Вы находитесь на странице: 1из 7

Incapacidade funcional e idosos ...

Bonardi G, Azevedo e Souza VB, Moraes JFD


ARTIGO DE REVISÃO

Incapacidade funcional e idosos:


um desafio para os profissionais
de saúde
Functional incapacity and the aged:
A challenge to health care professionals

GISLAINE BONARDI1
VALDEMARINA BIDONE AZEVEDO E SOUZA2
JOÃO FELIZ DUARTE DE MORAES3

RESUMO ABSTRACT
Objetivo: apresentar e avaliar os conhecimentos Aims: To present and to evaluate what is available on
atuais sobre incapacidade funcional e idosos. functional incapacity and the aged.
Fonte de dados: compilações de artigos científicos Source of data: Compilation of literature on original
originais e de revisão, em revistas indexadas no scientific and review articles in indexed journals in
PubMed, Capes e na Sociedade Brasileira de Geriatria PubMed, Capes and at the Brazilian Society of Geriatrics
e Gerontologia. and Gerontology.
Síntese dos dados: ao invés de processos agudos Summary of the findings: Instead of acute processes
que evoluem para cura ou óbito, são predominantes that evolve to healing or death, the aged have mainly chronic
nos idosos as doenças crônico-degenerativas e suas diseases and their complications. As they are often
complicações. Freqüentemente elas se sobrepõem, superimposed, the presence of multiple pathologies and
sendo a presença de multipatologias e plurimor- morbidities is a major characteristic in the aged, resulting
bidades uma característica importante nos idosos, in decline of multiple physiological systems, vulnerability,
resultando em um declínio de múltiplos sistemas and the feared functional dependence.
fisiológicos e levando à vulnerabilidade e à temível Conclusions: Health is no longer measured by the
dependência funcional. presence or absence of diseases, but by the degree of
Conclusões: a saúde não é mais medida pela preservation of functional capacity. The decline in
presença ou não de doenças, e sim pelo grau de physiological and psychological state, prevalent in the aged,
preservação da capacidade funcional. O declínio do results in difficulty to maintain body homeostasis in the
estado fisiológico e psicológico, prevalente nos idosos, presence of the exacerbation of chronic diseases. One of the
resulta na dificuldade de manter a homeostasia cor- challenges for the health care professionals is learning to
poral em face à exacerbação das doenças crônico- work in an interactional and integrated manner in the
degenerativas. Um dos desafios dos profissionais de prevention and treatment of the functional incapacity of
saúde é aprender a trabalhar de forma interacional e the aged.
integrada na prevenção e tratamento da incapacidade KEY WORDS: ACTIVE LIFE EXPECTANCY; AGED; AGING;
funcional em idosos. PATIENT CARE TEAM.
DESCRITORES: EXPECTATIVA DE VIDA ATIVA; IDOSO;
ENVELHECIMENTO; EQUIPE DE ASSISTÊNCIA AO PA-
CIENTE.

1 Doutoranda do Curso de Pós-Graduação Gerontologia Biomédica do Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS.


2 Coordenadora do Curso de Pós-Graduação Gerontologia Biomédica do Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS.
3 Coordenador do Departamento de Estatística da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

138 Scientia Medica, Porto Alegre, v. 17, n. 3, p. 138-144, jul./set. 2007


Incapacidade funcional e idosos ... Bonardi G, Azevedo e Souza VB, Moraes JFD

INTRODUÇÃO longevidade com qualidade de vida, com base


em ações de prevenção e tratamento interde-
O envelhecimento da população e o aumento pendentes: a saúde é responsabilidade não só das
da expectativa de vida é tendência mundial. Os áreas biomédicas, mas também de áreas como a
países em desenvolvimento convivem com uma educação, comunicação e assistência social, por
crescente modificação no perfil de saúde da exemplo, pois cuidar da saúde implica numa
população, pela maior longevidade e aumento da concepção integral de ser humano.
prevalência de doenças crônico-degenerativas
que, se não devidamente tratadas e acompa- A INCAPACIDADE FUNCIONAL E
nhadas ao longo dos anos, poderão originar SUAS INTERDEPENDÊNCIAS
complicações e seqüelas, comprometendo a
independência e a autonomia de pacientes A incapacidade funcional, ou disabilidade,
idosos.1 Nestes países, assim como nos países limita a autonomia do idoso na execução das
desenvolvidos, as doenças crônicas têm ocasio- atividades de vida diária, reduz a qualidade de
nado importantes e dispendiosas demandas ao vida e aumenta o risco de dependência, institu-
sistema de saúde e interferido em aspectos cionalização, cuidados e morte prematura.6 A
qualitativos de vida.2 diminuição da capacidade funcional é referida
Se, por um lado, idosos desenvolvem compro- também como fator de aumento no risco de
metimento relacionado ao desgaste pelo processo quedas, principalmente devido ao comprome-
de envelhecimento (como a artrite) ou doença timento na realização de tarefas do dia a dia, com
crônica que poderia ter sido evitada (como o limitações de força muscular, equilíbrio, marcha
diabete e a doença vascular periférica), ou doença e mobilidade; no Brasil, 30% dos idosos caem
degenerativa (como a demência),2 por outro, a pelo menos uma vez ao ano, sendo as quedas
saúde não é mais avaliada simplesmente pela causadas por uma rede de fatores: herança
presença ou não de doenças, e sim pelo grau genética, historia da atividade, fatores sócio-
de preservação da capacidade funcional. Um econômicos, personalidade, educação, autocon-
exemplo deste fato é o idoso com uma ou mais fiança, doenças não diagnosticadas, uso de me-
doenças crônicas ser considerado um idoso dicamentos e/ou fatores relacionados ao ambien-
saudável, se comparado com um idoso com as te, como áreas pouco iluminadas.7-9
mesmas doenças, porém sem controle destas, Uma importante alteração relacionada ao
com as decorrentes seqüelas e incapacidades envelhecimento do sistema neuromuscular é o
associadas.3 declínio na força muscular relacionada à força de
Um estudo multidimensional, realizado em trabalho do músculo, à resistência muscular e à
1995 pela Secretaria do Trabalho, Cidadania e velocidade de contração. A perda de força em
Ação Social do Rio Grande do Sul, em parceria razão do envelhecimento afeta os músculos
com o Conselho Estadual do Idoso,4 concluiu que superiores e os inferiores, sendo mais acentuada
entre os valores mais importantes na vida dos nestes últimos, e também as musculaturas de
idosos avaliados estavam a saúde (48%) e a sustentação do peso corporal.10 Há diminuição
família (23%). Dentre os motivos apontados como lenta e progressiva da massa muscular, sendo o
fatores de risco em relação à saúde foram citadas: tecido nobre paulatinamente substituído por
diminuição da capacidade física, restrições à colágeno e gordura. O número de fibras muscu-
autonomia, perda da independência, perdas lares no idoso é aproximadamente 20% menor do
de familiares e amigos e carência de recursos que no adulto.11
econômicos para o sustento. Um estudo realizado Para Matsudo,12 a explicação da ocorrência da
por Moraes e Azevedo e Souza5 verificou que os hipotrofia muscular causada pelo envelheci-
idosos independentes para as atividades de vida mento dá-se pela diminuição da área de secção
diária, autônomos e satisfeitos com as relações transversa das fibras musculares dos indivíduos
familiares e com os amigos, apresentavam fator com mais de 70 anos, decorrente de alterações na
preditivo independente para o envelhecimento forma destas fibras; diminuição da área muscu-
saudável para ambos os gêneros. lar em 40% (dos 20 aos 80 anos); diminuição
Diante da complexidade desta problemática, do número total de fibras musculares (39%);
assumem relevância as relações interdiscipli- diminuição seletiva no tamanho das fibras
nares entre profissionais que trabalham nas musculares do tipo II (contração rápida – 26%); e
variadas áreas da saúde, para a promoção de uma diferença na composição da área muscular do

Scientia Medica, Porto Alegre, v. 17, n. 3, p. 138-144, jul./set. 2007 139


Incapacidade funcional e idosos ... Bonardi G, Azevedo e Souza VB, Moraes JFD

idoso (50% do músculo composto por fibras constituídos por vários indicadores. Dentre eles,
musculares). As cápsulas articulares e os liga- os mais citados pela literatura são: a mobilidade
mentos também sofrem alterações, aumentando (mudanças de decúbito e transferência, levantar
sua rigidez devido ao aumento de ligações e sentar-se em uma cadeira, deambulação em
cruzadas nas fibras de colágeno e a perdas das distâncias determinadas e mudanças no curso da
fibras elásticas, com efeito direto e indireto sobre marcha); atividades básicas de vida diária (AVD),
a extensão e a qualidade dos movimentos. Estas atividades instrumentais de vida diária (AIVD)
alterações interferem na realização dos movi- e o Índice de Barthel, com base na capacidade
mentos articulares e no desempenho dos re- do idoso em realizar de forma independente
ceptores articulares, tornando os movimentos atividades como banho, vestuário, alimentação,
mais lentos e mais imprecisos ou sem coorde- manuseio do próprio dinheiro e deambulação,
nação, comprometendo a amplitude dos movi- entre outras, contribuindo na prevenção, no
mentos do idoso, podendo apresentar uma tratamento e/ou cuidado.3,7,14-18 Um dos testes
progressão que leve à incapacidade funcional.10 utilizados para a mobilidade é o Teste Timed Up
Outros fatores concorrem para o compro- and Go,19 que avalia em segundos o tempo que o
metimento da capacidade funcional como: paciente idoso necessita para levantar-se de uma
a) o acidente encefálico agudo e suas se- cadeira, deambular três metros, retornar e
qüelas e dificuldades de recuperação após assentar-se novamente.18,19
a doença, com redução da acuidade visual Essas avaliações funcionais trazem subsídios
e auditiva e da absorção de alimentos e para uma assistência aos idosos com os objetivos
medicamentos; de identificar capacidades funcionais atuais e
detectar precocemente os indivíduos com indica-
b) as limitações provocadas pelas doenças
tivos de incapacidade funcional e fragilidade,
articulares, insuficiência cardíaca, doença
alertando para seus riscos e servindo como
pulmonar obstrutiva crônica, amputações
parâmetro de admissão e alta aos serviços de
e cegueira provocadas pelo diabete;
reabilitação.18 A incapacidade funcional pode ser
dependência determinada pela demência
modulada pelo status cognitivo, psicológico,
de Alzheimer, osteoporose e o seu mais
idade, gênero, número de doenças crônico-
temido evento: a fratura óssea após queda;
degenerativas, nível educacional, suporte social,
c) as limitações funcionais que comprome-
estilo de vida e fatores ambientais.6,15,20
tem a realização das atividades de vida
Estudos realizados, como o Established Popu-
diária;
lations for Epidemiologic Studies of the Elderly
d) os aspectos sociodemográficos que ocasio- (EPESE), o Health Interview Survey Longitudinal
nam isolamento social e a sensação de Study on Aging e o National Long Term Care Survey,
improdutividade experimentada por não verificaram que a incidência de disabilidade ou
desempenhar novas funções.1,6,13,14 incapacidade funcional aumenta com a idade e,
A incapacidade funcional, ou disabilidade, é quando tratada, há melhoria em idosos entre 65
processo dinâmico e progressivo, conseqüência e 74 anos, com menor severidade e duração da
das doenças crônico-degenerativas e de mu- incapacidade funcional.6, 20
danças fisiológicas associadas ao envelheci- Incapacidade funcional, fragilidade, comor-
mento, podendo ocorrer de forma aguda, como, bidades, são termos comumente usados para
por exemplo, no acidente vascular encefálico e identificar a vulnerabilidade nos idosos. Na
na fratura de fêmur, que ocasionam limitações Geriatria são consideradas entidades clínicas
funcionais.6,14,15 Denominam-se limitações funcio- distintas que não ocorrem necessariamente asso-
nais as restrições na realização de ações físicas e ciadas, mas interagem entre si e, segundo Fried
operações mentais fundamentais para a vida et al,6 a fragilidade e a comorbidade predizem a
diária, em comparação às pessoas de mesmo sexo incapacidade funcional (disabilidade). Esta, por
e faixa etária.17 Portanto, incapacidade funcional sua vez, pode agravar a fragilidade e a comor-
ou disabilidade é a limitação para a realização bidade e, por fim, esta última pode contribuir
das atividades de vida diária, comprometendo a ao menos aditivamente no desenvolvimento da
capacidade funcional do indivíduo para manter- fragilidade. 15, 20
se independente.7,13,14,16 A incapacidade funcional ou disabilidade,
A capacidade funcional é avaliada por ins- definida pela dificuldade ou dependência do
trumentos denominados avaliações funcionais, idoso na realização individual das atividades de

140 Scientia Medica, Porto Alegre, v. 17, n. 3, p. 138-144, jul./set. 2007


Incapacidade funcional e idosos ... Bonardi G, Azevedo e Souza VB, Moraes JFD

vida diária, é apresentada num percentual entre apropriadas pelos profissionais da saúde, numa
20% e 30% dos idosos acima de 70 anos que ruptura com uma assistência prestada de forma
vivem em comunidades nos Estados Unidos, fragmentada.
aumentando com a idade.6, 15 Um inquérito
domiciliar realizado em São Paulo mostrou A INTERDISCIPLINARIDADE COMO
proporção crescente, de acordo com o aumento ESTRATÉGIA
da idade, de indivíduos que necessitavam de
auxílio para realização de atividades da vida A fragmentação na assistência ao idoso é
diária (AVD), tais como transferir-se da cama resultado de um processo iniciado com base na
para o sofá, vestir-se, alimentar-se ou cuidar da consciência da necessidade de especialização,
própria higiene.1 para um maior aprofundamento nas áreas do
A fragilidade é definida pela American conhecimento, que foi se estruturando a partir de
Geriatric Society como uma síndrome fisiológica grandes ciências denominadas Ciências Naturais,
caracterizada pelo declínio das reservas e da Ciências Exatas, Ciências Humanas e Ciências
resistência aos agentes estressores, modificações Sociais. O pensamento humano encaminhou-se
estas que agem sobre a homeostasia corporal, para esta estratégia, que culminou numa hiperes-
resultando em declínio de múltiplos sistemas pecialização, hoje amplamente criticada por suas
fisiológicos e causando um estado de alta vul- conseqüências mutiladoras e simplificadoras da
nerabilidade para eventos adversos, que inclui realidade e da concepção humana. Se, por um
incapacidade funcional, dependência, quedas, lado, esta fragmentação simplificadora trouxe
exacerbações de doenças crônicas, permanência amplos e relevantes avanços científicos nas di-
hospitalar prolongada e mortalidade. Segundo a ferentes áreas do conhecimento, por outro lado
American Medical Associaton, 40% dos idosos estes avanços, em seu uso ambivalente, trouxe-
acima de 80 anos são considerados como por- ram também expressões das barbáries da mão do
tadores de fragilidade.20 No Cardiovascular Health homem, quando a serviço de mentes que não
Study foi verificado que entre idosos acima de 65 privilegiam a condição e a ética humana e que
anos, que residem em comunidades nos Esta- demonstram insensibilidade ante a realidade. As
dos Unidos, 7% são frágeis e que a incidência ciências são criações humanas que atendem ao
aumenta com a idade em 30% acima de 80 anos. princípio da indissociabilidade entre unidade e
A fragilidade é avaliada pela presença de três diversidade. Portanto, quem as delimita é a
ou mais dos seguintes elementos: diminuição mente humana, o que exige investigação sobre o
da força muscular, perda de peso sem causa que origina as fronteiras entre as áreas e como
aparente no período de um ano, capacidade torná-las espaços de construção interdisciplinar.
reduzida para atividade física, exaustão, alte- As áreas do conhecimento não possuem fron-
ração no tempo da marcha.6,15,20 teiras rigidamente demarcadas, mantendo sua
A comorbidade é definida como a presença autonomia no desenvolvimento de relações inter-
de duas ou mais doenças num mesmo indivíduo. disciplinares e reconstruindo-a nas suas relações
Com o envelhecimento, há possibilidade de um de interdependência.21
aumento desta condição: 35,3% dos idosos entre A interdisciplinaridade é construída nas
65 a 79 anos e 70,2% com 80 anos ou mais, relações de cooperação, sinergia e combinação
vivendo em comunidades nos Estados Unidos, entre competências e inteligências profissionais
possuem uma ou mais doenças crônicas. Outros individuais, em espaço representativo de suas
estudos demonstram a prevalência e a im- áreas do conhecimento, gerando uma rede de
portância desta condição para o risco de inca- ensino/aprendizagem coletiva. Visões simplifi-
pacidade funcional do idoso.15 Os resultados cadoras de interdisciplinaridade têm gerado
do Cardiovascuolar Health Study sugerem que concepções equivocadas. Assim sendo, envoltos
a presença de incapacidade funcional ou em seu egocentrismo, profissionais pensam que
fragilidade pode contribuir para desenvolvi- a interdisciplinaridade pode ser efetivada por
mento ou progresso de doenças crônico-dege- um só profissional ao desenvolver sua prática
nerativas.15,20 profissional, articulando conteúdos de diferentes
A complexidade dessas interações aumenta áreas de forma integrada: para interdisciplinar é
o risco para eventos adversos, como isolamento preciso, no mínimo, a interação entre duas visões
social, dependência e cuidados prolongados, o da realidade a partir de duas profissionalidades.
que aponta para a necessidade de intervenções Outras visões simplificadoras de interdiscipli-

Scientia Medica, Porto Alegre, v. 17, n. 3, p. 138-144, jul./set. 2007 141


Incapacidade funcional e idosos ... Bonardi G, Azevedo e Souza VB, Moraes JFD

naridade se fazem presentes na crença de que a prevenção e tratamento, permeados por concep-
interação entre áreas do conhecimento significa ções de envelhecimento como fenômeno comple-
“invasão de território”. As áreas são categorias xo, pressupõe a compreensão de que a complexi-
organizadas dentro do conhecimento científico, dade é realimentada constantemente, formando
instituindo a especialização do trabalho, consti- uma teia tecida diariamente nas interações entre
tuindo a diversidade das ciências. Têm sua acontecimentos, sentimentos e ações.22
autonomia delimitada por fronteiras instituídas Os fenômenos envelhecimento e incapa-
por sua linguagem particular, pelas técnicas cidade funcional são concebidos em função de
elaboradas e empregadas e por suas teorias princípios/regras, teorias, idéias, noções, pala-
subjacentes, e reconstruída nas suas relações de vras, mitos, discursos. Num ideário desta na-
complementaridade e antagonismos com as tureza, é possível ir além da tentação de uma
demais áreas em interação.21 visão simplificada e ingênua de envelhecimento,
A fragmentação é prerrogativa das mentes/ de incapacidade funcional e de interdiscipli-
cérebros de formuladores de políticas de saúde naridade, rompendo-se com uma visão em que
e de profissionais que continuam a trabalhar os idosos usufruem da incapacidade de
isoladamente (multidisciplinarmente) mesmo reaprender a aprender, criar, integrar novos
que lhes sejam propiciados espaços para tra- conhecimentos, de refletir sobre seus próprios
balhar de forma coletiva e cooperativa. Talvez avanços e retrocessos, suas próprias possibili-
uma explicação possível para o império instituído dades e limitações; em que interdisciplinaridade
pela fragmentação esteja no desconhecimento (interação entre áreas do conhecimento no estudo
de que é necessária a construção de uma trans- dos fenômenos do mundo humano) é confundida
linguagem (entre, através e além) entre profissio- com multidisciplinaridade (áreas trabalhando
nais, começando pela discussão do que é inter- isoladamente) e com “invasão de território”.22
disciplinaridade. Para uma melhor assistência ao Assim sendo, torna-se evidente que é preciso
idoso na prevenção e tratamento da incapacidade abandonar concepções simplificadoras, imple-
funcional é preciso que os profissionais envol- mentando-se políticas públicas para que profis-
vidos tenham a consciência da importância da sionais possam discutir e aprender sobre inca-
relação de autonomia/dependência de áreas do pacidade funcional, não se deixando cegar por
conhecimento, que gera movimentos em direção idéias deterministas e pela causalidade linear.21
à interdisciplinaridade.22 Em relação à reaprendizagem do idoso, há
A interação interdisciplinar culmina em sín- a crença instituída que ele, por problemas de
teses transdisciplinares (integração). Inúmeras memória imediata, passa a viver mais no pas-
são as dificuldades que surgem para a efetivação sado, abolindo, muitas vezes, expectativas signi-
da interdisciplinaridade/transdisciplinaridade, ficativas em relação ao futuro, embora não
incluindo a fragilidade das relações interpes- necessariamente abdique de seus sonhos e de-
soais, a robustez das relações de poder e da sejos ou seja incapaz de aprender.21 A memória,
cultura organizacional e o desconhecimento do formada por interações entre informações,
que é interdisciplinaridade. O envolvimento dialoga com mitos e idéias, estando indissociada
interdisciplinar de profissionais de diferentes da inteligência e da aprendizagem, que estão
áreas sobre incapacidade funcional implica numa associadas à motivação, à inteligência, ao pensa-
concepção de envelhecimento como processo mento e à consciência.22
interdimensional complexo.23 A organização de atividades interdiscipli-
O envelhecimento, muitas vezes, tem sido nares precisa considerar o estado de autonomia/
estudado de forma isolada (descontextualizada), dependência e o tipo de interação solicitado às
tratando-se seus constituintes como se eles não diferentes áreas do conhecimento. A autonomia
fizessem parte de uma rede de interações. E isto, traz implícito o sentimento de trabalhar no que
conseqüentemente, tem influenciado as inicia- quer e porque quer, rompendo com a sensação
tivas apenas multidisciplinares: este pensamento de imposição.
simplificador tem gerado ações preventivas e de
tratamento relacionadas à incapacidade fun- CONSIDERAÇÕES FINAIS
cional incapazes de contribuir para a valorização
das relações interdisciplinares com outras áreas, A competência interdisciplinar a ser criada
como para pesquisas que abranjam também por grupos profissionais que trabalham com
aspectos qualitativos. O desenvolvimento de a prevenção e tratamento da incapacidade fun-

142 Scientia Medica, Porto Alegre, v. 17, n. 3, p. 138-144, jul./set. 2007


Incapacidade funcional e idosos ... Bonardi G, Azevedo e Souza VB, Moraes JFD

cional precisa ser criada em situações comu- çando-se em bibliografia pertinente e em relações
nicacionais propícias à reestruturação de saberes, interdisciplinares.
gerada nas competências para duvidar do pró-
prio conhecimento, integrar saberes diversos e CONCLUSÕES
heterogêneos e reempregar o conhecido dispo-
nível, por meio de percursos, formas e conteúdos A saúde não é mais medida pela presença ou
reinventados. não de doenças, e sim pelo grau de preservação
Para iniciativas interdisciplinares efetivas, os da capacidade funcional. O declínio do estado
grupos de trabalho precisam administrar cole- fisiológico e psicológico, prevalente nos idosos,
tivamente o trabalho, criando condições favo- resulta na dificuldade de manter a homeostasia
ráveis para compartilharem e discutirem idéias, corporal em face à exacerbação das doenças
em busca de estratégias construídas com cons- crônico-degenerativas. Um dos desafios comple-
ciência dos interesses implícitos, orientando-se xos da atualidade acadêmica e profissional é o
na avaliação de alternativas e na responsa- referente à motivação para aprender a trabalhar
bilidade pelas decisões e suas conseqüências. de forma interacional e integrada na prevenção e
Num contexto comunicacional com estas tratamento da incapacidade funcional em idosos.
características, o envolvimento profissional tem
potencial para gerar confiança na competência, AGRADECIMENTOS
a partir de implicação afetiva, pelo reconhe-
cimento profissional que, para existir social- Agradecemos a Coordenação de Aperfeiçoamento
mente, supõe um julgamento de validade por e Ensino Superior (CAPES) e ao Hospital São Lucas
outros (Le Boterf, 2003),28 ou seja, um sentimento da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
de pertencer ao grupo. Sul (HSL-PUCRS) pela bolsa-auxílio à pesquisa.
A população idosa cresce rapidamente e
principalmente acima de 80 anos e traz uma REFERÊNCIAS
percentagem com mais incapacidade funcional,
1. Chaimowicz F. A saúde dos idosos brasileiros às
maiores custos e cuidados.7 A manutenção da vésperas do século XXI: problemas, projeções e alter-
independência para as atividades básicas de vida nativas.Rev.Saúde Pública. 1997;31:184-200.
diária representa um dos maiores desafios da 2. Organização Pan-Americana da Saúde. Envelhecimento
geriatria. Há necessidade de chamar atenção ativo: uma política de saúde. [tradução Suzana Gontijo].
Brasília: Ministério da Saúde; 2005. [Unidade de
deste assunto, pois os profissionais de saúde envelhecimento e curso de vida da Organização
freqüentemente subestimam ou não conseguem Mundial de Saúde] p.34-5.
reconhecer os problemas funcionais que são 3. Ramos LR. Fatores determinantes do envelhecimento
informados pelos seus pacientes, subestimando saudável em idosos residentes em centro urbano:
as queixas sobre suas incapacidades.6,15 Esta Projeto Epidoso. Cad Saúde Pública. 2003;19:793-8.
4. Rio Grande do Sul. Secretaria do Trabalho, Cidadania e
discrepância pode afetar de forma adversa o Assistência Social. Conselho Estadual do Idoso e
cuidado de saúde e bem-estar do paciente, o que Universidades Conveniadas. O idoso do Rio Grande do
indica que os educadores e os profissionais de Sul: estudo multidimensional de suas condições de vida:
saúde deveriam prestar mais atenção às avalia- relatório de pesquisa . Porto Alegre: A Secretaria; 1997.
ções funcionais dos pacientes, evitando o sub- 5. Moraes JLD, Azevedo e Souza VB. Factors associated
with the successful aging of the socially-active elderly
diagnóstico que compromete seu tratamento e inthe metropolitan region of Porto Alegre. Rev Bras
sua reabilitação, prevenindo assim a incapaci- Psiquiatr. 2005; 27:302-8.
dade funcional ou disabilidade.7 6. Fired LP, Guralnik JM. Disability in older adults:
Há um discurso de que é necessário de- evidence regarding significance, etiology, and risk. J
Am Geriatr Soc. 1997;45:92-100.
senvolver pesquisas e atividades profissionais
7. Kauffman TL. Manual de reabilitação geriátrica. Rio de
numa abordagem interdisciplinar/transdisci- Janeiro: Guanabara Koogan; 2001.
plinar, ao mesmo tempo em que a experiência 8. Perracini MR. Prevenção e manejo de quedas. In: Ramos
tem revelado a contradição entre este discurso e LR. Guia de geriatria e gerontologia. São Paulo: Manole;
as práticas. Este fato torna imprescindível a 2005. p.193-208.
discussão sobre como os profissionais que tra- 9. Pereira SRM, Buksman S, Perracini M, et al. Quedas em
idosos. Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia:
balham com prevenção e tratamento de inca-
Projeto Diretrizes; 2001.
pacidade funcional em idosos concebem este 10. Frontera R, Larsson L. Função da musculatura esque-
processo. Para iniciar esta discussão, será preciso lética nas pessoas idosas. In: Manual de reabilitação
refletir sobre as próprias concepções, alicer- geriátrica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2001.

Scientia Medica, Porto Alegre, v. 17, n. 3, p. 138-144, jul./set. 2007 143


Incapacidade funcional e idosos ... Bonardi G, Azevedo e Souza VB, Moraes JFD

11. Rossi E, Sander CS. Envelhecimento do sistema 18. Mathias S, Nayak USL, Isaacs B. Balance in elderly
osteoarticular. In: Freitas,El. Tratado de geriatria e patients: yhe “Get-up and Go” Test. Arch Phys Med
gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2002. Rehab. 1986;67:387-9.
p 508-29. 19. Podsiadlo D, Richardson S. The timed “Up&Go”: a test
12. Matsudo SM. Envelhecimento e atividade física. Lon- of basic functional mobility for frail elderly persons. J
drina: Midiograf; 2001. Am Geriatr Soc. 1991;39:142-8.
13. Kamper AM, Stott DJ, Hyland M, et al. Predictors of 20. Fried LP, Tangen CM, Walston J, et al. Frailty in older
functional decline in elderly people with vacular risk adults: evidence for a phenotype.. J Gerontol. 2001;56:
factors or disease. Age Ageing 2005;34:450-5. 146-M156.
14. Giacomin KC, Uchoa E, Firmo JOA, et al. Projeto 21. Azevedo e Souza V. de, Marques C, Azevedo e Souza
Bambuí: um estudo de base populacional da prevalência R. de. Interdisciplinaridade/transdisciplinaridade: uma
e dos fatores associados à necessidade de cuidador entre relação dialógica autonomia/dependência. In: Hacknam
idosos. Cad Saúde Pública. 2005;21:80-91. BG, Stein BR. Reflexões para formação de professores.
15. Fried LP, Ferrucci L, Darer J, et al. Untangling Taquara: FACCAT, 2006. p.127-36.
the concepts of disability, frailty, and comorbidity: 22. Morin E. O método IV: as idéias. Porto Alegre: Sulina; 1998.
implications for improved targeting and care. J Gerontol 23. Morin E. Cabeça bem-feita: repensar a reforma, refor-
A Biol Sci Med Sci. 2004;59:255-63. mar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil;
16. Paterson DH. Govindasamy D. Vidmar M. et al. 2000.
Longitudinal study of determinants of dependence in
the elderly population. J Am Geriiatr Soc. 2004;52: Endereço para correspondência:
GISLAINE BONARDI
1632-8. Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS
17. Pereira LSM, Gomes GC. Avaliação funcional. In: Av. Ipiranga 6690, 3º andar do Hospital São Lucas
CEP 90610-000, Porto Alegre, RS, Brasil
Guimarães RM, Cunha UGV, editores. Sinais e sintomas Fax: (51) 3336-8153.
em geriatria. São Paulo: Atheneu; 2004. p17-30. E-mail: gnbonardi@gmail.com

144 Scientia Medica, Porto Alegre, v. 17, n. 3, p. 138-144, jul./set. 2007