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Zenaide Auxiliadora Pachegas Branco, Ricardo Razaboni. Bruna Pinotti Garcia.

Mariela Cardoso
Guilherme Cardoso. Rodrigo Gonçalves. Carlos Quiqueto. Ricardo Razaboni

Polícia Civil do Estado de Minas Gerais

PC-MG
Escrivão de Polícia I
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OBRA
Polícia Civil do Estado de Minas Gerais - PC-MG
Cargo: Escrivão de Polícia I

AUTORES
Língua Portuguesa - Profa. Zenaide Auxiliadora Pachegas Branco
Programa de Direitos Humanos - Bruna Pinotti Garcia
Programa de Língua Portuguesa - Zenaide Auxiliadora Pachegas Branco
Programa de Noções de Criminologia - Ricardo Razaboni
Programa de Noções de Direito Administrativo - Bruna Pinotti Garcia
Programa de Noções de Civil - Mariela Cardoso
Programa de Noções de Direito Constitucional - Guilherme Cardoso
Programa de Noções de Direito Penal - Rodrigo Gonçalves
Programa de Noções Processual Penal - Rodrigo Gonçalves
Programa de Noções de Informática - Carlos Quiqueto
Programa de Noções de Medicina Legal - Ricardo Razaboni

PRODUÇÃO EDITORIAL/REVISÃO
Suelen Domenica Pereira
Elaine Cristina

DIAGRAMAÇÃO
Elaine Cristina
Thais Regis
Camila Lopes

CAPA
Joel Ferreira dos Santos

Publicado em 07/2018

www.novaconcursos.com.br

sac@novaconcursos.com.br
SUMÁRIO

PROGRAMA DE DIREITOS HUMANOS

A Constituição Brasileira de 1988....................................................................................................................................... 01


Noções gerais sobre direitos humanos.............................................................................................................................. 03
Gerações de direitos humanos........................................................................................................................................... 11
A Constituição Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos.......................... 12
O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos.......................................................................................... 14
O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil........................ 27
A Constituição Brasileira de 1988: Dos princípios fundamentais................................................................................... 30
A Constituição Brasileira de 1988: Dos Direitos e Garantias Fundamentais.................................................................. 37
Dos direitos e deveres individuais e coletivos................................................................................................................... 37
Dos direitos sociais.............................................................................................................................................................. 66
Da nacionalidade................................................................................................................................................................. 79
Dos direitos políticos........................................................................................................................................................... 85
Dos partidos políticos......................................................................................................................................................... 88
Direitos humanos das minorias e grupos vulneráveis..................................................................................................... 90
Política nacional de direitos humanos............................................................................................................................... 95

PROGRAMA DE NOÇÕES DE CRIMINOLOGIA

Criminologia: conceito, cientificidade, objeto, método, sistema e funções................................................................... 01


Fundamentos históricos e filosóficos da Criminologia: precursores, Iluminismo e as primeiras escolas sociológicas.
Marcos científicos da Criminologia. A escola liberal clássica do Direito Penal e a Criminologia positivista.............. 03
A Moderna Criminologia científica: modelos teóricos explicativos do comportamento criminal. Biologia criminal,
Psicologia Criminal e Sociologia Criminal. ....................................................................................................................... 06
Teoria Estrutural-Funcionalista do desvio e da anomia. ................................................................................................. 09
Teoria das Subculturas Criminais. ..................................................................................................................................... 09
Do “Labeling Approach” a uma criminologia crítica. ...................................................................................................... 09
A sociologia do conflito e a sua aplicação criminológica. ............................................................................................... 11
Sistema penal e reprodução da realidade social............................................................................................................... 11
Cárcere e marginalidade social. ......................................................................................................................................... 11
Modelo consensual de Justiça Criminal............................................................................................................................ 11

PROGRAMA DE NOÇÕES DE DIREITO ADMINISTRATIVO

Lei Orgânica da Polícia Civil............................................................................................................................................... 01


Administração Pública........................................................................................................................................................ 28
Conceito e princípios.......................................................................................................................................................... 28
Administração pública direta e indireta............................................................................................................................ 36
Agentes públicos.................................................................................................................................................................. 45
Conceito............................................................................................................................................................................... 45
Classificação (espécie)........................................................................................................................................................ 46
SUMÁRIO

Direitos e deveres................................................................................................................................................................. 48
Responsabilidade administrativa, civil e penal................................................................................................................. 48
Lei 8.429/92 e alterações (Lei de improbidade administrativa)....................................................................................... 65
Poderes da Administração Pública..................................................................................................................................... 79
Poder hierárquico................................................................................................................................................................ 81
Poder Disciplinar................................................................................................................................................................. 81
Poder Regulamentar............................................................................................................................................................ 82
Poder de Polícia................................................................................................................................................................... 82
Fatos e atos administrativos:.............................................................................................................................................. 85
Conceito............................................................................................................................................................................... 85
Requisitos do ato administrativo........................................................................................................................................ 85
Atributos do ato administrativo.......................................................................................................................................... 87
Classificação......................................................................................................................................................................... 87
Revogação e anulação......................................................................................................................................................... 88
Processo administrativo:..................................................................................................................................................... 91
Conceito............................................................................................................................................................................... 91
Princípios............................................................................................................................................................................. 91
Responsabilidade civil do Estado..................................................................................................................................... 102

PROGRAMA DE NOÇÕES DE CIVIL

Da personalidade e da capacidade.................................................................................................................................... 01
Dos direitos da personalidade............................................................................................................................................ 01
Da pessoa jurídica............................................................................................................................................................... 01
Responsabilidade jurídica.................................................................................................................................................. 18
Fato jurídico......................................................................................................................................................................... 24
Negócios jurídicos............................................................................................................................................................... 24
Conceito............................................................................................................................................................................... 24
Vícios: Erro, dolo, culpa e coação....................................................................................................................................... 24
Relações de parentesco....................................................................................................................................................... 40
Da tutela e curatela.............................................................................................................................................................. 40

PROGRAMA DE NOÇÕES DE DIREITO CONSTITUCIONAL


Conceito............................................................................................................................................................................... 01
Direitos e Garantias Fundamentais.................................................................................................................................... 03
Direitos Individuais............................................................................................................................................................. 03
Direitos Coletivos................................................................................................................................................................. 03
Direitos Sociais..................................................................................................................................................................... 14
O Estado................................................................................................................................................................................ 18
Conceito............................................................................................................................................................................... 18
Elementos que compõem o Estado.................................................................................................................................... 18
Finalidade do Estado........................................................................................................................................................... 18
Funções essenciais à Justiça............................................................................................................................................... 20
SUMÁRIO

PROGRAMA DE NOÇÕES DE DIREITO PENAL

Princípios penais constitucionais...................................................................................................................................... 01


Tempo e lugar do crime....................................................................................................................................................... 02
Contagem de prazo.............................................................................................................................................................. 03
Conflito aparente de normas.............................................................................................................................................. 03
Conceito de crime e seus elementos.................................................................................................................................. 04
Concurso de pessoas:.......................................................................................................................................................... 09
Autoria.................................................................................................................................................................................. 09
Participação.......................................................................................................................................................................... 10
Ação penal............................................................................................................................................................................ 10
Classificação......................................................................................................................................................................... 10
Condições............................................................................................................................................................................. 10
Dos crimes em espécie:....................................................................................................................................................... 11
Crimes contra a pessoa....................................................................................................................................................... 11
Crimes contra o patrimônio............................................................................................................................................... 12
Crimes contra a dignidade sexual...................................................................................................................................... 18
Crimes contra a Administração Pública............................................................................................................................ 18
Legislação Especial:............................................................................................................................................................. 20
Contravenções Penais (Decreto n° 3.688/41).................................................................................................................... 20
Lei 4.898/65 (Abuso de Autoridade)................................................................................................................................... 20
Lei 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente)....................................................................................................... 22
Lei 8.072/90 (Crimes Hediondos)....................................................................................................................................... 22
Lei 9.099/95 (Juizados Especiais Criminais)..................................................................................................................... 23
Lei 9.455/97 (Lei de Tortura)............................................................................................................................................... 27
Lei. 9.503/ 97 (Código de Trânsito)..................................................................................................................................... 27
Lei 11.343/06 (Lei de Drogas)............................................................................................................................................. 28
Lei 11.340/03 (Lei Maria da Penha).................................................................................................................................... 30

PROGRAMA DE NOÇÕES PROCESSUAL PENAL


Princípios processuais penais............................................................................................................................................ 01
Direitos e garantias processuais penais............................................................................................................................. 02
Investigação criminal policial (artigos 4° ao 23° do CPP)................................................................................................. 02
Prisão cautelar:.................................................................................................................................................................... 05
Prisão em flagrante: Tipos e espécies de flagrante............................................................................................................ 07
Prisão preventiva................................................................................................................................................................. 08
Prisão temporária................................................................................................................................................................ 09
Teoria geral da prova penal................................................................................................................................................. 09
Legislação especial:............................................................................................................................................................. 16
Lei 4.898/65 (Abuso de Autoridade)................................................................................................................................... 16
Lei 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente)....................................................................................................... 16
Lei 8.072/90 (Crimes Hediondos)....................................................................................................................................... 16
Lei 9.099/95 (Juizados Especiais Criminais)..................................................................................................................... 16
SUMÁRIO
Lei 9.455/97 (Lei de Tortura)............................................................................................................................................... 16
Lei. 9.503/ 97 (Código de Trânsito)..................................................................................................................................... 16
Lei 11.343/06 (Lei de drogas).............................................................................................................................................. 16
Lei 11.340/03 (Lei Maria da Penha).................................................................................................................................... 16

PROGRAMA DE NOÇÕES DE INFORMÁTICA

Sistema Operacional Windows 7........................................................................................................................................ 01


Microsoft Word 2013: Edição e formatação de textos....................................................................................................... 09
LibreOffice Writter 5.4.7: Edição e formatação de textos.................................................................................................. 35
Microsoft Excel 2013: Elaboração, cálculos e manipulação de tabelas e gráficos.......................................................... 54
LibreOffice Calc 5.4.7: Elaboração, cálculos e manipulação de tabelas e gráficos......................................................... 67
Microsoft PowerPoint 2013: estrutura básica de apresentações, edição e formatação................................................. 79
LibreOffice Impress 5.4.7: estrutura básica de apresentações, edição e formatação..................................................... 79
Microsoft Outlook 2013: Correio Eletrônico.................................................................................................................... 102
Google Chrome: Navegação na Internet.......................................................................................................................... 105
Segurança: Tipos de vírus, Cavalos de Tróia, Worms, Spyware, Phishing, Pharming, Spam....................................... 110

PROGRAMA DE NOÇÕES DE MEDICINA LEGAL

Perícias e Peritos..............................................................................................................................................................................01
Documentos médico-legais................................................................................................................................................ 01
Quesitos oficiais................................................................................................................................................................... 01
Perícias médicas.................................................................................................................................................................. 01
Ética médica e pericial........................................................................................................................................................ 01
Legislação sobre perícias médico-legais............................................................................................................................ 01
Antropologia Médico-legal................................................................................................................................................. 03
Identidade e identificação................................................................................................................................................... 03
Identificação judiciária....................................................................................................................................................... 03
Traumatologia Médico-legal............................................................................................................................................... 04
Lesões corporais sob o ponto de vista jurídico................................................................................................................. 04
Energias de Ordem Mecânica............................................................................................................................................. 04
Energias de Ordem Química, cáusticos e venenos, embriaguez, toxicomanias............................................................ 04
Energias de Ordem Física: Efeitos da temperatura, eletricidade, pressão atmosférica, radiações, luz e som............. 04
Energias de Ordem Físico-Química: Asfixias em geral. Asfixias em espécie: por gases irrespiráveis, por monóxido de carbono,
por sufocação direta, por sufocação indireta, por afogamento, por enforcamento, por estrangulamento, por esganadura,
por soterramento e por confinamento..........................................................................................................................................04
Energias de Ordem Biodinâmica e Mistas.....................................................................................................................................04
Tanatologia Médico-legal...............................................................................................................................................................09
Tanatognose e cronotanatognose..................................................................................................................................................09
Fenômenos cadavéricos.................................................................................................................................................................09
Necropsia, necroscopia..................................................................................................................................................................09
Exumação.........................................................................................................................................................................................09
“Causa mortis”.................................................................................................................................................................................09
Morte natural e morte violenta......................................................................................................................................................09
Direitos sobre o cadáver..................................................................................................................................................................09
SUMÁRIO

Sexologia Médico-legal...................................................................................................................................................................11
Crimes contra a dignidade sexual e provas periciais....................................................................................................................11
Gravidez, parto, puerpério, aborto, infanticídio...........................................................................................................................11
Reprodução assistida......................................................................................................................................................................11
Transtornos da sexualidade e da identidade sexual.....................................................................................................................11
Psicopatologia Médico-legal..........................................................................................................................................................12
Imputabilidade penal e capacidade civil......................................................................................................................................12
Limite e modificadores da responsabilidade penal e capacidade civil......................................................................................12
Repercussões médico-legais dos distúrbios psíquicos................................................................................................................12
Simulação, dissimulação e supersimulação..................................................................................................................................12
Embriaguez alcoólica......................................................................................................................................................................13
Alcoolismo.......................................................................................................................................................................................13
Aspectos jurídicos...........................................................................................................................................................................13
Toxicofilias.......................................................................................................................................................................................14
Hora de Praticar...............................................................................................................................................................................16

PROGRAMA DE LÍNGUA PORTUGUESA

Interpretação e compreensão de textos. ......................................................................................................................................01


Identificação de tipos textuais: narrativo, descritivo e dissertativo. ..........................................................................................01
Critérios de textualidade: coerência e coesão...............................................................................................................................01
Recursos de construção textual: fonológicos, morfológicos, sintáticos e semânticos..............................................................01
Gêneros textuais da Redação Oficial.............................................................................................................................................07
Princípios gerais. ............................................................................................................................................................................07
Uso dos pronomes de tratamento. ................................................................................................................................................07
Estrutura interna dos gêneros: ofício, memorando, requerimento, relatório, parecer. ............................................................07
Conhecimentos linguísticos. .........................................................................................................................................................21
Conhecimentos gramaticais conforme padrão formal da língua. .............................................................................................21
Princípios gerais de leitura e produção de texto. Intertextualidade. Tipos de discurso. Vozes discursivas: citação, paródia,
alusão, paráfrase, epígrafe. ............................................................................................................................................................21
Semântica: construção de sentido; sinonímia, antonímia, homonímia, paronímia, polissemia; denotação e conotação;
figuras de linguagem. .....................................................................................................................................................................94
Pontuação e efeitos de sentido. ...................................................................................................................................................104
Sintaxe: oração, período, termos das orações; articulação das orações: coordenação e subordinação; concordância verbal e
nominal; regência verbal e nominal............................................................................................................................................107
Hora de praticar.............................................................................................................................................................................137
ÍNDICE

DIREITOS HUMANOS
A Constituição Brasileira de 1988...........................................................................................................................................................01
Noções gerais sobre direitos humanos..................................................................................................................................................03
Gerações de direitos humanos...............................................................................................................................................................11
A Constituição Brasileira de 1988 e os Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos..............................................12
O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos.............................................................................................................14
O Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil...........................................27
A Constituição Brasileira de 1988: Dos princípios fundamentais.......................................................................................................30
A Constituição Brasileira de 1988: Dos Direitos e Garantias Fundamentais......................................................................................37
Dos direitos e deveres individuais e coletivos.......................................................................................................................................37
Dos direitos sociais..................................................................................................................................................................................66
Da nacionalidade....................................................................................................................................................................................79
Dos direitos políticos..............................................................................................................................................................................85
Dos partidos políticos.............................................................................................................................................................................88
Direitos humanos das minorias e grupos vulneráveis.........................................................................................................................90
Política nacional de direitos humanos..................................................................................................................................................95
Hora de praticar.......................................................................................................................................................................................99
com uma inflação galopante que este não conseguia contro-
A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 lar, denúncias de corrupção por todos os lados que surgiam
com o levantamento da censura, perda de confiança da popu-
lação no governo, e as sucessivas perdas nas eleições legislati-
Os direitos e garantias fundamentais tomam por base os vas do partido governista, a ARENA. Tais fatores contribuíram
direitos humanos reconhecidos no âmbito internacional. para que a abertura política fosse mais que um gesto de boa
Com efeito, após o processo de internacionalização dos direi- vontade do governo. Era o gesto de um regime acossado pela
tos humanos vieram o de regionalização de tais direitos e o crise e que se ressentia da força das manifestações populares,
de incorporação, transpondo-as para o ordenamento interno. cada vez mais constantes. [...] Mas, o ponto máximo do pe-
ríodo da redemocratização foi sem dúvida o movimento pe-
Com efeito, quando se fala em institucionalização dos di- las Diretas-Já, campanha que mobilizou milhões no final do
reitos e garantias fundamentais, refere-se ao modo pelo qual mandato do presidente João Figueiredo, buscando pressionar
a Constituição brasileira disciplina a os direitos e garantias o Legislativo a aprovar a chamada Emenda Dante de Olivei-
fundamentais. ra, de autor do parlamentar mato-grossense, e que restituía
o voto direto para presidente. A campanha pelas Diretas-Já
marcou a década de 80 no Brasil, e uniu personalidades de to-
#FicaDica dos os campos em torno do desejo do voto, que acabaria frus-
Flávia Piovesan utiliza a expressão institucio- trado, pois a Emenda não foi aprovada. O candidato apoiado
nalização de direitos e garantias fundamentais pelo povo, porém, venceria as eleições indiretas, mas, causan-
para compreender a forma como os direitos do nova frustração no povo, morreria antes de assumir. Seu
humanos se compõem ao texto constitucional, nome: Tancredo Neves; em seu lugar, assumiria seu vice, José
tanto no aspecto estrutural quanto no aspecto Sarney, um verdadeiro democrático de última hora, político
histórico. originário da ARENA, o partido de apoio do Regime Militar, e
de seu sucessor, o PDS”3.

Histórico: o processo de redemocratização do Brasil


A lei de anistia: uma mancha no processo de redemo-
O principal fator que influenciou o tratamento da temáti- cratização?
ca é o fato de que a Constituição de 1988 demarcou o processo
de democratização do Brasil, consolidando a ruptura com o Muito se questiona a respeito da lei de anistia, Lei nº
regime autoritário militar instalado em 1964. Após um longo 6.683/1979, que anistiou os crimes políticos praticados no pe-
período de 21 anos, o regime militar ditatorial no Brasil caiu, ríodo da ditadura:
deflagrando-se num processo democrático. As forças de opo-
sição foram beneficiadas neste processo de abertura, conse- Art. 1º É concedida anistia a todos quantos, no período
guindo relevantes conquistas sociais e políticas. Este processo compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de
culminou na Constituição de 19881. 1979, cometeram crimes políticos ou conexo com estes, crimes
eleitorais, aos que tiveram seus direitos políticos suspensos e
“A luta pela normalização democrática e pela conquista aos servidores da Administração Direta e Indireta, de funda-
do Estado de Direito Democrático começará assim que ins- ções vinculadas ao poder público, aos Servidores dos Poderes
talou o golpe de 1964 e especialmente após o AI5, que foi o Legislativo e Judiciário, aos Militares e aos dirigentes e repre-
instrumento mais autoritário da história política do Brasil. To- sentantes sindicais, punidos com fundamento em Atos Institu-
mará, porém, as ruas, a partir da eleição de Governadores em cionais e Complementares.
1982. Intensificar-se-á, quando, no início de 1984, as multi-
dões acorreram entusiásticas e ordeiras aos comícios em prol §1º Consideram-se conexos, para efeito deste artigo,
da eleição direta do Presidente da República, interpretando o os crimes de qualquer natureza relacionados com
sentimento da Nação, em busca do reequilíbrio da vida na- crimes políticos ou praticados por motivação política.
cional, que só poderia consubstanciar-se numa nova ordem
constitucional que refizesse o pacto político-social”2. O questionamento parte do fato de que a legislação não
apenas anistiou os crimes praticados por aqueles perseguidos
“A grosso modo, o período considerado como de redemo- pelo regime ditatorial, como também aqueles crimes pratica-
cratização vai desde o governo Ernesto Geisel até a eleição in- dos pelo regime ditatorial e por seus funcionários, inclusive
direta de Tancredo Neves, que morreria pouco antes de assu- tortura.
mir o poder, resultando na posse de José Sarney, cujo período
na presidência inicia o que se costuma denominar Nova Re- A Comissão Americana de Direitos Humanos entendeu
pública. Com o fim do período de Ernesto Geisel na presidên- que a lei de anistia é óbice ao acesso à justiça, impedindo o
cia, ficava claro para a opinião pública que o Regime Militar esgotamento dos recursos internos, o que permitiria o acesso
DIREITOS HUMANOS

estava chegando ao fim, e a palavra em voga era ‘abertura’, em direto à jurisdição internacional (Caso Vladimir Herzog).
especial a política, mesmo que a contragosto da chamada Li-
nha Dura do regime. O regime estava na verdade implodindo,

1 PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e direito constitucio-


nal internacional. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2008.
2 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional posi- 3 http://www.infoescola.com/historia-do-brasil/redemocra-
tivo. 25. ed. São Paulo: Malheiros, 2006. tizacao/

1
A posição dos direitos fundamentais no novo texto etc.
constitucional
Talvez a expressão mais relevante, se é que é possível deli-
A atual Constituição institucionaliza a instauração de um mitar somente uma, seja a dignidade da pessoa humana, que
regime político democrático no Brasil, além de introduzir in- acaba por englobar todas as demais. Assim, reconhece-se a
discutível avanço na consolidação legislativa dos direitos e pessoa humana enquanto ser digno, aos quais são garanti-
garantias fundamentais e na proteção dos grupos vulnerá- dos direitos e deveres fundamentais, e isto abre espaço para
veis brasileiros. Assim, a partir da Constituição de 1988 os di- compreender o Direito apenas tendo em vista ditames éticos.
reitos humanos ganharam relevo extraordinário, sendo este
documento o mais abrangente e pormenorizado de direitos A dignidade da pessoa humana é o valor-base de inter-
humanos já adotado no Brasil4. pretação de qualquer sistema jurídico, internacional ou na-
cional, que possa se considerar compatível com os valores
Piovesan5 lembra que o texto de 1988 inova ao disciplinar éticos, notadamente da moral, da justiça e da democracia.
primeiro os direitos e depois questões relativas ao Estado, di- Pensar em dignidade da pessoa humana significa, acima de
ferente das demais, o que demonstra a prioridade conferida tudo, colocar a pessoa humana como centro e norte para
a estes direitos. Logo, o Estado não existe para o governo, mas qualquer processo de interpretação jurídico, seja na elabora-
sim para o povo. ção da norma, seja na sua aplicação.

A Constituição brasileira está arraigada no ideário dos di- Sem pretender estabelecer uma definição fechada ou ple-
reitos humanos, o que torna o Brasil um país muito receptivo na, é possível conceituar dignidade da pessoa humana como
ao processo de internacionalização de tais direitos, sendo o principal valor do ordenamento ético e, por consequência,
signatário da grande maioria dos tratados de direitos huma- jurídico que pretende colocar a pessoa humana como um su-
nos relevantes. Neste sentido, a Carta de 1988 é a primeira jeito pleno de direitos e obrigações na ordem internacional e
Constituição brasileira a elencar a prevalência dos direitos nacional, cujo desrespeito acarreta a própria exclusão de sua
humanos como princípio regente nas relações internacio- personalidade.
nais que estabeleça6.
Para Reale7, a evolução histórica demonstra o domínio de
um valor sobre o outro, ou seja, a existência de uma ordem
Axiologia da Constituição de 1988: hegemonia dos gradativa entre os valores; mas existem os valores fundamen-
princípios tais e os secundários, sendo que o valor fonte é o da pessoa
humana. Nesse sentido, são os dizeres de Reale8: “partimos
O preâmbulo do texto constitucional é apenas uma prévia dessa ideia, a nosso ver básica, de que a pessoa humana é o
do que está por vir, isto é, de um rol extremamente detalhado valor-fonte de todos os valores. O homem, como ser natural
de direitos e garantias fundamentais asseguradas à pessoa biopsíquico, é apenas um indivíduo entre outros indivíduos,
humana abrangendo todas as dimensões de direitos huma- um ente animal entre os demais da mesma espécie. O ho-
nos: “Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em mem, considerado na sua objetividade espiritual, enquanto
Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado ser que só realiza no sentido de seu dever ser, é o que chama-
Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos mos de pessoa. Só o homem possui a dignidade originária de
sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o ser enquanto deve ser, pondo-se essencialmente como razão
desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supre- determinante do processo histórico”.
mos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconcei-
tos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem A abertura da Constituição brasileira a valores e princí-
interna e internacional, com a solução pacífica das contro- pios sustentada no princípio da dignidade da pessoa huma-
vérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte na confere novo sentido à ordem jurídica, rompendo com as
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL”. barreiras do positivismo.

Após, o texto constitucional é formado por expressões de Na fase Positivista, os princípios entravam nos Códigos
cunho valorativo importantíssimo em termos de proteção de apenas como válvulas de segurança, eram meras pautas pro-
direitos humanos consagrados, a exemplo: cidadania (art. 1º, gramáticas supralegais, não possuindo normatividade; ao
II); dignidade da pessoa humana (art. 1º, III); sociedade livre, passo que na fase Pós-positivista, as Constituições destacam
justa e solidária (art. 3º, I); bem de todos, sem preconceitos a hegemonia axiológica dos princípios, transformando-os
de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas em pedestal normativo que dá base a todo edifício jurídico
de discriminação (art. 3º, IV); prevalência dos direitos huma- dos novos sistemas constitucionais9. Esta fase Pós-positivis-
nos (art. 4º, II); inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à ta, da nova hermenêutica constitucional, somente ganhou
igualdade, à segurança e à propriedade (art. 5º, caput); direi- forma devido à Constituição de 1988.
tos sociais (art. 6º, caput); soberania popular (art. 14, caput);
DIREITOS HUMANOS

4 PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e direito constitucio-


nal internacional. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. 7 REALE, Miguel. Filosofia do direito. 19. ed. São Paulo: Sa-
raiva, 2002, p. 228.
5 PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e direito constitucio-
nal internacional. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. 8 Ibid., p. 220.
6 PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e direito constitucio- 9 BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. 26. ed.
nal internacional. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. São Paulo: Malheiros, 2011.

2
camente, objetivos do Estado brasileiro.
EXERCÍCIO COMENTADO
c) Inclui os direitos sociais, a nacionalidade e os direitos po-
líticos no rol dos direitos e garantias fundamentais.
1) (PC-MG - Delegado de Polícia Substituto - FUMARC/2018)
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, retoman- d) Não se coloca entre as Constituições mais avançadas do
do os ideais da Revolução Francesa, representou a mani- mundo no que diz respeito à matéria.
festação histórica de que se formara, enfim, em âmbito
universal, o reconhecimento dos valores supremos da Resposta: Letra D - Sem sombra de dúvidas, a Constituição
igualdade, da liberdade e da fraternidade. Em decorrência Federal de 1988 é uma das mais avançadas do mundo no que
disso, os direitos fundamentais expressos na Constituição diz respeito à afirmação de direitos e garantias fundamentais.
Federal de 1988:
a) Certa, pois de fato a noção de direitos e garantias funda-
a) como na Declaração Universal dos Direitos Humanos, mentais tomou outra perspectiva, mais ampla, com a
esses direitos fundamentais são considerados uma reco- CF/1988.
mendação sem força vinculante, uma etapa preliminar
para ulterior implementação na medida em que a socie- b) Certa, pela primeira vez uma Constituição brasileira assi-
dade se desenvolver. nalou os objetivos do Estado, em seu artigo 3o.
b) não consideram as diferenças humanas como fonte de va- c) Certa, sendo que o rol de direitos fundamentais abrange
lores positivos a serem protegidos e estimulados, pois, ao ainda os direitos individuais e coletivos e os partidos políti-
criar dispositivos afirmativos legais, as diferenças passam cos.
a ser tratadas como deficiências.

c) obrigam que o princípio da solidariedade seja interpreta- NOÇÕES GERAIS SOBRE DIREITOS
do com a base dos direitos econômicos e sociais, que são HUMANOS
exigências elementares de proteção às classes ou aos gru-
pos sociais mais fracos ou necessitados.
Teoria geral dos direitos humanos é o estudo dos direitos
d) tratam a liberdade como um princípio político e não indi- humanos, desde os seus elementos básicos como conceito,
vidual, pois o reconhecimento de liberdades individuais características, fundamentação e finalidade, passando pela
em sociedades complexas esconde a dominação oligár- análise histórica e chegando à compreensão de sua estrutura
quica dos mais ricos. normativa.

Resposta: Letra C - O princípio da solidariedade ou da frater- Na atualidade, a primeira noção que vem à mente quan-
nidade está erigido no direito internacional dos direitos hu- do se fala em direitos humanos é a dos documentos interna-
manos como uma obrigação de todos que vivem em sociedade cionais que os consagram, aliada ao processo de transposi-
para com os demais. Assim, é preciso solidariedade, destinan- ção para as Constituições Federais dos países democráticos
do aos mais necessitados e fracos proteção especial. Isso envol- (teoria positivista). Contudo, é possível aprofundar esta no-
ve, inclusive, a destinação específica de recursos econômicos e ção se tomadas as raízes históricas e filosóficas dos direitos
serviços sociais a estas pessoas que mais necessitam. humanos, as quais serão abordadas em detalhes adiante,
acrescentando-se que existem direitos inatos ao homem in-
a) Errada, pois os direitos fundamentais possuem força vincu- dependentemente de previsão expressa por serem elemen-
lante e, inclusive, estão no topo do ordenamento brasileiro. tos essenciais na construção de sua dignidade (teoria jusna-
turalista).
b) Errada, pois a Constituição trata a igualdade de forma a
aceitar a desigualdade entre as pessoas como algo bom Logo, um conceito preliminar de direitos humanos pode
para a sociedade, pluralista. Mesmo nas deficiências estão ser estabelecido: direitos humanos são aqueles inerentes ao
fonte de conhecimento e saber. homem enquanto condição para sua dignidade que usual-
mente são descritos em documentos internacionais para que
d) Errada, pois a liberdade é tanto um princípio político quan- sejam mais seguramente garantidos. A conquista de direitos
to um princípio individual. da pessoa humana é, na verdade, uma busca da dignidade
da pessoa humana, em todos seus bens jurídicos essenciais.

2) (PC-MG - Investigador de Polícia - FUMARC/2014) A O direito natural se contrapõe ao direito positivo, locali-
Constituição Federal de 1988 pode ser considerada, na zado no tempo e no espaço: tem como pressuposto a ideia de
imutabilidade de certos princípios, que escapam à história, e
DIREITOS HUMANOS

história do Brasil, o documento mais abrangente e por-


menorizado sobre os direitos humanos até então adotado. a universalidade destes princípios transcendem a geografia.
Sobre a Constituição Federal de 1988, NÃO é correto o que A estes princípios, que são dados e não postos por conven-
se afirma em: ção, os homens têm acesso através da razão comum a todos
(todo homem é racional), e são estes princípios que permi-
a) Alargou o campo dos direitos e das garantias fundamen- tem qualificar as condutas humanas como boas ou más, qua-
tais. lificação esta que promove uma contínua vinculação entre

b) É a primeira vez que uma Constituição assinala, especifi-

3
norma e valor e, portanto, entre Direito e Moral10. de um conceito contemporâneo de direitos humanos. Entre
outros documentos a partir dos quais tal concepção come-
As premissas dos direitos humanos se encontram no con- çou a ganhar forma, destacam-se: Magna Carta de 1215, Bill
ceito de lei natural. Lei natural é aquela inerente à humani- of Rights ao final do século XVII e Constituições da Revolução
dade, independentemente da norma imposta, e que deve ser Francesa de 1789 e Americana de 1787. No entanto, o docu-
respeitada acima de tudo. O conceito de lei natural foi funda- mento que constitui o marco mais significativo para a forma-
mental para a estruturação dos direitos dos homens, ficando
ção de uma concepção contemporânea de direitos humanos
reconhecido que a pessoa humana possui direitos inaliená-
veis e imprescritíveis, válidos em qualquer tempo e lugar, é a Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948. Após
que devem ser respeitados por todos os Estados e membros ela, muitos outros documentos relevantes surgiram, como o
da sociedade. O direito natural é, então, comum a todos e, Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e Pacto Inter-
ligado à própria origem da humanidade, representa um pa- nacional de Direitos Humanos, Sociais e Culturais, ambos de
drão geral, funcionando como instrumento de validação das 1966, além da Convenção Interamericana de Direitos Huma-
ordens positivas11. nos (Pacto de São José da Costa Rica) de 1969, entre outros.

O direito natural, na sua formulação clássica, não é um Os direitos humanos possuem as seguintes característi-
conjunto de normas paralelas e semelhantes às do direito cas principais:
positivo, e sim o fundamento deste direito positivo, sendo
formado por normas que servem de justificativa a este, por 1) Historicidade: os direitos humanos possuem ante-
exemplo: “deve se fazer o bem”, “dar a cada um o que lhe é cedentes históricos relevantes e, através dos tempos,
devido”, “a vida social deve ser conservada”, “os contratos de- adquirem novas perspectivas. Nesta característica se
vem ser observados” etc.12 enquadra a noção de dimensões de direitos.
Em literatura, destaca-se a obra do filósofo Sófocles13 in-
2) Universalidade: os direitos humanos pertencem a to-
titulada Antígona, na qual a personagem se vê em conflito
entre seguir o que é justo pela lei dos homens em detrimento dos e por isso se encontram ligados a um sistema glo-
do que é justo por natureza quando o rei Creonte impõe que bal (ONU), o que impede o retrocesso.
o corpo de seu irmão não seja enterrado porque havia lutado
contra o país. Neste sentido, a personagem Antígona defen- 3) Inalienabilidade: os direitos humanos não possuem
de, ao ser questionada sobre o descumprimento da ordem conteúdo econômico-patrimonial, logo, são intrans-
do rei: “sim, pois não foi decisão de Zeus; e a Justiça, a deusa feríveis, inegociáveis e indisponíveis, estando fora do
que habita com as divindades subterrâneas, jamais estabe- comércio, o que evidencia uma limitação do princípio
leceu tal decreto entre os humanos; tampouco acredito que da autonomia privada.
tua proclamação tenha legitimidade para conferir a um mor-
tal o poder de infringir as leis divinas, nunca escritas, porém 4) Irrenunciabilidade: direitos humanos não podem ser
irrevogáveis; não existem a partir de ontem, ou de hoje; são renunciados pelo seu titular devido à fundamentalida-
eternas, sim! E ninguém pode dizer desde quando vigoram! de material destes direitos para a dignidade da pessoa
Decretos como o que proclamaste, eu, que não temo o poder humana.
de homem algum, posso violar sem merecer a punição dos
deuses! [...]”.
5) Inviolabilidade: direitos humanos não podem deixar
O desrespeito às normas de direito natural - e porque não de ser observados por disposições infraconstitucio-
dizer de direitos humanos - leva à invalidade da norma que nais ou por atos das autoridades públicas, sob pena de
assim o preveja (Ex.: autorizar a tortura para fins de investi- nulidades.
gação penal e processual penal não é simplesmente incons-
titucional, é mais que isso, por ser inválida perante a ordem 6) Indivisibilidade: os direitos humanos compõem um
internacional de garantia de direitos naturais/humanos uma único conjunto de direitos porque não podem ser ana-
norma que contrarie a dignidade inerente ao homem sob o lisados de maneira isolada, separada.
aspecto da preservação de sua vida e integridade física e mo-
ral). 7) Imprescritibilidade: os direitos humanos não se per-
dem com o tempo, não prescrevem, uma vez que são
Enfim, quando questões inerentes ao direito natural pas- sempre exercíveis e exercidos, não deixando de existir
sam a ser colocadas em textos expressos tem-se a formação pela falta de uso (prescrição).

8) Complementaridade: os sistemas regionais descentra-


10 LAFER, Celso. A reconstrução dos direitos humanos: um lizam a ONU para respeitar a complementaridade, ou
DIREITOS HUMANOS

diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. São Paulo: seja, os diferentes elementos de base cultural, religiosa
Cia. das Letras, 2009. e social das diversas regiões.
11 Ibid.
9) Interdependência: as dimensões de direitos humanos
12 MONTORO, André Franco. Introdução à ciência do Direi- apresentam uma relação orgânica entre si, logo, a dig-
to. 26. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. nidade da pessoa humana deve ser buscada por meio
13 SÓFOCLES. Édipo rei / Antígona. Tradução Jean Melville. da implementação mais eficaz e uniforme das liber-
São Paulo: Martin Claret, 2003.

4
dades clássicas, dos direitos sociais, econômicos e de com estes14, consolidando-se o processo de formação dos
solidariedade como um todo único e indissolúvel. sistemas internacionais de proteção pouco a pouco.

10) Efetividade: para dar efetividade aos direitos huma- Os sistemas internacionais de proteção de direitos huma-
nos a ONU se subdivide, isto é, o tratamento é global nos se estabelecem no âmbito de organizações internacio-
mas certas áreas irão cuidar de determinados direitos nais, conforme as regras e princípios de direito internacional.
de suas regiões. Além disso, há uma descentralização
Globalmente, coexistem sistemas geral e especial de pro-
para os sistemas regionais para preservar a comple-
teção de direitos humanos, que funcionam complementar-
mentaridade, sem a qual não há efetividade. Reflete mente. Nesta linha, o sistema especial realça o processo de
tal característica a aplicabilidade imediata dos direi- especificação do sujeito de Direito, passando ele a ser visto
tos humanos prevista no art. 5°, §1° da Constituição em sua especificidade e concreticidade (ex.: criança, grupos
Federal. vulneráveis, mulher). Já o sistema geral é endereçado a toda
e qualquer pessoa, concebida em sua abstração e generalida-
11) Relatividade: o princípio da relatividade dos direitos de. Não obstante, junto ao sistema normativo global existem
humanos possui dois sentidos: por um, o multicul- os sistemas normativos regionais de proteção, internaciona-
turalismo existente no globo impede que a univer- lizando direitos humanos no plano regional, notadamente
salidade se consolide plenamente, de forma que é Europa, América e África, cada qual com aparato jurídico
preciso levar em consideração as culturas locais para próprio15. Tais sistemas coexistem de forma complementar,
compreender adequadamente os direitos humanos; junto com o próprio sistema nacional de proteção (caráter
por outro, os direitos humanos não podem ser utili- interno).
zados como um escudo para práticas ilícitas ou como
1) Sistema global de proteção: estabelece-se notada-
argumento para afastamento ou diminuição da res-
mente no âmbito da Organização das Nações Unidas,
ponsabilidade por atos ilícitos, assim os direitos hu- primeira e mais importante organização internacio-
manos não são ilimitados e encontram seus limites nal no processo de internacionalização dos direitos
nos demais direitos igualmente consagrados como humanos. Ela foi criada em 1945 para manter a paz e
humanos. a segurança internacionais, bem como promover re-
lações de amizade entre as nações, cooperação inter-
A finalidade primordial dos direitos humanos é garantir nacional e respeito aos direitos humanos16. Ao lado da
que a dignidade do homem não seja violada, estabelecendo Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948,
um rol de bens jurídicos fundamentais que merecem prote- a Carta das Nações Unidas de 1945 é considerada um
ção inerentes, basicamente, aos direitos civis (vida, seguran- dos principais marcos à concepção contemporânea de
ça, propriedade e liberdade), políticos (participação direta e direitos humanos.
indireta nas decisões políticas), econômicos (trabalho), so-
ciais (igualdade material, educação, saúde e bem-estar), cul- No entanto, muitos outros documentos compõem a es-
turais (participação na vida cultural) e ambientais (meio am- trutura normativa de proteção dos direitos humanos no âm-
biente saudável, sustentabilidade para as futuras gerações). bito global. Em destaque: Pacto Internacional de Direitos
Percebe-se uma proximidade entre os direitos humanos e os Civis e Políticos de 1966; Pacto Internacional dos Direitos
direitos fundamentais do homem, o que ocorre porque o va- Econômicos, Sociais e Culturais de 1966; Estatuto de Roma
lor da pessoa humana na qualidade de valor-fonte da ordem de 1998; Convenção sobre a eliminação de todas as formas
de vida em sociedade fica expresso juridicamente nestes di- de discriminação contra a mulher de 1979; Declaração sobre
reitos fundamentais do homem. a Proteção de Todas as Pessoas contra a Tortura e Outras Pe-
nas ou Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes de
Ainda no âmbito da teoria geral, estuda-se a estrutura 1975; Convenção contra a Tortura e Outras Penas ou Trata-
normativa dos direitos humanos. Na verdade, ela se asseme- mentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes de 1984; Con-
lha com a estrutura normativa do próprio direito internacio- venção Internacional sobre os Direitos da Criança de 1989;
nal, já que os direitos humanos designam notadamente os Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas
direitos afirmados universalmente em documentos inter- com Deficiência de 2006; Regras Mínimas para o Tratamen-
nacionais, registrados perante organizações internacionais to dos Reclusos de 1955; etc. São inúmeros os documentos
diversas. internacionais voltados à proteção dos direitos humanos, al-
gum de caráter genérico, outros de caráter específico.
A formação de uma estrutura normativa de direitos hu-
manos pode ser remontada ao processo de internacionali-
zação destes direitos, que é relativamente recente, remeten-
do-se ao pós-guerra enquanto resposta às atrocidades e aos 14 PIOVESAN, Flávia. Introdução ao sistema interamericano
de proteção dos direitos humanos: a convenção americana
DIREITOS HUMANOS

terrores cometidos durante o nazismo, notadamente diante


da lógica de destruição de Hitler e da descartabilidade da de direitos humanos. In: GOMES, Luís Flávio; PIOVESAN,
pessoa humana por ele pregada que gerou o extermínio de Flávia (Coord.). O sistema interamericano de proteção dos
11 milhões de pessoas, tudo com embasamento legal. Logo, direitos humanos e o direito brasileiro. São Paulo: Revista
se a Segunda Guerra Mundial foi uma ruptura com os direi- dos Tribunais, 2000.
tos humanos, o pós-guerra foi o marco para o reencontro
15 Ibid.
16 NEVES, Gustavo Bregalda. Direito Internacional Público
& Direito Internacional Privado. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2009.

5
2) Sistema regional de proteção: os sistemas de proteção Finalizando o tópico, é essencial para a noção geral sobre
regionais mais consistentes são o interamericano e o os direitos humanos compreender como se deu a afirmação
europeu. O africano também, aos poucos, toma novos histórica deles.
rumos, enquanto que o islamo-arábico permanece na
total inefetividade. O Brasil faz parte do sistema intera- O surgimento dos direitos humanos está envolvido num
mericano de proteção de direitos humanos. histórico complexo no qual pesaram vários fatores: tradição
humanista, recepção do direito romano, senso comum da
A Carta da Organização dos Estados Americanos, que sociedade da Europa na Idade Média, tradição cristã, entre
criou a Organização dos Estados Americanos, foi celebrada outros18. Com efeito, são muitos os elementos relevantes
na IX Conferência Internacional Americana de 30 de abril de para a formação do conceito de direitos humanos tal qual
1948, em Bogotá e entrou em vigência no dia 13 de dezembro perceptível na atualidade de forma que é difícil estabelecer
de 1951, sendo reformada pelos protocolos de Buenos Aires um histórico linear do processo de formação destes direitos.
(27 de fevereiro de 1967), de Cartagena das Índias (5 de de- Entretanto, é possível apontar alguns fatores históricos e filo-
zembro de 1985), de Washington (14 de dezembro de 1992) sóficos diretamente ligados à construção de uma concepção
e de Manágua (10 de junho de 1993). Após a criação da OEA, contemporânea de direitos humanos.
foi elaborado o mais importante documento de proteção de
direitos humanos no âmbito interamericano, o Pacto de San É a partir do período axial (800 a.C. a 200 a.C.), ou seja,
José da Costa Rica, também chamado de Convenção Ameri- mesmo antes da existência de Cristo, que o ser humano passou
cana sobre Direitos Humanos, de 1969. a ser considerado, em sua igualdade essencial, como um ser
dotado de liberdade e razão. Surgiam assim os fundamentos
“O processo preparatório do chamado Pacto de San José intelectuais para a compreensão da pessoa humana e para a
teve presente a questão da coexistência e coordenação da afirmação da existência de direitos universais, porque a ela
nova Convenção regional com os instrumentos internacio- inerentes. Durante este período que despontou a ideia de uma
nais de direitos humanos das Nações Unidas. Com a entra- igualdade essencial entre todos os homens. Contudo, foram
da em vigor da Convenção, prevendo o estabelecimento de necessários vinte e cinco séculos para que a Organização das
uma Comissão e uma Corte Interamericanas de Direitos Hu- Nações Unidas - ONU, que pode ser considerada a primeira
manos, surgiram questões como a ‘transição’ entre o regime organização internacional a englobar a quase-totalidade dos
pré-existente e o da Convenção no tocante ao labor da Co- povos da Terra, proclamasse, na abertura de uma Declaração
missão”17. Universal dos Direitos Humanos de 1948, que “todos os
homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos”19.
Destacam-se, ainda, documentos regionais interamerica-
nos voltados à proteção de determinados direitos humanos: No berço da civilização grega continuou a discussão a
Convenção interamericana para prevenir, punir e erradicar respeito da existência de uma lei natural inerente a todos os
a violência contra a mulher de 1994, Convenção Interame- homens. As premissas da concepção de lei natural estão jus-
ricana para a Eliminação de Todas as Formas de Discrimi- tamente na discussão promovida na Grécia antiga, no espa-
nação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência de 1999, ço da polis. Neste sentido, destaca Assis20 que, originalmente,
Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura a concepção de lei natural está ligada não só à de nature-
de 1985, etc. za, mas também à de diké: a noção de justiça simbolizada
a partir da deusa diké é muito ampla e abstrata, mas com a
3) Sistema nacional de proteção: o sistema interno de legislação passou a ter um conteúdo palpável, de modo que
proteção dos direitos humanos se forma com a insti- a justiça deveria corresponder às leis da cidade; entretanto, é
tucionalização destes direitos no texto das Constitui- preciso considerar que os costumes primitivos trazem o justo
ções democráticas, bem como com a incorporação no por natureza, que pode se contrapor ao justo por convenção
âmbito interno dos tratados internacionais dos quais o ou legislação, devendo prevalecer o primeiro, que se refere
país seja signatário, mediante o devido processo legal. ao naturalmente justo, sendo esta a origem da ideia de lei
natural.

#FicaDica De início, a literatura grega trouxe na obra Antígona uma


Direitos humanos são universais, históricos, discussão a respeito da prevalência da lei natural sobre a lei
inalienáveis, irrenunciáveis, invioláveis, indivi- posta. Na obra, a protagonista discorda da proibição do rei
síveis, imprescritíveis, complementares, inter- Creonte de que seu irmão fosse enterrado, uma vez que ele
dependentes, efetivos, relativos. teria traído a pátria. Assim, enterra seu irmão e argumenta
com o rei que nada do que seu irmão tivesse feito em vida
A finalidade primordial dos direitos humanos é poderia dar o direito ao rei de violar a regra imposta pelos
a proteção da dignidade da pessoa humana. deuses de que todo homem deveria ser enterrado para que
DIREITOS HUMANOS

18 COSTA, Paulo Sérgio Weyl A. Direitos Humanos e Crítica


17 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. O sistema inte- Moderna. Revista Jurídica Consulex. São Paulo, ano XIII, n.
ramericano de direitos humanos no limiar do novo século: 300, p. 27-29, jul. 2009.
recomendações para o fortalecimento de seu mecanismo 19 COMPARATO, Fábio Konder. A Afirmação Histórica dos
de proteção. In: GOMES, Luís Flávio; PIOVESAN, Flávia Direitos Humanos. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2004.
(Coord.). O sistema interamericano de proteção dos direitos
humanos e o direito brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribu- 20 ASSIS, Olney Queiroz. O estoicismo e o Direito: justiça, li-
nais, 2000. berdade e poder. São Paulo: Lúmen, 2002.

6
pudesse partir desta vida: a lei natural prevaleceria então so- -1274 d.C.)26, supondo que o mundo e toda a comunidade
bre a ordem do rei.21 do universo são regidos pela razão divina e que a própria ra-
zão do governo das coisas em Deus fundamenta-se em lei,
Os sofistas, seguidores de Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.), o entendeu que existe uma lei eterna ou divina, pois a razão
primeiro grande filósofo grego, questionaram essa concep- divina nada concebe no tempo e é sempre eterna. Com base
ção de lei natural, pois a lei estabelecida na polis, fruto da nisso, Aquino27 chamou de lei natural “a participação da lei
vontade dos cidadãos, seria variável no tempo e no espaço, eterna na lei racional”. Sobre o conteúdo da lei natural, de-
não havendo que se falar num direito imutável; ao passo que finiu Aquino (2005, p. 562) que “todas aquelas coisas que
Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), que o sucedeu, estabeleceu devem ser feitas ou evitadas pertencem aos preceitos da lei
uma divisão entre a justiça positiva e a natural, reconhecen- de natureza, que a razão prática naturalmente apreende ser
do que a lei posta poderia não ser justa22. bens humanos”. Logo, a lei natural determina o agir virtuo-
so, o que se espera do homem em sociedade, independente-
Aristóteles23 argumenta: “lei particular é aquela que cada mente da lei humana.
comunidade determina e aplica a seus próprios membros;
ela é em parte escrita e em parte não escrita. A lei universal Com a concepção medieval de pessoa humana é que se
é a lei da natureza. Pois, de fato, há em cada um alguma me- iniciou um processo de elaboração em relação ao princípio
dida do divino, uma justiça natural e uma injustiça que está da igualdade de todos, independentemente das diferenças
associada a todos os homens, mesmo naqueles que não têm existentes, seja de ordem biológica, seja de ordem cultural.
associação ou pacto com outro”. Foi assim, então, que surgiu o conceito universal de direitos
humanos, com base na igualdade essencial da pessoa28.
Nesta linha, destaca-se o surgimento do estoicismo, dou-
trina que se desenvolveu durante seis séculos, desde os últi- No processo de ascensão do absolutismo europeu, a mo-
mos três séculos anteriores à era cristã até os primeiros três narquia da Inglaterra encontrou obstáculos para se estabe-
séculos desta era, mas que trouxe ideias que prevaleceram lecer no início do século XIII, sofrendo um revés. Ao se tratar
durante toda a Idade Média e mesmo além dela. O estoicis- da formação da monarquia inglesa, em 1215 os barões feu-
mo organizou-se em torno de algumas ideias centrais, como dais ingleses, em uma reação às pesadas taxas impostas pelo
a unidade moral do ser humano e a dignidade do homem, Rei João Sem-Terra, impuseram-lhe a Magna Carta - Magna
considerado filho de Zeus e possuidor, como consequência, Charta Libertatum de 1215. Referido documento, em sua
de direitos inatos e iguais em todas as partes do mundo, não abertura, expõe a noção de concessão do rei aos súditos, es-
obstante as inúmeras diferenças individuais e grupais24. tabelece a existência de uma hierarquia social sem conceder
poder absoluto ao soberano, prevê limites à imposição de
Influenciado pelos estoicos, Cícero (106 a.C. - 43 a.C.), tributos e ao confisco, constitui privilégios à burguesia e traz
um dos principais pensadores do período da jovem república procedimentos de julgamento ao prever conceitos como o de
romana, também defendeu a existência de uma lei natural. devido processo legal, habeas corpus e júri. Não que a carta
Neste sentido é a assertiva de Cícero25: “a razão reta, con- se assemelhe a uma declaração de direitos humanos, prin-
forme à natureza, gravada em todos os corações, imutável, cipalmente ao se considerar que poucos homens naquele
eterna, cuja voz ensina e prescreve o bem, afasta do mal que período eram de fato livres, mas ela foi fundamental naquele
proíbe e, ora com seus mandados, ora com suas proibições, contexto histórico de falta de limites ao soberano29. A Magna
jamais se dirige inutilmente aos bons, nem fica impotente Carta de 1215 instituiu ainda um Grande Conselho que foi
ante os maus. Essa lei não pode ser contestada, nem derro- o embrião para o Parlamento inglês, embora isto não signi-
gada em parte, nem anulada; não podemos ser isentos de seu fique que o poder do rei não tenha sido absoluto em certos
cumprimento pelo povo nem pelo senado; não há que pro- momentos, como na dinastia Tudor. Havia um absolutismo
curar para ela outro comentador nem intérprete; não é uma de fato, mas não de Direito.
lei em Roma e outra em Atenas, - uma antes e outra depois,
mas uma, sempiterna e imutável, entre todos os povos e em Em geral, o absolutismo europeu foi marcado profunda-
todos os tempos”. mente pelo antropocentrismo, colocando o homem no cen-
tro do universo, ocupando o espaço de Deus. Naturalmente,
Com a queda do Império Romano, iniciou-se o período as premissas da lei natural passaram a ser questionadas, já
medieval, predominantemente cristianista. Um dos grandes que geralmente se associavam à dimensão do divino. A nega-
pensadores do período, Santo Tomás de Aquino (1225 d.C. ção plena da existência de direitos inatos ao homem implica-

21 SÓFOCLES. Édipo rei / Antígona. Tradução Jean Melville. 26 AQUINO, Santo Tomás de. Suma teológica. Tradução Aldo
São Paulo: Martin Claret, 2003. Vannucchi e Outros. Direção Gabriel C. Galache e Fidel Gar-
cía Rodríguez. Coordenação Geral Carlos-Josaphat Pinto de
22 ASSIS, Olney Queiroz. O estoicismo e o Direito: justiça, li- Oliveira. Edição Joaquim Pereira. São Paulo: Loyola, 2005b. v.
DIREITOS HUMANOS

berdade e poder. São Paulo: Lúmen, 2002. VI, parte II, seção II, questões 57 a 122.
23 ARISTÓTELES. Retórica. Tradução Marcelo Silvano Ma- 27 Ibid.
deira. São Paulo: Rideel, 2007. 
28 COMPARATO, Fábio Konder. A Afirmação Histórica dos
24 COMPARATO, Fábio Konder. A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2004.
Direitos Humanos. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2004.
29 AMARAL, Sérgio Tibiriçá. Magna Carta: Algumas Contri-
25 CÍCERO, Marco Túlio. Da República. Tradução Amador buições Jurídicas. Revista Intertemas: revista da Toledo. Pre-
Cisneiros. Rio de Janeiro: Ediouro, 1995. sidente Prudente, ano 09, v. 11, p. 201-227, nov. 2006.

7
va em conferir um poder irrestrito ao soberano, o que gerou instituição-chave para a limitação do poder monárquico e
consequências que desagradavam a burguesia. para garantia das liberdades na sociedade civil foi o Parla-
mento e foi a partir do Bill of Rights britânico que surgiu a
O príncipe, obra de Maquiavel (1469 d.C. - 1527 d.C.) con- ideia de governo representativo, ainda que não do povo, mas
siderada um marco para o pensamento absolutista, relata pelo menos de suas camadas superiores32.
com precisão este contexto no qual o poder do soberano po-
deria se sobrepor a qualquer direito alegadamente inato ao Tais ideias liberais foram importantes como base para o
ser humano desde que sua atitude garantisse a manutenção Iluminismo, que se desencadeou por toda a Europa. Desta-
do poder. Maquiavel30 considera “na conduta dos homens, ca-se que quando isso ocorreu, em meados do século XVIII,
especialmente dos príncipes, contra a qual não há recurso, se dava o advento do capitalismo em sua fase industrial. O
os fins justificam os meios. Portanto, se um príncipe preten- processo de formação do capitalismo e a ascensão da bur-
de conquistar e manter o poder, os meios que empregue se- guesia trouxeram implicações profundas no campo teórico,
rão sempre tidos como honrosos, e elogiados por todos, pois gerando o Iluminismo.
o vulgo atenta sempre para as aparências e os resultados”.
O Iluminismo lançou base para os principais eventos que
Os monarcas dos séculos XVI, XVII e XVIII agiam de forma ocorreram no início da Idade Contemporânea, quais sejam
autocrática, baseados na teoria política desenvolvida até en- as Revoluções Francesa, Americana e Industrial. Tiveram ori-
tão que negava a exigência do respeito à Ética, logo, ao direi- gem nestes movimentos todos os principais fatos do século
to natural, no espaço público. Somente num momento his- XIX e do início do século XX, por exemplo, a disseminação do
tórico posterior se permitiu algum resgate da aproximação liberalismo burguês, o declínio das aristocracias fundiárias e
entre a Moral e o Direito, qual seja o da Revolução Intelectual o desenvolvimento da consciência de classe entre os traba-
dos séculos XVII e XVIII, com o movimento do Iluminismo, lhadores33.
que conferiu alicerce para as Revoluções Francesa e Indus-
trial - ainda assim a visão antropocentrista permaneceu, mas Jonh Locke (1632 d.C. - 1704 d.C.) foi um dos pensado-
começou a se consolidar a ideia de que não era possível que res da época, transportando o racionalismo para a política,
o soberano impusesse tudo incondicionalmente aos seus sú- refutando o Estado Absolutista, idealizando o direito de re-
ditos. belião da sociedade civil e afirmando que o contrato entre
os homens não retiraria o seu estado de liberdade. Ao lado
Com efeito, quando passou a se questionar o conceito de dele, pode ser colocado Montesquieu (1689 d.C. - 1755 d.C.),
Soberano, ao qual todos deveriam obediência, mas que não que avançou nos estudos de Locke e na obra O Espírito das
deveria obedecer a ninguém. Indagou-se se os indivíduos Leis estabeleceu em definitivo a clássica divisão de poderes:
que colocaram o Soberano naquela posição (pois sem povo Executivo, Legislativo e Judiciário. Por fim, merece menção
não há soberano) teriam direitos no regime social e, em caso o pensador Rousseau (1712 d.C. - 1778 d.C.), defendendo
afirmativo, quais seriam eles. As respostas a estas questões que o homem é naturalmente bom e formulando na obra O
iniciam uma visão moderna do direito natural, reconhecen- Contrato Social a teoria da vontade geral, aceita pela peque-
do-o como um direito que acompanha o cidadão e não pode na burguesia e pelas camadas populares face ao seu caráter
ser suprimido em nenhuma circunstância.31 democrático. Enfim, estes três contratualistas trouxeram
em suas obras as ideias centrais das Revoluções Francesa e
Antes que despontassem as grandes revoluções que in- Americana. Em comum, defendiam que o Estado era um mal
terromperam o contexto do absolutismo europeu, na Ingla- necessário, mas que o soberano não possuía poder divino/
terra houve uma árdua discussão sobre a garantia das liber- absoluto, sendo suas ações limitadas pelos direitos dos ci-
dades pessoais, ainda que o foco fosse a proteção do clero dadãos submetidos ao regime estatal. No entanto, Rousseau
e da nobreza. Quando a dinastia Stuart tentou transformar era o pensador que mais se diferenciava dos dois anteriores,
o absolutismo de fato em absolutismo de direito, ignorando que eram mais individualistas e trouxeram os principais fun-
o Parlamento, este impôs ao rei a Petição de Direitos - Peti- damentos do Estado Liberal, porque defendia a entrega do
tion of Rights de 1628, que exigia o cumprimento da Magna poder a quem realmente estivesse legitimado para exercê-lo,
Carta de 1215. Contudo, o rei se recusou a fazê-lo, fechando pensamento que mais se aproxima da atual concepção de
por duas vezes o Parlamento, sendo que a segunda vez ge- democracia.
rou uma violenta reação que desencadeou uma guerra civil.
Neste meio tempo, enquanto o Parlamento estava operante, 1) O primeiro grande movimento desencadeado foi a
foi aprovado o Habeas Corpus Act, de 1679. Após diversas Revolução Americana. Em 1776 se deu a indepen-
transições no trono inglês, despontou a Revolução Gloriosa dência das treze Colônias da América Continental
que durou de 1688 até 1689, conferindo-se o trono inglês a Britânica, registrada na Declaração de Independên-
Guilherme de Orange, que aceitou a Declaração de Direitos - cia. Após diversas batalhas, a Inglaterra reconheceu a
Bill of Rights de 1689. independência em 1783. Destacam-se alguns pontos
do primeiro documento: o artigo I do referido docu-
DIREITOS HUMANOS

Todo este movimento resultou, assim, nas garantias ex- mento assegura a igualdade de todos de maneira livre
pressas do habeas corpus e do Bill of Rights. Por sua vez, a
32 COMPARATO, Fábio Konder. A Afirmação Histórica dos
30 MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Tradução Pietro Nasse- Direitos Humanos. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2004.
tti. São Paulo: Martin Claret, 2007.
33 BURNS, Edward McNall. História da civilização ociden-
31 COSTA, Paulo Sérgio Weyl A. Direitos Humanos e Crítica tal: do homem das cavernas às naves espaciais. 43. ed. Atua-
Moderna. Revista Jurídica Consulex. São Paulo, ano XIII, n. lização Robert E. Lerner e Standisch Meacham. São Paulo:
300, p. 27-29, jul. 2009. Globo, 2005. v. 2.

8
e independente, considerando esta como um direito ciais e culturais não basta uma postura do indivíduo: é preci-
inato; o artigo II estabelece que o poder pertence ao so que o Estado interfira e controle o poder econômico.
povo e que o Estado é responsável perante ele; o artigo
V prevê a separação dos poderes e o artigo VI institui a Entre os documentos relevantes que merecem menção
realização de eleições diretas, necessariamente. Após, nesta esfera, destacam-se: Constituição do México de 1917,
em 1787, sobreveio a Constituição norte-americana. A Constituição Alemã de Weimar de 1919 e Tratado de Versa-
declaração americana estava mais voltada aos ameri- lhes de 1919, sendo que o último instituiu a Organização
canos do que à humanidade, razão pela qual a Revo- Internacional do Trabalho - OIT (que emitia convenções e
lução Francesa costuma receber mais destaque num recomendações) e pôs fim à Primeira Guerra Mundial (que
cenário histórico global. havia durado de 1914 a 1918).

2) Já a Revolução Francesa decorreu da incapacidade do No final do século XIX e no início de século XX, o mun-
governo de resolver sua crise financeira, ascendendo do passou por variadas crises de instabilidade diplomática,
com isso a classe burguesa (sans-culottes), sendo o posto que vários países possuíam condições suficientes para
primeiro evento de tal ascensão a Queda da Bastilha, se sobreporem sobre os demais, resultado dos avanços tec-
em 14 de julho de 1789, seguida por outros levantes nológicos e das melhorias no padrão de vida da sociedade.
populares. Derrubados os privilégios das classes do- Neste contexto, surgiram condições para a eclosão das duas
minantes, a Assembleia se reuniu para o preparo de Guerras Mundiais, eventos que alteraram o curso da história
uma carta de liberdades, que veio a ser a Declaração da civilização ocidental.
dos Direitos do Homem e do Cidadão de 178934.
Embora o processo de internacionalização dos direitos
Entre outras noções, tal documento previu: a liberdade humanos tenha antecedentes no pós-Primeira Guerra Mun-
e igualdade entre os homens quanto aos seus direitos (arti- dial, notadamente, a criação da Liga das Nações e da Organi-
go 1º), a necessidade de conservação dos seus direitos na- zação Internacional do Trabalho com o Tratado de Versalhes
turais, quais sejam a liberdade, a propriedade, a segurança e de 1919, é no pós-Segunda Guerra Mundial que se encon-
a resistência à opressão (artigo 2º); a limitação do direito de tram as bases do direito internacional dos direitos humanos.
liberdade somente por lei (artigo 4º); o princípio da legali-
dade (artigo 7º); o princípio da inocência (artigo 9º); a mani- Os eventos da Segunda Guerra Mundial foram marcados
festação livre do pensamento (artigos 10 e 11); e a necessária pela desumanização: todos com o devido respaldo jurídico
separação de poderes (artigo 16). perante o ordenamento dos países que determinavam os
atos. A teoria jurídica que conferiu fundamento a um Direito
3) Por sua vez, a Revolução Industrial, que começou na que aceitasse tantas barbáries, sem perder a sua validade, foi
Inglaterra, criou o sistema fabril, o que reformulou o Positivismo que teve como precursor Hans Kelsen, com a
a vida de homens e mulheres pelo mundo todo, não obra Teoria Pura do Direito.
só pelos avanços tecnológicos, mas notadamente por
determinar o êxodo de milhões de pessoas do interior No entender de Kelsen36, a justiça não é a característica
para as cidades. Os milhares de trabalhadores se su- que distingue o Direito das outras ordens coercitivas porque
jeitavam a jornadas longas e desgastantes, sem falar é relativo o juízo de valor segundo o qual uma ordem pode
nos ambientes insalubres e perigosos, aos quais se su- ser considerada justa. Percebe-se que a Moral é afastada
jeitavam inclusive as crianças. Neste contexto, surgiu como conteúdo necessário do Direito, já que a justiça é o va-
a consciência de classe35, lançando-se base para uma lor moral inerente ao Direito.
árdua luta pelos direitos trabalhistas.
A Segunda Guerra Mundial chegou ao fim somente em
Fato é que quanto maior a autonomia de vontade - bus- 1945, após uma sucessão de falhas alemãs, que impediram
cada nas revoluções anteriores - melhor funciona o merca- a conquista de Moscou, desprotegeram a Itália e impossibi-
do capitalista, beneficiando quem possui maior número de litaram o domínio da região setentrional da Rússia (produ-
bens. Assim, a classe que detinha bens, qual seja a burguesia, tora de alimentos e petróleo). Já o evento que culminou na
ampliou sua esfera de poder, enquanto que o proletariado rendição do Japão foi o lançamento das bombas atômicas
passou a ser vítima do poder econômico. No Estado Liberal, de Hiroshima e Nagasaki. O mundo somente tomou conhe-
aquele que não detém poder econômico fica desprotegido. O cimento da extensão da tirania alemã quando os exércitos
indivíduo da classe operária sozinho não tinha defesa, mas Aliados abriram os campos de concentração na Alemanha
descobriu que ao se unir com outros em situação semelhante e nos países por ela ocupados, encontrando prisioneiros fa-
poderia conquistar direitos. Para tanto, passaram a organizar mintos, doentes e brutalizados, além de milhões de corpos
greves. dos judeus, poloneses, russos, ciganos, homossexuais e trai-
dores do Reich em geral, que foram perseguidos, torturados
Nasceu, assim, o direito do trabalho, voltado à proteção e mortos37.
DIREITOS HUMANOS

da vítima do poder econômico, o trabalhador. Parte-se do


princípio da hipossuficiência do trabalhador, que é o prin-
cípio da proteção e que gerou os princípios da primazia, da 36 KELSEN, Hans. Teoria pura do Direito. 6. ed. Tradução
irredutibilidade de vencimentos e outros. Nota-se que no João Baptista Machado. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
campo destes direitos e dos demais direitos econômicos, so-
37 BURNS, Edward McNall. História da civilização ociden-
34 Ibid. tal: do homem das cavernas às naves espaciais. 43. ed. Atua-
lização Robert E. Lerner e Standisch Meacham. São Paulo:
35 Ibid. Globo, 2005. v. 2.

9
Vale ressaltar a constituição de um órgão que foi o res- outros, nos âmbitos nacional e internacional, sendo que dois
ponsável por redigir o primeiro documento de relevância deles praticamente repetem e pormenorizam o seu conteú-
internacional abrangendo a questão dos direitos humanos. do, quais sejam: o Pacto Internacional dos Direitos Civis e
Em 26 de junho de 1945 foi assinada a carta de organização Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos,
das Nações Unidas, que tem por fundamento o princípio da Sociais e Culturais, ambos de 1966.
igualdade soberana de todos os estados que buscassem a
paz, possuindo uma Assembleia Geral, um Conselho de Se- Ainda internacionalmente, após os pactos mencionados,
gurança, uma Secretaria, em Conselho Econômico e Social, vários tratados internacionais surgiram. Nesta linha, Piove-
um Conselho de Mandatos e um Tribunal Internacional de san42 apontou os seguintes documentos: Convenção Interna-
Justiça38. cional sobre a Eliminação de todas as formas de Discrimina-
ção Racial, Convenção sobre a Eliminação de todas as formas
Entre 20 de novembro de 1945 e 1º de outubro de 1946 de Discriminação contra a Mulher, Convenção sobre os Di-
realizou-se o Tribunal de Nuremberg, ao qual foram subme- reitos da Criança, Convenção sobre os Direitos das Pessoas
tidos a julgamento os principais líderes nazistas, o principal com Deficiência, Convenção contra a Tortura, etc.
argumento levantado foi o de que todas as ações praticadas
foram baseadas em ordens superiores, todas dotadas de va- Ao lado do sistema global surgiram os sistemas regionais
lidade jurídica perante a Constituição. Explica Lafer39: “No de proteção, que buscam internacionalizar os direitos huma-
plano do Direito, uma das maneiras de assegurar o primado nos no plano regional, em especial na Europa, na América e
do movimento foi o amorfismo jurídico da gestão totalitária. na África43. Resultou deste processo a Convenção Americana
Este amorfismo reflete-se tanto em matéria constitucional de Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica) de
quanto em todos os desdobramentos normativos. A Consti- 1969.
tuição de Weimar nunca foi ab-rogada durante o regime na-
zista, mas a lei de plenos poderes de 24 de março de 1933 teve No âmbito nacional, destacam-se as positivações nos tex-
não só o efeito de legalizar a posse de Hitler no poder como o tos das Constituições Federais. Afinal, como explica Lafer44, a
de legalizar geral e globalmente as suas ações futuras. Dessa afirmação do jusnaturalismo moderno de um direito racio-
maneira, como apontou Carl Schmitt - escrevendo depois da nal, universalmente válido, gerou implicações relevantes na
II Guerra Mundial -, Hitler foi confirmado no poder, tornan- teoria constitucional e influenciou o processo de codificação
do-se a fonte de toda legalidade positiva, em virtude de uma a partir de então. Embora muitos direitos humanos também
lei do Parlamento que modificou a Constituição. Também a se encontrem nos textos constitucionais, aqueles não posi-
Constituição stalinista de 1936, completamente ignorada na tivados na Carta Magna também possuem proteção porque
prática, nunca foi abolida”. o fato de este direito não estar assegurado constitucional-
mente é uma ofensa à ordem pública internacional, ferindo
No dia 10 de dezembro de 1948, a Assembleia Geral das o princípio da dignidade humana.
Nações Unidas elaborou a Declaração Universal dos Direi-
tos Humanos. Um dos principais pensadores que contribuiu
para a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 #FicaDica
foi Maritain40, que entendia que os direitos humanos da A perspectiva contemporânea de direitos hu-
pessoa como tal se fundamentam no fato de que a pessoa manos emerge no contexto do Pós-Segunda
humana é superior ao Estado, que não pode impor a ela de- Guerra Mundial, tendo como marcos:
terminados deveres e nem retirar dela alguns direitos, por ser
contrário à lei natural. Em suma, para o filósofo o homem - Carta da ONU, de 1945, que institui a Organi-
ético é fiel aos valores da verdade, da justiça e do amor, e se- zação das Nações Unidas;
gue a doutrina cristã para determinar seus atos: tais elemen- - Tribunal de Nuremberg, em 1946, que julgou
tos determinam o agir moral e levam à produção do bem na os líderes nazistas por crimes contra a huma-
sociedade humanista integral. nidade;
Moraes41 lembra que a Declaração de 1948 foi a mais im- - Declaração Universal dos Direitos Humanos,
portante conquista no âmbito dos direitos humanos funda- de 1948, que é o primeiro documento a reco-
mentais em nível internacional, muito embora o instrumen- nhecer materialmente os direitos humanos.
to adotado tenha sido uma resolução, não constituindo seus
dispositivos obrigações jurídicas dos Estados que a com-
põem. O fato é que desse documento se originaram muitos
EXERCÍCIO COMENTADO
38 Ibid.
39 LAFER, Celso. A reconstrução dos direitos humanos: um 1) (TJM-MG - Oficial Judiciário - Oficial de Justiça - FU-
DIREITOS HUMANOS

diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. São Paulo:


Cia. das Letras, 2009.
42 PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Consti-
40 MARITAIN, Jacques. Os direitos do homem e a lei natural. tucional Internacional. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2008.
3. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1967.
43 Ibid.
41 MORAES, Alexandre de. Direitos humanos fundamentais:
teoria geral, comentários aos artigos 1º a 5º da Constituição 44 LAFER, Celso. A reconstrução dos direitos humanos: um
da República Federativa do Brasil, doutrina e jurisprudência. diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. São Paulo:
São Paulo: Atlas, 1997. Cia. das Letras, 2009.

10
MARC/2013) “Adotada e proclamada pela resolução 217 c) no momento em que os seres humanos se tornam supér-
A (III) da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 10 de fluos e descartáveis, no momento em que vige a lógica de
dezembro de 1948, como o ideal comum a ser atingido por destruição, em que cruelmente se abole o valor da pessoa
todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que humana, torna-se necessária a reconstrução dos direitos
cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre humanos como paradigma ético capaz de restaurar a lógi-
em mente esta Declaração, se esforcem, através do ensi- ca do razoável.
no e da educação, por promover o respeito a esses direitos
e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de d) a barbárie do totalitarismo significou a ruptura do para-
caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reco- digma dos direitos humanos, por meio da negação do va-
nhecimento e a sua observância universais e efetivos, tan- lor da pessoa humana, como valor fonte do direito. Essa
to entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto ruptura fez emergir a necessidade da reconstrução dos
entre os povos dos territórios sob sua jurisdição”. direitos humanos como referencial e paradigma ético que
aproxime o direito da moral.
O documento de que trata a conceituação acima é a:
Resposta: Letra A - As violações de direitos humanos no gover-
a) Declaração Universal dos Direitos Humanos. no de Hitler permitiram a reflexão que gerou a internacionali-
zação dos direitos humanos. Contudo, em nenhum momento
b) Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. se entendeu que a guerra seria necessária para fazer valer tais
direitos. Pelo contrário, a paz é um dos principais fundamen-
c) Constituição da República Federativa do Brasil (Preâmbu- tos do sistema internacional de proteção dos direitos huma-
lo). nos.

d) Convenção Interamericana de Direitos Humanos de São b) Percebe-se uma evidente relação de ruptura e reconstru-
José da Costa Rica. ção, respectivamente, pela emergência da Segunda Guer-
ra Mundial e pelas tentativas de estruturação sistêmica de
Resposta: Letra A - A Declaração Universal dos Direitos Hu- proteção internacional dos direitos humanos após o seu
manos é o primeiro documento proclamatório de direitos hu- encerramento.
manos materiais no âmbito internacional, correspondendo à
Resolução nº 217 da Assembleia Geral da ONU. c) Os absurdos evidentes cometidos contra a pessoa huma-
na durante a Segunda Guerra Mundial fizeram com que
b) Errada, pois a Declaração dos Direitos do Homem e do Ci- fossem abertos os olhos da humanidade sobre a neces-
dadão é um documento que foi emitido ao fim da Revolu- sidade de se preservar um mínimo ético na aplicação do
ção Francesa. Direito, estruturando Direitos Humanos essenciais inatos
à pessoa humana com base numa lógica do razoável - os
c) Errada, pois a Constituição da República Federativa do limites da razoabilidade para a defesa do Estado em detri-
Brasil, documento nacional, não tem a perspectiva inter- mento da pessoa humana.
nacional e é datada de 1988.
d) Percebe-se nos regimes totalitaristas a completa nega-
d) Errada, pois a Convenção Interamericana de Direitos Hu- ção da pessoa humana a partir do momento em que se
manos de São José da Costa Rica é um tratado internacio- colocam apenas algumas pessoas como sujeitos de Direi-
nal emitido pela OEA no ano de 1969. to, deixando as demais marginalizadas. Finda a Segunda
Guerra mostra-se necessário estruturar um sistema no
qual todo ser humanos seja necessariamente colocado
2) (PC-MG - Delegado de Polícia - FUMARC/2011) A verda- como titular de direitos inatos.
deira consolidação do Direito Internacional dos Direitos
Humanos surge em meados do século XX, em decorrência
da Segunda Guerra Mundial, por isso o moderno Direito
GERAÇÕES DE DIREITOS HUMANOS
Internacional dos Direitos Humanos é um fenômeno do
pós-guerra. Dentre as proposições abaixo, assinale a que Conforme evoluíram as chamadas dimensões dos direi-
não corrobora com o enunciado acima: tos humanos tais bens jurídicos fundamentais adquiriram
novas vertentes, saindo de uma noção individualista e che-
a) o desenvolvimento do Direito Internacional dos Direitos gando a uma coletiva, de modo que a própria finalidade dos
Humanos pode ser atribuído às monstruosas violações direitos humanos adquiriu nova compreensão, deixando de
de direitos humanos da era Hitler e, após, à crença de que ser preservar apenas o indivíduo e passando a envolver a ma-
somente uma guerra poderia por fim a essas violações no nutenção da sociedade sustentável. A teoria das dimensões
âmbito internacional para garantir internamente em cada de direitos humanos foi identificada por Karel Vasak.
DIREITOS HUMANOS

Estado nacional a dignidade da pessoa humana.


É pacífico que as três primeiras dimensões de direitos
b) a internacionalização dos direitos humanos constitui um humanos envolvem: 1) direitos civis e políticos (LIBERDADE);
movimento extremamente recente da história, surgido 2) direitos sociais, econômicos e culturais (IGUALDADE
a partir do pós-guerra, como proposta às atrocidades e MATERIAL); 3) direitos ambientais e de solidariedade
aos horrores cometidos durante o nazismo. Se a Segunda (FRATERNIDADE). Destaca-se que as três primeiras
Guerra significou a ruptura com os direitos humanos, o dimensões de direitos remetem ao lema da Revolução
pós-guerra deveria significar sua reconstrução. Francesa: “Liberdade, igualdade, fraternidade”.

11
Em relação à primeira dimensão de direitos, inicialmen- Em resumo, as dimensões de direitos humanos se refe-
te, denota-se a afirmação dos direitos de liberdade, referente rem às mudanças de paradigmas quanto aos bens jurídicos
aos direitos que tendem a limitar o poder estatal e reservar que deveriam ser considerados fundamentais ao homem.
parcela dele para o indivíduo (liberdade em relação ao Esta- Embora todo direito humano seja imutável, isso não significa
do), sendo que posteriormente despontam os direitos polí- que o processo interpretativo não possa evoluir e, com isso,
ticos, relativos às liberdades positivas no sentido de garantir se reconhecer que um novo aspecto da dignidade humana
uma participação cada vez mais ampla dos indivíduos no po- merece ampla proteção.
der político (liberdade no Estado). Os dois movimentos que
levaram à afirmação dos direitos de primeira dimensão, que
são os direitos de liberdade e os direitos políticos, foram a Re- #FicaDica
volução Americana, que culminou na Declaração de Virgínia 1a Dimensão – LIBERDADE – Direitos civis e
(1776), e a Revolução Francesa, cujo documento essencial foi políticos – Marco histórico: Revoluções France-
a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789)45. sa, Americana e Gloriosa.

Quanto à segunda dimensão, foram proclamados os di- 2a Dimensão – IGUALDADE – Direitos econô-
reitos sociais, expressando o amadurecimento das novas micos, sociais e culturais – Marco histórico:
exigências como as de bem-estar e igualdade material (liber- Revolução Industrial
dade por meio do Estado). Durante a Revolução Industrial 3a Dimensão – FRATERNIDADE – Direitos di-
tomaram proporção os direitos de segunda dimensão, que fusos e coletivos – Marco histórico: Fim da Se-
são os direitos sociais, refletindo a busca do trabalhador por gunda Guerra Mundial e surgimento da ONU
condições dignas de trabalho, remuneração adequada, edu-
cação e assistência social em caso de invalidez ou velhice, ga-
rantindo o amparo estatal à parte mais fraca da sociedade.46

Ao lado dos direitos sociais, chamados de segunda ge-


EXERCÍCIO COMENTADO
ração, emergiram os chamados direitos de terceira geração,
que constituem uma categoria ainda heterogênea e vaga, 1) (PC-MG - Perito Criminal - FUMARC/2013) São exemplos
mas que concentra na reivindicação do direito de viver num de direitos econômicos:
ambiente sem poluição.47
a) Direito ambiental e Direitos do trabalhador.
A doutrina não é pacífica no que tange à definição de di-
mensões posteriores de direitos humanos. Para Bobbio48 - e a b) Segurança individual e Direito do consumidor.
maioria da doutrina - os chamados direitos de quarta dimen-
são se referem aos efeitos traumáticos da evolução da pes- c) Transporte integrado à produção e Pleno emprego.
quisa biológica, que permitirá a manipulação do patrimônio
genético do indivíduo de modo cada vez mais intenso; en- d) Meio ambiente sadio e Assistência e Previdência Social.
quanto que Bonavides49 defende que são de quarta dimen-
são os direitos inerentes à globalização política. Bonavides50 Resposta: Letra C - O direito de ser transportado ao local de
também diverge ao falar de uma quinta dimensão composta trabalho e o direito ao pleno emprego são ambos repercussão
pelo direito à paz, o qual foi colocado por Vasak na terceira do direito ao trabalho, clássico direito social/econômico, de se-
dimensão. Autores do direito eletrônico como Peck51 e Oli- gunda dimensão.
vo52 entendem que ele seria a quinta dimensão dos direitos
humanos, envolvendo o direito de acesso e convivência num a) O erro está em afirmar que o direito ambiental é direito
ambiente salutar no ciberespaço. econômico, quando na verdade é direito difuso.

b) A segurança individual é direito civil e o direito do consu-


midor pode ser direito civil ou direito coletivo.
45 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Tradução Celso La-
fer. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. d) O erro está em afirmar que o direito ao meio ambiente sa-
dio é direito econômico, quando na verdade é direito difuso.
46 Ibid.
47 Ibid.
A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS
48 Ibid.
TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO
49 BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. 26. DOS DIREITOS HUMANOS
ed. São Paulo: Malheiros, 2011.
DIREITOS HUMANOS

50 Ibid.
Art. 5º, § 2º Os direitos e garantias expressos nesta Consti-
51 PECK, Patrícia. Direito digital. São Paulo: Saraiva, 2002. tuição não excluem outros decorrentes do regime e dos princí-
52 OLIVO, Luís Carlos Cancellier de. Os “novos” direitos pios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que
enquanto direitos públicos virtuais na sociedade da infor- a República Federativa do Brasil seja parte.
mação. In: WOLKMER, Antônio Carlos; LEITE, José Rubens
Morato (Org.). Os “novos” direitos no Brasil: natureza e pers- Com efeito, quando um tratado internacional ingressa no
pectivas. São Paulo: Saraiva, 2003. ordenamento jurídico acrescenta outros direitos e deveres

12
para os cidadãos. TRE não acolheu a tese, mas o TSE sim (4x3). Contudo, o STF
caçou a decisão (7x4). Ficou impedida, assim, a candidatura
Para o tratado internacional ingressar no ordenamen- do MDB.
to jurídico brasileiro deve ser observado um procedimento
complexo, que exige o cumprimento de quatro fases: a nego- Logo, todos os tratados que ingressaram no ordenamento
ciação (bilateral ou multilateral, com posterior assinatura do jurídico após a Constituição Federal de 1988 são mais que leis
Presidente da República), submissão do tratado assinado ao ordinárias, mas efetivas fontes de direitos implícitos. A exem-
Congresso Nacional (que dará referendo por meio do decreto plo, pode-se mencionar os pactos internacionais dos direitos
legislativo), ratificação do tratado (confirmação da obrigação civis e políticos e dos direitos econômicos, sociais e culturais,
perante a comunidade internacional) e a promulgação e pu- ambos de 1966, e a Convenção Americana sobre Direitos Hu-
blicação do tratado pelo Poder Executivo53. manos de 1969, que entraram em vigor no ordenamento em
1992; e a Convenção sobre a tortura de 1984, que entrou em
O §1° e o §2° do artigo 5° existiam de maneira originária vigor no Brasil em 1991. A questão é que tais tratados não
na Constituição Federal, conferindo o caráter de primazia passaram pelo procedimento similar ao da Emenda Consti-
dos direitos humanos, desde logo consagrando o princípio da tucional para aprovação, uma vez que a alteração constitu-
primazia dos direitos humanos, como reconhecido pela dou- cional que passou a assim estabelecer data de 2004:
trina e jurisprudência majoritários na época. “O princípio da
primazia dos direitos humanos nas relações internacionais Art. 5º, § 3º Os tratados e convenções internacionais so-
implica em que o Brasil deve incorporar os tratados quan- bre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do
to ao tema ao ordenamento interno brasileiro e respeitá-los. Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos
Implica, também em que as normas voltadas à proteção da dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas cons-
dignidade em caráter universal devem ser aplicadas no Brasil titucionais. 
em caráter prioritário em relação a outras normas”54.
Com o advento da Emenda Constitucional nº 45/04,
Regra geral, os tratados internacionais comuns ingres- que introduziu o §3º ao artigo 5º da Constituição Federal,
sam com força de lei ordinária no ordenamento jurídico bra- os tratados internacionais de direitos humanos foram equi-
sileiro porque somente existe previsão constitucional quanto parados às emendas constitucionais, desde que houvesse a
à possibilidade da equiparação às emendas constitucionais aprovação do tratado em cada Casa do Congresso Nacional
se o tratado abranger matéria de direitos humanos. e obtivesse a votação em dois turnos e com três quintos dos
votos dos respectivos membros.
Antes da Emenda Constitucional nº 45/04 que alterou o
quadro quanto aos tratados de direitos humanos, era o que Logo, a partir da alteração constitucional, os tratados de
acontecia, ou seja, tratados de direitos humanos possuem ca- direitos humanos que ingressarem no ordenamento jurídi-
ráter de lei ordinária, mas isso não significa que tais direitos co brasileiro, versando sobre matéria de direitos humanos,
eram menos importantes. Na verdade, após a Constituição irão passar por um processo de aprovação semelhante ao
de 1988 passou-se a afirmar que os tratados de direitos hu- da emenda constitucional. Não há dúvidas de que os trata-
manos são mais do que leis ordinárias, mas fontes de direitos dos internacionais posteriores à emenda, aprovados pelo
implícitos, o que mostra a primazia dos direitos humanos. quórum de 3/5, em dois turnos, têm status de norma cons-
titucional. Atualmente, está nesta condição a Convenção In-
O precedente histórico da declaração dos tratados inter- ternacional de Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência
nacionais como fonte de direito implícitos foi o questiona- (Decreto nº 6949/09).
mento pelo Partido MDB com relação à LC nº 5. Tal partido
político brasileiro que abrigou os opositores do Regime Mili- Mas e quanto aos demais tratados?
tar de 1964 ante o poderio governista da Aliança Renovadora
Nacional (ARENA). Organizado em fins de 1965 e fundado no Há posicionamentos conflituosos quanto à possibilidade
ano seguinte, o partido se caracterizou por sua multiplici- de considerar como hierarquicamente constitucional os tra-
dade ideológica graças sobretudo aos embates entre os “au- tados internacionais de direitos humanos que ingressaram
tênticos” e “moderados” quanto aos rumos a seguir no en- no ordenamento jurídico brasileiro anteriormente ao adven-
frentamento ao poder militar. Inicialmente raquítico em seu to da referida emenda. A posição predominante foi estabe-
desempenho eleitoral, experimentou grande crescimento no lecida pelo Supremo Tribunal Federal na discussão que se
governo de Ernesto Geisel obrigando os militares a extingui- deu com relação à prisão civil do depositário infiel, prevista
rem o bipartidarismo e assim surgiu o Partido do Movimento como legal na Constituição e ilegal no Pacto de São José da
Democrático Brasileiro em 1980. A LC nº 5 previa que eram Costa Rica (tratado de direitos humanos aprovado antes da
inelegíveis não só os condenados por certos crimes, mas EC nº 45/04 e depois da CF/88). O Supremo Tribunal Federal
também quem estivesse sendo processado por estes. Foi efe- firmou o entendimento pela supralegalidade do tratado de
tuada a arguição incidental de inconstitucionalidade, iden- direitos humanos anterior à Emenda (estaria numa posição
DIREITOS HUMANOS

tificando no padrão de confronto o princípio do estado de que paralisaria a eficácia da lei infraconstitucional, mas não
inocência, que na época era implícito (uma vez que previsto revogaria a Constituição no ponto controverso). Logo, o tra-
na Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948). O tado de direitos humanos anterior à Emenda Constitucional
nº 45/04 é mais do que lei ordinária, e por isso paralisa a lei
53 VICENTE SOBRINHO, Benedito. Direitos Fundamentais e ordinária que o contrarie, porém menos que o texto consti-
Prisão Civil. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris Editor, 2008. tucional. Criou-se, então, uma necessidade de dupla compa-
tibilidade das leis ordinárias.
54 PORTELA, Paulo Henrique Gonçalves. Direito Internacio-
nal Público e Privado. Salvador: JusPodivm, 2009.

13
É possível que um tratado de direitos humanos analise as seguintes afirmativas:
anterior à Emenda Constitucional nº 45/04 adquira caráter
constitucional? Sim, basta que este tratado seja submetido I. Pode-se afirmar que se trata de um ramo do Direito que
a uma nova votação no Congresso Nacional, desta vez nos surgiu após a Segunda Guerra Mundial.
moldes da Emenda (2 turnos, quórum de 3/5). Feito isto,
se encerraria qualquer controvérsia e o caráter do tratado II. São direitos inscritos (positivados) em tratados ou em cos-
passaria a ser de norma constitucional. tumes internacionais.

#FicaDica III.Os tratados internacionais sobre Direitos Humanos que


forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional,
Artigo 5o, § 3o, CF: 2 turnos em cada casa do em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos
Congresso Nacional + 3/5 de quórum
membros, serão equivalentes às emendas constitucionais.
Tratados de direitos humanos incorporados
após 1988, sem o procedimento do artigo 5o, IV. A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiên-
§3o, CF: status supralegal. cia e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York,
em 30 de março de 2007, foram recepcionados no orde-
Tratados de direitos humanos incorporados nos
moldes do procedimento do artigo 5o, §3o, CF: namento nacional e equivalem a emenda constitucional.
status de emenda constitucional.
As afirmativas CORRETAS são:

a) I e II, apenas.
EXERCÍCIO COMENTADO
b) I, II e III, apenas.
1) (PC-MG - Investigador de Polícia - FUMARC/2014) Nos
termos do inciso LXVII do art. 5º da Constituição Federal c) I, II e IV, apenas.
de 1988, “não haverá prisão civil por dívida, salvo a do res-
ponsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável d) I, II, III e IV.
de obrigação alimentícia e a do depositário infiel”. À luz
de decisão do Supremo Tribunal Federal, considerando Resposta: Letra D.
os termos do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Po-
líticos, assim como da Convenção Americana de Direitos I. Afirmativa certa porque o Direito Internacional dos Direitos
Humanos, é CORRETO afirmar sobre a previsão constitu- Humanos, na forma como é concebido hoje, surge a partir da
cional da prisão civil do depositário infiel que criação da Organização das Nações Unidas no contexto pós-
-Segunda Guerra.
a) é cláusula pétrea e, por tal razão, nenhum tratado
internacional tem força suficiente para afastar a sua apli- II. Afirmativa certa porque o Direito Internacional dos Direi-
cabilidade sobre os casos concretos. tos Humanos usualmente tem sua normatização transcrita
em tratados e costumes internacionais.
b) foi revogada.
III. Afirmativa certa, nos termos do artigo 5º, §3º, CF: “Os tra-
c) não foi revogada e, exatamente por isso, continua sendo tados e convenções internacionais sobre direitos humanos que
aplicável pelo poder judiciário brasileiro. forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em
dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos mem-
d) não foi revogada, porém deixou de ter aplicabilidade bros, serão equivalentes às emendas constitucionais”.
diante do efeito paralisante desses tratados.
IV. Afirmativa certa, até o momento, o Decreto nº 6.949/2009,
Resposta: Letra D - O Supremo Tribunal Federal firmou o que corresponde à Convenção sobre os Direitos das Pessoas
entendimento pela supralegalidade do tratado de direitos com Deficiência e ao seu Protocolo Facultativo, assinados em
humanos anterior à EC nº 45/2004, como é o caso do Pacto Nova York no ano de 2007, traz o único documento aprovado
de Direitos Civis e Políticos e da Convenção Americana sobre com o status de emenda constitucional no Brasil.
Direitos Humanos. Significa que estes tratados podem para-
lisar a eficácia da lei infraconstitucional que os contrariem, O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO
mas não podem revogar a Constituição no ponto controverso. DOS DIREITOS HUMANOS
Sendo assim, é constitucional a norma da CF que permite a
DIREITOS HUMANOS

prisão civil do depositário infiel, mas devido à supralegalida-


de da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, houve Organização das Nações Unidas
paralisação da eficácia das normas infraconstitucionais que a
regulamentam, como é o caso do Código Civil. A Organização das Nações Unidas funda-se em ideário
muito diferente daquele da Liga das Nações, pois se perce-
beu que o estabelecimento de uma organização internacio-
2) (PC-MG - Médico Legista - FUMARC/2013) No que diz nal restrita a países vitoriosos, prejudicando de maneira no-
respeito ao Direito Internacional dos Direitos Humanos, tável os perdedores, poderia servir de motivação para outros
incidentes contrários à paz mundial, a exemplo do que foi a

14
Segunda Grande Guerra. que o art. 2º da Carta consolida o princípio da igualdade en-
tre todos os membros, de modo que cada membro das Na-
No ano de 1944, em Dumbarton Oaks, realizou-se uma ções Unidas tem a obrigação de respeitar todas as diretivas
conferência visando constituir a nova organização, prepa- da Carta de 1945 com boa-fé e de solucionar suas controvér-
rando-se proposições iniciais a respeito dela. Em fevereiro sias internacionais prioritariamente de modo pacífico58.
de 1945, Churchill, Stalin e Roosevelt resolveram os últimos
pontos a respeito da nova organização, decidindo-se, ainda, O descumprimento dos preceitos da Carta pode gerar
pela convocação de uma conferência na cidade de São Fran- suspensão ou, nos casos mais graves, expulsão, mediante re-
cisco no dia 25 de abril do mesmo ano. A Conferência de São comendação do Conselho de Segurança à Assembleia Geral,
Francisco, oficialmente denominada Conferência das Na- conforme artigos 5º e 6º, embora nunca tenham ocorrido na
ções Unidas para a Organização Internacional, estava aberta prática nenhuma das hipóteses.
às Nações Unidas que lutaram contra as potências do Eixo
(Japão, Itália e Alemanha). Os principais órgãos das Nações Unidas são: Assembleia
Geral, Conselho de Segurança, Conselho Econômico e Social,
“O novo organismo somente seria eficaz caso contas- Conselho de Tutela, Corte Internacional de Justiça e Secreta-
se com a aprovação das grandes potências. No entanto, ele riado (art. 7º, Carta ONU). Um olhar para a estrutura da ONU
não poderia restringir-se tão somente aos grandes Estados, permite observar que ao mesmo tempo em que ela possui
pois seria o oposto ao espírito universalista apresentado um órgão com participação de todos os Estados - mas com
como base da nova organização internacional”55. Afinal, a possibilidade restrita de intervenção de um só país ou um
experiência da Liga das Nações já havia mostrado que sem pequeno grupo de países em outro, qual seja a Assembleia
uma verdadeira cooperação internacional e sem a garantia Geral -, possui também outro órgão composto pelos ditos
de participação do maior número de países do globo a nova Estados mais poderosos, que se sagraram vencedores na Se-
Organização estaria fadada ao insucesso. gunda Guerra Mundial, possuindo cargo permanente e po-
der de veto nas decisões tomadas pela Assembleia desde que
“Até a fundação das Nações Unidas, em 1945, não era se- versem sobre questões de segurança - embora apurar o que
guro afirmar que houvesse, em Direito Internacional Públi- são estas questões seja algo subjetivo -, qual seja o Conselho
co, preocupação consciente e organizada sobre o tema dos de Segurança.
direitos humanos. De longa data alguns tratados avulsos cui-
daram, incidentalmente, de proteger certas minorias dentro
do contexto de sucessão de Estados”56. Assembleia Geral
A Carta da ONU entrou em vigor no dia 24 de outubro de Todos os membros das Nações Unidas fazem parte da
1945 quando efetuado o depósito dos instrumentos de ratifi- Assembleia Geral e cada qual pode designar até cinco repre-
cação dos membros permanentes do Conselho de Seguran- sentantes (art. 9º, Carta ONU). Isso não significa que cada
ça e da maioria dos outros signatários. Após, muitos países membro possa votar cinco vezes, pois a Carta é expressa
ingressaram na ONU. Por isso, os membros podem ser divi- no sentido de que cada qual possui um voto (art. 18, Carta
didos entre originários e admitidos, não havendo diferenças ONU).
entre direitos e deveres em relação a eles57.
Não foi automaticamente que a ONU adquiriu membros
Assim, a Organização das Nações Unidas foi criada em o suficiente para se caracterizar como uma organização uni-
1945 para manter a paz e a segurança internacionais, bem versal. De início, muitos países foram barrados, notadamen-
como promover relações de amizade entre as nações, coope- te pelo constante uso do poder de veto ao ingresso de novos
ração internacional e respeito aos direitos humanos. A Carta membros pela União Soviética. Era fácil justificar o veto, pois
da ONU também é chamada de Carta de São Francisco, uma os requisitos para ingresso na ONU são bastante subjetivos:
vez que foi elaborada na Conferência de São Francisco. ser amante da paz, aceitar formalmente as obrigações decor-
rentes da Carta, estar capacitado para cumprir tais obriga-
Dos artigos 3º e 4º da Carta da ONU extrai-se a distinção ções e demonstrar estar disposto a fazê-lo.
entre os membros originários, quais sejam os que participa-
ram da Conferência das Nações Unidas sobre a Organização O quórum de votação é de 2/3 dos membros presentes
Internacional em 1945 ou assinaram a Declaração das Na- e votantes para as questões importantes, ao passo que as
ções Unidas de 1942, e os membros aceitos, isto é, os que se demais questões são decididas pela maioria dos presentes
comprometerem à obrigações da Carta e forem aceitos pela e votantes. Em resumo, as questões importantes se referem
Assembleia Geral após recomendação do Conselho de Segu- às recomendações relativas à paz e à segurança, a quaisquer
rança.

Não há qualquer distinção entre tais membros, uma vez 58 O mesmo artigo 2º traz interessante regra no artigo 6º: “A
DIREITOS HUMANOS

Organização fará com que os Estados que não são Membros


das Nações Unidas ajam de acordo com esses Princípios em
55 SEITENFUS, Ricardo. Manual das organizações interna- tudo quanto for necessário à manutenção da paz e da segu-
cionais. 5. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008, p. rança internacionais”. Trata-se de um dos poucos casos em
128. que um tratado tem efeito em relação aos terceiros Estados,
56 REZEK, J. F. Direito Internacional Público: curso elemen- como adverte Celso D. de Albuquerque Mello (Op. Cit., p.
tar. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2000, p. 210. 636). Tal regra perde importância se considerado que atual-
mente praticamente todos os países soberanos do globo fa-
57 Ibid., p. 624. zem parte das Nações Unidas.

15
questões que envolvam a eleição de membros (para compor Conselho de Segurança (instituto do veto). Principalmente
Conselhos, admissão, suspensão e expulsão), ao funciona- por isso que se algum membro for parte da controvérsia de-
mento do sistema de tutela e ao orçamento (art. 18, Carta verá se abster de votar (art. 27, Carta ONU).
ONU).
O Conselho age em nome dos demais membros da ONU
A competência para discussão dentro da Assembleia Ge- em prol da manutenção da paz e da segurança mundiais,
ral é ampla, pois podem deliberar e fazer recomendações submetendo relatórios anuais à Assembleia Geral (art. 24,
sobre “quaisquer questões ou assuntos que estiverem den- Carta ONU). Por isso mesmo tem uma competência bastante
tro das finalidades da presente Carta ou que se relacionarem ampla, notadamente quando o assunto perpassa por ques-
com as atribuições e funções de qualquer dos órgãos nela tões como guerras, conflitos armados e desarmamento: pode
previstos”, ressalvada a possibilidade de fazer tais recomen- convidar partes para resolver controvérsias de forma pacífica
dações quando o Conselho de Segurança estiver apreciando (art. 33, Carta ONU), “investigar sobre qualquer controvérsia
a mesma matéria (art. 10 c.c. art. 12, Carta ONU)59. Tais re- ou situação suscetível de provocar atritos entre as Nações ou
comendações podem ser dirigidas aos membros das Nações dar origem a uma controvérsia” (art. 34, Carta ONU), fazer
Unidas, a eventuais Estados interessados e ao Conselho de recomendações às partes buscando uma solução pacífica
Segurança (art. 11, Carta ONU). Nas recomendações poderão (art. 38, Carta ONU), determinar “a existência de qualquer
constar medidas que a Assembleia Geral entenda necessá- ameaça à paz, ruptura da paz ou ato de agressão” e recomen-
rias para a solução pacífica de qualquer situação no âmbito dar medidas definitivas ou provisórias (art. 39 c.c. art. 40,
de sua competência (art. 13 c.c. art. 14, Carta ONU). Carta ONU) e decidir sobre o emprego de força (artigos 43 e
44, Carta ONU)61. Neste sentido, Mello62 aponta que são suas
São atribuições exclusivas deste órgão, segundo Mello60, atribuições exclusivas: “a) ação nos casos de ameaça à paz;
“a) eleger os membros não permanentes do Conselho de se- b) aprova e controla a tutela estratégica; c) execução forçada
gurança e os membros dos Conselhos de Tutela e Econômico das decisões da CIJ”.
e Social; b) votar o orçamento da ONU; c) aprovar os acordos
de tutela; d) autorizar os organismos especializados a solici- As reuniões são realizadas periodicamente, funcionando
tarem pareceres à CIJ; e) coordenar as atividades desses or- o Conselho de forma contínua (art. 28, Carta ONU), logo, tra-
ganismos”. ta-se de órgão permanente da ONU.

Além disso, a Assembleia Geral também tem competên-


cia para o recebimento e o exame de relatórios do Conselho Conselho Econômico e Social
de Segurança e dos demais órgãos das Nações Unidas (art.
15, Carta ONU). É composto por 54 membros, cada qual com um
representante, eleitos pela Assembleia Geral, os quais
Este órgão se reúne ordinariamente uma vez ao ano, mas anualmente são substituídos em parte, pois anualmente é
é possível realizar convocações extraordinárias (art. 20, Carta feita eleição para parcela das vagas com mandato de 3 anos
ONU), logo, não é um órgão permanente, mas sim tempo- (art. 61, Carta ONU). Cada representante terá direito a um
rário. voto e as decisões são tomadas pela maioria dos membros
presentes e votantes (art. 67, Carta ONU).

Conselho de Segurança Entre suas funções está a elaboração de estudos e relató-


rios sobre assuntos internacionais de caráter econômico, so-
O Conselho de Segurança é composto por quinze Mem- cial, cultural, educacional, sanitário e conexos, notadamente
bros das Nações Unidas, sendo 5 permanentes (China, Fran- no que tange ao “respeito e a observância dos direitos huma-
ça, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos) e dez não perma- nos e das liberdades fundamentais”, fazendo recomendações
nentes, eleitos pela Assembleia Geral para um mandato de e efetuando consultas à Assembleia Geral e entidades espe-
2 anos, cada qual contando com um representante (art. 23, cializadas, preparando projetos de convenções e convocan-
Carta ONU) que terá direito a um voto. do conferências (artigos 62 e 63, Carta ONU). Cabe, ainda,
fornecer informações ao Conselho de Segurança quando re-
Há um alto grau político nas decisões que emanam do quisitadas (art. 65, Carta ONU) e cumprir determinações da
Conselho de Segurança, as quais afetam diretamente as re- Assembleia Geral (art. 66, Carta ONU).
lações internacionais dos Estados-membros em termos de
guerra e paz. Destaca-se o art. 68 da Carta ONU, pelo qual cabe ao
Conselho Econômico e Social criar comissões para proteção
O quorum para votação é diverso daquele da Assembleia dos direitos humanos e demais assuntos econômicos e so-
Geral. Enquanto questões processuais, menos importantes, ciais. Devido ao disposto neste artigo foi criada a Comissão
são tomadas pelo voto afirmativo de 9 membros, ao passo de Direitos Humanos, que no ano de 2006 deu lugar ao Con-
DIREITOS HUMANOS

que nas demais questões é preciso que destes 9 votos 5 sejam selho de Direitos Humanos, que será estudado em detalhes
dos membros permanentes. Logo, se um membro perma- posteriormente.
nente votar contra impede que a decisão seja tomada pelo

59 Evidente que muitas das questões apreciadas pela Assem- 61 Indiretamente, matérias em debate no Conselho de Segu-
bleia Geral podem ter estrita relação com direitos humanos. rança podem atingir direitos humanos.
60 MELLO, Celso D. de Albuquerque... Op. Cit. p. 630. 62 Ibid.. p. 627.

16
Os interlocutores da ECOSOC integram um complexo um grupo de pessoas que o assiste por ele nomeado (art. 97
sistema de relações, ante ao seu vasto leque de competên- c.c. art. 101, Carta ONU). Além de comparecer a todas as reu-
cias que leva à criação de inúmeros órgãos subsidiários (a ri- niões dos principais órgãos, o Secretário-geral deve elaborar
gor, somente questões estritamente políticas não são de sua relatório anual à Assembleia (art. 98, Carta ONU), havendo
competência). No entanto, a ECOSOC não possui um ins- preocupação especial da Carta da ONU com sua imparciali-
trumento, material ou jurídico, para impor suas decisões, de dade (art. 100, Carta ONU).
forma que apenas sugere políticas e obrigações não coativas.
“Além de suas funções administrativas, o Secretário-Ge-
ral pode exercer grande influência dentro da organização,
Conselho de Tutela junto aos Estados-Membros e perante o mundo exterior.
Suas iniciativas, declarações e tomadas de posição transfor-
Vincula-se ao Sistema Internacional de Tutela, pelo qual mam-no num dos mais importantes personagens da política
territórios podem ser colocados sob tutela quando: estiverem internacional”64.
sob mandato, puderem ser separados de Estados inimigos
em virtude da Segunda Guerra Mundial ou forem volunta-
riamente colocados em tal posição por seus administradores Corte Internacional de Justiça
(art. 77, Carta ONU).
A Corte Permanente de Justiça Internacional funcionava
Pelo que se extrai do art. 76 da Carta ONU, a finalidade da como organismo autônomo da Liga das Nações. Mesmo com
tutela é fazer com que o território passe a respeitar e adotar a ocupação da Holanda pela Alemanha, ela continuou a fun-
os ditames das Nações Unidas. A exemplo, praticamente to- cionar em Genebra, sendo dissolvida apenas em 1946, dando
dos os Estados africanos no início das Nações Unidas se sub- lugar à Corte Internacional de Justiça.
meteram a este regime até conquistarem a independência,
isto é, serem descolonizados. O Estatuto da Corte Internacional de Justiça é parte inte-
grante da Carta das Nações Unidas de 1945, a qual também
O Conselho de Tutela é composto pelos membros ad- disciplina de maneira geral este órgão jurisdicional em seu
ministradores dos territórios tutelados, além dos membros capítulo XIV.
permanentes do Conselho de Segurança quando eles não fo-
rem administradores, e membros eleitos de modo que a cada Embora este seja o principal órgão jurisdicional das Na-
administrador corresponda um membro eleito não adminis- ções Unidas (art. 92, Carta ONU), nada impede que membros
trador (art. 86, Carta ONU), cada qual com um voto (art. 89, da organização confiem a solução de seus conflitos a outros
Carta ONU). tribunais internacionais (art. 95, Carta ONU).

Como as situações em que a tutela se faria necessária fo- O desempenho dos juízes da Corte é questionável: deci-
ram extintas, em 1º de Novembro de 1994 suas atividades fo- dem a média de 2 casos por ano, o que não condiz com a
ram suspensas e suas reuniões, antes anuais, somente devem quantidade de conflitos que são de sua competência; costu-
ocorrer quando novas situações assim exigirem. mam adotar uma postura arbitral e fazem de tudo para satis-
fazerem mesmo a parte perdedora; e usualmente se filiam às
Logo, atualmente, o Conselho de Tutela só é composto posturas políticas de seu Estado de origem, beneficiando-o
pelos cinco membros do Conselho de Segurança, não estan- nas decisões. Por isso, o principal órgão judiciário da ONU
do em funcionamento. não é tão efetivo quanto poderia ser, o que gera um mal-estar
generalizado diante da impunidade dos infratores do direito
internacional.
Corte Internacional de Justiça
Apesar da sede da Corte ser em Haia, é possível que jul-
Trata-se do principal órgão judiciário das Nações Unidas, gamentos se realizem em outras localidades (art. 22, Estatuto
o qual será estudado a parte por ser um dos principais instru- CIJ). Ademais, a Corte é um órgão permanente, que somen-
mentos no sistema global de proteção dos direitos humanos. te deixa de funcionar nas férias judiciárias (art. 23, Estatuto
“Malgrado o nome que ostenta, não se deve imaginar que à CIJ).
Corte de Justiça corresponda o papel exercido, no modelo
Ela funcionará em sessão plenária, ou seja, seu pleno to-
clássico do Estado Contemporâneo, pelo Poder Judiciário. mará as decisões, mas o quórum de 9 juízes já é suficiente
Embora a Corte seja o principal órgão judiciário das Nações para que uma sessão seja instaurada (art. 25, Estatuto CIJ).
Unidas, ela dispõe de uma jurisdição eminentemente facul- Câmaras poderão ser formadas para decidir questões em ca-
tativa absolutamente distinta dos órgãos judiciais internos ráter especial (art. 26, Estatuto CIJ).
dos Estados”63.
DIREITOS HUMANOS

Nos termos do art. 34 do Estatuto da CIJ, “só os Estados


poderão ser partes em questões perante a Corte”65. As partes
Secretariado
64 Ibid., p. 156.
Desempenha as funções administrativas da ONU, sendo
composto por um Secretário-geral recomendado pelo Con- 65 “As organizações internacionais, inclusive a ONU, não po-
selho de Segurança e aprovado pela Assembleia Geral e por dem ser parte em um litígio perante a CIJ. Elas podem apenas
prestar informações à Corte, bem como solicitar pareceres”.
63 Ibid., p. 157. (MELLO, Celso D. de Albuquerque... Op. Cit. p. 661).

17
serão representadas por agentes, que terão a assistência de CIJ).
consultores ou advogados, sendo que todos gozarão dos pri-
vilégios e imunidades necessários ao livre exercício de suas Não compromete a imparcialidade do juiz o fato dele ser
atribuições perante a Corte (art. 41, Estatuto CIJ). nacional de um dos Estados-partes. No entanto, a perma-
nência do nacional no julgamento garantirá à outra parte a
Suas línguas oficiais são o francês e o inglês (art. 39, Es- nomeação de um juiz ad hoc, que preferencialmente figure
tatuto CIJ). na lista de candidatos a uma vaga na Corte. Se nenhum dos
Estados-partes tiver nacional enquanto juiz da Corte, ambos
A Corte é composta por um corpo de 15 juízes indepen- poderão nomear juiz ad hoc67. Havendo formação de Câmara
dentes, dentre pessoas com alta consideração moral e con- especial, que pode no máximo ter 5 membros, se necessário
dições para, no país de que é nacional, exercer as mais ele- o Presidente solicitará que um membro que seja juiz da Corte
vadas funções judiciárias (artigos 2º e 3º, Estatuto CIJ). Seus dê lugar ao juiz nacional. Se houver partes plurais interessa-
membros são eleitos pela Assembleia Geral e pelo Conselho das na mesma questão, elas serão consideradas uma só par-
de Segurança a partir de uma lista apresentada pelos grupos te, nomeando apenas um juiz ad hoc (art. 31, Estatuto CIJ).
nacionais da Corte Permanente de Arbitragem ou grupos
indicados para este fim por Estados-membros não repre- Estabelece o art. 36 do Estatuto da CIJ quanto à compe-
sentados66 (art. 4º, Estatuto CIJ). Nenhum grupo poderá in- tência da Corte: “a competência da Corte abrange todas as
dicar mais de quatro pessoas e nunca mais que o dobro do questões que as partes lhe submetam, bem como todos os
número de vagas a serem preenchidas, e destas, no máximo, assuntos especialmente previstos na Carta das Nações Uni-
duas poderão ser de sua nacionalidade (art. 5º, Estatuto CIJ). das ou em tratados e convenções em vigor”. Em continua-
A lista geral será elaborada pelo Secretário-geral e enviada à ção, o mesmo dispositivo especifica o que abrangeria esta
Assembleia Geral e ao Conselho de Segurança, que votarão competência: “[...] todas as controvérsias de ordem jurídica
independentemente, aplicando-se o quórum da maioria ab- que tenham por objeto: a) a interpretação de um tratado;
soluta (artigos 7º, 8º e 10, Estatuto CIJ). Se dois nacionais do b) qualquer ponto de direito internacional; c) a existência
mesmo Estado obtiverem o mesmo número de votos, será de qualquer fato que, se verificado, constituiria violação de
considerado eleito o mais velho (art. 10, Estatuto CIJ). O Es- um compromisso internacional; d) a natureza ou extensão
tatuto da CIJ prevê, ainda, critérios de desempate (artigos 11 da reparação devida pela ruptura de um compromisso inter-
e 12, Estatuto CIJ). nacional”. Nota-se que a competência da Corte, por ser tão
abrangente, pode ou não envolver questões de direitos hu-
Os membros da Corte serão eleitos por nove anos e po- manos. Assim, não se trata de tribunal internacional que jul-
derão ser reeleitos, além do que o art. 13 do Estatuto da CIJ gue exclusivamente questões de direitos humanos, mas que
assegura que a cada três anos 5 novos membros sejam eleitos também as julga.
ou reeleitos. Na forma do mesmo artigo, o pedido de renún-
cia deve ser submetido ao Presidente da Corte e enviado ao Quando os Estados-partes aceitam a jurisdição da Corte
Secretário-geral. Já a demissão deve se dar por opinião unâ- podem o fazer de forma limitada ou ilimitada. As limitações
nime dos demais membros da Corte (art. 18, Estatuto CIJ). podem envolver um prazo determinado ou uma condição de
Em ambos casos, abre-se vaga antes que o mandato do pre- reciprocidade de um ou vários Estados (art. 36, Estatuto CIJ).
decessor se encerre, de forma que o candidato eleito comple- Entre outras, são reservas comuns que os Estados-membros
tará o seu mandato (art. 15, Estatuto CIJ). fazem à jurisdição da Corte: reciprocidade, prazo determi-
nado, em relação a apenas alguns Estados ou excluindo só
Os artigos 16 e 17 do Estatuto da CIJ trazem impedimen- alguns Estados, somente quanto a jurisdição doméstica,
tos aos seus membros: exercício de qualquer função política aplicação a litígios futuros. Tais reservas têm sido admitidas
ou administrativa, dedicação a outra ocupação de natureza pois o Estado é livre para reconhecer a cláusula como obri-
profissional, servir como agente, consultor ou advogado em gatória ou não, limitando sua aceitação, sendo mais interes-
qualquer questão e participar da decisão de qualquer ques- sante para a justiça internacional haver aceitação da cláusula
tão na qual anteriormente tenha intervindo em qualquer facultativa com reservas do que não haver qualquer aceita-
caráter (ex: consultor, advogado, membro de tribunal ou co- ção68.
missão de inquérito).
A Corte decidirá de acordo com o direito internacional,
Os membros da Corte gozam de privilégios e imunidades aplicando convenções internacionais, costumes internacio-
diplomáticas (art. 19, Estatuto CIJ) e devem declarar solene- nais, princípios gerais do Direito, decisões judiciárias e dou-
mente que exercerão suas atribuições com imparcialidade e trina. Se as partes concordarem, a Corte pode decidir a ques-
de forma contenciosa (art. 19, Estatuto CIJ). tão ex aequo et bono, expressão jurídica latina que significa
conforme o correto e válido, ou seja, caso as partes concor-
Caso um membro da Corte sinta que não deva tomar par- dem a decisão pode ser tomada com base no senso de justiça
te do julgamento deverá informar o Presidente, assim como
DIREITOS HUMANOS

este também deverá informar ao membro caso entenda que 67 O juiz ad hoc ou juiz nacional é um instituto remanescen-
ele não deverá participar do julgamento. Em ambos casos, te da arbitragem, buscando a igualdade entre os Estados e a
controvérsias serão decididas pela Corte (art. 24, Estatuto conferência de maior confiança na Corte. A instituição tem
sido criticada, pois quando um país já tem o juiz permanente
66 “O procedimento de eleição pela Assembleia Geral e pelo e outro nomeia o ad hoc há uma tendência do primeiro ser
Conselho de Segurança tem ocasionado que muitas vezes é imparcial, enquanto que o segundo vota pelo Estado que re-
ali eleito maior número de candidatos do que as vagas. Neste presenta. (Ibid., p. 660).
caso, são feitas eleições sucessivas até que o número de elei-
tos seja igual ao número de vagas”. (Ibid. p. 660). 68 Ibid., p. 662.

18
que repousa no conhecimento comum da humanidade (art. verão ser tomadas para o seu cumprimento, caso entenda ser
38, Estatuto CIJ). necessário (art. 94, Carta ONU).

Caso se mostre necessário, a Corte poderá sugerir medi- Quanto à função consultiva, o pedido de parecer será
das provisórias (art. 41, Estatuto CIJ). escrito, com exposição do assunto e juntada de documen-
tos. Os Estados-membros da Corte serão notificados sobre o
Além da função jurisdicional, a Corte desempenha fun- pedido e poderão comparecer perante a Corte. Especial no-
ção consultiva, pois tanto a Assembleia Geral quanto o Con- tificação será dada aos Estados-membros e a organizações
selho de Segurança podem solicitar parecer consultivo sobre internacionais que possam prestar informações na questão,
questão jurídica, assim como órgãos das Nações Unidas e aceitando-se destes manifestações escritas e orais. O pare-
entidades especializadas mediante autorização da Assem- cer, por sua vez, será proferido em sessão pública. No mais,
bleia Geral (art. 96, Carta). “Os pareceres não são obriga- segue-se o procedimento dos casos litigiosos (artigos 65 a 68,
tórios, entretanto, de um modo geral, têm sido cumpridos. Estatuto CIJ).
Existem alguns casos em que se convenciona previamente a
obrigatoriedade do parecer”69.
Organizações regionais
O processo da Corte terá uma fase escrita, composta de
memórias, contra memórias, réplicas e documentos; e uma a) Sistema africano: O sistema regional africano de pro-
fase oral, consistente na oitiva de testemunhas, peritos, teção de direitos humanos ainda é insípido e pouco
agentes, consultores e advogados (art. 43, Estatuto CIJ). Os efetivo. Basta ter em vista que embora a formação da
debates serão dirigidos pelo Presidente, pelo Vice-presidente primeira organização internacional nesta região, a Or-
ou pelo juiz mais velho da Corte, nesta ordem caso haja im- ganização da Unidade Africana - OUA, date de 25 de
pedimento do anterior (art. 45, Estatuto CIJ). maio de 1963, o regime do apartheid foi adotado de
1948 até o ano de 1994, além do que seus países somen-
No andamento do processo a Corte proferirá decisões a te adquiriram independência após árduo processo de
respeito deste andamento, da forma e do tempo processuais; descolonização. A dificuldade da OUA em lidar com
requererá documentos e informações; ordenará eventuais estes problemas africanos é a principal razão de sua
inquéritos ou perícias; e decidirá se receberá provas e depoi- substituição pela União Africana - UA em 9 de julho de
mentos fora do prazo (artigos 48 a 52, Estatuto CIJ). 2002. Esta nova organização é baseada no modelo da
União Europeia, visando promover a democracia, os
O art. 53 do estatuto da CIJ descreve procedimento seme- direitos humanos e o desenvolvimento econômico na
lhante ao da revelia ao prever que um Estado-parte poderá África. A UA manteve a principal regulamentação de
pedir que se reconheça a pretensão a seu favor caso o outro direitos humanos da OUA, qual seja a Carta Africana
não compareça perante a Corte, mas esta deverá examinar os dos Direitos Humanos e dos Povos, também conheci-
fundamentos de fato e de Direito antes de fazê-lo. da como Carta de Banjul, aprovada pela Conferência
Ministerial da OUA em Banjul, Gâmbia, em janeiro de
Encerrados os debates, a Corte decidirá a controvérsia, 1981, e adotada pela XVIII Assembleia dos Chefes de
privadamente e pela maioria dos presentes, com eventual Estado e Governo da OUA em Nairóbi, Quênia, em 27
desempate pelo Presidente ou juiz que funcione em seu lu- de julho de 1981. Tal documento é complementado
gar, que também assinará a decisão, de maneira fundamen- por um Protocolo Adicional, estabelecendo a Corte
tada e mencionando o nome dos juízes que assim pensaram, Africana de Direitos Humanos e dos Povos, adotado
bem como incluindo votos dissidentes em separado (artigos pelos Estados-membros da OUA em Ouagadougou,
54 a 58, Estatuto CIJ). capital do país Burkina Faso, em junho de 1998, ad-
quirindo vigência em 25 de janeiro de 2004 após ser
Conforme o art. 59 do Estatuto da CIJ, “a decisão da Corte ratificado por mais de 15 países. Tanto a referida Cor-
só será obrigatória para as partes litigantes e a respeito do te instituída pelo protocolo quanto a Comissão criada
caso em questão”. Não obstante, prevê o art. 60 do documen- pela Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos
to: “a Sentença é definitiva e inapelável. Em caso de contro- são órgãos mantidos pela nova organização africana.
vérsia quanto ao sentido e ao alcance da sentença, caberá à
Corte interpretá-la a pedido de qualquer das partes”. b) Sistema islamo-árabe: Muitas são as questões que de-
vem ser vislumbradas para compreender o porquê do
Assim, não cabe recurso da sentença da Corte. Contudo, sistema islamo-árabe, apesar de existente na prática
em hipóteses excepcionais é admitido processo de revisão, em alguns documentos regionais, tendo sido inclusive
isto é, descobrimento de algum fato suscetível de exercer in- criado um órgão específico, e na participação dos seus
fluência decisiva que à época de julgamento era de desco- países perante as Nações Unidas, é insípido e ineficaz.
nhecimento da Corte ou das partes, sendo este justificável,
DIREITOS HUMANOS

que não tenha se dado por motivo de negligência (art. 61, De fato, a disciplina regional de direitos humanos de-
Estatuto CIJ). monstra que no sistema islamo-árabe as perspectivas religio-
sas merecem destaque. Assim, na interpretação das normas
Caso uma sentença da Corte seja descumprida por uma de direitos humanos, é preciso tomar como base a lei islâmi-
das partes, a outra poderá requerer ao Conselho de Seguran- ca, notadamente o Corão e a Sunnah. A secularização já tor-
ça que faça recomendações ou decida sobre medidas que de- na mais complicada a luta pela universalidade e efetividade
dos direitos humanos. No entanto, não seria um problema
intransponível se outro fator não estivesse presente: o uso
69 Ibid., p. 664.

19
das premissas religiosas por parte dos governantes para fins cretaria-Geral; g) Das Conferências Especializadas; e h) Dos
de manutenção do poder. Organismos Especializados. Poderão ser criados, além dos
previstos na Carta e de acordo com suas disposições, os ór-
Os três principais documentos regionais no sistema em gãos subsidiários, organismos e outras entidades que forem
estudo são: Declaração Islâmica Universal dos Direitos Hu- julgados necessários”.
manos, de 19 de setembro de 1981; a Declaração do Cairo de
Direitos Humanos no Islã, de 5 agosto 1990; e a Carta Árabe
de Direitos Humanos, de 15 Setembro de 1994. Assembleia Geral
c) Sistema europeu: O principal documento europeu vol- Trata-se do órgão supremo da OEA, que, segundo o artigo
tado à proteção dos direitos humanos é a Convenção 54 da Carta da OEA, tem entre suas atribuições gerais decidir
Europeia dos Direitos do Homem, no âmbito da qual a ação e a política gerais da OEA, estruturar e delimitar fun-
se institui o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. ções e atividades dos órgãos, fortalecer a cooperação com as
Referida Convenção foi aprovada e instituída pelo Nações Unidas e outras organizações internacionais com ob-
Conselho da Europa, organização internacional fun- jetivos análogos, aprovar orçamento, adotar normas de fun-
dada em 5 de maio de 1949, sendo a mais antiga or- cionamento da Secretaria, aprovar seu próprio regulamento
ganização europeia em funcionamento, documentada (quórum: 2/3). “Todos os Estados membros têm direito a
no chamado Tratado de Londres de 1949 (Estatuto do fazer-se representar na Assembleia Geral. Cada Estado tem
Conselho da Europa). direito a um voto” (artigo 58, Carta OEA).

A reunião ordinária ocorrerá anualmente em locais di-


Sistema Interamericano ferentes consoante ao princípio do rodízio (artigo 57, Carta
OEA), mas é possível realizar convocações extraordinárias
A Carta da Organização dos Estados Americanos, que mediante aprovação de 2/3 dos Estados-Membros dirigida
criou a Organização dos Estados Americanos, foi celebrada ao Conselho Permanente (artigo 58, Carta OEA).
na IX Conferência Internacional Americana de 30 de abril de
1948, em Bogotá e entrou em vigência no dia 13 de dezembro Quanto ao quórum de votação, estabelece o artigo 59 da
de 1951, sendo reformada pelos protocolos de Buenos Aires Carta da OEA: “as decisões da Assembleia Geral serão ado-
(27 de fevereiro de 1967), de Cartagena das Índias (5 de de- tadas pelo voto da maioria absoluta dos Estados membros,
zembro de 1985), de Washington (14 de dezembro de 1992) e salvo nos casos em que é exigido o voto de dois terços, de
de Manágua (10 de junho de 1993). acordo com o disposto na Carta, ou naqueles que determinar
a Assembleia Geral, pelos processos regulamentares”.
Por ser uma organização continental, naturalmente, está
aberta apenas a Estados independentes americanos, além de
entidades políticas que deles surjam (artigos 4º, 5º e 8º, Carta Da Reunião de Consulta dos Ministros das Relações
OEA). “A Assembleia Geral, após recomendação do Conselho Exteriores
Permanente da Organização, determinará se é procedente
autorizar o Secretário-Geral a permitir que o Estado solici- “A Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exte-
tante assine a Carta e a aceitar o depósito do respectivo ins- riores deverá ser convocada a fim de considerar problemas
trumento de ratificação. Tanto a recomendação do Conselho de natureza urgente e de interesse comum para os Estados
Permanente como a decisão da Assembleia Geral requererão americanos, e para servir de Órgão de Consulta”, conforme
o voto afirmativo de dois terços dos Estados membros” (arti- texto do artigo 61 da Carta da OEA. Questões inerentes ao
go 7º, Carta OEA). funcionamento do órgão são delimitadas nos artigos 62 a 69
do documento.
Os Estados-membros possuem iguais direitos e deveres,
devendo respeitar os deveres de acordo com o direito inter-
nacional e não podendo ter seus direitos fundamentais res- Dos Conselhos
tringidos (artigos 10, 11 e 12, Carta OEA). “[...] Mesmo antes
de ser reconhecido, o Estado tem o direito de defender a sua O Conselho Permanente da Organização, especificado
integridade e independência, de promover a sua conserva- dos artigos 80 a 92 da Carta da OEA, e o Conselho Interame-
ção e prosperidade, e, por conseguinte, de se organizar como ricano de Desenvolvimento Integral, delimitado do artigo 93
melhor entender, de legislar sobre os seus interesses, de ad- a 98 da mesma, são os dois Conselhos em funcionamento
ministrar os seus serviços e de determinar a jurisdição e a na OEA, conforme artigo 70 da sua Carta. Terão representa-
competência dos seus tribunais [...]”, somente possuindo ção de todos os Estados-membros (artigo 71, Carta OEA). Os
como limites os direitos dos demais Estados (artigo 13, Carta conselhos poderão fazer recomendações aos Estados; apre-
OEA), os quais são especificados dos artigos 14 a 23 da Carta sentar estudos, propostas e projetos à Assembleia Geral e às
DIREITOS HUMANOS

da OEA. Conferências Especializadas, que poderá também convocar;


prestar serviço especializado; requerer informações e asses-
Quanto aos órgãos da OEA, explicita o artigo 53 da Car- soramento um ao outro e dos demais órgãos e organismos
ta: “a Organização dos Estados Americanos realiza os seus subsidiários; fazer reuniões no território de qualquer Esta-
fins por intermédio: a) Da Assembleia Geral; b) Da Reunião do-membro; elaborar o próprio Estatuto e Regulamento, o
de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores; c) Dos primeiro com aprovação da Assembleia Geral (artigos 72 a
Conselhos; d) Da Comissão Jurídica Interamericana; e) Da 79, Carta OEA).
Comissão Interamericana de Direitos Humanos; f) Da Se-

20
A respeito do Conselho Permanente, expõe Seitenfus70: Dos Organismos Especializados
“o Conselho é formado por representantes de todos os Es-
tados, indicados especialmente com o título de embaixador. São “os organismos intergovernamentais estabelecidos
Ele apresenta, segundo a Carta, uma ambígua situação. Não por acordos multilaterais, que tenham determinadas fun-
há reconhecimento expresso de seu caráter, e nenhum artigo ções em matérias técnicas de interesse comum para os Esta-
define claramente suas funções e tarefas. Esta flexibilidade dos americanos” (artigo 124, Carta OEA). São regulamenta-
institucional permite ao Conselho participar, de maneira dos dos artigos 125 a 130 da Carta da OEA.
ampla e nebulosa, em diferentes atividades da OEA”. Entre
as comissões ligadas ao Conselho Permanente destacam-se:
Corte Interamericana de Direitos Humanos CIDH, Comissão Comissão Interamericana de Direitos Humanos
Interamericana de Direitos Humanos (disciplinadas no Pac-
to de São José da Costa Rica) e Comissão Jurídica Interameri- A Comissão é anterior à Corte em mais de 20 anos,
cana (órgão consultivo em assuntos jurídicos)71. aliás, é anterior à Convenção Americana de Direitos Huma-
nos, atuando antes de 1969 com base na Carta da OEA e na
DUDH. Em se tratando de um mecanismo de processamento
Da Comissão Jurídica Interamericana individual, seu uso “[...] deve ser encarado como parte de um
processo de lutas políticas e sociais históricas, pela efetiva
“A Comissão Jurídica Interamericana tem por finalidade melhora das condições de vida dos grupos mais vulneráveis
servir de corpo consultivo da Organização em assuntos jurí- da sociedade brasileira. Nesta perspectiva, as organizações
dicos; promover o desenvolvimento progressivo e a codifica- não-governamentais brasileiras devem acionar o sistema in-
ção do direito internacional; e estudar os problemas jurídicos teramericano de forma estratégica e paralela às suas ações
referentes à integração dos países em desenvolvimento do no âmbito interno”72. São raros os instrumentos de proteção
Continente, bem como a possibilidade de uniformizar suas internacional dos direitos humanos que permitem o acesso
legislações no que parecer conveniente”, conforme o artigo direto por indivíduos ou grupos que o representem, sendo
99 e especificações dos artigos 100 a 105 da Carta da ONU. este o principal mérito da Comissão em estudo neste tópico.

Da Comissão Interamericana de Direitos Humanos Composição

Remete-se no artigo 106 da Carta da OEA à Comissão que Nos termos do artigo 34 da CADH, a Comissão será com-
deveria ser constituída, e o foi, pela Convenção Interameri- posta por 7 membros, dotados de alta autoridade moral e de
cana de Direitos Humanos, que será estudada adiante. reconhecido saber em matéria de direitos humanos. Tais cri-
térios são bastante subjetivos, tanto que nem é preciso for-
mação em Direito.
Da Secretaria-Geral
Embora composta de 7 membros, a Comissão representa
A Secretaria-Geral é órgão permanente e administrati- todos os membros da OEA (artigo 35, CADH), isto é, a repre-
vo da Organização, exercendo atribuições designadas pela sentatividade dos Estados perante a Comissão não é direta.
Assembleia e especificadas na Carta (artigos 107, 111 e 112,
Carta OEA). Será eleito pela Assembleia um Secretário-Ge- Os Estados-membros irão propor candidatos, formando
ral com mandato de 5 anos, permitida uma reeleição, não uma lista. Cada qual indicará até três candidatos e, possuin-
se aceitando sucessão por outro da mesma nacionalidade do sua lista este número, um deles deverá ser de outra nacio-
(artigo 108, Carta OEA). “A Assembleia Geral, com o voto de nalidade (artigo 36, CADH).
dois terços dos Estados membros, pode destituir o Secretá-
rio-Geral ou o Secretário-Geral Adjunto, ou ambos, quando O mandato é de 4 anos, aceita uma reeleição, estabele-
o exigir o bom funcionamento da Organização” (artigo 116, cendo-se no artigo 37 uma regra de transição que permita a
Carta OEA). alternância a cada dois anos. Segundo o mesmo dispositivo,
não é permitido que dois nacionais do mesmo país compo-
nham a Comissão.
Das Conferências Especializadas
O Conselho Permanente da Organização preencherá as
“As Conferências Especializadas são reuniões intergover- vagas que surjam por motivos diversos de fim de mandato,
namentais destinadas a tratar de assuntos técnicos especiais por exemplo, morte ou renúncia do membro da Comissão
ou a desenvolver aspectos específicos da cooperação intera- (artigo 38, CADH).
mericana e são realizadas quando o determine a Assembleia
Geral ou a Reunião de Consulta dos Ministros das Relações
DIREITOS HUMANOS

Exteriores, por iniciativa própria ou a pedido de algum dos


Conselhos ou Organismos Especializados” (artigo 122, Carta
OEA).
72 GALLI, Maria Beatriz; DULITZKY, Ariel E. A comissão in-
70 SEITENFUS, Ricardo. Manual das organizações interna- teramericana de direitos humanos e o seu papel central no
cionais. 5. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. sistema interamericano de proteção dos direitos humanos.
In: GOMES, Luís Flávio; PIOVESAN, Flávia (Coord.). O siste-
71 SEITENFUS, Ricardo. Manual das organizações interna- ma interamericano de proteção dos direitos humanos e o
cionais. 5. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. direito brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000.

21
Funcionamento suas funções, os Estados-partes deverão proporcionar a ela
as informações solicitadas sobre a maneira pela qual seu di-
Nos termos do artigo 39, “a Comissão elaborará seu esta- reito interno assegura a aplicação efetiva de quaisquer dispo-
tuto e submetê-lo-á à aprovação da Assembleia Geral e expe- sições da Convenção (artigo 43, CADH).
dirá seu próprio Regulamento”. O regulamento da Comissão
discrimina como se dá a sua atuação em detalhes. Por sua
vez, o Estatuto da Comissão foi aprovado pela resolução AG/ Legitimidade ativa
RES n. 447 (IX-O/79), adotada pela Assembleia Geral da OEA,
em seu Nono Período Ordinário de Sessões, realizado em La Nos termos do artigo 44 da CADH, “qualquer pessoa ou
Paz, Bolívia, em outubro de 1979. Nota-se que o Regulamen- grupo de pessoas, ou entidade não-governamental legal-
to não passa pelo crivo da Assembleia, mas somente o Esta- mente reconhecida em um ou mais Estados-membros da
tuto. Isto é coerente porque enquanto o Regulamento é mais Organização, pode apresentar à Comissão petições que con-
formal, tratando de questões ligadas ao modo de atuação da tenham denúncias ou queixas de violação desta Convenção
Comissão, o Estatuto é mais profundo, trazendo princípios e por um Estado-parte”. Logo, pessoas da sociedade e grupos
finalidades que regem a Comissão. que a representam possuem legitimidade perante este órgão
internacional.
Quanto ao órgão que movimenta administrativamente a
Comissão, isto é, desempenha os serviços de secretaria, tra- Também os Estados-partes podem ser legitimados ativos
ta-se da própria Secretaria Geral da Organização (artigo 40, quando alegue haver outro Estado-parte incorrido em viola-
CADH), não havendo então secretaria específica para a Co- ções dos direitos humanos estabelecidos nesta Convenção,
missão. mas é preciso que se faça uma declaração de competência.
Seja no momento de depósito da ratificação, seja posterior-
mente, o Estado-parte pode reconhecer a competência da
Funções Comissão para receber e examinar comunicações de um Es-
tado-parte a respeito de outro Estado-parte que tenha come-
O artigo 41 da CADH permite uma compreensão clara tido violações. Se não reconhecê-la, não poderá apresentar
a respeito das funções da Comissão: fomentar a consciên- comunicações neste sentido. No entanto, a declaração pode
cia do dever de respeito aos direitos humanos, formular ser feita por tempo determinado ou para casos específicos
recomendações a Estados-membros que estejam violando (não precisa ser por tempo indefinido), sendo depositada na
a Convenção, além de atender a consultas que estes façam, Secretaria Geral da OEA. (artigo 45, CADH).
podendo redigir estudos e relatórios e solicitar informações
para tanto, finalizando com a obrigação de apresentar relató-
rio anual sobre sua atuação. Requisitos de admissibilidade
Galli e Dulitzky73 dividem as competências da Comissão Antes de verificar a admissibilidade, a Comissão anali-
na seguinte sistemática: a) caráter promocional: assessoria sa se estão presentes os pré-requisitos processuais, se pode
aos Estados para reforçar a consciência sobre a importância apurar o objeto da petição e se os fatos ocorreram antes da
dos direitos humanos entre os povos das Américas, incluin- ratificação da Convenção pelo Estado.
do funções consultivas além de funções de assessoramento,
podendo elaborar tratados, interpretar a Convenção Ameri- Estabelece o artigo 46 da CADH: “Para que uma petição
cana e determinar a compatibilidade dela com a legislação ou comunicação apresentada de acordo com os artigos 44
interna dos Estados-membros; b) caráter protetivo: proteção ou 45 seja admitida pela Comissão, será necessário: a) que
dos direitos humanos mediante supervisão da conduta dos hajam sido interpostos e esgotados os recursos da jurisdição
Estados referentes às obrigações internacionais quanto aos interna, de acordo com os princípios de Direito Internacio-
direitos humanos, autorizada a investigação de fatos que po- nal geralmente reconhecidos; b) que seja apresentada dentro
dem chegar a ela por denúncia individual e a elaboração de do prazo de seis meses, a partir da data em que o presumido
relatórios especiais. prejudicado em seus direitos tenha sido notificado da deci-
são definitiva; c) que a matéria da petição ou comunicação
Os mesmos relatórios e estudos que os Estados-partes não esteja pendente de outro processo de solução interna-
submetem às Comissões Executivas do Conselho Interame- cional; e d) que, no caso do artigo 44, a petição contenha o
ricano Econômico e Social e do Conselho Interamericano de nome, a nacionalidade, a profissão, o domicílio e a assinatura
Educação, Ciência e Cultura deverão ser enviados à Comis- da pessoa ou pessoas ou do representante legal da entidade
são, com os fins dela zelar pelas normas econômicas, sociais que submeter a petição. 2. As disposições das alíneas “a” e
e sobre educação, ciência e cultura vigentes no âmbito da “b” do inciso 1 deste artigo não se aplicarão quando: a) não
OEA (artigo 42, CADH). existir, na legislação interna do Estado de que se tratar, o de-
vido processo legal para a proteção do direito ou direitos que
DIREITOS HUMANOS

Também para assegurar que a Comissão desempenhe se alegue tenham sido violados; b) não se houver permitido
ao presumido prejudicado em seus direitos o acesso aos re-
cursos da jurisdição interna, ou houver sido ele impedido de
73 GALLI, Maria Beatriz; DULITZKY, Ariel E. A comissão in- esgotá-los; e c) houver demora injustificada na decisão sobre
teramericana de direitos humanos e o seu papel central no os mencionados recursos”.
sistema interamericano de proteção dos direitos humanos.
In: GOMES, Luís Flávio; PIOVESAN, Flávia (Coord.). O siste- O artigo 46 é incidente em concursos, trazendo os requi-
ma interamericano de proteção dos direitos humanos e o sitos para que a petição ou comunicação seja processada
direito brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000.

22
pela Comissão: esgotamento de recursos no plano interno, ligências, ou requerendo audiências para produção de prova
a partir do qual se conta um prazo de 6 meses, que não es- testemunhal”75.
teja pendente outra busca de solução internacional e identi-
ficação da pessoa ou grupo de pessoas ou entidade não-go- É possível abreviar estas etapas no caso de uma denúncia
vernamental (se for o caso). Dispensa-se o esgotamento de grave, procedendo desde logo com a investigação, desde que
recursos e a consequente passagem de 6 meses como prazo com autorização do Estado, respeitados ainda os requisitos
quando não existir normas de proteção ao devido processo de admissibilidade (artigo 48, CADH).
legal no Estado, quando tiver sido impedido ou dificultado o
acesso ao Judiciário no país ou quando houver demora sem Obtida a solução amistosa descrita no artigo 48, se redi-
motivos para o processamento interno. girá um relatório, que será encaminhado a todos Estados-
-partes da Convenção e transmitido ao Secretário Geral da
Neste sentido, o artigo 47 estabelece que a Comissão fará OEA, contendo uma breve exposição dos fatos e da solução
um exame prévio da petição ou comunicação para decidir alcançada, e também se dará ampla informação a quaisquer
se irá processá-la ou arquivá-la, avaliando os seguintes re- partes no caso que solicitar (artigo 49, CADH).
quisitos: os descritos no artigo anterior e expostos acima, ex-
posição dos fatos que caracterizam violação dois direitos ga- No procedimento de solução amistosa, em que a Comis-
rantidos pela Convenção, não ser a petição manifestamente são exerce um papel estritamente político e diplomático,
infundada ou evidentemente improcedente, não se tratar de exige-se do Estado envolvido que esteja pronto para atuar
reprodução de petição ou comunicação anterior, já exami- com boa-fé e fazer concessões. Ele permite que as partes ne-
nada pela Comissão ou por outro organismo internacional. gociem sobre medidas concretas de reparação às violações
de direitos humanos alegadas, fornecendo vantagens para
todos envolvidos: permite que as discussões e negociações
Processo se iniciem com intermediação e fiscalização de um órgão in-
ternacional independente que é a Comissão, bem como ofe-
A comunicação ou petição passou pelo crivo do artigo 47 rece soluções mais efetivas e rápidas quando o compromisso
e será processada. O primeiro passo é a solicitação de infor- firmado é cumprido em respeito ao princípio da boa-fé76.
mações do governo ao qual pertença a autoridade apontada
como responsável pela violação, informando o conteúdo da Não obtida a conciliação, será expedido um relatório, no
comunicação ou petição, fixando-se prazo. qual se decidirá se houve de fato violação de direitos huma-
nos e serão formuladas proposições e recomendações, se
Recebidas as informações ou transcorrido o prazo deci- o caso. A ele serão agregados eventuais votos dissidentes e
dirá se continuará o processamento da petição ou comuni- exposições dos interessados. Será encaminhado aos Estados
cação, arquivando-a se não subsistirem os fundamentos da interessados que não poderão publicá-lo. (artigo 50, CADH).
petição, decidindo pela improcedência ou pela inadmissibi-
lidade com base nas novas provas ou informações, ou dando Em três meses o Estado-parte no qual ocorreu a violação
o próximo passo para a continuidade (artigo 48, CADH). deve apresentar uma solução ou levar o caso à Corte Intera-
mericana de Direitos Humanos; ou, se a Comissão não levar
Decidido continuar o expediente, produz-se provas, com o caso à Corte reconhecendo sua competência para o julga-
o devido exame do assunto exposto na petição e eventual mento daquele caso, ela mesma poderá emitir sua opinião
investigação, a qual os Estados envolvidos devem facilitar. e conclusões sobre a questão, num julgamento conclusivo.
Poderá, ainda, pedir informações. Deve, ainda, se colocar à Este julgamento conclusivo irá trazer as providências espera-
disposição para uma solução amigável. (artigo 48, CADH). das do Estado-parte em certo prazo, após o qual se decidirá
se ele tomou ou não tais medidas assecuratórias num relató-
Como a Convenção não traz critérios rígidos de valora- rio final. (artigo 51, CADH).
ção, aceita-se qualquer meio capaz de averiguar a verdade
dos fatos, incluindo documentos (textos de leis e decretos, A Comissão confere um prazo de três meses para que
passaportes, registros de imigração, documentos adminis- suas recomendações sejam cumpridas a contar da notifica-
trativos, sentenças e decisões nacionais, cartas privadas, ção e, se não o forem, ela decidirá se o caso será ou não leva-
fotografias, gravações, reportagens, entre outros), testemu- do à Corte. Para a Comissão levar o caso à Corte é preciso que
nhas, presunções e indícios, etc74. o Estado tenha aceito a competência dela, senão o caso con-

“Apesar de ter um papel aparentemente passivo nesta


fase do trâmite da denúncia, a Comissão está avaliando os 75 GALLI, Maria Beatriz; DULITZKY, Ariel E. A comissão in-
fatos apresentados e a solidez das provas. Durante esta fase teramericana de direitos humanos e o seu papel central no
do procedimento, o peticionário deve assumir um papel ati- sistema interamericano de proteção dos direitos humanos.
vo, impulsionando o procedimento através da apresentação In: GOMES, Luís Flávio; PIOVESAN, Flávia (Coord.). O siste-
DIREITOS HUMANOS

de escritos contendo informações adicionais, solicitando di- ma interamericano de proteção dos direitos humanos e o
direito brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000.
74 GALLI, Maria Beatriz; DULITZKY, Ariel E. A comissão in- 76 GALLI, Maria Beatriz; DULITZKY, Ariel E. A comissão in-
teramericana de direitos humanos e o seu papel central no teramericana de direitos humanos e o seu papel central no
sistema interamericano de proteção dos direitos humanos. sistema interamericano de proteção dos direitos humanos.
In: GOMES, Luís Flávio; PIOVESAN, Flávia (Coord.). O siste- In: GOMES, Luís Flávio; PIOVESAN, Flávia (Coord.). O siste-
ma interamericano de proteção dos direitos humanos e o ma interamericano de proteção dos direitos humanos e o
direito brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000. direito brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000.

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tinua tramitando na Comissão. Esta decisão sobre o envio ou todos os casos perante a Corte, isto é, ainda que a Comis-
não do caso para a Corte tem caráter estritamente discricio- são não leve o caso à Corte, sempre será ouvida (artigo 57,
nário e não é obrigatória. No mais, está sujeita ao prazo de CADH).
caducidade de três meses contados a partir da data em que
a Comissão encaminha o relatório para o Estado. Esta deci- A sede da Corte fica em São José, na Costa Rica, como
são deverá ser orientada para o alcance da efetiva proteção decidido em Assembleia Geral, podendo realizar reuniões
dos direitos humanos naquele caso específico, notadamente em outras localidades. Somente o secretário designado pela
quando o caso for muito grave ou quando por sua comple- Corte obrigatoriamente residirá na sede. (artigo 58, CADH).
xidade e transcendência merecer ser analisado pela Corte.77
Diferente da Comissão, a Corte possui uma secretaria es-
pecífica, a qual será dirigida pelo Secretário-Geral da OEA,
Corte Interamericana de Direitos Humanos que nomeará funcionários após consultado o Secretário da
Corte, respeitada sempre a independência da Corte (artigo
Composição 59, CADH).

A Corte é composta de sete juízes, de nacionalidades di- O Estatuto elaborado pela Corte foi aprovado pela resolu-
ferentes, nacionais dos Estados-membros da Organização, ção AG/RES n. 448 (IX-O/79), adotada pela Assembleia Geral
eleitos dentre juristas de alta autoridade moral e de reco- da OEA, em seu Nono Período Ordinário de Sessões, realiza-
nhecida competência em matéria de direitos humanos, que do em La Paz, Bolívia, outubro de 1979. Já seu Regulamento
reúnam as condições requeridas para o exercício das mais não se sujeita a tal aprovação (artigo 60, CADH).
elevadas funções judiciais, de acordo com a lei do Estado do
qual sejam nacionais, ou do Estado que os propuser como
candidatos (artigo 52, CADH). Quanto ao requisito de pos- Funções
suir condições para o exercício dos mais altos cargos judi-
ciários do país, seria, no Brasil, atender aos critérios para ser O artigo 63 da CADH resume as providências que a Corte
ministro de um Tribunal Superior. pode determinar, basicamente: que seja assegurado o gozo
do direito ou liberdade violados e, se o caso, que sejam repa-
Tais juízes serão eleitos por voto secreto, exigido quórum radas as consequências da violação, além do pagamento de
de maioria absoluta (mais da metade de todos Estados-par- indenização ao lesado. Prossegue o dispositivo esclarecendo
tes da Convenção). Cada Estado-parte pode propor até 3 que mesmo antes do final do julgamento a Corte pode tomar
candidatos e, o fazendo, deverá indicar ao menos 1 que não providências provisórias, bem como pode intervir quando o
seja seu nacional (artigo 53, CADH). caso ainda estiver na Comissão, desde que esta requeira.

O mandato durará 6 anos, aceita uma reeleição, estabe- Já o artigo 64 da CADH da competência consultiva da Cor-
lecendo-se regra de transição para a alternância trienal dos te, que poderá ser exercida pelos Estados-membros quanto à
juízes. No caso de eleição para substituir juiz cujo mandato interpretação da Convenção e de tratados correlatos à prote-
não tenha expirado, por exemplo, que tenha falecido ou re- ção dos direitos humanos, bem como pelos órgãos da OEA.
nunciado, será completado o período do mandato anterior. Há também a possibilidade de um Estado-membro buscar
Mesmo após o mandato de 6 anos, independente de reelei- parecer a respeito da compatibilidade de seu ordenamento
ção, os juízes continuarão julgando os casos que estiverem interno com os mecanismos internacionais. Afinal, a Corte
sendo processados perante eles. (artigo 54, CADH). não serve apenas para julgar litígios, mas para aconselhar e
direcionar o cumprimento das normas de direitos humanos,
Nos termos do artigo 55 da CADH, se algum juiz do caso o que inclui fazer interpretações que esclareçam dúvidas dos
foi nacional de um dos Estados-partes não precisará se afas- Estados-membros.
tar, mas o seu país não poderá indicar um juiz ad hoc. Quan-
do não for nacional, ambos Estados-partes poderão indicar Assim, “a Corte possui uma função contenciosa, que in-
o juiz ad hoc, mas se forem muitos os Estados-partes com o clui o recebimento e trâmite de casos individuais de violação
mesmo interesse eles serão considerados como uma única de direitos humanos, e uma função consultiva. Nos primei-
parte (indicando um só juiz ad hoc). ros anos de seu funcionamento, a Corte fortaleceu a proteção
internacional dos direitos humanos através da emissão de
Ao menos 5 juízes da Corte devem participar da decisão opiniões consultivas. As opiniões consultivas contribuíram
(artigo 56, CADH). para a interpretação e consequente ampliação de alguns di-
reitos consagrados na Convenção Americana sobre Direitos
Humanos”78.
Funcionamento
A Corte tem ainda a função de apresentar relatório de
DIREITOS HUMANOS

De início, destaca-se que a Comissão comparecerá em suas atividades à Assembleia: ele é anual e informa as re-

77 GALLI, Maria Beatriz; KRSTICEVIC, Viviana; DULITZKY, 78 GALLI, Maria Beatriz; DULITZKY, Ariel E. A comissão in-
Ariel E. A Corte Interamericana de Direitos Humanos: aspec- teramericana de direitos humanos e o seu papel central no
tos procedimentais e estruturais de seu funcionamento. In: sistema interamericano de proteção dos direitos humanos.
GOMES, Luís Flávio; PIOVESAN, Flávia (Coord.). O sistema In: GOMES, Luís Flávio; PIOVESAN, Flávia (Coord.). O siste-
interamericano de proteção dos direitos humanos e o direi- ma interamericano de proteção dos direitos humanos e o
to brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 83-86. direito brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000.

24
comendações feitas e as medidas que tenham sido ou não Sentença
cumpridas (artigo 65, CADH).
A Corte deve justificar sua decisão, referindo-se às pro-
vas dos autos e às normas de direitos humanos vigentes. Se
Legitimidade ativa o voto não for unânime, ou seja, o mesmo para todos, o voto
dissidente ou diverso será juntado à sentença e não ignora-
Diferente do que ocorre nas Comissões, não é qualquer do. (artigo 66, CADH).
pessoa que pode submeter um caso à Corte, mas somente
Estados-partes e a própria Comissão, não se atingindo solu- A sentença é definitiva e inapelável, ou seja, não é possí-
ção perante esta (artigo 61, CADH). vel interpor recurso para nenhum órgão, nem mesmo à As-
sembleia Geral da OEA. No máximo, é possível pedir em até
No momento do depósito do instrumento de ratificação 90 dias da notificação da sentença esclarecimentos sobre o
ou posteriormente o Estado-parte pode reconhecer como seu conteúdo. (artigo 67, CADH).
obrigatória a competência da Corte, de maneira condicio-
nada ou incondicionada - é a chamada declaração especial. A decisão da Corte deverá ser cumprida pelos Estados-
Também é possível reconhecer tal competência por conven- -partes, sob pena de sanção internacional. Eventual indeni-
ção especial, que é um tipo de tratado internacional com este zação a ser paga pelo Estado-parte será processada confor-
fim. É preciso ao menos uma das duas para que a Corte possa me as normas de execução internas (artigo 68, CADH), logo,
apreciar o caso relativo ao Estado-parte (artigo 62, CADH). a sentença é título executivo.
Não havendo reconhecimento de competência, não é pos-
sível figurar nem no polo ativo, nem no passivo de processo A sentença pronuncia-se sobre a responsabilidade do Es-
perante a Corte. tado demandado pelos fatos apresentados e dispõe sobre o
seu dever de garantir à vítima o gozo do direito ou liberdade
violados, decidindo sobre as reparações e indenizações res-
Requisitos de admissibilidade pectivas, além do eventual pagamento de custas. Neste sen-
tido, a sentença não tem um caráter meramente declaratório
“Sobre a admissibilidade da demanda, a interpretação da violação cometida pelo Estado, mas, ao contrário, requer
da própria Corte sobre o prazo de três meses, transcorridos que o mesmo adote medidas concretas para reparar as viola-
desde a notificação do relatório ao Estado pela Comissão, é ções aos direitos da Convenção Americana.
de que o mesmo não é fatal e pode ser prorrogado. Além dis-
so, a Corte determinou que a segurança jurídica exige que É conferida publicidade à sentença não só quanto aos
os Estados respeitem os prazos, e que a Comissão não faça envolvidos, mas quanto a todos Estados-partes (artigo 69,
uso arbitrário dos mesmos, principalmente em relação aos CADH), que ficarão cientes do posicionamento da Corte em
prazos estabelecidos pela Convenção Americana”79. Assim, relação a certa matéria, podendo eventualmente corrigir
embora nos termos da Convenção a submissão do caso pela alguma postura interna.
Comissão à Corte se sujeite ao prazo de caducidade de três
meses contados a partir da data em que a Comissão encami-
nha o relatório para o Estado, a Corte relativizou a previsão, Disposições comuns à Corte e à Comissão
aceitando que o caso seja encaminhado após o prazo.
As imunidades diplomáticas no curso do mandato são
Ao se defender, o Estado demandado pode apresentar ex- conferidas aos juízes da Comissão e da Corte. Estes juízes
ceções preliminares por escrito no sentido de ser o tribunal não poderão ser responsabilizados por seus votos e opiniões,
incompetente ou não haver admissibilidade da demanda, as o que influenciaria na independência com a qual devem
quais são um incidente processual processado independente atuar em suas funções. (artigo 70, CADH).
do procedimento relativo ao mérito.
O juiz não pode assumir obrigações incompatíveis com o
As exceções preliminares são questão prévia apresentadas cargo que exerce, o que é delimitado nos Estatutos da Corte
no prazo de 30 dias a contar da notificação, não paralisando e da Comissão (artigo 71, CADH). É incompatível, por exem-
o procedimento de mérito e tramitando em separado. Nelas, plo, ser ministro de Estado num dos Estados-partes da Con-
o Estado demandado pode alegar não só que a demanda não venção.
preenche os requisitos de admissibilidade, mas também que
não atende outro requisito indispensável ao prosseguimento O artigo 72 da CADH abrange o custeio dos juízes, nota-
do procedimento, como prescrição, vício insanável ou, o que damente quanto a honorários e despesas de viagem.
é comum, omissão de trâmites prévios junto à Comissão.
Somente o órgão ao qual o juiz pertence - Comissão ou
Corte - poderá requerer à Assembleia Geral a aplicação de
DIREITOS HUMANOS

sanção por violação do respectivo estatuto. Tal sanção será


aplicada mediante resolução, exigindo-se quórum de 2/3
(qualificado) dos Estados-membros para os juízes da Corte
79 GALLI, Maria Beatriz; DULITZKY, Ariel E. A comissão in- e dos Estados-partes da Convenção para os juízes da Comis-
teramericana de direitos humanos e o seu papel central no são. (artigo 73, CADH).
sistema interamericano de proteção dos direitos humanos.
In: GOMES, Luís Flávio; PIOVESAN, Flávia (Coord.). O siste-
ma interamericano de proteção dos direitos humanos e o
direito brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000.

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República Dominicana, Suriname, Trinidad e Tobago, Uru-
#FicaDica guai e Venezuela. Entre os países não signatários, destacam-se
O Sistema Interamericano de Direitos Humanos Canadá e Estados Unidos.
tem como principais órgãos que podem delibe-
rar sobre violações de direitos humanos: Item III, está incorreto porque os Estados-partes comprome-
tem-se a adotar as providências, tanto no âmbito interno
- Comissão Interamericana de Direitos Huma- quanto no externo, para efetivar cada um dos direitos reco-
nos – Legitimidade ativa de pessoas ou grupos nhecidos na Convenção.
de pessoas ou organizações de defesa dos direi-
tos humanos – Respeitado o requisito do esgo-
tamento dos recursos internos; 2) (PC-MG - Investigador de Polícia - FUMARC/2014) Ao
- Corte Interamericana de Direitos Humanos – lado do sistema global de proteção dos direitos humanos,
Legitimidade ativa da Comissão Interamericana existem os sistemas regionais. Os principais sistemas re-
e dos Estados-partes – Único órgão jurisdicional gionais de proteção dos direitos humanos, não incipien-
do sistema interamericano. tes, são, exceto o:

a) africano.

EXERCÍCIO COMENTADO b) asiático.

c) europeu.
1) (PC-MG - Escrivão de Polícia Civil - FUMARC/2011) Para
a proteção dos direitos humanos, o instrumento de maior d) interamericano.
importância no sistema interamericano é a Convenção
Americana de Direitos Humanos, também denominada Resposta: Letra B - Não existe um sistema asiático de prote-
Pacto de San José da Costa Rica. Leia as assertivas abaixo: ção aos direitos humanos. Muitos países da Ásia utilizam par-
te das regras do sistema europeu.
I. Foi esse Pacto assinado em San José, na Costa Rica, em
1969, mas somente entrou em vigor somente em 1988, a) O sistema africano existe e o órgão no qual se concentram
com a promulgação da chamada Constituição Cidadã no suas atividades, atualmente, é a União Africana - UA, cria-
Brasil. da em 9 de julho de 2002.
II. Apenas Estados-membros da Organização dos Esta- dos c) O principal documento europeu voltado à proteção dos
Americanos têm o direito de aderir à Convenção America- direitos humanos é a Convenção Europeia dos Direitos do
na, que até março de 2010 contava com 25 Estados-partes. Homem, no âmbito da qual se institui o Tribunal Europeu
dos Direitos do Homem. Referida Convenção foi aprovada
III.Os Estados-partes da Convenção têm deveres negativos e instituída pelo Conselho da Europa, organização interna-
que consistem em não violar os direitos, as medidas ne- cional fundada em 5 de maio de 1949, sendo a mais antiga
cessárias para assegurar o pleno exercício dos direitos hu- organização europeia em funcionamento, documentada
manos internacionais são da competência da ONU. no chamado Tratado de Londres de 1949 (Estatuto do Con-
selho da Europa).
Marque a opção correta:
d) A Carta da Organização dos Estados Americanos, que criou
a) somente a assertiva I é incorreta. a Organização dos Estados Americanos, foi celebrada na
IX Conferência Internacional Americana de 30 de abril de
b) as assertivas I, II e III estão corretas. 1948, em Bogotá, e entrou em vigência no dia 13 de dezem-
bro de 1951, sendo reformada pelos protocolos de Buenos
c) as assertivas I, II e III estão incorretas. Aires (27 de fevereiro de 1967), de Cartagena das Índias (5
de dezembro de 1985), de Washington (14 de dezembro de
d) somente a assertiva II está correta. 1992) e de Manágua (10 de junho de 1993).
Resposta: Letra D - Somente o item II está correto, I e III estão
incorretos. 3) (PC-MG - Investigador de Polícia - FUMARC/2014) Sobre
a Corte Interamericana de Direitos Humanos, não é corre-
Item I, está incorreto porque o Decreto nº 678, de 6 de novem- to o que se afirma em:
bro de 1992, que promulgou a Convenção Americana sobre
DIREITOS HUMANOS

Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica) de 22 de a) a Corte Interamericana, até março de 2010, no exercício
novembro de 1969, quando ela passou a vigorar no Brasil. de sua jurisdição contenciosa, havia proferido 211 senten-
ças. O Brasil, em 2006, foi condenado, pela primeira vez,
Item II, está correto porque os 25 signatários, em março de pela referida Corte no caso Damião Ximenes Lopes.
2010, que permanecem os mesmos até hoje, são: Argentina,
Barbados, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Domi- b) até maio de 2011, dos nove casos relacionados ao Brasil
nica, El Salvador, Equador, Grenada, Guatemala, Haiti, Hon- encaminhados à Corte Interamericana, nenhum teve de-
duras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, cisão final.

26
c) foi a delegação do Brasil que propôs a criação de uma movimento foi converter os direitos humanos em tema de le-
Corte Interamericana de Direitos Humanos, por ocasião gítimo interesse da comunidade internacional, o que impli-
da IX Conferência Internacional Americana, realizada em cou nos processos de universalização e internacionalização
Bogotá, em 1948. desses mesmos direitos. Esses processos permitiram, por sua
vez, a formação de um sistema normativo internacional de
d) o Brasil reconheceu em dezembro de 1998 a competência proteção de direitos humanos, de âmbito global e regional,
jurisdicional da Corte Interamericana de Direitos Huma- como também de âmbito geral e específico. Adotando o valor
nos. da primazia da pessoa humana, esses sistemas se comple-
mentam, interagindo com o sistema nacional de proteção, a
Resposta: Letra B - Alguns casos que tiveram o Brasil como fim de proporcionar a maior efetividade possível na tutela e
réu da Corte já foram julgados antes de 2011, sendo a primeira promoção de direitos fundamentais. A sistemática interna-
condenação em 2006 no caso Damião Ximenes Lopes. cional, como garantia adicional de proteção, institui meca-
nismos de responsabilização e controle internacional, acio-
a) De fato, a Corte Interamericana, até março de 2010, no náveis quando o Estado se mostra falho ou omisso na tarefa
exercício de sua jurisdição contenciosa, havia proferi- de implementar direitos e liberdades fundamentais.
do 211 sentenças. O Brasil foi condenado, pela primeira
vez, no ano de 2006 pela referida Corte no caso Damião Ao acolher o aparato internacional de proteção, bem
Ximenes Lopes. como as obrigações internacionais dele decorrentes, o Esta-
do passa a aceitar o monitoramento internacional, no que se
c) Há meio século, no mesmo ano da adoção das Decla- refere ao modo pelo qual os direitos fundamentais são res-
rações Universal e Americana dos Direitos Humanos, peitados em seu território. O Estado passa, assim, a consentir
a Delegação do Brasil à IX Conferência Internacional no controle e na fiscalização da comunidade internacional
Americana (Bogotá, 1948) propunha a criação de uma quando, em casos de violação a direitos fundamentais, a
Corte Interamericana de Direitos Humanos. Esta só se resposta das instituições nacionais se mostra insuficiente e
estabeleceu, no entanto, em 1979, depois da entrada em falha, ou, por vezes, inexistente. Enfatize-se, contudo, que a
vigor da Convenção Americana sobre Direitos Huma- ação internacional é sempre uma ação suplementar, consti-
nos. tuindo uma garantia adicional de proteção dos direitos hu-
manos.
d) O Brasil reconheceu a competência contenciosa da Cor-
te Interamericana em 10 de dezembro de 1998. Essas transformações decorrentes do movimento de in-
ternacionalização dos direitos humanos contribuíram ainda
para o processo de democratização do próprio cenário in-
O SISTEMA INTERNACIONAL DE ternacional, já que, além do Estado, novos sujeitos de direito
PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS passam a participar da arena internacional, como os indiví-
E A REDEFINIÇÃO DA CIDADANIA NO duos e as organizações não-governamentais. Os indivíduos
BRASIL convertem-se em sujeitos de direito internacional — tradi-
cionalmente, uma arena em que só os Estados podiam parti-
cipar. Com efeito, na medida em que guardam relação direta
Considerando que a jurista Flávia Piovesan é referência com os instrumentos internacionais de direitos humanos, os
expressa no edital e que ela escreveu texto sobre este tema indivíduos passam a ser concebidos como sujeitos de direito
especificamente, colaciona-se abaixo o inteiro teor deste, internacional. Na condição de sujeitos de direito internacio-
disponível na rede mundial de computadores80: nal, cabe aos indivíduos o acionamento direto de mecanis-
mos internacionais, como é o caso da petição ou comuni-
“A proposta deste estudo é tecer uma reflexão sobre o Di- cação individual, mediante a qual um indivíduo, grupos de
reito Internacional dos Direitos Humanos e a redefinição da indivíduos ou, por vezes, entidades não-governamentais,
cidadania no Brasil. Isto é, importa examinar a dinâmica da podem submeter aos órgãos internacionais competentes
relação entre o processo de internacionalização dos direitos denúncia de violação de direito enunciado em tratados in-
humanos e seu impacto e repercussão no processo de redefi- ternacionais. É correto afirmar, no entanto, que ainda se faz
nição e reconstrução da cidadania no âmbito brasileiro. necessário democratizar determinados instrumentos e ins-
tituições internacionais, de modo a que possam prover um
O Direito Internacional dos Direitos Humanos, como se espaço participativo mais eficaz, que permita maior atuação
sabe, constitui um movimento extremamente recente na de indivíduos e de entidades não-governamentais, mediante
história, surgindo, a partir do Pós-Guerra, como resposta às legitimação ampliada nos procedimentos e instâncias inter-
atrocidades cometidas durante o nazismo. É neste cenário nacionais.
que se desenha o esforço de reconstrução dos direitos huma-
nos, como paradigma e referencial ético a orientar a ordem No caso brasileiro, o processo de incorporação do Di-
DIREITOS HUMANOS

internacional contemporânea. reito Internacional dos Direitos Humanos e de seus im-


portantes instrumentos é consequência do processo
Nesse sentido, uma das principais preocupações desse de democratização. O marco inicial do processo de
incorporação de tratados internacionais de direitos humanos
pelo Direito brasileiro foi a ratificação, em 1º de fevereiro de
80 PIOVESAN, Flávia. O direito internacional dos direitos 1984, da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas
humanos e a redefinição da cidadania no Brasil. Disponível de Discriminação contra a Mulher. A partir dessa ratificação,
em: <http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/revistasp- inúmeros outros relevantes instrumentos internacionais de
ge/revista2/artigo3.htm>. Acesso em: 09 jul. 2018.

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proteção dos direitos humanos foram também incorporados pelo qual o poder político é exercido, mas envolve também a
pelo Direito Brasileiro, sob a égide da Constituição Federal de forma pela qual direitos fundamentais são implementados,
1988. Assim, a partir da Carta de 1988, importantes tratados e manifesta a contribuição da sistemática internacional de
internacionais de direitos humanos foram ratificados pelo proteção dos direitos humanos para o aperfeiçoamento do
Brasil, dentre eles: a) a Convenção Interamericana para Pre- sistema de tutela desses direitos no Brasil. Nesse prisma, o
venir e Punir a Tortura, em 20 de julho de 1989; b) a Con- aparato internacional permite intensificar as respostas ju-
venção contra a Tortura e outros Tratamentos Cruéis, De- rídicas ante casos de violação de direitos humanos e, con-
sumanos ou Degradantes, em 28 de setembro de 1989; c) a sequentemente, ao reforçar a sistemática de proteção de
Convenção sobre os Direitos da Criança, em 24 de setembro direitos, o aparato internacional permite o aperfeiçoamen-
de 1990; d) o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políti- to do próprio regime democrático. Atente-se, assim, para o
cos, em 24 de janeiro de 1992; e) o Pacto Internacional dos modo pelo qual os direitos humanos internacionais inovam
Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, em 24 de janeiro de a ordem jurídica brasileira, complementando e integrando o
1992; f ) a Convenção Americana de Direitos Humanos, em elenco de direitos nacionalmente consagrados e nele intro-
25 de setembro de 1992; g) a Convenção Interamericana para duzindo novos direitos, até então não previstos pelo ordena-
Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, em 27 mento jurídico interno.
de novembro de 1995.
Enfatize-se que a Constituição brasileira de 1988, como
O processo de democratização possibilitou, assim, a marco jurídico da institucionalização dos direitos humanos
reinserção do Brasil na arena internacional de proteção dos e da transição democrática no país, ineditamente, consagra
direitos humanos — embora relevantes medidas ainda ne- o primado do respeito aos direitos humanos como paradig-
cessitem ser adotadas pelo Estado brasileiro para o completo ma propugnado para a ordem internacional. Esse princípio
alinhamento do país à causa da plena vigência dos direitos invoca a abertura da ordem jurídica brasileira ao sistema
humanos. Com efeito, para que o Brasil se alinhe efetiva- internacional de proteção dos direitos humanos e, ao mes-
mente à sistemática internacional de proteção dos direitos mo tempo, exige uma nova interpretação de princípios tra-
humanos, relativamente aos tratados ratificados, é emer- dicionais como a soberania nacional e a não-intervenção,
gencial uma mudança radical de atitude política, de modo impondo a flexibilização e relativização desses valores. Se
a que o Estado Brasileiro não mais se recuse a aceitar proce- para o Estado brasileiro a prevalência dos direitos humanos
dimentos que permitam acionar de forma direta e eficaz a é princípio a reger o Brasil no cenário internacional, está-se
international accountability, como a sistemática de petições consequentemente admitindo a concepção de que os direi-
individuais e comunicações interestatais, acrescida da com- tos humanos constituem tema de legítima preocupação e in-
petência jurisdicional da Corte Interamericana. Superar essa teresse da comunidade internacional. Os direitos humanos,
postura de recuo e retrocesso — que remonta ao período de para a Carta de 1988, surgem como tema global.
autoritarismo — é fundamental à plena e integral proteção
dos direitos humanos no âmbito nacional. Neste sentido, é O texto democrático ainda rompe com as Constituições
prioritária ao Estado Brasileiro a revisão de declarações res- anteriores ao estabelecer um regime jurídico diferenciado
tritivas elaboradas, por exemplo, quando da ratificação da aplicável aos tratados internacionais de proteção dos di-
Convenção Americana. É também prioritária a reavaliação reitos humanos. À luz desse regime, os tratados de direitos
da posição do Estado Brasileiro quanto a cláusulas e pro- humanos são incorporados automaticamente pelo Direito
cedimentos facultativos — destacando-se a premência do brasileiro e passam a apresentar status de norma constitu-
Brasil reconhecer a competência jurisdicional da Corte Inte- cional, diversamente dos tratados tradicionais, os quais se
ramericana de Direitos Humanos, bem como a urgência em sujeitam à sistemática da incorporação legislativa e detêm
aceitar os mecanismos de petição individual e comunicação status hierárquico infraconstitucional. A Carta de 1988 aco-
interestatal previstos nos tratados já ratificados. Deve ainda o lhe, desse modo, um sistema misto, que combina regimes
Estado brasileiro adotar medidas que assegurem eficácia aos jurídicos diferenciados — um aplicável aos tratados interna-
direitos constantes nos instrumentos internacionais de pro- cionais de proteção dos direitos humanos e o outro aplicável
teção, como, por exemplo, no caso da Convenção contra a aos tratados tradicionais. Esse sistema misto se fundamenta
Tortura. A essas providências adicione-se a urgência do Bra- na natureza especial dos tratados internacionais de direitos
sil incorporar relevantes tratados internacionais ainda pen- humanos que — distintamente dos tratados tradicionais que
dentes de ratificação, como o Protocolo Facultativo ao Pacto objetivam assegurar uma relação de equilíbrio e reciproci-
Internacional dos Direitos Civis e Políticos. dade entre Estados pactuantes — priorizam a busca em as-
segurar a proteção da pessoa humana, até mesmo contra o
Inobstante todas essas ações sejam essenciais para o próprio Estado pactuante.
completo alinhamento do país à causa dos direitos humanos,
há que se reiterar que na experiência brasileira faz-se clara a Insista-se, a Constituição de 1988, por força do artigo
relação entre o processo de democratização e a reinserção do 5º, parágrafos 1º e 2º, atribuiu aos direitos humanos inter-
Estado Brasileiro no cenário internacional de proteção dos nacionais natureza de norma constitucional, incluindo-os
DIREITOS HUMANOS

direitos humanos. Nesse sentido, percebe-se a dinâmica e a no elenco dos direitos constitucionalmente garantidos, que
dialética da relação entre Democracia e Direitos Humanos, apresentam aplicabilidade imediata. Essa conclusão advém
tendo em vista que, se o processo de democratização permi- de interpretação sistemática e teleológica do texto consti-
tiu a ratificação de relevantes tratados internacionais de di- tucional de 1988, especialmente em face da força expansiva
reitos humanos, por sua vez essa ratificação permitiu o forta- dos valores da dignidade humana e dos direitos fundamen-
lecimento do processo democrático, através da ampliação e tais, como parâmetros axiológicos a orientar a compreensão
do reforço do universo de direitos fundamentais por ele asse- do fenômeno constitucional. Com a Carta democrática de
gurado. Se a busca democrática não se atém apenas ao modo 1988, a dignidade da pessoa humana, bem como os direitos e

28
garantias fundamentais vêm a constituir os princípios cons- Seja em face da sistemática de monitoramento interna-
titucionais que incorporam as exigências de justiça e dos cional que proporciona, seja em face do extenso universo de
valores éticos, conferindo suporte axiológico a todo sistema direitos que assegura, o Direito Internacional dos Direitos
jurídico brasileiro. A esse raciocínio se conjuga o princípio Humanos vem a instaurar o processo de redefinição do pró-
da máxima efetividade das normas constitucionais, parti- prio conceito de cidadania, no âmbito brasileiro. O conceito
cularmente das normas concernentes a direitos e garantias de cidadania se vê, assim, alargado e ampliado, na medida
fundamentais, que hão de alcançar a maior carga de efeti- em que passa a incluir não apenas direitos previstos no plano
vidade possível — este princípio vem a consolidar o alcance nacional, mas também direitos internacionalmente enun-
interpretativo que se propõe relativamente aos parágrafos do ciados. A sistemática internacional de accountability vem
artigo 5º do texto. ainda a integrar esse conceito renovado de cidadania, tendo
em vista que, ao lado das garantias nacionais, são adiciona-
A favor da natureza constitucional dos direitos enuncia- das garantias de natureza internacional. Consequentemente,
dos nos tratados internacionais, adicione-se também o fato o desconhecimento dos direitos e garantias internacionais
do processo de globalização ter implicado na abertura da importa no desconhecimento de parte substancial dos di-
Constituição à normação internacional. Tal abertura resultou reitos da cidadania, por significar a privação do exercício de
na ampliação do bloco de constitucionalidade, que passou a direitos acionáveis e defensáveis na arena internacional.
incorporar preceitos enunciadores de direitos fundamentais
que, embora decorrentes de fonte internacional, veiculam Hoje pode-se afirmar que a realização plena e não apenas
matéria e conteúdo de inegável natureza constitucional. Ad- parcial dos direitos da cidadania envolve o exercício efetivo e
mitir o contrário traduziria o equívoco de consentir na exis- amplo dos direitos humanos, nacional e internacionalmente
tência de duas categorias diversas de direitos fundamentais assegurados”.
— uma de status hierárquico constitucional e outra de status
ordinário. Há que ser também afastada a frágil argumenta-
ção de que os direitos internacionais integrariam o universo #FicaDica
impreciso e indefinido dos direitos implícitos, decorrentes Flávia Piovesan, em seu texto, efetua uma abor-
do regime ou dos princípios adotados pela Constituição. dagem sobre a legitimação do direito interna-
Ainda que não explícitos no texto constitucional, os direitos cional dos direitos humanos e sobre o movi-
internacionais são direitos “explicitáveis”, bastando para tan- mento de inserção da pessoa humana como
to a menção aos dispositivos dos tratados internacionais de sujeito de direito internacional para que isso
proteção dos direitos humanos, que demarcam um catálogo acontecesse, embora tal inserção seja, de fato,
claro, preciso e definido de direitos. Em suma, todos esses ar- bastante limitada.
gumentos se reúnem no sentido de endossar o regime cons-
titucional privilegiado conferido aos tratados de proteção de
direitos humanos — regime esse semelhante ao que é confe-
rido aos demais direitos e garantias constitucionais. EXERCÍCIO COMENTADO
Quanto ao impacto jurídico do Direito Internacional dos
Direitos Humanos no Direito brasileiro e por força do princí- 1) (PC-MG - Investigador de Policia - FUMARC/2014) O Bra-
pio da norma mais favorável à vítima — que assegura a pre- sil tem revelado, nos últimos anos, crescente alinhamento
valência da norma que melhor e mais eficazmente projeta os à arquitetura de proteção internacional dos direitos hu-
direitos humanos — os direitos internacionais apenas vêm a manos. Diante desse posicionamento que anuncia uma
aprimorar e fortalecer, jamais a restringir ou debilitar, o grau esperança emancipatória do sujeito de direitos, sob o
de proteção dos direitos consagrados no plano normativo prisma jurídico-político, em face da proteção dos direitos
constitucional. A sistemática internacional de proteção vem humanos, é correto afirmar que:
ainda a permitir a tutela, a supervisão e o monitoramento de
direitos por organismos internacionais. a) o Brasil, mesmo depois de condenado pela Corte Intera-
mericana de Direitos Humanos no Caso Escher e outros
Embora incipiente no Brasil, verifica-se que a advocacia versus Brasil, que envolveu a interceptação e o monitora-
do Direito Internacional dos Direitos Humanos tem sido ca- mento ilegal de linhas telefônicas, não autorizou o cum-
paz de propor relevantes ações internacionais, invocando a primento da sentença por entender que essa medida de-
atenção da comunidade internacional para a fiscalização e pende de decisão do Supremo Tribunal Federal.
controle de sérios casos de violação de direitos humanos. No
momento em que tais violações são submetidas à arena in- b) o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, edita-
ternacional, elas se tornam mais visíveis, salientes e públicas. do no âmbito do sistema global de proteção dos direitos
Diante da publicidade de casos de violações de direitos hu- humanos, tem a ele o Segundo Protocolo ao Pacto Inter-
manos e de pressões internacionais, o Estado se vê “compe- nacional de Direitos Civis e Políticos, adotado em 15 de
dezembro de 1989, que estabelece que cada Estado-parte
DIREITOS HUMANOS

lido” a prover justificações, o que tende a implicar em altera-


ções na própria prática do Estado relativamente aos direitos deverá adotar todas as medidas necessárias para abolir a
humanos, permitindo, por vezes, um sensível avanço na for- pena de morte em sua jurisdição. O citado Protocolo ain-
ma pela qual esses direitos são nacionalmente respeitados da não foi ratificado pelo Brasil.
e implementados. A ação internacional constitui, portanto,
um importante fator para o fortalecimento da sistemática de c) o Protocolo à Convenção Americana referente aos Direitos
implementação dos direitos humanos. Econômicos, Sociais e Culturais (Protocolo de San Salva-
dor) foi ratificado pelo Brasil.

29
d) o Protocolo Facultativo ao Pacto dos Direitos Civis e Políti- Neste sentido, disciplina:
cos, no âmbito do sistema global de proteção aos direitos
humanos, que trata do mecanismo das petições indivi- Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela
duais, está pendente de apreciação no Congresso Nacio- união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Fe-
nal. deral, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem
como fundamentos:
Resposta: Letra C - O Decreto nº 3.321, de 30 de dezembro de
1999, promulga o Protocolo Adicional à Convenção America- I - a soberania;
na sobre Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômi-
cos, Sociais e Culturais “Protocolo de São Salvador”, concluído II - a cidadania;
em 17 de novembro de 1988, em São Salvador, El Salvador.
III - a dignidade da pessoa humana;
a) A sentença está sendo cumprida e devidamente supervisio-
nada. IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;

b) e d) O Brasil ratificou o documento. Neste sentido, o Decreto V - o pluralismo político.


Legislativo nº 311, de 2009, que aprova o texto do Protocolo
Facultativo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Polí- Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce
ticos, adotado em Nova Iorque, em 16 de dezembro de 1966, e por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos
do Segundo Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional so- desta Constituição.
bre Direitos Civis e Políticos com vistas à Abolição da Pena de
Morte, adotado e proclamado pela Resolução nº 44/128, de 15 Vale estudar o significado e a abrangência de cada qual
de dezembro de 1989, com a reserva expressa no art. 2º. destes fundamentos, relacionando-os com a proteção dos
direitos humanos.

2) (PC-MG - Técnico Assistente da Polícia Civil -


Administrativa - FUMARC/2013) Podem ser considera- Soberania
dos avanços da política brasileira na arena internacional
de proteção dos direitos humanos, EXCETO: Soberania significa o poder supremo que cada nação
possui de se autogovernar e se autodeterminar. Este concei-
a) A assinatura do Protocolo Facultativo à Convenção contra to surgiu no Estado Moderno, com a ascensão do absolutis-
a Tortura. mo, colocando o reina posição de soberano. Sendo assim,
poderia governar como bem entendesse, pois seu poder era
b) A ratificação do Estatuto de Roma, que criou o Tribunal exclusivo, inabalável, ilimitado, atemporal e divino, ou seja,
Penal Internacional. absoluto.

c) A ratificação do Protocolo Facultativo ao Pacto Internacio- Neste sentido, Thomas Hobbes81, na obra Leviatã, defen-
nal dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de que quando os homens abrem mão do estado natural,
deixa de predominar a lei do mais forte, mas para a conso-
d) A ratificação do Protocolo Facultativo à Convenção sobre lidação deste tipo de sociedade é necessária a presença de
a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra uma autoridade à qual todos os membros devem render o
a Mulher. suficiente da sua liberdade natural, permitindo que esta au-
toridade possa assegurar a paz interna e a defesa comum.
Resposta: Letra C - O Brasil ainda não ratificou o Protocolo Este soberano, que à época da escrita da obra de Hobbes se
Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, consolidava no monarca, deveria ser o Leviatã, uma autori-
Sociais e Culturais, o que é considerado um retrocesso na polí- dade inquestionável.
tica brasileira de proteção aos direitos humanos.
No mesmo direcionamento se encontra a obra de Ma-
a), b) e d). Todos os documentos foram ratificados no ordena- quiavel82, que rejeitou a concepção de um soberano que de-
mento brasileiro, ampliando a proteção dos direitos humanos veria ser justo e ético para com o seu povo, desde que sempre
no âmbito interno. tivesse em vista a finalidade primordial de manter o Estado
íntegro: “na conduta dos homens, especialmente dos prínci-
pes, contra a qual não há recurso, os fins justificam os meios.
A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988: Portanto, se um príncipe pretende conquistar e manter o po-
DOS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS der, os meios que empregue serão sempre tidos como honro-
sos, e elogiados por todos, pois o vulgo atenta sempre para as
DIREITOS HUMANOS

aparências e os resultados”.
Fundamentos da República

O título I da Constituição Federal trata dos princípios 81 MALMESBURY, Thomas Hobbes de. Leviatã. Tradução
fundamentais do Estado brasileiro e começa, em seu artigo de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. [s.c]:
1º, trabalhando com os fundamentos da República Federa- [s.n.], 1861.
tiva brasileira, ou seja, com as bases estruturantes do Estado 82 MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Tradução Pietro Nasse-
nacional. tti. São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 111.

30
A concepção de soberania inerente ao monarca se que- des políticas maiores, surgindo as chamadas cidades-estado
brou numa fase posterior, notadamente com a ascensão do ou polis, como Tebas, Esparta e Atenas. Inicialmente eram
ideário iluminista. Com efeito, passou-se a enxergar a sobe- monarquias, transformaram-se em oligarquias e, por volta
rania como um poder que repousa no povo. Logo, a autorida- dos séculos V e VI a.C., tornaram-se democracias. Com efeito,
de absoluta da qual emana o poder é o povo e a legitimidade as origens da chamada democracia se encontram na Grécia
do exercício do poder no Estado emana deste povo. antiga, sendo permitida a participação direta daqueles pou-
cos que eram considerados cidadãos, por meio da discussão
Com efeito, no Estado Democrático se garante a sobera- na polis.
nia popular, que pode ser conceituada como “a qualidade
máxima do poder extraída da soma dos atributos de cada Democracia (do grego, demo+kratos) é um regime po-
membro da sociedade estatal, encarregado de escolher os lítico em que o poder de tomar decisões políticas está com
seus representantes no governo por meio do sufrágio univer- os cidadãos, de forma direta (quando um cidadão se reúne
sal e do voto direto, secreto e igualitário”83. com os demais e, juntos, eles tomam a decisão política) ou
indireta (quando ao cidadão é dado o poder de eleger um re-
Neste sentido, liga-se diretamente ao parágrafo único do presentante).
artigo 1º, CF, que prevê que “todo o poder emana do povo,
que o exerce por meio de representantes eleitos ou direta- Portanto, o conceito de democracia está diretamente li-
mente, nos termos desta Constituição”. O povo é soberano gado ao de cidadania, notadamente porque apenas quem
em suas decisões e as autoridades eleitas que decidem em possui cidadania está apto a participar das decisões políticas
nome dele, representando-o, devem estar devidamente legi- a serem tomadas pelo Estado.
timadas para tanto, o que acontece pelo exercício do sufrágio
universal. Cidadão é o nacional, isto é, aquele que possui o vínculo
político-jurídico da nacionalidade com o Estado, que goza de
O direito internacional dos direitos humanos é, por sua direitos políticos, ou seja, que pode votar e ser votado (sufrá-
própria natureza, um limitador da soberania dos Estados, gio universal).
sendo constante o embate entre estes. Tanto é assim que a
doutrina divide posicionamentos sobre o tema: Destacam-se os seguintes conceitos correlatos:

a) Corrente 1: Soberania é absoluta e não comporta gra- a) Nacionalidade: é o vínculo jurídico-político que liga
dações (Manuel Gonçalves Ferreira Filho e José Crete- um indivíduo a determinado Estado, fazendo com que
lla Júnior); ele passe a integrar o povo daquele Estado, desfrutan-
do assim de direitos e obrigações.
b) Corrente 2: Não existe possibilidade de convivência
harmoniosa entre a Soberania e o Direito Internacio- b) Povo: conjunto de pessoas que compõem o Estado,
nal (Valério Mazzouli); unidas pelo vínculo da nacionalidade.

c) Corrente 3 – Dominante: Harmonização entre os prin- c) População: conjunto de pessoas residentes no Estado,
cípios de direito internacional e o conceito de sobera- nacionais ou não.
nia (Carta das Nações Unidas, Marcelo Varella, Bruna
Pinotti). Aponta Varella: “Mesmo entre os juristas mais Depreende-se que a cidadania é um atributo conferido
tradicionais, a soberania de hoje não é mais concebi- aos nacionais titulares de direitos políticos, permitindo a
da como um poder absoluto e incondicionado; é um consolidação do sistema democrático.
conjunto de competências exercidas no interesse geral
da população nacional, mas também, ainda que em Tanto a nacionalidade quanto a cidadania são reconheci-
menor medida, de acordo com os interesses gerais da das como direitos humanos na própria Declaração Universal:
comunidade internacional como um todo. O conjunto
de limitações consolida-se sobre as duas faces da so- Artigo 15, DUDH
berania interna e externa”84.
I) Todo homem tem direito a uma nacionalidade.

Cidadania II) Ninguém será arbitrariamente privado de sua naciona-


lidade, nem do direito de mudar de nacionalidade.
Quando se afirma no caput do artigo 1º que a Repúbli-
ca Federativa do Brasil é um Estado Democrático de Direito, Artigo 21, DUDH
remete-se à ideia de que o Brasil adota a democracia como
regime político. I) Todo o homem tem o direito de tomar parte no governo
DIREITOS HUMANOS

de seu país diretamente ou por intermédio de represen-


Historicamente, nota-se que por volta de 800 a.C. as co- tantes livremente escolhidos.
munidades de aldeias começaram a ceder lugar para unida-
II) Todo o homem tem igual direito de acesso ao serviço
83 BULOS, Uadi Lammêngo. Constituição federal anotada. público do seu país.
São Paulo: Saraiva, 2000.
III) A vontade do povo será a base da autoridade do gover-
84 VARELLA, Marcelo D. Direito Internacional Público. 4. no; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legí-
Ed. São Paulo: Saraiva, 2012.

31
timas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo Destaca-se que o reconhecimento da dignidade humana
equivalente que assegure a liberdade de voto. já ganha destaque na primeira frase do preâmbulo da De-
claração Universal dos Direitos Humanos: “CONSIDERAN-
DO que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os
Dignidade da pessoa humana membros da família humana e seus direitos iguais e inalie-
náveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no
A dignidade da pessoa humana é o valor-base de inter- mundo”. Se repete em seu artigo I: “Todos os homens nascem
pretação de qualquer sistema jurídico, internacional ou na- livres e iguais em dignidade e direitos” [...].
cional, que possa se considerar compatível com os valores
éticos, notadamente da moral, da justiça e da democracia.
Pensar em dignidade da pessoa humana significa, acima de Valores sociais do trabalho e da livre iniciativa
tudo, colocar a pessoa humana como centro e norte para
qualquer processo de interpretação jurídico, seja na elabora- Quando o constituinte coloca os valores sociais do traba-
ção da norma, seja na sua aplicação. lho em paridade com a livre iniciativa fica clara a percepção
de necessário equilíbrio entre estas duas concepções. De um
Sem pretender estabelecer uma definição fechada ou ple- lado, é necessário garantir direitos aos trabalhadores, nota-
na, é possível conceituar dignidade da pessoa humana como damente consolidados nos direitos sociais enumerados no
o principal valor do ordenamento ético e, por consequência, artigo 7º da Constituição; por outro lado, estes direitos não
jurídico que pretende colocar a pessoa humana como um su- devem ser óbice ao exercício da livre iniciativa, mas sim ve-
jeito pleno de direitos e obrigações na ordem internacional e tores que reforcem o exercício desta liberdade dentro dos li-
nacional, cujo desrespeito acarreta a própria exclusão de sua mites da justiça social, evitando o predomínio do mais forte
personalidade. sobre o mais fraco.

Aponta Barroso85: “o princípio da dignidade da pessoa Por livre iniciativa entenda-se a liberdade de iniciar a ex-
humana identifica um espaço de integridade moral a ser as- ploração de atividades econômicas no território brasileiro,
segurado a todas as pessoas por sua só existência no mun- coibindo-se práticas de truste (ex.: monopólio). O consti-
do. É um respeito à criação, independente da crença que se tuinte não tem a intenção de impedir a livre iniciativa, até
professe quanto à sua origem. A dignidade relaciona-se tanto mesmo porque o Estado nacional necessita dela para crescer
com a liberdade e valores do espírito como com as condições economicamente e adequar sua estrutura ao atendimento
materiais de subsistência”. crescente das necessidades de todos os que nele vivem. Sem
crescimento econômico, nem ao menos é possível garan-
O Ministro Alberto Luiz Bresciani de Fontan Pereira, do tir os direitos econômicos, sociais e culturais afirmados na
Tribunal Superior do Trabalho, trouxe interessante conceito Constituição Federal como direitos fundamentais.
numa das decisões que relatou: “a dignidade consiste na per-
cepção intrínseca de cada ser humano a respeito dos direitos No entanto, a exploração da livre iniciativa deve se dar
e obrigações, de modo a assegurar, sob o foco de condições de maneira racional, tendo em vista os direitos inerentes
existenciais mínimas, a participação saudável e ativa nos aos trabalhadores, no que se consolida a expressão “valores
destinos escolhidos, sem que isso importe destilação dos va- sociais do trabalho”. A pessoa que trabalha para aquele que
lores soberanos da democracia e das liberdades individuais. explora a livre iniciativa deve ter a sua dignidade respeitada
O processo de valorização do indivíduo articula a promoção em todas as suas dimensões, não somente no que tange aos
de escolhas, posturas e sonhos, sem olvidar que o espectro direitos sociais, mas em relação a todos os direitos funda-
de abrangência das liberdades individuais encontra limi- mentais afirmados pelo constituinte.
tação em outros direitos fundamentais, tais como a honra,
a vida privada, a intimidade, a imagem. Sobreleva registrar A questão resta melhor delimitada no título VI do texto
que essas garantias, associadas ao princípio da dignidade da constitucional, que aborda a ordem econômica e financei-
pessoa humana, subsistem como conquista da humanidade, ra: “Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do
razão pela qual auferiram proteção especial consistente em trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegu-
indenização por dano moral decorrente de sua violação”86. rar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça
social, observados os seguintes princípios [...]”. Nota-se no
Quando a Constituição Federal assegura a dignidade da caput a repetição do fundamento republicano dos valores
pessoa humana como um dos fundamentos da República, faz sociais do trabalho e da livre iniciativa.
emergir uma nova concepção de proteção de cada membro
do seu povo. Tal ideologia de forte fulcro humanista guia a No âmbito do direito internacional dos direitos huma-
afirmação de todos os direitos fundamentais e confere a eles nos, surgem agências especializadas da Organização das
posição hierárquica superior às normas organizacionais do Nações Unidas cujo objetivo é resguardar ambos aspectos,
Estado, de modo que é o Estado que está para o povo, deven- por exemplo, a OMC – Organização Mundial do Comércio e
DIREITOS HUMANOS

do garantir a dignidade de seus membros, e não o inverso. a OMPI – Organização Mundial da Propriedade Intelectual
resguardam ambas o direito à livre iniciativa, o combate ao
85 BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplicação da monopólio e à expropriação de inventos e descobertas, entre
Constituição. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 382. outros objetos; e a OIT – Organização Internacional do Tra-
balho vela pela livre iniciativa.
86 BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. Recurso de Revis-
ta n. 259300-59.2007.5.02.0202. Relator: Alberto Luiz Bres-
ciani de Fontan Pereira. Brasília, 05 de setembro de 2012j1.
Disponível em: www.tst.gov.br. Acesso em: 17 nov. 2012.

32
Pluralismo político Francesa e Americana se destacam Locke, Montesquieu e
Rousseau, sendo que Montesquieu foi o que mais trabalhou
A expressão pluralismo remete ao reconhecimento da com a concepção de separação dos Poderes.
multiplicidade de ideologias culturais, religiosas, econômi-
cas e sociais no âmbito de uma nação. Quando se fala em Montesquieu (1689 – 1755) avançou nos estudos de Lo-
pluralismo político, afirma-se que mais do que incorporar cke, que também entendia necessária a separação dos Pode-
esta multiplicidade de ideologias cabe ao Estado nacional res, e na obra O Espírito das Leis estabeleceu em definitivo
fornecer espaço para a manifestação política delas. a clássica divisão de poderes: Executivo, Legislativo e Judi-
ciário. O pensador viveu na França, numa época em que o
Sendo assim, pluralismo político significa não só respei- absolutismo estava cada vez mais forte.
tar a multiplicidade de opiniões e ideias, mas acima de tudo
garantir a existência dela, permitindo que os vários grupos O objeto central da principal obra de Montesquieu87
que compõem os mais diversos setores sociais possam se fa- não é a lei regida nas relações entre os homens, mas as leis
zer ouvir mediante a liberdade de expressão, manifestação e e instituições criadas pelos homens para reger as relações
opinião, bem como possam exigir do Estado substrato para entre os homens. Segundo Montesquieu88, as leis criam cos-
se fazerem subsistir na sociedade. tumes que regem o comportamento humano, sendo influen-
ciadas por diversos fatores, não apenas pela razão.
Pluralismo político vai além do pluripartidarismo ou
multipartidarismo, que é apenas uma de suas consequências Quanto à fonte do poder, diferencia-se, segundo Mon-
e garante que mesmo os partidos menores e com poucos re- tesquieu89, do modo como se dará o seu exercício, uma vez
presentantes sejam ouvidos na tomada de decisões políticas, que o poder emana do povo, apto a escolher mas inapto a go-
porque abrange uma verdadeira concepção de multicultura- vernar, sendo necessário que seu interesse seja representado
lidade no âmbito interno. conforme sua vontade.

No direito internacional dos direitos humanos tanto é re- Montesquieu90 estabeleceu como condição do Estado de
conhecido o direito à cultura quanto o direito de todos parti- Direito a separação dos Poderes em Legislativo, Judiciário e
ciparem da vida política do país (o que é corolário lógico do Executivo – que devem se equilibrar –, servindo o primeiro
pluripartidarismo). para a elaboração, a correção e a ab-rogação de leis, o segun-
do para a promoção da paz e da guerra e a garantia de segu-
rança, e o terceiro para julgar (mesmo os próprios Poderes).
Separação dos Poderes
Portanto, é possível notar que a base do ideário da sepa-
A separação de Poderes é inerente ao modelo do Estado ração dos poderes está justamente numa das principais cor-
Democrático de Direito, impedindo a monopolização do po- rentes filosóficas que embasou a doutrina dos direitos huma-
der e, por conseguinte, a tirania e a opressão. Resta garantida nos. Os tratados de direitos humanos não exigem de forma
no artigo 2º da Constituição Federal com o seguinte teor: expressa que se adote a forma tripartite de separação de
poderes, preocupando-se, contudo, em assegurar que cada
Art. 2º São Poderes da União, independentes e harmônicos uma das funções do Estado seja exercida de forma imparcial
entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. e justa.

Se, por um lado, o Estado é uno, até mesmo por se legi-


timar na soberania popular; por outro lado, é necessária a Funções típicas e atípicas
divisão de funções das atividades estatais de maneira equi-
librada, o que se faz pela divisão de Poderes. Por função típica entenda-se aquela para a qual o Poder
foi criado.
O constituinte afirma que estes poderes são independen-
tes e harmônicos entre si. Independência significa que cada a) Função típica do Poder Executivo: administrar – gerir
qual possui poder para se autogerir, notadamente pela ca- a coisa pública e aplicar a lei;
pacidade de organização estrutural (criação de cargos e sub-
divisões) e orçamentária (divisão de seus recursos conforme b) Funções típicas do Poder Legislativo: legislar – alte-
legislação por eles mesmos elaborada). Harmonia significa rando e criando a ordem jurídica vigente – e fiscalizar
que cada Poder deve respeitar os limites de competência do o Executivo – fiscalizando a contabilidade, o orçamen-
outro e não se imiscuir indevidamente em suas atividades to, as finanças e o patrimônio do Executivo;
típicas.
c) Função típica do Poder Judiciário: julgar – solucionar

Fundamentos filosóficos
DIREITOS HUMANOS

87 MONTESQUIEU, Charles de Secondat. O Espírito das


A noção de separação de Poderes começou a tomar for- Leis. Tradução Fernando Henrique Cardoso e Leôncio Mar-
ma com o ideário iluminista. Neste viés, o Iluminismo lan- tins Rodrigues. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 25.
çou base para os dois principais eventos que ocorreram no
início da Idade Contemporânea, quais sejam as Revoluções 88 Ibid., p. 26.
Francesa e Industrial. Entre os pensadores que lançaram as 89 Ibid., p. 32.
ideias que vieram a ser utilizadas no ideário das Revoluções
90 Ibid., p. 148-149.

33
litígios e fazer valer a lei no caso concreto e, eventual- para cada uma destas perspectivas.
mente, em casos abstratos, como no controle de cons-
titucionalidade. Garantir o desenvolvimento nacional

Funções atípicas são aquelas que tradicionalmente per- Para que o governo possa prover todas as condições ne-
tenceriam a outro Poder, mas por ser tal função inerente à cessárias à implementação de todos os direitos fundamentais
sua natureza será por ele mesmo desempenhada. da pessoa humana mostra-se essencial que o país se desen-
volva, cresça economicamente, de modo que cada indivíduo
a) Funções atípicas do Poder Executivo: legislar – no- passe a ter condições de perseguir suas metas. Conforme um
tadamente quando o Presidente da República adota país cresça, mais viável investir nos direitos humanos que
uma medida provisória (art. 62, CF) – e julgar –no que necessitam da intervenção do Estado para serem fomenta-
tange a defesas e recursos administrativos; dos, notadamente, direitos econômicos, sociais e culturais.

b) Funções atípicas do Poder Legislativo: auto-organi-


zar-se (função executiva) – dispondo sobre organiza- Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as
ção, provimento de cargos, concessão de férias e li- desigualdades sociais e regionais
cenças a seus servidores, etc. – e julgar – a exemplo do
julgamento do Presidente da República por crime de Garantir o desenvolvimento econômico não basta para a
responsabilidade pelo Senado Federal (art. 52, I, CF); construção de uma sociedade justa e solidária. É necessário
ir além e nunca perder de vista a perspectiva da igualdade
c) Funções atípicas do Poder Judiciário: auto-organizar- material. Logo, a injeção econômica deve permitir o inves-
-se (função executiva) – dispondo sobre organização, timento nos setores menos favorecidos, diminuindo as desi-
estrutura, concessão de férias e licenças a seus servi- gualdades sociais e regionais e paulatinamente erradicando
dores, etc. – e legislar – elaborando o regimento inter- a pobreza.
no de seus Tribunais, por exemplo (art. 96, CF).
O impacto econômico deste objetivo fundamental é tão
relevante que o artigo 170 da Constituição prevê em seu in-
Objetivos fundamentais ciso VII a “redução das desigualdades regionais e sociais”
como um princípio que deve reger a atividade econômica. A
O constituinte trabalha no artigo 3º da Constituição Fe- menção deste princípio implica em afirmar que as políticas
deral com os objetivos da República Federativa do Brasil, nos públicas econômico-financeiras deverão se guiar pela busca
seguintes termos: da redução das desigualdades, fornecendo incentivos espe-
cíficos para a exploração da atividade econômica em zonas
Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República economicamente marginalizadas.
Federativa do Brasil:
Aqui também se destaca o papel dos Estados de fomentar
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; direitos econômicos, sociais e culturais, garantido de forma
generalizada pelo direito internacional dos direitos humanos
II - garantir o desenvolvimento nacional;  e, com mais força, pelo Pacto Internacional de Direitos Eco-
nômicos, Sociais e Culturais.
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as
desigualdades sociais e regionais;
Promover o bem de todos, sem preconceitos de ori-
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, gem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas
raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discri- de discriminação
minação.
Ainda no ideário de justiça social, coloca-se o princípio
da igualdade como objetivo a ser alcançado pela República
Construir uma sociedade livre, justa e solidária brasileira. Sendo assim, a república deve promover o princí-
pio da igualdade e consolidar o bem comum. Em verdade, a
O inciso I do artigo 3º merece destaque ao trazer a expres- promoção do bem comum pressupõe a prevalência do prin-
são “livre, justa e solidária”, que corresponde à tríade liberda- cípio da igualdade.
de, igualdade e fraternidade. Esta tríade consolida as três di-
mensões de direitos humanos: a primeira dimensão, voltada Sobre o bem de todos, isto é, o bem comum, o filósofo Jac-
à pessoa como indivíduo, refere-se aos direitos civis e políti- ques Maritain91 ressaltou que o fim da sociedade é o seu bem
cos; a segunda dimensão, focada na promoção da igualdade comum, mas esse bem comum é o das pessoas humanas,
DIREITOS HUMANOS

material, remete aos direitos econômicos, sociais e culturais; que compõem a sociedade. Com base neste ideário, apontou
e a terceira dimensão se concentra numa perspectiva difusa as características essenciais do bem comum: redistribuição,
e coletiva dos direitos fundamentais. pela qual o bem comum deve ser redistribuído às pessoas e
colaborar para o desenvolvimento delas; respeito à autorida-
Sendo assim, a República brasileira pretende garantir a
preservação de direitos fundamentais inatos à pessoa huma-
na em todas as suas dimensões, indissociáveis e interconec- 91 MARITAIN, Jacques. Os direitos do homem e a lei natural.
tadas. Daí o texto constitucional guardar espaço de destaque 3. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1967, p.
20-22.

34
de na sociedade, pois a autoridade é necessária para condu- traduz a limitação das ações estatais, que sempre devem se
zir a comunidade de pessoas humanas para o bem comum; guiar por eles. Logo, o Brasil é um país independente, que
moralidade, que constitui a retidão de vida, sendo a justiça não responde a nenhum outro, mas que como qualquer ou-
e a retidão moral os elementos essenciais do bem comum. tro possui um dever para com a humanidade e os direitos
inatos a cada um de seus membros.
O direito à igualdade é garantido de forma generalizada
pelo direito internacional dos direitos humanos, destacan-
do-se o artigo 2º, I, DUDH: “Todo o homem tem capacidade Prevalência dos direitos humanos
para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta De-
claração sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, O Estado existe para o homem e não o inverso. Portanto,
sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, toda normativa existe para a sua proteção como pessoa hu-
origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer mana e o Estado tem o dever de servir a este fim de preserva-
outra condição”. ção. A única forma de fazer isso é adotando a pessoa humana
como valor-fonte de todo o ordenamento, o que somente
é possível com a compreensão de que os direitos humanos
Princípios de relações internacionais (artigo 4º) possuem uma posição prioritária no ordenamento jurídico-
-constitucional.
O último artigo do título I trabalha com os princípios que
regem as relações internacionais da República brasileira: Conceituar direitos humanos é uma tarefa complicada,
mas, em síntese, pode-se afirmar que direitos humanos são
Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas aqueles inerentes ao homem enquanto condição para sua
relações internacionais pelos seguintes princípios:  dignidade que usualmente são descritos em documentos in-
ternacionais para que sejam mais seguramente garantidos. A
I - independência nacional; conquista de direitos da pessoa humana é, na verdade, uma
busca da dignidade da pessoa humana.
II - prevalência dos direitos humanos;
ATENÇÃO: O caput do artigo 5º aparenta restringir a pro-
III - autodeterminação dos povos; teção conferida pelo dispositivo a algumas pessoas, notada-
mente, “aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País”.
IV - não-intervenção; No entanto, tal restrição é apenas aparente e tem sido inter-
pretada no sentido de que os direitos estarão protegidos com
V - igualdade entre os Estados; relação a todas as pessoas nos limites da soberania do país,
justamente devido à prevalência dos direitos humanos. Em
VI - defesa da paz; razão disso, por exemplo, um estrangeiro pode ingressar com
habeas corpus ou mandado de segurança, ou então intentar
VII - solução pacífica dos conflitos; ação reivindicatória com relação a imóvel seu localizado no
Brasil (ainda que não resida no país). Somente alguns direi-
VIII - repúdio ao terrorismo e ao racismo; tos não são estendidos a todas as pessoas. A exemplo, o direi-
to de intentar ação popular exige a condição de cidadão, que
IX - cooperação entre os povos para o progresso da huma- só é possuída por nacionais titulares de direitos políticos.
nidade;

X - concessão de asilo político. Autodeterminação dos povos


Parágrafo único. A República Federativa do Brasil buscará A premissa dos direitos políticos é a autodeterminação
a integração econômica, política, social e cultural dos povos dos povos. Neste sentido, embora cada Estado tenha obriga-
da América Latina, visando à formação de uma comunidade ções de direito internacional que deve respeitar para a ade-
latino-americana de nações. quada consecução dos fins da comunidade internacional,
também tem o direito de se autodeterminar, sendo que tal
De maneira geral, percebe-se na Constituição Federal a autodeterminação é feita pelo seu povo.
compreensão de que a soberania do Estado nacional brasi-
leiro não permite a sobreposição em relação à soberania dos Se autodeterminar significa garantir a liberdade do povo
demais Estados, bem como de que é necessário respeitar de- na tomada das decisões políticas, logo, o direito à autodeter-
terminadas práticas inerentes ao direito internacional dos minação pressupõe a exclusão do colonialismo. Não se acei-
direitos humanos. ta a ideia de que um Estado domine o outro, tirando a sua
autodeterminação.
DIREITOS HUMANOS

Independência nacional O direito internacional dos direitos humanos reforça o


reconhecimento da autodeterminação dos povos desde sua
A formação de uma comunidade internacional não signi- origem, notadamente, pela criação do Conselho de Tutela da
fica a eliminação da soberania dos países, mas apenas uma Organização das Nações Unidas (cujo objetivo era o de pro-
relativização, limitando as atitudes por ele tomadas em prol piciar uma transição adequada dos países colonizados ao
da preservação do bem comum e da paz mundial. Na verda- modelo democrático) e pela afirmação expressa nos Pactos
de, o próprio compromisso de respeito aos direitos humanos de 1966.

35
Não-intervenção - “Mediação define-se como instituto por meio do qual
uma terceira pessoa estranha à contenda, mas aceita
Por não-intervenção entenda-se que o Estado brasileiro pelos litigantes, de forma voluntária ou em razão de es-
irá respeitar a soberania dos demais Estados nacionais. Sen- tipulação anterior, toma conhecimento da divergência
do assim, adotará práticas diplomáticas e respeitará as deci- e dos argumentos sustentados pelas partes, e propõe
sões políticas tomadas no âmbito de cada Estado, eis que são uma solução pacífica sujeita à aceitação destas”;
paritários na ordem internacional.
- “Sistema de Consultas constitui-se em meio diplomáti-
co de solução de litígios em que os Estados ou organi-
Igualdade entre os Estados zações internacionais sujeitam-se, sem qualquer inter-
ferência pessoal externa, a encontros periódicos com o
Por este princípio se reconhece uma posição de paridade, objetivo de compor suas divergências”.
ou seja, de igualdade hierárquica, na ordem internacional
entre todos os Estados. Em razão disso, cada Estado possuirá
direito de voz e voto na tomada de decisões políticas na or- Repúdio ao terrorismo e ao racismo
dem internacional em cada organização da qual faça parte e
deverá ter sua opinião respeitada. Terrorismo é o uso de violência através de ataques loca-
lizados a elementos ou instalações de um governo ou da po-
pulação civil, de modo a incutir medo, terror, e assim obter
Defesa da paz efeitos psicológicos que ultrapassem largamente o círculo
das vítimas, incluindo, antes, o resto da população do terri-
O direito à paz vai muito além do direito de viver num tório.
mundo sem guerras, atingindo o direito de ter paz social,
de ver seus direitos respeitados em sociedade. Os direitos e Racismo é a prática de atos discriminatórios baseados em
liberdades garantidos internacionalmente não podem ser diferenças étnico-raciais, que podem consistir em violência
destruídos com fundamento nas normas que surgiram para física ou psicológica direcionada a uma pessoa ou a um gru-
protegê-los, o que seria controverso. Em termos de relações po de pessoas pela simples questão biológica herdada por
internacionais, depreende-se que deve ser sempre prioriza- sua raça ou etnia.
da a solução amistosa de conflitos.
Sendo o Brasil um país que prega o pacifismo e que é as-
sumidamente pluralista, ambas práticas são consideradas
Solução pacífica dos conflitos vis e devem ser repudiadas pelo Estado nacional. Tal repúdio
se identifica também na disciplina do direito internacional
Decorrendo da defesa da paz, este princípio remete à ne- dos direitos humanos.
cessidade de diplomacia nas relações internacionais. Caso
surjam conflitos entre Estados nacionais, estes deverão ser
dirimidos de forma amistosa. Cooperação entre os povos para o progresso da hu-
manidade
Negociação diplomática, serviços amistosos, bons ofí-
cios, mediação, sistema de consultas, conciliação e inquérito A cooperação internacional deve ser especialmente eco-
são os meios diplomáticos de solução de controvérsias inter- nômica e técnica, a fim de conseguir progressivamente a ple-
nacionais, não havendo hierarquia entre eles. Somente o in- na efetividade dos direitos humanos fundamentais interna-
quérito é um procedimento preliminar e facultativo à apura- cionalmente reconhecidos.
ção da materialidade dos fatos, podendo servir de base para
qualquer meio de solução de conflito92. Conceitua Neves93: Os países devem colaborar uns com os outros, o que é
possível mediante a integração no âmbito de organizações
- “Negociação diplomática é a forma de autocomposição internacionais específicas, regionais ou globais.
em que os Estados oponentes buscam resolver suas di-
vergências de forma direta, por via diplomática”; Em relação a este princípio, o artigo 4º se aprofunda em
seu parágrafo único, destacando a importância da coopera-
- “Serviços amistosos é um meio de solução pacífica de ção brasileira no âmbito regional: “A República Federativa
conflito, sem aspecto oficial, em que o governo designa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e
um diplomada para sua conclusão”; cultural dos povos da América Latina, visando à formação de
uma comunidade latino-americana de nações”. Neste senti-
- “Bons ofícios constituem o meio diplomático de solu- do, o papel desempenhado no MERCOSUL.
ção pacífica de controvérsia internacional, em que um
DIREITOS HUMANOS

Estado, uma organização internacional ou até mesmo A cooperação internacional é base do sistema de proteção
um chefe de Estado apresenta-se como moderador en- dos direitos humanos, como se percebe na própria DUDH:
tre os litigantes”; “CONSIDERANDO que os Estados Membros se comprome-
teram a promover, em cooperação com as Nações Unidas,
o respeito universal aos direitos e liberdades fundamentais
92 NEVES, Gustavo Bregalda. Direito Internacional Público do homem e a observância desses direitos e liberdades. [...]
& Direito Internacional Privado. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2009, Artigo 22. Todo o homem, como membro da sociedade, tem
p. 123. direito à segurança social e à realização, pelo esforço nacio-
93 Ibid., p. 123-126.

36
nal, pela cooperação internacional e de acordo com a orga-
nização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, #FicaDica
sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre Artigo 1o – Fundamentos
desenvolvimento de sua personalidade”.
SOberania
CIdadania
Concessão de asilo político
DIgnidade da pessoa humana
Direito de asilo é o direito de buscar abrigo em outro país
quando naquele do qual for nacional estiver sofrendo alguma VAlores sociais do trabalho e da livre iniciativa
perseguição. Tal perseguição não pode ter motivos legítimos, PLUralismo
como a prática de crimes comuns ou de atos atentatórios aos
princípios das Nações Unidas, o que subverteria a própria fi- Artigo 2o – Poderes
nalidade desta proteção. Em suma, o que se pretende com o EXEcutivo
direito de asilo é evitar a consolidação de ameaças a direitos
humanos de uma pessoa por parte daqueles que deveriam LEGislativo
protegê-los – isto é, os governantes e os entes sociais como
um todo –, e não proteger pessoas que justamente comete- JUDiciário
ram tais violações. Artigo 3o – Objetivos
“Sendo direito humano da pessoa refugiada, é obrigação * Sempre começam com verbo
do Estado asilante conceder o asilo. Entretanto, prevalece o Construir, garantir, erradicar, promover
entendimento que o Estado não tem esta obrigação, nem de
fundamentar a recusa. A segunda parte deste artigo permi- Artigo 4o – Princípios de relações internacionais
te a interpretação no sentido de que é o Estado asilante que
subjetivamente enquadra o refugiado como asilado político
ou criminoso comum”94.
A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988: DOS
Artigo 14, DUDH DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS

I) Todo o homem, vítima de perseguição, tem o direito de


procurar e de gozar asilo em outros países.
DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E
II) Este direito não pode ser invocado em casos de perse- COLETIVOS
guição legitimamente motivada por crimes de direito co-
mum ou por atos contrários aos objetivos e princípios das
Nações Unidas. O título II da Constituição Federal é intitulado “Direitos
e Garantias fundamentais”, gênero que abrange as seguintes
Além da previsão na Declaração Universal, a ONU traz o espécies de direitos fundamentais: direitos individuais e co-
direito de asilo no Pacto Internacional de Direitos Civis e Po- letivos (art. 5º, CF), direitos sociais (genericamente previstos
líticos e no Estatuto dos Refugiados de 1951. Em verdade, o no art. 6º, CF), direitos da nacionalidade (artigos 12 e 13, CF)
direito dos refugiados é considerado vertente de proteção da e direitos políticos (artigos 14 a 17, CF).
pessoa humana, ao lado do direito internacional dos direitos
humanos e do direito humanitário. Em termos comparativos à clássica divisão tridimensio-
nal dos direitos humanos, os direitos individuais (maior par-
te do artigo 5º, CF), os direitos da nacionalidade e os direitos
políticos se encaixam na primeira dimensão (direitos civis e
políticos); os direitos sociais se enquadram na segunda di-
mensão (direitos econômicos, sociais e culturais) e os direi-
tos coletivos na terceira dimensão. Contudo, a enumeração
de direitos humanos na Constituição vai além dos direitos
que expressamente constam no título II do texto constitucio-
nal.

O capítulo I do título II é intitulado “direitos e deveres in-


dividuais e coletivos”. Da própria nomenclatura do capítulo
DIREITOS HUMANOS

já se extrai que a proteção vai além dos direitos do indivíduo


e também abrange direitos da coletividade. A maior parte
dos direitos enumerados no artigo 5º do texto constitucional
é de direitos individuais, mas são incluídos alguns direitos
coletivos e mesmo remédios constitucionais próprios para a
94 SANTOS FILHO, Oswaldo de Souza. Comentários aos ar- tutela destes direitos coletivos (ex.: mandado de segurança
tigos XIII e XIV. In: BALERA, Wagner (Coord.). Comentários à coletivo).
Declaração Universal dos Direitos do Homem. Brasília: For-
tium, 2008, p. 83.

37
Direitos e garantias nos direitos fundamentais de que não há direito que seja ab-
soluto, correspondendo-se para cada direito um dever. Logo,
Não obstante, o capítulo vai além da proteção dos di- o exercício de direitos fundamentais é limitado pelo igual
reitos e estabelece garantias em prol da preservação destes, direito de mesmo exercício por parte de outrem, não sendo
bem como remédios constitucionais a serem utilizados caso nunca absolutos, mas sempre relativos.
estes direitos e garantias não sejam preservados. Neste senti-
do, dividem-se em direitos e garantias as previsões do artigo Explica Canotilho96 quanto aos direitos fundamentais: “a
5º: os direitos são as disposições declaratórias e as garantias ideia de deveres fundamentais é suscetível de ser entendida
são as disposições assecuratórias. como o ‘outro lado’ dos direitos fundamentais. Como ao ti-
tular de um direito fundamental corresponde um dever por
O legislador muitas vezes reúne no mesmo dispositivo o parte de um outro titular, poder-se-ia dizer que o particular
direito e a garantia, como no caso do artigo 5º, IX: está vinculado aos direitos fundamentais como destinatário
de um dever fundamental. Neste sentido, um direito funda-
Artigo 5º, IX, CF. É livre a expressão da atividade intelec- mental, enquanto protegido, pressuporia um dever corres-
tual, artística, científica e de comunicação, independente- pondente”. Com efeito, a um direito fundamental conferido
mente de censura ou licença. à pessoa corresponde o dever de respeito ao arcabouço de
direitos conferidos às outras pessoas.
O direito é o de liberdade de expressão e a garantia é a
vedação de censura ou exigência de licença. Em outros casos, Em destaque, sobre a relação direitos-deveres, o artigo 29
o legislador traz o direito num dispositivo e a garantia em ou- da Declaração Universal:
tro: a liberdade de locomoção, direito, é colocada no artigo
5º, XV, ao passo que o dever de relaxamento da prisão ilegal Artigo 29, DUDH. I) Todo o homem tem deveres para com
de ofício pelo juiz, garantia, se encontra no artigo 5º, LXV95. a comunidade, na qual o livre e pleno desenvolvimento de sua
personalidade é possível. II) No exercício de seus direitos e li-
Em caso de ineficácia da garantia, implicando em viola- berdades, todo o homem estará sujeito apenas às limitações
ção de direito, cabe a utilização dos remédios constitucio- determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegu-
nais. rar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberda-
des de outrem e de satisfazer as justas exigências da moral, da
Atenção para o fato de o constituinte chamar os remédios ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.
constitucionais de garantias, e todas as suas fórmulas de di- III) Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese algu-
reitos e garantias propriamente ditas apenas de direitos. ma, ser exercidos contrariamente aos objetivos e princípios
das Nações Unidas.

Brasileiros e estrangeiros
Direitos e garantias em espécie
O caput do artigo 5º aparenta restringir a proteção confe-
rida pelo dispositivo a algumas pessoas, notadamente, “aos Preconiza o artigo 5º da Constituição Federal em seu
brasileiros e aos estrangeiros residentes no País”. No entan- caput:
to, tal restrição é apenas aparente e tem sido interpretada no
sentido de que os direitos estarão protegidos com relação a Artigo 5º, caput, CF. Todos são iguais perante a lei, sem dis-
todas as pessoas nos limites da soberania do país. tinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e
aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito
Em razão disso, por exemplo, um estrangeiro pode in- à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade,
gressar com habeas corpus ou mandado de segurança, ou nos termos seguintes [...].
então intentar ação reivindicatória com relação a imóvel seu
localizado no Brasil (ainda que não resida no país). O caput do artigo 5º, que pode ser considerado um dos
principais (senão o principal) artigos da Constituição Fe-
Somente poucos direitos não são estendidos a todas as deral, consagra o princípio da igualdade e delimita as cin-
pessoas. A exemplo, o direito de intentar ação popular exige co esferas de direitos individuais e coletivos que merecem
a condição de cidadão, que só é possuída por nacionais titu- proteção, isto é, vida, liberdade, igualdade, segurança e pro-
lares de direitos políticos. Todos os que não exigem condição priedade. Os incisos deste artigos delimitam vários direitos
especial, dispensam a exigência de nacionalidade brasileira e garantias que se enquadram em alguma destas esferas de
ou estrangeira com residência no país. proteção, podendo se falar em duas esferas específicas que
ganham também destaque no texto constitucional, quais
sejam, direitos de acesso à justiça e direitos constitucionais-
Relação direitos-deveres -penais.
DIREITOS HUMANOS

O capítulo em estudo é denominado “direitos e garantias


deveres e coletivos”, remetendo à necessária relação direitos-
-deveres entre os titulares dos direitos fundamentais. Acima
de tudo, o que se deve ter em vista é a premissa reconhecida

96 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucio-


95 FARIA, Cássio Juvenal. Notas pessoais tomadas em tele- nal e teoria da constituição. 2. ed. Coimbra: Almedina, 1998,
conferência. p. 479.

38
Direito à igualdade Artigo 1º, DUDH. Todos os homens nascem livres e iguais
em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e
Abrangência devem agir em relação uns aos outros com espírito de frater-
nidade.
Observa-se, pelo teor do caput do artigo 5º, CF, que o
constituinte afirmou por duas vezes o princípio da igualda- Artigo 2º, DUDH. I) Todo o homem tem capacidade para
de: gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declara-
ção sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo,
Artigo 5º, caput, CF. Todos são iguais perante a lei, sem dis- língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem
tinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra
aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito condição. II) Não será também feita nenhuma distinção fun-
à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, dada na condição política, jurídica ou internacional do país
nos termos seguintes [...]. ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um
território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer
Não obstante, reforça este princípio em seu primeiro in- sujeito a qualquer outra limitação de soberania.
ciso:

Artigo 5º, I, CF. Homens e mulheres são iguais em direitos e Ações afirmativas
obrigações, nos termos desta Constituição.
Neste sentido, desponta a temática das ações afirmati-
Este inciso é especificamente voltado à necessidade de vas, que são políticas públicas ou programas privados cria-
igualdade de gênero, afirmando que não deve haver nenhu- dos temporariamente e desenvolvidos com a finalidade de
ma distinção sexo feminino e o masculino, de modo que o reduzir as desigualdades decorrentes de discriminações ou
homem e a mulher possuem os mesmos direitos e obriga- de uma hipossuficiência econômica ou física, por meio da
ções. concessão de algum tipo de vantagem compensatória de tais
condições.
Entretanto, o princípio da isonomia abrange muito mais
do que a igualdade de gêneros, envolve uma perspectiva Quem é contra as ações afirmativas argumenta que, em
mais ampla. uma sociedade pluralista, a condição de membro de um gru-
po específico não pode ser usada como critério de inclusão
O direito à igualdade é um dos direitos norteadores de ou exclusão de benefícios. Ademais, afirma-se que elas des-
interpretação de qualquer sistema jurídico. O primeiro en- privilegiam o critério republicano do mérito (segundo o qual
foque que foi dado a este direito foi o de direito civil, enqua- o indivíduo deve alcançar determinado cargo público pela
drando-o na primeira dimensão, no sentido de que a todas sua capacidade e esforço, e não por pertencer a determinada
as pessoas deveriam ser garantidos os mesmos direitos e categoria); fomentariam o racismo e o ódio; bem como fe-
deveres. Trata-se de um aspecto relacionado à igualdade en- rem o princípio da isonomia por causar uma discriminação
quanto liberdade, tirando o homem do arbítrio dos demais reversa.
por meio da equiparação. Basicamente, estaria se falando na
igualdade perante a lei. Por outro lado, quem é favorável às ações afirmativas
defende que elas representam o ideal de justiça
No entanto, com o passar dos tempos, se percebeu que compensatória (o objetivo é compensar injustiças passadas,
não bastava igualar todos os homens em direitos e deveres dívidas históricas, como uma compensação aos negros por
para torná-los iguais, pois nem todos possuem as mesmas tê-los feito escravos, p. ex.); representam o ideal de justiça
condições de exercer estes direitos e deveres. Logo, não é su- distributiva (a preocupação, aqui, é com o presente. Busca-se
ficiente garantir um direito à igualdade formal, mas é preciso uma concretização do princípio da igualdade material); bem
buscar progressivamente a igualdade material. No sentido como promovem a diversidade.
de igualdade material que aparece o direito à igualdade num
segundo momento, pretendendo-se do Estado, tanto no mo- Neste sentido, as discriminações legais asseguram a ver-
mento de legislar quanto no de aplicar e executar a lei, uma dadeira igualdade, por exemplo, com as ações afirmativas, a
postura de promoção de políticas governamentais voltadas a proteção especial ao trabalho da mulher e do menor, as ga-
grupos vulneráveis. rantias aos portadores de deficiência, entre outras medidas
que atribuam a pessoas com diferentes condições, iguais
Assim, o direito à igualdade possui dois sentidos notá- possibilidades, protegendo e respeitando suas diferenças97.
veis: o de igualdade perante a lei, referindo-se à aplicação Tem predominado em doutrina e jurisprudência, inclusive
uniforme da lei a todas as pessoas que vivem em sociedade; no Supremo Tribunal Federal, que as ações afirmativas são
e o de igualdade material, correspondendo à necessidade de válidas.
DIREITOS HUMANOS

discriminações positivas com relação a grupos vulneráveis


da sociedade, em contraponto à igualdade formal. O direito internacional dos direitos humanos apoia a
adoção de ações afirmativas. Observe, como exemplo, o ar-
O princípio da igualdade é reafirmado nos dois primei-
ros artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos
de 1948 e reiterado em diversos diplomas, como os Pactos 97 SANFELICE, Patrícia de Mello. Comentários aos artigos I e
Internacionais de 1966: II. In: BALERA, Wagner (Coord.). Comentários à Declaração
Universal dos Direitos do Homem. Brasília: Fortium, 2008,
p. 08.

39
tigo 4º da Convenção da ONU sobre a eliminação de todas 2) Nos Países em que a pena de morte não tenha sido
formas de discriminação contra a mulher: abolida, esta poderá ser imposta apenas nos casos de
crimes mais graves, em conformidade com legislação
Artigo 4º, Convenção ONU Mulher. 1. A adoção pelos Es- vigente na época em que o crime foi cometido e que não
tados-partes de medidas especiais de caráter temporário esteja em conflito com as disposições do presente pacto,
destinadas a acelerar a igualdade de fato entre o homem e a nem com a Convenção sobre a Prevenção e a Punição
mulher não se considerará discriminação na forma definida do Crime de Genocídio. Poder-se-á aplicar essa pena
nesta Convenção, mas de nenhuma maneira implicará, como apenas em decorrência de uma sentença transitada em
consequência, a manutenção de normas desiguais ou separa- julgado e proferida por tribunal competente. [...]
das; essas medidas cessarão quando os objetivos de igualdade
de oportunidade e tratamento houverem sido alcançados. 2. A 4) Qualquer condenado à morte terá o direito de pedir in-
adoção pelos Estados-partes de medidas especiais, inclusive as dulto ou comutação da pena. A anistia, o indulto ou a
contidas na presente Convenção, destinadas a proteger a ma- comutação de pena poderão ser concedidos em todos os
ternidade, não se considerará discriminatória. casos.

5) A pena de morte não deverá ser imposta em casos de


Direito à vida crimes cometidos por pessoas menores de 18 anos, nem
aplicada a mulheres em estado de gravidez.
Abrangência
6) Não se poderá invocar disposição alguma do presente
O caput do artigo 5º da Constituição assegura a proteção artigo para retardar ou impedir a abolição da pena de
do direito à vida. A vida humana é o centro gravitacional em morte por um Estado-parte do presente pacto.
torno do qual orbitam todos os direitos da pessoa humana,
possuindo reflexos jurídicos, políticos, econômicos, morais e Artigo 4º - Direito à vida, Convenção Americana sobre
religiosos. Daí existir uma dificuldade em conceituar o vocá- Direitos Humanos
bulo vida. Logo, tudo aquilo que uma pessoa possui deixa de
ter valor ou sentido se ela perde a vida. Sendo assim, a vida é 1) [...] Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente.
o bem principal de qualquer pessoa, é o primeiro valor moral
inerente a todos os seres humanos98. 2) Nos países que não houverem abolido a pena de morte,
esta só poderá ser imposta pelos delitos mais graves, em
No tópico do direito à vida tem-se tanto o direito de nas- cumprimento de sentença final de tribunal compe-
cer/permanecer vivo, o que envolve questões como pena de tente e em conformidade com a lei que estabeleça tal
morte, eutanásia, pesquisas com células-tronco e aborto; pena, promulgada antes de haver o delito sido cometi-
quanto o direito de viver com dignidade, o que engloba o res- do. Tampouco se estenderá sua aplicação a delitos aos
peito à integridade física, psíquica e moral, incluindo neste quais não se aplique atualmente.
aspecto a vedação da tortura, bem como a garantia de recur-
sos que permitam viver a vida com dignidade. 3) Não se pode restabelecer a pena de morte nos Estados
que a hajam abolido.
Embora o direito à vida seja em si pouco delimitado nos
incisos que seguem o caput do artigo 5º, trata-se de um dos 4) Em nenhum caso pode a pena de morte ser aplicada a
direitos mais discutidos em termos jurisprudenciais e socio- delitos políticos, nem a delitos comuns conexos com
lógicos. É no direito à vida que se encaixam polêmicas dis- delitos políticos.
cussões como: aborto de anencéfalo, pesquisa com células
tronco, pena de morte, eutanásia, etc. 5) Não se deve impor a pena de morte a pessoa que, no mo-
mento da perpetração do delito, for menor de dezoito
anos, ou maior de setenta, nem aplicá-la a mulher em
Pena de morte estado de gravidez.

Sobre a pena de morte, os principais tratados internacio- 6) Toda pessoa condenada à morte tem direito a solicitar
nais do sistema geral de proteção possuem conteúdos bas- anistia, indulto ou comutação da pena, os quais po-
tante semelhantes: dem ser concedidos em todos os casos. Não se pode exe-
cutar a pena de morte enquanto o pedido estiver pen-
Artigo 6º, Pacto Internacional de Direitos Civis e Políti- dente de decisão ante a autoridade competente.
cos
Tomando o teor do que o Pacto Internacional dos Direitos
1) O direito à vida é inerente à pessoa humana. Este direito Civis e Políticos estabelece em seu artigo 6º, extrai-se que:
DIREITOS HUMANOS

deverá ser protegido pela lei. Ninguém poderá ser arbi-


trariamente privado de sua vida. a) A vida não pode ser privada de maneira arbitrária, de
forma que mesmo nos casos em que for aceita a pena
de morte é preciso garantir o devido processo legal for-
mal e material para que sua aplicação seja válida;
98 BARRETO, Ana Carolina Rossi; IBRAHIM, Fábio Zam-
bitte. Comentários aos Artigos III e IV. In: BALERA, Wagner b) A preservação do direito à vida envolve a abolição da
(Coord.). Comentários à Declaração Universal dos Direitos pena de morte o máximo possível;
do Homem. Brasília: Fortium, 2008, p. 15.

40
c) Nos países que não abolirem tal pena, ela se restringe zembro de 1984 e ratificada pelo Brasil em 28 de setembro
aos crimes mais graves; de 1989.

d) É preciso sentença transitada em julgado (irrecorrível) Nesta Declaração, o artigo 1º traz um conceito de tortura:
e proferida por tribunal competente; “1. Sob os efeitos da presente declaração, será entendido por
tortura todo ato pelo qual um funcionário público, ou outra
e) Aceita-se em todos os casos de condenação a pena de pessoa a seu poder, inflija intencionalmente a uma pessoa
morte a anistia, o indulto e a comutação da pena (con- penas ou sofrimentos graves, sendo eles físicos ou mentais,
versão da pena de morte por uma privativa de liberda- com o fim de obter dela ou de um terceiro informação ou
de ou diversa); uma confissão, de castigá-la por um ato que tenha cometido
ou seja suspeita de que tenha cometido, ou de intimidar a
f) Deve ser respeitada a idade mínima de 18 anos do con- essa pessoa ou a outras. [...]”. No documento o conceito de
denado; tortura pode ser assim subdividido: a) ação, não omissão; b)
praticada por funcionário público ou alguém sob sua autori-
g) Não pode ser aplicada a mulheres grávidas, obviamen- dade; c) com dolo (intenção); d) contra uma pessoa; e) con-
te porque o feto não deve perder a vida somente por- sistente em penas ou sofrimentos graves, físicos ou mentais;
que quem o carrega deve. f) visando - obtenção de informação ou confissão, castigo ou
intimidação. O conceito se repete na Convenção menciona-
Em sentido semelhante, tem-se o artigo 4º da Convenção da.
Americana dos Direitos Humanos, no qual se nota uma am-
pliação da proteção do Pacto Internacional de Direitos Civis Não obstante, o artigo 5º da Convenção traz interessantes
e Políticos, notadamente: aspectos sobre o exercício da jurisdição, tornando-o o mais
amplo possível visando à efetividade da punição dos crimes
a) Ao se impedir que se aplique a pena a outros delitos: de tortura, normas que não excluem, mas devem se conciliar,
havendo pena de morte para um certo delito num com as de direito interno: “1. Cada Estado-parte tomará as
país não é possível que seja aprovada nele uma lei que medidas necessárias para estabelecer sua jurisdição sobre os
aplique tal pena para outro delito. Na verdade, evi- crimes previstos no artigo 4º, nos seguintes casos: a) quando
dencia-se a intenção de, paulatinamente, se buscar a os crimes tenham sido cometidos em qualquer território sob
abolição total da pena de morte. Também por isso que sua jurisdição ou a bordo de navio ou aeronave registrada no
um Estado que a aboliu não pode instituí-la posterior- Estado em questão; b) quando o suposto autor for nacional
mente; do Estado em questão: c) quando a vítima for nacional do Es-
tado em questão e este o considerar apropriado; 2. Cada Es-
b) Pela vedação de aplicação a delitos políticos; tado-parte tomará também as medidas necessárias para es-
tabelecer sua jurisdição sobre tais crimes, nos casos em que
c) Pelo estabelecimento de idade máxima ao condenado o suposto autor se encontre em qualquer território sob sua
à pena de morte, qual seja, 70 anos. jurisdição e o Estado não o extradite, de acordo com o arti-
go 8º, para qualquer dos Estados mencionados no parágrafo
Há tratados pela abolição da pena de morte, destacan- 1º do presente artigo. 3. Esta Convenção não exclui qualquer
do-se, notadamente: no âmbito global, Segundo Protocolo jurisdição criminal exercida de acordo com o direito inter-
Adicional ao Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e no”. Não extraditando o suspeito, o Estado deverá apurar o
Políticos com vista à Abolição da Pena de Morte, de 15 de De- fato com o mesmo rigor como apuraria qualquer crime com
zembro de 1989 , aprovado pelo Legislativo brasileiro em 16 tal gravidade, não significando que não deva dar tratamento
de junho de 2009; e no âmbito interamericano o Protocolo à justo e compatível com as garantias constitucionais ao sus-
CADH referente à abolição da pena de morte de 8 de junho peito em questão (artigo 7º, Convenção ONU Tortura).
de 1990 , ratificado pelo Brasil em 31 de junho de 1996.

Direito à liberdade
Vedação à tortura
O caput do artigo 5º da Constituição assegura a proteção
De forma expressa no texto constitucional destaca-se a do direito à liberdade, delimitada em alguns incisos que o
vedação da tortura, corolário do direito à vida, conforme pre- seguem. O direito é largamente afirmado em tratados inter-
visão no inciso III do artigo 5º: nacionais:

Artigo 5º, III, CF. Ninguém será submetido a tortura nem a Artigo I, DUDH
tratamento desumano ou degradante.
Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e
DIREITOS HUMANOS

Há uma preocupação especial da comunidade interna- direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em
cional de vedar tais práticas. Neste sentido, na esfera das Na- relação umas às outras com espírito de fraternidade.
ções Unidas, tem-se a Declaração sobre a Proteção de Todas
as Pessoas contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos Artigo III, DUDH
Cruéis, Desumanos ou Degradantes, adotada pela Assem-
bleia Geral em 9 de dezembro de 1975, e a Convenção contra Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança
a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos Cruéis, Desumanos pessoal.
ou Degradantes, adotada pela Assembleia Geral em 10 de de-

41
Artigo I - Direito à vida, à liberdade, à segurança e inte- fixada em lei.
gridade da pessoa, DADH
Trata-se de instrumento para a consecução do direito as-
Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segu- segurado na Constituição Federal – não basta permitir que se
rança de sua pessoa. pense diferente, é preciso respeitar tal posicionamento.

Artigo 7º - Direito à liberdade pessoal, CADH Com efeito, este direito de liberdade de expressão é limi-
tado. Um destes limites é o anonimato, que consiste na ga-
1) Toda pessoa tem direito à liberdade e à segurança rantia de atribuir a cada manifestação uma autoria certa e
pessoais. [...] determinada, permitindo eventuais responsabilizações por
manifestações que contrariem a lei.

Liberdade e legalidade Tem-se, ainda, a seguinte previsão no artigo 5º, IX, CF:

Prevê o artigo 5º, II, CF: Artigo 5º, IX, CF. É livre a expressão da atividade intelec-
tual, artística, científica e de comunicação, independente-
Artigo 5º, II, CF. Ninguém será obrigado a fazer ou deixar mente de censura ou licença.
de fazer alguma coisa senão em virtude de lei.
Consolida-se outra perspectiva da liberdade de expres-
O princípio da legalidade se encontra delimitado neste são, referente de forma específica a atividades intelectuais,
inciso, prevendo que nenhuma pessoa será obrigada a fazer artísticas, científicas e de comunicação. Dispensa-se, com
ou deixar de fazer alguma coisa a não ser que a lei assim de- relação a estas, a exigência de licença para a manifestação do
termine. Assim, salvo situações previstas em lei, a pessoa tem pensamento, bem como veda-se a censura prévia.
liberdade para agir como considerar conveniente.
A respeito da censura prévia, tem-se não cabe impedir a
Portanto, o princípio da legalidade possui estrita rela- divulgação e o acesso a informações como modo de contro-
ção com o princípio da liberdade, posto que, a priori, tudo à le do poder. A censura somente é cabível quando necessária
pessoa é lícito. Somente é vedado o que a lei expressamente ao interesse público numa ordem democrática, por exemplo,
estabelecer como proibido. A pessoa pode fazer tudo o que censurar a publicação de um conteúdo de exploração sexual
quiser, como regra, ou seja, agir de qualquer maneira que a infanto-juvenil é adequado.
lei não proíba.
O direito à resposta (artigo 5º, V, CF) e o direito à indeni-
zação (artigo 5º, X, CF) funcionam como a contrapartida para
Liberdade de pensamento e de expressão aquele que teve algum direito seu violado (notadamente ine-
rentes à privacidade ou à personalidade) em decorrência dos
O artigo 5º, IV, CF prevê: excessos no exercício da liberdade de expressão.

Artigo 5º, IV, CF. É livre a manifestação do pensamento, Os documentos internacionais de direitos humanos con-
sendo vedado o anonimato. solidam, no mesmo sentido, o direito à liberdade de pensa-
mento:
Consolida-se a afirmação simultânea da liberdade de
pensamento e da liberdade de expressão. Artigo XVIII, DUDH

Em primeiro plano tem-se a liberdade de pensamento. Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, cons-
Afinal, “o ser humano, através dos processos internos de re- ciência e religião [...].
flexão, formula juízos de valor. Estes exteriorizam nada mais
do que a opinião de seu emitente. Assim, a regra constitucio- Artigo XIX, DUDH
nal, ao consagrar a livre manifestação do pensamento, im-
prime a existência jurídica ao chamado direito de opinião”99. Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expres-
Em outras palavras, primeiro existe o direito de ter uma opi- são; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter
nião, depois o de expressá-la. opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e
ideias por quaisquer meios e independentemente de frontei-
No mais, surge como corolário do direito à liberdade de ras.
pensamento e de expressão o direito à escusa por convicção
filosófica ou política: Artigo 18, PIDCP
DIREITOS HUMANOS

Artigo 5º, VIII, CF. Ninguém será privado de direitos por 1) Toda pessoa terá direito à liberdade de pensamento, de
motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou po- consciência e de religião. [...]
lítica, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a
todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, Artigo 19, PIDCP

1) Ninguém poderá ser molestado por suas opiniões.


99 ARAÚJO, Luiz Alberto David; NUNES JÚNIOR, Vidal Ser-
rano. Curso de direito constitucional. 10. ed. São Paulo: Sa- Os mesmos documentos internacionais de direitos hu-
raiva, 2006.

42
manos consolidam, no mesmo sentido, o direito à liberdade 2) O exercício do direito previsto no inciso precedente não
de expressão: pode estar sujeito à censura prévia, mas a responsa-
bilidades ulteriores, que devem ser expressamente pre-
Artigo IV - Direito de liberdade de investigação, opinião, vistas em lei e que se façam necessárias para assegurar:
expressão e difusão, DADH
a) o respeito dos direitos e da reputação das demais pes-
Toda pessoa tem direito à liberdade de investigação, de soas;
opinião e de expressão e difusão do pensamento, por qualquer
meio. b) a proteção da segurança nacional, da ordem pública,
ou da saúde ou da moral públicas.
Artigo 12, CADH - Liberdade de consciência e de religião
3) Não se pode restringir o direito de expressão por vias e
1) Toda pessoa tem direito à liberdade de consciência e de meios indiretos, tais como o abuso de controles oficiais
religião. [...] ou particulares de papel de imprensa, de frequências
radioelétricas ou de equipamentos e aparelhos usados
Artigo 13, CADH - Liberdade de pensamento e de expres- na difusão de informação, nem por quaisquer outros
são meios destinados a obstar a comunicação e a circulação
de ideias e opiniões.
1. Toda pessoa tem o direito à liberdade de pensamento e
de expressão [...]. 4) A lei pode submeter os espetáculos públicos a censura
prévia, com o objetivo exclusivo de regular o acesso a
Artigo XIX, DUDH eles, para proteção moral da infância e da adolescência,
sem prejuízo do disposto no inciso 2.
Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expres-
são; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter 5) A lei deve proibir toda propaganda a favor da guerra,
opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e bem como toda apologia ao ódio nacional, racial ou
ideias por quaisquer meios e independentemente de fron- religioso que constitua incitamento à discriminação, à
teiras. hostilidade, ao crime ou à violência.

Artigo 19, PIDCP


Liberdade de crença/religiosa
2) Toda pessoa terá direito à liberdade de expressão; esse
direito incluirá a liberdade de procurar, receber e di- Dispõe o artigo 5º, VI, CF:
fundir informações e ideias de qualquer natureza,
independentemente de considerações de fronteiras, ver- Artigo 5º, VI, CF. É inviolável a liberdade de consciência e
balmente ou por escrito, em forma impressa ou artísti- de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos reli-
ca, ou qualquer outro meio de sua escolha.  giosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de
culto e a suas liturgias.
3) O exercício do direito previsto no §2º do presente artigo
implicará deveres e responsabilidades especiais. Cada pessoa tem liberdade para professar a sua fé como
bem entender dentro dos limites da lei. Não há uma crença
Consequentemente, poderá estar sujeito a certas restri- ou religião que seja proibida, garantindo-se que a profissão
ções, que devem, entretanto, ser expressamente previstas em desta fé possa se realizar em locais próprios.
lei e que se façam necessárias para: a) assegurar o respeito dos
direitos e da reputação das demais  pessoas; b) proteger a segu- Nota-se que a liberdade de religião engloba 3 tipos dis-
rança nacional, a ordem, a saúde ou a moral pública. tintos, porém intrinsecamente relacionados de liberdades:
a liberdade de crença; a liberdade de culto; e a liberdade de
Artigo IV - Direito de liberdade de investigação, opinião, organização religiosa.
expressão e difusão, DADH
Consoante o magistério de José Afonso da Silva100, entra
Toda pessoa tem direito à liberdade de investigação, de na liberdade de crença a liberdade de escolha da religião, a li-
opinião e de expressão e difusão do pensamento, por qual- berdade de aderir a qualquer seita religiosa, a liberdade (ou o
quer meio. direito) de mudar de religião, além da liberdade de não ade-
rir a religião alguma, assim como a liberdade de descrença,
Artigo 13 - Liberdade de pensamento e de expressão, a liberdade de ser ateu e de exprimir o agnosticismo, apenas
CADH excluída a liberdade de embaraçar o livre exercício de qual-
DIREITOS HUMANOS

quer religião, de qualquer crença. A liberdade de culto con-


1) Toda pessoa tem o direito à liberdade de pensamento e siste na liberdade de orar e de praticar os atos próprios das
de expressão. Esse direito inclui a liberdade de procurar, manifestações exteriores em casa ou em público, bem como
receber e difundir informações e ideias de qualquer na- a de recebimento de contribuições para tanto. Por fim, a li-
tureza, sem considerações de fronteiras, verbalmente ou berdade de organização religiosa refere-se à possibilidade de
por escrito, ou em forma impressa ou artística, ou por
qualquer meio de sua escolha.
100 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional
positivo. 25. ed. São Paulo: Malheiros, 2006.

43
estabelecimento e organização de igrejas e suas relações com moral dos filhos que esteja de acordo com suas próprias
o Estado. convicções.

Como decorrência do direito à liberdade religiosa, asse- Artigo III - Direito de liberdade religiosa e de culto,
gurando o seu exercício, destaca-se o artigo 5º, VII, CF: DADH

Artigo 5º, VII, CF. É assegurada, nos termos da lei, a presta- Toda a pessoa tem o direito de professar livremente uma
ção de assistência religiosa nas entidades civis e militares de crença religiosa e de manifestá-la e praticá-la pública e
internação coletiva. particularmente.

O dispositivo refere-se não só aos estabelecimentos pri- Artigo 12 - Liberdade de consciência e de religião, CADH
sionais civis e militares, mas também a hospitais.
1) Toda pessoa tem direito à liberdade de consciência e de
Ainda, surge como corolário do direito à liberdade reli- religião. Esse direito implica a liberdade de conservar
giosa o direito à escusa por convicção religiosa: sua religião ou suas crenças, ou de mudar de religião ou
de crenças, bem como a liberdade de professar e divul-
Artigo 5º, VIII, CF. Ninguém será privado de direitos por gar sua religião ou suas crenças, individual ou coletiva-
motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou po- mente, tanto em público como em privado.
lítica, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a
todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, 2) Ninguém pode ser submetido a medidas restritivas que
fixada em lei possam limitar sua liberdade de conservar sua religião
ou suas crenças, ou de mudar de religião ou de crenças.
Sempre que a lei impõe uma obrigação a todos, por exem-
plo, a todos os homens maiores de 18 anos o alistamento mi- 3) A liberdade de manifestar a própria religião e as pró-
litar, não cabe se escusar, a não ser que tenha fundado moti- prias crenças está sujeita apenas às limitações previstas
vo em crença religiosa ou convicção filosófica/política, caso em lei e que se façam necessárias para proteger a segu-
em que será obrigado a cumprir uma prestação alternativa, rança, a ordem, a saúde ou a moral públicas ou os direi-
isto é, uma outra atividade que não contrarie tais preceitos. tos e as liberdades das demais pessoas.

O direito é confirmado nos diversos documentos interna- 4) Os pais e, quando for o caso, os tutores, têm direito a que
cionais de direitos humanos: seus filhos e pupilos recebam a educação religiosa e mo-
ral que esteja de acordo com suas próprias convicções.
Artigo XVIII, DUDH

Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, cons- Liberdade de informação


ciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de
religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião O direito de acesso à informação também se liga a uma
ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela obser- dimensão do direito à liberdade. Neste sentido, prevê o artigo
vância, isolada ou coletivamente, em público ou em particu- 5º, XIV, CF:
lar.
Artigo 5º, XIV, CF. É assegurado a todos o acesso à infor-
Artigo 18, PIDCP mação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao
exercício profissional.
1) Toda pessoa terá direito à liberdade de pensamento, de
consciência e de religião. Esse direito implicará a li- Trata-se da liberdade de informação, consistente na liber-
berdade de ter ou adotar uma religião ou uma crença dade de procurar e receber informações e ideias por quais-
de sua escolha e a liberdade de professar sua religião quer meios, independente de fronteiras, sem interferência.
ou crença, individual ou coletivamente, tanto pública
como privadamente, por meio do culto, da celebração A liberdade de informação tem um caráter passivo, ao
de ritos, de práticas e do ensino. passo que a liberdade de expressão tem uma característica
ativa, de forma que juntas formam os aspectos ativo e passi-
2) Ninguém poderá ser submetido a medidas coercitivas vo da exteriorização da liberdade de pensamento: não basta
que possam restringir sua liberdade de ter ou de adotar poder manifestar o seu próprio pensamento, é preciso que
uma religião ou crença de sua escolha. ele seja ouvido e, para tanto, há necessidade de se garantir o
acesso ao pensamento manifestado para a sociedade.
3) A liberdade de manifestar a própria religião ou crença
DIREITOS HUMANOS

estará sujeita apenas a limitações previstas em lei e Por sua vez, o acesso à informação envolve o direito de
que se façam necessárias para proteger a segurança, a todos obterem informações claras, precisas e verdadeiras a
ordem, a saúde ou a moral públicas ou os direitos e as respeito de fatos que sejam de seu interesse, notadamente
liberdades das demais pessoas. pelos meios de comunicação imparciais e não monopoliza-
dos (artigo 220, CF). No entanto, nem sempre é possível que
4) Os Estados partes do presente Pacto comprometem-se a imprensa divulgue com quem obteve a informação divul-
a respeitar a liberdade dos pais - e, quando for o caso, gada, sem o que a segurança desta poderia ficar prejudicada
dos tutores legais - de assegurar a educação religiosa e e a informação inevitavelmente não chegaria ao público.

44
Especificadamente quanto à liberdade de informação no O direito é confirmado nos diversos documentos interna-
âmbito do Poder Público, merecem destaque algumas pre- cionais sobre direitos humanos:
visões.
Artigo XIX, DUDH
Primeiramente, prevê o artigo 5º, XXXIII, CF:
Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão;
Artigo 5º, XXXIII, CF. Todos têm direito a receber dos órgãos este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opi-
públicos informações de seu interesse particular, ou de inte- niões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias
resse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.
pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja
imprescindível à segurança da sociedade e do Estado. Artigo 19, PIDCP

A respeito, a Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011 re- 2) Toda pessoa terá direito à liberdade de expressão; esse
gula o acesso a informações previsto no inciso XXXIII do art. direito incluirá a liberdade de procurar, receber e di-
5º, CF, também conhecida como Lei do Acesso à Informação. fundir informações e ideias de qualquer natureza,
independentemente de considerações de fronteiras, ver-
Não obstante, estabelece o artigo 5º, XXXIV, CF: balmente ou por escrito, em forma impressa ou artísti-
ca, ou qualquer outro meio de sua escolha. 
Artigo 5º, XXXIV, CF. São a todos assegurados, independen-
temente do pagamento de taxas: 3) O exercício do direito previsto no §2º do presente artigo
implicará deveres e responsabilidades especiais. Con-
a) o direito de petição aos Poderes Públicos em defesa de sequentemente, poderá estar sujeito a certas restrições,
direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder; que devem, entretanto, ser expressamente previstas em
lei e que se façam necessárias para: a) assegurar o res-
b) a obtenção de certidões em repartições públicas, para peito dos direitos e da reputação das demais  pessoas;
defesa de direitos e esclarecimento de situações de inte- b) proteger a segurança nacional, a ordem, a saúde ou
resse pessoal. a moral pública.

Quanto ao direito de petição, de maneira prática, cumpre Artigo IV - Direito de liberdade de investigação, opinião,
observar que o direito de petição deve resultar em uma ma- expressão e difusão, DADH
nifestação do Estado, normalmente dirimindo (resolvendo)
uma questão proposta, em um verdadeiro exercício contínuo Toda pessoa tem direito à liberdade de investigação, de
de delimitação dos direitos e obrigações que regulam a vida opinião e de expressão e difusão do pensamento, por qualquer
social e, desta maneira, quando “dificulta a apreciação de um meio.
pedido que um cidadão quer apresentar” (muitas vezes, em-
baraçando-lhe o acesso à Justiça); “demora para responder Artigo 13 - Liberdade de pensamento e de expressão,
aos pedidos formulados” (administrativa e, principalmente, CADH
judicialmente) ou “impõe restrições e/ou condições para a
formulação de petição”, traz a chamada insegurança jurídica, 1) Toda pessoa tem o direito à liberdade de pensamento e
que traz desesperança e faz proliferar as desigualdades e as de expressão. Esse direito inclui a liberdade de procurar,
injustiças. receber e difundir informações e ideias de qualquer
natureza, sem considerações de fronteiras, verbalmente
Dentro do espectro do direito de petição se insere, por ou por escrito, ou em forma impressa ou artística, ou
exemplo, o direito de solicitar esclarecimentos, de solicitar por qualquer meio de sua escolha.
cópias reprográficas e certidões, bem como de ofertar de-
núncias de irregularidades. Contudo, o constituinte, talvez 2) O exercício do direito previsto no inciso precedente não
na intenção de deixar clara a obrigação dos Poderes Públicos pode estar sujeito à censura prévia, mas a responsa-
em fornecer certidões, trouxe a letra b) do inciso, o que gera bilidades ulteriores, que devem ser expressamente pre-
confusões conceituais no sentido do direito de obter certi- vistas em lei e que se façam necessárias para assegurar:
dões ser dissociado do direito de petição.
a) o respeito dos direitos e da reputação das demais pes-
Por fim, relevante destacar a previsão do artigo 5º, LX, CF: soas;

Artigo 5º, LX, CF. A lei só poderá restringir a publicidade b) a proteção da segurança nacional, da ordem pública, ou
dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o in- da saúde ou da moral públicas. [...]
teresse social o exigirem.
DIREITOS HUMANOS

Logo, o processo, em regra, não será sigiloso. Apenas o Liberdade de locomoção


será quando a intimidade merecer preservação (ex.: processo
criminal de estupro ou causas de família em geral) ou quan- Outra faceta do direito à liberdade encontra-se no artigo
do o interesse social exigir (ex.: investigações que possam ser 5º, XV, CF:
comprometidas pela publicidade). A publicidade é instru-
mento para a efetivação da liberdade de informação. Artigo 5º, XV, CF. É livre a locomoção no território nacio-
nal em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos

45
da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens. Artigo 22 - Direito de circulação e de residência, CADH

A liberdade de locomoção é um aspecto básico do direito 1) Toda pessoa que se encontre legalmente no território de
à liberdade, permitindo à pessoa ir e vir em todo o território um Estado tem o direito de nele livremente circular e
do país em tempos de paz (em tempos de guerra é possível de nele residir, em conformidade com as disposições
limitar tal liberdade em prol da segurança). A liberdade de legais.
sair do país não significa que existe um direito de ingressar
em qualquer outro país, pois caberá à ele, no exercício de sua 2) Toda pessoa terá o direito de sair livremente de qual-
soberania, controlar tal entrada. quer país, inclusive de seu próprio país.

Classicamente, a prisão é a forma de restrição da liberda- 3) O exercício dos direitos supracitados não pode ser res-
de. Neste sentido, uma pessoa somente poderá ser presa nos tringido, senão em virtude de lei, na medida indispen-
casos autorizados pela própria Constituição Federal. A des- sável, em uma sociedade democrática, para prevenir in-
peito da normativa específica de natureza penal, reforça-se frações penais ou para proteger a segurança nacional,
a impossibilidade de se restringir a liberdade de locomoção a segurança ou a ordem públicas, a moral ou a saúde
pela prisão civil por dívida. públicas, ou os direitos e liberdades das demais pessoas.

Prevê o artigo 5º, LXVII, CF: 4) O exercício dos direitos reconhecidos no inciso 1 pode
também ser restringido pela lei, em zonas determina-
Artigo 5º, LXVII, CF. Não haverá prisão civil por dívida, das, por motivo de interesse público.
salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e
inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel. 5) Ninguém pode ser expulso do território do Estado do
qual for nacional e nem ser privado do direito de nele
Nos termos da Súmula Vinculante nº 25 do Supremo Tri- entrar.
bunal Federal, “é ilícita a prisão civil de depositário infiel,
qualquer que seja a modalidade do depósito”. Por isso, a úni- 6) O estrangeiro que se encontre legalmente no território
ca exceção à regra da prisão por dívida do ordenamento é a de um Estado-parte na presente Convenção só poderá
que se refere à obrigação alimentícia. dele ser expulso em decorrência de decisão adotada
em conformidade com a lei. [...]
Eis a disciplina no direito internacional dos direitos hu-
manos:
Liberdade de trabalho
Artigo XIII, DUDH
O direito à liberdade também é mencionado no artigo 5º,
1) Toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção e re- XIII, CF:
sidência dentro das fronteiras de cada Estado.
Artigo 5º, XIII, CF. É livre o exercício de qualquer traba-
2) Toda pessoa tem o direito de deixar qualquer país, in- lho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissio-
clusive o próprio, e a este regressar. nais que a lei estabelecer.

Artigo 12, PIDCP O livre exercício profissional é garantido, respeitados


os limites legais. Por exemplo, não pode exercer a profissão
1) Toda pessoa que se ache legalmente no território de um de advogado aquele que não se formou em Direito e não
Estado terá o direito de nele livremente circular e esco- foi aprovado no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil;
lher sua residência. não pode exercer a medicina aquele que não fez faculdade
de medicina reconhecida pelo MEC e obteve o cadastro no
2) Toda pessoa terá o direito de sair livremente de qual- Conselho Regional de Medicina.
quer país, inclusive de seu próprio país.
A disciplina no direito internacional dos direitos huma-
3) Os direitos supracitados não poderão constituir objeto nos se concentra, por sua vez, na proibição à servidão e à
de restrição, a menos que estejam previstas em lei e no escravidão:
intuito de proteger a segurança nacional e a ordem, a
saúde ou a moral pública, bem como os direitos e li- Artigo IV, DUDH
berdades das demais pessoas, e que sejam compatíveis
com os outros direitos reconhecidos no presente pacto. Ninguém será mantido em escravidão ou servidão, a es-
cravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as
DIREITOS HUMANOS

4) Ninguém poderá ser privado do direito de entrar em seu suas formas.


próprio país.
Artigo 8º, PIDCP
  Artigo VIII - Direito de residência e trânsito, DADH
1) Ninguém poderá ser submetido à escravidão; a escra-
Toda pessoa tem direito de fixar sua residência no terri- vidão e o tráfico de escravos, em todas as suas formas,
tório do Estado de que é nacional, de transitar por ele livre- ficam proibidos.
mente e de não abandoná-lo senão por sua própria vontade.

46
2) Ninguém poderá ser submetido à servidão. Liberdade de reunião
3) a) Ninguém poderá ser obrigado a executar trabalhos Sobre a liberdade de reunião, prevê o artigo 5º, XVI, CF:
forçados ou obrigatórios; b) A alínea “a” do presente
parágrafo não poderá ser interpretada no sentido de Artigo 5º, XVI, CF. Todos podem reunir-se pacificamen-
proibir, nos países em que certos crimes sejam punidos te, sem armas, em locais abertos ao público, independente-
com prisão e trabalhos forçados, o cumprimento de mente de autorização, desde que não frustrem outra reunião
penas de trabalhos forçados, imposta por um tribunal anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas
competente; c) Para os efeitos do presente parágrafo, exigido prévio aviso à autoridade competente.
não serão considerados “trabalhos forçados ou obri-
gatórios”: i) qualquer trabalho ou serviço, não previsto Pessoas podem ir às ruas para reunirem-se com demais
na alínea “b”, normalmente exigido de um indivíduo na defesa de uma causa, apenas possuindo o dever de infor-
que tenha sido encerrado em cumprimento de decisão mar tal reunião. Tal dever remonta-se a questões de segu-
judicial ou que, tendo sido objeto de tal decisão, ache-se rança coletiva. Imagine uma grande reunião de pessoas por
em liberdade condicional; ii) qualquer serviço de cará- uma causa, a exemplo da Parada Gay, que chega a aglomerar
ter militar e, nos países em que se admite a isenção por milhões de pessoas em algumas capitais: seria absurdo tole-
motivo de consciência, qualquer serviço nacional que rar tal tipo de reunião sem o prévio aviso do poder público
a lei venha a exigir daqueles que se oponha ao serviço para que ele organize o policiamento e a assistência médica,
militar por motivo de consciência; iii) qualquer serviço evitando algazarras e socorrendo pessoas que tenham algum
exigido em casos de emergência ou de calamidade que mal-estar no local. Outro limite é o uso de armas, totalmen-
ameacem o bem-estar da comunidade; iv) qualquer te vedado, assim como de substâncias ilícitas (Ex: embora
trabalho ou serviço que faça parte das obrigações cívi- a Marcha da Maconha tenha sido autorizada pelo Supremo
cas normais. Tribunal Federal, vedou-se que nela tal substância ilícita fos-
se utilizada).
Artigo 6º - Proibição da escravidão e da servidão, CADH

1) Ninguém poderá ser submetido a escravidão ou servi- Liberdade de associação


dão e tanto estas como o tráfico de escravos e o tráfico
de mulheres são proibidos em todas as suas formas. No que tange à liberdade de reunião, traz o artigo 5º, XVII,
CF:
2) Ninguém deve ser constrangido a executar trabalho
forçado ou obrigatório. Nos países em que se prescreve, Artigo 5º, XVII, CF. É plena a liberdade de associação para
para certos delitos, pena privativa de liberdade acom- fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar.
panhada de trabalhos forçados, esta disposição não
pode ser interpretada no sentido de proibir o cumpri- A liberdade de associação difere-se da de reunião por sua
mento da dita pena, imposta por um juiz ou tribunal perenidade, isto é, enquanto a liberdade de reunião é exerci-
competente. O trabalho forçado não deve afetar a dig- da de forma sazonal, eventual, a liberdade de associação im-
nidade, nem a capacidade física e intelectual do reclu- plica na formação de um grupo organizado que se mantém
so. por um período de tempo considerável, dotado de estrutura
e organização próprias.
3) Não constituem trabalhos forçados ou obrigatórios
para os efeitos deste artigo: Por exemplo, o PCC e o Comando vermelho são associa-
ções ilícitas e de caráter paramilitar, pois possuem armas e o
a) os trabalhos ou serviços normalmente exigidos de pes- ideal de realizar sua própria justiça paralelamente à estatal.
soa reclusa em cumprimento de sentença ou resolução
formal expedida pela autoridade judiciária competen- O texto constitucional se estende na regulamentação da
te. Tais trabalhos ou serviços devem ser executados sob liberdade de associação.
a vigilância e controle das autoridades públicas, e os
indivíduos que os executarem não devem ser postos à O artigo 5º, XVIII, CF, preconiza:
disposição de particulares, companhias ou pessoas ju-
rídicas de caráter privado; Artigo 5º, XVIII, CF. A criação de associações e, na forma
da lei, a de cooperativas independem de autorização, sendo
b) serviço militar e, nos países em que se admite a isenção vedada a interferência estatal em seu funcionamento.
por motivo de consciência, qualquer serviço nacional
que a lei estabelecer em lugar daquele; Neste sentido, associações são organizações resultantes
da reunião legal entre duas ou mais pessoas, com ou sem
DIREITOS HUMANOS

c) o serviço exigido em casos de perigo ou de calamidade personalidade jurídica, para a realização de um objetivo co-
que ameacem a existência ou o bem-estar da comuni- mum; já cooperativas são uma forma específica de associa-
dade; ção, pois visam a obtenção de vantagens comuns em suas
atividades econômicas.
d) o trabalho ou serviço que faça parte das obrigações cí-
vicas normais. Ainda, tem-se o artigo 5º, XIX, CF:

Artigo 5º, XIX, CF. As associações só poderão ser compul-

47
soriamente dissolvidas ou ter suas atividades suspensas por que Estados Partes da Convenção de 1948 da Orga-
decisão judicial, exigindo-se, no primeiro caso, o trânsito em nização do Trabalho, relativa à liberdade sindical e à
julgado. proteção do direito sindical, venham a adotar medidas
legislativas que restrinjam - ou aplicar a lei de maneira
O primeiro caso é o de dissolução compulsória, ou seja, a restringir - as garantias previstas na referida Conven-
a associação deixará de existir para sempre. Obviamente, é ção.
preciso o trânsito em julgado da decisão judicial que assim
determine, pois antes disso sempre há possibilidade de re- Artigo 8º, PIDESC
verter a decisão e permitir que a associação continue em
funcionamento. Contudo, a decisão judicial pode suspender 1) Os Estados Partes do presente pacto comprometem-se
atividades até que o trânsito em julgado ocorra, ou seja, no a garantir:
curso de um processo judicial.
a) o direito de toda pessoa de fundar com outras sindica-
Em destaque, a legitimidade representativa da associação tos e de filiar-se ao sindicato de sua escolha, sujeitan-
quanto aos seus filiados, conforme artigo 5º, XXI, CF: do-se unicamente aos organização interessada, com o
objetivo de promover e de proteger seus interesses eco-
Artigo 5º, XXI, CF. As entidades associativas, quando ex- nômicos e sociais. O exercício desse direito só poderá ser
pressamente autorizadas, têm legitimidade para representar objeto das restrições previstas em lei e que sejam neces-
seus filiados judicial ou extrajudicialmente. sárias, em uma sociedade democrática, no interesse da
segurança nacional ou da ordem pública, ou para pro-
Trata-se de caso de legitimidade processual extraordiná- teger os direitos e as liberdades alheias;
ria, pela qual um ente vai a juízo defender interesse de ou-
tra(s) pessoa(s) porque a lei assim autoriza. b) o direito dos sindicatos de formar federações ou con-
federações nacionais e o direito desta de formar or-
A liberdade de associação envolve não somente o direito ganizações sindicais internacionais ou de filiar-se às
de criar associações e de fazer parte delas, mas também o de mesmas;
não associar-se e o de deixar a associação, conforme artigo
5º, XX, CF: c) o direito dos sindicatos de exercer livremente suas ati-
vidades, sem quaisquer limitações além daquelas pre-
Artigo 5º, XX, CF. Ninguém poderá ser compelido a asso- vistas em lei e que sejam necessárias, em uma sociedade
ciar-se ou a permanecer associado. democrática, no interesse da segurança nacional ou da
ordem pública, ou para proteger os direitos e as liberda-
Sobre os direitos à reunião e à associação, o direito inter- des das demais pessoas;
nacional dos direitos humanos prevê:
d) o direito de greve, exercido de conformidade com as leis
Artigo XXIII, DUDH de cada país.

4) Toda pessoa tem direito a organizar sindicatos e neles 2) O presente artigo não impedirá que se submeta a res-
ingressar para proteção de seus interesses. trições legais o exercício desses direitos pelos membros
das forças armadas, da política ou da administração
Artigo XX, DUDH pública.

1) Toda pessoa tem direito à liberdade de reunião e asso- 3) Nenhuma das disposições do presente artigo permitirá
ciação pacíficas. que os Estados Partes da Convenção de 1948 da Orga-
nização Internacional do Trabalho, relativa à liber-
2) Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma as- dade sindical e à proteção do direito sindical, venha a
sociação. adotar medidas legislativas que restrinjam - ou a apli-
car a lei de maneira a restringir - as garantias previstas
Artigo 22, PIDCP na referida Convenção.

1) Toda pessoa terá o direito de associar-se livremente a Artigo XXII - Direito de associação, DADH
outras, inclusive o direito de construir sindicatos e de a
eles filiar-se, para a proteção de seus interesses. Toda pessoa tem o direito de se associar com outras a fim
de promover, exercer e proteger os seus interesses legítimos,
2) O exercício desse direito estará sujeito apenas às res- de ordem política, econômica, religiosa, social, cultural, pro-
trições previstas em lei e que se façam necessárias, em fissional, sindical ou de qualquer outra natureza.
DIREITOS HUMANOS

um sociedade democrática, no interesse da segurança


nacional, da segurança e da ordem públicas, ou para Artigo 16 - Liberdade de associação, CADH
proteger a saúde ou a moral públicas ou os direitos a li-
berdades das demais pessoas. O presente artigo não im- 1) Todas as pessoas têm o direito de associar-se livremen-
pedirá que se submeta a restrições legais o exercício des- te com fins ideológicos, religiosos, políticos, econômicos,
se direito por membros das forças armadas e da polícia. trabalhistas, sociais, culturais, desportivos ou de qual-
quer outra natureza.
3) Nenhuma das disposições do presente artigo permitirá

48
2) O exercício desse direito só pode estar sujeito às res- A união da intimidade e da vida privada forma a privaci-
trições previstas em lei e que se façam necessárias, em dade, sendo que a primeira se localiza em esfera mais estrita.
uma sociedade democrática, ao interesse da segurança É possível ilustrar a vida social como se fosse um grande cír-
nacional, da segurança e da ordem públicas, ou para culo no qual há um menor, o da vida privada, e dentro deste
proteger a saúde ou a moral públicas ou os direitos e as um ainda mais restrito e impenetrável, o da intimidade. Com
liberdades das demais pessoas. efeito, pela “Teoria das Esferas” (ou “Teoria dos Círculos Con-
cêntricos”), importada do direito alemão, quanto mais próxi-
3) O presente artigo não impede a imposição de restrições ma do indivíduo, maior a proteção a ser conferida à esfera (as
legais, e mesmo a privação do exercício do direito de as- esferas são representadas pela intimidade, pela vida privada,
sociação, aos membros das forças armadas e da polí- e pela publicidade).
cia.
“O direito à honra distancia-se levemente dos dois ante-
Artigo 8º - Direitos sindicais, PCADH riores, podendo referir-se ao juízo positivo que a pessoa tem
de si (honra subjetiva) e ao juízo positivo que dela fazem os
 1) Os Estados Partes garantirão: outros (honra objetiva), conferindo-lhe respeitabilidade no
meio social. O direito à imagem também possui duas conota-
a)  O direito dos trabalhadores de organizar sindicatos e de ções, podendo ser entendido em sentido objetivo, com rela-
filiarse ao de sua escolha, para proteger e promover seus ção à reprodução gráfica da pessoa, por meio de fotografias,
interesses. Como projeção desse direito, os Estados Par- filmagens, desenhos, ou em sentido subjetivo, significando o
tes permitirão aos sindicatos formar federações e con- conjunto de qualidades cultivadas pela pessoa e reconheci-
federações nacionais e associarse às já existentes, bem das como suas pelo grupo social”102.
como formar organizações sindicais internacionais e
associarse à de sua escolha. Os Estados Partes também O direito internacional dos direitos humanos assegura a
permitirão que os sindicatos, federações e confederações proteção destes bens jurídicos:
funcionem livremente;
Artigo XII, DUDH
b)  O direito de greve.
Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada,
2)  O exercício dos direitos enunciados acima só pode estar na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a
sujeito às limitações e restrições previstas pela lei que ataques à sua honra e reputação. [...]
sejam próprias a uma sociedade democrática e neces-
sárias para salvaguardar a ordem pública e proteger a Artigo 17, PIDCP
saúde ou a moral pública, e os direitos ou liberdades dos
demais. Os membros das forças armadas e da polícia, 1) Ninguém poderá ser objeto de ingerência arbitrárias
bem como de outros serviços públicos essenciais, esta- ou ilegais em sua vida privada, em sua família, em seu
rão sujeitos às limitações e restrições impostas pela lei. domicílio ou em sua correspondência, nem de ofensas
ilegais às suas honra e reputação.
3)  Ninguém poderá ser obrigado a pertencer a um sindi-
cato. Artigo 24, PIDCP

2) Toda criança deverá ser registrada imediatamente após


Direitos à privacidade e à personalidade seu nascimento e deverá receber um nome. [...]

Abrangência Artigo V - Direito à proteção da honra, da reputação pes-


soal e da vida particular e familiar, DADH
Prevê o artigo 5º, X, CF:
Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra os ataques
Artigo 5º, X, CF. São invioláveis a intimidade, a vida pri- abusivos à sua honra, à sua reputação e à sua vida particular
vada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a e familiar.
indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua
violação. Artigo 11, CADH - Proteção da honra e da dignidade

O legislador opta por trazer correlacionados no mesmo 1) Toda pessoa tem direito ao respeito da sua honra e ao
dispositivo legal os direitos à privacidade e à personalidade. reconhecimento de sua dignidade.

Reforçando a conexão entre a privacidade e a intimidade, 2) Ninguém pode ser objeto de ingerências arbitrárias ou
DIREITOS HUMANOS

ao abordar a proteção da vida privada – que, em resumo, é abusivas em sua vida privada, em sua família, em seu
a privacidade da vida pessoal no âmbito do domicílio e de domicílio ou em sua correspondência, nem de ofensas
círculos de amigos –, Silva101 entende que “o segredo da vida ilegais à sua honra ou reputação.
privada é condição de expansão da personalidade”, mas não
caracteriza os direitos de personalidade em si. Artigo 18 - Direito ao nome, CADH

101 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional 102 MOTTA, Sylvio; BARCHET, Gustavo. Curso de direito
positivo. 25. ed. São Paulo: Malheiros, 2006. constitucional. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

49
Toda pessoa tem direito a um prenome e aos nomes de Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra os ataques
seus pais ou ao de um destes. A lei deve regular a forma de abusivos à sua honra, à sua reputação e à sua vida particular
assegurar a todos esse direito, mediante nomes fictícios, se for e familiar.
necessário.
Artigo IX - Direito à inviolabilidade do domicílio, DADH

Inviolabilidade de domicílio e sigilo de correspon- Toda pessoa tem direito à inviolabilidade do seu domi-
dência cílio.

Correlatos ao direito à privacidade, aparecem a inviola- Artigo X - Direito à inviolabilidade de correspondência,


bilidade do domicílio e o sigilo das correspondências e co- DADH
municações.
 Toda pessoa tem o direito à inviolabilidade e circulação
Neste sentido, o artigo 5º, XI, CF prevê: da sua correspondência.

Artigo 5º, XI, CF. A casa é asilo inviolável do indivíduo, Artigo 11 - Proteção da honra e da dignidade, CADH
ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do mo-
rador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para 1) Toda pessoa tem direito ao respeito da sua honra e ao
prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial. reconhecimento de sua dignidade.

O domicílio é inviolável, razão pela qual ninguém pode 2) Ninguém pode ser objeto de ingerências arbitrárias ou
nele entrar sem o consentimento do morador, a não ser EM abusivas em sua vida privada, em sua família, em seu
QUALQUER HORÁRIO no caso de flagrante delito (o mora- domicílio ou em sua correspondência, nem de ofensas
dor foi flagrado na prática de crime e fugiu para seu domi- ilegais à sua honra ou reputação.
cílio) ou desastre (incêndio, enchente, terremoto...) ou para
prestar socorro (morador teve ataque do coração, está sufo- 3) Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais in-
cado, desmaiado...), e SOMENTE DURANTE O DIA por de- gerências ou tais ofensas.
terminação judicial.

Quanto ao sigilo de correspondência e das comunica- Personalidade jurídica e gratuidade de registro


ções, prevê o artigo 5º, XII, CF:
Quando se fala em reconhecimento como pessoa perante
Artigo 5º, XII, CF. É inviolável o sigilo da correspondência a lei desdobra-se uma esfera bastante específica dos direitos
e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações de personalidade, consistente na personalidade jurídica. Ba-
telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hi- sicamente, consiste no direito de ser reconhecido como pes-
póteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investiga- soa perante a lei.
ção criminal ou instrução processual penal.
Para ser visto como pessoa perante a lei mostra-se neces-
O sigilo de correspondência e das comunicações está me- sário o registro. Por ser instrumento que serve como pres-
lhor regulamentado na Lei nº 9.296, de 1996. suposto ao exercício de direitos fundamentais, assegura-se
a sua gratuidade aos que não tiverem condição de com ele
A respeito do tema direito à privacidade, é a disciplina in- arcar.
ternacional:
Aborda o artigo 5º, LXXVI, CF:
Artigo XII, DUDH
Artigo 5º, LXXVI, CF. São gratuitos para os reconhecida-
Ninguém será sujeito a interferências na sua vida priva- mente pobres, na forma da lei: a) o registro civil de nascimen-
da, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, to; b) a certidão de óbito.
nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem di-
reito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques. O reconhecimento do marco inicial e do marco final da
personalidade jurídica pelo registro é direito individual, não
Artigo 17, PIDCP dependendo de condições financeiras. Evidente, seria absur-
do cobrar de uma pessoa sem condições a elaboração de do-
1) Ninguém poderá ser objeto de ingerência arbitrárias cumentos para que ela seja reconhecida como viva ou morta,
ou ilegais em sua vida privada, em sua família, em seu o que apenas incentivaria a indigência dos menos favoreci-
domicílio ou em sua correspondência, nem de ofensas dos.
DIREITOS HUMANOS

ilegais às suas honra e reputação.

2) Toda pessoa terá direito à proteção da lei contra essas Direito à indenização e direito de resposta
ingerências ou ofensas.
Com vistas à proteção do direito à privacidade, do direi-
Artigo V - Direito à proteção da honra, da reputação pes- to à personalidade e do direito à imagem, asseguram-se dois
soal e da vida particular e familiar, DADH instrumentos, o direito à indenização e o direito de resposta,
conforme as necessidades do caso concreto.

50
Com efeito, prevê o artigo 5º, V, CF: Civil:

Artigo 5º, V, CF. É assegurado o direito de resposta, propor- Artigo 20, CC. Salvo se autorizadas, ou se necessárias à ad-
cional ao agravo, além da indenização por dano material, ministração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a
moral ou à imagem. divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publi-
cação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa
“A manifestação do pensamento é livre e garantida em ní- poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da
vel constitucional, não aludindo a censura prévia em diver- indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama
sões e espetáculos públicos. Os abusos porventura ocorridos ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais.
no exercício indevido da manifestação do pensamento são
passíveis de exame e apreciação pelo Poder Judiciário com a
consequente responsabilidade civil e penal de seus autores, Direito à segurança
decorrentes inclusive de publicações injuriosas na imprensa,
que deve exercer vigilância e controle da matéria que divul- O caput do artigo 5º da Constituição assegura a proteção
ga”103. do direito à segurança. Na qualidade de direito individual
liga-se à segurança do indivíduo como um todo, desde sua
O direito de resposta é o direito que uma pessoa tem de se integridade física e mental, até a própria segurança jurídica.
defender de críticas públicas no mesmo meio em que foram
publicadas garantida exatamente a mesma repercussão. No sentido aqui estudado, o direito à segurança pessoal
Mesmo quando for garantido o direito de resposta não é o direito de viver sem medo, protegido pela solidariedade
é possível reverter plenamente os danos causados pela e liberto de agressões, logo, é uma maneira de garantir o di-
manifestação ilícita de pensamento, razão pela qual a pessoa reito à vida.
inda fará jus à indenização.
Nesta linha, para Silva105, “efetivamente, esse conjunto
A manifestação ilícita do pensamento geralmente causa de direitos aparelha situações, proibições, limitações e pro-
um dano, ou seja, um prejuízo sofrido pelo agente, que pode cedimentos destinados a assegurar o exercício e o gozo de
ser individual ou coletivo, moral ou material, econômico e algum direito individual fundamental (intimidade, liberdade
não econômico. pessoal ou a incolumidade física ou moral)”.

Dano material é aquele que atinge o patrimônio Especificamente no que tange à segurança jurídica, tem-
(material ou imaterial) da vítima, podendo ser mensurado -se o disposto no artigo 5º, XXXVI, CF:
financeiramente e indenizado.
Artigo 5º, XXXVI, CF. A lei não prejudicará o direito adqui-
“Dano moral direto consiste na lesão a um interesse que rido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada.
visa a satisfação ou gozo de um bem jurídico extrapatrimo-
nial contido nos direitos da personalidade (como a vida, a Pelo inciso restam estabelecidos limites à retroatividade
integridade corporal, a liberdade, a honra, o decoro, a inti- da lei.
midade, os sentimentos afetivos, a própria imagem) ou nos
atributos da pessoa (como o nome, a capacidade, o estado Define o artigo 6º da Lei de Introdução às Normas do Di-
de família)”104. reito Brasileiro:

Independentemente do dano indenizável, a Convenção Artigo 6º, LINDB. A Lei em vigor terá efeito imediato e ge-
Americana sobre Direitos Humanos, em seu artigo 14, esta- ral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a
belece o principal viés da proteção legal contra violações de coisa julgada.
direitos de personalidade, qual seja, o direito de resposta. A
finalidade do direito de resposta ou de retificação é a de con- § 1º Reputa-se ato jurídico perfeito o já consumado
ferir à pessoa lesada um modo de fazer com que o aspecto segundo a lei vigente ao tempo em que se efetuou.
de sua personalidade que foi violado - geralmente a honra -
volte ao status quo ante, isto é, retorne à percepção que tinha § 2º Consideram-se adquiridos assim os direitos que o
anteriormente à violação. Para tanto, garante-se o direito de seu titular, ou alguém por ele, possa exercer, como
resposta pelo mesmo órgão de difusão da ofensa, nos mes- aqueles cujo começo do exercício tenha termo pré-
mos moldes desta quanto a aspectos como tiragem e horá- fixo, ou condição pré-estabelecida inalterável, a
rio, de forma a garantir a mesma ou a mais próxima possível arbítrio de outrem.
repercussão da correção em comparação ao ato de violação.
Bem se sabe que isto não basta para eliminar todas as seque- § 3º Chama-se coisa julgada ou caso julgado a decisão
las da violação, razão pela qual se destaca a não exclusão do judicial de que já não caiba recurso.
DIREITOS HUMANOS

dano indenizável.
As menções a este direito no âmbito internacional são
Já o dano à imagem é delimitado no artigo 20 do Código bastante genéricas, embora reincidentes. Tanto o artigo III da
Declaração Universal dos Direitos Humanos, quanto o art. 9º
103 BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. 26. do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o art.
ed. São Paulo: Malheiros, 2011.
104 ZANNONI, Eduardo. El daño en la responsabilidad civil. 105 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional
Buenos Aires: Astrea, 1982. positivo... Op. Cit., p. 437.

51
7º da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, men- Artigo 186, CF. A função social é cumprida quando a pro-
cionam o direito à segurança pessoal, sem muito delimitá-lo. priedade rural atende, simultaneamente, segundo critérios e
graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requi-
sitos:
Direito à propriedade
I - aproveitamento racional e adequado;
O caput do artigo 5º da Constituição assegura a proteção
do direito à propriedade, tanto material quanto intelectual, II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis
delimitada em alguns incisos que o seguem. e preservação do meio ambiente;

III - observância das disposições que regulam as relações


Função social da propriedade material de trabalho;

O artigo 5º, XXII, CF estabelece: IV - exploração que favoreça o bem-estar dos proprietá-
rios e dos trabalhadores.
Artigo 5º, XXII, CF. É garantido o direito de propriedade.
A disciplina do direito internacional dos direitos huma-
A seguir, no inciso XXIII do artigo 5º, CF estabelece o nos assegura o direito à propriedade e permite que se vincule
principal fator limitador deste direito: tal direito ao respeito à utilidade pública e ao interesse social:

Artigo 5º, XXIII, CF. A propriedade atenderá a sua função Artigo XVII, DUDH
social.
1) Toda pessoa tem direito à propriedade, só ou em socie-
A propriedade, segundo Silva106, “[...] não pode mais ser dade com outros.
considerada como um direito individual nem como institui-
ção do direito privado. [...] embora prevista entre os direitos 2) Ninguém será arbitrariamente privado de sua proprie-
individuais, ela não mais poderá ser considerada puro direi- dade.
to individual, relativizando-se seu conceito e significado, es-
pecialmente porque os princípios da ordem econômica são Artigo XXIII - Direito de propriedade, DADH
preordenados à vista da realização de seu fim: assegurar a to-
dos existência digna, conforme os ditames da justiça social. Toda pessoa tem direito à propriedade particular corres-
Se é assim, então a propriedade privada, que, ademais, tem pondente às necessidades essenciais de uma vida decente, e
que atender a sua função social, fica vinculada à consecução que contribua a manter a dignidade da pessoa e do lar.
daquele princípio”.
Artigo 21 - Direito à propriedade privada, CADH
Com efeito, a proteção da propriedade privada está limi-
tada ao atendimento de sua função social, sendo este o re- 1) Toda pessoa tem direito ao uso e gozo de seus bens. A lei
quisito que a correlaciona com a proteção da dignidade da pode subordinar esse uso e gozo ao interesse social.
pessoa humana. A propriedade de bens e valores em geral é
um direito assegurado na Constituição Federal e, como todos 2) Nenhuma pessoa pode ser privada de seus bens, salvo
os outros, se encontra limitado pelos demais princípios con- mediante o pagamento de indenização justa, por mo-
forme melhor se atenda à dignidade do ser humano. tivo de utilidade pública ou de interesse social e nos
casos e na forma estabelecidos pela lei.
A Constituição Federal delimita o que se entende por fun-
ção social: 3) Tanto a usura, como qualquer outra forma de explora-
ção do homem pelo homem, devem ser reprimidas pela
Art. 182, caput, CF. A política de desenvolvimento urbano, lei.
executada pelo Poder Público municipal, conforme diretrizes
gerais fixadas em lei, tem por objetivo ordenar o pleno desen-
volvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-es- Uso temporário
tar de seus habitantes.
No mais, estabelece-se uma terceira limitação ao direito
Artigo 182, § 1º, CF. O plano diretor, aprovado pela Câma- de propriedade que não possui o caráter definitivo da desa-
ra Municipal, obrigatório para cidades com mais de vinte mil propriação, mas é temporária, conforme artigo 5º, XXV, CF:
habitantes, é o instrumento básico da política de desenvolvi-
mento e de expansão urbana. Artigo 5º, XXV, CF. No caso de iminente perigo público, a
DIREITOS HUMANOS

autoridade competente poderá usar de propriedade particu-


Artigo 182, § 2º, CF. A propriedade urbana cumpre sua fun- lar, assegurada ao proprietário indenização ulterior, se hou-
ção social quando atende às exigências fundamentais de orde- ver dano.
nação da cidade expressas no plano diretor107.

106 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional


positivo. 25. ed. São Paulo: Malheiros, 2006. municipal para a implantação da política de desenvolvimen-
to urbano, norteando a ação dos agentes públicos e privados
107 Instrumento básico de um processo de planejamento (Lei n. 10.257/2001 - Estatuto da cidade).

52
Se uma pessoa tem uma propriedade, numa situação de Propriedade intelectual
perigo, o poder público pode se utilizar dela (ex: montar uma
base para capturar um fugitivo), pois o interesse da coletivi- Além da propriedade material, o constituinte protege
dade é maior que o do indivíduo proprietário. também a propriedade intelectual, notadamente no artigo
5º, XXVII, XXVIII e XXIX, CF:

Direito sucessório Artigo 5º, XXVII, CF. Aos autores pertence o direito exclusi-
vo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras,
O direito sucessório aparece como uma faceta do direito transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar;
à propriedade, encontrando disciplina constitucional no ar-
tigo 5º, XXX e XXXI, CF: Artigo 5º, XXVIII, CF. São assegurados, nos termos da lei:

Artigo 5º, XXX, CF. É garantido o direito de herança; a) a proteção às participações individuais em obras co-
letivas e à reprodução da imagem e voz humanas, in-
Artigo 5º, XXXI, CF. A sucessão de bens de estrangeiros si- clusive nas atividades desportivas;
tuados no País será regulada pela lei brasileira em benefício
do cônjuge ou dos filhos brasileiros, sempre que não lhes seja b) o direito de fiscalização do aproveitamento econômi-
mais favorável a lei pessoal do de cujus. co das obras que criarem ou de que participarem aos
criadores, aos intérpretes e às respectivas representações
O direito à herança envolve o direito de receber – seja de- sindicais e associativas;
vido a uma previsão legal, seja por testamento – bens de uma
pessoa que faleceu. Assim, o patrimônio passa para outra Artigo 5º, XXIX, CF. A lei assegurará aos autores de inventos
pessoa, conforme a vontade do falecido e/ou a lei determi- industriais privilégio temporário para sua utilização, bem
ne. A Constituição estabelece uma disciplina específica para como proteção às criações industriais, à propriedade das mar-
bens de estrangeiros situados no Brasil, assegurando que cas, aos nomes de empresas e a outros signos distintivos, tendo
eles sejam repassados ao cônjuge e filhos brasileiros nos ter- em vista o interesse social e o desenvolvimento tecnológico e
mos da lei mais benéfica (do Brasil ou do país estrangeiro). econômico do País.

Assim, a propriedade possui uma vertente intelectual que


Direito do consumidor deve ser respeitada, tanto sob o aspecto moral quanto sob o
patrimonial. No âmbito infraconstitucional brasileiro, a Lei
Nos termos do artigo 5º, XXXII, CF: nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, regulamenta os direitos
autorais, isto é, “os direitos de autor e os que lhes são cone-
Artigo 5º, XXXII, CF. O Estado promoverá, na forma da lei, xos”.
a defesa do consumidor.
O artigo 7° do referido diploma considera como obras
O direito do consumidor liga-se ao direito à propriedade intelectuais que merecem a proteção do direito do autor os
a partir do momento em que garante à pessoa que irá adqui- textos de obras de natureza literária, artística ou científica;
rir bens e serviços que estes sejam entregues e prestados da as conferências, sermões e obras semelhantes; as obras ci-
forma adequada, impedindo que o fornecedor se enriqueça nematográficas e televisivas; as composições musicais; foto-
ilicitamente, se aproveite de maneira indevida da posição grafias; ilustrações; programas de computador; coletâneas e
menos favorável e de vulnerabilidade técnica do consumi- enciclopédias; entre outras.
dor.
Os direitos morais do autor, que são imprescritíveis, ina-
O Direito do Consumidor pode ser considerado um ramo lienáveis e irrenunciáveis, envolvem, basicamente, o direito
recente do Direito. No Brasil, a legislação que o regulamen- de reivindicar a autoria da obra, ter seu nome divulgado na
tou foi promulgada nos anos 90, qual seja a Lei nº 8.078, de 11 utilização desta, assegurar a integridade desta ou modificá-la
de setembro de 1990, conforme determinado pela Constitui- e retirá-la de circulação se esta passar a afrontar sua honra
ção Federal de 1988, que também estabeleceu no artigo 48 do ou imagem.
Ato das Disposições Constitucionais Transitórias:
Já os direitos patrimoniais do autor, nos termos dos arti-
Artigo 48, ADCT. O Congresso Nacional, dentro de cento e gos 41 a 44 da Lei nº 9.610/98, prescrevem em 70 anos conta-
vinte dias da promulgação da Constituição, elaborará código dos do primeiro ano seguinte à sua morte ou do falecimento
de defesa do consumidor. do último coautor, ou contados do primeiro ano seguinte
à divulgação da obra se esta for de natureza audiovisual ou
A elaboração do Código de Defesa do Consumidor foi um fotográfica. Estes, por sua vez, abrangem, basicamente, o di-
DIREITOS HUMANOS

grande passo para a proteção da pessoa nas relações de con- reito de dispor sobre a reprodução, edição, adaptação, tra-
sumo que estabeleça, respeitando-se a condição de hipossu- dução, utilização, inclusão em bases de dados ou qualquer
ficiente técnico daquele que adquire um bem ou faz uso de outra modalidade de utilização; sendo que estas modalida-
determinado serviço, enquanto consumidor. des de utilização podem se dar a título oneroso ou gratuito.

“Os direitos autorais, também conhecidos como copyri-


ght (direito de cópia), são considerados bens móveis, poden-
do ser alienados, doados, cedidos ou locados. Ressalte-se que

53
a permissão a terceiros de utilização de criações artísticas é Artigo 14 - Direito aos benefícios da cultura, PCADH
direito do autor. [...] A proteção constitucional abrange o plá-
gio e a contrafação. Enquanto que o primeiro caracteriza-se 1) Os Estados Partes neste Protocolo reconhecem o
pela difusão de obra criada ou produzida por terceiros, como direito de toda pessoa a:
se fosse própria, a segunda configura a reprodução de obra
alheia sem a necessária permissão do autor”108. a)  Participar na vida cultural e artística da comunidade;

O direito à propriedade intelectual aparece como direito b)  Gozar dos benefícios do progresso científico e tecnológi-
humano associado ao direito à cultura, colocado como pon- co;
to de balanceamento em relação aos direitos morais e patri-
moniais do autor: c)  Beneficiarse da proteção dos interesses morais e mate-
riais que lhe caibam em virtude das produções cientí-
Artigo XXVII, DUDH ficas, literárias ou artísticas de que for autora.

1) Toda pessoa tem o direito de participar livremente da 2)  Entre as medidas que os Estados Partes neste Protocolo
vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de par- deverão adotar para assegurar o pleno exercício deste
ticipar do processo científico e de seus benefícios. direito, figurarão as necessárias para a conservação, de-
senvolvimento e divulgação da ciência, da cultura e da
2) Toda pessoa tem direito à proteção dos interesses mo- arte.
rais e materiais decorrentes de qualquer produção
científica, literária ou artística da qual seja autor. 3) Os Estados Partes neste Protocolo comprometemse a
respeitar a liberdade indispensável para a pesquisa
Artigo 15, PIDESC científica e a atividade criadora.

1) Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem a cada 4)  Os Estados Partes neste Protocolo reconhecem os bene-
indivíduo o direito de: fícios que decorrem da promoção e desenvolvimento da
cooperação e das relações internacionais em assuntos
a) participar da vida cultural; científicos, artísticos e culturais e, nesse sentido, com-
prometemse a propiciar maior cooperação interna-
b) desfrutar o progresso científico e suas aplicações; cional nesse campo.

c) beneficiar-se da proteção dos interesses morais e ma-


teriais decorrentes de toda a produção científica, lite- Direitos de acesso à justiça
rária ou artística de que seja autor.
A formação de um conceito sistemático de acesso à justi-
2) As medidas que os Estados Partes do presente Pacto ça se dá com a teoria de Cappelletti e Garth, que apontaram
deverão adotar com a finalidade de assegurar o pleno três ondas de acesso, isto é, três posicionamentos básicos
exercício desse direito aquelas necessárias à conserva- para a realização efetiva de tal acesso. Tais ondas foram per-
ção, ao desenvolvimento e à difusão da ciência e da cul- cebidas paulatinamente com a evolução do Direito moderno
tura. conforme implementadas as bases da onda anterior, quer
dizer, ficou evidente aos autores a emergência de uma nova
3) Os Estados Partes do presente Pacto comprometem-se a onda quando superada a afirmação das premissas da onda
respeitar a liberdade indispensável à pesquisa científica anterior, restando parcialmente implementada (visto que até
e à atividade criadora. hoje enfrentam-se obstáculos ao pleno atendimento em to-
das as ondas).
4) Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem os be-
nefícios que derivam do fomento e do desenvolvimento Primeiro, Cappelletti e Garth109 entendem que surgiu
da cooperação e das relações internacionais no domí- uma onda de concessão de assistência judiciária aos pobres,
nio da ciência e da cultura. partindo-se da prestação sem interesse de remuneração por
parte dos advogados e, ao final, levando à criação de um apa-
Artigo XIII - Direito aos benefícios da cultura, DADH rato estrutural para a prestação da assistência pelo Estado.

Toda pessoa tem o direito de tomar parte na vida cultural Em segundo lugar, no entender de Cappelletti e Garth110,
da coletividade, de gozar das artes e de desfrutar dos benefícios veio a onda de superação do problema na representação dos
resultantes do progresso intelectual e, especialmente, das des- interesses difusos, saindo da concepção tradicional de pro-
cobertas científicas. cesso como algo restrito a apenas duas partes individualiza-
DIREITOS HUMANOS

das e ocasionando o surgimento de novas instituições, como


 Tem o direito, outrossim, de ser protegida em seus inte- o Ministério Público.
resses morais e materiais no que se refere às invenções, obras
literárias, científicas ou artísticas de sua autoria.
109 CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à Justiça.
108 MORAES, Alexandre de. Direitos humanos fundamen- Tradução Ellen Grace Northfleet. Porto Alegre: Sérgio Antô-
tais: teoria geral, comentários aos artigos 1º a 5º da Consti- nio Fabris Editor, 1998, p. 31-32.
tuição da República Federativa do Brasil, doutrina e jurispru-
dência. São Paulo: Atlas, 1997. 110 Ibid., p. 49-52

54
Finalmente, Cappelletti e Garth111 apontam uma tercei- De nada adiantaria garantir um rol de proteção a direi-
ra onda consistente no surgimento de uma concepção mais tos humanos fundamentais sem a previsão de meios para o
ampla de acesso à justiça, considerando o conjunto de ins- exercício de tais direitos. Conscientes disso, os documentos
tituições, mecanismos, pessoas e procedimentos utilizados: internacionais de direitos humanos estabelecem meios para
“[...] esse enfoque encoraja a exploração de uma ampla varie- assegurar tais direitos reconhecendo, por um lado, o direito
dade de reformas, incluindo alterações nas formas de proce- a um sistema nacional de proteção de todos direitos e obri-
dimento, mudanças na estrutura dos tribunais ou a criação gações, e estabelecendo, por outro lado, sistemas internacio-
de novos tribunais, o uso de pessoas leigas ou paraprofis- nais de proteção de direitos humanos, em garantia de acesso
sionais, tanto como juízes quanto como defensores, modi- à jurisdição internacional.
ficações no direito substantivo destinadas a evitar litígios ou
facilitar sua solução e a utilização de mecanismos privados Com efeito, destaca-se o teor da Declaração e Princípios
ou informais de solução dos litígios. Esse enfoque, em suma, de Ação de Viena, de 1993, que permite relacionar a impor-
não receia inovações radicais e compreensivas, que vão mui- tância do acesso à justiça com a consolidação substancial
to além da esfera de representação judicial”. dos direitos humanos: “Parte I. 27. Qualquer Estado deverá
dispor de um quadro efetivo de soluções para reparar injus-
Assim, dentro da noção de acesso à justiça, diversos as- tiças ou violações dos direitos humanos. A administração da
pectos podem ser destacados: de um lado, deve criar-se o justiça, incluindo departamentos policiais e de promoção
Poder Judiciário e se disponibilizar meios para que todas as penal e, nomeadamente, a independência do poder judicial
pessoas possam buscá-lo; de outro lado, não basta garantir e estatuto das profissões forenses em total conformidade
meios de acesso se estes forem insuficientes, já que para que com as normas aplicáveis contidas em instrumentos inter-
exista o verdadeiro acesso à justiça é necessário que se apli- nacionais de direitos humanos, são essenciais para a concre-
que o direito material de maneira justa e célere. tização plena e não discriminatória dos direitos do homem e
indispensáveis aos processos democrático e de desenvolvi-
Relacionando-se à primeira onda de acesso à justiça, pre- mento sustentado. Neste contexto, deverão ser criadas insti-
vê a Constituição em seu artigo 5º, XXXV: tuições que se dediquem à administração da justiça, deven-
do a comunidade internacional providenciar por um maior
Artigo 5º, XXXV, CF. A lei não excluirá da apreciação do Po- apoio técnico e financeiro. Compete às Nações Unidas utili-
der Judiciário lesão ou ameaça a direito. zar, com carácter prioritário, programas especiais de serviços
de consultoria com vista à obtenção de uma administração
O princípio da inafastabilidade da jurisdição é o princí- da justiça forte e independente”.
pio de Direito Processual Público subjetivo, também cunha-
do como Princípio da Ação, em que a Constituição garante a A temática do acesso à justiça desperta inúmeras discus-
necessária tutela estatal aos conflitos ocorrentes na vida em sões, tanto é que foi foco da XIV Cúpula Judicial Ibero-Ame-
sociedade. Sempre que uma controvérsia for levada ao Poder ricana, realizada em Brasília em março de 2008, a qual resul-
Judiciário, preenchidos os requisitos de admissibilidade, ela tou, dentre outros documentos, na elaboração das Regras de
será resolvida, independentemente de haver ou não previsão Brasília sobre Acesso à Justiça das Pessoas em condição de
específica a respeito na legislação. Vulnerabilidade.

Também se liga à primeira onda de acesso à justiça, no


que tange à abertura do Judiciário mesmo aos menos favore- Direitos constitucionais-penais
cidos economicamente, o artigo 5º, LXXIV, CF:
Juiz natural e vedação ao juízo ou tribunal de exce-
Artigo 5º, LXXIV, CF. O Estado prestará assistência jurídi- ção
ca integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de
recursos. Quando o artigo 5º, LIII, CF menciona:

O constituinte, ciente de que não basta garantir o acesso Artigo 5º, LIII, CF. Ninguém será processado nem senten-
ao Poder Judiciário, sendo também necessária a efetividade ciado senão pela autoridade competente”, consolida o prin-
processual, incluiu pela Emenda Constitucional nº 45/2004 o cípio do juiz natural que assegura a toda pessoa o direito de
inciso LXXVIII ao artigo 5º da Constituição: conhecer previamente daquele que a julgará no processo em
que seja parte, revestindo tal juízo em jurisdição competente
Artigo 5º, LXXVIII, CF. A todos, no âmbito judicial e admi- para a matéria específica do caso antes mesmo do fato ocorrer.
nistrativo, são assegurados a razoável duração do processo e
os meios que garantam a celeridade de sua tramitação. Por sua vez, um desdobramento deste princípio encon-
tra-se no artigo 5º, XXXVII, CF:
Com o tempo se percebeu que não bastava garantir o
DIREITOS HUMANOS

acesso à justiça se este não fosse célere e eficaz. Não significa Artigo 5º, XXXVII, CF. Não haverá juízo ou tribunal de ex-
que se deve acelerar o processo em detrimento de direitos e ceção.
garantias assegurados em lei, mas sim que é preciso propor-
cionar um trâmite que dure nem mais e nem menos que o Juízo ou Tribunal de Exceção é aquele especialmente
necessário para a efetiva realização da justiça no caso con- criado para uma situação pretérita, bem como não reconhe-
creto. cido como legítimo pela Constituição do país.

Consta na disciplina internacional dos direitos humanos:


111 Ibid., p. 67-73

55
Artigo X, DUDH d) a competência para o julgamento dos crimes dolosos
contra a vida.
Toda pessoa tem direito, em plena igualdade, a uma au-
diência justa e pública por parte de um tribunal indepen- O Tribunal do Júri é formado por pessoas do povo, que
dente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres ou do julgam os seus pares. Entende-se ser direito fundamental o
fundamento de qualquer acusação criminal contra ele. de ser julgado por seus iguais, membros da sociedade e não
magistrados, no caso de determinados crimes que por sua
Artigo 14, PIDCP natureza possuem fortes fatores de influência emocional.

1) Todas as pessoas são iguais perante os tribunais e as Plenitude da defesa envolve tanto a autodefesa quanto a
cortes de justiça. Toda pessoa terá o direito de ser ou- defesa técnica e deve ser mais ampla que a denominada am-
vida publicamente e com as devidas garantias por um pla defesa assegurada em todos os procedimentos judiciais e
tribunal competente, independente e imparcial, esta- administrativos.
belecido por lei, na apuração de qualquer acusação de
caráter penal formulada contra ela ou na determina- Sigilo das votações envolve a realização de votações se-
ção de seus direitos e obrigações de caráter civil. A im- cretas, preservando a liberdade de voto dos que compõem o
prensa e o público poderão ser excluídos de parte ou da conselho que irá julgar o ato praticado.
totalidade de um julgamento, que por motivo de moral
pública, de ordem pública ou de segurança nacional A decisão tomada pelo conselho é soberana. Contudo, a
em uma sociedade democrática, quer quando o interes- soberania dos veredictos veda a alteração das decisões dos
se da vida privada das partes o exija, quer na medida jurados, não a recorribilidade dos julgamentos do Tribunal
em que isso seja estritamente necessário na opinião da do Júri para que seja procedido novo julgamento uma vez
justiça, em circunstâncias específicas, nas quais a pu- cassada a decisão recorrida, haja vista preservar o ordena-
blicidade venha a prejudicar os interesses da justiça; mento jurídico pelo princípio do duplo grau de jurisdição.
entretanto, qualquer sentença proferida em matéria
penal ou civil deverá tornar-se pública, a menos que Por fim, a competência para julgamento é dos crimes do-
o interesse de menores exija procedimento oposto, ou o losos (em que há intenção ou ao menos se assume o risco
processo diga respeito a controvérsia matrimoniais ou á de produção do resultado) contra a vida, que são: homicídio,
tutela de menores. aborto, induzimento, instigação ou auxílio a suicídio e infan-
ticídio. Sua competência não é absoluta e é mitigada, por ve-
Artigo XXVI - Direito a processo regular, DADH zes, pela própria Constituição (artigos 29, X / 102, I, b) e c) /
105, I, a) / 108, I).
Toda pessoa acusada de um delito tem o direito de ser ou-
vida numa forma imparcial e pública, de ser julgada por tri-
bunais já estabelecidos de acordo com leis preexistentes, [...] Anterioridade e irretroatividade da lei
Artigo 8º - Garantias judiciais, CADH O artigo 5º, XXXIX, CF preconiza:

1) Toda pessoa terá o direito de ser ouvida, com as devidas Artigo 5º, XXXIX, CF. Não há crime sem lei anterior que o
garantias e dentro de um prazo razoável, por um juiz defina, nem pena sem prévia cominação legal.
ou Tribunal competente, independente e imparcial,
estabelecido anteriormente por lei, na apuração de É a consagração da regra do nullum crimen nulla poena
qualquer acusação penal formulada contra ela, ou na sine praevia lege. Simultaneamente, se assegura o princípio
determinação de seus direitos e obrigações de caráter da legalidade (ou reserva legal), na medida em que não há
civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer outra natureza. crime sem lei que o defina, nem pena sem prévia cominação
[...] legal, e o princípio da anterioridade, posto que não há crime
sem lei anterior que o defina.
5) O processo penal deve ser público, salvo no que for ne-
cessário para preservar os interesses da justiça. Ainda no que tange ao princípio da anterioridade, tem-se
o artigo 5º, XL, CF:

Tribunal do júri Artigo 5º, XL, CF. A lei penal não retroagirá, salvo para be-
neficiar o réu.
A respeito da competência do Tribunal do júri, prevê o ar-
tigo 5º, XXXVIII, CF: O dispositivo consolida outra faceta do princípio da an-
terioridade: se, por um lado, é necessário que a lei tenha de-
DIREITOS HUMANOS

Artigo 5º, XXXVIII. É reconhecida a instituição do júri, com finido um fato como crime e dado certo tratamento penal a
a organização que lhe der a lei, assegurados: este fato (ex.: pena de detenção ou reclusão, tempo de pena,
etc.) antes que ele ocorra; por outro lado, se vier uma lei pos-
a) a plenitude de defesa; terior ao fato que o exclua do rol de crimes ou que confira
tratamento mais benéfico (diminuindo a pena ou alterando
b) o sigilo das votações; o regime de cumprimento, notadamente), ela será aplicada.
Restam consagrados tanto o princípio da irretroatividade da
c) a soberania dos veredictos; lei penal in pejus quanto o da retroatividade da lei penal mais

56
benéfica. cabe fiança (pagamento de valor para deixar a prisão provi-
sória) e não se aplica o instituto da prescrição (perda de pre-
Observemos a disciplina do direito internacional dos di- tensão de se processar/punir uma pessoa pelo decurso do
reitos humanos: tempo).

Artigo XI, DUDH Não obstante, preconiza ao artigo 5º, XLIII, CF:

2) Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou Artigo 5º, XLIII, CF. A lei considerará crimes inafiançáveis
omissão que, no momento, não constituíam delito pe- e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o
rante o direito nacional ou internacional. Tampouco tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e
será imposta pena mais forte do que aquela que, no os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os
momento da prática, era aplicável ao ato delituoso. mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omi-
tirem.
Artigo 15, PIDCP
Anistia, graça e indulto diferenciam-se nos seguintes ter-
1) Ninguém poderá ser condenado por atos ou omissões mos: a anistia exclui o crime, rescinde a condenação e ex-
que não constituam delito de acordo com direito na- tingue totalmente a punibilidade, a graça e o indulto apenas
cional ou internacional, no momento em que foram extinguem a punibilidade, podendo ser parciais; a anistia,
cometidos. Tampouco poder-se-á impor pena mais em regra, atinge crimes políticos, a graça e o indulto, crimes
grave do que a aplicável no momento da ocorrência do comuns; a anistia pode ser concedida pelo Poder Legislativo,
delito. Se, depois de perpetrado o delito, a lei estipular a graça e o indulto são de competência exclusiva do Presi-
a imposição de pena mais leve, o delinquente deverá dente da República; a anistia pode ser concedida antes da
beneficiar-se. sentença final ou depois da condenação irrecorrível, a graça
e o indulto pressupõem o trânsito em julgado da sentença
2) Nenhuma disposição do presente Pacto impedirá o jul- condenatória; graça e o indulto apenas extinguem a punibi-
gamento ou a condenação de qualquer indivíduo por lidade, persistindo os efeitos do crime, apagados na anistia;
atos ou omissões que, no momento em que foram co- graça é em regra individual e solicitada, enquanto o indulto é
metidos, eram considerados delituosos de acordo com coletivo e espontâneo.
os princípios gerais de direito reconhecidos pela co-
munidade das nações. Não cabe graça, anistia ou indulto (pode-se considerar
que o artigo o abrange, pela doutrina majoritária) contra cri-
Artigo 9º - Princípio da legalidade e da retroatividade, mes de tortura, tráfico, terrorismo (TTT) e hediondos (pre-
CADH vistos na Lei nº 8.072 de 25 de julho de 1990). Além disso, são
crimes que não aceitam fiança.
Ninguém poderá ser condenado por atos ou omissões que,
no momento em que foram cometidos, não constituam delito, Por fim, prevê o artigo 5º, XLIV, CF:
de acordo com o direito aplicável. Tampouco poder-se-á im-
por pena mais grave do que a aplicável no momento da ocor- Artigo 5º, XLIV, CF. Constitui crime inafiançável e impres-
rência do delito. Se, depois de perpetrado o delito, a lei estipu- critível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra
lar a imposição de pena mais leve, o delinquente deverá dela a ordem constitucional e o Estado Democrático.
beneficiar-se.

Personalidade da pena
Menções específicas a crimes
A personalidade da pena encontra respaldo no artigo 5º,
O artigo 5º, XLI, CF estabelece: XLV, CF:

Artigo 5º, XLI, CF. A lei punirá qualquer discriminação Artigo 5º, XLV, CF. Nenhuma pena passará da pessoa do
atentatória dos direitos e liberdades fundamentais. condenado, podendo a obrigação de reparar o dano e a decre-
tação do perdimento de bens ser, nos termos da lei, estendidas
Sendo assim confere fórmula genérica que remete ao aos sucessores e contra eles executadas, até o limite do valor do
princípio da igualdade numa concepção ampla, razão pela patrimônio transferido.
qual práticas discriminatórias não podem ser aceitas. No en-
tanto, o constituinte entendeu por bem prever tratamento O princípio da personalidade encerra o comando de o
específico a certas práticas criminosas. crime ser imputado somente ao seu autor, que é, por seu
turno, a única pessoa passível de sofrer a sanção. Seria fla-
DIREITOS HUMANOS

Neste sentido, prevê o artigo 5º, XLII, CF: grante a injustiça se fosse possível alguém responder pelos
atos ilícitos de outrem: caso contrário, a reação, ao invés de
Artigo 5º, XLII, CF. A prática do racismo constitui crime restringir-se ao malfeitor, alcançaria inocentes. Contudo, se
inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos uma pessoa deixou patrimônio e faleceu, este patrimônio
termos da lei. responderá pelas repercussões financeiras do ilícito.

A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989 define os crimes No mesmo sentido, assegura a Convenção Americana so-
resultantes de preconceito de raça ou de cor. Contra eles não bre Direitos Humanos:

57
Artigo 5º - Direito à integridade pessoal, CADH Também se denota o respeito à individualização da pena
nesta faceta pelo artigo 5º, L, CF:
3) A pena não pode passar da pessoa do delinquente.
Artigo 5º, L, CF. Às presidiárias serão asseguradas condi-
ções para que possam permanecer com seus filhos durante o
Individualização da pena período de amamentação.

A individualização da pena tem por finalidade concreti- Preserva-se a individualização da pena porque é toma-
zar o princípio de que a responsabilização penal é sempre da a condição peculiar da presa que possui filho no período
pessoal, devendo assim ser aplicada conforme as peculiari- de amamentação, mas também se preserva a dignidade da
dades do agente. criança, não a afastando do seio materno de maneira precá-
ria e impedindo a formação de vínculo pela amamentação.
A primeira menção à individualização da pena se encon-
tra no artigo 5º, XLVI, CF: As Regras Mínimas da ONU concentram políticas de
tratamento dos reclusos como indivíduos e não como mas-
Artigo 5º, XLVI, CF. A lei regulará a individualização da sa, notadamente no momento de execução da pena. Neste
pena e adotará, entre outras, as seguintes: sentido, o item 63: “(1) A realização destes princípios exige
a individualização do tratamento e, para este efeito, um sis-
a) privação ou restrição da liberdade; tema flexível de classificação dos reclusos por grupos; é por
isso desejável que tais grupos sejam colocados em estabele-
b) perda de bens; cimentos separados que permitam a cada grupo receber um
tratamento adequado. (2) Estes estabelecimentos não têm
c) multa; de prever o mesmo grau de segurança para todos os grupos.
É desejável prever vários graus de segurança de acordo com
d) prestação social alternativa; as necessidades dos diferentes grupos. Os estabelecimentos
abertos, pelo próprio fato de não preverem medidas de segu-
e) suspensão ou interdição de direitos. rança física contra a evasão, confiando antes na autodiscipli-
na dos reclusos, oferecem as condições de reabilitação mais
Pelo princípio da individualização da pena, a pena deve favoráveis para reclusos cuidadosamente selecionados. (3) É
ser individualizada nos planos legislativo, judiciário e execu- desejável que o número de reclusos nos estabelecimentos fe-
tório, evitando-se a padronização a sanção penal. A indivi- chados não seja elevado ao ponto de prejudicar a individua-
dualização da pena significa adaptar a pena ao condenado, lização do tratamento. Em alguns países, considera-se que
consideradas as características do agente e do delito. a população de tais estabelecimentos não deve ultrapassar
as quinhentas pessoas. Nos estabelecimentos abertos, a po-
A pena privativa de liberdade é aquela que restringe, com pulação deve ser tão reduzida quanto possível. (4) Por outro
maior ou menor intensidade, a liberdade do condenado, lado, não é desejável manter estabelecimentos prisionais tão
consistente em permanecer em algum estabelecimento pri- pequenos que impossibilitem a disponibilização dos meios
sional, por um determinado tempo. adequados”. Logo, o detento deve ser visto como indivíduo e
aproximado daqueles que possuam a mesma condição, sem
A pena de multa ou patrimonial opera uma diminuição prejuízo de um tratamento individualizado.
do patrimônio do indivíduo delituoso.
Também pelo artigo 69 das Regras Mínimas da ONU,
A prestação social alternativa corresponde às penas res- tem-se a separação de grupos com vistas à atribuição de tra-
tritivas de direitos, autônomas e substitutivas das penas pri- tamento especial, o que reforça a individualização da pena
vativas de liberdade, estabelecidas no artigo 44 do Código na fase de execução: “69. Logo que possível após a admissão
Penal. e depois de um estudo da personalidade de cada recluso con-
denado a uma pena cuja duração o justifique, será preparado
Por seu turno, a individualização da pena deve também um programa de tratamento para o recluso, à luz dos dados
se fazer presente na fase de sua execução, conforme se de- obtidos sobre as suas necessidades individuais, capacidades
preende do artigo 5º, XLVIII, CF: e estado de espírito”. Referido programa toma por vista as pe-
culiaridades de cada recluso para definir o melhor modo de
Artigo 5º, XLVIII, CF. A pena será cumprida em estabeleci- cumprimento da sua pena, favorecendo sua ressocialização.
mentos distintos, de acordo com a natureza do delito, a ida-
de e o sexo do apenado.
Vedação de determinadas penas
A distinção do estabelecimento conforme a natureza do
DIREITOS HUMANOS

delito visa impedir que a prisão se torne uma faculdade do O constituinte viu por bem proibir algumas espécies de
crime. Infelizmente, o Estado não possui aparato suficiente penas, consoante ao artigo 5º, XLVII, CF:
para cumprir tal diretiva, diferenciando, no máximo, o nível
de segurança das prisões. Quanto à idade, destacam-se as Artigo 5º, XLVII, CF. não haverá penas:
Fundações Casas, para cumprimento de medida por meno-
res infratores. Quanto ao sexo, prisões costumam ser exclusi- a) de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos
vamente para homens ou para mulheres. do art. 84, XIX;

58
b) de caráter perpétuo; Artigo 5º, LVIII, CF. O civilmente identificado não será sub-
metido a identificação criminal, salvo nas hipóteses previstas
c) de trabalhos forçados; em lei.

d) de banimento; Se uma pessoa possui identificação civil, não há porque


fazer identificação criminal, colhendo digitais, fotos, etc.
e) cruéis. Pensa-se que seria uma situação constrangedora desneces-
sária ao suspeito, sendo assim, violaria a integridade moral.
Em resumo, o inciso consolida o princípio da humani-
dade, pelo qual o “poder punitivo estatal não pode aplicar Eis a disciplina dos direitos humanos:
sanções que atinjam a dignidade da pessoa humana ou que
lesionem a constituição físico-psíquica dos condenados”112 . Artigo 10, PIDCP

Quanto à questão da pena de morte, percebe-se que o 1) Toda pessoa privada de sua liberdade deverá ser trata-
constituinte não estabeleceu uma total vedação, autorizan- da com humanidade e respeito à dignidade inerente à
do-a nos casos de guerra declarada. Obviamente, deve-se pessoa humana.
respeitar o princípio da anterioridade da lei, ou seja, a le-
gislação deve prever a pena de morte ao fato antes dele ser Artigo XXV - Direito de proteção contra prisão arbitrá-
praticado. No ordenamento brasileiro, este papel é cumprido ria, DADH
pelo Código Penal Militar (Decreto-Lei nº 1.001/1969), que
prevê a pena de morte a ser executada por fuzilamento nos [...] Tem também direito a um tratamento humano du-
casos tipificados em seu Livro II, que aborda os crimes mili- rante o tempo em que o privarem da sua liberdade.
tares em tempo de guerra.
Artigo XXVI - Direito a processo regular, DADH
Por sua vez, estão absolutamente vedadas em quaisquer
circunstâncias as penas de caráter perpétuo, de trabalhos Toda pessoa acusada de um delito tem o direito [...] de que
forçados, de banimento e cruéis. se lhe não inflijam penas cruéis, infamantes ou inusitadas.

No que tange aos trabalhos forçados, vale destacar que o Artigo 5º, CADH - Direito à integridade pessoal
trabalho obrigatório não é considerado um tratamento con-
trário à dignidade do recluso, embora o trabalho forçado o 1) Toda pessoa tem direito a que se respeite sua integrida-
seja. O trabalho é obrigatório, dentro das condições do ape- de física, psíquica e moral. [...]
nado, não podendo ser cruel ou menosprezar a capacidade
física e intelectual do condenado; como o trabalho não exis- 6) As penas privativas de liberdade devem ter por finali-
te independente da educação, cabe incentivar o aperfeiçoa- dade essencial a reforma e a readaptação social dos
mento pessoal; até mesmo porque o trabalho deve se aproxi- condenados.
mar da realidade do mundo externo, será remunerado; além
disso, condições de dignidade e segurança do trabalhador,
como descanso semanal e equipamentos de proteção, deve- Devido processo legal, contraditório e ampla defesa
rão ser respeitados.
Estabelece o artigo 5º, LIV, CF:

Respeito à integridade do preso Artigo 5º, LIV, CF. Ninguém será privado da liberdade ou de
seus bens sem o devido processo legal.
Prevê o artigo 5º, XLIX, CF:
Pelo princípio do devido processo legal a legislação deve
Artigo 5º, XLIX, CF. É assegurado aos presos o respeito à ser respeitada quando o Estado pretender punir alguém ju-
integridade física e moral. dicialmente. Logo, o procedimento deve ser livre de vícios e
seguir estritamente a legislação vigente, sob pena de nulida-
Obviamente, o desrespeito à integridade física e moral do de processual.
preso é uma violação do princípio da dignidade da pessoa
humana. Surgem como corolário do devido processo legal o con-
traditório e a ampla defesa, pois somente um procedimento
Dois tipos de tratamentos que violam esta integridade que os garanta estará livre dos vícios. Neste sentido, o artigo
estão mencionados no próprio artigo 5º da Constituição Fe- 5º, LV, CF:
deral. Em primeiro lugar, tem-se a vedação da tortura e de
DIREITOS HUMANOS

tratamentos desumanos e degradantes (artigo 5º, III, CF), o Artigo 5º, LV, CF. Aos litigantes, em processo judicial ou
que vale na execução da pena. administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o
contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela
No mais, prevê o artigo 5º, LVIII, CF: inerentes.

O devido processo legal possui a faceta formal, pela qual


se deve seguir o adequado procedimento na aplicação da lei
112 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de direito penal. e, sendo assim, respeitar o contraditório e a ampla defesa.
16. ed. São Paulo: Saraiva, 2011. v. 1.

59
Não obstante, o devido processo legal tem sua faceta mate- acusação formulada;
rial que consiste na tomada de decisões justas, que respeitem
os parâmetros da razoabilidade e da proporcionalidade. c) concessão ao acusado do tempo e dos meios necessários
à preparação de sua defesa;
É a disciplina do direito internacional dos direitos
humanos: d) direito do acusado de defender-se pessoalmente ou de
ser assistido por um defensor de sua escolha e de comu-
Artigo 9º, PIDCP nicar-se, livremente e em particular, com seu defensor;

2) Qualquer pessoa, ao ser presa, deverá ser informada e) direito irrenunciável de ser assistido por um defensor
das razões da prisão e notificada, sem demora, das proporcionado pelo Estado, remunerado ou não, se-
acusações formuladas contra ela. gundo a legislação interna, se o acusado não se defen-
der ele próprio, nem nomear defensor dentro do prazo
Artigo 14, PIDCP estabelecido pela lei;

3) Toda pessoa acusada de um delito terá direito, em plena f) direito da defesa de inquirir as testemunhas presentes
igualdade, a, pelo menos, as seguintes garantias: no Tribunal e de obter o comparecimento, como teste-
munhas ou peritos, de outras pessoas que possam lan-
a) de ser informado, sem demora, numa língua que com- çar luz sobre os fatos;
preenda e de forma minuciosa, da natureza e dos moti-
vos da acusação contra ela formulada; g) direito de não ser obrigada a depor contra si mesma,
nem a confessar-se culpada; e [...]
b) de dispor do tempo e do meios necessários à preparação
de sua defesa e a comunicar-se com defensor de sua
escolha; Vedação de provas ilícitas
c) de ser julgado sem dilações indevidas; Conforme o artigo 5º, LVI, CF:
d) de estar presente no julgamento e de defender-se pes- Artigo 5º, LVI, CF. São inadmissíveis, no processo, as provas
soalmente ou por intermédio de defensor de sua esco- obtidas por meios ilícitos.
lha; de ser informado, caso não tenha defensor, do di-
reito que lhe assiste de tê-lo e, sempre que o interesse
Provas ilícitas, por força da nova redação dada ao artigo
da justiça assim exija, de ter um defensor designado ex
officio gratuitamente, se não tiver meios para remune- 157 do CPP, são as obtidas em violação a normas constitu-
rá-lo; cionais ou legai, ou seja, prova ilícita é a que viola regra de
direito material, constitucional ou legal, no momento da sua
e) de interrogar ou fazer interrogar as testemunhas da obtenção. São vedadas porque não se pode aceitar o des-
acusação e de obter o comparecimento e o interrogató- cumprimento do ordenamento para fazê-lo cumprir: seria
rio das testemunhas de defesa nas mesmas condições de paradoxal.
que dispõe as de acusação;

f) de ser assistida gratuitamente por um intérprete, caso Presunção de inocência


não compreenda ou não fale a língua empregada du-
rante o julgamento; Prevê a Constituição no artigo 5º, LVII:

g) de não ser obrigada a depor contra si mesma, nem a Artigo 5º, LVII, CF. Ninguém será considerado culpado até
confessar-se culpada. o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.

Artigo 7º - Direito à liberdade pessoal, CADH Consolida-se o princípio da presunção de inocência, pelo
qual uma pessoa não é culpada até que, em definitivo, o Judi-
4) Toda pessoa detida ou retida deve ser informada das ra- ciário assim decida, respeitados todos os princípios e garan-
zões da detenção e notificada, sem demora, da acusação tias constitucionais.
ou das acusações formuladas contra ela.
Eis a disciplina do direito internacional dos direitos hu-
Artigo 8º - Garantias judiciais, CADH manos:
DIREITOS HUMANOS

2) [...] Durante o processo, toda pessoa tem direito, em ple- Artigo XI, DUDH
na igualdade, às seguintes garantias mínimas:
1) Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito
a) direito do acusado de ser assistido gratuitamente por de ser presumida inocente até que a sua culpabilida-
um tradutor ou intérprete, caso não compreenda ou de tenha sido provada de acordo com a lei, em julga-
não fale a língua do juízo ou tribunal; mento público no qual lhe tenham sido asseguradas
todas as garantias necessárias à sua defesa.
b) comunicação prévia e pormenorizada ao acusado da

60
Artigo 14, PIDCP Artigo 5º, LXI, CF. Ninguém será preso senão em flagrante
delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade
2) Toda pessoa acusada de um delito terá direito a que se judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar
presuma sua inocência enquanto não for legalmente ou crime propriamente militar, definidos em lei.
comprovada sua culpa.
Logo, a prisão somente se dará em caso de flagrante de-
Artigo XXVI - Direito a processo regular, DADH lito (necessariamente antes do trânsito em julgado), ou em
caráter temporário, provisório ou definitivo (as duas primei-
Parte-se do princípio que todo acusado é inocente, até ras independente do trânsito em julgado, preenchidos requi-
provar-se-lhe a culpabilidade. sitos legais e a última pela irreversibilidade da condenação).

Artigo 8º - Garantias judiciais, CADH Aborda-se no artigo 5º, LXII o dever de comunicação ao
juiz e à família ou pessoa indicada pelo preso:
2) Toda pessoa acusada de um delito tem direito a que se
presuma sua inocência, enquanto não for legalmente Artigo 5º, LXII, CF. A prisão de qualquer pessoa e o local
comprovada sua culpa. [...] onde se encontre serão comunicados imediatamente ao juiz
competente e à família do preso ou à pessoa por ele indicada.
Uma das decorrências lógicas do princípio da presunção
de inocência é o direito de não depor contra si mesmo, asse- Não obstante, o preso deverá ser informado de todos os
gurado no campo do direito internacional dos direitos hu- seus direitos, inclusive o direito ao silêncio, podendo entrar
manos: em contato com sua família e com um advogado, conforme
artigo 5º, LXIII, CF:
Artigo 14, PIDCP
Artigo 5º, LXIII, CF. O preso será informado de seus direi-
3) [...] g) de não ser obrigada a depor contra si mesma, tos, entre os quais o de permanecer calado, sendo-lhe assegu-
nem a confessar-se culpada. rada a assistência da família e de advogado.

Artigo 8º - Garantias judiciais, CADH Estabelece-se no artigo 5º, LXIV, CF:

2) [...] Durante o processo, toda pessoa tem direito, em ple- Artigo 5º, LXIV, CF. O preso tem direito à identificação dos
na igualdade, às seguintes garantias mínimas: [...] responsáveis por sua prisão ou por seu interrogatório policial.

g) direito de não ser obrigada a depor contra si mesma, Por isso mesmo, o auto de prisão em flagrante e a ata do
nem a confessar-se culpada; e [...] depoimento do interrogatório são assinados pelas autorida-
des envolvidas nas práticas destes atos procedimentais.
3) A confissão do acusado só é válida se feita sem coação
de nenhuma natureza. Ainda, a legislação estabelece inúmeros requisitos para
que a prisão seja validada, sem os quais cabe relaxamento,
tanto que assim prevê o artigo 5º, LXV, CF:
Ação penal privada subsidiária da pública
Artigo 5º, LXV, CF. A prisão ilegal será imediatamente re-
Nos termos do artigo 5º, LIX, CF: laxada pela autoridade judiciária.

Artigo 5º, LIX, CF. Será admitida ação privada nos crimes Desta forma, como decorrência lógica, tem-se a previsão
de ação pública, se esta não for intentada no prazo legal. do artigo 5º, LXVI, CF:

A chamada ação penal privada subsidiária da pública en- Artigo 5º, LXVI, CF. Ninguém será levado à prisão ou nela
contra respaldo constitucional, assegurando que a omissão mantido, quando a lei admitir a liberdade provisória, com
do poder público na atividade de persecução criminal não ou sem fiança.
será ignorada, fornecendo-se instrumento para que o inte-
ressado a proponha. Mesmo que a pessoa seja presa em flagrante, devido ao
princípio da presunção de inocência, entende-se que ela não
deve ser mantida presa quando não preencher os requisitos
Prisão e liberdade legais para prisão preventiva ou temporária.

O constituinte confere espaço bastante extenso no artigo Observemos a disciplina no campo do direito internacio-
DIREITOS HUMANOS

5º em relação ao tratamento da prisão, notadamente por se nal dos direitos humanos:


tratar de ato que vai contra o direito à liberdade. Obviamen-
te, a prisão não é vedada em todos os casos, porque práticas Artigo IX, DUDH
atentatórias a direitos fundamentais implicam na tipificação
penal, autorizando a restrição da liberdade daquele que as- Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.
sim agiu.
Artigo 9º, PIDCP
No inciso LXI do artigo 5º, CF, prevê-se:

61
1) [...] Ninguém poderá ser preso ou encarcerado arbitra- Artigo 9º, PIDCP
riamente. Ninguém poderá ser privado de sua liberda-
de, salvo pelos motivos previstos em lei e em conformi- 5) Qualquer pessoa vítima de prisão ou encarceramento
dade com os procedimentos. ilegais terá direito à reparação.

3) [...] Qualquer pessoa presa ou encerrada em virtude de Artigo 14, PIDCP


infração penal deverá ser conduzida, sem demora, à
presença do juiz ou de outra autoridade habilitada por 6) Se uma sentença condenatória passada em julgado for
lei a exercer funções e terá o direito de ser julgada em posteriormente anulada ou se indulto for concedido,
prazo razoável ou de ser posta em liberdade. A prisão pela ocorrência ou descoberta de fatos novos que pro-
preventiva de pessoas que aguardam julgamento não vem cabalmente a existência de erro judicial, a pessoa
deverá constituir a regra geral, mas a soltura poderá que sofreu a pena decorrente dessa condenação deverá
estar condicionada a garantias que assegurem o com- ser indenizada, de acordo com a lei, a menos que fique
parecimento da pessoa em questão à audiência, a todos provado que se lhe pode imputar, total ou parcialmente,
os atos do processo e, se necessário for, para a execução não-revelação dos fatos desconhecidos em tempo útil.
da sentença.
Artigo 10 - Direito à indenização, CADH
Artigo XXV - Direito de proteção contra prisão arbitrá-
ria, DADH Toda pessoa tem direito de ser indenizada conforme a lei,
no caso de haver sido condenada em sentença transitada em
Ninguém pode ser privado da sua liberdade, a não ser nos julgado, por erro judiciário.
casos previstos pelas leis e segundo as praxes estabelecidas
pelas leis já existentes. [...] Todo indivíduo, que tenha sido
privado da sua liberdade, tem o direito de que o juiz verifique Outras previsões de direitos humanos-penais
sem demora a legalidade da medida, e de que o julgue sem
protelação injustificada, ou, no caso contrário, de ser posto Duplo grau de jurisdição
em liberdade. [...]
Duplo grau é a garantia de recurso àquele que tenha sua
Artigo 7º - Direito à liberdade pessoal, CADH liberdade privada por decisão da autoridade competente,
o qual, se provido, fará cessar a ilegalidade e determinará
2) Ninguém pode ser privado de sua liberdade física, salvo a soltura do recorrente. Tal recurso poderá ser interposto a
pelas causas e nas condições previamente fixadas pe- juiz ou Tribunal - hipótese última a mais comum -, caso em
las Constituições políticas dos Estados-partes ou pelas que se faz presente o chamado princípio do duplo grau de
leis de acordo com elas promulgadas. jurisdição. Logo, em termos de direitos humanos, perante as
Nações Unidas, não se pode afirmar que o duplo grau de ju-
3) Ninguém pode ser submetido a detenção ou encarcera- risdição seja um direito, embora o recurso o seja, posto que
mento arbitrários. [...] cabe interposição perante juiz competente de mesmo grau,
conforme a legislação interna preveja, uma vez que não há
5) Toda pessoa presa, detida ou retida deve ser conduzida, previsão no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos
sem demora, à presença de um juiz ou outra autoridade nem na Declaração Universal dos Direitos Humanos neste
autorizada por lei a exercer funções judiciais e tem o di- linear. Contudo, o Pacto de São José da Costa Rica prevê o
reito de ser julgada em prazo razoável ou de ser posta duplo grau de jurisdição em seu artigo 8º, item 2, alínea h, de
em liberdade, sem prejuízo de que prossiga o processo. modo que perante a Organização dos Estados Americanos o
Sua liberdade pode ser condicionada a garantias que duplo grau de jurisdição é reconhecido como um direito hu-
assegurem o seu comparecimento em juízo. mano, consistente na possibilidade de recorrer da sentença
penal condenatória a um juiz ou Tribunal de grau superior.

Indenização por erro judiciário Artigo 9º, PIDCP

A disciplina sobre direitos decorrentes do erro judiciário 4) Qualquer pessoa que seja privada de sua liberdade por
encontra-se no artigo 5º, LXXV, CF: prisão ou encarceramento terá de recorrer a um tribu-
nal para que este decida sobre a legalidade de seu en-
Artigo 5º, LXXV, CF. O Estado indenizará o condenado por carceramento e ordene sua soltura, caso a prisão tenha
erro judiciário, assim como o que ficar preso além do tempo sido ilegal.
fixado na sentença.
Artigo 14, PIDCP
DIREITOS HUMANOS

Trata-se do erro em que incorre um juiz na apreciação e


julgamento de um processo criminal, resultando em conde- 5) Toda pessoa declarada culpada por um delito terá o di-
nação de alguém inocente. Neste caso, o Estado indenizará. reito de recorrer da sentença condenatória e da pena a
Ele também indenizará uma pessoa que ficar presa além do uma instância, em conformidade com a lei.
tempo que foi condenada a cumprir.
Artigo 7º - Direito à liberdade pessoal, CADH
Observemos a disciplina do direito internacional dos di-
reitos humanos: 6) Toda pessoa privada da liberdade tem direito a recorrer

62
a um juiz ou tribunal competente, a fim de que este de- o comparecimento da pessoa em questão à audiência,
cida, sem demora, sobre a legalidade de sua prisão ou a todos os atos do processo e, se necessário for, para a
detenção e ordene sua soltura, se a prisão ou a detenção execução da sentença.
forem ilegais. Nos Estados-partes cujas leis preveem que
toda pessoa que se vir ameaçada de ser privada de sua Artigo 7º, CADH
liberdade tem direito a recorrer a um juiz ou tribunal
competente, a fim de que este decida sobre a legalida- 5) Toda pessoa presa, detida ou retida deve ser conduzida,
de de tal ameaça, tal recurso não pode ser restringido sem demora, à presença de um juiz ou outra autori-
nem abolido. O recurso pode ser interposto pela pró- dade autorizada por lei a exercer funções judiciais e
pria pessoa ou por outra pessoa. tem o direito de ser julgada em prazo razoável ou de ser
posta em liberdade, sem prejuízo de que prossiga o pro-
Artigo 8º - Garantias judiciais, CADH cesso. Sua liberdade pode ser condicionada a garantias
que assegurem o seu comparecimento em juízo.
2) [...] h) direito de recorrer da sentença a juiz ou tribunal
superior.
Direitos fundamentais implícitos

Revisão criminal pro reo Nos termos do § 2º do artigo 5º da Constituição Federal:

O direito de que a revisão criminal apenas se faça a favor Artigo 5º, §2º, CF. Os direitos e garantias expressos nesta
do réu está disciplinado no direito internacional dos direitos Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos
humanos: princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais
em que a República Federativa do Brasil seja parte.
Artigo 14, PIDCP
Daí se depreende que os direitos ou garantias podem
6) Se uma sentença condenatória passada em julgado for estar expressos ou implícitos no texto constitucional. Sen-
posteriormente anulada ou se indulto for concedido, do assim, o rol enumerado nos incisos do artigo 5º é apenas
pela ocorrência ou descoberta de fatos novos que pro- exemplificativo, não taxativo.
vem cabalmente a existência de erro judicial, a pessoa
que sofreu a pena decorrente dessa condenação deverá
ser indenizada, de acordo com a lei, a menos que fique Tribunal Penal Internacional
provado que se lhe pode imputar, total ou parcialmente,
não revelação dos fatos desconhecidos em tempo útil. Preconiza o artigo 5º, CF em seu § 4º:

7) Ninguém poderá ser processado ou punido por um de- Artigo 5º, §4º, CF. O Brasil se submete à jurisdição de Tri-
lito pelo qual já foi absolvido ou condenado por sen- bunal Penal Internacional a cuja criação tenha manifestado
tença passada em julgado, em conformidade com a lei adesão.
e os procedimentos penais de cada país.
O Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional foi
Artigo 8º - Garantias judiciais, CADH promulgado no Brasil pelo Decreto nº 4.388 de 25 de setem-
bro de 2002. Ele contém 128 artigos e foi elaborado em Roma,
4) O acusado absolvido por sentença transitada em jul- no dia 17 de julho de 1998, regendo a competência e o fun-
gado não poderá ser submetido a novo processo pelos cionamento deste Tribunal voltado às pessoas responsáveis
mesmos fatos. por crimes de maior gravidade com repercussão internacio-
nal (artigo 1º, ETPI).

Audiência de custódia “Ao contrário da Corte Internacional de Justiça, cuja ju-


risdição é restrita a Estados, ao Tribunal Penal Internacional
O direito de ser conduzido sem demora a uma autoridade compete o processo e julgamento de violações contra indi-
tão logo feita a detenção, sanando eventuais arbitrariedades víduos; e, distintamente dos Tribunais de crimes de guerra
que tenham se apresentado neste processo, é garantido nos da Iugoslávia e de Ruanda, criados para analisarem crimes
documentos internacionais de proteção dos direitos huma- cometidos durante esses conflitos, sua jurisdição não está
nos. restrita a uma situação específica”113.

Artigo 9º, PIDCP Resume Mello114: “a Conferência das Nações Unidas sobre
a criação de uma Corte Criminal Internacional, reunida em
DIREITOS HUMANOS

3) Qualquer pessoa presa ou encarcerada em virtude de Roma, em 1998, aprovou a referida Corte. Ela é permanente.
infração penal deverá ser conduzida, sem demora, à Tem sede em Haia. A corte tem personalidade internacional.
presença do juiz ou de outra autoridade habilitada Ela julga: a) crime de genocídio; b) crime contra a humani-
por lei a exercer funções judiciais e terá o direito de ser
julgada em prazo razoável ou de ser posta em liberda- 113 NEVES, Gustavo Bregalda. Direito Internacional Público
de. A prisão preventiva de pessoas que aguardam julga- & Direito Internacional Privado. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2009.
mento não deverá constituir a regra geral, mas a soltura
poderá estar condicionada a garantias que assegurem 114 MELLO, Celso D. de Albuquerque. Curso de Direito In-
ternacional Público. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2000.

63
dade; c) crime de guerra; d) crime de agressão. Para o crime g) Competência: é determinada pela autoridade coatora,
de genocídio usa a definição da convenção de 1948. Como sendo a autoridade imediatamente superior a ela. Ex.:
crimes contra a humanidade são citados: assassinato, escra- Delegado de Polícia é autoridade coatora, propõe na
vidão, prisão violando as normas internacionais, violação Vara Criminal Estadual; Juiz de Direito de uma Vara
tortura, apartheid, escravidão sexual, prostituição forçada, Criminal é a autoridade coatora, impetra no Tribunal
esterilização, etc. São crimes de guerra: homicídio interna- de Justiça.
cional, destruição de bens não justificada pela guerra, depor-
tação, forçar um prisioneiro a servir nas forças inimigas, etc.”. h) Conceito de coação ilegal: encontra-se no artigo 648,
CPP:

Remédios constitucionais Artigo 648, CPP. A coação considerar-se-á ilegal: I - quando


não houver justa causa; II - quando alguém estiver preso por
Remédios constitucionais são as espécies de ações judi- mais tempo do que determina a lei; III - quando quem orde-
ciárias que visam proteger os direitos fundamentais reco- nar a coação não tiver competência para fazê-lo; IV - quando
nhecidos no texto constitucional quando a declaração e a houver cessado o motivo que autorizou a coação; V - quando
garantia destes não se mostrar suficiente. Assim, o Poder Ju- não for alguém admitido a prestar fiança, nos casos em que
diciário será acionado para sanar o desrespeito a estes direi- a lei a autoriza; VI - quando o processo for manifestamente
tos fundamentais, servindo cada espécie de ação para uma nulo; VII - quando extinta a punibilidade.
forma de violação.
i) Procedimento: regulamentado nos artigos 647 a 667 do
Código de Processo Penal.
Habeas corpus

No que tange à disciplina do habeas corpus, prevê a Habeas data


Constituição em seu artigo 5º, LXVIII:
O artigo 5º, LXXII, CF prevê:
Artigo 5º, LXVIII, CF. Conceder-se-á habeas corpus sempre
que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência Artigo 5º, LXXII, CF. Conceder-se-á habeas data: a) para
ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou assegurar o conhecimento de informações relativas à pessoa
abuso de poder. do impetrante, constantes de registros ou bancos de dados de
entidades governamentais ou de caráter público; b) para a re-
Trata-se de ação gratuita, nos termos do artigo 5º, LXXVII, tificação de dados, quando não se prefira fazê-lo por processo
CF. sigiloso, judicial ou administrativo.

a) Antecedentes históricos: A Magna Carta inglesa, de Tal como o habeas corpus, trata-se de ação gratuita (arti-
1215, foi o primeiro documento a mencionar este re- go 5º, LXXVII, CF).
médio e o Habeas Corpus Act, de 1679, o regulamen-
tou. a) Antecedente histórico: Freedom of Information Act, de
1974.
b) Escopo: ação que serve para proteger a liberdade de
locomoção. Antes de haver proteção no Brasil por ou- b) Escopo: proteção do acesso a informações pessoais
tros remédios constitucionais de direitos que não este, constantes de registros ou bancos de dados de entida-
o habeas-corpus foi utilizado para protegê-los. Hoje, des governamentais ou de caráter público, para o co-
apenas serve à lesão ou ameaça de lesão ao direito de nhecimento ou retificação (correção).
ir e vir.
c) Natureza jurídica: ação constitucional que tutela o
c) Natureza jurídica: ação constitucional de cunho pre- acesso a informações pessoais.
dominantemente penal, pois protege o direito de ir e
vir e vai contra a restrição arbitrária da liberdade. d) Legitimidade ativa: pessoa física, brasileira ou estran-
geira, ou por pessoa jurídica, de direito público ou pri-
d) Espécies: preventivo, para os casos de ameaça de vio- vado, tratando-se de ação personalíssima – os dados
lação ao direito de ir e vir, conferindo-se um “salvo devem ser a respeito da pessoa que a propõe.
conduto”, ou repressivo, para quando ameaça já tiver
se materializado. e) Legitimidade passiva: entidades governamentais da
Administração Pública Direta e Indireta nas três esfe-
e) Legitimidade ativa: qualquer pessoa pode manejá-lo, ras, bem como instituições, órgãos, entidades e pes-
DIREITOS HUMANOS

em próprio nome ou de terceiro, bem como o Minis- soas jurídicas privadas prestadores de serviços de in-
tério Público (artigo 654, CPP). Impetrante é o que in- teresse público que possuam dados relativos à pessoa
gressa com a ação e paciente é aquele que está sendo do impetrante.
vítima da restrição à liberdade de locomoção. As duas
figuras podem se concentrar numa mesma pessoa. f) Competência: Conforme o caso, nos termos da Cons-
tituição, do Supremo Tribunal Federal (art. 102, I, “d”),
f) Legitimidade passiva: pessoa física, agente público ou do Superior Tribunal de Justiça (art. 105, I, “b”), dos Tri-
privado. bunais Regionais Federais (art. 108, I, “c”), bem como

64
dos juízes federais (art. 109, VIII). h) Competência: Fixada de acordo com a autoridade coa-
tora.
g) Regulamentação específica: Lei nº 9.507, de 12 de no-
vembro de 1997. i) Regulamentação específica: Lei nº 12.016, de 07 de
agosto de 2009.
h) Procedimento: artigos 8º a 19 da Lei nº 9.507/1997.
j) Procedimento: artigos 6º a 19 da Lei nº 12.016/09.

Mandado de segurança individual


Mandado de segurança coletivo
Dispõe a Constituição no artigo 5º, LXIX:
A Constituição Federal prevê a possibilidade de ingresso
Artigo 5º, LXIX, CF. Conceder-se-á mandado de seguran- com mandado de segurança coletivo, consoante ao artigo 5º,
ça para proteger direito líquido e certo, não amparado por LXX:
habeas-corpus ou habeas-data, quando o responsável pela
ilegalidade ou abuso de poder for autoridade pública ou Artigo 5º, LXX, CF. O mandado de segurança coletivo pode
agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder ser impetrado por: a) partido político com representação no
Público. Congresso Nacional; b) organização sindical, entidade de
classe ou associação legalmente constituída e em funciona-
a) Origem: Veio com a finalidade de preencher a lacuna mento há pelo menos um ano, em defesa dos interesses de seus
decorrente da sistemática do habeas corpus e das limi- membros ou associados.
nares possessórias.
a) Origem: Constituição Federal de 1988.
b) Escopo: Trata-se de remédio constitucional com na-
tureza subsidiária pelo qual se busca a invalidação b) Escopo: preservação ou reparação de direito líquido e
de atos de autoridade ou a suspensão dos efeitos da certo relacionado a interesses transindividuais (indivi-
omissão administrativa, geradores de lesão a direito duais homogêneos ou coletivos), e devido à questão da
líquido e certo, por ilegalidade ou abuso de poder. São legitimidade ativa, pertencente a partidos políticos e
protegidos todos os direitos líquidos e certos à exce- determinadas associações.
ção da proteção de direitos humanos à liberdade de
locomoção e ao acesso ou retificação de informações c) Natureza jurídica: ação constitucional de natureza ci-
relativas à pessoa do impetrante, constantes de regis- vil, independente da natureza do ato, de caráter cole-
tros ou bancos de dados de entidades governamentais tivo.
ou de caráter público, ambos sujeitos a instrumentos
específicos. d) Objeto: o objeto do mandado de segurança coletivo
são os direitos coletivos e os direitos individuais ho-
c) Natureza jurídica: ação constitucional de natureza mogêneos. Tal instituto não se presta à proteção dos
civil, independente da natureza do ato impugnado direitos difusos, conforme posicionamento ampla-
(administrativo, jurisdicional, eleitoral, criminal, tra- mente majoritário, já que, dada sua difícil individua-
balhista). lização, fica improvável a verificação da ilegalidade ou
do abuso do poder sobre tal direito (art. 21, parágrafo
d) Espécies: preventivo, quando se estiver na iminência único, Lei nº 12.016/09).
de violação a direito líquido e certo, ou reparatório,
quando já consumado o abuso/ilegalidade. e) Legitimidade ativa: como se extrai da própria dis-
ciplina constitucional, aliada ao artigo 21 da Lei nº
e) Direito líquido e certo: é aquele que pode ser demons- 12.016/09, é de partido político com representação no
trado de plano mediante prova pré-constituída, sem a Congresso Nacional, bem como de organização sindi-
necessidade de dilação probatória, isto devido à natu- cal, entidade de classe ou associação legalmente cons-
reza célere e sumária do procedimento. tituída e em funcionamento há, pelo menos, 1 (um)
ano, em defesa de direitos líquidos e certos que atin-
f) Legitimidade ativa: a mais ampla possível, abrangen- jam diretamente seus interesses ou de seus membros.
do não só a pessoa física como a jurídica, nacional ou
estrangeira, residente ou não no Brasil, bem como ór- f) Disciplina específica na Lei nº 12.016/09:
gãos públicos despersonalizados e universalidades/
pessoas formais reconhecidas por lei. Art. 22, Lei nº 12.016/09. No mandado de segurança coleti-
vo, a sentença fará coisa julgada limitadamente aos membros
DIREITOS HUMANOS

g) Legitimidade passiva: A autoridade coatora deve ser do grupo ou categoria substituídos pelo impetrante.
autoridade pública ou agente de pessoa jurídica no
exercício de atribuições do Poder Público. Neste viés, § 1º O mandado de segurança coletivo não induz litis-
o art. 6º, §3º, Lei nº 12.016/09, preceitua que “conside- pendência para as ações individuais, mas os efeitos
ra-se autoridade coatora aquela que tenha praticado o da coisa julgada não beneficiarão o impetrante a tí-
ato impugnado ou da qual emane a ordem para a sua tulo individual se não requerer a desistência de seu
prática”. mandado de segurança no prazo de 30 (trinta) dias a
contar da ciência comprovada da impetração da se-

65
gurança coletiva.

§ 2º No mandado de segurança coletivo, a liminar só po- Ação popular


derá ser concedida após a audiência do representan-
te judicial da pessoa jurídica de direito público, que Prevê o artigo 5º, LXXIII, CF:
deverá se pronunciar no prazo de 72 (setenta e duas)
horas. Artigo 5º, LXXIII, CF. Qualquer cidadão é parte legítima
para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao pa-
trimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à
Mandado de injunção moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimô-
nio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada
Regulamenta o artigo 5º, LXXI, CF: má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência.

Artigo 5º, LXXI, CF. Conceder-se-á mandado de injunção a) Origem: Constituição Federal de 1934.
sempre que a falta de norma regulamentadora torne inviável
o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prer- b) Escopo: é instrumento de exercício direto da democra-
rogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidada- cia, permitindo ao cidadão que busque a proteção da
nia. coisa pública, ou seja, que vise assegurar a preservação
dos interesses transindividuais.
a) Escopo: os dois requisitos constitucionais para que
seja proposto o mandado de injunção são a existên- c) Natureza jurídica: trata-se de ação constitucional, que
cia de norma constitucional de eficácia limitada que visa anular ato lesivo ao patrimônio público ou de en-
prescreva direitos, liberdades constitucionais e prer- tidade de que o Estado participe, à moralidade admi-
rogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à nistrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico
cidadania; além da falta de norma regulamentadores, e cultural
impossibilitando o exercício dos direitos, liberdades e
prerrogativas em questão. Assim, visa curar o hábito d) Legitimidade ativa: deve ser cidadão, ou seja, aquele
que se incutiu no legislador brasileiro de não regula- nacional que esteja no pleno gozo dos direitos políti-
mentar as normas de eficácia limitada para que elas cos.
não sejam aplicáveis.
e) Legitimidade passiva: ente da Administração Pública,
b) Natureza jurídica: ação constitucional que objetiva a direta ou indireta, ou então pessoa jurídica que de al-
regulamentação de normas constitucionais de eficácia gum modo lide com a coisa pública.
limitada.
f) Competência: Será fixada de acordo com a origem do
c) Legitimidade ativa: qualquer pessoa, nacional ou es- ato ou omissão a serem impugnados (artigo 5º, Lei nº
trangeira, física ou jurídica, capaz ou incapaz, que ti- 4.717/65).
tularize direito fundamental não materializável por
omissão legislativa do Poder público, bem como o Mi- g) Regulamentação específica: Lei nº 4.717, de 29 de ju-
nistério Público na defesa de seus interesses institu- nho de 1965.
cionais. Não se aceita a legitimidade ativa de pessoas
jurídicas de direito público. h) Procedimento: artigos 7º a 19, Lei nº 4.717/65.

d) Competência: Supremo Tribunal Federal, quando a


elaboração de norma regulamentadora for atribuição DOS DIREITOS SOCIAIS
do Presidente da República, do Congresso Nacional, da
Câmara dos Deputados, do Senado Federal, das Mesas
de uma dessas Casas Legislativas, do Tribunal de Con- A Constituição Federal, dentro do Título II, aborda no
tas da União, de um dos Tribunais Superiores, ou do capítulo II a categoria dos direitos sociais, em sua maioria
próprio Supremo Tribunal Federal (art. 102, I, “q”, CF); normas programáticas e que necessitam de uma postura in-
ao Superior Tribunal de Justiça, quando a elaboração terventiva estatal em prol da implementação.
da norma regulamentadora for atribuição de órgão,
entidade ou autoridade federal, da administração di- Os direitos assegurados nesta categoria encontram men-
reta ou indireta, excetuados os casos da competência ção genérica no artigo 6º, CF:
do Supremo Tribunal Federal e dos órgãos da Justiça
Militar, da Justiça Eleitoral, da Justiça do Trabalho e da Artigo 6º, CF. São direitos sociais a educação, a saúde, a
alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a
DIREITOS HUMANOS

Justiça Federal (art. 105, I, “h”, CF); ao Tribunal Supe-


rior Eleitoral, quando as decisões dos Tribunais Regio- previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a
nais Eleitorais denegarem habeas corpus, mandado de assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. 
segurança, habeas data ou mandado de injunção (art.
121, §4º, V, CF); e aos Tribunais de Justiça Estaduais, Trata-se de desdobramento da perspectiva do Estado
frente aos entes a ele vinculados. Social de Direito. Em suma, são elencados os direitos huma-
nos de 2ª dimensão, notadamente conhecidos como direitos
e) Procedimento: aplicação da Lei nº 13.300/16. econômicos, sociais e culturais. Em resumo, os direitos so-
ciais envolvem prestações positivas do Estado (diferente dos

66
de liberdade, que referem-se à postura de abstenção estatal), Reserva do possível e mínimo existencial
ou seja, políticas estatais que visem consolidar o princípio
da igualdade não apenas formalmente, mas materialmente Os direitos sociais serão concretizados gradualmente,
(tratando os desiguais de maneira desigual). notadamente porque estão previstos em normas programá-
ticas e porque a implementação deles gera um ônus para o
Por seu turno, embora no capítulo específico do Título II Estado. Diferentemente dos direitos individuais, que depen-
que aborda os direitos sociais não se perceba uma intensa dem de uma postura de abstenção estatal, os direitos sociais
regulamentação destes, à exceção dos direitos trabalhistas, precisam que o Estado assuma um papel ativo em prol da
o Título VIII da Constituição Federal, que aborda a ordem efetivação destes.
social, se concentra em trazer normativas mais detalhadas a
respeitos de direitos indicados como sociais. A previsão excessiva de direitos sociais no bojo de uma
Constituição, a despeito de um instante bem-intencionado
de palavras promovido pelo constituinte, pode levar à nega-
Igualdade material e efetivação dos direitos sociais tiva, paradoxal – e, portanto, inadmissível – consequência de
uma Carta Magna cujas finalidades não condigam com seus
Independentemente da categoria de direitos que este- próprios prescritos, fato que deslegitima o Poder Público
ja sendo abordada, a igualdade nunca deve aparecer num como determinador de que particulares respeitem os direi-
sentido meramente formal, mas necessariamente material. tos fundamentais, já que sequer eles próprios, os adminis-
Significa que discriminações indevidas são proibidas, mas tradores, conseguem cumprir o que consta de seu Estatuto
existem certas distinções que não só devem ser aceitas, como Máximo115.
também se mostram essenciais.
Tecnicamente, nos direitos sociais é possível invocar a
No que tange aos direitos sociais percebe-se que a igual- cláusula da reserva do possível como argumento para a não
dade material assume grande relevância. Afinal, esta cate- implementação de determinado direito social – seja pela ab-
goria de direitos pressupõe uma postura ativa do Estado em soluta ausência de recursos (reserva do possível fática), seja
prol da efetivação. Nem todos podem arcar com suas des- pela ausência de previsão orçamentária nos termos do artigo
pesas de saúde, educação, cultura, alimentação e moradia, 167, CF (reserva do possível jurídica).
assim como nem todos se encontram na posição de explora-
dor da mão-de-obra, sendo a grande maioria da população O Ministro Celso de Mello afirmou em julgamento que os
de explorados. Estas pessoas estão numa clara posição de direitos sociais “não pode converter-se em promessa consti-
desigualdade e caberá ao Estado cuidar para que progressi- tucional inconsequente, sob pena de o Poder Público, frau-
vamente atinjam uma posição de igualdade real, já que não dando justas expectativas nele depositadas pela coletivida-
é por conta desta posição desfavorável que se pode afirmar de, substituir, de maneira ilegítima, o cumprimento de seu
que são menos dignos, menos titulares de direitos funda- impostergável dever, por um gesto irresponsável de infideli-
mentais. dade governamental ao que determina a própria Lei Funda-
mental do Estado”116.
Logo, a efetivação dos direitos sociais é uma meta a ser
alcançada pelo Estado em prol da consolidação da igualdade Sendo assim, a invocação da cláusula da reserva do pos-
material. Sendo assim, o Estado buscará o crescente aper- sível, embora viável, não pode servir de muleta para que o
feiçoamento da oferta de serviços públicos com qualidade Estado não arque com obrigações básicas. Neste viés, geral-
para que todos os nacionais tenham garantidos seus direitos mente, quando invocada a cláusula é afastada, entendendo o
fundamentais de segunda dimensão da maneira mais plena Poder Judiciário que não cabe ao Estado se eximir de garantir
possível. direitos sociais com o simples argumento de que não há or-
çamento específico para isso – ele deveria ter reservado par-
Há se ressaltar também que o Estado não possui apenas cela suficiente de suas finanças para atender esta demanda.
um papel direto na promoção dos direitos econômicos, so-
ciais e culturais, mas também um indireto, quando por meio Com efeito, deve ser preservado o mínimo existencial,
de sua gestão permite que os indivíduos adquiram condições que tem por fulcro limitar a discricionariedade político-ad-
para sustentarem suas necessidades pertencentes a esta ca- ministrativa e estabelecer diretrizes orçamentárias básicas a
tegoria de direitos. serem seguidas, sob pena de caber a intervenção do Poder
Judiciário em prol de sua efetivação.
No campo dos direitos humanos, num reforço às previ-
sões genéricas sobre o direito à igualdade feitas na Declara-
ção Universal de 1948, no Pacto Internacional dos Direitos Princípio da proibição do retrocesso
Civis e Políticos de 1966 e na Convenção Americana sobre Di-
reitos Humanos de 1969, o Pacto Internacional dos Direitos Proibição do retrocesso é a impossibilidade de que uma
DIREITOS HUMANOS

Econômicos, Sociais e Culturais de 1966 traz as previsões de conquista garantida na Constituição Federal sofra um retro-
seus artigos 2º e 3º. Ao passo que o artigo 2º volta-se à proi- cesso, de modo que um direito social garantido não pode
bição de discriminações como um todo quanto aos direitos deixar de o ser.
econômicos, sociais e culturais, abrangendo desde raça,
passando por religião ou mesmo opinião política, mas pre- 115 LAZARI, Rafael José Nadim de. Reserva do possível e mí-
tendendo acima de tudo se referir a qualquer discriminação nimo existencial: a pretensão de eficácia da norma consti-
indevida; o artigo 3º reforça a igualdade entre homens e mu- tucional em face da realidade. Curitiba: Juruá, 2012, p. 56-57.
lheres no gozo dos mesmos direitos.
116 RTJ 175/1212-1213, Rel. Min. CELSO DE MELLO.

67
Conforme jurisprudência, a proibição do retrocesso deve nômica nacional, poderão determinar em que medida
ser tomada com reservas, até mesmo porque segundo enten- garantirão os direitos econômicos reconhecidos no pre-
dimento predominante as normas do artigo 7º, CF não são sente Pacto àqueles que não sejam seus nacionais.
cláusula pétrea, sendo assim passíveis de alteração. Se for al-
terada normativa sobre direito trabalhista assegurado no re- Artigo 26 - Desenvolvimento progressivo, CADH
ferido dispositivo, não sendo o prejuízo evidente, entende-se
válida (por exemplo, houve alteração do prazo prescricional Os Estados-partes comprometem-se a adotar as provi-
diferenciado para os trabalhadores agrícolas). O que, em hi- dências, tanto no âmbito interno, como mediante cooperação
pótese alguma, pode ser aceito é um retrocesso evidente, seja internacional, especialmente econômica e técnica, a fim de
excluindo uma categoria de direitos (ex.: abolir o Sistema conseguir progressivamente a plena efetividade dos direitos
Único de Saúde), seja diminuindo sensivelmente a abran- que decorrem das normas econômicas, sociais e sobre edu-
gência da proteção (ex.: excluindo o ensino médio gratuito). cação, ciência e cultura, constantes da Carta da Organização
dos Estados Americanos, reformada pelo Protocolo de Buenos
Questão polêmica se refere à proibição do retrocesso: Aires, na medida dos recursos disponíveis, por via legislativa
se uma decisão judicial melhorar a efetivação de um direi- ou por outros meios apropriados.
to social, ela se torna vinculante e é impossível ao legislador
alterar a Constituição para retirar este avanço? Por um lado, Artigo 1º - Obrigação de adotar medidas, PCADH
a proibição do retrocesso merece ser tomada em conceito
amplo, abrangendo inclusive decisões judiciais; por outro  Os Estados Partes neste Protocolo Adicional à Convenção
lado, a decisão judicial não tem por fulcro alterar a norma, Americana sobre Direitos Humanos comprometemse a ado-
o que somente é feito pelo legislador, e ele teria o direito de tar as medidas necessárias, tanto de ordem interna como por
prever que aquela decisão judicial não está incorporada na meio da cooperação entre os Estados, especialmente econômi-
proibição do retrocesso. A questão é polêmica e não há en- ca e técnica, até o máximo dos recursos disponíveis e levan-
tendimento dominante. do em conta seu grau de desenvolvimento, a fim de conse-
guir, progressivamente e de acordo com a legislação interna,
a plena efetividade dos direitos reconhecidos neste Protocolo.
Direitos humanos e o avanço dos direitos econômi-
cos, sociais e culturais Artigo 2º - Obrigação de adotar disposições de direito
interno, PCADH
Embora o direito internacional dos direitos humanos
reconheça a importância dos direitos econômicos, sociais e Se o exercício dos direitos estabelecidos neste Protoco-
culturais, também não é ignorante ao fato de que estes direi- lo ainda não estiver garantido por disposições legislativas
tos exigem do Estado prestações positivas, que se sujeitam ou de outra natureza, os Estados Partes comprometemse a
necessariamente a limites econômicos. Assim, a ONU incen- adotar, de acordo com suas normas constitucionais e com as
tiva a colaboração para com os países menos desenvolvidos. disposições deste Protocolo, as medidas legislativas ou de ou-
Além disso, não impõe aos Estados que façam o impossível, tra natureza que forem necessárias para tornar efetivos esses
embora exista um histórico de punição de omissões comple- direitos.
tas (não é porque um Estado tem poucas condições e não
conseguirá fazer muito em prol destes direitos que deverá se
conformar e nada fazer). Direito à educação
Artigo XXII, DUDH Consta na disciplina do direito internacional dos direitos
humanos a garantia do direito à educação, que deve ser obri-
Toda pessoa, como membro da sociedade, tem direito à gatória e gratuita em seu nível mais elementar:
segurança social e à realização, pelo esforço nacional, pela
cooperação internacional e de acordo com a organização e Artigo XXVI, DUDH
recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e
culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvol- 1) Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será
vimento da sua personalidade. gratuita, pelo menos nos graus elementares e funda-
mentais. A instrução elementar será obrigatória. A
Artigo 2º, PIDESC instrução técnico-profissional será acessível a todos,
bem como a instrução superior, esta baseada no mé-
1) Cada Estados Partes do presente Pacto comprometem- rito.
-se a adotar medidas, tanto por esforço próprio como
pela assistência e cooperação internacionais, princi- 2) A instrução será orientada no sentido do pleno desen-
palmente nos planos econômico e técnico, até o máxi- volvimento da personalidade humana e do fortale-
DIREITOS HUMANOS

mo de seus recursos disponíveis, que visem assegurar, cimento do respeito pelos direitos humanos e pelas
progressivamente, por todos os meios apropriados, o, liberdades fundamentais. A instrução promoverá a
pleno exercício dos direitos reconhecidos no presente compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as
Pacto, incluindo, em particular, a adoção de medidas nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as
legislativas. atividades das Nações Unidas em prol da manutenção
da paz.
3) Os países em desenvolvimento, levando devidamente
em consideração os direitos humanos e a situação eco- 3) Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero

68
de instrução que será ministrada a seus filhos. Todo Estado-parte do presente Pacto que, no momento em
que se tornar Parte, ainda não tenha garantido em seu pró-
Artigo 13, PIDESC prio território ou territórios sob sua jurisdição a obrigatorie-
dade e a gratuidade da educação primária, se compromete
1) Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem o di- a elaborar e a adotar, dentro de um prazo de dois anos, um
reito de toda pessoa à educação. Concordam em que plano de ação detalhados destinado à implementação pro-
a educação deverá visar o pleno desenvolvimento da gressiva, dentro de um número razoável de anos estabelecidos
personalidade humana e do sentido de sua digni- no próprio plano, do princípio da educação primária obriga-
dade e fortalecer o respeito pelos direitos humanos e tória e gratuita para todos.
liberdades fundamentais. Concordam ainda em que
a educação deverá capacitar todas as pessoas a parti- Artigo XII - Direito à educação, DADH
cipar efetivamente de uma sociedade livre, favorecer a
compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as Toda pessoa tem direito à educação, que deve inspirar-se
nações e entre todos os grupos raciais, étnicos ou reli- nos princípios de liberdade, moralidade e solidariedade hu-
giosos e promover as atividades das Nações Unidas em mana. Tem, outrossim, direito a que, por meio dessa educação,
prol da manutenção da paz. lhe seja proporcionado o preparo para subsistir de uma ma-
neira digna, para melhorar o seu nível de vida e para poder
2) Os Estados partes do Presente Pacto reconhecem que, ser útil à sociedade. O direito à educação compreende o de
com o objetivo de assegurar o pleno exercício desse di- igualdade de oportunidade em todos os casos, de acordo com
reito: os dons naturais, os méritos e o desejo de aproveitar os recursos
que possam proporcionar a coletividade e o Estado. Toda pes-
a) a educação primária deverá ser obrigatória e acessí- soa tem o direito de que lhe seja ministrada gratuitamente,
vel gratuitamente a todos; pelo menos, a instrução primária.

b) a educação secundária em suas diferentes formas, in- Artigo 13 - Direito à educação, PCADH
clusive a educação secundária técnica e profissional,
deverá ser generalizada e tornar-se acessível a todos, 1) Toda pessoa tem direito à educação.
por todos os meios apropriados e, principalmente, pela
implementação progressiva do ensino gratuito; 2) Os Estados Partes neste Protocolo convêm em que a
educação deverá orientarse para o pleno desenvolvi-
c) a educação de nível superior deverá igualmente tronar- mento da personalidade humana e do sentido de sua
-se acessível a todos, com base na capacidade de cada dignidade e deverá fortalecer o respeito pelos direitos
um, por todos os meios apropriados e, principalmente, humanos, pelo pluralismo ideológico, pelas liberdades
pela implementação progressiva do ensino gratuito; fundamentais, pela justiça e pela paz.  Convêm, tam-
bém, em que a educação deve capacitar todas as pessoas
d) dever-se-á fomentar e intensificar, na medida do possí- para participar efetivamente de uma sociedade demo-
vel, a educação de base para aquelas que não receberam crática e pluralista, conseguir uma subsistência digna,
educação primária ou não concluíram o ciclo comple- favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre
to de educação primária; todas as nações e todos os grupos raciais, étnicos ou re-
ligiosos e promover as atividades em prol da manuten-
e) será preciso prosseguir ativamente o desenvolvimento ção da paz.
de uma rede escolar em todos os níveis de ensino, im-
plementar-se um sistema de bolsas estudo e melhorar 3) Os Estados Partes neste Protocolo reconhecem que, a fim
continuamente as condições materiais do corpo do- de conseguir o pleno exercício do direito à educação:
cente.
a)  O ensino de primeiro grau deve ser obrigatório e aces-
3) Os Estados Partes do presente Pacto comprometem-se sível a todos gratuitamente;
a respeitar a liberdade dos pais - e, quando for o caso,
dos tutores legais - de escolher para seus filhos escolas b) O ensino de segundo grau, em suas diferentes formas,
distintas daquelas criadas pelas autoridades públi- inclusive o ensino técnico e profissional de segundo
cas, sempre que atendam aos padrões mínimos de ensi- grau, deve ser generalizado e tornar-se acessível a to-
no prescritos ou aprovados pelo Estado, e de fazer com dos, pelos meios que forem apropriados e, especialmen-
que seus filhos venham a receber educação religiosa ou te, pela implantação progressiva do ensino gratuito;
moral que seja de acordo com suas próprias convicções.
c)  O ensino superior deve tornarse igualmente acessível
4) Nenhuma das disposições do presente artigo poderá ser a todos, de acordo com a capacidade de cada um, pelos
DIREITOS HUMANOS

interpretada no sentido de restringir a liberdade de in- meios que forem apropriados e, especialmente, pela im-
divíduos e de entidades de criar e dirigir instituições plantação progressiva do ensino gratuito;
de ensino, desde que respeitados os princípios enuncia-
dos no §1º do presente artigo e que essas instituições ob- d) Devese promover ou intensificar, na medida do possí-
servem os padrões mínimos prescritos pelo Estado. vel, o ensino básico para as pessoas que não tiverem
recebido ou terminado o ciclo completo de instrução
Artigo 14, PIDESC do primeiro grau;

69
e) Deverão ser estabelecidos programas de ensino diferen- Artigo 10 - Direito à saúde, PCADH
ciado para os deficientes, a fim de proporcionar instru-
ção especial e formação a pessoas com impedimentos 1) Toda pessoa tem direito à saúde, entendida como o gozo
físicos ou deficiência mental. do mais alto nível de bemestar físico, mental e social.

4) De acordo com a legislação interna dos Estados Partes, 2) A fim de tornar efetivo o direito à saúde, os Estados Par-
os pais terão direito a escolher o tipo de educação a ser tes comprometemse a reconhecer a saúde como bem
dada aos seus filhos, desde que esteja de acordo com os público e, especialmente, a adotar as seguintes medi-
princípios enunciados acima. das para garantir este direito:

5) Nada do disposto neste Protocolo poderá ser interpreta- a)  Atendimento primário de saúde, entendendose como
do como restrição da liberdade dos particulares e en- tal a assistência médica essencial colocada ao alcance
tidades de estabelecer e dirigir instituições de ensino, de todas as pessoas e famílias da comunidade;
de acordo com a legislação interna dos Estados Partes.
b) Extensão dos benefícios dos serviços de saúde a todas as
pessoas sujeitas à jurisdição do Estado;
Direito à saúde
c) Total imunização contra as principais doenças infeccio-
O direito à saúde e ao bem-estar aparecem na Declaração sas;
Universal dos Direitos Humanos e são aprofundados em ou-
tros documentos do sistema geral de proteção, como se vê: d) Prevenção e tratamento das doenças endêmicas, pro-
fissionais e de outra natureza;
Artigo XXV, DUDH
e) Educação da população sobre prevenção e tratamento
1) Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de dos problemas da saúde; e
assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, in-
clusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados f) Satisfação das necessidades de saúde dos grupos de
médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à mais alto risco e que, por sua situação de pobreza, se-
segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, jam mais vulneráveis.
viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de
subsistência fora de seu controle.
Direito à alimentação, ao vestuário e à moradia
Artigo 12, PIDESC
Para a consecução dos direitos econômicos, sociais e cul-
1) Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem o direi- turais, a essência é a garantia de um padrão de vida mínimo,
to de toda pessoa desfrutar o mais elevado nível possí- um conforto minimamente assegurado às pessoas, o que
vel de saúde física e mental. envolve alimentação, vestuário, moradia, saúde e assistência
social:
2) As medidas que os Estados partes do presente Pacto de-
verão adotar com o fim de assegurar o pleno exercício Artigo XXV, DUDH
desse direito incluirão as medidas que se façam neces-
sárias para assegurar: 1) Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz
de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, in-
a) a diminuição da mortalidade infantil, bem como o de- clusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados
senvolvimento são das crianças; médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à
segurança em caso de desemprego, doença, invalidez,
b) a melhoria de todos os aspectos de higiene do trabalho viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de
e do meio ambiente; subsistência fora de seu controle.

c) a prevenção e tratamento das doenças epidêmicas, en- Artigo 11, PIDESC


dêmicas, profissionais e outras, bem como a luta con-
tra essas doenças; 1) Os Estados-partes do presente Pacto reconhecem o di-
reito de toda pessoa a nível de vida adequado para si
d) a criação de condições que assegurem a todos assistên- próprio e sua família, inclusive à alimentação, vesti-
cia médica e serviços médicos em caso de enfermidade. menta e moradia adequadas, assim como a uma me-
lhoria contínua de suas condições de vida. Os Estados-
DIREITOS HUMANOS

Artigo XI - Direito à preservação da saúde e ao bem-es- -partes tomarão medidas apropriadas para assegurar
tar, DADH a consecução desse direito, reconhecendo, nesse sentido,
a importância essencial da cooperação internacional
Toda pessoa tem direito a que sua saúde seja resguarda- fundada no livre consentimento.
da por medidas sanitárias e sociais relativas à alimentação,
roupas, habitação e cuidados médicos correspondentes ao 2) Os Estados-partes do presente pacto, reconhecendo o
nível permitido pelos recursos públicos e os da coletividade. direito fundamental de toda pessoa de estar protegida
contra a fome, adotarão, individualmente e mediante

70
cooperação internacional, as medidas, inclusive pro- Artigo XXV, DUDH
gramas concretos, que se façam necessárias para:
2) A maternidade e a infância têm direito a cuidados e
a) melhorar os métodos de produção, conservação e assistência especiais. Todas as crianças nascidas den-
distribuição de gêneros alimentícios pela plena uti- tro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma prote-
lização dos conhecimentos técnicos e científicos, pela ção social.
difusão de princípios de educação nutricional e pelo
aperfeiçoamento ou reforma dos regimes agrários, de Artigo 10, PIDESC
maneira que se assegurem a exploração e a utilização
mais eficazes dos recursos naturais; Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem que:

b) assegurar uma repartição equitativa dos recursos ali- 2) Deve-se conceder proteção às mães por um período de
mentícios mundiais em relação às necessidades, levan- tempo razoável antes e depois do parto. Durante esse
do-se em conta os problemas tanto dos países importa- período, deve-se conceder às mães que trabalhem licen-
dores quanto dos exportadores de gêneros alimentícios. ça remunerada ou licença acompanhada de benefícios
previdenciários adequados.
Artigo XI - Direito à preservação da saúde e ao bem-es-
tar, DADH 3) Devem-se adotar medidas especiais de proteção e de
assistência em prol de todas as crianças e adolescen-
Toda pessoa tem direito a que sua saúde seja resguardada tes, sem distinção por motivo de filiação ou qualquer
por medidas sanitárias e sociais relativas à alimentação, rou- outra condição. Devem-se proteger as crianças e adoles-
pas, habitação e cuidados médicos correspondentes ao nível centes contra a exploração econômica e social. O em-
permitido pelos recursos públicos e os da coletividade. prego de crianças e adolescentes em trabalhos que lhes
sejam nocivos à saúde ou que lhes façam correr perigo
Artigo 12 - Direito à alimentação de vida, ou ainda que lhes venham a prejudicar o de-
senvolvimento normal, será punido por lei.
1) Toda pessoa tem direito a uma nutrição adequada que
assegure a possibilidade de gozar do mais alto nível de Os Estados devem também estabelecer limites de idade sob
desenvolvimento físico, emocional e intelectual. os quais fique proibido e punido por lei o emprego assalariado
da mão-de-obra infantil.
2) A fim de tornar efetivo esse direito e de eliminar a desnu-
trição, os Estados Partes comprometemse a aperfeiçoar Artigo VII - Direito de proteção à maternidade e à infân-
os métodos de produção, abastecimento e distribui- cia, DADH
ção de alimentos, para o que se comprometem a pro-
mover maior cooperação internacional com vistas a Toda mulher em estado de gravidez ou em época de lacta-
apoiar as políticas nacionais sobre o tema. ção, assim como toda criança, têm direito à proteção, cuida-
dos e auxílios especiais.

Direito ao lazer
Direito individual do trabalho
O direito ao lazer também é assegurado no direito inter-
nacional dos direitos humanos como parte essencial dos di- O artigo 7º da Constituição enumera os direitos indivi-
reitos econômicos, sociais e culturais: duais dos trabalhadores urbanos e rurais. São os direitos
individuais tipicamente trabalhistas, mas que não excluem
Artigo XXIV, DUDH os demais direitos fundamentais (ex.: honra é um direito no
espaço de trabalho, sob pena de se incidir em prática de as-
Toda pessoa tem direito a repouso e lazer, inclusive a sédio moral).
limitação razoável das horas de trabalho e férias periódicas
remuneradas. Artigo 7º, I, CF. Relação de emprego protegida contra des-
pedida arbitrária ou sem justa causa, nos termos de lei com-
Artigo XV - Direito ao descanso e ao seu aproveitamento, plementar, que preverá indenização compensatória, dentre
DADH outros direitos.

Toda pessoa tem direito ao descanso, ao recreio honesto Significa que a demissão, se não for motivada por justa
e à oportunidade de aproveitar utilmente o seu tempo livre causa, assegura ao trabalhador direitos como indenização
em benefício de seu melhoramento espiritual, cultural e físico. compensatória, entre outros, a serem arcados pelo empre-
DIREITOS HUMANOS

gador.

Direito à proteção da maternidade e da infância Artigo 7º, II, CF. Seguro-desemprego, em caso de desem-
prego involuntário.
Também aparecem assegurados enquanto direitos so-
ciais a proteção da maternidade e a proteção da infância, re- Sem prejuízo de eventual indenização a ser recebida do
pousando nos futuros cidadãos as esperanças e construção empregador, o trabalhador que fique involuntariamente de-
de uma sociedade mais livre, justa e solidária: sempregado – entendendo-se por desemprego involuntário

71
o que tenha origem num acordo de cessação do contrato de mínimo, para os que percebem remuneração variável.
trabalho – tem direito ao seguro-desemprego, a ser arcado
pela previdência social, que tem o caráter de assistência fi- O salário mínimo é direito de todos os trabalhadores,
nanceira temporária. mesmo daqueles que recebem remuneração variável (ex.:
baseada em comissões por venda e metas);
Artigo 7º, III, CF. Fundo de garantia do tempo de serviço.
Artigo 7º, VIII, CF. Décimo terceiro salário com base na re-
Foi criado em 1967 pelo Governo Federal para proteger o muneração integral ou no valor da aposentadoria.
trabalhador demitido sem justa causa. O FGTS é constituído
de contas vinculadas, abertas em nome de cada trabalhador, Também conhecido como gratificação natalina, foi ins-
quando o empregador efetua o primeiro depósito. O saldo tituída no Brasil pela Lei nº 4.090/1962 e garante que o tra-
da conta vinculada é formado pelos depósitos mensais efeti- balhador receba o correspondente a 1/12 (um doze avos) da
vados pelo empregador, equivalentes a 8,0% do salário pago remuneração por mês trabalhado, ou seja, consiste no paga-
ao empregado, acrescido de atualização monetária e juros. mento de um salário extra ao trabalhador e ao aposentado
Com o FGTS, o trabalhador tem a oportunidade de formar no final de cada ano.
um patrimônio, que pode ser sacado em momentos espe-
ciais, como o da aquisição da casa própria ou da aposentado- Artigo 7º, IX, CF. Remuneração do trabalho noturno supe-
ria e em situações de dificuldades, que podem ocorrer com a rior à do diurno.
demissão sem justa causa ou em caso de algumas doenças
graves. O adicional noturno é devido para o trabalho exercido
durante a noite, de modo que cada hora noturna sofre a re-
Artigo 7º, IV, CF. Salário mínimo, fixado em lei, nacional- dução de 7 minutos e 30 segundos, ou ainda, é feito acrés-
mente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais cimo de 12,5% sobre o valor da hora diurna. Considera-se
básicas e às de sua família com moradia, alimentação, edu- noturno, nas atividades urbanas, o trabalho realizado entre
cação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previ- as 22:00 horas de um dia às 5:00 horas do dia seguinte; nas
dência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o atividades rurais, é considerado noturno o trabalho execu-
poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer tado na lavoura entre 21:00 horas de um dia às 5:00 horas do
fim. dia seguinte; e na pecuária, entre 20:00 horas às 4:00 horas
do dia seguinte.
Trata-se de uma visível norma programática da Consti-
tuição que tem por pretensão um salário mínimo que atenda Artigo 7º, X, CF. Proteção do salário na forma da lei, cons-
a todas as necessidades básicas de uma pessoa e de sua famí- tituindo crime sua retenção dolosa.
lia. Em pesquisa que tomou por parâmetro o preceito cons-
titucional, detectou-se que “o salário mínimo do trabalhador Quanto ao possível crime de retenção de salário, não há
brasileiro deveria ter sido de R$ 2.892,47 em abril para que no Código Penal brasileiro uma norma que determina a ação
ele suprisse suas necessidades básicas e da família, segun- de retenção de salário como crime. Apesar do artigo 7º, X, CF
do estudo divulgado nesta terça-feira, 07, pelo Departamen- dizer que é crime a retenção dolosa de salário, o dispositivo
to Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos é norma de eficácia limitada, pois depende de lei ordinária,
(Dieese)”117. ainda mais porque qualquer norma penal incriminadora é
regida pela legalidade estrita (artigo 5º, XXXIX, CF).
Artigo 7º, V, CF. Piso salarial proporcional à extensão e à
complexidade do trabalho. Artigo 7º, XI, CF. Participação nos lucros, ou resultados,
desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, partici-
Cada trabalhador, dentro de sua categoria de emprego, pação na gestão da empresa, conforme definido em lei.
seja ele professor, comerciário, metalúrgico, bancário, cons-
trutor civil, enfermeiro, recebe um salário base, chamado de A Participação nos Lucros e Resultado (PLR), que é co-
Piso Salarial, que é sua garantia de recebimento dentro de nhecida também por Programa de Participação nos Resulta-
seu grau profissional. O Valor do Piso Salarial é estabelecido dos (PPR), está prevista na Consolidação das Leis do Trabalho
em conformidade com a data base da categoria, por isso ele (CLT) desde a Lei nº 10.101, de 19 de dezembro de 2000. Ela
é definido em conformidade com um acordo, ou ainda com funciona como um bônus, que é ofertado pelo empregador e
um entendimento entre patrão e trabalhador. negociado com uma comissão de trabalhadores da empresa.
A CLT não obriga o empregador a fornecer o benefício, mas
Artigo 7º, VI, CF. Irredutibilidade do salário, salvo o dis- propõe que ele seja utilizado.
posto em convenção ou acordo coletivo.
Artigo 7º, XII, CF. Salário-família pago em razão do de-
O salário não pode ser reduzido, a não ser que anão re- pendente do trabalhador de baixa renda nos termos da lei.
DIREITOS HUMANOS

dução implique num prejuízo maior, por exemplo, demissão


em massa durante uma crise, situações que devem ser nego- Salário-família é o benefício pago na proporção do res-
ciadas em convenção ou acordo coletivo. pectivo número de filhos ou equiparados de qualquer con-
dição até a idade de quatorze anos ou inválido de qualquer
Artigo 7º, VII, CF. Garantia de salário, nunca inferior ao idade, independente de carência e desde que o salário-de-
-contribuição seja inferior ou igual ao limite máximo permi-
tido. De acordo com a Portaria Interministerial MPS/MF nº
117 http://exame.abril.com.br/economia/noticias/salario- 19, de 10/01/2014, valor do salário-família será de R$ 35,00,
-minimo-deveria-ter-sido-de-r-2-892-47-em-abril

72
por filho de até 14 anos incompletos ou inválido, para quem empregado terá direito a trinta dias corridos de férias, se não
ganhar até R$ 682,50. Já para o trabalhador que receber de tiver faltado injustificadamente mais de cinco vezes ao ser-
R$ 682,51 até R$ 1.025,81, o valor do salário-família por filho viço (caso isso ocorra, os dias das férias serão diminuídos de
de até 14 anos de idade ou inválido de qualquer idade será acordo com o número de faltas).
de R$ 24,66.
Artigo 7º, XVIII, CF. Licença à gestante, sem prejuízo do
Artigo 7º, XIII, CF. duração do trabalho normal não supe- emprego e do salário, com a duração de cento e vinte dias.
rior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais, fa-
cultada a compensação de horários e a redução da jornada, O salário da trabalhadora em licença é chamado de sa-
mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho. lário-maternidade, é pago pelo empregador e por ele des-
contado dos recolhimentos habituais devidos à Previdência
Artigo 7º, XVI, CF. Remuneração do serviço extraordinário Social. A trabalhadora pode sair de licença a partir do último
superior, no mínimo, em cinquenta por cento à do normal. mês de gestação, sendo que o período de licença é de 120
dias. A Constituição também garante que, do momento em
A legislação trabalhista vigente estabelece que a duração que se confirma a gravidez até cinco meses após o parto, a
normal do trabalho, salvo os casos especiais, é de 8 (oito) ho- mulher não pode ser demitida.
ras diárias e 44 (quarenta e quatro) semanais, no máximo. To-
davia, poderá a jornada diária de trabalho dos empregados Artigo 7º, XIX, CF. Licença-paternidade, nos termos fixa-
maiores ser acrescida de horas suplementares, em número dos em lei.
não excedentes a duas, no máximo, para efeito de serviço
extraordinário, mediante acordo individual, acordo coletivo, O homem tem direito a 5 dias de licença-paternidade
convenção coletiva ou sentença normativa. Excepcional- para estar mais próximo do bebê recém-nascido e ajudar a
mente, ocorrendo necessidade imperiosa, poderá ser pror- mãe nos processos pós-operatórios.
rogada além do limite legalmente permitido. A remuneração
do serviço extraordinário, desde a promulgação da Consti- Artigo 7º, XX, CF. Proteção do mercado de trabalho da
tuição Federal, deverá constar, obrigatoriamente, do acordo, mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei.
convenção ou sentença normativa, e será, no mínimo, 50%
(cinquenta por cento) superior à da hora normal. Embora as mulheres sejam maioria na população de 10
anos ou mais de idade, elas são minoria na população ocu-
Artigo 7º, XIV, CF. Jornada de seis horas para o trabalho pada, mas estão em maioria entre os desocupados. Acres-
realizado em turnos ininterruptos de revezamento, salvo ne- centa-se ainda, que elas são maioria também na população
gociação coletiva. não economicamente ativa. Além disso, ainda há relevante
diferença salarial entre homens e mulheres, sendo que os ho-
O constituinte ao estabelecer jornada máxima de 6 horas mens recebem mais porque os empregadores entendem que
para os turnos ininterruptos de revezamento, expressamen- eles necessitam de um salário maior para manter a família.
te ressalvando a hipótese de negociação coletiva, objetivou Tais disparidades colocam em evidência que o mercado de
prestigiar a atuação da entidade sindical. Entretanto, a ju- trabalho da mulher deve ser protegido de forma especial.
risprudência evoluiu para uma interpretação restritiva de
seu teor, tendo como parâmetro o fato de que o trabalho em Artigo 7º, XXI, CF. Aviso prévio proporcional ao tempo de
turnos ininterruptos é por demais desgastante, penoso, além serviço, sendo no mínimo de trinta dias, nos termos da lei.
de trazer malefícios de ordem fisiológica para o trabalhador,
inclusive distúrbios no âmbito psicossocial já que dificulta o Nas relações de emprego, quando uma das partes deseja
convívio em sociedade e com a própria família. rescindir, sem justa causa, o contrato de trabalho por prazo
indeterminado, deverá, antecipadamente, notificar à outra
Artigo 7º, XV, CF. Repouso semanal remunerado, preferen- parte, através do aviso prévio. O aviso prévio tem por fina-
cialmente aos domingos. lidade evitar a surpresa na ruptura do contrato de trabalho,
possibilitando ao empregador o preenchimento do cargo
O Descanso Semanal Remunerado é de 24 (vinte e qua- vago e ao empregado uma nova colocação no mercado de
tro) horas consecutivas, devendo ser concedido preferen- trabalho, sendo que o aviso prévio pode ser trabalhado ou
cialmente aos domingos, sendo garantido a todo trabalhador indenizado.
urbano, rural ou doméstico. Havendo necessidade de traba-
lho aos domingos, desde que previamente autorizados pelo Artigo 7º, XXII, CF. Redução dos riscos inerentes ao traba-
Ministério do Trabalho, aos trabalhadores é assegurado pelo lho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança.
menos um dia de repouso semanal remunerado coincidente
com um domingo a cada período, dependendo da atividade Trata-se ao direito do trabalhador a um meio ambiente
(artigo 67, CLT). do trabalho salubre. Fiorillo118 destaca que o equilíbrio do
DIREITOS HUMANOS

meio ambiente do trabalho está sedimentado na salubridade


Artigo 7º, XVII, CF. Gozo de férias anuais remuneradas e na ausência de agentes que possam comprometer a incolu-
com, pelo menos, um terço a mais do que o salário normal. midade físico-psíquica dos trabalhadores.

O salário das férias deve ser superior em pelo menos um Artigo 7º, XXIII, CF. Adicional de remuneração para as ati-
terço ao valor da remuneração normal, com todos os adicio- vidades penosas, insalubres ou perigosas, na forma da lei.
nais e benefícios aos quais o trabalhador tem direito. A cada
doze meses de trabalho – denominado período aquisitivo – o 118 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de Direito Am-
biental brasileiro. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 21.

73
Penoso é o trabalho acerbo, árduo, amargo, difícil, mo- Artigo 7º, XXVI, CF. Reconhecimento das convenções e
lesto, trabalhoso, incômodo, laborioso, doloroso, rude, que acordos coletivos de trabalho.
não é perigoso ou insalubre, mas penosa, exigindo atenção e
vigilância acima do comum. Ainda não há na legislação espe- Neste dispositivo se funda o direito coletivo do trabalho,
cífica previsão sobre o adicional de penosidade. que encontra regulamentação constitucional nos artigo 8º
a 11 da Constituição. Pelas convenções e acordos coletivos,
São consideradas atividades ou operações insalubres as entidades representativas da categoria dos trabalhadores
que se desenvolvem excesso de limites de tolerância para: entram em negociação com as empresas na defesa dos
ruído contínuo ou intermitente, ruídos de impacto, expo- interesses da classe, assegurando o respeito aos direitos
sição ao calor e ao frio, radiações, certos agentes químicos sociais;
e biológicos, vibrações, umidade, etc. O exercício de traba-
lho em condições de insalubridade assegura ao trabalhador Artigo 7º, XXVII, CF. Proteção em face da automação, na
a percepção de adicional, incidente sobre o salário base do forma da lei.
empregado (súmula 228 do TST), ou previsão mais benéfica
em Convenção Coletiva de Trabalho, equivalente a 40% (qua- Trata-se da proteção da substituição da máquina pelo
renta por cento), para insalubridade de grau máximo; 20% homem, que pode ser feita, notadamente, qualificando o
(vinte por cento), para insalubridade de grau médio; 10% profissional para exercer trabalhos que não possam ser de-
(dez por cento), para insalubridade de grau mínimo. sempenhados por uma máquina (ex.: se criada uma máqui-
na que substitui o trabalhador, deve ser ele qualificado para
O adicional de periculosidade é um valor devido ao em- que possa operá-la).
pregado exposto a atividades perigosas. São consideradas
atividades ou operações perigosas, aquelas que, por sua na- Artigo 7º, XXVIII, CF. Seguro contra acidentes de trabalho,
tureza ou métodos de trabalho, impliquem risco acentuado a cargo do empregador, sem excluir a indenização a que este
em virtude de exposição permanente do trabalhador a in- está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa.
flamáveis, explosivos ou energia elétrica; e a roubos ou ou-
tras espécies de violência física nas atividades profissionais Atualmente, é a Lei nº 8.213/91 a responsável por tratar
de segurança pessoal ou patrimonial. O valor do adicional do assunto e em seus artigos 19, 20 e 21 apresenta a definição
de periculosidade será o salário do empregado acrescido de de doenças e acidentes do trabalho. Não se trata de legislação
30%, sem os acréscimos resultantes de gratificações, prêmios específica sobre o tema, mas sim de uma norma que dispõe
ou participações nos lucros da empresa. sobre as modalidades de benefícios da previdência social.
Referida Lei, em seu artigo 19 da preceitua que acidente do
O Tribunal Superior do Trabalho ainda não tem entendi- trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço
mento unânime sobre a possibilidade de cumulação destes da empresa ou pelo exercício do trabalho, provocando lesão
adicionais. corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a
perda ou redução, permanente ou temporária, da capacida-
Artigo 7º, XXIV, CF. Aposentadoria. de para o trabalho.

A aposentadoria é um benefício garantido a todo traba- Seguro de Acidente de Trabalho (SAT) é uma contribui-
lhador brasileiro que pode ser usufruído por aquele que te- ção com natureza de tributo que as empresas pagam para
nha contribuído ao Instituto Nacional de Seguridade Social custear benefícios do INSS oriundos de acidente de trabalho
(INSS) pelos prazos estipulados nas regras da Previdência ou doença ocupacional, cobrindo a aposentadoria especial.
Social e tenha atingido as idades mínimas previstas. Aliás, o A alíquota normal é de um, dois ou três por cento sobre a re-
direito à previdência social é considerado um direito social muneração do empregado, mas as empresas que expõem os
no próprio artigo 6º, CF. trabalhadores a agentes nocivos químicos, físicos e biológi-
cos precisam pagar adicionais diferenciados. Assim, quanto
Artigo 7º, XXV, CF. Assistência gratuita aos filhos e depen- maior o risco, maior é a alíquota, mas atualmente o Ministé-
dentes desde o nascimento até 5 (cinco) anos de idade em cre- rio da Previdência Social pode alterar a alíquota se a empresa
ches e pré-escolas. investir na segurança do trabalho.

Todo estabelecimento com mais de 30 funcionárias com Neste sentido, nada impede que a empresa seja respon-
mais de 16 anos tem a obrigação de oferecer um espaço físico sabilizada pelos acidentes de trabalho, indenizando o tra-
para que as mães deixem o filho de 0 a 6 meses, enquanto elas balhador. Na atualidade entende-se que a possibilidade de
trabalham. Caso não ofereçam esse espaço aos bebês, a em- cumulação do benefício previdenciário, assim compreen-
presa é obrigada a dar auxílio-creche a mulher para que ela dido como prestação garantida pelo Estado ao trabalhador
pague uma creche para o bebê de até 6 meses. O valor desse acidentado (responsabilidade objetiva) com a indenização
auxílio será determinado conforme negociação coletiva na devida pelo empregador em caso de culpa (responsabilidade
DIREITOS HUMANOS

empresa (acordo da categoria ou convenção). A empresa que subjetiva), é pacífica, estando amplamente difundida na ju-
tiver menos de 30 funcionárias registradas não tem obriga- risprudência do Tribunal Superior do Trabalho;
ção de conceder o benefício. É facultativo (ela pode oferecer
ou não). Existe a possibilidade de o benefício ser estendido Artigo 7º, XXIX, CF. Ação, quanto aos créditos resultantes
até os 6 anos de idade e incluir o trabalhador homem. A dura- das relações de trabalho, com prazo prescricional de cinco
ção do auxílio-creche e o valor envolvido variarão conforme anos para os trabalhadores urbanos e rurais, até o limite de
negociação coletiva na empresa. dois anos após a extinção do contrato de trabalho.

74
Prescrição é a perda da pretensão de buscar a tutela ju- cidas em lei e observada a simplificação do cumprimento das
risdicional para assegurar direitos violados. Sendo assim, há obrigações tributárias, principais e acessórias, decorrentes da
um período de tempo que o empregado tem para requerer relação de trabalho e suas peculiaridades, os previstos nos in-
seu direito na Justiça do Trabalho. A prescrição trabalhista é cisos I, II, III, IX, XII, XXV e XXVIII, bem como a sua integração
sempre de 2 (dois) anos a partir do término do contrato de à previdência social. 
trabalho, atingindo as parcelas relativas aos 5 (cinco) anos
anteriores, ou de 05 (cinco) anos durante a vigência do con- O direito ao trabalho é clássico direito social porque foi
trato de trabalho. a partir dele que se originou a categoria da segunda dimen-
são de direitos humanos. Neste sentido, o marco histórico
Artigo 7º, XXX, CF. Proibição de diferença de salários, de do surgimento de tais direitos foi a Revolução Industrial, no
exercício de funções e de critério de admissão por motivo de estágio em que se percebeu que a exploração da mão-de-
sexo, idade, cor ou estado civil. -obra de um homem pelo outro não deveria implicar numa
anulação do explorado, devendo-se garantir a ele um rol de
Há uma tendência de se remunerar melhor homens bran- direitos e garantias que permitissem a sua existência digna
cos na faixa dos 30 anos que sejam casados, sendo patente a mesmo no espaço de trabalho.
diferença remuneratória para com pessoas de diferente et-
nia, faixa etária ou sexo. Esta distinção atenta contra o princí- Artigo 23, DUDH
pio da igualdade e não é aceita pelo constituinte, sendo pos-
sível inclusive invocar a equiparação salarial judicialmente. I) Todo o homem tem direito ao trabalho, à livre escolha
de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à
Artigo 7º, XXXI, CF. Proibição de qualquer discriminação proteção contra o desemprego.
no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador
portador de deficiência. II) Todo o homem, sem qualquer distinção, tem direito a
igual remuneração por igual trabalho.
A pessoa portadora de deficiência, dentro de suas limita-
ções, possui condições de ingressar no mercado de trabalho III) Todo o homem que trabalha tem direito a uma remu-
e não pode ser preterida meramente por conta de sua defi- neração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como
ciência. a sua família, uma existência compatível com a dignida-
de humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros
Artigo 7º, XXXII, CF. Proibição de distinção entre trabalho meios de proteção social.
manual, técnico e intelectual ou entre os profissionais respec-
tivos. IV) Todo o homem tem direito a organizar sindicatos e a
neles ingressar para proteção de seus interesses.
Os trabalhos manuais, técnicos e intelectuais são igual-
mente relevantes e contribuem todos para a sociedade, não Artigo 24, DUDH
cabendo a desvalorização de um trabalho apenas por se en-
quadrar numa ou outra categoria. Todo o homem tem direito a repouso e lazer, inclusive a
limitação razoável das horas de trabalho e a férias remunera-
Artigo 7º, XXXIII, CF. proibição de trabalho noturno, peri- das periódicas.
goso ou insalubre a menores de dezoito e de qualquer traba-
lho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de apren- Artigo 6º, PIDESC
diz, a partir de quatorze anos.
1) Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem o direi-
Trata-se de norma protetiva do adolescente, estabelecen- to ao trabalho, que compreende o direito de toda pessoa
do-se uma idade mínima para trabalho e proibindo-se o tra- de ter a possibilidade de ganhar a vida mediante um
balho em condições desfavoráveis. trabalho livremente escolhido ou aceito, e tomarão me-
didas apropriadas para salvaguardar esse direito.
Artigo 7º, XXXIV, CF. Igualdade de direitos entre o trabalha-
dor com vínculo empregatício permanente e o trabalhador 2) As medidas que cada Estado Parte do presente Pacto to-
avulso. mará a fim de assegurar o pleno exercício desse direito
deverão incluir a orientação e a formação técnica e pro-
Avulso é o trabalhador que presta serviço a várias em- fissional, a elaboração de programas, normas e técnicas
apropriadas para assegurar um desenvolvimento eco-
presas, mas é contratado por sindicatos e órgãos gestores de
nômico, social e cultural constante e o pleno emprego
mão-de-obra, possuindo os mesmos direitos que um traba- produtivo em condições que salvaguardem aos indiví-
lhador com vínculo empregatício permanente. duos o gozo das liberdades políticas e econômicas fun-
damentais.
DIREITOS HUMANOS

A Emenda Constitucional nº 72/2013, conhecida como


PEC das domésticas, deu nova redação ao parágrafo único Artigo 7º, PIDESC
do artigo 7º:
Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem o direito
Artigo 7º, parágrafo único, CF. São assegurados à categoria de toda pessoa de gozar de condições de trabalho justas e favo-
dos trabalhadores domésticos os direitos previstos nos incisos ráveis, que assegurem especialmente:
IV, VI, VII, VIII, X, XIII, XV, XVI, XVII, XVIII, XIX, XXI, XXII, XXIV,
XXVI, XXX, XXXI e XXXIII e, atendidas as condições estabele- a) Uma remuneração que proporcione, no mínimo, a to-

75
dos os trabalhadores: a) Remuneração que assegure, no mínimo, a todos os tra-
balhadores condições de subsistência digna e decoro-
i) Um salário equitativo e uma remuneração igual por um sa para eles e para suas famílias e salário eqüitativo e
trabalho de igual valor, sem qualquer distinção; em parti- igual por trabalho igual, sem nenhuma distinção;
cular, as mulheres deverão ter a garantia de condições de
trabalho não inferiores às dos homens e perceber a mesma b) O direito de todo trabalhador de seguir sua vocação e de
remuneração que eles por trabalho igual; dedicar‑se à atividade que melhor atenda a suas expec-
tativas e a trocar de emprego de acordo com a respectiva
ii) Uma existência decente para eles e suas famílias, em regulamentação nacional;
conformidade com as disposições do presente Pacto;
c) O direito do trabalhador à promoção ou avanço no tra-
b) A segurança e a higiene no trabalho; balho, para o qual serão levadas em conta suas qualifi-
cações, competência, probidade e tempo de serviço;
c) Igual oportunidade para todos de serem promovidos,
em seu Trabalho, à categoria superior que lhes corres- d) Estabilidade dos trabalhadores em seus empregos, de
ponda, sem outras considerações que as de tempo de acordo com as características das indústrias e profissões
trabalho e capacidade; e com as causas de justa separação. Nos casos de demis-
são injustificada, o trabalhador terá direito a uma in-
d) O descanso, o lazer, a limitação razoável das horas de denização ou à readmissão no emprego ou a quaisquer
trabalho e férias periódicas remuneradas, assim como a outras prestações previstas pela legislação nacional;
remuneração dos feridos.
e) Segurança e higiene no trabalho;
Artigo XIV, DADH
f) Proibição de trabalho noturno ou em atividades insa-
Toda pessoa tem direito ao trabalho em condições dignas lubres ou perigosas para os menores de 18 anos e, em ge-
e o de seguir livremente sua vocação, na medida em que for ral, de todo trabalho que possa pôr em perigo sua saúde,
permitido pelas oportunidades de emprego existentes. Toda segurança ou moral. Quando se tratar de menores de
pessoa que trabalha tem o direito de receber uma remunera- 16 anos, a jornada de trabalho deverá subordinar‑se
ção que, em relação à sua capacidade de trabalho e habilida- às disposições sobre ensino obrigatório e, em nenhum
de, lhe garanta um nível de vida conveniente para si mesma e caso, poderá constituir impedimento à assistência esco-
para sua família. lar ou limitação para beneficiar‑se da instrução recebi-
da;
Artigo XV, DADH
g) Limitação razoável das horas de trabalho, tanto diárias
Toda pessoa tem direito ao descanso, ao recreio honesto quanto semanais. As jornadas serão de menor duração
e à oportunidade de aproveitar utilmente o seu tempo livre quando se tratar de trabalhos perigosos, insalubres ou
em benefício de seu melhoramento espiritual, cultural e fí- noturnos;
sico.
h) Repouso, gozo do tempo livre, férias remuneradas, bem
Artigo 6º, PCADH como remuneração nos feriados nacionais.

1) Toda pessoa tem direito ao trabalho, o que inclui a opor-


tunidade de obter os meios para levar uma vida digna Direito coletivo do trabalho
e decorosa por meio do desempenho de uma atividade
lícita, livremente escolhida ou aceita. Os artigos 8º a 11 trazem os direitos sociais coletivos dos
trabalhadores, que são os exercidos pelos trabalhadores, co-
2) Os Estados Partes comprometem‑se a adotar medidas letivamente ou no interesse de uma coletividade, quais se-
que garantam plena efetividade do direito ao trabalho, jam: associação profissional ou sindical, greve, substituição
especialmente as referentes à consecução do pleno em- processual, participação e representação classista119.
prego, à orientação vocacional e ao desenvolvimento de
projetos de treinamento técnico‑profissional, particu- A liberdade de associação profissional ou sindical tem es-
larmente os destinados aos deficientes. Os Estados Par- copo no artigo 8º, CF:
tes comprometem‑se também a executar e a fortalecer
programas que coadjuvem um adequado atendimento Art. 8º, CF. É livre a associação profissional ou sindical,
da família, a fim de que a mulher tenha real possibili- observado o seguinte:
dade de exercer o direito ao trabalho.
DIREITOS HUMANOS

I - a lei não poderá exigir autorização do Estado para


Artigo 7º, PCADH a fundação de sindicato, ressalvado o registro no órgão
competente, vedadas ao Poder Público a interferência e a
Os Estados Partes neste Protocolo reconhecem que o direi- intervenção na organização sindical;
to ao trabalho, a que se refere o artigo anterior, pressupõe que
toda pessoa goze do mesmo em condições justas, equitativas e
satisfatórias, para o que esses Estados garantirão em suas le-
gislações, de maneira particular: 119 LENZA, Pedro. Curso de direito constitucional esque-
matizado. 15. ed. São Paulo: Saraiva, 2011.

76
II - é vedada a criação de mais de uma organização sin- Por fim, aborda-se o direito de representação classista no
dical, em qualquer grau, representativa de categoria artigo 11, CF:
profissional ou econômica, na mesma base territorial,
que será definida pelos trabalhadores ou empregadores Artigo 11, CF. Nas empresas de mais de duzentos emprega-
interessados, não podendo ser inferior à área de um Mu- dos, é assegurada a eleição de um representante destes com a
nicípio; finalidade exclusiva de promover-lhes o entendimento direto
com os empregadores.
III - ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses co-
letivos ou individuais da categoria, inclusive em questões O direito internacional dos direitos humanos também
judiciais ou administrativas; reconhece a liberdade sindical como um direito social, con-
forme se vê:
IV - a assembleia geral fixará a contribuição que, em se
tratando de categoria profissional, será descontada em Artigo XXIII, DUDH
folha, para custeio do sistema confederativo da represen-
tação sindical respectiva, independentemente da contri- 4) Toda pessoa tem direito a organizar sindicatos e neles
buição prevista em lei; ingressar para proteção de seus interesses.

V - ninguém será obrigado a filiar-se ou a manter-se fi- Artigo XX, DUDH


liado a sindicato;
1) Toda pessoa tem direito à liberdade de reunião e asso-
VI - é obrigatória a participação dos sindicatos nas nego- ciação pacíficas.
ciações coletivas de trabalho;
2) Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma as-
VII - o aposentado filiado tem direito a votar e ser votado sociação.
nas organizações sindicais;
Artigo 22, PIDCP
VIII - é vedada a dispensa do empregado sindicalizado
a partir do registro da candidatura a cargo de direção ou 1) Toda pessoa terá o direito de associar-se livremente a
representação sindical e, se eleito, ainda que suplente, até outras, inclusive o direito de construir sindicatos e de a
um ano após o final do mandato, salvo se cometer falta eles filiar-se, para a proteção de seus interesses.
grave nos termos da lei.
2) O exercício desse direito estará sujeito apenas às res-
Parágrafo único. As disposições deste artigo aplicam-se à trições previstas em lei e que se façam necessárias, em
organização de sindicatos rurais e de colônias de pescado- um sociedade democrática, no interesse da segurança
res, atendidas as condições que a lei estabelecer. nacional, da segurança e da ordem públicas, ou para
proteger a saúde ou a moral públicas ou os direitos a li-
O direito de greve, por seu turno, está previsto no artigo berdades das demais pessoas. O presente artigo não im-
9º, CF: pedirá que se submeta a restrições legais o exercício des-
se direito por membros das forças armadas e da polícia.
Art. 9º É assegurado o direito de greve, competindo aos
trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e so- 3) Nenhuma das disposições do presente artigo permitirá
bre os interesses que devam por meio dele defender. que Estados Partes da Convenção de 1948 da Orga-
nização do Trabalho, relativa à liberdade sindical e à
§ 1º A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e proteção do direito sindical, venham a adotar medidas
disporá sobre o atendimento das necessidades ina- legislativas que restrinjam - ou aplicar a lei de maneira
diáveis da comunidade. a restringir - as garantias previstas na referida Conven-
ção.
§ 2º Os abusos cometidos sujeitam os responsáveis às pe-
nas da lei. Artigo 8º, PIDESC

A respeito, conferir a Lei nº 7.783/89, que dispõe sobre o 1) Os Estados Partes do presente pacto comprometem-se
exercício do direito de greve, define as atividades essenciais, a garantir:
regula o atendimento das necessidades inadiáveis da comu-
nidade, e dá outras providências. Enquanto não for discipli- a) o direito de toda pessoa de fundar com outras sindica-
nado o direito de greve dos servidores públicos, esta é a legis- tos e de filiar-se ao sindicato de sua escolha, sujeitan-
lação que se aplica, segundo o STF. do-se unicamente aos organização interessada, com o
DIREITOS HUMANOS

objetivo de promover e de proteger seus interesses eco-


O direito de participação é previsto no artigo 10, CF: nômicos e sociais. O exercício desse direito só poderá ser
objeto das restrições previstas em lei e que sejam neces-
Artigo 10, CF. É assegurada a participação dos trabalha- sárias, em uma sociedade democrática, no interesse da
dores e empregadores nos colegiados dos órgãos públicos em segurança nacional ou da ordem pública, ou para pro-
que seus interesses profissionais ou previdenciários sejam ob- teger os direitos e as liberdades alheias;
jeto de discussão e deliberação.
b) o direito dos sindicatos de formar federações ou con-

77
federações nacionais e o direito desta de formar or- permitirão que os sindicatos, federações e confederações
ganizações sindicais internacionais ou de filiar-se às funcionem livremente;
mesmas;
b) O direito de greve.
c) o direito dos sindicatos de exercer livremente suas ati-
vidades, sem quaisquer limitações além daquelas pre- 2)  O exercício dos direitos enunciados acima só pode estar
vistas em lei e que sejam necessárias, em uma sociedade sujeito às limitações e restrições previstas pela lei que
democrática, no interesse da segurança nacional ou da sejam próprias a uma sociedade democrática e neces-
ordem pública, ou para proteger os direitos e as liberda- sárias para salvaguardar a ordem pública e proteger a
des das demais pessoas; saúde ou a moral pública, e os direitos ou liberdades dos
demais. Os membros das forças armadas e da polícia,
d) o direito de greve, exercido de conformidade com as leis bem como de outros serviços públicos essenciais, esta-
de cada país. rão sujeitos às limitações e restrições impostas pela lei.

2) O presente artigo não impedirá que se submeta a res- 3) Ninguém poderá ser obrigado a pertencer a um sindi-
trições legais o exercício desses direitos pelos membros cato.
das forças armadas, da política ou da administração
pública.
Direito à previdência e à assistência social
3) Nenhuma das disposições do presente artigo permitirá
que os Estados Partes da Convenção de 1948 da Orga- O suporte à pessoa quando ela atinge, por qualquer mo-
nização Internacional do Trabalho, relativa à liber- tivo, um estágio em que não tem condições de trabalhar, é
dade sindical e à proteção do direito sindical, venha a um direito humano a ser assegurado pela assistência ou pela
adotar medidas legislativas que restrinjam - ou a apli- previdência social. Entre outros aspectos que serão resguar-
car a lei de maneira a restringir - as garantias previstas dados por este direito estão: desemprego, doença, invalidez,
na referida Convenção. viuvez, velhice ou qualquer caso de perda de meio de subsis-
tência que esteja fora de seu controle. Aquele que não pode
Artigo XXII - Direito de associação, DADH se sustentar não deve ser deixado à mercê de sua sorte, mas
apoiado pelo Estado. Caso tenha contribuído para a seguri-
Toda pessoa tem o direito de se associar com outras a fim dade social, usufruirá da previdência social, mas a assistên-
de promover, exercer e proteger os seus interesses legítimos, cia social surge para conferir tal proteção aos que não tive-
de ordem política, econômica, religiosa, social, cultural, pro- ram condições de contribuir. Assim reconhecendo, o direito
fissional, sindical ou de qualquer outra natureza. internacional dos direitos humanos disciplina:

Artigo 16 - Liberdade de associação, CADH Artigo XXV, DUDH

1) Todas as pessoas têm o direito de associar-se livremente 1) Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de
com fins ideológicos, religiosos, políticos, econômicos, assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusi-
trabalhistas, sociais, culturais, desportivos ou de qual- ve alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos
quer outra natureza. e os serviços sociais indispensáveis, e direito à seguran-
ça em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez,
2) O exercício desse direito só pode estar sujeito às restri- velhice ou outros casos de perda dos meios de subsis-
ções previstas em lei e que se façam necessárias, em tência fora de seu controle.
uma sociedade democrática, ao interesse da segurança
nacional, da segurança e da ordem públicas, ou para Artigo 9º, PIDESC
proteger a saúde ou a moral públicas ou os direitos e as
liberdades das demais pessoas. Os Estados Partes do presente Pacto de toda pessoa à previ-
dência social, inclusive ao seguro social.
3) O presente artigo não impede a imposição de restrições
legais, e mesmo a privação do exercício do direito de Artigo XVI - Direito à previdência social, DADH
associação, aos membros das forças armadas e da po-
lícia. Toda pessoa tem direito à previdência social de modo a fi-
car protegida contra as consequências do desemprego, da ve-
Artigo 8º - Direitos sindicais, PCADH lhice e da incapacidade que, provenientes de qualquer causa
alheia à sua vontade, a impossibilitem física ou mentalmente
 1) Os Estados Partes garantirão: de obter meios de subsistência.
DIREITOS HUMANOS

a)  O direito dos trabalhadores de organizar sindicatos e de Artigo 9 - Direito à previdência social, PCADH
filiarse ao de sua escolha, para proteger e promover seus
interesses. Como projeção desse direito, os Estados Par- 1) Toda pessoa tem direito à previdência social que a pro-
tes permitirão aos sindicatos formar federações e con- teja das consequências da velhice e da incapacitação
federações nacionais e associarse às já existentes, bem que a impossibilite, física ou mentalmente, de obter os
como formar organizações sindicais internacionais e meios de vida digna e decorosa. No caso de morte do
associarse à de sua escolha. Os Estados Partes também beneficiário, as prestações da previdência social benefi-

78
ciarão seus dependentes. com relativismos, uma vez que é muito séria”120.

2) Quando se tratar de pessoas em atividade, o direito à Não obstante, tem-se no âmbito constitucional e interna-
previdência social abrangerá pelo menos o atendimen- cional a previsão do direito de asilo, consistente no direito de
to médico e o subsídio ou pensão em caso de acidentes buscar abrigo em outro país quando naquele do qual for na-
de trabalho ou de doença profissional e, quando se cional estiver sofrendo alguma perseguição. Tal perseguição
tratar da mulher, licença remunerada para a gestante, não pode ter motivos legítimos, como a prática de crimes co-
antes e depois do parto. muns ou de atos atentatórios aos princípios das Nações Uni-
das, o que subverteria a própria finalidade desta proteção.
Em suma, o que se pretende com o direito de asilo é evitar a
DA NACIONALIDADE consolidação de ameaças a direitos humanos de uma pessoa
por parte daqueles que deveriam protegê-los – isto é, os go-
vernantes e os entes sociais como um todo –, e não proteger
O capítulo III do Título II aborda a nacionalidade, que
pessoas que justamente cometeram tais violações.
vem a ser corolário dos direitos políticos, já que somente um
nacional pode adquirir direitos políticos.

Nacionalidade é o vínculo jurídico-político que liga um


Naturalidade e naturalização
indivíduo a determinado Estado, fazendo com que ele passe
O artigo 12 da Constituição Federal estabelece quem são
a integrar o povo daquele Estado, desfrutando assim de direi-
os nacionais brasileiros, dividindo-os em duas categorias:
tos e obrigações.
natos e naturalizados. Percebe-se que naturalidade é diferen-
te de nacionalidade – naturalidade é apenas o local de nas-
Povo é o conjunto de nacionais. Por seu turno, povo não
cimento, nacionalidade é um efetivo vínculo com o Estado.
é a mesma coisa que população. População é o conjunto de
pessoas residentes no país – inclui o povo, os estrangeiros re-
Uma pessoa pode ser considerada nacional brasileira
sidentes no país e os apátridas.
tanto por ter nascido no território brasileiro quanto por vo-
luntariamente se naturalizar como brasileiro, como se per-
Nacionalidade como direito humano fundamental cebe no teor do artigo 12, CF. O estrangeiro, num conceito
tomado à base de exclusão, é todo aquele que não é nacional
brasileiro.
Os direitos humanos internacionais são completamente
contrários à ideia do apátrida – ou heimatlos –, que é o indiví-
duo que não possui o vínculo da nacionalidade com nenhum
Estado. Logo, a nacionalidade é um direito da pessoa huma-
Brasileiros natos
na, o qual não pode ser privado de forma arbitrária. Não há
Art. 12, CF. São brasileiros:
privação arbitrária quando respeitados os critérios legais
previstos no texto constitucional no que tange à perda da
nacionalidade. Em outras palavras, o constituinte brasileiro I - natos:
não admite a figura do apátrida.
a) os nascidos na República Federativa do Brasil, ainda
Contudo, é exatamente por ser um direito que a naciona- que de pais estrangeiros, desde que estes não estejam a
lidade não pode ser uma obrigação, garantindo-se à pessoa serviço de seu país;
o direito de deixar de ser nacional de um país e passar a sê-lo
de outro, mudando de nacionalidade, por um processo co- b) os nascidos no estrangeiro, de pai brasileiro ou mãe
nhecido como naturalização. brasileira, desde que qualquer deles esteja a serviço da
República Federativa do Brasil;
Prevê a Declaração Universal dos Direitos Humanos em
seu artigo 15: “I) Todo homem tem direito a uma nacionali- c) os nascidos no estrangeiro de pai brasileiro ou de mãe
dade. II) Ninguém será arbitrariamente privado de sua na- brasileira, desde que sejam registrados em repartição
cionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade”. brasileira competente ou venham a residir na Repú-
blica Federativa do Brasil e optem, em qualquer tem-
A Convenção Americana sobre Direitos Humanos apro- po, depois de atingida a maioridade, pela nacionali-
funda-se em meios para garantir que toda pessoa tenha uma dade brasileira.
nacionalidade desde o seu nascimento ao adotar o critério
do jus solis, explicitando que ao menos a pessoa terá a nacio- Tradicionalmente, são possíveis dois critérios para a atri-
nalidade do território onde nasceu, quando não tiver direito buição da nacionalidade primária – nacional nato –, notada-
a outra nacionalidade por previsões legais diversas. mente: ius soli, direito de solo, o nacional nascido em terri-
DIREITOS HUMANOS

tório do país independentemente da nacionalidade dos pais;


“Nacionalidade é um direito fundamental da pessoa hu- e ius sanguinis, direito de sangue, que não depende do local
mana. Todos a ela têm direito. A nacionalidade de um indiví- de nascimento mas sim da descendência de um nacional do
duo não pode ficar ao mero capricho de um governo, de um
governante, de um poder despótico, de decisões unilaterais,
120 VALVERDE, Thiago Pellegrini. Comentários aos artigos
concebidas sem regras prévias, sem o contraditório, a defe-
XV e XVI. In: BALERA, Wagner (Coord.). Comentários à De-
sa, que são princípios fundamentais de todo sistema jurídico
claração Universal dos Direitos do Homem. Brasília: For-
que se pretenda democrático. A questão não pode ser tratada
tium, 2008, p. 87-88.

79
país (critério comum em países que tiveram êxodo de imi- VII - inexistência de denúncia, pronúncia ou condenação
grantes). no Brasil ou no exterior por crime doloso a que seja comi-
nada pena mínima de prisão, abstratamente considerada,
O brasileiro nato, primeiramente, é aquele que nasce no superior a 1 (um) ano; e
território brasileiro – critério do ius soli, ainda que filho de
pais estrangeiros, desde que não sejam estrangeiros que es- VIII - boa saúde.
tejam a serviço de seu país ou de organismo internacional
(o que geraria um conflito de normas). Contudo, também é Destaque vai para o requisito da residência contínua.
possível ser brasileiro nato ainda que não se tenha nascido Em regra, o estrangeiro precisa residir no país por 4 anos
no território brasileiro. contínuos, conforme o inciso III do referido artigo 112. No
entanto, por previsão constitucional do artigo 12, II, “a”, se
No entanto, a Constituição reconhece o brasileiro nato o estrangeiro foi originário de país com língua portuguesa o
também pelo critério do ius sanguinis. Se qualquer dos pais prazo de residência contínua é reduzido para 1 ano. Daí se
estiver a serviço do Brasil, é considerado brasileiro nato, afirmar que o constituinte estabeleceu a naturalização ordi-
mesmo que nasça em outro país. Se qualquer dos pais não nária no artigo 12, II, “b” e a naturalização extraordinária no
estiverem a serviço do Brasil e a pessoa nascer no exterior é artigo 12, II, “a”.
exigido que o nascido do exterior venha ao território brasilei-
ro e aqui resida ou que tenha sido registrado em repartição Outra diferença sensível é que à naturalização ordinária
competente, caso em que poderá, aos 18 anos, manifestar-se se aplica o artigo 121 do Estatuto do Estrangeiro, segundo o
sobre desejar permanecer com a nacionalidade brasileira ou qual “a satisfação das condições previstas nesta Lei não as-
não. segura ao estrangeiro direito à naturalização”. Logo, na natu-
ralização ordinária não há direito subjetivo à naturalização,
mesmo que preenchidos todos os requisitos. Trata-se de ato
Brasileiros naturalizados discricionário do Ministério da Justiça. O mesmo não vale
para a naturalização extraordinária, quando há direito sub-
Art. 12, CF. São brasileiros: [...] jetivo, cabendo inclusive a busca do Poder Judiciário para
fazê-lo valer121.
II - naturalizados:

a) os que, na forma da lei, adquiram a nacionalidade Tratamento diferenciado


brasileira, exigidas aos originários de países de língua
portuguesa apenas residência por um ano ininter- A regra é que todo nacional brasileiro, seja ele nato ou na-
rupto e idoneidade moral; turalizado, deverá receber o mesmo tratamento. Neste senti-
do, o artigo 12, § 2º, CF:
b) os estrangeiros de qualquer nacionalidade, residentes
na República Federativa do Brasil há mais de quinze Artigo 12, §2º, CF. A lei não poderá estabelecer distinção
anos ininterruptos e sem condenação penal, desde entre brasileiros natos e naturalizados, salvo nos casos pre-
que requeiram a nacionalidade brasileira. vistos nesta Constituição.

A naturalização deve ser voluntária e expressa. Percebe-se que a Constituição simultaneamente estabe-
lece a não distinção e se reserva ao direito de estabelecer as
O Estatuto do Estrangeiro, Lei nº 6.815/1980, rege a ques- hipóteses de distinção.
tão da naturalização em mais detalhes, prevendo no artigo
112: Algumas destas hipóteses de distinção já se encontram
enumeradas no parágrafo seguinte.
Art. 112, Lei nº 6.815/1980. São condições para a concessão
da naturalização: Artigo 12, § 3º, CF. São privativos de brasileiro nato os car-
gos:
I - capacidade civil, segundo a lei brasileira;
I - de Presidente e Vice-Presidente da República;
II - ser registrado como permanente no Brasil;
II - de Presidente da Câmara dos Deputados;
III - residência contínua no território nacional, pelo pra-
zo mínimo de quatro anos, imediatamente anteriores ao III - de Presidente do Senado Federal;
pedido de naturalização;
IV - de Ministro do Supremo Tribunal Federal;
DIREITOS HUMANOS

IV - ler e escrever a língua portuguesa, consideradas as


condições do naturalizando; V - da carreira diplomática;

V - exercício de profissão ou posse de bens suficientes à ma- VI - de oficial das Forças Armadas;
nutenção própria e da família;

VI - bom procedimento;
121 FARIA, Cássio Juvenal. Notas pessoais tomadas em tele-
conferência.

80
VII - de Ministro de Estado da Defesa. condição para permanência em seu território ou para o
exercício de direitos civis.
A lógica do dispositivo é a de que qualquer pessoa no
exercício da presidência da República ou de cargo que pos- A respeito do inciso I do §4º do artigo 12, a Lei nº 818, de
sa levar a esta posição provisoriamente deve ser natural do 18 de setembro de 1949 regula a aquisição, a perda e a reaqui-
país (ausente o Presidente da República, seu vice-presidente sição da nacionalidade, e a perda dos direitos políticos. No
desempenha o cargo; ausente este assume o Presidente da processo deve ser respeitado o contraditório e a iniciativa de
Câmara; também este ausente, em seguida, exerce o cargo o propositura é do Procurador da República.
Presidente do Senado; e, por fim, o Presidente do Supremo
pode assumir a presidência na ausência dos anteriores – e No que tange ao inciso II do parágrafo em estudo, perce-
como o Presidente do Supremo é escolhido num critério de be-se a aceitação da figura do polipátrida. Na alínea “a” acei-
revezamento nenhum membro pode ser naturalizado); ou a ta-se que a pessoa tenha nacionalidade brasileira e outra se
de que o cargo ocupado possui forte impacto em termos de ao seu nascimento tiver adquirido simultaneamente a nacio-
representação do país ou de segurança nacional. nalidade do Brasil e outro país; na alínea “b” é reconhecida
a mesma situação se a aquisição da nacionalidade do outro
Outras exceções são: não aceitação, em regra, de brasi- país for uma exigência para continuar lá permanecendo ou
leiro naturalizado como membro do Conselho da Repúbli- exercendo seus direitos civis, pois se assim não o fosse o bra-
ca (artigos 89 e 90, CF); impossibilidade de ser proprietário sileiro seria forçado a optar por uma nacionalidade e, prova-
de empresa jornalística, de radiodifusão sonora e imagens, velmente, se ver privado da nacionalidade brasileira.
salvo se já naturalizado há 10 anos (artigo 222, CF); possibili-
dade de extradição do brasileiro naturalizado que tenha pra-
ticado crime comum antes da naturalização ou, depois dela, Deportação, expulsão e entrega
crime de tráfico de drogas (artigo 5º, LI, CF).
A deportação representa a devolução compulsória de um
estrangeiro que tenha entrado ou esteja de forma irregular
Quase-nacionalidade: caso dos portugueses no território nacional, estando prevista na Lei nº 6.815/1980,
em seus artigos 57 e 58. Neste caso, não houve prática de
Nos termos do artigo 12, § 1º, CF: qualquer ato nocivo ao Brasil, havendo, pois, mera irregula-
ridade de visto.
Artigo 12, §1º, CF. Aos portugueses com residência perma-
nente no País, se houver reciprocidade em favor de brasilei- A expulsão é a retirada “à força” do território brasileiro de
ros, serão atribuídos os direitos inerentes ao brasileiro, salvo um estrangeiro que tenha praticado atos tipificados no artigo
os casos previstos nesta Constituição. 65 e seu parágrafo único, ambos da Lei nº 6.815/1980:

Art. 65, Lei nº 6.815/1980. É passível de expulsão o estran-


É uma regra que só vale se os brasileiros receberem o
geiro que, de qualquer forma, atentar contra a segurança na-
mesmo tratamento, questão regulamentada pelo Tratado cional, a ordem política ou social, a tranquilidade ou morali-
de Amizade, Cooperação e Consulta entre a República dade pública e a economia popular, ou cujo procedimento o
Federativa do Brasil e a República Portuguesa, assinado em torne nocivo à conveniência e aos interesses nacionais.
22 de abril de 2000 (Decreto nº 3.927/2001).
Parágrafo único. É passível, também, de expulsão o estran-
As vantagens conferidas são: igualdade de direitos civis, geiro que:
não sendo considerado um estrangeiro; gozo de direitos polí-
ticos se residir há 3 anos no país, autorizando-se o alistamen- a) praticar fraude a fim de obter a sua entrada ou perma-
to eleitoral. No caso de exercício dos direitos políticos nestes nência no Brasil;
moldes, os direitos desta natureza ficam suspensos no outro
país, ou seja, não exerce simultaneamente direitos políticos b) havendo entrado no território nacional com infração à
nos dois países. lei, dele não se retirar no prazo que lhe for determinado
para fazê-lo, não sendo aconselhável a deportação;

Perda da nacionalidade c) entregar-se à vadiagem ou à mendicância; ou

Artigo 12, § 4º, CF. Será declarada a perda da nacionali- d) desrespeitar proibição especialmente prevista em lei
dade do brasileiro que: para estrangeiro.

I - tiver cancelada sua naturalização, por sentença judi- A entrega (ou surrender) consiste na submissão de um
cial, em virtude de atividade nociva ao interesse nacional; nacional a um tribunal internacional do qual o próprio país
faz parte. É o que ocorreria, por exemplo, se o Brasil entregas-
DIREITOS HUMANOS

II - adquirir outra nacionalidade, salvo nos casos: se um brasileiro para julgamento pelo Tribunal Penal Inter-
nacional (competência reconhecida na própria Constituição
no artigo 5º, §4º).
a) de reconhecimento de nacionalidade originária pela lei
estrangeira;

b) de imposição de naturalização, pela norma estrangei-


Extradição
ra, ao brasileiro residente em estado estrangeiro, como
A extradição é ato diverso da deportação, da expulsão e

81
da entrega. Extradição é um ato de cooperação internacional VIII - o extraditando houver de responder, no Estado re-
que consiste na entrega de uma pessoa, acusada ou conde- querente, perante Tribunal ou Juízo de exceção.
nada por um ou mais crimes, ao país que a reclama. O Brasil,
sob hipótese alguma, extraditará brasileiros natos mas quan- § 1° A exceção do item VII não impedirá a extradição
to aos naturalizados assim permite caso tenham praticado quando o fato constituir, principalmente, infração
crimes comuns (exceto crimes políticos e/ou de opinião) an- da lei penal comum, ou quando o crime comum, co-
tes da naturalização, ou, mesmo depois da naturalização, em nexo ao delito político, constituir o fato principal.
caso de envolvimento com o tráfico ilícito de entorpecentes
(artigo 5º, LI e LII, CF). § 2º Caberá, exclusivamente, ao Supremo Tribunal Fe-
deral, a apreciação do caráter da infração.
Aplicam-se os seguintes princípios à extradição:
§ 3° O Supremo Tribunal Federal poderá deixar de con-
a) Princípio da Especialidade: Significa que o estrangeiro siderar crimes políticos os atentados contra Chefes
só pode ser julgado pelo Estado requerente pelo crime de Estado ou quaisquer autoridades, bem assim
objeto do pedido de extradição. O importante é que o os atos de anarquismo, terrorismo, sabotagem, se-
extraditado só seja submetido às penas relativas aos questro de pessoa, ou que importem propaganda de
crimes que foram objeto do pedido de extradição. guerra ou de processos violentos para subverter a or-
dem política ou social.
b) Princípio da Dupla Punibilidade: O fato praticado deve
ser punível no Estado requerente e no Brasil. Logo, Art. 78. São condições para concessão da extradição: 
além do fato ser típico em ambos os países, deve ser
punível em ambos (se houve prescrição em algum dos I - ter sido o crime cometido no território do Estado re-
países, p. ex., não pode ocorrer a extradição). querente ou serem aplicáveis ao extraditando as leis pe-
nais desse Estado; e
c) Princípio da Retroatividade dos Tratados: O fato de um
tratado de extradição entre dois países ter sido cele- II - existir sentença final de privação de liberdade, ou
brado após a ocorrência do crime não impede a extra- estar a prisão do extraditando autorizada por Juiz, Tri-
dição. bunal ou autoridade competente do Estado requerente,
salvo o disposto no artigo 82.
d) Princípio da Comutação da Pena (Direitos Humanos):
Se o crime for apenado por qualquer das penas veda- Art. 79. Quando mais de um Estado requerer a extradição
das pelo artigo 5º, XLVII da CF, a extradição não será da mesma pessoa, pelo mesmo fato, terá preferência o pedido
autorizada, salvo se houver a comutação da pena, daquele em cujo território a infração foi cometida.
transformação para uma pena aceita no Brasil.
§ 1º Tratando-se de crimes diversos, terão preferência,
Por ser tema incidente, vale observar a disciplina da Lei nº sucessivamente:
6.815/1980 a respeito da extradição e de seu procedimento:
I - o Estado requerente em cujo território haja sido cometi-
Art. 76. A extradição poderá ser concedida quando o gover- do o crime mais grave, segundo a lei brasileira;
no requerente se fundamentar em tratado, ou quando pro-
meter ao Brasil a reciprocidade.  II - o que em primeiro lugar houver pedido a entrega do
extraditando, se a gravidade dos crimes for idêntica; e
Art. 77. Não se concederá a extradição quando: 
III - o Estado de origem, ou, na sua falta, o domiciliar do
I - se tratar de brasileiro, salvo se a aquisição dessa na- extraditando, se os pedidos forem simultâneos.
cionalidade verificar-se após o fato que motivar o pedido;
§ 2º Nos casos não previstos decidirá sobre a preferência
II - o fato que motivar o pedido não for considerado cri- o Governo brasileiro.
me no Brasil ou no Estado requerente;
§ 3º Havendo tratado ou convenção com algum dos Es-
III - o Brasil for competente, segundo suas leis, para julgar tados requerentes, prevalecerão suas normas no que
o crime imputado ao extraditando; disserem respeito à preferência de que trata este arti-
go. 
IV - a lei brasileira impuser ao crime a pena de prisão
igual ou inferior a 1 (um) ano; Art. 80.  A extradição será requerida por via diplomática
ou, quando previsto em tratado, diretamente ao Ministério
DIREITOS HUMANOS

V - o extraditando estiver a responder a processo ou já da Justiça, devendo o pedido ser instruído com a cópia au-
houver sido condenado ou absolvido no Brasil pelo mes- têntica ou a certidão da sentença condenatória ou decisão
mo fato em que se fundar o pedido; penal proferida por juiz ou autoridade competente. 

VI - estiver extinta a punibilidade pela prescrição segun- § 1o  O pedido deverá ser instruído com indicações preci-
do a lei brasileira ou a do Estado requerente; sas sobre o local, a data, a natureza e as circunstân-
cias do fato criminoso, a identidade do extraditan-
VII - o fato constituir crime político; e do e, ainda, cópia dos textos legais sobre o crime, a

82
competência, a pena e sua prescrição.  Parágrafo único. A prisão perdurará até o julgamento
final do Supremo Tribunal Federal, não sendo admitidas a
§ 2o  O encaminhamento do pedido pelo Ministério da liberdade vigiada, a prisão domiciliar, nem a prisão albergue.
Justiça ou por via diplomática confere autenticidade
aos documentos.  Art. 85. Ao receber o pedido, o Relator designará dia e hora
para o interrogatório do extraditando e, conforme o caso,
§ 3o  Os documentos indicados neste artigo serão acompa- dar-lhe-á curador ou advogado, se não o tiver, correndo do
nhados de versão feita oficialmente para o idioma interrogatório o prazo de dez dias para a defesa. 
português. 
§ 1º A defesa versará sobre a identidade da pessoa recla-
Art. 81.  O pedido, após exame da presença dos pressupos- mada, defeito de forma dos documentos apresenta-
tos formais de admissibilidade exigidos nesta Lei ou em trata- dos ou ilegalidade da extradição.
do, será encaminhado pelo Ministério da Justiça ao Supre-
mo Tribunal Federal.  § 2º Não estando o processo devidamente instruído, o
Tribunal, a requerimento do Procurador-Geral da
Parágrafo único.  Não preenchidos os pressupostos de que República, poderá converter o julgamento em dili-
trata o caput, o pedido será arquivado mediante decisão fun- gência para suprir a falta no prazo improrrogável de
damentada do Ministro de Estado da Justiça, sem prejuízo de 60 (sessenta) dias, decorridos os quais o pedido será
renovação do pedido, devidamente instruído, uma vez supera- julgado independentemente da diligência.
do o óbice apontado. 
§ 3º O prazo referido no parágrafo anterior correrá da
Art. 82.  O Estado interessado na extradição poderá, em data da notificação que o Ministério das Relações
caso de urgência e antes da formalização do pedido de extra- Exteriores fizer à Missão Diplomática do Estado
dição, ou conjuntamente com este, requerer a prisão cautelar requerente.
do extraditando por via diplomática ou, quando previsto em
tratado, ao Ministério da Justiça, que, após exame da presença Art. 86. Concedida a extradição, será o fato comunicado
dos pressupostos formais de admissibilidade exigidos nesta através do Ministério das Relações Exteriores à Missão Diplo-
Lei ou em tratado, representará ao Supremo Tribunal Fede- mática do Estado requerente que, no prazo de sessenta dias
ral.  (Redação dada pela Lei nº 12.878, de 2013) da comunicação, deverá retirar o extraditando do território
nacional. 
§ 1o  O pedido de prisão cautelar noticiará o crime come-
tido e deverá ser fundamentado, podendo ser apre- Art. 87. Se o Estado requerente não retirar o extraditan-
sentado por correio, fax, mensagem eletrônica ou do do território nacional no prazo do artigo anterior, será ele
qualquer outro meio que assegure a comunicação por posto em liberdade, sem prejuízo de responder a processo de
escrito.  (Redação dada pela Lei nº 12.878, de 2013) expulsão, se o motivo da extradição o recomendar. 

§ 2o  O pedido de prisão cautelar poderá ser apresentado Art. 88. Negada a extradição, não se admitirá novo pedi-
ao Ministério da Justiça por meio da Organização do baseado no mesmo fato. 
Internacional de Polícia Criminal (Interpol), devi-
damente instruído com a documentação comproba- Art. 89. Quando o extraditando estiver sendo processado,
tória da existência de ordem de prisão proferida por ou tiver sido condenado, no Brasil, por crime punível com
Estado estrangeiro.  (Redação dada pela Lei nº 12.878, pena privativa de liberdade, a extradição será executada so-
de 2013) mente depois da conclusão do processo ou do cumprimento
da pena, ressalvado, entretanto, o disposto no artigo 67. 
§ 3o  O Estado estrangeiro deverá, no prazo de 90 (noven-
ta) dias contado da data em que tiver sido cientifica- Parágrafo único. A entrega do extraditando ficará igual-
do da prisão do extraditando, formalizar o pedido mente adiada se a efetivação da medida puser em risco a sua
de extradição. (Redação dada pela Lei nº 12.878, de vida por causa de enfermidade grave comprovada por laudo
2013) médico oficial.

§ 4o  Caso o pedido não seja formalizado no prazo previsto Art. 90. O Governo poderá entregar o extraditando ainda
no § 3o, o extraditando deverá ser posto em liberdade, que responda a processo ou esteja condenado por contra-
não se admitindo novo pedido de prisão cautelar pelo venção. 
mesmo fato sem que a extradição haja sido devida-
mente requerida. (Redação dada pela Lei nº 12.878, Art. 91. Não será efetivada a entrega sem que o Estado re-
de 2013) querente assuma o compromisso: 
DIREITOS HUMANOS

Art. 83. Nenhuma extradição será concedida sem prévio I - de não ser o extraditando preso nem processado por
pronunciamento do Plenário do Supremo Tribunal Federal fatos anteriores ao pedido;
sobre sua legalidade e procedência, não cabendo recurso da
decisão.  II - de computar o tempo de prisão que, no Brasil, foi im-
posta por força da extradição;
Art. 84. Efetivada a prisão do extraditando (artigo 81), o
pedido será encaminhado ao Supremo Tribunal Federal.  III - de comutar em pena privativa de liberdade a pena

83
corporal ou de morte, ressalvados, quanto à última, os ca- Artigo XIV, DUDH
sos em que a lei brasileira permitir a sua aplicação;
1) Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de
IV - de não ser o extraditando entregue, sem consenti- procurar e de gozar asilo em outros países.
mento do Brasil, a outro Estado que o reclame; e
2) Este direito não pode ser invocado em caso de perse-
V - de não considerar qualquer motivo político, para guição legitimamente motivada por crimes de direito
agravar a pena. comum ou por atos contrários aos propósitos e prin-
cípios das Nações Unidas.
Art. 92. A entrega do extraditando, de acordo com as leis
brasileiras e respeitado o direito de terceiro, será feita com os Artigo XV, DUDH
objetos e instrumentos do crime encontrados em seu poder. 
1) Toda pessoa tem direito a uma nacionalidade.
Parágrafo único. Os objetos e instrumentos referidos neste
artigo poderão ser entregues independentemente da entrega 2) Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacio-
do extraditando. nalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade.

Art. 93. O extraditando que, depois de entregue ao Estado Artigo 13, PIDCP
requerente, escapar à ação da Justiça e homiziar-se no Bra-
sil, ou por ele transitar, será detido mediante pedido feito di- Um estrangeiro que se ache legalmente no território de um
retamente por via diplomática, e de novo entregue sem outras Estado-parte do presente pacto só poderá dele ser expulso em
formalidades.  decorrência de decisão adotada em conformidade com a lei
e, a menos que razões imperativas de segurança nacional a
Art. 94. Salvo motivo de ordem pública, poderá ser per- isso se oponham, terá a possibilidade de expor as razões que
mitido, pelo Ministro da Justiça, o trânsito, no território na- militem contra sua expulsão e de ter seu caso reexaminado
cional, de pessoas extraditadas por Estados estrangeiros, bem pelas autoridades competentes, ou por uma ou várias pessoas
assim o da respectiva guarda, mediante apresentação de do- especialmente designadas pelas referidas autoridades, e de fa-
cumentos comprobatórios de concessão da medida.  zer-se representar com esse objetivo.

Artigo 24, PIDCP


Idioma e símbolos
3) Toda criança terá o direito de adquirir uma naciona-
Art. 13, CF. A língua portuguesa é o idioma oficial da Re- lidade.
pública Federativa do Brasil.
Artigo XIX - Direito à nacionalidade, CADH
§ 1º São símbolos da República Federativa do Brasil a
bandeira, o hino, as armas e o selo nacionais. Toda pessoa tem direito à nacionalidade que legalmente
lhe corresponda, podendo mudá-la, se assim o desejar, pela
§ 2º Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios de qualquer outro país que estiver disposto a concedê-la.
poderão ter símbolos próprios.
Preâmbulo, CADH
Idioma é a língua falada pela população, que confere ca-
ráter diferenciado em relação à população do resto do mun- [...] Reconhecendo que os direitos essenciais da pessoa
do. Sendo assim, é manifestação social e cultural de uma humana não derivam do fato de ser ela nacional de deter-
nação. minado Estado, mas sim do fato de ter como fundamento os
atributos da pessoa humana, razão por que justificam uma
Os símbolos, por sua vez, representam a imagem da na- proteção internacional, de natureza convencional, coadju-
ção e permitem o seu reconhecimento nacional e internacio- vante ou complementar da que oferece o direito interno dos
nalmente. Estados americanos; [...]

Por esta intrínseca relação com a nacionalidade, a pre- Artigo 20 - Direito à nacionalidade, CADH
visão é feito dentro do capítulo do texto constitucional que
aborda o tema. 1) Toda pessoa tem direito a uma nacionalidade.

2) Toda pessoa tem direito à nacionalidade do Estado em


Direito internacional dos direitos humanos e a ques- cujo território houver nascido, se não tiver direito a
tão da nacionalidade
DIREITOS HUMANOS

outra.

A nacionalidade é reconhecida como um direito huma- 3) A ninguém se deve privar arbitrariamente de sua na-
no em diversos documentos internacionais. Aliás, os direitos cionalidade, nem do direito de mudá-la.
humanos rejeitam completamente a figura do apátrida ou
heimatlos, que é a pessoa sem nacionalidade nenhuma. Eis Artigo 22 - Direito de circulação e de residência, CADH
a disciplina-base:
[...]

84
5) Ninguém pode ser expulso do território do Estado do III - iniciativa popular.
qual for nacional e nem ser privado do direito de nele
entrar. A democracia brasileira adota a modalidade semidireta,
porque possibilita a participação popular direta no poder
6) O estrangeiro que se encontre legalmente no território por intermédio de processos como o plebiscito, o referendo
de um Estado-parte na presente Convenção só poderá e a iniciativa popular. Como são hipóteses restritas, pode-se
dele ser expulso em decorrência de decisão adotada afirmar que a democracia indireta é predominantemente
em conformidade com a lei. adotada no Brasil, por meio do sufrágio universal e do voto
direto e secreto com igual valor para todos. Quanto ao voto
7) Toda pessoa tem o direito de buscar e receber asilo em direto e secreto, trata-se do instrumento para o exercício da
território estrangeiro, em caso de perseguição por de- capacidade ativa do sufrágio universal.
litos políticos ou comuns conexos com delitos políticos,
de acordo com a legislação de cada Estado e com as Por seu turno, o que diferencia o plebiscito do referendo é
Convenções internacionais. o momento da consulta à população: no plebiscito, primeiro
se consulta a população e depois se toma a decisão política;
8) Em nenhum caso o estrangeiro pode ser expulso ou en- no referendo, primeiro se toma a decisão política e depois se
tregue a outro país, seja ou não de origem, onde seu consulta a população. Embora os dois partam do Congresso
direito à vida ou à liberdade pessoal esteja em risco de Nacional, o plebiscito é convocado, ao passo que o referen-
violação em virtude de sua raça, nacionalidade, reli- do é autorizado (art. 49, XV, CF), ambos por meio de decreto
gião, condição social ou de suas opiniões políticas. legislativo. O que os assemelha é que os dois são “formas de
consulta ao povo para que delibere sobre matéria de acen-
9) É proibida a expulsão coletiva de estrangeiros. tuada relevância, de natureza constitucional, legislativa ou
administrativa”122.
DOS DIREITOS POLÍTICOS Na iniciativa popular confere-se à população o poder de
apresentar projeto de lei à Câmara dos Deputados, median-
te assinatura de 1% do eleitorado nacional, distribuído por 5
A nacionalidade é corolário dos direitos políticos, já que
Estados no mínimo, com não menos de 0,3% dos eleitores de
somente um nacional pode adquirir direitos políticos. No
cada um deles. Em complemento, prevê o artigo 61, §2°, CF:
entanto, nem todo nacional é titular de direitos políticos. Os
nacionais que são titulares de direitos políticos são deno-
Art. 61, § 2º, CF. A iniciativa popular pode ser exercida pela
minados cidadãos. Significa afirmar que nem todo nacional
apresentação à Câmara dos Deputados de projeto de lei subs-
brasileiro é um cidadão brasileiro, mas somente aquele que
crito por, no mínimo, um por cento do eleitorado nacional,
for titular do direito de sufrágio universal.
distribuído pelo menos por cinco Estados, com não menos de
três décimos por cento dos eleitores de cada um deles.
Sufrágio universal

A primeira parte do artigo 14, CF, prevê que “a soberania


Obrigatoriedade do alistamento eleitoral e do voto
popular será exercida pelo sufrágio universal [...]”.
O alistamento eleitoral e o voto para os maiores de dezoi-
to anos são, em regra, obrigatórios. Há facultatividade para
Sufrágio universal é a soma de duas capacidades eleito-
os analfabetos, os maiores de setenta anos e os maiores de
rais, a capacidade ativa – votar e exercer a democracia direta
dezesseis e menores de dezoito anos.
– e a capacidade passiva – ser eleito como representante no
modelo da democracia indireta. Ou ainda, sufrágio universal
Artigo 14, § 1º, CF. O alistamento eleitoral e o voto são:
é o direito de todos cidadãos de votar e ser votado. O voto,
que é o ato pelo qual se exercita o sufrágio, deverá ser direto
I - obrigatórios para os maiores de dezoito anos;
e secreto.
II - facultativos para:
Para ter capacidade passiva é necessário ter a ativa, mas
não apenas isso, há requisitos adicionais. Sendo assim, nem
a) os analfabetos;
toda pessoa que tem capacidade ativa tem também capa-
cidade passiva, embora toda pessoa que tenha capacidade
b) os maiores de setenta anos;
passiva tenha necessariamente a ativa.
c) os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos.
Democracia direta e indireta
DIREITOS HUMANOS

No mais, esta obrigatoriedade se aplica aos nacionais


brasileiros, já que, nos termos do artigo 14, §2º, CF:
Art. 14, CF. A soberania popular será exercida pelo sufrágio
universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para to-
Artigo 14, §2º, CF. Não podem alistar-se como eleitores os
dos, e, nos termos da lei, mediante:
estrangeiros e, durante o período do serviço militar obrigató-
I - plebiscito;
122 LENZA, Pedro. Curso de direito constitucional esque-
II - referendo;
matizado. 15. ed. São Paulo: Saraiva, 2011.

85
rio, os conscritos. rio, com faixa etária mínima para o desempenho de cada
uma das funções, a qual deve ser auferida na data da posse.
Quanto aos conscritos, são aqueles que estão prestando
serviço militar obrigatório, pois são necessárias tropas dis-
poníveis para os dias da eleição. Inelegibilidade

Atender às condições de elegibilidade é necessário para


Elegibilidade poder ser eleito, mas não basta. Além disso, é preciso não se
enquadrar em nenhuma das hipóteses de inelegibilidade.
O artigo 14, §§ 3º e 4º, CF, descrevem as condições de ele-
gibilidade, ou seja, os requisitos que devem ser preenchidos A inelegibilidade pode ser absoluta ou relativa. Na abso-
para que uma pessoa seja eleita, no exercício de sua capaci- luta, são atingidos todos os cargos; nas relativas, são atingi-
dade passiva do sufrágio universal. dos determinados cargos.

Artigo 14, § 3º, CF. São condições de elegibilidade, na for- Artigo 14, § 4º, CF. São inelegíveis os inalistáveis e os anal-
ma da lei: fabetos.

I - a nacionalidade brasileira; O artigo 14, §4º, CF traz duas hipóteses de inelegibilidade,


que são absolutas, atingem todos os cargos. Para ser elegí-
II - o pleno exercício dos direitos políticos; vel é preciso ser alfabetizado (os analfabetos têm a faculda-
de de votar, mas não podem ser votados) e é preciso possuir
III - o alistamento eleitoral; a capacidade eleitoral ativa – poder votar (inalistáveis são
aqueles que não podem tirar o título de eleitor, portanto, não
IV - o domicílio eleitoral na circunscrição; podem votar, notadamente: os estrangeiros e os conscritos
durante o serviço militar obrigatório).
V - a filiação partidária;
Artigo 14, §5º, CF. O Presidente da República, os Governa-
VI - a idade mínima de: dores de Estado e do Distrito Federal, os Prefeitos e quem os
houver sucedido, ou substituído no curso dos mandatos po-
a) trinta e cinco anos para Presidente e Vice-Presidente da derão ser reeleitos para um único período subsequente.
República e Senador;
Descreve-se no dispositivo uma hipótese de inelegibili-
b) trinta anos para Governador e Vice-Governador de Esta- dade relativa. Se um Chefe do Poder Executivo de qualquer
do e do Distrito Federal; das esferas for substituído por seu vice no curso do mandato,
este vice somente poderá ser eleito para um período subse-
c) vinte e um anos para Deputado Federal, Deputado Es- quente.
tadual ou Distrital, Prefeito, Vice-Prefeito e juiz de paz;
Ex.: Governador renuncia ao mandato no início do seu
d) dezoito anos para Vereador. último ano de governo para concorrer ao Senado Federal e é
substituído pelo seu vice-governador. Se este se candidatar e
Artigo 14, § 4º, CF. São inelegíveis os inalistáveis e os anal- for eleito, não poderá ao final deste mandato se reeleger. Isto
fabetos. é, se o mandato o candidato renuncia no início de 2010 o seu
mandato de 2007-2010, assumindo o vice em 2010, poderá
Dos incisos I a III denotam-se requisitos correlatos à na- este se candidatar para o mandato 2011-2014, mas caso seja
cionalidade e à titularidade de direitos políticos. Logo, para eleito não poderá se reeleger para o mandato 2015-2018 no
ser eleito é preciso ser cidadão. mesmo cargo. Foi o que aconteceu com o ex-governador de
Minas Gerais, Antônio Anastasia, que assumiu em 2010 no
O domicílio eleitoral é o local onde a pessoa se alista lugar de Aécio Neves o governo do Estado de Minas Gerais
como eleitor e, em regra, é no município onde reside, mas e foi eleito governador entre 2011 e 2014, mas não pode se
pode não o ser caso analisados aspectos como o vínculo de candidatar à reeleição, concorrendo por isso a uma vaga no
afeto com o local (ex.: Presidente Dilma vota em Porto Alegre Senado Federal.
– RS, embora resida em Brasília – DF). Sendo assim, para se
candidatar a cargo no município, deve ter domicílio eleitoral Artigo 14, §6º, CF. Para concorrerem a outros cargos, o Pre-
nele; para se candidatar a cargo no estado, deve ter domicílio sidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito
eleitoral em um de seus municípios; para se candidatar a car- Federal e os Prefeitos devem renunciar aos respectivos man-
go nacional, deve ter domicílio eleitoral em uma das unida- datos até seis meses antes do pleito.
DIREITOS HUMANOS

des federadas do país. Aceita-se a transferência do domicílio


eleitoral ao menos 1 ano antes das eleições. São inelegíveis absolutamente, para quaisquer cargos, os
chefes do Executivo que não renunciarem aos seus manda-
A filiação partidária implica no lançamento da candi- tos até seis meses antes do pleito eleitoral, antes das eleições.
datura por um partido político, não se aceitando a filiação Ex.: Se a eleição aconteceu em 05/10/2014, necessário que
avulsa. tivesse renunciado até 04/04/2014.

Finalmente, o §3º do artigo 14, CF, coloca o requisito etá- Artigo 14, §7º, CF. São inelegíveis, no território de jurisdi-

86
ção do titular, o cônjuge e os parentes consanguíneos ou afins, Perda e suspensão de direitos políticos
até o segundo grau ou por adoção, do Presidente da República,
de Governador de Estado ou Território, do Distrito Federal, de Art. 15, CF. É vedada a cassação de direitos políticos, cuja
Prefeito ou de quem os haja substituído dentro dos seis meses perda ou suspensão só se dará nos casos de:
anteriores ao pleito, salvo se já titular de mandato eletivo e
candidato à reeleição. I - cancelamento da naturalização por sentença transita-
da em julgado;
São inelegíveis absolutamente, para quaisquer cargos,
cônjuge e os parentes consanguíneos ou afins, até o segundo II - incapacidade civil absoluta;
grau ou por adoção, dos Chefes do Executivo ou de quem os
tenha substituído ao final do mandato, a não ser que seja já III - condenação criminal transitada em julgado, enquan-
titular de mandato eletivo e candidato à reeleição. to durarem seus efeitos;

Artigo 14, §8º, CF. O militar alistável é elegível, atendidas IV - recusa de cumprir obrigação a todos imposta ou pres-
as seguintes condições: tação alternativa, nos termos do art. 5º, VIII;

I - se contar menos de dez anos de serviço, deverá afastar-se V - improbidade administrativa, nos termos do art. 37, §
da atividade; 4º.

II - se contar mais de dez anos de serviço, será agregado O inciso I refere-se ao cancelamento da naturalização, o
pela autoridade superior e, se eleito, passará automatica- que faz com que a pessoa deixe de ser nacional e, portanto,
mente, no ato da diplomação, para a inatividade. deixe de ser titular de direitos políticos.

São inelegíveis absolutamente, para quaisquer cargos, O inciso II trata da incapacidade civil absoluta, ou seja, da
os militares que não podem se alistar ou os que podem, mas interdição da pessoa para a prática de atos da vida civil, entre
não preenchem as condições do §8º do artigo 14, CF, ou seja, os quais obviamente se enquadra o sufrágio universal.
se não se afastar da atividade caso trabalhe há menos de 10
anos, se não for agregado pela autoridade superior (suspenso O inciso III refere-se a um dos possíveis efeitos da conde-
do exercício das funções por sua autoridade sem prejuízo de nação criminal, que é a suspensão de direitos políticos.
remuneração) caso trabalhe há mais de 10 anos (sendo que a
eleição passa à condição de inativo). O inciso IV trata da recusa em cumprir a obrigação militar
ou a prestação substitutiva imposta em caso de escusa moral
Artigo 14, §9º, CF. Lei complementar estabelecerá outros ou religiosa.
casos de inelegibilidade e os prazos de sua cessação, a fim de
proteger a probidade administrativa, a moralidade para exer- O inciso V se refere à ação de improbidade administra-
cício de mandato considerada vida pregressa do candidato, e tiva, que tramita para apurar a prática dos atos de improbi-
a normalidade e legitimidade das eleições contra a influência dade administrativa, na qual uma das penas aplicáveis é a
do poder econômico ou o abuso do exercício de função, cargo suspensão dos direitos políticos.
ou emprego na administração direta ou indireta.
Os direitos políticos somente são perdidos em dois casos,
O rol constitucional de inelegibilidades dos parágrafos quais sejam cancelamento de naturalização por sentença
do artigo 14 não é taxativo, pois lei complementar pode es- transitada em julgado (o indivíduo naturalizado volta à con-
tabelecer outros casos, tanto de inelegibilidades absolutas dição de estrangeiro) e perda da nacionalidade brasileira em
como de inelegibilidades relativas. Neste sentido, a Lei Com- virtude da aquisição de outra (brasileiro se naturaliza em ou-
plementar nº 64, de 18 de maio de 1990, estabelece casos de tro país e assim deixa de ser considerado um cidadão brasi-
inelegibilidade, prazos de cessação, e determina outras pro- leiro, perdendo direitos políticos). Nos demais casos, há sus-
vidências. Esta lei foi alterada por aquela que ficou conheci- pensão. Nota-se que não há perda de direitos políticos pela
da como Lei da Ficha Limpa, Lei Complementar nº 135, de 04 prática de atos atentatórios contra a Administração Pública
de junho de 2010, principalmente em seu artigo 1º. por parte do servidor, mas apenas suspensão.

A cassação de direitos políticos, consistente na retirada


Impugnação de mandato dos direitos políticos por ato unilateral do poder público,
sem observância dos princípios elencados no artigo 5º, LV,
Encerrando a disciplina, o artigo 14, CF, aborda a impug- CF (ampla defesa e contraditório), é um procedimento que
nação de mandato. só existe nos governos ditatoriais e que é absolutamente ve-
dado pelo texto constitucional.
DIREITOS HUMANOS

Artigo 14, § 10, CF. O mandato eletivo poderá ser impug-


nado ante a Justiça Eleitoral no prazo de quinze dias contados
da diplomação, instruída a ação com provas de abuso do po- Anterioridade anual da lei eleitoral
der econômico, corrupção ou fraude.
Art. 16, CF. A lei que alterar o processo eleitoral entrará em
Artigo 14, § 11, CF. A ação de impugnação de mandato tra- vigor na data de sua publicação, não se aplicando à eleição
mitará em segredo de justiça, respondendo o autor, na forma que ocorra até um ano da data de sua vigência. 
da lei, se temerária ou de manifesta má-fé.

87
É necessário que a lei eleitoral entre em vigor pelo menos que se processarão por voto secreto, de uma maneira genuí-
1 ano antes da próxima eleição, sob pena de não se aplicar a na, periódica e livre.
ela, mas somente ao próximo pleito.
Artigo 23 - Direitos políticos, CADH

Democracia como direito humano 1) Todos os cidadãos devem gozar dos seguintes direitos e
oportunidades:
A democracia é reconhecida como direito humano no
sistema de proteção destes direitos, conforme os seguintes a) de participar da condução dos assuntos públicos,
dispositivos: diretamente ou por meio de representantes livremente
eleitos;
Artigo XXI, DUDH
b) de votar e ser eleito em eleições periódicas, autênticas,
1) Toda pessoa tem o direito de tomar parte no governo de realizadas por sufrágio universal e igualitário e por
seu país, diretamente ou por intermédio de represen- voto secreto, que garantam a livre expressão da vontade
tantes livremente escolhidos. dos eleitores; e

2) Toda pessoa tem igual direito de acesso ao serviço públi- c) de ter acesso, em condições gerais de igualdade, às fun-
co do seu país. ções públicas de seu país.

3) A vontade do povo será a base  da autoridade do gover- 2) A lei pode regular o exercício dos direitos e oportuni-
no; esta vontade será expressa em eleições periódicas dades, a que se refere o inciso anterior, exclusivamente
e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto por motivo de idade, nacionalidade, residência, idio-
ou processo equivalente que assegure a liberdade de ma, instrução, capacidade civil ou mental, ou conde-
voto. nação, por juiz competente, em processo penal.

Artigo 1º, PIDCP


DOS PARTIDOS POLÍTICOS
1) Todos os povos têm direito à autodeterminação. Em vir-
tude desse direito, determinam livremente seu estatuto O pluripartidarismo é uma das facetas do pluralismo po-
político e asseguram livremente seu desenvolvimento lítico e encontra respaldo enquanto direito fundamental, já
econômico, social e cultural. [...] que regulamentado no Título II, “Dos Direitos e Garantias
Fundamentais”, capítulo V, “Dos Partidos Políticos”.
Artigo 1º, PIDESC
O caput do artigo 17 da Constituição prevê:
1) Todos os povos têm direito à autodeterminação. Em vir-
tude desse direito, determinam livremente seu estatuto Art. 17. É livre a criação, fusão, incorporação e extinção de
político e asseguram livremente seu desenvolvimento partidos políticos, resguardados a soberania nacional, o regi-
econômico, social e cultural. [...] me democrático, o pluripartidarismo, os direitos fundamen-
tais da pessoa humana [...].
Artigo 25, PIDCP
Consolida-se, assim a liberdade partidária, não estabele-
Todo cidadão terá o direito e a possibilidade, sem qualquer cendo a Constituição um limite de números de partidos po-
das formas de discriminação mencionadas no artigo 2° e sem líticos que possam ser constituídos, permitindo também que
restrições infundadas: sejam extintos, fundidos e incorporados.
a) de participar da condução dos assuntos públicos, di- Os incisos do artigo 17 da Constituição indicam os pre-
retamente ou por meio de representantes livremente ceitos a serem observados na liberdade partidária: caráter
escolhidos; nacional, ou seja, terem por objetivo o desempenho de ati-
vidade política no âmbito interno do país; proibição de rece-
b) de votar e de ser eleito em eleições periódicas, autên- bimento de recursos financeiros de entidade ou governo es-
ticas, realizadas por sufrágio universal e igualitário e trangeiros ou de subordinação a estes, logo, o Poder Público
por voto secreto, que garantam a manifestação da von- não pode financiar campanhas eleitorais; prestação de con-
tade dos eleitores; tas à Justiça Eleitoral, notadamente para resguardar a men-
cionada vedação; e funcionamento parlamentar de acordo
c) de ter acesso em condições gerais de igualdade, às fun- com a lei. Ainda, a lei veda a utilização de organização pa-
DIREITOS HUMANOS

ções públicas de seu país. ramilitar por parte dos partidos políticos (artigo 17, §4º, CF).
Artigo XX - Direito de sufrágio e de participação no go- O respeito a estes ditames permite o exercício do partida-
verno, DADH rismo de forma autônoma em termos estruturais e organiza-
cionais, conforme o §1º do artigo 17, CF:
Toda pessoa, legalmente capacitada, tem o direito de to-
mar parte no governo do seu país, quer diretamente, quer Art. 17, §1º, CF. § 1º É assegurada aos partidos políticos au-
através de seus representantes, e de participar das eleições, tonomia para definir sua estrutura interna e estabelecer re-

88
gras sobre escolha, formação e duração de seus órgãos perma- d) retroage, se ainda não houver processo penal instaurado.
nentes e provisórios e sobre sua organização e funcionamento
e para adotar os critérios de escolha e o regime de suas coli- Resposta: Letra A - Preconiza o art. 5º, XL, CF, que “a lei pe-
gações nas eleições majoritárias, vedada a sua celebração nas nal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu”. Assim, se vier
eleições proporcionais, sem obrigatoriedade de vinculação uma lei posterior ao fato que o exclua do rol de crimes ou que
entre as candidaturas em âmbito nacional, estadual, distrital confira tratamento mais benéfico (diminuindo a pena ou
ou municipal, devendo seus estatutos estabelecer normas de alterando o regime de cumprimento, notadamente), ela será
disciplina e fidelidade partidária.  aplicada.

Os estatutos que tecem esta regulamentação devem ser b), c) e d). Incorretas, justificando-se por contrariar a cor-
registrados no Tribunal Superior Eleitoral (artigo 17, §2º, CF). reta.

Quanto ao financiamento das campanhas e o acesso à


mídia, preveem os §§3º e 5º do artigo 17 da CF: 2) (PC/MG - Investigador de Polícia - FUMARC/2014) Sobre
as garantias fundamentais estabelecidas na Constituição
Art. 17, §3º, CF. Somente terão direito a recursos do fundo Federal, é correto afirmar que:
partidário e acesso gratuito ao rádio e à televisão, na forma da
lei, os partidos políticos que alternativamente: a) a lei penal é sempre irretroativa.
I - obtiverem, nas eleições para a Câmara dos Deputados, b) a prática do racismo constitui crime inafiançável e
no mínimo, 3% (três por cento) dos votos válidos, distribuí- imprescritível.
dos em pelo menos um terço das unidades da Federação,
com um mínimo de 2% (dois por cento) dos votos válidos c) não haverá pena de morte em nenhuma circunstância.
em cada uma delas; ou
d) os templos religiosos, entendidos como casas de Deus,
II - tiverem elegido pelo menos quinze Deputados Federais possuem garantia de inviolabilidade domiciliar.
distribuídos em pelo menos um terço das unidades da Fe-
deração. Resposta: Letra B - Neste sentido, prevê o art. 5º, XLII, CF que
“a prática do racismo constitui crime inafiançável e impres-
Para restringir o acesso dos partidos a recursos do Fundo critível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei”.
Partidário e ao tempo de rádio e TV, foi criada uma espécie de
cláusula de desempenho. Só terá direito ao fundo e ao tempo a) A letra “a” é incorreta porque a lei penal retroage para be-
de propaganda a partir de 2019 o partido que tiver recebido neficiar o réu.
ao menos 3% dos votos válidos nas eleições de 2018 para a
Câmara dos Deputados, distribuídos em pelo menos 1/3 das c) A letra “c” é incorreta porque é aceita a pena de morte em
unidades da federação (9 unidades), com um mínimo de 2% caso de guerra declarada, nos termos do art. 84, XIX, CF
dos votos válidos em cada uma delas. (art. 5º, XLVII, “a”, CF).
Art. 17, §5º, CF. Ao eleito por partido que não preencher os d) A letra “d” é incorreta porque igrejas não possuem inviola-
requisitos previstos no § 3º deste artigo é assegurado o manda- bilidade domiciliar. Não há nelas o âmbito de moradia, de
to e facultada a filiação, sem perda do mandato, a outro parti- repouso, que rege a inviolabilidade do domicílio.
do que os tenha atingido, não sendo essa filiação considerada
para fins de distribuição dos recursos do fundo partidário e de
acesso gratuito ao tempo de rádio e de televisão.
3) (PC/MG - Investigador de Polícia - FUMARC/2014) A casa
é asilo inviolável do indivíduo, podendo-se nela entrar,
Caso um candidato esteja filiado a partido que não alcan-
sem permissão do morador, exceto:
çou as exigências mínimas de percentual de votos devida-
mente distribuídos, de modo que não terá acesso ao Fundo
a) em caso de desastre.
Partidário, poderá mudar de partido. Ao se filiar a partido di-
verso, não perderá o mandato. Contudo, a nova filiação não
b) em caso de flagrante delito.
aumentará os valores devidos ao partido ao qual se filiou.
c) para prestar socorro.
EXERCÍCIO COMENTADO d) por determinação judicial, a qualquer hora.

1) (PC/MG - Investigador de Polícia - FUMARC/2014) Sobre Resposta: Letra D - A propósito, o art. 5º, XI, CF dispõe: “a casa
DIREITOS HUMANOS

a Lei Penal, é correto afirmar que: é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo pene-
trar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagran-
a) não retroage, salvo para beneficiar o réu. te delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia,
por determinação judicial”. Sendo assim, não cabe o ingresso
b) não retroage, salvo se o fato criminoso ainda não for por determinação judicial a qualquer hora, mas somente du-
conhecido. rante o dia.

c) retroage, salvo disposição expressa em contrário. a), b) e c). Nestes casos é possível entrar na casa, durante o

89
dia ou durante a noite, mesmo sem a permissão do morador. discriminatórias, assegurando a proteção jurídica das
mulheres pelo princípio da igualdade na Constituição
e leis infraconstitucionais e pelos instrumentos inter-
DIREITOS HUMANOS DAS MINORIAS E nacionais que deverão ser ratificados tão logo possível;
GRUPOS VULNERÁVEIS
- educação da opinião pública e direcionamento das
aspirações nacionais à erradicação da discriminação e
Quando se fale em igualdade jurídica, por sua vez, tem-se à abolição de práticas e conceitos machistas; garantia
que todos são iguais perante a lei. No entanto, a verdadeira em condição de igualdade do direito ao voto e ao de-
igualdade é aquela que tem em mente que nem todas pes- sempenho de funções públicas;
soas podem ser tratadas da mesma forma, pois possuem ne-
- garantia dos mesmos direitos que os homens relativa-
cessidades especiais. Assim, a igualdade meramente formal
mente à aquisição, mudança ou conservação de nacio-
é injusta. Deve ser buscada a igualdade material, permitindo nalidade, nunca sendo obrigada a adotar a nacionali-
que a lei estabeleça diferenciações entre pessoas pertencen- dade do marido sob pena de ficar apátrida;
tes a grupos vulneráveis, por exemplo, mulheres, crianças,
negros, homossexuais, portadores de deficiência, etc. - previsão legal, em condições de igualdade com os
homens, do direito de adquirir, herdar e administrar
Vale fixar a distinção entre minorias e grupos vulneráveis. bens (inclusive durante o casamento), de igualdade na
Grupo vulnerável é todo aquele grupo social que é colocado capacidade jurídica e no seu exercício, de livre circula-
numa posição de marginalização social, com frequente re- ção, de liberdade de escolha matrimonial, de preser-
dução de direitos, independentemente do número de pes- vação do superior interesse da criança na constância e
soas que dele façam parte. Ex.: mulheres. Minoria é o grupo dissolução do casamento (impedindo que no divórcio
vulnerável que existe em menor número na sociedade. Ex.: a criança fique obrigatoriamente com o pai), de igual-
população indígena, LGBT. dade de responsabilidade quanto aos filhos entre pai e
mãe;

#FicaDica - revogação de todas disposições do direito penal que


sejam discriminatórias contra as mulheres;
Toda minoria é um grupo vulnerável, mas nem
todo grupo vulnerável é uma minoria. - igualdade na educação e no exercício do trabalho (in-
clusive remuneração, respeitadas as particulares ne-
Proteção das mulheres cessidades das mulheres, por exemplo, licença-mater-
nidade).
A garantia desta igualdade sem uma proteção específi-
ca é insuficiente, pois muitas mulheres ainda se encontram Já a Convenção da ONU sobre a Eliminação de Todas as
numa posição subjugada da sociedade e, em casos extremos, Formas de Discriminação contra a Mulher vem para comple-
vítimas do domínio masculino. Assim, as mulheres formam mentar a mencionada Declaração, diferenciando-se dela na
uma categoria vulnerável que merece proteção especial para medida em que é um tratado internacional comum, aberto
que seja possível garantir a igualdade material entre os sexos. à assinatura de Estados-partes, ao passo que a Declaração é
A razão desta vulnerabilidade reside no fato de que as con- aprovada pela Assembleia Geral da organização e, por isso,
quistas femininas de independência pessoal e financeira são aceita por todos os seus Estados-membros. Não obstante,
relativamente recentes na história da humanidade. tem caráter mais amplo que a Declaração, merecendo desta-
que a instituição de órgão protetivo próprio, qual seja o Co-
Internacionalmente, esta fragilidade feminina é reconhe- mitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher.
cida, notadamente, na Declaração da ONU sobre a Elimina-
ção da Discriminação contra as Mulheres, de 7 de novembro Ressalta-se que “[...] a Convenção sobre a Eliminação de
de 1967; na Convenção da ONU sobre a Eliminação de Todas todas as formas de Discriminação contra a Mulher enfrenta o
as Formas de Discriminação contra a Mulher, de 18 de de- paradoxo de ser o instrumento que recebeu o maior número
zembro de 1979; e na Convenção Interamericana para Pre- de reservas formuladas pelos Estados, dentre os tratados in-
venir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, de 9 de ternacionais de direitos humanos. Um universo significativo
junho de 1994. de reservas concentrou-se na cláusula relativa à igualdade
entre homens e mulheres na família. Tais reservas foram jus-
Sintetiza o artigo 1º da Declaração da ONU sobre a Eli- tificadas com base em argumentos de ordem religiosa, cul-
minação da Discriminação contra as Mulheres: “a discrimi- tural ou mesmo legal, havendo países (como Bangladesh e
nação contra as mulheres, na medida em que nega ou limita Egito) que acusaram o Comitê sobre a Eliminação da Discri-
DIREITOS HUMANOS

a sua igualdade de direitos em relação aos homens, é fun- minação contra a Mulher de praticar ‘imperialismo cultural
damentalmente injusta e constitui uma ofensa à dignidade e intolerância religiosa’, ao impor-lhes a visão de igualdade
humana”. entre homens e mulheres, inclusive na família. Isso reforça o
quanto a implementação dos direitos humanos das mulhe-
Algumas medidas apropriadas voltadas ao fim da discri- res está condicionada à dicotomia entre os espaços público
minação das mulheres se encontram nos artigos 2º a 10: e privado, que, em muitas sociedades, confina a mulher ao

- abolição das leis, costumes, regulamentos e práticas

90
espaço exclusivamente doméstico da casa e da família”123. e repressivas contra a violência à mulher, notadamente com
relação àquelas que se encontram em situações de maior
Nesta linha, o artigo 1º da mencionada Convenção traz vulnerabilidade, destacando-se:
um conceito de discriminação contra a mulher, o que não
foi feito na Declaração: “[...] toda distinção, exclusão ou res- - abstenção estatal de práticas que consistam em vio-
trição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado lência contra a mulher;
prejudicar ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício
pela mulher, independentemente de seu estado civil, com - atuação diligente para punir, investigar e prevenir a
base na igualdade do homem e da mulher, dos direitos hu- violência contra a mulher;
manos e liberdades fundamentais nos campos político, eco-
nômico, social, cultural e civil ou em qualquer outro campo”. - proteção por leis e medidas judiciais específicas (no
As medidas descritas nos artigos 2º, 3º, 5º, 7º, 8º, 9º, 10, 11, 15 que incluem as chamadas medidas de proteção);
e 16 se aproximam muito das especificadas na Declaração.
No entanto, o artigo 4º inova ao reforçar o conceito de igual- - acesso à reparação do dano; educação voltada à pro-
dade material, aceitando medidas temporárias para acelerar moção de consciência social sobre a violência contra a
a igualdade de fato entre homens e mulheres, no que não mulher;
se inserem medidas protetivas da maternidade que sempre
serão necessárias. Por sua vez, o artigo 6º veda o tráfico de - modificação paulatina dos padrões socioculturais;
mulheres e a exploração da prostituição delas. Ainda, o artigo
12 traz a igualdade entre homens e mulheres no tratamento - aplicação de serviços especializados apropriados;
da saúde e o artigo 13 traz tal igualdade no recebimento de
benefícios familiares, na obtenção de crédito financeiro e no - acesso a programas de reabilitação e capacitação; e
acesso a atividades recreativas. Já o artigo 14 destaca a neces-
sidade de proteção especial às mulheres que se encontram - divulgação de informações por meios de comunicação
na zona rural. em geral.

No âmbito regional, reforçando este sistema de proteção Dos artigos 10 a 12 institui-se a Comissão Interamericana
específico, o artigo 1º da Convenção Interamericana para de Mulheres, relembrando-se o mecanismo de petição aber-
Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher con- to a pessoas, grupos de pessoas ou organizações representa-
ceitua violência contra a mulher como “qualquer ação ou tivas da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
conduta, baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofri-
mento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto no âmbi- Regionalmente, uma grande vitória das mulheres na bus-
to público como no privado”. Tal Convenção foi assinada no ca de proteção foi a decisão da Comissão Interamericana de
Brasil, em Belém do Pará, sendo também conhecida como Direitos Humanos que reconheceu a violação do direito fe-
Convenção de Belém do Pará. minino de proteção contra a violência doméstica e familiar,
diante dos fatos que cercaram o caso de Maria da Penha (a
Pelo próprio título da Convenção e por seu primeiro arti- decisão é estudada no tópico 5.4.6.1.7.10). A decisão no âm-
go nota-se que o foco é mais específico do que a discrimina- bito regional gerou a aprovação, no plano nacional, da Lei nº
ção contra a mulher, qual seja, a violência contra ela. Nesta li- 11.340, de 07 de agosto de 2006, que cria mecanismos para
nha, delimita o artigo 2º: “Entender-se-á que violência contra coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher.
a mulher inclui violência física, sexual e psicológica: a) que
tenha ocorrido dentro da família ou unidade doméstica ou
em qualquer outra relação interpessoal, em que o agressor Proteção das crianças
conviva ou haja convivido no mesmo domicílio que a mulher
e que compreende, entre outros, estupro, violação, maus-tra- As crianças podem ser consideradas outro grupo vulne-
tos e abuso sexual; b) que tenha ocorrido na comunidade e rável protegido no âmbito dos direitos humanos, tendo em
seja perpetrada por qualquer pessoa e que compreende, vista a promoção da igualdade material.
entre outros, violação, abuso sexual, tortura, maus tratos de
pessoas, tráfico de mulheres, prostituição forçada, sequestro Embora não exista um instrumento que aborde especifi-
e assédio sexual no lugar de trabalho, bem como em institui- camente os direitos das crianças no Sistema Interamericano,
ções educacionais, estabelecimentos de saúde ou qualquer normas genéricas do sistema – notadamente as dos mencio-
outro lugar, e c) que seja perpetrada ou tolerada pelo Estado nados artigo 19 da CADH e artigo 16 do PCADH – permitem
ou seus agentes, onde quer que ocorra”. a proteção neste âmbito. Aliás, o artigo 16 do PCADH reforça
as posturas ativas necessárias por parte do Estado, dos pais
Ao delimitar os direitos protegidos, a Convenção inicia e da sociedade com os fins de garantir os direitos da criança.
garantindo o direito a uma vida livre de violência, delimitan-
DIREITOS HUMANOS

do a seguir direitos civis e políticos e direitos econômicos, Contudo, há instrumentos internacionais específicos
sociais e culturais que devem ser garantidos igualmente, e voltados à proteção dos direitos da criança no âmbito das
encerrando ao prever a discriminação e o tratamento este- Nações Unidas, quais sejam a Declaração dos Direitos da
reotipado como formas de violência (artigos 3º a 6º). Criança de 20 de novembro de 1959, e a Convenção sobre os
Direitos da Criança 20 de novembro de 1989, confirmada no
Dos artigos 7º a 9º são abrangidas medidas preventivas Brasil pelo Decreto Legislativo nº 28, de 14 de setembro de
1990.
123 PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito consti-
tucional internacional... Op. Cit., 2008, p. 193-195.

91
A finalidade da mencionada Declaração, segundo seus - direito à identidade (artigo 8º);
próprios termos, é “[...] que a criança tenha uma infância fe-
liz e possa gozar, em seu próprio benefício e no da sociedade, - manutenção da união com os pais, salvo melhor inte-
os direitos e as liberdades aqui enunciados e apela a que os resse da criança (artigo 9º);
pais, os homens e as mulheres em sua qualidade de indiví-
duos, e as organizações voluntárias, as autoridades locais e - resolução rápida de controvérsias entre Estados-
os Governos nacionais reconheçam estes direitos e se empe- partes sobre a saída da criança de um deles (artigo 10);
nhem pela sua observância mediante medidas legislativas e
de outra natureza, progressivamente instituídas [...]”. - medidas contra a transferência ilegal de crianças (arti-
go 11);
Neste sentido, são enunciados 10 princípios:
- direito de manifestar sua opinião, na medida do possí-
- aplicação dos direitos ali declarados a todas as crian- vel (artigo 12);
ças sem discriminação;
- direito à liberdade de expressão, respeitadas as restri-
- proteção social à criança e facilidades previstas em leis ções (artigo 13);
e outros meios para tanto;
- direito à liberdade de pensamento, de consciência e de
- direito ao nome e à nacionalidade; direito à previdên- crença, respeitados os direitos e deveres dos pais (arti-
cia social e à saúde; go 14);

- tratamento especial para crianças incapacitadas física, - direito à liberdade de associação e de reunião pacíficas
mental ou socialmente; (artigo 15);

- criação pelos pais num ambiente de afeto e segurança - direito à privacidade (artigo 16);
moral e material, com cuidados especiais às famílias
que não possam prover sua subsistência; - direito ao acesso à informação veiculada pelos meios
de comunicação, sendo protegida de conteúdos preju-
- direito à educação, gratuita e obrigatória pelo menos diciais ao seu bem-estar (artigo 17);
no primeiro grau primário;
- assistência aos pais pelo Estado no exercício da res-
- direito ao lazer e de que seus melhores interesses se- ponsabilidade pelo desenvolvimento e bem-estar da
jam tomados como norte; criança (artigo 18);

- prioridade no recebimento de proteção e socorro; pro- - adoção de medidas estatais para proteger a criança de
teção contra quaisquer formas de negligência, cruel- todas as formas de violência e abuso (artigo 19);
dade e exploração, inclusive sob o aspecto laboral;
proteção contra atos de discriminação. - direito à proteção e assistência especiais do Estado
quando privada temporária ou permanentemente do
A Convenção sobre os Direitos da Criança começa con- seu meio familiar, ou cujo interesse maior exija que
ceituando criança nos seguintes termos: “para efeitos da não permaneça nesse meio, no que se incluem institu-
presente Convenção considera-se como criança todo ser hu- tos da adoção e da colocação em abrigos (artigos 20 e
mano com menos de dezoito anos de idade, a não ser que, 21);
em conformidade com a lei aplicável à criança, a maioridade
seja alcançada antes”. - proteção da criança refugiada (artigo 22);

De uma maneira geral, segue aprofundando aspectos an- - proteção das necessidades especiais da criança porta-
teriormente levantados na Declaração: dora de deficiências físicas ou mentais (artigo 23);

- proteção contra toda forma de castigo ou discrimina- - direito ao melhor padrão possível de saúde (artigos 24
ção por sua condição (artigo 2º); e 25);

- posicionamento de todos os entes sociais voltados ao - direito à previdência social (artigo 26);
melhor interesse da criança (artigo 3º);
- direito a um nível de vida adequado ao seu desenvolvi-
- implementação progressiva dos direitos (artigo 4º); mento físico, mental, espiritual, moral e social (artigo
DIREITOS HUMANOS

27);
- direito à educação (artigo 5º);
- direito à educação, sendo o ensino primário obrigató-
- direito à vida (artigo 6º); rio e gratuito, cabendo não só a educação voltada ao
conhecimento de conteúdo programático, mas tam-
- direito ao registro imediato após o nascimento (artigo bém à formação da personalidade e do senso cívico
7º); (artigos 28 e 29);

92
- respeito às minorias étnicas (artigo 30); intrinsecamente no indivíduo124.

- direito ao descanso, ao lazer e à cultura (artigo 31); No âmbito internacional três documentos merecem des-
taque, quais sejam: Declaração das Nações Unidas sobre os
- proteção contra a exploração econômica e laboral (ar- Direitos das Pessoas com Deficiência, de 9 de dezembro de
tigo 32); 1975, complementada pela Convenção Internacional sobre
os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Fa-
- proteção contra o uso ilícito de drogas e substâncias cultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007,
psicotrópicas (artigo 33); e promulgados pelo Decreto nº 6.949 de 25 de agosto de
2009125; e a Convenção Interamericana para a Eliminação de
- proteção contra todas as formas de exploração e abuso Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Porta-
sexual (artigo 34); doras de Deficiência, assinada na Guatemala, em 28 de maio
de 1999, promulgada no Brasil pelo Decreto nº 3.956 de 8 de
- combate ao sequestro, à venda ou ao tráfico de crian- outubro de 2001.
ças (artigo 35);
No âmbito das Nações Unidas, a Convenção Internacio-
- vedação da tortura e de tratamentos cruéis, desuma- nal sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Pro-
nos ou degradantes, bem como da privação arbitrária tocolo Facultativo desponta como o mais relevante tratado
da liberdade (artigo 37); internacional na matéria em estudo que foi ratificado pelo
Brasil, isto porque possui o status de emenda constitucional.
- respeito ao direito humanitário, limitando a idade mí-
nima de 15 anos para participação nas forças armadas O artigo 1º traz o propósito da Convenção e conceitua
(artigo 38); pessoa com deficiência: “o propósito da presente Convenção
é promover, proteger e assegurar o exercício pleno e equita-
- recuperação e reintegração de criança vítima de qual- tivo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais
quer forma de exploração ou violência (artigos 36 e por todas as pessoas com deficiência e promover o respei-
39); e to pela sua dignidade inerente. Pessoas com deficiência são
aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza
- respeito às garantias processuais e materiais à criança física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em intera-
que tenha violado a lei penal (artigo 40). ção com diversas barreiras, podem obstruir sua participação
plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições
De uma maneira geral, a Convenção trabalha com um com as demais pessoas”. O artigo 2º prossegue com o estabe-
conceito de responsabilidade compartilhada entre pais e Es- lecimento de conceitos relevantes: “’Comunicação’ abrange
tado, promovendo o pleno desenvolvimento da criança. Não as línguas, a visualização de textos, o braile, a comunicação
obstante, é instituído pela Convenção o Comitê para os Di- tátil, os caracteres ampliados, os dispositivos de multimídia
reitos da Criança. acessível, assim como a linguagem simples, escrita e oral, os
sistemas auditivos e os meios de voz digitalizada e os modos,
meios e formatos aumentativos e alternativos de comuni-
Proteção das pessoas portadoras de deficiência cação, inclusive a tecnologia da informação e comunicação
acessíveis; ‘Língua’ abrange as línguas faladas e de sinais e
Há quatro fases no desenvolvimento dos direitos huma- outras formas de comunicação não-falada; ‘Discriminação
nos da pessoa portadora de deficiência: por motivo de deficiência’ significa qualquer diferenciação,
exclusão ou restrição baseada em deficiência, com o propó-
a) Fase da intolerância: a deficiência simbolizava impu- sito ou efeito de impedir ou impossibilitar o reconhecimen-
reza, pecado ou castigo divino; to, o desfrute ou o exercício, em igualdade de oportunidades
com as demais pessoas, de todos os direitos humanos e li-
b) Fase da invisibilidade: ignorava-se a existência das berdades fundamentais nos âmbitos político, econômico,
pessoas com deficiência e de seus direitos; social, cultural, civil ou qualquer outro. Abrange todas as
formas de discriminação, inclusive a recusa de adaptação
c) Fase assistencialista: pautada na perspectiva médica e razoável; ‘Adaptação razoável’ significa as modificações e
biológica de que era preciso encontrar uma cura para os ajustes necessários e adequados que não acarretem ônus
a deficiência, que era exclusivamente vista como en- desproporcional ou indevido, quando requeridos em cada
fermidade; caso, a fim de assegurar que as pessoas com deficiência pos-
sam gozar ou exercer, em igualdade de oportunidades com
d) Fase humanista: orientada pelo paradigma dos direitos as demais pessoas, todos os direitos humanos e liberdades
humanos, na qual emergiram os direitos à inclusão so- fundamentais; ‘Desenho universal’ significa a concepção de
DIREITOS HUMANOS

cial, com ênfase na relação da pessoa com deficiência produtos, ambientes, programas e serviços a serem usados,
e do meio em que ela se insere, além da necessidade
de eliminar obstáculos e barreiras (culturais, físicos ou 124 PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito consti-
sociais) que possam ser superados. Destaca-se a ino- tucional internacional... Op. Cit., 2008, p. 214-216.
vação promovida pela Convenção da ONU, que reco-
nhece a deficiência como resultado da interação entre 125 Este tratado internacional foi aprovado pelo Congresso
indivíduos e seu meio ambiente, não residindo apenas Nacional nos termos do artigo 5º, §3º da Constituição Fede-
ral e, por este motivo, possui status de emenda constitucio-
nal, sendo até o momento o primeiro e único a possuí-lo.

93
na maior medida possível, por todas as pessoas, sem necessi- em orientação sexual, identidade e expressão de gênero.
dade de adaptação ou projeto específico. O ‘desenho univer-
sal’ não excluirá as ajudas técnicas para grupos específicos
de pessoas com deficiência, quando necessárias”. Vedação da discriminação e do preconceito racial e
étnico

Proteção dos idosos Muito embora a sociedade brasileira seja pluralista e al-
tamente miscigenada, ainda são comuns os casos de pre-
Em relação à ONU, ainda não há Convenção especí- conceito racial e étnico, o que coloca pessoas como negros,
fica de proteção, mas apenas normativas principiológi- índios e membros de grupos étnicos minoritários em geral
cas não diretamente coativas, que podem ser combinadas na situação de vulnerabilidade que assegura uma especial
com normas genéricas como as dos Pactos Internacionais proteção sob o viés da igualdade material.
de 1966. Neste sentido, de forma mais relevante, em 1991
sobrevieram os Princípios Das Nações Unidas para as Pessoas Há diversos documentos internacionais específicos vol-
Idosas; e em 2002, na II Conferência Internacional de Madri tados à proteção deste grupo vulnerável, destacando-se:
sobre o Envelhecimento, surgiram a Declaração Política e o Declaração das Nações Unidas sobre a Eliminação de Todas
Plano de Ação Internacional de Madri sobre Envelhecimento as Formas de Discriminação Racial, de 20 de novembro de
(MIPAA), estes de ordem um pouco mais pragmática. 1963; Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas
as Formas de Discriminação Racial, de 21 de dezembro de
Em janeiro de 2010, o Comitê Consultivo do Conselho 1965 (Decreto nº 65.810 de 8 de dezembro de 1969); e, recen-
de Direitos Humanos das Nações Unidas publicou estudo temente, a Convenção Interamericana contra o Racismo, a
apontando a necessidade de uma convenção internacional Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância, de
específica, o que indica que futuramente é possível que tal 5 de junho de 2013 (ainda não incorporada ao ordenamento
documento seja elaborado e ratificado pelos países-mem- interno brasileiro, mas já assinadas pelo Brasil).
bros da ONU.
O artigo 1º da Declaração da ONU sintetiza bem a preo-
Em relação à normativa brasileira, destaca-se o Estatuto cupação internacional com as constantes práticas de discri-
do Idoso (Lei nº 10.741/2003), que entrou em vigor no dia 1º minação racial e étnica: “A discriminação entre seres huma-
de janeiro de 2004, em consonância com a já manifestada nos em razão da raça, cor ou origem étnica é uma ofensa à
preocupação brasileira em conferir proteção específica aos dignidade humana e será condenado como uma negação
direitos dos idosos. dos princípios da Carta das Nações Unidas, como uma vio-
lação dos direitos humanos e liberdades fundamentais pro-
Não se pode perder de vista, ainda, o texto constitucional, clamados na Declaração Universal dos Direitos Humanos,
que no título VII (Ordem Social) traz no capítulo VII a prote- como um obstáculo às relações amigáveis e pacíficas entre
ção da Família, da Criança, do Adolescente, do Jovem e do as nações e como um fato capaz de perturbar a paz e a segu-
Idoso, sem prejuízo da menção ao direito à assistência social rança entre os povos”.
feita anteriormente no artigo 203, V.
Em relação às medidas estatais, o artigo 2º frisa a neces-
sidade de medidas de prevenção e combate a práticas dis-
Proteção da diversidade sexual criminatórias com base na raça, cor ou origem étnica; o ar-
tigo 4º aborda a necessidade de medidas para rescindir leis
A Organização das Nações Unidas, no âmbito de seu e regulamentos que têm o efeito de criar e perpetuar a dis-
Conselho de Direitos Humanos, tem elaborado resoluções criminação racial, ao passo que o artigo 5º veda políticas de
voltadas a este grupo vulnerável, a exemplo dos Princípios segregação racial (em especial apartheid); o artigo 8º prevê
de Yogyakarta, que são princípios voltados à aplicação da le- que as medidas em questão também devem ser tomadas na
gislação de direitos humanos em todo o planeta em relação área da educação; e os artigos 10 e 11 tratam da necessária
à diversidade sexual e à identidade de gênero, delimitando cooperação internacional para o respeito dos direitos huma-
a igualitária aplicação dos direitos humanos consagrados a nos quanto à discriminação por motivo de raça, cor ou etnia.
pessoas que se encaixem em grupos com sexualidade dife-
renciada. Outro documento a respeito que assume relevância Partindo para o estudo da Convenção, tem-se o artigo 1º,
é a Declaração condenando violações dos direitos humanos de caráter conceitual: “1. Nesta Convenção, a expressão ‘dis-
com base na orientação sexual e na identidade de gênero, de criminação racial’ significará qualquer distinção, exclusão,
18 de dezembro de 2008. O Brasil estava presente quando tal restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência
Declaração foi aceita pela Assembleia Geral da ONU e votou ou origem nacional ou étnica que tem por objetivo ou efei-
a favor, tratando-se assim de documento corroborado pelo to anula ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício
país no âmbito internacional. num mesmo plano, (em igualdade de condição), de direitos
DIREITOS HUMANOS

humanos e liberdades fundamentais no domínio político


Pode-se dizer que a maior conquista no âmbito intera- econômico, social, cultural ou em qualquer outro domínio
mericano é a recente Convenção Interamericana contra Toda de sua vida. 2. Esta Convenção não se aplicará às distinções,
Forma de Discriminação e Intolerância, de 5 de junho de exclusões, restrições e preferências feitas por um Estado Par-
2013 (ainda não incorporada ao ordenamento interno brasi- te nesta Convenção entre cidadãos. 3. Nada nesta Convenção
leiro, mas já assinada pelo Brasil), que pode ser considerado poderá ser interpretado como afetando as disposições legais
o primeiro documento internacional juridicamente vincu- dos Estados Partes, relativas a nacionalidade, cidadania e
lante a expressamente condenar a discriminação baseada naturalização, desde que tais disposições não discriminem

94
contra qualquer nacionalidade particular. 4. Não serão con- nos realizada em Viena em 1993 - na qual o Brasil teve papel
sideradas discriminações racial as medidas especiais toma- muito atuante, pois foi o embaixador Gilberto Sabóia quem
das como o único objetivo de assegurar progresso adequado coordenou o comitê de redação da Declaração e Programa de
de certos grupos raciais ou étnicos ou indivíduos que neces- Viena ¾ o governo Fernando Henrique Cardoso decidiu inte-
sitem da proteção que possa ser necessária para proporcio- grar como política de governo a promoção e realização dos
nar a tais grupos ou indivíduos igual gozo ou exercício de direitos humanos propondo um plano de ação para direitos
direitos humanos e liberdades fundamentais, contanto que, humanos. Em 7 de setembro de 1995, o Presidente anuncia-
tais medidas não conduzam, em consequência , á manu- va: ‘Chegou a hora de mostrarmos, na prática, num plano
tenção de direitos separados para diferentes grupos raciais nacional, como vamos lutar para acabar com a impunidade,
e não prossigam após terem sidos alcançados os seus obje- como vamos lutar para realmente fazer com que os direitos
tivos”. Com efeito, após o estabelecimento de um conceito humanos sejam respeitados’.
de discriminação racial, delimita-se que ela pode consistir
em distinções, exclusões, restrições e preferências, sem que Ao assumir esse compromisso, o governo brasileiro reco-
isto signifique que exista alguma obrigação estatal quanto à nhece a obrigação do estado de proteger e promover os direi-
nacionalidade, cidadania e naturalização, desde que não se tos humanos e os princípios da universalidade e da indivisi-
discrimine uma nacionalidade em particular, e encerra-se bilidade dos direitos humanos. [...]”126.
prevendo que as ações discriminatórias positivas feitas pelo
Estado em prol da igualdade material não caracterizam vio- O principal mecanismo utilizado para exteriorizar e pla-
lação. nejar a Política Nacional de Direitos humanos é o Programa
Nacional de Direitos Humanos. Atualmente, o Brasil está im-
plementando a terceira versão do PNDH, estudada no tópico
POLÍTICA NACIONAL DE DIREITOS a seguir.
HUMANOS
O Programa Nacional de Direitos Humanos - PNDH, lan-
çado pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso, em 13 de
Política nacional é o instrumento que estabelece o pa- março de 1.996. “Embora não seja ainda possível medir o
tamar e orienta as ações governamentais futuras, buscando grau de aumento do respeito aos direitos humanos no Bra-
o aperfeiçoamento de alguma das esferas consideradas es- sil, podemos afirmar, avaliando o debate público no interior
senciais para a sociedade. No caso, o Brasil adota como uma das instituições, na mídia e na opinião pública, que desde o
de suas políticas nacionais os direitos humanos, sendo que lançamento do PNDH houve uma diminuição da tolerância
a aborda em detalhes em Programas Nacionais de Direitos em relação à impunidade e às violações de direitos humanos.
Humanos, reelaborados periodicamente de acordo com as Essa mudança de atitude a médio prazo poderá contribuir
novas necessidades sociais. para diminuir a aquiescência de largos setores da popula-
ção, tanto nas elites como nas classes populares, em relação
“A política nacional de direitos humanos do Estado brasi- a atos arbitrários que venham a ser cometidos pelo Estado
leiro, desenvolvida desde o retorno ao governo civil em 1985, nessa fase do processo de consolidação democrática. [...]
e de forma mais definida, desde 1995, pelo governo do Presi-
dente Fernando Henrique Cardoso, reflete e aprofunda uma O PNDH reflete e fortalece uma mudança na concepção
concepção de direitos humanos partilhada por organizações de direitos humanos, já partilhada anteriormente por orga-
de direitos humanos desde a resistência ao regime autoritá- nizações de direitos humanos, mas pela primeira vez adota-
rio nos anos 1970. Pela primeira vez, entretanto, na história da e defendida pelo governo brasileiro na história republica-
republicana, quase meio- século depois da Declaração Uni- na, segundo a qual os direitos humanos devem ser os direitos
versal de Direitos Humanos de 1948, os direitos humanos todos: a cidadania plena não deve estar limitada, como na
passaram a ser assumidos como política oficial do governo, tradição brasileira, às elites. As não-elites são sujeitos plenos
num contexto social e político deste fim de século extrema- de direitos. Passam a abranger os direitos definidos em trata-
mente adverso para a maioria das não-elites na população dos internacionais ratificados pelo Congresso Nacional.
brasileira. [...]
O governo brasileiro e os estados da federação obrigam-
Em meados dos anos oitenta, já começava a ficar claro -se a proteger não apenas os direitos humanos definidos nas
que o desenvolvimento econômico e social e a transição constituições nacional e estaduais, mas igualmente os direi-
para democracia, ainda que necessários, não eram suficien- tos humanos definidos em tratados internacionais, reconhe-
tes para conter o aumento da criminalidade e da violência cidos como válidos para aplicação interna pela Constituição
no Brasil. Ficava patente que esse fenômeno constituía um de 1988.
grande obstáculo e uma ameaça aos processos de desen-
volvimento e de consolidação da democracia. A questão era Além disso, a nova concepção de direitos humanos im-
saber se esta tendência de banalização da criminalidade, da plica que os Estados nacionais na comunidade internacional
DIREITOS HUMANOS

violência e da morte poderia ser controlada e revertida ou se tenham o direito de agir para proteger os direitos humanos
ela acabaria por consumir os recursos humanos da socieda- em outros países e reconheçam o direito de outros Estados
de brasileira a ponto de inviabilizar os processos de desen-
volvimento e de consolidação da democracia no país. [...]
126 PINHEIRO, Paúlo Sérgio; MESQUITA NETO, Paulo de.
Com o objetivo de limitar, controlar e reverter as gra- Direitos humanos no Brasil: perspectivas no final do sécu-
ves violações de direitos humanos e implementando uma lo. Disponível em: <http://www.dhnet.org.br/direitos/mili-
recomendação da Conferência Mundial de Direitos Huma- tantes/pspinheiro/pspinheirodhbrasil.html>. Acesso em: 13
jun. 2013.

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de defenderem a realização dos direitos humanos dentro do A estratégia relativa ao tema Desenvolvimento e Direitos
seu próprio território. Reconheceu o direito de indivíduos, Humanos é centrada na inclusão social e em garantir o exer-
coletividades e organizações não governamentais no Brasil cício amplo da cidadania, garantindo espaços consistentes
procurarem o apoio de outros Estados e de entidades inter- às estratégias de desenvolvimento local e territorial, agricul-
nacionais para a proteção e promoção de direitos humanos tura familiar, pequenos empreendimentos, cooperativismo e
no Brasil”127. economia solidária.

“A terceira versão do Programa Nacional de Direitos Hu- O direito humano ao meio ambiente e às cidades susten-
manos (PNDH-3), lançada em 2010, apresenta a Política de táveis, por exemplo, bem como o fomento a pesquisas de tec-
Estado para os temas relativos a esta área, ao estabelecer di- nologias socialmente inclusivas constituem pilares para um
retrizes, objetivos e ações para os anos seguintes. modelo de crescimento sustentável, capaz de assegurar os
direitos fundamentais das gerações presentes e futuras.
O objetivo do programa desenvolvido pelo governo fede-
ral é dar continuidade à integração e ao aprimoramento dos Já o tema Universalizar Direitos em um Contexto de De-
mecanismos de participação existentes e criar novos meios sigualdades dialoga com as intervenções desenvolvidas no
de construção e monitoramento das políticas públicas sobre Brasil para reduzir a pobreza e garantir geração de renda aos
Direitos Humanos no Brasil. segmentos sociais mais pobres, contribuindo de maneira de-
cisiva para a erradicação da fome e da miséria.
O PNDH-3 tem como diretriz a garantia da igualdade na
diversidade, com respeito às diferentes crenças, liberdade de O eixo Segurança Pública, Acesso à Justiça e Combate à
culto e garantia da laicidade do Estado brasileiro, prevista na Violência aborda metas para diminuir a violência, reduzir a
Constituição Federal. A ação que propõe a criação de meca- discriminação e a violência sexual, erradicar o tráfico de pes-
nismos que impeçam a ostentação de símbolos religiosos soas e a tortura. Propõe ainda reformular o sistema de Justiça
em estabelecimentos públicos da União visa atender a esta e Segurança Pública ao estimular o acesso a informações e
diretriz. fortalecer modelos alternativos de solução de conflitos, além
de garantir os direitos das vítimas de crimes e de proteção
O programa prevê ainda Planos de Ação a serem cons- das pessoas ameaçadas, reduzir a letalidade policial e carce-
truídos a cada dois anos, sendo fixados os recursos orçamen- rária, dentre outros.
tários, as medidas concretas e os órgãos responsáveis por sua
execução. O eixo prioritário e estratégico da Educação e Cultura em
Direitos Humanos se traduz em uma experiência individual
O PNDH-3 foi precedido pelo PNDH-I, de 1996, que enfa- e coletiva que atua na formação de uma consciência cen-
tizou os direitos civis e políticos, e pelo PNDH-II, que incor- trada no respeito ao outro, na tolerância, na solidariedade e
porou os direitos econômicos, sociais, culturais e ambien- no compromisso contra todas as formas de discriminação,
tais, em 2002. opressão e violência.

A participação social na elaboração do programa se deu O capítulo que trata do Direito à Memória e à Verdade en-
por meio de conferências, realizadas em todos os estados do cerra o temas abordados no PNDH-3. No ano seguinte à pu-
Brasil durante o ano de 2008, envolvendo diretamente mais blicação do PNDH 3 é aprovada a lei que institui a Comissão
de 14 mil cidadãos, além de consulta pública. Nacional da Verdade, que vai apurar violações aos direitos
humanos ocorridas entre 1946 e 1988. Sancionada em 18 de
A versão preliminar do Programa ficou disponível no site novembro de 2011, a comissão tem prazo de dois anos para
da SEDH durante o ano de 2009, aberto a críticas e sugestões. colher depoimentos, requisitar e analisar documentos que
O texto incorporou também propostas aprovadas em cerca ajudem a esclarecer as violações de direitos humanos ocor-
de 50 conferências nacionais, realizadas desde 2003, sobre ridas no período que inclui a ditadura militar. O órgão será
tema como igualdade racial, direitos da mulher, segurança composto por sete membros, nomeados pela Presidência da
alimentar, cidades, meio ambiente, saúde, educação, juven- República”.128
tude e cultura etc.

O tema da Interação Democrática entre Estado e Socie- #FicaDica


dade Civil abre o Programa, de acordo com a ideia de que PNDH-1 – Direitos civis e políticos
os agentes públicos e todos os cidadãos são responsáveis
pela consolidação dos Direitos Humanos no País. Para isso, o PNDH-2 – Direitos econômicos, sociais e cultu-
PNDH-3 propõe a integração e o aprimoramento dos fóruns rais
de participação existentes, bem como a criação de novos PNDH-3 – Atual – Direitos políticos (participa-
espaços e mecanismos institucionais de interação e acom- ção popular), acesso à justiça, desenvolvimento,
DIREITOS HUMANOS

panhamento, como o fortalecimento da democracia partici- educação em DH, memória e verdade


pativa.

DECRETO Nº 7.037, DE 21 DE DEZEMBRO DE 2009


127 PINHEIRO, Paúlo Sérgio; MESQUITA NETO, Paulo de.
Direitos humanos no Brasil: perspectivas no final do sécu-
lo. Disponível em: <http://www.dhnet.org.br/direitos/mili-
tantes/pspinheiro/pspinheirodhbrasil.html>. Acesso em: 13 128 http://www.brasil.gov.br/sobre/cidadania/direitos-do-
jun. 2013. -cidadao/programa-nacional-de-direitos-humanos-pndh

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Aprova o Programa Nacional de Direitos Humanos - contexto de desigualdades:
PNDH-3 e dá outras providências.
a) Diretriz 7: Garantia dos Direitos Humanos de forma
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que universal, indivisível e interdependente, assegurando
lhe confere o art. 84, inciso VI, alínea “a”, da Constituição, a cidadania plena;

DECRETA: b) Diretriz 8: Promoção dos direitos de crianças e adoles-


centes para o seu desenvolvimento integral, de forma
Art. 1o Fica aprovado o Programa Nacional de Direitos Hu- não discriminatória, assegurando seu direito de opi-
manos - PNDH-3, em consonância com as diretrizes, objetivos nião e participação;
estratégicos e ações programáticas estabelecidos, na forma do
Anexo deste Decreto. c)  Diretriz 9: Combate às desigualdades estruturais; e

Na verdade, o anexo delimita e explica cada um dos eixos d)  Diretriz 10: Garantia da igualdade na diversidade;
orientadores e diretrizes adotados pela PNDH-3. Considera-
da a extensão do concurso, talvez valha a pena focar os estu- Ainda existem muitos grupos sociais desprivilegiados no
dos no artigo 2º. Brasil, como crianças e adolescentes, negros, homossexuais,
etc. Cabe trabalhar diariamente para mitigar tais desigualda-
Art. 2o O PNDH-3 será implementado de acordo com os se- des, consolidando a dignidade da pessoa humana.
guintes eixos orientadores e suas respectivas diretrizes:
IV - Eixo Orientador IV: Segurança Pública, Acesso à Jus-
I - Eixo Orientador I: Interação democrática entre Estado tiça e Combate à Violência:
e sociedade civil:
a)  Diretriz 11: Democratização e modernização do siste-
a) Diretriz 1: Interação democrática entre Estado e socie- ma de segurança pública;
dade civil como instrumento de fortalecimento da de-
mocracia participativa; b)  Diretriz 12: Transparência e participação popular no
sistema de segurança pública e justiça criminal;
b) Diretriz 2: Fortalecimento dos Direitos Humanos como
instrumento transversal das políticas públicas e de in- c)  Diretriz 13: Prevenção da violência e da criminalidade
teração democrática; e e profissionalização da investigação de atos crimino-
sos;
c) Diretriz 3: Integração e ampliação dos sistemas de in-
formações em Direitos Humanos e construção de me- d)  Diretriz 14: Combate à violência institucional, com ên-
canismos de avaliação e monitoramento de sua efe- fase na erradicação da tortura e na redução da letalida-
tivação; de policial e carcerária;

Visa propiciar que a sociedade civil participe cada vez e)  Diretriz 15: Garantia dos direitos das vítimas de cri-
mais do processo democrático, notadamente quanto à efeti- mes e de proteção das pessoas ameaçadas;
vação dos direitos humanos.
f)  Diretriz 16: Modernização da política de execução pe-
II - Eixo Orientador II: Desenvolvimento e Direitos Hu- nal, priorizando a aplicação de penas e medidas alter-
manos: nativas à privação de liberdade e melhoria do sistema
penitenciário; e
a) Diretriz 4: Efetivação de modelo de desenvolvimento
sustentável, com inclusão social e econômica, am- g)  Diretriz 17: Promoção de sistema de justiça mais aces-
bientalmente equilibrado e tecnologicamente respon- sível, ágil e efetivo, para o conhecimento, a garantia e a
sável, cultural e regionalmente diverso, participativo e defesa de direitos;
não discriminatório;
Vale a pena ler no anexo as diretivas para este eixo orien-
b) Diretriz 5: Valorização da pessoa humana como sujeito tador IV, que perpassam pela necessidade de aperfeiçoa-
central do processo de desenvolvimento; e mento do sistema de justiça criminal e da segurança pública.
O Brasil é considerado um país deficiente quando o assunto
c) Diretriz 6: Promover e proteger os direitos ambientais é direito dos presos e é essencial que ocorra uma busca de
como Direitos Humanos, incluindo as gerações futu- melhora. Práticas arbitrárias, desumanas, cruéis, não podem
ras como sujeitos de direitos; ser toleradas. Não significa que a vítima deva ser desprezada:
DIREITOS HUMANOS

ela também deve receber assistência do Estado. Contudo, os


O desenvolvimento dos direitos humanos cada vez mais presos brasileiros não podem continuar a ser submetidos a
se volta à 3ª dimensão, inerente aos direitos difusos e coleti- situações degradantes frequentemente noticiadas, as quais
vos, como o de convivência num meio ambiente saudável. A não conferem nenhuma esperança de ressocialização.
pessoa humana fica no centro do sistema, mas não se perde
de vista o todo. V - Eixo Orientador V: Educação e Cultura em Direitos
Humanos:
III - Eixo Orientador III: Universalizar direitos em um

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a)  Diretriz 18: Efetivação das diretrizes e dos princípios da monitoramento e avaliação dos Planos de Ação dos Direi-
política nacional de educação em Direitos Humanos tos Humanos;
para fortalecer uma cultura de direitos;
IV - acompanhar a implementação das ações e recomen-
b)  Diretriz 19: Fortalecimento dos princípios da democra- dações; e
cia e dos Direitos Humanos nos sistemas de educação
básica, nas instituições de ensino superior e nas insti- V - elaborar e aprovar seu regimento interno.
tuições formadoras;
§ 1o   O Comitê de Acompanhamento e Monitoramento do
c)  Diretriz 20: Reconhecimento da educação não formal PNDH-3 será integrado por um representante e res-
como espaço de defesa e promoção dos Direitos Huma- pectivo suplente de cada órgão a seguir descrito, indi-
nos; cados pelos respectivos titulares:

d)  Diretriz 21: Promoção da Educação em Direitos Huma- I - Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidên-
nos no serviço público; e cia da República, que o coordenará;

e)  Diretriz 22: Garantia do direito à comunicação demo- II - Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da
crática e ao acesso à informação para consolidação de Presidência da República;
uma cultura em Direitos Humanos; e
III - Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igual-
Muitas pessoas não possuem consciência de seus direitos dade Racial da Presidência da República;
humanos fundamentais e por isso são diariamente submeti-
das a condições de indignidade. O trabalho de educação para IV - Secretaria-Geral da Presidência da República;
a consciência de seus próprios direitos humanos é complexo
e deve perpassar por todas as áreas da educação, tanto for- V - Ministério da Cultura;
mal quanto informal.
VI - Ministério da Educação;
VI - Eixo Orientador VI: Direito à Memória e à Verdade:
VII - Ministério da Justiça;
a)  Diretriz 23: Reconhecimento da memória e da verdade
como Direito Humano da cidadania e dever do Esta- VIII - Ministério da Pesca e Aquicultura;
do;
IX - Ministério da Previdência Social;
b)  Diretriz 24: Preservação da memória histórica e cons-
trução pública da verdade; e X - Ministério da Saúde;

c)  Diretriz 25: Modernização da legislação relacionada XI - Ministério das Cidades;


com promoção do direito à memória e à verdade, forta-
lecendo a democracia. XII - Ministério das Comunicações;

Por muito tempo foi desprezado e esquecido o quadro di- XIII - Ministério das Relações Exteriores;
tatorial brasileiro, manchando a história recente do país. O
objetivo da Comissão da Verdade não é punir infratores, mas XIV - Ministério do Desenvolvimento Agrário;
resgatar os fatos trágicos que marcaram tal momento histó-
rico para que não se repitam. XV - Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à
Fome;
Parágrafo único.  A implementação do PNDH-3, além dos
responsáveis nele indicados, envolve parcerias com outros XVI - Ministério do Esporte;
órgãos federais relacionados com os temas tratados nos eixos
orientadores e suas diretrizes. XVII - Ministério do Meio Ambiente;

Art. 3o As metas, prazos e recursos necessários para a im- XVIII - Ministério do Trabalho e Emprego;
plementação do PNDH-3 serão definidos e aprovados em Pla-
nos de Ação de Direitos Humanos bianuais. XIX - Ministério do Turismo;

Art. 4o Fica instituído o Comitê de Acompanhamento e XX - Ministério da Ciência e Tecnologia; e


DIREITOS HUMANOS

Monitoramento do PNDH-3, com a finalidade de:


XXI - Ministério de Minas e Energia.
I - promover a articulação entre os órgãos e entidades en-
volvidos na implementação das suas ações programáticas; § 2o O Secretário Especial dos Direitos Humanos
da Presidência da República designará os
II - elaborar os Planos de Ação dos Direitos Humanos; representantes do Comitê de Acompanhamento e
Monitoramento do PNDH-3.
III - estabelecer indicadores para o acompanhamento,

98
§ 3o  O Comitê de Acompanhamento e Monitoramento b) Proibição de qualquer propaganda em favor da guerra e
do PNDH-3 poderá constituir subcomitês temáticos de qualquer apologia ao ódio nacional, racial ou religioso,
para a execução de suas atividades, que poderão con- que constitua incitamento à discriminação, à hostilidade
tar com a participação de representantes de outros ou à violência.
órgãos do Governo Federal.
c) Proibição do restabelecimento da pena de morte nos Es-
§ 4o  O Comitê convidará representantes dos demais Po- tados que a hajam abolido.
deres, da sociedade civil e dos entes federados para
participarem de suas reuniões e atividades. d)