensão do mundo que nos cerca, sem disponibilidade
atenção, a memória, motivação e as emoções.
para com seu próprio ser.

No início dos anos 80, encorajada e respaldada pelas pesquisas inovadoras


sobre o funcionamento do cérebro, mas também pela abordagem sistêmica que já se
desenvolviam nos Estados Unidos e em vários lugares do planeta, Hélène Trocmé-
Fabre decide focar sua tese de doutourado sobre os avanços da neurociências e o
envolvimento delas na aprendizagem.

A pesquisadora cria o conceito de “neuropédagogie” (neuropedagogia),


estabelecendo assim um diálogo entre nosso cérebro (neuro) e a pedagogia ( a
arte de aprender).
16
John T. Bruer, Tout est-il joué avant 3 ans? (Tudo já está determinado antes dos 3 anos ?), Ed.
Odile Jacob, 2002.

Neuropedagogia 22 Neuropedagogia 23
Em 1987, Hélène Trocmé-Fabre publica pela primeira vez o livro J’apprends, A neuropedagogia, como diz Hélène Trocmé-Fabre é um apelo para que
donc je suis, une introduction à la neuropédagogie (Aprendo, logo existo, uma retornemos às raízes biológicas da aprendizagem. Um apelo por uma aprendência
introdução à neuropedagogia) e que foi lançado em 2016 no Brasil. bionômica, ou seja, que rege a vida. Um apelo por uma aprendizagem/aprendência
ecológica, que leva em conta as relações daquele que aprende com seu meio
Nosso cérebro, como afirma Hélène Trocmé-Fabre é nosso órgão de
ambiente. Um apelo por uma emergência do ser e sua transposição para além da
aprendizagem por excelência, a pedagogia mais do que qualquer outra disciplina
própria existência porque nascemos para aprender e para descobrir nosso próprio
encontra sua legitimidade sob o prefixo “neuro”. Embora ela ainda seja considerada,
potencial na duração.
por muitos, como uma disciplina para professores e que esse conceito tenha se
desgastado com o tempo, é mais do que urgente resituá-la, valorizá-la como uma Cada ser humano, seja qual for sua idade, sua origem, sua hereditariedade,
transdisciplina, por meio, entre e para além das disciplinas porque seu objeto seu passado, seu futuro… tem um direito fundamental: o de desenvolver sua
principal é o aprender, nossa capacidade fundamental 17. inteligência, sua capacidade para compreender o mundo que o cerca, e para saber
quem ele é.

É necessário repetir com insistência: a natureza equipou-nos para aprender,


para captar o que vemos, ouvimos e ressentimos. Mas, o mecanismo só poderá
TROCMÉ-FABRE, Héléne.J’apprends,done je suis(Aprendo, logo
funcionar bem se não estivermos sobrecarregados por aquilo que cremos saber…
existo)Tradução:Mara Welperinger.Paris:Ed. d’ Organissation,2002.
A aprendizagem é um nascimento que deve ser feito sem precipitação, a seu
rítmo e na hora exata.

1.5 A neuropedagogia atualmente

“Não nomear bem o objeto é aumentar o sofrimento do mundo”.

Albert Camus18 16

1.5.1 A batalha entre conceitos APRENDER ?

EDUCAR ? ENSINAR ? INSTRUIR ?


17
Hélène Trocmé-Fabre, J’apprends, donc je suis (Aprendo, logo existo), 2002.
18
Albert Camus, Sur une philosophie de l’expression (Sobre uma filosofia da expressão), ensaio,
Neuropedagogia 24 1944. Neuropedagogia 25
Atualmente, a “neuropedagogia” vem sendo substituída pelo conceito Será que é o papel da Instituição e dos professores, educar nossos filhos?
de “neuroeducação”. Porém algumas perguntas que vêm à mente precisam ser O sistema educacional da maneira como ele é organizado só poderá instruir e
esclarecidas: Trata-se realmente de educar? O que colocamos sob o conceito é o que ele faz se observarmos a etimologia de “instruir” = amontoar materiais,
de “educar”? O que leva os parceiros da situação educacional a preferirem ajuntar. O aluno/aprendente vai amontoando conhecimentos, na maioria dos casos
“neuroeducação”, em vez de “neuropedagogia”? desconectados uns dos outros, com um único objetivo um diploma no final.

O verbo “educar” tomou um espaço enorme no panorama da aprendizagem, O interessante nessa batalha de conceitos, é o lugar do verbo ensinar.
colocando um véu sobre quase todos os outros verbos envolvidos com o aprender, O verbo ensinar tentou realizar a proeza de reunir “educar e instruir”. Porém,
como por exemplo, o próprio verbo aprender, o verbo instruir, o verbo ensinar. A vemos por inúmeros exemplos que os resultados não foram alcançados, apesar
dificuldade talvez venha do fato de não sabermos exatamente o que colocar sob de todos os esforços e de todos os investimentos. Os professores estão mais
esses conceitos. Nós não somos capazes de definir com clareza qual é o papel desencorajados. O verbo ensinar caiu em uma armadilha, ficando entre uma
de cada um, quem é quem na história. Nós, os pais, queremos que nossos filhos Instituição desastrosamente burocrática e cada vez mais exigente e uma educação
sejam “educados”, queremos que eles sejam “instruídos”, queremos que eles sejam com pais totalmente impotentes diante das imensas transformações do mundo
“ensinados”. E diante da organização da sociedade atual, por razões múltiplas, atual.
delegamos cada vez mais essa tarefa à Instituição Educacional.
O conceito de “ensinar” ao longo do tempo foi se tornando um conceito “fora
do solo” e tão flexível que acabou se adaptando a qualquer uso, perdendo seu
verdadeiro sentido.
1.5.2 Mas, educar é tarefa de quem afinal?
Provavelmente, será preciso esclarecer o papel de cada um desses
conceitos e reajustar a linguagem/língua para podermos encontrar soluções para
Antigamente com frequência, mas ainda hoje ouvimos a expressão “a pais desarmados, professores infelizes, alunos desamparados.
educação vem do berço”, no sentido de que educar era da incumbência dos pais.
Onde se encontra o professor?
Estes deveriam “entregar” à sociedade um ser “já com as regras de bases”, ou seja,
as regras de comportamento ético, do respeito aos outros, de respeito às coisas Figura 4 - Onde se encontra o Professor
e do respeito de si mesmo. Valores que aprendemos independente de nosso grau
de instrução, de nosso grau de ensino e de nossa condição social. Somente aos
7 anos ou até mesmo mais tarde para alguns países, as crianças iam para escola
para serem instruídas. Atualmente, nós entregamos nossos filhos à sociedade
cada vez mais cedo para serem ao mesmo tempo educados e instruídos.

Será que quando deixamos a educação de nossos filhos nas mãos da


Instituição, mesmo sendo uma Instituição Educacional, não cometemos um erro de
apreciação, de percepção, de conceituação?

Neuropedagogia 26 Neuropedagogia 27
E o aprender? Nosso cérebro e o verbo aprender são dois elementos fundamentais que nos
pertencem inteiramente. Por isso foi importante e urgente mostrar, respaldando-se
Educar, instruir, ensinar, se eles são pertinentes, eles nunca poderão ser outra
nas Neurociências, como eles funcionam e como eles se articulam. É totalmente
coisa que uma faceta do verbo aprender. Logo, é para esse conceito que temos
surpreendente saber que foi preciso três revoluções (quântica, biológica e
que voltar o nosso olhar. O Ministério da Educação ganharia muito e provavelmente
informática) para tomarmos conhecimento desse fato.
encontraria o verdadeiro sentido se ele fosse chamado de Ministério do Aprender.
Portanto, nosso intuito foi convidar o leitor aluno/aprendente a conhecer
Hélène Trocmé-Fabre estava pelo menos uns vinte anos à frente, quando
essas descobertas e esse novo campo, tornando-se explorador de seu próprio
ela preparou sua tese sobre a Neuropedagogia, onde seu maior centro de interesse
questionamento, esperando que estando consciente dessa riqueza que nos
era o aprender. Mas, como ela diz: “Em um sistema educacional sobrecarregado
pertence, desperte nele uma grande alegria e uma enorme sede para conhecer
de certezas não é possível mudar as mentalidades de um dia para outro”19. Apesar
mais.
de toda a sua pertinência o conceito de “neuropedagogia” ainda tem encontrado
dificuldades para ser aceito, os interessados preferindo substituí-lo pelo conceito
REFERÊNCIAS
de “neuroeducação”.
ABI-RACHED ,Joelle; ROSE, Nikolas.Historiciser les neurosciences (Historiar as
A preferência pelo termo “neuroeducação” vem, provavelmente, do fato
neurociências), 2014.
desse termo entrar no molde já pré-estabelecido. Mudar é talvez correr o risco de
perder o controle e o ser humano, como podemos constatar, sempre foi atraído pela BRUER,John T. Tout est-il joué avant 3 ans? (Tudo já está determinado antes dos
vontade de controlar. Ele buscará infinitamente meios, palavras, conceitos que o 3 anos ?), Ed. Odile Jacob, 2002.
levam nessa direção.
CNRS, dossier d’actualité veille et analyses n° 80. Setembro, Neurosciences et
Logo, “neuropedagogia?”ou “neuroeducação?” Somente o futuro determinará éducation : la bataille des cerveaux (a batalha dos cérebros).
a prevalência.
CHAIGUEROVA, Ludmila; ZINCHENKO, Yure; YVON, Fréderic. « Vygotsky,
Resumindo: Nesta Unidade, compartilhamos uma reflexão em torno do conceito de une théorie du développement et de l’éducation (Vygotsky, uma teoria do
Neurociências. Ressaltamos o impacto das pesquisas e descobertas que conduziu desenvolvimento e da educação),MGU, 2011.
ao conceito de Neuropedagogia. Como pudemos observar as novas ciências
que estudam o cérebro humano se tornaram atualmente imprescindíveis para a http://www.unige.ch/fapse/leforcas/files/9214/2608/9943/Vygotsky_1-428.pdf
aprendizagem. Essa é uma das razões que nos levou a dar enfoque ao cérebro
DEHAENE, Stanisla. Le Code de la Conscience ( O Código da Consciência), Ed.
e a nossa capacidade inata que é a capacidade para aprender. O conhecimento
Odile Jacob, 2014;
desses dois conceitos, cérebro e aprender, nos deram a possibilidade de esclarecer
ao mesmo tempo os conceitos de educar, instruir e ensinar. DUBUC, Bruno. http://lecerveau.mcgill.ca/flash/i/i_07/i_07_cl/i_07_cl_tra/i_07_cl_
tra.html

FOURNIER,Martine. Jean Piaget et l’intelligence de l’enfant (Jean Piaget e a


18
Hélène Trocmé-Fabre, J’apprends, donc je suis (Aprendo, logo existo), Ed. d’Organisation, 2002.
inteligência da criança).
Neuropedagogia 28 Neuropedagogia 29
UNIDADE II
http://lewebpedagogique.com/paumier/wp-content/blogs.dir/228/files/piaget.pdf

GODAUX, Emile. Cent milliards de neurones, Ed. Labor, 1990

https://portail.umons.ac.be/FR/universite/facultes/fmp/services/neurosci/ NOSSO CÉREBRO HOJE


Documents/Cent_milliards_de_neurones.pdf

LURIA,Alexandre. L’homme dont le monde volait en éclats (O homem cujo o


mundo se fragmentava), Ed. Seuil, 1995.

______________.Le Langage du Vivant (A Linguagem do Vivente), Ed.


HDiffusion, 2013.

_____________.Réinventer le métier d’apprendre (Reinventar o Ofício de


Aprender), Ed. d’Organisation, 1999.
Objetivos:
SABBATINI, Renato M.E. Neurônios e sinapses (A história de sua descoberta),
• Conhecer alguns elementos de base que compõem a dinâmica do funcionamento
cerebral;
http://www.cerebromente.org.br/n17/history/neurons1_p.htm
• Identificar nossas capacidades, nossas possibilidades e nossas conexões para
TOKUHAMA-ESPINOSA,Tracey. A Brief History of the science of learning: Part2 sermos capazes de desenvolvê-las melhor; e

http://traceytokuhama.com/index.php?option=com_tz_ • Articular os elementos da dinâmica do cérebro e os recursos para uma


aprendizagem eficiente.

Figura 2 - Nosso cérebro não é uma câmera ou uma máquina


portfolio&view=article&id=226:a-brief-history-of-the-science-of-learning-part-
2&catid=24&Itemid=336
“Nossa mente não funciona como uma câmera ou uma máquina. Qualquer
percepção é uma criação e toda a memória é uma re-criação”.
TROCMÉ-FABRE, Hélène. J’apprends, donc je suis (Aprendo, logo existo), Ed. Oliver Sacks, Um antropólogo em Marte, 2003.
d’Organisation, 2002.
Figura 1 - Máquina

UNIVERSITY OF WASHINGTON ,Society for neuroscience., citado por http://


braincanada.ca/files/Fiche_informations_FR.pdf

https://scholar.harvard.edu/files/jabirached/files/abirached_rose_chap2_-_
moutaud_chamak.pdf

VERGNAUD,Gérard. Lev Vygotski : pédagogue et penseur de notre temps (Lev


Vygotski : pedagogo e pensador de nosso tempo), Ed. Hachette Education, 2000,
Paris.
Neuropedagogia 30
2.1 O Cérebro um sistema de conexão2O o papel do corpo Nosso potencial e as características do funcionamento de nosso cérebro não
caloso podem mais ficar nas mãos, exclusivamente, dos especialistas, porque se trata da
compreensão de nós mesmos e dos Outros. Conhecendo nossos recursos, seremos
capazes de administrá-los e desenvolvê-los melhor. Este é o grande caminho para
a Autonomia.
Cem bilhões de neurônios quando um bebê humano vem ao mundo! Cem bilhões
é muito! Mas, o mais impressionante é que essa quantidade não acaba nesse número. Nós possuímos uma reserva ilimitada de possibilidades, de configurações,
Uma vez que o bebê nasce ele vai fazer proliferar conexões entre seus neurônios e de conexões, de estados mentais. Essa realidade cerebral traduz a riqueza, a
quando esse humano atinge a puberdade, ele chega com uma coleção de 10.000 diversidade e a unicidade do cérebro humano (não existem dois cérebros iguais em
conexões por neurônio. Logo, para esses cem bilhões isso fará um milhão de bilhões de toda a humanidade). Os avanços das neurociências e das novas tecnologias nos
conexões21. proporcionam hoje essa oportunidade. Precisamos agarrá-la com urgência, para
que não permanecermos na superfície desse conhecimento.
Esses cálculos efetuados por Albert Jacquard, matemático e geneticista francês
mostra o potencial que temos a nossa disposição. Não podemos mais ignorar o mais fantástico de todos os “maestros”,
regendo essa extraordinária e extravagante sinfonia do nosso corpo se regulando,
Como ele diz é simplesmente fabuloso o que temos dentro de nosso cérebro. Se
na sua relação com o meio ambiente, adaptando-se na sua relação com os Outros,
tivéssemos que contar somente nossos neurônios, cem bilhões?!!!... levaria muito tempo.
evoluindo, na sua relação consigo mesmo, que é como diz Hélène Trocmé-Fabre,
E se tivéssemos que contar nossas conexões, um milhão de bilhões de conexões, é
a mais justa definição do aprender.
melhor nem começar, nunca chegaríamos ao final. Iríamos precisar viver muitas vidas,
só contando. Para muitos o tema que segue parece evidente e conhecido. Mas nosso
objetivo é partir daqueles que ainda não sabem. Serão apenas breves informações.
Neste e-Book, tentaremos abordar o funcionamento de nosso cérebro e mostrar
Os interessados pelo assunto poderão encontrar milhares de outras informações,
alguns elementos que compõem essa dinâmica. Queremos deixar claro aqui que não
nos livros especializados e em vários sites na Internet.
somos especialistas do sistema nervoso, mas pensamos que precisamos ter um melhor
conhecimento dos mecanismos cerebrais envolvidos no ato de aprender para podermos O que precisamos saber em primeiro lugar é que nosso organismo é um
ser autor e ator de nossa história. sistema, composto de vários outros sistemas (sanguíneo, digestivo, endócrino,
linfático, muscular, respiratório... e o sistema nervoso...). Este último é composto
Nosso cérebro é uma estrutura biológica complexa segundo Hélène Trocmé-
de dois outros sistemas: O sistema nervoso central e o sistema nervoso periférico.
Fabre, nosso sistema educacional tem a tendência de utilizar somente um de seus níveis
O sistema nervoso central é composto do encéfalo (cérebro, cerebelo e tronco
que é o cortical (o intelectual). Ignorar a complexidade do cérebro é empobrecê-lo.
cerebral) e da medula espinhal. O sistema nervoso periférico é constituído dos
20
https://www.todamateria.com.br/sistema-nervoso/ nervos cranianos e da coluna vertebral, partindo da medula espinhal.
http://www.sobiologia.com.br/conteudos/Corpo/sistemanervoso2.php
No que se refere a este e-Book, abordaremos somente o sistema nervoso
http://lecerveau.mcgill.ca/flash/d/d_01/d_01_cr/d_01_cr_ana/d_01_cr_ana.html
central. O sistema nervoso central é o centro de processamento das “ informações”.
21
O mundo, segundo Albert Jacquard (Conferência em Vanosc-Ardêche, Jean Dornac, Jun 2004).
É a sede dos nossos pensamentos, nossas emoções, nossa memória, nossa
http://www.ethologie.info/revue/spip.php?article15
percepção etc.
Neuropedagogia 32 Neuropedagogia 33
O cérebro ocupa a maior parte do encéfalo e está no comando do sistema Mas, o cérebro, embora tendo um papel fundamental, ele é uma parte de
nervoso. Ele tem o controle de todos os órgãos do corpo, das funções motoras e um todo, porque ele está continuamente em interação com o resto do corpo. Ele
cognitivas e da produção hormonal. Ele se divide em dois hemisférios (esquerdo assegura, ao mesmo tempo, as funções vitais, controlando a frequência cardíaca,
e direito) e quatro lobos (frontal, parietal, temporal e ocipital). Ele é composto de a temperatura corporal, a respiração etc., e as funções ditas “superiores”, como a
células cerebrais, as células da glia e os neurônios que recebem e transmitem as linguagem, o raciocínio ou a consciência.
informações.
Os principais componentes do tecido cerebral são as células gliais e
os neurônios (células nervosas ). O neurônio é considerado como a unidade
Figura 3 - Corpo caloso
funcional de base do cérebro, por causa de sua importante interconectividade e
sua especialização em termos de comunicação. Os neurônios estão organizados
em redes funcionais localizadas em diferentes áreas do cérebro.

Figura 4 - Células da Glia

O cérebro evolui e se desenvolve durante toda a vida. Esse desenvolvimento


Oliver Sacks, neurologista britânico, diz que o cérebro é muito mais
depende, ao mesmo tempo, da biologia e da experiência. As tendências genéticas
do que um conjunto de módulos autônomos onde cada um seria imprescindível
interagem com a experiência para determinar a estrutura e o funcionamento do
para uma função mental específica. Cada uma dessas áreas funcionalmente
cérebro a cada momento. É essa interação constante que faz que cada cérebro
especializadas deve interagir com dezenas ou centenas de outras, sua integração
seja único23.
total cria uma espécie de orquestra da mais alta complexidade que reúne centenas
de instrumentos diferentes, onde a partição e o repertório mudam continuamente22. Reunindo os dois hemisférios cerebrais, encontramos o corpo caloso. O corpo
caloso é um grande feixe de fibras nervosas através do qual, os dois hemisférios
se comunicam. Milhões e milhões de axones (fibras nervosas, prolongamento
do neurônio que conduz o sinal elétrico do corpo celular em direção das áreas

22
Oliver Sacks, L’Oeil de l’esprit (O Ôlho do Espírito), Ed. du Seuil, 2012.
23
http://lecerveau.mcgill.ca/flash/d/d_01/d_01_cr/d_01_cr_ana/d_01_cr_ana.html
Neuropedagogia 34 Neuropedagogia 35
sinápticas) colocam em relação regiões semelhantes ou não semelhantes dos de repouso para consolidar os conhecimentos, desenvolver uma aprendizagem
hemisférios cerebrais. As regiões conectadas por fibras calosas são chamadas áreas experimental, um ensino por tutoria etc.
associativas. A rede de fibras é gigantesca. As áreas associativas representam 80%
Segundo Hélène Trocmé-Fabre, a linguagem do corpo caloso (4 milhões
do córtex cerebral. Porém, o mais importante a ressaltar aqui é que nosso corpo
de mensagens por minuto !) não recebe a devida atenção do mundo médico-
caloso não é um feixe de fibras nervosas que separa os dois hemisférios cerebrais,
educacional. Essa forma de conexão parece ser utilizada preferencialmente pelos
mas um feixe de fibras nervosas que reúne os dois hemisférios cerebrais.
canhotos do que pelos destros. No mundo ocidental feito para destros é indispensável
Ele desempenha um papel muito importante na coordenação dos movimentos informar os interessados que ainda recebem uma etiqueta que os incomodam. O
dos membros. O corpo caloso é totalmente mielinizado por volta do décimo ano (a corpo caloso é o canal por onde passa uma informação que já foi processada.
mielina é uma substância que serve para isolar e proteger as fibras nervosas).
Os professores e os pais não devem esquecer que possuímos uma reserva
A mielinização começa na extremidade posterior do corpo caloso, na área ilimitada, de possibilidades, configurações, conexões, estados mentais, o que
visual e se propaga de trás para frente, em direção dos lobos frontais. Segundo traduz a riqueza, a diversidade e a singularidade do cérebro humano.
Hélène Trocmé-Fabre é só quando o processo estiver bastante avançado para
reunir os dois hemisférios em sua totalidade, que as tarefas complexas de abstração
poderão ser realizadas24. 2.2 Componentes de base
O processo pode ser mais lento com certas crianças. A diferença entre uma
criança considerada “retardada” e uma criança considerada “superdotada” (PAH =
Portador de Altas Habilidades) consiste no tempo que ambas levarão para assimilar 2.2.1 Os dois hemisférios, os neurônios, as sinapses, neurotransmissores,
uma informação e adaptá-la. Esse tempo pode variar de três meses (para a criança as células da glia, impulso nervoso etc (Ver os esquemas (A e B)
superdotada) e um ano e meio e às vezes, até dois anos para a criança “retardada”.
Os dois hemisférios: o equilíbrio do poder (Contraria sunt complementa)
Por outro lado, na idade de onze anos, o crescimento cerebral não seria o mesmo
para as meninas e os meninos. Esse impulso seria duas vezes mais forte nas Cada hemisfério cerebral cuida de um lado do corpo. O controle é cruzado.
meninas do que os rapazes. Aos quinze anos ocorreria o contrário25. O hemisfério direito cuida do lado esquerdo e o hemisfério esquerdo cuida do lado
direito. Eles estão sempre buscando o equilíbrio, embora de acordo com a situação,
Trata-se, portanto de adaptar os conteúdos dos programas e a pedagogia
eles procedam de maneira diferente.
para que nenhuma categoria de aprendentes perca a confiança ou percam o
interesse pelas atividades escolares que não correspondem às suas aptidões. Do O diálogo entre eles é feito através do corpo caloso. Quando há uma ruptura
mesmo modo, visto que o desenvolvimento cerebral não se faz de maneira regular, de simetria (usando aqui os termos de Nicolescu Basarab) nesse diálogo, um dos
mas por impulsos seguidos de pausas, a pedagogia deveria se adaptar aos períodos dois hemisférios toma o “controle”, inibindo a intervenção do outro, para poder dar
uma resposta adaptada ao que está sendo solicitado.

24
H. Trocmé-Fabre, J’apprends, donc je suis (Aprendo, logo existo), p. 67, 2016. Apesar de serem complementares, eles não são simétricos. A linguagem,
25
A. LURIA (1973); Cf WABER (1982) e EPSTEIN (1978), citados por Trocmé-Fabre, Op.Cit. 2002. por exemplo, é tratada principalmente pelo hemisfério esquerdo, mas isso não é
Neuropedagogia 36 Neuropedagogia 37
sistemático porque o hemisfério direito pode intervir quando necessário. Roger problemas de percepção periférica, de entonação, de orientação espacial, ou então,
Sperry e Michael Gazzaniga mostaram que os hémisférios separados por uma mudanças de humor28. Por muito tempo, o hemisfério direito foi considerado como
calosotomia podiam funcionar de maneira independente, obtendo raciocínios passivo e inferior ao hemisfério esquerdo. Com as novas pesquisas, o hemisfério
distintos a partir das informações que cada hemisfério tinha acesso26. direito vem sendo reabilitado.

Figura 5 Figura 6 Os dois hemisférios analisam. Ambos são capazes de perceber os conjuntos,
tanto o hemisfério direito como o hemisfério esquerdo são capazes de reconhecer
as fisionomias, o que a maioria das pesquisas passadas atribuía somente ao
hemisfério direito. Logo, é importante levar em conta a influência das características
dos estímulos e do método utilizado29.

Segundo Trocmé-Fabre, não somente é confirmada a necessidade de ir do


global para o analítico, do contexto para o detalhe, do geral para o particular, mas
os formadores são solicitados a construírem um programa de plena ocupação do
cérebro, sobre a base da cooperação dos dois hemisférios. Observe, a seguir, a
Figura 7:
Cada hemisfério tem sua especificidade. O hemisfério direito trata as
informações visuais e espaciais que permitem a localização no espaço. Ele trabalha
de maneira rápida, simultânea, sintética e global. Ele se apoia na experiência. Ele
é intuitivo e parte da dedução. O hemisfério esquerdo encarrega-se das tarefas de
compreensão e produção da linguagem. Ele trabalha de maneira lenta, precisa,
analítica, detalhada, sequencial, lógica. Ele parte do detalhe rumo à complexidade27.

As atividades de cálculo, a escrita, a fala, a categorização, a diferenciação,


a seleção, a compreensão semântica etc., são em geral reconhecidas como
sendo específicas do hemisfério esquerdo. Quando este é danificado aparecem
os problemas de sintaxe, de denominação, de percepção das sequências. Já a
linguagem estereotipada, os sons não verbais, as melodias, os ruídos, os ritmos, as
relações espaciais, a compreensão intuitiva… são reconhecidos como características
do hemisfério direito. Quando este hemisfério é danificado, observamos que os

26
Roger Sperry e Michael Gazzaniga, citados por Justine Sergent, http://www.ipubli.inserm.fr/bitstre- Figura 7 - Os dois hemisférios vistos pelo hemisfério direito do autor
am/handle/10608/3906/MS_1989_10_746.pdf?sequence=1
27
J. L. Juan de Mendoza, Deux hémisphères, un cerveau (Dois hemisférios, um cérebro), 1998.
28
H. Trocmé-Fabre, Op. cit. 2002.
28
H. Trocmé-Fabre, Op. cit. 2002.
29
Justine Sergent, pesquisadora da Universidade McGill em Montreal, citada por Trocmé-Fabre,
Neuropedagogia 38 2002. Neuropedagogia 39
Cada hemisfério contém o germe do outro. Eles são complementares e não A atividade principal dos neurônios é transmitir a informação e para isso
opostos. Como no símbolo do Tai Chi, as áreas, clara e escura encontram em inter- eles possuem dois tipos de prolongamentos que os distinguem de outras células.
relação dinâmica entre elas. O predomínio de um é equivalente à supressão da Esses prolongamentos são: os dendritos e os axônios. Os dendritos (vem do grego
diferença e à negação da realidade. dendron = árvore) se dividem como ramos de uma árvore, captam a informação e
a encaminham para o corpo da célula. O axônio em geral é bem comprido e único.
A representação acima da complementaridade de nossos dois hemisférios e
Esse axônio encaminha a informação do corpo da célula para outros neurônios
dos aspectos de nossa gestão mental foi inspirada pelo livro de C. Hampden-Turner
com os quais ele faz conexões que são chamadas de sinapses. Os axônios podem
onde o autor faz um mapa histórico do psiquismo e da cognição30.
também estimular outros tipos de células, como as dos músculos e das glândulas31.
  Alguns elementos da nossa vida cerebral
Figura 8 - Exemplo de célula animal

Esquema A Noyau

Mebrane
NEURÔNIO Cellularie
Organites

Cytoplasme

SINAPSES CÉREBRO CÉLULAS DA GLIA Dendrites


Une cellule animale typlque

Axone
NEUROTRANSMISSORES IMPULSO NERVOSO

Un neurone
As células do nosso cérebro

O sistema nervoso é composto de dois tipos de células: as células da glia e


os neurônios.

Os neurônios, como todas as células do nosso organismo possuem uma


membrana cercando um citoplasma e um núcleo (o corpo celular) onde se encontram
os genes.
* O esquema A, mostrando alguns elementos da nossa vida cerebral foi elaborado por Mara Welfe-
ringer.
30
Hélène Trocmé-Fabre, J’apprends, donc je suis (Aprendo, logo existo), Ed. d’Organisation, 2002]. 31
http://lecerveau.mcgill.ca/flash/d/d_01/d_01_cl/d_01_cl_ana/d_01_cl_ana.html
Neuropedagogia 40 Neuropedagogia 41
Figura 9 - Exemplo de neurônio Segundo Bruno Dubuc, biólogo e pesquisador canadense, não devemos
confundir a condução elétrica do impulso nervoso dentro dos neurônios com as
Dendritos Dendritos
sinapses elétricas. Estas podem transmitir o sinal elétrico diretamente de um
Axônio neurônio para o outro 32.
Figura 10 - Exemplo de uma rede de neurônios

Dendritos
Núcleo

Terminaçôes do axônio

Sinapse
Corpo celular
Bainha de mielina Nucléolo
Axônio Corpo celular
Os neurônios organizam-se entre eles, constituindo uma fantástica rede.

Essas células recebem e transmitem sinais de natureza eletroquímica.


Célula de Schwenn Axônio
Os dendritos e os axônios asseguram a transmissão desses sinais. Os dendritos
Nòdolu de Ranvier
recebem os sinais e os axônios os transmitem.

Todas as nossas sensações, nossos movimentos, nossos pensamentos Como funciona a comunicação dos neurônios?
e nossas emoções são o resultado da comunicação entre os neurônios. Essa
comunicação é assegurada através de dois processos: a condução elétrica e a Os neurônios se comunicam entre eles graças a eletricidade e a química.
transmissão química.
Os neurônios se comunicam, usando a eletricidade quando se trata do
A condução elétrica permite ao impulso nervoso viajar rapidamente dentro mesmo neurônio e usando a química quando se trata de passar de um neurônio
do mesmo neurônio. Trata-se de uma breve variação elétrica que se propaga dos para o outro.
dendritos ao corpo celular até ao final do axônio.
Eles recebem as informações sob forma elétrica, nessa super arborescência,
A transmissão química efetua-se ao nível da sinapse. Ela permite transmitir os dendritos, indo até o âmago/núcleo da célula neuronal, onde elas são processadas.
o impulso nervoso de um neurônio para outro. Essa transmissão é chamada de O neurônio desencadeia então um novo sinal elétrico que vai se propagar a quase
transmissão química. Trata-se da difusão de moléculas químicas entre os neurônios, 400km/h, ao longo de filamento. No final desse filamento se encontra um fabuloso
permitindo ao impulso elétrico passar para o próximo neurônio.

32
Bruno Dubuc, http://lecerveau.mcgill.ca/

Neuropedagogia 42 Neuropedagogia 43
conjunto de conexões orgânicas que são chamadas de sinapses. São pontos de As células da glia
contato entre dois neurônios, são espaços microscópicos Figura 8- Corpo caloso
Ouvimos falar menos das células da glia porque o papel delas na comunicação
de comunicação, através dos quais cada neurônio vai poder comunicar com outros celular é menos evidente. Segundo estudos recentes, é provável que a quantidade
milhões de neurônios. Os neurocientistas falam de bilhões e bilhões de conexões de células da glia seja igual à quantidade de neurônios, aproximadamente 100
em nosso cérebro, comparáveis à quantidade infinita de grãos de areia. bilhões.

Quando o sinal elétrico chega à sinapse, ele libera nesse espaço de As células da glia são extremamente importantes porque sem elas os
um milionésimo de milímetro, milhares de moléculas químicas, chamadas neurônios não poderiam funcionar corretamente. São elas que alimentam, dão
neurotransmissores. Esse contato libera uma cascata de tempestades elétricas que apoio e protegem os neurônios. São elas que eliminam os resíduos deixados pela
se propagam de neurônio em neurônio, através das sinapses. morte neuronal e aceleram a condução nervosa, agindo como um isolante de certos
axônios.
Na realidade, essa operação sofisticada dura apenas um décimo de milhar Figura 12 - Células da glia
de segundos e cada dia de nossa vida, esse fenômeno terá se reproduzido bilhões
de vezes33.
Axônio
Figura 11 - Comunicação entre neurônios
Oligodendrócito

Bainha de mielina

Axônio

Capilar
Astrócito

As sinapses

A sinapse é o ponto de junção entre dois neurônios

A palavra sinapse refere-se ao lugar onde o axônio se encontra com


o dendrito. A palavra vem do grego “syn” (conjunto) e “haptein (unir, tocar). Os
neurônios apresentam duas maneiras bem diferentes de se unirem:

A sinapse elétrica onde as células se tocam e são conectadas, através de


33
E. Gaspar, Explose ton score au collège. Le cerveau et ses astuces… Réussir c’est facile ! Belin, pequenos orifícios, que permite ao impulso nervoso passar diretamente de uma
2015. para outra;
Neuropedagogia 44 Neuropedagogia 45
A sinapse química onde as células não se tocam e onde o influxo (impulso) Os neurotransmissores
nervoso precisa de moléculas específicas para passar de uma célula para outra;
Os neurotransmissores são moléculas que agem como « ferry » químicos,
A sinapse química é formada pelo botão terminal do axônio, contendo permitindo ao influxo/impulso nervoso passar de um neurônio para outro.
mensageiros químicos que serão lançados através da fenda sináptica, antes de
atingir o dendrito do próximo neurônio; Os neurotransmissores liberados na fenda sináptica podem ter dois efeitos
opostos sobre o próximo neurônio.
Essas moléculas são os neurotransmissores que são liberados pelo neurônio
pré-sináptico e que vai se fixar nos receptores situados em apenas algumas dezenas Alguns favorecem a propagação do influxo nervoso no interior do mesmo. Eles
de nanômetros de distância; são excitadores.

As sinapses químicas são menos rápidas do que as sinapses elétricas, mas, Outros diminuem a probabilidade do neurônio de enviar um impulso. Eles são
elas são mais flexíveis e maleáveis, uma característica preciosa na base de toda chamados neurotransmissores inibidores.
aprendizagem;
É a forma específica do neurotransmissor que vai permitir que ele se fixe no
Em uma sinapse química, o influxo (impulso) nervoso só pode circular em bom lugar para produzir seu efeito.
um único sentido, ao contrário da sinapse elétrica onde o impulso circula nos dois
O neurotransmissor é como uma chave buscando a boa fechadura. Se sua
sentidos. Além do mais, a transmissão nervosa em uma sinapse química leva 0,5
forma é a boa para o neurônio seguinte, ele vai produzir um efeito nesse neurônio 35.
milisegundos, enquanto que com a sinapse elétrica esse tempo é quase inexistente.
Figura 14- Neurotransmissores
Cada neurônio pode fazer mais de mil sinapses com outros neurônios e
como temos mais de cem bilhões de neurônios, isso significa que o cérebro humano
contém aproximadamente 1.000.000.000.000.000 de sinapses. Cada milímetro neurotransmissor
cúbico de córtex contém meio bilhão!34

Figura 13 - Sinapse
axônio neurônio 1

recaptação
neurotransmissores

34
Bruno Dubuc, http://lecerveau.mcgill.ca/ 35
http://lecerveau.mcgill.ca/flash/i/i_01/i_01_m/i_01_m_ana/i_01_m_ana.html
Neuropedagogia 46 Neuropedagogia 47
Exemplo de tipos de neurotransmissores: A membrana dos neurônios como a de todas as células possuem pequenos
orifícios chamados canais. É por meio desses canais que as moléculas carregadas
A acetilcolina é um neurotransmissor excitador bem disseminado, que provoca eletricamente atravessam a membrana. Mas, ao contrário das outras células, os
uma contração muscular e estimula a excreção de certos hormônios. No sistema canais da membrana dos neurônios se especializaram de tal maneira que eles
nervoso central, ele influi, entre outros, no estado de alerta, na atenção, na raiva, na conseguem coordenar o movimento dessas cargas elétricas através da membrana
agressividade, na sexualidade, na sede. para produzir a condução nervosa.
A dopamina que participa no controle do movimento e da postura. Ele modula Essa sequência de acontecimentos da condução nervosa pode ser resumida
também o humor e a dependência. da seguinte forma:
O GABA (ácido gama-aminobutírico) é um neurotransmissor inibidor muito 1. Em repouso, os canais da membrana do neurônio criam uma distribuição
disseminado nos neurônios do córtex. Ele participa na coordenação motora, na visão desigual de cargas: mais cargas negativas dentro e mais cargas positivas
e em várias outras funções corticais. Ele regula também a ansiedade. fora;
O glutamato é um neurotransmissor excitador super importante. Ele está 2. O impulso nervoso, abrindo ou fechando certos canais reverterá o potencial
associado à aprendizagem e a memória. elétrico de ambos os lados da membrana: durante um breve instante dentro
se torna mais positivo que fora; e
O Influxo (impulso) nervoso36
3. O potencial de repouso é rapidamente restaurado pelo trabalho dos outros
O impulso nervoso é um fenômeno de natureza elétrica que ocorre no sistema canais. Mas, já na região vizinha, o fenômeno se repete, propagando assim
nervoso, propagando-se ao longo dos neurônios. o impulso nervoso ao longo do axônio do neurônio.

Porém, essa eletricidade em nosso cérebro não é produzida por elétrons É importante notar que a condução nervosa seria inútil sem o outro componente
como nos fios elétricos de nossas casas. É o movimento de moléculas carregadas da comunicação neuronal que é a transmissão sináptica que permite ao impulso
eletricamente por meio da membrana do neurônio que causa esse fenômeno. nervoso passar de um neurônio para outro.

Essa condução de natureza particular é chamada de condução eletroquímica, Como os neurônios não se tocam ao nível de suas sinapses, eles precisam de
ou seja, eletricidade feita com moléculas químicas. mensageiros químicos chamados neurotransmissores para fazer passar o impulso
nervoso de um neurônio para outro. Essa transmissão química do impulso nervoso
leva o axônio e os dendritos a desenvolverem estruturas especializadas para facilitá-
la. Os dendritos possuem assim milhares de “espinhos” que brotam em sua superfície.
36
http://www.sobiologia.com.br/conteudos/Histologia/epitelio29.php
http://lecerveau.mcgill.ca/flash/a/a_01/a_01_cl/a_01_cl_fon/a_01_cl_fon.html É no sentido desses espinhos que se situam os botões terminais dos axônios, espécie
Roland Lehoucq, La propagation de l’influx nerveux, Pour la Science, 2002. de protuberâncias onde os neurotransmissores são excretados.
http://www.pourlascience.fr/ewb_pages/a/article-la-propagation-de-l-influx-nerveux-27713.php
Extrait de « Neurophysologie » de G.BOURBONNAIS, Université de Laval, Canada, sur la communica- A dupla natureza química e elétrica da nossa vida cerebral, e consequentemente,
tion nerveuse; dos nossos meios de comunicação é explicada por J. D. Vincent, com os seguintes
http://www.jpboseret.eu/biologie/index.php/systeme/systeme-nerveux/27-communication-nerveuse
termos:
Neuropedagogia 48 Neuropedagogia 49
Figura 15 - Impulso nervoso
Para que haja vida é necessário organização e para que haja organização
é preciso que haja comunicação, ou seja, troca de informações entre
as células, e, no centro de uma mesma célula entre os elementos que
a compõem. Há nos seres organizados dois modos de comunicação: o
nervoso e o hormonal...37

Na comunicação neuronal há um termo técnico para descrever o impulso


nervoso chamado de potencial de ação. Trata-se de uma despolarização breve e
reversível que se propaga ao longo do axônio.

O potencial de ação que se estabelece na área da membrana estimulada


perturba a área vizinha, levando à sua despolarização. O estímulo provoca, assim,
uma onda de despolarizações e repolarizações que se propaga ao longo da membrana
plasmática do neurônio.

O exemplo mais citado para explicar o fenômeno do potencial de ação é o


princípio da onda produzida pela torcida em um estádio. Algumas pessoas se levantam
e se sentam em um mesmo movimento. Seus vizinhos fazem imediatamente a mesma O potencial de ação difere do potencial recepetor (potencial sináptico) em
coisa. Em seguida, os vizinhos dos vizinhos fazem também a mesma coisa, etc. vários aspectos. Primeiro, porque esse potencial de ação não se propaga de
Vemos então uma onda humana percorrer o estádio inteiro. O impulso nervoso que maneira passiva, mas ativamente através dos canais iônicos especiais, sensíveis à
viaja nas fibras nervosas é um fenômeno semelhante. Quando a membrana de um voltagem, que possui o axônio e de um dispositivo específico que permite acelerar
neurônio é estimulada, ela se despolariza. Em seguida, numa fração de segundo, ele a propagação do potencial de ação.
se repolariza. Imediatamente, quando o ponto estimulado está sendo repolarizado, o
Segundo, esse processo também requer energia por parte do neurônio que
ponto vizinho sobre a membrana, por sua vez se despolariza. Em seguida se repolariza
dever garantir a manutenção da atividade das bombas iônicas que servem para
quando o ponto vizinho está se despolarizando etc. Uma onda de despolarização que
reequilibrar as cargas elétricas de ambos os lados da membrana após a passagem
se originou no ponto estimulado se propaga por toda a membrana do neurônio.
do potencial de ação.

Os potenciais de ação são de amplitude e de intensidade invariáveis. Sua


formação funciona sob o modo do “ou tudo ou nada”. Ou seja, nada acontece se o
estímulo não for suficientemente intenso para excitar o neurônio, desencadeando
o potencial de ação. Abaixo do limite de excitação do neurônio, nada ocorre, porém,
uma vez que a intensidade do estímulo desencadeador supera o limite de excitação,
ele não faz nenhuma diferença entre um pouquinho acima do limite ou amplamente
acima do limite. Um potencial de ação sempre se produzirá para uma determinada
célula. Não existe potencial de ação mais forte ou mais fraco. Passou o limiar, ele é
37
Hélène Trocmé-Fabre, J’apprends, donc je suis (Aprendo, logo existo), 2002. igual independente da intensidade do estímulo.
Neuropedagogia 50 Neuropedagogia 51
Após a passagem do potencial de ação, há um breve período refratário
durante o qual a membrana não pode mais ser estimulada. Esse fenômeno impede
o potencial de ação de voltar, obrigando-o a prosseguir, como a chama que percorre
um fio de pólvora.

Os potenciais de ação são mensageiros essenciais para a linguagem


neuronal.

O impulso nervoso se propaga em um único sentido na fibra nervosa. Os


dendritos sempre conduzem o impulso em direção ao corpo celular. O axônio
conduz o impulso em direção das extremidades, longe do corpo celular.
Figura 16 - Impulso nervoso

Todas as nossas percepções, nossos pensamentos, nossas lembranças não


seriam possíveis sem a condução nervosa que permite a propagação do impulso
nervoso.

O impulso nervoso permite ao vivente controlar seus gestos, compreender


ume informação para comunicar.

Desde os anos 70, as pesquisas em neurobiologia produziram uma


Um neurônio só pode transmitir a informação variando a frequência dos seus
quantidade considerável de informações sobre interpenetração dos mecanismos
potenciais de ação, ou seja, pelo número de potenciais de ação emitidos em um
eletro lógicos e neuroquímicos.
segundo.
Esses mecanismos deveriam ser levados em conta no ato de aprender e
As alterações do potencial de membrana do neurônio. Exemplos de três
para que a aprendizagem possa ser coerente38:
situações possíveis na comunicação entre neurônios:
A polaridade que é um fator essencial da troca, durante a qual a energia é
1 O neurônio recebe o potencial excitador que não alcança o limite de excitação,
transformada de uma forma para outra: química – elétrica – química.
logo não será possível gerar um novo impulso nervoso;
2 O neurônio recebe dois potenciais excitadores cuja soma não permite alcançar A diversidade dos neurotransmissores e da sua ação.
o limite de excitação do neurônio e produzir um novo impulso nervoso; e
A descontinuidade que é outra característica da transmissão do influxo
3 O neurônio recebe dois potenciais excitadores cuja soma permite alcançar o nervoso.
limite de excitação do neurônio e produzir um novo potencial de ação.
O potencial de ação é uma inversão temporária do potencial elétrico da
38
Hélène Trocmé-Fabre, J’apprends, donc je suis (Aprendo, logo existo), 2002.
membrana do axônio que dura apenas alguns milissegundos.
* O esquema B, mostrando alguns elementos da nossa vida cerebral foi elaborado por Mara Welferinger.
Neuropedagogia 52 Neuropedagogia 53
2.2.2 Outros elementos da nossa vida cerebral* Segundo Daniel Goleman, o hipocampo e a amídala são partes essenciais
do cérebro olfativo primitivo a partir do qual foram formados o córtex e o neocórtex.
A ablação da amídala, acidental ou não, tira toda capacidade de dar um conteúdo
Esquema B emocional ao que vivemos, é o que chamamos “a cegueira afetiva”39.

A evolução reuniu vários circuitos do sistema de alarme de nosso organismo


CÓRTEX
na amídala. Por isso, várias entradas sensoriais convergem para informá-la dos
perigos potenciais do seu meio ambiente. Essa informação sensorial lhe vem
diretamente do tálamo sensorial ou dos diversos córtices sensoriais.
HIPOTÁLAMO AMÍDALA

As pesquisas mostram que a amídala determina nossas ações antes mesmo


CÉREBRO que nosso neocórtex tenha tido tempo de tomar uma decisão refletida. As relações
entre essas duas áreas se encontram no âmago da inteligência emocional.
HIPOCAMPO TÁLAMO
Na presença de um acontecimento temido ou detestado, a amídala reage
CEREBELO instantaneamente e passa o alerta para todas as outras partes do cérebro.

Figura 17 - Amídalas do cérebro


Amídala

Perto da base do sistema límbico se encontra um pequeno aglomerado em


forma de amêndoa chamado amídala. A amídala é uma estrutura complexa com
cerca de uma dúzia de sub-regiões. Embora esses núcleos não estejam todos
envolvidos nas reações de medo e de agressividade, muitos têm conexões que Tálamo
estão ativamente envolvidas com eles.

Quando a amídala detecta certos estímulos potencialmente perigosos que Amídalas


ameaçam o organismo, ela coloca em alerta outras estruturas do cérebro que
Em reação a um estímulo visual ou auditivo, o tálamo é o primeiro a reagir
coordenam a resposta de fuga ou de luta do organismo.
para busca de soluções. Em seguida, ele envia as informações ao neocórtex (área
Essa estrutura cerebral fica perto do hipocampo e desempenha um papel cerebral da visão, ou da audição) que poderá interpretar a informação e decidir
na aprendizagem, na memória e, sobretudo na regulação e na decodificação de sobre aquilo que será feito. Depois, ele transmite, se for necessária, uma parte das
nossas emoções. informações para a amídala, ou seja, no centro de controle de nossas emoções.
Daniel Goleman, L’intelligence émotionnelle, comment transformer ses émotions en intelligence, Ed.
39

Rober Laffont, 1999. http://www.des-livres-pour-changer-de-vie.fr/lintelligence-emotionnelle/


Neuropedagogia 54 Neuropedagogia 55
Porém, a descoberta principal foi constatar que o tálamo transmite também Ainda segundo Daniel Goleman, a amídala provoca reações impulsivas e
a informação diretamente à amídala ao mesmo tempo em que ele a transmite ao ansiosas, mas, do outro lado do circuito que leva ao neocórtex se encontra, nos lobos
neocórtex e que o trajeto é duas vezes mais curto entre o tálamo e a amídala, pré-frontais, um centro que as regula. Esse centro intervém quando temos medo ou
ou seja, a amídala recebe a informação antes que esta seja interpretada pelo quando estamos com muita raiva. A informação processada pelo neocórtex provoca
neocórtex. Isso explica porque, algumas vezes, nós reagimos sem compreender uma reação que é coordenada por esses lobos que planejam e organizam nossas
o sentido de nossas ações. A amídala envia as ordens para nosso corpo antes ações. Se uma resposta emocional é necessária, os lobos pré-frontais encarregam-
mesmo do neocórtex determinar se é uma ordem boa. É como um circuito paralelo, se com discernimento, escolhendo em um leque de possibilidades: atacar ou fugir
mais rápido. (como os animais que só têm essas duas possibilidades) ou também apaziguar,
persuadir, ganhar a simpatia, sentir-se culpado, gemer, desprezar... O córtex pré-
Outras pesquisas mostraram que nós reagimos a alguma coisa bem antes
frontal age como um pai que acalmaria uma criança impulsiva (a amídala), pedindo-
que nosso cérebro a tenha interpretado. O hipocampo registra os dados do jeito
lhe gentilmente para reagir de outra maneira.
que vêm e a amídala registra o sabor emocional dos acontecimentos no momento
de fortes emoções40. A existência dessas conexões entre o cérebro límbico e os lobos pré-frontais
pode provocar, em caso de emoção forte, uma espécie de paralisia neuronal,
É por isso que sempre nos lembramos de uma infinidade de detalhes do
sabotando a capacidade do lobo pré-frontal de manter a memória ativa, como
dia do nosso primeiro encontro amoroso ou do que fazíamos durante o anúncio da
quando nós estamos contrariados e que isso nos impede de aprender corretamente.
morte de uma pessoa próxima e de detalhes que podem parecer insignificantes,
mas que nós nunca reteríamos em um contexto habitual. A excitação da amídala Pesquisadores demonstraram que, ao contrário de que se poderia pensar,
tem por efeito gravar os momentos de emoção com uma força fora do comum. os sentimentos são indispensáveis às decisões racionais e ao raciocínio. Quando a
complementaridade se estabelece entre o sistema límbico, o neocórtex, a amídala
Em crianças, a amídala é formada bem antes do resto do cérebro, porque
e os lobos pré-frontais, a capacidade intelectual melhora41.
ela é mais próxima de sua forma definitiva desde o nascimento, enquanto que o
neocórtex continuará a crescer mesmo após o fim da adolescência. Cerebelo

As primeiras emoções importantes dos primeiros anos de vida estão O cerebelo é uma parte do cérebro situado em sua base, atrás do tronco
impressas na amídala, em um momento onde ainda não somos capazes de cerebral. O cerebelo integra a informação que ele recebe de outras áreas motoras.
analisar com palavras essas experiências. Quando essas lembranças retornam Ele coordena nossos movimentos para dar mais precisão e fluidez. Ele nos ajuda
provocadas por um estímulo externo, elas desencadeiam emoções que estavam também a manter nossa postura e nosso equilíbrio, controlando nosso tônus muscular.
enraizadas no início de nossa vida, quando tudo era novo e surpreendente e que Quando repetimos um movimento para aperfeiçoar sua técnica, num esporte ou para
ainda nos faltavam ferramentas para analisar e colocar em perspectiva. Podemos tocar um instrumento musical, modificamos certas vias nervosas do cerebelo.
compreender então porque perdemos nossa capacidade de julgamento quando
Ao contrário do córtex, essas vias não são cruzadas, de maneira que uma
estamos sob a influência de emoções fortes.
lesão que ocorre em um único lado do cerebelo ocasiona um problema do mesmo
lado do corpo 42.

40
D. Goleman, Op.Cit., 1999. 42
Bertrand Boutillier e Gérard Outrequin, Neuro-Anatomie Fonctionnelle : http://www.anatomie-humaine.
Neuropedagogia 56 com/Le-Cervelet.html Neuropedagogia 57
Proporcionalmente ao nosso peso, nós temos o maior córtex de todos
os vertebrados. Além das áreas motoras e sensoriais, nosso córtex também é
responsável das características únicas à nossa espécie, como a consciência, o
Figura 18 - Imagem mostrando o cerebelo (cervelet)

Lobe fronta
raciocínio, a planificação, a imaginação, a linguagem/língua.
Lobe parental

Lobe temporal
No ser humano, o córtex teve que se plissar para poder caber dentro do
crânio. Desdobrado, ele recobriria uma área de 20 decímetros quadrados. O
Lobe occipital
córtex é uma floresta exuberante. Os neurônios formam uma verdadeira rede de
Cervelet
árvores dendríticas entrelaçadas, atravessada em todos os sentidos pelos axônios.
Tronc cérébral Como se pergunta Emile Godaux (médico, especialista em neurologia): como uma
desordem pode produzir alguma coisa de inteligente?43

Porém, essa desordem é só aparente. O córtex cerebral é um puzzle onde


se encaixam quarenta áreas especializadas, umas ao lado das outras.

Figura 19 - Imagem mostrando o cerebelo


Hipocampo

O hipocampo é uma parte antiga do córtex que surgiu com os primeiros


Cerebelo mamíferos. É a porta de entrada das informações que serão memorizadas. O
hipocampo retransmite essas informações ao córtex para serem “armazenadas”
em longo prazo e as recupera quando há rememoração. Suas numerosas conexões
com o conjunto das áreas sensoriais do córtex permitem codificar todo o contexto
associado a um acontecimento. Fazendo parte do sistema límbico, o hipocampo dá
também uma coloração emocional à nossas lembranças.
Córtex
O hipocampo desempenha um papel fundamental na memória episódica,
O córtex cerebral é um tecido orgânico chamado também substância cinza chamada, às vezes de autobiográfica e que permite ao indivíduo lembrar os
que cobre os dois hemisférios do cérebro. acontecimentos que ele viveu pessoalmente em um determinado lugar, em um
O córtex cerebral é a parte do cérebro que permite à espécie humana ser determinado momento. É a lembrança daquilo que comemos no dia anterior, o nome
tão diferente dos outros animais. Aproximadamente, setenta e cinco por cento dos de um antigo colega de escola ou a data de um acontecimento público importante.
cem bilhões de neurônios do nosso cérebro se encontram em alguns milímetros de Por exemplo, em um jantar bem regado com amigos, a lembrança dos rostos
matéria cinza do córtex. dos presentes, do sabor da bebida ou da música tocando é distribuída em diferentes

43
Émile Godaux, Cent milliards de neurones (Cem bilhões de neurônios), Ed. Labor, 1990.
Neuropedagogia 58 Neuropedagogia 59
Figura 21 - Imagem do Hipotálamo
áreas (visual, olfativa e auditiva), mas é reunida pelo hipocampo para formar
um episódio, em vez de permanecer uma coleção de lembranças separadas. A
Hipotálamo
característica mais marcante dessa memória é que o indivíduo se vê como um ator
dos acontecimentos memorizados. O indivíduo não só memoriza o acontecimento
que viveu, mas o contexto desse acontecimento. A carga emocional vivida pelo • É uma estrura muito pequena
indivíduo no momento dos acontecimentos condiciona a qualidade dessa memória44. • Estrutura importante do sistema nervoso
central.
Figura 20 - Imagem Hipocampo • Localizado no centro do sistema limbico

Tálamo

O tálamo é um pouco como uma « console de mixagem » do cérebro. Ele


retransmite as informações visuais, auditivas, gustativas e do tato para o córtex e
determina quais delas chegarão à consciência. Ele participa das operações motoras
entre o córtex, os gânglios de base e cerebelo. Ele também está implicado na dor e
Hipocampo na atenção. Resumindo: ele mantém cada parte do cérebro informada sobre o que
caudate nucleus
Amídalas as outras partes estão fazendo46.

cingulada Circunvolución cuerpo calloso


(interviene em comportamiento
Fómix
Hipotálamo de supervivencia)

O hipotálamo tem um papel essencial no funcionamento do organismo. Ele Hipocampo


interviene en el almacenamiento
regula o ritmo cardíaco e a frequência respiratória. de la memoria
lóbulo frontal
O hipotálamo assegura o equilíbrio do nosso meio interno. Ele influencia

Figura 22 - Imagem mostrando o Tálamo


nosso apetite, nossa sede, nosso desejo sexual. Ele também desempenha um
hipotálamo
papel nas nossas emoções, junto com a hipófise, situada abaixo dele. O hipotálamo Controlo de procesos Físicos
controla essa glândula cujos hormônios regulam, entre outros, a maturação sexual, automábicos

o comportamento materno e resposta ao estresse. O hipotálamo regula também


glândula pituitária o hipófisis
nosso “relógio” interno, cujos efeitos se fazem sentir sobre o sono e a temperatura
Tálamo
do corpo45. Estacion de informacion
repetidora cérebro
44
Bruno Dubuc http://lecerveau.mcgill.ca/flash/i/i_07/i_07_cr/i_07_cr_tra/i_07_cr_tra.html
45
http://www.todabiologia.com/anatomia/hipotalamo.htm cerebral Tallio
46
Bruno Dubuc, http://lecerveau.mcgill.ca/flash/i/i_07/i_07_cr/i_07_cr_tra/i_07_cr_tra.html
http://lecerveau.mcgill.ca/flash/i/i_07/i_07_cr/i_07_cr_tra/i_07_cr_tra.html
Neuropedagogia 60 Neuropedagogia 61
2.3 Exigências físicas: movimento, oxigênio, alimentação Logo, um comportamento é antes de tudo, um conjunto de movimentos
produzidos pelos músculos. Esses músculos estão sob o controle de nosso
MOVIMENTO sistema nervoso que é o fruto da evolução.

O controle de todos os nossos movimentos vem do nosso cérebro. Uma


das regiões mais envolvidas no controle desses movimentos voluntários é o
córtex motor.

CÉREBRO O cérebro serve essencialmente para produzir comportamentos que são


primeiro e antes de tudo movimentos e várias regiões do córtex cerebral estão
envolvidas no controle desses movimentos. Por exemplo: comer, dormir, falar,
rir, lutar, ter medo, ter relações de amizade, sexual, filial, ou seja, todos esses
comportamentos que preenchem nosso cotidiano e nos parecem naturais49.
OXIGÊNIO ALIMENTAÇÃO
A produção do movimento é organizada em diferentes níveis de controle.
MOVIMENTO

Segundo Daniel Wolpert « a única razão de ser do cérebro é o Ao nível superior, está o controle do córtex sobre os movimentos voluntários.
movimento”47. Trata-se de todos os movimentos que exigem uma coordenação e uma precisão
adaptada a uma determinada situação por meio das informações dadas pelos
Para Giulia Enders, o movimento é a mais extraordinária contribuição
nossos sentidos.
dos seres vivos. Não existe outra justificação para nossos músculos, para os
nervos desses músculos e certamente para o nosso cérebro. O nível mais elementar é controlado pela medula espinhal, sem sequer
recorrer ao cérebro. Os neurônios da medula espinhal controlam assim os
Tudo que um dia pode mudar o curso da humanidade só foi possível
movimentos reflexos e os movimentos rítmicos na origem do andar.
porque nós somos dotados de movimento.
Entre os dois se situam todos os tipos de movimento como aqueles
O movimento não é somente caminhar ou lançar uma bola. É também a
que permitem a respiração que, como os movimentos do caminhar, têm um
expressão do rosto, a articulação das palavras ou a realização de um projeto.
componente automático, mas podem também ser modificados voluntariamente
Nosso cérebro coordena os sentidos e cria experiência para gerar (reter seu sopro, correr etc.)
movimento – movimento da boca, movimento das mãos, movimento cujo raio
O que entra no nosso cérebro vem dos nossos sentidos e o que sai é
se estende sobre vários quilômetros ou sobre somente alguns milímetros.
expresso sob forma de movimento, a fala envolvendo também a contração de
Sem esquecer que nós podemos também influenciar o mundo, diminuindo o
vários músculos.
movimento48.

47
Giulia Enders “Le charme discret de l’intestin” (O charme discreto do Instestino), 2016. 49
B. Dubuc, http://lecerveau.mcgill.ca/
48
Giulia Enders “Idem”, 2016. Neuropedagogia 62 Neuropedagogia 63
O cérebro é um simulador de ação que utiliza a memória para prever as
O corpo humano contém pelo menos 600 músculos que movem um
consequências da ação. Para compreender os mecanismos que ligam percepção
esqueleto de mais de 200 ossos. Ele constitui assim um formidável arranjo de
e ação é necessário reintegrar o corpo sensível no estudo da percepção, do
alavancas e molas, cuja fina mecânica deve ser coordenada pelo nosso sistema
pensamento, da emoção.
nervoso50.
Alain Berthoz ver o cérebro como um prodigioso simulador, um gerador de
Nos seres humanos, embora o desenvolvimento dos movimentos
hipóteses que projeta sobre o mundo suas pré-percepções. Um gesto parecerá
voluntários tenha atingido um alto grau de originalidade e de precisão, é
“ameaçador” ou “amigável”, de acordo com a intenção que atribuímos ao seu
importante lembrar que nós também conservamos muitos reflexos que facilitam
autor. A percepção não tendo então nada de um fenômeno passivo, mas ao
nossa vida e que apareceram há muito tempo, ao longo da evolução.
contrário, um processo dinâmico, ativo, efetuando uma verdadeira seleção dos
A impermanência impregna de sua marca (marca com seu selo) todas as acontecimentos da vida. Um cérebro que calcula a toda velocidade, a partir das
coisas, tudo muda, tudo se transforma. A imobilidade é uma ilusão porque tudo múltiplas informações recebidas dos sentidos54.
que é está permanentemente em movimento51.
Para ele, a percepção é uma construção multissensorial. O sentido do
Alain Gerbault, navegador e escritor francês, falando sobre o movimento movimento é um sexto sentido que resulta da cooperação entre vários sensores.
dizia que.
Os professores não podem mais ignorar essa realidade. É nosso corpo
No final das contas, tudo é hipótese e incerteza. O conhecimento
absoluto é proibido ao ser humano. Como ele é arrastado no movimento inteiro que aprende55. O movimento sendo uma necessidade física do nosso
relativo da Terra, ele só pode ter conceitos relativos. Para conhecer
cérebro nós precisamos compreender o quanto é difícil para muitos alunos
o absoluto seria preciso que ele pudesse se manter no espaço, livre
de todo movimento. Mas então ele não seria mais humano, ele seria permanecerem estáticos durante horas e horas.
Deus52.

O movimento: nosso sexto sentido53 Figura 23 - Exemplo de movimento

Alain Berthoz, engenheiro e neurofisiologista francês, diz que nós não


temos somente cinco sentidos. Além dos sensores da visão, da audição, do tato,
do paladar e do olfato, temos também os sensores que detectam o movimento.
Nenhum dos sentidos individualmente pode medir o movimento, é a cooperação
de todos esses sentidos que constitui esse sexto sentido que é o movimento.

O cérebro deve, a partir desses sentidos, reconstruir uma percepção única


e coerente das relações de nosso corpo e do espaço.

50
B. Dubuc, http://lecerveau.mcgill.ca/
51
Heráclito, http://dutempspoursoi.free.fr/Connaissancegenerale/Philosophie/heraclite.html
52
Alain Gerbault, Seul à travers l’Atlantique (Só através do Atlântico), Ed. La Découvrance, 2014.
53
Alain Berthoz, Conferência no Collège de France, Fevereiro, 2010. 54
Alain Berthoz, Le sens du mouvement (O sentido do movimento), Ed. Odile Jacob, 2015.
Neuropedagogia 64 55
Hélène Trocmé-Fabre, Op. Cit. 2002. Neuropedagogia 65
A regeneração do ATP é obtida por uma reação, necessitando oxigênio e glicose
Figura 24 - Exemplo de movimento
(fosforilação oxidativa)57.

Segundo Trocmé-Fabre, como podemos exigir de um grupo de alunos ou


de candidatos a uma prova (ou simplesmente pessoas que se comunicam), uma
atividade cerebral eficaz, quando estes se encontram durante várias horas no
mesmo espaço confinado? Isso nos dar o direito de questionar sobre o valor
do desempenho exigido: avaliação dos conhecimentos e das habilidades? Ou...
teste de resistência a anóxia?

Todo professor deveria saber que confinar o cérebro é maltratá-lo e


empobrecê-lo.

A atividade de um cérebro que lê, ouve, fala... provoca um aumento no


consumo de oxigênio e de glicose em áreas ativadas pela tarefa, resultando em
um aumento do fluxo sanguíneo local.

O cérebro representa aproximativamente 2% do peso do corpo humano. Para que haja uma aprendizagem coerente com alunos e professores felizes
OXIGÊNIO

Mas ele mobiliza em permanência aproximadamente 20% do sangue e do é necessário que seja criado continuamente condições ideais de funcionamento,
oxigênio. dando ao cérebro o que ele precisa.

O cérebro é o órgão mais vascularizado. Nenhuma célula nervosa se A higiene cerebral deve fazer parte da pedagogia. Lembremos que nós
encontra afastada de mais de um meio-centésimo de milímetro de um capilar consumimos cada dia 15 kg de ar e 4 kg de oxigênio. Desses 4 kg, só o cérebro
sanguíneo 56. consome 20%... Luz natural, alimentação (muita água), alternância, pausas,
afetividade, vida relacional, conhecimentos e linguagem (ns) são alimentos
Nosso cérebro é um grande consumidor de oxigênio, ele sozinho indispensáveis à vida cerebral e devem ser integradas numa verdadeira pedagogia.
consome 20 % do oxigênio do corpo, ou seja, 0,8 litros de sangue por minuto,e
no entanto, ele só pesa 2% do peso do corpo. Com as pesquisa atuais sabemos
que um tecido orgânico em movimento aumenta sua taxa de consumo de
oxigênio. A energia utilizada pelo organismo provém da degradação de uma O Ciclo do Oxigênio
molécula-depósito, o ATP (adenosina-trifosfato), em ADP (adenosina-difosfato).

57
H. Trocmé-Fabre, Op. Cit, 2002.
56
Jean Didier Vincent, Biologie des Passions (Biologia das paixões), 1986.
Neuropedagogia 66 Neuropedagogia 67
2.4 Nossas capacidades, conceitos-chave: potencialidade,
Ninguém está imune a falhas, perdas, acidentes… nem responsável
conectividade, plasticidade
ALIMENTAÇÃO por suas possíveis deficiências cerebrais. Porém, a manutenção é da
responsabilidade de cada um. Ela consiste em recuperar ou conservar
o ecossistema, onde o funcionamento cerebral é ideal (“eco” vem da
palavra grega oikos = casa), respeitar os ritmos básicos do organismo e
buscar o equilíbrio dos fatores endógenos e exógenos que participam da POTENCIALIDADE
vida cerebral58.

O envelhecimento cerebral não é inevitável. O cérebro é um


órgão como os outros. Ele exige que seja dado o que ele precisa e que
seja evitado o que lhe é prejudicial: álcool, fumo, drogas alucinógenas, CÉREBRO
antidepressivos e tranquilizantes…

A ideia amplamente divulgada, atribuindo ao álcool poder de


estimulação provém de um desconhecimento total – e além do mais –
perigoso – dos seus efeitos. O álcool é um depressor e seus efeitos são CONECTIVIDADE PLASTICIDADE
cumulativos. Os centros corticais superiores, que controlam o raciocínio e
o julgamento, são os primeiros a serem inibidos. O sistema límbico, sede
A etapa mais importante e urgente para nossas sociedades que se dizem

POTENCIALIDADE
de nossas emoções, é então liberado de qualquer entrave. Os centros do
“modernas” é a da valorização do “recurso humano”, recurso que continua
equilíbrio, da coordenação, da consciência e da respiração, o cerebelo e
sendo pouco explorado. Samuel Pisar (escritor polonês) foi um dos primeiros
a formação reticular são afetados, por sua vez 59 .
a mencionar e descrever de maneira entusiasta esse potencial humano que
Outros alimentos, terríveis inimigos do cérebro são também a abriga “o sangue da esperança”61. Esse potencial humano é infinito. Ele precisa
renúncia, a ausência de projeto, a solidão60. ser atualizado, ou seja, desenvolvido nas ações, nos projetos, nas empresas.
A Escola e a Sociedade deveriam se investir com prioridade nesse sentido,
Além dos alimentos saudáveis, o cérebro precisa também do
favorecendo as condições de atualização do potencial de cada um62.
encontro e da afetividade.
A grandeza e o extraordinário potencial do cérebro humano é que ele
encontra sempre um meio para fazer alguma coisa, para estar presente no
mundo. O ser humano tem essa fantástica capacidade para criar, adaptar-se e
agir sobre seu meio ambiente. Ele está em permanente devir, incessantemente
em movimento.
58
H. Trocmé-Fabre, Idem, 2002.
59
H. Trocmé-Fabre, Idem, 2002. Imagem sobre a alimentação
Samuel Pisar, La Ressource Humaine (O recurso humano), Ed. Hachette, 1983.
61

60
Instituto Nacional de Pesquisa sobre a Prevenção do Envelhecimento Cerebral, no Hospital Bi- Hélène Trocmé-Fabre, Né pour apprendre (Nascemos para Aprender), Série de 7 Vídeos, Ed. Triom.
62

cêtre. Neuropedagogia 68 São Paulo, 2006. Neuropedagogia 69


O papel dos pais e dos professores é dizer para os filhos ou alunos que Conectar, associar é uma capacidade fundamental de nosso cérebro.
“existe e que existirá sempre nele um potencial de escolha e de criação” (mesmo Essa capacidade preside a relação de nossas diferentes áreas cerebrais

CONECTIVIDADE
e, sobretudo quando a avaliação do sistema educacional o encarcera em um (corticais, sub-corticais, primárias, associativas...) e de todos os níveis de
número negativo). Os pais não têm todas as soluções e o professor não é um nosso ser (biológico, cognitivo, social, espiritual....). Nossa inteligência é
guru, nem aquele que sabe tudo. A função deles não é fornecer – respostas essencialmente uma capacidade para conectar e religar.
prontas – mas, material para construir novas perguntas63.
Segundo Gerald Edelman, biólogo americano, as interconexões não
Esse potencial precisa ser conservado e cuidado. Segundo Boris Cyrulnik agem de maneira linear, mas de maneira distribuída, o que permite um
(neuropsiquiatra e etólogo francês), dois elementos são primordiais para conservá- processo altamente complexo de reintrodução, ou seja, de retorno à estrutura
lo e mantê-lo: “a afetividade e o encontro. O fato de ser dois seres, dois cérebros, receptora. Esse processo regularia nossa capacidade para categorizar,
duas histórias, duas culturas nos obriga a nos descentralizar… e a sensação de regularia a emergência do sentido e a emergência da consciência humana66.
coisa estranha nos obriga a procurar compreender. Procurar compreender é o
A conectividade é a resposta ao problema suscitado pela complexidade.
melhor estímulo biológico do cérebro” 64.
É o resultado do que foi “tecido junto”. A própria palavra inteligência, do latim,
A potencialização e atualização são duas palavras indissociáveis que inter-legere significando colher entre, por intervalos, é essencialmente uma
representam a polaridade na qual nós nos encontramos em permanência. Nossa capacidade de conexão que contribui de maneira incessante, na nossa
natureza de ser vivo nos coloca, ao mesmo tempo, em um constante devir e própria busca de sentido, para essa “cinegética” solitária que é o processo de
uma necessidade de ser, de “realizar” concretamente nossos recursos, ou seja, compreensão67.
nossa capacidade para aprender, agir, inovar e criar, nossa capacidade para
Compreender é “a pedra angular” das descobertas fundamentais para
compartilhar, compreender, comunicar. Uma realidade que tão raramente é vista
a humanidade. Compreender, como ressalta Jacques Schlanger, escritor e
sob esse ângulo65.
filósofo israelita, é “buscar dentro de si e levar consigo”, o que presume uma
postura de abertura e de integração68.

Compreender necessita uma visão coerente do mundo, uma estruturação


do meio ambiente. Compreender é construir o mundo e não descrevê-lo ou
explicá-lo. É um processo em direção das coisas, um movimento em direção
da vida.

Nossos hábitos, nossas preferências, nossas referências e nossos


valores nos posicionam e muitas vezes nos encerram num tipo de conexão.
Eles levam-nos do cognitivo ao afetivo ou ao contrário, e isso determina o que
63
Hélène Trocmé-Fabre, Op. Cit. vem depois.
64
Boris Cyrulnik, in Né pour découvrir, da série de filmes Né pour apprendre.
65
Stéphane LUPASCO, L’énergie et la matière vivante (A energia e a matéria viva), Paris, Ed. du Rocher, 66
G. Edelman, Biologie de la Conscience (Biologia da Consciência), Ed. Odile Jacob, 1992.
1987. 67
Jacques Schlanger, Solitude du penseur de fond (Solidão de um filósofo), Ed. Critérium,1990.
Neuropedagogia 70 Neuropedagogia 71
Para os alunos como para os professores prevalece a questão de saber A plasticidade é uma característica fundamental que permite a memória e a
o que devemos conectar. Será que o que chamamos, com grande naturalidade aprendizagem. Nossos neurônios têm a capacidade de modificar suas conexões,
“erro”, não seria uma conexão que foi feita de maneira inapropriada? A verdadeira tornando certos circuitos nervosos mais eficientes. Na maioria das vezes, o objetivo
avaliação é a que, liberando-se da obsessão da dupla “êxito-fracasso”, consegue é permitir um novo comportamento mais adaptado às exigências do meio ambiente
dizer de um aprendente (ou de si mesmo) “não é que ele não compreendeu, e sendo assim, ser capaz de preservar a estrutura do organismo para melhorar
simplesmente, ele compreendeu outra coisa”. Para Albert Jacquard, aquele que suas chances de sobrevivência.
não compreende “compreende que ele não compreendeu e sendo assim, ele
Cada vez que aprendemos alguma coisa, os circuitos nervosos se modificam.
evolue”69.
Esses circuitos são constituídos de certo número de neurônios que se comunicam
entre eles por meio das sinapses. São as sinapses que aumentam a eficiência deles
após um aprendizado, facilitando a passagem do impulso nervoso em um circuito
Durante muito tempo, acreditou-se que uma vez o humano adulto seu específico. Quando ouvimos uma palavra nova, novas conexões entre certos
neurônios são solicitados: alguns do córtex visual para reconhecer a ortografia,
PLASTICIDADE

o cérebro não evoluiria mais e que suas conexões permaneceriam estáveis.


Essa visão da estrutura e do funcionamento cerebral mudou radicalmente. O outros do córtex auditivo para a pronúncia, outros nas áreas associativas do córtex
cérebro é um sistema que se auto-organiza um sistema aberto. Ele modifica a para conectar outros conhecimentos71.
organização de suas redes de células nervosas em função de suas experiências, A mensagem para o professor sobre a plasticidade do cérebro humano é
ou seja, a eficácia das conexões entre neurônios varia continuamente em que ele não é insensível às influências e aos efeitos causados pelos choques, o
função da experiência do indivíduo. estresse, o cansaço, o barulho, os remédios, ou a (má) nutrição. A mensagem de
Essa capacidade que tem o nosso cérebro de se modificar, reconfigurar uma plasticidade de um cérebro que nunca é o mesmo seja qual for a ideia que
sua arquitetura interna, durante toda nossa vida é o que chamamos a temos sobre os bloqueios, a incapacidade e a estagnação de alguns alunos…
plasticidade cerebral. Essa plasticidade, segundo Jean Claude Ameisen, declina-se em várias
Nosso cérebro é extremamente maleável e adaptável. Nós reagimos escalas de tempo. Primeiro tempo muito breve como os fenômenos de potenciação
em permanência ao nosso meio ambiente. Toda percepção, toda ação, toda sináptica onde em alguns segundos ou minutos, um reforço sináptico durável
adaptação tem um impacto sobre a organização cerebral. Em permanência pode ser estabelecido entre muitos neurônios e criar “assembleias de neurônios”
as células nervosas são ativadas ou desativadas, as redes de conexões se selecionados. Um tempo mais longo, como durante os primeiros anos de vida
fazem e se desfazem. Milhares de neurônios colaboram. Nosso cérebro cria, onde assistimos uma verdadeira poda de conexões ou de neurônios supérfluos,
desfaz, completa e reorganiza uma multidão de redes neurais para “armazenar” devido a interações repetidas com o meio ambiente. E até mesmo um tempo
vestígios de várias experiências que pontuam nossa existência70. quase “geológico”, se considerarmos que a evolução das espécies é uma forma de
plasticidade em longo prazo, onde a forma do conjunto do corpo do organismo se
adapta a seu meio ambiente72.

69
Albert Jacquard, Construire une civilisation terrienne (Construir uma civilização terrestre), Ed. Fides, 71
Bruno Dubuc, http://lecerveau.mcgill.ca/flash/d/d_07/d_07_cl/d_07_cl_tra/d_07_cl_tra.html
1995.
72
Jean Claude Ameisen, Sur les épaules de Darwin (Sobre os ombros de Darwin), Ed. LLL, 2014.
70
Hélène Trocmé-Fabre, Op.Cit, 2002.
Neuropedagogia 72 Neuropedagogia 73
REFERÊNCIAS

Resumindo: Como pudemos observar, as Neurociências estão nos dando


AMEISEN, Jean Claude. Sur les épaules de Darwin (Sobre os ombros de Darwin),
a oportunidade para melhor compreender NOSSO CÉREBRO.
Ed. LLL, 2014.
Na aprendizagem que propôs essa Unidade, pudemos ver o papel do corpo
BERTHOZ,Alain. Conferência no Collège de France, Fevereiro 2010.
caloso, uma área que une os dois hemisférios cerebrais e descobrimos o cérebro
como um sistema de conexão,. BERTHOZ,Alain. Le sens du mouvement (O sentido do movimento), Ed. Odile
Jacob, 2015.
Tentamos também levar o aluno/aprendente a se familiarizar com alguns
elementos de base do funcionamento cerebral, tomando consciência das BOURBONNAIS,Gilles. Extrait de « Neurophysologie », Université de Laval,
exigências físicas do cérebro e, sobretudo, refletir sobre nossas capacidades como Canada, sur la communication nerveuse;
a potencialidade, a conectividade e a plasticidade.
http://www.jpboseret.eu/biologie/index.php/systeme/systeme-nerveux/27-
Nosso intuito foi, partindo dessa familiarização, levar o aprendente a ter communication-nerveuse
iniciativa, criatividade e determinação para buscar outras informações sobre um
assunto. Esse assunto é pertinente e concerne todos nós, mesmo se ele ainda se http://www.patrickjjdaganaud.com/6-INEE%20CATASTROPHES/FORMATION-
encontra atualmente somente nas mãos de especialistas. O especialista permanece INTERVENTION/NEUROSCIENCES/chap5.-neurophysiologie-pdf.pdf
um respaldo necessário, mas para construirmos nossa autonomia é necessário
BOUTILLIER,Bertrand ; OUTREQUIN,Gérard. Neuro-Anatomie Fonctionnelle :
ficarmos atentos sobre as informações que nos oferece às Neurociências atualmente.
http://www.anatomie-humaine.com/Le-Cervelet.html
Compreender o funcionamento de nosso cérebro e conhecer os mecanismos do
verbo aprender nos permitirá construir nossa autonomia. CYRULNIK,Boris . in Né pour découvrir (Nascemos para descobrir) da série de
filmes Né pour apprendre, d’Hélène Trocmé-Fabre, 1995.

DORNAC, Jean . O mundo, segundo Albert Jacquard, (Conferência em Vanosc-


Ardêche, Jun 2004). http://www.ethologie.info/revue/spip.php?article15

DUBUC,Bruno.http://lecerveau.mcgill.ca/flash/d/d_01/d_01_cr/d_01_cr_ana/d_01_
cr_ana.html

EDELMAN, Geral.Biologie de la Conscience (Biologia da Consciência), Ed. Odile


Jacob, 1992.

ENDERS,Giulia. “Le charme discret de l’intestin” (O charme discreto do Instestino),


Ed. Actes Sud, 2016.

Neuropedagogia 74 Neuropedagogia 75
GASPAR,Eric . Explose ton score au collège. Le cerveau et ses astuces… Réussir neuroeducação, 2007.
c’est facile ! Belin, 2015.
SACKS,Oliver. L’Oeil de l’esprit (O Ôlho do Espírito), Ed. du Seuil, 2012.
GAZZANIGA,Michaël. Le cerveau social (O cérebro social), Ed. Robert Laffont,
SCHLANGER,Jacques. Solitude du penseur de fond (Solidão de um filósofo), Ed.
1987.
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SPERRY,Roger;GAZZANIGA, Michaël. Citados por Justine Sergent, http://www.
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JACQUARD, Albert . Construire une civilisation terrienne (Construir uma civilização
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http://www.pourlascience.fr/ewb_pages/a/article-la-propagation-de-l-influx-
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LUPASCO ,Stéphane. L’énergie et la matière vivante (A energia e a matéria viva),


Paris, Ed. du Rocher, 1987.

LURIA,Alexandre.(1973); EPSTEIN (1978), citados por Trocmé-Fabre, Op.Cit.


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MENDOZA,Jean-Louis Juan de. Deux hémisphères, un cerveau (Dois hemisférios,


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PISAR,Samuel . La Ressource Humaine (O recurso humano), Ed. Hachette, 1983.

RAPPORT DE l’OCDE de 2007 sur la neuroéducation (Relatório da OCDE sobre a


Neuropedagogia 76 Neuropedagogia 77
UNIDADE III
RUMO A UMA NEUROAPREN-
DIZAGEM

Objetivos:
• Compartilhar uma reflexão em torno do conceito de aprendizagem;
• Compreender o significado daquilo que chamamos de “informação”;
• Ressaltar o impacto dos avanços tecnológicos em nossa vida cognitiva.

3.1 Problemas a serem resolvidos


3.1.1. Como aprendemos hoje?

Aprender é uma característica do vivente. O ato de aprender foi há muito


tempo confiscado pela Escola e o mundo educacional. Porém, o que precisamos
saber é que essa ação pertence, antes de tudo, à Vida. É quase certo que Homo não
teria sido “erectus”, nem “faber”, nem “loquens”, ainda menos “sapiens sapiens”, nem
como ele é chamado atualmente “communicans”… se ele não tivesse sido, antes de
tudo “cognoscens”, ou seja, habitado pelo impulso de aprendência, pelo desejo de
conhecer e de reconhecer, que caracteriza todo organismo vivente73.

73
H. Trocmé-Fabre, Réinventer le métier d’apprendre (Reinventar o ofício de aprender), 1999.
Segundo Trocmé-Fabre, esse impulso de aprendência é a expressão, a própria Segunda a mesma autora, essa concepção do saber e da informação leva
face de outra aspiração, a que leva o humano para dentro e rumo a sua própria direto ao atual sistema quantitativo de avaliação de resultados. Presume-se que o
busca de sentido. Essa busca de sentido é, por sua vez, a expressão de um profundo aprendente tenha captado certa porcentagem da “mensagem” que se avalia através
desejo, de uma necessidade de engajamento num processo de construção ou de de uma nota, numerada.
organização, mais claramente, de uma exigência de estruturação como indica nosso
A vida nos mostra, diariamente, que não podemos aprender sozinhos, nem
presente biológico e assim como ele, a memória de nossas células. Essa exigência
compreender, ou comunicar no lugar do outro. Aprender é um processo de criação de
de estruturação, sem dúvida, faz parte do impulso de complexidade que a história do
laços em nossa vida mental, afetiva, sensório-motor, neurológica. Esses laços são,
Universo relata74.
fundamentalmente, complexos, transitórios, adaptáveis, dinâmicos e heurísticos.
Para os atores do mundo educacional (alunos, professores, Como afirma a referida autora.
formadores, responsáveis institucionais, políticos e pais…) o ato de aprender é, em
Muitos fatores entram em jogo fazendo da aprendizagem algo difícil,
geral, posicionado numa relação única de instrução e de imposição. Nossa língua
considerada mesmo como impossível pelos alunos, adolescentes ou jovens
corrente que usa com frequência os termos “transmissão de saber” e “aquisição de
adultos. Portanto, os neurofisiologistas e os sistemistas afirmam atualmente que
conhecimentos” situa o ato de aprender na sua relação com um informador ou uma
todo organismo vivo é, por natureza, “aprendente”. Então é possível deduzir que
informação como sendo exterior ao indivíduo. O saber é implicitamente considerado
um organismo que não aprende é um organismo que crê não poder mais aprender.
como uma entidade existindo por si-mesma, e que pode ser tomada, transmitida tal
Enfraquecido, decepcionado, paralisado pelo medo do fracasso, pela angústia do
qual, esperando que aquele que consideramos como o destinatário seja receptivo75.
não “ser bem sucedido”, pela tristeza e a decepção, o organismo aprende a se ver
como incapaz de aprender. Como consequência, ele não pode mais se regular,
adaptar-se ou evoluir. Essa situação, sinônimo de encarceramento, provoca um
verdadeiro sofrimento cognitivo.76 Esse sofrimento é a causa de uma grande
violência, dissimulada, quase imperceptível, de origem múltipla, mas, que se exerce
de maneira subterrânea, minando as situações educacionais aparentemente
“normais”. Essa violência é praticada cada vez que o indivíduo vai contra as leis
do vivente e, sobretudo, quando um organismo vivo é impedido de ser o portador
de seu próprio potencial de evolução, de transformação, de adaptação e logo, de
aprendizagem.

Graças a sua capacidade para aprender, o ser humano é capaz de atualizar


seu potencial de evolução, esse impulso de complexificação e de superação que
Fonte: http://kdfrases.com/frase/153488
caracteriza o vivente. Atualizando-se no presente, na interface do que foi e do que
será nossa aprendizagem é o motor da emergência do sentido que buscamos. É
porque devo agir hoje com o que aprendi ontem e com o que eu gostaria para o
74
H. Trocmé-Fabre, Op. Cit. 1999.
75
H. Trocmé-Fabre, Op. Cit. 1999. 76
Hélène Trocmé-Fabre, Op. Cit., 2002
Neuropedagogia 80 Neuropedagogia 81
futuro, que procuro o gesto, o ato, a palavra, o pensamento que convém ao que sou mental, baseada numa preocupação de conteúdo (e não de processo) não
aqui e agora. corresponde a nossa realidade cerebral, correlativo neurofisiológico de nossa
capacidade de aprender. Aprender não é acrescentar uma coisa a outra coisa, num
A aprendizagem é um ato existencial, em plena coerência com as leis da
alinhamento que gostaríamos que fosse reto, se possível, já traçado. Aprender
vida. Tratando-se de um processo, quem aprende se inscreve na duração, ou seja,
é mudar, modificar, transformar, reorganizar, bifurcar rumo a outro nível de
existe sempre um antes, um durante e um depois.
complexidade.
Aprender é uma profissão e tem os limites que lhe impõe o meio físico,
familiar, social, político e cultural. O que a caracteriza é o fato dela ser a mais velha
profissão do mundo! Aprender é uma profissão cheia de riscos. Se aceita o risco de
Livro O Homem nasce para APRENDER,
mudar, logo de não mais ser reconhecido nem reconhecível. Outro risco ao qual o
Aprender tanto quanto a vida LHE PERMITA
aprendente se expõe é o de ter que reinterrogar seus valores, ter que se engajar
no desconhecido, reorganizar seus hábitos, aceitar a singularidade e interrogar sua
identidade.

A capacidade de aprender é o que os seres humanos possuem de mais


precioso. Esse patrimônio comum é quantitativamente e qualitativamente muito
mais importante do que as diferenças que separam os seres humanos moldados
por suas culturas respectivas.

Logo, trata-se de assumir nossa própria biologia, em vez de ser conduzido


por ela, como diz H. Trocmé-Fabre, porque nosso dever é ser responsável, ator e
autor de nossos próprios momentos de aprendizagem, inserindo esses momentos
no movimento, ou seja, no nosso percurso. Quem aprende elabora cada etapa de
um “caminho que se constrói, caminhando”77.

As primeiras regras a serem observadas são: conhecer e reconhecer o imenso


potencial a nossa disposição; entrar na lógica do “ainda-não” (logo, abandonar a
lógica binária certo/errado) ; observar os meios, ferramentas e métodos necessários,
para transformar nossas capacidades cognitivas em competências cognitivas, ou
seja, em capacidades atualizadas e reconhecidas.

Toda prática pedagógica faz referência implicitamente a certa concepção


do mundo, uma visão do ser humano, um modelo de sociedade. Atualmente, os
especialistas das ciências cognitivas e das ciências da natureza ajudam-nos a 77
Antonio Machado, Cantares, http://elmundoenverso.blogspot.com.br/2007/11/cantares-de-antonio-ma-
compreender que a concepção quantitativa e mecanicista de nosso funcionamento chado.html
Neuropedagogia 82 Neuropedagogia 83
3.1.2 O que é “informação”? Tudo começa por uma diferença, porque é tudo o que nós podemos perceber.
Não podemos perceber a uniformidade, é preciso que um elemento qualquer
Em 1947, Norbert Wiener, o pai da cibernética propôs uma nova definição do venha fazer contraste para que uma percepção possa ocorrer. Se, por exemplo,
mundo onde ele dizia que poderíamos considerar o mundo como uma infinidade de estivermos em um lugar totalmente azul, não perceberíamos mais nada, inclusive
mensagens. Essa definição içava o conceito de “informação” ao nível dos conceitos nem o azul80.
fundamentais, como o de energia ou de matéria78.
Essa diferença externa deve fazer uma diferença para nossos órgãos
Segundo Jean Jacques Wittezaele, psicólogo belga, a introdução do conceito sensoriais. As terminações nervosas recebem em permanência “novidades” de
de informação nas ciências humanas mudou a perspectiva e permitiu emergir uma acontecimentos que correspondem aos contornos do mundo visível. Nós fazemos
imagem do ser humano totalmente diferente da imagem tradicional, um homem em distinções, nós as fazemos aparecer, nós as explicamos. O número de diferenças
interação com seu entorno, seu meio ambiente e permitiu também restabelecer a potenciais entre os acontecimentos é infinito, mas só as diferenças captadas se
importância das relações numa ciência focalizada essencialmente sobre o objeto, o tornarão diferenças efetivas, ou seja, elementos de informação.
elemento e o sujeito.
A diferença não é feita de matéria, ela não é uma coisa, ela é uma abstração,
O que distingue os fenômenos puramente materiais dos organismos vivos é que uma relação entre coisas. Os seres vivos possuem captores que reagem às
estes últimos têm a capacidade para processar a informação, enquanto que no mundo diferenças e não simplesmente a estímulos materiais.
material, não vivente, reage-se às forças, aos impactos, e às trocas de energias.
Uma abstração pode desencadear um influxo elétrico em um neurônio
Gregory Bateson, antropólogo e psicólogo americano, disse que “a informação receptor. Esse influxo se propaga e a diferença é, de certa maneira, codificada
é uma diferença que faz uma diferença”79. num processo que ele no caso é bem material. Ela será finalmente processada,
Sob esse ângulo, a informação seria uma distinção, uma diferença captada no causando eventualmente uma reação. Não existe uma ruptura clara entre uma
meio ambiente, que é percebida por um órgão sensorial. Uma diferença que provoca abstração e um fenômeno físico. A matéria é informada pelas diferenças.
uma reação no organismo, por exemplo, o desencadeamento de um neurônio receptor. Um órgão sensorial é um comparador, um dispositivo que reage à diferença.
Uma diferença que provoca uma diferença confere um aspecto inevitável à Esse órgão é algo de material, mas é essa faculdade de reagir à diferença que nos
comunicação, ou seja, que além de seu aspecto “informativo” (a indicação ou a relação permitirá caracterizar seu funcionamento como “mental”81 .
sobre um acontecimento anterior) toda mensagem é ao mesmo tempo, uma ordem, um A troca de informações no mundo dos seres vivos não se limita somente à
comando, uma incitação a reagir. comunicação verbal, o processo leva em conta o desenvolvimento e as interações
Toda mensagem recebida implica uma resposta. Podemos tentar escondê- entre todos os organismos vivos.
la, esforçamo-nos para dissimular o efeito da mensagem, mas a recepção de uma É por essa razão que Maturana e Varela afirmaram que “toda ação é
mensagem causa, induz inexoravelmente uma reação. conhecimento e todo conhecimento é ação”82. É impossível não comunicar.

80
G. Bateson, Op. Cit., 1989.
78
Jean Jacques Wittezaele, L’homme relationnel (O homem relacional), Ed. Seuil, 2003. 81
Jean Jacques Wittezaele, Op. Cit, 2003.
79
G. Bateson, La peur des anges. Vers une épistémologie du sacré, p.32, 1989. 82
Humberto Maturana e Francisco Varela, L’arbre de la connaissance, p. 22, Addison-Wesley, 1994.
Neuropedagogia 84 Neuropedagogia 85
Para que um sistema possa se organizar, se estruturar, se regular e se adaptar Nós como seres vivos somos sistemas abertos e a nossa história, ou
às mudanças do meio ambiente é preciso que ele disponha de uma possibilidade de seja, a história dos nossos atos, do nosso pensamento, ou dos nossos atos de
detecção das diferenças, permitindo uma ação corretiva. Para isso, as cadeias de comunicação, está profundamente ligada ao que vem antes e ao que vem depois.
causalidade devem ser circulares, o efeito deve incidir sobre a causa. Além disso, é O termo “informação” (informação, dar a forma) é muitas vezes utilizado no lugar de
necessário distinguir entre as “informações” que circulam entre os elementos desses “dados”. Muitas áreas do nosso pensamento (e de nossas ações) foram infiltradas
circuitos e as “informações” que se referem ao funcionamento da totalidade do pelo conceito de “processamento da informação” herdada da informática e do
circuito. Essas últimas consideradas como metainformações permitem ao sistema cognitivismo 86.
preservar sua autonomia em relação ao meio ambiente, suas características
Não devemos esquecer que o “site” da nossa realidade viva (nosso cérebro,
internas, sua coerência, apesar das mudanças incessantes do sistema maior do
ou seja... nós) é evolutivo e que todo contato com o mundo exterior tem um “antes”,
qual ele faz parte 83.
um “durante” e um “depois” que influenciam nossas (re)ações e relações.
Desse ponto de vista, como diz Jean-Jacques Wittezaele, “se o meio ambiente
A crença – generalizada – que a informação existe em si, que o sentido
cria o ser humano, é igualmente o ser humano que cria o meio ambiente da maneira
é uma entidade na qual se penetra e que se pode transferir – deve ceder o
como ele vê”. “Não podemos realmente falar de um indivíduo que percebe o mundo
lugar para conceitos mais próximos do funcionamento de nossa realidade
exterior, mas, de um processo de interação entre os dois. Os indivíduos existem
cerebral. A contribuição da neurobiologia, das ciências cognitivas e das ciências
como resultado do processo de interação”84.
da complexidade, permite-nos propor os conceitos dinâmicos de acoplamento,
O mundo é antes de tudo uma rede de interdependências e não uma coleção emergência, interdependência, interação, autossustentação87.
de indivíduos. A realidade não é um estado, mas um processo. A objetividade é um
Realmente, enquanto acreditarmos que o mundo existe fora de nós,
mito porque o simples fato de “receber uma informação” já é ser transformado por
independente de nossa visão, de nossa memória e de nossos pensamentos,
ela.
enquanto pensarmos que “pegamos” e “tratamos” uma informação “captada” por
Segundo Trocmé-Fabre, o culto da informação talvez seja o pior mal que nossos órgãos sensoriais, enquanto acreditarmos que a informação é externa a nós
aflige nosso século, porque ele passa completamente despercebido. Ele transparece mesmos, que ela nos é transmitida e que devemos tratá-la como faz o computador
nas expressões que nós utilizamos diariamente para falar da informação: nós a é evidente que nossa relação com o meio ambiente, com os outros e com nós
“buscamos” temos medo de “perdê-la”, nós a “transmitimos”... A informação é assim mesmos já se encontra engajada numa lógica de verdade única, binária, dual e
considerada como uma entidade como se ela existisse por si mesma, um conteúdo linear.
quantificável, mensurável e transferível85.

83
Jean Jacques Wittezaele, Op. Cit., 2003.
84
Jean Jacques Wittezaele, Op. Cit., p. 43.
85
H. Trocmé-Fabre, Le langage du Vivant, Ed. Être et Connaître, 2013. 86
H. Trocmé-Fabre, Op. Cit. 2013.
86
H. Trocmé-Fabre, Op. Cit. 2013. 87
H. Trocmé-Fabre, Né pour apprendre (Nascemos para aprender); J’apprends, donc je suis (Aprendro,
Neuropedagogia 86 logo existo), Ed. d’Organsation, 1987, 1994. Neuropedagogia 87
Atualmente, o “culto” de uma informação considerada como uma entidade Durante muito tempo, para compreender a estrutura e o papel das diferentes
em si, causa estragos em muitos campos, no da linguagem, no da biologia, da partes do cérebro, foi necessário utilizar métodos indiretos como a dissecação post-
medicina e das mídias88. mortem.

No final do século XX, com os avanços da tecnologia da informação e da


detecção de radiação, as diferentes técnicas de imagem cerebral revolucionaram
3.1.2. Como utilizar as novas tecnologias?
nossa maneira de ver o cérebro. Essas técnicas permitiram observá-lo funcionando,
ao vivo, com uma precisão que até então nunca se tinha visto, e o mais surpreendente
poder observá-lo durante uma tarefa sem precisar abrir o crânio.

Figura 1 – Novas Tecnologias Com essas técnicas é possível, atualmente, reconsiderar o estudo da
percepção, da atenção, das nossas emoções, da memória, da linguagem, da
consciência e do raciocínio lógico. A cognição humana poderá provavelmente
alcançar progressos inesperados.

A neuroimagem está colonizando toda a sociedade. No sistema judiciário


via a “neurolaw”, nas escolas via a neuroeducação, na organização via o
neuromarketing e a neuropsicologia, na economia via a neuroeconomia e bem
mais além. Todas essas novas formas híbridas de expertise, de conhecimento e de
práticas compartilham a crença e a esperança de que a neuroimagem possa ser
uma nova tecnologia da verdade que revelaria algo de nós mesmos e nos permitira
talvez intervir para nos ajudar a melhorar e melhorar a sociedade89.

A imagem mental, de um modo geral, pode ser classificada sob dois aspectos:
a imagiologia anatômica (estrutural) e a imagiologia funcional.

A primeira (anatômica) é utilizada para ver e analisar as estruturas cerebrais


e tudo o que pode vir perturbá-las (tumores, hemorragias, coágulos ou outras
deformações presente ao nascimento). A segunda (funcional) mede a atividade de
certas áreas do cérebro durante determinadas tarefas. Ela é utilizada principalmente
na pesquisa fundamental para compreender melhor o papel de nossas diversas
estruturas cerebrais, mas também, para diagnosticar focos epilépticos ou antes das
intervenções cirúrgicas para identificar as áreas do cérebro que têm uma função

89
Joelle M Abi-Rached et Nikolas Rose, Historiciser les neurosciences (Historiar as neurociências), 2014.
88
E. Andreewsky e col. Systémique et Cognition, (Sistema e Cognição) Dunod (1991), citado por H. Tro- https://scholar.harvard.edu/files/jabirached/files/abirached_rose_chap2_-_moutaud_chamak.pdf
cmé-Fabre. Neuropedagogia 88 Neuropedagogia 89
essencial que precisam serem mantidas intactas e protegidas a todo custo. Porém, fascínio, uma força de convicção intrínseca. Os especialistas em neurociências
uma técnica de imagiologia anatômica é muitas vezes utilizada junto com uma permanecem vigilantes diante dessa iconofilia92.
técnica de imagiologia funcional para compreender melhor a anatomia e a função
de uma área cerebral em determinado indivíduo90. As técnicas de imagens cerebral mais usadas atualmente 93:

O uso do conceito « neuroimagem » começou nos anos 1980 com o • Imagem estrutural:
desenvolvimento de toda uma série de ferramentas de visualização como a a) CT scan
tomodensitometria (CT-scan), a ressonância magnética nuclear (RMN), que passou Iconofilia- amor às imagens, às representações
a ser imagem por ressonância magnética (IRM), a tomografia por emissão de O CT scan vem do inglês “computerized
figuradas, tomography”,
ou arte de colecioná-lasindicando bem a
pósitrons (PET-scan). O desenvolvimento nos anos 1930 da eletroencefalografia essência do CT scan, ou seja, uma série de raios-x aprimorados por computador. A
(EEG) que teve um papel muito importante. Porém foi a visualização em três tomografia computorizada (CT scan) teve muitas melhorias técnicas nesses últimos
dimensões dos acontecimentos hemodinâmicos no cérebro vivo que levou a anos, tornando-se um dos métodos de imagem mais utilizados.
neuroimagem para áreas fora dos laboratórios91.
O CT scan produz uma reorganização por computador de várias imagens
Em 1990, o uso generalizado do IRMf tornou-se possível através da feitas com raios-x sob diferentes ângulos. É obtida assim uma resolução bem
descoberta da imagem por contraste BOLD (Blood Oxygen Level Dependent) por melhor do que os raios-X convencionais e pode assim detectar tumores ou lesões
Siege Ogawa e seus colegas (1990). O sinal BOLD permitindo visualizar ao vivo, a em uma fase mais precoce.
oxigenação do sangue no cérebro.
A reconstituição por computador permite também remover as “sombras” que
As primeiras publicações sobre a utilização do IRMf em humanos, em 1992, outras partes do corpo podem lançar sobre a área de interesse. Isso é possível
constituiram uma virada sem precedente na exploração do cérebro, permitindo pela fonte de raios-X que gira em torno do paciente, fotografando o órgão alvo sob
que o cérebro se tornasse o ponto de passagem obrigatório para a explicação e a diferentes ângulos. Cada volta produz uma parte da fotografia, em outras palavras,
compreensão do que significa ser humano. a imagem de um corte transversal do órgão. Após várias voltas, o computador é
capaz de reunir os pedaços de fotografia para criar uma imagem tridimensional do
Na era da neurociência, a neuroimagem tornou-se uma ferramenta órgão.
útil e poderosa para várias partes interessadas, dos neuropsiquiatras aos CT scanner
neuroeconomistas. A neuroimagem também deu origem a desenvolvimentos na
filosofia, da neurofilosofia à neuroética.

A contra partida é que assistimos a uma “iconofilia” da imagem cerebral.


Embora os novos métodos de imagem cerebral exijam uma alta tecnicidade e um
processamento informático complexo e que as imagens obtidas não correspondam CT scan
forçosamente a uma observação direta dos fenômenos, elas exercem pela sua
aparente simplicidade e atratividade (cores bonitas, até mesmo animação), um 92
Histoire des Neurosciences et du Cerveau http://www.rvd-psychologue.com/histoire-neurosciences.html
A s explicações sobre essas várias técnicas vêm do excelente site de Bruno Dubuc http://lecerveau.mcgill.
93
90
Bruno Dubuc http://lecerveau.mcgill.ca/flash/capsules/outil_bleu13.htm#irmf ca/flash/capsules/outil_bleu13.htm
91
Robert L. Savoy, 2001, citado por Joelle Abi Rached e Nikolas Rose. Neuropedagogia 90 Neuropedagogia 91
b) Imagem por ressonância magnética (IRM)
Figura 2 e 3,- CT Scan

Direção de
Fonte de raios-X
Rotação de
Isso gera O advento do IRM no final dos anos 1970 teve o efeito de uma bomba na
Fonte de raios-X
O feixe de comunidade médica. Essa nova técnica não utilizava nem os raios-X e nem os
Detector de raios-x Raios X e gira Tomografia computadorizada ultrassons, mas se baseava nos campos magnéticos, explorando as propriedades
O detector gira para em torno de Para ajustar o ângulo de
físicas da matéria ao nível subatômico, principalmente da água que constitui,
permanecer oposto ao O corpo para Vista, o scanner pode
aproximadamente, três quartos da massa do corpo humano. O IRM, além de ter
Fonte de raios-X Cada fatia Fortificados e
uma definição superior ao CT scan, ele permite também obter cortes axiais do
para trás
cérebro como o CT scan e cortes sagital e coronal.

O funcionamento do IRM é bastante complexo, como explica Bruno Dubuc,


Cama motorizada
pode ser resumido da seguinte maneira:
A cama se move
Encaminha um 1. O campo magnético do aparelho de ressonância magnética vai alinhar o
pequeno campo muito mais fraco, de cada próton dos átomos de hidrogênio contidos
distância entre na água dos diferentes tecidos do organismo;
Cada digitalização
2. A região da qual queremos obter a imagem é então bombardeada por ondas
de rádios;
3. Na parada das ondas de rádio, os prótons retornam ao seu alinhamento
original, emitindo um sinal fraco de rádio (a famosa “ressonância magnética”);
4. A intensidade da ressonância magnética é proporcional à densidade dos
prótons no tecido e consequentemente, à sua taxa de hidratação;
5. Os captores especiais retransmitem essa informação a um computador que
Feixe de raio-x combina esses dados para criar as imagens de corte do tecido em diferentes
Painel de controle
direções.
IRM

Figura 4, - IRM

Neuropedagogia 92 Neuropedagogia 93
• Imagem funcional Figura 6 - EEG: http://www.olavkrigolson.com/that-neuroscience-guy/archives/04-2016
Dendries
Cell body
a) A eletroencefalografia (EEG)
Nucicleus
Synapse
Axon hillock
A eletroencefalografia (EEG) permite aumentar a atividade elétrica produzida
pelos neurônios. Várias funções cognitivas ou motoras produzem padrões Axon Signal direction
característicos de atividade neural que criam uma assinatura especial sobre o Postsynaptic cell

eletroencefalograma. Presynaptic cell


Myelin sheath
O EEG mede então a atividade neural global e contínua do cérebro através
Synapse
de eletrodos colados na superfície do couro cabeludo. Os computadores atuais
Synaptic terminais
permitem analisar a atividade cerebral captada através de dezenas de eletrodos
localizados em diferentes lugares do crânio. As ondas cerebrais ou mais corretamente denominadas eletroencefalograma
humano (EEG) são representações físicas da atividade elétrica no cérebro. A eletricida-
As correntes coletadas são, sobretudo, aquelas geradas ao nível dos
de desempenha um papel fundamental no funcionamento do cérebro.
dendritos dos neurônios piramidais encontrados maciçamente no córtex.

b) Imagem por Ressonância Magnética Funcional (IRMf)

Figura 5 - EEG

Electroencephalogram (EEG) Ao contrário da ressonância magnética que permite visualizar a anatomia das
Electrodes estruturas cerebrais, a imagem por ressonância magnética funcional (IRMf) fornece
informações sobre a atividade das diferentes regiões cerebrais. Os aparelhos
Brain
usados e o funcionamento de base são praticamente os mesmos do IRM, mas os
computadores que analisam o sinal são diferentes.

O fenômeno fisiológico sobre o qual se apoia o IRMf (inclusive o PET) foi


EEG reading
colocado em evidência no final do século XIX, quando os neurocirurgiões concluíram
que as funções cognitivas alteravam localmente a circulação sanguínea cerebral.
Quando um grupo de neurônios se torna mais ativo, ocorre automaticamente uma
vasodilatação local dos capilares sanguíneos, para trazer mais sangue e, por
conseguinte, oxigênio para essas regiões mais ativas.

Neuropedagogia 94 Neuropedagogia 95
O IRMf desenvolveu-se no início dos anos 1990 quando os computadores será então emitida das áreas mais ativas por causa da vasodilatação que leva mais
cada vez mais poderosos foram acoplados aos aparelhos do IRM. Os recentes solução radioativa nessas áreas.
scaners de IRMf podem produzir quatro fotos por segundo do cérebro, o que permite
O estudo sobre os neurotransmissores teve uma grande contribuição dessa
acompanhar o movimento da atividade neural durante uma tarefa complexa.
abordagem que permitiu esclarecer a distribuição de vários deles.
O IRMf que pode ser utilizado sem injeção de corante no organismo do
Figura 8 - PET
indivíduo é muito apreciada na pesquisa fundamental. Outra de suas grandes
vantagens é que a mesma máquina pode fornecer uma imagem estrutural e funcional
do mesmo cérebro, facilitando assim as correspondências anatomofuncionais.
Figura 7- IRMf

d) O magnetoencefalógrafo (MEG)

c) Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET) O magnetoencefalógrafo, mais conhecido pelo diminutivo de MEG, foi
desenvolvido na década de 1970, mas só foi realmente reconhecido mais tarde com
A tomografia por emissão de pósitrons foi a primeira técnica de imagem o desenvolvimento dos computadores e de algoritmos computacionais sofisticados.
cerebral funcional que surgiu em meados dos anos 1970.
O MEG é uma tecnologia não invasiva. A posição sentada que permitem
Durante um PET é injetado no indivíduo uma solução, contendo um elemento certos MEGs também proporciona condições mais naturais para a experimentação.
radioativo que pode ser água ou glicose radioativa, por exemplo. Mais radioatividade
Neuropedagogia 96 Neuropedagogia 97
Essa técnica permite ver o cérebro em ação, medindo os campos magnéticos bem Técnica de estimulação
fracos que emanam de sua atividade elétrica.
A estimulação magnética transcraniana (TMS)
Os magnetoencefalógrafos podem ter até 300 pontos de medida localizados
A TMS foi introduzida nos meados da década de 1980 para estudar as vias
ao redor do córtex cerebral, permitindo gravar sua atividade em tempo real. Embora
motoras que partem do córtex motor, descendo para a medula espinhal até os
o eletroencefalógrafo (ou EEG) também permita visualizar a atividade elétrica
músculos. Mais já era possível estimular os nervos com campos magnéticos desde
cortical em tempo real através de eletrodos plugados na cabeça, esta é distorcida
o início da década de 1960.
pela sua passagem através dos diferentes tecidos atravessados (meninges, ossos
do crânio, pele etc). Já os campos magnéticos medidos pelo MEG atravessam Porém, as novas técnicas de TMS permitem aplicar uma corrente elétrica
esses tecidos sem nenhuma distorção. diretamente no cérebro sem que seja necessária uma cirurgia como no caso da
estimulação com um eletrodo, porque é utilizado um campo magnético que passa
Figura 9 - MEG
diretamente através do crânio sem nenhuma dor.

O campo magnético é criado por uma corrente que circula através de uma
bobina de fio de cobre isolado em uma bainha de plástico. A bobina, que parece
com uma grande colher, é colocada sobre o crânio, em cima da área cerebral que
será estimulada.

O campo magnético criado pela corrente atravessa facilmente o crânio e


produz por sua vez uma corrente elétrica local no cérebro do indivíduo. Porém,
a profundidade da estimulação é limitada a cerca de dois centímetros abaixo da
superfície do crânio devido à atenuação rápida do campo magnético com a distância.
Figura 10 - TMS

Neuropedagogia 98 Neuropedagogia 99
E essas ferramentas responsáveis pelo progresso da neuroimagem 3.2 COLOCANDO EM PERSPECTIVA
permitiram avanços extraordinários no campo das neurociências, possibilitando
distinguir grupos de neurônios e processos neurológicos envolvidos na linguagem,
na memória, nas emoções e, principalmente na aprendizagem, essas tecnologias, Basarab Nicolescu (Físico quântico) falando de conclusão dizia que as
apesar de fazerem parte atualmente do nosso universo social, vêm suscitando formulações deveriam permanecer inacabadas, porque ele vê na conclusão alguma
grande inquietação e provocando tensões de ordem ética, filosófica e social coisa morta, alguma coisa parada, fechada e que todas as coisas pelas quais ele se
porque elas respondem apenas de maneira parcial ao questionamento metafísico apaixona ele sente sempre como algo aberto.
do ser humano no que se refere ao pensamento, à consciência, à liberdade, à
responsabilidade e ao livre arbítrio94. Hélène Trocmé-Fabre, nessa mesma visão, em nome do vivente introduz
o conceito de “mise en perspectiva” (colocar em perspectiva), que leva em conta
Como o desafio que elas representam é imenso, precisamos conhecê-las o “espaço/duração”, a distância, o recuo, a posição e o observador. Porque essa
melhor, não para nos tornar especialistas, mas para ficarmos atentos aos riscos e visão é fiel ao vivente que é simplesmente emergência. (HTF Comunicação pessoal
para que elas não sejam desviadas de sua finalidade. Não podemos esquecer que 2016).
existem efeitos perversos. As tecnologias de exploração do cérebro também têm
seus limites, logo precisamos pensar em uma aprendizagem que seja bioética. Para a autora, todo trabalho é concebido para pôr em movimento o olhar
do leitor. Logo, falar de conclusão é fechar a porta ao questionamento. O leitor
tem o controle de sua leitura e de sua interpretação. Durante sua leitura, o leitor-
aprendente foi conectado a vários conceitos. O interessante para dar continuidade
a esse trabalho, que é agora um trabalho compartilhado, seria que o leitor-
aprendente escolhesse o conceito (ou os conceitos) que ele achou mais pertinente
e trabalhasse, usando o questionamento que abre o potencial, como no exemplo a
seguir:

O conceito neste caso é “aprender”. O que é Aprender?

1ª pergunta: Quando você pensa na palavra APRENDER, quais as três palavras


que de imediato vêm em sua mente? Em que sentido eu coloco uma seta para
religar essas palavras a APRENDER?

Por exemplo:

• Para mim, as três palavras que vieram em minha mente foram: atenção,
afetividade, memória.
94
Relatório N° 476 (2011-2012) do Senado francês, l’Impact et les enjeux des nouvelles tecchnologies d’ex-
ploration et de thérapie du cerveau (o impacto e os desafios das novas tecnologias de exploração e de terapia
do cérebro).
http://www.senat.fr/rap/r11-476-1/r11-476-1_mono.html
Neuropedagogia 100 Neuropedagogia 101
Esse questionário com cinco perguntas foi elaborado por Hélène Trocmé-
Atenção APRENDER Memória Fabre. Ele tem como objetivo, segundo a autora, fazer um inventário das nossas
representações sobre um conceito que foi compartilhado, para mostrar a diversidade
dos significados que é dado para uma mesma palavra, permitindo assim um diálogo
construtivo, sem o julgamento, verdadeiro ou falso. Ele permite sensibilizar sobre
Afetividade o peso das palavras, sobre o peso das imagens, do discurso implícito, dos fatores
que bloqueiam, das possibilidades que ainda-não foram exploradas,mas que estão
(As setas são bidirecionais porque uma relação se enriquece da outra e vice-versa ) a nossa disposição e que permitirão abrir sobre uma exploração mais ampla.

2ª pergunta: Quando você vê a palavra APRENDER qual a imagem, ou Ele propõe ao mundo educacional colocar em obra sua própria visão e explorar
imagens que vêm em sua mente? os conceitos de transação educativa, de inteligência coletiva, de aprendizagem
solidária e recíproca, de organização aprendente, ou de comunidade educacional.
• A imagem que me veio à mente foi uma criança olhando o horizonte.
3ª pergunta: O que lhe ajuda a APRENDER? Esse questionário pode ser usado para qualquer situação. É uma alavanca
que nos leva para fora de qualquer julgamento e nos permite compreender. Porque...
• Para mim, um lugar calmo, ler tranquilamente, poder compartilhar o assunto
com outras pessoas, ouvir a opinião delas etc. Nós não podemos “não compreender” o que acontece é que compreendemos
4ª pergunta: O que lhe impede de APRENDER? outra coisa. Logo é preciso sempre reajustar a linguagem, levando em conta o
ponto de vista de cada um.
• Para mim, o barulho, o estresse, a correria, as exigências da lógica do
imediato etc
5ª pergunta: O que você gostaria de explorar, descobrir, compreender no
que se refere a APRENDER?
• Eu gostaria de saber como funciona dentro do nosso cérebro quando
aprendemos? Por que perdemos a confiança em nossa capacidade para
aprender?

Neuropedagogia 102 Neuropedagogia 103


REFERÊNCIAS

Resumindo: O cérebro sendo um dos elementos essenciais das pesquisas atuais, ANDREEWSKY,Evelyne .Systémique et Cognition, (Sistêmica e Cognição), Ed.
a Unidade III pertinentemente nos levou rumo a uma neuroaprendizagem. “Como Dunod, 1991.
aprendemos hoje?”, “O que é a informação?” “Como utilizar as novas tecnologias?”
são perguntas que deveriam estar sempre presentes em nossa mente. ABI-RACHED ,Joelle M; ROSE, Nikolas .Historiciser les neurosciences (Historiar
as neurociências), 2014.
Para os professores, os responsáveis institucionais, os pais e até mesmo os alunos,
segundo Hélène Trocmé-Fabre, o ato de aprender é em geral posicionado em uma ____________. Apprendre aujourd’hui (Aprender hoje), Ed. Être et Connaître,
relação única de instrução e imposição. Falamos de transmissão e de aquisição de 1994 .
conhecimentos. Situamos o ato de aprender na sua relação com um informador ou
BATESON ,Gregory ; BATESON ,Mary Catherine. La peur des anges. Vers
uma informação como sendo exterior ao indivíduo. O conhecimento é considerado
une épistémologie du sacré (O medo dos anjos. Rumo a uma epistemologia do
como uma entidade existindo por si mesma e que pode ser tomado, transmitido tal
sagrado), Ed. Seuil, 1989.
qual, esperando que aquele que consideramos como destinatário seja receptivo. O
porquê da Unidade III foi justamente mostrar que a “informação” e “conhecimento”, MATURANA, Humberto; VARELA ,Francisco . L’arbre de la connaissance (A
o “saber” não existem por si mesmos. Árvore do Conhecimento), Addison-Wesley, 1994.

O que quisemos mostrar também, é que mesmo se o ato de aprender foi confiscado ____________. Réinventer le métier d’apprendre (Reinventar o Ofício de
pela Escola e o mundo educacional ele é antes de tudo um ato que pertence à Vida e aprender), Ed. d’Organisation, 1999.
a Vida nos mostra diariamente que, não somente não podemos aprender sozinhos,
nem compreender ou comunicar no lugar do outro, mas também e, sobretudo, TROCMÉ-FABRE, Hélène.J’apprends, donc je suis (Aprendo, logo existo), Ed.
que aprender não é da competência do receber, do dar como tal …, nem uma d’Organisation, 2002.
questão de “packaging”, ou de consumo. Aprender é um processo de criação de TURKLE Sherry . Seuls ensemble, de plus en plus de technologies de moins en
laços em nossa vida mental, afetiva, sensório-motor, neurológica. Esses laços são, moins de relations humaines (Sozinhos juntos, cada vez mais tecnologias, cada
fundamentalmente, complexos, transitórios, adaptáveis, dinâmicos e heurísticos. vez menos relações humanas), Ed. L’Échappée, 2015.
Quanto a “como utilizar as novas tecnologias?” Este constitui um ponto crucial, o nó WITTEZAELE Jean Jacques .L’homme relationnel (O homem relacional), Ed.
da história. O impacto dos avanços tecnológicos em nossa vida cognitiva ainda não Seuil, 2003.
mostrou realmente sua finalidade. A face escondida parece ser bem maior do que
a nossa percepção pode captar. A finalidade dessa Unidade, sobre esse assunto,
foi tentar levar o aluno/aprendente a ficar atento para atuar criticamente, porque é
somente explorando, questionando que será possível conhecer e compreender.

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