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OLIVEIRA, Neusa Irma de.

EDUCAÇÃO PARA O SÉCULO XXI: Uma Expectativa Para a


Realidade Brasileira. Belo Horizonte: IPEMIG/FACEL, 2018. Especialização em Teologia.

RESUMO

Está destacado nesse trabalho o comum pensamento de três expoentes da história com
relação ao desenvolvimento histórico da educação e a previsão de um fim nada animador, se,
nas atuais circunstâncias. Como sabemos, um sábio não só evidencia cada ponto negativo de
um fato como dá, também, um direcionamento para que o objetivo final seja igualitariamente
alcançado. É, então, que a partir de um forte senso de democracia, apoiados numa dialética
rastreadora, expondo que política e educação estão intimamente interlaçadas, lançam às vias
de fato os passos para que o grande objetivo se efetive, ou seja, um mundo mais humano e
mais consciente. Apontam esses célebres homens para uma educação revolucionária baseada
numa pedagogia libertadora. Embora possa em alguns pontos parecer a idealização de um
mundo melhor, não é tão simples assim, Edgar Morin, Demerval Saviani, Paulo Freire até
aqui se mostraram incansáveis para que a visão funcional da educação ocupe o seu devido
lugar de valor na história e seja, pelo menos no atual século, a propulsão para um destino
comum muito mais nivelador e empático.

Palavras chaves: Educação, Ensino, Educação Brasileira, Educação para o Século XXI.
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1 INTRODUÇÃO

Termos como transdisciplinaridade e complexidade humana intertranscultural se


tornaram pauta de muitas reuniões no planejamento escolar. Essa proposta é inovadora,
aborda temas, que vamos e convenhamos, nunca foi do interesse de muitos, pois certamente,
isso favorece que uma classe emergente se estabeleça, e tal desinteresse justifica a escassez de
líderes e referências, nos dias de hoje, que possam ser seguidas ou até mesmo a falta em
alguns setores, evidenciando a mesmice elitista precursora de uma democracia quase utópica.

Esse trabalho foi elaborado diante da necessidade da educação de se adequar a tudo o


que acontece, seja num âmbito local, nacional ou internacional, e por que não dizer?
Intercontinental.

Ao observarmos os pensamentos e a teoria de filósofos e educadores, alguns dos quais


faremos menção, notamos o quanto estamos andando a passos lentos, em alguns momentos
até retrógrados. Apesar de sabermos tudo o que temos e precisamos fazer para um „mundo
melhor‟, chegamos a um ponto em que a prática mais justa e democrática para a nossa
existência em comum se tornou um árduo e moroso trabalho.

Pautamos nossas pesquisas em obras publicadas, vídeos de exploração do tema e sites


afins, onde podemos, ainda, encontrar um campo muito fértil de informação e debates, graças
à valorosa liberdade de expressão que tanto nos cabe.

Com relação ao tema pesquisado, sem dúvidas, temos muito que aprender e assimilar
em conformidade com a perspectiva de complexidade humana e transdisciplinaridade em suas
riquezas culturais. Afinal, estamos também na era da tecnologia, onde tudo se „linka‟. E, isso
quer dizer: relacionar, interligar, conectar. Sinônimos que devem ser ajustados em todos os
âmbitos do saber. E a internet não deixa por menos, explodindo em todas as direções com
suas teorias da informação e os sistemas e a cibernética. Produzindo polêmicas e
sensacionalismo, sobre até mesmo o que faz um grão de arroz!

A informação em tempo real, de tudo o que está acontecendo, destaca a instabilidade


do saber. A internet pode ser um excelente instrumento de aprendizagem, mas infelizmente as
informações que chegam até nós, nessa velocidade assombrosa, não são de todo confiável,
precisamos ser muito criteriosos e ensinar os educandos a serem cada vez mais seletivos com
tudo o que possa lhes achegar às mãos. O virtual é um campo de muita especulação,
sensacionalismo e „ganância‟ por status pessoal e uma maneira de altos ganhos, em que todos
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querem lucrar com isso. Vemos aí nesse exato momento sendo implantada a ideia da „moeda
virtual‟. Por isso, mais uma vez colocamos em evidência a necessidade dita por Morin (2015)
em Aprender a viver e Aprender a ensinar a viver. Sendo o papel do educador estimular o
aprendizado com o refinamento devido a cada conteúdo.

Fakes, boatos e desinformação propositada, são itens reguladores de especulações


inescrupulosas, mexendo com a ambição humana, descaracterizando a pessoalidade,
consequentemente, incriminando o ser coletivo.

As potencialidades, negativas e positivas, das informações em tempo real, através das


multimídias devem ser um conteúdo imprescindível na realidade escolar. Levando os
educandos a aprender a reconhecer, pelo conhecimento pertinente do qual já é portador, ou
pelo menos em vias de ser, o falsetto e os estigmas nocivos à condição planetária e
compreensão humana.

Como exemplo destacamos a „memeficação‟, que provoca os bullyings, e alimenta o


sensacionalismo. Traduzindo: É o indivíduo se escondendo do que ele é, e fugindo com medo
de se descobrir ou de que o descubram, carregando a máscara hipócrita da pós-modernidade,
se achando invisível. Haters.
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2 PERSPECTIVAS DA EDUCAÇÃO PARA O SÉCULO XXI

Tentaremos nas próximas linhas „trazer‟ para a nossa realidade, as ideias de Morin
contextualizando o seu entendimento dos Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro e
Complexidade humana à atualidade da educação brasileira. Os cinco passos de Demerval
Saviani, e o Método Freire de Alfabetização de Paulo Freire.

Vale ressaltar que esse trabalho não tem o intuito de rever tudo o que cada um disse e
muito menos acrescentar algo mais às suas palavras. Detemo-nos na perspectiva de cada um
para a Educação no presente século. Objetivamos que a visão de cada qual seja mais nítida
para a nossa realidade. Procuramos relacioná-las entre si, antevendo a possibilidade acional de
tudo o que disseram e aplicando ao atual contexto brasileiro de interação no ambiente escolar.

Pelo conhecimento, quando bem linkado e agrupado, tem-se a base para toda ação
humana, não um conhecimento simples e cru, mas aquele que pode ser exposto e nortear a
vida coletiva. No que diz que as disciplinas devem estar integradas e relacionadas objetivando
a visão do todo em toda a sua conectividade com a vida humana. Ocorre quando o homem
passa a ser visto de forma integral, numa conscientização dos Saberes, para que só assim
possa atuar numa formação específica mais apurada e sem os sobressaltos, inevitáveis, do dia
a dia pelo inesperado, ou incertezas, que advém do progresso e da consequente maturidade
humana.

Água, terra, ar e fogo. Fauna e Flora. O ser humano. Tudo deve ser respeitado numa
cosmovisão de refinada articulação. Nenhuma revolução foi ao acaso. Desde as revoluções
históricas, a industrial até as científicas. Tudo a ver com o homem, o conhecimento, a
sociedade.

O homem sempre teve uma identidade. Identidade humana. O porém da questão é que
sempre houve o „sentimento‟ de grandeza e ambição de poder: A classe dominante e a
dominada, de todas as formas, seja no sentido econômico, etnias ou status social, a pedigree
humana.

Os aprendizes devem saber como relacionar os conhecimentos pertinentes. Isso


evidencia de forma atroz o perigo da fragmentação sem a contextualização, para tanto se torna
tão premente a „unificação‟ do conhecimento sem „consumir‟ com as disciplinas!

Os patamares do individualismo e egocentrismo estão tomando níveis absurdos. A


socialização deve se iniciar no seio da família, desde o berço, com o mínimo de boas maneiras
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ao tratar e reconhecer tanto as pessoas de „fora‟ como no bom convívio diário com os de
„casa‟. Um indivíduo que não foi socializado, que não tem consciência do outro, vai
reproduzir outros semelhantes a ele.

Apesar de estarmos em pleno século XXI, nunca se imaginou que o racismo e o


preconceito tomasse um grau tão horrendo como o qual vemos hoje. Isso prova, mais uma vez,
que o homem não tem olhado para as suas origens, nem tem tido entendimento e
discernimento de sua existência num mundo grandioso de inumeráveis grandiosidades, que só
existe, ainda, por sermos espécie! Optam por ignorar que muitos têm lutado, lutas históricas, e
tantos demais dado as próprias vidas para erradicar esse mal da mente humana desde a sua
origem. O disparate de uma conscientização de raça „superior‟ atuando como raça soberana e
não apresentando nada a mais de si a não ser a cor de pele! Pois, cultura é questão de espaço
social e métodos, fato esse inquestionável.

O que temos visto é que o homem tem se voltado para o próprio umbigo, ignorando a
existência do outro, por vezes excluindo o outro, numa ilógica de reducionismo do ser,
tresloucada.

Certificamos, assim, a máxima importância da Educação, que deve ter sua visão
integral da realidade de vida global na terra, condicionando o homem não a pensar só em si,
no tal individualismo que nos trouxe o famigerado capitalismo, mas no pensar em „nós‟,
conceito este que Freire nos coloca muito bem. O mundo só é maravilhoso, e continuará
sendo, por causa do „nós‟. Morin (2002) destaca isto em seus estudos: o homem ternário,
espécie/indivíduo/sociedade.

Podíamos trazer à memória dizeres de tantos outros expoentes humanos que, também,
tanto se entregaram pela socialização e igualdade. Ícones brasileiros. Pensando a respeito
falaremos de Paulo Freire, um inovador, que mesmo em meio a tantas perseguições e
injustiças não pôde ser anulado de nossa histórica educação nacional. E, Dermeval Saviani
com sua polêmica Teoria da Curvatura da Vara. Além de tantos outros por meio da filosofia e
sociologia, e eméritos mestres que nunca se cansam de lutar pela causa. Todos concordantes
na primazia de reformular o modo de se relacionar de todos os atores na escola, educadores e
educandos, sistematizando, holisticamente, o desenvolvimento acadêmico, social, político,
cultural e educacional de toda uma sociedade ardente por algo mais. Algo que só a educação
pode alcançar e oferecer.
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2.1. Edgar Morin

“É preciso aprender sobre a condição humana, a compreensão e a ética,


entender a era planetária em que vivemos e saber que o conhecimento,
qualquer que seja ele, está sujeito ao erro e à ilusão", adverte Morin. (…) A
Educação teria a função de trazer a compreensão e fazer as ligações
necessárias para todo o sistema funcionar bem. Uso o verbo no condicional
porque acho que ela ainda não desempenha esse papel. O problema é que
nessa nave os relacionamentos são muito ruins.” (MORIN, 2006, entrevista
ao site Nova Escola)

Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro começa com o estudo do próprio


conhecimento, que segundo Morin é um problema-chave da vida que cerca o cidadão na era
planetária. A fragmentação e a redução institucionalizada do conhecimento colocam-nos
suscetíveis ao risco do erro, do engano pelas interpretações e traduções.

Assim, parafraseando esses Sete Pontos, podemos expô-los:

1. Necessitamos do reconhecimento de que o conhecimento é sempre tradução do real.


A cegueira do conhecimento está justamente em acreditar que a verdade caminha em uma
única direção, o que faz deixar de lado todas as possibilidades advindas do contexto social em
que vivemos se fazendo imprescindível acrescentar um circuito de religar os conhecimentos
uns com os outros, com vistas a uma educação autônoma para libertar a mente.

2. O segundo ponto é a pertinência dos conteúdos, para que levem a “apreender


problemas globais e fundamentais”. São precisos métodos ligados a um pensamento
pertinente, para que a visão de mundo construída seja a mais fiável possível. Um
conhecimento pertinente ao tempo atual deve reconhecer a possibilidade do erro e da ilusão,
encaminhar uma reforma do pensamento que religue os conhecimentos em todos os níveis de
ensino, para ambos os sujeitos: docente e discente. Para tal nível de conhecimento traz-se a
compreensão sobre transdisciplinaridade, sistema, causalidade circular, dialógica, estabelecer
um programa de ensino interrogativo, superando a fragmentação dos saberes.

3. Em seguida vem o estudo da identidade humana, entendida como unidade complexa


da natureza dos indivíduos. Está na proposição de uma educação que considere e ensine a
condição humana. Como objeto de estudo organizador de todo o ensino, a condição humana
pressupõe a lógica ternária de que o ser humano é espécie/indivíduo/sociedade, sendo cada
uma destas dimensões conectada uma à outra, por meio da grande narrativa histórica que
religa a contextualização de espécie, de indivíduo e de sociedade de cada um.
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4. Ensinar a compreensão humana é o quarto ponto e refere-se a abordar as relações


humanas de um ponto de vista global. O caminho vem pelo desafio de saber ensinar, a saber,
bem viver. É o civilizar a terra. Saber viver implica ter compreensão em duas direções: a
compreensão intelectual, capaz de dar conta da complexidade das relações entre texto e
contexto, global e local; e a compreensão humana, como abertura para o outro, empatia,
simpatia, saber o que o outro vive. Neste processo é primordial a identificação de humano
para com humano, uma relação intersubjetiva. Compreender o outro reflete a compreensão
que se traz a respeito de si mesmo.

5. O tópico seguinte é enfrentar as incertezas com base nos aportes recentes das
ciências. Viver é enfrentar as incertezas, os riscos, é confrontar-se com os outros, na busca de
compreender e ser compreendido. O ato de viver vai na contramão do sobreviver. A educação
enquanto processo humano necessita ensinar a viver, o que envolve a superação da atual
carência no ensino no que se refere a meditar, refletir, lidar com o inesperado para ter
consciência do risco das próprias escolhas diante da incerteza do viver o hoje. O que aparenta
ser verdade suscita dúvidas em virtude de teorias que já não se aplica mais ao contexto.

6. O aprendizado da condição planetária, sexto item, pede uma reforma de


mentalidades para superar males em comum. Contextualizando a época planetária, em que se
buscaria entender o nosso tempo, nossos dilemas e nossos desafios, e que não é suficiente
reduzir a um só a complexidade dos problemas importantes do planeta como a demografia, ou
a escassez de alimentos, ou a bomba atômica ou a ecologia. Tudo está inter-relacionado. É
preciso mostrar que a humanidade vive agora uma comunidade de destino comum.

7. Finalmente, uma ética global, baseada na consciência do ser humano como


indivíduo e parte da sociedade e da espécie. Aprender a viver e aprender a ensinar a viver
diante das incertezas possibilita a busca por novos caminhos que considerem uma antropo-
ética emergente e necessária a todo o processo educacional, construindo ao mesmo tempo a
cidadania terrestre e a democracia, a vida hominizada no planeta e a compreensão mútua,
entre si e com a sociedade.

Morin reitera, ao citar o que disse Karl Marx: “Qualquer reforma do ensino e da
educação começa com a reforma dos educadores.” afirmando que para que uma educação
alcance o objetivo a que se propõe, os primeiros a serem alcançados, e renovados, devem ser
os professores, pois são estes os que realmente participam da realidade educacional no
contexto de vivência e convivência.
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Esperamos que esse reconhecimento da importância do professor possa contribuir para


reflexões de proporções de maior profundidade na tomada de todas as decisões no que se
referir à Educação.

2.2. Demerval Saviani

”Via de regra tem-se a tendência a se desvincular os conteúdos específicos


de cada disciplina das finalidades sociais mais amplas.” (Saviani, 2008, p.64)

Saviani propõe os cinco passos do processo educativo evidenciando que não basta
apenas a identificação, ou nomenclaturas, dos ruídos percebidos na educação. É
imprescindível uma metodologia, e a apresenta da seguinte forma: 1º) prática social inicial; 2º)
problematização; 3º) instrumentalização; 4º) catarse e 5º) prática social final.

A prática social inicial é tida como o ponto de partida do processo pedagógico. Neste
passo professor e alunos trazem para o ambiente escolar todas as vivências e experiências que
já possuem sobre o conteúdo.

A problematização é quando as dúvidas são expostas e ocorre a discussão de questões


referente ao conteúdo proposto. Então, vislumbra-se o conteúdo em diferentes perspectivas
sociais. O „problema‟ passará por análises através de várias dimensões: conceitual, histórica,
social, política, teológica, etc.

A instrumentalização ocorre quando o aluno é equipado, pelo professor, de


ferramentas de pesquisa para que alcancem pela investigação, do histórico-sócio-cultural, as
soluções almejadas.

A catarse se dá quando os educandos, de posse da investigação, conseguem expor de


forma coerente o problema pesquisado e os respectivos processos de equalização, se tornando
um sujeito ativo e responsável na transformação social. É pela catarse que o professor saberá
se alcançou os objetivos pedagógicos propostos.

A prática social final é o momento em que o educando mostra que realmente aprendeu,
com as mudanças em seu comportamento pela absorção do conteúdo. Manifesta-se pelo
compromisso e pelas ações que o mesmo se dispõe a executar em seu cotidiano, seja no trato
familiar, na comunidade e em relação ao meio ambiente e até mesmo em suas escolhas
acadêmicas.
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Esta metodologia, denominada por Saviani de pedagogia revolucionária objetiva


tornar o aprendiz um participante ativo da construção do conhecimento e de transformação da
sociedade.

Ao falarmos da construção do conhecimento, o processo de ensino preconizado por


Saviani pauta-se, ao citar Marx, na dialética: prática-teoria-prática. Segundo ele, o método
dialético promove um aprofundamento na compreensão dos fenômenos, considerando a
magnitude e as contradições da realidade. “A visão dialética [...] nos arma de um instrumento,
ou seja, de um método rigoroso (crítico) capaz de nos propiciar a compreensão adequada da
radicalidade e da globalidade na unidade da reflexão filosófica” (SAVIANI, 2000, p. 18).
Desse modo, a prática “ganha coerência e tem sentido na medida em que ela é iluminada pela
teoria” (SAVIANI, 2010, p. 220).

Em suas considerações defende a tese de que a educação na prática social inicial


expõe a desigualdade, e na prática social final culmina na igualdade, onde se identifica o
nivelamento preconizado pela democracia. Ou seja, a especificidade de cada disciplina, numa
visão abrangente, colaborando com a relevância de caráter político-pedagógica da educação.

Por fim, queremos deixar aqui registrado a filosofal teoria do autor, quando se refere
aos desafios que, de certo modo, impediram a ação pedagógica histórico-crítica no Brasil.
Para ele são três estes desafios:

O primeiro é atribuído, ao que o autor denomina: ausência de um sistema de educação


no país. Para Saviani, a falta de um sistema educacional, sentida historicamente, gerou um
gigante deficit histórico que faz com que o Brasil seja um dos países com maior índice de
analfabetismo do mundo.

O segundo desafio está centrado na preocupação em propor uma nova teoria que vise à
transformação da prática, de modo atento ao fato de que a organização objetiva do trabalho
pedagógico pode estar articulada a outra teoria, diversa ou até mesmo oposta a essa nova
teoria. Então, para o autor, “o fato de não se atentar suficientemente para o modo como as
escolas estão organizadas acaba por inviabilizar a transformação pretendida” (SAVIANI, 2003,
p. 120).

O terceiro problema é o desafio da descontinuidade, no qual Saviani (2003) questiona


a implantação de programas educacionais que desconsideram os programas „implementados‟
por gestões anteriores e, portanto, quebram sequências, impedem a obtenção de objetivos,
impossibilitam o avançar.
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Saviani ainda afirma que “a educação é sempre um ato político.” (SAVIANI, 2000, p.
211), já que está ligada às características da sociedade servindo os interesses de uma classe
em detrimento de outras. A ideia de „educação-política‟ é mais um entre tantos outros pontos
em comum com os estudos de Freire e de Morin.

2.3. Paulo Freire

"Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar


das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do
outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao
aprender."(FREIRE, 2013, p. 25)

No Brasil e no mundo, Paulo Freire é referência da educação libertária e libertadora,


seja na educação popular, o foco principal de sua prática pedagógica, seja na educação em
geral. No processo de aprendizado propõe aos aprendizes que se apropriem da escrita e da
palavra para se politizarem, tendo uma visão de totalidade da linguagem e do mundo. Expõe
com maestria: “A educação é política.” (FREIRE, 2013, p.108). É, conforme o MEC, o
Patrono da Educação Brasileira desde 2012. Pelo seu livro Pedagogia do Oprimido traduzida
em mais de 20 idiomas, tornou-se referência para o entendimento da prática de uma
pedagogia libertadora e progressista. Freire quando fala em pedagogia, mostra o entendimento
que vai além de quatro paredes. Uma pedagogia que revela contexto de opressão social e de
falta de democracia, defendendo o pensamento de que toda educação é política, assim como
toda política é educativa, que não existe neutralidade (Freire, 2013).

No conceito de pedagogia para a libertação, Paulo Freire caracteriza duas concepções:


a concepção „bancária‟ e a concepção „problematizadora‟. Na primeira, o saber é uma doação
dos que se julgam sábios aos que nada sabem que se tornam, ao final, meros depósitos do
conhecimento „alheio‟. Na educação problematizadora, educador e educando integram um
mesmo processo, numa relação dialógico-dialética, onde prevalece o diálogo, a troca de
informações, a interação de saberes, produzindo maior conhecimento.

Freire distingue a teoria antidialógica da teoria dialógica, ao destacar que o educador


revolucionário não pode usar os mesmos métodos e procedimentos antidialógicos de que se
servem os „opressores‟. Com maestria nos deixa uma excelsa lição: “Estudar não é um ato de
consumir ideias, mas de criá-las e recriá-las.” (FREIRE, 1982, pp.9-12)

2.3.1. O Método

O método Paulo Freire está estruturado em três etapas:


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1) Etapa de Investigação: aluno e professor buscam, no universo vocabular do aluno e


da sociedade onde ele vive, as palavras e temas centrais de sua biografia.

2) Etapa de Tematização: aqui eles codificam e decodificam esses temas, buscando o


seu significado social, tomando assim consciência do mundo vivido.

3) Etapa de Problematização: aluno e professor buscam superar uma primeira visão


mágica por uma visão crítica do mundo, partindo para a transformação do contexto vivido.

Ao expor “que o pensar do educador somente ganha autenticidade na autenticidade do


pensar dos educandos, mediatizados ambos pela realidade, portanto na intercomunicação.”
(FREIRE, 1987, p. 64), fica explícito o grande alcance que a educação tem e pode ter.

Em seu livro Educação como Prática da Liberdade (2017, 40 ed.), Freire propõe a
execução prática do Método em cinco fases, a saber:

1ª fase: Levantamento do universo vocabular através de tema/palavras gerador(as) da


realidade dos alunos, que é decodificada para a aquisição da palavra escrita e da compreensão
do mundo. Essa fase se constitui num importante momento de pesquisa e conhecimento do
grupo, aproximando educador e educando numa relação mais informal e, portanto, mais
carregada de sentimentos e emoções.

2ª fase: Escolha das palavras selecionadas do universo vocabular pesquisado. Esta


escolha deverá ser feita sob os critérios: a) da sua riqueza fonética; b) das dificuldades
fonéticas, numa sequência gradativa das menores para as maiores dificuldades; c) do teor
pragmático da palavra, ou seja, na pluralidade de engajamento da palavra numa dada
realidade social, cultural, política etc.

3ª fase: Criação de situações existenciais típicas do grupo com quem se vai trabalhar.
São situações desafiadoras, cotidianas, codificadas e carregadas dos elementos que serão
decodificados pelo grupo com a mediação do educador. São situações locais que, discutidas,
abrem perspectivas para a análise de problemas locais, regionais e nacionais.

4ª fase: Elaboração de fichas-roteiro(planejamento) que auxiliem os coordenadores de


debate no seu trabalho. São fichas que deverão servir como subsídios, mas sem uma
prescrição rígida a seguir.

5ª fase: Elaboração de fichas(conteúdo pertinente) para a decomposição das famílias


fonéticas correspondentes aos vocábulos geradores. Esse material poderá ser confeccionado
na forma de slides, vídeos de curta duração ou cartazes.
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Freire transmite em suas teorias a necessidade de reflexão crítica em sala de aula,


despertar a curiosidade, gerar inquietação e incerteza, ao aproximar educador e educando,
desvendando as motivações e fomentando a curiosidade epistemológica. Dizia “Minha
segurança se funda na convicção de que sei algo e de que ignoro algo, a que se junta à certeza
de que posso saber melhor o que já sei e conhecer o que ainda não sei.”. (FREIRE, 2013,
p.135). Uma grande e simples lição.
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3 UMA EXPECTATIVA PARA A EDUCAÇÃO BRASILEIRA

A congruência dos dizeres desses três expoentes da filosofia e educação se destaca, em


comum e se complementando, em vários momentos.

Quando Morin fala de conhecimento, Saviani expõe o ponto social inicial e Freire
completa, dentro da etapa investigação, com o modo de proceder para que a realidade de vida
dos pares se encontre no pensar dialético e dialógico.

No momento do conhecimento pertinente de Morin, Saviani fala de uma detida análise


do contexto social e individual; Freire aponta para a tematização, na decodificação e
codificação de temas para que os pares não se percam na generalização, mas tragam o real
significado social tomando assim consciência do mundo em que está inserido.

Ao falar da identidade humana, Morin destaca o relacionamento ternário de


espécie/indivíduo/sociedade, Saviani na sua problematização conduz a uma assimilação de
métodos experimentados nos passos da pesquisa e consequente progresso intelectual humano,
enquanto isso Freire mostra a premência de se superar aquela primeira visão mágica de
mundo idealizado. Vemos nesse ponto que o aluno se identificando, passará a ter um
posicionamento crítico consciente no decorrer da sua socialização, em todos os aspectos.

Pela compreensão humana preconizada por Morin, onde os pares devem se


compreender se identificando pela comunicação empática, podemos pelo quarto passo de
Saviani, perceber que os educandos se expõem ao conteúdo apreendido de uma maneira tão
coerente e consciente, que já é capaz de „encaixar‟ todo o conhecimento adquirido à realidade
contextual de toda a sociedade e progresso da humanidade. Freire nos diz nesse momento
sobre o grau de ascensão à visão crítica do mundo. Na verdade, o alcance da devida
compreensão humana recai sobre a tal e afamada democracia.

Morin, devido a era digital e „multimidiática‟ que vivemos, nos traz à memória as
revoluções históricas, de toda ordem em todos os saberes, seja: científico, teológico, empírico
ou filosófico, quando em todo o momento fomos surpreendidos pelo inesperado ao qual
tivemos que nos adaptar e evoluir, para galgarmos intrincáveis degraus de superação. Saviani,
em seu quinto passo, fala da capacidade de visualizarmos, entender e gerirmos os problemas
sendo capazes de propor soluções e participando de forma relevante para a transformação
social. Freire fala da não neutralidade, apontando para uma prática que se eleva para a
libertação da opressão predominante em nossa sociedade.
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Incontestável como tudo converge na condição planetária e antropo-ética. Nesse


ponto Morin destaca que os problemas por fim, são um só. A boa educação é uma base sólida
que determinará as soluções no devido tempo da vida e consciência de morte, em toda a
humanidade. Um cidadão do mundo consciente da moral e da ética leva a uma concepção de
responsabilidades pessoais e sociais, democráticas, fortalecendo as relações indivíduo e
sociedade, solidários e comprometidos uns com os outros, é quando Morin questiona:
Seremos capazes de civilizar a Terra?. Então, Saviani apresenta a sua pedagogia
revolucionária, onde o empenho recai sobre colocar a educação a serviço da referida
transformação das relações de produção, para que se possa construir uma sociedade
igualitária. Já Freire em seu livro Pedagogia do Oprimido diz “educador e educando
interagem saberes, produzem conhecimento”, desvendando uma pedagogia libertadora e
progressista, que revoluciona o pensar e o agir, tornando o cidadão consciente de si mesmo,
do seu par, e do respirar planetário.

Enfim, a grande expectativa está em que o foco principal deve ser o Educador. Tudo
deve começar com ele e terminar nele, afinal, sendo um valoroso formador de opinião, são os
primeiros a receber o depósito inestimável da confiança dos pupilos. Sem o devido
investimento e reconhecimento todo e qualquer esforço, para uma educação libertadora
estruturada em bases confiáveis, serão meros acenos e nunca ações fundamentadoras.
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4 CONCLUSÃO

Filosofar é preciso. Mas, estamos num tempo que o filosofar não pode sobrepor o agir.
Como diz esses grandes pensadores o momento agora é o de civilizar a terra. No que tem o
nosso total apoio, pensando no futuro de nossos filhos.

Expusemos os sete saberes de Morin: Conhecimento; Conhecimento Pertinente;


Identidade Humana; Compreensão Humana; Incerteza; Condição Planetária; Antropo-ética;

Os cinco passos de Saviani: Prática Social Inicial; Problematização;


Instrumentalização; Catarse; Prática Social Final;

As três etapas do Método Freire: Investigação; Tematização; Problematização;


Alinhados com as cinco fases para execução prática, não nomeadas, porém, elencadas e
subordinadas às três etapas em destaque.

Ao analisarmos essas três formas de pensamento e exposição teóricas podemos


perceber os traços que se fundem, apenas colocados em palavras diferentes. Cada um no seu
contexto de vida e de carreira. Seja na observância de uma micro ou macrovisão.

Primamos por um futuro mais humano, igualitário e desenvolvido, não pelas riquezas
materiais acumuladas, ou descobertas tecnológicas, mas pela autenticidade de nos vermos
espécie humana, responsáveis uns pelos outros e por todo o eco sistema, o que passa a ser
uma vultosa ideologia a ser seguida quando posta em ação. E, a educação tem tudo a ver e a
haver com isso.

Que a educação, no mínimo, possa dar um start coerente para os futuros protagonistas
desse tempo. Valha-nos uma educação, deveras, muito mais bem articulada, em conformidade
com tudo o que foi dito pelos nossos pesquisadores, supracitados, num único dizer.

4.1. Palavras finais

Talvez, alguns dos leitores estejam se questionando qual a finalidade de um


seguimento de pesquisa nessa linha, visto que a área de conhecimento para a qual se objetiva
a certificação seja o Teológico. Respondemos, com transparência: Muitos estudos e pesquisas
na área de saber Teológico costuma provocar um desinteresse, e ousamos dizer, até mesmo
certo desdém.

Pretendemos, inclusive, mostrar com esse trabalho que o fundamento de uma pesquisa
busca o enfoque principal de esclarecer, acrescentar e quebrar tabus que tanto atrapalham um
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limpo processo de pesquisa científica. É a pujança da Educação para o Século XXI, que vimos
estudando até o momento. Podemos até afirmar que muitos estudiosos ainda não concluíram
suas próprias teses, justamente, por não admitirem o que o conhecimento teológico tem a dizer,
e, que tantos outros que chegaram à conclusão não obtiveram exatamente um merecido
reconhecimento, por suas árduas investigações, por esse mesmo motivo. Pelo que a maioria se
deteve duplamente no conhecimento „empírico‟ de forma tão natural, pessoal e enraizada que,
para si, classificaram o saber Teológico como: dispensável para o momento.

O fundamento teológico é muito conciso e consistente com todo o que se refere à


humanidade, e mundo, desde a sua origem. Não tem como falar de educação deixando de lado
esse pilar do Conhecimento. Um teólogo responderá centrado em seus conhecimentos de
Deus e a tudo que Lhe diz respeito, é verdade. Porém, se utilizando inclusive de tudo o que os
outros Saberes possam dizer contra ou a favor, nas mais diversas perspectivas que se lhe possa
achegar. Enquanto isso, tantos experts se favorecem do saber Teológico de forma, um tanto
superficial, voltados mais a uma releitura do saber Empírico.

Vemos na Educação Brasileira, devido a sua origem de cunho religioso e tendencioso,


diga-se de passagem, a forma como o saber Teológico é mantido à distância. Tanto, que esse
saber foi colocado na penumbra e trancado num quarto de objeções quanto à sua permanência
na Base Nacional Comum Curricular. Isso prova que já distamos demais do real significado
dos dizeres onde se fala sobre um Estado Laico. Ora, Laicidade é um direito.

Declaramos que o saber Teológico é capaz de responder a todos os questionamentos


que se apresentem, de forma direta e despretensiosa, assim como o faz a Filosofia, Sociologia,
Psicologia e demais ciências. Exibe-se uma errônea interpretação generalizada desse
conhecimento. Excetuando-se, quem sabe, alguns poucos que, ao se permitirem, atingiram
outro nível de entendimento, por terem rastreado a Soberana Sabedoria. Por que não
mencionar nesse momento: Einstein, Newton e até Galilei?

Que nossa elocução possa contribuir, alavancando uma nova visão sobre cada um dos
intrincáveis Saberes, visão esta que seja responsável por grandes descobertas e definições
jamais vistas. No entendimento do aspecto antropo-ético dissecado por Morin(2015).

O autor.

“Deus fez os céus e a terra. Porém, a terra deu-a aos seres humanos. Para que se
multipliquem e a administrem.” (Paráfrase do salmo 115.14-16, Bíblia Sagrada)
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Submetido: 29∕05∕2018

Aprovado: 28∕06∕2018