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UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA
E CIÊNCIAS DA RELIGIÃO

GENILDO PROVIN

LIBERTAÇÃO NAS TRILHAS DA JUSTIÇA:


Estudo histórico e hermenêutico de Isaías 42,1-4.

SÃO BERNARDO DO CAMPO


2008

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GENILDO PROVIN

LIBERTAÇÃO NAS TRILHAS DA JUSTIÇA:


Estudo histórico e hermenêutico de Isaías 42,1-4

Dissertação apresentada em cumprimento


às exigências do Programa de Pós-
Graduação em Ciências da Religião da
Faculdade de Filosofia e Ciências da
Religião da Universidade Metodista de São
Paulo, para obtenção do grau de Mestre.
Área de concentração: literatura e religião
no mundo bíblico.

Orientação: Prof. Dr. Milton Schwantes.

SÃO BERNARDO DO CAMPO


2008

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DEDICATÓRIA

Dedico este meu trabalho aos meus professores e a Província Franciscana da Imaculada
Conceição do Brasil a qual faço parte, ao povo angolano quem me ensinou o caminho
da partilha e da solidariedade nos momentos difíceis da vida. Dizer obrigado seria
pouco, prefiro dizer: que serei eternamente grato. Pela compressão e dedicação. Eu amo
vocês!

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AGRADECIMENTOS

À Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil.


À Fraternidade São Francisco de Assis do Largo São Francisco.
Ao professor Milton Schwantes que além de um orientador de alta competência e
confiança, foi um grande amigo que me possibilitou realizar este trabalho.
Aos meus amigos e aos colegas de sala e o professor Renatus Potah.
Aos meus pais já falecidos, irmãos e irmãs.

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LIBERTAÇÃO NAS TRILHAS DA JUSTIÇA:


Estudo histórico e hermenêutico de Isaías 42,1-4.

GENILDO PROVIN

UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO


FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS DA RELIGIÃO.

MESTRADO EM CIÊNCIA DA RELIGIÃO

RESUMO

O presente trabalho tem como objetivo propor um estudo do cântico do escravo de Javé
em Isaías 42,1-4. Javé apresenta uma nova liderança, com um novo jeito de pensar e de
agir para reconstruir um mundo novo baseado no direito e na solidariedade. É uma
tarefa desafiadora para mim e ao mesmo tempo uma alegria em poder compartilhar com
os meus amigos o conteúdo de um texto do Antigo Testamento. Afinal, o cântico do

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escravo de Javé é uma fonte inesgotável de sabedoria. Saciou o povo judaíta exilado a
de dois mil e quinhentos anos atrás e continua jorrando água viva até em nossos dias
matando a sede de todos aqueles e aquelas que lutam pela justiça.

Os versos escolhidos são frutos de uma experiência de vida concreta dos exilados
desacreditados por todos no cativeiro da Babilônia. No fundo é uma crítica aos falsos
deuses criados pelos poderosos para justificar um sistema de opressão.

A criatividade do profeta está em retomar os eventos históricos que marcaram a vida do


povo exilado e atualizá-los dentro de um novo contexto histórico. Isto demonstra sua
agilidade no conhecimento. Cada palavra é pensada dentro de um contexto maior
envolvendo a vida e a história. O profeta é um sábio poeta, que fala de Deus como
ninguém falou antes. Utiliza símbolos, imagens e metáforas que apontam para um
mundo novo que ainda não existe, onde reinará o direito, a justiça e a paz.

Essa mudança acontecerá a partir da missão que a liderança eleita desempenhará junto
do povo oprimido e injustiçado. O líder será como o fermento na massa para a nova
sociedade, baseada na igualdade e na partilha. O espírito de Javé estará agindo sobre ele
para que ele não desanime da missão e que ela possa alcançar o seu objetivo. Essa nova
liderança eleita por Javé agirá discretamente em silêncio entre os pobres e
enfraquecidos. A missão beneficiará primeiramente às nações. Aqueles e aquelas que
vivem em terras estrangeiras como migrantes. Depois contemplará de modo especial os
pobres que estão correndo risco de vida, “cana rachada” e “pavio vacilante” e por fim a
missão atingirá todos os povos da terra. Essa perspectiva traduz a vontade de Deus que
é a salvação de toda a humanidade.

PALAVRAS CHAVES:
Opressão, Liderança, Direito, Missão, Solidariedade, Igualdade, Liberdade e Partilha.

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Estudo histórico e hermenêutico de Isaías 42,1-4.

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FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS DA RELIGIÃO.

RESUMEN

El presente tabajo tiene como objetivo proponer un estúdio del cântico del
esclavo de Yavé em Isaías 42, 1-4. Yavé presenta un nuevo liderazgo, com un nuevo
modo de pensar y de actuar para a construir un mundo nuevo basado en el derecho y en
la solidariedad. Es una tarea dasafiante para mi y, el mismo tiempo, una alegría de poder

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compartir com mis amigos el contenido de um texto de Antiguo Testamento. Al final, el


cántico del esclavo de Javé es una fuente inagotable de sabiduría. Sació el pueblo
judaico exilado hace dos mil e quinientos años atrás y continúa forjando água viva hasta
nestros dias, matando la sed de todos aquellos y aquellas que lucham por la justicia. Los
versos escogidos son fruto de una experiencia de vida concreta de los exilados
desacreditados por todos en el cautiveiro da Babilônia. En el fondo es una crítica a los
falsos deuses creados por los poderosos para justificar un sistema de opresión.

La creatividad del profeta está en retomar los eventos históricos que marcaron
lada del pueblo exilado y los actualiza dentro de un nuevo constexto histórico. Esto
demuestra su agilidad en el conocimento. Cada palavra es pensada dentro de un
contexto mayor, envolviendo la vida y la historia. El profeta es un sábio poeta, que
habla de Dios como nadie habló antes. Utiliza símbolos, imágenes y metáforas que
apuntam para un mundo que, todavia no existe, donde reinará el derecho, la justiça y la
paz.

Ese cambio sucederá a partir de la misión que ese líder desempeñará junto al
pueblo oprimido e injusticiado. El líder será como el fermento em la masa para la nueva
sociedad, baseadaa en la igualdad y en la fraternidad. El espírito de Javvé estará
actuando sobre él para que él no se desanime de la misión y que ella puede alcanzar su
objetivo. Ese nuevo líder elegido por Yavé actuará discretamente en silencio entre los
pobres y enflaquecidos. La misión beneficiará primeiramente a las naciones. Aquelles y
aquellas que viven em tierras extranjeras como migrantes. Después, contemplará de
modo especial los pobres que están corriendo riesgo de vida, “cana rajada” y “mecha
vacilante” y, por fin, la misión llegará a todos los pueblos de la tierra. Esa perspectiva
traduce la voluntad de Dios que é la salvación de toda la humanidad.

PALAVRAS CLAVE:
Misión, Lederazgo, Derecho, Solidariedad, Igualdad, Liberdad, Socialización,
Opressión.

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Estudo histórico e hermenêutico de Isaías 42,1-4.

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MESTRADO EM CIÊNCIA DA RELIGIÃO

ABSTRACT

Formatado: Justificado
This research has as a purpose to suggest of study for the Servant Song of Yahweh in
Isaiah 42:1-4. Yahweh introduces a new leadership, with a new way of thinking and
acting in order to rebuild a new world established in the right and solidarity. Is it a
challenging work for me, and at the same time a joy to be able to share with my friends

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the of an Old Testament text. After all, the Yahweh’s servant song is an inexhaustible
source of wisdom. It satisfied the Jewish people at twenty-five hundred years ago and
keeps on until no flowing living water in order to satisfy everybody who fights for
justice.

The chosen verses are the result of a real life experience by everyone exiled in
Babylon’s slavery. In essence it is a criticism to the false gods created by the powerful
ones justify an oppressive system.

The creativeness of the prophet is to recover the historical events that stigmatized the
life of the exiled people and bring them up to date in a new historical context. That
shows his cleverness in wisdom. Every word is thought in a bigger context that includes
life and history. The prophet is a wise poet, who speaks of God as no one has ever
spoken. He uses symbols, images and metaphors that point out a coming world, where
will prevail the right, justice and peace.

This change will happen starting from the mission that this leadership will accomplish
With the oppressed and mistreated ones, The leader will be like the yeast that acts in the
cooking mixture to leaven a new society based upon equality and sharing. The spirit of
Yahweh will be acting upon him so se persist in the mission and may achieve his
purpose. This new leadership elect by Yahweh quietly will work among the poor and
the weak ones. The mission formerly will be fulfilled in behalf of the nations. Of those
who live wandering in foreign lands. The, in a special way will benefit the poor who
live at stake, “the bruised reed” and “smoldering wick”, and last the mission will fulfill
every people on earth. This view depicts the will of God that is the deliverance to all
mankind.

KAY WORDS:
Oppression, Leadership, Mission, Rights, Solidarity, Equality, Sharing, Liberty.

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Sumário

INTRODUÇÃO.

1.CONTEXTO HISTÓRICO EM QUE SURGIU O DÊUTERO-ISAÍAS.

1.1 O fim da Assíria.......................................................................... ....... .... 27


1.2 Ascensão da Babilônia....................................................................... .... 28
1.3 Judá e a luta pela independência............................................................ 28
1.4 Primeira deportação para a Babilônia...................................................... 30
1.5 Segunda deportação para Babilônia......................................................... 31
1.6 Situação dos exilados na Babilônia......................................................... 32
1.7 Organização social e política do império babilônico........................ ...... 34
1.8 Situação religiosa dos exilados na Babilônia......................................... . 36
1.9 O livro do Dêutero-Isaías......................................................................... 40
1.10 Estrutura do livro do Dêutero-Isaías...................................................... 42

2. ANÁLISE LITERÁRIA DE ISÁIAS 42,1-4.................................................... 44

2.1 Tradução e critica textual.......................................................................... 46


2.1.1 Tradução................................................................................................ 46
2.1.2 Crítica textual......................................................................................... 47

2.2 FORMA.............................................................................................. ....... 50

2.2.1 Delimitação em relação à unidade anterior...................................... ...... 51


2.2.2 Delimitação em relação à unidade posterior............................... ... . 51
2.2.3 Coesão interna........................................................................... .... .. 54
2.2.4 Subdivisões internas............................................................................. 56

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2.3 ESTILO.................................................................................................. 58

2. 3.1 Primeira estrofe (Is 42,1)................................................................ 58


2.3.2 Segunda estrofe Is 42,2-4ª................................................................ 60
2.3.3 Terceira estrofe Is 42,4b-4............................................................... 64

2.4 GÊNERO LITERÁRIO.............................................................................. 66

2.5 LUGAR...................................................................................................... 68

2.6 AUTORIA.................................................................................................... 71

2.7 CONTÚDO................................................................................................ 73

2.7.1 Apresentação do líder`eBeD e sua missão – Primeira estrofe, v.1....... 73


2.7.2 Novo modo de agir do`eBeD - Segunda estrofe, v.2-4ª........................ 93
2.7.3. Perspectivas da missão - Terceira estrofe v.4b-4c............................. 107

3. PERSPECTIVAS HERMENÊUTICAS........................................................ 112

3.1 Javé habita entre os pobres........................................................... ....... 112


3.2 Direito para os gentios............................................................................ 119
3.3 Novo jeito de fazer sair o direito............................................................ 123
3.4 Todos os povos serão contemplados na missão do`eBeD.. .... ............... 127
3.5 Novo fermento na massa........................................................................... 138

CONCLUSÃO.................................................................................................... 132

BIBLIOGRAFIA.................................................................................................. 136

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INTRODUÇÃO

Quem lê a obra dêutero-isaiânica logo percebe que o autor é um poeta utópico,


que se encanta com os acontecimentos da história, tirando deles uma lição de vida. Sua
mensagem seduziu e continua seduzindo aqueles e aquelas que acreditam numa
sociedade solidária, alicerçada na igualdade, no direito e na paz.

Os fascinantes cânticos do `eBeD de Javé desafiaram e continuam desafiando os


pesquisadores de Antigo Testamento. Em homenagem ao este autor do Dêutero-Isaías,
considerado o maior profeta e o melhor poeta de Israel,[1] que lutou pela libertação dos
judaítas exilados na Babilônia, dedico a poesia “Vozes d’África” de Castro Alves. Foi
um modo que encontrei para mostrar que o sonho pela libertação continua vivo no
coração do povo de Deus.

“Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?!

Em que mundo, em qu’estrela tu t’esconde,

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos que te mandei um grito,

Que embalde, desde então corre o infinito...

Onde estás, Senhor Deus?!...

Qual Prometeu tu me amarraste um dia

Do deserto na rubra penédia,

Infinito: galé!...

Por abutre - me deste o sol candente!

[1]
Luis Alonso Schökel e José Luis Sicre Diaz, Profetas I, São Paulo, Paulinas, 1988, p.269 (679p.).

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E a terra de Suez - foi a corrente

Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno

Sob a vergasta tomba ressupino,

E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,

Quando o chicote de simoun dardeja

O teu braço eternal.

Minhas irmãs são belas, são ditosas...

Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas

Dos haréns do Sultão.

Ou no dorso dos brancos elefantes

Embala-se coberta de brilhantes

Nas plagas do Indostão.

Por tenda - em os cimos do Himalaia...

Ganges amoroso beija a praia

Coberta de corais...

A brisa de Misora o céu inflama;

E ela dorme nos templos do Deus Brama,

Pagodes colossais...

A Europa é sempre a Europa, a gloriosa!...

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A mulher deslumbrante e caprichosa,

Rainha e cortesã.

Artista - corta o mármor de Carrara;

Poetisa - tange os hinos de Ferrara,

No glorioso afã!...

Sempre a láurea lhe cabe um letígio ...

Ora uma coroa, ora o barrete frígio

Enflora-lhe a cerviz.

Universo após ela - doido amante

Segue cativo o passo delirante

Da grande meretriz.

Mas eu, Senhor! ...Eu triste, abandonada,

Em das areias esgarrada,

Perdida marcho em vão!

Se choro ... bebe o pranto a areia ardente!

Talvez... p’ra que meu pranto, ó meu Deus clemente!

Não descubras o chão!...

E nem tenho uma sombra de floresta...

Para cobrir-me nem um templo resta

No solo abrasador...

Quando subo às pirâmides do Egito,

Embalde aos quatro cantos dos céus chorando grito:

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“Abriga-me, Senhor”!...

Como o profeta em cinzas fronte envolve,

Velo a cabeça no areal, a que volve

O siroco feroz...

Quando passo no Saara amortalhada...

Ai! Dizem: “Lá vai África embuçada

No seu branco albornoz...”

Nem vêem que o deserto é meu sudário,

Que o silêncio campeia solitário,

Por sobre o peito meu.

Lá no solo, onde o cardo apenas medra,

Boceja a Esfinge colossal da pedra

Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas

As cegonhas espiam debruçadas

O horizonte sem fim...

Onde branqueia a caravana errante,

E o camelo monótono, arquejante,

Que desce de Efraim...

Não basta ainda de dor, ó Deus terrível?!...

É, pois, teu peito eterno, inexaurível

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De vingança e rancor?...

E o que é que eu fiz, meu Senhor? Que torvo crime

Eu cometi jamais, que assim me oprime

Teu gládio vingador?!

Foi depois do “dilúvio”... Um viandante,

Negro, sombrio, pálido, arquejante,

Descia do Arará...

E eu disse ao peregrino fulminado:

“Caim! .... serás meu esposo bem-amado...

- Serei tua Eloá...”

Desde este dia o vento da desgraça

Por meus cabelos, ululando, passa

O anátema cruel.

As tribos eram no areal nas vagas,

E o “Nômade” faminto corta as plagas

No rápido corcel.

Vi a ciência desertar do Egito

Vi meu povo seguir – Judeu maldito

Trilho da perdição.

Depois vi minha prole desgraçada,

Pelas garras d’Europa arrebatada,

Amestrado falcão!...

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Cristo! embalde morreste sobre o monte...

Teu sangue não lavou minha fronte

A mancha original.

Ainda hoje são, por fado adverso,

Meus filhos - alimária do universo,

Eu pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre:

- Condor, que transforma-se em abutre,

Ave da escuridão.

Ela juntou-se às mais...irmã traidora!

Qual de José os vis irmãos, outrora,

Vendem seu irmão!

Basta, Senhor! De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Perdão p’ra os crimes meus!

Há dois mil anos ... eu soluço um grito...

Escuta meu brado lá no infinito ...

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!!...[2]

[2]
Castro Alves, Vozes d’África, São Paulo, 11 de junho de 1868.

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Castro Alves sonhou e lutou pelo fim da escravidão no Brasil. Teoricamente


aconteceu, mas na prática, o pobre principalmente, o negro, continua sendo explorado e
marginalizado. Para o profeta do Dêutero-Isaías, há um caminho a percorrer, um sonho
para concretizar e um povo para libertar. Na poesia dedicada à África, Castro Alves
clama a Deus perdão por tanto sofrimento. O Dêutero-Isaías em seus poemas expressa
sentimentos de amor e fé ao Deus Javé, o libertador. Numa linguagem poética, recheada
de imagens, símbolos e metáforas, o profeta entusiasmado mistura a história com a
poesia para dizer que Javé escolheu o pobre escravo, marginalizado, para desempenhar
a missão e fazer surgir um mundo mais humano, baseado no direito, na justiça e na
igualdade.

Depois de dez anos de experiência com os deslocados de guerra em terras angolanas,


onde vivi os horrores de uma guerra civil, que durou mais de três décadas, regressei
para o Brasil com um sonho de estudar a Bíblia, e depois, retornar para a Angola, dando
continuidade ao projeto de formação de lideranças. Mas o que tem a ver o povo
angolano e brasileiro com o povo do cativeiro, escravizado, de onde surgiu o Dêutero-
Isaías? Vamos ver como a vida acontece.

Depois de vinte anos de trabalhos na lavoura, despertou em mim o sonho de ser


franciscano. Abandonei a terra e outros bens que já eram meus e me lancei nesta
aventura. Foram de doze anos de caminhada, antes de ingressar definitivamente na
Ordem dos Frades Menores. Em 1994, embarquei para Angola com a missão de
trabalhar com os deslocados de guerra. Atravessei o Atlântico com um sonho na mala:
colaborar e caminhar com um povo dilacerado pela guerra, fruto da ganância e ambição
de líderes políticos.

Parti do Rio de Janeiro, com um atraso de um dia e meio, na noite de 22 de


setembro de 1994. O avião antigo e superlotado estava longe do hangar. Embarquei com
o coração batendo forte. O medo misturava-se com a escuridão e o barulho das turbinas.
Quando o avião entrou na pista e que as turbinas foram aceleradas, o barulho das
latarias era tanto, que parecia que o avião se desmontava por completo. Não havia mais
nada por fazer a não ser pedir pela proteção divina. Amanheceu o dia sobre o mar; o sol
despontou num horizonte bem distante, fazendo um rastro sobre as águas. Sem demora,

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avistamos a terra: era Angola, a cidade de Luanda. Que alívio, que alegria! Uma
paisagem estranha nas mediações do aeroporto, tanques de guerra, policiais e militares
armados por todos os lados. Eram sete horas da manhã. Desembarcamos e caminhamos
aproximadamente cem metros até o aeroporto. Quando entramos, não havia iluminação
nas salas de atendimento. Na escuridão e sem sinalização, misturavam-se os nativos
com os estrangeiros em total confusão. Depois de longa espera, as malas foram
liberadas.

No salão do aeroporto, um irmão de congregação estava à nossa espera.


Cansados, cheios de sono, mas não desanimados. Começamos o dia, viajando de carro
em direção ao Sul do país. Beirando o mar, seguimos para uma região desértica e
quente. Depois de um dia de viagem, paramos num lugar chamado Sumbe. Sem ter
onde ficar, procuramos abrigo numa casa. Para dormir, dividimos dois quartos em cinco
pessoas, mas os mosquitos e o calor nos perturbaram a noite toda.

No dia seguinte, retomamos o caminho para Kibala. Por volta do meio-dia nos
deparamos com uma ponte destruída. Sem condições de avançar de carro, o jeito foi
cruzarmos o rio com as malas nas costas, e esperar que alguém pudesse nos buscar. Ao
entardecer, um carro socorreu-nos. Finalmente, chegávamos à Kibala, o lugar indicado.
Depois do jantar, me informaram que o meu lugar não era aquele. Eu teria que regressar
pelo mesmo caminho até Luanda e depois seguir mais quinhentos quilômetros para o
norte para chegar à Malanje. Descansei um dia e retomei o caminho de volta. Chegando
em Luanda, esperei uma semana, para poder embarcar para Malanje.

Um caminho perigoso, minado, cheio de controles militares e guerrilheiros. Em


cada um deles tínhamos que parar e dar gorjetas para poder continuar. Havia cemitérios
de carcaças de caminhões e carros queimados, ao longo de toda a estrada. Foram dois
dias de viagem até chegar a Katepa, bairro periférico de Malanje.

Quando lá chegamos, encontramos uma cidade abandonada, um monte de


ruínas; uma desordem total. Externamente, a casa tinha boa aparência, mas por dentro
era um entulho só. Coisas espalhadas por todas os cantos. Os alimentos para não serem
roubados estavam escondidos sob tetos falsos. Não havia água; a luz era de vela ou
candeeiro a querosene. Para cozer os alimentos, não havia gás e a lenha era escassa. O
povo caminhava mais de dez quilômetros para buscar lenha em lugares de risco. Havia

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feridos, mutilados, órfãos e famintos por toda parte. Os que tinham condições
financeiras fugiram do país. A casa localizava-se na linha vermelha entre os
guerrilheiros e os militares. Facilitava o diálogo com ambas as partes, mas vivíamos
também no meio de fogo cruzado, o tempo todo. Os assaltos e ataques ao centro eram
constantes. A maioria dos acantonados pertenciam aos guerrilheiros que lutavam contra
o Governo.

A situação era complexa e a insegurança, total. Na luta pela sobrevivência, valia


a lei da selva. A exploração do povo pelos militares e guerrilheiros não tinha limites. A
instabilidade era tanta que em cada momento tínhamos que redimensionar as atividades:
da alimentação, educação, saúde e outros.

Contudo, duas questões me intrigavam: como organizar um povo marcado pelo


ódio, vingança, sofrimento, analfabetismo, sem destruir os valores culturais de cada
tribo, tendo como base a dimensão religiosa do cristianismo? Qual o caminho para
estabelecer uma interação entre a mensagem cristã e as expressões culturais de cada
tribo? As respostas iam além das minhas forças. Tratava-se de questões que
necessitavam ser dinamizadas a cada instante, dentro de uma nova situação, para
discernir os rumos, sem ferir ninguém.

Eu vi um povo morrendo de fome. Vi crianças oferecidas pelas mães, para não


vê-las morrer; vi jovens se suicidando por uma raiz de mandioca; vi gente saindo de
casa à noite, correndo risco de vida, em busca de alimentos; vi pais sendo assassinados
brutalmente pelos próprios filhos por causa de feitiçaria. Em Cangandala, onde havia
uma grande concentração de deslocados de guerra. Vi um povo que, por causa da fome,
não tinha mais forças para ficar em pé: ficavam deitados pelo chão sem camas,
reduzidos a pele e osso. Os jovens mutilavam-se a si mesmos para não ingressar no
serviço militar. Mulheres e jovens eram levadas pelos militares para satisfazer seus
prazeres e carregar armas e munições. Adolescentes eram tiradas à força de suas
famílias para servirem de prostitutas para os militares.

Como se tudo isto não bastasse, a guerra eliminou os líderes, tradicionais


representantes e defensores do povo. Vi líderes sendo mortos em praça pública por
terem defendido o seu povo. Com a morte dos líderes, dispersão e desorganização
tomaram conta do povo. As lideranças populares tinham a função de juízes,

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administradores, bibliotecas ambulantes entre as tribos. O desaparecimento delas


empobreceu a vida das aldeias. No lugar delas o estado colocou outras lideranças que
concordavam em explorar o povo para sustentar os militares. O desânimo e a violência
tomaram conta da vida do povo e ninguém mais se animava a trabalhar.

O desafio maior era a superar a fome. Não tinha como fugir dela. Por todos os lados
havia gente pedindo comida. Num chão totalmente minado, o povo não tinha como se
locomover. Cada passo fora do lugar era um risco de vida. Ver o dia amanhecer já era
uma vitória.

Outro desafio era como formar novas lideranças numa situação de guerra e
perseguição militar. Depois de um tempo, com a desminagem de algumas áreas,
organizamos trabalhos comunitários na agricultura, com a participação de voluntários,
centro de nutrição, alfabetização e saúde. Mas um povo sem liderança é um barco sem
direção: corre o risco o tempo todo, e dificilmente chega ao destino certo. O
individualismo tomou conta da situação. Cada um fazia o que bem entendia. Os
problemas aumentavam; distavanciavam-se as soluções. Mães presenciavam seus filhos
e maridos lutando uns contra os outros, como inimigos.

Nos acantonamentos misturava-se o povo sem distinção. Havia doentes, mutilados,


crianças órfãs, velhos e mulheres. O que nos salvavam eram as mulheres; elas eram
muito corajosas; não se omitiam no trabalho e na luta pela vida. Os trabalhos
comunitários foram integrando o povo indistintamente. Com o apoio das ONGs e o
esforço de cada um a vida voltou a brilhar nos olhos das pessoas. Buscamos caminhar
na formação de lideranças, valorizando cada passo com as suas diferenças.
Acrescentávamos os valores éticos, morais e religiosos, que eram comuns a todos, na
esperança da reconciliação.

O bom nesta situação era a solidariedade dos pobres. Quem não sabia fazer uma
coisa, fazia outra. Quem não sabia cozinhar, buscava água ou lenha. Quem não sabia
construir, buscava o capim. Quem não podia caminhar, trançava esteiras para dormir.
As mulheres, todas sabiam trabalhar na roça, no pilão para triturar o milho, e cozinhar.
Os homens que tinham condições faziam tijolos; outros, construíam abrigos que
serviam para acolher crianças órfãs e velhos.

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A participação nos trabalhos comunitários criou um espírito de solidariedade e


confiança; abriu caminhos e possibilitou o surgimento de uma vida fraterna e solidária
entre as tribos. A alegria foi tomando conta da gente. Cada dia crescia o interesse e mais
gente se integrava para ajudar nos trabalhos.

No começo foi difícil, o individualismo e o ódio travavam o trabalho, pois,


ninguém queria ceder. Mas a força da união fez as barreiras deixaram de existir. As
mulheres, que antes eram rivais, uniram-se aos projetos e descobriram que eram capazes
de vencer. Elas, que sempre foram discriminadas e marginalizadas pela sociedade,
organizaram-se, em torno dos trabalhos do campo, alimentação, educação e saúde das
crianças.

Com o passar do tempo, foram surgindo novas lideranças, e com elas uma
reflexão da situação; despertava-se para a confiança e para a esperança. Foram, assim,
dez anos de caminhada e dedicação. Em 2002, com o fim da guerra, o cenário mudou.
Os deslocados começaram a regressar para suas terras. O sonho virou realidade e, com
ela, um novo desafio para as lideranças: recomeçar tudo. Esta experiência foi
determinante para que me motivasse a escolher o cântico do escravo sofredor de Javé de
Isaías 42,1-4 para este estudo.

Assim situados, vamos ingressar no trabalho propriamente dito que será


desenvolvido dentro do seguinte plano:

a) O primeiro capítulo apresentará o contexto de onde surgiu o Dêutero-Isaías.


Num breve rastreamento histórico, partindo dos assírios que se projetaram
internacionalmente como potência e depois a Babilônia que destruiu Jerusalém deportou
os judaítas ara o exílio. Neste mesmo capítulo, apresentará algumas informações sobre a
situação dos judaítas exilados na Babilônia. Concluímos o primeiro capítulo falando do
livro do Dêutero-Isaías, sua descoberta, a localização na Bíblia, sua importância e
estrutura.

b) O segundo capítulo apresentará a análise exegética do texto de Isaías 42,1-4.


De início faremos a tradução interlinear do texto hebraico; em seguida, a critica textual,
dentro da qual averiguaremos as possíveis alterações que o texto poderá ter sofrido no
percurso da transmissão. Depois, prosseguiremos com o estudo da forma literária, estilo

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e gênero. No final deste bloco, apresentaremos uma opinião sobre a autoria do livro e o
lugar de seu surgimento. Quase como última parte deste mesmo capítulo estudaremos o
conteúdo, utilizando o resultado da exegese. O texto foi organizado em estrofes, que
serão analisadas, frase por frase, com a ajuda de dicionários, gramáticas e concordâncias
bíblicas.

c) O terceiro capítulo apresentará as perspectivas hermenêuticas. Será feita uma


releitura dos resultados alcançados pela exegese do capítulo dois, olhando o contexto do
capítulo um e refundindo a mensagem do cântico do escravo no contexto atual.
Concluiremos com algumas considerações e a bibliografia.

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1. CONTEXTO HISTÓRICO DO SURGIMENTO DO DÊUTERO-ISAÍAS

A profecia do Dêutero-Isaías surgiu no final do exílio da Babilônia, por volta


dos anos 553-539 a.C. Para melhor entendermos o exílio da Babilônia, é preciso voltar
ao início do século 6º a.C.. Este período foi marcado por grandes reviravoltas na vida do
povo judaíta. A Babilônia assumiu a herança da Assíria, no domínio do Antigo Oriente
Próximo e colocou em segundo plano todas as outras potências orientais, maiores e
menores. A cidade da Babilônia tornou-se um símbolo de poder, construída com
enorme luxo e esplendor, considerada a capital do mundo, centro de irradiação para os
países do Oriente Próximo.[3]

O exílio na Babilônia começou a ser preparado pelos assírios por volta do século
8º a.C. O desfecho final aconteceu no início do século 6º, com a deportação dos judaítas
e a destruição de Jerusalém. Nos meados do século 8º a.C., a Assíria se projetou
internacionalmente como uma potência militar. Seu objetivo era dominar a partir da
força militar. A partir de então já não interessava mais aos assírios a conquista dos
territórios, mas a incorporação definitiva ao estado assírio. O império comandava um
grande exército permanente, temidos por todos pela extrema rapidez e eficácia que
combatia com carros de guerra e cavalaria. As tropas assírias foram durante séculos o
pavor dos povos do Oriente Antigo.[4]

Os países subjugados pelas forças assírias tornavam-se vassalos, perdiam a


liberdade política e eram obrigados a pagar tributos regularmente. Qualquer ameaça de
revolta contra a Assíria era rechaçada com retaliações. Judá conseguiu sobreviver por
um século e meio à opressão da Assíria. A Babilônia mantinha um relacionamento de
amizade com a Assíria, por ser ela um elemento de insegurança; isto impedia a sua
incorporação no sistema provincial assírio. A Babilônia não pode ser medida com os
mesmos critérios das outras regiões fora da Assíria. Os assírios reconheciam a realeza

[3]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, Petrópolis, Vozes/Sinodal, vol.2, 2000, p.410
(535p.).
[4]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, p.338-339.

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da Babilônia e ela conservou um status especial. Os motivos certos para isso são
desconhecidos.[5]

Em 732 a.C., o exército assírio sob o comando de Teglate-Falasar ocupou as


cidades portuárias do Mediterrâneo e conquistou Damasco. Em 722, anexou Samaria.
Com isso, reino do norte, Israel deixou de existir. Em 701, a Assíria destroçou Judá e
quase conquistou Jerusalém. Depois de ter colocado a Palestina sob o seu controle,
rumou para o Egito. Conquistou-o nos primeiros decênios do 7º século. Com isso, os
assírios tornaram-se senhores do mundo até então conhecido. O império atingiu seu
auge de dominação internacional na primeira metade do 7º século.[6]

1.1 O fim da Assíria

O império assírio em seu apogeu trazia dentro de si o germe de sua falência. A


conquista do Egito foi comparada como a euforia de sua morte.[7] Por mais temidos que
fossem seus exércitos, não conseguiram evitar seu desmoronamento do império.
Revoltas e lutas estouravam por todas as partes. O golpe decisivo veio do Egito. Sob o
comando de Neco II, ele foi o primeiro a reagir. Em 616, reconquistou sua
independência, expulsando os assírios das terras férteis junto ao rio Nilo. Além de
expulsar os invasores, vai ao seu encalço até o rio Eufrates. Os egípcios não aceitam a
hegemonia assíria na Palestina. A presença egípcia na Palestina na metade do 7º e 6º
século é fundamental para compreender a deportação de Judá para a Babilônia.[8]

Os egípcios e os babilônios contestaram a dominação assíria. Os babilônios


ocuparam as regiões ao sul da Mesopotâmia, áreas férteis entre os rios Eufrates e Tigris.
Aos poucos, o Egito e a Babilônia juntos foram corroendo a dominação assíria em duas

[5]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, p.340-341.
[6]
Miton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio – História e teologia do povo de Deus no século 6º
a.C., São Paulo, Paulinas/Sinodal, 1987, p.20.
[7]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, p.346.
[8]
Milton Schwantes. Sofrimento e esperança no exílio – História e teologia do povo de Deus no século
6º a.C., p.20.

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frentes. A Assíria sucumbiu a esta dupla contestação. Nínive foi à última resistência dos
assírios. Foi feita em ruínas em 612.[9] Assim o império assírio chegou ao fim.

1.2 Ascensão da Babilônia

Na segunda metade do 7º século, quando o império assírio entrou em


decadência, começou a despontar no horizonte internacional a Babilônia. O rei
Nabopolasar alicerçou e definiu os rumos da política interna e externa da Babilônia. Foi
um grande construtor e restaurador de templos para os deuses Shamash e Marduk. Seu
filho Nabucodonosor herdou o trono de seu pai. Sob ele o Oriente Antigo fez-se
babilônico e a cidade da Babilônia tornou-se o centro do mundo conhecido de então.[10]

Na derrocada do império assírio, os egípcios e os babilônios foram aliados. Mas,


quando se tratou de definir quem assumiria o comando político internacional, os dois
entraram como candidatos para a sucessão. Os dois queriam o controle dos territórios
que anteriormente pertenciam à Assíria. A Palestina que estava situada entre as duas
potências, entrou na lista da disputa. Nesta disputa, a Babilônia se impôs, mas nunca
conseguiu conquistar o Egito. Este se manteve como autônomo, uma ameaça constante
para a Babilônia.[11]

1.3 Judá e a luta pela independência

Desde a primeira metade do 7º século, Judá viveu sob o regime dos Manassés
(2Reis 21,1-18). Foi mais de meio século de opressão, época do auge da dominação
assíria. O regime de Manassés reflete a opressão internacional. “Derramou muitíssimo
sangue inocente, a ponto de encher Jerusalém de um extremo a outro” (2Reis 21,16).

Com a intervenção do “povo da terra” (2Reis 21,24), põe-se um fim no regime


de Manassés. Entroniza-se Josias por volta de 640, um menino de oito anos de idade,

[9]
Milton Schwantes. Sofrimento e esperança no exílio – História e teologia do povo de Deus no século
6º a.C., p.20.
[10]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, p.414.
[11]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História do povo de Deus no século 6 a.C.,
p.20.

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como rei de Judá (1Samuel 16; Isaías 9,2-7; 11,1-9). Com Josias no poder, Judá passou
por uma reforma. O objetivo da reforma era um expurgo radical dos cultos (2Reis 23,4-
5; 11-12). Os sacerdotes populares de Judá foram destituídos (2Reis 23,5). Tudo foi
centralizado no templo: somente no altar do templo era permitido oferecer sacrifícios;
os santuários da Samaria e, principalmente os de Betel, foram profanados e desativados
(2Reis 23,15-20); os sacerdotes rurais foram convidados a trabalhar no templo de
Jerusalém (2Reis 23,8). A reforma foi possível, graças a um livro encontrado no templo.
Tudo indica pelas medidas tomadas por Josias que o livro encontrado seja o
Deuteronômio.[12]

Com o fim da Assíria, o Egito ainda não tinha despontado no horizonte como o
sucessor. Criou-se um vazio. Josias aproveitou para anexar os territórios de Israel que a
Assíria havia desmembrado de Judá, mas este sonho foi interrompido em 609, quando
Josias tentou impedir o avanço dos egípcios numa batalha em Meguido e foi morto. O
“povo da terra” voltou a intervir, levando Jeoacaz ao trono de Judá (2Reis 23,29-30),
mas os egípcios não confiaram em Jeoacaz preferiram Eliaquim a Jeoacaz, porque este
seguia a política de seu pai Josias. Jeoacaz foi preso e deposto pelo Faraó Neco II.

Eliaquim foi constituído rei, para evidenciar sua submissão, foi “rebatizado” e
recebeu o nome de Joaquim. Este assumiu a tarefa de pagar aos egípcios um tributo de
cem talentos de prata e ouro (2Reis 23,33-34). Joaquim cobrou a quantia do “povo da
terra” (2Reis 23,35).

Entre 609 e 605, Neco do Egito e Nabucodonosor da Babilônia confrontam-se


entre Harã junto ao rio Eufrates, perto de Carquemis. Na disputa entre Egito e
Babilônia, quem levou a pior foi Judá, por causa da posição estratégica que ocupava seu
território. Judá foi triturada pelas duas potências. Tanto para os egípcios como para os
babilônios, era importante ter Judá como aliada. O território de Judá localizava-se
depois de centenas de quilômetros de deserto, ao sair do Egito. Portanto, era decisivo
para o abastecimento das tropas militares.[13]

Joaquim reinou durante onze anos, dos quais oito como vassalo dos egípcios e
três dos babilônios (2Reis 24,1). Ele tinha subido ao trono em 608, graças ao Faraó
[12]
John Bright, História de Israel, São Paulo, Paulinas, 2ª edição, 1981, p.430 (688p.).
[13]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História do povo de Deus no século 6 a.C.,
p.22.

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Neco II, mas como os egípcios não conseguiram conter o avanço dos babilônios,
Joaquim não teve escolha, para sobreviver e se manter no poder, teve que obedecer às
ordens dos babilônios. Mas, assim que os babilônios se retiraram de Judá, o rei
Joaquim, possivelmente pressionado “pelo povo da terra”[14], optou pela autonomia
nacional. Foi o começo do fim de Judá.

1.4 A primeira deportação para Babilônia

Entre 602-600, os babilônios avançaram contra o Egito, mas fracassaram na


invasão. Com a derrota de Nabucodonosor II diante do Egito, ficou marcado um
momento de fraqueza dos babilônios. E Joaquim aproveitou a ocasião: decidiu romper
as relações com os babilônios, recusando-se a pagar os tributos e voltou-se para os
egípcios. De princípio nada aconteceu. O castigo veio mais tarde (2Reis 24,4; Jeremias
22,13-19).

Alguns anos depois, por volta de 598, as tropas babilônicas já estavam em


marcha contra Judá, quando o rei Joaquim morreu. Seu filho Joaquin (Jeconias) assumiu
o trono e deu continuidade à política antibabilônica de seu pai, mas não teve a mesma
sorte que seu pai (2Reis 24,8). Três meses depois, entre 598 e 597, Joaquin teve que
abrir as portas da cidade, evitando um desastre maior (2Reis 24,10-17). A cidade foi
invadida, o templo saqueado e o rei Joaquin levado para o exílio, juntamente com os
membros da classe alta, da nobreza, dos políticos, das lideranças, dos sacerdotes,
artesãos, oficiais e da aristocracia militar (inclusive sua mãe e as mulheres de seu harém
foram levadas para a Babilônia: 2Reis 24,14). Entre os exilados encontrava-se o profeta
Ezequiel (Ez 1,1-3). Ao todo foram deportadas umas 10 mil pessoas, principalmente
militares (2Reis 24,16).[15]

Os deportados partiram para Babilônia, sem verem a destruição do templo e da


cidade de Jerusalém. Lá foram assentados em pequenas colônias, podendo manter seus

[14]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História
[14]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, p.425do povo de Deus no século 6º a.C, p.26-
27.
[15]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, p.425.

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costumes, bem como a esperança de um breve regresso (Jeremias 29). O rei Joaquin foi
levado para a capital Babilônia com sua corte e gozou status de prisioneiro de estado.[16]

1.5 Segunda deportação para a Babilônia

No lugar de Joaquin, os babilônios colocaram Matanias no governo de Judá.


“Rebatizaram-no” e trocaram seu nome para Sedecias (2Reis 24,17). Sem grandes
prestígios, Sedecias governou Judá por dez anos na condição de vassalo. Com a
deportação da elite, o estado de Judá faliu. Sedecias teve que providenciar pessoas para
formar o seu governo. Nele juntaram-se elementos duvidosos e assumiram cargos de
responsabilidade. Possivelmente, Sedecias foi influenciado pelos membros oficiais da
corte e pelo Egito. Em 589, decidiu romper as relações com a Babilônia. O profeta
Jeremias alerta o rei do perigo de ir contra a Babilônia, isso colocaria em risco a vida do
povo. O empreendimento do rei seria um suicídio, ele iria em direção a seu próprio
naufrágio (Jeremias 27,16-17; 28,14; 37-38).[17]

Em 589 ou 588, o exército babilônico reaparece na Palestina sob o comando do


rei Nabucodonosor, decidido a acabar com as anarquias de Judá. Desta vez houve
resistência até o fim. Depois de um ano e meio de cerco, os babilônios invadem a cidade
(2Rs 25,4). O rei tentou fugir, com alguns de seus soldados; mas rei e soldados foram
capturados pelos babilônicos em Jericó, junto ao Vale do Jordão. Conduzidos a Ribla,
onde Nabucodonosor se encontrava, Sedecias teve que assistir à execução de seus filhos
e dos membros do seu governo. Depois furaram-lhe os olhos e, acorrentado, o levaram
para a Babilônia (2Reis 25, 5-7).[18]

A primeira deportação de 578, visou à desmilitarização e a segunda à


desurbanização de Judá. Entre os deportados da primeira, a grande maioria era de
militares. A segunda deportação foi mais desastrosa. Com a invasão, muitos morreram
no combate, outros tantos foram tragados pela fome e peste, e não poucos, degolados

[16]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, p.425-426.
[17]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, p.427-429.
[18]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, p.430.

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pelos vencedores. Sobrou um resto da população (2Reis 25,11).[19] Por ordem do rei
babilônico, o templo, o palácio e as casas foram saqueados e queimados, e a cidade
destruída (2Reis 25,9; Jeremias 52,12-14). Jerusalém virou um monte de ruínas. O resto
do povo que sobreviveu à fome e à chacina foi levado para a Babilônia. Com o rei
foram exilados os funcionários da corte, do templo, alguns trabalhadores civis, cantores,
pequenos comerciantes, agricultores e vinhateiros (2Reis 25,11-12).[20] Esse grupo sofre
mais, pois foi tratados como escravo e despojo de guerra.[21]

Os babilônicos nomearam Godolias para governar Judá (2Reis 22,12.14;


Jeremias 26,24). As deportações atingiram as cidades. Restaram os pobres camponeses
e alguns cidadãos que se esconderam nas cavernas (2Reis 25,12; Jeremias 52,16). O
profeta Jeremias e o governador Godolias se uniram numa tentativa de salvar o povo
(Jeremias 40,6). Em Masfa, fizeram uma grande colheita (Jeremias 40,12). Em 582 um
grupo que pretendia restabelecer a monarquia assassinou Godolias e com isso muitos
deixaram a pátria e fugiram para o Egito (2Reis 25,22-26). Lavaram consigo o profeta
Jeremias (Jeremias 42-44; 2Reis 25,26).

A deportação era uma das formas de humilhação mais vergonhosa que um povo
poderia sofrer. Os profetas já haviam anunciado que o castigo de Judá seria o exílio.
Assim aconteceu com Israel, o reino do Norte em 722. Os judaítas que foram exilados
na primeira deportação, em 597, representavam a elite de Judá. Tiveram o privilégio de
serem os escolhidos para a deportação.[22]

1.6 Situação dos exilados na Babilônia

[19]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História do povo de Deus no século 6º a.C,
p.23.
[20]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História do povo de Deus no século 6º a.C,
p.23.
[21]
Maria Antonia Marques e Shigeyuki Nakanose, Sonhar de novo – Segundo e terceiro Isaías 40-66,
São Paulo, Paulus, p.31 (181p.).
[22]
John Bright, História de Israel, p.466.

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Baseados nas informações bíblicas e nos conhecimentos gerais sobre as


condições de vida dos judaítas exilados na Babilônia, podemos dizer que a maioria dos
deportados era gente da cidade de Jerusalém (2Reis 24-25).[23]

Os exilados foram escolhidos para a deportação.[24] O número deles não era


grande (Jeremias 52,28-30); em torno de 4.600 pessoas. Há quem diga que foram
contados somente os homens e adultos, mas o número não deveria passar de umas 15
mil pessoas.[25] Os deportados representavam a nata política, eclesiástica, militar e
intelectual de Judá.[26] Na Babilônia nem todos foram assentados à força em colônias.
Outros, como o rei Joaquim e a sua corte, foram levados para a Babilônia capital (2Reis
24,15). Ali gozaram de status de prisioneiros de guerra e eram sustentados pelo
Estado.[27] Tempo depois, o rei Joaquim foi libertado e passou a comer na mesa do rei
por toda a vida (2Reis 25,27-30). Outros foram assentados nas colônias agrícolas junto
ao rio Quebar, Tel Aviv (Ezequiel 1,3; 3,15), Tel-Mela, Tel-Harsa, Querub, Adon e
Emer (Esdras 2,59). Possivelmente, as colônias pertenciam ao Estado. Como
camponeses, tinham liberdade para construir, plantar, colher e estabelecer família e até
para o comércio, mas sob a vigilância do Estado: tinham que pagar tributo aos donos da
terra. Eram dependentes do estado.[28] É muito bom ver os aconselhamentos do profeta
Jeremias (29), as informações do profeta Ezequiel (8,1; 14,1; 20,1) e de Isaías (40-55)
sobre os exilados na Babilônia.

Os exilados da segunda deportação de 587 receberam um tratamento


diferenciado. Não tiveram a mesma sorte que os da primeira deportação de 597. Devido
ao longo cerco, muitos morreram de fome, outros morreram à espada. Os que tentaram
fugir com o rei foram capturados e degolados. O rei, depois de assistir à morte dos seus
filhos e dos membros da corte, teve os olhos furados. O povo, antes da deportação,

[23]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História do povo de Deus no século 6º a.C.,
p.23.
[24]
John Bright, História de Israel, p.466.
[25]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História do povo de Deus no século 6º a.C., p
74.
[26]
John Bright, História de Israel, p.466.
[27]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, p.425.
[28]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História do povo de Deus no século 6º a.C.,
p.23-25.

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34

assistiu à destruição da cidade de Jerusalém e do templo (2Reis 25,11). Os judaítas da


segunda deportação foram tratados como despojo de guerra[29].

Assentados à força, juntamente com os da primeira deportação, levavam uma


vida quase normal. Eram uma espécie de trabalhadores forçados, vigiados e obrigados a
trabalhar para se sustentar e pagar tributos. Formavam o grupo dos exilados (Ezequiel
1,1; 3,1.15).[30]

Para alguns, a Babilônia deu oportunidades que eles nunca tiveram na Palestina.
Houve judaítas que entraram no comércio e se enriqueceram[31]. Alguns deles chegaram
a um bem-estar considerável (Esdras 1,6a; 2,68-30). Até o comércio de escravos lhes
era permitido (Esdras 2,65). Eram livres, mas sujeitos à tributação e aos serviços do
estado nas obras públicas: construções de palácios, estradas, canais, barragens, templos,
silos e na agricultura.[32]

Para melhor entendermos a situação dos exilados judaítas, teríamos que visitar a
Babilônia nos anos de 620-540, e nos perguntar: como era a organização política,
econômica, social e religiosa do império babilônico. A resposta desta questão poderá
nos dar informações para formarmos um quadro mais adequado sobre a vida dos
judaítas exilados na Babilônia. Limitemo-nos a enumerar alguns aspectos
aproximativos, baseados nas informações bíblicas e nos conhecimentos gerais.

1 7 Organização social e política do império babilônico

A organização política e social do império babilônico, entre os anos de 620-540,


baseava-se em duas colunas mestras: Estado e templos. Todo o poder se concentrava
nas mãos destas instituições. Coisa mínima e de pouca importância estava nas mãos de
particulares, economicamente bem sucedidos, e de algumas aldeias mais influentes.

[29]
Maria Antonia Marques e Shigeyuki Nakanose, Sonhar de novo – Segundo e terceiro Isaías 40-66,
p.31.
[30]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, p.435.
[31]
John Bright, História de Israel, p.467.
[32]
Júlio Paulo Tavares Zabatiero, “Servos do império – Uma análise da servidão no Dêutero-Isaías”, em
Estudos bíblicos, Petrópolis, Vozes, n.18, 1988, p.37.

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35

Os templos eram os maiores proprietários das terras. Controlavam o comércio e


as indústrias de artesanatos. O Estado controlava o poder político e econômico. Cobrava
tributo e exigia a mão-de-obra dos trabalhadores nas construções das obras públicas.
Quando o Estado começou a exigir o tributo dos templos, deve ter sido o estopim da
crise que mais tarde levou o império babilônico à falência.[33]

O Estado e os templos arrendavam as terras. Cobravam entre 7 a 8% de impostos


de toda a produção. Havia duas categorias de arrendatários. A primeira, dos pequenos
camponeses, que, embora endividados, trabalhavam nas terras arrendadas dos templos
ou do Estado. Estes trabalhadores recebiam roupas, comida e um salário simbólico. A
outra categoria era a de grandes agricultores latifundiários, oficiais do exército e donos
de terras que tinham escravos e contratavam trabalhadores livres (que não tinham terra
para trabalhar). Estes donos de fortunas eram privilegiados. Não pagavam tributos e
eram isentos dos trabalhos públicos. Eles também mantinham extensas relações
comerciais, inclusive com o exterior.[34]

A organização social babilônica dividia-se em três classes: os awilum, homens


livres que desfrutavam de todos os direitos e privilégios políticos e econômicos; os
mushkenum, homens livres, mas empregados, dependentes do estado e dos templos; e os
wadum, escravos (estes em menor número). Estes últimos nos interessam mais. A
origem deles era dupla: uns eram prisioneiros de guerra, transformados em escravos; e
os outros eram camponeses, que por causa das dívidas e dos empréstimos e do tributo
tornavam-se escravos. Vendiam-se a si mesmos para pagar as dívidas (2Reis 4,1).
Embora fossem comprados e vendidos pelos seus donos como mercadoria, desfrutavam
de direitos desconhecidos à escravidão posterior. Os prisioneiros de guerra eram livres
para trabalhar, mas dependentes do estado, que os vigiava e os manejava conforme as
suas conveniências e necessidades. Eram vendidos como mercadorias para
latifundiários, templos e cidadãos livres.[35] Os revoltosos eram confinados nas
prisões.[36]

[33]
Júlio Paulo Tavares Zabatiero, “Servos do império” p.37.
[34]
Júlio Paulo Tavares Zabatiero, “Servos do império” p.38.
[35]
Júlio Paulo Tavares Zabatiero, “Servos do império” p.38.
[36]
Maria Antônia Marques e Shigeyuke Nakanose, Sonhar de novo – Segundo e terceiro Isaías 40-66,
p.12.

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36

A nossa preocupação não será com os exilados que se deram bem


economicamente na Babilônia. Interessa-nos aqueles que, na condição de homens livres,
eram explorados e marginalizados pelo Estado. Eram livres, mas dependiam do Estado.
Os babilônios de classe baixa, como era a maioria dos exilados, representavam uma
considerável parcela econômica, mas politicamente eram desconsiderados.[37]

Dentro das colônias, os exilados eram livres. Viviam como senhores/escravos,


não podiam fazer o que bem entendiam como quando governavam Judá. Antes, em
Judá, faziam leis, controlavam a política, a religião e a economia do país. Cobravam
impostos dos trabalhadores e manipulavam a religião para justificar a exploração.
Agora, estão fazendo a experiência inversa: de senhores, passaram a ser súditos e a
trabalhar; ao invés de mandar, estão obedecendo; de opressores, passaram a ser
oprimidos; de exploradores, a explorados. Essa mudança para alguns foi humilhante
demais. Passaram ocupar o lugar social que antes ocupavam as suas vítimas.[38]

O Dêutero-Isaías designa os deportados de “escravos” (Isaías 42,1 e 44,2). É


num sentido amplo da palavra que os exilados são escravos. Por terem sido levados à
força para fora do seu país, submetidos a viverem em colônias, vivem como se fossem
presos. Neste sentido são escravos. Mas, não como os escravos dos tempos modernos,
que podem ser vendidos ou comprados como mercadorias. Eles tinham a liberdade de
trabalhar, mas tinham que entregar parte da produção para os babilônicos.[39]

1.8 Situação religiosa dos judeus exilados na Babilônia.

À luz dos poucos dados referentes à religião de Judá, pode-se dizer que os
deportados na Babilônia, no início, foram assentados em colônias. Viviam juntos,
possibilitando o cultivo dos valores culturais e religiosos. A fé em Javé era a força que
os mantinha unidos, celebrada através do culto da palavra, da profecia e dos cânticos. O
rito do sábado e da circuncisão tornaram-se caracteres de identificação. Tinham

[37]
Maria Antônia Marques e Shigeyuke Nakanose, Sonhar de novo – Segundo e terceiro Isaías 40-66,
p.12.
[38]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História do povo de Deus no século 6º a.C,
p.30.
[39]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História do povo de Deus no século 6º a.C,
p.24-25.

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37

liberdade de trabalhar na agricultura para se sustentar, construir casa e trabalhar no


comércio, organizar a vida de oração com os seus líderes, como anteriormente, mas não
tinham mais o templo como o tiveram em Jerusalém.[40]

O profeta Ezequiel foi exilado na primeira deportação. Atuou entre os exilados


no início do exílio. No final, surgiu a profecia do Dêutero-Isaías. Os dois profetizaram a
partir da situação dos exilados na Babilônia, cada qual com sua característica. Os dois
têm algo semelhante: denunciam o sofrimento do povo exilado.[41]

Ezequiel era sacerdote oficial em Jerusalém, pertência à elite religiosa deportada


em 597 e assentado em Tel Abibe junto ao Canal de Quebar em Nippur. Foi em meio a
este contexto que em 592, profetizou (Ezequiel cap.1-3). Atuou como profeta do juízo
até 587/6, anunciando a queda de Jerusalém e Judá cap.1-24. Depois, profetizou contra
as sete cidades estrangeiras (Amon, Moab, Edom, Filistéia, Tiro, Sídon, Egito), capítulo
25-33 e, no final do livro, encontramos o anúncio de salvação, capítulo 33-39. Valeu-se
das grandes retrospectivas teológicas e históricas (13,16). Depois da segunda
deportação, 587/6, tornou-se o profeta da renovação e restauração. Considerava os
exilados como portadores da restauração (cap.34-37). Sua profecia é marcada por uma
linguagem simbólica e pessoal. Expressa a idéia fantasmagórica da ressurreição dos
ossos (37,1-14).[42] Além disso, Ezequiel anunciou o restabelecimento do reino davídico
e a união do Reino Norte com o reino do Sul (34,17-31; 37,15-28). De 40-48 apresenta
um verdadeiro programa de restauração para Israel. Ele atuou entre os exilados até mais
ou menos 570. Sua profecia foi formulada entre os exilados que, em meios a reuniões
litúrgicas, teriam pronunciado suas palavras, principalmente nas ocasiões das
celebrações do sábado e do rito da circuncisão. O importante é destacar que havia uma
vida comunitária entre os exilados, com reuniões, onde celebravam os momentos
festivos que marcaram a vida em torno do profeta. O texto de Ezequiel tem as
características de uma leitura elaborada em comunidade.

Para os judaítas, ser exilado era sinônimo de estar abandonado por seu Deus. Um
exilado é, pois, um indivíduo sem Deus. Isto pode ser visto com mais intensidade no
[40]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História do povo de Deus no século 6º a.C,
p.30.
[41]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História do povo de Deus no século 6º a.C,
p.74-108.
[42]
Erich Zenger, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, Loyola, 2003, p.437-439 (557p.) (Bíblica
Loyola 36).

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38

Salmo 137. A novidade que marcou a profecia de Ezequiel foi identificar Javé no exílio
com o seu povo (1,28; 3,12). Esta descoberta representou um consolo para os exilados:
eles não estavam mais sozinhos.[43]

Com o passar do tempo, a situação do exílio fez o povo entrar em crise de fé.
Naquela época, misturava-se religião com política e qualquer catástrofe se atribuía a
Deus. Quando Jerusalém foi destruída atribuíram à vitória do deus Marduk sobre Javé.
Muitos exilados deixaram de acreditar em Javé porque este foi derrotado por Marduk, o
deus dos babilônicos. Foi Marduk que venceu a guerra, logo ele é mais importante, mais
forte e poderoso que Javé. Na luta, Javé se mostrou impotente, incapaz de vencer
Marduk. Para os judaítas um Deus como Javé não tem futuro e acreditar nele era um
problema. A crise deve ter aumentado quando os judaítas entraram em contato com os
grandes centros culturais babilônicos. Viram as riquezas nunca sonhadas, poderes
ilimitados e templos magníficos de deuses pagãos por toda a parte. A tentação de
abandonar Javé e aderir aos deuses pagãos estava por toda a parte.[44]

Comparando as festas religiosas dos deuses babilônicos, com os cultos dos


judaítas a Javé, via-se que eram insignificantes. Muitos judaítas caíram na descrença.
Não queriam mais saber de Javé como seu Deus. Ele tinha sido derrotado pelos deuses
babilônicos. A situação era de desespero e sem perspectivas de futuro.

Entre a profecia de Ezequiel e o Dêutero-Isaías, decorreu um espaço de tempo e


com ele ocorreram algumas mudanças significativas no estilo de vida dos exilados
como: o enriquecimento de alguns, a morte de outros e os nascidos na Babilônia que
formavam a maioria na época da profecia do Dêutero-Isaías. Estes nem sequer
conheciam Jerusalém e pouco se interessavam por um Deus derrotado como era o caso
de Javé. Certamente poucos estavam interessados em regressar para Jerusalém para
recomeçar a vida a partir das ruínas.[45]

O problema dos ídolos era tão grave que o grupo do Dêutero-Isaías dedicou mais
de 50% da sua obra para tratar da questão. Nos capítulos 40-48, procura conscientizar os

[43]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História do povo de Deus no século 6º a.C,
p.77-92.
[44]
Maria Antônia Marques e Shigeyuke Nakanose, Sonhar de novo – Segundo e terceiro Isaías 40-66,
p.34-35.
[45]
Júlio Paulo Tavares Zabatiero, “Servos do império”, p.39.

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39

exilados que Javé libertador não foi derrotado pelos babilônicos. O deus derrotado pelos
babilônicos foi o deus do poder, do sistema que protegia o estado, que abençoava o rei e
que guardava o templo e que explorava o povo. Javé permitiu aos babilônicos
destruírem Jerusalém por causa da ganância das autoridades. Na avaliação do grupo-
profético, o exílio foi um castigo, resultado da rebeldia dos governantes de Judá. Eles
desobedeceram à lei de Javé. O grupo lembra que Javé ama o seu povo com carinho: “a
quem carreguei desde que o seio materno, a quem levei desde o berço. Eu vos criei e eu
vos conduzirei, eu vos carregarei e vos salvarei” (46,3.4b-4c). Dentro deste clima de
amor há muitas e lindas imagens de Deus nos capítulos 40-55.

A mensagem do Dêutero-Isaías se dirige àquelas pessoas pobres exiladas,


cansadas e sem esperança (Isaías 40,29; 42,3), escravos livres, mas saqueados e
oprimidos (Isaías 42,7.22; 47,6; 50,6), mendigos e indigentes, necessitados de tudo,
inclusive de água (Isaías 41,17; 49,13; 55,1-2). É um grupo desprezado e marginalizado
socialmente (Isaías 53,3) e alguns ainda carregam o peso de que o exílio é castigo de
Deus (40,2; 42,24).[46] Outros ainda diziam: “Deus nos fez morar nas trevas”
(Lamentações 3,6).

A vida comunitária foi decisiva no exílio para o povo cultivar seus costumes, a
sua língua e religião. Mantiveram sua identidade de deportados de origem comum.
Continuaram a crer em Javé, não mais com sacrifícios, mas através de palavra, cânticos,
ritos, sábado e circuncisão, que se tornaram caracteres de identificação.[47]

Sintetizando, pode-se dizer que a vida comunitária foi decisiva para o povo
judaíta exilado na Babilônia. Cultiva os seus costumes, sua língua e religião. Mas foi a
religião que resgatou a identidade dos exilados. Foi ela que explicou o desastre nacional
quando Jerusalém e o templo foram destruídos; foi a religião que explicou as falsas
esperanças num Javé que protegia a monarquia e abençoava o rei para explorar o povo;
foi a partir da religião do exílio que começou a surgir uma nova comunidade em torno
de uma liderança comunitária, embora não muito bem definida, mas uma comunidade
marcada pela adesão à lei e à tradição. Pode-se dizer que a observância do sábado e da

[46]
Maria Antônia Marques e Shigeyuke Nakanose, Sonhar de novo - Segundo e terceiro Isaías 40-66,
p.12.
[47]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História do povo de Deus no século 6ª a.C,
p.29.

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40

circuncisão se tornaram, cada vez mais, o sinal distintivo do povo judaíta fiel (Jeremias
17,19-27; Isaías 56,1-8; 58,13ss).

1.9 O livro de Dêutero-Isaías

Pode-se dizer que o grupo profético do Dêutero-Isaías liderou as celebrações


litúrgicas no exílio. Os exilados se reuniam com a intenção de reavivar a fé em Javé, o
libertador. O trabalho deste grupo é datado entre os anos 555-540, época em que Ciro, o
rei persa, começou as conquistas militares. Na profecia, o grupo anuncia a libertação e o
retorno dos exilados para Jerusalém semelhante à saída do Egito, mas com maior
esplendor, porque Javé lideraria a procissão pelo deserto (Isaías 40,1-5; 43,14-20; 49,8-
13; 52,7-12). Depois do regresso, viria a restauração do templo (Isaías 49,14-21; 49,22s;
51,1-3). O Dêutero-Isaías está localizado entre os capítulos 40-55 do livro de Isaías. Seu
conteúdo revela-nos uma fé comprometida com um único Deus libertador.

O livro de Isaías é um dos livros mais importantes do Antigo Testamento, por


ser um referencial[48], principalmente no Novo Testamento (Lucas 4,17; Atos dos
Apóstolos 8,28; Mateus 12,17-21; Romanos 10,16;10,20-21).

No início, os 66 capítulos do livro foram atribuídos ao profeta Isaías do 8º


século. Não temos dados exatos para determinar quanto tempo estes dados foram
aceitos. Mas com o avanço das pesquisas, descobriu-se que a partir do capítulo 40, o
contexto é outro e os argumentos internos indicam que os 66 capítulos do livro,
dedicado ao profeta Isaías, não são todos dele. Os argumentos são de natureza
diversificada, mas principalmente os argumentos históricos como: os exilados da
Babilônia, a conquista da Babilônia por Ciro por volta do ano 539, a libertação dos
judaítas exilados, a volta deles para a Palestina e a reconstrução de Jerusalém.[49] São
fatos que aconteceram muito tempo depois da época de Isaías. Somam-se a estes fatos, a
diferença de linguagem e estilo. Pode-se perceber no início de Isaías que aí encontramos
o nome do profeta, sua filiação e o local da sua ação (Isaías 1,1). As informações nos
fornecem dados para situar o ministério de Isaías que exerceu sua profecia durante o

[48]
Wiliam Lasor, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, Vida Nova, 1999, p.299 (880p.).
[49]
José Ridderbos, Isaías, São Paulo, Vida nova, p.32 (516p.).

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41

reinado de Ozia, Joatão, Acaz e Ezequias, ou seja, por volta dos anos de 740 a 700.[50] O
reinado destes reis aconteceu a quase dois séculos antes da destruição de Jerusalém
pelos babilônicos. São fatos históricos que falam por si mesmos. Não temos como
duvidar deles. São acontecimentos que marcaram época e a história. Ocorreram bem
depois de Isaías. A partir do capítulo 40, por duas vezes é mencionado Ciro (44,28;
45,1), rei persa do 6º século. O povo é convocado a sair da Babilônia (48,20; 52,11-12).
Sem dúvida, encontramo-nos nos anos do exílio da Babilônia um século e meio depois
da morte do profeta Isaías. E a partir dos capítulos 56 temos outro contexto. A
impressão é que o povo se encontra novamente em Jerusalém, enfrentando outros
problemas que surgiram com o regresso dos exilados.

As diferenças históricas, literárias e teológicas por muito tempo não eram


problemas para atribuir todo o livro ao profeta Isaías. Numa época pouco crítica, as
soluções eram mais fáceis. Somente no 11º século d.C. é que surgiu a hipótese de se
atribuir os capítulos 1-39 a Isaías e os capítulos 40-66 a uma época posterior.

Foi em 1788 da nossa era que J.C. Dörderlein expressou sua opinião sobre os
capítulos de 40-66 dizendo que eles pertenciam a um profeta anônimo. Em 1892,
Bernard Duhm publicou seu comentário ao livro de Isaías,51, rompendo com a suposta
unidade dos capítulos 40-66. Dividiu os capítulos de 40-55 e 56-66, atribuindo-os a dois
autores diferentes: a 40-55 denominou de Dêutero-Isaías, e a 56-66 de Trito-Isaías.
Assim, Bernard Duhm dividiu o livro de Isaías em três unidades literárias distintas, cada
qual com sua história e seu conteúdo em épocas diferentes.

Desde que Bernard Duhm,[51] em 1892, introduziu no debate científico a opinião da


divisão dos capítulos 40-66 em duas partes, dividiu o livro de Isaías em três unidades.
Esta hipótese se impôs nos estudos exegéticos de Isaías que até o momento é
considerada e aceita da seguinte forma:[52]

1. Isaías 1-39 (Proto-Isaías)


2. Isaías 40-55 (Dêutero-Isaías)

[50]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, vol.2, p.363-386
[51]
Bernard Duhm, Das Buch Jesaja, Göttingen, Vaderhoeck & Rupreecht, 4ª edição, 1922, p.381
(540p.).
[52]
Ernst Sellin e Georg Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, Academia Cristã e Paulus,
2007, p.528 (826p.).

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3. Isaías 56-66 (Trito-Isaías)[53]

1.10 Estrutura do livro do Dêutero-Isaías

O bloco composto pelos capítulos 40-55 de Isaías suscita vários problemas para
os comentadores. Isto é assim porque o texto tem características que tornam difícil
efetuar cortes seguros para formar unidades. Uns defendem que o bloco é composto de
pequenas unidades independentes sem ligações entre si, enquanto outros defendem uma
estruturação profunda e premeditada.[54] De qualquer forma, nos limitaremos a propor
uma hipótese sobre a estruturação do bloco:

Inicialmente temos uma introdução ou prólogo (4,1-11), que está em correlação


com uma parte conclusiva (55,6-13, epílogo), que tem como tema o poder da palavra de
Deus e o novo êxodo. O grande bloco é dividido em duas unidades temáticas: capítulos
40,12-48,19, com o tema Javé é o único Deus, criador de todas as coisas e só Javé é o
Senhor da história. A segunda unidade (48,20-55,5) tem como tema a convocação dos
exilados para sair da Babilônia, restauração e a glorificação de Jerusalém. Estes dois
grandes blocos podem ser divididos em subunidades tomando em consideração os
hinos. Mas não é necessário repeti-los aqui. Temos obras específicas que podem ser
consultadas.[55]

Nos capítulos de Isaías 40-55, encontramos a figura do “escravo de Javé” que


aparece relacionado a Israel/Jacó em 41,8-9; 44,1.2.21; 45,4; 48,20; 49,3. Em torno
desta figura, claramente identificada como Israel, ocorrem outras cinco vezes a palavra
“escravo” no anonimato. Elas ocorrem dentro dos cânticos do “escravo de Javé”: 42,1-
4; 49,1-6; 50,4-9 e 52,13-53,12. Estes textos enfocam a mesma questão numa seqüência
que demonstra uma trajetória de vida do “`eBeD de Javé”.[56]

[53]
Erich Zenger, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, Luyola, 2003, p.381 (557p.).
[54]
José Severino Croatto, Isaías – A palavra profética e sua releitura hermenêutica – vol.2, 40-55 – A
libertação é possível, Petrópolis/São Leopoldo, Vozes/Sinodal, 1998, p.14-15 (317p.).
[55]
Erich Zeger, Introdução ao Antigo Testamento, p.389.
[56]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História do povo de Deus no século 6ª a.C,
p.103.

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43

No que diz a respeito à relação dos cânticos com o contexto do Dêutero-Isaías,


podemos dizer o seguinte: depois que Bernard Duhm[57] isolou os cânticos do contexto,
criou certa cisão. Uns acham que os cânticos se encaixam perfeitamente no contexto[58]
e outros seguem Berard Duhm.[59]

Para o nosso trabalho, escolhemos o primeiro cântico do `eBeD de Javé de Isaías


42,1-4. Faremos a tradução do texto e seguiremos o caminho exegético na intenção de
identificar sinais da experiência de Deus na vida e na história de um povo.

[57]
Bernard Duhm, Das Buch Jesaja, p.46.
[58]
Pierre E. Bonnard, Le Second Isaïe – Son disciple, Paris, Librairie, Leco, 1972, p.39 (560p.).
[59]
Claus Westermann, Das Buch Jesaja, Gotinga, Vandenhoeck & Ruprecht, 2ª edição, 1970, p.86
(468p.).

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44

2. ANÁLISE LITERÁRIA DE ISAÍAS 42,1-4

O objetivo deste capítulo é fazer a análise literária do texto de Isaías 42,1-4.

Primeiramente, traduziremos o texto em questão da Bíblia Hebraica,[60] numa


tentativa de obter uma tradução o mais literal possível, de forma interlinear, para melhor
identificar o sentido. Os termos traduzidos buscarão o sentido original, respeitando a
terminologia hebraica, em detrimento de um bom português.

“O texto hebraico do Dêutero-Isaías é um dos melhores do Antigo Testamento.


Não somente pela qualidade poética, mas pelo uso de imagens e símbolos muito
variados, de termos intencionalmente ambíguos e alguns raros ‘para chamar a atenção’,
mas também a partir do ponto de vista de sua transmissão”.[61]

Após a tradução do texto, dispondo-o de forma interlinear, propomos a crítica


textual. Esta etapa é importante na exegese para averiguar as variantes. O texto hebraico
poderá ter sofrido alguns acréscimos ou alterações no percurso da transmissão. Tendo
por base os estudos científicos sobre o assunto, escolheremos as variantes mais
adequadas para recompor o texto.

Seqüencialmente, abordaremos a crítica da forma. Inicialmente o objetivo deste


enfoque é estabelecer limites, indicar o início e o término do texto. Para uma melhor
compreensão da delimitação, o item será dividido em duas partes. A primeira abordará a
delimitação com a unidade anterior. A segunda parte abordará a delimitação com a
unidade posterior.

Para melhor entendermos o conteúdo de nossos versículos, propomos observar


as ligações internas, as repetições de palavras, expressões e frases que vão concatenando
uma idéia à outra, formando unidade.

Paralelamente veremos que a grande maioria dos verbos está conjugada para o
tempo futuro. E que os pronomes na terceira pessoa do singular, perpassando os quatro
versos e interligando-os entre si.

[60]
Karl Elliger e Wilhelm Rudolph (editores), Biblia Hebraica Stuttgartensia, Stuttgart, Deutsche
Bibilgesellschaft, 1997.
[61]
José Severino Croatto, Isaías-A palavra profética e sua releitura hermenêutica, vol.2 40-55-A
libertação é possível, São Leopoldo/Petrópolis, Sinodal/Vozes, 1998, p.17 (317p.) (Comentário Bíblico).

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45

Na coesão interna observaremos as ligações que ocorrem. Veremos os elementos


que se repetem, outros que vão costurando uma frase na outra sintonizando a temática e
contribuindo harmoniosamente na formação das unidades. Em seguida, trataremos das
divisões internas do texto. Analisaremos novamente o bloco todo v.1-4.

Nesta mesma perspectiva, tentaremos descobrir o estilo. Observaremos as


ligações entre as frases que formam unidades maiores, as quais chamamos de estrofes.
Assim veremos que nossos versículos constituem ‘estrofes’.

Depois, veremos o gênero literário. Tentaremos identificar a que tipo de texto


pertencem os nossos versículos.

Posteriormente apresentaremos num novo item algumas informações sobre o


local e a época em que nossos versículos surgiram.

E, por fim, chegamos ao mais importante: o estudo dos conteúdos. Para tal,
consideraremos os resultados já alcançados, em especial as frases e as estrofes do
trecho.

2.1 TRADUÇÃO E CRÍTICA LITERÁRIA

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2.1.1 Tradução

Como já foi exposto, com o intuito de manter uma maior fidelidade ao texto
hebraico, propomos inicialmente a tradução interlinear. Seguiremos o texto da Biblia
Hebraica Stuttgartensia[62].

yvi_p.n., h:t'äc.r'
yrIßyxiB ABêê-%m't.a, yDIb.[; !hEÜ
.1

minha vida compraz se meu eleito sustento-me nele meu o escravo Eis

`ayci(Ay ~yIïAGl;
jP'Þv.mi wyl'ê[' ‘yxiWr
yTit;Ûn"

fará sair nações às direito ele sobre meu espírito o pus

`Al*Aq #WxßB [;ymiîv.y:-


al{)w aF'_yI al{åw> q[;Þc.yI al .2

sua voz rua na ouvir fará não e levantar não e gritará Não

hN"B<+k;y> al{å hh'Þke


hT'îv.piW rABêv.yI al{å ‘#Wcr' hn<Üq'
3

apagará não vacilante pavio e quebrará não rachada Cana

[62]
Karl Elliger e Wilhelm Rudolph (editores), Biblia Hebraica Stuttgartensia, p.739.

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#Wrêy" al{åw hh,k.yI


al 4 `jP'(v.mi ayciîAy tm,Þa/l,

quebrará não e desanimará Não .direito sair fará fidelidade para

p `Wlyxe(y:y>
~yYIïai Atßr'Atl.W jP'_v.mi #r,a'ÞB'
~yfiîy"-d[;

aguardam ilhas dele lei para e direito terra na estabelecer até

2.1.2 Crítica textual

O texto de Isaías 42,1-4, em grego, tem variantes em relação ao texto hebraico.


O mesmo acontece com o manuscrito do Mar Morto. Diante desta constatação,
propomos a crítica textual com intenção de identificar o texto mais antigo.

Este trabalho de crítica textual tem como base a Biblia Hebraica Stuttgartensia
BHS[63], a qual nos oferece um texto com informações sobre as modificações nas
traduções e nos manuscritos mais relevantes, sobretudo a Septuaginta (LXX)[64] e o
manuscrito do Mar Morto: Qumran (1QIs).

O texto da BHS do v.1a começa com uma partícula demonstrativa !h “eis”.[65]

A palavra ocorre uma única vez em toda a perícope. Ela faz a abertura do discurso.

Seguindo-se a palavra ydb[ que foi traduzida por “o meu escravo”.[66] No texto
grego da LXX no lugar de “escravo meu” temos Iakwb “Jacó” e no lugar e “eleito”

[63]
Biblia Hebraica Stuttgartensia, p.739.
[64]
Septuaginta, Stuttgart, Deutsche Bibelgesellschaft, 1979, p.622 (941p.); Vetus Testamentum Graecum
– Septuaginta interpretes, Roma, Vaticanum Editum, 1587, p.796-797 (1027p).
[65]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, São Leopoldo/Petrópolis, Sinodal/Vozes, 1988, p.55 (305p.).
[66]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.171.

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Israhl “Israel”. O texto da LXX identifica o “escravo” com “Jacó” e o “meu eleito”
com “Israel”.

Nas traduções para a língua portuguesa, Bíblia de Jerusalém[67], Bíblia


Peregrino[68], Bíblia Tradução Ecumênica[69], Bíblia de Estudo Almeida[70], Bíblia
Sagrada[71], La Bibia[72], Biblia Sacra iuxta Vulgatam Versinem[73], há unânimidade em

sustentar o texto da BHS com a palavra db.[ `eBeD. Optamos pelo significado de
“escravo”, por traduzir melhor o significado de db[`eBeD. Diante destas

constatações, suspeitamos que a versão grega tenha se baseado nas passagens do

Dêutero-Isaías como: 41,8.9; 44,21; 45,4; 49,3 e outras, onde o db[ é identificado
com Jacó e Israel. O que nos garante que o escravo do primeiro cântico é o mesmo que
ocorre nas outras passagens do livro? As variantes apresentadas pela LXX no texto do

primeiro cântico do escravo podem influenciar na interpretação de db[. Uma vez


que não temos apoio de textos antigos para justificarmos tais variações, optamos por
seguir os critérios dos estudiosos que o texto mais breve e de difícil compreensão está
mais próximo do original. Neste sentido, optamos, pelo texto da BHS por ele ser o mais
enxuto.

No v.1c, encontramos jpvm “direito”[74]. O texto do DSSIsa acrescenta um


w “e” no início e no final do termo jpvm “direito”. Com o acréscimo das variantes,
a tradução seria “e direito seu”.[75] Os acréscimos estão nas três ocorrências da palavra

jpvm nos v.1.3 e 4.

[67]
Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Paulus, 2004, p.1318-1319 (2206p.).
[68]
Bíblia Peregrino, São Paulo, Paulus, 2002, p.1781 (3056p.).
[69]
Tradução Ecumênica da Bíblia, São Paulo, Loyola, 1994, p.670 (2480p.).
[70]
Bíblia de Estudo Almeida, São Paulo, Sociedade Bíblica do Brasil, 2002, p.766 (1009p.).
[71]
Bíblia Sagrada, Petrópolis, Vozes, 1982, p.928 (1548p.).
[72]
La Bibbia–Nuovissima versione deí testi originali-Antigo Testamento–Libri sapienziali e libri
profetici, Milão, Paoline, vol 2, 1991, p.1145-1146 (2171p.).
[73]
Biblia Sacra – Iuxta Vulgatam Versionem, Stuttgart, Württembergische Bibelanstalt, vol.2, 1974,
p.1139 (1980p.).
[74]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.146.
[75]
Bilia Hebraica Stuttgartensia, p.739.

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Entretanto as versões da BHS e da LXX e Vulgata não consideram estas


variantes. Por isso, suspeita-se que sejam um acréscimo ou um vacilo do copista. As
traduções para o português também não adotaram estas variantes. É sinal de que não
merecem crédito.

No v.3a, o texto da BHS tem hhk “pavio” sem sufixo, enquanto o texto Isaías

de Qumran (1QIs) tem um sufixo pronominal na palavra hhk “pavio dele”. No

v.3b, o texto da BHS há um paralelismo com rwbvy “quebrará”, tem hnbky


“apagará”. A versão DSSIsa de Qumran tem hanbk “apagará” sem o sufixo.

No v.3c, o texto da BHS traz tma “verdade”, “firmeza”, “confiança”,

“fidelidade’, “lealdade”.[76] Com a preposição, o substantivo tmal foi traduzido da


seguinte forma: “para fidelidade”. O texto da LXX tem avlh,qeian. A Vulgata tem in
veritate “na verdade”. A variedade de variantes apresentadas pelas outras línguas não
alteraram o conteúdo do termo hebraico.

Para José Severino Croatto[77], tmal é um vocábulo muito denso, cujo

significado vai desde “fidelidade”, “verdade” até “aliança”, “compromisso”. “Ocorre


com freqüência nos contextos de aliança, onde se enfatiza a fidelidade ou permanência
na adesão ao compromisso assumido.”[78]

No v.4a, a BHS tem #wry que vem do verbo #Cr. No qal significa:
“quebrar”, “destroçar”, “oprimir”, “maltratar.”[79] No sentido espiritual quando vem

acompanhado de hhk pode significar: “desanimar”, “desacorçoar”. No caso do v.4,


#wry está no qal imperfeito da terceira pessoa do singular. Optamos por “quebrará”.

[76]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.14.
[77]
José Severino Croatto, Isaías – A palavra profética e sua releitura hermenêutica – vol.2, 40-55 – A
libertação é possível, 317p.
[78]
José Severino Croatto, Isaías – A palavra profética e sua releitura hermenêutica - vol.2, 40-55 – A
libertação é possível, p.70.
[79]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico–português, p.233.

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A LXX tem qraúw que significa: “quebrar”.[80] No grego o verbo qrausqh,setai pode ser
traduzido por: “será quebrado”/ “esmagado”/ “cansado”.

Nas traduções para o português, #wry tem uma variedade de variantes. A


Bíblia de Jerusalém tem “desacorçoará”; a Bíblia do Peregrino, “se quebrará”; a Bíblia
Tradução Ecumênica, “se vergará” e a Bíblia de Estudo Almeida, “se quebrará”. Se
analisarmos as variantes, todas têm o mesmo significado, por isso na tradução optamos

traduzir #wry por: “se quebrará”.

Em suma, depois de termos analisado as variantes propostas pelo texto da


Septuaginta (LXX), o manuscrito do Mar Morto: Qumran (1QIs) e a Vulgata,
concluímos que o texto da Biblia Hebraica Stuttgartensia (BHS) é o mais confiável.
Existem diferenças com os manuscritos de Qumran, Sepuaginta e a Vulgata, mas
manteremos o Texto Masorético, visto que cada uma destas obras é fruto de uma leitura
com uma perspectiva hermenêutica. Diante deste panorama, teremos o texto masorético
da Bíblia hebraica Stuttgartensia como o texto fonte para este trabalho.

No ponto seguinte trataremos de questões de forma, iniciando pela delimitação


do texto como uma etapa essencial para determinarmos os limites e a localização do
texto.

2.2. FORMA LITERÁRIA

Inicialmente propomos a delimitação para estabelecermos os limites do texto a


ser estudado. Onde ele começa e onde termina?

Quando se lê o Dêutero-Isaías pela primeira vez, percebe-se imediatamente que


há uma concatenação de idéias que impossibilita dividir o texto em grandes unidades.
De qualquer modo, é necessário delimitar o texto sem que ele perca o sentido para o
estudo. Vamos perceber que o início do texto escolhido não oferece grandes problemas
para identificá-lo. Mas a delimitação final é complexa.

[80]
Carlos Rusconi, Dicionário do grego do Novo Testamento, São Paulo, Paulus, 2003, p.227 (540p.).

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Depois que Bernhard Duhm[81] apresentou a proposta da delimitação dos

cânticos do db[ `eBeD “escravo”, desencadeou uma discussão até o momento não

solucionada definitivamente. Alguns estudiosos seguem a opinião de Bernard Duhm;


delimitam o texto de Isaías 42,1-4. Outros, como Pierre Bonnard[82], acrescentam os v.5-
9, José Severino Croatto[83] inclui até o v.12, e Luis Alonso Schökel e Jose Luis Sicre
Diaz[84] ampliam até o v.13.

Para melhor apresentarmos o problema, dividiremos a questão em dois pontos:


delimitação anterior e delimitação posterior.

2.2.1 Delimitação em relação à unidade anterior

Como vimos, o primeiro a delimitar os cânticos foi Bernhard Duhm em 1892,


definindo-os da seguinte forma: Isaías 42,1-4; cf. 49,1-6; 50,4-9 e 52,13-53,12. A partir

de então, se iniciaram os debates de delimitação dos cânticos do db[`eBeD


”escravo”. Quanto ao início do primeiro cântico, é fácil perceber que ele começa com a

partícula de interjeição !h “eis”; em 42,1 coloca em cena um novo personagem,

db[ `eBeD “escravo”, num alto estilo. No texto que antecede 41,29, aparece Javé

desafiando os falsos ídolos, dizendo que “todos eles nada são, suas obras não são coisa
alguma e que eles não passam de um sopro vazio”. Em seguida, no capítulo 42,1, muda

o conteúdo. Já não são mais os ídolos que estão sendo desafiados, mas o db[`eBeD
“escravo” que está sendo apresentado. Na unidade 41,21-29, os ídolos foram incapazes
de comparecer diante de Javé. Em 42,1 é Javé que apresenta o seu `eBeD como o eleito,

[81]
Bernhard Duhm, Das Buch Jesaja, Göttingen, Vadenhoek & Ruprecht, 3ª edição, 1914, p.284 (459p.).
[82]
Pierre E. Bonnard, Le Second Isaïe, Paris, Librairie Leco, 1972, p.123-125 (560p.).
[83]
José Severino Croatto, Isaías – A palavra profética e sua releitura hermenêutica – vol.2, 40-55 – A
libertação é possível, p.65.
[84]
Luis Alonso Schökel e José Luis Sicre Diaz, Profetas I, São Paulo, Paulinas, 1988, p.294-295 (679p.)
(Grande Comentário Bíblico).

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o mais bem indicado para desempenhar uma missão. Não há como não dizer que em
42,1 se inicia uma nova unidade. Há uma interrupção clara entre 49,29 e prossegue em
2,8. Os v.42,1-4 guardam a ligação com o texto anterior e posterior feita pelo fio
condutor, que é Javé.

Outro sinal que os masoretas utilizaram quando assinalaram o texto hebraico

para indicar o fim de uma unidade literária é o p peh no v. 41,29.

Em suma, podemos dizer que em 42,1 começa uma nova unidade. O que faz a
ligação com a unidade anterior é Javé, como sujeito falante, mas a temática, os tempos
verbais, a linguagem e os personagens são outros diferentes do capítulo 41,21-29. Isto
nos leva a concluir que no capítulo 42,1 inicia uma nova unidade literária, independente
do capítulo anterior.

2.2.2 Delimitação em relação à unidade posterior

Quando abordamos a delimitação do cântico em relação à unidade anterior,


assinalamos a dificuldade que se enfrenta para estabelecer limites seguros e definitivos
no Dêutero-Isaías. A dificuldade deve-se ao fato de que o texto do Dêutero-Isaías é
composto de pequenas unidades literárias, como uma colcha de retalhos mistos,
diferentes um do outro, mas conectados entre si de forma harmoniosa. Há ligações entre
as unidades, ainda que de forma subjetiva. O fio que tece as unidades nem sempre é
identificado no texto.

A delimitação com a unidade posterior do cântico é uma questão ainda a ser


discutida. Há opiniões diversas sobre o final do primeiro cântico. A falta de
unanimidade entre os estudiosos, leva-nos a pensar que a delimitação dos cânticos
representa um problema para a exegese. Uns jogam para frente e outros puxam para
trás.

Diante deste quadro, destacamos algumas opiniões de estudiosos sobre a

delimitação final do primeiro cântico do db[`eBeD de Javé:

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Luis Alonso Schökel e Jose Luis Sicre Diaz[85] dividem a seção do cântico do

db[`eBeD da seguinte forma: “Deus apresenta o seu escravo” (42,1-4), “Deus fala ao
seu escravo” (42,5-9) e “hino de vitória” (42,11-13). Na opinião destes autores, o texto
do primeiro cântico do servo faz parte de um bloco que vai de 42,1-13, composto por
três sub-unidades.

José Severino Croatto segue, praticamente, o mesmo caminho que Luis Alonso
Schökel e José Luis Sicre Diaz. Delimita o texto do cântico do `eBeD de Isaías 42,1-12
e considera os v.1-4 como uma subunidade, intitulando-a de “investidura do Servo de
Javé”; a segunda subunidade, v.5-9, denominando-a de “ações libertadoras do servo de
Javé”, e a terceira subunidade, v.10-12, de “celebração da vitória de Javé”.[86]

Pierre Bonnard[87], apresenta uma nova delimitação Isaías 42,1-4+5-9. Segundo


este autor, os v.5-9 estão ligados aos v.1-4, sendo assim duas partes independentes, mas
que ao mesmo tempo se completam. Os v.5-9 são um oráculo dirigido ao servo de v.1-
4.

José Ridderbos[88], sem justificativa, junta os versos e forma uma unidade,


delimitando o texto do cântico de Isaías 42,1-7.

Maria Antônia Marques e Shigeyuki Nakanose[89] delimitam o texto do cântico


de Isaías 42,1-9.

Poderíamos até dividir os pensadores de acordo com as opiniões sobre as

delimitações finais dos cânticos do db[ `eBeD. Estes ‘estudiosos’ em nota aceitam

a delimitação do texto do cântico de Isaías 42,1-4.[90] Mas isto não é o suficiente para
proceder a delimitação do texto, garante.

[85]
Luis Alonso Schökel e José Luis Sicre Diaz, Profetas I, p.294-295.
[86]
José Severino Croatto, Isaías – A palavra profética e sua releitura hermenêutica vol.2, 40-55 – A
libertação é possível, p.65.
[87]
Pierre E. Bonnard, Lê Second Isaïe, p.123.
[88]
José Ridderbos, Isaías, São Paulo, Vida Nova, 1995, p.338 (516p.).
[89]
Maria Antônia Marques e Shigeyuki Nakanose, Sonhar de novo, São Paulo, Paulus, 2004, p.69
(183p.).
[90]
Claus Westermann, Isaiah 40-66 - Commentary, Londres, SCM Press, 1971, p.92 (497p.); Milton
Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio – História e teologia do povo de Deus no século VI a.C.,
São Paulo/São Leopoldo, Paulinas/Sinodal, 1987, p.98 (134p.); Werner H. Schmidt, A fé do Antigo

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Analisaremos a fórmula introdutória do v.5 que segue o v.4: hwhy lah


rma-hk “assim disse o Deus Javé”. Percebe-se claramente que entrou em cena um
novo personagem falando em nome de Javé. Este elemento é fundamental. Interrompe a
seqüência dos v.1-4. Não é mais Javé que está falando, mas é um terceiro falando em
nome de Deus Javé. Nos v. 1-4, Javé é o sujeito falante do início ao fim. No v.5 não sai
de cena, mas entra outro, falando em nome de Javé.

A expressão: “assim diz Javé” do v.5a é uma fórmula usada pelo Dêutero-Isaías
nas introduções de oráculos (cf. 43,14.16; 44,6.24; 45,1.14). Sob este aspecto, temos
boas razões para separar o texto de 42,1-4 dos v. 5-7. Isso não significa que os textos
não tenham ligações entre si, mas é claro que 42,5-7 constitui uma nova unidade.

Segundo a fórmula introdutória deve ser um oráculo dirigido ao db[ `eBeD.

Outro sinal de origem masorético no fim da perícope, no v.4, é o p peh no texto

hebraico. Este também pode nos ajudar na identificação do fim da unidade. Somando
estes elementos, vemos que o conteúdo dos v.1-4 é diferente dos v.5-7. Nos v.1-4, Javé

está falando do db[ `eBeD na terceira pessoa do singular. No v.5, é alguém não

identificado: supõe-se que seja o profeta falando do Deus Criador. E nos v.6-7, volta

Javé, falando na segunda pessoa, com o seu db[`eBeD.

Diante do panorama apresentado, com suas devidas nuanças, acreditamos que os


argumentos apresentados sejam suficientes para sustentar que os v.1-4 formam uma

unidade literária, e que a delimitação do texto do primeiro cântico do db[`eBeD


“escravo” de Javé vai de 42,1-4.

2.2.3 Coesão interna

Testamento, São Leopoldo, Sinodal, 2004, p.311 (395p.); Anthony R. Ceresko, Introdução ao Antigo
Testamento, São Paulo, Paulus, 1996, p.250 (351p.) e Gerhard von Rad, Teologia do Antigo Testamento,
São Paulo, Associação de Seminários Teológicos Evangélicos, vol.2, 1974, p.241 (466p.).

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Observamos muitas palavras repetidas e o retorno da mesma idéia com palavras


diferentes. O tema central repete-se através de palavras semelhantes, mas ao mesmo
tempo diferentes, criando uma unidade densa. A temática é retomada de forma
diferente, através de palavras não exatas e usadas num segundo sentido de forma que
vai entrelaçando os verbos com os substantivos, através das conjunções e preposições,
de tal forma que o texto flui. Isto nos permite, desde já, dizer que estes versículos são
coesos.

Um dos elementos de coesão interna é o db[`eBeD. Ocorre uma única vez,


mas através dos pronomes pessoais “ele e nele”, do adjetivo “escolhido” e dos verbos da
terceira pessoa do masculino singular, que estão relacionados ao substantivo, fazem

com que o db[`eBeD seja um elemento fundamental de unidade interna, interligando

as frases e as estrofes entre si.

As cinco conjunções e as seis preposições colaboram com as ligações das frases,


entrelaçando-as entre si, formando um bloco conciso.

Outro elemento que constitui unidade é Javé; ele perpassa o Dêutero-Isaías como
criador (40,28; 42,5), redentor (45,3.4), solidário (40,1), misericordioso (49,15; 54,7),
pastor (40,11), oleiro (44,12; 54,17), próximo (45,3) e outros mais. No texto de 42,1-4,
a palavra Javé não aparece, mas subentende-se que é ele quem está apresentando o seu
trabalhador.

Um elemento forte, constituinte de coesão, é a palavra jpvm “direito”.

Aparece nos v.1.3.4, indicando a missão do db[`eBeD. O jpvm “direito” ocupa


pontos estratégicos dentro do texto. O seu significado deve ser fundamental para a

interpretação da mensagem. O mesmo acontece com a raiz do verbo acy “sair”, que
acompanha as duas primeiras ocorrências do jpvm “direito” nos v.1 e 3.

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No v.4b jpvm “direito” ocorre em paralelo com hrwt “instrução”, “que

as ilhas aguardam”[91]. São elementos que fazem a coesão interna, garantindo a unidade
do texto.

O advérbio de negação alo “não” ocorre sete vezes nos v.2-4, sempre

interligando os verbos: “não gritará”, “não clamará”, “não fará ouvir”, “não quebrará”,
“não apagará”, “não desanimará”, “não desistirá”.

Os v.3-4a retomam a temática do v.2 e introduzem dois novos elementos: “cana


rachada” e “pavio vacilante”. Os verbos que acompanham os substantivos, estão ligados
aos advérbios de negação, seguindo o mesmo estilo do v.2. Os v.2-4a formam uma
coesão entre si através dos sete advérbios de negação que indicam o “modo operante do
servo”.

No v.4b, retoma-se novamente o tema central jpvm “direito” sob uma nova

perspectiva, em sintonia com hrwt “instrução”. A relação entre “direito” e

“instrução” indica que a temática se relaciona e se completa do v.1 ao v.4.

Encontramos sete verbos no qal. Quatro deles no imperfeito da terceira pessoa


do masculino singular. Dois no perfeito da primeira pessoa do singular e um no
particípio passado. Três verbos estão no hifil imperfeito, um no plural e dois no singular
e um no piel imperfeito da terceira pessoa do masculino singular. Os verbos fazem uma
ligação interna muito forte entre a missão e o modo operante do escravo.

Resumindo, vemos existir uma grande harmonia interna. Esta harmonia cria uma
unidade coesa de sentido, onde tudo está fortemente relacionado entre si.

Uma vez vista a coesão interna, no próximo passo queremos investigar se este
bloco é harmonioso em tudo ou se apresenta subdivisões.

2.2.4 Subdivisões internas


[91]
José Severino Croatto, Isaías - A palavra profética e sua releitura hermenêutica – vol.2, 40-55 – A
libertação é possível, p.70.

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57

Num primeiro momento, os versos de 1-4 apresentam uma trajetória coesa sem
percalços. Porém, se observamos atentamente, encontraremos pequenas interrupções.

A primeira interrupção nós a encontramos logo no final do v.1, onde se

apresenta o tema central desta mini-unidade na frase: ayci(Ay ~yIïAGl;


jP'Þv.mi “direito às nações fará sair”. Percebe-se que o v.1a faz a introdução,

apresentando o escravo. Os demais elementos, como: verbos, pronomes, adjetivos e


substantivos, convergem para a figura do escravo que “fará sair direito às nações”. Esta
frase final completa o sentido da subunidade, fazendo uma interrupção e formando a
primeira estrofe.

Prosseguindo com a leitura, encontramos um advérbio de negação no início do


v.2, assinalando um novo começo. Da missão do escravo, tema da estrofe anterior, a
atenção se volta para o modo operante do `eBeD. Esta unidade começa dizendo o que o
servo não vai fazer em sua missão. São sete negações que marcam o tema da segunda
subunidade v.2-4a que é composta de oito frases. A interrupção é feita pelas duas frases

#Wry" al{w. hh,k.yI aol “não desistirá e não se desanimará”.


Os verbos concluem a temática da estrofe, indicando que a missão nas mãos do escravo
está segura e terá êxito. Depois do v.4a, uma nova interrupção ocorre no v.4c,

Wlyxey:y> ~yYIïai Atßr'Atl.W “e para lei dele ilhas

guardam”. Os massoretas assinalaram o final da unidade literária no v.4c com a letra

hebraica p peh.

O conteúdo da terceira subunidade gira em torno da dimensão da missão de


“estabelecer o direito na terra” v.4b. No v.4c as “ilhas aguardam suas instruções”, a
conjunção faz ligação com a frase anterior e conclui, retomando o tema da dimensão
presente nas “ilhas”, lugares distantes que estão esperando as instruções do escravo.

Em síntese, concluímos com esta análise que os nossos versículos apresentam


três divisões: a primeira, v.1 trata da apresentação, eleição, preparação e missão da
liderança “escravo”; a segunda, v.2-4a, mostra o modo certo de agir de uma liderança,
para fazer surgir o direito aos pobres; a terceira, v4b-4c revela a dimensão da missão.

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2.3 ESTILO LITERÁRIO

Para estudar o estilo, queremos proceder com a análise das frases, como elas
repetem as idéias e como se relacionam.

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2.3.1 Primeira estrofe (v.1)

yvi_p.n: ht'äc.r" yrIßyxiB


ABê-%m't.a, ‘yDIb.[; !he

`ayci(Ay ~yIïAGl; jP'Þv.mi wyl'ê['


‘yxiWr yTit;Ûn".

Eis escravo meu, sustento nele, o eleito meu se compraz vida minha.

Pus sobre ele espírito meu direito para as nações fará sair.

A frase inicial começa assim: yDIb.[; !he “eis o escravo meu”. A


frase começa com uma interjeição, !he “eis”, seguida pelo substantivo

yDIb.[; “eis escravo meu”. O substantivo perpassa o texto através dos

pronomes pessoais, adjetivos e verbos na terceira pessoa do singular. A segunda frase

v.1b, ABê-%m't..a “sustento-o”, está ligada à primeira de forma que não se


pode dizer uma sem a outra. Esta inclinação está expressa pelo tempo verbal e o sufixo

pronominal que se referem ao sujeito yDIb.[; “escravo meu”. A terceira frase


também depende da primeira yvi_p.n: ht'äc.r yrIßyxiB
“eleito meu se compraz minha alma”. O adjetivo “eleito” tem um sufixo pronominal da

primeira pessoa do singular que se refere ao substantivo yDIb.[; “escravo meu”.

O adjetivo que qualifica o substantivo, indica que a frase está subordinada à primeira,

onde se encontra o sujeito. A quarta frase é yvi_p.n: ht'äc.r" “se


compraz vida minha”, traduz efeitos das frases anteriores da apresentação e da escolha

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do `eBeD. As partes da frase estão em sintonia profunda com a temática da


apresentação.

Uma vez feita a apresentação do escravo, Javé abre a quarta frase wyl'ê['
‘yxiWr yTit;Ûn". “coloquei o espírito meu sobre ele”. Nela encontramos dois
sufixos pronominais que ligam com a frase anterior “meu” e “ele”. O sufixo da primeira
pessoa refere-se a Javé, que está apresentando o seu escravo e o sufixo da terceira

pessoa do singular refere-se ao db[ `eBeD “escravo”.

A última frase do v.1c conclui a primeira estrofe da apresentação e preparação

do escravo para a missão; ayci(Ay ~yIïAGl; jP'Þv.mi “direito para as

nações fará sair”. Existe uma harmonia crescente entre os termos e a temática das frases
do v.1 fazendo da estrofe uma subunidade completa. No início, há uma introdução -
v.1ª; em seguida, no mesmo v.1b os preparativos e no v.1c conclui com a missão.

Resumindo, o estilo foi cuidadosamente pensado, e organizado de tal forma que


há uma frase longa e duas curtas, com o peso maior na primeira frase. As outras frases
encontram-se nela ancoradas.

Sugerimos a organização das frases da primeira estrofe do seguinte modo:

Eis, (é) o meu escravo,

sustento-o,

o meu eleito, minha vida se compraz.

Pus sobre ele o meu espírito,

Direito às nações fará sair.

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2.3.2 Segunda estrofe (v.2-4a)

Quando falamos da coesão interna, assinalamos as palavras que constituem


elementos de unidade nas três estrofes. Nesta estrofe evidenciaremos com clareza as
repetições.

Al*Aq #WxßB; [:ymiîv.y:-


al{)w> aF'_yI al{åw>
q[;Þc.yI al{ï

hN"B<+k;y> al{å hh'Þke


hT'îv.piW rABêv.yI al{å ‘#Wcr\ hn<Üq'

#Wrêy" al{åw hh,k.yI al


jP'(v.mi ayciîAy tm,Þa/l

Não gritará e não clamará e não fará ouvir na rua a voz dele

Cana quebrada não quebrará e pavio vacilante não apagará;

Para fidelidade fará sair direito, não desistirá e não quebrará.

De início percebemos logo que a primeira frase começa com um advérbio de

negação al “não”. Ele ocorre sete vezes numa posição estratégica, sempre precedendo

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os verbos de ação, interligando as frases a partir dos verbos: “não gritará”, “não
clamará”, “não fará ouvir”, “não quebrará”, “não apagará”, “não desistirá”, “não
desanimará”. São sete verbos todos eles na terceira pessoa masculino do singular. Além

dos advérbios de negação que criam unidade, temos três conjunções w “e” que

interligam as frases.

É interessante perceber que as duas primeiras frases, praticamente, se repetem. É


retomado o tema de uma na outra com pequenas diferenças. As duas formas verbais
jogam a ação para o futuro. Os verbos são incompletos, mas se complementam no
sentido. São semelhantes, mas cada um guarda o específico que faz a diferença. O
compositor deste poema merece um voto de louvor. O estilo refinado de retomar o
mesmo tema, de uma forma diferente, envolve palavras semelhantes, mas com sentidos
diferentes. O Dêutero-Isaías pode ser considerado o maior profeta e o melhor poeta de
Israel.[92]

Na terceira frase, retoma-se o tema da dicção das frases anteriores de uma outra

forma. Al*Aq #WxßB; [:ymiîv.y:-al{)w> “e não fará


ouvir na rua voz dele”. A frase começa com uma conjunção w “e” que interliga com a
frase anterior, dano seqüência a ela. O advérbio de negação al{ “não”, sintonizado
com os outros advérbios, colabora com a unidade da estrofe. A forma verbal

[:ymiîv.y “fará ouvir” está na terceira pessoa do singular, semelhante aos


verbos anteriores, sintonizado com o sujeito “escravo” e a temática. Três dos verbos
criam um campo semântico em torno da temática, de modo que o sentido das frases se
completa.

A quarta frase é a do v.3a rAbv.yI al{å #Wcr"


hn<Üq' “cana rachada não quebrará”. Começa com a expressão #Wcr"
hn<Üq' “cana rachada”. É um estilo direto de falar, onde o sujeito aparece antes
do verbo. Esta inversão, que antecede o sujeito do verbo é, no hebraico, sinal de que o
autor quer realçar o sujeito na frase.
[92]
Luis Alonso Schökel e José Luis Sicre Diaz, Profetas I, p.269.

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O verbo #cr “rachar”, no hebraico, está conjugado no qal particípio passivo

masculino absoluto. Este verbo encontra-se ligado ao segundo verbo da frase

rABêv.yI “quebrará”. Os dois verbos se relacionam dentro da mesma temática.


O advérbio de negação al “não”, que antecede o segundo verbo “não quebrará”, está
sintonizado com as frases anteriores.

A temática e o estilo continuam na frase que segue; hN"B<+k;y> al{å


hT'îv.pe hT'îv.piW “e pavio vacilante não apagará”. A frase começa com uma
conjunção prefixada ao substantivo qualificado por um adjetivo hT'îv.p
hT'îv.pw “e pavio vacilante”. A conjunção interliga com a frase anterior. E o

substantivo adjetivado apresenta uma imagem de quem “está correndo risco de vida”,
combinando com a “cana rachada”.

A quinta frase da segunda estrofe é jP'(v.mi ayciîAy


tm,Þa/l, “para fidelidade fará sair direito”. Apresenta uma dificuldade no

discernimento de sua função. Os próprios Karl Elliger e Wilhelm Rudolph[93]


assumiram o risco e jogaram esta frase para a terceira estrofe, fazendo com que as três
estrofes fossem idênticas com o mesmo número de frases. Mas começar uma estrofe

com a preposição l “para” é difícil, devido à sua elasticidade. Precedendo o

substantivo tma “fidelidade”, a preposição possibilita a mudança de significado do


substantivo tma.

O verbo e o substantivo jP'(v.mi ayciîAy “fará sair direito”


está em paralelo com a estrofe anterior. Os beneficiados da primeira estrofe serão “para

as nações”, nesta os beneficiados do jP'(v.mi “direito” serão “cana rachada”

[93]
Biblia Hebraica Stuttgartensia, p.739; veja também em Karl Elliger, Jesaja 2, Neukirchen,
Neukirchener Verlac, 1971, p.198 (240) (Biblischer Kommentar Altes Testament, 11).

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e “pavio vacilante”. Há um entrelaçamento de palavras e frases, semelhante a uma bola,


onde uma peça é costurada na outra com um acabamento artístico e harmonioso. A
conclusão da primeira estrofe encontra-se na última frase da segunda estrofe, repetindo

o mesmo substantivo e verbo jP'(v.mi ayciîAy “fará sair direito”.

As últimas frases da estrofe são: #Wrêy" al{åw hh,k.yI


al “não desistirá e não se quebrará”. Seguem o estilo anterior, começando com

advérbio de negação e retomando a temática sob um novo sentido: “não desistirá”, “e

não se desanimará. As duas frases estão ligadas por uma conjunção w “e”.

Os verbos #wr e hhk “desistir” e “quebrar” estão no qal imperfeito da


terceira pessoa do masculino singular. No sentido semântico, os verbos se completam e
revelam uma postura de firmeza, coragem e perseverança.

Observando a estrofe, percebemos que há quatro conjunções w “e”, e duas

preposições b “em” e l “para”, sete advérbios de negação al “não”. Nove verbos


são conjugados no imperfeito na terceira pessoa, no masculino, um no plural e oito no
singular. Cinco são conjugados no qal, dois verbos no hifil, um no particípio e um no
piel. São quatro frases curtas e uma longa. As quatro primeiras estão inclinadas sobre a

última que começa com a preposição l “para”. Esta frase tem duas partes que

funcionam como uma dobradiça: serve de conclusão e ao mesmo tempo dá chance de


continuação.

Em suma, a segunda estrofe, v.2-4a, é marcada por uma contínua repetição de


palavras e idéias, por um constante vai e vem sobre si mesma. Os advérbios de negação
fazem uma concatenação de palavras e frases de forma que tudo está em sintonia. O

substantivo jP'(v.mi “direito” resgata a estrofe anterior, criando unidade

entre as estrofes através do conteúdo temático.

De forma sintética, o estilo destas frases se identifica com a estrofe anterior e se


caracteriza pela subjetividade, repetições e metáforas. As repetições são vestígios tênues

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que caracterizam a poesia hebraica.[94] Enquanto a poesia ocidental desenvolve-se,


linearmente, a poesia hebraica anda de forma circular.

Partindo do estudo da correlação nas repetições das fases propomos a


organização das frases da segunda estrofe do seguinte modo:

não gritará

e não clamará

e não fará ouvir na rua a voz dele

cana esmagada não quebrará

e pavio vacilante não apagará,

para fidelidade fará sair direito.

não desistirá

e não se quebrará.

2.3.3 Terceira estrofe v.4b-4c.

jP'_v.mi
#r,a'ÞB' ~yfiîy"-d[;.

p `Wlyxe(y:y>
~yYIïai Atßr'Atl.W

Até implantar na terra direito

Em relação à lei dele ilhas aguardam.

[94]
Luis Alonso Schökel, Estúdios de poesía hebrea, Barcelona, Juan Flores Editor, 1963, p.329 (549p.).

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Depois de tratar da apresentação, da preparação, da missão que o servo vai


desempenhar, na última estrofe dá-se a garantia de que a missão vai ter êxito.

A primeira frase da terceira estrofe é jP'_v.mi #r,a'ÞB'


~yfiîy"-d[;. “até implantar na terra direito”, começa com uma preposição
d[ “até”. É difícil começar uma frase com a preposição d[ “até” por causa do seu
sentido. Mas, neste caso, a preposição está ligada ao verbo ~yf “implantar” por um
maqqef “hífen”o que parece estar a indicando a extensão de tempo da ação. Este verbo é

diferente dos outros verbos ligados ao jpvm. O substantivo #ra “terra” indica a
dimensão da missão.

A última frase da última estrofe é Wlyxe(y:y> ~yYIïai


Atßr'Atl.W “e em relação à lei dele ilhas aguardam”. A conjunção inicial é

w “e”. Faz ligação com a frase anterior. O substantivo hrwt “instrução”[95] vem

acompanhado de uma preposição “em relação à” e de um sufixo pronominal da terceira


pessoa do masculino singular “dele”. Foi traduzido da seguinte forma: “ a instrução dele
ilhas aguardam”.

Concluindo o estudo do estilo, o que se pôde observar é que há três estrofes


fortemente interligadas entre si e ao mesmo tempo independentes. A segunda estrofe é a
mais complexa. Deverá ser a porta de entrada para a compreensão do conteúdo. É difícil
pensar que o último verso da segunda frase venha a pertencer à terceira estrofe; isto até
viabilizaria a estruturação do texto, mas tornaria mais complexa a compreensão do
conteúdo. É preferível pensar o v.4a na segunda estrofe como uma peça flexível onde
termina, mas dá oportunidade de continuação. Tudo indica que não foi por acaso que o
autor tenha pensado na estrutura do cântico. As repetições de palavras, linguagem
flexível e metáforas revelam o estilo poético.

[95]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico–português, p.265.

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Propomos a organização das últimas duas frases do nosso texto da seguinte forma:

Até implantar na terra direito

em relação à lei dele ilhas aguardam

Quanto o seu estilo de reflexão é circular, parte de um centro para fora, num

dinamismo semelhante ao movimento do verbo ayci(Ay “fará sair”, “levar para

fora”.[96]

2.4 GÊNERO LITEÁRIO

Partindo do princípio de que o Dêutero-Isaías não tem um único gênero, vamos


centrar forças no texto em questão. Ernst Sellin e Georg Fohrer[97], definem os nossos

[96]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico–português, p.92.
[97]
Ernst Sellin e Georg Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, Academia Cristã/Paulus,
2007, p.532-538 (826p.).

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versos como sendo um oráculo de salvação. Outros[98], definem o texto como sendo um
cântico.

Aproximação dos v.1-4 com o saltério é evidente:

“Fui eu que consagrei o meu rei

sobre Sião, minha montanha sagrada!

Publicai o decreto de Javé;

ele me disse: ‘tu és meu filho,

eu hoje te gerei’.

Pede que eu te darei as nações por herança,

os confins da terá como propriedade”. (Sl 2,6-8)

Este exemplo no mostra que existe semelhança entre o texto em estudo com o
saltério. Este dado nos ajuda, mas não é o suficiente para definir o gênero dos nossos
versículos. Para reforçar o lado litúrgico do nosso texto, há que dizer que era usado na
cerimônia litúrgica de entronização dos reis, na qual se utilizavam salmos
veterotestamentários do sofrimento do rei.[99]

Quando analisamos o conteúdo dos nossos versos, percebemos que o v.1 tem
algo semelhante: a escolha de um rei. “Vejam agora quem Javé escolheu? Não há quem
se lhe compare entre todo o povo” (1Sm 10, 24). Embora no exemplo não esteja Javé, o
texto se assemelha.

[98]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio – História e teologia do povo de Deus no século.
6º a.C., p.103-107; José Severino Croatto, Isaías – A palavra profética e sua releitura hermenêutica –
vol.2, 40-55 – A libertação é possível, p.66-72, Jean Steinmann, O livro da consolação de Israel, São
Paulo, Paulinas, 1976, p.124-129 (331p.); Carlos Mesters, A missão do povo que sofre – Tu és meu servo,
Petrópolis, Vozes, 3ª edição, 1994, 194p.
[99]
Ernst Sellin e Georg Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento, p.532; Jean Steinmann, O livro da
consolação de Israel, p.225-228.

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Considerando que o nosso texto começa com a partícula de interjeição “eis”


utilizada por Javé para apresentar o seu escravo em alto estilo, no v.1; que nos v.1.3.4,
Javé indica a missão do `eBeD e seus beneficiados; que nos v.2-4a indica o modo de
agir do `eBeD e nos v.4b e 4c apresenta a dimensão da missão, pode-se dizer que o
gênero do texto v.1-4 é um cântico de apresentação.

2.5 LUGAR

Para melhor entender a profecia do Dêutero-Isaías, é viável situá-la no horizonte


histórico do exílio babilônico, no 6º século a.C., época, marcada pelas grandes
reviravoltas na história e na vida do povo judaíta. Como vimos no contexto, a Babilônia

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assumiu a herança da Assíria no domínio do Antigo Oriente Próximo. A estrutura de


poder do império foi determinante, colocou em segundo plano as outras potências. A
cidade da Babilônia tornou-se um símbolo de poder, construída com enorme luxo e
esplendor. Era a capital do mundo, centro de irradiação para os países do Oriente
Próximo.[100]

Por volta do ano 550, o império babilônico entra em decadência. Surge Ciro,
persa, como um novo soberano militar. Dêutero-Isaías sabia de Ciro. Saúda-o como
“ungido” (Is 45,1). O profeta interpretava seus avanços militares como sendo da
vontade de Javé. As vitórias de Ciro eram vistas como sinais de libertação para os
exilados: “por amor de vós enviarei inimigos contra a Babilônia” (Is 45,13).

O Dêutero-Isaías não chegou a conhecer a conquista da Babilônia por parte dos


exércitos persas, em 539 a.C.. Deve ser anterior à entrada triunfal de Ciro na capital
babilônica. Mas, Ciro já é conhecido pelo profeta anônimo. A ele se refere
expressamente: “Quem suscitou do Oriente aquele a quem a justiça chama para segui-la,
a quem ele entrega as nações e sujeita reis? Sua espada reduz a pó, seu arco os torna
como palha levada pelo vento. Ele os persegue e avança tranqüilamente por vereda que
seus mal tocam” (41,2-3). Em 44,28, Ciro é chamado de “meu pastor”. Pode-se datar
Dêutero-Isaías entre 550 e 540 a.C., época do declínio babilônico e da ascensão persa
no palco das dominações internacionais.[101]

Pode-se admitir o profeta anônimo, que exerceu sua atividade na época final do
exílio, não como um indivíduo, mas como um grupo de lideranças ou como uma escola
que surgiu no final do exílio, nos anos do 6º século a.C., na Babilônia, num local
desconhecido.[102] Neste sentido, é viável situar o Dêutero-Isaías no exílio,
concretamente entre os cantores, nas comunidades dos exilados. As características do
Dêutero-Isaías depõem a favor de que é possível que tenha exercido algumas funções
nas celebrações litúrgicas das comunidades exiladas.[103] Em favor dessa hipótese, temos

[100]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, Petrópolis/São Leopoldo, Vozes/Sinodal,
vol.2, 2000, p.410 (535p.).
[101]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio – História e teologia do povo de Deus no século
6º a.C., p.89. Confira também a opinião de Ernst Sellin e Georg Fohrer, Introdução ao Antigo
Testamento, p.529-531; José Ridderbos, Isaías, p.32-41.
[102]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, vol. 2, p.439.
[103]
Ernst Sellin e Georg Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento, p.532.

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a semelhança do Dêutero-Isaías com o saltério.[104] Para melhor visualizarmos a


semelhança que há entre o Dêutero-Isaías como o saltério, vejamos um exemplo:

Cantai a Javé um cântico novo,

Cantem o seu louvor desde as extremidades da terra

Os que descem ao mar e tudo o que o povoa,

As ilhas e seus habitantes (Is 42,10)

Cantai a Javé um cântico novo!

Terra inteira cantai a Javé!

Cantai a Javé, bendizei o seu nome! (Sl 96,1-2a)

Esta semelhança nos permite incluir o profeta na tradição dos cantores.[105]


Diante desta constatação, pode-se admitir que o Dêutero-Isaías, por razões práticas,
tenha sua origem entre os cantores do templo, formado por sacerdotes levitas que
haviam sido exilados na segunda deportação (587 a.C.) e que tenham se servido das
celebrações litúrgicas para transmitir sua mensagem aos participantes da
[106]
comunidade.

À luz dessas informações, podemos nos perguntar: onde foi pronunciado o


cântico? No início, os deportados judaítas organizaram-se numa espécie de colônias de
escravos. Nelas podiam trabalhar para se sustentar e pagar os tributos ao estado, embora
vigiados. Podiam celebrar cultos a Javé, com rito do sábado e da circuncisão. Mesmo
não sabendo o que aconteceu com os cantores, sacerdotes, levitas e servidores do

[104]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio – História e teologia do povo de Deus no século
6º a.C., p.93.
[105]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História e teologia do povo de Deus no século
6º a.C. p.89.
[106]
Ernst Sellin e Georg Fohrer. Introdução ao Antigo Testamento, p.532; Milton Schwantes, Sofrimento
e esperança no exílio - História e teologia do povo de Deus no século 6º a.C. p.93; Maria Antônia
Marques e Shigeyuki Nakanose, Sonhar de novo, São Paulo, Paulus, 2004, p.12 e 73 (183p.).

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templo, deportados em 587 a.C., é plausível pensar que tenham começado a organizar as
comunidades dos escravos exilados. Não temos nada documentado sobre isto. Mas o
Dêutero-Isaías poderia nos dar boas pistas. O profeta do Dêutero-Isaías, apesar das
lamentações do povo, dizendo que Javé o tinha abandonado, busca manter viva a chama
da fé em Javé, o Deus dos pobres. Embora não sabermos oficialmente, muitos desses
cantores devem ter morrido e outros abandonado a Javé com o passar do tempo. Mas, os
que se mantiveram firmes na caminhada da comunidade, deram um novo impulso à fé
dos exilados. O local mais exato da transmissão do cântico aos escravos exilados, é
provável que tenha sido nas celebrações comunitárias.[107]

O texto do cântico do escravo deve ter surgido num contexto de conflito entre
dois sistemas sociais: tributário e o igualitário. No sistema tributário é piramidal, onde o
rei é quem manda, ele está no topo da pirâmide. O povo não tem acesso às decisões
políticas, econômicas e sociais. O rei decide tudo por todos. O povo só tem o direito de
trabalhar para sustentar a elite através do imposto ou do tributo. O sistema igualitário é
Deus que está no centro é povo é o sujeito da sua história. O povo participa das decisões
de forma partilhada.

2.6 AUTORIA

No capítulo um, quando abordamos a segunda deportação para a Babilônia, foi dito
que junto com o povo deportado foram levados os cantores do templo. Quem são eles?
Vamos voltar um pouco na história. No início da formação do povo de Israel, quando os

[107]
Herbert Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, vol.2, p.435-439.

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levitas faziam parte do grupo de lideranças orientavam a vida da comunidade, baseados


no sistema igualitário e solidário. Com a monarquia, esses líderes entraram em conflito
com o sistema, e foram expulsos do templo no tempo do rei Salomão (1Reis 2,26-27).
Com a expulsão os levitas, Sadoc, um sacerdote estrangeiro, assumiu a chefia do templo
(1Reis 2,35). Desde então, surgem dois tipos de lideranças: um grupo era dos sadoquitas
que atuavam no templo e o outro era formado pelos levitas que atuavam no meio do
povo trabalhador do interior, fora do templo. Os levitas procuravam observar as leis e as
tradições tribais, enquanto os sadoquitas oficiais, que atuavam no templo, apoiavam a
monarquia que controlava o templo de Jerusalém na arrecadação dos tributos.

Entre 640 a 609, a reforma do rei Josias proibiu qualquer sacrifício fora do templo
de Jerusalém. Os demais templos foram profanados e destruídos. Os levitas que
atuavam no interior, foram trazidos à força para Jerusalém (2Reis 23, 8-9). Os que se
recusaram obedecer às ordens do rei Josias, foram destituídos, perseguidos e alguns até
mortos. Os que foram parar em Jerusalém para sobreviver, tiveram que se submeter a
trabalhar como sacerdotes de segunda ou terceira categoria. A categoria deles era tão
baixa, que nem foram contemplados na escolha da primeira deportação para a
Babilônia. Só na segunda deportação é que parte deles foi levada para o exílio; outros
devem ter ficado em Jerusalém.

Os cantores eram pessoas simples, lideranças de segunda categoria, defensores dos


pobres. Que apesar de marginalizados eles não abandonaram a fé em Javé libertador. No
exílio, certamente, eles continuaram com o ministério de liderança nas celebrações
comunitárias. Provavelmente, foram eles que resgataram os grandes eventos do passado
e os reinterpretaram dentro de um novo contexto de opressão e sofrimento. A partir da
experiência de vida, o grupo projeta uma nova liderança baseada no amor, na partilha,
na solidariedade, na gratuidade e na ternura. “Não quebrará a cana rachada e nem
apagará o pavio vacilante” (Isaías 42,3). Outra estratégia é fazer sair o direito entre os
pobres e oprimidos (Isaías 42, 1-4).

O nome deles não sabemos, mas os vestígios deixados nos capítulos 40-55 são
bastante claros: indicam que o Dêutero-Isaías surgiu do grupo de cantores que atuavam
junto ao povo exilado na Babilônia. A favor desta hipótese temos o estilo poético e a

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semelhança com o saltério, indicando que o texto era usado nas celebrações
litúrgicas.[108]

Para Pierre Bonnard[109] os cânticos do escravo de Javé são partes integrantes e


homogêneos ao texto do Dêutero-Isaías. Não dá para separar os cânticos do `eBeD de
Javé do contexto dêutero-isaiânico. Devemos acabar de uma vez por todas com a
opinião de Bernard Duhm que atribui 42,1-4 a um autor pós-dêutero-isaiânico. que
escreveu na época do autor do livro de Jó e antes o livro de Malaquias. Sua
argumentação é que os v.5-7 foram inseridos ao texto de Dêutero-Isaías para ancorar o
cântico do escravo (v.1-4). Antes de Bernard Duhm, havia um consenso de que o
Dêutero-Isaías seria um livro independente dos capítulos 1-39. Mas, ao afirmar que os
cânticos do`eBeD de Javé eram independentes do contexto dêutero-isaiânico e que os
mesmos não pertenciam ao Dêutero-Isaías, criou divergência de opiniões.[110]
Atualmente está sendo aceita a hipótese de que os cânticos têm suas semelhanças com
os capítulos 40-55, mas também tem suas diferenças e por essas razões são estudados a
parte.

2.7 CONTEÚDO

[108]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio – História e teologia do povo de Deus no século
6º a.C.,p.93.
[109]
Pierre Bonnard, Lê Second Isaïe son disciple, Paris, Libraire Leco, 1972, p. 36-39 (560p.).
[110]
Bernard Duhm, Das Buch Jesaja, p.258.

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Para o estudo do conteúdo procederemos à análise das frases dentro de cada


estrofe, conforme a organização demonstrada no estudo do estilo. O texto em estudo
tem quatro versículos, os quais compõem três estrofes. A primeira estrofe é formada
pelo v.1, a segunda é formada pelos v.2-4a e a terceira estrofe pelos v.4b e 4c.
Analisaremos o conteúdo sem distanciarmo-nos do contexto em que nasceu o texto.

Vejamos, pois, o conteúdo da primeira estrofe, o v.1.

2.7.1 Apresentação e missão do `eBeD, - Primeira estrofe

Inicialmente retornaremos à tradução, dando ênfase ao literal.

yDIb.[;
!hEÜ

ABê-
%m't.a

yvi_p.n:
ht'äc.r" yrIßyxiB

wyl'ê['
‘yxiWr yTit;Ûn"

`ayci(Ay
~yIïAGl; jP'Þv.mi

Eis, (é) meu escravo,

sustento-o,

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meu eleito se compraz minha vida.

Pus o meu espírito sobre ele,

Direito às nações fará sair.

Na seção referente ao estilo, foi indicado que a primeira frase é longa e de


conteúdo denso. Para melhor estudá-la propomos dividi-la em partes. A primeira delas é

yDIb.[; !hEÜ “eis(é) meu escravo”. A frase começa subitamente com a


partícula de interjeição !h. É marcada pelo tom exclamativo e direto de falar, no
sentido de “eis”. A partícula “eis” não está apenas diante do substantivo `eBeD, ela
inicia o cântico; tem a função de chamar atenção dos ouvintes para a apresentação do
escravo. É a grande novidade. A base do conteúdo da frase encontra-se na primeira
parte. Seria semelhante à locomotiva que vai puxando as outras frases. Daria até para
imaginar o apresentador apontando com o dedo e dizendo para os ouvintes: “eis” o meu
escravo.

Nesta primeira frase aparece alguém não identificado, que se dirige a um


destinatário indeterminado para falar de seu `eBeD não identificado e diz:

yDIb.[; !hEÜ “eis `eBeD meu”. Entram em cena três personagens sem

identificação. Quem são eles? O primeiro é o apresentador. Supõe-se que seja Javé
como o mestre cerimonial que apresenta o seu `eBeD. O mesmo da unidade anterior que
se refere a Ciro o persa: “suscitei-o do Norte e ele veio, desde o Oriente; foi chamado
pelo seu nome. Ele pisa os governadores como lodo, da mesma maneira que o oleiro
amassa a argila” (Isaías 41,25). Desafia os ídolos, dizendo: “todos eles nada são” (Is
41,29). Agora apresenta o seu mediador dizendo: “eis, o meu `eBeD” (Isaías 42,1) e
retorna logo adiante dizendo: “eu Javé, te chamei para justiça, tomei-te pela mão e te
modelei, eu te constituí como aliança do povo e luz das nações” (Isaías 42,6). Embora a
palavra Javé esteja oculta na frase, torna-se evidente quando aparece o sufixo

pronominal possessivo da primeira pessoa no substantivo yDIb.[; `abDi

“escravo meu” o escravo tem dono. Mesmo não revelando a identidade do dono, a
partícula “eis” e o sufixo “meu” indicam que o apresentador é Javé.

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O segundo personagem que aparece sem identificação na primeira frase é o

db[.`eBeD . Muito já foi escrito a respeito desta questão, mas até o momento não
temos uma resposta definitiva e unânime. Mas antes de recolocarmos a questão em
relação ao contexto de onde surgiu o texto, vamos recolher algumas informações que

poderão ter colaborado com a formação do conceito db[ `eBeD no exílio

babilônico.

Como substantivo, a palavra db[ `eBeD é de longe a palavra mais comum

no Antigo Testamento para indicar o “escravo”, “servo”, “empregado”, “colono”[111].


Achamos por bem manter o sentido de “escravo” em nossa tradução, enquanto não
identificarmos o conteúdo do texto.

A raíz do verbo db[ `aBaD é “trabalhar”, “servir”, “adorar”[112]. Designa

qualquer tipo de trabalho ou serviço, tanto profano como religioso. No campo profano
desde o escravo até o ministro do rei, até o rei vassalo, todos “trabalham” e poderiam

estar contemplados no conceito db[ `eBeD. No campo religioso, qualquer pessoa

que presta serviço à divindade é “trabalhar”[113]. Mas o uso e significado de “trabalhar”


não se restringem apenas ao âmbito da servidão. Surgem então os problemas para
definir o quem é o `eBeD nos v.1-4. Muito já foi escrito. Até o momento temos quatro
teorias: coletiva, individual, mista e messiânica.[114]

As poucas informações que existem sobre os exilados na Babilônia andam


desencontradas. O que sabemos é que os judaítas exilados não foram propriamente
escravizados.[115] O modo de produção do império babilônico não era escravagista, mas
tributarista. Mas isto não quer dizer que não havia exploração da mão-de-obra na
realização das obras públicas e no exército. Principalmente os exilados judaítas, que

[111]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.171. Veja em Ludwig Koehler e Walter Baumgartner (editores),
Lexicon in Veteris Testamenti Libros,Leiden, E.J. Brill, 1985, p.671 (1138p.).
[112]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.171, Ludwig Koehler e Walter Baumgartner (editores), Lexicon in
Veteris Testamenti Libros,Leiden, p.671.
[113]
Veja mais: Claus Westermann, db[ “Siervo”,em Ernst Jenni e Claus Westermann (editores),
Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, vol. 2, col.242-262.
[114]
Luis Alonso Sckökel e José Luis Sicre Diaz, Profetas I, p.278-279.
[115]
Herber Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, p.435-439.

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anteriormente em Jerusalém governavam, faziam leis, controlavam o comércio,


arrecadavam tributos, exploravam os trabalhadores, agora, em terra estrangeira, estão
experimentando o sabor da servidão/escravidão. Trabalham para sustentar e enriquecer
os outros com o seu suor. Antes, mandavam no povo trabalhador, agora acontece o
contrário: têm que obedecer e trabalhar. Eles que oprimiam, agora são oprimidos e
explorados. Eram “surdos”, “cegos”, “presos”, “saqueados”, “deportados como
despojo” (Isaías 42, 18-22). Assentados à força em diversas colônias, possivelmente do
Estado, eram obrigados a trabalhar e a pagar tributo. Não dá para dizer que viviam
como escravos sob o chicote e a contínua opressão. Esta visão parece não corresponder
à realidade dos exilados, mas também não se deve negar o sofrimento e a humilhação
daqueles que faziam parte da ex-elite, em Judá. Quem sempre viveu da exploração e da
opressão como era o caso dos judaítas deportados para o exílio, sentir-se agora na
obrigação de trabalhar para sustentar o estado é humilhante de mais.

A interpretação mais comum, como vimos no primeiro capítulo, é que os


judaítas exilados na Babilônia viviam juntos, agrupados na condição de súditos,
reassentados à forca, mas de modo algum no sentido atual de escravos. Tinham relativa
liberdade de ir e vir. Podiam construir casas, cultivar plantações, praticar comércio e
levar uma vida quase normal (Jeremias 29). Administravam-se a si mesmos, sob a
direção dos “anciãos entre os exilados” (Jeremias 29,1; Ezequiel 8,1; 14,1; 20,1), em
parte era como anteriormente em Jerusalém e estavam organizados em famílias e
“comunidades” (Esdras 2). Com o tempo, alguns prosperaram e enriqueceram (Esdras
1,6; 2,68-69). Até o comércio de escravos lhes foi permitido (Esdras 2,65).[116] Pode-se
até pensar que os exilados tinham seu sistema de educação acadêmico e quem sabe até
casa bancária!

O modelo de assentamento foi decisivo par a sobrevivência dos exilados. O fato


de terem sido assentados em grupos facilitou o cultivo da sua língua, seus ritos, seus
costumes, sua religião e, em suma, lhes preservou a identidade original.

Outro fator importante que marcou a vida dos exilados foi a fé em Javé. Talvez
fosse a força motora aglutinadora do exilados. Em terra estranha, já não era viável
sacrificar, mas nem por isso deixaram de acreditar em Javé. Reorganizaram a vida de

[116]
Herber Donner, História de Israel e dos povos vizinhos, p.436.

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oração, onde a palavra, a profecia e os cânticos, passaram a desempenhar um papel


importante. Os ritos do sábado e da circuncisão tornaram-se caracteres da identificação
da comunidade judaíta..[117]

Falta identificar a situação dos que não prosperaram. O livro de Lamentações


conta-nos a situação dos judaítas que ficaram na Palestina, enquanto o Dêutero-Isaías
profetiza a partir da situação dos exilados na Babilônia. Cada qual tem sua
característica, mas os dois têm algo semelhante: denunciam o sofrimento do povo. O
Dêutero-Isaías viu nos exilados o “escravo de Javé”, que trabalhava para sustentar a
luxúria dos palácios e dos templos babilônicos. Como frutos de conquistas de guerras,
eram tratados como prisioneiros, poderiam ser manejados conforme as necessidades do
Estado: na agricultura, pecuária, nas obras públicas e no exército: construção de
estradas, palácios. Os revoltosos eram confinados nas prisões.[118]

Interessam-nos aqueles marginalizados e explorados pelo sistema, tratados como


prisioneiros de guerra, forçados a trabalhar, obrigados à “corvéia” e a pagar tributo para
a manutenção da máquina administrativa do estado.[119]

Para falar da vida destes trabalhadores exilados e considerados como “despojo,

saque, prisioneiros de guerra” (Isaías 42,18-25), o autor usa o termo db[ `eBeD,

“escravo”. É um termo ambíguo porque vem a idéia de que Javé é um Deus


“escravizador”. Os exilados são “escravos de Javé” é viável pensar que o termo
“escravos” refere-se à situação de dependência que eles estavam vivendo, seja em
relação ao império babilônico, seja em relação a Javé..[120]

Os exilados pensavam que Javé tinha sido derrotado pelos deuses da Babilônia,
mas foi totalmente ao contrário: Javé foi o responsável pelo exílio dos judaítas. Eles
pecaram contra Javé, oprimindo o povo. “Assim derramou ele (Javé) sobre Israel a sua
ira e o furor da guerra, ela ardeu por todo o lado, mas (Israel) não compreendeu; ela
chegou a queimá-lo, mas ele não se impressionou”. (Isaías 42,15)

[117]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio – História e teologia do povo de Deus no século
6º a.C.,p.24.
[118]
Maria Antônia Marques e Shigeyuke Nakanose, Sonhar de novo, p.12.
[119]
Júlio Paulo Tavares Zabatiero, “Servos do Império - Uma análise da servidão no Dêutero-Isaías”, em Estudos
Bíblicos, Petrópolis, Vozes, 1988, n.18, p.38. (p.37-43).
[120]
Júlio Paulo Tavares Zabatiero, “Servos do Império - Uma análise da servidão no Dêutero-Isaías”, em Estudos
Bíblicos, Petrópolis, Vozes, 1988, n.18, p.40.

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Enfim, a frase inicial não revela quem é o db[ `eBeD “escravo” apresentado

e sustentado por Javé. A palavra db[ `eBeD “escravo” no Antigo Testamento tem

um significado bastante variado e já rendeu muita discussão. Por sua origem, evoca uma
situação de dependência, serviço, humilhação, mas também de honra e prestígios. A
questão é complexa. Não vamos poder debatê-la aqui, porque transcenderia os limites
do nosso trabalho. Restringimo-nos a chamar atenção da sua importância. E dizermos

que a grande tendência atual é identificar o db[ `eBeD com a comunidade judaíta

exilada na Babilônia. Este também será o nosso caminho, o db[ `eBeD como o

povo escolhido e consagrado por Javé e com a missão de fazer surgir uma nova
sociedade a partir da justiça e do direito. Outras passagens paralelas do Dêutero-Isaías

dão a Israel o título de db[ `eBeD : 41,8-10; 43,10; 44,1.2.21 (2 vezes); 45,4;

48,20; 49,3.[121]

Uma terceira personagem, que supostamente está presente na primeira frase e


não aparece em sua identificação, é o público, os espectadores ou o auditório da
apresentação. Suspeita-se que seja o mesmo auditório do discurso anterior de 41,21-29
que precede a nosso texto. Os espectadores- “vós”- se ocultam por trás das palavras. O
texto não revela quem são. A partir da expressão “eis”, dá-se a entender que está
dizendo: “eis”, “vede vós aí o escravo meu”. Sem nenhuma identificação é feita a
apresentação. Não aparece o nome de personagens, nem do lugar e nem a data da
apresentação. O que se tem é que a partícula “eis” introduz uma nova unidade
colocando em cena personagens sem identificação. Há falta de precisão nas palavras. O
texto abre uma questão, sem preocupações de dar logo a resposta.

A segunda frase é Ab-%m't.a,- e foi traduzida por “sustento-o”. Seu


verbo tem outras variantes como: “tomar”, “segurar”, “agarrar”[122]. Quase sempre é
empregado em contextos de assuntos morais. Também se usa o verbo para designar a

[121]
Veja, parágrafo 2.1.2 da crítica textual onde a Septuaginta (LXX) denomina o
db[ `eBeD por Jacó
e Israel. São indicadores favoráveis que sustentam a nossa sugestão de que o db[ `eBeD do nosso
texto é povo judaíta exilado na Babilônia.
[122]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.267.

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ação soberana com que Deus ordena os acontecimentos da história. Javé traz o

julgamento onde for necessário (Amós 1,5.8). Na frase, Javé apresentou seu db[
`eBeD “escravo” a quem “sustentará”. Quem é escravo que Javé sustenta, que é solidário
e defensor? O passado revela que é o povo sofrido que nele confia.

O verbo $mt “sustentar” tem um sentido de força física, sendo ontológico e


teológico. Em todos os sentidos, pode ser traduzido por “sustentar”. Em nosso caso, a

construção gramatical do verbo tem a preposição b “em”, mais um sufixo pronominal


da terceira pessoa do masculino singular w “ele”, traduzido por: “sustento nele”,

“sustento-o”.

Com grande ênfase, o verbo “sustentar” está presente no ritual litúrgico da


tradição real. Nas festas litúrgicas da Mesopotâmia, todos os anos o rei desfilava em
procissão pela via sagrada, segurando a mão da estátua de Marduk que simbolizava as
divindades. O gesto expressava o pedido de proteção e segurança aos deuses para
desempenhar bem sua missão de governar.[123]

O sujeito do verbo é Javé. É ele quem sustenta o `eBeD. Em passagem que segue
ao nosso verso, lê-se diz: “eu, Javé, chamei-te para o serviço da justiça, tomei-te pela
mão e te modelei” (Isaías 42,6). O gesto de sustentar pela mão, oriundo da tradição real,
foi transferido para o povo, neste caso para “Israel exilado”. Quer dizer, Javé vai ser
solidário com seu `eBeD. Vai protegê-lo, para que não caia e nem se desanime. Em
outra passagem lê-se: “a minha vida está em ti e tua direita me sustenta” (Salmos 63,9).

São necessários força, poder e disposição para sustentar. Javé tem tudo isso. Ele
é o Senhor, todo poderoso; seu braço assegura a sua autoridade (Isaías 40,10). É o
“criador eterno, foi ele quem criou os confins do mundo; não se cansa, nem se fatiga,
sua inteligência é insondável” (Isaías 40,28; cf.24,5). Ele é o redentor, solidário, que
perdoa e tem compaixão do seu povo (Isaías 43,1; cf.14; 44,6; 47,4; 49,7,26; 55,5).

A ação do verbo “sustentar”, no qal imperfeito da primeira pessoa do singular


pode ser entendida tanto no presente como no futuro. Javé já o está sustentando e o
[123]
Jean Steinmann, O livro da consolação de Israel, p.128. Confira também Ernst Sellin e Gerg Fohrer,
Introdução ao Antigo Testamento, p.532.

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sustentará. Há semelhança de conteúdo com o seguinte texto, onde aparece Javé falando
com Israel dizendo:

“E tu, Israel, meu servo,

Jacó, a quem escolhi,

(...) Não temas, porque estou contigo,

não te apavores, pois eu sou o teu Deus,

eu te fortaleci, sim te ajudei,

eu te sustentei com a minha destra justiceira.” (Isaías 41,8-10)

Nesta passagem aparece com mais evidência a relação de confiança e


solidariedade de Javé com o Israel no exílio.[124] Não resta dúvida: a frase se completa
com o sentido do verbo, onde Javé garante ao seu escravo sustento no presente e o
sustentará também no futuro. Esta frase pode ter influenciado Isaías 42,1-4.

Diante da situação de sofrimento, exploração e marginalização que o povo


exilado estava vivendo, Javé se apresenta como o redentor, o salvador e lhe diz: “tu és
precioso aos meus olhos, és honrado e eu te amo” (Is 43,4). É fundamental acreditar
num poder superior que nos ama, nos sustenta e nos salva.

A terceira frase é yvi_p.n: ht'äc.r" yrIßyxiB


“eleito meu se compraz vida minha” A raiz do verbo rxb tem algumas variantes, mas

os significados praticamente são os mesmos, como: “provar”, “escolher”, “eleger”,


“selecionar”[125]. A frase está subordinada de tal forma, que o adjetivo inclina-se para
qualificar o substantivo da frase anterior e as duas se completam: “eis (é) o meu `eBeD;
sustento-o; o meu eleito compraz minha vida”.

[124]
Ronald F. Youngblood,$mt “Segurar”, “agarrar”, “sustentar”, em R. Laird Harris, Gleason L.
Archer Jr. Bruce K. Waltke (editors), Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento, São
Paulo, Vida Nova, 2002, p.2520.
[125]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.25.

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O db[ `eBeD não foi identificado na apresentação, está sendo aprovado e

qualificado para liderar a missão. Javé escolheu o melhor, o mais adequado para fazer
sair o direito para as nações. Geralmente se elege o que se quer ter, do que se gosta, o
preferido, o cobiçado, o mais valioso. Certamente foi este o critério utilizado por Javé
na eleição. “Se Javé se afeiçoou a vós e vos escolheu, não é por serdes o mais numeroso
de todos os povos pelo contrário: sois o menor dentre os povos! – e sim por amor a vós
e para manter a promessa que ele jurou aos vossos pais;...” (Deuterômio7,7-8).

Desde a saída do Egito, o título de eleito pertência ao povo libertado por Javé
sob a liderança de Moisés, mas a monarquia apropriou-se desta idéia na eleição do rei.
Com isto, quem saiu perdendo foi o povo[126]. O rei passa a ser visto como o eleito de
Javé. Com isso, excluiu o povo das decisões políticas, econômicas e religiosas. O rei
decidia as questões conforme os seus interesses. Ninguém mais poderia duvidar do rei
porque ele era o eleito. Esta mudança só desgraçou a vida do povo, a ponto de parar no
exílio novamente. Foi no sofrimento do cativeiro, que o grupo do Dêutero-Isaías
começa a fazer uma releitura do passado e percebe a distorção do sentido da eleição
feita pelo sistema monárquico. Para o grupo profético do Dêutero-Isaías, esta
manipulação foi o motivo que levou Israel e Judá a parar no exílio. Resgatar o sentido
originário da eleição constituía o centro de uma nova proposta de vida. Isto implicaria
numa mudança radical da estrutura econômica, política, social e religiosa. Os motivos
são claros. A experiência provou que o rei na liderança causou um grande mal para o
povo. Por isso foi desqualificada por Javé. Embora não identificada, Javé apresenta uma
nova liderança eleita para fazer sair o direito para as nações no exercício da Justiça.[127]

No exílio foi resgatado o significado de que o povo exilado é o povo eleito.


Conectando a essa idéia do passado, vem o conceito de que o povo eleito é o povo
consagrado. Esta opinião faz ligação com a próxima frase, onde Javé colocou seu
espírito sobre o seu eleito. A eleição feita por Javé é para sempre, sua palavra é eficaz:
“ela não volta a mim sem efeito, sem ter cumprido o que eu quis, realizado o objetivo de
sua missão” (Isaías 55,11; 40,8). Em torno desta certeza é que o profeta reinterpreta o

[126]
O profeta Amós condena em nome de Javé a vida corrupta das autoridades. A falsa segurança nos
ritos vazios, nos quais a alma não se compromete (5,21-22). A vingança será terrível (6,8-9) executada
por um povo eleito por Javé (6,14).
[127]
Hans Wildberger, rxb “Elegir”, em Ernst Jenni e Claus Westermann (editores), Diccionario
teológico manual del Antiguo Testamento, vol.1, col.419-422.

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passado dentro de um novo contexto e resgata o sentido autêntico da eleição, com um


ato de amor absoluto e insondável de Javé com seu povo. A eleição indica que Javé
amou e continua amando o seu povo eleito, mas por outro lado exige obediência e
fidelidade. A palavra que fundamenta esta relação de amor parte de Javé e exige uma
resposta de amor nas relações sociais, políticas e econômicas de seu povo.[128]

O Dêutero-Isaías faz uma ponte, ligando o passado com o presente, para mostrar
que Javé continua sendo fiel às promessas feitas aos seus antepassados:

“E tu, Israel, meu servo,

Jacó, a quem escolhi,

descendência de Abraão, meu amigo,

tu, a quem tomei desde os seus confins da terra,

a quem chamei desde os seus recantos longínquos

e te disse: ‘Tu é o meu servo,

eu te escolhi, não te rejeitei.” (Isaías 41,8-9; veja 43,10,20; 44,1,2;45,4; 48,10)

Essas passagens indicam que o eleito não é o rei e sim o povo empobrecido e
desanimado que se encontrava no exílio. Javé não o escolheu por ser o melhor, ou
porque o trabalho com ele seria mais fácil. Ao contrário, por ser o mais complicado, é o
mais exigente, o mais difícil (Isaías 42,18-25; cf. 43,24-26; 48,4-5; 48,18-19). Javé não
escolheu o enfraquecido para estar pedindo esmola para os ricos opressores. Dos ricos
gananciosos Javé não quer esmola, quer apenas justiça, que devolva ao povo o que lhe
pertence;

“Reis serão teus tutores,

Princesas serão tuas amas-de-leite.

[128]
Mais informações sobre este assunto, Hans Wildberger, rxb “Elegir”,em Ernst Jenni e Claus
Westermann (editores), Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, vol.1, col.406-439.

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Prostrar-se-ão diante de ti com o rosto em terra,

E lamberão os teus pés.

Então saberás que eu sou Javé:

Aqueles que esperam em mim não serão confundidos”. (Is 49,23-26)

O rico está sendo convocado a restituir o que roubou do pobre. Devolver ao


pobre a coragem e alegria de viver bem a vida. Javé escolheu o `eBeD não por ele dar
mais lucro ou ter vantagens. Nem por ele ser uma força produtiva ou criativa, nem para
transformar o mundo opressor num mundo igualitário e fraterno. Ao contrário, escolheu
o `eBeD para levar para todas as nações o direito. Javé quer mostrar quem ele é, e o que
ele é capaz de fazer sem apoio de ninguém.

“Eis aqui o Senhor Javé: ele vem com poder,

Seu braço assegura a sua autoridade,

Eis com ele o seu salário,

Diante dele a sua recompensa.

Como um pastor ele apascenta seu rebanho,

Com o braço reúne os cordeiros,

Carrega no regaço,

Conduz carinhosamente as ovelhas que amamentam”. (Isaías 40,10-18; cf.


43,10-13; 44,6-8)

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Javé não escolheu o `eBeD para se vingar e destruir a Babilônia e outros regimes
opressores, para isso Javé escolheu Ciro, rei persa, ele foi encarregado com seu exército
de executar esta tarefa em favor dos exilados (Isaías 41,1-5; 44,28).

Javé preferiu o`eBeD porque ninguém mais esperava mais nada dele. “Foram
submetidos ao saque, e não há quem os liberte, foram levados como despojo, e não há
quem reclame a devolução” (Isaías 42,22). Essa escolha feita por Javé foi um gesto de
amor em favor do `eBeD porque nele ainda se encontrava um sonho de Deus para toda a
humanidade: oprimido não oprimia; explorado, não explorava; violentado, não usou de
violência (Isaías 42,2-3).

Javé faz uma escolha de risco ao se comprometer com um povo que não quer
nada com nada: “Ouvi, ó surdos! Olhai e vede ó cegos! Mas quem é cego senão o meu
servo? E que é surdo como o mensageiro que envio?” (42, 18-19). Javé escolheu, elegeu
o povo exilado como o líder para liderar a missão depois da lição do cativeiro. Essa
missão é mais um risco, porque Javé exige que este povo desorganizado, explorado,
sem fé, sem ânimo, tenha uma ação transformadora, “fazer sair o direito para as nações”
(42,1.3.4). Mais ainda, este eleito foi constituído para ser “aliança do povo e luz para
das nações” (42,6; 49,5-6). Tem tudo para não dar certo, segundo o nosso jeito de
pensar. Mas Javé é Deus, ele sabe o que faz, ele sabe quem escolheu (Is 55,8). E por
isso pode dizer ele é meu eleito, ele me pertence.[129]

Nesta terceira frase aparece uma novidade. yvi_p.n:


ht'äc.r" “compraz-se vida minha.” O conteúdo expressa sentimentos de Javé

para com seu povo eleito. Quer dizer que Javé está contente com a escolha. Javé diz que
o `eBeD lhe faz bem. É um prazer sustentar seu eleito. Javé gosta dele. É como uma
declaração de amor que expressa alegria, paz e solidariedade. Poderíamos até imaginar
Javé dizendo: “eis (é) meu escravo, meu-amado, meu-escolhido sustento-o”. Javé tem
sentimentos de cordialidade para com seu `eBeD eleito. Foi por amor que Javé escolheu
Israel exilado, “pois tu és precioso aos meus olhos, és honrado e eu te amo” (Isaías 43,4;
49,15-16).

[129]
Sebastian Bergmann e Helmer Ringgren, rxb “Elegir”, G. Johannes Botterweck e Helmer
Ringgren (editores), Diccionario teológico del Antiguo Testamento, Madri, Ediciones Cristiandad, vol.1,
1973, col.597-614 (1100 col.).

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A raiz do verbo hcr tem uma variedade de variantes, mas na base está o
sentido de “ter satisfação”, “prazer”, “agradar-se”[130]. Usa-se com freqüência para
descrever a satisfação de Deus para com seus servos, com particular referência ao seu
escravo em 42,1. Paralelo temos em Salmos 147,10-11. Há uma variedade de

conotações em torno do verbo, hcr, mas sua grande importância repousa no fato de
constituírem as expressões antropomórficas mais comuns da vontade preceptiva de
Deus.[131] A alegria de Javé é que o povo pobre seja o líder, o mestre de obra na
construção de mundo mais justo e fraterno.

O substantivo vpn foi traduzido por “vida”, mas tem também outros

significados como: “garganta”, “respiração”, “alma”, “sentimento”, “vontade”[132]. Mas


considerando o contexto do exílio e a opinião de Claus Westermann[133] e Bruce K.

Waltke[134] optamos traduzi-lo por “vida”. Visto que na raíz da palavra vpn os

significados básicos são: “vida” e “alma”[135]. Mas as duas definições expressam


praticamente o mesmo significado no campo semântico.

O conteúdo da terceira frase expressa sentimentos de alegria, paz e felicidade de

Javé com seu povo eleito. Javé está feliz, satisfeito, contente com o seu db[
`eBeD.

Depois da apresentação do “meu escravo”, “meu eleito”, vejamos a quarta frase,

onde Javé começa a preparar o seu escravo: wyl'ê[' ‘yxiWr


yTit;Ûn" “pus o espírito meu sobre ele”. Javé colocou sobre seu db[
[130]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.232-233.
[131]
William White,hcr “agradar-se de”, R. Laird Harris, Gleason L. Archer Jr., Bruce K. Waltke
(editores), Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento, p.1450-1451.
[132]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.159.
[133]
Veja Claus Westermann, vpn “Alma”, em Ernst Jenni e Claus Westermann (editores),
Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, vol.2, col.102-133.
[134]
Bruce K. Waltke, vpn “Vida”, “alma”, em R. Laird Harris, Gleason L. Archer Jr., Bruce K.Waltke
(editores), Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento, p.981-986.
[135]
Claus Westermann, vpn “Alma”, em Ernst Jenni e Claus Westermann (editores), Diccionario
teológico manual del Antiguo Testamento, vol.2, col.106.

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`eBeD, o seu espírito, Ele o consagrou e o assinalou para uma missão. O conteúdo da
frase está em sintonia com as frases anteriores e faz ligação com a próxima frase.

A apresentação do “escravo” é acompanhada com a doação do espírito de Javé.


O escravo eleito recebe o espírito de Javé para que possa agir de acordo com a vontade
deste. Existem paralelos semelhantes no Antigo Testamento, onde é aplicada a mesma
linguagem aos juízes (“o espírito de Javé estava sobre ele” Jeremias 3,10), aos rei; (“o
espírito de Javé precipitou-se sobre Davi” 1Sm 16,12), aos profetas (1Reiss 18,12;
Ezequiel 3,12,14).

O significado de xwr é amplo e pode exibir um vasto campo de sentidos. Para

o Antigo Testamento, xwr “espírito” é uma força dinamizadora, criativa, semelhante

ao vento que está em constante movimento (Isaías 32,2; 41,16; 57,13). É uma força que
tem poder energizador capaz de colocar em movimento outras coisas (Is 17,13), algo
que o ser humano sente, ouve seu barulho, mas não o vê (2Reis 3,17; Eclesiástico 11,4)
e nem pode retê-lo (Eclesiástico 8,8).

A raiz do verbo !tn tem uma variedade de variantes. As duas principais são:

“dar” e “colocar”[136]. O significado principal expressa uma ação que põe em


movimento outra coisa ou pessoa. Seria como dar ânimo, coragem, apoio para que
alguém esteja em condições para exercer uma função. Neste sentido, Javé deu o seu
espírito a seu povo para desempenhar a tarefa com alegria e criatividade. Javé deu
condições, coragem e sabedoria ao povo para não fracassar na missão. O sufixo

pronominal que acompanha o substantivo xiwr “espírito” garante que o espírito


colocado sobre o “povo eleito” é de Javé.[137]

Resumindo, a frase apresenta um ritual da unção. Baseamo-nos nos pressupostos


apresentados de que o grupo do Dêutero-Isaías, faz uma releitura do passado,

[136]
C. J. Labuschagne!tn “Dar”, em Ernst Jenni e Claus Westermann (editores), Diccionario
teológico manual del Antiguo Testamento, vol.2, col.159-189.
[137]
Rainer Albertz e Claus Westermann, xwr “Espíritu”, em Ernst Jenni e Claus Westermann
(editores), Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, vol.2, col.945.

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resgatando os conceitos tradicionais que marcaram a vida do povo de Israel, e os re-


atualizam dentro de uma nova situação, devolvendo-lhes os sentidos originais. É de se

pensar que Javé ao escolher e consagrar o db[ `eBeD , aprova o sistema

comunitário e reprova o sistema da monarquia que colocava todo o povo ao seu serviço
do rei. Por Javé coloca o seu espírito sobre o povo e não sobre o rei. Recupera o sentido
original coletivo da unção. Israel é o povo eleito escolhido por Javé desde o Egito. Este
povo tem a missão de ser povo eleito de Deus. Javé escolheu uma vez para sempre sua
palavra não falha. O povo é que vai fazer sair justiça com o “espírito de sabedoria e
inteligência, espírito de conselho e fortaleza, espírito de conhecimento e de temos de
Javé” (Isaías 11,2). O povo será o protagonista e sujeito da sua história.[138] Diante deste
panorama, a missão não será passiva, ela tem o dinamismo de Javé expresso no seu
Espírito.

Na quinta frase, Javé revela a missão que o seu db[ `eBeD vai

desempenhar: ayci(Ay ~yIïAGl; jP'Þv.mi “direito para as


nações fará sair”. A frase parece ser conclusiva e decisiva para a compreensão da
estrofe. Começando a frase final da estrofe com uma palavra de significado tão amplo

como jpvm “direito”, pode-se pensar que a estrofe vai ter uma conclusão com

chave de ouro. Esta maneira de falar, direta, pode estar indicando que não há muito
tempo para se perder em detalhes. O tempo chegou. Não se pode mais esperar por isso

“eis (é) o meu db[ `eBeD vai fazer sair direito para as nações”. Isto é urgente. Por

isso:

“Consolai, consolai meu povo,

diz o vosso Deus,

falai ao coração de Jerusalém e dizei-lhe em alta voz

[138]
Veja mais em Rainer Albertz e Claus Westermann, xwr “Espíritu”, em Ernst Jenni e Claus
Westermann (editores), Diccionário teológico manual del Antiguo Testamento, vol.2, col.914-947.

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que seu serviço está cumprido,

que sua iniqüidade já foi expiada,

que ela recebeu da mão de Javé paga dobrada

por todos os seus pecados.” ( Isaías 40,1-2)

A missão acontece num clima de alegria e de urgência. O povo que esteve


submetido à exploração no cativeiro, já pagou até dobrado seu pecado. Tem o direito de
sair com honra e alegria o quanto antes desta situação.

O substantivo do jpvm vem da raiz jpv. Significa: “julgar”, “punir”,


“dar sentença”.[139] Devemos, porém, compreender este “julgar” não como o tomamos
atualmente, isto é, como ‘pronunciar um julgamento, uma sentença’, mas como todas as
ações de um processo para fazer sair o direito e a justiça.[140] O significado do conceito
flutua simultaneamente entre “direito” e “julgamento”, “sentença”. Mas o ponto central
repousa claramente no reino da justiça, que surge através do julgamento e da lei.[141]

A significação central do conteúdo da palavra jpvm poderá nos ajudar a

indicar o caminho para a compreensão da mensagem. Além do vasto campo de uso, há

falta de objetividade e clareza do significado da palavra jpvm. Ela ainda pode

mudar de significado, dependendo do contexto. Ocorre com freqüência no Antigo


Testamento e no Dêutero-Isaías, evocando questões jurídicas, religiosas, políticas,
sociais e culturais. É utilizada também pelos profetas contra as autoridades, “por acaso

não cabe a vós conhecer o jpvm “direito”, a vós que odiais o bem e fazei o mal, (...)

vós que arrancais a pele e a carne de seus ossos?” (Miqueias 3,1-2). “Eles não respeitam
os órfãos e não fazem direito aos pobres” (Jeremias 5,28). Percebe-se neste caso que o

[139]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.259.
[140]
Léon Epsztein, Justiça social no Antigo Oriente Médio e o povo da Bíblia, São Paulo, Paulinas, 1990,
p.61 (207p.).
[141]
B. Johnson, jP'Þv.mi, jp,v, jwpv ., em G. Johnnes Botterwek, Helmer
Ringgren e Heinz Josef Fabry (editores), Dictionary of the Old Testament, Michigan, Eerdmans, vol.9,
2001, p.87-88.

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jpvm “direito” tem suas raízes no verbo “julgar”. Este julgar que não é apenas

pronunciamento de uma sentença, mas um julgamento que reivindica o


[142]
restabelecimento de uma ordem desfeita. Sobretudo o direito vale nas relações

sociais entre pobres e ricos, escravos e senhores. A expressão jpvm ayci(Ay


“ fazer sair direito” tende a relacionar-se para fora, com o bem comum como direito de
todos. Torna-se uma chave de leitura para o nosso texto. Javé assume a causa do
escravo para desmascarar os sistemas de opressão que se sustentam nas falsas
ideologias.

Para Hans G. Kippenberg[143], jpvm foi gestado na experiência tribal de

Israel, onde o bem-estar e a defesa da vida eram tarefa e compromisso de todos.[144] No

início, a palavra jpvm estava relacionada com a lei básica da vida. Aos poucos, o
conceito evoluiu e passou do significado ético e religioso, para o político e jurídico.

Nas línguas semíticas, jpvm “direito” aparece como algo obrigatório e

necessário para a vida.[145] jpvm é fruto de um jpv “julgar”, comprometido

com a justiça e a ordem desfeita. Não deve ser tomado como um conceito abstrato, e
sim como uma opção concreta profundamente ligada à vida.[146]

O substantivo jpvm ocorre sem artigo, seguido do substantivo

~yIïAGl “para as nações” e da forma verbal ayci(Ay que foi traduzido


por “fazer sair direito”, mas também tem outros significados como: “levar para fora”,

[142]
B. Johnson, jP'Þv.mi, jp,v,,, jwpv., em G. Johnnes

Botterwek, Helmer Ringgren e Heinz Josef Fabry (editores), Dictionary of the Old
Testament,vol.9, p.88.
[143]
Hans G.Kippenberg, Religião e formação de classes na antiga Judéia, São Paulo, Paulinas, 1988,
(173p.).
[144]
Hans G.Kippenberg, Religião e formação de classes na antiga Judéia, p.23-39.
[145]
H. Brunner, “Gerechtigkeit als Fundament des Thrones”, em Vetus Testamentum, Leider, E.J.Brill,
vol.8, 1958, p. 426-428.
[146]
Gerard Liedke , jpv “Juzjar”, em Ernst Jenni Claus Westermann (editores), Diccionario teológico
manual del Antiguo Testamento,vol.2, col.1258

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“fazer surgir”, “produzir”[147]. O verbo está no imperfeito. Visa a uma ação, a um


projeto de vida e bem estar para todo o ser humano. O significado profundo do sentido

de jpvm pode nos ajudar entender melhoro conteúdo da missão do escravo eleito por

Javé e o Antigo Testamento. No contexto, a terceira frase da primeira estrofe parece não
designar uma ação jurídica, mas um direito que sai de Javé através da ação do seu
escravo eleito. Para o entendimento da questão, cito um texto paralelo:

“Atende-me, povo meu, dá-me ouvidos, gente minha!

Porque de mim sairá uma lei,

Farei meu direito com a luz entre os povos.

Breve chegará minha justiça, surgirá minha salvação.” (Isaías 51,4-5; veja
Salmo 37,6)

Esta intervenção de Javé na história através do seu db[`eBeD para salvar a vida dos
pobres marginalizados, que está sendo ameaçada, aproxima-se também do seguinte
texto:

“Javé julgará as nações

Corrigirá muitos povos.

Estes quebrarão as suas espadas, transformando-as em relhas,

E suas lanças, em foices.

Uma nação não levantará mais a espada a outra,

E nem se aprenderá mais a fazer guerra.” (Isaías 2,4)

[147]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.92.

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Trata-se de uma ação divina construtiva para humanizar a vida do ser humano

que está correndo risco. O substantivo ~yIïAG está prefixado pela preposição l
“para”. Ela está indicando uma direção, o destino do jpvm. É como se fosse o

endereço, os destinatários da missão. É uma conclusão pensada com atenção a partir da


realidade, para que o sentido do conteúdo central e seu significado estejam ancorados
numa experiência profunda de Deus na vida do povo. Com isso, a conclusão da frase é
decisiva para a compreensão da estrofe. O conteúdo dos substantivos da frase final
indica que a conclusão da estrofe é em alto estilo assim como foi à abertura. As frases
anteriores prepararam o chão para o lançamento da pedra fundamental que é a missão e

os seus destinatários. O jpvm acolheu positivamente o sentido dos pressupostos das

frases anteriores ancorando a missão do povo em Javé.

O substantivo ~yIïAG; foi traduzido por “nações”. O significado e o

sentido designam as “nações estrangeiras” que abandonaram sua pátria. No plural a

palavra ~yIïwG “nações” passou a ser um sinônimo para designar os

estrangeiros não circuncidados, gentios e pagãos.[148] Mas resta-nos algumas

interrogações na identificação dos ~yIïwG “nações”. Na época havia judaítas

exilados na Babilônia, no Egito, na Assíria e os que ficaram nos territórios da Palestina,


viviam sob a opressão de povos estrangeiros. Neste caso sempre é um risco definir o
sentido da palavra a partir dos dicionários ou concordâncias, seria melhor estudar o
contexto de onde surgiu o texto. O sentido mais próximo do contexto do exílio da

palavra ~yIïwG “nações”. Visto que o Dêutero-Isaías trabalha com perspectivas


missionárias universais, contempladas nos v.3 e 4 do nosso texto.

O verbo ayci(y “fazer sair”, “levar para fora” indica um movimento de


dentro para fora criando novas expectativas. Encontra-se aqui no hifil imperfeito da
terceira pessoa masculino do singular. Neste caso não se refere à ação criadora de Deus,

mas designa a vontade de Deus na ação do seu db[ `eBeD. O verbo acy

[148]
R. Martin-Achard, ywG “Pueblo”, em Ernst Jenni e Claus Westermann (editores), Diccionario
teológico manual del Antiguo Testamento, vol.1, col.538-588.

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“sair” tem se tornado um verbo de salvação e libertação de grande importância.[149]


Sintoniza-se com o êxodo, a saída do Egito (Êxodo 13-16), e a saída da Babilônia
(Isaías 48,20; 52,11-12; 55,12). Indica que a missão é fazer sair, avançar para fora, neste
caso ao encontro dos estrangeiros marginalizados. Serão eles os beneficiados do
“direito” de Javé, um “benefício” não abstrato, mas concreto, no sentido de vida plena,
de paz, onde nada falta, relacionado a concórdia, segurança, solidariedade e paz que
Javé fixou com o seu `eBeD eleito desde a libertação do Egito. O conteúdo do “direito”
que o `eBeD fará sair no desempenho da sua missão, tem as exigências de Javé que
diz: “eu sou Javé, exerço o amor, o direito e a justiça sobre a terra” (Jeremias 9,23). É
como se fosse uma revolução divina no campo da salvação. Deus quer salvar não
apenas os judaítas, mas também os outros povos e nações. E este é o conteúdo e a
novidade da frase final da primeira estrofe.

O `eBeD tem que fazer sair o “direito para nas nações”. Esta é a sua tarefa, a sua
missão. Os beneficiados são os que vivem em paises estrangeiros, considerados pagãos,
sem Deus, sem direito e sem justiça. O conteúdo do “direito” está ligado diretamente
com a vida do migrante e com a ação do `eBeD - não é teoria , mas são práticas
concretas de solidariedade.

Resumindo, a frase final da primeira estrofe do v.1 apresenta a missão do db[

`eBeD o conteúdo da missão e os seus beneficiados.

Sintetizando, o estudo da primeira estrofe nos ajudou a entender que o db[


`eBeD apresentado, eleito e consagrado é uma nova liderança na sua condição de
“escravo”, livre para desempenhar a missão. A missão é fazer sair “direito” às nações
marginalizadas e exploradas no exercício da justiça.

A segunda idéia é a identificação do db[ `eBeD; considerando o contexto de


onde surgiu o texto e os pressupostos que giram em torno desta palavra, é viável
traduzi-lo por “povo”. Isto é: povo exilado, explorado, mas eleito para liderar a
construção de um mundo novo, baseado na solidariedade, no direito e na justiça. Quanto

[149]
Veja mais em Ernst Jenni aci(y “Salir”, em Ernst Jenni e Claus Westermann (editores),
Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, vol.1, col.1039-1047.

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ao conteúdo da missão, devido ás suas perspectivas, levam-nos a pensar que não sejam
decisões jurídicas, mas instruções baseadas na lei que garante a benevolência de Javé
para com seu povo.[150]

Acreditamos, pois, ser conveniente reorganizar a primeira estrofe do v.1 da


seguinte forma:

Eis (é) meu escravo.

Sustento-o

Meu eleito compraz-se minha vida

Pus meu espírito sobre ele

Direito para as nações fará sair.

2.7.2 O modo de agir do`eBeD. - Segunda estrofe (v.2-4a)

No v.2, a realização da missão divina realizada pelo`eBeD é descrita em


negações, mas o final de cada frase é concluída positivamente como no v.1. Porém, as
“nações” não são mais citadas nos v.2-4a. As três primeiras frases referem-se ao modo
de atuação do `eBeD: “não gritará” e “não clamará” e “não fará ouvir a voz dele na rua”.
Realizará sua tarefa, em silêncio, sem gritaria. A quarta e a quinta frases falam que o
`eBeD “não quebrará a cana rachada” e “não apagará o pavio vacilante”. Não será
violento com os fracos, ao fazer sair direito na terra. Respeitará os que estão correndo
risco de vida. A sétima e a oitava frases revelam a disposição, a coragem e a
perspectivas da missão do `eBeD de Javé. Ele não vai desistir e nem vai fugir da tarefa.
São como garantias de que a missão tem tudo para dar certo. Por isso merece confiança.

Vejamos, pois o conteúdo da segunda estrofe, v.2-4a.

[150]
Jörg Jeremias,jpvm im ersten Gottesknechtslied (Jes XLII), em Vetus Testamentum, Leiden, E. J.
Brill, vol.22,1972, p.34-35 (p.31-42).

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q[;Þc.yI al{ï

aF'_yI al{åw

`Al*Aq #WxßB; [:ymiîv.y:-al{)w>


rABêv.yI al{å
‘#Wcr" hn<Üq'
hN"B<+k;y> al{å hh'Þke
hT'îv.piW

`jP'(v.mi ayciîAy tm,Þa/l,


hh,k.yI al
#Wrêy" al{åw

Não gritará
E não levantará
E não fará ouvir do lado de fora a voz dele.
Cana rachada não quebrará
E pavio vacilante não apagará.
Para fidelidade fará sair direito
Não desistirá
E não se quebrará

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Percebemos que a estrofe é composta por oito frases e nove formas verbais. O
conteúdo destas frases move-se em torno do “modo operante”, ou seja, o modo de agir
do `eBeD para desempenhar a tarefa que lhe foi confiada. O teor da primeira frase é:

q[;Þc.yI al{ï “não gritará”. Começa com um advérbio de negação que


acompanha o verbo fazendo um contraponto ao modo operante do `eBeD. Remetamos à
estrofe anterior, lá onde aparece o `eBeD que recebeu a tarefa de desempenhar uma

grande missão. O advérbio al{ï “não” ocorre sete vezes nesta estrofe, precedendo
as formas verbais, sempre acompanhando os verbos relacionados ao modo de agir do
`eBeD. O advérbio é usado no sentido enfático como sendo uma ordem[151]: “não
gritará”, “não clamará”, “não fará ouvir”, “não quebrará”, “não apagará”, “não
desistirá”, “não se quebrará”. Este estilo remete à frase de abertura da primeira estrofe,
mantendo o mesmo tom exclamativo, direto com frases curtas e palavras repetidas.

Na primeira frase, a raiz do verbo q[c “gritar”[152] designa uma manifestação


sonora. O verbo “gritar” no hifil designa uma situação de angústia, de dor que clama por
auxílio. Aparece com clareza nos gritos de socorro dos israelitas escravizados pelos
capatazes egípcios (Êxodo 2,23). Os gritos de dor dos israelitas explorados pelos
assírios e babilônios têm a mesma característica dos clamores por justiça do tempo dos
egípcios.[153]

A Septuaginta[154] traduziu o verbo q[c por boa,o “gritar forte”[155].Com seus


substantivos, corresponde exatamente ao significado do hebraico: ruído, grito de queixa,
grito de socorro.

O verbo “gritar” indica uma expressão sonora produzida pela voz humana
individual ou coletiva. Expressa situações de necessidades vitais que causam
sofrimento, angústia e desespero; “Moisés gritou a Javé por causa das rãs que enviou ao

[151]
Andrew Bowlig, al “Não”, em R. Laaird Harris, Gleson L. Archer Jr., Bruce K. Waltke (editore),
Dicionário interrnacional de teologia do Antigo Testamento, p.1064.
[152]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.207.
[153]
Rainer Albertz,
q[Þc “Gritar”, em Ernst Jenni e Claus Westermann (editores), Diccionario
teológico manual del Antiguo Testamento, vol.2, col.716.
[154]
Septuaginta, p.797.
[155]
Carlo Rusconi, Dicionáriio do grego do Novo Testamento, p.100.

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Faraó” (Êxodo 8,8). São gritos que clamam por ajuda, auxílio ou socorro: “Quando
Faraó se aproximou dos israelitas, eles tiveram medo e clamaram a Javé” (Êxodo 14,10;
cf 15,25; 17,4).[156] Mesmo em situações de risco, quando o `eBeD de Javé for
maltratado, violentado, machucado ou torturado, ele não gritará. Certamente, realizará
sua tarefa em silêncio.[157]

É um jeito de agir diferente das lideranças e dirigentes vigentes, o `eBeD de Javé


fará sair o direito às nações sem violência, sem gritos de queixa. Mesmo sendo
maltratado, não levantará a voz para pedir auxílio.

A segunda frase é afy alw “e não levantará”. A frase começa com a


conjunção w “e” prefixada ao advérbio de negação em forte sintonia temática com a

frase anterior. Retoma o estilo de frase curta com o verbo conjugado no mesmo tempo e

pessoa da frase que antecede. A raiz do verbo afn tem as seguintes significações:

“levantar”, “carregar”, “levar embora”[158].

O sentido do verbo “levantar” pode estar relacionado à força física ou espiritual.


Relacionado à força física, levantar ou erguer designa um gesto, como erguer as mãos,
os olhos, a cabeça, a voz. Expressa também um movimento afetivo com os prazeres do
amor (Gêneses 39,7), ânsia por Javé (Salmo 121,1; 123,1).

O verbo afn está no qal imperfeito, terceira pessoa do masculino singular e


foi traduzido por “levantará”. Está relacionado à força física e o efeito é violento. Por
exemplo: se relacionarmos o verbo ao gesto de levantar a voz, teríamos um grito de
terror. Levantar a mão para bater ou julgar é violência. “Eu levanto a minha mão para o
céu, e juro” (Deuterônomio 32,40). Levantar armas é sinal de morte. Na ação militar o

verbo afn tem um vasto campo de uso e significados: “levaram embora os filhos
para o serviço militar, levaram embora o povo para o exílio”. No qal, o verbo adquire
um significado específico do âmbito militar, designando a mobilização das tropas do

[156]
Rainer Albertz,
q[Þc “Gritar”, em Ernst Jenni e Claus Westermann (editores), Diccionario
teológico manual del Antiguo Testamento, vol.2, col.721.
[157]
Mais informações, Karl Elliger, Jesaja 2, p.109.
[158]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.161.

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exército. Com freqüência, o verbo designa um gesto como: levantar as mãos, no sentido
de agressividade, de violência, de hostilidade.[159] Aqui há uma proximidade com a ação
dos militares que levantam a mão para bater, ferir e matar. Neste caso o sentido do

verbo afn é de violência física e joga a ação para o futuro.

O verbo afn às vezes aparece como expressão idiomática. Com freqüência


usa-se o verbo conjugado no qal para designar “levantar a voz”. A frase é uma
expressão elíptica. Falta-lhe o objeto, neste caso seria a “mão” ou a “voz”. Dentro do
texto, em que ela se encontra, é uma expressão idiomática. Subentende-se o substantivo
no verbo.[160] Para facilitar a compreensão da frase, sintonizando com o verbo da frase
anterior, acrescentamos a palavra “voz”, na tradução para o português e assinalamos o
acréscimo chamando atenção do leitor.

A Septuaginta e a Vulgata traduzem o verbo afn por “gritar”,

subentendendo “voz” no próprio verbo. Baseado nos pressupostos apresentados,

optamos traduzir a frase afy alw por “e não levantará a voz”. A temática da

não-violência dá seqüência, ligando através da frase que se segue.

Tecnicamente, é difícil a compreensão exata do sentido do v. 2, mas no sentido


comum quer dizer “gritar alto”. Frisa os sofrimentos e a resistência que o `eBeD tem
que enfrentar no desempenho da sua tarefa. Faz ligação com v.4ª, onde realça a
resistência, a firmeza e a perseverança do `eBeD. Em relação com o v. 1, onde o
“direito” não tem impedimento de ser proclamado, no v.2, o `eBeD agirá
silenciosamente. No v.2 parece que a missão vai acontecer de uma forma diferente.[161]

Em suma, o `eBeD não bramirá, nem erguerá as mãos com violência. O seu
comportamento será discreto, silencioso, terno, manso e solidário.

[159]
Fritz Stolz,
aFn “Levantar, llevar”, em Ernst Jenni e Claus Westermann (editores), Diccionario
teológico manual del Antiguo Testamento, vol.2, col.149-159.
[160]
Fritz Stolz,
aFn “Levantar, llevar”,em Ernst Jenni e Claus Westermann (editores), Diccionario
teológico manual del Antiguo Testamento, vol.2, col.153-154
[161]
Jörg Jeremias,jpvm im ersten Gottesknechtslied (Jes XLII), em Vetus Testamentum, Leiden,
E.J.Brill, vol.22,1972, p.35-36.

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Terceira frase é Al*Aq #WxßB; [:ymiîv.y:-


al{)w> “e não fará ouvir na rua a voz dele”. A frase começa com uma conjunção
w> ”e” dando continuação às frases anteriores na mesma temática. O verbo está no

hifil imperfeito, terceira pessoa do masculino singular, ligado ao advérbio por um hífen,
remetendo ao modo operante que o `eBeD de Javé utilizará em seu trabalho. O verbo
indica o futuro, sem possibilidade de identificar com exatidão a data da ação. O
substantivo que segue ao verbo está acompanhado de uma preposição e um artigo.
Definem o local onde a voz do `eBeD não vai ser ouvida, “do lado de fora”, ou seja: “na
rua”[162]. A missão será silenciosa. Mas por que o `eBeD de Javé não precisa mais
gritar? Será que ele está impedido de exercer seu trabalho como os profetas anteriores
quando proclamavam a desgraça? Comparando com Isaías 40,9 e 52,7-8, onde
encontramos os gritos dos mensageiros que anunciam a realeza e a salvação de Javé, a
missão do`eBeD de Javé tem outro modo de agir: “não gritará”, “não clamará” e “não
fará ouvir na rua a voz dele”. Pode-se pensar que o conteúdo da missão é do`eBeD, seja
diferente, mas com o mesmo o objetivo, e por isso que o modo de agir deve ser outro.
Se compararmos o modo procedente do `eBeD de Javé, com o modo de agir de Ciro,
seriam duas maneiras de agir opostas: O `eBeD silencioso e Ciro barulhento, o dois não
deixam de ser libertadores e salvíficos.

O último substantivo da frase vem acompanhado de um sufixo, na terceira


pessoa do masculino singular, sintonizando com os verbos das frases anteriores que se
encontram na terceira pessoa do masculino singular, remetendo ao `eBeD de Javé da

estrofe anterior (v.1). O sufixo pronominal A “dele” segue o substantivo l*Aq


“voz”. Indica que a voz do `eBeD de Javé não será ouvida na rua.

Todas as frases do v.2 iniciam a primeira parte com um “não” categórico,


considerando que na segunda e terceira frase tem uma conjunção inicial que fazem as
ligações entre as frases. Mas os advérbios de negação marcam negativamente o início
das frases. Na segunda parte das frases, concluem positivamente sintonizando a missão
do`eBeD ..

[162]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.65.

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A neutralidade categórica dos advérbios de negação que acompanham os verbos


do v.2, não expressam a altura exata da voz. Simplesmente, afirmam que o líder `eBeD
de Javé “não clamará, nem levantará ‘voz’ e não fará ouvir a voz do lado de fora”. Mas,
nas reviravoltas dos verbos acompanhados pelos advérbios de negação que fazem o
contraponto da ação, ressaltam o sentido positivo do modo operante que sintoniza com a
temática expressa na primeira estrofe do v.1. Não dá para pensar uma coisa sem a outra:
missão e modo concreto de agir do líder `eBeD no desempenho da missão. O conteúdo
da missão e o modo operante do líder `eBeD se completam. Assim, o v.2 também pensa
que a missão não se desenvolverá como uma gritaria pelas ruas, mas também não pode
se falar de uma paciência histórica, incansável do `eBeD, que nunca se desespera e nem
pedirá ajuda, mesmo com aquele que está totalmente excluído e rejeitado.

A missão do novo líder eleito assemelha-se com a missão de Javé. Vejamos no


texto que segue:

“Atende-me, povo meu, dá-me ouvidos, gente minha!

Porque de mim sairá uma lei,

Farei brilhar meu direito como luz entre os povos.

Breve chegará minha justiça, surgirá minha salvação.

Meu braço executará o julgamento sobre os povos.

Em mim as ilhas esperarão.

Na força do meu braço porão a sua confiança”. (Isaías 51,4-5)

No texto acima encontramos uma diferença entre o modo de agir do `eBeD com
o modo de Javé. O eleito “não fará ouvir a voz dele na rua”, enquanto Javé pede ao
povo escutar. Pode-se pensar até que o modo de agir do `eBeD seria nas reuniões com o
povo, sentado à mesa ou num circulo ensinando, instruindo os desorientados e

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102

confirmando o ensinamento através do exemplo e do seu próprio testemunho de


vida.[163]

No v.2 não aparecem os beneficiados como no v.1. Dá a impressão de que o v.1


é, independente, do v.2. Pode-se dizer que cada estrofe exprime em si exclamações
independentes, mas, como vimos acima, estão profundamente interligadas entre si.

Era de se esperar que a mensagem do v.1 fosse proclamada no v.2, mas isto não
aconteceu. O `eBeD de Javé reagiu não de acordo com o esperado. A expectativa era
que ele gritasse como os profetas anteriores, mas ao contrário, este é um `eBeD
silencioso. Em sua ação será discreto e modesto exteriormente. As próximas frases
poderão nos dar mais informações sobre o seu modo agir. Faz parte do estilo do
Dêutero-Isaías não adiantar algo que revele o pensamento final. Com isso faz o leitor
refletir. Ver exegese no segundo capítulo.

A quarta frase tem o seguinte teor: rABêv.yI al{å ‘#Wcr"


hn<Üq' “cana rachada não quebrará”. Começa diretamente com o substantivo

hnq “cana”, “junco”, “canudo”, “caule”.[164] Como substantivo, “cana” ou “junco”,

está relacionado às plantas de pouca resistência do pântano. Qualquer vento as dobram.


O sentido genérico de “cana” é amplo e dependendo do uso, poderá mudar de
significado. A “cana” poderia ser um objeto de representação dos condenados
publicamente à morte. O condenado recebia uma cana e segurava-a na mão direita,
como um sinal de um homem livre; no entanto, não temos estas representações no
Antigo Testamento, somente em Mateus 27,28. A “cana” ou o “junco” estão
relacionados mais com o Egito do que com a Palestina. “Quando o Egito foi provado
por Javé, se revelou como uma cana rachada” (Ezequiel 29,6-7). “Israel confiava no
apoio da cana rachada que era o Egito” (Isaías 36,6). O Egito como uma nação
estrangeira estaria entre os beneficiados da missão do v.1.[165]

[163]
Bernhard Duhm, Das Buch Jesaja, p.285.
[164]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.215.
[165]
Leonard J. Coppes, hn<Üq' “Junco”, em R. Laird Harris, Gleaso L. Archer Jr. e Bruce K.
Waltke (editores), Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento, p.1353-1354.

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103

O verbo #wcr foi traduzido por “rachada”. Está no qal particípio passivo
masculino singular. Refere-se à cana de um modo impessoal. O significado do verbo
também é amplo, mas o sentido expressa um gesto de violência e opressão que rachou,
despedaçou e maltratou a cana. Por natureza, a cana é frágil. Esmagada, a situação fica
pior. Perde a resistência e facilmente pode ser manipulada. Uma vez trituradas, as fibras
que lhe davam resistência, nunca mais serão as mesmas. A cana torna-se eternamente
dependente. Não consegue mais se manter em pé por si mesma. Esmagada, a cana
torna-se impotente e está condenada a viver curvada sobre si mesma. Ela não perde
apenas a resistência, perde também o prestígio e o valor comercial. Cana rachada revela
uma imagem de sofrimento e impotência. A imagem é de fraqueza e humilhação.

A raiz do verbo #cr significa “quebrar”, “esmagar”, “estraçalhar”.[166] As


passagens bíblicas paralelas (2Reis 23,12; Amós 4,1; 1Samuel 12,3) revelam uma
situação de violência, opressão e exploração. Está no qal imperfeito, da terceira do
masculino singular. Refere-se ao modo de agir do eleito. O sentido da ação do verbo
expressa uma violência brutal. Não só tem sentido de “quebrar”, mas de “despedaçar”,
“destroçar”, “estraçalhar” a vítima. O advérbio de negação reverte o sentido do
negativo, positivando num contraponto o modo de agir do `eBeD de Javé. Ele não
utilizará métodos violentos para fazer sair direito ao pobre esmagado pela opressão. Ele
tratará a “cana rachada” com carinho, ternura e compaixão. Respeitará a vida com
gestos de amor e solidariedade. Em sua missão não quebrará a cana rachada, mas saberá
reaproveitá-la dentro de um novo sistema humanizador.

A quinta frase é hN"B<+k;y> al{å hh'Þke


hT'îv.piW “e pavio vacilante não apagará”. Ela começa com a conjunção w
“e”, prefixada ao substantivo, sintonizando a temática da frase anterior. O substantivo

htvp significa “pavio”, “linho” ou “mecha”.[167] O adjetivo “vacilante” qualifica o


substantivo “pavio”. Revela uma imagem neutra, mas deprimente e de um significado
profundo. A imagem é de uma luz que está se apagando, sem brilho, sem beleza e sem
valor. O problema deve ser a falta de óleo, mas a frase não a revela. Apenas apresenta a
[166]
Luwig Koeler e Walter Baumgartner, Lexicon in Veteris Testamenti libros, p.908.
[167]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.200.

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104

imagem de uma luz se apagando. A situação é de risco. A falta de óleo que lhe dá
energia para manter acesa a chama e fazê-la brilhar poderá ser a causa. Faltando óleo, a
chama vai morrendo por si. Para manter-se aceso, o pavio depende do óleo. Não só
depende do óleo, depende de alguém que o reabasteça. Por si só não conseguirá se
abastecer. Vacilante é sinal de fraqueza; é risco de vida; ela está prestes a se apagar. É
uma situação de desespero e agonia porque a vida da lâmpada está em risco. Estas
imagens da lâmpada vacilante e a cana rachada têm algo em comum: as duas estão em
sintonia e apontam para a mesma realidade concreta.

Na raiz do adjetivo hhk tem o verbo hhk “vacilar”, “desanimar”,

“temer”.[168] As passagens bíblicas correspondentes nos revelam uma situação de


enfraquecimento e esgotamento das forças vitais. “Isaac tornou-se velho e seus olhos se
enfraqueceram a ponto de não mais enxergar” (Gêneses 2,1; Deuteronômio 34,7).

Na segunda parte da frase encontramos um advérbio de negação que faz a


inversão do sentido negativo da primeira parte e conclui a frase positivamente:

hnbky al “não apagará”. A raíz do verbo hbk é “extinguir”, “apagar”.[169] O


significado do verbo tem a ver com fogo e com o ato de extinguir o fogo. No nosso
caso, refere-se ao pavio ou à lâmpada. O ato concreto de apagar o fogo não é tão forte
quanto a imagem simbólica que expressa. Mas o significado simbólico por si mesmo
não é o suficiente. A imagem do pavio vacilante que o `eBeD de Javé não apagará pode
referir-se ao povo exilado, desanimado, cansado e sem esperança. Mas também pode
estar se referindo aos antepassados. Agora com ele em sua nova missão vai ser
diferente. Terá mais cuidado, mais empenho e coragem para defender os pobres e
marginalizados.

Haverá uma ruptura com o passado de Israel. É um novo momento histórico.


Coisas novas estão sendo anunciadas (Isaías 42,9; 48,6). Essa imagem totalmente nova
está presente em todo o conteúdo dos nossos versos, e de modo especial aqui no v.3,
quando testa o modo de ação do`eBeD de Javé. É um desafio para ele trabalhar a cana
rachada e o pavio vacilante, para que a cana não se rompa e o pavio não se apague.

[168]
Luwig Koeler e Walter Baumgartner, Lexicon in Veteris Testamenti Libros, , p.424.
[169]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.98.

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A liderança eleita, sustentada e ungida pelo espírito de Javé, vai retomar a sua
missão de “povo eleito”, interrompida pelo sistema monárquico. O caniço rachado e o
pavio vacilante poderiam simbolizar a ameaça da quebra da tradição do povo eleito em
relação à sua missão. A situação em que o povo eleito se encontra no final é de cana
rachada e pavio vacilante. É possível fazer esta ligação por causa da imagem que revela
o texto do v.3.

A imagem da cana rachada e do pavio vacilante, dificilmente, significam o


objeto concreto indicado. O sentido simbólico seria o mais viável para a interpretação
do v.3. Embora o sentido material também expresse uma situação de dependência e de
fragilidade, os símbolos, ligados a uma situação concreta da vida de um povo,
expressam ainda mais necessidades como o desespero, sofrimento e aflição. Diante
desta situação é que o`eBeD de Javé desempenhará sua missão. Ele não quebrará a cana
apesar dela estar rachada e não apagará a luz que está quase morrendo. Certamente
acrescentará óleo à lâmpada, para que ela volte a brilhar. E cuidará para a cana rachada
a não romper. Seu comportamento é de ternura e carinho para com os fracos. Não
assoprará a vida que está se apagando. Com gestos de bondade e solidariedade vai
poupá-la. A missão do `eBeD de Javé fará sair para os presos a liberdade, para os tristes
o consolo, para os empobrecidos e famintos a partilha e a solidariedade, para os
pecadores o perdão, para os marginalizados a integração, para os explorados a justiça e
o direito e para todos a paz e a salvação. A missão do `eBeD de Javé, tem semelhança
com missão do profeta:

“O Espírito do Senhor Javé está sobre mim

Porque Javé me ungiu;

Enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres,

A curar os quebrantados de coração

E a proclamar a liberdade aos cativos

A libertação aos presos,

A proclamar uma ano aceitável a Javé” (Isaías 61,1-2)

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A sexta frase tem o seguinte conteúdo: jP'(v.mi ayciîAy


tm,Þa/l, “para a fidelidade, fará sair o direito”. Esta frase começa com a

preposição l “para” que expressa a direção de alguma coisa.[170] A direção é para fora,
combinando com o movimento do verbo ayciîAy “fazer ”, “levar para fora”.[171]

A preposição está ligada ao substantivo feminino tma, que foi traduzido por

fidelidade. Mas a raiz da palavra aceita outras designações como: “firmeza”,

“confiança”, “verdade”, “fidelidade” e “constância”.[172] A Septuaginta traduziu tma


por avlh,qeian aletheia. As versões latinas e européias às vezes a traduzem por “verdade”
e outras por “fidelidade”. De fato, o sentido em hebraico de “verdade” anda bem
próximo da “fidelidade”. Tanto uma quanto a outra, sugere a idéia de “estabilidade”,
“firmeza” ou “fidelidade”, aquilo em que se pode confiar fidedignamente porque é
verdadeiro, vem de Deus. “As sendas de Javé são todas amor e verdade” (Salmo 25,10;

40,11.12; 57,4.11; 61,8). Passagens bíblicas onde a palavra tma foi traduzida por
fidelidade: “o pai dá a conhecer aos filhos a tua fidelidade” (Isaías 38,19).[173]

O substantivo tma “fidelidade” aparece uma única vez nos versos do nosso
texto. Ele não está indicando o comportamento do escravo de Javé, mas a qualidade do
conteúdo da missão que está nesta frase. O conceito é rico em significados bíblicos
relacionados com a fé e com as qualidades de Javé. Na raiz está a idéia de certeza,
firmeza e confiança. O substantivo dentro do conteúdo da frase pode assinalar três
idéias: que a missão é exigente, autêntica e por isso merece crédito.

[170]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.107.
[171]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.107.
[172]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.92.
[173]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.14.

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107

O verbo e o substantivo jpvm ayciîwy “fará sair direito”

completam o sentido da frase. Remetem para a primeira estrofe do v.1, de onde se


repete o mesmo verbo com o substantivo. Há também sintonia com o v.4, onde ocorre o

mesmo substantivo “direito” ai em paralelo com hrwt “instrução”.

No v.1 os beneficiados da missão serão as “nações”, enquanto no v.3 os


receptores serão chamados de “cana rachada” e “pavio vacilante”. São duas imagens
que se relacionam com Israel do exílio e o da diáspora.

A forma verbal aycwy que acompanha o substantivo jpvm foi traduzido


por “fazer sair” e remete a temática da saída da escravidão do Egito (Êxodo 13,3),
sintonizada com saída do cativeiro da Babilônia (Isaías 48,20; 52,11-12; 55,12-13). O
“fazer sair”, expressa a vontade de Javé de querer salvar o povo explorado e

marginalizado. A preposição inicial da frase l “para” indica a direção para fora,

combinando com a qualidade, o dinamismo e o conteúdo da missão. O Dêutero-Isaías

usa a palavra acy mas em todos eles aparece o mesmo sentido de “sair” “formar”,
“modelar”, dar forma a um objeto: “Deus modelou a terra e a fez”. (Is 45,18). Pode
indicar também a ação humana. “O ferreiro faz o machado na brasa, trabalha o martelo,
fá-lo com a força do seu braço” (Isaías 44,12; 54,17). Será deste jeito que o `eBeD vai
fazer sair o “direito” para os que não tem.

Sétima frase hh,k.yI alo “não desistirá”. A frase começa com o


advérbio de negação al “não”. Num tom categórico, o advérbio de negação realça o
modo de ação do `eBeD presente no verbo. A raiz do verbo hhk é “tornar-se

inexpressivo”, “ser tímido”.[174] Está no qal imperfeito, terceira pessoa do masculino


singular e foi traduzido por “desistirá”. Utilizamos este termo por entender que o verbo
se refere diretamente à atuação do `eBeD. O sentido do verbo expressa uma idéia de
desânimo, enfraquecimento e esgotamento de vigor como em (Deuteronômio 30,7;
Gêneses 27,1). Com a inversão feita pelo advérbio de negação, ele adquire um sentido
de firmeza, resistência, perseverança do`eBeD. Diante dos desafios e obstáculos, ele não
[174]
Luwig Koeler e Walter Baumgartner, Lexicon in Veteris Testamenti Libros, p.66-67.

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108

abandonará a luta. Silencioso, teimoso, não abandonará a missão. Seguirá seu caminho
até alcançar o objetivo proposto. Com coragem e discernimento, desempenhará sua
função e habilidade. O Espírito de Javé estará atuando nele, o sustentará e o capacitará
para que no exercício do direito devolva ao marginalizado e empobrecido o que lhe é de
direito.

A oitava frase é a seguinte: #Wrêy" al{åw “e não quebrará”. A frase


começa com a conjunção w “e” conectando com a temática da frase anterior. Na raiz do

verbo #cr tem uma espectro de sentidos: “quebrar”, “despedaçar”, “esmagar”,

“oprimir”[175], expressando um sentido s força demolidora. “Ouvi esta palavra vacas de


Basã (...) que oprimis os fracos, e esmagais os indigentes”(Am 4,1). Numa outra
passagem que tem um sentido semelhante é “o rei os demoliu, quebrou os altares e
lançou suas cinzas no Vale do Cedron” (2Reis 24,12). O verbo está no qal imperfeito da
terceira pessoa do singular e foi traduzido por “quebrará”. Expressa uma ação que não
aconteceu ainda e nem está acontecendo, mas que poderá acontecer no futuro, sem
previsão de data.

A Septuaginta[176] (LXX) traduziu o verbo #Wrêy por qrausqh,setai

“quebrará”, a Vulgata[177] traduziu por turbulentus “turbulento”, Antiguo Testamento –


Interlineal hebreo-español por “desmayará”[178], Bíblia de Jerusalém por
“desacorçoará”, a Bíblia Tradução Ecumênica (TEB) por “se vergará”, a Bíblia de
Estudo Almeida e a Peregrino por “quebrará”.

Como percebemos, o verbo tem uma grande flexibilidade, mas o sentido move-
se em torno do modo de ação do `eBeD. Ele não recuará no desempenho da sua função.
Com firmeza, calma e perseverança vai vencendo os obstáculos até que implante o
direito na terra, porque esta é a vontade de Javé. São oito verbos no imperfeito,
indicando o modo de agir do `eBeD, sete dos quais estão ligados a sete advérbios de
negação que fazem à inversão do sentido dos verbos, positivando-os. O número sete tem

[175]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.99.
[176]
Septuagnta, p.797.
[177]
Biblia Sacra - Vulgatam Versionem, p.1139.
[178]
Antiguo Testamento interlineal hebreo-español, Libros proféticos, Barcelona, Editorial Clie, 2002,
vol.4, p.134 (876p.).

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109

um significado no contexto do judaico: indica a perfeição. Neste sentido, podemos


concluir que o comportamento do `eBeD será totalmente novo.

Resumidamente, o `eBeD será uma liderança comunitária, totalmente nova e


agirá sem violência com os empobrecidos. A partir de uma experiência concreta de
sofrimento o `eBeD propõe um novo projeto de vida, com base no direito e na
igualdade. A sua ação provocará ruptura e fará surgir um novo jeito de pensar e de agir
a partir da solidariedade e da não violência. A dinamização deste novo modo de agir
remete ao sistema tribal, onde a vida e o bem comum eram compromissos de todos. A
natureza da ação desta nova liderança eleita traz dentro de si a ação libertadora e a luta
pela justiça e o direito dos oprimidos e marginalizados. Essa ação não deve ser
considerada abstrata, mas será o modo concreto de agir do povo eleito que fará surgir o
direito para os que estão correndo risco de vida. Usará de mansuetude no desempenho
de sua missão com os pobres e indefesos. Ele “não clamará, nem gritará , fará ouvir sua
voz na rua; não esmagará a cana quebrada, nem apagará o pavio vacilante” (Isaías 42,2-
3); não será violento e nem agressivo; agirá discretamente em silêncio, com firmeza,
humildade e solidariedade, até fazer sair direito aos povos e às nações.

Reorganizamos as frases da segunda estrofe da seguinte forma:

Não gritará

E não levantará “a voz”

E não fará ouvir na rua a voz dele.

Cana rachada não quebrará

E pavio vacilante não apagará.

Para fidelidade fará sair o direito

Não desistirá

E não recuará.

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110

No próximo bloco, estudaremos o conteúdo da terceira estrofe. Como foi


apontado, seção referente ao estilo, a estrofe é formada por duas frases.

2.7.3 Perspectivas universais da missão do`eBeD - Terceira estrofe (v.4b-4c)

Vejamos a terceira estrofe. A missão do `eBeD é abrangente. Na primeira estrofe


inclui as nações que vivem em terras estrangeiras, os gentios e os pagãos excluídos da
salvação de Deus; a segunda estrofe abrange de modo especial os pobres e
enfraquecidos; e a terceira beneficia a terra toda, até os lugares mais distantes.

jP'_v.mi
#r,a'ÞB'
~yfiîy"-d[;.

p
`Wlyxe(y:y> ~yYIïai Atßr'Atl.W

Até implantar na terra direito

e pela instrução dele ilhas aguardam.

Como visto na introdução, a frase jP'_v.mi #r,a'ÞB'


~yfiîy"-d[;. “até implantar na terra direito” começa com a preposição
d[ ligada por um maqqef “hífen” ao verbo ~yfy foi traduzida por “até”. Designa
distância ou proximidade no sentido de tempo e espaço. Exemplos são: “até que”, ou

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111

“enquanto que”.[179] Esta preposição marca o início de uma frase totalmente


independente da anterior. Introduz um novo pensamento autônomo, do mesmo jeito que
a introdução inicial do v.1 e v.2. Assim como a abertura inicial foi solene, marcada pela
partícula de interjeição “eis”, a preposição “até” também introduz uma finalização digna
de um voto de louvor ao autor. Ela aparece no início da frase, seguida pelo verbo

~yfy que se encontra no qal imperfeito, terceira pessoa do masculino singular,

traduzido por “implantar”. A raiz verbal ~yf tem o significado de “pôr”, “colocar”,
“depositar”.[180] Ocorre com freqüência no Antigo Testamento quase sempre
relacionadas ao sentido de colocar (Gêneses 2,8; 32,2; Êxodo 4,11; Is 10,6).

O verbo está acompanhado pela preposição “até” e cria um clima de expectativa


em torno do objetivo da missão, que é fazer com que haja “direito” na terra. A
preposição “até” tem a função de indicar o tempo que não foi determinado para que a
missão do`eBeD faça surgir o “direito”. Este verbo já não está se referindo à ação.

Indica a própria ação na prática. O verbo “implantar” está ligado ao substantivo #ra
“terra” pela preposição b “em” indicando o endereço e o destinatário do “direito”.

Percebemos que mudou o verbo ayciîAy “fazer sair” dos versos que

acompanhavam o jpvm “direito”. Passou de ayciîAy “fazer sair” para

~yf “implantar”. Juntamente com o verbo, mudaram também os beneficiados da

missão. No v.1 eram “as nações”, no v.3, “cana rachada” e “pavio vacilante”, aqui no
v.4 foram substituídos pela “terra”.

O conceito #ra “terra” tem um sentido amplo e pode designar toda a

superfície da terra, como também o território de um país.[181] O significado de #ra


pode expressar a extensão do solo do planeta onde vivem as plantas, os homens e
animais. É uma perspectiva mundial para indicar que a glória de Javé será anunciada em

[179]
Nelson Kirst, Nelson Kilpp, Milton Schwantes, Acir Raymann e Rudi Zimmer, Dicionário hebraico-
português & aramaico-português, p.173.
[180]
Luwig Koeler e Walter Baumgartner, Lexicon in Veteris Testamenti libros, p.920-921.
[181]
Hans H. Schmid, #ra “Tierra, país”, em Ernst Jenni e Claus Westermann (editores), Diccionario
teológico manual del Antiguo Testamento, vol.1, col.343-354.

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“toda a carne” (Is 40,5). Neste sentido, terra constitui o espaço habitado. A dimensão da
missão abrangerá a terra. Não se diz como e nem de que forma. Se tomarmos a terra
onde habita, estariam incluídas as nações. “A bondade de Javé na terra dos viventes”
(Salmo 27,13; Amós 2,10).[182] No fundo são duas coisas ambivalentes. A perspectiva
mundial deutero-isaiânica se faz presente nas duas realidades. Apontam para além
fronteiras. Mas não podemos esquecer que a terra para o povo judaíta é vida (Êxodo
23,10). Pode estar se referindo à terra de Judá e Israel tomadas pelos estrangeiros e que
por direito pertence ao povo exilado. É na terra o lugar para a liderança popular
implantar viver a lei da vida com todo o povo.

O substantivo jpvm “direito” está aparecendo pela terceira vez no texto,

fazendo uma ligação interna das três estrofes. Está em sintonia com a terra, mas em

paralelo com hrwt “instrução”. O conteúdo do jpvm “direito” tem algo a ver
com a hrwt “instrução”. Leva-nos a pensar que o conteúdo do jpvm “direito”
na primeira instância esteja relacionado com a lei, a fé e a vida. Essa instrução que o
líder `eBeD implantará em toda a terra será como justo estatuto das justas reivindicações

de Deus para com seu povo. O paralelo entre jpvm “direito” e hrwt
“instrução” sintonizam fortemente duas frases finais.

A última frase é Wlyxe(y:y> ~yYIïai


Atßr'Atl.W “e pela instrução dele ilhas aguardam”. Começa com a

conjunção w “e” que liga com a frase anterior e a preposição l que expressa uma
direção. O sufixo pronominal “dele” indica que a hrwt “instrução” pertence ao lider

`eBeD .. Ele é possuidor da hrwt “instrução”. Daria para pensar que o povo quando

saiu do Egito, no monte Sinai, recebeu a lei. Por isso a “instrução dele” pode estar se
referindo a lei de Deus que Moisés como o líder e representante do povo de Deus
recebeu. Pode-se tratar também de uma comunicação oral, que o `eBeD povo eleito
recebeu de Javé como fonte de sabedoria e vida: “ouvi-me vós que conheceis a justiça,
povo que tens a minha lei no coração” (Isaías 51,7). A liderança eleita já tem em seu

[182]
Luwig Koeler e Walter Baumgartner, Lexicon in Veteris Testamenti Libros, p.89.

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coração as instrução que recebeu de Javé para oferecê-la aos habitantes da terra. O

sufixo pronominal indica que hrwt “instrução” pertence ao `eBeD, mas o `eBeD
pertence a Javé, logo o conteúdo da “instrução” que todas as nações e povos esperam é
divino, como diz a passagem:

“porque de mim sairá uma lei,

farei brilhar meu direito como luz entre os povos.

Breve chegará minha justiça, surgirá minha salvação.

Meu braço executará o julgamento sobre os povos.

Em mim as ilhas aguardarão”. (Isaías 51,4-5)

A instrução é específica para as pessoas e não para animais, aves e outros


viventes como em Levítico 11,46. A liderança eleita recebeu esse ensinamento e deve,
como missão, levar esse conteúdo de sabedoria de vida como uma decisão para todos os
habitantes do mundo. O efeito dessa orientação provocará rupturas no sistema
monárquico.

As ilhas que representam os lugares mais distantes da terra, locais de mais difícil
acesso, estão aguardando pela sua instrução. Elas também serão contempladas pela
missão do povo eleito.[183] Aqui aparecem também os desafios para desempenhar a
missão em todos os lugares.

Em síntese, a terceira estrofe, na minha opinião, significa que o “direito” que o


povo eleito deve implantar na terra é a vontade de Javé, que possibilitará a salvação de
todos os povos, inclusive dos mais distantes. A ação do `eBeD vai na contramão do
poder oficial. Sua força não nasce da violência, mas do amor, da partilha, da ternura e
da solidariedade com os mais empobrecidos. Para descrever o modo de agir do `eBeD, o
grupo de Dêutero-Isaías utiliza de sete atitudes revolucionárias que garantem uma

[183]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio – História e teologia do povo do Deus no século
6º a.C. p.104.

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ruptura total com a ação dos reis e lideranças existentes. É um novo jeito de agir que
surpreende os que pensam a paz, direito e a justiça a partir da violência. É o novo que
surge a partir de uma tomada de consciência libertadora que tinha sido negada ao povo.
É o povo assumindo sua missão a partir de uma nova práxis libertadora.

A reorganização da última ficou da seguinte forma:

Até implantar na terra direito

e pela instrução dele as ilhas aguardam

Resumidamente, os v.1-4 apresentam três estrofes coesas entre si. Na primeira


estrofe o v.1, Javé apresenta o seu `eBeD, como uma nova liderança, garante-lhe apoio e
o envia. Sua missão é fazer sair direito para as nações. As nações beneficiadas foram
identificadas como sendo os pagãos e os gentios que vivem fora dos seus países, em
terras estrangeiras. Elas serão as primeiras privilegiadas da missão. A segunda estrofe,
v.2-4a, apresenta o modo de agir que o líder `eBeD utilizará para fazer sair o direito aos
que estão correndo risco de vida. Ele agirá discretamente, em silêncio, com bondade e
mansuetude. Não será violento, mas será solidário com os pobres enfraquecidos, “cana
rachada” e “pavio vacilante”. O seu modo de agir é novo, oposto do rei e diferente dos
profetas anteriores. Outra qualidade desta nova liderança é a fidelidade à missão. Ela
não desistirá até estabelecer o direito na terra. Todos os lugares, até os mais distantes e
de difícil acesso, “ilhas”, serão contemplados. É uma perspectiva ousada, em tempos
que não havia Meios de Comunicações eficientes, pensar numa tarefa deste porte, quase
inviável. Mas deve estar embutida nesta expressão a vontade de Javé para todos os
povos.

Terminando a análise exegética de Isaías 42,1-4, propomos em seguida, fazer


uma releitura de todo o estudo, para então darmos seguimento à conclusão.

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3. PERSPECTIVAS HERMENÊUTICAS.

Para a hermenêutica, propomos a releitura dos resultados realçados pela exegese


do capítulo 2, situando-os no contexto do capítulo 1 e refundindo-os dentro das
experiências de fé e luta do mundo atual. Partindo dos pressupostos que o sofrimento do
cativeiro babilônico expressou na poesia do Dêutero-Isaías, continua ecoando em
nossos dias, este presente capítulo que quer fazer um elo entre o ontem e o hoje, numa
tentativa de atualização da mensagem bíblica.

3.1 Javé habita entre os pobres

Abrindo o capítulo 42 do livro de Isaías lemos:

“eis (é) o meu escravo,

sustento-o,

meu eleito se compraz minha vida,

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coloquei o meu espírito sobre ele,

direito para as nações fará sair” (Isaías42,1).

Na análise do conteúdo do (v.1), foi visto que o texto não revela quem é o
apresentador, supõe-se que seja Javé, o mesmo da unidade anterior e posterior. É ele o
falante do começo ao fim no discurso de apresentação do seu `eBeD. Os espectadores
estão no anonimato, o mesmo acontece com o `eBeD. O texto não revela sua
identidade, mas as qualidades atribuídas a ele; tudo indica ser o povo judaíta exilado na
Babilônia (41,8-10; 42,1; 45,4).

Mas para melhor entendermos como aconteceu esse despertar do povo no exílio,
é bom retomar a história que envolve Israel desde o início. É uma história que começou
desde os patriarcas. Há um caminho percorrido, uma aliança, uma promessa de Deus
feita a seu povo eleito. Javé escolheu um povo de trabalhadores simples, analfabetos,
explorados no Egito e fez dele o seu povo, libertando-o da escravidão (Êxodo 6,7). [184]

Depois de quase cinqüenta anos no exílio, muitos dos exilados já tinham


morrido, outros envelhecido e muitos dos que tinham nascido na Babilônia pouco se
interessavam por Javé, por ser um Deus que tinha fracassado perante os deuses
babilônicos. As promessas do Deus da terra, da descendência, caíram pelo chão. A
destruição de Jerusalém e o exílio que nunca mais chegava ao fim, levaram o povo e até
as lideranças, a mergulhar numa grande crise de fé. Não tinha mais sentido acreditar
num Deus derrotado como era o caso de Javé. A humilhação era grande. Muitos judaítas
aderiram aos costumes e à religião dos babilônicos.

No meio desta situação, um grupo de cantores, formados por pessoas simples do


povo, faz uma releitura da história, desde Abraão, passando pela experiência do Egito,
para encontrar uma resposta à destruição de Jerusalém e ao exílio. Nesta releitura da
histórica, resgata a imagem de um Deus poderoso, cheio de bondade e solidário com o
seu o povo. Um Deus que no passado libertou o povo da escravidão do Egito (Êxodo
3,7-8). Um Deus que se revelou dizendo: “eu sou Javé; este é o meu nome” (Isaías
42,8). Um Deus fiel, poderoso, companheiro dos pobres, trabalhadores que lutam contra

[184]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio – História de teologia do povo de Deus no
século 6º a.C. São Leopoldo, Oikos, p.118 (142p.).

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a opressão, desde o Egito até na Palestina. Um Deus libertador e pastor (Is 40,1). Um
Deus compassivo e consolador dos aflitos (Isaías 49,13; 52,9); um Deus poderoso
(Isaías 40,12-26), criador de todas as coisas (Isaías 45,11-13,18; 48,12-16; 42,5). Ele
perdoa os pecados (Isaías 55,7; 43,25; 44,22); modelou Israel desde o ventre materno
como um oleiro (Isaías 44,2; 49,5); perdoa por amor (Isaías 43,25; 44,22; 55,7). É um
Deus que ama (Isaías 43,4), um Deus justo e comprometido com a história (Isaías
41,21; 42,13; 43,15; 44,6; 45,13; 48,3-6). Esse Deus está disposto a libertar o povo da
escravidão da Babilônia (Isaías 43,16-21).

Outras imagens se encontram nos capítulos 40-55 de Isaías. Destacamos


algumas para mostrar a base de onde tudo começou. Foi uma revolução naquela época
em que se pensava que a derrota de um povo era a derrota do seu deus. A queda de
Jerusalém, longe de ser um sinal de fraqueza de Javé, tornou-se a maior prova de sua
força. Provou a veracidade do anúncio dos profetas que anunciaram que o exílio estava
perto. Israel é testemunha, “as minhas testemunhas: sois vós, diz Javé ... vós que sois o
servo que escolhi, a fim de que saibais e creiais em mim e que possais compreender que
eu sou” (Isaías 43,10). Embora surdos e cegos aos acontecimentos históricos (Isaías
42,18), os exilados são testemunhas do poder de Javé.

O grupo do Dêutero-Isaías quer convencer os exilados a acreditar que Javé é fiel


e que jamais abandonou o seu povo. “Eu sou o vosso Deus” (Isaías 41,11.13; cf. Êxodo
20,2; Deuteronômio 5,6). Israel é fruto de um gesto de amor de Javé. Libertou o povo
da escravidão do Egito e o conduziu como um rebanho no deserto (Salmo 78,52-53).
Javé tornou-se uma autêntica fonte da identidade para Israel. Em Javé estão os
elementos básicos da missão e da organização do povo. As memorizações dos grandes
eventos fizeram os exilados a tomarem consciência de sua missão histórica.[185]

Como foi visto no contexto, o grupo profético dos cantores percebeu que a
monarquia foi desastrosa para o povo de Israel. Ela fez o povo voltar à escravidão e à
opressão, piores que a do Egito (Êxodo 1,11). À luz desta descoberta, o grupo começa a
anunciar um Deus que ama a justiça e o direito. Este Deus ama a igualdade, a partilha e
a solidariedade. Ele é um Deus tão misericordioso que é capaz de perdoar os pecados

[185]
Conferência dos Religiosos do Brasil, A leitura orante da Bíblia, São Paulo, Loyola, vol.1, 5ª edição,
1997, p.75 (79.).

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118

dos exilados. Diante de uma situação de crise de identidade brota a esperança e o povo
começa a sonhar na libertação:

“Eu sou o que apaga tuas transgressões por amor de mim,

e já não me lembro dos teus pecados” (Isaías 43,25).

Esta disposição de Javé perdoar e salvar vem dele mesmo, da sua iniciativa “por
causa de mim mesmo” (Isaías 42,21; 48,11). Esse amor misericordioso de Javé superou
a vontade de abandonar o seu povo (Isaías 54,7-10). A mensagem do Dêutero-Isaías
convoca os exilados à conversão a Javé que é “rico em perdão” (Isaías 55,7). E não é
uma mudança a partir da força e do poder, mas a partir da fé em Javé.

Este novo jeito de refletir faz entender que o culpado pela destruição de
Jerusalém, do templo e o exílio, não foi Javé, mas foram os dirigentes o povo. Era falso
o deus, que abençoava o rei, protegia o Estado e exigia o tributo do povo. Nessa
perspectiva, o exílio foi um momento de provação e de renovação do conceito de Javé.
Foi no sofrimento que o povo conseguiu redescobrir sua identidade e sua missão de
povo de Deus.

Pode-se dizer também que o exílio ajudou o povo a fazer uma revisão do
conceito de Javé. Foi uma revisão que partiu da liderança popular. Descobriu-se que o
exílio não era tinha como causa a fraqueza de Javé, mas sim a ação dos dirigentes que
agiram contra a lei de Javé. Essa lei era como um manual de vida que Javé deu para que
seu povo pudesse viver bem e com segurança, um mapa estratégico para orientar as
relações sociais, sem que houvesse injustiça e exploração entre eles. Mas a monarquia
trocou o manual de Javé pelo manual do rei que orientava o povo em favor dos seus
interesses. Com este manual desapareceram a solidariedade, igualdade, a justiça e a paz.
Elas foram substituídas pela ganância, violência e exploração. O povo já tinha feito essa
experiência no Egito e Javé o libertou. Agora, os exilados na Babilônia, são aqueles que
defendem o sistema da monarquia. Eles não tinham experiência de um Javé libertador.
Graças ao grupo dos cantores que guardaram em suas memórias a história de fé em
Javé, o povo é lembrado que justamente a monarquia causou sua ida para o exílio. A
ganância e a corrupção das lideranças no sistema pré-estatal levaram os dirigentes a
optar pela alternativa de um rei (1Samuel 8,1-9).

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Esta opção custou caro para o povo. Javé havia sido torçado por um rei; a lei que
garantia a vida, a paz e a solidariedade, pelas leis do rei, que explora o povo para
sustentar o Estado. Essa troca da justiça pela injustiça, da partilha pela ganância, foi a
causa da destruição de Jerusalém e do exílio. Dentro deste contexto é que devemos ler a
imagem de Javé que o grupo do Dêutero-Isaías quer resgatar para os exilados.

Pode-se dizer que o exílio foi uma lição de vida para os judaítas. Foi um
momento de crise produtiva e criativa, onde o grupo refletiu e descobriu que a
monarquia foi a desgraça da vida do povo.

Como vimos no contexto, os judaítas deportados e exilados na Babilônia eram


defensores do sistema da monarquia. Não era apenas o rei, mas toda a elite política,
econômica, militar e religiosa. Eles defendiam o sistema condenado pelos profetas,
porque eles mesmos sustentavam-se da exploração dos trabalhadores. Por isso Javé os
castigou levando-os para o exílio. Na mentalidade da época, as catástrofes causadas
pelas guerras, terremotos, tempestades e outros elementos, eram atribuídas à ira de
Deus. O grupo do Dêutero-Isaías também pensa assim quando diz que o pecado dos
dirigentes é que levou o povo para o exílio. Mas foi preciso levá-los para o exílio para
que pudessem conhecer quem é Javé e o seu poder (Isaías 44,22; 55,6-7).

Pode-se dizer que a imagem errada de deus pode levar o povo à escravidão.
Exemplos não faltam de povos que foram submetidos à escravidão em nome de Deus.
Não precisamos ir longe para encontramos seitas e igrejas que comercializam deus,
vendendo favores, bênçãos e proteção, por meio de ritos e sacrifícios. Este tipo de deus
se assemelha ao cupim que vai roendo por dentro a vida do povo. Na hora em que
menos se espera, surge a ruína; e o sonho poderá resultar num pesadelo. Um deus que
abençoa os exploradores não pode ser o Deus libertador que se dedica a seu povo por
amor (Isaías 49,14). O deus que compactua com o sistema de exploração é um deus
falso, impotente, sem força para libertar (Isaías52,2). A fé num deus assim faz mal ao
povo. A desgraça é certa. A experiência do povo de Israel nos mostra que em Deus
estão os elementos básicos para a organização da vida de um povo.[186]

[186]
Conferência dos Religiosos do Brasil, A leitura orante da Bíblia, São Paulo, Loyola, vol.1, 5ª edição,
1997, p.75 (79.).

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No mundo da modernidade em que endeusamos o lucro a qualquer custo e


exaltamos aqueles que sabem racionalizar a economia fazendo dela o motor da história.
O Dêutero-Isaías não optou por este caminho, mas nos propõe uma alternativa baseada
no direito e na solidariedade para a construção de um mundo mais fraterno.

Nesta perspectiva, a mensagem do Dêutero-Isaías é desconcertante e atraente;


“Ah! todos que tendes sede, vinde à água. Vós, os que não tendes dinheiro, vinde,
comprai e comei, sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite” (Isaías 52,1). Explica-se
porque muitos, mesmo no exílio, não aderiram à mensagem e outros a interpretaram de
acordo com os seus interesses. Mas qual é a força propulsora que conduz a nossa
história?

Desde a descoberta, nosso continente sempre foi palco de grandes sofrimentos e


de catástrofes: o tráfico de escravos nos imundos e desumanos porões de navios
negreiros, os massacres dos indígenas, as ditaduras silenciadoras de líderes populares.
Tudo feito em nome do deus da ordem e da segurança. Um deus defensor do Estado e
protetor dos ricos. Um deus que abençoava a luxúria dos ricos com o sangue dos pobres
escravizados.

O que não falta é semelhança da nossa época com a época dos judaítas do 8º ao
6º século. As catástrofes atuais são o pão nosso de cada dia daqueles tempos: guerras,
terremotos, tornados, enchentes, fome, epidemias, desemprego, violência, etc. Não
seriam sinais de alerta? Deus quer o compromisso do povo com a vida ameaçada, com
gestos de solidariedade, de partilha, de perdão para a construção de um mundo mais
fraterno e solidário.

3.2 Direito para os gentios

No capítulo 2, referente ao conteúdo, vimos que o autor dos v.1-4 repetiu três
vezes a palavra jpvm para falar da missão do `eBeD. Este título é dado a Israel em
(41,8-10; cf. 44,1.2.21; 45,4; 48,20; 49,3), com as mesmas características de 42,1 e tudo
indica que seja o mesmo personagem anônimo que aparece em 42,1, é Israel. As
tarefas a ele atribuídas assemelham-se às dos juízes do passado (Jeremias 3,10) e

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primeiros reis (1Samuel 9,117; cf. 10,9-10) e Davi (1Samuel 16,12-13). Podemos
comparar também com Isaías 11,1-2.

No contexto do capítulo 2, vimos que esse Israel está desanimado e abatido. Mas
Javé o apresenta como sendo o eleito para desempenhar uma missão. Mesmo com
algumas incoerências nos versos que seguem o nosso texto, podemos dizer que Javé
está falando para os exilados da Babilônia, considerando-o seu povo eleito.

Os v.1-4 se referem também aos israelitas que estão dispersos por outras nações.
Pode-se até pensar num Israel em dois sentidos: o Israel exilado na Babilônia e o Israel
emigrado para outras nações. O grupo exilado na Babilônia está se organizando para
regressar para Jerusalém. Certamente está pensando que os outros dispersos em outras
nações também regressarão e juntos formarão um novo povo eleito.

No capítulo do contexto, foi mencionada a destruição de Samaria, reino do Norte


e as deportações e emigrações deram início à desintegração do povo e à perda da
identidade. A eleição do `eBeD de Javé pode ter a intenção de resgatar a identidade e a
missão de Israel como povo eleito de Deus. Seria um resgate das raízes históricas da fé
em Javé.

De outro lado, encontramos, porém, perspectivas missionárias. O título `eBeD


remete a uma tarefa destinada ao rei - igual a um “escravo” -, mas vem a questão: que
Deus é este que precisa de escravos? Voltamos ao capítulo dois onde vimos que o título
`eBeD no Dêutero-Isaías aparece como um título honorífico. Neste sentido é que temos
que entender o`eBeD eleito por Javé para “fazer sair o direito para as nações”. Para isto
Javé colocou o seu Espírito sobre o `eBeD. Este sobre, não é nele, mas sobre ele como
se fosse uma proteção divina. “pus sobre ele o meu Espírito” (v.1c). Há uma
semelhança com (Isaías 11,1-2; 61,1). O Espírito de Javé capacitará o `eBeD para que
ele possa desempenhar a missão com êxito. A palavra jpvm “direito” contém o

conteúdo da missão. O termo que foi traduzido por “direito”, mas tem um significado

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amplo como “juízo”, “direito”, “justiça”, “decisão”. Indica uma ação de quem tem
poder para restituir uma ordem desfeita..[187]

Como vimos no capítulo referente à exegese, a palavra jpvm, “direito” ocorre

três vezes nos v.1-4, indicando a missão do `eBeD “escravo”. No v.1 o jpvm
“direito” tem como os beneficiários os migrantes que vivem no exterior, chamados de
gentios. No v.4b o “direito” ocorre em paralelo com a toráh “instrução” e que as ilhas
estão aguardando a “instrução” do o `eBeD. Podemos pensar que todo o Israel
espalhado entre outras nações e as próprias nações serão beneficiadas pela missão do
`eBeD. É uma missão de âmbito universal que engloba toda a humanidade. Vai até os
extremos da terra, aos lugares mais distantes, representados pelas ilhas.

No v.3c, o jpvm mishpat “direito” está acompanhada com a palavra le’emet


que foi traduzida por “para fidelidade”. Esta fórmula expressa uma finalidade. [188]

Como foi assinalado no capítulo dois, referente ao conteúdo, o modo de agir do


líder `eBeD está expresso nos v.2.3a-3b e 4a de forma negativa. Este modo operante do
`eBeD é novo. O líder eleito vai considerar os restos, o lixo humano produzido por um
sistema político, econômico, social e religioso opressor, que não valoriza a vida das
pessoas. Os desprezados pelo sistema, serão beneficiados pela missão. O eleito será
apoiado e foi fortalecido com o Espírito de Javé para desempenhar com eficiência a
tarefa de fazer sair o direito aos oprimidos e marginalizados. Ele será perseverante, não
vai recuar e nem vacilará. Com firmeza e tenacidade não desistirá “até implantar o
direito na terra” (v.4).

No capítulo dois foi dito também que a palavra jpvm “direito” expressa a

missão do `eBeD. Ela ocorre três vezes nos v.1.3 e 4. Para melhor abordarmos a
questão, seguiremos o caminho proposto por Jörg Jeremias.[189] Na sua opinião cada

[187]
B. Johnson,jpvm ,em G. Johannes Botterweck, Helmer Ringgren e Heinz Josef Fabry,
Theological Dictionary of the Old Testament, Michigan, Eerdmans, vol 4, 1981, p.86-98 (728p.).
[188]
Veja capítulo 2 referente ao conteúdo.
[189]
Jörg Jeremias jpvm , im ersten Gottesknechtslied (Jes XLII), Vetus Testamentum, Leiden, E. J.
Brill, vol.2, 1972, p.31-42.

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jpvm “direito” deve ser pensado independentemente, dentro de cada estrofe e, ao

mesmo tempo, interligada estreitamente entre as demais.[190]

No v.1 primeira estrofe, depois da apresentação e preparação do `eBeD se lê:


“direito para as nações fará sair” (Isaías 42,1d). Esta é a missão que o `eBeD recebeu.
Resta descobrir quem são estas “nações” que serão beneficiadas pela missão.

Na tradução do texto v.1e, a palavra ~yIïAG ‘goim’ em hebraico foi

traduzida por “nações”. E no capítulo referente ao conteúdo, foi visto que a palavra

~yIïAG ‘goim’ significa aqueles ou aquelas que vivem em terras alheias:

migrantes, deportados, foragidos e deslocados e outros. Os motivos da migração podem


ser: políticos, econômicos, sociais e religiosos. As pessoas que viviam em terras
estrangeiras eram denominadas de pagãos, sem Deus.

No capítulo dois, referente ao conteúdo, falávamos que os judaítas têm a terra


como um dom de Deus e a que vida depende dela. Para eles, viver numa terra
estrangeira é o mesmo que viver longe Deus. É estar privado daquilo que é vital para a
vida. Ser exilado é sinônimo de ser excluído por Deus. Uma pessoa sem-terra, seria o
mesmo que um indivíduo sem Deus, logo sem chances de salvação. Viver em terra
alheia é estar condenado ao desprezo e a exploração. O chão estrangeiro é impuro,
impróprio para celebrar o culto a Deus. O culto a Deus tinha um único lugar: Jerusalém
e no templo. O templo era a morada de Javé. A reforma de Josias em 622 determinou
que o templo de Jerusalém fosse o único lugar de adoração a Javé. Qualquer sacrifício a
Deus fora do templo era proibido.[191]

Os v.1-4 referem-se também aos israelitas que estão dispersos em outras nações.
Pode-se pensar num Israel em dois sentidos: Israel exilado na Babilônia,e Israel
disperso em outras nações. O grupo exilado na Babilônia está organizando o seu
regressar para Jerusalém. Certamente estão pensando que os outros também regressarão
e juntos formarão um novo povo eleito.

[190]
Jörg Jeremias jpvm, im ersten Gottesknechtslied (Jes XLII), Vetus Testamentum, p. 33.
[191]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio – História e teologia do povo de Deus no século
6º a.C., p.77-78.

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As deportações e emigrações mencionadas no capítulo 2, que tiveram início com


a destruição de Samaria em 772, foi o começo da desintegração do povo e a perda da
identidade. A eleição do `eBeD de Javé pode ter a intenção de resgatar a identidade e a
missão de Israel como povo eleito de Deus. Seria um resgate das raízes históricas.

O relatório da OIM (Organização Internacional da Migração)[192] de 2005


apontou que havia 175 milhões de pessoas que vivem fora dos seus países de origem.
Isto significa que de cada 35 pessoas, uma mora no exterior. Isso corresponde a 2,9% da
população mundial.

Enquanto a América do Norte e a Europa estão tendo saldos positivos de


migrantes, países como o México, Cuba, Bolívia, Colômbia, Bulgária, Polônia, Índia,
Brasil tiveram saldo migratório negativo nestas últimas décadas. Estes últimos países
são classificados como países de emigração. Segundo a ONU (Organização das Nações
Unidas), 63% dos migrantes residem em países desenvolvidos, economicamente ricos.

De acordo com os dados da CEPAL (Comissão Econômica para América


Latina) de 2004”[193], a migração da América Latina é oriunda da própria região. No
século 19 a 20, mais de onze milhões de europeus chegaram à América Latina em busca
de mercados e trabalho. Os motivos migratórios da América Latina devem-se às
seguintes tendências: raízes históricas comuns, mercado de trabalho e melhores
condições de vida.

A migração não é um problema atual, mas vem desde os primórdios, deixando


marcas profundas na história. Eu mesmo tenho experiência das migrações, faço parte da
terceira geração de uma família de migrantes. Meus antepassados vieram da Itália e
foram assentados em colônias agrícolas no interior do Rio Grande do Sul. De lá,
migramos por vários Estados brasileiros. Portanto, sou filho da migração. Como
missionário, trabalhei dez anos fora do país, como migrante. Com o que aprendi, posso
dizer que a migração empobrece a população: ela vai tirando as raízes, destruindo os
laços familiares, culturais e religiosos.

[192]
Relatório da OIM, 2005, (disponível em: htpp://www.un.org/esa/analysis/wess).
[193]
Comissão econômica para América Latina e Caribe. Panorama Social de América Latina 2004.
Disponível em: http:// www,eclac.cl

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Na visão dos judaítas, os que viviam fora do seu país eram vistos como pagãos,
excluídos de Deus e sem direito à salvação. O Estado podia cobrar deles o imposto e
fazê-los trabalhar. No v.1 diz que a missão do eleito de Javé é “fazer sair direito para as
nações”. O que significa, atualmente, fazer sair direito hoje para quem vive numa terra
alheia?

Se pudéssemos dizer o que é fazer sair direito para um desenraizado de sua terra,
diríamos que o sonho do migrante é encontrar acolhida, hospitalidade e solidariedade.
São valores que apontam para a partilha e a igualdade. No fundo, o Dêutero-Isaías
aponta para uma nova sociedade, totalmente oposta à da Babilônia que discriminava e
explorava os migrantes. Este projeto humanizador requer de todos empenho e
honestidade, para que com gestos de solidariedade todos tenham o direito de viver
dignamente. Não se trata apenas do direito de ter condições materiais, mas de ser
valorizado como pessoa humana.

3.3 Novo jeito de fazer surgir o direito.

Na segunda estrofe, lemos: “Não gritará e não levantará, e não fará ouvir a voz
dele na rua, cana rachada não quebrará e pavio vacilante não apagará, não desistirá e
não se quebrará” v.2.3a-3b e 4a. São sete advébios de negação que fazem a inversão da
situação para indicar o modo de agir do `eBeD que fará sair direito para “cana rachada”
e “pavio vacilante”. Numa linguagem metafórica, indica que a maneira de agir do
`eBeD será nova e totalmente oposta à maneira de agir do rei: não será violento e nem
usará da força para fazer sair direito aos pobres e enfraquecidos. Ele usará de
mansuetude, de ternura e compaixão à semelhança de Javé que diz: “Tu, és precioso aos
meus olhos, és honrado e eu te amo” (Isaías 43,4).

Para descrever a situação dos pobres e oprimidos, o grupo do Dêutero-Isaías


utiliza duas metáforas: “cana rachada” e “pavio vacilante”. Numa outra passagem o
grupo dá mais pistas da situação do povo exilado:

“este povo foi despojado e saqueado,

todos eles estão presos em cavernas,

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estão retidos em calabouços.

Foram submetidos ao saque,

e não há quem os liberte,

foram levados como despojos

e não há quem reclame sua devolução” (Isaías 42,22).

É uma humilhação, de abandonado, de opressão, um povo sem esperança,


desorganizado, sem iniciativa e cansado. Um povo frustrado, com vergonha da sua
própria situação.[194] É uma situação de dependência total. Mas o `eBeD de Javé cuidará
para que eles não sejam extintos. Eles serão tratados com carinhos e bondade. Mesmo
estando correndo risco de vida, eles serão salvos e a vida lhes será poupada.

O `eBeD não só se distinguirá dos demais pelo modo de agir, mas por sua
fidelidade à missão. A fidelidade indica que o compromisso assumido pelo `eBeD de
fazer sair direito para os ´cana rachada” e “pavio vacilante” é sério e autêntico. O `eBeD
fará sair o direito com gestos de amor.

Convém que façamos, aqui também, uma ponte do exílio da Babilônia para os
exílios dos tempos atuais: quem são “cana rachada” e “pavio vacilante”? Bastaria um
piscar de olhos para perceber situações semelhantes. No capítulo dois, referente ao
conteúdo, assinalamos que as metáforas “cana rachada” e “pavio vacilante” indicam
situações de pessoas que estão correndo risco de vida. Teríamos muitos exemplos, mas
queremos destacar a situação dos cortadores de cana, conhecidos como “bóia fria”.

Numa série de reportagens especiais, o Jornal da Globo[195] apresentou o setor


da produção de álcool e açúcar no Brasil. Mostrou os grandes investimentos no setor.
Usinas novas, carros com motores flex dão novas perspectivas para o setor interno e
externo do país. Mostrou também que a técnica, na mecanização da colheita da cana,
está colocando em risco o futuro de milhares de trabalhadores bóia-fria, cortadores de
cana. Uma das profissões mais antigas do Brasil está com os dias contados. Cada

[194]
Carlos Mesters, A missão do povo que sofre – Tu és meu servo! p.33-40.
[195]
Vitor Luiz, Situação dos bóia-fria, Jornal da Globo, São Paulo, 2 e 3 de dezembro de 2004.

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máquina colhedora faz o trabalho de 80 trabalhadores. As máquinas já dispensaram


mais de trezentos mil trabalhadores. A perspectiva é que dentro de dez anos as
máquinas deverão dispensar todos os cortadores de cana.

Em defesa do etanol o governo federal ignora a situação precária à qual os


cortadores de cana são submetidos. Recentemente, comparou-se o cortador de cana com
uma balconista de loja. Dias antes do início da reunião da Organização das Nações
Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), que aconteceu entre os dias 2 e 5 de
junho de 2008, o nosso presidente comparou os cortadores de cana com os mineradores
de carvão europeus, historicamente submetidos à exploração para fornecer energia ao
desenvolvimento do capitalismo. O governo ignora o sofrimento e a escravidão dos
cortadores de cana em defesa do combustível etanol.[196]

Qual o futuro destes trabalhadores que ajudaram o Brasil a ser uma potência
internacional na produção de álcool e açúcar? De escravos passaram a ser mendigos de
rua. Estão sendo descartados como mercadoria de consumo. As máquinas substituem o
trabalho deles. Tiram-lhe o emprego que garantia as migalhas de pão para sobreviver e
joga-os na rua em nome do desenvolvimento. O pobre trabalhador não tem a quem
recorrer para se defender. Até o governo está a favor da exploração.

Os cortadores de cana são migrantes recrutados por uma espécie de empreiteiro


que faz a intermediação entre o usineiro e o trabalhador. Este indivíduo chamado de
“gato” é do local e da origem dos migrantes. Ele é alguém de confiança dos donos da
usina, para recrutar e classificar bons trabalhadores. Estes são aqueles e aquelas que não
reclamam que não reivindicam e que aceitam as condições de trabalho que lhes são
impostas. Quem desobedecer às ordens do “gato” será expulso do trabalho, sem direito
de ser contratado novamente para um novo trabalho. Geralmente o “gato” é quem
defende o patrão nas obrigações trabalhistas.[197]

Conforme o conteúdo do v.3, apresentado no capítulo dois, poderíamos dizer


que a situação destes trabalhadores traduz a situação da “cana rachada”. Eles andam

[196]
Tatiana Merlino, Brasil de fato, São Paulo, 05 a 11 de junho de 2008, p.3.
[197]
Miralda Aparecida Menezes, Recrutamento de trabalhadores migrantes na cana-de-açúcar no estado
de Pernambuco, em Travessia - Revisa do migrante, setembro a dezembro de 2001, n.11, p.12-16.

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curvados por causa da opressão e da exploração. Dependem do trabalho para sobreviver.


Como escravos não têm direito de reclamar dos seus direitos. São obrigados a se
submeter à lei da exploração e a competir com a produção das máquinas para
sobreviver.

Para traduzir a segunda metáfora do v.3, “pavio vacilante” que dá seqüência à


situação da “cana rachada”, foram escolhidos e entrevistados 5 moradores de rua. Três
homens e duas mulheres com a idade entre 28-37anos. Todos vivem no centro de São
Paulo. Um deles, Jorge Donizete Claro, nasceu em Jacareí, São Paulo, mecânico, pintor
e desenhista, após uns incidentes familiares, veio para São Paulo há seis anos.
Envolveu-se com drogas, foi preso, perdeu os documentos e nunca mais conseguiu um
novo emprego. Vive de esmola e é viciado em drogas e álcool.

Júlio César de Nascimento, nasceu em São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais,


filho de camponês, trabalhava na lavoura de café e no corte de cana. Estudou até a
segunda série do nível básico. Veio para cortar cana no interior de São Paulo. Foi
despedido por seu chefe e, como teve vergonha de regressar para a terra natal, virou
mendigo de rua há 11 anos. É viciado em álcool e dorme em qualquer lugar. Recolhe
lixo e o vende para sobreviver.

Francisco Pereira Braga é nome fictício. Cearense, foi chefe de tráfico, fugiu da
polícia e faz 16 anos que vive com os moradores de rua, em São Paulo. Já teve oito
mulheres. No momento, vive sozinho. Deixou de ser traficante e passou a ser
consumidor de craque, por ser mais em conta. Encontra-se muito doente, mas não tem
dinheiro para se tratar.

A quarta entrevistada é Maria Fernandes de Andrade, pernambucana,


descendente indígena. Foi professora há mais de dez anos em Pernambuco. Casada, mãe
de quatro filhas, brigou com o marido, veio trabalhar em São Paulo. Como não
conseguiu emprego, há quinze anos mora na rua e não teve mais como pensar em voltar
para Pernambuco.

A última entrevistada é Georgina dos Santos Pereira. É nordestina, cortadora de


cana. Veio para São Paulo com um grupo de bóia fria em busca de uma vida melhor.

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Deixou seus filhos na Bahia com sua mãe e avó em 1997 e nunca mais regressou. Conta
sua história em forma de poesia:

“Sou do nordeste, filha do cabra da peste.


Tenho o nome do agreste
E uma história para te contar.

Sonhei com São Paulo desde menina.


E como uma boa nordestina,
Vim parar neste lugar.

Se foi destino eu não sei.


Ser feliz eu sempre sonhei.
Numa usina vim trabalhar.

Com meus amigos, com quem viajei,


Um dia e uma noite,
E quando acordei estava neste lugar.

Trabalhei mais três meses às vezes sem descansar.


Vendi a força de trabalho em troca de agasalho e comida pra me sustentar.
Mas quando a cana acabou o patrão nem pensou e me mandou passear.

Sem dinheiro para regressar o jeito foi morar com os amigos que encontrei.
Catei lixo e mendiguei para me sustentar.
Mas por causa das aparências ninguém quis me ajudar.
De mãe virei mendiga é dez anos que estou neste lugar

A casa é a rua e a cama um papelão


À vezes durmo na calçada e outras no chão
Acordo todo o dia com corpo dolorido com grito de gente me fazendo gozação.

Hoje já não vivo mais direito, durmo de qualquer jeito e não tenho direção.
Mas tenho esperança, este é o meu defeito:

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Um dia Deus vai dar um jeito e eu vou voltar pro sertão.[198]

São feições concretas de marginalizados que vivem amontoados em favelas,


cortiços, em baixo dos viadutos e das marquises. Que interpelam todo um sistema de
exploração. São trabalhadores e trabalhadoras, mães e pais de família que em nome do
progresso foram jogados no lixo.

O conteúdo da missão da primeira e segunda estrofe é o mesmo; as duas usam os


mesmos termos “fazer sair direito”. Os beneficiados podem ser diferentes, mas
compartilham da mesma sorte. É um povo explorado, machucado que necessita de
cuidado, de carinho, ternura e compaixão. “Eles não gritam e nem levantam a voz na
rua, não quebram a cana rachada e nem apagará o pavio vacilante” (42,2-3).
Machucados não machucam, oprimidos não oprimem, com risco de vida, não
desanimam de lutar.

Este povo jogado na rua, nos cortiços, debaixo dos viadutos é solidário entre si.
O estilo de vida que leva vai rompendo com os laços familiares e cria uma nova classe
de pessoas, de sobra social. É sobra, é lixo humano que cheira mal; é resto que vive dos
restos. A falta de alimentação, saúde, higiene, moradia vai degenerando a pessoa
humana. A solidão é compartilhada com solidariedade entre os que vivem nesta
situação, simbolizada pelo copo álcool, o cigarro, o cobertor e as drogas. A vida deste
povo representa a “cana racha” pela opressão e está correndo risco de vida semelhança
do “pavio vacilante”.

O motivo do aumento extraordinário de favelados, cortiçados é simples: quanto


maior o número de desempregados, mais baixo o salário e maior o lucro das empresas.
O sistema vigente vive do sangue dos pobres. Os órgãos governamentais são os
primeiros a arrancar o camponês da sua terra, forçando-o a migrar para a cidade. No
entanto, cada dia que passa crescem os moradores de rua.

No capítulo 2 falávamos que Javé escolheu o `eBeD como a nova liderança para
revelar seu amor aos excluídos pela sociedade. Ela “não esmagará a cana rachada e nem

[198]
Georgina dos Santos Pereira, São Paulo, Praça da Sé, 07/06/2008.

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apagará o pavio vacilante” (v.3). Escolheu o `eBeD para chamar atenção dos fortes e
dizer a eles que não é com violência e opressão que se constrói um mundo de paz. Javé
escolheu o escravo, o trabalhador, para dizer aos intelectuais que o saber não é nada
quando não é partilhado e colocado a serviço de todos. É neste dinamismo que o `eBeD
vai indicar o caminho certo para a construção de um mundo mais fraterno.

O novo modo de agir do `eBeD, traz dentro de si a semente da nova sociedade,


que é gestada no coração dos que acreditam na partilha e na solidariedade. O jeito de
agir rompe com o esquema da opressão. Inaugurará uma nova era sem mecanismos de
opressão. Para que isto aconteça, é necessário um jeito diferente de trabalhar com o
povo. É necessário acolher, sem medo, a todos esses que foram triturados pelo sistema e
que vivem no cativeiro do abandono. Somente o carinho, a ternura, a misericórdia
podem integrá-los novamente no tecido social, com direitos e justiça.

3.4 Todos os povos serão contemplados na missão do`eBeD

No capítulo referente ao conteúdo, foi visto que a missão do `eBeD aponta para
fora,entre os gentios que vivem em terras estrangeiras v.1. Nesta última estrofe, a
missão `eBeD de Javé engloba o mundo todo, como atestam as frases: “até implantar na
terra direito e pela instrução dele as ilhas aguardam” (v.4b e 4c). Numa passagem
semelhante diz:

“Atendei-me, povo meu, dá-me ouvidos, gente minha!

Porque de mim sairá uma lei,

farei brilhar meu direito como luz entre os povos.

Breve chegará minha justiça, surgirá minha salvação.

Meu braço executará o julgamento sobre os povos.

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Em mim as ilhas esperarão, na proteção de meu braço colocarão a sua


confiança”. (Isaías 51,4-5)

Não é difícil estabelecer um paralelo entre os dois textos e perceber que há uma
semelhança entre o agir de Javé e o agir do seu `eBeD .. Este paralelo é interessante sob
diversos aspectos: uma vez em 42,6 e 49,6 o `eBeD é chamado a ser “luz das nações”;
na Babilônia o povo tinha o deus do sol que é “luz” para orientar a vida; os que estavam
esperando a libertação por parte de Javé, também esperavam que o`eBeD pudesse “ser
luz para as nações”. Através do seu `eBeD Javé estenderia seu reinado a todos
povos..[199]

Voltando ao capítulo dois, referente ao conteúdo, foi visto também que as ilhas
representam os lugares mais distantes da terra. Elas também serão beneficiadas pela
missão do escravo. Para os antigos, a ilhas eram os locais de difícil acesso.[200]

No final v.4c a palavra “direito” está em paralelo com a palavra “instrução”. Ela
será o conteúdo da missão do `eBeD, que apareceu nos v.2-3 que é o “direito” aos
pobres e enfraquecidos. O mundo espera ansiosamente a partir o agir do `eBeD . É de se
pensar que a instrução do `eBeD se trata da vontade divina, que deseja a salvação para
todos os povos. Ligando o `eBeD a com a “instrução divina”, nos remete a figura de
Moisés, de modo que os dois se aproximam. Esta semelhança dá credibilidade e
confiança à mensagem que tem uma perspectiva universalista.[201]

A palavra de Javé garante êxito da missão. Ela é ativa e vai se cumprir. Assim
diz Javé:

“Como a chuva e a neve descem do céu

e para lá não voltam, sem terem regado a terra,

[199]
Jörg Jeremias
jpvm , im erten Gottesknechtslied (Jes XLII), Vetus Testamentum, p.39
[200]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História e teologia do povo de Deus no século
6º a.C., p.104.
[201]
Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio - História e teologia do povo de Deus no século
6º a.C., p.103

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tornando-a fecunda e fazendo-a germinar,

dando semente ao semeador e pão ao que come,

tal ocorre com a palavra que sai da minha boca:

ela não volta para mim sem efeito;

sem ter cumprido o que eu quis

realizará o objetivo de sua missão” (Isaías 55,10-11).

Javé escolheu o seu `eBeD como alguém de confiança para que a missão não
falhe. Ele deverá instruir e ensinar o que é direito para a salvação de todos. Este
conteúdo vai de encontro ao desejo profundo dos povos e nações e à vontade de Javé.
Um direito que não é apenas de teorias jurídicas, mas uma práxis concreta, baseada na
justiça, capaz de devolver o direito aos curvados pela injustiça e opressão. É um projeto
alternativo de uma sociedade sem injustiça e opressão, onde reinarão o direito e a
justiça, a igualdade e a solidariedade. Nesta sociedade Javé “saciará os famintos e
encherá de bens os pobres (Sl 107,9). “Tornará estúpidos os conselheiros da terra e
ferirá os juízes com loucura. Desmascarará os reis e os cingirá com uma corda. Fará
andar descalços os sacerdotes e lançará por terra os poderes opressores” (Jô 12,17-19).

Sintetizando, podemos dizer que a missão do`eBeD é conscientizar o povo dos


seus direitos, começando com os que vivem em terras estrangeiras, escravizados e
marginalizados sem direito de justiça. E de um modo todo especial para os pobres
enfraquecidos que vivem no país de origem, empobrecidos a ponto de estarem correndo
risco de vida. E por fim, a missão do `eBeD englobará a todos para que o sonho de Deus
aconteça, onde todos terão direito à uma vida digna sem opressão e sem violência.

3.5 Novo fermento na massa

A situação do cativeiro marcou a vida e na história do povo judaíta. A


comunidade exilada influenciada pelos valores culturais, políticos e religiosos corria
risco de perder sua identidade e que houvesse uma desintegração do povo eleito. O

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sistema político e econômico no final do exílio entrou em decadência e a inflação


galopante castigava o pobre. De um lado a fome ameaçava a vida e do outro, o sistema
cobrava do povo o imposto. Diante da situação, a maioria do povo deportado já tinha
morrido e os que restavam muitos já tinham perdido a esperança. Sem profetas, sem
templo, sem rei e sem terra, o povo estava entregue a sua própria sorte. Quando tudo
parecia estar perdido, Javé toma a iniciativa e apresenta o seu `eBeD como o protótipo
de um nova liderança, contradizendo toda e qualquer expectativa. E coloca sobre o
eleito o seu Espírito para liderar com eficácia a missão que vai fazer sair o direito as
nações. O `eBeD agirá com criatividade, sabedoria, humildade, paciência e
desempenhará a missão que fará surgir uma sociedade alternativa. Nesta os
empobrecidos, “cana rachada” e “pavio vacilante”, serão valorizados nas relações
sociais, políticas e religiosas. “São as coisas novas que estão acontecendo” (Isaías 42,9;
43,19). É Javé apontando para um novo rumo, um rumo alternativo, onde não haverá
mais nações dominando nações e nem reis com seus exércitos explorando o pobre
trabalhador. Dizer que Javé tomou iniciativa, apontou um novo caminho, não significa
que o povo deve acomodar-se; ao contrário, deve organizar-se para a caminhada. Foi
assim que aconteceu com os exilados na Babilônia. Muitos se acomodaram, adotaram a
religião e os deuses babilônicos. Assim, também hoje, muitos sofrem calados diante dos
problemas, buscam o mais cômodo, a religião que abençoa os seus interesses políticos,
econômicos e particulares. O que aconteceu com os judaítas, aconteceu com os
angolanos e acontece em todas as partes; quando as lideranças se corrompem, o povo é
que sofre.

Os exilados consideravam-se abandonados por Javé no cativeiro. Um grupo


deles, pessoas simples, começa a ler a situação sob outra ótica e se pergunta: será que
Javé quer a desgraça e a morte de seu povo? Será que Javé mudou o seu jeito de ser?
Voltando ao passado descobre que Javé nunca abandonou o povo, mas foi o povo que
abandonou Javé. Portanto, era hora de despertar e recomeçar tudo de novo, como em
Angola quando a guerra acabou. Vamos regressar para as nossas terras e recomeçar a
história como no passado, porque a vida continua, mas de um jeito diferente: Não
separados, mas unidos em Deus e com uma missão de paz. “Sem gritos e sem quebrar a
cana rachada e nem apagar o pavio vacilante” (Isaías 42 2-3).

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Refletindo sobre o passado, o povo do cativeiro descobriu que, desde o tempo da


monarquia, o sistema imposto pelos reis não traduzia o projeto de Javé. Para o projeto,
era necessária uma nova liderança, baseada no direito e na justiça. Uma liderança que
soubesse valorizar o marginalizado e o empobrecido, sem violência, mas com firmeza e
perseverança, até fazer surgir um mundo novo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na reta final deste trabalho queremos apresentar algumas conclusões a que nos
conduziu nosso estudo.

A ênfase da nossa pesquisa se concentra no conteúdo de Isaías 42,1-4. Iniciamos


o trabalho com a poesia “Vozes d’África” de Castro Alves, que clama a Deus perdão
por tanto sofrimento, causado pela escravidão. Ainda na introdução, foi apresentada
uma experiência vivida em situações de guerra, em Angola, durante algumas décadas,
fruto da ganância e do poder. Olhamos para o sofrimento de um povo faminto, sem ter a
quem recorrer e a luta para sobreviver nos assentamentos; deparamos-nos com o
assassinato das lideranças que não compactuavam com o sistema opressor. Comentamos
a dificuldade na formação de novos líderes, num país em guerra. Tudo isto teve por
meta preparar o chão e criar o ambiente para a reflexão do cântico do `eBeD, sofredor
de Javé do Dêutero-Isaías.

O primeiro capítulo do contexto nos aproximou do ambiente de violência,


opressão, instabilidade, e exploração do Antigo Oriente, fruto de guerras, invasões
militares, saques, deportações e vassalagens. Nações digladiando-se entre si, sem a
mínima consideração pela população. O povo só tinha direito de trabalhar para pagar
tributo e concertar os estragos feitos pelos militares. No cativeiro, porém, numa situação
opressora, surge uma nova liderança entre os oprimidos e descobre o caminho para a
libertação. E Javé, vai na frente providenciando o que for necessário para que a vida
vença a morte, a esperança, o desespero e a justiça, a opressão.

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Ainda no primeiro capítulo referente ao contexto, sondamos o terreno, o local e


o ambiente de onde surgiu o texto. Percebemos o surgimento dos impérios vencedores,
em sua prática de deportações das populações dominadas. A derrota militar significava
tornar-se escravo de uma nação, com deveres de pagamento das despesas da guerra,
semelhante a uma indenização que os derrotados tinham que pagar.

Foi visto também que na época do exílio não havia escravidão aos molde atuais.
A palavra `eBeD, que foi traduzida por “escravo”, mas ela apresenta uma grande
ambigüidade, pois costuma designar situações degradantes da humanidade e ao mesmo
tempo pode designar situações heróicas. A diferença está na situação que uma pessoa
impõe sua vontade a outra. Neste caso, quanto mais for à submissão e a exploração
maior será a degeneração do escravizado. No contexto dos judaítas exilados na
Babilônia, Javé apresenta o seu`eBeD como o eleito, consagrado e tem o apoio para
desempenha a missão. Javé converte o “escravo” a um herói livre e confia-lhe uma
missão sublime. Escolhido, o `eBeD liderará em silêncio e sem violência a tarefa entre
as nações. Essa missão tem o objetivo de beneficiar o empobrecido que está correndo
risco de vida “cana rachada e pavio vacilante” (Isaías 42,3).

Pode-se dizer que a vida comunitária e a fé em Javé, foram fatores que


garantiam o povo exilado a identidade de povo de Deus. As promessas da terra, do rei,
da lei, o templo, a cidade santa Jerusalém tinha ido à água baixo. Tudo pertência aos
estrangeiros. A cidade de Jerusalém e o templo tinham sido destruídos, o rei foi exilado
e morreu (Lamentações 5,16). A lei de Deus foi substituída pela lei do rei babilônico
(2,9). O povo que tinha sido libertado da escravidão do Egito, continua sendo escravo
dentro e fora da sua terra (5,4). A influência da religião babilônica levou os exilados a
mergulhar numa crise de fé. Desanimados com a situação, culpavam Javé pela
destruição de Jerusalém e o exílio. Os sentimentos eram de desanimo e humilhação.
Com o passar dos tempos muitos exilados assimilaram os costumes e a religião dos
babilônicos. Pensavam que Javé era um Deus fraco e por isso tinha sido derrotado pelos
deuses babilônicos. A crise política era lida na perspectiva religiosa. Muitos
abandonaram Javé e se voltaram para a religião dos deuses babilônicos. O profeta
Ezequiel foi exilado na primeira deportação¸ revolução na profecia. Foi o primeiro a
exercer sua atividade longe da terra e fora do templo de Jerusalém; atuou no início do
exílio. E diz que Javé está ligado ao povo e não à terra (Ezequiel 1,3; 3,,14). No final o

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Dêutero-Isaías profetiza o êxodo maior e mais esplendoroso daquele da saída do Egito.


Ele vai à fonte e resgata o sentido autêntico da ação libertadora de Javé. Numa
reinterpretação ousada, o grupo profético, representa a consciência do povo que confia
em Javé que escolheu e libertou o povo do Egito. A palavra de Deus não falha é como a
chuva e a neve que não voltam para o céu sem terem regado a terra (Isaías 55,10). Na
certeza de que Javé não falha o grupo profético vibra de alegria ao ver os
acontecimentos históricos a ação de Javé em favor do seu povo. elegeu `eBeD, e o
prepara para a missão entre os povos e nações. O grupo profético concebe na figura do
`eBeD, o pobre exilado e escravizado, como o protótipo do povo eleito por Javé, para
liderar a construção de um mundo novo baseado na justiça e no direito. “Eu Javé te
chamei para o serviço da justiça, tomei-te pela mão e te modelei e te pus como aliança
dos povos e luz para as nações, a fim de abrir os olhos aos cegos, a fim de soltar do
cárcere os presos e da prisão os que vivem nas trevas” (Isaías 42, 6-7). O objetivo da
missão é a salvação dos excluídos e marginalizados pela sociedade no exercício da
justiça para devolver o direito aos que não tem direito a vida.

Para indicar o novo modo de agir do `eBeD, foram utilizados sete advérbios de
negação. “Não gritará e não levantará, e não fará ouvir a voz dele na rua, cana rachada
não quebrará e pavio vacilante não apagará, não desistirá e não se quebrará” v.2.3a-3b e
4a. O número sete, indica a perfeição, quer dizer que a nova liderança eleita por Javé,
agirá de uma maneira totalmente nova para fazer sair o direito a “cana rachada” e
“pavio vacilante” (Isaías 42,3). Os advérbios de negação fazem a inversão da situação:
da violência para a não violência, da gritaria para o silêncio, da opressão para a
solidariedade, do medo e desânimo para a firmeza e perseverança. O `eBeD não será
violento com os pobres e enfraquecidos. Ele usará de mansuetude, de ternura e
compaixão a semelhança a de Javé que diz: “Tu, és precioso aos meus olhos, és honrado
e eu te amo” (Isaías 43,4).O `eBeD não só se distinguirá dos demais pelo modo de agir,
mas por sua fidelidade que indica que a missão é autêntica.

Trocando em miúdos, percebemos que o cântico do `eBeD está construído


dentro de um conflito entre dois projetos que têm bases diferentes. O primeiro é o
projeto da monarquia, que tem um rei na liderança. É um projeto opressor, baseado na
ganância, na violência e na opressão. Este projeto explora os trabalhadores estrangeiros
“nações” e “cana rachadas” e “pavios vacilantes”, empobrecidos através do

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tributarismo. É um projeto piramidal, bem estruturado, do qual o rei é a cabeça.O


segundo, é um projeto bom, tem as marcas tribais. Nele os pequenos trabalhadores do
campo não serão explorados. A liderança é do povo e o seu agir estará baseado na
justiça e no direito. Este projeto vem de fora do exílio e acrescenta a experiência de
Deus vivida pelo povo no deserto. O grupo do Dêutero-Isaías que resgatar o projeto de
Javé para que o povo volte a viver com dignidade e paz. Um dos critérios é viver a lei
dada por Javé como sendo o manual autêntico.

A missão do continua nos desafiando. Os pobres, oprimidos e marginalizados


aprenderam na escola do sofrimento o cominho da solidariedade e da igualdade. Eles
são os eleitos, `eBeD, os mestres na construção de um mundo mais fraterno e humano.
Eles têm muito a ensinar, como partilhar o pão com justiça e igualdade, para que
ninguém tenha necessidade de explorar o outro por ganância e ambição.

Hoje, mais do nunca, o povo anda confuso, os Meios de Comunicações Sociais,


mais omitem a verdade do que a revelam. Os mecanismos de empobrecimento do povo
são cada vez mais complexos e globalizados fazem com que os cativeiros atuais sejam
mais sutis e eficazes na exploração povo. Quando na realidade, metade do que
produzimos é para pagar os impostos ao Estado. Estamos sendo roubados, oficialmente,
em plena luz do dia. Somos livres para pensar e para trabalhar, mas não podemos
reclamar da exploração e da rapinagem. Continuamos exilados e explorados, vivendo na
ilusão de que um dia tudo vai mudar num passo toque de mágica. Precisamos de um
novo `eBeD, que conscientize o povo da situação e dos seus direitos na construção de
um mundo melhor.

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3. - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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