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06/01/2019 Estratégia de política externa de Bolsonaro representa graves riscos para o país | Opinião | EL PAÍS Brasil

ELEIÇÕES BRASIL 2018 ›

Estratégia de política externa de Bolsonaro


representa graves riscos para o país
Alinhamento com Trump enfraqueceria posição do Brasil no mundo
OLIVER STUENKEL

10 SET 2018 - 10:03 BRT

O candidato Jair Bolsonaro, durante um atoLOTERIA DEL NIÑOem Brasília, no dia 6 de setembro. EVARISTO SA (AFP)
de campanha
COMPRUEBE
SU NÚMERO

Com a campanha presidencial mais dramática e imprevisível desde 1989, agora


entrando em sua reta final, as propostas de política externa de cada candidato ainda
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recebem pouca atenção do eleitor. Isso é um erro. A política internacional impacta muito
mais a vida da população do que a maioria dos brasileiros tem a oportunidade de
observar. Há implicações diretas, que vão desde a economia e a segurança pública até o
combate à corrupção e a mudança global do clima.

As propostas de política externa do candidato Jair Bolsonaro, líder nas pesquisas,


merecem atenção especial por várias razões. Presidentes costumam enfrentar muitas
restrições no âmbito doméstico e ter mais liberdade na política externa, sobretudo
quando seus projetos internos dão errado —uma possibilidade real no caso de
Bolsonaro, cujo partido tem pouca representação no Congresso—. Isso se agrava pelo
fato de que Bolsonaro não se verá limitado pela longa tradição da política externa
brasileira —muito pelo contrário, sua identidade política é construída sobre a narrativa
da mudança radical. Além disso, o PSL não tem uma ideologia de política externa pré-
estabelecida dentro da qual Bolsonaro terá que operar.

Na frente econômica, Bolsonaro propõe um amplo programa de


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DE OLIVER liberalização, reduzindo as barreiras comerciais, reduzindo
STUENKEL ›
subsídios, acelerando negociações comerciais e privatizando
empresas estatais. No entanto, como ressalta Matias Spektor,
pouco indica que Bolsonaro será capaz de construir as alianças
necessárias para enfrentar poderosos grupos de interesse que
atualmente se beneficiam de subsídios e de uma economia
Com cenário global
adverso, próximo protegida —como, por exemplo, a indústria automobilística
Governo brasileiro brasileira.
terá que tirar leite de
pedra
Em recente entrevista à Globonews, seu vice, o general Hamilton
Mourão, prometeu escolher as pessoas mais qualificadas para
liderar cada ministério, assegurando que Bolsonaro romperia com a
prática tradicional de distribuição de cargos entre os partidos
aliados, marca registrada do presidencialismo de coalizão. Nem
Como lidar com um
Trump brasileiro Bolsonaro nem seu vice apresentaram um plano crível até agora
sobre como superar o velho sistema dominado pelo lobby de
segmentos privilegiados da sociedade. Como Bolsonaro também
LOTERIA DEL NIÑO
COMPRUEBE
promete adotar uma postura mais dura em relação a investimentos chineses —não
SU NÚMERO
necessariamente uma má ideia—, industriais apelarão ao instinto nacionalista de
Bolsonaro, evocando a ameaça chinesa na hora de pedir proteção especial.

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Na frente geopolítica, o candidato tem simpatia por Donald Trump e promete alinhar as
posições do Brasil com as dos Estados Unidos. Isso pode ser inteligente do ponto de
vista eleitoral, já que muitos adeptos de Bolsonaro também são fãs de Trump. Mas é
uma proposta arriscada por duas razões. Em primeiro lugar, Bolsonaro propõe a
liberalização econômica, enquanto Trump adotou a estratégia oposta. Se o assessor
econômico de Bolsonaro, Paulo Guedes, defende a privatização das estatais e a
globalização, Trump, por sua vez, tem ojeriza ao livre comércio.

Em segundo lugar, a política externa dos Estados Unidos sob Trump é errática e
imprevisível, e os países mais prejudicados são os tradicionais aliados, como México,
Canadá, Alemanha e Japão. Querer se aproximar de Washington neste cenário é
quixotesco e cheio de riscos. O governo dos EUA de Trump não é um aliado confiável.
Renega tratados que negociou (como o Acordo Nuclear com o Irã) e mostra-se ambíguo
em relação a pilares da ordem global, como o Artigo 5 da OTAN, o qual prevê que um
ataque armado contra um país membro será considerado uma agressão contra todos,
para ficar em dois exemplos apenas.

Como Trump, Bolsonaro tentará reduzir os compromissos internacionais do Brasil no


combate à mudança do clima e no âmbito dos direitos humanos. Os eleitores de
Bolsonaro o aplaudem. Para muitos deles, as instituições internacionais, e a ONU em
particular, são vistas como ameaças ao interesse nacional —ou uma “conspiração
socialista global”, como um eleitor de Bolsonaro a descreveu para mim recentemente.

No entanto, se o impacto para os Estados Unidos, que pode oferecer garantias militares
e acesso a um grande mercado de consumidores, for negativo, a adoção de uma posição
semelhante no Brasil teria consequências devastadoras para o país. Afinal, a reputação
brasileira baseia-se em grande parte em seu papel construtivo no apoio das regras e
normas, cruciais para a comunidade internacional enfrentar os desafios globais mais
urgentes. A retirada do Brasil dos debates sobre direitos humanos e mudanças
climáticas teria péssimo impacto em sua relação com outros países, sobretudo da
América Latina e da Europa.

Mas há espaço para alguma esperança. Diferentemente de outros ministérios, o


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COMPRUEBE
Itamaraty não pode ser tão facilmente aparelhado
SU NÚMERO com seguidores leais ao presidente.

Diplomatas poderiam tentar empurrar com a barriga iniciativas problemáticas até a


presidência de Bolsonaro passar. Da mesma forma, os crescentes problemas internos
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de Trump e o espectro de um impeachment nos Estados Unidos podem ajudar a


convencer Bolsonaro, se eleito, de que o alinhamento automático com Washington é
uma aposta arriscada em uma ordem mundial cada vez mais centrada na Ásia do século
XXI. 

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