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Capa

JOANA REIS - MELO E CASTRO

O PROVEDOR QUE DIZIA SIM A DEMOCRACIA

PREFÁCIO DE JOÃO BOSCO MOTA AMARAL

O homem que sonhava

com a mudança de regime,

sem revolução

Badana da capa

Este livro conta a história de vida de um homem que fez carreira no


quadro político do Estado Novo, um apoiante de primeira linha de Marcello
Caetano, arrojado, inquieto e destemido, empenhado numa evolução para a
democracia, sem revolução, semelhante àquela que veio a cumprir-se em
Espanha, com Adolfo Suárez.

Bem colocado para ser peça chave nesse processo de transição, pela
proximidade que tinha com o Presidente do Conselho, Melo e Castro foi o
mentor da "Ala Liberal" no Parlamento e o seu desaparecimento prematuro
foi um dos factores determinantes para o bloqueio de qualquer abertura do
regime.

O livro percorre os vários cargos que ocupou no Estado Novo, com destaque
para os anos em que foi subsecretário de Estado da Assistência Social de
Salazar, mas mostra sobretudo a vasta obra e a marca que deixou como
provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, onde criou novas
receitas, levou a cabo projectos marcantes, formou profissionais e
motivou colaboradores, tudo sob o signo da justiça social e de uma visão
pragmática, reflectida, mas sem rodeios ou perdas de tempo, pouco comum à
época.

Dos ensinamentos do colégio dos Jesuítas aos anos de boémia como


estudante na Universidade de Coimbra, aqui se conta o percurso de vida
entrelaçado com episódios da História, mas também se revelam alguns
dissabores e nalguns casos guerras acesas, a mais grave das quais o
obrigou a deixar a Misericórdia faz agora cinquenta anos.
Badana da contracapa

JOANA REIS

natural de Sintra e nascida em 1980, é jornalista na secção de política


da TVI desde 2004. Licenciada era Comunicação Social e Cultural péla
Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, fez
igualmente um mestrado em Ciência Política pelo Instituto de Estudos
Políticos da mesma instituição. Publicou em 2010, na Casa das Letras, o
livro A Transição Impossível: a Ruptura de Francisco Sá Carneiro com
Marcello Caetano.

Contracapa

"Encontrei uma história bem portuguesa, onde se mistura a tradição dos


lanifícios da região da Covilhã, a expulsão dos Jesuítas do país, a
Coimbra dos estudantes e à política, onde se crescia a partir dos núcleos
regionais do "partido único" do regime. Mas ao mesmo tempo um homem que
marcava sempre a diferença por dizer frontalmente o que pensava, por
perseguir o mundo civilizado, impaciente com a falta de acção. Foi
advogado, governador civil, deputado, subsecretário de Estado da
Assistência e juiz conselheiro do Tribunal de Contas. Defendeu um "estado
social" quando a expressão era desconhecida de quase todos, e destacou-sé
sobretudo como provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa."

"Melo e Castro foi o homem escolhido por Marcello Caetano para liderar a
União Nacional, num período especialmente marcante, o das eleições de
1969, em que muitos portugueses acreditaram numa "Primavera", capaz de
abrir o regime."

Página de rosto

Joana Reis

MELO E CASTRO

O Provedor que Dizia sim à Democracia


Ficha Técnica

ISBN 978-972-46-2162-3

(c)Joana Reis, 2013

Direitos reservados para Portugal

Casa das Letras

uma marca da Oficina do Livro - Sociedade Editorial, Lda.

uma empresa do grupo Leya

Rua Cidade de Córdova, 2

2610-038 Alfragide

Tel.: 21 041 74 10, Fax: 21 471 77 37

E-mail: info@casadasletras.leya.com

www.casadasletras.leya.com

Revisão: Ayala Monteiro

Capa: Margarida Rolo / Oficina do Livro, Lda.

1.a edição: Abril de 2013 Depósito legal número 355 785/13

Pré-impressão: Júlio de Carvalho - Artes Gráficas Impressão e acabamento:


Multitipo - Artes Gráficas, Lda.

Joana Reis escreve de acordo com a antiga ortografia.

"Nas vitórias da caridade não há vencidos. Vence quem dá e vence quem


recebe"

José Guilherme de Melo e Castro

ÍNDICE

Prefácio......................................... 11

Introdução....................................... 13
1. A infância na Covilhã dos lanifícios.................. 17

2. Educado pelos Jesuítas ........................... 23

3. Os tempos em Coimbra .......................... 29

4. Da Universidade para a vida profissional.............. 39

5. A chegada ao Governo de Salazar................... 51

6. O provedor bem-amado .......................... 65

7. O discurso da ruptura, pedindo democracia ........... 79

8. Depois da Misericórdia........................... 85

9. A União Nacional e os convites para as eleições de 69 87

10. A Ala Liberal.................................. 105

11. Em família e entre amigos........................ 117

Anexos ......................................... 125

Agradecimentos .................................. 145

Bibliografia ...................................... 149

Página com foto de Melo e Castro

PREFÁCIO

Tem vindo a aumentar, em Portugal, o interesse pelas biografias e é cada


vez mais frequente a edição de estudos do género sobre personalidades com
percursos significativos, remotas no tempo ou mesmo nossas
contemporâneas. Até de pessoas vivas saem agora biografias, obviamente
apontando para um volume posterior com referência àquilo que personagens
tão destacadas não deixarão de realizar ainda ao longo da vida...

Joana Reis estreia-se agora como biógrafa de José Guilherme de Melo e


Castro, valorizando os créditos de investigadora firmados com o seu
trabalho académico sobre Francisco Sá Carneiro e a Ala Liberal.

É outra vez o período de transição do Estado Novo para a democracia,


iniciada com a Revolução do 25 de Abril, a despertar a curiosidade da
Autora.
José Guilherme de Melo e Castro teve papel relevante na primeira fase do
consulado de Marcello Caetano, na altura esperançosamente designada de
"primavera marcelista".

Designado presidente da Comissão Executiva da União Nacional, com a


missão de preparar as eleições para a Assembleia Nacional previstas para
o final de 1969, Melo e Castro protagonizou a tentativa de abertura do
regime, numa linha de liberalização democrática.

A Autora traça, com precisão, a carreira política de Melo e Castro,


iniciada no âmbito da ditadura autoritária. Ele entra em cena
identificado com a ideologia do salazarismo dominante, exercendo funções
de confiança em lugares sucessivamente mais elevados da política e da
Administração, mas vai progressivamente assumindo posições críticas que o
distanciam e lhe fazem mesmo perder as graças do poder instituído.

Terão sido as fortes preocupações sociais do biografado, a avaliar por


aquilo que descreve a Autora, a ditar a sua evolução política. A essas
não foi alheia a sua convicta formação e prática católicas, testemunhadas
também na sua vida profissional e familiar.

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José Guilherme de Melo e Castro revelou-se um homem de espírito aberto,


sensível à injustiça inscrita nas grandes desigualdades sociais que
marcavam o Portugal do seu tempo e que infelizmente reaparecem agora, num
patamar diferente, mas nem por isso menos chocantes e até com
ressonâncias trágicas.

A sua admiração por um serviço nacional de saúde, segundo o modelo


britânico, traduziu-se em estudos e sugestões com impacto incipiente.
Como provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, empenhou o seu
dinamismo e a sua forte personalidade numa eficaz acção em benefício dos
mais desprotegidos, crianças e idosos, entre a população da capital.

Especialmente corajoso foi o apelo directo ao velho ditador, em discurso


proferido em sessão solene da Assembleia Nacional, para que deixasse o
lugar a alguém com novas ideias e energias, para uma transição que se lhe
afigurava imperiosa nas mudadas circunstâncias do nosso país, da Europa e
do mundo.

Salazar deu resposta a aspirações de tal género no famoso discurso de


Braga, nos 40 anos do 28 de Maio. Mas a ordem natural das coisas estava
afinal do lado de Melo e Castro e dos que, dentro e sobretudo fora do
regime, desejavam implantar em Portugal a liberdade e a democracia.

Joana Reis descreve com vigor o entusiasmo do seu biografado na tarefa


assumida de liberalizar o regime. E também as dificuldades e
incompreensões encontradas, as hesitações e zangas de Marcello Caetano e
a travagem por ele imposta na formação do grupo de futuros deputados
liberais e nos compromissos a acertar com eles.

Realizadas as eleições, imediatamente se percebeu que o tempo de Melo e


Castro tinha passado. A Ala Liberal vai manter um duro combate com os
ultras, enfurecidos logo com a primeira e, salvo erro única, intervenção
de Melo e Castro na Legislatura da Assembleia Nacional, anunciando a
substituição do Estado Novo pela nova era do "Estado Social Marcello
Caetano". (Francisco Sá Carneiro havia de corrigir, lembrando que o
Estado Social não tem dono...). Mas já não contará com Melo e Castro, que
se afasta, consumido pela doença e pelo desgosto.

Na biografia de José Guilherme de Melo e Castro, da autoria de Joana


Reis, revisita-se um período de cansaço e de inquietação, mas também de
busca e de esperança, no qual estavam já germinando as sementes de Abril.

João Bosco Mota Amaral

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INTRODUÇÃO

Quando, há dois anos, comecei a abrir portas que me permitiram entrar no


mundo de José Guilherme de Melo e Castro, para tentar perceber a sua
história de vida e a que deixou no país, o ponto de partida era o único
motivo que fazia subsistir o seu nome numa ou outra vaga referência. Melo
e Castro era um adepto confesso da democracia, apesar de ter sido membro
de um Governo de Salazar, e puxou quanto pôde Marcello Caetano para a
abertura e transição do regime, tarefa onde foi interrompido por uma
doença que o derrotou de forma prematura.

Encontrei uma história bem portuguesa, onde se mistura a tradição dos


lanifícios da região da Covilhã, a expulsão dos Jesuítas do país, a
Coimbra dos estudantes e a política, onde se crescia a partir dos núcleos
regionais do "partido único" do regime. Mas ao mesmo tempo um homem que
marcava sempre a diferença por dizer frontalmente o que pensava, por
perseguir o mundo civilizado, impaciente com a falta de acção.

Foi advogado, governador civil, deputado, subsecretário de Estado da


Assistência e juiz-conselheiro do Tribunal de Contas. Defendeu um "estado
social", quando a expressão era desconhecida de quase todos, e destacou-
se sobretudo como provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Foi
aí que marcou a diferença e deixou obra. Criou receitas novas na área dos
jogos, modificou serviços e modernizou processos, soube motivar pessoas
e, acima de tudo, projectou o Centro de Reabilitação de Alcoitão, criando
para isso o Totobola, que serviu para o financiar. Ciente da importância
dos serviços que seriam prestados naquela instituição, soube encontrar
maneira de a suportar financeiramente e acautelou a formação, no
estrangeiro, dos profissionais que lá iriam exercer funções.

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Da infância e adolescência ficaram-lhe os ensinamentos do colégio de


Jesuítas que frequentou à distância de casa, por via da expulsão do país
das ordens religiosas que a I República levou a cabo. E, ao entrar na
idade adulta, não passou ao lado do espírito boémio, da vida académica
que se vivia em Coimbra, nos anos 30 do século XX. Aí viveu o extremo das
emoções, com sustos políticos, imbróglios académicos, amizades profundas
para-o resto da vida, uma suspensão da universidade por seis meses, a
presidência da Associação Académica quando o clube dos estudantes venceu
a sua primeira Taça de Portugal, tudo isto a par de um percurso como
aluno feito de coração dividido em dois: entre o curso dos seus sonhos, a
que se dedicou fazendo disciplinas ao sabor do tempo livre de que
dispunha, e o curso que o seu pai entendeu ser o mais adequado e que
viria a concluir sem grande distinção, mas com espírito de missão
cumprida, e que lhe abriu não só as portas do mercado de trabalho, mas
que viria a ser determinante na procura da justiça social que sempre o
norteou.

Melo e Castro foi o homem escolhido por Marcello Caetano para liderar a
União Nacional, num período especialmente marcante, o das eleições de
1969, em que muitos portugueses acreditaram numa "primavera" capaz de
abrir o regime.

Melo e Castro foi o mentor da chamada Ala Liberal no Parlamento, cujos


membros viriam a ter importância decisiva no pós-25 de Abril, ocupando
lugares cimeiros na criação de partidos políticos em Portugal.

Foi sem dúvida um precursor da democracia no país. Se não tivesse sido


afastado da política, primeiro, de certa forma, por Marcello, depois pela
doença, teria provavelmente sido bem-sucedido na legalização dos partidos
políticos e na negociação e diálogo com a oposição ao regime, capaz de
suportar uma transição pacífica.

Adivinha-se um enfant terrible dentro das apertadas malhas do Estado


Novo, enfeitiçado pela democracia. Os seus discursos provam isso mesmo e
várias vezes deixaram a plateia que o ouvia em suspenso, graças a
críticas arrebatadas ao então estado de coisas, que pareciam colocá-lo ao
lado dos ensejos da oposição, para no minuto final fazer o regime
respirar de alívio, doseando a declaração com uma ou outra palavra de
elogio. Era uma forma

14
subtil de dizer tudo o que queria e pensava, uma certa habilidade para
saber pisar o risco.

Mas houve momentos em que o fez de forma mais ousada e evidente, como no
40.° aniversário da revolução nacional, no final do ano de 1966, em que,
perante o próprio Salazar, defendeu a necessidade da substituição deste.
Melo e Castro ainda viria a gracejar com o sucedido, mas os defensores
acérrimos do regime não mais deixaram de desconfiar das suas intenções,
considerando-o nitidamente inconveniente ao pedir a retirada de Salazar
da cena política. Passaram a chamar-lhe "o garoto do Totobola".

Cedo empenhado na vida cívica e política do país, homem de convicções


fortes e espírito desempoeirado, o seu percurso é também revelador de um
momento da história - retrato que agora se pretende resgatar.

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Página em branco

Capítulo 1

A INFÂNCIA NA COVILHÃ DOS LANIFÍCIOS

A família era da Covilhã e foi lá que nasceu José Guilherme Matos Rato de
Melo e Castro, em 1914.

Nasceu em casa, como era costume da época, numa construção rica de grosso
pinho nórdico, terminada em 1910, e que foi uma espécie de dote que a mãe
de Melo e Castro recebeu dos pais, família com fortuna, natural de
Manteigas.

A casa ainda lá se ergue, com a traça original, na freguesia de Nossa


Senhora da Conceição, paredes meias com a igreja com o mesmo nome,
sobrevivente de toda uma área ocupada pelo Convento de São Francisco, que
um incêndio destruiu há mais de um século.

Foto: Aspecto actual da casa de Melo e Castro, na Covilhã

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Foto: Aspecto actual da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, na Covilhã

José Guilherme nasceu exactamente dois meses antes d eclodir da Primeira


Guerra Mundial, num dia 28 de Maio. Era primeiro filho do casal
Guilhermino de Melo e Castro e Maria do Nascimento Matos Rato de Melo e
Castro. Depois nasceriam ainda Raul, que morreu em criança, e Ana Maria,
nove anos ma nova do que Melo e Castro e de quem este foi sempre muito
próximo. Nota 1.

Uma família de católicos, que se distinguia em termos d educação e de


valores, ligada à indústria dos lanifícios, com um fábrica muito
conceituada pela qualidade dos tecidos que utilizava. O pai de José
Guilherme era um profissional bem-sucedido e, na Covilhã desse tempo,
isso era suficiente para o colocar na classe dominante. Provedor da
Misericórdia da Covilhã a longo de sete anos, era uma pessoa muito
estimada por todo: correcto e bem-disposto, conhecido também pela sua
simpatia; Já a mãe estava em casa, como a maioria das senhoras daquele

Nota 1 - Raul Cunha Matos Rato de Melo e Castro era o irmão mais novo de
José Guilherme. Tinha menos três anos do que ele. Ana Maria de Melo e
Castro Mourão nasceu em 1923 e permaneceu na Covilhã até aos 17 anos,
altura em que veio estudar enfermagem para Lisboa. Depois disso,
regressou à Covilhã, onde ficou até ao fim da vida. Morreu em 1965.

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tempo. Viviam bem, como atestavam o piano de que dispunham na sala, ou o


cofre-forte que se encontrava no escritório de

Guilhermino.

José Guilherme fez a instrução primária no Asilo da Infância Desvalida,


onde funcionava uma escola, com professores criteriosamente escolhidos,
que reuniam sob o mesmo tecto as crianças mais ricas e as mais pobres da
região. Para além da aprendizagem da leitura e escrita, sucessivas
gerações ali estudaram história, geografia, aritmética e ciências
naturais, mas também educação cívica, desenho e até noções rudimentares
de agricultura.

Inicialmente previsto para esse local estava um asilo, inaugurado em


1871, mas a falta de utentes determinou que se terminasse com o asilo e
que este fosse substituído por uma escola, destinada à instrução
primária, e por uma biblioteca. Nota 2

Os tempos de criança passou-os José Guilherme na Covilhã, onde o seu pai


era proprietário da fábrica de lanifícios Guilhermino de Melo e Castro.
Na família, aliás, o negócio tinha já tradição, através da Fábrica Velha,
a maior fábrica de lanifícios que existia na época e durante largos anos
a maior empregadora de toda a região. Fundada, em 1835, como Campos Melo
& Irmão, Limitada, dispunha de fabrico completo, cardação, penteação,
fiação e tecelagem, tendo-se especializado na lavagem de lãs e
tinturaria. Nota 3 Mas Guilhermino era ainda muito novo quando vendeu as
suas quotas da Fábrica Velha.

Com o dinheiro que recebeu dessas quotas e cora o espírito empreendedor


que o caracterizava criou a sua própria firma, a G. Melo e Castro, onde
viria a trabalhar até aos 83 anos.

Tratava-se de uma pequena tecelagem, com 12 teares, que se tornou muito


conceituada pela boa qualidade dos tecidos para senhora, dos casacos de
Inverno e dos vestidos de lã. Era uma fábrica de referência em termos de
qualidade, que funcionava

Nota 2 - Os estatutos da escola e da biblioteca foram aprovados por


alvará do Governo Civil, de 22 de Dezembro de 1904. A escola viria a
funcionar até 1968.

3 Nos anos 40 do século XX, a Campos Melo era uma empresa modelo a nível
nacional, altura em que adquiriu, no âmbito do Plano Marshall, o mais
moderno lavadouro de lãs do país, com capacidade para lavar 2000 quilos
de lã, por hora. Note-se que esta fábrica formou largas dezenas de
técnicos e operários especializados, alimentando a indústria local e
nacional.

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numas dependências ao lado da Fábrica Velha, já que Guilhermino tinha


ficado com direito a usar parte das instalações.

Em Julho de 1938, a firma passaria a chamar-se G. Melo e Castro


Companhia, quando Guilhermino deu sociedade a Manuel Lourenço, um técnico
covilhanense, debuxador, como então se chamava ao responsável pelos
desenhos.

O negócio era muito rentável, o que permitia à família de José Guilherme


destacar-se e deter um certo estatuto. A G. Melo e Castro nunca foi, no
entanto, uma fábrica grande, ao contrário da chamada Fábrica Velha, a que
se dedicou um outro ramo da família e que ficava mesmo ao lado da fábrica
de Guilhermino. A filha de Melo e Castro ainda recorda os catálogos com
as novas tendências que vinham de países longínquos e as idas do avô
Guilhermino à Escócia, para escolher e comprar lãs, que misturava com as
da Covilhã.
Conhecida por ser a terra da indústria da lã, a Covilhã funcionava como
porta de entrada para a serra da Estrela. Eram muitos

Foto: José Guilherme em criança com o pai,

Guilhermino de Melo e Castro, em 27-03-1921,

já depois de ter morrido o irmão, Raul

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Foto: Retrato de Guilhermino de Melo e Castro, na galeria dos provedores


da Misericórdia da Covilhã

os operários que trabalhavam na indústria dos lanifícios e ainda

mais os jovens, filhos de camponeses, que, ainda noite escura,

faziam vários quilómetros, acompanhados de uma sacola com a

merenda, para ir trabalhar nas fábricas.

Depois, havia algumas, mas poucas, famílias tradicionais, cujos

filhos iam estudar para Coimbra, tal como viria a acontecer com

Melo e Castro.

Nesta Covilhã das primeiras décadas do século XX, marcada

por invernos rigorosos, passou José Guilherme a sua infância,

numa época em que, por ali, pouco acontecia, como testemunhou um dos seus
conterrâneos, o escritor António Alçada Baptista, para quem "na
província, naquele tempo, o tempo era assim um rio parado que escoava
pelas margens e ficava entornado pela terra mole" Nota 4 Tão parado que a
família de Melo e Castro, como algumas outras da região que viviam
igualmente de forma desafogada, optou por enviá-lo, aos dez anos, para o
colégio dos

Jesuítas, frequentado pelas elites e que, por esse tempo, se situava

fora de Portugal.

Nota 4 - António Alçada Baptista, Peregrinação Interior - o Anjo da


Esperança, Volume II, p. 201.
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Página em branco

Capítulo 2

EDUCADO PELOS JESUÍTAS

A adolescência de Melo e Castro foi passada longe da família, por força


do colégio interno onde deu entrada, mas também à distância da terra que
o viu nascer, já que as suas instalações ficavam em território espanhol.
Uma circunstância que se explica, numa fase inicial, por força do advento
da República, que obrigou à expulsão dos Jesuítas de território
português.

O colégio nasceu ainda no século XIX, em Campolide, Lisboa, como Colégio


de Maria Santíssima Imaculada, mas o exílio forçado levou os Jesuítas a
refugiarem-se na Bélgica e a instalarem-se nos arredores de Bruxelas. A
escola passou a chamar-se Instituto Nun'Alvres, na esperança da protecção
do herói nacional.

Os alunos vindos de Portugal ainda mal se tinham habituado ao antigo


palácio que na Bélgica os acolhia quando o eclodir da Primeira Guerra
Mundial fez com que os Jesuítas tivessem de procurar nova localização
para poderem continuar a sua tarefa educativa. Escolheram Los Placeres,
em Espanha, país vizinho de Portugal, que manteve neutralidade face ao
conflito de 1914-18. Acontece que, pouco tempo depois, os padres jesuítas
espanhóis que tinham fundado o Colégio de l'Apostolo Santiago, numa
pequena povoação frente a Caminha, decidiram mudar-se para Vigo,
disponibilizando-se para alugar aos portugueses o imóvel que ia ficar
vago.

A partir de Setembro de 1916, o Instituto Nun'Alvres instalou-se nas


imediações de La Guardia, nome que se tornou famoso entre os portugueses,
que durante décadas lhe chamaram Colégio de La Guardia. Nota 5 Apesar de
a instituição permanecer

Nota 5 - Só a partir de 1932, o colégio regressou ao país de origem,


instalando-se nas Caldas da Saúde, em Santo Tirso, onde mantém actividade
até aos dias de hoje.

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em terras espanholas, havia a clara vantagem de estar separado de
território português apenas pelo rio Minho. E foi precisamente aqui que
José Guilherme estudou, entre 1924 e 1930, sob dois lemas essenciais: fé
e patriotismo.

A escolha dos Jesuítas como educadores fazia todo o sentido no Portugal


de então. Como refere António Alçada Baptista, também ele antigo aluno do
Instituto Nun'Alvres, "as pessoas que, na sociedade portuguesa, pelo seu
dinheiro ou por outras formas de influência, poderiam exercer formas
gerais ou locais de poder eram formadas e assistidas pelos Jesuítas.
Ainda sou do tempo em que se considerava ser sua "missão específica" a de
preparar e formar as "elites intelectuais" a quem caberia a condução dos
grandes interesses nacionais". Nota 6

A instituição tratava da formação cristã, humanística e científica dos


alunos vindos de Portugal e apostava essencialmente numa "sólida formação
moral, literária e científica" Nota 7 Tais propósitos convenceram e
entusiasmaram um número crescente de pais, que foram escolhendo este
colégio para os filhos. Se, em 1921, La Guardia tinha 160 alunos, em 1927
havia já subido para 264, um número que correspondia à capacidade máxima
do colégio e que levou a que muitos pedidos de admissão tivessem sido
rejeitados.

Era um colégio interno e muito fechado, em que a maioria dos alunos só ia


a casa nos períodos do Natal e da Páscoa. Também os professores e os
outros funcionários eram internos, com os Jesuítas a chamarem a si todo o
trabalho docente, existindo apenas um ou outro professor externo.

Melo e Castro era o aluno número 42, como atestam os arquivos da


instituição, preenchendo os seus dias com aulas, ginástica, horas de
estudo e de oração. Dormia em camarata própria, onde fazia a sua cama,
salvo quando havia muda de roupa.

Brincalhão e com uma alegria de viver evidente, as suas diabruras haviam


de ficar na memória de alguns dos padres do colégio, que anos mais tarde
ainda o recordavam, como "danado, aquele Rato...".

Nota 6 - António Alçada Baptista, Peregrinação Interior - Reflexões sobre


Deus, Volume I, p. 37.

Nota 7 - Anuário de 1924-1925 do Instituto Nun'Alvres, p. 21.

24

Página 25 com foto do colégio em La Guardia e a Capa do Anuário de 1924-


25.
Um dia-tipo neste colégio interno orientado pelos Jesuítas portugueses
começava às seis da manhã e era todo preenchido com o cumprimento
escrupuloso de horários. Havia, naturalmente, hora própria para cada
aluno se levantar, tomar banho, fazer as refeições, ter aulas e ir
dormir, mas também vários momentos do dia para se dedicarem ao estudo, à
ginástica ou ao recreio, sem esquecer algumas horas reservadas para
orações, missa e terço.

Aos domingos, mesmo não havendo aulas, o dia estava longe de ser livre.
Havia oportunidade para começar o estudo às 8 e 45, ou seja, um pouco
mais tarde do que nos restantes dias da semana, e um período de tempo,
durante a manhã, para pôr a correspondência em ordem, reservando-se uma
parte da tarde para as aulas de catecismo.

Nos dias feriados, a rotina também pouco se alterava, havendo apenas a


possibilidade de os alunos se poderem levantar meia hora mais tarde (às
seis e meia da manhã) e de haver um eventual passeio ao início da tarde.

Eram célebres as representações de inúmeras peças teatrais por altura do


Carnaval, um período vivido intensamente pelos alunos, considerada a
época mais divertida do ano no instituto.

No rol das tradições, contavam-se ainda, ano após ano, as festas da


Imaculada Conceição (comemorada, em toda a cristandade, a 8 de Dezembro
desde 1476, com o Papa Sisto IV) e os saraus teatrais.

Todos os anos havia também um retiro de três dias, em que os alunos


meditavam e rezavam. Esses dias começavam com missa e eram dominados pelo
silêncio e pela introspecção, apenas cortados pelas leituras espirituais,
pelas orações colectivas e espontâneas. Alçada Baptista, antigo aluno do
colégio, não esqueceu a mensagem que lhes era dirigida nesse momento e
relatou-a numa das suas obras: "Olhai, caros alunos, agora, nestes três
dias, ides mergulhar no silêncio das vossas almas. Ides abrir-vos à voz
do Senhor. Ides estar atentos às suas divinas ordens, saber o que de vós
se espera, o que de vós exige para estardes ao seu serviço." Nota 8

Nota 8 - António Alçada Baptista, Peregrinação Interior - o Anjo da


Esperança, Volume II, pp. 353-354.

26

Dispondo de biblioteca, laboratórios e todas as infra-estruturas


pedagógicas, o período de 1924 a 1927 ficou marcado por ampliações do
edifício, sobretudo ao nível dos dormitórios, que, por esta altura,
tinham já atingido a sua capacidade máxima. E foi também no tempo de Melo
e Castro como aluno que chegou a luz eléctrica a La Guardia, deixando
para trás a iluminação a gás.

Não terão sido, no entanto, estas "inovações" a impressionar o jovem José


Guilherme, mas antes os retiros espirituais e os ensinamentos da
Companhia de Jesus, que consolidaram a educação recebida numa família
muito católica. Os Jesuítas pregavam, aliás, obediência total à doutrina
da Igreja Católica, de acordo com a máxima do seu fundador, Inácio de
Loyola: "Acredito que o branco que eu vejo é negro, se a hierarquia da
Igreja assim o tiver determinado."

La Guardia era um colégio só para elites, que fornecia uma educação


formal, mas onde não faltavam as pregações de desapego dos bens
materiais, da bondade e da pequena caridade para com o próximo. O apoio
aos mais carenciados mereceu sempre uma atenção especial por parte dos
Jesuítas, mas também por parte dos próprios alunos, sobretudo dos mais
velhos. Uns e outros visitavam semanalmente os pobres da região.

Melo e Castro mostraria ao longo de toda a sua vida, como se verá mais
adiante no seu percurso profissional, como esta prática o influenciou.

No imediato, José Guilherme interiorizou uma convicção que em La Guardia


se ensinava e que Antero de Quental já dizia numa das suas cartas: "O
carácter é metade do talento." E determinado, como sempre mostrou ser,
aos 15 anos fez o sexto e o sétimo anos num só, depois de no ano lectivo
de 1924-25 ter figurado entre os alunos mais premiados, já que obteve a
segunda Grã-Cruz da Ordem de Mérito Nun'Alvres, o que significa que, ao
longo do ano, terá acumulado dezenas de condecorações semanais.

Mas os Jesuítas discordaram da ideia de cumprir dois anos num só,


alegando que José Guilherme era novo de mais para entrar na faculdade,
pelo que acabou por realizar esses exames em Lisboa, no Liceu Pedro
Nunes, como mostram os documentos da respectiva secretaria, entregues
mais tarde na faculdade para

27

efeitos de admissão e onde pode ler-se que concluiu a sexta e sétima


classes conjuntamente, no ano lectivo de 1929-30, depois de os
professores daquele liceu Francisco José da Piedade Costa e Rodrigo de
Lemos o terem considerado habilitado a fazer os exames desses dois anos.

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Capítulo 3

OS TEMPOS EM COIMBRA
Feito o exame em dose dupla, Melo e Castro seguiu para a Universidade de
Coimbra, onde, aos 16 anos, foi admitido no curso de Direito.

Nesse ano lectivo de 1930-31, os pais "confiaram-no" a José Soares da


Fonseca, natural de Seixo Amarelo, freguesia não muito longe da Covilhã e
finalista do curso de Direito, para que fosse uma espécie de seu tutor.
Soares da Fonseca era já nessa altura presidente da Juventude
Universitária Católica e director do Centro Académico de Democracia
Cristã (CADC). Nota 9 Mais tarde viria a ser ministro das Corporações e
homem da inteira confiança de Salazar, funcionando como um verdadeiro
informador, que intervinha directamente junto de alguns deputados para
manipular o debate parlamentar a favor dos interesses do Governo.

Soares da Fonseca tinha prestígio, colaborava nos jornais católicos da


época, era um monárquico assumido, conservador, mas parece nunca ter
impressionado José Guilherme, que preferiu não se aproximar muito do
"protector" que os pais lhe indicaram.

Fez o primeiro ano sem percalços e, depois disso, a par do curso,


inscreveu-se em várias cadeiras da Faculdade de Letras, em Coimbra, já
que tinha uma paixão pela área histórico-filosófica. Mas o pai de Melo e
Castro discordava em absoluto desta opção, considerando que as saídas
profissionais eram demasiado limitadas, servindo essencialmente para uma
carreira na diplomacia para a qual acreditava que o filho não teria a
menor

Nota 9 - José Soares da Fonseca entrou ainda na lista monárquica que, em


1929, ganhou as eleições na Associação Académica.

29

apetência, tendo em conta que dizia frontalmente tudo o que pensava.


Ameaçando cortar-lhe a mesada, o dinheiro para as propinas e obrigá-lo a
ir trabalhar de imediato, Guilhermino acabou por convencer o filho a
terminar a licenciatura em Direito, embora José Guilherme tenha ao mesmo
tempo completado várias disciplinas de Histórico-Filosóficas ao longo dos
anos que frequentou Coimbra.

A reforma, de 1928, na Universidade de Coimbra estabeleceu um curso geral


de quatro anos, seguido de um curso complementar de um ano, com direito a
duas variantes: Ciências Jurídicas ou Ciências Político-Económicas. No
final, era exigida aos alunos uma dissertação para obtenção da
licenciatura, que visava, por um lado, enriquecer a formação dos
estudantes, mas também fomentar o gosto dos alunos pela investigação
científica.
Melo e Castro escolheu a variante de Ciências Jurídicas e terminou a
licenciatura com uma tese que consistiu num "Breve Estudo sobre os
Conflitos das Leis Reguladoras dos Contratos quanto à Substância e quanto
aos Efeitos".

Foto: Melo e Castro, com a capa de estudante, em Dezembro de 1939. Foto,


com dedicatória, oferecida a Miquelina e Adelino Matos, como "testemunho
duma amizade tão sincera como inalterável"

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Se, em La Guardia, o jovem Melo e Castro estava entre os alunos mais


premiados, na universidade as notas em Direito foram sempre apenas
razoáveis, como mostra o seu percurso académico:

Ano lectivo 1930-31

Direito Português - classificação: bom Direito Civil - classificação:


medíocre (Conclui o l.° ano de Direito)

Ano lectivo 1931-32

Direito Civil - classificação: suficiente Economia Política -


classificação: medíocre Inscrição, na Faculdade de Letras, em Psicologia
Geral, História de Portugal 1, História da Antiguidade Oriental, História
da Antiguidade Clássica e História da Filosofia Antiga (Conclui o 2.° ano
de Direito)

Ano lectivo 1932-33

Não se lhe conhecem inscrições em Direito, matriculou-se em História da


Filosofia Antiga e Psicologia Geral, na Faculdade de Letras

Ano lectivo 1933-34

Processo Civil e Comercial - classificação: suficiente Finanças -


classificação: medíocre (Conclui o 3.° ano de Direito)

Ano lectivo 1934-35

Direito Civil - classificação: suficiente

Direito Internacional Privado - classificação: bom


Direito Penal - classificação: suficiente - admitido à prova oral

Inscrição, na Faculdade de Letras, em História da Antiguidade

Oriental, História da Antiguidade Clássica, História da Filosofia

Antiga, Psicologia Geral, Geografia Humana e Epigrafia

Ano lectivo 1935-36

Aprovado nas provas escritas das disciplinas do 4.° ano com a


classificação de suficiente, com 11 valores, ficando assim com o grau de
bacharel em Direito.

31

Inscrição, na Faculdade de Letras, em História da Filosofia Medieval,


História de Portugal, História Medieval, Teoria do Conhecimento,
Paleografia e Diplomática.

Ano lectivo 1936-37

Direito Civil - classificação: suficiente Direito Internacional Privado -


classificação: suficiente Direito Penal - classificação: suficiente.

Repete o exame nas disciplinas que constituem o 4.° ano da Faculdade de


Direito e é aprovado com a classificação de suficiente, com 12 valores,
no grau de bacharel em Direito. Inscrição, na Faculdade de Letras, em
História Moderna e Contemporânea, História dos Descobrimentos,
Metodologia, História da Filosofia Medieval e História de Portugal.

Ano lectivo 1937-38

Inscrição, na Faculdade de Letras, em História da Filosofia Medieval,


História dos Descobrimentos, História da Civilização, Psicologia
Experimental e Geografia Humana

Ano lectivo 1938-39

Concluídos os exames escritos e orais, é aprovado com a classificação de


suficiente, com 13 valores, ficando com o grau de licenciado em Ciências
Jurídicas.
A estada de quase uma década em Coimbra esteve longe de servir meramente
para Melo e Castro se embrenhar nos livros de Direito. Na cidade dos
estudantes, despertou a sua consciência social católica, mas também
política e associativa, ou não fosse Coimbra o berço do CADC (Nota 10),
movimento estudantil democrata cristão.

Nota 10 - Desde finais do século XIX que o movimento social católico da


democracia cristã se vinha implantando em Portugal, sob orientação de
Francisco José de Sousa Gomes, conhecido lente da Universidade de
Coimbra, onde leccionava Química. Em Março de 1903, nascia o Centro
Académico de Democracia Cristã.

A criação da União Nacional veio trazer algumas dificuldades ao CADC,


porque Salazar, que anos antes tinha feito parte, juntamente com
Cerejeira, da direcção do Centro Católico, em Coimbra, considerou-o
"inconveniente para a marcha da ditadura", recomendando que se tornasse
apenas um "organismo dedicado à acção social". Viria ser, pelos estatutos
de 1958, "uma associação de actuais e antigos estudantes católicos, que
tem por fim a formação católica dos seus sócios e o apostolado, sobretudo
no meio académico".

32

Melo e Castro dirigiu a revista Estudos, que era editada pelo CADC desde
1912, e que durante os anos 20 serviu os propósitos da luta pela
liberdade religiosa, fazendo frente à campanha anticlerical que se tinha
instalado no país, na sequência da implantação da República e da
perseguição à Igreja.

Na sua passagem por Coimbra, Melo e Castro foi igualmente o responsável


pela reedição do jornal académico Via Latina (Nota 11), em 1937.
Juntamente com Miller Guerra e Joaquim Duarte de Oliveira, foi o
responsável pelo número único comemorativo do IV Centenário da
Universidade, que se debruçou sobre diferentes temas, das fases cruciais
da Universidade, aos primeiros anos da República, da vida dos caloiros à
transferência definitiva da Universidade, de Lisboa para Coimbra,
realizada por D.João III, em 1537.

Mais destacada viria a ser, no entanto, a sua função como presidente da


Associação Académica de Coimbra (Nota 12), a mais antiga e destacada
associação de estudantes de Portugal, ainda hoje uma das maiores
associações estudantis mundiais.

Melo e Castro foi o estudante escolhido, em 1937/38 e em 1938/39, para


presidir a comissões administrativas nomeadas pelo Ministério da Educação
Nacional, ou seja, directamente pelo Governo e previamente aprovadas pelo
reitor da Universidade de Coimbra e já não escolhidas livremente pelos
estudantes,
Nota 11 - A revista tinha nascido em 1889, como "folha semanal" ou
semanário académico, e custava 20 réis. A publicação foi depois suspensa
durante cerca de 30 anos, tendo surgido uma II Série em 1924, com a
designação de Revista de Estudantes de Coimbra. Esta nova tentativa de
revitalizar a revista não teve, no entanto, grande sucesso e, uma vez
mais, foi preciso esperar vários anos para que fosse reeditada. Melo e
Castro surge, pois, à frente daquela que foi considerada a terceira vida
da revista, uma III Série, em Dezembro de 1937.

Só a partir de 1941 a Via Latina passou a ter publicação regular, como


órgão da Associação Académica de Coimbra, a que, aliás, Melo e Castro
tinha já presidido, de 1937 a 1939.

Nota 12 - Em 1937-38, a direcção de Melo e Castro incluía também Carlos


Augusto de Azevedo Mendes Dinis da Fonseca, José Gualberto Ferreira
Neves, Carlos de Sousa e Joaquim Duarte de Oliveira, que era director
desportivo. Nessa altura, foi também nomeado um conselho desportivo
formado por Carlos de Melo Freitas, Ernesto de Pinho Guedes Pinto e
Teixeira Lopes.

Já nos anos de 1938/39, a equipa de Melo e Castro era composta por Emílio
Eugénio de Oliveira Mertens, João Augusto da Fonseca e Silva, Cariolano
Albino Ferreira, Dario Martins de Almeida, Luís Augusto Garcia e, como
director desportivo, José Maria Antunes Júnior.

33

como acontecera até 1936 (Nota 13). O que não deixa de ser curioso,
atendendo ao facto de, em Julho de 1935, lhe ter sido aplicada uma pena
de seis meses de suspensão da Universidade, na sequência de um processo
disciplinar por falta de respeito para com os professores Beleza dos
Santos e Pires de Lima (Nota 14), ambos conhecidas personalidades naquele
meio académico, que exerceram cargos na Faculdade de Direito, tendo
também sido delegados do procurador da República.

As festas do IV Centenário do Estabelecimento Definitivo da Universidade


de Coimbra, que decorreram de 6 a 10 de Dezembro de 1937, deram a Melo e
Castro enorme visibilidade e destacado protagonismo.

As comemorações arrancaram às quatro da tarde do dia 6 de Dezembro de


1937, com o içar da bandeira nacional e de 24 bandeiras estrangeiras no
pátio da Universidade, sem que tenha faltado o tradicional entoar de
hinos, o repicar dos sinos e até desfiles da Mocidade Portuguesa, da
Legião Portuguesa e da banda da Polícia de Segurança Pública.
O próprio presidente da Assembleia Nacional, José Alberto dos Reis,
juntou-se às comemorações e, no jantar de gala, Melo e Castro, na
qualidade de presidente da Associação Académica, discursou quer perante
ele, quer perante o ministro da Educação Nacional, Carneiro Pacheco, e
alguns delegados estrangeiros. No final, a bandeira da Associação
Académica foi condecorada

Nota 13 - Em Novembro de 1936, quando se esperava uma vitória da lista


republicana presidida por Eduardo Correia, o Governo da ditadura proibiu
a eleição e nomeou, em portaria publicada no Diário do Governo, a
primeira comissão administrativa da Associação Académica. Esta comissão
foi nomeada pelo Governo para os anos de 1936-37 e era presidida por João
Pedro Miller Guerra, estando Melo e Castro entre os dirigentes - uma
lista constituída quase apenas pelos estudantes que pertenciam à facção
direitista. Foi a primeira de várias comissões nomeadas directamente pelo
Ministério da Educação Nacional, que substituíram, durante 11 anos (1936-
1947), as direcções até então escolhidas livremente pelos estudantes.

Nota 14 - Actas das Congregações da Faculdade de Direito, 1933 a 1947,


volume 12, fls. 30v-31 (30 de Julho de 1935), onde pode ler-se que o
conselho votou por unanimidade a pena de suspensão ao aluno José
Guilherme Rato de Melo e Castro. Os docentes em causa eram o Prof. José
Beleza dos Santos, que leccionava Direito Civil, Direito Criminal e
Processo Penal, e o Prof. Fernando Andrade Pires de Lima, que leccionava
Direito Civil, Direitos Reais, Direito Internacional Privado e Direito da
Família e das Sucessões. Pires de Lima viria ainda a ser ministro da
Educação Nacional, entre 1947 e 1955, e ocupou interinamente a pasta da
Justiça.

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Foto: A equipa de futebol da Académica de Coimbra, com Melo e Castro.

Em pé: Almeida, Octaviano, Pezeta, Gomes, Tibério, Melo e Castro,

Cunha, Henrique Anjos, Faustino e Zé Maria. Em baixo: Cipriano,

Machado, Carneiro, Teixeira e Santos

com a Comenda da Ordem de Santiago da Espada. Tudo ao som de aplausos aos


membros do Governo e vivas ao Estado Novo.

Ainda durante os mandatos de Melo e Castro à frente da Associação, a


Académica (Nota 15) venceu a final da primeira Taça de Portugal da
história, em 1939, uma vitória de 4-3 sobre o Benfica, o que viria a ser
uma das maiores glórias desportivas da Académica.

É também durante a sua presidência da Associação Académica, logo em 1937,


que se difundiu o célebre "F-r-á..., F-r-é..., F-r-i..., F-r-ó..., F-r-
u... Frá, fré, fri, fró, fru; Chi-ri-bi-bi-tá-tá-tá-tá; Hurra!. Hurra!",
graças a um grupo de estudantes brasileiros que estagiou em Coimbra,
instalado nas repúblicas.

Nota 15 - Nesta altura, jogavam pela Académica apenas estudantes e, na


época de 38/39, estes conseguiram terminar o Campeonato Nacional da 1 .a
Divisão em quinto lugar. Três semanas depois disputariam a primeira Taça
de Portugal. Depois de ter eliminado o Sporting, a Académica defrontou em
Lisboa, no Campo das Salésias, a 25 de Junho de 1939, o Benfica para a
final. De regresso a Coimbra, a equipa foi recebida em delírio no Largo
da Portagem.

Melo e Castro ficou amigo sobretudo de Tibério Barreira Antunes, guarda-


redes, e de José Maria Antunes Júnior, defesa-direito, ambos finalistas
na Faculdade de Medicina.

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Bon vivant e com gosto pela paródia, Melo e Castro participava


activamente nas praxes académicas e, na família, ainda hoje se fala de
algumas partidas e de como comemorou sucessivas vezes a conclusão do
curso. Alguns excessos acabariam por valer-lhe sérios problemas com a
Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, quando foi detido, juntamente
com mais quatro estudantes da faculdade, em Março de 1939, acusado de
gritos subversivos.

No auto de captura lê-se que Melo e Castro e os amigos terão gritado, às


quatro e meia da manhã, em plena Ponte de Santa Clara, "viva o comunismo,
viva a anarquia, abaixo Salazar e o Estado Novo", para além de terem
imitado cães a ladrar.

O sucedido causou estranheza nas autoridades policiais porque se tratava


de pessoas conhecidas e consideradas afectas ao regime, sobretudo Melo e
Castro, à época presidente da Associação Académica e que teria
participado, em 1 de Dezembro de 1936, naquela mesma cidade, num comício
de propaganda anticomunista. (Nota 16)

Nas declarações prestadas, como arguidos, os cinco estudantes


justificaram-se com o excesso de álcool. Melo e Castro contou que ceou no
Café de Santa Cruz com alguns amigos e que, em seguida, tendo ficado um
pouco alegres, correram as ruas da Baixa, fazendo "inofensivas
demonstrações de alegria". Depois, para não perturbar a ordem,
continuaram as brincadeiras no Parque da Cidade e na Ponte de Santa
Clara, mas Melo e Castro tratou de rejeitar quaisquer intenções políticas
e subversivas.

Acabaram por ser postos em liberdade, depois de se terem afirmado


verdadeiros defensores do Estado Novo, mas ficou dada como provada a
acusação de gritos subversivos que sobre eles recaía, ainda que o excesso
de álcool tenha sido a causa apontada.

Nos documentos, consta ainda que a polícia suspeitava de represálias, por


parte de Melo e Castro, por causa de um anterior conflito entre este e
guardas da PSP, do qual resultou um auto então enviado ao poder judicial
civil e militar. Um episódio que parece ficar a dever-se ao facto de
alguns alunos terem sido impedidos de fazer exame por se suspeitar que
eram do Partido

Nota 16 - Nessa altura, Melo e Castro tinha ficado referenciado na PIDE


como adepto dos nacionais-sindicalistas, "para cuja doutrina se inclinou
no discurso proferido em tal sessão".

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Foto: "Os cães", as brincadeiras de estudante nos anos 30. Melo e Castro
é o terceiro a contar da direita

Comunista, o que ia pôr em causa o aproveitamento escolar dos alunos.


Melo e Castro não só os defendeu, como se ofereceu para ir preso no lugar
deles!

Os tempos de estudante em Coimbra foram também aqueles em que nasceram as


mais sólidas amizades de Melo e Castro. Lá conheceu Miller Guerra, Filipe
Charters de Oliveira, Domingos Braga da Cruz e outros tantos amigos,
alguns dos quais viriam a inscrever os seus nomes no quadro das
personalidades que marcaram o século XX português.

João Pedro Miller Guerra foi dos amigos mais próximos de Melo e Castro,
embora fosse dois anos mais velho e frequentasse o curso de Medicina.
Partilharam tarefas na direcção do CADC, ambos presidiram à Associação
Académica (Miller Guerra em 1936/37, Melo e Castro nos anos seguintes,
até 1939). Em conjunto, desenharam ainda estratégias a partir das quais
pretendiam alcançar desenvolvimento e justiça social para o país, a
partir dos corredores da Assembleia Nacional, depois de Miller ter
aceitado o desafio que o amigo José Guilherme lhe lançou, nas eleições de
1969.

Outro grande amigo dos tempos de Coimbra foi Filipe Charters de Oliveira,
que com Melo e Castro fez a tropa e trabalhou em diferentes ocasiões:
Charters foi seu secretário no Governo Civil de Setúbal e, mais tarde,
seu adjunto na Misericórdia de Lisboa.

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Foto: José Guilherme com o seu grande amigo, João Pedro Miller Guerra, em
1938

Já Domingos Braga da Cruz, que viria a ser destacado cirurgião e provedor


da Santa Casa da Misericórdia do Porto (Nota 17), não pertencia à mesma
geração, mas foi em casa de um familiar seu que Melo e Castro viveu nos
seus anos de estudante em Coimbra: Rosa de Sousa Gomes, que alugava a sua
casa, na Rua da Matemática, a estudantes universitários. Uma espécie de
residência universitária, cujo capelão era Manuel Gonçalves Cerejeira.

Ao lado de alguns destes amigos, como Miller Guerra, as brincadeiras e o


bom humor tornaram-se quase imagem de marca, como quando acabou o curso e
saltou para uma mesa no meio de um café, não contendo a sua alegria. Uma
história não muito diferente de outra que protagonizou em casa dos
futuros sogros da irmã, quando decidiu dançar sevilhanas em cima de uma
cadeira de palhinha, que rapidamente se partiu.

Nota 17 - Domingos Braga da Cruz foi governador civil do Porto, nos anos
50, e provedor da Misericórdia, também no Porto, durante vários mandatos
(1959-61, 1962-64, 1970-72 e 1980-81). O seu percurso profissional
cruzar-se-ia múltiplas vezes com o de Melo e Castro. Numa primeira fase,
quando era governador civil do Porto, Melo e Castro, então na Assistência
Social, marcava presença em cerimónias oficiais enquanto representante do
Governo. E, anos mais tarde, quando ambos foram deputados na VI e VII
Legislaturas, mas também quando os dois coincidiram no cargo de provedor
da Santa Casa da Misericórdia, um em Lisboa, outro no Porto. Colaboraram
ainda de perto quando Domingos foi vogal da Comissão Executiva da União
Nacional, presidida por Melo e Castro.

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Capítulo 4

DA UNIVERSIDADE PARA A VIDA PROFISSIONAL

Quando saiu de Coimbra, Melo e Castro veio para Lisboa exercer advocacia.
Foi também por esta altura que cumpriu o serviço militar. Fez a recruta
em Mafra, como alferes miliciano de infantaria, não por gosto, já que
esta era uma realidade que pouco ou nada lhe dizia. Estava disponível,
sim, para as brincadeiras, anedotas e boa disposição, os exercícios
militares não passavam de uma obrigação como cidadão e duraram muito
pouco tempo.

O seu cartão de militar foi emitido pelo Ministério da Guerra, em 29 de


Maio de 1944, e a partir de 26 de Outubro desse ano já José Guilherme
dava os primeiros passos nas funções de governador civil de Setúbal.

Foi designado para o cargo pelo então ministro do Interior, Botelho


Moniz, o mesmo que seria, anos mais tarde, nomeado ministro da Defesa e
depois, indignado com a intransigência do regime face à descolonização,
viria a liderar uma tentativa frustrada de golpe de Estado.

De caneta e bloco em punho, andava pelas ruas, inclusive nos bairros de


lata, para poder ver de perto a falta de condições de higiene em que
vivia boa parte da população. Com a ajuda do fotógrafo Américo Ribeiro e
das fotografias por este tiradas, tentava sensibilizar o Governo,
defendendo a necessidade urgente de acabar com as barracas, que aos
poucos foram dando lugar a casas dignas desse nome.

Em Setúbal, onde foi governador civil até 29 de Abril de 1947, tornou-se


conhecido pela simpatia com que atendia todos quantos o procuravam e por
ter sido o responsável pelo arranque dos projectos, e mais tarde
construção, de casas para operários

39

e para a classe média. Foram disso exemplo os bairros Presidente Carmona,


dos Pescadores e de Nossa Senhora da Conceição.

Os laços afectivos que criou, era especial com Santiago de Cacém,


valeram-lhe, em Setembro de 1969, a atribuição da Medalha de Ouro do
concelho, que pretendia galardoar aqueles que, pela sua acção meritória,
dessem, de alguma forma, um contributo para o prestígio e enriquecimento
do concelho de Santiago

de Cacém.

Em Setúbal, Melo e Castro conquistou a estima e a gratidão de muitos e


também aí conheceu Miguel Pádua Rodrigues Bastos (Nota 18), então
presidente da Câmara, que viria a tornar-se num dos seus melhores amigos.

Os caminhos de ambos haveriam de cruzar-se muitas vezes, quer na


Assembleia Nacional, onde foram deputados ao mesmo tempo, em sucessivas
legislaturas, quer no Tribunal de Contas, onde ambos foram juízes.
Colaboraram ainda de forma mais estreita quando Melo e Castro presidiu à
Comissão Executiva da União Nacional e Miguel Bastos à Comissão
Administrativa, levando a cabo todo o processo das eleições de 1969.

Na família de Melo e Castro conta-se que este teve a oportunidade de


escolher entre o Governo Civil de Setúbal ou o de Castelo Branco, mas
José Guilherme argumentava com a expressão jurídica que "ninguém pode ser
juiz em causa própria" e, por isso mesmo, acabou por ficar com Setúbal,
já que a sua terra natal, a Covilhã, dependia de Castelo Branco.

Foi ainda em Setúbal que José Guilherme conheceu aquela que viria a ser a
sua mulher, Ada Beja da Costa, enfermeira formada, do grupo da irmã
Eugénia Tourinho (Nota 19), que pertencia às Filhas de Caridade de São
Vicente de Paulo.

A sua família, que possuía extensas propriedades em Ferreira do Alentejo,


tinha origem inglesa e, ao que consta, eram descendentes

Nota 18 - Miguel Pádua viria também a desempenhar as funções de


governador civil em Setúbal, entre Janeiro de 1955 e Junho de 1966.

Nota 19 - Chegada a Portugal em 1937, a irmã Eugénia cedo se apercebeu da


falta de enfermeiras, por isso, a prioridade foi fundar uma escola de
enfermagem, uma área em que se sentia à vontade, dado que tinha dirigido
uma escola semelhante no Brasil. A Escola São Vicente de Paulo foi
reconhecida pelo Ministério da Educação Nacional e estava aberta a todas
as candidatas, religiosas e laicas. Os seus propósitos sensibilizaram
muitas jovens, que se juntaram ao projecto.

41

de um general inglês, de apelido Pidwell, que serviu na Primeira Guerra


Mundial e que se refugiou em Portugal.

Ada exerceu a sua actividade sobretudo nos bairros pobres de Lisboa, mas,
sendo a sua família de Santiago de Cacém, concelho do distrito de
Setúbal, acabou por manter também aí a sua actividade, ajudando os pobres
no hospital local.

Os caminhos de José Guilherme e de Ada cruzaram-se quando ela, em meados


dos anos 40, foi falar com o governador civil por causa do hospital de
Santiago de Cacém - existira desde o século XIX uma construção para o
efeito, mas havia largos anos que se esperavam obras de grande vulto, e
desde 1923 que José Francisco Arrais Falcão Beja da Costa, homem da terra
e seu pai, teve a iniciativa de levantar o primeiro andar do casarão de
rés-do-chão onde funcionavam as enfermarias. Melo e Castro terá garantido
que tudo disponibilizaria para que as obras prosseguissem. (Nota 20)
O casamento de José Guilherme e Ada celebrou-se a 21 de Janeiro de 1948,
em Lisboa, no Hotel Avis, símbolo da Lisboa romântica dos anos 40, que
funcionava num palacete das Picoas, desenhado por Ventura Terra e que
acolheu reis, actores de cinema, grandes escritores ou até espiões. Ele
tinha 34 anos, ela 38.

Os filhos chegaram dois anos depois. Primeiro, um rapaz, com o mesmo nome
que o pai, que todos tratavam por Zé Gui. Ada, já com 40 anos, teve
complicações no parto e uma cesariana que quase lhe custou a vida. Três
anos mais tarde nascia uma rapariga, com o mesmo nome que a mãe. Desta
vez, e apesar de já estar com 43 anos, Ada teve um parto sem qualquer
complicação e um bebé com uns fartos 4,010 quilos.

Na vida profissional, depois do tempo como governador civil, Melo e


Castro voltou a ser advogado. Durante dois anos, trabalhou com o cunhado,
Manuel António Beja da Costa, num escritório na esquina da Rua da Vitória
com a Rua do Ouro, em Lisboa, onde não faltavam clientes.

Mas não tardaria muito a ser chamado novamente para a vida política
activa.

Nota 20 - Só em 1952 é que as obras ficaram concluídas e se inaugurou o


novo hospital de Santiago de Cacém.

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Foto: Melo e Castro e a mulher, com os dois filhos, Ada e José Guilherme

Antes disso, em Julho de 1949 foi nomeado delegado concelhio da 2.a


Subsecção da 6.a Secção da Junta Nacional de Educação, no concelho de
Santiago de Cacém. Tratava-se da secção de antiguidades, escavações e
numismática, um convite vindo do presidente da Junta Nacional de
Educação, tendo por fim o estabelecimento de uma rede de delegados
concelhios para a protecção de monumentos e objectos de valor
arqueológico.

Melo e Castro ainda demorou quase um mês a dar uma resposta ao convite,
já que quis saber mais em detalhe os deveres e responsabilidades
inerentes ao cargo, por considerar que lhe faltava cultura arqueológica
para aceitar exercer o cargo e dada a circunstância de residir em Lisboa,
apesar de se deslocar com frequência a Santiago. Mas, desfeitas as
dúvidas e não encontrando Melo e Castro pessoa com cultura arqueológica e
amor às antiguidades que pudesse ser indigitada para as funções, aceitou
a nomeação para que era proposto, comprometendo-se a cumprir a tarefa
dentro das suas possibilidades.
Em Novembro desse mesmo ano de 1949, Melo e Castro torna-se deputado da
Assembleia Nacional pela primeira vez, no mesmo dia em que nasceu o
filho, lugar para o qual viria a ser escolhido sucessivas vezes ao longo
de seis legislaturas.

Aos 35 anos, José Guilherme tornou-se, pois, deputado eleito por Setúbal,
cidade que o tinha acolhido até então como governador

43

civil. No país político, arrancava a V Legislatura (1949-1953), cuja


eleição decorreu a 13 de Novembro de 1949. (Nota 21)

Sentados por ordem alfabética, cabia-lhe o lugar ao lado de José


Gualberto de Sá Carneiro, nada mais nada menos do que c pai de Francisco
Sá Carneiro.

Melo e Castro enquadrava-se também na área de formação académica da


maioria dos deputados daquele tempo: Direito, na Universidade de Coimbra,
que era, de facto, um dos principais locais de formação das elites
parlamentares, até porque a Faculdade de Direito de Lisboa foi fundada
apenas em 1913.

A escolha final dos nomes dos deputados cabia sempre ao presidente do


Conselho, por isso, se compreende que desse preferência àqueles que, como
ele, eram oriundos da Universidade de Coimbra. Assim como, mais tarde,
com Marcello Caetano na Presidência do Conselho, a sua faculdade, de
Lisboa, se tornou o local de formação dominante.

De qualquer forma, entre o perfil ocupacional dos deputados, a profissão


de advogado assumia especial destaque - "o peso do curso de Direito entre
as elites parlamentares é tradicional em todos os parlamentos europeus,
desde meados do século XIX". (Nota 22)

Durante este seu primeiro mandato, Melo e Castro logo se manifestou um


homem inquieto com os problemas e angústias dos portugueses que
representava no Parlamento, atento às dificuldades dos mais
desfavorecidos.

Eleito pelo círculo de Setúbal, não se fez rogado na defesa dos


interesses dos portugueses dessa região do país, desde logo naquilo que
caracterizou como crises de desemprego da lavoura alentejana. A primeira
vez que subiu à tribuna foi precisamente para tentar sensibilizar toda a
câmara para o problema do desemprego rural no Alentejo, referindo-se ao
clima de mal-estar e até de verdadeiro pânico que decorria de forma
cíclica na zona alentejana do distrito de Setúbal - problemas, de resto,
comuns
Nota 21 - Melo e Castro teve 13 675 votos, resultado proclamado a 28 de
Novembro de 1949, como se confirma no Diário das Sessões, n.° 2, que saiu
no dia seguinte. Foi eleito também segundo-secretário da mesa da
Assembleia Nacional, função que viria a desempenhar até Maio de 1954.
Integrava ainda a Comissão de Trabalho, Previdência e Assistência Social.

Nota 22 - Tavares Castilho, Os Deputados da Assembleia Nacional (1935-


1974), p. 188.

44

aos que se viviam em Beja, Évora e Portalegre, já que faltava trabalho


nos campos, levando milhares de famílias à fome e à miséria.

Não se contentou em enunciar a existência do problema, mostrou-se muito


crítico quer pela falta de debate; quer pela falta de resposta e planos
sobre a matéria.

As críticas estenderam-se ao funcionamento do Comissariado do Desemprego,


já que Melo e Castro defendia que grande parte do dinheiro desse
organismo era aplicado à margem do seu fim legal, e à actividade do
Ministério das Obras Públicas, o que inclusivamente suscitou uma resposta
por parte do ministro da tutela, José Frederico do Casal Ribeiro Ulrich.

Em exposição enviada à Assembleia, o ministro das Obras Públicas


contestou as observações feitas por Melo e Castro, argumentando que as
declarações não correspondiam à realidade e que o seu ministério vinha
contribuindo "poderosamente para solucionar o problema em causa". Na
resposta, Melo e Castro insistiu nas críticas à falta de orientação
política.

Noutro momento, alertou para a insatisfação dos empregados de escritório,


especialmente na cidade de Lisboa, por força das suas condições de vida e
das suas remunerações; chamou a atenção para o estado de alarme dos
habitantes da vila de Coina devido aos prejuízos que anteviam da criação
de um arrozal, decidida apenas pelas direcções-gerais dos Serviços
Agrícolas e de Saúde, denunciando que a autorização não tinha passado
sequer pelas mãos de nenhum membro do Governo e pedindo que o caso fosse
analisado, até porque os habitantes daquela vila tinham más recordações
da cultura do arroz, que, anos antes, tinha dizimado pela malária grande
parte da população local.

As suas intervenções, nos seus primeiros anos no Parlamento, denunciavam


também já o seu interesse pelos temas ligados à assistência social, como
ficou patente quando, na discussão na generalidade da proposta de lei
relativa à luta antituberculose, fez o elogio do trabalho que vinha sendo
feito pelo Governo em matéria de saúde pública (Nota 23), depois de "anos
e anos de incúria, que nos levaram à vergonha de figurarmos entre as
nações europeias de mais baixo nível sanitário". (Nota 24)

Nota 23 - Melo e Castro foi, juntamente com os seus amigos Antão Santos
da Cunha e José Maria Braga da Cruz, relator da Comissão de Assistência.

Nota 24 - Diário das Sessões, n.° 52, de 28 de Abril de 1950, p. 966.

45

Página com fotos de Melo e Castro

Coube-lhe também uma intervenção sobre a formação das enfermeiras e outra


sobre a proibição do casamento das que trabalhavam nos hospitais civis.
Elas há muito esperavam que a lei fosse alterada e que as disposições
legais fossem revogadas para evitar uma situação sem paralelo noutros
países e que impedia o casamento das enfermeiras hospitalares, dado que
os hospitais do Estado não admitiam mulheres casadas ou viúvas com
filhos.

Melo e Castro teve nessa altura o cuidado de demonstrar que o tema que
ali levava não era apenas fruto de um qualquer movimento emocional, já
que ouviu a classe médica, o Sindicato Nacional dos Profissionais de
Enfermagem e a Igreja, todos eles unânimes quanto à reprovação da
exigência do celibato para a enfermagem hospitalar feminina.

Lembrou ainda um outro flagelo social, a mendicidade (entretanto proibida


em Portugal), defendendo que se desse aos mendigos pelo menos o
indispensável, como a alimentação, o alojamento ou pequenos subsídios.

Abordou os mais diversos temas, ora elogiando o decreto que vinha


estabelecer as bases para o combate ao analfabetismo, ora insistindo na
necessidade de reformar o regime de arrendamento da propriedade rústica,
ora debatendo as responsabilidades dos municípios no internamento dos
doentes mais pobres, com a questão das dívidas das câmaras aos hospitais
civis, e até mesmo fazendo referência à posse do então recém-empossado
presidente dos Estados Unidos, general Eisenhower.

Nesta legislatura, apresentou ainda dois requerimentos, o primeiro


pedindo informações ao Governo acerca de interesses portugueses
prejudicados por entidades holandesas no domínio da construção naval
(Nota 25), o outro solicitando esclarecimentos

Nota 25 - No Diário das Sessões, n.° 218, de 18 de Março de 1953, lê-se


que Melo e Castro usou da palavra para informar que tinha enviado à mesa
um requerimento pedindo ao Governo que "informe a Assembleia, com
urgência, acerca do que sabe com relação ao assunto e quais as
providências que tenciona tomar". A resposta chegaria poucos dias depois
através de uma carta enviada pelo presidente do Conselho, em 21 de Março
de 1953, onde é dito que "o Governo vai proceder ao cuidadoso estudo da
questão para completa averiguação do que se passou (...) até conclusão
desse estudo e para salvaguarda desses legítimos interesses, o Governo
está na disposição de não autorizar encomendas de entidades portuguesas à
referida indústria".

47

sobre os motivos que impediram a instalação da Escola Prática de


Agricultura na Quinta da Lajeosa (Nota 26), uma doação para que se
instalasse na Covilhã uma escola de ensino elementar agrícola.

Em 1953, viu novamente o seu nome indicado para o círculo de Setúbal, por
Miguel Bastos, então presidente de uma das comissões distritais da União
Nacional. Foi reeleito a 8 de Novembro para a VI Legislatura (1953-1957),
novamente secretário da mesa e integrou as comissões de Verificação de
Poderes; Legislação e Redacção; Trabalho, Previdência e Assistência
Social, uma área a que poucos meses mais tarde se dedicaria a tempo
inteiro, dadas as funções que veio a ocupar.

A sua primeira intervenção nesta legislatura, para além dos rasgados


elogios ao presidente da Assembleia, Albino Soares Pinto dos Reis Júnior,
e a Mário de Figueiredo, serviu para insistir num tema que tinha
batalhado na anterior legislatura: o das responsabilidades financeiras
dos municípios na assistência hospitalar aos doentes pobres.

Voltou também a insistir num tema que tinha trazido à discussão na


legislatura anterior, a escola prática de agricultura (Nota 27),

Nota 26 - No Diário das Sessões. n.° 227, de 24 de Março de 1953, consta


que "por escritura de 15 de Outubro de 1943, o lavrador e publicista Dr.
Júlio de Campos Melo e Matos fez a favor do Estado doação de um conjunto
de prédios rústicos, no concelho da Covilhã, conhecido por Quinta da
Lajeosa, assim como de um considerável núcleo de instalações agrícolas e
ainda de uma biblioteca relativa a assuntos agronómicos, para que ali
fosse instalada uma escola prática de agricultura. Tinham passado cinco
anos desde a doação e ainda não tinha sido dado cumprimento à vontade do
doador (...) Requeiro, assim, ao Governo informações sobre os motivos que
têm impedido a instalação da escola prática de agricultura na Quinta da
Lajeosa e sobre o que a este respeito haja planeado".

Nota 27 - Apresentou um requerimento pedindo aos ministérios competentes


informações acerca da reorganização do ensino elementar agrícola e da
instalação, na Quinta da Lajeosa, de uma escola prática de agricultura.
No Diário das Sessões, n.° 48, de 23 de Março de 1954, lê-se: "Ao longo
de mais de seis anos, tem-se aguardado que, cumprindo o Estado aquilo a
que se obrigou, possa ser atingido o generoso e esclarecido objectivo do
doador, objectivo que há muito podia ter-se traduzido em importantes
benefícios de ordem social e técnica para a agricultura da região
interessada. (...) Não seria necessário acentuar que o ensino elementar
agrícola, especialmente se for associado a iniciativas rasgadas e
práticas de extensão agronómica, como acontece nas nações progressivas e
como, entre nós, vezes sem conta tem sido pedido pelos mais distintos
agrónomos, pode ser um factor dos decisivos de desproletarização do nosso
assalariado rural, de auxílio ao pequeno empresário agrícola, de aumento
da produtividade de toda a nossa agricultura. Estes temas têm sido
tratados, apregoados, até cantados em vários tons; a baixa produtividade
do nosso trabalho agrícola tem sido acentuada até em documentos oficiais
da maior responsabilidade, como, por exemplo, o notabilíssimo relatório
do Plano de Fomento, mas de concreto, de executório, de mãos à obra, ao
que parece, tanto como nada. O deixar-se perdurar esta lacuna ainda choca
mais quando se considera o esforço sério que está a ser desenvolvido no
domínio do ensino técnico industrial, esforço a que uma vez mais presto a
minha rasgada homenagem, sendo certo, como continua a ser proclamado, que
a agricultura não deixou de ser, nem o de deixará de ser tão cedo, a
principal indústria dos portugueses.

Pois bem, ao meu requerimento que faz agora um ano recebi como que uma
resposta, onde, em termos notáveis pelo laconismo, praticamente era
comunicado isto: quanto à execução da lei de 1947, havia sido iniciado o
estudo da reorganização do ensino agrícola elementar. Estava em início
esse estudo, senhor presidente, em Abril de 1953! (...) Como o tempo, às
vezes, senhor presidente, é factor de progresso, quando não haja outro,
vou requerer novamente, na esperança de vir a obter alguma coisa de
satisfatório para o intuito de interesse público que me anima."

48

lembrando que a baixa produtividade do trabalho agrícola em Portugal


vinha sendo denunciada inclusivamente em documentos oficiais.

Um olhar sobre a actividade parlamentar de Melo e Castro, nestes anos 50,


mostra igualmente a sua intervenção durante a discussão na especialidade
da proposta de lei do Governo e da Câmara Corporativa relativa à
colonização de terrenos onde houvesse obras de fomento hidroagrícola,
concluídas ou em curso (Nota 28), na qual alertou o Governo para as
grandes deficiências e falta de serviços mínimos, como água e luz, na
fronteira de Ficalho, e interveio na discussão que estava a decorrer da
proposta de lei relativa à indústria hoteleira, lamentando que não
tivesse ido à Câmara o Estatuto do Turismo.

Numa outra discussão em torno de arrendamentos por longo prazo ou de


carácter perpétuo a particulares, mediante a obrigação de estes manterem
em bom estado o imóvel ou as terras, Melo e Castro lançou alertas sobre
os problemas que se colocavam à volta da obrigatoriedade do aforamento,
um acto jurídico privado que se praticou no país até aos anos 60 do
século passado.

Caracterizou também a legislação portuguesa sobre arrendamentos rústicos


como atrasadíssima e deficientíssima, atrasada em relação às necessidades
da exploração da terra e quando comparada com a de outros países.

Um tema que acabou por suscitar um debate subtil, mas com críticas duras,
já que Melo e Castro denunciou que "alguns rastejam atrás dos pequenos
interesses e das mesquinhas ambições",

Nota 28 - Melo e Castro apresentou, com outros deputados, propostas de


emenda.

49

esquecendo as reais estradas da vida, que para perseguir é necessário


"deixar-se guiar pelas estrelas do céu" (Nota 29), ao que lhe respondeu o
deputado Carlos Moreira com uma provocação, dizendo que "pode ser uma
estrela vermelha de Moscovo".

Melo e Castro ainda deixa correr o tema gracejando que "não eram essas as
estrelas do belo texto que li", ao que Carlos Moreira contrapõe: "Mas às
vezes está na vista de pessoas que se dizem discípulos de Salazar e olham
mais a estrela vermelha do que as estrelas do céu" - provocação a que
Melo e Castro preferiu já não dar resposta.

As suas intervenções nesta legislatura acabaram por ficar por aqui, já


que na segunda sessão legislativa foi nomeado subsecretário de Estado da
Assistência Social, em 11 de Maio de 1954.

Ainda assim, o seu nome foi-se ouvindo sucessivas vezes no decorrer dos
debates parlamentares durante os anos de 1955 e 1956, sempre com palavras
elogiosas sobre o desempenho de Melo e Castro na pasta da Assistência
Social.

Os Diários das Sessões dessa época testemunham que dezenas de deputados


quiseram deixar elogios, sempre que se discutiam questões de saúde
pública e, em especial, quando se abordava a luta contra a tuberculose e
a criação de abrigos para acolher os doentes tuberculosos, como adiante
se explicará. Palavras de esperança na sua actuação e de apreço pela
forma como agiu contra este problema concreto, mas enaltecendo também a
sua inteligência, formação intelectual e moral.

Muitos consideravam que Melo e Castro estava a operar uma verdadeira


revolução na área da saúde, enaltecendo a sua "competência e preparação
excepcionais" para o cargo, a par de "um admirável sentido das
realidades, aliado a um dinamismo só equiparado ao seu excepcional e
inteligente espírito realizador".

Importa, pois, prosseguir com o percurso profissional de Melo e Castro,


que, aos poucos, se ia entranhando cada vez mais nas malhas do regime.

Diário das Sessões, n.° 30, de 12 de Fevereiro de 1954, p. 459.

50

Capítulo 5

A CHEGADA AO GOVERNO DE SALAZAR

A poucos dias do seu 40.° aniversário, Melo e Castro foi escolhido para
subsecretário de Estado da Assistência Social, no Governo de António de
Oliveira Salazar, e tomou posse a 12 de Maio de 1954.

Para trabalhar com ele, como seu secretário, chamou Francisco Oliveira
Dias (Nota 30), mais tarde substituído pelo seu irmão, Tomás. Ambos eram
sobrinhos do seu amigo Filipe Charters de Oliveira, contemporâneo dos
tempos de Coimbra.

A nomeação de José Guilherme, em 1954, acontece num altura em que as


competências da assistência social estavam subordinadas ao Ministério do
Interior, facto que acentuava uma ligação íntima entre assistência,
combate à mendicidade e manutenção da ordem pública.

Desde o início dos anos 40 do século XX que em Portugal se castigava


severamente quem fosse apanhado a mendigar e os jornais mais destacados
da época, como O Século, espalhavam que era proibido andar descalço.

A proibição da mendicidade em todo o território nacional desde 1947,


assim como o agravamento dos castigos contra quem fosse apanhado a
mendigar, mostra bem como era encarada

Nota 30 - Médico de profissão, Francisco Oliveira Dias viria a destacar-


se como fundador do CDS, onde exerceu funções de dirigente. Foi deputado
vários anos e presidiu à Assembleia da República em 1981 e 1982.
Trabalhou com Melo e Castro cerca de três anos, que coincidiram com os
primeiros tempos do seu internato nos hospitais civis. Em 1957, foi
convidado para assistente no Hospital Pulido Valente e deixou o lugar
para o seu irmão, Tomás, que tinha acabado de se formar em Direito.

Francisco Oliveira Dias foi amigo muito próximo de Melo e Castro e de


toda a sua família, tendo assistido de muito perto, enquanto médico, quer
à fase da doença que o consumiu durante largos meses, quer ao momento da
morte de José Guilherme.

51

a assistência social no país: mais do que encontrar solução para o


problema, procurava-se antes ocultá-lo.

Nas novas funções para as quais foi chamado, Melo e Castro respondia
directamente ao ministro do Interior, Joaquim Trigo de Negreiros, com
quem manteve várias discordâncias de ordem teórico-ideológica, mas também
financeira.

O testemunho de Tomás Oliveira Dias permite traçar um retrato de Melo e


Castro nesta fase da sua vida, como um homem que confiava e apostava que
o regime pudesse evoluir, tanto mais que o Estado Novo tinha já largos
anos de vida e muitos foram-se convencendo de que, mais cedo ou mais
tarde, Salazar acabaria por renunciar ao cargo de presidente do Conselho,
cedendo o lugar a alguém mais novo.

Era também este o caso de Melo e Castro, que, sendo um homem do regime,
era, dentro desse mesmo quadro, uma das personalidades menos alinhadas,
no sentido em que confiou sempre que as coisas em Portugal iam modificar-
se.

No que lhe dizia directamente respeito, foi tentando actuar com grande
preocupação social e pediu autorização a Salazar para viajar até
Inglaterra, onde foi saber mais acerca do Welfare State e ver de perto os
serviços de saúde e de assistência social ingleses.

Interessou-se especialmente pela questão da assistência à família, pela


situação da enfermagem no país e, em 4 de Dezembro de 1956, aproveitando
a sessão inaugural do ano lectivo da Escola de Enfermagem do Hospital de
São Marcos, em Braga, deu início a uma campanha para a recuperação da
carência de enfermeiras.

No discurso que então proferiu, denunciou a falta de pessoal de


enfermagem, em quantidade e em qualidade. Embora lembrando que o problema
não era exclusivamente português e apresentando os dados referentes a
outros países, alertou para o facto de Portugal estar muito longe das
necessidades mínimas indispensáveis, o que punha em causa não só os
programas de acção em domínios específicos, como reabilitação de
diminuídos, assistência a cardíacos, protecção contra a tuberculose ou
saúde rural e escolar, mas também colocava em risco a manutenção em nível
satisfatório de serviços básicos de medicina hospitalar

52
geral, sob pena de estes poderem ser encerrados por falta de
funcionários.

Concluía, pois, Melo e Castro que "não bastam queixumes", era preciso
medir a extensão e profundidade do que faltava.

Para tentar solucionar o problema, anunciou um programa de fomento da


enfermagem e divulgou os resultados de "um inquérito profundo às
condições do exercício dessa actividade e do respectivo ensino, assim
como o recenseamento rigoroso dos profissionais de todas as categorias"
(Nota 31). Este estudo indicou que na metrópole existiam 7006 destes
profissionais no activo, incluindo diplomados, oficialmente registados, e
ainda os ilegais, o que se traduzia num praticante de enfermagem para
cada 1166 habitantes.

Calculou-se que no prazo de dez anos, em 1967, e com estimativas modestas


de uma enfermeira para cada 500 habitantes, seriam necessários cerca de
16 000 profissionais, ou seja, era preciso quadruplicar o número dos
existentes no país.

Entre as causas para o défice destes profissionais apontava-se a


insuficiência de meios escolares, de instalações, de pessoal técnico de
ensino, a excessiva concentração dos estabelecimentos em Lisboa, Porto e
Coimbra, mas também pouca segurança social, maus alojamentos,
remunerações nem sempre adequadas às severas exigências da profissão.

Melo e Castro empenhou-se em preparar a opinião pública para compreender


a transcendência da missão de enfermeira, que a coloca, em muitos países,
praticamente a par da do médico em matéria de respeito público, e, por
outro lado, em proporcionar a preparação de portuguesas no estrangeiro e
a colaboração de estrangeiras nas escolas nacionais.

Tinha, da mesma forma, planos para estruturar uma carreira médica (como
atesta alguma correspondência com Marcello Caetano), tema em que podia
contar com o seu antigo companheiro dos tempos de Coimbra, Miller Guerra,
reputado médico e autor do Relatório das Carreiras Médicas, publicado em
1961, que está na origem das actuais carreiras médicas em Portugal.

Nota 31 - José Guilherme de Melo e Castro, Discurso na Sessão Inaugural


do Ano Lectivo da Escola de Enfermagem do Hospital de São Marcos, p. 11.

53

Página com fotos da visita de Melo a Castro a abrigo a sanatórios


Mas a causa que verdadeiramente marcaria a passagem de Melo e Castro pela
Subsecretaria de Estado da Assistência foi a do combate à tuberculose.

Melo e Castro desenvolveu uma forte campanha para combater esta epidemia,
que constituía um problema gravíssimo na época, uma vez que os sanatórios
estavam completamente cheios e não havia onde nem como internar todas as
pessoas que estavam infectadas. Ainda mais, tratando-se de uma doença tão
contagiosa, em que as vítimas difundiam os bacilos por toda a parte,
tornando-a verdadeiramente imparável.

A inauguração da enfermaria-abrigo para tuberculosos que a Santa Casa da


Misericórdia de Braga instalou foi o pretexto para um discurso de Melo e
Castro em que explicou as vantagens deste tipo de enfermarias-abrigos,
capazes de proporcionar um rápido isolamento dos contagiosos, mas também
um caridoso refúgio para os casos incuráveis e um tratamento imediato em
repouso para doentes precocemente diagnosticados, que estivessem à espera
de vaga nos sanatórios.

Enquanto subsecretário de Estado da Assistência, mostrou-se ciente de que


a prevenção da doença era a "chave do triunfo na luta contra a
tuberculose" (Nota 32), um flagelo social que em Portugal como em muitos
outros países, nesses anos 50 reclamava ainda do Estado "insistentes
esforços e redobrados sacrifícios (...) uma desgraça a conjurar depressa,
e uma vergonha a redimir discretamente" (Nota 33).

Nesse sentido, Melo e Castro insistiu, neste seu discurso, na urgência de


se passar de fases experimentalistas para a realização de um programa
sistemático de radiorrastreio, de vacinação e de isolamento dos casos
contagiosos.

Por outro lado, mostrava-se já desperto para a importância de recuperar e


reclassificar doentes clinicamente curados, ou seja, pessoas que ficavam
em condições de trabalhar, de viverem como homens e não apenas de
sobreviverem como doentes.

Portugal, mesmo tendo feito alguns progressos, continuava a deter um dos


valores mais elevados da Europa de mortes com

Nota 32 - José Guilherme de Melo e Castro, Discurso na Sessão Solene no


Salão Nobre da Misericórdia de Braga, em 23 de Maio de 1955, p. 2.

Nota 33 - Idem, p. 11.

55

a doença: 61,5 mortos por tuberculose por 100 000 habitantes, no ano de
1954, com especial incidência na primeira infância e na faixa etária dos
20 aos 40 anos. O que se traduzia também na morte de jovens considerados
força de trabalho para o país e de cuja actividade este ficava privado,
uma questão que Melo e Castro também aborda de forma aprofundada,
recorrendo a estatísticas, citando reputados sociólogos estrangeiros e
sublinhando resultados positivos a que se ia chegando noutros países.

Melo e Castro conhecia bem o problema, até porque tinha sido o relator da
Comissão de Assistência, no Parlamento, que se tinha debruçado sobre uma
lei antituberculose.

Facilmente se entende, assim, a urgência da luta contra a tuberculose no


país, mas essa era uma missão efectivamente cara.

Portugal dispunha, em 1955, de quase 7000 camas, mas precisava de


praticamente o dobro desse número, como reconhece Melo e Castro quando
aponta um défice de 4000 a 5000 camas, embora sem dados seguros para
determinar este número.

Para instalar este número de camas em hospital, seria preciso gastar


cerca de 300 000 contos, a que acrescia uma manutenção de pelo menos 37
escudos por cama e por dia, sob pena de, dominada a doença - como se
esperava conseguir no prazo de alguns anos -, esse equipamento se tornar
inútil. Mas aproveitando o exemplo que tinha sido seguido na Holanda, com
óptimos resultados, Melo e Castro apontava como solução os abrigos de
emergência, em condições humanas e medicamente satisfatórias, cujas camas
custariam sete a oito contos, com uma manutenção de 22 a 24 escudos.
Foram, então, pedidos estudos para construir pavilhões muito económicos
junto aos grandes sanatórios que já existiam em Lisboa, Porto e Guarda,
na convicção de que pouco importava uma obra muito imponente e fazendo fé
que "na tuberculose o que importa é o serviço, não o edifício" (Nota 34).

Em vez de se construírem grandes sanatórios, que custavam muito dinheiro


e levavam muito tempo a estar prontos, José Guilherme encontrou nas
Misericórdias, na sua boa vontade e na vasta rede de que estas dispunham
por todos os concelhos,

Nota 34 - Idem, p. 9.

56

a solução para o problema: instalar enfermarias-abrigos para recolher os


tuberculosos. Eram instalações anexas a determinadas unidades
hospitalares, montados de improviso, muitas vezes em edifícios devolutos
ou com utilização discutível, e que passaram a estar dedicadas
exclusivamente à recuperação de doentes com tuberculose, ajudando a
preencher o défice de camas.
Esta ideia estava a produzir óptimos resultados, quando começou a falhar
o apoio financeiro. Na verdade, quer o ministro das Finanças, Pinto
Barbosa, quer o do Interior, Trigo de Negreiros, entenderam ordenar que
fosse dada alta aos doentes porque não havia dinheiro para sustentar
todas as enfermarias-abrigos.

Francisco Oliveira Dias recorda que, quando soube disto, Melo e Castro,
inconformado, irrompeu no gabinete de Trigo de Negreiros para pedir a
demissão, e esta só não aconteceu por uma questão de minutos. Afinal, o
ministro das Finanças havia enviado uma carta a Melo e Castro explicando
que se mantinha a disponibilidade de dinheiro, só que Melo e Castro não
tinha tido conhecimento do teor desta missiva, já que a correspondência
se encontrava ainda nas mãos de Oliveira Dias! Este conseguiu chegar a
tempo de evitar a demissão neste dia, mas José Guilherme acabaria por
deixar o cargo pouco tempo depois, com a exoneração a ocorrer em 3 de
Junho de 1957.

A sua passagem pela pasta da Assistência Social ficou marcada por uma
forte preocupação com as pessoas e com os grandes problemas sociais da
época (Nota 35), mas os condicionalismos eram muitos, a liberdade de
actuação deveras limitada, e Melo e Castro não conseguiu realizar as
ideias que tinha na cabeça e sobre as quais falava com os seus
colaboradores, nomeadamente a previdência como um direito de todos,
própria de um estado evoluído, e não como uma caridade que se ia fazendo
aqui e ali.

Nota 35 - Melo e Castro identificou-se com o discurso do bispo do Porto,


D. António Ferreira Gomes, homem muito atento às questões sociais,
nomeadamente desde que foi bispo na diocese de Portalegre, entre 1948 e
1952, e que viria a protagonizar um episódio de confronto político com
Salazar, que lhe valeria um exílio forçado durante dez anos. Enquanto
subsecretário de Estado, Melo e Castro viria a chamar "sociólogo
reputado" a D. António e a manter com ele boas relações. Diferente
atitude viria a ter o seu sucessor na pasta, que entrou em conflito com o
bispo por causa dos centros paroquiais de assistência e formação social,
já que recusava a autonomia destes perante o Estado. In José Barreto,
"Adérito Sedas Nunes e o Bispo do Porto em 1958", Análise Social, Volume
XLII (182), p. 12.

57

As desavenças com o ministro Trigo de Negreiros eram uma constante, tanto


mais que Melo e Castro entendia, ao contrário do ministro, que a saúde
tinha de ser tratada de forma diferente, não apenas numa vertente
política. Melo e Castro insurgia-se sobretudo quando o ministro não dava
seguimento a determinadas questões, que acabavam por ficar pendentes,
como sucedeu com a regulamentação da acção das Misericórdias (Nota 36).
De igual modo, foi muito crítico da forma como a previdência funcionava,
considerando-a mesmo descoordenada, envolta em politiquice e carreirismo
(Nota 37). Melo e Castro assumiu-se como um defensor da coordenação dos
serviços de assistência com os da previdência, problema que durante anos
se arrastou e que, além de provocar duplicação de serviços e de gastos,
também impedia qualquer concentração de esforços, actividades ou
iniciativas já que estas, pelo contrário, se dispersavam. A protecção
social no país acabou por sair fortemente prejudicada, dado que,

Nota 36 - Um artigo do Decreto-Lei de 7 de Novembro de 1945 previa um


regime dualista para as Misericórdias, associação de assistência social e
irmandade, a quem cabia prestar culto e assistência religiosa e moral.
Duas instituições diferentes juridicamente falando: Misericórdia-
irmandade e Misericórdia-associação, a que se juntava um preâmbulo onde
ficava patente que as irmandades não podiam ter a competência necessária
para administrar hospitais ou outros estabelecimentos de que as
Misericórdias dispunham. De imediato se fizeram ouvir os protestos
destas, a que se juntaram várias vozes de outros sectores da sociedade.
Ainda foi apresentado ao Governo um estudo do Episcopado Português cuja
solução assentava na unidade da instituição e dualidade de actividade
(social e espiritual), ressalvando os direitos quer do Estado, quer da
Igreja, e, em 1946, foi nomeada, pela Presidência do Conselho, uma
comissão cujo trabalho acabou esquecido. Em meados de 1955, Melo e
Castro, pediu um projecto de diploma sobre este assunto e coube a Carlos
Dinis da Fonseca elaborar uma proposta para regular a actividade
sociocaritativa de todas as organizações/instituições religiosas que
previa a regulamentação da acção das Misericórdias. Melo e Castro
concordou com o documento e reencaminhou-o para Trigo de Negreiros, mas
este não lhe deu seguimento.

Nota 37 - Na correspondência trocada com Marcello Caetano, em meados de


Agosto de 1958, refere isso mesmo e faz notar que é essencial aproveitar
as experiências anteriores da Public Health anglo-saxónica e da Aide
Sociale francesa, belga e holandesa. Nessa mesma missiva, elogia o facto
de finalmente ter sido criado o Ministério da Saúde e da Assistência -
note-se que este só surgiu com o Decreto-Lei n.° 41 825, de 13 de Agosto
desse mesmo ano. Até esta data os serviços de saúde pública e da
assistência estavam sob a alçada do Ministério do Interior.

A avaliar pela carta, Melo e Castro poderá ter sido apontado como
possível ministro para esta nova pasta da Saúde, já que dá a entender que
muitos terão sido amáveis com ele e manifestado interesse pelo congresso
das Misericórdias, com base numa expectativa que acabou por não se
verificar. Do congresso se fala no capítulo referente aos anos de Melo e
Castro como provedor da Misericórdia de Lisboa.

58
Página com Melo e Castro na campanha Dadores de Sangue, em 1955

na prática, os dois serviços acabaram por funcionar de costas


praticamente voltadas e demasiado fechados nas respectivas tutelas. De um
lado, o subsecretário de Estado das Corporações e Previdência Social, do
outro, o subsecretário de Estado da Assistência Social.

Quando Melo e Castro esteve encarregue desta última pasta, tomou uma
iniciativa concreta para tentar resolver a questão. Para tanto e em
conjunto com o então ministro das Corporações e Previdência Social,
Henrique Veiga de Macedo, nomeou, em meados de 1956, uma comissão que
tinha um objectivo claro: analisar e propor as bases em que devia
assentar a coordenação dos referidos serviços de assistência e
previdência (Nota 38).

Ainda foi apresentado um relatório, que Melo e Castro aprovou, mas


esbarrou no ministro, pelo que os esforços foram em vão.

Durante os três anos em que ocupou a pasta da Assistência Social


representou o Governo em inúmeras cerimónias, tendo sido a 4 de Agosto de
1956, um dos convidados das comemorações do primeiro centenário da
empresa de limas União Tomé Feteira, Lda, onde marcaram presença duas
centenas de personalidades e destacadas figuras do regime (Nota 39).
Nestas comemorações, foram também inaugurados alguns melhoramentos de
carácter social e assistencial, como a creche Inácia Piedade Sequeira
Feteira, que nasceu para dar abrigo aos filhos dos operários da empresa
de limas Feteira.

No seu gabinete, Melo e Castro atendia todos os que o fossem procurar,


mesmo sendo um sem-abrigo ou um tuberculoso à procura de vaga no
sanatório. Era muito sensível a cada caso particular que lhe era exposto
e às cartas remetidas pelos mais pobres para inúmeras instituições e de
que lhe davam conhecimento. O amigo Tomás Oliveira Dias descreve-o como
uma pessoa muito humana, que vivia na prática uma ideia, formulada anos
mais tarde pela política inglesa Shirley Williams, de que "a política é
para as pessoas".

Nota 38 - Faziam parte da comissão quatro membros, dois designados por


parte do Ministério das Corporações e Previdência Social, os outros dois
em representação da Subsecretaria da Assistência Social.

39 Melo e Castro foi um dos representantes do Governo, tal como Magalhães


Ramalho (subsecretário de Estado do Comércio e Indústria) e Jacinto Nunes
(subsecretário de Estado do Tesouro).

60
Arredado dos cargos governamentais a partir de Junho de 1957, manteve-se,
no entanto, como deputado, sendo o seu nome um dos indicados por Salazar
para ser candidato.

Na VII Legislatura, merece destaque a defesa que Melo e Castro levou a


cabo, em Julho de 1959, da inclusão do nome de Deus no texto
constitucional, para que passasse a constar no preâmbulo da Constituição
que, "no princípio da sua lei fundamental, a Nação Portuguesa invoca o
nome de Deus", numa lógica de um só Deus de todas as religiões. Apontando
exemplos semelhantes nas constituições de outros países onde é invocado o
nome de Deus, Melo e Castro lembrava também que este era o caminho
natural depois de, na revisão constitucional de 1951, se ter consagrado,
no artigo 45.°, que a religião católica é a da Nação Portuguesa, sendo na
sua opinião essa decisão mais provocadora de maiores susceptibilidades,
ao impor uma restrição à confissão católica. A proposta de Melo e Castro
acabaria, no entanto, por ser derrotada.

Em Abril de 1960 chamou a atenção do Governo para a necessidade da


construção urgente do porto de Sines, um problema que se arrastava há
alguns anos. Melo e Castro desfiou um rol de motivos para a urgência
daquela obra, num concelho com 80 por cento da sua actividade dependente
da pesca, mas que, sem molhe de abrigo, acabava por passar o Inverno
votada ao desânimo e à miséria.

A obra justificava-se também por ser simples e pouco onerosa porque as


condições naturais da baía eram em tudo favoráveis. Muitos referiam que
se tratava apenas de completar a obra da natureza. Outro argumento era a
necessidade de segurança da navegação, já que em 200 quilómetros de
costa, de Setúbal a Lagos, não existia qualquer abrigo.

Nesta legislatura, Melo e Castro alertou de igual forma para a ineficácia


do sistema de protecção social em Portugal, antiquado, demasiado restrito
e que funcionava descoordenado da assistência, acentuando a falta de
eficácia e aumentando os custos. Além disso, a generalidade da população
desprotegida pagava a protecção da escassa quinta parte que era abrangida
pelo sistema geral de protecção social - sistema financiado
exclusivamente por meio de descontos de taxa uniforme sobre os salários,

61

sem qualquer comparticipação de receita proveniente do imposto sobre


rendimentos.

Já quando exerceu o cargo de subsecretário da Assistência, preconizou a


unificação das actividades num serviço nacional de saúde, que não seria
todo ele estatal, mas que integraria instituições do sector privado ou
semipúblico, como as Misericórdias e as Casas do Povo. Pretendia, por
outro lado, criar um seguro-maternidade, um seguro-tuberculose.
Enquanto deputado, insistiu também na defesa de um serviço nacional de
saúde que assegurasse a cobertura médica curativa elementar como um
direito de toda a população: o doente grave pode recorrer com prontidão
ao médico, ao medicamento e ao hospital, além de que "a segurança social
não é necessariamente reservada aos países ricos. A maior justiça social
que permite é até mais necessária nos países que precisam de investir no
factor trabalho" (Nota 40).

Nessa mesma intervenção, ainda afirma como indispensável que se legisle o


direito de todo o português que trabalha a ter uma pensão ao atingir a
invalidez e que se assegure a protecção médica a toda a população, em
todo o território e em todas as profissões.

É também na qualidade de deputado que Melo e Castro vai sendo convidado


para participar em sessões públicas da União Nacional.

Na noite de 24 de Maio de 1958, foi chamado a intervir sobre justiça


social e discursou no Liceu Camões, em sessão presidida por Marcello
Caetano, então presidente da Comissão Executiva da União Nacional, depois
de ter sido afastado por Salazar da posição de número dois do regime,
onde tinha exercido as funções de ministro da Presidência do Conselho de
Ministros.

Nesse discurso, com declarações que a imprensa viria a considerar


inoportunas e provocatórias, a cada nova frase que proferia, Melo e
Castro parecia aproximar-se das pretensões da oposição (Nota 41), criando
verdadeiro suspense, mas no final declarou-se fiel ao regime e a Salazar,
concluindo que ninguém estava em condições

Nota 40 - Diário das Sessões, n.° 216, de 27 de Abril de 1961, p. 890.


Nota 41 - Jornal República, de 27 de Maio de 1958.

62

de fazer melhor, e, em vésperas de eleições presidenciais, apelou ao voto


em Américo Thomaz, "descendente directo dos que construíram, pilotaram e
morreram nas naus de Quinhentos" (Nota 42), o mesmo homem que anos mais
tarde viria a protagonizar os maiores entraves às ideias da Ala Liberal,
que Melo e Castro apadrinhou na Assembleia Nacional, e ao regime de
Marcello Caetano em geral.

Mesmo tendo feito parte de um Governo liderado por Oliveira Salazar, Melo
e Castro nunca teve com este proximidade e até costumava confessar aos
que lhe eram mais próximos que, frente ao Presidente do Conselho, se
sentia como se estivesse a fazer um exame!

Mas isso não o impediu de, anos mais tarde, ousar dizer o que muitos
pensavam, mas não diziam, sobre a necessidade da substituição de Salazar
no cargo de chefe do Governo. Melo e Castro considerava necessário fazer
evoluir o regime para a "democracia real" e não conseguia aceitar a forma
como Salazar estacionou completamente, sem permitir qualquer evolução ou
reformas.

Aliás, como testemunha um dos filhos de Miller Guerra, Melo e Castro


costumava contar que numa conversa que teve com Salazar este terá
aproveitado para lhe dizer, entre o gracejo e o recado, que "no país só
há duas pessoas que não têm de prestar contas: Azeredo Perdigão (Nota 43)
e o Senhor Doutor!".

Seja como for, Melo e Castro foi conseguindo manter sempre uma relação
muito cordial e de respeito mútuo com Salazar.

Nota 42 - Note-se que nestas presidenciais de 8 de Junho de 1958,


Craveiro Lopes entrou em conflito com Salazar e não procurou obter um
segundo mandato, pelo que o candidato do regime que se apresentou foi
Thomaz, até aí ministro da Marinha. Teve como adversário, apoiado pela
oposição democrática, Humberto Delgado, que viria a obter 23 por cento
dos votos, embora contestando o resultado e com fortes acusações de
fraude eleitoral, mais tarde, aliás, comprovada.

Nota 43 - José de Azeredo Perdigão, reconhecido advogado, foi assessor


jurídico de Calouste Gulbenkian, quando este se refugiou em Portugal
durante a Segunda Guerra Mundial, e teve um papel decisivo na criação da
fundação em Portugal. Foi ele quem negociou as condições com o Governo
português, negando a interferência de Salazar na fundação e assegurando
total independência do presidente do Conselho, que, de resto, não
apreciava as suas opiniões políticas, mas que reconhecia com clareza que
Perdigão defenderia os interesses nacionais. Azeredo Perdigão foi nomeado
presidente vitalício da Fundação Calouste Gulbenkian e, sob a sua
direcção, a instituição teve um papel determinante no desenvolvimento da
cultura em Portugal.

63

Página em branco

Capítulo 6

O PROVEDOR BEM-AMADO
Era da tradição os provedores da Misericórdia serem antigos membros do
Governo ou funcionários superiores do regime que ali terminavam as suas
carreiras. Com este ou com qualquer outro critério, José Guilherme de
Melo e Castro foi nomeado provedor da Santa Casa da Misericórdia de
Lisboa (Nota 44), em 1957, um cargo que não lhe era estranho, já que o
seu pai também tinha ocupado função idêntica à frente da Misericórdia da
Covilhã.

Na Provedoria, além de Melo e Castro havia dois adjuntos: à frente do


sector administrativo, que incluía os jogos, estava António Oliveira Pais
de Sousa, sobrinho de Salazar, enquanto Filipe Charters de Oliveira (mais
tarde substituído por Carlos Dinis da Fonseca) tinha a seu cargo o sector
social e da saúde.

Desde logo, Melo e Castro convocou Raquel Ribeiro, assistente social de


formação e que viria a ser, anos mais tarde, deputada da chamada Ala
Liberal, para formar uma equipa técnica de trabalho social, que tinha
como objectivo fazer um estudo no terreno sobre as populações que moravam
em bairros de barracas em Lisboa, nomeadamente na área da Curraleira-
Chelas (Nota 45).

Os estudos municipais davam conta da existência de mais de 10 000


barracas nos chamados bairros de lata da capital.

O tempo em que esteve como subsecretário de Estado já lhe tinha permitido


traçar um panorama detalhado sobre a assistência

Nota 44 - Das cerca de 400 Misericórdias que existem em Portugal, ligadas


à Igreja, só a de Lisboa é do Estado, com o estatuto de fundação. Foi,
aliás, a primeira Misericórdia criada em Portugal, em 1498, por
iniciativa da rainha D. Leonor. Em muitos casos, a Misericórdia é uma das
grandes empregadoras da região onde se encontra.

Nota 45 - Raquel Ribeiro conhecia Melo e Castro desde 1954, do tempo em


que exercia funções de assistente social no Instituto de Assistência à
Família. A pedido dele, concretizou-se a sua transferência para a Santa
Casa da Misericórdia de Lisboa.

65

social e sobre tudo o que havia por fazer, nomeadamente em Lisboa. Era
uma questão de pôr mãos à obra. E foi o que fez nos anos seguintes,
conseguindo motivar muitos colaboradores para as causas que defendeu e
para os projectos que se foram tornando realidade.
Foi assim que nasceu também a ideia do Centro de Medicina de Reabilitação
de Alcoitão, ainda hoje uma referência. A ideia da construção de um
centro deste tipo chegou à Misericórdia com Melo e Castro, que pretendia
tratar pessoas com incapacidade motora, acidentados ou diminuídos
motores, mas também formar pessoal especializado.

O projecto foi realizado pelo arquitecto Sebastião Formosinho Sanchez,


com direcção da obra a cargo do engenheiro José Maria Ferreira da Cunha,
e viria a ganhar especial pertinência anos depois, perante a necessidade
de dar resposta aos muitos acidentados na guerra do Ultramar.

Construído com enorme rapidez, os seus custos foram suportados pelas


verbas provenientes dos lucros do Totobola, como adiante se explicará.
Embora as obras tenham começado em Agosto de 1959, a inauguração
realizou-se apenas em 2 de Julho de 1966, com a presença do então
presidente da República, Américo Thomaz, anos depois da saída de Melo e
Castro da Misericórdia. Mas a ele ficou a dever-se o arranque e
idealização da obra e o cuidado para que, ao mesmo tempo que decorria a
construção, médicos e enfermeiros tirassem em Inglaterra a especialização
em reabilitação física e terapia da fala. Em cooperação com entidades
internacionais, como a World Rehabilitation Fund, ou com as casas de São
Vicente de Paulo, em Lisboa, dezenas de alunas com bolsas proporcionadas
pela Misericórdia formaram-se no estrangeiro em enfermagem, fisioterapia
e ortoprotesia. Por exemplo, entre 1963 e 64, as enfermeiras Maria de
Lurdes Sales Luís, Maria da Graça Semião e Maria Eduarda Carmona fizeram
curso de especialização em enfermagem de reabilitação, em Worm Springs,
nos Estados Unidos, país onde, desde 1947, a medicina física de
reabilitação era já reconhecida como especialidade médica.

A formação de profissionais portuguesas no estrangeiro permitiu, por um


lado, que o centro começasse logo a funcionar

66

com máximas condições e conhecimentos e, por outro, que nascesse, poucos


anos depois, a Escola de Saúde de Alcoitão.

Melo e Castro estava determinado em encontrar o melhor terreno possível


para a construção do novo centro, com uma área suficientemente grande
para ali poder funcionar também uma escola. Escolheu Alcoitão, no
concelho de Cascais, porque considerava importante os doentes poderem ver
o mar, e recusou inclusivamente outros terrenos livres que a autarquia
lhe apresentou, como revelam antigos colaboradores de Melo e Castro, que,
com ele e com funcionários da Câmara de Cascais, andaram até ao pôr do
Sol à procura do terreno certo para o projecto. Mas terá valido a pena: o
local escolhido tinha vista panorâmica sobre a serra de Sintra, a foz do
rio Tejo, Estoril e Cascais. Para José Guilherme de Melo e Castro, poder
tratar de pessoas com deficiência ou recuperar acidentados era um grande
sonho prestes a concretizar-se.
Quem também se entusiasmou com a obra e acompanhou de perto tudo o que se
passava foi Salazar. Criou-se, aliás, uma comissão administrativa de
obras, uma vez que a burocracia no Ministério das Obras Públicas era
imensa e a urgência em resolver os problemas, maior ainda.

Tomás Oliveira Dias (Nota 46), à época chefe dos Serviços do Património,
era o representante da Misericórdia nessa comissão e lembra-se bem de
que, graças a ela, a celeridade ficou garantida. Esta comissão
administrativa teve também a seu cargo um programa de revalorização do
património, justificado pelos 139 prédios que a Misericórdia detinha em
Lisboa, a maior parte deles em ruínas ou com rendimentos muito fracos.
Analisada a situação pelos técnicos, fez-se dessas casas, mais ou menos
arruinadas, prédios modernos e com bom rendimento. Esta vertente
financeira era uma preocupação de Melo e Castro, que sempre viu a receita
dos imóveis como uma ajuda para que a sua obra pudesse prosseguir a bom
ritmo.

Nota 46 - Tomás Oliveira Dias, licenciado em Direito, viria a fazer parte


do grupo de deputados da chamada Ala Liberal. Substituiu o irmão,
Francisco, na colaboração no gabinete de Melo e Castro quando este foi
subsecretário de Estado da Assistência Social. Acompanharia Melo e Castro
durante todo o percurso deste na Misericórdia de Lisboa.

67

Com este mesmo intuito nasceria, em 1961, o Totobola cujas receitas


permitiram pagar a construção do Centro de Reabilitação de Alcoitão.
Convém explicitar que, até aí, a Misericórdia vivia sobretudo da parte
que lhe cabia das receitas da Lotaria - a proporção era de dois terços da
receita para o Estado, o restante para a Misericórdia.

Melo e Castro cedo se entusiasmou com a ideia de criar um Totobola, que,


aliás, há vários anos vinha sendo reclamado por clubes e associações de
futebol, dada a imensa popularidade que as apostas mútuas desportivas
tinham por toda a Europa, especialmente em Inglaterra. Só que, em
Portugal, a Lotaria tinha um exclusivo legal e toda a gente se convencera
de que Salazar não queria mais jogos no país.

Um mero acaso ajudou a desconstruir esta ideia. Estava Tomás Oliveira


Dias a fazer as férias do chefe da repartição administrativa, da
secretaria, cabendo-lhe abrir a correspondência que vinha da parte do
ministro da Saúde, Martins de Carvalho, quando se lhe depara um
requerimento feito por um cidadão de Santa Comba Dão a pedir licença a
Salazar para montar um serviço de apostas múltiplas desportivas. Escreveu
directamente a Salazar e este despachou para o ministro com o seguinte
recado: "Este assunto estava entregue à Santa Casa da Misericórdia de
Lisboa, o que é feito disto?"
Oliveira Dias apressou-se a dar conhecimento ao provedor do teor da carta
que o ministro tinha reencaminhado, e Melo e Castro rapidamente colocou o
problema ao Governo. Na resposta, obteve uma autorização de Salazar e
carta-branca para todos os estudos e preparativos necessários para lançar
as apostas mútuas desportivas. A 3 de Julho de 1961, um decreto
governamental determinava as bases e as condições para a nova actividade,
cujo exclusivo de exploração ficava a cargo da Santa Casa de Lisboa.

Melo e Castro fez um périplo por outros países que já tinham serviços
semelhantes, para o ajudar a optar pelo melhor sistema, como Espanha,
Itália e sobretudo a Suécia, com quem se estabeleceu toda a assistência
técnica. Viajou, inclusivamente, até ao Japão e manteve contactos com
várias organizações.

No espaço de um ano, conseguiu pôr o novo jogo a funcionar, com a


organização a cargo do Departamento de Apostas Mútuas Desportivas e as
instalações dentro da própria Misericórdia.

68

A contagem deste jogo de apostas múltiplas desportivas, que consiste em


acertar nos resultados de jogos de futebol que semanalmente surgem nos
boletins, era feita à mão, boletim a boletim. O sorteio inicial, em 24 de
Setembro de 1961, contava com um primeiro prémio no valor de 223 contos,
mas o primeiro totalista só surgiria no ano seguinte já o prémio ia nos
1300 contos, uma verdadeira fortuna na época. Afinal, não era fácil ter
palpite certeiro sobre o desfecho dos jogos do Campeonato Nacional de
Futebol ou das competições europeias e mundiais. O jogo tornar-se-ia, nos
anos seguintes, parte do imaginário colectivo de milhares de portugueses,
que, semana após semana, tentavam a sorte (Nota 47).

O próprio nome Totobola deve-se a Melo e Castro, que o sugeriu. O nome


pegou, Melo e Castro tornou-se efectivamente o pai do Totobola. Aliás, a
ala mais conservadora e mais à direita do regime, que não gostava das
suas ideias, as quais considerava demasiado liberais, chamava-lhe "o
rapaz do Totobola".

Certo é que este novo jogo veio assegurar mais receita, permitindo
financiar os serviços de reabilitação de deficientes físicos e, em
especial, o Centro de Reabilitação de Alcoitão, como já foi referido, e
gerou também receitas para o fomento da educação física e para a prática
de modalidades desportivas.

Outra área a que Melo e Castro prestou especial atenção foi a da acção
social. A assistência foi alargada e modernizaram-se os lares dos
menores, que eram bastante antiquados e sem condições, como atestava um
levantamento feito por Raquel Ribeiro, que despachava directamente com
Melo e Castro e Charters de Oliveira. Esse levantamento, o qual incidiu
sobre o que estava a ser feito na área das crianças, o tipo de educação
que lhes era dada e a maneira como eram tratadas pelos funcionários,
revelou que muitas crianças, dos quatro aos sete anos, sofriam maus
tratos, verdadeiras torturas e agressões. Indignada com o que descobriu,
Raquel Ribeiro expôs o assunto a Melo e Castro, que só descansou quando

Nota 47 - O cinquentenário do Totobola, cuja celebração decorreu em


Setembro de 2011, foi assinalado com uma exposição sobre a história deste
jogo e várias iniciativas promovidas pela Santa Casa da Misericórdia de
Lisboa, mas o Totobola mobiliza hoje cada vez menos apostadores, tendo
perdido influência e popularidade para os outros jogos da Santa Casa,
como o Totoloto e, sobretudo, o Euromilhões, pelo que a sua extinção já
foi ponderada.

70

a Misericórdia arranjou uma nova casa para onde as crianças pudessem ir


de imediato. E logo nesse ano, a própria Misericórdia de Lisboa
providenciou-lhes as primeiras colónias de férias no Verão, com
estagiárias de educação infantil para tomar conta delas.

Os problemas com as crianças eram complexos e não se ficavam por aqui. A


taxa de mortalidade infantil atingia valores altíssimos, sobretudo nos
Açores, na Madeira e até no Norte do país; uma grande percentagem de
crianças era abandonada pela família, indo para a Misericórdia, onde as
esperavam pessoal sem preparação alguma para o efeito, em instalações sem
condições. Por exemplo, as horas de recreio eram passadas em corredores
escuros e as janelas eram demasiado altas, o que fazia com que muitas
crianças nem conseguissem lá chegar, o que as impedia de ver o Sol.

Raquel Ribeiro ia avisando Melo e Castro, dizendo que "ou se remodelava


tudo ou a Provedoria era pura e simplesmente assassina!" (Nota 48)
Sensível aos seus argumentos, Melo e Castro mandou-a para Inglaterra onde
pôde explorar soluções para a formação do pessoal que trabalhava com
crianças, condições mais humanas para os lares de menores, mas também
aprendeu mais sobre a importância das condições de saúde para fazer
diminuir a mortalidade infantil.

A Misericórdia tentava ainda dar solução aos problemas de inúmeros


deficientes e idosos, os inválidos como se dizia naquele tempo, assim
como dos mendigos, não sendo, no entanto, esta a prioridade, até porque a
máxima de Melo e Castro era "primeiro as crianças, depois os idosos"
(Nota 49).

O provedor também não esqueceu a importância de manter vivo o espírito de


fraternidade entre as várias Misericórdias, como atesta o congresso que
organizou e a que presidiu, em 1958, juntando as de Portugal, as das
províncias ultramarinas e as do Brasil.
Durante quatro dias, em Lisboa, o objectivo passava por dar amplitude à
já grande rede de comunicação existente entre as Misericórdias, unidas em
torno dos mesmos ideais e objectivos.

Nota 48 - Entrevista a Raquel Ribeiro, em 24 de Fevereiro de 2011 e 24 de


Janeiro de 2012.

Nota 49 - A sensibilização para a necessidade de lares para idosos só


chegou muito anos mais tarde. Na década de 60, o país ainda não tinha
despertado para essa realidade.

71

A sessão de abertura foi presidida pelo chefe de Estado, Américo Thomaz,


e contou ainda com a presença do cardeal Cerejeira.

O evento assumiu especial importância porque ficou marcado por uma retoma
dos caminhos históricos das Santas Casas, vincando bem a sua vocação e
inspiração cristã e a sua natureza canónica de irmandade (Nota 50).

O mandato de Melo e Castro como provedor coincidiu ainda com a passagem


de meio milénio sobre o nascimento da rainha D. Leonor, pelo que o
congresso surgiu também integrado nas comemorações do quinto centenário
da rainha, fundadora da Misericórdia de Lisboa (Nota 51), que se
estenderam a cerimónias em Goa, Macau e em diversas cidades do Brasil, em
Janeiro de 1959.

Melo e Castro encabeçava a delegação das Misericórdias de Portugal


metropolitano que visitou as suas congéneres em locais tão distantes
quanto Damão, Diu e Goa. Viagens que permitiriam acentuar no estrangeiro
uma "característica peculiaríssima da nossa ocupação ultramarina: logo
transferíamos para os territórios ocupados as melhores instituições da
metrópole, para protecção não só dos nossos soldados e colonos, mas
também dos nativos. A Santa Casa da Misericórdia era, então, pode dizer-
se, a floração mais íntima da nossa sociabilidade (...) não hesitámos em
a enraizar logo, tal e qual, nas terras e no coração das gentes de além-
mar" (Nota 52).

Nota 50 - Note-se que o congresso decorria depois de, em 1945, por


iniciativa de Salazar, ter estado iminente um decreto ameaçador da
unidade das várias Misericórdias, que previa um regime dualista, que
separava Santa Casa (culto religioso) e Misericórdia (hospitais), ficando
estes mais sob administração do Estado. Carlos Dinis da Fonseca explica,
num dos apêndices do seu livro História e Actualidade das Misericórdias,
que o cardeal Cerejeira evitou a publicação desse decreto, em carta de 22
de Agosto de 1945.

Nota 51 - Melo e Castro assumia uma tripla condição: de provedor da


Misericórdia de Lisboa, mas também de presidente da Comissão Nacional das
Comemorações Centenárias e da Comissão Executiva do Congresso. No seu
discurso inaugural do evento, fez a exaltação de D. Leonor e insistiu na
homenagem das Misericórdias à Igreja, de que receberam a inspiração
espiritual. Recorrendo à história, invocou as motivações dos
Descobrimentos, discordando da classificação destes como "tema odioso",
"em nome de pretenso anticolonialismo", antes exaltando o correr mundo
das bandeiras das Misericórdias. Refere mesmo que "quem percorrer
imparcialmente o mapa dos hospitais e instituições de assistência que os
portugueses espalharam, do Japão à América do Sul" verá que "expandimos
sobretudo a fé e, por telologal inerência, com a fé transmitíamos uma
mensagem de caridade", in Actas do IV Congresso das Misericórdias, Volume
III, pp. 15-16.

Nota 52 - Idem, p. 6.

72

Página com fotos de Melo e Castro enquanto provedor da Misericórdia de


Lisboa

Melo e Castro ficou impressionado com a amabilidade das gentes que por lá
conheceu, como acabaria por referir, no ano seguinte, durante uma
intervenção que fez, como deputado, na Assembleia Nacional, referindo-se
sobretudo a Damão e Diu, que são "geograficamente como que insulados, mas
espiritualmente tão chegados a tudo quanto há de mais forte e
genuinamente português" (Nota 53).

O Congresso das Misericórdias, como as comemorações do centenário da


rainha, contou com a participação de mais de 400 congressistas e cerca de
uma centena de teses apresentadas. As conclusões do congresso acabaram
por passar também pela Assembleia Nacional, onde discursou José Hermano
Saraiva, na qualidade de deputado e secretário-geral da Comissão das
Comemorações.

Durante estes anos em que esteve à frente da Misericórdia de Lisboa, Melo


e Castro manteve ao mesmo tempo as funções de deputado (Nota 54), o que
acabou por provocar uma polémica, que obrigou a uma intensa troca de
correspondência, entre despachos e requerimentos com pedidos de
esclarecimento sobre a eventual incompatibilidade do seu vencimento como
provedor e o subsídio de deputado, mas também acerca da eventual
incompatibilidade de acumulação dos dois cargos (Nota 55).

Nota 53 - Diário das Sessões, n.°144, de 19 de Janeiro de 1960, p. 257.

Nota 54 - Logo no ano em que iniciou funções como provedor, em 1957, Melo
e Castro foi reeleito para a VII Legislatura (1957-1961) uma vez mais
pelo círculo de Setúbal. Integrou as comissões de Legislação e Redacção;
Trabalho, Previdência e Assistência Social e presidiu à Comissão de
Política e Administração Geral e Local, mas não se registou qualquer
intervenção sua nas actividades parlamentares nem nesta legislatura nem
naquelas que se seguiram, isto é, na VIII Legislatura (1961-65), reeleito
por Setúbal e novamente para presidente da Comissão de Política e
Administração Geral e Local. Integrou nessa altura a Comissão de
Legislação e Redacção e fez parte da comissão eventual para estudo da
proposta de lei que introduzia alterações à Lei Orgânica do Ultramar
Português. Volta a ser eleito para a IX Legislatura (1965-69), pelo
distrito de sempre, integrando a Comissão de Finanças e continuando a
presidir à de Política e Administração Geral e Local.

Nota 55 - Quanto aos subsídios, Melo e Castro solicitou essa acumulação,


mas um parecer do Tribunal de Contas, de 1958, considerou que o cargo de
provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa era de "funcionário
público" e, em consequência disso, Melo e Castro ficava obrigado a optar
entre uma das duas remunerações. Escolheu o vencimento da Misericórdia,
mas a discussão e troca de correspondência prosseguiu a propósito da
incompatibilidade da acumulação dos dois cargos em si. Melo e Castro fez
uma exposição de motivos ao presidente da Assembleia Nacional para que a
questão fosse esclarecida e este, na resposta, entendeu não haver
incompatibilidade do exercício do cargo. Tal como, em despacho de 17 de
Novembro de 1959, refere que Melo e Castro tem direito a acumular
remunerações, mas esclarecendo que os aspectos financeiros do
funcionamento da Assembleia Nacional estavam no domínio da Presidência do
Conselho, pelo que o processo deveria ficar à consideração deste. No
final, a pretensão do deputado obteve parecer favorável da auditoria
jurídica.

74

Polémica decisiva instalar-se-ia; no entanto, a partir de Dezembro de


1962, quando a pasta da Saúde e Assistência passou para as mãos de Pedro
Soares Martinez e os desentendimentos entre o novo ministro e Melo e
Castro tornaram-se frequentes, acabando por fim com graves consequências
para ambos: Melo e Castro teve de deixar abruptamente a Misericórdia,
Martinez não chegou a cumprir um ano no cargo.
A desavença entre os dois, de acordo com vários testemunhos, vinha de há
algum tempo e decorria de um episódio anterior à nomeação de Martinez
para o cargo de ministro da Saúde.

Há alguns anos que corria o rumor entre o povo de que havia corrupção nos
jogos da Lotaria. Quando assumiu o cargo de provedor, José Guilherme
mandou averiguar a situação e encomendou um parecer jurídico, que terá
sido feito precisamente por Soares Martinez, trabalho pelo qual este
cobrou 40 contos, uma quantia que foi considerada excessiva, a ponto de
Melo e Castro ter levado o caso ao conhecimento de Salazar.

O presidente do Conselho aconselhou, apesar disso, que se pagasse a


quantia pedida para evitar mais aborrecimentos. Mas Melo e Castro não só
ficou pouco convencido, como não deixou de se exaltar com a soma
apresentada por Martinez, ainda mais tratando-se de um estudo para a
Misericórdia. Escreveu-lhe, por isso, uma carta lembrando o desígnio de
solidariedade social da instituição, insistindo em perguntar se o preço
era mesmo aquele. Na resposta, Martinez contrapõe que exactamente por ter
tido em atenção o desígnio de solidariedade social da Misericórdia é que
o preço era aquele. O despacho foi exarado por um Melo e Castro já
impaciente, com a seguinte nota: "Pague-se a esse benemérito!"

Mal podiam imaginar que, pouco tempo depois, o destino lhes cruzaria os
caminhos, um como provedor, outro como ministro que tutelava a
instituição.

75

Certo é que o pagamento tardou e, quando foi enviada a importância em


causa, já Martinez era ministro, e fez saber que já não aceitava aquele
valor em virtude de o seu trabalho ter passado a valer mais. Cem contos
era o novo valor que propunha, o que enfureceu ainda mais Melo e Castro,
que voltou a queixar-se a Salazar. Mas este, uma vez mais, ordenou que se
pagasse o que era pedido a fim de evitar escândalos (Nota 56).

Colaboradores que trabalharam de perto com Melo e Castro revelam que este
se impacientava com a falta de resposta de Martinez quanto aos problemas
que queria ver resolvidos, como a adopção em Portugal de um serviço
nacional de saúde, semelhante ao National Health Service existente no
Reino Unido desde 1948. Segundo estes relatos, Melo e Castro terá chegado
mesmo, nalgumas ocasiões, a exaltar-se com Martinez e a dizer-lhe:
"Senhor ministro, não conhece os problemas, informe-se! Visite! Veja o
que se está a fazer lá fora!" Na memória dos que trabalharam com o
provedor Melo e Castro, o ponto de ruptura entre este e o ministro da
Saúde parece ter sido atingido com uma questão menor: por causa de
espátulas para ver a língua dos doentes. Melo e Castro queria que fossem
descartáveis, Martinez dizia que ele era um gastador e que era possível
reaproveitá-los, esterilizando.
Já Soares Martinez conta que entrou em ruptura com Melo e Castro porque
este desautorizava constantemente um dos seus adjuntos, Pais de Sousa,
por sinal sobrinho de Oliveira Salazar. Martinez considera mesmo que
havia um "mau viver" entre ambos e que tomou o lado do adjunto, optando
por demitir o provedor, mas, não recebendo o apoio de Salazar, apresentou
igualmente a sua própria demissão.

Tendo Soares Martinez pedido a demissão ou tendo antes sido demitido por
Salazar, como contam alguns, certo é que o presidente do Conselho sempre
revelou simpatia por Melo e Castro e pela obra que este vinha
desenvolvendo, além de que Salazar não quis admitir que alguém fosse
substituído num lugar de relevo, como era o de provedor da Misericórdia,
sem o seu assentimento prévio.

Nota 56 - Este relato dos motivos da zanga entre Melo e Castro e Soares
Martinez consta, aliás, da ficha de José Guilherme de Melo e Castro nos
arquivos da PIDE.

76

José Guilherme de Melo e Castro cessou funções a 11 de Outubro de 1963,


destroçado por ter de abandonar os projectos que vinha desenvolvendo à
frente da Misericórdia. A família revela que até chorou.

Não conseguiu fazer naturalmente tudo quanto desejava, mas no balanço do


mandato deixou obra feita, designadamente no que diz respeito à
assistência social, modernização dos lares para menores, valorização do
património da instituição, criação do Totobola e, acima de tudo, o Centro
de Reabilitação de Alcoitão, do qual Melo e Castro foi o mentor,
inteiramente construído com dinheiro da Misericórdia, sem que o Estado
tivesse de entrar com qualquer quantia.

Melo e Castro contou também com aquilo a que hoje em dia se classificaria
como uma "folga orçamental", já que a anterior administração da
Misericórdia, embora imobilista, tinha deixado reservas de dinheiro.

Do seu legado à frente da Misericórdia de Lisboa constam também inúmeros


acordos de cooperação com várias instituições de apoio assistencial, mas
também a introdução de novos serviços, como a medicina no trabalho,
espécie de centro-piloto onde estagiaram médicos e enfermeiros. Foi
também o responsável pela fundação da Casa de Pessoal da Santa Casa da
Misericórdia, a mesma que viria a prestar-lhe uma comovente homenagem
logo no dia a seguir a ter cessado funções. Preparada de um dia para o
outro, esta cerimónia contou com o apoio dos membros da mesa e de todos
os funcionários da instituição, mas também das Misericórdias de norte a
sul do país, que quiseram elogiar o homem e a obra, indignando-se com as
circunstâncias em que foi exonerado do cargo.
Na acta da cerimónia, ficou registado que se encontravam na sala "um
milhar e meio de pessoas, que ansiavam por associar-se ao tributo de
homenagem ao homem bom que, durante seis anos, foi o provedor da Santa
Casa". O mesmo relato dá conta de que quando Melo e Castro entrou na sala
"reboou inesquecível salva de palmas". Aos elogios ao trabalho e
dedicação, juntavam-se agora agradecimentos profundos. Na assistência,
ia-se ouvindo que quem ficava a perder era a instituição, que não o
esqueceriam,

77

e crianças internadas na Santa Casa quiseram despedir-se dele,


agradecendo-lhe e não contendo as lágrimas.

Domingos Braga da Cruz, à época provedor da Santa Casa da Misericórdia do


Porto e procurador das Misericórdias na Câmara Corporativa, considerou-o
mesmo um exemplo vivo do verdadeiro provedor, enquanto Ricardo Correia da
Fonseca, presidente da direcção da Casa do Pessoal, não hesitou em
elogiar o "homem devotado, todo entregue à menina dos seus olhos".

O encerramento ficou a cargo do seu grande amigo João Pedro Miller


Guerra, que quis lembrar o facto de Melo e Castro ter posto as valências
da medicina contemporânea ao serviço da Misericórdia, para concluir que a
sua obra por certo iria resistir à erosão do tempo. Citou mesmo São João
de Deus, o homem feito santo que se distinguiu na assistência aos mais
pobres e aos doentes, repetindo a sua divisa de que "tudo perece, só a
boa obra permanece" (Nota 57).

Nos dias a seguir a ter deixado a Misericórdia, não pararam de chegar a


sua casa centenas de telegramas e cartas de apoio, em que diferentes
individualidades da sociedade portuguesa quiseram exprimir-lhe
solidariedade, desde sacerdotes, religiosas, assistentes sociais,
enfermeiras e médicos, até membros do Governo e a quase totalidade dos
deputados que como ele tinham assento na Assembleia Nacional.

Nota 57 - A citação e a homenagem decerto o marcaram, como comprova um


cartão enviado de Granada, no final desse ano, ao amigo Tomás Oliveira
Dias, em que repetiu a frase, deixando transparecer o seu sentimento numa
altura em que tinha saído da Misericórdia de Lisboa, com a esperança de
que, pelo menos, a sua obra permanecesse.

78

Capítulo 7
O DISCURSO DA RUPTURA, PEDINDO DEMOCRACIA

Melo e Castro teve de abandonar a Misericórdia, mas permaneceu na


Assembleia Nacional, onde cerca de metade dos deputados tinha já sido
presidente ou vogal de algum dos órgãos de base da União Nacional, outros
haviam feito carreira autárquica, como presidentes ou vereadores de
juntas de freguesia e câmaras municipais, vários tinham ocupado o cargo
de governador civil.

No fundo, personalidades afectas ao regime e ao seu partido único, que


mantinham um certo estatuto e iam sendo convidadas a intervir em
cerimónias públicas.

Por ocasião dos 40 anos da revolução nacional (Nota 58) (ou seja, do
golpe militar de 28 de Maio de 1926], Melo e Castro, que tinha saído da
Misericórdia havia três anos, foi um dos oradores convidados dentro de um
grupo bastante selecto.

Tratava-se de uma efeméride sempre importante no quadro do Estado Novo,


mas com especial relevo nesta edição em que quiseram conferir-lhe uma
dimensão maior. Era entendida como uma oportunidade para demonstrar a
capacidade criadora das instituições políticas que, além de atentas ao
passado histórico, queriam mostrar que estavam preparadas para enfrentar
os desafios da modernização do país.

As comemorações serviam para exaltar o génio português e, de alguma


forma, iludiam as dificuldades diplomáticas sentidas por Portugal por
causa da questão colonial.

O encerramento das comemorações decorreu a 29 de Dezembro desse ano de


1966, com uma sessão na Assembleia Nacional,

Nota 58 - O programa do 40.° aniversário da revolução nacional foi


apresentado publicamente por Baltazar Rebelo de Sousa, presidente das
comissões organizadora e executiva das comemorações, em conferência de
imprensa realizada no dia 1 de Março de 1966.

79

Foto: Melo e Castro com o cardeal Cerejeira, uma das principais figuras
do regime, que conhecia dos tempos de Coimbra

com honras de cerimónia de Estado. Sala e galerias estavam completamente


cheias. Perante Salazar, sentado na primeira fila, foram designados para
falar Baltazar Rebelo de Sousa, enquanto responsável pela comissão
organizadora, José Hermano Saraiva, em nome da Câmara Corporativa, e Melo
e Castro, em nome da Assembleia Nacional.

Melo e Castro fez o discurso que ninguém esperava ouvir, muito menos
naquela circunstância. Contra paternalismos políticos, desafiou, no
fundo, Salazar a antecipar-se ao seu tempo, promovendo a abertura
política, alertando simultaneamente para a necessidade de reformas ao
nível da educação e da administração pública.

No seu discurso, a que chamou Construir o Futuro, começou por aludir a


"mensagens pretéritas (...) que se esvaziaram (...) e é preciso que não
fiquem como sobrevivências parasitárias nas praias da retórica" (Nota
59), avançou depois para a defesa de uma "democracia real", que "supõe
que três quartos da população, pelo menos, disponham de igualdade de
direitos, na lei e no seu exercício, e nos padrões de cultura e bem-
estar".

Nota 59 José Guilherme de Melo e Castro, Construir o Futuro, pp. 6-7.

80

Na sua avaliação da situação política portuguesa, entendeu que um país


com longa história e tradição, como Portugal, está predisposto para
"posturas passadistas do espírito, dificuldade de adaptação às realidades
do presente e às promessas do futuro" (Nota 60), para concluir, de forma
ousada e inconformista, dirigindo-se a Salazar, dizendo que "ainda um
grande serviço tem de pedir-se-lhe, após tantos e tamanhos que tem
prestado (...), o de aperfeiçoar os mecanismos de governação - políticos
e administrativos - de modo a que o país possa progredir à medida do
tempo presente e sem que tenha de depender do impulso da sua autoridade
ou de abrigar-se à sombra do seu prestígio" (Nota 61). E termina o
discurso defendendo a necessidade de "autêntica vida política
representativa, à participação do maior número nas tarefas do Governo que
a todos respeitam" (Nota 62), lembrando ainda que o grande esforço de
defesa feito no Ultramar "impõe toda a aceleração do ritmo do progresso
pátrio" (Nota 63).

Foram declarações muito críticas em relação à continuidade do regime e em


que pediu a saída de Salazar, à frente do próprio, quando ainda por cima
o regime tinha no presidente do Conselho e na sua autoridade moral o seu
principal alicerce.

A RTP gravou apenas este discurso, mas acabou por ser instruída para que
este não passasse na televisão. Numa tentativa de resolver o assunto sem
alaridos de maior, ficou decidido que seria antes transmitido o de
Hermano Saraiva, que ia ao encontro da política oficial do regime e que,
conta este nas suas memórias, terá comovido o Presidente do Conselho até
às lágrimas (Nota 64). A hora de jantar, Salazar terá mesmo mandado ligar
a televisão para o ouvir de novo, mas efectivamente o discurso não havia
sido gravado e o presidente do Conselho telefonou pessoalmente ao então
presidente da RTP, querendo saber porque não tinha passado nada do
discurso que tanto lhe agradara.

Nota 60 Idem, p. 7.

Nota 61 Idem, p. 10.

Nota 62 Idem, p. 11.

Nota 63 Idem, p. 12.

Nota 64 - José Hermano Saraiva, em depoimento enviado por escrito em 5 de


Janeiro de 2012, revela que Luís Supico Pinto, presidente da Câmara
Corporativa, lhe transmitiu que Salazar lhe confessou, nessa altura, que
pela primeira vez sentiu desgosto de não ser um grande orador, como
aquele que tinham acabado de ouvir, referindo-se ao próprio Saraiva.

81

Ramiro Valadão terá tentado desculpar-se, dizendo que o discurso era tão
bom que preferiu não dar só excertos, mas passá-lo na íntegra na noite de
Ano Novo.

Salazar parece ter ficado convencido e Valadão apressou-se a contar a


verdade a Hermano Saraiva, a quem pediu que repetisse o discurso. Saraiva
terminou a sua noite desse dia 29 de Dezembro a reproduzir, ou melhor, a
encenar, o que tinha declamado durante a tarde, falando para um hemiciclo
vazio. A gravação foi para o ar na noite de 31 de Dezembro de 1966.

Sobre este episódio, conta Franco Nogueira, na sua espécie de diário


político, que Melo e Castro foi "nitidamente inconveniente ao pedir a
retirada de Salazar da cena política. Ao meu lado direito, Quintanilha
Dias estava furioso; ao meu lado esquerdo, Arantes e Oliveira estava
imensamente divertido, e dizia com gozo: "Que irreverência, que rica
irreverência!" Salazar sempre muito sério, pareceu depois surpreendido
com as ovações e fez um ar admirado, como quem se espanta de que lhe
dirijam aplausos" (Nota 65).

O espanto ou mesmo o choque que parece ter tomado de assalto alguns dos
presentes, não assustou Melo e Castro, que numa conversa com o seu
motorista de então, João Carriço, ainda gracejou com o assunto,
confessando que estava à espera de que Salazar o mandasse prender por
causa do discurso que tinha feito (Nota 66). Afinal, não era todos os
dias que se suscitava a questão da retirada política de Salazar,
sobretudo tendo em conta que o regime estava institucionalizado na sua
pessoa e ainda mais tratando-se aquela de uma cerimónia de comemoração do
regime político.

Falar sobre a morte ou sucessão de Salazar era visto como uma questão
subversiva e, mesmo nos anos 60, em que foram surgindo algumas
informações mais evidentes sobre doenças do presidente do Conselho e em
que este terá revelado a Franco Nogueira que a sua capacidade de trabalho
já não era a mesma (Nota 67), qualquer notícia sobre o assunto era
rapidamente censurada.

Note-se que já noutro evento integrado no aniversário da Revolução


Nacional, na cidade de Braga, a 28 de Maio de 1966,

Nota 65 - Franco Nogueira, Um Político Confessa-se, p. 210.

Nota 66 - Entrevista com João Carriço, em 1 de Dezembro de 2011.

Nota 67 Paulo Otero, Os Últimos Meses de Salazar: Agosto de 1968 a Julho


de 1970, p. 160.

82

Salazar fez um discurso que causou suspense na sala, ao referir que


aquele seria "um belo momento para pôr ponto nos 38 anos que levo feitos
de amargura no Governo" (Nota 68), mas depressa acentuou a ironia e
desvendou que "só não me permito a mim próprio nem o gesto nem o
propósito porque, no estado de desvairo em que se encontra o mundo, tal
acto seria tido como seguro sinal de alteração da política seguida em
defesa da integridade da pátria e arriscar-se-ia a prejudicar a situação
definitivamente conquistada além-mar pelos muitos milhares de heróis
anónimos que ali se batem" (Nota 69).

Apesar deste exame de consciência, como lhe chama Jaime Nogueira Pinto,
Salazar não esperaria decerto que Melo e Castro tivesse a ousadia de, sem
qualquer ironia, apelar a um tempo presente que o podia dispensar e em
defesa da via representativa. Um discurso controverso que deixou a
oposição ao regime atenta e o regime, de alguma forma, alerta.

Mas Melo e Castro foi sempre bastante hábil a defender os seus pontos de
vista e mesmo neste seu discurso da polémica soube misturar elogios e
louvores à obra feita por Salazar, ao mesmo tempo que defendia uma
democracia real e a necessidade de preparar o futuro, um futuro que, para
José Guilherme, passava pela saída de Salazar da condução dos destinos do
país.

Nota 68 - Jaime Nogueira Pinto, Salazar - o Outro Retrato, p. 220.


Nota 69 - Ibidem.

83

Página em branco

Capítulo 8

DEPOIS DA MISERICÓRDIA

Poucos anos depois de ter saído da Misericórdia foi nomeado juiz-


conselheiro do Tribunal de Contas, em 20 de Outubro de 1965, uma vaga
aberta na sequência da morte do juiz-conselheiro António Andrade Pinto
Lemos. Permaneceu nesta instituição até à data da sua morte (Nota 70),
mas ao mesmo tempo acumulou um outro trabalho como administrador na
Lusofma, mais tarde Lusotur, Sociedade Financeira de Turismo, uma empresa
de estudos financeiros e de mercado criada por Arthur Cupertino Miranda,
ligada ao Banco Português do Atlântico e ao Banco de Portugal, que
comprou a zona que hoje se conhece como Vilamoura, no Algarve, em
parceria com banqueiros europeus, sócios americanos, franceses e
espanhóis.

Tratava-se de uma enorme quinta, onde vivia um morgado e existia um


centro hípico, uma exploração agrícola com uma área de 1600 hectares. Foi
precisamente a compra desta propriedade que determinou a constituição de
uma nova empresa, a Lusotur, que começou a fazer estudos para aquele
terreno no sítio de Quarteira, que iria ser vendido em parcelas, a par de
um planeamento profundo sobre o que iria ser feito para rentabilizar o
local como um destacado complexo turístico.

Nota 70 - Quando Melo e Castro morreu, em Setembro de 1972, o juiz-


conselheiro José Lourenço de Almeida Castelo Branco foi promovido sob
nomeação para o seu lugar, tendo tomado posse em 30 de Novembro do mesmo
ano. Talvez fosse já previsível que, dada a doença de Melo e Castro, este
não sobrevivesse muito tempo, já que o seu substituto parece ter sido
encontrado de forma muito célere, tomando posse apenas dois meses depois
do falecimento do seu antecessor, enquanto, quando Melo e Castro foi
nomeado, o cargo esteve por preencher praticamente durante um ano. O
juiz-conselheiro que o antecedeu morreu em 18 de Novembro de 1964, mas a
nomeação de Melo e Castro só ocorreu no final de Outubro do ano seguinte.

85
Começou-se por uma estalagem na parte agrícola antiga, mas o projecto
arquitectónico desenvolveu-se com base na marina. A partir daí, foram-se
vendendo lotes, para casas, hotéis e campos de golfe (Nota 71).

Melo e Castro foi um dos grandes mentores e impulsionadores do projecto


em Vilamoura. Para o fundador do Banco Português do Atlântico, não
restaram dúvidas: alguém que tinha conseguido mais do que duplicar as
receitas da Misericórdia de Lisboa seria com toda a certeza um bom gestor
para qualquer empresa. Daí o convite a Melo e Castro, que foi escolhido
para administrador delegado da Lusotur, cuja sede funcionava na Rua Tomás
Ribeiro, em Lisboa. Mas José Guilherme acabou por ficar poucos anos na
empresa.

De qualquer forma, quando Marcello Caetano o desafiou para a União


Nacional e para ser protagonista no processo eleitoral que levaria às
eleições de Outubro de 1969, Melo e Castro estava no Tribunal de Contas
como juiz-conselheiro.

Nota 71 - Em 1996, o Banco Português do Atlântico vendeu aos empresários


André Jordan e Vasco Branco a maioria do capital social da Lusotur,
empresa proprietária de Vilamoura. A totalidade do capital social da
sociedade seria adquirida anos mais tarde, já no ano 2000.

Capítulo 9

A UNIÃO NACIONAL E OS CONVITES PARA AS ELEIÇÕES DE 69

A União Nacional (UN) era a organização dos partidários do regime criada


em 1930, com bases orgânicas e estatutos aprovados pelo Governo,
funcionando na prática como um partido único, apesar de a Constituição
não prever partidos políticos e de Salazar se ter manifestado contra
estes toda a vida, escudando-se na máxima do regime que a Nação era um
todo, não se dividia em classes, nem precisava de partidos que as
representassem. "A missão que à partida lhe era confiada não era a de um
partido do Governo, encarregado de lhe traçar as directrizes políticas.
Era antes e apenas a de o apoiar e secundar na resolução do problema
político e constitucional" (Nota 72).

Formalmente, a União Nacional tinha uma função de legitimação do regime


político, moralizadora e ideológica, mas acabava por funcionar também
como uma organização que vigiava e denunciava quem se afastasse dos
princípios ideológicos do regime, dando informações ao Governo sobre
funcionários "desleais". Segundo Manuel Braga da Cruz, entrava-se, mas
raramente se saía.
A organização andou lado a lado com o poder, influenciando-o como "o mais
importante fornecedor de quadros políticos superiores ao regime. E essa
importância crescia à medida que se passava da administração central para
a administração local. Essa terá sido uma das mais notáveis tarefas da UN
no quadro do Estado Novo, e a que maior influência proporcionou à
organização nos destinos da governação" (Nota 73).

Nota 72 - Manuel Braga da Cruz, O Partido e o Estado no Salazarismo, p.


179.

Nota 73 - Idem, p. 177.

87

Pertencer à União Nacional, onde, de resto, a classe alta tinha


preponderância, era em muitos casos um trampolim para o exercício de
altos cargos do Estado, funcionando como uma organização de clientelas
políticas. Mas é preciso que se registe que, depois do crescimento dos
primeiros anos, a UN foi sendo relegada para segundo plano, enquanto a
Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa ganhavam espaço. Apagou-se face
ao Governo, restando-lhe um papel cada vez mais reduzido, perdeu
progressivamente funções e capacidade de mobilização. "Quando, no Outono
de 1968, Salazar é rendido por Marcello Caetano, a UN estava, de facto,
moribunda." (Nota 74) O novo presidente do Conselho procurou colocar
gente da sua confiança na União Nacional e Melo e Castro foi chamado para
presidir à Comissão Executiva. "Espírito aberto e liberal, de formação
católica, manifestara, como subsecretário de Estado da Assistência
Social, preocupações de justiça social, e como deputado evidenciara
tendências de liberalização" (Nota 75).

Na prática, era um convite para ser o chefe político, logo a seguir ao


próprio Marcello, funcionando como o seu homem de confiança para a
dinamização da organização, numa altura em que era vista como "um mono
político. Vivia dos notáveis em cada distrito e do bolor dos ritos
oficiais" (Nota 76). Era, pois, imperioso revitalizá-la.

Os dois eram próximos, mas sem intimidade. Melo e Castro não pertencia ao
chamado "grupo" de Marcello, de que faziam parte Camilo Mendonça,
Baltazar Rebelo de Sousa e Joaquim Silva Pinto, mas durante anos trocaram
ideias sobre o que cada um preconizava para o país, as reformas
necessárias e de que forma estas poderiam concretizar-se. Melo e Castro
pedia-lhe conselhos e pareceres em matérias como a saúde pública, a
assistência social e a previdência. Era um admirador das qualidades de
Marcello como pedagogo, jurista e estadista, e este poderia ter chamado
para o lugar várias outras personalidades, mas optou por este homem que
vinha defendendo uma transição pacífica
Nota 74 - Idem, p. 155.

Nota 75 - Idem, p. 155.

Nota 76 - José Freire Antunes, Sá Carneiro: Um Meteoro nos Anos Setenta,


p. 23.

88

para a democracia, que salvaguardasse princípios e modernizasse Portugal


no plano internacional.

Por seu lado, Melo e Castro acreditava nas capacidades de Marcello


Caetano, um político que muito apreciava, ao ponto de, quando este tomou
posse, lhe ter escrito um telegrama enorme, de várias páginas, como
recorda o seu amigo Tomás Oliveira Dias, onde descrevia o seu ponto de
vista sobre inúmeras situações. Aos olhos de Melo e Castro, com a subida
de Marcello ao poder a mudança podia finalmente realizar-se.

No discurso da tomada de posse como presidente da Comissão Executiva da


União Nacional, Melo e Castro começou por enunciar as boas obras feitas
nos 36 anos de história do regime, mas também nos primeiros meses de
governação de Marcello, o que tranquilizou muitos ânimos, mas não perdeu
tempo e, logo a seguir, falou de "democracia real". Tentou explicar o
conceito, referindo-se de forma sumária a uma administração eficaz,
participação efectiva, sem demagogia, dizendo, inclusivamente, que "a
expressão significa que os textos valem quase nada quando os costumes, na
realidade das acções, não asseguram um efectivo exercício dos direitos"
(Nota 77). No contexto das suas palavras, na prática, as suas declarações
abriam a porta à constituição de partidos políticos. Aliás, esteve para
não tomar posse porque, ao mostrar previamente a Marcello Caetano o
discurso que pretendia fazer, este discordou dele.

Nesse mesmo discurso enunciou aquilo a que chamou metas imediatas (como
assegurar as melhores condições para o acto eleitoral que se avizinhava),
mas também metas finais, ou seja, a adaptação do dispositivo político
pelo módulo comum da Europa Ocidental, lembrando que não seria necessário
alterar a Constituição e que esta não cedeu à "moda política, então
reinante na Europa, dos partidos únicos" (Nota 78). Na verdade, segundo
os relatos do Diário da Manhã, Melo e Castro parece ter sido coberto

Nota 77 - José Guilherme de Melo e Castro, Continuidade e Evolução - na


Posse da Comissão Executiva da União Nacional, em 20 de Dezembro de 1968,
p. 8.
Nota 78 - Jaime Nogueira Pinto, O Fim do Estado Novo, p. 181. Nogueira
Pinto considera que estas afirmações não primam pelo rigor, já que à data
da Constituição, 1933, apenas URSS, Alemanha e Itália tinham sistema de
"partido único", e suscitaram algum choque e hostilidade entre os
situacionistas.

de aplausos, mas a resposta a Melo e Castro não se fez esperar. O então


ministro do Interior, Rapazote, veio a público deixar claro que as
estruturas políticas do país não consentiam os esquemas dos partidos, os
seus programas e métodos, além de que as leis fundamentais não reconhecem
a sua existência.

O novo presidente da Comissão Executiva lançava à União Nacional um


desafio para uma acção política permanente e de massas, que substituísse
a passividade por um novo estilo de actuação, que passava também pela
realização com maior frequência de reuniões plenárias distritais e
nacionais, com o intuito de alargar o debate político e sensibilizar os
cidadãos para os problemas nacionais, as opções tomadas e as soluções
possíveis.

Melo e Castro pretendia transformar a União Nacional numa espécie de


federação de associações cívicas, com diferentes propostas políticas. Um
embrião para se evoluir até à formação de partidos políticos.

Na nova equipa da UN estavam Domingos Braga da Cruz, João Pedro Neves


Clara, Hermes dos Santos e Miguel Rodrigues Bastos, enquanto na Comissão
Administrativa se destacavam Correia da Fonseca e Basílio Horta (Nota
79).

As eleições legislativas de 1969 eram o primeiro grande desafio e a


oportunidade para renovar a Assembleia Nacional dos seus rostos
envelhecidos.

Documentos de carácter sigiloso referentes aos arquivos da União


Nacional, a que é hoje possível ter acesso na Torre do Tombo, referem que
a intenção era uma verdadeira transformação da câmara política, apoiada
numa renovação não inferior a 75 por cento, com uma maioria de deputados
que pudessem acompanhar as reformas que o Governo tencionava enviar à
Assembleia Nacional.

Nas reuniões com os dirigentes da União Nacional e com os governadores


civis, com indicações que emanavam directamente

Nota 79 - Miguel Rodrigues Bastos, amigo de Melo e Castro dos tempos de


Setúbal, integrava a Comissão Administrativa juntamente com Correia da
Fonseca e Basílio Horta. Este último era então uni jovem de 24 anos,
antigo aluno de Marcello Caetano e um dos vários que este convidou para
colaborarem com aquilo a que se chamou "primavera marcelista". Toda esta
nova equipa tinha como missão reformular a União Nacional, com o intuito
de reformular também o regime por dentro, no sentido da abertura.
90

do presidente do Conselho e do próprio Melo e Castro, as personalidades a


escolher deviam incluir gente do mundo do trabalho (nunca antes
representado na Assembleia Nacional), como dirigentes sindicais, nomes
das Forças Armadas e algumas personalidades com impacto na opinião
pública, como escritores, artistas e jornalistas. Assim como havia a
intenção de eliminar os chamados "advogados políticos" ou "traficantes de
influência", considerados "encapotados representantes dos grandes grupos
de pressão".

Não existindo partidos, o país estava habituado a um Executivo com mão de


ferro, e o único papel dos deputados era auxiliar na aplicação das
grandes coordenadas definidas pelo chefe do Governo. Foi assim durante
décadas, com a Assembleia Nacional cada vez mais esmagada pelo Executivo,
ao ponto de a iniciativa legislativa dos deputados ter decrescido ano
após ano. Aliás, já nos anos 40, o II Congresso da União Nacional
determinava que "a função legislativa deve competir essencialmente ao
Governo, que a exercerá mediante o estudo e pareceres da

Foto: Melo e Castro à frente da União Nacional, em Dezembro de 1968

91

Câmara Corporativa, salvo nos casos de reconhecida urgência, ficando


apenas reservada à Assembleia a feitura das leis definidoras de grandes
orientações ou assuntos e matérias adstritos a altos interesses nacionais
- assim reconhecidos por iniciativa do Governo" (Nota 80).

Fica patente o quão importante se tornava abrir portas a personalidades


capazes de acompanhar o regime de Marcello Caetano num caminho de
abertura. E Melo e Castro foi o homem escolhido por Marcello para
endereçar os convites às pessoas que iriam integrar, como independentes,
as listas da União Nacional nesse acto eleitoral de 69.

No que ao Ultramar dizia respeito, as orientações de Melo e Castro para


os candidatos às eleições iam no sentido de um equilíbrio entre não
esquecerem nem serem injustos "com as realizações do passado - antes
precisamente partindo delas -, mas também sem deixarem de avaliar, com
honestidade, os atrasos, lacunas, disfunções da administração, e ainda
sem deixarem de apontar, com desinteresse, as soluções idóneas, quer
dizer, as da experiência doméstica e estrangeira comparável".
Aqui e ali, um pouco por todo o país, nas comissões distritais da UN
alguns responsáveis foram sendo substituídos por pessoas mais abertas à
mudança. Mas José Guilherme, no verdadeiro périplo que fez pelo país,
recebeu muitas recusas aos convites que endereçou e teve muita
dificuldade em encontrar gente disponível para se juntar às listas da
União Nacional.

Muitos dos que contactou consideravam que Melo e Castro e Marcello


Caetano estariam isolados na intenção sincera de liberalização e
preferiam vê-los mais acompanhados nesse propósito. Também não lhe
esconderam que sentiam verdadeira repugnância pelo nome e tradição da
própria União Nacional - Melo e Castro sugeriu, inclusivamente, ao
presidente do Conselho que se usasse apenas a sigla UN, traduzindo-a como
"união nova".

As pessoas recusavam o convite porque desconfiavam de que não iriam ter


garantias de total independência e liberdades, nem durante a campanha nem
depois, no Parlamento. Tal facto deixou

Nota 80 - Diário das Sessões, suplemento ao n.° 176, de 16 de Junho de


1945, p. 642. In Manuel Braga da Cruz, op. cit, p. 98.

92

Melo e Castro muito desalentado e fê-lo crer que dificilmente se poderia


conseguir o propósito que tinha em mente.

Recusa de âmbito um pouco diferente, mas que assumia importância extrema,


foi protagonizada por Mário Soares. Melo e Castro queria que ele e a CEUD
fossem a eleições, já como prova da abertura e diversidade de correntes
organizadas de clara oposição dentro da Assembleia Nacional, ou terá
mesmo visto nele o interlocutor mais indicado para uma transição pactuada
do regime.

Francisco Oliveira Dias foi um dos intermediários do primeiro encontro


entre Mário Soares e Melo e Castro e revela alguns pormenores da
história, que começou quando ele próprio era assistente de cirurgia no
Hospital Pulido Valente, numa época em que o anestesista dos serviços era
Ramon La Féria (Nota 81).

Logo que Melo e Castro proferiu o célebre discurso do encerramento das


comemorações do 40.° aniversário da revolução nacional, Ramon fez questão
de dizer a Francisco Oliveira Dias que os meios mais esclarecidos da
oposição tinham ficado muito impressionados e que estavam interessados em
falar com Melo e Castro. O recado foi transmitido, mas não teve qualquer
consequência prática, e só quando foi nomeado para a Comissão Executiva
da União Nacional é que Melo e Castro manifestou interesse num encontro.
A condição imposta foi que se combinasse num lugar público, para tornar
claro que não se tratava de um encontro clandestino. Ficou, pois,
ajustado que seria no seu gabinete, no Tribunal de Contas, que funcionava
no Terreiro do Paço.

Francisco Oliveira Dias estava encarregue de ir receber Ramon e Soares,


mas quando lá chegou reinava a maior confusão porque Melo e Castro havia
tropeçado num aparelho de gravação que a PIDE lá tinha ido colocar. A
verdade é que quando o ministro do Interior, António Gonçalves Ferreira
Rapazote (que dirigia a PIDE), soube deste encontro mandou pôr gravadores

Nota 81 Ramon La Féria, licenciado em Medicina, especializou-se em


anestesiologia cardíaca. Foi grão-mestre do Grande Oriente Lusitano. Logo
na adolescência começou a dedicar-se à propaganda contra o regime
político de Salazar, o que lhe valeu repetidas advertências por parte do
reitor. Nos anos 40, a convite de Mário Soares, ingressou na direcção
académica do MUD-Juvenil.

93

no gabinete, os mesmos que Melo e Castro, furioso, depressa ordenou que


fossem retirados.

Resolvidas as peripécias, e sem qualquer escuta, realizou-se o encontro a


dois. Foi uma primeira abordagem, em que Melo e Castro perguntou a Soares
o que era preciso para que a oposição concorresse às eleições.

Passado algum tempo, Ramon pediu um novo encontro, novamente por


intermédio de Francisco Oliveira Dias, mas exigindo que não fosse marcado
para o Tribunal de Contas. Francisco foi buscar Melo e Castro ao Largo da
Misericórdia e o ponto de encontro era a Pastelaria Ribalta, perto da
Igreja de Nossa Senhora de Fátima. Quando lá chegaram, estava à porta
Ramon, que lhes indicou que Mário Soares o esperava no Gôndola. O
encontro decorreu ao fim da tarde.

Mário Soares não se alonga em comentários sobre estes encontros, de que


diz já não se recordar muito bem, mas refere um almoço no Grémio
Literário, que aconteceu depois de José Pedro Pinto Leite lhe ter
transmitido que Melo e Castro tinha interesse em falar com ele (Nota 82).

Soares recorda o entusiasmo do líder da União Nacional, um homem bem-


intencionado, que acreditava ser possível abrir o regime e instaurar uma
democracia de tipo europeu, e que lhe disse que Marcello Caetano gostava
muito dele, até porque o conhecia da Faculdade de Direito, onde tinha
sido seu professor.

Soares terá mesmo sido sondado para entrar nas listas da União Nacional,
como independente, nas eleições de 69, mas lembrou a Melo e Castro que,
quando regressou do exílio em São Tomé, fez um teste ao regime: escreveu
um manifesto, assinado por socialistas, dizendo que sem eleições livres e
sem a resolução da guerra do Ultramar não havia possibilidade de
democracia. O manifesto foi todo cortado pela censura e nunca viu a luz
do dia. Soares deu depois uma entrevista ao Diário de Lisboa e outra ao
República. A primeira foi cortada na íntegra, a segunda esteve muito
tempo suspensa, ao que consta por indicação do próprio Marcello Caetano.

Soares sublinha que, se dúvidas houvesse, nessa altura ficou logo sem
ilusões e repete a resposta que terá dado a Melo e Castro,

Nota 82 - Conversa com Mário Soares, em 30 de Dezembro de 2011.

94

dizendo: "Nem pense nisso! Eu não sou independente, sou socialista. Se me


deixarem organizar um Partido Socialista, eu organizo e concorro contra
vocês (Nota 83)." Revela também um episódio de outro encontro com Melo e
Castro, onde esteve presente Abranches Ferrão, que terá perguntado a Melo
e Castro porque é que não faziam eleições livres, ao que este terá
respondido: "Porque o Mário Soares ganhava (Nota 84)."

Mário Soares não foi o único que Melo e Castro tentou sondar, para
explorar as possibilidades de envolvimento da oposição numa abertura
controlada do regime. Fez o mesmo com Francisco Pereira de Moura,
destacado economista e professor universitário, que tinha sido procurador
da Câmara Corporativa e que pertencia à CDE (Comissão Democrática
Eleitoral), mas a conversa também não surtiu os efeitos desejados.

E conversava frequentemente com o seu conterrâneo António Alçada


Baptista, que nas eleições de 69 concorria pela oposição. Madrugada
dentro, em plena sede da União Nacional, no Largo Trindade Coelho,
trocavam impressões e ideias, que Alçada classifica como encontros
civilizados de portugueses "a quem as diferentes ideias ajudavam e
estimulavam: qualquer coisa bem para lá do espírito de partido".

Acresce que a comunicação social também não era favorável a Melo e


Castro, sobretudo no República, onde tinha muita gente que se lhe opunha.

A campanha não estava a correr bem, nem a União Nacional, completamente


desgastada havia anos e sem verdadeira prática política, estava preparada
para agir enquanto organização eleitoral. E por certo o presidente do
Conselho terá considerado que alguns excessos estariam a ser cometidos,
dado que, a certa altura, surgiu a dirigir a campanha António Caetano de
Carvalho (Nota 85), um funcionário superior do Secretariado Nacional de
Informação
Nota 83 - Visão de 14 de Agosto de 2008, p. 36.

Nota 84 - Ibidem.

Nota 85 - António Caetano de Carvalho era director-geral da Cultura


Popular e Espectáculos e simultaneamente presidia à Comissão de Exame e
Classificação de Espectáculos. Era o responsável máximo pelas medidas
censórias, por exemplo, no teatro, apesar de se lhe reconhecer respeito
pela geração do novo cinema e de ter sido sempre correcto e cordial com
os realizadores da oposição.

95

(SNI), o organismo responsável pela propaganda política, informação


pública, comunicação social, turismo e acção cultural durante o Estado
Novo.

Na sua colaboração com Marcello Caetano, Melo e Castro em pouco tempo se


viu embrenhado numa teia de sentimentos contraditórios: lealdade,
primeiro, impaciência e desilusão, depois.

Testemunha desse desalento, Tomás Oliveira Dias recorda que, quando se


preparava para tomar posse como presidente da Comissão Distrital de
Leiria da União Nacional, estava um pouco receoso da linguagem que
deveria utilizar no seu discurso, pelo que pediu conselhos ao amigo Melo
e Castro. Nessa altura, tendo-se os dois encontrado a meio caminho entre
as cidades em que cada um se encontrava, na Pousada de São Martinho, Melo
e Castro confessou, em vésperas das eleições de 69, que tinha as maiores
dúvidas de que as coisas pudessem correr bem. Aos seus olhos, tornava-se
claro o dilema: ou o regime evoluía para a democracia rapidamente ou
estaria condenado a muito breve trecho.

Ainda assim, houve personalidades que nunca tinham estado envolvidas na


política que aceitaram ajudar Marcello Caetano no caminho da mudança:
Francisco Sá Carneiro, Joaquim Pinto Machado, Magalhães Mota, José Pedro
Pinto Leite, Mota Amaral, entre outros. Mais de duas dezenas de
independentes com tendências democratizantes aceitaram a candidatura.
Tinham como propósito a democratização do regime e quanto ao Ultramar,
tema tabu, pretendiam uma transição pacífica para as autonomias. E as
convicções de Melo e Castro, adepto confesso da democracia, iam
precisamente no sentido desses propósitos. Referia-lhes que era
necessário, naquelas circunstâncias, "abrir janelas" para que se pudesse
renovar o sistema e se viesse a obter condições para uma democracia de
tipo europeu ocidental. Defendia também a liberdade de imprensa e a
constituição de partidos políticos em condições de disputar, em pé de
igualdade, eleições realmente livres.

Melo e Castro poderá ter-se excedido nas promessas que deixou a quantos
aceitaram e acreditaram ser possível a transição de regime.
Provavelmente, prometeu mais do que era suposto na óptica de Marcello
Caetano, entusiasmou-se e "foi criando expectativas sobre o que ele
próprio queria e esperava que fosse

96

Página com fotos de Melo e Castro numa visita à Jordânia

a evolução, o que depois daria lugar a alguns equívocos nas relações com
Marcello Caetano e que nunca foram dilucidados" (Nota 86).

Homem de grande abertura intelectual e realmente entusiasmado com aquilo


que o rodeava, estava apaixonado pela transição para a democracia no seu
país e depressa inspirou aqueles que, depositando esperanças em Marcello,
desconfiavam de que este tivesse efectivamente a força e a convicção
necessárias para mexer no regime. Foi por Melo e Castro que muitos
aceitaram integrar as listas da União Nacional como independentes, vendo
nele o motor para a mudança.

Foi sem dúvida o mais ousado apoiante de Marcello Caetano não só quanto
aos propósitos que o moviam, mas até na forma como conduziu alguns
convites para as eleições de 69. Bom exemplo disso foi a insistência com
o presidente do Conselho para que incluísse Francisco Sá Carneiro mesmo
depois de Marcello ter manifestado desagrado com a escolha, mas sobretudo
o episódio que se passou com o nome de Francisco Pinto Balsemão, que
Manuel José Homem de Mello, homem próximo de Marcello e que tinha sido
eleito deputado pela primeira vez com apenas 27 anos, no tempo de
Salazar, desvenda. Pelo que Homem de Mello relata, o presidente do
Conselho tinha sérias dúvidas sobre Balsemão por o considerar pouco
maduro para ser deputado, mas Melo e Castro considerava importante a
inclusão do seu nome, até pelas ligações e influência que ele mantinha no
Diário Popular, propriedade do seu tio.

Sendo Homem de Mello vogal da Comissão Executiva da União Nacional a que


Melo e Castro presidia, este pediu-lhe que protagonizasse uma verdadeira
encenação, para deixar Marcello Caetano sem alternativa. A ideia de Melo
e Castro era que Homem de Mello apresentasse o convite a Balsemão como
facto consumado (Nota 87). Foi assim que, poucos dias depois, Manuel José
se apresentou em Alvalade, na residência particular de Marcello,
informando-o de que como membro da comissão, convicto de que prestava um
serviço político relevante, tinha convidado, em nome dele, Balsemão para
integrar a lista da União Nacional, pelo distrito da Guarda.

Nota 86 - Entrevista a Marcelo Rebelo de Sousa, em 13 de Dezembro de


2008.
Nota 87 - Conversa com Manuel José Homem de Mello, em 19 de Março de
2012.

98

Homem de Mello confessa que "não contava com a violência da reacção. Não
foi "tempestade". Desencadeou-se um autêntico "ciclone""88. Mas, perante
os factos, acabou por acalmar-se e considerar que Balsemão poderia ser um
bom nome.

Entretanto, os candidatos iam fazendo os seus manifestos eleitorais,


diferentes por cada círculo eleitoral, alguns deles geradores de
polémica, como foi o caso daquele que foi elaborado pelo grupo do Porto
(Nota 89).

Este grupo do Porto, de que faziam parte Francisco Sá Carneiro, Pinto


Machado, Joaquim Macedo e José da Silva, não quis perder a oportunidade
de testar as reais intenções de Marcello e decidiu que a aceitação do
convite dependeria da publicação na imprensa, pela União Nacional, de um
comunicado onde se pudessem ler os motivos pelos quais aceitavam a
candidatura e com que propósito. Queriam realçar que não assumiam o
compromisso de apoiar incondicionalmente o Governo e defendiam que, para
as necessárias transformações políticas, sociais e económicas, havia que
assegurar o exercício efectivo dos direitos e liberdades fundamentais,
esclarecendo que entre eles estavam o direito de livre expressão, que
impunha com urgência a abolição da censura prévia como sistema - mas essa
parte do texto já não constou do documento divulgado na imprensa. Aliás,
o comunicado dos candidatos pelo Porto acabou por sair nos jornais
diários só no primeiro dia oficial de campanha eleitoral, 28 de Setembro
de 1969, já que a União Nacional atrasou a sua saída, responsabilizando a
censura pela demora verificada.

As eleições realizaram-se a 26 de Outubro de 1969 e foram as mais


disputadas do Estado Novo, com a oposição a ter ido às urnas em
praticamente todos os círculos eleitorais, o que aconteceu pela primeira
vez.

A União Nacional elegeu a totalidade dos deputados, mantendo como até aí


o monopólio da representação parlamentar, com 88 por cento dos votos,
enquanto as listas da oposição obtiveram

Nota 88 - Manuel José Homem de Mello, Meio Século de Observação, p. 153.

Nota 89 - Os nomes dos candidatos pelo Porto foram encontrados depois de


Melo e Castro ter pedido a Mário Pinto, elemento activo em vários grupos
católicos democráticos da Cidade Invicta, que indicasse alguns nomes.
99

apenas 11,9 por cento (Nota 90), não conseguindo eleger qualquer
deputado, já que, com o sistema eleitoral maioritário que vigorava, a
lista que tivesse mais votos entrava toda, não havendo representação
proporcional.

Foram as primeiras eleições que se realizaram depois da saída de Oliveira


Salazar da Presidência do Conselho, num ambiente de esperança renovadora,
mas nem por isso com menos irregularidades. O eleitorado manteve-se refém
dos recenseamentos viciados, com o recurso aos mesmos cadernos eleitorais
que incluíam os cidadãos já falecidos (Nota 91). Perdia-se, assim, a
oportunidade de um recenseamento eleitoral efectivo, a partir de novos
cadernos eleitorais que se impunham.

As eleições funcionavam, por outro lado, como um teste à política


ultramarina seguida por Marcello Caetano, que apostava nelas como uma
bênção popular para a guerra, depois de ter procedido "friamente ao exame
do problema ultramarino, do princípio ao fim, para ver se haveria outras
soluções a ensaiar, diferentes daquela que estava a ser seguida e
melhores do que ela". Concluiu que a situação no Ultramar era de
emergência, justificando o sacrifício de todos, "inclusivamente nalgumas
liberdades que se desejaria ver restauradas" (Nota 92).

A seguir às eleições, mas ainda antes da posse, Melo e Castro organizou


um encontro com os deputados recém-eleitos que se tinham candidatado com
um conjunto de ideias e propostas no sentido da democratização. A reunião
decorreu no Centro de Estudos da União Nacional, que ficava mesmo em
frente ao Palácio de São Bento, na Avenida D. Carlos I, e serviu para
José Guilherme

Nota 90 - Num total de 1809 000 eleitores, a União Nacional obteve 980
000 votos, a oposição conseguiu 133 000, registando-se ainda 695 000
abstenções. Destacaram-se os resultados da CDE em Setúbal, onde alcançou
34,7 por cento; em Lisboa, 18,5 por cento e, no Porto, 5,1 por cento. A
CEUD obteve 7,8 por cento no Porto.

Nota 91 - António Reis, antigo deputado e dirigente socialista, que em


1969 esteve nas listas da CDE por Santarém, conta na conferência "Tempos
de Transição: Críticas, Dissidências e Oposições", que decorreu no
auditório da Faculdade de Belas-Artes, em Lisboa, a 14 de Janeiro de
2009, que, como candidato às eleições, tinha o direito de aparecer em
qualquer mesa de voto, a qualquer momento. Quando foi acompanhar as
votações numa aldeia perto de Abrantes, de imediato se lhe deparou uma
chapelada, já que os votos contabilizados eram muito mais do que o número
real de eleitores. Conta que fez queixa, mas que esta não surtiu qualquer
efeito.
Nota 92 - Marcello Caetano, Pelo Futuro de Portugal, pp. 204-205.

100

os alertar de que deveriam ser prudentes, cautelosos e não se exporem


demasiado, embora mantendo-se coerentes com aquilo que queriam. Lembrou
que, "para conseguir algum resultado, não podiam querer tudo de uma vez,
até porque Marcello Caetano não abdicava do seu pensamento político nem
dos políticos que o acompanhavam" (Nota 93).

Testemunhos desse encontro lembram um Melo e Castro "cheio de entusiasmo


e genica, realmente empenhado em dinamizar uma modificação do regime numa
transição para a democracia" (Nota 94). Mas esse entusiasmo acabaria por
esmorecer muito rapidamente. O processo eleitoral tinha sido desgastante,
muito cansativo e até esgotante para Melo e Castro, e ficou claro que o
presidente do Conselho tinha perdido a confiança total nele.

Numa carta que Marcello Caetano endereçou a Baltazar Rebelo de Sousa, a


22 de Outubro de 1969, nas vésperas das eleições, pode ler-se que "depois
das eleições, tenho de tomar opções decisivas se ainda quiser salvar
alguma coisa nesta confusão que a loucura de Melo e Castro e a
incapacidade ou tibieza de muitos mais deixaram criar e alimentar" (Nota
95). Marcello desabafa igualmente que vive "a amargura de uma vergonhosa
campanha eleitoral, em que não se sabe se na condução da UN prevaleceu a
inépcia ou espreitou a traição" (Nota 96).

Ganhas as eleições, já o presidente do Conselho era um homem descontente


e pouco confiante, arrastando consigo um pessimismo que em pouco se
coadunava com a mudança que muitos dele esperavam.

Seguiram-se jogos de bastidores e de influência política, pressões e


intrigas, que levaram a que na reorganização da União Nacional, que
passou a chamar-se Acção Nacional Popular (Nota 97), a Melo e Castro

Nota 93 - Entrevista a Raquel Ribeiro, em 24 de Fevereiro de 2011.

Nota 94 - Entrevista a João Bosco Mota Amaral, em 10 de Fevereiro de


2011.

Nota 95 - Marcello Caetano, Depoimento, pp. 270-271.

Nota 96 - Marcelo Rebelo de Sousa, Baltazar Rebelo de Sousa, p. 270.

Nota 97 - No V Congresso da União Nacional, que se realizou em Fevereiro


de 1970, no Estoril, o movimento político passou a chamar-se Acção
Nacional Popular (ANP). A intenção era não só mudar de nome e actualizar
os estatutos, mas também torná-la mais dinâmica e interveniente, no fundo
revitalizar uma vez mais, para conseguir maior participação política,
mais implantação na sociedade e nas classes jovens. Foram nomeados como
vice-presidentes da Comissão Central Melo e Castro, Baltazar Rebelo de
Sousa e Manuel Cotta Dias, ocupando este último o cargo de presidente da
Comissão Executiva, em substituição de Melo e Castro, que perdeu, assim,
poder. Esteve à frente da União Nacional entre 20 de Dezembro de 1968 e
20 de Fevereiro de 1970.

101

apenas fosse atribuído o cargo de vice-presidente da organização.

Ficou claro que, aos olhos de Marcello, Melo e Castro tinha ido depressa
e longe de mais - o suficiente para ser subtilmente afastado, o que muito
o afectou.

Apesar de Melo e Castro se apresentar politicamente numa posição mais


vulnerabilizada, a oportunidade de uma Assembleia Nacional renovada era o
passo decisivo para o propósito que ele próprio enunciou no primeiro
discurso que proferiu perante os deputados, no arranque dos trabalhos
parlamentares da X Legislatura: "O que país espera é precisamente vida
nova (Nota 98)." Um discurso cujo propósito passava por exteriorizar os
sentimentos dos deputados e as suas expectativas para a nova legislatura.
Nele exaltou a enorme renovação que se verificava na Assembleia Nacional,
com três quartos dos deputados novos em relação à legislatura anterior e
lembrou que "no termo da passada legislatura, em inquérito jornalístico,
foi-me perguntado o que augurava para a X Legislatura. Respondi que
aspirava a que fossem eleitos deputados que pudessem acompanhar as
reformas de que o país carece e que o presidente Marcello Caetano
tenciona enviar à Assembleia Nacional" (Nota 99). Terminou o discurso com
a convicção de que estaria cumprido "o bom augúrio" e de que aquela
Assembleia se mostraria "à altura da realização do "Estado Social -
Marcello Caetano" (Nota 100). Inaugurava ali um impulso importante,
proclamando que o Estado Novo tinha dado lugar ao "Estado Social", uma
declaração que causou burburinho entre aqueles que preferiam que os
sinais dados fossem meramente de continuidade do regime.

Os primeiros tempos do consulado de Marcello tinham já deixado dois


sinais de boa memória para quem dele esperava um sopro novo na vida
política em Portugal. Primeiro, o discurso da tomada de posse, onde
perpassava a ideia de que não podia

Nota 98 - Diário das Sessões, n.° 2, de 29 de Novembro de 1969, p.l 1.

Nota 99 - Idem, ibidem.

Nota 100 - Idem, ibidem.


102

ficar tudo como estava, depois a decisão de autorizar o regresso de dois


homens que tinham feito frente ao regime: D. António Ferreira Gomes,
bispo do Porto, proibido de entrar no país havia dez anos, e o
oposicionista Mário Soares, a quem o regime tinha fixado residência em
São Tomé e Príncipe.

O ligeiro atenuar da censura e da repressão por parte da polícia


política, o facto de não ter fechado a porta à Europa, desenvolvendo,
pelo contrário, relações comerciais e económicas com esta; mas também o
ter-se aproximado das pessoas e receber nalguns casos banhos de multidão,
eram sinais de esperança.

103

Capítulo 10

A ALA LIBERAL

Na legislatura que se iniciou a 25 de Novembro de 1969101, dois terços


dos eleitos eram deputados estreantes na Assembleia Nacional, com uma
média de idades bastante inferior à da IX Legislatura, entre os quais um
grupo que se propunha tentar fazer uma transformação do regime por
dentro, e a que os órgãos de comunicação social começaram a chamar
liberais.

Acreditaram inicialmente em Marcello porque lhe reconheciam


características adequadas para um primeiro-ministro de um Governo
refomista, lembravam-no como autor de um parecer em que defendia uma
"commonwealth à portuguesa", como tendo dito várias vezes que era preciso
uma lei de imprensa que confirmasse direitos e limitações da comunicação
social, alguém que tinha até tido uma atitude de simpatia para cora as
reivindicações

Nota 101 - Ao contrário de todas as outras vezes em que foi deputado, na


X Legislatura (1969-73) Melo e Castro foi eleito pelo círculo de Lisboa.
Nessa altura ocupou também o cargo de primeiro-vice-presidente da mesa da
Assembleia Nacional e fez parte das comissões de Legislação e Redacção e
de Finanças.

Logo na primeira sessão legislativa coube-lhe fazer o elogio do novo


presidente eleito Carlos Monteiro do Amaral Neto. Nesse breve discurso,
não perdeu a oportunidade para lembrar a enorme renovação que se
verificava na Assembleia Nacional, com três quartos dos deputados novos
em relação à legislatura anterior, mostrando-se convicto de que o país
esperava "vida nova". Subscreveu também os pareceres da Comissão de
Legislação e Redacção relativos aos decretos sobre autorização das
receitas e despesas para 1970; colheita de produtos biológicos humanos
para liofilização e conservação por outros processos; alteração ao artigo
47.° da Lei do Serviço Militar; adopção de medidas tendentes ao
desenvolvimento da Região de Turismo da Serra da Estrela; criação de
tribunais de família.

Subscreveu igualmente as resoluções da Comissão de Legislação e Redacção


com os decretos sobre as contas gerais do Estado e as contas da Junta de
Crédito Público de 1968; circulação de mercadorias nacionais ou
nacionalizadas entre o continente e as ilhas adjacentes; acordos
colectivos de comercialização de produtos agrícolas, florestais e
pecuários; assistência judiciária; crédito de colheita; protecção da
natureza e dos seus recursos.

105

dos estudantes durante a crise académica. E este mandato para os anos de


1969-73 tinha poderes para mexer na Constituição, o que permitiria aos
deputados a apresentação de um projecto de alteração do texto
constitucional que eliminasse as disposições ao abrigo das quais se
proibia em Portugal o exercício efectivo das liberdades.

Este foi precisamente o factor determinante para alguns dos novos


deputados terem aceitado o desafio. Foi também esse o caso de Francisco
Sá Carneiro, para quem, além disso, "a União Nacional, na altura das
eleições, tendo à frente o Dr. Melo e Castro, tinha um programa político
de franca liberalização do regime, mais do que isso, de democratização a
curto prazo" (Nota 102).

Os deputados ditos liberais e o Governo de Marcello Caetano tinham em


comum a vontade de modernização socioeconómica do país, e, politicamente,
para proceder efectivamente a qualquer tipo de abertura do regime,
Marcello Caetano precisaria do apoio da Assembleia Nacional. Ora, não
havendo aí, na sua maioria, gente afecta a essa orientação, Marcello
precisava de algumas pessoas que o pudessem acompanhar - uma espécie de
bancada parlamentar de apoio ao presidente do Conselho.

Por outro lado, este grupo de pessoas mais jovens e de horizontes mais
abertos era útil ao Governo porque o ajudava a compor uma imagem de
descompressão do regime aos olhos da comunidade internacional, permitia
alargar a base de apoio de Marcello, tornando-a menos dependente da ala
salazarista, o que no fundo poderia ajudar a conter o poder dos ultras, a
ala dos mais conservadores do regime, que discordou da nomeação de
Marcello Caetano por considerá-lo demasiado propenso a aberturas. Um
grupo que, não sendo grande, era forte e muito próximo do presidente
Américo Thomaz.
Falando de novo nos liberais, tratou-se, de qualquer forma, de um grupo
informal, cujos membros agiram sempre ao sabor do improviso na discussão
de matérias cruciais e cuja identificação não é exacta, mas onde é
possível identificar alguns traços comuns: uma elite constituída por
personalidades relativamente

Nota 102 - Entrevista ao República, conduzida por Jaime Gama, in


Francisco Sá Carneiro, Textos. I Volume, 1969-1973, p. 394.

106

jovens, de origem urbana, com ligações directas aos sectores católicos


renovadores da Igreja pós-Concílio Vaticano II, e onde o peso da formação
jurídica era ainda mais acentuado do que nos restantes parlamentares. A
uni-los estava a expectativa de ajudarem a promover uma transição de
regime.

De uma forma geral, costumam apontar-se os nomes de José Pedro Pinto


Leite, Francisco Sá Carneiro, João Pedro Miller Guerra, João Bosco Mota
Amaral, Francisco Pinto Balsemão, Joaquim Magalhães Mota, Raquel Ribeiro,
José Correia da Cunha, Joaquim Macedo, Joaquim Pinto Machado e Alberto
Alarcão e Silva (Nota 103).

Não restam, no entanto, dúvidas quanto ao líder inicial deste grupo


informal, José Pedro Pinto Leite, a figura mais destacada entre os
deputados ditos liberais, que se movimentava à vontade nos círculos
políticos e sociais de Lisboa e era próximo de Marcello Caetano, de quem
tinha sido aluno, fazendo a ponte entre o presidente do Conselho e os
seus colegas de bancada na Assembleia Nacional. Um laço só quebrado pela
morte prematura de Pinto Leite, que viria a abrir espaço de influência a
Francisco Sá Carneiro.

José Pedro Pinto Leite teve logo, durante a campanha, um papel de


coordenação de acções dos diversos candidatos, que se evidenciava
especialmente na região de Lisboa, o mesmo acontecendo com Francisco Sá
Carneiro, no Norte. Lideravam as reuniões em que se preparavam os temas a
abordar durante a legislatura e se tentavam esboçar estratégias em áreas
que consideravam fundamentais, como os direitos humanos, as liberdades e
garantias, a revisão da Constituição ou a eleição do presidente da
República por sufrágio directo.

Muitas vezes, as relações com os restantes candidatos das listas da União


Nacional complicavam-se e Pinto Leite tentava

Nota 103 - Há também quem defenda que a Ala Liberal se estendia a alguns
outros deputados, já que, durante os trabalhos parlamentares, se foram
descobrindo alguns que nas votações acompanhavam este núcleo duro. A
designação de Ala Liberal pode no limite estender-se a alguns membros do
Governo de Marcello Caetano, que entraram na remodelação levada a cabo em
Março de 1969, mais precisamente os secretários de Estado defensores de
uma linha modernizadora, contrária ao condicionamento industrial e ao
proteccionismo, como era o caso de Valentim Xavier Pintado, Rogério
Martins e João Salgueiro, conhecidos como os "tecnocratas".

107

sempre apaziguar. Frequentemente se recorreu à sua intervenção, pedindo-


lhe que estabelecesse pontes com os deputados da "maioria". Articulava
com os vários intervenientes de forma hábil, sensata e perseverante. Era
firme e conseguia moderar atitudes e comportamentos.

No Parlamento, José Almeida Cotta, secretário de Estado da Administração


Ultramarina, fazia o papel de porta-voz do Governo, mantendo também a Ala
Liberal vigiada e controlada. Mas mais decisivo seria o papel da ala mais
conservadora e ultradireitista do regime, próxima de Salazar, que se
manteve no Parlamento, onde se incluíam nomes como o de Francisco Casal
Ribeiro, Henrique Tenreiro ou Ulisses Cortês. Defendiam de forma
intransigente o Ultramar e as ameaças à desagregação do Império,
criticavam o rumo da governação de Marcello Caetano e combatiam a Ala
Liberal (Nota 104).

Todos eles tinham as maiores reservas quanto a Melo e Castro, alguém que
viam como "um rapaz de orientação pouco segura" e "enfeitiçado" pela
ideia de formação imediata de partidos, como se pode ler numa carta de
José Soares da Fonseca enviada a Marcello Caetano (Nota 105).

Nas palavras de Mota Amaral, "a gente da velha guarda salazarista que
ainda estava na Assembleia Nacional tinha-lhe uma antipatia muito
cordial, um odiozinho de estimação" (Nota 106).

Melo e Castro ia lembrando aos jovens deputados que era preciso terem bom
senso porque a situação não lhes era favorável. Tiveram ocasião de sentir
na pele isso mesmo quando, logo a partir de 1970, se foi perdendo a
possibilidade de discutir os seus projectos. Ficava para trás uma
importante indicação deixada por Melo e Castro durante as reuniões de
preparação para as eleições de 69, sobre a necessidade de "não deixar nas
mãos do adversário o pendão das reformas necessárias. É preciso ir à
frente e reivindicar para nós, para os que seguimos politicamente

Nota 104 - Numa entrevista, dada em 1993, Francisco Casal Ribeiro


confessou que era "tão salazarista que nunca poderia ser marcelista",
explicando que continuou deputado para poder estar "atento à evolução
para cuidar da continuidade".
Nota 105 - José Freire Antunes, Cartas Particulares a Marcello Caetano,
Volume II, p. 245.

Nota 106 - Entrevista a João Bosco Mota Amaral, em 10 de Fevereiro de


2011.

108

Marcello Caetano, a posição dos que sabem interpretar inequívocas


esperanças populares e corresponder-lhes" (Nota 107).

E o Ultramar também viria a ser uma matéria de discórdia profunda entre


Marcello e os membros da Ala Liberal, que ao aceitarem integrar as listas
da União Nacional não impuseram quaisquer condições sobre a matéria,
mesmo depois de terem ouvido Marcello Caetano, no seu discurso de tomada
de posse, comprometer-se com a continuação do esforço de defesa do
Ultramar, alegando que este obrigava liberdades que gostaria de ver
restauradas a permanecerem "congeladas".

O Ultramar era definitivamente assunto tabu, depois de durante o longo


consulado de Salazar este ter apostado na recusa intransigente da
descolonização, defendendo que África era o complemento natural da Europa
(Nota 108).

Das antigas potências imperiais europeias, Portugal era a única que, em


finais dos anos 60, continuava a resistir à aplicação do princípio da
autodeterminação nos seus domínios ultramarinos.

Marcello Caetano, que chegou a defender uma "commonwealth à portuguesa",


entendia agora que o Ultramar deveria ser encaminhado para uma autonomia
progressiva que poderia chegar ao autogoverno, ou talvez mesmo à
independência, como tinha acontecido no Brasil. Marcello recusava-se a
assumir o que considerava como "responsabilidade histórica de destruir
uma pátria de cinco séculos". Já Melo e Castro defendia que se desse
àqueles países um período de vários anos para que pudessem ter tempo para
se organizarem, procederem a eleições e fazerem sozinhos o seu caminho.

Marcello ainda terá dito a Melo e Castro, a propósito do Ultramar, "vocês


vão fazendo as coisas, mas não façam barulho, não

Nota 107 - Entrevista a Raquel Ribeiro, em 24 de Fevereiro de 2011.

Nota 108 - A política ultramarina de Marcello Caetano arrancou a partir


daquela que Salazar instaurou, sendo que Marcello tinha defendido em
1962, num parecer solicitado pelo então ministro do Ultramar, Adriano
Moreira, a criação de uns "Estados Portugueses Unidos", que mais não eram
do que uma "commonwealth à portuguesa". Francisco Pinto Balsemão contou,
enquanto orador na conferência "Tempos de Transição: o Regime e a Ala
Liberal", que decorreu no Grémio Literário, em Lisboa, a 8 de Outubro de
2008, que Marcello Caetano lhe tinha falado com entusiasmo sobre esse
projecto de uma "commonwealth à portuguesa", mas numa das últimas
conversas que ambos mantiveram, quando Balsemão lhe voltou a falar no
assunto, já o presidente do Conselho lhe respondeu: "Onde é que isso já
vai..."

109

falem muito disso" (Nota 109), parecendo dar o seu aval a que as coisas
se resolvessem com alguma celeridade, mas quando visitou África, em Abril
de 1969, e foi recebido com euforia pelas populações, que o aclamaram de
forma apoteótica, o presidente do Conselho terá ficado deveras
impressionado e deixou-se condicionar por essa emoção. Regressou
convencido de que não era moralmente aceitável entregar aqueles
territórios aos movimentos que lutavam pela independência, mas também de
que aqueles que lá estavam não podiam ser abandonados, acontecesse o que
acontecesse. Passou a insistir na defesa do Ultramar de forma ainda mais
cerrada, "porque estão lá milhões de portugueses, pretos e brancos, que
confiam em Portugal, que querem continuar a viver sob a nossa bandeira"
(Nota 110).

A Ala Liberal tardou em admitir que a guerra nas colónias era motivo de
bloqueamento da democracia e, por fim, assumiu a urgência de uma solução
política para a Guerra Colonial, com um discurso violento, capaz de
mostrar a Marcello Caetano que se estava a institucionalizar um foco de
oposição ao Governo dentro do Parlamento e que a abertura política
defendida era incompatível com a manutenção das colónias.

Este era apenas um dos pontos de divergência, mas foram vários os temas a
provocar fortes desentendimentos entre os deputados da Ala Liberal e o
presidente do Conselho.

A questão europeia também agitou as águas quando, pela voz de José Pedro
Pinto Leite, principal entusiasta da vocação europeia de Portugal, a Ala
Liberal questionou o modelo económico vigente, excessivamente dominado
pelo peso do Estado e por grupos familiares que mantinham relações
privilegiadas com o poder. A Ala Liberal defendeu com entusiasmo o fim do
condicionamento industrial (Nota 111) e a integração na Europa, sabendo
que, no dia em que a questão colonial fosse resolvida, "Portugal

Nota 109 - Entrevista a Francisco Oliveira Dias, em 25 de Fevereiro de


2011.

Nota 110 - Marcello Caetano, Renovação na Continuidade, pp. 10-11.

Nota 111 - O condicionamento industrial surgiu logo a seguir ao 28 de


Maio de 1926, como medida excepcional, e dava às empresas já existentes o
direito de contestarem a entrada de novos concorrentes, alegando já
existir capacidade suficiente no país, pelo que novas entradas seriam
desperdício de capitais e trariam dificuldades para o abastecimento de
matéria-prima. O condicionamento só viria a ser formalmente extinto
depois do 25 de Abril de 1974.

110

precisaria da Europa não apenas como solução da crise de identidade


nacional que já então se adivinhava, mas também como mercado amplo e
livre" (Nota 112). Uma posição que encontrava resistência na ala mais
conservadora do regime, assustada com a hipótese de a adesão ao Mercado
Comum exigir o abandono do Ultramar, o que, no seu entender, poria em
causa "a integridade do regime". Marcello permitiu alguma aproximação à
comunidade internacional, mas salvaguardando que a ligação era apenas
económica e não política.

No final da primeira sessão legislativa, já o grupo estava de olhos


postos na sessão seguinte, que viam como decisiva para acabar com as
medidas restritivas da liberdade do indivíduo. Só não contavam com a
morte de José Pedro Pinto Leite, que aconteceu no decorrer dessas férias
parlamentares, em Julho de 1970, num acidente de helicóptero, na Guiné.

Francisco Pinto Balsemão explica que a morte de José Pedro Pinto Leite
teve um efeito acelerador sobre a Ala Liberal, "quisemos pegar na chama
por ele acesa e continuá-la" (Nota 113). E nesse sentido, ao retomar os
trabalhos parlamentares, em Novembro de 1970, Sá Carneiro, assumindo-se
como novo líder do grupo, radicalizou posições, denunciando que os
princípios que sustentavam o regime não eram legítimos.

Nesta altura, já Melo e Castro estava bastante doente, pelo que não
voltou a assinalar-se qualquer participação sua nas actividades
parlamentares. E no ano de 1971 já não se lhe encontram registos de
presenças nas sessões parlamentares, antes sucessivos atestados de
justificações de faltas por doença.

Na Assembleia Nacional, a vida da Ala Liberal afigurava-se difícil, com o


Governo a manter ambiguidade quanto à sua orientação no campo das
liberdades e direitos políticos, desvalorizando as manifestações de
independência e as reivindicações dos deputados liberais. Ao contrário do
que estes desejavam, o projecto que o Governo tinha para Portugal, pelo
menos no médio prazo, não passava por uma democratização política, como
ficou patente quando, uma por uma, as propostas apresentadas pelos

Nota 112 - Vasco Pinto Leite, A Ala Liberal de Marcello Caetano - o Sonho
Desfeito. Quanto Vale a Vida de Um Homem?, p. 37.

1,3 Idem, p. 38.


111

Foto: Retrato de Melo e Castro

membros da Ala Liberal no sentido de uma democratização do regime, ou do


atenuar das suas características autoritárias, foram todas rejeitadas: o
projecto de amnistia dos presos políticos, a proposta de lei sobre
organização judiciária, sobre liberdade religiosa, sobre actividade
cooperativa ou um projecto de lei de imprensa (Nota 114) que propunha o
fim da censura prévia e a criação de

Nota 114 - No caso da lei de imprensa, Francisco Sá Carneiro e Francisco


Pinto Balsemão apresentaram, em 22 de Abril de 1970, um projecto de lei
para forçar o Governo a avançar com o que prometera e não cumprira, mas
só em Julho do ano seguinte se verificaria a discussão na generalidade da
proposta governamental, onde apenas se decretava uma mudança de nome da
Censura Prévia, que passava a designar-se Exame Prévio. Na prática, a
imprensa não só continuava a ser censurada, embora com um outro nome,
como se sujeitava a julgamento nos tribunais plenários de Lisboa e do
Porto os crimes de imprensa considerados políticos e se estabelecia, para
as outras infracções, penas pesadas. A manutenção da censura justificou-a
Marcello com o Ultramar e com o facto de os portugueses não estarem
preparados para a liberdade de imprensa, argumentando que "quase meio
século de censura desabituara os jornalistas do sentimento das
responsabilidades, a começar pelos directores dos jornais, que
comodamente descarregavam sobre os censores o encargo de dizerem se um
texto devia ou podia ser publicado. (...) Era preciso fazer a reeducação
progressiva". In Marcello Caetano, Depoimento, p. 72.

112

uma comissão, a funcionar junto do Ministério da Defesa, para apreciar as


"notícias de carácter militar" enquanto se mantivesse a guerra em África.

Os desentendimentos assumiram proporções de ruptura no momento em que a


Ala Liberal apresentou o seu próprio projecto de revisão da Constituição,
que se destacava pela defesa do regresso à eleição do presidente da
República por sufrágio directo e universal.

O Governo manteve inalterada a eleição indirecta do presidente da


República, o que contrariava o próprio parecer da Câmara Corporativa
elaborado por Marcello Caetano no âmbito da revisão constitucional de
1951, onde tinha reconhecido que, apesar de todos os seus defeitos, o
sufrágio universal era ainda a melhor forma de "assegurar a intervenção
popular na determinação do rumo do Estado". O princípio do sufrágio
directo e universal foi esquecido a favor da manutenção de um colégio
eleitoral, corporativo, composto por fiéis do regime e domesticado por
este. Era mais um sintoma inequívoco de que a liberalização estava
"bloqueada", como afirmou na altura Francisco Sá Carneiro.

Sendo considerada matéria de utilidade pública, a revisão da


Constituição, em 1971, levou à convocação extraordinária da Assembleia
Nacional e a proposta da Ala Liberal até foi aprovada na generalidade,
mas nunca chegou sequer a ser discutida na especialidade, uma vez que a
maioria impediu essa discussão (Nota 115).

Ao ver recusadas as principais medidas liberalizadoras por si propostas,


a Ala Liberal perdeu qualquer esperança na evolução do regime.

Nota 115 - A Assembleia Nacional inviabilizava, assim, a discussão de um


projecto de revisão constitucional que reconhecia o direito à informação
"livre e verídica", ao trabalho, à livre circulação, à inviolabilidade do
domicílio, ao sigilo da correspondência ou à protecção dos arguidos em
processo penal, com a extinção dos tribunais plenários. A proposta
incluía ainda a proibição de o exercício efectivo das liberdades
individuais "ser submetido a poder discricionário do Governo ou da
administração", uma lei reguladora do direito de associação e reunião,
para garantir o controlo democrático das instituições, e a independência
efectiva do poder judicial.

113

A revisão constitucional, que era vista como a grande esperança, revelou-


se uma enorme oportunidade perdida e marcou a ruptura com os liberais,
acentuada novamente em 1972, quando o regime deixou passar a derradeira
oportunidade para mudar o regime, com as eleições presidenciais.

Marcello recusou candidatar-se a Belém, deitando por terra a hipótese de


afastar Américo Thomaz, o mais forte bastião da linha dura do regime,
quer em termos de liberalização política, quer em matéria de política
ultramarina, travão a tudo o que era preciso fazer em Portugal116.

Marcello Caetano sabia que a reeleição de Thomaz seria o fim das


esperanças para todos quantos ainda aguardavam por uma abertura do
regime, mas, no plano moral, considerava essa hipótese uma deslealdade
para com o homem que o havia nomeado, "não podia, a partir do cargo que
tinha por confiança deste, despedi-lo e ir ocupar o lugar dele"117.

A cada tentativa falhada de liberalização por parte da Ala Liberal, o


regime radicalizava-se e Marcello virava mais à direita.
Francisco Sá Carneiro refere que "as coisas podiam ter-se passado de
outro modo se o Dr. Melo e Castro e o José Pedro Pinto Leite tivessem
estado na Assembleia. Estou certo de que muitos dos obstáculos que nos
foram levantados e muitos dos atropelos cometidos não se teriam
verificado"118. A morte de cada um deles amorteceu o impulso junto de
Marcello Caetano, que poderia fazer com que este corresse os riscos da
mudança.

Nota 116 - Os ultras do regime defendiam a reeleição de Américo Thomaz


porque viam nele o único garante da manutenção do regime e da defesa do
Ultramar. Mas com dois mandatos cumpridos e 78 anos, Thomaz estava já
bastante envelhecido e o desgaste que tinha na opinião pública era
inegável. Marcello só precisava de escolher livremente um presidente do
Conselho da sua confiança pessoal ou avançar ele próprio para Belém.
Contava, de resto, com vários amigos e apoiantes, inclusivamente em
sectores empresariais que gostariam de o ver na Presidência da República.
E a sua candidatura proporcionaria igualmente uma "vitória" sobre os
ultras, que perderiam a sua arma mais poderosa e eficaz, mas Marcello não
quis afrontar o homem que o tinha nomeado.

Já os liberais, que rejeitavam em absoluto uma recandidatura de Thomaz,


decidiram apresentar um candidato próprio. Tentaram convencer Spínola e
Kaúlza de Arriaga, mas ambos recusaram ser candidatos.

Nota 117 - Marcello Caetano, Depoimento, p. 82.

Nota 118 - Declarações de Francisco Sá Carneiro em entrevista ao Jornal


do Fundão, de 21 de Outubro de 1973, in Francisco Sá Carneiro, Textos. II
Volume 1973-1974, p. 355.

114

O que largos sectores da sociedade portuguesa esperavam de Marcello


Caetano era que fizesse a abertura e a transição do regime. Ele não quis,
mas Melo e Castro queria e tinha capacidades para ter sido o seu braço-
direito nessa missão, como confidenciou um dia Salgado Zenha a Francisco
Oliveiras Dias, que acreditava que, "se a sorte dos portugueses fosse
outra, Melo e Castro tinha desenvolvido cá o trabalho que foi
desenvolvido em Espanha por Adolfo Suárez" (Nota 119).

Marcello foi sempre avesso à democracia, julgando-a inaplicável e


ineficaz face ao modo de ser português. A continuidade, sem ruptura com o
passado próximo, foi o compromisso por ele assumido, bem como a certeza
de que a entrada para o Governo não o desonerava da "obrigação de ser
coerente com a doutrina que ensinei, que publiquei em livros e defendi em
pareceres" (Nota 120). Acabou por usar os obstáculos que lhe foram
surgindo como desculpa para não avançar cora a abertura do regime.
Já depois da morte de Melo e Castro, com a legislatura de 69-73 quase a
chegar ao fim, Francisco Sá Carneiro renunciaria ao mandato de deputado,
esperando com o seu gesto ter algum impacto internacional, que, de resto,
conseguiu. Tornava-se mais útil bater com a porta do que terminar a
legislatura. Atitude idêntica tomou Miller Guerra, o que deixou Marcello
Caetano muito preocupado, temendo que, a cada semana, outros deputados da
Ala Liberal batessem com a porta, numa acção concertada. Marcello marcou,
portanto, um almoço com o "grupo", onde confessou aquilo que todos já
tinham percebido, isto é, que não estava disponível para a mudança.

Um dos presentes nesse almoço, Tomás Oliveira Dias, revela que, a certa
altura, Marcello se justificou dizendo: "Eu tentei abrir as janelas, mas
verifiquei que se partia tudo o que estava dentro de casal" Marcello
temia que o regime se desmoronasse, quando o que os chamados liberais
pretendiam era precisamente isso, embora por uma via pacífica, a partir
de dentro, tal como pretendia José Guilherme de Melo e Castro.

Nota 119 - Entrevista a Francisco Oliveira Dias, em 25 de Fevereiro de


2011.

Nota 120 - Manuela Goucha Soares, Marcello Caetano, o Homem que Perdeu a
Fé, p. 98.

115

O objectivo de Melo e Castro era provocar uma evolução ou transição para


a democracia, sem que ocorresse qualquer revolução. No fundo, o que ele
pretendia era iniciar um processo semelhante àquele que veio a cumprir-se
em Espanha, com o Governo de Adolfo Suárez, que o levou a cabo.

116

Capítulo 11

EM FAMÍLIA E ENTRE AMIGOS

Melo e Castro considerava-se um beirão de nascimento e criação, mas foi


na capital do país que se fixou e desenvolveu a sua carreira profissional
e a sua vida familiar.

Em Lisboa, morou primeiro na Rua do Quelhas, paredes meias com a Casa de


Santa Maria do Resgate, das noelistas (Nota 121), que ali funcionava
desde 1946 e onde vivia Raquel Ribeiro, assistente social que viria a
tornar-se numa das melhores amigas da família. Só depois esta foi viver
para o Restelo, onde acabou por permanecer sempre.

A Covilhã, onde permaneceram vários familiares, iam só de

visita ou passar o Natal.

José Guilherme era o herdeiro natural da fábrica do pai, juntamente com a


sua irmã, Ana Maria, mas na verdade nunca teve qualquer ligação à
fábrica. Manteve, no entanto, até ao fim uma ligação forte à sua terra,
de que muito gostava, e teve um papel activo nas comemorações do primeiro
centenário da cidade, em 1970, nomeadamente no colóquio sobre o
desenvolvimento socioeconómico da Cova da Beira, que decorreu de 28 de
Setembro a 3 de Outubro desse ano.

De igual modo, mostrou-se sempre empenhado em ajudar a Misericórdia da


Covilhã. Disso mesmo são prova os livros de actas onde se pode atestar o
seu contributo para que no Pavilhão-Sanatório fosse mantida a actividade
assistencial (Nota 122), tendo mesmo sido proposto, por unanimidade o seu
nome ao pavilhão sul

Nota 121 - O noelismo é um movimento da Igreja Católica, que nasceu nos


últimos anos do século XIX, tendo como linhas de orientação uma formação
espiritual exigente, uma inserção no mundo através de uma vida familiar,
profissional e social exercida ao serviço do bem de todos e uma constante
preocupação com os problemas essenciais dos homens.

Nota 122 - Acta da Misericórdia da Covilhã, 25 de Maio de 1954.

117

do Hospital (Nota 123) construído durante o tempo em que Melo e Castro


desempenhou funções de subsecretário de Estado da Assistência.

O escritor e engenheiro têxtil Ernesto Melo e Castro, primo em segundo


grau de José Guilherme, lembra-o como um homem muito culto e ainda
recorda as profundas divergências políticas, que alimentavam acesas
trocas de ideias entre ambos. Ernesto, então adolescente, contestatário,
defensor de uma democracia de tipo socialista, com a participação do
Partido Comunista, nessa época ainda na clandestinidade, José Guilherme,
membro do Governo de Salazar e defensor de um sistema bipartidário,
semelhante ao que havia em Inglaterra. Mas Ernesto guarda também as boas
lembranças das inúmeras viagens feitas entre Lisboa e a Covilhã à boleia
no vistoso carro americano do primo José Guilherme.

Entre os amigos mais próximos estariam os irmãos Oliveira Dias, Tomás e


Francisco, mas também Raquel Ribeiro e o conselheiro Miguel Bastos.
Dentro da Ala Liberal, Melo e Castro dava-se especialmente bem com
Joaquim Magalhães Mota, Francisco Sá Carneiro ou Correia da Cunha, todos
deputados. Também nesse grupo estava um dos seus maiores amigos, João
Pedro Miller Guerra, seu antigo colega dos tempos da Universidade de
Coimbra, ainda que tivessem frequentado cursos distintos. Discutiam todos
os assuntos, mas trocavam sobretudo opiniões sobre as matérias sociais e
de saúde, ao ponto de terem ganho o hábito, que mantiveram durante anos,
de irem ao domingo de manhã passear até Cascais, onde ficavam horas a
conversar em frente ao Hotel Baía.

Na Covilhã, destacava-se a amizade com Carlos Coelho, que foi um médico


prestigiado, deputado vários anos e que com ele estudou na Covilhã e em
Coimbra. E também José Ranito Baltazar, igualmente médico, mas mais velho
do que José Guilherme (Nota 124).

Melo e Castro trabalhava de forma incansável. Raquel Ribeiro ainda se


lembra das inúmeras vezes em que, por causa de projectos maiores em que
estavam envolvidos na Misericórdia, ela e Filipe Charters de Oliveira
ficavam até altas horas da noite

Nota 123 - Idem, 11 de Outubro de 1956.

Nota 124 - Coelho e Ranito foram ambos presidentes da Câmara da Covilhã,


Coelho no período de 1945 a 1955 e Ranito Baltazar, entre 1957 e 1965.

118

Foto: Melo e Castro e família no casamento do amigo José Afonso Gil, seu
conterrâneo

a trabalhar em casa de Melo e Castro, no Restelo, onde já havia um ritual


de uma "segunda ceia", que consistia em chá e bolos servidos perto da
meia-noite.

Exímio a fazer nós de gravata, Melo e Castro era um fumador inveterado e


protagonizou mesmo um episódio insólito na Assembleia Nacional, quando,
no final de uma sessão parlamentar, deixou mal apagada uma ponta de
cigarro no cinzeiro onde também se encontravam papeis inutilizados que
acabaram por incendiar-se - ocorrência relatada por um dos guarda-
nocturnos que fizeram a ronda desse dia na sala das sessões.

No que ao desporto dizia respeito, gostava de futebol, mas sem


entusiasmos de maior. Era do Belenenses por morar no Restelo, como era do
Vitória de Setúbal quando lá foi governador civil e da Académica porque
lá estudou (Nota 125).
Nota 125 - Melo e Castro foi inclusivamente advogado do Vitória de
Setúbal no pedido de recurso ao Supremo Tribunal Administrativo, para que
o clube voltasse à l.a divisão do Campeonato Nacional de Futebol, na
sequência da acusação de actividades ilícitas e alguns "actos desonrosos"
por parte de certos responsáveis do clube, que arrastaram toda uma
"colectividade honrada".

119

Parece consensual, entre todos os que com ele privaram, que José
Guilherme de Melo e Castro irradiava simpatia, era um homem de gargalhada
ruidosa, com sentido de humor refinado, de quem todos pareciam gostar.
Vocacionado para a vida política e associativa, capaz de viver
desinteressadas fidelidades a ideais e crenças, não passava despercebida
a sua inteligência e facilidade de expressão.

Era um grande conversador, pessoa de "coração enorme e entusiasmo


transbordante" (Nota 126).

Contrariamente à imagem que se tinha dos políticos naquele tempo como


pessoas distantes, Melo e Castro era acessível, bem-disposto, sempre
pronto a contar uma anedota, a cantarolar e a divertir-se, como atesta o
covilhanense José Mesquita Nunes, durante várias décadas provedor da
Misericórdia da Covilhã, que lembra Melo e Castro como "um bon vivant,
homem culto e pessoa brilhante". E Miller Guerra costumava dizer que o
amigo punha convicção e tenacidade em tudo quanto lhe parecia justo e
útil.

O retrato resulta dos muitos testemunhos que foi possível encontrar junto
daqueles que com Melo e Castro se cruzaram, trabalharam ou, enfim,
privaram de alguma forma. Descrevem-no como optimista, muito activo, bem-
intencionado, apaixonado pela política, ousado e muito frontal. De ar
distinto, falando bem, deixava-se, no entanto, levar pelo calor de uma
boa discussão. Assim era José Guilherme de Melo e Castro, um democrata
cristão, com um enorme sentido de justiça e forte consciência social.

Profundamente devoto, recebeu desde cedo uma educação católica na


família, pertencia à Ordem Terceira de São Francisco, uma das
ramificações da Ordem Franciscana, que reúne leigos, que procuram
observar os Evangelhos seguindo na sua vida quotidiana os passos de São
Francisco, pregando a paz e o bem.

A ligação de Melo e Castro aos Franciscanos aconteceu já numa fase tardia


na sua vida, mas havia já uma tradição na família, visto que o seu pai
pertencia à mesma irmandade. E, apesar de José Guilherme ter sido educado
pelos Jesuítas, aqueles que o conheceram identificam-no sobretudo com uma
vida cristã
Nota 126 - Entrevista a Basílio Horta, em 21 de Fevereiro de 2011.

120

de inspiração franciscana; piedoso e com grande sentido de missão


religiosa, ter-se-á empenhado sempre em fazer alguma coisa de bom pelos
outros.

Durante a fase da doença, que foi prolongada e o deitou muito abaixo,


José Guilherme viveu afastado da vida política. Recebia poucas visitas,
apenas amigos mais próximos e algumas pessoas da chamada Ala Liberal.
Alguns desses amigos testemunharam o esforço que José Guilherme fazia
para, apesar da doença, tentar apresentar a boa disposição que o
costumava caracterizar, mesmo quando a cegueira o atingiu.

Marcello Caetano foi visitá-lo pouco tempo antes de se terem acumulado


problemas glandulares, uma persistente anemia e uma afecção pulmonar, mas
numa altura em que o abatimento era já por demais evidente. Quase um ano
de doença acabou por criar em Melo e Castro um cepticismo que o fazia
duvidar de uma efectiva recuperação.

A doença manifestou-se primeiro por metástases nas supra-renais, na


sequência de um tumor renal. Na verdade, desde 1968 que não andava a
sentir-se bem, como confirma um dos seus antigos motoristas, João
Carriço, natural da Covilhã, que conhecia bem toda a família, já que
trabalhou também para o pai de José Guilherme. No Natal de 68, quando o
foi buscar a Lisboa para o trazer para a Covilhã, onde ia passar as
festas junto da família, notou-o muito calado e Melo e Castro
confidenciou-lhe que não se sentia bem.

Numa tentativa para encontrar cura para o seu problema, ainda tentou
tratamentos em Londres, onde lhe tiraram uma metástase pulmonar, mas a
equipa médica continuava sem conseguir diagnosticar o tumor primitivo.
Foi operado no Royal Brompton Hospital, o melhor ao nível de doenças dos
pulmões, mas mesmo aí não chegaram ao diagnóstico final. Só mais tarde,
com uma metástase no osso, vista em Portugal, se apurou ser de um tumor
ósseo. A partir daí, a doença foi evoluindo sempre para pior.

Melo e Castro estava em Londres, com a mulher, a tentar tratar-se, quando


lhe morreu o pai, em 20 de Fevereiro de 1971, na Covilhã, mas só lhe
disseram quando regressou a Portugal (tinham já comunicado por telefone à
sua mulher, mas falaram cifradamente para que ele não desse conta do que
havia acontecido.

121
Quando o foram buscar ao aeroporto, ao ver o carro dos pais, achou que
eles o tinham ido receber, mas depois viu só o motorista, João Carriço,
que ainda hoje recorda a forma como teve de disfarçar que algo não estava
bem, quando Melo e Castro lhe disse: "O João, eu ainda estava lá em cima,
no ar, e já te estava a ver, reconheci logo o carro do meu pai. Como é
que ele está?"

João Carriço apenas lhe pôde responder que os pais estavam em casa dele,
no Restelo. Mas ao chegar lá, Melo e Castro estranhou logo ver muita
gente à espera dele e apenas a mãe, sem o pai ao lado. Começaram por
tentar dizer-lhe que o pai estava muito mal, mas, como José Guilherme se
precipitou, querendo então partir de imediato para a Covilhã, tiveram de
lhe contar a verdade. Foi um duro golpe, dada a forte ligação que
mantinha com os pais e, nessa altura, a sua saúde acabou por se ressentir
e sofreu uma recaída muito grande.

Fazia sessões de quimioterapia no Hospital da Cruz Vermelha e foi ainda


nestes derradeiros anos de vida administrador, por parte do Estado, na
Companhia Portuguesa de Celulose. Nesta altura já a alegria que antes o
caracterizava tinha dado lugar a um homem deprimido, que, na maior parte
do, tempo, estava sozinho ou recatado no seio da família, sempre em casa.

O cancro generalizou-se e acabou por deixá-lo cego. Melo e Castro lutou


com fé, mas sem sucesso. Acabou por morrer, em casa, na Avenida das
Descobertas, no Restelo, a 27 de Setembro de 1972 (Nota 127). A sua mãe
sobreviveu à morte dos três filhos, resignando-se à vontade de Deus.

A morte precoce de Melo e Castro, aos 58 anos, interrompeu os planos para


a celebração dos 25 anos de casamento com Ada. O casal já tinha a Madeira
como local escolhido para uma festa que já não se realizou.

Melo e Castro morreu em Lisboa, mas o funeral realizou-se na Covilhã. Da


sua terra natal, onde sempre foi estimado, ninguém

Nota 127 - Foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Grega Fénix, com a Grã-
Cruz da Ordem de Benemerência, tendo sido ainda condecorado com a Ordem
Pontifícia de São Gregório.

Graças ao papel destacado que teve enquanto provedor, a Misericórdia tem


dele dois bustos, um em Alcoitão, no Centro de Reabilitação, outro nas
instalações dos jogos da Santa Casa, na Rua das Taipas. E em Lisboa
existe ainda uma rua com o seu nome, na Quinta do Lambert.

122

Foto: Melo e Castro com a mulher, Ada


faltou à despedida, e de Lisboa para lá viajaram os amigos mais próximos
de José Guilherme, mas também os dirigentes da Misericórdia e restantes
funcionários, que se deslocaram em vários autocarros. Foi sepultado no
jazigo da família, vestido com o hábito da Ordem Terceira de São
Francisco. Do Amparo da Misericórdia de Lisboa seguiu um singelo ramo de
flores com uma mensagem: "Querido amigo, até breve."

Foi também na Covilhã que se realizou, já depois do 25 de Abril, uma


cerimónia de homenagem, promovida pela Misericórdia local, com missa e
uma conferência onde discursaram Tomás Oliveira Dias, Tibério Antunes e
António Alçada Baptista, que, embora fosse um pouco mais novo, manteve
sempre amizade com Melo e Castro e dedicou-lhe um artigo, pouco depois da
sua morte, em que referiu que "o nome de José Guilherme significava
qualquer coisa mais do que uma amizade: era uma maneira de estar na vida"
(Nota 128). O próprio Alçada descreve-o como capaz de viver "grandes e
desinteressadas fidelidades a ideais e a crenças",

Nota 128 - A Capital, 10 de Outubro de 1972.

123

alguém que procurava estar atento a tudo o que se passava, "capaz de


rever juízos e critérios, sem fanatismos, sem agressividade, sem
excomunhões: com um grande respeito pelos homens".

No Parlamento, todos os deputados se uniram para alguns minutos de


silêncio em homenagem à sua memória e foram várias as intervenções em que
lhe prestaram um último tributo.

O presidente da Assembleia Nacional, Carlos Amaral Neto, elogiou-lhe


talentos e virtudes, mas também a carreira que construiu, lembrando ao
mesmo tempo a "cruel e implacável doença que o feriu", para recordar que
"as breves remissões de alívio" logo o faziam reganhar coragem.

O deputado Albino dos Reis, antigo presidente da Assembleia Nacional, seu


amigo de há vários anos, homem do regime próximo da linha reformista
liderada por Marcello Caetano, quis também prestar-lhe homenagem,
destacando que "não era um temperamento resignado e submisso", mas antes
"ardente e ousado". Terminou dizendo que a sua vida "não foi longa, mas
foi uma vida cheia (...) concentrou numa idade, num tempo relativamente
escasso, muitos tempos".

Os amigos Raquel Ribeiro, Tomás Oliveira Dias e Miller Guerra, mas também
Agostinho Cardoso e Ricardo Horta, foram alguns dos deputados que
prestaram homenagem ao homem de espírito desempoeirado e evoluído, que
partiu prematuramente e cuja ausência foi, na opinião de alguns, um revés
na marcha para a democracia.
Tinha alguma pressa em ver realizados os seus projectos, mas a vida
trocou-lhe as voltas. Morreu cedo de mais.

Miller Guerra, num artigo do Via Latina que dedicou ao amigo José
Guilherme quando ambos estudavam em Coimbra, considerou que "a biografia
dum espírito é sempre a história de uma aventura, a sucessão irregular,
indecisa, cheia de surpresas dum pensamento que se desdobra ao longo duma
existência e lhe constitui a nervura da beleza, de elevação e de vida".

Quarenta anos depois da morte de Melo e Castro, a dedicatória ganha novo


fôlego.

124

AGRADECIMENTOS

A investigação para esta biografia contou com a generosa colaboração de


algumas pessoas sem as quais não teria sido possível concluir com sucesso
o trabalho que agora é publicado.

A primeira palavra de agradecimento devo-a a Raquel Ribeiro, que comigo


partilhou memórias, entusiasmo e conhecimentos. Foi sempre inexcedível na
disponibilidade e simpatia com que ouviu as minhas dúvidas e uma ajuda
preciosa para resgatar contactos há muito perdidos no tempo.

Agradeço também ao Prof. Manuel Braga da Cruz, meu orientador na tese de


mestrado, o apoio que sempre me deu para seguir em frente com este
projecto. A motivação para fazer esta biografia deve-se em grande parte
às muitas conversas que tivemos sobre José Guilherme de Melo e Castro.

A Ada de Melo e Castro deixo o meu agradecimento pela paciência com que
respondeu às muitas perguntas que lhe fiz ao longo de meses, mas
sobretudo pelas recordações que aceitou partilhar sobre o pai, o homem e
o político.

Aos irmãos Oliveira Dias, Tomás e Francisco, pela amabilidade com que me
receberam e pelos muitos detalhes da história que me ajudaram a
recuperar.

A José Afonso Gil, pelo retrato que me traçou da sua Covilhã e de um


tempo da história.

Para conhecer de forma mais aprofundada diferentes facetas do biografado,


contei com a disponibilidade com que aceitaram falar comigo de João Bosco
Mota Amaral, Basílio Horta, Manuel José Homem de Mello, o padre Rafael
Mourão e Estêvão Pinto Varão. Foi também possível, ainda que apenas por
via telefónica, receber o testemunho generoso de Miriam Passanha, Nadir
Bico, padre Gonçalo Miller Guerra, Zulmira Miller Guerra Marinho Antunes
e José Padinha.
Por escrito pude contar com os depoimentos de Ernesto Melo e Castro e de
José Hermano Saraiva e as breves conversas com Mário

145

Soares e Pedro Soares Martinez permitiram esclarecer algumas dúvidas.

O meu agradecimento a José Mesquita Nunes, pela disponibilidade e


simpatia com que me acolheu na Covilhã, pelas memórias partilhadas e
pelos contactos que me ajudou a fazer no âmbito da investigação.

Agradeço também a João Carriço, antigo motorista da família, que aceitou


dar o seu testemunho para este trabalho, e a Fernando Agostinho, que me
abriu as portas de sua casa, a mesma onde viveu Melo e Castro.

Falei com muitos amigos do biografado, visitei a Covilhã, onde fotografei


os locais da sua infância e conversei longamente na casa que o viu
nascer, estive em Coimbra, onde passou quase uma década da sua vida e
conheci muitos companheiros de percurso, sobretudo os que com ele viveram
o sonho de uma ala liberal. Todos foram decisivos na ajuda que prestaram
à investigação e no incentivo que me deram - a todos deixo o meu
agradecimento público.

Agradeço também a Rita de Melo e Castro a disponibilidade para encontrar


as fotografias do avô e a José Maria de Melo e Castro, por me ter contado
algumas histórias sobre a família.

No âmbito dos apoios institucionais, cabe-me destacar a disponibilidade


de Sílvia Salvado e Francisco d'Orey Manoel, do arquivo da Misericórdia
de Lisboa; o apoio dado por Leonor Pontes e restantes funcionários do
arquivo da Universidade de Coimbra; funcionários do Arquivo Histórico-
Parlamentar da Assembleia da República; Paulo Tre-moceiro, do arquivo da
Torre do Tombo; Luís Vieira, da Biblioteca do Tribunal de Contas;
Francisco Cunha, do Instituto Nun'Alvres, e Ana Brancal, da Câmara
Municipal da Covilhã.

Um agradecimento muito especial a Pedro Santana Lopes que, enquanto


provedor da Misericórdia de Lisboa, aceitou associar a instituição a esta
biografia.

Agradeço também as sugestões e o sentido crítico dos meus amigos Rolando


Santos e Cláudia Sebastião.

Dedico esta biografia à minha família, em especial ao Vasco, pelo apoio


incansável e a inspiração constante, e à Madalena, que, dentro da barriga
da mãe, acompanhou passo a passo este projecto desde o primeiro momento
e, já fora da barriga, fez dele um autêntico desafio.

146
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