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Pe.

João Betting (1906-1986)

TEOLOGIA
DAS REALIDADES
CELESTES
Manual de Ascética e Mística

Edição PDF revisada por Fl. Castro.


Aparecida, 2004
3

HOMENAGEM JUBILAR.

A Publicação deste livro é uma homenagem sincera,


revestida de gratidão e carinho, ao nosso querido Padre
João Betting, por ocasião da celebração do Jubileu de
Ouro de sua Ordenação Sacerdotal, acontecida a 7 de
junho de 1981.

Padre João, aceite esta homenagem dos seus ex-


alunos de Teologia que nesta data imploram para seu Ju-
bileu as melhores bênçãos de Deus e a proteção de Nos-
sa Senhora!
4

PE. JOÃO EVANGELISTA BETTING 1906 – 986

Padre João nasceu em Denkingen (Alemanha), em


dezembro de 1906, professou no dia 17 de maio de 1926
e foi ordenado sacerdote em 07 de julho de 1931, vindo
para o Brasil em 1936. Foi o último dos alemães que veio
para cá. Já veio como professor do recém-fundado Semi-
nário de Tietê, onde ministrou aulas durante vinte e oito
anos. Durante todo esse tempo foi a figura central do cor-
po docente.Lecionou quase todas as matérias, mas prin-
cipalmente Sagrada Escritura, que era o seu forte.

Dedicou muitas e muitas horas a cuidar da biblioteca


da Província. Era confessor e diretor espiritual de grande
número de nossos estudantes. Era conhecidíssimo em
Tietê, onde passou a maior parte de sua vida, no Brasil.
Muito procurado como confessor, diretor espiritual e tam-
bém como benzedor, ficando afamado com suas bênçãos.
Era um místico e foi um professor ”sui generis”.

Escrevia sobre curiosidades e notícias científicas


nas publicações internas da Província e em revistas dedi-
cadas à espiritualidade. É de sua autoria o livro “Teologia
das Realidades Celestes, manual de ascética e mística”,
editado pela Província. Quando o Seminário Maior foi
transferido para a Raposo Tavares, em São Paulo, o Pa-
dre João foi junto. Foi aí que começaram a manifestar-se
os primeiros sintomas do mal de Parkinson, do qual veio a
falecer.

Foi operado na Alemanha, em 1969, com quase ne-


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nhum resultado. Os médicos, vendo o pouco que haviam


conseguido, recomendaram que voltasse logo para o Bra-
sil. Ele dizia que queria morrer em sua segunda pátria.
Em fins de 1972 foi transferido para o Jardim Paulistano,
de onde, alguns anos depois, passou para a casa de ben-
feitores da Congregação: Dona Elizinha e Narciso Sutiro,
sobrinhos do Padre Sotilo. Ela era sua penitente. Diante
das alucinações de perseguições e de envenenamento
que o padre sofria, perguntaram-lhe se queria ir para a
casa dela, o que ele aceitou. O casal, seus filhos e Dona
Ia, trataram do Padre João com todo carinho possível e
cuidado, até a morte.

A doença ia caminhando sempre mais Vivia quase


só sentado numa poltrona. Foi se encurvando cada vez
mais, à maneira de Sto. Afonso, e, por fim, não falava
mais a não ser por sinais Sem se queixar, ficou privado
até do que mais gostava na vida, seus estudos e seus
livros. Mas enquanto foi possível, era um estudioso dedi-
cado e homem de muita oração.Celebrou missa enquanto
pôde, em seu quarto. Faleceu na tarde de 21 de fevereiro
de 1986. Foi sepultado em Tietê. É venerado pelo povo
da região como um santo (Pe. Víctor Hugo S. Lapen-
ta)(Da publicação interna: Aqueles que nos precederam.)
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Nota do editor

Não foi possível ter acesso ao texto original do autor.


Trabalhei com o texto publicado numa edição particular,
com muitas falhas e erros de transcrição, pois aparente-
mente o texto foi datilografado a partir de ditado, sem ter
passado por adequada revisão e sistematização. Com
isso, algumas vezes, procurei recuperar o sentido original
da melhor maneira que me era possível. Esta, pois, não é
uma edição crítica.
O autor às vezes usa estilo bastante telegráfico, que
respeitei, como aliás o fiz a maior parte das vezes, limi-
tando-me a correções gramaticais. Tomei certa liberdade
na divisão de parágrafos, tendo em vista uma padroniza-
ção do texto.
Espero ter assim contribuído para a preservação de
um texto que merece ser conhecido, quando mais não
fosse como testemunha de uma época. Com essa iniciati-
va quero prestar uma homenagem ao autor, a quem muito
devo.
Fl. Castro, cssr.
7

Prólogo

Dedicamos estas páginas a Nosso Senhor Jesus


Cristo que fez “Sumo Pontífice das Realidades Futuras”
(Hb 9,10.)
“Dizei, sinos da terra
em clamores supremos
toda a nossa tortura
aos astros de onde viemos
toda a nossa esperança
aos astros para onde iremos”.
(Olavo Bilac).

“Sou alguém para o qual existe o mundo invisível”.


(Newman).

“O essencial é invisível aos olhos”.


(Exupéry).

2Cor 4,18: “Exorto-vos a contemplar não as coisas


visíveis mas aquelas que não se vêem, pois, o visível e-
xiste por tempo limitado, o invisível é eterno”.
O Concílio Vaticano II recomenda aos cristãos: “pro-
jetem-se para as realidades futuras” ( GS 38).
Há uma teologia das realidades terrestres. Todo ho-
mem, posto neste mundo, tem de desempenhar na terra o
seu papel; grande ou pequeno, pouco ou muito variável,
conforme a época da história humana, ou da pré-história
em que ele foi colocado.
8

Einstein não seria o inventor da teoria da relatividade


se tivesse vivido na gruta neandertalense.
Variável em dependência do continente que é o seu
habitat: Europa, América, Austrália ou Antártica, ou ainda,
variável segundo a quota de tempo que lhe seja concedi-
do para atuar no palco da história. Um papel em grande
parte já fixo e programado pelas circunstâncias de tempo
e lugar, e condicionado pelos inúmeros detalhes da exis-
tência de cada criatura.
Escrevi esta TEOLOGIA DAS REALIDADES TER-
RESTRES para que o homem, no afã de construir a CI-
DADE TERRESTRE, não se esqueça da CIDADE DE
DEUS na terra, pois, a cidade de Deus, no CÉU, está toda
ela por conta do próprio Deus. O último livro da Bíblia, o
1
TP PT

Apocalipse, faz um croquí dessa cidade futura, mas em


arte abstrata só compreendida por peritos.
A programação dos valores celestes é livre, à esco-
lha de cada um, embora essa escolha, feliz ou infeliz, pe-
se na contagem final dos pontos. É oferta, “gentileza” da
Santíssima. Trindade que rege este mundo.
Há um convite geral, mas o amor quer uma colabo-
ração espontânea, não forçada, uma livre escolha.
A Igreja está encarregada de avisar sobre o perigo
de perder o sentido do Infinito, do Absoluto, do destino

1
TPAqui o autor fala de “Teologia das Realidades Terrestres”: se-
PT

ria esse o título que tinha pensado para a sua obra? Por que na edi-
ção final temos “Teologia das Realidades Celestes”?
Não tendo à disposição os textos originais, pude a-
penas rever o que me pareceu falha gramatical e estilísti-
ca ou engano de quem datilografou o original (Fl. Castro)
9

eterno.
“A transformação do mundo em uma comunidade
fraterna de amor, justiça e paz é tarefa vossa (dos religio-
sos monges)... e como desempenhar-se dela, se falta es-
se gosto do Absoluto, que é fruto de certa experiência de
Deus?” (Paulo VI na Evang. Testif. nº. 52, cf. 34).
Encerrado no estreito horizonte do momento que
passa, o homem de hoje não sabe mais ver sua existên-
cia à luz de Deus.
O comerciante, o industrial avaliam tudo à base do
dinheiro. A jovem dificilmente se eleva acima dos seus
vestidos e da moda. Um “milagre” seria a mãe de família
descobrir que seu filhinho tem uma alma e não só um
corpo. Um véu espesso, um smog espiritual rouba aos
homens o sentido divino das coisas.
Certa amiga aconselha a outra a leitura da vida de
Cristo, de Papini, e começa a contar episódios e passa-
gens do livro. “Não conte nada , interrompe a outra pois,
se souber como termina, perco o interesse!”...
Eis como voamos por cima das realidades como
borboletas, guiados por ilusões. E isso é fatal um vez que
Cristo é o Primeiro e o Último o último capítulo da história
humana e da nossa em particular também! Os grandes da
história humana passaram todos. Mas Cristo “é de ontem,
de hoje de toda a eternidade” (Hb 13,8). Ele foi posto
“como ruína e salvação” (Lc 2, 34). A cada um cabe esco-
lher.
Ele sobreviverá a todos e sem ele, “o mundo é como
um relógio sem números. Gira, anda dia e noite, mas nin-
guém sabe para onde e para que” (Langbehn).
O Credo do Povo de Deus de Paulo VI, orienta-nos:
“Confessamos que o Reino de Deus, iniciado aqui na ter-
ra, na Igreja, não é deste mundo, cuja imagem passa. Seu
crescimento não pode ser confundido com o progresso da
civilização e da ciência ou da técnica humanas mas con-
10

siste em conhecer sempre mais profundamente as inson-


dáveis riquezas de Cristo; em esperar sempre mais ar-
dentemente os bens eternos; em responder sempre mais
decididamente ao amor de Deus; em distribuir sempre
mais largamente a graça e a santidade entre os homens.
Mas é este mesmo amor que leva a Igreja a preocu-
par-se constantemente com o verdadeiro bem temporal
dos homens. Não cessando de recordar aos seus filhos
que eles não possuem aqui na terra morada permanente,
com insistência os incita a contribuírem, cada um segundo
a sua vocação e os seus meios, para o bem da cidade
terrestre, e promoverem a justiça e a fraternidade entre os
homens...
A grande solicitude da Igreja pelas necessidades dos
homens... não é senão a expressão de seu ardente dese-
jo de lhes dar sua presença para iluminá-los com a luz de
Cristo e reuni-los todos nele, seu único Salvador.
Tal solicitude não significa absolutamente que a Igre-
ja se conforme com as realidades deste mundo ou que ela
perca o ardor da expectativa do seu Senhor e de seu Rei-
no eterno” (Paulo VI 30-06-1966).
A mensagem de Natal de 25-12-1973, dedica-se ao
mesmo tema: “Muitos hoje em dia substituem a teologia
pela antropologia. Vêem no Cristianismo um valor huma-
no aceitável por todos; não vêem a verdade divina... O
ponto estratégico das discussões ideológicas é o huma-
nismo, que se transformou numa utopia cósmica, que faz
do homem o “deus” do homem e que, numa vertigem do
pensamento, faz do homem a causa absoluta de si pró-
prio... Diferente é o humanismo que celebramos com o
Natal de Cristo pois apresenta uma outra concepção do
homem”.
Eis a tabela dos valores da CIDADE DE DEUS, das
realidades celestes: DESTINO — DEUS — GRAÇA —
AMOR — ORAÇÃO — SOFRIMENTO.
11

Meus ARGUMENTOS: Escritura, Magistério, Tradi-


ção (pelo prestígio que lhe compete) e os Santos, toda
vez que eles me dão uma palavra mais expressiva do que
eu podia imaginar. São eles, os Santos, melhor qualifica-
dos para o profetismo carismático, estando eles em “os-
mose” espiritual com o divino mais do que nosso raciocí-
nio opaco.
É escusado lembrar que damos esta teologia que-
rigmática para o povo de Deus, dispensando o aparato
científico, mas não a seriedade da argumentação, e sem
deslustrar o vigor lógico e teológico.
Quanto às revelações particulares, sirva-nos de bús-
sola a palavra tão judiciosa de Sta. Teresa de Ávila: “usá-
las como se chupam as uvas, jogando fora as cascas,
guardar o conteúdo suculento, abstraindo da origem su-
postamente divina. As antologias são a voz do povo de
2
TP PT

Deus. Trata-se de gênero literário. O teólogo moderno é


advertido sobre as restrições segundo a teologia mística
(Cf. especialmente S. JOÃO DA CRUZ, Subida 2,28, sobre
as palavras sucessivas).
Aqui nós consideramos estes textos como literatura
religiosa, como testemunhas. Ilustram a doutrina como
flores viçosas ou como modestas ervas no jardim dos elei-
tos, do vinhedo místico. Os (as) visionários (as) não nos
contam novidades. Somente lembram oportunamente
verdades da Revelação já conhecidas, mas talvez menos
advertidas, talvez escondidas ou esquecidas em alguma

A observação volta no capítulo 9, Galeria das Víti-


mas.
12

“dobra” das páginas da Bíblia.


Repito: é gênero literário.
Cícero, imitando os diálogos de Platão, colocou suas
idéias sobre ética e moral, na boca de antigas persona-
gens dos tempos heróicos de Roma, figuras reais mas já
falecidas. E ele comenta que, ao reler às vezes, as diatri-
bes do velho Catão, se impressionava tanto que sucumbia
à ilusão de estar ouvindo as próprias palavras do velho
politiqueiro romano, embora soubesse muito bem que tu-
do não passava de produção literária de sua própria ima-
ginação (Lélio 1).

Ainda duas palavras de orientação e guia:


Diz o Mestre: “Eu te louvo e agradeço, ó Pai, porque
ocultaste estas coisas aos sábios e inteligentes e as reve-
laste aos simples” (Mt 11,25).
E seu discípulo: “Não extingais o Espírito... examinai
tudo e ficai com o que é bom” (1Ts 5,13).
13

1. DESTINO
PARAÍSO TERRESTRE

É destino natural do homem a transformação do pla-


neta num paraíso terrestre. Na media do possível, levan-
do-se em conta as contingências biológicas e ecológicas
deste planeta solar, o homem deve cultivar sua moradia,
seu “habitat”.
É o sentido da história que o homem evolua mais e
mais, de um ser puramente animal para um ser racional,
um ente intelectual. É destino do homem desenvolver e
cultivar sempre mais suas qualidades mentais por meio
das quais ele cria e usufrui o que chamamos de cultura:
música, arte, ciência, e faz participar destes bens uma
porcentagem sempre maior de seres humanos. Civilizar,
cultivar, socializar em progressão sempre crescente a fa-
mília humana.
Papel importante tem nisto o domínio técnico
que libera o homem das necessidades puramente
biológicas da sobrevivência. Tarefa que a técnica,
em todas as suas modalidades, está cumprindo
cada dia melhor, até chegar a uma automação
completa, à substituição cabal do trabalho huma-
no pela máquina, deixando ao homem o lazer de
cultivar os três grandes bens naturais: verdade,
bondade e beleza, ou seja, ciência, virtude e arte.

Cultura

Um ideal que deve ser refeito em cada nova geração


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em vista da estabilidade precária da raça, ou, simples-


mente pelo fato de o homem nascer criança. A aquisição
dos bens da cultura e a adaptação social e cultural é uma
tarefa que cada indivíduo tem de realizar através de uma
ação pessoal, com os recursos que a natureza lhe deu,
com seus talentos. E nem todos nascem poetas ou cien-
tistas.
Fato curioso considerar o homem da civilização ho-
dierna seu melhor passatempo caçar ou pescar, de prefe-
rência na mata virgem, à beira p. ex. do Amazonas. Um
atavismo inveterado da raça este retorno à pré-história
adamítica.
Mas o ideal procurado, é fazer toda a humanidade
participar destes bens de cultura, na medida do possível.
O corpo é parte do homem. É substrato e instrumen-
to de sua atividade intelectual. É como o chassis de um
auto, que não foi feito para correr a esmo pelas estradas,
mas foi criado para o passageiro. O importante é ele, o
passageiro, poder admirar a paisagem e demais belezas
da terra, do ar e do mar.

Escritura

Gênesis 1: a primeira página da Bíblia, a carta mag-


na da criação, entrega ao homem a tarefa de “subjugar” a
terra.
Com muita graça exprime-se o Eclesiastes (3,11):
“Deus entregou o mundo ao homem para suas disputas”
(Tradução da Vulgata). “Disputa” não significa apenas,
diálogo, bate-papo, mas pesquisa e uso-fruto técnico do
mundo que nos rodeia, inclusive Lua, Marte e demais co-
legas siderais
O texto hebraico do Ecl 3,11 diz melhor ainda: “Deus
entregou o mundo ao coração deles” (a seus caprichos),
“ao seu dispor”.
15

Seriado Adão-Eva.
T T

Ora, o plano natural, desde o início, i. é., ao menos


para os descendentes de Adão e Eva, foi subordinado a
um destino superior. Talvez o homem pré-histórico, do
qual sobraram alguns ossos, tivesse só um destino natu-
ral: o trabalho no cultivo da terra e, após a morte, uma
felicidade natural em algum paraíso terrestre, felicidade
proporcional a um ser composto de corpo e espírito.
Conosco, série Adão-Eva, Deus criador teve projetos
superiores. Para nós, adamitas, a terra é passagem, tram-
polim para um paraíso celeste.
Sabemos pela Revelação que não só a alma, mas
também o corpo terá parte nessa vida sobrenatural. Natu-
ralmente, a seu modo, glorificado, espiritualizado, mas
sempre realmente corpóreo.
A propósito, uma palavra de Sta. Teresa (Vida 28):
“Só digo que outra coisa não houvesse para deleitar a
vista no céu senão a formosura dos corpos glorificados,
seria grandíssima glória, em especial a humanidade de
Nosso Senhor”. E Teresa viu só o vídeo-tape!
Consolem-se, pois! O burrinho de São Francisco,
nossa pobre besta de carga cá na terra, a labutar de sol a
sol, também vai entrar no céu e sem as orelhas compri-
das!...

Terra nova.
T T

Sendo assim, é provável, ou possível que, a terra


(ou outro planeta mais espaçoso), após a ressurreição
final dos corpos, se torne o novo lar da nova humanidade.
De que maneira, porém, e em que grau, está totalmente
fora de nosso conhecimento. Qualquer sugestão é pura
16

fantasia. 2 Pedro 3,7-14 fala de céu novo e de terra nova.


Mas ignoramos quanto há nisso de sentido literal, quanto
de metáfora.
Certamente é uma idéia pernóstica a de um contem-
porâneo up-to-date, a de que também no céu todo mundo
terá de cumprir sua quota diária de trabalho corporal, co-
mo “hobby” ou passatempo depois do café da manhã, p.
ex. trabalhando uma hora na jardinagem, cultivando raba-
netes ou podando roseiras... ao gosto de cada um. Um
absurdo! No céu, com visão direta de Deus, creio que te-
remos ocupações mais atraentes do que a de cultivar flo-
res, ouvir discos, pescar ou, jogar uma partida de futebol!

O Limbo
T T

De que modo aquela parte da humanidade, que per-


deu a visão beatífica sem culpa pessoal, vai passar a e-
ternidade não pode estar entregue à fantasia de um Júlio
Verne ou de um Orson Wells. Estou me referindo aos mi-
lhões de crianças mortas sem batismo É provável que
sejam iguais, em número, aos habitantes do céu, pois pa-
rece que, mesmo sem crime, chegam a morrer antes do
parto tantas quantas nascem. E, atualmente, o assassínio
dos inocentes tornou-se um negócio de milhões!...

DESTINO DO MUNDO

No Princípio

Deus criou o universo, não coagido pela necessida-


de de uma complementação nem para aumentar sua feli-
cidade, mas tão somente para estender sua perfeição e
sua felicidade a outros seres.
Como que forçado pelo transbordamento de seu
amor, quis fazer participantes de sua própria glória outros
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seres, principalmente os racionais Quis encher também


outros seres com este foco de infinito amor e de infinita
felicidade, que ó o Ser Divino. O Rio Eterno da plenitude
do Ser transbordou, tornou-se mar e vastidão a envolver
tudo quanto existe e existirá.
Fez participantes de sua perfeição as criaturas, as
quais O imitam em razão da semelhança, ainda que re-
mota, de sua natureza. Imitam-no em sua atividade pelas
faculdades da mente: a de conhecer, de querer, de amar.

Expo-Universo

Deus criou para apresentar seus valores. E valeu a


pena!
Última finalidade do mundo criado é difundir e alar-
gar a bondade de Deus e fazer o maior número possível
de seres, participantes desses bens e valores. Cada ser
deles participa segundo sua capacidade, de acordo com a
escala da existência: pedra — planta — animal. A partici-
pação mais perfeita cabe aos seres racionais O aperfei-
çoamento da terra e de seus habitantes, os homens, visa
apenas tornar a terra e a humanidade mais semelhantes a
Deus; i. é., pretende fazê-las participar melhor da perfei-
ção divina e conseqüentemente de sua felicidade.
E assim o mundo, o universo todo, glorifica o Criador
com sua existência, manifestando em sua natureza a
grandeza de Deus. E as criaturas racionais dão ainda
maior glória a Deus, conhecendo e reconhecendo a bele-
za do mundo criado e amando o Deus criador.
O último destino do universo, portanto, é a glória de
Deus.

Vaticano I

Resume tudo o Concílio Vaticano I: “Deus, em sua


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bondade... não para aumentar sua felicidade, nem para


adquiri-la, mas para revelar sua perfeição pelos bens que
comunica às criaturas, criou do nada o mundo, tanto espi-
ritual como corporal!”.

Essa doutrina conciliar é haurida na:

Escritura:

1. De tudo quanto existe, Deus é fim supremo


Ap 22,13: “Eu sou o alfa e o ômega, o primeiro e o
último, o princípio e o fim”.
Rm 11,36: “Dele e por ele e para ele são todas as
coisas. A ela, a glória pelos séculos”.
Cl 1,16: “porque nele foram criadas todas as coisas,
no céu e na terra, visíveis e invisíveis, tronos e domina-
ções, principados e potestades, tudo foi criado por ele e
para ele”.
Hb 2,10: “Por quem e para quem existe o universo”.
1Cor. 8,6: “Deus Pai, do qual provêm todas as coi-
sas e para o qual fomos criados... e Jesus Cristo por
quem tudo existe e por ele também nós”.
1Cor. 15,28: “Quando tudo estiver sujeito (a Deus),
então o próprio Filho se submeterá àquele que tudo lhe
sujeitou: para que Deus seja tudo em todas as coisas”.

2. Deus criou sem precisar de nada, por pura libera-


lidade
Em linguagem pitoresca, quase brutal, constata o
profeta do A.T.:
Jó 22,3: “Que adianta a Deus se tu és homem ho-
nesto? Qual a vantagem para ele se tu levas uma vida
correta?”
Isaías 1,10: “Para que me trazer inúmeras vítimas?
Estou farto (Tenho tudo quanto quero, com fartura).
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Jesus descreve a situação da criatura perante Deus


(Lc. 17,10): “Tendo cumprido tudo, dizei: somos servos
inúteis; fizemos o que era de nossa obrigação”.
Paulo declara perante os sábios do mundo antigo,
no areópago de Atenas (Atos 17,25): “Deus, que fez o
mundo e tudo quanto nele existe, é o Senhor do céu e da
terra. Ele não habita em templo fabricado por mãos hu-
manas, nem é servido por mãos humanas, como se de
alguma coisa houvesse precisão, pois é ele que dá a to-
dos a vida, a respiração e tudo mais”.

3.Deus cria para dar


O livro da Sabedoria (11,23) descreve num texto su-
gestivo, repassado de afeto, a situação existencial da cria-
tura perante Deus: “O universo todo diante de ti é como
um grão de pó na balança, como uma gota de orvalho
matinal... Tu tens compaixão de todos pois, és todo-
poderoso. Fechas os olhos aos pecados humanos quando
eles se arrependem. Sim, tu amas a todos os seres que
existem, e não aborreces nenhuma de tuas criaturas...
Perdoas a todos porque são criaturas tuas, ó Senhor, a-
mante das almas”.

4. Criatura — Imagem de Deus


As criaturas são reflexos de Deus: “speculum Dei”.
Através do mundo criado podemos ver Deus como num
espelho. Espelho imperfeito, é verdade, mas um reflexo
real da natureza divina. Por duas vezes afirma a Escritura
e cognoscibilidade de Deus.
Rm 1,19-24: “o que de Deus se pode saber, bem o
conhecem eles (os homens) porque Deus lhes manifes-
tou. O que nele há de invisível, contempla-o a inteligência
em suas obras desde a criação do mundo; seu poder e-
terno e sua divindade. Mas, embora conhecessem a
Deus, não o glorificaram... Por isso Deus os abandonou à
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impureza e a ídolos falsos”.


Com finas pinceladas de uma miniatura tratou do
problema da fé no criador e no destino humano.
Sabedoria 13,1-9: “Estultos todos os homens nos
quais não se acha o conhecimento de Deus. Que pelos
bens visíveis não chegaram a conhecer aquele que exis-
te. Nem mesmo considerando suas obras reconheceram
seu criador. Tomaram por deuses, governadores do mun-
do, o fogo, o vento, o ar, o giro das estrelas, a água turbu-
lenta ou os astros do céu. Se, encantados com a beleza
dessas coisas, as julgaram deuses, deveriam entender
quão mais formoso do que elas deveria ser seu dono,
pois, foi o autor da formosura que criou tudo isso. Se eles
se maravilharam de sua força e poder, deveriam também
entender que quem as fez é mais forte, porque, pela
grandeza e formosura das criaturas se percebe, por ana-
logia, o seu autor. Não se lhes pode desculpar a ignorân-
cia, pois se tiveram tanta inteligência para investigar o
universo cósmico, como não descobriram mais facilmente
o seu senhor?”

5. Criatura é louvor de Deus


Sl 18,2: “Os céus cantam a glória de Deus e o fir-
mamento proclama a obra de suas mãos”. Se a criatura
irracional não se cansa de cantar o louvor do criador,
quão mais eloqüentemente devem fazê-lo os racionais
Sl 148,2.7.11.12 (o salmista repete incessantemente
seus convites): “Louvai a Deus, ó Anjos... Bendizei a
Deus, poderes do céu... Louvai-o vós, criaturas da terra...
reis, príncipes e povos... jovens, velhos e crianças”. Uma
enciclopédia e resumo de tudo isso é o canto dos três jo-
vens na fornalha (Daniel 3).

6. Deus exige sua glória


Não dispensa o que é direito do ser absoluto. Isaías
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é dramático (48,11): “Por amor de mim, por amor de mim


o farei... não cedo minha glória a outrem”.

7. Deus pede o amor da criatura


Mais do que nosso louvor Deus deseja o nosso a-
mor. As páginas da Escritura no-lo dizem e repetem sem
cessar.
Dt 10,12: “E agora, ó Israel, o que Deus pede de ti é
que temas o Senhor teu Deus; que andes nos seus cami-
nhos e que o ames e o sirvas de todo o teu coração e de
toda a tua alma... Para que sejas feliz... Deus é o dono do
céu e da terra. Ele amou teus pais e te escolheu”.
São Paulo expressa o mesmo pensamento de ma-
neira concreta e direta (1Cor. 10,31): “Quer comais, ou
bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a
glória de Deus”.

Tradição

As palavras da Escritura encontram eco nos escritos


dos antigos Padres. Algumas amostras características:
Lactâncio: “O mundo foi feito para nascermos. Nas-
cermos para reconhecer o criador do mundo e nosso
Deus; reconhecemos para adorar; adoramos para receber
a imortalidade. Recebemos o prêmio da imortalidade a fim
de servir o Sumo Deus e pra sermos sempre o seu reino
eterno”.
Agostinho: “Brada o céu para o céu: Tu me fizeste,
não eu. Clama a terra: Tu me criaste, não eu”.
Jerônimo: “Deus exige louvor não por precisar do
louvor de alguém mas porque o louvor aproveita aos lou-
vadores”.

DESTINO DO HOMEM
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1. O mundo que nos rodeia foi dado por Deus para


usufruto não para o domínio do homem. Em primeiro lu-
gar, para sustentar sua vida corporal. O decreto divino na
manhã da criação é explícito: “Crescei e multiplicai-vos e
subjugai a terra” (Gn 1,28).
Os anjos não participam dessa finalidade do mundo
material porque são seres incorpóreos, enquanto que as
demais criaturas são o caminho necessário para o homem
chegar ao conhecimento de Deus. O homem depende do
mundo corporal (material) em sua atividade intelectual.
2. O progresso cultural: arte, literatura, técnica, ciên-
cia, tudo isso faz parte do plano divino, desde que esteja
a serviço do bem estar da humanidade e subordinado ao
seu destino eterno. “Deus colocou o mundo ao dispor dos
homens” (Ecl 3,11).
Os valores culturais não são suficientes para servi-
rem como fim último mesmo em um mundo que não tives-
se um destino sobrenatural. Deus é e fica sempre sendo o
termo absoluto assim como, perante o sol, todas as estre-
las desaparecem.
3. Mas a suprema felicidade do ser “homem”, seu úl-
timo fim é: conhecer a Deus e dar-lhe glória. É a mais sin-
gular de nossas tarefas. “Deus nos criou para servirmos
de louvor à sua glória” (Ef 1,12).
O homem está única e exclusivamente orientado pa-
ra a glória de Deus. Da parte de Deus, isso não é um ego-
ísmo antropomorfo, é lógico. “Deus busca sua glória, não
por causa de si mas por nossa causa”, diz a Summa The-
ologica, II-II 132, 1,1. E Sto. Agostinho: “Por Ele ser bom é
que nós existimos: Quia bonus est, sumus”.
Louvar a plenitude absoluta da verdade, da bonda-
de, da beleza, é racional. Ora, Deus é bem absoluto e a
beleza suprema. Ele só pode louvar a quem merece, i.é.,
a si próprio, o Ser Absoluto. É lógico. Igual atitude impõe-
se à criatura: prestar homenagem, louvor e glória a quem
23

merece, a quem de direito. É conseqüência metafísica.


“Toda criatura é de Deus. Algum dia, amanhã ou depois,
terá que estar diante dele e de joelhos” (F. W. Faber)
4. Na ordem natural, o homem participa da natureza
divina de um modo remoto. É imagem de Deus enquanto
é dotado de inteligência e de amor.
Na ordem sobrenatural, a participação atinge um
grau muito superior. Sendo a natureza humana, em sua
substância, elevada a uma participação da natureza divi-
na, o foi ao ponto de tornar-nos, de um modo real, filhos
de Deus, à semelhança do Filho Unigênito. Recebeu as-
sim o homem capacidades superiores, um destino bem
mais elevado: o de amar com um amor eterno o bem su-
premo que pode existir. Dom gratuito que ultrapassa to-
dos os recursos da criatura. Toda a humanidade foi criada
para mergulhar na visão beatífica da Divindade, para vi-
ver, ver e amar como o próprio Deus; para ser submergi-
da na plenitude do Ser. Como retribuir tão grande con-
descendência, tão grande amor?
5. A teologia distingue entre glória objetiva e glória
subjetiva. A glória objetiva é a perfeição que os seres re-
fletem em sua natureza. Quanto mais perfeitos, tanto
maior a glória do criador. Um santo glorifica mais a Deus
do que um cristão medíocre. O Cântico do Sol, de São
Francisco, é a expressão amorosa dessa glória objetiva
de Deus.
A glória subjetiva completa-a, embora não seja in-
dispensável. Não consta entre os teólogos que Deus não
pudesse criar um mundo composto somente de seres ir-
racionais, sem os seres racionais, capazes de apreciar a
grandeza das obras divinas.
A escritura encarrega o homem dessa tarefa com
esta belas palavras: “Deus colocou uma luz em suas al-
mas (nos olhos dos homens) a fim de lhes mostrar a
grandeza de suas obras... para que louvassem seu santo
24

nome e publicassem a magnificência de suas obras” (Ecl


17,8ss).
É assim o homem, porta-voz, intérprete da natureza.
As flores desenrolam suas pétalas coloridas implorando
com esta linguagem muda ao homem para que louve a
Deus. Os passarinhos chilreiam desde o amanhecer, co-
mo que entusiasmado o homem a louvar o criador. Foi
nesse sentido que um eremita bateu nas flores com seu
bastão, dizendo: “Calem-se! Já sei o que querem... que
eu louve a Deus em nome de vocês”.
Por maior que seja, entretanto, a glória que a natu-
reza irracional tribute a Deus é inconsciente, instintiva,
forçada. A criatura irracional é instrumento que não pode
deixar de glorificar o seu autor.
O astro flamejante que traça com vertiginosa rapidez
sua fabulosa trajetória, não sabe o que faz. Não tem
consciência de suas qualidades de pregoeiro da sabedo-
ria e do poder divinos: obedece cegamente às leis da gra-
vitação. Desfiando suas plangentes notas à hora do cre-
púsculo, o sabiá segue a instintiva inspiração do pequeno
peito. Ignora, porém, que está celebrando a bondade e
real munificência do Pai Celeste.
6. Rugindo pelas estepes siberianas ou pelas flores-
tas amazônicas, o furacão não sabe que canta a marcha
triunfal daquele que “caminha sobre as asas do vento;
que faz dos vendavais seus mensageiros e dos raios de
fogo os seus ministros” (Sl 103,4).
A Deus, porém, é devida a vassalagem livre e racio-
nal. E quem lhe presta essa homenagem consciente e
voluntária, essa glorificação formal, são, no céu, os anjos;
na terra, a criatura que “pouco abaixo dos anjos foi colo-
cada” (Sl. 8,8), o homem. O homem, que é capaz de co-
nhecer e amar. “O homem deve suprir a deficiência da
criatura irracional, servindo-se dela como de escada para
subir até Deus... Assim, o homem não é só o rei da cria-
25

ção; é também o seu profeta, o seu intérprete; é o sumo


sacerdote que oferece, racionalmente, o preito irracional
das outras criaturas” (H. ROHDEN, Donde para onde, 1934,
pgs. 109-111).
6. Desde a Encarnação é Cristo-homem o fim de to-
da a criação, segundo Cl 1,15. O restante da humanidade
adquire o beneplácito e o agrado de Deus na medida em
que participa de Cristo (Rm 8,29).
O mundo é palco, campo, arena do Cristo místico.
Deus quis rematar a criação da humanidade pelo Deus
Encarnado. Deus permitiu o pecado original para dar a
seu Filho predileto mais um título de honra: cruz e reden-
ção. “Deu-lhe um nome acima de todo nome” (Fl 2,9).
Jesus Cristo, Homem, em toda a vastidão do mundo,
entre todos os anjos e criaturas racionais, é a criatura
mais amada por Deus.

CÂNTICO DO SOL

Altíssimo, onipotente, bom Senhor, teus são os lou-


vores, a glória, a honra e toda bênção. ...
Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas cria-
turas, especialmente o senhor irmão sol, que clareia o dia
para nós. ...
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e pelas
estrelas que no céu formaste, preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento, pelo
ar, pelas nuvens, pelo sereno e por todo o tempo, pelos
quais às tuas criaturas dás sustento.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água, tão útil,
humilde, preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo, pelo
qual iluminas a noite. E ele é belo, jucundo, robusto e for-
te.
Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a Mãe-
26

Terra, que nos sustenta e governa, produz frutos diversos,


flores coloridas e ervas. ...
Louvai e bendizei ao meu Senhor.
Rendei-lhe graças e servi-o com humildade.

LOUVAI A DEUS

Inúmeras vezes, vozes angélicas cantam no Livro


Sagrado: “Glória a Deus nas alturas!” todos os dias o po-
vo de Deus repete: “Glória a Deus nas alturas!”
“Toda criatura deve ser hóstia de louvor” (Hb 13,15).
O livro de Jó traça, com sua maestria poética, um
quadro grandioso das obras do criador onipotente: (38 a
41) apostrofando o pequeno homem. O cântico dos três
jovens repete quarenta e quatro vezes: “louvai a Deus, ó
criaturas todas!”
A criatura irracional louva a Deus por sua existência,
como disse Tertuliano: “toda criatura reza”. Ela oferece
seus préstimos ao culto divino nos sacramentos, nos sa-
cramentais, no ornato dos altares e dos templos. Melhor,
porem, que tudo isso é o eco que ela provoca no coração
humano: “ó homens, louvai a Deus!” O poema maravilho-
so da criação foi composto para o homem. Só o homem
sabe lê-lo, entende-o e o sente.
A rocha é mais forte do que o homem. O mar é mais
forte do que o homem. A montanha é mais forte do que o
homem. O sol, a árvore, o leão são mais fortes do que o
homem. Mas nem o leão com seu rugido atroador; nem a
árvore gigante com a pujança de suas raízes, troncos e
galhos; nem o sol com a glória de sua luz; nem a monta-
nha com a altanaria dos seus picos; nem o mar com o
arremesso de suas ondas, nem a rocha com o indefinido
de sua durabilidade... nenhum desses seres é capaz de
conhecer, louvar e amar seu criador. Somente o homem,
feito à imagem de Deus, pode ler ou ao menos soletrar o
27

poema da criação. Diz São Paulo: “O homem foi criado


para ser o louvor de Deus” (Ef, 1,12). Foi criado para lou-
var, bendizer e agradecer o dom maravilhoso da existên-
cia.

A Voz

Graciosa lenda, do tempo da aurora do mundo, nos


narra o Talmud: Terminada a obra da criação, Deus con-
vidou os anjos para um giro através desse novo mundo e
pediu-lhes a opinião. Todos se manifestaram cheios de
admiração e louvor pelas maravilhas da onipotência divi-
na. Somente um deles manteve-se num silêncio estranho
até que Deus o interpelou, perguntando se achava algu-
ma coisa a criticar ou a corrigir. O anjo, inclinando-se em
profunda adoração, respondeu: “Grande és tu, ó Senhor e
grandes são as tuas obras. Só uma coisa falta; uma voz
consciente, clara, forte, a jubilar sem cessar através des-
se universo: Obrigado! Obrigado, Senhor!” Deus sorriu
feliz: “Está previsto”, e criou o homem à sua imagem e
semelhança e o fez dono e porta-voz do universo.

Logos

E nós, cristãos, sabemos ainda mais Deus criou o fi-


lho de Deus feito homem, para ser o porta-voz universal,
da criação. O homem do paraíso recusara a tarefa de ser
cantor do mundo. Deus o substituiu, com infinita vanta-
gem nossa, por seu próprio Filho feito homem. E desde o
“Glória” nos campos de Belém ressoa, do oriente até ao
ocidente, e por toda a eternidade, a música de louvor, gra-
tidão e amor que canta o coração de Jesus.

Festival
28

Como o Filho de Deus feito carpinteiro em Nazaré, e


com ele, em íntima união, deve agora o cristão, a criatura
redimida, tirar do trabalho cotidiano sua canção de cada
dia, canção de toda vida.
A mãe de família em seus mil afazeres e preocupa-
ções deve estar sempre a cantar: “Louvado seja Deus”. O
técnico, o cientista atrás das retortas do laboratório, e to-
dos esses inúmeros profissionais humanos, todos devem
cantar o salmo 116: “Louvai a Deus, povos todos, louvai-o
todas as nações.” Política, comércio, indústria, lavoura,
escolas, universidades todos devem compor melodiosa
sonata em louvar a Deus.
São Francisco compôs seu famoso Cântico do Sol.
Mas não há dúvida que o melhor cântico do sol foi a sua
própria vida. A melhor canção, a mais grata ao ouvido de
Deus é a nossa vida humana transformada num louvor de
Deus perene. Até que entoemos nosso “Glória a Deus”
unidos a Ele nas alturas.

Canção

Balbuciamos nós sacerdotes, monges, religiosos,


louvor e gratidão a Deus, recitando os salmos do rei Davi.
Recitamos esses cantos de louvor do povo eleito em uni-
ão com o Filho de Deus que desde Nazaré recitou os
salmos em preito e homenagem ao Pai. E junto com ele
terminamos cada salmo, com o estribilho e o remate de
toda a existência humana e de todo o universo: “Glória ao
Pai, Filho, Espírito Santo, por todos os séculos e tempos
sem fim”.

Mistério da fé
O máximo da glória, júbilo, louvor, honra e gratidão,
29

oferece à Santíssima. Trindade o Verbo humanado, na


Santa Ceia, da aurora até o pôr-do-sol, diz o profeta Ma-
laquias (1,11).
Três vezes feliz o sacerdote, criatura humana, en-
carregado de pronunciar, em nome de Cristo: por ele e
com ele e nele é para ti, Pai onipotente, em união com o
Espírito Santo, toda honra e glória. “Toda possível, infini-
ta”.
Devemos começar a pensar nisto desde o início do
rito sacro ao entoarmos o “Glória a Deus nas alturas”.
Música, ornato, flores querem contribuir também, humil-
des e mudos, para esta glória de Deus.
Sta. Matilde derrama em fervor sua alma de fogo: “Ó
bom Deus, eu queria, que a cada momento, e sem ces-
sar, milhares de coros de anjos te louvassem e adoras-
sem... Queria ter tantos corações quantas estrelas há no
céu, quantos folhas há nas árvores, quantas gotas d’água
há nos mares do mundo, a fim de amar-te sem cessar...”
Apareceu-lhe Jesus dizendo: “Toda essa honra po-
des preparar-me, e mais ainda do que desejas”.
Um momento de “suspense”. “Como?” E com olhos
ardentes aguarda a resposta.
Jesus responde: “É só assistir à Santa Missa.” E de
braços abertos sobre o altar, Jesus faz correr seu sangue
de todas as chagas: “Eis as chagas que reconciliam a jus-
tiça do Pai. Todas as graças que a alma perdeu por des-
cuido ou relaxamento, poderá recuperá-las plenamente,
aproximando-se do Sto. Sacrifício do Altar, que contém a
plenitude das graças”.

DESTINO: FELICIDADE

Nostalgia eterna

Ser feliz, viver na felicidade, é o desejo mais profun-


30

do, mais vital dos homens. A criatura encontra essa felici-


dade só em seu criador, em Deus. É que os bens criados
são limitados demais, em número, em valor e em eficiên-
cia. É o velho estribilho: “Vaidade das vaidades, tudo é
vão e vazio (Ecl 1,1). Exclama assim quem mais facilida-
de teve de saciar-se na mesa da vida, num banquete dos
prazeres do corpo, da mente e do coração. É que todos
os manjares do banquete da vida tem o gosto acre da
morte que estraga a festa.
O homem sem destino pessoal é uma onda que
passa e desaparece no vazio. Então, vale a inscrição que
Dante pôs sobre o portão do inferno, e vale desde já, para
a terra, para a vida terrestre: “Ó vós que aqui entrais, dei-
xai toda esperança!” “Então sobre tua lápide sepulcral, só
poderá negrejar este infame epitáfio: aqui jaz o rei da cri-
ação, a mais desgraçada das criaturas (ROHDEN o.c. 82)

Vozes pagãs

Kant é de parecer que nenhum homem teria vontade


de recomeçar a tragédia da vida. Vida que é segundo ele
“período de provação, no qual a maior parte dos homens
sucumbe, e em que também, o melhor, não acha satisfa-
ção”.
Schopenhauer naturalmente, como filósofo do pes-
simismo, carrega mais as tintas: “A vida é uma desgraça.
Não dá o que promete. É uma fraude praticada a varejo e
por atacado. É um negócio que não rende pelas despe-
sas... O homem é destinado a ser miserável e disto não
passa”.
Heine: “O mundo, que tal? Hospício ou hospital” (cf.
ROHDEN 98,101)
Goethe vivia na maior abastança e, coisa rara para
poetas, glorificado já em vida, por todos. Escreveu na ve-
lhice: “A opinião geral faz de mim um homem favorecido
31

pela sorte. Não quero me queixar... Mas podem ficar tran-


qüilos: não fui feliz. Somando todas as horas realmente
felizes da minha existência de setenta e cinco anos, dá
mal e mal um mês. Havia sempre uma pedra a rolar morro
abaixo. E era preciso recomeçar cada vez de novo”.
Palavras patéticas escreveu Nietzche. Revelam gri-
tos de desespero de uma alma sedenta de amor, de uma
alma sedenta de felicidade, mas torturada pelo desespero
da ausência de Deus: “Sim, conheço minha origem. Sou
filho da chama. Insaciável como a chama, a arder e devo-
rar-me”. “Toda a bondade, toda a beleza e toda a felicida-
de da criatura é efêmera, é perecível, passa e sucumbe
ao correr do tempo e, todavia, todo prazer quer ser eter-
no, quer vida eterna”.
Comovente é a sua nostalgia de Deus: “Os corvos
grasnam, rumando à cidade. Logo vai nevar, vai estender
o inverno seu lençol branco e frito. Ai de quem não tem
mais lar”. Apostrofando o ateu: “Reflete, tu nunca mais
irás rezar. Nunca mais irás adorar. Nunca mais irás des-
cansar um aconchego perfeito. Para ti não há mais refúgio
ou asilo onde buscar consolo e conforto. Ó homem de
renúncia, queres mesmo renunciar a tudo isto? Quem te
dará a força que até agora ninguém teve?”
De uma poesia (Ariadne): “Tocam os sinos plangen-
tes da saudade ó, volta, retorna, Deus desconhecido; Tu,
minha dor, minha felicidade suprema”.

Vozes Cristãs

Escreve o místico medieval: “Ai, quanta alma nobre,


quanto coração generoso, quanta figura formosa que em
tua companhia divina criam ser princesas, rainhas e impe-
ratrizes, poderosas e potentes nos reinos do céu e da ter-
ra, se embaraçam e rebaixam nos liames de criatura ter-
rena. Ai delas, que se arruínam assim... Tudo quanto teu
32

coração deseja, encontras em Deus, em plenitude infinita.


Desejas amor, carinho, luz, verdade, conforto e consolo?
Tudo isto encontras e Deus, em abundância, sem limites,
sem medida. Desejas beleza? Ele é o mais belo. Desejas
riqueza? Ele é o mais rico, no céu e na terra. Desejas po-
der? Ele é o mais poderoso, de sol a sol, do oriente até o
ocidente. enfim, tudo quanto teu coração possa desejar
encontrarás mil vezes nele, no bem supremo, Deus” (De-
nifle)

Imagem de Deus

“Tua alma, ó homem, é uma maravilha, um milagre”,


escreveu o místico medieval Henrique Suso. “Como Deus
é imenso em dar, assim alma, é imensa, insaciável em
receber”.
Teu espírito alimenta-se de luz, com a luz da verda-
de. Não se contenta só com uma estreita fresta de luz,
talvez só com a luz do luar; ele quer toda a verdade de
vez.
Teu coração deseja amor, amar e ser amado. Sem
limites. Por todo o sempre. Somente Deus é capaz de
saciá-lo.
Assim, como Deus é infinitamente bom, justo e san-
to, assim tua alma é um desejo infinito de ser boa, justa e
santa. Tua alma é centelha da divindade, e a terra toda é
pequena demais para satisfazer-lhe o anseio. Todas as
criaturas juntas não são capazes de compreender o Deus
infinito. Todas as criaturas juntas não são capazes de en-
cher de bem-estar a tua alma. Uma gota de orvalho não
faz transbordar o oceano. Todos os prazeres que a terra
te pode oferecer não são capazes de encher de felicidade
tua alma.
33

Pranto do deserto

Nas noites estreladas, o vento agita de leve, os mi-


núsculos grãos de areia do deserto. Bilhões e bilhões mo-
vimentam-se em leve atrito. Produzem assim um som
plangente, como o gemido lastimoso de um animal gigan-
tesco ferido de morte. Ouçam, diz o árabe: o deserto cho-
ra. Chora saudoso pelos jardins floridos, as searas ondu-
lantes de outrora.
Aonde correm todas as águas, sempre avante, deve
haver um mar, a pátria de todas as águas, rios e mares.
Aonde correm todos os seres humanos, e correm sem
parar, aí deve haver um oceano imenso, a pátria das al-
mas, a eternidade, Deus e sua felicidade. Nossos cora-
ções, inquietos e infelizes enquanto não descansam em
Deus.
“Deve haver uma terra pela pelas bandas do ociden-
te”. Com esta idéia fixa Colombo descobriu a América.
Vale o mesmo axioma da vida humana: no poente da vida
terrestre dever haver outra vida. Colombo foi taxado de
louco por diplomados da universidade de Salamanca...
mas estava com a razão. O cristão, norteado pela fé para
a vida eterna com Deus, também recebe neste mundo
míope a mesma pecha, mas ele é que viverá vida eterna.
34

Eldorado

Um instinto secreto sussurra-nos ao ouvido que exis-


te o Eldorado. Qual agulha magnética que sempre aponto
para o pólo, assim o coração humano sofre e vive dessa
nostalgia, dessa saudade, vaga, indefinida, saudade de
uma felicidade plena e duradoura. Quantas lágrimas de
saudade derramam os seres terrestres. Até a felicidade
nos faz chorar. Talvez, pelo pressentimento da pouca du-
ração. Como disse alguém que experimentou as alegrias
desta terra, bebeu por assim dizer de todas as águas, Sto.
Agostinho: “Criaste-nos para Ti e nosso coração está in-
quieto até descansar em Ti”.
E ainda alguns textos deste grande lutador cristão.
“O prêmio de Deus é o próprio Deus”.
“Eis a religião cristã: venerar um Deus só e não mui-
tos, porque só um Deus faz a alma feliz”.
“Tarde te amei, ó beleza eterna e sempre nova. Tar-
de te amei. Eis que Tu estavas dentro de mim e eu estava
fora. Eu te buscava lá fora. Atrás destas formosuras, cria-
turas tuas, corri disforme. Tu estavas comigo mas eu não
estava contigo. Aquelas seguraram-me afastado de ti,
elas que não existiriam se não existissem por ti. Chamas-
te, clamaste, rompeste minha surdez; lançaste raios e
fulgores e afugentaste minha cegueira... enfim, te senti e
agora estou faminto e sedento (de ti)”.
“Tocaste-me: eis que estou ardendo em tua paz”.
“Ó Amor, que ardes sempre e nunca te apagas. Ó
caridade, ó Deus meu, inflama-me... dá o que mandas e
manda o que queres” (Confessiones. 10,27).
“Ali repousaremos... no fim sem fim. Qual é o nosso
destino senão chegar ao Reino sem fim?” (Cidade de
Deus, 22,30)
35

Terra da promissão

Saudades de uma vida eterna, eis o problema de


cada vida humana. Vivemos como plantas ávidas da luz
do sol nesta terra da promissão.
Foi um longo caminhar. Séculos se passaram, foi
prometida a Abraão. Israel marchou por quarenta anos
atrás desta visão. E ainda caminhamos, a humanidade
toda, à sua procura, porque esse país só existe no além.
Por aqui ainda marchamos nas areias do deserto.

Maran Atá

Muitos sufocam essa luzinha saudosa no coração


humano. Essa centelha do além, tão irrequieta, tão fraca e
vacilante.
Mas confiem na grande promessa: “Nenhum olhar
humano jamais viu. Nenhum ouvido humano jamais ouviu.
Nenhum coração humano jamais sentiu o que Deus re-
servou à criatura que o ama” (1Cor 2,9)
Perguntemos a quem já esteve perto, já viu albores
do futuro, que retornou do terceiro céu, a São Paulo após-
tolo: “Desejo morrer e estar com Cristo” (Fl 1,23).
Ouçamos o clamor do coração dos primeiros cris-
tãos: “Maran ata”. “Vem, Senhor, vem” (1Cor 16,22).
E o brado da mística estática, Sta. Teresa d’Ávila:
“Morro por não poder morrer”.
E São Luís Gonzaga, moribundo, a exclamar, alegre,
exuberante: “Agora vou para casa, vou para casa...”

DEUS PRIMEIRO E ÚLTIMO

O regato d’água sempre a correr pela campina ver-


de, proseando seu murmúrio de sempre, saudando por
todos os lados, sempre apressado, sem parar, até lançar-
36

se no grande mar. Compreendamos sua preocupação. No


momento que pára, vira brejo.
Fomos criados para a vida eterna, não para esta vi-
da mortal. Estamos de viagem, a caminho da luz, da vida,
do amor eterno e sem fim.

Fim

A humanidade andou nas trevas. O filósofo romano,


M. Varro, colecionou e discutiu duzentas e oitenta e oito
opiniões da filosofia pagã grego-romano sobre o fim do
homem (Cidade de Deus 1,1). Entretanto mais trágico é a
lápide tumular da catedral de S. Paulo, em Londres: “Du-
bius vixi, incertus morior, quo eam nescio” ( “Vivi na dúvi-
da, morro na incerteza, e para onde vou, ignoro”). Mais
trágico porque o londrino deve ter lido o prólogo do evan-
gelho de São João e o primeiro capítulo de Romanos.

Parábola

Trágico como a parábola do Reino (Lc. 14,15). Os


convidados escusam-se um por um. Não têm tempo. O
primeiro porque comprou uma fazenda. O segundo com-
prou uma boiada, que trabalheira! E o terceiro, casou-se.
Todos, pois, sumamente ocupados. E o Mestre manda
dizer a quem interessar: “Estes não entrarão no meu rei-
no”. O epílogo já fora escrito no Antigo Testamento: Ergo
erravimus (Sb 5,2). “Erramos no caminho, insensatos, nos
enganamos”. Calculamos mal. Remorso tardio e inútil.
Um livre pensador viu uma velhinha recitar o terço:
“Boas senhora, pode deixar esta reza. Deus não precisa
de sua oração”. “Ora, sim, acredito. Mas eu preciso dela”.

Analfabetos
37

A humanidade passa a sua história à procura de


Deus. Uns acham-no. Outros, segundo o famoso ditado
de São Paulo (2 Tim. 3,7), fruto de sua experiência pasto-
ral, “estão sempre à procura, sem nunca chegar à verda-
de... e sua insensatez há de tornar-se manifesta”.
Não os desprezamos mas os lastimamos; nem o be-
abá chegaram a aprender. Não foram capazes de ler nem
sequer a primeira página desse belíssimo e ilustrado livro,
no qual Deus descreveu sua existência e sua grandeza.
São como crianças que seguram o livro às avessas e de-
pois choram por não saberem ler.
Vira teu coração às direitas e acharás escrito na pri-
meira página, em letras garrafais: o homem foi criado por
Deus, a fim de conhecê-lo, amá-lo e servi-lo. A humani-
dade hodierna parece-se com tal criança. Está à procura
do além. À procura de Deus. E ainda estará quando toca-
rem as trombetas para o recolher final, para o juízo final.

Porta fechada

Céu e terra passarão. O mundo vai acabar. Só Deus


permanece (Mt 24,25)
“A figura deste mundo passa” (1Cor 7,31). Sempre
oportuno o lembrete do sábio do A.T.: “Lembra-te do teu
criador... Tudo o mais é vão e vazio”(Ecl 12,1.8).
Não nos atrasemos no caminho! Por favor! Seria fa-
tal. Diz Gregório Magno: “Insensato o viandante que ao
contemplar no caminho os prados floridos, esquece a me-
ta da sua viagem”.
Vai-lhe acontecer como às virgens loucas: vai en-
contrar portas fechadas. Vai-lhe acontecer como à boneca
de Teresa ChappuIs. Recebera, aos seis anos, uma bo-
neca que sabia dormir, chorar – uma maravilha! Mas a
“filha querida” tinha de saber também todas as lições do
catecismo. E lá vai a primeira pergunta: “Para que esta-
38

mos na terra?” Silêncio “Como! nem isto sabe?” E a pobre


pagã voou para um canto. Nunca mais nela tocou. Traste
inútil. O sacerdote que ensinava catecismo no castelo,
começava cada aula com esta primeira pergunta.

A marca

“Deus gravou na fronte de cada uma das suas cria-


turas a marca de propriedade, selo infalsificável do seu
real senhorio. É só abrir os olhos para ver que o nome de
Deus resplende de todas as alturas e profundezas da cri-
ação. Traça-o o raio, em caracteres de fogo, no sinistro
vulcão. O orvalho desenha-o com pérolas, nas aloiradas
folhas de capim. O vendaval o esculpe, em alto relevo,
nos sanhudos vagalhões do mar. Enquanto as flores o
pintam no vislumbrante matiz de suas pétalas. O ribombar
horríssono do trovão, como o meigo ciciar da brisa ves-
pertina, a lúcida claridade do dia como o negrume fatídico
da noite, tudo canta, tudo apregoa, nas mais variadas to-
nalidades da escala musical, o eterno hino triunfal: Glória
ao Deus dos exércitos! Cheios de tua glória estão os céus
e a terra. Hosana a Deus nas alturas!” (ROHDEN, 108)

O dono

Os antigos romanos gravavam a fogo na testa dos


escravos fugitivos o nome do dono. O artista assina a o-
bra com seu nome. Demos uma volta pelo mundo e averi-
güemos a marca do dono. Cada criatura nos responde:
sou de Deus; foi Deus que me fez. “Perguntei, escreve
Sto. Agostinho, à vastidão do mundo a respeito de Deus e
ele respondeu-me: Não eu, mas Ele me fez” (Confessio-
nes, 10,6). Toda criatura é serva de Deus. Esta depen-
dência não admite exceção. Tudo é dele. Tudo quanto
existe. Vivo ou morto. Sol, lua, estrelas lhe pertencem. E
39

na terra, todas as cidades e reinos, todos os navios e fo-


guetes, todas as fazendas e lavouras, todas as fábricas e
usinas, todos os talentos e gênios, todas as criações da
arte da música e da literatura são domínio de Deus. Os
homens dispõem disto, a título de empréstimo, por seten-
ta ou oitenta anos.
Deus é senhor absoluto e, portanto, o homem seu
servo. Deus põe suas mãos em nosso ombro e nos diz:
“Eu te criei... eu te salvei. Tu és meu” (Isaías 43,1). Todos
servem a Deus: estrelas e flores, anjos e homens, gran-
des e proletários, povos e famílias. É um conseqüência
lógica, metafísica da qual nem Deus pode abrir mão, por
sorte nossa por ser impossível criatura tornar-se ser-não-
criado, ser absoluto.
Eis, pois, a carta magna do reino da terra: servir a
Deus.

Servir

A palavra de Deus repete: “Nenhum de nós vive para


si, nem morre para si. Vivendo, vivemos para o Senhor.
Morrendo, morremos para o Senhor. Vivos ou mortas, ao
Senhor é que pertencemos” (Rm 14,7). Para criatura ra-
cional-espiritual não há outro fim possível senão Deus.
Sto. Agostinho o assinala, dizendo: “Deus é o supremo
bem; não podemos contentar-nos com menos”. Diz o di-
tado: “Quem viveu sem Deus, floriu em vão”. Disse o poe-
ta (Novalis): “Deus é o sol da alma”. Sem a luz do sol, é a
noite.
Deus é centro e fundamento. É construído sobre a-
reia tudo que não se apóia em Deus; é oco tudo que Deus
não enche: pois ele é a plenitude. Tudo morto o que Deus
não anima e vivifica: pois só ele é a vida e só ele dá a vi-
da.
40

Vontade de Deus

A suprema perfeição da criatura “homem” é servir a


Deus. Fazer a vontade de Deus é a suma perfeição. Para
traçar um roteiro para a criatura humana não há outro ser
mais competente, mais inteligente, mais bondoso que
Deus. Os humanos podem expandir todos os seus talen-
tos, que Deus lhes deu, para criar valores e culturas, mas
que o façam sempre de acordo com o plano de Deus. Po-
vos e governos podem e devem lutar por uma promoção
social, cultural, sempre mais crescente, mas seja tudo
coordenado com as leis de Deus. A política nacional e
internacional desenvolva sua atividade, mas sem contrari-
ar a vontade de Deus. As obras de arte e da literatura me-
recem cultivo, mas não ofendam as normas divinas. Não
há independência perante o Ser Absoluto e nenhum das
atividades humanas é “livre”: todas devem convergir em
Deus e subordinar-se à sua lei. Tudo está debaixo da so-
berania de Deus. “Faça-se a Tua vontade, como no céu,
assim também na terra”: eis o roteiro do cosmos univer-
sal.
A exemplo do Homem-Deus, que declarou alto e em
bom som: “Faço sempre o que é do agrado do Pai” (Jo
8,29), nosso modelo e exemplo até chegarmos ao Con-
summatum est - terminou tua hora de trabalho e serviço.
E ouvirmos o convite: servo bom e fiel, entra na glória de
Deus.

Retorno

O homem foi feito para viver de Deus. Como o pás-


saro foi feito para voar, e o sol para brilhar.
A tragédia da humanidade atéia consiste justamente
em ter cortado o elo entre Deus e o homem. Agora nada
mais tem sentido. Sem Deus não existe nem verdade,
41

nem justiça, nem felicidade entre os homens. Nada mais


resta ao homem do que a angústia e o desespero, o cor-
rer atrás dos prazeres e ingurgitar-se de psicotrópicos. E
dessa ausência de Deus a humanidade irá morrer. A lei
da selva e a brutalidade do egoísmo são as leis da huma-
nidade se Deus, condenada a morrer de morte lenta, mas
certeira.
E esta morte é realmente “um arco de triunfo que se
abre para o vazio” (Barres). “Nosso mundo perdeu o sen-
tido de Deus... e a sociedade humana tornou-se um vazio,
do qual ela morrerá, um deserto de Deus” (Suhard, 1948).
Pio XII estigmatizou e denunciou, em 1949, um mal maior:
o ódio de Deus. E hoje, após um concílio mundial, o cínico
nos comunica: Deus já morreu. É o início das trevas da
Angústia.
É mister subir às fontes, à origem. “Não há mais es-
perança a não ser na linha vertical... Avante na estrada.
Sentido único” (Claudel). É mister retornar, de causa em
causa, até à luz inacessível dentro da qual se esconde
Aquele que existe. “O mundo é a face de Amor Eterno
inclinado sobre nós” (Laurigaudie). Os hindus afirmam
com uma obstinação pedante que tudo é ilusão; mas nós
sabemos que tudo é “alusão” (Claudel).
Um aviador canadense diz: “Perdido no espaço, so-
zinho, estendi a mão e toquei a face de Deus. Através
desse Nada magnífico que é o mundo, tocamos a presen-
ça de Deus.” “O mundo é um pensamento que não pensa,
suspenso num pensamento que pensa” (Lachelier).
Saiba a criatura que, através dos meandros da vida
terrena, com seus percalços, ela vai eternizar-se em
Deus. O teólogo medieval lapidou a sentença: “A visão do
Deus Trino e Uno é fruto e fim da nossa vida” (I Sent. 2,1).
Toda a grandeza e toda a miséria humana origina-se des-
se destino divino. Se o homem é fiel, a sua existência co-
tidiana é iluminada por esta invisível presença. Se o ho-
42

mem recusa a luz, se resiste ao amor eterno, sua vida é


quebrada. A nós cabe escolher... Deus renova o convite
sem cessar. “Quem te criou, reclama por ti” (Agostinho).
“Não haja entre nós quem falhe à meta” (Hb 4,1). O após-
tolo convida para a corrida ao prêmio oferecido a todos.
“Esqueço o que ficou para trás e atiro-me para frente. Mi-
rando o alvo, vou à conquista do prêmio” (Fl 3,13).

Legionário

Nas estradas militares da Roma Antiga, que corta-


vam o continente europeu em todas as direções, havia de
espaço em espaço um marco milionário, uma pedra com
as letras PPC: Pro Pátria Consumor. E, à sua vista, os
olhos cansados iluminam-se. Os músculos doloridos rete-
sam-se. O legionário reegue-se e de cabeça levantada,
marcha com novo vigor, sempre avante.
Para nós, cristãos, também há tais marcos na estra-
da da vida. A cada milha um lembrete: avante! Estás mar-
chando e lutando por uma pátria eterna.
43

2. DEUS
“Deus, o ser único, o ser por excelência, o único que
merece este nome” (Cavallera)

“Nisto deves meter todo o teu empenho que Deus


cresça em ti” (Tauler)

PARÁBOLA

A Revolução das Árvores

Um altaneiro jequitibá concedeu um plano arrojado.


“Irmãs, disse ele às árvores da selva, deveis saber que a
terra nos pertence. Vede, homens e animais dependem
de nós. Alimentais as vacas, as ovelhas, as aves, as abe-
lhas, tudo enfim vive de nós: somos o centro de tudo. Só
um poder há acima de nós: é o sol. Verdade é que dizem
depender dele nossa vida. Mas eu estou convencido que
isso não passa de fábula para meter-nos medo.
Ora, não podemos viver sem o sol? Lenda antiqua-
da, supersticiosa, indigna de plantas modernas e esclare-
cidas.”
Pequena pausa. Umas figueiras seculares e um ce-
dro majestoso de idade avançada, meneavam suas copas
em sinal de desaprovação. Mas as árvores novas aplau-
diam freneticamente de todos os lados.
O jequitibá retomou o arremesso e continuou: “Bem
sei que há entre nós uma facção de ignorantes e atrasa-
dos, o partido das velhas que ainda acreditam em fábulas.
Eu, entretanto, sou pela autonomia e pela independência
da nova geração vegetal. É tempo de sacudirmos o jugo
44

do sol. Vamos à luta pela liberdade; ó velho lampião do


céu, teu reino findou.”
Uma tempestade de aplausos estrugiu no ar. O en-
tusiasmo juvenil abafou os protestos das árvores velhas.
“Comecemos, pois, comandou o jequitibá. Durante o
dia interromperemos toda a atividade e passaremos a vi-
ver só durante a noite, escura e misteriosa. De noite have-
remos de crescer, deitar os brotos, florir, exalar o perfu-
me, frutificar: não precisamos do sol. Somo livres”.
Nos dias seguintes os homens observavam um fato
estranho. O sol resplandecia com todo o seu brilho. Seus
raios quentes enchiam o ar. As flores, porém, inclinavam
teimosas as cabecinhas para a terra, fingindo dormir. As
árvores deixavam pender as folhas. Todas as plantas
desprezavam o astro-rei. À noite abriam-se as corolas, as
flores voltavam-se para a luz pálida da lua e para o firo
cintilar das estrelas.
Durou isso alguns dias.
Pouco a pouco surgiram curiosas alterações nas
plantas. Os cereais, antes levantados para o sol, jaziam
por terra. As flores empalideceram e secaram. As folhas
amareleceram e caíram. Murmurações ouviram-se então
contra o Jequitibá. Este, apesar de ver suas folhas amare-
las e secas, continuava teimoso:
“Tolas que sois! Ainda não percebestes que agora
sois muito mais belas e interessantes, mais livres e inde-
pendentes. Doentes, vós? Qual nada! Agora sois nobres,
aristocratas”.
Algumas coitadas davam crédito e murmuravam à
noite, cansadas e exaustas: “Estamos belas, ficamos no-
bres, independentes”. A maioria, porém, percebeu a tem-
po o perigo e reconciliou-se com o sol.
Quando entrou a primavera, o jequitibá lá estava de
galhos desnudos, ressequidos, em meio à selva que re-
nascia cheia de vida, repleta do gorjeio dos pássaros. Su-
45

as estultas doutrinas estavam esquecidas. Em redor dele


o perfume das flores subiu cheiroso rumo ao sol e as co-
pas folhudas das árvores inclinavam-se agradecidas para
o astro-rei (Joergensen).

QUEM É DEUS?

Sto. Tomás, aos 5 anos, perguntava ao seu mestre


de primeiras letras: “Quem é Deus?”

Mistério

Deus é o mistério. Mil nomes lhe são dados, mas


sua face continua oculta. Sei que é eterno, onipotente,
onisciente, infinito, bom, formoso. Mas sei também que é
muito mais do que isto. Desde sempre é eterno, existe:
“paralelo a todos os tempos e espaços - onipresente”
(ROHDEN, De alma para alma).
É o único ser “auto-existente”. Todos os demais são
alo-existentes. São sombras, e não realidades, apesar da
grossura, altura ou peso. Existem por acaso. Existem por-
que o Ser Absoluto os fez existir. São partículas relativas
na gramática cosmológica.
Isaías, embora profeta e visionário, declara que Javé
é um Deus escondido (45,15), pois para Deus o mundo
inteiro é como uma gota d’água perante o mar. Assim
sendo a inteligência humana deve-se achar na mesma
desproporção perante Deus: incapaz de compreender.
Deus é o mistério. Nossa inteligência conduz até
perto: Deus existe; mas sua natureza está sempre envol-
vida no halo do mistério. A bússola orienta com segurança
o explorador rumo ao pólo norte. Chegando, porém, perto
do misterioso foco de atração, ela move-se inquieta, agita-
se, não serve mais Assim a mente humana perante o mis-
tério de Deus.
46

As inteligências mais penetrantes só sabem balbuci-


ar. Hierón, tirano de Siracusa, pediu ao filósofo Simôni-
des: “Diga-me, quem é Deus”. O sábio pediu um dia de
prazo para responder. Depois pediu dois, depois quatro,
depois oito. No fim, declarou: “Quanto mais tempo passo
meditando, tanto mais difícil me parece a resposta” (Cíce-
ro).
A revelação bíblica conduz-nos alguns passos mais
adiante. Mas no fim, topamos também com o mistério infi-
nito.

Revérberos

Deus criou esse mundo: portanto ele é maior, mais


formoso, mais forte. Se o mundo criado nos empolga,
deslumbra, fascina, hipnotiza: quanto mais o seu criador.
Qual foi a emoção de Newton ao descobrir a lei da
gravitação dos sistemas estrelares: as estrelas menores
girando ao redor das grandes, as grandes girando dentro
das galáxias. E estes gigantes voando através do espaço
na velocidade de cento e oitenta mil quilômetros por se-
gundo (não por hora ou por minuto, mas por segundo).
Nossa mente fica barrada.
E a criatura é só reflexo, revérbero, sombra, da Rea-
lidade infinita, imensa. Diz Sto. Agostinho: “Deus não se-
ria Deus se não fosse superior à nossa capacidade de
compreensão”.

Fragmentos

A sabedoria brâmane inventou o conto do elefante


na aldeia dos cegos. O primeiro cego pegou a tromba e
decretou triunfante: “O elefante é como uma árvore torta
com a casca áspera e rugosa”. Os colegas protestaram:
“Não, ele é como um leque grande (orelha)”. “Não, ele se
47

parece com uma serpente (rabo)”. “Não, ele se parece


com uma coluna (patas)”.
Nós vislumbramos alguns atributos divinos mas não
conseguimos uma visão do conjuntos global. A razão hu-
mana falha quando encontra luz demais Olhando o sol,
fica cega.
Seres finitos e limitados, parecemos turistas a visitar
a catedral de Colônia de noite, armados de pequenos ho-
lofotes. Aqui se destaca um altar e não enxergamos os
retábulos no alto. Ali, uma coluna que se perde no escuro
da abobada. Topamos com os pés numa lousa sepulcral e
deciframos a inscrição latina. Impossível ter uma visão
cabal e adequada do templo, em sua majestade (T. Toth).
Vemos alguns fragmentos de Deus. Sabemos que
Deus é santo, justo, misericordioso e imaginamos estes
conceitos a nosso modo humano, quando na realidade,
em Deus não existe essa série sucessiva de qualidades.
Em Deus não há partes: é tudo uma coisa só. Intelecto e
vontade são em Deus a mesma coisa. Justiça e miseri-
córdia em Deus são idênticas. Impossível imaginarmos
isto com a nossa cabeça. Mas de quantos conceitos errô-
neos iríamos livrar-nos se nunca perdêssemos de vista
estes princípios. Deus, ser infinito, difere tanto, tanto de
nós, que nossas idéias sobre Deus ficam muito aquém da
realidade. Nossos raciocínios sobre a natureza de Deus
são balbucios. Nossos conceitos sobre Deus estão cheios
de acréscimos humanos; infiltrados por ganga terrestre.
Antropomorfo é todo o nosso pensar e falar de Deus.
Com Sto. Agostinho a palavra: “Tu és eterno e imu-
tável. Tu não tens um hoje. E no entanto o dia de hoje
com todas as suas novidades se desenrola em tua pre-
sença. Poderá correr o rio do tempo se Tu não o guiares?
Os teus anos não passam mas convergem para uma e-
ternidade sempre presente. Desde os tempos de nossos
ancestrais, quanta vastidão de tempo já passou diante da
48

tua presença eterna!... Quem não o compreende, não in-


sista, mas alegre-se. Alegre-se e procure encontrá-lo: eis
o que importa” (Confessiones. 1,6).

Encontros

Os que retornam de lá, os que O encontraram em


seus caminhos terrestres, declararam-se incapazes de
dar explicações. É toda uma luta. Jacó lutou com o Anjo-
Deus, exigindo-lhe dissesse seu nome. Moisés ouviu seu
nome, viu-o face a face, conversou com ele como um a-
migo com seu par (Ex 33,11), contemplou o invisível, diz
Hb 11,27. E afinal nada nos contou, desculpando-se por
ter a língua pesada. Isaías viu o trono de Deus sobre os
serafins, mas: “é impossível falar com lábios impuros”
(6,5). Jeremias escusa-se, balbuciando a-a-a; sou criança
que não sabe articular palavras (1,6). Perante o infinito
todos ficam com a língua pesada. Até mesmo o apóstolo
que subiu até o terceiro céu e viu coisas impossíveis de
expressar em linguagem humana (2Cor 12,2). Prece e
amor nos aproximam do Deus-mistério. Não inteligência,
e especulação.
Assim acorreu a Helena Most, luterana convertida,
no encontro misterioso: “Meu anseio de encontrar Deus
chegou a ser tão grande que me dominava toda. Às ve-
zes, fugia do convívio familiar e corria ao meu quarto, pa-
ra cair de joelhos pedindo, pedindo, pedindo. E Nosso
Senhor deu-me a verdade”.
Hermann Bahr, crítico literário, deve sua conversão
ao encontro misterioso: “Uma fé ilusória não me teria a-
calmado. Belas emoções e sentimentos não me valiam.
Eu queria saber”.
Carmelo de Paris, 1607. A superiora visita a jovem
noviça na cela, Catarina de Jesus. Encontra-a absorta em
Deus. “O que faz?” “Contemplo este Deus que enche tudo
49

aqui”. E recaiu no silêncio.


Seja recordada a palavra de Jesus, hoje atual como
nunca, mais do que nunca: “Ninguém conhece o Filho
senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e
aquele a quem o Filho o revelar” (Mt 11,27).
Deus é a suprema Realidade. É o centro. Impossí-
vel, metafisicamente impossível a descentralização. Anjos
e demônios só se ocupam com ele. Se os demônios pu-
dessem esquecê-lo, estaria findo seu inferno. Na terra,
fogo e gelo, e toda a criatura rodeiam o salmista (148,8),
cantando o louvor do Altíssimo.

Desencontros

Com a humanidade as coisas são diferentes. Há to-


da uma variedade: não conhecer, ignorar, recusar. As
desculpas são várias. Deus: isto é grande demais; se o
tomássemos a sério, ele invadiria tudo. E, em todo caso,
se Ele existe, é impossível compreendê-lo. Fantasma ou
realidade, em todo caso inacessível. “Bagatelas”, respon-
de o livro da Sabedoria (4,12).
No paganismo, o vício obsceno é Deus. A crueldade
é Deus. Figuras revoltantes ou ridículas povoam o Olim-
po. Degradação aviltante, castigo do orgulho humano, é
este culto religioso pagão.
Sto. Agostinho conta que o senado romano reconhe-
ceu oficialmente três mil deuses, mas recusou terminan-
temente a homologação do Deus dos cristãos, porque é
um deus orgulhoso; não tolera outros deuses a seu lado.
Fora bem inspirado! Imaginem, Jesus figurar entre os três
mil, todos eles criaturas da fantasia humana, ou melhor,
caricatura. Jamais!
Recusar Deus que é o único ser que existe... que
absurdo! Todo o universo só existe por empréstimo, numa
existência precária, eternamente mendigada. É mister
50

contemplar a Deus como se tudo o mais não existisse,


pois Deus é o Absoluto, o único.
Cromácio pediu ao mártir Sebastião a cura. Foi-lhe
exigida uma condição: tirar da casa todos os ídolos pa-
gãos. Cromácio: “Certo, mas guardei apenas um peque-
nino, porque é lembrança”. Sebastião: “Não podes con-
servar nenhum, ainda te seja caro como o olho, se queres
sarar!”... Como existem idéias infantis da humanidade so-
bre o Ser Absoluto, Infinito.

DEUS ESPÍRITO

Sto. Agostinho narra como mandou seus cinco sen-


tidos pelo mundo afora à procura de Deus. E, um a um,
voltaram dizendo: “Não vimos nada, é impossível ver
Deus na terra; somente em teu coração poderás sentir
sua presença, mas ver, só na eternidade”.
Deus é espírito, explica Jesus à Samaritana. Deus é
espírito perfeitíssimo, dizia o catecismo para crianças,
quando na verdade nem sequer os adultos, nem o gênio
mais elevado é capaz de alcançar o sentido dessa pala-
vra.
Nós somos um composto de corpo e espírito. Nosso
pensamento atinge a realidade intelectual não por intuição
mas somente por um penoso processo lógico de abstra-
ção. Como somos corpóreos, a nossa linguagem também
é corpóreo e, daí, inadequada para definir um ser não
corpóreo. É impossível falar sobre Deus com precisão,
usando uma linguagem feita pelos e para os cinco senti-
dos do organismo corporal. “Como peixes que levantam a
cabeça fora d’água para ver o sol, ou o mundo florido ao
redor, assim é o mundo dos seres espirituais em relação a
nossa razão (Foerster). Por isso parece que Deus não se
cansa de fazer repetir pelos profetas do A.T.: “Tanto
quanto os céus estão elevados acima da terra, tanto se
51

acham elevados meus caminhos acima dos vossos e


meus pensamentos ultrapassam vossos” (Is 55,9).
Tornamos a lembrar que nosso linguajar sobre Deus
ficará sempre inadequado por dupla razão: por Deus ser
espírito puro e por ser absoluto, infinito. Não sabemos
falar de outra maneira, a não se a humana. Falamos do
olhar de Deus, da mão de Deus, do trono de Deus. A pró-
pria Bíblia fala assim. Falando do trono de Deus a Escritu-
ra quer dar a entender sua infinita majestade. Falando do
braço de Deus entende sua onipotência. Metáforas. “Deus
mora numa luz inacessível; nenhum ser humano jamais
ouviu, nem o pode ver” (1Tm 6,16). Só a fé e sua luz nos
guia.
A natureza criada dá-nos uma imagem de Deus,
mas vaga e nebulosa. Conhecemos Deus só pelo espelho
das criaturas: por aquilo que estas refletem de Deus. Cria-
turas, embora obras divinas, não podem ser expressão
adequada da onipotência infinita. Diz Sto. Tomás: “Sobre
Deus sabemos melhor o que ele não é, do que o que ele
é”.
Por outro lado, o que sabemos de Deus não se re-
sume apenas a nomes e vocábulos. Por imperfeitos que
sejam nossos conceitos mentais sobre Deus, eles são
reais, atingem a realidade embora de um modo imperfeito
e incompleto. São Paulo o afirma (Rm 1,20): “As perfei-
ções invisíveis de Deus tornaram-se visíveis à nossa inte-
ligência, através das criaturas”.
Temos só conceitos análogos, diz a Escola. Por en-
quanto vemos com num espelho (opaco) alguns reflexos e
sombras do infinito. A plenitude do Ser ultrapassa os qua-
dros da mente criada e mais ainda os de um intelecto pre-
so a imagens corpóreas. Sabes quando verás a Deus de
verdade? Quando ao teu nome se acrescentar RIP: Re-
quiescat in pace. Quando se rezar sobre teu túmulo: A luz
eterna brilhe para ele (T. Toth). Belo costume bem gracio-
52

so, este de despedirmo-nos dos nossos falecidos com


esta saudação: “Brilhe agora para ti a luz eterna”.
E seja recordada a bem-aventurança evangélica:
“Bem-aventurados, diz o Filho de Deus, bem-aventurados
os puros de coração, porque eles verão a Deus” (Mt 5,8).

DEUS PLENITUDE

Sinai

No fundo do deserto do Sinai está Moisés pastore-


ando o rebanho, quando de súbito vê um arbusto arder
em chamas sem se consumir. Moisés acorre para obser-
var de perto esse fenômeno insólito. Então, voz misteriosa
faz-se ouvir: “Tira as sandálias de teus pés porque estás
em lugar sagrado”.
Nós também queremos penetrar nessa terra santa,
nesse chão sagrado, procurando saber, e não só adivi-
nhar e vislumbrar: Quem é Deus?
Que ele existe, este Ser supremo, o mundo que nos
rodeia, o firmamento das estrelas sobre nossa cabeças, a
voz secreta do nosso coração todos eles nos dizem, nos
garantem que ele existe. E o mistério de sua natureza nos
atrai. Moisés pediu a Deus que lhe dissesse seu nome.
Mas, como enunciar o que é inefável? Deus respondeu:
“Meu nome é Javé. Eu existo, Eu sou aquele que existe”.
Resposta enigmática e todavia reveladora. Deus é o único
ser que existe de verdade, existe por si próprio. Todos os
demais, todo o universo, todos nós só existimos por doa-
ção. “Acontece” que existimos. A existência foi-nos dada
de presente. Presente este que precisa ser renovado sem
cessar, momento por momento. Como a sombra não exis-
te sem a luz do sol. Deus existe por si, por essência, por
necessidade. Existir é natureza sua. As criaturas come-
53

çam a existir. Deus existe sempre, sem começo e sem


fim. Como disse Jesus a Sta. Catarina de Sena: “Tu és
aquela que não é; Eu sou aquele que é”.
Uma vez que Moisés já sabia o nome de Deus, o
menos inadequado, ele pede e insiste para ver a sua face.
Pedido impossível. Numa casca de noz não cabem as
águas do oceano. E a todas as súplicas de Moisés Deus
enfim responde: “Verás minha sombra quando eu passar
diante da gruta” (Ex. 33,22). E saindo desta visão, o rosto
de Moisés tornou-se luminoso como o sol, e o povo de
Israel não pôde suportar esta luz ofuscante (Ex. 34,29).
Séculos depois, o profeta Elias retornou ao Sinai, na
esperança secreta de receber a mesma visão da “sombra”
de Deus (3 Rs 19,11). E Deus mostrou-lhe figuras, símbo-
los do seu Ser: um vendaval, um terremoto, fogo, e cada
vez adverte a visão: isso não é Deus. E surge o último
símbolo, que parece querer ser o mais significativo: um
zéfiro suave, brisa do Éden celeste. Mas tudo é figura.

Plenitude

Passam séculos e novamente um profeta de Israel


tenta o impossível: descrever para seres humanos, terres-
tres, corporais, a natureza de Deus. Tenta dar-nos uma
visão da grandeza de Deus, talvez, recordando contatos
íntimos com o Ser divino, na sua oração. Mas o sábio e
místico desanima e termina bruscamente: “Resumo de
todas as palavras: TO PAN ESTIN AUTÓS: ele é a pleni-
tude (Eclo 43,26).
E novamente, já perto dos albores da Nova Aliança,
o místico israelita aborda o problema sublime. Certo de
sua intuição descreve, ou tenta descrever, a natureza di-
vina, propriamente da Sabedoria de Deus. i.é., a do Ver-
bo, a do Filho de Deus. Enumera três vezes sete qualida-
des divinas: “claro, suave, sutil, discreto, ágil, penetrante...
54

clarão da luz eterna, espelho sem mancha da majestade


de Deus, imagem de sua bondade... amante dos ho-
mens... transfunde-se nas almas santas, faz profetas e
amigos de Deus” (Sb 7,8-11).
55

Pléroma

O N.T. afirma, logo de entrada, no prólogo do quarto


evangelho, como que para prevenir, de início, mal-
entendidos e deformações: Ninguém jamais viu a Deus;
nem Moisés, nem Elias, mas só o Filho unigênito nô-lo
revelou (Jo 1,18).
“Deus é a plenitude” (pléroma) Ef 3,19.
“Deus é luz sem sombras” (1Jo 1,5).
Deus é a “origem de todas as luzes que brilham no
céu”, declara São Tiago (1,17). E é maior que todas elas,
pois “nele não há eclipses ou crepúsculos”. É o sol do u-
niverso, sempre a brilhar, dia e noite, por assim dizer, tu-
do não passa de figuras, de criaturas, a simbolizar o infini-
to que ultrapassa o intelecto humano.
São Paulo, de volta do terceiro céu, só sabe balbuci-
ar palavras confusas (2Cor 12,3).
Todavia ainda falta o remate da Palavra Revelada:
“Deus é amor” (1Jo, 4,8). Amor inebriando corações hu-
manos no monte Tabor e através dos séculos da história
humana. Já o prometera o sábio do A.T.: “amante dos
homens... faz amigos de Deus” (Sb 7,22).

Javé

Deus é aquele que existe. Ele é o Alfa e o Ômega,


(Ap 1,8). Começo e fim, Origem e Destino. Ele é a eterni-
dade. É de sua essência não ter nem começo nem fim.
“Aquele que existe, sempre existiu, sempre existira” (Ap
1,8).
Clareia amanhã. Fulge o sol... mais um dia. E chega
o crepúsculo e a noite. Tudo passa. Dia por dia, começa
um novo ano. Primavera, verão, outono, inverno, as figu-
ras da existência humana. O jogo perpétuo das flores a
florir e a perecer. Nada no mundo é perene. No fim, a al-
56

ma está às portas da morte.


Deus, porém, é eterno. “Antes de se formarem a ter-
ra e o mundo, Tu és Deus, de eternidade em eternidade”
(Sl 89,2). “Todos envelhecem como um vestido... Tu po-
rém, existes sempre e teus anos são sem fim” (Sl 101,27).
“Antes que nascesse Abrão, eu sou, eu existo” (Jo 8,58).
Cesário, irmão de Gregório Nazianzeno, presenciara
a destruição de Nicéia por um terremoto. Resolveu viver
só para Deus: “Quero procurar uma casa que não caia em
ruínas”.

Imenso

Infinito no tempo. Infinito no espaço. Collin, livre-


pensador inglês, encontra um operário, conhecido e ami-
go, indo à Igreja. E deu-lhe a gana de caçoar: “Diga-me,
amigo, teu Deus é grande ou pequeno?” “É tão grande
que não cabe na tua cabeça, e tão pequeno que cabe em
meu coração”.
O mesmo pensamento, em forma séria, transmite-
nos Newton, o sábio das estrelas: “Não sei o que o mundo
pensa de mim. Mas a mim mesmo pareço uma criança
brincando na praia do mar e alegrando-se quando encon-
tra uma pedra mais lisa ou uma concha maior, enquanto
todo o oceano da verdade continua inexplorado e ignoto”.
O universo estelar em que vivemos é uma vastidão
sem fim. Viajando pelo espaço com a velocidade da luz a
trezentos mil quilômetros por segundo, chegamos à lua
num segundo (os foguetes atuais levam três dias); ultra-
passamos o mais distante dos planetas em cinco horas;
chegamos à estrela mais próxima em quatro anos (os fo-
guetes atuais levariam uns cento e oitenta anos). A galá-
xia em que vivemos, a Via Láctea acolhe cem bilhões de
estrelas, mede de ponta a ponta oitenta mil anos à veloci-
dade da luz. Saindo do seu perímetro, navegamos dois
57

milhões de anos-luz até a galáxia mais próxima, Andrô-


meda. Estas galáxias, aglomerações de estrelas como
enxames de abelhas, reúnem-se em agrupamentos. O
nosso grupo consta de dezessete galáxias. O maior agru-
pamento, Hércules, abrange dez mil galáxias, e está à
distância de trezentos milhões de anos-luz, sempre a via-
jar na velocidade da luz. Ao todo calcula-se haver pelo
menos dez bilhões de galáxias, contendo cada uma não
milhões, mas bilhões de estrelas.
E toda essa vastidão monstruosa cabe na mão de
Deus, como diz o profeta Isaías com tanta graça (40, 12).
Tudo isso, e ainda mal comparando, é uma gota d’água, é
um grão de poeira em comparação à imensidão de Deus.
Podemos imaginar o máximo, e Deus é sempre mai-
or. Podemos fugir até os últimos limites do universo: lá
está Deus, à nossa espera. A imensidade, a plenitude de
Deus, que nos rodeia, nos envolve e submerge.
Lamartine ofereceu à revista parisiense, “La Revue
des deux Mondes”, um artigo sobre Deus. O diretor recu-
sou: “Preferimos um assunto da atualidade”. Ora, quem
mais atual do que Deus? Só ignorando a palavra de São
Paulo: “Nele vivemos, nele nos movemos, nele existimos”
(At 17,28).

Perfeição

Deus é plenitude do Ser. O Ser Absoluto. Possui to-


da a perfeição; tudo quanto possamos imaginar e desejar,
nele está. Tudo quanto se encontra de bom na terra; tudo
quanto de bom, nobre, grande, viveu, vive e viverá na ter-
ra. Amor paterno, amor materno, amor filial, a inocência
da criança, a beleza juvenil, o pensamento filosófico, ci-
ência, virtude, justiça, tudo quanto a terra em sua longa
história produziu, é dádiva do alto; é uma gota do oceano
infinito das perfeições divinas. Reúne tudo, purifica-o das
58

imperfeições e depois aumenta e multiplica ao infinito e


tens uma sombra pálida da realidade divina.

DEUS AMOR

“Deus é o amor” (1Jo 4,8). Criou por amor. Remiu


por amor: Belém-Nazaré-Calvário. Continua amando: na
ceia eucarística.
A humanidade levou milênios até descobrir que
Deus é amor. Aliás, não o descobriu. Jesus Cristo preci-
sou contar e provar. Após o desastre, no paraíso, os ho-
mens esqueceram até o nome de Deus; quanto mais...
Inicialmente a humanidade viu em Deus a potência
suprema, o poder invisível que se revela através da vio-
lência dos elementos: raio, trovão, enchentes, terremotos.
“O homem ainda carnal fez Deus à sua imagem” (Ron-
det).
Deus é vida e criador da vida. O homem, até agora,
só conseguiu fazer máquinas e autômatos. Máquinas tre-
mendamente eficientes mas enfim máquinas mortas e
incapazes sem a assistência da inteligência humana. Mas
a vida continua sendo segredo da fábrica de Deus.
Deus é luz (Jo 1,5), e mora na luz. E essa luz revela-
se ao homem na suma inteligência que rege o universo,
em todas as esferas onde o homem ainda não se introme-
teu. A inteligência humana tem a bela tarefa de seguir o
vestígio dos passos de Deus na criação. Tarefa de des-
cobrir o que Deus já fez antes de nós e mais bem feito do
que nós.
Mas Deus não é apenas onipotência, vida, luz. É
muito mais: é Amor. Da plenitude do Ser brotou a Sabe-
doria em pessoa, o Verbo de Deus, e brotou logo depois o
sumo amor, o Espírito Santo. “Todas as energias do po-
der residem centralizadas em Ti, ó Pai. Todas as luzes do
saber, que como flamas celestes iluminam inteligências
59

angélicas e humanas, estuam, em Ti, Filho Eterno, Verbo


Eterno. Todos os incêndios do querer (e amar), que como
vivas labaredas ardem em corações amantes, lavram a Ti,
Espírito Santo” (ROHDEN, a 1.11).
E a plenitude do Ser, do Saber, do Amor transbor-
dando em bondade, carinho e amor, criou outros seres. E
uma vez criada a humanidade, parece que Deus não po-
dia mais viver sem o amor, tão mesquinho, do coração
humano. Parece que se sentiu forçado por laços de amor
a continuar a prodigalizar-se na Encarnação, na Reden-
ção, calculando que amor produz amor.
Em vão! A humanidade não fez caso do convite de
Deus, já pronunciado no A.T.: “Filho meu, dá-me teu co-
ração” (Pr 23,26).
Nem nos acentos de carinho que o Espírito de Deus
pôs na boca do profeta: “Carrego-vos no meu peito como
uma mãe” (Is 66,13).
“Eu vos amo” (Ml 1,2).
“Com grande amor, com amor ciumento amei Sião”
(Zc 8,1).
“Com amor eterno te amei, desde a eternidade. Ca-
rinhoso, te atraí a mim” (Jr 31,3).
“Não temas ó vermezinho, estou contigo” (Is 41,14).
E o povo de Deus a lastimar-se: “O Senhor desam-
parou-me, o senhor esqueceu-se de mim” (Sl 49,14). E
Deus apressa-se em responder: “Pode uma mulher es-
quecer-se do filho de peito, e não ter compaixão do fruto
de suas entranhas? E ainda que se esquecesse, eu não
me esquecerei de ti” (Is 49,15).
“Eis que te gravei nas minhas mãos” (Is 49,16).
Em vão! Deus precisou chegar às vias de fato. Co-
mo Abraão, sacrificou seu filho único, assim o Pai Eterno
sacrificou seu filho unigênito. Como prova de amor. Como
trato e contrato de nova aliança de amor eterno.
No A.T., Deus escrevera toda uma canção de amor.
60

O Cântico dos Cânticos descreve, sob a figura do amor


humano entre esposo e esposa, o amor de Deus para
com a humanidade. O N.T. repete o mesmo leitmotiv mu-
sical, sempre de novo: Deus é amor. E todas as obras da
criação são estrofes desta canção (Pr 23,26).
Dante viu no fundo do abismo divino e viu, reunido e
encadernado num único livro de amor, tudo o que se en-
contra espalhado em folhas dispersas pelo mundo.
O único problema vital da criatura é este: Sou ama-
do por Deus? Tudo o mais é de somenos importância.
F. W. Faber conta que uma criança derramou lágri-
mas ardentes sobre este problema: “Será que Deus me
ama?” E gente grande também já derramou lágrimas nes-
sa angústia. A última resposta do Pai do céu é a entrega
do Seu Filho. Devemos chamar Maria Santíssima. para
ela nos contar quanto Deus nos ama. Ela que conversou
muito com Ele e o viu no Calvário.

OS VIDENTES

“Viram o invisível” (Hb 11,28).


“Ó meu Deus, falar de Ti é infinitamente doce, mas
também infinitamente desesperador. O nosso coração
não está à altura de tuas obras. Nem a nossa língua está
à altura do nosso coração. As palavras não foram feitas
para isto. Todavia como Deus está presente em nosso
coração, fale o coração” (Delatte).
De tão difícil acesso é a natureza divina para o inte-
lecto humano, que é melhor ceder o passo ao coração.
“Ocultaste isto aos sábios e entendidos e o revelaste aos
simples” (Mt 11,25).
“Minha alma abriu-se e bebia Deus. Minha alma res-
pirava e bebia a vida da Santíssima. Trindade” (Lucie C-
hristie).
“A alma submersa em Deus, vive pela vida do Pai,
61

conhece e vê pelo Filho, ama pelo Espírito Santo” (L. C.)

Um passeio

Através da terra dos que viram algo. Algumas amos-


tras, antigas e novas.
TAULER: “O espírito está submerso e absorvido pe-
los abismos do oceano divino. E ele pode exclamar: Deus
está em mim, Deus está fora de mim. Deus está ao redor
de mim. Deus é todo meu, vejo somente Deus”.
MARINA de Escobar: “Anjos jogaram-me no vasto
mar da natureza do Deus desconhecido e incompreensí-
vel... A alma sente-se como que mergulhada num vasto
oceano que é Deus e mais Deus. Ela não é capaz de to-
mar pé, nem de achar o fundo”.
VERÔNICA Giuliani: Após longas tribulações entrou
calmaria na alma e ela viu a Santíssima. Trindade, sua
união amorosa, e foi também envolvida nesse abraço do
Amor Eterno.
“As vezes, na oração, meu coração parece um rega-
to que pouco a pouco se torna rio, e enfim um mar... a
alma sente-se nadando na suavidade e na paz de um mar
sem fim. Ondas potentes impelem-na através do oceano
do Amor Divino”.
MARIA DE VALENÇA (1648), ex-calvinista, casada
no ritual da reforma, “analfabeta, mas teodidata”, ensina-
da por Deus (Brémond), viu: “O que eu via era uma coisa
sem forma nem figura, mas era imensamente bela e a-
gradável de se ver. Era uma coisa que não tinha cor e
todavia possuía a graça de todas as cores. O que eu via
não era uma luz semelhante à lua do sol, nem à luz do
dia, e no entanto aquilo dava uma claridade admirável, e
daí provinha toda luz corporal e espiritual. O que via não
ocupava espaço nenhum e, todavia, estava presente por
toda a parte e enchia tudo. O que eu via não se mexia, e
62

no entanto, agia e operava em todas as criaturas”


— “Sublime balbuciar” que repetem todos esses vi-
dentes do além (Brémond).
ISABEL do S. Coração, Lisieux, 1882-1914: “Sem
nada ver com os olhos, nem do corpo nem da alma, eu
sentia Deus presente. Sentia seu olhar sobre mim, cheio
de suavidade e bondade. Olhar acompanhado de um be-
névolo sorrir.. Sentia-me mergulhada em Deus. Minha
imaginação, bem dócil desta vez, não se mexia. Não ou-
via nada do barulho que se pudesse fazer em redor. O
olhar de minha alma estava neste olhar invisível, fixo so-
bre mim. E meu coração repetia, sem cessar: meu Deus,
eu Te amo. E repetindo-o, sempre, com uma felicidade
vaga, mas tão doce, eu desejava que o olhar divino, o sol
espiritual, fizesse florir em minha alma todas as virtudes.
E eu sentia que meu desejo se realizava, e que essa paz
profunda, esse mútuo amar encobria uma atividade im-
possível de compreender”.

ÂNGELA DE FOLIGNO

Terceira Franciscana, viúva, morreu em 1309.


“Quando mais te parece estar abandonada, é quan-
do eu te amo mais, e que mais próximo de ti estou”.
“Vi uma coisa verdadeira cheia de majestade, imen-
sa. Não sei dizer palavra. Mas com certeza, devia ser o
Bem Supremo”.
“Vi a Ele mesmo, uma plenitude, um esplendor, co-
mo está no céu. De tanta beleza não sei dizer palavras.
Era a suma Beleza que contém o Sumo Bem”.
“Filha, minha amada, quero fazer-te conhecer minha
onipotência. Abriram-se os olhos da minha alma e vi uma
plenitude divina na qual eu divisava o universo aquém dos
mares e o oceano e o abismo, e todas as coisas criadas.
E em tudo, outra coisa eu não via senão a potência de
63

Deus”. E a minha alma cheia de espanto, exclamou: “Mas


como este mundo está cheio de Deus!” E o mundo pare-
cia-me uma coisica de nada. “O poder de Deus enchia
tudo, transbordando por toda a parte”.
“Tendo conhecido o poder, a vontade e a justiça de
Deus, fui elevada mais alto. Então não vi nem potência
nem vontade, mas uma coisa só, unida e sólida, como
também inefável. Só posso dizer que era o Bem Absoluto.
E igualmente inefável era a alegria da alma”.
Sentia-me vazia de todo bem e recomendava-me ao
Senhor. E eis que vi o amor que vinha ao meu encontro,
uma coisa da qual via o começo, mas não o fim... De súbi-
to, sentia-me cheia de amor, numa saciedade indizível... e
com tanta fome... Não queria nem ver, nem ouvir, nem
sentir criatura alguma. E este amor, creio firmemente,
nunca mais me faltará. Eu via duas partes. Era como uma
divisória que me percorria de cima abaixo. De uma parte
via o que era de Deus: o Amor e o Sumo Bem. Da outra,
aquilo que é meu: aridez e vazio. E que vazio! Assim che-
guei a conhecer não ser eu quem amava quando estou no
amor, mas que tudo vinha de Deus. Tudo quanto é menos
do que este amor, me é pesado. Vi coisas maravilhosas
em Deus, tão incomparáveis que me faz parecer inade-
quado o que se diz, no Evangelho, da vida de Cristo ou
alguma de suas palavras. Quando me desprendo deste
amor, sinto-me numa alegria imensa e como que angeli-
zada, a ponto de sentir-me disposta a querer bem até aos
animais mais abjetos e nojentos, e até aos demônios. Em
tal estado, se um cão me devorasse a mordidas, aos pe-
daços, não me importaria; creio que não me sentiria mal.
Nem a lembrança da Paixão de Cristo me faria algum e-
feito: não seria capaz de uma lágrima.
“Estando em oração, uma voz suave começa a di-
zer: Filha minha, meiga para mim, muito mais que sou
para ti... Templo meu predileto. O coração do Deus onipo-
64

tente está sobre teu coração. Deus onipotente pôs seu


amor em ti. Seus olhos estão sobre ti... Não obstante me
voltarem à mente todos os meus pecados, e eu não achar
em mim bem algum, e parecia-me nunca ter feito algo que
pudesse agradar a Deus, falei: “Tu estás em mim, criatura
tão indigna”... E foi-me respondido: Tu verás como o
mundo inteiro está cheio de mim. E então eu via que toda
criatura está cheia dele. E Ele continuou falando: Eu pos-
so fazer tudo: que tu me vejas conversando com os após-
tolos ou que tu não me sintas de modo algum... Levantei a
voz e disse: É fora de dúvida que Tu és o Deus todo po-
deroso, e que são verdadeiras as coisas que me dizes.
Mas dá-me um sinal. Respondeu: darei um sinal”.
“É este o sinal: tu irás arder sempre de amor, do
amor de Deus. E terás sempre na alma a luz do conheci-
mento d’Ele. Eis o sinal que imprimo em tua alma, sinal
bem melhor que qualquer outro, e que ninguém pode fal-
sificar. Só este meu amor basta para embriagar-te e dar-
te sede contínua de mim. Ele dar-te-á paciência nas tribu-
lações a tal ponto que, se alguém te disse injúrias ou te
causar mal, tu irás considerar como uma graça especial
da qual te julgas indigna. Foi assim o amor que eu tive por
ti. Foi tão grande que me fez sofrer tudo com paciência e
humildade. Ora, pois, conhecerás que eu estou em ti. Pois
quando alguém te disser ou te fizer injúrias, tu terás não
somente paciência, mas sentirás vivo desejo delas, consi-
derando-as como uma graça. Eis o sinal certo da graça de
Deus”.
“E a voz de Deus fez-se ouvir de novo: faze escrever
tudo o que ouviste e sentiste. E no fim da narração faze
acrescentar: Graças sejam dadas a Deus. E se alguém
quer conservar a graça, não tire mais os olhos da cruz,
seja na alegria, seja na dor”. Se alguém desejar sentir-me
em seu coração, não me farei de rogado. Se alguém an-
seia por ver-me, com alegria, de bom grado dar-lhe-ei
65

uma visão de mim. Se alguém aspira falar-me, com júbilo,


com prazer virei palestrar com ele”.
“Afirmo que tudo quanto os homens e as Escrituras
sagradas têm dito desde o começo do mundo, não chega
ao cerne da bondade divina. É como um grão de milho em
comparação com o universo”.
“E para obter este conhecimento de Deus, o bem, a
luz, o amor supremo, não há outro meio mais garantido
nem mais eficaz que a oração contínua, humilde, violenta,
oração não só de lábios, mas da mente, do coração, de
todas as potências da alma, e de todos o sentidos do cor-
po, acompanhada de intenso desejo”.
“A alma vê que apenas Deus é alguma coisa e que
todas as coisas são nada”.

LUCIE CHRISTINE

Nasceu em 1844. Casou-se em 1865. Mãe de cinco


filhos. Viúva em 1888. Morreu em 1908. Escreveu o Jour-
nel, diário espiritual, de 1878 a 1908 (Ed. Poulain, 1910).
“De repente vi diante de meus olhos interiores estas
palavras: Só Deus. Estranho é dizer que se vêem pala-
vras. Mas é certo que as vi, e as ouvi em meu íntimo...
Era uma luz... atração... força...
“Subitamente senti-me envolvida e como que inun-
dada pela presença de Deus. Deus estava aqui. Perto de
mi. Não o podia ver, mas sentia a certeza de sua presen-
ça: como um cego que toca em alguém. Em meu coração
uma unção, uma paz, um alegria divina. Durou mais ou
menos uma hora. Seus efeitos não me permitem conside-
rá-lo como ilusão”.
“A soberana beleza de meu Deus impregnou minha
alma... Perante o encanto divino a terra não valia mais
nada, e as impressões terrenas desvaneceram-se. Fiquei,
por oito dias, sob a impressão sensível da beleza divina”.
66

“Vi Deus, princípio de todas as coisas, dominando


tudo, possuindo tudo, como fonte de tudo que é verdadei-
ro, bom e belo. E sendo Ele mesmo a verdade, a bondade
e a beleza, todas as coisas nada são, senão por Ele. To-
da espécie de idolatria aparece como coisa espantosa.
Todas as coisas criadas perdem interesse à vista do prin-
cípio incriado”.
“Após a comunhão, um excesso de felicidade. Per-
guntei a Jesus porque me fazia tão feliz. Foi-me respondi-
do: Para desgostar-te das criaturas. Vi Deus como bem
supremo, e ao mesmo tempo compreendi que o mal não é
senão a negação do bem, um puro nada. Esta vista redu-
ziu a nada todas as sugestões do mau espírito. Não fico
mais perturbada e considero-as como nada.
“Compreendi também quão grande será a confusão
dos pecadores, e que eles verão que todo o mal que ama-
ram, preconizaram, adoraram, se reduzirá a nada. Ter
amado o nada, ter vivido por ele e perder por ele o ser
eterno, o bem supremo...”
“Os mundanos vêem na pureza da alma uma virtude
negativa, ou senão, uma nulidade. Mas ao contrário, esta
pureza é uma flor encantadora, um tesouro incompara-
velmente belo. E a alma que a perdeu não tem senão o
vazio”.
“Vi a profundeza de Deus, vista grandiosa e empol-
gante. A alma vê Deus tão perto dela, dentro dela e ao
mesmo tempo tão longe. É o imenso. É o infinito. A gente
sente-se perdida nesta profundeza de Deus”.
“A vida íntima de Deus, vê-lo e senti-lo... É impossí-
vel dizer o que é. E o coração fica abrasado de amor e do
desejo de dedicar-se a Ele. Cada favor que Deus conce-
de, enriquece a alma de um grau de graça e de glória”.
“Essência divina... impossível é dizer o que tu és.
Não és admirada e amada. A alma é atraída por uma for-
ça irresistível, é submergida em Deus como num universo
67

sem margens. Goza um repouso incomparável. Sente-se


penetrada por esta natureza divina. Sente que vive nela.
Que existe só por ela... Sente que Deus a possui mais
que ela a si mesma. Afunda-se nele como uma gota
d’água num mar sem limites”.
“Minha alma compreende: na outra vida veremos tu-
do em Deus. Minha alma parece-se a um vaso repleto,
até à borda, de vida divina”.
“Vi de novo como todas as coisas estão em Deus...
Depois vi uma fonte muito pura e abundante que jorrava
do sopé de uma montanha, e depois se derramava sobre
a planície, onde se dividia numa multidão de filetes de
água muito delgadas e mais ou menos limpos ou barro-
sos, segundo o terreno que percorriam. Muita gente corria
à procura desses filetes d’água, mas poucos subiram o
suficiente para haurir na fonte. Nosso Senhor me diz: Vê
como os homens vão a estes filetes, regatos pantanosos,
insuficientes para apagar a sede, em vez de subir a ori-
gem de todas as coisas. Aqueles que abandonam tudo
por mim, encontrarão tudo em mim”.
“A presença de Deus é tão evidente que as coisas
exteriores nada mais parecem que sombras”.
“A alma percebe de certo modo o Pai, de outro modo
o Filho, de outro ainda o Espírito Santo, e fica impregnada
da unidade três vezes santa... A Santíssima. Trindade
está, atrevo-me a dizer, está em casa. Bendito seja Deus.
Minha alma sente que para louvá-lo necessita nada me-
nos que a eternidade”.
“Um coisa que arrebata é Deus imprimir na alma
uma de suas perfeições. É a vista clara e profunda de que
Deus e essa perfeição são uma coisa só. Que Deus é o
que é. Jesus mesmo é a sua amabilidade. Não posso es-
crever essas palavras sem sentir pular meu coração.
Compreendo que os amigos de Deus desfaleceram quan-
do viram tais coisas. Devo ter a cabeça e o coração muito
68

duros ou devo estar muito agarrada a terra para não me


acontecer o mesmo”.
“Parece-me que Deus enche a alma de tal modo que
não há mais lugar senão para Ele. Fica para trás todo o
resto”.
“Imutável, Deus não muda. Nós e as coisas todas,
mudamos”.
“Fui admitida a ver o “nó” que une Deus e a alma”.
“Imensidade divina, de modo que parecia a esta po-
bre alma, que ela caminhava por toda parte com Deus,
que é em toda parte, sem limites, sem fim”. Jesus: “De-
pois de tudo o que viste ainda há o desconhecido, que é
infinito.”
“Em Deus, entre as três pessoas, há sempre o júbilo
da admiração e do amor, um júbilo eterno, sem começo e
sem fim”.
“Deus, princípio de tudo: a alma toca com o dedo to-
da a erronia do panteísmo. Tenho sentido, tenho visto de
maneira certa que se, por um lado, Deus é princípio de
tudo, por outro, ele é diferente do tudo. De tudo quanto
existe, é ele o único que existe. A alma sabe disso, tem
certeza de ter visto Deus”.
“Ciência divina: “Eu sou aquele que sabe e tu és a-
quela que não sabe”. “Nosso Senhor tem me mostrado
que só existe um problema no mundo, a saber, a glória
que Jesus, Rei da criação deve entregar a Deus-Pai, pela
criação. Vi o nada de todas as outras questões: política,
questões sociais, que tanto agitam os homens. Os impé-
rios desmoronam, uns após outros, como também as
nossas grandes questões científicas; todas essas coisas
não tem sentido a não ser pela glória que delas resulta
para Deus; o resto nada é”.
“Através de uma porta entreaberta no céu, percebi o
concerto unânime dos anjos e dos eleitos em honra da
Santíssima. Trindade; compreendi como, no futuro, todas
69

as vozes do mundo moribundo terminarão na canção da


imortalidade. Vozes do gênio, vozes da ciência, vozes do
poder, vozes do amor e de suas ternuras. Vozes da cora-
gem, do temor, da alegria, da dor. Vozes da natureza,
trovão e tempestades. Reviravoltas dos impérios sacudin-
do o equilíbrio da sociedade humana, de alto abaixo, até
os alicerces. Tudo irá apaziguar-se, tudo irá silenciar, tu-
do, um dia, dará lugar ao aleluia eterno dos anjos e elei-
tos”.
“A alma sente: sua vida flui em Deus, onde ela es-
quece de si mesma, não vendo senão a Ele, vivendo pelo
Pai, conhecendo pelo Verbo, amando pelo Espírito San-
to... beatitude antecipada”.
“Jesus continua a cativar minha alma. Nessa oração
a alma vive de Deus, sente estar vivendo por Deus. Toca
em Deus, sem intermediário. Conhece-o por conhecimen-
to experimental, como sentimos o ar penetrar nos pul-
mões. Ela bebe o amor e a luz. Aspira a sua fonte e ori-
gem no seio da divindade”.
70

3. GRAÇA
“Eu vim para que tenham a vida. E a tenham em a-
bundância” (Jo 10,10)

“Elevado da terra atrairei tudo a Mim” (Jo 12,23)

“Quem adere a Deus torna-se um só espírito com


ele” (1Cor 6,17)

“Em nossa tenda atual, suspiramos cheios de sau-


dades de sermos sobrevestidos da nossa habitação ce-
leste” (2Cor 5,2)

A LUZ DO CRUZADO

A cidade de Jerusalém tinha sido arrancada aos infi-


éis Os lugares santos, que Nosso Salvador santificou por
seu sangue, voltaram às mãos dos cristãos, graças à he-
róica bravura dos cruzados.
O exército vitorioso organizava uma procissão, velas
acesas nas mãos, pela cidade santa. O cavaleiro mais
valente, aquele que sempre combatera na primeira fila,
que no assalto final, tinha escalado a muralha em primeiro
lugar, devia ser também o primeiro a acender sua vela na
lâmpada do santo Sepulcro. Era um florentino, da família
dos Pazzi. Compreendemos que só pensar nessa hora
única, as lágrimas subiram aos olhos do rude guerreiro,
quando se abaixava para acender sua vela naquele lugar
onde outrora havia pousado o corpo de Nosso Senhor.
Neste momento solene, inclinado sobre o Sto. Se-
pulcro de Jesus Cristo, o cruzado fez a promessa de pôr
mãos à obra a fim de levar intacta essa santa chama até à
71

sua terra natal, e de acender com ela as velas no altar da


Virgem, em Florença, sua cidade natal.
Logo, tomou o caminho de volta, levando consigo a
vela acesa bem protegida numa lanterna; levava também
uma boa quantidade de velas de reserva, para nunca
chegar a faltar no caminho. Não era nada fácil pôr em e-
xecução e sua resolução. Bandidos o surpreenderam e o
pilharam; entregou-lhes tudo sem todavia permitir que
tocassem na sua vela. No meio do sono acordava sobres-
saltado para ver a vela acesa. Se uma vela se extinguia,
acendia uma nova na chama antiga. Assim chegou, afinal,
ao termo de sua empresa, aparentemente impossível.
Trouxe feliz, até Florença a luz tirada do sepulcro de Cris-
to.
É uma figura da graça santificante que devemos le-
var, através da vida terrena, até às portas do céu.

GRAÇA

Graça é favor gratuito. É benevolência e amizade de


Deus para com a criatura.
Nosso destino eterno é Deus. Pela graça Deus nos
quer fazer participar, desde já, na terra, dessa vida divina.
Consideramos até agora o destino de todo ser racio-
nal: Deus, a plenitude do Ser. Mas por assim dizer, Ele foi
visto de fora. Foi um contato externo com Deus. Foi, por
assim dizer, participação na esfera marginal da divindade.
É esse o destino que deve caber a habitantes de outros
planetas, no vasto universo. Destino, quiçá, que coube
ainda aos problemáticos ancestrais de nosso Adão.
Mas Adão, e sua descendência, foi elevado a um
destino acima do seu destino natural. Destino sobrenatu-
ral . Foi destinado a participar da própria vida de Deus, da
sua vida mais íntima em grau máximo, acessível à criatu-
ra.
72

Sabemos como Adão vendeu sua primogenitura por


uma maçã, como Esaú por um prato de lentilhas (Gn 3). O
Filho de Deus feito homem veio substituí-lo, restaurando a
união da família humana com Deus.

A origem

O mistério dessa união renovada é maior do que foi


no paraíso.
Aí Deus unira graça e natureza, suspendendo ao
mesmo tempo todos os defeitos laterais da natureza hu-
mana. Assim a graça podia contentar-se com a elevação
sobrenatural. A união era pacífica e sem lutas. Na restitui-
ção, e redenção por Cristo, Deus porém deixou a nature-
za humana em seu estado natural, no qual ela recaíra
pelo pecado original, viu e vê, com nitidez, a sua pobreza
sem Deus e sua incapacidade de atingir o destino sobre-
natural, castigo da justiça divina. Todavia, após o batismo
desaparece toda culpa. Rm 8,1: nihil damnationis, “nada
de culpável” resta na criatura humana, embora continue
desprovida de todos os recursos espirituais. Mas aumen-
tou, assim, a glória de Deus. Nada glorifica mais a Deus
do que a criatura reconhecer a realidade, suas limitações
e insuficiências, e suportar de boa mente o seu nada, ofe-
recendo-se em holocausto total a Deus.
Escreve Scheeben: “Eis a maior glória da criatura:
dar-se, oferecer-se humilde e submissa a Deus, como
holocausto. Ao contrário, nada mais a rebaixa tanto quan-
to o orgulho e a rebeldia contra o criador. O fogo que de-
vora este holocausto é a graça do amor ardente. Ardor
que aniquila a sensualidade herdada e, mais ainda, a re-
beldia e independência inatas. Exige a renúncia de bens
naturais, bens reais, a fim de pertencer exclusivamente a
Deus. Amor que faz a natureza alegrar-se na sua miséria
natural, a exemplo de São Paulo: “Prefiro gloriar-me, jubi-
73

loso, das minhas fraquezas, para que habite em mim a


força de Cristo” (2Cor 12,9). Amor que faz desejar humi-
lhações e dor, porque vê nisto maior glória de Deus.
Deseja crucificar a natureza à semelhança do Re-
dentor, que quis sofrer e morrer para maior glória do Pai
(Cf. Gálatas).
A natureza geme, mas deve não só suportar sua de-
ficiência natural mas também sacrificá-la e oferecê-la, em
expiação pela revolta paradisíaca. É o mistério da cruz.
Mas a crucificação não produz a destruição da natureza e
da força. A fraqueza da carne assemelha-nos ao Reden-
tor, que também precisou sofrer tudo, a fim de entrar na
glória (Lc 24,26) a fim de realizar o mistério pascal!”.

Elevação cristã

Subir altas montanhas é gosto ancestral do homem.


A visão do alto eleva nosso coração. Os revérberos do sol
nas geleiras, nas neves eternas... O silêncio e a solidão...
O céu parece mais perto.
Quem mora nas planícies terrestres, talvez lisas e
monótonas como um tabuleiro, que ouça uma música.
Uma sonata de Beethoven, Scherzo opus 31 de Chopin,
trechos da Aída ou da Traviata de Verdi: elevam a alma.
A elevação cristã porém, não é alpinismo, nem mú-
sica, nem literatura. É a elevação do homem interior, a
Cristo, e de Cristo até Deus.
Elevação não somente afetiva, mas real, ontológica,
existencial.
A natureza humana é unida à graça-enxertada, diz
São Paulo, como uma sombra-natureza de ordem divina.
Natureza e sobrenatureza harmonizam-se tão bem que o
sobrenatural da graça aparece como um complemento
conatural.
Um íntimo desejo “subconsciente” do homem pelo
74

sobrenatural, vislumbra em Deus o seu maior bem. Até


Sartre, filósofo pagão, dá testemunha desse desejo inato.
Escreve, em 1943: “O sentido de desejo é, em última aná-
lise, o projeto de se tornar Deus...” Ser homem é tender a
ser Deus, ou se preferem, o homem é fundamentalmente
desejo de Deus (L’Être et le Néant, pg. 653).
A promoção sobrenatural encontra, pois, dentro de
nós, uma aspiração instintiva.
Os primeiros cristãos sentiam-se mais familiarizados
com esse nosso contato com o além. Tinham olhos mais
claros para captar essas luzes do espaço etéreo. E, chei-
os de fervor, rezavam usando a língua bíblico-aramaica:
Maran atha! Vinde, Senhor Jesus, vinde! A ordem sobre-
natural era para eles realidade invisível mas real.
São Paulo, talvez mais que os Evangelhos, abriu-
lhes os olhos e a mente. Ele menciona, nas suas cartas,
inúmeras vezes, como sendo o essencial de sua mensa-
gem, a graça, a cáris ou carisma de Deus. Um pagão, que
chegasse a ler as cartas paulinas, deveria ter ficado intri-
gado com esse vocábulo usado num contexto tão misteri-
oso. De fato, ele é a chave do enigma cristão.
Contagioso, o otimismo do apóstolo: “Superabundou
a graça” (Rm 5,20).
“Ó riqueza de sua graça, que em torrentes derramou
sobre nós” (Ef 1,8).
“Tudo quanto existe no céu e na terra fez novamente
convergir em Cristo” (Ef 1,10).

VIDA DIVINA

Deus quis intensificar a efusão de sua bondade inici-


ada na obra da criação. Quis levá-la ao máximo possível
fazendo a criatura, angélica e humana, ter parte na sua
própria natureza divina. E assim criou a Graça, aquela
emanação da essência divina que enxerta, infiltra na cria-
75

tura a vida própria de Deus.


O A.T. não teve noção disto. Os livros sapienciais
sentem o mistério. “Mas só o Filho de Deus nô-lo revelou”
(Jo 1,18).
É um renascer da água e do Espírito Santo (Jo 3,5).
Renascimento invisível como o soprar do vento misterio-
so, pois nasce do Espírito (3,6).
É como videira e sarmento: em ambos corre a mes-
ma seiva (Jo 15,1).
E finalmente, quase no fim da Bíblia, revela São Pe-
dro a grande palavra: “Deus, o que há de mais precioso,
fez-nos participantes da natureza divina” (2Pd 1,4).
Essa participação não suspende a linha divisória en-
tre Deus e a criatura. Não resulta em panteísmo. Mas tão
pouco é apenas uma divinização moral, metafórica. Faz
termos parte real e física na vida divina. É participação
ontológica e existencial.
Por isso, a palavra de Jesus à Samaritana: “Se sou-
besses o dom de Deus” (Jo 4, 10). A Nicodemos sobre o
renascimento: “Somos renascidos de Deus” (Jo 1,13).
“Quem ama é nascido de Deus... e conhece a Deus” (1Jo
4,7-8).

FILHOS DE DEUS

De filhos da terra tornamo-nos, por este segundo


nascimento, filhos de Deus, à semelhança do Filho Uni-
gênito, pois ele deu-nos este poder de tornar-nos filhos de
Deus (Jo 1,13). “Somos chamados filhos de Deus e o so-
mos de fato” (1Jo 3,1).
São Paulo apregoa uma renovação espiritual. Exor-
ta: Revesti-vos de Cristo! “Revesti-vos do novo homem”
(Ef 4,22). “Batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo”
(Gl 3,27). E quem “vive em Cristo, é uma nova criatura”
(2Cor 5,17). A graça de Deus é “uma nova criação” (Gl
76

6,15). Pois recebemos a plenitude de Filho Unigênito


“graça sobre graça” (Jo 1,16).
É o grande mistério da Encarnação do Verbo Eterno,
do Filho de Deus, realizada a fim de elevar todas as cria-
turas humanas à mesma dignidade por participação (Ef
3,4). O dom que Cristo nos trouxe é sua vida divina. “Dei-
lhes a glória que me deste” (Jo 17,22).
Agora podemos “ousar” rezar o Pai-Nosso. O Espíri-
to Santo (Rm 8,16) autoriza-nos a chamar a Deus de nos-
so Pai.
Luiza de França, filha de Luís XV, ao receber uma
censura da governanta, retrucou-lhe: “Não se esqueça,
sou filha do rei da França”. A governanta respondeu, com
calma: “Eu sou filha do rei do céu”.
Não somos só filhos adotivos, que dos novos pais só
recebem o nome, e talvez futuramente recebam uma he-
rança, mas sem com eles terem ligame biológico. Não; o
que Jesus é por natureza, Filho de Deus, somos nós pela
graça, por participação real, física. “Há dois nascimentos,
um da terra, outro do céu. Um na carne, outro no espírito.
Um para a morte, outro para a eternidade. Um de homem
e mulher, outro de Deus e da Igreja” (Sto. Agostinho).
Portanto, Deus Pai nos ama. Imagine-se o despro-
pósito: Deus nos amar...
Agora Ele vê em nós seu Filho predileto. Junto com
ele ama-nos, desde toda a eternidade (Jr 31,3). “São mi-
nhas delícias estar com os filhos dos homens” (Sb 8, 1):
palavras do Verbo de Deus.

Dom de Deus

A natureza desse dom é um mistério da fé. Podemos


dizer que é uma realidade permanente, interior, que tem
suas raízes na substância da alma, espalhando-se pelas
potências e faculdades. Não é idêntica ao amor de Deus,
77

que nos é infuso pelo Espírito Santo (Rm 5,5), embora


esse dois dons vivam e cresçam sempre paralelos.
A vida humana é acrescida de uma sobrenatureza,
de uma vida divina.
A pedra existe, mas é sem vida. A planta tem vida
vegetal. Num estágio superior temos a vida do animal. O
homem acrescenta à sua vida animal a vida intelectual.
Acima de nós estão os anjos, seres intelectuais sem cor-
po. E acima de tudo isso, na culminância da escala dos
seres está o cristão partícipe da vida divina.
A natureza íntima dessa vida divina participada está
envolta no mistério do sobrenatural. Dispomos só de ana-
logias, figuras e comparações.
Jesus usou a figura da videira e dos sarmentos. Fala
de renascer para uma vida nova. Compara-a com a veste
nupcial.
São Paulo recorre à figura do enxerto de um galho
de oliveira selvagem numa oliveira cultivada. E, contra
todas as leis da botânica, o enxerto selvagem assume a
natureza da oliveira de cultivo (Rm 11).
Os antigos santos padres gostam de compará-la a
um selo impresso na cera. Ou à ação do fogo sobre o fer-
ro. O fogo torna-o brilhante, maleável, sem destruir-lhe a
natureza; assim o cristão invadido pelo fogo divino (Basí-
lio). Ou a uma gota d’água num barril de vinho (Greg.
Naz).

Valor

Deus mesmo está deslumbrado. Perguntou a uma


santa, ao mostrar-lhe uma alma na graça santificante:
“Veja, não acha que valeu a pena morrer na cruz por cria-
turas tão bonitas?” Diz o teólogo; “O menor grau de graça
santificante é superior, em valor, a todo o universo” (I II
113,9). “Reintegrar um pecador na graça é obra maior que
78

criar um novo mundo” (1. c. ad 2). A graça santificante do


último dos homens supera, em valor, o mais alto dos an-
jos. Graça santificante, i. é., fazer a criatura participar da
vida divina é o maior milagre da onipotência divina. Real-
mente, “a quem Deus enriquece, ninguém será capaz de
empobrecer” (Cipriano de Cartago).
Superior à graça santificante é só a Encarnação e a
dignidade da Mãe de Deus.

Imagem

Destarte verifica-se a palavra do paraíso: “Deus cri-


ou o homem à sua imagem e semelhança”, e isso num
grau e modo inaudito. Pela natureza intelectual “figura-
mos” a natureza espiritual de Deus. Mas pela graça santi-
ficante, participando da natureza divina de um modo real,
existencial, tornamo-nos espelhos que refletem a Deus.
De um modo particular a vida Trinitária.
Somos filhos de Deus, participantes da vida divina
de modo análogo ao modo como Jesus pela união hipos-
tática. Como ele também nós somos gerados pelo Pai, ao
infundir-nos a graça. Assim como ele é a imagem do Pai,
reflexo de luz eterna (Hb 1,3), assim nós, pela graça, so-
mos imagens do Verbo Eterno. E como no Verbo se refle-
te a vida trinitária, tornamo-nos também espelhos da San-
tíssima. Trindade, embora muito opacos.
Sta. Catarina de Gênova viu uma alma na graça de
Deus, e comentou: “Se não soubesse que há um só Deus,
pensaria que fosso um Deus, que era o próprio Deus”.
Jesus sorriu e desenganou: “É só uma cópia...”
Como disse Eckehar OP.: “O que Deus é por natu-
reza, é a alma por graça. Deus fez uma segunda edição
humana bem melhorada: e a segunda é digna da vida
eterna (Prohaska). Um pagão batizado, aos oitenta anos,
morre aos oitenta e dois anos: “Quantos anos tem?”, per-
79

guntam-lhe. - “Dois” (de filho de Deus).


E essa beleza celeste já está aqui na terra conosco,
dentro de nós (Ef 1,14). Explica São Paulo que o selo,
que o Espírito Santo nos imprime, é não somente penhor
(como se traduz em geral) mas a primeira prestação. Sto.
Agostinho já reclama contra a tradução inexata da Vulgata
para arrabon. Rm 8,5 garante que já recebemos as primí-
cias do Espírito, suas primeiras “prestações”.
Graça é vida, revérbero da divindade. E porque nada
disso percebemos? Presença invisível, insensível? Esse
tesouro é subtraído aos nossos sentidos corporais Nem o
intelecto consegue contato. Só o amor chega a pressentir
a presença do amor.
Até à última revelação final será a fé o nosso guia,
no dizer de São Pedro (1,1-5). Não vemos a Deus e suas
riquezas, embora esteja tão perto de nós, com toda a ple-
nitude do seu Ser, por falta de iluminação. A luz da fé tem
voltagem tão reduzida! E é insuficiente para tão majestosa
catedral; insuficiente para clarear e iluminar todo esse
palácio de Deus dentro de nós.
Esperemos a luz eterna!
Mas o que então veremos, já está agora em nós, tal
qual, idêntico. Como uma catedral, no escuro da noite, na
penumbra da lamparina. No céu, a luz da fé será substitu-
ída pela luz da glória, que é “algo” que nos põe em condi-
ções de ver Deus face a face. Mas a graça santificante é
a mesma.
Ela é a única coisa que levamos conosco da terra
para o outro mundo. E ainda sua irmã gêmea, o amor de
Deus. As demais virtudes, mesmo a fé, são dispensadas.
O mérito das boas obras já está registrado na graça santi-
ficante.
80

VER DEUS

Sta. Teresa d’Ávila, foge aos sete anos, com seu ir-
mão mais velho, a fim de em Marrocos morrer mártir pela
fé. Interrogada explica-se: “Parti porque quero ver Deus e
para ver Deus é preciso morrer antes”. Antes de morrer
obteve a graça de ver a majestade divina: “Toda a graça,
toda a nossa graça, não vem do alto do céu, mas do ínti-
mo da alma, onde Deus mora no centro do castelo dos
sete patamares”. Nessa ocasião Sta. Teresa descobriu
também “experimentalmente” (Vida 18) que Deus está
presente na alma como criador do corpo e da alma, ver-
dade que ela ignorava, pois havia lhe ensinado um teólo-
go ignorante que Deus está presente só pela graça santi-
ficante.
Tudo subsiste em Deus (At 17,28). Deus cria a alma
humana tornando-a imagem de Deus Uno e Trino, ou me-
lhor, tornando-a figura, esboço, rascunho, ser, intelecto,
vontade. E Deus passa, uma segunda vez, pelo centro da
alma, e desta vez imprime-lhe uma imagem perfeita. Não!
imprime-lhe sua própria vida divina, a graça santificante.
Então sim, mora no centro da alma o Rei e de lá, desse
fundo ou ápice, age sobre ela. E neste fundo foi derrama-
do o amor de Deus pelo Espírito (Rm 5,5). Deste centro
interior é que ele fala e nos pede para deixarmos por sua
conta a direção de nossa alma, segundo Rm 8,14: “Aque-
les são filhos de Deus, que se deixam guiar pelo Espírito
de Deus”.
Essa presença divina opera uma união experimen-
tal, especialmente a partir da quinta morada, união pro-
gressiva a invadir a alma da gente até transformá-la em
Deus.
A alma “vê a Santíssima. Trindade” por uma visão
intelectual... Vê a distinção entre as pessoas divinas...
entende serem todos as três uma substância, um poder,
81

um saber, um só Deus... As três pessoas comunicam-se e


falam à alma, e dão-lhe a compreender aquelas palavras
do Senhor no Evangelho... que ele viria com o Pai e o Es-
pírito Santo morar na alma que o ama” (STA. TERESA, Mo-
radas 7,1).
“O que eu entendo disto é que aquilo que eu chamo
de espírito da alma, se torna uma coisa só com Deus...
como a água da chuva que cai num rio e se confunde to-
talmente com a água do rio... como uma gota d’água que
cai num barril de vinho... como as chamas de velas unidas
se fundem numa só chama” (Moradas 7,2).
“Agora, morre a borboleta mística com indizível sa-
tisfação... e Cristo torna-se sua vida... Vê-se claramente
ser Deus quem dá a vida à alma... E ela não pode deixar
de exclamar: “Ó vida da minha vida e sustento que me
sustentas” (Moradas 7,2).

Teologia Experimental

São João da Cruz mostra-nos a que grau pode che-


gar a divinização da alma humana aqui na terra, na união
mística transformante, se deixarmos a graça santificante
livremente exercer sua ação santificadora, sem opor-lhe
embargos:
“Deus comunica à alma o seu ser, de tal sorte que
ela parece ser Deus mesmo: parece que ela possui tudo o
que Deus possui... poder-se-ia dizer que a alma mais pa-
rece ser Deus do que alma” (Subida 2,5).
“É uma transformação total em seu bem-amado... É
uma união tal que a alma é feita divina e feita Deus por
participação, quanto se pode nesta vida” (Cântico 22,1).
“Vive a mesma vida com Deus” (Cântico 22,2).
“Seu entendimento é o entendimento de Deus. Sua
vontade é a vontade de Deus e seu amor é o amor de
Deus, aquele amor como qual Ele se amava a si mesmo”
82

(Cântico 38,1).
“Torna pois, a alma deiforme e Deus por participa-
ção” (Cântico 39,1). Portanto, “ama a Deus por Deus
mesmo” (Llama 3,6).
“Brilha-me na alma uma luz espiritual cheia de amor,
pela qual conheço plenamente o mistério da união dessa
nossa carne com Deus” (Ângela de Foligno).
“Senti-me penetrada pela glória de Deus, que me in-
troduziu no conhecimento, pelo qual ele mesmo se co-
nhece, e no amor, no qual ele mesmo se ama. Percebi...
que as três pessoas da Santíssima. Trindade renovaram
tudo em mim e fizeram comigo uma aliança de amor e
misericórdia”.
“Tornei-me uma coisa com Deus... fiquei repleta do
conhecimento de Deus em seu próprio entendimento” (A-
na Madalena Remuzat)
“Senti como a minha alma foi investida pela Santís-
sima. Trindade. Quantas vezes ouvi as palavras: não são
graças que te dou; mas o próprio autor da graça... Retribui
o que me deves, em amor” (Maria da Conceição, 1920)

MORADA DE DEUS

“Estar na graça de Deus, lamenta Pe. PLUS, significa


para muitos cristãos não ter pecado, i. é., não ter nada. Já
no capítulo anterior vimos quão rico tesouro é a graça
santificante. A graça “diviniza-nos” e traz consigo mais
uma conseqüência maravilhosa: a presença da Santíssi-
ma. Trindade em nossa alma, uma verdade esquecida,
uma letra morta, um espaço branco na folhinha de nume-
rosos cristãos.
“De todas as nossas aptidões, a mais singular é sa-
ber passar ao lado de maravilhas sem dar por elas. So-
mos mestres na arte de não nos dar conta das esplêndi-
das realidades que nos cercam” (Deus em nós, 11).
83

A palavra de São Paulo, no areópago de Atenas (At


17,28), válidas na filosofia pagã, realiza-se no cristão de
um modo superior: “Nele vivemos, nos movemos e existi-
mos”. Pela graça santificante concretiza-se em nós uma
presença nova e mais íntima de Deus; e por sinal, do
Deus Trino, das três pessoas da Santíssima. Trindade.
No sermão da despedida, Jesus anuncia aos seus
discípulos: “Um dia” compreendereis que eu estou em vós
e que vós estais em Mim” (Jo 14, 20). Pois “quem me a-
ma, guarda minha palavra. Meu Pai o amará, e nós vire-
mos a ele e nele faremos nossa morada (Jo 14,23).
Eis a grandiosa promessa do Filho de Deus para nós
seus irmãos menores, que ainda peregrinamos no exílio,
longe da pátria. Quanta alegria devia infundir-nos esta
promessa. Amando a Deus, com nosso amor mesquinho
e pobre, toda a Santíssima. Trindade desce do céu e vem
fixar morada em nós.
Da vinda das três Pessoas escreve o discípulo predi-
leto (1Jo 4,9): “Deus é amor e aquele que permanece no
amor, permanece (mora) em Deus, e Deus nele”.
São Paulo revela a presença da terceira pessoa, do
Espírito Santo: “Não sabeis que sois um templo, e que o
Espírito Santo mora em vós?” (1Cor 3,16; 2Cor 6,16). E
novamente (Rm 5,5): “O amor de Deus foi derramado em
nós, pelo Espírito Santo que nos foi dado”.
Os primeiros cristãos viviam compenetrados desta
presença divina. Sto. Inácio de Antioquia, mártir, diz que
os cristãos são “teóforos”, isto é, levam Deus em sua al-
ma.
Muitos mártires repetiam perante o tribunal pagão, o
que narram as atas do martírio de Sta. Lúcia: “O Espírito
Santo mora em ti?”, pergunta o juiz. “Sim, todos aqueles
que levam uma vida casta e piedosa são templos do Espí-
rito Santo”.
São Leônidas, a caminho do martírio, despede-se do
84

pequeno filho, beijando-lhe o coração: “Aqui mora Deus”.


Orígenes, ilustre filho deste Leônidas, escreveu a
bela palavra: “Ó cristão, tu és um céu e irás ao céu”. Sto.
Agostinho: “Carregando em nós o Deus do céu, somos
céu”. Repete-o a Imitação de Cristo (3,39), dizendo ao
cristão: onde tu estás, aí está o céu.
Presença sensível, visível, para os santos: nós te-
mos certeza pela fé, estamos certos da palavra de Jesus.
Um anjo, diz a Henrique Suso OP: “crava os olhos em teu
peito e verás”; tornando-se como que transparente, ele viu
Deus em si.
A teologia tentou explicar o modo desta nova pre-
sença de Deus sem chegar a uma conclusão unânime. O
mistério supera as categorias do nosso intelecto. Coligi-
mos algumas idéias convergentes.
1. Deus está presente onde age. Ora, criando a gra-
ça santificante torna-se presente na alma humana. Mas
presente como criador. Desse modo está presente o Deus
Uno, não o Deus Trino.
2. Nosso amor para com Deus, a base da graça san-
tificante, é amor de amizade mútua. Scheeben fala até de
um amor nupcial entre Deus e a criatura. Ora, amizade
deseja presença mútua. Deseja, mas não produz. A cari-
dade sobrenatural estabelece só uma união afetiva. Falta
o fator que a transforma em união efetiva. Subamos mais
3. No céu, a substância divina está realmente pre-
sente na alma do bem-aventurado. Sendo a graça santifi-
cante de natureza idêntica à glória (somente será substi-
tuída a luz da fé pela “luz da glória”), conclui-se que já na
terra, através da graça santificante, existe uma presença
real da divindade na alma do justo, de acordo com os tex-
tos da Escritura. Essa presença “nova” consiste em ficar o
Deus Trino diretamente atingível por nossa mente, ficando
o Deus Trino conhecível e amável por nós, como que ex-
perimentalmente: por assim dizer, como que por contato.
85

Conhecimento experimental, intuitivo, que se aper-


feiçoa na media da purificação espiritual da alma. Realiza-
se o anúncio de Jesus: “Naquele dia conhecereis (senti-
reis, vereis) que eu estou no Pai e Vós em mim” (Jo
14,20).
Na Escritura temos, ainda, alguns outros indícios
desse nosso contato direto e imediato com a realidade
sobrenatural.
No cenáculo, diz ainda Jesus, para espanto dos dis-
cípulos: “Quem me ama... eu o amarei e me manifestarei
a ele” (Jo 14,21).
Rm 8,1: “O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso
espírito de que somos filhos de Deus”. Podemos, pois,
chegar a sentir o amor de Deus.
Semelhante é o versículo de 1Jo 2,27: Permanecei
na união que dele recebestes. O que sua unção vos ensi-
na, é verdadeiro. É conhecimento experimental da Deus.
Isto nos explica a misteriosa tese de São Paulo, em
1Cor 2,14: que o homem natural não compreende o que é
o Espírito. Tem-no em conta de estultície. Nem o pode
compreender... Mas o homem espiritual compreende tudo.
O homem espiritual compreende e julga por uma i-
luminação especial, por uma intuição que recebe pela pre-
sença do Espírito Santo em sua alma.
Desta experiência espiritual fala também o Ap 2, 17:
“Ao vencedor, darei o maná misterioso. E um nome novo
que ninguém conhece senão ele”.

Contato divino

Esse contato íntimo abre-se ao amor. Quem ama re-


cebe a visita divina, repete Jesus. Enérgico, incisivo é o
texto de 1Jo 4,8: “Quem não ama, não chegou a conhecer
(ver) Deus; porque Deus é amor”. Para tantos cristãos
repete-se o caso de Jacó, na visão da escada do céu.
86

Realmente esse lugar é sagrado e eu não sabia” (Gn


28,16).
A mesma queixa, nos tempos hodiernos.
“Os homens vivem à superfície de suas almas, sem
penetrar nunca no interior” (Leseur)
“Deus habita em nós. Como, e com que recolhimen-
to recebemos um tal hóspede? Eu me confundo ao pen-
sar que, mal deu entrada em mim, lhe volto as costas e o
abandono, para entreter-me com ninharias” (Paulina Rey-
nolds)
Jesus queixa-se a Benigna Consolata: “Sou, em mui-
tos corações, como um tesouro infrutuoso. Eles me pos-
suem porque têm a graça. Mas não me fazem valer. Su-
pre essa indiferença”.
Todo o nosso empenho seja como de Isabel da Trin-
dade: “fazer com que a casa de Deus (sua alma) seja in-
vadida pelos três”.
Não sejamos como o jumento que, no domingo de
Ramos, carregou o próprio Deus sem o perceber. Como
disse São Bernardo: “O jumento não deixou de ser jumen-
to”.

Em Deus

Nossa vida está escondida em Deus, diz São Paulo.


Valha, pois, também o imperativo: esteja escondida em
Deus! Realizemos nossos privilégios sobrenaturais
Não sinto nada, me dizes. Respondo: só falta sin-
cronizar, ou melhor: ligar o contato. “Quem me ama”...
repete Jesus. Portanto, ame mais!
O Deus Trino está pertinho. E toda a vida íntima da
Trindade realiza-se dentro de nós... “Somos um céu”, dis-
se Orígenes. Desde toda a eternidade o Pai gera o Filho,
sua imagem perfeita. Não outrora, mas hoje e agora num
presente eterno. E o Pai, contemplando o Filho, ama-o, e
87

o Filho ama o Pai, e esse olhar de amor que eles trocam


condensa-se, por assim dizer, numa terceira Pessoa, o
Espírito Santo, o amor feito pessoa.
E essa vida divina está dentro de nós, realizando-se
em nós neste momento, e envolvendo-nos também nesse
intercâmbio: o Pai gerando o Verbo e ambos produzindo
em nós a cada instante o Espírito de amor.
“Usamos sobre nós escapulários, medalhas, relí-
quias e consideramo-los como tesouro. Mas temos em
nós o Deus vivo do céu, e nem pensamos nisso. Somos
portadores de Deus, no sentido estrito do termo. Cabe de
novo a advertência de São Leão Magno: reconhece, ó
cristão, tua dignidade”! (No silêncio de Deus, 54).
Oportuno, sempre oportuno, o recado-aviso de Tau-
ler: “apressa-te de voltar para a casa: há visitas”.

INVADIDA PELOS TRÊS

Isabel da Trindade, nascida em 1880, teve infância


piedosa. Fez a primeira comunhão em 1891; retiro espiri-
tual em 1899. Entrada no Carmelo de Dijon, agosto 1901.
Vestidura, 8.12.1901. Votos, 6.1.1903. Março de 1906,
enfermaria. Morte, 9.11.1906
“Cinco anos no Carmelo: aqui o pessoal se santifica
depressa”, comentou um eclesiástico.

No céu dos três

Parece que desde a primeira comunhão sentia, mui-


tas vezes, a presença de Deus, especialmente nas festas
e bailes. Desde o grande retiro de 1899 sentia-se “habita-
da”. Seu lema na vestição foi: Deus em mim e eu Nele.
“Você deve apaixonar-se por Jesus”, diz a uma ami-
ga. Coopera com ardor na missão paroquial dos redento-
ristas, em 1899. “Ó Jesus, peço o sofrimento em altas
88

vozes. Estou pronta a tudo sofrer, mas dai-me almas”.


“Meu coração anseia pela conversão dos pecadores. A
idéia persegue-me, mesmo durante o sono”.
Ainda em 1900: “Jesus, quero não só salvar a minha
alma; desejo dar-te também outras”. Pediu sofrimentos.
Renunciou as consolações. “Sou tua vitimazinha; dispo-
nha”!
“Deixemo-nos transportar para aquelas regiões onde
não há senão Ele, Deus só... Trazemos o céu em nós.
Parece-me ter encontrado o céu na terra; pois o céu é
Deus e Deus está em minha alma” (Carta, 1902).
“Ao pegar a caçarola (ajudando na cozinha por um
dia), não entrei em êxtase como Sta. Teresa, mas senti
sua presença e meu coração o adorava em seu íntimo”.
“Ele mora no centro da alma como um sacrário onde
quer ser adorado” (Carta, 1905).
Conversando com uma carmelita amiga, exclama:
“Mas não sente os três? Eu os sinto”.

Laudem Gloriae

“Em 1905, Isabel topou na Bíblia com seu novo no-


me: Louvor da glória divina, e tratou de viver este nome,
seu cântico novo, o nome pelo qual o divino Pastor chama
cada ovelha. “Meu esposo fez-me entender que era a mi-
nha vocação no exílio, à espera da eternidade”.
“Quero ser uma humanidade de acréscimo para Je-
sus perpetuar pelos séculos afora a sua vida de adorador,
de redentor, usando sua esposa, a fim de nela oferecer
louvor, amar, e desagravo ao Pai’.
“Em Maria Santíssima., na Virgem do Carmelo, Isa-
bel encontra a perfeita realização do seu ideal espiritual,
principalmente no mistério da Encarnação, paralelo da
habitação trinitária: Deus nela e ela em Deus.
Colhemos ainda alguns textos de dois retiros espiri-
89

tuais, que Isabel redigiu no Carmelo: “Deus nos criou à


sua imagem e semelhança. Tal foi o sonho do Criador:
poder contemplar-se em sua obra; ver aí brilhar todas as
suas perfeições, toda a sua beleza, como através de um
límpido cristal... Ele me pede para viver com o Pai num
eterno presente, nem antes nem depois, toda inteira, no
eterno Agora... Um louvor de glória é uma alma silencio-
sa, que vibra como uma harpa, sob o misterioso toque do
Espírito Santo. Ela sabe que o sofrimento é uma corda
que produz os sons mais belos... Um louvor de glória é
uma criatura em ação de graças perene. Cada um dos
seus gestos, pensamentos... é um eco do Três vezes Sto.
do céu. Seu cântico é ininterrupto... Canta sempre, adora
sempre, é transformada no louvor, no amor, na paixão da
glória de Deus... No céu de nossa alma sejamos louvor de
glória da Santíssima. Trindade”.
Isabel resume tudo na conhecida oração: Meu Deus,
Trindade, eu Te adoro... “Vivamos na Santíssima. Trinda-
de, que desde o batismo habita em nós. Vivamos para
dentro de nós, para aquele que nos escolheu como sua
morada (Jo 14,23). Portanto, silêncio, recolhimento. A
Santíssima. Trindade é “nosso lar”, nossa vida de intimi-
dade com o Pai, com o Verbo e com o Amor”.

Maria da Trindade

“Encontro em meu nome íntimo, Hostia Laudis, se-


gredos de luz, de força, de amor. Cada vez que o pronun-
cio é como um ímpeto novo que me põe em contato com
Ele. Parece-me que posso tomar parte, como esposa,
nesse divino colóquio que se faz eternamente. Que posso
viver no meio de minha família real” (Carta, 25).
“Desde que o amor de minha alma se uniu e fez fu-
são com o amor infinito, parece-me que fico constante-
mente unida a Deus, como um pequeno archote sempre a
90

arder. Minha vida está como que se movendo na essência


divina, tendo disto consciência mais ou menos clara. Nes-
sa unidade, parece-me encontrar Deus todo inteiro, e go-
zar de todas as suas perfeições... Há algum tempo penso
ter atingido o fim, o fundo, o máximo. Isso me faz viver
como que na eternidade e ver coisas como Deus mesmo
as vê” (Carta 27).
“Por toda a parte, e sempre, só vejo Deus, e nele
encontro tudo o que há de bom, de belo, de atraente nes-
se mundo, e além disso, Ele próprio. E, portanto, acho
nesse mundo uma felicidade sem nome. Mas que felici-
dade? Deus está sempre oculto. Os habitantes do céu
parecem dormir. Nada também de Maria Santíssima. Mas
possuo Deus todo inteiro: tenho consciência de nossa
união. Tenho consciência de dá-lo sem cessar a Ele pró-
prio, glorificando-o assim sem medida. Tudo o que faz a
minha felicidade nesse estado é poder amá-lo, com amor
digno dele, e fazer-lhe um dom infinito. É loucura o que
estou dizendo. Mas me parece verdade. Pois que nós fa-
zemos um só, e que só posso amá-lo com seu próprio
amor. E dando-me, é por assim dizer a ele que dou. Fico
abismada na minha miséria e transbordo de gratidão”
(Carta 32).
Terminamos com Sto. Agostinho: “Procurei-te mal lá
fora, pois tu estás dentro de mim”.
São João da Cruz: “Ó almas criadas para essas
grandezas, com que bagatelas perdeis o tempo. Vossas
ambições são só miséria. Como estais cegas para tanta
luz, surdas para tão grandes vozes. Ignorais tesouros i-
mensos” (Cântico 39,7).
“O Reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17,21).

JESUS CRISTO MÍSTICO


91

O Corpo Místico

Pela graça participamos da vida divina. E a porta de


entrada, que nos dá acesso à vida divina, é Jesus Cristo,
o Deus-homem. Jesus é a causa meritória, modelo e cau-
sa eficiente da nossa divinização. Unindo-nos a ele, en-
xertando-nos nele pelo batismo, chegamos a participar da
sua divindade e através dele, da Santíssima. Trindade.
Todos os batizados, marcados pelo caráter sacramental,
formam um organismo, um corpo místico. E Cristo é ca-
beça dirigente e santificante desse organismo sobrenatu-
ral.

O mistério

É o grande mistério escondido no meio da eternida-


de, agora manifestado por Cristo (Rm 16,25; Cl 1,26; 1Cor
2,7). E por uma revelação especial manifestado a São
Paulo (Ef 3,3).
Cristo criou um novo homem (Ef 2,15), e reuniu to-
dos num corpo único, num organismo sobrenatural (Ef
2,16), um acréscimo a Cristo, um corpo por extensão, o
corpo místico de Cristo.
Místico não quer dizer irreal. Ao contrário, é mais re-
al do que nossa existência física. Chama-se místico, por
ser misterioso, invisível e ultrapassar nossa compreensão
terrestre.

Morte e Vida

Diz São Paulo que pelo batismo somos sepultados,


enterrados dentro de Cristo; inseridos, incorporados ao
Cristo crucificado (Rm 6,7). Morre o velho homem, herda-
do de Adão. Morre ao pecado. Morre à lei antiga. Morre à
carne. “Ser batizado em Cristo, quer dizer, ser batizado no
92

Cristo Moribundo; significa morrer misticamente com Ele;


significa ser incorporado a Ele, no momento em que nos
salva como redentor”. E ressuscitamos com Ele para uma
vida nova (Rm 6,4.5; 8,10). Vida celeste(1Cor 15,44). Vida
de união ou até de identidade com Cristo (Gl 2,21; Fl
1,21). Pois “que morrestes a vossa vida está oculta em
Deus” (Cl 3,3).

Alma

A alma deste corpo místico é o Espírito Santo. Vi-


vemos pelo Espírito (Gl 5,25). Todos os dons dessa vida
nova são do Espírito (Cl. 3,4). Temos em nós o Espírito
que nos faz orar Pai-Nosso (Rm 8,15). Somos templos de
Deus pelo Espírito (Ef 2,21). E o Espírito mora em nós
(Rm 8,15).

Evangelhos

Essa doutrina paulina está nos Evangelhos sinóti-


cos, incluída na mensagem do reino de Deus. São João
traz a doutrina esotérica do Mestre: o misterioso renasci-
mento no colóquio com Nicodemos (Jo 3). Depois, o mis-
terioso alimento que dá união vital com Jesus (Jo, 6). E
principalmente a parábola da videira (Jo 15). Jesus é a
videira donde nos vem a seiva vital.

Sto. Agostinho

Sto. Agostinho transmite-nos o belo eco desta dou-


trina no cristianismo antigo: “Congratulemo-nos e demos
graças a Deus, pois tornamo-nos não somente cristãos e
sim Cristo. Entendestes, irmãos? A graça de Deus sobre
nós, a graça da cabeça. Admiremos e alegremo-nos: tor-
namo-nos Cristo, pois se Ele é a cabeça, então nós so-
93

mos os membros. O homem todo: Ele e nós”. “Totus ho-


mo, ille et nos”.

O novo plano

O primeiro plano de Deus fora comunicar-nos sua


vida sobrenatural, a graça santificante, por Adão e Eva, os
primeiros pais da atual humanidade. Eles nos dariam, jun-
to à existência humana, também a existência sobrenatural
de filhos de Deus. O pecado original destruiu esse plano.
Deus não tardou em substituí-lo por outro. Instigado por
excesso de amor pela criatura, estabeleceu outro plano,
superior em tudo ao primeiro, milagroso, beirando o im-
possível: Deus pessoalmente se tornaria criatura humana
a fim de reerguer assim toda a humanidade, a raça hu-
mana à altura de filho de Deus (Gl 4,4). E como toda a
humanidade estava vinculada numa solidariedade moral-
orgânica sob a chefia de Adão, assim de um modo supe-
rior estabeleceu Deus uma comunidade sob nova chefia,
sob Cristo, Verbo Eterno, Filho Unigênito de Deus, um
novo Adão (Rm 5). Com razão exclama a liturgia: feliz
culpa de Adão. A troca foi toda a nosso favor, nessa se-
gunda edição refundida e melhorada.
Cristo e a humanidade formam um novo ser. Enxer-
tados em Cristo participamos da sua vida divina, unidos
com ele, na simbiose sobrenatural de um organismo vivo
misterioso. Nossa graça santificante é crística. Pois so-
mos agregados à Santíssima . Trindade, não pelo Pai ou
pelo Espírito, mas pelo Verbo feito carne. Isto marca e
caracteriza nossa divinização pela graça.

Revesti-vos

Revesti-vos de Cristo (Ef 4, 24). Revesti-vos do novo


94

homem (Cl 3,10). Não, porém, com um manto que só en-


volva e encubra a natureza humana, mas sim numa co-
municação vital de infiltração, de absorção pela vida divi-
na. O invólucro deve absorver todo o miolo, com licença
da expressão. “Somos uma nova criatura em Cristo”
(2Cor. 5,17). É melhor a outra metáfora de São Paulo.

Enxertados

Enxertados em Cristo (Rm 11,17). São Paulo aplica


essa figura à mútua relação entre Israel e os gentios. A
comparação, talvez inspirada na parábola da videira, ex-
pressa e bem a nossa incorporação em Cristo. Somos
ramos bravios e selvagens enxertados na árvore de culti-
vo; e ao invés do que sucede com a lei da natureza, é o
tronco que deve cultivar os galhos selvagens. O enxerto
deve assimilar-se à árvore, i.é., nós a Cristo. Como os
enxertos biológicos da medicina moderna devem ser as-
similados pelo organismo. A ciência médica diz que se
processa uma lenta substituição do corpo enxertado. É
nosso caso com relação a Cristo.
Eis o mistério do pequeno planeta azul perdido no
espaço: seus habitantes são filhos de Deus, ou antes são
um filho de Deus. Um Mega-filho-de-Deus. Embora o va-
lor esteja todo na cabeça, e o acréscimo seja apenas de
volume e de uma boa porcentagem de escória.

Cristo Místico nos Santos

Essa nossa união com Jesus Cristo foi para os san-


tos não apenas uma metáfora bonita, uma figura poética,
mas rigorosa realidade.
São Paulo, prostrado no caminho de Damasco, ouve
a reclamação: “Saulo, por quê me persegues?” (At 9,4).
Sta. Gertrudes e Sta. Matilde escutam as batidas do
95

coração de Jesus.
Camila Varani vê como o pecado arranca pedaços
de carne viva do corpo de Jesus.
Ida de Lovaina sente-se incorporada a Cristo de tal
maneira que não sabe mais onde Jesus acaba e onde ela
começa. Às vezes, seus membros se transformam em
outros tantos corações, todos cheios de Deus.
Sta. Gertrudes sente-se como uma árvore que sai da
ferida do coração salvador, florida e oloroza.
Sta. Matilde sente que Cristo é a voz que em seu ín-
timo louva Deus e adora. Cristo vive nela de um modo tão
real que ele lhe diz: “Meu coração é o teu e o teu é meu”.
“Jesus deves viver para mim tão plenamente que
possa atribuir a mim todas as tuas ações... numa palavra:
sejas um manto debaixo do qual eu me escondo e sob o
qual eu posso agir”.
Freqüentemente na literatura mística, há a troca do
coração por Cristo. Tudo isso são figuras simbólicas de
uma realidade espiritual.
Maria Cecília de Roma, da Congregação de Jesus,
morta em 1929, em Casa (Quebec), aos trinta e três anos
de vida terrestre e nove anos de vida religiosa, escreve na
sua Autobiografia Espiritual, pg. 126: “Jesus mostrou-me
um altar bastante alto, sobre o qual se erguiam chamas
luminosas: era o altar de seu amor. Eu vi em sua mão
meu coração, aquele meu coração que ele tinha tirado no
retiro do postulantado (dois anos antes). Ele o mostrou
longamente, a fim de dar-me a oportunidade de me entre-
gar mais uma vez inteiramente e livremente a Ele. Depois
colocou-o sobre o altar. O fogo envolveu-o, eu o vi quei-
mar até a última fibra. Não restou nada, absolutamente
nada.
Em seguida Jesus me convidou a subir eu mesma
ao altar. Havia cinco degraus em honra das cinco santas
chagas. Impossível dizer o que se passou em meu íntimo.
96

Eu senti como que uma repulsa, uma revolta da minha


natureza; mas a alma estava na paz e na felicidade. Pus o
pé sobre o primeiro degrau, o segundo, e continuando
com abandono cheguei rapidamente ao centro do altar.
As chamas ficaram afastadas e não me tocaram. O bom
Mestre, sempre com seu olhar sobre mim, me fez abrir os
braços em forma de cruz. E imediatamente precipitaram-
se as chamas sobre mim. Com uma intensidade violenta e
todavia com certa lentidão em sua ação, consumiram todo
o meu ser. Durante o incêndio divino parecia-me que mi-
nha natureza fremia e gemia, e enfim parecia estar morta
no momento da destruição completa... Quando o braseiro
não encontrou mais alimento, o fogo abaixou-se e extin-
guiu-se. No centro sobrou só cinza. Jesus aproximou-se e
soprou sobre as cinzas e aniquilou-as. E não sobrou mais
nada de mim.
Eu estava morta... mas como vivia ainda na terra?
Sim, mas Jesus tomará meu lugar. Ele substituíra-se a
mim. Ele me fez desaparecer. O campo estava livre. Ele
podia agir com liberdade. Ele me mostrou que minhas
aparências exteriores não eram nada mais que um manto
de que ele era obrigado a se servir. Um manto que o ocul-
tava aos olhos humanos e que lhe permitia continuar sua
vida na terra.”
Visão e figura simbólicas e todavia uma realidade
espiritual, uma mudança espiritual mas real que se operou
na alma...
Às vezes, até a aparência externa assemelha-se a
Jesus, fenômeno freqüente nos estigmatizados.
Sta. Coleta parecia semelhante ao Ecce-homo. Frei
Pio de Pietralcina, sacerdote capuchinho estigmatizado,
morreu em 1969, representou também o Cristo coroado
de espinhos. Um fotógrafo tirou, às escondidas, seu retra-
to. Ao revelar o filme, frei Pio apareceu com uma coroa de
espinhos. O fotógrafo correu ao convento e pediu descul-
97

pas pela indiscrição (que fora premiada por um milagre).


Frei Pio contentou-se de resmungar por entre a barba:
“Nos tempos de hoje não há outro jeito”.
Uma religiosa do convento de Catarina de Ricci du-
vidava sempre da realidade das visões desta. Rezando,
certo dia na capela, num banco diante da santa, virando-
se para trás, viu o rosto de Catarina transformado no rosto
de Jesus, com barba longa. E uma voz forte perguntou:
“Quem sou eu?” Tremendo dos pés à cabeça, respondeu:
“Tu é os Cristo”.
Joana da Cruz (Verona), parecia às suas alunas vi-
sivelmente penetradas pela presença de Jesus, especial-
mente nos dias de comunhão. Diziam: precisamos ficar
quietas (na aula); nossa mestra recebeu Jesus, vejam
como está toda vermelha”.
Reflexos do Eterno, como os raios luminosos no ros-
to de Moisés. “Vós sois uma carta de Cristo escrita por
nós, não com tinta, mas com o Espírito de Deus. Não em
tábua de pedra, mas na carne de vossos corações” (2Cor
3,3).
Uma mística medieval, Jutzi Schultes de Toes OP
(morreu em 1292), viu como após a ressurreição univer-
sal, Jesus nos fará participar não só da sua divindade
mas também de sua humanidade, numa espécie de co-
munhão eterna, “assim como na comunhão cada um re-
cebe das mãos do sacerdote Deus e homem”.3 TP PT

3
TPA mesma visionária precedeu a astronáutica, por
PT

seis séculos, e o sistema copernicano, pos dois. Pois ela


“viu” que “a terra, em comparação com o céu estrelado, é
98

tão pequena, como a palma da nossa mão em compara-


ção com a terra.”. Conheceu que “cada uma das estrelas
é tão larga e vasta com a nossa terra”. Aliás, foi precedida
pela beata Alpais (falecida em 1211), que “viu” a terra
suspensa no ar, redonda como um ovo e rodeada por á-
gua, sendo o sol muito, muito maior. TP
99

DESTINO (Bis)

A tarefa

Deus deu ao homem um destino final superior à sua


condição natural. São Paulo descreve, com palavras
magníficas, nosso destino sobrenatural em Rm 8,29: O
Pai nos predestinou, desde toda a eternidade, “a tornar-
mo-nos conformes (symmorpheis) à imagem de seu Filho
a fim de que este seja o primogênito entre muitos irmãos”
(Cf. Cl 3,10; 1Cor 3,18).

Crescer

O modelo está proposto não tanto para ser imitado


numa cópia perfeita, mas para ser realizado, para identifi-
car-nos com ele. Já fazemos parte do grande corpo místi-
co. Já vivemos em união vital com Jesus. Nossa tarefa
portanto é crescer sempre mais, Cristo adentro, com diz o
apóstolo (Ef 4,15), “Até que Cristo se forme em nós” (Gl
4,19).
União com Cristo e graça santificante são sinônimos.
Santidade é aumento da graça santificante, é união cada
vez mais intensa com Cristo, participação crescente na
vida de Jesus. Santidade é desenvolvimento pleno dessa
nossa união mística com Cristo, até se tornar unidade, até
se tornar identidade, até se realizar em nós o “Não vivo
mais, Cristo vive em mim” (Gl. 2,20).
Cristianismo é vida. Vida que nasce, cresce e age.
Nasce pelo batismo. Cresce pelo amor. E age pelo Filho
de Deus, em união com ele.
Como no sistema solar, não é a Terra que está no
centro, mas é o Sol. Tudo gira ao redor do Sol e do Sol
recebe a Terra luz e calor, ou seja, todas as fontes de sua
energia físico-vital. Assim também toda a nossa vida cris-
100

tã deve girar em torno de Cristo, para dele receber luz e


calor, e poder crescer, crescer sempre mais Cristo aden-
tro.
A vida física humana cresce apenas até atingir plena
saúde (e daí não passa). A vida divina da alma pode cres-
cer sempre. Não em tamanho físico, mas em intensidade,
e a vida de Deus vai invadindo e penetrando mais e mais
a alma humana.
Cresce pelo amor de Deus e pelo sacramento. Não
diminui com faltas, imperfeições, pecados veniais: só re-
tarda. Somente o pecado grave destrói tudo, mata, é mor-
tal. Esse crescimento deve tornar-se uma realidade.

Transformação

Transformação em Jesus Cristo. Uma visão mostra


a Sta. Catarina de Sena um grupo vestido de veste nupci-
al. “Quem são esses?” Responde Jesus: “Eles são um
outro Eu” (Dialoghi 1). Depois, ela comenta: “A alma que
ama seu criador não mais se considera, nem ama a si
mesma ou a outros. Não pensa mais em si. nem em cria-
tura alguma... Essa visão do Amor transforma a alma em
Deus. Pensamento, coração, memória só vêem Deus. A
alma já não vê mais criatura, vê somente a Deus”.
O velho homem deve ser transformado, substituído
pelo novo modelo (Rm 8,29). O velho prédio deve ser
substituído, tijolo por tijolo. E deve doer. Onde os pedrei-
ros mexem... Em Cl 3,3, o apóstolo fala também da morte
que produz nossa incorporação em Cristo: “Pois que mor-
restes e vossa vida está oculta com Cristo em Deus”.
É uma substituição ontológico-mística do humano
pelo divino. Ou, se preferirmos um vocábulo up-to-date, é
a formação existencial do cristão, filho de Deus; sua ges-
tação espiritual, diz Gl 4,19.
E uma experiência de séculos, que vai de São Paulo
101

até Catarina de Sena, até Juán de la Cruz, até Marie des


Vallées, até Marie Ste. Cecile em nosso século. Ou me-
lhor: Atravessa a folhinha de primeiro de janeiro e vai até
São Silvestre.
A existência aparente, fachada sem fundo, sombra
da realidade, é substituída pela existência real, existente
de verdade por imposição do seu Ser, ao qual não “acon-
tece” existir por acaso contingente. Mas que existe por
metafísica necessidade: Deus. Tudo começou quando
nosso Salvador nos pôs em convivência sobrenatural com
o Pai e o Espírito vindo morar em nossa alma.

Residência de Deus

Deus trino não está na alma como morto, mas como


Deus Vivo e operante. E sua ação realiza-se no sentido
de infundir e de implantar a sua vida divina, de açambar-
car o pequeno ser que se lhe entregou, de infiltrar-se co-
mo água na esponja. Pouco a pouco substitui a substân-
cia humana por sua natureza divina, célula por célula, por
assim dizer. Substitui, no fim, também as potências da
mente, o pensar e o agir, por seu intelecto divino e sua
vontade divina.
Está na alma como enxerto num organismo vivo,
que o absorve e substitui. Inevitável que santificação-
divinização seja um processo doloroso. Deus é uma pre-
sença atuante, viva que desmonta o prédio velho. Sendo
de cimento armado, tem de doer; choupana humilde, de
sapé, é menos laborioso desfazer. “Onde há cruz e dor,
sinal que Deus está perto” (Chardon OP). “Em obras”.
As peças são substituídas aos poucos. Colaborar
com essa ação divina é a preocupação dos espirituais.
Confira, p. ex., Os Diálogos de Sta. Catarina de Sena.
Encontrou uma expressão drástica, plástica e pitoresca
em Maria des Vallées. Mas no fundo é o mesmo brado de
102

surpresa de São Paulo apóstolo: “Cristo se fez a nossa


justiça e a nossa santidade” (1Cor 1,30). Por isso reza
Sta. Terezinha: “Ó meu Deus, sejais vós mesmo a minha
santidade”.

Santidade

Como Jesus se fez por nós pecado (Gl 3,13), assim


tornou-se ele agora “nossa sabedoria, justificação, santifi-
cação e redenção. Quem portanto quiser gloriar-se, glorie-
se no Senhor” (1Cor 1,30). A economia salvífica da incor-
poração no corpo místico modificou, um tanto, quadros e
estruturas da moral natural. E, assim, santidade cristã é a
santidade do próprio Deus que Jesus Cristo nos comuni-
cou no batismo. Varia, e muito, de um indivíduo para ou-
tro, mas em sua essência é participação da santidade di-
vina, através do Verbo. Mais santo é quem participa, em
grau mais intenso, de uma união maior com Jesus. E o
laço que nos une a Deus é o amor divino.

Amor divino

E este amor, por sua vez, não é um produto do nos-


so coração, um afeto. Este afeto, chamado amor, tão de-
cantado e desencantado pela psicanálise, não tem valor
no regime sobrenatural em que nos encontramos pela
Encarnação do Verbo. Esse amor de Deus, para valer
algo na ordem nova, deve ser uma participação do amor
com que Deus se ama a si próprio. “O amor de Deus foi
derramado em nossos corações pelo Espírito Santo” (Rm
5,5). O que a mística no conta da vida dos santos, sobre a
troca dos corações com Jesus, corresponde a uma reali-
dade sobrenatural objetiva, embora envolta em simbolis-
mo antropomorfo, chamejante, antecipando a futura gló-
ria.
103

Oração

O que foi dito vale também para a oração. Toda ela,


não apenas a litúrgica, é dom de Deus. É o Espírito Santo
que reza no coração dos fiéis (Rm 8,26).

Virtudes

O mesmo vale para as virtudes. Nossas boas obras


são dons de Deus, não são resultado de mero esforço
humano. Ouça Ef 2,10. A salvação “não é merecimento
nosso; é dom de Deus. Não é devida às obras. Pois so-
mos criaturas dele, destinadas em Cristo Jesus para as
obras que Deus preparou de antemão”.
“Toda nossa vida moral deve ser fruto da árvore di-
vina que é Cristo” (VONIER, Nova e eterna Aliança, 189).
Deve ser uva da videira divina.
“Toda a perfeição moral, no cristianismo, consiste na
perfeita união do homem com Deus e em Deus com seu
próximo. Realizada esta, atingiu a perfeição... Ao invés,
mesmo cumprindo com todos os deveres, mas negligen-
ciando o amor de Deus vive uma vida inútil, estéril” (VONI-
ER, 107).
As boas ações, insignificantes, da nossa vida cotidi-
ana, são operações do corpo místico de Cristo. Devem
ser feitas em união com Cristo, i.é., por motivação sobre-
natural, por amor de Deus.
Santidade cristã é, portanto, união com Cristo em
grau intenso ou graça santificante “intensa”. Os dois con-
ceitos são idênticos. Nosso destino, portanto, é crescer,
sempre mais Cristo adentro. É estreitar sempre mais a
união com Jesus. E assimilar a vida divina do Filho de
Deus, numa semelhança sempre mais perfeita, até a iden-
tificação, até à plena fusão.
104

Subir

Se participamos da vida divina, é mister participar-


mos também da atividade divina, enquanto compatível
com o estado de fé e com a condição de criatura. Já que
temos a vida eterna precisamos também produzir frutos
da vida eterna.
E a bondade de Deus aparelhou-nos de uma manei-
ra generosa e maravilhosa. Enxertou dentro de nossa psi-
qué três novas forças sobrenaturais que nos põem em
condições de operarmos à altura de Deus, com permissão
da hipérbole. São elas a fé, a esperança e o amor. Jun-
tamente com um complexo de dons celestes, os sete
dons do Espírito Santo, já previstos para o reino messiâ-
nico pelos profetas (Joel, Isaías), encarregados de elevar
o aparato de nossas virtudes naturais (na nomenclatura
usual: prudência, justiça, temperança, fortaleza e respec-
tivas virtudes subalternas) a um nível mais alto de opera-
ções, conformes a esta vida nova que invadiu a humani-
dade. Aliás, estas virtudes parecem mais ter uma tarefa
negativa, a de desimpedir a estrada de árvores caídas, de
rochas despencadas do barranco e outros obstáculos na
rodovia. A pista tríplice de asfalto são as virtudes teológi-
cas: fé, esperança e amor. E o motor que movimenta a
viatura, é o Espírito Santo, através dos setes dons. Sem-
pre presente, age, inspira, puxa e empurra, arrasta às al-
turas. A graça santificante elevou-nos à altura da divinda-
de. Os dons do Espírito fazem-nos agir nesta altura. Agir,
não à maneira humana, mas à maneira divina (1Cor 2,15).
Eles é que fazem maravilhas em nossa alma tão chã, pe-
dante e comodista. Maravilhas que espantam a nós mes-
mos. O Espírito fortalece nossa fé sugerindo tudo quanto
Jesus tem dito (Jo 14,26). Reza, em nosso lugar, ao Pai,
numa confiança inabalável. E principalmente ele ama a
105

Deus dentro de nosso coração. Nosso amor de Deus é e


deve ser um eflúvio do Espírito, da Terceira Pessoa divina
(Rm 5,5).
Uma parábola. Um moleque de rua foi levado ao
castelo para ser príncipe e filho do rei. Banho. Roupa no-
va. Modo de se comportar nesse novo ambiente, tarefa
particularmente difícil.
É o que Deus fez com os filhos de Adão. Deu-lhes a
graça santificante, i.é., o mesmo sangue real do Pai. Deu-
lhes auxiliares-camareiros: os sete dons do Espírito. E as
três virtudes teológicas: virtudes, forças sobrenaturais que
nos põem em condições de agir como filhos de Deus. Um
encargo difícil, tendo em vista a distância entre o mundo
divino e esse mundo terreno, distância maior do que a do
barro da rua ao palácio de mármore. Promovido, transfe-
rido da vida humana para a vida divina, que mudança i-
naudita!
E, atrás de tudo, ergue-se o grande amigo da huma-
nidade, amigo íntimo de cada alma, que entra neste mun-
do (Jo 1,9), sempre pronto a ajudar seus irmãos menores.
Compreende-se o otimismo de São Paulo, baseado nesta
amizade divina (Fl 4,13): “Tudo posso naquele que me
fortifica”. Ou, ainda com toda franqueza (2Cor 12,9): “Pre-
firo gloriar-me nas minhas fraquezas para que habite em
mim a força de Cristo”. Rematando com 1Cor 15,10: “Pela
graça de Deus sou o que sou. E sua graça não tem sido
estéril em mim; ao contrário, trabalhei mais que todos, i.é.,
não eu, mas a graça de Deus comigo”.

Amor

As três virtudes teológicas conduzem-nos ao céu. A


Fé e a Esperança ficam na porta. Mas o Amor entra. Tal
qual, por assim dizer. O amor não está enquadrado pelo
conhecer (sempre imperfeito na terra), mas visa e atinge o
106

objeto amado diretamente, em seu real existir. Por isso o


amor de Deus do cristão na terra é da mesma natureza
que o amor de Deus do bem-aventurado no céu; só difere
a modalidade. Por isso até os nossos simples afetos de
amor em concreto: as orações jaculatórias, que por si são
apenas pensamentos, valem como atos reais do amor
divino, do amor com que Deus ama. Por isso São Paulo
salienta os privilégios do amor do cristão que o acompa-
nha até a eternidade (1Cor 13). E é misterioso e inebrian-
te, não só no céu, mas desde agora na terra (1Cor 2,9).
Insondável é a sua altura. Sua profundeza e largura
excedem toda compreensão (Ef 3,18). Releia o cântico do
amor na Imitação (3,5).
E esse amor divino deve dominar e animar toda a a-
tividade do cristão-filho de Deus. Móvel de toda ação deve
ser ele. Por ele, e só por ele, cresce nossa união com
Cristo Jesus. Daí a paixão de São Paulo por Cristo. O
amor por Jesus “constrange-o” (2Cor 5,14). Cristo morreu
por todos a fim de que “não vivam mais para si mas para
aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Cor 5,15).
Seu único desejo: amar a Cristo eternamente (Ef
6,24). Uma expressão mais violenta do mesmo amor en-
contramos em 1Cor 16,22: “Quem não ama o Senhor Je-
sus, seja anátema”.

Jesus por sua vez

Jesus, por sua vez, ama o Pai junto, com e por meio
do Espírito Santo. O Pai é a grande devoção de Jesus.
Vive e morre por Ele, literalmente. Ele “vive pelo Pai” (Jo
6,57). Só procura a honra do Pai (Jo 9,30; 11,4).
O amor perfeito consiste em fazer a vontade de
Deus. Por isso declarou, ao entrar no mundo (Hb 10,5):
“Eis que venho cumprir a tua vontade”. Reafirma em Jo
8,29: “Faço o sempre o que é do seu agrado”. Sua missão
107

é fazer sempre a vontade de quem o enviou; é seu ali-


mento (Jo 4,34). “Glorifiquei-te sobre a terra (Jo 17,4).
Manifestei teu nome (Jo 17,6). Manifestei teu nome (Jo
17, 6). “Desci do céu para cumprir a vontade de quem me
enviou” (Jo 6,38). E ao morrer exclama: “Está consumado;
Pai, em tuas mãos entrego minha alma”.
Assim também para o cristão. Consiste sua vida na
entrega ao Pai: “Eis que venho cumprir a tua vontade”. Eis
o seu destino novo. Grandiosa tarefa. Nobre destino. Fa-
zer sempre o agrado do Pai, como fez nosso irmão maior.
Não sozinhos, mas juntos com Ele. Ele guia e orienta; é
só perguntar. Ela fortifica nossa fraqueza, é só pedir. Está
sempre ao nosso lado. Que digo? Está dentro de nós,
pronto a nos socorrer com sua graça.

Graça de auxílio

A graça atual, ou graça de auxílio, é outra invenção


celeste, de natureza tão misteriosa como sua irmã gêmea,
a graça santificante, e igualmente necessária para os fi-
lhos de Deus na terra. Necessária e indispensável. Nosso
aparelhamento sobrenatural está perfeito. Mas requer, por
assim dizer, a energia elétrica para entrar em ação. A teo-
logia distingue:

Graça externa

Graça externa são os objetos ou palavras que apon-


tam para Deus: Igreja, ritual do culto, Escritura, sermão,
quérigma, tudo quanto foi instituído no intuito da salvação
humana. Sua eficiência é precária: sugere a adesão a
Deus e à sua mensagem.

Graça interna
108

A graça interna é a ação de Deus que atinge direta-


mente a mente humana, principalmente intelecto e vonta-
de. É atuação direta, dinâmica de Deus sobre a mente
criada, enquanto que a graça externa age pelo processo
natural, psicológico, humano. Procura impressionar senti-
dos e fantasia e, através deles, intelecto e vontade.

Necessitamos

Da graça interna de um modo absoluto. O sarmento


necessita da seiva da videira a fim de poder brotar, florir e
produzir frutos. Necessitamos deste auxílio de Deus a fim
de podermos agir com nossa forças naturais no plano so-
brenatural. Isso sobretudo porque padecemos das taras
inatas da raça de Adão, cujo grau mais leve é certa indis-
ponibilidade obsessiva contra tudo quanto transcende os
sentidos. E Deus, tão inacessível aos sentidos corporais,
é a primeira vítima desse melindre ancestral. Por isso dis-
se o Verbo feito homem: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo
15,5). E ainda: “Ninguém pode chegar a mim, se meu Pai
não o atrair” (Jo 6, 44), palavra prenhe de mistérios.

Precisamos

Precisamos desse impulso paternal para o primeiro


ato de fé e para todos os demais atos preparatórios da
nossa conversão-justificação. Carece o pecador da graça
de Deus para não cair em novos pecados. O justo não
persevera por longo tempo sem esse auxílio de Deus.
Antigo Concílio (Orange 529) já condensou a men-
sagem da revelação em sentenças sempre memoráveis:
“Pensar e agir direito é dom divino. Praticando o bem, é
sempre Deus em nós e conosco que faz com que o prati-
quemos”. “Deus nos ama tais como seremos por seus
dons: não como somos, por nosso mérito ou demérito”.
109

“Amar a Deus é, de todo, um dom de Deus”.

Perseverar

Precisamos da graça para perseverar até ao fim da


longa jornada pela vida terrena. A graça da perseverança
final é um conjunto que graças atuais, uma série de auxí-
lios divinos que nos guiam e ajudam no caminho, nas en-
cruzilhadas. É um grande dom, diz o Concílio de Trento.
Só Deus dá esse dom, diz o apóstolo (1Cor 1,18 etc.). É
fruto da prece, da oração, diz o Concílio de Orange. Re-
sume a Teologia: não se adquire pelo mérito das boas
obras, mas somente se obtêm por humilde súplica. E essa
súplica, afirma Sto. Afonso com os demais teólogos, é
infalivelmente atendida. Jesus o prometeu: “Tudo quanto
pedirdes a mim, ou ao Pai, em nome, eu o darei” (Jo
14,14).

Natureza

A graça atual é uma qualidade, uma ação que influi e


opera. É obra exclusiva de Deus, uma emanação da natu-
reza divina, à semelhança da graça santificante. Atua so-
bre o intelecto e a vontade. Produz em nós, e conosco a
ação salutar, sendo esta efeito de Deus e do homem, co-
laboração misteriosa da Bondade com a miséria humana.

Origem

“Todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai


das luzes” (Tg 1,17). Desce com predileção sobre os hu-
mildes e pequenos (Tg 4,6, 1Pd 5,5; Mt 11,25).
Desce com prazer sobre os pedintes: “Se alguém
tem falta de sabedoria, e quem não a tem? Peça-a a Deus
que a dá com generosidade e sem regatear” (Tg 1,5).
110

Jorra em abundância do Cristo visível, presente en-


tre nós, que é a Igreja e suas sete fontes sagradas.
Como reza uma prece medieval do século 15, Jesus
interpela a alma: “O que tu não és, eu o sou. O que tu não
fazes, eu faço. O que tu não podes, eu o posso: sou Oni-
potente”.
“O Espírito e a Esposa dizem: vem. Quem tiver se-
de, venha. Quem quiser, venha buscar a água viva, de
graça”(Ap 22,17).

TRANSFORMAÇÃO EM DEUS

Tauler

“Ó alma, apressa-te a voltar para casa. Esqueçe tu-


do quanto viste e ouviste cá fora. Vais encontrar Deus lá
dentro. Desocupa o lugar. Onde não mais estás, aí Deus
está”.

Sta.Gema Galgani

Exclama num êxtase: “Ó Jesus eu te sinto. Sinto teu


sangue correr pelas minhas veias. Como estou contente!
Agora posso descansar junto ao teu coração. Agora, que-
rendo encontrar-te, procuro-te no silêncio do meu cora-
ção. Oh! sinto-te em meu coração. Sinto-te tão vivo”.

Sta.Margarida Alacoque

“Eis a veste da inocência com a qual adorno tua al-


ma, a fim de que vivas somente a vida de um homem-
Deus. Pois sou eu tua vida e tu não viveras mais, senão
em mim e por mim.”
111

Matilde de Helfta

“Pedi a Jesus uma lembrança perene. Jesus res-


ponde: “Dou-te meus olhos para que olhes tudo por eles.
Dou-te meus ouvidos para que compreendas tudo que
ouves. Dou-te minha boca para que faças passar por ela
todas as tuas palavras, preces e cantos. Dou-te meu co-
ração a fim de que penses por ele, e por ele me ames a
mim, e todas as coisas por causa de mim.” E parecia-me
ver com os olhos de Deus; ouvir com seus ouvidos; falar
com sua boca. E parecia-me não ter outro coração, senão
o de Deus”.

Droste -Vischering

Jesus: “Ponha-me no lugar de tua vontade; então


quando trabalhas, eu trabalho por ti... para o futuro não
terás mais vontade própria. A minha vontade será a tua.
Quando trabalhas, eu trabalho por ti. Quando tomas re-
pouso, eu descanso em ti. Eu vejo com teus olhos; traba-
lho com tuas mãos; falo com tua boca; oro por ti; e visto
que meu maior desejo foi sofrer, sofrerei ainda em ti e por
ti; contínuo assim minha paixão e aplico-a às almas, so-
frendo na pessoa dos meus eleitos”.

Sta.Catarina de Sena

Bebera água com o pus de uma doente. Jesus re-


compensou-a, deixando que bebesse na chaga do seu
coração. Em seguida, Jesus tirou-lhe o coração, e deixou-
a alguns dias sem coração. Quando voltou: “Dou-te, ago-
ra, o meu em troca.” E uma cicatriz no peito ficou até a
morte.
Catarina comenta: “Não pude mais dizer: recomen-
do-te meu coração ó Jesus.” Interpela o confessor, Pe.
112

Raimundo: “Não estás vendo; não sou mais aquela que


fui; estou mudada em outra pessoa, e se soubesses o que
sinto.” Uma “outra” transformação dera-se anos antes:
Raimundo estava ainda duvidando das visões. Subita-
mente o rosto de Catarina se transforma no rosto de um
homem, barbudo, olhando-o com severidade. “Quem está
me olhando?” exclamou assustado. “Aquele que existe”.

Teresa d’Avila

Engenhosa é a palavra de Sta. Teresa comparando


a alma com o bicho-da-seda. “Vive comendo, dia e noite
sem parar, a folhagem verde. Depois, encasula-se e sur-
ge a borboleta, a adejar de flor em flor, alimentando-se
então apenas com o néctar das flores. Que contraste!”
“Ele começa a lavrar a seda e construir a casa onde
há de morrer. Para nós, esta casa é Cristo. Parece-me ter
lido que nossa vida está escondida em Cristo (Cl 3,3).
Que sua Majestade mesma seja nossa morada, e
que nós fabriquemos (quer dizer: ele vai juntar nossos
trabalhinhos com os grandes trabalhos que padeceu e
fazer de tudo uma só coisa...) [sic]
Demo-nos pressa em tecer esse casulinho. Morra,
morra este verme...
Sai uma mariposinha branca, quão transformada!...
A mesma alma não se conhece mais. Que diferença entre
um feio verme e uma branca mariposinha...
Nasceram-lhe asas, não se contenta mais ir passo a
passo, pode voar. Tudo quanto faz por Deus, julga por
ninharia. Não acha demais o que passaram os santos...
Tudo a cansa depois que experimentou que o verdadeiro
descanso não vem das criaturas...
Que grandeza de Deus! Ainda há poucos anos, e
quiçá há poucos dias, andava esta alma que não se lem-
brava senão de si. O Senhor a fez entrar na adega dos
113

seus vinhos, e ordenou nela a caridade. O Senhor quer


que saia dali marcada com o selo divino. Basta que a cera
esteja mole, e é só ficar quieta e consentir. Ó bondade de
Deus, que tudo há de ser a vossa custa. Só quereis nossa
vontade, e não encontrar impedimento na cera.” (Morada
5,2)
“Tudo quanto se pode entender, fica a alma, ou o
seu espírito, feita uma coisa só com Deus...
Como duas velas de cera perfeitamente unidas dão
uma só luz...
Vê-se claramente ser Deus quem dá a vida à alma.
Sente-o muito bem a alma e exclama: ó vida de minha
vida e sustento que me sustentas.” (Morada 7,2)
Vivendo na presença da Santíssima. Trindade “esta-
va espantada de ver tão grande Majestade em coisa tão
baixa como minha alma, e ouvi: não és baixa, filha, pois
és feita como minha imagem” (Relaciones (Bac), 11)
“Veio-me a idéia de uma esponja embebida e satu-
rada de água: assim se me afigura minha alma repleta da
divindade... Também entendi: “Não trabalhes para me
teres a mim encerrado em ti, senão para te encerrares em
mim” (Relaciones 18)

Gertrudes Maria

Jesus: “Não quero mais que te ocupes contigo. Que-


ro que te esqueças, por completo. Deves ter um só pen-
samento: Deus e as almas. Deves ser como cera mole em
minhas mãos. Não quero mais que procures consolação.
Nem que a desejes. Darei consolo quando bem me pare-
cer.
Como na Eucaristia de pão e vinho só ficam as apa-
rências, assim é preciso que em ti nada mais sobre do
que é natural; que tudo seja divino.”
“É a presença de meu Filho que me atrai para ti.”
114

“Nosso Senhor dilatou minha alma para poder pas-


sear dentro, à vontade. Minha alma, de repente, de pe-
quenina tornou-se grande, larga. Vi-a como um espaço
imenso no qual Nosso Senhor caminhava. Ele, o Infinito,
parecia estar à vontade naquele canto estreito, pobre e
escuro.”
Jesus: “Devemos ser como dois gêmeos tão pareci-
dos que se julgue sempre ver a mim, ouvir falar a mim...
Quando tiver tristezas, tu as terás também. Quando tiver
alegrias, tu as sentirás também.
Como prenda de nossa união (transformante) dou-te
meu coração e minha cruz. Meu coração representa a
união da tua alma com minha natureza divina, com o Ver-
bo Eterno. Minha cruz representa a união de tua alma
com minha natureza humana, com o Verbo Encarnado.
Todos os meus bens são teus. Minha pessoa é tua.
Somos uma coisa só. Não temos mais que uma vontade.
Somos proprietários um do outro. Não temos mais que um
coração para amar o Pai e o Espírito Santo. Um só cora-
ção para amar Maria. Um só coração para amar os anjos,
os santos. Um só coração para amar as almas do purga-
tório. Um só coração para amar as almas que estão sobre
a terra e todas que ainda virão. Nós daremos a vida às
almas.”
“A imensidade de Deus é aquele palácio vasto, do
qual não se consegue sair. Viro-me para todos os lados, e
encontro por toda parte Deus. Ele me envolve de todos os
lados.
O Espírito Santo vai encher todos os vazios de tua
vida.
O Espírito Santo vai fazer crescer Jesus em ti”.

MARIE DES VALLÉES

O processo de divinização foi ilustrado em Marie des


115

Vallées (1590-1656) numa série de visões, através de


figuras e símbolos significativos, que se destacam na ha-
giografia usual por sua originalidade digna dos Fioretti;
notável também o bom humor de Jesus.
E tudo numa linguagem pitoresca, volta e meia lin-
guagem santamente maliciosa, de subentendidos saboro-
sos. Espírito fino, pensadora original, esta mulher do po-
vo. “Águia” foi seu apelido popular.
Esse processo divinizante pertence à segunda me-
tade de sua vida; levou anos, culminou na morte mística
em 1649, mas só terminou em 1654, com a “morte” dos
sentidos.

“Procurando-vos, Senhor, eu me perdi a mim”, quei-


xa-se. Jesus responde. “Ora, e perdeu vantagens na tro-
ca, se eu estou em teu lugar?”
Outro dia, Maria não se achando bem, N. Senhor lhe
diz: “Vou ajudar a te achar. Vamos ter com Sto. Agosti-
nho. Ele te mostrará o caminho. Escuta, ele diz: se amar-
des a terra, sereis terra; se amardes o céu, sereis céu, se
amardes Deus...” Jesus não terminou, mas saiu rindo,
dizendo: “Alô, te encontraste?”

Num excesso extático ela apostrofa os quatro ele-


mentos que (segundo a medicina da época) compõem o
corpo humano.
“Retira-se, ó terra porque nós não queremos outra
terra que a santa humanidade de Nosso Senhor. Retira-
te, ó água, só queremos as águas da sabedoria eterna.
Retira-te ó ar, só queremos o doce zéfiro do Espírito San-
to. Retira-se também, ó fogo, pois só queremos os fogos
do Espírito Santo e do amor divino”.
Mas, antes de os quatro elementos da física deso-
cuparem a área, já havia começado o êxodo de dentro. As
faculdades mentais, narra ela, uma por uma caíram doen-
116

tes, agonizaram e morreram.


“Primeiro o espírito, depois a memória, depois o inte-
lecto. Antes de ir embora vieram dizer adeus à vontade
que é a sua rainha (e patroa) dizendo que iriam ver o Es-
poso. Depois partiu também a vontade. E não os vi mais;
nem sei onde estão”.
“Querendo lembrar-me de alguma coisa, é Nosso
Senhor que responde: pois a memória se transformou
nele”.

Essas parábolas e simbolismos lembram curiosa-


mente Hb 4,12: o Verbo de Deus, mais cortantes que es-
pada de dois gumes, penetra até a medula e divide alma
e espírito. A teologia, ao interpretar, vai pensar Hb 4,12
como a misteriosa ação dos sete dons do Espírito Santo,
os quais, a partir de certo grau de fervor, “suplantam” as
virtudes e tomam a iniciativa na ação espiritual. Ultrapas-
sando a razão, iluminada pela fé, as almas agem sob im-
pulso superior.
“Foram para o Nada; é a casa deles”
“Os sentidos internos entraram também em agonia,
por sete anos. Os sentidos externos também, por sua vez,
foram para sua casa, e se perderam no mar infinito da
divindade”. E no final, Jesus mesmo aponta Gl 2,20 (“não
vivo mais...”), visto que São Paulo também sentiu em si
essa dupla personalidade: a sua antiga, humana, embora
só restassem dela sombras e contornos emaciados, e a
nova realidade, o Cristo e sua presença.

Quando o espírito ia partir, Jesus perguntou-lhe se


não queria dizer adeus. “Só faltava essa”, respondeu o
espírito: “Meu adeus será: factus obediens usque ad mor-
tem. Aliás, só faço o que o Senhor já fez primeiro”.
“Teu espírito sou eu, lhe diz Jesus. Ou ele é minha
veste. Pois estou revestido do teu espírito, que morreu,
117

como de uma roupa que não tem sentimento. Teus senti-


dos também já estão mortos e os meus sentidos vestiram-
se com eles”.
Outra vez: “Eu sou tudo, e tu nada mais és que a
roupa que uso. A roupa não tem nenhum movimento afora
do que lhe dá a pessoa que a veste”.

Certa vez Jesus pergunta: “Se teu espírito voltasse,


gostarias dele?” “Não”. “E por que não?” “Porque não
consigo mais amá-lo.” E donde lhe vem isso? “Porque
amo só a Deus”.
Mas certo dia o espírito voltou para uma visita rápi-
da, e ela gostou dele. Jesus estranhou. “É que ele veio de
todo mudado: tem voz tão agradável. Jesus interrompeu:
“Essa voz não é dele, é minha. E tudo o mais que ele tem,
é meu. Teu espírito é somente meu revestimento exter-
no.”

Festa de todos os Santos de 1649. Assistimos ao di-


álogo extático:
Jesus: “Quem és tu?”
Maria, “Não sei nada”.
Jesus: “Mas fala, fala”
— “Sou a mais miserável das criaturas”.
Jesus: “Não é bem assim...”
E houve uma reviravolta atrás dos bastidores e ei-la
a gritar: “Verbum caro factum est”.
Jesus: “Dize-o em francês!”
Maria: O Verbo revestiu-se da minha carne e é ele
que sofre nela.
Jesus insiste: “Dize a esses santos convidados da
festa: Em que estado te achas?
— “Não sei”.
— Dize-o comigo. Eloi, Eloi lama sabactani (Meu
Deus, por que me abandonaste?).
118

Eis o estado em que te encontras.

Tempos depois lhe diz Nosso Senhor: “As almas de-


vem ser aniquiladas, a tal ponto que nada mais reste de-
las. Tão pouco quanto resta do pão numa hóstia consa-
grada”.
Certo dia, Jesus perguntou: “O que minha esposa
me dá de presente?” “Meu coração”. Reponde Jesus:
“Nem tens mais; pois é o meu. Tu te pareces a um cam-
ponês a dizer ao rei: Majestade, ofereço-lhe seu palácio”.
Maria guardou a lição. Outro dia, Jesus pergunta:
“Onde está teu coração?” “Não sei de nada; nem sei se
tenho um”. Jesus: “Vou te mostrar”. E tira seu próprio co-
ração do peito: “Eis o teu coração. É também da minha
Mãe. É também o teu. Eu, minha Mãe e tu temos um só
coração: é este”.

Uma parábola pós-evangélica, de Jesus: “Um cam-


ponês vende sua cabana a um rei, e este faz construir no
lugar um castelo esplêndido. E o camponês procura em
vão, sua antiga palhoça.
E dizem-lhe: ela virou castelo.

Certo dia, Jesus explica: “Os santos, estando todos


deificados, não são senão amor divino, de modo que seu
nome é amor divino, e não Pedro e Paulo. É este o nome
que eu lhes dou.”

A VIA DE DEUS

Quatro reflexões complementares sobre a Via de


Deus. Meditações de ordem prática sobre o encontro com
Deus.
119

1. SANTIDADE CRISTÃ

“O que faz o fundo da minha tristeza – creio que nin-


guém o suspeita – é que eu queria ser santo. É tudo...
Sinto, de verdade, que eu passo sem cessar à margem
daquele que eu queria ser.
Aquele, que eu queria ser, continua existindo. Está lá
e era triste, a sua tristeza é minha” (JULIEN GREEN, Diário,
I, 390)
Só Deus é santo. E a nossa santidade é imitação da
sua, ou melhor: é participação, mais ou menos bem suce-
dida. A santidade, a nossa, é dom de Deus, fruto da bon-
dade divina e de nossa prece.
A criatura deve tornar-se santa pela santidade de
Jesus.
Sta. Gertrudes, a santa litúrgica e do mistério pascal,
julgando-se mal preparada para a banquete divino, vê o
Filho de Deus aproximar-se. Ele lava-lhe as mãos, em
remissão dos pecados. Depois tira todo o seu ornato, co-
lares, braceletes, anéis e enfeita com eles sua esposa.
Revestida assim, com os méritos do Filho de Deus, Jesus
ordena-lhe andar com garbo, com elegância, como com-
pete a uma princesa do céu, i.é., com plena confiança nos
méritos do divino Salvador.
Diz a Escritura: “De sua plenitude recebemos todos
nós, graça sobre graça” (Jo 1,16).
Há a tendência de acentuar o lado moral: de se con-
siderar a perfeição uma soma de virtudes, um conjunto de
atos e afetos. É o lado humano. Constitui as primeiras
letras no campo espiritual. É o andar térreo. A escolástica,
inspirada pela filosofia, sintetizou tudo nas quatro virtudes
cardeais: prudência, justiça e caridade social, fortaleza e
temperança.
Mas a santidade é teológica. Não consiste em pri-
meira linha em atos e afetos, mas é existência vital. É u-
120

nião com Deus, é participação vital da santidade divina.


Impõe-se, portanto, uma metodologia própria. Daí as su-
gestões que seguem.

Deus é santidade substancial. E santo é o ser hu-


mano que mais participa desta santidade de Deus. Impor-
ta pois abrirmos nossa alma, de par em par, a fim de que
a santidade possa invadir-nos, penetrar-nos. É mister criar
espaço onde a vida divina possa domiciliar-se na nossa
alma. É o amor que faz nosso coração derreter-se, e li-
quefeito ele se esvazia e deixa derramar-se nele a santi-
dade divina. Desocupa, também tu, o lugar para Deus
encher o vazio. O amor faz cumprir os mandamentos do
Pai, segundo Jo 15,9. E não apenas os dez, mas também
os mínimos desejos e vontades.
A propósito, a pitoresca frase de Tauler, traduzida
em bom português: “O teu tu está demais. Desocupa, dá
lugar a Deus”.
Pois aí deve começar o trabalho ascético: criar es-
paço vazio para Deus entrar. E, mais uma vez, projeta-se
o papel primordial do amor de Deus, na vida do cristão. O
amor divino substitue-se pouco a pouco à vontade huma-
na, ao afeto humano e às demais peças do inventário.
“Até que Cristo se forme em nós” (Gl 4.19). Até que se
veja “Cristo em tudo e em todos” (Cl 3,11). E Cristo nos
conduz ao Pai “para que Deus seja tudo em todos” (1Cor
15,29).
Jesus dera a Sta. Gertrudes a graça da união místi-
ca e Deus Pai confirma: “Agora posso dizer de ti como no
monte Tabor: Este é meu filho bem-amado em quem pus
a minha complacência”.
Cristo enche com sua santidade toda a Igreja. “Nos-
sas boas obras são dons de Deus e não produto do mero
esforço humano... Porque somos obra sua, criados em
Jesus Cristo para realizar obras boas que Deus preparou
121

de antemão, segundo Ef 2,10 (VONIER, Nova e eterna ali-


ança, 51)
“No cristianismo, toda a perfeição moral consiste na
perfeita união do homem com Deus e, em Deus, com seu
próximo. Realizada esta união, atingiu a perfeição. Cum-
prindo todos os deveres, mas negligenciando o amor de
Deus, passamos vida inútil, estéril” (VONIER, 107)
“Toda a nossa vida moral deve ser fruto da árvore
divina que é Cristo... uvas da videira divina (Jo 15,1). As
boas obras da nossa vida cotidiana são operações for-
mais do Corpo místico de Cristo” (Daí a necessidade da
motivação sobrenatural. VONIER 190)
O mesmo vale para toda oração, não só para a litur-
gia. Ela é um dom de Deus. É o Espírito Santo que reza
na Igreja, no coração dos fiéis (Rm 8,26).
A graça não destrói a natureza. Não destrói a obra
de Deus. Mas Jesus nos insinua como dela tirar o máximo
proveito, usando-a como ele a usou na cruz.
“A graça não destrói a natureza, escreve Carré OP,
mas muitas vezes esquece-se até que ponto ela a trans-
forma, retifica, modifica, alarga, até achar-se à vontade”
No rosto de todos os santos, desde Sto. Inácio mártir
até Vianey e Sta. Teresinha, “atrás de seus rostos sempre
aparece, em filigrana, o mesmo rosto” (Carré).
Feliz a sentença de uma jovem carmelita: “Não de-
sejo ser pobre, mas desejo ser Ele”.

Portanto:

1.Nossa santidade é Deus, sua vida divina. É a única


santidade que interessa. Essa nossa vida, apesar de nos
ser tão íntima, é mistério que só a revelação da Nova Ali-
ança, o Filho Unigênito nos contou (Jo 1,18). Ele nos ofe-
receu um segundo nascimento (Jo 1,13), um renascimen-
to do alto, pelo Espírito (Jo 3,3). A contrapartida é a árvo-
122

re genealógica da humanidade adamítica carregando ta-


ras de milênios. Opte pelo renascimento, pelo enxerto da
graça. Portanto, impossível conquistar essa santidade, à
força de virtudes, Deus quer nô-la dar de presente, gratui-
tamente. É só pedir com fé e perseverança (Tg 1,17; 4,6;
Mt 7,7). É só jogar fora do coração tudo quanto ponha
obstáculos à entrada de Deus.

2. Agir nesse nível superior. Agir como filhos de


Deus. Porque “o homem natural não compreende o que é
do Espírito de Deus. Julga-o como estultícia” (1Cor 2,14);
enquanto o homem espiritual julga tudo segundo o Espíri-
to de Deus (2,16). Quer nos parecer que todos os confli-
tos, divergências e problemas da humanidade se originam
dessa diferença, desse ponto de vista divergente. Cristo é
feito marco divisor. Uns querem continuar a linha adamíti-
ca. Outros querem seguir o Homem Novo.
Um acordo, um compromisso, é impossível. Porque
essa divergência de motivação tem sua repercussão em
cada ato, em cada manifestação do espírito e da vida hu-
mana. No entanto, deve valer a Escritura: “Com efeito,
todos aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus,
são filhos de Deus” (Rm 8,14).
Quanto mais fiel for a alma à voz do Espírito de
Deus, tanto mais ela se aproxima de Deus, até que se
realize em verdade a palavra paulina: “Já não sou eu que
vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).
A vida divina é conhecer e amar. A graça santificante
nos faz conhecer e amar a Deus. Conhecer, por enquan-
to, pela fé que não atinge seu objetivo diretamente, mas
“representando-o” em si próprio. O amor, porém, lança-se
fora de si, ao encontro do Amado: assim, pelo amor, atin-
gimos Deus diretamente, desde agora.
E vale vice-versa. Um ser criado é bom na medida
em que é amado por Deus, e isso porque, nosso amor por
123

Deus participa do amor divino. É parte, parcela, faísca do


Amor eterno. Este amor é atuante, operante, transforman-
te. Vem como um incêndio, como labaredas de fogo. As
suas exigências na vida dos santos dão testemunho.
As ações de um filho de Deus têm o apreço e o a-
grado de Deus.
A teologia diz: tem um mérito. Duas pessoas que
praticam a mesma virtude, por exemplo a de dar esmola,
estando uma em estado de graça e a outra em estado de
pecado, praticam duas ações bem diferentes; apenas a
aparência externa é igual.

3. Princípio: Somos incapazes de adquirir essa san-


tidade. Seria enganar as almas deixá-las crer que somen-
te a boa vontade e a energia bastam para torná-las san-
tas. A nossa concupiscência dura até o último suspiro, e
está sempre alerta para combater, para recusar o nosso
amor ao Infinito. Amar o infinito é para ela o absurdo. Só
nos resta repetir o que Jesus nos ensinou: “Sem mim,
nada podeis fazer” (Jo 15,1ss); “Ninguém pode vir a Mim,
se o Pai não o atrair” (Jo 6,44).
Nossa santificação é obra de Deus. A nossa colabo-
ração não é à meia, nem à terça. Talvez seja um 0,0001;
Deus sabe. Talvez, nossa única contribuição seja a de
aceitar e deixar Deus agir em nós, à vontade. Talvez, seja
tudo, fruto da oração: pedir e bater à porta (Mt 7,7). E tu-
do o mais, é dom e obra de Deus. Mistério da sabedoria
eterna, da bondade imensa, da misericórdia sem limites
do Amor infinito. Convém reconhecer que somos “nulida-
des”. Convém concordar com o Cura d’Ars em nos figu-
rarmos como um “zero” depois do número “um”. Só este
dá valor.
Tendo o “um” na frente, é até vantagem possuir nu-
merosas nulidades a acrescentar.
124

2. “INFÂNCIA ESPIRITUAL”

Esta nossa situação, no plano salvífico, denominou-


se, “Infância Espiritual”, atribuindo-se o vocábulo a Sta.
Teresinha. Mas o certo é que ela nunca usou esse termo;
ele é de Madre Inês (mesmo na edição de Novíssima Ver-
ba), ele não é original. Teresinha fala de “seu método”, de
“seu pequeno caminho”. Mas a mensagem doutrinal fica
igual. Criança pequena, esforça-se em vão, com suas
perninhas curtas, por subir a escada do céu. E todo seu
esforço será inútil, até Cristo descer do alto da escada,
tomá-la em seus braços e carregá-la até em cima. É o
caso de todos. Não é apenas um dos vários métodos de
santificação. É válido para todos. É a impossibilidade me-
tafísica.
Meses antes de morrer, a santa resumiu sua “men-
sagem” (NV 6-8-1897): “Permanecer pequeno é reconhe-
cer o seu nada e esperar tudo de Deus. É não se afligir
demais com as próprias faltas. Enfim, não pretender fazer
fortuna (espiritual: acumular méritos). Não se inquietar por
coisa alguma”.
“Mesmo na casa do pobre, a criança enquanto é pe-
quena, recebe tudo o que necessita. Mas logo que chega
à maioridade, seu pai lhe diz: “agora, vai trabalhar; já po-
des cuidar de ti”. Precisamente a fim de jamais ouvir isto
eu não quis crescer, sentindo-me incapaz de ganhar mi-
nha vida, a vida eterna do céu. Permaneci sempre peque-
na, sem outra preocupação, que a de recolher flores de
amor e de sacrifícios e oferecê-las a Deus para lhe dar
prazer”.
“Ser pequeno, significa também, não atribuir a si
mesmo as virtudes que se praticam, julgando-se capaz de
algo, mas sim reconhecer que Deus coloca este tesouro
de virtudes na mão do filhinho, para dele se servir quando
precisar. Mas o tesouro sempre pertence a Deus”.
125

“Ser pequeno, consiste, enfim, em não desanimar


com as próprias faltas, pois as crianças caem muito; são
porém pequenas demais para se machucar”.

Resumindo o conteúdo teológico:


1. Somos incapazes de santificar-nos com os recur-
sos naturais: boa vontade e esforço.
2. As virtudes que temos são dons de Deus e não
conquista nossa.
3. Nem as nossas fraquezas, nem as nossas faltas
nos devem desanimar, pois sabemos, e Jesus sabe me-
lhor que nós, que sem Ele, “não vai”. Mas sabemos tam-
bém que a bondade, a liberalidade, a misericórdia de
Deus não tem limites; são infinitas com Ele mesmo. E as-
sim, toda honra e toda glória cabe a Deus. Mentirosa a
criatura que se julga algo. Autenticidade em tudo e honra
a quem de direito.
Eis o segredo do sucesso espiritual. A essa criatura
Deus pode dar de olhos fechados suas graças em profu-
são. E Deus sente-se impelido a dar-se de todo, pela con-
fiança, pela fé em seu amor e em sua bondade. É, como
foi dito, pegar a Deus pelo seu lado fraco, pelo carinho
confiante. E o amor infinito faz descer sobre esta criatura
um oceano que inunda e afoga. Afoga toda a nossa misé-
ria.
Purifica toda a nossa impureza. Inflama o nosso co-
ração. Assim, “Deus é tudo em todos” ( 1Cor 15,29).

Sobre esta base do primado da graça de Deus deve-


se construir a espiritualidade cristã. Daí sua definição ge-
ral de santidade: “Santidade não consiste em tal ou tal
prática. Santidade consiste numa disposição de coração,
que nos faz humildes e pequenos nos braços de Deus,
conscientes de nossa fraqueza, mas confiantes até à au-
dácia na sua bondade de Pai” (NV. 3-8-1897)
126

Não se trata de um quietismo barato, “de um dolce


far niente” na vida espiritual. Não, explica a santa à Ir.
Genoveva (Celina): “É preciso fazer tudo o que está em
nosso poder. Dar sem medida, renunciar-nos constante-
mente; numa palavra, provar nosso amor por todas as
boas obras ao nosso alcance. Mas na verdade, como tudo
isso é pouca coisa!... e quando tivermos feito tudo quanto
cremos dever fazer, é necessário confessar que somos
“servos inúteis” (Lc 17,10), esperando, entretanto, que
Deus nos dê de graça tudo o que desejamos. Eis a espe-
rança de todas as pequenas almas que “correm” na vida
da infância; digo que correm, e não que “repousam” (Con-
selhos 63).
Santidade não é sentir-se disposto aos atos mais he-
róicos de virtude. Não é realizar obras heróicas de aposto-
lado. Não consiste em mortificações físicas sobre-
humanas. Comer só um pedaço de pão por dia durante
quarenta anos, dormir diariamente apenas duas horas, e
em cima de uma cadeira, e gastar as restantes vinte e
duas horas do dia ininterruptamente cuidando dos doen-
tes num grande hospital, e isto até a idade de 70 anos...
Impossível, dentro dos recursos humanos. É Deus quem
realiza estas virtudes heróicas.
Santidade é amar a Deus. E nossa tarefa é provar a
Jesus, por todos os pequeninos meios ao nosso alcance,
este nosso amor por ele: em pensamentos, em palavras e
em pequenos sacrifícios, essas pequenas renúncias do
amor próprio na vida cotidiana. Tudo com uma confiança
grandiosa e audácia amorosa na bondade de Deus. “O
caminho da infância espiritual (o termo é de madre Inês) é
o caminho da confiança e do abandono total. Quero ensi-
nar-vos os meios singelos que tão bom resultado têm da-
do... Obsequiar Jesus com as flores dos pequenos sacrifí-
cios... ganhá-lo pelo carinho... Foi assim que o conquistei
e por isto serei tão bem recebida no céu” (NV. 17.8.1897)
127

Um precioso texto, numa carta a Celina, já Sóror


Genoveva: “Desde que Jesus nos vê bem convencidos do
nosso nada, ele nos estende a mão. Mas se nós tentamos
de novo fazer algo de grande, mesmo sob pretexto de
zelo, o bom Jesus nos deixa sozinhas. Corramos ao últi-
mo lugar; aí ninguém nô-lo virá disputar” (Carta: 215).
“Não terei nada para apresentar ao Senhor, na hora
da morte. Terei as mãos completamente vazias”, lamen-
tava-se sua irmã. Responde: “Encontro-me nas mesmas
condições. E é justamente isto que me alegra. Porque,
não tendo nada (como o servo inútil), receberei tudo de
Deus”; “Imagino que Nosso Senhor se verá em apuros
comigo, pois não tenho obra alguma. Por conseguinte,
não poderá premiar-me segundo minhas obras”... “Tenho
muitas fraquezas; mas não me aperto com isto. Digo de
mim para mim: ai de mim, ainda estou parada no primeiro
degrau, como sempre. Sem tristeza, cheia de paz. É tão
gostoso reconhecer-se fraca e pequena”... “A esperança
cega que tenho em sua misericórdia, eis meu único tesou-
ro”...
“Antigamente, exigiam-se vítimas puras e sem man-
cha para satisfazer a justiça divina. Mas agora, vale a lei
do amor e o amor escolheu para holocausto a mim, criatu-
ra fraca e imperfeita. Porque o amor se abaixa até ao na-
da e transforma em fogo este nada... Ó Jesus, sou pe-
quenina demais para fazer grandes coisas. Minha loucura
consiste em esperar que teu amor me aceita como víti-
ma... Ó meu bem-amado, teu passarinho ficará sem for-
ças e sem asas todo o tempo que quiseres. Mas sempre
com os olhos fixos em Ti... Virás buscar-me e mergulhar-
me no ardente abismo do amor”.
Concluímos, com a carta 176: “Só o desejo de ser
vítima basta; mas é mister consentir em ficar sempre po-
bre e sem força. Fiquemos bem longe de tudo o que bri-
lha. Amemos nossa pequenez. Amemos não sentir nada.
128

Assim, seremos pobres de espírito e Jesus virá buscar-


nos e transformar-nos em chama de amor”.

3. HUMILDADE

O que Sta. Teresinha ensinou, sob a figura alegórica


da Infância Espiritual, “meu pequeno caminho”, ensina-o a
teologia técnica no tratado da humildade.
Sua importância fundamental é inconteste entre os
teólogos espirituais. E, dizem, será mister retornar sempre
a este assunto, pois a humildade é o alicerce da perfeição
e da santidade. A propósito o aviso chistoso de Sta. Tere-
sa d’Ávila: “Se o nosso alicerce é fraco, Jesus então não
poderá erguer um edifício muito alto; senão, dá tudo no
chão” (Morada 7,4,8)

Há duas humildades. A primeira é psicológica e refe-


re-se à nossa ambientação social. Não há razão alguma
para a criatura humana fazer pouco caso de seu próximo,
ou até mesmo desprezá-lo, por ter recebido dez talentos
enquanto ele apenas dois. “Porque, quem é que distingue
(declarando-te superior aos outros)? E que tens tu, que
não recebeste? Mas, se o recebeste, porque te vanglorias
como se o não tivesse recebido?” (1Cor 4,7). Se o ho-
múnculo abusa dos talentos que recebeu emprestado pa-
ra desprezar ou desestimar seu irmão, é o cúmulo do ab-
surdo. E todas as torneiras de graças do alto fecham-se
automaticamente, segundo a parábola evangélica (Mt
18,32).

O segundo grau da humildade é o mais importante.


Queria chamá-lo de humildade ontológica. Ou com a pa-
lavra da moda: “existencial”. Refere-se à nossa situação
perante Deus. Como chegar a Deus, nosso destino eter-
no? Temos força e capacidade? A humildade existencial
129

responde com um não. Humildade que é expressão da


verdade, diz Sta. Teresa. Não, porque o destino sobrena-
tural, que a bondade de Deus nos deu, transcende as for-
ças naturais de modo absoluto.
Também não por termos, na opinião de escolas teo-
lógicas, sofrido com pecado original um enfraquecimento
e debilitação das forças naturais da vontade. Mas sim-
plesmente pelo fato de sermos criaturas. Vale o mesmo
para os anjos. A primeira opção por Deus e sua renova-
ção durante os anos da vida humana, a quem cabe sua
realização? A heresia responde: Deus marca, escolhe
quem ele quer, e abandona os demais ao adversário. A
Escritura diz que Deus quer a salvação de todos, sem
exceção; que Deus inflige a condenação eterna, a contra-
gosto, àqueles que não querem optar por ele. A respon-
sabilidade final cabe, portanto, à criatura. E, portanto, ela
tem força suficiente para realizar a opção por Deus. Se
não a realiza, é porque não quer. É o mistério. Combinar
duas verdades opostas e aparentemente contraditórias: a
força do homem e sua miséria. Sua capacidade e sua in-
suficiência. A teologia tentou explicar e entender o pro-
cesso da nossa adesão a Deus. Não o conseguiu. Em Rm
9,11ss, o apóstolo Paulo tentou explicar a apostasia de
Israel negando o Messias, e resume tudo em Rm 9,16.
Não depende de querer ou de correr, mas depende da
misericórdia de Deus. Pode-se entender que o texto se
refere à graça externa de pertencer ao povo eleito ou não.
Mas a opção individual por Deus, dependeria bem de cor-
rer também um pouco.
A solução é a humildade. Não temos forças suficien-
tes para praticar o bem, principalmente a longo prazo,
para aderir a Deus sempre e a todo o transe.
Temos, sim, “força” ilimitada para recusar, para dizer
não, para não aceitar. Incapazes todavia de agir. Mas,
afinal, temos forças de sobra ao nosso dispor: é só pedir o
130

auxílio de Deus. E, como diz Sto. Afonso para consolo


nosso: Deus dá a todos, em superabundância a graça da
oração, a graça de pedir. “Pedi e recebereis”. É bem ver-
dade: não adianta correr, mas adianta recorrer à miseri-
córdia de Deus.
Possuir Deus na eternidade é dom da Misericórdia.
Deus quer nossas virtudes, nossa fé, nossa opção por
Deus sempre renovada até morrer. Deus quer dar-nos
tudo isto de presente, de graça: é só pedir. Humilhar-se,
reconhecer a fraqueza e pedir, rezar.
A solução do mistério está, portanto, em Mt 7,7-10. e
em Jo 14;16,23. Está na humildade de coração.

Para terminar, o testemunho carismático.


“A pobrezinha (da alma), por muito que se esforce,
não consegue fazer tudo como quisera. Nada pode sem
que lhe dêem. E sua maior riqueza é ficar cada vez mais
devedora, quanto mais serve a Deus. Quisera amortizar
um pouco a sua dívida. Mas, façamos todo o possível.
Não temos a oferecer senão o que recebemos. Resta re-
conhecer nosso nada, e fazer o que está em nossas
mãos: dar a nossa vontade... Só tem algum poder a hu-
mildade, não a adquirida pelo entendimento, mas a infusa
por Deus” (STA. TERESA, Caminho, 32,13)
Passando por forte prova de aridez, aparece-lhe Je-
sus: “Estou sempre aqui perto. Mas quis que tu visses o
pouco que vales sem mim” (Relationes (BAC) 26).
“Uma vez, estava considerando qual seria a razão
de Nosso Senhor ser tão amigo desta virtude da humilda-
de. E veio-me, de repente, esta resposta: Deus é a Ver-
dade suma, e ser humilde é andar na verdade. Por nós
mesmos não temos bem algum. Somos miséria e nada.
Quem não compreende isto, anda na mentira” (Moradas
6,10,7)
131

4. ESPÍRITO SANTO

Onde buscar auxílio para tão grande empresa de


nossa santificação? Em Deus, no Espírito Santo, pedindo-
lhe para repetir o milagre de Jerusalém, e descer de novo
sobre a terra como furacão pentecostal. Seus sete dons
são fogo, labaredas chamejantes. Seus dons são um
vendaval que varre o mundo, e o arrasta consigo para o
alto. São sete motores a jacto.
Bem pertinente é a crítica ferina de Feuerbach e de
Renan sobre a terceira pessoa da Trindade, tão esqueci-
da pela cristandade; sem adoradores e sem amadores,
feito uma fabulosa alegoria poética.
E no entanto, é Ele, o centro, o foco e o coração da
vida sobrenatural. É Ele a renovação espiritual. Faz florir
os galhos secos da Igreja.
Por que a média da cristandade é de tamanho tão
pequeno, liluput? Débil demais para as tarefas agiganta-
das? Falta a coragem para carregar a cruz de Cristo. Fal-
ta a coragem para subir a montanha das “bem-
aventuranças”. Falta o sopro do Espírito. Falta o dom do
alto.
Pedi e recebereis “Perseveravam unânimes na ora-
ção com Maria, a Mãe de Jesus” (At. 1,14).
O Espírito Santo é fruto e expressão do amor entre o
Pai e o Filho. É o amor feito pessoa. É o amor incriado
que inflama a vida íntima de Deus.
E é o amor-irradiação, que projeta os raios do amor
divino sobre a criatura: ilumina, aquece, abrasa, enrique-
ce. Sua missão específica é: comunicar, transmitir, infun-
dir o amor da divindade nas criaturas. Amor é santidade.
Sua tarefa santificar a criatura.

O Primogênito
132

Sua primeira obra santificadora foi o filho de Deus


feito Homem. Sua concepção humana: “o Espírito Santo
descerá sobre ti” (Lc 1,35). E todos os filhos de Deus nas-
cem dele (Jo 3,5). Assiste e acompanha todos os filhos de
Deus. Como anunciou o profeta: “Repousa sobre Ele o
Espírito de Javé, o espírito de sabedoria e entendimento,
o espírito de conselho e fortaleza, o espírito de ciência e
piedade, e será repleto do espírito do temor de Deus.”
Jesus confirma esta profecia em Nazaré (Lc 4,21).
O Espírito Santo revela o Primogênito de Deus no
batismo do Jordão (Jo 1,33). Ele dirige todos os seus
passos: conduz ao deserto (Mc 1,12); reconduz à Galiléia
(Lc 4,14); assiste-o na pregação da Palavra (Lc 4,18). E
Jesus nô-lo promete em herança após a sua morte. Ele
argüirá o mundo (Jo 16,8). Dará testemunho de Cristo (Jo
15,26). Anunciará sua mensagem (Jo 16,13). Será conso-
lo, arrimo nosso na peregrinação terrestre (Jo 14,15;
16,13) até à segunda vinda de Jesus.

Maria Santíssima

Especial carinho dedicará o Espírito Santo de Deus


à Mãe dos filhos de Deus. Santificou-a para ser digna
Mãe do Salvador, e desceu sobre a terra pela súplica da
Mãe de todos os viventes (Gn 3,20), a corredentora e me-
dianeira de todas as graças. Ela é o instrumento de santi-
ficação do Espírito de Deus.

A Igreja

Sua terceira obra de santidade é a Igreja. Fez-se


sua alma, confirmando-a sempre na verdade, santifican-
do-a no amor divino. A hierarquia está sob a sua égide. “O
Espírito Santo constituiu-vos bispos do rebanho” (At
133

20,28). O sacerdócio é ministério do Espírito ( 2Cor 3,80).


Através do sacrifício eucarístico, e através dos sete sa-
cramentos, penetra o “Espírito da graça” (Hb 10,29), “o
Espírito da santidade” (Rm 1,4).

Os Filhos de Deus

Ele gera os filhos de Deus (Rm 8,15.16). “Fostes pu-


rificados, fostes santificados em nome do Senhor Jesus
Cristo e pelo Espírito de Deus” (1Cor 6,11). Ele fez em
nós sua morada; somos seu templo (1Cor 6,19; 3, 17; Rm
8,9). Com ele rezamos (Rm 8,26). Com ele amamos (Rm
5,5), a ponto de: “nenhuma criatura ser capaz de nos se-
parar do amor de Deus” (Rm 8,39).
Por ele tornamo-nos cristãos perfeitos, cristãos adul-
tos “conforme a idade madura de Cristo homem” (Ef 4,13).
Dando frutos de vida eterna (Gl 5,22;1Cor 13,1ss). “Her-
deiros de Cristo”, herdeiros de seu Espírito e cooperado-
res da salvação, “desde que padeçamos com Ele” (Rm
8,17). Por ele, torna-se fecundo nosso apostolado: “Rece-
bereis o poder do Espírito Santo” (At 1,9).
Assim, o Espírito Santo completa a obra do Reden-
tor. “Assinalou-nos com seu zelo, crismou-nos, e como
penhor, infundiu o Espírito em nossos corações (2Cor
1,22). “Não temas, servo meu. Derramarei água sobre a
terra árida e rios sobre o solo seco. Derramarei meu Espí-
rito sobre a terra árida, e eles crescerão como plantas à
beira d’água (Is 44,3). “Derramarei meu Espírito... Vossos
filhos e filhas profetizarão. Farei prodígios entre o resto
que o Senhor tiver chamado” ( Jl 2,28.32).

Míriam de Abellin

Humilde filha de Deus, flor do Carmelo e flor da Ter-


ra Santa, Míriam de Abellin, comunica-nos da parte do
134

Espírito de Deus (anos de 1877):


“O mundo (cristão) e as comunidades religiosas pro-
curam novidades na devoção, e descuidam da verdadeira
devoção ao Espírito Santo Paráclito. Por isso, há tanto
erro e desunião. Não há paz nem luz. Não se invoca a luz
como deveria ser invocada. É ela que faz crescer conhe-
cer a verdade. Mesmo nos seminários há este descuido.
Reinam as perseguições. E há inveja entre as ordens reli-
giosas. Por isso o mundo está nas trevas.”
“Todo sacerdote que pregar esta devoção, receberá
a luz na pregação”.
“Foi-me dito que no mundo todo se estabeleça que
cada sacerdote celebre todos os meses uma missa em
honra do Espírito Santo. E todos que a assistirem, recebe-
rão graças e luzes particulares”.
Ó cristão! Assinala teus dias, horas e obras com o
sinal do Espírito Santo: Em nome do Pai, e do Filho e do
Espírito Santo. Assim seja.
135

4. AMOR DE DEUS
PREFÁCIOS

Seguem-se três realidades celestes do alto do céu,


mas que brotam no chão desta terra. Três pérolas do Rei-
no de Deus, brancas e rosadas: amor de Deus, prece e
dor.

1. “Como meu Pai me amou, assim eu vos amei.


Permanecei no meu amor! Guardando meus mandamen-
tos, permanecereis no meu amor. Como eu permaneço no
amor do Pai, guardando seus mandamentos” (Jo 15,9).
2. “Sabeis, meu Deus, que não desejei jamais, se-
não, amar-vos. Não ambiciono outra glória. Vosso amor
me acompanha desde a infância” (STA. TERESINHA, MSCR
C 322).
3. Eterno amor de Cristo. “A primeira condição para
vencer a atual crise na Igreja, é o amor por Jesus Cristo.
É esse amor que “faz” o cristão. E ele não muda. Confor-
me os séculos e segundo os indivíduos, o amor se reves-
te de várias formas e muda de matizes, mas nunca pode-
rá faltar. Ora, hoje em dia ele é atacado; é declarado ca-
duco, ilusório ou ridicularizado... A propósito: “Quem não
ama o Senhor Jesus Cristo, seja anátema” (1Cor 16,22)...
Opor o amor do próximo ao amor de Cristo, que é a sua
fonte, é um puro engano, como não cessam de provar os
exemplos daqueles que há vinte séculos se abeberaram
neste fonte... Como ainda ontem um Charles de Foucauld
e um Júlio Monchamin e quantos outros. Enfim, para jul-
gar o que é ou não é verdadeiro cristianismo, prefiro sem-
pre, ainda ater-me aos santos, que vivem hoje como ou-
trora.. não aos filósofos que o pretendem ultrapassar”
(HENRI DE LUBAC, SJ, NRT 1969, 592)
136

A melodia misteriosa

Foi um desses trovadores, desses músicos andari-


lhos da epopéia romântica, que se meteu na cabeça que-
rer tocar com seu violino a mais bela melodia que há nes-
te mundo de Deus. E ele foi ter com os passarinhos da
mata, escutando e imitando seu gorjeio. E as cordas do
violino vibraram como canários, pintassilgos, sabiás, um
chilrear estonteante, feliz. Mas o músico não se sentia
satisfeito. E pôs-se a escutar o vento e sua canção. Ora, o
zéfiro suave agitando-se na folhagem verde ou sussur-
rando nas ondulações do trigal dourado. Ora o fragor do
vendaval vergando, torcendo e fazendo gemer a floresta.
E foi um concerto, uma orquestra, como som de órgãos
escondidos na penumbra verde... Mas o artista, ainda in-
satisfeito; faltava algo... E lá se foi a imitar, em sons e
música, o marulho das águas, o rumorejar do regato ser-
penteando sonolento pela campina. Ou o bramido da cas-
cata, lançando-se através das gargantas da serra para o
abismo. Ou, enfim, o rugir das vagas do mar em revolta.
Que sinfonia a empolgar o coração humano. E ainda o
maestro a sentir saudade daquela melodia misteriosa que
estava procurando em vão.
Finalmente foi ter com os seres humanos a tocar to-
das aquelas melodias, alegres ou tristes, que fazem vibrar
o coração humano, canções de dança e de festa de ca-
samento ou graves corais de igreja. E, de vez em quando,
sentiu algumas notas a vibrar e feri-lo... pedacinhos de
melodia misteriosa... mas foi um só rápido compasso que
passou.
E de tanto cismar e sonhar ficou velho, grisalho, e
estava a morrer sozinho, como sempre passara a vida
toda, na solidão de sua arte e de seu mistério.
Deitado sobre pobre enxerga, ouviu de repente uma
137

melodia na sua mente, e soube que era enfim a melodia


misteriosa, a mais bela que há. E, com mãos trêmulas,
pegou do violino, e pela primeira e última vez tocou a sua
canção. A sua. Conseguiu tocar até o compasso final. En-
tão a corda arrebentou-se, como que emocionada pelos
sons e vibrações misteriosas. E o músico andarilho mor-
reu. Chegara à meta final.
Desde os albores da vida humana sussurra uma voz,
uma melodia na cabecinha encrespada e cismadora. O
pequeno coração fica horas a sonhar, a escutar, e tenta
juntar as notas. Idade feliz dos sonhos e ideais Oxalá du-
rasse para sempre. Com o correr dos anos, muitos desis-
tem desanimados, desiludidos. Mas fica-lhes, no íntimo da
alma, esse fundo musical de nostalgia, de saudade, sau-
dade de algo “diferente”, a melodia misteriosa a flutuar no
ar.
Deus pôs, em cada coração humano, uma melodia
misteriosa para cantar. E temos uma vida toda para en-
saiar, para descobrir a nossa melodia, eco longínquo do
paraíso que se foi, eco distante do paraíso por vir. Sauda-
de de algo indefinido, misterioso, grande, belo, ideal. E
essa melodia acompanha-nos por toda parte, por todos os
anos, soando, ora suave como harpa, ora forte e fortíssi-
mo na orquestra, conforme o compasso. A nossa tarefa é
acertar o tom. A nossa tarefa é aprender essa melodia, a
fim de entrarmos harmoniosamente, não em dissonância,
no coral da comunidade humana. A fim de podermos can-
tar a nossa parte, um dia, no conjunto do céu, na grandio-
sa sinfonia mundial, perante o trono de Deus.
Já conhece a sua melodia? A sua canção? Já sabe
cantá-la? Ou ao menos solfejá-la? Cada um tem a sua
própria melodia, que lhe cabe descobrir. Descobrir, não
nos cinco minutos antes de morrer.
Por isso, haja ensaio de canto, todos os dias. De
madrugada com os passarinhos. Na prece matinal. Peça
138

a um anjo que lhe ensine a cantar a melodia, bem afina-


da.

Uma Canção: 1Cor 13

“Apresento-vos um caminho mais excelente.


Se eu falasse as línguas dos homens e dos anjos,
mas não tivesse caridade, seria como o soar do metal ou
do tinir duma campainha.
Se eu tivesse o dom da profecia; se soubesse todos
os mistérios e possuísse toda a sabedoria; se tivesse a fé
total a ponto de transportar montanhas, mas se não tives-
se a caridade, nada seria.
E se distribuísse de esmola todos os meus haveres,
e se expusesse minha vida num incêndio, mas não possu-
ísse a caridade, de nada valeria.
A caridade é paciente, não é interesseira, não se irri-
ta, não guarda rancor.
Não é melindrosa.
Não folga com a injustiça, mas se alegra com a ver-
dade.
Tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre. A
caridade não acaba, jamais.
Terão fim as profecias. Expiará o dom das línguas.
Perecerá a ciência.
Porque imperfeito é nosso conhecer, imperfeito nos-
so profetizar.
Mas quando vier o que é perfeito, acabará o que é
imperfeito.
Quando eu era criança, falava como criança, pensa-
va como criança, julgava como criança. Mas quando me
tornei homem, despojei-me do que era pueril.
Vemos, agora, como que em espelho e enigma. En-
tão, conhecereis de todo, assim como eu mesmo sou de
todo conhecido.
139

Por ora, ficam a fé, a esperança e a caridade: estas


três. A maior delas porém, é a caridade.
Aspirai a caridade”.

Um convite

“Ouço uma voz que começa a falar-me: tu chamaste


o meu servo Francisco, mas eu quis enviar-te outro men-
sageiro. Eu sou o Espírito Santo, e venho justamente para
dar-te uma consolação, como jamais provaste no passa-
do. Quero penetrar em ti, e conversar contigo durante to-
da a tua jornada, sem cessar um momento. E tu não po-
derás dar atenção a outra coisa. Porque eu te prendi a
mim, e não me separarei de ti, senão quando passares
por aqui outra vez. Então te deixarei, privando-te apenas
dessa consolação. De resto, estarei sempre contigo, se
me amares”.
E para incitar-me a amá-lo, assim prosseguiu:
“Ó minha doce filha, filha minha e templo meu, filha
minha e minha delícia, ama-me, porque eu te amo muito
mais do que tu a mim”. E freqüentemente me repetia: “Mi-
nha filha e minha doce esposa”. E depois acrescentava:
“Amo-te mais que a qualquer outra do vale de Spoleto.
Por isso, como eu vim a ti e em ti busquei o meu repouso,
vem tu também a mim e descansa”. “Eu estive com os
apóstolos, que me viam com os olhos do corpo. Mas não
me sentiam como tu me sentes. E quando chegares à tua
casa, provarás nova e maior alegria; e então, me sentirás
e não apenas ouvirás a minha voz como agora. Tu pedis-
te ao meu servo Francisco, esperando com ele e por ele
obter o que desejavas. Francisco muito me amou e por
isso operei nele coisas admiráveis Mas em verdade te
digo: se outra pessoa do mundo me amasse mais do que
ele, eu saberia operar nela coisas mais admiráveis”.
Além disso me dizia: “Quão poucos são hoje os
140

bons, e quão débil é sua fé.” Lamentando-se ajuntava:


“Amo com imenso amor a alma que me ama com amor
sincero. Se eu encontrar uma alma que me ame com a-
mor perfeito, enriquecê-la-ei com minha graça, como ja-
mais fiz com os maiores santos, desde que o mundo é
mundo. Não há quem possa recusar esse amor, porque
cada um pode amar a Deus, e Ele, outra coisa não quer
senão que a alma o busque e o ame, amando-a também
Ele verdadeiramente, e sendo ademais o próprio amor da
alma. Profundas são essas palavras”.
Mostrou-me, depois, que Ele é o amor da alma, com
o grande argumento de sua vinda à terra e da cruz carre-
gada por nós, Ele que é tão imenso e glorioso. E, expli-
cando-me sua Paixão, e quanto fez por nós, acrescentou:
“Vê se em mim há outra coisa que não seja amor”. E mi-
nha alma bem compreendia que ali não existia, senão
amor. Lamentava-se além disso de não encontrar nestes
tempos senão poucos que são dignos de sua graça. E
prometia que usaria, com aqueles que agora o amassem,
de maior liberalidade em graças do que tinha usado, com
outros santos. E me repetia: “Minha doce filha, ama-me
sem medida, porque és muito mais amada por mim do
que eu por ti. Minha amada, ama-me. Imenso é o amor
que voto a cada alma que me ama sem sombra de malí-
cia”.
E parecia-me que Ele queria que a alma, segundo
sua virtude e capacidade, o amasse com aquele grande
amor com que Ele a amava. E bastaria que ela manifes-
tasse este desejo, para que ele suprisse a sua deficiência.
E, de novo, me dizia: “Ó minha amada, ó minha esposa
dileta, queiras-me sempre bem. De fato, toda a tua vida, o
comer, o beber, o dormir, toda a tua vida em suma, me é
cara, se tu me amas”. E então, acrescentou: “Operarei em
ti grandes coisas em presença dos povos. Em ti serei co-
nhecido, glorificado e exaltado; meu nome será louvado
141

em ti por muitas nações”. Essas e outras coisas mais me


foram ditas. Eu, porém, ao escutar-lhe a voz, enumerava
os meus pecados e defeitos e me via completamente in-
digna de tão grande amor. E minha alma, voltando-se à
voz que lhe falava: “Se fosses o Espírito Santo, dizia-lhe,
tu não me dirias certas coisas, que de maneira alguma me
convém; pois eu sou frágil e poderia surgir em mim a van-
glória”.
Responde: “Vê e pensa se consegues ensoberbe-
cer-te às minhas palavras; vê se podes pensar em coisas
diferentes dessas”. E eu, para ver se era verdade o que
se me dizia, e se era mesmo o Espírito Santo, procurei
ensoberbecer-me: olhei de um lado e do outro, os vinhe-
dos, somente para distrair-me dessa voz: “Olha e con-
templa tudo isso que vês, é criatura minha”. E eu provava
uma doçura inefável. Todavia, afluíam-me à mente, todos
os meus pecados, e de minha parte nada via em mim se-
não pecados e defeitos, e senti-me mais humilde do que
nunca” (Ângela de Foligno, em romaria a Assis)

Mensagem: 1Jo 4

“7Caríssimos! Amemo-nos uns aos outros, porque o


P P

amor vem de Deus e todo aquele que ama, nasceu de


Deus e conhece a Deus.
8
P Quem não ama, não conheceu a Deus, porque
P

Deus é amor.
9
P Eis como se manifestou entre nós o amor de Deus:
P

enviou ao mundo seu Filho único, a fim de que vivamos


por Ele.
10
P Nisto, consiste seu amor: não fomos nós que a-
P

mamos a Deus; foi ele que nos amou e enviou seu Filho
como vítima de expiação por nossos pecados.
11
P Caríssimos! Se Deus nos amou assim, nós também
P

devemos amar uns aos outros.


142
12
P Ninguém jamais viu a Deus. Mas se nos amarmos
P

uns aos outros. Deus permanece (mora) em nós, e seu


amor atinge em nós a perfeição.
16
P Conhecemos o amor que Deus tem por nós, e nele
P

acreditamos. Deus é amor. E quem permanece no amor,


permanece em Deus, e Deus nele.
19
P Amemos, porquanto ele nos amou primeiro.
P

5,2
P Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus,
P

se amamos a Deus e observamos seus mandamentos.


3
P Nisto consiste o amor de Deus: que guardamos
P

seus mandamentos”.

“O MISTÉRIO”

O mistério do amor de Deus por nós... Por que Deus


nos ama? Mistério!
Do nosso lado: não somos nada. Somos pecadores.
Somos egoístas eternamente, mesquinhos, incorrigíveis
Da parte de Deus: sua justiça é toda contra nós. A
santidade de Deus: idem. A beleza de Deus não lucra na-
da conosco. A sabedoria tão pouco. A misericórdia, que
se compraz em tolerar e perdoar, não explica a nossa cri-
ação e santificação primordial (elevação à ordem da graça
santificante) anteriores ao pecado.
Daí, só resta aquele amor transbordante, explosivo
que “criou” as três Pessoas divinas. E que, ainda não con-
tente, se extravasou por fora da divindade, para as criatu-
ras. Deus nos ama, não por aquilo que somos, mas por
causa “do que ele é”. Deus é bondade essencial que se
expande, se dá e transborda.
Todos os motivos do amor de Deus estão do lado
dele. Do nosso lado, nenhum. Curioso é que tratamos a
Deus como se entre ele e nós existisse um contrato de
igual para igual, e sentimo-nos obrigados a cumprir nos-
sos compromissos sob a condição que ele cumpra primei-
143

ro com os seus. Quando, na realidade, o dever fica com-


pletamente de um lado, enquanto do outro lado tudo é
liberalidade.
O nosso modo de servir a Deus é quase um insulto.
O homem é a negação de tudo quanto possa valer algo
perante Deus. É próprio dele a mesquinhez e a covardia.
Até a misericórdia divina devia largar-nos; se não o faz, é
só porque é infinita, porque o amor não se cansa.
Por que Deus nos ama? Porque nos criou. E por que
nos criou? Círculo sem saída. Por amor estamos presos
neste círculo. Bela prisão. Oxalá fiquemos sempre cativos
desse amor, cá na terra como depois lá no céu.

Amor forte

Deus nos criou para O amarmos. Isso não lhe traz


vantagem alguma; não aumenta nem sua glória, nem sua
felicidade.
Deus deseja ser amado por nós. Por quê? Falta-lhe
alguma coisa? Em absoluto. Impossível Deus precisar de
suas criaturas. E quando deseja o nosso amor, não é só
uma veleidade, um “gostaria”. Oh! não. É um ímpeto divi-
no que quer abraçar o mundo das suas criaturas, e aper-
tá-lo ao seu coração.
Se Deus nos dá leis, origina-se isso do seu imenso
desejo de poder ser amado por nós, na eternidade. Se
Deus mandou seu Filho para nos resgatar a qualquer pre-
ço, é porque não se conforma com a perda do amor dos
homens. Seu desejo é tão vivo que parece esquecer-se
que é Deus – com perdão da palavra, mas a impressão é
essa. Parece esquecer sua majestade a fim de conseguir
nosso amor. Sua felicidade em perdoar não é contradição
flagrante com sua justiça e santidade infinitas?
Entenda porque exigiu de Cristo tão horrendos sacri-
144

fícios. Entenda porque as crianças batizadas entram no


céu sem mais. Ou porque o operário da undécima hora
passa por igual com os demais Dá a impressão que Deus
põe justiça, santidade e dignidade de lado, a fim de ter o
maior número possível de convidados no banquete de
amor no céu. Profundezas de Deus.

O GRANDE MANDAMENTO

Foi Ele o primeiro a amar-nos (1Jo 4,19). E desde


toda a eternidade (Jr 31,3). Criou a fim de derramar nas
criaturas sua própria felicidade. Derramar nas almas seu
amor incontido, infinito. Daí o grande preceito que incum-
be à humanidade qual servidão inata, herdada: amar a
Deus.

Antiga Aliança

Aliás, o preceito é antigo. Já é da Antiga Lei (Dt 6,5).


E no Novo Testamento, Jesus o repete na mesma
formulação tão expressiva: “Amar a Deus de todo o cora-
ção, de toda a alma, com todas as forças, com todo o es-
pírito”. A repetição mostra que Deus quer amor total. Base
e razão: é o absoluto, é o Ser Absoluto... “Eu sou aquele
que existe, e tu és aquele que não existe.” Amamos a
Deus por ser Deus, o Ser infinito? e porque, tudo o mais,
fora dele, não passa de sombra? É o mandamento princi-
pal da Revelação. Ele não deixa dúvida sobre a sua ex-
tensão. Judeu, cristão e pagão devem cumpri-lo. “Escuta,
ó Israel: o Senhor teu Deus é o único Deus. Tu o amarás
de todo o coração, com toda a alma, com todas as for-
ças”.

Nova aliança
145

O N.T. aperta mais os laços de amor que unem


Deus e as criaturas. Manda amar a Deus como autor da
vida sobrenatural. Deus comunicou-nos e fez-nos partici-
par da sua vida íntima, da vida das Três Pessoas da San-
tíssima. Trindade. Não somos mais servos, mas amigos
(Jo 15,15), filhos da casa. Fez-nos partícipes da sabedo-
ria eterna. Infundiu-nos o amor infinito do Espírito Santo.
Mandou seu próprio Filho, a fim de que tenhamos a vida
eterna (Jo 3,16), a vida de Deus.
Paulo tem razão ao falar de um excesso de amor (Ef
2,4) com que Deus nos ama. Chega a falar de loucura,
estultícia, pensando na morte de Jesus na Cruz, como
condição prévia para podermos participar da vida eterna
(1Cor 1,18): “A palavra da cruz é estultícia para os que se
perdem, mas para os remidos, para nós, é poder de Deus
e sabedoria celestial”. O amor transborda. O amor infinito
transbordou, terra adentro, invadindo a história humana...
E qual é a nossa resposta a esse Deus amoroso?
Se todo o mundo amasse a Deus, que paraíso na
terra! Mas quão pequeno o número de santos, santos a-
nônimos: multiplique-os por cem, por mil. De outro lado,
sobra uma multidão de bilhões, de trilhões de indiferentes
ou ateus, ou meio-devotos, a amar a Deus com grande
moderação e comedimento. A medida de amar a Deus é
amá-lo sem medida (São Bernardo). Eis a vontade de
Deus a nosso respeito, enquanto andamos nesta terra no
clarão bruxuleante da fé. Depois, na luz de Deus, vere-
mos pessoalmente que Deus é o único amor possível no
universo. Veremos, não precisaremos mais de provas pa-
ra nos convencer.
Moisés ficou durante quarenta dias diante da face de
Deus. Retornou depois para junto dos homens. Mas o seu
rosto tornara-se radioso. Os israelitas pediram que velas-
se o rosto. É que não podemos olhar para o sol, sem que
a vista nos doa.
146

Sta. Teresa d’Ávila viu a Deus, e depois sentia tal


aversão a se ocupar com as coisas da terra que padeceu
real martírio.
Sto. Tomás de Aquino estava escrevendo o último
volume da Suma Teológica. Acontece que vê a Deus nu-
ma visão, e não escreve mais nenhuma linha sequer, a-
pesar da insistência dos confrades para terminar a gran-
diosa obra. “Não; é só palha, perante a realidade”.
São Paulo subiu até o terceiro céu. Viu o que o olhar
humano jamais viu . Sentiu o que o coração humano ja-
mais sentiu; impossível narrar o inefável.
Ver a Deus neste mundo mata, diz um provérbio po-
pular do A.T. A saudade que a alma sente de Deus fá-la
arrancar-se para fora do corpo. O corpo desfalece, esfria
como cadáver. E quando a alma retorna ao corpo, sente-
se como numa prisão, ansiosa por voltar ao céu.

Êxtase

Mais cedo ou mais tarde todos os santos sucumbem


a essa doença do amor de Deus. Como Sta. Teresinha
que morreu num êxtase de amor, exclamando: “Ó Deus,
eu te amor!” Bela entrada na glória.
Por que amar a Deus? Porque é o bem supremo, o
bem absoluto. Deus é a saudade do purgatório. Por uma
visão momentânea, logo após a morte Deus se revela a
todos os homens. Quando o pecador mergulha no tor-
mento, seu primeiro grito não é de dor. Seu primeiro grito
é de saudade de Deus.
Os êxtases dos santos são reflexos, revérberos da
beleza imensa de Deus. O fogo do amor divino chega a
queimar a roupa do corpo.
Sta.Catarina de Sena brincava com o fogo na cozi-
nha, como um prestidigitador no circo. Dizia ela: “É frio,
em comparação com o calor de dentro”.
147

São Pedro de Alcântara pulou dentro de um tanque


gelado e fê-lo ferver.
São Wenceslau, em suas visitas noturnas à igreja,
deixava na neve pegadas quentes para seu friorento ser-
vo. São Francisco de Paula acendeu a lamparina do sa-
crário com o dedo. Almas de fogo. Deus é amor.

Coração

Nosso pequeno coração humano tem uma força ex-


traordinária. Pulsa cem mil vezes em vinte e quatro horas.
Quatrocentas vezes por hora, conta-se, impulsionando a
massa sanguínea de doze a quinze quilos através do cor-
po. Que potência, que força! E há mais: qual potente imã
magnético, atrai o coração de Deus. Quem lhe resiste?
Como bem expressou a Imitação de Cristo (III, 5,5) de um
modo original: “O afeto ardente da alma, seu amor, é um
grito forte aos ouvidos de Deus”.
“Subam nossos afetos de amor, quais estrelinhas no
céu noturno, perante o trono de Deus”, escreve F. W. Fa-
ber; “um único ato de amor a Deus é uma obra perfeita.
Todas as demais coisas, em comparação, são bolhas de
sabão; talvez, brilhantes como o arco-íris, mas tão fuga-
zes! Um ato de amor é uma obra perfeita, e atua mais que
qualquer outra ação. E um ato de amor, rápido como um
raio, pode ser feito num instante, numa elevação momen-
tânea de nossa mente e sobe aos céus.”
Ó profundidade das riquezas de Deus! Nossa alma
respira. Cada pensamento, um ato de amor a Deus. Cada
palavra, um ato de amor. Cada gesto um ato de amor, nos
mil afazeres do dia. Nossas mil distrações, mil atos de
amor. Deus é amor.

O AMOR DE DEUS DENTRO DE NÓS


148

Romanos 5,5: “O amor de Deus foi derramado em


nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado”.

1. É amor de amizade, amor de benevolência. Ami-


zade mútua, benevolência mútua.

2. É a maior, a mais alta virtude. As demais virtudes


referem-se à moralidade humana. As três virtudes teolo-
gais referem-se a Deus e nos unem com Deus. A fé e a
esperança, de um modo imperfeito. A caridade-amor põe-
nos em contato com o próprio Deus de modo imediato,
direto.

3. A nossa santidade, ou graça santificante, é Jesus


Cristo, no qual estamos incorporados pelo batismo. E as-
sim o amor com que amamos a Deus é participação do
amor com que o próprio Deus Trino se ama; é uma partí-
cula do amor divino.
Como disse Jesus a Sta.Catarina de Sena: “Eu sou
o fogo, vós as centelhas”. É fruto da oração sacerdotal de
Jesus: “A fim de que o amor com que me tens amado,
esteja neles” (Jo 17,26).
Pela graça santificante, participamos da natureza di-
vina. Pela virtude do amor de Deus participamos do amor
incriado da Santíssima. Trindade. A fé e a esperança par-
ticipam da imperfeição da natureza terrena. O amor, po-
rém, atinge por contato a essência divina.
Uma Jacquelina de cinco anos é interrogada pelo
sacerdote: “Queres bem a Deus”? “Oh sim, padre”. Com
todo o teu coração? “Oh, não. O meu é muito pequenino.
Amo-o com o coração dele”. Resposta precoce na vida
espiritual. Mas teologicamente tão exata: desde que fo-
mos batizados, vivemos e amamos com o coração de
Cristo.
Sta.Coleta rezou certo dia: “Bom Mestre, eu bem
149

quisera amar. Mas meu coração é pequeno demais”. E


logo viu descer um grande coração, todo inflamado. E
uma voz disse-lhe: “Ama-me agora tanto quanto queres”.

4. Segue-se daí, o valor supremo desse amor divino.


Este amor divino dá valor às demais virtudes. Sem ele,
todas as virtudes ficam no andar inferior das virtudes na-
turais, incapaz de atingir o Deus Uno e Trino da Revela-
ção. O amor divino imprime-lhes valor sobrenatural, eleva-
as ao plano sobrenatural. A teologia cunhou o termo: é a
forma de todas as virtudes. É o seu elemento formal. Esse
amor divino deve, pois, exercer um santo império na vida
espiritual. Deve comandar virtudes e boas obras, atos de
culto e práticas de piedade. Quanto mais for enérgico e
veemente este comando espiritual, tanto maior será seu
valor.

5. E tanto maior o mérito. Mérito é o valor que uma


ação representa perante Deus. Base (Sto. Tomás diz: ra-
iz, radix meriti) e medida é o amor de Deus, tanto quanto
influiu numa boa ação. Grau de amor e grau de mérito,
correspondem. Assim como na visão beatífica no céu e o
correspondente grau de amor no céu são calibrados, com
licença desta palavra antropomorfa, pelo grau e fervor de
amor com que temos agido na terra.
É o prêmio essencial, diz a teologia. Enquanto as
demais virtudes, mesmo heróicas, não entram na conta-
gem. Dão direito ao prêmio acidental, uma espécie de
distinção pessoal, uma auréola, que destaca mártires,
virgens, penitentes, apóstolos, esmoleres etc. Mas a nos-
sa relação para com Deus é graduado apenas pela virtu-
de do amor divino, e do seu santo império no organismo
das virtudes.

6. Diz São Francisco de Sales: “Todas as virtudes


150

juntas, sem o amor divino, não passam de um montão de


pedregulho... A balança de Deus, tem outro calibrador.
Uma pequena obra feita com um grande amor pesa mais
que uma grande obra feita com pouco amor”.
Ainda de uma forma mais rude: Tamerlan é o chefe
inconteste dos tártaros. Um camponês, indica-lhe um te-
souro no campo. “As moedas levam meu retrato?” “Não,
mas o ouro é legítimo”. “Sem meu retrato não tem valor”.
Arrogância infantil. Mas assim é perante Deus, valor infini-
to e único: somente as obras carimbadas pelo amor têm
valor.
Duas irmãs são religiosas no mesmo convento. Mor-
re a mais nova a 15 e outubro, e no dia 2 de novembro
aparece: “Já estou no céu. Mas não subi muito alto, por-
que não pratiquei muito o amor de Deus. Fiz meus deve-
res cotidianos mais por dever ou por hábito. Só o amor
por Jesus é que vale, recebe o prêmio.”
Segue-se daí: a perfeição espiritual, a santidade cris-
tã identifica-se com o amor a Deus. Por isto Sta. Teresi-
nha pôde dizer: “Desejais um meio para conseguir a per-
feição? Só conheço um: amar”. A santidade não é um
conjunto de virtudes, nem de atos de culto e de piedade
externa e interna, nem de austeridades e penitências.
Nem a vida do deserto. Nem a morte de martírio. Nem
mesmo a contemplação, como ato do intelecto. Tudo isto
entra na contagem enquanto é expressão do amor a
transbordar em nós. Nem mesmo os três conselhos evan-
gélicos. São meios, instrumentos para fomentar o império
do amor de Deus. Nem mesmo a mais ilibada virgindade
conta perante Deus sem o amor. A glória do céu, a visão
beatífica não dependem da virgindade, mas do grau de
amor.
Diz a revelação que o amor é o caminho mais exce-
lente para se chegar a Deus (1Cor 13). Jesus Cristo afir-
mou que o amor de Deus é o grande mandamento e que
151

“resume toda a Lei de Moisés e os profetas”, isto é, é a


quintessência da Revelação.
São Paulo acentua: “A finalidade da exortação é o
amor em coração puro” (1Tm 1,5). Ele é o vínculo da per-
feição (Cl 3,14).
A própria fé recebe dele sua eficiência (Gl 5,6). Sem
ele as virtudes nada são (1Cor 13).
São João remata: “O amor é de Deus... e Deus é
amor” (1Jo 4,7.8).
E qual é o papel das outras virtudes em relação com
a perfeição? A moral cristã não é um conjunto de prescri-
ções virtuosas, um código de boa conduta cívica. Santi-
dade é amor de Deus. As virtudes são subestruturadas.
Como a vida vegetal e animal do ser humano é dirigida e
absorvida pela vida intelectual, própria do homem, assim
as virtudes morais devem ser movidas pelo amor de
Deus. E nenhuma delas entra na glória do céu: somente o
amor de Deus. Razão: nosso destino sobrenatural de fi-
lhos de Deus.
Fé e esperança abrem caminho. E na porta do céu
somem. As virtudes morais: justiça, fortaleza, temperança
e afins, entram no quadro da santidade cristã:
a) Como deveres de estado, diferentes de pessoa
para pessoa. Supõem, de cada vez, um quadro especial
de deveres e virtudes. Foulcauld, eremita entre os tuareg,
tinha outro conjunto de virtudes a cultivar que seu con-
temporâneo São Pio X.
b) Entram como partes integrantes aquelas virtudes
morais que facilitam, fomentam, aperfeiçoam a prática do
amor de Deus, como por exemplo: a humildade, a oração.
c) A caridade para com o próximo, praticada por
amor a Deus e não por filantropia, destaca-se de um mo-
do peculiar nas duas categorias acima indicadas. Além
disso é ela, tanto para Deus como para nós e perante o
mundo, o teste, o campo de provas de amor divino. Dos
152

frutos do amor concluímos que ele ficou não só no afetivo,


mas é efetivo e autêntico. E ainda mais: o amor do próxi-
mo entra no quadro do amor de Deus, porque no próximo
amamos Cristo, de quem é parcela.

A título de ilustração, duas anedotas hagiográficas:


São José de Cupertino foi consultado a respeito de uma
religiosa de São Cesário, com fama de santidade. Res-
pondeu: “Sim, vocês têm lá uma santa verdadeira. Uma
pobre viúva que luta penosamente para vencer na vida
com suas filhas, e que faz tudo por amor a Deus.
São Macário ficou sabendo, por uma visão, que em
Alexandria moravam duas senhoras mais santas do que
ele. Foi lá para aprender. Eram duas pessoas simples
que, havia quinze anos, viviam na mesma casa, em contí-
nua concórdia, e agindo sempre por amor.

Crescendo sempre

O amor de Deus deve crescer sempre. Não tem limi-


tes em nossas limitações humanas. Sem fim, portanto.
Mas Deus é camarada, perdão pela irreverência. Ele mar-
cou um bloco de virtudes como expressão mínima de a-
mor: os dez mandamentos e mais os deveres individuais
de estado. E, no mais, continue a criatura na mediocrida-
de, chão a chão. Os homens podem adiar a tarefa e con-
tentar-se, por hora, com o mínimo. Felizmente existe após
a morte um curso vestibular, onde os retardatários ainda
podem aprender como se ama o Ser Absoluto e o Amor
infinito.
Mas Deus também continua convidando a subirmos
mais alto. Seu desejo é o máximo fervor: nunca chegare-
mos a amá-lo tanto quanto somos amados.
Faz-nos um convite às alturas. O céu recusa os ser-
vos; só se abre aos amigos. Generosidade!
153

Sempre mais

Amar a Deus, porque Ele deseja o nosso amor. A-


mar a Deus porque nos ama com amor supremo. Amá-lo
porque nos amou primeiro. Amá-lo por sua infinita perfei-
ção. Amar a plenitude do Ser. Eis a essência da religião,
da piedade. Amar a Deus como nossa origem e último
fim: nisso, está tudo.
Amar é a ocupação dos bem-aventurados do céu.
Amar fez os santos na terra.
Eis o fascínio do amor de Deus. Jovens, virgens de-
licadas e moços da mais alta estirpe, que triunfaram sobre
fogueiras e cavaletes de tortura, que os dentes das feras
trituraram. Mártires antes da idade, como Venâncio, Á-
gueda, Inês, Catarina, Cecília. Santos precoces ou gente
humilde das favelas romanas, que passaram toda uma
existência no penar da pobreza ou da doença por amor ao
Deus Salvador. Filhos de reis que desprezaram a glória
deste mundo em troca do amor de Deus. Soldados valen-
tes como Sebastião, ou pecadores convertidos como A-
gostinho.
O amor de Jesus é sempre excessivo, a fim de re-
ceber de nós, em troca, não um amor excessivo, coisa
impossível perante o Bem infinito, mas um amor menos
minguado. “Bastava Jesus derramar uma gota de sangue
para nos salvar: quis derramar todo o sangue do seu co-
ração. Bastava transformar o pão num sacramento, a fim
de nos transmitir graças: fez questão de ficar pessoalmen-
te presente como dom... Cada um de seus dons é duplo,
triplo, cêntuplo” (F. W. Faber)
Vivemos rodeados do amor divino, num oceano de
graças, como o peixe nas águas do mar. Graças que es-
tão acima de nós, abaixo de nós, ao redor de nós e por
toda a parte. É uma maré que sobe sempre, que não co-
154

nhece refluxo.
E Deus paga o nosso amor (mesquinho). Paga logo.
Pelo aumento da graça santificante, da qual um grau vale
mais que todo o universo.
Cada aumento é uma vinda na da Santíssima Trin-
dade. Uma verdadeira antecipação do céu. Porque desde
já estão conosco não só alguns dons de Deus, mas o
próprio Deus Tri-pessoal. Desde o instante da nossa justi-
ficação, ele é nosso. “Deus nos pertence”.
E cada ato de amor é um novo contato divino na al-
ma. Até os nossos pensamentos são atos de amor, iguais
em valor às mais difíceis ações, penitências e sofrimen-
tos. “Não por sermos bons é que Deus nos ama, mas
porque ele nos ama é que somos ou ficamos bons” (Um
trapista de 32 anos).

Medíocres

Cultivamos um catolicismo “com grandes abatimen-


tos”, com 95% de redução de preço. É uma prisão de me-
diocridade em que vivemos aqui na terra. Nosso signo
astral é a vulgaridade banal. “A perfeição cristã, não é
mais nada do que a conquista da normalidade... É um
modo de dizer, mais delicado, que os estultos constituem
a maioria (François Mauriac).
Caçoaram das excentricidades do Cura d’Ars: “Ele
tem um quê de loucura”. Seu bispo respondeu: “Oxalá,
todo o meu clero tivesse um pouco dessa loucura”.

Inquietos

Narra, Eva Lavallière: “Em meio aos meus maiores


sucessos, eu retornava do palco com uma tristeza indizí-
vel. Às vezes, chorava. Um voz perseguia-me: “Eva, tu
não foste feita para isso. Às vezes, desesperei-me a pon-
155

to de querer suicidar-me”. Inquietude feliz.


São Vicente de Paulo a lastimar-se: “Mas eu não fiz
nada, ainda.” “Mas o que é preciso fazer?” “Mais”.
“O santo é alguém a quem Deus não dá sossego”
(Paul Claudel)
A única medida de amar a Deus é amá-lo sem medi-
da (São Bernardo)
Os Santos nunca cessaram de amar a Deus. Pois
tudo em Deus é sem fim. Principalmente, o seu amor.

Como aprender a amar

Amando, responde o provérbio.


Ao bom irmão coadjutor, Afonso Rodrigues, santo
porteiro do colégio jesuíta de Maiorca, certo dia pergunta-
ram de que sofria. Respondeu: “De amor próprio”. Ora,
tinha ele oitenta e sete anos, e era um santo de Deus.
Outro santo, Francisco de Sales, que não era porteiro
mas bispo e doutor da Igreja, adverte-nos que o amor
próprio é tão vivo em nós, que morre só um quarto de ho-
ra após a nossa morte.
Aí o ponto nevrálgico da questão: esse amor próprio,
fonte universal e fecundíssima de nossos defeitos e peca-
dos.
O amor de Deus é também mais difícil do que o a-
mor humano, cuja face se vê, cuja voz se ouve, e que em
geral admite e tolera um tanto de amor próprio. Enquanto
que a Deus temos de amar “sem tê-lo visto face a face”
(1Pd 1,8).
O amor humano em suas múltiplas manifestações, é
um vislumbre da realidade divina, que nos faz adivinhar o
amor infinito de Deus. Cá na terra, temos de caminhar sob
a orientação da fé. Nem assim adianta muito, nem multi-
plicando o amor humano por quantos algarismos quiser-
mos. O amor humano, no grau mais elevado da paixão,
156

não passa da luz de um lampião de querosene compara-


do com a luz do sol.
Devemos amar a Deus com um amor que possa a-
gradá-lo. Temos de amar a Deus com o amor dele: com o
amor com que ele mesmo se ama. Só podemos amá-lo
com o coração dele. Urge pois, pedir ao Espírito Santo
que se derrame em nossos corações (Rm 5,5). Dos dons
que descem do céu sobre a terra é o mais excelente.

Fruto da prece

Pedi e recebereis Fazemos esforços ascéticos e es-


quecemos que santidade é amor de Deus. Avisa São
Francisco de Sales que devemos tender à perfeição, não
para nosso contentamento, mas para agradar a Jesus”.
Avisa Sta. Teresa d’Ávila (fruto da experiência) que trope-
çamos tanto na estrada da santidade por não mantermos
os olhos fixos em Jesus, no alto (nas estradas terrestres,
aconselha-se o contrário!). E, como adverte com muita
graça o monge medieval: “O homem é uma árvore virada
às avessas, porque suas raízes sorvem a santidade na
cabeça: Cristo” (Isac Estrela), Repete o monge hodierno
(Houtrive): “Não devemos colocar o acento sobre o esfor-
ço moral. Nós não somos o centro do mundo, mas Deus.
Não devemos procurar tanto aperfeiçoar-nos, mas amar.
Quem quer aperfeiçoar-se, considera-se a si mesmo. Vive
preocupado com seu próprio eu. Enquanto que, quem
ama, se perde de vista e se esquece para agradar a
Deus... O mérito de um boa obra, não se mede por sua
importância ou utilidade, mas pelo motivo que lhe dá im-
pulso. Como no Antigo Testamento. Deus mandou dizer
(pelo salmista): De nada me adiantam bois e carneiros, ó
Israel... interessa o amor da oblação.”
E sempre de novo seja lembrado: Jesus Cristo é
nossa santidade. Ele supre tudo o que nos falta. Até nos
157

empresta o seu Coração para amá-lo.


Pedi e recebereis

A tarefa final

Os ascetas medievais chegaram a especificar de


dez a quinze graus de amor a Deus. Sem importância.
Subamos sempre, sem contar; Deus merece o amor total,
pois é infinito, é o amor por essência. De todas as varie-
dades de amor, paterno, de amizade, infantil, nupcial, ca-
be a Deus a parte de escol. “Não receiemos nunca amar
demais, e sim de menos”, adverte Sto. Agostinho.
Feliz São Felipe Neri, cujo coração, de tanto amor
divino, abriu espaço e rompeu-lhe duas costelas.
Sta. Teresinha joga pétalas de rosas sobre o crucifi-
xo, no jardim do claustro: –“Está pedindo alguma graça?”
Respondeu com vivacidade: –“Não. É para fazer agrado.
Não quero dar para receber. Quero viver de amor”.
No leito da morte é interrogada: –“Que estava dizen-
do a Jesus?” Respondeu, sorrindo: –“Não lhe digo nada;
eu o amo”.
E logo, no grande encontro, a alma submerge na di-
vindade como gota d’água no imenso mar. “Agora viver e
amar são a mesma coisa. Mortificação, penitência, sofri-
mento, tudo passou. Fé e esperança também já estão
superadas pela visão de Deus” (Houtrive)
Com a palavra final a Palavra de Deus: “Não viver
mais para si, mas para aquele que por eles morreu e res-
suscitou” (2Cor 5,15). Eis o programa a ser vivido pelo
cristão.

VÍTIMAS DO AMOR

“Agora, não tenho mais nenhum desejo, a não ser, o


de amar Jesus até à loucura” (Sta. Teresinha)
158

Pertence a este capítulo o oferecimento de Sta. Te-


resinha como vítima do amor de Deus, e sua súplica a
Jesus para suscitar “uma legião de pequenas vítimas dig-
nas de seu amor”. Ela mesma explica-nos a idéia: “Pen-
sava nas almas que se oferecem como vítimas à justiça
de Deus, a fim de desviar e atrair sobre si os castigos re-
servados aos culpados. Esse oferecimento parecia-me
grande e generoso, mas sentia-me longe de ser levada a
fazê-lo. Ó meu Deus, exclamei no fundo do meu coração:
não haverá senão vossa justiça a receber almas imolan-
do-se como vítimas? Vosso amor misericordioso não pre-
cisa delas também? De todas as partes ele é desconheci-
do, rejeitado. Os corações, aos quais desejais prodigalizá-
lo, voltam-se para as criaturas, mendigando-lhes a felici-
dade com sua mísera afeição, em vez de se lançarem em
vossos braços, aceitando vosso amor infinito. Ó meu
Deus! Vosso amor desprezado ficará em vosso coração?
Parece-me que, se encontrásseis almas oferecendo-se
como vítimas de holocausto ao vosso amor, consumi-las-
íeis rapidamente. Parece-me que vos sentiríeis feliz por
não comprimir as ondas de ternura infinita que estão em
Vós. Se vossa justiça compraz-se em se desarmar, ela
que se estende só sobre a terra, quanto mais vosso amor
misericordioso desejaria abrasar as almas; pois a vossa
misericórdia eleva-se até aos céus. Ó meu Jesus, seja eu
esta feliz vítima. Consumi vosso holocausto no fogo de
vosso divino amor” (Manuscrito A 226 s)
Feito o oferecimento, escreve: “Rios, ou antes, oce-
anos de graças vieram inundar minha alma. Desde este
dia feliz, parece-me que o Amor me penetra e me envol-
ve. A cada instante, este amor misericordioso renova-me
e purifica-me. O fogo do amor é mais santificante que o
purgatório... Quanto deseja fazer sempre a vontade de
Deus” (Vida 227).
Teresinha fez propaganda. Celina faz, juntamente
159

com ela. Maria do Sagrado Coração, franca como sem-


pre, recusa: “Mas certamente que não! O bom Deus toma
a gente pela palavra, e o sofrimento me dá medo demais.
Aliás, a palavra “vítima”, me desagrada muito”. Teresinha
defende-se: “Não é para pedir sofrimento; é para amar
mais a Deus, por aqueles que não querem”. “Ela foi tão
eloqüente, que me deixei conquistar e não me arrependo”,
declarou Maria, em 1940, ano de sua morte (Conselhos
82).
As vítimas do amor divino têm em comum com as ví-
timas de expiação e de desagravo, pelos pecadores, so-
mente o nome. Ambas são holocaustos queimados; u-
mas, no fogo da dor amorosa; outros, no fogo do amor
doloroso. São diferentes na finalidade e nos meios. A ví-
tima de expiação só quer resgatar pecadores, oferecer-se
a sofrer por eles. A vítima do amor de Deus oferece-se
para receber em seu coração todo aquele amor divino que
foi rejeitado e ficou “represado” no coração de Deus. A
vítima oferece-se para Deus “desabafar”, desagravar todo
este amor retido. Seu meio é a entrega total à vontade
divina. “A palavra vítima era a única a se empregar na
circunstância. Porque é um tormento para o pequeno co-
pinho, para o dedal, ver o oceano precipitar-se sobre sua
pequenez, para enchê-la de amor infinito. Mas é delicioso
tormento, ó martírio inefável” (Conselhos 228)
Sta. Teresinha foi vítima nos dois modos. Pouco de-
pois de sua oferta amorosa, desceram sobre ela as tre-
vas, a provação dolorosa, moral e física. “Sentou-se à
mesa dos pecadores”, padecendo a noite da falta de fé
até a morte, acompanhada no último ano pelas dores físi-
cas da tuberculose óssea.
Nunca pediu sofrimentos. Almas pequenas não fa-
zem isso. Pouco antes de morrer, ainda diz: “Felizmente,
não pedi o sofrimento, pois se o tivesse pedido, o sofri-
mento seria meu. E eu tenho medo de não poder suportá-
160

lo” (Conselho 220)


Mas naturalmente aceitou “com prazer” tudo quanto
Deus lhe enviou, consolo ou desconsolo. Desde os cator-
ze anos, reza pelos pecadores. Com redobrado fervor,
quando carmelita. E se Deus acha que o resgate dos pe-
cadores requer expiação dolorosa, a resposta de Teresi-
nha é o “sim”. Alguém lhe diz na última doença: “É horro-
roso o que estás sofrendo. Responde: “Não, não é horro-
roso. Uma pequena vítima não pode achar horroroso o
que seu esposo envia” (NV 26-IX)
No dia de sua morte, confessa: “Nunca teria julgado
fosse possível sofrer tanto. Jamais, jamais. Só posso ex-
plicá-lo pelos desejos ardentes que tive de salvar almas”
(NV 30-IX)
As vítimas do amor sofrem também: mas de um mo-
do bem diverso (A legião das almas pequeninas não pre-
cisam amar o sofrimento; basta suportá-lo). O texto do
oferecimento indica-o bem no tópico central: “A fim de
viver num ato de perfeito amor, ofereço-me como vitima
de holocausto a vosso amor, ofereço-me como vítima de
holocausto a vosso amor misericordioso, suplicando-vos
me consumais sem cessar, deixando transbordar em mi-
nha alma, ondas de ternura infinita que estão encerradas
em vós e que assim eu me torne mártir de vosso amor, ó
meu Deus”.

Esse martírio de amor é um fenômeno bem conheci-


dos da teologia mística. Deus faz ver à alma o amor infini-
to que ele merece e a incapacidade da criatura finita de
amar um Deus infinito a contento. Este contraste, este
abismo causa uma ânsia, um mal-estar, real tortura. Para-
lelo ou idêntico é o fenômeno das “feridas de amor” des-
critas por Sta. Teresa (Vida, 29; Moradas, 6); e por São
João da Cruz, (Cântico e Chama de amor).
Ruysbroeck escreve: “A ferida do amor é o que há
161

de mais terrível”. Celina comenta o pensamento de Sta.


Teresinha citando suas palavras: “O que satisfaz o amor é
abaixar-se até o nada, a fim de transformar este nada em
fogo” (Vida, 248)
Este oferecimento teresiano ao amor de Deus não
visa reparar culpas ou expiar ofensas a Deus, mas convi-
da Deus a desabafar e derramar seu incontido, infinito
amor nos corações humanos. A resposta de Deus não
tardou. Três dias depois, recitando a Via-Sacra, “fui presa
de repente por tão violento amor de Deus! Era como se
estivesse mergulhada toda inteira em fogo. Que fogo e
que doçura ao mesmo tempo! Eu ardia de amor e sentia
que um minuto, um segundo a mais, não poderia suportar
o ardor sem morrer. Compreendi então o que os santos
dizem destes estados que experimentaram tantas vezes.
Para mim foi só uma vez e só por um instante: pois recaí
logo na minha aridez habitual” (NV VII)
Resposta de Deus a esta oblação foi a graça da intu-
ição de sua vocação, de sua missão espiritual descrita em
Vida, B. Páginas de teologia espiritual grandiosas em sua
elevação vertical; profundíssimas pela intuição das graças
do Reino de Deus. Citamos os textos mais marcantes:
“Hoje é o sexto aniversário de nossa união (profis-
são). Ser tua esposa, ó Jesus, ser carmelita, ser mãe das
almas, isto deveria bastar-me. Mas não é assim. Estes
três privilégios: carmelita, esposa, mãe, são sem dúvida
minha vocação. Entretanto, sinto em mim ainda outras
vocações. Sinto-me com a vocação de guerreiro, de sa-
cerdote, de apóstolo, de doutor, de mártir. Enfim, sinto a
necessidade, o desejo de realizar por Ti, ó Jesus, todas
as obras mais heróicas.”
“Sinto em minha alma a coragem de um cruzado.
Quisera morrer sobre um campo de batalha pela defesa
da Igreja”.
“Sinto em mim a vocação de sacerdote. Com que
162

amor, ó Jesus, tratar-te-ia em minhas mãos... Apesar da


minha pequenez, quisera instruir as almas como os profe-
tas, os doutores”.
“Tenho a vocação de ser apóstolo. Quisera percorrer
a terra, pregar teu nome nas cinco partes do mundo. Qui-
sera ser missionária, não somente durante alguns anos.
Quisera tê-lo sido desde a criação do mundo e sê-lo até
seu fim”.
“Quisera sobretudo, derramar meu sangue por ti até
a última gota. O martírio, eis o sonho de minha juventude.
E este sonho cresceu comigo nos claustros do Carmelo”.
“Jesus, Jesus, se quisesse escrever todos os meus dese-
jos, ser-me-ia preciso emprestar o livro da vida onde são
relatadas as ações de todos os santos, e essas ações
quisera tê-las realizado por ti”.
“Ó Jesus, que vais responder a todas as minhas lou-
curas? Haverá uma alma mais pequenina, mais importan-
te do que a minha? Entretanto, por causa da minha fra-
queza te apraz, Senhor, cumular meus pequenos desejos
infantis. E hoje, queres realizar outros desejos, maiores
que o universo”.
“Fazendo-me estes desejos sofrer um verdadeiro
martírio, abri as Epístolas de São Paulo, a fim de procurar
alguma resposta... Em 1Cor 12,13, li que nem todos po-
dem ser apóstolos, profetas, doutores etc. Que a Igreja é
composta de diferentes membros. Continuei a leitura...
Procurei com ardor os dons mais perfeitos.
“Vou mostrar-vos uma via ainda mais excelente”. E o
apóstolo explica como os dons mais perfeitos nada são
sem o amor. Que a caridade é a vida excelente que con-
duz seguramente a Deus. Encontrei enfim. A caridade
deu-me a chave de minha vocação. Compreendi que a
Igreja tinha um corpo composto de diferentes membros e
não lhe faltava o membro mais necessário, o mais nobre
de todos. Compreendi que a Igreja tinha um coração. E
163

que este coração era ardente de amor. Compreendi que


só o amor faz agir os membros da Igreja. E que, se o a-
mor viesse a se extinguir, os apóstolos não anunciariam
mais o Evangelho. Os mártires recusariam derramar seu
sangue... Compreendi que o amor encerra todas as voca-
ções. Que o amor é tudo... abraça todos os tempos e to-
dos os lugares. Numa palavra, ele é eterno.
No excesso de minha alegria delirante exclamei: “Ó
Jesus, encontrei enfim minha vocação. Minha vocação é o
amor. No coração da Igreja, minha Mãe, serei o amor.
Será realizado o meu sonho...
Sou apenas uma criança impotente e fraca. Mas é a
minha fraqueza que me dá a audácia de oferecer-me co-
mo vítima a teu amor, ó Jesus... A justiça divina exige ví-
timas perfeitas. Mas o amor, para ser plenamente satisfei-
to, abaixa-se e desce até ao nada, a fim de transformar
em fogo este nada”.
E, segue o remate final, numa metáfora deliciosa:
“Sou filha da Igreja. A Igreja é rainha, pois é tua es-
posa, ó divino Rei dos reis! Não são riquezas e glória,
nem mesmo a glória do céu que reclama o coração da
criança. A glória pertence por direito a seus irmãos, os
anjos e santos. A criança só sabe uma coisa: amar-te, ó
Jesus. As obras brilhantes são-lhes interditas. Que impor-
ta? Seus irmãos trabalham em seu lugar e a criança fica
junto do trono do Rei e da Rainha, amando por seus ir-
mãos que combatem, jogando flores e cantando com sua
voz argentina o cântico do amor. Não tenho outro meio de
provar-te meu amor a não ser jogando flores, isto é, não
deixando escapar nenhum sacrificiozinho, nenhum olhar,
nenhuma palavra, aproveitando todas as pequeninas coi-
sas e fazendo-as por amor”.
Ó Jesus meu, eu te amo! Amo a Igreja, minha Mãe
Recordo-me que o mais pequeno movimento de puro a-
mor lhe é mais proveitoso que todos os outros juntos (São
164

João da Cruz)

Duas reflexões após esta longa citação. Sta. Teresi-


nha não se considera como o coração da Igreja, mas o
amor deste coração. A intuição teresiana não se originou
da carta paulina. Ela ultrapassou o pensamento do após-
tolo, que serviu de ponto de partida (Combas)
A santa vai à procura do amor com que Deus ama.
“Ó farol luminoso do amor, sei como chegar a ti!... Encon-
trei o segredo de aproximar-me de tua chama... Com as
próprias asas da águia divina quero chegar até o sol do
amor” (Vida, 254)
Oportuno este anúncio carismático, esta mensagem:
retorno ao núcleo central da espiritualidade cristã, ao a-
mor de Deus. Retorno das tarefas periféricas para o cen-
tro.
Oportuno recordar que não é somente a dor e o so-
frimento de vítimas “salva”, mas também, ou antes, o a-
mor de Deus. As vítimas sejam, pois, em primeiro lugar
suplentes do amor desprezado. Oportuna e grandiosa a
intuição de que o amor divino é a seiva vital da Igreja. É o
sangue que circula no corpo místico, que condiciona a
saúde e o bem-estar espiritual. Cabe à piedade cristã a
tarefa de o fornecer com abundância a todo o mundo. Ta-
refa de nunca deixar faltar o óleo na lamparina. E como é
fácil cumpri-la: amando, jogando flores (e certamente,
admitem-se algumas folhas de capim, de permeio). Até
simples pensamentos são amor de Deus. Eis uma boa
tarefa para nós, pequenos que somos para obras de vulto.
Recitemos e renovemos sempre a oblação como vítimas
de amor. Não há perigo. Quando muito desaba sobre nós
uma torrente ardente de amor de Deus, torturante como
fogo, mas é um fogo do céu. Um dia antes da morte, Sta.
Teresinha confirma sua mensagem: “Já disse tudo, só o
amor é que conta” (NV 30-IX)
165

“A santidade não consiste em tal ou tal prática. Con-


siste, naquilo, que nos faz humildes e pequenos nos bra-
ços de Jesus, conscientes da nossa fraqueza, e confian-
tes, até a audácia, na sua bondade de Pai” (NV 3-VIII)
“Sinto que minha missão vai começar. Minha missão
de fazer amar o bom Deus como eu O amo” (NV 17-VII)

AMOR AO PRÓXIMO

Prólogo
“Temos dois pés para ir ao céu: o amor de Deus e o
amor ao próximo”. “E será um Cristo só amando a si mes-
mo” (Sto. Agostinho)
“Todos os pobres levam escrito na testa o nome de
Jesus” (São Paulo da Cruz)
“Amar o homem por amor de Deus foi até agora o
sentimento mais nobre e mais elevado que a humanidade
alcançou” (Nietzsche)
“Ó amigo, não lhe dou amor, porque tenho pouco e
este pouco quero dar a Deus. Mas dou-lhe bons afetos,
boas palavras e obras, e principalmente uma paciência
sem limites” (HB)
“O primeiro e mais necessário dom é a caridade com
que amamos a Deus acima de tudo, e por causa dele ao
próximo... Caridade, para com Deus e para com o próxi-
mo, é o sinal do cristão verdadeiro” (Vat. II, LG 42a).

Crise

Antigamente, foi talvez preciso lembrar aos cristãos


que não se esquecessem do próximo, de tanto amarem a
Deus. Hoje, acontece o contrário. O humanismo ateu sen-
tenciou: o primeiro mandamento (amar a Deus) era provi-
sório; era para humanizar a besta humana; agora, “reti-
166

rem-se os andaimes”, e suprima-se o primeiro, com gran-


de vantagem para o segundo mandamento (cf. SALET,
Encontrar o Cristo, p. 141). Esta linguagem impressionou
muitos cristãos e até teólogos monoteístas.
Rahner, por razões filosóficas, não teológicas, acha
que o amor ao próximo substitui e dispensa o amor a
Deus. “Ambos são radicalmente idênticos”. Objeto primá-
rio do amor de Deus é o próximo. Objeto secundário é
Deus Pai, Filho e Espírito Santo. A prova bíblica não con-
vence, nem a ele mesmo (RAHNER, Escritos VI, 282). E o
mais é construção não teológica, mas filosófica: pois as
razões aduzidas revelam-se da alçada da antropologia
filosófica.
Abandonamos, portanto o sistema copernicano e re-
tornamos ao ptolemáico: a terra é o centro imóvel do uni-
verso; sol, lua, galáxias, estrelas, giram ao seu redor. Es-
tranha teologia. Ouvimos a queixa do Filho de Deus: “A-
bandonaste teu primeiro amor” (Ap 2,4).

Sempre novo

Não vou desmentir ou desprestigiar esta filha do céu,


três vezes bendita que contém todas as promessas do
céu e da terra, desde o “Sermão da Montanha” até o La-
va-pés. Mas ela fique como segundo lugar. O primado é
do Ser Supremo, Deus. E suas criaturas são um ótimo
campo de treino, onde podemos testar e comprovar nosso
amor pelo Deus invisível, tratando bem, em pensamentos,
palavras, obras e omissões suas criaturas visíveis. Não
há dúvida: amar a Deus, sem amar os homens, está erra-
do. Mas com uma ligeira correção: sem amor sobrenatu-
ral. É sumamente desagradável combater uma idéia boa e
perfeita em si. Nosso século não só viu acesas verdadei-
ras fornalhas de ódio infernal; viu também florir, de um
modo descomunal, a caridade fraterna. Assim o movimen-
167

to dos focolari (Mariápolis). Assim a Cruzado do Pe. Lom-


bardi, um “carismático” no melhor sentido da palavra. Mas
repito: o primeiro próximo é Deus, e ele não tem vontade
nenhuma de renunciar ao afeto do nosso coração.
Mandamento antigo e sempre novo. “Infelizmente,
continua novo porque o cumprimos mal. O fermento e-
vangélico deve lutar durante toda a vida para vencer as
resistências obscuras e sempre renascentes (do egoís-
mo). Passados anos, após nosso batismo, parece que
muitas zonas do nosso eu não estão ainda batizadas. É
preciso cristianizar-nos (SALET, 137). Como prova, basta a
história das guerras militares ou econômicas perpetradas
pela humanidade. Ou há quem prefira a psicanálise, que
também sabe contar algo sobre a “bestia bionda”.

Em Cristo

É mandamento antigo. Já figura no código mosaico


(Lv 19; Dt 6).
Mas Jesus deu-lhe novo vigor, uma nova motivação.
Na perspectiva ascética, espiritual, é mister acentuar que
a perfeição, a santidade, consiste basicamente na união
de cada um com o Cristo místico, na intensidade desta
ligação de cada indivíduo com o Cristo-cabeça. Neste or-
ganismo circula a seiva vital, e é transmitida a cada um
diretamente por Jesus-Homem. Assim, no nível ontológi-
co. Membros doentes não transmitem o vírus do contágio
neste nível teológico, mas só na linha externa, moral. Mas
no foco central deste organismo místico arde em labare-
das o amor de Jesus por todos os seus irmãos. Por todos
morreu. A todos quer salvos e santos. Nesta perspectiva
cristológica une-se a nós com um novo laço. Ele não é
somente criatura do mesmo Pai; Ele, tornou-se pelo Ba-
tismo, parte de nós, parcela do Corpo Místico. E aí entra
em função outro ordenamento de Jesus, que vai bem a-
168

lém do “Lava-pés”: “Este é meu novo mandamento: amai-


vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12). A cari-
dade fraterna de Jesus é medida, modelo e motivo da
nossa caridade fraterna. Como Jesus, por sua vez, imita o
amor do Pai.
Todos têm um lugar, afeição e carinho no coração
de Deus. Tenham-no, também no nosso. Deus quer que
partilhemos deste seu amor pelas suas criaturas. Quer
que façamos todo o empenho a fim de impedir que elas
recusem o amor de Deus. Amor que quer abraçar eter-
namente todos os seus filhos, bons ou pródigos... É este o
valor do ser humano: sua capacidade de ser amado por
Deus. É o que a criatura tem de “amável” aos olhos de
Deus. É o que possuímos em valores reais para sermos
amados; tudo o mais é de somenos importância.

Trampolim

“O mundo de hoje protesta: não quer ser trampolim


para o cristão ganhar o céu. Não quer ser uma ocasião
para amar a Deus, um pretexto para o amor a Deus e um
degrau para nos elevar até Deus. Parece evidente que
assim o homem não é amado por si mesmo, no seu valor
concreto. Quer dizer, que não é amado absolutamente”
(SALET, 138).
Mas é difícil a Lua suplantar o Sol. Sua luz é em-
prestada do sol. Mas outro valor o homem não possui que
ser filho de Deus, ou ter a possibilidade de vir a sê-lo.
Com exatidão e nitidez expressa-se o teólogo: “A razão
de amar o próximo é Deus; pois, o que devemos amar no
próximo é que ele esteja em Deus” (II 25,1); “Deus é a-
mado em razão da bem-aventurança eterna; e o próximo
como participante conosco” (II II 26,2). É a doutrina que
encontramos na Escritura do N.T.
169

Escalas

Numa fase preliminar, a caridade induz a dar abun-


dantes esmolas, a fim de granjear com esta riqueza mate-
rial, tentação perene de injustiças, bons amigos no além,
que nos acolham em suas casas. Trata-se, pois, de com-
prar casa no céu. A esmola é pagamento, a prestações,
do loteamento. Quem não tem dinheiro supérfluo para dar
esmola, dê caridade-bondade (Mt 7,1).
Creio que devemos ver na parábola de Lc 16 mais
que um bom chiste.
Numa linha superior, São Tiago (5,20) salienta uma
recompensa especial para quem trabalha pela conversão
dos pecadores: o perdão dos próprios pecados.
No sermão da montanha, lemos: “Bem-aventurados
os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt
5,7).
Mas tudo isto é trampolim; pertence ao campo da
virtude moral humana. Não é a virtude teologal. Ainda não
é a irmã gêmea da caridade divina. Devemos subir mais
alto. No “Lava-pés”, encontramos exemplo e doutrina:
“Dou-vos um novo mandamento: Que vos ameis uns aos
outros, como eu vos amei” (Jo 13,34). E Jesus não se
contentou em lavar os pés de seus discípulos. O amor de
Jesus é medida, modelo e motivo, razão de ser do nosso
amor pelo próximo. No A.T., a medida da caridade para
com o próximo foi a amá-lo como a si mesmo. No Reino
de Deus, a medida é o amor de Jesus, que morreu na
cruz por amor do próximo. Jesus mesmo declarou que é o
maior amor que se pode ter para com o outro (Jo 15,13).

Amor Teologal

O motivo do nosso amor para com o próximo, amor


disposto a dar até a vida, é Jesus, é Deus. Escreve Sta.
170

Teresinha, com muita graça (Vida, 280): “Como e por que


Jesus amou seus discípulos? Ah! Não eram suas qualida-
des naturais que poderiam atrai-lo. Havia entre eles e Je-
sus uma distância infinita. Ele era a ciência, a sabedoria
eterna; eles, pobres pescadores, ignorantes e imbuídos
de idéias terrestres. E Jesus chama-os de amigos, ir-
mãos”. Nesta luz sobrenatural, a santa declarou: “Deus
tem prazer em mostrar seu amor ao próximo, usando-nos
como seu instrumento”.
Assim, desta maneira, a caridade para com o próxi-
mo é realmente teologal. É a terceira e a mais elevada
das três virtudes.
E ela recusa-se a ficar no plano do amor humano.
Sto. Tomás proclama, em fórmulas sem ambigüidade: “Só
tem caridade para com o próximo, quem ama a Deus” (II II
103,3). Escreve Clara Lubich: “Trata-se de amar o próxi-
mo como Deus o ama... se permanecerem restos de afe-
to, é sinal que o irmão foi amado, ou por nós ou por ele
mesmo, e não por Jesus: aqui está o mal” (Meditações,
17).
Mas esta caridade é um amor real pelo homem. Por
sinal, o mais forte dos amores possíveis Que ilusão a da-
queles que dizem: “Não quero este vosso amor; quero um
amor humano...” (SALET, 164). Oh! Não querem ser ama-
dos com amor divino; só com o amor humano. Será, este
o mais forte? Mais autêntico? Mais sincero? Que ilusão!
Iludem-se, esquecidos do egoísmo humano, que brota
sempre como tiririca. Iludem-se, desconhecendo o amor
infinito de Deus Pai e de Jesus Salvador. Maior amor não
é possível. E é com este amor que o cristão ama o próxi-
mo!
Entenda-se: o cristão autêntico. Não os cristãos de
meia tigela, que são uma legião, mas os Santos, que re-
almente amam a Deus acima de tudo e até acima do pró-
ximo, e brilham pelo fulgor da caridade fraterna. Como
171

exemplos, só dois, bem conhecidos: São Vicente de Pau-


lo e Carlos de Foucauld.

Deus versus Homem

O amor de Deus não faz concorrência com o do ho-


mem. Aliás, se o fizesse, o homem perderia fatalmente.
Enfim, Deus vale algo mais, para ser mais amado.
Deus não reclama pão ou dinheiro de esmola, que
faria falta aos subdesenvolvidos. Deus ama para dar, e
nós amamos no próximo os dons de Deus, atuais ou futu-
ros. Devemos ajoelhar-nos aos pés de Jesus, quebrar o
vaso de alabastro e derramar o óleo perfumado do nosso
amor sobre os seus pés, e apesar do protesto dos eco-
nomistas (Jo 12,7). Jesus está à nossa espera.
Mas uma vez com a palavra, Salet (168): “O homem
tem um valor autêntico, somente pela sua relação com
Deus. Como criatura não tem, em si mesmo, solidez e
consistência, nem a razão de sua própria amabilidade. Ele
não é amável, senão dentro de suas possibilidades, do
seu mistério, do seu futuro divino... O homem não é ver-
dadeiramente amado se não é amado por Deus”. “Nisto
conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amar-
des uns aos outros” (Jo 13,35).

ANTOLOGIA

Antologia imperfeita do amor perfeito. Do Jardim do


Eleitos, flores e modestas ervas.

O Sufi

Os sufis do Islão, filhos do deserto, têm o gosto da


solidão, do infinito, do mistério das estrelas do céu notur-
no.
172

Jalal al-Din al-Rumi conta-nos: “Ele bateu à porta do


bem-amado. Uma voz de dentro perguntou: Quem é? Ele
respondeu: Sou eu. E a voz respondeu: Esta casa não é
capaz de conter nós dois, a mim e a ti. E a porta perma-
neceu fechada. O amante retirou-se para a floresta, orou
e jejuou na solidão. Um ano depois regressou. Bateu de
novo à porta e de novo a voz perguntou: Quem é? Res-
pondeu: Sou tu. E a porta abriu-se de par em par”. O a-
mor divino reduz-se a um só. Ou melhor: ele suplanta o
amor próprio. “Feliz o homem que mereceu chegar a este
(quarto) grau onde se ama a si próprio só por Deus” (São
Bernardo)

Sto. Agostinho

“Deus não te proíbe amar as criaturas, mas só de


afeiçoares a elas como última felicidade. Podes apreciá-
las e louvá-las, a fim de amar Criador.
Irmãos! Se o esposo manda fazer para a sua esposa
uma aliança, e esta chega a amar mais a aliança recebida
do que o noivo que lha deu... É como se dissesse: basta-
me esta aliança; mas não quero ver mais a cara dele... Tu
amas o outro em vez do esposo. Tu amas o anel em vez
do noivo. Ele te deu este penhor a fim de ser amado atra-
vés do presente.
Assim, Deus te deu tudo. Ama, pois, quem tudo fez.
E ainda mais: quer dar-te a si mesmo quem tudo fez. Se
tu porém amas as criaturas e fazes pouco do Criador,
bem se vê que teu amor é falso.”
Recém convertido, Sto. Agostinho lamenta: “Tarde
aprendi a amar-te, ó eterna beleza; tarde na vida”.

São Bento

Deixou-nos a sentença lapidar: “Nada seja anteposto


173

ao amor de Cristo” (4,21). E ele retorna ao tema: “Nada


tenham em maior apreço do que o amor de Cristo” (5,2).
“Não prefiram absolutamente nada a Cristo” (7,11). “De-
vem viver não no temor do inferno, mas no amor de Cris-
to” (7,69). “Pelos graus da humildade o monge chega logo
à caridade, àquela que sendo perfeita expulsa o temor”
(7,67).

Sta.Margarida de Cortona

“Como é fácil salvar-se. Basta amar”.


Jesus: “Quero enriquecer-te da minha graça. Tanto
que nenhuma mulher do século tem recebido igual. Ama-
me, portanto, pois eu te amo. Publica meus louvores e eu
te louvarei e far-te-ei louvada no mundo inteiro”.
Jesus: “Terei cuidado de ti em tudo, porque és mi-
nha filha, minha amiga, minha irmã, a que eu mais amo
entre todas as mulheres que agora vivem na terra... Serás
grande no céu... Não quero que proves alegria do mundo,
porque eu também não as tive. Tu me seguirás, partilhan-
do minhas dores. Estou te preparando tribulações, porque
ainda estás a caminho, não na pátria. Estarei contigo. Até
o fim da tua vida crescerás, sem cessar em seu amor”.

Ângela de Foligno

“Sétimo dom, o amor. Dá-me ter o amor, porque os


anjos e os santos não pedem outra coisa que ver aquele
que amam e amar aquele que contemplam. Ó dom, que
não há outro igual, pois é tu mesmo o Senhor!”
Jesus: “Eu não te amei por fita. Não fui teu servidor
só por fingimento”. Ângela comenta: “É verdade, bem ver-
dade”. Jesus continua: “Todos os amantes e seguidores
da pobreza, da paixão, da minha humilhação são meus
filhos legítimos e meus eleitos. Todos os que fixam sua
174

mente na Paixão e Morte, e não alhures, são meus filhos


legítimos; os outros, não”.
“A alma vê que só Deus existe e que todas as de-
mais nada são”.
A Santíssima. Virgem aparece-lhe durante a missa e
diz: “Sê abençoada por meu Filho e por mim, e não te
preocupes com coisa alguma, senão em amar com todas
as forças, pois tu és muito amada e chegarás à visão e-
terna”.
“Ficou-me tanta certeza, tanta luz, tanto fogo de a-
mor divino, que andava afirmando com profunda convic-
ção que é uma nulidade quanto se prega sobre o amor de
Deus. Os pregadores não são competentes nesta matéria.
Não entendem o que estão dizendo”.

Sta. Brígida

Jesus: “Quando criei o homem, apaixonei-me pela


beleza de minha criatura, pois ela foi feita à minha ima-
gem e semelhança.”
“Não podíamos pedir a Deus que nos criasse, mas
Deus, impelido por um fogo de amor, criou-nos à sua pró-
pria imagem, numa dignidade que a língua é incapaz de
dizer; o olho incapaz de ver; nosso espírito incapaz de
compreender. Eis a nossa dívida para com Deus, dívida
que reclama pagamento; reclama amor. A alma não pode
viver sem o amor, porque foi feita de amor. Criei-a por
amor, diz o Senhor Deus”.
“Ó abismo, ó Divindade eterna, ó oceano sem fundo,
que mais poderias dar além de ti? Tu és o fogo que quei-
ma e jamais se extingue. Tu és o fogo que desfaz toda
frieza. Fogo que derrete o gelo. Fogo, cujo clarão me fez
conhecer a verdade”.
“Se é verdade que Cristo, o Filho de Deus, morreu
na cruz, mister se faz que todo coração se transforme
175

num Gólgota, e que os olhos não se deslumbrem mais


com outras flores que não as cinco rosas vermelhas de-
sabrochadas no jardim do Corpo de Cristo. Nenhum outro
amor é permitido, a não ser o amor deste esposo de san-
gue. Que sua mão esquerda ensangüentada me abrace
com força... Impossível resistir-lhe”.
Num êxtase, após a comunhão, exclama: “Ó Trinda-
de eterna, pequei todos os dias de minha vida. Ó alma
miserável. Nunca te lembraste de teu Deus? Certamente,
não. Se o tivesses feito, tu te terias consumido na fornalha
do seu amor”.
“Em tua natureza, ó Deus eterno, eu reconheço mi-
nha própria natureza. Minha natureza é o fogo.” Jesus,
sorrindo, corrige: “Eu sou o fogo e vós as centelhas”.

Matilde de Helfta

“Nosso Senhor pôs suas mãos divinas sobre as


mãos da sua esposa para lhe dar todo o trabalho e todas
as obras de sua santa humanidade. Pôs em seguida seus
olhos tão suaves sobre sua bem-amada, comunicando-lhe
os méritos dos seus santos olhares e das lágrimas abun-
dantes por ele derramadas. Pelo contato com seus ouvi-
dos deu-lhe todas as operações de seu ouvido divino. Pe-
lo contato com seus lábios vermelhos, todas as palavras
de louvor, de ação de graças, de petição e até mesmo de
suas pregações públicas. Enfim, uniu seu doce Coração
com o de sua bem-amada e aplicou-lhe o fruto de todo o
seu trabalho de meditação, de devoção, de amor, e enri-
queceu-a de todos os seus bens. Então, esta alma, toda
incorporada em Cristo, derretida pelo amor como cera
pelo fogo, recebeu o selo da semelhança divina. Tornou-
se uma só coisa com seu bem-amado”.
Ela viu abrir-se a chaga do sagrado Coração e ouviu
dizer-lhe: “Contempla toda a extensão do meu amor. Co-
176

mo meu Pai me tem amado, assim eu vos tenho amado...


Quando a lança abriu o meu lado, eu ofereci a todos o
meu Coração para beber a vida, a todos que em Adão
tinham bebido a morte; a fim de que todos se tornassem
filhos e herdeiros da vida eterna”.
Certa vez, chegou atrasada à missa, sem culpa sua
e ficou triste. Jesus lhe diz: “Julgas que não tenho valor
suficiente para pagar todas as tuas dívidas... para suprir
todas as tuas omissões?”
Maria Santíssima a instrui: “Oferece o meu Coração
por todas as negligências, e tuas faltas serão amplamente
reparadas”.
Recebe a graça da transverberação do coração,
como mais tarde Sta. Teresa d’Ávila e outros.
Jesus: “Dou-te meus olhos para que vejas tudo por
eles. Dou-te meus ouvidos, a fim de que, compreendas
tudo o que ouves. Dou-te a minha boca para que faças
passar por ela todas as tuas palavras, tuas orações, teus
cantos. Dou-te o meu coração, a fim de que, por meio de-
le, penses; por ele me ames e todas as coisas por mim”.
“A esta última palavra, Jesus atraiu-a a si e uniu-a consi-
go, a tal ponto que a alma parecia ver com os olhos de
Deus; ouvir com os seus ouvidos; falar por sua boca e
não ter mais outro coração, senão o coração de Jesus”.
“Doce e amoroso Senhor, como gostas de me ver
ocupada?”
Jesus: “No louvor de Deus. ... Para reparar tuas ne-
gligências e recuperar o tempo perdido, saúda o meu co-
ração. Aí há superabundância de graças e de bondade”.
Viu o coração de Jesus como um labareda chamejante.
Jesus: “Queria que os corações de todos os homens
fossem assim inflamados”.
Jesus: “Quando derramo sobre ti minha graça, deixa
tudo, suspende teu trabalho e entrega-te em plenitude à
graça. Nesse momento não podes fazer coisa melhor ou
177

mais vantajosa”.
Jesus: “Tu deves suportar toda pena corporal ou es-
piritual, não por ti, mas por mim, como seu eu padecesse
em ti. Não sejas mais do que um vestido, com o qual eu
me revista, e sob o qual eu possa coordenar e executar
as tuas ações”.
Rezando Matilde por uma pessoa aflita, Jesus res-
ponde: “Por que essa pessoa não quer aceitar o que eu
desejo lhe dar? Minha santa e inocente vida na terra, eu
lha ofereço todinha e de boa mente. Ela que a tome para
suprir tudo o que lhe falta...”
Matilde: “Se tu, Jesus, gostas tanto que a gente se
apodere do que é teu, dize-me por favor, ó Deus bondoso,
dize-me como fazê-lo?”
Jesus: “A alma ofereça ao meu Pai, todos os dese-
jos e orações. Toda oração penetra o céu, mas não tem o
mesmo valor se não está unida à minha. O mesmo vale
para as ações”. Matilde: “Apoderemo-nos da santa vida
de Cristo, a fim de suprir o que nos falta”...
Jesus: “Oferece-me cada manhã teu coração a fim
de que nele derrame o divino amor”. Matilde: “Mestre, o
que fazes tu, quando rezo ou recito Salmos?” “Fico escu-
tando. Quando cantas, ajusto minha voz à tua. Quando
trabalhas, descanso. Quando te alimentas, eu trabalho,
porque eu me alimento de ti e tu de mim. Quando dormes,
vigio e te guardo”.
Jesus: “Na Santa Missa ofereço-me com todo o a-
mor de meu coração para suprir tudo quanto falta aos
homens”.
Jesus: “A face de tua alma é imagem da Santíssima.
Trindade. Tua alma deve contemplá-la sem cessar. Ocu-
pando a mente com pensamentos terrestres e inúteis, a
imagem fica manchada”.
Jesus: “Se o homem compreendesse o quanto pode
merecer num só dia, mal esteja acordado, seu coração se
178

dilataria de alegria ao ver luzir mais uma jornada a ser


vivida para Deus e sua glória”.
Matilde, caíra em profunda tristeza, julgando-se inú-
til. Após tantas graças recebidas, não amava quanto devi-
a. Jesus: “Oh, minha bem-amada, nada de tristezas! Pois
tudo o que é meu é teu.” Matilde: “Se é realmente assim,
então teu amor é meu, e eu te ofereço este amor para que
supras o que me falta”.
Jesus: “Está certo assim. Quando me queres louvar
ou amar, e não consegues satisfazer teu desejo, então
dize: Eu te louvo bom Jesus; tudo que me falta, queiras
completar, por favor. Quando desejas amar-me, dize: Eu
te amo, bom Jesus e tudo que me falta queiras suprir, ofe-
recendo ao Pai por mim, o amor de teu coração... E dirás
à pessoa pela qual estás rezando, que ela faça também
assim. E se ela voltar mil vezes por dia, mil vezes me ofe-
recerei por ela ao Pai. Não sou capaz de sentir lassidão
ou aborrecimento”.
Num dia de festa, a monja-cantora cai doente. Matil-
de lamenta não poder servir a Jesus na liturgia. Jesus:
“Desde quando estou proibido de entreter-me alegremen-
te com minha bem-amada? Quando uma pessoa está do-
ente, eu me revisto de sua alma como de um manto de
glória e apresento-me ao meu Pai, dando graças e louvo-
res por todos esses sofrimentos’.
Jesus: “Se alguém deseja que eu me revista de sua
alma, deve suspirar por mim, desde a madrugada, e com
ardor. Seus desejos fazem-no tornar-se meu vestido. A
alma que vive de mim, age por mim”.
Jesus: “Minhas chagas curam todas as fraquezas da
alma. Há tantos corações tímidos que não ousam confiar-
se à minha ternura”.
Gertrudes, a abadessa falecida, recomenda após
sua morte: “Que não se prefira nada ao amor de Deus”.
Maria Santíssima recomenda: “Faze tudo pela glória
179

de Deus e pela salvação do mundo”.

Juliana de Norwich, 1430

“Nosso Senhor, mostrou-me, na palma da minha


mão, uma coisa pequenina, do tamanho de uma avelã,
redonda como um bolinha. Olhei, pensando: o que será
isto? Foi-me respondido: “É uma figura de tudo quanto foi
criado”. Como estranhei que isto pudesse subsistir, ouvi a
resposta: “Subsiste, sim, e sempre subsistirá porque Deus
o ama. Tudo o que existe, deve sua existência ao amor de
Deus”.
“De todos os sofrimentos que conduzem à salvação,
este é o maior: ver sofrer o Amor”.
Jesus: “Então, estás bem contente por que padeci
por ti?” “Oh, sim, muito agradecida, bendito sejas.” “Se
estás satisfeita, eu estou mais ainda. Para mim é uma
alegria, um prazer, uma satisfação imensa, ter sofrido mi-
nha Paixão por ti. Se pudesse sofrê-la de novo, bem que
o faria”. “Estás contente? Se é assim, estou contente
também.” É como se dissesse: “Em recompensa de mi-
nhas dores, só quero uma coisa: teu agrado e contenta-
mento”.
“Todo radioso, mostrou-me Jesus, seu coração
transpassado pela lança: Vê, quanto te amei”. “Queres ver
a Senhora? Ela é, depois de mim, a alegria maior que eu
te possa revelar. Ninguém me agrada e me honra tanto
como ela. Por amor de ti, fi-la tão grande, tão nobre, tão
bela: estou satisfeito, e queria que estivesses também”.
“Convém que haja pecado. Mas não te preocupes.
All shall be well: tudo vai acabar bem. O pecado de Adão
foi a coisa mais detestável que se fez ou será feito até ao
fim do mundo... Considera como a satisfação gloriosa ofe-
recida a Deus lhe é infinitamente mais agradável e presta-
lhe mais honra do que o pecado lhe tem causado ofensa.
180

Tenho a possibilidade de fazer que tudo vá bem. Tenho o


poder. Tenho a vontade. Sim, farei que tudo corra bem.
Tu verás”.
“Para mim é uma alegria, um prazer que nunca aca-
bará, o ter sofrido a Paixão por ti. Tudo irá bem. Tem con-
fiança. Algum dia tu também o verás”.
Durante toda a nossa vida Jesus nos diz: “Deixa-me
ser todo o teu amor. Interessa-te por mim. Eu deveria bas-
tar-te”.
“Não percebi a diferença entre Deus e a nossa subs-
tância (alma na graça santificante). Diríamos que tudo era
Deus”.
“Na alegria ou na tristeza, para agradar a Deus de-
vemos compreender que na verdade estamos mais no
céu do que na terra”.
“Nossas mães puseram-nos no mundo para sofrer e
morrer. Nossa mãe verdadeira, Jesus, criou-nos para a
alegria e a vida eterna. Bendito seja! E ainda diz: Se pu-
desse sofrer mais, sofreria ainda mais”.
“Depois das nossas quedas, façamos como a crian-
ça: Quando se machucou ou tem medo, corre com toda a
pressa para junto da mãe, ou pede socorro, gritando com
toda a força”.
“Serás libertada subitamente de toda a dor, doença,
mal-estar e pena, e subirás. Eu mesmo serei tua recom-
pensa. Por que te entristeces por sofrer um pouco, quan-
do vês que é da minha vontade e para minha glória?”

Sta. Catarina de Gênova

Jesus: “Se tu soubesses o quanto eu amo as criatu-


ras, não quererias mais saber de outra coisa neste mun-
do... Meu amor é infinito. Só posso amar o que criei”.
“Não quero saber de amor criado, isto é, de um a-
mor no qual me possa deleitar. Decidi que, enquanto esti-
181

ver viva, direi sempre ao mundo: Quanto ao meu exterior,


faze de mim o que quiseres; mas quanto ao meu íntimo
deixa-me, porque não posso, não quero nem queria que
estivesse em meu poder ocupar-me com outra coisa que
não seja só Deus, que trancou tão bem meu íntimo, e que
de tal forma não quer abri-lo para ninguém. Sabe que a
força que ele emprega é tão grande como sua onipotên-
cia”.
“Ele não faz outra coisa do que consumir esta (mi-
nha) humanidade, por dentro e por fora. Em meu íntimo
só consigo ver a ele; porque aí não deixo entrar nenhum
outro; nem a mim, menos ainda que os outros, porque de
mim é que sou mais inimiga. Às vezes é necessário usar
a linguagem do mundo para designar este eu: mas quan-
do o menciono, ou quando sou chamada por outros, digo
a mim mesma: meu “eu” é Deus; não conheço outro fora
de meu Deus. E meu ser é Deus, não por simples partici-
pação, mas por uma transformação verdadeira, e pelo
aniquilamento do meu próprio ser”.
“Vejo claramente como o homem se engana neste
mundo, ocupando-se com coisas que não existem e dan-
do-lhes valor... Tudo o que há neste mundo, por bom e
bonito que seja, por útil que seja, aquilo que vês não exis-
te, tão grande é Aquele que existe” (Jacopone da Todi).
“ Nosso espírito foi criado para amar e ser feliz. Ele
não encontra jamais a paz nas coisas temporais Engana a
si próprio. Um possesso gritou: eu sou infeliz, privado que
fui do amor. Oh! como gritava com voz desesperada! Cor-
tava o coração”.
“Este amor de Deus liquefaz em mim toda a medula
do corpo e da alma, e às vezes sinto como se o meu cor-
po estivesse transformado-se em pasta; e na aversão que
tenho por coisas corporais, ele se me torna insuportável”.
“Ordenas-me amar meu próximo. Ora, não posso
amar senão a ti, nem tolerar nenhuma mistura nesse a-
182

mor. Que faço?” Jesus: “Quem me ama, ama tudo o que


eu amo”.
“Deus fez-se homem, para fazer-me Deus. Quero,
pois, tornar-me toda de Deus, por participação”. “Ó amor,
não posso compreender, que outros, além de ti, devam
ser amados. E se o compreendesse, estaria bem aflita”.
“O amor a Deus, afinal, nada mais é que o amor a
nós mesmos, porque para aquele amor é que fomos cria-
dos. O amor a qualquer outra coisa deve chamar-se pro-
priamente ódio a nós mesmos, porque nos priva do amor
único que é Deus. Por conseguinte, ama a quem te ama!
Deixa quem não te ama! Isto é, todas as coisas abaixo de
Deus; porque todas elas são inimigas deste amor verda-
deiro”.
“A alma perde todo o gosto... O homem fica sem al-
ma e sem corpo, sem céu, sem terra. Ele come, bebe,
gosta, pensa, quer, recorda, mas todos estes atos reali-
zam-se sem atuação da natureza. Realizam-se acima da
natureza. Porque é Deus quem dá gosto, entendimento,
vontade, memória, como lhe apraz”.
“Comendo pão, a sua substância útil sustenta o cor-
po; e o resto inútil é eliminado, e isso é necessário, senão
se toma veneno. Suponhamos que este pão te diga: “Por
que me privas do meu ser? Não gosto de ficar aniquilado.”
E que respondas: “Pão, teu ser é destinado a sustentar
meu corpo, que é mais digno que tu. E tu deves até dese-
jar atingir teu fim para o qual foste criado. É este fim que
te dá a dignidade; sem isto és jogado fora, como coisa
inútil. E tu me deves dizer: depressa, depressa, tira-me
meu ser e põe-me na finalidade para a qual fui criado”.
É o que Deus faz com o homem, criado para a vida
eterna. Aproveita o que é bom. O resto é eliminado pouco
a pouco. Corta a raiz das más inclinações e o galho res-
pectivo seca. “Dei as chaves da minha casa ao Amor, e
com elas amplo poder para fazer tudo o que é precioso,
183

sem levar em consideração a alma, o corpo, os bens, pa-


rentes, amigos, mundo. Ele aceitou a tarefa... e eu fiquei
esperando, atenta”.

Camila Batista Varna - 1524

“Meditando sobre o amor de Deus, percebi que es-


tava-me afundando num abismo sem fundo. Por duas ve-
zes tentei retroceder, e foi-me impossível. Uma luz me fez
entender três coisas:
1. Que nunca poderemos retribuir o amor com que
Deus nos amou primeiro.
2. Que todo o nosso amor por Deus mais parece ser
ódio; nossos louvores, sacrilégios; nossas ações de gra-
ças, blasfêmias.
3. Vi, com toda a clareza e certeza, que nem a santa
Mãe de Deus, nem todos os anjos, nem todos os homens
juntos são capazes de agradecer ao amor divino, de um
modo suficiente, pela mais pequenina flor da terra, criada
para nosso uso e deleite, tão grande é a distância entre o
nosso nada e nossa miséria e a infinita bondade e gran-
deza de Deus.
E fui lembrando-me de todas as graças que recebe-
ra de Deus, e certamente foram algo mais que flores e
ervas. E caí em desespero por causa de mim e de todas
as minhas boas obras...
Cessou a luz e veio um fogo que inflamou a alma to-
da, um desejo sem limites, sem medida, de estar com Je-
sus. Padeci um verdadeiro martírio”.

Sta. Teresa d’Ávila

Jesus: “Ah! filha, quão poucos me amam de verda-


de... Sabes o que é amar-me de verdade? É compreen-
der, que é mentira tudo quanto me desagrada” (Vida 40,1)
184

“Dás bem a entender que nos basta amar-te deveras


e renunciar a tudo para que tornes tudo fácil... Quem te
ama de verdade, anda seguro, trilha caminho largo, estra-
da real” (Vida 35,13)
“Quem muito amar, verá que pode padecer muito
por ele. Quem o amar pouco, pouco poderá.” (Caminho
35,7)
“Pois tudo ele sofre em troca de uma alma que o re-
ceba e o guarde com amor; seja essa alma a vossa.” (Ca-
minho 35,2)
“Praza à sua Majestade dar-nos seu amor antes de
nos tirar desta vida, porque grande consolação causará, à
hora da morte, saber que seremos julgados por Aquele a
quem amamos acima de tudo. Seguros, poderemos partir
com o processo de nossas dívidas” (Caminho 40,8).
Ferida pela seta de fogo, vivendo num martírio de
amor: “Valha-me Deus! Ó Senhor, como apertas aos que
te amam. Mas tudo é pouco... em comparação a este tor-
mento e angústia que não pode haver maior na terra.”
(Morada 6,11).
Isto também é amor. “Cansei-me de o ofender, antes
que ele se cansasse de me perdoar. Ele jamais se cansa
de dar, nem se pode esgotar sua misericórdia. Não nos
cansemos também de receber. Seja bendito para sempre.
Amém” (Vida 19,15)
Ainda uma palavra de consolo na hora amarga. Je-
sus: “Alimenta-te por amor de mim. Dorme, por amor de
mim. E tudo o que fizeres, seja por meu amor. Como se já
não vivesses tu, mas Eu” (Revelações 56)
Para terminar, um recado peculiar. Após uma visão
do céu, Jesus conclui: “Vê, filha, o que perdem os que são
contra mim. Não deixes de lhes dizer...”
“De algumas almas aprouve ao Senhor mostrar-me
os graus que têm de glória. É grande a diferença que vai
de umas às outras” (Vida 38, 3.32)
185

São João da Cruz

“Ao entardecer da vida, sereis julgados sobre o a-


mor” (Avisos 57)
“Aquela única coisa que a esposa disse ser necessá-
ria é a constância e o contínuo exercício do amor de
Deus. Não há obra melhor e mais necessária do que o
amor... Convém notar que, enquanto a alma não chegou a
este grau de união de amor, convém-lhe exercitar o amor
tanto na vida ativa, como na vida contemplativa. Mas
quando já chegou a ele, não lhe é conveniente ocupar-se
de outras obras e exercícios exteriores que lhe possam
impedir um pouco aquela assiduidade no amor de Deus,
embora sejam de grande serviço de Deus, porque é mais
precioso para ele e para a alma um pouquito deste amor,
e aproveita mais à Igreja (embora pareça que nada faz),
do que todas essas obras juntas.
Se, pois, uma alma está neste grau de solitário a-
mor, grande agravo lhe fariam, tanto a ela própria como à
Igreja, se ainda que por pouco tempo a quisessem ocupar
em coisas exteriores, embora fossem de muita importân-
cia, pois se Deus conjura que a não despertem desse
amor, quem se atrevesse a fazê-lo irá ficar sem repreen-
são? Porque, enfim, para este fim de amor fomos criados.
Advirtam pois aqui os que são muitos ativos e pen-
sam abraçar o mundo com suas prédicas e obras exterio-
res, que dariam muito mais proveito à Igreja e muito mais
agrado a Deus, além do bom exemplo, se gastassem a
metade deste tempo com Deus, na oração, mesmo que
não tivessem chegado a um grau tão alto de oração. Cer-
tamente fariam mais e com menos trabalho, com uma o-
bra mais do que com mil, merecendo-o sua oração... Se-
não é tudo martelar e fazer pouco mais que nada, e às
vezes nada, e até, às vezes, dano. Deus os livre que se
186

comece a desvanecer o sal.” (Cânticos 29)

São Francisco de Sales

“Quando o homem pensa com um pouco de atenção


em Deus, sente doce emoção no coração: o que demons-
tra que Deus é o Deus do coração humano”.
“Há uma correspondência desigual entre Deus e o
homem para a recíproca perfeição. Não podemos ser ver-
dadeiros homens, se não possuímos uma natural inclina-
ção para amar a Deus mais do que a nós mesmos. Na
raiz de nosso ser há o secreto aviso de que pertencemos
à bondade divina, por aflitiva que seja nossa impotência
de realizar naturalmente essa inclinação”.
“Nossas misérias e fraquezas não nos devem sur-
preender. Deus já viu coisa pior”. “O amor de Deus é, en-
tre as virtudes, como o sol entre as estrelas. Distribui a
todas sua claridade e beleza. A fé, a esperança, o temor
de Deus e a penitência geralmente precedem-no, para
preparar-lhe o alojamento. Mas desde que ele chega, o-
bedecem-lhe e servem-no com as demais virtudes. E a
todas as virtudes o amor de Deus anima, embeleza e vivi-
fica com sua presença”.
“O amor é a bandeira no exército das virtudes. E to-
das essas devem enfileirar-se atrás dele. É o único estan-
darte sob o qual Nosso Senhor as faz combater, como
general em chefe do exército”.

Maria da Encarnação (Ursulina), 1599 - 1672

Jesus: “O amor é meu nome. Os homens dão-me


muitos nomes. Mas não há nenhum que me agrade tanto
e que melhor exprima o que sou para eles”.
“Meu espírito estava deslumbrado com a grandeza e
a majestade de Deus. Todas as suas perfeições, que se
187

mencionam, não são bem assim! É preciso deixar todas


as palavras e todos os nomes e contentar-se em excla-
mar: Deus, Deus! Pois tudo é menos do que se deveria
dizer”.
“Vi Deus como se fosse um abismo sem fundo: im-
penetrável, incompreensível para todos a não ser para ele
mesmo”.
“Eu estava encantada de ser nada e de Deus ser tu-
do, porque se eu fosse algo, Deus não seria tudo”. “Não
existindo mais, permaneci nele, na intimidade de amor e
de união. Não me enxergava mais, sendo Ele por partici-
pação”.
“Neste sofrimento (martírio do amor) ele punha em
mim uma plenitude mais difícil de suportar do que uma
morte cruel”.
“Um dos meus principais assuntos de queixa é: Não
o amar bastante. Eu via, em espírito, o amor que tantos
santos e santas tiveram por ele, e todo esse amor não me
era suficiente, não podendo suportar um amor limitado.
Tudo aquilo parecia-me pouco em relação a Jesus. Minha
alma era insaciável, querendo só a plenitude do amor”.
“Vejo claramente que ele é tudo e que eu nada sou.
Que ele se dá todo, e que eu não lhe posso dar nada”.
“Minha alma sentia que seus atos de amor eram produzi-
dos por aquele no qual eu estava engolfada”.

Madalena Vigneron

Jesus: “Minha filha, de tempo em tempo preciso de-


sabafar com minha melhor amiga. É que não me amam.
De uns tempos para cá, ao menos tu começas a me amar
um pouco”.

Ana Marg Clément


188

Jesus: “A penitência que te imponho é o amor”.

Esprite

Jesus: “Os anjos estão extasiados ao ver o amor


com que te amo”.

Marcelina Pauper

Jesus: “Só desejo dar-me; mas exijo corações pu-


ros”.

Crescência Hoess

“Se eu tivesse mil corações, amaria Deus com todos


os mil corações”. Interrogadas sobre o que estava fazen-
do no momento, sempre e em qualquer trabalho, sua res-
posta era sempre a mesma: “Amo a Deus”.

Sta.Margarida Alacoque

“Estou admirada e estranho que o mundo não corra


após ti, Senhor, com afã”. Ao que Jesus respondeu: “Eu
me dou na mesma medida em que a alma se me entre-
ga... Estou abrasado do desejo de ser amado”.

Mírian de Abellin

Jesus: “Nenhuma alma se perde sem que eu lhe te-


nha falado mil vezes ao coração”.
189

Clement Roux

Ex-marinheiro, rude penitente durante 28 anos, fale-


cido em 1892, desafia seus ex-colegas de farra: “Loucura
por loucura, prefiro ser louco de amor de Deus, a ser lou-
co de amor pelo mundo”. “Aliás, Deus declarou-me certo
dia: Amei-te desde toda a eternidade”.

Droste-Vischering

“Ter brilho e perfume só para Ele: é a única coisa


que o contenta”.

Sta. Gema Galgani

Jesus: “Se me amas, farás tudo quanto quero de ti.


Quanta ingratidão, quanta maldade no mundo! E os peca-
dores se obstinam em seus erros”.

Visitandina, 1910

Jesus: “Como são raras as minhas esposas nas


quais não encontro numerosas decepções”.

F. W. Faber

“Jesus nos pertence. Ele se dignou colocar-se à


nossa disposição. Ama-nos com um amor que nenhuma
língua sabe exprimir. Ama-nos mais do que o nosso inte-
lecto possa entender, ou a nossa fantasia conceber. E
ainda tem a condescendência de desejar que nós o ame-
mos. Seus méritos podem ser considerados tanto seus
190

quanto nossos. Sua redenção é menos tesouro seu do


que nosso”.
“De qualquer lado que lancemos a vista, dentro da
Igreja de Deus, lá sempre vemos Jesus. Ele é para nós,
princípio, meio e fim. Ajuda-nos em nossas penitências;
consola-nos em nossas penas; sustenta-nos em nossas
aflições. Podemos exagerar em muitas coisas, mas nunca
podemos exagerar a grandeza das misericórdias e do
amor de Jesus em nós. A eternidade não bastará para
conhecermos o que é e o amor que tem por nós”.
“Reunamos o amor espantoso de todos os santos,
que passaram dias ininterruptos em êxtase de amor...
Juntemos o amor divino do coração de Maria Santíssima
que, segundo Sto. Afonso, supera o amor de todos os
anjos e santos juntos. Tudo isso não passa de uma pálida
imagem do amor de Jesus por cada um de nós”.
“O que me espanta, não é que ele conduza a tão
longe seu amor por nós, mas simplesmente que sinta a-
mor por nós... que não temos nenhum título ao seu amor,
a não ser talvez nossa miséria e maldade. E tão mal-
agradecidos nós somos para com ele”.

Sta. Teresinha

“Após a minha primeira comunhão, senti nascer em


meu coração um grande desejo de sofrer... O sofrimento
tornou-se meu atrativo; arrebatava-me. Até então, tinha
sofrido sem amar o sofrimento. A partir deste dia, senti
por ele um verdadeiro amor. Senti também o desejo de
amar unicamente a Deus; de não encontrar alegria senão
nele. Muitas vezes, após minhas comunhões, repetia as
palavras da Imitação (3,26): ó Jesus, doçura inefável, mu-
dai para mimem amargura todas as consolações da terra!”
(Vida 109).“Sei que ama menos, aquele a quem se per-
doa menos. Mas sei também que Jesus me perdoou mais
191

do que a Sta. Madalena, pois perdoou-me antecipada-


mente, impedindo-me de cair. Jesus não esperou que eu
o amasse muito como Sta. Madalena, mas quis que eu
soubesse como me amou, com um amor de inefável pre-
vidência, a fim de que agora eu o ame até à loucura”
(114)
“Compreendi que sem o amor, todas as obras,
mesmo as mais brilhantes, como ressuscitar mortos, con-
verter pecadores, nada são” (220)
Na tomada de hábito: “Queria tanto amá-lo; amá-lo
como nunca fui amado. Meu único desejo é fazer sempre
a sua vontade, enxugar-lhe as lágrimas que lhe fazem
verter os pecadores” (Carta 51)
“É preciso que haja diferentes famílias, a fim de hon-
rar especialmente cada uma das perfeições de Deus. A
mim, ele deu uma misericórdia infinita. E é através dela
que contemplo as outras perfeições divinas. Então, todas
parecem-me brilhantes de amor. Mesmo a justiça (e ela,
talvez mais ainda que qualquer outra) aparece com um
halo rosado de amor. Que doce alegria pensar que Deus
é justo, isto é, que leva em conta nossas fraquezas e co-
nhece perfeitamente a fragilidade de nossa natureza. De
que teria medo? Deus infinitamente justo, que se dignou
perdoar com tanta bondade todas as faltas do filho pródi-
go, não deve também ser justo para comigo que “estou
sempre com ele?” (Vida 226)
“Só há uma coisa a fazer durante a noite desta vida,
a única noite que só virá uma vez: amar a Jesus com toda
a força do coração e salvar-lhe almas, para que ele seja
amado” (Carta 74)
“No momento de aparecer perante Deus compreen-
do, melhor que nunca, que não há senão uma só coisa
necessária: trabalhar unicamente por ele, e nada fazer por
si mesma, nem pelas criaturas (Carta 216)
“A perfeição consiste em fazer a sua vontade, em
192

sermos o que ele quer que sejamos” (Vida 32)


“Agora, não tenho mais nenhum desejo, a não ser,
amar a Jesus até à loucura... Não desejo nem o sofrimen-
to, nem a morte; no entretanto, amo os dois Mas é só o
amor que me atrai... Nada mais sei pedir com ardor exce-
to o perfeito cumprimento da vontade de Deus... “Agora,
todo o meu exercício consiste em amar (São João da
Cruz)” (Vida 223, 224)
“Compreendo que só o amor pode tornar-nos agra-
dáveis a Deus, e este amor é o único bem que ambiciono”
(236)
E ainda o remate final, com as palavras pronuncia-
das nos últimos meses de vida: “Não posso pensar na
felicidade que me espera no céu. Uma só coisa faz bater
meu coração: é o amor que receberei e aquele que pode-
rei dar” (NV 12/VII)
Faziam-lhe uma leitura sobre a felicidade no céu. Ela
interrompeu: “Não é isso que me atrai, mas o amor. Amar
e ser amada e voltar à terra para fazer amar o Amor” (NV
18/VII). “Nunca dei ao bom Deus a não ser amor. Ele me
retribuirá o amor” (NV 22 – VII). “Eu disse tudo: só o amor
é que conta” (NV 29 – IX).

Lucie Christine, +1908

Jesus: “A vida sou eu. A parte melhor sou eu. A ca-


ridade sou eu. A caridade de Deus abraça a todos os pe-
cadores e todos os justos como numa rede de amor. Nin-
guém lhe escapa, a não ser aqueles que o querem abso-
lutamente”.
“Ó Senhor, porque jogas pérolas tão belas num
monturo? Não encontras servidores melhores do que eu?
Serás melhor servido por outrem, do que por mim”.
“Não posso suportar o pensamento de que alguém
te ame mais do que eu. Puseste em meu coração este
193

desejo como uma chama ardente, mas isto não basta.


Faze ainda que eu te faça amar: dá-lhes teu amor”
“A gente ama estes fiapos e fagulhas de amor e de
beleza que ele espalha sobre o mundo. Mas no infinita-
mente amável, quem pensa? Quem se lembra dele? Nós
ao menos... Ó cegos do espírito mundano, se soubésseis
o que é Deus... Meu segredo, ardia-me sobre os meus
lábios.. Vi o olhar adorável de Jesus... Ele me dizia: “Eu te
amo; que te importa o resto?”
“Acontece também que a alma se acha unida à San-
tíssima. Virgem de uma maneira especial. Ela o sente
como uma laço bendito a firmar sua união com Jesus”.
Jesus: “Que só eu exista em tua alma”.
Jesus queixa-se que quer dar-se na comunhão, mas
muitas vezes só encontra corações estreitos... está sobre
o altar de braços abertos, mas a maioria não responde ao
convite. E ele vê-se forçado a reter os tesouros de amor e
de graças que tanto deseja poder distribuir.
Jesus: “Fui eu que comecei tua santificação. Sou eu
que a terminarei. Não te perturbes. Não temas. Teu sofri-
mento aceito por meu amor é uma oração; permanece
unida a mim sem o sentir”.
Jesus: “Tu és a favorita de Deus”. “Eu, Senhor? Mas
não possuo nada para ser tua favorita”. “É verdade. Só
tens o que eu te dei. Os homens não vêem meus dons
mas eu os vejo. Tu és meu sacrário.” “Mas se eu fosse tu,
não a mim é que eu escolheria como criatura favorita.”
“Mas Jesus gosta de dar-se a quem nada é e nada tem, e
felizmente disso sabe.”
“Ó meu amor e meu Deus! Faze que meu coração
jamais se esqueça do que viu e entendeu. Minha alma foi
repentinamente elevada ao mais alto céu. E ali ela vos
contemplava, ó Pai, ó Filho, ó Espírito Santo! Vós a cumu-
lastes toda inteira... Meu coração sentiu que tem necessi-
dade de Deus em toda a sua plenitude, nas suas três
194

Pessoas, e à esta hora estava satisfeita. Esta Trindade


adorável imprimiu-lhe um respeito que não tem nome na
terra, ao mesmo tempo que a convidava suavemente a
repousar nela”.
Jesus: “O coração dos homens freqüentemente está
repleto de apegos quando vêm comungar. Podes derra-
mar um licor precioso num vaso cheio até a borda? As-
sim, meu amor é rejeitado”. Jesus garante-lhe que nunca
cometeu pecado deliberado: “O Esposo celeste havia es-
tendido seu manto real ao redor desta plantinha frágil. Ela
carregava frutos e sementes que recaíram sobre outras
almas.”
“Criatura alguma, nem a mais digna, nem a mais
querida não será jamais necessária ao nosso coração.
Não! Há somente um único ser que o nosso amor recla-
ma! Um único que o nosso coração procura... Até o ter
encontrado. Há um clamor que parte com espontaneidade
das profundezas da alma. Este ser, este grito é Deus. Ó
Deus, o mundo não te conhece!”
Jesus: “Queixar-se a mim é rezar. Ora, pois, dize-me
tuas mágoas. A mim podes dizer tudo... Sê paciente con-
tigo mesma; eu também o sou para contigo”.
“Sua bondade deixa-nos certas imperfeições, a fim
de lembrar-nos de nossa miséria e manter-nos na humil-
dade”.
“União com Maria Santíssima: a Mãe bendita é o la-
ço de união entre Deus e nós. Jesus me fez ver e sentir
isto”.
“Não posso e não devo afastar-me de Deus no so-
frimento. É preciso aceitá-lo como inseparável do amor
aqui na terra. O amor sofre como a voz canta. Ver menos
a cruz que aquele que a traz”.
Jesus: “Não temas; sou eu. Toma tudo o que te con-
duz a mim e deixa o resto”.
“Deves amar mais o que Deus ama”.
195

“Repousa na cruz. Ela não é uma árvore estéril e


morta. Tem seiva possante. Traz flores e frutos. Na Cruz
não estás só. Teu Deus nela está à tua espera”.
“Sou a misericórdia”. “Sou tudo para ti. Não busques
nada fora de mim. Isto não é exigência, é ternura e mise-
ricórdia”.
Jesus mostra que encontra poucas almas que con-
sintam ocupar-se só dele: “Será que não sou bastante
atraente, sem igual, para que as almas estejam satisfeitas
comigo e se ocupem de mim?”
Jesus: “Sou eu que vivo em ti, ainda que não me sin-
tas... Se não estás perto de mim, estou ao teu lado”...
“Já não sou eu que estou aqui: é Ele. Não me vejo
mais: só vejo Jesus. Não sou destruída, mas sua vida a-
podera-se de mim; domina-me; absorve-me. Não me co-
nheço mais. Só vejo o Filho de Deus real e sacramental-
mente presente neste lugar. Eu o adoro: mas a ação divi-
na penetra e transforma minha adoração. O ser divino
pensa, vive e ama em mim. Não tenho mais vida senão,
nele”.
É necessário ocupar e entreter em casa os filhos
maiores. Sou costureira, ensaísta, repetidora e diretora de
elenco. Mando as cartas de convite, preparando uma re-
presentação teatral. “Nossas afeições na terra são um só
começo; na outra vida é que atingem seu pleno desenvol-
vimento”.
Jesus explica suas predileções: “O amor não tem
outra razão de ser, senão ele mesmo”. “O reinado de Je-
sus baseia-se em muitos títulos: de criador, de redentor...”
“No céu haverá entre os eleitos um pequeno grupo prefe-
rido: as almas das quais é esposo.” “Pedi que aumentas-
se a fé de meus filhos, e Jesus mostrou-me que ele é
mais pai para eles, do que eu a mãe. E disse-me: Reza
daqui em diante: Senhor, recomendo-te nossos filhos.”
Jesus: “Nunca me recusaste nada. A última chama-
196

da (a morte) também será um apelo de amor e corres-


ponderás”.

Maria Marta Chambon, +1907

Jesus: “Ama a vida do céu que te é destinada. Desta


vida é que deves viver quanto possível. O único necessá-
rio é possuir Deus”.
Jesus mostra seu coração aberto pela lança: “Eu te
ensinarei como deves amar-me, pois não sabes amar-me.
A ciência do amor é dada à alma que contempla o divino
Crucificado e lhe fala de coração”.
“Minha filha, tenho milhares de almas favoritas. Sou
único para cada uma. É um segredo de amor que perma-
necerá entre o esposo e a esposa durante toda a eterni-
dade”.
Ao ver seu futuro lugar no céu, Marta pergunta:
“Bom Mestre, não há nada em mim que me impeça de ali
chegar”. Jesus: “Ora, se há! Mas o amor apaga tudo”. “A-
qui na terra estamos sempre expostos a ofender-te”. Je-
sus: “O amor apaga tudo. Minha união contigo é teu único
bem. Nela realiza-se teu progresso e ninguém consegue
impedi-lo”.
Jesus mostra chaga do coração: “Sinto necessidade
de teu coração, e tu tens necessidade do meu”. “Na inti-
midade, do coração a coração, na (oração) eu me refaço
da ingratidão dos homens”.
“Minha filha, sobe o Calvário comigo. Quero-te víti-
ma, de pé”.

Gertrudes Maria, +1908

Jesus: “Sou um Deus cioso. Quanto mais uma alma


me ama, mais exijo. Ela nunca me dá o bastante. Isto vem
do ardoroso amor que lhe tenho... As religiosas não são
197

sempre suficientemente religiosas; não são bastante mor-


tificadas; não sabem esquecer-se suficientemente”.
Jesus: “Transforma tudo no ouro do amor. Transfor-
ma cada uma de tuas ações numa moeda de ouro, para
pagar a dívida dos ingratos... Todas as riquezas de meu
coração estão ao teu dispor...”
“Senhor, empresta-me o teu coração por hoje; as-
sim, ao menos uma vez na vida, te amo quanto mereces”.
Jesus: “O amor me consome e os homens continu-
am indiferentes. Se soubesses o que sofro... Meu amor é
ignorado. Minhas ofertas ficam sem resposta.” “Sinto em
todo o meu ser um fogo que me devora”. Jesus: “Para
amar quanto desejas, toma o meu coração”.
Deus Pai: “Não acreditas suficientemente que amo
com ternura. Não estás bem compenetrada do pensamen-
to que deves ser comigo como uma criança. Há em ti
grande sentimento de respeito: quero que o substituas
pelo amor filial”.
Jesus: “Dize-me, ainda uma vez, que me amas. Sin-
to prazer em ouvi-lo”.
“Ó Jesus, o que é que te atrai em mim?” “Tua gran-
de miséria”.
Jesus: “Ninguém sabe até onde iria minha familiari-
dade com uma alma que se abandone totalmente em
mim”.
Jesus: “Quando alguém pronuncia com grande a-
mor: ‘Pai nosso que estais no céu’, uma flecha fere meu
coração”.
Jesus: “Deve-se servir a Deus por amor, por puro
amor, sem esperar favores”. “Não sabes que sou o Infini-
to? Sendo o Infinito, posso variar ao infinito meus dons e
minhas graças em cada alma! Minha bondade, minha mi-
sericórdia e minha sabedoria jamais se esgotarão, ja-
mais!”
Jesus: “Vocês não conhecem o coração do Pai. Vo-
198

cês não sabem aproximar-se dele. Vocês não sabem cla-


mar “Pai!” Poucas almas na terra usam para com Deus
Pai a familiaridade que ele espera de seus filhos”.
Jesus: “Esquece tudo quanto não é Deus”.
Gertrudes.: “Outro tormento veio juntar-se aos ante-
riores: o tormento do amor divino. É o sofrimento dos so-
frimentos. Sentir como Deus é tão digno de ser amado por
seus filhos. Sentir quão pouco o amamos. Quão pouco é
amado por seus filhos. É a mais cruel das torturas; todas
as outras nada são em comparação. Hoje não pude reter
as lágrimas. Chorei, sim, chorei de amor por Jesus. Cho-
rei por amá-lo tão pouco. Chorei por ver as penas de seu
coração”.
Jesus: “Ama com meu coração”.
“Eu te amo, Jesus. Eu te amo com um amor que ja-
mais poderás compreender”.
“Se eu mostrasse tua miséria, tal qual ela é, não po-
derias suportar a feiura. Ficarias desanimada; o que não
quero; amo-te demais para desconfiar de ti”.
Gertrudes, na união transformante: “Teu amor por
mim, ó Deus, me assusta”.
Jesus conduziu-me a uma fornalha acesa: “Tens co-
ragem de jogar-te aí dentro? Para alcançar o amor com
que me amou Teresa d’Ávila, é preciso passar por esta
fornalha do amor divino”.
Jesus: “Quero que me ames como me amaram os
grandes santos. Não quero que me ames com moleza,
mas com fortaleza, como eles. Não quero que me ames
com intervalos, mas sempre, sem pausa”.
“Não deves ter laços que te prendam à terra”. “Minha
filha, eu te prometo: não morrerás antes de amar-me com
perfeição, e quanto é possível na terra. Prometo. É ne-
cessário que fiques reduzida à cinza pelo fogo do amor
divino”.
199

Carlos de Foucauld, +1916

“Estando triste e abatido, basta ajoelhar-se aos pés


do sacrário e dizer: Senhor, tu és infinitamente feliz e na-
da te falta. Portanto, eu também sou feliz e nada me fal-
ta”.
“Logo que acreditei que existia um Deus, compreen-
di que daí em diante só poderia viver para ele. Deus é tão
grande e há uma diferença tão grande entre Deus e o que
não é Deus! Vivo aos pés de Jesus, dizendo-lhe que o
amo. E ele a responder-me que, por maior que seja meu
amor, jamais o amarei tanto quanto ele me ama.”
“Mesmo cumprindo nosso dever, lancemos sem ces-
sar nosso olhar para ele, sem nunca dele desprender o
coração e os olhos. Fixemos nossos olhos no trabalho
apenas o necessário, mas de modo nenhum nosso cora-
ção. Quando se ama, pensa-se só numa coisa: no ser
amado. Uma única coisa preocupa: o bem-estar do ama-
do. A gente sente-se absolutamente incapaz de dar o mí-
nimo apreço a outras coisas. Quando se ama, uma só
coisa existe: o ser amado. O resto do mundo é como se
não fosse, não existisse. Quando um coração ama a
Deus, pode haver lugar para preocupações? Para cuida-
dos materiais?”
Jesus: “Tu me perguntas em que mais me ofendes?
Não me amas com bastante pureza, com bastante exclu-
sividade, pois amas a ti e amas as criaturas por ti e por
elas. Não deves fazer nada por ti. Nada para as criaturas,
por amor de ti, ou por amor delas. Em tudo que tens de
fazer, considera somente a mim. Pergunta-te em tudo,
unicamente, o que teria feito o Mestre, e faze aquilo. As-
sim, tu amas só a mim. Assim, eu vivo em ti. Assim, te
perdes em mim. E meu reino terá chegado a ti”.
“Em tudo tenhas em vista só a Deus. Em coisa al-
guma tenhas em vista a ti, ou a outra criatura”.
200

“Não é possível praticar o preceito da caridade fra-


terna sem consagrar a minha vida a fazer todo o bem
possível a estes irmãos de Jesus aos quais falta tudo,
porque lhes falta Jesus”.

Regina Consolata, +1916

Jesus: “Não se devia amar os homens como eu os


amo. Não se devia morrer por eles como eu fiz. Os ho-
mens são minha conquista. Por que o demônio está rou-
bando? Ó Benigna, faço questão do amor dos homens!
Sou sequioso dele a tal ponto que, encontrando um cora-
ção que me abra as portas, eu me precipito ali com todas
as minhas graças”.
“Que maus tratos me fazem os pecadores! Mas
amo-os, a estes pobres pecadores. Não acho demais es-
perá-los, ainda que durante toda a sua vida: contanto, que
os tenha na hora da morte. Então serão meus, por toda a
eternidade”.
“Odeio o pecado, mas amo o pecador. Amo a cada
alma, como se ela fosse a única no mundo”. “Faço tudo
quanto posso para salvar as amas mas quando me pe-
des, faço ainda mais”. “Estou esmolando o amor das cria-
turas, e elas mo recusam, enquanto o dão a tantas coisas
que dão na vista”.
“Se soubesses, ó Benigna, quanto é doloroso amar
tanto e não ser amado! Não faço afrontas. Continuo pe-
dindo o amor e ninguém mo dá; pelo contrário, me odei-
am”. “São as preces dos justos que desarmam minha jus-
tiça divina”.
“Não podes acreditar, minha esposa, quanto prazer
eu sinto na companhia das minhas criaturas. Ando à pro-
cura de corações que me amem. E como acho poucos,
derramo sobre este pequeno número a plenitude de mi-
nhas graças. Amo tanto as almas que ficam fiéis. Benig-
201

na, se soubesses a fome que tenho de ser amado pelas


almas! Eu as amo e não sou amado tanto quanto desejo.
O mundo não acredita neste meu desejo. Mesmo os que
acreditam, acreditam pouco. Eu queria falar a todos os
corações, mas não me querem escutar. Quando encontro
um que se abre às minhas graças, a este coração eu i-
nundo”.
“Há por aí uma idéia estreita demais sobre a bonda-
de de Deus, sobre sua misericórdia e sobre seu amor pe-
las criaturas. Mas Deus não é tão estreito. E sua bondade
não conhece limites”.
“Escreve, ó apóstola da minha misericórdia, que a
principal coisa que desejo é que se saiba que sou todo
amor, e que a maior pena que se possa causar ao meu
coração é duvidar da minha bondade. Meu coração não
somente se compadece, mas se rejubila quanto mais es-
tragos encontra a consertar, contanto que não haja mal-
dade. Se tu soubesses o trabalho que eu faria numa alma,
ainda mesmo que cheia de misérias, se me deixasse a-
gir!”
“O amor não precisa de nada; basta se não encon-
trar resistência. E, muitas vezes, tudo o que quero de uma
alma, para fazer dela uma santa, é que me deixe agir. As
imperfeições, quando não se lhes tem afeição, não me
desagradam, mas atraem a compaixão de meu coração.
As imperfeições devem ser degraus para subir a mim pela
confiança e pelo amor”.

Maria Angélica, +1919

“Senti-me de repente e fortemente presa por Jesus.


Era o Amor, e eu estava como que envolvida, absorvida.
Vi que ele me amava com loucura. Mostrou-me minha
alma pequenina: vi que era radiosa, resplandecente de
luz. Ao mesmo tempo, Jesus mostrou que todo este es-
202

plendor, toda esta beleza vinha dele; que era obra sua.
Ele fizera tudo isso, num pequeno nada impuro... Parecia
triunfante pelo que fizera. Ao mostrar-me que tudo provi-
nha dele e que eu era nada, foi como uma luz ofuscante a
inundar-me a alma”.
“Ele quer que eu abandone todas as criaturas para
ocupar-me só dele e do meu dever; que me abandone
para amar só a ele. Repreende-me quando tenho ainda
mesmo que só um pouquinho de cuidado de minha alma.
E diz: Deixa aí teus interesses, minha filha, e não te ocu-
pes senão com os meus. Minhas pequenas esposas de-
vem pensar mais em amar-me do que em santificar-se. Tu
és o pequeno nada e eu sou tudo”.
“As criaturas parecem-me todas tão pobres, verda-
deiros nadas. Não me atraem mais”. “Creio que agora
toda afeição natural me será impossível. Mas sinto que
por isto mesmo posso amá-las tanto melhor. Agora todo o
amor em mim é caridade. É o que procuro realizar de ma-
nhã à noite”. “Compreendi que Jesus é tão louco de amor,
que agora não estranho mais nada da parte dele. O que
estranho é minha lentidão, minha lerdeza em amá-lo”.
“Encontrei-me diante da Santíssima Trindade. Era o
infinito... Não via nada. Somente o intelecto via, admirava,
adorava. Eu não era mais nada. Jesus fez-me entender
que ele seria meu mediador junto ao Pai e ao Espírito
Santo em prol das almas”.
Jesus: “Para provar-me teu amor, vi que eras capaz
de sofrer”.
“A vida da alma está na oração. Porque aí ela se
une plenamente a Deus”.
“Parecia-me que Jesus me revestira de sua santida-
de, como uma esposa ornada com suas jóias. Jesus per-
gunta: quem és tu? Respondi por três ou quatro vezes:
um nada. Depois me disse: tu és a minha esposa. Vi que
ele me tratava como esposa e que seus tesouros eram
203

meus”.
Jesus: “Quanto mais uma alma se sente miserável,
tanto mais tem direitos sobre o meu coração”.
“Jesus tem tanta necessidade de almas que queiram
sofrer por seu serviço.”
“A vida de união é o que há de mais importante, e é
a menos compreendida. Tudo se baseia na oração”.
“Para elevar-se ao amor é necessário crucificar sem
cessar o que não é amor. Amor sem cruz é impossível”.
Jesus: “Peço-vos o sofrimento como meio de amor”.
“Jesus sabe, às maravilhas, moer seu trigo e tratá-lo,
para dele fazer um pão bem branco que se tornará hós-
tia”.
“Nada esperar de nós, tudo esperar de Deus”.
“Rezemos à Santíssima Virgem, pois ela torna suas
filhas agradáveis a Jesus”.
“Queria transformar todas as almas em almas de
luz... Toda a minha vida será amar a Jesus e torná-lo a-
mado”.

Josefa Menendez, +1923

Jesus abraça-a e aperta-a ao seu coração: “Vês co-


mo te seguro para que não possas mover-te sem mim: é
assim que quero prender minhas esposas”.
“Se me amas fico sempre perto de ti”.
“Tua miséria me atrai. Sem mim, o que serias?
Quanto menores fores, mais perto de ti estarei”.
“Não peço que mereças as graças que te dou. Que-
ro apenas que as recebas”.
“Quero apenas o amor das almas, mas elas respon-
dem com ingratidão. Quero enchê-las de graças, mas elas
traspassaram-me o coração. Chamo-as e elas fogem de
mim”.
Josefa foi fechar as janelas de um corredor. Apare-
204

ce-lhe Jesus: “Donde vens?” “Fui fechar as janelas.” “Para


onde vais?” “Vou terminar”. “Não sabes responder, Jose-
fa: Venho do amor e vou para o amor”.
“Não tenhas medo. Sabes que é loucura de amor o
que sinto por ti”.
“Dize-me que me amas. É o que mais me consola”.
“Não te aflijas demais pelas tuas faltas. Para fazer
de ti uma santa, não preciso de nada. Não resistas ao que
peço e deixa-me agir”.
Josefa repete na aridez: “Amo-te meu Jesus.” E de
repente, Jesus responde: “Eu também”.
Ao varrer o corredor, Jesus pergunta: “Por quê estás
fazendo isto?” “Por teu amor. Vê quantos ladrilhos: tantas
vezes digo que te amo”.
Maria Santíssima: “É bom que sofras em silêncio,
mas sem angústia. Que ames muito, mas sem sabê-lo. Se
tropeças, não te aflijas demais. Nós dois estamos aqui
para te levantar”.
“Se tu és um abismo de miséria, eu sou um abismo
de bondade e de misericórdia. Repito mais uma vez: Pou-
co me importa tua miséria... meu coração acha consolo
em perdoar. Servir-me-ei de ti porque és miséria. Ao que
te falta, suprirei. Deixa-me fazer”.
“Tiro o bem mesmo das maiores quedas. Olha mi-
nhas chagas. Sabes quem m’as fez? O amor. Sabes
quem me enterrou esta coroa ? O amor. Sabes quem me
abriu o coração? O amor”.
“Venho descansar em ti. Quero que me consoles.
Que penses muito em mim. Que me ames com tal ardor
que só eu ocupe teus pensamentos e teu desejo. Não
temas sofrer. Sou bastante poderoso para cuidar de ti.
Não te ocupes senão em amar-me”.
“Meu coração é o trono da misericórdia. Os mais mi-
seráveis são os mais bem recebidos. Fixei meus olhos em
ti, porque és pequena e miserável. Eu sou tua força”.
205

“Encontro poucas almas que respondam ao meu


amor. Eis o que desejo: envolver-te, consumir-te a fim de
ser eu quem viva em ti”.
Jesus segura seu coração na mão: “Eis a prisão que
te preparei desde toda a eternidade”.
“Miséria e nada, eis teu nome. Quem é pequena é
ainda alguma coisa. Mas tu Josefa, tu és nada. Servir-me-
ei de ti para mostrar que amo a miséria, a pequenez e o
nada. Darei a conhecer às almas o quanto meu coração
as ama e lhes perdoa, e como suas quedas me servem
de complacência. Sim, escreve isto: de complacência.
Vejo o íntimo das almas seu desejo de agradar-me, con-
solar-me, glorificar-me. E o ato de humildade que são o-
brigadas a fazer, vendo-se tão fracas, é justamente o que
consola e glorifica o meu coração. Pouco me importa sua
pequenez. Supro o que lhes falta”.
“Muitas almas me recebem bem quando as visito
com a consolação. Mas quando lhes bato à porta, com
minha cruz, poucas abrem-se de bom grado”.
“É amor que procuro. Amo as almas e espero a res-
posta de seu amor”.
“Não procuro nem grandeza, nem santidade. Procu-
ro amor e farei eu mesmo, todo o resto”.
“Pensa sem cessar em mim; as almas me glorificam
tanto quanto se lembram de mim”.
“Há tantas almas que me esquecem e tantas que se
ocupam com mil futilidades, e me deixam só durante dias
inteiros”.
“Se vos peço amor, não mo recuseis E é tão fácil
amar aquele que é o próprio amor”.
“Maria, minha mãe, glorificou-me mais que todos os
espíritos celestes juntos; é a ela quem mais amo no mun-
do”.
“Quero teu coração. Hoje, vou arrancá-lo e porei em
seu lugar uma centelha do meu...” “E Jesus partiu levando
206

meu coração e agora sinto no peito um fogo quase insu-


portável”.
“Dai-me vosso coração vazio: eu o encherei. Sou
vosso complemento”.
“Não pensem que vou falar de outra coisa senão da
minha cruz. Salvei o mundo pela cruz Vou reconduzi-lo à
fé e ao amor pela cruz”.
“Se tu és fraca, eu sou forte. Se tu és miséria, eu
sou o fogo consumidor”.
“Amo todas as almas. Mas tenho predileção pelas
mais fracas e mais pequenas”.
“Esta chaga (do coração) é o vulcão onde quero que
se inflamem as almas”.
“Que fizestes, Josefa, para merecer o céu?” “Nada,
Senhor, mas prometestes dar-me teus méritos”. “Deixa-
me escolher a hora.”

Maria Santa Cecília, +1929

“Jesus deu-me seus olhos, seus ouvidos, seus sen-


tidos; isto quer dizer que ele é a vida da minha vida”. “A-
mo em ti e por ti. Daqui em diante te chamarás Jesus.
Mas quando fizeres alguma falta ou tolice, te chamarei de
Cecília”.
“Se conhecêssemos este tesouro infinito (da cruz)
dia e noite não cessaríamos de dirigir a Deus súplicas
ardentes a fim de obtê-lo. Se compreendêssemos o valor
de nossas cruzes, ficaríamos paralisados de alegria e feli-
cidade ao recebê-las. Provações, tribulações, angústias,
provocariam nossos cantos de alegria e espontaneamente
entoaríamos o Te Deum. Jesus abraça a cruz com paixão.
Ama-a até à loucura. E quando nos presenteia com uma
parcela desta riqueza mística, hesitamos em estender a
mão”.
“Saboreio a felicidade perfeita, e ao mesmo tempo o
207

favor inestimável de ressentir a agudeza do sofrimento”.


“Estou pedindo a Jesus amor sem medida e sem limites, a
fim de satisfazer o desejo insaciável que o tortura de dar-
se às almas. Bem poucas almas se deixam invadir por
suas torrentes de felicidade. O amor procura corações
abertos. Infelizmente só encontra recusas. Não o querem
receber. Têm receio de se abandonarem a ele. Têm medo
que lhes falem de renúncias. A abnegação é apenas um
tênue envelope que envolve a pérola preciosa. Se con-
sentimos em morrer a nós mesmos, o invólucro se rasga”.
“Não existo mais. Meu ser foi aniquilado. Meu substi-
tuto, Jesus, trabalha em meu lugar”. “Devo dar, irradiar,
derramar o amor de seu coração”.
“Sinto-me fraca, pobre e incapaz. Por causa disto
minha confiança é como oceano sem horizonte, deglutin-
do o abismo de minhas misérias. A bondade de Deus: eis
a minha segurança”. “Sofro muito interiormente: como é
bom isto”.
“Jesus ordena-me rezar pelas almas consagradas. O
dom de Deus para elas é seu Coração. Ah! Se o conhe-
cessem! Desde algumas semanas (precedera uma estig-
matização invisível) Jesus compraz-se em chamar-me
seu pequeno “Eu”. Ele tomou meu lugar”.
Jesus: “Meu coração pensa continuamente nas al-
mas e a maior parte não se interessa por mim. Estou à
procura de uma alma que represente a humanidade intei-
ra. Uma alma à qual eu possa dar a graça de pensar con-
tinuamente em Deus. E escolhi a ti. Quero passar ao teu
nada o meu pensamento de Deus”.
Jesus: “Por minha Mãe Santíssima dou-te a graça
de pensar continuamente em mim, de pensar em Deus.
Dou-te o meu pensamento contínuo de Deus, meu pen-
samento de amor. Meu coração pensa sem cessar nas
almas. Mas elas, mesmo as consagradas, esquecem-me
tantas vezes”.
208

“Meu coração eucarístico gosta de fazer confidên-


cias às almas. É como que uma necessidade. Mas encon-
tro poucas almas que o compreendam. Para receber mi-
nhas confidências íntimas, requer-se uma alma muito pu-
ra, que se esforce em pensar e agir somente por mim”.
“Deixa-te penetrar por minha ternura. Dou-te meu pensa-
mento, hoje e amanhã. Quero que me consoles, sobretu-
do em nome das almas consagradas”.
“Como, Jesus?” “Sempre, do mesmo jeito: com a-
mor e sacrifício. Com a atenção voltada continuamente
para o cumprimento da minha vontade”.
“Jesus fez-me ver a multidão inumerável das almas
consagradas, como ele as viu no horto de Getsêmani.
Jesus disse-me: “Olha todas estas almas consagradas. A
maior parte vive em união comigo. No entanto, não me
retratam de um modo mais perfeito. Vê esta aqui: tu me
reconhecesses nela, mas conserva apegos que me impe-
dem de lhe conceder grandes graças. Esta outra me irra-
dia mais; me ama mais, mas meu coração está ferido por
pequenos espinhos: são as pequenas coisas que ela me
recusa. Esta outra: minha imagem é apagada e fraca;
mãos, pés e coração estão ligados por cordas. É uma al-
ma tíbia e minha ação nela está paralisada...” “Ó Jesus,
como tu és belo nesta alma!” “Ela não me recusa nada.
Não vês nada que seja dela. Já me coloquei em seu lu-
gar. Posso derramar livremente os tesouros do meu cora-
ção. Ela me consola”.
“Sentindo-me em presença da santidade infinita, ex-
clamei: “Ó Jesus, como sou culpável!” Jesus: “Não olhes
para ti. Confia na minha misericórdia. Justamente por se-
res fraca e miserável é que te escolhi”.
Jesus: “Poucas almas, mesmo religiosas, consentem
em viver do Infinito durante sua vida terrestre. No entanto,
só o infinito pode satisfazer seu coração”.
Jesus: “Perdem-se muitas vocações sacerdotais e
209

religiosas. É o medo da renúncia e do sacrifício. Querem


gozar livremente. E têm medo de entregar-se a Mim”.
“O mundo ofende-me (no carnaval). Os religiosos
esquecem-me... sua piedade é superficial... seu amor,
sem profundeza. Sou tão sensível a um amor desinteres-
sado!” “Procuro amor. Sou tratado como um ser ausente...
Deixa-me dar-te todo o meu amor. Gosto, tenho necessi-
dade de dar-me todo inteiro”.
“Muitas almas consagradas não sabem o que é a
renúncia perfeita. Não estão desapegados do amor pró-
prio. Com tão poucos posso comunicar-me quanto dese-
jo”.
“Meu prazer é retratar-me nas almas que criei por
amor. Acho prazer imenso em transformar uma alma em
mim, em deificá-la, em absorvê-la toda inteirinha na divin-
dade”. “Jesus, como estás triste!” “Não me amam suficien-
temente; amam-me demais pelo próprio interesse. A mai-
oria tem medo de amar-me por mim. São numerosos de-
mais as que não compreendem que os sacrifícios, que
lhes peço, são chamas de amor, que se evadem do meu
coração divino para atrair e santificar o coração humano”.
“Como obter a graça da união?” “É só pedir. Dou es-
ta graça a toda alma que ma pede”. “Jesus, sabes como
somos fracos, caímos muitas vezes...”
Jesus: “Então? É só levantar-se com muito amor.
Retornar a mim sempre de novo. Contar comigo. Grande
número de religiosos não contam comigo. Eis o que vos
falta; deveis contar comigo em tudo: nas dificuldades, pe-
nas, lutas, mesmo nas quedas e faltas. Contem comigo,
sem receio de contar demais.”
“Quero absorver-te a tal ponto que eu esteja em teu
lugar. Quero deificar-te, assim como uni a humanidade à
minha divindade na encarnação. Quero que a santidade
de meu Pai se realize em ti, por mim”.
“Jesus, que queres para teus sacerdotes?” “Amor,
210

amor. Tanto deles não me sabem amar”.


“Como é bom amar-te, ó Jesus.” Jesus: “Se soubes-
ses como é bom para meu coração ser amado”.

Martucchi

“Só Jesus pode encher um coração. Quero ser um


holocausto perfeito de todo o meu ser, consumido pelo
amor divino, a fim de igualar-me à imagem do Filho de
Deus crucificado”.
“Só ele é a plenitude. Todavia é difícil para ele entrar
em concorrência com um ser que se vê, se ouve, se sen-
te... Custa. Corta. Rasga. Sangra o coração. Mas Jesus
também teve suas mágoas. E piores que as minhas: cruz,
espinhos... E tudo porque me amou”. “Por isso tenho ne-
cessidade dessa entrega total, desse morrer a tudo, para
ser como ele, e para mostrar-lhe que o amo. Quero dar-
lhe as primícias, o melhor que tenho, minha juventude
ardorosa, minha vida exuberante, meus vinte anos de fo-
go e de entusiasmo, todas as minhas ilusões...”
“Amá-lo apaixonadamente como ele me amou” (Y di-
je si, p. 360ss.)

Antonietta Cheuser, +1918

“Poder amar a Deus, com o mesmo amor de Deus, é


privilégio de toda a alma em estado de graça. Mas uma
coisa é saber isto pela fé; outra coisa, é senti-lo por uma
espécie de experiência direta” (PLUS, Consummata, 180)
A “desapropriada por utilidade pública”, como Anto-
nieta se chama certa vez, descreve sua experiência: “É
um amor tão forte e tão vivo que se enraíza profundamen-
te em Deus, dando origem a uma confiança tão audacio-
sa, que não duvida de nada. A alma tem de tal forma
consciência do poder e do amor infinito do Pai que, sen-
211

tindo esse poder, mal tem necessidade de pedir. Parece-


me que tudo é de ambos, e que a licença que me dá para
beber o seu amor só tem por limite esse amor infinito”.
“Espalhar neste mundo o reino da verdade e do a-
mor, essa é, creio, minha missão. Quisera deixar, como
sinal de minha passagem nesse mundo, unicamente um
raio luminoso de verdade e um grande incêndio de amor
divino” (Cartas, 160)

EPÍLOGO

1. GRANDES DESEJOS

Para gente pequena subir mais alto no céu (do amor


divino) vai este capítulo. Abre tua Bíblia. Nosso Senhor te
diz: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de santi-
dade, porque serão saciados” (Mt 5,8). E ouve a voz sua-
ve de nossa Mãe do Céu: “Minha alma engrandece ao
Senhor... Porque ele sacia de bens os famintos” (Lc 1,53)
os famintos de Deus...
Cá na terra somos todos indigentes, pobres, paupér-
rimos. Só nos resta pedir de esmola a riqueza do céu, a
única que nos interessa: o amor de Deus.
Ensina Sto. Agostinho “que toda a vida cristã consis-
te em santos desejos”. Os desejos valem pelas obras. Ao
menos para nós, gente pequena, que outra coisa não te-
mos para dar.
Morreu, no Mosteiro de Sta. Madalena de Pazzi,
uma jovem de poucos anos de vida religiosa, Maria Bene-
dita Vettori, em 1598. Ficou por cinco horas na “sala de
espera”, por um pequeno ato de amor próprio. Na missa
de enterro, Sta. Maria Madalena de Pazzi caiu em êxtase,
vendo-a na glória “acima de muitas outras virgens, con-
templando face a face a humanidade e a divindade do
Verbo. – Ó Feliz de ti, que soubestes aproveitar o tesouro
212

escondido! Ó coisa grandiosa! Poucos méritos haveria de


remunerar o Verbo de Deus se considerasse somente as
obras externas. Breve foi tua vida, mas grandes e ininter-
ruptos foram teus bons desejos! Ó grandeza das obras
internas tão pouco compreendidas! Mais vale um ato in-
terno, que mil obras exteriores. Ó filhinha minha, quando
ainda estavas conosco na terra, caminhando, comendo,
trabalhando, sempre permanecias unida a Deus. Não me
admiro que te tenha chamado tão depressa para junto de
si. Agora, na glória, não andas mais de cabeça baixa, mas
com passo triunfante e venturoso marchas através dos
coros celestiais. Deus seja louvado!”
Bons desejos são atos de amor. E um único ato de
amor é mais valioso que mil obras exteriores. “Um único
ato de amor a Deus é mais perfeito do que uma estátua
de Miguelangelo. Mais firme do que o fundamento dos
Alpes. Todas as coisas, em comparação, não passam de
bolhas de sabão... Um ato de amor é uma obra perfeita.
Atua mais que qualquer outra obra. E é tão fácil: um olhar
da alma para o alto... Rápido como um raio, atravessa o
universo e brilha como estrelinha no trono de Deus (F. W.
Faber)
Ó riqueza do amor divino! Cada palavra, um ato de
amor. Cada gesto, um ato de amor. Os mil afazeres que
tentam distrair-nos, mil atos de amor. Cada passo, um ato
de amor. Cada suspiro da alma nos conduz para mais
perto de Deus. Cada gemido, um sorriso para Deus!
Portanto, bons desejos são ações, são obras saluta-
res que abrem o Coração de Jesus; abrem as portas do
céu. Consolo para nós, pobres de espírito, indigentes da
graça. Basta desejar. E a bondade de Deus aceita a boa
vontade. Contenta-se com o bom afeto do coração. As-
sim, abrem-se novos horizontes, nascem novas esperan-
ças. Das míseras criaturas que nós somos, fracas, subnu-
tridas, subdesenvolvidas, nosso Pai do céu, contenta-se
213

em receber bons desejos. Que alívio! Pois desejamos re-


almente, sinceramente ser bons. Desejamos amar a Deus
acima de tudo; sinceramente, até mesmo acima do nosso
próprio coração. Mas, quantas vezes nos obedece e nos
põe diante de fatos consumados... Podemos, pois, alegrar
a Deus com bons desejos...
Nossos bons desejos têm valor salutar, porque são
atos de amor. Por serem fáceis de fazer, têm o peso do
amor divino. Valem perante um coração enamorado, co-
mo é o coração de Deus por nós. Eis porque aquela irmã-
zinha, colega de Sta. Maria Madalena de Pazzi, pôde vi-
ver triunfante na glória, “porque amou”.
Valem nossos bons desejos, porque Jesus supre o
que falta. Supre com prazer, basta convidá-lo para isto.
Supre com os recursos imensos do seu Coração, que en-
cerra os méritos infinitos da paixão.
Sta. Gertrudes escusa-se: “Ai de mim, indigna que
sou de estar com os coros celestes”. E ouve a resposta
da Santíssima Virgem: “Tua boa vontade supre tudo”. Je-
sus reafirma: “Em virtude da minha divindade, dou-te ple-
no perdão de todos os teus pecados e negligências”.
Jesus oferece-se para substituir, no coro das mon-
jas, uma cantora rouca e desafinada. E como nós, em
nossa vida cotidiana, cantamos também tão desafinados
o louvor de Deus, convidemos Jesus a cantar por nós.
Jesus repete: “Minha bondade aceita o desejo e a boa
vontade como ato... Basta que o homem deseje ter gran-
des desejos, mesmo que não os consiga realizar: perante
Deus, vale o que deseja desejar”. É a realização de Rm
8,34 e Hb 7,25: “sempre intercedendo por nós”. “O que
descuidastes (foi um dia de faxina geral no mosteiro) eu
supri”.
Sta. Matilde, mestra e amiga de Sta. Gertrudes, re-
corre também a esta substituição espiritual; já citamos os
textos respectivos.
214

Valem nossos bons desejos, porque nossas obras-


virtudes espirituais não são nossas. São obras de Jesus.
Ele tem de operar em nós “tanto o querer como o fazer”
(Fl 2,13). Valem nossos bons desejos porque somos parte
do Corpo místico. Valem porque os murmuramos ao ouvi-
do de Jesus, nosso irmão.
Sejam grandes nossos desejos, porque se endere-
çam a Deus, imenso como o céu. Sejam dignos de um
Deus infinito, infinitamente poderoso, infinitamente bondo-
so, infinitamente amável. Adverte Sta. Teresa: “Não res-
trinjamos nossos desejos. Sua Majestade é amigo de gen-
te corajosa e animada... Espanta-me ver quanto importa
neste caminho animar-se a grandes coisas” (Vida 13,2)
Deus gosta de gente de iniciativa. “Tudo posso na-
quele que é minha força” (Fl 4,1).

2. CONFIANÇA

Mais um capítulo para gente desanimada, para gen-


te sem muita fé no amor de Deus. Disse Jesus a Sta. Ca-
tarina de Sena: “Os pecadores, que no fim da vida deses-
peram por causa de seus pecados, ofendem-me com es-
se único pecado mais do que com todos os outros, pois
destroem, por assim dizer, minha misericórdia infinita, que
é infinitamente maior que toda a malícia humana”.
Disse Jesus a Sta. Brígida: “Eu sou o supremo amor.
Tudo quanto fiz desde toda a eternidade, fi-lo por amor; e
tudo quanto faço, e futuramente farei, procede e procede-
rá de meu amor. Meu amor aos homens ainda é tão gran-
de, tão incompreensível... como foi quando salvei os elei-
tos por minha própria morte. E se fosse necessário morrer
tantas vezes quantas almas há no inferno, com a máxima
prontidão e com o máximo amor sacrificaria minha vida
por cada alma”.
Disse Jesus a Sta. Gertrudes: “A confiança alcança
215

tudo facilmente”. E em outra oportunidade: “O olhar da


alma amante, que fere meu coração, é a confiança inaba-
lável, a firme convicção que eu tenho poder, saber e que-
rer para ajudá-la em tudo. Tal confiança força minha mise-
ricórdia com tal ímpeto que é impossível recusar-me”.

Diz o Pai Eterno: “Amei-te com amor eterno e te a-


pertei ao coração” (Jr 31,3).
“Não quero a morte do ímpio. Quero sua conversão
e sua vida eterna” (Ez 33,11). “Se os vossos pecados fo-
rem rubros com escarlate, tornar-se-ão brancos como a
neve. Se forem vermelhos como carmesim, ficarão bran-
cos como a lã” (Is 1,17). “Quanto o céu se eleva acima da
terra... quanto o Oriente dista do Ocidente, assim, afastou
de nós nossas maldades” (Sl 103, 11).

Diz o Filho de Deus: “Em verdade, em verdade (juro-


vos): tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, eu o
farei” (Jo 14,13).
“Se tiverdes fé como um grão de mostarda... nada
vos será impossível” (Mt 17,21).
“Tudo é possível a quem crê” (Mc 9,23).
Fé no poder, na bondade, na misericórdia de um
Deus Infinito.

Diz o Espírito Santo: “Quem tiver sede, venha bus-


car água viva, gratuitamente” (Ap 22,17).

Repetem os apóstolos de Deus:


João: “Conhecemos e confiamos no amor de Deus”
(1 Jo 4,16).
Paulo: “Tudo posso naquele que é minha força” (Fl
4,13).

Repetem os carismáticos através dos séculos: O


216

amor de Deus por nós é infinito, incrivelmente infinito.

São Vicente Ferrer prega com tal veemência e un-


ção sobre este amor de Deus por nós, miseráveis pecado-
res, que uma pecadora pública prorrompeu em soluços. E
tal foi sua dor dos pecados, tal o seu amor por um Deus
bondoso, que o coração se rompeu; caiu morta no chão.
“Já está na glória de Deus”, concluiu o santo, seu sermão.

Tal a mensagem de Sta. Teresinha: “Nunca se pode


ter confiança demais em Deus”. “Sinto que se fosse pos-
sível, encontrares uma alma mais fraca, mais pequenina
que a minha, tu a cumularias de favores maiores ainda,
contanto que ela se abandonasse com inteira confiança à
tua misericórdia infinita” (Vida 254). A sua autobiografia
termina com este apelo de confiança tão consolador para
nós, pobres pecadores: “Sinto que, embora tivesse na
consciência todos os pecados que se podem cometer, iria
com o coração partido de arrependimento lançar-me nos
braços de Jesus, pois sei quanto ele ama o filho pródigo”.
Dois meses antes de morrer pediu que completassem o
texto: “Dize, minha mãe, que se eu tivesse cometido todos
os crimes possíveis, sempre teria a mesma confiança.
Sentiria que essa multidão de ofensas seria como uma
gota d’água lançada num braseiro ardente” (Vida 320)

Tal a mensagem de Benigna Consolata. “Descobrin-


do em mim um sem número de misérias, fiquei toda con-
fusa, quando ouço Jesus dizer-me com brandura: Venda-
se à minha misericórdia”. Jesus manda escrever: “A alma
nunca deve ter medo de Deus, porque Deus está sempre
disposto a usar de misericórdia. O maior prazer do cora-
ção de teu Jesus está em levar ao Pai o maior número
possível de pecadores. São suas jóias”. “O maior prazer
que se me possa dar é acreditar no meu amor. E quem
217

me quer dar um prazer imenso, não deve pôr limites a


esta confiança”.
“Sou todo amor. A maior mágoa que os homens me
possam causar é duvidar da minha bondade. Meu cora-
ção não só se compadece, até mesmo se regozija quando
encontra muita coisa para corrigir e aperfeiçoar... Se para
todos sou bom, sou boníssimo para aqueles que em mim
confiam. As almas confiantes arrebatam, roubam minhas
graças”. “Minha misericórdia alimenta-se de misérias.
Cresce tanto quanto maior o número dessas misérias. Ó
Benigna, se os homens soubessem quanto eu os amo e
quanto se rejubila meu coração, quando se crê em meu
amor... Podem os pecados ser enormes e numerosos,
estou sempre disposto a tudo perdoar, a tudo esquecer.”
“Benigna, tu és a apóstola da minha misericórdia;
escreve, que faço as minhas melhores obras primas com
os mais miseráveis elementos, contanto que me deixem
trabalhar”. “O maior dano é a desconfiança. É certo que
cem pecados me ofendem mais que um; mas se este um
é uma desconfiança, magoa-me no íntimo do coração”.
“Não podes calcular o prazer que sinto em cumprir
minha missão de Salvador. É a minha maior consolação.
Faço minhas maiores obras-primas com as almas que
arranquei do abismo do mal. Pecados e imperfeições são
pedras preciosas; eu as transformo em atos de humilda-
de... Se os homens, na construção de casas, pudessem
aproveitar as ruínas e os entulhos como material de cons-
trução, que vantagem seria. A alma confiante transforma
suas faltas em pedras fundamentais do edifício de sua
perfeição”.

Tal a mensagem de Josefa Menendez.


Jesus: “O meu amor e a minha misericórdia para
com as almas não conhece limites. Desejo perdoar. Re-
pouso perdoando. Estou sempre esperando com amor a
218

volta das almas. Não desanimem. Não tenham medo. Sou


seu pai”.
“Não é o pecado que mais fere meu coração. O que
o despedaça é que não venham refugiar-se em mim, de-
pois de terem pecado. Desejo perdoar. Quero que se a-
nuncie isto a todo o mundo”
“Quero que todos saibam que sou o Deus do amor.
Amo tanto as almas que dei minha vida por elas. Desejo
que venham lavar suas faltas, não com água, mas com
meu sangue. Quero que creiam na minha misericórdia.
Que espere tudo da minha bondade. Que não duvidem
nunca do meu perdão. Por isso, inclina-se para os pobres
pecadores com infinita misericórdia”. “Amo as almas
quando humildes vêm pedir perdão do primeiro pecado.
Amo-as, quando choram seu segundo pecado. E se esse
se repetir um bilhão de vezes, digo: um milhão de bilhões,
amo-as e perdôo sempre. Lavo no mesmo sangue o pri-
meiro e o último pecado”.
“Não me canso das almas. Meu coração sempre as
espera, por mais miseráveis que sejam. Eis o que desejo
explicar; ensinem-no aos pecadores: a misericórdia do
meu coração é inesgotável. Ensinem às almas frias e indi-
ferentes que meu coração é fogo. Ensinem às almas pie-
dosas que o meu coração é o caminho da perfeição. En-
sinem às almas consagradas, aos sacerdotes, aos religio-
sos, às minhas almas escolhidas... Peço-lhes mais uma
vez que me dêem seu amor e nunca desconfiem de mim.
Que me dêem sua confiança. Não duvidem de minha mi-
sericórdia. É tão fácil esperar tudo do meu coração”. “Olha
minhas chagas! Aqui quero introduzir os pecadores”.

3. PRESENÇA DE DEUS

O exercício da presença de Deus é a realização


concreta desse capítulo sobre o “Amor de Deus”. É uma
219

das práticas fundamentais da espiritualidade. São Fran-


cisco de Sales diz certa vez (Filotéia 2,13), e Sto. Afonso
o repete, que em certas ocasiões e necessidades, até a
meditação diária pode ou deve ser dispensada. Mas o
exercício da presença de Deus é indispensável e insubsti-
tuível. Pode e deve ser praticada em quaisquer apuros e
apertos, tribulações e doenças da existência humana.
Consiste em “pensar” atos de amor de Deus. Não é ne-
cessário recitar fórmulas, isso só atrapalha. Basta um
pensamento de amor de Deus, dirigido não ao céu lon-
gínquo e distante atrás das estrelas, mas ao céu que está
dentro de nós.
O pensamento seja freqüente. Seja renovado com
uma suave pertinácia no decorrer das horas. Ideal seria o
pensamento-amor contínuo, ininterrupto. Mas não é pos-
sível. Nossos nervos não suportam uma tensão tão conti-
nuada. Quem tem força de vontade e vive num ambiente
escolhido consegue a realização quase ininterrupta, mas
corre o perigo de um esgotamento nervoso, porque os
nervos gastam assim seu “fosfato” sem ter os necessários
intervalos de descanso para recuperar os gastos. Tome-
se em consideração que os nervos não são de aço.
Portanto, uma pertinácia suave, tolerante, paciente.
Tolerante com as numerosas interrupções e todavia tei-
mando suavemente na freqüência do pensamento-amor.
Pertinácia impertinente, mas suave e humana. Em geral,
as mil distrações dos mil afazeres de cada dia encarre-
gam-se de fornecer as pausas necessárias.
Existe o pensamento-amor contínuo, ininterrupto, de
sol a sol e noite a dentro. Mas é dom, graça. Nossa tarefa
é a perseverança suave e amorosa em saudar o Deus
presente em nós com assiduidade e freqüência. Até ele
querer dar-nos esse dom extraordinário, por espaços de
tempo mais ou menos prolongados. E nos intervalos, con-
tentemo-nos (e Jesus concorda) em executar nossa tarefa
220

cotidiana, nossos trabalhos e afazeres, por amor de Deus,


e porque também esses são atos de amor divino. “Tocar
no órgão uma peça de Bach e pensar durante esse tempo
intensamente e ininterruptamente em Deus, é sobrenatu-
ral” (Fidelis Weiss, OFM 1923)
Frei Lourenço, soldado, eremita, carmelita, morto em
1693, afirma que ao dirigir sua numerosa equipe auxiliar
na cozinha conventual de Paris, fica mais recolhido do
que na meditação na capela. Ficamos admirados ao ouvir
tal coisa. Mas isso, também está acima do natural.
Disse Sta. Teresinha: “Li, há tempo, que os israelitas
construíram as muralhas de Jerusalém trabalhando com
uma mão e segurando na outra a espada. É bem a ima-
gem do que devemos fazer: trabalhar só com uma mão e
com a outra, defender a alma da dissipação que a impede
de se unir a Deus” (Conselhos 88)
E, logo mais, a confidência à Celina: “Creio que nun-
ca fiquei três minutos sem pensar em Deus”. “Mostrei-me
admirada por ser possível uma tal aplicação”. “Pensa-se
naturalmente em quem se ama, replicou” (Conselhos 90)
Por numerosas vezes repetimos que santidade cristã
não é força de vontade, treino, método, mas dom, fruto da
prece. Aqui, tocamos num ponto onde Deus espera que
façamos uma forcinha, no exercício da presença de Deus;
não precisa ser ininterrupto, mas freqüente. Com uma
insistência suave e perseverante. Creio que é o caminho.
Se quiser, pode-se dizer que é um atalho para subir a
montanha. Creio que Deus espera por essa nossa coope-
ração. Pois é o amor.
Outro exercício ascético que deve complementar o
primeiro: o desapego. Indiferença, diz Sto. Inácio. “Dista-
co”, Sto. Afonso. Abandono, a escola francesa. Desape-
go, a escola carmelita. Renunciar a todas as satisfações,
visando em tudo só a vontade de Deus, e exclusivamente
o seu gosto e contentamento. Não, a nossa vida não pode
221

desmentir o pensamento-amor. E neste exercício não


precisamos ser suaves, mas rudes até, porque se trata do
nosso amor próprio, não dos nervos. Não rebenta nada.
Pode puxar.
Haja, pois, em nossa vida nada de inútil para a vida
eterna; nada de inútil para o reino. Nada para contentar
nosso gostinho, mas só para satisfazer os gostos e inte-
resses de Jesus. Alegrar-nos, entristecer-nos só por coi-
sas que alegram, entristecem a Deus. Dupla é a tarefa:
apegar-se a Deus pelo pensamento-amor. E desapegar-te
de si e demais criaturas.
Por sua importância, voltaremos ao assunto.
222

5. ORAÇÃO

ORAÇÃO

“Não se deveria contar o tempo passado em oração,


mas o tempo em que não se reza... Questão de amor...
Rezar sempre? Quais novos “Nicodemos”, respondemos:
impossível! Oração é vida teologal em exercício... vida da
alma em Deus... vida das três Pessoas Divinas em nós. É
para isso que a alma foi feita” (Lochet)
Rezar é dever. Dever honroso. Rezar é falar com
Deus Altíssimo. Nunca o homem é tão grande, como
quando reza. Nunca o homem é tão santo como quando
reza. Nunca o homem é tão celestial como quando reza.
Um homem rezando, um sacerdote rezando, uma
mãe rezando, uma virgem rezando, uma penitente rezan-
do, uma criança rezando, visões do céu na terra.
É a queixa do Papa. “De uns tempos para cá, até os
bons, até os fiéis, até os consagrados a Nosso Senhor,
rezam menos” (Paulo VI, 13.8.1969)
“Sem uma íntima contínua vida interior, de oração,
de fé, de caridade é impossível conservar-nos cristãos”
(20.8.1969)
Salazar visita um colégio. “Mais importante é saber
ler ou saber orar? Sem dúvida: saber rezar. Porque rezar
é ler no livro da vida eterna”.
Há no universo uma força misteriosa que atinge e
agita até a Onipotência divina: a prece, a oração. É a rea-
lidade do Reino dos céus na terra, realidade número dois.
Sem oração, própria ou alheia, ninguém se salva. Sem
oração, ninguém consegue chegar até Deus.
O santo sacerdote, Eduardo Poppe, formulou a sen-
tença: “Trabalhar (trabalho sacerdotal, apostolado) é bom;
223

rezar é melhor; e sofrer, melhor ainda”.


Os santos têm maior sensibilidade sobrenatural para
captar as forças ocultas da graça. Jesus propriamente
não exige virtudes e penitências para entrarmos no céu:
exige apenas a oração. O céu é conquistado gratuitamen-
te. Ninguém terá desculpa. Basta pedir e o receberá de
presente. Ninguém na eternidade pode se queixar de sua
sorte. “Por que não rezou?”, perguntará Jesus. “Eu teria
ajudado”. Deus quer manifestar sua total liberalidade.
Somos incapazes, por natureza, de adquirir o céu por mé-
rito. Tudo é bom. Tudo é graça. E a graça só é dada a
quem pede, como pobre e humilde mendigo. Oração é
condição prévia da graça por decreto divino. Quem reza,
se salva. Quem não reza, se perde, a não ser que arranje
um suplente.

Evangelho

Os quatro evangelistas fornecem-nos, sobre a ora-


ção, material em abundância: prova que a oração foi tida
na Igreja primitiva como assunto importante.
Prova que Jesus falou da oração com empenho. Ele
insistiu na importância da oração, na vital oração de súpli-
ca, desde o início da vida pública. Começa a insistir no
Sermão da Montanha: “Pedi e recebereis Batei e abrir-se-
vos-á. Todos os que pedem, recebem” (Mt 7,7). E retoma
no sermão de despedia, o mesmo assunto, três vezes:
“Tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, eu o farei;
tudo quanto pedirdes a mim em meu nome, eu o concede-
rei” (Jo 14,13). “Se permanecerdes em mim (pela graça
santificante), pedi o que quiserdes e alcançá-lo-eis” (Jo
15,7). E, finalmente (Jo 16,23): “Em verdade, em verdade
eu vos digo: se pedirdes alguma coisa ao meu Pai em
meu nome, ele vo-lo dará. Pedi e recebereis e será com-
pleta vossa alegria”.
224

E, de permeio, vão três anos de pregação que repe-


tem como um estribilho: pedi e recebereis a graça de
Deus. “É preciso rezar sempre” (Lc 18,1).
E a solene promessa (Mc 11,24): “Digo-vos: crede
firmemente que recebereis tudo quanto pedirdes na ora-
ção”. E as parábolas sobre a oração: Do vizinho que bate
à porta da casa em plena noite (Lc 11,5). Da viúva imper-
tinente que força o juiz de má vontade (Lc 18,1) ilustram
de maneira precisa o valor e a eficiência infalível da prece
perseverante, diante de homens maus e, quanto mais,
perante o “Pai dos céus”. Jesus reforça suas palavras
com o exemplo. Passa noites inteiras em oração. “Dei-vos
o exemplo”.
Ora, para o cristão, palavras e exemplos do Salva-
dor têm valor de lei em todos os tempos. Sabemos que
lhe seguindo as pegadas chegaremos com segurança à
casa do Pai. Ao contrário, por mais atraente que seja e
pareça um caminho; por mais convincentes que pareçam
algumas palavras, se não concordam com as palavras de
Cristo, são suspeitos; o caminho não é de Deus. Não nos
é lícito fazer cortes na doutrina e no modelo “a fim de tor-
nar o cristianismo mais a gosto de uma geração pusilâni-
me”. “Só Cristo é verdadeira Vida”. Só Ele.

PLUS - Valor

A oração tem duplo valor: valor de mérito e valor de


petição, isto é, força para alcançar graças (valor impetra-
tório). O mérito resulta do grau de amor de que inspira a
prece, pois, afinal de contas, rezar é amar. Como disse
Isabel da Trindade, ainda criança, a uma senhora que
estranhou suas longas horas de adoração perante Jesus
no sacrário: “Madame, nós nos queremos muito”.
Todavia, a oração tem ainda, valor a mais: a eficácia
de conseguir graças do céu. E esta eficiência própria da
225

oração, independente do grau de santidade, embora re-


forçada por esta, baseia-se na confiança, na fé com que
pedimos. Diz São J. Crisóstomo: “Nada é mais poderoso
do que a oração. Nada se lhe pode comparar. O impera-
dor, em sua púrpura, não é tão magnífico como o devoto
na oração”.
A oração é onipotente, afirmam Teodoreto e Sto. A-
fonso; ou em tradução moderna: “A oração realiza tudo”.
Essa força toda-poderosa não se fundamenta nas
palavras que formulamos, mas nas promessas de Cristo.
Jesus até fez um juramento: “Em verdade, em verdade
vos digo (segundo os rabinos do Talmud, essa expressão
é fórmula equivalente a um juramento): tudo recebereis se
pedirdes em meu nome”. E, em virtude dessa promessa,
até as orações do pecador têm valor e força para alcançar
graças. De côngruo, diz a Escola; por misericórdia, diz
Sto. Tomás (II II 83,16). E o cristão, unido a Cristo como o
sarmento unido à videira, tem um valor a mais a apresen-
tar: a prece é em nome de Jesus. Eis as palavras de Cris-
to: “Se permanecerdes em mim, pedi o que quiserdes e
recebereis” (Jo 15,7).

Igreja Antiga

Inspirados pelos Evangelhos , expressam-se os por-


ta-vozes da Igreja antiga:
Sto. Agostinho: “A oração do justo é chave do céu.
Sobe a prece, desce a misericórdia. E por sua bondade
excessiva, o Senhor dá sempre mais do que foi pedido”.
Sto. Ambrósio dá, como prova, o bom ladrão que
prontamente recebeu, e mais do que pedira.
São Gregório Magno contribui para o ramalhete com
o gracioso episódio do encontro-despedida de São Bento
com sua irmã Sta. Escolástica. Sabendo-se na vigília da
morte, ela quis prolongar os piedosos colóquios com seu
226

santo irmão. Esse não queria atendê-la, mas retornar ao


seu mosteiro. Então, Sta. Escolástica, pediu a intervenção
de Deus. Pesada tempestade desabou do céu, de um céu
sereno e as chuvas tornaram impossível a partida de São
Bento. E a santa a triunfar: pedi e tu não quiseste; pedi a
Deus e ele me atendeu com prontidão.

Raios de Sol

Bruxelas, 1934. A capital da Bélgica está cheia de


cartazes. Grandes exposições de flores, de 10 a 15 de
junho. Os pavilhões repletos de povo. Pobres e ricos,
grandes e pequenos, extasiados admiram as maravilho-
sas formas, figuras e cores daquela florada. Alvoroço no
quarto pavilhão: flores em vasos. Lá está o primeiro prê-
mio: um brinco-de-princesa (fúcsia). E quem teve essa
sorte? Que firma, que floricultura? Ah! É, de um particular.
Um simples nome: Marta Multer.
Marta Multer é uma criança, do quarteirão dos po-
bres, morando num porão da rua N.N.. Sua mãe, viúva,
pobre faxineira e lavadeira, luta penosamente pelo pão de
cada dia. Mas conseguiu por de lado um pouco de dinhei-
ro e comprar, para o aniversário da filhinha, um vaso de
flor: um brinco-de-princesa, uma pequena muda, ainda
miúda e verdolenga. Marta teve uma alegria extraordiná-
ria. Enfim, tinha a quem dar amor e carinho. Sentia-se
menos sozinha e menos triste, durante as longas horas de
ausência da mamãe no serviço. Dedicou todo o carinho à
sua florzinha. Os raios dourados do sol penetravam na-
quele porão só por fresta estreita, e só por algumas horas,
rodeado como estava pelas altas paredes de tijolos ver-
melhos dos prédios alugados para pobres. Mas o amor é
engenhoso. Toda manhã, mal apontava o sol no pátio,
Marta pegava sua florzinha e colocava-a de modo a rece-
ber bem de cheio os raios do sol. E, à medida que eles
227

avançavam, mudando de direção, Marta também mudava


sua florzinha, pondo-a sempre em meio à luz e ao calor
do sol. Fazia assim com cuidado amoroso, até ao cair da
tarde. E graças a tão carinhoso trato, e graças ao raio de
sol, a plantinha desenvolveu-se tão maravilhosamente,
que mereceu o primeiro prêmio.
A criança somos nós. A flor é nossa alma. Os raios
do sol: Deus e sua graça. Deixemos o sol divino irradiar-
se sobre a nossa alma, os seus raios na oração, na ado-
ração diante do sacrário, por longas horas. E nossa alma
também florirá, e ganhará o primeiro prêmio no reino dos
céus.
É do Cura d’Ars a comparação. O peixe nunca se
queixa de ter água demais; assim, o bom cristão nunca
deve se queixar de ficar com Deus por demasiado tempo.

Fonte das Virtudes

A oração é a terra fértil que faz crescer todas as vir-


tudes. “Quem sabe rezar bem, também sabe viver bem”
(Sto. Agostinho)
Diz Jesus a Sta. Catarina de Sena: “Saibas que pela
prece assídua e perseverante, a alma alcança a perfeição
e toda a virtude”. “A oração é uma mãe, que concebe e
alimenta na alma todas as virtudes. Sem ela, todas se
enfraquecem e são de vida curta”.
Ângela de Folinho: “Luz e graça divinas são princí-
pio, meio e fim de toda a perfeição. Se quer obter luz, re-
ze. Se quer crescer na graça, reze. Se quase chegou ao
ápice da perfeição e deseja mais luzes, reze. E reze lendo
atentamente o livro da vida, o Homem-Deus crucificado.
Quanto mais dedicar-se à oração, mais luzes receberás”.
Sta. Teresa d’Ávila, especialista e perita na oração
afirma: “A oração é a porta de entrada do castelo da alma”
(Castelo 1,7)
228

Confirma a Sagrada Escritura: “Invoquei e recebi o


espírito da Sabedoria” (Sb 7,7).
Sto. Afonso parafraseia com prazer o texto de São
Tiago (1,5): “Precisando alguém de sabedoria (entenda:
de amor divino) peça a Deus, que costuma dar à mão lar-
ga, e dá sem reclamar dos desgostos que lhe temos cau-
sado e sem relembrá-los. Esquece toda nossa ingratidão,
acolhe-nos e atende-nos”.
Ainda a palavra de teologia (Sto. Tomás): “A oração
de súplica não se apóia em nossos méritos, mas tão so-
mente na misericórdia divina” (II II 178, 2,1)
Portanto, nós, pobres em santidade, pobres de amor
divino, temos recursos, credenciais para a nossa prece.

Caminho do Céu

Recorda Sto. Afonso: dois pecadores morreram ao


lado de Cristo no Calvário. Um deles rezou e salvou-se. O
outro não rezou e não se salvou. Sem a graça, nada feito.
E a graça só se alcança pedindo, rezando.
E novamente Sto. Afonso, transmitindo sua experi-
ência pastoral: “Sem a oração, segundo a marcha comum
da providência, ficam todas as reflexões, resoluções e
propósitos sem efeito”.
“A terra que nos carrega. O ar que respiramos, o pão
que nos alimenta; o coração que bate no peito, não nos
são tão necessários para a vida humana como a oração é
necessária para levar uma vida cristã” (São J. Eudes)
O mesmo, em linguagem moderna: o que o motor é
para o avião, é a oração para alma em seu vôo para o
céu. Se o motor pára a tantos quilômetros, no alto, o avião
cai como uma flecha em alguns segundos, no abismo.
Quem não reza cai, perde-se. Seja papa, bispo, sa-
cerdote; seja imperador, mendigo, proletário ou capitalis-
ta, homem, mulher ou criança.
229

Rezar é absoluta necessidade. Como a respiração


para a vida corporal, assim, a oração é necessária para a
vida espiritual. Quem é privado da respiração, morrerá em
pouco tempo. Nada é tão indispensável à vida, quanto o
fôlego. A falta de respiração é sinal de morte. Privar a al-
ma da oração é sufocá-la. Nada é tão indispensável à vi-
da espiritual como a oração. Nem por brevíssimo tempo
pode ser suspendida. Jesus nos advertiu: “Deveis rezar
sempre”.
Antipatia, alergia contra a oração, desleixo da ora-
ção, sinais certos que a alma está prestes a morrer. Para
perseverar no caminho do bem é necessária a graça de
Deus. E em geral, muita graça. Para receber a graça de
Deus é necessária a oração, oração assídua. A teologia
ensina-o há séculos. Após o batismo, para o homem en-
trar no céu ainda é necessária a oração assídua” (III
39,5). “O homem santificado pela graça, ainda tem neces-
sidade de pedir a Deus o dom da perseverança” (I II 109,
10). É a doutrina da Igreja antiga. “Deus dá a graça da fé;
mas a perseverança é dada só aos que rezam” (Sto. A-
gostinho)
Diz Sto. Afonso em linguagem ardente: “Todos os
condenados perderam-se por não rezar. Se rezassem,
não se teriam perdido. Todos os santos fizeram-se santos
pela oração. Se não rezassem, nem se teriam salvado”. E
a graça de rezar é dada para todos. “Para fazer do ho-
mem um santo, observa Pascal, só mesmo a graça de
Deus. Quem duvida disto não sabe o que é ser santo e o
que é ser homem”.

Honra do Amor

O ideal é atingido quando rezar quer dizer: amar.


“Quando o amor de Deus e oração coincidem” (Lekeux).
“A melhor oração é aquela em que há mais amor. Quanto
230

mais se ama a Deus, melhor se reza” (Foucauld). E o me-


lhor método de rezar é ainda aquele do camponês de Ars.
Interrogado sobre o que dizia a Jesus nas longas horas
de adoração ao Santíssimo, respondeu: fico olhando para
o bom Deus e ele fica olha pra mim. Disse com muita gra-
ça o biógrafo de São Francisco de Assis (Celano), “ele
não rezava, mas era todo oração”. Essa oração-amor é o
ouro entre os materiais de construção da nossa morada
celeste, no dizer de 1 Cor 3, 12; tudo o mais é prata, ferro,
barro, palha e sapé.

Como rezar

1. Rezar com o Espírito Santo. Aqui cabe a leitura de


São Paulo em Rm 8,26: “O Espírito vem em auxílio de
nossa fraqueza, porque não sabemos o que devemos pe-
dir, como convém. O próprio Espírito intercede por nós
com gemidos, sem palavras. E Deus que perscruta os
corações, sabe o que o Espírito deseja; porque ele inter-
cede pelos santos segundo a vontade de Deus”.

2. Rezar com coragem impertérrita. Rezar é muitas


vezes “a hard grinding work”, diz o Pe. Doyle, SJ. Em por-
tuguês: é carregar pedras. Com bom humor expressou-se
o santo eremita da Suíça, Nicolau de Flue: “Há dias em
que a gente vai à oração como à guerra; outras vezes
como ao baile”.

3. Rezar com confiança e perseverança. Como a


mulher cananéia que, recusada por Jesus, lhe responde:
“Até os cachorrinhos podem comer as migalhas que caem
debaixo da mesa de banquete”. E Jesus declarou-se por
vencido: “Mulher, grande é a tua fé; tua filha está curada”
(Mt 15,28). E lembremo-nos da outra advertência de Je-
sus, da fé que transplanta montanhas.
231

4. Pedir muito. Jesus queixou-se do Ven. Pe. Balta-


zar dizendo-lhe: Por que és tão comedido em teus pedi-
dos, sabendo tão bem que sou generoso em dar? Não
deves pedir pouco e coisas pequenas, mas grandes, im-
portantes e difíceis, porque assenta bem aos poderosos
dar grandes presentes”.
Quando uma alma pára de rezar, nós a considera-
mos como nossa, disse o demônio ao santo milagreiro
Pierre Lamy, vigário num subúrbio de Paris, +1931. E em
uma outra ocasião: “Cessa de rezar e eu deixarei de te
molestar”. Só a vista do terço o deixa furibundo, um com-
plexo ancestral. Nossa Senhora assiste à sua missa, e no
memento dos vivos insiste: “É preciso pedir mais; pois há
abundância e superabundância para dar”.

5. Não se esqueça de unir-se a Cristo Redentor,


nosso mediador perante o trono, como nas preces litúrgi-
cas que terminam com o estribilho: Por Cristo Senhor
Nosso. “Jesus, vem! Vamos rezar a dois”.

6. E não se esqueça de pedir tudo em união com


Maria Santíssima, medianeira de todas as graças.

7. São Félix de Nola foge dos perseguidores que lhe


estão ao encalço. Na pressa, esconde-se no vão de duas
casas. Mal se escondeu, uma aranha diligente começou a
tecer sua teia na entrada. Minutos depois os esbirros in-
vestigam: aqui não entrou, porque teria rasgado essa teia
de aranha; avante! Uma coisa tão leve, tão tênue salvou-
lhe a vida. Uma figura da oração! Tenha fé no amor de
Deus.

A SÚPLICA
232

Alavanca

Sta. Gertrudes de Helfta pergunta a Jesus qual seria


a prática mais indicada em memória de sua Paixão. Jesus
responde: “Rezar de braços abertos, como eu fiz na cruz”.
Gertrudes: “Mas então, é preciso esconder nos cantos da
casa”. Jesus: “Ora, seria um prazer para mim; dá mais
intimidade”. Mas acrescentou: “Quem reza assim, sem
medo, em público, esse me honra como rei em seu trono”.
Benigna Gojoz gostava de rezar de joelhos e de bra-
ços abertos em forma de cruz, sentindo com isso o agra-
do de Jesus.
Catarina Emmerich atribuía a essa oração de “bra-
ços abertos” um grande poder. “Rezando assim, Deus
não me recusa nada, porque seu Filho predileto ficou re-
zando dessa maneira até à morte”.

Pai Nosso

Dos quatro modos de oração: adoração, agradeci-


mento, desagravo, súplica ou petição, a oração de súplica
é a última na hierarquia das preces. Mas somente é a úl-
tima quando, por insensatez humana, pedirmos apenas
bens temporais e terrestres: saúde, bem-estar, prosperi-
dade. Quando, na verdade, o fim desta oração – por sinal
a única enriquecida por grandiosas promessas de Jesus –
são as graças sobrenaturais. Finalidade que o Pai-Nosso
põe em primeiro lugar: santificar o nome de Deus, implo-
rar a vinda do Reino, fazer a vontade de Deus com perfei-
ção. Devemos pedir o que interessa a Jesus: seu Reino, o
aumento da graça, a conversão dos pecadores. O resto
será dado de acréscimo. A oração é alavanca para trans-
formar o reino da terra no reino do céu.
233

História Humana

A prece do justo é uma superpotência. “Intelectual-


mente é difícil crer na força da oração. Mas passemos só
uma semana no serviço de Deus e sentiremos seus efei-
tos... Experiência, mil vezes repetida, mostra que o Imutá-
vel se deixa mudar pela oração. Por meio dela os santos
suspenderam até mesmo as leis da natureza”.
“A oração está sempre ao nosso dispor, pronta e rá-
pida como o raio, enérgica e eficaz. No vôo ao céu ela se
reúne às preces de Jesus que lá “vive rezando por nós”
(Hb 7,25), às intercessões de Maria Santíssima, aos su-
frágios de todos os santos e bem-aventurados, às preces
ardentes da Igreja militante, como uma grandiosa tempes-
tade de súplicas. Como uma ladainha cantada em altas
vozes pela criação inteira. Ela embate no trono de Deus
com poder e majestade. E seu eco reboa na terra. Gotas
grossas de graças caem sobre o orbe como o orvalho da
madrugada, como chuva impetuosa”.
“Será uma das alegrias no céu verificar o poder da
oração, alavanca a modificar a história humana, pelo po-
der dos pequenos... Mil caminhos nos estão abertos para
cuidarmos dos interesses de Jesus: dar bons exemplos,
pregar, escrever, emprestar bons livros, dialogar afavel-
mente... todos estes meios são bons. Mas o verdadeiro
meio, quase diria, o único meio para obter resultados é a
oração”.
“Reza-se pouquíssimo em nossos dias. É triste ver a
falta de fé dos homens na oração. Julgam fazer tudo pela
própria habilidade. Rezemos e Deus estará do nosso la-
do. Rezemos, e os interesses de Jesus prosperarão nes-
se mundo” (F. W. Faber). Tudo por Jesus.

O Mistério
234

Estamos perante o mistério da oração. Quem reza é


um ser miserável, saído do nada. Miserável em sua ori-
gem, em sua conduta, pecador, inimigo de Deus. Mesmo
depois de convertidos em amigos, quão mesquinhos,
quão egoístas somos perante Deus (Que graça tem para
Deus, prestar ouvidos a um ser de nossa laia?)
Mistério! “Onde rezamos? Reparemos bem: seja on-
de for, sempre estamos no seio de Deus. Estamos nele,
como o peixe perdido nas águas do mar... Em toda parte,
ao formular preces, nossos lábios tocam, roçam o ouvido
de Deus (sem que o sintamos; se o sentíssemos, morrerí-
amos de susto e de felicidade). Ele ouve sempre o mur-
múrio de nossos lábios (e corações). A qualquer distância,
com perfeita nitidez. E os gemidos, ouve-os ainda me-
lhor”.
“Para falar com Deus, não é necessário talento. Elo-
qüência e oratória são inúteis. Cartas de recomendação
(dos grandes desta terra) são contra-indicadas, e em na-
da favorecem. Miséria e humildade ainda são a nossa
melhor recomendação. Nada de cerimônias. Nada de ru-
bricas e etiquetas a observar. Basta a fé que transporta
montanhas” (F. W. Faber 1. c.)
Eficácia prometida: “Pedi e recebereis”. Palavra de
rei não volta atrás. E Deus é mais que rei. E Deus, assim
segreda-nos Tertuliano, gosta de ser importunado pela
oração.

ORAÇÃO APOSTÓLICA

Árvore de Chuva

No planalto andino cresce uma palmeira de rica fo-


lhagem que os indígenas chamam de tamai caspi, árvore
de chuva. As folhas dessa palmeira têm um poder estra-
nho: absorvem a umidade da atmosfera e deixam-na cair
235

no chão como gostas de orvalho. O chão ao redor está


sempre úmido, mesmo na maior seca.
Cristão, sê árvore de chuva para teu próximo atrain-
do o orvalho da graça de Deus sobre ele.

Apostolado da Oração

A tua salvação eterna depende de tua oração. Mas


não percas muito tempo contigo mesmo. Reza pelos ou-
tros. Entra no Apostolado da Oração. Não na confraria
que o Pe. Ramière SJ. fundou no século passado, mas na
irmandade na qual entramos pelo batismo: na corporação
do corpo místico de Cristo. Vivendo nesse organismo so-
brenatural, cujo chefe e cabeça é Jesus, temos poder e
dever de interceder, de rezar pelo próximo. Já São Tiago
recomenda-nos: “Rezem uns pelos outros para se salva-
rem” (5,16). “Quem dá um copo d’água ao sedento, não
perderá sua recompensa” (Mc 9,40); quanto mais...
Ângela de Foligno, no dia da morte, afirma a seus
discípulos: “Garanto-vos que recebi mais graças de Jesus
quando chorava os pecados dos outros do que quando
chorava os meus. O povo vai achar graça, que alguém
possa chorar mais sobre os pecados do próximo do que
sobre os seus... Mas o amor faz isso, não é deste mun-
do”.
Sta. Teresa d’Ávila fala com a mesma convicção:
“Há algumas pessoas às quais parece duro não rezar
muito pela própria alma. Mas que melhor oração do que
esta: rezar pela Igreja e pelos sacerdotes? Por ela tere-
mos desconto das penas do purgatório. E o que ainda
faltar, que falte. Que importa ficar eu no purgatório até o
dia do juízo, se pela minha oração se salvar uma só al-
ma? Quanto mais tratando-se do proveito de muitas e da
glória do Senhor” (Caminho 3,6)
236

Os Precursores

Onias, o sumo pontífice, santo e mártir do ano 180


antes de Cristo, figura simbólica do Sumo Pontífice Cristo
Jesus, é apresentado em 2 Macabeus 15, 12: “É este que
reza tanto pelo povo de Deus”.
Retornemos ao início da religião judaica. Moisés re-
za de braços erguidos, figura da cruz, pela vitória de Israel
contra Amalec. Cansado, o ancião deixa cair os braços e
logo Israel começa a perder. Finalmente, Hur e Aarão
sustentam-lhe os braços até a vitória final (Ex 17,8).
Retornemos ao início do povo de Deus. Abraão é o
primeiro na história da salvação a praticar o apostolado da
oração: Gn 18. Deus revelara-lhe a destruição de Sodo-
ma, em castigo de seus crimes. E Abraão intercede. “Per-
derás o justo com o ímpio? Longe de Deus”. “Se houver
cinqüenta justos na cidade, perecerão todos juntos?” E
Deus declara: “Perdoarei por causa deles à toda a cida-
de”. Abraão tomou coragem e começou a negociar. “E se
houver só quarenta e cinco?” “Perdoado”. “E se houver
somente quarenta?... E se houver só dez?” E Deus res-
pondeu: “Não destruirei a cidade por amor dos dez jus-
tos”. Comovente e condescendência de Deus, tão huma-
na. “Deus não quer a morte do pecador, mas sua conver-
são a fim de que ele viva” (Ez 33,11).

Outrora e Hoje

Pio X encarregou o Pe. Fonch, SJ. da Fundação do


Instituto Bíblico. Faltavam porém todos os recursos finan-
ceiros. O único recurso possível era o Coração de Jesus.
E os dois fizeram juntos trinta novenas. Custou... e Pio X
era um santo... A perseverança em bater, abre todas as
portas.
237

Sta. Mônica rezou durante dezoito anos pela conver-


são do filho pecador e dele faz um santo.
Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão e Guerra Junquei-
ra morrem cristãos, mercê das preces de almas cristãs,
suas esposas. Paulo Setúbal narra como as orações da
esposa e da sua filha o trouxeram de volta a Cristo.
Sta. Catarina de Sena reza pelos pecadores. Seu
primeiro troféu é o blasfemador André Nandini, convertido
ao amor de Deus na hora da morte. Depois Deus pede-
lhe expressamente: “Recomendo-te que rezes com fervor
e com perseverança pela conversão dos pecadores; que-
ro que por eles me faças violência com preces e lágri-
mas”. Sta. Teresinha salvou o tríplice assassino, Pranzini,
um minuto antes de morrer na forca. Maurras deve sua
conversão às orações (e às doenças) de Reine Colin,
+1935.

Alta Política

Grandes generais venceram batalhas à custa de re-


zar o terço. Sobiesky, o herói da Polônia; Tilly e Radetzky.
E figure aqui o melhor general de Frederico II da Prússia,
o piedoso general Ziethen.
O’Connel, o libertador da Irlanda no século XIX, re-
zou terços no Parlamento de Londres, durante as sessões
que decidiram o destino de sua pátria. Ganhou batalhas
parlamentares tão deslumbrantes, diz ele, graças aos ter-
ços de sua mãe, na Irlanda. Famosos médicos declara-
ram que, antes de uma operação difícil, fazem questão de
assistir à Santa Missa, de comungar ou de ao menos re-
zar um terço.
Um B-29, durante a Segunda Grande Guerra, em
vôo de treinamento. Inverno. Os lemes recusam-se a o-
bedecer. Em vôo reto, continuariam até acabar a gasolina
e acabariam em algum ponto do oceano. Aí, o piloto se
238

recordou e gritou para o artilheiro: Bob, passa-me aquela


coisa de teu pescoço. Bob tinha sempre no pescoço uma
medalha de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Ainda
ontem, caçoaram dele; mas nem ligou. O piloto encostou
a medalha nos botões de comando. Todos funcionaram
novamente. Retornaram são e salvos.
Um missionário da África conta: um negrinho pasto-
reava o pequeno rebanho de cabras. Deitou-se na sombra
de uma árvore. Era dez da manhã, quando ouviu barulho
atrás de si no mato. Virou-se e viu os dois olhos faiscan-
tes do tigre que, num salto, chegou ao seu lado. Menino
pulou em pé, ajoelhou-se e rezou o Pai-nosso. O tigre
assistiu à reza, finda a qual, retornou ao mato.
Luís XIV da França, em desmedida ambição, tinha
reunido em guerra contra si todos os países da Europa.
Era em 1690. Então Nossa Senhora mandou um anjo pa-
ra pedir as orações de uma camponesa analfabeta, de
nome Bendita Rencournel, em Laus, nos Alpes Marítimos.
“Reza muito, minha irmã, pela paz, pois a guerra há de
durar ainda muito tempo. Vai haver logo uma grande bata-
lha na qual vai morrer muita gente. Se fizessem preces
públicas, a guerra logo acabaria; mas como o povo não
reza, ao contrário, fica cada vez mais ímpio, a guerra não
terminará tão cedo Que se façam preces pela paz; que o
rei não seja traído; que ele viva por muito tempo ainda.
Seus inimigos querem envenená-lo. Se o rei chegasse a
morrer, isto seria a grande desgraça para a França”. Até
na política, mete-se a oração.

Almas

Mas o campo ideal da prece de súplica é o mundo


espiritual. Em data mais recente (1883), escreve Lucie
Christine (Journal 140): “Na oração da noite pedi muito
angustiada pelas almas da França. Jesus garantiu-me
239

que não permitiria nenhuma delas se perdesse por falta


de recursos, assim como os pagãos que procuram since-
ramente a verdade, não perdem a Deus, apenas pela falta
de meios de O conhecer. Disse eu ‘Mas, meu Deus, vede
os perigos e as más influências nestes tempos perturba-
dos! Não será isto prejudicial à virtude e à salvação das
almas?’ Respondeu-me Jesus: ‘Daqueles que viverem
nestes tempos exigirei menos. E de mais a mais ignoras
como eu sei tirar o bem do mal?’.”
Em nosso século, Jesus diz a Gertrudes Maria
(1907): “Vem comigo. Vou percorrer o mundo todo. Bato à
porta de todos os corações. A maioria recusa entrada.
Vem, acompanha-me. Enquanto bato, tu rezas. Quando
sou rejeitado, tu me consolas”. “Fiz o que Jesus pediu. O
dia todo ficamos visitando o mundo inteiro: com Jesus,
tudo vai ligeiro”.
A mãe do Cardeal Vaughan de Westminster, conver-
tida pouco antes do casamento, fazia diariamente uma
hora de adoração diante do Santíssimo Sacramento por
seu lar, para seus treze filhos tornarem-se bons cristãos.
Resultado: todas as cinco filhas tornaram-se religiosas;
seis, dos oito rapazes, tornaram-se sacerdotes, e três de-
les tornaram-se bispos (Westminster, Sidney, Sebasto-
pol).
Paulina Reynolds entra no Carmelo aos cinqüenta e
sete anos, por ter sido preciso cuidar de sua mãe. E Je-
sus lhe diz: “Serás carmelita por meus sacerdotes”.
A aldeia de Lu (Itália) ficou sem sacerdote, pela es-
cassez de clero. Um grupo de mulheres organizou, para
todas as tardes de domingo, uma hora santa pelas voca-
ções; aliás, logo freqüentada pela paróquia toda. Resulta-
do: em cinqüenta anos a cidadezinha produziu sacerdo-
tes, religiosos e religiosas num total de quinhentos.
É bem conhecido, nos anais da hagiografia, o caso
de Jacques Olier, fundador dos seminários sacerdotais na
240

França do século XVII. Converteu-se de uma vida banal e


medíocre a uma vida santa e apostólica, graças a Inês de
Langeac, dominicana, e às suas orações.
Caso semelhante deu-se no século XIX, com a do-
minicana Clara Moes, destinada a converter Lacordaire e
a reerguer a Ordem Dominicana na França por meio da
oração e da penitência.
A providência de Deus, sua intervenção na história é
uma realidade que dirige os acontecimentos. Em geral,
fica encoberta, mas de tempo em tempo aflora à superfí-
cie.
São Clemente Hofbauer faz romaria à Roma para
tornar-se missionário redentorista. Seu companheiro de-
siste na última hora. Clemente ajoelha-se ao lado da sua
cama, rezando terços a noite inteira pela vocação de seu
amigo. Quando este acorda de manhã e vê o amigo ao
lado rezando, está decidido a entregar-se também a
Deus. Foi o braço forte de Clemente em seu vasto aposto-
lado.
Famoso o caso do bispo Ketteler de Mogúncia
(1850-1877). Estava na Universidade, no segundo ano de
direito. Nas férias revelava-se apaixonado caçador. Certa
vez, no retorno da caça de patos selvagens, não conse-
guiu arrancar dos pés as botas molhadas. Encolerizado,
pegou do punhal e cortou o couro em pedaços. Uma a-
mostra do homem. Certa noite sonhou com uma freira; só
viu o seu rosto e suas mãos postas e teve a impressão de
ouvir: “Ela reza para você ficar padre”. Ketteler mudou de
rumo e decidiu dedicar-se a Deus no sacerdócio.
Anos depois, como bispo, fez uma visita pastoral a
um convento de religiosas. Ao distribuir a sagrada comu-
nhão, a última a comungar deixou-lhe a impressão: “Você
já viu esta religiosa, mas onde?” Durante o final da missa
só pensou nessa religiosa, procurando lembrar-se. Enfim,
surgiu da memória: “É aquela do sonho”. Após o café,
241

pediu para conversar com toda a comunidade reunida na


sala. Rapidamente correu os olhos: a tal não estava...
“Mas estão todas as irmãs, todas mesmo?” A superiora
também correu os olhos e confirmou: “Sim, todas; só fala
a irmã ecônoma, que cuida do curral”, dando a entender
que ela não fazia falta. O bispo quis vê-la. Foi chamada.
Era ela. O bispo fez sua palestra geral e despediu-as to-
das. Mas ainda quis falar com a irmã que cuidava do cur-
ral, a sós. Perguntou-lhe sobre sua oração. A irmãzinha
toda confusa desculpou-se; não sabia rezar; mal sabia ler,
não entendia os livros. Rezava seus Pai-nossos e Ave-
Marias quando tratava dos animais na estrebaria. Ofere-
cia, sim, orações e trabalhos pelas vocações... Ah! mais
um informe: nascera no dia em que o estudante jurista
tivera aquele sonho...
Nhá Chica, Francisca de Paula Isabel de Jesus, de
Baependi MG (1808-1895), passou a vida rezando. Órfã
de pai e mãe, aos dez anos consagrou-se a Deus pelo
voto de virgindade. Vivia pobremente em seu rancho de
sapé. Distribuía aos pobres do lugar todas as esmolas
que recebia. Famosa pelas graças que alcançava em su-
as orações, declarou: “Isto acontece porque rezo a Deus
pelos merecimentos de sua divina Mãe, Maria Santíssima
e ela me atende...” Interrogada sobre as profecias, res-
pondeu sorrindo: “Não sou sibila. Nunca fiz milagres. Re-
zo à Nossa Senhora que me ouve e me responde”.
Um missionário do Congo sentiu que a obra da con-
versão, após um longo e penoso ano de trabalho, não
progredira quase nada. Lembrou-se das crianças de sua
terra natal. Escreveu-lhes pedindo que o sustentassem
com suas orações infantis O resultado foi prodigioso. Al-
deias bastante renitentes pediram o sacerdote e o cate-
quista, porque todos queriam tornar-se cristãos.
242

Cartas de Recomendação

Apresentar cartas de recomendação é inútil se não


tiverem a assinatura do Filho de Deus. Elisabeth Leseur
gostava de apelar para o sangue de Cristo a fim de obter
êxito na oração. Por intermédio de Marta Chambon acon-
selhou-nos Jesus a oferecer ao Pai suas cinco chagas
pelo resgate dos pecadores.
É útil reforçar nossas súplicas, utilizando-nos dos
seguintes tesouros da Igreja militante:
– Oferecer a humanidade gloriosa de Cristo que vive
intercedendo por nós no céu.
– Oferecer a paixão e morte, tema predileto dos san-
tos de séculos atrás, como São Francisco, São Bernardo,
Sto. Agostinho.
– Oferecer a Santa Missa, celebrada a toda hora do
dia, em algum lugar do mundo.
Dom Afonso de Albuquerque, navegando no Atlânti-
co, teve sua caravela ameaçada de sossobrar num violen-
to temporal. O que faz? Arranca uma criança de dois anos
dos braços de sua mãe, ergue-a ao céu, rezando: “Ó
Deus, nós todos que aqui estamos somos pecadores e
não merecemos ser salvos. Mas por esta criança inocen-
te, perdoa os culpados”. E a tempestade amainou. Figura
da Santa Missa.
E nunca deixes também de unir tuas preces à ora-
ção de Maria Santíssima. Depois de Jesus é no céu a
mais interessada pela nossa salvação. E pelo prestígio
que tem, é a mais poderosa. “Basta que eu peça”, decla-
rou. Seja pois ela sempre a nossa associada no apostola-
do; pois é co-redentora e medianeira, segundo o Concílio
Vaticano II.

Números
243

No reino da graça sempre prevalece a qualidade so-


bre a quantidade. Mas enfim... Para salvar Sodoma e
Gomorra teriam bastado dez justos.
Sta. Margarida Alacoque deixou-nos dito: “Um justo
pode alcançar o perdão de mil pecadores”.
Sta. Coleta pediu certa vez a conversão de mil pe-
cadores. Depois, refletindo melhor, ou pior, espantou-se
do seu pedido, que lhe pareceu temerário. A Santíssima
Virgem apareceu-lhe sorrindo e mostrando-lhe os conver-
tidos. Eram mil.
A Sta. Gertrudes de Helfta Jesus mesmo ofereceu
um milhão. Ela pedira a Jesus: “Não me queres dar esta
alma?” E a resposta: “Por que só esta? Por que não mil
vezes mil? É só pedir”.
Sta. Catarina Racconig, +1548, viu uma imensa mul-
tidão de almas que estariam na glória de Deus, se ela re-
zasse e sofresse por elas; senão pereceriam... Numa ba-
talha sangrenta, rezou com fervor pela salvação eterna
dos combatentes, e teve o consolo: só alguns foram para
o inferno; mil foram para o purgatório, e três voaram dire-
tamente ao céu (até soldados! hein?). Em uma ocasião
posterior, no ano de 1541, do lado inimigo, todos (uns cin-
co mil) foram para o inferno: eram hereges, apóstatas re-
centes. Do lado de cá, todos salvaram-se: pouco antes
tinham feito a páscoa.
Em nosso século, temos Benigna Consolata Ferrero,
+1916. Jesus disse-lhe: “Quantas almas tu me ganhas, na
América, na África, na Austrália, no mundo inteiro, mas
especialmente na cidade de Turim... Quem salva uma
alma, salvou a sua. E tu já me salvaste mais de um mi-
lhão”.
A mística analfabeta Maria de Valença (França),
+1648, (teodidata, segundo Bremond) teve a visão de dois
cortejos pelos quais devia rezar. A primeira “procissão”
começava com o papa; a seguir iam os cardeais, bispos;
244

todos em ordem hierárquica; logo depois iam os impera-


dores, embaixadores, duques, militares, juristas, médicos,
burgueses, negociantes, artesãos, camponeses. Depois,
como num toque de orquestra, a procissão se reagrupou
sob o aspecto da eternidade, das necessidades espiritu-
ais: abrindo o cortejo estavam os pecadores, seguindo-se
depois os convertidos, os penitentes, os inocentes, os
justos e por fim, os santos.
Deus fez conhecer à vidente que contava com ela
para seu apostolado, e atribuiu-lhe cinqüenta mil pecado-
res para converter; trinta mil penitentes para firmar na
graça; quinze mil justos e doze mil santos para manter e
fazer crescer na graça. Doze mil santos na lista: a propor-
ção deve alegrar-nos. Eis a generala de um exército de
cento e sete mil soldados da Igreja militante, “generala”
importante.
Não sabemos o que pensar destes números. São
simbólicos? Folclore religioso? Durante um exorcismo, o
demônio deixou escapar que o Cura d’Ars lhe roubou oi-
tenta mil pecadores. Num exorcismo, que o próprio santo
realizou, o demônio ao fugir gritou: “Como me fazes so-
frer; três como tu e estaria acabado meu reino na terra”.
Talvez calhe aqui a anedota papal do século XVI.
Bramante apresentou ao papa Júlio II os planos da nova
basílica de São Pedro. Levou consigo o filho pequeno de
cinco anos. Júlio II, sumamente satisfeito, mandou trazer
um pequeno cofre com moedas de ouro. O papa mandou
o menino tirar um mão cheia. Mas o pequeno Bramante
respondeu: “Sto. Padre, tire o Senhor; sua mão é maior”.

A ORAÇÃO DO REINO

A oração é invenção cristã. O pagão de todos os cul-


tos, tempos e regiões contentam-se com breves invoca-
ções, à maneira de nossas jaculatórias, ou repete meca-
245

nicamente a prece-da-flor-do-loto. As meditações tibeta-


nas não se dirigem a Deus: são auto-hipnoses. Rezar pa-
ra o cristão é, ou deve ser, amar a Deus e pedir seu auxí-
lio.
Rezar é reconhecer que Deus é tudo, o único Tudo.
Rezar é o fim da criatura. A primeira entre todas as ativi-
dades humanas é: adorar e amar a Deus. Imaginar que
exista ação mais importante é um erro.
O mundo sorri desta preferência pela oração. Não se
deve rezar, mas agir! A situação chegou à calamidade
pública. Não há tempo a perder! É uma lástima que tantas
forças vivas restam inativas, encerradas nos mosteiros
contemplativos! Acusa-se, até, certos grupos de leigos
piedosos de se agarrar à sua vidinha interior, em vez de
se lançar, com ímpeto, na luta apostólica. A oração afigu-
ra-se, aos super-ativos, como uma evasão, como medo
diante dos compromissos.
Há possíveis deformações. Mas nem todos os sol-
dados da retaguarda são poltrões a fugir do perigo. Dono-
so Cortés é de outra opinião: “Eu creio que aqueles que
rezam fazem mais pelo mundo que aqueles que lutam nas
batalhas. E se o mundo vai de mal a pior, é porque há
mais batalhas do que orações. Se pudéssemos penetrar
nos segredos de Deus e da história, tenho certeza ficarí-
amos cheios de admiração perante os efeitos prodigiosos
da oração, mesmo em assuntos humanos. Eu creio que
se houvesse ainda que uma só hora, de um só dia, em
que a terra não enviasse nenhuma prece ao céu, esse dia
e essa hora seriam o último dia e a última hora do univer-
so”. Idênticas afirmações no século passado.
“O espírito apostólico é antes de tudo teocêntrico...
convergindo para a Santíssima Trindade... Depois, de
modo secundário e subsidiário, fixa-se sobre a criatura”
(Thils, 1949)
“À contemplação cabe o primeiro lugar, por direito, e
246

deve sê-lo de fato. Ao homem se chega através de Deus.


O apostolado não surge da necessidade das almas mas
do amor de Deus” (CARDEAL SUHARD, Essor, 1948)

O Reino

Toda a cristandade está inscrita no apostolado da


oração, uma vez que, desde Pedro e Paulo, rezamos dia-
riamente: “Venha a nós o vosso reino”.
Vivemos na união mística com Cristo. Cada membro
deste organismo místico tem o poder de intercessão por
seu próximo. Foi o apostolado de Maria Santíssima e de
inúmeras almas anônimas. O apostolado da oração não é
inferior, em valor e eficiência, ao apostolado da palavra,
pois Jesus lhe dedicou trinta anos, e ao apostolado públi-
co somente três anos. E ainda mais: começou sua vida
pública com quarenta dias de jejum e de oração contínua.
E depois, passou noites inteiras em oração. A oração atrai
as graças para o apostolado.
Os doze apóstolos entenderam tão bem a lição do
Mestre que nos deixaram o precioso princípio de Atos 6,4:
“Não é justo deixarmos de lado a pregação da palavra de
Deus, para servir as mesas... Mas devemos continuar a
dedicar-nos à oração e ao ministério da palavra”. Deste
modo, os Doze ofereciam junto com a mensagem, a graça
de Deus para que essa, fosse aceita. Lição para os seus
sucessores no apostolado. Não fique esquecido pelos
cristãos hodiernos, o mandato de Paulo (1 Tm 2, 1-4):
“Insisto que se façam preces... por todos os homens...
porque isto é bom e agradável a Deus, nosso Salvador,
que quer que todos se salvem”.
Escreveu São Tiago (5,16): “Grande poder tem a o-
ração do justo”.
Eis a tarefa da cristandade toda. Rezar, rezar pelo
reino de Deus. Assim, ficamos associados à prece do
247

Sumo Sacerdote Jesus que está sentado à direita do Pai,


rezando sempre por nós (Rm 8,34 e Hb 7,25). Escreve
São João (1 Jo 2,1): “Temos um advogado junto ao Pai,
Jesus”. Jesus exerce essa tarefa de intercessão todos os
dias, na Santa Missa, na grande prece de Filho ao Pai, e
a ela quer associar todo o povo de Deus. Junto com o
Filho de Deus, rezamos a prece final: o Pai-nosso. E re-
zamos no plural: todos pedindo por todos.
Também à oração comunitária, não litúrgica, prome-
teu Jesus sua assistência, ou melhor, sua presidência.
“Onde dois ou mais estão reunidos em meu nome, aí es-
tou em meio deles... e tudo quanto pedirem, lhes será da-
do pelo Pai” (Mt 18,19).
Essa é a razão de ser das ordens contemplativas. A
união faz a força, diz o ditado. A união com Cristo, diz o
cristão.

Monges e Monjas

Segundo o Vaticano II (PC 7): “As ordens contem-


plativas, que vivem só para Deus na solidão e no silêncio,
na prece assídua e alegre penitência” sempre serão “par-
te insigne” da Igreja. “São ornato da Igreja e manancial de
celestes graças”. Confirma-o a GS 38.
A LG 44 declara que os religiosos “consagrados to-
talmente a Deus, são destinados ao seu serviço e à sua
honra”, e que a oração é a substância de sua vida consa-
grada ao culto de Deus. A oração é como que a expres-
são da sua contínua inclinação para Deus, expressão de
amor, de todo o coração.
PC 6, insiste de novo, que “cultivem o espírito de o-
ração e a própria oração”. Paulo VI fala “do primado da
oração no campo da ação da Igreja”. “Para tornar-se ora-
ção é preciso fazer oração” (20.7.1966).
E novamente, em 1969, numa alocução às monjas
248

camaldulenses: “Vós, contemplativas, vos consagrastes a


este absorvimento de Deus sobre vossa alma. Ora, bem:
a Igreja vê em vós a expressão mais alta de si mesma.
Vós estais, de certo modo, no vértice” (cf. Venite seorsum,
nota 38).
O magistério de João XXIII revelamos precioso tex-
to: “O apostolado propriamente dito consiste em participar
da obra salvífica de Cristo: o que só se realiza pela prece
fervorosa do devotamento. Já que o Salvador remiu o gê-
nero humano principalmente oferecendo preces ao Pai e
imolando-se... Donde segue: quem se empenha em se-
guir esta íntima razão do múnus salvífico de Cristo, embo-
ra se abstenha de ação externa, faz apostolado, de exce-
lente maneira” (ASS 1962, 568).
E retornemos às origens. Sto. Agostinho já se vê o-
brigado a defender a vida dos anacoretas: “A alguns pa-
rece terem (os eremitas) abandonado a vida social mais
do que se deve. Mas esses não compreendem quanto se
nos aproveita o fervor deles nas orações e sua vida para
o nosso bom exemplo”.
A oração dos antigos monges foi muito estimada e
procurada pelos devotos. Para fugir às romarias dos de-
votos, Sto. Antão e seus companheiros embrenham-se
cada vez mais pelo deserto adentro, embora com pouco
resultado: não tardaram a serem descobertos.
São Basílio pede a seus monges oração contra a he-
resia (ariana). Aliás, a liturgia, pelas preces do ofertório,
recordava aos monges e fiéis os grandes interesses da
Igreja de Cristo.
A partir do século XI, as ordens contemplativas to-
maram consciência de sua missão de orantes, escreve
Vandenbroucke. Quer dizer: desse tempo abundam as
notícias, mas das épocas anteriores falta documentação.
O elemento formal da vida do monge é a prece. Prece
pelo reino. Prece pelos inimigos de Deus. Enfim, há o ro-
249

teiro de praxe para a oração, indicado no Pai-nosso. A


austeridade da regra, considerada pelo monacato ociden-
tal como martírio vitalício, a fogo lento, é complemento e
sobremesa.
Aliás, os monges e a cristandade antiga nada perde-
ram ao fixar, de preferência, como meta aquela oração-
de-fogo (do amor), que Cassiano preconiza como meta
final do monaquismo. Dom e dádiva de Deus, diz ele, e a
descrição quadra perfeitamente com o que hoje chama-
mos de contemplação mística. Ora, este amor abrange
também os demais membros do Cristo místico, transmi-
tindo seu calor aos frios e mornos. São João da Cruz fala
deste amor de fogo e de seu imenso valor na Igreja, no
Cântico 29. Antigos e modernos encontram-se.
Vem a propósito uma frase de São Tomás, raramen-
te citada: “Quem vive na caridade, tem parte em todas as
boas obras que se fazem no mundo inteiro” (Expositio in
Symbolum 10).
Ainda da Idade Média uma página luminosa de Tau-
ler: “Todos os bons cristãos são co-redentores, pois re-
zam pela Igreja e sofrem as calamidades públicas e as
doenças pessoais por amor de Deus. Mas de um modo
insigne, colaboram os “amigos de Deus”. Deus se apraz
tanto neles... Meus filhos, se não tivéssemos estes ho-
mens, estaríamos em má situação. Sobre eles apoia-se a
santa Igreja. E se eles não existissem na cristandade, a
cristandade não sobreviveria nem uma hora. A sua sim-
ples existência é mais preciosa e mais útil que toda a ati-
vidade do mundo. São vasos transbordantes que ofere-
cem tudo pela Igreja”.
Um contemporâneo anônimo, inglês, místico de pro-
funda espiritualidade, escreve sobre a prece do monge e
eremita: “Os demônios se enfurecem quando te aplicas à
oração e fazem todos os esforços para impedi-la... Os
homens, que vivem ainda na terra, tiram dela grande pro-
250

veito, embora não saibas como. Sua força alivia as almas


do purgatório em sua padecimento. E, quanto a ti, ne-
nhum outro exercício contribui tanto para purificar-te e
tornar-te virtuoso” (Nuvem da ignorância)
Sta. Teresa d’Ávila afirma que suas carmelitas con-
templativas são os anjos de Deus na terra, assim como os
anjos no céu constituem a corte de louvor a Deus. Como
nos diz o Concílio (PC 7): “Os contemplativos oferecem a
Deus o exímio sacrifício de louvor”. Depois Sta. Teresa
acentua e ressalta que a finalidade de seus mosteiros é a
de rezar pela Igreja, rezar pela conversão dos hereges e
rezar pelos sacerdotes. “Parte-me o coração ver como se
perdem tantas almas... Ó irmãs minhas, ajudai-me a su-
plicar ao Senhor que elas se salvem, pois para este fim
vos chamou ele aqui. Esta é a vossa vocação. Estes de-
vem ser vossos negócios. Estes os vossos desejos. Aqui
se empreguem vossas lágrimas. Estas sejam vossas peti-
ções, e não as súplicas pelos negócios do mundo... Aflijo-
me por ver as coisas que nos pedem... rendas, dinheiro...
O mundo está pegando fogo: querem condenar novamen-
te a Cristo e lançar por terra sua Igreja... Irmãs, não é
tempo de tratar com Deus negócios de pouca importân-
cia” (Caminho 1,5)
Três séculos mais tarde, sua neta espiritual, Sta. Te-
resinha, dedica-se a este apostolado da oração. “Quero
ser filha da Igreja, como nossa santa madre Teresa, e
rezar pelas intenções do Sto. Padre o Papa, sabendo que
suas intenções abraçam o universo” (Vida 320)
O apostolado da oração é mais elevado que o da pa-
lavra. Eis as palavras de Jesus: “Erguei os olhos e vede.
Vede como no céu há lugares vagos. Cabe a vós preen-
chê-los. Vós sois meu Moisés rezando no monte... O Cri-
ador do universo espera a prece de uma alma para salvar
outras” (Cartas, 118).Disse um sábio: “Dai-me uma ala-
vanca, um ponto de apoio e levantarei o mundo. O que
251

Arquimedes não pôde obter, os santos obtiveram-no. O


Onipotente deu-lhes por ponto de apoio, a Si mesmo e a
Si somente; por alavanca, a oração que abrasa com o
fogo do amor. E é assim que levantaram o mundo... e o
levantarão os santos vindouros, até o fim do mundo” (Vida
325)
Ainda uma voz recente (Gertrudes M.). Diz Jesus:
“Gosto que me peças e muito. Não se reza bastante pelos
sacerdotes. Tenho para eles graças de reserva que eu
daria se fossem pedidas... Reza, reza, minha filha, reza...”
“Que é preciso para agradar-te, Jesus?” “Rezar... de tua
boca, que se torna cada dia minha pousada, e de teu co-
ração, que é meu sacrário vivo, deveria sair uma oração
contínua... Deve-se rezar muito e por grandes e imensas
intenções”.
É a oração apostólica que o Vaticano II proclama e
reclama. Oração do tamanho da Igreja ou dizemos me-
lhor: do tamanho do Coração de Jesus que abraça o
mundo inteiro. Nossas orações, nossa Ave-Marias correm
mundo, mas rápidas que as ondas de rádio, e atingem
céu, terra e purgatório. Vivemos em união com o reino de
Jesus. Seja tudo por Jesus. Misturando esse gemido ami-
úde ao nosso trabalho cotidiano, quanto bem não faremos
no reino das almas.
Vivemos em união com Jesus. Tudo é nosso. Damos
e recebemos. Como o sangue, do coração percorre o cor-
po, mas retorna, assim podemos, ora colaborar, ora usu-
fruir todo o bem praticado em algum ponto da Igreja, e
sem prejuízo de ninguém.
De que dependem as vitórias de Deus? Da ação?
Da agitação? Não. Do silêncio, da oração. O cristão nun-
ca é mais forte do que quanto está rezando, porque então
a onipotência está ao seu lado.
252

A DEVOÇÃO PELOS PECADORES

Numerosos os afilhados dessa irmandade. É antiga.


Já Orígenes, +250, a conhece e recomenda: nas guerras
de Deus “mas vale um santo rezando, do que uma multi-
dão de soldados batalhando... procura, pois, em primeiro
lugar a justiça de Deus”.
O mundo desse fim de século XX, vive na angústia
da guerra atômica. Mais angustiante nos devia ser o trági-
co fim de tantas almas imortais Cada alma humana é uma
chance de Deus.
Nossa Senhora precisou lembrar-nos em La Salette,
Lourdes, Fátima, o mandamento da Bíblia: “Rezai pelos
pecadores” (Tg 5,16). Nossa mais decepcionante negli-
gência, a mais vergonhosa das nossas omissões é aban-
donar esta tarefa grandiosa... de praticar a misericórdia”.
Sta. Teresa d’Ávila confessa singelamente, quantas
vezes Nosso Senhor atendeu suas orações, livrou almas
do pecado e conduziu outras a uma vida mais perfeita:
“Nem posso contar tudo” (Vida 39,5). E segue uma anto-
logia de textos.
Sta. Gertrudes passou mal à noite, com febre alta, e
julga poder dispensar-se das matinas da meia-noite. Mas
a voz conhecida de Jesus chama: “Levanta-te, levanta-te
e vai rezar pelos pecadores”.
Sta. Matilde. Jesus: “Vamos, faz-me o favor e reza
pelos pobres pecadores que eu resgatei por preço tão
caro”.
Sta. Gertrudes: “Vê como os pecadores são feridas
e ulcerações do corpo de Cristo. Tocar nelas com mãos
ásperas, dói”.
Sta. Catarina de Sena já estava morta, havia quatro
horas na câmara ardente, quando de repente “acorda”,
rompendo num choro sentido. “Por que choras?” “Já esti-
ve no céu e tenho de voltar à terra... para salvar mais al-
253

mas. Vi a essência de Deus... os tormentos do inferno e


do purgatório. Impossível descrevê-los. Se os pobres ho-
mens tivessem a mínima idéia disso, eles prefeririam so-
frer mil vezes a morte, do que padecer lá, ainda que só
um dia”. E Jesus fala: “Vês que glória perdem e quanto
padecem os que me ofendem. Retorna pois à vida, mos-
tra-lhes seus enganos e o perigo que os ameaça. A sal-
vação de muitos exige teu retorno”.
Em outra ocasião, Jesus mostra-lhe uma alma em
estado de graça (não na glória), salva pela intercessão de
Catarina. “Eis, por ti pude recuperar essa alma perdida.
Não te parece graciosa e bela? Quem não aceita sofrer,
não importa quantas dores, para ganhar criaturas tão ma-
ravilhosas? Eu que sou a beleza suprema, senti-me preso
de amor pela beleza das almas ao ponto de descer à terra
e derramar meu sangue por seu resgate, para não perder
criaturas tão bonitas. Mostrei-te essa alma, para tornar-te
mais fervorosa em procurar a salvação de todos.”
Sta. Madalena de Pazzi: “Assim, como o Verbo En-
carnado fez de seus apóstolos, pescadores de homens,
assim quis que suas esposas, as religiosas, se engenhas-
sem em salvar almas por suas orações... Rezai pelos pe-
cadores. Se não o fizermos, ninguém mais o fará. Ai,
quantos pecadores estão no inferno porque ninguém tem
rezado por eles.”
Sta. Verônica Giuliani: Jesus: “Eu sofria muito carre-
gando a cruz no caminho do Calvário. Sofria muito mais
ainda, quando do encontro com minha Mãe. Mas o maior
tormento foi a vista contínua do grande número de filhos
meus que não iriam querer aproveitar sofrimentos tão a-
trozes”.
“Se tu soubesses quão numerosos são os pecado-
res. Por toda parte só há pecadores e pecadoras. E co-
metem tão grandes pecados que merecem castigo e não
perdão. Tornaram-se animais Não pensam em Mim, nem
254

em suas almas. Ofereço graças, poucos aceitam...” Verô-


nica: “Vou amar-te por mim e por todos esses que não te
amam”. Jesus: “Eis o que quero de ti... É necessário que
fiques ainda alguns anos na prisão terrestre, a fim de que
me ganhas muitas almas”.
Verônica experimentou que rezar pelos pecadores é
mais excelente remédio contra a aridez.
Benigna Cojos, 1615-1692, ouve da boca de Jesus:
“Desde quinze anos, em cada comunhão tua, concedo, a
teu pedido, algum herege, principalmente de Genebra
(naquele tempo, ainda era herege a República)... Peça-
me a salvação do meu povo (Sabóia). Peça-me que eu
lhe perdoe. Emprega para esse fim teus dez dias de reti-
ro”.
Maria da Encarnação (Ursulina): “Meu espírito per-
corria o mundo inteiro, para buscar as amas resgatadas
pelo sangue do Filho de Deus. Eu trazia em mim, um fogo
que me consumia. O espírito apostólico, que é o espírito
de Jesus Cristo, apoderara-se do meu espírito e me leva-
va em pensamento às Índias, ao Japão, à América, ao
Oriente e ao Ocidente, a toda a terra habitada. Eu via, por
uma certeza interior, o demônio triunfar dessas pobres
amas que ele roubava do domínio de Jesus Cristo; de
Jesus que as resgatara com seu sangue precioso... Eu
ficava com ciúme; não agüentava mais; abraçava todas
essas pobres almas; segurava-as em meu seio; e apre-
sentava-as ao Pai eterno, dizendo: que era tempo de Ele
fazer justiça a meu esposo. Que ele bem sabia haver-lhe
prometido em herança todas as nações. E, além do mais,
que Jesus prestou satisfação com seu sangue por todos
os pecados dos homens”.
Madalena Vigneron: “Vê como me maltratam... mas
todos esses tormentos não me importariam, se eles qui-
sessem converter-se a bons sentimentos. Mas eles se
recusam...” Jesus mostrou um rosto cheio de indignação e
255

parecia prestes a fulminar tudo; depois, retornou sua do-


çura, dizendo: “Minha filha, tu não me podes fazer coisa
mais agradável, do que empenhar-te por esses pobres
miseráveis”.
Sta. Margarida Alacoque: Preparando-se para co-
mungar, Jesus lhe fala: “Vê minha filha, o mau tratamento
que recebo nessa alma que acaba de comungar; tibieza,
frieza, pouco caso. Ela renova todas as dores da minha
Paixão. Quero que tu faças desagravo a meu coração,
oferecendo ao Pai o sacrifício cruento da cruz e toda a tua
pessoa, para reparar as indignidades que recebo nesse
coração”.
Nosso Senhor apresenta cinco corações infiéis, di-
zendo: “Encarrega-te desse fardo e participa das amargu-
ras do meu coração”.
“Minha filha, meu amor me fez sacrificar tudo pelos
homens, sem receber deles retribuição. Quero que tu su-
pras esta ingratidão”.
Certa vez, Margarida sentia pesar sobre ela a santi-
dade de Deus; sentia-se esmagada. “Isto é só uma pe-
quena amostra. As almas justas suportam-na, mas se ela
cai sobre os pecadores?...”
Catarina Emmerich, a vidente da Paixão, recebera
do céu, desde pequena, a tarefa de rezar pelos pecado-
res. Diz ela: “Desde pequena rezei muito, menos por mim
do que pelos outros, a fim de que se salvem. Nisso fui
bem ousada, pensando: Jesus pode tudo e ele gosta que
lhe peçamos com coração e coragem”.
O santo Cura d’Árs foi grande devoto dos pecado-
res: “As almas custaram tantos sofrimentos a Jesus. Que
lástima se perderem eternamente... Oh! esses pobres pe-
cadores que estão na eminência de se decidir pró ou con-
tra Deus! Um Pai-nosso, um Ave-Maria pode inverter a
balança ao seu favor. Rezemos pela conversão dos pe-
cadores! É a mais bela e a mais útil das orações, por-
256

quanto os justos já estão no caminho do céu. As almas do


purgatório estão seguras de entrar nele. Mas os pobres
pecadores... os pobres pecadores... E quantos estão em
suspenso! Rezemos. Todas as devoções são boas, mas
nenhuma melhor que essa”.
Contam dele a seguinte entrevista, “Tudo pela con-
versão dos pecadores”:
– Mas, sr. Cura, se Deus vos propusesse: ou subir-
des ao céu agora mesmo, ou ficardes na terra para traba-
lhar na conversão dos pecadores?
– “Creio que ficaria”.
– “Será possível? Os santos são tão felizes. Lá não
há mais tentações, não há mais misérias...”
Com um sorriso angélico, respondeu:
– “É verdade, mas os santos são tão felizes; são uns
capitalistas (vivendo dos juros); não podem mais, como
nós, glorificar a Deus pelo trabalho, pelo sofrimento, pelos
sacrifícios para salvar almas”.
– “E ficaríeis na terra até ao fim do mundo?”
– “Do mesmo modo”.
– “Nesse caso, teríeis muito tempo pela frente. Le-
vantar-vos-ieis também de madrugada?”
– “Oh! Sim. À meia-noite. Não me incomodo. Seria o
mais feliz dos homens”.
Sta. Bernadete, na gruta, recebeu da Mãe de Jesus
a ordem de rezar todos os dias pelos pecadores. Ao mor-
rer, ficou preocupada e só sossegou quando o confessor
lhe prometeu continuar rezando pelos pecadores, em seu
lugar e em seu nome.
Sta. Teresinha tem a idéia de ser missionária, tran-
cando-se atrás dos quatro muros da clausura, e ficar re-
zando. Leia o capítulo final para ver como deu certo.
Carlos de Foucauld: “Corramos por meio da oração,
atrás dos pecadores. Em nossa prece, peçamos a Jesus
para amá-lo, e peçamo-lhe que todo o mundo o ame. Ou
257

então, creio que este é o melhor sistema, digamos-lhe


toda manhã, que tudo quanto pedimos para nós, pedimo-
lo também, sempre, por todos os homens sem exceção.
Dito isso, não me parece que devamos nos preocupar
com os outros. Não pensemos mais nas criaturas. E fale-
mos com o Esposo, só sobre ele e nós, como se ele e nós
estivéssemos sozinhos no mundo. Quanto mais pedirmos
para amá-lo de todo o coração, tanto mais faremos bem à
humanidade inteira, que tem parte em todas as nossas
preces”.
Ainda figure nesta antologia a palavra do venerável
clérigo capuchinho, Frei José Maria de Palermo, que de
moleque número um tornou-se frade santo. Dize com ele:
“Por cada pecado meu, uma alma”.
Sentindo o fervor espiritual, pensamos expressá-lo
bem com mortificações corporais, sempre úteis e às ve-
zes necessárias. Tal como sóror Consolata Betrone,
+1946. Havia um pecador a converter: seu tio de nome
Felice, mas de fato infeliz, muito infeliz. Até os sessenta
anos nunca se confessara; nunca recebera a santa co-
munhão. Depois de ela ter passado uma semana a dormir
sobre tábuas, com disciplina diária e dois cilícios por dia,
ao fim da novena Felice declarou-se disposto e até satis-
feito de ir para o inferno. Foi para Consolata o sinal. En-
tregou à superiora todos os seus instrumentos de peni-
tência. “Jesus não quer isto de mim”. Jesus: “O cilício de
penitência que quero de ti é amar-me sem cessar”. E tio
Felice converteu-se pelos atos de amor de Consolata.
Cada alma recebe de Deus sua missão, sua melodia
própria. Uns trabalham com ferro e fogo. Outros só com o
fogo do amor de Deus.
Disse Isabel da Trindade, com graça peculiar, que
quer “fazer Jesus esquecer as ofensas, à força de amor”.
Terminamos o capítulo com Charmot: “A oração sal-
va muito mais almas que a ação. E toda ação tira a força
258

redentora da oração que a fecunda”.

MARIA BROTEL

Vítima de Oração – 1819-1888.

“Aos treze anos vi Nosso Senhor. Ele ofereceu-me a


cruz: “Eis, minha filha, o que quero que carregues”.
Aos catorze anos, um dia após minha primeira co-
munhão, Nosso Senhor mandou-me fazer meditação todo
dia. Abriu-me seu coração, dizendo que nesse coração se
encontra todo o amor que ele me queria dar... Mostrou-me
as almas para fazer-me rezar por elas. Mas eu achava o
tempo longo; não fazia nada”.
“Entre os quinze e vinte anos, no dia da comunhão
eu fazia uma meditação de uma hora. Mais tarde, uma
hora e meia. Nosso Senhor pediu ainda mais Portanto, fiz
duas horas de meditação, depois três”.
Dos 24 aos 26 anos: “Minha filha, eu quero que fa-
ças quatro horas de oração por dia.” Achei que era longo
demais. Mas foi preciso obedecer”.
1861: “Nosso Senhor, Nossa Senhora e São José
vieram mostrar-me as almas que morrerão nesse dia. Sin-
to grande pesar, pois vejo quais se perdem”.
1862: “Jesus faz-me sofrer pelas almas. Unida a ele,
eu sobrevoava todo o universo. Via por toda a parte, al-
mas na agonia”.
1863: “Sofro todas as noites pelos agonizantes. Mui-
tos caem no inferno. Muitos vão para o purgatório. Quão
poucos vão diretamente ao céu”.
1870: “Vejo que, se a oração parasse, logo a justiça
se abateria sobre o mundo... ruínas... sangue... Preces
fervorosas podem salvá-lo. Jesus incita-me a trabalhar.
Tenho a eternidade no céu; mas na terra vale o tempo.
Também para a obra das almas. E o tempo passa; ele é
259

precioso”.
“Continue rezando”, repete-me Jesus sempre de no-
vo. “Vi o Pai. Impossível descrever a imensa bondade de
Deus Pai”.
“Eu pensava que no Pai havia sobretudo majestade
e onipotência. Mas eu vi, sobretudo e acima de tudo, a-
mor”. Ele me disse: “Filha, os homens não me conhecem.
Por isso, eles me servem com temor de escravo, julgan-
do-me severo. Mas tu estás vendo meu amor pelas criatu-
ras, e meu desejo de vê-las felizes...” Ele falou de sua
bondade paternal para comigo, de seu amor pelas criatu-
ras, durante quatro ou cinco horas. Jesus apareceu, esta-
va triste e disse-me: “Desde muito tempo ando à procura
de uma alma que queira entreter-se comigo por longo
tempo na oração, e não encontro. Ninguém quer entrar
dentro de si e de mim. Não há ninguém que queira con-
versar comigo. Ou não têm tempo, ou acham o tempo
longo. Procuram a si próprios e não ao Pai nem a mim.
Assim também não chegam à santidade... tempo perdi-
do... graças perdidas”.
“Jesus, toca essas almas, falei, modifica-as”. “Mas
como fazer, se só na oração posso dar luz e amor?” En-
tão Jesus fez-me ver melhor a triste cegueira de tantas
almas. Fiquei espantada vendo-as afundar-se dia por dia
numa noite profunda; precipitar-se no inferno por si mes-
mas, sem que os demônios tivessem muito a fazer. Jesus
estava profundamente triste, chorava ao mostrar-me tudo
isso. Ele recomeçou: “Afirma-se que Deus não reclama o
que não deu. Mas eu vou exigir dessas almas tudo o que
não lhes dei. Porque elas privam-se das graças por sua
preguiça, por pouco caso. Porque não querem incomodar-
se, mortificar-se. Exigirei tudo o que lhes teria dado se
tivessem sabido querer. Reclamarei delas as almas que
teriam salvo”.
“Parecia-me, posso dizer, que é difícil ir ao céu sem
260

a oração. Jesus continuou: “Quero que tu me indenizes


por toda essa frieza e por isso passarás quatro horas co-
migo na oração”.
“Ah! não posso”. “Queres tu também fazer-me pena
como essas almas que te mostrei?” “Mas é impossível.
Tanto tempo!” “Cuida bem de teu tempo, e verás que po-
des. Não percas um minuto, e acharás quanto te é preci-
so, e mais”.
“Eu tinha de aceitar... comecei a fazer quatro horas
de oração. Muitas vezes passaram depressa quando Je-
sus fazia tudo”.
“Gosto que tu me procures. Quantas almas procu-
ram-me por um momento apenas, e vão-se embora di-
zendo que perdem seu tempo. Elas não me acham por-
que não se dão ao trabalho de procurar-me seriamente”.
“Ah! se essa gente tivesse perdido seus bois, suas
vacas, como os procurariam até encontrá-los. Mas por
mim, não vale a pena”.
“Não é por mim, por elas é que eu sofro. Vejo as
graças que elas perdem por sua culpa e para sempre. Eu
procurei-as com tanto amor. Não, eu não me canso. E
elas, dois minutos bastam para se aborrecer... Minha filha,
quero que me busques por aqueles que não querem”.
“Mas, Jesus, tu queres que a gente te procure tan-
to... mas a gente não te encontra logo. Muitas vezes Tu te
deixas procurar por longo tempo!”
“É verdade, respondeu, mas aí está o mérito do a-
mor. Se as almas me procurassem durante a vida toda,
sem me encontrar, teriam feito apenas sua obrigação.
Encarregar-me-ia de recompensá-las largamente”.
“Muitas vezes, ao pôr-me na oração, estava na ari-
dez, e ficava horas sem que Jesus viesse falar-me, ou me
ver. Esperava. Chamava. Em vão. Então dizia-lhe: vou
passar a vida aqui, mas não irei embora de modo ne-
nhum. Quando veio, sorriu: “Não pude resistir. Foi preciso
261

descer. Tu atrais meu coração. Preciso vir e abri-lo e fa-


zer-te ver meu amor por teus irmãos e por ti...”
Às vezes Jesus me censurava de não ter bastante
confiança. “Deixa-me fazer; isto não é da tua conta; é da
minha. Se quero que morras, isto não tem nada a ver con-
tigo. Eu tenho de ver. Eu mando, não tu. Tu obedeces e
nada mais. Não queres abandonar-te. Tu me amarras”.
“Maria Santíssima disse-me muitas vezes que a ora-
ção foi seu alimento corporal e espiritual. Que passava
dias e noites sem beber, sem comer, na oração com Je-
sus.”
Jesus: “Não consigo conversar bastante contigo. Fa-
ze um retiro comigo”. E Jesus mesmo marcou os pontos
da meditação.
“Pensas que é por tua causa que te peço isto? Oh!
não. É por teus irmãos. Sabe que nunca me pedes bas-
tante... Reza pelas almas sem pensar em ti”
262

ORAÇÃO – PROBLEMA

Rezar é conversar com Deus. Pode ser feito em fór-


mulas fixas (oração vocal). Pode ser feita em conversação
espontânea (oração mental meditação).

Meditação

Inicialmente aconselho-te tomar como base de inspi-


ração algum texto bíblico ou ascético. É a meditação na
qual, após as reflexões mentais, seguem-se os afetos da
vontade ou, se preferir dizer, os afetos do coração, mistu-
rados com preces e súplicas ao Deus onipresente e oni-
potente. Os afetos atingem todos os assuntos e revestem-
se de todas as feições. Preferivelmente sejam atos de fé,
de confiança e de amor.

Oração Afetiva

Com o tempo sobrevém certo desgosto em fazer re-


flexões: a alma quer amar a Deus. Um pensamento rápi-
do, como base mental dos afetos de amor, e já passa a
alma aos afetos. Estes, variados em conteúdo, brotam do
íntimo, com espontaneidade, com facilidade, dando gran-
de satisfação à alma fervorosa. É a oração afetiva de que
as obras de Sto. Afonso, principalmente suas Visitas ao
Santíssimo. Sacramento, nos dão os melhores modelos.
São os afetos de início muito variados, expressando
todas as virtudes. Com o correr do tempo, mantendo-se o
fervor espiritual, prevalecem os afetos de amor de Deus; e
por fim, são os únicos que interessam à alma. Aliás, está
bem de acordo com a tese teológica de que nossas virtu-
des agradam a Deus segundo o grau de amor com que
são feitas. Como disse Carlos de Foucauld: “A melhor
oração é aquela que contêm mais amor” (172).
263

A alma quer amar e expressa seu amor a Deus sob


formas várias. São afetos ferventes, veementes até, mas
estão por assim dizer na superfície da alma. A contempla-
ção infusa fará entender essa afirmação.
A oração afetiva é mais fácil à mulher. O homem a-
proveita mais da meditação.
Sta. Joana de Chantal conta que São Francisco de
Sales aconselhou às suas filhas espirituais passar rapi-
damente a essa oração afetiva, sem se demorar muito
nas reflexões teóricas da meditação. Corresponde mais
aquela ao seu temperamento feminino. E ambas as for-
mas de oração são fases de transição.

Simplicidade

Como o tempo a pessoa enjoa de dizer a Jesus


sempre as mesmas palavras, que ele já deve saber de cor
e salteado, à força de ouvi-las cada dia. A alma prefere
expressar seu afeto com um olhar amoroso para o sacrá-
rio, ou para o Crucifixo, ou ao Deus presente no íntimo da
alma. Prefere sentir o amor, sem expressá-lo em pala-
vras. Simplifica assim sua conversação com Jesus. É a
oração de simplicidade, chamada assim por ser uma sim-
plificação proveitosa dos mecanismos psíquicos da medi-
tação e da oração afetiva. A alma prefere contentar-se
com o pensamento simples da presença de Deus. Pen-
samento amoroso, que diz tudo ao Jesus bem-amado.
Daí os outros nomes dessa maneira de rezar: oração de
simples olhar, da simples presença de Deus, de simples
entrega a Deus (São Francisco de Sales), oração de sim-
plicidade (Bossuet)

Noite

Esse afeto amoroso é agora menos impetuoso do


264

que na oração afetiva, mas de fato é mais íntimo e mais


forte: mais agradável a Deus. Passam meses, passam
anos de fervor e de consolação espirituais Supondo-se
que a alma continue dedicando-se à oração tanto quanto
o tempo lhe permite, supondo-se que a alma durante suas
ocupações e trabalhos se esforça por manter-se em fre-
qüente contato com a presença de Deus por meio de afe-
tos, atos de amor, comunhão espiritual etc., acontecerá
que ela irá sentir durante seus afazeres mais fervor do
que durante a oração na capela. Vai sentir um desejo for-
te de correr e de rezar a Jesus presente no sacrário, mas
chegando lá, se desvanece todo o fervor. É que está che-
gando o tempo da provação do amor. Se é permitido falar
assim: Deus faz um teste, privando a alma das consola-
ções sensíveis, externas. Quer ver se a alma é capaz de
amar também sem receber em troca as consolações espi-
rituais como comprovante de seu amor por Jesus, e de
ser correspondida por Ele. Deve a alma viver da fé, da
confiança na palavra de Deus. Pouco a pouco a alma sen-
te-se numa grande aridez espiritual. Ou melhor, há um
sentimento de vazio, de fastio, de desgosto.
Antes, ela corria com alegria à oração, ao primeiro
sinal do sino. Agora, vai por dever. Vai pela fé no amor de
Deus. Vai, convicta que Jesus é o mesmo, embora se es-
conda. Embora aparentemente não mais se interesse por
ela. É o tempo de prova, do amor sem consolo.

Clarões

Às vezes, um clarão rápido, fugaz, atravessa a noite


e o coração humano sente de um modo novo, diferente, a
presença de Deus e do seu amor . Momentos fugazes,
seguidos novamente pela ausência aparente de Deus;
265

seguidos pelo fastio da oração, misturados todavia com


um desejo de rezar, com uma atração misteriosa pela so-
lidão em Deus. Mas a aridez contínua.

Purificação

Ficou noite onde antes parecia brilhar para sempre o


sol do meio-dia, luminoso e caloroso. É a noite dos senti-
dos, segundo São João da Cruz. É um processo de purifi-
cação espiritual, um processo de espiritualização do nos-
so amor por Deus. Principalmente é purificação, pois nos-
sa alma, mesmo no estado da graça santificante, está
manchada pelas marcas que deixaram os pecados e im-
perfeições.
Escreveu Antonieta de Geuser: “Jesus revelou-me
um pouco a ofensa que eu lhe fiz com meus pecados.
Fiquei horrorizada de mim mesma. O dia todo tentei amar-
me por amor de Deus, por caridade, mas não consegui.
Amar gente antipática, amar o inimigo, sim, com todo pra-
zer. Mas amar uma coisa tão suja, é difícil.” E Jesus a
responder: “E eu irei fazer aí minha morada”.
Até aqui passaram anos. Excetuando-se os casos a
prazo curto que a hagiografia narra, numerosos mas mila-
grosos, em vista força instintiva do nosso amor próprio
que requer logo tratamento de saneamento.

Sinais

Está na hora de ler os três sinais de São João da


Cruz (Subida 1,13 e Noite 1,9) que mandam a pessoa
renunciar à meditação metódica, renunciar a fazer afetos
e reflexões; mandam contentar-se com uma “atenção a-
morosa à sua presença”.

Primeiro sinal: Uma indiferença geral a respeito de


266

tudo quanto existe neste mundo. Tanto lhe faz lugar, ocu-
pação, ambiente em que tem de viver. Mesmo a atividade
profissional, que antes lhe dava satisfação e estímulo,
perdeu todo o interesse natural. Cumpre suas obrigações
por dever perante Deus. Sente só o desejo de estar tran-
qüilamente na presença de Deus. E, encontrando em tudo
só aridez, sente-se um tanto desesperada por essa im-
possibilidade (aparente) de progredir na união com Deus.

Segundo sinal: É a alma viver na aflição de estar


volvendo para trás no serviço de Deus, “por causa do
desgosto que sente nas coisas espirituais”. Aflição de es-
tar em tibieza, por causa dessa aridez espiritual.

Terceiro sinal: É a impossibilidade, por mais esforço


que empregue, de meditar com a mente e ajudando-se
com a fantasia, para fazer algum raciocínio ou afeto. Con-
tente-se com um olhar amoroso em Deus.

Contente-se com um vago pensamento, com “uma


atenção amorosa a Deus”. Contente-se com “uma amoro-
sa e tranqüila advertência em Deus”, sem outra solicitude,
sem esforços (Noite 1, 10,5)
Tentar meditar como antes, com raciocínios e afetos,
só atrapalha a obra de Deus. Como pessoa que se mexe
continuamente ao ser retratada por um pintor. É a obra
purificadora de Deus para a alma receber a contemplação
infusa.
A noite dos sentidos “é uma desconcertantes mistura
de escuridão e luz, de secura e amor, amor de Deus em
estado latente, de impotência real e surda energia” (Tan-
querey). De fato, já é a contemplação infusa em estado de
aridez, com numerosas distrações, deixando na alma um
desejo doloroso de Deus. O fogo do amor divino está a-
ceso, mas encoberto como brasa sob cinza.
267

Progressos

Vêm depois os graus iniciais da contemplação infusa


como Sta. Teresa d’Ávila os descreve: recolhimento infu-
so, quietude, união conformativa, simples ou extática. E
passam-se anos nestas fases iniciais, com grandes con-
solações. A alma sente-se unida a Deus, aumentando
sempre mais a sua semelhança com ele. Mas requer ain-
da uma transformação total, uma identificação com Deus.

Segunda noite

Para realizar essa transformação total e definitiva, a


alma deve submeter-se a uma nova purificação, mais ri-
gorosa e talvez mais longa do que a noite dos sentidos. É
a noite espírito, tão magistralmente descrita por São João
da Cruz. A parte sensitiva da alma deve ser sujeita ao
espírito, e esse por sua vez deve ser purificado de todo e
qualquer apego a criaturas, vivas ou mortas, pessoas ou
objetos. A alma humana vai ser fundida totalmente em
Deus Uno e Trino, a ponto de se realizar a palavra paulina
ao pé da letra: “Já não vivo eu, mas Deus vive em mim”
(Gl 2,20).
Transformação que se estende a todas as partes e
funções da alma humana. De tal maneira que até os mo-
vimentos espontâneos procedem de Deus. De tal maneira
que o Espírito Santo dirige a alma em tudo, segundo a
outra palavra paulina: “Os que são guiados pelo Espírito,
esses são os filhos de Deus” (Rm 8,14).
Resultado final: a alma humana, a criatura, é trans-
formada num ser divino, participando da vida de Deus,
sentindo-se mergulhada dentro do abismo da imensidade
divina. Sente-se não só unida a Deus: sente-se vivendo
dentro de Deus.
268

Penas e Dores

As provações principais são cinco:


1. A alma recebe um conhecimento de si própria
como nunca dantes. Vê e descobre faltas como nunca
dantes. Descobre-se em si tal feiura que fica horrorizada
consigo mesma.
2. A alma sente pesar sobre si a ira de Deus, aliás,
bem merecida, encontrando-se em tal estado. Sente-se
estar perante “a Justiça divina”, não perante o Deus de
misericórdia.
3. A ira de Deus parece-lhe ser perene, sem fim.
Sente-se sem esperança de tornar a ser agradável a
Deus. Sente-se condenada merecidamente ao inferno.
4. A alma recebe agora um conhecimento novo e
profundo da grandeza de Deus, do Ser Infinito, o unica-
mente digno de ser amado. Sente um desejo ardente de
amar essa bondade e beleza infinitas. E sente-se repelida
por Deus como indigna; repelida aparentemente para
sempre.
5. Sua maior aflição é sentir quanto esse Deus me-
rece ser amado. Sente ânsia insaciável de amá-lo, e por
outro lado sente sua incapacidade de amá-lo. Sem falar
da sua incapacidade de amá-lo quanto merece.

Aflições

Algumas provações colaterais acompanham e refor-


çam o martírio da alma:
1. A recordação da felicidade anterior, com Jesus,
deixa um sabor amargo. A alma sente-se incapaz de ja-
mais tornar-se digna da aceitação divina.
2. Sente-se incapaz de rezar. Durante o tempo da
oração jaz diante de Deus prostrada, inerte, gemendo sob
269

a desgraça que lhe parece sem remédio e sem fim...


E isso não é só uma ficção mental. É a realidade de
nossa posição no mundo sem a graça de Deus, preveni-
ente e cooperante.
3. Impossível receber apoio ou conforto da parte do
confessor, ou diretor espiritual, imaginando a alma que
eles não a compreendem, julgando-a com excessiva bon-
dade que ela não merece.
4. A esses males internos juntam-se tentações con-
tra as três virtudes teologais, dúvidas contra a fé, dúvidas
contra a esperança, desespero da salvação e finalmente
tentações contra o amor de Deus, sentindo ódio contra
Deus, impulsos de blasfêmias. É tudo uma confusão psi-
cológica indescritível.
A purificação dura meses e anos, felizmente entre-
cortada por tempos de intensa união com Deus, até por
êxtases que ajudam a alma a superar a provação. Aliás,
durante todo esse tempo de desespero, sente-se a alma
fortalecida por uma misteriosa atração para com Deus,
um desejo incontido de amá-lo. Assim, Deus a sustenta,
sem todavia deixar de fazê-la sofrer.
Atitude a ser assumida: renovar sua fé, sua confian-
ça, seu amor a Deus. E suportar tudo com resignação à
vontade de Deus (Não deve tentar fazer meditação: é inú-
til e só faz sofrer mais). No fundo, não há remédio huma-
no. A alma tem de passar por esse crivo purificador.
Da hagiografia hodierna, duas amostras.

Antonieta de Geuser

Antonieta relata assim sua experiência espiritual: “A-


quilo não é só purgatório. Aquilo é inferno. E não sei, em
absoluto, se correspondo às graças de Deus. Não vejo
absolutamente nada... Não consigo nem rezar, nem pen-
sar, nem querer. Não compreendo nada. Tudo é obscuro
270

demais, é ardente demais Tudo está morrendo em mim: e


numa morte sem consolo...”
“Sofrimento, dor, angústia, desprazer, desgosto, tor-
tura, martírio, tentação, agonia, morte, um arrasamento
total. Todas as palavras são incapazes de descrever o
estado de minha alma. Essa tentação só pode ser tradu-
zida por um página em branco...”
E todavia escreve: “Meu cálice está cheio, mas eu o
queria maior... O bom Deus é bom demais para comigo.
Quanto mais eu lhe agradeço pelo sofrimento, mais ele
manda. Estou no fim das forças”.

Gema Galgani

Mais dramático ainda é o testemunho de Gema Gal-


gani. Poucos dias antes da estigmatização, em junho de
1899, Jesus revela-lhe toda a sua vida futura: “Fez-me
conhecer tudo quanto devia sofrer no percurso da minha
vida. Disse-me que logo mais poria à prova minha virtude,
para ver se verdadeiramente o amo; para saber se a o-
blação que lhe fiz era verdadeira. Disse-me que o conhe-
ceria quando meu coração me parecesse uma pedra de
granito. Disse-me quando estarei árida, aflita, tentada.
Quando todos os meus sentidos se rebelarão e parecerão
feras famintas. Quando estarei inclinada ao mal. “Retorna-
rão à tua mente os prazeres desta terra. A memória apre-
sentará à tua mente tudo aquilo que não queres. Sempre
terás diante de ti tudo que é contrário a Deus”.
“Tudo que é de Deus, não o sentirás mais. Não per-
mitirei que teu coração tenha algum consolo. Os demô-
nios, com minha permissão, farão esforços contínuos para
desesperar-te. Colocarão na tua mente maus pensamen-
tos, um grande ódio à oração; terrores e tremores tê-los-
ás sempre, tantos que nunca te faltarão. Nunca te faltarão
ultrajes e injúrias. Ninguém mais acreditará em ti, nem
271

teus superiores”.
“O céu tornar-se-á para ti de bronze. Jesus parecerá
aos teus olhos tão severo. Irás fazer oração e nada con-
seguirás. Quererás recolher-te e eu te distrairei. Chama-
rás e clamarás por Maria Santíssima e todos os santos,
mas nenhum terá piedade de ti... Irás receber a santa
Comunhão, irás confessar-te e não sentirás nada; sentirás
ódio por tudo... Praticarás todos os exercícios de devo-
ção, mas tudo de modo forçado e tudo te parecerá tempo
perdido... Terás sempre esperança, mas será como se
não a tivesses.”
“Amarás Jesus, mas será como se não O amasses:
porque durante esse tempo ele nunca se fará sentir...
E mais, terás nojo de ti e de tua vida. Terás medo da
morte. E faltará até o desabafo de chorar.”
“Disse-me que quer tratar-me da mesma maneira
como o tratou seu Pai celeste”. E a resposta de Gema:
“Jesus foi o homem das dores; eu quero ser a filha das
dores”.
E Jesus continua: “Vê, minha filha. No céu há pou-
cos de tua idade, aos quais eu tenha dado gozar todos os
meus sofrimentos”. “Vê filha! O maior presente que eu
possa fazer a uma alma, que me ama e que me é muito
cara, é dar-lhe o dom de sofrer”.
“Filha, olha para mim e vê como se ama. Não sabes
que o amor me matou? Vê estas chagas, este sangue,
estes açoites, esta cruz: é tudo obra do amor”.
E a resposta de Gema: “Bem sei, sou uma grande
pecadora, e ouço de ti mesmo que pior do que a mim não
podias encontrar. Concordo”.
Passada a noite, segue-se a aurora da vida eterna.
272

6. A DOR
A CRUZ

Mistério

A realidade número três do triunvirato de origem ter-


restre é a dor, o sofrimento. No céu não há sofrimento de
espécie alguma.
O amor, o número um, entra tal qual no céu. Só que
suas labaredas elevar-se-ão sete vezes mais alto (Dn 3).
A oração também entra no céu, mas muda um pou-
co de conteúdo; todavia, a grande devoção pelos pecado-
res continua no coração de todos os eleitos, até findar o
tempo.
O sofrimento não entra no céu: fica na porta e retor-
na à terra. O sofrimento é como a fonte de água viva de
João (4,14), que brota da terra mas lança suas águas pa-
ra o além, para a vida eterna.
Um escritor meteu-se na cabeça a idéia de conden-
sar um livro numa página só, e de resumir essa página
numa só palavra. Tentou, mas desistiu. A nossa fé resol-
veu esse problema. Crucificado, Cristo na cruz, eis o re-
sumo de todo o cristianismo, de toda a redenção.
Por sobre a cruz ressoam as palavras: “Maior amor
não existe do que dar a sua vida” (Jo 15,13). Com a cruz
chegou a hora da qual fala o Filho de Deus: “Tanto amou
Deus o mundo que entregou o seu Filho único à morte, a
fim de que tenham a vida eterna” (Jo 3,16). E novamente:
“Nisto conhecemos o amor de Deus que deu a vida por
nós” (Jo 3,16)” (T. Toth).
Sofrimento – dor – cruz: é a terceira dimensão do
cristianismo. Escreveu Anatol France: “Jamais pude per-
273

doar o sofrimento”.
Idêntico, só mais brutal, o protesto de Nietzsche. A
dor é um mal no plano natural. Mas aos olhos da fé, no
plano sobrenatural, realizada a redenção; o único mal a-
inda existente é o pecado. Tudo o mais, morte, doença,
sofrimento transformou-se num bem, num valor positivo.
O sofrimento atraiu a Deus para a terra. Bens ele os
possuía de sobra no céu e não invejava o paraíso terres-
tre. A criatura humana tem inveja dos bens da terra e tem
medo dos sofrimentos. Com Deus deu-se justamente o
contrário. Ele tinha, por assim dizer, inveja do sofrimento,
até realizar-se a Encarnação. Por trinta e três anos parti-
cipou da nossa sorte. E ainda não contente, incorporou os
remidos ao Corpo místico, e assim os sofrimentos huma-
nos tornaram-se sofrimentos de Deus, até ao fim do mu-
no. Agora, o Deus do céu está satisfeito. O maior valor da
terra é seu, a pérola grande da parábola.

Amor

Deus ama a Jesus Cristo mais do que todas as cria-


turas juntas, incluindo os anjos. E a máxima prova desse
amor foi entregá-lo à morte na cruz. Pois assim formou-se
a plenitude de graça da qual todos nós participamos (Jo
1,16).
As páginas do N.T. dão eloqüente testemunho do
ardor que consumia Jesus ao dar-se como vítima de amor
ao Pai. Hb 10,7 recorda o estábulo de Belém, o Menino-
Deus a rezar: “Formaste meu corpo, eis que venho, ó
Deus, para cumprir a tua vontade”.
E durante toda a sua vida terrestre paira diante de
sua alma o grande ideal a ser realizado: o Filho de Deus
veio “para dar sua vida pela redenção da multidão” (Mt
20,28).
“Eu vim jogar fogo sobre a terra... Tenho de ser bati-
274

zado. E quando anseio que ele se realize” (Lc 12,32).


São Pedro quer tirar de Jesus esses pensamentos
melancólicos, de uma morte triste e ignominiosa na cruz.
Jesus o repele com veemência inesperada: “Retira-te de
mim, tentador. Tu não entendes as coisas de Deus. Só
tens idéias humanas (Mt 16,23).
Tão longe vai o amor de Jesus pela cruz que a põe
como condição prévia do apostolado. “Quem quer seguir
após mim, carregue sua cruz cada dia e me acompanhe”
(Lc 9,23; 14,27).
Uma hora antes de iniciar a paixão, mais uma vez
Jesus se explica: “Ninguém tem maior amor do que aque-
le que dá sua vida pelos amigos” (Jo 15,13).
A propósito, a conhecida palavra de Sto. Agostinho:
“Amor meus pondus meum”. “O amor é minha força de
gravidade”. O amor dirige Jesus e o faz vergar sob a cruz,
amor pelos seres humanos que o Pai do céu entregou ao
seu cuidado e ao seu carinho.
Bossuet disse a famosa frase: “Quando Jesus entra
em algum lugar, ele entra com sua cruz. Traz consigo to-
dos os seus espinhos e os distribui àqueles que ama”.

MORTIFICAÇÃO

“Quem não orienta para a mortificação, para a cruz,


não leu o evangelho; não é cristão” (Bremond)
O naturalismo, presente em todos os séculos da his-
tória da Igreja, apregoa que o cristianismo é uma doutrina
de vida, não de mortificação. O cristianismo não quer re-
núncias inúteis, mas deve integrá-las em todas as ativida-
des humanas. Pobreza não tem sentido num século de
máxima produção técnica.
Virgindade e celibato são valores negativos em face
do matrimônio cristão. Nada de obediência, porque o cris-
tianismo nos trouxe a liberdade. A providência divina co-
275

locou-nos no mundo não para destruí-lo, mas para aper-


feiçoá-lo. O espírito-iniciativa é uma força constitutiva.
Misturam-se habilmente verdades e falsidades. A
graça supõe a natureza, não a destrói, diz o conhecido
brocado escolástico. Mas não tomando cuidado, a nature-
za é capaz de destruir a graça.

E Cristo?

Está com a palavra a Escritura. Cristo não veio para


fundar alguma obra de beneficência, de filantropia, mas
para dar à humanidade a vida nova que brota da cruz do
Calvário. Ele exige do seu discípulo renúncias, renúncia à
família, à propriedade. Exige carregar a cruz de cada dia
(Lc 14, 26.33).
Para os mesmos discípulos vale a parábola do grão
de trigo que deve morrer na terra par dar fruto (Jo 12,24).
Para todos vale que é preciso podar os desvios da natu-
reza a fim de dar mais fruto (Jo 15,1).
Para todos vale que, “quem ama a sua vida, perdê-
la-á; e quem neste mundo, odeia a sua vida, salva-la-á
para a vida eterna” (Jo 12,25 e Lc 9,24).
“Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro,
se chegar a perder a sua alma?” (Mt 16,26). “Quem perde
a sua vida por minha causa, salva-la-á” (Mt 16,25).

Paulo

São Paulo, discípulo fiel, pratica a mortificação e e-


xige-a dos fiéis: “castigo meu corpo” (1 Cor 9,27), “pois a
carne protesta contra o espírito” (Gl 5,17). “Se viverdes
segundo a carne, morrereis” (Rm 8,12). Portanto:

1. O vocábulo mortificação é invenção de São Paulo:


fazer morte, fazer morrer. “Mortificai o vosso corpo” (Cl
276

3,5). “Se pelo espírito mortificardes os apetites da carne,


vivereis” (Rm 8,13).
2. Despojamento. “Despojai-vos do velho homem e
revesti-vos do homem novo” (Ef 4,22; Cl 3,9).
3. Crucifixão: “Os que são de Cristo, crucificaram
seu corpo” (Gl 5,24; Rm 6,6).
4. Morte e sepultura: “Pelo batismo fomos sepulta-
dos com ele na morte” (Rm 6,4). “Vós morrestes e vossa
vida está com Cristo, oculta em Deus” (Cl 3,3). “Estamos
entregues à morte... Embora se destrua em nós o homem
exterior, o interior se renova dia após dia” (2 Cor 4,11.16).
Não vejo como combinar essas palavras da revela-
ção com as teses do naturalismo.

Tradição

A tradição cristã é fiel à mensagem evangélica. Mor-


tificação é caminho necessário para a perfeição: mão úni-
ca.
“Devemos tomar a terra como caminho, não como
pátria” (São Gregório Magno)
“Deus te criou; examina-te e destrói em ti, tudo o que
não saiu de sua oficina” (Sto. Agostinho)
Eckehart, grande mestre espiritual da Idade Média,
escreve: “Prestai atenção, ó vós, espíritos intelectuais! O
corcel mais rápido para conduzir-vos à perfeição é o so-
frimento”.
Sta. Teresa d’Ávila: “Os dois pés com os quais ca-
minhamos na vida da perfeição são: mortificação e amor
de Deus. Aquele é o pé esquerdo; este é o direito”.
São Francisco de Sales: “Os verdadeiros devotos
são os verdadeiros mortificados. Sofrer é quase o único
bem que somos capazes de realizar na terra. Uma onça
de paciência vale mais do que um quilo de ação”. E insis-
te o santo, em seu modo gracioso; “A festa da Purificação
277

não tem oitava, o que quer dizer que até o nosso último
suspiro temos de purificar-nos. Portanto, é preciso termos
duas resoluções iguais. Uma, de ver crescer sempre as
ervas más em nosso jardim. A outra, de ter coragem de
arrancá-las”.
São Vicente de Paulo: “Se alguém acredita que já
está com um pé no céu e omite a mortificação, este está
no supremo perigo de despencar logo que puxar o outro
pé”.
F. W. Faber: “Vede a fileira dos santos. Para a maio-
ria deles foi a dor que lhes abriu os tesouros do amor divi-
no. A dor conduziu-os àquela paragem venturosa.
A dor formou as coroas que ornam suas cabeças. A
dor profunda, prolongada, fá-los contemplar, agora, a gló-
ria”.
“O ponto em que os nossos contemporâneos ficam
evidentemente atrás dos antigos, é o apreço e a prática
da mortificação” (Saudreau)
Escritor ascético, moderno, criterioso, Zimmermann
SJ, escreve: “Não há dúvida que dentro de nós há forças
contrárias à perfeição. Se nós não as impedimos, elas é
que impedem a perfeição, e isto em todos os seus de-
graus, desde o simples estado da graça até o mais alto
vôo do amor... Ou mortificação ou perda da perfeição, e
com isso perda de maior felicidade aqui e acolá... E não
valem escusas. A natureza defende-se e esconde-se a-
trás de mil pretextos corriqueiros. Quando não prefere
contestar a submissão e obediência abertamente. Mas
não há como fugir...”
“Ao céu, via-se com um pequeno pedregulho no sa-
pato” (L. Veuillot)

Finalidade

Finalidade da mortificação:
278

1. Libertação dos pecados cometidos.


2. Preservação de novos pecados. As feras das pai-
xões ainda uivam famintas em nosso coração. Não se
deve perdê-las de vista.
3. Abertura à graça. Jesus a Benigna Consolata: “A
mortificação é o canal da graça. Se o canal é estreito,
passa pouco”.
São Francisco de Sales: “Quem mais mortifica suas
inclinações naturais, mais atrai sobre si as inspirações
sobrenaturais”.
4. Imitação, seqüela de Cristo. O discípulo ardoroso
não quer passar melhor do que o Mestre. Envergonha-se
de viver na folga, quando Jesus passa mal. Deseja seguir-
lhe as pegadas (1Pd 2,21). Só a vítima santa, o Cordeiro
imolado consegue solver, desfazer os selos (Ap 5,1).
5. Finalmente, e principalmente, abertura ao amor de
Deus. “Morrer a todo outro amor, a fim de viver só para o
amor de Jesus” (São Francisco de Sales)

RENÚNCIA TOTAL PELO AMOR TOTAL

Reservas

Contam as crônicas antigas, do tempo em que a Ir-


landa se converteu à fé cristã, que de vez em quando um
dos guerreiros, mergulhados na água batismal, erguia o
braço direito para fora da água: este, com o qual brandia
a arma na batalha, não devia pegar a água santa; devia
continuar ao livre uso e dispor do cavalheiro.

Cristo

Jesus adverte no Evangelho: ninguém pode servir a


dois senhores. “Os que vivem, já não vivam para si, mas
279

para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Cor


5,15).
Jesus fez entrega total de tudo em nosso favor, e
espera o mesmo de nós. Seu amor total espera, como
resposta, amor também total. E este nosso coração hu-
mano a inventar mil pretextos para fazer restrições, pe-
quenas e mesquinhas; para reservar-se algum apego aos
bens da terra. “É avarento demais aquele a quem Deus
não basta”, dizia Sto. Agostinho.
Ao novato, desejoso de afiliar-se, perguntavam os
antigos monges do deserto: “Trazes um coração vazio?”
Num corpo cheio de terra não cabe mais nada. Nosso
coração deve estar vazio de tudo para o Espírito Santo
poder derramar nele seu amor divino (Rm 5,5).
O místico medieval Tauler, num sermão sobre o
nascimento de Jesus em Belém, fala daquelas coisas ter-
renas que põem obstáculo à entrada de Deus em nós:
“Satisfação e gosto por criaturas vivas ou mortas... ami-
zades, sociedade, roupas, comidas... tudo o que o homem
aprecia. Cada um tem o seu gosto, apego, prazer. E essa
coisinha pequena priva-te e rouba-te o teu grande Deus e
o delicioso nascimento que ele quis fazer em ti. Tu ficas
sem o desejo e o consolo que devias ter por Deus e por
este nascimento. É esse pequeno gostinho que o impede
e embarga. Vê, tu mesmo, o que é. Ninguém sabe melhor
do que tu. Não perguntes a mim, pergunta a ti, que não
tens amor nem fervor. Queres sempre Deus e a criatura
juntos.
E isto é impossível. Quanto mais de um, tanto me-
nos do outro. Quanto frio sai, tanto calor entra. Enquanto
tens voluntário apego e afeição à criatura, pessoa ou coi-
sa, não podes sentir a morada de Deus em tua alma.
Deus deu todas as coisas a fim de que sejam caminho
para ele. Mas a meta final é ele só, e mais ninguém, nem
isto nem aquilo”.
280

Séculos mais tarde recebemos a mesma mensa-


gem. Sta. Teresa d’Ávila não se cansa de repetir que o
empecilho principal para o progresso na vida mística é
algum apego egoísta. Aliás, o único obstáculo, pois se
tomamos a sério a entrega total, Deus não falta com sua
parte. “O ponto está em que lhe demos por seu (o palácio
de nossa alma) com total determinação, e lho desemba-
racemos, para que nele possa pôr e tirar como em coisa
própria...
Como não violenta nossa vontade, toma o que lhe
oferecemos. Mas não se dá de todo enquanto não nos
damos de todo...
Se atravancamos o palácio de gente baixa e de se-
vandijas, como há de caber nele, o Senhor com sua cor-
te?” (Caminho 28,12)
“Temos demasiado amor a nós mesmos e extrema
circunspecção para defender os nossos direitos. Oh! que
grande engano” (Morada 5,4,6). Que fina ironia!...
“Mãos à obra, despojando-nos do nosso amor pró-
prio e de nossa vontade, do apego por qualquer coisa da
terra... Morra, morra este nosso verme, como o verme da
seda, terminando a obra para a qual foi criado” (Morada
5,2,6).
São João da Cruz traçou o quadro perfeito dessa en-
trega total ao Absoluto. Quadro maravilhoso para o espíri-
to, quadro horroroso para a natureza. Mas é tal a mensa-
gem paulina: despojar o velho homem, crucificá-lo, enter-
rá-lo a fim de renascer e ressuscitar em Cristo Jesus. Eis
o apelo à generosidade (Subida, I 13):
“Procura sempre inclinar-te não ao mais fácil, senão
ao mais difícil.
Não ao mais saboroso, senão ao mais insípido.
Não ao mais gostoso, senão ao menos gostoso.
Não ao que é consolo, senão ao desconsolo.
Não ao que é descanso, senão ao trabalhoso.
281

Não ao mais, ... senão ao menos...


Para chegar a gozar do tudo
Não queiras ter gosto em nada.
Para chegar a possuir tudo
Não queiras possuir algo em nada.
Para chegar a ser tudo
Não queiras ser algo em nada”.
Em outras palavras: fazer em tudo e sempre a von-
tade de Deus e não a tua.

Alguns conselhos concretos

1. Nada de inútil e fútil em tua vida. Não pensar, fa-


lar, fazer coisa inútil. Quantas bagatelas e ninharias en-
chem horas e quiçá dias de nossa vida. Tempo precioso
para o amor de Deus em nós.
2. Deus só basta. Gravar esse princípio em nossa
mente: Deus só. Norma do nosso pensar, querer, falar,
agir deve se Deus, Deus só. Desejar somente o que Deus
quer. Alegrar-se somente por aquilo que alegra a Deus.
Entristecer-se só por aquilo que entristece a Deus: peca-
do, perda das almas.
3. Radicalismo espiritual. “Deixa tudo e tudo acha-
rás” (Imitação 3,32,1). “Meu filho, Eu devo ser teu supre-
mo e último fim” (Imitação 3, 9,1)
Abertura irrestrita ao amor total. É mister renunciar a
todos os amores terrestres, principalmente ao amor pró-
prio, em troca do amor de Deus.
A pequena Anita foi ensinada a oferecer seu coração
ao bom Deus em sua oração da manhã. Certo dia omite
as palavras da oferta. A mãe pergunta: “Hoje não dás o
coração a Jesus?” E vem a resposta num sussurro miste-
rioso: “Não posso, mamãe.” “Como é que não podes?” “Já
dei ontem, e ainda está lá”... Ah! quem nos dera assim
fosse; que bastasse dar uma vez para sempre. É que te-
282

mos cuidado de perder o coraçãozinho para sempre e


mandá-lo registrado, ou até por reembolso. Pudera! Assim
retorna sempre de novo ao remetente. Deus quer doação
total. Somente assim ele também nos pode dar seu amor
total.
E é preciso repetir nossa doação. Repetir todos os
dias. Até o coração não mais retornar. Pois é hábito nosso
dar e retomar, ou melhor, surripiar pouco a pouco toda a
nossa oferta generosa. O único remédio é repetir a doa-
ção sempre de novo. E martelar na cabeça e no coração:
Deus só te basta e de sobra.
Impõe-se uma revisão de tempo em tempo. Revisão
de todo o almoxarifado espiritual. Eliminem-se, sem dó,
todos os fios de apego que prendem o grande Guliver pri-
sioneiro dos Liliput...
A frase-chave: por que fazes isto? Por amor de Je-
sus. Por que pensas, falas? Sempre por Jesus.
“Torno a dizer: deixa-te, renuncia a ti mesmo e goza-
rás paz. Dá tudo por tudo.” (Imitação 3,37). O discípulo
pergunta como São Pedro: quantas vezes devo renunciar-
me? Resposta: “Sempre e a toda hora; no muito e no
pouco” (Imitação 3,37)
“Por isto encontram-se tão poucos contemplativos,
porque tão poucos sabem desapegar-se das criaturas
mortais” (Imitação 3,31)
São Francisco de Sales: “Quando a casa pegou fo-
go, jogam-se todos os móveis pela janela. Quando o fogo
do amor de Deus incendiou um coração, queima-se tudo
o que não é Deus”. Deus quer ser amado com todas as
forças do coração.

Magistério

Para finalizar, palavras do Cristo na terra:


“A Igreja exorta insistentemente a todos os cristãos
283

que juntem à conversão interior também os atos externos


de mortificação corporal!... Com maior razão têm o dever
de abnegação os sacerdotes, ornados de um caráter pe-
culiar de Cristo, e aqueles que professam os conselhos
evangélicos para imitar mais fielmente o aniquilamento de
Nosso Senhor, e para tender mais eficazmente à perfei-
ção... Exige-se dele uma adesão por excelência, em seu
significado interior, pois o religioso, como cristão, deve dar
uma adesão total ao mistério de Deus.
Sua vida é, ou deve ser, uma imersão na água ba-
tismal, ou melhor, um lançamento no fogo do Espírito
Santo. Ele está imerso na circulação da vida do Corpo
místico e eclesial... Os atos do religioso devem, por pro-
fissão pública, ser medidos em todas as dimensões pelo
evangelho. As expressões de sua vida, da manhã à noite,
significam obséquio a Deus...
A árvore que não produz frutos de penitência será
cortada, diz o Batista (Mt 3,8). Ora, o religioso coloca nas
mãos da Igreja toda a realidade de vida, de tempo, de
energia, a fim de que ela disponha à vontade. Seus valo-
res mais íntimos e invioláveis, liberdade pessoal, consci-
ência, amor, são oferecidos à Igreja em doação gratuita
por todos.
A vida religiosa prova que a economia salvífica não
está em falência.
Mostra a todos a grandeza de Cristo reinante e o in-
finito poder do Espírito Santo operando maravilhas na I-
greja (LG 44)
Assim, a vida religiosa manifesta-se como a resposta
adequada ao grito da salvação, ao convite à penitência,
num eco contínuo na história da Igreja” (AAS 1966, 182).

SOFRIMENTO E FÉ
284

Deus tem servidores por toda a parte. Mas os maio-


res deles, ele os educa no mosteiro da santa cruz.
Batiza-se Clóvis, o primeiro rei cristão da França, em
Reims. Ou realmente deslumbrado pelo brilho litúrgico da
cerimônia, pelas centelhas de velas acesas etc., ou ironi-
zando, Clóvis pergunta a São Remígio: “É este o céu que
me prometestes?” “Não. É só uma pálida sombra da reali-
dade. Mas o caminho para lá é esse”. E apontando um
grande crucifixo: “E esta é a porta de entrada”.

A Parábola

P. Luís Coloma conta e garante que é verdade, não


invenção dele, o seguinte:
“Era uma vez um homem chamado João. Tinha uma
boa esposa, uma filha e seu pequeno sítio para sustentar
a família. Vieram os gafanhotos devastando os campos.
João fez romaria ao Cristo de Mimbral rezando: “Senhor,
guardai a colheita, conservai-me o pão, não deixeis faltar
o pão na casa de nosso servo”.
Mas Deus não atendeu o pedido de João, e em vez
da pobreza reinou a miséria em sua casa. “Não importa,
disse João. Temos saúde e dois braços fortes. Nosso Se-
nhor irá abençoar o nosso trabalho”.
Porém, não demorou que sua esposa caísse doente,
doença grave que a levou à beira do túmulo. E João fez
outra romaria pedindo saúde para a esposa: “Não deixeis
minha filha sem mãe, e nossa pobre casa sem um raio de
sol”. Três dias depois morreu a esposa, deixando um viú-
vo e uma órfã após si. “Devo suportá-lo, disse João, Deus
tirou-me a mulher, mas deixou-me a criança”.
Não tardou e a doença da mãe manifestou-se tam-
bém na filha. E João fez nova romaria ao santuário, aper-
tando o rosto contra a grade de ferro. “Senhor, salva mi-
nha filha. Estou velho e abandonado. Que irei fazer só, no
285

mundo, como árvore sem galhos e sem frutas?”.


Animado, retornou ao lar. Sua filha querida morrera.
Deus quis assim. João, gemendo, mas resignado: “Perdi a
colheita, perdi a esposa, perdi a filha. Deus não quer que
lhe peça tais coisas. Não irei pedir mais nada. E diaria-
mente visitava a pequena capela, ajoelhava perante Nos-
so Senhor, juntava as mãos calosas e dizia humildemen-
te: “Senhor, aqui está o João. Seja sempre a vossa von-
tade. O Senhor sabe melhor o que faz”.
“Quando Deus descobre uma alma desejosa de se
dar sem reserva, manda seu furriel de predileção; àquele
que em menos tempo é capaz de fazer melhor trabalho, o
sofrimento...” (PLUS, Consummata, 171)

L. Bloy

Ouçamos ainda outro “filósofo da dor”. O peregrino


do absoluto exalta em sua conhecida linguagem, vigorosa
e insolente, o amor à cruz e o valor do sofrimento. Escre-
veu no início deste século:
“Quando não se tem fé, não se pode saber o que é
uma alma, porque se desconhece forçosamente o que ela
custou; por preço elevado fostes resgatado, diz São Pau-
lo.
Muitos me querem bem: isso é evidente para mim.
Até estão dispostos a privar-se de bens. Mas de que
bens? Estão falando de melhorar a situação dos que so-
frem. Como podem crer que isto seja possível, tendo em
vista somente o bem-estar material? E estão forçados a
visar também só este, porque não têm absolutamente na-
da a dar às suas almas. Ninguém tem feito tanto pelos
pobres, mesmo materialmente, como aqueles grandes
homens de fé que a Igreja chama santos. Ora, os santos
sabiam que o corpo humano é somente a aparência do
homem; eles trabalhavam sobretudo pelas almas que não
286

morrem. Eles sabiam também que o sofrimento é bom,


sobrenaturalmente, para todos. E que o homem que não
sofre ou que não quer sofrer é filho deserdado do Filho de
Deus, que esposou a dor. Pois só quem é capaz de vis-
lumbrar o preço de sua alma, aceita sofrer. Os santos,
sem dúvida, não pretendem trabalhar, como fazem os
socialistas, para que não haja mais pobres e que o sofri-
mento desapareça deste mundo. Pois, então, quem paga-
ria? Seria uma sociedade de porcos insolventes, falidos,
de uma feiura indizível”.

O Problema

O problema da dor na existência humana é antiga


preocupação, não somente dos médicos mas também dos
filósofos e pensadores. Os poetas dedicaram-lhe os três
grandes poemas da humanidade: Guilgamêsh de Assur-
Babel, a Odisséia de Homero e o Livro de Jó, com suas
paciências e impaciências.
Se há um Deus, então nenhum mal, nenhum sofri-
mento nos pode atingir sem que ele o saiba. E se esse
Deus é bondoso, e ele é bondoso, ele não nos envia ne-
nhum sofrimento somente para torturar. Sabemos que a
primeira edição do mundo foi “indolor”.

Mensagem

Todo sofrimento é um apelo de Deus que nos diz:


“Homem, teus caminhos não são bons; volta!” Ou o sofri-
mento é uma saudação de Deus que nos diz: “Quero tor-
nar-te melhor do que és; quero transformar-te numa obra
de arte, digna de enfeitar o paraíso celeste”. Ou é um
convite a sofrer pelos outros; sofrer em substituição ou
procuração por algum seu próximo ou remoto.
287

Liberdade

Mais uma vez L. Bloy, filosofando sobre a dor huma-


na, com seu jeito peculiar: “Acredita-se comumente que
Deus não necessita recorrer a toda a sua força para do-
mar os homens. Ora, esta crença manifesta uma singular,
profunda ignorância do que é o homem e do que é Deus
em relação a Ele. A liberdade, este dom prodigioso, in-
qualificável, incompreensível, pelo qual nos é dado vencer
o Pai, o Filho e o Espírito Santo, pelo qual nos é dado ma-
tar o Verbo Encarnado, apunhalar sete vezes a Imaculada
Conceição, numa palavra, trazer em reboliço todos os
espíritos criados, nos céus e nos infernos... esse dom ine-
fável nada mais é que o respeito que Deus tem por nós. O
respeito de Deus vai tão longe que, no período da lei da
graça, ele nunca tem falado aos homens com autoridade
absoluta, mas ao contrário, com a timidez, a mansidão,
até diria com a submissão de um pedinte indigente...
Entre o homem revestido involuntariamente de sua
liberdade e Deus, despojado voluntariamente de sua for-
ça, o antagonismo é normal. Ataque e resistência equili-
bram-se razoavelmente. E este eterno combate da natu-
reza humana contra Deus é a fonte borbulhante de pere-
ne sofrimento... Deus é o eterno mendigo do amor”.

Intervenção

A mortificação ativa, selfmade, autodeterminada,


costuma não ser suficientemente eficaz. Há honrosas ex-
ceções. De um lado, não queremos ter dó demais. Por
outro lado, de fato, precisamos ser prudentes, tendo em
vista a saúde; devemos temperar excessos nas penitên-
cias e mortificações corporais. Recorramos pois, a um
interventor neutro.
As doenças e os sofrimentos que vêm de fora traba-
288

lham e atuam sem comiseração, e não oferecem perigo


de nos esmagar ou de nos reduzir a zero (ou a pó do ce-
mitério). Também não são infeccionados pela vontade
própria, ou seja, por aquela vaidade refinada que se infil-
tra por todos os poros, também na vida espiritual. Daí nos
diz a Palavra de Deus: “Como eras grato a Deus, foi pre-
ciso que a tentação te provasse (Tb 12,13 e Hb 12,5 re-
corda aos cristãos antigo ditado da Velha Aliança: “Deus
castiga a quem ama” (e quando não castiga?...).
E a prova experimental é a vida dos santos, sem ex-
ceção alguma. Provam as noites místicas de purificação,
graças de escol, nas quais doença e sofrimento, físico ou
moral, fazem parte do enxoval.

Providência

Mestre pintor, no alto do andaime, terminou um gru-


po de figuras na abóbada da igreja. Distancia-se da pintu-
ra para ver o efeito e, mergulhado nos seus pensamentos,
recua sobre uma tábua até o fim, sem o perceber. Seu
auxiliar repara de repente no perigo: mais um passo para
trás e ele cai no vazio. Gritar é perigoso, pois então ele se
vira e tomba no abismo. Com presença de espírito, o ser-
vente enche um pincel de tinta qualquer e arremessa-o
em meio do quadro pintado. Furioso e desesperado o
mestre corre para frente, a fim de salvar sua obra. Depois
vira-se indignado para o auxiliar. Mas este aponta o lugar
onde estava antes: “Era o único meio de salvar-te a vida.”
Eis o papel providencial que doença e sofrimento repre-
sentam em nossa vida espiritual.
Padre Nadal pergunta a Sto. Inácio qual o meio mais
rápido para atingir a perfeição e a santidade. E a respos-
ta: “Mestre Nadal, pedi a Deus que vos faça a graça de
sofrer muito por seu amor.”
Já conhecemos o parecer da mística medieval: “O
289

cavalo mais rápido para carregar-vos à perfeição é o so-


frimento” (Eckehart)

Sofrimento-amigo

Sua finalidade é podar os desvios e vícios. Os maus


instintos do velho homem, como São Paulo chama o filho
de Adão. São as marteladas do escultor para tirar do már-
more bruto a imagem do Filho de Deus. E isso não se faz
sem doer.
“O sofrimento é um bom mestre. Ele não é muito
querido. É que suas maneiras são um tanto indelicadas.
Seu método de ensino é severo. Mas quem o suporta pa-
cientemente, não se arrepende. Progride em horas e dias,
mais que sem ele em meses e anos” (Kepler)
Remata a velha e amiga “Imitação de Cristo” (2,12):
“Se houvesse para nós caminho melhor e mais seguro de
salvação do que o caminho da dor, Cristo de certo no-lo
teria ensinado com palavra e exemplo”. Portanto, paciên-
cia e perseverança. De alunos e aprendizes mais ou me-
nos pacientes, bem ou mal humorados, devemos tornar-
nos, pouco a pouco, sem pressa, em amigos da cruz.

Jesus

Interessa a opinião de Jesus a esse respeito. Jesus


não dá nos Evangelhos uma resposta direta, uma expli-
cação doutrinal. Procede por vias de fato. Ensina pela
vida. Torna-se, morrendo na cruz, o homem das dores
previsto pelo profeta. E com isso ficamos sabendo: dor e
sofrimento não são um mal; senão, Jesus o teria recusa-
do. Não é necessariamente castigo: pois Jesus não tinha
culpa. Não separa de Deus, ao contrário: embora sofren-
do, nós nos sintamos mais dispostos à oração e a atos de
amor. Assim, pois, o sofrimento não é escândalo, não é
290

pedra de tropeço no caminho do céu.


Da atitude de Jesus concluímos que o sofrimento:
1. É um grande bem; já que Deus o escolheu para
si.
2. Sofrer é imitar o Verbo Encarnado. É tomar Jesus
Cristo em sua realidade total. Significa não escolher a
nosso gosto, por assim dizer, uma antologia “ad usum
delphini”, para jardim de infância. Aceitar Cristo significa
marchar sobre a via real da cruz (Imitação 2,12).
3. Sofrimento é matéria do sacrifício litúrgico. Pela
morte de Jesus na cruz, entrou definitivamente no culto,
como elemento integrante da religião. Pelo sofrimento,
somos colocados sobre o altar da cruz. Somos hóstias.
Exercemos uma função litúrgica.
4. Sofrimento faz parte do mistério. Suposto que Je-
sus é Filho de Deus, o problema da dor está resolvido,
visto que o próprio Deus assume e diviniza o sofrimento.
Nossa incompreensão perante o sofrer é medida do grau
de fraqueza da nossa fé.
A seguir, a mensagem doutrinal (cf. Combes, Dieu et
souffrance, 1961, pág. 52-65)

Mensagem Doutrinal 4
TP PT

1. O essencial no cristianismo é seguir a Cristo. Ora,


ele nos garante: quem quer seguir após mim, deve tomar
a cruz e renunciar a tudo. Leia: Jo 12,24; Mt 16,24; Lc

4
Cf. COMBES, Dieu et souffrance, 1961, pág. 52-65)
291

14,25.
2. E Jesus se explica: se o grão de trigo não morrer
na terra, não dará fruto (Jo 12,14). Quem ama a sua vida
aqui na terra, vai perdê-la. Sofrimento é condição de fe-
cundidade sobrenatural. Sofrer e morrer na seqüela de
Cristo significa trazer como Ele, e com Ele, muito fruto.
3. Jesus se explica em Mt 5,10: “Bem-aventurados
os que sofrem perseguição pelo reino”. É a única bem-
aventurança repetida e ampliada em dupla via, e remata-
da por um júbilo incontido: pois alegrai-vos, vosso prêmio
será grandioso. Ora, isto é o martírio, graça excepcional e
rara. E as nossas dores, doenças, useiras e vezeiras?
Leia adiante:
4. Bem-aventurados os tristes, porque serão conso-
lados. Bem-aventurados os pacientes, pois possuirão a
terra da promissão (Mt 5, 4.5).
5. A Eucaristia põe-nos em contato com a paixão e
morte de Jesus; é seu memorial (1 Cor 11). Alimentados
pela eucaristia, todo o nosso sofrer é co-redentor. Co-
mungando, entramos em contato com Cristo-vítima, e par-
ticipamos fatalmente dessa mesma tarefa, do mesmo des-
tino. Verdade é que, enquanto o cristão não chegou a ser
santo, acha-se numa situação pouco confortável. Sente a
dor e seus problemas filosófico-teológicos, sem participar
da alegria de sofrer.

Conclusão

1. Aceitar as cruzes que vêm por aí, com resignação


e santa paciência. Diz São Francisco de Sales: “Não sa-
bemos de que maneira foi a cruz de Cristo, por isso, a-
memos todas as cruzes que aparecem”.
E outra vez: “Em que caldo, doce ou azedo, Deus
nos meta deve ser-nos igual”.
2. Fazer cara alegre. Tenta.
292

3. Preferir as cruzes secretas e os sofrimentos igno-


rados.
4. Pedir mais? Não. Só se houver nítida inspiração
por parte de Jesus.
5. Sofrer alegre na esperança.
6. Principalmente sofrer com amor. Por amor a Je-
sus. Talvez algum dia, quando menos esperas, terás.

São Paulo

São Paulo entra nas pegadas do Mestre e explica-


nos:
1. Devemos viver a vida integral de Jesus Cristo (Gl
2,20): “Eu não vivo mais, vive em mim Cristo... com ele
estou cravado na cruz”.
2. O cristão é membro vivo de Jesus Cristo, nele en-
xertado pelo batismo. Pois fomos batizados, isto é, mer-
gulhados na sua morte (Rm 6,3). O batismo destina-nos à
mesma sorte de Cristo. “O batismo é uma graça de martí-
rio” (Eudes)
3. E isto até o fim. Como nos diz a fé pascal: “A mor-
te de Cristo matou tão bem o pecado que o verdadeiro
cristão deve crer, com a mesma força, tanto na ressurrei-
ção de Cristo como na sua própria libertação do pecado e
ressurreição futura” (Combes)
4. Co-herdeiros que somos de Cristo, herdamos
também o sofrimento. “Sofremos juntos e juntos seremos
glorificados” (Rm 8,17).
Mas é um sofrer que não se compara com a glória
futura (Rm 8,18).
Podemos gemer à vontade, mas na absoluta espe-
rança da libertação (Rm 8,20).
5. E vivemos na esperança. Ainda não na plenitude.
Segundo o modelo do apóstolo: “Atribulados, mas não em
desespero; perseguidos e oprimidos, mas não aniquila-
293

dos... A cada instante entregues à morte para que a vida


de Jesus se faça patente também em nosso corpo mor-
tal... O sofrimento é um tesouro que produz em nós um
peso de eterna glória” (2 Cor 4, 7-18).

Loucura
É de São Bernardo a palavra. Mas já era praticada
na Igreja de Cristo desde as origens. Pudera! Jesus deu o
exemplo. Entrando no mundo já se ofereceu, logo de en-
trada, à cruz (Hb 9,13). E com ardor, como lemos em Lc
22,15: “Ansiosamente desejei comer esta ceia pascal an-
tes de sofrer”.
São Pedro anima os fiéis: “Sendo que Cristo pade-
ceu segundo a carne armai-vos também vós, do mesmo
pensamento” (1Pd 4,1).
São Paulo, amante da cruz de Cristo, exclama: “Fol-
go de sofrer” (Cl 1,24). “Tenho prazer na minha fraqueza,
nos ultrajes, privações, perseguições e angústias por a-
mor a Cristo; porque quando sou fraco, então é que sou
forte” (2 Cor 12,10).
Completa a Imitação (3,56) a frase do apóstolo: “Não
carregamos a cruz sozinhos; Jesus fica ao lado como
nosso Cireneu”.
E ainda São Francisco de Sales: “O Calvário é a
montanha dos amantes. Todo amor que não toma sua
origem na paixão de Nosso Senhor é fútil e perigoso”.

Entusiasmos

O entusiasmo de sofrer e morrer por Jesus abre seu


caminho através da história cristã. O primeiro campeão,
após os apóstolos, é Sto. Inácio de Antioquia. Segue-se a
turma gloriosa dos demais mártires. Segue-se a longa
galeria dos amigos da cruz nos dois milênios cristãos.
Sto. Tomás perguntara a São Boaventura, donde ele
294

tirava tanta doutrina. São Boaventura apontou o crucifixo


na parede.
São Francisco de Assis exclama: “Como, ó meu Je-
sus , tu estás na cruz e eu não?”
São Felício Benício, um dos fundadores da Ordem
dos Servitas, moribundo, pediu seu livro. Deram-lhe o bre-
viário. “Não”. Deram-lhe a Bíblia. “Não”. Levantando os
olhos, fixou o crucifixo na parede. Tiraram-no e deram-lhe.
“Eis o meu livro”. Beijando-o, morreu.
Sta. Brígida teve, aos dez anos de idade, uma visão
da paixão de Jesus. Daí em diante não podia mais ouvir
falar do crucificado sem chorar . A cruz é contagiosa.
São João da Cruz, fiel ao seu nome, colocou um
crucifixo do convento na Igreja, para a devoção pública. E
o crucificado lhe perguntou: “Que prêmio desejas, João?”
“Sofrer e ser desprezado por teu amor”. E ainda um texto
de suas Sentenças (83): “Se queres chegar a possuir
Cristo, jamais o busques sem a cruz”.
Sta. Teresa d’Ávila reza: “Ou morrer ou sofrer”. Sta.
Madalena de Pazzi: “Não morrer, mas sofrer”.
Sto. Inácio de Loiola disse que pediu para a Compa-
nhia, para a sua Ordem, adversidades, sofrimentos, lutas
e cruzes... Bom presente!

Século XX

Isabel da Trindade escreve a sua mãe: “Aspiro che-


gar ao céu não somente pura como um anjo, mas trans-
formada em Jesus crucificado”.
Escreveu Gay: “Quem na escola de Jesus Cristo in-
terrompe o estudo para cá da cruz, não terminou as clas-
ses”.
Emmy Gierl, prostrada na cama por meio século,
+1915, aprendeu por experiência: “A cruz é uma carta de
Jesus na qual está escrito: Eu te amo”. Teve certa vez um
295

sonho. Viu um anjo apresentar-lhe um cálice de ouro di-


zendo: “Beba um pouco”. “Mas o que há dentro?” “Sofri-
mento”. “Ah! então, quero beber tudo”.
E nossa santa carioca, filha do barão do Rio Negro,
madre Francisca de Jesus, 1877-1932, passando por pe-
sadas provações e sofrimentos de toda espécie, excla-
mou: “Mas Senhor, que vos fiz eu?” e logo ouviu dentro
de si a resposta: “Tu me amaste”. Outra vez Jesus lhe diz:
“Para beber assim, a longos sorvos, na chaga do meu
coração é mister ser coroado de espinhos”.
Numa conferência às suas irmãs: “Jesus jamais pro-
curou escapar ao sofrimento. Muito ao contrário. Fez até
um milagre, e mais de um, para poder sofrer. Sede, pois,
para o futuro, mas generosas e procurai dizer em todas as
dificuldades: Deo gratias”.
Conhecida e famosa a anedota de Sta. Teresa
d’Ávila. Viajando em tempo de inverno (a Burgos) encon-
tra dificuldades em atravessar os riachos e ribeiros intu-
mescido pelas chuvas. Numa passagem realmente peri-
gosa, ela avança sozinha. No meio, aparece Jesus, para
dar apoio. A santa aproveita a ocasião para se queixar: “O
Senhor arranja cada dificuldade no caminho!” “Não te
queixes, filha; é assim que trato meus amigos.” “Ah!, por
isso tens tão poucos”, replicou Teresa.
Uma postulante no Carmelo ouve falar de todas as
penitências e mortificações praticadas no convento. “Será
que agüentas?” Ela pergunta: “Há um crucifixo na cela?”
“Sim”. “Então, não há problema”.
Padre Plus completa a narração: “No Carmelo, os
crucifixos são sem o Cristo. Para lembrar ao morador da
cela que ele tem de fornecer o material.”
Assim, chegamos aos últimos tempos. Após longas
aberrações, retornou Strindberg à fé em Deus e Jesus
Cristo, e mandou que se colocasse sobre seu túmulo uma
cruz com a inscrição: “Ave crux spes unica”.
296

E concluímos com Plus: “A humanidade não é bela.


Em geral é gozadora e covarde. Mas que haja em seu
seio alguns discípulos de Cristo, apaixonados pela cruz
de Jesus, e isto num grau que ultrapassa admiravelmente
a média comum, é o que engrandece singularmente esta
pobre raça”.

OS AMIGOS DA CRUZ

“O anúncio da cruz faz-se mister em nosso tempo,


porque este aspecto do quérigma cristão está omisso, por
várias razões. Mas desde as origens, a confrontação com
a cruz do Redentor foi o desafio da mensagem cristã. É
preciso devolver-lhe em nossa pregação o lugar devido”
(Gnilka)

Escândalo da Cruz: Gl 5,11

Dou a palavra à exegese moderna:


Ortkemper (A cruz na pregação paulina, 1968): “A
cruz é o centro determinante do pensamento paulino, ao
redor do qual gira todo o cosmos da teologia paulina. O
Evangelho de Jesus Cristo é a palavra da cruz” (1 Cor
1,18). (88)
“Para Paulo, a cruz é o critério e o medidor do pen-
samento cristão autêntico e da vida cristã autêntica” (90).
Pois diz A. Schweizer: justificação é “inserção no aconte-
cimento salvífico da cruz e da ressurreição”.
Também a eucaristia paulinha deve-se entender “na
moldura de uma teologia Crucis” (KAESEMANN, 95)
Como o escândalo da cruz acompanhou o apóstolo
na sua carreira missionária “sem atenuações” assim, “a
cruz é indiscutivelmente e sem compromisso o mediador
da experiência cristã neste mundo” (98)
Conseqüência: o cristão, crucificado com Cristo no
297

batismo, é chamado a sofrer com Cristo a fim de chegar


assim à glória (Rm 8,17). (99) O mundo para São Paulo é
esse mundo “perturbado”, no qual penetraram o pecado e
a morte (Rm 5, 12.21). Daí, o aviso de não nos conformar
com ele (Rm 12,12). (99)
“Sofrer, a fim de ser glorificado, eis a regra básica da
existência cristã neste éon” (100)
“A pregação hodierna deve, com toda seriedade, co-
locar-se perante a pergunta se hoje a cruz não se reduz a
um simples emblema externo, em vez de ser fator decisi-
vo de nossa existência cristã. Todo o otimismo mundial,
por justo que seja, encontra seu limite na cruz “pela qual o
mundo para mim está crucificado e eu para o mundo (Gl
6,14)... Não haveria em nossa mentalidade atual (e talvez,
mesmo na teologia) com toda a abertura otimista ao mun-
do, o perigo de esquecer a cruz?... Uma ruptura atravessa
o mundo. Redenção não é possível sem cruz, isto é, sem
a prontidão de con-sofrer” (100)

Amor da Cruz

Para São Paulo, a “cruz da existência humana” é so-


lidarismo com Cristo. Ele quer ter os mesmos sentimentos
que seu Mestre, inclusive seu entusiasmo pela cruz, no
qual se tornou obediente até à morte (Fl 2,8).
Paixão e sofrimento são as raízes das quais brota o
Corpo Místico. Os membros deste organismo espiritual
são pregados com Cristo na cruz (Gl 2,19), estão enterra-
dos com Cristo (Rm 6, 4-5).
Daí se segue que Paulo considera tudo quanto é fo-
ra de Cristo como perda, como lixo (Fl 3,7), e deseja “ter
parte nos seus sofrimentos e ser configurado com sua
morte” (Fl 3,10). Deseja ter o estigma de Cristo (Gl 6,17).
A marca de pertencer a Cristo é o sofrimento. Deseja imi-
tar o Cristo pobre, humilde, sofredor. Os valores da cultu-
298

ra humana não interessam; não quer “ostentar outra ciên-


cia a não ser a de Jesus Cristo, e do Jesus crucificado” (1
Cor 2,2).
Sofre com alegria. Pois é graça “não só crer em
Cristo, mas sofrer também por ele” (Fl 1.29). É sua única
ambição: “Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de
N. S. Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado
para mim e eu para o mundo” (Gl 6,14). Sua ambição é
ser colega do Cristo sofredor: “Ufano-me na tribulação”
(Rm 5,3; 2 Cor 12, 10; Fl 1,20).
Sua ambição é completar a paixão de Cristo: “Folgo
de sofrer completando em minha carne... o que falta ainda
na paixão de Cristo” (Cl 1,24).

As duas coroas

A escolha das duas coroas é um leitmotiv que se re-


pete na hagiografia com certa freqüência.
1. Catarina Racconigi, ainda menina de dez anos,
está perante duas coroas a escolher, uma de flores, outra
de espinhos. Ela pega logo a de espinhos, a fim de tornar-
se mais semelhante a Jesus. Jesus concorda contente,
mas responde sorrindo: “Por enquanto és criança; fica
para mais tarde”. E mandou-a mesmo.
2. Sta. Catarina de Sena está perante a mesma es-
colha. Pega logo a coroa de espinhos, e ela mesma aper-
ta-a sobre a cabeça: “Quero estar conforme a tua Paixão”.
Jesus: “Então, suporta a tua aflição!”.. (A calúnia da can-
cerosa: Catarina fizera-se enfermeira de uma mulher can-
cerosa. E a doente agradeceu falando mal de Catarina,
caluniando-a na cidade inteira, como tendo um filho ilegí-
timo.)
3. Sta. Verônica Giuliani: Jesus aparece-lhe como
menino de sete anos, e oferece-lhe duas coroas, uma de
espinhos, outra de pedras preciosas. Verônica sente vivo
299

desejo de escolher a de espinhos. Mas prefere deixar a


escolha à vontade de Deus. Então, Jesus aperta-lhe a
coroa de espinhos sobre a cabeça.
4. Sta. Margarida Alacoque: Jesus segura nas mãos
dois quadros; o de uma vida feliz no convento, e outro de
uma vida humilhada e crucificada. “Escolha, minha filha, o
que mais te agrada. Dar-te-ei as mesmas graças na esco-
lha de um, como do outro”. Margarida declara querer a
vontade de Deus; Jesus insiste na escolha e Margarida
repete a primeira resposta. Então, Jesus entrega-lhe o
quadro da vida crucificada. “Foi este que escolhi para ti e
que me agrada mais; o outro fica para o céu”.

Margarida de Cortona

Jesus fala: “Todo o tempo que ficaste perto da cruz


(na igreja dos franciscanos), eu te enriqueci com os dons
da minha graça; e teria dado mais se não te tivesses afas-
tado. Volta pois àquela cruz. Fica ajoelhada aos meus pés
desde a meia noite até a Noa. Sim, retorna à minha cruz,
sem tardar”.
“Não cesses de apregoar minha paixão, e conta a
todo o mundo que eu passei minha vida toda em labores
e sofrimentos”.
“Eu fui buscar-te pelo preço das angústias mais ter-
ríveis. Assim, tu te deves chegar a mim pelo caminho das
amarguras”.
“Estás bem cansada: mas eu estive ainda mais no
caminho do Calvário”.
“Mesmo escrevendo um novo evangelho, os homens
jamais compreenderão como foi dilacerante minha dor no
Jardim das Oliveiras. Eu te garanto, a ti e a toda criatura:
não darei, repito, não darei os dons da minha graça a
quem não se renuncia a si mesmo, e não toma sua cruz
para me acompanhar”.
300

“Por que buscar o paraíso na terra, já que nem eu o


tenho achado lá?”
Margarida: “Por que tenho de sofrer tanto agora?”
Jesus: “É que te quero dar novas consolações”.

Ângela de Foligno

Ouve da boca de Jesus: “Bendita sejas pelo Pai dos


céus, porque tivestes compaixão de minhas dores”.
“A visão da paixão de Cristo que narrei, fez tanto
crescer minhas dores... Ao recordar-me, não me posso
alegrar; e eu, que costumava ser alegre, o sorriso apa-
gou-se em meus lábios”.
“Uma pobreza perfeita, suma, contínua; depois uma
abnegação perfeita, suma contínua; enfim, um sofrer per-
feito, sumo, contínuo... este foi o caminho pelo qual eu
(Jesus) subi ao céu. Este é o caminho pelo qual a alma
deve subir a Deus. Como a cabeça, assim os membros”.
Ângela pediu que lhe desse algo bem seu. E Jesus
lhe fez o sinal da cruz.
“Não há outro caminho, não há outro meio que con-
duza à vida eterna. É este o caminho real, porque traçado
por Jesus Cristo mesmo. Ele sabia que a virtude cresce
nas tribulações, como a rosa entre espinhos; por isso, Ele
escolheu sofrer, fez-se escravo, declarou detestáveis os
prazeres e comodismos mundanos. Depois que o Filho de
Deus nos mostrou por sua vida, e de uma maneira tão
maravilhosa, o caminho que devemos tomar, a escolha a
fazer, quem pode hesitar e recusar-se a segui-lo? Bem,
eu creio que ninguém, a não se um estulto... Pobres cria-
turas, fatigamo-nos dia e noite a procurar ansiosamente
prazeres, delícias, divertimentos e satisfações vãs. Na
verdade, este não é o caminho do homem-Deus... Quem
sente ao menos uma centelha de amor por Jesus, empe-
nha-se em segui-lo até o Calvário.
301

Maria, a mãe de Jesus só procurou a angústia, a


amargura, a cruz.
“Vinde pois, filhos de Deus, ao pé da cruz, e trans-
formai-vos com todo o esforço neste homem-Deus marti-
rizado por nosso amor. Vinde, contemplai esta cruz... lede
o livro da vida”.
“Quem sofre pena, de alma ou do corpo, possui um
sinal bem garantido de ser querido por Deus. Coragem,
pois, nas adversidades temporais Suportá-las, não digo
com paciência, mas com exultação, como sinal de predi-
leção, como prenda da eterna herança. Seja bendita a
tribulação, um tesouro do qual não se conhece o valor, e
que eu invejo àquele que o possui”.
“A tua cruz é doce cama. Tenho nela por travesseiro
a pobreza. E como companhia a dor e o desprezo. Ele
mesmo nasceu aí e aí morreu. Deus Pai gostou da pobre-
za, da dor, do desprezo, e fez deles presente ao Filho. E o
Filho não quis outro leito”. “Eis o caminho reto de salva-
ção: amor de Deus e desejo continuo de sofrer por seu
amor”.

Henrique Suso, OP

Jesus: “Tuas penitências renovam minhas forças.


Tuas mortificações descansam meu dorso fatigado. Tua
dura resistência ao pecado é um repouso para meu espíri-
to. A piedade de teu coração acalma minhas dores. E teu
fervor inflama meu coração”. O Menino Jesus lhe diz: “Tu
não sabes ainda sofrer bem. Vou te ensinar. Quando uma
moça colhe uma rosa, não se contenta; quer sempre co-
lher mais uma”.
“O sofrimento é o orvalho matinal para a alma”.
Suso pede para Jesus mostrar-lhe quanto ainda teria
de sofrer. E Jesus levanta os olhos ao céu, onde brilham
milhares de estrelas.
302

Jesus: “Quanto mais sofreres, tanto mais serás re-


cebido no céu com atenção e honras”...
“Para chegar à minha divindade, é mister passar an-
tes por minha humanidade padecente”.
A sabedoria eterna instrui: “O sofrimento é para o
mundo um horror, mas para mim é de uma dignidade sem
igual. O sofrimento apaga a minha cólera, e adquire a mi-
nha graça. O sofrimento torna o homem agradável aos
meus olhos; pois quem sofre, é semelhante a mim. O so-
frimento é um tesouro, ninguém é capaz de pagar seu
preço. Se alguém ficasse ajoelhado durante cem anos,
pedindo a graça de sofrer bem, não a teria merecido. O
sofrimento faz de um homem na terra um homem do céu.
Afasta do mundo, mas em troca dá minha amizade.
Diminui o número de amigos, mas aumenta em graça. É o
caminho, o mais seguro e mais curto para conduzir à per-
feição. Quantos homens, que foram filhos da morte eter-
na, ressuscitaram pelo sofrimento para um vida boa!
Quantos animais ferozes e passarinhos ariscos, que o
sofrimento fechou numa gaiola, teriam fugido à sua felici-
dade eterna!
O sofrimento é uma bebida salutar, uma planta me-
dicinal, mais que todas as plantas do paraíso... O sofri-
mento puxa e empurra o homem para Deus, quer queira,
quer não; como o freio doma o cavalo, tão admirado no
torneio, como o homem que sofre é admirado por todo o
exército celeste... É o caminho estreito que conduz reto
até a porta do céu. O sofrimento faz o homem companhei-
ro dos mártires; seu manto é púrpura, sua coroa de rosas
vermelhas...
Numa palavra: os que sofrem, o mundo chama-os
de infelizes. Eu os chamo de bem-aventurados, porque
eles são meu eleitos”.
303

São Bernardino de Sena

Pede a Jesus para manifestar-lhe sua vontade. Je-


sus: “Tu me vês despojado de tudo e pregado numa cruz
por teu amor. Se me amas, deves despojar-te de tudo e
viver uma vida crucificada”.
Bernardino faz-se franciscano. Anos depois repete a
mesma pergunta. E Jesus: “Meu filho, tu me vês ainda
pregado na cruz. Se me amas, crava-te também na tua
cruz. Assim, terás certeza de me encontrar”.

Verônica Giuliani

Pedia muitas vezes aumento dos sofrimentos. Je-


sus: “Se queres mais, é preciso que primeiro cresça teu
amor”.
Rezando perante o crucifixo, Jesus puxa conversa:
“Fica sossegada, tua vida será um sofrimento contínuo.
Eu o quero assim. Quero que sejas mais parecida comigo,
teu esposo crucificado”.
Aparece com um cálice na mão: “É para ti; tu deves
ter o mesmo gosto que eu”. Outra vez: “Tenho prazer em
te ver sofrer, porque és minha bem-amada... Daqui em
diante tudo te servirá para sofrer mais.. E não poderás
contar-me os teus males. Terás penas em tudo. Eu é que
o quero assim. E em todos os sofrimentos tu participas
neste tesouro. É o nome que dão à cruz aqueles que me
amam”.
“Agora que estás no sofrimento, é tempo de graças”.
“Pede penas e tormentos: aí se encontra o amor”.
“Aprende de uma vez para sempre, e saibas que o sofri-
mento é o caminho do amor; um e outro caminham jun-
tos”.
304

ATRAVÉS DOS SÉCULOS

Madalena de Pazzi: “Jesus manda carregar a cruz e


não arrastá-la”.
“Filha, a loucura da cruz é suprema sabedoria... Nin-
guém pode chegar a mim senão pelo caminho estreito”.
Benigna Gojoz: “Benigna, tua glória é a cruz. Esposo
e esposa têm o mesmo trono... E ela viu-se pregada na
cruz de Jesus pelos mesmos cravos. Não te divirtas a dis-
tinguir e a contar tuas cruzes. A lei está promulgada. Elas
durarão até que chegues à minha glória. Estou te polindo
como pedra a ser colocada num belo edifício”.

Madalena Vigneron

Jesus: “Toca nas minhas chagas; chega com tua


mão”.
Madalena: “Jesus, eu te sinto bastante pelos sofri-
mentos que me deste. Tuas chagas não doem mais que
as minhas”. Jesus: “Sim, filha; são as carícias mais sua-
ves que dou a uma alma”.

Inez de Langeac

Dialogando com Jesus: “Não, meu amigo; não, meu


esposo. Eu não quero estas graças exteriores. Somente
quero penas e dores”.
Jesus: “Não te faço sofrer bastante? Estás sofrendo
as penas do purgatório. Já te mostrei as penas do inferno.
Então... não basta?”

Madalena Orsini

Aparece-lhe Jesus crucificado, exortando-a a sofrer


305

com ele pacientemente. “Mas tu ficaste na cruz só por três


horas, enquanto eu, estou sofrendo estas dores já faz a-
nos”. Jesus: “Ó ignorante, eu padeci tudo desde o primei-
ro instante da concepção”.

Paulo da Cruz

Estando ainda no início da carreira espiritual, aos


vinte e cinco anos, Jesus lhe diz: “Meu filho, quem se a-
proxima de mim, aproxima-se dos espinhos”.

Marcelina Pauper

Jesus mostra-lhe um letreiro e diz: “Lê”. “Amor”. De-


saparece e surge outro texto. “Lê”. “Cruz”. “Um se prova
pelo outro”.

Crescência Hoess

“O amor de Deus inflama-se pelo sofrimento. Amar a


Deus sem medida, e sofrer por ele são duas coisas inse-
paráveis”.
“Não há cruz a não ser esta: a de não ter nenhuma”.
“Sou como uma bola. Quanto mais Deus me bate, tanto
mais subo”.
“Deus está polindo a madeira, raspando, cortando,
picando... Sei que ele quer esculpir em mim um anjo”.

Maria Catarina Putigny

“Não basta contemplar minha bondade e derramar


algumas lágrimas sobre os sofrimentos que padeci. O
verdadeiro amor quer partilhá-los comigo”.
306

Clara Moes

“Agora que és toda minha... o presente de núpcias


que te dou é o mesmo que me foi dado por meu Pai: so-
frimentos, perseguições, humilhações e penas. Deves
sofrer, trabalhar, agir só por mim”.

Gema Galgani

“Tem paciência se te deixo só. Sofre com resignação


a aridez. Consola-te, se te conduzo por caminhos ásperos
e dolorosos. Deves considerar como honra ser tratada
assim. Este martírio cotidiano e escondido prova e purifica
tua alma. Se eu te seguro sobre a cruz, é porque te amo.
Não limites certas almas que na aridez diminuem pouco a
pouco suas orações, por não encontrar mais consola-
ções”.

Isabel da Trindade

Escreve a sua mãe: “Aspiro a chegar ao céu não


somente pura como um anjo mas transformada em Jesus
Crucificado”.

Gertrudes Maria

Jesus: “Tenho amigos na terra: aqueles que sofrem


por meu amor. Do sofrimento escorre um suco que ali-
menta, vivifica, transforma a alma”.
“Se tu recusas o sofrimento, recusas graças de es-
col”.
307

Pe. José Passerat, C.Ss.R.

“Um dia passado na doença vale por dez anos de


austeridades voluntárias”.

Sta. Teresinha

“A todos os êxtases, prefiro o sacrifício”.


“A felicidade consiste no sofrimento, e sofrimento
sem consolação” (Carta 50). “Agora não tenho mais nada
a esperar sobre a terra, nada mais que o sofrimento e a-
inda sofrimento. Quando estivermos no fim, ainda o sofri-
mento. Estará lá a estender os braços. Oh! que sorte dig-
na de inveja! Os querubins no céu invejam nossa sorte”
(Carta 58)
“Não pensemos poder amar sem sofrer e sem sofrer
muito. Aí está nossa pobre natureza; ela não nos é dada
em vão: é a nossa riqueza, é nosso ganha-pão. Ela é tão
preciosa que Jesus veio à terra expressamente, para pos-
suí-la. Soframos com amargura, isto é, sem coragem. Je-
sus sofreu com tristeza. A alma sofreria sem tristeza? E
nós gostaríamos de sofrer generosamente e grandiosa-
mente. Oh! Celina, que ilusão!” (Carta 65)
“O martírio, eis o sonho da minha juventude. Este
sonho cresceu comigo nos claustros do Carmelo... meu
sonho é uma loucura, pois não me limito a desejar um
gênero de martírio. Para satisfazer-me precisaria de to-
dos” (Vida 245)
Ainda algumas palavras pronunciadas nos últimos
meses da vida, fiel à sua missão de mostrar o caminho do
céu aos pequenos:
“Estou bem contente de não ter pedido ao bom Deus
o sofrimento: assim ele está obrigado a dar-me coragem”
(NV 26, VIII)
“Não quero pedir a Nosso Senhor maiores sofrimen-
308

tos; porque estes seriam sofrimentos meus, da minha


vontade; e eu teria que suportá-los só. Ora, sozinha, ja-
mais fui capaz de fazer algo” (NV 11, VIII)
“Sofrer é o que mais me agrada. Por quê? Porque é
a vontade de Deus” (NV 15, VI). “Sofro muito, mas o im-
portante é sofrer bem” (NV 18, VIII)
“Mandou celebrar uma missa para meu alívio?” In-
dagou da madre. “Sim, para seu bem”. Ah!, meu bem ago-
ra está só em sofrer” (NV 24, IX)
“O que escrevi (sobre o sofrimento) é a pura verda-
de. É verdade que desejei sofre muito por Deus e é ver-
dade que ainda o desejo” (NV 25, IX)
“Não sou um anjo. Os anjos não podem sofrer. Não
são tão felizes como eu” (NV 28, IX). “Tudo o que escrevi
sobre meus desejos de sofrer é a absoluta verdade. Não
me arrependo de ter-me entregue ao Amor” (NV 29, IX)

Carlos de Foucauld

“Mágoas da alma, dores corporais, alegremo-nos,


vibrando de prazer: é Jesus que nos chama, que nos pe-
de dizer-lhe que o amamos, e repeti-lo quanto tempo du-
rar nosso sofrimento”.
“Cada cruz, pequena ou grande, cada contrariedade,
é um chamado do bem-amado. Pede-nos uma declaração
de amor, uma declaração que dure enquanto dura a
cruz... Pensando assim, quanto desejaríamos que a cruz
durasse sempre”.
“Tristezas, dores, amarguras, eis a parte que coube
a Nosso Senhor. Como somos felizes de delas participar.
Lastimemos aqueles que as alegrias, mesmo as mais pu-
ras, mesmo as mais legítimas, prendem à terra. Como o
bom Deus foi bom de ter-nos tirado tudo, a fim de que só
conseguíssemos viver aspirando por ele”.
“Quanto mais abraçamos a cruz, mais estreitamos a
309

Jesus que nela está pregado”.

Eva Lavalliere

Ramalhete Espiritual: “Meu nome predileto: Jesus.


Meu enfeite predileto: a coroa de espinhos. Meu vestido
predileto: a veste batismal. Minha paisagem predileta: o
Calvário. Minha oração predileta: dor, gratidão, amor. Mi-
nha pátria: o céu”.

Maria Cecília

“Eu queria fazer compreender a todas as almas o


valor da cruz. A dor moral ou física é uma mina de ouro
inesgotável...
Se soubéssemos o peso de amor infinito que cada
uma de nossas cruzes encerra, não poderíamos nem de
dia nem de noite cessar de oferecer a Deus súplicas ar-
dentes para recebê-las, e de dirigir agradecimentos deli-
rantes para agradecê-las. Se compreendêssemos o valor
de nossas cruzes, estaríamos paralisados de alegria e de
felicidades ao recebê-las.
As provações, as tribulações, as angústias provoca-
riam nossos cantos de alegria e de entusiasmo, e espon-
taneamente entoaríamos o “Te Deum”. Nosso Senhor não
é compreendido. Não, o coração tão delicado e tão bon-
doso do Esposo adorável não é conhecido. Jesus esco-
lheu a cruz como um bem sagrado. Ele abraçou-a com
ardor apaixonado. Ele amou-a com loucura. E isto por
nós. E quando ele nos apresenta uma parcela desta ri-
queza mística, nós hesitamos em estender a mão.
Infelizmente, a natureza humana é um abismo de
trevas...
Como sente-se feliz o Mestre divino ao ouvir um “o-
brigado” de gratidão quando nos oferece um espinho de
310

sua coroa, ou algumas gotas amargas de seu cálice. To-


dos os sofrimentos, todos os suplícios, todos os martírios
reunidos pareceriam suaves à minha alma para agradecer
a Providência pela mais ligeira aflição”.

O Filho de Deus

Escreve Montalembert:
“Mas quem é este amante? Invisível, morto num pa-
tíbulo há dezoito séculos, e que ainda atrai a si a juventu-
de, a beleza, o amor?
Que aparece às almas com tal brilho e atração, que
elas não conseguem resistir? Que se atira sobre as almas
e faz delas sua presa?
Prende por toda a vida a carne de nossa carne (a fi-
lha predileta, fez-se religiosa...). É um homem? Não! É um
Deus. Só Deus é capaz de colher tais frutos”.
311

7. EXPIAÇÃO
NA ESCRITURA

No campo espiritual, mais eficiente do que a oração


é o sacrifício, o sofrimento, a dor (física ou moral), a ter-
ceira realidade celeste com domicílio na terra. A morte
dolorosa de Cristo foi uma expiação da Divindade, insul-
tada pela criatura. O pecado é ofensa a Deus, ingratidão e
recusa do amor. Exige reparação e desagravo. A cruz de
Cristo satisfez como expiação.
Nossos sofrimentos humanos só têm valor salvífico
quando unidos, bem unidos ao da Paixão. E assim mes-
mo, por bondade divina. É o sacrifício de Cristo, oferecido
em união com a rainha das almas vítimas, Maria Santís-
sima, são os sofrimentos de Jesus que salvam, redimem
e expiam. Não as nossas dores.

Sangue a gotejar

Comovedor, constrangedor nas primeiras páginas da


Bíblia, o sacrifício de Caim e Abel. Que oferta pobre. Al-
guns produtos da roça e um carneiro do rebanho. Destro-
em pelo fogo objetos que lhe são necessários para a exis-
tência na terra, querendo significar que estão devendo a
Deus propriamente sua vida. A humanidade sentia-se cul-
pada Sua vida não era mais como devia ser pelo plano de
Deus. Deus quis os homens, seres nobres, sem sofrimen-
to, sem pecado, sem morte, felizes e imortais. Não mais o
eram, por própria culpa. Tornaram-se fracos, inermes,
expostos aos mil terrores de um mundo ainda desconhe-
cido, pobres, forçados a reconhecer humildemente a pró-
pria miséria. Tornaram-se culpados, impelidos a invocar o
312

Criador: Senhor, não merecemos mais o dom da vida;


pois tornamo-nos incapazes de realizar teus desígnios.
Em vez da própria vida, a humanidade oferece o que
a represente simbolicamente: alimentos, fruto da lavoura
e carne dos animais. E ao derramar o sangue da vítima, o
homem levanta os braços para o alto: ó Senhor, é minha
vida que devia ser destruída; meu sangue é que devia ser
derramado; já que serviu para te ofender. E no correr dos
séculos, os homens, sentindo o pouco valor da expiação,
multiplicaram as ofertas, matando centenas de animais
num só dia. Até julgaram dever oferecer vida humana,
sangue inocente de crianças e virgens, uma aberração
pagã que continha um núcleo de verdade: só o sangue
humano é digno.
Mas sangue inocente? Até a criança é culpada pe-
rante Deus (Rm 5,14). Todo este rio de sangue dos sacri-
fícios, através da história humana, foi uma súplica vã, até
ser derramado o sangue do Filho de Deus.
Jesus satisfez plenamente ao amor e santidade divi-
na ofendidos. Mas na cruz, Jesus fez o trabalho sozinho
(“pisei o lagar sozinho e nenhum homem me ajudou”, Is
63,3), auxiliado pela Co-Redentora. Ora, na aplicação e
distribuição dos frutos da redenção, os teólogos usam o
termo técnico de redenção subjetiva, aí Jesus conta com
a nossa colaboração.
Uma vez, na história da salvação, Deus exigiu justiça
plena e Jesus “pagou”. E agora é a nossa vez. Não digo
de tornar-nos co-redentores: nossa contribuição é tão in-
significante! Deixemos este título à Mãe do Redentor: ela
o merece. Ela contribuiu realmente à redenção objetiva, à
aquisição dos méritos no Calvário, onde nós brilhamos
pela ausência, e, aliás, também como réus e culpados
pela incapacidade de satisfazer. Somos muito honrados
por podermos ser auxiliados na segunda redenção, servi-
dores na distribuição das graças da salvação. Podemos,
313

por mercê de Deus, oferecer-lhe nossos sofrimentos em


prol do próximo e de sua salvação espiritual, numa expia-
ção substituinte e suplementar.
A primeira tentativa de Jesus de procurar apoio hu-
mano na obra da salvação falhou. Na agonia do horto pe-
diu duas vezes consolo humano aos apóstolos. Por fim,
Deus mandou-lhe um anjo (Lc 22,43).

Cristo Vítima

Este mistério da nossa colaboração, auxiliar e subal-


terna, na redenção, o grande mistério da expiação suplen-
te, por substituição, não fazia parte do quérigma primitivo
dos Evangelhos sinóticos. Porque não costuma ser pró-
prio e específico dos principiantes na fé e na vida espiritu-
al. Mas a idéia da expiação e reparação do mal cometido
impregna, pervade o Antigo Testamento e seu culto litúr-
gico com os sacrifícios expiatórios. E o A.T. é “pedagogo
para conduzir-nos a Cristo” (Gl 3,24).
No Novo Testamento é Cristo a grande e única víti-
ma de expiação. Entre todos os encargos do Filho de
Deus Encarnado, o múnus mais excelente é a redenção.
Ora, ele nos remiu na qualidade de sacerdote. E vítima de
seu sacrifício foi ele mesmo. Com este espírito de expia-
ção entrou no mundo (Hb 10,5) e saiu do mundo na cruz.

Paulo vítima

A primeira vítima (declarada) foi Paulo apóstolo.


Como ele foi resgate do martírio de Estevão (como o insi-
nua At 7,58), assim já no dia da sua conversão depara
com o sofrimento expiatório, dizendo-lhe Cristo: “Vou
mostrar quanto te cumpre sofrer por meu nome” (At 9,16).
E o apóstolo aceita e mantêm-se fiel a esta tarefa salvífi-
ca. O texto clássico (Cl 1,24): “Folgo de sofrer por vós,
314

completando assim na minha carne, pelo corpo de Cristo,


isto é, a Igreja, o que ainda falta à paixão de Cristo”. E
assim está consignada a doutrina sublime da expiação
suplente que, séculos mais tarde, desabrochou em flores
multicores, no florão vistoso da devoção ao sagrado Co-
ração.
Sob a luz deste texto devem-se entender outras ex-
pressões paulinas, num sentido mais profundo, mais teo-
lógico. Ele considera-se como vítima de salvação. Em Fl
2,17 declara, e com entusiasmo: “Mesmo que deva tornar-
me vítima sacrifical (literalmente: ser derramado sobre o
altar do holocausto como o sangue das vítimas), alegro-
me e congratulo-me com todos vós... alegrai-vos também
comigo”.
A segunda epístola aos Coríntios (4, 10-12) fala da
expiação substituinte por sua grei. Paulo se diz: “Sempre
mortificado. A morte atua em mim e a vida (de Cristo) em
vós”. “Sempre trazemos em nosso corpo os sofrimentos
da morte de Jesus, para que também a vida de Jesus se
manifeste em nosso corpo. Enquanto vivemos, seremos
entregues continuamente à morte por causa de Jesus,
para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa
carne mortal. Assim, a morte opera em nós e em vós a
vida”.
Na véspera do martírio renova a sua entrega (2 Tm
4,6): “Já estou para ser imolado” (Como vítima de sacrifí-
cio).
E em 2 Tm 2,10: “Suporto tudo por amor aos eleitos
a fim de que também eles alcancem a salvação em Cristo
Jesus e a glória eterna”.

Cristãos vítimas

São Paulo não somente se consagra a si próprio


como vítima de expiação, mas anda à procura de outras
315

vítimas, e faz um convite geral a todos os cristãos. Assim,


a exclamação patética de Rm 12,1: “Rogo-vos, pela mise-
ricórdia de Deus, que oferteis os vossos corpos em holo-
causto a Deus”. Novamente em Ef 5,2: “Sigamos o exem-
plo de Cristo, que nos amou e se entregou a Deus por
nós, como oblação e sacrifício de suave odor”. Está aqui a
vocação universal e o convite a todos.
Lástima que a grande maioria se contente em usu-
fruir os labores de Jesus Cristo. Cristianismo animal. São
Paulo julga até que o fim de sua vocação apostólica e do
seu ministério sacerdotal é buscar outras vítimas para
Deus “para que os pagãos se tornem holocaustos de
Deus” (Rm 15,16).
Aliás, está implícito na teologia paulina: imitar a Cris-
to, e isto num sentido total, isto é, também como vítima.
Não só a sua vida contemplativa em Nazaré. Não só a
sua vida apostólica nos três anos de sua vida pública.
Mas também sua vida (e morte) de vítima expiatória da
redenção, seu múnus supremo. Devemos seguir suas
pegadas até o calvário, pois devemos crescer Cristo a-
dentro (Ef 4,15).
Devemos deambular nele (Cl 2,6). Compenetrar-nos
dos mesmos sentimentos de Cristo (Fl 2,5). Ele deve viver
em nós e em nosso lugar (Gl 2,20).
Em Gl 6,2, manda cada um carregar o peso do ou-
tro. Estaria excluído deste auxílio fraterno justamente o
peso mais pesado, culpa e castigo perante Deus? Pois é,
todavia, mais importante do que suportar o mau humor
mútuo.
Assim também Jo 3,16 ganha outra perspectiva:
“Nisto conhecemos o amor (de Deus) em que deu a vida
por nós. Assim devemos também nós dar a vida por nos-
sos irmãos”. Interpretar este texto no sentido do serviço
militar, como foi feito, é chiste de mau gosto.
Nossa união com Jesus realiza-se pelo batismo. Ele
316

nos torna carne de sua carne e osso de seus ossos, diz Ef


5,30. Ora, submersos na água batismal fomos “submer-
sos na sua morte” (Rm 6,3); enxertados na sua paixão e
morte de vítima de expiação. Cabe-nos portanto, nossa
parte.

Seqüela de Cristo

São Pedro continua e até mesmo reforça a teologia


paulina (I Pd 2, 5-9) ao dizer aos cristãos: “Vós sois sa-
cerdotes... e vítimas de sacrifício”. E logo mais exorta os
escravos cristãos mostrando que:
1. “Sofrer é graça de Deus” (2, 20 texto grego).
2. Faz parte da vocação do cristão: “A isto é que fos-
tes chamados” (2,21). Vale para todos. Não somente para
os escravos, grupo humano em que sofrer injustiça faz
parte da profissão e das bem-aventuranças evangélicas
de Lc 6,20-24.
3. É o exemplo de Cristo: “Porque Cristo também
padeceu por vós, deixando-vos exemplo para que lhe si-
gais as pegadas” (2,21).
a) Jesus deixou “o modelo para copiar”; assim o tex-
to grego: hypógrammos.
b) Deixou suas pegadas para o povo cristão segui-
las. E segue-as carregando a cruz de cada dia. Seguir,
pois, o Cristo na totalidade de sua vocação, isto é, princi-
palmente como vítima redentora, carregando junto com
Ele sua cruz, em expiação por nós e por nosso irmão. Imi-
tação de Cristo perfeita é seqüela de Cristo até ao Calvá-
rio. É convite para todos. É compromisso formal para o
discípulo.

Discípulo

Sua tarefa não é só transmitir a palavra revelada,


317

mas continuar a missão redentora em sua totalidade. Ser


alma vítima de expiação com Cristo na cruz.
Knoch (Um é vosso Mestre, 1969) resume a situa-
ção do discipulado do modo seguinte:
1. Jesus escolhe quem ele quer e recusa várias ofer-
tas espontâneas.
2. Suas exigências são:
a) Séria reflexão e firme decisão (Lc 14,35 ss).
b) Pobreza voluntária (Lc 14,33). NB: só para o dis-
cípulo-apóstolo, não para o simples fiel. José de Arimatéi-
a, Nicodemos, Lázaro de Betânia não estão adstritos a
este programa.
c) Liberdade de compromissos humanos; por exem-
plo, do parentesco (Lc 14,26; Mt 10,37).
d) Renúncia ao matrimônio (Mt 19,29; Lc 14,26).
e) Possivelmente o martírio (Lc 14,27; 9,23; Mt
10,38; Mc 8,34).
Tudo resume-se em carregar a cruz cada dia, ou se-
ja: estar em situação de vítima expiatória. Pobreza e celi-
bato parecem querer reforçar esta situação. O discípulo é
redentor-mirim; assim como o sacerdote do Novo Testa-
mento o é considerado em sentido pleno.
Os dois filhos de Zebedeu ouvem a resposta: “Ireis
beber meu cálice da amargura” (Mt 20,23). E Jesus com-
pleta: para “Quem entre vós quer ser o primeiro...”, eis o
modelo: “O Filho do homem veio para servir e dar sua
vida em expiação” (Mt 20,28; Mc 10,45).
Jesus termina a procissão de Ramos repetindo a
profecia de sua morte (Jo 12,23-26): chegou o dia da mi-
nha glória (morte na cruz)... como o grão de trigo...
“Quem quiser estar ao meu serviço (ser discípulo),
siga-me. Porque onde eu estiver, aí há de estar também o
meu servidor”. Portanto, o discípulo perfeito, fulltime, seja
também vítima no calvário. Daí, em São Paulo, sua voca-
ção à santa Cruz (1 Cor 2,2; Gl 5,24; Rm 6,5).
318

Daí Sto. Agostinho: “Por que esperam os membros


uma sorte mais feliz do que a cabeça”, a qual antes de
reinar, consentiu na paixão?
Eis a palavra misteriosa de Jesus em Jo 17,19: “Eu
me santifico por eles, a fim de que eles também sejam
santificados”.
Na linguagem do A.T., santificar significa destinar ao
culto, a ser sacrifício. Traduza-se pois: Eu me sacrifico na
cruz, a fim de que eles também sejam sacrifícios e víti-
mas.
Conclusão final, no Ap 14,4: “São virgens e seguem
o Cordeiro aonde ele os conduz”, até mesmo ao Calvário.
Apóstolos, discípulos, pobres e virgens, acompa-
nham a missão de Jesus, cordeiro-vítima, em tudo. O
convite universal para o cristão é compromisso de honra
para os discípulos, antigos e hodiernos.

EXPIAÇÃO NA TRADIÇÃO ECLESIAL

Na Igreja primitiva predomina a idéia: o pecador pa-


gue por seus pecados. A idéia da expiação alheia, ainda
está à espera do aprofundamento teológico. “Na Igreja
primitiva a teologia do pecado e da sua reparação é mais
vivida que formulada”, diz Rondet. Está implícita na dou-
trina patrística segundo a qual, na Santa Missa, é ofereci-
do como vítima todo o corpo místico (idéia, particularmen-
te cara a Sto. Agostinho). Pertencem a São Cipriano as
bonitas palavras: “A água misturada ao vinho é o povo
que se mistura com Cristo; e essa união é indissolúvel...”
Lactâncio: “O culto é verdadeiro quando a mente do
ofertante se oferece a si própria como hóstia imaculada”.
“Quais as vítimas? Sede, vós mesmos, as vítimas.”
Sto. Agostinho: “Este é o sacrifício dos cristãos, mui-
tos (formando) um corpo em Cristo... Toda a cidade redi-
mida é oferecida a Deus pelo Sumo Pontífice como sacri-
319

fício universal”.
Os Mártires não são apenas a maior expressão do
amor (Jo 15,13), mas são também vítimas redentoras co-
mo Jesus; seu sangue faz germinar conversões.
Após a era dos mártires, elevaram os monges o es-
tandarte da redenção penitencial, vivendo “a vida apostó-
lica” (discipulado, sem apostolado externo), até a idéia da
reparação expiatória surgir do estado latente no segundo
milênio. Desde as origens o monge sente-se incumbido
de rezar, em nome do povo de Deus, e pelo povo de
Deus, numa espécie de divisão de trabalho entre os di-
versos membros do corpo místico. E assim também na
cruz do Salvador cabem-lhes as primícias. O monge quer
ser discípulo do Mestre em maior plenitude; portanto,
maior seja também seu quinhão. “Quem quer seguir após
mim, tome sua cruz cada dia e venha atrás de mim” (Lc
14,25). A fim de que haja sobras de graça para os mem-
bros mais necessitados do Cristo místico.
O valor redentor-expiatório do sofrimento (e da peni-
tência), unido à Paixão de Cristo não está declarado em
texto nenhum do primeiro milênio com nitidez teológica,
mas vive em estado latente. Aqui, acolá apontam alguns
indícios.
Sto. Inácio mártir deseja oferecer seu martírio por
seus irmãos na fé (Carta à Igreja de Êfeso). “Minha vida e
minhas cadeias sejam por vossas almas” (Carta à Igreja
de Smirna).
Clemente Alexandrino: “A partir de um só e por um
só foram salvos (os cristãos), e salvam outros”.

Orígenes

Seu espírito penetrante, intuitivo e profundamente


piedoso já descobriu a pista certa.
“Além de Cristo, também seus filhos tiram os peca-
320

dos dos santos, isto é, dos cristãos, a saber: os apóstolos


e os mártires...” E a prova: São Paulo ofereceu-se com
vítima de imolação (2 Cor 12, 13 e 2 Tm 4,6).
“Os mártires, segundo Ap 6,9, assistem ao altar. O-
ra, assistir ao altar é função sacerdotal, e o ofício do sa-
cerdote é interceder pelos pecados do povo... Já não me-
recemos sofrer perseguição por Cristo. O demônio sabe
agora que o sofrimento do martírio produz perdão dos
pecados. Por isso, ele não quer promover contra nós per-
seguições públicas... No entanto, N. Senhor conhece os
seus; e em pessoas, em que não se espera, tem ele seus
tesouros. Eu não duvido que também nesta assembléia
estão alguns conhecidos só por ele, os quais valem pe-
rante ele, em sua consciência íntima, como mártires, dis-
postos a derramar, se necessário, seu sangue pelo nome
de N. Senhor Jesus Cristo. Não duvido estarem aqui al-
guns que carregam a sua cruz e o seguem” (In Numeros
10).
Falando dos holocaustos da lei mosaica, Orígenes
explica que o cordeiro é figura de Cristo. Os outros ani-
mais de sacrifício talvez figurem os profetas que derrama-
ram o seu sangue, desde Abel até Zacarias. Vítima é Pau-
lo, porque deseja ser anátema pela salvação de Israel
(Rm 9,3).
“E enquanto houver pecados é mister haja vítimas...”
Verdade que o sacrifício de Cristo foi tão valioso “que uma
vítima bastou pela salvação do mundo inteiro”... “Convém
porém sacrificar ainda vítimas do coração. Festejemos,
pois, no espírito, este dia e degolemos sacrifícios espiritu-
ais”... No fim do capítulo declara: “Fiz um esboço; só Deus
pode esclarecer tudo” (In Números 10).
Comentando Rm 12,1, Orígenes distingue quatro
classes de vítimas após os apóstolos: os mártires, as vir-
gens, os celibatários e (firme na linha escatológica) aque-
les casados que seguem 1 Cor 7,5.
321

Tertuliano

Escreve apostrofando o pecador: “Teus irmãos ver-


tem lágrimas sobre ti, é o Cristo que suplica ao Pai por ti;
penitência!”.
Como montanista, combate o costume de abreviar a
penitência pública do pecador através da intercessão de
um mártir.

São Cipriano

Defende esse privilégio dos mártires, verdadeira ex-


piação por suplente. Só recomenda não facilitar.

São Jerônimo

Aproxima-se mais da idéia com a famosa sentença:


“O monge não tem ofício de doutor, mas de penitente,
chorando sobre si ou sobre o mundo”.

Sto. Ambrósio

Explica: “Como o fermento invade a massa, assim o


luto, a prece, a dor da Igreja aproveita ao pecador peni-
tente.

Sto. Agostinho

Moisés intercedeu por Israel (Ex 27), para nosso e-


xemplo. “Quando nossos méritos nos pesam, impedindo
de sermos amados por Deus, podemos se auxiliados ser-
vindo-nos dos méritos daqueles que ele ama”. Agostinho
deve ter pensado em sua santa mãe, cujas orações e lá-
322

grimas o reconduziram à salvação. Mas a modéstia cristã


hesita apontar nomes de ascetas ao lado de Moisés. A
época heróica do martírio havia passado.

Cassiano

Porta-voz dos monges do Oriente informa-nos:


1. Tarefa especial, ou até diria, o esporte dos mon-
ges do Egito foi a luta contra os demônios. Luta “apostóli-
ca”, visando libertar a Igreja e seus membros da influência
maléfica do Mal. Expulsam o demônio seguindo a receita
evangélica de Mt 17,21: “Não se expulsam, senão por
força de jejum e oração”, portanto, pela penitência expia-
tória supletória.
Aliás, os monges aplicaram o axioma evangélico, em
primeiro lugar, à sua própria pessoa, e não lhes veio a
idéia de bancar redentores da humanidade pecadora. O
rival também era de tamanho superior e a luta desigual
para humanos (São Paulo ter-lhes-ia gritado: revesti-vos
de Cristo).
2. Outro encargo monástico é a prece de petição pe-
lo povo de Deus. Esta “terceira espécie de oração”, de
interceder pelo próximo, cabe de um modo especial aos
“perfeitos”.
3. Ainda o caso dos irmãos monges na Vida dos An-
tigos Padres (citado por Sto. Tomás, Supl 13,2): Foram à
cidade vender seus trabalhos. Um caiu na tentação com
mulher e, sentindo-se indigno, não quis retornar ao mos-
teiro. Então, o irmão fingiu ter caído também no pecado:
“Mas vamos voltar, acusar-nos e fazer penitência.” Dito e
feito. Poucos dias depois, Deus revelou que um era ino-
cente e o outro tinha sido perdoado por causa do irmão.
Remata o cronista: isto se chama dar sua alma pelo ir-
mão.
323

São Bento

Responde pelo monaquismo ocidental. Indica mo-


destamente como fim da vida monástica, no prólogo da
regra, que “o monge participa da paixão de Cristo, a fim
de ter também parte no seu reino”.
Humilde, não se julga competente para completar a
redenção de valor infinito. Pelo próximo, seu irmão, o
monge oferece o saltério recitado em nome da Igreja.
Quanto aos méritos de sua vida penitente, nem pensa. E
tudo o mais está aos cuidados de Cristo, chefe, supremo
abade e Pai da cristandade.

Concluindo

A idéia da expiação substituinte está em estado em-


brionário. A teoria, entenda-se. A prática espiritual deve
ter agido por intuição e carisma.
A semente evangélica e paulina por fim germina,
brota e torna-se árvore frondosa e florida no segundo mi-
lênio cristão, progredindo até seu auge na devoção ao
Sagrado Coração. E por fim, a evolução espiritual dos
séculos recebe a aprovação oficial do magistério, por Pio
XI, em 1928.
Talvez tenha contribuído, para retardar esse desen-
volvimento doutrinal, a reflexão de humildade mais que
justificada: mesmo sendo pecador, como interceder pe-
rante Deus pelos semelhantes? Até que (a meu ver) Deus
mesmo sugeriu aos carismáticos a expiação suplementar,
convidando-os a colaborar, isto é, no caso, a “con-
sofrer”...
Como desagravar e consolar Jesus na sua paixão,
se nós todos pecadores somos a causa de seus males?...
Até que o amor sobrepuja os receios da própria indignida-
de. Assim o segundo milênio, suscitando a devoção à
324

Paixão, às Cinco Chagas, ao Coração de Jesus, abriu


caminho.
Quero crer que esse embaraço doutrinal se deva a-
tribuir também à falta de literatura mais autobiográfica.
Falta a literatura espiritual introspectiva até o início da I-
dade Média. Antes temos quase só alguns poucos trata-
dos teológicos e a grande massa de sermões populares,
sermões paroquiais, que não perdem tempo com alta mís-
tica. Os sermonários populares dos Santos Padres prefe-
rem ser realistas e cuidar dos fundamentos da vida espiri-
tual. Logo que surge uma literatura eclesial mais intros-
pectiva, aparecem informações abundantes sobre expia-
ção e almas vítimas. Haja vista, Inês de Viterbo, +1252, a
francesa Lidwina, a beata Alpais, +1211.
Um texto casual de São Gregório Mago, +604, (Car-
tas 26): Roma conta com três mil religiosos “e sua vida é
tal que às suas lágrimas e abstinências rigorosas” deve-
mos a graça de Roma não ter sido invadida pelos longo-
bardos.
Se Deus atualmente recorre ao regime de vítimas
convocadas por ele, tal deve ter sido a economia de sal-
vação também no primeiro milênio, mas ficou tudo encer-
rado no segredo do coração das almas santas e eleitas.

São Bernardo

Tem a feliz idéia de aproveitar o trabalho já feito... e


feito por quem pode... isto é, de aproveitar a paixão de
Jesus. Antecipou mesmo o elevador de Sta. Teresinha.
Escreve: “Desde o início da minha conversão, irmãos, em
vez de méritos que, eu o sabia, me faltavam, recolhi e
segurei sobre meu coração este buquê de mirra formado
pelas angústias e amarguras de meu Senhor. Eu pus ali
primeiro as privações de sua infância. Depois, os labores
de suas pregações, as canseiras de suas caminhadas, as
325

suas vigílias noturnas em oração, suas tentações e jejuns


no deserto, suas lágrimas de compaixão, as traições das
disputas, os perigos de falsos irmãos, os insultos, cuspi-
das, bofetadas, caçoadas, batidas e tudo quanto sofreu,
na floresta das suas dores, pela salvação do gênero hu-
mano. Julguei não dever esquecer a mirra que bebeu na
cruz... a amargura dos meus pecados...
Por toda a minha vida lembrar-me-ei da sua abun-
dância e suavidade, e não esquecerei jamais seus gestos
de misericórdia que me deram a vida”
São Bernardo dá-nos a primeira referência clara do
valor redentor do sofrimento. Exorta seus monges: “De-
veis molhar, com vossas lágrimas, todo bocado de pão
que tomais. Entramos neste mosteiro para chorar as nos-
sas culpas e as do povo. Comendo o pão que os fiéis nos
dão, nós comemos seus pecados para chorá-los como se
fossem nossos”. Assim São Bernardo ressuscitou o texto
de São Jerônimo, dando-lhe um sentido inequívoco de
penitência expiatória suplente; só falta a referência à Pai-
xão. Esta ligação fez, no século seguinte, uma sua discí-
pula, Sta. Lutgarda, Ord. Cist., 1182-1246.

Sta. Lutgarda

Devota do Coração de Jesus e das cinco chagas, foi


encarregada por Jesus de viver rezando e penitenciando-
se pelos pecadores. Merece destaque outro cisterciense
do mesmo século:
`
Helinardo, +1235

Ele antecipou Pascal dizendo: “O corpo místico ain-


da não nasceu inteiro. Ele nasce toda vez que uma alma
se torna cristã... E ele ainda não padeceu toda a sua pai-
xão: até o fim dos tempos ele sofrerá em seus membros”.
326

Sta. Hildegardis

Contemporânea de São Bernardo, reduz toda peni-


tência ao bom exemplo que as monjas dão na imitação
dos anjos e no desprezo do mundo. “Elas imitam a paixão
do meu Filho e suas penitências; contribuem com brilho
vívido ao ornato da Igreja”.

São Francisco

A voz do crucifixo alerta: “Francisco, vai reconstruir


minha casa que está prestes a ruir”. Francisco não tardou
a descobrir que não se tratava da igrejinha de São Dami-
ão, mas da Igreja de Cristo. Chamado a segurar o palácio
do Latrão, ameaçado de ruir (sonho de Inocêncio III), isto
é, chamado a renovar a Igreja, Francisco funda a Ordem
da Penitência e do amor ao Crucificado. Não somente
para dar testemunho ao povo de Deus, mas também, ou
sobretudo, para ser um aqueduto de graças para a cris-
tandade. Fez-se vítima pelos irmãos, eleito por Cristo co-
mo porta-bandeira dos estigmatizados. O supremo favor
que ele pede ao Crucificado: “Sentir no corpo e na alma
as dores da Paixão”. E a segunda graça: “Residir em meu
coração, enquanto possível, aquele amor que ardia em Ti,
ó Filho de Deus, e que te levou a sofrer tanta pena por
nós, miseráveis pecadores” (Fioretti). E Francisco restau-
rou a casa de Deus pela pregação, e mais ainda pela ora-
ção e penitência dos irmãos.

Sto. Tomás de Aquino

Cristo mereceu por nós e satisfez por todos, porque


somos um com ele: ele a cabeça; nós, os seus membros.
Assim automaticamente passam os méritos e satisfações
327

da cabeça para o corpo.


Há também intercâmbio entre os membros. “Com
respeito à remissão das penas, um pode merecer por ou-
tro, e o ato de um transfere-se a outro mediante a carida-
de, pela qual somos todos um em Cristo” (Suppl. 13,2).
Mas o texto pivô, “completar a paixão” (Cl 1,24),
Tomás interpreta-o de maneira divergente, dizendo: “Os
padecimentos dos santos (na terra) aproveitam à Igreja,
não como redenção, mas como exortação e bom exem-
plo” (segundo 2 Cor 4,8;5,3 [sic?]). Tomás acentua, pois,
o valor infinito da redenção de Jesus, ao qual é impossível
fazer um acréscimo.
Evoluindo a tradição eclesial, mais por intuição ca-
rismática do que especulação teológica, aprofundou o
problema. Distinguiu entre redenção objetiva e redenção
subjetiva, sendo a primeira realizada por Jesus sozinho,
em super-abundância. Na segunda, na distribuição da
graça, Jesus pode admitir e de fato pede colaboradores.
A idéia da expiação suplementar pelos pecadores,
em união com Cristo padecente, progride e recebe cada
vez mais colaboradores voluntários e generosos. O clarão
fugaz bernardino que iluminou o horizonte por um mo-
mento (Vandenbroucke) a partir do século XIII, faz-se ar-
co-íris da paz. Chegou seu kairós.
Sta. Lutgarda penitencia-se pelos pecadores e pro-
paga a devoção ao Sagrado Coração. Ângela de Foligno,
+1309, preconiza a devoção ao sofrimento, seguindo as
pegadas de São Francisco. Aliás, já meio século antes,
sua patrícia e irmã terceira, Sta. Inês de Viterbo, +1252,
reconhece-se vítima expiatória pela Igreja ameaçada pelo
imperador gibelino Frederico II.
Alma vítima em sentido formal é Sta. Catarina de
Sena. Diálogo, Cartas e vida dão testemunho. Aos sete
anos começa por tomar três disciplinas por dia; a primeira
por si, a segunda pelos pecadores, a terceira, pelas almas
328

do Purgatório. Ainda na última carta a Raimundo escreve:


“Ó Deus eterno, aceita o sacrifício da minha vida pelo
corpo místico da santa Igreja”.
Também no norte europeu desse século, estão a flo-
rir as rosas da paixão: Henrique Suso, OP, e se saboroso
livrinho da Eterna Sabedoria, e Tauler, em seus sermões
da mais sublime espiritualidade.
E começou a procissão dos estigmatizados: visíveis
e invisíveis. Sta. Catarina traz as marcas de Jesus. O
Crucificado torna-se o grande modelo a meditar e a copi-
ar. Sto. Inácio de Loiola coloca o pecador perante o cruci-
fixo: “Que fiz eu por ele? Que farei?” Pascal presenteia-
nos com a famosa sentença: “Jesus está em agonia até
ao fim do mundo? Não se deve dormir durante este tem-
po”. Embora desagravo e reparação expiatória não lhe
pudessem interessar, como jansenista que era; estava
predestinado, e bastava agradecer a Deus.
É lei da economia salvífica da Redenção que “Jesus,
por não poder mais sofrer, se faz substituir por seus ami-
gos” (MATILDE DE HELFTA, Obras, 36).
Como remate final, o texto grandioso e gracioso de
Sta. Gertrudes de Helfta: “Metade do Corpo Místico de
Cristo Jesus está coberta de vestidos ricos, com todo o
luxo; a outra metade está nua, coberta de feridas e esca-
ras, representando os imperfeitos. E Nosso Senhor deseja
que suas feridas sejam tratadas e curadas. E curadas
com mãos macias e suaves, não à ferro e fogo” (3, 69).
As graças do corpo místico de Jesus são bens comuns,
intercomunicáveis (3, 69).
Ampliando a alegoria, veremos na visão que a mor
parte do Cristo místico só veste chita barata. É raro o ves-
tido de púrpura, do flamejante amor de Deus.

EXPIAÇÃO E MAGISTÉRIO
329

O Magistério explicou e recomendou aos fiéis o de-


sagravo, a expiação e a reparação em quatro encíclicas.

Pio XI
Dedicou ao assunto toda a encíclica Miserentíssimus
Redemptor, 1928: “A tarefa da expiação suplente é de
todo o gênero humano”. Portanto, não só os místicos,
mas todos os cristãos comuns podem e devem oferecer a
Deus desagravo pelos pecados da humanidade. “Nenhu-
ma criatura poderia expiar os crimes da humanidade”. Por
isto, Cristo se ofereceu (Hb 10,5).
Podemos, e até devemos, juntar nossas preces e
expiações às de Cristo. “Principalmente na Santa Missa
os fiéis ofereçam-se como hóstias vivas, santas, agradá-
veis a Deus (Rm 12,1). São Cipriano não hesita em afir-
mar que o sacrifício do Senhor não se celebra com devida
santidade se a nossa oblação e nosso sacrifício não lhe
correspondem”.
Jesus pediu a Hora Santa e a comunhão reparadora.
“A paixão expiatória de Cristo é renovada, continua-
da e completada em seu corpo místico, como disso dá
mostras o Senhor Jesus, dizendo a Saulo: por que me
persegues? (Atos 9,5)... É justo, pois, que Cristo, pade-
cendo ainda em seu corpo místico, deseje ter-nos como
sócios em sua expiação. E nossa ligação com ele exige-o.
Visto que pertencemos ao seu corpo (1 Cor 12, 27), é
preciso que tudo quanto a cabeça sofra, seja partilhado
por todos os membros”.
Em 1934, Pio XI retorna ao tema: “A alma crucifica-
da com Cristo por um martírio do coração adquire, para si
e para os outros, abundantes frutos de salvação. São es-
tas almas puras e sublimes que padecendo, amando, re-
zando, realizam na Igreja um apostolado silencioso, pro-
veitoso para todos”.
330

Pio XII

Abordou o tema três vezes na: Mystici corporis,


1943, na Mediator Dei, 1947, na Haurietis aquas, 1956.
Citamos alguns textos da “Mystici corporis”:
“Cristo adquiriu a Igreja com seu sangue (Atos 20,
28), e seus membros gloriam-se de serem remidos por
uma cabeça coroada de espinhos: prova manifesta de
que as obras mais gloriosas e exímias só nascem da dor”
(1Pd 4,13)...
“A fim de remir a humanidade por meio de suas do-
res e torturas, o Verbo de Deus quis usar da nossa natu-
reza. Assim também, a Igreja usa da sua, a fim de conti-
nuar a obra iniciada” (1 Cor 12,21)...
“Nosso Salvador quer ser coadjuvado, na execução
da obra redentora, pelos membros do corpo místico,
quando se trata de distribuir aquele tesouro... mistério
tremendo e nunca assaz meditando, que a salvação de
muitos depende das orações e mortificações voluntárias
dos membros do corpo místico... Se muitos ainda vivem
no erro, longe da verdade católica ... isso acontece por-
que não somente eles mas também os fiéis não rezam
com fervor por essa causa”...
“Nossas dores devem unir-se aos padecimentos do
Divino Redentor. Seja isto ofício de todos. Principalmente
nesta tremenda deflagração bélica... Ouçamos ainda Leão
Magno, quando afirma que pelo batismo nos tornamos
carne do Crucificado”.

Concílio

O Concílio Vaticano II vê na ceia pascal a renovação


cotidiana da “obra de nossa redenção” (LG 3).
E o povo de Deus dela participa “sendo vítima com a
Vítima” (LG 11).
331

Todo o povo de Deus participa do sacerdócio de


Cristo; portanto, ofereça-se “como hóstia viva, santa, a-
gradável a Deus” (Rm 12, 1; LG 10).
“E todas as ações da vida cotidiana dos fiéis unidas
aos sacrifício eucarístico... tornaram-se hóstias espiritu-
ais” (LG 34).

EXPIAÇÃO NA REFLEXÃO TEOLÓGICA

1. Fomos solidários, tristemente solidários, no peca-


do original para a nossa perdição. Por mercê de Deus,
somos agora também solidários na redenção com Cristo
para a salvação do nosso irmão.
2. A razão disto é a grandiosa realidade do corpo
místico. A humanidade remida forma com seu Redentor
um organismo espiritual. E se a cabeça do corpo místico é
vítima, deseja-se, ou melhor, exige a lógica que os mem-
bros também sejam vítimas pois devem ser da mesma
natureza.
3. O batismo enxerta-nos na morte de Cristo (Rm 6).
Somos enxertados como galhos de oliveira (Rm 11,17) no
Cristo crucificado, em Cristo-vítima. Cabe, pois, a todos
os batizados o poder e o dever de desagravo, de repara-
ção.
4. O sacerdócio espiritual, participado por toda a
cristandade, impõe também a todos o poder e o dever de
expiar o pecado, a ofensa a Deus.
5. Pertencemos a Cristo. Ora, sua missão essencial
foi a reparação, o desagravo ao Pai celeste, a redenção.
E há um só Cristo para todos, e este, crucificado (1 Cor
2,2). Há um só, igual para todos, protesta São Paulo (1
Cor 1,13).
Cristo mesmo explicou aos discípulos de Emaús e a
nós, os epígonos: “Ó homens, sem critério e sem visão;
tão lentos de coração para crer nos profetas: Não era ne-
332

cessário que o Cristo padecesse tudo aquilo para entrar


na glória?” (Lc 24,25). Aqui também vale: “Eis que vos dei
o exemplo” (Jo 13,15).

Sofrer?

Por que sofrer, se Jesus já sofreu o bastante, em


super-abundância?
Resposta: “O mundo está todo entregue ao mal” (1
Jo 5,19). Apesar da salvação sangrenta por Cristo, o
mundo continua despreocupado em sua faina de pecar,
de ofender a Deus. As mágoas do coração de Deus conti-
nuam, depois do Calvário, profundas como no tempo do
paganismo. Quão numerosos são os pecadores profissio-
nais e vitalícios! Provavelmente constituam até a maioria.
“Há abismos em volta de nós” (Walcherem)
Estes pecadores já gastaram a herança paterna das
graças de salvação. Já esgotaram sua quota, sua ração.
Necessitam de mais graças, de mais auxílios divinos.
Como consegui-los? Fácil: rezando. Mas eles não rezam
nunca. Por preguiça, ou por princípio, isto é, por estupi-
dez. São abismos que se mostram hiantes. Jesus já fez
sua parte. Então a misericórdia de Deus recorre a seus
irmãos e irmãs na terra. Recurso de emergência. De
S.O.S., ao pé da letra. E o Salvador aparece de novo na
terra, caminhando por entre as nações. E pergunta aqui e
acolá: Não queres aceitar algum sofrimento suplementar
por teu irmão em perigo? E corações generosos respon-
dem: sim.

Ressuscitou

Jesus está no céu, não sofre mais; já passou tudo.


Mas sofreu na terra. Sofreu a valer.
1. “Quem ama, compreende”, diz Pio XI, citando Sto.
333

Agostinho.
2. Semanalmente repetimos no saltério: “O impropé-
rio partiu-me o coração. Desfaleci. Esperei por quem se
apiedasse de mim, mas não veio ninguém. Por quem me
confortasse, mas não encontrei” (Sl 68,21).
3. Cristo na terra continua perseguido. Como ele
mesmo em pessoa explicou a São Paulo, no caminho a
Damasco: “Por que me persegues?”
4. Cristo na terra continua sofrendo, ferido, chagado
por nossos pecados. Nossos pecados são outras tantas
feridas no corpo de Cristo. Merecem especial amor os
pecadores porque são a parte mais doente, mais dolorida
do corpo místico de Jesus. São feridas que pedem o bál-
samo do bom samaritano. Pedem o sofrimento expiatório
de almas vítimas. A agonia de Cristo continua até o fim do
mundo.
5. Assim como os nossos pecados do século XX a-
charam um jeito de se apresentar no ano trinta do século
I, no horto, na Via-Sacra, no Calvário, assim também os
nossos desagravos, nossos sofrimentos de expiação,
nossas pobres palavras de consolo a Jesus encontrarão
também o jeito de retroceder os 1900 anos, e acompa-
nhar a Cristo em sua Paixão.
6. Não somente o Cristo doloroso é objeto de desa-
gravo, mas toda a Santíssima Trindade, que é ofendida e
injuriada todos os dias, e a todas as horas, pelos pecados
das criaturas. E é um assunto sempre atual, não é remi-
niscência histórica.

Dolorismo

Mas este desejo de sofrer é coisa desnatural, capaz


de criar complexos. Não! Jesus é o primeiro a estimular
este culto ao sofrimento, o primeiro e o mais interessado.
Ele deu o exemplo. E ele não sofreu de nenhuma doença;
334

nem física, nem metal. “Tenho de passar por um batismo


e como anseio, porque se realize” (Lc 12,50).
Desde o início, a cruz foi escândalo para os judeus e
loucura, isto é, estupidez para os gregos.

Crueldade?

A justiça vindicativa de Deus afigura-se cruel. Por


que exigir compensação, em forma de castigo, de sofri-
mento inútil? Por que desagravo da justiça, como se Deus
Pai precisasse descarregar sua cólera ou seus nervos?...
Antropoformismos contestados pela cruz, pela maior
expressão do amor do Pai celeste, pelas suas criaturas na
terra.
1. Deus é justo. E não se deixa guiar por ressenti-
mentos, como nós.
2. Cruel é o pecado. Temos uma idéia muito imper-
feita, mesquinha do pecado-ofensa a Deus. O pecado tem
Deus em conta de nada. Quer suprimi-lo. É praticamente
deicídio formal, embora ineficaz.
3. Jesus morreu vítima de dor. Quaisquer que sejam
as tão discutidas teorias atuais sobre a redenção, o certo
é que Jesus escolheu para si o caminho da dor e da mor-
te. Segundo Hb 12,2, “em lugar do gozo, abraçou a cruz”.
E Jesus escolhe o mesmo caminho para as almas
convidadas à cooperação redentora. “Se o grão de trigo
não morrer e não for enterrado, não produzirá fruto”. É a
resposta às ironias cínicas de Nietzsche e ao otimismo
beato de Chardin.
“Por que foi preciso que o sofrimento redentor de
Cristo fosse tão terrível? Não há outra resposta senão seu
amor... Ele quis descer até o fundo de sua tragédia”
(Journet). Quis ser “provado em tudo como nós, com ex-
ceção do pecado” (Hb 4,15). “Amou-nos e lavou-nos em
seu sangue” (Ap 1,5).
335

“Ninguém tem maior amor”.. (Jo 15,13).


“Acredita, minha filha, diz Jesus a Sta. Teresa
d’Ávila, os que recebem do meu Pai maiores sofrimentos
são os mais queridos. Os sofrimentos são medida do seu
amor...Posso mostrar melhor a minha predileção do que
escolhendo para ti o que escolhi para mim? Olha estas
chagas! Tuas dores nunca chegarão a tanto... É este o
caminho da verdade. Assim, me ajudarás a deplorar a
perdição em que andam as pessoas do mundo”.

Recapitulando

1. A dor, o sofrimento físico ou moral, não é castigo.


O Livro da Sabedoria (1,13) protesta: “Não foi Deus que
fez a morte”. O sofrimento não estava previsto no princí-
pio da criação. O pecado forçou a mudança de regime. E
a sabedoria e bondade divinas souberam tirar uma vanta-
gem maior. Pela receita de Rm 8,25, “Para aqueles que
amam a Deus, tudo redunda para o seu bem”.
2. O sofrimento tornou-se salvífico mediante a cruz
de Jesus. Em virtude do corpo místico realiza-se a rever-
sibilidade do valor satisfatório de nossas ações. Efeito da
comunhão dos santos no reino de Deus. E Deus aceita
esta substituição penal com a mesma prontidão com que
acolhe em nosso favor a oferta do seu Filho Unigênito na
cruz.
3. Nossa salvação toda é fruto de desagravo, de ex-
piação, de redenção suplente. Cl 2,14 usa uma expressão
interessante: “Deus anulou o título de dívida, pregando-o
na cruz”. “A doutrina da reparação, da expiação, é essen-
cial ao cristianismo. Deus quis salvar os pecadores pelos
pecadores” (Bro OP)
Digam o que quiseram: há uma dívida a pagar, mas
a pagar pela cruz de Jesus. O mal é que os seus não o
receberam. O amor de um crucificado não foi aceito. Este
336

mal deve ser reparado.


4. A redenção é sempre atual, porque são sempre
atuais os pecados, os meus, os nossos. E as almas hu-
manas ou se santificam neste mundo, ou se perdem. Nes-
te drama, que abrange o planeta todo e todos os conti-
nentes, neste drama, cada um de nós tem seu papel pes-
soal e ativo a desempenhar. A redenção é sempre atual
porque nós mesmos temos de ser remidos, cada dia.
5. Este drama está sempre presente entre nós: a
Santa Missa. “Todos os dias, incansável, a redenção con-
tinua a salvar os homens” (Cesário de Arles)
6. Neste drama, Deus não quer simples espectado-
res, mas que todos sejam atores. Adão foi posto no jardim
do paraíso para trabalhar.
“O homem é contra-mestre da graça” (Claude Ber-
nard). O mundo não é um espetáculo a ser contemplado,
mas uma obra a ser realizada. Se isto vale para a cidade
terrestre, urge muito mais para a cidade de Deus. Somos
uma corporação única.

Colaboração

Pede-se colaboração. Uma jovem expressou sua


desilusão e a de toda a sua geração: “Nunca seremos
grandes; nunca seremos famosos. Nem sequer estamos
em condições de ter grandeza. A história nunca de ocupa-
rá de nós”. Sob o ângulo cristão, respondo: Não apoiados,
ó filhos de Deus! E se a história não se ocupa conosco,
pior para ela. O Reino de Deus precisa de grandes douto-
res, como Agostinho, Tomás; de grandes missionários
como: Paulo, Xavier; de santos estigmatizados como
Francisco, Frei Pio; mas também da humilde Bernadete
com o terço na mão. Precisa também da colaboração do
cristão humilde, oferecendo seu trabalho de cada dia: é o
que constrói o reino das almas completando o que falta à
337

redenção.
Todo o povo de Deus está convidado a colaborar
nesta tarefa. “A graça de Cristo tem um duplo peso: o pe-
so da glória que dirige à divindade e abre espaço para a
plenitude da habitação da Santíssima Trindade. E o peso
da cruz que arrasta à seqüela de Cristo para remir com
ela o mundo.” (Journet) “O amor inclina os cristãos a se-
guir o itinerário traçado pelo Salvador. É um dos grandes
pensamentos de São Paulo que as etapas da vida de
Cristo, paixão, morte, ressurreição, deveriam reproduzir-
se de algum modo em seus membros, pois afinal somos
co-herdeiros de Cristo (Rm 8,17). A Igreja é continuação,
plenitude, pleroma do Redentor” (Berulle)

Vítimas Suplentes

Como Jesus inocente substitui a humanidade peca-


dora, assim ele procura, agora também, almas amantes
para substituir os pecadores. Primeiramente a vítima sofre
pagando suas próprias dividas no braseiro do amor. Uma
vez purificada, a vítima entre em plena função e rende
cem por cento.
O Onipotente publicou esta lei de substituição e foi o
primeiro a aplicá-la em seu Filho, mandando que resga-
tasse a humanidade pecadora por esta permuta mística.
Agora Jesus-vítima procura almas que entrem na suces-
são de seu holocausto, herdando sua missão. Tanto mais
que, depois da Ressurreição, ele é incapaz de sofrer pes-
soalmente. Se ainda quer sofrer, só o pode fazer pade-
cendo nos membros de seu corpo místico. Assim estas
almas reparadoras sobem o Calvário, e deixam-se pregar
na cruz, no lugar deixado por Jesus. Imitam-no. Fazem
mais: Dão ao Filho de Deus Onipotente o que lhe falta
agora, a possibilidade de sofrer ainda por amor a nós.
Saciam este desejo de Jesus que sobreviveu à sua morte,
338

porque é como o amor que O gerou. “São estas almas


diques de defesa contra as ondas do mar. Se não existis-
sem, a humanidade seria engolida pela cheia dos peca-
dos. Estamos pois ao abrigo destas vítimas” (Huysman)

Redenção Objetiva

Na redenção objetiva, no resgate primordial (na a-


quisição dos méritos salvíficos, como diz a Escola) não há
possibilidade da cooperação humana, com exceção da
cooperação da Santíssima Virgem. Só um Deus podia
oferecer satisfação cabal, expiação condigna; ainda mais
que todas as criaturas estavam vinculadas ao pecado ori-
ginal. Unicamente Maria Santíssima, a imaculada de todo
o pecado, está em condições de contribuir à redenção
desde o seu primeiro passo. É co-redentora, junto com
Jesus, auxiliar e subalterna. No Calvário, Maria Santíssi-
ma tornou-se nova Eva, tornou-se mãe de todos os remi-
dos, segunda mãe da humanidade (Cf. Vaticano II, LG
c.8)

Redenção Subjetiva

A cooperação na redenção subjetiva, isto é, na apli-


cação dos frutos da redenção no Calvário, é acessível à
criatura. É a missão da Igreja, corpo místico do Redentor.
Tal foi a super-abundância da redenção que ela se trans-
mite aos membros.
A Santa Missa é oferta de toda a Igreja. A Prece Eu-
carística I reza: “Nós teus servos, e todo o teu povo san-
to”. Os graus de cooperação variam: em primeiro lugar
está Cristo-cabeça; em segundo lugar estão os sacerdo-
tes; em terceiro lugar o povo de Deus. Os três oferecem e
atual sacerdotalmente e os três são vítimas oferecidas no
altar, enquanto que na cruz Jesus estava só com Maria
339

Santíssima, nas duas funções, de sacrificador e de vítima.


O grau de cooperação depende da união com o Cristo
místico.

Obras

Todas as boas obras, amar, rezar, sofrer, têm tríplice


valor: meritório, impetratório e satisfatório, ou expiatório.
1. O valor meritório é intransferível porque corres-
ponde ao grau de amor de Deus; e sendo um assunto
pessoal, não admite substitutos.
2. Valor impetratório, funda-se e apoia-se na miseri-
córdia de Deus. Seu âmbito é vasto como o universo. Seu
poder e alcance, infinitos como a misericórdia divina. Sua
eficácia para a pessoa orante é infalível diante das pro-
messas formais de Jesus nos Evangelhos.
3. Valor expiatório. O perdão da culpa não admite
suplente. É assunto íntimo e pessoal. Só se extingue pela
conversão, pelo arrependimento. Perdão da pena, sua
remissão, reparação da injúria cometida contra Deus, ad-
mite suplente.
Condição: estar na graça de Deus. Sua eficiência
não é simples conveniência baseada na bondade divina.
Como somos parte do mesmo organismo místico, nossos
bens são comunicáveis E assim podemos oferecer à justi-
ça divina um bem equivalente, condigno, como alguém
que paga dívida de amigo seu.
“A penitência de um pode transferir-se a outro medi-
ante a caridade, pela qual somos um em Cristo” (III 13,2).
4. A teologia atribui a toda ação virtuosa um valor de
merecimento por conveniência (de côngruo). Assim, po-
demos merecer para o nosso próximo até a graça primei-
ra, inicial, de conversão, coisa impossível em nosso pró-
prio proveito, porque o pecador não tem direitos ou méri-
tos sobrenaturais
340

A grande graça da perseverança final do próximo


podemos merecer na base da amizade com Deus. Nosso
própria perseverança na graça de Deus, porém, não é
objeto de mérito; deve ser pedida pela prece. E esta prece
é de efeito infalível, prometido por Jesus.
Mas deixemos de lado estas opiniões teológicas so-
bre a transmissão de graças ao próximo. Para nós basta
saber: as boas obras que mais contribuem para esta
transferência de graças e favores divinos são: amor, ora-
ção, sofrimento, a conhecida trilogia. E mãos à obra. Deus
saberá distribui-las aos necessitados.

Vaidade

Os autores espirituais previnem do perigo de nos


considerarmos alma vítima, quando somos perfeitamente
ou quase inúteis no reino de Deus, e usurpamos o título
para fomentar nossa vaidade. Advertem que é ridículo
qualquer um intitular-se alma vítima, hóstia, holocausto:
carregar-se com cruzes quiméricas e fantasias, e negli-
genciar entrementes o dever de cada dia.
Mas o abuso não tolhe o bom uso.
E é mister gravar, na mente de todos, que o nosso
sacrifício e sofrimento tem valor de satisfação e expiação
unicamente porque Cristo morreu primeiro na cruz, “sinal
dos tempos da graça” (1 Tm 2,6). Em seguida, incorpo-
rou-nos pela graça santificante e pelo caráter batismal em
seu corpo místico. E agora, só agora, estamos em situa-
ção de poder expiar; capacitados para o desagravo a
Deus. Tudo quanto oferecemos em expiação são os so-
frimentos de Cristo na cruz, dos quais participamos como
filhos de Deus. Dos quais podemos dispor como irmãos
do Filho de Deus, como partes de seu corpo místico.
Sta. Teresa d’Ávila, planejando a fundação de um
novo Carmelo, disse: “Teresa e um ducado de ouro não
341

valem nada. Mas Jesus, Teresa e um ducado valem mui-


to”. Nossa ação só terá grandeza e eficiência se for unida,
bem unida à do Redentor. Só então é que vale a palavra
do Papa Leão Magno: “Pelo batismo tornamo-nos carne
do Crucificado”. É sempre a velha história: o homem pen-
sa poder dar a Deus algo de valor, quando de fato nada
tem, nada que possa interessar a Deus. E para o reino só
interessa se for um ato sobrenatural, isto é, realizado em
colaboração com Cristo pela graça e pelo amor. Só assim,
estará no nível. E desagravará a Santíssima Trindade a-
penas na proporção dessa união com Cristo Místico.
Por isso, precisamos arder. Sta. Teresinha queria
ser apóstola, missionária no mundo inteiro, profeta... Pa-
rece entusiasmo poético. Mas sua vida é comentário au-
têntico, mostrando que não era simples fraseado, mas
realidade divina, ardente de amor.

Presunção

Foi dito: oferecer-se como vítima de expiação é pre-


sunção tremenda para os principiantes na vida espiritual
(Marin). Todavia, Pio XI afirma: “A expiação é dever de
todos os batizados”... Enfim, há vítimas de todos os graus
de intensidade, desde o número um, até quase o infinito.
Desde o humilde pecador, recém-convertido, rezando de
braços em cruz o terço pelos companheiros, até a Virgem-
Mãe do Salvador, rainha das almas vítimas. O Mestre a-
ceitou de boa mente também o óbulo da pobre viúva “por-
que deu de sua indigência tudo quanto tinha” (Mc 12,44).

Como expiar

Expiação, desagravo são necessários enquanto a


terra pecar contra o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A
compaixão pala Paixão de Jesus visa também o desagra-
342

vo da Divindade, pois o martírio de Jesus na cruz é mais


uma das injúrias do pecado contra Deus. Porque os pe-
cadores crucificam novamente o Filho de Deus e fazem-
no alvo de ludíbrio (Hb 6,6).
Expiação, satisfação, reparação, compensação rea-
lizam-se: ou, primeiro, pagando a pena devida, o que im-
plica e supõe a conversão do pecador; ou, segundo, su-
prindo a recusa de glorificar, de adorar, de amar a Deus,
recusa esta, implícita em todo o pecado.
A número um, implica sofrer mais ou menos, como
veremos depois. A número dois, porém, é acessível a to-
dos: consolar o Cristo da paixão, consolar com palavras,
por falta de melhor jeito. Um anjo do céu consolou Jesus
na agonia do Horto (Lc 22,43). Daí a Hora Santa, na qual
rezamos e pedimos perdão e misericórdia, por nós e por
todos. E principalmente amamos. O pecado é sempre re-
cusa de amor. E é recusa do amor infinito de Deus, amor
de Deus que foi até à loucura.
Desagravo de injúria reclama sofrimento; por isso
oferecemos a Deus os sofrimentos de Jesus. Eles foram
sofridos como compensação das injúrias do pecado. Ofe-
recemos em desagravo, as Cinco Chagas, o precioso
Sangue, a ferida do Coração. Oferecemos o sacrifício da
missa, pois a Santa Missa é a paixão de Jesus cotidiana-
mente presente entre nós.
Enfim, em questão de sofrimentos, aproveitamos an-
tes o trabalho já feito. E bem feito, na cruz. Depois, acei-
tamos os sofrimentos que a bondade de Deus se dignar
enviar-nos. Pedir sofrimentos? Dizem os tratadistas que
requer prudência (mas o pedido vai a Jesus e ele tem pru-
dência, segundo Mt 7,10).
Requer, sim, humildade. Ou melhor, requer convite.
Siga a atitude de Sta. Teresinha.
343

Concluindo

1. Em primeiro lugar, e sempre à mão, nossas pala-


vras de consolo, de compaixão, de amor. Jesus pediu a
Sta. Margarida Alaquoque a Hora Santa nas quintas-
feiras, das onze à meia noite. Pediu a comunhão repara-
dora nas primeiras sextas-feiras de cada mês.
2. Sofrer, se tiver uma oportunidade (!) com e por
Jesus. “Doentes são radioemissores da graça”. Valor re-
almente expiatório cabe à dor, física e moral, tão somente
se é sofrida por amor de Deus. O pecador apegado ainda
ao pecado, portanto inimigo de Deus, não está em condi-
ções de oferecer a Deus algo que seja do seu agrado.
O valor expiatório sobe com a intensidade e a dura-
ção do sofrimento. Qual a escala de valores, ignoramos.
Mas podemos dizer que um pequeno sofrimento, ofereci-
do com um grande amor, agrada mais que o inverso. E
tudo que agrada, satisfaz e desagrava.
3. Sofrer a vida cotidiana. Para reparar, nada mais
indicado do que a vida cristã de cada dia, vivida na fideli-
dade ao dever, ao trabalho, na caridade fraterna, vivida
num grande amor a Deus e, eis sua terceira dimensão,
associada à paixão de Jesus, oferecida em expiação.
4. Sugerimos uma penitência-mortificação: conten-
tar-nos apenas com Deus. Em sua forma elementar, é
essencial à existência cristã e indispensável. Mas o amor
de Deus eleva-a a altura vertiginosas. É o desapego dos
tratados ascéticos. Ou expresso em outra fórmula e sob
outro ângulo: é procurar em tudo, apenas o agrado do
Pai. Rigorosamente em tudo, apenas o agrado do Pai.
Rigorosamente em tudo, de manhã à noite. Como fez Je-
sus: “Faço sempre o que é do agrado do meu Pai” (Jo
8,29). Eis a suma de toda espiritualidade. Eis a suma san-
tidade.
344

Pecados

O primeiro assunto para a reparação são os próprios


pecados. Quem porventura não tiver material, faça como
Sto. Agostinho, e terá assunto e motivo de sobra: “Deveis
crer que Deus perdoou todos os pecados nos quais a sua
graça vos impediu de cair”.
Pode expiar pelos outros quem ainda tiver a pagar
as próprias dívidas. Pode e deve. Deixa tuas dívidas pes-
soais para depois, e pensa primeiro em socorrer aqueles
teus irmãos que estão em perigo de perder tudo. teu caso
pessoal não tem pressa. Mas quero crer que, pagando
dívidas de outros irmãos em Cristo, recebes também teu
desconto na mesma proporção.
Todavia, ser vítima, no sentido pleno, que talvez se
consagra a Deus por voto de vítima, supõe ter liquidado
todas as dívidas pessoais, manchas e defeitos da alma.
Parece. Falando em linguagem técnica: após a noite do
espírito e suas purificações. Então, todo o seu ser e tudo
quanto faz é expiatório. À semelhança do Salvador.

Justiça - Amor?

Um estrago feito num objeto material, por exemplo,


num automóvel, exige reparação por justiça. A lesão da
boa reputação, embora assunto imaterial, é questão de
justiça. Mas há outros domínios onde a justiça não basta
(Rondet). Uma injúria entre marido e esposa, entre pais e
filhos, não se repara por um ato de justiça, por generosa
que seja a reparação; exige também amor. Entre Deus e
nós: o pecado ofende a Deus e exige desagravo por justi-
ça. Jesus, por sua paixão dolorosa satisfez plenamente à
justiça do Pai em nosso lugar. Mas há mais: “O pecado é
injúria à grandeza de Deus e ofensa à sua honra, mas
acima de tudo é recusa de amar” (Rondet). O amor de
345

Deus foi até a loucura. Compreensíveis as loucuras de


amor dos santos. Ainda mais sendo aguilhoados pelo
pouco caso da humanidade, por seu ódio ao amor de
Deus. Portanto, o amor é elemento indispensável na expi-
ação. Mas por que Deus exige expressamente de alguns
santos também as macerações e mortificações? É a parte
da justiça. Porque o pecado é injúria, é injustiça. É o que
falta para completar a paixão. São as dores do Cristo mís-
tico.
“Nós e Cristo somos o Cristo total”, diz Sto. Agosti-
nho. O sofrimento do Cristo físico é completo. Mas a parte
que cabe ao corpo místico ainda está faltando. Quase se
pode dizer: que ainda falta tudo. Precisa ser completado.
Um trabalho que recomeça sempre de novo, de século
em século. E para este drama da salvação é que Jesus
pede colaboração. Conta com nosso apostolado da pala-
vra. E pede almas vítimas da oração e da dor. Convite
que Isabel da Trindade formulou com acerto e muita gra-
ça: “Quero ser para Jesus uma humanidade de acrésci-
mo, por extensão, para salvar almas junto com Ele”.

Meditando

“Jesus parece salvador infrutuoso, salvador que não


salva bastante” (Plus). Desde 1900 anos já existe o cristi-
anismo, e não chegou a implantar o reino de Deus. Não é
defeito do Salvador. Os cristãos esqueceram que o Cristo
completo, total, abrange a todos na Igreja; que todos os
membros são chamados à colaboração. E esta colabora-
ção falhou. O convite ao banquete foi feito. Mas cada um
foi para a sua fazenda tratar da sua vida.
“Que frêmito doloroso ao olharmos o Crucificado!
Não o nosso artisticamente moldado em fino metal ou
marfim, mas o Crucifixo real, verdadeiro. O Cristo estirado
sobre as duas travessas mal esquadriadas, olhando do
346

Calvário para os dois mil anos de cristianismo... De onde


veio o fracasso? É certo que não foi do sangue de Cristo.
A falha está no nosso lado...”
“Reparação não é somente uma questão de prudên-
cia: mortificar-me, a fim de manter os sentidos rebeldes
debaixo das ordens. Nem é apenas uma questão de justi-
ça: tendo pecado, devo também expiar. Mas é uma ques-
tão de amor a Jesus, e as almas às quais meu sofrimento
pode salvar” (Plus)
Há mais. Há uma tremenda responsabilidade, pois
de mim, do meu fervor ou desleixo, depende a salvação e
felicidade eterna de tantas criaturas humanas. Daí o em-
penho de entregar-se como vítima da paixão e redenção
em Bérulle, Grignion de Montfort, em Paulo da Cruz que
gravou com ferro em brasa o nome de Jesus sobre o pei-
to, ... e o Crucificado tira o braço dos cravos para abraçar
o amigo fiel.
E o inverso. Se Ario, Nestório, Lutero, Calvino tives-
sem trabalhado pela verdade e pelo amor de Deus, fica-
mos a sonhar essa outra cristandade que se teria visto na
terra.
Se na história humana acontece que o inocente pa-
ga pelo pecador, como diz o provérbio, na história da sal-
vação acontece o contrário e sempre: que o pecador se
salva pelo inocente, pela lei do solidarismo cristão, pela
união do corpo místico.

Final

“Apesar dos pesares, nós, os últimos Te aguarda-


mos. Nós Te esperamos, não obstante nossa indignidade
e contra toda esperança. E todo o amor que conseguimos
extorquir de nossos corações devastados será por Ti,
Crucificado, que por nosso amor tens suportado todas as
torturas. E que por tua vez nos torturas com toda a força
347

do teu implacável amor” (G. PAPINI, História de Cristo)


348

8. AS FONTES DA SALVAÇÃO
“No céu sempre se agradece. Na terra sempre se
pede, e cada coisa de arrepiar o cabelo dos anjos! Não
podíamos abrir uma pequena, gentil exceção e, em vez
de pedir sempre, dar?” (F. W. Faber). Já que ganhamos
afinal alguns presentes, presentes gratuitos, de elevado
valor: o precioso sangue de Cristo, as cinco chagas, o
Coração de Jesus, a Santa Missa.
A fim de expiar o pecado do mundo, devemos haurir
nestas fontes da salvação. Aproveitar o trabalho já feito. O
mundo não se converte em razão das nossas penitências
e mortificações que são perfeitamente nulas, sem valor,
mas em razão da Paixão da vítima divina.
E daí se segue que o primeiro ato é oferecer o que
Jesus padeceu. Jesus a Sta. Margarida Alacoque: “Ofere-
ce-me a meu Pai Eterno, para que aplaque sua justa ira e
incline sua misericórdia”. Margarida escusava-se de não
possuir nada a oferecer. Jesus: “Toma este coração e
oferece-O ao teu Deus. Por ele podes pagar todas as dí-
vidas. Apresenta muitas vezes a meu Pai o sangue do
meu coração. Ofereça todo o meu sangue divino; seu
preço é infinito”.
Semelhantes pedidos faz Jesus a Josefa Menendez,
que ofereça os méritos da Paixão e da Santa Missa. O
único que agrada ao Pai é seu Filho Unigênito, no qual
pôs todas as suas complacências.
Elisabet Caroni-Mora reza: “Por favor, Senhor, dize-
me que devo fazer para compensar as injúrias que rece-
bes de mim e de tantos pecadores?” “Nada mais que ofe-
recer meus méritos ao Pai Eterno”.
Gertrudes diz em nome de Cristo: “Todo pecador,
por enorme que seja o peso dos seus pecados, pode res-
pirar aliviado na esperança do perdão, oferecendo a Deus
349

Pai, minha Paixão e morte inocente”.


Em 1922, morreu no Congo africano uma menina de
14 anos, vítima de Jesus. “Quando não sofro, não sei
mais que fazer porque não tenho mais o que oferecer pe-
las almas”. Inclinamos a cabeça, estamos num santuário,
perante uma filha de Deus. Mas temos uma resposta: “O-
fereça a paixão de nosso Jesus”.
Rezamos pelos pecadores, a fim de que recebam a
graça da conversão. Não apelamos para nossos méritos.
Apelamos para a misericórdia divina. Se for necessária
uma compensação, se um peso de culpas impedir a en-
trada da graça, saberemos procurá-la na paixão de Jesus
nosso Irmão. Nas cinco fontes da salvação.

1. CINCO CHAGAS

“Abriu-lhe o lado com a lança e saiu sangue e água”


(Jo 19,34).
O rei Afonso I Henriquez enfrenta em Ourique, 1139,
cinco reis mouros. Cristo teria-lhe aparecido mostrando-
lhe as cinco chagas. Grato pela vitória, fez figurar no bra-
são de Portugal as cinco chagas de Nosso Senhor: as
quinas de Portugal. A devoção às cinco chagas de N. Se-
nhor surge na espiritualidade cristã, no segundo milênio,
particularmente com o primeiro santo estigmatizado. Um
dos primeiros textos é de um franciscano, Tiago de Milão.
“Jamais quero separar-me do crucificado. Nele quero
construir três tabernáculos: um na chaga das mãos; outro
na chaga dos pés e o terceiro na chaga do lado. Aí, falarei
ao seu coração e obterei tudo quando desejo. Por esta
entrada penetrarei até ao íntimo banquete do amor” (Es-
tímulo do amor).
Em nossos tempos, Jesus desejou recordar à cris-
tandade estas cinco fontes de salvação. Escolheu como
mensageiro uma visitandina, Maria Marta Chambon,
350

1841-1907.

Maria Marta Chambon

Seu exterior não era atraente, dizem. Algo desajeita-


da. Linguagem rústica. Inteligência frusta. Analfabeta.
Portanto, estamos longe do sorriso cativante de Sta. Te-
resinha. Mas é eleita de Deus, portadora de graças. Ainda
criança, com nove anos, viu Jesus na cruz, na sexta-feira
santa. “Não me disse nada, só ficou olhando”, narra mais
tarde. Já religiosa viu-o de novo, coroado de espinhos, a
dizer-lhe: “Eis a quem tu procuras”. Marcada pela graça,
entrou no convento de Chambéry com vinte e um anos de
idade, como irmã conversa Nunca chegou a aprender a
ler ou a escrever. As superioras faziam-se de secretárias
da mensagem de Deus. As superioras cederam somente
depois de prudentes exames por diretores espirituais e,
digamo-lo também, após experimentar os efeitos saluta-
res e inequívocos. Jesus começou por pedir que Marta
dormisse de braços em cruz, no chão da cela. Não rece-
bendo licença, passa as noites em claro, enquanto que no
chão dorme sono bem profundo como uma criança.
Em seguida Jesus exige que a irmã carregue dia e
noite um rude cilício. Depondo-o por obediência e com
alegria, pois o cilício causa-lhe dores vivas, Jesus se vin-
gou, mandando outros sofrimentos tão agudos que foi
preciso ceder.
Ainda no mesmo ano de 1866, Jesus quer que ela
ponha à noite uma coroa de espinhos. Jesus mesmo en-
sinou-lhe trançá-la. Certa noite, parecia-lhe a dor insupor-
tável. Jesus lhe diz: “Minha filha, aperte ainda um pouco
mais” e a dor desta vez desapareceu.
Abril de 1867, Jesus manda que peça licença para
comungar diariamente, permissão que logo foi concedida.
Mas em maio de 1867, Jesus pede que Marta passe as
351

noites em adoração diante do Santíssimo. Sacramento.


Assim passou a maior parte da vida sem dormir, passan-
do depois, o dia todo em trabalhos domésticos, ininterrup-
tos e fatigantes.
Em compensação, via na santa comunhão (e parece
que sempre), pela vida toda, o Menino Jesus. Em com-
pensação, também aconteceu que, interrogada como a-
güentava passar tantas horas da manhã de joelhos, em
oração e em jejum, respondeu: “Não sei, não percebo; a
gente não pensa nisto”. Fica cansada? “Oh! não, a gente
nem sabe mais onde está”. E o que diz a Jesus? “Oh!,
nada, a gente se ama”.
Durante quatro anos exigiu-lhe Jesus completa abs-
tenção de comida e bebida, deixando-lhe porém muitas
vezes a sensação de fome e sede.
Por um ano teve também as cinco chagas visíveis
no corpo; invisivelmente, só Jesus sabe por quantos anos.

Sua Missão

Sua grande missão: comunicar ao mundo as graças


das cinco chagas. São Francisco de Sales revela-lhe:
“Deus te escolheu para completar a devoção ao S. Cora-
ção. O Coração foi manifestado a Sta. Margarida Alaco-
que, e as santas chagas à minha pequena Maria Marta”.
Jesus lhe diz: “Eu te escolhi para reavivar a devoção
à minha paixão. Não tires teus olhos deste livro, e saberás
mais e melhor que os maiores teólogos. Minha filha, o fim
de tua vida consiste em ser mensageira de meu amor a
fim de que o mundo me conheça e me ame pelas cinco
chagas. Na contemplação das minhas chagas as pessoa
encontra tudo para si e para os outros... O caminho das
minhas chagas é tão simples. É o caminho mais fácil para
o céu.”
“Uma das minhas criaturas me traiu e vendeu meu
352

sangue. Mas vós podeis tão facilmente resgatá-lo gota por


gota. Uma única gota basta para purificar a terra, e vós
nem pensais nisto. Não conheceis o valor das minhas
chagas... Elas são o tesouro do mundo... são fortuna...
Darei tudo quanto se me pede pelas santas chagas. To-
dos que as venerarem, receberão profundo conhecimento
de Deus e profundo amor”. “Não deveis ficar pobres, sen-
do vosso Pai do céu tão rico. Qual a vossa riqueza? Mi-
nha Paixão. E este tesouro vos pertence”.
Jesus mostra-lhe as chagas todos os dias, ora bri-
lhantes, ora ensangüentadas. “Nestas chagas do teu es-
poso deves haurir para o mundo: eis a tua tarefa”.
Das cinco chagas faz parte proeminente a coroa de
espinhos: pés, mão esquerda, mão direita, coração, coro-
a. “Minha coroa de espinhos causou-me mais dores que
todas as outras chagas. Foi depois da agonia no horto, a
dor mais cruel. A fim de aliviá-la, observa bem a tua re-
gra”.
“A minha coroa de espinhos dou-a somente aos
meus amigos preferidos. Ela é o quinhão próprio das mi-
nhas esposas. Ela é a glória dos bem-aventurados e é o
sofrimento para meus amigos da terra”.
“Veja em que estado estou! Contempla os espinhos
da minha cabeça, oferecendo ao Pai do céu os méritos
das chagas pelos pecadores. Vai à procura de almas”.
Jesus mostra-lhe também o Coração aberto: “Põe
aqui os teus lábios, a fim de nele sorver o amor e espalhá-
lo sobre o mundo. Põe aqui tua mão, e tira meus tesou-
ros. Não consigo mais conter-me, tanto desejo dar”. Sen-
tindo-se torturada pela fome e sede, Jesus a apertou ao
seu coração: “Bebe aqui”.
Visando todas as almas consagradas, Jesus lhe diz:
“Eis o vosso centro. Ninguém vos poderá impedir de me
amar. Quero que me ameis sem apoio humano... Estou
mendigando amor perfeito. Mas a maioria recusa-me este
353

amor. Filha, ama-me acima de tudo, só por mim, como fez


Sóror Margarida”.
“Por voto obrigou-se Marta a oferecer as chagas a
Deus Pai, ao menos de dez em dez minutos, pela conver-
são dos pecadores, pelo triunfo da Igreja, pelas almas do
Purgatório. De fato, foi sua prece, interrompida apenas
pelos êxtases. Inúmeras vezes subiu ao céu a prece ar-
dente: “Pai eterno, eu te ofereço as chagas de N. Senhor
Jesus Cristo para curar as chagas das almas. Perdão e
misericórdia pelos méritos das santas chagas”. Se o seu
fervor arrefecia um pouco, Jesus em pessoa encarregava-
se de reclamar, em queixa amorosa: “As minhas chagas
estão sempre olhando para ti, mesmo que tu as esque-
ças... Estão sempre frescas; é preciso oferecê-las como
da primeira vez. Já tas mostrei tantas vezes. Devia ser o
suficiente. Mas não, tenho de inflamar o teu zelo sempre
de novo”. E apresentou-se no lastimável estado a que o
reduziram os pecados.
Certa vez, Jesus mostrou-se com uma coroa de três
fileiras de espinhos grossos, espetáculo tão doloroso, que
Marta não pôde conter-se e exclamou: “Jesus, deixa-me
ter parte também”. Imediatamente, foi atendida.
Outra vez, Jesus apresentou-se novamente na sua
vestimenta de dor e repetiu: “É preciso copiar-me”. Pouco
depois, Jesus como que pede licença: “Minha filha, que-
res ser crucificada ou preferes ser glorificada?” A resposta
generosa do amor; “Jesus, prefiro ser crucificada”.
No retiro de 1868, Jesus lhe diz: “Retira-te para o in-
terior de teu coração e fecha a porta. Queremos estar so-
zinhos”. Ao deitar-se de noite sobre o chão, com os bra-
ços em cruz, ouve Jesus dizer-lhe: “Dize-me agora: Je-
sus, eis a tua vítima”. Mas diante da cruz oferecida, a na-
tureza humana se revolta. Até meia-noite durou a luta.
Jesus insiste fazendo ver as torturas de sua paixão até
ouvir o fiat. “Filha, tua superiora te deu como livro de retiro
354

o crucifixo, eis-me aqui”. Marta passou a noite toda nesta


visão dolorosa. “Tu és mártir. Prepara-te para receber to-
das as minhas chagas, uma após outra”.

Irradiando

Jesus escolhera sua comunidade para irradiar e ini-


ciar a devoção às cinco chagas. “Filha, não penses que
posso ficar surdo às almas que invocam minhas chagas.
Não tenho o coração ingrato das criaturas humanas. Meu
coração é grande. Meu coração é sensível. A chaga do
meu coração abre-se em toda sua largura para bastar a
todas as vossas necessidades”.
“Para contemplar bem as chagas de Jesus, diz-lhe
Maria Santíssima “é mister não ter nenhum apego no co-
ração”.
Premidas pelas instâncias de Jesus e por suas pro-
messas, as superioras introduzirem a Hora Santa em lou-
vor das cinco chagas, feitas todas as sextas-feiras por
cinco voluntárias, e a recitação diária do terço das cha-
gas. Houve oposição; e se soubessem que na origem de
tudo estava a Irmã Maria Marta, irmã leiga e analfabeta,
teria havido ainda mais. Jesus mandou perseverar no
empenho. “Mas se quiserem, posso escolher outro mos-
teiro”. Uma irmã, cuja inteligência fazia autoridade, lidera-
va a oposição. Então Marta, em nome de Jesus, transmi-
tiu-lhe um segredo entre Jesus e ela, que somente ela
podia saber. Surpresa, convenceu-se da origem divina e
tornou-se defensora infatigável e propagandista das cha-
gas de Jesus.
E Jesus a renovar suas promessas: “Minhas chagas
são vossas... Quanto mais e maior a contradição, quando
mais numerosas os empecilhos, tanto mais ricas correrão
minhas graças”.
E as almas das religiosas tornaram-se conchas aber-
355

tas de incenso. Jesus aprova o louvor: “Alegra-me ver


como estais venerando as minhas chagas. Agora, posso
repartir com mais abundância as graças da redenção”...
“Vossos mosteiros atraem as misericórdias de Deus sobre
as dioceses em que se encontram. Quando ofereceis mi-
nhas chagas ao meu Pai, eu contemplo com satisfação
vossas mãos levantadas ao céu... E alcançais tudo aos
necessitados da graça... Senti-vos felizes; pois eu vos
ensinei uma oração que me desarma e vence: ‘Meu Je-
sus, perdão e misericórdia pelos méritos das vossas san-
tas chagas’. As graças que estais recebendo, por esta
prece, são graças de fogo; vêm do céu e retornam ao
céu”.

Aula Celeste

“Bom Mestre, diz Marta com simplicidade, ensina-me


o catecismo”.
E Jesus aceita: “Vai à tua casa (o Coração de Jesus)
e serei teu Mestre, ensinando-te como te sacrificar por
mim e pelo próximo”. Depois entregou-lhe o manual de
aula explicando; “O crucifixo é teu livro. Toda a ciência
está encerrada no estudo e na meditação deste livro. Os
meus santos lêem neste livro por toda a eternidade”.

Uma aula em resumo:


1. “Considera minha coroa e verás a mortificação.
2. Considera como estou desnudo na cruz e aprenda
a pobreza e a pureza do coração.
3. Considera a chaga do meu coração e aprende de
mim, e encontrarás a mansidão e humildade.
4. Considera meus braços abertos e aprenda a obe-
diência.
5. Vê-me todo coberto de feridas. Na cruz fixei mi-
nha atenção não nos algozes, nem em suas blasfêmias,
356

mas só em meu Pai. Assim, vós também deveis cumprir o


vosso dever, e fazer o que eu quero, sem respeito huma-
no, olhando para meu Pai.
6. A única ciência é a ciência do amor. Esta não se
tira dos livros. Somente a recebe a alma que medita sobre
o crucifixo e com ele conversa”.

Maria Santíssima também dignou-se ser sua profes-


sora: “Filha, tenho tanta fome de almas. Se soubesses,
quanto eu e meu Filho desejamos a sua salvação! Por
isso, reza, reza muito pelos pecadores. Assim alivias e
consolas meu coração de mãe”... “Se quereis dar-me ale-
gria, deveis colocar-vos aos pés da cruz de meu Filho, e
humildes oferecer ao Pai os seus méritos, em satisfação
dos pecados dos homens”.

E ainda uma breve aula do Pai do céu:


“Filha, deves humilhar-te muito no trabalho; e pelo
oferecimento contínuo das santas chagas do meu Filho,
deves completar o que falta na reparação e desagravo da
justiça”. A aluna interrompeu a lição exclamando: “Ó meu
bom Pai, se pudesse, ficaria já convosco”. E a resposta
consoladora também para nós: “O que farias no céu, se-
não oferecer continuamente as chagas do meu Filho? É
na tarefa dos santos na glória. Eis que é também a vossa
na terra”.

Cumpre tua missão

Irmã Marta foi nomeada missionária e seu campo de


ação abrangeu o orbe, desceu até o Purgatório. Freqüen-
temente insistia Jesus que ela cumprisse bem fielmente
sua missão. “Minha filha, deves cumprir a tua missão, que
consiste em oferecer ao Pai do céu as minhas chagas,
porque a vitória final da Igreja será realizada através des-
357

ta prática e por intermédio da Imaculada”...


“Tira, tira sem cessar destas fontes a fim de que a
Igreja alcance plena vitória... A Igreja nunca terá um triun-
fo visível. Sabe: a vitória final da Igreja consiste na salva-
ção das almas”.
Numa visão panorâmica do mundo, vê a multidão
dos pecadores: “Eu t’os mostro a fim de que não percas
teu tempo”...
“As santas chagas: eis com que pagar por todos que
têm dívidas”...
Jesus insiste no apostolado: “Vamos dois a dois
Vem, ajuda-me a colher muitas almas. Vamos sempre
lado a lado. Vem com um coração vazio, eu saberei en-
chê-lo. Vem, para ganhar almas. A grande miséria do sé-
culo é que há tão poucos que se salvam. Deveis pedir
pelos pecadores sem cessar... A justiça divina está pres-
tes a castigar o mundo pecador. Para o mundo ser rege-
nerado seria necessária uma segunda redenção.” Mas
intervêm o Pai Eterno: “Não posso crucificar meu Filho
mais uma vez”.
Irmã Marta sentia que através das santas chagas
podemos realizar esta segunda redenção.
A comunidade de suas irmãs começara a rezar o
terço das chagas pelos pecadores, e Jesus mostrou-se
agradecido. “A cada palavra que as Irmãs pronunciam no
terço da misericórdia, deixo cair uma gota do meu sangue
sobre uma alma pecadora. Cada vez que vós apagais
pecados por meio das minhas chagas, estais fazendo o-
bra maior que Verônica: enxugar e limpar meu rosto foi
fácil; tirar os pecados é bem mais difícil”.
“É dever dos religiosos, de um modo especial, salvar
almas por suas orações, sacrifícios e pela observância
regular”.
Jesus ensina uma oração forte: “Se um pecador reci-
tar com humildade: ‘Pai Eterno, ofereço as chagas de N.
358

Senhor Jesus Cristo para curar as chagas da minha al-


ma’, ele se converterá”.
Hora decisiva é a hora da morte. Para tantos é a
graça da salvação. Jesus pede: “Deves oferecer, muitas
vezes ao dia, o mérito de minhas chagas por aqueles que
morrem naquela noite ou no decorrer daquele dia... Para
a alma que morre nas minhas chagas, não há morte. Mi-
nhas chagas dão vida eterna... O caminho das minhas
chagas é caminho tão simples e tão fácil para o céu”.
Também as almas do purgatório se beneficiam com
as chagas de Jesus. Ele muitas vezes mandou almas do
Purgatório para junto da Irmã Marta, a fim de lhe pedir o
oferecimento das chagas. E depois retomaram agradeci-
das o caminho para a glória. Certa vez, doente, de cama,
Marta viu que a cada oferecimento, uma alma subia ao
céu. Na Via-Sacra recebeu a mesma graça, uma alma
libertada em cada estação. Diz-lhe Jesus: “Cada olhar
compassivo sobre minha paixão liberta cinco almas do
purgatório”.

Palavras finais

“A ciência do amor é dada à alma que contempla o


crucificado... É mister copiar-me. Todos os pintores fazem
retratos mais ou menos conformes o original. Mas aqui
sou eu o pintor, e faço minha imagem em vós, se ficais
olhando para mim... Queria ver todas as minhas esposas
transformadas em crucifixos”.
“Minha filha, tenho milhares de almas favoritas. E
sou único para cada uma delas. É um segredo de amor
que ficará unicamente entre esposo e esposa durante a
eternidade”.
“Bom Mestre, o que vais encontrar em meu miserá-
vel coração?”
“Encontrarei tudo o que eu coloquei lá dentro; e en-
359

contrarei também tuas faltas para destrui-las”.


Tendo visto seu lugar no céu, Marta pergunta: “Bom
Mestre, mas não há nada em mim que me impeça de
chegar ali?” Jesus: “Ora, se há! Mas o amor apaga tudo”.
Deseja morrer: “Jesus, aqui na terra a gente está sempre
exposto a ofender-te”. “Minha filha, o amor apaga tudo.
Quando vindes ter comigo com amor, não reparo mais em
vossas faltas. O amor apaga tudo”.
“O amor purifica tudo. Bom Mestre, é só por hoje
que estarei purificada?” “Não filha, a alma é purificada
toda vez que ela ama com amor forte. Mas deve ser amor
verdadeiro, puro e desapegado de tudo”.
“Minha união contigo é teu único bem”.

2. A SANTA FACE

“Sua face resplandecia como o sol” (Mt 17,2).


“Cuspiram nele, cobriram-lhe o rosto, deram-lhe bo-
fetadas” (Mc 14,65).
“Veremos face a face” (1 Cor 13,12).

Irmã Maria de São Pedro: 1816 - 1848

Nove anos de vida conventual. Morre, aos 32 anos,


no Carmelo de Tours. Costureira de Rennes, aborreceu-
se de passar a vida fazendo roupas para sustentar vaida-
des. Foi recebida no Carmelo de Tours como irmã leiga.
Terminando o noviciado, ficou porteira até a morte. Quis
ser a empregadinha, ou melhor, o burrinho da Sagrada
Família, lastimando que Jesus tivesse tido necessidade
de pedir emprestado o burrinho até para a sua procissão
de ramos. Mas de agora em diante teria sempre um ao
seu dispor. Conta que no noviciado os seus dias eram
“uma só peça de oração”: sucesso que tentou manter
também na portaria e parece que com sucesso.
360

Ainda postulante, Jesus vem pedir os serviços do


seu burrinho. Mostrou-lhe a multidão de almas que caem
no inferno, e pediu-lhe que lhe cedesse, em favor dos pe-
cadores, todos os seus méritos. Em troca, ele mesmo iria
ter cuidado dela, e a faria participar dos seus méritos. A
superiora, porém, não quis dar autorização para esta o-
blação total; só emprestaria a Jesus o seu burrinho. Mas
quatro anos depois, quando a irmã já era professa, con-
cordou em vender o burrinho em troca de terreno e capital
para a necessidade de transferência e reconstrução do
Carmelo.
Uma fez feita vítima, Jesus encarregou-a de fundar
uma arquiconfraria de orantes em desagravo às blasfê-
mias contra o santo nome de Deus. Fundada com apro-
vação pontifícia de 1847.
Lúcifer em pessoa, diz-lhe Cristo, guia os blasfema-
dores; são seus prediletos. As blasfêmias ferem o coração
de Jesus como flechas douradas [?] que o ferem com
prazer.
Dois anos depois, em 1845, Jesus empenha-se mais
a fundo e revela sua face, alvo das blasfêmias; pede-lhe
que seja uma Verônica amorosa a enxugar-lhe a face en-
sangüentada e insultada.
“Estou procurando Verônicas para enxugar e adorar
minha face divina”. A visão não foi imaginativa. Tendo
visto pinturas, também do quadro (dito) de Sta. Verônica,
não soube dizer se era semelhante ou não.
Os blasfemadores foram mordidos pela serpente e
pegaram a raiva; o remédio, a vacina, é olhar a face de
Cristo Jesus.
A humilde porteira do Carmelo oferece, inúmeras
vezes, sua humilde homenagem à santa face de Jesus e
exclama num arroubo; “Apertemos estas feridas divinas, e
o sangue precioso correrá em abundância sobre os peca-
dores”.
361

Jesus reafirma-lhe sempre de novo: “Pela santa face


conseguireis a salvação de muitos pecadores”. Ela nos
conta um segredo: “Eu acompanho a Santíssima Virgem,
como sua empregadinha, junto àqueles que viajam do
tempo para a eternidade”. Jesus; “Eu te seguro nas mi-
nhas mãos como uma flecha. Agora vou lançar essa fle-
cha contra os meus inimigos. Para combatê-los dou-te
como armas a minha paixão, os instrumentos do meu su-
plício. As armas dos meus inimigos causam a morte; as
minhas, dão a vida”.
“Se tu soubesses a vantagem para tua alma de so-
frer estas penas, agradecer-me-ias por tê-las dado. Bem
mereceste estas penas, por tuas infidelidades. Mas não é
para castigar, é por bondade que te dou estes sofrimen-
tos”.
“Estes blasfemadores cortaram-lhe o coração, e fize-
ram dele um segundo Lázaro coberto de chagas. Jesus
convidou-me a imitar os cães que consolavam o pobre,
lambendo-lhe as feridas. Render-lhe-ia um grande serviço
empregando minha língua a glorificar todos os dias o san-
to Nome de Deus desprezado e blasfemado”.
“Nosso Senhor fez-me ver a multidão de almas que
caem continuamente no inferno, convidando-me a socor-
rê-las... é obrigação de toda alma religiosa. Sua miseri-
córdia abriria os olhos destes pobres cegos, se almas ca-
ridosas pedissem por elas graça e misericórdia. Disse-me
N. Senhor que, assim como Ele vai pedir conta aos ricos
pelos bens temporais que lhes confiou para socorrer aos
pobres, com maior severidade pedirá contas a uma car-
melita, a uma alma religiosa, rica de todos os bens de seu
esposo, possuindo os tesouros dos méritos de sua vida e
de sua Paixão, pelo uso que deles fez; verificará se soube
haurir nestes tesouros para os pobres pecadores”.
Jesus: “Enquanto o homem está na terra, está num
estado de infância. Por esta razão deve, como criança
362

pequena, recorrer sem cessar à mãe”.


Os últimos dois anos introduzem a irmãzinha no mis-
tério da maternidade espiritual, como colaboradora, asso-
ciada da Mãe dos homens, que é a Co-redentora das al-
mas pecadoras, justamente com seu divino Filho. A última
intervenção de Jesus é um apelo angustiante, em 1848:
“A Igreja está ameaçada por terríveis tempestades... re-
za...reza... Ensinou-me a rezar aquela prece que ele reza-
ra na quinta-feira santa: “Pai santo, guarda em teu nome
aqueles que me destes” (Jo 17,11).
O fim de 1847 e o ano de 1848 passa em purificação
e provações místicas e expiatórias. Em março de 1848
ouve Jesus dizer-lhe: “Logo verás minha face no céu”. A 8
de julho de 1848 morre feita imagem do Crucificado, do
seu amor, uma chama só, o corpo inteiro.

A Sagrada Face

Convidamos as criaturas humanas a prestar o tributo


de admiração ao mais belo dos homens, o Filho da Vir-
gem Maria. Convidamos todo o orbe e expiar os insultos
que o rosto sagrado do Filho de Deus teve de suportar, da
sexta-feira santa até aos dias de hoje, insultos cuja cruel-
dade está estampada no rosto do Santo Sudário de Tu-
rim. O convite para expiar parte de Jesus em pessoa, e
traz consigo gratas promessas de amor e gratidão de gra-
ça e de glória.

1. Sta. Gertrudes de Helfta ouviu da boca de Jesus:


“Os devotos da Santa Face serão transformados numa
imagem viva da minha Divindade”.
“Quando dois rostos se defrontam, surge um silên-
cio, porque duas eternidades se antolham” (Piccard).
Quanto mais se estamos diante da Face de Cristo.
Os olhos são reflexos, revérberos do mistério da e-
363

xistência, do mistério do destino. E os olhos do Salvador


refletem os fulgores da visão eterna. No fundo da alma,
dizem os místicos medievais, tremeluz uma centelha divi-
na; está gravada desde o batismo a semelhança divina, a
face da eterna divindade.
No rosto de todos os santos brilha a face de Jesus,
seja luminosa como o Tabor, seja purpurada como o horto
das Oliveiras.

2. Sta. Matilde, a grande amiga de Sta. Gertrudes,


pediu, num arroubo espiritual, por todos aqueles que ado-
ram o doce semblante do Salvador, e Jesus afirma: “Ne-
nhum deles ficará separado de mim”. Terá, portanto, a
graça de contemplar, na glória, a Face Sagrada, por toda
a eternidade.

3. Maria de São Pedro: “Nosso Senhor prometeu,


aos que venerarem a Santa Face, imprimir-lhes na alma a
face de sua divindade”, diz irmã Maria de São Pedro,
1844.
Como Verônica, ao enxugar o rosto de Jesus, rece-
beu impressa a imagem de Cristo, assim Jesus gravará
em nossa alma sua Santa Face, tornando-nos semelhan-
tes a ele.
4. “Meu rosto é como a marca, o selo da divindade,
que transforma as almas cada vez e de novo na imagem
de Deus”. Felizes, pois, as almas que se fazem carimbar,
impregnar sempre mais, da divindade.
5. “Por minha Santa Face fareis milagres? Para quê?
Mais vale cumprir a vontade de Deus”. “Não interessa?”
“Oh!, interessa, sim!” Veja o ponto seguinte: milagres para
converter os pecadores.
6. “Pela Santa Face obtereis a salvação de muitos
pecadores”.
“Cada vez que ofereceis minha face ao meu Pai, mi-
364

nha boca pede misericórdia”. Salvar a própria alma é fácil.


E vai num instante. Um ato de amor e a graça divina já
invade e inunda a nossa alma.
Salvar os outros é um caso diferente. Custa. Mas
por quê? Deus não é Onipotente? Sim, mas ele não quer
escravos forçados em seu reino. E se a graça de Deus
convida cada dia dez, vinte ou cem vezes, o homem é
capaz de responder cem vezes não. Até o raio quente do
sol divino derreter o gelo de um coração humano, demora,
demora. Há corações supergelados.
Cabe aos devotos da Santa Face dirigir os raios da
face luminosa do Salvador até o coraçãozinho começar a
esquentar devagar e se entregar cativo ao amor divino. A
conversão de um pecador é obra maior que a criação do
mundo inteiro (F. W. Faber)
Ouçamos o repicar dos sinos e o júbilo festivo dos
anjos e bem-aventurados com a conversão de um peca-
dor.
7. “Por esta oferta nada vos será recusado. Se sou-
bésseis quão grata é ao Pai a vista da Santa Face do seu
Filho!”
Portanto, peçamos o dom de crescer sempre mais,
Deus adentro, no amor, na entrega total, na disponibilida-
de completa à vontade de Deus. Renovemos e repitamos
sempre o Fiat: Eis a tua serva; faça-se a tua vontade em
tudo e sempre.
8. A Santa Face é a moeda do reino do céu. Com a
moeda gravada com a efígie do príncipe pode-se comprar
tudo: assim também com aquela moeda celeste.
Tratemos pois, de encher a carteira com as moedas
do reino, e poderemos comprar tudo. Tudo mesmo? Ri-
quezas? Não, Deus te livre! É um perigo. Saúde? Mas
para que? Sofrer é mais útil para os dois, para Deus e
para você. Pede graças do céu. Pede para degelar o co-
ração tão frio, tão egoísta e enchê-lo com o fogo do amor
365

de Deus. Pede coisas que duram para sempre. Pede gra-


ças que te acompanharão até o além, na vida eterna.
9. “Quanto mais cuidado tiverdes em consolar e de-
sagravar o rosto insultado do Salvador, tanto mais ele res-
tituirá à nossa alma, desfigurada pelo pecado, a beleza
primitiva, a inocência batismal”.
Que consolo! Que gentileza da misericórdia divina
esta oferta generosa do Redentor! Corramos a essa ofici-
na de conserto, a esse salão de beleza, segurando na
mão o bilhete premiado: a imagem do Cristo insultado,
coroado de espinhos.
10. “Os que contemplam as feridas da minha Face,
um dia irão vê-la radiante de glória”. “Os que defendem a
minha causa, defenderei também a sua perante o Pai e
dar-lhes-ei o reino. Não morrerão da morte eterna. Enxu-
garei a face de suas almas, apagando as manchas do
pecado, restituindo-lhes a pureza batismal”.
Eis, pois, uma regeneração perfeita e um sólido pas-
saporte para a viagem do tempo para a eternidade.
A devoção à Santa Face consiste, em primeiro lugar,
em consolar a Jesus pelas injúrias sofridas manifestando
nossa compaixão. Em segundo lugar, consiste em louvar,
abençoar, santificar o nome sagrado de Deus e do seu
Unigênito, em desagravo das blasfêmias que os ímpios
lhe lançam em rosto. Consiste, em terceiro lugar, em ofe-
recer a Sagrada Face ao Pai Eterno. Entende-se oferecer
os sofrimentos do Salvador, infligidos durante a paixão ao
seu rosto, sofrimentos físicos e morais, ferimentos, insul-
tos e tudo sobre o fundo da coroa de espinhos.

Sta. Teresinha

Sta. Teresinha foi inscrita na confraria aos doze a-


nos. Viveu sua vida conventual sob a égide da Santa Fa-
ce. É seu segundo nome adotivo. “Tua face é minha única
366

pátria”. Introduziu suas noviças nesta devoção. Levou


consigo até à morte uma foto e uma mecha de cabelos da
irmã Maria de São Paulo.

Maria Pierina de Micheli, 1890 - 1945

Deus dignou-se mandar, neste século, mais uma


apóstola da Santa Face: talvez numa reposta antecipada
à teologia da morte de Deus.
Aos doze anos, esperando na fila do beijamento da
cruz, na sexta-feira santa, Pierina ouve a voz de Jesus:
“Ninguém se lembra de dar-me um beijo na face para re-
parar o beijo de Judas”.
“Custe o que custar: nem uma só gota de sangue de
Jesus deve ser inutilmente derramado”. Rezando no novi-
ciado, perante um crucifixo, Jesus lhe diz: “Beija-me”. E
ao beijá-lo, em vez do gesso, sente o rosto de Jesus.
“Desejo que a minha Face seja mais honrada...
Quem me contempla, me consola”. “Por meio da minha
Face as almas participam dos meus sofrimentos, sentem
a necessidade de amor e de reparar. E não é isto a ver-
dadeira devoção ao meu coração?” “Minha filha dileta,
renovo-te a oferta da minha Face, para que incessante-
mente a ofereças ao Eterno Pai. Com esta oferta obterás
a salvação e a santificação de muitas almas. E quando a
ofereceres pelos meus sacerdotes, operar-se-ão maravi-
lhas”. “Contempla minha sagrada Face e penetrarás nos
abismos de dor de meu coração. Consola-me, e procura
almas que se imolam comigo pela salvação do mundo”.
Maria Santíssima: “O mal está propagando-se. Os
verdadeiros apóstolos são poucos. É necessário um re-
médio divino, e esse remédio é a Santa Face de Jesus.
Visita o Santíssimo Sacramento todas as terças-feiras
para desagravar”.
Jesus: “Vês como sofro. E são pouquíssimas as al-
367

mas que me compreendem. Quanta ingratidão recebo


daqueles mesmos que dizem me amar. Dei ao mundo
meu coração como figura visível do meu amor pelos ho-
mens. Agora dou minha Face como figura visível da mi-
nha dor pelos pecados da humanidade... quero a comu-
nhão reparadora na terça-feira do carnaval”.
“Quero que minha Face seja honrada de modo es-
pecial às terças-feiras”.
“Queres participar da agonia do meu espírito no Get-
sêmani, por causa dos pecados dos meus filhos mais
queridos, pelas recusas que recebo de tantas almas reli-
giosas?”
Meditando sobre Jesus coroado de espinhos: “Que-
res participar de minha dor para reparar os pecados de
soberba das almas que me são consagradas? Se sou-
besses quantas são e como elas me ferem! ‘Desejo-o tan-
to’. Jesus respondeu: ‘Isto me basta’, e deixou-me o céu
no coração”.

3. SAGRADO CORAÇÃO

“Abriu-lhe o lado com uma lança” (Jo 19,34)

A chaga do Coração de Jesus, da qual nasceu a I-


greja e os seus sacramentos, da qual jorram todas as
graças da salvação, simbolizada pela costela de Adão, da
qual saiu a mãe de todos os viventes, sempre teve seus
devotos.
Figure aqui o mais belo texto (de Sto. Agostinho, in
Joannem, 120): “O evangelista serviu-se de uma palavra
atenciosa. A fim de não dizer: transpassou ou feriu, es-
creveu “abriu o seu lado” (Fazendo ver que) aí se descer-
rou como que a porta da vida, da qual jorraram os sacra-
mentos da Igreja, sem os quais não há acesso àquela
vida que é a verdadeira. Aquele sangue foi derramado
368

pela remissão dos pecados, e aquela água mistura-se ao


cálice da salvação. É lavacro e bebida. Foi pré-figurado
pela porta que Noé foi mandado fazer no lado da arca,
pela qual entraram os seres que não deveriam perecer
pelo dilúvio, figurando a Igreja. Por isso, a primeira mulher
foi feita do lado do homem adormecido, e foi ela chamada
vida e mãe de todos os viventes... O segundo Adão a-
dormeceu de cabeça inclinada, a fim de criar-se uma es-
posa que jorrou do costado do adormecido. Ó morte que
faz reviver os mortos! Que sangue é mais imaculado que
este? Que chaga mais salutar que esta?”
No segundo milênio São Bernardo, penetrando, en-
controu o Coração de Jesus visível e acessível, através
da chaga aberta. Seus filhos, os teólogos de Cister, inau-
guraram o culto do Coração de Jesus. Os místicos segui-
ram-nos de perto (Guerricus, Drogo).
Sta. Lutgarda, +1245, ainda jovem colegial e interna
na abadia, aguarda a visita de um pretendente, quando
surge de repente ao seu lado Jesus Cristo, mostrando-lhe
a chaga do lado e dizendo-lhe: “Não procures mais os
devaneios da afeição de uma criatura; eis aqui o que de-
ves amar e como deves amar”.
Anos depois, já consagrada a Deus pelos votos so-
lenes, receberá de Deus o dom de curar doenças. A aflu-
ência de doentes causara-lhe numerosas distrações na
oração. Queixou-se a N. Senhor; “Para que serve esta
graça que me atrapalha tantas vezes de unir-me a Ti?”
“Teu coração, Senhor, eu quero teu coração”. “E eu tam-
bém, responde Cristo, eu quero o teu”. “Assim seja, Se-
nhor!”.
Tiveram papel importante na propagação do culto ao
Sagrado Coração de Jesus as monjas de Helfta, as duas
Matildes, a de Magdeburgo e a de Helfta, e Gertrudes.
Para elas o Coração de Jesus é sede do amor divino, é
fonte de graças de redenção, é suplente de todas as nos-
369

sas deficiências, é expiação de nossas faltas, dá valor às


nossas obras É centro ao redor do qual gira a vida espiri-
tual, e oferecimento ao Pai do coração do Filho predileto.

Matilde de Magdeburgo

“Deus mostrou-me a chaga do seu coração dizendo:


vê o mal que me fizeram”.

Matilde de Helfta

Jesus aparece-lhe no altar, de braços estendidos,


jorrando sangue por todas as chagas, para aplacar. Maria
Santíssima chama a monja: “Aproxima-te e saúda a cha-
ga do coração amantíssimo”.
“Ao abrir-se o costado pela lança, brindei refresco de
vida de meu próprio coração a todos aqueles que, pelo
pecado de Adão, tragaram o porção de morte, para que
se tornem filhos da vida eterna”.
“Deposita todas as tuas penas em meu coração. Eu
lhes darei a perfeição mais elevada possível. Eu as unirei
à minha Paixão e participarão da minha glória...”
“Confia cada uma de tuas penas ao Amor’.
“Para reparar tuas negligência e reaver o tempo per-
dido, saúda meu coração, fonte de todas as graças”.
Matilde viu o coração de N. Senhor qual uma chama
de fogo. E Jesus lhe diz: “Assim queria que todos os co-
rações ardessem em chamas de amor”.
“Oferece-me, cada manhã, o teu coração para que
eu derrame nele meu divino amor”. “Minha bem-amada,
por que estás triste? Tudo o que é meu, é teu”. “Ah, se é
assim, de verdade, então teu amor é meu... ofereço-te
este amor para suprir minha falta”. E Jesus ensina a dizer:
“Jesus, eu te amo; completa por favor o que falta...”. “E se
mo disser mil vezes por dia não ficaria aborrecido ou can-
370

sado”.

Gertrudes de Helfta

Recebeu a ferida do amor. Recebeu a troco de cora-


ções. Recebeu estigmas invisíveis Jesus prende sua mão
direita à chaga do seu coração.
“Eis, aqui tens o meu coração, a lira da Santíssima
Trindade... Podes pedir-lhe com confiança que supra por
ti... meu coração está sempre diante de ti, à tua disposi-
ção, para suprir a qualquer hora tuas negligências”.
Estando impedida pela doença de cantar no coro,
Jesus a substitui: “Tu cantaste muitas vezes por meio do
meu coração. Por isso vou pagar-te com a mesma moe-
da; cantarei por ti”.

Século XV

No século XV o culto ao Sagrado Coração de Jesus


é devoção popular. Mas sobreveio a revolução religiosa,
qual uma geada. Sobreveio o tenebroso jansenismo. Je-
sus julgou necessário revelar de novo à cristandade a sua
bondade, sua misericórdia, seu amor que vence de longe
a justiça e a santidade tétrica do jansenismo.
E Jesus escolheu Sta. Margarida Alacoque.

Maria da Encarnação

Mas houve uma sua precursora, no mesmo século,


Maria da Encarnação, a ursulina, 1599-1672.
Em 1635, Deus Pai lhe diz: “Pede-me pelo Coração
de Jesus, meu Filho tão amável. É por ele que te julgarei”.
“Esforço-me por praticar os conselhos que dou, es-
pecialmente ofereço-me como vítima perpétua ao Pai E-
371

terno, pelo Coração de seu Filho bem-amado. Quero que


isto seja minha principal tarefa espiritual”.
Trinta anos mais tarde ela redige a seguinte prece:
“É através do Coração de Jesus, caminho, verdade e vi-
da, que me aproximo de Ti, Pai Eterno. Por este coração
divino, eu Te adoro por todos aqueles que não te amam.
Dou-te graças por todos os cegos voluntários, que por
desprezo não te agradecem. Por meio deste divino Cora-
ção quero satisfazer os deveres de todos os mortais. Em
espírito, faço a volta ao mundo para procurar todas as
almas resgatadas pelo sangue precioso de meu esposo
divino, a fim de satisfazer por todas este divino Coração.
Eu as abraço para apresentá-las por meio dele. E por ele
peço sua conversão. Ora, Pai Eterno, podes Tu tolerar
que elas não conheçam o meu Jesus, e que não vivam
nele que por elas morreu? Vê, divino Pai, elas nem vivem
ainda; fazei-as viver por este Coração divino. Sobre este
Coração adorável apresento-lhe também todos os operá-
rios do evangelho, a fim de que seus méritos se encham
do teu Espírito Santo...
Ó meu esposo divino, por tua divina Mãe, quero ren-
der-te graças. Apresento-te seu sagrado Coração, como
apresento o teu ao teu Pai. Permite que te ame por este
mesmo Coração que tanto te amou”.

Margarida Alacoque

Faltava realçar o desagravo, a reparação, a expia-


ção. Eis a missão de Sta. Margarida. Jesus fê-la fazer
voto de virgindade aos seis ou sete anos, e explicou-lhe
anos mais tarde: “Eu te escolhi para minha esposa; e eu
quis ser o primeiro em teu coração”. Assim a filha de São
Francisco de Sales foi encarregada de nos revelar, de um
novo modo, as dimensões do Coração de Jesus, “a largu-
ra, altura e profundidade do amor de Cristo” (Ef 3,18).
372

“Oferece-te a Jesus como uma tela branca, que a-


guarda a mão do pintor”, diz-lhe a mestra de noviças. E
Jesus explica-lhe: “Sim, irei pintar aí os traços da minha
Paixão: amor, renúncia, solidão, sacrifício”.
Preparando-se para a profissão, Jesus lhe diz:
“Lembra-te que é a um Deus crucificado que irás despo-
sar. Deves, pois, tornar-te semelhante a ele, despedindo-
te das alegrias da vida humana, pois não haverá mais
para ti a não ser as que serão atravessadas pela cruz”.
Na mesma ocasião: “Vou fazer-te ler no livro da vida
que contêm a ciência do amor: meu coração... Eis a cha-
ga do meu coração. Nela deves morar, agora e sempre,
pois que aí conservarás a veste da inocência com que te
revesti”.
E enfim a grande revelação e a grande promessa,
em 1675: “Eis o Coração que tanto amou os homens. Que
a nada se poupou para lhes provar seu Amor. Em paga,
só recebo da maior parte deles ingratidão, irreverências,
sacrilégios, frieza e desprezo com que me tratam neste
sacramento do amor. E o mais doloroso é sofrer isto de
corações que me são consagrados”.
Forneceu o fundo escuro a heresia jansenista ainda
em pleno vigor nos ambientes eclesiásticos. E Jesus re-
clama desagravo. Desagravo:
1. Por uma festa especial na sexta-feira, após a oita-
va do Corpo de Deus.
2. Pela comunhão reparadora na primeira sexta-feira
de cada mês.
3. Pela Hora Santa, expiação particular pela agonia
no horto. Jesus ainda acrescenta doze promessas para os
devotos do seu Coração. Especialmente promete a graça
da perseverança final para os que fizerem a novena de
comunhões nas primeiras sextas-feiras do mês.

Margarida julga-se indigna e incapaz de tarefa tão


373

santa, por faltar-lhe tudo. Jesus replica: “Toma este meu


Coração. Aí há tudo para suprir o que te falta”. A resposta
é válida para nós.
“Quero transformar-te num santuário, no qual o fogo
do meu amor fique a arder perenemente”. Tal qual o fogo
perene do Templo de Jerusalém. Tal qual a lamparina do
Sacrário. Ofereçamos, nós também, o nosso coração.
“Eis os maus tratos que me dão”, queixa-se Jesus
das comunhões, não sacrílegas, mas tíbias e frias. “É co-
mo derramar meu sangue sobre um cadáver podre”, por-
tanto, sem produzir efeito. Que expressão forte, Jesus
usou!
Estando cansado, foi ter com Margarida, certo de ser
bem recebido. Apareceu como Ecce-homo. “Ninguém
quer oferecer-me um lugar de descanso, por causa do
meu aspecto”; todos fogem dele como de um criminoso,
de um leproso.
No ano de 1682, Jesus revela-se coroado de espi-
nhos, carregando a cruz, coberto de sangue e de contu-
sões. O sangue escorria de todas as feridas, tingindo o
chão. E o olhar triste a perguntar: “Será que não há nin-
guém que tenha compaixão, que queria sofrer um pouco
comigo?”
Margarida ofereceu-se imediatamente, e no mesmo
instante uma cruz pesada, de pontas de ferro, foi pesar
em seu ombro. “Recebe a cruz, e planta-a no teu cora-
ção”. O Salvador pede o amor da criatura, amor, desagra-
vo, gratidão. Uma voz a repetir: estou cansado de espe-
rar; meu povo eleito a me trair...
Jesus mostrou-lhe o Coração ferido: “Eis as feridas
que recebo deles (das almas consagradas)... Os outros
batem em meu corpo; mas eles atingem meu coração. O
coração deles é tão vazio, sem amor, são religiosos só de
nome!”
“Uma alma justa pode alcançar o perdão para mil
374

pecadores. Não deixes meu sangue ficar inútil para tantas


almas”.

4. SANGUE PRECIOSO

Jo 6,54: “Quem bebe meu sangue tem a vida eter-


na”... “Quem bebe o meu sangue permanece em mim”.
Jo 19,34: “E saiu sangue e água”.
Hb 9,14: “O sangue de Cristo purificará a nossa
consciência das obras mortas para servirmos o Deus vi-
vo”.
Hb 9,22: “Sem efusão de sangue não há remissão”.
Hb 12,24: “Vós vos achegastes... a Jesus, o media-
neiro da nova aliança, e ao sangue de aspersão que fala
melhor que o sangue de Abel”.
Hb 9,12: “Com seu próprio sangue entrou no taber-
náculo, prestando uma expiação eterna”.
Hb 10,19: “Pelo sangue de Cristo esperamos, com
confiança, entrar no Santíssimo”.
1 Pd 1,2: (sois) “destinados à aspersão do sangue
de Jesus Cristo”.
1 Pd 1,19: “Fostes resgatados, não pelo ouro ou pe-
la prata... mas pelo sangue do Cordeiro sem mancha”.
1 Jo 1,7: “O sangue de seu Filho nos purifica de todo
o pecado”.
1 Jo 5,6: “Jesus Cristo veio pela água e pelo san-
gue...Três dão testemunho: o Espírito, a água e o san-
gue”.
Ef 2,13: “Chegastes perto pelo sangue de Cristo”.
Cl 1,20: “Reconciliou-nos, pelo sangue de sua cruz,
trazendo a paz”.
Ap 1,5: “Ele nos amou e nos lavou de nossos peca-
dos no seu sangue”.
Ap 5,9: “Foste imolado e com teu sangue nos con-
quistaste para Deus... e nos fizeste reis e sacerdotes”.
375

Ap 7,14: “Estes vieram da grande tribulação... lava-


ram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro”.
Ap 19,13: “Trajava uma veste ensangüentada e seu
nome era Verbo de Deus”.
Ap 22,14: “Bem-aventurados os que lavaram suas
vestes (no sangue do Cordeiro); terão direito à árvore da
vida”.

Sangue é elemento dos contratos divino-humanos.


Sangue é vínculo da aliança de Deus com a humanidade.
Sangue de Deus é vínculo e cria o povo de Deus.

1. Sangue é vida (Plínio Jr)


É vida divina. Foi derramado nas ruas de Jerusalém.
Ficou grudado nas lajes da Via-Sacra. Descuidados e ig-
norantes, os homens pisam em cima. As sandálias tin-
gem-se de sangue vermelho, sangue de Deus. Os anjos
desceram do céu para adorar o preço da redenção, que
os homens pisaram sem consideração. No entanto vale:
quem beber este sangue, viverá eternamente.
No A.T. beber sangue era sacrilégio, porque nele es-
tava a vida (humana) reservada a Deus. No N.T., ao in-
vés, está no sangue a vida de Deus. A fim de participar da
redenção é mister beber o sangue redentor.
No A.T. era proibido beber a vida natural, porque a
família humana está destinada a viver da vida divina (Bet-
tencourt).

2. O Sangue é salvação.
O sangue do Cordeiro pascal salva e protege contra
o anjo exterminador. O sangue de Deus purifica nossa
alma no sacramento.
Ângela de Foligno passou o último dia de sua vida
em êxtases contínuos. “Minha alma foi lavada e purificada
no sangue de Cristo. Estava quente, como se saísse na
376

hora do corpo do Cristo Crucificado..., e uma voz disse-


me: “É este o sangue que te purifica”.

3. Sangue é paixão, amor.


Osana de Mântua não podia ver sangue sem cair em
êxtases.
Francisca da Mãe de Deus, OCD, após a comunhão,
viu sua alma coberta de sangue. Ana de Jesus, OCD,
sentia na comunhão a boca cheia de um sangue delicio-
so.
Ângela vê Jesus abraçando seus sacerdotes e aper-
tando-os contra o coração, introduzindo-os na chaga a-
berta. Vários voltaram com os lábios tintos de vermelho e
Jesus explica: “Estes são meus irmãos”.
Como deve ser eloqüente a palavra do Evangelho, e
penetrar nas almas, quando os lábios estão tingidos pelo
sangue do Redentor.

ANTOLOGIA

Mediator Dei

Pela voz de Pio XII, a Igreja chama todos à piscina


salvífica do sangue de Jesus. “Pode-se dizer que Cristo
estabeleceu no Calvário uma piscina de expiação salutar,
enchendo-a de seu sangue. Mas se os homens não mer-
gulham nestas ondas, e não lavam as manchas de suas
culpas, não podem ficar purificados e salvar-se. Para os
pecadores todos se tornarem brancos no sangue do Cor-
deiro requer-se a colaboração amiga de todos os fiéis”.

Crisóstomo

Vê o povo de Deus que assiste à Santa Missa “todo


vermelho pelo sangue precioso”.
377

Sta. Catarina de Sena

O sangue de um Deus, preço e meio de redenção do


mal e do pecado, é tema que aparece sempre nos escri-
tos da santa.
“Esta é a chave do Sangue do meu Filho Unigênito,
é esta chave que abriu a vida eterna”...
“O Cordeiro tostado no fogo da divina caridade... O
Cordeiro exangue, sangrando por todas as feridas”...
“Ponde, ponde a boca no costado do Filho de Deus;
porque é uma abertura que lança fogo de amor, e derra-
ma sangue para lavar nossas iniqüidades...
É um banho de sangue. Mergulhai-vos, afogai-vos
no Sangue do Crucificado, lavai-vos no Sangue, embria-
gai-vos no Sangue... Revesti-vos do Sangue... E se fostes
infiéis, rebatizai-vos no Sangue. Se o demônio vos ofus-
cou o olho da inteligência, lavai-o com Sangue. Se caístes
na ingratidão por danos desconhecidos, sede gratos no
Sangue... No ardor do Sangue deveis dissolver a tibieza e
na luz do Sangue expulsai as trevas...
E de novo quero vestir-me de Sangue e despojar-me
de toda vestimenta que usei até agora”...
Disse-lhe Jesus: “Quem contempla o preço de meu
Sangue, que por ele paguei, tem a certeza da salvação”.
Pensando bem, temos de reconhecer que Jesus tem
razão. O que Ele faz é apenas a recordar Rm 8,32 ss: “Se
nem poupou o próprio Filho, mas o entregou por todos
nós, como não nos dará tudo?... Criatura alguma será
capaz de nos separar do amor de Deus”.

Juliana de Norwich

“Contemplai e vede! A divina abundância do seu


Sangue precioso desceu até aos infernos. Quebrou cor-
378

rentes. Libertou as almas que lá estavam, mas que de


direito pertenciam à corte celeste.
A divina abundância do Sangue precioso subiu aos
céus no Corpo de N. Senhor Jesus Cristo, e lá está ...
sangrando e rezando por nós ao Pai, por tanto tempo
quanto for necessário e preciso. E durante toda a eterni-
dade este Sangue bendito correrá a flux no céu, rejubilan-
do-se de ter salvo todos os homens que estão lá, e que lá
estarão completando o número daqueles que falharam, os
anjos que caíram”.

Catarina de Gênova

Gênova, 22 de março de 1473. Uma jovem senhora,


irradiando perfume e beleza, entrara com passos rápidos
na igreja. Vestido, porte, movimentos, gestos manifestam
a dama perfeita da sociedade. Toda a cidade de Gênova
estimava e admirava a incomparável dona Adorno, a rai-
nha das festas.
Bela e admirada, mas não era feliz. Louco foi o Car-
naval daquele ano. Verdade é que só tomara parte por
amor ao jovem marido, que não era capaz de passar sem
essas festas mundanas. No início, Catarina ia raras ve-
zes, depois ia sempre. Todavia, em todo o barulho da fes-
ta e das músicas, não era capaz de esquecer Deus, uma
obsessão, embora já rezasse pouco e comungasse raras
vezes.
Muitas vezes comparou o contraste de outrora com
o de então. Queria tornar-se religiosa. Mas tinha de casar-
se. Os pais o exigiam. Quem sabe, seria o anjo da paz e
reconciliação dos dois partidos políticos. E o jovem marido
era homem mundano. Não era mau, mas leviano. Podia
deixá-lo só, no turbilhão das festas? Não; por isso ela o
acompanhou. Mas sentia-se cada vez mais aborrecida,
enjoada dessa vida. “Que devo fazer?”, perguntou na sala
379

do convento à sua irmã Simbiana. “Vai confessar-te”, dis-


se ela. Esperando o sacerdote, de súbito foi inundada por
uma luz divina. Num instante viu todos os refolhos mais
íntimos de sua alma. Sua miséria; sua covardia; seu mun-
danismo; sua infidelidade. E do outro lado a incansável e
amorosa fidelidade do bom Pastor. “Agora não posso con-
fessar-me”. Correu para fora. Correu para casa. Derra-
mando lágrimas. Repetindo: “Nunca mais pecar, nunca
mais”. Chegando em casa, encontra o Divino Salvador
que subia a escadaria de mármore, carregando a cruz,
coberto de chagas a sangrar. O Sangue divino descendo
em filetes vermelhos sobre o mármore branco. Parecida
inundar todo o palácio. E Catarina a ouvir seu clamor:
“Por ti, por ti”, a arder de amor estuante em seu coração.

Armela Nicolas, +1671

Empregada doméstica, analfabeta. Gosta de ouvir a


leitura da vida dos santos. Certa vez, ouviu a narração da
Paixão de Cristo. Inflamou-se de compaixão por Jesus, e
de dor por seus pecados. Daí em diante, por onde andas-
se, o que estivesse fazendo, via-se sempre banhada e
orvalhada pelo precioso Sangue. Tomando sua comida,
parecia-lhe que todos os bocados estavam embebidos no
Sangue de Jesus. Não podia mais ver sangue ou cor
vermelha sem sentir-se quase sufocada pela emoção. Às
vezes, transitando pelas ruas da cidade, estas parecia-lhe
tintas de sangue, como outrora em Jerusalém.

Sta. Margarida Alacoque

Jesus: “Apresenta muitas vezes ao meu Pai o San-


gue de meu Coração. Oferece todo o meu Sangue divino.
Seu preço é infinito”.
380

Leonardo de Porto Maurício

Começou sua vida sacerdotal vomitando sangue à


toa, “sem fazer nada”. Depois, missionário ativo, por qua-
renta e quatro anos, pregando até quatro vezes por dia e
passado o resto do dia sentado no confessionário. Para
descansar, escreveu livros, onze grossos volumes. E para
santificar-se e a seus ouvintes, ofereci trinta e três vezes
por dia o Sangue de Jesus ao Pai Eterno.

Maria de St. Pierre, OCD

Jesus: “Dou-vos minha Face. Dou-vos meu Coração.


Dou-vos meu Sangue. Abro-vos minha chagas. Hauri e
difundi. Comprai sem dinheiro. Meu Sangue é o preço das
almas. Que sofrimento o de meu coração, ao ver que os
remédios que me custaram tanto são desprezados. Pedi
ao meu Pai tantas almas quantas as gotas de sangue que
derramei na minha paixão”.

Marta Chambon, OV

Jesus: “Uma das minhas criaturas traiu-me e vendeu


meu Sangue. Mas vós podeis resgatá-lo tão facilmente,
gota por gota. Uma só gota basta para purificar o mundo
todo e vós nem pensais nisto. Nem conheceis o preço”.

Josefa Menendez

Muito sangue saindo da chaga do coração. Jesus:


“Repete comigo: Pai Eterno, considera estas almas tintas
pelo Sangue de teu Filho... Este Sangue não seria bastan-
te poderoso para salvar todas as almas?”.
381

Sta. Teresinha

“Olhando certo domingo uma fotografia de N. Senhor


na cruz, fiquei emocionada vendo o sangue que corria de
uma de suas mãos divinas. Senti grande dor, pensando
que esse sangue caía por terra sem que ninguém se a-
pressasse em recolhê-lo. Resolvi conservar-me em espíri-
to ao pé da cruz, para o recolher, e em seguida espalhá-lo
sobre as almas. O grito de sede de Jesus na cruz ressoa-
va continuamente em meu coração: tenho sede... Queria
dar de beber ao meu bem-amado e sentia-me também
devorada pela sede das almas” (Vida 131).

5. A CEIA DO CORDEIRO

Triste Realidade

“As pessoas que retornam da missa, falam e riem;


julgam não terem visto nada de extraordinário. Não des-
confiam de nada, porque não se deram ao trabalho de
ver. Parece que acabam de assistir a algo muito simples e
natural. No entanto, é algo que, mesmo tendo acontecido
só uma vez, seria suficiente para arrebatar em êxtase um
mundo apaixonado”.
“Elas retornam do Gólgota e falam da temperatura.
Essa indiferença preserva-as de ficarem loucas. Se al-
guém lhes dissesse que João e Maria desceram do Cal-
vário conversando sobre coisas frívolas, elas retrucariam
que é impossível. Mas elas o fazem”.
“Acabam de assistir à execução capital de um con-
denado. Um instante depois, nem pensam mais nisto. Es-
ta falta de imaginação impede-as de sofrer vertigens e de
morrer”.
“Ficaram por vinte e cinco minutos numa igreja sem
compreender o que aí acontecia. Algumas ficaram senta-
382

das. Outras ficaram em pé também durante a elevação. A


realidade é a mesma, apresentada sob um aspecto que
leva em consideração a fraqueza humana. Os israelitas
não podiam suportar o brilho da face de Moisés, que no
entanto era apenas um homem. Escondido sob as espé-
cies de pão e de vinho está mais que um anjo, e certa-
mente mais que Moisés. Uma das características mais
estranhas da Santa Missa é que ela não mata as pessoas
que a assistem... Elas ouvem a Santa Missa tranqüila-
mente, sem lágrimas sem coração! Coisa admirável! Que
seria preciso para emocioná-las?”
“Para ver até que ponto elas são pobres de coração,
é preciso examinar o que se faz por sua causa. O que se
faz todos os dias. Em todas as partes do mundo para sal-
var suas almas desatenciosas. Sua pobreza de coração,
não é grande nem pequena: é infinita. Se elas pudessem
espantar-se, estariam salvas. Mas fazem de sua religião
mais um de seus hábitos, isto é, algo comum e ordinário.
E é este hábito que condena o mundo” (Julien Green)

A grande graça dos cristãos

Na verdade, é a Santa Missa, a ceia pascal, o ponto


culminante de toda a religião cristã (Vat. II, SC 10)
Teologia e piedade cristã repetem, desde séculos,
com São Francisco de Sales: o sacramento eucarístico é
“o sol da vida espiritual; é o centro da religião cristã; é o
coração da devoção; é a alma da piedade; é o inefável
mistério” (Filotéia 2,14)
Uma única missa equivale a milhões de ações hu-
manas, das mais heróicas. O santo Cura d’Ars diz, com
aqueles expressões originais que o caracterizam: “Todas
as boas obras juntas não equivalem a uma única Santa
Missa... Nem o martírio se compara com a Santa Missa.
No martírio um homem dá a Deus sua vida humana; na
383

Santa Missa, Deus dá sua vida por nós... Mesmo as boas


obras de toda a humanidade por milhares de anos... Que
felicidade assistir a Santa Missa. Se compreendêssemos,
iríamos morrer de alegria. Só no céu iremos compreendê-
lo”.
“Preferiria perder o mundo inteiro, se o possuísse,
do que perder uma Santa Missa” (Berniéres)
Uma única seria suficiente para salvar o mundo.
Verdades sabidas e sempre esquecidas.
O Cardeal Newman, ainda arcediago anglicano, co-
gitava tornar-se católico. Um amigo sincero quis dissuadi-
lo: “Vais perder teu bom ordenado (equivalente a cinco mil
dólares anuais). Newman respondeu: “Uma única missa
verdadeiramente vale muito mais”.
A Santa Missa presta a Deus Uno e Trino um culto
perfeito. Tudo quanto a humanidade deve em homena-
gem ao Ser Absoluto, uma Santa Missa o realiza com va-
lores infinitos. Adoração, ação de graças, expiação, súpli-
ca, amor, tudo isto recebe Deus em cada missa, em tal
abundância e perfeição, que não pode exigir mais, pois é
Jesus Cristo em pessoa que celebra a Santa Missa. E
nós, pequenos servos de Deus, sentimo-nos imensamen-
te gratos e satisfeitos por podermos prestar a Deus um
serviço perfeito.
A Santa Missa não é uma devoção, é uma ação. O
trágico na vida de certas almas é que sempre querem, e
nunca realizam. Ora, na Santa Missa há ação. Fogo cai
do céu, imola o Cristo e incendeia seus irmãos na terra.
Ação desencadeia ação.
Quantos se queixam que sua vida é tão incompleta,
tão penosa, tão torturada por inúmeras e insignificantes
bagatelas. Nada de grande, de sublime. E os anos pas-
sam, e esfriam, e endurecem meu coração! Vida tão inútil,
tão banal, tão vazia!... Engano seu, minha alma! Assiste,
digo melhor, celebra com o sacerdote o sacrifício da nova
384

Aliança. Faze todos os dias a oferta do Reino de Deus e


viverás uma vida cheia, rica, divina. Lança todo teu cuida-
do sobre o Redentor. Identifica-te com o Filho de Deus
feito homem, Salvador e vítima. E vive com ele sobre o
altar. E tua vida pequena tomará a altura de Cristo. Sinto
que um júbilo perpassa tua alma.
Bem-aventurados! Vosso é o Reino!
A liturgia romana achou a fórmula sublime, que deve
brilhar no frontispício de cada novo dia como sol irradian-
do luz, calor, felicidade: “Todas as vezes que se celebra a
memória deste sacrifício, realiza-se a obra da nossa re-
denção” (Secreta do 9.º Dom. depois de Pentecostes).
A Santa Missa, o ponto culminante de cada dia de
tua vida.

Um boato

Se um dia corresse pelo mundo a notícia inaudita


que N. Senhor voltou à terra... tomou domicílio em Jerusa-
lém, ou em Roma, e atende a todos... que alvoroço seria!
De todas as nações e regiões sairiam as romarias a fim
de ver o Filho de Deus humanado. A televisão daria as
primeiras imagens. Mas cada um quereria ir ver pessoal-
mente. A gente iria guardar as últimas economias para
fazer esta viagem, ao menos uma vez na vida. A gente
iria sangrar os pés na longa marcha. A fim de falar só uma
noite. Até chegar a nossa vez. Entramos com o coração a
bater. E estamos face a face com Jesus. “Ó Senhor,
quanto coisa para dizer, para pedir. Ó Jesus, vê de quan-
to peso estou carregado!... tira isto ou ajuda-me carre-
gar...” Iríamos cair de joelhos e pedir a sua bênção, para o
corpo e para a alma. Quantas preces ardentes iriam jorrar
com ímpeto do nosso coração, estando lá perante N. Se-
nhor, e vendo-o face a face....
Mas não é boato, é realidade. Pois ele veio. Está
385

morando aqui na terra. Se tivéssemos fé, fé viva, aquela


fé que transporta e sacode, revolve a fundo um coração
humano! Se tivéssemos essa fé, então nossas Igrejas
estariam cheias, dia e noite. Os adoradores iriam rodear
os sacrários, abismados pela presença divina. Mãos sú-
plices levantar-se-iam ininterruptamente ao Filho de Deus,
pedindo sua bênção santa e toda poderosa. Não haveria
mais alma amargurada que não recebesse aqui alguma
doçura. Não haveria mais sofrimento na terra que não
buscasse, e não recebesse aqui alívio e conforto. Não
haveria mais no mundo criatura desconsolada.
Não poderia mais haver, se tivéssemos fé, fé viva, fé
santa, forte. Aquela que se levanta como um vendaval, e
arrasta num turbilhão para o alto. Longe do marasmo e da
mesquinhez terrestre. “Ó Filho de Deus, dai-nos essa fé!”
Se tivéssemos essa fé viva, forte, iríamos acorrer
com ímpeto ao sacrifício eucarístico, à Santa Missa... Que
mistério! Que mistério profundo como a eternidade: O Fi-
lho de Deus apresenta-se todos os dias ao homens di-
zendo-lhes: “Vou levantar minhas mãos ao Pai. Minhas
mãos chagadas. Ponham nelas vossas falhas e culpas,
vossas privações e frustrações, vossas misérias do corpo
e da alma. Vou levar tudo aos pés do trono de meu Pai e
vou pedir por vós, e meu Pai me atende.”
Que mistério, profundo como a eternidade! Todos os
dias N. Senhor aparece entre nós, de braços abertos, e
pergunta: há alguém aqui a carregar um peso? Há alguém
padecendo necessidades? Dai-me tudo. Vou levar tudo
ao céu. Na Santa Missa, no Pai-Nosso, Jesus abre os
braços e reza conosco. Ele alcança tudo. Se tivéssemos
fé... Mas somos frios, desinteressados, atarefados de-
mais; não há tempo para o Reino de Deus.
Se tivéssemos fé viva, luminosa e ardorosa, nunca
falharíamos ao banquete do Reino, à grande ceia pascal
que nos alimenta para a vida eterna. Quando o corpo tem
386

fome, damos-lhe comida. Quando a alma tem fome, rece-


be drogas. E Jesus a oferecer-nos sua própria comida,
aquele pão e vinho que transfundem em nossas veias a
vida de Deus, luz e fogo. Se tivéssemos fé, estaríamos
incendiados, estuantes de amor...
“Ó Jesus Cristo, dai-nos fé grande e alargai nosso
coração estreito!”
No sagrado mistério pão e vinho transformam-se,
mudam de natureza. Pão e vinho! O pão é Corpo de Cris-
to. Vinho é Sangue de Deus. E uma grande saudade deve
brotar da alma: “Ó Senhor, muda também a mim. Trans-
forma-me em Ti, ó Deus Onipotente.
Aqui jaz minha alma fraca; transforma-a em força.
Aqui jaz minha alma escura; transforma-a em luz.
Aqui jaz minha alma fria e dura; faze-a ficar fogo.
Transforma meu ser terreno em vida divina.”

Gólgota Perene

A vida de Deus, a vida da salvação, é a cruz do Sal-


vador, a única via: a dor de Cristo e a dor do Corpo místi-
co. Calvário e Missa. Em rigor, todos nós que somos ne-
cessitados da salvação, deveríamos retornar no tempo,
ao ano trinta, e colocar-nos debaixo da cruz de Redentor,
oferecendo-nos junto com a vítima divina, porque o que
nos salva é o contato com a cruz. “Com Cristo cravado na
cruz” (Gl 2,19). “Em simbiose com sua morte” (Rm 6,5).
Mas, sendo impossível o retorno no tempo, Jesus inven-
tou um modo de tornar seu sacrifício, sua cruz, sua morte,
presentes a todos os séculos da história da humanidade:
todas as ondas das gerações humanas embatem no mor-
ro do Calvário. Ou melhor: Jesus plantou sua cruz e sua
morte salvífica dentro do rio humano, colorindo suas á-
guas com sangue divino. E todas as gerações futuras
passam, quais ondas, debaixo de sua bênção.
387

Assistindo à Santa Missa, tornamo-nos contemporâ-


neos de Jesus. Com Maria Santíssima, com as mulheres,
com João, o apóstolo, assistimos de um modo misterioso,
mas real, à morte de Jesus no alto do Calvário.
Paixão e morte foram para Jesus o caminho neces-
sário para a glória. Vale a mesma lei para seu Corpo mís-
tico, para nós. A Santa Missa introduz-nos no mistério
pascal. Ela se repete a fim de incorporar todas as gera-
ções sucessivas, até se completar Cristo total.

Infinita

E sua bênção é poderosa, infinita. É o maior sacrifí-


cio da humanidade, e maior que todos aqueles milhões de
sacrifícios oferecidos ao céu, desde a origem até hoje. É a
vítima mais preciosa. De valor infinito, sem limites e sem
restrições. O Sangue de Deus brada ao céu, implorando
perdão e oferecendo satisfação total.
A Paixão e Morte foram para Jesus a ação ascética
mais perfeita, ponto culminante de toda a sua vida espiri-
tual: o abandono total à vontade do Pai. O primeiro Adão
quis teimar a fazer sua própria vontade. O segundo Adão
vê sua principal tarefa na glória de Deus Pai, em fazer a
sua vontade; rejubila quando chegou a hora de lhe dar a
mais sublime prova, a suprema. É para Jesus ocasião de
júbilo, honra e glória eterna. “Pai, é chegada a hora. Glori-
fica teu Filho para que teu Filho te glorifique” (Jo 17,1).
Acima de tudo a glória de Deus. E esta é realizada pela
submissão total à vontade de Deus. Maior coisa a fazer
do que a vontade divina, não há. E nossa “salvação” con-
siste na união mais íntima, na identificação com Cristo e
com seu holocausto. Na incorporação afetiva e efetiva em
seu mistério pascal. Eis a primeira, a mais excelente de
todas as normas práticas ascéticas.
A Santa Missa é presença do Calvário. Eis a ascese
388

mais perfeita: participar da Santa Missa. O caráter batis-


mal põe-nos em contato vital com a cruz. Repetindo-se os
contatos, repetem-se seus efeitos em nós, criaturas sujei-
tas à historicidade, incapazes de realizar transformações
substanciais de uma vez. Por essa razão, repetimos “a
obra da nossa redenção” litúrgica todas as manhãs, até
se completar nossa redenção, real e efetivamente. Diz
Sto. Tomás (III 79,7): “Em cada missa multiplica-se a o-
blação, e por isso multiplica-se o efeito”. Ou, como diz
Ambrósio de um modo mais drástico: “Eu que peço todos
os dias, preciso do remédio todos os dias”.

Presença

A teologia esforça-se em investigar o mistério salvífi-


co da Santa Missa, da ceia eucarística em sua relação
com o Calvário.
Sacerdote e vítima são idênticos, estão substancial-
mente presentes. A ação sacrifical, oblação e morte, re-
nova-se e repete-se em cada missa de uma maneira invi-
sível, não sangrenta, mas real.
Nas duas “Missas”, na cruz e no altar, a ação sacrifi-
cal é substancial e essencialmente idêntica. Não há con-
corrência, nem paralelismo, mas repetição. A Santa Missa
só é possível porque a antecedeu o Calvário. Verdade
que cada repetição tem valor infinito.
Uma opinião recente contribui com uma nova focali-
zação do problema: a Santa Missa não repete a morte de
Jesus no Calvário, mas torna-a presente para nós. Não há
dois ou mais sacrifícios, mas um só: o da morte física de
Jesus, que se faz presente a todos os séculos posterio-
res, à semelhança de um video-tape. Todavia, com uma
diferença substancial: a presença é real. Presença real (e
eficiente) da ação sacrifical do Calvário.
Charles Journet (La Messe, 89) comenta: A onipre-
389

sença espacial é inteligível. A onipresença de Deus no


tempo é um mistério. Para nós há passado, presente e
futuro. Perante Deus tudo é presente. A eternidade de
Deus exclui toda sucessão: Deus co-existe (Sto. Tomás,
I,14,13).
O ato sacrifical de Jesus na cruz é conhecido de
Deus desde a eternidade. Transitório no tempo, é sempre
presente e existente em Deus. A onipotência divina pode
estender o efeito, a força, por contato, a todo o tempo
posterior. E assim, a Santa Missa não é um outro sacrifí-
cio, mas é uma outra presença.
Presença operativa porque se trata de uma ação,
não de uma substância.
Presença mistérica, sacramental: não sangrenta,
debaixo de véus simbólicos. Como nas numerosas hós-
tias consagradas está presente o único, idêntico Cristo,
assim se multiplica em relação a nós o ato da morte de
Jesus. Presença real, não metafórica; no entanto, em
conceito análogo.
Como na ceia da Quinta-Feira Santa, no Cenáculo
de Jerusalém, não há dois Cristos, mas um só, e este
presente em duas presenças, uma corporal e outra sa-
cramental (natural-sacramental), assim a relação entre
cruz e missa.
O sacrifício é numericamente um e idêntico; diferen-
te sua presença: histórica e respectivamente mistérica. O
conceito presença é análogo; o conceito Cristo é unívoco.
Na cruz Jesus sacrificou sozinho. Mas instituiu a
Ceia pascal e, de um modo insigne, o sacerdote. Somos
oferentes e oferecidos, sacerdotes e vítimas, parcelas do
Sumo Sacerdote, partículas da grande vítima.

Oferecemos - Sacrificamos

Na cruz, Jesus agiu como segundo Adão, como re-


390

presentante da humanidade. Renovando o sacrifício do


Calvário, na Santa Missa, faz participar todos os seus
membros místicos, a fim de integrar a todos na economia
da salvação. Pela Paixão e Morte, Jesus entrou na glória.
Mas o cristão, ainda na terra, deve seguir o mesmo cami-
nho para atingir sua perfeição. O sacrifício da cruz deve
tornar-se sacrifício de cada cristão, pois somos um único
organismo.
O que faz a cabeça, convém a todo o corpo. Esta-
mos em comunhão sacrifical com Jesus, não somente de
maneira subjetiva e afetiva, mas real e objetivamente.
Como a paixão e morte no Calvário foi sua ação
mais meritória, assim para cada cristão a participação na
Santa Missa deve ser o ponto culminante de cada dia de
sua vida espiritual.

“Mediator Dei”

A encíclica de 1947 introduz o fiel na profundeza do


mistério pascal:
“A missa é verdadeiro sacrifício. Por uma incruenta
oblação, o Sumo Sacerdote faz o que fez na cruz... O
mesmo sacerdote, a mesma vítima... os mesmos fins: gló-
ria de Deus, ação de graças, expiação, súplica...”
“O homem, qual filho pródigo, dissipou todos os bens
recebidos do Pai Celeste, e assim está reduzido à extre-
ma pobreza... Os méritos imensos, simplesmente infinitos
deste sacrifício não conhecem limites. Mas requer-se que
cada ser humano entre em contato vital com o sacrifício
da cruz...”
“Na cruz, Cristo agiu sem a Igreja... mas quando se
trata de repartir o tesouro, ele se comunica com sua es-
posa e quer sua oblação, sua colaboração... O sacrifício
do altar é o meio que distribui os méritos da cruza aos
fiéis”...
391

“É oferecido todos os dias, recordando-nos que não


há salvação senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Deus mesmo quis que esse sacrifício fosse continuado
desde a aurora até ao pôr-do-sol, para nunca se interrom-
per o hino de louvor e gratidão...”
“A Igreja oferece e é oferta; sacerdote e vítima... A-
quela frase do apóstolo, “Senti em vós o mesmo que Cris-
to sentiu”, exige de todos os fiéis que tenham em sua
mente os mesmos afetos do divino Redentor... de adora-
ção e de louvor...”
“Exige, enfim, que todos nós nos submetamos à
morte mística na cruz, junto com Cristo, a fim de poder-
mos reivindicar a sentença de São Paulo: “Com Cristo
estou pregado na cruz” (Gl 2,19).”
“Deve-se dizer que os fiéis também oferecem a divi-
na vítima, embora de uma maneira diferente (do sacerdo-
te). O ritual e os textos litúrgicos mostram que a oferta da
vítima se faz pelo sacerdote junto com o povo”...
“Pelo Batismo, os fiéis tornam-se membros de Cris-
to-Sacerdote. E pelo caráter que lhes fica gravado na al-
ma, são designados para o culto divino. E assim partici-
pam do sacerdócio do próprio Cristo, de acordo com sua
situação”...
“Aquela imolação incruenta, em que Cristo, após as
palavras da consagração, se torna presente sobre o altar
em estado de vítima, é realizada apenas pelo sacerdote,
enquanto representa a pessoa de Cristo; mas não en-
quanto representa os fiéis Depois, o sacerdote coloca a
vítima sobre o altar e oferece a Deus Pai a mesma obla-
ção em honra da Santíssima Trindade e em prol de toda a
Igreja. É nesta oblação, em sentido restrito, que partici-
pam a seu modo os fiéis..”
“O povo oferece o sacrifício, não porque realiza o rito
litúrgico visível, tarefa que compete só ao ministro desig-
nado por Deus, mas porque une seus votos de louvor, de
392

súplica, de expiação e de ação de graças ao sacerdote.


Mais ainda: une-os aos do Sumo Sacerdote, a fim de que
sejam entregues ao Pai”... “A fim de que a oblação obte-
nha pleno êxito, é preciso que os fiéis acrescentem ainda
algo: é necessário que eles se ofereçam a si próprios em
sacrifício, segundo 1Pd 2,5 e Rm 12,1... Junto com o Su-
mo Sacerdote e por meio dele ofereçam-se como vítimas
espirituais”...
“Todos os elementos litúrgicos, pois, convergem pa-
ra que nossa mente se impregne da imagem do divino
Redentor pelo mistério da cruz, conforme a palavra do
apóstolo dos gentios: “Com Cristo estou pregado na cruz;
já não vivo eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2,19).”
“E assim nos tornamos uma vítima junto com Cristo
para maior glória do Pai Eterno”.

Sacerdócio dos fiéis

No Calvário, na redenção objetiva, Jesus agiu só,


assistido por Maria Santíssima, co-redentora.
“O gênero humano não é o autor da própria reden-
ção, mas o beneficiário da obra de Cristo”, (Philips).
A Igreja não existia ainda. Nasceu no Calvário, no
Coração de Jesus.
Mas na redenção subjetiva, na distribuição e aplica-
ção do mérito da cruz, Jesus quer a colaboração do seu
corpo místico. Na Santa Missa, a Igreja e todos os fiéis
são oferentes e oferecidos. Segundo a expressão de Sto.
Agostinho: a Igreja oferece e é ofertada (Cf. Mediator Dei)
Diz Sto. Tomás (Sent 13): “O que foi ofertado uma
vez por Cristo, pode ser ofertado todos os dias por seus
membros”.
Escreveu Pio XI (1928): “Também o povo todo dos
fiéis, com todo o direito chamado... estirpe régia e sacer-
dócio escolhido e real, deve ofertar, seja para si, seja por
393

todo o gênero humano”. Confirma-o Pio XII (Myst. Corp.


1943): “Os próprios fiéis oferecem o cordeiro imaculado,
pela mão do sacerdote, ao Eterno Pai”.
Portanto, todos os fiéis, marcados pelo caráter ba-
tismal, participam do sacerdócio da Igreja, segundo o co-
nhecido texto, de Pd 2,5; e Ap 1,6 chama-os “reis e sa-
cerdotes”.
Pelo caráter batismal os fiéis estão capacitados para
haurir a graça através dos sacramentos da Igreja, e em
particular para assistir a Santa Missa com fruto, favor que
os não-batizados não gozam, mesmo que sejam pesso-
almente mais santos. A Igreja primitiva despedia os cate-
cúmenos após o culto da Palavra, por serem incapazes
de participar do rito sacrifical.
Os fiéis batizados exercem também uma colabora-
ção ativa no culto litúrgico, sendo partes da Igreja e do
Corpo Místico (Vatic. II LG 34,62)
Este sacerdócio comum a todos os fiéis não deve
ser exagerado, mas também não deve ser minimizado. Os
fiéis exercem um real poder no culto litúrgico, embora su-
bordinado ao sacerdócio ministerial e por seu intermédio.
O sacerdote está ligado a Cristo não só pelo caráter
batismal e crismal, mas também pelo caráter sacerdotal.
Por força desse caráter, o sacerdote é o representante
oficial do povo de Deus no culto perante o Cristo e peran-
te o Pai.
Por força desse caráter sacerdotal, o sacerdote, e
ele só, como instrumento de Cristo, pronuncia as palavras
da consagração que, efetivam a presença real de Cristo
sob o estado de vítima. É o ato essencial do sacrifício.
Feito isto, o sacerdote “oferece”, apresenta a vítima divina
ao Pai, em louvor, ação de graças e expiação. Jesus se
oferece ao mesmo tempo ao Pai como vítima universal.
Essa oferta é feita em nome da Igreja e de todo o povo de
Deus. E nessa co-oblação, Cristo-sacerdote, todos os as-
394

sinalados pelo caráter batismal estão autorizados por


Cristo a aderir à sua oferta.
O caráter batismal não dá somente capacidade pas-
siva para usufruir do sacrifício, mas implica em certa cola-
boração de todos os qualificados como membros de Cris-
to. Superabundância da redenção que faz com que os
remidos possam cooperar, num segundo ato, à própria
redenção, isto é, na distribuição do usufruto.

Nesta participação dos fiéis no culto sacrifical é pre-


ciso distinguir dois níveis (cf. JOURNET, Messe 140). O
nível cultual, ritual, sacramental, e o nível do amor divino,
da graça santificante.
Nosso entrosamento no Corpo místico efetua-se
também em dois níveis. Ficamos enxertados em Cristo:
a) Pelo caráter batismal; e o sacerdote ainda num
grau a mais, pelo caráter sacerdotal.
b) Pela graça santificante, ou seja, pelo amor de
Deus, que nos faz crescer Cristo adentro.
Na ceia pascal, somente Jesus agiu no nível cultual.
No nível da graça, do amor, houve cooperação e até mes-
mo fervorosa dos apóstolos, discípulos e piedosas mulhe-
res. Na Santa Missa, no nível cultual, oferecem Cristo,
sacerdote, fiéis; no nível do amor, sacerdotes e fiéis. No
nível cultual, a parte do fiel é subordinada, mediata e aci-
dental. No nível do amor, os fiéis entram em franca com-
petição com os sacerdotes. Garantida a validez espiritual,
será superior a parte que possuir mais amor, maior santi-
dade. O clero perde sua posição privilegiada, e pode ser
ultrapassado pelo ardor do fiel. E os últimos no culto tor-
nam-se primeiros na ordem da graça.
Tauler deixou-nos uma página luminosa, abrindo ho-
rizontes vastos como o Reino de Deus, e profundos como
o abismo do seu amor infinito: “Deus tem na terra bons
amigos... Graças a esses amigos de Deus, graças a es-
395

sas almas santas... nenhuma missa da cristandade será


jamais privada do amor. Quantos saltérios e noturnos reci-
tados, quantas missas rezadas ou cantadas, quantos sa-
crifícios e renúncias, cujo benefício não vai de forma al-
guma em favor de quem efetua estes atos, mas é dado
inteirinho a quem tem maior amor.
Com todos estes bens preenchem seu vaso. Nada
no mundo lhes escapa. A medida dos corações transbor-
dantes estende-se sobre a Igreja toda, bons e maus.
Eles recolhem tudo quanto se fez de bom por toda a
terra. Não deixam nada se perder, seja pequeno ou gran-
de. Nem a prece mais pequenina, nem um pensamento
piedoso, nem o menor ato de fé. Eles apresentam tudo a
Deus e oferecem tudo ao Pai do céu... Ó meus filhos! Se
não tivéssemos estes homens estaríamos em bem má
situação. Não só os homens, mas as mulheres também
podem oferecer este sacrifício”.

As Vítimas

Oferecemos no sacrifício pascal Jesus Cristo, cabe-


ça do Corpo Místico, o único que vale algo. Mas oferece-
mos também a nós mesmos. Porque nossa inserção em
Cristo místico, nossa união com Jesus dá-nos valor tam-
bém. Jesus quer nossa cooperação na redenção. Somos
salvos pela união e semelhança com Jesus. E agora nós,
seus membros, temos a honra de ser vítima com ele, por
nós e pelos outros.
A Igreja, o povo de Deus é complemento de Cristo:
está portanto associada também à sua obra. Fazemos
parte desse sacrifício infinito, oferecido diariamente por
nossa cabeça. Nós, a título de membros, oferecemos e
somos oferecidos, sacrificadores e vítimas na proporção
de nossa união com Jesus. Na cruz, Jesus sacrificou-se
sozinho; instituiu a Santa Missa, a fim de que todos dela
396

participem, e do modo mais pleno possível. Na quarta pre-


ce eucarística do novo Missal, rezamos: “Para que reuni-
dos num só corpo nos tornemos em Cristo um sacrifício
vivo, para louvor de tua glória”. É a palavra de Rm 12,1:
“Rogo-vos... ofereçais vossos corpos em holocausto, vivo,
santo e agradável a Deus”.
Recolhemos de São Cipriano este belo texto: “O sa-
crifício do Senhor (Missa) não estará santamente celebra-
do, se à oblação não corresponde o sacrifício de nós
mesmos” (Epist. 63)
Sto. Agostinho comenta: “Cristo não pede nossos
donativos, mas nossas pessoas... quis que nós mesmos
fôssemos seu sacrifício... Toda a cidade redimida é ofere-
cida a Deus como sacrifício universal do Sumo Sacerdote.
E, ainda a voz da Escolástica (Sto. Tomás, II II 85,2); “O
sacrifício que se oferece externamente significa o sacrifí-
cio interno, espiritual, no qual a alma se oferece a Deus”.

Mortos em Cristo

Nossa união mística com Cristo realiza-se com Cris-


to vítima; não com o Cristo ressuscitado e glorioso, por
enquanto. Rm 6,5: “Fomos enxertados em Cristo pela
semelhança com sua morte”.
A aplicação ascética é: tirar o velho homem do pe-
cado, e revestir o novo homem, isto é, Cristo (Rm 8,6; Cl
3,9; Gl 3,27).
A ascese cristã é continuação e complementação da
morte de Cristo em cada cristão (Stolz). A assimilação ao
crucificado é que nos salva, assimilação ao seu estado de
vítima. É o grão que deve morrer para florir e dar frutos. O
corpo místico é a base real do cristianismo, e este está
pregado na cruz. A Santa Missa arrasta-nos ao Calvário.
397

Vítimas em Cristo

Todo o povo de Deus, todos os cristãos são almas


vítimas por força da ceia pascal. Cada um na intensidade
que desejar. Material não nos falta neste vale de lágrimas.
Todas estas bagatelas, miúdas ou grandes, da nossa e-
xistência cotidiana, anexadas à vítima divina. Bagatelas
valorizadas por mercê de Deus, pela união com Jesus, e
valorizadas na proporção de nossa união com o Salvador.
“Quantas almas piedosas imaginam erroneamente
que suas mortificações, privações e sofrimentos têm valor
em si... E até pensam, talvez, que Deus lhe deva ser re-
conhecido” (GRIMAND, Missa, Ed. Vozes, 50). “Têm valor
somente se incorporados em Cristo, o único com direito
de apresentação ante o Pai Celeste. Fique gravado: o
grande meio de reparação, desagravo, expiação, não são
nossas misérias, nossas virtudes, sacrifícios e penitências
tão mesquinhas, mas o sacrifício do Filho de Deus”.
É mister recordar sempre que todo valor de expiação
depende unicamente do sacrifício cruento de Cristo, inin-
terruptamente renovado sobre nossos altares” (Pio XI,
1928)
Importa, pois, unir-nos com Jesus na Santa Missa. E
assistamos à Santa Missa unidos e juntos com Maria San-
tíssima, co-redentora e medianeira.

6. SACERDOTE DE CRISTO

O sacerdote é um real portador da redenção da cruz,


e ele renova-a cada dia, para e em favor do povo de
Deus. É o ato mais redentor, mais salvífico; mais que es-
tigmas, dores e crucifixões místicas. Tua missa, ó sacer-
dote, salva o mundo!
398

Santidade

Tão sublime tarefa requer santos. Requer santidade


superior a de qualquer religioso, santidade superior a toda
a vida monástica.
Diz o Papa João XXIII (1959): “Pio XII declarou que
o clero não está vinculado, por lei divina, aos conselhos
evangélicos da pobreza, castidade e obediência... Toda-
via está errado dizer que o clérigo seja menos adstrito a
tender à perfeição evangélica do que os religiosos... A
situação é totalmente diferente, pois para o devido de-
sempenho das funções sacerdotais requer-se uma maior
santidade interior do que a que se exige para o estado
religioso” (Sto. Tomás, III 14,8). Os conselhos evangélicos
abrem-lhe caminho mais seguro para a desejada meta da
perfeição cristã (Vaticano II, PO 12)

Sal da Terra

Jesus mesmo chama seus discípulos e apóstolos,


cujos sucessores são os sacerdotes, “de sal da terra”. Se
o sal perde a força, é inútil (Mt 5,13).
Mais enérgico em Lc 14,35: sal insosso não serve
nem para estrume, mas é jogado na rua. Frase que rema-
ta as exigências do discipulado cristão e evangélico. “Po-
dem alguns ter dúvidas sobre o grau de renúncias exigido
dos simples fiéis? Mas, palavras tão inequívocas como
estas (Lc 14,27-33) não deixam margem alguma a uma
escapatória diante da obrigação de sacerdotes e religio-
sos no que se refere a uma renúncia sem compromisso
ao mundo” (T. MERTON, Chagas, Ed. Vozes, 126).

Vítima

Jesus nasceu para ser sacerdote (Hb 10,5). Por ser


399

sacerdote é que nos redime, nos santifica, nos merece a


graça e a salvação. Cristo é sacerdote substancialmente;
sua ação suprema é sacerdotal: o holocausto no Calvário.
Toda graça de Cristo implica numa consagração sa-
cerdotal. Não há graça cristã que não seja sacerdotal.
Cristo está rezando missa durante o dia todo, oferecendo-
se. A vítima imita-o. Almas vítimas e sacerdotes, vivam
em missa perene com Jesus, numa oblação sempre reno-
vada, doação total, heróica, sem cessar e sem retomar o
presente dado. Até ao “aniquilou-se” (Fl 2,7).
O sacerdote não se deve contentar em ser funcioná-
rio litúrgico. O Concílio, PO 13, convida-o a um new look
de sua missão. “Os presbíteros representam a pessoa de
Cristo que se ofereceu com vítima pela santificação dos
homens; por isso eles são convidados a “imitar o que fa-
zem”; e, como celebram o mistério da morte do Senhor,
procurem mortificar seu corpo abstendo-se dos vícios e
concupiscências”. Se todo o povo de Deus é co-vítima na
Santa Missa, com maior razão o sacerdote, que é “outro
Cristo”.
O sacerdote deve assumir e continuar a missão de
Cristo em sua totalidade, sacerdote e vítima da Nova Ali-
ança. “Os mensageiros de Cristo devem seguir o mesmo
caminho de seu Mestre” (Charmot)
Trabalhando na salvação das almas devem usar os
mesmos meios que Jesus usou. E entre estes meios, e
não em último lugar, encontra-se a cruz.
Jesus ensinou várias vezes que deseja sejam seus
apóstolos e discípulos vítimas, holocaustos da redenção.
Convida os filhos de Zebedeu a beber o cálice “que eu
vou beber” (Mt 20,22).
No domingo de Ramos declara: “O servidor deve a-
companhar o amo” (Jo 12,26), quando o Calvário já esta-
va à vista. Na oração sacerdotal da Quinta-Feira Santa,
Jesus reza por eles, “para que sejam santificados, como
400

eu me santifico por eles” (Jo 17,19), alusão a Jo 15,13:


“Quem dá a sua vida...”
Santificar, isto é, consagrar ao culto como holocaus-
to. O grande teólogo da carta aos Hebreus viu bem o ne-
xo entre as grandes e as pequenas vítimas no culto da
Nova Aliança. Entrando no mundo, Cristo oferece seu
corpo à disposição da vontade divina (Hb 10,5). “E pela
mesma vontade somos nós também santificados, consa-
grados ao culto pela imolação do Corpo de Jesus Cristo”
(Hb 10,10).
Missão sublime. Missão sublime demais para a cria-
tura mortal. Mas o pequeno servidor mantenha-se sempre
na sombra do chefe, “porque dele sai um poder” (Lc 6,19).
Somos vítimas por profissão. Sejamos sacerdotes full-
time. Não esqueças, Jesus rezou por ti (Jo 17).
Ele quer que o sacerdote católico ajude a salvar al-
mas. Ora, Jesus salva a humanidade, não pelo serviço da
Palavra, mas pela morte expiatória na cruz. O sacerdote é
vítima de expiação. Deve morrer como o grão de trigo. É
consagrado somente ao serviço de Deus. Um objeto con-
sagrado a Deus, fica consagrado para sempre. Por toda a
eternidade continua doado ao serviço de Deus. É impos-
sível tornar-se “leigo”. Abandonando sua carreira, ele a-
bandona Cristo.

Recapitulando

1. Jesus exige do discípulo a via da renúncia, isto é,


chegar ao amor de Deus por meio do uso e do usufruto
dos bens criados, ou apesar disto.
O discípulo deve caminhar ao céu, pela renúncia às
criaturas, por boas que sejam. Os três sinóticos referem
as palavras incisivas de Jesus: Mt 10,37; 16,24. Mc 8,34;
9,23. Lc 18,28 (favor ler).
HTU UTH

O fato é indiscutível, e decerto Jesus quer para seus


401

seguidores a vida de sacrifício, de mortificação. Quer que


eles caminhem a Via-Sacra. Por que assim? A reflexão
teológica procura desvendar o mistério do pensamento
divino.
Uma pequena circunstância no texto evangélico re-
quer a nossa atenção. Jesus diz sempre: “Se alguém quer
vir após mim”. O discípulo deve levar a imitação de Jesus,
a seqüela do Mestre até a última conseqüência.
Deve praticar a imitação, a seqüela de maneira inte-
gral, participando da vida de Jesus em sua totalidade; as-
sumindo todas as fases de sua vida e de sua missão. As-
sumindo não só a de Nazaré, que representa nossa vida
profissional. Não só imitar a Jesus como pregador-
missionário durante os três anos da vida pública. Mas
acompanhá-lo até ao amargo fim do Calvário.
A missão de Cristo atinge seu ponto culminante na
paixão e morte. O sacrifício da sua vida fez o resgate da
humanidade pecadora. Foi a expiação do pecado, exigido
pela justiça divina. E o discípulo deve associar-se também
a esta suprema tarefa. Ele deve estar onde está seu Mes-
tre (Jo 12,26). Deve morrer, porque “o grão de trigo deve
morrer para dar fruto” (Jo 12,24). E Jesus diz isto no Do-
mingo de Ramos, cinco dias antes de sua subida ao Cal-
vário. A alusão é visível.

2. A teologia ensina que toda obra sobrenatural tem


três valores: um valor meritório, baseado no amor a Deus
com que foi realizada; um valor impetrativo, de petição, e
um valor satisfatório, de expiação da ofensa a Deus.
Sabemos que uma gota de sangue derramada por
Jesus seria suficiente para a salvação, porque tem um
valor infinito. Sabemos que mesmo uma pequena prece
de Jesus: “Pai, perdoai-lhes...”, mesmo um ato de amor
seria suficiente para salvar mil mundos, seria manifesta-
ção perfeita de valor infinito. Mas, de fato, a Santíssima
402

Trindade decidira exigir do Salvador o máximo em sofri-


mentos.
E por isso, para o resgate do pecador não bastam
atos de amor, nem preces nem rezas, mas é necessária a
satisfação; é necessário sofrer. E a bondade divina proje-
tou a colaboração da criatura humana na obra da reden-
ção; Jesus repete os convites: “Se alguém quer vir após
mim”, se alguém quer acompanhar-me, tome a cruz de
cada dia sobre o ombro e siga-me.
Salvar almas significa sofrer. Naturalmente, sofrer
com o amor de Deus. Dor sofrida por amor. A vida de Je-
sus foi um absurdo divino. Morreu na flor da idade. Morreu
como criminoso na forca. Sua vida foi um fracasso, seus
adversários venceram em toda linha. Eis como o discípulo
de Jesus deve realizar-se (Fl 2,2.7-8).
Foi esvaziado... derrotado... feito obediente até a
morte.

3. Jesus salvou o mundo em sua qualidade de Sa-


cerdote, oferecendo a Deus um sacrifício, sendo ele
mesmo a vítima.
Todos os batizados participam no sacerdócio de
Cristo. E a vítima é o mesmo Cristo. Mas como o sacer-
dócio é participado, assim há também participação na ví-
tima. E assim sendo, todo o corpo místico de Jesus é ví-
tima. Rm 12,1 afirma que todos os cristão são vítimas de
sacrifício. E são vítimas de resgate pela salvação dos pe-
cadores todos os consagrados, e eles mais que os leigos,
porque eles querem viver o seu compromisso batismal de
um modo radical.
A finalidade na vida consagrada é portanto a salva-
ção dos pecadores pelo sacrifício e pela penitência.
A vida monástica e consagrada ao culto de Deus pe-
los votos evangélicos cria um ambiente favorável à santi-
dade e ao fomento do amor de Deus. Mas ela deve ser
403

mais, deve ser uma escola de renúncias, de mortificações


e de penitências. Ela quer ser um sacrifício contínuo, a fim
de prestar desagravo ao Amor Divino desprezado, quer
expiar a culpa: quer sofrer a fim de salvar os pecadores.
Lógico que insigne santidade, se elevada ao amor de
Deus, deve valorizar o holocausto.
Em confirmação, um texto de Paulo VI (Motu proprio
Penitemini, 1968: “A Igreja pede com insistência que to-
dos pratiquem a virtude da penitência ao cumprir os deve-
res inerentes ao seu estado de vida, ao suportar as triste-
zas da vida que a acompanha, o trabalho de cada dia, as
situações de insegurança que causam angústias.
A renúncia deve ser cumprida de maneira especial
pelos sacerdotes que estão marcados pelo caráter de
Cristo, e também por aqueles que professam os conse-
lhos evangélicos com o intuito de seguir mais de perto a
vida de Nosso Senhor”.

7. MARIA SANTÍSSIMA “CO-REDENTORA”

O desvio da humanidade do caminho de Deus ini-


ciou-se com o primeiro homem e com sua companheira,
esposa, mãe de todos os filhos de Adão. A obra de res-
tauração devia-se, pois, processar pelo mesmo modelo. O
Novo Adão quis ter ao seu lado como sócia e auxiliadora
a Nova Eva. Como a primeira Eva cooperou para nossa
perdição, assim a segunda Eva devia cooperar para a
nossa redenção. Como Eva é a mãe de todos os filhos da
terra, assim Maria Santíssima é a Mãe de todos os filhos
da Deus. Mãe do Primogênito, do Verbo divino feito ho-
mem, e depois mãe de todos os seus irmãos menores.
Pela encarnação, o Filho de Deus participou da natureza
humana de Maria Santíssima na mais íntima união possí-
vel.
404

Com mais razão ainda do que Adão, Jesus podia re-


petir: isso é carne da minha carne. Maria Santíssima não
foi só templo e sacrário do Verbo de Deus, mas sua espo-
sa, “sponsa Verbi’, destinada a dar vida e existência à
nova humanidade do corpo místico de Cristo. Na anuncia-
ção o Verbo pediu o sim da livre colaboração.
“Eis aqui a serva de Javé”, ao lado do Servo de Ja-
vé, profetizado por Isaías. A serva de Deus acompanhou
seu Filho, e esposo, em todos os caminhos da terra santa.
Acompanhou-o na Via-Sacra, para celebrar as núpcias de
sangue no Calvário. Novamente Maria Santíssima repetiu
o sim da anunciação: faça-se em meu Filho a tua vontade.
O que Jesus sofreu fisicamente, sofreu Maria Santíssima
na alma.
Invisivelmente estigmatizada, participou das dores
do Redentor. E dele foi sócia, auxiliadora esposa, mãe,
remiu o mundo.

Co-Salvadora

Ao morrer, Jesus entregou a humanidade aos cuida-


dos de Maria Santíssima: “Eis o teu filho, senhora”. O dis-
cípulos acolheu-a em sua casa. O primeiro passo da re-
denção está dado. Falta o segundo passo: levar a graça
salvadora a cada indivíduo; transformar o filho da terra em
filho de Deus. Tudo isso é encargo da nova Mãe dos ho-
mens. A Co-redentora torna-se medianeira de todas as
graças. Ajudou adquirir o tesouro da redenção: compete-
lhe, portanto, também a distribuição.
Desde Pentecostes a Mãe de Jesus acompanha os
apóstolos de seu Filho, auxiliando-os no apostolado, fe-
cundando a palavra apostólica com a graça íntima. Rai-
nha dos apóstolos. É também rainha, mestra de todos
quantos se dedicam à oração pelos pecadores. De quan-
tos contribuem, com seu padecer, ao resgate das criatu-
405

ras humanas, errantes, longe de Deus. Rainha das almas


vítimas. Bendito seja quem a acolhe em sua casa.

Magistério

Desde Leão XIII, o magistério ressalta a doutrina da


co-redenção e da mediação mariana. Diz Pio XII, Mystici
Corporis, 1943: “Maria Santíssima é santa progenitora de
todos os membros de Cristo, como já afirmou Pio X...
Nascemos do seio de Maria, como o corpo unido com a
cabeça. Num sentido espiritual e místico, somos chama-
dos filhos de Maria, e ela é a mãe de todos nós...
Estava ao lado da cruz para tornar-se reparadora do
mundo perdido e dispensadora de todas as graças... No
Calvário, sacrificando seus direitos maternos e seu amor
de mãe, ofereceu, como nova Eva, por todos os filhos de
Adão, o seu divino Filho ao Pai Eterno, de modo que, se
era corporalmente mãe da cabeça, tornou-se mãe espiri-
tual de todos os membros, por um novo título de dor e de
glória.
Suportando dores imensas com alma forte, e mais
que os simples fiéis vítima, verdadeira rainha dos mártires
completou o que faltou à Paixão de Cristo”.
O Vaticano II contemplou com simpatia esta teologia
mariana mais aprofundada, e permite-nos considerar Ma-
ria Santíssima como Medianeira das graças, e até como
Co-redentora, por participação na obra redentora de Je-
sus, sendo portanto, “depois de Jesus, esperança e con-
solo do povo de Deus peregrinante” (LG 68).

Rainha das almas vítimas

Na economia atual da salvação, a Mãe de Jesus o-


cupa um lugar necessário. Ela é a mãe, não somente do
Cristo, Filho de Deus encarnado, mas também do Reden-
406

tor. Mereceu de congruo, por conveniência, tudo quanto


Jesus mereceu no sentido estrito, de condigno. Maria
Santíssima é diaconisa da missa na cruz. É mãe de todo
o Corpo Místico. É Mãe da Igreja; é parte mais insigne do
Corpo místico; sua mediação salvadora é superior a toda
a Igreja junta.
Não tinha nada a expiar. É a Imaculada. Preservada
do pecado original, de todo pecado pessoal, e mesmo da
mínima imperfeição. Por nós associou-se aos terríveis
sofrimentos de Jesus. Mais do que qualquer outra criatura
está associada à obra da Redenção. Mais do que os mai-
ores santos. Mais do que os apóstolos. Mais do que os
estigmatizados. Co-redentora, segundo a plenitude da
graça e da caridade que recebeu.
Sua vida terrestre é, como a de Jesus, uma contínua
expiação redentora. Sua vida celeste é toda dedicada à
salvação das criaturas ainda peregrinantes no exílio. A
mensagem mariana dos últimos cem anos é a prova. A
Virgem de La Salette chora; “ela chorou o tempo todo so-
bre nós”, diz Melânia. A Virgem de Lourdes pede orações
pelos pecadores. A virgem de Fátima pede a reza do ter-
ço pelos pecadores. Acolher a Virgem em nossa casa é
penhor da graça e da vida eterna.

8. VÍTIMAS

Povo de Deus

Repetimos: pela incorporação no Cristo místico, to-


dos os nossos sofrimentos ganham novo valor. São sofri-
mentos de Redentor. Nossos padecimentos, voluntários
ou involuntários, têm valor de co-redenção, de expiação,
de resgate, porque Cristo e o cristão são uma só coisa,
como resulta de Atos 9: “Saulo, por que me persegues?”
Como declarou uma Igreja antiga: “Jesus sofre nos
407

mártires (Eusébio, a respeito dos mártires de Lião, em


180). Assim, todos os nossos sofrimentos completam a
redenção: eis o máximo que se pode dizer da dor cristã.
A reparação-redenção de Jesus foi superabundante,
infinita. Nada a acrescentar. Mas a sua Paixão deve ser
“assimilada” por nós (Pioti).
Devemos deixar-nos absorver pelo Salvador. Ele
quer renovar nos membros sua paixão. Escreveu Sto. A-
gostinho: “Cristo padeceu quanto devia. À medida da Pai-
xão nada mais falta. Os sofrimentos estão completos
quanto à Cabeça. Faltam os sofrimentos de Cristo em seu
corpo (místico).”
Almas vítimas propriamente são todos os batizados,
em virtude da união de todo seu corpo místico (Holstein).
Nosso fervor e nossa frieza dentro do Corpo místico favo-
rece ou desfavorece a cura dos membros doentes ou
mortos.
Jesus deixa o grau de colaboração salvífica à livre
escolha do fervor e do amor de cada um. Convida, pede
voluntários, não manda por lei.

Discípulos

Convite insistente dirige-se aos discípulos, como já


vimos. Os discípulos são convidados a uma seqüela radi-
cal do Salvador, total, até ao fim. São almas vítimas pro-
fissionais, por força de seu estado.

Consagrados

E discípulos são todos os religiosos, consagrados,


holocaustos (LG 44). É o sentido pleno da vida monástica.
É o sentido profundo das renúncias na vida religiosa.
Enfim, é a via escatológica, a via co-redentora. Du-
pla é a via espiritual do povo de Deus, através da história
408

humana: a vida escatológica da renúncia, admiravelmente


descrita pelo concílio (LG 48), e a via encarnada, atuante
no mundo humano, cooperando na construção da cidade
terrestre (LG 46). Cristo é a via para a vida eterna. Seu
exemplo é normativo para a perfeição. Assim, pois, o cris-
tão pode engajar-se de um modo especial na vida de Je-
sus, em Nazaré, como trabalhador-operário, filho súdito
na família, colaborando na construção da cidade terres-
tre...
O cristão pode imitar, de modo especial, os três a-
nos da vida pública, dedicando-se ao apostolado no Reino
de Deus. Pode, enfim, associar-se ao mais alto múnus
que Cristo desempenhou na sua vida terrestre: a reden-
ção. “Fez-se expiação por nossos pecados” (1Jo 2,2;
4,10): é a vida escatológica, que associa o povo de Deus
à obra redentora e expiatória de Jesus. É esta a via dos
consagrados (LG 46).
Por esta razão, a existência do estado monástico-
religioso é vital para a santidade da Igreja (LG 44). Alguns
textos: “A vida religiosa é uma doação e entrega a Deus
para salvar almas” (Lacordaire). “Esposa de um Deus cru-
cificado é preciso que sofras” (Gertrudes Maria). “Lembra-
te que queres esposar um Deus crucificado. É mister tor-
nar-te semelhante a ele, dizendo adeus a todos os praze-
res da vida, porque não haverá mais prazeres para ti, que
não sejam através da cruz” (Margarida M. Alacoque). “Ne-
cessito de almas religiosas que se sacrifiquem para expi-
ar” (Catarina Ricci)
Vítima insigne é o sacerdote da Nova Aliança, tão in-
timamente associado à missão do Filho de Deus feito
Homem-vítima. Jesus espera do seu sacerdote resposta
de amigo, não de mercenário.

Efeitos
409

Enfim, chegamos às almas vítimas entre o povo de


Deus, no sentido próprio da palavra. Almas prediletas, às
quais Deus dá sua graça de eleição: o sofrimento. Sofri-
mento físico ou moral, como ocorre na existência humana.
E muitas vezes, talvez sempre, recebem também partici-
pação mística nas fases da paixão, à maneira dos estig-
matizados. Estas vítimas aceitam essa graça de Deus
com coragem e gratidão. E sua vida tornar-se-á cópia fiel
do mártir do Gólgota. São os varejistas do grande sacrifí-
cio da redenção.
As almas vítimas, que se dedicam a oferecer as
Santas Chagas, a Santa Face, o Sagrado Coração, o Pre-
cioso Sangue, a Santa Missa, propriamente estão rezan-
do. E o convite para este estágio de almas vítimas é uni-
versal. É acessível a todos, grandes e pequenos. E creio:
Jesus levaria a mal uma recusa. Graça de escol é, porém,
o sofrimento. Jesus pode associar-nos à sua missão de
amante do Pai, ao seu múnus de orante, e finalmente à
sua missão de vítima padecente, ponto culminante de sua
existência terrestre. São as três pérolas do reino: amor,
sofrimento, oração. “Almas para rezar, encontram-se. Al-
mas para trabalhar (no apostolado), encontram-se em
grande número. Almas para trabalhar, para sofrer, encon-
tram-se poucas. A vida real tem poucos reis e rainhas...
E é de todas as vocações a mais misteriosa, a mais
sublime e a mais rara” (Plus). Todo o mundo prefere ser
copa de árvore florida e carregada de frutas doces; mas é
a raiz que importa mais (Krebs).
Mas eu tenho de pagar primeiro minhas próprias fal-
tas, culpas e dívidas... Amigo, deixa este cuidado por con-
ta de Jesus. Vai e salva teus irmãos que ainda são inimi-
gos de Jesus, e que estão em perigo de permanecerem
inimigos de Deus por toda a eternidade. Eis a tarefa mais
urgente. Porque tem prazo marcado.
410

Escolha

Todos os batizados são chamados; de modo especi-


al os religiosos; de um modo insigne, os sacerdotes. Mas,
como ainda há necessidade de operários nesta parte da
vinha, Deus mesmo escolhe vítimas em analogia com a
vocação sacerdotal. Hb 5,4: “O sacerdote é tirado do meio
dos homens para oferecer sacrifícios”. Análoga é a esco-
lha para o apostolado. Jesus escolheu os doze pessoal-
mente, e sublinhou: “Eu vos escolhi e não vós a mim” (Jo
15,16).
E Jesus determina também, com franca indepen-
dência, a carreira de cada um. Pedro vai morrer mártir;
João, não. E essa diferença não é da conta de ninguém,
responde Jesus à curiosidade de Pedro (Jo 21). São Pau-
lo foi também chamado expressamente para ser apóstolo
e para ser vítima: “Vou mostrar-lhe, quanto deve sofrer
por mim” (Atos 9,16).
A Sta. Lutgarda Jesus mostrou as cinco chagas a-
bertas nas mãos, pés e coração: “Olha e escuta, amiga:
minhas chagas gritam por ti; meu sangue não seja derra-
mado em vão”. A Sta. Margarida Alacoque: “Estou procu-
rando uma vítima para meu coração e não quero outra,
senão a ti, e quero que aceites”. A Ana Maria Taigi: “Eu te
escolhi, a fim de colocar-te no coro dos mártires”. “Avisa
ao sacerdote, teu diretor espiritual, que te escolhi hoje
para que vás ao mundo converter as almas, confortar
pessoas de todas as categorias: sacerdotes, monges, re-
ligiosas, prelados, cardeais e até meu vigário na terra;
terás de lutar contra uma multidão de criaturas fracas e
sujeitas a muitas paixões”.
A Gertrudes Maria (1907): “Entre as esposas da
França, escolhi hoje doze, e quero que sejas de seu nú-
mero. Estas virgens formam a guarda de honra do meu
Coração. Devem fazer-me fiel companhia; devem partilhar
411

minhas tristezas. Devem interceder pelos pecadores. A


onda da maldade, sobe sempre mais. Por isso escolhi
almas que me amem com amor especial... Tenho meus
amigos na terra como os tenho no céu. Aqueles são meus
amigos verdadeiros, os que sofrem por meu amor.

Candidatos

Os candidatos preferidos nesta escolha são os pe-


quenos, os fracos e humildes. Os que o sabem e o reco-
nhecem. Diz Jesus a Margarida: “Escolhi a ti porque és
um abismo de indignidade e de ignorância... a fim de que
tudo seja feito por mim”. Diz Jesus a Droste-Vischering:
“Meus olhos caíram sobre ti por causa de tua grande fra-
queza e miséria”. Sendo assim, há muitos candidatos nes-
te mundo habitado por homens. Infelizmente, muitos des-
ses pequenos estão convencidos de sua força e virtude.
E outra qualidade indispensável: o livre, espontâneo
consentimento. Como Jesus se fez vítima por livre vonta-
de (Jo 10,17), seus colaboradores também devem aceitar
a missão de boa mente, de coração.

Sede de sofrer

Características de todas estas vítimas é uma sede


insaciável de sofrer. Sede que raia o incrível. Sede ali-
mentada evidentemente por um foco de calor extra-
terreno. Alguns tópicos:
Os primeiros da fila foram os doze apóstolos de
Nosso Senhor, “alegres por terem sido julgados dignos de
sofrer pelo nome do Senhor” (Atos 5,41). Segue-se, o ar-
rebatado Paulo de Tarso. Abre a fila dos mártires Inácio
de Antioquia, anelante de dar o sangue e vida por Cristo.
Sta. Teresa d’Ávila revela o segredo: “Antes de ter
recebido o penhor do Senhor, é bem difícil alegrar-se de
412

ser objeto de desprezo” (Vida 10). Fogosa, Ângela de Fo-


ligno: “Pedi a graça de derramar meu sangue pelo Senhor
como ele fez por mim. Desejei para o meu corpo ainda,
tortura maior. E procurei quem me quisesse matar. Mas
matar pela fé e amor a Jesus... Depois vi a Santíssima
Virgem e São João, e pedi que me dessem as dores de
Jesus Cristo. Eles me atenderam. E, aquele dia terrível
não esqueço mais”. Lutgarda vê o Cristo ensangüentado
na cruz: “Veja como eu me ofereço ao Pai pelos pecados
dos homens. Faze o mesmo. Oferece-te toda também,
por meus pecadores.”
Sta. Margarida Alacoque: “Um amor crucificado quer
crucificados de amor”. Marcelina Pauper: “O amor faz se-
melhantes. Tu estás sofrendo opróbrios. Suplico-te, ó Je-
sus, dá-me este sinal, este penhor precioso e garantia de
teu amor”. Verônica Giuliani exclama exuberante: “Viva a
cruz, viva o sofrimento”.
Maria de Bourg: “Se vendessem sofrimentos na fei-
ra, eu iria já fazer compras”. Matilde de Magdeburg, preo-
cupada com o pensamento que com a morte acaba todo
sofrer, apostrofou a Jesus: “Meu bem-amado, tenho sede
desta bebida salutar, deste licor de sofrer amando. Dese-
jaria viver até ao último dia”. Liduvina, doente durante
quarenta anos: “Sou feliz. Se bastasse uma Ave-Maria
para curar-me, não a rezaria”.
Mas esses são os “grandes” santos. Para nós, arraia
miúda, o sofrer é o cumprimento fiel do dever cotidiano,
que cada dia traz combustível para o fogo sagrado no al-
tar do holocausto. Nossa contribuição é o tostão da viúva.
É a gota d’água no cálice: sozinha, fica água eternamen-
te; misturada ao sangue de Jesus, torna-se também san-
gue salvífico.
E, quanto ao mais, aguarde ordens do alto.
Rosa de Lima colheu flores e lança-as ao ar, para
Jesus. Seu irmão Fernando, pensando ser um jogo, corre:
413

“Vamos ver quem joga mais alto”. Suas flores recaem so-
bre a terra. As de Rosa ficam penduradas no ar e formam
uma cruz bonita.

Números

O número dos que se salvam fica aos cuidados de


Nosso Senhor. Não é da nossa alçada. Seria vaidade,
curiosidade. As vítimas trabalham, isto é, sofrem por a-
mor, não em troca de pagamento, nem terrestre nem ce-
leste. Mas, uma e outra vez, Jesus dignou-se levantar o
véu do mistério e revelou números, a título de estímulo e
animação. A conferir o capítulo paralelo, no tratado da
Oração.
414

9. GALERIA DAS VÍTIMAS


Algumas amostras. Uma antologia forçosamente in-
completa. É uma literatura de dos mil anos. Preferi textos
de “mensagens”, deixando de lado fatos e gestos hagio-
gráficos.
Predomina na antologia o elemento feminino, porque
é mais expansivo, mais loquaz. E os comparsas masculi-
nos raramente têm ao seu lado um direto espiritual, que
os obrigue a escrever memórias espirituais Assim, eles
usam das suas intuições espirituais para compor sermões
(Tauler, Vianney) ou para redigir livros (Blois, João da
Cruz).
A galeria das vítimas é maior que a Ladainha de to-
dos os santos. Figuram aqui todos os estigmatizados, a
começar com São Francisco de Assis. Seu sucessor ime-
diato, o cisterciense Dodo de Haske, +1332, o missionário
jesuíta Felipe Jeningen, +1704, até o nosso contemporâ-
neo capuchinho, Frei Pio, +1969.
Menção especial merece a estigmatizada de Portu-
gal, Alexandrina da Costa, +1955; e, no Brasil, Madre
Amália.
Interminável a lista dos e das participantes das dores
da Paixão. A consultar os 90 volumes, in folio, dos Bolan-
distas. Participação que tem sempre o caráter de expia-
ção suplente.
No terceiro grupo, predominante na nossa antologia,
figuram as almas vítimas que consolam a Cristo na pai-
xão, desagravam a divindade ofendida, sem ter outros
estigmas que suas doenças, sofrimentos físicos ou mo-
rais, que merecem amando e sofrendo, ou, digamos com
mais humildade e mais verdade, suplicam a graça da
conversão para os pecadores.
Na antologia, preferimos textos que falam expres-
415

samente da expiação.
Quando ao gênero literário da revelação particular,
vale a judiciosa orientação da Sta. Teresa d’Ávila: “Chu-
pando uvas... chupa-se o caldo, mas põe-se de lado a
casca; assim, aproveita-se o conteúdo doutrinal, abstrain-
do da sua origem supostamente divina”.

Inácio, Mártir, +107?

Bispo de Antioquia, martirizado em Roma, sob Tra-


jano. Escreve à Igreja de Roma: “Só vos peço uma coisa:
deixem-me oferecer a Deus a libação do meu sangue...
Morrerei de bom grado, se vós não me impedirdes. Supli-
co-vos: não me tenham uma compaixão inoportuna. Dei-
xem que me torne o pasto das feras, pelas quais irei che-
gar até Deus. Sou trigo de Deus, e devo ser moído pelos
dentes das feras, a fim de ser oferecido a Deus como pão
branco. Acariciai as feras, para que se tornem meu sepul-
cro e não deixem restos do meu corpo... Então serei dis-
cípulo verdadeiro de Cristo. Suplicai a Cristo para que, por
estes meios, logre ser sacrifício a Deus...
Se as feras não quiserem tocar-me, eu mesmo as
forçarei. Perdoai-me. Eu sei o que me convêm. Agora es-
tou começando a tornar-me discípulo de Jesus Cristo.
Deixai-me ver a luz... Permiti-me imitar a paixão de meu
Deus... Meu amor foi crucificado... e a fonte de água viva
murmura dentro de mim: Vem ao Pai”.

Lutgarda, 1182 - 1246

Seu primeiro encontro com Cristo deu-se na sala de


visitas, quando entretida numa conversa fútil com um ad-
mirador de sua beleza de quinze anos. Lutgarda viu, subi-
tamente ao seu lado, Cristo envolto em chamas e luz.
416

Mostrou-lhe a chaga aberta do seu Coração e disse-lhe:


“Eis aqui o que deves amar”.
Anos mais tarde, já religiosa professa, dialoga com
Jesus: “Senhor, quero teu coração”. Jesus replica: “Eu
também quero o teu”. Lutgarda: “Com todo prazer, Se-
nhor; toma-o... que esteja sempre em ti”.
Certa noite, com febre, banhada em suor, ouviu o si-
no tocar para as matinas às duas horas da madrugada, e
logo ouviu também as voz de Jesus: “Levanta-te depres-
sa. Por que ficas aí deitada? A esta hora os pecadores
revolvem-se na lama dos seus vícios, e tu deves estar
fazendo penitência por eles, em vez de ficar deitada à
vontade”. Chegando atrasada à capela, encontra na porta
do coro, Jesus crucificado que a abraçou e a fez beber na
chaga do seu coração.
Apareceu-lhe a Virgem das Dores: “Vê meu Filho,
mais uma vez crucificado pelos hereges e maus cristãos.
Mais uma vez escarram-lhe no rosto. Tu, portanto, faze
penitência e jejua sete anos para apaziguar a ira de meu
Filho”.
Novamente Lutgarda vê Jesus no céu, mostrando ao
Pai suas chagas vermelhas de sangue. Voltando-se para
Lutgarda, Jesus lhe diz: “Não vês como me ofereço ao Pai
por meus pecadores? Quero que tu também te ofereças
totalmente a mim por eles”. E Jesus termina, pedindo uma
segunda septena de jejum “pelos pecadores”.
Um terceiro jejum de sete anos, imposto por Jesus,
visa combater um poderoso inimigo da Igreja, provavel-
mente o imperador gibelino Frederico II.
Torturada por desejos ardentes do céu, Jesus apa-
rece-lhe, mostra as cinco chagas e diz: “Vê e contempla,
ó bem-amada! Minhas chagas bradam por ti, a fim de que
meu sangue não tenha sido derramado em vão... Elas te
dizem que tuas dores e tuas lágrimas apaziguam a ira do
Pai, para que não lance na morte os pecadores, mas os
417

faça converterem-se”.
Em 1245, seu último ano de vida, Jesus pede-lhe
três coisas: 1. Agradecer por todos os dons recebidos. 2.
Que te entregues totalmente em oração ao Pai, por meus
pecadores. 3. Desejar o céu. (T. MERTON, Que são estas
chagas, Vozes, 1959).

São Francisco

Francisco implora a graça de poder suportar todas


as enfermidades. Uma voz responde-lhe: “Francisco, po-
de-se pagar caro demais uma pérola, se com ela pode-
mos comprar um reino sem preço? Esta pérola é o sofri-
mento enviado por Deus. Saiba que ele vale mais que
todos os tesouros da terra. E não se deve trocá-lo pelo
mundo inteiro, mesmo que todas as suas montanhas se
transformem em ouro puro, e todas as suas pedras em
diamantes. Alegra-te, é o caminho do paraíso!”
No seu retiro de quarenta dias no monte Alverne,
dois anos antes da morte, qual novo Moisés, Cristo apa-
receu-lhe e mandou que abrisse o livro dos Evangelhos.
Três vezes deparou com a Paixão de Jesus.
Como na sua vida franciscana foi imitador de Cristo,
também na morte devia assemelhar-se a ele. Recebeu os
estigmas e também a sua parte nos padecimentos do Sal-
vador, como o divino Mestre coroando sua vida apostólica
como vítima de expiação.

Margarida de Cortona, +1297

Sexta-feira santa de 1287. Margarida participa, das


nove às três da tarde, do drama da Paixão, vendo, pade-
cendo e explicando de tempo em tempo a visão, sem per-
ceber o povo que a rodeava. De braços estendidos, das
doze às quinze horas, reflete no rosto os sofrimentos do
418

crucificado. A cena termina com um agradecimento jubilo-


so. Depois ela percebe, desapontada, a presença do po-
vo. Mas Jesus, intervém: “Fica sossegada, minha filha;
quero que sejas o espelho dos pecadores, mesmo para
os mais obstinados. Quero que eles se convençam, por
teu exemplo, que o seio da minha misericórdia está sem-
pre aberto ao arrependimento”.
Quaresma de 1288, Jesus mostra-lhe, ao lado dos
pecadores por ela convertidos, a corrupção moral da cris-
tandade: “Meus inimigos são mais numerosos hoje do que
no dia da Paixão. Se meu corpo fosse tão grande como o
mundo, estaria coberto de feridas da cabeça até os pés”.
E a vista do Homem das dores ensangüentado ar-
ranca-lhe a generosa oferta de sofrer tudo com ele, pelos
pecadores. A vítima é aceita. Uma cruz luminosa desceu
do céu. “E onde estão os cravos para me pregar sobre
esta cruz?”, pensou consigo. Jesus responde: “Sim, será
mártir comigo. Mas não teu corpo, e sim teu coração será
crucificado”.
“Minha filha, os meus bem-amados não devem cho-
rar sobre seus males, mas sobre o povo. Três espécies
de gemidos convêm aos meus amigos. A primeira, por
seus pecados. A segunda, por minha dolorosa Paixão. E
a terceira, pelos pecadores, que se perdem por ofender-
me. Desde a redenção, o mundo nunca necessitou tanto
destas lágrimas como hoje... O mundo conspurcou-se em
tantos vícios, que não encontras na graça nem mesmo
um entre mil.
Por isso, eu te fiz rede para pegar peixes a flutuar no
mundo... Eu te fiz espelho dos pecadores e mãe dos pe-
cadores. Tu és a mão que os arrasta para fora do abismo
dos vícios. Por isto, filha, chegarás a mim pela via da tri-
bulação. Teu amor pode dizer-se descomedido, e tu podi-
as ser chamada imensa[?]. De ti aprenda o mundo que,
por uma pequena penitência, se pode subir rapidamente à
419

excelência das graças.


Gília, tua amiga e discípula, ficou no purgatório du-
rante um mês, sofrendo leves penas... pelas iras que teve
em seu zelo... depois foi posta no coro dos querubins.
Corre pela via da cruz, e seguramente chegarás aos
dons sublimes que desejas... Tu és incrédula! Não acredi-
tas que eu possa fazer de ti um vaso puríssimo. Agradam-
me as obras que estou realizando em ti. Aproxima-te fre-
qüentemente da chaga do meu lado, a fim de sugar e sen-
tir o sangue que se derramou pela salvação de todo o gê-
nero humano”.
“E eu te digo: Tu és aquela filha bem-amada, à qual
darei maiores graças do que a qualquer outra mulher des-
te século. Ama-me, porque eu te amo. Louva-me, e eu te
louvarei e farei louvada por todo o mundo”.
“Eu te digo: não existe atualmente, sob o céu, outra
mulher que eu ame mais do que a ti”. “Colocar-te-ei entre
os serafins, onde estão as virgens ardendo em amor”.
“Filha, ama-me, pois são poucos os que me amam”.
“E profetizo: até à tua morte estarás mergulhada na
fornalha da tribulação”. Margarida responde: “Mas como
pode um vaso tão frágil suportar tanto tempo a fornalha
de fogo? Não há vaso mais frágil sob o céu. Dize-me,
pois, por misericórdia, quando será o dia da minha mor-
te?” Jesus: “Tu vives segundo minha vontade”.
Julgando-se indigna das graças divinas, Jesus lhe
responde: “Dos pés até a cabeça eu te revesti de graças e
virtudes”. “Se queres conservar a pureza ilibada, leva con-
tigo as cinco pedras das minhas chagas, e com elas feri-
rás o inimigo na testa”.
“Filha, por que queres fazer o paraíso na terra,
quando nem mesmo ao meu corpo unido à divindade eu o
dei? Não esperes por isso”.
“Quando ficaste ao lado da cruz (na igreja), dei-te
muitas graças. Volta ao mesmo lugar e darei maiores gra-
420

ças ainda. Retorna à cruz: lá me encontrarás”.


“Nunca, desde a redenção, caíram tantos no inferno
como agora... por isto, eu te fiz uma fonte para salvar os
pecadores... Tu és plantação que faz verdejar as plantas
secas, pois de ti sairá a água para irrigar a raiz das árvo-
res, porque tu és minha irmã e minha sócia, e não te cha-
mo mais de serva”.

Ângela de Foligno, +1309

“Vinde, ó filhos de Deus, ao pé da cruz e transfor-


mai-vos com todo empenho neste Homem-Deus martiri-
zado por nosso amor”.
“Glória e louvor sejam dados a Deus, porque quis
dar seu Reino, sua companhia, sua felicidade, aos po-
bres, aos pequeninos, aos desprezados... Se custasse
ouro, prata ou pedras preciosas, a maioria estaria excluí-
da. Mas fez a nossa vida curta para não desanimarmos
na dor...”
“Sede benditos pela mão de meu Pai, vós que parti-
lhastes e chorastes minha Paixão. Vós que lavastes vos-
sas vestimentas no meu sangue. Sede benditos, vós que
fostes achados dignos de vos compadecer de minhas tor-
turas, de minhas ignomínias, de minha pobreza. Sede
benditos, porque guardastes no fundo do vosso coração a
memória da minha paixão. Minha paixão, o único refúgio
dos pecadores. Minha paixão, vida dos mortos! Minha
paixão, milagre dos séculos! Ela vos abrirá as portas do
reino eterno. Vós, que tivestes piedade de mim, participa-
reis também da minha glória!”
“Benditos sois vós! Pendurado na cruz, eu gritei,
chorei, pedi perdão por meus algozes: Pai, perdoai-lhes.
O que darei a vós, que me fizestes companhia, a vós,
meus dedicados amigos?
Testamento: “A caridade não se limite a vós, mas se
421

estenda a tudo quanto é criatura humana na terra. Digo-


vos, em verdade: minha alma possuía mais Deus quando
chorava e lamentava os pecados dos outros do que os
seus. O mundo iria rir-se de mim, se dissesse que chorei
mais sobre os pecados dos outros do que sobre os meus,
porque não crê que isto seja natural. Mas também a cari-
dade que tenho não é deste mundo”...
“Deixo-vos todos os meus bens, bens de Jesus Cris-
to: pobreza, sofrimento, desprezo e enfim toda a vida de
Cristo. Sede benditos por aquela mão que por nosso amor
foi pregada na cruz”.

Catarina de Sena, +1380

Aos sete anos de vida, já tomava três disciplinas por


dia: uma para si, outra pelas almas do purgatório, e a ter-
ceira pelos pecadores. Ofereceu-se como tampa do infer-
no, para ninguém mais cair nele.
Caluniada por uma leprosa, aparece-lhe Jesus e ofe-
rece duas coroas a escolher: uma de ouro e diamante, a
outra de espinhos. Catarina escolhe a de espinhos, sen-
tindo-os depois, continuamente. Estigmatização invisível.
Jesus convida-a ao apostolado: “Abre-me caminho.
Abre-me a porta das almas para eu poder entrar... Dois
são os mandamentos: amor de Deus e amor do próximo.
Quero que tu andes com os dois pés. Quero que voes ao
céu com as duas asas”.
Catarina se escusa: “Sou tão miserável, tão frágil!
Como posso ser útil às almas? De que modo? Minha fra-
queza feminina o impede”. Jesus responde: “Não suporto
mais o orgulho dos que se julgam letrados e sábios... Pa-
ra sua confusão, mandarei mulheres para a minha vinha”.
Preparando-se para comungar, sente desabar sobre
si uma chuva de sangue e fogo: figura de sua missão.
Em 1270, Catarina morre: partira-se seu coração.
422

Fica morta durante quatro horas. Faz um passeio através


do céu, do purgatório e do inferno. No fim, Jesus pede
que retorne à terra: “Viste, quanta glória perdem, quanto
castigo sofrem os que me ofendem? Retorna, pois, e
mostra-lhes o erro e o perigo”. Catarina põe dificuldades.
Jesus insiste: “A salvação de muitos depende de teu re-
gresso. Vai, pois; não fiques mais na tua cela. Irás, de
cidade em cidade. Irás falar perante bispos e papas...”
Catarina ressuscitou. Chorou dois dias e duas noites, sem
parar, sentindo saudades do céu. “Ah, como sou infeliz!”
Catarina reza pela sua salvação eterna, pela sua
perseverança final, pela sua família, de seu confessor, de
seus amigos...
“Prova-me que me ouves e dá-me um sinal”. “Esten-
de-me a mão”. E um prego atravessou-lhe a mão direita, e
ela sentiu para sempre a ferida; era penhor.
A seus filhos espirituais escreve a santa “Assim co-
mo tu, Senhor, carregaste os sofrimentos que nós mere-
cíamos, assim quero expiar as faltas de todos os meus
filhos espirituais... Começai uma vida nova! Eu tomarei
sobre mim os vossos pecados! Farei penitência em vosso
lugar... Jesus está mais disposto a nos perdoar do que
nós estamos a pecar”.
A estes filhos espirituais Catarina quer dar como ali-
mento não leite, mas fogo. Jesus dissera-lhe certa vez:
“Eu sou o fogo, vós as centelhas”.
Testamento espiritual: “A fim de dar-se totalmente a
Deus é mister libertar o coração e os sentimentos de tudo
e de todo amor sensível pelas criaturas, e das coisas cri-
adas, e apegar-se unicamente a Deus. O coração não
pode dar-se realmente a Deus se não estiver livre”...
“Deus manifestou-me que jamais poderei atingir a
perfeição sem ser humilde, fiel e constante na oração. A
oração é uma mãe que concebe e alimenta na alma todas
as virtudes. Sem ela, todas se debilitam e são de curta
423

duração...”

Livro do Diálogo

“Muito me agrada o desejo de querer suportar toda


pena e fadiga até a morte pela salvação das almas. Quan-
to mais sofrimentos suportas, mais provas me dás de que
me amas”.
“A cruz é a ponte que da terra conduz ao céu. Os
mundanos deixam-se levar pelas águas abaixo e se afo-
gam”.
“Lavai a face da minha esposa com as lágrimas e o
suor teu e dos outros servos meus”.
“Peço-te que benignamente, ó Deus eterno, casti-
gues em mim (os crimes do mundo)”.
“Não vos canseis de lançar-me o incenso odorífico
das orações pela salvação das almas; porque eu quero
fazer misericórdia ao mundo, e lavar com vossas lágrimas
a face da minha esposa, a Igreja”.
“Tu me fizeste quatro pedidos. Um por ti, que já a-
tendi. O segundo, que eu tenha misericórdia para com o
mundo. O terceiro, pelo corpo místico da santa Igreja, su-
plicando-me que afastasse as trevas e perseguições. Já
prometi e prometo-te que, mediante os muitos sofrimentos
de meus servos, reformarei a minha esposa. O quarto
pedido é um caso particular. Eu, Pai Eterno, convido-te e
os outros servos meus ao pranto; e com o pranto e com a
humildade e contínua oração, quero usar de misericórdia
para com o mundo”.
Como que ébria e fora de si, Catarina desejava que
o suor de seu corpo fosse não de água, mas de sangue:
“Ó minha alma, quanto tempo perdeste, e então acontece-
ram tantos males no mundo e na santa Igreja!... Deus
meu, quero que agora os remedeies, com teu suor de
sangue!”
424

Catarina: “Tu pareces abobado pelas tuas criaturas,


como se não pudesses viver sem elas. O nosso bem não
aumenta a tua grandeza! O nosso mal não te atinge! Que
é que te move a fazer e usar de misericórdia?” -“O amor”.
Deus: “Meu amor vos criou meu amor vos sustenta.
Fostes feitos por amor”.
“Não abaixes tua voz a suplicar-me misericórdia pelo
mundo... Por estes gemidos e gritos quero dar misericór-
dia mundo. E é isto que peço dos meus servos: este será
o sinal de que me amam de verdade”.
“Bem sei que a misericórdia te é própria, mas não a
podes aplicar senão a quem te pede”.
“O que pedir? O sangue, no qual tens lavado a mal-
dade. O sangue é nosso...”
“Põe na balança o preço do sangue de teu Filho.
Neste sangue deste banho nos cordeirinhos. Este sangue
te pedem sedentos os teus filhos, para que faças miseri-
córdia ao mundo e faças florir e reflorir a santa Igreja, com
flores odoríficas de bons e santos pastores... Pai, tu me
disseste que, pelas orações de teus servos e pela fadiga
que eles sustentam, terás compaixão com o mundo e re-
formarás tua Igreja. Responde com a voz da tua miseri-
córdia”.
“A Maria Santíssima, mãe de meu Filho, dei este pri-
vilégio: justo ou pecador, que lhe tenha a devida reverên-
cia, não será levado ou devorado pelo demônio infernal”.

Matilde de Magdeburgo, +1283

Jesus aparece-lhe, com as chagas abertas, sangren-


tas... Enquanto se cometem pecados na terra, suas cha-
gas ficam sangrando. Jesus mostra-lhe seu coração “que
se parece com ouro vermelho na fornalha ardente”. Ele
une os dois corações como água e vinho.
Jesus: “Estou unido a ti. Tu me trazes só ferro velho,
425

eu tenho ouro”. Deu-lhe duas moedas de ouro: “Faze com


elas teu comércio. As duas valem muito e são igualmente
boas. Com a boa vontade e o bom desejo tu podes com-
prar e pagar tudo quando queres”.
Às monjas da abadia, o recado de Jesus: “Eu vos
escolhi. Escolhei-me também”.
Matilde tem três filhos. O primeiro são os pobres pe-
cadores. O segundo são as almas do purgatório. E o ter-
ceiro são os religiosos e os eclesiásticos imperfeitos. “E
estes filhos causam-me mais dores”.
“Jesus, eu te peço a completa conversão, mudança
de vida e perseverança das almas santas. Rezo também
por todas as almas sofredoras... por todos os meus per-
seguidores... pelos moribundos... por todos os que usam
o hábito eclesiástico... pelo chefe de Roma... pela Terra
Santa... pela paz da cristandade... pelos príncipes deste
país... pelos pobres, doentes, aflitos, moribundos, pelos
que sofrem no purgatório...”
Visão do purgatório: “Jesus, não posso ir até a estas
almas e sofrer com elas?” “Queres entrar? Então irei jun-
to”.
“Vê as almas pelas quais rezaste...” (uma vez, mil fo-
ram salvas; outra vez, setenta mil).
Jesus oferece dois cálices. Na mão esquerda, o vi-
nho tinto, o sofrimento. No outro, o vinho do amor divino.
“Bem-aventurados os que bebem este vinho vermelho;
pois só eles beberão o segundo.” O sofrimento queixa-se:
“Fiz tantos santos e salvei a muitos, e a mim não deixam
entrar no céu”... Jesus responde: “Sofrimento, tu não nas-
ceste no céu, mas no coração de Lúcifer e ali ficarás eter-
namente”.
Deus permite sofrimento e perseguições, porque
quer que nos tornemos semelhantes a seu Filho.
Matilde pede para morrer após a santa comunhão:
“Tu deves enriquecer-te mais ainda, pelo sofrimento”.
426

“Gosto desta poção salutar que é o sofrimento, su-


portado por amor de Deus”. “Dai-me vossa bênção!” -“Eu
te abençôo com minhas chagas”.

Matilde de Helfta, +1299

Suas três grandes devoções são: os pecadores as


almas do purgatório e o clero. Sofrer é a graça de predile-
ção, pela semelhança que se tem com Jesus: “Aceito as
lágrimas derramadas por minha paixão como se alguém
tivesse padecido por mim”.
Certa vez, Matilde ouve reboar no firmamento do
céu o barulho das disciplinas que as monjas fazem pela
salvação do mundo.
Jesus aparece sobre o altar, de braços abertos, san-
grando abundantemente por todas as chagas: “Eis que
todas as minhas chagas estão abertas a fim de desagra-
var, por vós, ó Pai”.
Jesus: “Deposita todas as tuas penas em meu cora-
ção. Eu lhes darei a perfeição mais absoluta que possa
haver: o sofrimento. Confia tuas penas ao Amor... Minha
paixão deu frutos infinitos para a terra. Teus sofrimentos,
unidos à minha paixão, também darão grande glória aos
eleitos, grande mérito aos justos, perdão aos pecadores,
alívio às almas do purgatório”.
Jesus: “Eu absorvo em mim os teus sofrimentos e
padeço em ti”. “Vamos. Reza pelos míseros pecadores.
Eu os resgatei por grande preço, e desejo tanto sua con-
versão!”
Na comunhão geral da abadia, na festa de Todos os
Santos, Jesus dá de presente a cada religiosa a conver-
são de mil pecadores.
Doente, Matilde aborrece-se com o acúmulo de a-
tenções e alívio por parte das irmãs. Jesus: “Não te per-
turbes. Sou eu quem, em verdade, suporta o que tu so-
427

fres. Assim, os cuidados também me aproveitam”.

Gertrudes de Helfta, 1302

Jesus: “Não há na terra remédio mais eficaz contra o


pecado do que a devota recordação da minha paixão, u-
nida à verdadeira penitência e a uma reta fé”.
Confessa Gertrudes: “Senti fazer pouco progresso
até começar a rezar pelos pecadores, pelas almas do
purgatório e por outras almas atribuladas”.
Recebeu cinco marcas do amor, os estigmas invisí-
veis. Recebeu a ferida do coração. Recebeu em troca do
seu, o coração de Jesus, e em gratidão canta louvor a
Deus com a doce lira do coração de Jesus.
Jesus oferece-se a substituí-la no coro, no canto-
chão, num dia em que estava rouca. Daí sua prece: “Ofe-
reço-te, ó Pai amantíssimo, em expiação, todo o sofrimen-
to do teu Filho bem-amado, desde o presépio até o último
suspiro na cruz”.
“Será bom lembrar aos homens, diz Jesus, a vanta-
gem para eles de recordarem-se sem cessar que eu, o
Filho da Virgem, estou perante o Pai. E toda vez que eles
cometem pecado em seu coração, por fragilidade, eu ofe-
reço meu coração imaculado em desagravo ao Pai.
Quando pecam com a língua, ofereço minha boca pura e
inocente. Quando pecam por obra de suas mãos, apre-
sento minhas mãos chagadas. E assim, em todas as de-
mais faltas que cometem, minha inocência aplaca a ira do
Pai, na mesma hora, para que se arrependam e alcancem
fácil perdão. Por isto, eu queria que meus eleitos, todas
as vezes que forem perdoados, me dirigissem ação de
graças contínuas por ter-lhes obtido tão fácil perdão”.
Durante os três dias do carnaval, Jesus procura des-
canso e consolo no coração de Gertrudes, pedindo-lhe
preces, silêncio e penitência pela conversão dos munda-
428

nos. Também durante o carnaval em outro ano, Jesus lhe


diz: “Se desejas aliviar minha dor, deves suportar uma dor
e colocar-te à minha esquerda”... E ela viu o Cristo flage-
lado. Comovida, deseja socorrê-lo. Jesus: “Se alguém
medita a paixão e se inflama de amor, e neste amor reza
pelos pecadores, aplica ao meu coração o mais suave
curativo e tira-me todas as dores”.
E no mesmo dia, no início da missa conventual, Ger-
trudes ouve as palavras de Jesus: “Sê, ó bem-amada,
minha protetora contra os insultos destes dias. Estou fu-
gindo dos meus inimigos e tomei refúgio em ti”.
Gertrudes oferece-se a Jesus pela santa Igreja, co-
loca-se ao seu total dispor. Jesus: “Então, entrega-me a
chave da tua vontade”.
Jesus: “Desejo ser oferecido, cada dia, a Deus Pai
por todos os pecadores, com o mesmo amor com que me
ofereci na cruz”.
Jesus recomenda: “Após cada falta oferecer ao Pai,
em expiação, sua paixão e morte”.
Jesus: “A melhor relíquia da santa cruz é meditar a
paixão”.
Numa missa celeste, Jesus manda Gertrudes rezar
o Pai-nosso unida ao seu Coração, pela Igreja e pela sal-
vação de todos os fiéis

Crônica de Toess - 1300

As monjas dominicanas sabem que seus “Saltérios”


e suas austeridades (da regra e da iniciativa pessoal) ci-
catrizam as feridas do Cristo padecente.
Gertrudes de Wintertur vê, na sexta-feira santa, o
Homem das dores coberto de chagas durante o ofício re-
ligioso, e ouve o murmúrio: “Estas preces curam minhas
feridas”.
Adelheid de Frauenberg, gravemente doente, vê a-
429

parecer ao seu lado o Cristo pregado na cruz. “Suporta


com paciência, lhe diz; eu serei sua recompensa eterna”.
Ardendo de desejo do céu, Adelheid pergunta: “Mas
quando, Senhor?” - “É preciso que sofras ainda um pou-
co”. Ela exclama: “Senhor, rasga minhas mãos, pés, cora-
ção, cabeça e todo o meu corpo! E Jesus se ergue de
todo curado: “Tu me curaste com tuas lágrimas de amor”.
Margarida de Hunikon, jovem ainda, padece, durante
sete anos de cruel doença. Após a morte foi vista ao en-
trar na glória, em numerosa e luminosa companhia, a de
todas as almas que salvou com seu sofrer.
Matilde de Stans sofre com Jesus as cinco chagas.
Sofia de Klingnau sente no coração a espada de dor
da Mãe Dolorosa.

Crônica de Colmar - 1300

Monjas dominicanas, na primavera do seu amor por


Cristo, dão testemunho:
Benedita de Egisheim sente, após a santa comu-
nhão, o sangue de Jesus qual um rio caudaloso a invadir
todo o seu corpo, purificando seu íntimo de todos os ví-
cios.
Matilde de Winzenheim alcança a salvação eterna
para dois de seus irmãos que eram piratas, homicidas
devassos.
Estefânia Ferrete exilou-se, como vítima, pela con-
versão de dois irmãos que assassinaram o próprio pai.
Passa uma longa vida de doenças. Durante cinqüenta
anos não teve nem um dia de alívio.
Herburg de Herkenheim, numa guerra entre dois ir-
mãos, passa a noite em oração e alcançou a mútua re-
conciliação.
Ana de Wineg, altamente mística, oferece-se todos
os anos, na manhã da Páscoa, como “cordeiro pascal”.
430

Oferece todos seus méritos para Deus distribuí-los aos


vivos e defuntos, à sua vontade, “holocausto, gratuito e
anual”.
Hedwig de Laufenberg vive rezando por Godofredo
de Habsburgo, sobrinho e ajudante de ordem do impera-
dor. Apareceu-lhe Jesus de braços abertos, com as cinco
chagas. E em cada chaga a imagem de Godofredo.
Adelheide de Sigolsheim sempre se oferece como
holocausto voluntário a Nosso Senhor. Sentia-se “cheia
de Deus”. A fim de suportar o calor do amor divino, mer-
gulhou no rio gelado, e depois passou a noite inteira no
coro “suando”. Não quis tornar-se monja, nem leiga; ape-
nas ajudante da cozinha.
Hedwig de Gebweiler especializa-se em libertar al-
mas do purgatório. Entre elas está o seu irmão, condena-
do a sofrer até ao fim do mundo.

Osana de Mântua, +1505

Coroada de espinhos e tendo recebido uma ferida no


coração, pede com ardor as outras chagas.
Jesus: “Tu queres, pois, receber meus estigmas?”
“Oh, sim; que mais te dizer?”
“Mas toma cuidado! As dores que desejas são cruéis
e acima de tuas forças. Talvez te arrependerás ao teu
pedido!” “Nada será pesado demais para meus ombros,
se tu me vieres em meu socorro”.

Liduvina de Schiedam, +1438

“Um grande exército de doenças invadiu o seu cor-


po”, narra um biógrafo antigo. Nos três primeiro anos so-
freu com paciência e com a impaciência do desejo de sa-
rar. Seguiu o conselho de confessor: de meditar sobre a
paixão de Nosso Senhor, devoção que continuou pelos
431

trinta e oito anos seguintes. Dividiu-a em sete partes,


chamando-as de suas horas canônicas, diurnas e notur-
nas. Só três anos depois sentiu e compreendeu a chama-
da de Jesus para ser vítima. Sua comunhão nos primeiros
anos era só na Páscoa, depois tornou-se mensal e nos
últimos anos foi quase diária. Foi, aliás, a comunhão nos
últimos dezenove anos o seu único alimento. Vomitou,
com dores, uma hóstia não consagrada. Jejum contínuo.
Nos primeiros anos, um pedaço de pão; depois, só líqui-
do; um gole de cerveja ou de vinho de vez em quando. No
fim, jejum absoluto.
Parece que fez quatro anos de noviciado para acos-
tumar-se a sua nova profissão de vítima, até exclamar:
“Se soubesse que poderia sarar rezando uma Ave Maria,
não rezaria essa Ave Maria”.
Foi estigmatizada numa visão de Maria Santíssima e
de Jesus adolescente, que se transformou no homem das
dores, e retornou depois ao estado de menino crucificado.
Os sinais eram visíveis até a morte.
O caso mais evidente de intercessão: uma flotilha de
piratas aproximou-se para saquear a aldeia. Luduvina ofe-
receu-se para sofrer mais e a flotilha, apesar do vento
favorável, foi afastada por força misteriosa, para o alto
mar.
Num êxtase, encontra seu avô na porta do céu que
lhe diz: “Querida filha, não te posso permitir a entrada
neste lugar. Seria uma calamidade para aqueles que ain-
da têm necessidade de teus serviços. Ainda há pecados a
expiar. Há almas do purgatório a libertar. Mas consola-te:
será por pouco tempo”.

Camila Batista Varano, +1524

Vaidosa princesa da renascença, foi vestir-se do bu-


rel cinzento de Sta. Clara. Ainda menina de oito anos,
432

começara a meditar sobre a Paixão todas as sextas-


feiras. Pelos quinze anos resolveu fazer esta meditação
todos os dias, várias vezes após o baile no palácio. Uma
visão do Calvário orienta a clarissa definitivamente para o
Crucificado. Resolveu que todos os seus dias seriam
“sextas-feiras santas” em perpétua memória da Paixão.
Ela põe reflexões e intuições na boca de Jesus e escreve:
“Agradeça a Deus e de todo o coração pelos sofrimentos
que meu amor te prepara. A púrpura do sofrimento, eis o
ornato nupcial. O dom mais precioso que Deus te pode
dar é o sofrimento. Tu também podes te negar. Mas sai-
bas que recusando, recusas o bem supremo.
É uma grande graça evitar o pecado. É graça maior
praticar o bem. A maior de todas é poder e saber sofrer
por amor a Deus. Vou agir contigo como meu Pai me tra-
tou. Vou carregar-te de todos os sofrimentos de que és
capaz de suportar. E quanto mais te julgas abandonada
por Deus, tanto mais perto dele estás”. “Os sofrimentos do
meu coração (no jardim das Oliveiras), foram inúmeros,
infinitos! Precisas lembrar-te que sou cabeça de um corpo
do qual todos os cristãos são membros, membros inume-
ráveis, dos quais a maior parte me foram, me são e me
serão arrancados pelo pecado mortal, talvez repetidas
vezes... e quantos, para sempre!... Quanto maior era o
meu amor por eles, amor que se devia prolongar pelos
séculos dos séculos, tanto mais me senti afligido ao vê-los
abandonar-me e apegar-se a objetos indignos deles”...

Teresa d’Ávila

Jesus: “Crê, minha filha! A quem meu Pai mais ama,


maiores trabalhos dá, de acordo com a grandeza do amor
que tem por ti. Em que te posso melhor mostrar minha
ternura do que em escolher para ti o que para mim esco-
lhi? Olha estas chagas. Nunca serão iguais às tuas dores.
433

É este o caminho da verdade. Seguindo-o, me ajudarás a


deplorar a perdição em que andam os do mundo” (Rela-
ções, 36).
Em quarenta anos pôde na verdade, dizer que ja-
mais passou um dia sem dores e diversos padecimentos
(Moradas, 6,1,7).
“Uma pessoa, (Sta. Teresa mesma) rezava muito a-
flita diante do crucificado, considerando como nunca tive-
ra nada que dar a Deus nem que renunciar por ele. Disse-
lhe o mesmo Crucificado, consolando-a, que ele lhe fazia
entrega de todos os trabalhos e dores que havia passado
na paixão. Portanto, que os tivesse por próprios e os ofe-
recesse ao seu Pai. Ficou tão rica e consolada aquela
alma!” (Moradas, 6,5,6).
“Ponde os olhos no Crucificado, e tudo vos parecerá
pouco. Se sua majestade nos mostrou seu amor com o-
bras e tormentos tão estupendos, como quereis vós con-
tentá-lo só com palavras? Sabeis como seremos verda-
deiramente espirituais? Fazendo-nos escravas de Deus,
marcadas com o ferro de sua cruz; dando-lhe toda a nos-
sa liberdade, para que todo o mundo nos possa vender
como escravos, como ele o foi. Pois, com isto, nos faz
nenhum agravo; ao contrário, é não pequena mercê (Mo-
radas, 7,4,8).
“Não temos vergonha de querer gostos na oração e
de prorromper em queixas por causa das securas? Ja-
mais vos aconteça isto, irmãs! Abraçai-vos à cruz que
vosso esposo levou às costas, e convencei-vos que esta
há de ser a vossa empresa. A que mais puder padecer,
padeça mais por ele. Caberá a esta, a melhor parte” (Mo-
radas, 2,7).
Desde moça, ainda no mundo, Teresa tinha o cos-
tume de meditar a agonia no Horto, antes de dormir. “Te-
nho para mim que minha alma ganhou muito” (Vida, 9,4).
Anos mais tarde Jesus se queixa: “Ah, filha, quão
434

poucos me amam de verdade! Se me amassem não lhes


encobriria eu meus segredos. Sabes o que é amar-me de
verdade? É compreender que é mentira tudo quanto não
me agrada” (Vida, 40,2).
“Nas minhas preces tinha receio de não ser atendida
por causa dos meus pecados. Apareceu-me o Senhor e
começou a mostrar-me a chaga da mão esquerda e com
a outra mão tirava um grande cravo que nela estava meti-
do. Parecia-me que, junto com o cravo, arrancava tam-
bém alguma carne e deixava ver sua grande dor... Disse-
me: quem tinha passado aquilo por meu amor, sem dúvi-
da faria o que eu lhe dissesse e pedisse... não duvidasse
eu de suas promessas” (Vida, 39,1).
Nos Carmelos, Jesus encontrou sem dúvida quem o
amasse assim. Exclama Ana da Trindade: “No sofrer nun-
ca se deve parar e tomar fôlego, mas correr sempre para
frente”. Isabel dos Anjos, rica e única herdeira, suprimiu
do Saltério, certos versículos. A mestra descobriu a pie-
dosa fraude e chamou-lhe a atenção. “Perdão, madre,
mas como vou pedir consolação se só mereço castigo?”
A madre fundadora tão pouco é capaz de pedir outra
coisa: “Ou morrer ou sofrer” (Vida, 40,20). Mas ela acres-
centa para nosso consolo: “Disse-me uma vez Jesus,
consolando-me com muito amor, que não me afligisse;
pois nesta vida não podemos permanecer sempre no
mesmo estado. Umas vezes teria eu fervor e outras não.
Ora sofreria desassossego e tentações, ora gozaria de
grande paz. Mas pusesse nele minha esperança e não
tivesse medo” (Vida, 40,18).
Passando por certos sofrimentos, Jesus aparece-lhe
e diz: “Pesa-me, filha, o que padeces; mas isto te convém
agora” (Relações, 26).
Após a comunhão, num domingo de Ramos, “pare-
ceu-me que minha boca estava toda cheia de sangue, e
também o rosto, e toda inteira me achava inundada nele.
435

E sentia-o quente: “Filha, quero que meu sangue te seja


de proveito. Não receie que te falte minha misericórdia.
Eu o derramei com muitas dores e tu gozas dele com tão
grande deleite... Bem te peço e pago o banquete que me
ofereces neste dia (por ter comungado)” (Relações, 26).
“Pensas, filha, que o merecer consiste no gozo das
consolações? Não, mas sim em trabalhar por mim, em
padecer e em amar” (Relações, 36).
“De que afliges, pecadorazinha? Não sou eu o teu
Deus? Não vês como fui maltratado? Se me amas por
que não te compadeces de mim?” (Relações, 27).
“(No auge da união mística, as almas) não desejam
morrer, mas querem viver muitíssimos anos, padecendo
dores e gravíssimos trabalhos... Unicamente cobiçam po-
der ajudar, de algum modo, o Crucificado, vendo-o tão
ofendido e tão poucos ocupados em zelar pela honra de
Deus” (Moradas, 7,3,5).
“Custe-lhe isto o que custar, pois quer padecer, e
seu único desejo é que ainda uma só alma vos louve um
pouquinho mais por sua causa... Sacrificaria mil vidas se
tantas tivera” (Moradas, 6,6,4).

São João da Cruz

São João da Cruz diz que o amor pelo bem do pró-


ximo nasce da vida espiritual e contemplativa:
“Declarou Jesus que ele devia permanecer na obra
de seu Pai, que é a redenção do mundo, o bem das al-
mas... Disse o Areopagita: das obras divinas, a mais su-
blime é cooperar com Deus na salvação das almas. É a
suprema perfeição... ser cooperador de Deus na conver-
são das almas. Por isso, Cristo Jesus e Senhor, as chama
“obras de seu Pai”, “interesses de seu Pai”. É uma verda-
de evidente que a comiseração pelo próximo tanto mais
cresce quanto mais a alma se une com Deus, em amor...
436

Parece-lhes pouco ir sozinhas ao céu. Com ânsia,


procuram levar muitos consigo. Desejo que nasce do
grande amor que têm por Deus. E é propriamente fruto e
efeito da oração perfeita e da contemplação” (Depoimento
de Fr. Eliseu).

Madalena de Pazzi, +1609

Penitencia-se, padece e pede a Deus mais sofrimen-


tos pela conversão dos pecadores. Pega de um crucifixo e
reza: “Tu, ó Senhor, quiseste morrer na cruz e doar todo o
teu sangue pelos pecadores. Eu também quero dar todo o
meu sangue e minha vida para que eles se convertam”.
Recebeu a coroa de espinhos. Foi estigmatizada.
Recomenda-nos oferecer o sangue de Jesus pelos peca-
dores. Ela o fazia cinqüenta vezes por dia. “O Sangue de
Jesus adorna as almas como a primavera adorna a terra
de flores”.
“Uma das razões pelas quais Deus nos tirou do
mundo, é para auxiliarmos a Igreja na conversão dos pe-
cadores”.
Aconselhava pedir a conversão de tantos pecadores
quantos passos damos pelos corredores dos mosteiros...
Quantas palavras pronunciamos no Ofício Litúrgico...
quantas agulhadas damos na costura...
Jesus confirma: “Podeis socorrer a todas as minhas
criaturas. Ide, ajudai a estas pobres almas que se per-
dem. Oferecei-me vossa vida”.

Rosa de Lima, +1617

Jesus: “Quero que me honres com a prática de uma


severa abstinência. No mais, não te preocupes com os
resultados. Quem deu sua vida por ti na cruz. quem te
437

remiu derramando todo o seu Sangue, quem enche tua


alma de graças saberá tomar cuidado de teu corpo e sus-
tentá-lo sem o alimento de carne. As leis da natureza fo-
ram feitas por mim, mas não para mim”.
Comentando aquele leito de cacos de cerâmica no
qual a santa “descansava” por dezesseis anos, diz Jesus:
“Lembra-te, filha, que o leito da cruz sobre o qual eu a-
dormeci no sono da morte era mais duro, mais estreito,
mais horrível que o teu. Eu não dormi sobre pedras, mas
pregos de ferro me amarraram e me sangraram. O fel
também não me foi poupado... Pensa em tudo isto quan-
do estás fraquejando; e teu amor por mim te dará forças e
coragem”.
“O sofrimento é sempre a companhia da graça. A
graça é proporcional à dor. A media dos meus dons au-
menta com a medida das provações”.
“A cruz é a verdadeira, a única escada para subir ao
céu”.

Madalena de São José, OCD +1637

Primeira priora carmelita francesa. Em 1622, quinze


anos antes da morte, “foi-me revelado que o grau de gló-
ria, que me estava predestinado na glória da eternidade,
estava atingido, e que podia, se quisesse, sair da terra.
Eu vi que minha vida, daí em diante, seria para os outros
não para mim”.
Outra carmelita de Paris ouviu a voz: “É por suas
preces que teu filho (morto num duelo) se salvou; pois ela
salva as almas aos milhares”.
O sofrimento é algo tão grande que Deus, ao encon-
trar uma alma disposta a sofrer, revira céus e terra para
arranjar um carregamento dessa mercadoria.
A suprema finalidade da vida no convento é indicada
por Hb 10,5 (Cristo-vítima). “Ó amor, visto que és tão po-
438

deroso, como consegues operar com tão pouco barulho?


Estás sempre tão escondido”.

Maria de Vallés, +1956

Cuidando de um velho sacerdote doente, acamado,


este mandou-a assistir à Missa dominical. Maria respon-
de: “Minha missa é cuidar de vós, enquanto estais preci-
sando de mim”.
Ficou oito dias sem poder dormir de alegria por ter
sido injuriada por um religioso.
Certa vez pediu a Nosso Senhor a partilha de bens e
haveres dele e dela. Que cada um leve o que é seu. “Ora
essa , respondeu o Filho de Deus, afora de três coisas,
tudo é meu. Teu primeiro apanágio é o “nada” do qual
foste tirada. O segundo é o pecado. E teus tesouros e
riquezas são, em terceiro lugar, a ira de Deus e as penas
eternas. Eis o que vós sois e de que os filhos de Adão se
podem gloriar”.
Desgraças estão prestes a cair sobre a Igreja, por-
que há mais justiça entre os soldados do que entre os
prelados. E de todas as classes do mundo, são eles que
em maior número povoam o inferno.
Poucos são capazes de usar bem das riquezas. Pre-
cisa-se de um bom estômago para digeri-las... A maior
parte do povo pobre se salva. Não entre a nobreza, pou-
cos homens da justiça (da lei), e poucas entre as belas
demoiselles se salvam.
A um austero pregador Maria desaconselhou as pe-
nitências e jejuns excessivos, à medida que dificultavam a
pregação, pois “a abstinência não é boa quando impede
um bem público”.
Em 1645, Jesus deu-lhe um veneno e um remédio
para matar seu amor próprio e viver só para Deus. Os
ingredientes do remédio: dar, receber e pedir. Dar sua
439

vida humana. Receber a vida divina. E pedir ardentemen-


te e sempre a salvação do próximo.
“A casa dos perfeitos é o Nada. O caminho da per-
feição é renunciar-se. Poucos o alcançam. A maioria mor-
re no caminho”.
“Quem és tu? pergunta Jesus, e ele mesmo respon-
de: tu és minha casa de veraneio. És meu castelo. És
meu leito nupcial, isto é, a cruz sobre a qual sofro. Reves-
ti-me de tua carne, e por isto, teus sofrimentos têm valor
infinito”. Sendo vítima, ela carrega sobre si todos os pe-
cados do mundo. Sem fé, sem esperança, sem amor, sem
consolação... vivendo na morte.
Jesus: “Tu és minha cruz viva, minha cruz na qual
estou sofrendo. Com uma diferença: a minha primeira
cruz era insensível, enquanto que esta segunda cruz é
sensível e eu, insensível”.
Jesus: “Tu és bem atrevida em chamar-me de teu
esposo”. Maria: “Nada de atrevida; espera um pouco, por
favor! Vou mostrar-te como me desposaste. Desposaste-
me na cruz. As batidas do martelo eram os violinos das
núpcias O fel fazia de vinho no banquete nupcial. As blas-
fêmias eram as conversações de regozijo, etc. Então, não
é verdade que és meu esposo?”
“Os sofrimentos são meu amor e minha vida”. “Nos-
so Senhor tirou meu coração, e deu-me o seu que está
cheio de todos os desprezos, dores e sofrimentos de sua
paixão”.
Por duas vezes as chagas de Nosso Senhor apre-
sentaram-se em forma de cinco estrelas, pedindo hospe-
dagem, e Maria ofereceu-lhes seu coração. Jesus: “Se
estivesses só, teus sofrimentos não teriam valor nenhum.
Mas visto que os sofri em ti, têm um valor inestimável”.
Maria: “Meu paraíso são as almas... cada uma é um
espelho no qual contemplo a ti. Embora eu seja a última
de todas, terei a alegria de todas”. Jesus: “Mas entre es-
440

sas há algumas que são piores que o diabo”. Maria:


“Mesmo que cada uma seja mais fechada e mais endure-
cida que todos os diabos juntos, eu as converterei a to-
das, e cantarei o hino de Sta. Inês: “Quod concupivi”...
consegui o que desejei. Podes tomar outra esposa... mas
eu não irei mudar de esposo, só por isto”.
Ela vira a beleza da alma no momento da criação,
antes de contaminar-se pelo pecado original, e comentou:
“Não me admiro mais que Deus tenha descido do céu pa-
ra salvar tão belas criaturas”.
Maria: “A paixão é uma Missa, e sofrer é assistir a
ela”.
“Há três dilúvios para destruir o pecado. Um dilúvio
de água do Pai Eterno. O segundo, do Filho: um dilúvio de
sangue. O terceiro, do Espírito Santo, será um dilúvio de
fogo”.
Ao rezar “ó Cristo, rei do céu e da terra”, Jesus inter-
rompe bruscamente: “Não da terra. Na terra reina o peca-
do. Mas logo irei expulsar e destruir este monstro e reina-
rei em todo o universo”.
Maria Santíssima pede-lhe orações a fim de abreviar
o tempo em que os maus pastores devam reinar na Igreja.
Ela há de cantar uma canção tão suave que Jesus
esquecerá sua cólera contra os pecadores. Ela vai curar
Jesus de suas “iras”.
Foi-lhe dito que se lhe exige só uma palha em pa-
gamento de dez mil sacas de trigo. “Eis como tu aumen-
tas minha glória. Tuas maiores obras e sofrimentos são
uma gota d’água lançada no mar imenso da minha glória”.

Ana Maria Clement, +1661

Jesus mostrou-lhe seu coração: “Vê o amor que te-


nho por ti e como nele está gravado teu nome e o nome
441

de todos os homens”.
Na quaresma de 1631, ela acompanha em visões
todas as fases da Paixão. Olhando as cordas que amar-
ram Jesus, ele chama sua atenção: “Olha, antes, meu
Coração; não é este cordame que me tem acorrentado,
mas os laços de amor”.
“Não pretendo fazer-te estas promessas à maneira
dos homens, mas à maneira de Deus”.
A cena do Pretório, Jesus cuspido, esbofeteado:
“Não é tua alma a imagem da minha face divina? As cria-
turas, que são amadas com uma afeição desordenada,
são como um escarro que fazem sobre esta imagem de
minha santa face. Todas as vezes que cedes a uma afei-
ção desregrada, estás cuspindo em meu rosto”.
Vendo Jesus na coluna da flagelação, pergunta por
que ele sofria tormento tão grande por criaturas tão ingra-
tas. Reiterou a pergunta várias vezes. Por fim, Jesus res-
pondeu: “Quem ama, atura”. Ela insistiu para sofrer junto.
Então Jesus colocou-a ao pé da coluna, dizendo: “Eu sou
a árvore da vida, carregada de frutos, descansa em sua
sombra”.
“Quando te afeiçoas a uma criatura, tu me fazes so-
frer a mesma violência que senti quando me arrancaram
as vestes depois da flagelação”.
“Minhas chagas são portas abertas”.
“Despregar Jesus da Cruz significa retirar o próximo
do pecado”, diz-lhe Maria Santíssima.

Francisca da Mãe de Deus, +1671

Jesus: “Já não posso sofrer pelos homens; sofre


pois em meu lugar e por mim. Se soubesses quão grande
é o número dos que me ofendem! E quão pequeno é o
número de almas que me permitem tratá-las como quero!”
“Vê todo esse povo que apostatou da fé. Morri por todos
442

eles, e não há um sequer que me ame. Quero que me


ameis em lugar deles, e façais todos os dias alguma peni-
tência pela sua conversão”.
“Em cada comunidade escolho alguns para tomar
conta dos meus negócios, e cuidar dos meus interesses.
O mundo, há tempo, já estaria no abismo sem essas al-
mas e sem as orações dos meus amigos”.

Maria da Encarnação, ursulina, +1672

Na idade de trinta e quatro a trinta e cinco anos tem


uma visão do Canadá, sem saber nem o nome nem a e-
xistência desse país: “Era uma emanação do espírito a-
postólico, que não era outro senão o espírito de Jesus
Cristo... zelo por sua glória, a fim de que fosse conhecido
e adorado por todas as nações... O espírito de Jesus le-
vava-me em pensamento às Índias, ao Japão, à América,
ao Oriente, ao Ocidente, por toda a terra habitada. Eu via,
por uma certeza interior, o demônio triunfar nessas pobres
almas... que ele arrancava do poder de Jesus Cristo, que
as tem resgatado com seu precioso sangue. A essa vista,
entrei em ciúme; abraçava todas essas pobres almas e
apresentava-as ao Pai Eterno, dizendo-lhe que já era
tempo de fazer justiça em favor de meu esposo. Que ele
bem sabia ter-lhe prometido todas as nações em herança.
Tanto mais que ele tinha satisfeito com seu sangue por
todos os pecados da humanidade.. Em espírito eu deam-
bulava naquelas grandes vastidões e acompanhava os
operários do evangelho”...
“Ó Pai, por que estás demorando? Há tanto tempo
que meu bem-amado derramou seu sangue! Agora, eu
solicito, no interesse de meu esposo, que cumpras a tua
palavra, ó Pai, pois lhe tens prometido todas as nações”.
“Eu via que o Pai Eterno gostava das minhas de-
mandas em causa tão justa; mas que faltava alguma coi-
443

sa que ele queria de mim para atender-me”... “Pede pelo


coração de meu Jesus, meu tão amável Filho. Por ele eu
te atenderei”.
“Ó Jesus, tu sabes de quantas almas me encarre-
guei para apresentar todos os dias ao teu Pai sobre o al-
tar de teu Coração divino. Trata, pois, dos meus negó-
cios”.

Margarida Alacoque, +1690

Jesus apareceu-lhe, segurando em cada mão um


quadro. Num, via a vida mais feliz que uma religiosa pos-
sa imaginar e desejar: paz, consolações internas e exter-
nas, saúde, estima, amizades. O outro quadro represen-
tava uma existência pobre, humilde, desprezada, com
cruzes contínuas, humilhações e contradições de toda
espécie, com sofrimentos contínuos do corpo e da alma.
Jesus mandou escolher a gosto e à vontade.
“Qualquer que for tua escolha, receberás as mes-
mas graças”. Margarida recusa-se a escolher: “Só quero a
tua vontade, ó Jesus!” Jesus insiste diversas vezes, de-
clarando-se indiferente. Por fim, falou: “Está bem. Maria
escolheu a melhor parte. Eu mesmo desejo ser tua heran-
ça”. E entregou o quadro doloroso. “Eis o que escolhi para
ti... para te tornar semelhante a mim; o outro é uma vida
de gozo e não de méritos; fica para a eternidade”... Mar-
garida abraçou o quadro, apertou-o ao coração, sem dei-
xar de sentir um frêmito de temor.
Numa outra vez, contemplando Jesus na Cruz, Je-
sus a abraça fortemente: “Recebe esta cruz e planta-a no
teu coração. Tem-na sempre perante os olhos, e carrega-
a em teus braços... Terás fome e sede sem ser saciada.
Terás ardor, sem alívio”.
“Dar-te-ei este Coração, diz-lhe Jesus, mas antes
deves entregar-te como vítima”. Margarida sente pavor e
444

receia dizer sim. Uma visão mostrou-lhe então, a justiça


divina armada para o castigo.
“Eu ter-me-ia contentado, diz Jesus, com um sacrifí-
cio secreto. Mas agora, quero um público. Serás humilha-
da a ponto de ficar envergonhada para todo o resto de tua
vida. Quero mostrar-te o que significa resistir a Deus”.
Vendo Jesus prestes a descarregar o castigo da jus-
tiça divina sobre as almas, Margarida intercede. Jesus
cede no fim, mas: “Contanto que tu me pagues”. Margari-
da: “Sim, de bom grado. Mas eu pago só com teus pró-
prios bens, com os tesouros de teu Coração”. Jesus con-
cordou.
Certa vez, Jesus lhe diz: “Irei colocar uma cruz dura
e pesada sobre teus fracos ombros. Mas sou bastante
poderoso para te sustentar. Não temas. Deixa-me agir”.
A trinta e um de dezembro de 1678, Jesus exige
uma doação total, mas por testamento e por escrito. Mar-
garida gravou com um canivete o nome de Jesus sobre o
peito, e assinou com seu sangue derramado o documento
exigido. Jesus retribuiu-lhe declarando-a herdeira dos te-
souros do seu Coração, com poder de dispor de tudo.
A resposta foi celestial. “Tudo quanto se pode cha-
mar gosto e prazer, tornou-se sofrimento para mim”, diz
Margarida. É o conhecido estribilho: “Dios solo”.
Seja lembrado que Margarida levava a ferida do a-
mor no coração, invisível, mas sempre dolorida.
Certa ocasião, em troca da cura de uma doente, Je-
sus exige os seguintes três pontos que Margarida aceita
sem recusar: um cargo no convento, ir à sala de visitas,
escrever cartas. São penitências apenas para os santos.
Para nós outros... nem é preciso mandar.
Apareceu-lhe São Francisco de Sales e disse: “Uma
verdadeira filha da Visitação deve ser como Jesus Cristo,
uma hóstia viva”. E Sta. Joana de Chantal confirma: “As
filhas da Visitação devem alegrar-se apenas na cruz, e
445

gloriar-se somente nas humilhações. A sua vitória está


unicamente na cruz”.
Margarida vê uma grande cruz coberta de flores. Je-
sus: “Eis o leito nupcial das minhas esposas. Pouco a
pouco caem as flores e restam só os espinhos encobertos
por elas”.
“Estou procurando uma vítima para meu coração, a
qual se deixe sacrificar como hóstia de imolação”. Marga-
rida escusa-se como indigna de tal escolha. Jesus: “Mas é
por isto que te escolhi”.
Uma visão da Santíssima Trindade: Deus Pai apre-
senta-lhe uma cruz pesada, toda crivada de espinhos,
acompanhada dos demais instrumentos da Paixão. “Vê,
minha filha! Asseguro-te: Eu fiz este presente ao meu Fi-
lho bem-amado. Faço a ti o mesmo”. Jesus intervém: “Eu
mesmo te pregarei nela, da maneira como eu fui pregado,
e te farei fiel companhia”. O Espírito Santo acrescentou:
“Eu, que sou só amor, te consumirei purificando-te”.
Hora santa: “Todas as quintas-feiras, das onze às
doze horas da noite, far-te-ei participar da minha tristeza
mortal no Jardim das Oliveiras. Quero que rezes durante
essa hora com o rosto no chão, tanto para aplacar a cóle-
ra divina, pedindo misericórdia pelos pecadores, como
para suavizar um pouco a amargura que senti pelo aban-
dono dos apóstolos. Durante essa hora tu farás o que te
direi. Foi aí que sofri mais que em todo o resto da minha
Paixão, por ver-me num abandono total do céu e da terra.
Carregado de todos os pecados de todos os homens, a-
pareci perante a santidade de Deus que, sem considera-
ção por minha inocência, me castigou em sua ira, fazen-
do-me beber o cálice que continha todo o fel e amargura
de sua justa indignação. Como se estivesse esquecido de
ser meu Pai, para sacrificar-me à sua justa cólera. Criatu-
ra alguma é capaz de compreender a grandeza dos tor-
mentos que então sofri”.
446

Margarida foi sempre perseguida pelo demônio, so-


frendo todas as tentações humanas, com exceção da pu-
reza, até que um dia a superiora mandou que represen-
tasse o rei da França diante do Santíssimo Sacramento.
“Estando lá, senti-me tão fortemente atacada pelas tenta-
ções mas abomináveis de pureza que me pareceu estar já
no inferno. Durou várias horas, até a superiora suspender
a ordem, substituindo-me por uma boa religiosa. E logo
cessaram minhas penas”.
Ignoramos se Margarida teve a felicidade de ver o i-
nício da devoção ao Sagrado Coração. Em 1690 decla-
rou: “Neste ano vou morrer, porque não estou mais so-
frendo nada”.

Verônica Giuliani, +1727

Jesus mostra-lhe suas chagas: “Estas chagas, eu as


pus em ti para o bem das almas e de todo o mundo. Mas
não encontro pessoas que as queiram receber. Não há
mais fé em mim. Todos apoiam-se em criaturas tão fracas
como elas”.
Jesus, segurando na mão o cálice da paixão: “Vê
minha bem-amada. Contempla estas chagas. Elas são
outras tantas vozes que te convidam a beber esta amar-
gura que te dou. Quero que a experimentes”.
Em 1713, Maria Santíssima avisa: “Os cristãos não
têm mais fé. Vivem como ateus. Desprezam os Sacra-
mentos. Profanam o sangue de meu Filho... Se os padres
querem que Roma escape aos turcos, devem fazer pro-
cissões de penitência”.
Pela conversão dos pecadores e pelo resgate de al-
mas do Purgatório, Verônica sofre a paixão de Jesus, ou
passa pelas torturas do Purgatório. Jesus: “Teu repouso
será sofrer pela salvação das almas”.
447

Ana Madalena Remuzat, +1730

Ainda interna no pensionato, recebe a visita de Je-


sus: “Minha filha, estou procurando uma vítima”. A menina
indica ingenuamente, várias religiosas que lhe pareciam
as mais santas. Jesus responde cada vez: “Não é essa
que eu quero”. Por fim, lhe diz: “Minha filha, é a ti que es-
colhi”.
“Achei-me revestida e penetrada pela glória de
Deus, que me introduziu no conhecimento pelo qual ele
se conhece; e no amor pelo qual ele me ama”.
“Parecia-me que a cada instante se me metiam
grossos pregos nos pés e nas mãos. Que se queimavam
o peito e os lados”.
“Nosso Senhor propôs-me escolher: ou que os es-
tigmas aparecessem externamente, o que diminuiria mi-
nhas dores e levaria os homens a louvar as maravilhas
divinas, ou que esses estigmas ficassem sempre invisí-
veis, e suas dores mais violentas, o que o glorificaria mais
ainda. Ofereci-me àquilo que mais contribuiria à glória do
meu Salvador, e pedi a ele que escolhesse. Sua escolha
caiu sobre o aumento das dores”.

Maria José Koumi, +1817

“Escolha: ou carregar os castigos que estes povos


(vistos na visão) merecem, ou viver nas consolações da
minha intimidade”. Josefa escolheu o sofrimento. “Muito
bem. A coroa das tribulações cairá sobre tua cabeça e
será tua coroa de glória” (1806).
“Nenhuma esposa me é mais cara que aquela que
se sacrifica pela salvação do próximo... Tanto desejas
unir-te a mim pelo amor, tan