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O SÍTIO DA MENTE

sítio (1): S.m. 1. lugar que um objeto ocupa

3. lugar, local, ponto acontecimento notável

.4. lugar assinalado por .6. Bras. estabelecimento

agrícola de pequena lavoura; fazendola.

sítio (2): S.m. ato ou efeito de sitiar; cerco.

Novo Dicionário da Língua Portuguesa Aurélio Buarque de Holanda Ferreira

=

Apoio Cultural

39 reimpressão

HENRIQUE SCHÜTZER DEL NERO

O SÍTIO DA MENTE

PENSAMENTO, EMOÇÃO E VONTADE NO CÉREBRO HUMANO

Projeto gráfico:

LUCINO ALVES FILHO

coliegium cognitio

www.cogiiiTFosite.comT

cognitio@uol.com.br

Copyright © 1997 by Henrique Schützer Dei Nero

Capa e projeto gráfico

Lucmo Alves Filho

Preparação do texto (Partes 1, II e III)

Maria Cristina Rosa de Almeida

Revisão

Anderson Andrade Depizol Mauro Beliesa

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Dei Nero, Henrique Schützer

O sítio da mente: pensamento, emoção e vontade no cérebro humano / Henrique Schützer Dei Nero. -- São Paulo: Collegium Cognitio, 1997.

Bibliografia.

1. Cérebro 2. Cérebro - Localização das funções 3. Cognição 4. Sistema Nervoso 1. Título

ISBN 85-86396-0l-X

 

CDD-612.825

97-0599

NLM-WL 300

índices para catálogo sistemático:

1.Cérebro e mente: Neurofisiologia humana

612.825

2.Mente e cérebro: Neuroflsiologia humana

612.825

1997

Todos os direitos reservados à • Collegium Cognitio Ltda. Av. Brig. Faria Lima, 1811 conj. 912 01476-900 - São Paulo - SP Telefone/ Fax: (011) 211- 4005 / 813-5701 E mail: cognitiouol.com.br Home page: www.cognitiosite.com

Para Lucia, Rafaela, Maria Luiza e Marcelo

Para informações complementares, errata, discussões e outros tópicos pertinentes à atividade da Collegium Cognitio, entidade dedicada a promover e divulgar o estudo interdisciplinar de cérebro, mente e comportamento, utilize

HOME PAGE: www.cognitiosite.com

E. MAIL: cognitio@uol.com.br

E.mail do autor:_hdelnero@usp.br

SUMÁRIO)

SUMÁRIO

PREFÁCIO E GUIA DE LEITURA p. 11

INTRODUÇÃO p. 17

Parte 1: FÔRMA CEREBRAL

1. CÉREBROS p.2'7

2. NEURONIOS p. 35

Integração e decisão.

3. SiNAPSE p. 45

Receptores. Mensageiros. Sinapses alteradas e tratamento das disfunções mentais. Alterações específicas de passagem de informação na sinapse.

4. DEPARTAMENTOS CONCRETOS E VIRTUAIS p.59

Departamentos virtuais e comissões que examinam situações ambíguas. A mente como departamento virtual. Divisórias e compartimentos. Mais divisões nos departamentos concretos. Os grandes departamentos cerebrais. A integração de departamentos concretos e o lento surgimento da mente. Inteligência e formação dinâmica de comitês.

5. CIRCUITOS E SISTEMAS p.79

6. CÓDIGOS E OSCILAÇÕES p.83

Neurônios e codificação. Neurônios artificiais e conectivos lógicos. Processamento temporal. O

neurônio e a codificação temporal.

7. ORIGEM DE CÓDIGOS E TELAS p.97

Mente e computador: uma analogia. Sobre a origem das convenções que possibilitam sincronismo.

8. SINCRONISMO E FUNÇAO VIRTUAL p. 109

Parte II: FORMA E CONTEÚDO MENTAL

9. FUNÇÕES MENTAIS p. 119

Subdivisão de funções.

O SITIO DA MENTE

10.CONSCIÊNCIA p. 125 Inconsciente. Freud e o inconsciente. Consciência e evolução. Consciência e linguagem. Consciência: vontade, liberdade e moral. Consciência e terceirização. A consciência e a universalidade dos processos abstratos e virtuais. Consciência e crença. Consciência:

supraconsciência e infraconsciência. Consciência e máquinas.

11.CIÊNCIA COGNITIVA ANOVA MENTE p. 155

A crise na concepção discreto-digital da mente. A crise da visão da mente como pensamento. A

crise das regras. A crise dos símbolos. Símbolos arbitrários e dinâmicos. Símbolos e proposições. Símbolos e intencionalidade. A dinâmica cerebral e a relação entre símbolos e sinais. Investigação de objetos e relações cerebrais. A crise da completude e a dinâmica cerebral quântica. Acaso genuíno ou provisório? Sistemas e modelos híbridos. Outros hibridismos. Sistemas dinâmicos, bifurcações e osciladores. Um modelo de dinâmica cerebral clássica baseado em malhas de

sincronismo.

12.DISFUNÇÃO MENTAL p. 207 Opinião e conhecimento.

13.A MENTE ADOECE p.223 Sono. Motivação. Concentração. Memória. Apetite. Fadiga. Libido. Sintomas fisicos. Pensamento. Percepção. Irritabilidade e impulsividade.

14.0 PENSAMENTO E SEUS DISTÚRBIOS p.229 Psicoses.

15.A EMOÇÃO E SEUS DISTÚRBIOS p.249 Linguagem e estabilização de significados. Lesão e disfunção. O pensamento poderia ser um meio

de redescrever as emoções e a vontade? Formação dinâmica de níveis da vida mental. Desregulagem

emocional, afetiva e do humor. Depressões. Transtornos irritáveis e impulsivos. Depressões

psicóticas. Depressões leves crônicas. Mania. Ansiedade, pânico, fobia e obsessões.

16.PATOLOGIAS DA VONTADE p.283

Parte IV: A MENTE ORGANIZADA

17.ATENÇÃO p.295

O sentido extra que corrobora discursos hipotéticos. Patologias da atenção. Atenção e reflexão.

18. LINGUAGEM p. 307 De novo as proposições. Afasias. Dislexia.

SUMÁRIO

19. PERCEPÇÃO E AÇÃO p.321

Percepção, ação e consciência. Anomalias da percepção e da motricidade.

20. MEMÓRIA p. 341

Memória e traço. Outras classificações para tipos de memória. Memória e código; memória e interpretação.

21. PERSONALIDADE p.355

Personalidade e herança. Classificando personalidades. Psicopatia. Personalidade social e axioma coletivo.

22. O SONHO COMO FUNÇÃO p.37'7

Heimenêutica e psicoterapia.

23. CONSCIENCIA: CONTEUDO, VWENCIA E FUNÇAO

p.3W7

Parte V: A MENTE SITIADA

24. SUCESSO, EXCLUSÃO E SOBREVIVÊNCIA p.3W7

A ciência e a satisfação do consumidor.

25. MERCADO, PODER CENTRAL E CÉREBRO HUMANO 11.409

Auto-organização epathos; heterorganização e ethos. Estabilidade e funcionalidade.

26. QUANDO A CULTURA SITIA A MENTE p.42l

Imputabilidade e culpa. Base neuronal para a vontade. Sujeito público e privado. O lugar da ética.

27. A MENTE EDUCADA p.439

Computadores e Internet. Drogas. Alquimias mentirosas: a auto-ajuda e os novos métodos gerenciais. Histeria e costumes.

CONCLUSAO p.453

NOTAS p. 455 BIBLIOGRAFIAp. 497

ÍNDICE REMISSIVO p.50l

0 SITIO DA MENTE

PREFÁCIO

PREFÁCIO E GUIA DE LEITURA

Este livro nasceu de alguns episódios singulares. Primeiramente, da falta de texto em português que tivesse a abrangência necessária para introduzir o leitor não-especializado no complicado mundo da mente e de sua relação com o cérebro e a cultura. Segundo, da perplexi- dade com que nós, psiquiatras, olhamos um sem-número de idéias que são propaladas ainda hoje sobre distúrbios mentais, enganando as pes- soas e subtraindo-lhes a oportunidade de corrigir pequenos desvios e reintegrar-se plenamente à vida privada e profissional. Não raramente, esse conjunto de opiniões ignorantes ou às vezes oportunistas sobre a mente leva o indivíduo a procurar tardiamente ajuda médica, o que, além de agravar o problema aumenta o risco de suicídios e agressões. Em terceiro e último lugar, da minha indignação como cidadão diante da perda rápida e progressiva da ética nas relações humanas, seguida de um desejo frenético de sucesso individual, abandonando-se as bandeiras solidárias e fraternas de outras épocas. Isso, ao contrário de ser simples direcionamento da sociedade e da educação, constitui afronta, na minha opinião, à função que a mente teve na evolução humana: o contato com o semelhante constituindo um grupo coeso, forte e preocupado com sua sobrevivência enquanto coletividade. O novo individualismo pode parecer boa ciência econômica, mas é, a meu ver, má compreensão da biologia que nos fez humanos e conscientes. A empreitada era grande e não poderia ser feita sem que se escolhesse um modo de exposição. Escolhi a alternativa de dificuldade intermediária, coloquialidade, abrangência, didatismo e repetição enfática, omitindo tecnicalidades excessivas. A intenção foi tornar o texto algo mais próximo de uma exposição oral sobre os diversos temas. Todos os tópicos que me parecem relevantes para uma visão unificada do fenômeno do surgimento da mente a partir do cérebro humano foram inventariados. Mais que isso, tentei articulá-los sob a forma de um esboço de teoria da mente. Essa teoria, que chamarei de redescrição valorada de atos epercepçõespresumidos, procura mostrar que o cérebro é complexo e não careceria da mente para realizar inúmeras operações de percepção e de ação. Porém, a necessidade de valoração dos atos e percepções, sob a ótica de um discurso de responsabilidade, requereu que se criasse uma versão da ação e da percepção que unifica, através da linguagem e da memória, o fenômeno da consciência. Espraiada

O SÍTIO DA MENTE

pelo mundo, essa consciência constitui a cultura, que retroage constantemente sobre cada um de nós.

A mente e a consciência, seu ponto máximo, são misto de cérebro

e de cultura. Entender a articulação destes conceitos pode auxiliar numa naturalização de certos discursos das ciências humanas e na culturalização de certos enfoques restritivos das ciências cerebrais.

O indivíduo, misto de cérebro e história, sujeito privado e públi-

co, precisa, para compreender a si mesmo na totalidade, examinar a história da espécie humana, sua condição biológica inicial, os progra- mas que gravou na sua trajetória existencial única e seu dever e subser- viência para com o coletivo que o influencia.

Plano do livro e guia

Este livro está dividido em cinco partes gerais: 1 - Fôrma Cere- bral; II - Forma e Conteúdo Mental; III - A Mente Alterada; IV - A Mente Organizada; e V - A Mente Sitiada. No final do livro encontra-se um capítulo de Notas endereçadas ao leitor que deseje maior aprofundamento nas questões. Seria impossível colocar seu conteúdo e forma no corpo do texto, sob pena de ferir o seu caráter introdutório. O leitor leigo que se inicia agora nas áreas envolvidas deve deixar para consultar essas notas numa etapa posterior. Também há no final do livro um índice Remissivo. Como há uma grande quantidade de con- ceitos ao longo do livro, toda vez que se precisar voltar a algum ponto para reavivar algum item, deve-se procurar no índice a ocorrência da- quele conceito. Na Parte 1, mostro como o processamento de sinais elétricos nas células cerebrais é capaz de gerar fôrmas onde vão se encaixar posteriormente as categorias mentais. Examino a concepção de um neurônio digital, o que fez pensar que o cérebro era um computador de um certo tipo, e sua posterior caracterização como aparato analógico que dispara códigos de barra e freqüências capazes de sincronizarem, gerando as fôrmas para que a mente se encaixe. A noção de mente como comitê virtual, como se fosse um departamento virtual formado de funcionários recrutados de departamentos reais de uma empresa hipotética, será uma das principais alegorias introduzidas na Parte 1 e constantemente usada ao longo do livro. Embora tenhamos um cérebro com divisões concretas, a mente surge da reunião dinâmica em comitês de diferentes elementos cerebrais. Portanto, está no cérebro, mas não deve ser confundida com estruturas estáticas, como o cerebelo, o lobo

-PREFÁCIO

frontal ou o sistema límbico. Isto porque, se o estilo cerebral de processamento tem divisões e circuitos mais ou menos claros, o estilo mental é uma reunião em comitê, em princípio sem lugar fixo, e para ele a regra dinâmica de convocação de cada elemento é mais importante que o elemento em si. Daí a possibilidade de reabilitação após lesões cerebrais, o que não é compatível com uma visão de departamento estanque.

A Parte 1 é uma das mais técnicas do livro, apesar de didática e acessível. O leitor.poderá lê-Ia com maior rapidez numa primeira vez, não se preocupando excessivamente com certas passagens e voltando a elas numa segunda leitura. Para entendê-la, basta considerar um neurônio que dispara códigos de barra, dialogando com outros através de freqüências variáveis. A concepção de um neurônio digital que dispara sins e nãos, tal fosse um computador como os atuais, fica claramente sepultada. No final de cada capítulo haverá sempre um pequeno resumo das idéias mais importantes. Para aquele que pretender ler o livro de maneira não-seqüencial, convém ler as sínteses (resumos) dos capítulos anteriores. Isso pode auxiliar na compreensão de certas passagens em que se faz alusão a algum conceito ou exemplo já apresentado. Na Parte II, apresento a consciência como palco da vida mental, onde protagonizam a ação e outras funções básicas: o pensamento, a emoção e a vontade. Um dos maiores erros dos modelos de mente e de sua base cerebral, nas últimas décadas, foi caracterizar a mente como pensamento, procurando nele a base da inteligência. O projeto era claro e visava, entre outras coisas, lançar as bases de uma ciência - a inteli- gência artificial - capaz de fazer máquinas aptas a processar pensamen- to inteligente. O resultado não foi um fracasso. A verdade, porém, é que a mente não é só o pensamento, mas também a emoção e a vo e to os os três contrac-enando no_gande palco da consciência. Já nesta Ç parte apresento ? embrionário no Brasil, mas já firmado há décadas nos centros es- trangeiros. Na Parte III, apresento três fiInções mentais, sob a ótica da m lugar de me ater apenas ao exame da função, procuro motivar o leitor com alguns exemplos de disfunção específica e com o relato de alguns casos. Na Parte IV, volto a analisar algumas das merecem destaaue na oranizacão de um esboco de teoria -da mente:

so-

O SÍTIO DA MENTE

Também aqui há o relato de disfunções e exemplos de casos clí-

nicos. Para concluir, esboço uma teoria da consciência, em que se distinguem três instâncias conscientes básicas: função, vivência e conteúdo. Na Parte V, procuro mostrar que a mente, ao não r?,cgàecer no cérebro uma das bases da ética, fenômeno biolóSco e não imposição

'está

risco, criando

itura de sucessoessoalede

sem interferência do mer_çaU. Quando o Fórum Econô- mico Mundial, reunido no início de 1997 em Davos, Suiça, elege a ética como prioridade em tempos de globalização, conferindo ao teólogo Hans Küng, entre outros, a redação de um documento que estabeleça algumas diretrizes a respeito, percebemos o quanto algu- mas idéias rotuladas genericamente de neoliberais podem colocar em xeque os cânones de uma sociedade justa. Jçpelico Ético porque biológico e de preservação da espécie, ameaçada pela partição do mundo em regiões de modernidade e regiões de exclusão e miséria. Se antes essa partição estava na geogra- fia continental, agora está nos bairros das grandes cidades. Urge re- pensar a mente e a sociedade, percebendo que algumas escolhas não são tão matéria de opinião quanto se imagina: podem ter no terreno biológico da mente um contraste que permita distinguir o que é certo e o que não é. Estou ciente de que uma empreitada como a deste livro é cheia de armadilhas. Há imperfeições originadas de uma característica básica da mente:

discuti-la implica visitar três grandes áreas: as ciências humanas porque ali está a biografia de cada um e a análise do indivíduo inserido na cultura; as ciências biológicas porque o cérebro é o órgão que possibilitou que se pudesse pensar em algo como o processamento mental em um tecido físico; as ciências exatas porque a análise do código de recrutamento de unidades cerebrais em comitê e o

para descrever e modelar. Seria trabalho para vários especialistas; porém, todos eles teriam que fazer uma colagem de seus conhecimentos. O resultado, embora mais preciso, seria menos coeso. Os bons livros sobre a mente e sua análise interdisciplinar jamais são escritos por um só autor. Nesse sentido o trabalho aqui deve apenas servir como um inventário horizontal de todos os temas importantes, convidando o leitor a fazer um estudo muito mais aprofundado posteriormente. Porém, para aquele que pretende ter apenas uma visão geral do tema, espero ter conseguido fornecer de maneira didática uma introdução. O objetivo é informar e suscitar o debate, o que poderá resultar em futuras versões corrigidas e aperfeiçoadas.

PREFÁCIO

Agradecimentos

Agradeço a todos os que me apoiaram nesta empreitada, particu- larmente a colegas que me sugeriram alterações. Entre esses colegas cabe citar José Roberto Piqueira, que me acolheu no programa de dou- torado em engenharia eletrônica na Escola Politécnica da USP e que, com sua paciência, didática e brilho, me fez entender um pouco de matemática e física, disciplinas necessárias à modelagem de fenômenos biológicos; Nestor Caticha, especialista em redes neurais; João de

Fernandes Teixeira, especialista em filosofia da mente e inteligência

artificial; Alfredo Maranca, especialista em termodinâmica e computação; Paulo Blinder, matemático e especialista em lógica fizzzy, Laszlo Kovács, especialista em redes neurais; Mauro Beliesa, jornalista e amigo que me tem auxiliado na revisão de inúmeros artigos para a mídia e que colaborou na revisão final do livro; Luiz Barreto de Souza, psiquiatra e amigo que foi dos primeiros a ter acesso ao manuscrito; e Idméa Siqueira, lingüista que opinou sobre uma versão preliminar. Agradeço a Lucino Alves Filho, que editorou este livro, a Maria Cristina Rosa de Almeida, que fez a preparação do texto, sugerindo inúmeras alterações que facilitassem a leitura, a Rodolfo Varini que fez valiosa sugestão sobre a capa e a Andrade Depizol que fez valiosas sugestões na revisão. Agradeço particularmente à minha mulher, Lucia, pela compre- ensão e infindáveis revisões e opiniões - sempre adequadas por tratar- se de colega psiquiatra. Se 41gurn dia puder daizer que houve valor em it se a ela cuidar com tanto zelo de meus filhos e apoiar-me tanto, deixando, Por-vezes, em segundo plano sua própria

a

de

Taitbém meus pais, meus irmãos e meu cunhado merecem agra- decimento. Caçula de uma família que sempre cultivou o estudo, o pouco que sei devo muito à influência individual de cada um dos cinco, João, Yvonne, Mansa, João Alberto e Ronaldo. Agradeço à direção do Instituto de Estudos Avançados da USP que, desde 1990, me tem dado a oportunidade de manter um grupo dedicado à ciência cognitiva, até que consigamos encontrar, como no exterior, inserção departamental com cursos regulares de mestrado e doutorado na área. Agradeço, finalmente, ao Anglo Vestibulares, que me auxiliou de

O SÍTIO DA MENTE

maneira substantiva para que pudesse concretizar este projeto. Muitas pessoas ali mereceriam palavra, porém, que estejam representadas pelas figuras de Emílio Gabriades e Nicolau Marmo, que me convidam regularmente para proferir palestras de orientação psicológica aos alunos,

e Dado Antônio Castro, que, embora não tenha podido revisar este livro, tem-me auxiliado muito com outros textos que, com sua revisão, acabam tendo urna elegância e correção que não tinham inicialmente.

Fazer um livro completo sobre a mente, o cérebro e a cultura, particularmente naquilo em que se interseccionam, é tarefa passível de críticas e cheia de imperfeições. Em 1994 estava num encontro científico nos Estados Unidos e comentei com algumas pessoas a dificuldade que enfrentamos para conseguir fazer vingar uma área interdisciplinar sobre

a mente. Karl Pribram, que hoje tem quase 90 anos e certamente é um

dos grandes cientistas dessa área no século, virou-se para mim e me entregou a citação que reproduzo a seguir de texto de Ervin Schrtsdinger, um dos grandes físicos deste século. Schrõdinger diz em seu livro "O que é vida" de 1944:

"Herdamos denossosantepassadosodesejoagudopela unificação do conhecimento. Mas o crescimento, tanto em abrangência quanto em profundidade, das dífemntesázasdeconhedmentonos últimos cem anosnos levou a um estranho dilema. Sentimos ciaramente que estamos apenas agora começando aadqwrirmaterialconflávelpara soldar todas aspartesnum todo único;mas, por outrolado, tomou-se quase inipossívelpaza uma única mente comandarmais que uniapequenapaite especializada desse conhecimento. Não vqb ou" saídaparaeedilema,pamquenãosepeirapanisempw nosso verdadeiro objetivo, senão que alguns denós devem arriscar-se, iniciando uma síntese de fatos e teorias, a despeito de conhecerem muitas delas inipen'eitamenteecom domúiio de segunda-mão e, além domais, conndoo risco de semm tomadosportolos."

Creio que Pribram tem razão se, com seus quase 90 anos, tendo orientado líderes de pesquisa e produzido no melhor ambiente científico do mundo, ainda carrega debaixo do braço um texto tão sintomático.

SãoPaulo, 22 defeverefro de 1997

)

INTRODUÇÃO

INTRODUÇÃO

Transformações científicas estonteantes aconteceram nestes últimos séculos, mudando o rosto do mundo e exigindo de qualquer um cada vez maior conhecimento de uma série de conceitos técnicos. As descobertas nos deram alto grau de controle sobre os processos naturais, propiciando avanço e bem-estar, porém, continuamos atônitos com a coexistência de uma tecnologia de última geração na produção de bens de consumo e de um desconhecimento assustador, por grande parte das pessoas, de conceitos científicos básicos. Consomem-se, indiferenciadamente, produtos de tecnologia atual e "conhecimento" arcaico, particularmente no que tange à vida mental. Ao lado do computador, usado como meio, estão os búzios, o tarô, os florais, os anjos, duendes e outras crendices e magias, usados como fins, fornecendo "explicações" sobre o mundo da mente. Além dos que pregam esse misticismo desenfreado, muitas vezes nutridos pela ignorância e não por má-fé ou busca de benefício pessoal, há os

aproveitadores que, sob o rótulo de "científico", vendem idéias parciais

e erradas - porque parciais - sobre a mente, sobre sua programação,

sobre o modo de dominá-la para o sucesso ou para o equilíbrio emocional. Aqueles que prescrevem o misticismo e a magia são, no mais das vezes, apenas profetas do arcaico e ultrapassado; aqueles que vendem opiniões e clichês sob o rótulo de ciência e de modernidade são ainda piores, beneficiando-se da ingenuidade com que pessoas, empresas e até governos os tratam. Esse temor reverencial que provocam pelo "sucesso" de suas teorias, ou pelo menos de suas contas bancárias - tanta gente os ouve e compra -, é bem fruto desta época de incerteza e desvario. Estranho não terem jamais assento ou platéia na comunidade científica nacional e internacional, salvo nos congressos de vendas em que propalam a última técnica de otimização mental

para vender mais produtos e sair-se bem na vida. A sociedade, como de hábito, trata o guru como sábio, o vendedor

de opiniões triviais sob a égide de moderno e científico como best-seller

e o cientista com os recursos parcos que sobram. "Teóricos", exclamam

esses cidadãos médios ao se referirem à ciência pura. Claramente esses

O SITIO DA MENTE

indivíduos preferem o fetiche da coisa pronta, do conhecimento- produto, cultores que são da "prática" e embevecidos com a ciência quando ela lhes fornece um telefone celular. Através dele, quem sabe até da Internet, podem discutir a última "teoria" sobre vidas passadas ou falar um pouco de seu mundo alienado e facilmente manipulável. "Oh tempo! oh costumes!" dizia Cícero. Uma explicação geral e completa da mente e de sua relação com

o cérebro e a cultura é a única maneira de tentar enfrentar essa época

de ignorância e magia, contrapondo-lhe alguma razão e discernimento. Não apenas porque a verdade deve sempre prevalecer, mas sobretudo porque a verdade científica, ainda que provisória e imperfeita, é uma das únicas salvaguardas contra a tirania da desrazão. Em se tratando de vida mental, é inquestionável a necessidade de fornecer a cada pessoa um conjunto coerente de idéias. A mente está em toda parte, interpenetrando qualquer domínio— da família ao trabalho, do privado ao público, do pedagógico ao negocial. Absolutamente não se pode pretender enfrentar alguns dos mais importantes dilemas contemporâneos sem uma visão integrada do que é a mente e de como surge no cérebro. A velocidade das transformações atuais modifica padrões de vida

e de trabalho. As relações humanas estão permeadas por valores de

uma ciência que gera milhões de fatos novos a cada momento. O fluxo de informação é frenético e tem brutal efeito sobre a mente que o consome.

Nesse sentido, falar apenas do cérebro não será completo. Também há

que se falar da mente contaminada e sitiada por um meio que a afeta todo

o tempo. Se o progresso gerou avanço tecnológico, gerou também alguns paradoxos. Primeiramente,

em que o iucro e o

sao - Esses dois paradoxos podem sitiar a mente. Em não se reconhecendo gerada no sítio cerebral, a mente nega a ciência; nega o desvio e seu tratamento; nega a ética nas relações entre seres biológicos e finalmente nega a razão. Vamos trilhar um caminho que nos ensine como a célula cerebral produz a mente, como a mente produz a cultura e como essa cultura retroage sobre nós, tornando-nos afoitos e ansiosos numa época de novidades e grandes incertezas.

INTRODUÇÃO

A mente capaz de produzir a ciência e o avanço não é capaz de

entender plenamente o processo de produção e de consumo; não é capaz de concordar sobre o meio de regular oferta de moeda, juros,

taxa de câmbio, emprego, etc.

O impasse também se apresenta em outras áreas. A regulação

predeterminada parece ceder lugar ao exame de caso. A Constituição rígida e detalhista parece perder lugar para a decisão jurisprudencial.

Os grandes sistemas trabalhistas de proteção do indivíduo (welfarestate) começam a inviabilizar as contas públicas, e cada vez mais se acredita num Estado mínimo com forte tendência a deixar que o indivíduo se socorra de corporações e de fundos privados para suas aposentadorias

e seus planos de saúde. Esses exemplos todos mostram que, a par de um sem-número

de avanços científicos, continuamos a não saber com certeza como decidir diante de cenários complexos. A interferência reguladora nestes casos é possível e há uma série de teorias que têm feito por avançar nosso conhecimento a esse respeito. Porém, a mente humana, complexa, que coordena em última instância todo o processo de decisão, criação, invenção e juízo, continua refém de múltiplas explicações e "teorias". Conhecê-la, sabendo de seu situar-se no cérebro, significa unificar o discurso acerca da possível convergência de vários dilemas apontados

e de soluções que brotam da constatação de que afinal seu denominador

comum é a conjunção das mentes interagentes, gerando ainda mais complexidade. Quando essa complexidade progressiva não se assenta na hipótese primeira de um sujeito racional, mas de uma razão baseada no sítio cerebral, aí então há a possibilidade de usar critérios biológicos para dirimir certas pendências privadas e também as sociológicas,

jurídicas, econômicas e políticas. Se a mente é complexa, também o são seus produtos. As relações humanas, pessoais ou públicas, familiares o u nego_ciai potiçp mentais.

outras-tantas Quando aparecem os fantasmas que nos assolam nas noites mal dormidas - a insônia, o medo, o pânico, o desânimo, o desapontamen- to, a apreensão, a idéia fixa, a tristeza que estreita a visão, a vontade firme que de repente enfraquece - a mente, então, dialoga em silêncio com sua base cerebral, reclamando que se dê a ela o remédio para a célula e não apenas o conselho para o ouvido.

O SITIO DA MENTE

Os discursos sobre a mente são inúmeros, o que indica nosso estágio pré-científico no entendê-la. Ninguém imagina que haja dez correntes de pensamento na física atual; ninguém imagina que haja dez opiniões diferentes acerca do lançamento de um satélite no que tange à velocidade necessária para entrar em órbita. Isso tudo é exemplo de uma ciência já madura como a física. Apsico19gia,sitpja

assustadores de diferentes correntes, o

Credite-se a esse fator pré-paradigmático um pouco do fato de a ciência ainda desconhecer inúmeras etapas que medeiam a conversão do sinal elétrico cerebral em símbolo mental e posteriormente coletivo. Porém, credite-se também ao fato de que parece haver uma atração das pessoas pelas idéias fáceis e mágicas, por um antropocentrismo que revive na mente a idéia de um deus que tudo pode, que tudo sabe e que a tudo assiste. Esse antropocentrismo que pretende estar falando de "poderes cerebrais", conferindo-lhe propriedades mágicas, serve de morada para o embusteiro que vende a cada ano uma teoria nova. A comunidade acadêmica fica indignada e perplexa com a ignorância com que as pessoas, as empresas, as escolas consomem essas visões. Porém, no Olimpo de sua condição de técnicos, poucos se submetem a fazer peregrinação lenta, didática e cuidadosa que possa servir ao leigo de contraposição às idéias erradas. Da sala de aula à grande empresa, do hospital psiquiátrico ao mercado de ações, do tribunal à uma de votação, em cada lugar há uma teoria mais ou menos explícita sobre o funcionamento mental. Esse sistema de crenças nos desdobramentos da ação sobre os comportamentos gera milhões de subprodutos. Em cada casa há uma orientação quanto ao desenvolvimento dos filhos, quanto aos fatos que hão de gerar conhecimento, bem-estar e normalidade; em cada canto há uma teoria sobre a honestidade, a ética e o fazer social. Essa pluralidade se vê enriquecida pela informação, mas deformada pela passividade diante da manipulação dos meios de comunicação. Tanto quanto podemos convencer grande número de pessoas de que a nova tendência é aquele vestido que parecia inadequado e esquecido no fundo do guarda-roupa, também podemos acreditar em modismos acerca da mente. Somos vítimas da propaganda que durante séculos calcou em nossas cabeças a idéia de que a mente nada tem que ver com o corpo. Parente da alma, resistiria à morte do corpo. Essa mente que pensa,

INTRODUÇÃO

sente, decide, julga, lembra, percebe, fala e escreve não poderia, na visão antiga, ser fato do corpo ou especificamente do cérebro. As raízes desse discurso estão situadas em diversos planos. As religiões são, nem mais, nem menos, meios de propaganda iguais à

televisão ou ao outdoor. Geraram, ao longo da história das idéias, discurso que endossa uma mente sem morada cerebral, autônoma e eterna. Enquanto a explicação sobre o fenômeno mental estiver multifacetada nas diversas disciplinas e áreas, mesclando sem critério saberes incompatíveis, não estaremos falando de uma teoria científica, mas sim de crenças, preconceitos e opiniões mais ou menos sistematizadas. Os perigos do discurso científico são conhecidos. Sabemos que a ciência falha e que está em constante revisão. Mas o perigo maior reside no abandono desse discurso, relativizando a razão, que, se provisória e falível, ainda é a vela no escuro de um mundo assombrado pelos demônios, parte do título do último livro de Carl Sagan, breviário indignado e lúcido de alguém que passou a vida tentando popularizar

• ciência, tornando-a acessível às massas.' A visão multifacetada da mente - a econômica, a familiar, a social,

• política, a gerencial, a patológica, a coletiva, a pública, a privada, a "espiritual", etc. - não leva a mente alguma. Vamos tratar da base cerebral de uma mente que até agora tem sido insensível ao apelo da razão e da decência, manipulada e manipuladora, ignorante e arrogante, dogmática e parcial, mente, enfim, que apenas é verbo que emana do tecido nervoso. Na alegoria religiosa o verbo se fez carne; na ciência contemporânea é a carne que se faz verbo. Tomar da mente apenas o verbo, roubando-lhe a carne, é deixar que as palavras, que deveriam comunicar e organizar os discursos, cumpram apenas o papel histriônico de seduzir pela retórica vazia.

O edifício da razão, a nobreza de alguns sentimentos, a cor das

emoções, o papel da punição e da gratificação, o bem-estar e a motivação, a alegria e a criatividade são todos fenômenos que se devem a um cérebro em contato com o meio ambiente. Privilegiar a explicação

histórico-biográfica de cada um como explicação para a mente é empobrecê-la, tomando-lhe apenas uma parte. Confiná-la ao discurso cerebral apenas também é empobrecê-la, como o é descrevê-la apenas

como saber evolutivo; ou genético; ou concorrencial; ou transcendente.

A mente humana está situada na encruzilhada entre a natureza

que selecionou o cérebro humano, a linguagem que permitiu a comunicação, a história pessoal que moldou o rosto de cada um e a

O SITIO DA MENTE

história coletiva que nos dá padrões médios de ação e juízo. Entendê- la, portanto, é complicado e não pretendemos ter respostas últimas e acabadas. Pretendemos, sim, adotar um estilo científico acessível de falar da mente, um método que se calca na noção de seu sítio cerebral. Afirmar a natureza cerebral não , é apenas abandonar a tradicional natureza "espiritual" da mente. E um compromisso com um tipo de discurso sistemático e coerente. Ao contrário de ser verdadeiro, o saber científico busca a verossimilhança, a plausibilidade e a coerência interna. Ao contrário do vendedor de ilusões que adora proclamar "Todos os cisnes são brancos", para, em seguida, apontar um cisne branco a cada ano, vendendo com isso a idéia de que a generalização é verdadeira, o cientista ama procurar cisnes pretos. Um cisne branco por ano enche os bolsos do primeiro. Um cisne preto prova que a afirmação geral era falsa e precisa ser revista ou ter limitado seu domínio de aplicação.' "Todos os cisnes de meu banco são brancos" deveria dizer aquele que prega que equilíbrio entre a razão e a emoção, bom-senso, educação e diplomacia são fato científico novo, alcunhado de "inteligência emocional".

Pensar sistematicamente sobre a mente signgi~ca. visitar inúmeros

Pais, filhos, maridos, esposas, chefes, empregados, políticos, executivos, ministros, sacerdotes, todos enfim devem pensar nas concepções de mente neste final de século. Isto pode fazer de nós pessoas menos ambíguas no decidir, no julgar e no pensar, dando origem a uma nova compreensão dos fenômenos que se desdobram cada vez mais rapidamente e auxiliando na prevenção e controle da patologia individual e da coletiva.

Q cérebro de uminindivíduoivíduo podeode adoecer.a

Quando adoece nas

últimas camadas do tecido cerebral, particularmente no córtex e algumas regiões subcorticais, gera a patologia mental, seja ela uma triste e grave

esquizofrenia ou uma simples crise ansiosa. Por mera convenção chamamos as afecções cerebrais superiores de psiquiátricas e não de neurológicas. Na visão do leigo, entretanto, aceita-se a paralisia de um membro advinda de um derrame cerebral, mas não se aceita a paralisia da vontade advinda de outro mau funcionamento em incerto local cortical. 3 Também a comunhão das mentes ode "adoecer" - casamento, família, instituição e estado. Tanto no p ano do sujeito, quanto no plano

INTRODUÇÃO

da sociedade há um denominador comum a sustentar o ato e o desvio:

a

a

de i ação e controle obojj les argumentos aue usarei vara lancar uma sobre a vida m[aI,i1icerçando, a um só tempo, a ntide ndividual ou rejeição

coletivas. Resgatar uma noção científica de mente, delimitando-lhe o local,

a função, o desvio e a reunião em grupo pode nos guiar na síntese de

uma nova teoria da vida individual e na visão mais clara de certos impasses coletivos. Se não temos, por ora, uma ciência acabada das bases cerebrais da memória, da vontade, da decisão, da sabedoria, da invenção, da

dor, da ansiedade, da atenção e de tantos outros processos mentais, temos uma série de dados e teorias provisórias que vão bem mais longe

e com muito mais consistência e razoabilidade que a crença na alma,

no espírito, nos fantasmas da noite, no encosto, no chazinho natural, na

alquimia, nos búzios e em toda parafernália que nos inunda os ouvidos, divulgados na mídia. como se fossem discursos possíveis sobre o psiquismo. Negar a natureza espiritual da mente não é, de forma alguma, negar que cada um, através de seu livre exame e crença, aceite a existência da divindade. A crença na divindade é matéria que não

preocupa uma ciência da vida mental e de suas repercussões. E objeto de fé. A mente cerebral, processo complexo que engendra o pensa- mento, pode perfeitamente ter em deus um objeto de culto. Essa mente

é processo; esse deus é crença. Quando deus se torna o endosso do processo, invertendo as leis da natureza e antepondo-se aos princípios cerebrais de funcionamento mental, instalam-se a ignorância e o risco do discurso obtuso. Deus, fé

e espiritualidade, enquanto objetos do pensamento e da crença, são tão

lícitos e aceitáveis como a crença no cálculo integral e diferencial ou na teoria da relatividade. Um deus ou uma alma, no entanto, que subverte

a razão e a lógica de uma natureza que cria cérebros e mentes pode ser

atrasado e ignorante. Essa mente, cantada pelo poeta e pelo literato, pelo homem de marketinge pelo ministro das finanças que mexe nos juros e no câmbio, deve ser revista e revisitada à luz da ciência cerebral deste final de

O SITIO DA MENTE

Esse diálogo com a natureza complexa e cerebral do pensamento, da emoção e da vontade humana pode enriquecer nossos atos, melhorar nossas relações, libertando essa mente que, ansiosa e fragmentada em mil discursos, não se encontrou ainda una e sólida. Talvez a natureza do processo de dominação do indivíduo e de sua alienação seja parente da manutenção dessa quantidade enorme de teorias psicológicas não-razoáveis. Antes de enjaulá-la no corpo, antes de limitá-la pelo seu sítio cerebral, o discurso que se inicia pretende, pela verossimilhança de sua estrutura, libertar e otimizar a mente individual e a coletiva, seu desenvolvimento, sua atuação, seus valores, sua razão e sua sensibilidade.

PARTE / FÔRMA CEREBRAL

O SITIO DA MENTE

Corte sagital de cabeça e pescoço através de Ressonância Nuclear Magnética

1. Cerebelo 2. Hemisfério cerebral 3. Lobo frontal 4. Hipófise 5. Mesencé falo 6. Lobo occipital 7. Ponte 8. Tálamo 9. Medula 10. Coluna vertebral 11. Língua 12. Cavidade nasal

CÉREBROS

Capítulo 1

CÉREBROS

A natureza selecionou, ao longo de milhões de anos, um deter- minado tipo de estrutura capaz de controlar uma série de funções internas e externas do organismo: o sistema nervoso. Muitos organismos possuem esse sistema especializado na recepção de informação, integração e execução motora, fruto de uma bem-sucedida estratégia natural. Seu grau de complexidade, no entanto, vai aumentando de acordo com a escala animal. Assim, o sistema ner- voso de um mamífero é mais sofisticado que o de um molusco, e, entre os mamíferos, o sistema nervoso humano é de longe o mais complexo. Quando se faz a clássica comparação do homem com outros animais, um dos números mais gritantes é o de encefalização - medida de cres- cimento do cérebro em relação ao corpo. O ser humano apresenta uma proporção bastante maior de massa encefálica (cérebro) do que qual- quer outro animal. Isto mostra que, algumas vezes, "quantidade é qua- lidade". O cérebro humano é, basicamente, formado por dois conjuntos de células - um manipula e processa informação, tal qual fosse um computador; o outro dá suporte físico e sustento. Há na porção responsável pelo processamento, formada pelos neurônios, uma divisão clara de funções. Algumas áreas, chamadas sensoriais, são encarregadas de processar informações que chegam através dos sentidos (visão, olfato, paladar, audição e tato). Outras, as áreas motoras, são encarregadas de gerar movimentos, sejam externos (locomoção, tração, força), sejam internos (por exemplo, o controle de um órgão ou sistema interno). Entre as áreas de processamento da informação sensorial e as áreas motoras, encontram-se as áreas de integração. Estas, muito com- plexas, é que respondem pela origem do que efetivamente nos interes- sa na constituição do produto chamado mente. De maneira muito resumida, pode-se dizer que há apenas essas três funções no tecido nervoso cerebral (constituído de neurônios):

receber estímulo que vem do ambiente e do corpo (por exemplo, a

O SÍTIO DA MENTE

posição de uma articulação), agir sobre o corpo e sobre o ambiente (regular um órgão ou iniciar um movimento que pode ser das pernas ou dos lábios quando se fala) e, finalmente, entre o receber e o despachar, integrar a informação. As áreas cerebrais dividem-se, assim, em sensoriais, motoras e

de um molusco marítimo, menor é a área de integração; quanto mais complexo, como o do ser humano, maior. A• te ação é uma espécie dburocracia saudável que cuida de

examinar o recebimento de m doc mento e seu des

aior o número de departamentos em que esse documento te ser

n

ina

uanto

2mde

examinado, maior é a etapa que separa o instante do protocolo da expedição final de um parecer. Quanto mais simples a função que um sistema nervoso tem de desempenhar, mais fácil é coordenar circuitos de tal forma que entre o protocolo e a expedição tenham de ser seguidas instruções mínimas.

Imagine um animal cujo inimigo natural, chamado predador, é um tigre. A seleção natural privilegia os espécimes com sistemas ner- vosos capazes de detectar imediatamente sinais do predador-inimigo e de organizar uma fuga rápida. Assim, quando fo em vistos pêlos e listas, quando se ouvirem sonsjpicos o predador, a integção buro- era a ornem que as areas sensoriais aarao em marc , e maneira acelerada, uma de r'rocessos aiie 5eiiiithi o

A resposta de fuga ou luta é o que caracteriza os sistemas nervo- sos mais primitivos. Diante do perigo, captado pelo aparato sensorial e devidamente decodificado, deve haver resposta motora instantânea. Orquestram-se, assim, vários movimentos. Um gato ameaçado eriça os pêlos, mostra os dentes, desvia a circulação sanguínea para os músculos (retirando sangue da pele e dos órgãos de digestão, por exemplo), aumenta a tensão muscular, corre ou enfrenta o inimigo. Não há motivo para integrar excessivamente a informação. O mundo da natureza pede respostas rápidas de preservação da vida. Sistemas nervosos rudimentares detectam e agem. Os mais complexos detectam sutilezas

e agem com maior estoque de ações, mas a lógica é semelhante. Portanto,

a integração burocrática deve ser mínima. O tigre também é predador do ser humano. Também deve susci- tar resposta de fuga ou luta. Porém, a fuga não é fácil. 0 homem é

CÉREBROS

lento e fraco para enfrentar certos animais.

co ocá-loió zoõ1giEà, no circo etc A ó cadã fu ou a uma serie e estrat&ias rara lidar com tieres. Pode-se

e

objetivo e cival o plano de acão. A comunica- ção entre esse grupo de pessoas, que—vai agora avaliar um sem-número de atitudes em relação aos tigres, depende de linguagem, de acordo, de sincronização, de comando, de obediência, de regra para repartir o lucro, contabilizar o prejuízo e, se algo sair errado, enterrar os mortos, prestar-lhes homenagem, lembrar seus erros, exaltar sua coragem e bravura. Tudo isso exige um aparato burocrático saudável que, diante de um tigre, não gere apenas fuga ou luta como alternativas. Esse intermediário entre o ambiente detectado pelos sentidos e a ação motora de fuga ou luta passa a ser uma extensa área d inte a ão,

ondera

m~

ção, a ~tejrn~a~vas, d is~es com ~ ação~

~emeio sa e e m t~eu ~gnam

eestjpiiiah

,

Pode-se retratar o que foi dito acima da seguinte maneira: se a uma dada situação A no ambiente tenho de dar uma resposta clara B, então o sistema nervoso deve apenas integrar, ligar A a B. Se A, então B. Se tigre (A), então fuga (B). Parece simples, mas já não é tanto. Por- que a visão detecta listas, luminosidades, profundidades. A audição detecta variações sonoras. Caracterizar A como tigre é resultado de uma complexa operação de decodificação. Pense: "Estou vendo algo que tem pêlos, bigodes, dentes afiados, listas pelo corpo, patas salien- tes, que mia de um jeito especial, vem rápido em minha direção, pela

esquerda, há uma árvore logo à direita

Associar variações luminosas e transformá-las em pêlos, associar pêlos, dentes e garras a um tigre são processos de análise que compe- tem às áreas sensoriais. Não é o olho que analisa tudo isso. O olho apenas transmite a informação ambiental para áreas cerebrais de recep- ção sensorial. Ali é que deverão se dar as análises e sínteses necessárias para que se constate ser um tigre o que se aproxima. Cuidado, portanto, com a idéia de que é simples ter um aparato sensorial e um motor e de

que animais que não têm áreas de integração são totalmente estúpidos ou desinteressantes. Não, o conceito de área de integração é o de burocracia saudável. Mesmo para que haja a transformação de luminosidade em pêlos e garras e destes em um tigre, é preciso haver alguma integração. A informação deve necessariamente passar por ai-

é um tigre!".

O SITIO DA MENTE

guns departamentos, onde será examinada antes que se deflagre

a fuga ou a luta. A resposta pode também ser monótona ou criativa. Quando unia pessoa entra no mar e seu pé se choca com um molusco, tocando-lhe um tentáculo, o animal pode ter uma resposta bem simples, como retirar o

tentáculo. A, neste caso, é o choque e B é retirar o tentáculo. A isso chama- se conexão "Se A, então B do tipo simples" (se choque, então retire o tentáculo). A análise de A é simples e o padrão de B é simples. Imagine agora uma lebre ameçada por um tigre. Pode-se pensar em "Se A, então W. Se tigre (A), então fuja (B). Mas a detecção de um tigre é mais complexa que um choque, e o padrão de fuga de uma lebre obedece a um repertório de ações motoras de uma graça, rapidez e inventividade incríveis. Detectar o tigre envolve integrar várias informações sensoriais; escolher por onde fugir também. A velocidade,

a harmonia, o jogo de articulações da lebre fugindo fazem da fuga um

conjunto de ações motoras complexas. Neste caso, temos A (detectar o

tigre) complexo e B (fugir) também complexo. Definitivamente, não se pode dizer que o fato de detectar e fugir seja tarefa simples. Voltando ao exemplo do ser humano que integra a informação, temos o conjunto de complexidades visto acima, tanto no plano senso- rial como no plano motor, acrescido de uma complexidade ainda maior que é a integração intermediária, aquela que define múltiplas opções de ação a partir de uma determinada percepção do ambiente. Um sistema nervoso é um aparato que recebe e integra informações

e que age sobre o meio ou sobre o corpo. Quanto mais simples o objeto

detectado (um choque) e mais simples a ação (retirar um tentáculo), mais essencialmente simples são os sistemas. Se detectar envolve a análise de fatos sensoriais (variação luminosa + textura + cor = pêlos + bigodes + patas + listas = tigre) e se atuar envolve ações de fuga com- plexas (fugir pela direita, pela esquerda, rápido, de mansinho, fingir

que vai enfrentar, pular com graça e precisão no canto do muro), então temos um sistema nervoso complexo.' Se, por outro lado, temos a complexidade anterior, porém com a variação, a decisão e a ponderação de que "Se A é tigre, então fujo de várias formas (B's), luto de várias formas (Cs), monto uma equipe para capturá-lo (tYs), coloco-o no circo (Es)" e assim sucessivamente, por sobre o sistema nervoso complexo (aquele que analisa a complexidade do objeto e da ação) se assenta um analisador-integrador que pode gerar várias respostas diferentes. Esse analisador é o que, em última instância, está por trás do surgimento na vida animal de um tipo

CÉREBROS

de sistema chamado mente, cuja função é a integração, a associação da sensorialidade e da motricidade. Um sistema nervoso simples apenas detecta A (choque) e gera a resposta motora B (retirar a perna). Um sistema nervoso complexo detecta A (luz + contraste = pêlos + patas) e conceitualiza (pêlos +

patas = tigre). Por isso, A se torna A's, gerando uma série de respostas motoras diferentes B's (fugir pela direita, pela esquerda, despistando, etc.). Um sistema nervoso complexo, com mente, detecta, conceitualiza, integra e gera a possibilidade de comportamentos motores A, B, C, D, etc. Nesse sentido, a mente surge quando são muitas as opções criati- vas e inteligentes de se agir com os dados ambientais obtidos pela sensorialidade. Não é possível gravar de antemão esses programas no sistema nervoso do animal. Ele deverá aprender, treinar, pensar, ponderar, discutir, arriscar, inventar, teorizar, testar e assim por diante. No momento em que tudo isso aparece entre a sensação e a ação, tem-se uma com- plexidade explosiva, uma burocracia enorme e necessária que vai exe- cutar milhões de cálculos e dar milhões de pareceres antes que se deci-

da por lutar, fugir ou associar-se.

essa complexidade se assenta na área deintezracão,uuando a associacão só a deteccão e

urg

etando

PI

P0

flum4. A memoria que consulta

casos anteriores e a linguagem que aprende na sala de aula, que ensina,

anos depois, a cobiça, a renúncia, a cautela, são instâncias novas que intermediarão o processo gerando para A (tigre) às vezes B (foge), às vezes C (luta), às vezes D (se une a um grupo de pessoas).

pLa

nmnitrceevolu-

A complexidade é uma propriedade que faz com que, à medida que se agregam quantidades, vá se obtendo, em certos momentos, saltos qualitativos. Um exemplo é

o da água que ferve. Colocamos uma chaleira com água no fogo e a esquentamos lentamente, controlando cada grau de temperatura que sobe. A 35 graus (Celsius) temos água. Aumentamos para 36, 37, 38,

88, 39

perto de 100 graus, acontece um fenômeno interessante. A 98 graus temos água, aumentamos para 99 e temos água, aumentamos para 100 e, de repente, a água vira vapor - uma mudança radical no panorama qualitativo.

89, 90 graus e ainda temos água. Quando a temperatura chega

O SITIO DA MENTE

Durante o processo natural de encefalização (acréscimo quantitativo de neurônios do cérebro animal), pode ter ocorrido um fenômeno semelhante. Agua liquida não moveria um motor; vapor sim. Cérebros, como água líquida, não têm mente. Acrescentam-se neurônios e o cérebro se faz mente. Não se trata apenas de água um pouco mais quente que antes, assim como o ser humano não é apenas um macaco um pouco mais inteligente. Ao se lidar com um sistema complexo (e o sistema nervoso é), um neurônio a mais no processo de encefalização pode propiciar num certo instante um salto - como é um salto o que ocorre na passagem de água líquida para vapor -, gerando a mente como capacidade do sistema para mtermediar saudável e criativamente a informação que vem dos sentidos e se dirige para a motricidade.

A encefalização responde, assim, pelo fnômeno de "produção"

da mente (processamento associativo) num sitema complexo. Por que complexo? A complexidade pode manifestar-sede várias maneiras, mas

uma das formas mais características é através Ide sistemas com muitos componentes.

A água líquida é formada por bilhões de móleculas, e é isso que

está por trás da peculiaridade que aparece nesse sistema: a determina-

dos acréscimos quantitativos (aumento da temperatura de 99 para 100 graus) correspondem saltos qualitativos com surgimento de novas pro- priedades (água líquida não move locomotiva, vapor move). Qistema nervoso do ser humano é formado por neurônios. Quantos? Dez bilhões. A complexidade começa, mas não pára por aí. Cada neurônio deve dialogar com outro para transmitir informações. Cada neurônio conversa com dez a cem mil outros nesse processo. Isso significa que o sistema nervoso humano tem dez bilhões de unidades processadoras (neurônios) conversando por meio de alguns trilhões de conexões (sinapses). Quanto mais neurônios a natureza foi colocando nos seres vivos, tanto mais complexidade foi-se obtendo. Do retirar o tentáculo após sentir o choque, passamos para a detecção de luz, bigo- des e tigres e subseqüente graça no fugir e no lutar, até finalmente chegarmos a um sistema que integra, pondera e escolhe entre milhões de alternativas. Pensa, avalia, decide, ensina.

A variação natural criou cérebros mais dotados para o pro-

cessamento associativo. A necessidade de sobrevivência e de cresci-

mento do ser humano elegeu esse sistema como o mais adequado para enfrentar os tigres e a inflação, o casamento e o medo de morrer. A complexidade permitiu que, pelo simples aumento de neurônios, se obtivessem saltos qualitativos com o surgimento de novas proprieda-

CÉREBROS

des, funções e capacidades. Quando o salto criou uma mente (sempre se estão criando protótipos para que a seleção opere), a necessidade escolheu rapidamente este modelo como o do ser humano que chegaria até nós. Estava mais apto para criar sobre o meio, para se comunicar, para inventar, para pensar e para se defender de maneira cada vez menos animal (fuga ou luta) e cada vez mais inteligente (casamento, sociedade, nação). Talvez a inteligência apenas tome a fuga ou a luta mais complexa, mais dissimulada, menos natural e, às vezes, menos limpa.

SÍNTESE

Cérebros são constituídos de bilhões de neurônios e trilhões de conexões (sinapses) entre eles. Embora em grande parte da escala animal já se encontrem sistemas nervosos, o acréscimo de células é capaz de gerar saltos no comportamento do sistema. Isso ocorre quando aquecemos água fervendo. Um grau a mais é capaz de fazê-la evaporar. A transição da água líquida para vapor é semelhante ao que ocorreu ao se acrescentar neurônios a um cérebro. Quando se chegou a uma certa quantidade deles, surgiu a mente. Cérebros são todos complexos; porém, no organismo mais sim- ples, a uma dada situação costuma corresponder uma única reação:

fugir ou lutar. No ser humano, costumam-se engendrar diferentes ações diante do perigo. Essa característica não é pré-gravada e depende de complicadas operações de intermediação entre os sentidos e a motri- cidade. Quando essa integração é muito complexa, surge o pro- cessamento mental como um tipo especial de processamento cerebral. Cérebros são regiões especiais de sistemas nervosos. Não estão presentes em qualquer animal inferior. Representam a diferenciação e crescimento de uma porção do sistema nervoso. No ser humano, por exemplo, distinguimos um sistema nervoso central constituído basicamente pelo cérebro e outro, periférico, constituído por nervos espalhados pelo corpo.

O SiTIO DA MENTE

Visão lateral de um cérebro humano

NEURÔNIOS

Capítulo 2

NEURÔNIOS

Todos os seres dotados de sistema nervoso têm neurônios e sinapses. O número e a complexidade da estrutura de ligação entre eles é que caracterizam no ser humano o sistema que, além de complexo, faz surgir o processamento mental. Graças à lógica de funcionamento do neurônio e de sua ligação com outros através das sinapses, a complexidade já se inicia no nível de cada unidade de processamento de informação nervosa.' Imagine então o que ocorre quando há dez bilhões dessas células arrumadas em uma arquitetura especial e alguns trilhões de conexões entre elas. (Fig.1)

dendritos

corpo celula

axe

Fig.1 -

dendritos, corpo celular e axônio.

Diferentes tipos de neurónios e respectivas estruturas básicas:

O SÍTIO DA MENTE

O neurônio básico é constituído de três tipos de estruturas: a) os dendritos (normalmente vários), que levam informação até o corpo ce- lular; b) o corpo celular, que reúne a informação vinda dos dendritos; c) o axônio, que, após a reunião de informação no corpo celular, envia a decisão final adiante.

sinapse entre os neurônios 1 e 4

1

neurônio

do neurônio 1

1

dendrito

neurônio 4

a

axônio 4

DEM-

neurônio 2

050~I0

neurônio 31

sinapse entre os neurônios 3 e 4

sinapse entre os neurônios 2 e 4

Fig.2 -

Sinapses esquemáticas entre axônios de três neurônios e dendritos de

um quarto neurônio.

Na Figura 2, mostramos de maneira esquemática a ligação entre os neurônios 1, 2, 3 e 4. A informação trafega pelo neurônio do den- drito para o corpo e do corpo para o axônio. Quando chega ao final do axônio, deve ser transferida para o neurônio seguinte através de seu dendrito. Esse espaço entre o axômo de um neurônio e o dendrito de outro chama-se sinapse. Por meio dela é que a informação que trafegou por um neurônio (do dendrito para o corpo, do corpo para o axônio) pode ser repassada para o neurônio seguinte (para seu dendrito, de onde passará para o corpo celular e daí para o axônio). Suponha que tenhamos três informações trafegando pelos neurônios 1,2 e 3. Essas informações devem ser transferidas para o neurônio 4. Pois bem, através de sinapses, o axônio do neurônio 1 se liga a um dendrito do neurônio 4,0 axônio do neurônio 2 se liga a outro dendrito do neurônio 4 e o axônio do neurônio 3 se liga a outro dendrito do neurônio 4.0 neurônio 1 recebe informações através de seus dendritos. No corpo celular do neurônio 1 há uma "decisão", que é a informação que trafegará pelo axônio do neurônio 1 até a sinapse com o neurônio 4.

NEURÓNIOS

Ali se dá a passagem dessa informação do axônio 1 para o dendrito 4. O mesmo ocorre com a informação que trafega pelo neurônio 2 e pelo 3. Quando cada informação passa pelas respectivas sinapses e chega aos dendntos do neurônio 4, tem-se a repetição do processo. A informação de cada dendrito do neurônio 4 vai até o corpo celular do neurônio 4. Ali ocorre uma decisão conjunta - resultante da reunião de

informações vindas de 1,2 e 3— sobre qual informação vai trafegar pelo axônio do neurônio 4 até um próximo dendrito. Sabemos que o neurônio é a unidade fundamental de construção do cérebro. E uma célula que recebe informação de outras e a manda para frente. Porém, que tipo de informação trafega pelos neurônios? Lembrando o que vimos antes, será que podemos dizer que a informa-

ção que trafega por cada neurônio é do tipo pêlos, patas, listas

um

tigre? Poderíamos pensar, partindo deste exemplo, que cada neurônio faria o seguinte: dendrito 1 = pêlos; dendrito 2 = patas; dendrito 3 = listas. E que todas essas informações, depois de ponderadas e analisa- das no corpo celular, seriam enviadas pelo axônio na forma da mensa- gem "é um tigre". Infelizmente, as coisas não são assim.

O que trafega pelo neurônio é corrente elétrica (como é corrente

elétrica o que transita no computador e se traduz na tela por palavras ou imagens). Essa corrente elétrica - sob a forma de sinal elétrico - é muito

baixa, mas suficiente para funcionar como carregador de informação. Como se dá a geração desse sinal elétrico? O neurônio é uma célula que, como todas as outras, separa-se do meio externo. Dentro e fora do neurônio há cargas elétricas. Para todos os efeitos, é como se tivéssemos cargas negativas dentro do neurônio e cargas positivas fora, numa espécie de sopa que banha qualquer tecido biológico. 2

O estado de repouso do neurônio é mostrado na Figura 3. De

cargas positivas fora do neurônio

Fig.3 - Distribuição de cargas elétricas dentro e fora do neurônio quando este não está passando informação (estado de repouso).

O SÍTIO DA MENTE

maneira geral, é como se o interior do neurônio estivesse negativo e o exterior, positivo. Quando há um estímulo, normalmente elétrico, ocorre na parede do neurônio a abertura de canais que fazem com que as cargas positivas entrem e as negativas saiam (Fig. 4). Com isso, o interior do neurônio, que estava negativo, fica positivo e o exterior, que estava positivo, fica negativo.

estímulo elétrico (choque)

\N~ R

Fig.4 - Entrada de cargas positivas e saída de cargas negativas quando o neurônio é estimulado.

Esse processo, que cria uma região invertida em relação às outras, dura um intervalo de tempo pequeno, mas suficiente para gerar uma corrente elétrica que vai viajar pelos dendritos até o corpo neuronal

(Fig.5).

Suponha, olhando para a Figura 6, que três informações chegam ao neurônio esquematizado, através de três de seus dendritos. Vêm de outros três neurônios, conectando-se com cada um dos três dendritos (1, 2 e 3) através de três sinapses. Essas informações não são pêlos, patas e listas. SãQ impulsos elétricos diferentes, situados respectivamente na posição indicada dos dendritos 1,2 e 3. Ali esses três impulsos geram a inversão das cargas. Abrem-se os canais na parede do dendrito, entram cargas positivas, saem cargas negativas. Cria-se uma descontinuidade

estímulo elétrico (choque)

l

ílÍ

—+++++++++++++++++

0r

neurónio

Fig.5 - Esquema de despolarização local, ou troca, numa pequena região, de cargas positivas e negativas.

NEURÓNIOS

impulso elétrico

Fig.6 - Três correntes vindas de três dendritos diferentes num mesmo neurônio.

com o restante do dendrito, que continua com o exterior positivo e o interior negativo. Esse fenômeno é suficiente para gerar três correntes elétricas em locais diferentes, com intensidades diferentes. No dendrito 1 ocorre, num certo instante, num certo local, um estímulo elétrico de uma certa força. Esse estímulo abre os canais da membrana, gera uma inversão de cargas e cria uma corrente que se propaga pelo dendrito 1. No dendrito 2 verifica-se algo semelhante. Um estímulo o excita num instante determinado (que pode ter uma pequena diferença de tempo em relação ao anterior), num local determinado e com uma determinada in- tensidade (não necessariamente a mesma intensidade do estímulo anterior). No dendrito 3 acontece o mesmo processo. Podemos perceber que, embora haja três correntes que vão viajar pelos três dendritos até o corpo celular, elas têm três diferenças:

1) acontecem em três locais diferentes; 2) acontecem em três instantes diferentes (por exemplo, com uma diferença de 1 milésimo de segundo cada uma); 3) acontecem com três intensidades diferentes. O leitor pode concluir: "Está bem, não são pêlos, patas e listas que vão trafegar pelos três dendritos. Isso está claro, porque sei que não é minha voz aue é transmitida por uma linha telefônica, mas uma Neé meu

O SiTIO DA MENTE

papel que trafega pelo fax, mas uma tradução de cada claro e escuro sob a forma de correntes elétricas. Nem é a foto da minha filha que transita pelo computador. Vejo a foto na tela, aperto os comandos para

mudá-la de posição. A foto também é traduzida em várias correntes, bem como as operações de rotação que quero fazer. Quando pronta a operação, outras correntes são enviadas para a tela, que traduz a cor- rente de volta como a foto da minha filha. Portanto, nada impede que três características relevantes para identificar tigres, por exemplo, pêlos, patas e listas, sejam codificadas sob a forma de três correntes diferen- tes, em locais diferentes, em instantes diferentes". O leitor está certo. Não é o ator que transita pelo ar até a televi- são. E uma câmera que capta sua imagem e a traduz em correntes, que são transformadas em ondas e enviadas pelo ar. A televisão capta a onda e a traduz em correntes, que são retraduzidas pela tela numa seqüência de pontos de claro e escuro que faz aparecer o ator. O neurônio não é muito diferente. Porém, o que ocorre quando as três correntes se

encontram?

INTEGRAÇÃO/DECISÃO

Através de sinapses, três estímulos em três dendritos diferentes e, portanto, vindos de três neurônios diferentes começam a viajar pelos dendritos 1, 2 e 3. Vão se encontrar, os três, no corpo celular onde haverá uma reunião para "discussão" e finalmente uma deliberação que seguirá para a frente. Pode-se imaginar uma série de processos em jogo nessa reunião:

imagine que a corrente 1 é o pai, a corrente 2, a mãe e a corrente 3, o filho. Sentam-se para decidir algo. Podem votar simplesmente dois a favor e um contra, todos a favor, todos contra. Podem decidir comprar um carro. Cada um coloca na mesa o quanto tem de dinheiro - o pai 5,

a mãe 3 e o filho 2 - e, em conjunto, ponderam se com o total, 10, é

possível efetuar a compra. Podem também discutir a respeito de uma viagem. A mãe e o filho são a favor. O pai, autoritário, esmurra a mesa e exige que apenas a sua vontade seja acatada. Podem ainda ter três

posições diferentes acerca do resultado de um jogo de futebol: 3 x 2 diz

o pai, 1 x 1 diz a mãe, 1 x 2 diz o filho. O resultado do jogo é 3 x 2. Está claro que o pai ganha. Mas poderia ser diferente. Opai diz 3 x 1, a mãe, 3 x 2 e o filho, 3 x 0. O resultado final é O x O. Quem ganha? Parece que

a mãe, que chegou mais perto do empate. Ou talvez somente possa

ganhar quem acertou em cheio. Ou quem mais se aproximou do resul-

NEURÕNIOS

tado do jogo, desde que tenha acertado se ganhou o time A ou o B ou

deu empate. dúvida, dev

quem acertou mais vez no pas d . Pode-se ainda estipular que quem

L a e quem tem me os orça, como o o que deve ser incentivado. Esta descrição dá uma pálida noção dos tipos de reunião, do con- fronto de posições entre as três correntes que estarão na base de uma

tomada de decisão sobre quem ganha ou qual deliberação deve preva- lecer. Entender esse processo significa compreender uma das mais

complexas formas de mecanismo decisório de que a natureza lançou

mão para selecionar sistemas nervosos processadores de informação. Como veremos adiante, foi isso o que o ser humano copiou para construir computadores e programas capazes de simular a mente humana?

A partir da deliberação da reunião das três correntes (lembre-se

de que podem ser cem mil), sai uma decisão que é apresentada a uma barreira que existe no início do axônio. Esta "porta" - chamada de limiar - tem uma determinada norma: se o resultado, sob a forma de corrente, é igual a ou maior que um certo número, ela se abre; se é menor, ela fica fechada .4 Presente nos neurônios humanos (entenda-se nos biológicos), a passagem pode ou não estar presente nos neurônios artificiais, aqueles que o ser humano tem construído para simular a mente humana. O leitor poderá dizer, então, que os neurônios artificiais que não usam a

"porta" não têm nada a ver com neurônios. Não é bem assim, porque, em primeiro lugar, há aproximações possíveis entre o ter porta e o não ter; em segundo, pode ser (matéria com alguma controvérsia) que muitos neurônios não tenham limiar. Neste caso, a deliberação da reunião das três correntes seria passada para o axônio qualquer que fosse ela. Voltando ao ponto anterior, a porta deixa passar resultados de

reunião que sejam iguais ou maiores que um certo número (limiar). Deixar passar significa gerar uma corrente de certa intensidade que vai trafegar pelo axônio até chegar à sinapse que o liga a um dendrito de outro neurônio.

de r computados os acertos ou erros ipassados. ce á

A corrente gerada a partir da porta chama-se potencial de ação, e

é do tipo tudo ou nada. Quer dizer, se da reunião sai um resultado que supera o limiar (que abre a porta), a corrente gerada é uma só, isto é, de uma só intensidade. Se o resultado não supera o limiar da porta, a corrente simplesmente não existe, isto é, a informação (sob a forma de corrente) não vai seguir adiante.

O SITIO DA MENTE

Essa característica tem sido erroneamente interpretada na histó- ria do estudo do sistema nervoso. Por sua causa, pareceria de menor importância todo o processo que descrevemos anteriormente. No final das contas, o que valeria de fato seria o abrir ou não a porta (a corrente, sob a forma de potencial de ação, ocorrer ou não). O perigo consiste em considerar o neurônio de uma forma maniqueísta ou digital. Por digital, entenda-se o que dissemos acima: só existem duas chances - aberto ou fechado. Quando existem inúmeras chances, como mais aberto, mais fechado, fechado, aberto, etc., dizemos que o modelo é analógico. No decorrer do livro, veremos que essas concepções são equivo- cadas e aprenderemos um pouco das possibilidades de cada uma de- las. De imediato, podemos dizer que a problemática gerada por elas é facilmente contornável. Voltemos ao limiar (porta) para entender o por- quê da irrelevância. 5 A corrente no dendrito tem tamanho e forma variáveis (potencial local). Caminha até o corpo do neurônio, onde sofre processo de integração. A porta se abre (se o resultado das correntes é igual ou maior que o limiar). Dispara-se, assim, uma corrente que tem forma e tamanho fixos (potencial de ação). Como o disparo do potencial de ação é tudo ou nada, todas aquelas correntes de forma e tamanho vari- áveis tornam-se um potencial de ação sempre igual. Se tomarmos um potencial de ação, é certo que estaremos diante

aL

b

+80

+40

-40

-80

limiar

c J IL

Fig. 7 - O potencial de ação é gerado de forma tudo ou nada no corpo celular após superar o limiar. Observe: em (a), a maneira de medir o potencial através de eletrodos implantados no neurônio; em (b), um potencial isolado, tudo ou nada, após superar o limiar; em (c), um conjunto de potenciais codificando, com intervalo variável entre eles, diferentes situações.

NEURÓNIOS

de uma digitalização (ou está presente ou não, sem meio-termo). No entanto, há uma seqüência de potenciais de ação. Podemos ver na Figu- ra 7 que não é disparado apenas um potencial de ação, mas vários. Dependendo do resultado da reunião que se deu no corpo celular, tere- mos maior ou menor quantidade de potenciais de ação e com interva- los diferentes. Isso resolve o problema do analógico e do digital. Imagine que você vai a um supermercado e tenta ver o preço de um produto através de um código de barras do seguinte tipo:

1 (barra presente) ou

(barra ausente)

Neste caso, pode-se saber somente se a barra está ausente ou presente, o que permite falar apenas de duas coisas: caro (barra presen- te) ou barato (barra ausente); 100 reais (barra presente) ou 10 reais (barra ausente), por exemplo. Mas é possível fazer outro código. Imagine a seguinte informa- ção sob a forma de barras:

Ou

liii

OU

liii

OU

Aqui, são dadas várias informações com mais barras .6 Todas têm a mesma altura (amplitude), como se cada uma fosse um potencial de ação. Se a opção fosse quatro barras ou nenhuma, o exemplo não seria diferente do anterior. Mas o intervalo entre as quatro pode variar. As- sim, com as quatro barras podem-se indicar os preços de quatro produ- tos diferentes. Um pode custar 100, outro 38, outro 47 e outro 98. Apesar de cada barra ser igual a outra, o intervalo entre elas variou (isto é, a freqüência em que ocorreram as barras, umas depois das outras, variou). No caso de barra presente ou ausente, tem-se a digitalização. Com a variação do intervalo entre as barras, cria-se um código de preço que não é tudo ou nada, mas que admite diversos valores diferentes (analógico). Entendido o exemplo, está entendido o processo que se passa no axônio. Trafegando até o final do axônio, a informação cumpre todo o seu trajeto no neurônio. A corrente que carrega a informação no sistema nervoso caminha, assim, dos vários dendritos até o corpo celular, onde ocorre a "decisão" (integração). Depois, a corrente transforma-se no potencial de ação. Embora este seja "tudo ou nada" (digital), o caráter múltiplo (analógico) da informação é mantido graças às diferentes fre- qüências (intervalos) entre os potenciais de ação (barras).

O SÍTIO DA MENTE

SÍNTESE

Os neurônios têm três estruturas básicas: os dendritos, por onde chega a informação; o corpo celular, onde a informação é integrada; e o axônio, por onde a decisão é despachada. A informação no cérebro não é feita de imagens, palavras e emo- ções. Toda ela é codificada sob a forma de correntes elétricas, que variam de local, tamanho e forma quando chegam às sinapses. No corpo celular há uma reunião entre essas correntes para discutir e chegar a uma deliberação final, que deve ultrapassar uma barreira (limiar) existente no início do neurônio. Se ultrapassar, gerará uma nova corrente (poten- cial de ação). Enquanto as correntes nos dendritos (potenciais locais) são variá- veis, o potencial de ação é só de dois tipos: presente ou ausente. A característica de admitir apenas dois estados possíveis é chamada de digital; a de admitir múltiplos estados possíveis, de analógica. Olhar para o neurônio como uma unidade que integra diferentes informações analógicas vindas dos dendritos, gerando uma resposta digital, é erro comum na história do estudo da mente. O neurônio, bem como o cérebro, não é um aparato digital. Se o potencial de ação isola- damente parece codificar sob a forma digital, a quantidade de potenciais de ação, tal qual um código de barras, usa o intervalo entre os potenciais para contar muito mais que o digital.

ÔNIOS ESQUEMÁTICOS TANDO-SE ATRAVÉS DE UMA SINAPSE:

do primeiro neurônio e dendrito do segundo

-

SINAPSE

Capítulo 3

SINA PSE

Apróxima etapa para a compreensão do mecanismo de funcionamento do cérebro humano é o estudo da sinapse, intervalo entre um neurônio e outro, por onde eles se comunicam. Comecemos por uma comparação. Podem-se construir diferen- tes edificações usando apenas tijolos, cimento, areia, vidro e ferro. Pelo fato de neurônios e sinapses serem elementos fundamentais desse tipo e estarem, portanto, presentes até em animais bastante primitivos, nem por isso deixam de ser vitais para a compreensão do processo de surgimento da mente a partir do cérebro. Apesar de os elementos se- rem comuns, a complexidade de construção de uma casinha de cachor- ro é uma e a de uma catedral gótica, outra. A mente está situada no plano da catedral gótica. Não há dúvida, contudo, de que alguns princípi- os de edificação - como, por exemplo, o tempo que o cimento demora para secar, a posição dos tijolos, a firmeza de certas vigas -, estão presentes tanto na pequena casinha quanto na catedral. Quando se pretende subtrair dos neurônios e das sinapses a fun- ção de unidades fundamentais na constituição da mente humana, pode- se cometer o erro de, diante de uma trinca na parede de um edifício, chamar o decorador ou o arquiteto para opinar. Não, as trincas são motivo de avaliação do engenheiro, que pode detectar ali uma mera acomodação dos tijolos e da massa ou uma falha estrutural capaz de pôr em risco todo o edifício. Está certo que não se deve chamar o engenheiro para opinar sobre a cor do tecido do sofá, nem tirar do arquiteto a função de projetar a funcionalidade e beleza dos ambientes e da fachada. Embora todos aca- bem opinando um pouco na área dos outros, o padre não pode, porque reza a missa na catedral, opinar sobre trincas na parede. Quando se chama o padre para isso e se desvaloriza o engenheiro, que atentaria para tijolos, concreto, ferro e outras coisas, que historicamente se tem come o ao chamar o es írito e a alma para esempenharoppelde mente humana. A mente é resultado e uma

O SÍTIO DA MENTE

complexa reunião de elementos fundamentais - o neurônio, a sinapse,

o neurotransmissor e o receptor -, capazes de gerar arranjos construti-

vos diferentes, dependendo do número e da combinação, tal como vi- mos na catedral. Sua grandeza e pluralidade exigem a genialidade de um arquiteto que lhes confira funcionalidade e a de um engenheiro que, de posse dos elementos estruturais básicos, seja capaz de realizar o projeto arquitetõnico. A utilização final da mente, catedral gótica, pode perfeitamente ser a reunião em culto. Seu fundamento, no entanto, está no desenho arquitetõnico e no arranjo concreto de unidades (fôrmas) que viabilizam fisicamente suas formas e conteúdos. Imagine que haja duas estradas por onde trafegam veículos e, separando-as, um rio largo. Certo, é preciso uma balsa para atravessá-

lo. O rio, intervalo entre as estradas, é a sinapse. A balsa que atravessa

a sinapse consiste em substâncias químicas chamadas neurotrans-

missores. O carro (informação) chega ao fim da estrada 1 (neurônio 1) e toma uma balsa. A informação sob a forma de corrente chega ao final do neurônio 1 e libera o neurotransmissor, que "carrega" a informação até o receptor (fechadura) do neurônio 2. O mecanismo se dá como se fosse uma chave que vai do neurônio 1 até uma fechadura do neurônio 2, abrindo-a, isto é, reinstaurando ali a informação a ser transmitida (neurotransmissor) para atravessar o rio (sinapse), chegar ao outro lado, na estrada 2 (neurônio 2), e continuar viagem (Fig. 8).

neurônio T

informação>

neurotransmissor

- - > 0

SINAPSE

iníoroj.

receptor

Fig.8 - Sinapse (junção) entre dois neurônios 1 e 2. A informação, sob a forma de corrente, chega ao final do neurônio 1 e libera o neurotransmissor, que "carrega" a informação até o receptor (fechadura do neurônio 2). O mecanismo se dá como se fosse uma chave que vai do neurônio 1 até uma fechadura do neurônio 2, abrindo-a, isto é, reinstaurando ali a informação a ser transmitida.

É de uma engenhosidade fantástica o modo como se dá essa transmissão. Através dela, o sinal elétrico chega ao final do axômo, transformando-se em sinal químico (por meio de um representante que

é o neurotransmissor-carregador). Pode, assim, atingir o dendrito do

neurônio seguinte, onde ocorre novamente a transformação do sinal químico em sinal elétrico, e a informação segue adiante.

SINAPSE

Suponha que um neurônio tenha de processar as informações "pêlos", "patas" e "listas". Vimos que cada uma dessas três informa- ções pode caminhar por um dendrito, reunindo-se no corpo celular, onde, após deliberação, possibilitam um consenso: "tigre" (todos esses elementos, sempre codificados sob a forma de potenciais locais e, em seguida, séries de potenciais de ação - código de barras). Esse consen- so é, então, enviado pelo axônio até o próximo neurônio. Considere que o potencial de ação que carrega a informação "ti- gre" chegue ao final do axônio do neurônio 1. E preciso que essa infor- mação seja transferida para o outro neurônio, onde talvez se processe a questão: "tigre malvado ou desdentado?" Como é que o tigre, no neurônio 1, representado por uma série de potenciais de ação, vai pas- sar pela sinapse? Quando esse código de barras chega ao final do neurônio 1, en- contra os neurotransmissores (simbolizados por uma bolinha na Figura 8). Essa substância sai do neurônio 1, caminha através da sinapse e se liga a um receptor no neurônio 2. O receptor funciona como uma fechadura e o neurotransmissor, como uma chave. Colocada a chave na fechadura, abrem-se os canais na parede do neurônio 2, permitindo que as cargas negativas saiam e as positivas entrem. Dessa forma ocorre no dendrito o fenômeno local (potencial local) que propicia a formação de uma corrente elétrica que se propaga por ele. (Fig. 9)

canal na parede do neurônio

axônio do neurônio 1

corrente nntpneial d

-;

-

neurotransmissor / chave químico

SINAPSE ----

\ r.

++++++++++

+±+,

'dendrikdÓ h&,r

(potencial local)

(fechadura)

Fig.9 — Ação do neurotransmissor (chave) no receptor (fechadura), abrindo os canais de membrana e gerando a passagem de cargas elétricas que criam o potencial local.

A seqüência é a seguinte: a informação - "tigre", no nosso exemplo — chega ao final do neurônio 1 como impulso elétrico. Contrata um mensageiro químico (neurotransmissor) que sai do neurônio 1, passa pelo intervalo entre os dois (sinapse) e liga-se a um receptor (fechadura)

O SÍTIO DA MENTE

no neurônio 2 (normalmente em um de seus dendritos). A ligação gera

a abertura dos canais na parede do neurônio 2, o que, como vimos

antes, provoca a troca de cargas positivas de fora por cargas negativas de dentro. O processo propicia a formação de uma corrente elétrica que vai viajar pelo dendrito, voltando a carregar a informação "tigre". Esta,

por sua vez, caminha pelo dendrito até o corpo do neurônio 2, onde encontra duas outras informações, vindas de dois outros dendritos:

"malvado" ou "desdentado". (Lembre-se de que o processo decisório e

o tipo de reunião podem ser de variados tipos.) As três informações -

"tigre", "malvado" e "desdentado" - sofrem a transformação de uma pergunta: tigre malvado ou tigre desdentado? Deliberando-se se tigre malvado ou desdentado, chega-se à conclusão de que é tigre malvado.' Essa informação trafega sob a forma de um impulso elétrico (potencial de ação) pelo axômo do neurônio 2. (Fig. 10) -

rrvad

Fig.10 - Processamento hipotético de informação entre dois neurônios, sendo que, o neurônio 1 recebe três 'propriedades" de tigres, processa-as, chegando à conclusão de que se trata de um tigre. Conecta-se, então, com o neurônio 2 através de um dendrito. O neurônio 2, por sua vez, recebe outras duas informações:

malvado e desdentado. A operação feita pelo neurônio 2 é de transformar tigre em duas sentenças: tigre malvado ou tigre desdentado? O processamento do neurônio 1 é uma conjunção de propriedades; o do 2, é uma disjunção (aplicação do conectivo "ou '9 sobre sentenças.

RECEPTORES

Quando um impulso elétrico (no nosso caso, "tigre") chega ao final do axônio do neurônio 1, recruta uma determinada quantidade (o que é crítico) de neurotransmissores. Estes ligam-se a vários receptores no dendrito do neurônio 2. Depois de gerarem ali a corrente elétrica que voltará a carregar adiante a informação, desligam-se dos receptores e podem seguir duas rotas:

neurônio 1

SINAPSE

4

NFAZq

neurônio 2

oO0<EJ _

J# 2>

re

1. Liberação do neurotransmissor

(mensaRem química).

2. Ligação com o receptor no neurônio 2

3. Desligamento e
4.

recaptura pelo neurônio 1 para reaproveitamento.

Destruição do neurotransmissor por uma enzima.

Fig.11 - Seqüência de eventos intracelulares no neurônio 2 após ativação pelo neurotransmissor vindo do neurônio 1.

a) voltam para o neurônio 1 para serem reaproveitados

(recaptura) numa próxima comunicação;

b) são destruídos por uma enzima. (Fig. 11).

Esse processo, que garante que a informação não fique eterna- mente sendo transmitida e que libera a via para novas informações, está na base de uma série de disfunções mentais.

MENSAGEIROS

Quando o neurotransmissor se liga ao receptor 2 do neurônio 2,

coloca em marcha uma série de processos dentro do neurônio. Ativam- se mensageiros que executarão dois tipos de trabalhos:

1) ordenar que se abram os canais (passo 4, Fig. 12) para que

ocorra a troca de cargas (condição para que surja a corrente); 2) ir até o núcleo celular, onde estão os genes (estruturas celulares

que comandam toda a máquina de produção de proteínas do corpo), ativando uma parte deles para formar novos receptores da parede do neurônio (Fig. 12).

o sfTlo DA MENTE

M meu,

neuronio 1

neurotransmissor.4

+_ +++++

-

ensag

neurônio 2

canal

1. Liberação de mensageiro-neurotransmissorpelo neurônio 1.

2. Ligação com o receptor naparede do neuronio 2.

3. Ativação de "mensageiro" dentro do neurônio 2.

4. Abertura pelo mensageiro de canais na parede do neurônio para que as cargas positivas entrem e as negativas saiam.

5. Influência do mensageiro sobre os genes do neurônio 2, particularmente aqueles que regulam a construção de receptores de parede.

6. Influência do gene sobre a forma e a quantidade de receptores da parede do neurônio.

Fig.12 - Seqüência de eventos intracelulares no neurônio 2 após a ativação pelo neurotransmissor do neurônio 1.

Tem-se a impressão de que os genes, uma vez determinados quan- do da fecundação do óvulo pelo espermatozóide, estão definitivamen- te gravados, são fixos e imutáveis. Não é bem verdade. Nem todo con- junto de ordens que está nos genes é utilizado. Há épocas em que uma parte do gene funciona e épocas em que outra parte assume a função. Assim, é possível, ao longo da vida, ativar pedaços de um gene e dei- xar outros pedaços silenciosos. E é exatamente isso o que acontece pela influência do mensageiro dentro do neurônio. Os receptores da parede do neurônio, que são as fechaduras em que os neurotransmissores se encaixam, estão constantemente sendo trocados por novos. Tanto a quantidade desses receptores como seu formato estão sujeitos a ordens dos genes de cada neurônio, e essas ordens dependem, entre outras coisas, do tipo de influência exercida sobre eles pelo mensageiro. Dissemos que o neurotransmissor se encaixa no receptor como uma chave numa fechadura. Pela influência do mensageiro de dentro do neurônio, pode-se modificar um pouco a forma do receptor para

SINAPSE

que o encaixe se dê de maneira melhor. Isto é, pode-se mudar o formato das fechaduras nas quais se darão futuras ligações. Pode-se também mudar a quantidade de fechaduras (receptores). Mudando-se a quanti-

dade, haverá menos ou mais locais de ligação para os neurotrans- missores que vêm do neurônio 1. Vamos voltar um pouco atrás e lembrar que a corrente elétrica que sinaliza, ou carrega, alguma informação no dendrito depende da posição, do instante e da intensidade. Assim, para que a informação "tigre" possa ser transmitida corretamente do neurônio 1 para o neurô- nio 2, é necessária uma perfeita orquestração de vários fenômenos:

a) "tigre" é o resultado de uma reunião de três correntes no neu-

rônio 1 que representam em cada dendrito "pêlos", "patas" e "listas";

b) após deliberar-se que pêlos, patas e listas constituem um tigre

(o que ocorre no corpo celular do neurônio 1), passa-se pela porta (li-

miar) e forma-se uma série de impulsos elétricos (todos de igual tama- nho, mas com intervalo variável— código de barras) chamada potencial de ação;

c) o potencial de ação (corrente no axônio) viaja pelo axônio do

neurônio 1 até chegar ao final, onde há um buraco (sinapse) separando- o do neurônio 2;

d) o potencial de ação, que carrega a informação "tigre", deve

encontrar um jeito de selecionar o número certo de substâncias (neuro- transmissores) para que estas saiam do neurônio 1, trafeguem pela si- napse e se liguem a receptores no neurônio 2; e) os receptores do neurônio 2 devem ser capazes de abrir canais na parede em quantidade e velocidade tais que a troca de cargas gerada estabeleça uma corrente elétrica que preserve as características da corrente no neurônio 1, que carrega a informação "tigre". Vê-se que não é qualquer corrente, de qualquer intensidade, de qualquer forma e em qualquer instante que fará trafegar a informação "tigre". Por quê? Porque no cérebro não há lugar para que um neurônio se dedique somente à palavra tigre. Se fosse assim, bastaria estimular o neurônio com qualquer corrente que ele mandaria a informação tigre em frente. Se houver uma variação na forma das fechaduras (receptores), o encaixe será melhor ou pior e, portanto, a corrente será diferente. O mesmo acontecerá se variar a quantidade de receptores. Um número determinado de neurotransmissores recrutados pelo potencial de ação do neurônio 1, que representa "tigre", terá maior ou menor quantidade de locais para se ligar. Isso também mudará a corrente gerada pela abertura

O SÍTIO DA MENTE

dos canais e, conseqüentemente, a informação "tigre" poderá ser: a) reforçada ou enfraquecida; b) fiel ou adulterada. Os eventos que ocorrem no neurônio 2 sinalizam para que, atra- vés da influência nos genes do neurônio 2 (responsáveis pela formação

de novos receptores), aconteça o seguinte no futuro:

se os genes forem influenciados de forma a aumentar o núme- ro de receptores e melhorar sua forma (fechadura), a informação passará cada vez de maneira mais forte e precisa naquela sinapse;

b) se os genes, por outro lado, diminuírem a quantidade de recepto-

res e piorarem sua forma de encaixe nos neurotransmissores, a informa-

ção passará cada vez mais fraca e menos precisa naquela sinapse. O aprendizado no ser humano se dá graças à modificação nos receptores (forma e quantidade), possibilitando o reforço de algumas conexões entre neurônios. À medida que passam informações por uma sinapse, vão-se modificando o número de receptores e sua afinidade (forma da fechadura). Aquela informação fica cada vez mais forte e precisa ali. Imagine que uma sinapse de uma criança coordene o evento 2+

2

=4. E outra coordene 2 +2 =5. Toda vez que houver sucesso no 2+

2

=4, a sinapse que executa essa conjunção se reforçará e a que coorde-

na 2 +2 = 5 se enfraquecerá. Esse reforço de uma sinapse e enfraqiLeci-

mento de outra se dará através da influência do mensageiro sobre os genes que:

a) aumentarão a afinidade e a quantidade de receptores na sinapse

responsável pelo 4;

b) diminuirão a quantidade e a afinidade dos receptores na sinapse

responsável pelo 5. Esse modo de operação, isto é, o reforço de uma ligação entre dois neurônios (sinapse) através da alteração do funcionamento do gene que regula a forma e a quantidade de receptores na sinapse, é respon- sável pelos condicionamentos, pelas patologias psíquicas, pelas aver- sões, pelas fobias, por esquecimentos de fatos traumáticos, etc. O me- canismo é mais complicado, mas o princípio está suficientemente cal- cado na possibilidade de mudança da força que uma sinapse tem ao

ligar um neurônio a outro. A base do aprendizado está aí. Voltaremos a isso posteriormente, quando tivermos outros ele- mentos para entender o processo. Por ora, é interessante saber que a sinapse e o mensageiro são pontos cruciais na intervenção medica- mentosa sobre as disfunções mentais. Como grande parte das pessoas continua tentando tratar distúrbios cérebro-mentais apenas com pala-

SiNAPSE

vras, examinemos a seguir a base da desregulagem nas sinapses e os modos de intervir sobre elas.

SINA PSES ALTERADAS E TRATAMENTO DAS DISFUNÇÕES MENTAIS

A sinapse, meio de comunicação entre os neurônios, representa a

um só tempo a conexão que possibilita o diálogo neuronal e a base da

patologia cerebral e mental. Se para o leitor é interessante saber que a sije desarranjada pode estar por trás de uma disfunção como o tremor no mal de Parkinson, é urgente entender que também pode estar por trás do choro de uma pessoa deprimida que precisa de remédio,

e não de conselhos.'

A conexão entre dois neurônios através da sinapse é um mecanis-

mo extremamente fino. Qualquer desarranjo na quantidade de neurotransmissores e na forma e quantidade de receptores pode levar

a quadros cerebrais e mentais. Cerebrais porque a sinapse é unidade de

cérebros. Mentais porque, dependendo de como os neurônios dialo- gam, surgem mentes a partir do processamento cerebral. Portanto, nada mais natural que, se as sinapses estão descalibradas, apareçam sinto- mas neurológicos e também psiquiátricos. Imagine que a ligação do neurônio 1 com o neurônio 2 através da sinapse deve passar a informação "tigre". Quando o impulso elétrico

chega ao axônio, recruta neurotrarismissores que vão atravessar a sinapse

e se ligar a receptores. Esses receptores, dependendo da ligação, vão

recrutar mensageiros, já dentro do neurônio 2, que ordenarão a abertura de canais na parede do neurônio para que ocorra a entrada de cargas positivas e a saída de cargas negativas. Essa inversão das cargas gerará uma corrente elétrica que deverá ser idêntica à do neurônio 1, de maneira que mande adiante a informação "tigre". E preciso que a passagem do estímulo elétrico no neurônio 1, sua representação numa determinada quantidade de neurotransmis- sores e sua posterior conversão em corrente no neurônio 2 guardem relação. Se ocorrer qualquer problema, a informação tigre poderá chegar adulterada ao neurônio 2 (por exemplo, imagine que chegue

tigro, trigo, tigr

será fonte de decisões erradas, ou insuficientes, ou enganadoras,

etc. Claro que estes processos são mais complicados, mas de forma geral podemos traduzir assim todo tipo de problema que pode ocor- rer no neurônio e na sinapse.3

). Neste caso, o que acontecerá? A comunicação

O SÍTIO DA MENTE

Alterações específicas de passagem de informação na sinapse

Imagine como hipótese que tenhamos um neurônio 1 e a

informação "tigre" sendo codificada. Suponha que para transmiti-Ia sejam necessárias três "bolinhas" de neurotransmissor e dois receptores no neurônio 2. "Tigre" passará do neurônio 1 para o neurônio 2 desde que haja perfeita orquestração desses eventos. A partir dessa hipótese, vejamos esquematicamente como poderíamos classificar certos problemas que costumam implicar patologias psiquiátricas. O exemplo

é arbitrário, e também a classificação seguinte. Visa apenas a auxiliar o leitor para que entenda os grandes mecanismos de que se lança mão para medicar distúrbios mentais, atuando diretamente na sinapse, no neurotransmissor, no receptor, no mensageiro e no gene.

1. Alteração na forma do receptor

Descriçãa neste caso, haveria na ligação entre os neurônios 1 e 2 responsáveis pela transmissão da informação "tigre", três vesículas de neurotransmissor e dois receptores de forma alterada (o número está normal em ambos, porém a "fechadura" é deficiente). Conseqüência- normalmente a informação sofrerá deturpação ao passar pela sinapse. Solução de curtopraza se o receptor é uma fechadura que dificulta

o encaixe da chave (neurotransmissor), deve-se aumentar o tempo de permanência da chave na fechadura para possibilitar a abertura. Solução de médio prazo: obtendo-se a abertura, com o tempo, o mensageiro de dentro do neurônio 2 se encarregará de induzir a forma- ção de receptores com a forma antiga. Situações mais fit'qüentes em que ocoim depressões, ansiedade, pânico, fobias.

Tratamento:medicamentos que aumentam o tempo de ligação do neurotransmissor ao receptor - antidepressivos. Esses antidepressivos normalmente agem de duas maneiras: ou bloqueiam a recaptura de neurotransmissor pelo neurônio 1 (após ter sido utilizado) o que aumenta seu tempo de permanência na sinapse (passo 3 da Figura 11); ou bloqueiam a enzima que destrói o neurotransmissor, aumentando também sua permanência (passo 4 da Figura 11).

SINAPSE

2. Alteração na quantidade de receptores

Lscn rçãa neste caso, há um receptor em lugar de dois (o número de vesículas está normal). Conseqüênci,7 a informação será deturpada na passagem. Solução de curto praza aumentar a permanência do neurotrans- missor na sinapse porque, se há menos fechaduras, deve-se dar mais tempo para as chaves agirem. Solução de médio praza se for possível manter a passagem de in- formação, os mensageiros induzirão o gene a produzir de volta a quan- tidade certa de receptores.

Situaçõesmaisfiqüentesem que ocoiw envelhecimento.

Tratamento:antidepressivos.

3. Diminuição na quantidade de neurotransmissores

Descrição:neste caso, há duas vesículas de neurotransmissor em lugar de três; os receptores estão em número e forma adequados. Conseqüência:passagem alterada de informação Solução de curto prazo: aumentar o tempo de permanência das vesículas na sinapse para compensar o menor número de chaves. Solução de médio praza esperar que, pela passagem normal, o neurônio 1 volte a produzir a quantidade correta de neurotransmisso- res (às vezes, o problema pode ser até nutricional).

Situaçõesmaisfiqüentes em que ocorre talvez em certos distúrbios

de personalidade, o que ainda não está comprovado. Tratamenta antidepressivos.

4. Aumento na quantidade de neurotransmissores

Descrição:neste caso, há quatro vesículas de neurotransmissor e forma normal dos receptores. Conseqüência: deturpaçãona passagem da informação por excita- ção excessiva (há mais vesículas do que devia haver). Solução de curto praza diminuir a quantidade de fechaduras dis- poníveis. Solução demdiopraza esperar que o neurônio 1 volte a produzir o número certo de vesículas ou remover a causa externa que está por trás da superprodução. Situações mais freqüentes psicoses, agressividade e impulsividade.

o síTio DA MENTE

Tratamenta neurolépticos. O neuroléptico é uma droga que atua como um falso neurotrans- missor: ocupa um receptor, impedindo que este seja ocupado pelo neurotransmissor legítimo; porém, não ativa nenhum mensageiro no neurônio 2. Portanto, não induz a qualquer alteração na corrente ou nos

genes.

S. Ausência de neurotransmissor especifico

Descrição:neste caso, há ausência de neurotransmissor adequado

para aquele receptor. Solução de curto praza colocar algum neurotransmissor artificial que se ligue aos receptores e promova alguma alteração desejada.

Solução demédioprazo:aguardarque a situação que gerou o pro-

blema seja resolvida para que não se tenha de lançar mão do expedien- te acima.

Situações maisbt'qüentes em quewiw ansiedades (quando do uso de

calmantes), algumas insônias, casos de excitação espontânea dos neurônios em que se quer usar uma droga que diminua a corrente nos neurônios (por fechamento de canais de troca de cargas na parede).

Tratamento. calmantes (ansioliticos).

Muitos dos calmantes - particularmente os benzodiazepínicos - têm receptores específicos nos neurônios. Tanto as drogas para a dor quanto os ansioliticos se dirigem a "fechaduras" já desenhadas de antemão para eles. Ligando-se nessas fechaduras, promovem diferentes modulações de corrente elétrica, o que acaba por levar ao efeito desejado. Ao contrário do que ingenu- amente se pudesse pensar, esse fato não afirma que a natureza selecionou previamente fechaduras para uma droga como um calmante comercial. Indica, outrossim, que deve haver substâncias internas que são muito semelhantes estruturalmente a essas "chaves" artificiais. No caso de uma disfunção, essas substâncias estariam inoperantes; porém, os receptores-fechaduras para elas estariam ali

6. Alteração no mensageiro do neurônio 2

Descrição: nestecaso, há quantidade normal de neurotransmissores e quantidade e forma normais de receptores. Porém, o mensageiro no neurônio 2 está alterado. Conseqüências embora haja neurotransmissores e receptores emquan- tidade adequada, a ligação torna-se deficiente porque as alterações que o

SINAPSE

processo deveria provocar no neurônio 2 ficam prejudicadas pelo mensa- geiro defeituoso. Solução de curtopraza usar alguma droga que interfira no mecanis- mo de ação do mensageiro. Solução demédioprazo: esperar que a passagem correta recoloque os processos de ação do mensageiro no lugar.

Situaçõesmais ~entes em queocoiw algumas formas de depressão

e mania.

Tratainento:sais de litio.

O lítio é uma substância que pode ser indicada em alguns casos porque age no processo de ação do mensageiro no neurônio 2.

SÍNTESE

Como há uma descontinuidade física entre o axônio de um neurônio

e o dendrito do próximo (sinapse), para que se estabeleça a comunicação

entre ambos, a informação - sob a forma de corrente elétrica, potencial de ação (no primeiro) e potencial local (no segundo) - deve sofrer uma tradu- ção química, ultrapassando esse intervalo. Contratam-se para isso mensa- geiros químicos (neurotransmissores) que, saindo do neurônio 1, carre- gam a mensagem para o neurônio 2. Ali, conectam-se a receptores num mecanismo de encaixe do tipo chave-fechadura. Esse encaixe induz a aber- tura de canais de parede no neurônio 2, por onde se dá a troca de cargas elétricas, gerando a corrente que recria a informação do neurônio 1. O processo de passagem pela sinapse envolve a transformação de informação sob a forma de corrente (potencial de ação) em informação sob

a forma de mensageiro químico (neurotransmissor). A fidelidade da trans- missão depende da ligação do neurotransmissor com os receptores do neurônio seguinte. Quanto melhor a conexão e maior o número de ele- mentos, tanto mais fiel será a transmissão da mensagem. Feita a ligação do neurotransmissor com o receptor, inicia-se um processo dentro do neurônio 2. Substâncias internas (mensageiros) vão

agora operar a abertura de canais para a troca de íons e geração de corren- te (potencial local), e também influenciar partes dos genes daquele neurônio, responsáveis pela produção (forma e quantidade) de receptores. Com isso, podem-se obter, no futuro, mudanças na conexão de modo que os encai- xes fiquem cada vez mais perfeitos. Essa é uma das bases do aprendizado

e de uma série de reforços comportamentais. Nesses dois níveis

tor sináiPtico e mpgiro - esççi ~ ia pontos cruciais onde atuam

drogas que tratam as disfunções mentais.

- recep-

4-,

O SITIO DA MENTE

2-1-9

Sinapse real mostrada através de microscopia eletrônica. Note as vesículas de neurotransmjssor entre um neurônio e outro. A foto mostra uma estrutura sináptica natural, mais ou menos 50.000 vezes menor que o que se está vendo (ip = 0,001 milímetro).

DEPARTAMENTOS CONCRETOS E VIRTUAIS

Capítulo 4

DEPARTAMENTOS CONCRETOS E VIRTUAIS

uando se procura compreender o modo como um cérebro funciona - e esse funcionamento propicia o aparecimento da mente -, alguns problemas entram em jogo. Primeiramente, devemos identificar as unidades fundamentais nesse processamento - os tijolos, o cimento, o ferro e os vidros. Vimos no capítulo anterior que os q uatro elementos

fundamentais para entender um cérebro s ão o neurônio, a sinapp neurotransmissor e o mensageiro. Por meio da manipulação de impul- sos elétricos, o cérebro pode traduzir o discurso sobre pessoas e coisas, processando informação complexa o bastante para gerar a mente. Através de complicada operação podem-se ter, a um só tempo, sinais elétricos no plano cerebral e mente no piano introspectivo. Essa nenfe cheiã de ideais. remorsos, imagens e lembrancas riste aaceitar

eIPtrIccer Faces de uma mesma moeda.

as enes

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im bcJIos mentai&

DEPARTAMENTOS VIRTUAIS E COMISSÕES QUE EXAMINAM SITUAÇÕES AMBÍGUAS

As operações complexas dependem de um cérebro que, depois de processar cada informação em seu devido lugar, aos poucos vai agrupando-as. O modo de processamento depende dos neurônios, que traduzem informações em correntes elétricas, integrando-as em pro- cessos de decisão e mandando o produto em frente. E o que chamei anteriormente de burocracia saudável: quanto mais complicado o raciocínio entre a entrada e a saída do "documento". maior n núm ero

Um dos pontos que merece atenção ao se lidar com a idéia de várias seções é que se tem de dividir os ambientes de uma repartição pública para que se saiba para onde deve ir o documento a cada instante.

O SÍTIO DA MENTE

Sabendo-se que em cada seção o modo de operação será pareci- do - avaliação, julgamento, despacho -, deve-se ter um outro modo de dividir seções, de maneira a melhorar a competência ao manipular a informação. Suponha que em uma repartição pública todos fizessem a mesma coisa em um só ambiente. Possivelmente se perderia especialização e aprofundamento. Se uma seção se dedica a avaliar o custo de um projeto, é preciso colocar ali máquinas adequadas e livros especializados e dar treinamento específico ao pessoal. Isso permite ganhar eficiência. Numa empresa não é qualquer pedido, compra ou questão que vai direto para a mesa do presidente. Existe uma hierarquia para reco- nhecer a informação que está entrando e encaminhá-la ao departamen- to correto. Cuida dela primeiro um vendedor, que a repassa para um supervisor e assim sucessivamente até chegar ao presidente. Cada nível de decisão tem um papel bem determinado, devendo responder apenas sim ou não a uma pergunta técnica muito específica. Com o presidente não é muito diferente. Embora sua responsabilidade seja maior, ele responde com base numa série de pareceres do tipo sim ou não, vindos dos diversos departamentos. Imagine, agora, uma torre de unidades ou módulos que dá re- postas sim ou não a perguntas especificas (Fig. 13). Essa torre decisória, baseada em seqüências de sins e nãos (também chamada de estrutura de dados, em inteligência artificial e sistemas especialistas), não preten- de retratar em minúcias o processo de organização de uma empresa, mas dar idéia de dois processos fundamentais: hierarquia e especializa- ção (ou modularidade).

sim ou não

sim ou não

1

1

IDEN TI FICA CÃ O

1

DURABILIDADE

1

sim ou não

'

sim ou não '

FINA

sim ou não

1 INFRA-ESTRUTURA

P sim ou não

Fig.13 - Estrutura hierárquica e modular de decisões do tipo sim ou não numa empresa hipotética (também chamada de estrutura de dados em computação).

DEPARTAMENTOS CONCRETOS E VIRTUAIS

A hierarquia garante instrumentos para dar respostas cada vez

mais complexas, aumentando a responsabilidade nas decisões e, por vezes, sua amplitude. A especialização faz com que cada módulo trate de informações específicas, podendo-se confiar muito mais no tipo de

respostas que dá. Pense agora no capítulo anterior, quando discutíamos o modo de funcionamento do neurônio. Se cada bloco do diagrama da Figura 13 fosse um neurônio (na verdade, é um conjunto deles), teríamos um

sistema nervoso ou um cérebro organizado dessa forma. Como vimos, havia o problema das respostas do tipo aberto ou fechado após a deli- beração no corpo do neurônio e a passagem da decisão para o axônio sob a forma de -um potencial de ação.

O leitor pode se perguntar: "Mas essa concepção digital, sim ou

não, não havia sido posta de lado pelo exemplo do código de barras - freqüências do potencial?" Sim, mas por ora vamos continuar trabalhando com a concepção digital do exemplo acima, como se o neurônio apenas tomasse decisões do tipo sim ou não.' Mais à frente voltaremos a ela para mostrar algumas sutilezas que deitarão por terra esse argumento. Apesar de útil, o processamento digital é apenas uma simplificação do processamento cerebral, que é basicamente analógico. Assumindo por ora que temos uma hierarquia e uma especializa- ção, devemos nos perguntar que problemas podem ocorrer em estru- turas como essa. Voltemos, assim, à empresa, imaginando que, após uma complicada operação da qual participaram todos os departamen- tos, decidiu-se pela compra de cem mil televisores importados do país X, que encalharam nas prateleiras e deram um prejuízo enorme. Vários estudos são feitos pelo próprio presidente da empresa para avaliar onde ocorreu o erro. Todos os itens do processo estão certos. Os departamentos responderam corretamente a todas as perguntas. Onde está o problema? Nova pesquisa entre os consumido- res mostra que houve um boicote aos produtos vindos daquele país porque ali se emprega mão-de-obra infantil e quase escrava nas linhas de produção. Os sindicatos de trabalhadores da indústria nacional de televisores fez uma campanha que conseguiu sensibilizar o público, convencendo-o de que não se deveriam comprar aqueles aparelhos. De quem é a culpa, então, pelo encalhe e pelo prejuízo? De nin- guém e de todos. Porque os fatos estavam nos jornais e alguém poderia

ter levantado a questão antes de se decidir pela compra. Portanto, o sistema de perguntas muito rígidas e especializadas cometeu o erro de não fazer certas perguntas e de não dar espaço para que tivessem apare-

O SITIO DA MENTE

cido nuanças ou hesitações nas respostas (caso da resposta do tipo talvez). Uma solução possível para o problema seria a criação de novos departamentos na empresa, como por exemplo um dedicado ao impac- to ambiental de certos produtos. Os novos departamentos deveriam dialogar com os níveis da hierarquia antiga, permitindo que as respostas fossem, em vez de apenas sim ou não, também talvez, acompanhado de algumas considerações. Mais ainda, deveria haver uma maleabilidade tal que a decisão pudesse caminhar de baixo para cima, de cima para baixo e também para os lados. Em suma, alguns ingredientes deveriam ser adicionados:

a) formação de novos departamentos;

b) possibilidade de respostas do tipo talvez;

c) possibilidade de fluxo de decisão em diversos sentidos.

O custo de instalação de novos departamentos, contudo, tomaria

o processo lento e aumentaria o custo da empresa. A alternativa é,

então, criar uma série de comissões, departamentos virtuais móveis para atuar em situações especificas, formados por membros de dois ou mais departamentos já existentes. (Fig. 14)

2J

•uAP

iIJ

não

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talvez :;;1

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talve

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Fig.14 - Fluxo misto de informação e decisão numa estrutura hipotética: digital, sim ou não, de baixo para cima; analógica, do tpo talvez, nas duas direções. Agrupam-se, ainda, dois tipos de departamentos: jixos/diitais e móveis-

virtuais-comitês/analógicos.

Uma série de questões devem ser decididas pelo modo antigo e outras pelo novo, isto é, pelo digital e pelo analógico, respectivamente.

E preciso, pois, conciliar os dois modos. Em algumas situações, deve-

se começar de cima e em outras, de baixo; em algumas, deve-se processar "sim" ou "não" e, em outras, "talvez". Nos casos de "talvez", podemos

DEPARTAMENTOS CONCRETOS E VIRTUAIS

imaginar que todas as instâncias passam a ser compartilhadas, como se o presidente chamasse alguns funcionários de outros departamentos para opinar conjuntamente. Mais interessante ainda é que, se não se sabe de antemão se o processamento de informação deve seguir o estilo antigo ou o novo, convém, para situações especiais (por exemplo, casos de grande risco), fazer os dois processos seguirem paralelamente e, ao final, decidir se sim ou não comparando-se o resultado de ambos. Se o resultado for "talvez", uma nova rodada de departamentos virtuais poderá ser feita, tentando-se criar perguntas novas que tenham sido esquecidas ou omitidas antes. Entendido o exemplo, estamos prontos para transportá-lo para o cérebro humano, cheio de divisórias anatômicas (departamentos concretos), e para o lento aparecimento de um departamento virtual (comitê) chamado mente, baseado não na resposta digital, mas no proces- samento analógico do "talvez".

A MENTE COMO DEPARTAMENTO VIRTUAL

A mente, num certo sentido, é aquilo que chamamos de departa- mentos virtuais. Departamentos que, frente a uma determinada questão, reúnem membros de dois ou mais departamentos concretos da empre- sa física (cérebro) para formar uma comissão ou um departamento transitório. Lembre-se de que os departamentos virtuais surgiram como resposta a dois tipos de pressões na empresa do nosso exemplo:

1) Era preciso criar novos departamentos para cada nova variável que pudesse influir numa determinada decisão. Mas fazer isso com departamentos concretos oneraria muito o custo da empresa (e provavelmente não seria tão eficiente), o que levou à opção de recrutar membros dos departamentos tradicionais para desempenhar transitoria- mente funções em departamentos virtuais, comitês, assembléias. 2) Considerando a possibilidade de que o "talvez" espelhava me- lhor certas condutas, era preciso criar um tipo de estrutura especializa- da nesse tipo de resposta. Releia o início do livro e pense no animal diante de um tigre:

fugir? Não, agora o "talvez" permite que se diga "fujo", "luto" ou "ex- ploro". Aí, é preciso avaliar as coisas numa outra perspectiva que não simplesmente fugir. Porque a decisão de não fugir envolve uma série de ponderações, principalmente aquelas que dizem respeito ao risco que aumenta. É claro que ficar e tentar enfrentar o tigre, para posterior- mente explorá-lo, é mais arriscado do que fugir. Pelo menos nos

O SÍTIO DA MENTE

primeiros momentos, há elementos de novidade que fazem com muitos fracassos ocorram nteue se detenha o conhecimento Plem

Voltemos ao exemplo da empresa, tentando entendê-lo à luz do que vimos no capítulo anterior acerca dos neurônios. Para certos efei- tos, a empresa antiga - aquela de hierarquia rígida, cuja decisão é construída de baixo para cima a partir de respostas do tipo "sim" e " não" - pode ser traduzida por neurônios (ou grupos deles) que de- sempenham papel digital (lembre-se, é o caso da porta-limiar que deixa ou não o potencial de ação navegar pelo axônio). No entanto, em certas situações especiais, é preciso deixar que os neurônios processem de modo analógico. Isto é, o potencial de ação é sim ou não, mas sua freqüência (código de barras) introduz nuanças entre o sim e o não. De modo sucinto, pode-se dizer que este é um modo de deixar que inúmeros "talvez" estejam contidos entre o sim e o não. Não se deve pensar que a mente surge à toa. Devido a certas pressões, é possível, sem custo biológico (a espera de que surjam no- vas estruturas - departamentos concretos), criar um diálogo entre de- partamentos, formando transitória e dinamicamente departamentos virtuais (comitês) ligados a certas necessidades. Onde ficam esses departamentos virtuais? Em toda parte e em parte

alguma, porque se constituem de elementos da empresa e dos seus de- partamentos físicos e, ao mesmo tempo, são remanejamentos transitórios ou, às vezes, permanentes (como um conselho) de seus membros.

A criação de departamentos virtuais é conseqüência do apareci-

mento de problemas novos que requerem soluções igualmente novas. Problemas novos têm, ainda, uma característica suplementar: não exis- tem especialistas para eles e, portanto, não teria sentido criar um de- partamento com especialistas em problemas desconhecidos. Uma característica que permite que já existam, do ponto de vista biológico, todas as condições propícias para o surgimento desse tipo de

departamento virtual é o fato de os neurônios, num sentido clássico, processarem sim ou não, mas, num sentido mais fino, processarem variadas gamas de talvez (no código de freqüências do potencial de ação).

A novidade dos problemas e a complexidade já embutida no

código de barras do neurônio permitem que coexistam, lado a lado, a empresa digital e a analógica, a antiga e a nova, a ortoxa e a heterodoxa. Pode-se retrucar dizendo que o talvez é um perigo porque insere ambigüidade no sistema. Toda vez que um departamento responde

DEPARTAMENTOS CONCRETOS E VIRTUAIS

talvez há uma infinidade de problemas envolvidos. Num certo sentido isso é verdade, tanto que a forma "sim" ou "não" continua a existir. Por outro lado, embora mais complicado, o talvez é mais rico. Se forem criados modos de coexistência do sim ou não e do talvez e seforem

um talvez com experiência. Neste caso, o risco se dilui. Imagine que o presidente da empresa do nosso exemplo implan- te um sistema de departamentos virtuais. Como dissemos, pode ser que, por um tempo, adote os dois tipos de processo para tomar deci- sões. Porém, depois de vários testes, poderá, por exemplo, definir qual "equipe" virtual acertou mais vezes. Neste caso, poderá determinar que essa equipe constitua um departamento quase-concreto (ou virtu- al permanente). Por avaliação dos acertos históricos, o risco do talvez acabará por ser eliminado, transformando-se em quase-certeza do tipo sim ou não.2 Provavelmente foi isso o que ocorreu com uma vasta gama de departamentos virtuais no decorrer da história humana. Uma série de modalidades de processamento de "talvez" foram, aos poucos, se in- corporando às soluções tradicionais e ortodoxas. Embora sem sala ou divisória - caso da inteligência, por exemplo—, interpenetram todas as decisões da empresa cérebro-mente. Entender o processo de lenta reordenação dos departamentos concretos cerebrais, usando-se para isso uma forma analógica de pro- cessamento, é trilhar a lenta gênese do que chamamos de proces- samento mental. Tem base no cérebro, mas não se confunde de manei- ra física com partes dele, como se fosse uma sala com divisória clara. Mais que isso, utiliza-se de um estilo analógico de processamento tem- poral de informação, baseado no talvez, para que se encaminhem decisões complexas e com alto teor de criatividade. A mente não surgiu apenas porque o sim/não virou talvez. Sur- giu também graças a outros elementos: linguagem, acréscimo neuronal, particularmente nas regiões neocorticais, e formação de sociedades. Toda vez,contudo, que se procura na empresa concreta cérebropp det,artamento "mente ou vela sala onde está a memória, o vensamento ou a

reggmparam eii comitês, criando, jm, base para o surgimento da

O SITIO DA MENTE

DIVISÓRIAS E COMPARTIMENTOS

O cérebro é uma empresa mais ou menos rígida no que diz res- peito ao processamento de funções básicas. Há departamentos concre- tos que cuidam da defesa, da respiração, do controle de hormônios, etc. No entanto, com a evolução, surgiram problemas novos, imprevisíveis e com uma lógica que requer sutilezas do tipo "talvez". Não é possível responder sim ou não de maneira linear. As vezes, é mais ou menos sim, mais ou menos não. Para enfrentar a novidade, a ambigüidade e a criação, foi preciso recrutar elementos que já estavam lotados em departamentos concretos de modo que, formando comis- sões, começassem a forjar a mente. Nos departamentos concretos há variados tipos de organização em andares, salas, divisórias. Falar dessa organização, embora interes- se, pouco diz a respeito da mente. Grande parte dos livros sobre ela acaba por citar estruturas cerebrais como o lobo frontal, o sistema límbico, e outras, sem com isso resolver o impasse. A mente está ali? Não, simplesmente não está em departamento concreto algum. Sig da dinâmica de recrutamento de funcionáriosdedepartç- cretos em comitês mais ou menos fixos. cerebrais assusta e

não esclarece. Por outro lado, um livro que fale da dinâmica de recruta- mento pode parecer distante do cérebro. Não é. 0 cére ro,i operar a transformacão do neurônio dieital em analó2ico, do sim ao talvez. tou uma forma de

em máquinas.

O comitê é uma forma de departamento que possui algumas pecu- liaridades:

(»ião precisa de local fixo para a reunião;

o seus integrantes não são tão importantes quanto a lógica de

seu recrutamento; Code se reunir em diferentes pontos de um prédio, inclusive

fora

ue a mente fosse esDírito. Não é estírito. salvo se

A falta de local fixo. entre outras

suscitou a im-

nnrcilip

tem data e local certos para se reunir. Dizer, porém, que o

sítio da mente é o cérebro não significa confundi-Ia com qualquer um dos departamentos cerebrais concretos, proclamando sandices do tipo: a

DEPARTAMENTOS CONCRETOS E VIRTUAIS

mente é o neurônio, ou a sinapse, ou o lobo frontal, ou o córtex associativo.

A necessidade recruta certos departamentos e membros. A reu-

nião gera soluções. Se as soluções são satisfatórias, no futuro esse con- junto pode ser chamado novamente. Se começam a aparecer problemas semelhantes àquele já resolvido por um determinado conjunto, pode- se fazer com que aqueles elementos se transformem em departamento virtual permanente - um comitê com certas características que devem ser preservadas. Ninguém é insubstituível no departamento virtual (aí está a base da reabilitação após certas lesões neurológicas). Basta que se encontre a regra de formação daquela comissão e se convidem pessoas com características mais ou menos próximas de modo a manter a lógica da reunião.

O cérebro humano existe há alguns milhares de anos. A mente

humana (pelo menos como a concebemos) talvez há um pouco menos, tendo surgido lentamente a partir de problemas que se impunham e para os quais a estratégia de convocar departamentos virtuais mostrou- se boa? Dos acertos de alguns desses departamentos formaram-se comitês quase fixos que permanecem operantes até os nossos dias. Esses comitês são fixos não por estarem situados no 30 ou 40 andar. Nem por recrutarem o neurônio do córtex colunar ou do sistema límbico. Mas por serem sempre recrutados para certas funções a partir de uma lógica que ordena neurônio colunar ou similar, neurônio límbico ou similar. Apesar de muita gente já ter sido ludibriada pelo similar, a regra sendo clara e o elenco bom, a

substituição não só é adequada como, às vezes, prepara excelentes no- vidades, além de impedir que o indivíduo, ao envelhecer ou sofrer certas lesões cerebrais, acabe com os departamentos virtuais.

A história evolutiva da mente é curiosa. Não se precisou esperar

milhões de anos até que uma mutação fizesse surgir um cérebro com um departamento concreto chamado mente. A lógica de reunião em comitês, propiciada basicamente pelo caráter analógico do potencial de

ação, possibilitou que a mente já estivesse pronta para começar a acontecer no cérebro humano. Mais interessante ainda é que, se hou- vesse um sistema com um departamento concreto do tipo mental, esse departamento instantaneamente deixaria de ser mente. Mente é, por natureza, uma regra de convocação e solução— regra dinâmica e código de convocação -, jamais estrutura estática que possa ser a priori desenhada para tratar do problema x ou y. Outra característica indissociável da lógica do departamento vir-

O SÍTIO DA MENTE

tual é a inteligência. A mente humana é considerada sinônimo de sistema inteligente, capaz de dar soluções novas e criativas a problemas desconhecidos. Inteligência é resolver algo para que não há ainda so,o específica. Do contrario, seiionhecimento ou técrii. Quando se co ocam divisórias e se assinam as carteiras de trabalho de especialistas em inteligência, eles imediatamente ficam burros porque esses departamentos devem deliberar com base no sim ou não. Embora departamentos concretos, lógica digital de tipo sim ou não, conhecimento e técnica, sejam todos fundamentais para uma série de funções, não são o elemento nodal de qualificação do que chamamos mente, pensamento ou inteligência. Qndo se tratasie um tipo peuli- ardj diçião que envolve novidade, prçndjzo, criatividade, o de- partamento não pode ter divisó nemçrtixa jemiierarquia severa nem rumos psácatabelecido,-u_

A natureza preparou o ambiente para que aparecesse esse tipo

de organização virtual. 0 cérebro humano, constituído por neurônios, sinapses, mensageiros e neurotransmissores, processava, como vimos, sim ou não (versão usual e digital do potencial de ação), mas já trazia escondido um código de barras na freqüência dos potenciais de ação (versão analógica do potencial de ação). O potencial no dendrito era variável (tanto no formato como na intensidade, o que também lhe conferia caráter analógico, do tipo talvez, na codificação da informa- ção), 0 tipo de deliberação que se fazia no corpo do neurônio podia seguir diferentes tipos, embora o mais freqüente fosse a soma simples, lembra-se? 0 pai tem 5, a mãe, 3 e o filho, 2. Somando-se, obtêm-se 10. Mas havia implícitos outros modos de reunião (decidir que norma deve otimizar uma reunião entre três contendores é matéria de inteligência) e de decisão diante de 5,3 e 2.0 mensageiro podia variar o formato e a quantidade de receptores, o que aumentava a conexão e a precisão entre dois neurônios (aprendizado, memória, hábitos, condicionamen- tos).

A mente estava pronta para surgir, bastando que o sistema se

organizasse de forma a fazer coexistirem departamentos fixos! concre- tos e departamentos virtuais. A lógica da reunião nos departamentos virtuais tomaria emprestada do neurônio, da sinapse, do neurotrans- missor e do mensageiro uma complexidade que já estava ali, para fa-

zer com que, nas situações triviais, os neurônios fossem funcionários digi- tais (sim/não) e, nas situações complexas, tomassem assento em ou- tros departamentos, podendo dizer talvez, justificar, criar e inventar.

A mente não precisava, assim, ser um novo cérebro nem um novo

DEPARTAMENTOS CONCRETOS E VIRTUAIS

departamento, já que havia uma empresa com malha rica de departa-

mentos, funcionários polivalentes e problemas novos às pencas, capaz de, aos poucos, fazer coexistirem departamentos concretos e virtuais, hierarquia rígida e pulverizada, decisão num só sentido e decisão em todos os sentidos.

O cérebro humano era essa empresa. Num dado momento, o

número de funcionários cresceu de maneira a possibilitar uma transi- ção de fase entre a antiga empresa (cérebro humano sem mente) e a nova empresa (cérebro humano com mente). Essa transição pode ter se dado quando a empresa atingiu dez bilhões de funcionários ou alguns trilhões de vias de contato entre eles. Aí, como no exemplo da água a 99

graus, um funcionário a mais, uma conexão a mais e

a divisória sumiu, surgiram-os departamentos virtuais e as decisões se

tomaram analógicas (a par de continuarem a existir os departamentos

concretos para todas as situações triviais que exigissem grande rapidez de ação).

A empresa continuou na avenida tal, número tal - no cérebro hu-

mano -, mas agora com dois tipos de processo decisório, o digital e o analógico, o de departamentos concretos estanques e o de departamentos

virtuais. Ambas são água, são a mesma empresa, são o mesmo cérebro estático, visível a olho nu. Mas a água liquida não é água vapor, não movi- menta uma locomotiva. O cérebro mente é água vapor que move a loco- motiva inteligente. Não tente achá-lo procurando na panela que fervia um instante atrás: evaporou e está em movimento frenético. -

a água evaporou,

O leitor pode dizer: "Não, senhor, não evaporou. Agua líquida e

água vapor são milhões de moléculas de água em estados diferentes. As moléculas sempre estiveram aí. Na água líquida e no vapor." Claro, o cérebro é um bilhão de neurônios. São eles que estão o tempo todo ali. As vezes, dizendo sim ou não, despachando nos departamentos tradicionais, não são mente. As vezes, conversando em locais virtuais, usando o talvez, são mente inteligente e criadora. Mas são neurônios sempre. Tenha em mente que a dinâmica de formação do mental se dá graças a um artifício de processamento dos sinais, porém, num nível muito baixo, há departamentos concretos que possibilitam que isso ocorra no ser humano e em nenhum outro animal. Olhando para o cérebro estático, vê-se uma face da moeda. Lá estão os departamentos concretos e seus membros. Coloque-o para funcionar e, na dinâmica neuronal, na profusão das formas elétricas que codificam o mundo, surgirá, a cada instante de maneira nova, o comitê que dá forma à inteligência, ao pensamento, à emoção, à vontade e, no final, à consciência.4

O SITIO DA MENTE

MAIS DIVISÕES NOS DEPARTAMENTOS CONCRETOS

Entender a organização da mente é tarefa que implica, em pri- meiro lugar, identificar os departamentos concretos da empresa cére-

bro. Isto é, conhecer as divisórias e departamentos que realmente estão localizados no 10 ou no 30 andar. O truque do cérebro humano é que ele não tem apenas um modo de ser dividido em departamentos concre- tos, mas muitos. Que todos os funcionários são neurônios, sabemos. Que a razão última que faz surgirem os departamentos virtuais é um determinado padrão de funcionamento do neurônio (analógico e não digital), tam- bém sabemos. Mas precisamos saber mais sobre os departamentos con- cretos, sobre os diversos tipos de divisórias que se podem colocar para que entendamos que combinações virtuais futuras podem aparecer. E

o leitor vai perceber que é nessas combinações que reside outra parcela

da mente. Isto é, os departamentos vão se tomando novas unidades como se fossem novos tipos de tijolos, cimento, vidro e ferro. Suponha um alfabeto constituído apenas por 4 letras: A, B, C e D. Devemos construir seqüências dessas letras duas a duas, sem repeti- Ias nem inverter sua posição (AB e BA são iguais). AB, CD, AC, BD, AD e BC são as combinações possíveis. Agora, imagine um alfabeto com mais elementos: A vermelho, A amarelo, A azul, A preto, B azul, B preto, C azul e D. Evidentemente, é possível construir mais coisas. Mas por que chamar de A azul, verme- lho, amarelo e preto? Porque, embora A possa ser de quatro tipos, de certa forma continua sendo A. Uma empresa cérebro, para início de operação, teria somente um tipo de funcionário, que executaria três funções interessantes. O funcio-

nário é o neurônio e as três funções são a ligação com o outro (a sinapse),

o tipo de mensagem que passa para o outro (escrita sob a forma de

neurotransmissor) e as alterações internas que sofre em função do tempo (isto é, o papel do mensageiro que vai mudando o perfil de seus receptores). Esse funcionário, lembre-se, não fala nossa língua, dá choques. Mas os choques são tão variados e com tantos formatos, fre- qüências, posições, locais e instantes diferentes que processam informações. Definitivamente, esses circuitos elétricos manipulam cor- rentes elétricas, freqüências, intensidades, portas abertas ou fechadas, etc. A linguagem corrente (essa que estamos usando para nos comunicar através deste livro) ficará para um pouco mais adiante. Para todos os efeitos, temos, então, na nossa empresa apenas

DEPARTAMENTOS CONCRETOS E VIRTUAIS

quatro letras para escrever coisas. Neurônios, sinapses, mensageiros e neurotransmissores. Que tal colocar algumas divisórias a mais? Cada neurônio poderá ser de três tipos. Cada sinapse, de três tipos. Cada neurotransmissor, de quatro tipos. O mensageiro também pode ser diverso, mas, para o nível deste exemplo, ficará sendo do tipo único.

Então, onde havia A, B, C, D temos agora A (tipo 1,2,3), B (tipo 1,2,3), C (tipo 1,2,3,4) e D. Percebe-se que, além da riqueza de codificação do neurônio e da sinapse, há ainda uma fonte suplementar de codificação. Para certos fins, consideramos o fato de ser A op-13. Para outros, consideramos Ai, A2, A3 ou A4. Vejamos, agora, os diversos modos d4éfinir os elementos fun- -

1) neurônios: sensoriais, integradores, motores; 2) sinapses: excitatónas, inibitórias e moduladoras; 3) neurotransmissores: dopamina, serotonina, aceticolina, nor- adrenalina; 4) mensageiros. Para dividir o cérebro, podemos usar uma divisória única, dizen- do que é constituído de células que codificam informação: os neurônios. Numa classificação mais detalhada, nomeamos quatro departamentos:

neurônios, sinapses, neurotransmissores e mensageiros. Dentro de cada departamento há funcionários distintos. No departamento sinapse, há três; no departamento neurotransmissor, quatro, e assim por diante. De maneira geral, essa é a lógica concreta sobre a qual a codificação analógica pode se debruçar durante o recrutamento dos departamen- tos virtuais. Há outras divisões que podem interessar, tais como os lobos ce- rebrais, o sistema límbico, etc. Estas, no entanto, contam apenas algo sobre o cérebro, pouco sobre a mente e mais assustam do que ensinam os que desejam somente entender como é possível fazer surgir mente a partir de um cérebro.

damentais do cérebro humano:

OS GRANDES DEPARTAMENTOS CEREBRAIS

Grupos de neurônios formam módulos concretos mais ou menos especializados em certas funções. Há também circuitos que privilegiam certos neurotrarismissores. E como se houvesse duas maneiras de dividir os departamentos concretos do cérebro: grupos de neurônios formando estruturas visíveis a olho nu; sinapses e neurotransmissores criando outros departamentos, chamados circuitos, especializados em certas funções.

O SÍTIO DA MENTE

De forma simplificada, o sistema nervoso humano é constituído por medula, ponte e cerebelo, mesencéfalo, diencéfalo e hemisférios cerebrais (Fig. 15). Para o nosso propósito, bastaria saber que os hemis- férios cerebrais se dividem em córtex cerebral (com os respectivos lobos, frontal, parietal, occipital e temporal), gânglios da base, hipocampo e amígdala (estes últimos, importantes para o processamento de emoções). No diencéfaio situa-se o tálamo, um dos grandes relés (filtros) de informação que chega ao córtex e estrutura, como veremos adiante, onde parecem ocorrer as sincronizações vitais para o surgimento da consciência e da atenção. A medula é uma das grandes vias (juntamente com algumas outras que vão direto ao cérebro) que trazem informação do corpo e de parte dos sentidos (olfato, gustação, dor, tato, visão, audição) e mandam in- formação para os músculos (responsáveis pela fala, pela locomoção) e para os órgãos. Assim, há controle do sistema sobre o músculo da perna, o que permite que saiamos correndo após uma ordem do cérebro, e também sobre a produção de hormônios, ou sobre o funcionamento intestinal, etc.

lobo frontal

diencéfa lq, (tálamo)

%j*1

lobo

medula

cerebelo

Fig.15 - Grandes "departamentos" cerebrais:

divisão macroscópica.

DEPARTAMENTOS CONCRETOS E VIRTUAIS

Da medula passamos ao bulbo e à ponte, que têm como função principal o controle da respiração e do ritmo cardíaco.

O cerebelo é uma estrutura que controla basicamente a coordena-

ção dos movimentos automáticos (por exemplo, equilibrar-se num muro), o que também inclui a parte automática, não-consciente, da fala, do pensamento, etc. As estruturas importantes seguintes constituem o sistema limbico, formado por outros tantos módulos responsáveis pelas emoções e afetos. No córtex cerebral, onde encontramos a divisão em lobos, estão as funções mais ligadas ao pensamento e à inteligência. O lobo frontal, no ser humano, tem um desenvolvimento bem pronunciado, o que pa- rece estar ligado à sua capacidade de gerar planos, metas e novidades. Cada sentido tem uma área de recepção no córtex. Ali processam-se decodificações e classificações. A informação vai, então, para as áreas associativas, sofre a confrontação com conteúdos emocionais ligados a

ela e, finalmente, passa para as áreas motoras ligadas à coordenação dos movimentos. Em linhas gerais, o que se pode falar de divisórias mais ou menos fixas (no sentido de grupos especializados de neurônios) está retra- tado acima. Acrescentemos os circuitos que resultam da combinação de tipos de neurônios, sinapses e neurotransmissores e teremos a ma- lha de departamentos concretos. O resto será departamento virtual e processamento analógico que recruta diferentes módulos e funcionários.

A INTEGRAÇÃO DE DEPARTAMENTOS CONCRETOS E O LENTO SURGIMENTO DA MENTE

A mente humana surge de um cérebro constituído por neurônios

e por ligações entre eles. Onde está a mente? Está no cérebro, mas é um

conjunto de funções gZie, bem entendido, pode ser replicado em máauinas e em tantos meios de suoorte auantos forem capazes de a iogica cie recrutamento ç conexao ae elementos. tn estão a consciência, a vontade, o pensamento, a emoção, a o aprendizado, a imagem, a estão essas funções no cérebro? A medida que certas tarefas se tomam mais complexas, vão sumindo os departamentos delimitados por divisórias e surgindo comitês ou departamentos virtuais em seu lugar. Se uma pessoa pergunta sobre a visão de um objeto, responde-se que a impressão visual vinda do meio externo sai da retina, dirige-se às áreas visuais no córtex occipital - onde são feitas as primeiras

O SÍTIO DA MENTE

decodificações (claro/escuro, perto/longe, rugoso/liso)' - e segue para áreas associativas que lentamente constituem um objeto pleno, consciente ou não. Quando alguém diz estar vendo uma caneta diante de si, sabe- mos que a imagem da caneta saiu da retina, foi para o lobo occipital e dali trafegou por uma série de circuitos (diferentes departamentos) até se constituir na consciência de que se está vendo uma caneta. Não se pode fazer um departamento para a visão, colocando-se divisórias em todas as áreas envolvidas entre a entrada do estímulo visual e a consciência visual do objeto. A medida que a informação chega às áreas associativas, os elementos processantes vão se sobrepondo, o que signi- fica dizer que ocorre virtualização do módulo antes concreto. Imagine que se queira fazer um departamento para a visão e outro para o olfato, com divisórias fixas tanto para a seqüência visual como para a seqüência olfativa (do estímulo de um cheiro à consciência daquele cheiro). Nas áreas de associação, os dois podem se cruzar. Apenas as seqüências iniciais de um processo de percepção seguem caminhos com divisórias mais claras (isto é, com departamentos mais concretos e com processamento digital). Um mesmo grupo de neurônios (ou um mesmo funcionário, no exemplo da empresa) pode ser usado em duas funções diferentes. Se isso ocorre com a visão e o olfato, o que dizer, então, do pen- samento, função que não tem répresentante inicial nos departamentos concretos sensoriais? Por isso, o pensamento é tão vital na caracteriza- ção da mente, tendendo a ser virtual por natureza. Pense numa conta de 2 + 2 chegando ao resultado 4. Há uma operação mental em curso. Não tente colocar divisórias claras tais que as somas fiquem num departamento e as subtrações em outro. Cálculos terão departamentos virtuais mais ou menos comuns, superpondo-se, às vezes, com áreas de processamento sensorial. Parece ser isso o que subjaz à descrição de alguns gênios, como Mozart, que relatava "ver a música". Para os estágios iniciais de processamento de informação no cé- rebro, há uma certa compartimentalização, que vai se perdendo à medida que progridem a complexidade e a associação intermódulos. Quanto mais próximas da consciência, mais se embaralham as unidades processantes recrutadas em comitê. Após um processamento inicial em departamentos mais específicos, tende-se a resolver qualquer questão em departamento virtual. Imagine uma informação visual e um cálculo. Se nas primeiras

DEPARTAMENTOS CONCRETOS E VIRTUAIS

etapas de processamento a região do cérebro é mais ou menos específi- ca e exclusiva, com o tempo (e são apenas alguns milésimos de segun- do) essa informação visual acaba sendo tratada em áreas que se superpõem. Do lobo occipital viaja para regiões subcorticais e daí pa- ra certas áreas do córtex. Também o cálculo seguiria percurso parecido, indo parar no córtex associativo. Ali acaba por se reunira maior parte das comissões. Essa última etapa parece estar intimamente ligada às habilidades mais profundas do ser humano: raciocínio, pensamento, reflexão e consciência crítica. Porém, como todas as informações passam pelo sistema límbico, onde sofrem uma espécie de tratamento emocional, o processamento final acaba por variar de pessoa para pessoa em função de um colorido emocional e valorativo, fortemente ligado à história individual de reforços positivos e negativos guardada pela memória.

A idéia de organização em compartimentos no cérebro humano

deve ser vista com cautela.Cuidado com a afirmação de que o hemis- fério direito processa informação espacial e o esquerdo, intormaçaó

lógica, ou que o lobo frontal é o centro da ética e assimpordiante.,Os fatos cruciais da mente humana - como a consciência crítica, a capa- cidade de refletir, o pensamento, a linguagem, a criatividade, o apren- dizado e a transmissão dele, a memória, o sonho, as emoções, as intuições - costumam ser processados numa região em que não há divisórias bem marcadas e iguais para todos, já que esses fatos mentais são fruto da reunião de unidades vindas de diferentes departamentos concretos. Alguns cientistas supõem que o cérebro humano seja uma rede totalmente conectada, como uma grande malha, onde a informação é processada. E como se a empresa fosse, num certo sentido, constituída apenas de departamentos virtuais. Embora não se precise chegar a esse extremo, já que nem todas as conexões são usadas o tempo todo, pode- se considerar que grande parte da atividade cerebral complexa (justamente a que é mental) se dá em departamentos virtuais. Em geral, portanto para que seja processada em todas as etapas, a informação precisa:

1) passar primeiramente pelo departamento concreto específico; 2) tomar variadas rotas, não ao acaso, mas arregimentando repre- sentantes para formar comissões (um representante do lobo temporal ou equivalente, mais um do sistema límbico, e assim sucessivamente).

O representante não precisa ser sempre o mesmo, apenas deve vir

das regiões certas. E isso o que faz com que, em vez de divisórias bem marcadas, haja apenas processo de escolha funcional e reunião virtual.

A complexidade dos problemas enfrentados pelo ser

O SÍTIO DA MENTE

de remanejamento dinâmico, mcom proniemas claros e rustoncos. um animal ou nasce connecenao seu inimigo ou, então, aprende rapidamente como ele é e como fugir dele. Se o animal resolve domar tigres, explorá-los, estudá-los e fa- zer deles enfeite para colocar na sala, é preciso criar um sistema que vá gerenciando essas novidades, pois a natureza não pode prevê-las nem selecionar para elas departamentos fixos com divisórias claras. Vivendo num sistema rico, complexo, em constante mutação e produzindo alteração constante nesse meio, o ser humano não pode resolver grande parte de seus novos problemas através dos departa- mentos tradicionais. Tem de selecionar um modo de criar comissões para isso. A partir do momento em que são criadas, de acordo com a necessidade e a peculiaridade do sistema, essas comissões servem para estabelecer a regra dinâmica do "talvez" (código de barras) e não do "sim" ou "não". Se dão certo, ficam mais ou menos vitalícias, como se constituíssem um conselho de empresa (isto é válido para as funções superiores, como pensamento, memória, juízo, crítica, vontade). E o caso de Einstein, que tirou da cartola uma nova teoria acerca da natureza arrumando os conceitos de um jeito que ninguém havia pensado antes. Como a teoria foi bem-sucedida, criaram-se os instrumen- tos de transmissão de conhecimento necessários para que um estudante pudesse, lendo-a e estudando-a, formar uma comissão virtual no seu cérebro parecida com aquela que se formou na cabeça de Einstein quando a elaborou.

INTELIGÊNCIA E FORMAÇÃO DINÂMICA DE COMITÊS

Imagine que você está estudando um mapa de sua cidade. O que você procura ali são ruas, avenidas, bairros, pontos de referência. Diri- gir um carro nessa cidade requer um estudo do mapa para que se veja o caminho a seguir. Não se pode entrar na contramão, não se pode passar onde não haja rua, etc. Para ir do ponto A ao ponto B, há algumas alternativas, mas todas elas incluem ruas bem definidas. O processamento cerebral dos animais e de algumas porções não-mentais do ser humano (por exemplo, o controle da respiração) ocorre mais ou menos dessa maneira. Imagine, em seguida, que você vai correr no rali Paris-Dacar, dirigindo seu carro através do deserto. Claro que há bons e maus pilo- tos. Não pergunte a um bom piloto que trajeto deve ser seguido: não há mapa de ruas e avenidas, as coisas se passam dinamicamente. Onde

DEPARTAMENTOS CONCRETOS E VIRTUAIS

havia uma duna, agora não há. Onde se atolava, agora se encontra o único local de passagem. Se fosse totalmente ao acaso, a falta de ruas faria com que qualquer um conseguisse vencer. Mas não é. O bom piloto conhece truques para avaliar a situação a cada instante e criar uma saída. Aprende o truque, não o trajeto.

O córtex cerebral funciona mais ou menos assim: é um pouco

mapa de cidade com ruas e avenidas, um pouco rali no deserto. Os departamentos concretos são mapas com ruas e avenidas - circuitos preferenciais. Os departamentos virtuais são resultado de uma dinâmi- ca que vai mudando as coisas a todo momento e que deve ser desco- berta pelo piloto experiente - estradas múltiplas no deserto, simples- mente moldadas para que o indivíduo escape de atolar.

A mente é preferencialmente uma rota aue surge no deserto. Um

e criação. O bom

atola que seus truuues e habilidades inteligentes. É nisto que parece.ccmsislir grande parte das dnençíu4istúrbios mentais.

SÍNTESE

A grande dificuldade de compreensão da mente e de seu sítio

cerebral advém de uma peculiaridade de processamento: - enquanto

Não cabe criar devartamentos concretos vara vroblemas comvie-

com situações novás ç aue exigem aprendizado. IiiiIiigar de dar res-

tendi a avaliar cenários comniexos em aue a dinâmica analó2icad

Õneifrinio está habilitado a dar respostas digitais através do ca- ráter sim ou não do potencial de ação. Também está apto a dar respos- tas analógicas através da freqüência dos potenciais. Assim, para certos fins, temos departamentos concretos processando rotinas bem conhecidas. Para problemas complexos, temos a reorganização de departamentos concretos em comissões que podem usar o talvez como resposta.

O SITIO DA MENTE

Procurar a mente em regiões específicas do cérebro é estéril por- que sua lógica de aparecimento está calcada no recrutamento dinâmico de unidades que processam o talvez em comissões virtuais. Virtual aqui não significa imaterial ou evanescente, e sim dinâmica calcada no processo e estilo analógico de reunião (via código de barras), não necessariamente em local específico e com membros vitalícios. Cuidado, portanto, com afirmações de que esta ou aquela função mental está localizada num ou noutro ponto do cérebro. A inteligência, principal atributo da mente humana, é construção contínua de rotas em locais em que não há caminho único e imutável. Como numa corrida no deserto, o que é certo agora pode não ser den- tro de instantes. Em lugar de casuísmo ou indeterminação, a gdi- nâmica de seleção de membros em coniitêjo que propicia respostas adpara cada situação .j ilotiiteligente sabeoé fazer

atolar. Ao contrário, na maioria

mpre omemo trajeto aue o impedi

vèzeserpetindflugue de conducão, não a rota.

glios da base

lamo

é falo

Vista dorsal do tronco cerebral, ressaltando a presença do tálamo (última via de processamento antes do córtex) e gânglios da base, envolvidos no controle das emoções (parte do sistema límbico).

CIRCUITOS E SISTEMAS

Capítulo 5

CIRCUITOS E SISTEMAS

Certamente você já viu montagens em que várias telas de televisão são colocadas lado a lado, cada uma delas exibindo parte de um programa. A tela gigante dá, assim, a impressão de ser uma tela única. Esse efeito é obtido através de um software que separa a imagem inicial em tantos fragmentos quantas forem as unidades que compõem

a grande tela. Eis uma primeira idéia de sistema ou de circuito. A ima-

gem da grande tela é coerente. As individuais não, pois são parte do todo. Tela no sentido estrito são as individuais. Tela no sentido amplo, de meio para uma imagem coerente, é a grande, abstração multifacetada do processo de reunião e decomposição da imagem. Circuitos e sistemas são constituídos de partes idênticas ou dife- rentes, arranjadas de uma certa maneira no tempo e no espaço. São um todo constituído de partes, em que atuam duas lógicas: uma confere concretude física a cada uma das partes e a outra confere funcionalidade

funciojjjl ds narts.

São várias as maneiras de se montar um circuito/ sistema para desempenhar alguma função. Imagine que se vai montar um alarme. Colocam-se sensores para detectar fogo na garagem de um prédio. Esses sensores disparam um sinal que trafega por um fio ou por ondas de rádio e estimula uma central, que toca um alarme indicando o local que está pegando fogo. Aqui, temos um arranjo espacial da informação com dois elementos distintos— espa cia]porque temos um local que detecta e outro que toca; elementos distintos porque temos sensores e campainha. Imagine, agora, um termostato que deve ser acionado para regular

a temperatura de uma sala em 23 graus. Se a temperatura estiver acima de 23, ele executa a função de esfriar o ambiente, ligando o ar frio.

O SÍTIO DA MENTE

Se a temperatura estiver abaixo de 23, executa outra função, a de ligar o ar quente. O sistema termostato mais ar condicionado é cons- tituído de partes que jogam tanto ar quente como ar frio no ambiente. A posição do sistema, ar quente ou frio, depende da interação com o ambiente, a sala. Neste caso, temos um sistema que pode executar ações opostas, determinadas pelo estado do ambiente. Temos também um sistema espacial com partes distintas, mas que começa a ficar mais complicado, uma vez que, para entendê-lo, é necessário examinar a situação externa que coordena sua resposta de esquentar ou esfriar. Um rádio é um sistema que opera com partes-que detectam vari- ações temporais de ondas. Dependendo da freqüência de uma onda, há um canal de comunicação aberto. Imagine que um rádio seja construído de forma a detectar ondas que oscilam no tempo. Essas ondas podem ter freqüências variadas. Para a freqüência A, temos a estação A conectada. Para a freqüência B, a estação B. Neste caso, é preciso ter um aparato detector de freqüência, que é uma característica medida no tempo, para que se possa detectar a estação A ou B. O sistema "rádio" é dotado de partes espacialmente distribuídas, capazes de desempe- nhar funções diversas de acordo com a variação de uma informação no tempo: as ondas e sua freqüência. Sistemas e circuitos são arranjos de partes que desempenham funções especificas. Seu computador é dotado de circuitos específicos para operar diversas de suas funções: por exemplo, examinar arquivos, gravar na memória um documento, detectar falhas, etc. Cada circuito tem uma função especifica e, muitas vezes, pode haver dois circuitos que realizam a ação A e B conjuntamente com a ação C. Pense no corpo humano. O sistema digestivo é constituído de partes anatõmicas: boca, esôfago, estômago, intestino, etc. Porém, cada uma dessa partes tem outros sistemas e circuitos divididos em partes e com funções específicas. Para certos efeitos, pode-se dizer que a função da boca é recepcionar e mastigar o alimento e a do intestino, absorvê- los, eliminando os detritos. Pensando, contudo, numa substância espe- cifica, por exemplo, o macarrão, e em seu metabolismo de digestão, haverá partes do processo que se darão na boca e outras no intestino, reguladas por um terceiro órgão. As enzimas da saliva quebrarão o alimento (carboidrato) e o intestino, regulado pela insulina vinda do pâncreas, o absorverá. Para cada função há um arranjo do grande sistema em subsistemas que se reorganizam para desempenhar funções específicas. Uma peculiaridade dos sistemas e circuitos é que, dependendo

CIRCUITOS E SISTEMAS

de seu arranjo, mudam de comportamento. Imagine várias resistências de chuveiro. Colocadas em série, a resistência total é a soma das resistências individuais. Colocadas em paralelo, o inverso da resistên- cia total é a soma do inverso das resistências individuais. Isso é vital quando calculamos a corrente nos dois tipos de arranjo das partes - em série e em paralelo. Colocá-las em série ou em paralelo modifica radicalmente as propriedades do todo. O estudo do cérebro humano é ainda mais complicado que esses exemplos. Não é qualquer arranjo de departamentos concretos ou virtuais

que dá a mesma resposta. Há caminhos diversos por onde trafega a informa-

ção, e isso pode mudar o seu destino. O arranjo espacial, bem como a ordem de acontecimento dos fatos e sua distribuição ao longo do tempo, têm importância crucial no aparecimento de determinados tipos de deliberações. Veja o exemplo de um circuito cerebral muito geral. Um objeto impressiona a retina, conjunto de neurônios situados no fundo do olho. De lá a informação trafega até o lobo occipital, onde se processam contraste, textura, claro e escuro. Dali segue para o sistema límbico, para o tálamo e deste para certas regiões do córtex cerebral. Essa infor- mação será ainda reenviada para vários pontos pelos quais passou por um processo de contínua retroalimentação, que vai atualizando e aperfeiçoando a imagem. De maneira Muito simplificada, esse seria um

Pense que determinada decisão na empresa do nosso exemplo tem seis meses para ser estudada e ouhoras. O mesmo sistema terá um comportamento diferente em cada caso. A ordem dos módulos, suas propriedades individuais e o funcionamento final do circuito/siste- ma serão afetados pelo tempo e pela disposição das partes. Chama-se isso de propriedades emergentes. Quando se olha para uma molécula de água, não tem sentido dizer que é líquida ou sólida. A água, porém, resultado de bilhões de moléculas de H20 juntas, terá a propriedade de ser líquida ou sólida.

facilmente ardados:

o sob a forma de corrente elétrica.

O SITIO DA MENTE

4. Para certos fins, o códiw tudo ou nada

funciona como clepartam -effrõ concreto e á cÓdI de barras, como

departamento virtual.

5. Os neurotransmissores são a substância que carrega informa-

ção de um neurônio a outro na sinapse.

6. Os neurotransmissores podem ser de vários tipos.

7. Os neurônios se agrupam de variadas maneiras em circuitos e

sistemas.

8. As propriedades que surgem da disposição em sistemas po-

dem ser entendidas pela diposição espacial dos neurônios (ou de gru- pamentos deles - assembléias) e por certas propriedades temporais (lembre-se do exemplo do rádio). 9. Estudar o cérebro significa entender o neurônio, a sinapse, o neurotransmissor, os receptores, os mensageiros, os circuitos/ sistemas e o resultado do processamento, no tempo, das informações elétricas que transitam entre assembléias de neurônios. 10. A informação no cérebro está cifrada numa linguagem especi- al. Entender esse código e suas referências é o processo último de ligação do cérebro com a mente e com o mundo. Como no exemplo do termostato, devemos ainda, para entender as respostas do sistema, ter claro que não há sistema dissociado do meio em que está colocado. Portanto, somente compreenderemos al- gumas das ações do cérebro sobre o meio se compreendermos as ações desse meio sobre o cérebro.

SÍNTESE

A noção de circuito e sistema é fundamental para entender pro- priedades cerebrais e mentais. Se algumas propriedades surgem de uma parte, seu arranjo em sistemas pode fazer surgir novas e diferen- tes propriedades. Chama-se isso de emergência. Cérebros são sistemas que realizam funções diversas, de acordo com a ótica sob a qual são examinados. O arranjo digital determina certas propriedades. O analógico propicia o surgimento de novos ar- ranjos das partes, de modo que as fôrmas nas quais se depositarão as funções mentais estejam prontas. Um circuito especifica em sua arquitetura arranjos funcionais dinâmicos; no arranjo físico das partes se encontram as coações aos diferentes modos e finalidades de funcionamento. Uma estrutura de vigas e pilares de um prédio jamais poderá ser uma ponte.

cóDiGos E OSCILAÇÕES

Capítulo 6

CÓDIGOS E OSCILAÇÕES

0 grande impasse no atual estágio científico do estudo do cérebro e da mente é saber que código de comunicação é utilizado pelos neurônios para representar o mundo externo, interno, real e hi- potético no lento processo de forja das categorias mentais. Imagine que uma empresa deva tomar suas decisões de maneira sigilosa para que algum concorrente não roube informações. A empre- sa pode passar a codificar suas reuniões. Mas o que são códigos em última análise? Todos nós nos lembramos da brincadeira infantil da "língua do p". Acrescenta-se à sílaba falada uma nova sílaba, que troca a consoante por p. Na "língua do p", a palavra "casa", por exemplo, vira "capasapa" ("ca" + "pa" + "sa"+ "pa"). Pronto, é um código. Códigos são instrumentos convencionais e arbitrários em que trocamos a informação real por outra ou a modificamos, acrescentan- do algo. Normalmente, é uma regra que liga uma informação não codi- ficada a outra codificada (ou a um símbolo). Um indivíduo poderia chegar à reunião em sua empresa de pos- se de um livrinho com todas as substituições de letras ou de palavras e falar somente na língua codificada. Isso faria com que um espião da empresa rival não entendesse nada do que estivesse sendo dito, a menos que tivesse acesso ao livro ou tentasse (o que é possível) decifrar o código. Imagine que tenhamos algumas peculiaridades a mais no processo. O presidente, muito preocupado, não dá o livro a ninguém. Ao contrário, nenhum integrante da reunião sabe o código e fala nor- malmente numa câmara totalmente fechada. O produto é codificado, transitando cifrado pela empresa. A informação que trafega pelo cérebro humano está toda ela em códigos de barra - potenciais de ação isolados, no caso digital, e em grupos, no caso analógico. O código é esse e as reuniões deliberativas dentro do cérebro, seja nos departamentos concretos, seja nos virtuais, ocorrem usando essas convenções. Mostraremos agora:

a) o digital capaz de codificar objetos;

O SITIO DA MENTE

b) o digital capaz de codificar a conexão entre objetos (conectivos); c) o neurônio capaz de codificar a e b; d) o neurônio capaz de codificar conjunções especiais de a e b. Esse modo de apresentar o problema mostrará dois grandes esti-

los de modelagem da mente: a mente como programa mente como rede neural.

(software) e a

NEURÔNIOS E CODIFICAÇÃO

Os neurônios são capazes de codificar objetos, bem como

a con-

junção entre eles. Na codificação de objetos, há apenas uma relação entre algo e o disparo neuronal. Um neurônio que codificasse gatos seria responsável por disparar potenciais quando aparecessem gatos no campo visual, quanto maior o número de potenciais, maior a "confi- ança" do neurônio de ser aquele objeto um gato.' Numa outra versão, poderíamos simplesmente codificar objetos tais que, dado um objeto, houvesse uma seqüência de O e 1 que o codi- ficasse. A letra A poderia ser codificada como 0001, por exemplo. Quatro neurônios, os três primeiros silenciosos e o último gerando um potencial de ação, estariam codificando essa letra. Ambos os casos são relativamente desinteressantes, embora o primeiro responda pelo surgimento da concepção científica segundo a qual o cérebro teria para cada fato do mundo um representante próprio. (Seria o caso do painel do alarme que acende para cada área afetada.) Caso interessante é aquele em que o digital serve para ligar senten- ças através de conectivos. Imagine o caso de "Pedro quer tomar café" e "Pedro quer ir ao cinema". Cada um dos dois é uma sentença acerca de Pedro. Podem ser falsas ou verdadeiras. Além disso, a conjunção de ambas sob a forma "Pedro quer ir ao cinema e quer tomar um café" obedece a uma tabela que mostra como lidar com sentenças resultantes da união através de "e" quando: ambas são verdadeiras; ambas são falsas; uma é verdadeira e a outra, falsa e vice-versa.

Pedro quer ir ao cinema

Pedro quer tomar café

Pedro quer ir ao cinema e quer tomar café

sim(1)

sim(1)

sim(1)

sim(1)

não (0)

não (0)

não (0)

sim(l)

não(0)

não (0)

não(0)

não (0)

CÓDIGOS E OSCILAÇÕES

Portanto, se tivermos três neurônios, um representando a senten- ça "Pedro quer ir ao cinema", outro representando "Pedro quer tomar café" e o último representando a conjunção "Pedro quer ir ao cinema e quer tomar café", poderemos codificar, digitalmente, a tabela de pos- sibilidade de verdade e falsidade de cada uma das três sentenças, isto

é, das duas primeiras e da conjunção através do conectivo "e" de ambas.

A lógica nos fornece basicamente alguns conectivos como "e",

"ou", "então", "não". Através deles e de suas tabelas de verdade, po- demos codificar sentenças e conexões entre elas. Mais ainda, podemos construir as cadeias de inferência que mostram ser válido ou não, do ponto de vista lógico, um raciocínio. Veja que bastam três neurônios para realizar os conectivos "e", "ou", "então"e outros (dificilmente traduzíveis em linguagem corrente e que arbitrariamente são foijados em linguagens artificiais - Fig. 16).

potencial de ação sim ou não Ooul

eurônio 1

potencial de ação sim ou não O ou 1

neurônio 3

/

potencial de ação sim ou não O ou 1

neurônio 2

Fig.16 - Três neurônios codificando através de potenciais de ação, abertos ou fechados, sim ou não, as tabelas de verdade dos conectivos lógicos. O truque aqui é fazer com que o limiar do neurônio de cima somente admita disparar quando a soma for igual a 2 ou mais.2

O esquema da Figura 16 é, na verdade, um pouco mais compli-

cado. Da maneira como é mostrado, dá a impressão que há uma con- venção no disparo ou não, no O ou 1. De fato, é pela calibragem dos pesos da conexão e dos limiares que se pode deduzir o comportamen- to do terceiro neurônio.

O SÍTIO DA MENTE

Imagine que um impulso de valor 1 chega a uma sinapse. Esse im- pulso é multiplicado pelo peso da sinapse (a intensidade da ligação), que pode variar com a experiência - e é isto o que está na base do aprendi- zado. (Lembre-se, reforçam-se certas ligações e atenuam-se outras.) Supo- nha que nosso impulso de valor 1 chegue a uma sinapse de valor 2. 1 multiplicado por 2 é igual a 2. Logo, o impulso que agora trafega pelo dendrito é de 1 x 2 = 2. Ao chegar ao corpo do neurônio, encontra um limiar de 2, o que dispara um potencial de ação. Isto porque qualquer estímulo maior ou igual a 2 que chegue ao corpo de um neurônio que

tenha limiar 2 disparará um potencial de ação.

estímulo que chegue abaixo de 2 não disparará potencial de ação algum.

Vemos isto esquematicamente na Figura 17.

Assim como qualquer

impulso valor 1

sinapse

valor 2

limiar de

potencial. local de vaio

valor 2

potencial de ação (2 contra 2)

Fig.1 7 - Impulso de valor 1, multiplicado pelo peso sinóptico de valor 2, que atinge o limiar 2 do neurônio esquemático, disparando um potencial de ação.

Numa situação mais complicada teríamos (Fig.18).

impulso valor + 1

sinapse valor -2

sinapse valor +3

impulso

valor +2

v

'I-

.

-

?

- 2

reunião 6 = + 4

+

1.

JJmirdevalor+1

potencial de ação:

(4 contra 1)

Fig.18

- Dois impulsos de valores diferentes, ocorrendo em

dois dendritos e sendoposteriormente integrados no corpo

celular, onde se decide se supera ou nao o limiar para disparo do potencial de ação.

CÓDIGOS E OSCILAÇÕES

Pelo exemplo anterior, percebe-se que cada impulso chega a um dendrito com um certo valor, que é multiplicado pela força da sinapse. 3 Esta pode ser negativa ou positiva (lembre-se, excitatória, inibitória ou simplesmente moduladora, quando exerce apenas a função de filtro). Todos os potenciais locais resultantes da interação com cada dendrito trafegam até o corpo do neurônio, onde vão reunir-se. Para efeito de simplicidade, vamos considerar que a reunião desses potenciais seja sempre do tipo soma (embora, como mostramos em capítulo anterior, necessariamente não seja uma soma, já que os tipos de processo de decisão variam em função do valor de cada potencial). Assim, ao corpo do neurônio chega um valor de -2 (resultado de um impulso de valor 1 que chegou a uma sinapse de valor -2, logo =1 x -2) e outro de valor 6 (resultado de um impulso de valor 2 que chegou a uma sinapse de valor +3, logo = 2 x 3). Feita a soma (6 + (-2) = 4), como o resultado supera o limiar do neurônio (no caso +1), o potencial de ação é dispara- do. Isto é, a porta se abre e temos 1 em vez de O (caso da porta fechada). O leitor atento poderá se perguntar onde está o código de barras. Voltaremos a ele mais adiante. Por ora, procure fixar o conceito de que, do processo acima descrito, sairá um sim (potencial de ação, 1) ou um não (ausência de potencial de ação, O). Vejamos como fica o esquema para o "e" (Fig. 19) que descreve a conjunção de "Pedro quer tomar um café" e 'Pedro quer ir ao cinema".

sinapse +

limiar

ft%sinapse + 1

limiar +2

\

+ 1

limiar ~ 1

1S sinapse +1

Ibela do conectivo

A

B

1

AeB

11

1

10

0

01

O

00

O

Imagine agora se entrar 1 e 1 (em cada uma das duas entradas).

esquerda, temos 1 x +1 = 1. Supera o limiar 1. Passa para o neurônio de cima. direita, temos 1 x + 1 = 1. Supera o limiar

À

À

1. Chega 1 de um lado e 1 de outro ao neurônio final. Lá acontece lxi = lei x 1 = 1. 1 + 1=2 que supera o limiar (+2). Logo, sai o potencial de ação.

Para todos os outros casos não acontece isso

(para entrada 1 e O, O e

1, O e O).

O SÍTIO DA MENTE

Este esquema simples permite realizar muitos conectivos, como "e", "ou", "não" e "implica". (Veremos mais adiante que apenas o cha- mado "ou exclusivo" não funciona aqui.) Talvez por isso tenha levado à concepção de que os neurônios seriam responsáveis pela execução de conexões lógicas, operando em trincas (para o conectivo "ou exclusivo" há que se ter um neurônio a mais) e fazendo do cérebro algo muito semelhante a um computador digital. Creditada ao trabalho de McCulloch e Pitts, tal teoria ficou conhecida como "neurônio de McCulloch-Pitts". Computadores possuem conexões abertas ou fechadas (digitais),

e o programa é escrito de forma que essas conexões simbolizem os

objetos, as sentenças e as ligações lógicas entre elas. Há, porém, nítida

distância entre o nível do programa, onde estão sentenças e conexões, e

o nível físico, onde estão os códigos aberto ou fechado, sim ou não, que traduzem digitalmente as operações. Podemos fazer muita coisa com os conectivos, principalmente

com o "implica" ou "se

gras com que programamos computadores. Nesta concepção, o neurônio seria uma máquina que instancia O e 1, codificando objetos e relações de objetos através de conectivos. A mente seria um programa e o cérebro, um meio físico digital de realiza- ção de tabelas de verdade. O modo como isso se processa foi mostrado acima. No entanto, há um conectivo cuja tabela requer mais neurônios,

o "ou exclusivo", que motivou um complicada guinada na história dos modelos mentais.

então", base de uma série de ordens ou re-

NEURÔNIOS ARTIFICIAIS E CONECTIVOS LÓGICOS

A história dos modelos de mente e de sua relação com o cérebro conheceu diferentes etapas. Uma primeira versão postulava que a mente era um programa (software) de computador e o cérebro, a placa (hardware). Conhecer a mente seria conhecer as regras do programa e as leis lógicas de conexão entre as sentenças. Os três neurônios mostrados anteriormente deram suporte a esta idéia por serem capazes, tal qual um computador digital, de instanciar as tabelas de verdade dos conectivos lógicos. Mas, como a mente não é feita somente de regras lógicas, nem é programa, surgiram as redes neurais baseadas em neurônios artificiais, nas quais não havia programa. Elas não eram, contudo, capazes de resolver certos problemas, como a tabela de verdade do conectivo lógi-

cÓoicos E OSCILAÇÕES

co "ou exclusivo". Para tornar isso possível, foi necessário um refina- mento: a inserção de um neurônio a mais numa camada intermediária das redes. Vai daí aue a concepcão da mente cmororama tornouse com uma rede neural de base que realizasse os conectivos

no fato de as redes neurais realizarem os

no

Toda essa problemática desembocaria num terceiro tipo de mo- delo que considera o neurônio um aparato analógico capaz de codificar através da freqüência e do intervalo de potenciais. Voltemos, agora, à questão dos três neurônios e da realização de um conectivo como o "ou exclusivo".

PROCESSAMENTO TEMPORAL

Problemas importantes não são resolvidos pelos três neurônios. Há um tipo de "ou" (chamado "ou exclusivo") que tem uma tabela diferente do "ou convencional". Imagine que se dissesse: "Pedro tem um livro ou Pedro tem uma televisão". Não há incompatibilidade se as duas sentenças forem verdadeiras. A conjunção através do "ou" entre ambas também é verdadeira. Porém, "Pedro tem um bolo ou Pedro come o bolo" é diferente. Ambas não podem ser verdadeiras porque, se Pedro tem um bolo, ele não come o bolo e, se come o bolo, não tem o bolo. Neste caso, a conjunção das duas sentenças verdadeiras através do "ou" é falsa. Essa é a diferença entre o "ou convencional" e o "ou exclusivo". Compare as duas tabelas de verdade:

"ou convencional"

A

B

A ou (convencional) B

V

V

V

V

F

V

F

V

V

F

F

17

"ouexdusivd'

0 Sf110 DA MENTE

A

B

A ou (exclusivo) B

V

V

F

V

F

V

F

V

V

F

F

F

A tabela do "ou" tradicional tem as três primeiras linhas verda- deiras (para o caso de A ou B). Já a do "ou exclusivo" tem de diferente a primeira linha. Tente agora, usando apenas três neurônios, como vi- mos na Figura 19, calibrar limiares de modo a instanciar a tabela de verdade do "ou exclusivo". Não há meio de fazê-lo, e isso representou um empecilho enorme na história do desenvolvimento das redes neurais (as primeiras redes, percéptrons, eram semelhantes à arquitetura de três neurônios). Sem o neurônio intermediário (camada oculta), não seria possível realizar algumas funções (de maneira ampla, as funções que envolves- sem separabilidade linear), como é o caso do "ou exclusivo". Veja na Figura 20 como é resolvido o problema do "ou exclusivo". E através de arquiteturas análogas, isto é, com camadas ocultas, que toda classe de funções que envolvem separabilidade linear é resolvida.

+1,

/

/

90*

\)o

5

neurônio4

1-

'4

c:::

Fig.20 - Como quatro neurônios implementam o conectivo lógico "ou exclusivo".

CÓDIGOS E OSCILAÇÕES

No caso da Figura 20, se tivermos a entrada de dois valores ver- dadeiros, 1 no neurônio 1 e 1 no neurônio 2, o que acontecerá? Fazendo as contas, no neurônio 1, 1 multiplica +1, indo para o neurônio 3. No neurônio 2, entra 1, que é multiplicado por +1, indo para o neurônio 3. Ao neurônio 3 chega 1 do neurônio 1 e 1 do neurônio 2. O limiar do neurônio 3 é 1,5. Como temos 1 + 1 = 2, o 2 passa pelo limiar 1,5. Ao neurônio 4 chegam, ao mesmo tempo, 1 do neurônio 1,1 do neurônio 2 e 2 do neurônio 3. A integração é então 2 x (-2) +1+1= -2. Como o limiar do neurônio 4 é 0,5,0 valor -2 não passa. Assim, se entrar comi e 1, não sairá nada. Se entrar como 1 e O (ou com O e 1)? 1 xl e O xl (ambos chegando ao neurônio 3). Como o limiar do neurônio 3 é 1,5, no caso de 1 e 0,0 e 1,0 e 0, ele não deixa passar nada. 1 e O ou O e 1 chegam ao neurônio 4 e são as- sim integrados: 1 x 1+1 x 0 = 1, que, sendo maior que 0,5, faz passar para

a frente o potencial de ação. No caso de O e 0, não passa nada porque não chega a exceder o 0,5 do limiar do neurônio 4. Vê-se dessa maneira que:

a) por meio de sinapses, de reunião e decisão no corpo neuronal

e de potenciais de ação (acima do limiar da porta do axônio), os neurô-

nios podem realizar as funções de codificar Verdadeiro ou Falso, 1 ou 0;

b) é possível codificar objetos (no caso de letras, por exemplo,

0001 seria um A e assim por diante) ou codificar operações lógicas sobre sentenças: Pedro vai ao cinema "ou" Pedro come goiabada - A ou B;

c) os conectivos "e", "ou", "implica" (se

então), etc. são ferra-

mentas poderosas para construir raciocínios (inferências necessárias que estão na base dos argumentos, da razão, do pensamento);

d) esses conectivos podem também ser realizados por conjuntos

de neurônios, três para a maioria deles, quatro para o "ou exclusivo";

e) há certos problemas (de separabilidade linear) que podem ser

resolvidos por quatro neurônios, o que os transforma em instrumentos

capazes de fazer praticamente qualquer coisa em termos de cáltulo. O mais importante aqui é mostrar quanto um sistema simples de três neurônios (às vezes, quatro) pode realizar em termos de codificação e manipulação lógica. A base dos computadores está explicada. Quando falamos de funções digitais, estamos imaginan- do um computador que implemente conectivos lógicos. O neurônio digital, dotado de camada intermediária, pode instanciar todos os conectivos lógicos, até mesmo o "ou exclusivo". Se construirmos redes de neurônios como as mostradas nas figuras, poderemos rea- lizar operações digitais complexas que simularão a mente humana, tendo por trás "neurônios" digitais.

- O SÍTIO DA MENTE

-

O NEURÔNIO E A CODIFICAÇÃO TEMPORAL

Quando se colocam pesos nas sinapses e integração no corpo neuronal e há ainda um limiar, temos uma porta que, no final das contas, deixa passar ou não um potencial de ação. Essa porta está aberta ou fechada, respondendo como um sim ou não, como 1 ou O. O cérebro deve usar esses mecanismos para grande parte de suas funções, as que chamamos de departamentos concretos com divisórias claras. Claro que afirmar que a mente nasce da capacidade de formar departamentos virtuais baseando-se somente na capacidade analógica ("talvez") dos neurônios é ir ao extremo. Não há uma relação estrita entre o analógico (talvez) e o mental, de um lado, e o digital (sim ou não) e o não-mental, do outro. Sabemos, no entanto, que o poder de cálculo (ou de computação, que quer dizer a mesma coisa) aumenta brutalmente quando podemos usar o digital e o analógico. Já vimos todo o poder do neurônio digital, "sim ou não" (depar- tamento concreto). Vejamos agora, para finalizar 1o neurônio analógico, "talvez" (departamento virtual), tentando entender o que o limiar tem

a

ver com o código de barras. Imagine que de uma decisão no corpo neuronal resultou 8 e que

o

limiar é de 0,5. Isso significa apenas que vai haver um potencial de

ação e pronto? No sentido digital, sim. No sentido analógico (código de

barras), não. Se uma soma no corpo neuronal der 5 e outra der 8, talvez

o limiar 0,5 não faça com que passe apenas um potencial de ação nos

dois casos. Vimos atrás que o potencial de ação tem sempre a mesma amplitude (isto é, o mesmo tamanho). Porém, se o potencial de ação é tudo ou nada (sim ou não), existe uma série de potenciais de ação que podem surgir após a superação do limiar (o que será diferente no caso de 8 ser maior que 0,5 ou de 5 ser maior que 0,5). Essa série de potenciais fará um código no tempo:

No exemplo acima, temos variação de intervalo entre os potenciais

e também variação de quantidade. Essas duas grandezas, freqüência e

quantidade, criam no tempo um código que pode (como o código de barras) transmitir informação. E o código que utiliza essa grandeza tem- poral, a freqüência, através da quantidade de potenciais de ação, o reponsável pela criação de diferentes departamentos virtuais. Ao con- trário do que ocorria no caso do limiar e do potencial de ação, o neurônio

CÓDIGOS E OSCILAÇÕES

não é mais apenas uma porta por onde passa ou não uma informação. Não é um aparato que apenas responde sim ou não. Ele passa a transmitir várias nuanças através do código temporal. Essas sutilezas correspondem a dizer que entre o potencial de ação passar ou não passar, entre a porta estar aberta ou fechada, há um sem-número de estados de porta entreaberta. O código analógico faz agora do neurônio uma máquina mais polivalente, capaz de desempenhar várias funções nos departa- mentos virtuais, onde o código é "talvez". Quando se fala em realizar esse processo, deve-se saber que há uma espécie de oscilação que responde pela geração dos códigos de barras (Fig. 21):

caso 1

caso 2

caso 3

Fig.21 - Potenciais de ação vistos sob a forma de oscilações: caso 1, um potencial; caso 2, dois potenciais; caso 3, dois potenciais mais espaçados (codificando pelo número de potenciais um mesmo objeto, porém, diferentes objetos se considerado o intervalo diferente entre eles).

No caso 1, temos apenas uma onda (um potencial de ação). No caso 2 e no 3, temos dois potenciais de ação, mas separados no tempo. No caso 2, os dois potenciais são mais próximos; no caso 3, mais distan- tes. Quando damos o exemplo do código de barras, é como se traduzís- semos estes três casos da seguinte forma:

Claro que são diferentes. O caso 1 é o que responde pela tradu- ção digital (é um 1 e não um O). No caso 2 e no caso 3, temos mais potenciais de ação, além de uma distância temporal que também per- mite fazer diferenciações. E fundamental entender que o potencial de ação, isolado ou em grupos, é sempre uma oscilação. Uma oscilação é aquilo a que você assiste no pêndulo de um relógio de cuco; ou numa mola esticada que, solta, começa a ir e vir. Podemos definir a freqüên- cia com que o pêndulo faz um trajeto completo, e assim por diante. Neurônios são, portanto, máquinas que geram oscilações, sejam

O SiTIO DA MENTE

os potenciais locais na árvore dendrítica ou o potencial de ação no axônio. Quando medimos a freqüência dos potenciais de ação, procuramos duas coisas:

a) códigos que utilizem aquela freqüência; b) freqüências semelhantes, em outras partes do sistema, que poderiam sintonizar como se fosse um rádio. No caso de uma letra, podemos codificar:

a= 1

b = II

c= II Este seria o caso análogo ao da codificação digital de letras, por exemplo a = 00001, b =00011, etc. Porém, no caso do rádio, o que está em jogo é a noção de sincronizar numa determinada freqüência. Quan- do o sistema manda um código de barras, o que está mandando é basicamente uma mensagem, como uma onda de uma transmissora de rádio. Outro neurônio que seja capaz de sintonizar aquela freqüência entra em contato com ele. Essa noção de sincronização ou de afinamento (como a de uma orquestra que afina seus instrumentos) é uma das mais poderosas formas de integrar neurônios, ou grupos deles, e fazê- los agir cooperativamente por alguns segundos, ou frações de segundos, de modo a resolver um problema (Fig. 22).

CÓDIGO DIGITAL O ou 1 entre dois neurônios

- ->

Iimi

> fl

-

-

) pot. ação (sim)

passo

mensagem 1

CÓDIGO ANALÓGICO entre dois neurônios

-

->

D

li—li Ti

potencial de ação analógica, entre o sim e o não

produziu uma sincronização entre dois neurônios, não apenas transmitiu um sim ou um não

Fig.22 - Diferença da relação digital e da analógica entre dois neurônios.

O código de barras permite que diversos grupamentos de neurô-

nios (assembléias) entrem em sincronia (se sintonizem). Seria como se, durante alguns instantes, diversos funcionários, que desempenhavam suas tarefas rotineiras de dizer sim ou não no departamento concreto,

CÓDIGOS E OSCILAÇOES

entrassem em contato, através do código virtual, para tentar chegar a um acordo sobre uma certa modalidade de talvez que pudesse servir de denominador comum. Um funcionário dá uma opinião, codificando-

a numa freqüência. Um segundo funcionário dá outra, codificando-a

numa freqüência diferente. A solução do problema é a sintonização dessas diversas freqüências. Se você entendeu esses passos, saiba que

está habilitado a entender que:

a) como máquina digital o cérebro pode codificar em seqüências

de O e 1 inúmeras coisas;

b) como máquina digital o cérebro faria operações como se fosse

um computador desses usados nos dias de hoje;

c) através do código de barras (analógico), é possível aumentar a

capacidade de codificar; d) através da sintonização da freqüência das barras, é possível

colocar em sintonia departamentos diversos, afinar seus instrumentos

e comparar memórias, reunir esforços distantes e finalmente gerar a

consciência de um objeto, cujas partes são percebidas por neurônios em pontos diferentes do cérebro; através da sintonização na mesma freqüência, as partes podem ser percebidas na mente como se fossem uma só coisa;

e) a freqüência recruta o tempo como fonte de codificação, por-

que não importa apenas estar aberto ou fechado, mas sim quanto tempo

e com que intervalo. Inserir o tempo como fonte de codificação é um dos grandes achados da evolução para aumentar exponencialmente a capacidade de processamento do cérebro. Daí, os termos código e processamento temporais.

SÍNTESE

Quando se estuda o cérebro e sua relação com a mente, o grande desafio é desvendar o código que os neurônios utilizam para representar objetos e relações entre objetos. A concepção digital nos fornece duas maneiras de entender a codificação: a primeira associa um neurônio a um objeto; a segunda associa conjuntos de neurônios (três ou quatro) a conectivos lógicos. As redes neurais foram uma tentativa de romper a barreira da concepção de mente baseada em regras lógicas. Não eram capazes, inici- almente, de instanciar o conectivo lógico "ou exclusivo". Foram desacredi- tadas como modelo até que, com o recurso do neurônio extra - da camada oculta—, passaram a resolver os problemas de separabilidade linear.

O SÍTIO DA MENTE

As redes neurais seriam, então, capazes de instanciar todos os conectivos, sem precisar com isso pagar o preço de separar o programa do nível físico, como veremos mais adiante. Porém, a codificação temporal genuína não seria nem uma nem outra. Lançando mão de conjuntos de potenciais de ação, faria do analógico a fonte temporal de representação. O neurônio constituiria a base da instanciação do digital simples (objetos), do digital lógico (sentenças e conexão lógica entre elas) e ainda de uma terceira via de codificação: o código de barras. Temos, então, dois códigos: o digital e o analógico. O primeiro codifica objetos e conexões lógicas entre eles. O segundo extrai da variação do intervalo temporal entre os potenciais uma nova fonte de codificação.

1. ligação intacta

Thl

Th2

ThS

sincronização entre o tálamo e o córtex

(:tálamo

2. ligação rompida

2WVVI

Thl

Th2-

Th3

±i

Circuitos tálamo-corticais exibindo, na porção de cima, sincronização; na porção debaixo, note com as ondas dessincronizam. Esses circuitos entre o tálamo e o córtex são os mais importantesoara a geração de consciência e controle da atenção.4

ORIGEM DE CÓDIGOS E TELAS

Capítulo 7

ORIGEM DE CÓDIGOS E TELAS

Amente humana é uma espécie de palco onde são encenados todos os fatos da vida. Mesmo se fecharmos os olhos, continuaremos a ver, sentir, cheirar, pensar e representar um mundo mental. O proble- ma do código está justamente nessa peculiaridade: enquanto a mente parece por demais intuitiva e familiar, o cérebro parece distante, não intuitivo, mostrando-se presente apenas nas enxaquecas. A mente é cheia de objetos do mundo, de emoções e planos. O cérebro, órgão mole e cinzento, tempestade de potenciais elétricos. Definitivamente, sem um código de transposição, esses dois mundos, mente e cérebro, seriam inconciliáveis. As pessoas estão acostumadas a viver num mundo de imagens, de mesas, de cadeiras, de pessoas, de palavras escritas ou faladas, de raciocínios construídos com palavras, de emoções que são medo, dese- jo, ódio, rancor, etc. De repente, começamos a falar da mente humana sem fazer referência a nenhuma dessas coisas. Em vez disso, detivemo- nos até aqui apenas em sinais elétricos, sinapses, mensageiros, portas (limiares), etc. Pois imagine que esse é o código escolhido por uma empresa para cifrar tudo o que ocorre numa determinada reunião. Durante essa reunião, as pessoas falam palavras em linguagem corren- te, desenham, sentam-se, levantam-se. No entanto, o que sai como relatório final de tudo o que se passou ali é uma infinidade de códigos de barra que traduzem (codificam) todas as informações (Fig.23). 1 No exemplo abaixo, suponha que João e Paulo sentem-se à mesa

co

Fig.23 - Reunião de dois funcionários numa sala sendo codificada sob a forma de oscilações (códigos de barra).

O SÍTIO DA MENTE

para discutir um determinado assunto da empresa. O presidente, cau- teloso, quer que tudo seja codificado. João, Paulo, imagens, sons, odo- res, palavras, sensações corporais (por exemplo, se a cadeira é confor- tável ou não), a deliberação final, tudo será transformado, por uma supermáquiria de codificação de cenas, em código de barras (que vi- mos anteriormente serem osdilações). Inventada por um cientista genial e recém-adquirida pela empre- sa, a supermáquina é um cérebro artificial capaz de traduzir cada peda- ço de informação para o mesmo código de barras que um cérebro humano

usaria ao assistir à reunião. É exatamente isso o que fazemos: percebemos

o mundo através de nossos órgãos sensoriais - visão, olfato, paladar, au-

dição, tato - e codificamos todas as informações em códigos de barras que

vão trafegar pelos neurônios. A máquina comprada pela empresa por enquanto não existe. Não sabemos ainda que códigos de barras traduzem cada pedaço das cenas do mundo. Portanto, não há pessoa neste mundo que possa, olhando apenas para a mensagem codificada, extrair o conteúdo da reunião. Mas qualquer cérebro faz isso. Se, num lance de ficção científica, injetássemos a mensagem codificada da reunião no cérebro de qual- quer um de nós, ela apareceria exata em nossa mente. 2 Existe um código que traduz as cenas do mundo (externo e inter- no) em oscilações neuronais (código de barras). Essas oscilações, quando sincronizadas, é que fazem aparecer no palco da mente as cenas como as percebemos. Se a máquina do cientista maluco conseguisse cifrar a reunião em código de barras neuronal, seria código para ninguém botar

defeito. Nos dias de hoje, o único jeito de decodificá-lo seria enxertando-

o num cérebro. Por ora, não sabemos como o cérebro traduz cada pequena parcela do mundo para códigos de barras. Olhamos para a atividade cerebral através de eletrodos enxertados nos neurônios, de eletroencefalogramas (EEG) e de outros métodos que captam atividade elétrica e vemos apenas uma série infindável de oscilações em freqüências diferentes. O que está ali: uma tempestade elétrica, ruído puro, distante da forma e dos conteú- dos mentais? O cientista sabe que ali estão todos os códigos de barras que traduzem as experiências do indivíduo (Fig. 24). Muitas pessoas, quando observam a atividade elétrica do cérebro num eletroencefalograma, por exemplo, fazem o papel de um espião da empresa concorrente que olha o código de barras que a máquina maluca gerou para codificar a reunião. Acham que aquilo não quer dizer nada e desistem. 0 cérebro codifica a informação do mundo e

menina no m,,nrIn

ORIGEM DE CÓDIGOS E TELAS

ca

'

001

-

>1 I
-

rrenina na mente

menina nos olhos

11111

1

1

II

II

menina no cerobro

11111

1

Fig.24 - Menina no mundo sendo codificada em código de barras no cérebro e posteriormente, decodificada, para que apareça a menina na mente.

depois a decodifica para que ela apareça de modo compreensível na mente. Mas a mente está no cérebro e ela própria também é código de barras. Como entender isso, então? Volte para a Figura 24. A impressão que dá é a de que a menina no mundo é idêntica à menina na mente e que a primeira se transforma na segunda diretamente, sem passar pela confusão do código de barras. Ao contrário, no mundo não existem meni- nas, nem na mente, nem no cérebro. Só existem códigos de barras (oscila- ções em diferentes freqüências) em toda parte (Fig. 25). A mente humana é uma espécie de aparato que permitiu que códigos de barras no mundo (oscilações) e códigos de barras no cérebro (oscilações) adotassem um denominador comum que é uma menina visual, uma menina falada, uma menina escrita, etc. A medida que nos desenvolvemos desde crianças, vamos aprendendo a correlacionar

III

1

II

,

II

mundo

III

r

ou menina

(linguagem)

Fig.25 - O mundo é feito de oscilações captadas pelo cérebro, codificadas através de outras oscilações e, finalmente, decodificadas pela mente.

O SITIO DA MENTE

objetos do mundo (oscilações) com objetos do cérebro (oscilações). Estabelecida essa primeira sintonia entre a estação de rádio-mundo e o aparelho de rádio receptor-cérebro, passamos a correlacioná-la com outra classe de oscilações: a linguagem (Fig. 26). Um animal e uma criança pequena têm apenas reações de tentati- va de sincronização das oscilações do mundo e das oscilações de seus cérebros. Porém, não há objetos no mundo, tais como acreditamos per- ceber com nossa mente. O que há são oscilações luminosas, sonoras, etc. Se conseguirem sincronizar mundo e cérebro, surgirá um potencial

III

II

II

liii

mundo

III

II

II

11111

mente (linguagem)

III

II

II

11111

cérebro

Fig.26 - Três ordens de eventos oscilatórios: mundo que é codificado, cérebro que codifica e linguagem que os traduz e interpreta.

incrível, permitindo que se executem variadas operações concretas ou imaginárias, externas ou internas. E isso o que acontece com um morcego, que se guia através de oscilações vibratórias captadas pelos ouvidos. Sua navegação não pressupõe uma tela mental, mas apenas o acoplamento sincronizado de mensagens sonoras do ambiente e do seu radar nos ouvidos. Fica difícil dizer se há mente num animal ou se há mente num bebê muito pequeno. 3 Imagine, agora, que se foram estabelecendo relações entre oscila- ções do mundo e oscilações do cérebro. Aos poucos, aparece uma on- da de sintonia entre as oscilações cerebrais que, unificadas, constituem a mente (Fig. 27). A medida que diferentes modalidades sensoriais e também simbólicas (linguagens) de falar de um "objeto" do mundo foram sendo criadas, primeiramente elas se sincronizaram com o cére- bro e depois entraram em sintonia dentro dele, entre si, criando aos poucos uma unidade nos objetos percebidos que não existe no mundo. A imagem e o cheiro de uma mulher parecem fatos do mundo e no mundo, mas certamente chamá-la "mulher" é uma disposição arbitrária. O processo de integração formou mulheres, cheiro de mulher, nomes escritos e falados de mulher na mente, que é apenas um depar- tamento virtual que sincroniza (sintoniza) todas as oscilações (ou códigos de barras) concernentes a um dado objeto. Esse objeto, agora na mente,

ORIGEM DE CÓDIGOS E TELAS

menina fala a

4 menina e scrita

IIIl !! )eriI1 visualL_

ot

mundo

-9

1II 1 1

cérebro

Fig.27 - Esquema completo de oscilações ambientais e oscilações cerebrais. A sincronização de eventos cerebrais e ambientais seria responsável pela recepção. A sincronização de diferentes oscilações cerebrais (cada uma processando uma parte do objeto externo), pela unidade da percepção."

parece ter uma unidade, que é retransmitida através do ensino, da língua, da tradição, da literatura, da arte, de modo a constituir uma imagem mental do mundo. - Não éa mente ci_copia o mundo. Eo mundo, fragmentaslo em osdilacões, aue se parece com a unidade síncrona dos móduloscere-

Cida instância de um objeto é uma oscilação: a imagem da menina, seu cheiro, sua posição, seu nome, a grafia, etc. Cada estímulo desses chega a nós como um código de barras. O cérebro aprende a captar essa oscilação, o que significa criar uma oscilação sintonizada, processando cada módulo da menina em um departamento concreto da empresa-cérebro. A integração da menina através de departamentos virtuais advém, contudo, de uma segunda capacidade do cérebro: a de

sintonizar as instâncias internas da menina numa imagem única no palco mental. Essa capacidade parece ser o passo inicial para a formação da mente. Por integrarem oscilações ambientais, também os animais são ca- pares de criar imagens mentais parciais (parciais porque não dotadas de linguagem).Como o cérebro humano tem diante d um arsenal

ïe1 de instâdscrijõesticasda1cias

i

una qfaz

Finalmente, a mente tem a capacidade de tomar essa imagem una e transmiti-Ia através da linguagem oral ou escrita, criar símbolos com ela, fazer arte a partir dela, estudá-la, cantá-la em prosa e verso.

Ta mui

ç

n

O SITIO DA MENTE

A mente se volta para o mundo, redescrevendo-o através da

linguagem e da ação. Nascida do departamento virtual que unifica as oscilações, cria cada vez mais descrições dos objetos, que se incorporam a eles. Com oo (tanto o tempo da evolução do ser humano como

o da evolução do indivíduo), não é a oscil ação fragentada, mas a

, gem mental rica interconecta ayé5 ~ dos departamentôs virtuais que seipn maisíorte.J'or isso. ao inspecionarmosncsn inteljpr, aue temos imagens dn.inundo e não osdilaçõe neuropis. A oscilação, raiz de todo o processo, parece estranha à mente - parte do cérebro capaz de formar departamentos virtuais e acoplar, por sintonia, pedaços de informação do mundo. A unidade resultante da sincronização, de inicio externa (exossincronismo) e posteriormente interna (endossincronismo), é constantemente usada para reinterpretar

o mundo. Por isso éomu ndo que se parece cada vez mais com nossa mente (ni tssaje que lança mão pa ~04 ^ ":9 ^ mente que se parece com o mundo.

MENTE E COMPUTADOR: UMA ANALOGIA

Qualquer pessoa que já teve a oportunidade de usar um compu- tador tem diante de si: um monitor; um gabinete, onde há uma placa- mãe (há um processador central e winchesters para memórias); e um modem, que liga o computador à linha telefônica. De modo geral, a placa do computador executa todas as funções através de circuitos, o monitor mostra os cenários de trabalho e o modem permite a recepção e transmissão de dados através da linha telefônica. Há, portanto, os se- guintes níveis: o físico, da placa (han1ware) o do programa (softwam e o monitor, que reflete o resultado da interação do programa com a placa. O hardwareé um aparato físico que contém determinadas rotas de tráfego para correntes elétricas. O software é um conjunto de instru- ções que pode modificar algumas áreas do hardware (abrir ou fechar portas, como foi visto no exemplo do neurônio) de maneira a fazê-lo funcionar de acordo com essas instruções. Entre elas, a de apresentar um "ambiente amigável" na tela. Imagine que, para escrever a letra A, você precisasse diitar 0001 no teclado e visse escrito 0001 na tela. Não seria nada fácil. E por isso que os programas são elaborados de maneira a permitir que, digitan- do-se "A" no teclado, apareça "A" na tela e seja gravado 0001 no hardware. A imagem no monitor é programada para que se pareça ao máximo com o mundo do usuário, tornando os comandos intuitivos.

ORIGEM DE CÓDIGOS E TELAS

O modem é um instrumento físico que transforma mensagens do computador em códigos que podem ser transmitidos pela linha telefônica (ou por outro meio, como ondas de rádio). Ao chegar ao

outro lado da linha, o código transmitido é decodificado, reconstituindo

a mensagem em outro computador. Se escrevo A no teclado, vejo A na

tela, mas gravo 0001 na placa do computador. O modem recebe o 0001, transforma-o numa linguagem codificada pré-acertada entre as redes de comunicação (isto é, estipulada, arbitrária, combinada) e transmite- o. Do outro lado da linha, outro modem decodifica a mensagem e transforma-a em 0001, que vai aparecer na tela como A. Há uma série de processos análogos no aparecimento da mente

no cérebro humano. Imagine um bebê. Num primeiro momento, ele não se lembra de nada do que se passa em sua mente. Porém, aos poucos, vai tendo contato com o mundo, constituído de oscilações que lhe entram pelos órgãos sensoriais; vai sendo inserido na comunidade de seres agentes e falantes de um mundo recortado de acordo com suas mentes e sua linguagem. O que acontece então? A medida que o

bebê cresce, os objetos vão estabelecendo sincronismos perceptivos com seu cérebro. A unidade interna, também resultante do sincronismo de partes de objetos percebidos, vai se amoldando de acordo com o mundo que lhe está sendo apresentado. Esse mundo de cadeiras, olhares, rosa

e vermelho é constituído na mente do bebê como se essa mente fosse

uma tela de computador que apresenta objetos coloridos, recortados em lixeiras, envelopes, tesourinhas, etc. Sua mente ad uire assim a

cara do mundn?-Nn- dnuire asara do m e~=ntes de nossos

Isquivalè a levar para casa um computador novo, desses com programas amigáveis, ligá-lo na tomada e ver na tela - toda feita de imagens bem definidas, coloridas, de gente correndo, de lixeiras e papel picado - um mundo igualzinho ao nosso. A mente é a tela? E e Para vári os efeitos é a tela, e é bom que seja,?ae isso deve niuiita coisa. Mas que e um pïobiema e quea tela fica turva, asiageilorradas, o papel não encesta na lixeira. O que você faz? Mexe no monitor e tenta sacudir a lixeira? Não adianta. Joga o computador fora? Não, você chama o técnico e mostra o defeito, pedindo a substituição do monitor. O técnico olha para você e começa a digitar comandos estranhos no teclado. De repente, aparecem na tela não mais lixeiras e letras do alfabeto, mas seqüências de símbolos, de números, de instruções, numa

linguagem desconhecida. Você vê mensagens do tipo "se

então" (lembre-

se do "se

então" visto nos conectivos lógicos). Pergunta ao técnico o

O SITIO DA MENTE

que é aquilo e ele responde estar verificando, no nível dos programas, se há alguma instrução errada. Não acha e procura dentro do gabinete. Ali um circuito funcionando mal é substituído ou soldado, e a tela volta a mostrar tudo bonito como antes. Embora a aparência do mundo seja a que nos acostumamos a ver na tela do computador e no palco da mente, quando há certos problemas, a mente é apenas resultado de operações de software e hardwareque estão por trás dela. Por vezes, é o software que tem um defeito e precisa ser reescrito. Por vezes, é o hardwareque apresenta falhas e precisa ter

um circuito consertado ou substituído. Raramente é

o monitor que

precisa ser trocado, balançado, etc. Portanto, cuidado: a mente da maneira como se nos apresenta é apenas monitor, resultado de operações. O hardware-cérebro e o software-experiência que cada um gravou em suas vidas é que estarão por trás de nossos problemas e de nossa própria existência. Nas situações triviais, não há grande prejuízo em confundir a tela com a mente, podendo com isso até mesmo ser eficaz dar um conselho para o monitor, afagar-lhe o ego ou esfregar-lhe um paninho na cara; nas situações patológicas, o equívoco torna-se explosivo.

, Pensar sobre a origem cerebral da mente é fundamental na hora de investigar a disfunção mental. Quando ela ocorre, embora queira- mos alisar a tela, sacudi-Ia, implorar-lhe que funcione, colocá-la de cas- tigo, não adianta. Se o problema for no software (que não está na tela), será preciso analisá-lo, para descobrir o que está apagado, faltando ou entrando em conflito, e reescrevê-lo. Este é o papel típico das chama- das psicoterapias. Se o problema for na placa (hardware), o único jeito de solucioná-lo será agindo diretamente sobre ela. Este é o caso típico em que se usam meios (remédios) que interajam com o nível físico íntimo cerebral. A confusão sobre o sítio da mente e o modo como ela surge pode levar a freqüentes mal-entendidos e à ignorância a respeito da forma de lidar com cada nível e compartimento do sistema.

SOBRE ORIGEM DAS CONVENÇÕES QUE POSSIBILITAM SINCRONISMO

Resta o problema do modem e seu análogo com a linguagem. Nas- cemos com um modem dentro do cérebro. A maior parte dos animais tem sistema de comunicação, mas aquele que possuímos, capaz de gerar linguagem escrita, falada, arte, ciência, é infinitamente mais sofis-

ORIGEM DE CÓDIGOS E TELAS

ficado. A convenção é fundamental para entendermos uma oscilação interna que, a fim de possibilitar que nos comuniquemos via linguagem (via modem) , produz um 0001 no cérebro como a letra A de maneira que

o receptor, ao ouvir a letra A, faça uma oscilação dentro de si análoga ao nosso 0001. Na história da humanidade, os diversos sistemas culturais uni- formizaram de maneira mais ou menos explícita convenções que per- mitiram que o meio externo comunicasse exatamente os mesmos códi-

gos de barras internos (Fig. 28). A cultura e o passado de milhares de anos do ser humano garantem que haja estabilidade entre todas essas séries de eventos e que apareça, em sistemas de símbolos (entre estes,

a linguagem), a uniformidade capaz de provocar os mesmos estados

internos (os mesmos códigos de barras) diante de um símbolo arbitrá- rio-convencional-compartilhado (a palavra, por exemplo).

mente receptora

cérebro receptor

convenção

MENINA

1(0

4,

1 mente emissora

cérebro emissor

Fig.28 - A linguagem como órgão interno cerebral (como se fosse um "modem ") e convenção externa usados para a comunicação humana.

Mas onde estariam e como seriam os objetos reais do mundo, se no fundo não há mesas e cadeiras, cores e príncipes? Claro que há objetos reais no mundo, só não sabemos se eles têm a forma com que nossa mente os vê ou se têm outras formas. Se você descer à intimida- de da matéria, saberá que a continuidade que se vê numa mesa escon- de uma descontinuidade no nível atômico e assim sucessivamente. Então, por que vemos mesas no mundo e no nosso palco mental? Porque esse modo de ver foi se fixando, graças à experiência, à adaptação, ao uso da linguagem, durante milhares de anos.

O SÍTIO DA MENTE

Imagine que um ator "real" está sendo filmado no estúdio de uma telenovela (Fig. 29). Sua imagem e voz serão transformados em oscilações

elétricas na filmadora, que as transformará em ondas, que irão para o satélite, que as mandará para sua casa, onde sua televisão decodificará as oscilações, recriando na tela a imagem e a voz do ator.

A parcela visível e familiar da mente equivale à tela da TV. Todos

nascemos e morremos olhando para essa tela. Por vezes, funciona mal ou é motivo de pesquisa. Neste caso, o objeto para onde vamos olhar depende do enfoque. O psicólogo, o sociólogo, o humanista, o antropó- logo, o jurista olham para a mente-tela tecendo considerações sobre o ator, sobre o enredo, sobre a mensagem, etc. O médico, o engenheiro, o físico, o matemático, o biológo olham para a mente-circuito (como se olhássemos para dentro da TV), claro que com o bom-senso de dar uma espiada na tela também.

A tela é a parte intuitiva e amigável da mente. A TV inteira é o

cérebro. O conjunto de processos pelos quais a TV capta ondas,

aparelho de W

,

,

, .r

SATÉLITE

o

Fig.29 - Eventos intermediando a transmissão de uma cena num estúdio e sua captação por um aparelho de televisão. As codificações sucessivas desse processo podem ilustrar a estabilização da conexão de objetos no mundo e objetos na mente.

transformando-as em imagem na tela, é a parte cerebral dedicada a produzir a mente. É mente também, mas de uma maneira menos intui- tiva. É a mente processo e estrutura. Aquela que nasce do neurônio e forja, através do código de barras, um determinado tipo de reunião. 5

ORIGEM DE CÓDIGOS E TELAS

Mas há um código, uma convenção que permite transmitir e cap- tar as ondas que carregam a imagem do ator. E mais, há o ator. Onde estão o ator e os códigos que transformam sua imagem num análogo seu na minha TV? Estão perdidos no passado da espécie humana. Demoraram milhares, talvez milhões de anos para garantir que "objetos reais", transformados em oscilações, fossem decodificados como oscilações e aparecessem como cópias quase perfeitas desses objetos na nossa mente ou tela. Há objetos à nossa frente o tempo todo. O modo como os vemos na tela da mente está comprometido com a história do ser humano e com o modo como enfrentou o meio e a linguagem. Parte de nossa mente é uma tela que retrata esses objetos, esse modo de ver o mundo, os pen- samentos, os valores e a condição humana. Pensar que a tela, resultado de um processo que se dá no cérebro, é o todo da mente é engano fatal. Normalmente, é o que suporta raciocínios voluntaristas e mágicos acerca dos "poderes mentais". A mente, além de tela amigável, é um processo de codificação temporal e de recrutamento de comitês que se dá no cérebro de cada um de nós e que se serve da história da espécie para garantir a estabilidade de certos passos convencionais.

SÍNTESE

A mente pode ser vista de diferentes maneiras: como conteúdo, parece-se com o mundo; como processo que se desenvolve através do recrutamento dinâmico de comitês via sincronização, é totalmente es- tranha. Para uma série de atuações, basta que a consideremos uma tela de computador e a utilizemos com as ferramentas intuitivas. Esta é, porém, apenas sua aparência, que resulta de um processo de codificação que está por trás dela e do qual participam o cérebro e os códigos. O cérebro prepara as fôrmas onde se encaixam as funções e conteúdos mentais. A história evolutiva da espécie humana garante que haja esta- bilidade e norma no encaixe das formas e conteúdos fornecidos pela cultura e introjetados para a mente nas fôrmas preparadas pelo cérebro. Quando a mente pergunta pelo seus limites, a resposta não está na tela, comaauerem visionários e responsável pelo procesEde execução de tormas e nflistóii garante uniformidade àquilo que os códigos têm de dinâmico e arbitrário. Uma boa forma de entender o quanto há de lei física, de arranjo funcional e de estipulação arbitrária no processamento cérebro-mental é pensar no caso das telecomunicações. Para que um documento trafegue

O SíTIO DA MENTE

por satélites, cabos de comunicação, estabelecendo comunicação entre dois simples caixas-eletrônicos existem diferentes níveis de operação. Existe um nível físico do caixa-eletrônico enquanto máquina; existe uma operação de transformação de seus comandos em uma tela fácil de ser compreendida (normalmente até conversam com o cliente pedindo que aperte essa ou aquela tecla); existe uma transformação das operações do nível físico em sinais de comunicação que vão estabelecer contato com outro caixa-eletrônico. Nessa operação de comunicação pode haver níveis de sincronização de tempo para que as duas mensagens, em dois locais diferentes do mundo possam ser cotejadas e conferidas, níveis de operação em rede, níveis de realização de máquinas virtuais, níveis de enlace, etc. Há uma série de passos para que se estabeleça a relação de comunicação entre dois caixas-eletrônicos. Algumas são físicas propriamente ditas, outras são programas com suas leis próprias, outras são estipulações convencionais que permitem a comunicação entre dois aparatos físicos. A estabilização de convenções comunicativas ao longo da história da espécie humana (filogênese) e durante o desenvolvimento de cada indivíduo até a maturação de seu cérebro e mente (ontogênese) depende de um aparato físico especial, que é o cérebro; de um arranjo estável de formação de comitês, que são as funções mentais; de um arranjo particular de comitês específicos de cada um de nós, que são as vivências individuais, gravadas na nossa experiência biográfica; de um arranjo estável num nível superior através dos valores médios da sociedade em que vivemos e, finalmente, de uma convenção oculta que está depositada na história da espécie humana através de milhares de anos que permite garantir que a representação interna de cada fato mental é quase-equivalente ao uso de uma expressão da linguagem que o comunica para os outros seres humanos. 6

Exemplo de