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Capa

OSHO

Coragem

A alegria de viver perigosamente

Pergaminho
Badana da capa

Segundo Osho, ser corajoso não significa não ter medo. Antes pelo contrário, ser corajoso é ter
o medo sempre presente e ter a coragem de o enfrentar. Analisando a origem do medo, Osho
sugere que se encare a incerteza e a mudança nas nossas vidas como uma bênção. Podemos e
devemos aprender a viver essas situações novas como aventuras, como oportunidades de
aprofundar a nossa compreensão de nós mesmos e do mundo à nossa volta.

Este livro reflecte sobre o significado da coragem e sobre a forma como ela se manifesta na
nossa vida quotidiana.

Em vez de focar apenas actos heróicos de grande coragem em situações excepcionais, Osho
incentiva-nos a desenvolver a coragem interior que nos permite viver de forma autêntica no dia-
a-dia. Trata-se da coragem de mudar quando a mudança é necessária, de defender o que
achamos ser correcto, mesmo que isso contrarie as opiniões dos outros, e de enfrentar o
desconhecido, apesar de o temermos. Trata-se da coragem de viver plenamente a viagem de
autodescoberta constante que é a vida, na tentativa de descobrir quem somos e porque estamos
aqui.
Badana da contracapa

COLECÇAO PALAVRAS DE OSHO

O Livro da Cura - Da Medicação à Meditação

Meditação - A Primeira e Última Liberdade

Amor, Liberdade e Solidão - Uma Nova Visão dos Relacionamentos

TAROT DE TRANSFORMAÇÃO

SÉRIE "O EU INTERIOR"

Uma Nova Forma de Viver

Intimidade - Confiar em Si Próprio e no Outro

Coragem - A Alegria de Viver Perigosamente

Consciência - A Chave para Viver em Equilíbrio

Criatividade - Libertar as Forças Interiores

Maturidade - A Importância de Ser Autêntico

Intuição - Conhecer para Além da Lógica


Contracapa

OSHO nasceu em Madhya Paresh, na Índia, em 1931. Foi um aluno sobredotado e de 1958 a
1966 foi professor catedrático de Filosofia na Universidade de Jabalpur.

A partir de então passou a dedicar-se totalmente ao estudo da espiritualidade. Fundou comunas


e retiros de meditação em Poona, perto de Bombaim, e no Oregon, nos EUA, mas ensinou e
realizou palestras em todo o mundo. Faleceu em 1990.

É considerado o autor indiano de maior sucesso e o Sunday Times de Londres elegeu-o um dos
"1000 Construtores do Século XX". As suas obras vendem mais de um milhão de exemplares
por ano e estão traduzidas para dezenas de idiomas.

Oficialmente, é autor de mais de 600 livros, mas todos eles são transcrições das suas palestras.
Osho acreditava no poder da palavra viva e do diálogo e é isso mesmo que os seus livros
transmitem.
Página de rosto

OSHO

Coragem

A alegria de viver perigosamente

Tradução de Elvira Vaz

Pergaminho
Ficha técnica

Título original: Courage: The Joy of Living Dangerously

Copyright © 1999 by Osho International Foundation, 2002, www.osho.com

Todos os direitos reservados. Excertos de obras seleccionadas de Osho.

Edição original publicada por St. Martin's Griffin, New York, USA, 1999.

ISBN: 0-312-20517-1

Publicado por acordo com Osho International Foundation, Zurique, Suíça.

OSHO é uma marca registada de Osho International Foundation.

Ilustração da capa por Osho. Cedida por Osho International Foundation

Foto de Osho © Osho International Foundation

Todos os direitos reservados. Este livro não pode ser reproduzido, no todo ou em parte, por
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introduzido numa base de dados, difundido ou de qualquer forma copiado para uso público ou
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Copyright © 2002, da tradução e editoração portuguesas: Editora Pergaminho

Direitos reservados para a língua português (Portugal) à Editora Pergaminho, Lda.

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N.° de referência desta obra no nosso catálogo: 64.504

Este livro foi publicado graças à colaboração de Sofia Graça Moura e Claúdia Duarte (revisão),
Patrícia Gomes (paginação) e Gráfica 99 (fotolitos).

Este livro foi impresso pela Tipografia Guerra - Viseu

Dep. Legal n.° 180 869/2002

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Uma Nova Forma de Viver

1ª edição, 2002

ISBN 972-711-504-7
PREFÁCIO

Não lhe chamem incerteza — chamem-lhe magia.

Não lhe chamem insegurança — chamem-lhe liberdade.

Não estou aqui para lhe apresentar um dogma — um dogma faz com que uma pessoa tenha
certezas. Não estou aqui para lhe fazer qualquer promessa quanto ao futuro — qualquer
promessa quanto ao futuro faz com que uma pessoa se sinta segura. Estou simplesmente aqui
para o fazer despertar e tomar consciência — isto é, para estar aqui e agora, com toda a
insegurança que é a vida, com toda a incerteza que é a vida, com todo o perigo que é a vida.

Sei que veio aqui à procura de algumas certezas, de alguns credos, de alguns “ismos”, de
algures onde pertencer, de alguém com quem possa contar. Veio aqui por causa do seu medo.
Anda à procura de uma espécie de prisão agradável — para poder viver sem qualquer
consciência.

E eu gostaria de o tomar mais inseguro, mais indeciso — porque a vida é assim e Deus é assim.
Quando há mais insegurança e o perigo é maior, a única maneira de reagir é ter consciência
disso mesmo.

Há duas possibilidades. Ou fecha os olhos e torna-se dogmático, cristão, hindu ou muçulmano...


e nesse caso fica parecido com uma avestruz.
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Isso não muda a vida; apenas lhe fecha os olhos. Torna-o simplesmente estúpido, torna-o
simplesmente ignorante. Sente-se seguro na sua ignorância — todos os idiotas se sentem
seguros. Na realidade, só os idiotas se sentem seguros. Um homem que esteja realmente vivo
sentir-se-á sempre inseguro. Que segurança pode haver?

A vida não é um processo mecânico; não pode ser uma certeza. É um mistério imprevisível.
Ninguém sabe o que irá acontecer no momento que se segue. Nem mesmo Deus, que você julga
residir algures no sétimo céu, nem mesmo ele — se é que ele reside lá —, nem mesmo ele sabe
o que vai acontecer!... porque no caso de ele saber o que vai acontecer, a vida não seria mais do
que uma imitação, já estaria tudo escrito, já estaria tudo destinado. Como pode ele saber o que
vai acontecer a seguir, se o futuro está sempre em aberto? Se Deus sabe o que vai acontecer no
momento seguinte, então a vida não passa de um processo mecânico e parado. Nesse caso não
há liberdade, e como poderia existir vida sem a liberdade? É que, então, não haveria a
possibilidade de crescer ou de não crescer. Se tudo está predestinado, então não há glória, não
há grandeza. E você não passa de um robô.

Não, nada é seguro. É esta a minha mensagem. Nada pode ser seguro, porque uma vida segura
seria pior do que a morte. Nada é certo. A vida está cheia de incertezas, cheia de surpresas — é
essa a sua beleza! Nunca chegará o momento em que possa dizer: “Agora tenho a certeza.”
Quando disser que tem a certeza, estará simplesmente a declarar a sua morte; já se suicidou.

A vida continua a mover-se com mil e uma incertezas. É essa a sua liberdade. Não lhe chamem
insegurança.

Eu até compreendo por que é que a mente chama “insegurança” à liberdade... Já viveu numa
prisão durante alguns meses ou alguns anos? Se viveu numa prisão durante alguns anos, quando
chega o dia da libertação, o prisioneiro começa a sentir incertezas quanto ao futuro. Na prisão
tudo eram certezas; tudo era rotina morta. Era-lhe fornecida a comida, era-lhe dada protecção;
não tinha medo de, no dia seguinte, passar fome e de não haver comida — nada disso, tudo
eram certezas.
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Agora, de repente, após tantos anos, vem o carcereiro e diz-lhe: “Vais ser libertado agora.” Ele
começa a tremer. Fora dos muros da prisão vai haver novamente incertezas; vai ter novamente
de procurar, de buscar; vai ter de viver novamente em liberdade.

A liberdade gera o medo. As pessoas falam da liberdade, mas têm medo. E um homem ainda
não é um homem se tiver medo da liberdade. Eu dou-lhe a liberdade; não lhe dou a segurança.
Eu dou-lhe a compreensão; não lhe dou o conhecimento. O conhecimento dar-lhe-á certezas. Se
eu lhe der uma fórmula, uma fórmula estabelecida, dizendo que há um Deus e um Espírito
Santo e que há um único filho gerado, Jesus; que há inferno e céu, e que estes são os actos bons
e aqueles são os actos maus; peca e vai para o inferno, faça aquilo a que eu chamo actos
virtuosos e irá para o céu — e acabou-se! — então tem certezas. Foi por isso que tantas pessoas
optaram por ser cristãs, hindus, muçulmanas ou jainistas — essas pessoas não queriam a
liberdade, queriam fórmulas fixas.

Um homem estava prestes a morrer — subitamente, num acidente de viação. Ninguém sabia
que ele era judeu, portanto chamaram um padre, um padre católico. Este debruçou-se sobre o
homem — que estava a morrer, no estertor da morte — e perguntou-lhe: “Acreditas na Trindade
de Deus Pai, do Espírito Santo e do filho Jesus?”

O homem abriu os olhos e disse: “Vejam só, estou eu para aqui a morrer — e ele a falar por
enigmas!”

Quando a morte lhe bater à porta, todas as suas certezas serão simplesmente enigmas e serão
ridículas. Não se agarre a quaisquer certezas. A vida é incerta — a sua própria natureza é
incerta. E um homem inteligente fica sempre na incerteza.

Ao acto de permanecer na incerteza chama-se coragem. A esta vontade de permanecer na


incerteza chama-se confiança.
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Uma pessoa inteligente é aquela que está sempre atenta, seja qual for a situação — e reage a
essa situação com todo o seu coração. Não que ela saiba o que vai acontecer, não que ela saiba:
“Faz isto e acontecerá aquilo”. A vida não é uma ciência; não é um encadear de causas e efeitos.

Quando aquece a água a 100° C, ela evapora-se — isso é uma certeza. Mas na vida de cada um,
nada é assim tão certo.

Cada indivíduo é uma liberdade, uma liberdade desconhecida. É impossível predizer, é


impossível ter expectativas. Uma pessoa tem de viver num estado consciente e de compreensão.

Você veio até mim à procura do conhecimento; quer fórmulas estabelecidas para poder agarrar-
se a elas. E eu não lhe dou nenhuma. Na realidade, se possuir alguma, eu tiro-lha! Aos poucos,
destruo as suas certezas; aos poucos, torno-o cada vez mais hesitante; aos poucos, torno-o cada
vez mais inseguro. Essa é a única coisa que tem de ser feita. Essa é a única coisa que um Mestre
deve fazer! — deixá-lo em liberdade total. Em liberdade total, com todas as possibilidades a
abrirem-se, nada fixo... será obrigado a manter-se atento — nada mais é possível.

É a isto que eu chamo compreensão. Se compreender, a insegurança faz parte intrínseca da vida
— e é bom que assim seja, porque isso faz da vida uma liberdade, faz da vida uma surpresa
permanente. Nunca se sabe o que vai acontecer. E isso mantém--no constantemente
maravilhado. Não lhe chame incerteza — chame-lhe magia. Não lhe chame insegurança —
chame-lhe liberdade.

Não pode ser verdadeiro se não for corajoso

Não pode ser afectuoso se não for corajoso

Não pode ser confiante se não for corajoso

Não pode interrogar a realidade se não for corajoso

Daí que a coragem venha primeiro e tudo o mais se lhe siga


QUE É A CORAGEM?

Ao princípio, não existe grande diferença entre o cobarde e a pessoa corajosa. A única diferença
é que o cobarde escuta os seus medos e segue-os, e a pessoa corajosa afasta-os e segue em
frente. A pessoa corajosa entra no desconhecido, apesar de todos os medos.

Coragem significa entrar no desconhecido, apesar de todos os medos. Coragem não significa
temeridade. A temeridade acontece se você continuar a ser cada vez mais corajoso. Essa é a
experiência última da coragem — a temeridade: é essa a fragrância quando a coragem se tornou
absoluta. Mas, ao princípio, não há grande diferença entre o cobarde e a pessoa corajosa. A
única diferença é que o cobarde escuta os seus medos e segue-os, e a pessoa corajosa afasta-os e
segue em frente. A pessoa corajosa entra no desconhecido, apesar de todos os medos. Ela
conhece os medos, os medos estão lá.

Se se meter por mares inexplorados, como fez Colombo, sentirá medo, um medo imenso,
porque nunca se sabe o que vai acontecer. Estará a deixar a praia da segurança. Você estava, de
certo modo, perfeitamente bem; faltava-lhe uma única coisa — a aventura. Entrar no
desconhecido fá-lo vibrar. O coração começa novamente a pulsar; você está novamente vivo,
plenamente vivo. Cada fibra do seu ser está viva porque aceitou o desafio do desconhecido.
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Aceitar o desafio do desconhecido, apesar de todos os medos, chama-se coragem. Os medos


estão lá, mas se você continuar a aceitar cada vez mais os desafios, lentamente esses medos
começarão a desaparecer. A experiência da alegria que o desconhecido provoca, o grande êxtase
que começa a acontecer com o desconhecido, torna-o suficientemente forte, dá-lhe uma certa
integridade, aguça a sua inteligência. Pela primeira vez, começará a sentir que a vida não é
apenas um enfado, é também uma aventura. E, lentamente, os medos começam a desaparecer; e
depois você continuará sempre a procurar, a buscar, alguma aventura.

Mas, basicamente, a coragem é arriscar o conhecido pelo desconhecido, o familiar pelo não
familiar, o confortável pelo desconfortável, uma peregrinação trabalhosa para algum destino
desconhecido. A pessoa nunca sabe se é ou não capaz de lá chegar. É um jogo, mas só os
jogadores sabem o que é a vida.

O Tao da Coragem

A vida não dá ouvidos à sua lógica; imperturbável, ela segue o seu caminho. É você que tem de
dar ouvidos à vida; a vida não dará ouvidos à sua lógica, ela não se preocupa nada com a sua
lógica.

Quando se movimenta na vida, que vê você? Vem uma grande tempestade e caem árvores
grandes. E elas deveriam sobreviver, segundo Charles Darwin, porque são as mais capazes, as
mais fortes, as mais poderosas. Olha para uma árvore velha, com trezentos pés de altura, velha
devido aos seus três mil anos. Só a presença da árvore cria força, dá uma sensação de força e de
poder. Milhões de raízes espalharam-se pela terra dentro, e a árvore ergue-se, poderosa. É
evidente que a árvore luta — ela não quer ceder, não quer capitular —, mas, depois da
tempestade, ela está caída, está morta, deixou de estar viva e toda aquela sua força desapareceu.

A tempestade foi de mais — a tempestade é sempre de mais, porque a tempestade vem do todo,
e uma árvore não passa de um indivíduo.
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Depois há as plantas pequenas e a erva comum — quando vem a tempestade a erva cede, e a
tempestade não consegue fazer-lhe qualquer dano. Quando muito, dar-lhe-á uma boa limpeza e
é tudo; toda a sujidade que se acumulara nela é lavada. A tempestade dá-lhe um bom banho e,
quando a tempestade passa, as plantas pequenas e as ervas dançam de novo, altaneiras. A erva
quase não tem raízes, pode ser arrancada por uma criança pequena, mas a tempestade foi
vencida. Que terá acontecido?

A erva seguiu a via do Tao, a via de Lao Tzu, e a árvore grande seguiu Charles Darwin. A
árvore grande foi muito lógica: tentou resistir, tentou mostrar a sua força. Se você tentar mostrar
a sua força, será vencido. Todos os Hitlers, todos os Napoleões, todos os Alexandres são árvores
grandes, árvores fortes. Todos eles serão vencidos. Os Lao Tzus são exactamente como as
plantas pequenas: ninguém os pode vencer, porque eles estão sempre prontos a ceder. Como é
que se pode vencer uma pessoa que cede, que diz “Estou pronta a ser vencida”, que diz
“Senhor, podeis deleitar-vos com a vossa vitória, não há necessidade de criar qualquer conflito.
Dou-me por vencida”. Diante de um Lao Tzu, até um Alexandre se sentirá insignificante, não
poderá fazer nada. Isso aconteceu; aconteceu exactamente assim...

No tempo de Alexandre, quando ele se encontrava na índia, existiu um místico sannyasin, de


nome Dandamis. Quando Alexandre estava de partida para a índia, amigos seus disseram-lhe
que, quando voltasse, deveria trazer consigo um sannyasin, porque essa flor rara só florescia na
Índia. Disseram-lhe eles: “Gostaríamos de ver o fenómeno de sannyas, o que é, o que é
exactamente um sannyasin. ”

Alexandre empenhou-se tanto em guerras, em lutas e em combates que quase se esqueceu do


assunto, mas, quando estava prestes a regressar, exactamente nas fronteiras da índia, lembrou-se
subitamente. Estava a deixar a última aldeia, pelo que pediu aos seus soldados que lá fossem e
perguntassem se havia algum sannyasin ah por perto. Por acaso, Dandamis estava na aldeia,
perto do rio, e as pessoas responderam: “Vocês chegaram na altura certa.
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Há muitos sannyasins, mas um sannyasin verdadeiro é sempre raro, e ele está agora aqui. Vocês
podem ter darshan, podem ir visitá-lo.”

Alexandre riu-se. Disse:

“Não estou aqui para ter darshan, os meus soldados vão buscá-lo. Vou levá-lo comigo para a
capital do meu país.”

Os aldeões responderam: “Não vai ser assim tão fácil...”

Alexandre não podia acreditar naquilo — que dificuldade poderia haver? Ele tinha conquistado
imperadores, grandes reis, por isso com um pedinte, um sannyasin, que dificuldade poderia
haver? Os seus soldados foram ver aquele Dandamis, que estava todo nu na margem do rio.
Disseram-lhe: “Alexandre, o Grande, convida-te a acompanhá-lo até ao seu país. Terás ao teu
dispor todo o conforto, tudo o que precisares. Serás um convidado real.” O faquir, nu, riu-se e
respondeu: “Vão dizer ao vosso amo que um homem que se chama a si próprio grande não pode
ser assim tão grande. E ninguém me pode levar a lado nenhum — um sannyasin move-se como
uma nuvem, em liberdade total. Não sou escravo de ninguém.”

Os soldados disseram-lhe: “Deves ter ouvido falar de Alexandre, é um homem perigoso. Se lhe
disseres não, ele não te ouvirá, cortar-te-á simplesmente a cabeça!”

Alexandre teve de lá ir pessoalmente, porque os seus soldados lhe disseram: “Ele é um homem
raro, luminoso, há algo de desconhecido à sua volta. Anda nu, mas, na sua presença, não se dá
por que ele esteja nu — só nos damos conta mais tarde. Ele é tão poderoso, que na sua presença
esquecemo-nos simplesmente do mundo inteiro. O homem tem magnetismo, rodeia-o um
grande silêncio e dá a sensação de que toda a área se deleita nele. Vale a pena vê-lo, mas parece
que vai haver dificuldades para ele, pobre homem, porque diz que ninguém o pode levar a lado
nenhum, que não é escravo de ninguém.”

Alexandre foi vê-lo com uma espada desembainhada na mão. Dandamis riu-se e disse: “Baixa a
espada, ela é inútil aqui. Embainha-a; ela é inútil aqui porque tu poderás cortar apenas o meu
corpo, e esse já eu deixei há muito tempo.
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A tua espada não me pode cortar, por isso baixa-a; não sejas infantil.”

E diz-se que foi essa a primeira vez que Alexandre obedeceu às ordens de alguém; bastou a
presença do homem e Alexandre esqueceu-se de quem era. Embainhou a espada e exclamou:
“Nunca encontrei um homem tão belo.” E quando voltou ao acampamento, disse: “É difícil
matar um homem que está pronto a morrer, não faz sentido matá-lo. Pode-se matar uma pessoa
que luta, então faz algum sentido matar; mas não se pode matar um homem que está pronto e
que te diz: ‘Esta é a minha cabeça, podes cortá-la’.”

E Dandamis disse realmente: “Esta é a minha cabeça, podes cortá-la. Quando a minha cabeça
cair, vê-la-ás cair na areia e eu também a verei cair na areia, porque eu não sou o meu corpo. Eu
sou uma testemunha.”

Alexandre foi obrigado a contar aos seus amigos: “Havia lá sannyasins que eu poderia ter
trazido, só que esses não eram sannyasins. Depois encontrei um homem que era realmente uma
coisa rara — e vocês ouviram bem, esta flor é rara, mas ninguém o pode forçar porque ele não
tem medo da morte. Quando uma pessoa não tem medo da morte, como é que se pode forçá-la a
fazer seja o que for?”

É o seu medo que faz de si escravo — é o seu medo. Quando deixar de ter medo, deixará de ser
escravo; na realidade, é o seu medo que o obriga a tornar os outros seus escravos antes que eles
o façam escravo a si.

Um homem que é destemido, nem tem medo de ninguém nem faz medo a ninguém. O medo
desaparece completamente.

A Via do Coração

A palavra coragem é muito interessante. Deriva da raiz latina cor, que significa “coração”. Por
isso, ser corajoso significa “viver com o coração”. E os fracos, só os fracos, vivem com a
cabeça; medrosos, criam uma segurança de lógica à sua volta.
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Temerosos, fecham todas as janelas e todas as portas — com teologias, conceitos, palavras,
teorias — e escondem-se por detrás dessas portas e janelas fechadas.

A via do coração é a via da coragem. É viver em insegurança; é viver em amor e confiança; é


movimentar-se no desconhecido. É deixar o passado e permitir que o futuro seja. Coragem é
movimentar-se por caminhos perigosos. A vida é perigosa, e só os cobardes evitam o perigo —
mas é porque eles já estão mortos. Uma pessoa que está viva, viva de verdade, viva com
vitalidade, estará sempre a mover-se no desconhecido. Existe aí um perigo, mas essa pessoa
correrá o risco. O coração está sempre pronto a correr riscos, o coração é um jogador. A cabeça
é um negociante. A cabeça está sempre a calcular — é astuta. O coração não é calculista.

O coração está sempre pronto a correr riscos, o coração é um jogador. A cabeça é um


negociante. A cabeça está sempre a calcular — é astuta.

Esta palavra coragem é bela, é muito interessante. Viver através do coração é descobrir um
significado. Um poeta vive através do coração e, a pouco e pouco, no seu coração ele começa a
escutar os sons do desconhecido. A cabeça não consegue escutar; ela está muito longe do
desconhecido. A cabeça está cheia do conhecido.

Que é o seu pensamento? É tudo o que você conheceu. É o passado, aquilo que está morto,
aquilo que já foi. O pensamento nada mais é do que passado acumulado, a memória. O coração
é o futuro; o coração é sempre a esperança, o coração está sempre algures no futuro. A cabeça
pensa no passado; o coração sonha com o futuro.

O futuro ainda está para vir. O futuro ainda tem uma possibilidade — ele vai chegar, ele já está
a chegar. Em cada momento que passa, o futuro torna-se presente e o presente torna-se passado.
O passado não tem possibilidade, já foi usado.
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Já se afastou dele — ele está esgotado, é uma coisa morta, é como um túmulo. O futuro é como
uma semente: está a chegar, sempre a chegar, sempre a alcançar e a encontrar-se com o
presente. Você está sempre em movimento. O presente não passa de um movimento para o
futuro. É o passo que você já deu; e ele vai a entrar no futuro.

Todas as pessoas do mundo querem ser verdadeiras porque ser verdadeiro proporciona muita
alegria e abundância de graças — porque motivo seria você falso? Tem de ter a coragem para
fazer um exame um pouco mais profundo: Por que é que tem medo? Que é que o mundo lhe
pode fazer? A pessoas riem-se de si, melhor para elas — o riso é sempre um remédio, é
saudável. As pessoas poderão pensar que você é doido... mas lá porque elas pensam que você é
doido, você não fica doido.

E se for autêntico na sua alegria, nas suas lágrimas, na sua dança, mais cedo ou mais tarde
haverá quem comece a compreendê-lo, quem comece a juntar-se à sua caravana.

Por que é que tem medo?

Que é que o mundo lhe pode fazer?

A pessoas riem-se de si, melhor para elas — o riso é sempre um remédio, é saudável.

Eu próprio comecei sozinho na senda, e depois as pessoas continuaram a vir e a minha caravana
tornou-se mundial! E eu não convidei ninguém; fiz unicamente tudo aquilo que sentia vir-me do
coração.

A minha responsabilidade é para com o meu coração, não para com mais ninguém neste mundo.
Por isso, a sua responsabilidade é unicamente para com o seu próprio ser. Não vá contra ele,
porque ir contra ele é suicidar-se, é destruir-se. E que ganharia com isso? Mesmo que as
pessoas o respeitem e pensem que é muito sóbrio, muito respeitável, essas coisas não vão nutrir
o seu ser. Não lhe darão uma maior compreensão da vida nem da sua espantosa beleza.
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Quantos milhões de pessoas viveram neste mundo antes de si? E você nem sequer conhece os
seus nomes; se elas viveram ou não, não faz qualquer diferença. Houve santos e houve
pecadores, e houve pessoas muito respeitáveis, e houve toda a espécie de excêntricos, de
loucos, mas todos eles desapareceram — nem sequer deixaram rasto na Terra.

A sua única preocupação deveria ser proteger e cuidar daquelas qualidades que poderá levar
consigo quando a morte destruir o seu corpo e a sua mente, porque serão essas qualidades os
seus únicos companheiros. São os únicos valores reais, e só as pessoas que as alcançam — só
elas estão vivas; as outras apenas fingem viver.

Numa noite escura, o KGB bate à porta de Yussel Finkelstein.

Yussel vai abrir a porta. O homem do KGB berra: “É aqui que vive Yussel Finkelstein?”

“Não”, responde Yussel, ficando ali de pé no seu pijama coçado. “Não? E então como te
chamas tu?”

‘Yussel Finkelstein.”

O homem do KGB atirou-o ao chão com um murro e gritou: “Não acabaste de dizer que não
vivias aqui?”

Yussel respondeu: “Chamas a isto viver?”

Viver por viver nem sempre é viver. Olhe para a sua vida. Pode dizer que ela é uma bênção?
Pode dizer que ela é uma dádiva, um presente da existência? Gostaria que esta vida lhe fosse
dada novamente, vezes sem conta?

Não dê ouvidos às Escrituras — escute o seu próprio coração. É a única escritura que lhe
receito: escute-o muito atentamente, muito conscientemente, e nunca errará. E, ao escutar o seu
próprio coração, nunca ficará dividido. Ao escutar o seu próprio coração, começará a
movimentar-se na direcção certa, sem nunca sequer pensar no que é certo e no que é errado.

Toda a habilidade da nova humanidade residirá no segredo de saber escutar o coração de


maneira consciente, alerta e atentamente.
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E segui-lo até onde ele o conduzir. Sim, por vezes ele levá-lo-á ao perigo — mas lembre-se de
que os perigos são necessários para amadurecer. Por vezes, ele conduzi-lo-á por maus caminhos
— mas lembre-se, uma vez mais, de que esse ir por maus caminhos faz parte do crescimento.
Muitas vezes cairá — mas levante-se de novo, porque é assim que se ganha força, caindo e
voltando a levantar-se. É dessa maneira que se fica integrado.

Contudo, não siga regras impostas do exterior. Nenhuma regra imposta poderá alguma vez ser
correcta — porque as regras são inventadas por gente que o quer governar! É verdade que, por
vezes, também houve no mundo pessoas iluminadas — um Buda, um Jesus, um Krishna, um
Maomé. Mas esses não deram regras ao mundo — deram-lhe o seu amor. No entanto, mais
cedo ou mais tarde, os discípulos reúnem-se e começam a preparar códigos de conduta. Mal
desaparece o Mestre, mal desaparece a luz, e já eles mergulham nas trevas profundas,
procurando, às apalpadelas, certas regras a serem seguidas, porque a luz que lhes permitiria ver
deixou de estar presente. Agora eles são obrigados a depender de regras.

Aquilo que Jesus fez foi o murmurar do seu próprio coração, e o que os cristãos continuam a
fazer não é o murmurar dos seus próprios corações. São imitadores — e no momento que você
imita está a insultar a sua própria humanidade, a insultar o seu Deus.

Nunca seja um imitador, seja sempre original. Não se transforme em cópias a papel químico. É
isso o que está acontecer em todo o mundo — cópias a papel químico sobre cópias a papel
químico.

Se você for um original, a vida será realmente uma dança — e você é suposto ser um original.
Veja só como Krishna é diferente de Buda. Se Krishna tivesse seguido o Buda, teríamos perdido
um dos homens mais belos deste mundo. Ou se o Buda tivesse seguido a Krishna, ele não teria
passado de um fraco exemplar. Pense só no Buda a tocar flauta! — ele teria perturbado o sono
de muita gente, pois não era tocador de flauta. Pense só no Buda a dançar; seria simplesmente
ridículo, simplesmente absurdo.
20

Um Buda é um Buda, um Krishna é um Krishna e você é você.

E não é, em nada, inferior a ninguém. Respeite-se a si próprio, respeite a sua própria voz
interior e siga-a.

E o mesmo acontece com Krishna. Sentado debaixo de uma árvore, sem uma flauta, sem uma
coroa de penas de pavão, sem as suas belas roupagens — simplesmente sentado, como um
pedinte, debaixo de uma árvore, de olhos fechados, sem ninguém a dançar à sua volta, nada de
danças, nada de canções — e Krishna teria parecido muito pobre, muito enfraquecido.(Um
Buda é um Buda, um Krishna é um Krishna e você é você. E não é, em nada, inferior a
ninguém. Respeite-se a si próprio, respeite a sua própria voz interior e siga-a.

E lembre-se: não estou a garantir-te que a sua voz o conduza sempre ao que é certo. Muitas
vezes, ela levá-lo-á para o que é errado, porque, para se chegar à porta certa, tem de se bater
primeiro a muitas portas erradas. É assim mesmo. Se de repente tropeçar na porta certa, não
será capaz de a reconhecer como a porta certa. Por isso, lembre-se: no cômputo final nunca se
perde qualquer esforço; todos os esforços contribuem para o apogeu final do seu crescimento.

Portanto, não seja hesitante, não se preocupe demasiado com o poder errar. Este é um dos
problemas: as pessoas foram ensinadas a nunca fazer nada de errado, e depois tornam-se tão
hesitantes, tão medrosas, tão assustadas por errarem, que ficam entaladas. Não se mexem
porque pode acontecer algo de errado. Deste modo ficam semelhantes aos rochedos, perdem
todo o movimento.

Faça as asneiras que puder, lembrando-se apenas de uma coisa: nunca repita o mesmo erro. E
assim estará a crescer. Faz parte da sua liberdade seguir por caminhos errados, faz parte da sua
dignidade ir mesmo contra Deus. E é por vezes muito bonito ir mesmo contra Deus. É assim
que você começará a adquirir uma espinha dorsal; de outro modo, haverá milhões de pessoas
sem espinha dorsal.
21

Faça as asneiras que puder, lembrando-se apenas de uma coisa: nunca repita o mesmo erro. E
assim estará a crescer.

Esqueça tudo o que lhe disseram sobre “Isto é certo e aquilo é errado”. A vida não é assim tão
imóvel. Aquilo que é certo hoje pode ser errado amanhã, a coisa que é errada neste momento
pode ser certa no momento seguinte. A vida não pode ser compartimentada; não a pode
classificar assim tão facilmente. “Isto é certo e aquilo é errado.” A vida não é uma farmácia
onde cada frasco está rotulado e se sabe o que é o quê. A vida é um mistério: numa determinada
altura tudo se ajusta e então é certo; numa outra altura, correu tanta água pelo Ganges abaixo
que deixa de se ajustar e é errada.

Qual é a minha definição de certo? Aquilo que está em harmonia com a existência é certo e
aquilo que está em desarmonia com a existência é errado. Você tem de estar atento em todos os
momentos, porque a decisão tem de ser tomada de novo a cada momento. Não pode depender
de respostas feitas por medida para o que é certo e o que é errado. Só os estúpidos dependem de
respostas feitas por medida porque não precisam de ser inteligentes, não têm necessidade disso.
Você já sabe o que é certo e o que é errado, pode memorizar a lista; a lista não é muito grande.

Os Dez Mandamentos — tão simples! — e você sabe o que é certo e o que é errado. Mas a vida
está continuamente a mudar. Se Moisés voltasse agora, não acho que ele lhe daria os mesmos
dez mandamentos — não o poderia fazer. Passados três mil anos, como poderia ele dar-lhe os
mesmos mandamentos? Teria de inventar algo de novo.

No entanto, a minha compreensão pessoal é a seguinte: sempre que são dados mandamentos,
estes criam dificuldades para as pessoas porque, quando são dados, já estão ultrapassados. A
vida move-se muito depressa; a vida é dinamismo, não é estática. Não é um lago estagnado, é o
Ganges, continua a fluir. Nunca e a mesma em dois momentos consecutivos. Então uma coisa
pode ser certa neste momento e pode não ser certa no momento seguinte.
22

Sempre que são dados mandamentos, estes criam dificuldades para as pessoas porque, quando
são dados, já estão ultrapassados. A vida move-se muito depressa: a vida é dinamismo, não é
estática.

Que fazer então? A única coisa possível é tornar as pessoas tão conscientes que elas próprias
possam decidir como reagir a uma vida em mutação.

Uma história Zen:

Havia dois templos, rivais. Ambos os mestres — só deviam ser mestres de nome, na realidade
seriam sacerdotes — eram tão inimigos um do outro que disseram aos seus seguidores que
nunca olhassem para o outro templo.

Cada um dos sacerdotes tinha um rapaz para o servir, para lhe ir buscar coisas, para lhe fazer
recados. O sacerdote do primeiro templo disse ao seu criado: “Nunca fales com o outro rapaz.
Aquela gente é perigosa.”

Mas, rapazes são rapazes. Um dia, encontraram-se na estrada, e o rapaz do primeiro templo
perguntou ao outro: “Onde vais?” O outro respondeu: “Onde o vento me levar.” Devia ter
escutado no templo coisas Zen importantes; e respondeu: “Onde o vento me levar.” Uma grande
afirmação, puro Tao.

Entretanto, o primeiro rapaz ficou muito embaraçado e ofendido, e não soube como replicar-
lhe. Frustrado, irado e também sentindo-se culpado... “O meu mestre disse-me que não falasse
com esta gente. Esta gente é perigosa. Agora, que espécie de resposta é esta? Ele humilhou-
me.”

Dirigiu-se ao mestre e contou-lhe o que se tinha passado: “Peço desculpa por ter falado com
ele. O Senhor tinha razão, aquela gente é estranha. Que espécie de resposta é esta? Perguntei-
lhe: ‘Onde vais?’ — uma pergunta simples e formal — e eu sabia que ela ia ao mercado, tal
como eu ia ao mercado. Mas ele respondeu-me. ‘Onde o vento me levar’.”

O mestre disse-lhe: “Avisei-te, mas não me deste ouvidos. Agora ouve, amanhã estarás
novamente no mesmo lugar.
23

Quando ele chegar, pergunta-lhe: ‘Onde vais?’, e ele vai responder-te: ‘Onde o vento me levar.’
Então sê também um pouco mais filósofo. Diz-lhe: ‘E se não tivesses pernas?’ — porque a alma
não tem corpo e o vento não pode levar a alma para lado nenhum — ‘Como seria?”’

O rapaz queria estar totalmente pronto; levou a noite inteira a repetir aquilo vezes sem conta. E
na manhã seguinte, muito cedo, dirigiu-se para lá, ficou no sítio certo, e na hora certa chegou o
outro rapaz. O primeiro sentia-se muito, muito contente, agora ia mostrar ao outro o que era a
verdadeira filosofia. Por isso perguntou-lhe: “Onde vais?” E ficou à espera...

Mas o outro rapaz disse-lhe: “Vou à praça comprar legumes.”

E agora, que fazer com a filosofia que tinha aprendido?

A vida é assim. Não se pode preparar para ela, não pode ficar pronto para ela. É essa a sua
beleza, é essa a sua magia, ela apanha-o sempre de surpresa, chega sempre como uma surpresa.
Se tiver olhos, verá que cada momento é uma surpresa e que não se lhe pode aplicar qualquer
resposta feita por medida.

A Via da Inteligência

A inteligência é vivacidade, é espontaneidade. É abertura, é vulnerabilidade. É imparcialidade,


é a coragem de se funcionar sem tirar conclusões. E porque é que eu digo que é uma coragem?
É uma coragem porque quando você funciona a partir de uma conclusão, a conclusão protege-o;
a conclusão dá-lhe certezas, segurança. Você sabe isso muito bem, sabe como a procurar, é
muito eficiente a fazê-lo. Funcionar sem uma conclusão é funcionar em inocência. Não há
segurança; você poderá errar, poderá ir por maus caminhos.

Alguém que esteja pronto para entrar nessa exploração chamada verdade também tem de estar
pronto para cometer muitos erros — tem de ser capaz de arriscar. Pode-se seguir por maus
caminhos, mas é assim que se chega. Seguindo muitas vezes por maus caminhos, aprende-se a
não seguir por maus caminhos.
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Cometendo-se muitos erros, aprende-se o que é um erro e como evitá-lo. Sabendo o que é o
erro, chega-se cada vez mais perto do que é a verdade. É uma exploração individual; não pode
depender das conclusões dos outros.

Você nasceu como um não-pensante.

Deixe que isto penetre o mais profundamente possível dentro do seu coração, porque através
disso abre-se uma porta. Se nasceu como não-pensante, então o pensamento não passa de um
produto social. Não é uma coisa natural, é cultivado. Foi amontoado em cima de si. Bem no seu
fundo, você continua livre, pode sair dele. Nunca ninguém pode sair da natureza, mas poderá
sair do artificial em qualquer momento que se decidir a fazê-lo.

A existência precede o pensamento. Por isso, a existência não é um estado de espírito, é um


estado para além dele. Ser , não pensar, é a via para conhecer o fundamental. Ciência significa
pensar, filosofia significa pensar, teologia significa pensar. A religiosidade não significa pensar.
A abordagem religiosa é uma abordagem do não-pensar. É mais íntima, leva-o mais próximo da
realidade. Faz cair tudo o que lhe levanta dificuldades, desbloqueia-o; começa a fluir para
dentro da vida. Olhando, não o vê separado. Não o vê como observador, afastado, distante.
Você encontra-se, mistura-se e funde-se na realidade.

Mas há uma espécie de conhecimento diferente. Não se lhe pode chamar “conhecimento”.
Parece-se mais com o amor, menos com o conhecimento. É tão íntimo que a palavra
conhecimento não é suficiente para o expressar. A palavra amor é mais adequada, mais
expressiva.

É uma exploração individual; não pode depender das conclusões dos outros.
25

Na história da consciência humana, a primeira coisa que evoluiu foi a magia. A magia era uma
combinação de ciência e de religião. A magia possuía algo do pensamento e algo do não-
pensamento. Depois, da magia nasceu a filosofia. E da filosofia nasceu a ciência. A magia era,
ao mesmo tempo, não-pensamento e pensamento. A filosofia era unicamente pensamento. E
então o pensamento mais a experimentação tornou-se ciência. A religiosidade é um estado de
não-pensamento.

A religiosidade e a ciência são duas maneiras de abordar a realidade. A ciência aborda segundo
o secundário; a religiosidade vai directamente. A ciência é uma abordagem indirecta; a
religiosidade é uma abordagem imediata. A ciência anda às voltas e reviravoltas; a religiosidade
penetra simplesmente no coração da realidade.

Ainda mais algumas coisas... Quando pensa, só pode pensar no conhecido — só pode mastigar
o já mastigado. O acto de pensar nunca pode ser original. Como pode você pensar o
desconhecido? Seja o que for que consiga pensar, pertencerá ao conhecido. Você só pode pensar
porque sabe. Quando muito, o acto de pensar poderá criar novas combinações. Pode pensar
num cavalo que voe no céu, que seja feito de ouro, mas nada disso é novo. Você conhece as
aves que voam no céu, conhece o ouro, conhece os cavalos; combina os três juntos. Quando
muito, o acto de pensar pode imaginar novas combinações, mas não pode conhecer o
desconhecido. O desconhecido permanece para lá do pensar. Por isso, o acto de pensar anda em
círculos, sempre a conhecer o conhecido, vezes sem conta. Continua a mastigar o já mastigado.
O acto de pensar nunca é original.

Para atacar a realidade de maneira original e radical, para atacar a realidade sem mediador —
para atacar a realidade como se você fosse a primeira pessoa a existir — isso é libertador. E
essa mesma frescura é libertadora.

A VERDADE É UMA EXPERIÊNCIA, NÃO É UMA CRENÇA. A Verdade nunca acontece a


partir de estudos feitos sobre ela; a verdade tem de ser encontrada, a verdade tem de ser
encarada. A pessoa que faz estudos sobre o amor é como uma pessoa que estudasse os
Himalaias olhando para o mapa das montanhas.
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O mapa não é a montanha! E se você começar a acreditar no mapa, continuará a não ver a
montanha. Se ficar obcecado de mais com o mapa, a montanha poderá estar lá, bem diante de
si, mas, no entanto, não a conseguirá ver.

E é assim que são as coisas. A montanha estará diante de si, mas os seus olhos estão cheios de
mapas — mapas da montanha, mapas sobre a mesma montanha, feitos por exploradores
diferentes. Alguém trepou à montanha pelo seu lado norte, alguém trepou pelo seu lado leste. E
fizeram mapas diferentes: o Corão, a Bíblia, o Gita — mapas diferentes da mesma verdade.
Mas você está demasiadamente cheio dos mapas, demasiadamente sobrecarregado com o seu
peso; não se pode mexer nem um centímetro sequer. Não consegue ver a montanha que está
mesmo diante de si, com os seus picos cobertos de neve virgem brilhando como ouro ao sol da
manhã. Não tem olhos para a ver. O olho preconceituoso é cego, o coração cheio de conclusões
está morto. Demasiadas suposições a priori e a sua inteligência começará a perder a vivacidade,
a beleza, a intensidade. Tornar-se-á apagada.

Uma inteligência apagada é aquilo a que se dá o nome de intelecto! Os seus assim-chamados


intelligentsia não são realmente inteligentes, são apenas intelectuais. O intelecto é um cadáver.
Poderá decorá-lo — poderá ornamentá-lo com grandes pérolas, diamantes, esmeraldas, mas um
cadáver é sempre um cadáver.

Estar vivo é uma coisa totalmente diferente.

Ciência significa ser-se exacto, ser absolutamente exacto, relativamente a factos. E se você for
muito exacto relativamente a factos, não poderá sentir o misterioso — quanto mais exacto for,
mais o mistério se evaporará.

O olho preconceituoso é cego, O coração cheio de conclusões está morto. Demasiadas


suposições a priori e a sua inteligência começará a perder a vivacidade, a beleza, a intensidade.

Tomar-se-á apagada. Uma inteligência apagada é aquilo a que se dá o nome de intelecto.


27

O mistério precisa de uma certa imprecisão; o mistério precisa de algo de inexacto, de


indefinido. A ciência é factual; o mistério não é factual, é existencial.

Um facto é apenas uma parte da existência, uma parte muito pequena, e a ciência lida com
partes, porque é mais fácil lidar com partes. Elas são mais pequenas, podem ser analisadas; não
fica esmagado por elas, pode segurá-las nas suas mãos. Pode dissecá-las, pode rotulá-las, pode
ter certezas absolutas quanto às suas qualidades, quantidades, possibilidades — mas, nesse
mesmo processo, o mistério está a ser assassinado. A ciência é o assassino do mistério.

A ciência é o assassino do mistério.

Se quiser ter a experiência do misterioso, terá de entrar por uma outra porta, de uma dimensão
totalmente diferente.

Se quiser ter a experiência do misterioso, terá de entrar por uma outra porta, de uma dimensão
totalmente diferente. A dimensão do pensamento é a dimensão da ciência, e a dimensão da
meditação é a dimensão do milagroso, do misterioso.

A meditação torna tudo indefinido. A meditação leva-o ao desconhecido, ao inexplorado. A


meditação leva-o, devagarinho, lentamente, a uma espécie de dissolução em que o observador e
o observado se tornam unos. Agora, isso não é possível em ciência. O observador tem de ser o
observador e o observado tem de ser o observado, e uma distinção nítida tem de ser mantida
constantemente. Nem por um só momento se pode esquecer de si mesmo; nem por um único
momento se pode sentir interessado, dissolvido, esmagado, apaixonado, dedicado, pelo objecto
da sua pesquisa. Tem de ser indiferente, tem de ser muito frio — frio, absolutamente
indiferente. É a indiferença mata o mistério.

Se quiser ter realmente a experiência do misterioso, então terá de abrir uma nova porta no seu
ser. Não lhe estou a dizer para deixar de ser cientista; estou simplesmente a dizer-lhe que, para
si, a ciência pode continuar a ser uma actividade periférica.
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Seja cientista no laboratório, mas quando sair do laboratório, esqueça tudo sobre a ciência. E
então escute os passarinhos — mas não com os seus ouvidos de cientista! Olhe para as flores —
mas não com os seus olhos de cientista, porque quando olha para uma rosa com os seus olhos
de cientista, é para uma coisa totalmente diferente que está a olhar. Não é a mesma rosa que um
poeta sente.

A experiência não depende do objecto. A experiência depende do experimentador, depende da


qualidade do experimentar.

AO OLHAR PARA UMA FLOR, TRANSFORME-SE NESSA FLOR, dance à volta da flor,
cante uma canção. O vento é fresco e tonificante, o sol é quente e a flor está no seu melhor. A
flor dança ao vento, alegrando-se, cantando uma canção, cantando aleluia. Participe juntamente
com ela! Deixe cair a indiferença, a objectividade, o desinteresse. Deixe cair todas as suas
atitudes científicas. Torne--se um pouco mais fluido, mais enternecido, mais fundente. Deixe
que a flor fale ao seu coração, deixe que a flor entre no seu ser. Convide-a — ela é a sua
convidada! E então terá um gosto do mistério.

Este é o primeiro passo rumo ao misterioso e se conseguir ser um participante durante um


momento terá conhecido a chave, o segredo do passo final. Então torna-se participante de tudo
o que fizer. Ao caminhar, não se limite a fazê-lo mecanicamente, não se limite a observá-lo —
torne-se no caminhar. Ao dançar, não o faça tecnicamente; a técnica é irrelevante. Poderá
dançar tecnicamente correcto e, apesar disso, perder toda a alegria do dançar. Dissolva-se na
dança, torne-se na dança, esqueça o dançarino.

Quando uma unidade assim tão profunda começar a acontecer em muitas, muitas fases da sua
vida, quando todos à sua volta começarem a passar por semelhantes experiências fantásticas de
desaparecimento, de ausência de ego, de não-existência... quando a flor estiver presente mas
você não, quando o arco-íris estiver presente e você não... quando as nuvens andarem a
deambular pelo céu, tanto dentro como fora, e você não... quando houver silêncio absoluto no
que lhe diz respeito — quando não houver ninguém em si, apenas silêncio puro, um silêncio
virgem, imperturbável, não perturbado por lógicas nem pensamentos, emoções ou sentimentos
—, será esse o momento da meditação. A mente saiu, e quando a mente sai o mistério entra.
29

A Via da Confiança

A CONFIANÇA É A MAIOR INTELIGÊNCIA.

Por que é que as pessoas não confiam? Porque não confiam na sua inteligência. Têm medo, têm
medo de quedas possam enganar. Têm medo; é por isso que duvidam. A dúvida nasce do medo.
A dúvida nasce de uma espécie de insegurança na sua própria inteligência. Não está tão
confiante que possa confiar e entrar na confiança. A confiança precisa de uma grande
inteligência, coragem, integridade. Precisa de um grande coração para se entrar nela. Se você
não for suficientemente inteligente, proteja-se através da dúvida.

Se for inteligente, estará pronto para entrar no desconhecido, porque sabe que, mesmo que todo
o mundo conhecido desapareça e seja deixado no desconhecido, será capaz de se instalar nele.
Será capaz de fazer casa nele, no desconhecido. Confie na sua inteligência. A dúvida está em
guarda; a inteligência mantém-se aberta porque a inteligência sabe que: “Aconteça o que
acontecer, serei capaz de aceitar o desafio, de reagir adequadamente.” A mente medíocre não
tem essa confiança em si própria. O conhecimento é medíocre.

Estar no estado de não conhecer é inteligência, é consciência — e não é cumulativo. Cada


momento que acontece, desaparece; não deixa vestígios atrás de si, não deixa vestígios
existenciais.

Por que é que as pessoas não confiam?

Porque não confiam na sua inteligência.

Têm medo, têm medo de que as possam enganar.


30

Sai-se dele novamente puro, novamente inocente, novamente como uma criança.

Não tente compreender a vida. Viva-a! Não tente compreender o amor. Entre no amor. Então
saberá — e esse saber terá origem na sua vivência. Esse saber nunca destruirá o mistério:
quanto mais souber, mais saberá que há ainda muito para saber.

A vida não é um problema. Olhar para ela como um problema é dar um passo errado. A vida é
um mistério a ser vivido, amado, sentido.

Na realidade, a mente que anda sempre a correr atrás de explicações é uma mente com medo.
Por causa do seu grande medo, a mente quer que tudo lhe seja explicado. Não consegue entrar
em coisa nenhuma sem que essa coisa lhe seja explicada. Com essas explicações, ela sente que
agora o território lhe é familiar; agora conhece a geografia, agora pode mover-se com o mapa, o
roteiro e o horário. Nunca se atreve a entrar em território desconhecido e inexplorado, sem ter
um mapa, sem ter um roteiro. Mas a vida é assim mesmo, e não é possível ter um mapa dela
porque a vida está sempre a mudar. Cada momento é agora. Digo--lhe que não há nada de velho
debaixo do Sol; tudo é novo. É um dinamismo fantástico, um movimento absoluto. Só a
mudança é permanente, só a mudança nunca muda.

Tudo o mais está sempre a mudar, é por isso que não pode ter um mapa; quando o mapa
estivesse pronto, já estaria fora de prazo. Quando o mapa estiver pronto, ele é inútil, a vida
mudou-lhe os caminhos. A vida começou a fazer um jogo novo. Não poderá aguentar a vida
com mapas, porque ela não é comensurável, e você não pode aguentar a vida consultando
roteiros, porque os roteiros só são possíveis se as coisas estiverem estagnadas. A vida não está
estagnada — a vida é um dinamismo, é um processo. Não pode ter um mapa dela. Ela não é
mensurável, ela é um mistério incomensurável. Não peça explicações.

A vida não é um problema. Olhar para ela como um problema é dar um passo errado.

A vida é um mistério a ser vivido, amado, sentido.


31

A isto dou eu o nome de maturidade de espírito: quando alguém chega ao ponto de olhar para a
vida sem fazer quaisquer perguntas, e simplesmente mergulha nela com coragem e sem medo.

O MUNDO INTEIRO ESTÁ CHEIO DE PESSOAS PSEUDO-RELIGIOSAS

— igrejas, templos, gurudwaras, mesquitas, todos cheios de pessoas religiosas. E não vê que o
mundo é absolutamente irreligioso? Com tantas pessoas religiosas, o mundo é tão irreligioso —
como pode acontecer este milagre?

Toda a gente é religiosa e o total é irreligiosidade. A religião é falsa. As pessoas “cultivaram” a


confiança. A confiança tornou-se uma crença, não uma experiência. As pessoas foram ensinadas
a acreditar, foram ensinadas a saber — e foi aí que a humanidade falhou.

Nunca creia. Se não puder confiar, é melhor duvidar, porque através da dúvida surgirá um dia a
possibilidade de confiar. Não pode viver eternamente com dúvidas. A dúvida é uma doença;
uma enfermidade. Na dúvida nunca se poderá sentir realizado; na dúvida tremerá sempre; na
dúvida ficará sempre na angústia, dividido e indeciso. A dúvida transformar-se-á num pesadelo.
É por isso que um dia destes começará a procurar ultrapassar a dúvida. É por isso que eu lhe
digo que é preferível ser ateu a ser teísta ou pseudoteísta.

Ensinaram-no a crer — logo a partir da infanda, o pensamento de toda a gente tem sido
condicionado a crer: crer em Deus, crer na alma, crer nisto e crer naquilo. Agora, toda essa a
crença penetrou nos seus ossos e no seu sangue, mas continua a ser uma crença—você não
sabe. E, se você não souber, não pode ser libertado. O saber liberta, só o saber liberta. Todas as
crenças são emprestadas; são-lhe dadas pelos outros, não são florações suas.
32

E como pode uma coisa emprestada conduzi-lo ao real, ao real absoluto? Deixe cair tudo aquilo
que tomou aos outros. É melhor ser um pedinte do que ser rico — rico não pelo seu próprio
ganho, mas rico através de bens roubados; rico através de coisas emprestadas, rico através da
tradição, rico através das heranças. Não, é preferível ser pedinte, mas ser independente. Essa
pobreza possui em si uma riqueza porque é verdadeira, e a sua riqueza de crenças é muito
pobre. Essas crenças nunca poderão ir muito longe; quando muito, ficam à flor da pele. Raspa
um pouco, e a descrença aparece.

Você acredita em Deus; mas depois o seu negócio falha e, subitamente, aparece a descrença.
Diz: “Não acredito, não consigo acreditar em Deus.” Você acredita em Deus, e o seu bem-
amado morre, e a descrença aparece. Então você acredita em Deus e, só por causa da morte do
seu amado, a sua crença é destruída? Essa crença não vale grande coisa. A confiança nunca
pode ser destruída — uma vez presente, nada a pode . destruir. Nada, absolutamente nada, a
pode destruir.

Portanto, lembre-se de que existe uma grande diferença entre confiança e crença. A confiança é
pessoal; a crença é social. A confiança, tem de crescer nela; a crença, pode permanecer nela,
seja você quem for, e a crença pode ser-lhe imposta. Deixe cair as crenças. O medo estará
presente — porque se você deixar cair a crença, surgirá a dúvida. Cada crença força a dúvida a
esconder-se algures, reprime a dúvida. Não se preocupe com isso; deixe que a dúvida apareça.
Toda a gente tem de passar por uma noite escura antes de chegar ao nascer do Sol. Toda a gente
tem de passar pela dúvida. Longo é o caminho, escura é a noite. Mas depois do longo caminho
e da noite escura, nascerá a manhã e você saberá que tudo valeu a pena.

Todas as crenças são emprestadas; são-lhe dadas pelos outros, não são florações suas. E como

pode uma coisa emprestada conduzi-lo ao real, ao real absoluto?


33

A confiança não pode ser “cultivada” — e nunca tente cultivá-la: é o que toda a humanidade
tem feito. A confiança cultivada transforma-se em crença. Descubra a confiança dentro de si.
Não a cultive. Entre até ao mais profundo do seu ser, até à nascente do seu ser, e descubra-a.

Inquirir pressupõe confiança porque você vai entrar no desconhecido. E isso exige uma enorme
confiança e coragem porque vai afastar-se do que é convencional e tradicional; vai afastar-se da
multidão. Vai entrar no mar alto e não sabe se, porventura, a outra costa existe.

Eu não poderia enviá-lo numa tal inquirição sem o preparar para ter confiança. Poderá parecer
contraditório, mas que posso eu fazer? — a vida é assim. Só um homem com uma grande
confiança será capaz de uma grande dúvida, de uma grande inquirição.

Um homem de pouca confiança só poderá duvidar um pouco.

Um homem sem nenhuma confiança só poderá fingir que duvida.

Não poderá inquirir em profundidade.

A profundidade aparece através da confiança — e é um risco.

Antes de o enviar para o mar inexplorado, tenho de o preparar para essa imensa jornada em que
terá de ir sozinho — mas eu posso conduzi-lo até ao barco. Primeiro tem de conhecer a beleza
da confiança, o êxtase da via do coração — de forma a que, quando entrar no mar alto da
realidade, tenha a coragem suficiente para continuar em frente. Aconteça o que acontecer, terá
confiança suficiente em si próprio.

Ora veja só: como poderá confiar em alguém ou em alguma coisa se não tiver confiança em si
próprio? É impossível. Se duvidar de si, como pode você confiar? É você quem vai confiar, e
você não confia em si próprio — como poderá confiar na sua

Um homem de pouca confiança só poderá duvidar um pouco. Um homem sem nenhuma


confiança só poderá fingir que duvida. Não poderá inquirir em profundidade. A profundidade
aparece através da confiança — e é um risco. confiança?
34

É absolutamente necessário que o coração se abra antes de o intelecto se transformar em


inteligência. É esta a diferença entre intelecto e inteligência.

A inteligência é o intelecto em sintonia com o seu coração.

O coração sabe como confiar.

O intelecto sabe como procurar e voltar a procurar.

Há uma antiga história oriental:

Dois pedintes viviam numa floresta, perto de uma aldeia. Um era cego e o outro não tinha
pernas. Um dia, a floresta, que ficava perto da aldeia e onde os dois pedintes viviam, incendiou-
se. É evidente que eles eram concorrentes — na mesma profissão, pedindo às mesmas pessoas
— e estavam permanentemente zangados um com o outro. Eram adversários, não eram amigos.

As pessoas que estão na mesma profissão não podem ser amigas. É muito difícil, porque se trata
de uma questão de concorrência, de clientes — você estará a atrair um cliente de uma outra
pessoa. Os pedintes classificam os seus clientes: “Lembra-te de que este me pertence; não o vás
enfadar.” Mas você não sabe a que pedinte pertence, quem é o pedinte que o possui, mas algum
pedinte na rua o possuiu. Ele poderá ter lutado e ganho a batalha e agora você pertence-lhe...

Eu costumava ver um pedinte perto da universidade; um dia encontrei-o no mercado. Ele está
constantemente ali, perto da universidade, porque os jovens são generosos; com o tempo, as
pessoas mais idosas ficam mais sovinas, com mais medo. Agora que a morte se está a
aproximar, o dinheiro parece ser a única coisa que as pode ajudar. E se tiverem dinheiro, então
os outros também as poderão ajudar; se não tiverem dinheiro, nem os próprios filhos se
preocuparão com elas. Mas os jovens podem dar-se ao luxo de ser perdulários. São jovens,
podem ganhar dinheiro; a vida está ali, uma longa vida pela frente.

E aquele pedinte era rico, porque na índia um estudante só entra na universidade se vier de uma
família rica; de outro modo, é uma luta. Algumas pessoas pobres também conseguem entrar,
mas é muito difícil, muito árduo. Eu também vinha de uma família pobre.
35

Trabalhava toda a noite como editor de um jornal, e de dia ia à universidade. Durante anos, não
consegui dormir mais de três ou quatro horas — sempre que arranjava tempo, de dia ou de
noite.

Ora, aquele pedinte era muito forte. Nenhum outro pedinte podia entrar na rua da universidade,
a própria entrada lhe era proibida. Todos sabiam a quem pertencia a universidade — àquele
pedinte! Um dia, subitamente, vi um homem ainda novo; o velho já lá não estava. Perguntei-
lhe: “Que aconteceu? Onde está o velho?”

Ele respondeu-me: “Ele é o meu sogro. Deu-me a universidade como prenda.” Ora, a
universidade não sabia que o proprietário tinha mudado, que uma outra pessoa era agora o
proprietário. O homem novo disse-me: “Casei-me com a filha dele.”

Na Índia, dão-lhe um dote quando se casa com a filha de alguém. Não é só casar-se com a filha:
se for rico, o seu sogro tem de lhe dar um carro, uma vivenda. Se não for muito rico, então, pelo
menos, uma motoreta; se não for mesmo nada rico, então pelo menos uma bicicleta, mas ele
tem de lhe dar sempre alguma coisa — um rádio, um transístor, um televisor — e algum
dinheiro. Se ele for realmente rico, terá oportunidade de ir estudar para o estrangeiro para
conseguir uma educação melhor, ser médico, engenheiro — e ele pagará as despesas.

A filha daquele pedinte tinha-se casado e o noivo recebera em dote toda a universidade. Disse-
me ele: “A partir de hoje, esta rua e a universidade pertencem-me. E o meu sogro disse-me
quem são os meus clientes.”

Quando vi o velho no mercado, disse-lhe: “Boa! Fizeste bem em dares-lhe um dote.”

“Sim”, respondeu-me ele, “Só tinha uma filha e quis fazer alguma coisa pelo meu genro. Dei-
lhe o melhor local para pedir. Agora vim para aqui a fim de tentar estabelecer o meu monopólio
no mercado. Aqui o trabalho é bastante duro porque há muitos pedintes, veteranos que já
tomaram posse dos clientes. Mas não há razão para me preocupar. Cá me arranjarei; deito
alguns dos pedintes daqui para fora” — e não restam dúvidas que assim fez.
36

Ora, quando a floresta começou a arder, aqueles dois pedintes pararam para pensar. Eram
inimigos, nem sequer se falavam, mas aquilo era uma emergência. O homem cego disse para o
homem que não tinha pernas: “Agora a única maneira de escaparmos é tu sentares-te nos meus
ombros; usas as minhas pernas, eu usarei os teus olhos. É a única maneira de nos salvarmos.”

Chegaram imediatamente a acordo. Não havia qualquer problema. O homem que não tinha
pernas não podia sair dali; era-lhe impossível atravessar a floresta — que estava toda em
chamas. Poderia ter andado um bocadinho, mas não lhe serviria de muito. Era preciso uma
saída e uma saída muito rápida. O homem cego também tinha a certeza de que não poderia
escapar. Não sabia onde andava o fogo, onde ficava a estrada, nem onde havia árvores a arder
nem onde não havia. Um homem cego... podia perder-se. Ambos eram pessoas inteligentes;
puseram de lado a sua inimizade, tornaram-se amigos e salvaram-se.

Esta fábula é oriental. E fala do seu intelecto e do seu coração. Não tem nada a ver com
pedintes, tem algo a ver consigo. Não tem nada a ver com o fogo na floresta, tem algo a ver
consigo — porque você está a arder. Está permanentemente a arder, a sofrer, infeliz, angustiado.
Sozinho, o seu intelecto é cego. Possui pernas, pode correr rapidamente, pode andar
rapidamente, mas, por ser cego, não consegue decidir qual é a direcção certa por onde seguir. E
está condenado a tropeçar constantemente, a cair, magoando-se e achando que a vida não faz
sentido. E é isso o que os intelectuais do mundo inteiro dizem: “A vida não faz sentido.”

A vida parece-lhes não fazer sentido pela simples razão de que o intelecto é cego, mas está a
tentar ver a luz. E impossível.

Existe um coração dentro de si que vê, que sente, mas que não tem pernas; não pode correr.
Permanece no seu lugar, atento, à espera... talvez um dia o intelecto compreenda e seja capaz de
usar os olhos do coração.

Quando digo a palavra confiança, falo dos olhos do coração.

E quando digo dúvida, falo das pernas do seu intelecto.


37

Nas mãos do coração, o intelecto torna-se inteligente. É uma transformação, uma completa
transformação de energia. Então a pessoa não se torna um intelectual, torna-se simplesmente
sábio.

Juntos, podem ambos sair do fogo; não há qualquer problema. Mas lembre-se de que o intelecto
tem de aceitar o coração em cima dos seus ombros. Tem de ser. O coração não tem pernas, só
tem olhos, e o intelecto tem de ouvir o que lhe diz o coração e seguir as suas directivas.

Nas mãos do coração, o intelecto torna-se inteligente. E uma transformação, uma completa
transformação de energia. Então a pessoa não se torna um intelectual, torna-se simplesmente
sábio.

A sabedoria surge através do encontro do coração e do intelecto. E quando aprender a arte de


criar uma sintonia entre as batidas do seu coração e as obras do seu intelecto, terá nas mãos o
segredo completo, a chave-mestra, para abrir todos os mistérios.

A Via da Inocência

A verdadeira questão não é a coragem, a verdadeira questão é o conhecido ser aquilo que está
morto e o desconhecido ser aquilo que está vivo. Agarrar-se ao conhecido é agarrar-se a um
cadáver. Não é necessária coragem para deixar de se agarrar; na realidade, é preciso ter
coragem para continuar agarrado a um cadáver. Só tem de observar... Aquilo que lhe é familiar,
aquilo que já viveu — o que lhe ofereceu? Onde chegou? Não está ainda vazio? Não sente uma
insatisfação imensa, uma profunda frustração e uma completa falta de um sentido? De uma
maneira ou outra, continua a procurar esconder a verdade e a criar mentiras para continuar
comprometido, envolvido.

A questão é a seguinte: compreender claramente que tudo aquilo que você sabe pertence ao
passado, já passou. Faz parte de um cemitério. Quer estar num túmulo ou quer estar vivo?
38

E esta não é só uma questão de hoje; será a mesma questão amanhã e depois de amanhã. Será a
mesma questão quando der o último suspiro.

Tudo aquilo que sabe, que acumula — informações, conhecimentos, experiências — deixa de
lhe ser útil no momento em que o explorou. Depois o transportar dessas palavras ocas, desse
peso morto, esmaga a sua vida, sobrecarrega a sua vida, e impede-o de entrar num ser cheio de
vida e de alegria — que espera

O homem de compreensão morre a cada momento para o passado e renasce para o futuro. O seu
presente é sempre uma transformação, um renascimento, uma ressurreição. Não se trata, de
maneira nenhuma, de uma questão de coragem, isso é a primeira coisa a compreender. Trata-se
de uma questão de clareza, de ser claro sobre o que é o quê.

E segundo, sempre que se trata realmente de uma questão de coragem, ninguém lha pode dar.
Não é coisa que se ofereça como presente. E uma coisa com que nasceu, que apenas não deixou
que crescesse, não permitiu que se afirmasse.

por si a cada instante.

O homem de compreensão morre a cada momento para o passado e renasce para o futuro.

O seu presente é sempre uma transformação, um renascimento, uma ressurreição.

A INOCÊNCIA É AO MESMO TEMPO CORAGEM E CLAREZA. Não precisa de ter


coragem se for inocente. Também não precisa de ter qualquer clareza, porque nada pode ser
mais claro, mais cristalino, do que a inocência. Ora, a questão é como proteger a sua própria
inocência.

A inocência não é uma coisa a alcançar. Não é uma coisa que se aprenda. Não é como o talento:
pintura, música, poesia, escultura. Não é como nenhuma dessas coisas. E mais como a
respiração, algo com que você nasceu.

A inocência é a natureza de toda a gente. Todos nascemos inocentes.


39

Não precisa de ter coragem se for inocente. Também não precisa de ter qualquer clareza, porque
nada pode ser mais claro, mais cristalino, do que a inocência. Ora, a questão é como proteger a
sua própria inocência.

Como é que se poderia nascer sem ser inocente? O nascimento significa que entrou no mundo
como tábua rasa, que não há nada escrito em si. Só tem futuro, não tem passado. E esse o
significado da inocência. Portanto, primeiro tente compreender todos os significados da
inocência.

O primeiro é: nenhum passado, só futuro.

O passado corrompe porque traz consigo memórias, experiências, expectativas. Tudo isso
combinado poderá dar-lhe esperteza, mas não clareza. Torne-se astuto, mas não inteligente.
Poderá ajudá-lo a triunfar no mundo, mas, no seu ser mais profundo, será um fracassado. E todo
o triunfo do mundo não significa nada comparado ao fracasso que acabará por ter de enfrentar,
porque no fim de tudo só o seu eu mais profundo ficará consigo. Tudo se perdeu: a sua glória, o
seu poder, o seu nome, a sua fama — tudo começou a esfumar-se, como se fossem sombras.

Por fim, só ficará aquilo que trazia consigo no início. Só poderá levar deste mundo aquilo que
trouxe consigo.

Na sabedoria da Índia, é comum dizer-se que o mundo é como uma sala de espera numa estação
de caminhos-de-ferro; não é a sua casa. Não ficará na sala de espera eternamente. Nada do que
há na sala de espera lhe pertence — mobília, quadros na parede... Pode usá-los, olhar para os
quadros, sentar-se na cadeira, descansar na cama —, mas nada disso lhe pertence. Só ficará ali
durante alguns minutos, quando muito algumas horas, depois terá de partir.

Por fim, só ficará aquilo que trazia consigo no início. Só poderá levar deste mundo aquilo que
trouxe.

Sim, é verdade, levará consigo as coisas que trouxe para essa sala de espera; pertencem-lhe.
40

Que é que lhe trouxe este mundo? E não há dúvida de que o mundo é uma sala de espera. A
espera poderá não ser de segundos, de minutos, de horas, de dias, poderá ser de anos; mas que
importância tem isso, você tiver de esperar sete horas ou setenta anos?

Daqui por setenta anos, talvez se esqueça de que está apenas numa sala de espera. Talvez
comece a pensar que é o dono, que talvez aquela seja a casa que construiu. Talvez comece a
colocar uma placa com o seu nome na sala de espera.

Há pessoas — e eu vi-o porque viajei muito: há pessoas que escreveram os seus nomes nas
casas de banho da sala de espera. Há pessoas que gravaram os seus nomes nos móveis da sala
de espera. Pode parecer uma estupidez, mas é muito semelhante ao que as pessoas fazem no
mundo.

Há uma história muito significativa nas antigas escrituras jainistas. Na Índia, acredita-se que
quem conseguir tornar-se imperador do mundo inteiro será chamado chakravartin. A palavra
chakra significa uma “roda”. Na Índia antiga era uma maneira de evitar guerras e violências
desnecessárias: uma quadriga, uma quadriga em ouro, muito valiosa, puxada por lindos e
possantes cavalos, passaria de um reino para outro reino. Se o outro reino não resistisse e
deixasse passar a quadriga, isso significava que esse reino aceitava o dono da quadriga como
seu superior. Não havia necessidade de lutar.

Era assim que a quadriga ia passando e, sempre que as pessoas impedissem a sua passagem,
estalava a guerra. Se a quadriga não fosse impedida em lado nenhum, então a superioridade do
rei ficava provada sem haver necessidade de fazer guerra: ele tornava-se um chakravartin —
alguém cuja roda andara a girar e que ninguém fora capaz de impedir. E era este o desejo de
todos os reis, tornarem-se chakravartin.

É certo que é necessário mais poder do que aquele que tinha Alexandre, o Grande. Só para
mandar ir a sua quadriga... é preciso ter um poder fantástico para a apoiar. É preciso ter a
certeza absoluta de que, se a quadriga for impedida, haverá um massacre. Significa que o
homem já foi reconhecido, que se ele quiser conquistar alguém não existe maneira de impedir
que ele o conquiste.
41

Mas é uma maneira muito simbólica, mais civilizada. Não há necessidade de atacar, não há
necessidade de começar a matar; basta enviar uma mensagem simbólica. Então, a quadriga irá
com a bandeira do rei, e se o outro rei achar que não faz sentido resistir — que lutar significa
apenas derrota e violência desnecessárias, destruição — dará as boas-vindas à quadriga e na sua
capital deitar-se-ão flores sobre a quadriga.

Isto parece-me ser uma maneira muito mais civilizada do que aquilo que estão a fazer países
como a Rússia e a América. Basta que envie uma linda quadriga — contudo, isso significa que
tem de estar absolutamente seguro da sua força; e não apenas você, mas igualmente todas as
outras pessoas. Só então um símbolo como esse poderá ser útil. Ora, todos os reis tinham o
desejo de se tornarem um dia um chakravartin.

Diz a história que um dia um homem tornou-se um chakravartin — e acontece apenas uma vez
em milhares de anos que um homem se tome um chakravartin. Nem mesmo Alexandre, o
Grande, foi um conquistador do mundo; ainda deixou muito por conquistar. E ele morreu muito
novo, só tinha trinta e três anos: nem sequer teve tempo para conquistar o mundo. Como falar
de o conquistar, se o mundo inteiro nem sequer era conhecido! Metade do mundo era
desconhecido, e a metade que era conhecida, nem essa foi conquistada. Este homem, de quem
vou contar a história, tornou-se um chakravartin.

Diz-se que quando um chakravartin morre — porque um chakravartin acontece apenas em


milhares de anos, é um ser muito raro —, quando ele morre, é recebido no céu com grandes
festejos e é levado para um lugar especial.

Na mitologia jainista, no céu existe uma montanha paralela aos Himalaias. Os Himalaias são
apenas feitos de rochas, de terra e de gelo. O paralelo no céu correspondente aos Himalaias
chama-se Sumeru. Sumeru significa a montanha das montanhas: nada pode ser mais elevado do
que ela, nada pode ser melhor do que ela.
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É feita de ouro sólido; em vez de rochas há diamantes, rubis e esmeraldas.

Quando um chakravartin morre, é levado para a montanha Sumeru para gravar nela o seu nome.
Tal oportunidade é coisa rara; acontece apenas uma vez em milhares de anos. É evidente que o
homem se sentia excitadíssimo porque ia escrever o seu nome no Sumeru. É o supremo
catálogo de todos os grandes que já existiram, e será igualmente o catálogo de todos os grandes
que virão a existir. Aquele imperador estava prestes a fazer parte de uma linhagem de super-
homens.

O guarda-portão deu-lhe os instrumentos para gravar o seu nome. Ele queria levar alguns dos
seus homem que se tinham suicidado só porque o seu imperador estava a morrer — não se
podiam imaginar a viver sem ele. A mulher, o primeiro-ministro, o comandante-em-chefe, todos
os grandes que o rodeavam se suicidaram para o poderem acompanhar.

O imperador queria que o guarda-portão os deixasse ir vê-lo a gravar o seu nome, porque que
alegria sentiria se fosse sozinho gravar o seu nome e ninguém presenciasse o acto? — porque a
verdadeira alegria decorreria da presença de todos eles.

O guarda-portão disse-lhe: “Ouve o meu conselho, pois a minha profissão foi herdada. O meu
pai foi guarda-portão, o pai dele foi guarda-portão, há séculos que somos os guarda-portões da
montanha Sumeru. Escuta o meu conselho: Não os leves contigo; de outro modo arrepender-te-
ás.”

O imperador não compreendia, mas também não podia ignorar o conselho — pois que interesse
poderia ter aquele homem em impedi-lo?

O guarda-portão disse-lhe: “Se ainda quiseres que eles vejam, vai tu primeiro gravar o teu
nome; depois voltas e podes levá-los contigo se quiseres. Não levanto qualquer objecção se os
quiseres levar, mas, para o caso de decidires não o fazer, então não terás a oportunidade de
mudar de opinião... eles estarão contigo. Vai, pois, sozinho.”

Este conselho era perfeitamente sensato. O imperador disse:


43

“Óptimo. Vou sozinho, gravo o meu nome, volto e chamo-os a todos.”

O guarda-portão respondeu: “Estou perfeitamente de acordo com isso.”

O imperador foi e viu o Sumeru a brilhar sob milhares de sóis — porque no céu não se pode ser
tão pobre que se tenha apenas um só Sol — milhares de sóis e uma montanha dourada, de longe
maior do que os Himalaias — e os Himalaias têm quase duas mil milhas de comprimento! Por
instantes não conseguiu abrir os olhos, tal era o brilho que ali havia. Depois começou a procurar
um espaço, o espaço certo, mas ficou muito perplexo: não havia nenhum espaço; toda a
montanha estava gravada com nomes.

Ele não podia acreditar nos seus olhos. Pela primeira vez, tornou-se consciente do que era. Até
ao momento, pensara que era um super-homem, que só surge uma vez em milhares de anos.
Mas nem mesmo milhares de anos fazem qualquer diferença, pelo que muitos chakravartin já
tinham existido. Não havia espaço, na maior montanha de todo o universo, onde ele pudesse
escrever o seu pequeno nome.

Voltou para trás e agora compreendia que o guarda-portão tinha razão em aconselhá-lo a não
levar a mulher, o comandante-em-chefe, o primeiro-ministro e outro amigos íntimos. Foi bom
que eles não tivessem visto a situação. Podiam continuar a acreditar que o seu imperador era
um ser raro.

Chamou o guarda-portão de lado e disse-lhe: “Mas não há nenhum espaço...”

O guarda-portão respondeu: “Era o que eu te estava a dizer. O que tens a fazer é apagar uns
quantos nomes e escrever o teu. E o que tem sido feito; toda a minha vida o tenho visto fazer, o
meu pai costumava dizer que isso tem sido feito. O pai do meu pai — ninguém da minha
família viu o Sumeru vazio, ou com espaços vazios, nunca.

“Sempre que chegou um chakravartin, teve de apagar alguns nomes para escrever o seu.
Portanto, esta não é toda a história dos chakravartin.
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Muitas vezes foi apagada, muitas vezes foi gravada. Limita-te a fazer o teu trabalho e depois, se
quiseres mostrá-lo aos teus amigos, podes mandá-los entrar.”

O imperador respondeu: “Não, não quero mostrar-lhes e nem sequer quero escrever o meu
nome. De que valerá? — um dia virá alguém que o apagará.

A minha vida inteira deixou de fazer qualquer sentido. Esta era a minha única esperança, este
Sumeru, a montanha dourada no céu ia receber o meu nome. Para isto vivi, para isto apostei a
minha vida; para isto estive pronto a matar o mundo inteiro. E qualquer um poderá apagar o
meu nome para escrever o seu. De que vale escrevê-lo? Não vou escrevê-lo...”

O guarda-portão riu-se.

O imperador perguntou-lhe: “De que te ris?”

O guarda-portão respondeu: “É estranho, porque isso também eu ouvi dos meus antepassados
— que os chakravartin chegam e, ao verem toda a história, afastam-se simplesmente; não
escrevem os seus nomes. Tu não és o primeiro: qualquer pessoa com um mínimo de inteligência
faria o mesmo.”

Em todo este mundo, o que pode você ganhar? O que pode levar consigo? O seu nome, o seu
prestígio, a sua respeitabilidade? O seu dinheiro, o seu poder — o quê? A sua formação escolar?
Não pode levar nada. Terá de deixar tudo aqui. E, nessa altura, compreenderá que nada do que
possuía era seu; a própria ideia de posse estava errada. E por causa de semelhantes posses você
foi corrompido.

Para aumentar as suas posses — para ter mais dinheiro, para ter mais poder, para conquistar
mais terras — fez coisas que nem mesmo você pode dizer que eram correctas. Mentiu, foi
desonesto. Tinha centenas de caras. Nem por um único momento foi verdadeiro para ninguém,
nem para si mesmo; não o podia ser. Tinha de ser falso, impostor, fingido, porque são essas as
coisas que o ajudam a alcançar o sucesso no mundo. A autenticidade não o ajudará. A
honestidade não o ajudará. A verdade não o ajudará.
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Sem posses, sem sucesso e sem fama — quem é você? Não sabe. Você é o seu nome, é a sua
fama, é o seu prestígio, o seu poder. Mas, para além disso tudo, quem é você? Portanto, todos
estes haveres se transformam na sua identidade. Dão-lhe uma falsa sensação de ser. É isto o
ego.

O ego não é nada de misterioso, é um fenómeno muito simples. Você não sabe quem é, e é
impossível viver sem saber quem é. Se não souber quem eu sou, então que estou eu a fazer
aqui? Então nada do que fizer faz sentido. A primeira coisa, e a mais importante, é saber quem
sou. Talvez, então, eu possa fazer algo que satisfaça a minha natureza, me contente, me traga
para casa.

Mas se eu não souber quem sou, e se continuar a fazer coisas, que posso eu fazer para chegar
onde a minha natureza é suposta chegar, liderar? Ando a correr por aqui e por ali, mas nunca
haverá nenhum ponto em que eu possa dizer: “Agora já cheguei, este era o lugar que eu
procurava.”

Você não sabe quem é, e por isso precisa de uma falsa identidade como substituto. Os seus
haveres dão-lhe essa falsa identidade.

Você chega a este mundo como observador inocente. Toda a gente vem da mesma maneira, com
a mesma qualidade de consciência. Mas você começa a negociar com o mundo dos adultos.
Estes têm muitas coisas para lhe dar; você possui apenas uma única coisa para dar, que é a sua
integridade, o respeito por si , próprio. Não possui muito, só uma única coisa — e pode chamar-
lhe qualquer coisa: inocência, inteligência, autenticidade. Só possui uma coisa.

E a criança mostra-se naturalmente muitíssimo interessada em tudo aquilo que a rodeia. Está
constantemente a querer isto, a querer aquilo; isso faz parte da natureza humana. Se observar
uma criança pequena, mesmo recém-nascida, vê-la-á tacteando à procura de alguma coisa; as
suas mãos tentam achar alguma coisa. A criança começou a sua jornada.

Na jornada, ela perder-se-á, porque neste mundo não se pode obter nada sem pagar por isso.
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E a pobre criança não compreende que aquilo que ela está a dar é muito valioso, que se o
mundo inteiro estiver de um lado e a integridade dela do outro, então também aí a sua
integridade será mais pesada, mais valiosa. A criança não tem maneira de o saber. Esse é o
problema, porque aquilo que ela possui, ela possui pura e simplesmente. Considera-o como um
dado adquirido.

Deixe-me contar-lhe uma história que ilustra o que acabei de dizer.

Um homem rico, muito rico, acabou por se sentir frustrado, o que é o resultado natural de todos
os seus êxitos. Nada fracassa tanto como o êxito. Ter sucesso significa apenas que é um
fracassado. Quando tem êxito, saberá então que foi enganado pelo mundo, pelas pessoas, pela
sociedade. O homem tinha todas as riquezas, mas não tinha paz de espírito. E começou a
procurar a paz de espírito.

É isso o que está a acontecer na América. Na América há mais pessoas a procurarem a paz de
espírito do que em qualquer outra parte do mundo. Na Índia, nunca encontrei ninguém que
procurasse a paz de espírito. É preciso tratar da paz do estômago primeiro — a paz de espírito
está muito longe. Para o estômago, o espírito fica, praticamente, a milhões de quilómetros.

Mas na América toda a gente anda à procura da paz de espírito, e é claro que quando a
procuram, as pessoas estarão lá prontas para lha dar. Isto é uma simples lei da economia:
sempre que há procura, há oferta.

Na América há mais pessoas a procurarem a paz de espírito do que em qualquer outra parte do
mundo. Na Índia, nunca encontrei ninguém que procurasse a paz de espírito.

É preciso tratar da paz do estômago primeiro.

Não importa se você precisa realmente daquilo que procura. Nem ninguém se preocupa com o
que a oferta lhe vai dar — se não passa de publicidade enganosa, propaganda, ou se contém em
si alguma coisa de substancial.

E como conhecem este princípio simples, que sempre que há procura há oferta, as pessoas
astutas e espertas dão logo um passo em frente.
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Dizem elas então: “Não é preciso esperar que haja procura, podemos criar a procura.” E reside
aí toda a arte da publicidade: ela cria a procura.

Antes de ler a publicidade nunca tinha sentido tal necessidade, nunca sentiu necessidade
daquilo. Mas ao lê-la, subitamente pensa: “Meu Deus, a falta que isto me faz. Que idiota que eu
sou pois nunca me apercebi que esta coisa existia.”

Antes de alguém começar a fabricar alguma coisa, a produzir alguma coisa, mesmo daí a alguns
anos — daí a três, quatro anos —, esse alguém começa a fazer publicidade. Ainda não existe o
produto no mercado, porque a procura tem primeiro de entrar na mente das pessoas. E a oferta
estará pronta quando a procura estiver presente.

Bernard Shaw dizia que quando era jovem e publicou o seu primeiro livro, evidentemente não
houve procura — nunca ninguém ouvira falar de George Bernard Shaw. Como pode você pedir:
“Quero o livro de George Bernard Shaw, a sua peça de teatro”? Então que costumava ele fazer
todo o dia... Publicou o livro — ele próprio foi o editor, ele próprio arranjou o dinheiro — e
depois andou de livraria em livraria a perguntar: “Tem o livro de George Bernard Shaw?”

Respondiam-lhe: “George Bernard Shaw? Nunca ouvimos falar dele.”

E ele dizia: “É estranho, um homem tão importante e vocês nunca ouviram falar dele..., e
dirigem vocês uma livraria? Estão por acaso fora de moda, ou quê? A primeira coisa que
deveriam fazer é obter o livro de George Bernard Shaw.” Ele só tinha publicado um único livro,
mas começou a fazer publicidade a vários livros, porque quando se anda a fazer a volta, porquê
fazer publicidade a um só livro? E um só livro não faz de um homem um grande escritor.

Vestia-se de maneiras diferentes — por vezes usava chapéu, por vezes colocava óculos. E as
pessoas começaram a ir a casa de George Bernard Shaw. E ele tinha de fazer tudo isto — a
publicidade e o fornecimento: foi assim que vendeu o seu primeiro livro.
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Perguntava às pessoas na rua: “Já ouviu falar... porque eu tenho ouvido falar muito de um certo
livro escrito por um tal George Bernard Shaw. As pessoas dizem que é muito bom, fantástico. Já
ouviu falar?”

E as pessoas respondiam-lhe: “Não, nunca ouvimos falar desse nome.”

E ele dizia: “Isso é estranho. E eu a pensar que a sociedade londrina era uma sociedade culta.”
E ele ia às livrarias, aos clubes e a todos os lugares onde houvesse possibilidade de criar
procura, e ele conseguiu criar procura. Vendeu o livro e finalmente — era o que ele fazia
constantemente — e finalmente tornou-se um dos maiores escritores da sua época. Ele tinha
criado a procura.

Mas se você obtiver êxito, não há necessidade de criar a procura da paz de espírito. Se tiver
êxito, perderá a paz de espírito no processo. É o curso natural. Os êxitos levam toda a paz do
seu espírito. Simplesmente, eles sugam tudo o que é significativo na vida: a paz, o silêncio, a
alegria, o amor. E continua a tirar-lhe tudo. Finalmente, acaba por ter as mãos cheias de lixo, e
perde tudo o que tinha valor... E de repente precisa de paz de espírito.

E logo aparecem os fornecedores, que não conhecem nada sobre o espírito, que não conhecem
nada sobre a paz. Li um livro intitulado Peace of Mind, escrito por um rabi judeu, um tal Joshua
Liebman. Fiz uma leitura do livro todo; o homem nem sabe de paz nem sabe de espírito. Mas é
um negociante. Fez um bom trabalho sem saber nada sobre a paz do espírito.

O seu livro é um dos mais vendidos em todo o mundo, porque quem quiser paz de espírito está
destinado a descobrir, mais cedo ou mais tarde, o livro de Joshua Liebman. E ele escreveu-o
magistralmente. É um bom escritor, muito articulado, impressionante; será influenciado por ele.
Mas a paz de espírito continuará tão longe como antes, ou talvez ainda se tenha afastado mais
após ter lido este livro.
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De facto, se um homem souber o que é a paz de espírito, ele não poderá escrever um livro
intitulado Peace of Mind (Paz da Mente), porque a mente é a causa de toda a falta de paz, de
toda a agitação. A paz é quando não há mente. Ora, paz de espírito — semelhante mercadoria é
coisa que não existe. Se houver mente, então não há paz. Se houver paz, então não existe
pensamento. Agora, escrever um livro “A Paz da Não Mente” — ninguém o vai comprar. Estive
a pensar... mas depois pensei, ninguém vai comprar “Paz da Não Mente”. Não fará sentido para
as pessoas, mas essa é exactamente a verdade.

A criança não tem consciência daquilo que traz consigo. O homem rico estava na mesma
posição. Possuía todas as riquezas do mundo, e agora procurava a paz de espírito. Andou de
sábio em sábio e todos lhe deram grandes conselhos, mas os conselhos não ajudam ninguém.

Na verdade, só os loucos dão conselhos, e só os loucos recebem conselhos. As pessoas sensatas


mostram-se muito relutantes em dar-lhe conselhos porque um homem sensato sabe, sem dúvida,
que as únicas coisas no mundo que são dadas de graça são os conselhos e que aquilo que nunca
ninguém ouve são conselhos, portanto por que motivo se preocuparia ele?

Um homem sensato prepara-o primeiro para poder receber o conselho. Ele não lhe dá apenas o
conselho; você precisa de ser preparado. Poderá levar anos a preparar-se, a preparar o terreno, e
só então poderá semear as sementes. Louco será quem simplesmente continuar a deitar
sementes às rochas e às pedras sem se preocupar sequer com o facto de estar a desperdiçá-las.

Se um homem souber o que é a paz de espírito, ele não poderá escrever um livro intitulado
Peace of Mind, porque a mente é a causa de toda a falta de paz, de toda a agitação. A paz é
quando não há mente. Ora, paz de espírito — semelhante mercadoria é coisa que não existe.

Todos aqueles sábios lhe deram conselhos, mas não conseguiu atingir os seus fins. Finalmente,
um homem a quem ele não tinha pedido nada, que não era de modo algum um homem famoso
— pelo contrário, era considerado o idiota da aldeia —, um dia, esse homem fê-lo parar na
estrada e disse-lhe: “Andas a desperdiçar desnecessariamente o teu tempo.
50

Nenhum deles é sábio; conheço-os perfeitamente, mas só porque sou idiota ninguém acredita
em mim. Talvez tu também não acredites em mim, mas eu conheço um sábio.

“Só de te ver continuamente tão torturado pela paz de espírito, pensei que seria melhor se eu te
indicasse a pessoa certa. De outro modo, eu sou um idiota; ninguém me pede conselhos e eu
nunca dou conselhos a ninguém. Mas agora foi de mais: ao ver-te tão triste e tão infeliz, quebrei
o silêncio. Vai ver tal homem na aldeia vizinha.”

O homem rico foi imediatamente, montado no seu belo cavalo, e levou um grande saco cheio de
diamantes preciosos. Chegou lá, viu o tal homem — o tal homem era conhecido dos sufis pelo
nome de Mulla Nasruddin.

O homem rico perguntou ao Mulla: “Podes ajudar-me a alcançar a paz de espírito?”

O Mulla respondeu: “Ajudar-te? Posso dar-ta.”

O homem rico pensou: “É estranho. Primeiro o idiota sugeriu... e apenas por desespero pensei
que não havia mal, e vim até aqui. Este parece que é ainda mais idiota: está a dizer-me: ‘Posso
dar-ta’.”

O homem rico disse: “Podes dar-ma? Já consultei todo o tipo de sábios; todos eles me deram
conselhos — faz isto, faz aquilo, disciplina-te a ti próprio, dá esmolas, ajuda os pobres, abre
hospitais, mais isto e mais aquilo. Todos eles dizem coisas destas, e eu de facto fiz todas essas
coisas, mas de nada serviu. Para falar verdade, cada vez se levantam mais dificuldades. E tu
dizes-me que ma podes dar?”

O Mulla respondeu: “É muito simples. Desce desse cavalo.” E o homem rico desceu do cavalo.
Segurava no seu saco, e o Mulla perguntou: “Que trazes dentro desse saco que seguras tão perto
do coração?”
51

Ele respondeu: “São diamantes preciosos. Se tu me deres a paz, eu dar-te-ei este saco.” Mas,
sem sequer ter tido tempo de perceber o que estava a acontecer, o Mulla pegou no saco e fugiu!

O homem rico, durante um momento, ficou em estado de choque; nem sequer sabia o que fazer.
E depois teve de o seguir. Mas aquela era a terra do Mulla — ele conhecia todas as ruas e
atalhos, e ia a correr. O homem rico nunca tinha corrido tanto em toda a sua vida, e era muito
gordo... Chorava e bufava de irritação e as lágrimas corriam-lhe pela cara abaixo. Lamentava-
se: “Fui completamente enganado! Este homem levou-me o fruto do trabalho de toda a minha
vida, todas as minhas poupanças; levou-me tudo.”

E toda uma multidão o seguia, e todos se riam. Ele disse: “Vocês são todos idiotas? Esta terra
está cheia de idiotas? Fiquei completamente arruinado, e, vocês, em vez de agarrarem o ladrão,
estão todos a rir-se.”

Responderam-lhe: “Ele não é um ladrão, é um homem muito sensato.”

O homem rico disse: “Aquele idiota da minha aldeia meteu-me neste sarilho!” Mas, a correr e a
suar, lá ia seguindo o Mulla. E o Mulla voltou para debaixo da mesma árvore onde o cavalo
continuava à espera. Sentou-se debaixo da árvore com o saco e o homem rico chegou a chorar e
a soluçar. O Mulla disse-lhe: “Toma lá este saco.” O homem rico pegou no saco e colocou-o
perto do coração. O Mulla disse-lhe: “Como é que te sentes? Consegues sentir alguma paz de
espírito?”

O homem rico respondeu: “Sim, sinto-me em paz. És um homem estranho e tens métodos
estranhos.”

O Mulla disse-lhe: “Não são métodos estranhos — é simples matemática. Tudo aquilo que
possuis, começas a sentir que é um dado adquirido. Só precisas que te seja dada uma
oportunidade de o perderes; então tornas-te imediatamente consciente daquilo que perdeste.
Não adquiriste nada de novo; é o mesmo saco que tens transportado sem qualquer paz de
espírito. Agora estás a segurar no mesmo saco junto ao teu coração e qualquer pessoa pode ver
como estás sereno, um perfeito sábio!
52

Vai para casa e não aborreças as pessoas.”

Este é um problema para a criança, porque ela vem com inocência e está pronta a comprar tudo
e a dar a sua inocência. Está pronta a comprar qualquer porcaria e a dar a sua coragem. Está
pronta a comprar simples brinquedos — e que mais há neste mundo senão brinquedos? — e
perder a sua clareza. Só o compreenderá quando todos esses brinquedos estiveram na sua posse
e ela não retirar deles qualquer prazer, não obtiver qualquer realização ou satisfação. Então
toma consciência do que perdeu – e que foi ela própria que o perdeu.

Num mundo melhor, todas as famílias aprenderão com as crianças. Você tem muita pressa de as
ensinar. Ninguém parece aprender com elas, e elas têm muito para lhe ensinar. E você não tem
nada para lhes ensinar.

Só porque é mais velho e poderoso começa a fazê-las iguais a si, sem sequer pensar no que é,
onde chegou, qual é o seu status no mundo interior. Você é um pobre; e também quer o mesmo
para o seu filho?

Mas ninguém pensa; caso contrário, as pessoas aprenderiam com as criancinhas. As crianças
trazem muitas coisas do outro mundo porque são recém-chegadas. Transportam o silêncio do
útero, o silêncio da própria existência.

Lembre-se sempre: confie no desconhecido. O conhecido é a mente. O desconhecido não pode


ser a mente. Pode ser qualquer outra coisa, mas não pode ser a mente. Um coisa certa sobre a
mente é que a mente é o conhecido acumulado. Assim, por exemplo, se chegar a uma
encruzilhada na estrada e a mente lhe disser: “Vai por este caminho, isto é familiar” — essa é a
mente.

Num mundo melhor, todas as famílias aprenderão com as crianças.

Você tem muita pressa de as ensinar. Ninguém parece aprender com elas, e elas têm muito para
lhe ensinar.

E você não tem nada para lhes ensinar.


53

Se escutasse o seu ser, talvez ele gostasse de ir para o não familiar, para o desconhecido. O ser é
sempre um aventureiro. A mente é muito ortodoxa, muito conservadora. Quer mover-se dentro
do trilho, pelo carreiro pisado, vezes sem conta — o caminho da menor resistência.

Assim, escute sempre o desconhecido. E arranje coragem para mudar para o desconhecido.

Para crescer até ao seu destino, é preciso ter muita coragem, é preciso temeridade. As pessoas
que estão cheias de medo não podem mover-se para lá do conhecido. O conhecido transmite
--lhes uma espécie de conforto, de segurança, de protecção porque é conhecido. A pessoa está
perfeitamente consciente, sabe como lidar com ele. A pessoa pode estar quase a dormir e
continuar a lidar com ele — não é necessário estar-se acordado; essa é a vantagem do
conhecido.

No momento em que passa a barreira do conhecido, nasce o medo, porque então é um


ignorante, porque então não sabe o que fazer e o que não fazer. E agora não estará tão seguro de
si mesmo, e agora pode fazer disparates; pode perder-se. E este medo que mantém as pessoas
amarradas ao conhecido e quando uma pessoa está amarrada ao conhecido, está morta.

A vida só pode ser vivida perigosamente — não há outra maneira de a viver. E só através do
perigo que a vida atinge a maturidade, o crescimento. É preciso ser-se aventureiro, estar sempre
pronto a arriscar o conhecido pelo desconhecido. E quando uma pessoa prova as alegrias da
liberdade e da temeridade, nunca se arrepende, porque sabe o que significa viver em condições
óptimas. Então a pessoa sabe o que significa não poupar energias. E mesmo um único momento
dessa intensidade é mais agradável do que toda a eternidade de uma vivência medíocre.
54

QUANDO O NOVO BATER À SUA PORTA, ABRA-LHA!

O novo não lhe é familiar Pode ser o amigo, pode ser o inimigo, quem sabe? E não há maneira
de o saber! A única maneira de o saber é deixar que ele aconteça; daí a apreensão, o medo.

O novo não surge de si, vem do Além. Não faz parte de si.

Todo o seu passado está em jogo. O novo é descontínuo de si, daí o medo. Viveu de
determinada maneira, pensou de determinada maneira, construiu uma vida confortável a partir
das suas convicções. Depois, algo de novo bate à sua porta. E todo o seu velho padrão vai ser
perturbado. Se permitir que o novo entre, nunca mais será o mesmo; o novo transformá-lo-á.

É arriscado. Nunca se sabe onde acabará com o novo. O velho é conhecido, é familiar; viveu
com ele durante muito tempo, conhece-o bem. O novo não lhe é familiar. Pode ser o amigo,
pode ser o inimigo, quem sabe? E não há maneira de o saber! A única maneira de o saber é
deixar que ele aconteça; daí a apreensão, o medo.

E também não pode continuar a rejeitá-lo, porque o velho não lhe deu ainda o que procura. O
velho foi prometedor, mas as promessas não foram cumpridas. O velho é familiar, mas
desgraçado. O novo talvez venha a ser desconfortável, mas há uma possibilidade — poderá
trazer-lhe a felicidade. Portanto, não o pode rejeitar e também não o pode aceitar; daí que
hesite, que trema, que nasça uma grande angústia no seu ser. E natural, não há nada de errado.
Foi sempre assim, será sempre assim.
55

Tente compreender o aparecimento do novo. Neste mundo, todos querem tornar-se novos,
porque ninguém está satisfeito com o velho. Nunca ninguém poderá sentir-se satisfeito com o
velho, porque, seja ele o que for, você já o conhece. Uma vez conhecido, torna-se repetitivo;
uma vez conhecido, tornou-se aborrecido, monótono. Quer descartar-se dele. Quer descobrir,
quer correr a aventura. Quer tornar-se novo, e, no entanto, quando o novo bate à sua porta você
recua, esquiva-se, esconde-se no velho. É este o dilema.

Como é que nos tornamos novos? — e toda a gente quer tornar-se nova. É preciso ter coragem,
mas não uma coragem qualquer; é preciso ter uma coragem extraordinária. E o mundo está
cheio de cobardes, daí que as pessoas tenham deixado de crescer. Como pode você crescer se
for um cobarde? A cada nova oportunidade você recua, fecha os olhos. Como pode você
crescer? Como pode você ser? Você apenas finge ser.

E como não pode crescer, tem de encontrar crescimentos alternativos. Você não pode crescer,
mas a sua conta bancária pode crescer — essa é uma alternativa. Não precisa de ter coragem,
está perfeitamente ajustada à sua cobardia. A sua conta bancária continua a crescer e você
começa a pensar que também está a crescer. Torna-se mais respeitado. O seu nome e a sua fama
continuam a crescer e você pensa que está a crescer? Está simplesmente a enganar-se a si
próprio. O seu nome não é você, nem a sua fama é você. A sua conta bancária não é o seu ser.
Mas quando pensa no ser, começa a tremer, porque se quiser crescer terá de deixar cair toda a
cobardia.

Como é que nos tornamos novos? Não nos tornamos novos de nós próprios. O estado de ser
novo vem do Além, digamos de Deus. O estado de ser novo vem da existência. A mente é
sempre velha. O pensamento nunca é novo; o pensamento é uma acumulação do passado. O
estado de ser novo vem do Além; é uma dádiva de Deus. Vem do Além e pertence ao Além.

O desconhecido e o incognoscível, o Além, têm ingresso em si. Têm ingresso em si, porque
você nunca está selado e isolado;
56

Você não é uma ilha. Poderá ter esquecido o Além, mas o Além não o esqueceu. O filho poderá
ter esquecido a mãe, a mãe nunca se esquecerá do filho. A parte poderá ter começado a pensar:
“Eu estou separado”, mas o todo sabe que você não está separado.

você não é uma ilha. Poderá ter esquecido o Além, mas o Além não o esqueceu. O filho poderá
ter esquecido a mãe, a mãe nunca se esquecerá do filho. A parte poderá ter começado a pensar:
“Eu estou separado”, mas o todo sabe que você não está separado. O todo tem ingresso em si.
Continua em contacto consigo. E por isso que o novo continua a chegar, embora você não lhe
dê as boas--vindas. Chega todas as manhãs, chega todas as noites. Chega de mil e uma
maneiras. Se tiver olhos para ver, vê-lo-á chegar constantemente até si.

A existência continua a derramar-se sobre si, mas você está fechado no seu passado. E como
que uma espécie de túmulo. Tornou-se insensível. Por causa da sua cobardia, perdeu a sua
sensibilidade. Ser sensível significa sentir o novo — e a emoção do novo, e a paixão pelo novo
e a aventura surgirão e você começará a mover-se no desconhecido, sem saber para onde vai.

A mente pensa que é uma loucura. A mente pensa que não é racional deixar o velho. Mas Deus
é sempre o novo. E por essa razão que não podemos usar os verbos no particípio passado e no
futuro para falar de Deus. Não podemos dizer “Deus foi”, não podemos dizer “Deus será”. Só
podemos usar o presente: “Deus é.” E sempre novo, virgem. E tem ingresso em si.

Lembre-se de que qualquer coisa nova que aconteça na sua vida é uma mensagem de Deus. Se a
aceitar, é religioso. Se a recusar, é irreligioso. O homem só precisa de relaxar um pouco mais
para aceitar o novo; abrir-se um pouco mais para deixar entrar o novo. Deixe entrar Deus em si.

E este todo o significado da prece ou da meditação — você abre-se, diz sim, diz: “Entrai.” Diz:
“Tenho estado à espera e à espera, e estou grato que tenhas vindo.” Receba sempre o novo com
grande alegria. Mesmo que, por vezes, o novo traga algumas contrariedades, vale sempre a
pena.
57

Mesmo que, por vezes, o novo o leve para algum fosso, vale sempre a pena, porque só se
aprende com os erros e só se cresce com as dificuldades. O novo trará dificuldades. E por isso
que escolhe o velho — que não lhe traz quaisquer dificuldades. E uma consolação, é um abrigo.

Mas só o novo, profunda e totalmente aceite, o pode transformar. Não pode trazer o novo para a
sua vida; o novo chega. Você pode aceitá-lo ou rejeitá-lo. Se o rejeitar, fica como uma pedra,
fechado e morto. Se o receber, torna-se uma flor, começa a abrir-se... e nessa abertura há
celebração.

Só a entrada do novo o pode transformar, não há outra via de transformação. E lembre-se de


que isso não tem nada a ver consigo nem com os seus esforços. Mas não fazer nada não é parar
de agir; é agir sem o desejo, a direcção ou o impulso do seu passado. A busca do novo não pode
ser uma busca comum, porque é a busca de algo novo — como pode você procurá-lo? Você não
o conhece, nunca o encontrou. A busca do novo vai ser apenas uma descoberta aberta. A pessoa
não sabe. A pessoa tem de começar por um estado de não conhecimento, e tem de se mover
inocentemente como uma criança, excitada com as possibilidades — e as possibilidades são
infinitas.

Não pode fazer nada para criar o novo, porque, faça o que fizer, será sempre relativo ao velho,
ao passado. Mas isso não significa que tenha de deixar de agir. E agir sem o querer — a
direcção ou o impulso do passado — e isso é agir meditativamente. Aja espontaneamente.
Deixe o momento ser decisivo.

Você não impõe a sua decisão, porque a decisão seria do passado e destruiria o novo. (Limite-se
a agir no momento, como uma criança. Abandone-se completamente ao momento — e
descobrirá, todos os dias, novas aberturas, nova luz, novas perspectivas. E essas novas
perspectivas continuarão a mudá-lo.) Um dia, verá, subitamente, que é novo em cada momento
que passa.

Não pode trazer o novo para a sua vida; o novo vem. Você só pode aceitá-lo ou rejeitá-lo.
58

Limite-se a agir no momento, como uma criança. Abandone-se completamente ao momento —


e descobrirá, todos os dias, novas aberturas, nova luz, novas perspectivas. E essas novas
perspectivas continuarão a mudá-lo.

O velho deixa de se arrastar, o velho deixa de rondar à sua volta como uma nuvem. Você é
como uma gota de orvalho, fresco e jovem.

É este o significado real da ressurreição. Se compreender isto, liberta-se da memória — quer


dizer, da memória psicológica. A memória é uma coisa morta. A memória não é a verdade, nem
nunca o poderá ser, porque a verdade é sempre viva, a verdade é a vida; a memória é a
persistência daquilo que já não é.

É viver num mundo-fantasma, mas que nos contém, que é a nossa prisão.

Na realidade, é nós. A memória cria o nós, o complexo chamado “eu”, o ego. E, naturalmente,
esta falsa entidade chamada “eu” tem permanentemente medo da morte. É por isso que você
tem medo do novo.

Este “eu” tem medo, não é realmente você. O ser não tem medo, mas o ego tem medo, porque o
ego tem muito, muito medo de morrer. É artificial, é arbitrário, é reconstituído. Pode desfazer-
se em qualquer momento. E quando o novo entra, há medo. O ego tem medo, pode desfazer-se.
De uma ou outra maneira, tem conseguido manter-se inteiro, manter-se numa só peça, e agora
vem algo de novo — que tem um carácter destruidor. É por isso que não pode aceitar o novo
com alegria. O ego não pode aceitar a sua própria morte com alegria — como poderia ele
aceitar a sua própria morte com alegria?

A menos que tenha compreendido que você não é o ego, não poderá receber o novo. Quando
tiver compreendido que o ego é a sua memória passada e nada mais, que você não é a sua
memória, que a memória é semelhante a um biocomputador, que é uma máquina, um
mecanismo, utilitário, mas que você está para além dela... que você é consciência, não é
memória. A memória é um conteúdo da consciência, você é a própria consciência.
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Por exemplo, vê alguém a caminhar na rua. Lembra-se do rosto, mas não se recorda do nome.
Se fosse a memória, também se recordaria do nome. Mas você diz: “Aquela cara não me é
estranha, mas não me recordo do nome.” Depois, começa a procurar na sua memória, entra na
sua memória, vê daqui, vê dali, e de repente o nome brota e diz: “Sim, o nome é este.” A
memória é o seu registo. Você é aquele que procura no registo, não é a memória em si.

E acontece muitas vezes que, se fizer um grande esforço para se lembrar de alguma coisa,
torna-se muito difícil lembrar-se dessa coisa, porque a própria tensão, o próprio esforço sobre o
seu ser não permite que a memória lhe entregue a sua informação. Tenta, vezes sem conta,
lembrar-se do nome de alguém e ele não vem, mesmo que diga que o tem mesmo na ponta da
língua. Sabe que o sabe, contudo o nome não vem.

Ora, isto é uma coisa estranha. Se você é a memória, então quem é que o está a impedir de dizer
o nome e como se explica que este não lhe ocorra? E quem é que diz: “Sei, contudo o nome não
vem?” E depois tenta muito, e quanto mais tenta mais difícil se torna. Depois, farto de tudo
aquilo, sai para passear no jardim e, de repente, ao olhar para uma roseira, ali está ele, o nome
veio à superfície.

A sua memória não é você. Você é consciência, a memória é conteúdo. Mas a memória é toda a
energia da vida do ego. E evidente que a memória é velha e tem medo do novo. O novo pode
ser perturbador, o novo pode ser indigesto. O novo pode trazer-lhe mais problemas. Terá de
mudar e voltar a mudar. E isso parece ser trabalhoso.

Para se ser novo, a pessoa tem de deixar de se identificar com o ego. Quando deixar de se
identificar com o ego, deixa de se importar que ele viva ou morra. De facto, sabe que, quer viva
quer morra, ele já está morto. Não passa de um mecanismo. Use-o, mas não seja usado por ele.

A sua memória não é você. Você é consciência, a memória é conteúdo. Mas a memória é toda a
energia da vida do ego.
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O ego tem permanentemente medo da morte porque é arbitrário, daí o medo. Ele não nasce do
ser; não pode nascer do ser porque o ser é vida — como pode a vida ter medo da morte? A vida
não sabe nada da morte. O ego surge do arbitrário, do artificial, do reconstituído, do falso, do
pseudo. E é apenas esse deixar andar, é apenas essa morte do ego, que faz um homem vivo.
Morrer no ego é nascer no ser.

O novo é um mensageiro de Deus, o novo é uma mensagem de Deus. É um evangelho! Escute o


novo, acompanhe o novo. Eu sei que tem medo. Apesar do medo, vá com o novo, e a sua vida
tornar-se-á cada vez mais rica e você poderá um dia libertar o seu esplendor aprisionado.

NÓS CONTINUAMOS A PASSAR AO LADO de muitas coisas na vida só porque nos falta a
coragem. De facto, não é necessário nenhum esforço para as conseguirmos — só coragem — e
as coisas começam a vir ter consigo em vez de ser você a ir ter com elas... pelo menos no
mundo interior é assim.

E na minha opinião, ser-se ditoso é um acto de grande coragem. Ser-se desgraçado é um acto de
cobardia. De facto, para se ser desgraçado não é preciso nada. Qualquer cobarde pode sê-lo.
Toda a gente é capaz de ser desgraçada, mas, para se ser ditoso, é preciso uma grande coragem
— é uma tarefa hercúlea.

Geralmente não pensamos assim — pensamos: “O que é preciso para se ser feliz? Toda a gente
quer ser feliz.” E totalmente errado. E muito raro uma pessoa querer ser feliz — diga ela o que
disser. É muito raro que uma pessoa esteja pronta para ser feliz — as pessoas fazem grandes
investimentos na sua desgraça.

É muito raro uma pessoa querer ser feliz — diga ela o que disser.

É muito raro que uma pessoa esteja pronta para ser feliz — as pessoas fazem grandes
investimentos na sua desgraça.

Adoram ser infelizes... na realidade, sentem-se felizes por serem infelizes.


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Adoram ser infelizes... na realidade, sentem-se felizes por serem infelizes.

Há muitas coisas a compreender — de outro modo será muito difícil sair da rotina da desgraça.
A primeira coisa: que ninguém o prende aí; foi você que decidiu ficar nessa prisão da miséria.
Ninguém prende ninguém. Um homem que esteja pronto para sair da desgraça, poderá sair dela
no próprio instante. Ninguém mais é responsável. Quando alguém se sente desgraçado, esse
alguém é o responsável, mas um desgraçado nunca aceita a sua responsabilidade — é uma
maneira que ele tem para continuar a sentir-se desgraçado. Diz ele: ‘Alguém está a fazer de
mim um desgraçado.”

Se uma outra pessoa o estiver a fazer de desgraçado, naturalmente que pode você fazer? Mas se
você estiver a fazer de desgraçado, alguma coisa pode ser feita... alguma coisa pode ser feita
imediatamente. Então, está nas suas mãos ser ou não ser desgraçado. Ora, as pessoas continuam
a lançar a responsabilidade — por vezes na mulher, por vezes no marido, algumas vezes na
família, outras vezes nos condicionalismos, na infância, na mãe, no pai... às vezes na sociedade,
na história, no destino, em Deus, mas essas pessoas continuam a lançá-la. Os nomes são
diferentes, mas o truque é sempre o mesmo.

Um homem torna-se realmente um homem quando aceita a responsabilidade total — que ele é o
responsável por aquilo que ele é. Este é o principal acto de coragem, de grande coragem. É
muito difícil de aceitar, porque a mente continua a dizer: “Se és tu o responsável, porque o
criaste?” Para evitar isso, dizemos que uma qualquer outra pessoa é responsável: “Que posso eu
fazer? Não sei o que fazer... Sou uma vítima! Estou a ser atirado de um lado para o outro por
forças superiores a mim e não posso fazer nada.

Um homem torna-se realmente um homem quando aceita a responsabilidade total — que ele é o
responsável por aquilo que ele é. Este é o principal acto de coragem, de grande coragem.
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Quando muito posso chorar por ser desgraçado e tornar-me ainda mais desgraçado por chorar.”
E tudo isto cresce — se o praticar, cresce efectivamente. E então desce cada vez mais fundo...
enterra-se cada vez mais fundo.

Ninguém, nenhuma outra força, está a fazer nada contra si. É você e só você. Reside nisto toda
a filosofia do karma — que é tudo obra sua; karma significa fazer. Foi você que a fez e só você
pode desfazê-la. E não há necessidade de esperar, de atrasar as coisas. Não é preciso tempo —
pode simplesmente saltar dela para fora!

Mas nós adquirimos este hábito. Sentimo-nos muito tristes se deixarmos de nos sentir
desgraçados, perderemos a nossa companheira mais íntima.

Ela tornou-se a nossa sombra — segue-nos para todo o lado. Quando não há ninguém por perto,
pelo menos a sua desgraça está consigo — a pessoa casa-se com ela. E é um casamento muito,
muito duradoiro; esteve casado com a desgraça durante muitas vidas.

Chegou a altura de se divorciar dela. A isso chamo eu uma grande coragem — divorciar-se da
desgraça, perder o hábito mais antigo da mente humana, a sua companheira de longa data.
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A CORAGEM DO AMOR

O medo nada mais é do que ausência de amor. Faça as coisas com amor, esqueça o medo. Se
amar, o medo desaparecerá.

Se amar profundamente, o medo não aparece. O medo é uma negatividade, uma ausência. Tem
de compreender isto muito, muito profundamente. Se falhar, nunca será capaz de compreender
a natureza do medo. É como a escuridão. A escuridão não existe, apenas parece ser. Na
realidade, é simplesmente uma ausência de luz. A luz existe; remova a luz — fica a escuridão.

A escuridão não existe, você não pode remover a escuridão. Pode fazer tudo o que quiser, mas
não consegue remover a escuridão. Não a pode trazer, não a pode deitar fora. Se quiser fazer
alguma coisa com a escuridão, terá de fazer alguma coisa com a luz, porque só alguma coisa
que tenha existência pode ser relacionada. Apague a luz, fica a escuridão; acenda a luz,
desaparece a escuridão — mas você fez alguma coisa com a luz. Porém, não pode fazer nada
com a escuridão.

O medo é escuridão. É ausência de amor. Não pode fazer nada contra isso, e, quanto mais fizer,
mais medroso se torna, porque então mais o achará impossível. O problema tornar-se-á cada
vez mais complicado. Se lutar contra a escuridão, será derrotado. Pode pegar numa espada e
tentar matar a escuridão: só conseguirá ficar exausto. E a mente acabará por pensar: “A
escuridão tem muita força, é por isso que fui derrotado.”
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É aí que a lógica erra. É absolutamente lógico — se esteve a lutar contra a escuridão e não
conseguiu derrotá-la, não conseguiu destruí-la, é absolutamente lógico chegar à conclusão de
que “a escuridão tem muita, muita força. Fico impotente perante ela”. Mas, na realidade, é
exactamente o oposto. Não é você o impotente; é a escuridão que é impotente. Na realidade, a
escuridão não existia — foi por isso que não a pôde derrotar. Como pode você derrotar algo que
não existe?

Não lute contra o medo; caso contrário, terá cada vez mais medo e um novo medo entrará no
seu ser: é o medo do medo, que é muito perigoso. Em primeiro lugar, o medo é uma ausência, e,
em segundo lugar, o medo do medo é o medo da ausência da ausência. Acabará por
enlouquecer!

O medo nada mais é do que ausência de amor. Faça as coisas com amor, esqueça o medo. Se
amar, o medo desaparecerá. Se amar profundamente, o medo não aparecerá.

Sentiu alguma vez medo, nem que fosse por um instante, sempre que esteve apaixonado por
alguém? Nunca, em momento algum, quando num relacionamento em que duas pessoas se
amam profundamente e se encontram em sintonia — nunca, nesse instante, se encontrou o
medo. Exactamente como se a luz estivesse acesa e não aparecesse a escuridão — eis a chave
do segredo: ame mais.

Se o seu corpo tremer de medo, é pelo medo do sexo;

não entrou num relacionamento sexual profundo. O seu corpo treme, o seu corpo não se sente
bem, não se sente na sua pele.

Se sentir medo no seu ser, ame mais. Seja corajoso no amor, ganhe coragem. Seja aventureiro
no amor; ame mais e ame incondicionalmente, porque quanto mais amar, menos medo sentirá.

E quando digo amor, refiro-me a todas as quatro camadas de amor, desde o sexo ao samadhi.

Ame profundamente.

Se amar profundamente num relacionamento sexual, desaparecerá muito medo do corpo. Se o


seu corpo tremer de medo, é pelo medo do sexo; não entrou num relacionamento sexual
profundo.
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O seu corpo treme, o seu corpo não se sente bem, não se sente na sua pele.

Ame profundamente — um orgasmo sexual dissipará o medo do corpo. Quando digo que ele
dissipará o medo, não estou a dizer que o tornará corajoso, porque as pessoas corajosas não são
mais do que cobardes voltados de pernas para o ar. Quando digo que o medo desaparecerá,
quero dizer que não haverá nem cobardia nem valentia, que são dois aspectos do medo.

Observe os corajosos: verá que, bem no fundo, eles têm medo, que apenas criaram uma
protecção à sua volta. A valentia não é destemor; é um medo bem protegido, bem defendido,
com uma armadura.

Quando o medo desaparece, você torna-se destemido. E uma pessoa destemida é alguém que
nunca mete medo a ninguém e que nunca deixa que ninguém lhe meta medo.

Um orgasmo sexual profundo dá ao corpo uma sensação de bem-estar. Surge no corpo uma
saúde muito, muito profunda, porque o corpo se sente são.

Depois, o segundo passo é amar. Amar as pessoas — incondicionalmente. Se tiver em mente


algumas condições, nunca será capaz de amar; essas condições transformar-se-ão em barreiras.
E porque o amor é benéfico para si, porquê preocupar-se com as condições? É tão benéfico, é
um bem-estar tão profundo — ame incondicionalmente, não peça nada em troca. Se conseguir
chegar a compreender que basta amar as pessoas para deixar de ter medo, amará pela simples
alegria de amar!

Geralmente, as pessoas amam apenas quando as suas condições são satisfeitas. Dizem elas:
“Devias ser assim, só então te amarei.” Uma mãe diz ao filho: “Só te amo, se te portares bem.”
Uma mulher diz ao marido: “Tens de ser deste modo, só então poderei amar-te.” Toda a gente
cria condições e o amor desaparece.

O amor é um céu infinito! Não o pode forçar a entrar em espaço estreitos, condicionados,
limitados. Se levar ar fresco para sua casa e o fechar lá dentro — fechando todas as janelas e
todas as portas —, ele depressa se tornará bafiento. Sempre que o amor acontece, ele faz parte
da liberdade; depois, levará esse ar fresco para dentro da sua casa e tudo se tornará bafiento e
sujo.
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Constitui um problema profundo para toda a humanidade — tem sido sempre um problema.
Quando você se apaixona, tudo lhe parece belo, porque nessas ocasiões não impõe condições.
Duas pessoas movem-se próximo uma da outra incondicionalmente. Quando se casam, quando
começam a considerar-se um dado adquirido, então começam a impor condições: “Tu devias ser
assim, devias comportar-te de tal maneira, só então te amarei” — como se o amor fosse um
negócio.

Se não amar a partir de sentimentos verdadeiros, está a negociar. Quer forçar a outra pessoa a
fazer algo para si, só então a amará; caso contrário, atraiçoa o seu amor. Nesse caso, está a usar
o seu amor para punir, ou para obrigar, mas não está a amar. Ou está a tentar reter o seu amor ou
está a dar o seu amor, mas, em ambos os casos, a finalidade não é o amor, é uma outra coisa.

Se for casado, leva presentes à sua mulher — ela fica feliz, ela agarra-o, beija-o; mas se não
levar nada para casa, há um distanciamento; ela não se agarra a si, não vem para junto de si.
Quando faz coisas destas está a esquecer-se de que, quando ama, também é benéfico para si,
não apenas para os outros. Em primeiro lugar, o amor ajuda aqueles que amam. Em segundo
lugar, o amor ajuda aqueles que são amados.

As pessoas procuram-me e dizem-me sempre: “O outro não me ama.”, mas ninguém me vem
dizer: “Eu não amo o outro.” O amor tornou-se uma exigência: “O outro não me ama.” Esqueça
o outro! O amor é um fenómeno tão belo que se você amar, terá prazer.

E quanto mais amar, mais se tornará digno de ser amado. Quanto menos amar e mais exigir que
os outros o amem, será cada vez menos digno de ser amado, ficará cada vez mais fechado,
confinado ao seu ego. E torna-se desconfiado — mesmo que alguém se aproxime de si para o
amar, você fica com medo, porque numa relação amorosa há sempre uma possibilidade de
rejeição, de retracção.

Ninguém o ama — isto tornou-se um pensamento arraigado dentro de si. Como é que este
homem está a tentar fazê-lo mudar de opinião? Ele está a tentar amá-lo? Poderá ser qualquer
coisa de falso, estará a tentar enganá-lo?
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Deve ser um homem astuto, um trapaceiro. E você protege-se. Não permite que ninguém o ame
e não ama os outros. Então surge o medo. Então encontra-se sozinho no mundo, muito sozinho,
muito triste e desligado.

Que é o medo, então? O medo é uma sensação de não contacto com a existência. Aceite que
esta seja uma definição de medo: um estado de não contacto com a existência é o medo.
Deixaram-no sozinho em casa, uma criança que chora, a mãe e o pai e toda a família foram ao
teatro. A criança chora e soluça no seu berço. Deixada sozinha, sem contactos, sem ninguém
para a proteger, sem ninguém para a consolar, sem ninguém para a amar; uma solidão, uma
solidão imensa em toda a sua volta. Este é o estado de medo.

Isto surge porque foi criado de tal maneira que não permite que o amor aconteça. A humanidade
inteira foi treinada para muitas outras coisas, mas não para o amor. Nós somos treinados para
matar. E existem exércitos com anos de treino para matarem! Nós somos treinados para
calcular; existem faculdades, universidades, anos de formação que servem unicamente para que
não se deixe enganar, mas você pode enganar os outros. Mas em lado nenhum existe uma
oportunidade que lhe permita amar — e amar em liberdade.

Na realidade, a sociedade impede qualquer esforço para amar. Os pais não gostam que os filhos
se apaixonem. Nenhum pai gosta disso, nenhuma mãe gosta disso; sejam quais forem as suas
pretensões, nenhum pai e nenhuma mãe gosta que os filhos se apaixonem. Gostam é de arranjar
casamentos.

Porquê? Porque quando um jovem se apaixona por uma mulher ou por uma rapariga, ele afasta-
se da família; ele cria uma nova família, a sua própria família.

O medo é uma sensação de não contacto com a existência. Aceite que seja esta uma definição
de medo: um estado de não contacto com a existência é o medo.
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É evidente que se põe contra a sua antiga família, mostra-se rebelde e diz: “Agora vou partir,
vou criar o meu próprio lar.” E escolhe a sua própria mulher; o pai não tem nada que se meter
nisso, a mãe não tem nada que se meter nisso; dá a impressão de terem sido completamente
postos de lado.

Não, o que eles gostariam era de lhe arranjar o casamento: “Tu crias um lar, mas deixas-nos ser
nós a arranjá-lo para podermos ter uma palavra a dizer. E não te apaixones — porque se te
apaixonares, o amor torna-se unicamente o teu mundo.” Se for um casamento arranjado, trata-se
apenas de uma questão social; você não está apaixonado, a sua mulher não é o seu mundo
inteiro, o seu marido não é o seu mundo inteiro. Se os casamentos arranjados continuarem a
existir, a família também continua. E onde quer que aconteça um casamento de amor, a família
começa a desaparecer.

No Ocidente, a família está a desaparecer. Agora pode aperceber-se de toda a lógica da


existência de casamentos arranjados: a família quer existir. Se ficar destruído, se for destruída a
simples possibilidade de amar, a questão não é essa; o amor tem de ser sacrificado em prol da
família. Se um casamento for arranjado, então existe uma família conjunta. Então numa família
podem viver cem pessoas — se o casamento for arranjado. Mas se algum rapaz se apaixonar, ou
se alguma rapariga se apaixonar, então eles tornam-se um mundo em si próprios. Querem estar
sozinhos, querem ter a sua privacidade. Não querem uma centena de pessoas à sua volta, os tios
e os tios dos tios e os primos dos primos... não querem essa algazarra à sua volta; gostariam de
ter o seu próprio mundo privado. E isso parece muito perturbador.

A família é contra o amor. Deve ter ouvido dizer que a família é a fonte do amor, mas eu digo-
lhe: a família é contra o amor. A família existe porque mata o amor, porque não permite que o
amor aconteça.

A sociedade não permite o amor porque, na realidade, se alguém estiver profundamente


apaixonado, ele não poderá ser manipulado. Não o pode mandar para a guerra; ele dirá: “Sinto-
me muito feliz onde estou! Para onde me vais mandar? E porque iria eu matar estranhos que
talvez sejam felizes nos seus lares? E não há conflitos, não há choque de interesses entre nós...”
69

Se a jovem geração entrar cada vez mais fundo no amor, as guerras desaparecerão, porque não
será capaz de encontrar loucos em número suficiente para irem para a guerra. Ao amar, saboreia
alguma coisa da vida; não vai gostar da morte nem de matar pessoas. Se não amar, não
saboreou coisa alguma da vida; gosta da morte.

O medo mata, quer matar. O medo é destrutivo; o amor é uma energia criativa. Quando ama
apetece-lhe criar — talvez queira cantar uma canção, ou pintar, ou escrever poesia, mas não vai
querer pegar numa baioneta ou numa bomba atómica para ir a correr como um louco matar
pessoas que lhe são absolutamente desconhecidas, que não fizeram nada, que são tão
desconhecidas para si como você é para elas.

O mundo só abandonará as guerras quando o amor entrar novamente no mundo. Os políticos


não querem que ame, a sociedade não quer que ame, a família não deixa que ame. Todos eles
querem controlar a energia do seu amor porque ela é a única energia que existe. E por isso que
existe o medo.

Se me compreender, abandone todos os medos e ame mais — e ame incondicionalmente. Não


pense que está a fazer alguma coisa pelo outro quando ama; está a fazer alguma coisa por si
próprio. Quando ama, isso é benéfico para si. Portanto, não fique à espera; não diga que amará
quando os outros amarem — a questão j não é, de maneira nenhuma, essa.

Seja egoísta. Ame as pessoas — sentir-se-á realizado através desse amor, obterá cada vez mais
bênçãos através desse amor.

E quando o amor for mais profundo, o medo desaparecerá; o amor é a luz, o medo é a
escuridão.

Seja egoísta. Ame as pessoas — sentir-se-á realizado através desse amar, obterá cada vez mais
bênçãos através desse amar.

E quando o amor for mais profundo, o medo desaparecerá; o amor é a luz, o medo é a
escuridão.
70

E depois há uma terceira fase do amor — a oração. Igrejas, religiões, seitas organizadas —
todas o ensinam a orar. Mas, na realidade, elas impedem-no de orar, porque a oração é um
fenómeno espontâneo, não pode ser ensinada. Se foi ensinado a orar na sua infância, foi
impedido de alcançar a maravilhosa experiência que poderia ter acontecido. A prece é um
fenómeno espontâneo.

Devo contar-lhe uma história de que muito gosto. Leon Tolstoi escreveu um pequeno conto. Em
certa parte da velha Rússia havia um lago que se tornou famoso por causa de três santos. Todo o
país se mostrou interessado. Milhares de pessoas visitavam o lago para ver esses três santos.

O sumo-sacerdote do país ficou com medo: Que estaria a acontecer? Ele nunca tinha ouvido
falar daqueles “santos”, eles não tinham sido reconhecidos pela Igreja; quem fizera deles
santos? Esta Cristandade tem feito uma das coisas mais idiotas — dá certificados: “Este homem
é um santo.” Como se se pudesse fazer de um homem um santo através de um certificado!

Mas as pessoas mostravam-se entusiasmadas, e chegavam muitas notícias de milagres que


aconteciam, pelo que o padre teve de ir ver qual era a situação. Foi de barco até à ilha onde
aquelas três pobres criaturas viviam; eram pessoas simples e pobres, mas muito felizes —
porque só há uma forma de pobreza e essa pobreza é um coração que não sabe amar. Eram
pobres, mas eram ricos, os mais ricos que poderia encontrar.

Eles estavam felizes, sentados debaixo de uma árvore, e riam-se, fruíam, deleitavam-se. Ao
verem o padre, saudaram-no, inclinando-se, e o padre disse-lhes: “Que fazem vocês aqui?
Consta-me que vocês são grandes santos. Sabem orar?” — porque, ao ver aquelas três criaturas,
o padre pressentiu imediatamente que elas não tinham instrução, que eram um pouco estúpidas
— felizes, mas loucas.

Então, eles olharam uns para os outros e disseram: “Desculpai, senhor, não conhecemos a
oração correcta autorizada pela Igreja, porque somos ignorantes. Mas criámos uma prece nossa
— é feita em casa. Se não vos sentirdes ofendido, podemos mostrar-vos.”
71

Então o padre disse: “Sim, mostrem-me que prece estão a fazer.” Então eles disseram:
“Tentámos e pensámos e voltámos a pensar — mas nós não somos grandes pensadores, somos
pessoas estúpidas, aldeões ignorantes. Por isso, resolvemos escolher uma oração simples. Entre
os cristãos, Deus é imaginado como uma Trindade, três: Deus Pai, Deus Filho e o Espírito
Santo. E nós também somos três. Então decidimos fazer uma prece: ‘Vós sois três, nós somos
três, tende piedade de nós.’ Esta é a nossa prece: ‘Nós somos três, vós também sois três, tende
piedade de nós.’”

O padre ficou muito, muito zangado, quase enraivecido. Disse: “Que disparate! Nunca se ouviu
uma semelhante oração. Parem com isso! Deste modo, vocês não podem ser santos. São
simplesmente estúpidos.” Eles caíram-lhe aos pés: “Ensinai-nos a prece verdadeira, a prece
autêntica.”

Então, o padre ensinou-lhes a versão autorizada da prece da Igreja ortodoxa russa. Era
comprida, complicada, usava grandes palavras, era bombástica. As três criaturas olharam umas
para as outras — parecia-lhes impossível, a porta do céu fechava-se para elas. Disseram: “Por
favor, dizei-a uma vez mais, porque ela é comprida e nós não temos instrução.” O padre
repetiu-a. Eles disseram: “Uma vez mais, senhor, porque nós vamos esquecê-la, e alguma coisa
ficará errada.” “Então, o padre voltou a repeti-la. Eles agradeceram-lhe muito, e ele sentiu-se
bem porque fizera uma boa acção e trouxera os três loucos de volta à igreja.

Embarcou. Ia ele exactamente a meio do lago e não pôde acreditar no que via — aquelas três
criaturas, aqueles três loucos, corriam pela água dentro! Diziam: “Esperai... uma vez mais... nós
já a esquecemos!”

Agora aquilo era impossível de acreditar! O padre caiu-lhes aos pés e disse-lhes: “Perdoem-me.
Continuem a dizer a vossa prece.”

A terceira energia do amor é a prece. As religiões, as Igrejas organizadas destruíram-na. Deram-


lhe preces feitas por medida. A prece é um sentimento espontâneo. Lembre-se desta história
quando orar.
72

Deixe que a sua oração seja um fenómeno espontâneo. Se nem a sua prece puder ser
espontânea, então o que o será? Se mesmo com Deus tiver de ser artificial, então quando é que
poderá ser autêntico, verdadeiro e natural?

Diga as coisas que gostaria de dizer. Fale com Deus como falaria com um amigo sensato. Mas
não venha com formalidades. Um relacionamento formal não é relacionamento nenhum. E você
também se tornou formal com Deus? Passa ao lado de toda a espontaneidade.

Inclua o amor na sua prece. E então pode falar! E uma coisa maravilhosa, um diálogo com o
Universo.

E já observou? Se for realmente espontâneo, as pessoas pensarão que é doido. Se se dirigir a


uma árvore e começar a falar com ela, ou se falar com uma flor, uma rosa por exemplo, as
pessoas pensarão que é doido. Se for à igreja e falar com a cruz ou com uma imagem, ninguém
pensará que é doido, pensarão que é religioso. Está a falar com uma pedra no templo e toda a
gente pensa que é religioso porque é essa a forma autorizada.

Se falar com uma rosa, que está muito mais viva do que qualquer imagem de pedra, que é mais
divina do que qualquer imagem de pedra... Se falar com uma árvore, que está muito mais
profundamente enraizada em Deus do que qualquer cruz porque nenhuma cruz possui raízes, é
uma coisa morta — é por isso que ela mata... Uma árvore está viva, com raízes fundas na terra,
ramos ao alto no céu, ligada com o todo, com os raios do Sol, com as estrelas — fale com as
árvores! Isso poderá ser um ponto de contacto com o divino. Mas se falar assim, as pessoas
pensarão que é doido. A espontaneidade é considerada uma loucura. As formalidades são
consideradas uma sanidade. A realidade é exactamente o contrário. Quando entra num templo e
repete apenas uma prece que decorou, está a ser puramente idiota. Tenha uma conversa franca!
E a prece será maravilhosa, começará a florir através dela.

Orar é estar apaixonado — apaixonado pelo mundo inteiro. E às vezes zanga-se com o todo e
não fala; isso é lindo! Você diz: “Não vou falar, já basta, tu não me tens ouvido!” É um gesto
lindo, não é morto.
73

E às vezes abandona completamente a prece, porque está sempre a orar e Deus não o ouve. E
uma relação com um profundo envolvimento nela, e você zanga-se. Por vezes, sente-se muito
bem, sente-se grato, agradecido; às vezes sente que foi posto de lado. Mas deixe que ela seja
uma relação viva. Então, a prece é verdadeira. Se apenas falar como um gramofone e repetir
todos os dias a mesma coisa, não é uma prece.

Ouvi falar de um advogado que era um homem muito calculista. Todos as noites ia para a cama,
olhava para o céu e dizia: “Idem. Exactamente como nos outros dias”, e adormecia. Só tinha
orado uma vez — foi a primeira vez na sua vida — e a partir daí dizia sempre “Idem”. Era
como se fosse uma coisa legal; de que serve repetir sempre a mesma oração? Quer diga “idem”
ou repita tudo, o resultado é o mesmo.

A prece deveria ser uma experiência vivida, um diálogo franco. E em breve, se ela for sentida,
notará que não só está a falar, mas que a resposta lhe é dada. Então a prece obteve os seus
pergaminhos, tornou-se adulta. Quando sentir a resposta, que não está apenas a falar — se for
um monólogo continua a não ser prece —, ela transforma-se num diálogo. Não fala apenas,
também ouve.

E digo-lhe que a existência inteira está pronta para lhe responder. Quando o seu coração se abre,
o todo responde-lhe.

Não há nada como a prece. Nenhuma forma de amor consegue ser tão bela como a prece. Tal
como nenhuma forma de relacionamento sexual pode ser tão belo como o amor, mas nenhum
relacionamento amoroso pode ser tão belo como a prece.

E depois há uma quarta fase, a que eu chamo meditação. Aqui o diálogo também cessa. Então
tem um diálogo em silêncio. As palavras deixam de existir porque, quando o coração está
verdadeiramente cheio, você não consegue falar. Quando o coração está a transbordar, muito só,
o silêncio pode ser o intermediário. Então não existe nenhum “outro”. Você é uno com o
universo. Nem diz nada nem ouve nada. Você está com o uno, com o Universo, com o todo.
Uma unicidade — a meditação é isso.
74

Estas são as quatro fases do amor, e em cada fase haverá um desaparecimento do medo. Se a
relação sexual acontecer de maneira maravilhosa, o medo corporal desaparecerá. O corpo não
ficará neurótico. Geralmente — e eu observei milhares de corpos — são corpos neuróticos, são
corpos enlouquecidos. Não estão satisfeitos, não se sentem na sua pele.

Se o amor acontecer, o medo desaparecerá da mente. Terá uma vida de liberdade, de bem-estar,
sentindo-se em casa. Não sentirá medo nem terá pesadelos.

Se a prece acontecer, então o medo desaparecerá completamente, porque com a prece você
torna-se uno — começa a sentir-se num profundo relacionamento com o todo. O medo
desaparece do espírito; o medo da morte desaparece quando você ora, nunca antes disso.

E quando medita, até a temeridade desaparece. O medo desaparece, a temeridade desaparece.


Nada resta. Ou antes, apenas resta o nada. Uma pureza, uma virgindade, uma inocência
imensas.

Não um Relacionamento, mas um Estado de Ser

O amor não é um relacionamento. O amor é um estado de ser; não tem nada a ver com mais
ninguém. A pessoa não está apaixonada, a pessoa é o amor. E é evidente que quando se é o

amor, está-se apaixonado — mas isso é um resultado, um derivado, isso não é a fonte. A fonte é
que é o amor.

E quem pode ser o amor? Certamente que se você não tiver a consciência de quem é, não pode
ser o amor. Será o medo. O medo é apenas o oposto do amor. Lembre-se de que o ódio não é o
oposto do amor, como pensam as pessoas. O ódio é o amor de pernas para o ar, não é o oposto
do amor. O verdadeiro oposto do amor é o medo.

O verdadeiro oposto do amor é o medo. No amor a pessoa expande-se, no medo a pessoa retrai-
se. No medo a pessoa fecha-se, no amor a pessoa abre-se. No medo a pessoa duvida, no amor a
pessoa confia.
75

No amor a pessoa expande-se, no medo a pessoa retrai-se. No medo a pessoa fecha-se. no amor
a pessoa abre-se. No medo a pessoa duvida, no amor a pessoa confia. No medo a pessoa sente-
se só. No amor, a pessoa desaparece; daí que a questão da solidão não se ponha. Se a pessoa
não é, como poderá sentir-se só? Então essas árvores, e as aves, e as nuvens, e o Sol e as
estrelas estarão todos dentro de si. O amor surge quando conhecer o seu céu interior.

A criança pequena está livre do medo; as crianças nascem sem qualquer medo. Se a sociedade
puder ajudá-las e apoiá-las a permanecer sem medo, se puder ajudá-las a trepar às árvores e às
montanhas e a nadar nos mares e nos rios — se a sociedade as puder ajudar de todas as
maneiras possíveis a tornarem-se aventureiros, aventureiros do desconhecido, e se a sociedade
puder criar uma grande interrogação em vez de lhes dar crenças mortas — então as crianças
transformar-se-ão em grandes amantes, amantes da vida. E essa é a verdadeira religião. Não há
religião mais elevada do que o amor.

Medite, dance, cante, e entre cada vez mais fundo dentro de si. Escute as aves com mais
atenção. Olhe para as flores com admiração, maravilhado. Não se torne bem informado, não
comece a rotular as coisas. E a isso que se chama estar bem informado — a grande arte de
rotular tudo, de classificar tudo. Conheça pessoas, misture-se com elas, com o maior número
possível de pessoas, porque cada pessoa exprime uma faceta diferente de Deus. Aprenda com
elas. Não tenha medo, esta existência não é sua inimiga. Esta existência acarinha-o, esta
existência está pronta a apoiá-lo de todas as maneiras possíveis. Confie, e começará a sentir
uma nova onda de energia dentro de si. Essa energia é o amor. Essa energia quer abençoar a
existência inteira, porque nessa energia a pessoa sente-se abençoada. E quando se sente
abençoado, que mais poderá fazer além de abençoar a existência inteira?

O amor é um desejo profundo de abençoar a existência inteira.


76

Este Bolo é Delicioso!

O amor é muito raro. Encontrar-se uma pessoa no seu centro é passar por uma revolução,
porque se quiser encontrar uma pessoa no seu centro tem de deixar que essa pessoa chegue
também ao seu centro. Tem de se tornar vulnerável, absolutamente vulnerável, aberto.

É arriscado. Permitir que alguém chegue ao seu centro é arriscado, perigoso, porque nunca sabe
o que essa pessoa lhe fará. E quando todos os seus segredos forem conhecidos, quando o seu
esconderijo for descoberto, quando estiver completamente exposto, nunca saberá o que essa
outra pessoa lhe fará. O medo surge então. É por isso que nunca nos abrimos.

Com um simples conhecimento, pensamos que aconteceu o amor. As periferias encontram-se, e


nós pensamos que nos encontrámos. Você não é a sua periferia. Na realidade, a periferia é a
fronteira onde você acaba, é apenas uma sebe à sua volta. Não é você! A periferia é o lugar
onde você acaba e o mundo começa.

Mesmo os casais que vivem juntos há muitos anos podem não passar de meros conhecidos.
Podem não se conhecer um ao outro. E quanto mais tempo viver com alguém, mais se
esquecerá de que os vossos centros continuaram a ser-vos completamente desconhecidos.

Portanto, a primeira coisa a compreender é que não deve tomar uma relação de amizade por
amor. Pode estar a fazer amor, pode estabelecer relações sexuais, mas o sexo também é
periférico. A não ser que os centros se encontrem, o sexo não passa de um mero encontro de
dois corpos. E um encontro de dois corpos não é o vosso encontro. O sexo também permanece
uma relação — fisicamente, corporalmente —, no entanto apenas uma mera relação. Pode
permitir que alguém entre no seu centro apenas quando não sentir medo, quando não se sentir
medroso.

Há duas maneiras de viver: uma orientada pelo medo, a outra orientada pelo amor. O viver
orientado pelo medo nunca lhe permite estabelecer relacionamentos profundos. Permanece com
medo e ao outro não lhe é permitido entrar em si até ao seu próprio âmago.
77

Até certo ponto, você permite isto ao outro, mas depois o muro levanta-se e tudo pára.

A pessoa orientada pelo amor é alguém que não tem medo do futuro, alguém que não tem medo
nem dos resultados nem das consequências, alguém que vive no aqui e agora. Não se preocupe
com os resultados; isso pertence à mente orientada pelo medo. Não pense nos resultados. Esteja
simplesmente aqui e aja totalmente. Não calcule. Um homem orientado pelo medo está sempre
a calcular, a planear, a arranjar, a salvaguardar. Toda a sua vida se perde desse modo.

Ouvi falar na história de um velho monge Zen.

Ele estava no seu leito de morte. Chegara o seu último dia e ele declarou que, nessa noite,
deixaria de existir. Por isso os seus seguidores, discípulos e amigos começaram a chegar. Havia
muita gente que gostava dele, e todos eles começaram a chegar; as pessoas chegavam de longe.

Um dos seus velhos discípulos, quando ouviu dizer que o Mestre estava a morrer, correu ao
mercado. Alguém lhe perguntou: “O Mestre está a morrer na sua cabana e tu vais ao mercado?”
O velho discípulo respondeu: “Eu sei que o meu Mestre gosta de um determinado tipo de bolo,
por isso vou comprar-lhe um.”

Foi difícil encontrar o bolo, mas ao cair da noite ele já o tinha na sua posse. Voltou a correr com
o bolo.

E estavam todos preocupados — era como se o Mestre estivesse à espera de alguém. Abria os
olhos, olhava, e voltava a fechá-los. Quando o discípulo chegou, disse-lhe: “Óptimo, sempre
chegaste. Onde está o bolo?” O discípulo mostrou-lhe o bolo — e ficou muito contente por o
Mestre ter perguntado por ele.

Moribundo, o Mestre tomou o bolo na mão... mas a sua mão não estava a tremer. Ele era muito
velho, mas a mão não lhe tremia. Alguém lhe perguntou: “És tão velho e estás prestes a morrer.
Em breve darás o último suspiro, mas a tua mão não treme.”

O Mestre disse: “Nunca tremo, porque não sinto medo. O meu corpo envelheceu, mas eu
continuo jovem, e continuarei jovem mesmo quando o corpo partir.”
78

Depois deu uma dentada no bolo e começou a mastigá-lo. E depois alguém lhe perguntou:
“Qual é a tua última mensagem, Mestre? Em breve nos deixarás. Que queres que nos
recordemos?” O Mestre sorriu e disse: “Ah, este bolo é delicioso.”

Este é o homem que vive no aqui e agora: Este bolo é delicioso. Mesmo a morte é irrelevante.
O momento que se segue não faz sentido. Este momento, este bolo é delicioso. Se puder estar
neste momento, neste momento presente, neste presente, nesta plenitude, só então poderá amar.

O amor é uma flor rara. Só acontece às vezes. Milhões e milhões de pessoas vivem na falsa
atitude de que são amantes. Acreditam que amam, mas isso não passa da sua crença.

O amor é uma flor rara. Acontece às vezes. E rara porque só pode acontecer quando não há
medo, nunca antes. Isto significa que o amor só pode acontecer a uma pessoa profundamente
espiritual e religiosa. O sexo é possível para todos. Relações de amizade são possíveis para
todos. O amor não.

Se não tiver medo, então não terá nada a esconder; então pode abrir-se, então pode afastar todos
os limites. E então pode convidar o outro a entrar no seu próprio âmago.

E lembre-se: ao permitir que alguém se aproxime de si, o outro permitir-lhe-á que penetre nele
ou nela, porque quando permite que alguém o penetre, cria-se a confiança. Se não tiver medo, o
outro perderá o seu medo também. No vosso relacionamento amoroso, o medo está sempre
presente. O marido tem medo da mulher, a mulher tem medo do marido. Os amantes têm
sempre medo. Ora isso não é amor. Isso é apenas a convivência de duas pessoas medrosas que
dependem uma da outra, lutando, explorando, manipulando, controlando, dominando,
possuindo — mas isso não é amor.

Se puder permitir que o amor aconteça, não há necessidade de prece, não há necessidade de
meditação, não há necessidade de qualquer igreja, de qualquer templo.

O amor é uma flor rara. Acontece às vezes. É rara porque só pode acontecer quando não há
medo, nunca antes.
79

Pode esquecer completamente Deus se puder amar — porque através do amor, tudo o terá
acontecido: meditação, prece, Deus, tudo o terá penetrado. É isso que Jesus quer dizer quando
diz que o amor é Deus.

Mas o amor é difícil. O medo tem de ser abandonado. E é isto que é estranho, que você tenha
tanto medo e não tenha nada a perder.

O místico Kabir disse algures: “Olho para dentro das pessoas... elas têm tanto medo, mas não
consigo compreender porquê — pois não têm nada a perder.” Diz Kabir: “São como alguém
que estivesse nu, mas nunca tomou banho no rio por causa do medo — onde poderia ele secar a
roupa?” Esta é a situação em que você se encontra — nu, sem roupa, mas sempre preocupado
com a roupa.

Este corpo será levado pela morte; antes de ele ser levado pela morte, dá-o ao amor. Tudo o que
possui ser-lhe-á retirado; antes que lhe seja retirado tudo, por que não partilhá-lo?

O que tem você a perder? Nada. Este corpo será levado pela morte; antes de ele ser levado pela
morte, dá-o ao amor. Tudo o que possui ser-lhe-á retirado; antes que lhe seja retirado tudo, por
que não partilhá-lo? Esta é a única maneira de o possuir. Se puder partilhar e dar, é o dono. Vai-
lhe ser retirado — não existe nada que possa reter para sempre. A morte destruirá tudo.

Portanto, se me está a seguir bem, a luta é entre a morte e o amor. Se puder dar, não haverá
morte. Antes que alguma coisa lhe possa ser retirada, já a terá dado, já fez presente dela. Não
pode haver morte.

Para um amante, não existe a morte. Para um não amante, cada momento é uma espécie de
morte, porque cada momento é algo que lhe está a ser arrancado. O corpo está a desaparecer e
ele está a perder cada momento. E depois haverá a morte, e tudo será aniquilado.

O que é o medo? Por que é que tem tanto medo? Mesmo que tudo se saiba sobre si e você seja
um livro aberto, porque é que tem medo? Como é que ele o pode prejudicar?
80

Apenas falsos conceitos, apenas condicionalismos impostos pela sociedade — de que você tem
de se esconder, de que tem de se proteger a si próprio, pelos quais tem de estar
permanentemente pronto a lutar, de que toda a gente é um inimigo, de que toda a gente está
contra si.

Ninguém está contra si! Mesmo que ache que alguém está contra si, essa pessoa também não
está contra si — porque as pessoas só se preocupam consigo próprias, não é consigo. Não há
nada a temer. Isto tem de ser compreendido antes que um relacionamento verdadeiro possa
acontecer. Não há nada a temer.

Medite nisso. E depois deixe que o outro entre em si, convide o outro a entrar em si. Não
levante qualquer barreira em lado nenhum; torne-se uma passagem sempre aberta, sem
fechaduras, sem portas, sem portas fechadas em si. Então o amor será possível.

Quando dois centros se encontram, se encontram, dá-se o amor. E o amor é um fenómeno


alquímico — exactamente como o hidrogénio e o oxigénio que se encontram e formam uma
coisa nova, a água. Você pode possuir hidrogénio, pode possuir oxigénio, mas se tiver sede, isso
não lhe serve de nada. Pode possuir todo o oxigénio que quiser, todo o hidrogénio que quiser,
mas a sede não desaparecerá.

Quando dois centros se encontram, cria-se uma coisa nova. Essa coisa nova é o amor. E é
exactamente como a água; a sede de muitas, muitas vidas, é saciada. Subitamente, sente-se
contente. Esse é o sinal visível do amor; sente-se contente, como se tivesse conseguido tudo.
Agora já não há nada a alcançar; atingiu o objectivo. Não há mais nenhum objectivo, o destino
cumpriu-se. A semente tornou-se flor, chegou à sua plena floração.

Mesmo que ache que alguém está contra si, essa pessoa também não está contra si — porque as
pessoas só se preocupam consigo próprias, não é consigo. Não há nada a temer. Isto tem de ser
compreendido antes que um relacionamento verdadeiro possa acontecer.
81

O contentamento profundo é o sinal visível do amor. Sempre que alguém se apaixona, fica num
profundo contentamento. Não se pode ver o amor, somente o contentamento, a satisfação
profunda que o rodeia... a sua respiração, cada um dos seus movimentos, o seu próprio ser,
estão contentes.

Poderá ficar surpreendido por eu lhe dizer que o amor lhe retira o desejo, mas o desejo vem
com o descontentamento. Deseja porque não tem. Deseja porque pensa que se possuir alguma
coisa isso lhe dará contentamento. O desejo vem do descontentamento.

Quando há amor e dois centros se encontraram, se dissolveram e se fundiram, e dão origem a


uma nova qualidade alquímica, o contentamento está presente. E como se toda a existência
tivesse parado — sem haver qualquer movimento. Então o momento presente é o único
momento. E então poderá dizer: “Ah, este bolo é delicioso.” Nem mesmo a morte significa nada
para um homem apaixonado.

Um Mundo sem Fronteiras

O amor é uma abertura para um mundo sem fronteiras, para um mundo que não acaba em lado
nenhum. O amor começa mas nunca acaba; tem um princípio mas não tem um fim.

Lembre-se de uma coisa: geralmente a mente interfere e não permite ao amor a sua infinidade
nem o seu espaço. Se amar realmente uma pessoa, dê-lhe o espaço infinito. Para ele, o seu ser,
em si, é simplesmente um espaço onde e com o qual pode crescer. A mente interfere e tenta
possuir a pessoa, e então o amor é destruído. A mente é muito cobiçosa — a mente é a cobiça.

Se amar realmente uma pessoa, dê-lhe o espaço infinito. Para ele, o seu ser, em si, é
simplesmente um espaço onde e com o qual pode crescer.

A mente interfere e tenta possuir a pessoa, e então o amor é destruído.


82

A mente é muito venenosa. Por isso, se alguém quiser entrar no mundo do amor, terá de deixar
cair a mente. A pessoa terá de viver sem a interferência da mente. A mente é boa no seu local
próprio. E necessária no mercado; não é necessária no amor. E necessária quando prepara um
orçamento, mas não é necessária quando entra num espaço interior. E necessária quando há
matemática; não é necessária quando há meditação. Portanto, a mente tem a sua utilidade, mas a
sua utilidade é para o mundo exterior. Para o mundo interior, ela é simplesmente irrelevante.
Portanto, torne-se cada vez mais afectuoso... incondicionalmente afectuoso. Torne-se amor.
Torne-se uma abertura — seja apenas afectuoso.

Aves e árvores, terra e estrelas, homens e mulheres — todos eles compreendem isso. Preto no
branco, existe unicamente uma linguagem que é a linguagem do universo — essa linguagem é o
amor. Portanto, torne-se essa linguagem. E quando se tiver tornado amor, um mundo totalmente
novo e sem fronteiras abrir-se-á para si.

Lembre-se sempre de que a mente ajuda as pessoas a ficarem fechadas. A mente tem muito
medo da abertura, porque a mente existe basicamente por causa do medo. Quanto mais
destemida for uma pessoa, menos usa a mente. Quanto mais medrosa for uma pessoa, mais usa
a mente.

Talvez já tenha observado que quando tem medo, quando se sente ansioso, quando há alguma
coisa que o perturba, a mente fica muito em foco. Quando está ansioso, a mente está muito
presente. Quando não está ansioso, a mente não está tão presente.

Quando tudo corre bem e não há medo, a mente fica para trás. Quando as coisas correm mal, a
mente simplesmente salta-lhe à frente e toma o comando. Em tempos de perigo, ela toma o
comando. A mente é semelhante aos políticos.

Quanto mais destemida for uma pessoa, menos usa a mente. Quanto mais medrosa for uma
pessoa, mais usa a mente.
83

Adolf Hitler escreveu na sua biografia, Mein Kampf, que deve manter sempre o país no terror,
se quiser permanecer no comando. Manter o país sempre no medo de que o vizinho vai atacar,
de que há países que se preparam para atacar — continuando a criar boatos. Nunca se deve
deixar que as pessoas se sintam bem, porque quando elas se sentem bem não se preocupam com
os políticos. Quando as pessoas se sentem realmente bem, os políticos não são importantes.
Mas mantendo as pessoas sempre com medo, então aí o político será poderoso.

Sempre que há guerra, o político torna-se um grande homem. Churchill ou Hitler, ou Estaline e
Mao — todos eles são produtos da guerra. Se não tivesse havido a Segunda Guerra Mundial,
não teria havido Winston Churchill, nem Hitler, nem Estaline. A guerra cria situações, dá
oportunidades para as pessoas dominarem e se tornarem chefes. É exactamente essa a política
da mente.

A meditação não é mais do que criar uma situação em que a mente tem cada vez menos coisas
para fazer. Fica tão destemido, tão afectuoso, tão sereno — contenta-se tanto com aquilo que
está a acontecer, que a mente não tem nada para dizer. Então, a pouco e pouco, a mente vai
ficando para trás, e vai-se criando uma distância cada vez maior.

Um dia, a mente esbate-se completamente — e você torna-se o universo. Deixa, então, de estar
confinado ao seu corpo, confinado a qualquer coisa — é espaço puro. Deus é isso mesmo. Deus
é espaço puro.

O amor é a via para esse espaço puro. O amor é o meio e Deus é o fim.

A meditação não é mais do que criar uma situação em que a mente tem cada vez menos coisas
para fazer.

As PESSOAS QUE TÊM MEDO SÃO AS PESSOAS CAPAZES DE UM enorme amor. O


medo é um aspecto negativo do amor.
84

Se não se permitir que o amor flua, ele transformar-se-á em medo. Se se permitir que o amor
flua, o medo desaparecerá. É por isso que é só nos momentos de amor que não há medo.
Quando ama uma pessoa o medo desaparecerá. Os amantes são as únicas pessoas que não
sentem medo; nem a morte lhes levanta problemas. Só os amantes conseguem morrer num
imenso silêncio e destemor.

Mas acontece sempre que quanto mais se ama, mais medo se sente. E por isso que as mulheres
sentem mais medo do que os homens, porque possuem um maior potencial para o amor. Neste
mundo, há muito poucas possibilidades de realizar o seu amor, pelo que ele fica a rondar à sua
volta. E se qualquer potencial ficar a rondar, transforma-se no seu oposto. Pode transformar-se
em ciúmes; isso também faz parte do medo. Pode tornar-se possessivo; isso também faz parte
do medo. Até se pode transformar em ódio; isso também faz parte do medo. Por isso, seja cada
vez mais afectuoso. Ame incondicionalmente, e ame de todas as maneiras possíveis. Pode-se
amar de milhões de maneiras.

Pode-se simplesmente amar um estranho que passa na estrada. Pode-se sentir amor por ele, e
continuar o caminho. Nem sequer é preciso falar-lhe. Não é preciso comunicar. Pode-se
simplesmente sentir e seguir o caminho. Pode-se amar um penedo. Pode-se amar as árvores,
pode-se amar o céu, as estrelas. Pode-se amar o amigo, o marido, os filhos, o pai, a mãe. Pode-
se amar de um milhão de maneiras.

Lembre-se de que valente não significa destemido. Se alguém for destemido, não lhe pode
chamar valente. Não pode dizer que uma máquina é valente porque ela não tem medo. A
valentia existe apenas no oceano do medo, a valentia é uma ilha no oceano do medo. O medo
está presente, mas, apesar do medo, corre-se o risco — isso é valentia.

Se não se permitir que o amor flua, ele transformar-se-á em medo. Se se permitir que o amor
flua, o medo desaparecerá.
85

Treme-se, tem-se medo de entrar no escuro e, no entanto, entra-se. Contra a própria vontade,
mas vai-se; é esse o significado de ser valente. Não significa ser-se destemido. Significa estar-
se cheio de medo mas, no entanto, não ser dominado por ele.

A grande questão levanta-se quando entra no amor. Então o medo domina-lhe a alma, porque
amar significa morrer, morrer no outro. É a morte, e uma morte bem mais profunda do que a
morte comum. Na morte comum, é só o corpo que morre; na morte de amor é o ego que morre.
E preciso que uma pessoa tenha uma grande coragem para amar. E preciso que ela seja capaz de
entrar no amor, apesar de todos os medos que não deixarão de clamar à sua volta.

Quanto maior for o risco, maior será a possibilidade de crescer — portanto, nada ajuda mais um
homem a crescer do que o amor. As pessoas que têm medo de ser amadas continuam a ser
infantis, continuam a ser imaturas, continuam a ser verdes. Só o fogo do amor o fará
amadurecer.

Nem Fácil nem Difícil, Apenas Natural

O amor é um estado natural de consciência. Não é fácil nem é difícil, estas palavras não são, de
modo algum, aplicáveis. Não é um esforço; daí que não seja nem fácil nem difícil. E como
respirar! E como a batida do seu coração, é como o sangue a circular no seu corpo.

O amor é o seu próprio ser... mas esse amor tornou-se praticamente impossível. A sociedade não
o permite. A sociedade condiciona-o de tal maneira que o amor se torna impossível e o ódio se
torna a única coisa possível. Assim, é fácil odiar, e o amor é não só difícil mas também
impossível. O homem foi distorcido. O homem só pode ser reduzido à escravidão se for
primeiramente distorcido. O político e o padre têm estado em profunda conspiração ao longo
das eras. Têm vindo a reduzir a humanidade a uma multidão de escravos.
86

Estão a destruir qualquer possibilidade de rebelião no homem — e o amor é uma rebelião,


porque o amor só ouve o coração e não se importa nada com tudo o resto.

O amor é perigoso porque faz de si um indivíduo. E o Estado e a Igreja... não querem


indivíduos. Não querem seres humanos, querem carneiros. Querem pessoas que se pareçam
com seres humanos, mas cujas almas foram tão completamente trituradas, tão profundamente
danificadas, que parecem praticamente irreparáveis.

E a melhor maneira de destruir o homem é destruir a sua espontaneidade de amar. Se o homem


tiver amor, não pode haver nações; as nações existem no ódio. Os Indianos odeiam os
Paquistaneses, e o Paquistaneses odeiam os Indianos — só assim os dois países podem existir.
Se surgir o amor, as fronteiras desaparecerão. Se o amor aparecer, então quem será cristão e
quem será judeu? Se o amor aparecer, as religiões desaparecerão.

Se o amor aparecer, quem frequentará o templo? Para quê? E por faltar o amor que você
procura Deus. Deus nada mais é do que um substituto para o amor que lhe falta. E porque você
não é ditoso, porque não tem paz, porque não fica em êxtase, procura Deus — caso contrário,
quem se preocuparia? Quem se importaria? Se a sua vida for uma dança, Deus já foi alcançado.
O coração afectuoso está imbuído de Deus. Não é preciso procurar, não é preciso orar, não é
preciso ir a nenhum templo, a nenhum padre.

Daí que tanto o padre como o político, ambos sejam os inimigos da humanidade. Entram em
conspiração, porque o político quer reinar no seu corpo e o padre quer reinar na sua alma. E o
segredo é o mesmo: destruir o amor.

Se a sua vida for uma dança, Deus já foi alcançado. O coração afectuoso está imbuído de Deus.

Não é preciso procurar, não é preciso orar, não é preciso ir a nenhum templo, a nenhum padre.
87

Então um homem nada mais é do que uma cavidade, um vazio, uma existência sem sentido.
Então poderá fazer o que quiser com a humanidade, que ninguém se rebelará, ninguém terá
coragem suficiente para se rebelar.

O amor dá coragem, o amor afasta todo o medo — e os opressores dependem do medo. Criam
medo em si, mil e uma espécies de medo. Fica rodeado de medos, toda a sua psicologia está
cheia da medos. No fundo, treme. Só no exterior mantém uma certa fachada; pelo contrário, no
interior tem camadas e camadas de medo.

Um homem cheio de medo só pode odiar — o ódio é um resultado natural do medo. Um


homem cheio de medo também está cheio de ira, e um homem cheio de medo está mais contra a
vida do que com a vida. A morte parece um estado de repouso para o homem cheio de medo.
Um homem com medo é um suicida, a sua vida é negativa. A vida parece-lhe perigosa, porque
viver significa que tem de amar — como pode você viver? Tal como o corpo necessita de
respirar para viver, assim a alma necessita de amor para viver. E o amor é absolutamente
envenenado!

Ao envenenarem a sua energia de amor, eles criaram uma brecha em si; puseram um inimigo
dentro de si, dividiram-no em dois. Criaram uma guerra civil, e você está sempre em conflito.
E, em conflito, a sua energia dissipa-se; daí que a sua vida não tenha nem sabor nem alegria.
Ela não transborda de energia; é apagada, insípida, não é inteligente.

O amor aguça a inteligência, o medo torna-a apagada. Quem é que quer que você seja
inteligente? Não aqueles que estão no poder. Como podem eles querer que seja inteligente?
Porque se você for inteligente começará a ver a sua estratégia, os seus jogos. Eles querem que
seja estúpido e medíocre. Indubitavelmente que eles pretendem que seja eficiente no que diz
respeito ao trabalho, mas não querem que seja inteligente; daí que a humanidade esteja a viver
ao mais baixo nível do seu potencial.

Investigadores científicos dizem que o homem comum só consegue utilizar cinco por cento do
seu potencial de inteligência durante toda a sua vida.
88

O homem comum, apenas cinco por cento — e o fora do comum? E um Albert Einstein, um
Mozart, um Beethoven? Os investigadores dizem que mesmo os muito talentosos não usam
mais de dez por cento. E que mesmo os denominados génios usam apenas quinze por cento.

Imagine um mundo em que toda a gente utiliza cem por cento do seu potencial... então os
deuses teriam inveja da Terra, então os deuses desejariam ter nascido na Terra. Então a Terra
seria um paraíso, um superparaíso. Neste momento, ela é um inferno.

Se deixarem o homem em paz, se não o envenenarem, então o amor será simples, muito
simples. Não haverá problemas. Será semelhante à água a fluir, ou ao vapor a elevar-se, às
árvores a florir, às aves a cantar. Será natural e espontâneo!

Mas não deixam o homem em paz. Quando nasce uma criança, os opressores estão prontos a
saltar-lhe em cima, a esmagar as suas energias, a distorcê-las de tal maneira, a distorcê-las tão
profundamente que a pessoa nunca tomará consciência de que vive uma vida falsa, uma
pseudovida, que não vive da maneira como era suposto viver, como nasceu para viver; que está
a viver algo de sintético, de plástico, que esta não é a sua verdadeira alma. E por isso que há
milhões de pessoas que vivem tão desgraçadas — porque sentem algures que foram
confundidas, que não são elas próprias, que alguma coisa está profundamente errada...

O amor será simples se se permitir que a criança cresça, se esta for ajudada a crescer, de
maneira natural. Se a criança for ajudada a viver em harmonia com a natureza e em harmonia
consigo própria, se a criança for apoiada de todas as maneiras possíveis, alimentada, encorajada
a ser natural e a ser uma luz para si própria, então o amor será simples. A pessoa será
simplesmente afectuosa!

Imagine um mundo em que toda a gente utiliza cem por cento do seu potencial... então os
deuses teriam inveja da Terra, então os deuses desejariam ter nascido na Terra. Então a Terra
seria um paraíso, um superparaíso.
89

O ódio será praticamente impossível, porque antes de poder odiar alguém terá de criar primeiro
o veneno dentro de si próprio. Só pode dar alguma coisa a alguém se possuir essa coisa. Pode
odiar apenas quando estiver cheio de ódio. E estar cheio de ódio é sofrer o inferno. Estar cheio
de ódio é estar a arder. Estar cheio de ódio significa que se fere primeiro a si próprio. Antes de
ferir uma outra pessoa, tem de se ferir a si próprio. O outro poderá não ser ferido, isso depende
dele. Mas uma coisa é absolutamente certa: antes de poder odiar, tem de passar por um longo
sofrimento e por muita desgraça. O outro poderá não aceitar o seu ódio, poderá rejeitá-lo.
Talvez o outro seja um buda — e se ria simplesmente do seu ódio. Poderá perdoá-lo, poderá
não reagir. Se o não conseguir perturbar, que pode você fazer? Sentir-se-á impotente diante
dele.

Portanto, não é forçosamente seguro que o outro fique ferido. Mas uma coisa é absolutamente
certa, é que se odiar alguém, primeiro terá de ferir a sua própria alma de múltiplas maneiras;
tem de estar tão cheio de veneno que pode lançar o veneno sobre os outros.

O ódio não é natural. O amor é um estado de saúde; o ódio é uma doença. Tal como a doença,
não é natural. Ela só acontece quando perde o rasto da natureza, quando deixa de estar em
harmonia com a existência, deixa de estar em harmonia com o seu ser, com o seu centro mais
íntimo. E então fica doente — psicológica e espiritualmente doente. O ódio não é mais do que
um símbolo da doença, e o amor um símbolo da saúde, da integridade e da santidade.

O amor deveria ser uma das coisas mais naturais, mas não é. Pelo contrário, tornou-se uma das
coisas mais difíceis — uma coisa quase impossível. O ódio tornou-se simples; você é treinado e
preparado para odiar.

Se odiar alguém, primeiro terá de ferir a sua própria alma de múltiplas maneiras; tem de estar
tão cheio de veneno que pode lançar o veneno sobre os outros.
90

Ser hindu é estar cheio de ódio pelos muçulmanos, pelos cristãos, pelos judeus; ser cristão é
estar cheio de ódio pelas outras religiões. Ser nacionalista é estar cheio de ódio pelas outras
nações.

Você só conhece uma espécie de amor e que é odiar os outros. Só consegue demonstrar o amor
que tem pelo seu país odiando os outros países, e só consegue demonstrar o amor que tem pela
sua igreja odiando as outras igrejas. Está metido numa grande confusão!

E essas assim-chamadas religiões continuam a falar-lhe de amor, mas tudo o que fazem neste
mundo é criar cada vez mais ódio. Os cristãos falam de amor, mas têm provocado guerras e
cruzadas. Os muçulmanos falam de amor, mas criam as jihads, as guerras santas. Os hindus
falam de amor, mas pode ver as suas escrituras — estão cheias de ódio, de ódio pelas outras
religiões. E nós aceitamos todos estes disparates! E aceitamo-los sem opor qualquer resistência,
porque fomos condicionados a aceitar tais coisas, fomos ensinados que as coisas são assim
mesmo. E depois você continua a negar a sua própria natureza.

O amor foi envenenado, mas não foi destruído. O veneno pode ser drenado para fora do seu
sistema — você pode ser purificado. Pode vomitar tudo o que a sociedade o forçou a aceitar.
Pode deixar cair todas as suas crenças e todos os seus condicionalismos — você pode ser livre.
A sociedade não poderá mantê-lo eternamente escravo se você decidir ser livre.

É tempo de deixar cair todos os velhos padrões e começar uma vida nova, uma vida natural,
uma vida não repressiva, uma vida não de renúncia mas de júbilo.

É tempo de deixar cair todos os velhos padrões e começar uma vida nova, uma vida natural,
uma vida não repressiva, uma vida não de renúncia mas de alegria.

O amor deveria ser uma das coisas mais naturais, mas não é. Pelo contrário, tornou-se uma das
coisas mais difíceis — uma coisa quase impossível. O ódio tornou-se simples; você é treinado e
preparado para odiar.
91

E haverá então cada vez menos ódio. O ódio é o pólo oposto do amor, no mesmo sentido em
que a doença é o pólo oposto da saúde. E você não é obrigado a escolher a doença.

A doença tem algumas vantagens sobre a saúde; não se agarre a essas vantagens. O ódio
também tem algumas vantagens sobre o amor. E você tem de ficar muito atento. A pessoa
doente recebe as atenções de toda a gente; ninguém a magoa, toda a gente toma cuidado com o
que lhe diz, ela está muito doente. E ela o centro das atenções de todos — da família, dos
amigos — torna--se a pessoa central, torna-se importante. Agora, se essa pessoa se apegar
muito a essa importância, a essa satisfação do ego, nunca mais quererá ser saudável. Ela própria
se agarrará à doença. Os psicólogos dizem que há muita gente que se agarra às doenças por
causa das vantagens que estas lhes trazem. E investiram nas suas doenças durante tanto tempo
que se esquecem completamente de que estão agarradas a elas. Têm medo de, se melhorarem,
deixar novamente de ser alguém.

E você também ensina isso mesmo. Quando uma criança pequena adoece, toda a família fica
muito atenciosa. O que não é nada científico. Quando a criança adoece, cuide do seu corpo, mas
não lhe dê demasiada atenção. E perigoso, porque a doença será associada à atenção que lhe
dá... o que acabará por acontecer se for repetido muitas vezes. Sempre que a criança adoece
torna-se o centro de toda a família: o pai vem sentar-se ao pé dela e pergunta--lhe pela saúde, e
vem o médico, e começam a vir os vizinhos, e os amigos perguntam, e as pessoas trazem-lhe
presentes... Ora, a criança poderá ficar muito agarrada a tudo isso; poderá ser tão satisfatório
para o seu ego, que ela poderá não querer voltar a ficar boa. E, se isso acontecer, então será
impossível ser saudável. Nessa altura, nenhum medicamento a poderá ajudar. Decididamente, a
pessoa tomou um compromisso com a doença. E isso é o que tem acontecido com muitas
pessoas, ou seja, com a maioria.

Quando odeia, o seu ego sente-se realizado. O ego só pode existir se odiar, porque ao odiar
sente-se superior, ao odiar fica definido e odiar implica separação.
92

Ao odiar atinge uma determinada identidade. No amor, o ego tem de desaparecer. No amor,
deixa de existir a separação — o amor ajuda-o a dissolver-se nos outros. E um encontro e uma
fusão.

Se estiver muito agarrado ao ego, então o ódio é fácil e o amor é muitíssimo difícil. Fique
atento, fique vigilante: o ódio é a sombra do ego. O amor precisa de uma grande coragem.
Precisa de uma grande coragem porque precisa do sacrifício do ego. Só aqueles que estão
prontos a não ser ninguém serão capazes de amar. Só aqueles que estiverem prontos a tornarem-
se nada, completamente vazios de si próprios, serão capazes de receber do Além a dádiva do
amor.
RETIRE-SE DA MULTIDÃO

A meditação é unicamente a coragem de se ficar silencioso e sozinho.

Lenta, lentamente, começa a sentir em si uma nova qualidade, uma nova vivacidade, uma nova
beleza, uma nova inteligência — que não é emprestada por ninguém, que cresce dentro de si.
Tem raízes na sua existência. E se não for um cobarde, acabará por dar fruto, por dar for.

Ninguém é aquilo que foi suposto ser pela existência. Tanto a sociedade, como a cultura, a
religião e a educação conspiraram contra crianças inocentes. Elas têm todos os poderes — a
criança está desamparada e dependente, pelo que conseguem fazer dela o que quiserem. Não
deixam que a criança cresça para atingir o seu destino natural. Todos os seus esforços são para
transformar seres humanos em utilidades. Quem sabe, se uma criança crescer entregue a si
própria, ela será ou não útil aos interesses instituídos? A sociedade não está preparada para
correr esse risco. Então, pega na criança e começa a moldá-la para a transformar numa coisa
qualquer de que a sociedade necessite.

Num certo sentido, a sociedade mata a alma da criança e dá--lhe uma falsa identidade, de modo
a que nunca sinta falta da sua alma, do seu ser. A falsa identidade é um substituto.
94

Mas esse substituto só é útil inserido na mesma multidão que lha deu. No momento em que
estiver sozinho, o falso começa a desintegrar-se e o real reprimido começa a exprimir-se. Então
surge o medo de estar sozinho.

Ninguém quer sentir-se só. Toda a gente quer pertencer a um grupo — e não apenas a um
grupo, mas a muitos grupos. Uma pessoa pertence a um grupo religioso, a um partido político,
ao Rotary Club... e existem muitos outros pequenos grupos a que pode pertencer. Quer ser
apoiado vinte e quatro horas por dia porque o falso, sem apoio, não pode ficar de pé. No
momento em que ficar sozinho, começa a sentir uma estranha loucura. Durante muitos anos
acreditou que era alguém e, subitamente, num momento de solidão, começa a sentir que não é
bem assim, e isso gera medo: afinal quem é você?

E depois de tantos anos de repressão... demorará algum tempo para o real se exprimir. O hiato
entre os dois tem sido designado pelos místicos como “a noite escura da alma” — uma
expressão muito adequada. Você já não é mais o falso, mas ainda não é o real. Encontra-se num
limbo, não sabe quem é.

Especialmente no Ocidente, o problema é ainda mais complicado porque ainda não se


desenvolveu qualquer metodologia para descobrir o real o mais rapidamente possível, de
maneira a que a noite escura da alma possa ser encurtada. O Ocidente não sabe nada sobre
meditação. E a meditação significa o mesmo que estar só, silencioso, esperando que o real se
afirme. Não é um acto, é um relaxamento silencioso — porque tudo o que você “fizer” sairá da
sua falsa personalidade... tudo o que fez, durante todos estes anos, saiu dela. É um velho hábito.

Os hábitos morrem com dificuldade. Tantos anos a viver com uma personalidade falsa que lhe
foi imposta pelas pessoas que amava, que respeitava... e que intencionalmente não estavam a
fazer-lhe mal nenhum. As suas intenções eram boas, só que a sua consciência era nula. Não
eram pessoas conscientes — os seus pais, os seus professores, os seus padres, os seus políticos
— não eram pessoas conscientes, eram inconscientes. E até uma boa intenção, nas mãos de uma
pessoa inconsciente, acaba por ser venenosa.
95

Portanto, sempre que está sozinho, surge um medo profundo — porque de repente o falso
começa a desaparecer. Ê o real levará algum tempo a aparecer, pois já o perdeu há muitos anos
atrás. Terá de ter em consideração o facto de esse hiato de tantos anos ter de ser ultrapassado.

“Estou a perder-me a mim próprio, ao meu juízo, à minha sanidade mental, à minha mente,
tudo”... porque essa personalidade que lhe foi dada pelos outros consiste nessas coisas todas e,
portanto, acha que vai enlouquecer. Começa logo a fazer qualquer coisa só para se manter
ocupado. Se não houver pessoas por perto, pelo menos haverá alguma acção, de maneira a que
o falso fique ocupado e não comece a desaparecer.

Daí que as pessoas não gostem dos feriados. Trabalham durante cinco dias esperando
descontrair-se no fim-de-semana. Mas o fim-de-semana não é a altura indicada para isso — no
fim-de-semana acontecem mais acidentes, suicidam-se mais pessoas, há mais assassínios, mais
roubos, mais violações. Estranho... e essas pessoas estiveram ocupadas durante cinco dias e não
surgiram problemas. Mas o fim-de-semana dá-lhes, subitamente, uma oportunidade de escolha,
podem ocupar-se com alguma coisa ou relaxar — mas relaxar é terrível; a personalidade falsa
desaparece. Mantenha-se ocupado, faça uma estupidez qualquer. As pessoas correm para as
praias, pára-choques colados contra pára-choques, filas de carros com quilómetros de
comprimento. E se lhes perguntar onde vão, elas dizem que “estão a fugir da multidão” — e
toda a multidão vai com elas! Vão à procura de um lugar solitário, silencioso — todas elas.

Na realidade, se tivessem ficado em casa estariam mais solitárias e silenciosas — porque todos
os idiotas partiram em busca de um lugar solitário. E é vê-los a correr como loucos, porque dois
dias acabam depressa, eles têm de chegar — mas não pergunte onde!

E as praias, você pode ver... as praias estão tão cheias de pessoas, que nem mesmo os mercados
se encontram assim tão cheios.

E por mais estranho que pareça, as pessoas sentem-se muito à vontade tomando banhos de sol.
96

Dez mil pessoas numa pequena praia a tomar banhos de sol e a relaxar. Sozinha, a mesma
pessoa na mesma praia não seria capaz de relaxar. Mas ela sabe que há milhares de outras
pessoas que estão a relaxar à sua volta. As mesmas pessoas que estavam nos escritórios, as
mesmas pessoas que estavam nas ruas, as mesmas pessoas que estavam no mercado, todas elas
estão agora na praia.

A multidão é essencial para o falso eu existir. No momento em que está sozinho, você começa a
ficar caprichoso. E nessa altura que a pessoa deveria compreender a importância da meditação.

Não se preocupe, porque aquilo que pode desaparece é digno de desaparecer. Não faz sentido
ficar agarrado a isso — não lhe pertence, não é você.

Você é aquele ser que, tendo desaparecido o falso eu, surge em seu lugar, fresco, inocente e
impoluto. Mais ninguém poderá responder à sua pergunta “Quem sou eu?” — só você o saberá.

Todas as técnicas de meditação são uma ajuda para destruir o falso. Elas não lhe dão o real — o
real não pode ser dado.

Aquilo que pode ser dado não pode ser real. Você já possui o real; só lhe falta afastar o falso.

Por outras palavras, pode dizer-se: um Mestre tira-lhe coisas que na realidade não possui, e dá-
lhe o que já possui.

A meditação é unicamente a coragem de se ficar silencioso e sozinho. Lenta, lentamente,


começa a sentir em si uma nova qualidade, uma nova vivacidade, uma nova beleza, uma nova
inteligência — que não é emprestada por ninguém, que cresce dentro de si. Tem raízes na sua
existência. E se não for um cobarde, acabará por dar fruto, por dar flor.

Só os valentes, os corajosos, as pessoas que têm energia podem ser religiosos. Não aqueles que
vão à igreja — esses são os cobardes.

Todas as técnicas de meditação são uma ajuda para destruir o falso. Elas não lhe dão o real — o
real não pode ser dado. Aquilo que pode ser dado não pode ser real. Você já possui o real; só lhe
falta afastar o falso.
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Não os hindus, não os muçulmanos, não os cristãos — esses são contra a busca. São a mesma
multidão, esses tentam consolidar ainda mais a sua falsa identidade. Nasceu, veio ao mundo
com vida, com consciência, com uma sensibilidade fantástica. Observe uma criança pequena —
olhe para os seus olhos, para a sua frescura. Tudo isso foi coberto por uma falsa personalidade.

Não é preciso ter medo. Só perderá aquilo que tem de ser perdido. E é bom perdê-lo o mais
rapidamente possível — porque quanto mais isso dura, mais forte se torna.

E ninguém sabe nada do dia de amanhã.

Não morra antes de realizar o seu ser autêntico.

Só são afortunadas aquelas poucas pessoas que viveram com o seu ser autêntico e morreram
com ele — porque elas sabem que a vida é eterna e que a morte é uma ficção.

A Política dos Números

Existe na sociedade uma profunda expectativa de que você se comportará exactamente como os
outros. No momento em que se comportar de uma maneira um bocadinho diferente, torna-se um
estranho, e as pessoas têm muito medo dos estranhos.

E por isso que, por todo o lado, quando duas pessoas se encontram num autocarro, num
comboio, ou simplesmente numa paragem de autocarro, não conseguem ficar caladas —
porque, caladas, ambas se sentem estranhas. Começam imediatamente a apresentar--se uma à
outra—“Quem é você? Onde é que vai? O que é que faz, qual é a sua ocupação?” Depois de
saberem algumas coisas... elas tranquilizam-se; você é um ser humano exactamente como elas.

As pessoas querem sempre pertencer a um grupo ao qual se ajustem. No momento em que você
se comporta de maneira diferente, todo o grupo desconfia; alguma coisa está errada. Conhecem-
no e apercebem-se da mudança. Conheceram-no quando não se aceitava a si próprio e agora,
subitamente, constatam que se aceita a si próprio...
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Nesta sociedade, ninguém se aceita a si próprio. Todos se rejeitam a si próprios. E este o estilo
de vida da sociedade: rejeitar-se a si próprio. E se você não se rejeitar, se se aceitar, é porque
deixou de pertencer à sociedade. E a sociedade não tolera ninguém que caia fora do seu seio,
porque a sociedade vive de números; tem uma política de números. Quando há muitos números,
as pessoas sentem-se bem. Imensos números fazem as pessoas achar que devem estar certas —
que não podem estar erradas, milhões de pessoas estão consigo. E quando são deixadas
sozinhas, começam a surgir-lhes grandes dúvidas: se calhar ninguém está comigo. Quem me
garante que estou certo?

É por isso que eu defendo que ser-se um indivíduo neste mundo requer muita coragem.

É necessário ser-se destemido para se ser um indivíduo: “Não importa que todo o mundo esteja
contra mim. O que importa é que a minha experiência seja válida. Não olho para os números,
para quantas pessoas estão comigo. Olho para o que vale a minha experiência — se estou
apenas a repetir as palavras de alguém como um papagaio, ou se as minhas afirmações estão na
raiz da minha própria experiência. Se fizerem parte do meu sangue, dos meus ossos, da minha
medula, então o mundo inteiro pode estar de um lado; contudo, sou eu que tenho razão, não os
outros. Isso não importa, não preciso dos seus votos para me sentir com razão. Só as pessoas
que transportam as ideias dos outros precisam do apoio dos outros.”

A sociedade vive de números; tem uma política de números. Quando há muitos números, as
pessoas sentem-se bem. Imensos números fazem as pessoas achar que devem estar certas —
que não podem estar erradas, milhões de pessoas estão consigo.

E quando são deixadas sozinhas, começam a surgir-lhes grandes dúvidas: se calhar ninguém
está comigo.

É necessário ser-se destemido para se ser um indivíduo: “Não importa que todo o mundo esteja
contra mim.

O que importa é que a minha experiência seja válida.”


99

E é assim que a sociedade tem funcionado até agora. É assim que o seguram no seu seio. Se
eles estão tristes, você tem de estar triste; se eles são desgraçados, você tem de ser desgraçado.
Tudo o que eles forem, você tem de ser. Não é permitida a diferença, porque, em última análise,
a diferença faz o indivíduo, a unicidade, e a sociedade tem muito medo dos indivíduos e da
unicidade. Isso significa que alguém se tornou independente do grupo, que esse alguém não se
importa nada com o grupo. Os seus deuses, os seus templos, os seus padres, as suas escrituras,
tudo isso deixou de fazer sentido para essa pessoa.

Agora ele possui o seu próprio ser e a sua própria via, o seu próprio estilo — para viver, para
morrer, para festejar, para cantar, para dançar. Ele regressou a casa.

E ninguém pode regressar a casa com uma multidão. Só se pode regressar a casa sozinho.

Escute o seu "Sentido Interior"

Um rapaz coçava constantemente a cabeça. Um dia, o pai olhou para ele e perguntou-lhe:
“Filho, porque é que estás sempre a coçar a cabeça?”

“Bem”, respondeu o rapaz, “porque penso que só eu é que sei que tenho comichão nela.”

Chama-se a isto sentido interior! Só você sabe. Mais ninguém o pode saber. Não pode ser
observado do exterior. Quando lhe dói a cabeça, só você o sabe — não o pode provar. Quando
está feliz, só você o sabe — não o pode provar. Não o pode pôr em cima da mesa para que
todos o observem, o dissequem, o analisem.

De facto, o sentido interior é tão interior que nem sequer consegue provar que ele existe. E por
isso que a ciência continua a negá-lo, mas a negação é desumana. Até o cientista sabe que
quando ama, ele tem um sentimento interior. Existe alguma coisa aí!
100

Não é uma coisa, e não é um objecto, e não é possível pô-la diante dos outros — e, mesmo
assim, é.

O sentido interior possui o seu próprio fundamento. Mas, por causa da formação científica, as
pessoas deixaram de confiar no seu sentido interior. Dependem dos outros. Depende tanto que
se alguém lhe disser “Pareces muito feliz”, você começa a sentir-se feliz. Se vinte pessoas
decidirem torná-lo infeliz, elas podem torná-lo infeliz. Basta que o repitam durante o dia inteiro
— sempre que se cruza com elas, dizem-lhe: “Pareces muito infeliz, muito triste. Que se passa?
Morreu alguém?” E você vai começar a suspeitar: se várias pessoas lhe dizem que está infeliz é
porque deve estar mesmo infeliz.

Você depende da opinião das pessoas. Tem dependido tanto da opinião das pessoas que perdeu
o rasto do sentido interior. Este tem de ser redescoberto, porque tudo o que é belo e tudo o que é
bom e tudo o que é divino só pode ser sentido através do sentido interior.

Pare de se deixar influenciar pela opinião dos outros. Ou antes, comece a olhar para dentro...
permita que o seu sentido interior lhe diga as coisas. Confie nele. Se confiar nele, crescerá. Se
confiar nele, nutri-lo-á, ele tornar-se-á mais forte.

Vivekananda foi ter com Ramakrishna e disse-lhe: “Deus não existe! Posso prová-lo — Deus
não existe.” Vivekananda era um homem muito lógico, muito céptico, com uma boa formação
quanto ao pensamento filosófico ocidental. Ramakrishna era uma pessoa sem instrução,
analfabeta. E Ramakrishna respondeu-lhe: “Pois muito bem, prova-o!”

Vivekananda falou muito, deu todas as provas que tinha. E Ramakrishna escutou e depois disse:
“Mas o meu sentido interior diz-me que Deus é — e esta é a prova final. Tudo isso que estás a
dizer são argumentos. E o que diz o teu sentido interior?”

Vivekananda nem sequer tinha pensado em tal. Encolheu os ombros. Ele lera livros, coligira
argumentos, provas a favor e provas contra, e tinha tentado concluir se Deus existe ou não de
acordo com essas provas. Mas não tinha olhado para dentro. Não tinha feito essa pergunta ao
seu sentido interior.
101

É uma estupidez, mas o pensamento céptico é estúpido, o pensamento lógico é estúpido.

Ramakrishna disse: “Os teus argumentos são bonitos, gostei. Mas que posso eu fazer? Eu sei! O
meu sentido interior diz que Ele existe. Tal como o meu sentido interior me diz que sou feliz,
que estou doente, que estou triste, que me dói o estômago, que hoje não me estou a sentir muito
bem; portanto, o meu sentido interior diz que Deus existe. Não é uma questão de debate.”

E Ramakrishna acrescentou: “Não posso prová-lo, mas se tu quiseres, posso demonstrar-to.”


Nunca ninguém dissera antes a Vivekananda que Deus pode ser demonstrado. E antes que
pudesse dizer alguma coisa, Ramakrishna deu um salto — era um homem impulsivo —, deu
um salto e pôs os pés no peito de Vivekananda! E alguma coisa aconteceu, soltou-se alguma
energia, e Vivekananda entrou em transe durante três horas. Quando abriu os olhos, era um
homem totalmente diferente.

Ramakrishna disse-lhe: “E agora, que dizes tu? Deus existe agora o teu sentido interior?”

A tranquilidade e serenidade que sentia nunca a experimentara antes. Era um júbilo interior, um
bem-estar muito grande, um bem-estar que transbordava... Sentiu-se obrigado a inclinar-se e,
tocando nos pés de Ramakrishna, respondeu: “Sim, Deus existe.”

Deus não é uma pessoa, mas sim a sensação máxima de bem-estar, a sensação máxima de estar
em casa, a sensação máxima de que “Eu pertenço a este mundo e este mundo pertence-me.
Aqui, não sou alheio, não sou um pária”. A sensação máxima — existencial, de que “Este todo
e eu não estamos separados”. Esta experiência é Deus. Mas esta experiência só é possível se
permitir que o seu sentido interior funcione.

ou não? Que te diz

Deus não é uma pessoa, mas sim a sensação máxima de bem-estar, a sensação máxima de estar
em casa, a sensação máxima de que "Eu pertenço a este mundo e este mundo pertence-me.
Aqui, não sou alheio, não sou um pária. ”
102

Comece por permiti-lo! Dê-lhe todas as oportunidades possíveis. Não ande sempre a procurar
provas exteriores, e não procure as opiniões exteriores. Mantenha-se um pouco mais
independente. Sinta mais, pense menos.

Observe uma rosa, mas não repita como um papagaio: “É tão bonita.” Isso poderá não passar de
uma mera opinião, as pessoas disseram-lhe isso; desde a sua mais tenra infância que tem ouvido
dizer: “A rosa é linda, é uma bela flor.” Por isso, ao ver a rosa, você simplesmente repete como
um computador: “É tão bonita.” Está a sentir isso realmente? É esse o seu sentido interior? Se
não for, não o diga.

Ao olhar para a Lua, não diga que ela é bela — a não ser que seja esse o seu sentido interior.
Ficará surpreendido por saber que noventa e nove por cento das ninharias que traz no
pensamento são todas emprestadas. E que dentro desses noventa e nove por cento de ninharias,
de lixo inútil, perdeu-se, afogou-se o um por cento de sentido interior. Deixe cair essas
informações. Recupere o seu sentido interior.

É através do sentido interior que se conhece Deus.

Existem seis sentidos: cinco são exteriores; falam-lhe do mundo. Os olhos dizem coisas sobre a
luz; sem olhos, não saberia o que é a luz. Os ouvidos falam-lhe do som; sem ouvidos, não
saberias nada do som. Há um sexto sentido, o sentido interior, que lhe mostra e lhe fala de si e
da raiz fundamental das coisas. Esse sentido tem de ser descoberto.

A meditação não é mais do que a descoberta do sentido interior.

O que o Mundo mais teme é a opinião dos outros. E no momento em que deixar de ter medo da
multidão, deixa de ser um carneiro e torna-se um leão. Um grande rugido eleva-se do seu
coração, o rugido da liberdade.

Na verdade, o Buda chamou-lhe o rugido do leão. Quando um homem alcança um estado de


silêncio absoluto, ruge como um leão. Experimenta pela primeira vez a liberdade, deixando
então de ter medo da opinião dos outros.
103

Não importa o que as pessoas dizem. Se lhe chamam santo ou pecador, é irrelevante; Deus é o
seu único juiz. E não é suposto que seja Deus; Deus significa simplesmente todo o universo.

Não se trata de encarar uma pessoa; tem de encarar as árvores, os rios, as montanhas, as estrelas
— todo o universo. E este é o nosso universo, fazemos parte dele. Não é necessário ter medo
dele, não é necessário esconder nada dele. O todo já o sabe, o todo sabe mais sobre si do que
você próprio.

E o segundo ponto é ainda mais significativo: Deus já o julgou. Não é uma coisa que vá
acontecer no futuro, ela já aconteceu: Ele já o julgou. Por isso, até o medo desse julgamento
desaparece. Não se trata de uma questão de haver um Dia de Juízo Final. Não precisa de tremer.
O Dia do Juízo aconteceu no primeiro dia; Ele já o tinha julgado no momento em que o criou.
Ele conhece-o, você é a sua criação. Se alguma coisa correr mal consigo, o responsável é Ele,
não é você.

Se se perder no caminho, o responsável é Ele, não é você. Como poderia você ser o
responsável? — você não é a sua própria criação. Se pintar um quadro e alguma coisa correr
mal, não pode dizer que a culpa é da pintura — a culpa é do pintor.

Portanto, não há necessidade de ter medo da multidão, nem de um Deus imaginário que no fim
do mundo lhe pergunte o que fez e o que não fez. Ele já o julgou — e isso é, na verdade,
significativo —, isso já aconteceu, portanto, sinta-se livre. E quando se sabe que se é totalmente
livre para se ser quem se é, a vida começa a ter em si uma qualidade dinâmica.

O medo cria algemas, a liberdade dá-lhe asas.

Este é o nosso Universo, fazemos parte dele. Não é necessário ter medo dele, não é necessário
esconder nada dele. O todo já o sabe, o todo sabe mais sobre si do que você próprio.
104

Liberdade de, Liberdade para

Nunca pense em termos de ser livre de; pense sempre em termos de ser livre para. E que a
diferença é grande, tremendamente grande. Não pense em “de” — pense em “para”. Seja livre
para Deus, seja livre para a verdade, mas não pense que quer ser livre da multidão, livre da
igreja, livre disto e daquilo. Um dia, talvez consiga chegar bem longe, mas nunca será livre,
nunca. Vai haver sempre qualquer tipo de repressão.

Por que é que tem tanto medo da multidão?... Se a tracção for essa, então o seu medo mostra
unicamente a sua tracção, a sua atracção. Onde quer que vá, será sempre dominado pela
multidão.

Aconselho-o a olhar simplesmente para os factos — pois não há necessidade de pensar em


termos da multidão. Pense apenas em termos do seu ser. Pode abandoná-la já. Não poderá ser
livre se se debater. Pode deixá-la cair, porque não faz sentido debater-se.

O problema não é a multidão — o problema é você. Quem o atrai não é a multidão — está a ser
atraído, não por alguém, mas sim pelo seu próprio condicionalismo inconsciente. Lembre-se
sempre de, em determinada altura, não atirar com a responsabilidade para cima de alguém,
porque então nunca se livrará do problema. Bem no fundo, está a sua responsabilidade. Por que
é que alguém se insurgiria tanto contra a multidão? Pobre multidão! Por que estaria você contra
ela? Por que carrega com semelhante ferida?

A multidão não lhe pode fazer nada se você não colaborar. Portanto, trata-se da sua
colaboração. Pode deixar cair a colaboração já, assim mesmo. Se fizer algum esforço para isso,
então terá problemas. Portanto, faça-o imediatamente. É apenas no impulso do momento, da
compreensão instantânea, se puder ver que se lutar, está a travar uma batalha perdida.

Quem o atrai não é a multidão — está a ser atraído, não por alguém, mas sim pelo seu próprio

condicionalismo inconsciente.
105

Na própria luta, estará a dar ênfase à multidão.

Foi isso que aconteceu a milhões de pessoas. Há pessoas que querem escapar às mulheres — há
séculos que se tem feito isso na Índia. E então ficam cada vez mais embrenhados nelas. Querem
ver-se livre do sexo e todo o seu pensamento se torna sexual; só pensam em sexo e em nada
mais. Jejuam e não dormem; fazem isto, fazem aquilo, e pranayama e ioga e mil e uma coisas
— tudo um absurdo. Quanto mais lutam contra o sexo, mais se embrenham nele, mais se
concentram nele. O sexo torna-se demasiadamente importante, assume uma proporção
exagerada.

Foi o que aconteceu nos mosteiros cristãos. Ficaram muito reprimidos, cheios de medo. O
mesmo pode acontecer-lhe a si se ficar com muito medo da multidão. A multidão não lhe pode
fazer nada se você não cooperar; portanto, é uma questão de estar atento. Não coopere!

Esta é a minha observação: que voce é responsável por todas as coisas que lhe acontecerem.
Mais ninguém. Você quis que se fizessem, portanto foram feitas. Alguém o explora porque você
quis ser explorado. Alguém o meteu na prisão porque você quis ser preso. Deve ter havido aí
alguma procura. Talvez lhe chamasse segurança. Os nomes que lhe deu podem ter sido
diferentes, os rótulos que lhe pôs podem ter sido diferentes, mas você aspirava a ser preso
porque na prisão está-se seguro, lá não existe insegurança.

E não lute contra os muros da prisão. Olhe para dentro. Descubra essa aspiração pela segurança
e como a multidão o pode manipular. Deve querer pedir alguma coisa à multidão —
reconhecimento, honra, respeito, respeitabilidade. Se lhe pedir, terá de lhe retribuir. E então a
multidão diz-lhe: “Muito bem, nós vamos dar-te o respeito, mas tu dás-nos a tua liberdade.” E
um simples negócio.

Esta é a minha observação: que você é responsável por todas as coisas que lhe acontecerem.

Mais ninguém. Você quis que se fizessem, portanto foram feitas.


106

E a multidão nunca lhe fez nada a si — basicamente foi você que fez. Portanto, saia do seu
próprio caminho!

Descubra o seu Rosto Original

Seja apenas aquilo que é e não se preocupe absolutamente nada com o mundo. Sentirá, então,
um enorme relaxamento e uma profunda paz dentro do seu coração. É a isso que as pessoas Zen
chamam o seu “rosto original” — relaxado, sem tensões, sem pretensões, sem hipocrisias.

E lembre-se de que o rosto original é uma bela expressão poética e não significa que terá um
rosto diferente. Este mesmo rosto perderá todas as suas tensões, este mesmo rosto ficará
descontraído, este mesmo rosto será acrítico, este mesmo rosto não considerará os outros como
seus inferiores. Este mesmo rosto, sob estes novos valores, será o seu rosto original.

Existe um provérbio antigo que diz: “Muitos dos nossos heróis foram homens que não tiveram
coragem de ser cobardes.”

Se for um cobarde, que mal há nisso? E cobarde — o que é perfeitamente aceitável. Os


cobardes também são necessários, senão onde iria você buscar os heróis? São absolutamente
necessários para criarem um ambiente propício onde se possam gerar os heróis.

Seja simplesmente você mesmo, seja isso o que for.

O problema é que nunca ninguém Lhe disse antes para ser simplesmente você mesmo. Toda a
gente gosta de se intrometer, dizendo que deveria ser assim, que deveria ser assado — mesmo
em assuntos banais.

Se for um cobarde, que mal há nisso? É cobarde — o que é perfeitamente aceitável.

Os cobardes também são necessários, senão onde iria você buscar os heróis?
107

Na minha escola... eu era apenas um rapazinho, mas detestava que me dissessem como é que eu
devia ser. Os professores começaram a subornar-me — “Se te comportares como deve ser,
podes vir a ser um génio.”

Respondi-lhes: “Mas eu não quero ser génio — só quero ser eu próprio.”

Costumava sentar-me com as pernas em cima da mesa, e todos os professores se mostravam


ofendidos. Diziam: “Que maneira de se comportar é esta?”

E eu dizia-lhes: “A mesa não me está a dizer nada. É uma coisa entre mim e a mesa; portanto,
porque é que está com um ar tão zangado? Não estou a pôr as pernas em cima da sua cabeça!
Devia descontrair-se, tal como eu estou a descontrair-me. E desta maneira sinto-me mais capaz
de compreender todos os disparates que me está a ensinar.”

Num dos lados da sala havia uma janela, e da parte de fora havia árvores, aves e cucos. Passava
a maior parte do tempo a olhar lá para fora, e o professor aproximava-se de mim e dizia-me:
“Afinal de contas, por que é que vens à escola?”

Eu respondia: “Porque na minha casa não há uma janela como esta, que se abre toda para o céu.
E à volta da minha casa, não há nem cucos nem aves. A minha casa fica na cidade, rodeada por
outras casas, tão apertadas que as aves não vão lá, e os cucos acham que aquelas pessoas não
merecem ser abençoadas pelas suas cantigas.

“Esqueça a ideia de que venho aqui para o ouvir a si! Pago as minhas propinas, você não passa
de um servidor, e deve lembrar-se disso. Se eu chumbar, não me virei queixar a si; se eu
chumbar, não me sentirei triste. E se durante o ano todo eu fingir que o estou a ouvir a si,
enquanto estou a ouvir os cucos lá fora, isso será o começo de uma vida de hipocrisias. E eu
não quero ser um hipócrita.”

Para cada assunto, os professores, os catedráticos, queriam que o fizesse de determinada


maneira. Naquele tempo, e talvez ainda hoje, na minha escola era obrigatório usar um boné. Eu
não tenho nada contra os bonés; desde que deixei a universidade comecei a usar bonés, mas
nunca usei nenhum antes de deixar a universidade.
108

O primeiro professor que se preocupou comigo disse-me: “Estás a perturbar a disciplina da


escola. Onde está o teu boné?”

Eu respondi: “Traga-me o código de comportamento da escola. Faz-se nele alguma menção ao


uso obrigatório de boné? Se não se faz, está a impor-me uma coisa que não consta do
regulamento da escola.”

Levou-me ao director da escola, e eu disse ao director: “Estou absolutamente pronto, mostre-me


apenas onde está escrito que o uso de boné é obrigatório. Se é obrigatório, poderei mesmo
deixar a escola, mas primeiro deixe-me ver onde é que isso está escrito.”

Não havia código escrito e eu disse-lhe: “Pode dar-me alguns outros argumentos razoáveis para
ter de usar boné? Ele vai aumentar a minha inteligência? Vai dar-me uma saúde melhor, um
entendimento melhor?” E acrescentei: “Tanto quanto sei, Bengala é a única província da Índia
onde não se usam bonés, e essa é a região mais inteligente do país. No Punjabe acontece
exactamente o contrário. Aí, em vez de boné, as pessoas usam turbantes — turbantes muito
grandes, como se a inteligência lhes estivesse a fugir e eles tentassem agarrá-la. E essa é a
região menos inteligente do país.”

O director disse-me: “Parece-me fazer algum sentido aquilo que estás a dizer, mas é uma regra
da escola. Se deixares de usar boné, então os outros também deixarão.”

Respondi-lhe: “E então qual é o problema? Deixe cair esta convenção.”

Ninguém pretende que você seja você próprio mesmo em questões absolutamente
insignificantes.

Na minha infância, eu costumava usar o cabelo comprido. Costumava entrar e sair pela loja do
meu pai porque a loja e a casa estavam ligadas. A casa ficava por detrás da loja e era
absolutamente necessário passar pela loja. As pessoas perguntavam: “Quem é esta rapariga?”—
porque o meu cabelo era muito comprido, e elas não podiam imaginar que um rapaz tivesse o
cabelo tão comprido.
109

O meu pai sentia-se muito envergonhado e embaraçado ao dizer: “É um rapaz.”

“Mas então”, perguntavam eles, “por que é que ele tem o cabelo tão comprido?”

Um dia — não era esta a sua natureza normal —, o meu pai sentiu-se tão embaraçado e
zangado que me cortou o cabelo com as suas próprias mãos. Trouxe as tesouras com que
costumava cortar os tecidos na loja e cortou-me o cabelo. Eu não lhe disse nada — e ele ficou
surpreendido. Disse-me: “Não tens nada a dizer?” Respondi-lhe: “Di-lo-ei do meu próprio
jeito.”

“Como assim?”

Respondi: “Vai ver.” E fui ao barbeiro, que era um viciado em ópio e tinha a barbearia mesmo
em frente da nossa casa. Era o único homem por quem eu sentia respeito. Havia uma fila de
barbearias, mas eu gostava daquele velho. Ele era uma pessoa singular e gostava de mim;
passávamos horas a conversar um com o outro.

Fui ter com ele e disse-lhe: “Rape-me completamente a cabeça toda.” Na Índia, a cabeça é
completamente rapada apenas quando morre o pai. Por instantes até aquele viciado em ópio
despertou. Disse-me: “Que se passa? O teu pai morreu?”

Respondi-lhe: “Não se preocupe com isso. Faça apenas o que lhe mando; não lhe diz respeito a
si! Corte-me o cabelo completamente, rape-mo completamente.”

Então o barbeiro disse-me: “Muito bem. Não é nada comigo. Se ele morreu, morreu.”

E rapou-me completamente a cabeça e eu voltei para casa. Passei pela loja. O meu pai olhou
para mim, assim como todos os seus clientes. Disseram: “Que aconteceu? Quem é este rapaz?
Morreu-lhe o pai.”

O meu pai disse: “É meu filho, e eu estou vivo! E eu sabia que ele ia fazer alguma coisa. Deu-
me uma boa resposta.”

Onde quer que eu fosse, as pessoas perguntavam-me: “Que aconteceu? Ele está de perfeita
saúde?”

Eu respondia: “As pessoas morrem em qualquer idade. Vocês estão preocupados com ele, mas
não estão preocupados com o meu cabelo.”
110

Aquela foi a última coisa que o meu pai alguma vez me fez, porque sabia que a resposta seria
mais perigosa! Mais tarde disse-lhe: “Foi o pai que criou toda esta confusão. Por que é que
havia de se sentir embaraçado? Poderia dizer-lhes ‘É a minha filha.’ Eu não poria qualquer
objecção a isso. Mas não deveria ter interferido comigo da maneira como o fez. Foi uma
violência, uma barbaridade. Em vez de falar comigo, cortou-me simplesmente o cabelo.”

Ninguém permite que alguém seja simplesmente como é. E você aprendeu todas essas ideias
tão profundamente que elas parecem ser também as suas ideias. Descontraia-se. Esqueça todos
esses condicionalismos, deixe-os cair como se fossem folhas secas a cair das árvores. E melhor
ser-se uma árvore despida sem quaisquer folhas do que ter folhas de plástico e folhagem de
plástico e flores de plástico; isso é muito feio.

— O rosto original significa simplesmente que você não está a ser dominado por nenhuma
espécie de moralidade, de religião, de sociedade, de pais, de professores, de padres, não está a
ser dominado por ninguém. Viva a sua vida apenas de acordo com o seu próprio sentido interior
— você tem uma sensibilidade — e terá o rosto original.
A ALEGRIA DE VIVER PERIGOS AMENTE

Os que são corajosos, mergulham de cabeça. Procuram todas as oportunidades de perigo. A sua
filosofia de vida não é a das companhias de seguros. A sua filosofia de vida é a de um alpinista,
de um planador, de um sufista. E não é apenas nos mares exteriores que eles surfam; surfam nos
seus próprios mares interiores. E não é apenas no exterior que eles trepam aos Alpes e aos
Himalaias; também procuram os picos interiores.

Viver perigosamente significa viver. Se não viver perigosamente, não vive. A vida só floresce
no perigo. A vida nunca floresce na segurança; só floresce na insegurança. Se começar a sentir-
se seguro, torna-se um lago estagnado. A sua energia deixa de circular. E então você tem
medo... porque nunca se sabe como lidar com o desconhecido. E porquê correr o risco? O
conhecido é mais seguro. Depois fica obcecado com o que lhe é familiar. Continua a estar farto
do conhecido, aborrece-se, sente-se infeliz, mas, no entanto, continua a parecer--lhe familiar e
confortável. Pelo menos, você domina-o. O desconhecido provoca-lhe tremor. Basta a ideia de
desconhecido para começar a sentir-se em perigo.

Só há dois tipos de pessoas neste mundo. As pessoas que querem viver confortavelmente — são
as que procuram a morte, que querem um túmulo confortável. E as pessoas que querem viver —
decidem viver perigosamente, porque a vida só prospera quando há perigo.
112

Já alguma vez fez alpinismo? Quanto mais trepa, mais refrescado se sente, mais jovem se sente.
Quanto maior for o perigo de cair, quanto maior for o abismo que se abre a seu lado, mais vivo
se sente... entre a vida e a morte, quando se encontra simplesmente pendurado entre a vida e a
morte. Então não existe qualquer enfado, então não existe pó do passado, nem desejo do futuro.
Então o momento presente é muito nítido, como uma chama. E suficiente — você vive no aqui
e agora.

Ou a surfar, ou a fazer esqui, ou a planar — sempre que há o perigo de perder a vida sente uma
enorme alegria, porque o risco de perder a vida fá-lo sentir-se intensamente vivo. Daí que as
pessoas se sintam atraídas por desportos radicais.

As pessoas sobem às montanhas... Um dia, alguém perguntou a Edmund Hillary: “Por que é
que tentou subir ao Evereste? Porquê?” E Hillary respondeu: “Porque ele está ali — é um
desafio constante.” Era muito arriscado, já muita gente tinha morrido antes. Durante quase
sessenta, setenta anos, houve grupos que o tentaram escalar — e a morte era praticamente certa;
no entanto, as pessoas continuavam a tentar. O que é que as atraía?

Ao chegar mais alto, ao ir mais além do estabelecido, da vida rotineira, torna-se novamente
selvagem, faz novamente parte do mundo animal. Volta a viver como um tigre ou um leão, ou
como um rio. Volta a subir alto nos céus como uma ave, cada vez mais longe. E
progressivamente a segurança, o saldo bancário, a mulher, o marido, a família, a sociedade, a
Igreja, a respeitabilidade — tudo se desvanece ao longe, cada vez mais distante. Fica sozinho.

E por isso que as pessoas se interessam tanto por desportos. Mas nem mesmo isso é um perigo
real, porque você pode vir a ser muito, mas muito competente. Pode aprender, pode treinar--se.
E um risco muito calculado — se me permitir a expressão, um risco calculado. Pode treinar-se
para o alpinismo e pode tomar todas as precauções. Ou conduzir a alta velocidade — pode ir a
cem à hora, o que é perigoso, mas muito excitante.
113

Pode adquirir grande perícia e o perigo é unicamente para quem está de fora; não é para si.
Mesmo que haja perigo, ele é muito marginal. E depois, esses perigos não passam de perigos
físicos, só o corpo está envolvido.

Quando lhe digo para viver perigosamente, não me refiro unicamente ao perigo corporal mas
também ao risco psicológico e, finalmente, ao risco espiritual. A religiosidade é um perigo
espiritual. É alcançar alturas tais que talvez não haja retorno. E esse o significado da expressão
do Buda anagamin — alguém que nunca regressa. É chegar a uma tal altura, a um ponto de
onde não há retorno... então fica-se simplesmente perdido. Nunca se regressa.

Quando lhe digo para viver perigosamente, estou a referir--me a não viver uma vida de
respeitabilidade normal — ser presidente de uma autarquia ou membro de uma corporação. Isso
não é vida. Ou ser um ministro, ou ter uma boa profissão e ganhar bem e o dinheiro a acumular-
se no banco e tudo a correr às mil maravilhas. Quando tudo corre às mil maravilhas, veja só —
você está a morrer e nada está a acontecer. As pessoas podem respeitá-lo e quando morrer
levará um grande séquito atrás de si. Bom, isso é tudo, e os jornais publicarão a sua fotografia e
serão escritos editoriais, e depois as pessoas esquecê-lo-ão. E foi para coisas dessas que você
viveu a vida toda ?

Observe — uma pessoa pode perder toda a sua vida com coisas banais, mundanas. Ser
espiritual significa compreender que essas pequenas coisas não merecem grande importância.
Não estou a dizer que elas não façam sentido. Estou a dizer que elas fazem sentido, mas que
não fazem tanto sentido como você pensa.

O dinheiro é necessário. E uma necessidade. Mas o dinheiro não é e não pode ser o único
objectivo. Uma casa é certamente necessária. E uma necessidade.

Eu não sou um ascético e não quero que destrua a sua casa e fuja para os Himalaias.

A casa é necessária — mas a casa é necessária para si. Não me interprete mal.
114

Eu não sou um ascético e não quero que destrua a sua casa e fuja para os Himalaias. A casa é
necessária — mas a casa é necessária para si. Não me interprete mal.

Como eu vejo as pessoas, está tudo às avessas. Parece que existem como se elas fossem
necessárias à casa. Continuam a trabalhar para a casa. Como se elas fossem necessárias às suas
contas bancárias — continuam simplesmente ajuntar dinheiro e depois morrem. E essas pessoas
nunca viveram. Não tiveram um único momento de vida palpitante, de vida a jorros. Estiveram
apenas presas na segurança, no conhecido, na respeitabilidade.

È depois é natural que se sinta enfadado. Há pessoas que me procuram dizendo que se sentem
muito enfadadas. Sentem-se fartas, atoladas, o que é que devem fazer? Pensam elas que basta
repetir um mantra para ficarem novamente vivas. Não é assim tão fácil. Elas terão de alterar
todo o seu padrão de vida.

Ame, mas não pense que terá uma mulher disponível já amanhã. Não espere isso. Não reduza a
sua mulher à condição de esposa. Então estará a viver a vida perigosamente.

Não reduza o homem à condição de marido, porque um marido é uma coisa muito feia. Deixe
que o seu homem seja o seu homem e a sua mulher a sua mulher, e não torne o seu amanhã
predizível. Não espere nada e esteja pronto para tudo. É isso que eu quero dizer quando lhe digo
para viver perigosamente a vida.

O que é que nós fazemos? Apaixonamo-nos por uma mulher e vamos imediatamente ao
tribunal, ou ao registo civil, ou à igreja, para nos casarmos. Não estou a dizer para não se casar.
É uma formalidade. Bom, satisfaz a sociedade, mas no fundo do seu pensamento nunca possua
a sua mulher. Nunca lhe diga, nem por um só instante, “tu pertences-me”. Como pode alguém
pertencer-lhe? E quando você começar a possuir a sua mulher, ela começará a possuí-lo a si.

Ame, mas não pense que terá uma mulher disponível já amanhã. Não espere isso. Não reduza a
sua mulher à condição de esposa.

Então estará a viver a vida perigosamente.


115

Então ambos deixam de estar apaixonados. Estais apenas a triturar-vos e a matar-vos um ao


outro, a paralisar-vos um ao outro.

Ame, mas não permita que o seu amor degenere em casamento. Trabalhe — o trabalho é
necessário —, mas não deixe que o trabalho se torne a sua única vida. O divertimento deveria
ser a sua vida, o seu centro de vida. O trabalho deveria ser unicamente um meio para chegar ao
divertimento. Trabalhe no escritório, e trabalhe na fábrica e trabalhe na loja, mas unicamente
para ter tempo e oportunidade de se divertir. Não permita que a sua vida se reduza a uma mera
rotina de trabalho — porque a meta da vida é o divertimento!

Divertir-se significa fazer alguma coisa pelo prazer de a fazer. Se se divertir a fazer um grande
número de coisas pelo prazer de as fazer, sentir-se-á mais vivo. Evidentemente, a sua vida
estará sempre em risco, em perigo. Mas é assim que a vida tem de ser. O risco faz parte dela. Na
realidade, o melhor que a vida tem é o perigo, a sua melhor parte é o perigo. O aspecto mais
belo da vida é o perigo. Cada momento é um perigo. Talvez não se dê conta... Inspire, expire, há
nisso um risco. Até mesmo ao expirar — quem sabe se a respiração voltará ou não? Não há
certezas, não é garantido.

Mas, para algumas pessoas, a sua única religião é a segurança. Mesmo quando falam de Deus,
falam de Deus como a segurança máxima. Se elas pensam em Deus, pensam apenas porque têm
medo. Se elas entram em oração e meditação, só o fazem para ficarem nas “boas graças”, nas
boas graças de Deus: “Se há Deus, ele sabe que frequento regularmente a igreja, que sou seu
adorador regular. Posso testemunhá-lo.” Mesmo as suas preces não passam de meios.

Viver perigosamente significa viver a vida como se cada momento fosse o seu próprio fim.
Cada momento possui o seu próprio valor intrínseco, e você não tem medo. Sabe que a morte
está presente, e aceita o facto de que a morte está presente e não se esconde da morte. Na
realidade, você vai ao encontro da morte.
116

Gosta desses momentos em que encontra a morte — fisicamente, psicologicamente e


espiritualmente.

Gostar desses momentos em que entra em contacto directo com a morte — em que a morte se
torna praticamente uma realidade — é o que eu quero dizer quando falo de viver
perigosamente.

Os que são corajosos, mergulham de cabeça. Procuram todas as oportunidades de perigo. A sua
filosofia de vida não é a das companhias de seguros. A sua filosofia de vida é a de um alpinista,
de um planador, de um surfista. E não é apenas nos mares exteriores que eles surfam; surfam
nos seus próprios mares interiores. E não é apenas no exterior que eles trepam aos Alpes e aos
Himalaias; também procuram os picos interiores.

Mas lembre-se de uma coisa: nunca se esqueça da arte de correr riscos — nunca por nunca ser.
Seja sempre capaz de arriscar. Sempre que puder encontrar uma oportunidade para arriscar,
nunca a perca, e nunca será um falhado. O perigo é a única garantia para se estar
verdadeiramente vivo.

Faça o que Fizer, a Vida é um Mistério

A mente sente alguma dificuldade em aceitar a ideia de que existe alguma coisa que não pode
ser explicada. A mente possui uma premente e imperiosa necessidade de que tudo seja
explicado... se não explicado, então pelo menos com uma justificação satisfatória! Tudo aquilo
que for um puzzle, um paradoxo, perturbará sempre a sua mente.

Toda a história das filosofias, religiões, ciências, matemáticas, tem a mesma raiz, o mesmo
pensamento — o mesmo prurido. Você pode coçar-se de uma determinada maneira, uma outra
pessoa pode fazê-lo de maneira diferente, mas o prurido tem de ser compreendido. O prurido é
a convicção de que a existência não é um mistério. A mente só se pode sentir bem se de, algum
modo, a existência for desmistificada.
117

Foi isso mesmo que a religião fez ao criar Deus, o Espírito Santo, o Filho Unigénito; religiões
diferentes criaram coisas diferentes. Foram os meios que descobriram para taparem um buraco
que não pode ser tapado; por mais que faça, o buraco estará lá. Na realidade, quanto mais o
tapar, mais ele está enfaticamente lá. O seu próprio esforço em tapá-lo demonstra o seu medo
de que alguém veja o buraco.

Toda a história do pensamento, nos seus diferentes ramos, tem feito uma manta de retalhos para
esconder esse buraco — em especial na matemática, porque a matemática é puramente um jogo
do pensamento. Há matemáticos que pensam que não, tal como há teólogos que pensam que
Deus é uma realidade. Deus é apenas uma ideia. E se os cavalos tiverem ideias, o seu Deus será
um cavalo. Pode ter a certeza absoluta de que não será um homem, porque o homem tem sido
tão cruel para os cavalos que o homem só pode ser concebido como um diabo, não como um
Deus. Mas então todos os animais terão a sua própria ideia de Deus, tal como cada raça humana
tem a sua própria ideia de Deus.

As ideias servem de substitutos onde a vida é misteriosa e você descobre hiatos que não podem
ser preenchidos pela realidade. Então você preenche esses intervalos com ideias; e finalmente
começa a sentir-se satisfeito porque a vida é compreendida.

Já alguma vez pensou nesta palavra compreender? Significa “estar debaixo de ti”. E estranho
que a palavra tenha acabado por adquirir um significado que está longe da ideia original: você é
o senhor de tudo aquilo que conseguir manter debaixo de si, isto é, em quem possa mandar, que
tenha debaixo do seu poder, debaixo dos seus pés.

As ideias servem de substitutos onde a vida é misteriosa e você descobre hiatos que não podem
ser preenchidos pela realidade. Então você preenche esses intervalos com ideias; e finalmente
começa a sentir-se satisfeito porque a vida é compreendida.
118

As pessoas têm procurado compreender a vida exactamente dessa maneira, por forma a
poderem também calcá-la debaixo dos seus pés e declararem: “Nós somos os senhores. Agora
não existe nada que nós não possamos compreender.”

Mas isso não é possível. Faça o que fizer, a vida é um mistério e vai continuar a ser um
mistério.

Existe um Além em todo o lado. Estamos rodeados pelo Além. Esse Além é aquilo que é Deus;
esse Além tem de ser penetrado. Ele está dentro, está fora, está sempre presente. E se você se
esquecer dele... como geralmente fazemos porque é muito desconfortável e inconveniente olhar
para dentro do Além. E como quando uma pessoa olha para um abismo e começa a tremer e a
ficar com tonturas. Basta ter consciência do abismo e começa logo a tremer. Ninguém olha para
o abismo; continuamos a olhar para outras direcções, continuamos a evitar o real. O real é como
um abismo, porque o real é um grande vazio. E céu imenso sem limites. O Buda diz:
Durangama — esteja disponível para o Além. Nunca fique confinado aos limites, transgrida
sempre os limites. Estabeleça os limites se precisar deles, mas lembre-se sempre de que tem de
sair deles. Nunca faça prisões.

Nós fazemos muitas espécies de prisões: relacionamento, convicção, religião — tudo isso são
prisões. A pessoa sente-se aconchegada porque nelas não sopram ventos violentos. A pessoa
sente-se protegida — embora a protecção seja falsa, porque a morte virá e arrastá-lo-á para o
Além. Antes que a morte venha e o arraste para o Além, vá de sua livre vontade.

Uma história:

Um monge Zen estava a morrer. Era muito velho, tinha noventa anos. De repente abriu os olhos
e disse: “Onde estão os meus sapatos?”

E o discípulo respondeu-lhe: “Onde é que tu vais? Enlouqueceste? Estás a morrer e o médico


disse que já não há mais esperança; só tens mais alguns minutos.”

E o monge respondeu-lhe: “É por isso mesmo que te estou a pedir os meus sapatos; gostaria de
ir para o cemitério, pois não quero ser arrastado para lá.
119

Irei pelo meu pé e esperarei lá pela morte. Não quero ser arrastado. E tu conheces-me — nunca
me apoiei em mais ninguém. Vai ser uma coisa muito feia, essa de quatro pessoas carregarem
comigo. Não quero.”

Foi a pé para o cemitério. E não só o foi, como também cavou a sua própria cova, deitou-se nela
e morreu. Semelhante coragem em aceitar o desconhecido, semelhante coragem de ir de sua
livre vontade e dar as boas-vindas ao desconhecido! Então a morte transforma-se, então a morte
deixa de ser morte.

Um homem tão corajoso como este nunca morre; a morte é derrotada. Um homem assim tão
corajoso passa para além da morte. Para aquele que vai de sua livre vontade para o Além, o
Além nunca é semelhante à morte. Então o Além dá-lhe as boas-vindas. Se der as boas-vindas
ao Além, o Além dá-lhe as boas-vindas a si; o Além é sempre um eco de si.

A Vida Existe Sempre na Natureza Selvagem

O ego cerca-o como uma muralha. E persuade-o de que ao cercá-lo o está a proteger. E essa é a
sedução do ego. Ele está constantemente a dizer-lhe: “Se eu não estiver presente, tu ficarás
muito desprotegido, ficarás demasiadamente vulnerável, e correrás muitíssimos perigos. Por
isso, deixa que eu te guarde, deixa que eu te cerque.”

Sim, é certo que existe uma certa protecção no ego, mas também a muralha se transforma na
sua prisão. Há uma determinada protecção, de outro modo ninguém sofreria as desgraças que o
ego traz. Há uma determinada protecção, o ego protege-o contra o inimigo — mas também o
protege contra os amigos.

E exactamente como se você fechasse a porta e se escondesse atrás dela com medo do inimigo.
Depois chega um amigo, mas a porta está fechada e ele não pode entrar. Se tiver muito medo do
inimigo, então o amigo também não poderá entrar em si. E se você abrir a porta ao amigo,
haverá também perigo de o inimigo entrar.
120

Temos de reflectir muito nisto; é um dos maiores problemas que há na vida. E são muito poucas
as pessoas corajosas que procuram resolvê-lo correctamente; as outras, acobardam-se e
escondem-se e, depois, toda a sua vida se perde.

A vida é arriscada, na morte não existe nenhum risco. Morra, e não terá problemas e ninguém o
matará, porque como é que alguém o pode matar se você já está morto? Desça ao túmulo e
acabe com tudo! E que então deixa de haver doenças, deixa de haver ansiedade, deixa de haver
problemas — vê-se livre de todos os problemas.

Mas se estiver vivo, então terá milhões de problemas. Quanto mais viva a pessoa está, mais
problemas tem. Mas não há nada de errado nisso, porque é lutando contra os problemas, é
combatendo o desafio, que você cresce.

O ego é uma muralha subtil que o rodeia. Não permite que ninguém entre em si. Você sente-se
protegido, em segurança, mas essa segurança é semelhante à morte. E a segurança da planta
dentro da semente. A planta tem medo de germinar porque — quem sabe? — o mundo é tão
incerto e a planta será tão tenra, tão frágil. Atrás da muralha da semente, escondida dentro da
célula, fica tudo protegido.

Ou pense numa criança no ventre da mãe. Está tudo ali, seja qual for a necessidade da criança,
ela é imediatamente satisfeita. Não há nenhuma ansiedade, nenhuma luta, nenhum futuro. A
criança vive simplesmente na bem-aventurança. Todas as necessidades são satisfeitas pela mãe.

Mas gostaria de ficar para sempre no ventre da sua mãe? E muito protector. Se lhe fosse dado
escolher, escolheria ficar para sempre no ventre da sua mãe? E muito confortável, que maior
conforto pode existir? Dizem os cientistas que ainda não fomos capazes de criar uma situação
mais confortável do que o ventre materno.

Quanto mais viva a pessoa está, mais problemas tem. Mas não há nada

de errado nisso, porque é a lutar com problemas, é a combater com o desafio, é assim que você
cresce.
121

O ventre parece ser o conforto por excelência. E mesmo muito confortável — não há ansiedade,
nem problemas, nem necessidade de trabalhar. Apenas pura existência. E tudo é
automaticamente fornecido. Nem sequer é preciso respirar — a mãe respira pelo filho. Não há
preocupações com a alimentação — a mãe come pelo filho.

Mas gostaria de ficar no ventre da sua mãe? Pode ser confortável, mas não é vida. A vida é
sempre na natureza selvagem. A vida é lá fora.

A palavra êxtase é muito, muito significativa. Significa ficar de fora. Êxtase significa sair — de
todas as conchas, de todas as protecções e de todos os egos e de todos os confortos, tudo isso
são muralhas semelhantes à morte. Estar em êxtase significa sair, ser livre, movimentar-se, ser
um processo, ser vulnerável de forma a que os ventos possam soprar e passar através de si.

Temos uma expressão que por vezes dizemos: “Essa experiência sai fora do comum.” Esse é
exactamente o significado de êxtase: sair fora do comum.

Quando uma semente rompe e a luz escondida dentro das estrelas se manifesta, quando uma
criança nasce, deixando para trás o ventre materno e todos os confortos e todas as vantagens, e
entra no mundo desconhecido — isso é êxtase. Quando uma ave parte o ovo e se eleva nos
céus, isso é êxtase.

O ego é o ovo, e você tem de sair da casca. Entre em êxtase. Saia para fora de todas as
protecções e de todas as cascas e de todas as seguranças. Só então alcançará o mundo mais
vasto, a imensidão, o infinito. Só então viverá, e viverá plenamente.

Contudo, o medo mutila-o. A criança, antes de sair do ventre, talvez se sinta, também, hesitante
sobre se deverá ou não sair. Ser ou não ser? Talvez dê um passo em frente e outro passo para
trás. Talvez seja por isso que a mãe sente tantas dores. A criança está hesitante, a criança ainda
não está pronta para entrar em êxtase. O passado puxa-a para trás, o futuro chama-a para a
frente, e a criança fica dividida.
122

É essa a muralha de indecisão, do agarrar-se ao passado e ao ego. E você anda com ela para
todo o lado. As vezes, em raros momentos, quando está muito desperto e vigilante, poderá ser
capaz de a ver. Caso contrário, embora ela seja uma muralha muito transparente, não será capaz
de a ver. Uma pessoa pode viver toda uma vida — e não apenas uma, mas muitas vidas — sem
se dar conta de que está a viver dentro de uma célula, fechada em toda a volta e sem janelas,
aquilo a que Leibniz chamava “mónada”. Sem portas, sem janelas, simplesmente encerrada
dentro dela — mas é uma muralha de vidro, transparente.

Este ego tem de ser abandonado. Tem de se arranjar coragem para o estilhaçar no chão. As
pessoas continuam a alimentá-lo de milhões de maneiras, não sabendo que estão alimentar o
seu próprio inferno.

A senhora Cochrane encontrava-se, de pé, ao lado do caixão do marido. O filho estava a seu
lado. Uma a uma, as pessoas passavam em revista.

“Ele agora já não sofre”, disse a senhora Croy. “De que é que ele morreu?”

“Pobre homem”, respondeu a senhora Cochrane. “Morreu de gonorreia!”

Uma outra mulher, olhou fixamente para o cadáver. “Já está livre disto tudo”, disse ela. “Até
tem um sorriso de serenidade no rosto. De que é que ele morreu?”

“Morreu de gonorreia!”, respondeu a viúva.

Subitamente, o filho chamou-a de lado. “Mãe”, disse ele, “dizer isso do pai é uma coisa terrível.
Ele não morreu de gonorreia. Ele morreu de diarreia!”

Este ego tem de ser abandonado. Tem de se arranjar coragem para o estilhaçar no chão. As
pessoas continuam a alimentá-lo de milhões de maneiras, não sabendo que estão alimentar o
seu próprio inferno.
123

“Isso sei eu!”, exclamou a senhora Cochrane. “Mas eu prefiro que as pessoas pensem que ele
morreu como um fulano normal do que como a porcaria que ele era!”

Continuam a jogar, mesmo até ao fim.

O ego não permite que seja verdadeiro, continua a forçá-lo a ser falso. O ego é a mentira, mas
isso a pessoa é que tem de decidir. E preciso ter muita coragem, porque com ela estilhaça-se
tudo o que tem acarinhado até agora. Estilhaçará todo o seu passado. Com ela, você ficará
completamente estilhaçado. Alguém estará presente, mas você não será essa pessoa. Uma
entidade descontínua erguer-se-á dentro de si — nova, não corrompida pelo passado. Então não
haverá nenhuma muralha; por isso, onde quer que esteja, verá o infinito sem quaisquer limites.

Um velho, ao entrar no seu bar preferido, verificou que a empregada fora substituída por uma
estranha. Ao princípio ficou desorientado, mas depois disse-lhe com galantearia que ela era “a
rapariga mais bonita que ali aparecia desde há muito tempo”.

A nova empregada, do tipo altivo, fez um movimento de desprezo com a cabeça e respondeu
com azedume: “Lamento não poder retribuir-lhe o cumprimento.”

“Então, minha querida”, respondeu o velho placidamente, “não podias ter feito como eu? Não
podias ter mentido?”

Todas as nossas formalidades servem apenas para alimentar o ego uns dos outros. Ela são
mentiras. Você diz uma coisa a alguém que lhe retribui o cumprimento. Nenhum dos dois é
verdadeiro. Estamos sempre a jogar um jogo: etiqueta, formalidades, rostos e máscaras
civilizados.

Depois, terá de encarar a muralha. E, a pouco e pouco, a muralha fica tão espessa que deixará
de ser capaz de ver alguma coisa. A muralha continua a engrossar de dia para dia — por isso
não espere. Se chegou ao ponto de sentir que anda a carregar a muralha consigo, deixe-a cair!
124

Salte para fora dela! Tudo o que é preciso é tomar a decisão de saltar para fora dela, nada mais.
Então, deixe de a alimentar a partir de amanhã. Dentro de poucos dias verá que ela terá
morrido, porque ela precisa do seu apoio constante, precisa de ser amamentada.

A Coragem Fundamental: Sem Princípio e Sem Fim

Existem muitos medos, mas todos eles são basicamente ramificações de um medo, ramos de
uma árvore. O nome da árvore é morte. Talvez não se dê conta de que esse medo está
relacionado com a morte; no entanto, todos os medos estão relacionados com a morte.

O medo é apenas uma sombra. Talvez não seja aparente que tem medo de ir à falência, mas tem
verdadeiramente medo de ficar sem dinheiro e assim se tornar mais vulnerável à morte. As
pessoas continuam a agarrar-se ao dinheiro como uma protecção, embora saibam perfeitamente
que não existe nenhuma maneira de se proteger da morte. E, no entanto, alguma coisa tem de
ser feita. Pelo menos isso mantém-no ocupado e manter--se ocupado é uma espécie de
inconsciência, é uma espécie de droga.

Daí que, tal como há alcoólicos, também há workaholics. Estão permanentemente envolvidos
em algum trabalho; não conseguem deixar de trabalhar. As férias são terríveis; não conseguem
ficar sentados em silêncio. Talvez comecem a ler os mesmos jornais que já leram três vezes
nessa manhã. Querem ficar ocupados, porque isso ergue uma cortina entre si próprios e a morte.
Mas, reduzido à sua essência, só tem medo da morte.

E significativo compreender que todos os outros medos são apenas ramificações, porque então
alguma coisa pode ser feita se conhecer as suas raízes. Se a morte é o medo básico e
fundamental, então só há uma única coisa que o pode tornar destemido: sentir dentro de si uma
consciência imortal.
125

Nada mais — nem dinheiro, nem poder, nem prestígio —, nada pode ser um seguro contra a
morte, excepto uma meditação profunda... que lhe revela que o seu corpo morrerá, a sua mente
morrerá, mas você existe para além da estrutura corpo-mente. O seu âmago essencial, a sua
fonte essencial de vida já estava aqui antes de si e ficará depois de si. Tomou várias formas;
evoluiu através de muitas formas. Mas nunca desapareceu desde o seu princípio — se é que
houve algum princípio. E nunca desaparecerá até ao fim, se é que vai haver algum fim... porque
eu não acredito em nenhum princípio nem em nenhum fim.

A existência não tem princípio nem fim. Esteve sempre aqui e você esteve sempre aqui. As
formas poderão ter sido diferentes; as formas têm sido diferentes mesmo nesta vida.

No primeiro dia em que entrou no ventre da sua mãe, não era maior do que o pontinho por
baixo do seu ponto de interrogação. Se lhe mostrarem uma fotografia, não reconhecerá o que
aquilo é. E de facto, mesmo antes disso...

Duas pessoas estavam a discutir sobre quanto tempo podiam voltar atrás, desde quando é que
tinham recordações. Uma delas podia lembrar-se de quando tinha três anos de idade. A outra
disse: “Isso não é nada. Eu lembro-me do dia em que o meu pai e a minha mãe fizeram um
piquenique. Quando fomos para o piquenique, eu ia dentro do meu pai. Quando voltámos do
piquenique eu estava dentro da minha mãe!”

Consegue reconhecer-se como era quando estava no seu pai? Podem mostrar-lhe uma
fotografia; pode ser ampliada por forma a que possa ver com os seus olhos nus, mas não se
reconhecerá. No entanto, é a mesma vida-forma, a mesma fonte de vida que palpita dentro de si
neste momento exacto.

Você está a mudar todos os dias. Mesmo quando acabou de nascer, apenas com um dia, nem
isso será capaz de reconhecer. Dirá: “Meu Deus, este sou eu?” Tudo mudará; envelhecerá, a
juventude passa. A infanda já a perdeu há muito tempo e a morte virá. Mas ela virá apenas para
a forma, não para a essência. E tudo o que tem mudado ao longo da sua vida tem sido apenas a
forma.
126

A sua forma está em permanente mudança. E a morte não é mais do que uma mudança, uma
mudança um pouco maior, uma mudança mais rápida. Desde a infanda à adolescência... você
não sabe quando a infância o deixou e você se tornou adolescente. Da adolescência à velhice...
as coisas decorrem de uma maneira tão gradual, que nunca sabe em que data, em que dia, em
que ano a adolescência o deixou. A mudança é gradual e muito lenta.

A morte é um salto quântico de um corpo, de uma forma para outra forma. Mas não é um fim
para si.

Você nunca nasceu e nunca morrerá.

Você esteve sempre aqui. As formas vêm e vão e o rio da vida continua. A menos que viva esta
experiência, o medo da morte não o deixará. Só a meditação... só a meditação o pode ajudar.

Eu posso dizê-lo; todas as escrituras o podem dizer, mas isso não ajudará; uma dúvida poderá
ficar. Quem sabe, talvez essas pessoas tenham mentido, ou talvez essas pessoas se tenham
estado a enganar a si próprias. Ou talvez essas pessoas tenham sido enganadas por outra
literatura, por outros mestres. E se tiver uma dúvida, o medo surgirá.

A meditação põe-no frente a frente com a realidade.

Assim que souber o que é a vida, nunca mais terá preocupações com a morte.

Você pode ultrapassá-la... Está dentro do seu poder e é um direito seu. Mas terá de fazer o
pequeno esforço de passar da mente para a não-mente.

NO MOMENTO EM QUE A CRIANÇA NASCE, PENSA VOCÊ, É O COMEÇO da sua vida.


Isso não é verdade. No momento em que um homem velho morre, pensa você, é o fim da sua
vida. A vida é, de longe, maior do que o nascimento e a morte. O nascimento e a morte não são
duas extremidades da vida; muitos nascimentos e muitas mortes acontecem dentro da vida.

A morte é um salto quântico de um corpo, de uma forma para outra forma. Mas não é um fim
para si. Você nunca nasceu e nunca morrerá.
127

A vida em si própria não tem começo nem fim; vida e eternidade são equivalentes. Mas você
não pode compreender facilmente como a vida se pode transformar em morte; até admitir isso é
impossível.

Existem alguns inconcebíveis no mundo, e um deles é que você não consegue conceber a ideia
de a vida se transformar na morte. Em que ponto deixa de ser vida e se torna morte? Onde
poderá você traçar a linha? Nem mesmo pode marcar a linha para o nascimento, quando a vida
começa: é quando a criança nasce ou quando a criança é concebida? Mas, mesmo antes da
concepção, o óvulo da mãe estava vivo, o esperma do pai estava vivo — não estavam mortos,
porque o encontro de duas coisas mortas não pode criar vida. Em que ponto nasceu a criança? A
ciência não foi capaz de tomar uma decisão. Não há qualquer maneira de tomar uma decisão
porque os óvulos que a mãe transporta, transporta-os desde o seu próprio nascimento...

Uma coisa tem de aceitar, é que uma metade do seu ser estava viva na sua mãe, mesmo antes de
ser concebido. E uma metade de si tem de ser contributo do seu pai — e também tem de ser um
contributo vivo. Quando os espermatozóides deixam o corpo do seu pai, estão vivos — mas a
sua vida não é longa, só têm duas horas de vida. Durante duas horas, eles encontraram-se com o
óvulo da sua mãe. Se durante as duas horas não houver encontro, se eles começarem a vadiar
por aqui e por ali...

E absolutamente certo que cada espermatozóide deve ter a sua própria personalidade
característica. Alguns deles são preguiçosos; enquanto outros se lançam sobre o óvulo, eles
simplesmente dão o seu passeio matinal. Desta forma nunca vão conseguir atingir o alvo, mas
que podem eles fazer? Tais características estão presentes desde o seu nascimento: não
conseguem correr, preferem morrer; e nem sequer se dão conta de que é isso que vai acontecer.

Mas há outros que são simplesmente corredores olímpicos, começam logo a correr e muito
depressa.
128

E a competição é grande porque não se trata de uma questão de algumas centenas de células a
correr em direcção ao único óvulo da mãe... A mãe tem um reservatório de óvulos, que é
limitado e que só liberta um óvulo por mês. É por isso que ela tem o seu período mensal; todos
os meses é libertado um óvulo. Por isso apenas um fulano de entre toda aquela multidão, que
consiste em milhões de células vivas... é na verdade um grande problema filosófico!

Não é nada, é unicamente biologia, porque o problema é que, de entre tantos milhões de
pessoas, só uma pessoa pode nascer. E quem eram todos aqueles outros milhões que não
conseguiram penetrar no óvulo da mãe? Isto tem sido usado, na índia, por intelectuais hindus,
pânditas, shankaracharyas, como um dos argumentos contra o controlo da natalidade.

A índia é esperta no que toca a argumentação. O Papa anda sempre a falar contra o controlo da
natalidade, mas não produziu ainda um único argumento. Pelos menos na índia, a sua contra-
parte produziu alguns argumentos aparentemente muito válidos. Um dos seus argumentos é:
quantos filhos se deve ter? — dois filhos, três filhos? Dizem que Rabindranath Tagore foi o
décimo terceiro filho de seus pais; se eles tivessem praticado o controlo da natalidade, não teria
havido Rabindranath.

O argumento parece válido, porque o controlo de natalidade significa parar ao segundo, quando
muito ao terceiro filho: não corra riscos, a pessoa pode morrer ou pode acontecer alguma coisa.
Você pode reproduzir duas crianças para o substituir a si e à sua mulher, e assim não haverá
aumento da população; mas Rabindranath foi o décimo terceiro filho dos seus pais. Se eles
tivessem parado, nem que fosse ao décimo segundo, então Rabindranath teria também perdido
o comboio. Agora, quantos Rabindranath estarão a perder o comboio?

Um dia, estava eu a falar com um dos shankaracharyas e disse--lhe: “Perfeitamente correcto;


pelo amor do argumento, aceito que isso seja verdade: teríamos perdido um Rabindranath
Tagore. Mas eu estou disposto a perdê-lo. Se o país inteiro puder viver em paz, puder ter
comida suficiente, puder ter roupa suficiente, puder ter todas as necessidades básicas satisfeitas,
penso que vale a pena.
129

Por mim, estou pronto a perder um Rabindranath Tagore, não é nada de mais. Você tem de olhar
para o saldo: milhões de pessoas a morrer e a passarem fome só para produzir um Rabindranath
Tagore? Então quer dizer que todos os pais têm de chegar aos treze? Mas então e o décimo
quarto? E o décimo quinto?”

E esqueça todos estes números pequenos; em cada acto sexual, um homem liberta milhões de
espermatozóides — e nem todas as vezes que um homem faz amor concebe uma criança.
Milhões de pessoas desaparecem simplesmente em cada acto sexual. Nunca saberemos quantos
prémios Nobel, quanto presidentes, primeiros-ministros se encontravam presentes... devia haver
lá toda a espécie de pessoas.

Portanto, os meus cálculos são estes: se desde os catorze anos e até aos quarenta e dois anos de
idade, um homem se dedicar de uma maneira absolutamente normal ao acto sexual, libertará
uma quantidade de espermatozóides praticamente igual a toda a população da Terra. Um único
homem pode povoar toda a Terra — sobrepovoá-la! — e ela já está sobrepovoada. E todas essas
pessoas serão indivíduos únicos, sem nada de comum a não ser a sua humanidade.

Não, a vida também não começa aí; a vida começa bem mais atrás. Mas para si, isso não passa
de uma hipótese — para mim é uma experiência. A vida começa no ponto da morte da sua
última vida. Quando morre, fecha-se um capítulo da vida — que as pessoas pensam ser toda a
sua vida. Era apenas um capítulo de um livro que tem um número infinito de capítulos. Fecha-
se um capítulo, mas não se fecha o livro. Basta voltar a página e outro capítulo começa.

A pessoa moribunda começa a visualizar a sua próxima vida. É um facto conhecido, porque
acontece antes de o capítulo se fechar. De vez em quando, uma pessoa volta cá a partir
exactamente do último ponto. Por exemplo, alguém que está a afogar-se, mas é salvo no último
instante.
130

Encontra-se praticamente em coma; a água tem de ser expelida, tem de lhe ser feita respiração
artificial e ele acaba por ser salvo. Esteve apenas à beira de fechar o capítulo. Pessoas dessas
têm contado factos interessantes.

Uma é que, no último momento, quando sentiram que estavam a morrer, que estava tudo
acabado, toda a sua vida passou rapidamente diante delas, num abrir e fechar de olhos — desde
o seu nascimento até àquele momento. Numa fracção de segundo viram tudo o que lhes tinha
acontecido, aquilo de que se lembravam, mas também aquilo de que nunca se lembravam;
muitas coisas que nem sequer haviam notado e que não tinham consciência de fazerem parte da
sua memória. O filme inteiro da memória passa muito rapidamente, como um relâmpago — e
tem de ser numa fracção de segundo porque o homem está a morrer, já não há mais tempo para
ver o filme todo.

E mesmo que veja o filme todo você não consegue narrar toda a vida de um homem em todos
os seus pequenos e insignificantes pormenores. Contudo, tudo passa diante dele — isso é uma
certeza, é um fenómeno muito significativo. Antes de terminar o capítulo, ele recorda-se de
todas as suas experiências, dos seus desejos por realizar, das suas expectativas, dos seus
desapontamentos, frustrações, sofrimentos, alegrias — de tudo.

O Buda tem uma palavra para isso, chama-lhe tanha. Literalmente, significa desejo, mas
metaforicamente significa a vida inteira do desejo. Todas essas coisas aconteceram —
frustrações, satisfações, desapontamentos, sucessos, insucessos — mas tudo isso aconteceu
dentro de uma arena a que se pode dar o nome de desejo.

O moribundo tem de ver tudo isso antes de passar à frente, simplesmente para o rememorar,
porque o seu corpo vai partir: e esta mente não vai ficar com ele, este cérebro não vai
acompanhá-lo. Mas os seus desejos, libertados pela mente, agarrar-se-ão à sua alma, e esses
desejos determinarão a sua vida futura. Seja o que for que ficou por satisfazer, ele dirigir-se-á
para esse alvo.

A sua vida começa muito antes do seu nascimento, muito antes de a sua mãe engravidar, muito
antes, no fim da sua vida passada.
131

E esse fim é o princípio desta vida. Um capítulo fecha-se, um outro capítulo se abre. E agora,
como é que noventa por cento desta sua nova vida será determinada pelo último momento da
sua morte? Então aquilo que colheu, aquilo que trouxe consigo como semente — é uma
semente que se tornará árvore, e dará frutos e flores, ou seja o que for que lhe acontecer. Você
não o pode ver na semente, mas a semente contém em si a matriz inteira.

E possível que um dia a ciência seja capaz de ler o programa todo na semente — que espécie de
ramos a árvore vai dar, quanto tempo a árvore vai viver, o que vai acontecer à árvore. Porque a
matriz está lá, só que nós não conhecemos a sua linguagem. Tudo o que vai acontecer já está
potencialmente presente.

Por isso, aquilo que faz no momento da sua morte determina como vai ser o seu nascimento. A
maior parte das pessoas morre agarrando-se à vida. Não querem morrer, e pode-se compreender
porque é que não querem morrer. Só no momento da morte é que elas compreendem que, de
facto, não viveram. A vida passou como um sonho e a morte chegou. Agora já não há mais
tempo para viver — a morte bate-lhes à porta. E quando havia tempo para viver, você fez mil e
uma coisas disparatadas, desperdiçando o seu tempo em vez de o viver. Perguntei a pessoas que
jogam às cartas e que jogam xadrez: “O que estão vocês a fazer?”

Responderam-me: “A matar o tempo.”

Desde a minha meninice que sou contra esta expressão “matar o tempo”. O meu avô era um
grande jogador de xadrez, e eu costumava dizer-lhe: “Estás a ficar velho e continuas a matar o
tempo. Não vês que, na realidade, é o tempo que te está a matar a ti? E tu continuas a dizer que
estás a matar o tempo. Tu nem sequer sabes o que é o tempo, não sabes onde ele está. Vamos,
pega nele e mostra-mo.”

A maior parte das pessoas morre agarrando-se à vida.

Não querem morrer, e pode-se compreender porque é que não querem morrer.

Só no momento da morte é que elas compreendem que, de facto, não viveram.


132

Todas estas expressões de que o tempo está a voar, a passar e a sumir-se são apenas uma
espécie de consolação. Na verdade, é você que está a passar — a ir permanentemente pelo cano
abaixo. E continua a pensar que é o tempo que está a passar, como se você fosse ficar e o tempo
fosse passar! O tempo está onde está; não está a passar. O homem criou todo o tipo de relógios
para medir a passagem do tempo, o qual não está de maneira nenhuma a passar.

Na índia, no Punjabe, se viajar no Punjabe nunca pergunte a ninguém: “Que horas são?”,
porque, se por acaso forem doze horas, será muito maltratado e só por grande milagre escapará
com vida. E tudo por uma simples razão filosófica — mas quando a filosofia chega às mãos de
loucos, acontecem coisas destas.

Nanak, fundador do sikhismo, disse que o momento de “samadhi”, ou iluminação, é


exactamente como quando os dois ponteiros do relógio se juntam nas doze horas, deixando
então de ser dois. Ele estava apenas a dar um exemplo — que, no momento de samadhi, a
dualidade do seu ser se dissolve e você alcança a unicidade. O mesmo acontece também na
morte. Ele explicou mais tarde que o mesmo acontece na morte: novamente dois ponteiros que
se moveram separadamente, juntam-se e param, ficando um só: torna-se um com a existência.

E por isso que no Punjabe as doze horas se tornaram o símbolo da morte. Portanto, se perguntar
a qualquer sardarji: “Que horas são?” e, se por acaso, forem doze, ele começará simplesmente a
bater-lhe porque isso significa que está a gozar com ele e lhe está a desejar a morte. No
Punjabe, quando alguém está com ar deprimido, infeliz, angustiado, diz-se que “Tem as doze
horas no rosto”. Vi sardars mudarem rapidamente os seus relógios: quando chegam as doze
horas, adiantam-no rapidamente cinco minutos. Não permitem que ele fique nas doze horas;
dói--lhes que o seu próprio relógio lhes esteja a pregar uma partida. O doze faz-lhes apenas
lembrar desgraças, tristezas, morte; esqueceram-se completamente de samadhi, que era o que
Nanak estava na verdade a tentar explicar-lhes.
133

Quando alguém está a morrer — quando estão a chegar as suas doze horas — agarra-se à vida.
Durante toda a sua vida pensou que o tempo estava a passar; e agora vê que é ele que está a
passar, que já passou. De nada lhe serve agarrar-se à vida. Sente-se muito desgraçado, e a
desgraça torna-se tão insuportável que uma grande parte das pessoas cai numa espécie de estado
inconsciente, em coma. E perdem assim a oportunidade de rememorarem toda a sua vida.

Se a morte acontecer sem a pessoa se agarrar à vida, se não houver desejo de continuar vivo,
nem que seja por um instante mais, morrerá consciente, porque não há a necessidade de a
natureza o tornar inconsciente ou de o forçar a entrar em coma. Morrerá vigilante e rememorará
todo o seu passado. Será capaz de compreender que tudo aquilo que fez não passou de uma
simples estupidez.

Os desejos foram satisfeitos — que ganhou você com isso? Os desejos não foram satisfeitos e
você sofreu, mas que ganhou você quando eles foram satisfeitos? E um jogo estranho, do qual
sai sempre a perder, em que ganhar ou perder não faz qualquer diferença.

Os seus prazeres nada são, simples assinaturas feitas na água, e o seu sofrimento foi gravado em
granito. E você sofreu toda essa dor por causa dessas assinaturas feitas na água. Sofreu toda a
sua vida por causa das pequenas alegrias que não parecem ser mais do que brinquedos nesta
fase, a partir deste ponto em que pode ver todo o vale da sua vida. Os sucessos também foram
fracassos. E evidente que os fracassos foram fracassos, e os prazeres nada mais foram do que
incentivos para sofrer a dor.

Toda a sua euforia era apenas uma função da sua faculdade de sonhar. Vai partir de mãos vazias.

Se a morte acontecer sem a pessoa se agarrar à vida, se não houver desejo de continuar vivo,
nem que seja por um instante mais, morrerá consciente, porque não há a necessidade de a
natureza o tornar inconsciente ou de o forçar a entrar em coma.
134

Toda a sua vida não passou de um círculo vicioso: continuou a girar no mesmo círculo, sempre
às voltas e reviravoltas. E não chegou a lado nenhum, porque, se andar em círculo, como pode
você chegar a algum lado? O centro esteve sempre à mesma distância, sempre que se
encontrava no círculo.

O sucesso veio, o fracasso veio; o prazer veio, a dor veio; houve infelicidade e houve alegria.
Tudo continuou a acontecer no círculo, mas o centro do seu ser permaneceu sempre
equidistante de todos os lugares. Foi difícil ver enquanto esteve no círculo — estava por de
mais envolvido nele, fazia por de mais parte dele. Mas agora, subitamente, tudo lhe caiu das
mãos — está vazio.

Kahlil Gibran, na sua obra-prima O Profeta, tem uma frase... Al-Mustafá, o profeta, chega a
correr e diz para as pessoas que trabalham nas quintas: “O meu navio chegou, é chegado o meu
tempo de partir. Vim até aqui unicamente para dar uma vista de olhos a tudo aquilo que me
aconteceu e a tudo aquilo que não me aconteceu. Antes de entrar no navio, tive uma grande
vontade de vir ver o que foi a minha vida aqui.”

A frase que eu ia citar é... ele diz: “Eu sou exactamente como um rio que vai desaguar no
oceano. O rio olha durante um momento para trás, para todo o terreno que percorreu — selvas,
montanhas, pessoas. Foi uma vida rica de milhares de quilómetros e, agora, num único instante,
vai tudo dissolver-se. Por isso, tal como um rio à beira de entrar no oceano, olha para trás, eu
quero olhar para trás.”

Contudo, este olhar para trás só é possível se não estiver agarrado ao passado; caso contrário,
terá tanto medo de o perder que não tem tempo para observar, para ver. E o tempo é apenas uma
fracção de segundo. Se um homem morrer plenamente vigilante, vendo todo o terreno por onde
passou e vendo toda a sua estupidez, nascerá com vivacidade, com inteligência, com coragem
— automaticamente. Não é nada que ele faça.

Há pessoas que me dizem: “Mesmo em criança, você era perspicaz, corajoso, inteligente; eu
nem agora sou corajoso...” A razão é que eu morri na minha última vida de maneira diferente da
sua.
135

E isso faz uma grande diferença, porque da maneira como morre, da mesma maneira nasce. A
sua morte é um dos lados da medalha, o seu nascimento é o outro lado da mesma medalha.

Se no outro lado houve confusão, desgraça, angústia, agarrar-se à vida, desejo, então neste lado
da medalha não pode esperar ter perspicácia, inteligência, coragem, clareza, consciência. Isso é
absolutamente impossível; não pode esperar isso.

E por essa razão que é muito simples, mas também difícil, explicar-lhe por que razão eu não fiz
nada nesta vida para ser corajoso ou para ser perspicaz e inteligente desde o princípio. E eu
nunca pensei nisso como coragem ou perspicácia ou inteligência.

Foi só mais tarde que, lentamente, me fui dando conta de como as pessoas são estúpidas. Foi só
uma reflexão posterior; antes, eu não me dava conta de que era corajoso. Pensava que toda a
gente devia ser assim. Só mais tarde se tornou claro que nem toda a gente é assim.

Quando comecei a crescer, comecei a dar-me conta da minha vida passada, e da minha morte, e
lembrei-me de como tinha morrido tão facilmente — e não só facilmente, mas também
entusiasticamente. O meu interesse era mais conhecer o desconhecido que tinha pela frente do
que saber aquilo que eu tinha visto. Nunca olhei para trás. E assim tem sido toda a minha
maneira de viver — não olhar para trás. Não vale a pena. Você não pode voltar atrás, portanto
porquê desperdiçar tempo? Eu estou sempre a olhar em frente. Até à beira da morte, eu olhava
em frente — e foi isso que me permitiu perceber porque é que eu estava a passar ao lado dos
travões que impedem as outras pessoas de fazerem coisas.

Esses travões são fornecidos pelo seu medo do desconhecido. Está agarrado ao passado e tem
medo de entrar no desconhecido. Está agarrado ao conhecido, ao familiar. Poderá ser doloroso,
poderá ser feio, mas, pelo menos, você conhece-lo. Criou uma certa amizade por ele.
136

Ficará surpreendido, mas esta é a minha experiência com milhares de pessoas: agarram-se à sua
desgraça pela simples razão de terem criado um certo tipo de amizade pela desgraça. Viveram
tanto tempo na sua companhia, que deixá-la agora será quase como um divórcio.

A situação é a mesma com o casamento e o divórcio. O homem pensa no divórcio pelo menos
doze vezes por dia; a mulher também pensa — mas, de uma maneira ou outra, ambos lá se vão
arranjando, vivendo juntos pela simples razão de que ambos têm medo do desconhecido. Este
homem é mau, é certo, mas quem sabe como será o outro homem? — poderá ser ainda pior. E
pelo menos você já está acostumada a este homem, à sua maldade, à sua falta de carinho, e
acaba por tolerar bem isso. Tolerou-o, e também ficou mais insensível. Com um outro homem,
nunca se sabe; poderá ter de recomeçar tudo do zero. Por isso, as pessoas continuam a agarrar-
se ao que já conhecem.

Basta olhar para as pessoas na hora da morte. O seu sofrimento não é a morte. A morte não
contém em si a dor, é absolutamente indolor. Na verdade, é mesmo prazerosa; é exactamente
como um sono profundo. Acha que um sono profundo é uma coisa dolorosa? Mas elas não
estão preocupadas com a morte, nem com o sono profundo, nem com o prazer; elas estão
preocupadas é com o conhecido que se lhes escapa das mãos. O seu medo significa apenas uma
coisa: perder o conhecido e entrar no desconhecido.

A coragem é exactamente o oposto do medo.

Deves estar sempre pronto a deixar cair o conhecido — mais do que disposto a deixá-lo cair —
sem sequer esperar que ele amadureça.

Esta é a minha experiência com milhares de pessoas: agarram-se à sua desgraça pela simples

razão de terem criado um certo tipo de amizade pela desgraça.

Viveram tanto tempo na sua companhia, que deixá-la agora será quase como um divórcio.
137

Salte simplesmente sobre algo que seja novo... a sua própria novidade, a sua própria frescura, é
muito atraente. Depois há a coragem.

O medo da morte é, sem dúvida, o maior dos medos e o mais destrutivo da sua coragem.

Portanto, só posso sugerir-lhe uma coisa. Agora não pode regressar à sua morte passada, mas
pode começar a fazer uma coisa: estar sempre pronto a mudar-se do conhecido para o
desconhecido. em tudo, em qualquer experiência.

É preferível, mesmo se o desconhecido provar ser pior do que o conhecido — não é isso que
importa. O que importa é mudar-se simplesmente do conhecido para o desconhecido, é a sua
prontidão em mudar-se do conhecido para o desconhecido. Isso é imensamente valioso. E em
todo o tipo de experiência, continue a fazer isso. Isso prepará-lo-á para a morte, porque quando
a morte chegar você não poderá decidir de repente: “Eu escolho a morte e deixo a vida.” Tais
decisões não se tomam de repente.

Tem de ir passo a passo, preparando-se, vivendo momento a momento. E, à medida que se vai
tornando mais familiar com a beleza do desconhecido, começa a criar uma nova qualidade
dentro de si. Ela está lá, só que nunca foi usada. Antes da morte chegar, continue a mudar-se do
conhecido para o desconhecido. Lembre-se sempre de que o novo é melhor do que o velho.

Dizem que nem tudo o que é antigo é de ouro. Pois eu digo-lhe: mesmo que tudo o que é velho
seja de ouro, esqueça-o. Escolha o novo — ouro ou não ouro, não importa. O que importa é a
sua decisão: a sua decisão de aprender, a sua decisão de experimentar, a sua decisão de entrar na
escuridão. Lenta, lentamente, a sua coragem começará a funcionar. E a argúcia da inteligência
não é uma coisa separada da coragem, fazem um todo orgânico.

Mesmo que tudo o que é velho seja de ouro, esqueça-o.

Escolha o novo — ouro ou não ouro, não importa.


138

A cobardia está associada ao medo e está-se sujeito a haver atraso da mente e mediocridade.
Estão todos juntos, apoiam-se uns aos outros. Com a coragem vem a argúcia, a inteligência, a
abertura, uma mente sem preconceitos, a capacidade de aprender — todas elas vêm juntas.

Comece por fazer um exercício simples: quando tiver de escolher, escolha o desconhecido, o
arriscado, o perigoso, o inseguro, e nunca terá problemas.

E só então... desta vez a morte pode tornar-se uma experiência tremendamente reveladora e
pode dar-lhe um vislumbre do seu novo nascimento — não apenas um vislumbre mas até
mesmo uma certa escolha. Consciente, poderá escolher uma determinada mãe, um determinado
pai. Regra geral, é tudo inconsciente, acidental, mas um homem que morre com consciência
nasce com consciência.

Pode perguntar uma coisa à minha mãe — por acaso ela está aqui... Quando nasci estive três
dias sem mamar, e todos se mostravam muito preocupados e ansiosos. Os médicos estavam
preocupados, porque como iria a criança sobreviver se se recusava simplesmente a beber leite?
Ora, eles não faziam a menor ideia das minhas dificuldades, das dificuldades que me estavam a
criar. Estavam a tentar forçar-me por todos os meios possíveis. E eu não tinha a menor
possibilidade de me explicar.

Na minha vida passada, eu estava a fazer jejum antes de morrer. Queria completar um jejum de
vinte e um dias, mas fui assassinado três dias antes de o ter completado. Esses três dias ficaram
na minha consciência até ao presente nascimento; eu tinha de completar o jejum. Sou mesmo
teimoso! Geralmente, as pessoas não transportam coisas de uma vida para a outra; uma vez
fechado um capítulo, está fechado.

Comece por fazer um exercício simples: quando tiver de escolher, escolha o desconhecido, o
arriscado, o perigoso, o inseguro, e nunca terá problemas.
139

Ora, durante três dias não conseguiram meter-me nada na boca; eu simplesmente rejeitava tudo.
Mas três dias depois, fiquei perfeitamente bem e todos ficaram surpreendidos: “Por que motivo
rejeitou ele o leite durante três dias? Não estava doente, não tinha qualquer problema — e três
dias depois ele está perfeitamente normal.” Para eles permaneceu um mistério. Mas eu não
quero falar destas coisas, porque para si são tudo hipóteses e eu não tenho maneira de as provar
cientificamente. E eu não quero impor-lhe nenhuma crença, portanto continue a cortar tudo o
que possa criar qualquer sistema de crenças na sua mente.

Você gosta de mim, confia em mim, portanto pode confiar em tudo o que eu lhe disser. Mas
insisto e volto a insistir, tudo aquilo que não se baseie na sua própria experiência aceite-o só
como hipótese. Não faça disso uma crença sua. Se por vezes lhe dou um exemplo, isso é por
pura necessidade — porque houve quem perguntasse: “Como é que conseguia ser tão corajoso e
tão arguto na sua infância?”

Eu não fiz nada, eu simplesmente continuei a fazer o que estava a fazer na minha última vida.

A coragem virá até si.

Comece simplesmente com uma fórmula simples: Nunca perca o desconhecido.

Escolha sempre o desconhecido e mergulhe de cabeça. Mesmo que sofra, vale a pena — vale
sempre a pena. Sairá dele mais crescido, mais maduro, mais inteligente.
EM BUSCA DA INTREPIDEZ

Técnicas de Meditação e Respostas a Perguntas

Toda a gente tem medo — tem de ter medo. A vida é de tal forma, que tem de se ter medo. E as
pessoas que se tomam intrépidas, deixam de ter medo não porque se tomaram valentes —
porque um homem valente apenas reprimiu o seu medo; não é verdadeiramente intrépido. Um
homem toma-se intrépido porque aceita os seus medos. Não é uma questão de valentia. E olhar
simplesmente para os factos da vida e compreender que esses medos são naturais. A pessoa
aceita-os!

O medo e o sentimento de culpa são a mesma coisa?

O medo e o sentimento de culpa não são a mesma coisa.

Quando é aceite, o medo transforma-se em liberdade; o medo negado, rejeitado, condenado,


transforma-se em sentimento de culpa. Se aceitar o medo como fazendo parte da situação...

Ele faz parte da situação. O homem é uma parte, uma parte muito pequena, pequeníssima, e o
todo é imenso: uma gota, uma gota muito pequenina, e o todo é o oceano inteiro. Surge um
temor: “Posso perder-me no todo; a minha identidade pode per-der-se.” Isto significa ter medo
da morte. Qualquer tipo de medo corresponde ao medo da morte. E o medo da morte é o medo
da aniquilação.
141

É natural que o homem sinta medo, trema de medo. Se o aceitar, se disser que a vida é assim
mesmo, se o aceitar totalmente, o temor pára imediatamente, e o medo — a mesma energia que
se estava a transformar em medo — desenrola-se e torna-se liberdade. Então sabe que, mesmo
que a gota desapareça no oceano, ela estará lá. De facto, ela torna-se o oceano inteiro. E então a
morte torna-se nirvana, e você deixa de ter medo de se perder. E compreenderá então a máxima
de Jesus: “Se salvares a tua vida, perdê-la-ás, se a perderes salvá-la-ás.”

A única maneira de ultrapassar a morte é aceitá-la. Ela então desaparece. A única maneira de ser
destemido é aceitar o medo. Então, a energia liberta-se e torna-se liberdade. Mas se o condenar,
se o reprimir, se esconder o facto de que tem medo — se vestir uma armadura e se proteger e
ficar na defensiva — então o sentimento de culpa aparece.

Tudo aquilo que for reprimido gera sentimentos de culpa; tudo aquilo que não for permitido cria
sentimentos de culpa; tudo aquilo que é contra a natureza cria sentimentos de culpa. E depois
sente-se culpado por andar a mentir aos outros e a mentir a si próprio. A essa falta de
autenticidade chama-se sentimento de culpa.

Você pergunta: “O medo e o sentimento de culpa são a mesma coisa?” Não. O medo pode ser
um sentimento de culpa, mas também pode não o ser. Depende daquilo que fizer com o medo.
Se fizer algo de errado com ele, ele transforma-se em sentimento de culpa. Se o aceitar
simplesmente e não fizer nada quanto a ele — e não há nada a fazer! —, então o medo
transforma-se em liberdade, torna-se temeridade.

A única maneira de ultrapassar a morte é aceitá-la.

Ela então desaparece. A única maneira de ser destemido é aceitar o medo. Então, a energia
liberta-se e toma-se liberdade. Mas se o condenar, se o reprimir, se esconder o facto de que tem
medo — se vestir uma armadura e se proteger e ficar na defensiva — então o sentimento de
culpa aparece.
142

Não diga para si próprio que é feio, que está errado, que é pecador. Não se condene. Seja como
for, você é. Não tenha sentimentos de culpa, não se sinta culpado. Mesmo que haja algo de
errado, você não está errado. Talvez tenha agido erradamente, mas o seu ser não fica errado por
causa disso. Algumas acções podem estar erradas, mas o ser está sempre certo.

No que me diz respeito, notei que estou sempre a tentar convencer os outros de que sou
importante e poderoso. Meditei nas razões para isto e penso que é medo.

O ego surge sempre do medo. Uma pessoa realmente destemida não tem ego. O ego é uma
protecção, uma armadura. Como tem medo, cria à sua volta uma impressão de que é fulano e
sicrano, este e aquele, certo? E então ninguém ousa prejudicá-lo; fora disso é basicamente
medo. Óptimo! Fez uma análise profunda e correcta. E ao ver a causa básica, as coisas tornam-
se muito simples. Caso contrário, as pessoas continuam a lutar com o ego — e o ego não é um
problema real. Então, está a combater um sintoma e não a doença verdadeira. A doença
verdadeira é o medo. Pode continuar a lutar com o ego e estará a passar ao lado do alvo, porque
o ego não é o inimigo verdadeiro, é um faz-de-conta. Mesmo que ganhe, não ganha tudo. E
você não pode ganhar — só se pode derrotar um inimigo verdadeiro, não um falso inimigo que
não existe de modo algum. E uma fachada. É como se tivesse uma ferida com mau aspecto e lhe
pusesse algum unguento.

Uma vez aconteceu eu estar em casa de um actor de cinema que tinha convidado muitas pessoas
para me conhecerem. Estava igualmente presente uma actriz que tinha um lindo relógio com
uma correia muito grande e muito bonita. Alguém sentou-se a seu lado e começou a fazer-lhe
perguntas sobre o relógio e ela ficou um pouco preocupada. Eu limitei-me a observar. O homem
queria ver o relógio — e ela não se mostrava disposta a tirá-lo. Mas o homem insistiu e ela teve
de tirar o relógio. Então vi qual era o problema.
143

Ela tinha uma grande mancha branca, uma mancha de lepra. Escondia a mancha de lepra sob a
corrente do lindo relógio. Agora estava exposta — e ela começou a suar e a ficar nervosa...

O ego é exactamente assim. O medo existe, mas ninguém quer mostrar o seu medo, porque, se
mostrar que tem medo, haverá muitas pessoas presentes que lhe provocarão ainda mais medo.
Assim que descobrirem que tem um medo profundo, todos começarão a bater-lhe fortemente.
Terão prazer em o humilhar, em descobrir que existe alguém mais fraco do que eles. As pessoas
sentem prazer em explorar, em repisar um indivíduo desses...

E por isso que todas as pessoas que sentem medo, criam bem no fundo um grande ego à volta
do medo e estão sempre a bombear mais ar para esse balão do ego que se torna demasiadamente
grande. Adolfo Hitler, Idi Amin do Uganda — esse tipo de gente fica muito inchada de orgulho.
Depois começa a meter medo aos outros. Alguém que tenta meter medo a alguém sabe que,
bem no fundo de si, também tem medo, caso contrário porquê? Qual é a razão? Quem é que se
iria preocupar em meter-lhe medo se ele próprio o não sentisse?

As pessoas que têm medo metem medo aos outros para se sentirem bem. Sabem muito bem que
então não lhes pode tocar, não pode ultrapassar as suas fronteiras.

Você fez uma boa análise — é exactamente esse o caso. Portanto, não lute contra o ego. Em vez
disso, analise o medo e tente aceitá-lo. O medo é natural, faz parte da vida. Não é preciso
escondê-lo; desse modo, não é preciso fingir. Ele existe — todos os seres humanos estão cheios
de medo. O medo faz parte da humanidade. Aceite-o e, no momento em que o aceita, o ego
desaparecerá, porque então deixa de haver razão para o ego estar presente.

As pessoas cheias de medo metem medo aos outros para se sentirem bem. Sabem muito bem
que então não as pode tocar, não pode ultrapassar as suas fronteiras.
144

Lutar contra o ego não ajudará; aceitar o medo ajudará imediatamente. Então saberá que sim,
que somos muito pequeninos num universo imenso — como é possível sentir medo? E a vida
está rodeada pela morte — como é possível não sentir medo? Podemos desaparecer a qualquer
momento — uma pequena coisa qualquer corre mal e nós desaparecemos — então como é
possível não termos medo? Quando você o aceita, a pouco e pouco o medo desaparece. Você
aceita o medo, toma-o por um dado adquirido — e pronto!

Portanto, não invente nada para o esconder. E se não inventar nada contra ele, ele simplesmente
diminui. Não lhe vou dizer que deixará de sentir qualquer tipo de medo, estou a dizer-lhe que
deixará de ter medo. O medo estará lá, mas você não terá medo. Está a entender-me? Sentir
medo significa que está contra o medo — você não quer que ele esteja presente, mas ele está lá.

Quando o aceita... Da mesma maneira que as árvores são verdes, a humanidade está cheia de
medo. Que fazer então? As árvores não se escondem. Toda a gente está sujeita a morrer. O
medo é a sombra da morte. Aceite-o!

Quando me encontro sozinho, consigo, de certo modo, descontrair-me e amar as pessoas, mas
assim que estou em presença delas, fico logo na defensiva.

E muito difícil amar as pessoas reais, porque nenhuma pessoa real satisfará as suas
expectativas. Não é suposto satisfazer. A pessoa não veio cá para satisfazer as expectativas de
ninguém; ela tem de viver a sua própria vida. E sempre que ela se move para algum lado que vá
contra si ou não esteja em sintonia com os seus sentimentos, as suas emoções, o seu ser, torna-
se muito difícil.

É muito fácil pensar no amor.

É muito difícil amar.

É muito simples amar o mundo inteiro.

A dificuldade real está em amar apenas um ser humano.


145

É muito fácil pensar no amor. É muito difícil amar. É muito simples amar o mundo inteiro. A
dificuldade real está em amar apenas um ser humano. E muito fácil amar Deus ou a
humanidade. O problema real surge quando se cruza com uma pessoa real e se encontra com
ela. Encontrar-se com ela é passar por uma grande mudança e enfrentar um grande desafio.

A pessoa não vai ser sua escrava nem você vai ser escravo dela. E aí que se levanta o verdadeiro
problema. Se você vai ser escravo ou ela vai ser escrava, então não há qualquer problema. O
problema levanta-se porque ninguém está cá para representar o papel de escravo — e ninguém
pode ser escravo. Toda a gente é um agente livre... todo o ser consiste em liberdade. O Homem
é liberdade.

Portanto, lembre-se: o problema é real, mas não tem nada a ver consigo pessoalmente. O
problema tem a ver com o fenómeno inteiro do amor. Não faça dele um problema pessoal, caso
contrário encontrará dificuldades. Toda a gente tem de enfrentar mais ou menos o mesmo
problema. Nunca encontrei ninguém que não tivesse dificuldades com o amor. Tem algo a ver
com o amor, com o próprio mundo do amor.

O próprio relacionamento leva-o às situações onde os problemas surgem, e é bom passar por
eles. No Oriente, as pessoas escaparam só por verem as dificuldades que havia nele.
Começaram a negar o seu amor, a rejeitar o seu amor. Ficaram sem amor e chamaram-lhe
desapego. A pouco e pouco, foram ficando insensíveis. O amor desapareceu quase por completo
do Oriente e só ficou a meditação.

A meditação significa que a pessoa se sente bem na sua solidão. A meditação significa que só se
relaciona consigo próprio. O seu círculo completa-se em si próprio; não sai dele. E evidente que
noventa por cento dos seus problemas ficam resolvidos — mas a um custo muito grande.
Sentir-se-á agora menos perturbado. O homem oriental vive menos ansioso, menos tenso, quase
que vive na sua própria cave interior, protegido, de olhos fechados. Não permite que a sua
energia circule. Faz um curto-circuito, um pequeno movimento de energia dentro do seu ser e
fica feliz.
146

Mas a sua felicidade está um pouco morta. A sua felicidade não é um rejubilar, não é uma
alegria.

Quando muito, poderá dizer que não é infelicidade. Quando muito, poderá falar dela pela
negativa, como se dissesse que é saudável porque não tem quaisquer doenças. Mas isso não é
uma saúde que preste. A saúde deveria ser algo de positivo, irradiando uma luz própria — e não
uma simples ausência de doença. Desse modo, até um corpo morto é saudável, porque não tem
qualquer doença.

Portanto, no Oriente temos tentado viver sem amor, renunciar ao mundo — que significa
renunciar ao amor —, renunciar à mulher, ao homem e a todas as possibilidades onde o amor
possa florir. Não é permitido aos monges jainistas, aos monges hindus e aos monges budistas
falarem com uma mulher quando estão sozinhos, tocarem numa mulher, nem sequer olhá-la de
frente. Quando alguma mulher lhes faz uma pergunta, eles são obrigados a olhar para baixo.
São obrigados a olhar para a ponta do nariz, para não a verem, nem mesmo por engano. Porque,
quem sabe, alguma campainha poderia tocar... e a pessoa fica praticamente impotente quando se
deixa enredar nas malhas do amor.

Não ficam em casa das pessoas e não ficam muito tempo num lugar para não se apegarem a
esse espaço ou às pessoas, para não amarem. Por isso, continuam a andar, errantes, e a evitar —
a evitar todos os relacionamentos. Alcançaram um certo equilíbrio. São pessoas impassíveis,
imperturbáveis perante o mundo, mas não são felizes, não se regozijam.

No Ocidente aconteceu exactamente o contrário. As pessoas tentaram encontrar a felicidade


através do amor, e provocaram grandes problemas. Perderam toda a oportunidade de contacto
consigo próprias. Afastaram-se tanto de si próprias que agora não sabem como regressar. Não
sabem onde fica o caminho, onde é a sua casa. Por isso sentem-se sem rumo, sem abrigo, e
estão sempre a esforçar-se por fazerem amor com esta mulher, com aquele homem —
heterossexual, homossexual...
147

Continuam a tentar de todos as maneiras e continuam a sentir-se vazias, porque só o amor lhes
poderá trazer a felicidade, mas nele não haverá qualquer silêncio. E quando há felicidade e não
há silêncio, novamente falta qualquer coisa.

Se for feliz sem o silêncio, a sua felicidade será semelhante a uma febre, a uma excitação...
muito barulho para nada. Esse estado febril criará muita tensão dentro de si e daí não virá nada
que preste, é só correr, só perseguir. E, um dia, a pessoa acaba por compreender que todo aquele
esforço não tinha fundamento, porque tem andado a tentar encontrar o outro mas ainda não se
encontrou a si própria.

Ambas as maneiras falharam. O Oriente falhou, porque tentou a meditação sem o amor. O
Ocidente falhou, porque tentou o amor sem a meditação. Esforço-me por lhe dar uma síntese, o
todo — e isso significa a conjugação da meditação com o amor. Uma pessoa deveria ser capaz
de ser feliz sozinha e também deveria ser capaz de ser feliz com as outras pessoas. Uma pessoa
deveria ser feliz por dentro e também deveria ser feliz nos seus relacionamentos. Uma pessoa
deveria construir uma casa bonita no interior e no exterior também. Deveria ter um jardim
bonito rodeando a sua casa e também um quarto muito bonito. O jardim não invalida o quarto,
assim como o quarto não invalida o jardim.

Portanto, a meditação deveria ser um abrigo interior, um santuário interior. Sempre que sentir
que o mundo é de mais para si, pode entrar no seu santuário. Pode banhar-se no seu ser interior.
Pode rejuvenescer-se a si próprio. Pode sair de lá ressuscitado; novamente vivo, fresco, jovem,
renovado... para viver, para ser.

A meditação deveria ser um abrigo interior, um santuário interior. Sempre que sentir

que o mundo é de mais para si, pode entrar no seu santuário. Pode banhar-se no seu ser interior.
148

Mas também deveria ser capaz de amar as pessoas e enfrentar os problemas, porque um silêncio
que é impotente e não pode enfrentar os problemas, não é silêncio que preste, não vale grande
coisa.

Só um silêncio que possa enfrentar os problemas e continuar a ser silêncio é digno de ser
procurado, de ser desejado.

Portanto, gostaria de lhe dizer estas duas coisas: primeiro, comece a fazer meditação, porque é
sempre bom começar pelo centro mais próximo do seu ser, e esse é a meditação. Mas nunca
fique preso nela. A meditação deveria movimentar-se, florir, desdobrar-se e transformar-se em
amor.

E não se preocupe, não faça disso um problema — não é um problema. É simplesmente


humano; é natural. Toda a gente tem medo — tem de ter medo.

A vida é tal que tem de se ter medo. E as pessoas que se tornam destemidas, tornam-se
destemidas não por se tornarem valentes — porque um homem valente apenas reprimiu o seu
medo; não é verdadeiramente destemido. Um homem torna-se destemido ao aceitar os seus
medos. Não se trata de uma questão de valentia. E simplesmente analisar os factos da vida e
compreender que esses medos são naturais. E a pessoa aceita-os!

O problema surge quando os quer rejeitar. Incutiram-lhe ideais muito egoístas: “Sê valente.”
Que estupidez! Que disparate! Como pode um homem inteligente evitar os medos? Se for
estúpido, não terá quaisquer medos. O condutor do autocarro bem poderá buzinar-lhe que você
fica plantado no meio da rua, sem medo. Ou um touro carrega sobre si e você fica ali especado,
sem medo. Mas você é estúpido! Um homem inteligente teria começado logo a correr.

Se você se tornou um viciado e começar a procurar a cobra por entre todos os arbustos, então aí
existe um problema.

Um homem torna-se destemido ao aceitar os seus medos. Não se trata de uma questão de
valentia. É simplesmente analisar os factos da vida e compreender que esses medos são
naturais.
149

Se não houver ninguém na estrada e você fica com medo e começa a correr, é porque há um
problema; caso contrário, o medo é natural.

Ora, quando eu digo que começará a ver-se livre do seu medo, não quero dizer que deixará de
haver medos na vida. Acabará por ver que noventa por cento dos seus medos são imaginários.
Dez por cento são reais, pelo que devem ser aceites. Eu não faço as pessoas valentes. Faço-as
mais responsáveis, mais sensíveis, mais vigilantes, e a sua vigilância é quanto basta. Tornam--se
conscientes de que também podem usar os seus medos como armas. Portanto, não fique
preocupado...

Por que é que ainda me sinto tão assustado quando tenho de me expor?

Quem não se sente? Expor-se provoca muito medo. É natural, porque expor-se significa expor
toda a porcaria que transporta na sua mente, o lixo que vem amontoando desde há séculos,
durante muitas, muitas vidas. Expor-se significa expor todas as suas fraquezas, limitações,
erros. Em última análise, expor-se significa expor a sua própria vulnerabilidade. A morte...
Expor-se significa expor o seu próprio vazio.

Por detrás de todo este lixo da mente e do ruído da mente, há uma dimensão de completo vazio.
Uma pessoa é oca sem Deus, a pessoa é simplesmente um vazio e não se é nada sem Deus. A
pessoa quer esconder esta sua nudez, este seu vazio, esta fealdade. A pessoa cobre isso tudo
com flores, a pessoa decora essas coberturas. Pelo menos, a pessoa finge que é alguma coisa,
que é alguém. E isto não é uma coisa que se passe unicamente consigo; isto é universal, é o que
se passa com toda a gente.

Ninguém pode abrir-se como um livro. O medo diz-lhe: “O que é que as pessoas vão pensar de
mim?” Desde a sua infância que o ensinaram a usar máscaras, máscaras muito belas. Não é
preciso ter um rosto bonito, basta uma máscara bonita; e a máscara é barata. Transformar o seu
rosto é trabalhoso. Pintar o seu rosto é muito simples.

Agora expor subitamente o seu rosto real dá-lhe calafrios no mais fundo do seu ser. Surge um
temor: “As pessoas irão gostar?
150

As pessoas irão aceitar-me? As pessoas continuarão a amar-me, a respeitar-me? Quem sabe? —


porque elas amaram a sua máscara, elas respeitaram o seu papel, elas glorificaram a sua roupa.
Agora surge o medo: “Se de repente eu ficar nu, vão continuar a amar-me, a respeitar-me, a
apreciar-me, ou afastar-se-ão todos de mim? Podem voltar-me as costas, podem deixar-me ficar
sozinho.” Daí que as pessoas continuem a fingir. O fingimento vem do medo, todos os pseudo-
qualquer coisa nascem do medo. É necessário ser-se destemido para se ser autêntico.

Uma das leis fundamentais da vida é esta: tudo aquilo que esconder, continuará a crescer e tudo
aquilo que expuser, se for mau, desaparecerá, evaporar-se-á ao sol, e se for bom será nutrido.
Acontece exactamente o contrário quando esconde alguma coisa. O bom começa a morrer
porque não é alimentado; precisa do vento, da chuva e do sol. Precisa de dispor de toda a
natureza. Só pode crescer com a verdade, alimenta-se da verdade. Deixe de lhe dar o seu
alimento e ele começa a ficar cada vez mais delgado. E as pessoas matam à fome a sua
realidade e engordam a sua irrealidade.

Os seus rostos irreais alimentam-se de mentiras, por isso tem de continuar a inventar cada vez
mais mentiras. Para apoiar uma mentira, terá de mentir mais de cem vezes, porque uma mentira
só pode ser sustentada por mentiras maiores. Por isso, quando se esconde por detrás de
fachadas, o real começa a morrer e o irreal prospera, fica cada vez mais gordo. Se se expuser, o
irreal morrerá, é obrigado a morrer, porque o irreal não consegue ficar a descoberto. Só
consegue ficar em segredo, só pode ficar na escuridão, só pode ficar nos túneis do seu
inconsciente. Se o trouxer para o consciente, ele começa a evaporar-se.

Se se expuser, o irreal morrerá, é obrigado a morrer, porque o irreal não consegue ficar a
descoberto. Só consegue ficar em segredo, só pode ficar, na escuridão.
151

É aí que reside todo o êxito da Psicanálise. É um segredo simples, mas é todo o segredo da
Psicanálise. O psicanalista ajuda-o a trazer ao de cima, até ao nível do seu consciente, tudo
aquilo que tem dentro do seu inconsciente, nos reinos mais escuros do seu ser. Traz isso tudo à
superfície onde você o possa ver, onde os outros o possam ver, e acontece um milagre: o
simples facto de o ver é o começo da sua morte. E se o puder contar a mais alguém - e é o que
você faz na Psicanálise, expõe-se ao seu psicanalista - basta expor-se a uma única pessoa para
provocar grandes mudanças no seu ser. Mas expor-se a um psicanalista é limitado: só se expôs a
uma única pessoa, em profunda privacidade, com a condição de que ela não dirá nada a
ninguém. Isso faz parte da profissão do médico, do Psicanalista, do terapeuta; isso faz parte do
juramento que fizeram, que não contarão nada a ninguém, que manterão o segredo. E, portanto,
uma exposição muito limitada, mas, mesmo assim, ajuda. E é uma exposição profissional;
mesmo assim, ajuda. Leva anos, é por isso; aquilo que pode ser feito em dias leva anos em
Psicanálise — quatro, cinco anos, e mesmo assim a Psicanálise nunca é completa. O mundo
ainda não conheceu um único caso de Psicanálise total, o processo completo, terminado,
acabado — não, ainda não. Nem mesmo os seus psicanalistas são completamente
psicanalisados, porque a exposição de si próprio é muito limitada e impõe condições. O
psicanalista escuta-o como se não estivesse a ouvir, porque ele não vai contar a ninguém. Mas,
mesmo assim, isso ajuda, ajuda tremendamente a descarregar.

Se for capaz de se expor religiosamente — não em privacidade, não a um profissional, mas


simplesmente a todos os seus relacionamentos — é disso que tratam os sannyas. E Psicanálise
feita a si próprio. E Psicanálise vinte e quatro horas por dia, todos os dias. E Psicanálise em
todo o tipo de situações: com a mulher, com o amigo, com o parente, com o inimigo, com o
estranho, com o chefe, com o criado. Durante as vinte e quatro horas do dia você está a relatar.
152

Se continuar a expor-se, no princípio vai ser muito, muito assustador, mas depressa começará a
ganhar forças porque, uma vez exposta a verdade, ela torna-se mais forte e a mentira morre. E
com a verdade a tornar-se mais forte, você fica enraizado, fica centrado. Começa a tornar-se um
indivíduo; a personalidade desaparece e a individualidade aparece.

A personalidade é falsa, a individualidade é substancial. A personalidade é apenas uma fachada,


a individualidade é a sua verdade. A personalidade é imposta do exterior; é uma “personagem”,
uma máscara. A individualidade é a sua realidade — é como Deus o fez. A personalidade é uma
sofisticação social, um verniz social. A individualidade é crua, é selvagem, é forte e com um
poder enorme.

Mas o medo é natural porque desde a sua infância lhe ensinaram falsidades, e você está tão
identificado com o falso que deixá-lo cair lhe parece quase um suicídio. E o medo surge, porque
surge uma grande crise de identidade.

Durante cinquenta, sessenta anos, foi um determinado tipo de pessoa. Agora a pessoa que faz a
pergunta deve estar a chegar aos sessenta — durante sessenta anos foi um determinado tipo de
pessoa. Agora, nesta última fase da sua vida, deixar cair a sua identidade e começar a aprender
sobre si próprio a partir do zero é assustador. Todos os dias, a morte aproxima-se cada vez mais
— será esta a altura de começar uma nova lição? Quem sabe se será capaz de a terminar ou
não? Quem sabe? Talvez perca a sua velha identidade e talvez não tenha tempo suficiente,
energia suficiente, coragem suficiente para atingir uma nova identidade. E vai morrer sem uma
identidade? Vai viver a última fase da sua vida sem uma identidade? Viver sem uma identidade
seria uma espécie de loucura; o coração confrange-se, o coração aperta-se.

A personalidade é falsa, a individualidade é substancial. A personalidade é apenas uma fachada,

a individualidade é a sua verdade. A personalidade é imposta do exterior; é uma “personagem",


uma máscara. A individualidade é a sua realidade — é como Deus o fez.
153

A pessoa pensa: “Agora é bom continuar por mais alguns dias. É melhor viver com o velho,
com o familiar, com o seguro, com o conveniente.” Tornou-se perito nisso. E foi um grande
investimento, dedicou-lhe sessenta anos da sua vida. De uma maneira ou de outra, conseguiu,
criou uma ideia de quem é, e agora venho eu dizer-lhe para deixar cair essa ideia porque você
não é isso!

Não é necessária nenhuma ideia para se conhecer a si próprio. Na realidade, terá de deixar cair
todas as ideias, só então saberá quem você é.

O medo é natural. Não o condene, e não fique com a sensação de que é algo errado. Faz apenas
parte de toda esta nossa educação social. Temos de o aceitar e de o ultrapassar; sem o condenar,
temos de ultrapassá-lo.

Exponha-se lentamente — não é preciso dar saltos que não possa dar; vá passo a passo,
gradualmente. E depressa aprenderá o sabor da verdade, e ficará surpreendido de que todos
esses sessenta anos tenham sido um puro desperdício. Perde a sua velha identidade, ganha um
conceito totalmente novo. Na verdade, não será realmente uma identidade, mas sim uma nova
visão, uma nova maneira de ver as coisas, uma nova perspectiva. Não será capaz de voltar a
dizer “Eu” com algo atrás de si; usará a palavra porque ela é conveniente, e terá sempre a noção
de que a palavra não contém em si qualquer significado, substância, absolutamente nenhuma
substância existencial; que por detrás desse seu “Eu” se esconde um oceano, infinito, imenso,
divino.

Nunca alcançará uma outra identidade; a sua velha identidade desapareceu, e pela primeira vez
começará a sentir-se a si próprio como uma onda no oceano de Deus. Isso não é uma identidade
porque você não está nela. Você desapareceu, Deus subjugou-o.

Se puder arriscar o falso, a verdade poderá ser sua. E vale a pena, porque arrisca apenas o falso
e ganha a verdade. Não arrisca nada e ganha tudo.
154

Descobri que estou simplesmente enfadado comigo mesmo e não sinto em mim nenhum sumo.
Você disse-nos para nos aceitarmos tal como somos. Eu não consigo aceitara vida, sabendo que
estou a perder alguma coisa da alegria interior. Que fazer?

Ouvi falar de um novo tipo de tranquilizador que não o relaxa — apenas o faz apreciar estar
tenso.

Experimente-o! Experimente-o, experimente-o, experimente-o — seja um americano! — mas


não mais do que três vezes. Experimente-o, experimente-o e experimente-o de novo, e depois
pare porque não há razão para ser parvo.

Diz-me você:

“Descobri que estou simplesmente enfadado comigo mesmo...”

Que grande descoberta. E verdade, não estou a brincar! São muito poucas as pessoas que têm
consciência de estarem enfadadas — e elas estão enfadadas, completamente enfadadas. Toda a
gente o sabe, menos elas próprias. Saber que se está enfadado é um grande começo: agora tem
de compreender algumas das suas implicações.

O homem é o único animal que sente enfado; é uma grande prerrogativa, faz parte da dignidade
dos seres humanos. Já viu algum búfalo ou burro enfadado? Eles não se enfadam. O enfado
significa simplesmente que a maneira como vive está errada; daí que possa tornar-se um grande
acontecimento compreender que “Eu estou enfadado e alguma coisa tem de ser feita, é preciso
uma transformação”. Portanto, não pense que é mau sentir-se enfadado — é um bom sinal, um
bom começo, um começo muito auspicioso. Mas não pare por aí.

O enfado significa simplesmente que a maneira como vive está errada: daí que possa tornar-se
um grande acontecimento compreender que “Eu estou enfadado e alguma coisa tem de ser feita,
é preciso uma transformação”.
155

Por que é que a pessoa se sente enfadada? A pessoa sente-se enfadada porque tem vivido
segundo padrões mortos que lhe foram dados pelos outros. Renuncie a esses padrões, saia
deles! Comece a viver por si próprio.

Não é uma questão de dinheiro, de poder, de prestígio; é uma questão daquilo que
intrinsecamente você quer fazer.

Faça-o, independentemente dos resultados, e o seu enfado desaparecerá. Deve ter estado a
seguir as ideias dos outros, deve ter estado a fazer as coisas da maneira “correcta”, deve ter
estado a fazer as coisas como elas devem ser feitas. São essas as pedras das fundações do seu
enfado.

Toda a humanidade está enfadada, porque a pessoa que poderia ter sido um místico é um
matemático, a pessoa que poderia ter sido um matemático é um político, a pessoa que poderia
ter sido um poeta é um homem de negócios. Toda a gente está no lugar errado; ninguém está
onde devia estar. Tem de se arriscar. O enfado pode desaparecer num único momento se você
estiver pronto a arriscar.

Diz-me você: “Descobri que estou simplesmente enfadado comigo mesmo...” Está enfadado
consigo porque não foi sincero consigo, não foi honesto consigo, não respeitou o seu próprio
ser.

E diz-me: “Não sinto em mim nenhum sumo.” Como é que pode sentir sumo? O sumo só corre
quando faz aquilo que deseja fazer, seja o que for.

Vincent van Gogh sentia-se imensamente feliz só a pintar. Não conseguia vender um único
quadro, nunca ninguém o apreciava, e ele tinha fome, estava a morrer. O irmão dava-lhe uma
pequena soma de dinheiro, apenas o suficiente para, pelo menos, ele poder sobreviver —
durante quatro dias por semana jejuava, e comia três dias por semana. Tinha de jejuar naqueles
quatro dias porque senão onde iria ele arranjar dinheiro para comprar as suas telas, as suas
tintas e os seus pincéis? Mas era imensamente feliz — os seus sumos corriam.

Não é uma questão de dinheiro, de poder, de prestígio: é uma questão daquilo que
intrinsecamente você quer fazer.

Faça-o, independentemente dos resultados, e o seu enfado desaparecerá.


156

Morreu tinha apenas trinta e três anos; suicidou-se. Mas o seu suicídio é de longe melhor do que
a sua assim-chamada vida, porque ele suicidou-se só depois de ter pintado aquilo que queria
pintar. No dia em que terminou um quadro com um pôr-do-Sol, que fora o seu mais profundo
desejo, escreveu uma carta em que dizia: “O meu trabalho está concluído, sinto-me realizado.
Deixo este mundo imensamente contente.” Suicidou-se, mas eu não lhe vou chamar suicídio.
Viveu plenamente, viveu a sua vida sem termo nem medida e ao mesmo tempo com uma
enorme intensidade.

Poderá viver durante cem anos que a sua vida será sempre um osso seco, um peso, um peso
morto. Diz você: “Você disse-nos para nos aceitarmos tal como somos. Eu não consigo aceitar a
vida, sabendo que estou a perder alguma coisa da alegria interior.”

Quando digo para se aceitar, não estou a dizer para aceitar o seu padrão de vida — não
interprete mal o que eu digo. Quando digo para se aceitar, estou a dizer para rejeitar tudo o mais
— aceite-se a si próprio. Mas você deve tê-lo interpretado à sua maneira. E assim que as coisas
são...

O Marciano fez aterrar o seu disco em Manhattan e, assim que saiu, foi abordado por um
mendigo. “O senhor”, disse--lhe o homem, “pode dar-me dez cêntimos?”

O Marciano perguntou: “O que são dez cêntimos?”

O pedinte pensou um pouco e depois disse: “Tem razão. Pode dar-me vinte e cinco cêntimos?”

Eu não disse aquilo que você compreendeu. Rejeite tudo o que lhe foi imposto — não estou a
dizer para o aceitar. Aceite o seu âmago mais íntimo que trouxe consigo do Além e então não
achará que está a perder alguma coisa. No momento em que se aceitar sem condições,
acontecerá subitamente uma explosão de alegria. Os seus sumos começarão a correr, a vida será
verdadeiramente um êxtase.
157

Os amigos de um determinado jovem pensaram que ele estava morto, mas ele estava apenas em
estado de coma. Quando ele mostrou sinais de vida, perguntaram-lhe como era sentir--se morto.

“Morto!”, exclamou ele. “Eu não estive morto. Soube sempre o que se estava a passar. E
também sabia que não estava morto porque tinha os pés frios e estava com fome.”

“Mas como é que esse facto te fazia pensar que ainda estavas vivo?”, perguntou-lhe um dos
curiosos.

“Bem, eu sabia que se estivesse no céu, não teria fome, e se estivesse no outro sítio os meus pés
não estariam frios.”

A pessoa pode ter a certeza de que ainda não está morta: tem fome, os seus pés estão frios. Ora,
levante-se lá e faça uma pequena corrida!

Um homem pobre, sem instrução e sem etiqueta, apaixonou-se pela filha de um milionário. A
rapariga convidou-o a ir a casa dela para conhecer os seus pais na sua elegante mansão. O
homem sentiu-se intimidado pelas ricas mobílias, pelos empregados, e por todos os outros
sinais de riqueza, mas lá conseguiu parecer descontraído — até à hora do jantar. Sentado à
maciça mesa da sala de jantar, levemente ébrio pelo efeito dos vinhos, peidou-se sonoramente.

O pai da rapariga levantou os olhos e olhou fixamente para o seu cão, deitado aos pés do
homem pobre. “Rover!”, gritou em tom ameaçador.

O homem pobre sentiu-se aliviado por terem culpado o cão e, por isso, voltou a peidar-se
alguns minutos mais tarde.

O seu anfitrião olhou para o cão e disse novamente: “Rover!”, numa voz ainda mais alta.

Alguns minutos depois, o homem peidou-se pela terceira vez. A cara do homem rico contorceu-
se de raiva. Berrou: “Rover, toca a desandar daí para fora antes que ele te borre todo!”

Ainda está a tempo — saia dessa prisão em que viveu até agora! Só é preciso ter um pouco de
coragem, um pouco da coragem do jogador.
158

E lembre-se: não tem nada a perder. Tudo o que pode perder são as suas amarras — pode perder
o seu enfado, pode perder essa sensação permanente que tem dentro de si de que lhe falta
qualquer coisa. Que mais tem a perder? Saia da rotina e aceite o seu próprio ser — contra
Moisés, Jesus, Buda, Mahavira, Krishna, aceite-se a si mesmo. A sua responsabilidade não é
para com Buda, Zaratustra, Kabir ou Nanak; a sua responsabilidade é apenas para consigo
mesmo.

Seja responsável — e quando uso a palavra responsável, por favor, lembre-se de não a
interpretar mal. Não estou a falar de deveres, de responsabilidades, estou simplesmente a usar a
palavra no seu sentido literal: responda à realidade, seja responsável.

Deve ter vivido uma vida irresponsável, assumindo toda a espécie de responsabilidades que os
outros esperam . que assuma. Que tem você a perder? Você está enfadado — e essa é uma boa
situação. Está a perder o sumo, de que mais precisa você para sair da prisão? Salte para fora
dela, não olhe para trás!

Dizem eles: Pense duas vezes antes de saltar. E eu digo-lhe: Primeiro salte e depois pense as
vezes que quiser!

Meditação para o Medo do Vazio

Tome a decisão de, todas as noites antes de ir para a cama, fechar os olhos e, durante vinte
minutos, entrar no vazio. Aceite-o, deixe-o estar presente. Vai surgir o medo — deixe que ele
também esteja presente. Vai tremer de medo, mas não rejeite esse espaço que está a nascer.
Dentro de duas ou três semanas, vai poder sentir a sua beleza, vai poder sentir a sua bênção.

Seja responsável — e quando uso a palavra responsável, por favor, lembre-se de não a
interpretar mal. Não estou a falar de deveres, de responsabilidades, estou simplesmente a usar a
palavra no seu sentido literal: responda à realidade, seja responsável.
159

E quando tiver sentido essa bênção, o medo desaparecerá por sua livre iniciativa. Não vai ter de
lutar contra ele.

Ajoelhe-se no chão ou sente-se numa posição em que se sinta confortável. Se a sua cabeça
começar a descair — e ela vai descair — deixe-a descair. Vai ficar na posição fetal, semelhante
à da criança no ventre materno. A sua cabeça começará a unir-se aos seus joelhos, ou a tocar no
chão — deixe que isso aconteça. Entre no seu próprio ventre e deixa-se lá ficar. Sem técnicas,
sem mantras, sem esforços — fique simplesmente lá. Basta que trave conhecimento com a
sensação do que isso é. E algo que nunca conheceu. A sua mente fica apreensiva, porque isso
vem de uma dimensão muito diferente e desconhecida. A mente não consegue lidar com isso.
Ela nunca conheceu nada assim, por isso sente-se simplesmente perplexa; quer classificar e
catalogar aquilo.

Mas o conhecido é a mente e o desconhecido é Deus. O desconhecido nunca se transforma


numa parte do conhecido. Se alguma vez se transformar numa parte do conhecido deixa de ser
o Deus desconhecido. O desconhecido continua a ser o incognoscível. Mesmo depois de o
conhecer, ele continuará a ser o desconhecido. O mistério nunca será solucionado.
Intrinsecamente, o mistério é insolúvel.

Portanto, entre todas as noites nesse espaço. O medo estará lá, o tremor estará lá; também não
faz mal. A pouco e pouco, o medo será cada vez menor e o regozijo será cada vez maior. Um
dia, umas três semanas depois, verá subitamente surgir no seu ser bênçãos tais, uma explosão de
energia tal, uma qualidade de alegria tal, que é como se a noite acabasse e o Sol se levantasse
no horizonte.

Meditação para dissolver Velhos Padrões de Medo

Descobri que continuo a repetir um padrão que adoptei em criança. Sempre que os meus pais
me ralhavam ou me diziam alguma coisa que eu não gostava, simplesmente fechava-me, fugia e
consolava-me com a ideia de que poderia passar facilmente sem as pessoas, que poderia viver
sozinho sem quaisquer dificuldades.
160

Agora estou a começar a ver que reajo em relação aos meus amigos exactamente da mesma
maneira.

Isso não passa de um velho hábito que se tornou muito rígido. Tente fazer o contrário. Sempre
que sentir que se vai fechar abra-se. Se quiser partir, não parta; se não quiser falar, então fale.
Se quiser parar com a discussão, não pare mas salte para dentro dela com todo o vigor possível.

Sempre que surgir uma situação que lhe cause medo, tem duas alternativas — ou luta ou foge.
Geralmente, uma criança pequena não pode lutar, particularmente nos países tradicionais. Na
América, uma criança lutará tanto, que são os pais que fogem! Mas nos países antigos, nos
países muito ligados à tradição ou nas famílias onde os valores tradicionais ainda são muito
fortes —, a criança não pode lutar. A única maneira é fechar-se, é enrolar-se sobre si própria
como protecção. Ora, você aprendeu o estratagema da fuga.

Agora sempre que sentir que está a tentar escapar, mantenha-se firme, seja teimoso, e dê uma
boa luta. Durante um mês, tente fazer o contrário e depois veremos. Logo que conseguir fazer o
contrário, verá como deixar cair os dois. Tem de se deixar cair ambos, porque só então o
homem se torna destemido — e porque ambos estão errados. E como um errado entrou
demasiadamente dentro de si, tem de o equilibrar com o outro.

Portanto, durante um mês seja um verdadeiro guerreiro — relativamente a tudo. E verá que se
sentirá muito bem, verdadeiramente bem. Porque sempre que alguém foge, esse alguém sen-te-
se mal, sente-se inferior. Fechar-se em si próprio é um estratagema da cobardia. Seja valente.
Então deixaremos cair ambos, porque ser valente é também, lá bem no fundo, ser cobarde.
Quando tanto a valentia como a cobardia desaparecerem, então fica-se destemido. Tente isto!
161

Meditação para Adquirir Confiança

Se sentir dificuldade em confiar, então tem de voltar atrás. Tem de cavar fundo nas suas
recordações. Tem de entrar no seu passado. Tem de limpar a sua mente das impressões
passadas. Deve ter um grande montão de lixo referente ao seu passado; descarregue-o.

Eis a chave para o fazer: se puder, volte para trás, não apenas para se recordar, mas também
para se aliviar. Tente descobrir tudo o que lhe aconteceu na sua infância. Quanto mais fundo
puder ir melhor — porque nós escondemos muitas coisas que aconteceram, e não permitimos
que elas venham a borbulhar até à nossa consciência. Deixe que venham à superfície. Voltando
todos os dias, sentirá cada vez mais fundo. Primeiro lembrar-se-á de alguma coisa quando tinha
quatro ou cinco anos de idade e não conseguirá ir além disso. Subitamente, tem pela frente uma
Muralha da China. Mas continue — a pouco e pouco, verá que está a ir mais fundo: aos três
anos, aos dois anos. Há quem se lembre do momento em que saiu do ventre da mãe. Houve
pessoas que chegaram até às memórias do ventre, e há pessoas que foram ainda mais além, até à
outra vida em que morreram.

Mas se conseguir chegar até ao momento do nascimento, e se puder soltar esse momento, ele
será de profunda agonia e sofrimento. Quase se sentirá como se estivesse a nascer novamente.
Talvez grite como a criança gritou pela primeira vez. Sentir-se-á a sufocar como a criança se
sentiu sufocar quando pela primeira vez se viu fora do ventre — porque, durante alguns
segundos, ela não era capaz respirar. O sufoco era grande: então gritou e a respiração aconteceu,
e as suas passagens abriram-se, os seus pulmões começaram a funcionar. Poderá ter de entrar
nesse momento. A partir daí, regressa. Vá novamente, volte de novo, todas as noites. Levará de
três a nove meses, e cada dia se sentirá mais aliviado, cada vez mais aliviado, e a confiança
começará a surgir simultaneamente a seu lado. Quando o passado estiver claro e tiver visto tudo
o que aconteceu, ficará livre disso.
162

Esta é a chave: se tomar consciência de qualquer coisa na sua memória, ficará liberto dela. A
tomada de consciência liberta, a inconsciência cria uma servidão. Então a confiança será
possível.

Meditação para Transformar o Medo em Amor

Pode sentar-se numa cadeira ou pode sentar-se numa qualquer postura que ache confortável.
Depois, cruze as mãos no seu colo, a direita por baixo da esquerda — a posição é importante,
porque a mão direita está ligada ao hemisfério esquerdo do cérebro, e o medo vem sempre do
hemisfério esquerdo. A mão esquerda está ligada ao hemisfério direito do cérebro, e a coragem
vem do hemisfério direito.

O hemisfério esquerdo é a sede da razão, e a razão é cobarde. E por isso que não encontra um
homem simultaneamente valente e intelectual. E sempre que encontrar um homem valente não
encontrará um intelectual. Esse homem será um irracional, é obrigado a sê-lo. O hemisfério
direito é intuitivo... ora, isto é apenas simbólico, e não apenas simbólico: isto coloca a energia
numa determinada postura, num determinado relacionamento.

Portanto, a mão direita fica por baixo da esquerda e ambos os polegares se tocam. Depois
relaxe, feche os olhos e deixe que o maxilar inferior se descontraia um bocadinho — sem ter de
o forçar — apenas descontraído para que possa respirar pela boca. Não respire pelo nariz,
comece apenas a respirar pela boca; é muito relaxante. E quando não respira pelo nariz, o velho
padrão da mente deixa de funcionar. Isto será uma coisa nova, e num novo sistema de respirar
poderá criar-se mais facilmente um novo hábito.

Segundo, quando não respira pelo nariz, a respiração não estimula o seu cérebro. Ela
simplesmente não vai até ao cérebro: vai directamente para o peito. Caso contrário, continua a
haver um estímulo e uma massagem constantes. E por isso que a respiração nas nossas narinas
está sempre a mudar.
163

Respirar por uma das narinas massaja um lado do cérebro; pela outra, o outro lado do cérebro.
Quarenta minutos depois, elas mudam.

Portanto, sente-se simplesmente nesta postura, respirando pela boca. O nariz é dual, a boca é
não-dual. Não há mudança quando respira pela boca: se estiver sentado durante uma hora,
estará a respirar da mesma maneira. Não haverá mudança; permanecerá no mesmo estado.
Respirando pelo nariz, não pode permanecer no mesmo estado. O estado muda
automaticamente, sem saber que muda.

Então isto criará um novo estado de relaxamento muito, muito silencioso, não-dual, e as suas
energias começarão a fluir de uma nova maneira. Sente-se simplesmente em silêncio, sem fazer
nada pelo menos durante quarenta minutos. Se o puder fazer durante uma hora, isso será uma
grande ajuda. Portanto, se for possível, comece por quarenta minutos, e aos poucos chega aos
sessenta. Faça isto todos os dias.

E, entretanto, não perca nenhuma oportunidade; seja ela qual for, aproveite-a. Escolha sempre a
vida, e escolha sempre fazer; nunca bata em retirada, nunca fuja. Desfrute de todas as
oportunidades que lhe surjam pelo caminho para fazer alguma coisa, para ser criativo.

E a Última Pergunta; o Medo de Deus

A ideia de um Deus pessoal que nos observa, mesmo como mera hipótese, não poderá ser de
maneira nenhuma útil? Porque à simples ideia de deixar cair a ideia de Deus, fico com um
medo terrível.

Por que é que sente medo de deixar cair a ideia de Deus? De certeza que a ideia de Deus está,
de certo modo, a impedi-lo de ter medo. Portanto, no momento em que a deixa cair, começa a
sentir medo. É uma espécie de protecção psicológica, é o que é.
164

A criança está sujeita a ter medo. No ventre da mãe, ela não tem medo. Nunca ouvi falar de
nenhuma criança que, quando está no ventre da mãe, pense alguma vez em ir à sinagoga ou à
igreja ou em ler a Bíblia, ou o Corão ou a Gita, ou mesmo que se preocupe se há um Deus ou
não. Não posso conceber que uma criança dentro do ventre da mãe esteja de algum modo
interessada em Deus, no diabo, no céu, no inferno. Para quê? Ela já está no paraíso. As coisas
não podem ser melhor do que já são.

A criança está totalmente protegida numa casa aquecida, aconchegante, flutuando em químicos
que são nutritivos. E ficará surpreendido — que, proporcionalmente, em nove meses a criança
cresce mais do que em noventa anos. Em nove meses, ela faz uma longa jornada; do ser quase
nada torna-se um ser. Em nove meses, passa por milhões de anos de evolução, desde o primeiro
ser até ao presente. Passa por todas as fases.

E a vida é absolutamente segura: não há necessidade de emprego, não tem medo de morrer de
fome, de ter fome; tudo é feito pelo corpo da mãe. Viver nove meses no ventre da mãe numa
segurança tão absoluta cria um problema que produziu as vossas religiões.

Assim que a criança sai do ventre da mãe, a primeira coisa que lhe acontece é sentir medo.

E óbvio. Perdeu a casa, perdeu a segurança. O seu calor, o seu ambiente, tudo aquilo que
considerava o seu mundo está completamente perdido e a criança é lançada num mundo
estranho, do qual não sabe nada. E tem de começar a respirar sozinha.

São precisos alguns segundos para uma criança reconhecer o facto de que agora tem de respirar
sozinha — a respiração da sua mãe não a vai poder ajudar. E para a chamar à razão, o médico
pega nela de cabeça para baixo e dá-lhe umas boas palmadas no rabinho, com força. Que
princípio! E que boas-vindas!

Já observou que sempre que sente medo a sua respiração se altera?

Se o não notou antes, observe-o agora. Sempre que está com medo, a sua respiração altera-se,
imediatamente.
165

E exactamente por causa disso ela começa a respirar. Já observou que sempre que sente medo a
sua respiração se altera? Se o não notou antes, observe-o agora. Sempre que está com medo, a
sua respiração altera-se, imediatamente. E quando está à vontade, sem medo de nada, verá que a
sua respiração entra em harmonia, num acordo profundo, tomando-se cada vez mais silenciosa.
Quando se encontra em meditação profunda, acontece por vezes sentir que a sua respiração
como que parou. Parar não pára, mas quase.

No início, a criança tem medo de tudo. Durante nove meses esteve na escuridão, e no hospital
moderno, onde vai nascer, só haverá lâmpadas ofuscantes por todo o lado. E para os seus olhos,
para a sua retina, que nunca viram a luz antes, nem sequer a luz de uma vela suportam, isso é de
mais. Essa luz é um choque para os seus olhos.

E o médico não demora nem sequer uns segundos — corta a ligação que ainda o liga à mãe, a
sua última esperança de segurança... e ela um ser tão pequenino. E você sabe perfeitamente que
ninguém é mais frágil do que uma criança humana, mais nenhuma outra cria em toda a
existência é tão frágil e desprotegida.

E por isso que os cavalos não inventaram a hipótese de Deus. Os elefantes não pensaram na
ideia de Deus; não é necessário. A cria do elefante começa imediatamente a caminhar e a olhar
à sua volta e a explorar o mundo. Não é tão frágil com uma criança humana. Na realidade,
dessa fragilidade da criança humana depende tanta coisa que até poderá ficar surpreendido: a
sua família, a sua sociedade, a sua cultura, a sua religião, a sua filosofia — tudo isso depende da
fragilidade da criança humana.

Nos animais, a família não existe pela simples razão de que a cria não precisa dos pais. O
homem tinha de se decidir por um determinado sistema. O pai e a mãe têm de estar juntos para
tomar conta da criança. A criança é fruto do seu caso de amor; é obra sua. Agora, se a criança
humana for deixada sozinha, tal como tantos animais o são, não consegue imaginar como é que
ela vai sobreviver: é impossível! Onde é que ela vai encontrar alimentos? A quem é que ela vai
pedi-los? O que é que ela vai pedir?
166

Talvez tenha chegado cedo de mais? E há alguns biólogos que pensam que a criança humana
nasce prematura — nove meses não são o suficiente —, porque ela ainda é muito frágil. Mas o
corpo humano não pode transportar a criança por mais de nove meses; caso contrário, a mãe
morrerá e a sua morte significará a morte do filho.

Calculou-se que se a criança pudesse viver no ventre da mãe durante pelo menos três anos,
então talvez não fossem os precisos o pai, a mãe, a família, a sociedade, a cultura, Deus e o
padre. Mas a criança não pode viver no ventre materno durante três anos. Esta estranha situação
biológica afectou todo o comportamento humano, a sua forma de pensar, as estruturas da
família, a sociedade; e isso fez nascer o medo.

A primeira experiência da criança é o medo e a última experiência do homem é também o


medo.

Deveria lembrar-se de que o nascimento também é uma espécie de morte; olhe para ele do
ponto de vista de uma criança. Ela estava a viver num determinado mundo, que lhe dava
satisfação absoluta. Não precisava de coisa nenhuma, e não cobiçava absolutamente mais nada.
Pura e simplesmente, gostava de ser, gostava de crescer — e depois, subitamente, é lançada
para fora.

Para a criança, essa experiência é uma experiência de morte: morte de todo o seu mundo, da sua
segurança, da sua casa aconchegada. Dizem os cientistas que ainda não fomos capazes de criar
um lar tão aconchegado como o ventre materno. Temos andado a tentar — todos os nossos lares
não passam de esforços para criar esse lar aconchegado.

Até tentámos fazer colchões de água para lhe dar a mesma sensação. Temos banheiras de água
quente; ao deitar-se dentro delas poderá ter uma pequena sensação da criança. Aqueles que
sabem realmente tomar um bom banho quente também lhe deitam sal dentro, porque o útero
materno é muito salgado — a quantidade exacta de sal que há na água do mar. Mas durante
quanto tempo consegue ficar dentro de uma banheira? Temos tanques isolados que rada mais
são do que a procura desse mesmo útero que perdeu.
167

Sigmund Freud não era um homem iluminado — na realidade, era um bocadinho


destrambelhado, tal como um cuco, mas por vezes os cucos também cantam lindos cantos.
Freud tem às vezes ideias cheias de significado. Por exemplo, pensa ele que esta ideia do
homem fazer amor com a mulher nada mais é do que um esforço para entrar de novo no útero.
Talvez não seja de todo descabido. O homem era louco, mas a ideia não deixa de parecer fazer
sentido; mesmo que um homem como Sigmund Freud seja louco, ele deve ser escutado com
muito atenção.

Sinto que há algo de verdade naquilo que ele diz; a procura do útero, da mesma passagem por
onde saiu... É certo que não consegue chegar a esse tal útero. Então criou toda a espécie de
coisas; começou a fazer caves, casas, aviões. Veja só o interior do avião — não será de admirar
se um dia vir que dentro do avião as pessoas flutuam em banheiras de água quente e salgada. O
avião pode dar-lhe exactamente a mesma sensação, mas isso lhe não vai dar satisfação.

A criança não conheceu mais nenhuma outra coisa. E nós tentamos fazê-lo igualmente
aconchegado: basta carregar num botão e a hospedeira aparece. Nós fazemo-lo tão confortável
quanto possível, mas não podemos fazê-lo tão confortável como era no útero. Nem sequer
precisava de carregar no botão. Era alimentado, mesmo antes de ter fome. Mesmo antes de
precisar de ar, o ar chegava a si. Não tinha responsabilidades absolutamente nenhumas.

Portanto, ao sair do útero da mãe, se a criança sentir alguma coisa, deve sentir esta transição
como uma morte. Não pode senti-lo como nascimento, isso é impossível. Isso é ideia nossa — a
ideia daqueles que estão de fora — nós dizemos isto é um nascimento.

Sigmund Freud não era um homem iluminado — na realidade, era um bocadinho


destrambelhado, tal como um cuco, mas por vezes os cucos também cantam lindos cantos.

Freud tem às vezes ideias cheias de significado.


168

E depois um dia, pela segunda vez, depois de todos os esforços da sua vida... o homem
conseguiu fazer alguma coisa — uma casinha, uma família, um pequeno círculo de amigos, um
pouco de calor, um cantinho algures no mundo onde ele pode relaxar e ser ele próprio, onde ele
é aceite. Difícil — toda uma vida de labuta, e depois um dia, subitamente, ele dá consigo a ser
novamente empurrado para fora.

O médico voltou a aparecer — e é o mesmo homem que lhe bateu! Só que da outra vez foi para
ele começar a respirar; desta vez, tanto quanto sabemos... Agora estamos do lado de cá, não
conhecemos o lado de lá. O lado de lá é deixado à imaginação: é por isso que o céu e o
inferno... e todo o tipo de imaginação entrou em delírio.

Estamos do lado de cá e o homem está a morrer. Para nós, ele está a morrer; talvez ele esteja
novamente a renascer. Mas isso só ele sabe, e ele não pode voltar atrás e dizer-nos: “Não se
preocupem. Eu não estou morto, estou vivo.” Ele não podia voltar ao útero materno para dar um
último olhar e dizer adeus a toda a gente, nem pode voltar agora, abrir os olhos, e despedir-se
de todos, e dizer-lhes: “Não se preocupem. Não estou a morrer, estou a renascer.”

A ideia hindu do renascimento nada mais é do que uma projecção do nascimento normal. Para o
útero — se é que o útero pensa —, a criança está morta. Para a criança — se é que ela pensa —,
ela está a morrer. Mas a criança nasce; não era morte, é nascimento. Os hindus projectaram a
mesma ideia na morte. Do lado de cá, parece que ela vai morrer, mas do lado de lá... Mas o lado
de lá é imaginação nossa; podemos fazer dele o que quisermos.

Cada religião pinta o lado de lá de maneira diferente, porque cada sociedade e cada cultura
dependem de uma geografia diferente, de uma história diferente. Por exemplo: os Tibetanos não
podem imaginar o lado de lá como sendo um lugar fresco — até o fresco mete medo, frio é
impossível. O tibetano pensa que a pessoa morta é quente, num mundo novo que está sempre
quente.
169

O indiano não consegue imaginar que vai ficar sempre quente. Mesmo quatro meses de calor na
índia já é de mais, agora ficar quente durante toda a eternidade — ficaria assado no forno! Os
hindus não conhecem o ar condicionado, mas da maneira como eles descrevem o seu paraíso,
aquilo é praticamente ar condicionado — sempre ar fresco, nem quente nem frio, mas fresco. E
é sempre Primavera, uma Primavera indiana — todas as flores desabrochadas, os ventos cheios
de fragrâncias, as aves a cantar, tudo cheio de vida; mas ar quente é que não, ar fresco. Eles
estão sempre a lembrar-nos que: o ar fresco está sempre a circular.

Mas isso é a sua mente a projectar ideias; se assim não fosse, para tibetanos, hindus ou
muçulmanos, o paraíso não seria diferente. O muçulmano não pode conceber que o outro
mundo seja um deserto — ele sofreu muito no deserto arábico. O outro mundo é um oásis, todo
ele um oásis. Não é que após uma centena de quilómetros encontre um pequeno oásis com um
pouco de água e algumas árvores — só oásis por todo o lado, e o deserto em lado nenhum.

Nós projectamos, mas para a pessoa que está a morrer é novamente o mesmo processo por que
ela já passou em tempos. E um facto bem conhecido de que, no momento da morte, se a pessoa
não está inconsciente, se não entrou em coma, ela começa a recordar-se de todo o ciclo da sua
vida. Volta atrás ao primeiro momento da sua vida, quando nasceu. Parece ser significativo que,
quando está a deixar este mundo, ela possa olhar para tudo o que lhe aconteceu. Durante alguns
segundos apenas todo o calendário vai passando, tal como ele passa nos vossos filmes.

E esse calendário continua a passar, porque num filme de duas horas têm de se cobrir muito
anos... se o calendário passasse ao ritmo habitual, teria de ficar sentado na sala de cinema
durante dois anos; quem é que se pode dar a esse luxo? Não, o calendário apenas continua a
passar, as datas continuam a mudar, rapidamente. Passa ainda mais depressa na hora da morte.
Num único instante toda a vida perpassa instantaneamente e pára no primeiro momento.
170

É o mesmo processo que volta a acontecer — a vida completou o seu círculo.

Por que é que eu quis lembrar-lhe tudo isto? Porque o seu Deus não é mais do que o seu
primeiro dia de medo, que está permanentemente a acontecer até ao seu último instante,
tornando-se cada vez maior. E por isso que quando se é jovem se pode ser ateu, a pessoa pode
dar-se a esse luxo, mas, à medida que vai envelhecendo, ser ateu é um pouco mais difícil. Se,
quando a pessoa está mesmo à beira da cova, já com um pé no túmulo, lhe perguntar: “Ainda
continuas a ser ateu?”, ela responderá: “Tenho pensado melhor” — por causa do medo: o que é
que irá acontecer? Todo o seu mundo está a desabar.

Diz-me você: “No momento em que penso deixar cair a ideia de Deus, o medo aparece.” Isso é
uma simples indicação de que com o rochedo da ideia de Deus você está a reprimir o seu medo;
portanto, no momento que remove o rochedo, o medo salta.

Se o medo surge, isso significa que tem de o enfrentar; não o ajudará absolutamente nada se o
esconder sob a ideia de Deus. Não voltará a ter fé, ela fica destruída. Não poderá ter fé em
Deus, porque a dúvida é uma realidade, e a fé é ficção. E nenhuma ficção pode aguentar-se
perante um facto. Agora, Deus vai continuar a ser uma hipótese para si; a sua prece será inútil.
Você saberá que é uma hipótese, não pode esquecer que é uma hipótese.

Depois de ouvir uma verdade é impossível esquecê-la. Uma das qualidades da verdade é esta,
você não precisa de se lembrar dela. A mentira tem de ser permanentemente recordada; pode
esquecê-la. A pessoa habituada a mentir precisa de ter uma memória melhor do que a pessoa
que está habituada à verdade, porque uma pessoa verdadeira não precisa da memória. Se disser
unicamente a verdade, não há necessidade de se lembrar.

Depois de ouvir uma verdade é impossível esquecê-la.

Uma das qualidades da verdade é esta. você não precisa de se lembrar dela.
171

Mas se disser uma mentira, então tem de se lembrar constantemente, porque disse uma mentira
a uma pessoa, e outra mentira a outra pessoa, e ainda outra coisa qualquer a uma outra pessoa.
Tem de arquivar na sua mente o que disse a quem. E sempre que lhe fizerem alguma pergunta
relativamente a uma mentira, vai ter de mentir novamente, pelo que são mentiras em série. A
mentira não acredita no controlo da natalidade.

A verdade é celibatária, não tem filhos nenhuns; na realidade, ela é solteira.

Assim que tiver compreendido que Deus não passa de uma hipótese criada pelos padres, pelo
políticos, pelo poder da elite, pelos pedagogos — por todos aqueles que o querem manter na
escravidão psicológica, que têm interesses investidos na sua escravidão... todos eles o querem
manter com medo, sempre com medo, tremendo bem no seu interior, porque se não tiver medo,
é torna-se perigoso.

Você ou é um cobarde medroso, pronto a submeter-se, a render-se, alguém sem dignidade, sem
respeito pelo seu próprio ser — ou então é destemido. Mas então será um rebelde, não o pode
evitar. Ou é um homem de fé ou vai ser um espírito rebelde. Por isso, aquelas pessoas que não
querem que seja rebelde — porque o ser rebelde vai contra os seus interesses — continuam a
forçar e a condicionar a sua mente com o Cristianismo, com o Judaísmo, com o Islamismo, com
o Hinduísmo, e mantêm-no a tremer bem no fundo de si. Esse é o seu poder, por isso alguém
que esteja interessado no poder, cuja vida inteira seja não mais do que uma vontade de poder,
tem um enorme uso para a hipótese de Deus.

Se tiver medo de Deus — e se acreditar em Deus, tem de ter medo — tem de seguir as suas
ordens e os seus mandamentos, o seu livro sagrado, o seu messias, a sua encarnação. Tem de o
seguir a ele e aos seus agentes.

Na realidade, ele não existe, só existem os seus agentes. E isto é um negócio muito estranho. A
religião é o mais estranho de todos os negócios. Não há patrão, mas há mediadores: os padres, o
bispo, o cardeal, o papa, o messias, a hierarquia inteira — e no topo não há ninguém.
172

No entanto, Jesus obtém a sua autoridade e o seu poder de Deus — como seu filho unigénito. O
Papa obtém a sua autoridade de Jesus — como seu verdadeiro e infalível representante. E assim
sucessivamente, até ao mais ínfimo padre... mas não há Deus; e isto provoca--lhe medo. Você
pediu para que Deus fosse inventado porque não podia viver sozinho. Foi incapaz de enfrentar a
vida, as suas belezas, as suas alegrias, os seus sofrimentos, as suas angústias. Não estava pronto
para viver sozinho essas experiências, não tinha ninguém que o protegesse, não tinha ninguém a
servir--lhe de guarda-chuva. Pediu um Deus por causa do seu medo. E não há dúvida de que,
em todo o lado, há homens capazes de tudo. Você pede e eles fazem o que pede.

Terá de deixar cair essa ideia de que é Deus que o ajuda a não ter medo. Terá de passar pelo
medo e aceitá-lo como realidade humana. Não há necessidade de fugir dele. O que é preciso é
entrar bem fundo nele, e quanto mais fundo entrar no seu medo, mais dificilmente o encontrará.

E quando tiver tocado no fundo pedregoso do medo, rir-se-á simplesmente, não há nada a
temer.

E quando o medo desaparece, fica a inocência, e essa inocência é o supra-sumo, é a própria


essência do homem religioso.

Essa inocência é poder.

Essa inocência é o único milagre que existe.

A partir da inocência, qualquer coisa pode acontecer, mas você não será um cristão a partir dela,
e não será um muçulmano a partir dela. A partir da inocência tornar-se-á simplesmente um ser
humano banal, aceitando completamente a sua banalidade e vivendo-a alegremente, agradecido
a toda a existência — não a Deus, porque isso é uma ideia que lhe foi dada pelos outros.

Terá de deixar cair essa ideia de que é Deus que o ajuda a não ter medo. Terá de passar pelo
medo e aceitá-lo como realidade humana. Não há necessidade de fugir dele.
173

Mas a existência não é uma ideia. Está em todo o lado, à sua volta, dentro e fora. Quando você
é completamente inocente, uma gratidão profunda — não lhe vou chamar prece porque na prece
está a pedir alguma coisa, vou chamar-lhe uma gratidão profunda — uma gratidão surge. Não
que esteja a pedir alguma coisa, mas está a agradecer uma coisa que já lhe foi dada.

Muito lhe foi dado. Merece-o? Ganhou-o? A existência está sempre a derramar tanto sobre si,
que pedir mais é muito feio. Deve sentir-se agradecido por aquilo que recebeu. E a coisa mais
bonita é que quando se mostra agradecido, a existência começa a derramar-se cada vez mais
sobre si. Torna-se um círculo: quanto mais obtém, mais agradecido se mostra; quanto mais
agradecido se mostra, mais obtém... e isso não tem fim, é um processo infinito.

Mas lembre-se: a hipótese de Deus desapareceu; no momento em que lhe chamou uma
hipótese, a ideia de Deus já foi abandonada. Quer tenha medo o não, não a pode recuperar;
acabou.

Agora o único caminho que lhe resta é entrar no seu medo.

Silenciosamente, entre nele, de modo a descobrir a sua profundidade.

E, às vezes, acontece que ele não é muito profundo.

Vou-lhe contar uma história:

Um homem, que caminhava de noite, escorregou num penedo. Com medo de cair de uma altura
de milhares de pés, pois sabia que naquele sítio havia um vale muito profundo, agarrou-se a um
ramo que baloiçava por cima do penedo. Na escuridão da noite, tudo o que ele conseguia ver
era um abismo sem fundo. Gritou, e o seu próprio grito ecoou — não havia ninguém que o
ouvisse.

Pode imaginar aquele homem e a noite de tortura que passou. Cada momento que passava
significava que ficava mais perto da morte, as mãos estavam frias, começava a perder a força...
e, quando o Sol nasceu, ele olhou para baixo e riu-se: não havia abismo nenhum. Apenas seis
polegadas abaixo dele havia um penedo. Podia ter descansado a noite inteira, dormido bem — o
penedo era suficientemente grande —, mas toda aquela noite foi um verdadeiro pesadelo.
174

Por experiência própria posso dizer-lhe: o medo não tem mais do que seis polegadas de
profundidade. Agora cabe-lhe a si decidir se quer ou não continuar agarrado ao ramo e
transformar a sua vida num pesadelo, ou se gostaria de abandonar o ramo e ficar de pé.

Não há nada a temer.


Sobre o Autor

Osho é um místico contemporâneo. A sua vida e as suas mensagens influenciaram milhões de


pessoas de todas as idades, culturas e religiões. Foi descrito pelo Sunday Times de Londres
como um dos “1000 Construtores do Século XX” e pelo Sunday MidDay da Índia como uma
das dez pessoas — tal como Gandhi, Neru e Buda — que mudaram o destino daquele país.

Osho disse que com o seu trabalho estava a ajudar a criar as condições para o nascimento de um
novo tipo de ser humano. Ele descreveu muitas vezes este novo tipo de ser humano como
“Zorba, o Buda” — capaz de desfrutar dos prazeres terrenos, como Zorba, e também de gozar a
serenidade silenciosa de um Buda Gautama. A visão que atravessa todos os seus escritos
abrange tanto a sabedoria eterna do Oriente como o elevado potencial da ciência e tecnologia
ocidentais.

Osho é também conhecido pela sua contribuição revolucionária para a ciência da transformação
interior, com uma abordagem da meditação que tem sempre em conta o ritmo acelerado da vida
contemporânea. As suas “Meditações Activas” são formas únicas de meditação, pensadas para
libertar o stresse acumulado do corpo e da mente, a fim de facilitar a experiência de um estado
meditativo livre de pensamentos e relaxado.
Meditação

A COMUNA INTERNACIONAL DE OSHO

A Comuna Internacional de Osho, um retiro de meditação que Osho fundou na índia para pôr
em prática os seus ensinamentos, é um verdadeiro oásis que continua a atrair todos os anos
milhares de visitantes oriundos de mais de uma centena de países do mundo inteiro.
Localizadas a sudoeste de Bombaim, em Pune, na índia, as instalações da Comuna Osho
ocupam 32 hectares nos terrenos verdejantes de Koregaon Park. Embora o retiro não ofereça
hospedagem, há uma grande variedade de hotéis na zona.

Os programas de meditação da Comuna baseiam-se na visão de Osho de um ser humano


qualitativamente novo, tão capaz de participar com alegria na vida quotidiana como de
descontrair em silêncio. A maior parte dos programas tem lugar em instalações modernas com
ar condicionado e incluem os mais diversos temas: de cursos breves a cursos intensivos sobre
meditação, artes criativas, tratamentos holísticos, desenvolvimento pessoal e uma abordagem
Zen ao desporto e ao lazer. Os programas realizam-se durante todo o ano e existe também uma
programação diária das meditações activas de Osho.

Restaurantes e cafés ao ar livre na Comuna servem pratos de gastronomia tradicional indiana e


internacional. Toda a comida é confeccionada com legumes de cultura biológica cultivados na
quinta da Comuna. As instalações têm um reservatório privado de água potável filtrada.
Para reservas contacte o 001 323 563 6075, nos EUA, ou consulte www.osho.com para
descobrir qual é o Centro de Informação de Pune mais perto de si.

Para mais informações consulte:

www.osho.com

Um site abrangente, apresentado em diversas línguas, com uma visita guiada on-line às
instalações da Comuna, informações sobre livros e CD’s, Centros de Informação sobre Osho
em todo o mundo e trechos seleccionados das suas palestras.

Osho International Foundation 570, Lexington Avenue New York NY 10022 USA

Telefone: 001 212 588 9888 Fax: 001 212 588 1977 email: osho-int@osho.org
<Página em branco>
Índice

Prefácio.................................................. 7

QUE É A CORAGEM?.......................................11

O Tao da Coragem.......................................12

A Via do Coração.......................................15

A Via da Inteligência..................................23

A Via da Confiança.....................................29

A Via da Inocência.....................................37

QUANDO O NOVO BATER À SUA PORTA, ABRA-LHA! ... 54

A CORAGEM DO AMOR.........................................63

Não um Relacionamento, mas um Estado de Ser............74

Este Bolo é Delicioso! ................................76

Um Mundo sem Fronteiras................................81

Nem Fácil nem Difícil, Apenas Natural..................85

RETIRE-SE DA MULTIDÃO.....................................93

A Política dos Números.................................97

Escute o seu “Sentido Interior”........................99

Liberdade de, Liberdade para..........................104

Descubra o seu Rosto Original.........................106


180

A ALEGRIA DE VIVER PERIGOSAMENTE..................111

Faça o que Fizer, a Vida é um Mistério..........116

A Vida Existe Sempre na Natureza Selvagem.......119

A Coragem Fundamental: Sem Princípio e Sem Fim... 124

EM BUSCA DA INTREPIDEZ ...........................140

Técnicas de Meditação e Respostas a Perguntas...140

Meditação para o Medo do Vazio..................158

Meditação para Dissolver Velhos Padrões de Medo... 159

Meditação para Adquirir Confiança...............161

Meditação para Transformar o Medo em Amor.......162

E a Ultima Pergunta: O Medo de Deus.............163

Sobre o autor.....................................175

MEDITAÇÃO — A COMUNA INTERNACIONAL DE OSHO..................................177


Nesta Colecção

Intimidade

- Confiar em Si Próprio e no Outro

de OSHO

As relações de curta duração são cada vez mais comuns numa sociedade como a nossa, que
pouco a pouco se vai afastando das suas raízes e da estrutura familiar. Mas ao mesmo tempo vai
surgindo a ideia de que nos falta alguma coisa. Falta-nos intimidade. Ser íntimo de alguém
implica expor os nossos sentimentos e vulnerabilidades mais profundos, na esperança de que o
outro os trate com carinho. A intimidade é um risco - um risco que só poderemos correr se
tivermos força para confiar no outro. Neste guia sensível e cheio de compaixão, Osho conduz o
leitor passo a passo pela via da intimidade, mostrando o que ela tem de assustador e ensinando
o leitor a enfrentar esse temor, a ultrapassá-lo e a construir relações baseadas na abertura e na
confiança.
Consciência

- A Chave para Viver em Equilíbrio de Osho

Subjacente a todas as técnicas de meditação está a capacidade de estar desperto e atento a cada
momento, aquilo a que Osho chama consciência. Se soubermos identificar e compreender esta
capacidade, teremos a chave para a mestria de todos os aspectos da vida.

Todos os grandes mestres espirituais, como Buda e Lao-Tse, afirmam que a maior parte dos
homens vive numa espécie de sonambulismo, sem prestarem atenção ao que fazem, sem terem
consciência do que os rodeia e sem conhecerem as suas motivações mais profundas.

A consciência, segundo Osho, é a chave para alcançar a liberdade. Neste livro, ele ensina a
dinamizar a consciência para viver de forma mais atenta e cuidadosa, fazendo de cada momento
uma iluminação.

FIM